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ISCTE

LICENCIATURA EM ANTROPOLOGIA
TEORIAS E PROBLEMÁTICAS 4
2.Mar.2009
FICHA DE LEITURA – «Deep Play: Notes on the Balinese Cockfight»

ANA CANHOTO
N.º 27685
TURMA AC2
No Capítulo 15 da obra The Interpretation of Cultures: Selected Essays, Clifford Geertz procura
demonstrar, recorrendo a uma prática aparentemente fútil e desprovida de significado lógico – a luta
de galos numa aldeia de Bali, como as culturas deverão ser analisadas como se tratassem de
conjuntos de textos. Este antropólogo pretende evidenciar que as lutas são algo mais que
significativos momentos de efervescência cultural que intervêm nas relações e ritos sociais dos
habitantes da ilha de Bali. Não podem ser reduzidas a um único conjunto lógico de significados,
concretamente a uma simbologia da masculinidade e a abominação da animalidade. Estes actos
culturais deverão, na sua perspectiva, ser entendidos considerando a complexidade dos diferentes
significados criados pelos e para os próprios balineses. Não descrevem por si só a vida balinesa,
contudo permitem, tal como um texto, várias interpretações da vida nesta sociedade.
Dividindo o capítulo em vários subtítulos, como se este acto cultural se tratasse de um texto
decomposto em partes, Geertz evidencia que «... as sociedades, tal como as vivências, contêm as
suas próprias interpretações. É apenas necessário aprender a ter acesso a elas.» (1993: 453, tradução
nossa).
Principiando com a sua chegada ao terreno e relatando o modo como ultrapassou o obstáculo da sua
integração social, através de peripécias vividas como espectador numa luta de galos, procura
comprovar a relevância da sua teoria interpretativa recorrendo a uma minuciosa descrição
etnográfica do desenrolar destas lutas. Desde a preparação destes animais ao complexo sistema de
apostas apresenta-nos a existência de uma analogia entre as lutas de galos e a vida balinesa,
valendo-se do simbolismo que envolve todo o acto. Esta é uma similitude que considera
reconhecida e aceite por todos os membros da sociedade.
Refere-nos, ainda, que estas lutas não se restringem à vida real, alargando-se ao imaginário, onde as
questões hierárquicas se revelam «... nas suas cores naturais.» (1993: 447, tradução nossa). É nas
luta de galos, onde se reflecte a valência do estatuto e honra sociais em detrimento dos valores
materiais, que estão transpostas as lutas dos homens e podem ser observadas as relações de
parentesco, os laços sociais e as hierarquias da sociedade balinesa.
Menciona este antropólogo que nas lutas de galos os balineses interpretam a vida que criaram para
si, pelo que deverá ser atribuído a este acto uma função «interpretativa». As lutas de galos são,
então, «... uma leitura Balinesa da experiência Balinesa, uma história que contam a si próprios sobre
si próprios.» (1993: 448, tradução nossa) e como se representam tendo em consideração a violência,
o seu estatuto social, a crença e a moralidade.
Deste modo, Clifford Geertz procura, através deste ensaio, evidenciar que sendo os actos culturais
interpretações da vida criadas pelos próprios indivíduos, o trabalho de um antropólogo será
interpretar interpretações e não encontrar «... fórmulas redutivas que professam dar conta...» (1993:

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453, tradução nossa) das razões pelas quais os indivíduos preferem escolher interpretar o mundo de
um determinado modo.
Porém levanta-se uma questão: em toda a descrição Geertz nunca menciona a possibilidade das
interpretações dos balineses terem sofrido quaisquer influências pela sua acção como observador e
participante de uma fuga às autoridades. Como o mesmo refere, quando chegou ao terreno foi
considerado como «homem invisível», tendo sido ignorado pelos balineses, os quais «... agiam
como se eles simplesmente não existissem ...» (1993: 413, tradução nossa). Mas teriam os
habitantes da aldeia ignorado totalmente a sua presença? Ou não será essa a sua interpretação sobre
o modo como os balineses interpretaram a sua intrusão na aldeia?

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Bibliografia:

Geertz, Clifford 1993 [1973] «Chapter 15 / Deep Play: Notes on the Balinese Cockfight» in: Geertz,
Clifford The Interpretation of Cultures: Selected Essays. London: Fontana Press. pp. 412-453.