CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo www.portaldocomercio.org.

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Os Fundadores do Rio de Janeiro: Américo Vespucci, Villegagnon ou Estácio de Sá?
Vasco Mariz
Historiador e diplomata aposentado. Ex-Embaixador do Brasil no Equador, Israel, Chipre, Peru e Alemanha.

Por ocasião dos festejos do 5º centenário do Descobrimento do Brasil, ocorreram paralelamente vivos debates sobre a fundação do Rio de Janeiro, à luz de recentes pesquisas e estudos publicados na França e no Brasil. A inegável comprovação da existência da efêmera cidade de Henryville, fundada por Villegagnon no início de 1556, na praia do Flamengo, como a capital da França Antártica e que só durou quatro anos, daria clara preferência ao almirante francês como o fundador do Rio de Janeiro. Entretanto, como Henryville não teve continuidade, essa prioridade reconhecida por vários historiadores a Villegagnon, está sendo contestada pelos defensores de Estácio de Sá. Ele efetivamente fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro a 1º de março de 1565, em local provisório, uma estreita língua de terra junto ao Pão de Açúcar. Existe porém uma outra corrente de historiadores que considera Américo Vespucci, o verdadeiro fundador da primeira implantação européia na Baía da Guanabara, a feitoria da Ilha do Governador, em 1503. Tomé de Souza também teria construído uma casa de pedra na Guanabara em local desconhecido. Devo dizer que essas prioridades de fundação da cidade são bastante relativas. Hoje, parece mesmo inegável que Villegagnon fundou a primeira aglomeração urbana européia na Guanabara em 1556, que não vingou, pois . indefesa . foi destruída por Mem de Sá em março de 1560. O local aproximado de Henryville, que está registrado nos mapas da Guanabara de André Thevet, publicados em Paris em 1562, ! cava na praia do Flamengo, onde a linha d.água era então bem mais recuada do que hoje em dia e passava aproximadamente pela atual rua Senador Vergueiro, praça José de Alencar e rua do Catete. Henryville estava nas margens do rio Carioca, que hoje corre por baixo da rua Barão do Flamengo e era a única reserva de água doce disponível e permanente de toda a região. Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro nove anos mais tarde, a 1º de março de 1565, uma povoação que, em 1567, depois da derrota ! nal dos franceses, foi transferida para local mais apropriado e seguro, no morro do Castelo e adjacências, por ordem de Mem de Sá. Não devemos esquecer porém que, bem antes, em 1503, Américo Vespucci, viajando na esquadra comandada por Gonçalo Coelho, fundara uma feitoria (ou torre, como se dizia na época) em Paranápuã, a nossa atual Ilha do Governador, então chamada de ilha do Gato pelos portugueses. Lá deixaram, na Ponta do Matoso, 24 portugueses, 12 bombardas, mantimentos para seis meses e numerosos indígenas amigos. Era o início da implantação comercial lusitana, ordenada pelo rei de Portugal e sob a responsabilidade do arrendatário Fernão de Noronha. Não há notícias de quanto durou essa primeira tentativa de colonização européia da Baía da Guanabara, talvez poucos meses apenas. Supõe-se que uma armada espanhola de passagem pela nossa Baía tenha desmantelado essa feitoria e levado os toros de pau-brasil ali acumulados à espera de uma nau portuguesa.

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enfim serviços de apoio típicos de uma feitoria . Segundo a famosa carta de Américo Vespucci.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. sugerindo carenagem de embarcações.. foram muito importantes na época e.br O historiador Fernando Lourenço Fernandes. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. afirma: “. tanoaria. que a! rmava que o primeiro entreposto da região fora construído em uma ilha. que tem 32 km2 e várias fontes de água doce. Maria Beltrão acredita que se tratava de uma aldeia forti! cada por toros de madeira. Ela relatou que as construções indígenas em torno da Baía da Guanabara eram sempre todas circulares.Esse sítio da Ponta do Matoso permite deduzir. com aproximadamente cem metros de comprimento por cinqüenta de largura. embora controvertidas. Em 1511. em janeiro de 1502. vizinho a um povoado de índios. aparelhamentos. Fernando Lourenço Fernandes. a nau Bretoa recebeu instruções para entregar mercadorias ao feitor do dito entreposto.portaldocomercio. Em 1999. o português Gonçalo Coelho. A presença desses cacos de porcelana de Macau con! rmam inegavelmente a presença lusitana no local. Na verdade. mas acredita ela que aqueles restos datam do início do século XVI.org. A princípio. A única ilha relativamente grande e sabida fonte de pau brasil para os franceses e portugueses naquela época era a ilha do Gato. Não foram feitos testes de carbono. aproximadamente com quatro metros de altura. lembro que coube ao comandante da primeira expedição lusa após Cabral. Ora. a existência de carpintaria naval. Esses vestígios de construções européias foram encontrados perto da antiga aldeia dos Pixunas. situado em uma grande ilha. na região do Cabo Frio. o capitão-mor da armada de 1501/1502 (fare la fortezza). em alguns parágrafos. acreditava-se que ele deu essa 2 . do litoral do Cabo Frio até a Ilha Grande não existe ilha alguma dessas proporções. o que a levou a concluir que a referida construção retangular de madeira deveria ser forçosamente de origem européia. quando deram com numerosos vestígios esparsos de construções indígenas. a feitoria teria sido mandada construir por Gonçalo Coelho. A arqueóloga brasileira Maria Beltrão e sua equipe estavam trabalhando na região da Ponta do Matoso. pelos materiais exclusivos ali encontrados. o 5º centenário da visita à Guanabara. Isso nos leva a recordar. já que se tratava. nossa Ilha do Governador. tivemos uma pequena exposição sobre ele e suas viagens no Museu Histórico Nacional. portuguesa portanto. seguramente. do famosíssimo navegador italiano Amerigo Vespucci.. na Ilha do Governador. mas que recebeu pouca publicidade.” Afirmou ele que a notícia ficou “encalhada” no modelo Varnhagen durante um século. Foram 875 cacos de cerâmica indígena associada à cerâmica neobrasileira colonial e também restos de porcelana de Macau. na citada obra. As viagens de Vespucci ao continente. as terras da América deveriam chamar-se Colômbia. ao meio das quais encontraram os restos de uma construção retangular de madeira. No que se refere ao Brasil. a Feitoria do Gato”. todas as terras descobertas por Colombo e outros navegadores acabaram sendo batizadas de América. de uma primeira ocupação. utilizando o prenome de Vespucci. o privilégio de batizar a Baía da Guanabara com o nome de Rio de Janeiro. no livro Pau Brasil escreveu: “Podemos afirrmar que a feitoria da ilha do Gato é o lugar onde o Brasil nasceu. em 1963. Serviços e Turismo www. em 1502. surpreendentemente.

portaldocomercio. o navegador italiano passou vários meses na Guanabara.ali demorou-se Vespucci cinco meses e. mas ficou sendo mesmo. Uma das obrigações da expedição era fundar uma feitoria. O rei D.uma torre. embora já estejam identificadas algumas contradições.org. e Fernando Lourenço Fernandes. Vespucci era homem letrado. o que agora parece confirmado.br denominação à Baía. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. erroneamente. sendo ali deixados 24 homens com 12 bombardas. em A Feitoria do Rio de Janeiro. a qual se tornaria uma das primeiras fontes valiosas de informações sobre o Brasil nascente. identificaram na Ilha do Governador uma feitoria fundada pela expedição de que participou Vespucci. Já o historiador português Jorge Couto nos informa de que D. e pacificados os silvícolas. em Paranapuã. Outros autores disseram que ele foi incluído na expedição de Coelho pelo armador italiano Marchioni para informar sobre as riquezas do Brasil. O retorno foi realizado diretamente a Portugal. Descobriram também Angra dos Reis nessa viagem. Serviços e Turismo www. Essa confusão de ria com rio não demorou. o que seria a primeira tentativa de implantação urbana européia na Guanabara. ao sul de São Paulo. Em uma segunda viagem em 1503. Rio de Janeiro.. A expedição explorou a nossa costa entre o cabo de São Roque até Cananéia. feita por 30 tripulantes das embarcações. Manuel. Ele deve ter notado depois que não se tratava de um grande rio. nascido e educado em Florença e estava em Portugal como um discreto espião da família Médicis. a atual Ilha do Governador. na Ilha do Governador. O coronel Rolando Laguarda Trias. Comentando a sua segunda viagem à região. O almirante Max Justo Guedes. onde chegaram. pois não havia fluxo d. colhidas na primeira viagem de Gonçalo Coelho e decidira arrendar grandes áreas a ricos cristãos-novos. Manuel havia mandado incorporar Vespucci à expedição chefiada por Gonçalo Coelho com a finalidade de .efetuar uma prospeção dos produtos com interesse comercial existentes da Terra de Santa Cruz. que era a área atribuída a Portugal pelo Papa no Tratado de Tordesilhas. na História Naval Brasileira. pensando tratar-se da foz de caudaloso rio. que se obrigaram a enviar anualmente seis naus às costas brasileiras. em 2000) afirma que “.água constante saindo da entrada da barra. ou Lettera em italiano. ou como diziam eles na época --. Vespucci escreveu em 1504 uma famosa carta. mas as pesquisas arqueológicas de Maria Beltrão no local comprovam que isso ocorreu na Ponta do Matoso. foi erguida a fortaleza (feitoria) do contrato de arrendamento.descobrir em cada uma delas (capitanias) 300 léguas adiante e fazer uma fortaleza no território descoberto e mantê-la nos três anos em que duraria o arrendamento. segundo a Lettera. segundo sua própria informação.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. mas isso não era verdade. Américo (ou Amerigo) Vespucci esteve pela primeira vez na Baía da Guanabara em janeiro de 1502. de 1504. Na época dava-se o nome de ria a uma enseada ou a uma baía. de Portugal. Eles deveriam . que veio explorar o litoral brasileiro. no seu já citado e esplêndido livro sobre O Descobrimento do Brasil (publicado em duas línguas pelos Correios de Portugal. como membro daquela frota comandada por Gonçalo Coelho. Durante a estadia houvera uma tentativa de penetração no interior. em companhia do próprio arrendatário Fernando de Noronha. não ficara animado com as modestas informações sobre o Brasil. ao príncipe florentino Pedro Lourenço de Médicis. a 8 de junho de 1504” 3 . Varnhagen havia previamente situado essa feitoria no Cabo Frio.

publicado na Alemanha em 1557. e se propagou pela França. tais conclusões parecem coincidir com a descrição feita por Américo Vespucci em sua célebre lettera de 1504. Os antigos mapas tardaram bastante a mostrar claramente a Baía da Guanabara na costa brasileira e. No entanto. Só os espanhóis resistiram ao termo América e. apareceu o belo mapa de Luiz Teixeira. pouco tempo depois. que as publicou em seu interessantíssimo livro Les Singularitez de la France Antarctique em 1562. aquele que. Continuaram a chamar as terras por eles descobertas de Índias Ocidentais e só em 1758 as cartas geográficas espanholas adotaram o nome de América. Finalmente. A iniciativa de dar o nome de Américo Vespucci às terras descobertas por Colombo e outros navegadores nas Américas foi de Waldseemüller (Hylacomilus) em 1507. Há um interessante livro que se ocupa da história do nome da América. dá ampla prioridade a Vespucci e seus companheiros como os fundadores da primeira implantação européia na Guanabara. na Mancha. mandada construir por Gonçalo Coelho antes de regressar a Portugal. que o levou até o porto de Honfleur. curiosamente. o rei de Portugal enviou depois ao Brasil a expedição de Cristovão Jacques. Outras cartas. eram os chamados renegados normandos. com maior ou menor clareza. em 1513. aceita essa versão e também dá credibilidade à descoberta de Maria Beltrão. O famoso livro de Jean de Léry também menciona Henryville. que visitou o Brasil poucos anos antes da fundação da França Antártica.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. embora não possa mais ser comprovado. O douto almirante Max Justo Guedes.org. no exemplar da nossa Biblioteca Nacional. membro da expedição de Villegagnon. ou torre. Alemanha e Flandres. de autoria de Hugues. Outra hipótese. graças à recente invenção da imprensa. Essa denominação teve acolhida imediata na Lorena onde surgiu. tratores da Marinha revolveram toda a região da Ponta do Matoso e aqueles restos se perderam. Infelizmente. que as batizou de Amerigue e depois de Américas. Graças à interferência deles é que Staden pôde regressar à Europa à bordo de um navio francês. seria de que aquela frágil feitoria e seus poucos habitantes tenham sido destruídos por um grande ataque indígena. ou torre. Serviços e Turismo www. em 1963. em seu livro O Descobrimento do Brasil. Entrou em águas espanholas e atingiu a foz do Rio da Prata. como se pode ler na sua Cosmographiae Introductio. em 1570 aproximadamente. que teria levado todo o estoque de toros de pau-brasil ali acumulado. que mostrou ao mundo a Baía da Guanabara por completo. por estranho que pareça. quase perfeitamente desenhada. à espera de naus portuguesas. talvez mais viável. pouco tempo depois da notável descoberta de Maria Beltrão. muito anterior portanto a Villegagnon (1556) e a Estácio de Sá 4 . que encontrou franceses na região da Guanabara antes da chegada de Villegagnon em 1555 . e a cores. Essa feitoria. talvez por uma esquadra espanhola de passagem pela Guanabara. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. Tal fato. quando aludia a uma feitoria. produziu o primeiro mapa da nossa costa com nítida referência à Baía. publicado em Turim em 1898 com o título de Le vicende del nome America.portaldocomercio. Já o viajante alemão Hans Staden. parece haver sido um corsário turco. Para tentar manter o mare clausum português contra as repetidas aventuras francesas e espanholas na região. teria sido precariamente construída e por isso foi facilmente desmantelada. o ignoraram por 250 anos. também a registraram. então conhecido como Rio de Solís. como o livro de André Thevet. que explorou melhor a orla marítima e limpou toda a costa sul do Brasil de atrevidos intrusos.br . conta em seu famoso livro Viagem ao Brasil.

Em bela cerimônia. com ampla repercussão mundial. que está em nosso Museu da Marinha. Estácio de Sá é ainda um 5 . a futura cidade de Henryville. na Ilha do Governador. São Sebastião deveria ter uma população de cerca de duzentos portugueses e numerosos indígenas. 3) a 1º de março de 1565.O Globo. Esclareço.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. parece-me oportuno recordar a nebulosa personagem de Estácio de Sá. uma cidade foi formalmente fundada por Estácio de Sá.menino bobo. Seja como for. mera feitoria com um punhado de habitantes. Por outro lado.org. essa foi a primeira tentativa de instalação européia na Guanabara. e ainda pelo registro do local exato da futura capital da França Antártica nos mapas da Guanabara de André Thevet. da qual participou Américo Vespucci. cuja existência está comprovada pela carta de Villegagnon ao Duque de Guise. assistida por altas autoridades francesas. Antes de sua transferência para o morro do Castelo. ou como a futura cidade de São Sebastião. Marcos de Azambuja. de pequeníssima duração. A povoação de Henryville. também alvo de alguns ataques apaixonados. que o chefe das duas expedições. Vários livros têm focalizado a França Antártica no Brasil e na França. por ocasião do ataque de Mem de Sá em março de 1560 deveria ter cerca de 500 habitantes. o morro do Castelo. quando foi construida a feitoria. de Jean Claude Ru! n. entre os quais Rouge Brésil. Temos assim três datas e três prioridades de fundação da primeira instalação européia na Guanabara: 1) em 1504..000 exemplares. e não uma verdadeira povoação como Henryville. dentre eles cerca de cem franceses. foi transferido voluntariamente para local mais apropriado e mais seguro. o relator oficial da construção da feitoria. A polêmica repercutiu em Portugal e a Universidade Estácio de Sá. que obteve o Prêmio Goncourt de 2001 e já vendeu 500. no entanto. pela Marinha de Guerra brasileira. foi solicitada a promover um seminário para fazer-lhe um desagravo. não teria chegado até a Guanabara nessa segunda viagem. Um conhecido jornalista carioca chegou a chamá-lo de . onde ele protestava contra a vida dissoluta dos franceses em Henryville. o de Estácio de Sá. e também pelo pan" eto do pastor francês Pierre Richer. é importante sublinhar que nenhum dos três pontos iniciais de colonização sobreviveu: os dois primeiros foram destruídos manu militari e o terceiro. 2) no início de 1556.portaldocomercio. nosso atual colega do Conselho Técnico. Gonçalo Coelho. Villegagnon tem sido festejadíssimo nos últimos anos e até mesmo homenageado em sua cidade natal. leva o seu nome. na Urca. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. a salvo de eventuais ataques inimigos. até hoje. na praia do Flamengo. Provins. em artigo no jornal . do Rio de Janeiro. na Ponta do Matoso. injustamente. Entretanto. Por isso. merecedor de justas homenagens e. com um obelisco fabricado com pedras provenientes da ilha que. o obelisco foi inaugurado a 1º de agosto de 2000 pelo embaixador do Brasil na França. uma torre instalada pela expedição de Gonçalo Coelho. Serviços e Turismo www.br (1565).

tanto que deixou de lado algumas exigências para conceder aquela distinção. Como disse acima. Estácio voltou ao Brasil à frente de dois galeões com reforços. fiel testemunha desta etapa inicial de nossa história. Elysio Belchior. ele foi enviado a Portugal para dar a boa nova da primeira derrota francesa à corte portuguesa e pedir reforços para expulsar os franceses remanescentes. os historiadores portugueses não têm demonstrado muito entusiasmo por Estácio. Em março de 1560. e perguntou-lhe: “Que conta darei a Deus e a El Rei se deitar a perder esta armada?” Ao que lhe teria respondido o jesuíta: “Eu darei conta a Deus de tudo e. perto da arrasada Henryville. o tinha em boa conta e relatou que Estácio foi incansável na instalação e administração da aldeia inicial. que chegaram a Salvador a 1º de maio de 1563.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. No entanto. Serrão teve mais consideração por Estácio: . em seu excelente livro Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro. talvez com menos de 20 anos. um de nossos melhores especialistas no século XVI. Estácio manifestou suas dúvidas ao Padre Manuel da Nóbrega. que o próprio capitãomor não tinha muita confiança na verdadeira força da expedição que che! ava. Ao entrarem na Guanabara.br personagem um pouco misterioso. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. Lá ficaria quase um ano. se for necessário. apenas o sobrinho do governador”. 6 . Serviços e Turismo www. No entanto. em outra citação de seu livro clássico sobre o século XVI no Brasil.portaldocomercio. mas o único possível naquelas circunstâncias.org. Esta frase parece atestar a competência e o empenho do jovem comandante português. Após mais preparativos. os lusos se apresentaram outra vez diante da entrada da barra na Guanabara. irei diante de El Rei a responder por vós”. Esgueiraram-se junto ao Pão de Açúcar e ali se instalaram junto ao morro Cara de Cão. discorda e considera que essa distinção demonstrou o apreço que o monarca tinha por ele. preferiu largar velas em direção a São Vicente para angariar mais reforços. diante daquela resistência inesperada. fez discretas restrições à sua memória. pois até o conhecido historiador português Joaquim Veríssimo Serrão. por Carta Régia de 8 de março de 1566: “A verdade é que o grau de noviço da Ordem de Cristo era atribuído a um homem apagado. ex-presidente da Academia de História de Portugal. ”O decisivo impulso para a conquista do sítio e pacificação da terra foram graças ao esforço dele e assim que se puderam assentar os fundamentos da nova cidade”. encontraram forte resistência da parte dos tamoios e dos franceses. A armada portuguesa comandada por Estácio de Sá. pois teve de ajudar a Câmara local com suas forças em sua luta com os índios da vizinhança. partiram em direção ao sul e foram muito bem recebidos no Espírito Santo pelo cacique Araribóia. O sobrinho de Mem de Sá havia chegado a Salvador em 1557 muito jovem ainda. naqueles 22 meses de sua gestão. em 1564. Conta Elysio Belchior. Finalmente. local estreito. o Padre Manuel da Nóbrega. pouco apropriado. que ainda eram bastante numerosos. Escreveu ele sobre a sua admissão na Ordem de Cristo. que continuavam entrincheirados no morro da Glória. Quando esteve em São Vicente para recrutar reforços.

A chamada .CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v.portaldocomercio. que é demasiado altissonante para a época. onde Estácio teria sido o primeiro português a penetrar.. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. O capitão-mor foi elogiado por todos os historiadores por sua . honrando o legendário rei que em breve desapareceria em dramática campanha na Africa. solenemente fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. que viera de São Vicente. Ele deu maior relevo a Estácio de Sá e afirmou em carta ao Padre Geral de São Vicente que o jovem capitão-mor . mas a comemoração é mesmo pitoresca.. a 1º de março de 1565... Foram 22 meses de lutas constantes com os tamoios e os franceses. nem de noite nem de dia. sonegando o papel essencial desempenhado pelo seu esforçado sobrinho... Mas o ilustre historiador português também esclareceu merecidamente que . Ele teria sido incansável não só para reforçar o 7 .. Belchior também registrou que . o esqueceram. Desde o capitão-mor até o mais modesto colonizador cortaram madeira e carregaram pedras sem haver nenhum que a isso repugnasse. Naqueles dois anos de consolidação de sua posição na Urca (1565-67). Veríssimo Serrão não deixou de afirmar que a figura de Estácio de Sá continua na penumbra histórica. Os céticos afirmam que não havia taquígrafos nem gravadores na época para registrar tal frase. não me parece muito autêntica.. que tudo ! zeram para que o Estácio desistisse de fixar-se ali e regressasse à Bahia ou a São Vicente.org.não lhe faltavam reconhecimento os que com ele conviveram. portanto seis dias após a cerimônia da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. sizo e constância por levar adiante o determinado. nem recompensas dos que nele confiaram. que por vezes é encenada nos festejos anuais de 1º de março como um verdadeiro pageant.. pois seu tio reivindicou a glória do nascimento da cidade à sua pessoa.. pois com ele (Estácio) deu-se a transferência do local.deixando a praia juncada de cadáveres. os portugueses sofreram um violento ataque que conseguiram rechaçar . em março de 1565. uma espécie de certidão de nascimento do Rio de Janeiro . podemos aceitar a relativa autenticidade dessa bonita frase de Estácio de Sá.. Anchieta também esteve na Guanabara nos primeiros dias após a fundação da cidade. acudindo a uns e a outros e sendo o primeiro nos trabalhos. Os pósteros. relatou em carta . . que Estácio de Sá desembarcou com 180 homens e . na batalha que ocorreu por ocasião do ataque ao forte Coligny.. Finalmente. o Padre José de Anchieta. que teria sobrevivido graças à tradição oral. Serviços e Turismo www. O padre José de Anchieta estava presente em 1560. mas não faltaram aqueles que o cercaram de uma aura de heroismo. por vezes.batalha das canoas.Estácio exortava os soldados no cumprimento do dever e certa vez teria dito uma frase que ficou na história: “Levantemos esta cidade que ficará por memória do nosso heroísmo e de exemplo às vindouras gerações para ser a rainha das províncias e o empório das riquezas do mundo”. dando ânimo aos outros a fazer o mesmo.prudência.nunca descansava.foi logo dormir em terra. Seja como for. No entanto. ou em versos cantaram seus feitos e destino.a glória da transferência da cidade (da Urca para o morro do Castelo) não se deveu ao governador. os portugueses resistiram a freqüentes assaltos de franceses e tamoios e já no dia 6 de março de 1565..br Do mesmo modo.

por ocasião do 4º centenário da efeméride. de Gonçalves de Magalhães (1856). e Frederico Trotta publicou A fundação da cidade do Rio de Janeiro. Já se escreveu que Mem de Sá pretendia nomeá-lo governador. na rua Haddock Lobo. 8 . três vezes governador do Rio de Janeiro. nem documentos. após um mês de sofrimentos. Já o historiador português Jorge Couto foi mais romântico. pois já manifestara vontade de mantê-lo no comando do Rio de Janeiro. Essa ilustre familia Corrêa de Sá dirigiu por mais de um século a administração da cidade. como já se escreveu. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. Seus restos mortais estão na igreja de São Sebastião. Em meados do século XIX tivemos o conhecido poema épico A Confederação dos Tamoios. após a transferência da povoação para o morro da Castelo. Ali ouvimos excelente palestra de Elysio Belchior sobre Estácio de Sá e que me parece ser a última palavra sobre o personagem. desejo esclarecer que Estácio de Sá nunca foi governador do Rio de Janeiro. Serrão escreveu: . mas a sua morte prematura levou o governador-geral a designar seu outro sobrinho. culminando no ilustre Salvador Correa de Sá e Benevides. é o Romanceiro de Estácio. portugueses e franceses. judiciários e religiosos. na atual Ilha do Governador. Salvador Corrêa de Sá. A batalha foi um êxito. na Tijuca. Em 2005. ambos divulgados pelo mesmo editor. Finalmente.. Dias depois. Só no início de 1567. Os episódios que cercaram a fundação da cidade do Rio de Janeiro foram cantados em prosa e verso. o Museu Histórico Nacional organizou importante seminário intitulado . hoje de leitura bastante difícil.portaldocomercio. Henrique Orciuoli escreveu Estácio na Guanabara. um grande personagem do século XVII no Brasil e em Portugal. Estácio de Sá sentiu-se su! cientemente forte para tentar o assalto ao Mont Henry.O Universo da França Antártica. editado pela Secretaria Geral de Educação e Cultura. em 1965. vítima das flechas”. Serviços e Turismo www. mas Mem de Sá confiava em seu sobrinho. dizendo: “Morreu tal como o martir que escolheu para o patrono da cidade. que lhe tem agigantado a figura. Jorge Couto acrescenta que ele instalou a Câmara Municipal. por uma flecha envenenada e. os portugueses atacaram com sucesso a aldeia francesa de Paranapuã. edição e foi publicado em Paris em 2002. O livro que escrevi em parceria com Lucien Provençal sobre Villegagnon e a França Antártica está na 2ª. De 1965. o nosso atual morro da Glória. do qual participaram os melhores especialistas brasileiros. De Estácio de Sá não restam cartas. de Stela Leonardos. e sim apenas capitão-mor. mas infelizmente o capitão-mor foi ferido no rosto (alguns historiadores a! rmam que foi em um olho). veio a falecer. após haver recebido mais reforços. Estácio concedeu nada menos de 50 sesmarias aos seus melhores colaboradores e ele mesmo possuía terras na região. primeiro governador da cidade. criou o brasão da cidade. nomeou os titulares de cargos administrativos.Estácio de Sá morreu na casa dos vinte e poucos anos e seu juvenil martírio foi envolvido numa sombra de lenda. ou Uruçu-mirim dos indígenas.br perigoso e vulnerável local onde se instalara. mas também fez estabelecer roças para que pudesse alimentar os habitantes da novel povoação. pois a novel cidade estava situada na capitania doada pelo rei a Martim Afonso de Souza. em 1567.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. e fundou ainda um colégio jesuíta.org. O Dr.

portugueses e franceses. Destarte. Bem haja" BIBLIO GRAFIA SELETA ANCHIETA. dois fundadores. BELCHIOR. E daquela curva do aterro descortina-se uma das mais belas vistas do Rio. _______________ . a Estácio de Sá. pois como escreveu o Padre Manuel da Nóbrega ao Cardeal D. e mais à esquerda ainda. o Instituto Histórico e Geográ! co Brasileiro. Nicolas Durand de Villegagnon na Praia do Flamengo em 1556.org. Lembro ainda que o Congresso de História Nacional. o governador Carlos Lacerda fez erigir uma pequena pirâmide na curva do aterro do Flamengo. outubro de 2005.portaldocomercio. em merecida homenagem a Estácio de Sá. em 1565. Devemos honrá-los a todos. de Portugal: “Aqui está o que há de melhor no Brasil”. Rio de Janeiro. onde existiu por quatro anos a efêmera Henryville. no Museu Histórico Nacional. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. e Estácio de Sá na Urca. José de . ANAIS do seminário . 1933. para celebrar o feito de Estácio de Sá. Rio de Janeiro. em 1504. 402. Palestra de Elysio Belchior. a 20 de janeiro de 1915. edição da Academia Brasileira de Letras.br Em 1965. Existe uma grande universidade com seu nome e até uma Escola de Samba. o Mont Henry. ou até podemos dizer mesmo três fundadores: Américo Vespucci. v. fragmentos históricos e sermões. Numerosas palestras de especialistas brasileiros. como batizaram os franceses o nosso Pão de Açúcar. Elysio . janeiro/março de 1999. página 49.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. a 5 de junho de 1913. Estácio continua bem presente no Rio de Janeiro do século XXI pelo populoso bairro do centro da cidade que leva o seu nome e que ficou ligado à história do samba. 9 . ergue-se o morro da Glória. A ser publicado em 2009. Cartas. 1965. onde resistiram os franceses por sete anos depois da queda do forte Coligny. à sombra do qual foi semeada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Conquistadores e Povoadores do Rio de Janeiro. hoje sede da Escola Naval do Brasil. tal como Buenos Aires teve dois fundadores: Pedro de Mendoza em 1535 e Juan de Garay em 1575. Em conseqüência. Henrique. e também a Praia do Flamengo. que alegra anualmente os desfiles carnavalescos.O Universo da França Antártica. no sentido lato. determinara fosse erguido um marco comemorativo da fundação do Rio de Janeiro. panorama dominado pelo Pot-au-beurre (o pote de manteiga) . tomou a iniciativa de erigir o marco na Urca. Serviços e Turismo www. Olhando à esquerda vemos a Ilha de Villegagnon. por ocasião dos festejos do 4º centenário da fundação da cidade. ao alto. Ainda conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro.. De lá se descortina frontalmente o morro Cara de Cão. na Praia de Fora. na Ilha do Governador. nosso Rio de Janeiro também teve. in revista do IHGB. Livraria Brasiliana Editora.

em julho de 1995. Axis Mundi Editora.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. Lisboa. GUEDES. 2000. Amerigo Vespucci. Alberto . 2002. Florença. Joaquim Veríssimo . 408. Eduardo . Edições Cosmos. Contém ensaio de Fernando Lourenço Fernandes sobre a feitoria da ilha do Gato. Barbera Editori.. Rio de Janeiro. 2008 (sem atualização). RAMBALDI. MARIZ. BELTRÃO. Lucien . Roma. editora Nova Fronteira. 2ª edição pelo Estudio Andrea Jakobsson. PIER Liberale . Correios de Portugal. Amerigo Vespucci. Max Justo . Edição francesa pela editora Rive Droite. vol. Palestra pronunciada em 10 de Março de 2009 10 . Forense Universitária / SEEC. O Rio de Janeiro no século XVI. com o título Villegagnon. em Cascais. Pre-História do Estado do Rio de Janeiro. julho/setembro de 2000. 1898 SERRÃO. página 58. atas do 2º Curso Internacional de Verão. in revista do IHGB. Vasco & PROVENÇAL. un chevalier de Malte au Brésil. A Construção do Brasil. O Descobrimento do Brasil.br _______________ . Maria da Conceição .portaldocomercio. 1995. São Paulo. 1926. 2002. edição. Paris. MAGNAGHI. 2000. COUTO. Rio de Janeiro. 1965. Os Mediterrâneos e os Atlânticos (páginas 113-137). Comissão Nacional das comemorações do 4º centenário do RJ. Serviços e Turismo www. Pau Brasil. O Rio de Janeiro e a formação nacional. Portugal. 2005. Fratelli Treves. 1978. Rio de Janeiro. Lisboa. Villegagnon e a França Antártica. 2ª.org. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. em 2 volumes. Jorge . BUENO.

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