CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo www.portaldocomercio.org.

br

Os Fundadores do Rio de Janeiro: Américo Vespucci, Villegagnon ou Estácio de Sá?
Vasco Mariz
Historiador e diplomata aposentado. Ex-Embaixador do Brasil no Equador, Israel, Chipre, Peru e Alemanha.

Por ocasião dos festejos do 5º centenário do Descobrimento do Brasil, ocorreram paralelamente vivos debates sobre a fundação do Rio de Janeiro, à luz de recentes pesquisas e estudos publicados na França e no Brasil. A inegável comprovação da existência da efêmera cidade de Henryville, fundada por Villegagnon no início de 1556, na praia do Flamengo, como a capital da França Antártica e que só durou quatro anos, daria clara preferência ao almirante francês como o fundador do Rio de Janeiro. Entretanto, como Henryville não teve continuidade, essa prioridade reconhecida por vários historiadores a Villegagnon, está sendo contestada pelos defensores de Estácio de Sá. Ele efetivamente fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro a 1º de março de 1565, em local provisório, uma estreita língua de terra junto ao Pão de Açúcar. Existe porém uma outra corrente de historiadores que considera Américo Vespucci, o verdadeiro fundador da primeira implantação européia na Baía da Guanabara, a feitoria da Ilha do Governador, em 1503. Tomé de Souza também teria construído uma casa de pedra na Guanabara em local desconhecido. Devo dizer que essas prioridades de fundação da cidade são bastante relativas. Hoje, parece mesmo inegável que Villegagnon fundou a primeira aglomeração urbana européia na Guanabara em 1556, que não vingou, pois . indefesa . foi destruída por Mem de Sá em março de 1560. O local aproximado de Henryville, que está registrado nos mapas da Guanabara de André Thevet, publicados em Paris em 1562, ! cava na praia do Flamengo, onde a linha d.água era então bem mais recuada do que hoje em dia e passava aproximadamente pela atual rua Senador Vergueiro, praça José de Alencar e rua do Catete. Henryville estava nas margens do rio Carioca, que hoje corre por baixo da rua Barão do Flamengo e era a única reserva de água doce disponível e permanente de toda a região. Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro nove anos mais tarde, a 1º de março de 1565, uma povoação que, em 1567, depois da derrota ! nal dos franceses, foi transferida para local mais apropriado e seguro, no morro do Castelo e adjacências, por ordem de Mem de Sá. Não devemos esquecer porém que, bem antes, em 1503, Américo Vespucci, viajando na esquadra comandada por Gonçalo Coelho, fundara uma feitoria (ou torre, como se dizia na época) em Paranápuã, a nossa atual Ilha do Governador, então chamada de ilha do Gato pelos portugueses. Lá deixaram, na Ponta do Matoso, 24 portugueses, 12 bombardas, mantimentos para seis meses e numerosos indígenas amigos. Era o início da implantação comercial lusitana, ordenada pelo rei de Portugal e sob a responsabilidade do arrendatário Fernão de Noronha. Não há notícias de quanto durou essa primeira tentativa de colonização européia da Baía da Guanabara, talvez poucos meses apenas. Supõe-se que uma armada espanhola de passagem pela nossa Baía tenha desmantelado essa feitoria e levado os toros de pau-brasil ali acumulados à espera de uma nau portuguesa.

1

. Não foram feitos testes de carbono. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. o que a levou a concluir que a referida construção retangular de madeira deveria ser forçosamente de origem européia. A princípio. acreditava-se que ele deu essa 2 . Na verdade. A arqueóloga brasileira Maria Beltrão e sua equipe estavam trabalhando na região da Ponta do Matoso. já que se tratava. na Ilha do Governador. com aproximadamente cem metros de comprimento por cinqüenta de largura. utilizando o prenome de Vespucci. do litoral do Cabo Frio até a Ilha Grande não existe ilha alguma dessas proporções. no livro Pau Brasil escreveu: “Podemos afirrmar que a feitoria da ilha do Gato é o lugar onde o Brasil nasceu. quando deram com numerosos vestígios esparsos de construções indígenas. Ora. lembro que coube ao comandante da primeira expedição lusa após Cabral. mas acredita ela que aqueles restos datam do início do século XVI. Isso nos leva a recordar. As viagens de Vespucci ao continente. nossa Ilha do Governador. em alguns parágrafos.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. Fernando Lourenço Fernandes. todas as terras descobertas por Colombo e outros navegadores acabaram sendo batizadas de América. Esses vestígios de construções européias foram encontrados perto da antiga aldeia dos Pixunas. na citada obra. a feitoria teria sido mandada construir por Gonçalo Coelho. foram muito importantes na época e. em 1502. em 1963. que tem 32 km2 e várias fontes de água doce. o português Gonçalo Coelho. Maria Beltrão acredita que se tratava de uma aldeia forti! cada por toros de madeira. que a! rmava que o primeiro entreposto da região fora construído em uma ilha.. aproximadamente com quatro metros de altura. portuguesa portanto. o 5º centenário da visita à Guanabara. a existência de carpintaria naval. ao meio das quais encontraram os restos de uma construção retangular de madeira. Ela relatou que as construções indígenas em torno da Baía da Guanabara eram sempre todas circulares. embora controvertidas.Esse sítio da Ponta do Matoso permite deduzir. de uma primeira ocupação. do famosíssimo navegador italiano Amerigo Vespucci. vizinho a um povoado de índios. aparelhamentos. seguramente. as terras da América deveriam chamar-se Colômbia. mas que recebeu pouca publicidade.org. na região do Cabo Frio. pelos materiais exclusivos ali encontrados. tanoaria. enfim serviços de apoio típicos de uma feitoria . sugerindo carenagem de embarcações. surpreendentemente.portaldocomercio. em janeiro de 1502. No que se refere ao Brasil.br O historiador Fernando Lourenço Fernandes. A presença desses cacos de porcelana de Macau con! rmam inegavelmente a presença lusitana no local. Em 1999.” Afirmou ele que a notícia ficou “encalhada” no modelo Varnhagen durante um século. afirma: “. tivemos uma pequena exposição sobre ele e suas viagens no Museu Histórico Nacional. Foram 875 cacos de cerâmica indígena associada à cerâmica neobrasileira colonial e também restos de porcelana de Macau. a Feitoria do Gato”. o privilégio de batizar a Baía da Guanabara com o nome de Rio de Janeiro. Segundo a famosa carta de Américo Vespucci. a nau Bretoa recebeu instruções para entregar mercadorias ao feitor do dito entreposto. o capitão-mor da armada de 1501/1502 (fare la fortezza). Em 1511. situado em uma grande ilha. Serviços e Turismo www. A única ilha relativamente grande e sabida fonte de pau brasil para os franceses e portugueses naquela época era a ilha do Gato.

como membro daquela frota comandada por Gonçalo Coelho. na História Naval Brasileira. Ele deve ter notado depois que não se tratava de um grande rio. embora já estejam identificadas algumas contradições. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. pensando tratar-se da foz de caudaloso rio. O coronel Rolando Laguarda Trias. e Fernando Lourenço Fernandes. feita por 30 tripulantes das embarcações.portaldocomercio. Na época dava-se o nome de ria a uma enseada ou a uma baía. de Portugal. A expedição explorou a nossa costa entre o cabo de São Roque até Cananéia. Outros autores disseram que ele foi incluído na expedição de Coelho pelo armador italiano Marchioni para informar sobre as riquezas do Brasil. Manuel. segundo sua própria informação. Manuel havia mandado incorporar Vespucci à expedição chefiada por Gonçalo Coelho com a finalidade de . mas isso não era verdade. em A Feitoria do Rio de Janeiro. Américo (ou Amerigo) Vespucci esteve pela primeira vez na Baía da Guanabara em janeiro de 1502. Rio de Janeiro. erroneamente. ao sul de São Paulo. onde chegaram. sendo ali deixados 24 homens com 12 bombardas. Descobriram também Angra dos Reis nessa viagem.descobrir em cada uma delas (capitanias) 300 léguas adiante e fazer uma fortaleza no território descoberto e mantê-la nos três anos em que duraria o arrendamento. O almirante Max Justo Guedes. a 8 de junho de 1504” 3 . não ficara animado com as modestas informações sobre o Brasil.efetuar uma prospeção dos produtos com interesse comercial existentes da Terra de Santa Cruz. Vespucci era homem letrado.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v.ali demorou-se Vespucci cinco meses e. em companhia do próprio arrendatário Fernando de Noronha. e pacificados os silvícolas. Em uma segunda viagem em 1503. o navegador italiano passou vários meses na Guanabara. Serviços e Turismo www.uma torre. a atual Ilha do Governador.org. em Paranapuã. o que agora parece confirmado. na Ilha do Governador. O retorno foi realizado diretamente a Portugal. foi erguida a fortaleza (feitoria) do contrato de arrendamento. que veio explorar o litoral brasileiro. mas as pesquisas arqueológicas de Maria Beltrão no local comprovam que isso ocorreu na Ponta do Matoso. colhidas na primeira viagem de Gonçalo Coelho e decidira arrendar grandes áreas a ricos cristãos-novos. mas ficou sendo mesmo. ou como diziam eles na época --. no seu já citado e esplêndido livro sobre O Descobrimento do Brasil (publicado em duas línguas pelos Correios de Portugal.. o que seria a primeira tentativa de implantação urbana européia na Guanabara. Uma das obrigações da expedição era fundar uma feitoria.água constante saindo da entrada da barra. Essa confusão de ria com rio não demorou. em 2000) afirma que “. pois não havia fluxo d. a qual se tornaria uma das primeiras fontes valiosas de informações sobre o Brasil nascente. Durante a estadia houvera uma tentativa de penetração no interior. nascido e educado em Florença e estava em Portugal como um discreto espião da família Médicis. Varnhagen havia previamente situado essa feitoria no Cabo Frio. que se obrigaram a enviar anualmente seis naus às costas brasileiras. identificaram na Ilha do Governador uma feitoria fundada pela expedição de que participou Vespucci. Já o historiador português Jorge Couto nos informa de que D.br denominação à Baía. O rei D. ou Lettera em italiano. Comentando a sua segunda viagem à região. Eles deveriam . de 1504. ao príncipe florentino Pedro Lourenço de Médicis. que era a área atribuída a Portugal pelo Papa no Tratado de Tordesilhas. Vespucci escreveu em 1504 uma famosa carta. segundo a Lettera.

A iniciativa de dar o nome de Américo Vespucci às terras descobertas por Colombo e outros navegadores nas Américas foi de Waldseemüller (Hylacomilus) em 1507. de autoria de Hugues.br . talvez por uma esquadra espanhola de passagem pela Guanabara. Outra hipótese. que as publicou em seu interessantíssimo livro Les Singularitez de la France Antarctique em 1562. embora não possa mais ser comprovado. Para tentar manter o mare clausum português contra as repetidas aventuras francesas e espanholas na região. Os antigos mapas tardaram bastante a mostrar claramente a Baía da Guanabara na costa brasileira e. na Mancha. no exemplar da nossa Biblioteca Nacional. ou torre. publicado em Turim em 1898 com o título de Le vicende del nome America. mandada construir por Gonçalo Coelho antes de regressar a Portugal. curiosamente. aquele que. e se propagou pela França. conta em seu famoso livro Viagem ao Brasil. em seu livro O Descobrimento do Brasil. ou torre. muito anterior portanto a Villegagnon (1556) e a Estácio de Sá 4 . Já o viajante alemão Hans Staden. Serviços e Turismo www. pouco tempo depois. produziu o primeiro mapa da nossa costa com nítida referência à Baía. seria de que aquela frágil feitoria e seus poucos habitantes tenham sido destruídos por um grande ataque indígena. em 1513. talvez mais viável. No entanto. quase perfeitamente desenhada. Essa feitoria. que o levou até o porto de Honfleur. eram os chamados renegados normandos. Continuaram a chamar as terras por eles descobertas de Índias Ocidentais e só em 1758 as cartas geográficas espanholas adotaram o nome de América. aceita essa versão e também dá credibilidade à descoberta de Maria Beltrão. então conhecido como Rio de Solís. Só os espanhóis resistiram ao termo América e. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. apareceu o belo mapa de Luiz Teixeira. Finalmente. que mostrou ao mundo a Baía da Guanabara por completo. que encontrou franceses na região da Guanabara antes da chegada de Villegagnon em 1555 .portaldocomercio. e a cores. à espera de naus portuguesas. Entrou em águas espanholas e atingiu a foz do Rio da Prata.org. que teria levado todo o estoque de toros de pau-brasil ali acumulado. parece haver sido um corsário turco. pouco tempo depois da notável descoberta de Maria Beltrão. dá ampla prioridade a Vespucci e seus companheiros como os fundadores da primeira implantação européia na Guanabara. com maior ou menor clareza. Essa denominação teve acolhida imediata na Lorena onde surgiu. publicado na Alemanha em 1557. graças à recente invenção da imprensa. Graças à interferência deles é que Staden pôde regressar à Europa à bordo de um navio francês. que as batizou de Amerigue e depois de Américas. quando aludia a uma feitoria. tratores da Marinha revolveram toda a região da Ponta do Matoso e aqueles restos se perderam. que visitou o Brasil poucos anos antes da fundação da França Antártica. Outras cartas. em 1570 aproximadamente. o ignoraram por 250 anos. Tal fato. que explorou melhor a orla marítima e limpou toda a costa sul do Brasil de atrevidos intrusos. tais conclusões parecem coincidir com a descrição feita por Américo Vespucci em sua célebre lettera de 1504. por estranho que pareça.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. Alemanha e Flandres. o rei de Portugal enviou depois ao Brasil a expedição de Cristovão Jacques. em 1963. teria sido precariamente construída e por isso foi facilmente desmantelada. Há um interessante livro que se ocupa da história do nome da América. membro da expedição de Villegagnon. Infelizmente. como o livro de André Thevet. O douto almirante Max Justo Guedes. como se pode ler na sua Cosmographiae Introductio. O famoso livro de Jean de Léry também menciona Henryville. também a registraram.

mera feitoria com um punhado de habitantes. também alvo de alguns ataques apaixonados. Vários livros têm focalizado a França Antártica no Brasil e na França.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. e também pelo pan" eto do pastor francês Pierre Richer. Por outro lado. merecedor de justas homenagens e. foi transferido voluntariamente para local mais apropriado e mais seguro. em artigo no jornal . na Ponta do Matoso. na praia do Flamengo. Marcos de Azambuja. de pequeníssima duração. nosso atual colega do Conselho Técnico. Entretanto. do Rio de Janeiro. 3) a 1º de março de 1565. Serviços e Turismo www. onde ele protestava contra a vida dissoluta dos franceses em Henryville. até hoje. é importante sublinhar que nenhum dos três pontos iniciais de colonização sobreviveu: os dois primeiros foram destruídos manu militari e o terceiro. que obteve o Prêmio Goncourt de 2001 e já vendeu 500.menino bobo. Esclareço. entre os quais Rouge Brésil. pela Marinha de Guerra brasileira. por ocasião do ataque de Mem de Sá em março de 1560 deveria ter cerca de 500 habitantes. foi solicitada a promover um seminário para fazer-lhe um desagravo.portaldocomercio. com ampla repercussão mundial. Em bela cerimônia. A polêmica repercutiu em Portugal e a Universidade Estácio de Sá. Villegagnon tem sido festejadíssimo nos últimos anos e até mesmo homenageado em sua cidade natal.000 exemplares. Antes de sua transferência para o morro do Castelo. da qual participou Américo Vespucci. o relator oficial da construção da feitoria. e não uma verdadeira povoação como Henryville. que o chefe das duas expedições. Por isso. Um conhecido jornalista carioca chegou a chamá-lo de . o obelisco foi inaugurado a 1º de agosto de 2000 pelo embaixador do Brasil na França. que está em nosso Museu da Marinha. leva o seu nome. essa foi a primeira tentativa de instalação européia na Guanabara. de Jean Claude Ru! n. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens.O Globo. a futura cidade de Henryville. uma cidade foi formalmente fundada por Estácio de Sá. assistida por altas autoridades francesas. na Ilha do Governador. Seja como for. Provins. cuja existência está comprovada pela carta de Villegagnon ao Duque de Guise. parece-me oportuno recordar a nebulosa personagem de Estácio de Sá. com um obelisco fabricado com pedras provenientes da ilha que. ou como a futura cidade de São Sebastião. e ainda pelo registro do local exato da futura capital da França Antártica nos mapas da Guanabara de André Thevet. A povoação de Henryville. Temos assim três datas e três prioridades de fundação da primeira instalação européia na Guanabara: 1) em 1504. no entanto. na Urca. quando foi construida a feitoria. o morro do Castelo. dentre eles cerca de cem franceses. não teria chegado até a Guanabara nessa segunda viagem.org. uma torre instalada pela expedição de Gonçalo Coelho. São Sebastião deveria ter uma população de cerca de duzentos portugueses e numerosos indígenas.. injustamente.br (1565). o de Estácio de Sá. 2) no início de 1556. a salvo de eventuais ataques inimigos. Estácio de Sá é ainda um 5 . Gonçalo Coelho.

em seu excelente livro Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro. Como disse acima. No entanto. Em março de 1560. um de nossos melhores especialistas no século XVI. pois teve de ajudar a Câmara local com suas forças em sua luta com os índios da vizinhança. o tinha em boa conta e relatou que Estácio foi incansável na instalação e administração da aldeia inicial. que continuavam entrincheirados no morro da Glória. discorda e considera que essa distinção demonstrou o apreço que o monarca tinha por ele. que o próprio capitãomor não tinha muita confiança na verdadeira força da expedição que che! ava. por Carta Régia de 8 de março de 1566: “A verdade é que o grau de noviço da Ordem de Cristo era atribuído a um homem apagado. os lusos se apresentaram outra vez diante da entrada da barra na Guanabara. O sobrinho de Mem de Sá havia chegado a Salvador em 1557 muito jovem ainda. naqueles 22 meses de sua gestão. Após mais preparativos. Esgueiraram-se junto ao Pão de Açúcar e ali se instalaram junto ao morro Cara de Cão. Escreveu ele sobre a sua admissão na Ordem de Cristo. em 1564. Conta Elysio Belchior. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. A armada portuguesa comandada por Estácio de Sá. os historiadores portugueses não têm demonstrado muito entusiasmo por Estácio. que ainda eram bastante numerosos. Ao entrarem na Guanabara. ”O decisivo impulso para a conquista do sítio e pacificação da terra foram graças ao esforço dele e assim que se puderam assentar os fundamentos da nova cidade”. apenas o sobrinho do governador”. Serviços e Turismo www. fiel testemunha desta etapa inicial de nossa história. No entanto.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. pouco apropriado. local estreito. Elysio Belchior.org.br personagem um pouco misterioso. encontraram forte resistência da parte dos tamoios e dos franceses. perto da arrasada Henryville. Serrão teve mais consideração por Estácio: . se for necessário. mas o único possível naquelas circunstâncias. pois até o conhecido historiador português Joaquim Veríssimo Serrão. Estácio manifestou suas dúvidas ao Padre Manuel da Nóbrega. fez discretas restrições à sua memória. que chegaram a Salvador a 1º de maio de 1563. em outra citação de seu livro clássico sobre o século XVI no Brasil. Quando esteve em São Vicente para recrutar reforços. 6 . ex-presidente da Academia de História de Portugal.portaldocomercio. Esta frase parece atestar a competência e o empenho do jovem comandante português. Finalmente. Lá ficaria quase um ano. o Padre Manuel da Nóbrega. tanto que deixou de lado algumas exigências para conceder aquela distinção. e perguntou-lhe: “Que conta darei a Deus e a El Rei se deitar a perder esta armada?” Ao que lhe teria respondido o jesuíta: “Eu darei conta a Deus de tudo e. partiram em direção ao sul e foram muito bem recebidos no Espírito Santo pelo cacique Araribóia. talvez com menos de 20 anos. preferiu largar velas em direção a São Vicente para angariar mais reforços. diante daquela resistência inesperada. irei diante de El Rei a responder por vós”. Estácio voltou ao Brasil à frente de dois galeões com reforços. ele foi enviado a Portugal para dar a boa nova da primeira derrota francesa à corte portuguesa e pedir reforços para expulsar os franceses remanescentes.

por vezes.br Do mesmo modo. Mas o ilustre historiador português também esclareceu merecidamente que . O padre José de Anchieta estava presente em 1560.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. O capitão-mor foi elogiado por todos os historiadores por sua . uma espécie de certidão de nascimento do Rio de Janeiro . em março de 1565. que tudo ! zeram para que o Estácio desistisse de fixar-se ali e regressasse à Bahia ou a São Vicente. mas não faltaram aqueles que o cercaram de uma aura de heroismo. que Estácio de Sá desembarcou com 180 homens e . Finalmente. na batalha que ocorreu por ocasião do ataque ao forte Coligny.nunca descansava. podemos aceitar a relativa autenticidade dessa bonita frase de Estácio de Sá.. onde Estácio teria sido o primeiro português a penetrar.. que viera de São Vicente. sonegando o papel essencial desempenhado pelo seu esforçado sobrinho.. acudindo a uns e a outros e sendo o primeiro nos trabalhos. os portugueses sofreram um violento ataque que conseguiram rechaçar . portanto seis dias após a cerimônia da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. sizo e constância por levar adiante o determinado. honrando o legendário rei que em breve desapareceria em dramática campanha na Africa. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens.. nem de noite nem de dia. Os pósteros.portaldocomercio.org. Desde o capitão-mor até o mais modesto colonizador cortaram madeira e carregaram pedras sem haver nenhum que a isso repugnasse... Os céticos afirmam que não havia taquígrafos nem gravadores na época para registrar tal frase. não me parece muito autêntica.Estácio exortava os soldados no cumprimento do dever e certa vez teria dito uma frase que ficou na história: “Levantemos esta cidade que ficará por memória do nosso heroísmo e de exemplo às vindouras gerações para ser a rainha das províncias e o empório das riquezas do mundo”. o Padre José de Anchieta.. que por vezes é encenada nos festejos anuais de 1º de março como um verdadeiro pageant. que teria sobrevivido graças à tradição oral.prudência. Ele teria sido incansável não só para reforçar o 7 .batalha das canoas. ou em versos cantaram seus feitos e destino. a 1º de março de 1565.. Naqueles dois anos de consolidação de sua posição na Urca (1565-67).. . Anchieta também esteve na Guanabara nos primeiros dias após a fundação da cidade. dando ânimo aos outros a fazer o mesmo.não lhe faltavam reconhecimento os que com ele conviveram...a glória da transferência da cidade (da Urca para o morro do Castelo) não se deveu ao governador. que é demasiado altissonante para a época. pois com ele (Estácio) deu-se a transferência do local. pois seu tio reivindicou a glória do nascimento da cidade à sua pessoa. No entanto. solenemente fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.deixando a praia juncada de cadáveres. nem recompensas dos que nele confiaram. Ele deu maior relevo a Estácio de Sá e afirmou em carta ao Padre Geral de São Vicente que o jovem capitão-mor . Seja como for. Serviços e Turismo www.. Veríssimo Serrão não deixou de afirmar que a figura de Estácio de Sá continua na penumbra histórica. mas a comemoração é mesmo pitoresca.. Belchior também registrou que . A chamada . Foram 22 meses de lutas constantes com os tamoios e os franceses.foi logo dormir em terra. os portugueses resistiram a freqüentes assaltos de franceses e tamoios e já no dia 6 de março de 1565. o esqueceram. relatou em carta .

nomeou os titulares de cargos administrativos. na atual Ilha do Governador. Já se escreveu que Mem de Sá pretendia nomeá-lo governador.. primeiro governador da cidade. portugueses e franceses.org. De Estácio de Sá não restam cartas. Seus restos mortais estão na igreja de São Sebastião. mas Mem de Sá confiava em seu sobrinho. ou Uruçu-mirim dos indígenas. em 1965. 8 . vítima das flechas”. edição e foi publicado em Paris em 2002. Serrão escreveu: . O livro que escrevi em parceria com Lucien Provençal sobre Villegagnon e a França Antártica está na 2ª. mas a sua morte prematura levou o governador-geral a designar seu outro sobrinho. mas infelizmente o capitão-mor foi ferido no rosto (alguns historiadores a! rmam que foi em um olho).portaldocomercio. Essa ilustre familia Corrêa de Sá dirigiu por mais de um século a administração da cidade. Jorge Couto acrescenta que ele instalou a Câmara Municipal. judiciários e religiosos. Estácio concedeu nada menos de 50 sesmarias aos seus melhores colaboradores e ele mesmo possuía terras na região. de Stela Leonardos. após a transferência da povoação para o morro da Castelo. mas também fez estabelecer roças para que pudesse alimentar os habitantes da novel povoação. por uma flecha envenenada e.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. criou o brasão da cidade.Estácio de Sá morreu na casa dos vinte e poucos anos e seu juvenil martírio foi envolvido numa sombra de lenda.br perigoso e vulnerável local onde se instalara. na Tijuca. Em meados do século XIX tivemos o conhecido poema épico A Confederação dos Tamoios. A batalha foi um êxito. desejo esclarecer que Estácio de Sá nunca foi governador do Rio de Janeiro. Os episódios que cercaram a fundação da cidade do Rio de Janeiro foram cantados em prosa e verso. nem documentos. veio a falecer. Serviços e Turismo www. é o Romanceiro de Estácio. os portugueses atacaram com sucesso a aldeia francesa de Paranapuã. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. do qual participaram os melhores especialistas brasileiros. e sim apenas capitão-mor. Já o historiador português Jorge Couto foi mais romântico. após um mês de sofrimentos. em 1567. Em 2005. Finalmente. o nosso atual morro da Glória. na rua Haddock Lobo. culminando no ilustre Salvador Correa de Sá e Benevides. por ocasião do 4º centenário da efeméride. três vezes governador do Rio de Janeiro. ambos divulgados pelo mesmo editor. Só no início de 1567. e Frederico Trotta publicou A fundação da cidade do Rio de Janeiro. e fundou ainda um colégio jesuíta. pois a novel cidade estava situada na capitania doada pelo rei a Martim Afonso de Souza. Salvador Corrêa de Sá. o Museu Histórico Nacional organizou importante seminário intitulado . após haver recebido mais reforços. Ali ouvimos excelente palestra de Elysio Belchior sobre Estácio de Sá e que me parece ser a última palavra sobre o personagem. O Dr. De 1965. editado pela Secretaria Geral de Educação e Cultura. pois já manifestara vontade de mantê-lo no comando do Rio de Janeiro. como já se escreveu. que lhe tem agigantado a figura. Dias depois. de Gonçalves de Magalhães (1856). dizendo: “Morreu tal como o martir que escolheu para o patrono da cidade. hoje de leitura bastante difícil. um grande personagem do século XVII no Brasil e em Portugal. Henrique Orciuoli escreveu Estácio na Guanabara.O Universo da França Antártica. Estácio de Sá sentiu-se su! cientemente forte para tentar o assalto ao Mont Henry.

O Universo da França Antártica. Palestra de Elysio Belchior. Livraria Brasiliana Editora. determinara fosse erguido um marco comemorativo da fundação do Rio de Janeiro. panorama dominado pelo Pot-au-beurre (o pote de manteiga) . Bem haja" BIBLIO GRAFIA SELETA ANCHIETA. em merecida homenagem a Estácio de Sá. hoje sede da Escola Naval do Brasil. que alegra anualmente os desfiles carnavalescos. tal como Buenos Aires teve dois fundadores: Pedro de Mendoza em 1535 e Juan de Garay em 1575. Conquistadores e Povoadores do Rio de Janeiro. página 49. nosso Rio de Janeiro também teve. janeiro/março de 1999. 9 . tomou a iniciativa de erigir o marco na Urca. _______________ .org. v. Existe uma grande universidade com seu nome e até uma Escola de Samba. Em conseqüência. Henrique. BELCHIOR. 1933. Elysio . ergue-se o morro da Glória. Rio de Janeiro. na Praia de Fora. ao alto.. a Estácio de Sá. como batizaram os franceses o nosso Pão de Açúcar. o governador Carlos Lacerda fez erigir uma pequena pirâmide na curva do aterro do Flamengo. e Estácio de Sá na Urca. na Ilha do Governador. A ser publicado em 2009. de Portugal: “Aqui está o que há de melhor no Brasil”. o Mont Henry. em 1504. Numerosas palestras de especialistas brasileiros. E daquela curva do aterro descortina-se uma das mais belas vistas do Rio. onde resistiram os franceses por sete anos depois da queda do forte Coligny. Rio de Janeiro. para celebrar o feito de Estácio de Sá. De lá se descortina frontalmente o morro Cara de Cão. in revista do IHGB. Estácio continua bem presente no Rio de Janeiro do século XXI pelo populoso bairro do centro da cidade que leva o seu nome e que ficou ligado à história do samba. ANAIS do seminário . fragmentos históricos e sermões. Cartas. 402. a 20 de janeiro de 1915. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. outubro de 2005. Ainda conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro. o Instituto Histórico e Geográ! co Brasileiro. 1965.br Em 1965. José de . Lembro ainda que o Congresso de História Nacional.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. no sentido lato. a 5 de junho de 1913.portaldocomercio. Devemos honrá-los a todos. Destarte. à sombra do qual foi semeada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. ou até podemos dizer mesmo três fundadores: Américo Vespucci. onde existiu por quatro anos a efêmera Henryville. Nicolas Durand de Villegagnon na Praia do Flamengo em 1556. edição da Academia Brasileira de Letras. e mais à esquerda ainda. por ocasião dos festejos do 4º centenário da fundação da cidade. em 1565. pois como escreveu o Padre Manuel da Nóbrega ao Cardeal D. Olhando à esquerda vemos a Ilha de Villegagnon. no Museu Histórico Nacional. dois fundadores. Serviços e Turismo www. portugueses e franceses. e também a Praia do Flamengo.

em 2 volumes. Vasco & PROVENÇAL. Rio de Janeiro. Amerigo Vespucci. julho/setembro de 2000. un chevalier de Malte au Brésil. Rio de Janeiro. O Descobrimento do Brasil. BELTRÃO. O Rio de Janeiro e a formação nacional. MARIZ. Lisboa. Barbera Editori. Jorge . Fratelli Treves. Paris. Lucien . 1965. A Construção do Brasil. página 58. 55 Confederação Nacional do Comércio de Bens. 2008 (sem atualização). 1995. Os Mediterrâneos e os Atlânticos (páginas 113-137).portaldocomercio. Correios de Portugal. O Rio de Janeiro no século XVI. GUEDES. em Cascais. Florença.org. Contém ensaio de Fernando Lourenço Fernandes sobre a feitoria da ilha do Gato. Eduardo . com o título Villegagnon. 1978. Pau Brasil. Forense Universitária / SEEC. COUTO. Portugal. 2002. 2000. 1926. 408. MAGNAGHI.br _______________ . 2002. Axis Mundi Editora. RAMBALDI. 2000. Max Justo . Villegagnon e a França Antártica. Joaquim Veríssimo . atas do 2º Curso Internacional de Verão. Serviços e Turismo www.. Edição francesa pela editora Rive Droite. Amerigo Vespucci. editora Nova Fronteira. 2ª edição pelo Estudio Andrea Jakobsson.CARTA MENSAL – Abril 2009 # 649 v. Rio de Janeiro. Lisboa. Maria da Conceição . Edições Cosmos. in revista do IHGB. em julho de 1995. Alberto . Comissão Nacional das comemorações do 4º centenário do RJ. 2ª. Palestra pronunciada em 10 de Março de 2009 10 . edição. 1898 SERRÃO. Pre-História do Estado do Rio de Janeiro. PIER Liberale . Roma. 2005. vol. BUENO. São Paulo.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful