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Etnografia, etnografias

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Ensaios sobre a diversidade do fazer antropológico
Ensaios sobre a diversidade do fazer antropológico

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ETNOGRAFIA, ETNOGRAFIAS

Ensaios sobre a diversidade do fazer antropológico

Iracema Dulley e Flávia Melo da Cunha (orgs.)

1

Agradecimentos

Gostaríamos de agradecer aos colegas e professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP pelo diálogo, incentivo e disponibilidade. Somos especialmente gratos aos orientadores das pesquisas aqui apresentadas: Bela Feldman-Bianco, Emília Pietrafesa de Godói, Guita Grin Debert, Heloisa Pontes, Maria Filomena Gregori, Omar Ribeiro Thomaz e Suely Kofes. Agradecemos ainda aos professores que nos deram aula, John Manuel Monteiro, Mariza Correa, Mauro William Barbosa de Almeida, Nadia Farage e Vanessa Lea, pelo papel central que tiveram em nossa formação. Finalmente, manifestamos nosso reconhecimento aos professores Omar Ribeiro Thomaz e Ronaldo Rômulo Machado de Almeida, que acompanharam e apoiaram nossa iniciativa de publicação do início ao fim.

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Sumário

Apresentação
Omar Ribeiro Thomaz

Notas sobre etnografias e métodos, 05
Iracema Dulley e Flávia Melo da Cunha

Etnografias do ciberespaço O universo simbólico neonazista na Internet: breve relato de uma experiência etnográfica, 13
Adriana Dias

“Não leve o virtual tão a sério”? – uma breve reflexão sobre métodos e convenções na realização de uma etnografia do e no on-line, 32
Carolina Parreiras

Glossário, 49
Adriana Dias e Carolina Parreiras

Etnografias da justiça Escolhas metodológicas e etnografia em um campo de interlocução entre Antropologia e Direito, 51
Daniela Moreno Feriani

Da investigação policial à investigação antropológica: implicações da proximidade e do distanciamento na pesquisa antropológica, 73
Flávia Melo da Cunha

Etnografias da arte Um picadeiro na Praça Roosevelt - Os Parlapatões, Patifes e Paspalhões, 93
Cauê Kruger

3

Etnografia, mediação e relações interculturais: entre o geral e o particular na produção de “músicas do mundo”, 124
Paulo Ricardo Müller

Etnografias do colonial A missão de um ponto de vista relacional: um ensaio para a apreensão da prática a partir dos documentos, 147
Iracema Dulley

Visões do campo sobre o arquivo (e vice-versa), 173
Marcelo Moura Mello

Como qualquer etnografia: fundamentos para uma etnografia dos documentos escritos, 186
Olivia G. Janequine

Autores, 202

4

apontam. Alguns questionamentos perpassam os diversos textos: como articular um determinado objeto de estudo a uma metodologia de pesquisa? O que certa escolha metodológica permite revelar? Quais ganhos podemos auferir de uma abordagem teórico-metodológica? Sem a pretensão de oferecer generalizações. Os ensaios aqui reunidos foram produzidos a partir de pesquisas realizadas junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas. posicionamentos e análises que desenvolvemos devem muito à disposição para a troca e para a crítica dos colegas com quem partilhamos esse caminho.Notas sobre etnografias e métodos Iracema Dulley e Flávia Melo da Cunha A possibilidade de discutir idéias. com base em trabalhos específicos. Assim. a justiça. Nossas reflexões particulares. mais do que proceder a uma recapitulação da tradição de pesquisa antropológica ou comentar o estado da arte da disciplina. A coletânea Etnografia. contudo. gostaríamos de dedicar especial atenção aos ensaios reunidos nesta coletânea. para um horizonte de diálogos possíveis. contexto no qual se construiu uma profícua interlocução entre os autores. no Brasil e no exterior. Com respeito aos objetos de pesquisa. os textos aqui reunidos pretendem refletir a posteriori sobre um percurso de pesquisa que necessariamente passou por escolhas desse tipo. bem como das experiências de reflexão que podem constituí-lo. etnografias: ensaios sobre a diversidade do fazer antropológico apresenta artigos sobre abordagens e temas diversos: as etnografias – voltadas para o ciberespaço. a diversidade de temas da coletânea reflete o alargamento das possibilidades abarcadas pelo campo antropológico. tarefa por demais hercúlea. a arte e o colonial – debruçam-se sobre tempos e espaços variados. os julgamentos de crimes de homicídio entre pais 5 . e trazem reflexões acerca de objetos como o universo simbólico neonazista na internet. expectativas e experiências de pesquisa é sem dúvida um elemento fundamental no desenvolvimento de qualquer percurso acadêmico. Os argumentos. os relacionamentos afetivos e sexuais entre homens numa comunidade do Orkut.

o cenário do teatro e da “música mundial” na metrópole paulistana. as missões católicas no Planalto Central de Angola. que transita entre os limites do presencial e do virtual.e filhos em Campinas/SP. é relevante a discussão realizada pela autora acerca das similaridades e diferenças existentes entre uma pesquisa de campo tradicional e uma etnografia virtual: como pensar questões como identidade. Adriana Dias. trata de sua etnografia de seis anos em ambiente hipermediado. configurações de sexualidades. a delegacia de mulheres em Manaus/AM. as autoras discutem os desafios enfrentados na constituição de um campo de pesquisa pouco convencional. Nesse sentido. simbologias e discursos. experiência e formação de grupos nesse ambiente? Para dar conta da questão. favorecendo a compreensão da linguagem utilizada na rede mundial de computadores. 6 . Os textos discutem o modo como ambos estão imbricados e inter-relacionados em processos de produção de identidades. As antropólogas do/no ciberespaço oferecem ainda um glossário dos termos técnicos. a comunidade negra rural de Cambará/RS. o diálogo com ampla bibliografia acerca de estudos virtuais lhe dá subsídios para repensar a etnografia como prescindindo da noção de que uma comunidade deve se relacionar a um determinado espaço. Com amplo domínio da linguagem hipertextual. Etnografias do ciberespaço. aborda os mecanismos através dos quais os sites neonazistas investigados interligam-se na rede mundial de computadores e tornam-se intencionalmente invisíveis. compreendendo o ativismo político neonazista por meio da relação que os sites estabelecem entre si e com o restante da internet. O livro está organizado em quatro partes: na primeira. Especialmente interessante é o detalhamento pela autora da metodologia de que se valeu para construir a rede de sites e compreender as estratégias neonazistas para desaparecer dos sistemas de busca. autora de “O universo simbólico neonazista na Internet: breve relato de uma experiência etnográfica”. O ensaio coloca como desafio compreender o universo simbólico neonazista no Brasil a partir de sua atuação na internet e revela em que medida a categoria “sangue” e o mito de Thor aglutinam os integrantes do movimento e seu discurso de ódio.

apontando as implicações da conjuntura para a pesquisa. marcas e padrões do “mundo presencial” estão presentes no “virtual”. A identidade virtual não é vista como descontextualizada e fragmentária. Trata-se de compreender a construção e expressão da homossexualidade no virtual e a relação estabelecida entre on-line e off-line no que diz respeito à experiência dessa identidade. Entre suas conclusões. expressão e virtualização dos corpos e das homossexualidades são o problema investigado por Carolina Parreiras em “‘Não leve o virtual tão a sério’? Uma breve reflexão sobre métodos e convenções na realização de uma etnografia do e no on-line”. Os trabalhos que compõem a segunda parte do livro. a autora busca desvencilhar-se dos pares de oposição utilizados nas definições do presencial e do virtual e procura alternativas analíticas para essas dicotomias. em “Escolhas metodológicas e etnografia em um campo de interlocução entre Antropologia e Direito”. Baseada em etnografia realizada numa comunidade do Orkut composta por homens que se relacionam afetiva e sexualmente com outros homens. monitorando processos de homicídio e tentativa de homicídio entre pais e filhos. alinham-se ao campo de estudos de gênero e violência. A autora mostra como as 7 . Etnografias da justiça. mas atravessada por diversos marcadores de diferença e traços contextuais presentes em qualquer identidade. Daniela Feriani.A construção. Além da observação do ritual judicial. de modo a questionar a rigidez dessas fronteiras. observa o quanto convenções. O texto esquadrinha habilmente como as estratégias jurídicas denominadas pela autora como “moral familiar” e “saúde mental” são acionadas no julgamento dos casos. A autora problematiza ainda sua inserção como mulher numa comunidade preocupada com “assuntos de homens”. os casos de crimes geracionais estudados foram comparados aos crimes entre cônjuges de modo a oferecer uma percepção mais refinada do modo como os crimes em família são interpretados no campo jurídico. Além da observação participante e do estudo documental dos processos criminais. analisou os discursos dos processos criminais de modo a perceber como convenções de gênero e de geração surgem nos julgamentos. percorreu os tribunais de justiça criminal de Campinas/SP. manifesta de forma múltipla e em referência a categorias e convenções presentes no mundo presencial.

entre filhos e esposas e. Interessante é a discussão sobre a metodologia duplamente comparativa: o recurso simultâneo à pesquisa de campo e em arquivo e à comparação entre os crimes geracionais e os crimes entre cônjuges. A pesquisa. objetividade e a produção das alteridades no trabalho de campo são algumas das questões trazidas no debate sobre o processo de conversão de policial a antropóloga. voltou-se para os casos de lesão corporal grave registrados na delegacia. Patifes e Paspalhões”. por uma tentativa de aproximação do ofício do antropólogo ao ofício do policial. A formação do campo teatral paulistano e as disputas que o constituem são apreendidas com o auxílio da teoria dos campos de Pierre Bourdieu. iniciada quando a autora trabalhava como policial numa delegacia de mulheres em Manaus/AM.categorias de masculino e feminino podem ser acionadas para explicar a polaridade apreendida. por um lado. A análise passa. intitulado “Um picadeiro na Praça Roosevelt . possibilitando olhar para a 8 . Através de uma descrição meticulosa. ainda. tematiza a cena do teatro e da “música mundial” na capital paulistana. entre maridos e pais. O ensaio de Cauê Kruger. Patifes e Paspalhões. as implicações do multipertencimento profissional na produção da etnografia da delegacia de mulheres e a relação forjada com os sujeitos da pesquisa: policiais e mulheres vítimas de violência. a autora analisa com propriedade as especificidades da atividade policial e a rotina de atendimento nas delegacias.Os Parlapatões. apresenta os pressupostos. buscando compreender as semelhanças e divergências inerentes às profissões constituintes de sua experiência de pesquisa. bem como os desafios enfrentados para forjar sua identidade de antropóloga nesse campo. Os limites e conflitos entre duas experiências profissionais distintas que se entrecruzam no encontro etnográfico foram problematizados por Flávia Melo da Cunha no artigo “Da investigação policial à investigação antropológica: implicações da proximidade e do distanciamento na pesquisa antropológica”. as possibilidades e os limites da teoria da performance para a realização de uma etnografia que dê conta ao mesmo tempo de um fenômeno estético e do contexto no qual se insere. Etnografias da arte. Proximidade. por outro. Entre outros aspectos. a terceira parte do livro. o autor analisa a trajetória e a atuação cênica do grupo de atores cômicos Parlapatões.

ainda que através de uma abordagem teórico-metodológica distinta. além de fazer uma bela defesa da necessidade de se compreender um fenômeno estético em relação com a sociedade onde é produzido. Geral. A necessidade de se relacionar um fenômeno estético com seu contexto de produção faz-se presente também neste ensaio. fronteiras. embora produzidos pelos missionários. Iracema Dulley parte de documentos produzidos nas missões católicas espiritanas do Planalto Central angolano para reconstituir as práticas de dois tipos de agentes: missionários e catequistas. O autor mostra como se configuram a valorização e a síntese das diferenças através das “músicas do mundo” e como as relações de poder determinam modos de enquadramento das experiências culturais e das percepções do que é geral e particular. que se debruça sobre as práticas de uma rede de músicos e produtores de “músicas do mundo” na cidade de São Paulo. trânsito. O argumento do texto se desenvolve de modo a avaliar o quanto a constituição de agentes permitiu apreender a produção de uma convenção de significação no universo da missão. analisa a questão da mediação entre cenários etnográficos e contextos sóciohistóricos. como produto de uma relação que se estabeleceu na prática e envolveu diversos agentes. “Etnografia. A autora considera os documentos. É iluminadora a comparação estabelecida entre as trajetórias de Luiz Gonzaga e Bezerra da Silva no Rio de Janeiro e os grupos de “música do mundo” Mawaca. O ensaio de Paulo Muller. Troupe Djembedon e Sexteto Mundano em São Paulo. contato intercultural e mediação musical são questões debatidas pelo autor. Nessa medida. particular. reunidos na seção Etnografias do colonial. “A missão de um ponto de vista relacional: um ensaio para a apreensão da prática a partir dos documentos”. argumenta 9 . No primeiro deles. A abordagem de documentos como fonte para a pesquisa antropológica é debatida nos três últimos ensaios. A etnografia cumpre bem a proposta de inserir a atuação dos Parlapatões no contexto teatral paulistano.dimensão histórica e relacional do processo de consagração do grupo. mediação e relações interculturais: entre o geral e o particular na produção de músicas do mundo”. A etnografia surge como método privilegiado para compreender as articulações entre a globalização e a produção da diferença em contextos interculturais.

e finalizada com uma pesquisa sobre memória na mesma comunidade. ainda. concluindo que os fundamentos de uma etnografia desse tipo seriam os mesmos de qualquer outra etnografia. na tentativa de escapar do risco de determinação do oral pelo escrito. discutem questões enfrentadas no decorrer de pesquisas que se valeram de metodologias diversas: o campo. É interessante observar a dimensão diacrônica da pesquisa. o arquivo. os limites e as possibilidades colocados pelas fontes para a constituição de cada agente.em favor do uso das fontes para analisar não só o “ponto de vista” missionário. iniciada no contexto da elaboração de um laudo antropológico. Marcelo Mello trata de sua experiência de campo na comunidade negra rural de Cambará/RS e de seu trabalho no arquivo com fontes relativas à comunidade. que de certa forma acabou por privilegiar a leitura de seus moradores sobre sua própria história. A transversalidade das 10 . De certa maneira. Olivia Janequine apresenta uma original revisão da tradição antropológica no que diz respeito ao método etnográfico. o texto reitera o argumento que interliga todos os ensaios. defende-se o argumento de que se deve atentar para as formas de lembrar. O autor tematiza ainda as assimetrias presentes ao lidar simultaneamente com relatos orais e escritos e apresenta possibilidades de superação do caráter assimétrico dessa relação. a internet e combinações entre esses métodos. para além de apresentarem estudos etnográficos desenvolvidos em contextos distintos. Discutem-se. uma vez que estes. Em estreito diálogo com os argumentos apresentados nos outros artigos da última parte da coletânea. Nesse sentido. Em “Visões do campo sobre o arquivo (e vice-versa)”. que colocou a necessidade de se buscarem correspondências entre o que os habitantes de Cambará diziam e o que os arquivos apresentavam como “provas”. Passando em revista os pressupostos de autores clássicos e contemporâneos. e não para as deficiências da memória oral em relação ao arquivo. a autora busca consolidar fundamentos metodológicos e epistemológicos para uma análise etnográfica de documentos escritos. mas as relações a partir das quais se deu o processo de textualização do qual os documentos são produto. A confrontação entre registros escritos e relatos orais aparece como uma forma profícua de captar a memória e a história da comunidade. Seu ensaio analisa a influência da experiência etnográfica na análise documental e viceversa.

geral e particular. voltadas para a compreensão de diferentes aspectos da realidade social. o esforço dos autores para buscar alternativas analíticas e descritivas a classificações rígidas e dicotômicas. ainda. relações de poder e história. dando outro tratamento às tensões entre virtual e presencial. articula-se nos textos a uma discussão metodológica surgida no trato com a empiria. campo e arquivo. com recortes de pesquisa que buscam estabelecer uma relação entre universos simbólicos e práticas. Resulta dessa disposição um refinamento das perspectivas de análise. 11 .etnografias. oral e escrito. O conjunto dos ensaios revela.

ETNOGRAFIAS DO CIBERESPAÇO 12 .

A etnografia no virtual me possibilitava um fio condutor de leitura de um movimento que. É importante notar que os dados do tráfego foram crescentes durante toda a pesquisa e apontaram. cresce em média 8% ao ano e se baseia num radicalismo: a eliminação de “seus inimigos”. sempre. blogs. em minha dissertação de mestrado (Dias. além da URL principal do site. em CD. como redes sociais. o site brasileiro Valhalla88.O universo simbólico neonazista na Internet: breve relato de uma experiência etnográfica Adriana Dias Introdução O presente artigo retoma minha experiência etnográfica a respeito do neonazismo na Internet1. segundo o Alexa. A partir dos mesmos. O ponto de partida para a localização destes sites foi a lista “Os 500 melhores sites NacionalSocialistas”. temas abordados e links que os sites estabeleciam.500 sites durante a defesa de minha monografia de conclusão de curso. fóruns e chats. nas quais havia centenas de comunidades neonazistas. era possível identificar dezenas de outros. por meio de seus links. quando defendi o mestrado eles passavam de 13 mil2. infelizmente.Nesse banco de dados. Muitos deles ofereciam links para outras ferramentas da rede. inglesa e portuguesa. posteriormente. mais de 400 mil visitas de IPs diferenciados. Esse banco de dados foi disponibilizado. em sua primeira versão. fora preciso definir que material seria utilizado na análise. Embora se estime o número de 150 mil neonazistas no Brasil. que permitiam grande fluxo de interação e comunicação. 2 13 . realizada durante seis anos. apresentou. para um número muito maior do que o aferido por outras pesquisas. 2001). 1 Entende-se que o termo Internet engloba tanto a estrutura técnica da rede (servidores e dados) quanto aos usos dessa estrutura (Di Maggio et al. em maço de 2006. 2005) e. cujo resultado foi apresentado primeiramente em minha monografia de conclusão de curso (Dias. por exemplo. em língua espanhola. 2007). Primeiramente. Quando comecei a pesquisa havia cerca de oito mil sites neonazistas na rede. Criei um banco de dados em Access para cadastrá-los. foram registrados dados de acesso. canais de comunicação como MUDs e IRC. listas de discussão. com cerca de 8.

cartazes. na Espanha. como o fórum Stormfront. São exemplos o Orkut. contato com procuradores. os que ofereciam mais material para “ativismo”. os mais citados nos sites escolhidos. fóruns. Há opção para língua portuguesa em apenas um terço delas. ou seja. músicas e outros materiais. o Facebook. no Brasil e em Portugal. escolhi alguns fóruns.. e os que eram reconhecidos pelos próprios neonazistas dos chats. inclusive o Saliento que minha participação nos sites e comunidades neonazistas se deu como observadora (nunca postei nestas comunidades) e que os sites em questão foram apresentados como “referência” nas discussões observadas. disponibilizando livros. era a rede social4 que possuía a maior quantidade de comunidades neonazistas (durante a pesquisa chegaram a existir mais de 300. Além do material encontrado na rede. selos. os que mais se relacionavam por meio de links com outros sites da Internet. por conta da estrutura das comunidades e de seus fóruns. e seis blogs. Entre as outras ferramentas disponibilizadas pelos sites. como fonte “do melhor material nacional-socialista”. inclusive o mediado por computadores e acessei ações públicas a respeito dos crimes que se deram em território nacional e/ou que foram cometidos por brasileiros. privilegiando os que possuíam maior número de participantes. o LinkedIn. a média foi de 200) e a configuração da rede social me permitia consolidar os dados de uma forma que privilegiava os debates entre os participantes. governamentais e nãogovernamentais. Entre os sites. sites centrais para o movimento neonazista. de diversas entidades. no qual há debates de internautas de todo o mundo (identificados pelo endereço de IP). 4 3 Rede Social se refere à forma de apresentação hipermediada. listas de discussão e comunidades das redes sociais3 como “referências”. escolhi os mais acessados nas línguas citadas. correspondi-me com dezenas de pessoas.A impossibilidade de abarcar todo esse gigantesco material impôs a necessidade de definir quais sites e quais ferramentas seriam objeto da pesquisa. entre dezenas de outras. Busquei dados a respeito desses crimes nos Estados Unidos. estabeleci. durante a pesquisa. que objetivam medir e denunciar o neonazismo. escolhi o Orkut por três motivos: interessava-me acompanhar os processos movidos pelo Ministério Público e denunciados pela SaferNet contra as comunidades neonazistas. promotores e juízes que lidaram com o crime de neonazismo. 14 . Entre as redes sociais.

em especial dos conteúdos 15 . incluí também uma loja de “naziwear”. A etnografia em ambiente hipermediado Definido o objeto. fazia-se necessário um diálogo no plano das práticas e dos discursos – eles também práticas – que pusesse em relação os significados atribuídos a esses elementos pelos diversos agentes”. fluxos e situações. Nesta discussão. “traduções e aproximais” entre eles. Como afirmou Marcus. surgiu de minhas interrogações: o que era aquele movimento? Quanto de seu discurso de ódio aqueles internautas vivenciavam fora da rede? Que conexões suas estratégias revelavam? Para atender a essa contínua circulação entre contextos. Por fim. sua estratégia nessa disputa simbólica.digital. cada um. e como indicou Bourdieu. 1998: 80). O discurso neonazista dos sites pesquisados. Esta busca externa. portanto. era preciso pensar quais questões metodológicas seriam centrais na abordagem etnográfica do neonazismo. Para tanto. (Marcus. nos processos que produzem tal discurso e que conferem aos agentes "os princípios de um poder que uma certa maneira de utilizar as palavras permite mobilizar" (Bourdieu 1998: 199-200). o “objetivo é acompanhar conexões. de camisetas com citações hitleristas a CDs de música de bandas neonazis. Com a emergência da Internet e sua exponencial expansão. uma direção interessante se fez necessária: aquela proposta por George Marcus: uma etnografia multissituada. loja virtual que comercializa diversificado material a respeito do movimento. denuncia. uma abordagem interessantíssima está proposta por Dulley (2010). a autora aponta para a idéia de que “os diversos agentes em interação” por ela analisados “viram-se às voltas com a necessidade de forjar uma convenção de significação que lhes permitisse ao mesmo tempo comunicarem-se uns com os outros e perseguir. A respeito desta relação entre discurso e prática. nessa pluralidade. associações e relações nos locais mais inesperados” para alcançar. as condições sociais de sua produção e utilização. como os apresentados pelos neonazistas na Internet. ele mesmo uma prática central do movimento. tal discurso deve ser pensado "procurando fora das palavras". que ampliou minha etnografia.

o uso de ferramentas particulares para obter e sistematizar dados. Um resumo de sua pesquisa foi apresentado em 2006. 1994) desejam problematizar especificidades das interações hipermediadas. Cf. “numa reflexão sobre se uma entrevista virtual pode ser considerada uma verdadeira entrevista. portanto. 2005 e 2006. novos tipos de sociabilidades e novas práticas comunicativas se tornaram objeto da atenção dos pesquisadores antropológicos. Mayan I Planells. Mobilizando temas de interesses diversos. 2000. durante o III Congreso Online del Observatorio para la Cibersociedad na conferência Virtual Ethnography. inclusive. segundo a autora. 1994. inclusive conceituais: uma comunidade virtual pode ser pensada no mesmo sentido em que usaríamos o termo comunidade em outra situação de campo? Como as questões de poder se manifestam na rede? O que é uma identidade virtual? Como a Internet. As idéias de “etnografia virtual” (Hine. as definições imersas em alto grau de complexificação de “território virtual” e “temporalidade digital”. 2004) e de ciberetnografía (Escobar. a idéia é “interrogar o método tradicional”. um “artefato cultural”. finalmente. 2006). 16 . 2005 e 2006. Hakken. a respeito dos blogs de meninas anoréxicas e bulímicas e o de Carolina Parreiras (2008). Miller e Slater. 1999. Williams. objetivando. 6 5 Em duas de suas obras principais: Virtual Methods: Issues in Social Research on the Internet (2005) e Virtual Ethnography (2000). esses grupos oferecem para a apreensão antropológica várias questões. de etnografia por meio da Internet (Beuaulieu. “etnografia virtual”. No Brasil dois trabalhos importantes são os de Daniela Araújo (2004). 2001). traçando especificidades impostas pelo meio virtual. argumenta ela. nós também podemos pensar mais profundamente sobre o que é que temos valorizado como metodologia no que se refere a entrevistas” (idem:10).produzidos por internautas. 1999. foi amplamente discutido por Christine Hine (2005) 6 para pensar diferentes aproximações metodológicas para o estudo qualitativo da Internet. preenchido. a respeito das relações interpessoais estabelecidas em uma comunidade da rede social Orkut composta por homens que se relacionam afetiva e sexualmente com outros homens. de uma elástica dimensão simbólica. de etnografia do ciberespaço (Hakken. refletir como a experiência do investigador e sua relação com o objeto de estudo afetam os agentes analisados. afinal. remodela as experiências? Muitos teóricos têm se preocupado em teorizar o quão “ocidental” são as implicações das novas tecnologias da comunicação para pensar. como poderiam ser realizadas etnografias no ciberespaço.5 Um dos termos mais utilizados. Dimaggio et al. nas dezenas de redes sociais e nos milhões de blogs que se espalham pela WEB. Hine discute a relação entre pesquisador e pesquisados. 2000. Escobar.

no qual sugere. perfis são as descrições a respeito de si mesmos que os participantes disponibilizam para os outros internautas. Como Hine. os “ambientes on-line”. em alguns aspectos. no que denomina “the application of research methodology to the online arena”. o autor discute a natureza dos crimes cometidos no contexto de uma comunidade virtual on-line. que durante muito tempo foi discutida por outros pesquisadores que desenvolveram etnografias na Internet é: “por que é mais fácil criar confiança nos relatos da vida real (idem: 55)?” Hine aponta. exigiram métodos que problematizassem inclusive a rápida mutação dos mesmos e como isso retrata algo “da cibercultura”. a natureza do "crime" e também sua configuração transnacional. Os avatares são os desenhos gráficos (personagens) que servem como representação do internauta nas redes sociais. nas redes sociais. as ferramentas utilizadas nesse processo) e de que forma esses sites podem servir às pesquisas. Para Williams. Outro autor que se vale do mesmo termo (etnografia virtual) é Matthew Williams (2007). na qual estudou a representação de perfis e avatares7 em comunidades virtuais. Outra importante observação de Hine é que no estudo de sites é preciso problematizar como estes são significativamente construídos (incluindo aqui. além de discutir estratégias de regulação. Em algumas comunidades. por serem similares. os perfis podem ser restritos a contatos pré-determinados. 17 . Virtually Criminal: Crime. Uma pergunta importante da autora. principalmente depois do “advento de novas tecnologias de banda larga e da expansão da linha gráfica”. como o estudo realizado por ela entre profissionais do sexo. o autor também se preocupa com as questões metodológicas que são levantadas. mas muito diferentes em outros”. o uso da etnografia virtual poderia facilitar o acesso etnográfico. faz interessantes observações acerca da prática da etnografia virtual. e em sua pesquisa. e ambas facetas do método poderiam “enriquecer-se mutuamente. por exemplo. ainda. que para determinados temas sensíveis. com freqüência. Williams 7 Geralmente. a etnografia no virtual é enriquecedora porque pode auxiliar a teoria antropológica no pensar-se.Para Hine. Em outra de suas obras. sobre a viabilidade de uma etnografia virtual. num trabalho de etnografia vasto. Deviance & Regulation Online (2006). por meio de diferentes abordagens teóricas sobre as comunidades on-line e off-line.

por meio da “etnografia virtual”. Esta questão também é discutida por Joan Mayans I Planells: a denominada “trivialidade dos debates on-line” que.dá conta. Neste artigo os autores precisam a necessidade de reconhecer e representar a complexidade envolvida na pesquisa etnográfica on-line e recordam que. segundo ele. Os autores. e a estrutura do processo de investigação”. segundo o autor. inclusive do ponto de vista dos internautas. esta se demarcou por uma nova atenção ao hipertexto e às hipermídias. entre eles o "paradigma pós-etnografia" (Marcus e Fischer. “riam-se de nossas técnicas”. a pauta. 18 . ainda. concordam que haveria para os etnógrafos a eminente necessidade de "colocar seus assuntos firmemente no fluxo dos acontecimentos históricos". verdadeiramente mais centrada na mobilidade das forças sociais do que em suas relações de fixidez e 'habitação'” (Clifford. ainda. 1997). na necessidade de se reafirmar a importância do virtual em cada pesquisa para justificar certa “irreverência e falta de seriedade” do “objeto de estudo virtual”. exatamente por seu questionamento da categoria “o campo”. A idéia de “etnografia em ambiente hiper mediado” é discutida por Bella Dicks e Bruce Mason (1998) em Hypermedia and Ethnography: Reflections on the Construction of a Research Approach. “subvertendo a lógica. inicialmente. ainda segundo o autor. da questão que dominou durante certo tempo o debate acerca do tema: a relevância da pesquisa virtual. A idéia da etnografia em ambiente hipermediado exigiria uma superação da “suspeita noção de espaço-definido de uma 'comunidade' como um objeto de estudo. quanto ao modo como se abrange o objeto de estudo etnográfico. os quais. que Mayan I Planells denominou “nossos indígenas”. Isso se manifestaria. emprestaria aos temas certa “banalidade”. seria suplantada pela idéia de Marcus de etnografia multissituada. Os autores asseguram que novas pesquisas no campo virtual dependeram de uma interrogação crítica a vários conceitos. 1986). como defenderam Marcus e Fischer (1986: 44).

Pensando em meu objeto de pesquisa. privilegiei. Os autores citados elucidam como a antropologia pode se enriquecer teórica e empiricamente com boas etnografias em ambientes hipermediados.. as condições de convívio. Para responder à segunda era preciso pensar a relação desses sites entre si e com o restante da Internet. David Hakken8 também se dedicou a discutir o quanto a por ele assim denominada etnografia do ciberespaço deve enfatizar a construção dos objetos etnográficos na rede. aprendizado e Etnografando o neonazismo na rede: o universo simbólico neonazista Pensando na primeira questão.)[.Em Cyberspace and Anthropology. deliberadamente apólogos da ideologia neonazista: a idéia de um “sangue Outra obra importante deste autor é Cyborgs@Cyberspace? An Ethnographer Looks at the Future (1999). Estas devem problematizar tanto o “processo social” da criação de novas tecnologias. como as novas tecnologias de informação modificaram legitimação9. 1984 apud Hakken. blogs. dois elementos articulados pelos sites e comunidades.php?id=83. Para responder à primeira questão era preciso analisar os próprios sites. Seria preciso.. como a construção dos sites e comunidades específicos. disponível em http://www. inclusive.cibersociedad. numa busca pelo “processo social de sua criação" (Hakken.] não podemos abrir mão do fato de que devemos compreender a estrutura para conseguirmos dar continuidade à operação (. (Siding-Larsen. 2001: 15-16. experiência. como defendeu Hine.. como afirmou Hakken (2001: 14). Publiquei uma resenha deste livro no OCS – Observatorio para la CiberSociedad. fóruns e comunidades.) 19 .] temos que possuir conhecimento tanto sobre a forma como sobre o processo”.net/recursos/ressenya.)[. segundo o autor. Último acesso em 31/03/2009. 9 8 O autor recordou: “Não é a primeira vez na história que uma nova tecnologia de informação tem alterado as regras para gerenciar o conhecimento (. em minha dissertação de mestrado. 2001: 14).. discutir.as interrogações metodológicas dos diversos autores citados auxiliaram-me a responder a duas perguntas centrais: o que os sites neonazistas denunciam do universo simbólico do movimento e como se valem da rede para seu ativismo político.

NA (National Alliance). células. WAU (Women for Aryan Unity). disponível em http://www. último acesso em maio de 2006. para emprestar legitimidade à idéia de que há uma “nova Germânia” (NON. normal.com/.solargeneral.aryannations. disponível em: http://www. 20 . como nos informa o Voz de Odin. V88 (Valhalla88). disponível em: http://www. sem saber exatamente por que ou como”. As citações específicas.net/. FE (Filhas Da Europa).tripod.kit.homemlobo. disponível em: http://www. um “povo alemão” (todos os sites) a ser resgatado. associados. disponível em: http://www. último acesso em maio de 2008.natvan.com/.com/index. esta atualização e este resgate.org/wau/. disponível em: www.org/index.zyklonbwear.org/aaargh/port/port. HLOBO (blog de um internauta de nickname Homem Lobo). RH (Revisão Histórica). Ambos são largamente utilizados nos sites. disponível em: http://panzergirl.whitepowersp.vho. defendem os sites e os participantes das comunidades e fóruns. entre outros).hijasdeuropa. disponível em http://www. WPS (White Power Sp). disponível em: http://www. AARG (Aaargh. um teutonismo a ser atualizado. o sangue se faz presente nos rituais e nos mitos neonazistas.rac-usa.stormfront. STO. fórum do site Valhalla88.net. muitas vezes em cada URL. e os diversos “informantes” desta etnografia descrevem “o sangue” como chave para o “conhecimento social implícito”. depende do “reconhecimento do mito pelo sangue” (V88) e da “ativação do sangue pelo mito” (V88). FE. ZYK (Loja Zyklonb). disponível em: http://www. disponível em http://www.nuevorden. acima de tudo. que faz os agentes analisados nesta pesquisa “se moverem. mitocôndrias. Esta reconstrução. NON). último acesso em maio de 2007. para eles. o discurso é densamente povoado por expressões que envolvem todo um léxico genômico (DNA. último acesso fevereiro de 2009. Este termo é presente em todos os sites pesquisados. NA) a ser construída. último acesso em fevereiro de 2009.com/loja/.html e http://rhistorico. necessariamente. último acesso fevereiro de 2009. último acesso em janeiro de 2004.ariano” 10 (muitas vezes também denominado sangue “alemão ou germano” (FE. Numa intricada mistura de termos biológicos e discurso religioso11. gametas. STO (Stormfront White Pride World Wide) http://www4. NON (Nuevorden).blogspot. real e o normal.com/. Revisionismo da II Guerra Mundial.blogspot. nenhum vínculo de ascendência com a nacionalidade alemã) e a maneira peculiar como narram o mito de Thor. Explicando de maneira simples. 11 10 Biologizado por eles à exaustão. último acesso fevereiro de 2009. disponível em: http://www. núcleo celular. disponível em: http://www. último acesso em junho 2008.com. e. último acesso fevereiro de 2009. seguem as seguintes siglas: 14W (14 Words). último acesso em fevereiro de 2009. V88. último acesso fevereiro de 2009. com menos de 1/32 de cromossomos não-brancos”. oriundas dos sites analisados.org/. V88.com/.html. último acesso em junho de 2008.org/. NAr (Nações Arianas).revisaohistorica. último acesso em fevereiro de 2009.tk/. ainda que isto não signifique. interessando apenas que este sangue seja oriundo “de países brancos.valhalla88.html. SG (Solar General). é “o sangue” “aquilo que torna o real. Campaign For Radical Truth In History). transmissão hereditária. os neonazistas na rede defendem que todo verdadeiro “ariano” é portador “do grande sangue alemão” (todos os sites).

à força e à coragem. 1987: 344). amalgamado à idéia de honra. Neste discurso. Na alquimia. o sangue. ele é ao mesmo tempo o mito traduzido no texto e nas imagens e uma escolha técnica de cor. Teria um caráter vital. o sangue aparece “impregnado por um imaginário” específico (Héritier-Augé . Rafael Ezekiel se preocupa com o fato de a própria Ku Klux Klan ter nazificado seu discurso nos últimos vinte anos. o veículo das paixões. seu EU. supremacia e poder expressos por uma condição de “sangue”. Mas quando os neonazistas falam de sangue. selado num gesto de perda eterna”. ele recorda. é a bebida da imortalidade.1990. por isso. 1991). do que mais eles falam? Para Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (1995: 800). O discurso nazificado se vale do sangue como símbolo máximo. o sangue se vincula ao ferro e. aparece quando a matéria passa do estado branco (albedo) para o vermelho (rubledo). inspira padrões ritualísticos. o calor e a vida. expressa fertilidade. Internet afora. e os líderes dos movimentos nazis se tornam mais atrativos por apresentarem uma resposta pronta para o que deve ser realizado. seu futuro. Afirma o autor que o discurso nazi catalisou o discurso racial em períodos de desordens econômicas. uma Religião. cujas vestes são vermelhas. nas suásticas. que repetida site a site. como afirma um internauta. mais que uma raça. veículo da vida. passagem simbólica que o autor compara à história de Parsifal. 21 . Para Juan Eduardo Ciriot (1984: 509). Um dos primeiros pesquisadores do movimento que defende a supremacia branca nos Estados Unidos. nos botões e links que revestem os botões e banners. portanto. o bem maior a ser preservado. Para apreender o exato sentido “deste sangue”. é preciso não se excluir a função da linguagem para representar a cosmologia (em que se incluem os mitos) nos rituais. Aqueles que destroem seu sangue misturando-o ao dos que diferem de sua cor está destruindo seu próprio destino. quando há restrições para novos postos de trabalhos. numa comunidade neonazista: “Brancos. abundância e felicidade. Héritier. o sangue representa todos os valores solidários com o fogo. sempre envolvidas em vermelho. veículo da alma. mas enfatizar a linguagem como instrumento de ação social – nos sites.aquilo que torna as distinções éticas politicamente vigorosas” (Taussig. este sangue aparece sob diversas formas de linguagem: ele está na cor vermelha das páginas.

o sangue se reveste. Nas URLs pesquisadas. O novo Pão e o novo Vinho são definidos: a carne dos soldados e o sangue nórdico de suas veias (Dias. traduzindo o autor: “O ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica. inclusive. Estas seqüências têm conteúdo e arranjo caracterizados por graus variados de formalidade (convencionalidade). o sangue operacionaliza uma integração. transubstanciavam-se na raça alemã. 2) no sentido pelo qual os participantes experimentam intensamente uma performance que utiliza vários meios de comunicação [um exemplo seria o nosso carnaval] e 3) finalmente. Presente nos rituais e nos mitos neonazistas. como pressupôs Tambiah nesta visão de cosmologia que pretende um encontro entre “o dito e o feito”. “sangue nórdico”. mantendo vivo o sangue. nórdicos por herança genética e ritual. Cornelia Essner. denominado ainda de “precioso sangue”. é discutida pela autora de A Demanda da Raça. pois nele acontece “um sistema de comunicação simbólica construído socialmente” 12 (Tambiah. “santíssimo sangue”. “sangue alemão”. Ao mesmo tempo substância e símbolo. estereotipia (rigidez). A idéia do “sangue ariano”. Nesse sentido. o sangue ocupa um lugar cosmológico. perpetuando-se. uma Antropologia do nazismo. verte-se pelos arianos do 12 Conforme cita Mariza Peirano. o sangue ariano é eucarístico. “forma e conteúdo”. O sangue é um elemento divino.Associado às runas. 2003). no sentido que lhe dá Stanley Tambiah. 13 Em alemão. de poder mágico. no sentido de valores sendo inferidos e criados pelos atores durante a performance [por exemplo. 2006: 8). 1995: 18). A ação ritual nos seus traços constitutivos pode ser vista como “performativa” em três sentidos: 1) no sentido pelo qual dizer é também fazer alguma coisa como um ato convencional [como quando se diz 'sim' à pergunta do padre em um casamento]. Ele é constituído de seqüências ordenadas e padronizadas de palavras e atos. condensação (fusão) e redundância (repetição). o sangue selava pactos rituais. entre outras associações encontradas. 22 . símbolos estes que resgatavam. quando identificamos como 'Brasil' o time de futebol campeão do mundo” (Peirano. o dogma da transubstanciação católico. na antiga doutrina dos humores corporais. Esta articulação é fundamentada na construção de uma categoria em torno da idéia mítica "do Sangue" (Blutmythos13) por um "amálgama de símbolos emprestados" (idem: 20). integração entre relato cultural e análise formal. inserida no "dogma racial nórdico" (Essner. para os neonazistas. em geral expressos por múltiplos meios. "o Sangue" verte no vermelho das suásticas e por ele está disposto a morrer: "Ou o Estado nacionalista. É o sacrifício da carne. ou nossos cadáveres" (RH). 1995: 131). A carne e o sangue. nele residiria a força vital. “mito do sangue”. abandonado pelo luteranismo alemão.

23 . 1990: 94). dado por uma "natureza sábia" (V88. é no sangue dos mártires arianos que se perpetua a força restauradora da “nova nação”: a raça. WAU. uma "realidade metassocial 14 Segundo Bourdieu (1990). Nestas estratégias o objetivo é "criar e perpetuar sua unidade. mas nunca se misturar. não como uma falsa representação da realidade. mas como sacrifícios que garantem a durabilidade. no sentido em que Homi Bhabha a utiliza. mas permanece intacto no homem que estabelece o mesmo contato. O sangue se faz presente nesse discurso dos perigos: é ameaçado na mulher pelo contato com o negro e o judeu.mundo. de todo o senso de preservação. WP. 14W. É o sangue que precisa. redistribui e articula poderes e perigos: a supremacia racial branca está no epicentro das discussões acerca dos poderes e a ameaça de sua extinção. mas como "uma forma presa. organiza. É desta forma que a morte dos líderes é lida nos sites. a condição da perpetuação da sua posição no espaço social" (Bourdieu. FE. engenhos pelos quais se defende a manutenção e a legitimação do habitus neonazista14. ZYK). STO). seleciona. A ressonância hitlerista é clara. fixa. V88. no limite. em memória de seus antigos líderes. por envenenamento de sangue. WAU. beleza e progresso (NA. NAr. O discurso racista regula. “Nossa Nação é nossa raça”. não como derrotas. Esses empreendimentos discursivos efetivados nos sites neonazistas podem ser pensados à luz da discussão proposta por Pierre Bourdieu (principalmente 1990 e 1998) como estratégias. STO. em todas as sociedades. em particular pela possibilidade de casamentos inter-raciais ou por adoção de crianças negras e emoldura as discussões a respeito dos perigos. de representação" (Bhabha. os menos radicais indicam: as raças podem colaborar entre si. rememora suas palavras: “a razão pela qual todas as grandes culturas do passado pereceram foi a extinção. 1998: 17): vislumbra na idéia de raça um "lugar". É ele garantiria à raça ariana toda sua superioridade: em cultura. da primitiva raça criadora”. AARG. define o site Valhalla 88. WPS. NON. escrevera o ditador em Minha Luta. Note-se: é o sangue que assegura estratégias que buscam uma "simplificação" das relações sociais. o que é quase sempre. WPS. as estratégias se consolidam num sistema de estratégias continuadamente produzido e reproduzido como seqüências organizadas e orientadas das práticas grupais empreendidas pelos agentes para formatar o grupo como tal. sua existência enquanto grupo. inclusive a eternidade de sua causa.

ao ser atacado pela maligna serpente de Midgard (um monstro mítico). A criação. o site Valhalla88 relê. Para ativar esse “sangue” em cada “ariano”. psíquicos. A própria colocação acerca do “sangue ariano” como essencial para a compreensão do “mito ariano” demonstra que o discurso revela uma prática: "prega-se somente aos convertidos". Em sua pescaria. NAr. que se inter-relacionam "em mundo presumido. é possível construir “uma analogia por um ponto de vista Nacional-Socialista”. 1998: 199-200). políticos. Para os neonazistas. agregar. morais e comportamentais. para proteger o povo”. vencer. ser lidas como práticas para os agentes em questão. a própria história da justiça: a tradicional presença do martelo associada aos “juízes da corte” emanaria de “antigos povos europeus ao usarem o Mjollnir para comandarem uma sociedade justa. Prosseguindo na importância do martelo de Thor. Rememorando outra história mítica. ergue seu martelo e a destrói”. o reconhecimento do discurso neonazista como verdade absoluta atesta o pertencimento à “comunidade do sangue ariano". WAU). pressentido e julgado. 24 . o “martelo de Thor”. o único que lhe[s] é dado a conhecer" (idem: 111). Exaustiva. atualizado pela suástica. para eles. de modo que os agentes assim selecionados “[se] predisponham a reconhecê-lo absolutamente" (Bourdieu. a ideologia do sangue afirma existir nele uma conexão entre história e memória. garantir proteção. 14W. Por sua vez. os sites revelam: é preciso a suástica. isto é. o Valhalla88 conta “um mito germânico que envolve Thor e o Mjollnir (o martelo do deus). “a serpente representa o poder do dinheiro e do sionismo e da supremacia judaica e o Mjollnir representa a Suástica que combate a usura e o inimigo dos povos” (V88. STO. por meio deste símbolo. Thor. civilizar. tornar heróico.ou física (16)" e válida nos sites em questão como diferenças "naturais e biológicas" (NA) que se estenderiam a partir de origens "genômicas" a aspectos culturais. fortalecida pelo poder “mágico” deste sangue para restaurar. na qual Thor é personagem central. sociais. portanto. manutenção e participação em sites neonazistas devem. grafado nas runas e imortalizado em “todos os guerreiros arianos disponíveis a verter sangue pela causa”.

era possível visualizar os indicadores para que esta visão do todo apontasse caminhos e esclarecesse as melhores direções. todos os sites foram baixados completamente no formato de pdf. POPULARITY ao número de visitas diferentes num determinado período. o ódio também. BROWSEABILITY à relação entre o número de links internos de um site e seu total de páginas. ver Aguillo (2000). como os sites neonazistas utilizam da Internet para este objetivo? Para pensar a questão era preciso elucidar como os sites neonazistas se relacionavam entre si e com o restante da rede. Para um detalhamento do método. Segundo Susan Zickmund. Para viabilizar a utilização desses indicadores. 16 Para detalhes acerca da construção desses bancos de dados ver Dias (2007). Mas com o advento do correio eletrônico e do acesso às páginas da internet. 25 . Austrália. DEPHT ao número máximo de diretórios de um site. FILES SIZE ao volume em bytes do total de filas do website. Para isto uma ferramenta foi de particular importância. LUMINOSITY ao número total de links internos e externos que se dirigem ao site. esses subversivos estão agora descobrindo meios de propagar suas mensagens além dos limites estreitos de suas ligações preestabelecidas”.Etnografando o neonazismo na rede: as relações dos sites neonazistas na rede Outro aspecto importante para pensar os sites neonazistas na Internet é o fato de que a rede vem afetando o desenho das próprias organizações subversivas. VISIBILITY ao número total de links externos de um site. CONNECTIVITY ao número total de links únicos recebidos por um site externamente. DENSITY MULTIMEDIA à média numérica de objetos multimídia por página. Também. ENDOGAMY à porcentagem de links internos únicos em relação ao total de links. Mas. a comunicação circula mais rápido e a menos custo. com o auxílio da ferramenta de pesquisa qualitativa N*Vivo foi construído um banco de dados em plataforma Access para analisar cada um desses índices16. com poucas ligações estruturais maiores. os índices escolhidos do projeto de Cibermétrica15 da Universidade de Sydney. “os indivíduos que propagam ideologias nazistas tradicionalmente operavam isolados. Na rede. No que se refere ao discurso neonazista. Assim. VALIDITY à porcentagem de links validos em relação ao número total de links. Na análise desses índices concluiu-se: a rede neonazista na Internet produz sites muito profundos (nos quais há muitos diretórios em cada diretório 15 Os pesquisadores da Cibermétrica construíram vários indicadores para mensurar sites: SIZE se referia ao número total de WEB páginas de um website. IMPACT à relação expressa pela divisão do número total de links externos e do número total de páginas de um site. DENSITY HIPERTEXTUAL à média numérica de links por página.

São em geral profundos. mais uma vez. Por que estes trezes sites escolheram “aglomerar-se” em vez de ocupar o espaço de quase trezentos. Nos sites racistas são comuns sites com milhares de páginas. WAU. V88. NA. Isto os torna visíveis para outros sites da rede neonazista. AAARGH!. há muito mais links internos do que externos (o que confirma a idéia de que na verdade são vários sites em um). entre outros. Os sites são profundamente endogâmicos. No mundo. O número total de links é imenso. SG. Interessa-me em particular o uso que os sites fazem dos links. por sua lógica algorítmica interna. com mais de 1500 URLs. a média geral são de 80 páginas por site. mas sua conectividade e visibilidade são reduzidas na rede como um todo e muito maiores (duzentas vezes) se os retratamos na rede racista. é desaparecer dos motores de busca. e os externos apontam. numa média de 200 kb por página. mas também por sua relação com a média geral de outros sites. o que facilita a maior parte do carregamento. Importa o tamanho destes sites porque ele revela a quantidade de informação disponibilizada por seus criadores. todo material está disponível no mesmo lugar e se retirado do ar basta colocar tudo de novo em um mirror. em especial os grandes sites de ativismo: NON. o que reforça os vínculos entre eles. para sites neonazistas. em mais de 95% das vezes. as páginas mais acessadas e deixarão as outras milhares imersas na denominada “web invisível” (e se acrescentarmos o fato de que cada URL pode conter dezenas. FE. ou ainda de quase mil sites? Um dos motivos. com uma média de quatro diretórios dentro de outros. 26 . Os sites reproduzem-se aos milhares e a grande maioria ocupa o espaço de dezenas deles. o que revela a tentativa de.anterior) e com enorme densidade de links internos e não-externos. Mas estes fatores não facilitam sua busca por serem propositadamente detidos pela densidade hipertextual e pela profundidade de diretórios. Os sites racistas são bastante acessados. que enumerarão. o que torna os links internos menos visíveis aos canais de busca. dificultando mais uma vez seu encontro por sites de busca. esconder-se no mar digital: a possibilidade de ser achado é menor. evidentemente. e tanto a luminosidade quanto a broswseability dos sites é cerca de trinta vezes maior que a média da rede.

NON). fotos. e há o “passado” que defendem. Nesta produção. como as relações dos sites entre si e na Internet são escolhidas ou ampliadas e/ou interditadas. o discurso do sangue também se repete. aparecem apenas na medida suficiente para gerar e gerir a rede racista. O próprio passado passa ser objeto da luta política dos sites: para eles. o número de mortes. 27 . produzido segundo os sites pelo “mundo sionista”. um processo profundo e essencialmente endogâmico se revelará diante de nossos olhos. inclusive as produzidas pelas novas tecnologias. textos. arquivos. por outro. Nesse processo. e que só pode ser compreendida pelo pertencimento ao sangue. poderemos perceber que há uma modo de pensar a arquitetura dos sites que é peculiar a este grupo . Uma história que se vincula aos “mitos arianos”. Nesse sentido. peculiar na maneira como os links são organizados e. “se o passado é um campo de disputas. direcionados a outros sites. Como escreveu Marcelo Mello. as mediações com os arquivos podiam oferecer ferramentas para autorizar os discursos e versões do passado” (Mello. uma troca. se pudermos olhar cada link como uma relação. 2010). por um lado. Para dar conta do revisionismo histórico os sites produzem milhares de páginas: sua versão dos fatos precisaria ser divulgada. portanto. Peculiar não é apenas sua escolha estética ou temática. são em sua maioria esmagadora vínculos a outros sites do mesmo tipo. sem contudo ser suficientes. mas a própria configuração do código-fonte. versões. Se pudermos observar que os links externos. na absoluta maior parte das vezes. há o passado oficial. Outro exemplo de como as construções dos sites são direcionadas revela-se na análise do elemento revisionista presente em todos os sites neonazistas.muitas vezes centenas de laudas. o uso das câmaras de gás. Mas se pensarmos que em cada uma destas URLs há dezenas de links apontando para outras páginas do mesmo site. estaremos falando em milhões). Este elemento objetiva desacreditar a história do holocausto. muitas ferramentas. para que os sites analisados possam se apresentar como possuidores da “versão verdadeira da história” (V88. arquivos de todos os tipos entram no debate para legitimar sua posição. laudos. você só se torna “capaz de desconfiar e rejeitar a história oficial” se for “um verdadeiro ariano”. associam-se para manipular dados.

disposto a esmagar seus inimigos (em especial “o judeu” e “o negro” por eles construídos) para. É. endogâmica. reafirmo. Este “sangue” é a crisálida na qual se preparam para tornarem-se heróis. E se os links 28 . preferem códigos de programação formais. seus valores estão profundamente enraizados (diretórios dentro de diretórios). ao mesmo tempo. e arquivando este conteúdo em diretórios registrados em diretórios profundos e inalcançáveis pelos motores de busca atuais. a construção de um site racista. a escolha das cores e imagens que emoldurarão o mesmo. cada um deles. a disputa sobre a veracidade de seus dados podem ser lidos como “performatives”. produzindo um conteúdo gigantesco. como revela o número de URLs dos mesmos. os sites não apenas denunciam sua preocupação em compreender e utilizar para fins muito bem definidos as ferramentas disponibilizadas pela rede. levantam grandes construções (milhares de URLs). mas também indicam o contorno de sua forma de pensamento: são grandes (em bytes). links e formatação são escolhidos e usados em preferência a outros para dar conta da eficácia da ação ritual e de transmitir a mensagem “do sangue”. por representarem também como formas de programação. para a valorização dos heróis e mitos. não se relacionam com sites estrangeiros (como revela a intensa endogamia dos links). recusam-se a utilizar linguagem simples de programação. formalista. seus valores estéticos são claramente definidos e expressados (são intensamente povoados de imagens e outros tipos de mídia). no sentido que Tambiah dá ao termo. o debate direcionado para o medo da exterminação. para um comportamento contornado por uma opção megalomaníaca. no “sangue ariano” que cada neonazista reconhece seu martelo de Thor. a presença da suástica. estética. enfim. na qual suas crianças terão “o futuro”. É a representação dada a este “sangue” que materializa diversas articulações de sentido entre narrativas míticas. negação do holocausto.Conclusão Nesse sentido. léxico genômico. um novo Thor é. como indica a densidade endogâmica dos sites. ativismo político e discursos de gênero. a escolha das fontes. depois levá-lo para casa. Os links apontam. a grande Germânia. Relacionando-se apenas entre si mesmos. portanto. memória e devir.

é nele que se processa a seqüência de instruções a serem seguidas e/ou executadas no redirecionamento do contato na rede. p. os links não são bons para enlaçar. Belo Horizonte: Editora UFMG. BEAULIEU. Universidade Estadual de Campinas. A economia das Trocas Lingüísticas. grupos próximos e distantes.Faba Pérez. linkam-se somente os convertidos. Anne. entre outra formas de “retorno e paralelismo”. Pierre. 18(2-3). ______. como elemento da narrativa ritual do site. revelando os tipos de alianças permitidos e os interditados.virtualknowledgestudio. São Paulo: Brasiliense. como representação de um padrão cultural estrutural. O local da cultura. Parafraseando Bourdieu. Serie Sociedad de la Información. ARAÚJO. Do outro lado do espelho: anorexia e bulimia para além da imagem – uma etnografia virtual. Junta de Extremadura. V. Coisas Ditas. Moya Anegón). é possível ver nos links as relações de troca e as configurações que assumem. Daniela Ferreira. Mais ainda. Mediating Ethnography: Objectivity and the Making of Ethnographies of the Internet. 1990. descontinuada. 18. 1998. Homi K. portanto.P. na construção que os definem.pdf (último acesso em 23/02/2009). Neste mar. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. É possível pensar. 1983. ARENDT. Fundamentos y técnicas cibermétricas: modelos cuantitativos de análisis (C. repetindo-a novamente. como ressaltou Lévi-Strauss (1955: 35). 1998.destes sites agem desta forma. BOURDIEU. Nos sites analisados. Dissertação de mestrado – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. foram levados por predisposições inconscientes que se movimentam nessas direções. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.Guerrero Bote. portanto. 29 . 139–163. intensificando a narrativa “do sangue”. 2004. Nesse sentido. Referências Bibliográficas AGUILLO. 2000. O que estou afirmando é. Disponível em: http://www. o link é uma canoa feita de bytes. os links são uma demonstração de como os discursos revelam práticas. por ser um elemento textual e. In: Social Epistemology. é porque os construtores da linguagem. F. BHABHA. como linguagem. apontando para uma direção continuada. que o link revela uma atitude: ele continua ou descontinua um contato e em cada enlace aproximações e distâncias são estabelecidas. Isidro. Hannah. Mérida. repetindo. na medida em que revelam sentidos e classificações. São Paulo: Diagrama e texto. finalmente. “mas são bons pra pensar”.nl/staff/anne-beaulieu/documents/mediating-ethnography. 2004. outra caracterização do link: como artefato construído dentro de um código (em geral HTML).

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sobre blogs (diários virtuais) de meninas anoréxicas e bulímicas. Especialistas em internet utilizam a nomenclatura “programas de redes sociais” para caracterizar os programas criadores e reprodutores de redes sociais na internet. Acredito ser pertinente caracterizar brevemente o Orkut e a comunidade em questão a fim de facilitar a discussão. tornou-se um dos sites mais acessados por internautas brasileiros.facebook. que vão da separação ou não entre on-line e off-line à busca de adequar ou mesmo forjar novos instrumentos de pesquisa a fim de dar conta das realidades proporcionadas pelo virtual. o que fica claro é a existência de um amplo campo de debates.“Não leve o virtual tão a sério”? – uma breve reflexão sobre métodos e convenções na realização de uma etnografia do e no on-line Carolina Parreiras Nos últimos dez anos vêm ganhando força na Antropologia estudos que tomam como foco o ciberespaço17 e as relações nele desenvolvidas. O Orkut. este artigo baseia-se em algumas das reflexões que propus em minha dissertação de mestrado (Parreiras. Facebook (www. Os atrativos do programa Outros termos aparecem como representantes do ciberespaço: internet. Nela.myspace.Assim. é uma “comunidade on-line”. Exemplos desses programas.com). No caso brasileiro.com). desde então. por exemplo.com) e Hi5 (www. Saliento que existe uma diferença conceitual entre os termos. 18 17 32 . 2008). realidade virtual. mas essa diferenciação não se coloca como ponto chave para os fins almejados neste artigo. online. De modo geral. sobre a construção do corpo em salas de batepapo de deficientes físicos.hi5. além do próprio Orkut. a de Carolina Roxo Barreira (2004).orkut. O Orkut é um programa de relacionamentos18 criado em 2004 e que. são MySpace (www.com). especialmente por não aparecer enquanto categoria do pesquisador ou como categoria “nativa”. busquei pensar a respeito de algumas das interações desenvolvidas a partir do e no ciberespaço tomando como ponto de partida os relacionamentos estabelecidos entre homens que se relacionam afetiva e sexualmente com outros homens e participam de uma comunidade – denominada Eper – de um programa de relacionamentos: o Orkut (www. destacam-se pesquisas como a de Daniela Araújo (2004). e o trabalho de Adriana Dias (2007) sobre grupos neonazistas na internet. conforme a definição constante no próprio programa.

buscando perceber se houve uma reiteração/reprodução ou subversão/rompimento com o off-line. o fórum de discussões não continha apenas “joguinhos” e “brincadeiras”. a fim de buscar uma visão mais alargada. Busco. A Eper chamou minha atenção por ser uma comunidade bastante movimentada. Para a realização da pesquisa. li esta frase. 1. Como pano de fundo de toda a discussão proposta. Durante a pesquisa. trazer algumas breves reflexões a respeito destes aspectos metodológicos. 20 Utilizo o nome Eper a fim de não identificar a comunidade e seus membros. Lésbicas e Bi”. “Não leve o virtual tão a sério!” Não saberia dizer quantas vezes. Este nome corresponde à abreviatura do nome oficial da comunidade e é utilizado nas conversas e postagens por grande parte de seus membros. bem como quais eram as convenções e categorias classificatórias empregadas. Devido à enorme quantidade19 de comunidades encontradas. Diferentemente de outras comunidades que cheguei a observar. Entram também neste quadro a questão das identidades on-line e as maneiras como se dá a virtualização dos corpos e objetos. 33 . É um ponto central nessa discussão compreender as dicotomias real/virtual e on-line/offline. por meio de um perfil. sempre estiveram as questões metodológicas referentes à realização de uma pesquisa de campo em um “local” que desloca muitas de nossas convenções e conceitos. com discussões acaloradas entre os membros. então. mostrou a existência de um número superior a mil comunidades agrupadas como “Gays. lésbicas e bi”. mostrando de que forma os enfrentei. feito através das ferramentas de busca disponíveis no próprio Orkut. durante a pesquisa de campo. trocar mensagens e criar/participar de comunidades com as mais diversas temáticas. a palavra “virtual” foi substituída por “Orkut” ou mesmo “on-line”. a comunidade contava com cerca de 3500 membros e se dizia um grupo com o objetivo de discutir o “universo masculino”. Em alguns momentos. que ofereça alternativas aos pares de oposição correntemente utilizados.consistem em. adicionar amigos e conhecidos. restringi a observação e participação apenas à comunidade Eper20. selecionei comunidades classificadas como “gays. com este artigo. Minha intenção era compreender de que maneira as homossexualidades eram construídas e expressas no virtual (on-line). mas o sentido mais amplo se 19 Um levantamento inicial.

apropriada como meio de estabelecer relações. As práticas da “No Escuro” provocaram reações acaloradas. presenciei inumeráveis situações que desmentiam a afirmação acima e mostravam o alto grau de imersão e investimento dos membros da comunidade nas relações estabelecidas no virtual: desde brigas por divergências de opinião. Um dos argumentos mais utilizados foi a divulgação da situação sorológica de participantes da Eper. Considero exemplar nesse sentido a criação de uma comunidade chamada “No Escuro21”. calúnias e agressões. supostamente portadores de HIV. já que muitos membros tiveram suas vidas expostas. e foram alvo das mais diversas ofensas. Eu mesma fui envolvida através de comentários que levantavam dúvidas quanto à seriedade da pesquisa e especulavam sobre minha sexualidade. nem sempre verdadeiros. significações e ressignificações da internet. romances. a qual se intitulava um “dark-room virtual”. bem como alguns dos usos. 34 . então. sérios e importantes. uma espécie de acessório e espaço destinado ao lazer. a ser utilizado como veículo de difamação e exposição de fatos da vida íntima de vários membros da Eper. tal como aparece no Orkut. sexo. entretenimento e relações fugazes. com a revelação de fatos íntimos. A justificativa principal dos enunciadores de frases desse tipo era de que a internet e o ciberespaço constituiriam domínios separados do restante da vida de cada um deles. ou mesmo como 21 Essa comunidade foi supostamente criada por membros dissidentes da Eper. Em contrapartida. onde tudo poderia ser dito desde que anonimamente. até agressões e exposições da vida off-line de alguns de meus informantes e da minha própria. estes sim. Este anonimato passou. contatos profissionais). buscar parcerias (amizade.manteve: as relações estabelecidas via internet não deveriam ser investidas de tanta importância. revelar segredos e comportamentos de outro modo inconfessáveis. Este exemplo deixa clara a existência de uma tensão constante entre dois universos – on-line e off-line –. Mantenho aqui o nome original. passando pelo surgimento de paixões e relacionamentos sexuais e afetivos. sem permanência ou qualquer reflexo nos momentos “reais”. ao etnografar uma comunidade on-line.

de diferentes modos. Como afirmei anteriormente. desta maneira. Pensar a etnografia se coloca como uma empreitada necessária. Além de buscar decifrar a organização social de variadas sociedades. propor um amplo questionamento das metodologias canônicas. bem como das epistemes que lhes dão suporte. tendo sido acessada inúmeras vezes dentro da comunidade. a tensão também apareceu durante a incursão etnográfica. compreender os desenvolvimentos pelos quais o método antropológico passou e vem passando. desde o começo da década de 90. sobre o fazer antropológico. mas com a preocupação comum de abordar criticamente a própria antropologia e. debruçou-se sobre sua própria prática. O objetivo mais amplo desse 35 . quando se iniciaram os primeiros estudos sobre o ciberespaço. visto que os trabalhos que tratam do ciberespaço possuem como uma de suas características a subversão de pressupostos consagrados em sua elaboração. pesquisar e escrever um texto passou a constituir a pauta de discussões de diversas correntes teóricas. Refletir sobre o que significa fazer uma etnografia. Do mesmo modo. Além disso. agressões.palco para conflitos. de modo a lidar com a tensão on-line/off-line – presente em vários momentos da incursão etnográfica que deu origem a este texto – e buscar possíveis alternativas à separação rígida entre esses pólos. a Antropologia também. um recorte que caminha ao encontro de várias das questões que eu mesma me coloquei desde o início da pesquisa: refletir brevemente a respeito das proposições de alguns autores contemporâneos e sua implicação em uma pesquisa que pretendeu enfocar o ciberespaço enquanto espaço simbólico de sociabilidade e interação. desentendimentos. então. a antropologia se defronta com a dicotomia on-line/off-line. diferentes em suas proposições. muito se escreveu nos últimos anos sobre as implicações metodológicas dos estudos que envolvem o ciberespaço. então. compreendido como a imortalizada pesquisa de campo (delineada em seus métodos por Malinowski ainda na década de 1920) somada à escrita do texto antropológico. discriminações e preconceitos. Faz-se necessário. Proponho. mas acredito ser necessário um breve histórico tanto da crítica à etnografia mais clássica quanto às etnografias do e no virtual. divergências.

tratando-os como “bichos estranhos”. haveria o risco de que eu. para homens discutirem assuntos de homens. Tomar o online e o off-line como cristalizados pode levar à perda dos momentos e fatos situados na passagem. “exotizasse” os comportamentos descritos. o que ocorreu foi uma atualização e exacerbação de categorias e convenções de gênero do off-line baseadas nos binarismos. mas ocorreram ressalvas. eles se utilizam de uma postura convencional. no entremeio destes pólos. intuitivas. Ao elencarem esses adjetivos como definidores das mulheres. Havia um medo de que eu pudesse modificar o rumo das discussões e os comportamentos adotados. na qual existem características próprias de homens e de mulheres. off-line/on-line – e tentar pensar em alternativas a tal pensamento dicotômico composto por pares muito demarcados. A maior parte delas era de aprovação. existiriam assuntos de homens e assuntos de mulheres. minha entrada no grupo provocou uma série de reações. É como se minha presença enquanto mulher desestabilizasse a organização da comunidade. Assim. inteligentes. Muitos momentos da pesquisa de campo colocam em questão essa separação. mas em um ambiente fora da comunidade. offscreen/on-screen. A partir das conversas com integrantes da comunidade e da observação das discussões empreendidas no fórum. no falocentrismo e na essencialização de um ser homem e ser mulher. legais. minha interferência nas discussões não era bem-vinda. A meu ver. Por ser a única mulher em uma comunidade composta apenas por homens. bem como das posturas esperadas de ambos. Um deles ocorreu quando entrei na Eper e comecei a participar das discussões. Além disso. O principal argumento utilizado foi o de que aquela era uma comunidade de homens. Como eu não estaria familiarizada com esses “assuntos de homem”. enquanto outsider. sensíveis.histórico é fornecer subsídios que venham a problematizar as dicotomias utilizadas recorrentemente para entender o ciberespaço – real/virtual. sem que entre eles houvesse qualquer coincidência ou interpenetração. bem como categorias fechadas e homogêneas: “os homens” e “as mulheres”. Para eles mulheres são lindas. A tensão entre on-line e off-line também é importante para entender as diferentes formas de construção identitária encontradas na Eper. constatei existirem na Eper diferentes tipos de perfis: 36 .

grande parte dos masks nunca teve qualquer experiência afetiva ou sexual com homens e nem mesmo esteve em ambientes GLS. publicado no livro Prazeres Dissidentes (Parreiras.22 Uma questão a ser pensada diz respeito à maneira como são construídas as identidades no virtual e de que modo a tensão on-line/off-line é colocada. Em uma situação off-line. Normalmente são colocadas no perfil mask características. 37 . principalmente aquelas de rosto ou de situações que demonstrem a pretendida veracidade das informações ali escritas. Aprender a “ser gay” se dá. Um ponto que distingue estes perfis dos demais é a utilização de fotos. fakes espiões. então. este é um dos temas mais trabalhados nos estudos 22 Realizo esta discussão de forma mais aprofundada no artigo “Fora do armário. a partir dos dados recolhidos durante a pesquisa. as quais não encontrariam qualquer ressonância em situações existentes no off-line.. a tradução literal evoca a idéia de algo que é falso.os “oficiais”. é que a internet representa um modo de “sair do armário”. (homo)sexualidades e erotismo a partir de uma comunidade virtual”. Foi uma situação recorrente na Eper a crença de que os fakes estariam criando novas identidades. colegas de trabalho e amigos off-line. Quando se utiliza a palavra fake. mas também familiares. no prelo). acredito que o sentido de fake extrapola tais noções. Já os masks evocam a idéia de criação de máscaras. preferências e descrições que não apareceriam no perfil “oficial”. as quais atuam no jogo de esconder e revelar determinadas informações. nesse “meio gay” on-line. fakes eróticos e fakes “perfeitos” (chamados também de “fakes do mal”).dentro da tela: notas sobre avatares. os “masks” e os “fakes”. Nesses perfis. nas conversas travadas no virtual. uma espécie de fingir ser. Minha hipótese. Ao interpretar a realidade com a qual me deparei. são adicionados não apenas os amigos e conhecidos virtuais. apesar das quase infinitas possibilidades de manipulação do perfil: fakes engraçados. comunidades como a Eper funcionam como o único contato com questões e modos de vida gays.. Na Eper e no Orkut como um todo existia um padrão nos fakes criados. fabricado. Os fakes são perfis exemplares no que diz respeito às diferentes possibilidades de manipulação identitária. Para muitos desses masks. Sem dúvida. A maioria dos membros da comunidade utiliza seus profiles oficiais ou sociais.

Há teóricos que creditam ao virtual a capacidade de gerar sujeitos fragmentados e múltiplos. raça e classe. identidade e presença a partir de uma lista de e-mails. em que o “verdadeiro self” é revelado (sujeito sem gênero. que passam a ser tomadas como referentes (tanto como afirmação quanto como negação) das 23 24 25 Milne (2007) cita autores como Sherry Turkle e Mark Poster. em alguns casos. existe ainda um diálogo com categorias do off-line. sem idade. de certo modo. Milne fala especialmente de Byron Burkhalter e Elizabeth Reid. flexíveis e descentradas. Milne (2007). visto que o on-line exacerba a possibilidade de fragmentação identitária. sem gênero. como também exageram os estereótipos de gênero. já que são sujeitos sem marcas. Em outras palavras. o sujeito poderia resistir a ser encapsulado nas estruturas hegemônicas existentes e atuantes apenas no off-line. existem aqueles25 que pensam a identidade on-line como produto da conjunção de diferentes marcadores (raça. mas o estar on-line permite maior rapidez e sigilo na construção destas. Destaca-se nessa vertente Steven Jones. idade ou qualquer outro marcador de diferença. Há uma contestação das visões que tomam o sujeito como descontextualizado. Assim. Desse modo. centrado e autônomo”. Mas. de um diálogo com referentes encontrados no off-line. Por último. 38 . sem raça. nos quais não são visíveis marcas e convenções de gênero. incorpóreo. raça. classe. em seu trabalho sobre intimidade. idade) e.23 Outros autores24 vêem no on-line a possibilidade de criação de corpos sem marcas de cultura. em que não há um “core estável. o virtual facilita a execução da idéia de que um pode se tornar vários. as comunicações mediadas por computador (CMC) teriam o papel de colocar numa posição de igualdade seus usuários. A ausência dessas marcas permitiria a construção de subjetividades performativas. incorpóreo).sobre o ciberespaço. Autoras feministas têm um papel importante nesta vertente e advogam que as práticas discursivas encontradas nas comunicações por computador não só mantêm. gênero. mostra haver uma polarização dos debates. Acredito ser necessária uma ressalva: não pretendo sugerir que múltiplas identidades é algo específico do virtual.

em um primeiro momento. nem estão em relação de oposição com o off-line – elas se comunicam com ele de diferentes maneiras. Inspirada por suas formulações. e um exemplo disso foi a dificuldade do grupo em assimilar minha presença entre eles. Feito o traçado desse primeiro quadro mais geral. A partir do cenário encontrado na Eper. marcado pelo questionamento de diversas diretrizes e conceitos utilizados pela disciplina. classe e idade. então. Acredito que essas reflexões se inserem em um contexto teórico mais amplo. essas identidades on-line não sejam tão subversivas como pode parecer à primeira vista. por isso. 2. Estereótipos de gênero podem ser encontrados.identidades moldadas no on-line. Muitas vezes. Talvez. não envolve qualquer tipo de contato face a face ou mesmo um deslocamento no sentido tradicionalmente adotado para o termo. com a apresentação de alguns momentos etnográficos marcantes. acredito não ser possível afirmar que as construções identitárias ali presentes não trazem qualquer marca de gênero. meu objetivo é pensar sobre as dificuldades enfrentadas para a realização de uma pesquisa de campo que. aponta para a existência de mudanças metodológicas e 39 . que colocam em evidência a difícil relação entre on-line e off-line. Caldeira (1988. momento que mostrou a permanência de visões convencionais de feminilidade e masculinidade. Ao contrário. 1989). essa crítica foi chamada de “pósmoderna” ou mesmo “pós-estruturalista”. penso ser pertinente uma pequena discussão sobre as tentativas de classificar e nomear essas novas teorias e perspectivas. as quais fazem parte de um campo aberto a disputas e polêmicas. antes de passar às considerações mais pontuais sobre pesquisas focadas na internet e no ciberespaço. ao refletir sobre os desenvolvimentos da antropologia norte-americana a partir da década de 80 e a pós-modernidade em antropologia. os avatares são contextuais e trazem consigo uma série de referentes e marcas. raça. acredito que esteja armado o pano de fundo para contextualizar as discussões propostas pelos estudiosos contemporâneos que trazem novas abordagens teórico-metodológicas para o virtual.

Afirma que falar em “pós-modernismo” e “pósestruturalismo” representa uma solução para conferir unidade às diferentes posições teóricas e epistemológicas encontradas. através do questionamento e da desconstrução de muitos dos seus pressupostos e de tentativas de incorporação de novos temas. mas se há um argumento válido naquilo que eu entendo melhor como pósestruturalismo. a representação é questionada. agrupando-as em um mesmo substantivo. ao reivindicar a condição de experimentos (Marcus e Fischer. O argumento central de Butler reside na constatação de que o aparato conceitual está permeado por relações de poder. e mais. a própria prática antropológica passa a ser tomada como questão. ocorre um deslocamento nos temas de estudo. novos objetos e novas maneiras de pesquisa e análise (Caldeira. 1986). que essa implicação dos termos da crítica no campo do poder não é o advento de um relativismo niilista incapaz de oferecer normas. 1989: 3). os quais só podem ser entendidos como contingentes. inclusive a posição de sujeito do crítico. como um conceito universalizante. Ao refletir sobre a questão do pós-modernismo. Judith Butler (1998) questiona se o que se chama de pós-modernismo é uma posição teórica ou uma caracterização histórica. mas ao contrário. Não sei em relação ao termo “pós-moderno”. Assim. De todo modo. com o privilégio de análises processuais. que passam a enfocar as sociedades “contemporâneas” (e não apenas sociedades e povos tribais). a própria pré-condição de uma crítica politicamente 40 . o que esses teóricos pretendiam era adotar uma postura crítica em relação à disciplina. é que o poder permeia o próprio aparato conceitual que busca negociar seus termos. ao proceder deste modo – colonizar e domesticar essas teorias sob uma única rubrica – ocorre uma redução das várias posições e o campo do pós-modernismo é “produzido” como um “todo”. E são essas relações as definidoras dos fundamentos empregados pela teoria social.teóricas: há uma ênfase no entendimento das questões de poder que envolvem as relações sociais e mesmo a relação do antropólogo com seus sujeitos de pesquisa. há a crítica ao funcionalismo e estruturalismo. Mas.

In the 41 . E os objetos de pesquisa – as antigas periferias – deixam de estar na pauta do dia. Falar em “viajantes” faz com que se percam as características de transitoriedade e movimento envolvidas nos encontros entre pesquisador e pesquisados. overworking. assim. permanência. portanto. parcialidade. (Butler. “modernity”. Tradittore. “ethnography” – get us some distance and fall apart. O conceito de cultura só pode ser pensado com foco na representação etnográfica. O que Clifford propõe é pensar o trabalho de campo como travel encounters. metropolitano. 1998: 17-18) Autores como James Clifford (1997) constatam uma mudança fundamental na escrita das etnografias e mesmo no encontro entre o etnógrafo e os pesquisados. disfarça e amplia seu próprio jogo de poder. mas acredito que seria melhor falar em “culturas em trânsito”. By “translation term” I mean a word of apparently general application used for comparison in a strategic and contingent way. pela colagem. os nativos. race.poderosa e forte que sublima. “travel” as a translation term. “man”. A afirmação de Clifford na conclusão desse texto é elucidativa: Today I’ve been working. and a certain literariness. traduttore. o termo foi traduzido como “culturas viajantes”. também eles. “mode of production”. produtores de conhecimento e etnógrafos. visto que está mais coerente com a idéia que o autor deseja passar. pensar em um trabalho de campo nos moldes tradicionais da disciplina causa estranheza. It offers a good reminder that all translation terms used in global comparison – terms like “culture”. viagem. Clifford fala. anotando tudo e tentando entrar de algum modo na vida social daqueles que estuda. Não se está diante de um pesquisador cosmopolita. em traveling cultures26 ou culturas em trânsito. eles podem ser pensados como traduções localizadas no tempo e no espaço e. Em que se transforma. diálogo. “society”. então. sugerindo. Em um contexto marcado por uma nova ordem de mobilidade mundial (e os meios eletrônicos como a internet estão aí para não deixar dúvida). “art”. contingenciais e parciais. em constante movimento. a etnografia? Quando se pensa em Malinowski a primeira idéia que vem à cabeça é a do pesquisador em campo. pela interação e pela idéia de processo. “peasant”. que parte em expedições e longas viagens até terras longínquas ou mesmo exóticas. passam a ser. munido de uma máquina fotográfica e um caderninho. “Travel” has an inextinguishable taint of location by class. É uma pesquisa de campo que exige residência. Trânsito dá a idéia de mobilidade. recorrendo a tropos de universalidade normativa. 26 No texto em português. Ainda falando em viagens e nos travel encounters propostos. contingência. a idéia de movimento. então. “woman”. gender. formada pela escrita.

material. estabelecemos algum tipo de relação e criamos representações de nós mesmos e dos outros. (Fischer. enunciados por diferentes sujeitos que falam e passam a ter voz no texto etnográfico (o texto é. como o global. Christine Hine (2001) também utiliza a idéia de viagem. estabelecendo as ligações entre essas duas ordens. Diz ele que as novas realidades geradas pelo ciberespaço fazem com que os métodos e vocabulários tradicionais da disciplina precisem ser revistos em alguns âmbitos: na teoria. O que ela pontua é que esta viagem vai além do deslocamento físico do etnógrafo.(Clifford. but to ground. you learn a lot about peoples. enquadra-se a etnografia multilocal proposta por George Marcus (1986). enough to begin to know what you’re missing. contending worlds of difference. mostrando as relações e possíveis interdependências entre elas. multivocal. 1997: 39) 42 . na medida em que o ciberespaço promoveu o rearranjo de muitos de nossos conceitos e se configurou como uma realidade na qual todos nós vivemos. além de multilocal). a etnografia deveria privilegiar tanto o local. Assim. no tempo. to provide translation circuitry that recognizes its own relations to other circulating representations. físico. Nessa chave. Há uma necessidade de ressituar a etnografia. na qual o antropólogo deve tentar abarcar em um mesmo texto diferentes localidades. durante tantos anos índice de autoridade na realização das etnografias.A grande crítica dirigida aos cânones da Antropologia se refere ao fato de que sempre foram privilegiadas as relações de permanência. Em outras palavras. cultures. Do mesmo modo. etnograficamente esmiuçado. no espaço e na linguagem. ela deveria apresentar os vários discursos. ethnographies are challenged to no longer dwell merely in romantic tropes of discovery. to make visible and audible. portanto. and histories different from your own. Michael Fischer (1999) faz considerações sobre as pesquisas que tomam como foco o ciberespaço e sua relação com o estabelecimento de uma antropologia crítica. em que o “campo” simbolizava um ideal metodológico e um lugar concreto. No caso de pesquisas na kind of translation that interests me most. 1999: 297) Ao abordar as etnografias realizadas na realidade virtual.

além de colocar novos pontos analíticos para o pesquisador. bem como estende o sentido do virtual – ele é espaço. então. em um programa de relacionamentos. do texto e das imagens. O “estar lá” aparece revestido por uma conotação diferente: não é presença física. A proposta. uma pesquisa no virtual. Nota-se. atestam essa possibilidade e mesmo as dificuldades em se traçarem fronteiras entre on. diante dos cânones metodológicos consagrados. em que há o intercâmbio de experiências e uma viagem através do olhar. permite um aprofundamento em campo diferenciado daquele em que a presença física está envolvida. colocado apenas pelo virtual. não envolve obrigatoriamente um contato face a face e não está circunscrito a uma realidade material. minha referência central é Stuart Hall (2003). em que a parte internauta é apenas um momento da performance. manter sempre em mente que se tratam de performances identitárias. em chats (bate-papos) ou em listas de discussão – deve se concentrar. mas é um dos pontos-chave nos quais uma pesquisa – seja ela em um blog. então. E este questionamento está diretamente relacionado ao processo de construção identitária: não necessariamente há uma relação de continuidade ou similaridade entre uma identidade27 off-line e uma on-line.e off-line. assim. Na maior parte dos casos. Indo um pouco além. por exemplo. 43 . é questionar aquilo mesmo que se chama de autenticidade. 2000: 41). de modo algum. o pesquisador – ao não recorrer ao face a face – tem maior dificuldade em depurar aquilo que é autêntico do que é inventado. mas também é setting (cenário) no qual estas múltiplas identidades podem ser performatizadas (Hine.internet. Os fakes e masks encontrados na Eper. que não estabelecer um contato face a face. O papel do pesquisador é. E é exatamente a ausência do face a face o fator que pode colocar em risco. esta viagem física é substituída por uma “viagem experiencial”. 27 Quando falo em identidade. Uma das questões que pesam negativamente quando se fala em pesquisas envolvendo a internet é a autenticidade. pensar em autenticidade confere um diferencial importante e coloca como discussão a questão das identidades. O problema de autenticidade não é.

a dimensão dialógica e intersubjetiva da etnografia e não se restringe a uma simples leitura de textos. corroborando a idéia de que o encontro etnográfico coloca em contato as subjetividades do pesquisador e dos pesquisados. ao mesmo tempo. observadores e observados. A partir de uma pesquisa realizada em cibercafés de Trinidad. Em relação às dicotomias normalmente utilizadas para se referir ao virtual e ao seu oposto – chamado de real. Isso significa que a interação virtual garante. sujeitos e objetos. sendo que um contexto particular está sempre em relação com outros contextos. sendo pertinente o uso do termo intersubjetividades. Operando desta maneira. produzido dentro de um determinado contexto cultural. e pode também ele escrever seus próprios textos. o face a face não é mais uma condição fundamental para a efetiva realização da pesquisa de campo. O que se vê é um processo de mão dupla tanto na leitura quanto na escrita dos textos. interpreta. os autores propõem pensar a etnografia e os dilemas colocados – por sua própria prática etnográfica quanto por grande parte da literatura sobre internet – quando se realiza uma pesquisa com foco no on-line. O primeiro argumento apresentado é o de que uma etnografia on-line é possível por envolver todos os outros requisitos de uma etnografia off-line: há observação.Um ponto abordado por Hine e sobre o qual gostaria de me deter é a possibilidade de tomar a internet como texto. igualmente interpretados e passíveis de réplica. Além disso. Pensar o virtual como texto requer considerá-lo como algo móvel e que pode ser lido independentemente do momento em que foi produzido. um processo de leitura e escrita de textos: o etnógrafo lê o que é escrito. que serão lidos pelos sujeitos da pesquisa. é gerado um histórico perfeitamente acessível ao pesquisador tempos após ter sido escrito. em que etnógrafo e pesquisados são. Desta maneira. participação. textos e um relacionamento (diálogo) entre o pesquisador e os pesquisados. do mesmo modo que a não-virtual. presencial ou off-line – Miller e Slater (2004) trazem algumas considerações importantes e que permitem um novo tipo de abordagem da suposta relação de oposição entre on-line e off-line. Realizar uma etnografia do virtual é. evita-se recair em pré-noções 44 . Ou seja. os autores apontam a necessidade de trabalhar sempre com a idéia de contextos. portanto.

como virtualidade ou ciberespaço, as quais envolvem uma pressuposição metodológica em que o cenário poderia ser tratado como sui generis, autocontido e autônomo (Miller e Slater, 2004: 45). Do mesmo modo, o ciberespaço não deve ser tomado como dotado de unidade, mas sim composto por diversas partes, cada uma delas imersa em um contexto específico e em constante comunicação com outros contextos. A idéia é, então, desagregar o virtual em seus vários processos, interações e relações a fim de não tomá-lo como um objeto único. Assim procedendo, é possível transcender a divisão online/off-line e pensar na passagem (e suas nuances) entre os dois pólos. Uma pesquisa que pretenda trabalhar o on-line não deve se definir simplesmente a partir de uma divisão prévia em on-line e off-line. Essa divisão é, sobretudo, contingente e requer uma problematização a partir do contexto a ser abordado na pesquisa. Como alertam Miller e Slater,
estar off-line não significa automaticamente que se está fazendo uma etnografia, nem estar on-line significa que não se está fazendo uma etnografia. Novamente, a questão é uma escolha metodológica sobre o que constitui o “contexto”, uma decisão que só pode ser feita no contexto dos objetivos específicos de uma pesquisa. (Miller e Slater, 2004: 63)

*** Ao delimitar meu campo de estudo impôs-se também uma preocupação com a metodologia: a idéia de realizar uma etnografia da realidade virtual trouxe uma série de impasses, visto que não se trata de um campo comumente estudado e que, além disso, desloca muitas de nossas categorias, a começar por aquelas relativas a espaços e territórios. Falar dessas novas tecnologias de comunicação e das realidades por elas produzidas requer todo um posicionamento metodológico, o qual visa exatamente conferir legitimidade a um trabalho de campo que rompe com a regra primordial da prática empírica: não se trata mais de contatos face a face, mas de relações mediadas por um meio físico – o computador.Dessa forma, propus, a partir do traçado dos desenvolvimentos da prática etnográfica (prática empírica e texto dela resultante), buscar o local do on-line nas pesquisas realizadas em antropologia.
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E, nesse processo, foi fundamental questionar, já de início, o significado dos termos off-line e on-line. Acredito que um dos méritos de minha pesquisa tenha sido mostrar que, por mais que seja considerado por muitos um espaço revolucionário, o on-line carrega consigo diversas marcas, convenções e padrões. E isso não apenas no âmbito das sexualidades, mas também na construção das identidades, como atestam os masks e fakes, ou mesmo nas questões de gênero, como ficou claro a partir de minha inserção, enquanto mulher, em uma comunidade de homens. No âmbito das identidades, o que a experiência empírica mostrou foi a criação no virtual de avatares que tensionam a relação entre on-line e off-line. Essa descoberta corrobora a iniciativa empreendida de propor não mais uma separação rígida entre esses dois pólos, mas sim a existência de diversas linhas de comunicação e diálogo entre eles. Assim, on-line e off-line são espaços contextuais e contingentes e, ao mesmo tempo em que podem estar separados (como tradicionalmente se pensou), chegam a se confundir. Essas tensões são ainda mais amplas e mobilizam conceitos como os de realidade e autenticidade. Apesar das inúmeras possibilidades oferecidas pelo virtual, em muitos momentos, o que pôde ser notado entre os membros da Eper foi a busca pelas realidades, por extravasar a tela do computador e sair dos “quadrinhos”, buscando encontrar as pessoas por detrás dos avatares. Nesse processo, o conceito de autenticidade mostrou-se estratégico, visto que ainda persiste uma associação entre virtual/inventado e real/autêntico. Meu objetivo neste artigo foi trazer, mais do que respostas, questões e hipóteses a partir de algumas situações e de alguns dados etnográficos recolhidos durante a pesquisa de campo. Mesmo que parcialmente, acredito ter conseguido elencar pontos importantes ao se realizar uma etnografia no e do virtual e mostrar que, acima de tudo, ele deve “ser levado a sério”.

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Os MUD (Multi User Dungeon) são sistemas multiusuários e se apresentam como um ambiente em que. O IRC (Internet Relay Chat) é um ambiente de conversação on-line no qual o usuário utiliza um programa específico e se conecta a um servidor de IRC. é possível manipular objetos visuais. Diretórios – Subdivisões de um endereço de site. os MUD’s requerem programas específicos e conexão a servidores que suportam programas desse tipo. na forma de produtor. em outros. previamente cadastradas. URLs – Uniform Resource Locator é o endereço de um recurso (como um site. Links internos e externos – Link é o enlace de um ponto da rede a outro. Cada parte contém o texto de um dos interlocutores. numa demonstração evidente de que há uma migração contínua da comunicação para o âmbito virtual. ainda. por possibilitar o acesso do internauta ao conteúdo da rede. Dezenas de milhares de blogs são construídos todos os dias (segundo o Technorati. uma impressora) na Internet ou numa intranet. Não há. Chats – O termo chat designa a conversa em tempo real através da Internet. além do chat entre os usuários. Em alguns fóruns é possível ler as mensagens sem participar do grupo. Redes sociais – Sistema de relacionamento de usuários mediado por computador por meio do qual os internautas criam um perfil (uma apresentação) e podem estabelecer vínculos. a tela é dividida em duas. Em cada blog. os blogs são diários virtuais. Listas de discussão – É uma lista de e-mails por meio da qual é possível registrar dados dos participantes. necessariamente a possibilidade de comunicação instantânea. os usuários podem interagir através de formas visuais. maior motor de busca de blogs). Assim como o IRC. Ao escolher seu nick (apelido) e um canal. Existe a possibilidade de outro usuário tecer críticas. Muitos que o fazem dialogam com os comentários de posts anteriores em novos posts. guardar arquivos e links de interesse. os textos escritos por seu proprietário (que pode ser um indivíduo ou um grupo) recebe o nome de post. 49 . enviar um e-mail ao mesmo tempo a todos eles. Blogs – Considerado por muitos analistas de Internet o maior fenômeno do ciberespaço. individuais ou coletivos. que guardam sua identidade sob um pseudônimo (nick). mais complexa que o chat. podem definir categorias e subcategorias de acesso. elas são restritas aos membros cadastrados. um link externo. elaborando comentários. um arquivo ou. Nem todos os “blogueiros” disponibilizam a possibilidade de comentários em seus blogs. aqui. ou seja. Novos sistemas permitem a criação de "salas" de conversa com formato de páginas da Web. Um link interno remete ao mesmo site. inicia o bate-papo em tempo real com outros usuários dentro desse canal. além do texto. criar e participar de comunidades de seu interesse e trocar mensagens. a um site distinto. fazer contrapontos ou reflexões a respeito de um post.Glossário Ambiente hipermediado – Ambiente mediado por computadores. Em alguns sistemas mais antigos de chat. Fóruns – O termo fórum se refere a uma página de discussão em que mensagens diversas são inseridas ("postadas") por pessoas diversas. o que torna o espaço muito polifônico. Canais de comunicação como MUDs e IRC – Ferramentas de comunicação para usuários registrados. Endereço de IP – O IP (Internet Protocol) é um número que identifica o endereço de um computador numa rede privada ou pública.

ETNOGRAFIAS DA JUSTIÇA 50 .

para além das similitudes e concepções sobre família que estão em jogo. assim. Outro método adotado em minha pesquisa foi a comparação. O vínculo entre pesquisa documental (leitura e análise dos processos criminais e banco de dados referente ao perfil sócio-econômico de vítimas e acusados) e pesquisa de campo (acompanhamento de audiências e julgamentos e realização de entrevistas) permitiu-me refinar o olhar sobre os casos estudados. 2009). faço uso de minha pesquisa de mestrado (Feriani. em que medida a singularidade dos sujeitos envolvidos. o que trouxe uma nova direção ao meu trabalho. bem como das relações entre eles. os argumentos e as estratégias de advogados. Para isso. 29 Utilizo o termo “atores jurídicos” para referir-me a advogados.Escolhas metodológicas em um campo de interlocução entre Antropologia e Direito Daniela Moreno Feriani Introdução Este artigo busca refletir sobre duas propostas de metodologias no âmbito do conhecimento antropológico: a relação entre campo e arquivo e a comparação. Percebi que o que os atores jurídicos29 dizem nos processos criminais não necessariamente condiz com o que dizem fora deles. 51 . Ao comparar os crimes entre cônjuges e os crimes entre gerações. promotores e juízes no julgamento de crimes de homicídio e tentativa de homicídio entre pais e filhos. ver também Mello (2009). que são os principais interlocutores deste trabalho. O interesse é mostrar como essas escolhas metodológicas permeiam o olhar do pesquisador e influenciam os resultados e as discussões teóricas de seu objeto de estudo. contribuindo. para uma visão mais geral sobre como os crimes entre familiares são interpretados pelos atores jurídicos. seja nas entrevistas ou em conversas informais (nos corredores do Fórum. ou seja. nos intervalos de uma audiência a outra. na qual analiso as práticas judiciais. trazendo-me novas questões28. implica em diferentes argumentos e trajetórias desses crimes na justiça. buscou-se compreender. promotores e juízes. nesta coletânea. Sem perder 28 Para uma discussão sobre a relação entre campo e arquivo na pesquisa antropológica. nos momentos de descontração).

assim. podendo levar a uma atenuação da pena do acusado ou até mesmo à absolvição. sendo necessário. indução ao suicídio e aborto. a perspectiva comparativa é muito mais uma tentativa de trazer elementos para elucidar a criminalidade geracional. A primeira delas tem como palavrachave o “controle” – controle daquilo que é considerado moralmente correto – o pai. nos quais os estudos mostram como a categoria de gênero influencia o desfecho dos casos. pude mostrar como o marcador de gênero também se faz presente nesses últimos. Dentro de uma mesma lógica – a lógica do Direito Penal -. os filhos. ser o provedor do lar. boa dona-de-casa. mãe. uso os crimes entre cônjuges como um suporte para me ajudar a pensar os crimes entre pais e filhos. é a partir da comparação que podemos apreender tanto as diferenças quanto as semelhanças entre eles. além de homicídio e tentativa de homicídio. uma vez que tais casos não acontecem de maneira tão freqüente ou não chegam à justiça como crimes de homicídio e tentativa de homicídio. seja homem. pai. ao comparar os crimes entre cônjuges. seu alcance para além da relação conjugal. O período selecionado foi de 10 anos (1992 a 2002). Além disso. Minha pesquisa de mestrado teve como campo o Fórum de Campinas. com os crimes entre gerações. Do mesmo modo. a mãe. portanto. já que o não cumprimento de seu perfil social é visto como uma justificativa para sua sentença condenatória. que incluem. sendo 21 de crimes de filhos contra pais e 13 de pais contra filhos. Se o ditado jurídico é “cada caso é um caso”. um número significativo de casos para análise. filho ou filha.de vista a delimitação de meu objeto de estudo. assim. caminhe mais rapidamente a uma condenação. um período longo para encontrá-los e ter. não atender a esses requisitos faz com que o réu. Nesse sentido. acaba por sofrer um processo de culpabilização. mulher. Muitas vezes. obedientes e sem vícios. mais especificamente o cartório do tribunal do Júri – o setor responsável pelos chamados “crimes contra a vida”. a vítima. alargando. A maioria foi de tentativa de homicídio (21 casos). como se sua posição negativa ou “desvirtuante” numa escala hierárquica de papéis sociais fosse um motivo para 52 . Encontrei um total de 34 processos. ao não se encaixar no papel que dela é esperado. por exemplo. duas estratégias jurídicas principais se mostraram à análise: uma que chamei de “moral familiar” e outra de “saúde mental”.

ou seja. para usar uma expressão nativa. O juiz. ao tempo da ação. Assim. Nesses casos. por uso de drogas. uma vez que. O que se diz no palco jurídico e o que se diz fora dele Segundo Corrêa (1983). transformam-se em versões diversas. a estrutura do processo. não podendo ser responsabilizado pelo mesmo. como tentativa ora de justificar o crime e/ou atenuar a pena do acusado. relatá-los. com suas palavras. nesse sentido. entra em cena a questão da inimputabilidade – termo jurídico . mas o contexto – as posições e as performances dos sujeitos ao longo dos autos. Aqui. ao serem narrados. julgando o quanto se encaixam em modelos assimétricos e complementares. a estrutura do processo em si e o modo como os fatos são traduzidos podem ser vistos como uma fábula. Caso o juiz o rejeite. advogados e promotores jogam com os papéis sociais e posições na família de vítimas e acusados. uma “violenta emoção”. réu e testemunhas. pode ou não acatar o laudo. Trata-se de falas interpostas: nos depoimentos de vítima. mas o descontrole. o réu deverá ser absolvido e poderá ser internado em um hospital psiquiátrico ou receber tratamento em casa. o que está em jogo não é a culpa. sendo essa “tradução” que fica anexada aos autos. ou seja.que eu chamei de argumento da saúde mental. a figura do perito-psiquiátrico é fundamental: a loucura do réu precisa ser comprovada e diagnosticada por um laudo de sanidade mental.um ímpeto. não se deve considerar apenas o texto. não sendo possível alcançá-los tais como foram. ouvindo seus relatos para. porém. o juiz faz as perguntas diretamente a eles. os processos precisam ser vistos enquanto narrativas e. Para além de fábulas. a questão não é o controle. por álcool ou por uma emoção exacerbada . o réu será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri. ora de acentuar a gravidade do mesmo. a partir da prerrogativa de livre convencimento. Quando o 53 . ao escrevente. Quando. quando o réu não era. que pode assumir diferentes faces: descontrole por doença mental. posteriormente. Se o laudo concluir pela inimputabilidade e o juiz acatá-lo. uma fúria ou.o crime do qual foi vítima. mas a cura. capaz de compreender o caráter ilícito de seu ato.

(idem: 259) Sendo a realidade muito mais complexa. então o que seus olhos vêem também se modifica. novamente. Para isso. um objetivo. pelo menos. levar em conta as dimensões de poder e interpretação neles presentes. Em seguida. É preciso 54 . os processos jurídicos possuem um começo. os processos jurídicos operam uma simplificação dos fatos. ou seja. Os processos jurídicos são. Parafraseando Geertz (1989) sobre os textos antropológicos. outros são excluídos da análise. por sua vez. duas versões para o mesmo fato). em suas próprias palavras. transcreve. O jurídico não é simplesmente um conjunto de normas e leis e sim uma maneira específica de imaginar a realidade. ou seja. de uma época a outra. representações. e sim do que aconteceu aos olhos do direito.advogado e o promotor fazem perguntas. As questões morais são limitadas de tal maneira que podem ser solucionadas através do simples uso de regras específicas. de um lugar ao outro. é preciso que haja culpabilidade. Trata-se. não do que aconteceu. as respostas ao escrevente para que as mesmas constem nos autos. há uma seleção dos eventos: enquanto uns são incluídos. basicamente. a noção de responsabilidade como eixo central (para haver pena. os textos jurídicos são interpretações de segunda ou terceira mão. Enquanto narrativas. o que demonstra uma intencionalidade. da existência do crime. por meio de um vocabulário técnico. pois. não basta a existência de um crime. plural e imponderável. nas quais fatos são feitos (Geertz. como a lógica do contraditório (ter. um meio e um fim interligados por um nexo causal. refaz à pessoa que está sendo ouvida. um outro exemplo seria contrariar o laudo psiquiátrico). por exemplo. e se o direito difere. 1998). fazem-no indiretamente. Trata-se de documentos históricos e oficiais. o juiz pode contrariá-las se não se convencer. devendo-se. Nesse sentido. portanto. coerente e coeso. a ligação de um crime com seu autor) e a idéia do livre convencimento do juiz (mesmo com as argumentações da defesa e da acusação. Não se trata de uma narrativa qualquer – é preciso levar em conta aquilo que é específico do Direito Penal. a fim de contê-los ou adequá-los às leis. dirigem as perguntas ao juiz que. a grande questão é como representar aquela representação (ibid).

55 . a partir de noções de proximidade e distanciamento. nos corredores. Trata-se de uma via bidirecional. 1998). sendo um primeiro viés interpretativo. assim. por sua vez. Ao mesmo tempo em que o arquivo permite uma manobra de entrada e posicionamento no campo30. a informação obtida nos documentos. Tais recursos não são apenas uma máscara ideológica. a família. transformando. em que um se revela no outro. *** O argumento de preservar a família é muito recorrente nas argüições dos atores jurídicos. o processo jurídico faz dos veredictos mais do que decisões judiciais: são concepções de mundo da sociedade na qual está inserido. Isso é particularmente importante para a discussão que se segue. nesta coletânea.articular a linguagem do “se então” das normas genéricas ao idioma do “como portanto” dos casos concretos. o campo. nas conversas informais e descontraídas. na qual mostrarei como o argumento de preservar a família – tão freqüente nas argüições dos processos criminais para se justificar a absolvição do réu – pôde ter sua intenção revelada ao ser confrontado com as situações observadas nas audiências. ver Cunha (2009). Mesmo em situações de extrema violência. a linguagem jurídica está repleta de estratégias sintáticas. Apesar de revelar uma concepção de mundo. objetivos e científicos – apesar de ser assim que os atores jurídicos querem que sejam vistos. ao menos em suas argüições técnicas e 30 Para uma discussão sobre a inserção e posicionamento do antropólogo no campo. nos julgamentos. a linguagem da imaginação na linguagem da decisão (Geertz. fornece elementos “a mais” – no sentido de extra-oficiais – para complexificar o “dado”. Ao fazer isso. mas a garantia da eficácia e legitimidade do discurso jurídico. tais como o predomínio das construções passivas e das frases impessoais. sobretudo dos advogados. a retórica das narrativas judiciais é a da impersonalidade. para pedirem a absolvição do réu ou a desclassificação do crime para lesão corporal. Para alcançar esses efeitos. É preciso levar em conta esses pormenores de documentos como os processos criminais para que não caiamos na armadilha de vê-los enquanto fontes primárias ou de tomar os discursos neles presentes como neutros. 2004). neutralidade e universalidade (Bourdieu.

e de um marido que bateu na esposa ao longo de 22 anos de casamento31. chegando a engravidá-la. leva a tratar os crimes que ali ocorrem como incidentes domésticos e a absolvição como o resultado mais conveniente: A jurisprudência e doutrina aconselham que. temos 17 casos contra 08 condenações. uma reconciliação entre as partes após o crime é mais importante para se determinar a sentença do que os antecedentes e personalidades de cada sujeito envolvido. Somando as sentenças favoráveis (ausência de denúncia. Isso foi dito na defesa de um pai que estuprou a filha dos 16 aos 19 anos. A visão da família enquanto “instituição quase divina”. ao menos. por ora. a absolvição é mais conveniente que a condenação que poderá. defesa própria. mesmo precária. além do próprio crime em si. nos casos de incidentes domésticos. impronúncia e absolvição). Ao analisarem os processos de parricídio tramitados em duas varas do Júri do Fórum de São Paulo.formais. nas palavras de um advogado. legítima defesa da honra. destruir uma harmonia que. a absolvição foi o resultado mais significativo. de vez e para sempre. Muitas vezes. um ideal de família. E. Assim. Como compreender o alto índice de absolvições e desclassificações de delitos nos crimes em família? Alguns estudos sobre violência doméstica argumentam que a tentativa da justiça é de preservar a família ou. ela esteja abalada. 31 O réu é absolvido da tentativa de homicídio contra a esposa e condenado a 1 ano por lesão corporal contra a filha. de fato. a favor do interesse social. 56 . mesmo que. putativa ou de terceiros e inimputabilidade por insanidade mental são maneiras de “encobrir o caráter violento que a vida familiar pode assumir” (2008: 207). resgatar uma certa harmonia. da defesa da família e dos julgamentos a partir do perfil social considerado adequado de vítimas e acusados” (2008: 06). Debert et alli afirmam que a absolvição nos casos de violência familiar “é conduzida pela lógica. ainda presente. no período de 1990 a 2002. ainda exista. é vista como instituição a ser preservada a qualquer custo: a impressão que se tem é de que é sempre possível recuperar. os pesquisadores concluem que argumentos como violenta emoção.

sabe esse tipo de coisa? Fica esse papinho mole. tendo implicações importantes no mundo social. deve ser vista muito mais enquanto retórica.. porém. violências e crimes que cercam as relações familiares.desculpe falar na gíria assim... Quem quer preservar a família não pensa em matar.. que não tenha sentido ou relação com o empírico. já que pauta o cotidiano.. percebi não se tratar de uma preservação ou defesa da família. ao entrevistá-los e ouvir conversas informais entre eles.o que ele queria era não pagar pensão para ela. tem um caso agora de um sujeito que tentou matar a mulher. essa idéia de preservação da família estaria distante da realidade de conflitos... Porém. aceitam.Essa conclusão – de que o alto índice de absolvições se deve à tentativa da justiça de preservar ou defender a família – vai ao encontro das argüições dos atores jurídicos estampadas nas páginas dos processos criminais. uma estratégia... freqüentemente enunciada nas páginas dos processos sobre crimes entre pais e filhos e maridos e esposas e também nas análises desses processos elaboradas por cientistas sociais... organiza as relações.. do que propriamente a opinião ou convicção desses atores quando despidos.... que ela não tenha uma força construtiva.. vai procurar livrar. não tem colher de chá não. às vezes. uma muleta que faz parte do “show”.e você fala isso para os jurados e os jurados.Aí fica esse discursinho de que ele matou porque queria voltar para casa.. Enquanto retórica. eu não vejo que a justiça enxerga aquilo como um crime familiar e... por isso. queria nada..é mentira... constrói verdades.. conforme podemos ver nos trechos a seguir: (PROMOTOR) Essa idéia de preservar a família é uma retórica. do lado de fora do palco.. viu..... A frase tão clichê de “preservar a harmonia familiar”. é um crime que foi cometido e tem que ser julgado. o que não significa.. Eu acho que é um problema isso. mãe do filho dele... (ADVOGADO) Eu acho que a justiça não vê isso como preservação da família não. não tem isso não.. 57 .. Trata-se de uma visão da família muito presente no senso comum – a da família como reino do carinho e do cuidado -..

é bom ouvir o outro lado. vai chorar e tal. O pai tentou acabar com tudo. A seguir..Se a idéia de preservar ou defender a família foi tida como retórica. se eles se verem. vai começar a maior baixaria. mas apenas assustá-lo. eu te falar essas coisas.. a qual foi fundamental para apreender o olhar “extra-oficial” da justiça sobre a família e os crimes que ali ocorrem. 32 Os atores jurídicos se referiam a dois casos envolvendo a mesma família.. Ela lapidou o patrimônio. Desculpe. seu salário estava atrasado). No outro caso. o caso também é desclassificado para lesão corporal. após uma briga por causa de dinheiro (o filho trabalhava na loja de carros do pai e. Foram as situações de campo.. A vítima é a amante dele. pois acreditavam que essa iria dar um golpe econômico no ancião”. o filho é acusado de ter tentado matar o pai por disparo de arma de fogo. não sei não. é preciso buscá-la em outros contextos. a juíza chega para dar início às audiências)... virou uma guerra de família. porém. presenciei a seguinte conversa entre advogado. tentou matar os filhos. O pai queria tomar a loja para sustentar a família. não o tomando como “dado” para explicar as sentenças favoráveis ao réu. (ADVOGADO para o promotor) – Isso é uma guerra de família. porque vai ser teatro. Enquanto aguardava o início de uma audiência. A testemunha é o Rogério. Apesar da gravidade dos ferimentos (a madrasta fica em coma por 1 semana). A família sofreu muito. Ele tinha uma vida estabilizada. promotor e juíza32. Em um deles. O crime de tentativa de homicídio é desclassificado para lesão corporal... (PROMOTOR) – Não. 58 . a visão que a justiça tem dos crimes familiares? Se a visão que aparece nos documentos é antes uma estratégia do jogo jurídico.... Ricardo (promotor). 30 anos mais jovem do que o pai. qual é. (Nesse momento.. O companheiro (pai dos réus). gestos e falas que me permitiram problematizar esse argumento.. nega. estava interessada no patrimônio da família e dopava o marido com remédios. Aí saiu uma puta briga. os réus não tiveram intenção de matar a vítima.. relato uma dessas situações. A testemunha só inventa coisas. dizendo que a vítima (madrasta) sempre o tratou muito bem. já que o juiz entendeu que o filho não teve intenção de matar o pai.. (ADVOGADO) – Agora eu não sei se peço para pai e filho virem para cá. mas quando tem coisa eu falo mesmo.. Os filhos alegam que a mesma.. não. dois outros filhos da vítima do caso anterior são acusados de tentativa de homicídio contra a madrasta. de observação de comportamentos.. Aí largou a esposa para ficar com a vítima. Segundo o juiz. então. Rogério é um artista perigoso... Em suas palavras: “Ficou claro que os réus apenas queriam que a vítima saísse da casa do pai deles. segundo ele.

Uma baita dor de cabeça. extremamente formais e técnicas. vai a tarde toda.. Sentam no sofá... a audiência das 13:15hs é um caso complicado.. Em seguida. ele me disse se tratar de um “ninho de briga de família” e que o juiz. ao reconhecer isso. baixaria. está inventando coisa. Grifei algumas palavras que nos permitem pensar como os atores jurídicos vêem os crimes entre familiares: guerra. contra a amásia dele... é isso? (ADVOGADO) – Não. (ADVOGADO) – Vai mesmo. (JUÍZA) – Filhos contra o pai. Então eu deixei eles no meu escritório porque se o pai ver os filhos vai xingá-los. baita dor de cabeça. A testemunha é o pai.(ADVOGADO para a juíza) – Excelência.. Tô ficando louco com esse caso. seus membros e seus crimes. confusão. ao meu lado. São palavras com sentidos negativos.. decidiu pela desclassificação do crime. A vítima já fez vários BO’s de ameaça. umas coisas absurdas. (JUÍZA) – Se der corda. os réus são os filhos e a vítima é a amásia do pai.. revelam-nos que 59 . mas a da família como palco de conflitos. Quero ver o Júri desse caso: um velho de 60 anos com uma mocinha de 20 que destrói o lar! (PROMOTOR) – Parece novela mexicana! (JUÍZA) – O senhor foi contratado para essa confusão toda? (ADVOGADO) – Fui contratado. Podemos perceber como é outra visão da família que está em jogo – não aquela enunciada nos processos criminais da família como reino do carinho e do cuidado. teatro. devendo ser preservada a qualquer custo. caso complicado. novela mexicana. Ao entrevistar um dos advogados do caso. Começa o depoimento). os réus entram... violências e crimes. coisas absurdas.. entra a vítima.. (Nesse momento. diferentemente da retórica e das estratégias que delineiam em suas argüições nos processos criminais. O pai já tentou matar os filhos. intrigas.. As falas dos atores jurídicos nas entrevistas e em comentários espontâneos e informais durante o intervalo de uma audiência e outra. as quais denotam um menosprezo pela família.

de expulsá-la do sistema de justiça porque ela é ingovernável e seus membros são incapazes de entender o que são direitos e deveres da cidadania. Os crimes em família. os crimes em família parecem desafiar essa capacidade de reintegração dos acontecimentos em uma ordem simbólica. jogando-os para a psiquiatria ou devolvendo-os à família. Ao contrário. Portanto. em termos numéricos. temos 07 casos. Justamente por verem os crimes entre familiares como uma “baita dor de cabeça” que tem levado advogados “à loucura” os atores jurídicos tiram-nos da alçada da justiça. A inimputabilidade. como diria Foucault e como mostra Donzelot (1986). de discipliná-la. não foi contestada em nenhum momento. já que foi o principal motivo para impronunciar ou absolver o réu (somando impronúncias e absolvições. os ideais e as concepções que levam à criação do poder judiciário e seu funcionamento. deixando a justiça desarmada. em perspectiva comparada Apesar de a estratégia da saúde mental não ser a preponderante.não se trata de ter um controle sobre a família. houve casos em que se questionou 60 . essencial a todo grupo humano” (1999: 165). mas. parece ser melhor expulsá-los do reino do judiciário e devolvê-los para a muralha que deve cercar a família e o terror destituído de qualquer sentido que ela pode alimentar e reproduzir. não se trata. Não se trata de preservá-la. ao contrário. Garapon compara o parricida ao toxicômano por não conseguirem integrar a dimensão simbólica. sendo que 04 destes foram em função da inimputabilidade do réu. 02 por legítima defesa e 01 por negativa de autoria). Se para o autor “a meta do julgamento é de reintegrar o crime numa ordem simbólica. de darlhe um sentido à luz da distinção entre o bem e o mal. com a absolvição do réu. mas de se livrar de um “caso complicado”. teve um peso significativo nos crimes de filhos contra pais. uma “confusão” que impede o bom funcionamento da justiça e desafia a moral e os bons costumes. nos crimes de filhos contra pais. uma “novela mexicana”.

fura seus olhos com uma chave de fenda. Já nos crimes de pais contra filhos. há a mãe que se tranca com o filho no quarto e corta seu pescoço. Apesar da gravidade. Imputável. um novo laudo é feito. Enquanto nos crimes de filhos contra pais a conclusão dos laudos médicos pela inimputabilidade do réu era prontamente aceita por advogados. no art. nesses casos. o advogado discorda de que o réu. Assim. sendo aceita. defesa e acusação alegam. em outro. concluindo pela semi-imputabilidade. a qual é reconhecida pelos jurados. não é a de que a loucura é menos freqüente nos crimes de pais contra filhos. sendo contestado pelos atores jurídicos. Em outro caso. A questão. em Plenário. 26 do Código Penal. tendo o apoio de sua esposa. Há ainda um caso em que. Imputabilidade penal é o conjunto de condições pessoais que dão ao agente capacidade para lhe ser juridicamente imputada a prática de um fato punível” (Jesus. em crimes de pais contra filhos. aqui. o laudo foi aceito.em um deles. ao tempo da ação ou da omissão. a aceitação da loucura. Mesmo em casos polêmicos. portanto. 61 . como a inimputabilidade por uso de drogas. aparece em 03 casos (23%). não seria inimputável. trata-se de um transtorno provisório e voluntário. já que. apesar de o laudo ter concluído pela imputabilidade do réu. O conceito de sujeito imputável é encontrado. semi-imputabilidade. por fim. era. é o sujeito mentalmente são e desenvolvido. ela aparece em 05 casos (23. capaz de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento. arranca sua cabeça e coloca fogo.8%) e dos 13 crimes de pais contra filhos. que trata da inimputabilidade por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado: “É isento de pena o agente que. portanto. a contrario sensu. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento”. mas menos convincente. sendo psicopata. a estratégia da saúde mental não se mostrou tão significativa. o pai joga o filho do carro e depois bate a cabeça da filha em uma árvore. 33 “Imputar é atribuir a alguém a responsabilidade de alguma coisa. segundo o promotor. A proporção de casos em que aparece a inimputabilidade nas duas situações é praticamente a mesma: dos 21 crimes de filhos contra pais.justamente a imputabilidade33 do réu. nos três casos em que esse argumento foi acionado e comprovado por laudo médico. o pai prega o filho na cruz. por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. promotores e juízes. do horror e da maneira chocante como esses crimes se deram . o mesmo foi cercado por dúvidas e fragilidades. 1983: 420). tentando suicídio em seguida -.

que seria o argumento da saúde mental. “na qualidade de pai. O que isso sugere? Se pensarmos na idéia de livre convencimento do juiz. Em outro caso. 2002) sobre crimes entre cônjuges mostraram que mulheres vítimas de violência por parte de seus maridos retiravam a queixa com freqüência. foi tida como algo que contribui para a exaltação dos sentimentos. mesmo tendo sido comprovada pelo laudo psiquiátrico. 62 . por que parece ser mais fácil se deixar convencer pela loucura nos crimes de filhos contra pais? Como podemos pensar as singularidades de cada crime a partir desses dois campos: loucura e autoridade? E mais: como podemos compará-los com os estudos sobre crimes entre casais.encontrou resistência por parte dos atores jurídicos. deu-lhe apenas dois tapas”. Nos crimes de pais contra filhos. dizendo “já ter esquecido o acontecido” ou que “já está tudo bem”. Outro elemento presente foi a autoridade paterna enquanto justificativa para o crime. ou seja. mas em sua redução. Assim. não querendo dar continuidade aos autos34. em muitos crimes de pais contra filhos. houve casos em que a vítima (filho ou filha) retira a queixa contra o réu (pai ou mãe). teria sido sua fala momentos antes de apertar o gatilho. no qual o pai é acusado de ter tentado matar a filha. Além disso. 35 Os estudos de Izumino (1998. “Agora você vai aprender a respeitar o seu velho”. o advogado alega que o réu. um pai explica que matou seu filho porque este não o estava respeitando. o depoimento e a posição da vítima têm um peso significativo para o andamento e o desfecho dos casos. A bebida. A retirada da queixa por parte do filho35 e a autoridade paterna enquanto justificativa encaixam esses crimes em um novo domínio de inteligibilidade – o da autoridade e hierarquia familiar. o que implica não na ausência de pena. como é necessário para os crimes de lesão corporal registrados nos Juizados Especiais Criminais. da violenta emoção. os quais demonstraram haver duas figuras jurídicas principais – a legítima defesa da honra para maridos que matam ou tentam matar suas esposas e a legítima defesa da vida para esposas que matam ou tentam matar seus maridos? 34 Apesar de os crimes de homicídio e tentativa de homicídio serem de ação pública e não precisarem da representação da vítima para dar continuidade ao caso. os réus (pais) estavam entorpecidos pela bebida. longe de ser considerada uma droga que comprometeria o discernimento moral dos acusados.

prestigiosa. Ao louco cabe a cura e não a responsabilidade. a vida é o bem mais elementar e universal da humanidade. secundário e instintivo. Muito diferente é a conotação em torno dos conceitos de honra e autoridade37. a mulher mata em geral num momento de desespero. Ao acionarem a legítima defesa da vida para os crimes de esposa contra marido. a legítima defesa retira a racionalidade do crime. ver Taylor (1992) e Pitt-Rivers (s/d). ver Foucault (2005). tomando-a como uma reação. a esposa que mata não age. retirando. portanto. Diferentemente da honra. Para a discussão sobre honra. Dessa forma. mas vítima. Ao contrário da legítima defesa (vida) e do argumento da saúde mental (loucura). A loucura é a não consciência. A mesma conotação cerca o argumento da saúde mental. a uma posição hierárquica numa sociedade assimétrica. pondo-o no lugar do descontrole emocional. Além disso.. o caráter intencional e desencadeador da ação. São marcas da diferença – e de uma diferença positiva. mas reage. anônimo. a defesa não acionava a legítima defesa da honra. para escapar de uma situação que já se tornou insuportável” (Corrêa. seja da violência do marido. o não discernimento. mas a legítima defesa simples. com isso. racional e intencional. Ambos são valores que remetem não ao indivíduo anônimo. mesmo em casos de adultério do marido. a honra e a autoridade não retiram daquele que age o seu caráter de sujeito autônomo. o não controle. Ter honra e ter autoridade são privilégios – nem todos as têm. presente nos crimes de filhos contra pais. Assim como a esposa que mata para defender sua vida. defender a vida é uma questão de sobrevivência. reforçam esses caracteres e justificam as ações daqueles que matam 36 37 Para essa discussão. ou seja.. A tese de advogados e promotores é de que “. Ao contrário. o louco mata também em um momento de descontrole emocional. Ambos. são vítimas – seja da doença mental. 1983:246). universal e igualitário. Enquanto reação. ao contrário de defender a honra.Corrêa (1983) mostrou que. 63 . uma questão de privilégio. da vida. a não intencionalidade36. algo. retirando daquele que a tem a condição de pessoa para colocá-lo no domínio do indivíduo. não é propriamente ré. universal e igualitário. os atores jurídicos encaixam esses crimes numa esfera biológica de necessidade ou sobrevivência. portanto. mas à pessoa – categoria associada ao status.

operário) matou a esposa (não consta a idade. Após começar a trabalhar fora. considerado louco. o filho que mata seus pais é absolvido. com a legítima defesa da honra. agiu dentro dos padrões morais e éticos que ele tem e que lhe foram estendidos pela sociedade campineira e que são os padrões morais de toda sociedade.39 38 Caso 34 do estudo de Corrêa (1983). sendo associada a uma resistência às normas. argumentando que a legítima defesa da honra está fundamentada em preconceitos. com o argumento da saúde mental. O promotor apela. agiu como age a maioria dos homens. apesar de serem valores da diferença. maridos e pais. já que o réu. como acontece no caso das esposas e dos filhos. Nas palavras de um advogado sobre o réu que matou a esposa com 08 facadas após a mesma tê-lo chamado de corno manso: Agiu dentro da normalidade. de um lado. mas é absolvido novamente pelo mesmo argumento – a legítima defesa da honra. a uma quebra de hierarquias. de outro. tendo como base o homem médio e a normalidade. pais. Isso é muito interessante para 64 . justamente por estar fora do padrão de normalidade. A “nova mulher” – a mulher moderna. Após uma briga. não podendo ser julgado como um homem comum. branco. de um lado. 38 Já o argumento da saúde mental. atua como um valor diferenciador. Enquanto o marido que mata sua esposa é absolvido. irracionalidade. de outro) não pela irracionalidade. vítima e acusado passam a discutir freqüentemente. no qual o marido (42 anos. A defesa da vida pelas mulheres e a loucura dos filhos pertencem a um mesmo referencial simbólico – vitimização. “doença de mulher”. tendo em comum três filhos. não pode ser condenado. No tribunal do júri. é possível aproximar esposas e filhos. é um valor normatizador e igualitário. O réu vai a novo julgamento. por ser diferente. A loucura. Esses trabalhos mostram como mulheres consideradas “à frente de sua época” foram tidas como doentes/histéricas pela sociedade e por seus médicos. em que a mulher o chama de corno manso e confessa que o traía. agiu com toda naturalidade. trabalhadora. não atua como homem médio e. Assim. por ter agido como homem médio. ver Showalter (1985. Ao pensar os crimes em família a partir de campos conceptuais. já que o marido começou a suspeitar de sua mulher. descontrole emocional.(maridos. portanto. o marido a mata com 08 facadas. Porém. 39 Para uma correspondência entre loucura e feminino/feminismo. seus efeitos práticos são a normalização e banalidade dos atos – agir conforme o homem médio/normal. é absolvido por legítima defesa da honra. dentro da normalidade. mas por uma racionalidade extremada que chega a ser sensatez. que lutava por seus direitos – era também a mulher nervosa. faxineira) após 16 anos de casamento. branca. 1993). foi vista como algo essencialmente feminino. quando posto em prática pela tese de inimputabilidade.

Por sua vez, a defesa da honra pelos maridos e a autoridade dos pais trazem como elementos a intencionalidade da ação, a racionalidade, o autocontrole, a pessoa em sua especificidade hierárquica. Esposas e filhos estariam, assim, em um pólo feminino; maridos e pais, em um pólo masculino. Para além de tais aproximações, parece haver uma maior indulgência para os crimes entre marido e esposa, pois, quando absolvidos, homens e mulheres vão, de fato, para suas casas. Já nos crimes entre pais e filhos, a absolvição em casos de insanidade mental é muito mais aparente do que efetiva: os réus não vão para a prisão nem tampouco para suas casas; vão para um hospital psiquiátrico. Trata-se, portanto, de diferentes conotações acerca da absolvição, o que sugere diferentes formas de se lidar com a violência conjugal e geracional. Além disso, enquanto os crimes entre casais podem ser lidos como uma “loucura desculpável”, momentânea, uma “loucura lúcida”, os crimes de filhos contra pais se encaixam muito mais numa “loucura insana”, condenável e contrária à ordem das coisas. Assim, em muitos casos de maridos ou esposas que matam por ciúmes, por amor ou por infidelidade, a chamada “violenta emoção”, os atores jurídicos falam em momentos de descontrole, transe emocional, furor; porém, tal loucura é acionada para tornar o crime mais humano e menos punível (Foucault, 2005). Em um dos casos, ao argumentar que o réu agiu “em transe de grande ciúme” ao tentar matar a ex-esposa em função de esta estar vivendo com outro homem, o advogado não pretendeu acionar a estratégia da inimputabilidade, ou seja, da loucura inexplicável, mas a tese da violenta emoção, a qual faz do descontrole algo razoável e, do crime, um ato passível de explicação – não através da insanidade mas da racionalidade e humanidade de se agir em prol de certos valores, como, por exemplo, o amor, a fidelidade, a família. Já nos crimes de filhos contra pais, a loucura acionada é a loucura má, irreparável, irracional, contrária à moralidade, estando já posta mesmo antes do laudo médico: assim, ao dizer para o diretor do Fórum que iria estudar os crimes de filhos contra pais, ele logo me disse: “Ah, aqueles em que o filho é maluquinho”; ou, nas palavras de um advogado,
pensarmos a correspondência entre esposas que matam seus maridos e filhos que matam seus pais: também os filhos, nesse caso, quebraram normas e hierarquias, sendo facilmente classificados como loucos.

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“matar a mãe é, por si só, um ato insano”. Parece haver, de antemão, uma conexão entre um certo crime – matar os pais - e loucura, ao mesmo tempo em que é justamente essa conexão que implica na absolvição do acusado. Ao olharmos para a violência conjugal, de um lado, e para a violência geracional, de outro, podem-se perceber diferentes significados e maneiras de a justiça lidar com cada uma delas. Nas palavras de um advogado,
Entre pais e filhos, é sempre mais grave, né? A conotação é muito mais grave. O espectro dele é muito maior, assim... Porque um filho que mata um pai ou um pai que mata um filho, escapa, um pouco, da natureza humana... é uma coisa meio monstruosa.... agora, marido e mulher, já muda.... é outra coisa..... e é muito mais fácil, viu, conseguir atenuantes... porque entre marido e esposa não faz tanto barulho assim..... agora, quando um pai mata um filho, um filho mata um pai, a repulsa é muito maior... e aí complica....

Essa idéia de que a violência entre pais e filhos é mais grave do que a violência entre cônjuges é compartilhada pelos advogados, promotores e juízes entrevistados. Em suas falas, a oposição entre natureza e cultura, consangüinidade e afinidade, sangue e lei era latente: como a relação entre pais e filhos é da ordem da filiação, os crimes entre eles foram lidos como antinaturais, anormais, monstruosos, graves, raros, inexplicáveis. Na tentativa de darem algum sentido a eles, todos acionaram a loucura como chave explicativa. Já os crimes entre cônjuges não tiveram essa conotação. Sendo uma relação estabelecida por um contrato de casamento, esposas e maridos possuem um vínculo frágil, vulnerável, podendo ser quebrado a qualquer momento. Os crimes entre eles não tiveram, assim, uma idéia de algo contrário à natureza humana, mas, ao contrário, foram vistos como parte da cultura, frutos de sentimentos demasiadamente humanos, como covardia, machismo, rivalidade, competição, egoísmo, paixão, ciúmes. Enquanto os pais que matam seus filhos e os filhos que matam seus pais são vistos como pessoas anormais, nos crimes entre cônjuges, a explicação passa justamente pela normalidade e intencionalidade do sujeito. Assim, mata-se a esposa por ciúmes, por covardia, por machismo; mata-se o

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marido para defender a própria vida. Agora, mata-se o pai ou a mãe por ser louco. A loucura, porém, apesar de significativa, não é o motivo majoritário (dos 34 casos entre pais e filhos, ela aparece em 11). Trata-se, portanto, de uma concepção sobre família, consangüinidade e geração, e não de um dado estatístico, apesar de ser assim que os atores jurídicos queiram demonstrar.40 Será que há mais filhos loucos que matam seus pais do que pais loucos que matam seus filhos ou do que maridos loucos que matam suas mulheres? Corrêa (1983) mostrou que o exame de sanidade mental foi pedido em 03 crimes de homicídio e tentativa de homicídio de marido contra esposa. Mesmo tendo sido atestada uma perturbação mental (como esquizofrenia e psicose) nos laudos psiquiátricos, o argumento da saúde mental não foi aceito em nenhum deles. Será que há mais esposas defendendo sua vida contra seus maridos do que maridos contra suas esposas? Será que os maridos defendem mais sua honra do que sua vida? E será que as mulheres defendem mais sua vida do que sua honra? Não se trata de uma questão numérica, mas sim de uma questão simbólica. Defender a honra, defender a vida e ser louco podem ter o mesmo efeito jurídico – a absolvição - mas não o mesmo efeito simbólico. É preciso optar entre a loucura e a criminalidade, entre a vida e a honra. Para usar uma linguagem foucaultiana, trata-se de uma disputa em torno da verdade. “É o princípio da porta giratória: quando o patológico entra em cena, a criminalidade, nos termos da lei, deve desaparecer” (Foucault, 2001: 39). E quando se trata de defender a vida, não há lugar para a honra. Em todos esses dispositivos ou estratégias jurídicas, o que vemos é um uso contrastivo do gênero enquanto jogo simbólico entre feminino e masculino, uma categoria de diferenciação ou, segundo Strathern (1995), “... como instrumento de comparação”. Nesse sentido, o conceito relacional de gênero é muito bem apropriado pelo discurso jurídico – o feminino é definido em contraste com o masculino; a esposa em relação ao marido, os filhos em relação aos pais, e vice-versa -, já que casa com a própria lógica do direito – a
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Para uma discussão sobre parentesco e os valores atribuídos à consangüinidade e afinidade em diferentes sociedades, ver Radcliffe-Brown (1973; 1982), Evans Pritchard (1966), LéviStrauss (1982); Dumont (1953), Schneider (1980), Overing (1975; 1999), Viveiros de Castro (2002) e Fonseca (2004).

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lógica do contraditório, em que é preciso ter, pelo menos, duas versões para um mesmo evento. A perspectiva relacional do gênero permite tomá-lo enquanto

complexidade e não totalidade, isto é, como “... uma coalizão aberta que afirmará identidades alternadamente instituídas ou deixadas de lado de acordo com os propósitos do momento...” (Butler, 1990 apud Jayme, 2001: 4). Nesse sentido, gênero mostra-se como um importante locus para afirmar, reconhecer e contrastar identidades. Para o discurso jurídico, isso se mostrou fundamental, já que o contraste identitário entre vítima e acusado, mais do que o crime em si, é o que será decisivo para o desfecho do crime. Assim, como dito, a esposa adúltera ou má dona-de-casa, em contraposição ao marido trabalhador e portador de uma honra a ser preservada, acaba por ser responsável pelo crime de que foi vítima. O mesmo ocorre com a mãe desleixada ou com o pai alcoólatra assassinados pelo filho obediente e submisso. Outra implicação da perspectiva relacional do gênero é a crítica à definição de gênero enquanto construção social embasada nas diferenças sexuais. Segundo essa definição, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais é vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros. Tendo como sustentação a diferença sexual, vista como dada, natural, biológica, os pilares diferenciadores do gênero seriam levantados com rigidez e concretude. Tal perspectiva, além de essencializar as diferenças sociais, fornecendo a nós categorias dicotômicas de homens e mulheres e localizando o gênero na pessoa unitária, não percebe que a própria diferença sexual também é parte do arbitrário cultural. A não sobreposição entre gênero e dimorfismo sexual permite-nos pensar as configurações do feminino e do masculino em sujeitos em que a oposição principal não é a de sexo mas a de geração, como é o caso da relação entre pais e filhos. A categoria gênero transcende as categorias “homem” e “mulher”, uma vez que abarca duas outras mais gerais: masculino e feminino (Kofes, 1993:28-29). Não há, portanto, uma única masculinidade, assim como não há uma única feminilidade, justamente pelo fato de não estarem restritas, respectivamente, a homens e mulheres e, enquanto categorias, serem arbitrárias, contingentes e históricas. Isso possibilita explorar
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já a linha reta sugere rigidez. é frouxa. uma vestimenta. tons pastel são femininos e cores escuras. masculinas. refinando. voluptuosa e feminina. É preciso descolar o conceito de gênero de uma base sexual para apreender suas ramificações em outros níveis. 1996).as relações geracionais também como uma configuração das relações de gênero. Assim. em contraposição aos filhos que. 69 . como gênero. com isso. em contraposição à masculinidade da lã. uma vez que masculino e feminino transcendem categorias como homem e mulher. precisão e é considerada positiva. fazendo-se ouvir em outras formas de oposição. é possível apreender novas configurações do feminino e do masculino. Um objeto. não só entre marido e mulher. aproximando-se. por exemplo. flexível. pela prática. o masculino e o feminino têm se mostrado muito férteis para os atores jurídicos em suas disputas simbólicas em torno dos crimes. a textura dos tecidos e a direção das linhas) são marcadas por relações de gênero. rude e masculina. mostra como as vestimentas (a cor. Inserido nessa operatória intelectual. dura. entre gerações. geração e violência doméstica. A assimetria entre masculino e feminino extrapola a oposição entre os sexos. os atores jurídicos. acionam relações de gênero: os pais. pois. rija. A igualdade de gênero deve ser pensada para além da relação homem-mulher. um artefato qualquer pode ser considerado feminino ou masculino. uma cor. Enquanto “metáforas de poder” (Almeida. mas também entre pais e filhos. macia. foram encaixados numa simbologia do feminino. Desse modo. O discurso jurídico sobre os crimes em família evidencia. passiva. a seda é feminina. gentil. aquilo que foi escrito por algumas teorias sobre gênero: as desigualdades e as relações de poder fundamentadas no gênero não são um atributo da relação homem-mulher ou da conjugalidade. como. preguiçosa. do chamado “pensamento selvagem”. Sahlins (1979). temas importantes para a antropologia. Ao olhar para as gerações. inflexível. e tomando o sistema de vestuário como objeto para sua análise. puderam ser lidos a partir de um campo masculino. independentemente do sexo. ondulante. direta. ao julgarem os crimes entre gerações. na tentativa de apreender o pensamento burguês como uma operatória totêmica. tensa. a linha levemente curvada. também independentemente do sexo.

ou seja. é preciso que elas fiquem claras tanto ao pesquisador quanto a seus leitores. um “ninho de intrigas. Ao não olharem para o campo. o quanto essa escolha. explicando o alto índice de absolvições pela retórica da defesa e preservação da família. outros elementos se agregaram às pesquisas antropológicas. esses novos instrumentos permitiram sua expansão para novos temas. permitiu responder a tais questões e não a outras. não se trata de uma estatística mas de uma interpretação sobre esses casos: assim. vendo que as argüições dos atores jurídicos nos processos são estratégias cabíveis e condizentes com o ritual lúdico e teatralizado do Júri. novos contextos e novas questões. esse tipo de investigação. os estudos sobre violência doméstica “compraram” o discurso jurídico. vendo o quanto dela tem na pesquisa. Longe de descaracterizarem a antropologia. Em meu estudo. a metodologia deve fazer parte da reflexão do pesquisador. a pesquisa de campo permitiu-me “desconfiar” dos documentos. novamente. De lá para cá. enfocando apenas os arquivos.Considerações finais A pesquisa de campo e o método comparativo são alguns dos elementos que constituíram a antropologia enquanto tal. refinando meu olhar sobre os crimes estudados. Já nos 70 . mas do reconhecimento de que ela é um “caso complicado”. para usar uma expressão de Schritzmeyer (2001). é preciso fazer escolhas metodológicas e ter consciência delas – em outras palavras. Por fim. os crimes de filhos contra pais ganharam inteligibilidade com o discurso sobre loucura. chegando aos seguintes resultados e não a outros. umas vez que não se trata de um dado mas de uma estratégia de pesquisa. apesar de ser assim que os atores jurídicos querem demonstrar. os de pais contra filhos com as noções de autoridade e hierarquia familiar. Isso me levou a um novo direcionamento: não se trata de uma defesa da família por parte da justiça. tais como o estudo em sociedades ditas capitalistas e a pesquisa de arquivo ou documental. Diante de tantas possibilidades de investigação. podemos ver quais os argumentos predominantes em cada situação – e. Ao comparar os crimes. conflitos e crimes”. Enquanto estratégia. a comparação permitiu-me uma maior compreensão de meu objeto de estudo através da percepção das recorrências e singularidades de cada caso estudado.

Clifford. A Polícia das Famílias. em um pólo masculino. 54. n. “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura”. Michel. Universidade Estadual de Campinas/IFCH. 71 . “The Dravidian Kinship Terminology as an Expression of Marriage”. pude discutir as diferentes configurações da categoria de gênero nos crimes em família: os filhos e as esposas foram lidos a partir de um pólo feminino. Daniela Moreno. Rio de Janeiro: LTC. GARAPON. São Paulo: Martins Fontes. E. São Paulo: Annablume/FAPESP. Dissertação de mestrado em Antropologia Social. 2004. 2ª ed. 1953. é o pesquisador quem os tem na mão. fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. FERIANI. “Delegacias de Defesa da Mulher e Juizados Especiais Criminais: Contribuições para a Consolidação de uma Cidadania de Gênero”. “Gênero. Rio de Janeiro: Revan. Janeiro de 2009. 40: 283. 1989. ao final. P. Graal. 1998. In: Anuário Antropológico/95. Morte em família: representações jurídicas de papéis sexuais. FOUCAULT. 2001. Diante da multiplicidade da antropologia. Petrópolis: Vozes. Os anormais. Miguel Vale de. Oxford: Clarendon. Louis. In: O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Jacques. 1983. CORREA. In: A interpretação das culturas. 2005. “O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa”. Ao cruzar essas interpretações. “Violência. _____________. 2008. Kinship and Marriage among the Nuer. Família e o Tribunal do Júri”. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais. enquanto os maridos que matam suas esposas defendiam a honra. __________________. ______________. em um primeiro momento. GEERTZ. E. 1966. 1986. 1996: 161-189. FONSECA. família e gerações: Juizado especial Criminal e Tribunal do Júri.crimes entre cônjuges. DUMONT. Graal. percebe-se (ou se deveria perceber) que foram eles que o guiaram. é preciso escolher os métodos – e se. “Aliados e Rivais na Família: o conflito entre consangüíneos e afins”. Porto Alegres: Editora da UFRGS. O juiz e a democracia: o guardião das promessas. esposas que matam seus maridos foram vistas como defendendo a vida. Referências Bibliográficas ALMEIDA. In: Família. 1998. Campinas: PAGU/UNICAMP. ano 10. Antoine. IZUMINO. In: Man. Rio de Janeiro: Ed. Cláudia. História da loucura. 2002. Rio de Janeiro: Ed. 2001. Mariza. DEBERT et alli. Justiça e Violência contra a Mulher: o Papel do Sistema Judiciário na Solução dos Conflitos de Gênero. masculinidade e poder: revendo um caso do sul de Portugal”. 2ª ed. DONZELOT. os pais e os maridos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. W. Entre pais e filhos – Práticas judiciais nos crimes em família. EVANS-PRITCHARD. In: Coleção Encontros – Gênero. São Paulo: Perspectiva.

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gênero. geração. mormente no que diz respeito à proximidade com o grupo pesquisado e aos limites de construção de alteridades no trabalho de campo. reflito sobre minha inserção no campo de pesquisa a partir da dupla condição de antropóloga e policial. papéis e conflitos na trama de relações sociais das quais participam. hoje. por exemplo. a penetração da pesquisa antropológica nos centros urbanos promoveu uma aproximação entre pesquisador e “objeto” que repercutiu na trajetória e nos métodos 41 Os argumentos deste artigo foram expostos anteriormente em minha dissertação de mestrado (Melo da Cunha. Ao contrário.. família e parentesco. política etc. Gilberto Velho (2003a: 15) O esforço de análise deste artigo é pensar o ofício antropológico em contextos nos quais os sujeitos vivenciam cotidianamente diferentes lógicas. religião. o vizinho. também em outros campos de estudo a dinâmica de separação e distanciamento entre “nós” e “eles” é problematizada. a pesquisa em contextos urbanos. vida artística e intelectual. Nesse sentido. 73 . que implicam lidar com a problemática da familiaridade e do estranhamento”. multiplicam-se os trabalhos de pesquisa sobre camadas médias. Diferente da pesquisa em sociedades geográfica e culturalmente distantes do antropólogo. Para cumprir tal propósito. a ênfase dada a essa discussão é do quanto mais evidente – ou menos disfarçada – essa relação se apresenta em determinado contexto. o que compromete o estabelecimento de contornos rígidos para localizar as diferenças que distinguem os sujeitos no encontro etnográfico. o amigo. Meu intuito ao refletir sobre tal experiência é pensar as implicações metodológicas do encontro de duas atividades profissionais distintas. 2008). essas questões não se apresentam somente no campo da antropologia urbana. estudar o próximo. Por conseguinte.Da investigação policial à investigação antropológica: implicações da proximidade e do distanciamento na pesquisa antropológica41 Flávia Melo da Cunha “O fato é que. já não é um empreendimento tão excepcional. confronta-se com sujeitos (pesquisadores e pesquisados) imbricados em múltiplos vínculos e papéis sociais. Obviamente. onde as fronteiras – a partir das quais as alteridades de antropólogos e “nativos” são construídas – aparentam maior nitidez.

negros. Destarte. tal interesse ancorava-se no compartilhamento de valores e convicções políticas. tal familiaridade não é sinônimo de conhecimento científico. a construção do estranhamento dentro de uma realidade aparente ou circunstancialmente familiar (Velho. a ausência de distanciamento geográfico e cultural e do desconhecimento da língua nativa – aspectos determinantes da etnografia clássica – impõe ao pesquisador adotar procedimentos que lhe possibilitem resguardar-se de sua cultura para melhor compreender o grupo estudado. produzindo antes uma “participação subjetiva e observante” do que uma “observação objetiva e participante” (Durham. contudo. tais como mulheres. 1981). nem sempre contribuiu para a qualidade desses estudos. 1986: 26). Trata-se de uma proximidade relativa porque. nos termos de Roberto Da Matta (1981). segundo a autora. homossexuais. moradores de rua. é através de uma rede de relações precedente à investigação que muitos pesquisadores chegam aos grupos e temas de seu interesse (Velho. envolvimento que. entre outros. portanto. Eunice Durham (1986) assinala que desde os trabalhos precursores da antropologia no Brasil muitos estudos dedicaram-se aos problemas vividos na cidade e estes se configuraram como uma espécie de auto-etnografia da sociedade brasileira. Da Matta. sobretudo se considerados familiares. participar de uma mesma sociedade e guardar com o grupo pesquisado certo grau de compartilhamento cultural não constitui o conhecimento específico construído pela pesquisa antropológica e denota diferentes formas de estar no mundo e conhecê-lo. adverte para o risco de a 74 . é possível enumerar centenas de estudos nos quais a proximidade com o tema investigado não é algo extraordinário. 1978. Essa tendência é notada no Brasil desde meados dos anos 1960. instigando o olhar atento e cauteloso do pesquisador aos acontecimentos a sua volta.antropológicos e estabeleceu uma dinâmica de permanente revisão de suas técnicas e refinamento de seu instrumental analítico a fim de garantir o controle da dimensão valorativa e lidar com o problema da familiaridade e do estranhamento. dedicada a assuntos do cotidiano de grupos marginalizados. usuários de drogas. A pesquisa em tais circunstâncias exige. Com freqüência. atualmente. as pré-noções devem ser cuidadosamente avaliadas e colocadas sob a égide da típica suspeição antropológica. Durham reconhece a relevância da empatia com os grupos estudados para facilitar a apreensão das categorias nativas. 2003a). Não raras vezes. Ademais. prostitutas.

prisionais e judiciais. Isso é particularmente relevante no caso de pesquisas em instituições policiais. Ora. pois resultou da confluência de duas experiências vivenciadas concomitantemente entre os anos de 20012005. a delegacia de mulheres anexava fotografias das mulheres lesionadas à documentação enviada aos juizados especiais e às varas criminais. os ferimentos sofridos. a inserção em determinados campos seria certamente mais difícil e mesmo inviável caso inexistisse um liame anterior entre pesquisadores e grupos ou instituições estudadas. se tal proximidade é fator comprometedor da pesquisa sob alguns aspectos. A fotografia sinalética foi desenvolvida no século XIX e compõe. 1995: 80). lenços. A pesquisa de mestrado por mim desenvolvida no Programa de PósGraduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) caracterizou-se por essa proximidade. fui encarregada de produzir fotografias de mulheres lesionadas fisicamente para composição de inquéritos policiais ou termos circunstanciados remetidos à justiça42. Dentre as atividades rotineiras na delegacia. e também no intuito de sensibilizar conciliadores e juízes. um conjunto de técnicas conhecidas como bertilonagem . Consiste em fotografia comum com distância focal que permita calcular o tamanho real do indivíduo.denominação derivada do nome de seu criador. roupas largas. Todavia. óculos escuros. Por tais razões. de frente e de perfil direito (Croce. quando concluí a graduação em Ciências Sociais e trabalhei como investigadora de polícia civil na Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher de Manaus/AM (DECCM). sequer o laudo de exame de corpo de delito estava disponível quando das audiências na justiça criminal. nas quais os pesquisadores freqüentemente se deparam com empecilhos para acessar documentos e dependências.explicação nativa suprimir a antropológica. 43 75 . se todo o esforço da observação participante é obter a confiança do grupo para chegar às senhas de acesso aos códigos da cultura estudada. Nessas ocasiões. Apesar de o rito – análogo ao da fotografia sinalética de Bertillon43 – transformar a confecção dessas fotografias em uma sucessão de posturas 42 Em razão da demora existente na apuração criminal e na tramitação dos processos judiciais. muitas das vítimas do crime de lesão corporal não mais apresentavam sinais físicos da violência e. sem sucesso.e baseadas nos princípios da antropometria. elas costumavam chegar envoltas em xales. o francês Alphonse Bertillon . quando o pesquisador a possui a priori é necessário investir em outros aspectos a fim de que tal proximidade não deprecie a pesquisa desenvolvida sob tais condições. juntamente com o retrato falado e a datiloscopia (estudo das impressões digitais). em alguns casos. acessórios utilizados para ocultar.

segundo o qual o pesquisador deve construir uma inserção tal na vida da comunidade pesquisada de modo a garantir o máximo de compartilhamento possível das categorias nativas a fim de interpretar coerentemente a cultura estudada. em conversas informais. são regulamentadas em leis estaduais específicas. vivenciei esta experiência como estudante de Ciências Sociais e policial civil ao apropriar-me das categorias acadêmicas para interpretar os fatos típicos da rotina policial. é relevante refletir sobre o ethos de cada uma dessas experiências e as implicações desse multipertencimento. mas principalmente a elas. Conhecer as histórias daquelas mulheres despertou meu interesse pelo estudo de casos de lesão corporal e provocou minha primeira aproximação com questões relacionadas à violência praticada contra a mulher e aos estudos de gênero. A expressão. 76 . Meu interesse foi ainda mais aguçado pelo aparente agravamento dos casos de lesões corporais observado no ano de 2004. Portanto. foi através da “participação observante” que forjei as primeiras indagações de minha pesquisa de mestrado. Inversamente. Ambivalências do exercício policial Na hierarquia da Polícia Civil do Amazonas44 existem quatro classes 44 Segundo a Constituição Federal de 1988 (art. Essa experiência foi intrigante e instigante. do percurso metodológico adotado e também do modo como minha análise foi forjada pela dupla inserção no campo.Lei nº 2. é um trocadilho de observação participante. mencionavam a vergonha sentida diante dos outros e do próprio corpo. 144 § 4º). também empregada por Durham (1986: 26). sistematizei muitas inquietações e constatações daquele período no projeto de pesquisa. Esta relação é emblemática para a compreensão da construção do problema de minha pesquisa. No caso do Amazonas. método consagrado pela pesquisa antropológica.271 de 10/01/1994. O ato de vê-las despidas de seus “disfarces” e a exibição de seus ferimentos causava grande constrangimento e desconforto a mim. Por ocasião dos estudos de pós-graduação. as mulheres atendidas. por tal razão. logo. a regulamentação é feita através do Estatuto do Policial Civil do Amazonas . as polícias civis desempenham a função de polícia judiciária e são competência dos estados da federação e.previamente determinadas e com pouca ou nenhuma intervenção dos sujeitos fotografados.

isto é. feita uma denúncia.689 de 03/10/1941). os depoimentos secretos das testemunhas. supõe sua probabilidade. À defesa do acusado este sistema contrapõe o interrogatório do suspeito. assistentes sociais e psicólogos) e apoio à autoridade policial. A essência dessa atribuição está relacionada à constituição do inquérito policial47. executar prisões ou conduções coercitivas e zelar pela ordem e segurança da delegacia. A preponderância dessa lógica de formação da culpa é fundamental para compreender o ethos da atividade policial. 1989: 03)45. a investigação criminal. efetuadas sem o seu conhecimento. vítimas ou autores de crimes. Tais ações consistem em reunir provas. instrumento formal da investigação criminal presidido pela autoridade policial: “o inquérito policial existe em nosso ordenamento jurídico em face da formação da culpa (preliminar). O sistema procura fornecer ao juiz indícios para que a presunção seja transformada em realidade” (Kant de Lima. 47 Artigos 4º a 23 do Código de Processo Penal (Decreto-lei nº 3. de tradição romana e canônica.componentes do núcleo organizacional da instituição: autoridade policial (delegados). peritos criminais. Todas as classes são subordinadas ao delegado de polícia e as classes de agente e auxiliar estão no mesmo patamar hierárquico. auxiliar da autoridade policial (escrivães. Como a lógica judicial brasileira é fundamentada em “princípios inquisitoriais” (Kant de Lima. “no sistema inquisitorial. 46 De acordo com o delegado federal Célio Santos (2006). Em 1841. a atividade retornou à polícia. não só para proteger a reputação de quem é acusado. apurar a procedência das denúncias. 45 Segundo Roberto Kant de Lima. 77 . preservar vestígios do crime. cumpre o dever de constatar a existência do crime através de provas materiais e testemunhais e indicar os responsáveis por sua autoria. O sistema inquisitório não afirma o fato. até anônima. 1989: 04). Segundo o estatuto do policial civil do Amazonas. ao final das investigações sigilosas e preliminares. ocasião em que foi atribuída ao Juiz de Paz. agente da autoridade policial (investigadores). função típica da polícia46. determinadas pela autoridade policial. presume um culpado e busca provas para condená-lo. de diligências investigativas atinentes à coleta de elementos de convicção destinados a embasar a acusação criminal” (Penteado Filho. compete aos investigadores de polícia a execução das ações constitucionais de polícia judiciária. a investigação criminal foi atividade realizada exclusivamente pela polícia do descobrimento até o ano de 1827. identificar e intimar testemunhas. preferindo-se as formas escritas às verbais. ao confronto público. mas também para proteger aquele que acusa de eventuais represálias de um poderoso acusado. efetuam-se pesquisas sigilosas antes de qualquer acusação.

Seu relato consistiu numa descrição detalhada da organização e funcionamento dos distritos policiais na cidade de São Paulo. e os tipos de demanda desde então apresentados pela sociedade a essas delegacias especializadas atribuíram-lhe caráter e status muito distintos das demais unidades policiais. prevenção. Ademais. muitos cientistas sociais brasileiros dedicaram-se ao estudo das práticas policiais no Brasil (Paixão. 1989. 1982. aconselhamento e investigação não-criminal. a importância do inquérito policial como principal atividade da investigação criminal foi cada vez menor nas delegacias de mulheres. compreender as práticas policiais requer muito mais do que a descrição de suas atribuições legais. o autor indica a existência de um elemento geral de identificação da ação policial em todos os países analisados: o uso legitimado da força na regulação da vida social. David Bayley (2006) realizou estudo comparativo detalhado sobre o trabalho policial em diferentes países e seus resultados indicaram uma surpreendente variedade de funções e atividades atribuídas à polícia que incluíam. 2006). Nesse 78 .2002: 03). Dentre outros aspectos. A mobilização política do movimento feminista incitou a criação das delegacias de mulheres (doravante. A observação da rotina da delegacia de mulheres de Manaus/AM acrescentou outros elementos a essa reflexão. entre 1995 e 2006. No entanto. Mingardi enfatizou a importância do inquérito policial na dinamização da atividade da polícia judiciária e descreveu em pormenores os arranjos construídos em cada distrito policial para seleção e priorização de tipos de crime e vítimas. além da investigação criminal. DEAMS) no Brasil. 1992. Com a mesma perspectiva de compreender a polícia através de suas ações. Mingardi. O trabalho de Guaracy Mingardi (1992) merece destaque por seu ineditismo à época em que foi realizado: no ano de 1985 o autor decidiu ingressar na polícia civil para investigar a instituição a partir da observação participante. Kant de Lima. Menciono alguns deles. definição do papel de cada uma das equipes da unidade. hierarquização entre e interclasses e participação de colaboradores externos à polícia. Poncioni. Dentre as várias atividades.

Durante o período em que trabalhei na delegacia de mulheres e realizei a pesquisa de campo. assistência social ou psicológica e orientação jurídica. orientar as usuárias. 11. Desde a vigência da Lei nº. em substituição do inquérito policial.259 de 12/07/2001 estendeu a definição às penas de até dois anos. segurança da carceragem e da delegacia). a atividade de investigação policial foi gradativamente esvaziada e a maior ênfase do exercício policial nas DEAMS concentrou-se em práticas cartorárias. como a maior parcela de crimes atendidos pelas DEAMS foi englobada pela classificação de crime de “menor potencial ofensivo”. confeccionar requisições de exames periciais e intimações). encaminhamento a outros serviços). especialmente na confecção dos termos circunstanciados de ocorrência (TCO)50. atividades de recepção (dar informações. que estudou o tratamento da violência doméstica nos juizados especiais criminais de Campinas/SP.período.099/1995 não pode mais ser aplicada. atenção a crianças. atividades de investigação (entregar intimações. as atribuições desempenhadas pelos investigadores de polícia podiam ser organizadas em seis grupos: atividades cartorárias (registrar boletins de ocorrência.099/1995 também criou os juizados especiais criminais (JECRIM) e formalizou um procedimento de apuração criminal segundo os princípios da celeridade e da informalidade que resultou nos termos circunstanciados de ocorrência. atividades de prevenção (palestras. a Lei nº. manutenção de armamentos. a Lei nº 9. em caso de caracterização da violência doméstica e familiar contra a mulher. 79 . na 48 Esta lei instituiu a definição de menor potencial ofensivo para crimes e contravenções penais cuja pena máxima fosse de até um ano. agendar audiências. Por concentrar tantas atribuições.099 de 26/09/199548 ainda era aplicada aos crimes praticados contra a mulher no âmbito doméstico ou familiar49. 9. atendimento psicológico. atividades burocrático-administrativas (entregar relatórios estatísticos. 50 49 A este respeito. condução a hospitais. atender ao telefone e operar o rádio). mas a Lei nº 10. protocolar documentos) e atividades assistenciais (transporte de mudanças. receber presos. A Lei nº 9. consultar também o trabalho de Marcella Beraldo Oliveira (2006: 13). Esse processo repercutiu particularmente nas atividades típicas dos/as investigadores/as de polícia e a investigação criminal passou a ser cada vez mais suprimida por atividades de aconselhamento. blitz informativas). a equipe de investigação representava a porta de entrada à delegacia tanto para vítimas quanto para autores de crimes e. procedimento aplicado pela polícia judiciária aos crimes de menor potencial ofensivo. A autora menciona a prevalência dos crimes de ameaça e lesão corporal dentre os processos encaminhados pela DEAM ao JECRIM.340 de 22/08/2006 (conhecida como Lei Maria da Penha).

o recurso privilegiado dos mais pobres à polícia (Debert. 2006) reflete a escassez de recursos dessa população para administração dos problemas mais diversos e a conseqüente importância adquirida pela polícia para responder às demandas desse segmento da população. Tais arranjos compunham a rotina dos/as investigadores/as de polícia da delegacia de mulheres. também observado em outras polícias do mundo. mas. como preocupação principal. o conjunto de ações desenvolvidas por um policial resulta dos arranjos elaborados a partir desses aspectos. moldar o policial para um comportamento legalista. 2006b. (Poncioni. as academias de polícia orientam o exercício policial a enfatizar somente a perspectiva legal de suas atribuições. numa versão burocráticomilitar com forte ênfase no “combate ao crime”. omite-se em sua preparação a multiplicidade de tarefas que é exercida no trabalho diário policial e que não se restringe apenas à solução de problemas estritamente legais ou penais. era a única à qual tinham acesso. de acordo com Poncioni (2006).maior parte das vezes. A despeito de tamanhas contradições. Não obstante tal realidade. nota-se a existência de ao menos dois aspectos para compreender o exercício policial: o que a polícia é designada a fazer segundo o ordenamento jurídico de cada sociedade e as diversas situações não-criminais com as quais deve lidar frente aos problemas trazidos pela sociedade. Destarte. Em razão da orientação recebida nas academias de polícia. Das atribuições legais à diversidade de atividades realizadas. 2006: 158) Tal contradição acarreta prejuízos ao serviço prestado pelas polícias porque as ações “sociais” são inevitavelmente realizadas por agentes despreparados para tais fins e que não as concebem como apropriadas à sua função policial. as atividades que caracterizam o caráter assistencial do exercício policial são percebidas como depreciativas e distantes da função primordial de combate ao crime. como assevera Paula Poncioni (2006) em pesquisa realizada sobre academias de polícia civis e militares do Rio de Janeiro: [a] formação profissional nas academias de polícia expressa uma determinada concepção do fazer policial que privilegia. Esse é um aspecto importante não apenas na constituição das delegacias de mulheres. quase exclusivamente. configurando-se como espaço público por 80 . Poncioni.

algumas aproximações entre a pesquisa antropológica e o exercício policial são analiticamente possíveis. antropólogos e historiadores procuram coisas semelhantes através de métodos e finalidades diferentes: é aqui que a analogia entre inquisidores e antropólogos (e historiadores também) se revela ambígua nas suas implicações. Na verdade. A proposta de Ginzburg (1989) parte da comparação entre atas dos tribunais eclesiásticos e textos antropológicos como os de E. porém. propõe relacionar o inquisidor à confissão e o 81 . tão diferente daquilo que procuramos – diferentes eram sim os meios que usavam e os fins que tinham em vista. ao refletir a respeito dos escritos de inquisidores sobre bruxaria e de EvansPritchard sobre a religião nuer. Miranda (2001) discorda das semelhanças identificadas por Ginzburg. muito embora ressalve que conflito e desigualdade são componentes desse diálogo nos dois casos. (Ginzburg. não se trata de um exercício original. Finalmente. Segundo Ana Paula Miranda (2001: 92). O que os juízes da Inquisição tentavam extorquir às suas vítimas não é. o primeiro a apresentar tal proposta foi o antropólogo Renato Rosaldo (1986).excelência para resolução de problemas aos quais a lei e as demais instituições sociais não respondem. Inquisidores. foi o artigo do historiador Carlo Ginzburg (1989) que adquiriu maior notoriedade.E. Evans-Pritchard para afirmar que inquisidores. pois outros autores propuseram exercício semelhante ao relacionar analogamente o rito inquisitorial – princípio da investigação policial e da lógica judicial brasileira – ao rito da pesquisa científica. policiais e antropólogos Muito embora sejam atividades com grandes distinções. conclui que o esforço em traduzir e interpretar crenças desconhecidas faz parte das verdades construídas por inquisidores. 1989: 206) Ao observar a seqüência de perguntas e respostas típicas dos interrogatórios inquisitoriais e das entrevistas dirigidas por pesquisadores – antropólogos ou historiadores – o autor reconhece nova semelhança e enfatiza a estrutura dialogal presente em ambas. antropólogos e historiadores. afinal.

muito embora também angarie provas para justificar seus argumentos.antropólogo à confidência e ressalta o aspecto compulsório da primeira relação e o espontâneo da segunda. além das narrativas policial e antropológica. no primeiro caso de iniciativa das usuárias: são elas que interpelam o policial para comunicar um fato – criminoso ou não – e exigir providências. afinal. delimitados segundo critérios diversos e traduzidos em linguagem apropriada para cada um dos campos nos quais estão inseridos. que não está compromissada com a composição da culpa – como a atividade policial –. sua crítica é limitada. Inspirada pelo debate suscitado nas reflexões de Ginzburg e Miranda. que também devem ser questionadas e problematizadas. Para a autora. 82 . Na abordagem antropológica. detive-me no tipo de relação estabelecida entre os sujeitos envolvidos na delegacia e no encontro etnográfico. convertendo-as em processos criminais ou relatos etnográficos. no primeiro caso de prestação de serviços e no segundo de colaboração ou adesão. inventariei alguns aspectos característicos dos fazeres policial e antropológico no intuito de identificar aproximações e distanciamentos entre eles. conforme as normas jurídicas ou científicas vigentes. outras narrativas estão em jogo e tanto a usuária da delegacia quanto o sujeito pesquisado escolhe de acordo com interesses diversos o que policial e pesquisador devem conhecer. Para isso. a iniciativa é do pesquisador. O tipo de abordagem denota a relação estabelecida entre os sujeitos. considerando a relação construída entre usuárias da delegacia e policiais e entre sujeitos pesquisados e pesquisadores. o repertório do diálogo entre eles e os convence ou não a participar da pesquisa. que previamente escolhe seus “informantes”. Com base nas narrativas oferecidas por usuárias e “informantes”. A primeira diferenciação diz respeito à abordagem. os fatos em sua real dimensão são recortados. Nesses contextos. O tipo de relação estabelecida é fundamental para distinguir a finalidade do conhecimento produzido pela antropologia. policiais e antropólogos constroem suas verdades e confeccionam suas próprias narrativas. a perspectiva dialogal pressupõe igualdade de direitos e condições eqüitativas de falar e ouvir. ausentes no interrogatório inquisitorial. à espontaneidade e à eqüidade atribuídas pela autora à pesquisa antropológica. Nos dois casos. Muito embora pertinente.

assinalando tanto o trânsito entre diferentes domínios como a diversidade de papéis sociais desempenhados em cada um deles (Velho. o cerne de ambas expressões designa a mesma experiência de múltipla participação. antropóloga e militante feminista. refiro-me a minha participação em diferentes âmbitos sociais. No entanto. Ao classificar minha condição como multipertencimento profissional. expressão à qual atribuo acepção idêntica à empregada por Gilberto Velho (2003b). Não obstante. a autora adotou o termo multiengajamento para designar os vínculos com a polícia civil. particularmente no que tange à condição de antropóloga e policial. minha formação policial não foi omitida ou depreciada. acadêmico e/ou militante em diferentes âmbitos sociais. 2003b: 42). Reflexão semelhante foi desenvolvida por Victória Santos (2006). mas a ênfase atribuída à expressão engajamento denota sua adesão política ao movimento de mulheres. O diálogo da autora com a definição de Velho é notório. psicóloga policial. Por multipertencimento o autor designou a diversificação de experiências vivenciadas simultaneamente pelos indivíduos em diferentes âmbitos da vida nas sociedades contemporâneas. cujos pressupostos exigiram a transformação da condição de 83 . Preservo a expressão multipertencimento para assinalar o duplo vínculo com academia e polícia e refletir sobre suas implicações para a pesquisa antropológica. O primeiro diz respeito ao multipertencimento profissional. Nesse caso.Em face de tais considerações. pertencimento ou engajamento profissional. Implicações do multipertencimento profissional A confluência entre a pesquisa acadêmica e a atividade policial repercutiu na pesquisa desenvolvida durante o mestrado sob vários aspectos que pretendo discutir. o programa de pós-graduação e o movimento de mulheres. mas valorizada como forma privilegiada de aproximação com mecanismos distintos de construção de verdades e intervenção social no intuito de enriquecer a pesquisa. a interpretação antropológica foi privilegiada a fim de compreender os conflitos e sujeitos estudados nesta em sua complexidade.

muito embora não fosse uma pesquisadora “como as outras”. pois o acesso privilegiado às informações de instituições e grupos com os quais existe um vínculo anterior exige prudência maior na 84 . para os quais tais ritos atuam como mecanismos de inteligibilidade das mudanças vivenciadas pelos grupos sociais e também pelos indivíduos. Foi justamente no intuito de estabelecer tal socialização controlada no processo da pesquisa de campo na delegacia de mulheres que adotei uma série de procedimentos. adotei alguns procedimentos com a finalidade de comprometer o menos possível os resultados da pesquisa e a utilização das informações policiais. é demasiado oportuna a assertiva de Victória Santos (2001). ao ponderar minha condição de dentro e almejar a construção de um olhar distanciado. para quem o “trabalho de campo pode ser visto como uma experiência subjetiva que faz da busca do outro um encontro consigo mesmo.] e esta interação permite reflexões novas e interdiscursivas” (Santos. onde o processo de conversão antropológica é incessante. mas construída cotidianamente no campo. Por tais motivos.policial à de pesquisadora. Evidentemente. No processo de conversão. 1981: 152). Segundo o argumento de Da Matta a respeito dessa passagem como marco do trabalho de campo na antropologia. Em razão dos estudos de pós-graduação.. [. como os ritos de passagem. “o trabalho de campo. A esse processo relaciono a analogia feita por Da Matta (1981) entre a iniciação no trabalho de campo na pesquisa antropológica e os ritos de passagem. empiricamente ela não foi definitiva. tal como analisados por Arnold Van Gennep (1978) e Victor Turner (1974). Meu retorno marcou nitidamente a passagem de um status a outro. implica pois na possibilidade de redescobrir novas formas de relacionamento social por meio de uma socialização controlada” (Da Matta. a transição não aconteceu sem conflitos e foi observável apenas analiticamente. afastei-me do exercício policial e retornei à delegacia um ano depois para realização de pesquisa de campo. 2001: 131). manifesta inclusive na mudança do tratamento recebido dos funcionários da delegacia. Para os antigos pares hierárquicos – conhecedores de meu vínculo institucional – eu não era mais uma “colega de serviço”.. Nesse caso. pude descortinar e criticar muitos dos procedimentos executados por mim mesma diversas vezes durante o exercício policial.

decidi desenvolver o levantamento estatístico dos casos de meu interesse nos arquivos da unidade. mas problematizadas a fim de que uma reflexão apurada sobre as exigências da proximidade e do estranhamento com nossos objetos de pesquisa seja construída. Haja vista que cada vez mais antropólogos se deparam com o multipertencimento e não raras vezes dediquem-se ao estudo de instituições e grupos dos quais participam. pois são marcas de minha trajetória e não pude. nem pretendi. Embora outras formas de identificação fossem possíveis – consulta a prontuários médicos do Sistema Único de Saúde (SUS) ou a processos judiciais das varas criminais. Com o mesmo intuito. selecionei mulheres que não conheci durante o exercício policial. Na ocasião. muitas das informações do período de participação observante na delegacia ficaram presentes em minha narrativa. uma possibilidade. 85 . à realização de entrevistas com funcionários e à observação do caminho percorrido pelas usuárias da delegacia da confecção do registro de ocorrência até a execução dos procedimentos de apuração criminal. coleta de informações em associações de bairro ou grupos de proteção a mulheres –. A despeito desses esforços. e não um dado. as condições de produção da pesquisa não devem ser eclipsadas. a alteridade é uma construção. considerei importante utilizar documentos nos quais os mesmos critérios de classificação penal fossem empregados. o ingresso facilitado às dependências e o acesso irrestrito aos arquivos da delegacia de mulheres foram fatores decisivos para elegê-los como ponto de partida da pesquisa. considerei o segundo ano de mestrado mais apropriado para a realização das entrevistas. apagá-las. Ademais. Nesse sentido.utilização de dados conhecidos antes mesmo da pesquisa. dediquei-me à consulta de arquivos. A alteridade não é uma questão resolvida de antemão. o antropólogo se transforma no campo em um contínuo exercício de sair de si e não se projetar nas narrativas construídas sobre os outros. Durante a pesquisa na delegacia. Quando as condições permitiram. Como não existe na cidade de Manaus outra delegacia de mulheres. pois. restringi as visitas aos dias de serviço de equipes plantonistas com as quais não tinha familiaridade.

Iracema Dulley (2008) sugere que esse processo de construção de diferenças e alteridades é produzido performaticamente segundo uma perspectiva relacional. isto é. a participação de ambos e a representação de uns sobre os outros. Em decorrência da relação amigável estabelecida com a instituição. Nesse sentido. os sujeitos envolvidos no campo são a priori distintos entre si e o trabalho de campo é construído com tal prerrogativa. portanto. é também adequada para pensar as relações construídas entre pesquisadores e pesquisados no encontro etnográfico como um arranjo resultante das representações que uns têm dos outros: a pactuação de códigos realizada pelos diversos agentes ao se depararem com a alteridade é performática. Uma de minhas maiores inquietações ao iniciar a pesquisa de campo na delegacia de mulheres estava relacionada às estratégias empregadas para reaproximar-me da instituição onde trabalhara e solicitar autorização para consulta aos arquivos e documentos que eu mesma ajudara a produzir. tal como asseverado pela autora em tela. no sentido de que é a partir da representação que se tem de outrem e da idéia que se faz da representação que esse outrem tem de si que se age de determinada maneira (Dulley. Esse processo implica. referente ao contexto de missionação em Angola e às relações entre missionários e evangelizandos. A “facilidade” e o “privilégio” no acesso às informações provocaramme grande incômodo e me conduziram a opções metodológicas através das 86 .A construção do lugar do outro na pesquisa A construção de alteridades implica na dinâmica de estabelecimento de diferenças entre eu e o outro. reconhecer e acirrar tais diferenças são exigências para construção do distanciamento. a relação construída no encontro etnográfico se fundamenta no pressuposto da diferença. a construção do lugar do “outro” na pesquisa antropológica não depende exclusivamente do arsenal teórico-metodológico empregado pelo pesquisador. mas do modo como a relação entre antropólogos e “nativos” é estabelecida no encontro etnográfico. pois. Segundo a proposta antropológica. presumi que o acesso a funcionários e documentos não seria um obstáculo à realização da pesquisa. Sua análise. 2008: 137).

pela manhã. Fui interpelada por uma usuária que procurava explicações sobre como fazer uma denúncia na delegacia de mulheres. enfim. registrado em meu caderno de campo: Hoje. Antes de solicitar a informação de que necessitava. minha trajetória e escolha de pesquisa me constituíram uma pesquisadora “da casa”. causou-lhe desconfiança porque não era a primeira vez que aquela senhora utilizava os serviços da delegacia e me reconhecera de outra ocasião. da escolha das equipes de trabalho. a senhora indagou-me se eu era policial. Sua pergunta surpreendeu-me. minha identidade policial seria “revelada” em episódios como este. muito embora eu me imbuísse de um novo status. Depois de obter a informação desejada. estava sentada em uma das mesas da recepção enquanto aguardava ser recebida pela delegada. muito embora eu não me recordasse dela. não obstante todos os cuidados para estabelecer a distância necessária e não mais ser identificada como policial. no entanto. Eu imaginara que tais precauções fossem suficientes para dirimir os limites da familiaridade com meu objeto de 87 . eu já vim aqui outras vezes e ela me atendeu!” (Diário de Campo) Dentre tantos cuidados. principalmente as mulheres vítimas de violência de quem eu também me reaproximara no percurso da investigação. respondi-lhe negativamente e encaminhei-a a uma policial plantonista para que fosse atendida. Minha negativa.quais percebi muito dos limites e possibilidades de minha experiência no campo. ela retornou à fila de espera e eu pude escutar seu diálogo com outras mulheres que aguardavam atendimento: “Você já veio aqui antes? Aquela moça não é policial? É sim. eu negligenciara justamente a dinâmica relacional do encontro estabelecido com os “outros” de minha pesquisa. da triagem dos dias de observação. ao chegar à delegacia de mulheres para mais um dia de observação. A despeito de todas as precauções adotadas. mas sem hesitar. “diferente das outras” e. Todas as minhas precauções estavam exclusivamente relacionadas à minha proximidade com a rotina policial e os funcionários dessa instituição. porém.

isto é. eu não percebia proximidade alguma com as mulheres por mim categorizadas como vítimas de lesão corporal ou estigmatizadas. também o meu lugar. eu não havia colocado o mesmo problema e tampouco planejado adotar tamanhos cuidados porque não me identificava com tais sujeitos.estudo. Entretanto. Foi somente depois do episódio narrado acima que pude perceber como a problemática da alteridade se apresentava com maior ênfase durante a pesquisa na delegacia de mulheres justamente porque naquele espaço eu me reconhecia em alguns dos “outros” de minha pesquisa. desempenhada com limites. ao forjar o estranhamento e o distanciamento com policiais e mulheres vítimas de violência. acirrei diferenças. estabeleci aproximações e distanciamentos e pude observar com outras lentes aquele mundo que me parecia tão próximo. os policiais. Nesse sentido. em determinada medida. Demorei a perceber também nesta relação a exigência de construir mecanismos de estranhamento e distanciamento com a mesma clareza com que percebi isso em relação aos policiais e à rotina da delegacia. sugerida no processo de construção do estranhamento na delegacia. ignorava que a diferença radical construída em relação aos outros “outros” da pesquisa também deveria ser desnaturalizada. portanto. definem e identificam somente a partir da experiência das relações violentas que vivenciaram. No processo de construção do lugar dos “outros” na pesquisa. a diferenciação com o outro “outro” parecia mais “naturalizada”. Naquele contexto. Essa tarefa. desnudo e simples. Por não partilhar da condição de mulher agredida. alcançou êxitos porque descobri coisas surpreendentes a respeito daquele universo e chego à conclusão de que a construção das alteridades exige um trabalho 88 . Em relação às mulheres. o lugar dos “outros” era. evidentemente. ajudou-me inclusive a desconstruir a categoria mulheres vítimas de violência empregada para designar o grupo estudado e asseverar os caracteres que distinguia as mulheres de meu estudo. considerá-las como mulheres que se constituem. Essa constatação. passei a reconhecer essa categoria como um recorte teóricometodológico que reduz a experiência e a trajetória dos “outros” de minha pesquisa à vivência da violência sem. rotineiro. em relação às mulheres entrevistadas na segunda parte da pesquisa de campo.

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ETNOGRAFIAS DA ARTE 92 .

É o caso do livro de Verena Alberti. a festa e a comicidade medieval.. de historiadores. uma densa e competente revisão acadêmica acerca da questão do riso e de seus objetos no pensamento ocidental. Quintiliano. ao tom sério. O riso e o cômico são literalmente indispensáveis para o conhecimento do mundo e para a apreensão da realidade plena. 2003:15).Os Parlapatões. de sociólogos e de médicos. O Riso e o risível (1999). Patifes e Paspalhões Cauê Kruger Ecos do Riso George Minois. a autora afirma: O riso revelaria assim que o não-normativo.. afirmou: “o riso é um caso muito sério para ser deixado para os cômicos.. e 93 . o desvio e o indizível fazem parte da existência (. Para além da obra de fôlego de Minois.Um picadeiro na Praça Roosevelt . em outras palavras. 1999:6). de psicólogos. Após ressaltar a importância dos escritos de autores canônicos como Aristóteles. ou.. o realismo grotesco. que se pretende um compêndio da produção teórica e literária sobre a comédia da Antiguidade até o século XX. Cícero. hordas de filósofos. Bergson e Freud.) mundo infinito das formas e manifestações do riso opunha-se à cultura oficial. religioso e feudal da época” (Bakhtin. Segundo o autor. O estatuto do riso como redentor do pensamento não poderia ser mais evidente. Victor Hugo. É por isso que. desde Aristóteles. (Alberti. a chave para a compreensão da cultura popular na Idade Média eram o riso. a contribuição já clássica de Bakhtin (1999) para o estudo do tema. ainda permanece a obra mais influente na área. 2002:12). encarregam-se do assunto” (Minois. em uma de suas passagens mais bem-humoradas de História do Riso e do Escárnio.). diversas outras contribuições vêm dando maior foco ao riso como objeto de reflexão. que teria no carnaval sua manifestação paradigmática. Apesar da permanência e recorrência dos estudos canônicos. que não são nada bobos. Este “(. com Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento.

. De qualquer modo. pareciam ter construído. em vez de ser vista sempre como crítica e oposicionista.. Porém.por meio destes fenômenos. e seus privilégios excepcionais de licença e impunidade acabavam por criar um tipo de comportamento e comunicação particulares que aboliam a distância entre os indivíduos.. sem levá-la em consideração.. O carnaval significava a abolição temporária das normas. rituais. hierarquias. consciente e deliberadamente oposicionista” (Bakhtin. As diversas festas medievais. “(. do homem e das relações humanas totalmente diferente (. Para o autor. 94 . uma vez que “os homens da Idade Média participavam igualmente da vida oficial e da carnavalesca” (Bakhtin. Isso criava uma espécie de dualidade do mundo e cremos que.. e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas.) se revestiam sempre de um caráter crítico. nem a civilização renascentista (Bakhtin. não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média.. Este princípio. 1999:4-5). A liberdade oferecida pelo riso.. também conhecido como realismo grotesco. igualdade e abundância. é fundamental destacar que Bakhtin não subestimava a seriedade e seu efeito sobre o povo. etiqueta e padrões de conduta. um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporções. ao lado do mundo oficial. imagens e temas populares eram os principais veiculadores da concepção de mundo baseada no princípio do “baixo material e corporal” vigente até o século XVI. podia-se acessar uma segunda vida do povo. poderia freqüentemente ser só um luxo. liberdade. para Bakhtin: Todos esses ritos e espetáculos organizados à maneira cômica apresentavam (. 1999:82). apesar destes princípios. que por meio dela penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade.) seria inexato crer que a desconfiança que o povo nutria pela seriedade e seu amor pelo riso (. permitido apenas em período de festa..) uma visão de mundo. centrais para que a cultura do riso tenha conquistado um radicalismo e uma liberdade excepcionais no período.). 1999:83).

95 . profanações. o baixo é sempre o começo (Bakhtin. degradações. os fenômenos cômicos e carnavalescos concentrariam três características principais: a festividade contagiante. mas também para o baixo produtivo. negativo. das permutações constantes do alto e do baixo (“a roda”). o caráter universal e geral. da face e do traseiro. (Bakhtin. no qual se realizam a concepção e o renascimento. mais e melhor. mas também um positivo. Naqueles contextos festivos da Idade Média. a concepção. o baixo é a terra que dá vida. Realismo grotesco não conhece outro baixo. e pelas diversas 1999:10) formas de paródias. a do ventre e dos órgãos genitais. de nascimento: quando se degrada. e portanto com atos como o coito. “ao contrário”. A degradação cava o túmulo corporal para dar lugar a um novo nascimento.. mata-se e dá-se a vida em seguida. a gravidez. E por isso não tem apenas um valor destrutivo. Degradar significa entrar em comunhão com a parte inferior do corpo. entrar em comunhão com a terra concebida como um princípio de absorção e. Precipitase não apenas para o baixo. amortalha-se e semeia-se simultaneamente. Rebaixar consiste em aproximar da terra.. a ambivalência. relacionado com o nascimento e a ressurreição: O realismo grotesco e a paródia medieval baseiam-se nessas significações absolutas. pois os diversos procedimentos de rebaixamento do realismo grotesco veiculavam um princípio de absorção ambivalente. ao mesmo tempo. regenerador: é ambivalente.(. a destruição absoluta. a absorção de alimentos e a satisfação das necessidades naturais. Bakhtin demonstra que a relação entre o “alto” e o “baixo” revestia-se de um sentido absoluta e rigorosamente topográfico. 1999:18-19). o parto. travestis. ao mesmo tempo negação e afirmação. e o seio corporal. para o nada. coroamentos e destronamentos bufões.) caracteriza-se principalmente pela lógica original das coisas “ao avesso”. e onde tudo cresce profusamente.

ibidem) Entretanto. o cânon grotesco deve ser julgado dentro de seu próprio sistema. Ecos do rito Desde as obras de James Frazer.Percebe-se sustenta que que Bakhtin propõe uma teoria do riso visando “compreender a lógica original do cânon grotesco” (Bakhtin. o cotidiano e o extracotidiano foi gradualmente se afirmando. Radcliffe-Brown e Max Gluckman (1966)..) a tarefa dos historiadores e teóricos da literatura e da arte consiste em recompor esse cânon. em estabelecer seu sentido autêntico. Em O Paradoxo do Coringa. passando pelas contribuições de Van Gennep.). conforme veremos na próxima seção... Victor Turner. ainda mais. e (. (idem. foi responsável por uma efervescência 96 . Essa tensão entre o mundo oficial e o popular pode também ser identificada ao longo da história da literatura antropológica no que se refere aos estudos acerca do ritual.. 1979: 49). dedicando-se a empreender uma crítica à “ideologia da seriedade”: A tarefa promissora a que uma antiideologia da seriedade deveria se propor seria a de procurar definir um conceito do cômico como uma totalidade em que fosse considerada a comicidade como uma forma específica de conhecimento do social e. 1999: 26). como uma forma renegada e estigmatizada de leitura crítica da opressão (Neves. ao invés de sua perspectiva contextual e compreensiva. entre outros. É inadmissível interpretá-lo segundo o ponto de vista das regras modernas (. a teoria do ritual que ressaltava a separação entre o sagrado e o profano. Luis Felipe Baêta Neves sintetiza esta supervalorização. o religioso e o secular. ligado ao Rhodes-Livingstone Institute e sob a orientação de Max Gluckman. Émile Durkheim. diversas apropriações dos escritos de Bakhtin têm enfatizado excessivamente sua separação e distanciamento da esfera oficial e seu potencial crítico e libertário. Contudo.

“extracotidiano”. a partir de uma obrigação transgredida. papéis e deveres da vida social habitual. pois diversos mecanismos de compensação e reparo. uma estrutura de status ou honra ameaçada.fundamental nos debates teóricos acerca da análise antropológica dos rituais. “antiestrutural”. sobre a estrutura de parentesco em uma sociedade africana. fundamentalmente. A fase final pode tanto restabelecer a ordem anterior através de processos de reintegração. uma interdição ignorada. Partindo da concepção narrativa e temporal do teatro grego e influenciado pela obra de Van Gennep acerca do processo ritual (1978). podem ser ativados. Turner desenvolveu seu conceito de drama social de modo a questionar os modelos estáticos de sistemas sociais vigentes nas análises antropológicas de seu período. Percebemos então que Turner parte da idéia de liminaridade como um “momento” à parte da vida social. dotado de um simbolismo efervescente e de uma qualidade criativa única. Em seu estudo Schism and Continuity in an African Society (1957). então. Turner compreende os dramas sociais. chegando ao segundo estado. A terceira fase desse processo chama-se “ação compensatória” e possui qualidades performativas e reflexivas intensas. pela suspensão dos constrangimentos. que acabavam por colocar a mudança e as inovações como algo não pertencente ao sistema social. por exemplo. como situações de confronto e conflito dotadas de qualidades performáticas e com particular visibilidade e projeção. Essa situação ganha amplitude. 97 . A liminaridade é caracterizada. faz com que uma “brecha” se apresente. de sua aparição. performances teatrais ou julgamentos. em que se torna explícita e não mais pode ser tolerada. passando por rituais de diversos tipos. chamado “crise”. Tais formas de confronto e conflito podem ser observadas através de uma sucessão de etapas relativas ao seu desenvolvimento: a primeira fase. coerções. quanto acabar consolidando um abismo irreparável que causará o fracionamento da comunidade e sua conseqüente separação. que tende a desaparecer e a dar lugar novamente à dimensão “cotidiana” regida pelas normas sociais. que vão desde repreensões de uma autoridade.

que constitui a comunicação no processo social cotidiano” (Turner.) o drama social é um tipo de metateatro. Entretanto. a ação e o pensamento. O corajoso percurso acadêmico de Turner.. não-enquadrado. apresentando qualidades criativas muito particulares. mesmo que por um período de tempo e espaço específicos.significando a liberação cognitiva. noções. performances e conflitos. diferentemente daqueles que concebiam o ritual como um mero processo de inversão. do estrutural-funcionalismo à análise processual. Turner buscará derivá-lo 98 . Exemplo disto é sua proposta de inaugurar a área da “simbologia comparada”. com atenção para o significado produzido localmente e sua dinâmica. Turner invoca a perspectiva de Erving Goffman: se para este “o mundo é um palco”. associadas pelos usuários. afetiva. para Turner “(. foi fundamental para impulsionar o estudo de variados fenômenos performáticos. o mito e o rito como fazendo parte de um processo. volitiva e criativa dos indivíduos normalmente submetidos à estrutura social normativa. intérpretes ou exegetas: em síntese. para Turner. valores. Fenômeno essencialmente ambíguo. O drama social apareceria então como o ponto central das análises. ou seja. 1982:21). pois permitiria destacar situações polêmicas. sentimentos. Muito influenciado pelos escritos de Wilhelm Dilthey. uma linguagem dramatúrgica sobre a linguagem do desempenho de papéis sociais e da manutenção do status. Turner não deixava de valorizar uma perspectiva de compreensão sócio-cultural das manifestações expressivas. que estaria “envolvida nas relações entre símbolos e conceitos. através da qual pôde perceber a estabilidade e a mudança. não-classificado. com referência ao significado na linguagem e contexto” (Turner.. Contudo. indicando a apreensão justa dos procedimentos da dinâmica social. etc. 1987:75-6). ao analisar o teatro. possui dimensões semânticas. muitas vezes caótico. possibilita formas mais livres de socialização e interação entre os participantes. pois os códigos normativos são deixados de lado e outros princípios podem emergir. isto é. a liminaridade passa a ser o fenômeno mais importante das manifestações culturais. Para especificar sua postura metodológica.

recitações. (Bruner e Turner. contextual e compreensiva. Expressões são constitutivas e moduladoras. seja ela consciente ou inconsciente. um romance lido. (.(. Edward Bruner. crise. da ação compensatória. a experiência e a expressão.) não da imitação. e o que é constitutivo está na produção. É neste sentido que os textos têm de ser performatizados para serem experienciados.) dos dramas sociais – quebra. e a tensão entre eles constitui uma problemática chave na antropologia da experiência. da forma processual (. Turner põe em risco sua perspectiva diacrônica. reconhecendo que a antropologia da performance é uma parte da antropologia da experiência. declamações.. e estas encenações. procura destacar. em The Anthropology of Experience. editado logo após o falecimento de Turner.... uma peça performatizada. Ao contrário.. da terceira fase.. Nesta perspectiva. unidades estruturadas da experiência tal como histórias ou dramas é que 99 . que poderiam satisfazer-se com a mera aplicação das etapas da estrutura ritual aos mais variados fenômenos simbólicos. uma atividade enraizada numa situação social.) mas especificamente. uma expressão nunca é um texto isolado e estático. leituras e performances são o que faz o texto transformativo e nos capacitam a re-experienciar nosso legado cultural.) Um ritual tem de ser encenado. e especialmente da ação compensatória como processo ritual. a dimensão da experiência e sua relação complexa com o estudo dos fenômenos expressivos: Existem vãos inevitáveis entre a realidade. reintegração ou cisma – (. 1986:41) Com esta manobra. uma forma de verbo. ação compensatória. ao privilegiar uma fase de sua estrutura processual. um mito recitado. uma narrativa contada. com pessoas reais em uma cultura particular e em uma era histórica dada.. não como textos abstratos. coerentemente. Como expressões ou textos performatizados. ela envolve uma atividade processual. mas na atividade que atualiza o texto.. Nós lidamos com textos performatizados. e acaba possibilitando utilizações simplistas de seu arcabouço teórico.

entretanto. interpretamos através do nosso trabalho de campo essas expressões para uma audiência doméstica de outros antropólogos. a ausência de função (ou o primado da 100 . sendo o sintoma mais comum a descontextualização da análise. nós deixamos a definição da unidade de investigação às pessoas ao invés de impor categorias derivadas dos nossos padrões teóricos sempre em mutação. ou quaisquer outras expressões. Se por um lado o autor destaca adequadamente a necessidade da análise processual. argumenta: A vantagem de começar o estudo da cultura através das experiências é que as unidades básicas de análise são estabelecidas pelas pessoas que estudamos e não pelos antropólogos como observadores externos.. Expressões são as articulações. carnaval. representações e formulações das pessoas sobre sua própria experiência. (Bruner e Turner. dramas. Ao ter em foco as narrativas. (Bruner e Turner..) O processo interpretativo. 1986:7).as unidades de significado são socialmente construídas. chamando a atenção para o processo dinâmico e cultural da construção do significado das expressões em seu contexto. (. 1986:9-10) Se Turner conferiu anteriormente atenção excessiva à fase da ação compensatória dos dramas sociais na análise do teatro. apesar de divergências evidentes sobre a especificidade da obra de arte. Um dos autores que mais atenção chamou para esta questão foi Pierre Bourdieu. Bourdieu argumenta que os filósofos. concordam em atribuir à definição de arte propriedades tais como a gratuidade. lingüistas. por outro. o que acaba por acarretar prejuízos para a adequada análise antropológica. nós interpretamos as pessoas como eles estão se auto-interpretando. opera sempre em dois níveis: as pessoas que estudamos interpretam as suas experiências de formas expressivas e nós. por nossa vez. Em As Regras da Arte. semiólogos e historiadores. Bruner defende a aceitação irrefletida de um “recorte nativo” dos fenômenos performáticos. Nossa produção antropológica nada mais é do que nossas histórias sobre as histórias deles. aqui.

enfim. tais perspectivas não tratam das condições históricas e sociais da possibilidade da experiência artística. que se fundam mutuamente: sendo que a obra de arte só existe enquanto tal (. pelo desinteresse e o desprendimento (afasta as preocupações passadas e futuras) e. Assim. Segundo o teórico. 2005:319) é a definição que Bourdieu traz de Harold Osbourne.. de que (. etc.. o desinteresse. um exemplo típico deste processo de “dupla des-historicização.) a atitude estética caracteriza-se pela concentração da atenção (separa – frames apart – o objeto percebido de seu entorno).. 2005:319) Bourdieu discorda amplamente dessas perspectivas. para quem a diferença entre a arte e o cotidiano não é mais que uma instituição.. quanto do olhar sobre a obra” (Bourdieu. (Bourdieu.) em norma transhistórica de toda percepção artística” (Bourdieu.. 2005:320).. uma universalização do caso particular (. os autores dificilmente buscam compreender a arte em um duplo processo que trate da produção e reprodução juntamente com os processos de recepção necessários. para Bourdieu. pela indiferença à existência do objeto. Sem perceber a historicidade dessa experiência e do objeto artístico. pela suspensão das atividades discursivas e analíticas (ignora o contexto sociológico e histórico). sem o saber.forma sobre esta). que define a arte como “o que exige ser percebido esteticamente” (Panofsky apud Bourdieu. nem das condições de produção..) operam. 2005:321). reprodução e fabricação da disposição estética que exigem.) o habitus cultivado e o campo artístico. por tomarem a experiência subjetiva da obra como aquela de seu autor. Apesar de algumas teorias terem perspectivas distintas. “(. 2005:323) Portanto. Para o autor. a verdadeira ciência das obras de arte deveria: 101 . tanto da obra. o “mundo artístico”. (Bourdieu.) se é apreendida por espectadores dotados da disposição e da competência estéticas que ela exige tacitamente”... como a de Panofsky. ou ainda Arthur Danto.. a experiência da obra de arte como dotada de sentido e valor seria um efeito da relação entre as duas esferas da mesma instituição histórica: “(.

mas também seus discursos. envolvendo não apenas o fenômeno cênico. Geográfica porque uma rede de sociabilidades com locus no centro de São Paulo. em que acompanhei o trabalho do grupo Parlapatões. isto é. bem 51 Por limitação de espaço. 2005:326). no início. logo se evidenciou. compreendido como um “circuito alternativo” voltado à “experimentação teatral”. a constituição do campo artístico (na qual os analistas e os próprios historiadores da arte estão incluídos) como lugar onde se produz e se reproduz continuamente a crença no valor da arte e no poder de criação de valor que pertence ao artista (Bourdieu. a literatura acadêmica e a experiência etnográfica acabaram por deslocar o foco central da discussão: a justa compreensão da especificidade do trabalho dos Parlapatões reivindicou necessariamente relacionar sua expressão estética51 com seu contexto.(. fomentando uma viagem geográfica e histórica pelo teatro paulistano. Patifes e Paspalhões entre os anos de 2006 e 2007 e que resultou em minha dissertação de mestrado. Como é de praxe nas experiências antropológicas. diretamente influenciada pela crítica da “ideologia da seriedade”... não poderemos dar aqui a devida atenção ao estudo das performances e peças dos Parlapatões. especificamente na Praça Roosevelt. de modo que propunha buscar compreender a dimensão crítica. consumidores. Para mais detalhes sobre estas. bem como pela antropologia da performance. reflexiva e política da forma de atuação dos Parlapatões. que me permitia enfatizar a dimensão simbólica de suas encenações. Histórica porque a trajetória do grupo. produtores. a pesquisa participante acabou por deslocar o olhar do pesquisador. A proposta desse estudo foi. Esses marcos teóricos e metodológicos traduzem a tensão entre a análise antropológica e a pesquisa etnográfica que desenvolvi na cidade de São Paulo. elucidando também princípios e visões de mundo comuns associados ao local. Contudo. Patifes e Paspalhões. suas performances e discursos (tanto dentro como fora do palco).) descrever a emergência progressiva do conjunto de mecanismos sociais que tornam possível a personagem do artista como produtor desse fetiche que é a obra de arte. 102 . concorrentes e a história de sua institucionalização. ver Krüger (2008).

prêmio Coca-Cola de teatro jovem com a peça “De cá pra lá de lá pra cá”. urbanização e metropolização da cidade de São Paulo. na Escócia. Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte em 1997 com a exposição Vamos Comer o Piolim. 54 Os Parlapatões receberam os seguintes prêmios: Prêmio Estímulo da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo com Zerói em 1995. consolidando uma das maiores expressões do processo de modernização. Literatura. Prêmio Shell de melhor cenografia para Não Escrevi Isto em 1998 e prêmio APETESP de melhor direção para Emílio Di Biasi pela peça ppp@wllhmshkspr. terem sido consagrados com indicações e prêmios de instâncias de consagração como o Prêmio Shell de Teatro e o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte53 para suas montagens. 103 . ver Prado (2007) e Pontes (2000 e 2008). em 2001.como a promoção de eventos. Estabelecendo novos padrões de “apuro” das produções e interpretações e alavancando o teatro moderno nacional. realizada pelos Parlapatões. adotando. o TBC foi responsável pela inserção de diversos encenadores estrangeiros no território nacional. em uma jornada de teatro promovida pelo SESC-SP. o nome de Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCT). o grupo teve seu primeiro espetáculo de repercussão em 1993. Em 1972 sofreu uma reestruturação. pela consolidação da profissão teatral (até então malvista) e pelas primeiras reflexões sistemáticas acerca das teorias de interpretação. Desde 1956 premia anualmente as melhores produções artísticas e seu reconhecimento é altamente valorizado no contexto teatral. participarem do festival internacional de teatro de Edimburgo. a ponto de terem sido escolhidos para assumir uma sala na reinauguração do Teatro Brasileiro de Comédia52 em 1999. Cinema. Mas poucos são aqueles que. até ser 52 O Teatro Brasileiro de Comédias (TBC) foi criado em São Paulo por Franco Zampari em 1948 e acabou por ofuscar as iniciativas teatrais desbravadas no Rio de Janeiro até então. 53 A Associação Paulista de Críticos de Artes teve suas bases sedimentadas em 1951. Patifes e Paspalhões: o riso entre o palco e o picadeiro Muitos são os grupos de amigos que. memórias e oposições frente a personalidades.54 Com sua formação reconstruída a partir das iniciativas de teatro de rua ocorridas em 1991. Os Parlapatões. conseguindo inserir-se no circuito dos festivais teatrais nos anos seguintes. na juventude. grupos e conceitos relativos à história do teatro paulistano. adotando seu nome atual e incorporando progressivamente os setores de Artes Visuais. Sobre o TBC.br em 1999. de filiações. iniciam experiências artísticas que têm a comicidade como característica principal. Música Popular. Música Erudita e Rádio. partindo de apresentações de palhaço improvisadas nas ruas do centro de São Paulo. construíram uma trajetória de longa duração e de tamanha projeção no cenário teatral como os Parlapatões. Dança. em 1956. Televisão. permitiu-me perceber a construção.

No folheto de lançamento do Espaço Parlapatões e do evento de inauguração. a partir de setembro de 2006. Este exemplo ilustra a busca de posturas políticas que o grupo sempre se esforçou por alcançar em suas performances. todos com inserção em festivais. além de 55 O Espaço Parlapatões foi inaugurado em 11 de novembro de 2006. José Celso Martinez Correa. apresentava-se em um circo itinerante próprio. coincidência reapropriada pelo grupo. pode-se ler: Nosso Sonho de Palhaços chega à Praça Roosevelt Há quinze anos participamos ativamente da vida cultural paulistana. Mário Bortolotto e Sérgio Carvalho. que se propunha a tarefa irreverente de apresentar a obra compactada de Shakespeare em noventa minutos. Neste período.convidado a dramatizar a trajetória do grande palhaço brasileiro Piolim em 1997.55 com uma extensa programação de apresentações. gozando de ampla cobertura e divulgação. Sucesso de público e crítica. mas também na mídia. debates. Hugo Possolo). leituras dramáticas e pequenos festivais temáticos. Daí em diante até 2008. saiu de seu teatro em direção à rua portando aviões infláveis. boa repercussão na mídia e público assíduo. o grupo administrava o espaço de seu escritório. o grupo. Marcos Ricca. o grupo apresentou diversos espetáculos. na performance de inauguração. em uma dupla alusão ao atentado terrorista ao World Trade Center e à falência da companhia brasileira Varig. que se constituiu no maior trunfo de bilheteria e mídia do grupo: ppp@wllmshkspr. No período em que iniciei a etnografia. sudeste e centro-oeste do país e ainda inaugurava seu novo espaço. viabilizado pela Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR). alavancou o convite seguinte. que. conseguiu grande repercussão não apenas no meio teatral. o único da América Latina sem mastro central. misturadas à multidão que permaneceu no local pela madrugada adentro. Rosi Campos.279/02) desde 2003. chamado "Projeto da Utopia". com destaque para Marcelo Drummond. Contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo (Lei 13. mobilizando ainda um patrocínio da Petrobrás para o evento de abertura. mantinha seu último espetáculo em cartaz (o primeiro solo de seu principal expoente. com a proposta de percorrer diversas cidades do sul. Uma grande quantidade de artistas de teatro e televisão estiveram presentes. Jairo Mattos. 104 . produzimos 27 espetáculos.br. Diversas outras “celebridades” acabavam por ficar quase anônimas.

que envolviam recursos financeiros de grande porte. Os ovos do ornitorrinco Apesar de os Parlapatões definirem-se como palhaços. Raul Barreto e Jairo Mattos. palestras e debates. feita de forma contínua. a improvisação e interatividade. além da escolha da figura do palhaço como elemento central de suas performances. Não é fruto do acaso que todos os Parlapatões – Hugo Possolo. público cativo. Claudinei Brandão e Henrique Stroeter – chegaram ao circo através do teatro. à primeira vista. com as principais características cênicas dos Parlapatões: o estilo cômico. organização de mostras. Somar-se a esse movimento é parte de um sonho que começou nas ruas do centro e que agora ganha abrigo para seguir em seus delírios utópicos. além de uma profissionalização e divisão de tarefas dentro do grupo. Todas essas ações. bem como um mapeamento das tendências e forças do campo teatral paulistano no contexto do surgimento e desenvolvimento dos Parlapatões. produzida em grupo e tão significativa para a cidade de São Paulo. seus discursos e tomadas de posição. Uma retrospectiva da trajetória do grupo. geralmente desprovidos de capital cultural ou formação teatral 105 . a estética do escracho. espaços não-convencionais. podemos estabelecer um padrão abstrato comum a todos os integrantes do grupo em formação: são jovens. Hoje.participar de uma enorme quantidade de ações. de classe média. damos um passo significativo ao estabelecer o Espaço Parlapatões na Praça Roosevelt. local que aos poucos se torna o eixo de uma produção diferenciada. com várias vertentes de linguagem. publicações. Alexandre Roit. eventos. acabavam por contrastar. entre espetáculos de rua. nenhum dos integrantes do grupo “nasceu” no picadeiro. interferências cênicas e performances. dentro ou fora do palco. numa intensa relação de arte e cidadania. são fundamentais para compreender e explicar seu lugar social no teatro paulistano. Mesmo cometendo injustiças frente à inegável particularidade de cada trajetória. do sexo masculino. a influência do teatro de rua.

o palhaço Arrelia.específica.56 e ganhou força na década de 60 nas montagens do Arena. apresentou um projeto na Assembléia Legislativa visando construir em São Paulo a única escola de circo da América do Sul. magia e outras modalidades a cerca de 700 alunos em menos de um ano. Schwarz (2008) e Napolitano (1998. posteriormente. entre eles os Parlapatões. quando se cogitou a construção do Circo Estadual de São Paulo. Opinião e Oficina. ver Guinsburg e Silva (1992). a transferência da Academia para o pavilhão de circos do 106 . estas grandes matrizes do teatro nacional tiveram em comum a busca do nacional popular. constituíram-se como marcos. que permaneceu em funcionamento até 1982. foi possível concretizar a Academia Piolim de Artes Circenses. quando Miroel Silveira assumiu a Comissão de Circo. seja a partir da influência musical ou mesmo ao propor um resgate da “brasilianidade” no palco. como influências fundamentais para a construção da linguagem teatral de diversos grupos. Sobre o assunto. Este movimento foi possibilitado e acompanhado por um processo de instituição de escolas circenses em São Paulo. principalmente com as formas de teatro ligeiro. 57 56 Ainda que pesem as distinções de estilo.59 Esta presença poderia ser reconstituída para destacar as filiações do circo com o teatro de revista brasileiro e demais gêneros “ligeiros”. trapézio. a primeira tentativa de instalação de uma escola de circo no país data de 1967. e principalmente Ubu. que acabam respondendo a uma “tendência de valorização do circo” que eclodiu na capital paulista na década de 80 e que é fundamental esmiuçar. A emergência da linguagem circense nos palcos teatrais nacionais acompanhou o próprio desenvolvimento da expressão cênica nacional. a primeira escola de circo de São Paulo. 59 Mesmo com parcas verbas e em local inadequado. seja a partir de esforços em prol de uma literatura dramática nacional.57 Porém. os professores chegaram a ensinar. acrobacia. na década de 80. que carregavam em seu estilo cênico grande influência popular. 1999). equilibrismo. como destacam Arêas (1990) e Silva (1996). 58 Sobre o Teatro do Ornitorrinco. ver Mencarelli (1999) e Veneziano (1991). Mas apenas a partir de 1976. Ridenti (2000). Em 1970 Waldemar Seyssel. Segundo Eliene Costa (1999) e Castro (2005). Silva (1981). ver Campos (1988). Apesar de os dirigentes terem conseguido. Costa (1999) e Raulino (2006). Sobre o Arena e o Oficina.58 dirigido por Cacá Rosset. Fernandes (2000). pholias physicas e pataphysicas. 2001). as montagens de O Percevejo de Luiz Antônio Martinez Corrêa. discurso e proposta. em uma quadra do Estádio do Pacaembu. do grupo Teatro do Ornitorrinco. criada em 1978 (Costa. da qual seria professor e diretor.

a cidade já contaria com outra escola de circo: a Circo Escola Picadeiro. que tinham “a finalidade de aprender algumas modalidades para aplicar em trabalhos artísticos” (idem). ex-alunos da Piolim. em uma escola não-profissionalizante com apoio da Secretaria Municipal. mas também grande parte do elenco que realizava as performances circenses no mencionado espetáculo Ubu. a segunda. a falta de verbas mínimas fez com que a iniciativa se encerrasse. revela-se uma instituição pública de grande importância e referência no panorama circense do país. Alexandre Roit. por formar artistas de circo e reciclar profissionais. destaca: “Para mim. devemos destacar que no Rio de Janeiro. iniciativa de José Wilson Moura Leite que transformou seu empreendimento. Esta instituição forneceu não apenas a técnica e a assistência necessárias. visando impedir a “extinção da categoria”. 60 Além da Piolim e da Picadeiro.Contudo. 62 Ver Silva (1996). parte da revalorização da linguagem circense se explica por duas formas distintas de apropriação: a primeira procurava resgatar uma expressão “tradicional” e popular. cinema e teatro. a expressão cênica poderia ser performatizada como um ideal milenar. oposta. um dos fundadores dos Parlapatões. pregava uma linha “alternativa” e “contemporânea”. em 1985. mais revelador do que ter visto o Ubu. fundamentais para nosso trabalho. foi ter entrado no Circo-Escola [Picadeiro] e ver que todo mundo de teatro estava lá”. buscando orientar crianças de rua através das artes circenses. basicamente jovens que procuravam um “entretenimento gratuito e diferente” (Costa. Se a proposta dessas instituições60 era “evitar a extinção da categoria circense”.61 Para além do capital espetacular de rápida aquisição que o circo possibilitava. 1999: 124-5) ou artistas de televisão. ou como um caminho fértil para a performance. o Circo Royal. Luis Olimecha funda a Escola Nacional de Circo em 1982. que. Verônica Tamaoki e Anselmo Serrat. que em suas encenações com o grupo de teatro Mambembe explorou abertamente a técnica Anhembi (local muito mais apropriado). ícone de saber popular. 107 . Magnani (1998) e Bolognesi (2003). é significativo que a maioria de seus alunos tenha sido proveniente das classes médias. que por sua tradicionalidade. devido a suas características espetaculares e sua tendência antiilusionista. após dois anos do fechamento da “Piolim”. Exemplo da primeira tendência é a obra de Soffredini. Dessa forma. fundam a Escola Picolino de Artes do Circo. itinerância e “precariedade”62 veiculava uma noção de oposição à modernidade. 61 Em entrevista ao autor concedida em setembro de 2007. Também Salvador passa a ter uma escola de circo quando.

o tempo prolongado. 2006). dotando-a de caracteres diferenciais atualizados. afirma que o Novo Circo se caracteriza pela abdicação da narrativa épica. bem como o Ventoforte. que se constituiu como a principal referência do estilo. 64 63 Esta forma de interpretação. As preocupações do diretor russo visavam erradicar as tradicionais atuações declamatórias e baseadas em clichês. Carlson (1996) e Glusberg (2003). bem como a herança dos movimentos da performance art. ver Cohen (2002). ver Roubine (1989). é interessante destacar que. muito relacionado com o movimento do happening que o antecedeu. ao menos desde o A performance art é um gênero cênico com influência do surrealismo e dadaísmo. Para compreender adequadamente esta dimensão “moderna” associada ao circo. em que os elementos teatrais são estendidos ao máximo (o texto pode ser suprimido. orientadas por seu método das ações físicas. Trata-se de uma expressão cênica menos convencionalizada e mais radical. a extinção do picadeiro e do apresentador e os fortes investimentos nos aspectos cênicos.63 que aparecem no panorama teatral paulistano no período. que tem no Cirque Du Soleil seu principal representante.64 associado. e vale-se das características feéricas dessa expressão tradicional. em que os atores interagiam por intermédio da platéia. também chamada de naturalista. A segunda tendência tem em Ubu Rei. é fundamental destacar a influência do movimento do Novo Circo. Sobre as grandes tendências de interpretação.da triangulação. etc. que propunha ao ator um extenso treinamento corporal e emocional. mesmo em sua vertente mais “visual” e próxima da performance art. 108 . o grupo mineiro Galpão e algumas produções de Gabriel Vilella. em um artigo crítico sobre o movimento. centralidade do texto dramático e orientação interpretativa de influência stanislavskiana. um dos maiores estudiosos do país sobre o tema. texto de Alfred Jarry encenado pelo grupo Ornitorrinco. Porém. Este movimento de revitalização do circo tem repercussões mundiais. o espaço reconfigurado. tem em Constantin Stanislavski seu principal formulador teórico.). que deveriam ser substituídas por expressões mais “verdadeiras”. Mário Bolognesi. seu principal representante. a expressão circense no palco foi também associada ao processo de crítica ao teatro “convencional” representado pelo palco italiano. Sobre o tema. como ilustra a formação e explosão do Cirque du Soleil. o processo histórico de hegemonia do palco italiano e as críticas ao modelo naturalista. coreográficos e dramáticos (Bolognesi.

distinto do “comercial”. Da escolha e desenvolvimento de alguns desses quadros experimentados na rua derivaram seus primeiros espetáculos. entre vários outros que compõem de fato um campo teatral profissional desta expressão. Schwarz (2008). La Mínima. o Acrobático Fratelli. 2001) e Ridenti (2000). para o espetáculo Sardanapalo.66 Pode-se. a dimensão visual. Tratava-se de uma narrativa paródica da vida e dos feitos de 65 Esta classificação das produções teatrais da época foi influenciada diretamente pela teoria cênica de Bertolt Brecht e de outros teóricos marxistas que influenciaram direta ou indiretamente as produções do Teatro de Arena. afirmar que os Parlapatões. e permitia a utilização de técnicas de ilusionismo e amusement centradas nas evoluções tecnológicas (Cohen. Porém.teatro engajado da década de 1960. à burguesia e ao conservadorismo. 2002). Na Makaka. Patifes e Paspalhões tem origem. Hollanda (1980). As primeiras experiências cênicas. ver. mas também o XPTO. a Intrépida Troupe. Linhas Aéreas. ao longo da trajetória do grupo. Circo Zanni.65 O circo apresentava uma forma de atuação distinta dos procedimentos tradicionais de interpretação. a Nau de Ícaros. Nariz vermelho: tradicional ou alternativo? O começo da atuação dos Parlapatões foi marcado pelo esforço para descolar a imagem do recém-formado grupo das montagens infantis iniciais. então. veiculando o circo como ícone associado a uma expressão popular. que visavam a um circuito alternativo. tiveram a rua como palco e basearam-se em números de palhaço aprendidos no Circo-Escola Picadeiro. a Doutores da Alegria e outros. entre outros. Farândola Troupe. que valorizava o performer. no início de sua atuação. Sobre o assunto. 66 A estes se somarão os grupos Jogando no Quintal. a Fraternal Companhia de Artes e Malas-Artes. Centro Popular de Cultura e Teatro Oficina. o que possibilitou seu primeiro patrocínio. Napolitano (1998. os Parlapatões passaram a distinguir-se dos demais por uma série de escolhas e tomadas de posição dentro e fora do palco. partiram de princípios comuns a toda uma gama de grupos interessados em desempenhar um “teatro crítico” do status quo. A grande visibilidade ocorreu em 1993 com a vitória da Jornada SESC de Teatro. 109 . estimuladas pelos membros fundadores do grupo e alguns convidados. É nesse contexto que não apenas o grupo Parlapatões.

na utilização tridimensional do espaço (resultado do formato tradicional da roda) e na interatividade com a platéia. Segundo os atores. 110 . Este era. a narrativa épica provocava um distanciamento em relação à forma ilusionista do teatro. centrado na improvisação. principal porta-voz do grupo.Alexandre. porta-voz da equipe) como um coletivo de teatro cuja formação constituiu-se de forma nãoconvencional. pois a comunicação com a platéia seria mais direta (a presença do público e o riso denotariam entendimento e fruição da cena. que procurava trazer “a rua para o palco”. Os Parlapatões nunca deixaram de valorizar a experiência do teatro de rua e a figura do palhaço como seus principais ícones diacríticos: o grupo sempre se representou (a seu público ou aos pares nos diversos eventos. fundamental para a forma de atuação do grupo. vistos como nobres e “clássicos”. que é responsável por estabelecer nas atuações um nível “horizontal” (de igualdade) entre artista e público. o Grande. aqui. tanto a experiência de rua como a comédia são amplamente “pedagógicas” ao ator. mas também à influência da teoria de Bertolt Brecht. nos aprendizados recebidos na escola de circo. baseada em oficinas. funcionando como uma importante forma de referência ao artista) e descompromissada (sem as determinações do palco italiano). voltada a manter sua atenção. de sua condição de mortal. invariavelmente através de Possolo. O grupo retratava-o dividido entre o desfrute da vida e a busca incessante pela ampliação de seu poder e explorava à exaustão as referências à Antiguidade (principalmente a relação do protagonista com o filósofo Aristóteles e as especulações acerca do suposto livro escrito pelo filósofo e destinado à comédia). segundo depoimento de Hugo Possolo em entrevista ao autor em julho de 2007.68 É importante destacar que o termo. os atores empregavam a narrativa épica67 e buscavam a interatividade com a platéia. não faz referência apenas ao seu sentido clássico. de narrativa de grandes feitos de um herói. que se valia desse distanciamento narrativo para produzir uma nova forma cênica. essa forma popular de teatro traz à atuação cênica um domínio específico. Segundo ele. o diferencial do grupo. pelo protagonista. personagens e do imaginário associado à Antiguidade. que dava amplo destaque para a suposta crise existencial proveniente da tomada de consciência. palestras e workshops. procurando sempre romper com a narrativa de forma a explicitar a situação de representação. destaca que a comédia é elemento de sedução do público. Embora a forma narrativa dos Parlapatões não utilize sempre esse efeito para promover a explicitação de situações políticas em cena. como ocorre em Brecht. em encontros e principalmente na experiência do teatro de rua. 68 67 Hugo Possolo. Além da paródia de acontecimentos.

até a atualidade. é particularmente relevante por sua abordagem contextual. Para explicitar esta relação. indo para a periferia das grandes cidades e retirando-se do teatro comercial convencional. porém. tratando da construção dos princípios alternativos em relação de oposição à mídia e ao mercado.69 A especificidade da fruição dos princípios circenses nesse contexto já foi destacada. 111 . mas que vigora. que expunha a estrutura cênica. que destacava as qualidades críticas e inovadoras da montagem. garantiram o sucesso da peça na valorizada classificação do “teatro alternativo” paulistano do início dos anos 1990. faz-se necessário frisar que ao mesmo tempo em que carregavam uma conotação popular. mas para a forma e o modelo da atuação. A análise dos textos. valorizadas no contexto “alternativo” em que o grupo procurava firmar-se. a obra de Linda Hutcheon. A releitura ou carnavalização de representações compartilhadas presentes no imaginário da platéia. centrada nas modalidades de auto-reflexão da arte contemporânea 69 A obra de Garcia (1990). Assim. não raro atualizadas e fundidas com ícones da mídia. dando destaque não para os acontecimentos dramatizados. além de fazerem constantes referências explícitas ao mundo do teatro paulistano. é sintomática da tendência nascente nos anos 70. A Theory of Parody.Grande parte das características distintivas que o grupo conseguiu construir em sua trajetória já se apresentou na primeira montagem de sucesso dos Parlapatões. com grande influência do teatro de rua. privilegiando espaços nãoconvencionais a partir de uma narrativa épica em tom crítico e questionador. em sua obra Apocalípticos e Integrados (1970). Sardanapalo: a atuação improvisada. entre outros fatores. centrada na figura do palhaço. as tomadas de posição específicas da equipe. que se propõe a resgatar o trabalho dos coletivos de teatro que optaram por uma postura marginal. A grande visibilidade conquistada pelos Parlapatões deve-se também à cobertura do espetáculo feita por Nelson de Sá. colega de Possolo da faculdade de Jornalismo e crítico da Folha de S. A posição ganhou tratamento já clássico por Humberto Eco. a difusão na mídia. todo o contexto relativo à viabilização financeira da montagem. com algumas oscilações. constituíam também uma forma de ruptura com as convenções teatrais ilusionistas. contribuíam para a metateatralidade freqüente nas montagens do grupo. Paulo em início de carreira. encenações e relações sociais que os Parlapatões estabeleceram com seu contexto permite destacar o discurso paródico como central no trabalho do grupo.

contudo. mas como o carnaval. O texto paródico possui uma licença especial para transgredir os limites das convenções.e nas teorias da intertextualidade. suas licenças poéticas e a forma de interpretação distanciada do teatro de rua abriram as portas para a metateatralidade e os procedimentos paródicos sobre as convenções e o teatro como instituição. a noção de paródia não se relaciona necessariamente com as concepções de comicidade. concebido em seu contexto como “moderno”. semelhante ao conceito de 112 . ironia ou pastiche. mas Especificamente interessante é a passagem que destaca que a paródia (…) tem como pré-requisito para sua existência certa institucionalização estética que permite a identificação de formas e convenções estáveis e compreensíveis. inversão e transcontextualização de obras de arte já existentes (Hutcheon. 1985:75) No caso dos Parlapatões. juntamente com o circuito de inserção teatral “alternativo”. Estas funcionam como normas ou regras que podem – e claro. o palhaço. pode fazê-lo somente temporariamente e dentro das limitações autorizadas pelo texto parodiado. A autora frisa que a paródia. características fundamentais da estética do grupo. Para Hutcheon. o circo. uma vez que a autora compreende o fenômeno como uma forma de discurso “duplamente consagrados direcionado”. Porém. A figura tradicional dos palhaços. mas sim a um processo de revisão. do uma reapropriação paródica dos discursos não-oficial. devem – ser quebradas. subversão permitida. adquire incidência e importância particular na arte do período. passado. que por si só condicionavam a atenção do espectador à forma da mensagem. a improvisação e outras características não deixavam de promover referências associadas ao estilo cênico “popular”. (Hutcheon. à estrutura artística. Central na definição da paródia para Hutcheon é a obra de Bakhtin. a figura do palhaço. apesar de não ser uma expressão originária do século XX. 1985). a presença de esquetes tradicionais e o recurso freqüente a determinados temas nostálgicos ou que idealizavam personagens marginalizados promoviam um processo de heroicização do homem comum.

o consumismo. ironizando as demais formas de um “fazer teatral sério”. paródica. buscando “(. distanciado. o migrante). ver Perry Anderson. geralmente compreendidas como ícones da expressão artística contemporânea. 71 Se a existência de uma “sociedade pós-moderna” é tema de acalorado debate até a atualidade. tão comum nas propostas de encenações pósmodernas. As Origens do Pós-Moderno (1999). metateatral e paródica.. apoiado na comédia e na interatividade com a platéia. anti-ilusionista com a “horizontalidade” democrática e participativa. Em um panorama teatral no qual Antunes Filho e Gerald Thomas eram as principais referências. seja pelo recurso à interatividade ou mesmo pela obsessiva explicitação da teatralidade frente a uma platéia que detém os dispositivos necessários para sua compreensão. nas raízes culturais nacionais. que esta forma de expressão cômica. em uma expressão cênica que carrega ao mesmo tempo o estilema popular presente na atuação despojada da figura do palhaço e o contemporâneo a partir da narrativa épica. o texto vira pretexto e o fundamental na cena passa a ser a fruição do instante presente em uma atuação que “debocha” de seu próprio veículo. portanto. o rótulo “arte pós-moderna” não suscita tamanha oposição. porém. o que faz com que a “carnavalização” das convenções teatrais adquira significado particular. a paródia e a metateatralidade seriam “formas de compor” valorizadas no panorama dos anos 90. s/d) e Guimarães (1998). que destaca a própria forma de sua enunciação. Sobre Gerald Thomas. é 70 Marcelo Ridenti classificou as expressões artísticas brasileiras dos anos 60 e 70 como “romântico-revolucionárias” por buscarem no passado. ver a coletânea de Fernandes e Guinzburg (1996). os artistas idealizavam o homem do povo (o camponês. a ironia. É esta a característica fundamental do grupo e a forma pela qual exige ser percebido. a desconstrução. Para o autor.) no passado elementos que permitiam uma alternativa de modernização da sociedade que não implicasse a desumanização. o “modelo cênico” alternativo. A particularidade da atuação dos Parlapatões está. improvisada e metateatral. ver os trabalhos de George (1990. os Parlapatões foram a companhia que mais bem associou as referências do tradicional e do moderno: o fragmento. 113 . da dramaturgia e da “mensagem”. Sobre Antunes Filho. 2000:25). Acerca de uma retrospectiva competente do aparecimento de características comuns na arte contemporânea (e principalmente na arquitetura).71 Para além do conteúdo. a citação com o senso comum. elementos para a construção de uma utopia do futuro. Entre seus pares. o império do fetichismo da mercadoria e do dinheiro” (Ridenti.“romantismo revolucionário” utilizado por Marcelo Ridenti (2000)70 para descrever as expressões cênicas da década de 1960. É importante destacar..

as oposições e filiações aos ícones teatrais do período e à história do teatro brasileiro (como José Celso Martinez Corrêa e o Teatro Oficina. representante e porta-voz da companhia72.veiculada juntamente com um discurso legitimador da prática do grupo. Paulo e Bravo!. A exploração da metanarrativa teatral é tanto uma forma de transferência dos “códigos” de percepção e recepção da obra de arte quanto um meio de parodiar o próprio veículo utilizado. Folha de S. O discurso crítico veiculado dentro e fora dos palcos. por sua formação de jornalista e conhecimentos da área. baseado no molde de “rebeldia” e “conformismo” (Bourdieu. o Grupo Galpão. 72 Possolo. circenses ou de cinema. é fundamental para o grupo não apenas seu desempenho cênico. Estes fatos apontam para a construção da posição de marginalidade dentro do campo artístico. mas também a construção de um discurso legitimador que destaque sua trajetória como vinculada ao “teatro alternativo” e também forneça elementos para a fruição de sua prática cênica específica. percebidas no relacionamento social dos Parlapatões (em eventos. bem como a participação no meio artístico. Pode-se argumentar. mas também à construção de uma linguagem própria. Gerald Thomas e Antunes Filho. são tão importantes quanto a prática artística do grupo. um embate entre os estabelecidos e os que concorrem por prestígio e reconhecimento. com iniciativas e discursos que extrapolam o tempo-espaço do palco. 114 . Amir Haddad. aos teatros “comercial” e “sério”. tendo seus artigos publicados em periódicos como O Estado de São Paulo. eventualmente trabalha com críticas de espetáculos teatrais. por fornecerem as disposições necessárias para que o público tenha a devida fruição dos espetáculos. capaz de reconstruir a seu modo sua perspectiva crítica do mundo. assim. bem como na socialização com os freqüentadores do Espaço Parlapatões) e centralizado em Hugo Possolo. característica fundamental para a construção de sua identidade cênica em oposição direta à mídia. Neste ponto. palestras. 2005). que o sucesso dos Parlapatões não se deve apenas à viabilização de suas montagens. Tais situações. estabelecendo. de uma identidade cênica ao diferenciarem-se dos demais projetos em vias de consagração. entre outros). diretor. dentro mesmo desse campo. seja pela oposição aos cânones teatrais ou mesmo à mídia.

atrás do famoso edifício Copan (projetado por Oscar Niemeyer) e da imponente Igreja da Consolação. a “Praça Roosevelt” se resume apenas à quadra que vai da Avenida Consolação até a Rua Nestor Pestana. possibilitada pela análise etnográfica. ou mesmo os que do elevado Costa e Silva atravessam o túnel em direção à imensa RadialLeste. Este local do centro de São Paulo. 2006). anteriormente conhecido como ponto de assaltos. Um picadeiro na Praça? Os motoristas que trafegam no centro da capital paulista. Segundo seus fundadores. Não a praça que os transeuntes indiferentes mal notam. permitiu a adequada orientação teórica para a análise das peças dos Parlapatões. é necessário ainda dar a devida atenção contextual a sua atividade teatral. vinculada ao teatro. a criminalidade acabou por se deslocar da área (Guzik. se a antropologia da performance. e esta breve retrospectiva da trajetória do grupo iluminou sua particularidade cênica. Avenida Rebouças. 115 . Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vazques. mas aquela que um estrato da população paulistana. passou por um processo que seus freqüentadores conceituam como a “revitalização da praça” Roosevelt com a chegada do grupo de teatro Os Sátyros em 2000. com sua ênfase nos fenômenos expressivos. não vêem a Praça Roosevelt. passando pela Rua da Consolação. Para estes. tráfico e prostituição.são tão fundamentais para a construção da identidade (e do reconhecimento) artístico quanto as próprias tomadas de posição estéticas da companhia. trecho urbano da tímida Rua Martinho Prado. Bakhtin constituiu referência fundamental para tratar da dimensão cômica de suas montagens. freqüenta assiduamente. anônima mesmo para os que por ali circulam cotidianamente. Assim. à medida que a companhia passou a operar e conquistar seu público. Ipiranga e Augusta. mas que desempenha importância ímpar nas relações sociais dos artistas teatrais paulistanos.

T. principalmente pela presença dos atores que ensaiam por ali ou de demais pessoas integradas na produção das peças em cartaz. É importante ressaltar que a etnografia ocorreu no período de setembro de 2006 a setembro de 2007. entre outros. que permanecem no local até a madrugada. o maior em amplitude). Pinga e Petisco (nome que sintetiza os objetivos de seus freqüentadores). somados ao Café La Barca e ao bar Papo Pinga e Petisco.. Porém. O local. um bar-dançante. o Actor’s Studio (uma escola de interpretação teatral para amadores).E.Nesta pequena quadra estão situados73 os dois espaços do grupo de teatro Os Sátyros (conhecidos pelas montagens que levam ao palco temáticas relativas a sexualidade e gênero). É interessante destacar que há uma prática comum entre estes espaços (exceto o dos Parlapatões. Sem dúvida. mas se constitui como um pólo de sociabilidade e convivência de artistas que vem ganhando freqüentadores cada vez mais assíduos. o bar Papo. o N. de forma que os clientes interajam com os transeuntes da Praça Roosevelt. um ateliê de artes e mosaicos. o Teatro Brasileiro de Comédias. o Teatro Fábrika São Paulo. recebe uma grande quantidade de freqüentadores a partir do início da noite. estimulados pela consolidação de um local de boemia artística74 que se firmou definitivamente com a inauguração do Espaço Parlapatões em 2007. o elemento fundamental para a concentração de público é que a Praça Roosevelt não é apenas um local de fluxo e consumo de “produtos teatrais”. além do recém-inaugurado Espaço Parlapatões. o teatro Sérgio Cardoso. razoavelmente movimentado durante as tardes. cristalizam o local como um ponto de boemia artística. 74 73 Uma vez que os teatros dos Sátyros e o Espaço Parlapatões recorrem à criação de bares ou cafés como forma alternativa (e constante) de manutenção de uma renda mínima.X. de dispor parte das suas mesas na calçada. favorece a concentração de um público interessado em artes cênicas no local. que contém também uma livraria de quadrinhos. o galpão do grupo Folias da Arte. o Repertório MPB. a proximidade da Praça Roosevelt com outros espaços culturais e teatrais. estes. o Teatro Oficina. o Teatro Studio 184 (uma sala de espetáculos gerenciada por um grupo de mesmo nome e que abriga em suas produções diversos artistas iniciantes). 116 . o espaço da Companhia do Feijão. como o SESC Anchieta.

o grupo decidiu mobilizar o histórico e a atuação dos 117 . Além do público “espontâneo” desta malha de teatros. é incentivado pelas peças de horário alternativo nos finais de semana. do Teatro de Narradores. logo atrás da Praça Roosevelt) e demais “teatrões” paulistanos como o Alfa. integrantes de grupos estabelecidos (ou em vias de consagração) envolvidos em alguma das muitas montagens em cartaz. entre outros integrantes de coletivos de teatro. Com a abertura do Espaço Parlapatões a partir do final de 2007 na Praça Roosevelt. pelos arredores da praça. utilizam seus teatros para abrigar montagens de grupos que não possuem teatro próprio. de Mário Bortolotto. Com ela. portanto. de forma alguma aleatória. que elegeram esta área de São Paulo como seu “ponto de encontro” preferencial. do Pessoal do Faroeste. principalmente o dos Satyros e dos Parlapatões. dirigido por Eduardo Tolentino). A escolha de situar o Espaço Parlapatões na Praça Roosevelt não foi. centro de São Paulo. formado por jovens artistas iniciantes. o grupo encontrou o local geográfico. que respondem geralmente pelo maior afluxo de público. do Engenho Teatral. com início à meia-noite. responsável pela agitada vida social da região. em sua grande maioria. é fundamental destacar que os espaços cênicos ali localizados. o ambiente social e o espaço discursivo ideal para o desenvolvimento de suas atividades e a consolidação de sua identidade cênica. estes freqüentadores da Praça Roosevelt compreendem as peças ali apresentadas como provenientes de uma produção teatral diferenciada. além da promoção de diversos eventos e festivais.Não é por acaso que o público da Praça Roosevelt é. bem como por algumas personalidades locais. ampliando ainda mais a circulação de pessoas pelo local. atores do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho. Este público simpatizante do “teatro alternativo”. rótulo que se opõe diretamente ao teatro Cultura Artística (situado na Rua Nestor Pestana. Não é difícil reconhecer. críticos. do Redemunho. Apesar da grande disparidade entre as montagens dos diversos grupos destacados. integrantes do grupo Tapa (importante referência teatral. do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. da Companhia Cemitério de Automóveis. de um “teatro alternativo”. dramaturgos e diretores teatrais. geralmente firmados sobre estrelas e divulgação televisivas.

seja pelos diversos 75 É fundamental destacar que a Lei de Fomento (n. cuja programação geralmente é vista como menos importante. como Gianni Ratto. imprimindo nova modificação ao contexto. uma vez que ambas as companhias já se constituíram como “referência teatral” no local. Cia do Feijão e Teatro Oficina. se por um lado a lei vai ao encontro das expectativas da maior parte da classe artística paulistana. A crítica foi repudiada por diversos artistas . canalizado pelo vereador Vicente Cândido. Como efeito principal da abertura do Espaço Parlapatões nota-se uma reformulação do público da praça.html 118 . Aimar Labaki. que valoriza a existência de grande oferta de opções de lazer e entretenimento na cidade de São Paulo. 76 Exemplo disso é a crítica de Antunes Filho ao processo de seleção dos grupos que seriam contemplados com o fomento. utilizando seu espaço como uma forma de “centro cultural”. Ao mesmo tempo em que se promoveu rapidamente como referência teatral da capital paulista.Satyros de modo a contribuir para este ambiente urbano do centro de São Paulo. o efeito do Programa de Fomento ao Teatro e a consolidação da Praça Roosevelt como um pólo teatral vêm acarretando algumas mudanças nas formas de percepção do “teatro alternativo” ali localizado. que reivindicaram incentivo estatal.75 Trata-se de uma forma de incentivo municipal continuado que procura fomentar as produções de companhias estabelecidas. denunciando o que concebia como prática do “teatro de compadres”.76 Dessa forma. que envolveu diversos grupos teatrais e expoentes da cidade de São Paulo. Muitas dessas companhias têm utilizado o recurso para estabelecer-se em local próprio.entre eles um dos principais integrantes do Teatro Fábrica São Paulo. registrada em reportagem da Folha de São Paulo em 29 de dezembro de 2004. o espaço dos Satyros e dos Parlapatões confere aos espetáculos ali abrigados uma visibilidade muito maior do que a de seus vizinhos. Não há como tratar do estabelecimento destas companhias teatrais em sedes e teatros sem mencionar a Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo . com trajetória e montagens reconhecidas. Hugo Possolo e coletivos como Cia do Latão.net/arch2005-01-23_2005-01-29. sua execução não passa isenta de muita polêmica. bem como a de seu público. Sérgio Audi. Sem dúvida.º 13279) é vista no contexto como o resultado vitorioso do evento Arte contra a Barbárie. dando origem à Lei.zip. O material pode ser lido em http://laerteeomundo. seja pelas ações da mídia e pelas peças renomadas que passaram a abrigar. estimulando a manutenção de sua produção teatral. Entretanto.

Guilherme Weber. procuravam estabelecer um “diálogo” com o público paulistano. no período da etnografia. o Espaço Parlapatões contribuiu para a ampliação e diversificação do público que freqüentava a Praça Roosevelt. Foram pouquíssimas as peças que não haviam conquistado (ou que não tiveram indicação para) os prêmios Shell. entre outros. Todos esses fatores contribuíram para promover a mudança de perfil do público que freqüentava a Praça Roosevelt. seja através das palestras. foi possível perceber a presença de artistas nacionalmente conhecidos no Espaço. os artistas desta malha de teatro do centro de São Paulo acabaram passando a comportar algumas personalidades com atuação nos meios de comunicação de massa. cuja estréia da peça Os Solidores no Espaço Parlapatões contou também com a presença de Lázaro Ramos. ou mesmo pela participação inicial em uma rede de teatros “independentes” que ameaçava formar-se. A cobertura nos veículos especializados. como é o caso de Thais Araújo. De um estrato “marginal” e “alternativo”. Estado de São Paulo e revista Bravo!. uma vez que valorizou sempre a consagração prévia dos atores. além de Mariana Ximenes. dotado de um café-bar com produtos mais refinados. APCA ou outras instâncias de consagração teatral. foi também surpreendente para um teatro recém-inaugurado. um palco externo e uma ampla área de 119 . seja através da política de curadoria das peças que adotavam em seu espaço. que veio presenciar uma apresentação de Juca de Oliveira. Isso porque os Parlapatões estavam envolvidos em um circuito teatral que extrapolava em muito o mero desenvolvimento de seus espetáculos.eventos que desenvolveu. particularmente quando. Paulo Autran. como Folha de São Paulo. Jô Soares. denotando a grande experiência e o bom relacionamento dos integrantes dos Parlapatões com profissionais da mídia. diretores ou do próprio espetáculo. workshops e festivais que promoviam. A seleção das montagens para estrear no teatro dos Parlapatões constituiu estratégia fundamental para a construção do nome do espaço. Também é inegável constatar que o Espaço Parlapatões é muito mais bem equipado do que as demais sedes das imediações. debates. Durante a etnografia. Paulo Gorgulho.

Roberto Alvin. ou mesmo de um modelo simplista de expressão cômica. ao mesmo tempo em que o grupo conquistava merecida consagração por sua trajetória.77 Assim. A lista do elenco mobilizado por essas peças incluía artistas de destaque. produtores e amadores das artes. de Campos de Carvalho. um local e uma voz dentro do cenário teatral paulistano. o espaço logo se tornou referência fundamental no circuito artístico paulistano. Wanderlei Piras. Com esta análise. Marcelo Mansfield. Taís Araújo. construída em oposição à aplicação meramente formal de uma teoria da performance. Além disso. 77 120 . Juliana Galdino. Luiz Valcazaras. entre outros artistas que vêm se destacando no cenário teatral paulistano. referentes ao “significado na linguagem e contexto” (Turner. em uma tentativa de desvincular-se de classificações. necessário para a construção da posição do artista marginal. o discurso “alternativo” e algumas tomadas de posição procuram manter o processo de profanação do sagrado. Não é casual o fato de o grupo ter montado seu primeiro drama em 2008: A vaca de nariz sutil. o grupo continua se esforçando por não permanecer “rotulado”. entre outros. pelos diversos eventos (mostras. o teatro hospedou montagens dirigidas por Alexandre Reinecke. e sim buscar compreender e explicar a complexa relação entre as expressões e Desde sua inauguração. festivais. Como contraponto à institucionalização do grupo. para atingir seus objetivos de compreensão. André Fusko. Condensando diversos artistas. 1982:21).convivência. acredito ter contribuído para demonstrar como a antropologia da performance. Marat Descartes. Nilton Bicudo. Denise Weinberg. ilustrando o que Bourdieu (2005) concebeu como “lógica da revolução permanente”. seja pela sua “badalação” e pelo constante movimento de artistas. Com a consolidação de sua identidade cênica. Aimar Labaki. ciclos) realizados pela equipe. Mário Bortolotto. como Jacqueline Obrigon. não deve limitar-se ao recorte espacial e temporal dos fenômenos expressivos. entrava também em uma nova fase de sua trajetória em que a relevância de seu Espaço acabava por ofuscar sua produção cênica. a equipe. Fernanda D’Umbra. uma vez institucionalizada. seja pela qualidade e diversidade dos espetáculos que passou a abrigar. Gustavo Machado. passa a buscar a construção de uma “escola” de forma a permanecer influente e impactante no panorama teatral. repleta de mesas para o conforto de seus freqüentadores. Vivian Buckup. a conquista de uma sede.

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“do mundo”. regionais. A inserção de “outras músicas” no campo musical paulistano produz uma oposição simultânea às noções difusas de “música brasileira” e “música internacional” como segmentos do mercado e da mídia formados por grupos hegemônicos de gêneros e estilos musicais. realizada em São Paulo junto a uma rede de músicos dedicados à expressão da “diferença” cultural através da inserção de músicas de diferentes países e regiões do mundo no circuito e no mercado musical paulistano e brasileiro. como um problema metodológico e de produção textual por implicar na necessidade de se estabelecerem mediações que permitam a compreensão da interdependência entre o geral e o particular. assim. A abordagem desta questão origina-se em minha própria experiência de pesquisa etnográfica. As performances de “músicas do mundo” apresentam-se. mediação e relações interculturais: entre o geral e o particular na produção de “músicas do mundo” Paulo Ricardo Müller Introdução A descrição é uma forma de interpretação na medida em que reflete o direcionamento do olhar do etnógrafo para determinados aspectos e características do cenário de pesquisa onde este procura se inserir. e estas formas de classificação do que são consideradas “outras músicas” suscitam o questionamento sobre o que é considerada a música “própria” ou “normal” neste contexto. Essas músicas recebem diversas classificações: étnicas. tradicionais. dessa forma. 124 . contextualizando-os em processos mais abrangentes de transformações e/ou disputas sociopolíticas que explicitem a contribuição da análise de casos particulares para a compreensão ampla do funcionamento das sociedades. A relação entre os cenários específicos de pesquisa antropológica e os “panos de fundo” sóciohistóricos constitui-se. Este reconhecimento exige um esforço de explicitação e objetivação das questões que motivam antropólogos e etnomusicólogos a selecionarem determinados objetos e universos de pesquisa etnográfica. como adições de referências “globais” à primeira e de referências “locais” à segunda.Etnografia. locais.

em sua constituição. o que em determinadas abordagens é tomado como um contexto abrangente pode ser. o papel dos sujeitos sociais na produção de reflexões sobre a relação entre suas próprias práticas e os discursos e estruturas universalistas – e. antes de mais nada. refletir sobre a questão da mediação entre os cenários etnográficos e os contextos sócio-históricos a partir da análise da relação entre determinados discursos universalistas e as formas de enquadramento de atores sociais e de pesquisas etnográficas nesses contextos. procuro ressaltar a relevância da etnografia como um método para constituição de modelos de compreensão dos processos de universalização e particularização de determinados discursos e práticas tendo em vista. dependendo.78 O geral e o particular como posições de poder O que é geral e o que é particular referem-se. por um lado. Por fim. Ou seja. o mercado. em grande parte. a nação – nos quais são enquadrados ou procuram se inserir conforme estratégias variadas. tendo em vista o papel da cultura expressiva. Na terceira parte analiso o circuito paulistano de “músicas do mundo” a partir da discussão sobre mediação e relações interculturais esboçada nas duas primeiras. assim. 125 . assim como pelas sugestões e comentários à versão prévia deste artigo. as formas de contextualização de pesquisas etnográficas interligadas pela análise de questões investigativas similares entre si. por outro.Buscarei. Na segunda parte trago algumas abordagens etnográficas retiradas de diferentes pesquisas sobre situações de contato e processos de mediação e negociação de identidades. permitindo a caracterização dos mesmos fenômenos como experiências únicas ou particulares. 78 Agradeço às organizadoras pela iniciativa e diligência deste volume. que permitem. Na primeira parte procuro discutir algumas abordagens antropológicas em relação a discursos universalistas como os do Estado-nação e da globalização. das perguntas motivadoras de cada pesquisa. principalmente a música. a focos específicos privilegiados por pesquisadores.: a globalização. a caracterização da abrangência dos fenômenos observados a partir de sua ocorrência simultânea em vários cenários. neste artigo.g.

concebendo análises históricas particularizadas pelo foco em biografias e processos sociais situados em períodos de tempo considerados curtos. permitindo-nos compreender por que determinadas perspectivas se apresentam à observação como mais gerais ou mais particulares. Esta percepção do processo de construção dos objetos de pesquisas sociais é. até os anos 1970. Neste debate. as condições de enunciação do que é geral e do que é particular pelos sujeitos no mundo social. sendo compreendidos como os objetos de pesquisa de historiadores. também. sobretudo se levarmos em conta situações de contato entre diferentes lógicas sociais como disputas pela instituição de diferentes modelos de organização social.79 A possibilidade de trânsito entre “escalas” de observação sugerida pelos micro-historiadores não questiona suficientemente a existência do micro e do macro como propriedades dos fenômenos sociais pesquisados. a partir do qual é possível problematizar os papéis da antropologia e da história como domínios de produção do conhecimento social diferenciados pela abrangência espaço-temporal de suas abordagens típicas. raciais. como indicadores de hierarquias de poder e relações de dominação em grande parte internalizadas e naturalizadas pelos diferentes setores e grupos que a constituem. 126 . onde o foco em determinados fenômenos e grupos sociais é justificado como opção metodológica. À antropologia é pertinente a crítica ao entendimento do “local” como universo de pesquisa inserido em um contexto abrangente. Abèles (1998) refere-se ao modo como o “local” é de certa forma fetichizado como propriedade acadêmica da antropologia. pelos discursos nacionalistas e desenvolvimentistas. As formas vigentes de representação das sociedades – delineadas. mas também pelas identidades culturais. por exemplo. em parte. de classe. nesse sentido.por outras. Para além do âmbito das pesquisas sociais. etc. é preciso problematizar. as contribuições que compõem a obra organizada por Revel sugerem uma redefinição metodológica do que vinham. derivada do debate sobre a micro-história proposto por Revel (1998) no contexto francês. tomado como um caso particular e vice-versa. reificando a distinção micro/macro construída pelo foco continuado da historiografia ocidental na análise de “mentalidades” formadas por fatores que caracterizam diferentes “épocas históricas” como unidades de análise. 79 De maneira geral. – operam.

descontextualizam seu papel nas dinâmicas de transformação e diferenciação política e cultural que sucedem as conjunturas nas quais estes objetos são acessados. imagens e descrições coletadas e produzidas por folcloristas. uma visão “monumentalista” da noção de cultura. que. Esta reflexão é aprofundada ao levar-se em conta a assimetria das relações de poder nos processos de contato entre diferentes grupos sociais – por exemplo. arqueólogos. enquanto as representações produzidas por outros atores no mesmo contexto são reduzidas ao estatuto de versões parciais do mesmo processo. A reflexão antropológica 127 . A reificação da cultura material retratada pelas coleções de objetos e descrições etnográficas como representações perenes do “outro” constitui. principal contexto de reflexão do autor – onde as descrições e representações sociais produzidas a partir de visões de mundo hegemônicas são fixadas e difundidas como “verdades”. A partir dessa idéia. assim. proponho buscarmos compreender como se relacionam os discursos que se pretendem abrangentes e produzem um senso de “verdade” universal atribuída a modos particulares de construção e organização da sociedade com as lógicas sociais ligadas a modos de vida aos quais é atribuído o papel de “locais” ou particulares. antropólogos. argumenta Rosaldo. reproduzidos pela opinião pública como representações objetivas do “outro”.É particularmente útil para a compreensão desta asserção a reflexão de Rosaldo (1993) acerca da formação do pensamento sociológico ao longo do século XX desde sua busca por objetividade na definição dos objetos de pesquisa. produziu formas de descrever a cultura como o patrimônio específico de diferentes coletividades a partir de objetos. no contexto geográfico da fronteira política entre o México e os Estados Unidos. O papel político-administrativo da noção de fronteira coloca em evidência o papel do Estado-nação como uma estrutura definidora da percepção da relação entre o particular e o geral. Da observação sobre a fronteira como palco de disputas e conflitos entre diferentes lógicas sociais é possível abstrairmos uma “situação social de fronteira” aplicável a cenários diversos como ferramenta de compreensão dos papéis desiguais desempenhados pelos sujeitos. Essa tendência.

128 . que analisa diferentes aspectos da construção da identidade do gaúcho do Rio Grande do Sul em correlação com os discursos de construção da identidade nacional brasileira. consiste em um processo de racionalização de valores que expressam a ligação dos indivíduos a determinadas “comunidades imaginadas” como grupos diferenciados por características compartilhadas no espaço e no tempo.sobre a relação entre “a parte e o todo”80 das identidades nacionais explicita dinâmicas excludentes implicadas na formação e consolidação do Estadonação a partir de modelos de organização social caudatários das concepções de sociedade oriundas de elites econômicas. mas também na construção de uma história compartilhada pelos grupos sociais compreendidos neste processo. As identidades nacionais devem ser analisadas. sejam estas projetadas como “culturas nacionais” ou associadas às “culturas locais” ou “regionais” supostamente circunscritas aos Estados-nação. 1984). políticas e culturais que vieram a liderar e/ou orientar estes processos. As representações das identidades nacionais não somente indicam processos históricos de “invenção das tradições” pelas elites políticas e econômicas a partir de referências. necessariamente. 2001). como também engendram políticas de diferenciação e essencialização estratégica das identidades socioculturais (Sahlins. dessa forma. A crítica a certo determinismo da nacionalidade como identidade transversal aos grupos abarcados pelo Estado evidencia. A constituição da “consciência nacional”. o discurso nacionalista funda-se não apenas em um projeto de delimitação territorial e lingüística dos países. sob o prisma dos diferentes projetos de sociedade em disputa por sua definição em períodos históricos determinados. no lugar de uma relação geral/particular. conforme a concebeu Anderson (1991). Nesse sentido. 2001. Pelo contrário. constituemse como linguagens agenciadas de acordo com diferentes contextos de 80 Em referência a Oliven (1992). símbolos e imagens culturais particulares (Hobsbawm e Ranger. Yelvington. A distinção entre lógicas estatais e sociais não corresponde. a distinções entre atores sociais. uma relação de tensão entre diferentes lógicas e modelos culturais de organização e funcionamento das sociedades com condições desiguais de acesso a aparatos institucionais e de legitimidade para empreender ações políticas efetivas.

São estes contextos de interação. conflito e negociação que entendo como “situações sociais de fronteira” nas quais se posicionam grupos formados por sujeitos vinculados por histórias e projetos compartilhados – comunidades imaginadas – organizados de acordo com valores e linguagens sociais – territorialidades. entendo que os discursos universalistas operam como argumentos que legitimam a posição dominante de modelos particulares de organização social através da prescrição de formatos “internos” – sistemas administrativos burocráticos. circulação e expansão de modelos particulares de organização social. etc. códigos lingüísticos. A compreensão de como os discursos e práticas se universalizam passa. entre outros. internalizados como “verdades” universalmente aplicáveis não apenas pelos grupos que os produzem como também em diversos outros contextos. Não se trata. de buscarmos entender as posições assumidas por dois ou mais lados em uma disputa. pelo foco nos “interstícios sociais” (Wolf. democracia representativa. da democracia. dessa forma. estejam estes vinculados oficialmente ao Estado ou aos interesses locais ou regionais de onde provêm. 129 . restringindo as formas possíveis de formação e desenvolvimento nacional aos modelos estabelecidos pelas nações ou blocos que detêm poder de decisão e coerção na configuração política corrente em diferentes contextos. 2001a: 167-168) dos processos de inserção. Ver Wallerstein (2007). da globalização e dos direitos humanos.interação entre sujeitos que representam interesses específicos. buscando explicitar as condições sociais nas quais determinados valores e discursos são generalizados ou universalizados. as assimetrias de poder implícitas na eficácia dos discursos que afirmam o que é universal e o que é particular. 81 A este respeito. – que operam como requisitos para o reconhecimento dos territórios nacionais como Estados de direito pela “comunidade internacional”. A abordagem antropológica dessas situações nos permite analisar essa questão através da observação dos espaços de mobilidade dos sujeitos que fogem ao foco da visão macropolítica. tensão. mas sim como a forma de organização social do Estado-nação veicula valores associados a sua constituição enquanto estrutura de referência para o imaginário sobre o particular e o geral/universal. sistemas partidários. culturas expressivas – divergentes da lógica prevalecente no modelo de formação de sociedades nacionais baseado em discursos nacionalistas orientados pelo ideário modernista articulado pelos discursos do desenvolvimento.81 Situações sociais de fronteira evidenciam. dessa forma. portanto.

Situações de contato engendradas por movimentos de expansão desse modelo ensejam esquemas de compreensão que consideram a constituição de sistemas culturais representados pela sobreposição das lógicas sociais articuladas pelos grupos implicados nesses processos. Amselle (1998) sugere. resultando em um tipo “híbrido” de organização política. onde os processos em questão se constituíram historicamente. como um ponto de partida para compreendermos esses processos. insígnias militares. produzindo um senso de universalidade das formas ocidentais de produção e sua associação com a noção de “moderno”. A disseminação das formas de industrialização e formação do Estado-nação a partir do eixo Europa Ocidental-Estados Unidos. De uma perspectiva similar. o autor propõe compreendermos a formação de grupos étnicos e dos nacionalismos africanos sob a ótica de uma “lógica mestiça” resultante dos movimentos de contato entre grupos étnicos africanos e com as culturas e modelos ocidentais de organização estatal. A análise de Mitchell (1956) sobre a dança kalela no contexto do colonialismo inglês na Rodésia do Norte (hoje Zimbábue) mostra como as formas corporais e musicais dessa dança são reelaboradas a partir da incorporação de símbolos europeus de prestígio – vestimentas. com relação às representações etnológicas sobre as fronteiras entre países e grupos étnicos na África (especialmente na África ocidental). De forma alternativa. as experiências de implementação e consolidação dos Estados independentes latino-americanos contribuíram para a institucionalização de conflitos entre elites informadas por valores eurocêntricos de modernidade e desenvolvimento e as concepções de sociedade e territorialidade de populações indígenas e de classes populares.Discursos universalistas e contatos interculturais A reflexão sobre a constituição e expansão do modelo de Estado-nação serve. Para Canclini (1995). aqui. estabelece um modelo que restringe as possibilidades de construção nacional em períodos históricos posteriores (Wolf. haver uma categorização das “culturas africanas” que as adéqua a uma concepção ocidental de nação definida como unidade sociocultural. 2001b: 186). expressões verbais – por líderes de equipes em competições de dança entre grupos étnicos. Cohen (1969) aborda a política de controle sobre o comércio de longa distância de bens alimentícios 130 .

criando condições sociais e políticas para a “etnização” do imigrante e de suas práticas culturais (Cardoso de Oliveira. 2000: 8). expressando ao mesmo 131 . Pensando sobre o conceito de identidade vis-a-vis os processos de circulação transnacional contemporâneos. Esse processo justapõe a nacionalidade do “outro” às identidades englobadas pela construção dominante de identidade nacional. políticas e culturais dos locais de destino geram demandas por classificações e enquadramentos do “outro” a partir da lógica local de reconhecimento e legitimação das identidades. religiosas e culturais que buscam negociar os sentidos atribuídos a sua presença na sociedade receptora. A condição ambígua do imigrante orienta o agenciamento de práticas políticas. políticas e religiosas. passando a uma “retribalização” processada em sua inserção nas relações familiares. A relação entre o nacional e o imigrante é construída. apontando como diferentes grupos étnicos também se constituem como “grupos de interesse” na busca por posições privilegiadas no fornecimento de produtos. nesse sentido. Cardoso de Oliveira (2000) analisa o papel de comunidades de imigrantes na produção de situações sociais nas quais as reelaborações de práticas sociais dos contextos de origem ou de residência operam como mecanismo ao mesmo tempo de diferenciação e de incorporação na sociedade envolvente. as práticas que se espera que advenham desse status e os projetos e expectativas dos imigrantes com relação a sua inserção na sociedade envolvente.(gado e noz-de-cola). A análise da concorrência entre esses grupos de interesse é marcada pela observação de estratégias de “destribalização” por parte de sujeitos que buscam estabelecer relações comerciais externas independentemente das hierarquias dos sistemas políticos “tribais” – os quais confeririam o papel de negociadores aos líderes políticos e religiosos das etnias –. sobre conflitos entre uma série de representações sobre o “ser” de determinado lugar. A formação de espaços e redes transnacionais de atores sociais identificados com outros contextos nacionais inseridos nas relações econômicas. exercido pelos Hausa (Nigéria) no início dos anos 1960 em uma cidade tradicionalmente ioruba.

especialmente a música. mas por performances e narrativas que minimizam o estatuto de refugiado como critério imediato de reconhecimento social (Malkki. A análise da formação de uma comunidade e da criação de instituições culturais por refugiados tibetanos na Índia mostra o papel das práticas culturais.tempo uma identidade estrangeira exotizada e uma identidade inserida nas relações locais de produção e consumo. por narrativas que tendem. 2002: 63). Silva. mas também uma identidade “em crise” pela alienação dessas práticas em relação aos contextos sociais que servem de referência para sua realização. estabelecendo um senso compartilhado do exílio ou do refúgio como uma etapa na construção de sua cultura ou de seu país de origem. nesse sentido. A abstração das fronteiras político-administrativas em função da desconstrução sociológica dos processos de naturalização do Estado-nação como estrutura 82 Beserra (2007) oferece o exemplo de como a imagem de um grupo de imigrantes brasileiras em Los Angeles é negociada em relação ao paradigma de mulher brasileira nos Estados Unidos: Carmen Miranda. Reyes. em alguns casos a adaptação de refugiados aos novos contextos de residência não se manifesta pela inclusão de novos elementos em suas práticas originais. como representações do patrimônio cultural construído no exílio como patrimônio de um Tibete idealizado. migrações – de um ponto de vista etnográfico. Essas abordagens permitem caracterizar fenômenos sociais freqüentemente descritos em termos “macro” – nacionalismos. à redução ou evidenciação de processos de diferenciação sociocultural abarcados por essas unidades de análise. Práticas culturais expressivas são agenciadas nesses contextos para comunicar não somente uma identidade “de fora”. respectivamente.82 Em contextos de migrações forçadas. A caracterização de fenômenos como globais ou locais é orientada. colonialismos. depreendendo das relações observadas em trabalhos de campo as condições concretas de realização dos movimentos e como são percebidos no horizonte das práticas e representações sociais dos sujeitos pesquisados. 1999). Dessa forma. o agenciamento de determinadas práticas culturais aparece como mecanismo de reconstrução da memória social sobre o contexto de origem. 2005. ao qual este deve “retornar” (Diehl. 132 . 1995.

A música é um elemento constitutivo das representações de identidades nacionais. Por outro lado. processo similar é desencadeado pelo incentivo do Estado Novo (19301945) à difusão de mensagens nacionalistas através do samba e promoção do carnaval como metáfora da sociedade nacional (Oliven. ao percebermos as fronteiras como construtos históricos é que se torna ainda mais premente a análise do poder que determinadas visões de mundo exercem sobre as formas de construção social das sociedades e culturas. fixando essas práticas como a “música guineense” no imaginário ocidental. Pelo contrário. tuteladas pelo governo da Guiné (capital Conacri) após a independência (1958) no intuito de difundir a imagem de país unificado através da união dos grupos étnicos que compõem a população guineense no contexto de suas performances. Exemplo paradigmático do processo é fornecido pela 133 . Gâmbia. onde se tornam referências para a prática dos instrumentos e técnicas observadas nos Ballets. A adequação de imigrantes a noções exotizadas de suas práticas culturais é agenciada como uma forma de inserção social através da expressão de uma diferença prescrita por noções estereotipadas de sua cultura. 1982: 69). Charry (2000) reconstitui a codificação da música mande. observa-se a produção de políticas de fomento à nacionalização de determinadas músicas como representação para o exterior de uma unidade política e cultural nacional. músicos guineenses exilam-se em países da Europa. associando propriedades sonoras e performáticas a padrões de ação construídos como características dos países e dos sujeitos deles originários . Em diversos contextos. No Brasil. Em decorrência.de transição do particular para o geral não implica uma desconsideração das conseqüências concretas que têm na vida social. produzindo uma correspondência intrínseca entre “ser brasileiro” e praticar ou gostar de samba nas representações do Brasil no exterior. ocultando conflitos e tornando invisíveis outras influências inscritas nas histórias de suas expressões culturais contemporâneas. a reprodução dessas práticas e de hábitos de consumo propicia o surgimento de circuitos e mercados culturais identificados pelas nacionalidades de seus produtores. sistema cultural que abrange partes do Senegal. construída a partir de diferentes tradições musicais dessa região na forma de companhias de dança (Ballets Africaines). Guiné e Mali.

a “salsa” ocupa um espaço de transição no imaginário musical internacional. muitos dos quais também migrantes ou descendentes de migrantes oriundos de estados do Nordeste. A disputa pela “salsa” ilustra o papel da música nas interações entre imigrantes e sociedades nacionais. Bezerra da Silva. dos quais registrou informalmente o repertório que posteriormente veio a utilizar em sua produção musical. representativo do “latino” dentro da segmentação étnica vigente nos Estados Unidos. sendo apresentada ao mesmo tempo como um ritmo caribenho. ritmo dançante que teria dado origem à “salsa” quando combinado com elementos estéticos do jazz (Manuel. creditando a autoria das músicas que gravava e cantava em seus shows a estes músicos (Vianna. Mediações culturais entre o geral e o particular Retomo. para o Rio de Janeiro em busca de postos de trabalho. neste caso de um contexto “regional” para um contexto “nacional”. a partir daqui. estabeleceu relações com sambistas de favelas cariocas. Com mais da metade da população residindo fora do país. 134 . nos anos 1960.análise da circulação e comercialização da música cabo-verdiana. o problema da mediação entre os contextos etnográficos e os panos de fundo sócio-históricos vis-a-vis os processos de mediação social observados e analisados como estudos de caso antropológicos/etnomusicológicos. 1999). Construída como um gênero por grupos de imigrantes cubanos e porto-riquenhos nos Estados Unidos. A comparação entre as trajetórias dos músicos Bezerra da Silva e Luiz Gonzaga ilustra a concepção de mediação social/musical como categoria de compreensão de processos de mobilidade de atores sociais através de cenários culturais particulares ou universais. cubano ou porto-riquenho. e chega ao Cabo Verde através de emigrantes que retornam ou visitam o país (Dias. grande parte da produção fonográfica da música definida como cabo-verdiana é comercializada primeiramente na Europa e nos Estados Unidos. 2004: 158). a “salsa” também é agenciada pelos praticantes do son em Porto Rico. Tanto Bezerra da Silva quanto Luiz Gonzaga são originários do interior de Pernambuco e migraram. tendo passado períodos na pobreza. lá construindo suas carreiras profissionais como músicos. 1994: 258). Assim. e como um gênero híbrido.

a sanfona.Luiz Gonzaga consagrou-se no cenário fluminense como o inventor do baião. Esses três casos abordam o trânsito de músicos e sons musicais por cenários culturais cuja abrangência é simbolizada pela disponibilidade de recursos de produção. distribuição. formas de ampliação de sua atuação profissional de um âmbito “regional” para o “cenário nacional” através de estúdios. que passaram a fazer turnês e participar de festivais internacionais desde então (Meintjes. A relação entre Paul Simon e os grupos de “música sul-africana” mostra dois movimentos: a incorporação de elementos musicais retirados de uma cena “local” a um repertório de música pop internacional através da participação destes grupos no disco Graceland e a 135 . também. A incorporação da isicathamiya – gênero de música vocal a capella associada à etnia zulu – ao álbum. Outro exemplo de “mediação musical” diz respeito à confecção do álbum Graceland. o triângulo e a zabumba –. à época concentradas na região Sudeste. representada pelos créditos e direitos autorais que o músico recebia referentes a este repertório (idem). Já durante os anos 1980 surgiram críticas ao que seria a apropriação da cultura tradicional da sociedade sertaneja do Nordeste brasileiro. cantada pelo grupo Ladysmith Black Mambazo. difusão e consumo musicais. 1990). do qual participaram alguns grupos musicais sul-africanos. a mídia musical também apontou a visibilidade conferida por Graceland ao Ladysmith Black Mambazo e outros grupos sulafricanos. lançado em 1986. assim como de um repertório característico de festas populares do sertão pernambucano. com capacidade para promover a divulgação e distribuição comercial de suas músicas no mercado nacional. foi questionada por parte da crítica musical internacional e por grupos nacionalistas na África do Sul por projetar a música sul-africana adaptada a moldes ocidentais de produção musical no cenário internacional. compondo uma obra que apresenta “misturas” de gêneros musicais populares sul-africanos com o repertório pop e rock de Simon. Os movimentos de Luiz Gonzaga e Bezerra da Silva para o Rio de Janeiro são. do músico norte-americano Paul Simon. transmitido e aprendido através da oralidade naquele contexto. gênero musical formatado a partir de elementos visuais e sonoros – o chapéu. distribuidoras fonográficas e radiodifusoras. Por outro lado.

da música popular produzida principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. com isso.83 As músicas – assim como diversas outras formas de arte ou de cultura expressiva – criadas e produzidas em determinados países não necessariamente se enquadram nos moldes socialmente predominantes do que se concebe como a cultura ou a música nacionais. dessa forma. Buscam. O modelo hegemônico de “música brasileira” refere-se a gêneros e músicos difundidos e comercializados internacionalmente sob o rótulo genérico MPB. O mainstream se caracteriza. A observação destes casos contribui para a problematização da relação socialmente classificadora entre os discursos universalistas e a produção de expressões culturais que os representam. o discurso das culturas nacionais também exclui expressões sonoras que não reconhece como próprias. a religião. Para um alargamento desta discussão. 136 . neste caso. também para a dissolução de fronteiras entre os fenômenos pesquisados como “domínios” de análise especializada nestes discursos – e. analisei a constituição de uma rede de músicos e produtores de “músicas do mundo” que se caracteriza pelo agenciamento de “outras músicas” para compor seus repertórios. que incluiria 83 Contribuindo. produzindo questionamentos com relação à legitimidade de suas práticas. estabelecer um marco de diferenciação em relação tanto ao que reconhecem como o mainstream musical internacional quanto ao que reconhecem como o modelo dominante de “música brasileira”. Por outro lado. ver Dulley (2009) neste volume. distribuição e consumo internacionais através da projeção do Ladysmith Black Mambazo nos mercados musicais europeu e norte-americano. como os gêneros e músicos difundidos e comercializados em massa pela mídia musical e por distribuidoras fonográficas ao redor do mundo através dos segmentos pop e rock. etc. o parentesco.inserção da própria “música sul-africana” nos circuitos de produção.g. Em pesquisa sobre a articulação da noção de “diversidade cultural” através da música na cidade de São Paulo.: a música. A noção de mediação trazida por essas abordagens permite que compreendamos as situações de contato intercultural tanto nos termos das disputas em torno das “apropriações” alegadas pelos atores nelas implicados quanto em termos de “influências” exercidas nos contextos de interação pelos sujeitos oriundos de diferentes países ou grupos sociais. a etnicidade.

coletada e gravada pela musicista Marlui Miranda junto ao grupo indígena tupari. 137 . 84 Citação encontrada em diversos releases de imprensa do Mawaca em jornais e folhetos de divulgação de shows e discos. do disco Para Todo Canto (Mawaca. foi arranjada a partir de três músicas: Hirigo. Ainda assim. Magda Pucci aponta como fundamento para a realização desse arranjo a guturalidade da voz feminina que caracterizaria essas músicas em seus contextos tradicionais. Bre Petrunko. também. foi considerado pelo músico paraibano Chico César – ganhador de dois prêmios Grammy de world music – como “o único grupo no Brasil que faz world music de verdade”84. Para além das diferenças geográficas e lingüísticas. a bossanova como Brazilian jazz). cujo repertório é cantado em mais de dez línguas diferentes. Magda Pucci aponta como uma das principais dificuldades de inserção comercial dos discos e shows do Mawaca a interpretação nacionalista do produto musical baseada no contexto de produção. A música Boro Horo. A líder do grupo.sobretudo as formas e movimentos musicais derivados de combinações do samba com expressões musicais urbanas cosmopolitas (por exemplo. música tradicional finlandesa gravada pelo grupo Värttinä. 2004). O grupo Mawaca é reconhecido na cena paulistana como um grupo formado por sete mulheres e sete instrumentistas. e tem seus CDs distribuídos pelo selo de world music da gravadora paulistana Azul Music. do repertório do Coro das Mulheres Búlgaras e Suuret Ja Soriat. A crítica de Magda Pucci é dirigida às lojas e megastores que revendem os CDs e DVDs do Mawaca nas prateleiras de “música brasileira”. A identificação do Mawaca com a noção de “músicas do mundo” é. A inserção de “músicas do mundo” no mercado musical paulistano/brasileiro passa por uma tensão com as formas de classificação engendradas pelos discursos generalizantes da “identidade nacional” e do “mercado internacional”. construída a partir de sua inserção no mercado musical. Magda Pucci. Foi o primeiro grupo brasileiro a participar do festival WOMEX (World Music Exposition). produz arranjos que combinam músicas oriundas de diferentes países/culturas de acordo com similaridades estruturais entre elas.

Por um lado. A gente tem que sair de lá. Esta última denominava músicos e grupos musicais dedicados a uma especialidade musical caracterizada pela música de uma etnia. a cultura aparece como “lugar de origem” da música. A gente tem a ver com world music. talvez goste do Mawaca. ia na gerência. de um país ou de uma região específica. da Maysa. Essa relação mostrou uma distinção conceitual entre o que se buscava definir como “músicas do mundo” e o que se entendia como “música étnica”. muda a gente de lugar”. Quem gosta de música africana. 15/05/2007). busquei analisar a relação entre os repertórios musicais e as trajetórias sociais de músicos e grupos. nesse sentido uma “cultura da diversidade” ou mesmo uma cultura musical cosmopolita que apreende o “outro” através do consumo de produtos culturais que tenham como referência as culturas características de diferentes lugares do mundo. atentando. do lado da Marisa Monte. árabe. Essa distinção revelou uma tensão entre diferentes lógicas de representação da noção de cultura. Minha inserção nessa rede se deu pelo interesse em compreender como são incorporadas as “músicas do mundo” aos horizontes de produção e criação de músicos paulistanos e ao cardápio de atrações culturais da cidade. servindo de referência para os discursos de contextualização dos processos de incorporação desses elementos aos repertórios dos grupos.Por quê? Porque é feita por músicos brasileiros. fica lá. “pelo amor de deus. tem que ficar dentro da MPB. comunicação pessoal. 138 . vocês são brasileiros. Eu já briguei um monte com essas lojas. Por outro. “Não. Mas a banda é formada por brasileiros. para situações de contato com “outras culturas” que tenham funcionado como “fontes” de sonoridades ou de músicas para seus discos e performances. sobretudo. Para isso. moço. reunindo um conjunto de características imaginadas como patrimônios dos povos aos quais ela se vincula. a “cultura” também é apresentada como o processo de construção da cena da “música étnica” ou de “músicas do mundo” em São Paulo. tem que ser aí” (Magda Pucci. enquanto a primeira era utilizada para falar de repertórios formados por “encontros” e “fusões” de diferentes culturas.

O sentido prático dessa abordagem é representado pela relação entre os grupos de “músicas do mundo” com os grupos de “música étnica”. O Sexteto Mundano é formado pelo próprio Carlinhos Antunes tocando viola caipira. articulando ao mesmo tempo uma valoração da diferença e um projeto de síntese da diversidade cultural através da música. maioria populacional daquele país. O disco Orquestra Mundana (Carlinhos Antunes. pelo contrabaixista Rui Barossi. inserindo-se no circuito musical paulistano como um representante da música e cultura mandinga.As situações de contato realizadas pelos atores dessa rede evidenciam dialeticamente os aspectos distintivos e conectivos de diferentes culturas musicais. reconhecido na cena paulistana como instrumentista e compositor de “músicas de diferentes regiões do mundo” cuja principal característica é a formação de grupos e espetáculos com músicos oriundos de diferentes tradições/culturas musicais. enquanto os primeiros atuam como “processadores” dessa diversidade. o acordeonista Gabriel Levy e o percussionista Jotaerre. o saxofonista e flautista Beto Sporleder. 2004) teve participações do tocador de kalimba – instrumento de percussão melódica associado ao grupo étnico 139 . onde fundou a Troupe Djembedon e o Instituto África Viva. a Troupe Djembedon estabeleceu uma relação de colaboração com o grupo Sexteto Mundano. Como um dos grupos reconhecidamente de “música étnica”. liderado pelo músico Carlinhos Antunes. onde os últimos operam como “fornecedores” de sonoridades e práticas musicais características das culturas que representam. país da África Ocidental onde aprendeu as técnicas de execução do djembe e dos dununs e aspectos das narrativas históricas e culturais do grupo étnico mandinga. O Sexteto Mundano é a base para a montagem da Orquestra Mundana. a Troupe Djembedon foi criada pelo músico Luis Kinugawa após sua permanência por dois anos na Guiné. Luis Kinugawa retornou ao Brasil casado com a dançarina guineense Fanta Konate. mas também como referência de “música da Guiné” e da África Ocidental. o saxofonista e rabequista suíço Thomas Röhrer. cuatro venezuelano e kora. produzindo músicas e repertórios resultantes do cruzamento de aspectos similares ou afins entre as culturas musicais agenciadas. formato no qual músicos de diferentes “músicas étnicas” se juntam ao sexteto. Em São Paulo.

como representado pelo filme Latcho Drom. a Orquestra Mundana86 teve as participações da cantora Sol Brasil. Louis Plessier.xona. desta forma. durante todo o mês de março de 2007. difundindo uma noção de “cultura indiana”. 88 São exemplos disso as relações entre os músicos Otávio Jr. o cantor congolês Josué. 86 O espetáculo foi batizado Latcho Drom. musicológicas e etnomusicológicas. França) – desse processo. “cultura árabe”. Ao se posicionarem no circuito paulistano como referências ou como representantes destas culturas. do Zimbábue – Otávio Jr. e entre os grupos Troupe Djembedon e Kamberimba com relação ao djembe e à cultura mandinga. históricas e antropológicas acerca destes lugares. passando pelo Oriente Médio. em referência ao filme do cineasta franco-argelino Toni Gatlif (1993). até chegar à Europa Ocidental (Espanha. Leste Europeu (Romênia). que conta com representantes de cada etapa – desde a Índia. que retrata a jornada do grupo étnico Roma desde a Índia até a Europa Ocidental. 87 É importante notar a complementaridade entre a narrativa da “jornada cigana” e a composição de palco do grupo.. brasileira radicada na Espanha onde canta em grupos de flamenco. Durante minha pesquisa em 2007. descendente de manuches – denominação dos grupos ciganos localizados na França –. tocando. unidade do bairro Santana). respectivamente. 140 . relações de concorrência pela representatividade destas culturas no contexto paulistano quando mais grupos realizam este movimento em direção aos mesmos países/culturas88. os músicos Krucis na cítara indiana e Edgar Silva nas tablas. os grupos de “música étnica” prelecionam aspectos destas culturas de acordo com suas experiências particulares. alaúde e derbak. Sami Bordokan e William Bordokan. o violinista romeno Florian Cristea. e Fanta Konate e Luis Kinugawa dançando e tocando djembe. os diversos grupos de “música étnica” tem suas trajetórias profissionais fundamentadas em viagens aos lugares de origem dos instrumentos e repertórios que praticam e pesquisas em fontes literárias. “cultura mandinga” ou “cultura cigana” que evidencia estes aspectos escamoteando outros.87 Assim como a Troupe Djembedon. na programação do Festival Visto Livre85. e o violonista francês. músicos descendentes de libaneses que realizam concertos de música árabe em São Paulo. respectivamente. folclóricas. componente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). ambos os casos analisados em Muller (2009). Surgem. cuja temática era a música dos povos nômades. 85 Realizado e promovido pelo SESC Santana (Serviço Social do Comércio. cinematográficas. e Décio Gioielli com relação à kalimba.

a escolha dos sons refere-se. as práticas musicais étnicas remetem aos processos de construção de identidades em contextos que tensionam sua relação com os discursos do Estado e das fronteiras geopolíticas. A “diversidade cultural” representada pelos grupos de “música do mundo” é composta. assim. tanto no palco – em termos de compreensão mútua de sinais não-verbais utilizados para a comunicação entre músicos durantes as performances – quanto extrapalco – laços afetivos. político-partidários. itens de repertório – utilizados em rede pelos grupos de “música étnica” e pelos grupos de “músicas do mundo” inserem-se na cena musical paulistana ao mesmo tempo como referências musicais específicas de outras culturas e como referências oriundas de um cenário “global” de trocas e circulação de saberes musicais. Apresentadas individualmente. por um agenciamento ao mesmo tempo estético e político das músicas e culturas disponíveis no cenário paulistano. assim. escolares. sendo relativamente restritos os eventos especificamente dedicados a cada país ou cultura representada por esses grupos. Nesse sentido. A Troupe Djembedon aponta como fontes de repertório e técnicas da música mandinga tanto a “música das aldeias” quanto as “danças da capital”. As escolhas por determinadas culturas ou músicas a serem utilizadas nesses processos também passam pela escolha dos músicos e grupos que dividirão o palco ou o estúdio de gravação. etc. explicitando. 141 . inseridas nos “encontros” e “fusões” articulados pelos últimos. os sons musicais devem “encaixar” uns nos outros e na proposta do grupo que os utiliza. processo desencadeado pela sensibilidade do músico às possibilidades de uso dos instrumentos com que tem contato ao longo de sua carreira. a relação dos grupos de “música étnica” com os de “músicas do mundo” também se apresenta como um mecanismo de acesso a recursos e espaços de produção e divulgação das propostas específicas dos primeiros. Politicamente. à afinidade pessoal entre os músicos que os tocam. técnicas. Esteticamente. propiciando a ocorrência de insights criativos que levam às combinações observadas na rede de produção de “músicas do mundo”. também. Os recursos sonoros – instrumentos.A inserção dessas músicas étnicas no circuito paulistano ocorre sobretudo em espaços destinados a “músicas do mundo”. intelectuais.

qual seja. bem como no circuito musical da “diversidade cultural”. Isso quer dizer que. ao posicionarem-se como mediadores do acesso de músicos de “música étnica” ao circuito de “músicas do mundo”. as “músicas étnicas” são percebidas como “músicas do mundo” na medida em que permitem a produção de sínteses ou bricolagens de sons que buscam representar traços ou aspectos similares presentes nas diferentes culturas musicais agenciadas principalmente pelos músicos e grupos articuladores dessa rede social. Enquanto a “música étnica” é representada pelas especialidades de determinados músicos atuantes na cena musical paulistana. os músicos articuladores – neste caso Carlinhos Antunes e Magda Pucci – 142 . Considerações finais A abordagem etnográfica de práticas culturais classificadas pelos discursos universalistas nos permite colocar em perspectiva os vetores de influência e poder representados a partir de eixos geral-particular.processos de derivação da música considerada tradicional – que remontaria à constituição de um império mandinga. A inserção das “músicas étnicas” nos repertórios dos grupos de “músicas do mundo”. aproximadamente onde hoje se situam a Guiné. fonográfico. Por outro lado. de shows e festivais. por um deslocamento da perspectiva sobre as origens culturais e geopolíticas das músicas para uma perspectiva “cosmopolita”. a noção de diversidade cultural é delineada pelas experiências de contato intercultural e das escolhas estéticas e políticas dos músicos que articulam as particularidades na forma de diversidade. a Gâmbia e o Mali – para uma “música nacional” constituinte da representação projetada pelos governos pós-coloniais como “cultura da Guiné”. o Senegal. que apreende recursos e técnicas de produção e performance musicais tendo como fonte os próprios processos de circulação transnacional de músicos e grupos musicais através do mercado – informacional. ainda que constituída pela busca constante por expressões musicais “diferentes” das disponíveis no circuito musical paulistano. de cursos e workshops –. assim. No entanto. no século XIII. etc. as “músicas do mundo” são projetadas como representações da “diversidade cultural”. é representado. apresentadas em conjunto. das migrações.

então. sejam revendidos juntamente com outros nomes da “música brasileira” que potencialmente também incorporam influências “internacionais”. por exemplo. Neste processo. Em uma primeira escala vemos que as “músicas étnicas” assumem posições “locais” quando difundidas enquanto “músicas do mundo”. na posição considerada “chave” para a compreensão de como se configuram os cenários ou universos “mais amplos” de atuação dos sujeitos e das próprias pesquisas etnográficas. combinadas entre si para dar uma idéia de “diversidade cultural”. as relações de poder implícitas em cenários tomados como dados e compreender. essa tendência é particularizada quando os grupos paulistanos de “músicas do mundo” se projetam além dela. A relevância da observação dos papéis e das práticas de mediação está. dessa forma. delineando mapas de “músicas do mundo” a partir de coleções particulares de sons e instrumentos pesquisados e trajetórias pessoais de contatos com sujeitos representantes de “outras culturas”. A análise etnográfica dos processos de mediação e contato permite-nos explicitar.também restringem as experiências de contato do público com a diversidade. representando a tendência que seria da própria cena cultural paulistana. ainda que resultando em produtos sonoros diferenciados no que diz respeito à explicitação de símbolos. os valores e pressupostos que informam a percepção socialmente construída do que é geral e do que é particular. Ou seja. 143 . o particular e o geral são negociados através das relações de poder e influência sobre os mecanismos de decisão e acesso a recursos de produção e consumo. recursos e expressões musicais de “outras culturas”. permitindo que os discos do Mawaca. Falar da inserção de “músicas do mundo” em um circuito local significa falar de um processo de relocalização das práticas características de linguagens musicais específicas que servem como referência para as culturas de outros países/regiões. a diversidade da cena paulistana não é a mesma de outros contextos. Ainda que sejam sínteses de influências de outros países e culturas. a partir de situações onde se revelam lógicas conflitantes acerca dos modos de enquadramento e classificação de produtos e experiências culturais.

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ETNOGRAFIAS DO COLONIAL 146 .

recorri à teoria da prática de Pierre Bourdieu (especialmente 1972 e 2007). grupo equivalente a cerca de 40% da população do território angolano. 90 Para mais esclarecimentos acerca do partido teórico adotado. Para tanto. Não abordarei a questão em detalhe no presente texto por falta de espaço. Sendo meu material empírico documental. 89 O etnônimo Ovimbundu foi cunhado por missionários e administradores no período colonial para designar os falantes do idioma umbundu. Ao considerar a produção dessa convenção de uma perspectiva relacional e pragmática. vi-me diante do desafio de lidar com textos produzidos por apenas alguns dos agentes envolvidos na prática do cotidiano na missão. compreender suas diferentes estratégias no espaço de mediação e disputa das missões católicas da Congregação do Espírito Santo no Planalto Central de Angola. coloquei-me o desafio de compreender o processo de comunicação e o engendramento de uma convenção de significação compartilhada no cotidiano das missões.A missão de um ponto de vista relacional: um ensaio para a apreensão da prática a partir dos documentos Iracema Dulley A prática e os documentos da perspectiva da mediação O presente texto passa em revista uma questão metodológica central da pesquisa que desenvolvi no mestrado: a apreensão da prática por meio de documentos escritos – mais especificamente. colocou-se a necessidade de realizar um esforço de constituição dos agentes envolvidos na disputa. Assim. assumindo papel crucial nos períodos subseqüentes. território dos Ovimbundu89. como constituir agentes representantes de posições distintas numa arena de disputa simbólica a partir das informações disponíveis nos arquivos. habitantes do Planalto Central de Angola. à abordagem proposta por Paula Montero (2006) para pensar a mediação no universo missionário e à reflexão desenvolvida por Roy Wagner (1981) acerca do processo de elaboração da alteridade90. busco avaliar o quanto o procedimento se mostrou profícuo e até que ponto essa escolha possibilitou dar conta de minha proposta inicial: constituídos os agentes. A designação foi então assumida pelos próprios como identificação étnica. ver Dulley (2008). Na pesquisa. marcados pela guerra de independência e por anos a fio de guerra civil. 147 .

a conivência dos primeiros com costumes “tradicionais” repudiados pelos missionários e a presença inelutável dos ovimbanda e olonganga. 1951. Valente e Guennec.em que pese a preponderância quase absoluta de fontes missionárias. Para um tratamento do material referente à tradução. históricos e etnográficos realizados em meados do século XX. França. sendo as últimas especialmente interessantes para acessar disputas sobre significado. como explicitarei a seguir. e o estudo de Berger (1979). 1985). uma compilação de provérbios e adivinhas (Valente. reveladora de aspectos sutis das disputas simbólicas na missão não apreensíveis em outros tipos de fonte. 1973). compilação do autor alemão em conjunto com os habitantes de Kasenje com o intuito de dar a conhecer os aspectos rituais e as crenças dos membros da comunidade “sob a ótica nativa”. especialmente capítulos 4 e 5. uma coletânea de fábulas (Valente. 1954). 92 Concentrarei aqui minha exposição nas situações etnográficas. a trabalhos de historiadores e antropólogos no período ou sobre o período. 1989. uma gramática do umbundu (Valente. ainda. voltei o olhar para as traduções missionárias. Vali-me principalmente de fontes espiritanas: cartas e relatórios à sede da congregação e ao governo português consultados no arquivo dos espiritanos91. Valente. tais como os íntimos laços de parentesco entre os catequistas católicos e os “pagãos”. ver Dulley (2008. Para além das situações etnográficas. Duas obras foram especialmente significativas: a etnografia de Edwards (1962). instruções aos catequistas (Alves. realizado durante o mês de janeiro de 2007. buscando apreender o processo de mediação – fundamental para o estabelecimento de uma convenção de significação compartilhada – a partir das escolhas feitas no estabelecimento de equivalências entre os termos em português e umbundu92. 1964a). 1937) e etnografias missionárias (Estermann. que retrata o cotidiano de uma missão católica na aldeia de Epalanga. extremo noroeste do Planalto Central. As duas últimas se mostraram muito profícuas na revelação de aspectos do cotidiano local silenciados pelas fontes missionárias. 1972). Recorri. fez-se necessário um período de pesquisa de arquivo na sede da Congregação do Espírito Santo em Chevilly-Larue. 148 . Quanto ao recorte 91 Dada a quase inexistência de fontes referentes a meu objeto de pesquisa no Brasil. figuras associadas pelos missionários à prática do “feiticismo”. catecismos (Lecomte. A exceção foram alguns estudos acadêmicos. na década de 50. dicionários bilíngües (Alves. 2009). 1964b). 1983.

num determinado contexto de disputa. considerando que os missionários são agentes interessados em operar. mas comunicável. percebemos que o texto produzido por esse tipo de agente não poderia ser reflexo exclusivo de seu “ponto de vista”. Isso explica a periodização adotada.temporal. merecendo um estudo específico. cuja alteridade apresentou-se inicialmente como radical. “mulatos” ou “cristãos” ao fazer referência aos diversos sujeitos Em 1961 foi deflagrada a guerra de libertação nacional. ao momento de maior intensidade da ação missionária. “brancos”. entre o estabelecimento das missões e a deflagração da guerra de libertação em 196193. 94 93 “Indígena” foi a categoria utilizada pelo governo colonial português para classificar os “nativos” de suas colônias ultramarinas. outras categorias encontradas no discurso dos agentes. Utilizo-a da mesma forma como utilizarei. O Concílio Vaticano II. os agentes e suas estratégias Na tentativa de constituir agentes. Não tenho aqui absolutamente a intenção de valer-me dela como categoria de análise. entre aspas. não são simplesmente expressão de sua visão de mundo. ver Thomaz (2002) e Dulley (2008). teve início em 1962. de modo a torná-lo não só inteligível. generalizações que permitam fixar uma convenção de significação com sentido para os diversos agentes envolvidos e. trata-se de um trabalho de decodificação de um “outro”. Ora. deparei-me com a seguinte dificuldade: as fontes produzidas pelos missionários e pelo governo colonial valiam-se de macro categorias como “indígenas”. a pesquisa contemplou o período que vai do lento estabelecimento das primeiras missões em território ovimbundu. mas produto dos significados sedimentados no cotidiano da missão. Os dois eventos trouxeram mudanças significativas para a prática missionária. passível de servir de esteio e força motriz à comunicação na missão. Para uma discussão mais detalhada a respeito do indigenato. Em suma. entre o último quartel do século XIX e o primeiro quartel do século XX. controvérsias e diálogos ali ocorridos. por sua vez. se os registros missionários advêm da relação com os “indígenas”94. mas também dos processos de negociação aos quais esta foi submetida e que a transformaram como condição de possibilidade da própria interação. O texto. visto terem sido minha porta de entrada para sua constituição a partir das fontes. 149 . “pagãos”. “assimilados”. Contei como fontes primordialmente com produções missionárias. assim. por isso as aspas. Não obstante. nas disputas.

g. O material empírico de que dispus obrigou-me a adotar abordagens distintas para as diversas categorias de agentes. O fato de considerar dois missionários específicos não implica tratá-los como indivíduos. Os “indígenas” Muitos dos agentes envolvidos no espaço de disputa das missões em Angola aparecem sob o guarda-chuva da categoria de “indígenas”.presentes no contexto. por exemplo. Assim. Pélissier. 1978. A literatura historiográfica e antropológica sobre o período. missionários bastante significativos para as missões no Planalto Central. tende a basear-se em macro instâncias como “Estado”. tentarei mostrar como “missionários” e “indígenas” subdividem-se em diversas outras categorias. Em contrapartida. Se tais macro categorias eram de fundamental importância para compreender o contexto mais amplo no interior do qual esses agentes e as próprias missões atuaram95. 150 . 2). Tal esforço mostrou-se de fundamental importância para revelar as relações no nível local da missão. “Igreja” e as diversas denominações aplicadas à categoria colonial dos “indígenas” (e. a despeito do papel fundamental que desempenharam como mediadores em localidades mais afastadas dos centros missionários. 1998 e 2001. A abundância de dados biográficos a respeito dos missionários. por sua vez. inclusive do ponto de vista comparativo. e valer-me de generalizações menos metódicas ao abordar agentes como os catequistas. Péclard. Grande parte do esforço aqui empreendido foi caracterizá-los enquanto agentes da missionação em Angola. O mais 95 Este esforço foi realizado de forma mais detida em Dulley (2008. optei por considerar as trajetórias de Estermann e Valente. não apreensíveis a partir de categorias tão englobantes. No decorrer da exposição. especialmente cap. Bender. por vezes sobrepostas. não encontrei uma única referência a catequistas católicos que fosse além de seus nomes e me permitisse considerar casos particulares para construir trajetórias. os chefes de posto e o mais-velho das escolas afastadas das missões. os agentes que busquei compreender claramente não se encaixavam nessas categorias de classificação. 1997). permitiu uma caracterização mais minuciosa.

Idealmente. e. Assim. objeto de grande interesse por parte de seus moradores. Além disso. os catequistas eram responsáveis pelas escolas das aldeias. na medida em que representavam a oportunidade de ascensão social mais certeira para seus filhos. e também o menos explicitamente mencionado. formadas principalmente por ex-escravos resgatados pelos missionários (Koren. 1954). por sua vez. dada a escassez de missionários para cobrir todo o território. embora esta não fosse a periodicidade considerada ideal. estes acabavam por visitar cada aldeia de uma a duas vezes por ano. Contudo. em caso de necessidade. tornadas mais viáveis a partir de 1902. batizá-los se assim o desejassem e desde que se convertessem. cuja eleição como veículo da evangelização católica no interior se deu após o fracasso da primeira estratégia missionária de conversão: a formação de “aldeias cristãs” em torno das missões. era freqüente que os missionários fossem transferidos de uma missão para outra tão logo estabeleciam com a população local as relações de proximidade tidas por necessárias ao trabalho de evangelização. As crianças filhas de pais “cristãos” podiam ser batizadas sem necessidade de conversão (Alves. comunhões e casamentos eram sacramentos administrados exclusivamente pelos missionários. Praticamente todas as crianças da aldeia freqüentavam as escolas. 1982). 151 . Os batismos. instituíram-se como método de controle de suas atividades as visitas periódicas dos missionários às aldeias do interior. Os catequistas. com a construção do Caminho de Ferro de Benguela. as aldeias ficavam entregues aos catequistas a maior parte do tempo. que viria a atravessar o Planalto Central.importante deles. Aos catequistas competia administrar a extrema-unção. parecem ser os catequistas. o que era visto pelos missionários com enorme desconfiança. Evidentemente. as missões deveriam contar com no mínimo dois padres europeus para que um deles pudesse permanecer na missão e o outro se encarregasse das visitas às aldeias. que atendiam a uma demanda dos próprios aldeãos: alguns informantes de Edwards chegaram a dizer-lhe que estavam no “tempo da escola” (Edwards. deveriam fazer uma visita mensal à missão e comparecer às festas religiosas acompanhados dos “fiéis” de sua aldeia nas datas estabelecidas. Além de serem encarregados da administração de parte dos sacramentos. em se tratando de “pagãos” adultos à beira da morte.

1962: 84), em contraposição ao “tempo da borracha”, período de grande prosperidade no Planalto Central pré-“pacificação”96. Na Instrucção aos catequistas, o bispo Alves, consciente do interesse dos “indígenas” na instrução de seus filhos, recomenda aos catequistas que sejam estudiosos e se esforcem por ensinar, para além da doutrina, as primeiras letras e os números a seus alunos (Alves, 1954). Edwards chega a afirmar que não era raro ver adultos comparecerem às aulas na escola da aldeia. Segundo o autor, os informantes identificavam seu pertencimento a uma determinada aldeia com base no local onde se localizava a escola que freqüentavam (Edwards, 1962). Essas escolas-capelas, ou écoles de brousse, serviam de arena aos interesses de vários agentes, em momentos distintos do cotidiano da aldeia: das primeiras instruções à evangelização; da narração de contos e histórias locais às narrativas bíblicas e orações; do exame dos catecúmenos pelos missionários à resolução de conflitos entre os moradores. Nesse cenário, o catequista surgia como figura dotada de grande prestígio, mediador dos interesses e intermediário entre a aldeia e a missão e, por vezes, o posto administrativo (Von Eichenbach, 1971). Os alunos
97

das

escolas

incluíam

“cristãos”

(já

batizados)

e

catecúmenos.

O catecumenato, período de instrução que antecedia o

batismo, geralmente durava de dois a três anos, conforme o domínio da doutrina demonstrado pelo aluno quando de seu exame pelo missionário. Ao batismo seguia-se a aquisição de um nome “cristão”, cobiçado inclusive pelos “não-cristãos”. É interessante notar que todos os catequistas mencionados por Valente em Paisagem africana (1973) têm um primeiro nome “cristão”, conquistado por ocasião do batismo, seguido de um sobrenome em umbundu. Possuir um nome cristão era, sem dúvida, uma marca de distinção cobiçada

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O período de “pacificação”, também conhecido como “avassalamento”, ocorreu em Angola entre finais do século XIX e início do XX. Durante o período, o governo português submeteu os territórios do interior ao seu domínio oficial, no mais das vezes por meios militares. As chamadas “guerras de pacificação” foram fundamentais para o estabelecimento da pax missionaria e envolveram, dependendo da localidade, de pequenas escaramuças militares a verdadeiras chacinas nos casos em que os habitantes do local se mostraram refratários à presença colonial (Pélissier, 1997).
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Os alunos da escola eram todos localmente designados pelo termo vakwasikola, ou seja, “os da escola”. A designação era bastante bem vista pelos habitantes da aldeia, inclusive pelos que não freqüentavam a escola (Edwards, 1962).

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enquanto sinalizadora de um vínculo com o universo dos ovindele (“brancos”), aspecto a ser mais explorado adiante. O catequista conduzia as orações diárias na escola, pela manhã e ao cair da tarde, com os homens de um lado e as mulheres do outro. Poucos eram os presentes às orações matinais, sendo mais numerosos nas orações vespertinas, momento no qual o catequista anunciava as notícias da aldeia, como uma visita próxima do missionário ou a iminência de um recrutamento de mão-de-obra. Eram freqüentemente seguidas de cantos e danças variados, nos quais a liturgia cristã se misturava às danças locais. Aos domingos, praticamente todos os vakwasikola compareciam à cerimônia. As orações eram, via de regra, realizadas em umbundu, podendo ser cantado algum hino em português. Para além dos alunos regulares, alguns habitantes compareciam esporadicamente à escola para participar das orações. Grande parte dos entrevistados por Edwards, ainda que não freqüentassem a escola, manifestavam o desejo de serem batizados. Havia aqueles que, tendo participado do cotidiano das escolas em algum momento, haviam-se afastado, mas ainda compareciam ocasionalmente às cerimônias mais importantes, como as grandes procissões realizadas nas missões por ocasião de Corpus Christi (Edwards, 1962: 77). As visitas dos missionários às escolas eram acompanhadas de todo um cerimonial de boas-vindas envolvendo cânticos, vivas e discursos. Edwards compara a recepção do missionário à cerimônia dos casamentos locais: a semelhança se dava tanto no que diz respeito ao aspecto ritualístico quanto ao nível de comoção que suscitava. A presença do missionário associava-se à administração dos sacramentos: ouvia as confissões dos aldeãos, batizava os catecúmenos considerados aptos e rezava as missas nas quais os “fiéis” recebiam a comunhão. Quando da visita do missionário, competia ao catequista relatar-lhe os incidentes ocorridos na aldeia, principalmente a realização de casamentos ou funerais “pagãos”. O missionário inquiria o catequista também com relação ao “estado espiritual” dos freqüentadores da escola e fazia comentários e críticas a respeito do estado de conservação das construções e do conhecimento doutrinário de seus alunos. O catequista era responsável por relatar ao missionário a presença de “adivinhos” e “feiticeiros”

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e de unidades residenciais poligâmicas (os “feiticeiros” e polígamos batizados eram passíveis de detenção). As visitas eram ocasiões privilegiadas para apresentar ao missionário pedidos de intercessão em favor da aldeia junto ao posto administrativo. Semelhantes pedidos também podiam ser feitos por ocasião das visitas do catequista à missão, geralmente em torno de quatro por ano, conforme a distância da aldeia, a disponibilidade do catequista e as necessidades. Os catequistas preferiam não se envolver com o posto administrativo, procurando esquivar-se de tarefas como recrutamento de mãode-obra e levantamento de dados estatísticos para o censo. Preferiam colocarse como intermediários entre a missão e a aldeia, representando tanto os “pagãos” quanto os “cristãos” aos olhos dos missionários e dos administradores, o que nem sempre era possível. Não existem muitas informações acerca do mais-velho da escola para além do papel de fazer a ponte entre o catequista, freqüentemente jovem demais para ganhar o respeito da comunidade e conseguir dela autorização para estabelecer ali uma escola, e os habitantes da aldeia. O mais-velho seria necessariamente alguém com vínculos de parentesco fortes na localidade, respeitado por seus habitantes. O catequista vindo de fora contaria, portanto, com o prestígio do mais-velho para o bom andamento de seu trabalho. Conforme se optou por enviar catequistas às aldeias de seus próprios familiares, observou-se um acomodamento dos poderes relativos do maisvelho da escola e do catequista (Edwards, 1962: 77). Na aldeia, pode-se dizer que as posições mais fortes do ponto de vista do prestígio e do poder fossem as de chefe local, chefe do governo, catequista e mais-velho da escola. Essas posições não eram necessariamente ocupadas cada uma por um sujeito distinto; era bastante freqüente, por exemplo, que o chefe local – o “chefe tradicional”, do ponto de vista da administração portuguesa, a quem esta conferia tais poderes – acumulasse a função de chefe do governo, servindo de intermediário entre os habitantes da aldeia e o chefe do posto administrativo mais próximo. O mais-velho da escola também poderia acumular uma dessas duas funções de chefia, o que era bastante comum nos casos em que o próprio chefe da aldeia solicitava a presença do catequista. Este geralmente se limitava a essa função e ao cultivo de seus próprios

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campos ou trabalho em seu próprio ofício. Todos os quatro eram isentos do pagamento de impostos – o que não se aplicava aos catequistas protestantes – e de serem recrutados como mão-de-obra para trabalhos “voluntários”.98 Eram as figuras cuja posição tinha mais peso nos momentos de decisão sobre quem apresentariam ao posto por ocasião dos recrutamentos, que ocorriam periodicamente e com freqüência afastavam um número considerável de homens em idade produtiva de sua localidade durante um período de cinco anos (Bender, 1978). Os artesãos formados nas escolas de ofícios missionárias podiam ser dispensados do recrutamento mediante o pagamento de uma taxa. Os chefes do governo e da aldeia eram aqueles cuja posição gozava de menor estabilidade, uma vez que estavam sujeitos ao andamento de suas relações com o posto administrativo. Já o mais-velho da escola e o catequista, ligados às missões e preparados por elas, tinham posições mais estáveis. Seriam destituídos apenas no caso de perderem a confiança dos missionários ou envolverem-se em conflitos de difícil solução com os aldeãos. Os chefes de posto, que aparecem nas fontes como sendo exclusivamente brancos, eram representantes locais do governo colonial99. Além dos chefes de posto, trabalhavam neles um intérprete, funcionários com escolaridade primária e policiais, geralmente formados nas escolas das missões. O chefe da aldeia tinha a incumbência de visitar o posto administrativo de sua região mensalmente. Eram atribuições do chefe de posto o levantamento de dados para os censos, o recrutamento de mão-de-obra para os trabalhos compulsórios e a cobrança de impostos. O chefe de posto era uma figura ao mesmo tempo temida – por sua capacidade de influência, por exemplo, na deposição dos chefes e pelo poder de mandar prender os habitantes das aldeias que praticassem alguma contravenção – e prestigiada. Esse prestígio era manifesto em sua escolha por parte dos aldeãos para a arbitragem de conflitos para os quais não obtinham consenso na aldeia.
Os Ovimbundu foram, durante o período colonial, obrigados a prestar trabalho “voluntário” parcamente remunerado em minas, campos agrícolas e construção civil. A obrigação estendiase a todos os “indígenas”, preferencialmente não-cristãos. A proximidade da missão ou o apadrinhamento por algum branco ou “assimilado” eram formas de evitar o recrutamento.
99 98

Os postos eram subdivisões dos “concelhos”, delegados a um administrador, que por sua vez eram subdivisões dos distritos.

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Geralmente falavam umbundu muito mal, eram transferidos pelo governo para outro posto com freqüência e interessavam-se pouco pelos hábitos locais. Edwards afirma que o sentimento predominante em relação a eles era o medo. Não obstante, é digna de nota a recorrência com a qual os habitantes das aldeias requisitavam-nos para a resolução de conflitos (Edwards, 1962). Semelhante posição de prestígio tinham os “assimilados”, oficiais ou pretensos, geralmente comerciantes, que viviam nos entornos das aldeias, ou então nas aldeias formadas predominantemente por “cristãos”. As licenças para possuir estabelecimentos comerciais eram reservadas aos “assimilados”, aos quais os aldeãos também recorriam para solucionar conflitos. Entre os “assimilados”, os indivíduos pertencentes ao clero desfrutavam de status mais alto quando comparados aos comerciantes ou funcionários públicos. Pode-se argumentar que os “assimilados”, embora tivessem status social mais elevado do que os comerciantes brancos pobres e, portanto, freqüentemente habitassem lugares distantes dos aldeãos comuns e em condições distintas, tinham com estes maior proximidade do ponto de vista lingüístico e cultural. Assim, eram, ao lado dos missionários, as figuras mais requisitadas para resolver as querelas locais das aldeias. Edwards relata o caso de um pretenso “assimilado”, Justino, fazendeiro rico de Epalanga, para quem diversos moradores das aldeias vizinhas trabalhavam, que vivia à européia sem possuir documentos de “assimilado”. Seu principal passatempo nas horas vagas era arbitrar os conflitos surgidos entre “indígenas”, que o procuravam por admirarem sua posição. A despeito de se identificarem com os europeus, os “assimilados” mantinham seus vínculos com a população local, configurando uma classe de intermediários. Embora representassem uma possibilidade de ascensão social e equiparação aos europeus, não tinham posições políticas locais fortes no sentido de exercer liderança. Esse status diferenciado seria mais acentuado no interior, pois nas cidades a posição seria reduzida praticamente à isenção do recrutamento para trabalho e à maior chance de ocupar os cargos de funcionários de baixo escalão (Bender, 1978). As fontes apontam para uma acentuada identificação dos Ovimbundu com os “brancos” e seu modo de vida em comparação com os povos
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circunvizinhos. O fato de os “assimilados” viverem ao modo dos portugueses fazia com que fossem vistos como brancos por si mesmos e por outros negros. Essa aproximação ao universo ocindele parece ter sido desejada por grande parte da população ovimbundu e seria possibilitada basicamente por duas formas de ascensão social: o enriquecimento material e a aquisição de capitais culturais “brancos”.100 A relação com o universo missionário aparecia, sem dúvida, como uma porta de entrada para o alcance de tal objetivo, na medida em que era nas escolas que se tinha acesso a tais capitais, os quais, por sua vez, aumentavam as chances de ascensão social no contexto colonial. Havia momentos, entretanto, em que a aproximação dos “assimilados” ao mundo dos “brancos” era posta em questão. Edwards relata uma querela surgida porque Justino, a figura à qual aludi acima, dizia-se “assimilado”, embora legalmente não o fosse: baseava-se no fato de ser um fazendeiro de café e viver ao modo dos europeus para afirmá-lo. A briga ocorrera porque o chefe da aldeia ter-se-ia referido a ele como um otjimbundu tjango, “um simples negro”, fato que colocaria a possibilidade de um empregado seu ser recrutado como mão-de-obra pela administração colonial, pois apenas os empregados dos brancos e “assimilados” não o eram. A reclamação de Justino baseava-se no fato de pretender-se “assimilado”. Sua resposta teria sido Ame sitjimbunduko, “eu não sou um otjimbundu” (Edwards, 1962: 156). Sua réplica traz a polissemia da situação de “assimilado”: poderia ser, simultaneamente, traduzida como “eu não sou negro”, “eu não sou indígena”, “eu sou assimilado”, “eu sou branco” ou “eu sou cidadão português”. A equiparação dos “negros” aos “indígenas”, portanto, não era exclusiva dos registros dos “colonizadores”, mas se reproduzia no cotidiano das relações entre os agentes, que associavam uma determinada “cor de pele” a um determinado tipo de comportamento. Embora a disputa girasse em torno de estabelecer se Justino era ou não um otjimbundu, nota-se que o caráter pejorativo do termo não foi posto em questão por nenhum dos envolvidos na querela, nem mesmo pelo chefe, ele próprio
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É interessante notar que ocimbundu, singular de ovimbundu, quer dizer, em umbundu, “negro”, o que fazia com que os supostos “assimilados” se definissem como “brancos”, ou ocindele. Assim, a distinção entre os “assimilados” e os “indígenas” era estabelecida com base na cor de sua pele, fazendo com que os negros que se diziam assimilados se referissem a si mesmos como “brancos”. A cor negra era, portanto, assimilada ao modo de vida dito “primitivo”, ao passo que a cor branca seria característica do modo de vida “civilizado”.

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“não-assimilado”. A relação com a missão aparece, pois, como porta de entrada para outra classificação, a ocupação de outra posição no contexto local, no qual a aproximação à situação de ocindele era a medida de status corrente.

Os missionários Voltemos agora a atenção aos missionários, buscando compreender as bases da produção de registros sobre os “indígenas” por esses agentes. Para tanto, valer-me-ei de dois missionários atuantes em Angola no período de missionação mais intensa: Carlos Estermann e José Francisco Valente. O primeiro, renomado produtor de inúmeros estudos etnográficos, principalmente sobre os habitantes da porção meridional de Angola, e doutor honoris causa pela Universidade de Lisboa, foi personagem de monta tanto no meio eclesiástico quanto no cenário acadêmico da época. Desempenhou papel político central na empreitada missionária espiritana em Angola ao mesmo tempo em que produziu etnografias reivindicando “objetividade” e “rigor científico” na descrição dos “indígenas”. Valente, por sua vez, poderia ser caracterizado como missionário amante da brousse, cujo principal interesse era viver entre os “indígenas”, esquivando-se sempre que possível de responsabilidades burocráticas e administrativas, mas se dedicando a desvendar a “alma do povo bundo” de modo a aplicar esses conhecimentos na evangelização. Suas obras, pouco exploradas pela bibliografia angolanista, foram analisadas em outra oportunidade (Dulley, 2008, caps. 4 e 5). Por ora, gostaria de contrastar a posição assumida por Estermann e Valente na missão e relacionar sua produção etnográfica ao tipo de interação que estabeleceram com os evangelizandos. Logo nas primeiras páginas da obra Etnografia de Angola (Estermann, 1983), coletânea de artigos escritos por Estermann ao longo de sua vida, o leitor depara-se com um retrato seu datado de 1974: franzino e plácido, de barba comprida, a batina negra coberta de condecorações. Estermann nasceu em Illfurt, em território alsaciano, em 1896. Contam as crônicas missionárias que teria sido encaminhado a Saverne por seus professores após o término dos estudos primários devido ao grande potencial nele visto. Teve seus
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estudos para o sacerdócio interrompidos pela Primeira Guerra Mundial, na qual tomou parte na linha de combate. Levado como prisioneiro para Manchester, lá teria aprendido o inglês. Com o final da guerra, de volta a Chevilly, nos arredores de Paris, concluiu seus estudos e foi ordenado padre em 1922. Seguiu para Portugal com o objetivo de aprender o português e depois para Angola, onde lhe foi designada a Prefeitura do Cubango. Eram os tempos do estabelecimento efetivo da missão católica em território angolano. Sua ascensão foi rápida: em 1933 foi nomeado superior das missões da Huíla e vigário geral da Chela. Nesse período, construiu inúmeros edifícios nas missões pelas quais era responsável e fundou diversos colégios. É retratado como um homem “com visão de futuro”, “empenhado na promoção dos povos” (In: Estermann, 1983). Estermann era figura bastante popular em Angola e Portugal, sendo conhecido não só pelo trabalho de evangelização, mas também pelos artigos de etnologia publicados no meio acadêmico francês, inglês, americano e alemão. Em seu discurso, era recorrente a afirmação de que embora se dedicasse com afinco à produção de conhecimento sobre as populações “indígenas”, fazia-o principalmente com o objetivo de compreendê-las de modo a instrumentalizar esse saber para a evangelização e a “civilização”, aspectos de seu trabalho aos quais conferia maior importância. A despeito do histórico de intelectuais da congregação espiritana, é bastante notável a necessidade recorrente de justificar sua ampla produção “científica” e asseverar que ela não representava empecilho para sua vocação missionária, por um lado, e de legitimar o trabalho etnológico do missionário, por outro, reivindicando maior autoridade na compreensão dessa alteridade devido ao maior tempo de permanência em campo, ao domínio das línguas locais e ao conhecimento mais próximo dos “indígenas”. Estermann afirma:
Cremos que não há etnólogo nenhum, digno deste nome, que negue serem os missionários quem mais facilmente observar psicológicas a actividade dos nãopodem perscrutar a mentalidade, espiritual e medir as reacções civilizados. (Estermann, 1983: 325)

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formadora de opinião a respeito dos “indígenas”. segundo ele. Schapera. Nada mais condizente com tal posição do que a intenção. Isso de uma perspectiva racialista. Lang. embora grande parte de seu trabalho como missionário tenha sido realizada entre os Kwanhama. A preocupação com a etnografia é colocada por Estermann como indispensável à ação missionária porque. a raça negra dos “bantos”). Assim. Herskovits e van Wing. na qual a hierarquia da classificação relaciona um determinado grupo lingüístico a uma determinada “raça” (por exemplo. Lubbock. e uma etnia a uma língua (como é o caso dos “bundos”. de dar conta do território como um todo e revestirse de todo um arsenal teórico-metodológico a ser explicitado como embasamento para as conclusões apresentadas. missionários ou não. sobre o “culto aos ancestrais” e o “feiticismo” em Angola. O escopo de seu trabalho relaciona-se a sua posição no campo missionário: personalidade prestigiada. como Junod. Estermann estabelece um diálogo bastante significativo com produtores de etnografias. ocupando cargos de superior e visitador das missões de parte significativa do território angolano. combinam-se influências do difusionismo alemão e do evolucionismo britânico. Jorge Dias. por exemplo. somente uma observação cautelosa poderia embasar as generalizações necessárias para a compreensão das populações “indígenas”. Um projeto etnográfico que desse conta da descrição e explicação da “cultura” de cada uma das “etnias” que habitavam o território angolano é recorrentemente mencionado. também em suas pesquisas.Esse discurso era legitimado pelas condecorações e pelo reconhecimento da academia portuguesa. certamente o contexto no qual se deu sua formação. Seligman. falantes de “umbundo”). bem como por suas relações no meio acadêmico internacional e pela instituição dos cursos de etnologia e lingüística nos seminários. auxiliam-no na construção de suas generalizações. e vai ao encontro da necessidade de generalizar para estabelecer as diretrizes da missionação entre os “bantos”. o conhecimento das etnografias de outra regiões. 160 . Mendes Corrêa. somado a sua experiência de terreno. A idéia de “estágios de desenvolvimento” alia-se à tentativa de compreender a “cultura” dos povos “indígenas” e o processo histórico de aquisição dos traços que a caracterizam. Em sua obra.

sucinto. que ao longo de seu tempo de missão foi trocado de estação mais de dez vezes.S. a função de superior das missões desagradava-lhe. onde passou 43 anos. 101 161 . Esforçava-se por conseguir um posto no qual pudesse dedicar-se às visitas às catequeses no interior. Nota-se. As poucas cartas trocadas entre ele e o superior da congregação. amante da brousse. Ao que tudo indica. em Balombo (1953). tendo trabalhado. dos aprofundava o conhecimento dos segredos costumes das gentes. no Bailundo. em Caconda. de volta ao Bailundo por desentendimento com outro padre. Os escassos dados biográficos encontrados a seu respeito foram garimpados nos relatórios sobre as missões e seus responsáveis e em suas próprias obras. retornando a Portugal em 1970. na Chicuma (1952). fez o noviciado na França e foi ordenado padre em Portugal em 1936. apenas por imposição de seus superiores e em vista de seu voto de obediência. em Caluquembe.Sp. Há pouquíssimos registros a seu respeito no próprio arquivo da congregação e nenhuma fotografia. pelas correspondências e relatórios. se possível sem ocupar o cargo de superior. no Huambo (1960). espiritano de origem portuguesa atuante nas missões do Planalto Central. em Benguela (1953). afirma: O seu ambiente preferido era no meio das crianças e dos velhos: com aquelas aprendia a língua e. Passou grande parte do tempo em campo e ocupou poucas posições de destaque. em Galangue na década de 30. Aportou em Angola em 1937. ao que parece. abordam problemas de relacionamento com outros padres e freiras e aludem a pedidos seus de que não seja trocado de missão para poder dedicar-se exclusivamente ao trabalho de evangelização. entre outras. assim como cartas de outros missionários a seu respeito. fundada por Valente após sua saída de Caconda. Faleceu em 1993 em Torre d'Aguilha. com e estes.Bastante distinta é a preocupação de José Francisco Valente. pouco afeito às atividades burocráticas. Valente encaixa-se muito bem na categoria do missionário encantado com a vida entre os “indígenas”. tendo-o feito. Seu obituário. (arquivo da C. onde foi superior de 1941 a 1947. sendo encarregado da tarefa apenas por falta de substituto101. em Luimbale. Nascido em 1912 em Unhais da Serra.. Paris) Do que se depreende das poucas correspondências entre os missionários que o mencionam.

em fins de julho de 1924. A preocupação com a língua. Não obstante. É verdade que a sua confiança ainda aumentou a olhos vistos graças à distribuição de abundantes rações de carne. inclusive. no caso o umbundu. Já no dia da nossa chegada ao local previsto encontramos um grupo numeroso de gente “vermelha” graças à intervenção inteligente do catequista regional e da sua mulher.. A compilação enciclopédica e as associações entre significados em umbundu e português.. Nenhuma de suas obras é uma etnografia no sentido estrito do termo. No dia seguinte. (ibidem: 45) 162 . massango. que sua obra não seja citada por Estermann.Não obstante. sendo ainda mais central do que em Estermann. sal e tabaco. (. teriam afluído pessoas de todos os lados: 244 indivíduos em volta da nossa barraca de campanha. Numa das passagens mais marcantes de sua coletânea de artigos. são vários seus trabalhos em umbundu. embora comentários etnográficos permeiem todas elas. a investigar e a tirar fotografias sem encontrar a menor relutância por parte destes selvagens. Estermann relata a forma como se aproximou. ambos pertencentes à nobreza cuanhama.) Em seguida começamos a fazer as nossas observações. vale-se com freqüência desta categoria mais ampla e situa os Ovimbundu como uma etnia pertencente a ela. Depois prosseguimos as nossas jornadas de carroça através da floresta ressequida e arenosa. é constante em todas as suas publicações. não tendo a pretensão de fazer uma teoria generalizadora para todos os “bantos”. embora este o seja por Valente. fica patente o escopo mais restrito dos escritos de Valente: este se limitou aos Ovimbundu. Ao contrapormos a obra dos dois espiritanos. A narrativa de Estermann. de um grupo de “bosquímanes” contatado já há alguns anos por intermédio do padre Carlos Mittelberger. aproxima-se mais do tipo de narrativa etnográfica que situa o próprio autor em campo. são os principais procedimentos utilizados por Valente. por sua vez. É curioso. que o próprio missionário denomina “locubrações lingüísticas”. superior da missão de Omupanda: Viajamos de carrinha até ao ponto do último estabelecimento comercial daquela terra.

uma vez mais. Estermann lamenta não ter sido possível estabelecer com os “bosquímanes” a mesma relação. fotografá-los e realizar medições antropométricas de 25 adultos dos dois sexos. mas à “nobreza cuanhama”. munido de seu caderno de apontamentos e uma câmara fotográfica. com o “mesmo caráter de espontaneidade – diria mesmo cordialidade – que facilmente existe entre um velho missionário e os indígenas” (ibidem: 51). Aqui se vê. entrevistas. restrito como estava principalmente à troca de carne de caça por produtos agrícolas da missão. e depois de carroça através da floresta inóspita. estabeleciam-se pouco a pouco relações mais próximas e duradouras. nas regiões onde havia estradas. querelas resolvidas 163 . Evidentemente. Não pretendo. o leitor visualiza os missionários em viagem árdua pelo interior. contatada por intermédio do catequista e de sua mulher. Em seguida. relatos mais ou menos espontâneos. Encontram-se. a maior distância existente entre os missionários e seus evangelizandos nos ambientes distantes da sede das missões: a intermediação dos catequistas é necessária mesmo para terem acesso a parte da população. afirmar que a “espontaneidade” e “cordialidade” das relações na missão impliquem um equilíbrio na correlação de forças entre os agentes. com isso. Diferentemente da situação descrita acima. de “carrinha” inicialmente. afluem diversos indivíduos dessa raça “vermelha” à barraca. atraídos pela distribuição de alimentos e tabaco pelos missionários. cujo intuito era principalmente observá-los. Após a aproximação inicial. as etnografias produzidas sobre os povos entre os quais trabalhava eram produto de outro tipo de relação: convívio cotidiano no qual se observavam os hábitos e se aprendia a língua. com a “gente vermelha” procurada.Ao ler o relato. em seguida. não pertencentes ao grupo dos “bosquímanes”. o grau de relação estabelecido com essas pessoas (os ditos “bosquímanes”) por parte dos missionários foi bastante irrisório se comparado ao convívio diário com os catequistas e alunos internos e externos das missões. na qual os missionários tentavam achegarse aos “indígenas” oferecendo-lhes comida e acolhida na missão. O afeto entre os “velhos missionários” e “seus indígenas” foi um dos principais mecanismos de manutenção da desigualdade da relação. na qual o missionário passava alguns poucos dias acampado em uma barraca na floresta.

pois. As informações obtidas junto a esse tipo de agente foram. contactando directamente com o povo. restrições à participação dos missionários nos rituais locais. as mais importantes para a conformação do saber missionário sobre os “indígenas”: sabemos que dispunham de pouco tempo para incursões demoradas ao interior. freqüentemente. Estermann revela de onde provêm suas informações: “Un informateur kwanyama qui m’est resté attaché depuis plus de vingt-cinq ans m’a déclaré ceci” (ibidem: 278). relatando o dia-a-dia da e os da conhecimentos possuídos das variadas fases vida mesmo. As descrições oferecidas a respeito dos “povos primitivos” eram. portanto. o predomínio da relação com os evangelizandos na constituição desses saberes era tanto maior quanto mais tempo o missionário passasse na missão. Observador perspicaz e (. como nos penteados ou nos utensílios usados. Estermann foi um missionário sobrecarregado de funções administrativas e burocráticas.. Sobre o método etnográfico de Estermann. conhecedores dos diversos contextos envolvidos nessa comunicação e intermediários privilegiados entre eles. Ora. com as 164 . e que os habitantes das regiões onde a presença missionária não era significativa impunham. mas pelos próprios “primitivos” que as relatavam: falantes do português. tendo convivido anos a fio com os missionários da congregação. anotações sobre a cultura material e os rituais “indígenas” às conversas com os evangelizandos. (In: ibidem: 2) Muito metódico e fiel ao seu horário de trabalho.) etnógrafo curioso. Regista. etc.pelos missionários. melhor se preparavam para a vida cristã. não menosprezava todo o tempo que pudesse dar-se à vasta leitura e à recolha de comunicações dos evangelizandos. minuciosas diferenças e variantes. anota tudo o que vê e ouve de interesse para o melhor conhecimento dos costumes e tradições da população local. afirmam seus colegas da congregação: Depressa se amoldou ao estilo da vida missionária. uma combinação de métodos que vão de viagens. sem dúvida. reservado principalmente aos catequistas.. etnia. Quanto mais estes se abriam. Num dado momento. no mais das vezes filtradas não só pelo olhar do missionário. (In: ibidem: 5) Observa-se.

que enumera entre seus informantes inclusive personalidades que foram ou ainda eram kimbandas (os mesmos agentes associados pelos missionários a práticas “feiticistas”) (idem. sem a preocupação de reafirmar para o leitor a veracidade de seu relato. bastante recorrente em Estermann. preferiu o trabalho de terreno. Valente. Sua perspectiva é condizente com o formato de suas obras: metódico. fariam com que o missionário 165 . por outro lado. a participação no cotidiano dos “indígenas”. por exemplo. Minha hipótese é de que o maior convívio com “indígenas” de diferentes contextos. Assim. O oposto ocorre com o alsaciano. ao invés de enumerar personagens de seu convívio. restavam-lhe poucos momentos de convívio com “indígenas” muito distantes do universo missionário. Valente. uma coleção de impressões e julgamentos esboçados ao acaso. meio e fim. aliado à menor formação acadêmica de Valente. embora tenha sido superior de diversas missões. refletida na forma de suas obras: sem começo. reporta-se a situações concretas: a proibição por parte de alguns mais-velhos com relação à presença dos missionários nos rituais de casamento e enterros. os serões em volta do fogo. partindo sempre do particular para o geral. a presença em missões estabelecidas há pouco. o caso é trazido à luz como mera ilustração. exceto quando este fosse “amigo” dos “indígenas”. Valente menciona um ou outro “bundo” en passant. O tipo de registro produzido como que prescinde da auto-afirmação de sua presença entre os “indígenas”. com pretensão de “rigor científico”. sobrepostos. de “locubrações” lingüísticas sobre o pensamento mais profundo dos “bundos”. passando longos períodos envolvido nas mesmas atividades burocráticas e administrativas. corroboradas por sua observação em campo durante 43 anos. Ao passo que este vez por outra enumera seus informantes já nas décadas de 30 e 40. Ao método de Estermann contrapõe-se a vivência caótica do cotidiano de Valente.obrigações de visitas às missões do território. com exceção das atividades de visitador e das viagens ao exterior. 344). Quando menciona o caso de uma rapariga indignada com a imposição de seu casamento por parte dos pais na Problemática. tanto nas missões quanto no interior. ibidem: 315. somando-se a elas as inúmeras palestras e viagens ao exterior para divulgar o trabalho missionário e a produção “científica” sobre os “indígenas”. apoiando-se em noções etnológicas correntes.

) que se obtêm resultados apreciáveis e positivos. Não julga necessário apontar “indígenas” concretos. 166 . Duas contraíram matrimónio natural e a terceira vive em companhia de um homem cristão da mesma etnia. de entre 18 e 24 anos. é preciso por à vontade o nosso selvagem. agir por forma que ele faça abstracção da presença dum observador estranho. Nas palavras do próprio Estermann. O artigo em questão tem o título “Inovações recentes no culto dos espíritos no Sul de Angola”. pertencentes à mesma catequese. intimamente relacionado ao domínio do vernáculo: É por demais sabido que não é pelo método da interrogação directa (. principalmente no que diz respeito a temas aos quais dificilmente teria acesso a não ser através de recém-conversos. Só assim ele descobrirá. . mas uma característica do contexto colonial português no que diz respeito à produção de conhecimento sobre os territórios ultramarinos.. nem tampouco fazer menções constantes a sua presença em campo. Ela é inferida de seus amplos conhecimentos lingüísticos e dos detalhes do cotidiano “bundo”. todos os seus segredos. A primeira interrogada calhou ser a irmã mais velha de nome Nangombe. seria este o método etnográfico mais apropriado..“Tens espíritos?” 102 A formação acadêmica mais restrita de Valente não é uma questão individual do missionário. É preciso poder surpreender conversas e cerimónias. Todas são mulheres e mães de filhos.considerasse sua convivência com eles critério suficientemente válido para corroborar suas afirmações102. que nos permite visualizar como conduzia suas entrevistas. segue abaixo um interessante relato de Estermann. (ibidem: 41) Não obstante a preferência dada à “observação participante”. que nos foram reveladas as novidades espíritas que estamos relatando. pouco a pouco. foi publicado em 1966 e refere-se ao que via como “novidades” introduzidas nos “tradicionais” cultos aos ancestrais: Foi num interrogatório feito a três catecúmenas muílas.

figura retórica aliás frequente no falar desta gente. . Maior número indicou depois Kakinda. Interessantíssima é a resposta de Kakinda. umbundização de “ataque”.) parece que apanhaste um ataque”.“Dois ovikamwila. Como se vê. a respeito da qual se pode inferir. a palavra oatake. traduzir melhor o que sentiu naquele por lhe parecer momento. (. . Ele coloca as questões: se as interrogadas “têm espíritos”. mas. a mulher do cristão. pois a pobre mulher encontrava-se possessa por sete destes entes “supernaturais”. uma relação de maior proximidade com o universo da missão. justamente por ser “a mulher do cristão”. Felizmente que alguns deles já se tinham afastado. de qual tipo são.“Kutyinoñgonok'ale.“Quantos tens?” Depois de uma curta pausa para fazer a contagem.“Quais são?” . adaptada. vem a reposta com a mesma franqueza.. (ibidem: 356-357) Estermann aparece claramente como condutor do interrogatório. Transcrevemos à letra o que ela . é claro. ela era ainda habitada por quatro.“Sim” . na qual aparece. no momento do exame.. Tradução: “Não podes fazer uma ideia (ou: “Não podes ter uma noção exacta. como se apoderam do “possesso”..) Muito interessante a maneira como ela [Kakinda] explica o estado de espírito em que então disse: se encontrava. Muito embora o missionário afirme que tenha empregado o termo 167 . ela exprime-se segundo esta expressão em português. Tyafwa wapanyala oatake”. É de notar que ela emprega a segunda pessoa do singular. sua quantidade. um okamunano e um otyikangandyi.“Quatro”.respondeu com a maior naturalidade. Tratase da “interrogação directa” desaconselhada na citação precedente. em meio à narrativa em umbundu. em vez da primeira. consciente”. à fonética da língua que fala. .

foi sem dúvida foco de muita atenção dos missionários por representar um obstáculo de monta a sua proposta evangelizadora103. associado a práticas “feiticistas”. configurou-se como noção plausível de ser compreendida por todos os agentes na missão em referência à “possessão” que antecedia a comunicação com os antepassados no “culto aos ancestrais”. um termo. A “mulher do cristão” certamente não fazia idéia da leitura do missionário de sua “possessão” na chave da histeria. Para tanto. é possível enxergar aqui a pactuação de uma convenção referente à “possessão”. o qual buscava compreender de maneira mais ampla ao interrogar essas mulheres. O “culto aos ancestrais”. à porta de sua cubata. colocava esses agentes em 103 A esse respeito. Esta seria inclusive uma explicação para a predominância de relatos sobre os fenômenos de “possessão” por parte das mulheres. faziase necessário um diálogo no plano das práticas e dos discursos – eles também práticas – que pusesse em relação os significados atribuídos a esses elementos pelos diversos agentes.“por lhe parecer traduzir melhor o que sentiu naquele momento”. ver Dulley (2009). O processo por meio do qual se teria chegado a tal compromisso foi a interação entre os agentes em momentos nos quais os “ritos de possessão indígenas” eram postos em questão. a “possessão” aparece como bastante próxima à histeria como descrita pelos estudos psicanalíticos. Oatake. um dos quais aparece inclusive em fotografia ao lado dos missionários. Este tampouco dominava completamente as convenções do ritual local. oatake. O relato acima é emblemático da forma como se vai conformando um código de comunicação nas relações cotidianas entre os agentes na missão. palavra de origem portuguesa cujo som se aproxima bastante do umbundu e se encaixa perfeitamente em sua gramática após adquirir o designativo de classe “o”. Entretanto. a despeito de haver um grande número de ovimbanda do sexo masculino. cada um. os diversos agentes em interação viram-se às voltas com a necessidade de forjar uma convenção de significação que lhes permitisse ao mesmo tempo comunicarem-se uns com os outros e perseguir. 168 . Assim sendo. descrita pelos missionários no século XX não mais como “possessão diabólica”: tendo em vista a chave de leitura psicologizante dos fenômenos observados. sua estratégia nessa disputa simbólica.

A análise mostrou também em que medida o teor das fontes disponíveis estabelece limites às possibilidades de reconstituir agentes a partir de documentos com o intuito de apreender sua prática. como Estermann e Valente. Conclusão Na exposição acima. puderam ser vislumbrados apenas de relance. Sentidos divergentes confluíam de suas diversas posições no jogo. tais como o lugar da memória sobre o período colonial e da própria guerra que o sucedeu na ressignificação da trajetória dos agentes.comunicação. qual seja. e sugerir algumas das estratégias que teriam movido esse processo de comunicação. embora dotadas de sentidos distintos para cada agente específico. poderia ser trabalhada em entrevistas com velhos catequistas atuantes nas missões no período. acredito ter sido possível apontar os principais agentes do universo missionário. Não obstante. A ausência. procurei dar conta de alguns agentes das missões espiritanas em Angola e mostrar como sua interação produziu algumas convenções de significação partilhadas. embora seu papel fosse central para compreender o espaço das missões católicas no Planalto Central como arena de disputa simbólica. Gostaria de concluir este exercício apontando alguns caminhos alternativos para dar continuidade à pesquisa num aspecto bastante intrigante: o relativo silêncio das fontes a respeito da atuação dos catequistas. mas a criação de uma convenção de significação lhes permitiu entrar em comunicação. Julgo ter sido mais bem-sucedida em meu objetivo principal. em princípio incontornável no âmbito de uma pesquisa documental. Não obstante. outros. mostrar como os documentos de que dispus não permitem somente aceder a uma visão dos missionários. mas da abertura uma série de questões novas. como os catequistas. de forma mais ou menos detalhada. tendo em vista que a pretensão é constituir agentes em termos de suas posições e 169 . mas também a uma relação entre agentes distintos que não precisam ser reduzidos por categorias binárias. nem a um suposto “nativo” localizado “do outro lado” das fontes. A partir de meu material empírico foi possível formar um quadro mais completo de alguns agentes. Certamente não se trataria de um mero preenchimento das lacunas da documentação.

e o trabalho com a documentação e a pesquisa de campo no sentido estrito do termo. ainda. existe nas fontes protestantes uma considerável produção de histórias de vida de missionários europeus e americanos. seria de grande valor heurístico104. por um lado. o que permitiria uma reconstituição de trajetórias muito mais fina do que a possibilitada pelas fontes católicas. mas imersos num contexto semelhante do ponto de vista social. é sem dúvida uma fonte promissora a ser explorada. inexistentes nos registros católicos. por outro lado. ainda que cinqüenta anos mais tarde. pois. acredito. uma consideração atenta de suas narrativas. cultural e político. por sua vez. ajudaria a contrapor dois universos missionários internamente bastante distintos. A pesquisa de campo junto a velhos catequistas protestantes. como possibilidade para ampliar os horizontes da pesquisa.estratégias no campo. auxiliar a compreender os ruídos presentes nas fontes e lidos como indícios de disputa. A adoção de uma perspectiva duplamente comparatista apresenta-se. as compilações lingüísticas apontam para diferenças significativas entre missões católicas e protestantes no que diz respeito às escolhas realizadas nas traduções missionárias. ainda que as relações das missões católicas e protestantes com o entorno se dessem de maneira inegavelmente distinta. por outro. Por um lado. As leituras protestantes a respeito do universo católico e vice-versa poderiam. 104 170 . Outra possibilidade interessante seria o estabelecimento de uma comparação sistemática com as missões protestantes atuantes no mesmo local durante o período com o intuito de ampliar o entendimento acerca do contexto missionário e das possibilidades de agência em seu interior. bem como da primeira geração de pastores “indígenas”. as respectivas fontes documentais apresentam semelhanças e diferenças bastante rentáveis do ponto de vista comparatista: se o tipo de material produzido se assemelha em linhas gerais. colocando em diálogo os universos protestante e católico. os relatos dos próprios catequistas “indígenas” vinculados às missões protestantes. com o intuito de estabelecer inter-relações entre o material empírico produzido Os trabalhos de Marcelo Mello e Daniela Feriani nesta coletânea trazem uma discussão mais aprofundada da relação entre trabalho de campo e arquivo.

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a assunção identitária do grupo enquanto comunidade remanescente de quilombo foi determinante para o caráter que as pesquisas – e os procedimentos investigatórios – assumiram. região central do estado do Rio Grande do Sul. problematizarei a confrontação entre campo e arquivo para além da metodologia. Os dois primeiros – ambos realizados no ano de 2002 – tiveram curta duração. manejo e leitura dessas fontes. Na primeira seção. Ver-se-á que a confrontação entre registros escritos e relatos orais abriu novas potencialidades para investigar a memória e a história da comunidade. bem como a implicação das experiências de campo sobre a descrição. trago o contexto em que se deram as investigações sobre a história de Cambará.Visões do campo sobre o arquivo (e vice-versa)105 Marcelo Moura Mello O objetivo deste texto é refletir sobre o uso de fontes arquivísticas na pesquisa antropológica e sua relação com a produção etnográfica. tanto em campo como em arquivos. localizada entre os municípios de Cachoeira do Sul e Caçapava do Sul. além de sugerir diálogos entre o campo e o arquivo com o objetivo de mitigá-las. buscando perceber as assimetrias que estão na base dessa relação. Durante o texto. 173 . Três projetos de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foram desenvolvidos em Cambará nos anos de 2002 e 2003. *** Neste primeiro momento. Como veremos a seguir. A participação no último deles – desenvolvido durante dez finais de semana entre 105 Partes dos argumentos aqui reunidos foram expostos em Mello (2007) e Mello (2008a). exponho os diferentes contextos nos quais realizei pesquisas de campo e em arquivos históricos envolvendo a comunidade negra rural de Cambará. Farei isso por meio de uma breve exposição dos projetos de pesquisa que ali tiveram lugar. Agradeço às organizadoras deste livro pela rigorosa leitura e pelas valiosas sugestões.

As narrativas dos moradores de Cambará por si só não eram garantia da 106 O artigo estabelece que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. Supunha-se que seria possível localizar documentos que aludissem a esses eventos. Em 2005 a UFRGS. há que se percorrer caminhos tortuosos para que os direitos previstos na Constituição tenham efetividade plena. que reivindicava a titulação de suas terras com base no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias106. Durante a elaboração do laudo. em convênio firmado com a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). privilegiou-se perceber as correspondências entre dito e escrito. equipe da qual fiz parte. Já nessa época os estudantes que participavam desses projetos tinham por incumbência. até mesmo em pormenores. O fato de eu haver travado contato prévio com boa parte do grupo – detendo um conhecimento razoável dos eventos tidos por marcantes para os moradores do local – acarretou em meu envolvimento direto com as incursões aos arquivos desde o princípio. Isso porque o investimento nos arquivos estava diretamente condicionado ao gênero de saber que estávamos produzindo. doravante denominada “laudo”. Foi possível localizar em diversos arquivos farta documentação que reportava a muitos dos fatos narrados por homens e mulheres de Cambará. A UFRGS formou uma equipe que contou com professores e estudantes provenientes da Geografia. o que ulteriormente se confirmou. da História e das Ciências Sociais.os meses de setembro e dezembro de 2003 – permitiu minha inserção no grupo. 174 . Embora haja uma crescente flexibilização da legislação. Ora. entre outras coisas. a peça que elaborávamos visava reconhecer direitos. Foi nesse contexto de produção de um laudo que as pesquisas em arquivos se iniciaram. O dito e o escrito confirmavam-se. começou a elaborar um laudo antropológico com vistas a instruir o INCRA sobre os procedimentos administrativos referentes a Cambará. realizar entrevistas com os moradores e coletar dados que pudessem servir de base para a possível elaboração de uma perícia antropológica. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.

Está-se diante da constituição de um campo eminentemente político onde representações autorizadas sobre o presente e seus significados para diferentes atores estão particularmente sinalizadas e visíveis nos arquivos (Cunha. Por maior que seja o rigor conceitual. por exemplo. investindo seus interesses e pré-concepções. introduzirei alguns exemplos que possibilitarão discutir metodologia de pesquisa na reconstituição do passado. Passa-se algo diferente quando.validade do pleito. Para tratar deste ponto. 2005:111). as mediações com os arquivos podem oferecer ferramentas para autorizar os discursos e versões do passado. dialogam com o perito (e porventura o pressionam): a situação de perícia interfere na formulação e formatação das comunidades científicas e não-científicas (Anjos. caberia perguntar se os efeitos de autoridade dos laudos não resultam na institucionalização de um estado do cenário das lutas. 175 . Mais fundamental ainda é saber se a análise dos relatos a partir dos documentos não acaba por desembocar numa postura assimétrica na qual não se problematizam os pressupostos que estão na base da confrontação entre oralidade e escrita. Na situação de perícia. Como notou Oliveira (2002:258). analítico e ético investido neste tipo de intervenção. sendo aquela avaliada apenas em função desta. o papel e a competência que antropólogos são chamados a cumprir estão imersos em um campo de disputas. Se o passado é um campo de disputas. 2005). Destarte. a busca e a localização de documentos estiveram diretamente condicionadas a essa situação prática. a intervenção de antropólogos em processos judiciais e administrativos deve ser tomada enquanto exercício de uma competência técnico-científica em meio a um complexo jogo de pressões e negociações que envolvem diferentes agentes. os relatos sobre o roubo de terras encontram equivalência no escrito. além de fornecer subsídios que permitam estabelecer continuidades com o campo de disputas que se configura no presente. Os quesitos a serem respondidos são elaborados num contexto no qual diversos agentes.

não foi possível estabelecer vinculações genealógicas seguras senão através do cruzamento de diversas fontes. embora a localização de dados históricos sobre Cambará continuasse sendo importante para sustentar os pleitos locais107. essa não foi a única alternativa na vida em liberdade. divergia em outros tantos e remetia a fatos não contemplados por elas. seja pela supressão de parte do sobrenome. Os nomes de libertos e livres podiam variar de uma fonte para outra.*** A descrição da trajetória histórica de Cambará. 176 . Em alguns casos. novas questões e novos problemas foram surgindo. meus “achados” nos arquivos históricos continuaram a ser transmitidos aos moradores do local. idade e proprietário. a situação complica-se mais ainda. Em minha pesquisa de mestrado. que não lembravam os nomes de alguns de seus predecessores. a homenagem a santos católicos ou 107 De fato. A memória genealógica dos mais velhos em geral não ultrapassa três gerações. No caso de escravos. Via de regra. no laudo. descobriu-se o nome de bisavós e tataravós dos atuais moradores do local. não se restringiu a uma adequação ao contexto prático mencionado acima. Ocorre que os registros de batismo. seja pela própria grafia. Com o tempo. o sobrenome de um mesmo indivíduo é grafado diferentemente em um mesmo tipo de fonte. A reconstituição de árvores genealógicas e tramas de parentesco esteve sujeita a diversas dificuldades e empecilhos. libertos e seus descendentes. eles incorporavam o sobrenome dos antigos senhores. Mas o contrário também é verdadeiro: as fontes apresentavam lacunas preenchidas apenas pelo socorro às fontes orais. As informações sobre cativos em geral se limitavam a seu nome. O conteúdo registrado nos documentos correspondia às narrativas dos membros de Cambará em diversos pontos. em especial às lideranças. imprecisos. entretanto. óbito e casamento são. O apadrinhamento com outra família branca. Em arquivos. comumente. Contudo. Esses aspectos são exemplificados no que toca aos antecessores do grupo. Não raro. as urgências práticas do laudo não se faziam mais presentes. A partir de assentos de batismo. como demonstraram Moreira (2008) e Weimer (2008). foi possível remontar a até cinco gerações.

Em Cambará. Há um núcleo comum de histórias de conhecimento geral no sentido de que as pessoas conhecem algo sobre determinados fatos. Em outros casos. requerida por um antigo senhor de escravos da região. Rosa) foram outras opções. etc. Com esta informação em mãos. Nas narrativas locais. há um núcleo comum de histórias de conhecimento geral. em Cambará. À parte as diferenças entre alguns aspectos rememorados por cada narrador. As narrativas conferem menor importância às ramificações de parentesco entre as próprias famílias brancas. Na maior parte dos casos foi o cruzamento entre fontes orais e escritas que permitiu definir essas relações. A referência à família que era proprietária de escravos rendeu muitos frutos.a conversão de um nome em sobrenome (por exemplo. Evidentemente. uma pessoa pode ser identificada. não existia equivalência entre o dito e o escrito. um proprietário de escravos poderia ser tido como pertencente “aos Lopes” sem que tivesse tal sobrenome. porém. As informações oferecidas pelos membros de Cambará permitiram estabelecer diversas vinculações genealógicas. Além do mais. A referência às famílias escravocratas da região se faz a partir da rememoração dos patriarcas destas famílias. mas que apenas alguns sabem contar108. certos eventos são rememorados com freqüência pelos “sabedores” (aqueles que detêm o conhecimento do “tempo dos antigos”). por exemplo. das entonações. descobriu-se outra forma de A idade é fator preponderante na definição de alguém como contador. diversos antecessores de Cambará fazem parte deste registro. 108 177 . Segundo as narrativas. transcorrida entre 18861888. a partir de seu “nome de casa” ou apelido. As primeiras pesquisas em arquivos foram uma tentativa de localizar documentos que fizessem referência aos fatos tidos por marcantes para o grupo. a comunidade originou-se de uma “sobra de campo” de uma medição judicial “dada” pelos senhores a seus escravos. Lendo-o. e nem sempre os indivíduos são referidos de tal maneira nos documentos. mas não só. localizou-se no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS) uma medição judicial. ou de menções vagas como dizer que tal pessoa era escravo “dos Lopes”. Saber contar envolve um uso bem específico das palavras. Neste documento de mais de mil folhas. mas não necessariamente todos os detalhes. não são todos os moradores do local que conhecem todas as minúcias do “tempo dos antigos”. de gestos.

mas sim rememorar as alianças entre as diversas famílias que foram se estabelecendo na região ao longo dos anos.territorialização das famílias negras. Um deles certamente era africano (Benguela). caso ativesse-me exclusivamente aos relatos. 1845 e 1855). De fato. O conhecimento obtido no arquivo expandiu minha pesquisa para novos fundos documentais. Outro acréscimo no conhecimento histórico advindo das pesquisas em arquivos foi facilitar minha interlocução com homens e mulheres da Cambará. impunha-se a reconstituição das condições de vida dos predecessores da comunidade durante boa parte do século XIX. há que se ter cuidado para não confundir a ausência de lembranças com incapacidade de lembrar. escravos alforriados. Assim. nenhuma referência é feita à naturalidade do outro. mas tudo indica que também era africano. por oposição a crioulo (nascido no Brasil). 178 . mas também por meio dos cruzamentos destas com as informações constantes nos relatos. foi possível definir a ascendência genealógica dos atuais integrantes do grupo em relação a esses antepassados com base principalmente em fontes documentais. Esses dois pretos-forros não estão presentes na memória genealógica do grupo e seus nomes nunca foram mencionados. percebe-se que lembrar os parentes prescinde da rememoração de indivíduos isolados. tal como salientam as narrativas. ou quais famílias se uniram através do matrimônio. Mesmo assim. saber do nome de um parente por si só não tem tanta importância como saber com quem ele casou e teve filhos. Em algumas ocasiões procurei sanar minhas dúvidas falando sobre meus 109 Ou seja. não poderia ter reconstituído parte considerável da história de Cambará. o documento refere três compras de terras efetuadas por dois pretos-forros109 na primeira metade do século XIX (mais especificamente nos anos de 1835. pois até a metade do século XIX “preto” era uma denominação geralmente dada a africanos. Se levarmos em conta que o fundamental para o grupo não é tanto traçar uma ascendência genealógica o mais profunda possível. No caso mencionado acima. Ao invés de uma doação dos senhores aos seus escravos. pois me muni de informações e pistas valiosas para minha investigação. Levando-se em conta que dois pretos-forros e suas respectivas famílias viviam em espaços próprios desde a primeira metade do século XIX e que os atuais moradores do local não guardam lembranças desta época e destes fatos.

Novamente foi possível aprofundar o conhecimento histórico através da complementaridade de fontes. Caçapava. Quando iniciei a leitura dos processos. n° 3694. as indagações do etnógrafo são também “provocações” que participam ativamente do “processo de produção da memória” dos agentes. em campo. Estante 143G. Cartório do Júri. 179 . Prédio 2. n° 1725. A primeira delas diz respeito ao estatuto conferido a este tipo de história na descrição etnográfica. foi o conhecimento obtido no arquivo que me fez lançar uma nova luz sobre os relatos orais. em que o réu era um negro que morava na região. há um risco de se confundir a influência do etnógrafo na conformação de lembranças com a importância atribuída aos fatos pelos próprios sujeitos da pesquisa. como salientou Arruti (2006:218). podia tocar em assuntos sem necessariamente ter ouvido. Para mais informações. caixa 178. Consultei algumas entrevistas e percebi que em uma delas Bida tinha sido mencionado por dois senhores de Cambará. M 56. os processos e relatos envolvendo Bida guardam uma particular importância. a respeito. ou muito pouco. nada. desta vez. Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS). APERS. E 91. 1916. são elementos importantes na reconstituição do contexto da época.“achados” em arquivos – e o conteúdo dos documentos –. chamado Bida. M 39. caixa 181. Este caso incita-me a problematizar algumas questões. Processo-crime e outras. tive a nítida impressão de que eu já o conhecia. transcorridos entre 1916 e 1917. No caso em pauta. levando-se em conta que nos anos imediatos após a abolição diversos conflitos entre negros e brancos tiveram lugar em Cambará110. Dias depois. Em outros momentos. Ou seja. fui a campo e perguntei aos mais velhos se já haviam ouvido falar dele. Processo-crime e outras. 110 Bida foi processado por abigeato em um processo e em outros dois por lesão corporal grave. Maço 37. como em muitas outras. n°3666. Esfaqueou alguns vizinhos negros certa feita e dois fazendeiros brancos noutra. localizei três processos-crimes. Todos eles sabiam algo sobre Bida e contaram-me algumas histórias por ele protagonizadas. perguntando-lhes o que sabiam a respeito. Os sujeitos não evocam um passado acabado. Cartório 1° Cível e Crime (1916-1917). Cachoeira. Cachoeira. APERS. O ponto é saber qual a importância dos eventos por ele protagonizados. Certa vez. ver Mello (2008b:161-187). Júri. 1917. Nesse sentido.

Há que se estar atento para saber em quais momentos é possível obter mais informações. perguntando pelas assimetrias surgidas a partir daí. abrindo um novo leque de questões e revelando aspectos multifacetados dos fatos. criatividade etc. 180 . o problema consiste no tipo de interface que é proposto. Como notaram Goldman e Lima (1999). Propor diálogos entre o campo e o arquivo não se resume apenas a uma metodologia de tratamento das fontes. complementar as descrições com novos elementos e preencher lacunas sem causar constrangimentos aos “informantes”. O uso de evidências externas às tradições orais é válido e acresce substância na leitura e interpretação das mesmas111. dado seu caráter traumático e/ou constrangedor. 1990). O silêncio é antes um dado fundamental da pesquisa do que um obstáculo para a reconstrução do passado. Deste modo. meu transitar entre o campo e o arquivo descortinou novas potencialidades. Durante as diversas pesquisas realizadas em Cambará. profundidade histórica. empreendidas em diferentes contextos e com objetivos específicos. as características negativas (ausências e “incapacidades”) normalmente atribuídas à oralidade são antes uma causa do ponto a partir do qual se estabelece a relação (o universo escrito tomado como juízo de relação) do que um atributo dela. Alguns fatos. tampouco em razão de suas supostas “carências” em face dele. incluso problematizar a prevalência dada ao universo escrito.). podem ser silenciados pelos sujeitos da pesquisa por uma série de razões.Valer-se de informações obtidas em arquivos no campo coloca também um problema ético. Talvez 111 Um bom exemplo disto são os instigantes livros de Price (1983. implicando em assimetrias expressas em termos como ausência e presença (ausência e presença de cronologia. Os exemplos trazidos ao longo desta seção demonstram a potencialidade do cruzamento de fontes na reconstituição do passado. A oralidade não deve ser avaliada em face ou em função do escrito. a projeção é um dos mecanismos responsáveis pela confusão entre juízo de relação e atributo do objeto: a transposição para outro domínio de discriminações operadas no dia-adia de sociedades letradas e baseadas em sistemas culturais particulares alimenta a partilha entre oral e escrito.

181 . de conceber o arquivo. 1995) estão na base de qualquer empreendimento historiográfico. O arquivamento tanto produz quanto registra o evento”. Não. embora um tanto enfática. Recordações que sozinho teve-as mais que todos os homens. segundo o contexto de relações de força onde surgiram. *** Amparando-se em Foucault (2003 [1969]). Pode-se pensar a formação de grandes repositórios do passado como os arquivos como conseqüência de uma era condenada ao esquecimento. escritura. generalizar e abstrair. esta afirmação. acreditaríamos ainda que aquilo aconteceu ou teria acontecido. as presenças e ausências incorporadas nas fontes ou nos arquivos não são neutras ou naturais. Borges (1996) recorda a história de um personagem dotado de uma rara capacidade de memorização. mas também o contrário: lugar que sintomaticamente revela a fugacidade da memória numa época cada vez mais acelerada. 1984:23). como impressão. sem o arquivo. não é somente o local de estocagem e de conservação de um conteúdo arquivável passado. a memória de Funes é um despejadouro de lixos. O poder e o “silenciamento do passado” (Trouillot. a partir de Foucault. dada a imensa massa documental que capturou o tempo. prótese ou técnica hipomnésica em geral. é possível pensar o arquivo não só como espaço repositório do conhecimento sobre o passado. induz a pensar o arquivo não apenas como um repositório no qual as potencialidades de reconstituir o passado são praticamente inesgotáveis. com Derrida (2001:28-9): “O arquivo. a estrutura técnica do arquivo arquivante determina também a estrutura do conteúdo arquivável em seu próprio surgimento e em sua relação com o futuro. mas também como local onde ele se produz112. lacunas e silenciamentos são fatores constitutivos do arquivo. “Há lugares da memória porque não há mais meios de memória” (Nora. Como nota Trouillot (1995:48). elas são criadas. ausências. e os documentos. Num famoso conto. Supressões.uma das formas de contornar essas assimetrias consista em pensar sobre o arquivo e aquilo que tende a ser excluído dele. para utilizar uma interessante idéia de Nora (1984). que existiria de qualquer jeito e de tal maneira que. Com o tempo foi ficando evidente para mim que minha pergunta 112 Ou. Funes. pois é incapaz de esquecer diferenças. Trata-se.

Como nota Fabian (2007:72). na medida em que a rememoração não necessariamente se dá através da verbalização. A constatação de Fabian é fundamental não só por expor o (recorrente) etnocentrismo. O interesse deve recair. esquecer que outros povos lembram é um risco premente justamente nos estudos de tradições orais que só as levam em conta desde que correspondam ao mesmo tratamento metodológico dado às fontes escritas. Ironicamente. Quer pensemos nas funções decisivas da entonação da voz.deveria ser por que lembrar determinado evento (e não outro) é importante para os integrantes de Cambará. o “trabalho da memória” (Godoi. uma “escolha cultural”. Esse processo. A maneira de escapar à avaliação da oralidade em função do escrito parece-me ser inserir os relatos orais no interior das formas de lembrar e do trabalho da memória específicos (não exclusivos. Assim. portanto. rituais. note-se bem) a Cambará. etc. Ao traçar as raízes históricas do “paradigma indiciário”. também. imagens visuais. esquecer que outros povos lembram é um mecanismo para deixá-los esquecidos. mas principalmente por apontar para um problema metodológico que consiste no pouco preparo em identificar distintas formas de lembrar. 1999) em Cambará está diretamente referido a uma série de elementos que geralmente não são expressos em documentos escritos. Como demonstrei alhures (Mello. 2008b). continua Fabian. 2008a. De acordo com Finnegan (1992). Ginzburg (1989:157-158) salientou a progressiva “desmaterialização do texto”. práticas corporais. e não quais suas limitações mnemônicas. incluindo músicas e cantos. nas formas de lembrar – que não se limitam apenas à verbalização. mas pelo conjunto de questões que atraem o foco investigativo dos pesquisadores. vemos que o texto escrito relega ao 182 . performances. em grande medida tributário de duas cesuras históricas decisivas – a invenção da escrita e da imprensa – reflete. é importante dar um passo atrás e perguntar por que não se lembra. Os rastros do passado respondem antes a um trabalho de seleção e fixação de relevância do que a uma incapacidade. os estudos das formas orais não se caracterizam por uma terminologia comum ou claramente delimitada. continuamente depurado de todas as referências sensíveis ligadas à oralidade e à gestualidade. dos gestos ou mesmo dos silêncios nas tradições orais.

mutismo os aspectos sensíveis que estão na base da produção de documentos. Muitos documentos tratavam de eventos protagonizados por pessoas que eu conhecia por meio de relatos. tentando perceber os diferentes tempos que ficam subsumidos pelo tempo cronológico. A produção de um texto descritivo sobre esses encontros tornou-se o registro de várias historicidades: a dos artefatos que capturam o tempo. as reações e falas dessas pessoas filtradas pelos narradores do presente. para utilizar outra idéia de Fabian (1983). 183 . plantaram árvores. transmitidos por homens e mulheres de Cambará. Nesses encontros com o arquivo. no presente cotidiano do grupo. visualizava os gestos. O registro de transmissão de terras revelava não só padrões de acesso a terra. freqüentaram festas. Por trás de termos regimentais. estatísticas fundiárias. trabalharam sua lavoura. Uma alforria remetia às políticas de liberdade de certo período. acresceram uma maior sensibilidade para os fatos que lia e ouvia nos encontros com o campo e com o arquivo. mas remetia também a um “causo” protagonizado por seu beneficiário. medições e registros fundiários eram menos uma localização geográfica e mais um palco onde pessoas construíram suas casas. Esses efeitos de conhecimento. criaram seus filhos. São esses diferentes encontros e relações de conhecimento que descortinam outras possibilidades na produção de uma narrativa sobre o passado. a das memórias e lembranças compartilhadas em um momento específico e aquela produzida pela narrativa antropológica113. A escritura de compra e venda estava circundada por outras versões. mas também uma dramaticidade da existência. afiguravam-se meandros ausentes na memória oficial. as expressões. O passado compartilhado pelos homens e mulheres de Cambará com pesquisadores coloca a possibilidade de trazer à lembrança memórias e narrativas que estão ausentes justamente nos espaços 113 Cunha (2004) oferece reflexões interessantes sobre esses aspectos. Se aceitarmos o pressuposto de Ong (1998:16) de que a escrita nunca existe sem a oralidade. Os locais apontados em mapas. outras visões do fato. a correlação entre capital fundiário e ocupação territorial. cabe perguntar qual o estatuto da oralidade quando o historiador se debruça sobre documentos. mas que estavam prementes hoje.

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Posteriormente. tornam a antropologia uma atividade aporética. Paterniani. o pressuposto do texto * A autora agradece às seguintes pessoas pelos comentários ao texto e a fragmentos mais antigos que o constituem: Daniela Feriani. Monteiro. di Giovanni. problemas metodológicos e epistemológicos associados ao automatismo antes vigente permanecem. Flávia Melo da Cunha. Os dois pilares básicos sobre os quais se erigiu a atividade antropológica institucionalizada no início do século XX – a pesquisa de campo e o texto etnográfico – subsumem usos do tempo diametralmente opostos. Julia R.Como qualquer etnografia: fundamentos para uma etnografia dos documentos escritos Olivia G. Ramos. 114Esta e as demais traduções foram feitas por mim. John M. a idéia de uma antropologia sem pesquisa de campo já não é tão estranha e muitos trabalhos recentes têm contribuído para sua legitimação. 186 . este modelo veio a ser criticado e o lugar da pesquisa de campo na antropologia foi historiado e revisto. Omar R. Limitações da crítica ao evolucionismo social com base na oposição entre presença e ausência de documentos escritos engendraram a manutenção de mecanismos epistemológicos de distanciamento que. se a relação entre campo e disciplina já não é automática. período de consolidação da antropologia como disciplina acadêmica. Danilo P. requisito de qualquer diálogo. nas palavras de Johannes Fabian (1983). Janequine* A contemporaneidade radical da humanidade é um projeto (Johannes Fabian)114 Introdução Na primeira metade do século XX. Ronaldo Almeida e Stella Z. de Lima. Leandro M. Contudo. Hoje. Iracema Dulley. Thomaz. O pressuposto da pesquisa de campo é o compartilhamento do tempo com o objeto da pesquisa. Marta Jardim. a relação entre pesquisa de campo e antropologia foi naturalizada e valorizada na forma de um modelo – a combinação malinowskiana de observação participante e escrita etnográfica – elevado a cânone.

Ainda segundo Fabian. a chamada crítica pós-moderna. A crítica destes últimos também diz respeito ao problema do distanciamento. conforme procura demonstrar Fabian em Time and the Other (1983). uma novidade do modelo malinowskiano de pesquisa antropológica baseada em observação participante. embora nesse caso a questão do tempo não ocupe um lugar tão central. Stocking Jr. publicado pela primeira vez em 1983. não teve fôlego para superar esses mecanismos. Acredito que eles sejam de dois tipos: um compreende os dispositivos de distanciamento temporal através dos quais construímos o objeto do discurso antropológico. de Ann Stoler (2002). analisa o lugar do trabalho de campo (fieldwork) na antropologia e o legado de Malinowski. o outro tipo inclui os mecanismos de formação de matrizes analíticas fundamentadas em grandes divisores. Trabalho de campo e antropologia No artigo entitulado “The Ethnographer’s Magic”. A pesquisa de Malinowski junto aos trobriandeses representou uma ruptura técnica importante com uma “antropologia de varanda”.etnográfico é que ele seja um discurso sobre um objeto. assim. sobretudo por substituir interrogatórios visando o 187 . apesar de debater questões próximas a esta. por dispositivos discursivos que produzem o afastamento em relação ao objeto. O presente artigo apresenta uma síntese dos argumentos da crítica metodológica e epistemológica à antropologia centrados nesses mecanismos para fundamentar referências metodológicas para a análise etnográfica de documentos escritos. Como complemento à defesa da etnografia de documentos aqui proposta. percebemos que soltar os nós que amarram a disciplina a uma técnica específica implica também em desfazer o encadeamento aporético dos procedimentos de construção do conhecimento que caracteriza o modelo rígido (dito clássico) de antropologia. sustentado. O autor argumenta que a elevação da técnica de trabalho de campo/observação participante a fundamento da antropologia apóia-se na ênfase dada à “dimensão experiencial” do trabalho de campo. O argumento geral é reforçado pelo comentário analítico de exemplos concretos de pesquisa centrado no artigo “Memory-work in Java”.

A centralidade do trabalho de campo no argumento contra o evolucionismo social teve como resultado uma naturalização da relação entre antropologia e trabalho de campo. é como se víssemos através dos olhos do autortestemunha as coisas vividas por ele em campo. Ao longo das décadas de 1920 e 1930. Ele estabelece a distinção entre a tarefa da reconstrução histórica e a tarefa da compreensão cumulativa das leis gerais da organização social. protagonizada pelo próprio Malinowski e por Radcliffe-Brown. O trabalho do etnógrafo justifica-se e define-se pela ausência de documentos escritos sobre as sociedades estudadas pela antropologia social (Radcliffe-Brown. a forma do texto etnográfico apresentado n’ Os argonautas do Pacífico Ocidental (1978) é que permitiu ao autor ser alçado à posição de herói do mito evemerístico do surgimento da antropologia moderna. esse modelo de pesquisa de campo e monografia etnográfica se consolidou no contexto da investida estrutural-funcionalista para superação do evolucionismo social. 1983a).. Para RadcliffeBrown. uma “história imaginária”. por exemplo.. de antropólogos/sociólogos munidos do método comparativo. com base em ampla pesquisa acerca do exercício profissional de Malinowski. na verdade. O autor parece radicar sua distinção entre antropologia e história no fato de a coleta dos dados com que o antropólogo lida não se dar em arquivos. o grande problema do evolucionismo social é a tentativa de fazer uma historiografia sem documentos. embora o texto nos leve a acreditar nisso (Stocking Jr. Um dos elementos centrais da reação contra o evolucionismo social é a recusa canônica da diacronia expressa nos termos de uma impossibilidade técnica: a ausência de documentos sobre os povos estudados pelos antropólogos. mas presencialmente. entende-as como tarefas complementares. 1978). argumenta Stocking Jr. Ele nunca navegou numa canoa do kula.preenchimento de questionários formulados de antemão por observação do cotidiano e conversas menos dirigidas. O trabalho de campo e a escrita etnográfica. mas separadas: a primeira sendo matéria de historiadores e etnógrafos e a segunda. 188 . Porém. muito do que é descrito como experimentado por Malinowski não o foi. A “magia do etnógrafo” que alimenta o mito encontra-se na passagem do trabalho de campo ao texto etnográfico: na leitura. enquanto. como demonstra Stocking Jr.

reconhecendo a centralidade de Radcliffe-Brown e Malinowski e louvando a contribuição ao campo mais consagrada de ambos. critica pesadamente o modelo metodológico estrutural-funcionalista. possivelmente o mais rebelde dos herdeiros imediatos do estrutural-funcionalismo. um sistema de valores metodológicos ou ideologia disciplinar generalizado: o valor atribuído ao trabalho de campo em si como a experiência básica constitutiva não só do conhecimento antropológico. O comentário de Stocking Jr. o autor faz considerações acerca do método da antropologia a partir de uma visão muito clara sobre o desenvolvimento da disciplina na Grã-Bretanha. Em resumo. Uma passagem de Edmund Leach. sobre o arquétipo do “antropólogo enquanto herói” dá a dimensão dessa centralidade do trabalho de campo em relação ao conjunto das características fundamentais da antropologia naquele momento: É um tipo de experiência arquetípica compartilhada que informa. em que o nexo da 189 . voltado para generalizações abstratas. e o valor atribuído em seu papel especialmente privilegiado na constituição da teoria antropológica. é afirmada a unidade e a dupla paternidade da antropologia. tornaram-se chancela necessária (e até suficiente) da antropologia como profissão e vocação (Giumbelli. mas dos antropólogos. O interessante é que Leach pensa esse outro método como derivado da técnica estabelecida por Malinowski e devendo respeitá-la. ou mesmo gera. 1983b: 7-8). as propostas teórico-metodológicas de um e o modelo empírico paradigmático do outro. 2002). o valor atribuído a uma abordagem holística das culturas (ou sociedades) que são tema desta forma de conhecimento. O resultado é uma proposta ambígua. Em conferência proferida em 1959 e posteriormente publicada com o título “Repensando a antropologia”. o valor atribuído à igual valoração de tais entidades. reforça este argumento. No início do texto. Em seguida. sugerindo sua substituição por outro. no marco da aproximação de Leach em relação ao estruturalismo de Lévi-Strauss. respectivamente.como delimitadores metodológicos da disciplina associados à experiência individual do pesquisador. . esta tem sido a base de legitimação da alegação de autoridade cognitiva especial da antropologia (Stocking Jr.

atividade do antropólogo está ora na especulação abstrata. Evans-Pritchard. e até mesmo sobreposição. O trabalho de campo é abordado nos seguintes termos: O âmago da antropologia social é o trabalho de campo – a compreensão do modo de vida de um determinado povo. ao mesmo tempo em que é classificado como técnica. publicada em 1940 (1978). identificado como traço distintivo da antropologia. curiosamente. Esse trabalho de campo é um tipo de experiência extremamente pessoal e traumática. entre antropologia e história. interessa mais notar a apologia ao trabalho de campo. o mesmo autor falaria sobre a profunda afinidade. porém. do começo para o fim. Em “Anthropology and History”. A diferença entre antropologia e história é colocada como uma diferença de “orientação”. 2005: 14). e nós tenderíamos a escrevê-la do fim para o começo” (Evans-Pritchard. A orientação peculiar da antropologia. principalmente pela notória etnografia sobre Os Nuer. não de “objetivo”. No período subseqüente a esta publicação. 1950). Para os presentes fins. o autor gradativamente redimensionaria a centralidade do estrutural-funcionalismo na antropologia social britânica. e o envolvimento pessoal do antropólogo em seu trabalho reflete-se na sua produção (Leach. Uma seqüência de comentários metodológicos de Evans-Pritchard também é reveladora da naturalização da relação entre antropologia e pesquisa de campo e da mencionada ambigüidade metodológica decorrente disso. A perenidade da indefinição metodológica em torno do trabalho de campo pode ser identificada até mesmo em autores que se opõem 190 . O autor completa o raciocínio dizendo que os “historiadores escrevem a história como foi. 1964: 184-186). ora na empiria radicalmente individual. embora tenha sido também aluno de Malinowski. O ponto fundamental do texto em questão é o refinamento da metodologia da disciplina a partir da consideração da relação entre antropologia e história (assim como tempo e mudança). afastando-a das ciências naturais (EvansPritchard. já no início dos anos 1960. Menos polêmico do que Leach. é considerado o grande discípulo de RadcliffeBrown. “deve-se em grande medida à ênfase que damos ao trabalho de campo como parte de nossa formação”. entretanto.

no plano epistemológico. Se o questionamento do modo como se faz e se escreve sobre e a partir do trabalho de campo é um foco central de discussão. A ênfase na dimensão experiencial da pesquisa de campo. isso se expressa na ausência de codificação e normatização da prática antropológica. análise e interpretação de dados. marcada por uma falta de reflexão sobre coleta.declaradamente ao estrutural-funcionalismo. Por trás do problema de como classificar a pesquisa de campo está uma suposição de consistência metodológica e epistemológica. o que o próprio Malinowski denomina “sinceridade metodológica”.” (Geertz. A fórmula “anthropology is what anthropologists do”. responsável por uma confusão entre método e técnica. Segundo Fabian. por sua vez. pois a autoridade científica é baseada na particularidade radical da experiência individual a ele associada. portanto. Perde-se de vista “que crítica e reflexão não 191 . a manutenção do procedimento de constituição do objeto do conhecimento da antropologia através de operações de distanciamento. a crítica elaborada a partir dos anos 1969 ao positivismo embutido nas práticas da escola estrtural-funcionalista. 1988: 153). tem sérias limitações. a etnografia ”escrita aqui” deve se apresentar como “um relato autêntico elaborado por alguém pessoalmente familiarizado com o modo pelo qual a vida ocorre em algum lugar. Assim. é. a solução que a proposta estrutural-funcionalista representou no esforço de suplantar o evolucionismo social teve como efeito colateral. em algum tempo. naturalizada como elemento central e definidor da disciplina antropológica. entre algum grupo. esta parece não afetar a idéia de que o trabalho de campo. O problema maior estaria em fazer da proposta de exercício crítico e reflexivo na construção de conhecimento – que deve ser uma condição da prática científica – eixo central de uma suposta grande revelação. empiricismo exagerado e ausência de treinamento formal para pesquisa de campo. Segundo Giumbelli (2002). embora pertinente. deve ser a base de qualquer antropologia. especialmente em sua dimensão experiencial. Na formulação de Clifford Geertz. assim. a naturalização da pesquisa de campo como método inibe a reflexão sistemática sobre procedimentos de pesquisa que são um requisito da atividade da científica. Muitas vezes. por exemplo. também coloca a técnica de trabalho de campo numa posição sui generis.

. O tempo físico é o tempo das cronologias de longo prazo do processo de evolução biológica. especialidades filosóficas. tradicional vs. Industrial. sem escrita. faltou reconhecer que a crítica ao positivismo e a idéia de que a subjetividade do observador não deve ser ignorada e não pode nunca ser completamente neutralizada “tem sido colocada e debatida ao menos desde a reação romântica ao Iluminismo” (Fabian. Trata-se do tempo por trás das categorias de classificação de estados como “com escrita vs. Este hiperdimensionamento do conteúdo da crítica reflexiva às correntes antropológicas precedentes levou a um sentimento de falência referencial e um grande esforço de auto-análise sem que. A tipologização do tempo mundano também permeia a discussão sobre povos com e sem história. mais independente do tempo físico como vetor. (. 2000: ix-xi). São escalas amplas entendidas como objetivas e neutras e estão associadas à antropologia física – tanto a clássica quanto a que até hoje é produzida em departamentos de antropologia. o outro subtipo. é o que reconhece o tempo como “dimensão 192 . pior. conforme pretendo demonstrar a seguir. Conforme o autor. que encenam um distanciamento objetivo em relação às “idades” e “estágios” que definem.são virtudes extraordinárias ou. contudo. como nas escalas produzidas por evolucionistas sociais. finalmente. marcado por periodizações mais detalhadas. é o que Fabian denomina tempo tipológico: aquele que marca o intervalo entre eventos significativos do ponto de vista sociocultural numa linguagem superficialmente não-temporal. como a distinção levi-straussiana entre sociedades quentes e frias (idem: 23). moderno. agrário vs. [mas] o modo como a antropologia é feita mesmo por aqueles que dão pouca atenção ao assunto ou rejeitam a idéia como não-científica”. inclusive em suas versões mais sofisticadas. da pré-história. urbano”. rural vs. as operações de distanciamento fossem satisfatoriamente superadas. Fabian (1983: 21) define três modos como o tempo aparece e é manipulado na antropologia.. Distanciamento temporal e outros isolamentos Em Time and the Other. principalmente em universidades norteamericanas – e à arqueologia. O segundo modo identificado pelo autor contempla dois subtipos: um é o tempo mundano.) tribal vs. feudal. O terceiro modo.

Os autores argumentam que a antropologia fundou-se a partir de um “grande divisor” entre um “nós” e um “eles” cujo critério primeiro. A partir desses conceitos. Segundo o autor. da ação política pautada no reconhecimento da possibilidade de ação política do outro. em torno de uma atitude de distanciamento que se realiza em mecanismos baseados nos tempos físico. Esta “esquizocronia” da antropologia é um indício da postura epistemológica que caracteriza a disciplina: “a tendência persistente e sistemática a situar o(s) referente(s) da antropologia num Tempo que não o presente do produtor do discurso antropológico”. foi a presença 193 . portanto. O distanciamento temporal identificado por Fabian como chave epistemológica da construção pela antropologia de seu objeto é. o conhecimento produzido a partir daí. o modo temporal da pesquisa de campo. especialmente. uma vez que seja mantido o pressuposto de que a antropologia se baseia necessariamente em pesquisa de campo. assim como as ações do outro afetam a mim e a ele próprio. denominado tempo intersubjetivo. Coetaneidade ou compartilhamento do tempo é um modo temporal de relação que vai além do simultâneo – coexistência no tempo físico – e do contemporâneo – coexistência no tempo tipológico. Fabian identifica a contradição que expressa o problema metodológico básico a que dirige sua crítica. o distanciamento temporal produzido no texto etnográfico é a garantia da objetividade – e. evidentemente. Por um lado. Compartilhar o tempo é reconhecer ativamente que minhas ações afetam o outro e me afetam. em recente prefácio a um livro de Pierre Clastres. já contido na oposição entre sociedades do contrato e sociedades do status. o tempo intersubjetivo ocupa o lugar de fundamento epistemológico da disciplina. Este é. articula-se.constitutiva da realidade social” e enfatiza a “natureza comunicativa da ação e interação humanas”. Márcio Goldman e Tânia Stolze Lima (2007) identificam como “isolamento do político” na constituição da antropologia. o texto etnográfico. ou “negação da coetaneidade” (1983: 31). fundamentalmente a mesma coisa que. em geral. condição da legitimidade – do conhecimento produzido a partir de uma situação necessariamente intersubjetiva. Eis a contradição. mundano e tipológico. Por outro. É condição de possibilidade da ação mutuamente referida de observadores e observados e. portanto.

ir mais a fundo na questão do envolvimento cognitivo (Fabian. Segundo Fabian. À antropologia caberia o estudo das sociedades sem Estado. se a antropologia já há algumas décadas elabora a questão de seu envolvimento moral e político com o colonialismo. na crítica estrutural-funcionalista ao evolucionismo. 2003: 11-3. a negação da coetaneidade é uma herança epistemológica persistente das opções primeiras da disciplina. Posteriormente. 1983: 53). a antropologia britânica incorporou a política como tema sem. Foi só a partir da abordagem de Pierre Clastres – e.). eliminar a divisão e a assimetria entre as sociedades com Estado constituído e as outras. ainda hoje. “a negação da coetaneidade intensifica-se na medida em que o distanciamento temporal deixa de ser uma preocupação explícita e passa a ser um pressuposto teórico implícito”. no caso das sociedades de linhagens. no parentesco. de Foucault. cap. onde as funções do Estado estão por surgir ou são exercidas em outras instâncias da vida social. contudo. remontando a meados do século XIX. é preciso. devemos acrescentar. apresentando um grau de elaboração e formalização dos procedimentos de pesquisa possivelmente sem par na 194 .ou ausência do Estado. ao invés de ser superada. A questão da mudança social e o estudo de contextos urbanos foram inovações sensíveis introduzidas na antropologia social pelo grupo de pesquisadores liderados por Max Gluckman e relacionadas ao momento de insurreição anticolonial em grande parte do continente africano. o parâmetro para olhar para e falar sobre o “eles” sempre afastado do lugar do político onde se situa o antropólogo (Goldman e Lima. que a antropologia logrou alcançar uma transformação epistemológica de sua abordagem do político. por exemplo. identificando sociedades mais ou menos evoluídas. O “nós” continuava a ser definido pelo Estado. e é o Estado. marcada pela opção radical pela sincronia. Mello. sendo que ambas foram elaboradas sob o pano de fundo do pós-guerra e do fim dos Estados coloniais europeus em África –. A escola de Manchester e o Rhodes-Livingstone Institute foram também responsáveis por inovações técnicas importantes. Isto significa que. portanto. Assim como as formas de “isolamento do político” vigentes na metade do século XX foram desdobramentos do grande divisor presente nos primórdios da disciplina.

não na imutabilidade do produto. contrastiva e política de uma história putativa. no marco da perspectiva relativista. mas as próprias culturas através do mecanismo da etnicidade.história da disciplina (Epstein. sistemas e premissas de organização social aparecem como sujeitos últimos da “mudança social” e. Segundo Manuela Carneiro da Cunha: é nesse sentido que os estudos de etnicidade. Mas este abster-se de impor as próprias concepções de tempo e história aos povos que se estuda é também um mecanismo bastante claro de distanciamento. um isolamento da história. de historicidades.. Ao contrário. que discutimos até aqui como negação da coetaneidade e grande divisor. O conceito de etnicidade realiza. pois os procedimentos do “mecanismo relativamente simples de produção de assimetrias” facilmente 195 . Estruturas. O que se tem são historicidades inconciliáveis. há uma descontinuidade real e uma ênfase na imutabilidade aparente do produto (1985: 107-8).) A produção cultural em uma sociedade dada é uma inovação constante e perceptível: a ênfase está na continuidade. ou melhor. portanto. O problema não é simples. também presente na obra de Evans-Pritchard. uma diferença que afirma num plano ao mesmo tempo abstrato e englobante a mesma divisão radical entre o que estuda e o que é estudado. os modelos da estabilidade encontram seu último recurso ao localizar no coração do próprio movimento o elemento que recoloca a estabilidade: não são os modelos dos antropólogos que forjam a estabilidade.. Gluckman. essa construção de uma cultura da diferença. O problema desta grande contribuição é a marca do pressuposto da tendência à estabilidade. põem em causa a própria noção de cultura. (. 2006). da própria história. 1967. Diante da percepção incontornável da “inovação constante”. A noção de historicidade. 2006. um discípulo de Gluckman inspirado pelo individualismo metodológico weberiano – alcança o limite dessa concepção ao radicar a dinâmica das relações sociais no presente na reinvenção situacional. na constituição da etnicidade. atribui a sociedades diferentes modos distintos de lidar com o tempo. Mitchell. A noção de etnicidade – formulada inicialmente por Barth (1997). por sua vez.

. metodológica e epistemológica. enquanto o problema do distanciamento temporal é revelado e problematizado nas dimensões técnica. Márcio Goldman (2006) advoga a favor da exigência da pesquisa de campo em antropologia. modificado por ela” e à “idéia estruturalista de que cada sociedade atualiza virtualidades humanas universais e. Ela é a própria condição do projeto antropológico e de seu exercício. o lugar de fundamento epistemológico da disciplina. cap. Na argumentação de Fabian. Sua particularidade estaria associada ao fato de “que o etnógrafo também é. 1999: 84)116. a pesquisa de campo. ver Melo. Etnografia e documentos Em texto recente. X 196 . o tempo intersubjetivo passa a ser também um modo de construir o conhecimento a ser elaborado e defendido. a fronteira que transgredimos e um certo tipo de linha que traçamos. potencialmente presentes em outras sociedades” (2006: 29-31). Não se pode perder de vista que a pesquisa de campo foi elemento fundamental do processo de emergência da mais elaborada consciência 115 Bourdieu et. mas porque “as próprias características epistemológicas da disciplina exigem a experiência de campo”. num primeiro momento. al. pois é a condição de sua premissa. Ao longo do texto. trabalham com o conceito de “vigilância epistemológica”. em discussão afim. que o autor também identifica. A etnografia baseada em pesquisa de campo seria “a única forma de operar a síntese de conhecimentos obtidos de forma fragmentada e a condição para a justa compreensão até mesmo de outras experiências de campo”. o tempo intersubjetivo ocupa.passam despercebidos. portanto. que seja sua conseqüência é algo que nos cabe evitar (Goldman e Lima. não pelas dimensões técnica e metodológica. ou deveria ser. 116 Para uma outra discussão sobre o problema das fronteiras na construção do objeto de pesquisa. o caminho para evitá-lo começa com uma postura epistemológica crítica e autocrítica115: a partilha é o espaço que habitamos.

em especial o artigo entitulado “Memory-work in Java” (2002). mas isso não compromete os pontos fundamentais dos argumentos dos dois autores e de Tânia Stolze Lima apresentados anteriormente. No artigo.antropológica. das técnicas que a conjuntura aprouver. não obstante sua pertinência num certo período. os fundamentos metodológicos da etnografia: a busca pelo deslocamento do ponto de vista através do deixar-se afetar pelo outro. Ciente disso. no período da colonização holandesa – um incômodo crescente em relação à experiência dos trabalhadores domésticos javaneses e aos desdobramentos históricos das relações que estudava levou-a a realizar uma série de entrevistas com essas pessoas. para isso. A associação entre antropologia e pesquisa de campo reiterada por Fabian e Goldman é questionável. a coetaneidade de sujeitos e objetos na construção do conhecimento. expandir a idéia de etnografia. O trabalho de Ann Stoler. entre as quais as de pesquisa de campo e as de leitura de fontes documentais. método e episteme ensejado pela centralidade da pesquisa de campo na antropologia. É possível. entendendo-a como um conjunto de princípios metodológicos a orientar pesquisas sobre certo conjunto de questões valendo-se. em Adeus aos tristes tropos (2004). em 1998. simultaneamente como premissa e objetivo. Marshall Sahlins elabora questão semelhante. no contexto do capitalismo contemporâneo. a autora relata como – após anos de trabalho documental sobre raça. é um exemplo interessante desse tipo de abordagem. assim. de uma invenção feita a partir da imagem da dança e da 197 . por si só. mas podemos manter no horizonte. por exemplo. Tais interpretações consideram o fenômeno do renascimento do hula-hula como um uso comercial. não garante a consistência do método historicamente associado a ela. O autor defende uma proposta de elaboração conjunta de pesquisa de campo e documental ao falar dos equívocos das interpretações correntes sobre a prática da dança do hula-hula no Havaí contemporâneo. Descartamos a suposição de uma raiz intersubjetiva comum a toda a disciplina. e uma vez esclarecido o nó entre técnica. é preciso reconhecer que a pesquisa de campo. gênero. vida doméstica e relações de trabalho na ilha de Java.

e não novidades que só podem ser entendidas a partir do que vem de fora. O contato pessoal com extrabalhadoras e trabalhadores domésticos e a análise contextualizada de seus discursos acerca da experiência do período da dominação holandesa respondem à necessidade do esforço continuado de deslocamento do ponto de vista que marca a reflexão antropológica. no sentido da compreensão do sujeito e da ação histórica. pelo contrário. possibilitaram e demandaram a incorporação daquela outra fonte. através de uma “etnografia histórica cujo objetivo é sintetizar a experiência de campo de uma comunidade através de seu passado documental” (idem: 503-4). em Stoler. colonizadores e missionários no contexto do colonialismo. 2002: 162) que constituíam os problemas de pesquisa da autora. por sua vez. as supostas invenções são formas locais de apreender e provocar a mudança. ainda que viagens possam ser experiências interessantes em diferentes momentos da vida. Nesse caso. Esse trabalho resultou numa perspectiva de não-vitimização dos colonizados e num questionamento sobre o significado histórico dos marcos cronológicos do colonialismo que. algo diversos117. Para o autor. Stoler não foi a campo para suprir a necessidade de uma transformação pessoal com alcance epistemológico. trata-se de confrontar os documentos com o conhecimento construído a partir da pesquisa presencial. o caminho é o inverso e os resultados. entretanto. 198 . como vimos acima. 117 Para reflexões aprofundadas sobre a consideração conjunta de fontes documentais e pesquisa de campo ver os capítulos de Feriani e Mello. Pesquisadora experiente até então sem experiência de campo.havaianidade produzida por marinheiros. na análise de fontes documentais diversas: fotografias. Em Sahlins. de experiência e memória” (idem: 203). atas jurídicas e manuais de boas maneiras. “estes relatos rechaçaram o colonial como domínio discreto de relações sociais e políticas. Sahlins propõe que se busque entender os havaianos como agentes da história do colonialismo e do capitalismo tanto quanto os europeus. a necessidade da pesquisa campo surgiu de um longo trabalho de problematização da relação de dominação colonial. por exemplo. não significou um contato mais imediato com “as percepções e práticas coloniais” (Stoler. A pesquisa presencial.

o mesmo ocorre com os relatos de javaneses. cuja compreensão é mediada pela construção analítica de um contexto de significação (Comaroff e Comaroff. dentre os quais se destacam: um outro conjunto de marcadores cronológicos. capitalistas e trabalhadores. é colocado em cena através da pesquisa presencial. os relatos passam a ser observados como documentos discursivos. indirecto. Não só foi a busca dos relatos provocada indiretamente pelo vazio encontrado nos documentos como. administradores coloniais. uma vez recolhidos. Esta colocação de Fernanda Peixoto é um referencial interessante para situar o percurso de Stoler. em que o período da ocupação japonesa é central. holandeses. e brancos em geral. Se os discursos das diferentes categorias de brancos se revelaram indiretamente na análise e confrontação de diferentes tipos de documentos. ocupando diferentes posições na dinâmica colonial. o ponto de vista de trabalhadores e trabalhadoras javaneses. os silêncios e as meias-palavras que permeiam um discurso sobre 199 . isto é. a contextualização passa por abordar o processo de produção e arquivamento daqueles documentos e a complexidade das relações entre as diferentes categorias de brancos na metrópole e na colônia. A sucessiva consideração desses pontos de vista através dos arquivos delineou a ausência discursiva que levou a autora a buscar um outro “outro”. y de manera ineludible.este acceso no será siempre. por sua vez. No caso dos diversos tipos de arquivos analisados pela autora. e a ansiedade. ainda que a análise destes demande técnicas específicas. 2008: 30). inobservável nos documentos. ricos e pobres –. 1992: 16). independientemente de las técnicas empleadas (Peixoto. Na obra de Stoler. a contextualização passa por identificar o conjunto de novos referentes ali presentes. A investigação acerca das “percepções e práticas coloniais” na ilha de Java entre os séculos XIX e XX levou a pesquisadora a buscar os discursos de diferentes agentes coloniais – homens e mulheres. Na análise dos relatos dos javaneses.Pregunto si en el caso de la perspectiva antropologica – cuyo acceso al “otro” pasa obligatoriamente por la consideración de sus “otros” .

Desse modo. em que se baseia a interpretação do renascimento do hula-hula como resquício do sistema mundial colonial-capitalista. 1997. devemos concluir que os fundamentos para uma etnografia dos documentos são os fundamentos de qualquer etnografia: a postura epistemológica e os princípios metodológicos que nos permitam lançar mão das (ou mesmo inventar as) técnicas mais apropriadas para discutir os problemas que nos instigam. por exemplo. Frederik. assim. que estabelece uma equivalência entre os documentos e os relatos orais e. Grupos étnicos e suas fronteiras. pós-colonial.o poder elaborado à sombra do regime político autoritário que sucedeu os japoneses. sob a perspectiva da equivalência epistemológica. In: POUTIGNAT. implica uma desqualificação da memória local em que está implícita uma noção de verdade histórica. Jocelyne (orgs. 200 . a autora dá um passo a mais ao contrapor. São Paulo: Editora UNESP. Além disso. Tradução de Elcio Fernandes. A diferença na abordagem de um e outro tipo de objeto restringe-se ao tipo de contextualização adequada a um e outro tipo de discurso. numa outra dimensão. 187-227. os diferentes discursos presentes nos documentos e nos relatos presenciais e. p. assim como do presente e do passado. Teorias da etnicidade. Referências Bibliográficas BARTH. A idéia reificada de cultura como jogo de interesses. Procuramos aqui demonstrar que a análise de documentos escritos ou de discursos recolhidos em pesquisa presencial pode ser realizada num mesmo marco metodológico e epistemológico.). problematizar os grandes divisores: global vs. No caso de Stoler. entre memória e história. implica uma problematização muito importante da relação entre história e memória. Tanto no trabalho de Sahlins (2004) quanto no de Stoler (2002). Entendo que só é possível a Sahlins recorrer aos documentos a partir de uma postura epistemológica diversa. assim como diferem a contextualização de arquivos públicos e privados. Phillipe e STREIFFFENART. uma postura semelhante e o recurso à pesquisa presencial são alcançados a partir do refinamento da análise das fontes documentais coloniais. local e colonial vs. a consideração conjunta do documental e do presencial.

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Marcelo Moura Mello é doutorando em Antropologia Social no Museu Nacional/UFRJ. Flávia Melo da Cunha.Autores Adriana Dias é doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Campinas. Angola. a relação entre biografia e etnografia. Suas principais áreas de interesse são: missões. os movimentos racistas. membro da Associação Brasileira de Antropologia e da Latin American Jewish Studies Association. às homossexualidades. hoje Guiné-Bissau. Seus interesses de pesquisa têm sido a etnografia virtual. Desenvolve banco de dados desde 1999 e sistemas e websites na Internet desde 2001. geração. teoria antropológica. Direito Penal e Tribunal do Júri. colonialismo. pornografia e erotismo. Possui experiência de pesquisa em comunidades remanescentes de quilombos e em arquivos históricos. graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas e mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. a discussão acerca de crimes de ódio e. Paulo Ricardo Muller é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e tem como principais temas de interesse os processos de circulação transnacional em suas relações com a política. 202 . na primeira metade do século XX. Migrações e metodologia da Antropologia Social são outras áreas de interesse. mediação. práticas policiais e avaliação de políticas públicas. Carolina Parreiras é mestre em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do IFCH/Unicamp. crime. graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). recentemente. Atualmente trabalha no Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu/Unicamp e é doutoranda do Programa de Doutorado em Ciências Sociais da Unicamp. trabalhando com os seguintes temas: violência. Cauê Kruger é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). etnicidade e escravidão. aos estudos sobre o ciberespaço e. Tem experiência nas seguintes áreas de pesquisa: estudos de gênero e violência. Daniela Moreno Feriani é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) com a dissertação “Entre pais e filhos – Práticas judiciais nos crimes em família”. Seus principais interesses de pesquisa se relacionam aos estudos de gênero e sexualidade. o direito e a cultura. Iracema Dulley graduou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Janequine é mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas e desenvolve pesquisa sobre administração colonial e comércio na então Guiné Portuguesa. tem mestrado em Antropologia Social pela Unicamp e atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP. Possui experiência de pesquisa em processos criminais. a economia. trabalhando com os seguintes temas: memória. arquivos. Olivia G. mais recentemente. Atualmente é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas e consultora da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres da Presidência da República. família. antropologia jurídica. financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). relações raciais. gênero.

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