UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS VIII LICENCIATURA PLENA EM PEDAGOGIA
HABILITAÇÃO EM GESTÃO E DOCÊNCIA DE PROJETOS EDUCATIVOS

ECOLOGIA HUMANA: PERCEPÇÃO E SABERES AMBIENTAIS DOS QUEBRADORES DE PEDRAS DO RIO DO SAL.

FRANCISCO ALVES DOS SANTOS

Paulo Afonso – BA fev/2010

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FRANCISCO ALVES DOS SANTOS

ECOLOGIA HUMANA: PERCEPÇÃO E SABERES AMBIENTAIS DOS QUEBRADORES DE PEDRAS DO RIO DO SAL.

Monografia apresentada ao curso de Licenciatura em Pedagogia: Habilitação em Gestão e Docência de Projetos Educativos da Universidade do Estado da Bahia – UNEB Campus VIII. Paulo Afonso - BA. como requisito para obtenção do título de

Graduação. Orientador: Prof. Aldo Carvalho da Silva

Paulo Afonso – BA Fev/2010

Márcia Maria Feitosa Ferraz moura - CRB/BA - 1609 S235e SANTOS, Francisco Alves dos. Ecologia humana: percepção e saberes ambientais dos quebradores de pedras do Rio do Sal. /Francisco Alves dos Santos. Paulo Afonso - BA: 2010. 82f. Orientador: Aldo Carvalho da Silva. Monografia (Graduação) - Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Curso: Pedagogia com Habilitação em Gestão e Docência de Projetos Educativos. 1. Ecologia Humana 2. Percepção Ambiental 3. Quebradores de Pedra I. Título CDD – 363.7

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FRANCISCO ALVES DOS SANTOS

ECOLOGIA HUMANA: PERCEPÇÃO E SABERES AMBIENTAIS DOS QUEBRADORES DE PEDRAS DO RIO DO SAL.

Monografia submetida à banca examinadora composta por docentes da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, como parte dos requisitos necessários para obtenção do título de Licenciado em Pedagogia com Habilitação em Gestão e Docência de Projetos Educativos.

Data de aprovação: 27/02/2010

Banca Examinadora:

________________________________ Prof. Esp. Aldo Carvalho da Silva
(Orientador)

________________________________ Prof. Esp. Eloi Lago Nascimento
(Professor da Disciplina)

________________________________ Prof. Dra. Cleonice Vergne
(Convidada)

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Dedico

a

minha

esposa

Andréa

Patrícia,

eterna

companheira e apoiadora de todas as horas, Exemplo de excelência, perseverança e sabedoria... “[...] um rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou levar.”

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AGRADECIMENTOS

A realização deste Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tornou-se possível graças à colaboração e apoio de diversas pessoas, às quais sou extremamente grato. Agradeço:

As minhas excelentes professoras Dra. Maria Eliete Santiago da UFPE e Iêda Balog da UNEB, pelos seus ensinamentos sobre a Metodologia da Pesquisa Científica, e outros conhecimentos afins e indispensáveis para a realização deste TCC. Ao primoroso Professor Eloi Lago Nascimento pelas suas correções, consultorias e disponibilidade de atender às demandas da produção deste TCC. À extraordinária Professora Dra. Cleonice Vergne, pelo aprendizado da arte que me levou a este TCC, com seu grande saber da arqueologia e da formação da consciência crítica da história, sem jamais perder a ternura e elegância que lhe é peculiar. Ao meu orientador o formidável Professor Aldo Carvalho da Silva pela sua amizade que me rendeu muitos saberes na longa jornada da vida, e pela sua ajuda nos conhecimentos pertinentes que contribuíram de forma inequívoca e substancial ao desenvolvimento deste estudo desde sua gênesis. Ao respeitável Professor Dr. Juracy Marques por ter lançado o desafio de estudar a realidade das pessoas que habitam o Complexo Arqueológico de Paulo Afonso, e também pela sua colaboração no aporte de conteúdos que compões este trabalho. Aos meus colegas de turma, por me propiciar momentos de longos debates e trocas de sabres e descontração dentro ou fora da sala de aula. Ao amigo de fé Jackson Santos e a minha grande amiga Bárbara Soraya dos Santos pela significativa companhia na pesquisa de campo, sem a qual ajuda nem todos os significados expostos aqui eu teria revelado. Especialmente, aos Quebradores de Pedras do Rio do Sal, sobretudo aos mais vividos, que aqui humildemente represento na alma deste texto, pessoas maravilhosas cuja dignidade e história de vida valorizam o meu trabalho de pesquisador. Tiraram de mim algumas lágrimas quando me senti impotente de não contribuir muito mais com as suas causas, mas nunca foi pela piedade, pois dela esses preciosos homens nunca precisaram, mas sim por terem me feito acender tantas luzes com seus testemunhos e suas sabedorias, estas que compulsoriamente me atirarem diante do significado de humanidade.

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“Cada geração desenha seu perfil e seu entorno. Cada geração inventa sua identidade e circunstâncias. Cada geração escava seu rosto e sua paisagem. Somos tão responsáveis pelo olhar que contempla como pelo panorama contemplado”. (Luiz Fernandes Galino)

6 SANTOS, Francisco Alves dos. ECOLOGIA HUMANA: PERCEPÇÃO E SABERES AMBIENTAIS DOS QUEBRADORES DE PEDRAS DO RIO DO SAL. 2010. 82p. Monografia (Licenciatura em Pedagogia: Habilitação em Gestão e Docência de Projetos Educativos) Universidade do Estado da Bahia – UNEB Campus VIII. Paulo Afonso. BA.

RESUMO

Os estudos sobre a percepção ambiental vêm ganhando cada vez mais ênfase nos meios acadêmicos, sobretudo nas pesquisas ambientais realizadas pelos eco-pedagogos na busca de significados, valores, atitudes, sentimentos e experiências dos indivíduos com o seu meio. Com efeito, As teorias da complexidade, do holismo, ecologia humana, ecopedagogia, etc., fundamentam a inter-relação do meio ambiente natural, a sociedade e a subjetividade humana. Nesta perspectiva, buscou-se neste TCC analisar a percepção ambiental e os saberes ambientais dos Quebradores de Pedras do Rio do Sal e as problemáticas ambientais das áreas de convívio situadas no Complexo Arqueológico de Paulo Afonso. A pesquisa utilizou-se da abordagem fenomenológica, por meio de levantamentos bibliográficos, entrevistas, registros fotográficos e observações, conforme estabelecido pela mais atualizada metodologia da pesquisa qualitativa. Os dados levantados mostram que os sujeitos têm baixíssima escolaridade; que são remanescentes de famílias tradicionais que habitam a região há quase dois séculos; e, deixaram as suas atividades econômicas agropastoris e de pesca para atenderem à demanda da lavra de pedras que alimentaram o desenvolvimento econômico da região baseada no parque industrial de geração de energia elétrica cuja atividade foi embargada para proteger as pinturas rupestres. As análises concluíram que os Quebradores de Pedras detêm significativos saberes ambientais e grande potencial de desenvolverem atividades sustentáveis a nível local, Os resultados encontrados são de fundamental importância, pois servem como base para as intervenções necessárias tanto para a ecopedagogia quanto para uma gestão ambiental participativa e eficaz, observando as nuances da realidade das pessoas com seu meio.

Palavras-chave: Ecologia Humana; Percepção Ambiental; e, Quebrador de Pedra.

7 SANTOS, Francisco Alves dos. HUMAN ECOLOGY: ENVIRONMENTAL

PERCEPTION AND KNOWLEDGE OF STONEMASON SAL RIVER. 2010. 82p. Monograph (Degree in Education: Specialization in Management and Teaching Education Project) University of Bahia – UNEB Campus VIII. Paulo Afonso - BA.

ABSTRACT

Studies of environmental perception, are gaining more and more emphasis on academics, especially in environmental research carried out by eco-educators in search of meanings, values, attitudes, feelings and experiences of individuals with their environment. Indeed, theories of complexity, holism, human ecology, eco pedagogy, etc., underlying the interrelationship of the natural environment, society and human subjectivity. Accordingly, we sought to examine the TCC in environmental awareness and knowledge of environmental Smasher Rio do Sal and the environmental problems of living areas located in the Paulo Afonso Archaeological Complex. The research used a phenomenological approach, by means of literature surveys, interviews, photographic records and observations, as established by the most current methodology of qualitative research. The data collected show that the subjects have very low education, that are reminiscent of traditional families that live in the nearly two centuries, and left their economic activities, grazing and fishing to meet the demand of the mined stones that have fueled economic development region-based industrial park to generate electricity which activity was enjoined to protect the paintings. The analysis concluded that the stonemason has significant environmental knowledge and great potential to develop sustainable activities at local level, The results are of fundamental importance because they serve as the basis for the necessary interventions for both pedagogy and for environmental management and participatory effective, observing the nuances of the reality of people with their environment.

Keywords: Human Ecology, Environmental Perception, and Stonemason.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Fotografias e figuras Figura 1: Esquema Dimensões de Meio Ambiente ............................................................ 18 Figura 2: Esquema teórico do processo perceptivo ........................................................... 27 Figura 3: Esquema da percepção ambiental ................................................................... 28

Figura 4: Área do Complexo Arqueológico de Paulo Afonso............................................. 33 Figura 5: Vale do Rio do Sal com vista para o povoado ................................................... 34 Figura 6: “Mares de pedra” – Margem direita do Rio do Sal ............................................. 34 Figura 7: Quebrador de pedras junto a um amontoado de rachões .................................... 35 Figura 8: Sítio 98 – figura antropomorfa .......................................................................... 36 Figura 9: Pintura rupestre com ponteiro de aço encravado.................................................36 Figura 10: Quebrador de pedras trabalhando ....................................................................40 Figura 11: Pilha de paralelepípedos ....................................................................................40 Figura 12: Linha do Tempo da pesquisa (coleta de dados) ........................................... 50 Figura 13: Simulação de pintura rupestre perdida ......................................................... 63 Figura 14: Pedra do lenço – Sítio 86 ............................................................................... 63 Figura 15: Pirâmide de Maslow ................................................................................................... 65

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LISTA DE TABELAS e GRÁFICOS

Tabela 1: Caracterização dos paradigmas da pesquisa .............................................................. 48

Gráfico 1: Escolaridade dos quebradores de pedras do Rio do Sal ...................................... 58 Gráfico 2: Quebradores que afirmam ter trabalhado com pedras pintadas .......................... 69 Gráfico 3: Evolução do reconhecimento do valor histórico das pedras pintadas ................. 72 Gráfico 4: Percepção de danos ambiental em função da atividade .................................... 73 Gráfico 6: Quebradores com partes do corpo afetadas pelos acidentes .............................................. 76

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LISTA DE SÍMBOLOS, NOMENCLATURAS E ABREVIAÇÕES

AGENDHA = Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza Desenvolvimento Humano e Agroecologia. CAAPA = Centro de Arqueologia e Antropologia de Paulo Afonso. CHESF = Companhia Hidroelétrica do São Francisco. DMA = “Departamento de Meio Ambiente” do Município de Paulo Afonso. EA = Educação Ambiental. ONU = Organização das Nações Unidas. TCC = Trabalho de Conclusão de Curso. UFPE = Universidade Federal de Pernambuco. UNEB = Universidade do Estado da Bahia. UNESCO = Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

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SUMÁRIO

1 2 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 2.6 2.7 2.8 3 3.1 3.2 4 4.1 4.2 4.3 4.4 4.5

INTRODUÇÃO ........................................................................................... 13 ECOLOGIA E MEIO AMBIENTE .......................................................... 18 DA ECOLOGIA À TEIA DA VIDA A QUESTÃO AMBIENTAL A CRISE SÓCIO-AMBIENTAL A SUBJETIVIDADE EM MEIO À CRISE AMBIENTAL O VALOR SÓCIO-AMBIENTAL A ÉTICA E A CIDADANIA AMBIENTAL O TRABALHO E O MEIO AMBIENTE A PERCEPÇÃO AMBIENTAL 18 19 21 23 24 25 25 26

A INTERVENÇÃO ECOPEDAGÓGICA ............................................... 29 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL A ECOPEDAGOGIA CRÍTICA 29 31

CONTEXTO HISTÓRICO/GEOGRÁFICO E HUMANO ................... 33 CARACTERIZAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO O SENTIDO DA PRÉ-HISTÓRIA NO CONTEXTO GEOGRAFIA CULTURAL E SABERES AMBIENTAIS O OFÍCIO DE QUEBRADOR DE PEDRAS AS TEORIAS DA COMPLEXIDADE
4.5.1 4.5.2

33 36 38 40 43

Do monismo ontológico à razão dialética ....................................................... 43 A Visão Sistêmica, o Holismo e a Complexidade ........................................... 45

5 5.1 5.2 5.3

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS............................................. 47 SOBRE A DELIMITAÇÃO DA ÁREA PESQUISADA SOBRE A CARACTERIZAÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA SOBRE A CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA QUALITATIVA 47 47 48

12 5.3.1 5.3.2 Paradigma de Pesquisa Qualitativa ................................................................ 48 Pesquisa etnográfica ......................................................................................... 49

5.4 5.5

SOBRE O CARÁTER DE ESTUDO EXPLORATÓRIO SOBRE AS TÉCNICAS PARA A COLETA DOS DADOS
5.5.1 5.5.2 5.5.3 5.5.4

50 50

Do Questionário ................................................................................................ 51 Da Entrevista .................................................................................................... 51 Da identidade dos entrevistados ...................................................................... 51 Da observação ................................................................................................... 51

5.6 5.7 5.8 5.9

SOBRE A PESQUISA BIBLIOGRÁFICA SOBRE A ANÁLISE DOCUMENTAL E DE CONTEÚDO SOBRE OS CRITÉRIOS DE QUALIDADE DA PESQUISA SOBRE A CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO DE CASO

52 53 54 55 56

5.10 SOBRE OS RECURSOS INSTRUMENTAIS 6 6.1 6.2 6.3 6.4 6.5 6.6 6.7 6.8 7 8

ANÁLISE DOS RESULTADOS ............................................................... 57 CONSIDERAÇÕES INICIAIS E DADOS EDUCACIONAIS A INFLUÊNCIA DOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS OS FATORES AMBIENTAIS O SENTIDO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL EFEITOS SÓCIO-ECONÔMICO-AMBIENTAIS O VALOR AMBIENTAL/PATRIMONIAL A MEDIDA DA INTERVENÇÃO ECOPEDAGÓGICA A SITUAÇÃO ATUAL 57 59 61 65 67 68 72 74

CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................... 77 REFERÊNCIAS .......................................................................................... 78

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1 INTRODUÇÃO

Duas grandes questões inquietaram a humanidade desde que os seres humanos tomaram consciência da própria existência: A primeira delas se refere à fantástica máquina do Ente vivente, conexo a uma lógica de sobrevivência natural, perfeitamente adaptado ao mundo existente sensível, e indissociavelmente integrado a todos os fenômenos cósmicos; e a segunda alude ao imenso abismo que habita a alma do Ser transcendente, desconexo, ilógico e metafísico, desgarrado num mundo existencial intangível, uno e desintegrado no Ser em si, tal alma que é a morada de todos os saberes e que ao mesmo tempo, paradoxalmente, faz-se incognoscível. Estas duas grandes questões da humanidade que confrontam o holismo1 ecológico e o monismo ontológico2 estão no cerne deste trabalho monográfico, por um lado enquanto nos deparamos com uma questão ambiental resultante das ações antrópicas de uma população que ficou conhecida mundialmente como “Quebradores de Pedras do Complexo Arqueológico de Paulo Afonso”. A referida questão ambiental advêm das demandas pela sobrevivência objetiva das pessoas em uma relação predatória do meio ambiente, e por outro lado enquanto, este mesmo espaço guarda um tesouro, este que é um patrimônio de arte rupestre e conseguinte testemunho incomensurável da construção e desenvolvimento do espírito humano, elevado ao status de herança histórica da humanidade, e que grava em suas linhas a alma de um povo primitivo ainda muito pouco estudado, cujo destino se encontra hoje sob as demandas de uma nova comunidade que aparentemente julga, pondera e decide sob a sua total

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Holismo (grego holos, todo) “A abordagem holística pode ser definida de maneira aproximada como aquela que considera as infinitas interações entre os diversos componentes de um sistema complexo. Alguns autores têm chamado esta visão do funcionamento das coisas do Universo como abordagem sistêmica. As áreas em que esta abordagem pode ser aplicada variam desde a astrofísica até a gestão de negócios, mas uma área onde o holismo é particularmente útil é a ciência da natureza. A natureza pode ser considerada como um sistema complexo e para que o homem entenda os processos que regem sua dinâmica é necessário abordá-la com uma visão multifocal. (...) a abordagem holística pode facilitar de maneira significativa o entendimento dos processos ambientais. O não entendimento de todos os fatores que afetam a dinâmica de um sistema complexo pode levar a conclusões errôneas". Fonte: WASSERMA & ALVES, 2004. 2 Chama-se de monismo (do grego monis, "um") às teorias filosóficas que defendem a unidade da realidade como um todo (em metafísica) ou a identidade entre mente e corpo (em filosofia da mente) por oposição ao dualismo ou ao pluralismo, à diversidade da realidade em geral. No monismo um oposto se reduz ao outro, em detrimento de uma unidade maior e absoluta. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Monismo. Ontologia (em grego ontos e logoi, "conhecimento do ser") é a parte da filosofia que trata da natureza do ser, da realidade, da existência dos entes e das questões metafísicas em geral. A ontologia trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres. Costuma ser confundida com metafísica. Conquanto tenham certa comunhão ou interseção em objeto de estudo, nenhuma das duas áreas é subconjunto lógico da outra, ainda que na identidade. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ontológico.

14 destruição e/ou preservação segundo valores resultantes das ações de subsistência vinculadas ao modelo de desenvolvimento econômico neoliberal da pós-modernidade pauloafonsina. Tal conflito entre o existente e o existencial, põe-se de forma radical nas contradições sócioeconômico-ambientais e espirituais das mulheres e homens que hoje habitam o referido espaço do Complexo Arqueológico. Neste universo particular, extremamente intricado e complexo da comunidade do Rio do Sal, vivem 56 famílias (AGENDHA, 2007) de quebradores de pedras, mergulhados em condições adversas, submetidas política e ideologicamente às situações de demandas econômicas que se contrapõem às tradições dos seus antepassados, distanciando cada dia mais das raízes históricas, remodelando o modus vivendi3 em detrimento da qualidade de vida das pessoas e da sustentabilidade ambiental. Em meio a esta realidade, em que sobreveio a descoberta científica que mudaria para sempre a relação das pessoas com o seu território de identidade, as pinturas rupestres dos Sítios Arqueológicos pairam como uma força reguladora: O livre acesso das áreas antes mineradas desorganizadamente, agora é recinto restrito de pesquisa científica e visitação; por Lei4, deve ser preservado, os intelectuais afirmam que o valor histórico cultural é incomensurável, mas, e as gentes quebradoras de pedras... Como podemos mensurar a crise em que foram compulsoriamente atiradas? Em que se transformou suas crenças e valores? O que pensam disso tudo? Que saberes ambientais tradicionais ainda sobrevivem? É provável que existam saberes ambientais ancestrais preservacionistas, outra hipótese é que após o início da quebra de pedras não tenha sido construída uma nova educação patrimonial conservacionista. Por isso objetivamos conhecer a percepção e os saberes ambientais dos quebradores de pedras da comunidade Rio do Sal; captar e analisar as essências desses saberes; avaliar os efeitos sócioeconômico-ambientais da desconstrução da cultura de quebra de pedras; Investigar em que medida a intervenção educacional ecopedagógica da ONG AGENDHA interferiu na formação da consciência ambiental crítica; aferir o nível de valoração ambiental/patrimonial dos sítios arqueológicos pelo público estudado; examinar a relação dialética entre as demandas da sobrevivência objetiva e a consciência ambiental subjetiva; analisar as falas do público

3 Modus vivendi é uma frase em latim que significa um acordo entre partes cujas opiniões diferem, de tal maneira que elas concordam em discordar. Modus quer dizer modo, maneira, atitude, caráter; Vivendi quer dizer viver. Juntas, modus vivendi insinua uma acomodação na disputa entre partes para permitir vida em conjunto. Normalmente descreve arranjos informais e temporários em negócios políticos. Por exemplo, quando dois lados alcançam um modus vivendi em relação a territórios disputados, apesar de incompatibilidades políticas, históricas ou culturais, que uma acomodação das diferenças respectivas é estabelecida por causa de contingência. Este senso do termo foi usado como uma pedra angular na filosofia política de John Gray. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Modus_vivendi 4 LEI Nº 3.924, de 26 de julho de 1961. Dispõe sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos.

15 estudado e extrair o significado qualitativo com relação aos Sítios Arqueológicos e as vivências da comunidade. Apesar de situar tantos desafios, entendemos que o conhecimento desta relação dinâmica e dialética em seu perfil pluridimensional, associando os aspectos econômico, político, cultural, social e ecológico da questão ambiental, é da maior importância científica, em que pese captar as suas essências para a construção de saberes úteis e impulsionadores de transformações que visem a sua sustentabilidade. Na esfera acadêmica, as percepções e os saberes das populações tradicionais, de fundo de pasto e pescadores artesanais vêm conquistando cada vez mais espaço. Tal valorização rende grande projeção, pois quase sempre revelam que estas comunidades vivem comumente mais integradas ao meio natural e apresentam culturas conservacionistas a despeito destas que nos deparamos nos cenários urbanos. Apesar da dificuldade de caracterizar o grupamento humano de quebradores de pedras como “tradicional”, Marques & Vergne nos seus diversos trabalhos publicados, acenam para uma historicidade que reconhece esta gente como remanescente de uma população historicamente estabelecida na área do Rio do Sal, de modo que este estudo se torna ainda mais interessante pro mundo acadêmico, por ajudar na compreensão de uma transformação social de grande amplitude em curto espaço de tempo, podendo ainda abrir margem para uma nova pesquisa sociológica desta dinâmica social específica. Considerando ainda, que a realidade deste conflito socio-econômico-ambiental, possa ser em primeira medida comparada a uma relação de conflito ambiental clássico, o qual, aparentemente poderia ser compreendido de modo genérico comparativo com outros exemplos afins, todavia, visto com um olhar colimado, revela uma especificidade que a torna excepcionalmente interessante para a investigação científica. Por isso, a busca do saber sobre o que pensa a comunidade dos quebradores de pedra do Rio do Sal sobre o ambiente em que vivem e o que estes pensamentos e atitudes têm em relação à descoberta dos Sítios Arqueológicos, é certamente o ponto de partida para todas as outras questões ainda não desveladas, o que faz deste trabalho monográfico uma fonte de sinais para guiar o pensamento científico aplicável a realidade específica daquela comunidade nos moldes da ecopedagogia, ambientologia, antropologia, sociologia, economia, etc. o que conseqüentemente amplia significativamente a responsabilidade desta autoria com a precisão das informações objetivas, e principalmente, com relação aos saberes ambientais destes sujeitos estudados, quais seriam os seus significados qualitativos.

16 O presente trabalho teve a sua raiz em dezembro do ano de 2006, quando olhando para esta realidade e logo me identificando com ela, que eu resolvi compreendê-la melhor. Tal espírito científico me instigou e impulsionou para a escolha do tema sobre a “percepção e os saberes ambientais dos quebradores de pedras da comunidade rio do sal” como essência desta monografia, de modo que colecionei deste então todas as informações sobre o caso dos quebradores de pedras, trabalhei durante dois anos como funcionário público responsável pela política ambiental do município de Paulo Afonso junto a esta comunidade, momento em que tive a oportunidade de coordenar uma equipe multidisciplinar que produziu diversas pesquisas e diagnósticos sócio-econômico-ambientais em parceria com a UNEB – CAAPA e AGENDHA no ano de 2007. Também é importante lembrar, que este intrincado contexto de proeminente complexidade, o qual istricto sensu5 se trata do território de identidade da comunidade dos quebradores de pedras, precisa urgente e irremediavelmente de proteção para a garantia da existência daquelas pessoas e do equilíbrio natural do meio ambiente em que estão inseridas, assim como, garantir a existência da memória ancestral e salvaguarda da nossa memória contemporânea. Neste sentido, este trabalho poderá contribuir para embasar caminhos pedagógicos para uma provável ação Educacional Ambiental Crítica na gestão desse espaço de grande relevância ambiental e histórica e a sua utilização para mediação de conflitos no processo de gestão socioambiental participativa daquela comunidade. Faz-se necessário, lato-sensu6, lembrar também, que estamos extasiados diante do conhecimento que revela o planeta Terra em crise ambiental decorrente das ações antrópicas. Tal ênfase nos obrigou ao desenvolvimento de uma nova ética, a ética ambiental, que surge numa tentativa quase desesperada de reverter os danos ambientais em escala planetária e preservar aquilo que ainda nos resta em âmbito local. Eis aqui o alcance e relevo dessa nossa missão doméstica. Este trabalho foi estruturado de forma extremamente simples, sintetizando em linguagem clara e acessível até mesmo as teorias mais complexas. Tratamos no início dos assuntos relacionados com a Ecologia e o meio ambiente desde o conceito de ecologia até a

5 Stricto sensu é uma expressão em latim que significa literalmente em sentido estrito. Também se refere ao nível de pós-graduação que titula o estudante como mestre e doutor em determinado campo do conhecimento. Denota, neste último caso, um tema mais específico do que o lato sensu. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Stricto_sensu. 6 Lato sensu é uma expressão em latim que significa literalmente em sentido amplo. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lato_sensu.

17 compreensão da percepção ambiental. Em seguida vemos a análise das intervenções pedagógicas junto aos pesquisados. Logo depois temos uma descrição analítica do contexto histórico e geográfico da pesquisa e suas influências na construção dos saberes ambientais. A monografia apresenta na seqüência as metodologias e suas justificativas, para em seguida finalizar com a apresentação dos dados coletados e suas respectivas análises e conclusões.

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2 ECOLOGIA E MEIO AMBIENTE 2.1 DA ECOLOGIA À TEIA DA VIDA
Segundo Begon (et al, 1996) ecologia é a ciência que estuda a interação entre os organismos e o meio. Ecologia é uma palavra derivada do grego oikos, “casa” ou “habitação”, e o sufixo “logos”, se traduz como “estudo”. Assim temos o significado de ecologia como a “ciência do habitat”. O termo foi utilizado usado pela primeira vez por Ernest Haeckel em 1866, todavia Acot (1990), afirma que o mesmo termo apareceu pela primeira vez num tratado de Eugen Warming em 1895 que versava sobre a geobotânica geral. Somente a partir do século XX, com o aparecimento dos trabalhos desenvolvidos por Clements e Cowles passou a existir a caracterização de uma ecologia dinâmica cognominada “Botânica/ecologia das sucessões”. Tansley e introduziu um novo nome com significado a esta especificidade o qual chamou de “ecossistema” e que servia para caracterizar comunidades vegetais e animais, oque resultou numa compreensão de dinamismo das comunidades vivas. A conseqüência principal desta definição foi a mudança de entendimento evolucionista Darwinista para uma compreensão mais complexa das transformações que ocorrem nas biocenoses devido a interesses econômicos que atribuem valor aos agrossistemas, e a racionalização da gestão ambiental. Assim o pensamento sistêmico resignifica o ambiente que passa a ser interpretado como relações de interdependências entre os fatores abióticos e bióticos. Com Ekblaw, a análise sistêmica dessa dinâmica também passou a considera a relação humano/meio, dando início ao enfoque da ecologia humana (Figura 1). Esta junção é dita por

Produto da transformação do meio para criar condições de habilidade

Natural

Tudo que circunda o indivíduo

Ambiente
Artificial

Cultural

Artes, valores, crenças
Figura 1: Esquema Dimensões de Meio Ambiente.

19 Acot, como “tentativas díspares e artificiais para integrar os conceitos e os métodos de uma ciência natural em pleno desenvolvimento àqueles das ciências humanas” (ACOT, 1990). O esforço faz da ecologia uma ciência integrada com a sociologia, economia e a política e passa a focalizar duas novas percepções: comunidade e rede. Através da sua obra “A teia da vida”, Capra (1996), vê na concepção de rede a chave para a elucidação da própria natureza da vida. Podendo relacionar as análises sobre o crescimento populacional, os modelos de produção, etc. Esta compreensão ampla da ecologia está no cerne dos movimentos ambientalistas, os quais exercem uma extraordinária força no sentido de presumir valor científico à preservação de diversos ecossistemas e vincular medidas de políticas públicas e a criação de áreas de preservação ambiental que se transformaram em laboratórios de pesquisas ecológicas de fundamental importância científica. Mas ainda sobrevive a ruptura entre as ações humanas e as conseqüências destas no meio, sustentada pela fé de que a sobrevivência humana depende mais da tecnologia do que dos recursos naturais. No senso comum, também ainda sobrevive à crença nas providências divinas como salvaguarda da humanidade, para todos estes problemas enfrentados pelas mulheres e homens. Contudo Schwarz & Schwarz, afirma que a ecologia “não propõe soluções, sejam práticas ou idealistas, para os problemas de nosso tempo; seu objetivo mais profundo não é conhecer, mas sim conscientizar” (SCHWARZ & SCHWARZ, 1990). Assim, munidos desta base teórica, podemos trabalhar neste TCC a idéia de que os problemas ambientais da realidade estudada devem ser encarados como problemas econômicos, ideológicos e políticos, cujo conjunto de preceitos nos permite analisar as demandas científicas emergentes da pesquisa junto aos nossos quebradores de pedras. Inspirados em Capra (1996, 2002) percorremos caminhos mais apropriados e nos aproximarmos da natureza sócio-ambiental destes sujeitos pesquisados, para aprender acerca da sua complexidade “não por meio da dominação e do controle, mas sim, por meio do respeito, da cooperação e do diálogo” (CAPRA, 1996).

2.2 A QUESTÃO AMBIENTAL
A questão ambiental está no cerne da problematização estudada neste TTC, quando situamos os quebradores de pedras num contexto sócio-ambiental vestido de uma terrível situação de intranqüilidade social assentada sobre um espaço afligido por seriíssimo desequilíbrio

20 ambiental, a qual desperta atenção especial da comunidade científica na atualidade. Porém a questão ambiental que hora afeta os sujeitos desta pesquisa não parece ser contrafeita ou um fenômeno novo, sobretudo as suas causas antrópicas em que o “Ser” humano se projeta como predominador sobre o “Ente” natureza. A concepção dominadora do mundo tem raízes pré-históricas. Encontramos vários registros antigos que mostram a relação humano-natureza, em que aquele tenta subjugar esta. Escolhi o fragmento seguinte da mitologia Cananéia, que é bem conhecido do mundo cristão ocidental por fazer parte dos escritos da tradição sagrada:
“Criou, pois, Eloim o homem à sua imagem; (...) homem e mulher os criou. Então Eloim os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Disse-lhes mais: Eis que vos tenho dado todas as ervas que produzem semente, as quais se acham sobre a face de toda a terra, bem como todas as árvores em que há fruto que dê semente; ser-vos-ão para mantimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todo ser vivente que se arrasta sobre a terra...”.(Gênesis 27 a 30) grifo meu.

Tal concepção de homem dominante é originária de um antropocentrismo demasiado e resultou de levar a humanidade à conduta predatória, consumista e irracional que não somente põe em risco o ambiente e tudo o mais que ele contém, mas também a sua própria sobrevivência (SEARA FILHO, 1988). A questão ambiental neste momento da história humana passar a existir, destarte como um tema condescendente que colabora para conscientizar as mulheres e homens sobre seus papeis como elemento central dos processos sócio-econômico-ambientais emergentes, o agente que transforma e é transformado e é herdeiro de suas ações (PMF/SME, 2004). Segundo LEFF (2001) esse procedimento de conscientização movimenta as pessoas na tomada de decisões, contíguo com a mudança dos métodos de concepção, análise e formação, a partir do ponto de vista holístico e enfoques interdisciplinares e não da maneira tradicional cartesiana como um ajuntamento de partes dissociadas. Por outro lado, Segundo Lima (1999), a questão ambiental acrescenta à realidade científica atual um jeito inovador que amplia a nossa habilidade de ponderar/relacionar as diversas realidades interligadas como bem demonstrou Capra (1996), e, de maneira especial por alertar para a imperativa e inadiável mudança atitudinal efetiva que garanta a ininterrupção da vida

21 no longo prazo. No contexto de um em um sistema social caracterizado pela desigualdade e insustentabilidade tal como estudamos aqui, Lima (ibidem) ainda assegura que as ameaças sócio-políticas e econômicas cada vez mais amplificam os imperativos ambientais, sobretudo àqueles pautados na gestão ambiental dos recursos vitais e finitos como a energia, a água e o solo na extensão das suas múltiplas dimensões políticas e éticas. (LIMA, 1999) Outrossim, Conforme diz Carvalho (1991), imbuídas da conseqüente razão da causa ambiental, motora da necessidade urgente de tomada de decisão e ação, as Nações Unidas a partir da Conferência de Estocolmo em 1972, criaram mecanismos de gestão dos problemas ambientais. Esses mecanismos têm basicamente uma “leitura correta” do problema e indica o sentido de sua abordagem, mas é alvo de severas críticas dos ambientalistas em função da excessiva contaminação ideológica da questão ambiental, que está plantada na perspectiva liberal e nos valores do capital. Essa leitura da ONU discorre da realidade sistêmica, pois deveria se pautar na articulação sócio-econômico-ético-político-ambiental, nas relações sociais e na subjetividade humana, como bem demonstrou Guatarri (2001).

2.3 A CRISE SÓCIO-AMBIENTAL
Quase todas as pessoas em algum momento, através das diversas fontes da informação: manchetes e matérias dos jornais e das revistas, das chamadas e reportagens das emissoras de rádios e televisão ou simplesmente de boca a boca, tomou conhecimento da existência dos danos causados às pessoas e ao meio ambiente pela ação humana. Tais danos, sobretudo originados pelo consumismo resultante do espírito capitalista foram por um bom tempo desconhecidos. Imaginava-se que o desenvolvimentismo econômico resolveria todos os problemas da população mundial, com um definitivo controle humano sobre a natureza, mas felizmente se foram os românticos tempos em que vigorava a ignorância das suas mazelas que também envenenam a alma, quando nos incute a idéia de segurança e esperança. A idéia de progresso acelerado em prol do bem estar para todos também teve o seu crepúsculo, sobreveio a escuridão das suas traiçoeiras armadilhas, fizeram tombar as mulheres e homens que os confiaram as suas vivências. Alguns aprenderam rápido pela experiência empírica própria ou alheia, entretanto a maioria ainda se encontra alienada dos riscos aos que estão submetidas e dos danos causados ao meio ambiente, desassistidas pela letargia das nossas políticas públicas e embaladas pelo desejo de retorno rápido dos seus investimentos e deveras rendidas a campanhas publicitárias inconseqüentes. Com efeito, por generalização

22 dessas idéias, parece razoável afirmar que a crise sócio-ambiental dos quebradores de pedras do Rio do Sal, está confinada, uma vez garantida as devidas peculiaridades e proporções, nesta conjuntura sinistra. Neste mote, precisamos sustentar a nossa análise em parâmetros seguros que nos conceitue a crise sócio-ambiental dos nossos pesquisados. Tal amparo teórico encontramos em Leff e Farias nas considerações abaixo. De acordo com Leff (1999) “a questão ambiental emerge como uma crise de civilização” pode-se expor que a crise ambiental é extraordinariamente mais significativa e terrível que qualquer crise econômica que tanto desperta o interesse do mundo globalizado. O aprofundamento da crise sócio-ambiental notada, sobretudo pelo diagnóstico da situação climática do planeta, não deixa dúvidas quanto à necessidade de se expandir em nível planetário a consciência ecológica. Apesar do discurso científico se portar como grande portavoz da crise ambiental, esta crise não é tão somente uma categoria científica, ela abarca todas as esferas da vida, porque se refere à própria sustentação da vida no planeta. As rupturas da crise ambiental põe todos os paradigmas do conhecimento em cheque, bem como os modelos societários da vida moderna, obriga-nos a reconstrução da racionalidade social norteada por outros valores e saberes que possibilitem novos modelos sustentáveis de produção, e novas formas de organização democrática e a resignificação cultural. Para Farias (2008) a crise sócio-ambiental, não pode ser compreendida analiticamente em cenários distintos, um cenário cultural e um cenário natural, diz o autor que “o homem faz parte da natureza”, e não é um entendimento simples de relação de causa e efeito, mais uma complexa relação que reúne o ente biológico, a pessoa da sociedade e o ser da subjetividade. Como conseqüência dessa complexidade, Farias afirma que “a degradação da sociedade é uma faceta da crise ambiental”. Ela se torna imperativa nos compelindo a “enxergar os laços sócio-culturais como relações ecológicas”, onde a natureza está indissociavelmente ligada à cultura. Esta idéia que produz a nova consciência da crise sócio-ambiental nos ajuda a problematizar as estruturas que configuram a representação da natureza na visão dos quebradores de pedras aqui pesquisados levando em conta a sua cultura e sua subjetividade, assim se ampliam as possibilidades de liberar o pensamento ecológico para torná-lo mais crítico e, por conseguinte, mais eficaz do ponto de vista de seu contorno social.

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2.4 A SUBJETIVIDADE EM MEIO À CRISE AMBIENTAL
As teorias científicas da modernidade tentam recuperar a unidade básica do universo. Decisivamente, no campo desse desafio, as teses ligadas à subjetividade e seu espaço na natureza são do mesmo modo consideradas importantes. No mote das idéias sobre a compreensão da subjetividade, Oliveira (2005) afirma que a subjetividade é o conceito induzido das “propriedades que o ser humano não poderia deixar de ter sem deixar de ser o que é”, e apresenta três formas básicas recorrentes de abordagem: o fisicalismo, as filosofias da finitude, e o pragmatismo. Segundo Oliveira (ibidem), O fisicalismo é a “descrição físico-naturalista da subjetividade” e tem seu foco no comportamento e é representado principalmente pela Teoria Behaviorista; Na tese de que os fenômenos mentais se confundem com funções neurofisiológicas e é representado pela Teoria da Identidade; e, na idéia que o intelectual é a mera manifestação do funcionamento perfeito do neurofisiológico. Oliveira (et. seq.) diz que as filosofias da finitude se fundam na tese de que “nossa consciência não é fundamento de si mesma, não constitui o princípio fundamental do pensar e do agir”. Tal contingência quer dizer que “não somos fundamento de nós mesmos”, esta tese propõe que a produção dos sujeitos é resultado de uma construção social e histórica, dessa forma a essência humana é o produto das condições de sua constituição. Já o pragmatismo, diz Oliveira (et. seq.), se caracteriza como a idéia de que o sujeito é visto como “aquele que, interpretando sinais, interpreta o mundo que ele tem através da mediação destes sinais”. Assim o sujeito se constitui através da linguagem e ação em redes interpretativas, e fornece os esquemas de interpretação de si e do mundo a sua volta. Não obstante, Oliveira (et. seq.) busca interpretar a subjetividade a partir de referenciais de síntese e amplia os fundamentos do ser humano na totalidade. A esse projeto reconstitutivo racional do ser humano Oliveira denomina de ontologia regional transcendentalmente mediada, empreendimento este, que através de argumentos reflexivos funda uma ontologia regional que pressupõe o núcleo metafísico da reflexão filosófica incondicionada, uma razão objetiva absoluta e um princípio universal de inteligibilidade de tudo. Oliveira ainda afirma que nessa ontologia regional, a corporalidade se sobreleva como estrutura basal da existência humana, e se manifesta em dois aspectos: no caráter corporal-orgânico que nos coloca no mesmo status dos demais seres do mundo; e, segundo, numa configuração corporal-biológica,

24 onde “não podemos olhar para nosso próprio corpo como simples objeto em meio a tantos outros”, num mundo marcado pela necessidade de ter de adquirir as condições da própria existência. Já para Guattari (2001) o subjetivismo entende o homem enquanto ser psíquico envolvido e envolvente e não como um objeto no/do meio. Sem a consciência da sua subjetividade, o homem deixa, paulatinamente, de se perceber como um ser complexo, dual, para se coisificar, um objeto manipulável ao sabor das tendências ideológicas, mormente à cultura consumista, sendo exortado a suplantar sua realidade da qual subsiste para adentrar ao subjetivo estereotipado e alienador. Esta relação da subjetividade com uma exterioridade imperante em meio à crise ambiental já faz parte da vida cotidiana dos quebradores de pedras aqui estudados, por isso entendemos que a nossa análise não deve se furtar de considerar todas as suas dimensões sintéticas.

2.5

O VALOR SÓCIO-AMBIENTAL

A valoração sócio-ambiental nasce como resultado do desenvolvimento da consciência ecológica de que o meio ambiente é um ecossistema. Para Edgar Morin (1981) esta consciência deve levar em conta a totalidade viva auto-organizada por si ou espontânea, e principalmente a “consciência da dependência da nossa independência”, cujo significado remete à relação fundamental com o ecossistema, que leva o “Ser” a rejeitar a visão de um mundo-objeto e do “homem insular", ou seja, do homem ilhado e independente. Claro que esta visão de valor ambiental rejeita a idéia radical de valoração econômica pura do meio ambiente, em que o vê apenas como fontes de recursos, e que se tem constituído em um extenso campo de pesquisas teóricas e trabalhos acadêmicos, visivelmente, por se tratar de uma saída teórica que agrada o capital. Morin (ibidem) fala de um valor moral com significado sócio-ambiental, e também, com esta acepção da consciência ecológica expõe a sua complexidade nos termos das teorias dos sistemas. Esta base teórica de valor ambiental holística se conecta na teia da vida de Capra (1996) e, por conseguinte se aplica dentro das nossas expectativas de interpretar tal valor nas nossas análises feitas neste TCC.

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2.6 A ÉTICA E A CIDADANIA AMBIENTAL
A Construção da Cidadania Ambiental é um dos desafios mais complexos da nossa sociedade contemporânea, já que esta edificação passa pela desconstrução radical das bases ideológicas que sustentam o modelo desenvolvimentista do capital. A formação de valores e atitudes se funde na base do processo de construção da cidadania. É imutável e irreversível a forma de construção da cidadania por via educação ambiental, que deve abranger as dimensões contraditórias da sociedade, por se tratar de um processo dialético. A construção da cidadania ambiental pode sobrevir quando contemplar os diferentes caminhos e ações específicas. Esta construção se caracteriza como o processo que reconhece os seres humanos como seres que pertencem a uma cadeia zoológica que evoluiu num processo complexo, lento e deslumbrante e que por fim ascendeu ao status de “Ser” que se incorpora a sua natureza. Para a construção da cidadania não podemos negligenciar com a importância dos Valores Humanos. Martinelli (1998) afirma que “os valores humanos são os fundamentos éticos e espirituais que constituem a consciência humana, tornando a vida algo digna ser vivida e nos permitem constatar que não somos superanimais mas supraconscientes”. Martinelli também considera fundamental para a à formação da cidadania: a solidariedade; a cooperação; a participação e a responsabilidade. Com esses saberes os sujeitos despertam a compreensão da importância da existência de cada ser vivo na manutenção da vida no planeta e também o respeito à vida em essência, com todas as suas nuances e diferentes manifestações.

2.7 O TRABALHO E O MEIO AMBIENTE
A questão da relação do trabalho com o meio ambiente é o principal ponto de tensão vivido pelos quebradores de pedras do Rio do Sal. Este nosso trabalho, mantendo a coerência da investigação e análise holísticas, encontrou sufrágio teórico nas idéias de Colombo (1993). Colombo que na relação entre capital e trabalho, o capital tem todas as vantagens, fazendo do trabalho uma mera mercadoria e não um valor moral. Explica por exemplo a causa

26 fundamental dos quebradores de pedras estudados se encontrarem na situação de marginalizados e desclassificados. Colombo (ibidem), inspirado no materialismo dialético marxista, diz que o capital se defende com a retórica de que “todos têm chances iguais, direitos iguais e que todos são livres”, mas essa tese não se confirma na prática, pois os trabalhadores estão sujeitos à fome, desabrigados, não conseguem ser profissionais liberais e, muito menos, ser empresários, contrariando a essência do discurso liberal, um discurso teórico e do interesse ideológico do capital (COLOMBO, 1993). Teresinha Burnham (1993) fala do trabalho como mediador da relação que as mulheres e homens estabelecem com a natureza e os outros semelhantes, portanto mediador da historicidade do conhecimento humano. Para Chauí (2007), o trabalho também é mediador da apropriação da natureza, da produção material e organização cultural na história, portanto, dialético histórico-crítico. Sendo assim, com as reflexões aqui empreendidas, partimos do pressuposto de que a tradição dialética consagrada por Marx, aliada a dialética existencialista de Sartre, é instrumento teórico-metodológico que busca a explicação ecologicamente viável e socialmente justa da realidade dos quebradores de pedras, por meio de uma análise exercida “com vistas à superação dos dualismos entre cultura, natureza e capitalismo” (LOUREIRO, 2009).

2.8 A PERCEPÇÃO AMBIENTAL
Segundo o Wikicionário (http://pt.wiktionary.org/wiki/percepção) “percepção é uma palavra derivada do infinitivo latino percipere ("apreender pelos sentidos"). A percepção é definida no dicionário Mini-Aurélio como o ato, efeito ou faculdade de perceber. Assim diferenciando a percepção externa da interna. O caráter sensorial é o que liga o Ser humano aos aspectos biológicos tanto quanto aos aspectos sócio-culturais. (MARIN, OLIVEIRA E COMAR, 2003 e 2005). De tal modo: a combinação dos sentidos no reconhecimento de um objeto; a recepção de um estímulo; a faculdade de conhecer independentemente dos sentidos; a sensação; a intuição; o ato ou operação da inteligência; a representação intelectual; e, a idéia, são formas de percepção, as quais no sentido ambiental estão intimamente ligadas à cultura, história, experiência pessoal, tempo e espaço geográfico de cada pessoa, etc. E é neste sentido que tomamos como base teórica para a leitura do nosso objeto de pesquisa.

27 Del Rio (1996) elaborou um esquema teórico (Figura 2) que mostra como a percepção se dá através de mecanismos perceptivos e cognitivos. Para Del Rio (ibidem) a mente desempenha parte ativa na construção da realidade percebida e, por conseguinte, define a conduta do observador. Os esquemas de representação da realidade são organizados através de imagens mentais, com atributos específicos e únicos do ponto de vista fenomenológico.

Figura 2: Esquema teórico do processo perceptivo. Fonte: DEL RIO, 1996.

Segundo Palma (2005) para que o sujeito possa de fato perceber algo, é essencial que este “possua algum tipo de interesse no objeto de percepção”. As crenças e valores desses sujeitos, ou seja, os seus paradigmas são alicerces basais desse interesse, construindo em cada ser humano uma percepção única para o mesmo objeto observado. Já Okamoto (1996, apud Palma, 2005) afirma que
“Pela mente seletiva, diante de um bombardeio de estímulos, são selecionados os aspectos de interesse ou que tenham chamado a atenção, e só aí que ocorre a percepção (imagem) e a consciência (pensamento, sentimento), resultando em uma resposta que conduz a um comportamento”

Ribeiro (2004, apud Silva, 2006), destaca o aspecto social da percepção ambiental, afirmando que esta percepção não está necessariamente ligada à natureza, mas a inteligibilidade da relação dos sujeitos consigo mesmo e com as outras pessoas, enquanto Pinheiro (2004) destaca os valores dos sujeitos na formação da percepção ambiental, considerando o emocional, o sensorial, o vivencial e o racional num processo bidirecional realimentada pela satisfação do interesse (Figura 3).

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Figura 3: Esquema da percepção ambiental segundo Pinheiro (2004)

Através de seus estudos, Lynch criou o conceito de “imagens ambientais” que aparecem como resultado da interatividade observador e seu ambiente. (LYNCH, 1999). O meio possui sua realidade específica, enquanto o observador, seleciona, processa e constitui o saber em conformidade com seus objetivos. Com fins de estudar a percepção ambiental com base no comportamento do observador em relação ao objeto surgiu a Psicologia Ambiental, a qual é entendida por Moser (2005), como o "estudo das inter-relações entre o indivíduo e seu ambiente físico e social, nas suas dimensões espaciais e temporais". (MOSER, 2005). Vê-se na psicologia ambiental o seu caráter bidirecional, enfocando o diálogo do sujeito, através de suas percepções e comportamentos, com o seu contexto sócio-ambiental. (CARVALHO, 1993). Desse modo se conforma um sistema aberto onde o ambiente é simultaneamente determinante e determinado, pois tanto o meio como o sujeito são ponderados nas análises. David e Weinstein (1987, apud Carvalho, 1993) observam que o ambiente físico comunica a intenção e os valores das pessoas nele inseridas, portanto traduzem um caráter simbólico. O contexto sócio-ambiental está no sujeito em que o ambiente físico se situa. O cenário é denunciador do comportamento dos sujeitos. Com base nestas linhas teóricas, podemos refletir sobre a percepção ambiental dos quebradores de pedras com base em muitas facetas, tanto da leitura das palavras ditas, do comportamento enquanto testemunhas das duas histórias tanto quanto da leitura dos objetos que compõem os seus contextos.

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3 A INTERVENÇÃO ECOPEDAGÓGICA

3.1 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Ainda existe no nosso país alguma dificuldade de fundamentação conceitual com a prática pedagógica específica à educação ambiental, por isso estendemos a nossa busca por diversas outras fontes, capazes de teorizar sobre as nossas intenções de realizar este trabalho holístico. No caso da temática ambiental, de passagem, podemos estimar a existência, atualmente, de cerca de 800 trabalhos de pesquisa (dissertações e teses) produzidos no Brasil, a maioria dos quais publicados a partir de 1990. Todavia, existem muitos problemas de acesso a esta produção acadêmica, devido à pouca publicação dos trabalhos, inclusive na própria academia (ALVES, 1992; ALVES-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJDER, 2002; GATTI, 2003). Neste trabalho, com a finalidade de analisar as conseqüências das intervenções educacionais patrimoniais/ambientais da UNEB-CAAPA e AGENDHA junto a comunidade dos quebradores de pedras do Rio do Sal, me inspirei especialmente na pedagogia de Paulo Freire (1982, 1991 e 1996 passim), cuja principal estratégia epistemológica é a interação dialógica dos sujeitos entre si e com a realidade. A Educação Ambiental pode contribuir com a construção da consciência ambiental dos sujeitos pesquisados de duas formas: não-formal e informal pela ação direta das instituições interessadas nos sítios arqueológicos ou formalmente pela escola local que atende quebradores de pedras ou seus familiares. Cada uma dessas formas carregada de seus conceitos com distintas linhas teóricas, e perspectivas ideológicas, antropológicas e políticas. A Educação Ambiental exclusivamente feita nos moldes formais tradicionais não é suficiente para resolver os problemas ambientais, mas feita com completude é condição indispensável. Esta idéia pode ser complementada por Leff (1999) quando diz que “os valores ambientais se induzem por diferentes meios e não só dentro dos processos educativos formais”. Ab‟Saber (1993), concebe a Educação ambiental como aquela que garante um compromisso futuro, envolvendo uma filosofia com novas idéias comportamentais, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo”. Ramificando o alcance destas idéias, Garcia Muñoz (2002) diz que as concepções de Educação Ambiental são diversas e variadas, pois dependem das concepções que seus praticantes têm de Educação, de Ambiente e de Sociedade. Ou seja, as

30 concepções de Educação Ambiental sofrem as mais variadas interferências assumindo distintos matizes das diferentes condições de sua produção, especialmente, das propostas produzidas e veiculadas pelas ONG‟s, mídia, empresas, etc. (GARCIA MUÑOZ, 2002). As intervenções educacionais patrimoniais/ambientais da UNEB-CAAPA e Agendha são permeadas de forte teor cidadão com nítido enfoque na ecologia humana, mas na educação formal, de modo geral, Sorrentino (1997) afirma que privilegia a articulação com o currículo do Ensino de Ciências naturais; apresentando nítidos vínculos com temas relacionados à Ecologia; “a discussão de problemas ambientais, em sua maioria com forte conotação técnica, relacionada a concepções biológicas” (SORRENTINO, 1997). Valentin (2004) coaduna com a visão de Sorrentino quando diz que, “de modo mais significativo, grande parte das ações e das pesquisas em Educação Ambiental se relacionam com as escolas, seus professores e os escolares, em especial do Ensino Fundamental” (VALENTIN, 2004). Amparando as intervenções educacionais patrimoniais/ambientais da UNEB-CAAPA e Agendha, Coutinho (1991) reforça a idéia de que a Educação Ambiental precisa ir além de mais uma simples disciplina dentro da estrutura curricular. A ação da educação ambiental não deve se restringir aos limites da proteção da natureza, nem muito menos pelas ações pontuais do dia da árvore e Semana do Meio Ambiente, deve sim, avançar na perspectiva histórica do materialismo dialético marxista, com bases sólidas para a construção de uma visão exeqüível de futuro, impedindo a reprodução dos erros e enganos cometidos até então. Neste sentido, a educação ambiental deve buscar formar uma consciência ecológica que seja ao mesmo tempo uma consciência social e política, cuja profundidade e complexidade, sendo bem construída no processo de reflexão-ação-reflexão (FREIRE, 1982), têm a força necessária para a mobilização transformadora e torna o sujeito em sua prática comprometido com a questão socioambiental. Para Morin (1981) é plausível auxiliar o sujeito na sua tomada de consciência, entretanto diz que este auxílio é limitado, na medida em que a conscientização é um ato reflexivo que só o sujeito pode realizar. Teitelbaum (1978) afirma que o processo de conscientização que a educação ambiental promove tem três dimensões: “a) como prática social concreta; b) como assunção de uma personalidade nacional, que em seu próprio âmbito busca a realização de seu destino histórico, com independência, justiça e liberdade; c) como integrantes de uma comunidade internacional que luta pela realização dos ideais de justiça, solidariedade e paz”. Fica entendido nas entrelinhas que através da educação ambiental é crível despertar no indivíduo

31 uma pretensão assente de mudar a realidade presente e construir um futuro diverso naquilo que lhe incumbe, na sua parcela individual de transformação, que advém a partir de comportamentos, modos, e ações responsáveis de cuidado e respeito, criando assim a consciência ecológica e a compreensão da evolução do ambiente em sua totalidade, esta que se dá pela manifestação sensível do êxito da educação ambiental. Fica também revelado o valor dos avanços possíveis, fundamentais para consolidar a confiança do sujeito no processo de evolução gradual e contínuo. Conferindo unanimidade a esse tema, Pádua & Tabanez (1997) também se referem à educação ambiental como uma ferramenta capaz de desenvolver essa mudança de comportamento da sociedade. O papel da Educação Ambiental é enfatizado no Capítulo 36 da AGENDA 21 - Promoção do Ensino, da Conscientização e do Treinamento: “Para ser eficaz, o ensino sobre meio ambiente e desenvolvimento deve abordar a dinâmica do desenvolvimento do meio físico/biológico e do socioeconômico e do desenvolvimento humano (que pode incluir o espiritual), deve integrar-se holisticamente em todas as disciplinas e empregar métodos formais, „não formais‟ e informais e meios efetivos de comunicação” (Agenda 21).

3.2 A ECOPEDAGOGIA CRÍTICA
Para Moacir Gadotti (2000) a educação problematizadora de Paulo Freire foi a chave teórica para o nascimento da Ecopedagogia. Gadotti (idem, ibidem)) se lembra das principais linhas pedagógicas onde diz que “a pedagogia tradicional centrava-se na espiritualidade, a pedagogia da escola nova, na democracia e a tecnicista, na neutralidade científica. A Ecopedagogia centra-se na relação entre os sujeitos que aprendem juntos em comunhão” (Freire apud Gadotti, 2000). Gadotti afirma ainda que a ecopedagogia “é sobre tudo uma pedagogia ética (GADOTTI, 2000). Avanzi (2004) complementa a idéia de Gadotti ligando a Ecopedagogia à mudança na mentalidade em relação à qualidade de vida. Segundo Gadotti (2000): A Educação Ambiental clássica, limitou-se ao ambiente externo com temas relacionados às plantas e animais sem se confrontar com os valores sociais, desprezando a questão da “politicidade da educação e do conhecimento” (GADOTTI, 2000). Sendo assim, a Ecopedagogia se opõe à Educação Ambiental expositiva, enunciativa e impositiva, focada nos conteúdos, “visando persuadir a respeito da conveniência da doutrina ecológica” (GUTIÉRREZ & PRADO apud AVANZI, 2004).

32 Para MEDINA; SANTOS (1999) os sujeitos só conseguirão mudar sua maneira de pensar o ambiental se o novo saber ambiental não permanecer alheio às novas condições de seu contexto, exigindo da ecopedagogia formal ou não formal propostas inovadoras e criativas adaptadas à realidade local e que permitam formar efetivamente o cidadão reflexivo, crítico e participativo, apto para se tornar autônomo e protagonista das transformações de seu meio. Para reforçar o viés da ecopedagogia, REIGOTA (1997) diz que educação ambiental deve estimular a ética nas relações sócio-econômico-políticas, e que se fundamente no diálogo entre gerações e culturas.

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4 CONTEXTO HISTÓRICO/GEOGRÁFICO E HUMANO

4.1 CARACTERIZAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO
O Complexo Arqueológico de Paulo Afonso, Estado da Bahia, (Figura 4) está Localizado no pediplano sertanejo, margeando a calha da zona final do trecho submédio e platô do Cânion do Rio São Francisco, micro-região do sertão setentrional baiano, inserida na Região de Xingó (VERGNE & MARQUES, 2009) e faz parte da Ecorregião do Raso da Catarina. Esta área é considerada uma das áreas mais ricas em se tratando da existência de registros gráficos rupestres do Brasil, onde já se descobriu mais de uma centena de sítios,
“classifica-se como paisagem notável tanto em função dos afloramentos graníticos que lhe dão uma especificidade em relação às áreas circunvizinhas, assim como, sua flora, fauna e demais componentes típicos da biodiversidade da Ecorregião do Raso da Catarina e do Bioma da Caatinga, fatos que lhe concedem o caráter de patrimônio arqueológico e patrimônio paisagístico” (AGENDHA, 2007).

Figura 4: Área do Complexo Arqueológico de Paulo Afonso – foto: Google Earth. Edição frankalsaber.

34 Este espaço sertanejo do Rio do Sal, em diversos aspectos, principalmente pela presença das pedras (Figura 5 e Figura 6), se assemelha àquele descrito por Euclides da Cunha em “Os sertões”:
“A pedra, aflorando em lajedos horizontais, mal movimenta o solo, esgarçando a tênue capa das areias que o revestem, (...) e nos trechos em que se operou a decomposição in situ do granito, originando algumas manchas argilosas, as copas virentes dos ouricurizeiros circuitam parêntesis breves abertos na aridez geral, (...) e mais longe desaparecem sob acervos de blocos, com a imagem perfeita desses "mares de pedra" tão característicos dos lugares” (CUNHA, 2005).

Figura 5: Vale do Rio do Sal com vista para o povoado. Foto: frankalsaber

Figura 6: “Mares de pedra” – Margem direita do Rio do Sal a montante do povoado. Foto: frankalsaber

Esta paisagem única faz parte do Corredor Ecológico da Caatinga que é constituído por um mosaico de terras com os mais diversificados usos, que vão desde “parques e reservas até áreas com uso menos intensivo, e extensão de 5,9 milhões de hectares de caatinga, distribuídos em 40 municípios de cinco estados da região Nordeste, e que são gerenciadas de maneira integrada para garantir a sobrevivência do maior número possível de espécies através da manutenção da conectividade daquela região”. A formação de um corredor ecológico é estrategicamente apropriada onde existem áreas devastadas ou sofrendo de grande ameaça ao equilíbrio natural. Nesta situação se encontra o Complexo Arqueológico de Paulo Afonso, que abriga vários Sítios de Pinturas Rupestres, que segundo os estudos de Verne estão pode ter até 9.000 anos de existência (AGENDHA, 2007). As pedras de lajeiros e matacões de granito, que afloram em toda a região do Rio do Sal, são classificados como de excelente qualidade para fins industriais por possibilitar a produção de placas de granitos polidos de muita resistência física à abrasão e de grande beleza estética, já

35 foi muita utilizada para fins de exportação, mas pela formação cristalina intrínseca que lhes confere a facilidade da produção de paralelepípedos por meios artesanais com fins menos nobres como base de pavimentação de estradas, estas pedras se tornaram alvo fácil para a sua extração mineral. Segundo Vergne e Marques (passim), as demandas de empresas que se estabeleceram na região, sobretudo a CHESF, através das empresas subcontratadas, serviram de impulso para a mineração das referidas pedras no contexto da pressão econômica desenvolvimentista que atravessava o Brasil desde a era Vargas.

Figura 7: Sítio 41- CAAPA – Quebrador de pedras junto a um amontoado de rachões (fragmentos de pedras) onde existia um matacão7 de granito com pinturas rupestres. Foto editada com mosaico: frankalsaber.

Os quebradores de pedras aparecem dentro deste contexto histórico. Primeiro impulsionados à mudança de atividade econômica pela promessa esperançosa de dias melhores, através de
7 Matacão: s.m.Geol. - Também conhecido por seu nome em inglês Boulder, são grandes blocos arredondados, diâmetro maior que 256 mm, produzidos pelo processo de intemperismo químico, conhecido como esfoliação esferoidal ou pelo desgaste de blocos arrastados por correntes fluviais. Em geral os matacões formados por erosão fluvial são menores dos que os formados pelo intemperismo químico, além de serem encontrados em ambientes de sedimentação, longe de sua área fonte, ao passo que os matacões formados por esfoliação esferoidal são autóctones, tendo sofrido pouco transporte, estando mais sujeito á ação da gravidade e do rastejamento (creeping) do solo onde se formou. Fonte: http://www.dicionario.pro.br/dicionario/index.php/Matacão

36 maiores ganhos financeiros que suplantariam as atividades tradicionais ali existentes, como a criação de caprinos, a agricultura e a pesca (VERGNE e MARQUES, 2009). O interesse econômico da mineração de pedras no Rio do Sal foi sustentado por uma ideologia capitalista que sobrevive até os dias de hoje, e que se expressa nas idéias de desvalorização da paisagem natural e das atividades tradicionais, na promessa de ganhos mais fáceis, na desconstrução cultural, na projeção de cenários lúgubres e de terror, e, sobretudo, na falta de criatividade política para concepção de alternativas sócio-econômicas. O interesse científico pelo patrimônio histórico das pinturas rupestres (Figura 8 e Figura 9) se tornou a principal bandeira de investida dos ambientalistas para a preservação do patrimônio natural. Mas foi a ação dos órgãos de defesa do meio ambiente e a pressão da comunidade científica que bastou a mineração do Rio do Sal e de toda a região do Complexo Arqueológico, atirando os quebradores de pedras num equivocado dilema que confronta sobrevivência e ciência. Tal equívoco ainda reveste a alma dos quebradores de pedras e suas famílias, e paira como uma das principais ameaças às ações transformadoras até então propostas.

Figura 8: Sítio 98 – figura antropomorfa escolhida como símbolo do CAAPA – foto editada contraste: frankalsaber

Figura 9: Sítio 23 – CAAPA – Pintura rupestre com ponteiro de aço encravado. Foto: frankalsaber.

4.2 O SENTIDO DA PRÉ-HISTÓRIA NO CONTEXTO
Na antiguidade primitiva da humanidade, a forma de explorar os recursos naturais estava, sobremaneira, relacionada com a visão mítica que mulheres e homens tinham da natureza. Neste sentido, de acordo com Drew (passim), o homem primitivo atribuía os fenômenos

37 naturais e até mesmo a própria natureza às divindades, “(...) e, portanto, ela devia ser temida, respeitada e aplacada” (DREW, 2002). Com o aparecimento da civilização ocidental, a visão mítica se transformou, mas guardou a sua essência. Sobreveio a filosofia e o pensamento humano revalorizou a forma mítica pura do olhar sobre a natureza. Os pensadores acrescentaram novas bases e novos significados racionais para a interpretação dos fenômenos naturais. Mas não se trata somente de um olhar sobre o ambiente, é também um sentir, e é também subjetividade. Neste universo particular da antiguidade, outros fatores determinaram a inter-relação humano/natureza, conforme nos diz Aristóteles (1985), valores como a felicidade e a riqueza possuíam outros significados distintos dos nossos valores contemporâneos. A felicidade podia ser alcançada por meio de coisas muito mais simples nas relações sociais e no acesso limitado de recursos naturais que lhes garantisse a sobrevivência. Não fazia sentido nem fazia parte dos anseios das mulheres e homens primitivos as idéias de acumulação de riqueza e de conquista de coisas supérfluas. Mas para autores como Morin e Kern (2001), “a pré-história não se extinguiu, foi exterminada”. As mulheres e homens criadores da cultura e da sociedade humana foram vitimados por um genocídio8 peremptório de transformação sociológica, causado pelos seus próprios descendentes que progrediram, fenômeno comparado a um parricídio9. Os senhores dos exércitos na expressão dos todos poderosos deuses sedentos de sangue, e suas conseqüências terríficas genocidas é o marco do aparecimento da história. Quantas idéias que interrogam os mistérios do mundo não foram perdidas? Morin e Kern (ibidem) nos ajudam a compreender o sentido da pré-história na história dos quebradores de pedras do Rio do Sal, pois estas idéias nos fazem refletir sobre o mesmo destino trágico dos registros rupestres, mesmo que aqui o contexto seja outro, do qual não temos nenhum motivo para imputá-los quaisquer dolos, mas fica valendo o significado que a alma do povo primitivo continua a ser consumida pelos nossos modos ditos civilizados.

8

Genocídio (por vezes designado por limpeza étnica, embora esta última designação tenha vindo a ser preterida devido à conotação positiva da palavra "limpeza") tem sido definido como sendo o assassinato deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e (por vezes) políticas. Há algum desacordo, entre os diversos autores, quanto ao facto de se designar ou não como genocídio os assassinatos em massa por motivos políticos. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Genocídio. 9 O parricídio consiste no ato de uma pessoa matar seu próprio pai. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Parricídio.

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4.3 GEOGRAFIA CULTURAL E SABERES AMBIENTAIS
O presente trabalho, também está fundamentado na Geografia Cultural Humanística, no sentido de descrever e interpretar a geograficidade e os saberes ambientais da comunidade dos quebradores de pedras do Rio do Sal. O olhar clínico da ecopedagogia, sobre a geograficidade socioambiental desta comunidade, através da interpretação das suas grandezas quantitativas e elucidação dos seus significados qualitativos, através da metodologia que aqui propomos, nos acendeu muitas luzes, que servirão de grande ajuda para a construção de saberes destinados a comunidade acadêmica em toda instância. Ao mesmo tempo, tal como menciona Santos (2008), a finalidade da produção desse saber se identificou com a dinâmica social, e o desafio do saber se insere no contexto das necessidades das comunidades, podendo ser traduzida em resposta positiva para as pessoas do local estudado. A partir da análise da literatura disponível, pude a priori verificar que o discurso das instituições públicas relacionado com o Complexo Arqueológico de Paulo Afonso está revestido de um caráter cidadão, porém se desvenda essencialmente ideológico no sentido marxista do termo, ou seja, de falseamento da realidade. Também, a pressa com que esta academia, por nobríssimos motivos, publicou as suas observações sobre a realidade daquelas referidas comunidades, sobretudo as que se referem aos quebradores de pedras, fez com que em muitos momentos se dispensasse propositalmente o rigor técnico-científico, VERGNE & MARQUES (2009, p.7) assim deixando este espaço para o aprofundamento deste conhecimento específico. A Geografia Cultural Humanística se estende a um saber ético-social, possibilita a comunidade tecer sua auto-crítica a partir de um saber emancipador, construindo sujeitos capazes de julgar a realidade na acepção do pensamento freireano. Neste sentido, o saber motiva o despertar à política quando promove a superação do silêncio do dominado,

tornando-o sujeito das lutas pela transformação social. Assim, na visão de Severino (2008) a universidade se apresenta como um dos principais caminhos na construção destes saberes os quais se destinam a prestar serviço à sociedade no contexto da qual ela encontra estabelecida. (SEVERINO, 2008). Milton Santos (1997) reforça esta idéia de que não se pode sair da realidade que desafia o saber local das comunidades e que abrange diferentes âmbitos sócio-econômico-ambientais e da política. Diz Santos (ibidem) que “o saber tem conseqüências concretas na sociedade” que passa a exigir mudanças até mesmo da metodologia científica para que esta passe a dá conta

39 do problema das culturas e os seus múltiplos contextos onde elas são construídas. Assim se põe a geograficidade socioambiental como um destes grandes esforços da academia no cumprimento da sua missão social. Ainda segundo Milton Santos (ibidem), a geograficidade induz uma análise geográfica numa dimensão da existência, pois aproxima o estudo geográfico do mundo vivido. Amparando ainda mais este pensamento, Relph (1979) diz que através do conceito de geograficidade, o lugar encerra todas as respostas e experiências que temos de ambientes na qual vivem as comunidades como espaço de existência e coexistência, através da leitura das necessidades existenciais, dentre elas: meio-ambiente, localização, posição, mobilidade, interação com o meio e as outras pessoas, etc. Para conhecer a geograficidade sócio-ambiental, a percepção e os saberes ambientais tradicionais da comunidade de quebradores de pedras do Rio do Sal, ainda encontrei apoio teórico na obra de Dardel (1990). Diz este autor que a
“geograficidade refere-se às várias maneiras pelas quais sentimos e conhecemos ambientes em todas suas formas, referese ao relacionamento com os espaços e as paisagens, construídas e naturais, que são as bases e recursos das habilidades do homem e para os quais há uma fixação existencial” (DARDEL, 1990).

Faz-se necessária esta base teórica, entre tantos outros argumentos de Milton Santos (1982 e 1997) impossíveis de situar aqui neste espaço tão breve, para elucidar a complexidade dos saberes sócio-ambientais da comunidade estudada a fim de desvelar e expressar os seus níveis de abstração diferenciados e as possibilidades operacionais relacionadas com estes saberes. Para Milton Santos (1982) "o espaço é acumulação desigual de tempos", por isso, para captar e analisar as essências dos saberes ambientais locais da referida comunidade, temos que conceber espaço como heranças desta comunidade. O mesmo Milton Santos (1997) vai se referir a estes saberes ambientais locais como efeito de diferentes ritmos e coexistências nestes lugares, os quais co-relacionam diversas configurações de coexistir, da cultura material e resultando num complexo espaço geográfico rico de heranças e de novas possibilidades. Dentre tantos outros autores consultados, escolhi a visão de Leff (2006) para ancorar a investigação deste TCC no viés sócio-ambiental. Segundo Leff (ibidem) o ambiente pode ser definido como uma "visão das relações complexas e sinérgicas gerada pela articulação dos processos de ordem física, biológica, termodinâmica, econômica, política e cultural". De

40 acordo com este pensamento, o sentido do habitat é ressignificado como suporte ecológico e do habitar como forma de inscrição da cultura no espaço geográfico. Ainda segundo Leff (ibidem), para compreender a complexidade destas relações que envolvem o mundo natural e o humano “(…) seria necessário elaborar formas de avaliação qualitativa dos métodos da complexidade da ciência pós-normal, desobrigando-a dos princípios da ciência positiva” (LEFF, 2006). Por isso a teoria de Henrique Leff foi deveras significativa em nossa jornada para ajudar a interpretar as diversas leituras que demandam desta pesquisa.

4.4 O OFÍCIO DE QUEBRADOR DE PEDRAS
Segundo Childe (1966) A quebra de pedras foi certamente uma das mais antigas atividades do gênero humano (Figura 10 e Figura 11), esta remota atividade ocorreu no período denominado de “idade da pedra10”. A paleontologia em geral, afirma que este período começou na África há mais de 2,5 milhões de anos, com a aparição da primeira ferramenta humana (ou pré-humana) de pedra lascada. A habilidade de cortar pedras até mesmo inspirou o nome da espécie Homo habilis11 cujo nome significa "homem habilidoso".

Figura 10: Quebrador de pedras trabalhando próximo do Sítio 41 - CAAPA. Foto: frankalsaber

Figura 11: frankalsaber

Pilha

de

paralelepípedos.

Foto:

10

A Idade da Pedra é o período da Pré-História durante o qual, os seres humanos criaram ferramentas de pedra, sendo a tecnologia mais avançada naquele então. A madeira, os ossos e outros materiais também foram utilizados (cornos, cestos, cordas, couro...), mas a pedra (e, em particular, diversas rochas de rotura conchóide, como o sílex, o quartzo, o quartzito, a obsidiana...) foi utilizada para fabricar ferramentas e armas, de corte ou percussão. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_da_Pedra#cite_ref-0. 11 Homo habilis é uma espécie de hominídeo que viveu no princípio do Plistocénico (1,5 a 2 milhões de anos). Foi o primeiro a construir e utilizar ferramentas de pedra lascada, o que lhe valeu o nome específico: habilis, o habilidoso . Suas ferramentas eram feitas de ossos, madeira, e principalmente a pedra (lascada). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_habilis.

41 Os principais escritos sacros do mundo ocidental tem exemplos da atividade de quebrador de pedras. Recortei os seguintes exemplos da Tanach12 judaica:
“Depois disse o Senhor a Moisés: Eis que eu tenho chamado por nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do espírito de Deus, no tocante à sabedoria, ao entendimento, à ciência e a todo ofício, para inventar obras artísticas, e trabalhar em ouro, em prata e em bronze, e em lavramento de pedras para engastar, e em entalhadura de madeira, enfim para trabalhar em todo ofício”. (Êxodo, 31: 1-5) “Por ordem do rei eles cortaram grandes pedras, de grande preço, para fundarem a casa em pedras lavradas. [...] E edificava-se a casa com pedras lavradas na pedreira”. (I Reis,5:17 e 6:7). Grifos meus.

Também na tradição islâmica encontramos diversos contos e em que o ofício de quebrador de pedras é ressaltado como estes que se seguem:
“Disse-lhe o Profeta Mohammad “Quem deixou suas mãos assim?” Ele lhe respondeu: “Ó, Profeta de Alah, eu trabalho como quebrador de pedras com uma marreta e uma pá para sustentar minha família”. Então, o Profeta beijou a sua mão e lhe disse: “Esta mão jamais será queimada pelo fogo.” (Fonte: PRINCÍPIOS ISLÂMICOS - Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos. 1http://www.ibeipr.com.br/discursos.php?id_discurso=37.) E entalhais habilmente casas (de pedras) nas montanhas. Temei, pois, a Alah, e obedecei-me! (25ª Surata "Al Furcan13": 149150). Grifos meus.

As sociedades orientais também preservaram nas suas tradições, um pouco da história e contos que homenageiam os quebradores de pedras. Exemplo disso vemos a seguir num trecho
retirado do livro “Três Fábulas Budistas para Crianças” de Bruno Pacheco.

12

Tanakh ou Tanach (em hebraico ‫ )ך״נת‬é um acrônimo utilizado dentro do judaísmo para denominar seu conjunto principal de livros sagrados, sendo o mais próximo do que se pode chamar de uma Bíblia Judaica. 13 25ª Surata do Al Corão "Al Furcan” significa “O DISCERNIMENTO”.

42 O quebrador de pedras
Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com sua posição na vida. Um dia ele passou em frente a uma rica casa de um comerciante. Através do portal aberto, ele viu muitos objetos valiosos e luxuosos e importantes figuras que freqüentavam a mansão. "Quão poderoso é este mercador!" pensou o quebrador de pedras. Ele ficou muito invejoso disso e desejou que ele pudesse ser como o comerciante. Para sua grande surpresa ele repentinamente tornou-se o comerciante, usufruindo mais luxos e poder do que ele jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles menos poderosos e ricos do que ele. Um dia um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado em uma liteira de seda, acompanhado por submissos atendentes e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar a plebe. Todos, não importa quão ricos, tinham que se curvar à sua passagem. "Quão poderoso é este oficial!" ele pensou. "Gostaria de poder ser um alto oficial!” Então ele tornou-se o alto oficial, carregado em sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse temido e odiado pelas pessoas à sua volta. Era um dia de verão quente, e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Ele olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente pela sua reles presença abaixo. "Quão poderoso é o Sol!" ele pensou. "Gostaria de ser o Sol!” Então ele tornou-se o Sol. Brilhando ferozmente, lançando seus raios para a terra sobre tudo e todos, crestando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores. Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e a terra, e seu calor não mais pôde alcançar o chão e tudo sobre ele. "Quão poderosa é a nuvem de tempestade!" ele pensou "Gostaria de ser uma nuvem!” Então ele tornou-se a nuvem, inundando com chuva campos e vilas, causando temor a todos. Mas repentinamente ele percebeu que estava sendo empurrado para longe com uma força descomunal, e soube que era o vento que fazia isso. "Quão poderoso é o Vento!" ele pensou. "Gostaria de ser o vento!” Então ele tornou-se o vento de furacão, soprando as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas na terra. Mas em determinado momento ele encontrou algo que ele não foi capaz de mover nem um milímetro, não importasse o quanto ele soprasse em sua volta, lançando-lhe rajadas de ar. Ele viu que o objeto era uma grande e alta rocha. "Quão poderosa é a rocha!" ele pensou."Gostaria de ser uma rocha!"Então ele tornou-se a rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na terra, eterno, inamovível. Mas enquanto ele estava lá, orgulhoso pela sua força, ele ouviu o som de um martelo batendo em um cinzel sobre uma dura superfície, e sentiu a si mesmo sendo despedaçado. "O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!?" pensou surpreso. Então ele olhou para baixo e viu a figura de um quebrador de pedras. (Fábula Budista de Autor desconhecido)

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4.5 AS TEORIAS DA COMPLEXIDADE
4.5.1 Do monismo ontológico à razão dialética

O ser é a negação do conhecer e conhecer chega a ser pela negação do ser (Sartre, 2002).

A nossa análise investigatória deste TCC, no sentido de conhecer as essências da percepção e dos saberes ambientais dos quebradores de pedras do Rio do Sal, para ser mais completa e com profundidade teórica capaz de elucidar as questões levantadas durante a pesquisa, não poderia deixar de passar pelas considerações e fundamentos da razão dialética que entrelaça o monismo ontológico e holismo ecológico. Já que neste nosso trabalho, a compreensão buscada passa pela análise das vivências e relações sócio-ambientais. Neste intento encontramos forte densidade teórica nas idéias de Bookchin, Foucault, Leff e Sartre. Segundo Leff (2006) o monismo apareceu com o propósito de estabelecer um campo teórico unificado para compreender o processo evolutivo e o funcionamento da natureza. As conclusões de Leff são inspiradas nas teorias de Bookchin, que busca fundar a “ecologia social” em um “monismo ontológico”. Nesta linha teórica, as categorias da natureza e do ser, segundo Bookchin apud Leff, “o natural, o cultural e o social perdem sua especificidade ontológica e epistemológica”, assim a “natureza da natureza” se confunde com as formas do ser. O que estes autores querem dizer especificamente é que o “humano” deve ser compreendido como natural, ao contrário do que diz a tese marxista que considera que existe uma dicotomia entre o mundo natural e o humano. Para Bookchin in Leff as produções humanas como o pensamento, a cultura e a história devem ser vistos como uma espécie de "segunda natureza", esta derivada organicamente da primeira natureza, e que ambas coexistem dialeticamente. Porém Leff critica a teoria naturalista de Bookchin entendendo que ela não pode apreender o "ponto de inflexão" onde a cultura emerge da natureza, considerando irredutível a diferença entre o “Ente” real e o “Ser” simbólico. Entretanto o pensamento de Leff e de Bookchin também encontra pontos de concordâncias teóricas com relação à teoria dialética da natureza, tal como esta idéia de repelir a “racionalidade científica que aprecia a realidade social como uma codificação de dados”, sem ponderar que estes são a “objetivação de uma determinada visão do mundo, uma construção

44 social do real”. Estes pensamentos de Leff e de Bookchin se tornam ainda mais precisos quando comparamos às idéias de Sartre sobre o monismo e a dialética. A crítica de Sartre ao monismo ontológico e ao naturalismo dialético aparece em sua “Crítica da razão dialética”, este pensador fala que “o caráter crítico da razão dialética é a forma de pensamento que torna inteligível a ação humana no contexto da história”. Mas avalia que a própria dialética do materialismo histórico não se auto-situa dentro do contexto histórico, indagando pelas vias que consentem a esta forma de pensamento abranger o "histórico real". Eis o seu traço paradoxal14 de “ser ao mesmo tempo a única verdade da história e uma total indeterminação da verdade”. (Sartre, 2002). Esse paradoxo do pensamento dialético é particularmente pertinente na nossa análise deste TCC, pois nos permite ponderar sobre as contradições dos sujeitos pesquisados, diante do questionamento deste status teórico e de seu sentido praxiológico15. No nosso caso, a análise dialética da realidade dos quebradores de pedras, passa pela expressão do que é o universo total daquela realidade, não se limita a orientar a investigação, nem a prejulgar as formas de aparição dos objetos e ao mesmo tempo, o movimento do real e o do nosso pensamento. Neste sentido analítico, o mundo dos quebradores de pedras é visto além de um método e um saber sobre o movimento no objeto, ou seja, uma análise que considera a abrangência sistêmica e holística das suas representações. Ainda encontramos um promissor reforço nesta base teórica no pensamento de Michel Foucault, achado numa entrevista deste autor que foi publicada com o título de L'homme est-il mort? [O homem está morto?]. Na oportunidade Foucault apresenta preocupações com a perigosa tentação da razão analítica do século XVII que era caracterizada essencialmente por sua referência à natureza. Foucault destaca a razão dialética, por esta ter se desenvolvido especialmente em referência à existência, ou seja, ao problema das “relações do indivíduo à sociedade, da consciência à história, da práxis à vida, do sentido ao sem sentido, do vivo ao inerte”. Tal base teórica aplicada às nossas análises, sem dúvida eleva a nossa compreensão integral dos sujeitos objeto deste trabalho.

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Um paradoxo é uma declaração aparentemente verdadeira que leva a uma contradição lógica, ou a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é "o oposto do que alguém pensa ser a verdade". Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo 15 Relativo às ações e conduta humanas. Fonte: http://www.dicio.com.br/praxiologico/

45 4.5.2 A Visão Sistêmica, o Holismo e a Complexidade Neste TCC entendemos a priori que a compreensão da complexidade estudada deve ser analisada à luz da Visão Sistêmica como forma de superação do cartesianismo. Para apoiar este intento encontrei fundamento na obra de Capra (1982): “As Conexões Ocultas”, o qual nos ensina que
“o reconhecimento da natureza não-linear de toda a dinâmica de sistemas é a própria essência da consciência ecológica, a essência da “sabedoria sistêmica” [...]. A sabedoria sistêmica baseia-se num profundo respeito pela sabedoria da natureza, a qual é totalmente compatível com os insights da ecologia moderna” (CAPRA, 1982).

A visão sistêmica permite que possamos compreender o mundo natural como algo em que tudo está relacionado a tudo numa teia que reúne toda a complexidade cósmica. Diz Capra: “o Homo sapiens que às vezes se comporta como „Homo demens’” precisa construir a consciência de que há uma densa interdependência entre os mundos: biológico, físico-químico e o social. A ação antrópica exerce grande poder transformador através das suas concepções culturais, e transforma radicalmente os sistemas naturais sem respeitar as suas peculiaridades e dinâmicas intrínsecas que podem resultar em danos irreversíveis e irrecuperáveis. Capra afirma que esta ação “pode acarretar um colapso na dinâmica planetária” (CAPRA, 1982). O que faz esta compreensão ampla de ser humano e natureza é a visão holística. Smuts (1926) considera que “o holismo é o Fator fundamental pela origem e o progresso de conjunto no Universo. O todo não é mera soma das partes, mas delas depende. As partes compõem o todo, mas “é o todo que determina o comportamento das partes”. Através do entendimento sistêmico, tudo aflui para uma “sabedoria sistêmica”. Esta visão, que está aberta a qualquer área do conhecimento, passa proporcionar extraordinárias oportunidades para a criatividade, a iniciativa e o espírito empreendedor da humanidade. Apesar de aparentemente inatingível, a complexidade da visão holística não deve inviabilizar a ação correta do ser humano, pois este, somente veio a sofrer os malefícios das ações antrópicas muito recentemente na história da humanidade, o que denota muita capacidade de sobrevivência. Na verdade, o conceito de complexidade está mais ligado à maneira de como percebemos o mundo em seus diversos aspectos e os vários desafios que o movimentam e se inter-relacionam designando consecutivamente novos contextos, e não como sinônimo de complicado, obscuro e incognoscível. Por isso o conhecimento sistêmico não pode ser

46 negligenciado, a exatidão com os conceitos e a transparência ao problematizar as questões ambientais, sobretudo aquelas com graves conseqüências econômicas e políticas, é uma das medidas mais importantes de coerência dessa nossa complexa análise sobre a percepção e saberes ambientais dos quebradores de pedras do Rio do Sal. E esta não é uma empreitada estéril, também não é neutra, pois afrontamos os atuais cenários nebulosos, não em função da falta de ciência, pois esta até transborda, mas em decorrência das diversas e conflitantes opções ideológicas que permeiam as relações sociais e a subjetividade humana presente nos sujeitos estudados. Esta articulação sistêmica e inter-relacional do social e do humano nós encontramos nas três ecologias de Guattari (2001). Segundo este autor, somente uma articulação ético-política entre “o meio-ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana” é que poderia esclarecer com profundidade as questões que analisamos neste trabalho. A esta conexão entre as três ecologias dá-se o nome de “ecosofia”.

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5 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para dar conta de modo objetivo e preciso da complexidade deste trabalho monográfico, adotei a sugestão atualíssima de roteiro elaborada por Creswell (2007) cuja estrutura de dados do projeto de pesquisa é o mais apropriado para os paradigmas de pesquisa propostos abaixo.
Com relação à metodologia mais apropriada para esta pesquisa, dentre os vários autores consultados, optei por alguns que sintetizavam aquilo que considerei o foco das metas a serem alcançadas ao longo dos estudos e coleta de dados e que constam da relação de referências bibliográficas expostas no final deste texto.

5.1 SOBRE A DELIMITAÇÃO DA ÁREA PESQUISADA
A nossa pesquisa se deu no âmbito restrito da comunidade dos quebradores de pedras residentes no povoado Rio do Sal, muito embora o alcance das observações extrapolasse a área urbana do referido povoado para as antigas áreas de mineração que rodeia o mesmo povoado e também nas margens próximas a Estrada da Mão Direita. A título de observação também foram visitados os sítios: 23, 28, 41 e 98 – Cadastramento do CAAPA. (VERGNE & MARQUES, 2009).

5.2 SOBRE A CARACTERIZAÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA
O objeto de pesquisa deste TCC é o quebrador de pedras. Segundo diagnóstico realizado pela ONG AGENDHA, CAAPA – UNEB e DMA em 2007: A comunidade de quebradores de pedras do Rio do Sal é composta por 56 famílias; As pessoas destas comunidades moram em casas sem saneamento básico nem coleta de lixo; Apesar de morarem nas margens do São Francisco, cinco destas famílias sequer tem acesso à água encanada; 87% são analfabetos ou não concluíram a 4ª série do ensino fundamental; e o trabalho sempre foi realizado sem nenhum amparo do Ministério do Trabalho e onde quase 60% dos quebradores já sofreram acidentes graves e até mutilações. Foram realizadas visitas ao povoado do Rio do Sal, onde os sujeitos selecionados desta pesquisa, compreendendo 16 pessoas sendo, 11 quebradores de pedras e 5 mulheres familiares, com faixa etária entre 21 e 69 anos, foram entrevistados e responderam a

48 questionários semi-estruturados SEVERINO (2008). O critério de seleção obedeceu às técnicas para a coleta dos dados vistas abaixo no item 3.5.

5.3 SOBRE A CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA QUALITATIVA
5.3.1 Paradigma de Pesquisa Qualitativa Este estudo eco-pedagógico sobre a percepção e os saberes ambientais dos quebradores de pedras da comunidade rio do sal foi caracterizado como pesquisa qualitativa, pois se enquadra nas peculiaridades desse tipo, tal como descritas por LÜDKE e ANDRÉ (1986) e reconsideradas por BOGDAN e BIKLEN (1994). Para reafirmar esta categoria recorri principalmente à obra clássica e ao mesmo tempo atualíssima de Severino (2008), que ressalta o paradigma epistemológico da investigação na área de Ciências Humanas e a distingue de uma investigação na Área de Ciências Naturais representado pelo “positivismo comteano”. A tabela abaixo sintetiza bem a caracterização de Severino.
Paradigmas Epistemológicos da Pesquisa Componente Hipótese Amostra Ambiente Coleta de dados Delineamento Análise de dados Qualitativa Indutiva Intencional, Pequena Mundo Real O pesquisador Flexível Interpretativa Quantitativa Dedutiva Aleatória, Grande Laboratório Os instrumentos Inflexível Estatística

Tabela 1: Caracterização dos paradigmas da pesquisa

A metodologia mais apropriada à investigação neste trabalho foi a pesquisa qualitativa com objetivo exploratório. Dessa forma pudemos elucidar um riquíssimo universo de percepções, significados, aspirações, crenças, valores e atitudes, relacionados à percepção e aos saberes ambientais dos quebradores de pedras da área pesquisada, segundo encontramos definido na obra de Deslandes (1994). Dessa ótica, a pesquisa qualitativa viabiliza a investigação como fonte direta de dados no ambiente natural como afirmado por Dias e Manem in Deslandes (ibidem), o que corresponde a um ambiente mais profundo das relações, dos fenômenos e dos

49 processos inter-relacionais que não podem ser restringidos à operacionalização de variáveis numéricas. Ainda segundo Dias e Manem apud Deslandes (ibidem), a pesquisa qualitativa é uma pesquisa descritiva e de caráter interpretativo na qual o investigantes se interessam mais pelos procedimentos do que pelos resultados, questionam os dados de maneira indutiva e privilegiam o significado. No segmento proposto delimitado e focal de relações sociais da comunidade de quebradores de pedras do Rio do Sal inserida no Complexo Arqueológico de Paulo Afonso. Foram utilizadas na pesquisa atividades interpretativas para quais não há privilégios ou valorizações de uma sobre outras. Dessa forma, é perfeitamente previsível que dentro do conjunto de prática, apareçam as possíveis constantes tensões e contradições antevistas nos métodos e interpretações utilizados (DENZIN, LINCOLN, 2006; MINAYO, 2008). Segundo Severino (2008) foi também uma pesquisa “Dialética”, eis que se baseia em pressupostos relacionados à condição humana e as condutas das mulheres & homens. Foi, pois sim, dialética por estar ligada à "investigação antropológica", em decorrência da ligação com realidade da existência humana. Diante da classificação apresentada no quadro acima (
Tabela

1), SEVERINO (ibidem) e também por Lakatos e Marconi (2007), a abordagem de

método indutivo pode ser empregada neste TCC, por ser a mais adequada para dar cabo das peculiaridades da pesquisa. O método utilizado foi o comparativo, já que se refere à investigação de uma comunidade vivendo em ambientes diversificados, examinando as suas semelhanças e diferenças, neste caso comparando-se comunidades “com” & “sem” gestão ambiental sustentável por exemplo. 5.3.2 Pesquisa etnográfica Esta pesquisa monográfica é também etnográfica porque presa pela importância de que os sujeitos sejam observados em seu ambiente natural. Tal confiança se ampara no pensamento de Triviños (1987) no qual se acredita que a “mudança de ambiente tem o poder de interferir no padrão do comportamento dos indivíduos”. (TRIVIÑOS, 1987). Investiga-se por meio da etnografia entender a extensão dos significados culturais nas suas ações e manifestações dentro de um determinado contexto sócio-ambiental. A aplicação deste método nesta pesquisa filtrou alguns objetivos conforme definidos por Lüdke (1986): interpretar, perceber o que ocorre no objeto pesquisado, ilustrar as perspectivas dos participantes, e, conhecer a realidade

50 socioambiental no trabalho de construção teórica,e neste caso transcendendo o micro mundo, acompanhando os diversos fios que o vincula às estruturas macrossociais. Neste sentido, na nossa pesquisa buscou-se desvendar todos os pormenores presentes na situação estudada e dar significado aos dados recolhidos por meio da metodologia de coleta de dados.

5.4 SOBRE O CARÁTER DE ESTUDO EXPLORATÓRIO
Este TCC se caracteriza como um estudo exploratório, pois, buscou levantar informações, delimitar o campo de trabalho, mapear as condições de manifestações do objeto da pesquisa SEVERINO (2008), GIL (1996), desse modo a pesquisa exploratória pode proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais claro, através da descoberta de intuições e do aprimoramento de idéias.

5.5 SOBRE AS TÉCNICAS PARA A COLETA DOS DADOS
A coleta dos dados foi de minha inteira responsabilidade e ocorreu no período de março de 2007 a janeiro 2010 (Figura 12). As técnicas e instrumentos utilizados no trabalho de campo com fins de coletar dados para cumprir com os objetivos da pesquisa foram as seguintes: observação, entrevista, questionário, fotografia, gravação de áudio e filmagem. Quanto à amostragem, dado o seu caráter exploratório de pesquisa qualitativa deste TCC, abordaram-se pequenos grupos de entrevistados. Os sujeitos foram envolvidos de modo intencional conforme roteiro prévio em que se considerou a diversidade ocupacional do grupo.

Figura 12: Linha do Tempo da pesquisa (coleta de dados) – Ilustração: frankalsaber

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5.5.1 Do Questionário Nesta pesquisa, alguns dados objetivos foram coletados por meio de um questionário estruturado com perguntas claras e objetivas, contendo “questões, sistematicamente articuladas, que se destinaram a levantar informações escritas por parte dos sujeitos pesquisados, de forma a conhecer a opinião dos mesmos sobre os assuntos em questão.” SEVERINO (2008). 5.5.2 Da Entrevista As informações desta pesquisa qualitativa foram coletadas por meio de um gravador de áudio no formato mp3. Os depoimentos dos participantes foram gravados e posteriormente analisados com base no método de análise documental e de conteúdo do item 4.5. De acordo com a técnica de entrevista diretiva de Severino (2008), coletamos informações, por meio dos sujeitos entrevistados, sobre os assuntos afins, visando apreender o que os sujeitos pensam, sabem, representam, fazem, argumentam acerca dos assuntos relacionados com o tema deste trabalho. SEVERINO (2008). 5.5.3 Da identidade dos entrevistados A identidade dos sujeitos entrevistados foi preservada, pois neste propósito específico, buscou-se, através da oralidade, uma compreensão da dimensão social da comunidade estudada, expressa na história de vida dos sujeitos que integram a pesquisa. (SEVERINO, 2008). Os nomes que aparecem são fictícios e ligados á realidade a ser conhecida. Ex.: Seo Pedro, Seo Pedreira, Seo Rocha, Dona Jurema, etc. 5.5.4 Da observação Parte dos dados coletados nesta pesquisa foi obtida através da observação. No intuito de definir bem a melhor metodologia de observação, recorri aos autores Danton (2002) e Severino (2008). Primeiro foi preciso diferenciar a Observação Sistemática da Observação Participante: A Observação Sistemática é mais adequadamente utilizada nas Técnicas Quantitativas, onde o observador, equipado com câmaras e/ou uma listagem de comportamentos, registra as ocorrências dos objetos pesquisados durante um período de tempo (DANTON, 2002); Já Observação Participante foi entendida como a mais adequada

52 para a nossa pesquisa por se adequar melhor as Técnicas Qualitativas. Para Danton (ibidem) e Severino (ibidem), a Observação Participante é arranjada por meio do contato direto do pesquisador com o fenômeno/objeto observado. Através desta técnica, procura-se compreender o sentido e os significados que os atores atribuem aos fatos. Foi alinhando o nosso trabalho com estas idéias de Danton e Severino que encontramos os caminhos para registrar os fenômenos relacionados com os quebradores de pedras, tanto pautados nos comportamentos e gestuais dos sujeitos quanto das suas interações com o meio em que vivem.

5.6 SOBRE A PESQUISA BIBLIOGRÁFICA
Conforme dizem Cervo e Bervian (1983) a pesquisa bibliográfica “busca conhecer e analisar as contribuições culturais ou cientificas do passado, existentes sobre um determinado tema ou problema.” Neste caso, busquei as fontes de pesquisas já existentes com referência ao complexo Arqueológico de Paulo Afonso, principalmente aquelas que foram realizadas por Marques e Vergne. Esse procedimento teve como finalidade fundamentar e/ou comparar o trabalho aqui proposto com os dados e categorias já trabalhados por estes pesquisadores SEVERINO (2008). Também, utilizei-me das fontes de pesquisa que realizei junto com a ONG AGENDHA desde o ano de 2007, ano em que conheci mais profundamente a comunidade dos quebradores de pedras. Segundo Gil (2007) a pesquisa bibliográfica tem sua ampla utilização nas ciências sociais por ser eficiente no “estudo comparativo de grandes agrupamentos sociais, separados pelo espaço e pelo tempo” GIL (2007). Nesta especificidade de TCC, Gil (ibidem) afirma que o método da pesquisa bibliográfica oferece larga vantagem sobre outros métodos quando permite ao investigador a “cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que poderia pesquisar diretamente”. Qual vantagem se fortalece em vista dos cenários socioambientais que envolvem as comunidades do Complexo Arqueológico de Paulo Afonso, com previsão de concatenação de dados muito dispersos pelo espaço dadas as condições ambientais da área a ser pesquisada. Para a compreensão dos assuntos correlatos: meio-ambiente, ecopedagogia, complexidade e holismo, etc., apontei breves considerações no item “3” supracitado que trata sobre o referencial teórico.

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5.7 SOBRE A ANÁLISE DOCUMENTAL E DE CONTEÚDO
De acordo com (TRIVIÑOS, 1987) a qualidade e profundidade de um exame e análise documental é diretamente proporcional ao domínio, que o pesquisador detém dos elementos teóricos envolvidos nos documentos estudados. Por isso neste intento realizei uma análise documental revisitada meticulosamente a fim de construir um diálogo estreito entre a literatura e os dados coletados com foco nos resultados esperados.

Os dados devidamente arranjados foram submetidos à análise qualitativa seguindo os princípios da análise de conteúdo, cuja metodologia de análise e tratamento das informações procurei “compreender criticamente o sentido manifesto ou oculto das comunicações, buscando captar o significado das mensagens” SEVERINO (2008). Nesta análise qualitativa foram adotados os passos propostos por Minayo (2008), na qual os dados passaram por análise categorial temática, ponderando-se sobre as características comuns ou que se relacionam procurando a realização de articulações entre os dados e as referências teóricas adotadas. Por assim dizer seguindo a seqüência: Ordenação dos dados, mapeamento dos dados, Classificação dos dados e Análise final.
Considerando as especificidades deste TCC, tendo em vista as categorias de análise documental e revisão bibliográfica de Minayo (ibidem) acima, foi levado em conta o processo de categorização descrito por Bardin (2004), o qual possibilitou a condensação de dados brutos em categorias operacionais vistas logo abaixo.

Categorias ordenadas para proceder a avaliação dos dados  A concepção de meio ambiente: ampla, considerando a complexidade sistêmica e compreensão holística envolvendo a interdependência entre o meio antrópico e o meio natural;  A perspectiva: coerente com a concepção de meio ambiente com enfoque na sustentabilidade;  O alargamento da compreensão de ecologia humana em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos, econômicos, jurídicos, políticos, sócio-culturais, científicos, e éticos;  A referência teórico-metodológica: significados e conteúdos;  O paradigma epistemológico: a capacidade do pesquisador de relacionar criticamente as referências teórico-metodológicas aos dados coletados da pesquisa.

54  A dimensão política: a percepção dialética da perspectiva histórico-social como campo de interesses e lutas e respectivos condicionamentos que moldam a subjetividade e as relações no cotidiano;  O princípio ecopedagógico crítico: desconstrução da crença que a informação, por si só, é capaz de transformar comportamentos individuais/sociais e promova uma análise problematizadora da relação humana-natureza;  A subjetividade das representações sociais relacionadas com as percepções e os saberes ambientais da comunidade estudada;  As políticas públicas: Análise das ações educativas, econômicas e sociais dos governos e da sociedade direcionadas à realidade local estudada;  O modelo de vivência: As estratégias de sobrevivência das gentes caatingueiras delimitadas por este TCC;

5.8 SOBRE OS CRITÉRIOS DE QUALIDADE DA PESQUISA
Defini previamente como Critérios de Qualidade da Pesquisa, considerando a natureza sui generis da pesquisa qualitativa, aqueles critérios que foram definidos por Lienert (1989), sendo estes os principais: objetividade, fidedignidade, validade, utilidade, economia de esforço, normatização e comparabilidade. Steinke (2000) questiona como certos critérios de qualidade se aplicam à pesquisa qualitativa, neste nosso caso, se aplica bem a idéia de Steinke (ibidem) de adaptar critérios da pesquisa quantitativa para determinar a qualidade da pesquisa qualitativa específica. Miles e Huberman (1994) descrevem uma série de critérios que estabelecem tais adaptações que se refere Steinke (ibidem). Grunenberg (2001) tambem realizou uma meta-análise de pesquisas qualitativas das ciências sociais visando esquadrinhar a qualidade da pesquisa qualitativa, o que resultou na criação de uma lista de critérios de qualidade. Fazendo um apanhado sintético de consenso entre as considerações de Steinke (2000), Grunenberg (2001), Mayring (2002), Miles e Huberman (1994), adotei os seguintes critérios, na forma interrogativa, para embasar o processo avaliativo da nossa pesquisa: As perguntas da pesquisa foram claramente formuladas em relação à realidade das comunidades estudadas?O delineamento da pesquisa foi consistente com o seu objetivo geral? Os paradigmas e as construções analíticas foram bem explicitadas? A posição teórica e as expectativas dos problemas da pesquisa foram explicitadas? Foram adotadas regras explícitas nos

55 procedimentos metodológicos e analíticos? Os procedimentos metodológicos e analíticos foram bem documentados? Os dados foram coletados em todos os contextos socioambientais da comunidade estudada? O detalhamento da análise leva em conta resultados inesperados e opostos aos esperados? A análise dos resultados leva em conta outras possibilidades de interpretação? Os resultados são/ou não congruentes com as perspectivas teóricas? Explicitouse a teoria proveniente dos dados e esta pode ser utilizada em outros contextos? Os resultados estão disponíveis para a comunidade acadêmica? Os resultados instigam ações ecopedagógicas futuras?

5.9 SOBRE A CARACTERIZAÇÃO DO ESTUDO DE CASO
Esta nossa pesquisa qualitativa se enquadra nas definições e conceitos de um Estudo de Caso, considerado como uma das mais relevantes segundo os autores Triviños (1987) e Severino (2008). Este tipo de pesquisa analisa os dados mais profundamente e exige do pesquisador uma abordagem com objetividade e coerência para não cair no erro de se constituir em julgamentos equivocados a respeito do caso observado, “é uma categoria de pesquisa cujo objeto é uma unidade que se analisa aprofundadamente” (TRIVIÑOS 1987). Complementando esta caracterização, Severino (2008) diz que o Estudo de Caso deve se concentrar em um caso particular, que precisa ser representativo, para viabilizar e “fundamentar uma generalização em situações análogas, autorizando inferências.” Severino também diz que é fundamental que o pesquisador faça as suas anotações com rigor e observando o máximo de contigüidade dos elementos da realidade observada,
(...) se o investigador, envolvido numa perspectiva de inquisição qualitativa, não é capaz de compreender essas dimensões do comportamento do sujeito, derivadas, principalmente, do contexto cultural, pode observar um fenômeno e explicá-lo equivocadamente. (TRIVIÑOS, 1987)

A delimitação da comunidade de quebradores de pedras do Rio do Sal se enquadra perfeitamente no tipo de estudo de caso, também porque segundo Triviños (1987), determina duas circunstâncias: a natureza e a abrangência da unidade, formada por um grupo em particular cujas vivências são objetivos deste estudo.

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5.10 SOBRE OS RECURSOS INSTRUMENTAIS
Para a realização deste TCC foram utilizados os seguintes recursos instrumentais:  Bibliografia teórico metodológica aqui neste TCC citada;  Transporte com veículo próprio para deslocamento até as comunidades;  Roteiro e questionários impressos;  Equipamentos de registros de mídia fotográfica, filmagem, gravação de áudio e GPS;  Computador pessoal portátil com software instalados para edição de textos, imagens, vídeos e mapeamento cartográfico.

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6 ANÁLISE DOS RESULTADOS

"As pessoas aprendem a partir de suas experiências e a partir dos seus erros, e já que elas mesmo sofrerão com as conseqüências dos seus possíveis erros no processo, cresce a sua consciência de responsabilidade para com as próprias ações" (Thiollent).

6.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS E DADOS EDUCACIONAIS
Desde o início deste trabalho cogitamos: Como poderíamos mensurar a crise em que foram compulsoriamente atiradas as famílias dos quebradores de pedras? O que pensam de tudo isso que interfere radicalmente nas suas vidas? Será mesmo que existem saberes ambientais ancestrais preservacionistas ou será que foram perdidos? Será também que após o início da quebra de pedras foi construída uma nova educação patrimonial no sentido conservacionista? Como podemos analisar essa realidade socioambiental para tentar conhecer as suas percepções e seus saberes ambientais, suas vivências, seus valores e crenças que os fazem sujeitos que despertaram à atenção do mundo. No texto que se segue, está o resultado da busca destas indagações e tantas outras considerações que se foram adentrando na medida em que novas questões permeavam o universo de possibilidades daquela realidade estudada. Procurei sem me privar de nenhum dos níveis de exame e de crítica à luz da visão sistêmica, alcançar os fins deste trabalho a partir da observação e da analise das falas do público estudado com o intuito de extrair o significado qualitativo, mas também desvelar o seu teor sociológico naquilo que diz respeito ao caráter ideológico-político. Esta análise dos resultados foi construída a partir dos dados obtidos durante as diversas etapas desta pesquisa. Procurei dá ênfase ao exame das falas e dissertar sobre os seus significados, comparando com os dados mais antigos para estabelecer um diálogo entre os conteúdos a fim de encontrar suas semelhanças e contradições. Aqui também faço referência a dados objetivos que foram tomados de algumas falas sem a pretensão de torná-los estatísticos, por meio dos questionários aplicados ou de fontes já publicadas tal como o Diagnóstico Aplicado com as Famílias do Complexo Arqueológico de Paulo Afonso/BA. 2007do qual fui protagonista junto com a ONG AGENDHA e as instituições parceiras: CAAPA-UNEB e DMA.

58 A primeira consideração é com relação à escolaridade dos quebradores de pedras (Gráfico 1) que se confirmaram muito baixa em comparação com os níveis de educação formal recomendado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO16. Para que esta categoria profissional pudesse, dentro da lógica dos mercados, assumir postos de liderança ou migrar para outra profissão.

Gráfico 1: Escolaridade dos quebradores de pedras do Rio do Sal

O analfabetismo brasileiro com um dos piores índices das Américas, na casa de 10%, atinge as massas de trabalhadores de modo geral, pior até que os 8,4% da Colômbia e 8% do México, por exemplo (LOURES, 2007). Já na realidade da comunidade dos pesquisados, esta taxa sobe vertiginosamente para 39% sem qualquer estudo, e este número fica ainda pior quando somado ao número de analfabetos funcionais17, neste caso a taxa sobe para 74% do grupo humano estudado. Além disso, a escolaridade média desta população é de apenas 2,9 anos, somente 5% concluiu o ensino fundamental, 3,5% o ensino médio e nenhum chegou a cursar o ensino superior.

16

A UNESCO (em inglês United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) é um organismo especializado do sistema das Nações Unidas. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) fundou-se a 16 de Novembro de 1945 com o objectivo de contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/ Organização_das_Nações_Unidas_para_a_Educação,_a_Ciência_e_a_Cultura 17 Analfabeto funcional é a denominação dada à pessoa que, mesmo com a capacidade de decodificar minimamente as letras, geralmente frases, sentenças e textos curtos; e os números, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos e de fazer as operações matemáticas. Também é definido como analfabeto funcional o individuo maior de quinze anos e que possui escolaridade inferior a quatro anos, embora essa definição não seja muito precisa, já que existem analfabetos funcionais com nível superior de escolaridade. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Analfabetismo_funcional

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6.2 A INFLUÊNCIA DOS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS
Evidentemente que o nosso olhar científico se volta para o Complexo Arqueológico de Paulo Afonso graças à descoberta das pinturas rupestres, a despeito do que ocorre com outras comunidades como: Salgadinho, Alagadiço, Juá, Várzea, São José, entre tantos outros povoados pertencentes a esta jurisdição municipal. Mas apesar desta atenção especial da comunidade científica, a população do Rio do Sal, sobretudo a dos quebradores de pedras, ainda não se beneficiou deste fato nos sentidos e significados que foram expostos pelos sujeitos pesquisados. A partir da leitura desta realidade embasada pela visão sistêmica da sua complexidade, buscamos avaliar a contribuição da descoberta dos Sítios de Arte Rupestre para a construção da consciência ambiental dos quebradores de pedras. Encontramos a ligação dos quebradores de pedras com as pinturas rupestres em dois momentos históricos. No primeiro momento, as pedras pintadas não faziam parte de um pensar crítico sobre o seu significado patrimonial e não despertava a atenção das pessoas de modo geral com relação a sua importância histórico-cultural, por isso não foi possível de imediato encontrar um elo de ligação entre as pinturas rupestres e os saberes ambientais tradicionais. Esta desconexão se observa de modo unanime nas falas das pessoas entrevistadas, sobretudo, na observação da práxis cotidiana. A relação dos saberes ambientais tradicionais sugere está intimamente relacionada com as necessidades imediatas de sobrevivência das famílias, cujo modus vivendi está intimamente ligado as atividades agrícolas de sequeiro e criação de caprinos no modelo extensivo. A partir da leitura das falas dos sujeitos, verificou-se que o conhecimento das pinturas rupestres se dava, sobretudo por caçadores que adentravam os lajeiros de granito da região, quando em primeira instância sequer desvelavam a existência de pinturas como de origem antrópica. Já nesta fala de Seo Pedreira (2009):
“nunca me interessei por essas pedras marcadas, porque não sabia dessas coisas. Eu mesmo pensava que era riscos de crianças”, (Seo PEDREIRA, 2009)

temos a leitura de que não havia um interesse por parte daquelas pessoas, o conhecimento das pinturas em alguns casos podem sugerir mera brincadeira de crianças, provavelmente pelas insígnias indecifráveis dos traços rupestres. Num segundo momento, pôde ser verificado que os quebradores de pedras passaram aparentemente a ter uma noção do significado patrimonial/ambiental das pedras pintadas,

60 porém tais pensamentos não se transformaram ainda num valor ambiental comunitário, já que neste tocante encontramos severas contradições permeando as falas dos entrevistados. Careceu, pois sim da nossa parte, um imenso esforço pautado no método escolhido de analise das falas, para que pudéssemos recuperar a trajetória da construção das percepções e saberes ambientais daqueles sujeitos estudados e a relação com o conhecimento das pinturas rupestres. Foi preciso muita cautela para distinguir um saber ancestral de um novo saber emergente da crise ambiental/patrimonial que ora atravessam os quebradores de pedras, graças à interrupção das atividades de mineração emplacadas pelos órgãos de defesa do meio ambiente e do patrimônio histórico/cultural. A primeira revelação neste sentido está relacionada com o conteúdo do dado apanhado. Entendemos que referência a fenômenos desconexos da situação legal e da ação dos pesquisadores do CAAPA teriam grande chance de ser um saber ancestral ou deste saber resultante. No mesmo sentido, para se detectar um saber ancestral, em grande medida, se desvela na linguagem do sujeito, nas suas referências na linha de tempo, tal como alusão à antiguidade como exemplo, e ainda nos termos da fala em que não detectamos a “contaminação”, no bom sentido, das intervenções educacionais dos pesquisadores e ambientalistas acontecidas no período que se sucedeu a descoberta arqueologia do CAAPA há aproximadamente dez anos. Outra vertente de análises se voltou à compreensão daquilo que podemos classificar como um saber profissional relacionado com a natureza do trabalho do quebrador de pedras. Tal significado podermos, por exemplo, extrair da seguinte fala:
“A produção é variada de acordo com a natureza da pedra” (Seo PEDRO, 2009).

Na fala do Seo Pedro está evidente um saber ambiental sobre a natureza intrínseca da pedra, representada na linguagem que os geólogos classificariam como dureza18, clivagem19, etc.
18

Na ciência dos materiais, dureza é a propriedade característica de um material sólido, que expressa sua resistência a deformações permanentes e está diretamente relacionada com a força de ligação dos átomos. Basicamente, a dureza pode ser avaliada a partir da capacidade de um material "riscar" o outro, como na popular escala de Mohs para os minerais, que é uma tabela arbitrada de 1 a 10 na qual figuram alguns desses em escala crescente a partir do talco ao diamante. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dureza.
19

Clivagem em mineralogia é a forma como muitos minerais se quebram seguindo planos relacionados com a estrutura molecular interna, paralelos às possíveis faces do cristal que formariam. A clivagem é descrita em cinco modalidades: desde pobre, como na bornite; moderada; boa; perfeita; e proeminente, como nas micas. Os tipos de clivagem são descritos pelo número e direcção dos planos de clivagem. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Clivagem_%28mineralogia%29.

61 Logo, vemos o quanto o quebrador de pedras tem um saber ambiental determinante para a sua atitude profissional. Ele desenvolveu a sensibilidade intuitiva/prática de selecionar as matérias primas de trabalho, conforme demanda dos preceitos da qualidade, eficiência operacional e rentabilidade econômica. A descoberta dos sítios arqueológicos contribuíram em larga medida para reestruturar a ação de lavratura das pedras pintadas. Na fala do Seo Rocha (2009)
“Essas pinturas estão tudo em Paulo Afonso nos calçamento”, (Seo ROCHA, 2009)

podemos deduzir que existe um saber patrimonial desregulado com relação ao valor histórico entendido pela academia, mas também mostra o lado propositado do minerador no intento de destruir o referido patrimônio, entretanto, o dolo não pode ser configurado de imediato sem levar em conta as nuances da realidade dos sujeitos em que pese à ponderação das noções de valor cultural e valor econômico vigentes na alma desse povo.

6.3 OS FATORES AMBIENTAIS
A formação geológica da paisagem do Rio do Sal também desperta a curiosidade dos quebradores de pedras. Falando sobre a “Pedra do Navio” disse Seo Pedreira...
“Dizem que estas pedras se formou no dilúvio... não foi?” (Seo PEDREIRA, 2009)

É claro que não respondi sequer baseado em alguma das teorias científicas evolucionistas que explicam a origem da crosta terrestre e os solos como um demorado processo físico-químico envolvendo muitas reações e processos erosivos (Dicionário Enciclopédico de Mineralogia e Geologia, 1980), mas não parece ser, ainda que embasada numa mitologia semita um saber explicativo de caráter científico? É claro que Seo Pedreira tem o saber sobre o dilúvio como resultado da tradição religiosa, que provavelmente seu sentimento de existência das coisas pode ser explicado pela intervenção metafísica na realidade física através do poder da divindade cristã, tal como um artista esculpe intencionalmente a forma desejada. Mas a leitura imediata, seja pela forma interrogativa das palavras, seja pela expressão facial que transmite a dúvida, entendo que não se tratou de uma afirmação. Tal saber ambiental do Seo Pedreira tem certamente uma raiz científica nata. Na cabeça do homem, existe uma tentativa de relacionar causa e efeito, nas entrelinhas, algo que

62 moldou outro algo preexistente, no mesmo sentido que afirma a geologia que os processos erosivos desenharam as atuais formações rochosas na rocha bruta primitiva. Sendo assim, o saber local sobre os processos de formação da paisagem que a comunidade dos quebradores de pedras está inserida, pode ser validada como pretexto para a conscientização ambiental, já que guardaria na sua essência os significados estruturantes do ambientalismo enquanto ciência. Em nossa tentativa de estabelecer um diálogo sobre os saberes ambientais dos quebradores de pedras e as pinturas rupestres, Perguntamos a Seo Pedreira se ele tinha lembrança de uma alguma pintura que tenha sido destruída antes da chegada dos pesquisadores a região, ele acabou nos revelando um testemunho histórico. Apontando na direção onde se localiza o sítio 86 (VERGNE & MARQUES, 2009, p. 169) lugar onde o entrevistado dizia ainda existir a “pedra do lenço” (ver Figura 14), ele disse:
“Tinha uma pintura dessas numa pedra, mas ela já foi destruída... era assim: (desenhou no chão uma seqüência de oitos três oitos “888” e disse:) era assim três oitos iscritin... e era grande assim”, fazendo com as mãos um gesto que media cerca de 25 - 30cm”. (Seo Pedreira, 2009).

Indagado sobre quanto tempo faz que tal pintura foi destruída, ele revelou ser de
“mais de trinta anos... no tempo que eu era criança... eu sempre via as pinturas...”. (Seo Pedreira, 2009).

Numa outra anotação da nossa conversa Seo Pedreira tinha dito que aquelas figuras eram coisas conhecidas desde o tempo dos seus avós. Naquele caso testemunhado por Seo Pedreira, os fatos ocorreram cerca de vinte anos antes da chegada da equipe de pesquisadores comandada por Cleonice Vergne. A nossa pesquisa revelou que o conhecimento da existência das pinturas é pelo menos tão antigo quanto os ancestrais dos sujeitos pesquisados, podendo ser situada no tempo do final do século XIX, mas a origem das pinturas não parecia ser uma preocupação importante dos habitantes da região. Perguntado sobre a origem das pinturas rupestres, Seo Pedreira disse:

63

Figura 13 - Simulação de pintura rupestre perdida segundo Seo Pedreira

Figura 14 – Pedra do lenço – Sítio 86

“eu não sei não... tem um povo aí que disse ter sido lampião ... mas eu acho que não foi não... meu avô que era irmão do avô de Maria Bonita, já contava histórias dessas pinturas... lampião andou muito por aqui mas ele ôxe... num tinha nada a ver com essas pinturas... isso já está aí a “milhões de anos”!...”

Noutro trecho da conversa ele afirmou:
“Essa tinta num sai com nada... nem com chuva nem com sol quente... num sai nem com fogo... eita tinta danada... vai saber do ela é feita? Ôxe! ela é coisa da pedra mesmo...” (Seo PEDREIRA, 2009).

As palavras de Seo Pedreira tem o mesmo significado essencial daquelas proferidas pelo Seo Pedro:
“Essas pinturas não se acabam não, deu o cupim, botaram fogo em cima e não se acabam” (Seo PEDRO, 2009).

Essas revelações de Seo Pedreira nos dá margem para diversas análises tanto de natureza histórico-cultural quanto de natureza físico-ambiental. Do ponto de vista histórico, Seo Pedreira, desvincula a origem das pinturas da história do cangaço, e na sua fala convicta dá fé das conclusões científicas da arqueologia, muito embora com um referencial de tempo destorcido. Tal distorção da contagem do tempo dita como “milhões de anos”, faz-nos concluir que o saber científico da geologia e arqueologia pode ter contribuído para a formação deste saber ambiental, sem que estes saberes tivessem sido assimilados na escala de eventos aceitos pela comunidade científica. “Milhões de anos” parece ter para o Seo Pedreira o significado de muito antigo, um tempo insondável para sua cabeça, porém revela um saber

64 póstumo das pesquisas dos cientistas, e um gesto de confiança nestas informações. No momento que falava de tais idéias, Seo Pedreira parecia inquieto com a conseqüência de tais conhecimentos, mas a sua segurança apontava numa direção que seu saber não cogitava a contradição com os saberes tradicionais remanescentes dos seus ancestrais. Quando se referiu à qualidade das tintas utilizadas na pintura, com relação à durabilidade e à resistência, tais preparos que resistiriam ao tempo, o sol, a chuva, ao cupim e ao fogo, Seo Pedreira e Seo Pedro, através da ênfase na entonação da voz e expressão das mãos, atribuíram grande valor de domínio tecnológico aquelas gerações rupestres descobertas por Vergne. Quando diz que a pintura é coisa da pedra mesmo, no sentido ambiental, atribui nas entrelinhas aos pintores das pedras o poder de transformá-las intrinsecamente, mesmo que seja na sua cor aparente. Sem querer, por outros motivos, Seo Pedreira fala de um saber científico descoberto pelos arqueólogos como tendo aquelas pinturas matéria primas tiradas das rochas ricas em óxido de ferro tais como a hematita estudadas por Martin (2005). Na visão do homem, um profundo respeito pela obra que ele admira, contrariando sobremaneira o relato geral dos quebradores de pedras que desvalorizam as pinturas em detrimento da possibilidade de transformação das pedras pintadas em blocos de pedras como um produto comercial, Independente da interpretação ideológico-sócio-política do caso. Seo Pedreira tem na verdade a cara do homem comum, do quebrador de pedras que se encontra numa encruzilhada existencial, tem todos os potenciais humanistas para o reconhecimento da obra histórico-cultural das pinturas rupestres, apenas pondera, na ordem da prioridade, que parece responder a escala de hierarquia de necessidades de Maslow20 (Figura 15), para a manutenção objetiva da vida. Apesar do discurso comum dos quebradores, que a quebra de pedras é a única fonte de renda daquelas famílias, fica o sentimento de um

20

A hierarquia de necessidades de Abraham Harold Maslow, é uma divisão hierárquica em que as necessidades de nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto. Cada um tem de "escalar" uma hierarquia de necessidades para atingir a sua auto-realização. Maslow define um conjunto de cinco necessidades descritos na pirâmide: 1) necessidades fisiológicas (básicas), tais como a fome, a sede, o sono, o sexo, a excreção, o abrigo; 2) necessidades de segurança, que vão da simples necessidade de sentir-se seguro dentro de uma casa a formas mais elaboradas de segurança como um emprego estável, um plano de saúde ou um seguro de vida; 3) necessidades sociais ou de amor, afeto, afeição e sentimentos tais como os de pertencer a um grupo ou fazer parte de um clube; 4) necessidades de estima, que passam por duas vertentes, o reconhecimento das nossas capacidades pessoais e o reconhecimento dos outros face à nossa capacidade de adequação às funções que desempenhamos; e 5) necessidades de auto-realização, em que o indivíduo procura tornar-se aquilo que ele pode ser: "What humans can be, they must be: they must be true to their own nature!". É neste último patamar da pirâmide que Maslow considera que a pessoa tem que ser coerente com aquilo que é na realidade "... temos de ser tudo o que somos capazes de ser, desenvolver os nossos potenciais". Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_de_necessidades_de_Maslow

65 significado oculto que revelaria se tratar de fato da única fonte de renda posta pela conjuntura sócio-política.

Figura 15: Pirâmide de Maslow – fonte: http://www.merkatus.com.br/10_boletim/maSLOW.gif

6.4 O SENTIDO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL
A percepção ambiental destes homens quebradores de pedras está sujeitada/alienada a condição econômica da profissão de quebrador de pedras. Seus pensamentos parecem subestimar/subjugar a paisagem física natural que o rodeia, alvitra impor o seu poder sobre o inanimado ser rochoso, lhe deslumbra o sentimento estético da arte, avistado/detectado pelo pesquisador enquanto fazia-lhe a leitura da sua entonação de voz, cuja ênfase lhes confere o orgulho de ser um artista. Todavia, pudemos verificar o quanto um sentimento eufórico é alternado por um sentimento depressivo. Seo Pedro navegou rápido para um semblante combalido ao denunciar que “o pó da pedra faz mal à saúde”, disse também que o tal pó “causa um monte de doenças”, e ainda complementou com testemunhos de outros males físicos como a exaustão do corpo e “dores na coluna” (Seo PEDRO, 2009). Neste relato do Seo Pedro pudemos desvendar o seu significado ambiental, no momento em que se sobreleva o juízo das conseqüências maléficas à saúde causada pela inalação do pó da pedra que causa a silicose21. Este saber ambiental certamente foi induzido pela consciência da própria dor e suas
21

A silicose é uma forma de pneumoconiose causada pela inalação de finas partículas de sílica cristalina e caracterizada por inflamação e cicatrização em forma de lesões nodulares nos lóbulos superiores do pulmão. Provoca, na sua forma aguda, dificuldades respiratórias, febre e cianose. Pode ser confundida como edema pulmonar, pneumonia ou tuberculose. Foi identificada pela primeira vez por Ramazzini, em 1705. A silicose comumente afeta os mineiros, após anos de inalação da sílica presente no ar dos túneis e galerias. A sílica se deposita nos alvéolos pulmonares furando células e rompendo os lisossomos que derramam suas enzimas que

66 limitações, quando o sujeito imaginou a relação de causa e efeito e desenvolveu a conclusão cognitiva de sua teoria. O semblante do Seo Pedro também revela a decepção do desamparo social por não ter sido jamais este velho homem assistido pelos órgãos de saúde do estado. Tal fala do Seo Pedro de dezembro de 2009, confere semelhança com as falas registradas na pesquisa diagnóstica realizada em 2007 a partir de outras fontes. Seo Rocha disse naquela oportunidade que
“Devido o trabalho pesado, os braços, colunas e pernas adoecem com freqüência. Tem posto de saúde, mas não oferecem exames necessário. O Posto é pequeno, tem agente de saúde e médicos, mas não tem exames. Lá não tem ambulância pra os acidentados e nem pra ninguém! (...) Ocorrem muitos acidentes. Tem gente que já perdeu o braço, a mão, os dedos, têm cortes por nosso corpo e não em atendimento, não tem plano de saúde e os empreiteiros não ajuda nessa hora, não tem a assistência devida”;

ou neste outro testemunho:
“o pó da pedra prejudica a saúde, no decorrer dos anos esse pó vai entrando no nariz e causando um monte de doenças. Dar uma exaustão do corpo, dores na coluna e dinheiro não dá para pagar tratamento. Sofrimento com dores na coluna que fica comprometida com os movimentos, pois as vezes tem que tirar pedra dois metros de altura e com 50 quilos e ainda carregar a pedra” (Seo ROCHA, 2007).

Nestas outras falas também se evidenciam o saber ambiental do Seo Rocha sobre as conseqüências desastrosas da ação humana contra o meio ambiente. Mas parece não ter sido suficiente a sua percepção dos riscos a que se submetia, sendo assim, entendemos que Seo Rocha também se submeteu à onda transformadora imposta pela pressão demandada das obras crecimentistas das hidroelétricas de Paulo Afonso e alargamento da construção civil em torno destas obras. Não parece ter chegado até o Rio do Sal a onda do modelo econômico
destroem os alvéolos. A silicose causa dificuldade respiratória e baixa oxigenação do sangue, provocando tontura, fraqueza e náuseas, incapacitando o trabalhador. A silicose além de ser a mais antiga e mais grave das doenças pulmonares relacionadas é também a mais prevalente à inalação de poeiras minerais. É uma fibrose pulmonar nodular causada pela inalação de poeiras contendo partículas finas de sílica livre cristalina que leva de meses a décadas para se manifestar. Com uma evolução progressiva e irreversível a Silicose é considerada uma doença ocupacional que causa graves transtornos de saúde ao trabalhado e pode provocar incapacidade para o trabalho, aumento dos riscos de tuberculose, invalidez e, com certa freqüência, ter relação com a causa do óbito do paciente. A descrição da doença já foi relatada há muitos séculos, no entanto a possibilidade de prevenção só foi cogitada a partir do século XX. A importância da prevenção e do combate à silicose motivou a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a lançarem em 1995, conjuntamente, um programa de erradicação da Silicose. As três formas mais importantes da sílica cristalina, do ponto de vista da saúde ocupacional são o quartzo, a tridimita e a cristobalita. Estas três formas de sílica também são chamadas de sílica livre ou sílica não combinada para distingüí-las dos demais silicatos. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Silicose

67 desenvolvimentista, tão somente adentrou a essência daquela ideologia na sua forma mais inumana.

6.5 EFEITOS SÓCIO-ECONÔMICO-AMBIENTAIS
Este trabalho também se inscreve no contexto de uma questão socioambiental que vem despertando muitas inquietações e crescente interesse social. Os últimos dez anos desde a descoberta científica dos sítios arqueológicos têm testemunhado o caráter problemático que reveste a relação entre a comunidade de quebradores de pedras e o meio ambiente. A questão ambiental, neste contexto, brota do conjunto de contradições resultantes das interações internas do grupo de quebradores com o sistema social e deste com o meio envolvente. Do ponto de vista da ecologia humana, são situações marcadas pelo conflito, esgotamento e destrutividade que se expressam: nos limites materiais do crescimento econômico dos indivíduos; na expansão urbana e demográfica do povoado; na tendência a perda da biodiversidade e esgotamento dos recursos naturais e energéticos não-renováveis; no impasse das iniciativas públicas descontínuas que refletem os interesses partidários divergentes que nutrem e tornam crônicos os processos de exclusão social dos quebradores de pedras; no acrescentamento do desemprego estrutural tal como se revelou na fala de Seo Pedro (2007):
“A gente não tem salário. Tem um ordenado pelo trabalho das pedras que só dá para as coisas principais como pagar água e energia. Não tem dia certo pra receber e nem sempre o ordenado é conforme o trabalho. É um trabalho exploratório, por produção, não tem carteira assinada, mas é assim mesmo, se não trabalhar, não ganha (...) é uma vida dura, de trabalho pesado, cansaço físico e mental e todo dia o sol vai tirando o nosso vigor”. (Seo PEDRO, 2007).

São todas realidades que comprometem, em particular, o andamento da vida humana com dignidade, e ameaçam a continuidade dos projetos de melhorias pensada pelos pesquisadores e ambientalistas e que padecem de estagnação pela madorna da conjuntura política. De fato, a questão ambiental do Rio do Sal revela o retrato de uma crise pluridimensional que aponta para o depauperamento do modelo de gestão ambiental da sociedade que a produz, desproporcionalmente, mais problemas que soluções e, onde as “soluções propostas”, por sua parcialidade, limitação, jogo de interesses ou má fé, findam se constituindo em nova fonte de problemas que só aumentam a crise relacional dos quebradores de pedras com seu meio.

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6.6 O VALOR AMBIENTAL/PATRIMONIAL
Proteger o meio ambiente significa salvar o nosso futuro, o futuro das pessoas e o futuro das espécies da biosfera terrestre. Cuidar do meio ambiente é responsabilidade de todos diz o Artigo 255 da Constituição Federal, mas como poderia ser a contribuição dos quebradores de pedras neste processo holístico de saber/atitude ambiental. Sabendo que as escolas em que seus filhos estão matriculados são amostras da realidade social, e que a atividade de “quebração de pedras” é uma demanda da sociedade urbana que dispões de diversos argentes de persuasão e efetivação dos negócios com as pedras lavradas, e que envolve acima de tudo o interesse do mesmo poder que deveria controlar os usos adequados das fontes minerais? Questão como esta está distante de ser respondida no âmbito de um trabalho monográfico como este. Já foi amplamente divulgado que os quebradores de pedras já destruíram cerca de 40% dos sítios rupestres do Complexo Arqueológico de Paulo Afonso. O que pouquíssima gente sabe é que os mesmos quebradores não estavam ali deliberadamente destruindo um patrimônio histórico. Essa leitura pode ser fundamentada nas análises sobre a percepção ambiental dos quebradores com relação ao seu ato/trabalho. Perguntados se conheciam o valor patrimonial/ambiental das pinturas/pedras, todos disseram que não, já quando perguntados se lavraram pedras contendo pinturas os entrevistados responderam (Gráfico 2): 15% disse que sim, 8% que não conheciam, 53% disse que não tinha certeza, os demais 24% não quiseram falar nem aparentemente se sentiram confortáveis com o assunto. Anotamos algumas falas que expõe esta realidade: Seo Pedro:
“Pra mim essas pedras marcadas num tem nenhum valor ... elas assim não vale nada.... agora quando tá tudo bem cortadinha... aí tem valor... porque só assim que alguém compra” (Seo PEDRO, 2007).

ou Seo Pedreira:
“Essas pinturas já causaram muitos problemas pra gente. pra mim elas não era nada” e ainda Seo Rocha: “Pra mim a quebra da pedra não ofende em nada a natureza, por que pedra não sente nada. Em cima da pedra não cria nem mato ruim... ninguém come pedra, mas nós vive de pedra cortada... agora tem gente que trata as pedras como se elas vivesse, eu nunca ouvi falar nisso, nunca pensei que fosse assim... só agora a gente começa a saber que é errado destruir essas pedras porque é da natureza... mais eu mesmo ainda não entendo!”

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Gráfico 2: Quebradores que afirmam ter trabalhado com pedras pintadas

Nestes depoimentos, fica evidente que o valor patrimonial histórico cultural, pelo menos enquanto não houve a chegada dos pesquisadores não havia sido construído como um valor social. Novamente nos vemos diante de um caminho estreito que aparentemente sinaliza na direção do valor econômico de curto prazo. Em outros momentos as falas sugerem que o esforço dos pesquisadores e ambientalistas soava como uma ameaça ou desgraça na vida daqueles homens, pois foi unânime o testemunho de que lhe tiraram o seu “meio de vida”. Desse modo os objetivos de elucidar algumas questões nesta pesquisa, nos levaram a outras questões simplesmente sem resposta. Porque estas pessoas viam “coisas-ruins” ou figuras sinistras em quem se lhe apresentava como protetor? A resposta não é superficialmente porque lhe tiraram o “meio de vida”? Qual a noção exata de proteção que emerge do sentimento do quebrador de pedras? A proteção pode ser compreendida como a manutenção da sua sobrevivência? Qual discurso merece mais confiança, o dos ambientalistas ou dos “clientes”? Porque acreditar que os quebradores ao saberem que estava proibida a lavra de pedras continuaram no ofício por má fé? Meramente continuaram pela falta de alternativa? Porque foram persuadidos/alienados pelos interesses econômicos da cadeia produtiva de paralelepípedos que movimenta milhões de Reais na economia local? A partir de alguma dessas ou outras hipóteses podemos atribuir arbítrio aos quebradores de pedras? Muito se precisa entrar na alma do “Ser” para reclamar aclarações para tantas dúvidas. Mas não é só de fragmentar pedra que vive o homem pedreiro, também neste homem mora um espírito ambientalista, sua preocupação com certos problemas ambientais em muito suplanta em sabedoria algumas equivocadas conclusões de acadêmicos. A sensibilidade de

70 detectar problemas ambientais é uma dessas qualidades encontradas nas falas dos entrevistados. Por exemplo, neste fragmento do Seo Pedreira com relação ao assoreamento do cânion do São Francisco: Disse Seo Pedreira
“-Um “engenheiro”... (numa fala, ou “especialista” noutro momento) da Chesf, no tempo que eu tinha vinte anos, me disse que esse rio vai se aterrar e que a gente ia ficar sem água só ia ter água nas enchentes... e parece que tá acontecendo mesmo... me dissero outro dia, não lembro mais... que este quêno tá ficando cada vez mais razo... ah! Quem me disse foi os pescador, aqui ó, meus vizinhos que vão pegá peixe aqui pra baixo do rio”. (Seo Pedreira, 2009).

Seo Pedreira fala com convicção, tem medo real das conseqüências daquele tipo de desastre, ele pode imaginar a tragédia que é viver sem a água do Rio, mas porque o homem civilizado urbano se comporta como os habitantes da Ilha de Páscoa22? Se o assoreamento do cânion do São Francisco incomoda um quebrador de pedras, porque estamos tranqüilos demais com o nosso destino, tanto quanto o extinto povo Rapa Nui da citada ilha, esperando virar cinzas nossa ultima árvore essencial para fazer canoa e sair para navegar. Durante a nossa entrevista, ouviu-se um estampido de arma de fogo, logo paramos uns instantes para assuntar sobre o fato... Seo Pedreira adiantou-se em dizer:
“Isso foi um tiro de espingarda... É os caçadores matando rolinhas23 (Columbina sp.). Taí uma coisa que eu não faço mais, já fiz num nego, mais acho que os bichim deve viver...” (Seo PEDREIRA, 2009).

Com relação ao mesmo assunto Seo Pedro (2007) já tinha registrado o tema com a declaração:
“O pessoal da cidade é que vem pra cá caçar, Nós daqui mesmo gosta mesmo é de pescar” (Seo PEDRO, 2007).

A partir da leitura das suas atitudes e valores ambientais, podemos verificar que a relação direta dos quebradores de pedras com o meio ambiente, está, enquanto testemunho, muito
22

A ilha de Páscoa é uma ilha da Polinésia oriental, localizada no sul do Oceano Pacífico (27º 09' latitude Sul e 109º 27' longitude Oeste). Está situada a 3.700 km de distância da costa oeste do Chile e sua população é de 3.791 habitantes (censo 2002), 3.304 dos quais vivem na capital Hanga Roa. Famosa por suas enormes estátuas de pedra, faz parte da V Região de Valparaíso, pertencente ao Chile. Em rapanui, o idioma local, é denominada Rapa Nui ("ilha grande"), Te pito o te henúa ("umbigo do mundo") e Mata ki te rangi ("olhos fixados no céu"). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_de_P%C3%A1scoa 23 Rolinha é uma ave da família Columbidae, subfamília Columbinae, mesma subfamília dos típicos pombos, mas pertence a um gênero diferente: Columbina. Registra-se também no Brasil a rolinha-vaqueira ou rolavaqueira, pertencente a um gênero diferente do Columbina. Trata-se da Uropelia campestris. Portanto, no Brasil, encontram-se aves com o nome popular "rolinha" em espécies do gênero Columbina e Uropelia. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rolinha.

71 mais conservadora do que se poderia supor no início da realização deste TCC. Trata-se de perceber nestes testemunhos os princípios dominantes ou idéias diretrizes que governam as atitudes diante da vida e do mundo; portanto, de uma cosmovisão, e de crenças profundamente enraizadas na alma humana que o experimento científico demonstra serem feitos psíquicos inelutáveis24. Tão inevitável que, quando velhos sistemas fracassam, são de pronto, criados outros novos. A percepção ambiental vista com o rigor conservador a qual alimenta as teorias de equilíbrio sustentável, parece neste estudo de caso ser um fenômeno social de valor sócio-ambiental, se bem considerado o método de alcance generalizador das exposições. A seguinte análise tem por base a fala de algumas mulheres, sejam de esposas, companheiras ou filhas dos quebradores de pedras. Não foi possível rastrear o modo como se deu a construção destes saberes neste curto espaço/tempo de pesquisa, podemos supor que provavelmente a aquisição dos saberes ambientais destas mulheres se deu na práxis do trabalho familiar, pois são diretamente relacionados com as labutas necessárias à sobrevivência daquelas pessoas. Dona Pedrita (2007) fez um relato completo das espécies vegetais e animais existentes na região.
“Do meio ambiente lá tem muito mato, muita pedra, árvore, tem tudo, tem bicho, cabeça, sabiá, coleirinha, saguim. Nas pedras tem lagartixa e aquele do oião (coruja). Tem muita cobra, jibóia (só no mês passado mataram 4), coral, cascavel, corredeira, cobra verde, cobra preta. Tem plantas, algaroba, angico, perero, cantigueira, jurema, velandi. As pedras também fazem parte da natureza”. (Dona PEDRITA, 2007)

Nas palavras reafirmadas em entrevista recente (dez/2009) por outras moradoras do lugar, mostram a mesma linha temática e a mesma capacidade de síntese. Nestas ultimas palavras vem à tona o significado de natureza para aquela comunidade, sendo possível perceber a relação direta com a vida humana, as representações ambientais são fortemente ligadas à utilidade econômica que a comunidade estabeleceu ou tem ligação com os mitos religiosos, tal como a reação às serpentes como possuidoras de um mal intrínseco e que deve ser eliminada. Podemos ver que as preocupações ecológicas fazem parte do imaginário da comunidade, mas, neste ultimo caso, lhe escapa o significado utilitário de ecossistema, assim o valor ambiental dos ofídios fica ainda diminuído frente à tradição de fé.

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Que não pode ser negado, evitado ou impedido. Fonte: http://pt.wiktionary.org/wiki/inelut%C3%A1vel

72 A primeira vista parece uma visão cartesiana, mas as vivências, observadas nos atos e nas palavras que não foram ditas pelas entrevistadas, aparecem como ponto de vista prevalentemente holista e nos encaminham para uma compreensão sistêmica e para um holismo ecológico e ético. Com efeito, as falas das entrevistadas explicam a vida em termos que transcende o meramente mundo físico-químico e o vitalismo, lugar onde nenhum tipo de análise racional seja possível sem considerar o nível do todo. Dona Pedrita dá pistas das relações sócio-econômica-ambientais em todo momento, e nos ensina que nossa vida está ali também deparada, e que é igualmente vulnerável no bojo da compreensão reveladora da crise sócio-ambiental que aquela comunidade atravessa.

6.7 A MEDIDA DA INTERVENÇÃO ECOPEDAGÓGICA
O trabalho educativo feito pela AGENDHA, CAAPA e DMA provou ter contribuído em alto grau para a formação de uma geração consciente em afinidade com o seu papel como cidadão voltado para uma valoração ética, sócio-econômica e ambiental. A partir das informações dos pesquisados avaliamos a evolução do reconhecimento de valor histórico das pedras pintadas comparando com os dados levantados em 2007 antes das atividades de sensibilização coletiva das famílias dos quebradores de pedras. Perguntados se consideravam as pedras como algo importante e que deveria ser preservada 46% disse que sim em dezembro de 2009 contra 27% em março de 2007(Gráfico 3).

Gráfico 3: Evolução do reconhecimento do valor histórico das pedras pintadas Nº de quebradores de pedras que responderam “NÃO (vermelho) e SIM (azul)”.

No (Gráfico 4) aparece a percepção dos quebradores quanto aos danos ambiental em função da atividade de mineração de pedras. Neste caso vemos que o nível de escolarização interfere

73 no sentido diretamente proporcional com a construção da consciência ambiental. Mas de todo modo mostra que a ação educativa patrimonial/ambiental deixou os índices em números significativos, com 70% de percepção que a atividade pedreira causa dano ambiental entre os sem estudo até a unanimidade entre aqueles com escolarização de nível médio. Esta realidade se transparece no seguinte testemunho de Seo Pedro:
“Pra mim, o valor dessas pinturas só vim saber depois que chegou esse pessoal da faculdade” (Seo PEDRO, 2009).

Gráfico 4: Percepção de danos ambiental em função da atividade de mineração de pedras (Percentual de quebradores em relação à escolaridade)

Os dados são ainda mais significativos se considerarmos que o ano de 2009 foi o pior dos últimos dez anos, segundo testemunho unânime dos quebradores de pedras, em relação às políticas públicas efetivas no sentido da mitigação dos efeitos sócio-econômicos. O fato é extremamente intrigante quando toda a sociedade reconhece que as ações preventivas saem do ponto de vista financeiro, mais barato para os governos, para as instituições privadas e para toda coletividade, quando sabemos que os custos das ações remediadoras das agressões ambientais e desamparo social são exorbitantes. Essa irracionalidade nega a possibilidade de existir um projeto prospectivo gerador de mudanças sociais no seio da comunidade dos quebradores de pedras do Rio do Sal. A educação patrimonial/ambiental, fundada nos princípios frereanos da autonomia do sujeito, através do seu processo dialético, oferece princípios gerais para perceber/orientar a transformação do real. Sem dúvida, essa lógica já provou a sua capacidade de apreender a realidade do conhecimento concreto e da ação eficiente de construção dos saberes necessários à cidadania ambiental.

74 O impacto indiscutivelmente positivo de uma ação educativa tão singela como aquela supracitada, diante das possibilidades e potencialidades, nos leva a recomendar como política pública de longo prazo, pois, nesta conjuntura econômico-ambiental dos quebradores de pedras aqui estudados, para conseguir viver nas próximas décadas deste século XXI, esses homens pedreiros necessitarão cada vez mais aprender sobre os processos ecológicos, se capacitarem para atividades sustentáveis, e conhecer o ambiente e as relações dinâmicas que constituem os ecossistemas locais e globais, processos estes que Capra (1996; 2002) denomina “alfabetização ecológica”. Esta alfabetização harmoniza a casa de todos os seres vivos que completam a extraordinária teia de relações interdependentes. Quanto às atividades potenciais, estas já são bem conhecidas desde 2007 (Gráfico 5) a partir do desejo de mudança dos próprios sujeitos mineradores de pedras.

Gráfico 5: Alternativas ao trabalho da quebra de pedras. Fonte: AGENDHA

6.8 A SITUAÇÃO ATUAL
A situação demanda ações urgentes, pois vem se esvaindo a fé na mudança daquela gente, podemos confirmar facilmente nas palavras de Seo Pedreira (jan/2010):
“As pessoas foram todas embora porque aqui não tem mais meio de trabalho. Eu só não fui embora, porque já tô veio e alejado e quem me sustenta é minha filha... meu braço eu não consigo mais levantar... só se for assim” (Seo Pedreira, 2009).

Num gesto o homem suspendeu o braço direito com ajuda da mão esquerda. A mesma enfermidade se manifesta ao cumprimentar, pois Seo Pedreira sempre toma a mão esquerda

75 para ajudar a dar a mão destra já sem força e que lhe causa muita dor ao tentar mover. E continua suas lamentações:
“Faço tarrafa de pescar, é lá um que aparece pra comprar... mesmo assim uns que compraro ainda não me pagaram.. outro eu pedi cem, o cara me deu vinte e disse que pagava o resto depois e ó... ôxe! inté hoje!” (Seo Pedreira, 2009).

Este homem ainda encontra compaixão para o sofrimento de outros povos, quando o entrevistei pela ultima vez antes desta escrita, ainda estava na mídia a tragédia do terremoto no Haiti, disse Seo Pedreira: “(...) não gosto nem de ver porque choro”. Mas aqui perto de nós, quem chora pela tragédia dos quebradores de pedras do Rio do Sal? A exclusão social desses indivíduos pode ser definida, como um processo de segregação justificada sob diferentes motivações, sejam elas, por questões políticas, étnicas, econômicas, religiosas, etárias, entre outras. A partir dessa ótica, o indivíduo necessita cada vez mais estar sintonizado com as mudanças impostas à sociedade, pelas necessidades do mercado globalizado, de modo a não ficar à margem dessa mesma sociedade. Os processos de exclusão dos quebradores de pedras parecem ser os mais devastadores, gerando toda forma de problemas sociais e criando, na realidade local, os não-empregáveis e os “descartáveis”, que não conseguiram acompanhar as demandas classificatórias impostas pelo mercado, ou aqueles que acabaram sendo eliminados devido à idade mais avançada, sob o pretexto de não terem mais a dinâmica que a atividade exige. Com isso, o que nós vemos é um aumento da pobreza, tendo como conseqüência a falta de recursos mínimos e a baixa qualidade de vida devido às péssimas condições de moradia e saúde, em virtude da degradação ambiental gerada a partir da derrubada das suas antigas áreas verdes ou as de cultivo sem o mínimo planejamento e infraestrutura. A crise existencial parece tomar conta da comunidade e se alastra como uma mancha de óleo no mar. O Poeta Geraldo Carneiro escreveu em seu Manual dos Cinqüenta: “A realidade é uma alucinação criada pela falta de utopia”, Para um quebrador de pedras, não parece uma alucinação a sua realidade de desconforto, ira, decepção, insegurança, medo, desnutrição, doenças, contas sem pagar, desconfiança, etc. E qual seria a sua utopia? Dona Brita deu outro testemunho dessa realidade sócio-econômica na fala:
“A maioria dos homens foram embora... boa parte dos trabalhadores voltaram a quebrar pedras no lado alagoano...

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se o povo se juntasse e falasse, quem sabe? (Dona BRITA, 2009)

No testemunho daquela senhora também estava a ruína da ação descontinuada dos ambientalistas e pesquisadores quando ela disse: O turismo só vai pro barco e para o local das pinturas da Dra. Cleonice, mas nunca ninguém olha pra nenhum de nós... a gente aqui meu fíi tá abandonado”. Já Dona Laje tem uma desconfiança com o trabalho da nossa pesquisa, nas suas palavras: “O trabalho dos pesquisadores vão resultar em nada”. Porque estaríamos ali diante de um sujeito pesquisado sendo apanhados com alguma hostilidade, mesmo que manifesta numa simples ironia? Ela sabe das limitações de uma instituição de ensino como a UNEB, sobretudo da condição do pesquisador, revela como se pedisse desculpa que estava desassistida pelo estado, o que visivelmente esta senhora de fato sugere com a sua provocação é que nós pesquisadores sejamos porta voz da sua indignação. Na história supracitada, o quebrador de pedras que empresta a mão para o Profeta Mohammad beijar, tira-o um gesto de compaixão e reconhecimento, a grandeza daquele quebrador de pedras até o faz se sentir pequeno, assim, o maior líder muçulmano abençoa as mãos calejadas do homem dizendo que jamais elas seriam “queimadas com fogo”. Na nossa contemporaneidade o quebrador de pedras ou a sua profissão parece não ter reconhecimento nem dignidade, são raríssimas as referências de estudos científicos mesmo sendo uma das mais antigas profissões ela ainda nem é oficialmente regulamentada pelo Estado brasileiro. Os dados da pesquisa também mostram que os quebradores de pedras continuam expostos a diversas situações de risco de acidentes (Gráfico 6). Todos já sofreram acidentes leves que não os afastaram das atividades, 15% já sofreram acidentes graves nos membros superiores, 12% outros acidentes graves nos membros inferiores e 4% acidentaram a face com danos principalmente aos olhos. Assim caminham os quebradores de Pedras do Rio dos Sal.

Gráfico 6: Quantidade de quebradores com respectivas Partes do corpo afetadas pelos acidentes.

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7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este nosso TCC, com o viés de cidadania, concebe um ensaio de trazer as imagens e representações ontológicas, que os indivíduos quebradores de pedras constroem de sua realidade e de seu lugar, e ao mesmo tempo a forma como interpretam suas histórias e experiências nesse mesmo lugar. Também trazemos revelações sociológicas de um drama sócio político. Enfim entramos um pouco na alma das percepções ambientais daqueles sujeitos e demonstramos que ainda existem saberes ambientais ancestrais preservacionistas confirmando uma das hipóteses iniciais desta pesquisa, mas também podemos reconhecer que outra nossa hipótese de que após o início da quebra de pedras não tenha sido construída uma nova cultura patrimonial/ambiental conservacionista, não se confirmou em sua totalidade, pois encontramos muitos sujeitos preocupados e com discurso que denotam consciência ambiental nos moldes do sistema de idéias da sustentabilidade. Os dados levantados mostram claramente que os sujeitos têm baixíssima escolaridade; que são remanescentes de famílias tradicionais que habitam a região há quase dois séculos; e, deixaram as suas atividades econômicas agropastoris e de pesca para atenderem a demanda da lavra de pedras que alimentaram o desenvolvimento econômico da região baseada no parque industrial de geração de energia elétrica cuja atividade foi embargada para proteger as pinturas rupestres. As análises concluem-se por aqui, seguros de que os quebradores de pedras pesquisados detêm significativos saberes ambientais e grande potencial de desenvolverem atividades sustentáveis a nível local, bastando que para isso sejam atendidos por políticas públicas voltadas para a cidadania ambiental. Enfim, neste arremate, concluímos que os resultados encontrados implicam de vital importância para o fundamento de novos projetos educativos, pois servem como base para as intervenções necessárias tanto para a ecopedagogia quanto para uma gestão ambiental participativa e eficaz, observando as nuances da realidade das pessoas com seu meio. Todavia, consideramos não uma realidade unitária, onipresente, totalizante e absoluta, mas as distintas configurações que traduz o imaginário dos sujeitos.

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8 REFERÊNCIAS

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