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CARREIRO Ana Paula

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Um documentarista não faz apenas um filme, encarando-o como trabalho, ou
algo a cumprir. Ele busca transmitir uma mensagem ao receptor, mostra um ponto
de vista sobre uma realidade desconhecida. Como afirmam Johnson e Stam (1995,
p.339), quando se faz um documentário “a preocupação não é meramente formal;
ela consiste, na realidade, no impulso humano de ir além dos limites da visão
meramente objetiva da câmera.”
Os autores continuam dizendo que, apesar da produção contínua,
historicamente o documentário existia no Brasil de maneira precária e sem um
mercado fixo que pudesse garantir o retorno do investimento feito pelos produtores.
Apenas em 1973, os documentários foram incluídos nas leis de protecionismo, que
facilitavam a produção, distribuição e exibição desses filmes. Mas, apesar disso,
diversos documentários foram produzidos por grandes cineastas brasileiros, antes e
depois dessa medida jurídica. Dentre esses, alguns serão citados e comentados
aqui.

O primeiro cineasta brasileiro a ser reconhecido nacional e internacionalmente
foi o documentarista Humberto Mauro (1897-1983). Entretanto, Mauro não ficou
marcado na história do cinema brasileiro como um documentarista, mas sim como
inovador da linguagem da ficção e um dos pioneiros do cinema latino americano. O
envolvimento de Humberto Mauro com o documentário acompanha a aceitação lenta
do filme documental no Brasil. (TEIXEIRA, 2004)
Sobre o cinema brasileiro, Mauro dizia:

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O cinema no Brasil terá que emergir do próprio Brasil, com todas as
suas qualidades e defeitos... Se o cinema americano já nos acostumou
com o luxo e a variedade das produções, ele ainda não roubou nosso
entusiasmo natural pela representação fiel de tudo que somos ou
queremos ser. (JOHNSON e STAM, 1995, p.24)

Segundo Teixeira (2004), no início de sua carreira, Humberto Mauro fazia
basicamente filmes de ficção, mas produzia alguns documentários por encomenda –
como o filme Sinfonia de Cataguenses (de 1928), que fez para o prefeito dessa
cidade. Em 1932, Mauro realiza Como se faz um jornal moderno, o primeiro filme
sonoro do cinema brasileiro, e em 1933 lança o filme Voz do Carnaval, ficção que
contava com imagens reais de foliões no carnaval de rua do Rio de Janeiro. Em
1935, seguindo novamente a idéia de misturar documentário com ficção, Mauro filma
Favela dos Meus Amores, considerado o primeiro filme Neo Realista do mundo.
Em 1936 é criado o INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo) e
Humberto Mauro foi convidado para participar desse projeto. Nesse período em que
esteve no instituto, Mauro teve sua época mais produtiva na realização de
documentários educativos e culturais. Entre 1936 e 1964, período em que esteve no
INCE, Mauro produziu 357 filmes de caráter educativo, com temas como “Pesquisa
científica nacional”, “Riquezas naturais do Brasil”, “Cultura Popular e Folclore”, além
de filmes oficiais feitos para o governo Getulio Vargas, segundo afirma Teixeira
(2004). Apesar dos temas didáticos, os documentários de Mauro eram feitos de
maneira divertida e interessante, com técnicas inovadoras – como lentes especiais,
usos de cores e simbolismos para realçar a significação das imagens – que
prendiam a atenção do público receptor. (ALTAFINI, 2007).
Teixeira (2004) afirma que dentre todos os documentários produzidos nesse
período, se destacam Vitória Régia e O Céu do Brasil, ambos realizados em 1937.
Esses filmes foram exibidos oficialmente no Festival de Veneza e tornaram
Humberto Mauro o primeiro cineasta brasileiro a participar de um festival de cinema
internacional.

Em 1933, no meio da carreira de Humberto Mauro, nascia Eduardo Coutinho,
considerado atualmente o maior documentarista brasileiro. De acordo com Lins
(2004), Coutinho tem uma trajetória única no cinema nacional. Amigo e participante
de filmes de alguns dos diretores do Cinema Novo, Eduardo Coutinho só foi se
consolidar como diretor nos anos 80. Nos anos 60 realizou filmes de ficção, mas seu
grande mérito está nos documentários, sendo Cabra Marcado para Morrer (1984) o

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mais conhecido deles e considerado por muitos o filme mais importante da
história do cinema documentário brasileiro.
Lins (2004) afirma ainda que, o mais interessante da obra de Coutinho, é a
negação de idéias prontas, imagens feitas. Este cineasta faz seus filmes de maneira
consciente, desmistificando o conceito de “arte” que existe em torno do cinema. Para
Coutinho cinema não é inspiração e genialidade, é trabalho duro e reflexão: “seus
filmes são frutos de muitas leituras e conversas, de intensa pesquisa e negociação;
e também de inúmeros riscos, hesitações e receios.” (LINS, 2004, p.12).
De acordo com Pucci (2007), o trabalho de Eduardo Coutinho é
“caracterizado pela profundidade e sensibilidade com que aborda problemas e
aspirações da grande maioria marginalizada, seja em favelas, no sertão ou na boca
do lixo.” Alguns dos filmes feitos por esse cineasta são: Boca de Lixo, Santo Forte,
Babilônia 2000, Edifício Master e Cabra Marcado para Morrer, que conta a história
de uma família destruída por uma revolução que, segundo os próprios
revolucionários, os camponeses, “só fez deixar suas vítimas mais revoltadas do que
já eram.” (LABAKI, 1998, p.146).
Contemporâneo de Coutinho, temos outro documentarista extremamente
importante para o cinema nacional: Leon Hirszman. Diferentemente da maioria dos
documentaristas, Hirszman fez documentários desde o início até o fim de sua
carreira como diretor. Alguns filmes desse diretor são: Imagens do Inconsciente,
Eles Não Usam Black-Tie, São Bernardo, Garota de Ipanema, Maioria Absoluta e
Cinco vezes Favela. (TEIXEIRA, 2004).
Hirszman, de acordo com Labaki (1998, p.136), “inicia sua carreira discutindo
temas num plano geral, coletivo, para progressivamente se deter no particular, no
individual.” Filmes do início da carreira desse diretor tratam de causas do povo,
como a pobreza ou o analfabetismo, e com o passar do tempo, os temas passam a
ser mais intimistas e pontuais, como a vida cotidiana de três pacientes de um
hospital psiquiátrico. Segundo Teixeira (2004, p.226), pode-se notar os seguintes
aspectos na obra de Hirszman:

O que [...] nos revelam [...] os estudos da obra de Leon Hirszman, é um
grande esforço no sentido de investigar os segmentos sociais oprimidos de
forma cada vez menos marcada pelo paternalismo e pelos preconceitos,
tentando efetivamente estabelecer um diálogo o mais aberto e mais franco
possível. No caso especifico de Leon Hirszman, não se trata de uma

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crença na possibilidade de dar voz pura e simplesmente ao outro, mas
da consciência de que o possível é constituir uma via de mão dupla.

A autora completa dizendo que Hirszman tinha um grande engajamento
político e social. Foi um dos fundadores do Cinema Novo, e um dos criadores do
CPC - Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, a UNE. Morreu
com apenas 40 anos, mas deixou 15 documentários compostos de uma forma de
linguagem e discurso inovadores, que até hoje influenciam cineastas brasileiros.
Segundo Altafini (2007), Geraldo Sarno, cineasta baiano nascido em 1938, é
outro documentarista brasileiro que merece destaque. Sarno é conhecido como
sendo o autor do clássico do cinema documental brasileiro Viramundo, um dos
pouquíssimos exemplos de filme que conseguiu resistir à ditadura e ser exibido
mesmo contendo críticas duras à realidade miserável do povo brasileiro. O filme
conta a história do início da migração e adaptação de nordestinos que vem ganhar a
vida no sul do país.

Segundo Labaki (1998, p.111), Sarno é “um dos mais habilidosos e
inteligentes documentaristas brasileiros.” Esse diretor é capaz de contar histórias
misturando ficção e documentário, utilizando as características particulares de cada
um desses gêneros de uma forma otimizada e inteligente, como faz no filme Coronel
Delmiro Gouveia, por exemplo. O autor afirma ainda que “na tradição do seu cinema,
que tem obras documentais de peso, ele optou pelo estilo mais realista e [...]
conseguiu realizar uma obra modesta, mas rigorosa.” (LABAKI, 2007, p.114).
Não foram citados aqui vários documentaristas brasileiros de grande
importância para o cinema brasileiro, como Arthur Omar, Joaquim Pedro de Andrade,
Luiz Tomas Reis, Evaldo Mocarzel, entre outros. Num mercado em constante
desenvolvimento, como o brasileiro, a tendência é que a cada ano o número de
documentaristas aumente, assim como a procura do público por essas obras.

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3 PESQUISA

3.1 Delineamento de Pesquisa

O objetivo geral dessa pesquisa de campo é analisar a relevância dos
documentários na opinião dos produtores e diretores, público documentado e
receptores. Serão entrevistadas quatro pessoas: o diretor e o produtor do
documentário escolhido, uma pessoa que participou do documentário e uma pessoa
que assistiu ao documentário.
Por meio dessa pesquisa busca-se verificar qual o público-alvo do
documentário, se produzir um documentário é uma forma eficiente de conhecer
melhor um grupo de pessoas ou uma realidade, se esses filmes causam mudanças
efetivas na vida das pessoas que foram documentadas e se o público documentado
pode ser afetado positivamente pelo documentário. Também se deseja saber se, na
opinião dos entrevistados, os documentários são menos aceitos pelo público em
geral do que os filmes de ficção, se, para os diretores, o documentário serve como

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uma forma de denúncia social e outras questões relacionadas ao tema da
pesquisa.

Quanto à forma, a pesquisa será de natureza aplicada, pois visa gerar
conhecimento para depois aplicá-los em questões práticas e solução de problemas
específicos. No que diz respeito ao ponto de vista dos objetivos, a pesquisa será
exploratória, visando construir hipóteses e proporcionar maior conhecimento sobre o
problema. A forma de abordagem do problema será qualitativa, pois será feita uma
pesquisa descritiva, feita de forma dinâmica e subjetiva, não havendo a possibilidade
de traduzir o conteúdo em números (quantitativamente).
A amostra da pesquisa será composta de quatro pessoas. Essas pessoas,
dois informantes-chave e dois informantes-padrão, que serão escolhidas através da
seleção intencional do entrevistador. (Duarte, 2005).
A pesquisa visa conhecer o ponto de vista do diretor e do produtor do
documentário escolhido (informantes-chave), de uma pessoa que participou do
documentário e de alguém que assistiu ao mesmo (informantes-padrão). Esses
depoimentos serão comparados e no fim será possível ter uma visão mais precisa
sobre a importância dos documentários na vida das pessoas que participaram da sua
produção.

Sob o ponto de vista do método de coleta de dados, serão realizadas
entrevistas em profundidade individuais com perguntas semi-abertas. Segundo
Duarte (2005, p.62), a entrevista em profundidade trata-se de uma “técnica
qualitativa que explora um assunto a partir da busca de informações, percepções e
experiências de informantes para analisá-las e apresentá-las de forma estruturada”.
O autor continua, dizendo que a entrevista em profundidade é uma
“pseudoconversa”, uma técnica dinâmica, flexível e muito útil para a captação da
realidade. Esse recurso metodológico parte de teorias e hipóteses do investigador e
recolhe respostas de uma fonte selecionada que possui as informações desejadas
pelo entrevistador.

As perguntas serão semi-abertas, pois a entrevista seguirá um roteiro de
questões-guia. Segundo Triviños (apud DUARTE, 2005, p.66) as entrevistas semi-
abertas partem de questionamentos que estão “apoiados em teorias e hipóteses que
interessam à pesquisa, e que, em seguida oferecem amplo campo de interrogativas,
fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas
do informante”. Uma entrevista semi-aberta pode começar em um roteiro e terminar

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completamente diferente, pois esse tipo de entrevista segue os conhecimentos
do entrevistado e, caso surja algum assunto de grande interesse do entrevistador, as
questões-chave podem ser aprofundadas ou alteradas.
Uma desvantagem dessa forma de pesquisa é que ela não permite testar
hipóteses nem avaliar as informações de forma quantitativa. O objetivo de uma
entrevista em profundidade é fornecer elementos para a compreensão de uma
estrutura ou problema. Logo, como afirma Duarte (2005, p.63) o objetivo dos estudos
qualitativos em geral estão “mais relacionados à aprendizagem por meio da
identificação da riqueza e diversidade, pela integração das informações e síntese das
descobertas do que ao estabelecimento de conclusões precisas e definidas”.
A análise dos dados será qualitativa. Três questionários diferentes serão
empregados: um para o diretor e o produtor dos documentários, um para a pessoa
que participou e um para a pessoa que assistiu ao documentário. As perguntas serão
semelhantes quanto ao conteúdo, porém, cada um dos questionários estará focado
em um receptor específico.

Depois de realizadas as entrevistas, os dados serão comparados e analisados
qualitativamente para que seja possível definir como um único documentário pode
ser visto de formas diferentes por pessoas que participaram da produção ou
assistiram a ele e verificar qual o grau de importância dessa forma audiovisual para
cada um dos entrevistados.

3.2 Entrevistas

Para a realização desse capítulo de pesquisa foram escolhidas pessoas
relacionadas aos documentários produzidos pela ONG curitibana Projeto Olho Vivo.
Essa ONG realiza a integração social entre pessoas de diferentes classes sociais
através do cinema. São produzidos documentários pelos alunos das oficinas
ofertadas pelo Olho Vivo e também através de projetos realizados pelo Núcleo de
Produção, formado por ex-alunos do Projeto, que agora já dominam as técnicas de
vídeo.

Os informantes-chave dessa pesquisa foram os coordenadores do Projeto
Olho Vivo Luciano Coelho (Apêndice A) e Marcelo Munhoz (Apêndice B). Coelho é

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responsável pelas oficinas de edição não-linear, roteiro e realização de vídeo,
todas realizadas pelo Projeto, e nos documentários produzidos na ONG, Coelho
geralmente atua como diretor. Já Munhoz atua como gestor do Projeto, ministra a
oficina de interpretação para cinema e, nos documentários produzidos pela ONG, é o
responsável pela produção.

Os informantes-padrão escolhidos para participar da pesquisa foram Rafael
Urban (Apêndice C), o receptor dos documentários, e João de Góes Maciel
(Apêndice D), que foi retratado em um dos documentários do Projeto Olho Vivo, o
Papel de Catadores. Urban é estudante de jornalismo e foi escolhido, pois, segundo
entrevista feita com Munhoz, fazia parte de uma das fatias do público-alvo dos
documentários do Projeto. Já Maciel foi escolhido pela indicação de Coelho e
Munhoz como fonte interessante de informação e figura marcante entre os
“personagens” que já passaram pelos documentários do Projeto Olho Vivo.
Coelho e Munhoz responderam às mesmas perguntas na entrevista. Já os
outros entrevistados, Urban e Maciel, responderam a perguntas voltadas às suas
posições de receptor e retratado no filme, respectivamente.
Foram feitas mais perguntas para o diretor e o produtor, pois se sentiu a
necessidade de entender melhor a estrutura dos filmes e os objetivos dos
realizadores do Projeto Olho Vivo antes que fosse feita a entrevista com o receptor
dos filmes e com a pessoa documentada.

3.2.1 Entrevista com Luciano Coelho

Na entrevista realizada no dia 24 de maio de 2007 (Apêndice A), quando
perguntado sobre o público-alvo dos documentários realizados pelo Projeto Olho
Vivo, Luciano Coelho afirmou que dois tipos de documentários são produzidos por
eles: os documentários produzidos dentro das oficinas de realização de vídeo e os
documentários produzidos pelo Núcleo de Pesquisa do Projeto Olho Vivo, formado
por ex-alunos.

Os documentários realizados nas oficinas procuram abordar um aspecto de
Curitiba que não esteja na mídia, um outro lado da cidade. Os documentários do
núcleo abordam temas semelhantes, a diferença está no fato dos filmes serem

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produzidos por pessoas que já dominam as ferramentas de vídeo, ou seja, ex-
alunos que já fizeram as oficinas e agora realizam trabalhos mais elaborados.
Coelho acredita que não existe uma expectativa de público-alvo para os
documentários do Projeto Olho Vivo, sejam eles de oficinas ou do Núcleo de
Pesquisa. Para ele, o que existe é uma necessidade e uma grande vontade de falar
sobre essas temáticas, atingir toda a população da cidade de Curitiba e levar essa
mensagem também para fora da cidade.
Sobre as estratégias usadas pelo Projeto Olho Vivo para atingir o público,
Coelho afirma que a divulgação dos filmes é feita na Internet, no site do Projeto, e
que os filmes lançados também fazem parte de uma coleção de dvds, à venda na
sede do Olho Vivo. Ele afirma ainda que a relevância dos documentários no cenário
curitibano é cada vez maior e que a procura pelos documentários, apesar de não
haver muita divulgação, é crescente.
Quando perguntado sobre a função dos documentários, se servem como
forma de denúncia social ou como uma maneira de conhecer melhor um grupo
social, Coelho assegura que não há a intenção de fazer denúncia social nos filmes
produzidos pelo Projeto: “Apesar dos documentários do Projeto Olho Vivo tratarem
de temas polêmicos, a abordagem deles é muito humanista, ela está muito
interessada em conhecer a vida do outro, do que em denunciar como vive o outro”,
afirma o entrevistado. Coelho acredita que assistindo aos documentários do Olho
Vivo o espectador poderá conhecer melhor a sua realidade e saber o que realmente
é ser curitibano.

Em outra pergunta, Coelho foi questionado sobre as mudanças efetivas que os
filmes produzidos causaram na vida das pessoas documentadas. Sobre esse
assunto Coelho declara que é difícil saber ao certo se ocorreu alguma mudança
efetiva, pois os há uma perda de contato com a maioria das pessoas documentadas.
Há pessoas que ligam para agradecer pela oportunidade, mas esse é o único retorno
que os coordenadores têm.

Quando perguntado sobre a aceitação dos documentários, quando
comparados aos filmes de ficção, Coelho afirma que os filmes de ficção são aceitos
de forma mais ampla pelo grande público que os documentários, principalmente pela
busca dos espectadores por entretenimento. Porém, Coelho acredita que o interesse
por documentários está crescendo, junto com o interesse do público pela realidade.
Coelho afirma que estão surgindo bons documentários e bons diretores de

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documentários que provam que assistir a um filme documental pode ser tão
agradável e prazeroso quanto um filme de ficção: “Além do prazer de assistir um
filme, ao ver um documentário você está conhecendo uma realidade nova, está
entrando em contato com um tema diferente, que talvez você não conhecesse, com
pessoas que talvez você nunca tivesse chance de conversar, e abrindo teus olhos
para uma nova realidade”, afirma ele.

3.2.2 Entrevista com Marcelo Munhoz

Em entrevista cedida no dia 29 de maio de 2007 (Apêndice B), Marcelo
Munhoz afirma que o público-alvo do Projeto Olho Vivo é formado basicamente por
curitibanos, acadêmicos e integrantes de movimentos. Isso acontece devido às
temáticas dos filmes do Olho Vivo, que tratam sempre de uma questão política,
econômica ou social, obtendo-se filmes que podem ser usados em uma sala de aula,
como fonte de conhecimento, ou por movimentos sociais, com a intenção de
militância.

Há um desejo de que os filmes tenham uma visibilidade maior e Munhoz
acredita que atualmente o Projeto tem estrutura física e uma equipe capaz de
produzir materiais com proporções maiores.
Quando perguntado sobre as estratégias do Projeto para atingir o público,
Munhoz afirma que a maior responsável pela ligação da ONG com o público é a
assessora de imprensa, Élida Oliveira. Ela manda releases ou sugestões de pauta
para emissoras de televisão e rádios e o Olho Vivo conta com o interesse desses
meios para que ocorra a veiculação. Há também o site, que serve como canal de
divulgação e fonte de contatos – já que a pessoa que está vendo o site pode se
inscrever para receber notícias do Projeto Olho Vivo via e-mail. Munhoz acrescenta
ainda que a partir do começo desse ano, a divulgação das oficinas passou a ser feita
também por cartazes, feitos com folhas A4, colocados em faculdades de Curitiba,
locadoras de vídeo e espaços culturais.

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Munhoz afirma que, na sua opinião, os documentários produzidos pelo
Projeto têm principalmente duas funções: denúncia social e sensibilização. Ele
acredita que os documentários têm a função de mostrar a vida da pessoa retratada
como ela é e devem tocar o receptor de uma forma mais afetiva, até porque,
segundo ele “ver essas cenas acontecendo é algo que marca e toca muito mais” do
que apenas ouvir sobre a situação em que alguém vive ou trabalha.
Sobre as questões das mudanças que os documentários causaram na vida
das pessoas que foram retratadas nos filmes, Munhoz declara que o contato com
essas pessoas foi se perdendo com o passar do tempo. Houve pessoas que tiveram
boas oportunidades depois de participarem dos filmes, como bolsas para estudar
teatro, por exemplo. Mas Munhoz acredita que os documentários afetam a vida das
pessoas em outros níveis. Ele afirma que ao assistir o documentário a pessoa que
está se vendo na tela tem uma melhoria considerável em sua auto-estima e imagem
pessoal e que, além disso, entre outras pessoas que vêem alguém semelhantes a si
mesma aparecendo numa tela de cinema há uma grande identificação e uma
“abertura no espectador”.

Em relação à relevância dos documentários no cenário curitibano, Munhoz diz
que o Projeto Olho Vivo foi um dos primeiros a tratar os temas em documentários de
uma maneira mais sensível, sem um tom de reportagem, como são feitas as
matérias e os documentários de canais como a Globo, por exemplo. Até há pouco
tempo, os documentários eram a única forma de filme feita pelo Projeto, os filmes de
ficção eram apenas exercícios feitos na oficina de interpretação. Mas agora já
existem diversos projetos de realização de um filme de ficção, mas nenhum sendo
executado ou pronto, por isso não é possível dizer se o público prefere os filmes de
ficção ou os documentários produzidos por eles.
Munhoz acredita que agora há estrutura para realizar um filme de ficção
consistente no Projeto, o que, segundo ele, é muito raro no nosso país. Ele afirma
também que atualmente eles estão trabalhando muito em roteiros e na interpretação
dos atores, que são os pontos mais fracos do cinema brasileiro na opinião do
entrevistado. Para Munhoz são poucos os filmes de ficção que acertam e a maioria
acaba “ficando falsa e parecendo novelas em uma tela grande” (2007). Isso acontece
devido a uma falta de tradição, não só de cinema, mas também do que dá apoio ao
cinema, como literatura e cultura em geral, completa Munhoz.

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3.2.3 Entrevista com Rafael Urban

Na entrevista realizada no dia 04 de junho de 2007 (Apêndice C), Rafael
Urban declara ter o costume de assistir documentários e preferi-los a filmes de
ficção. Urban diz preferir os documentários pela possibilidade que eles oferecem de
inserir o olhar do outro no filme de uma maneira mais forte, mais evidente. Ele afirma
que a maior e mais interessante diferença entre os documentários e os filmes de
ficção está no fato de não haver um controle absoluto do que o entrevistado vai falar,
o que possibilita o encontro mais freqüente de vozes dissonantes e realidades
distintas.

Urban ficou sabendo dos documentários do Projeto Olho Vivo na faculdade
em que estuda (UnicenP), pois uma colega de classe participava do Projeto e
possibilitou o acesso aos filmes.
Quando perguntado sobre a opinião dele sobre os filmes do Projeto Olho Vivo,
afirmou que apesar de os filmes terem um olhar crítico sobre a sociedade e tratarem
de temas polêmicos, assuntos que geralmente afastam o grande público, os filme
são feitos de uma maneira que faz surgir uma simpatia do público para com o
retratado. Porém, Urban, que conhece Coelho e Munhoz, acha a postura dos
coordenadores do projeto um tanto contraditória, já que ambos são de classe média
alta e diziam que até os tempos de faculdade consideravam Curitiba uma “cidade
modelo” e não se importavam com causas sociais. Urban acredita que a postura dos
documentários feitos no Projeto contrasta com esses fatos sobre as vidas pessoais
dos coordenadores, o que acaba passando uma imagem um pouco falsa dos filmes
para o entrevistado.

Urban afirma ainda que a postura dos documentários do Olho Vivo beira o
sensacionalismo na maneira em que abordam e escolhem os temas. Todos os filmes
tratam de um tema de denúncia social e nunca houve um documentário que tratasse
da vida de alguém que não estivesse à margem da sociedade, o que pode ser
encontrado nos trabalhos de outros documentaristas.
Quando perguntado se os documentários causaram alguma mudança no seu
comportamento ou se eles o tocaram de alguma forma, ele afirma que não houve
uma mudança no comportamento dele, mas que acredita ser exatamente esse o

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objetivo dos documentários do Projeto Olho Vivo, causar simpatia com o público
e depois, fazer com que o comportamento deles mude de alguma forma: “Os
personagens dos documentários são quase didáticos, sempre simpáticos e legais.
Não há dificuldade nenhuma para o público ‘entrar no papel dos documentados’”
afirma Urban (2007).

3.2.4 Entrevista com João de Góes Maciel

Em entrevista cedida no dia 05 de junho de 2007 (Apêndice D), quando
perguntada a razão de ter participado do documentário Papel de Catadores, Maciel
afirma que foi procurado pela equipe de produção dos documentários, convidado
para participar do filme e aceitou. Maciel diz ainda que gostou de participar das
filmagens, mas que o material foi muito divulgado, o que fez com que muitas pessoas
passassem a reconhecê-lo na rua.
Essa foi uma das mudanças ocorridas na vida de Maciel, mas sobre essa
questão, o entrevistado afirma que sua vida mudou de forma positiva e negativa
também. Apesar de estar conseguindo mais doações de brinquedos, roupas e
material reciclável, com o que trabalha e se sustenta atualmente, Maciel declarou
que passou a sofrer perseguições de pessoas invejosas e foi “parar na justiça”
injustamente depois das filmagens. Por ter o costume de dar brinquedos para as
crianças da região onde vive e ser chamado de “vô” por muitas delas, Maciel sofreu
uma denúncia de pedofilia e, mesmo após constatarem que era inocente, teve seu
computador confiscado por oficiais de justiça para verificação do conteúdo.
Maciel acredita que foi bem documentado no filme e gostou dos resultados.
Ele acredita ter sido mostrado por mais tempo no filme, mesmo tendo menos
“cultura” que muitos os retratados no filmes, pois era o único com uma postura
otimista diante das situações rotineiras da vida: “Se a gente pensar no lado positivo,
a tendência é que a gente se fortaleça mais no espírito. Pois quando a gente pensar
negativo o espírito do nosso corpo vai se derrotando e se enfraquecendo, mas se a
gente pensa ‘eu vou conseguir, eu vou vencer’ e continua sempre alegre e contente a
gente fica mais forte” (MACIEL, 2007).

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