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João Ruivo (www.rvj.

pt/ruivo)

Outra vez os rankings?


Ano após ano, uma e outra vez, temos que voltar a repetir a pergunta: há escolas boas e
escolas más? Claro que há! Como há bons e maus governos, ministérios, hospitais,
tribunais, e sei lá mais o quê…
Porém a questão não é essa. O problema está no critério da medida. Ou seja, no rigor
dos indicadores objectivos que nos levam a classificar os comportamentos, as atitudes e
os desempenhos. Sem um critério universalmente válido e, por isso mesmo aceite, o
resultado da medida não passa de uma apreciação subjectiva e, como tal, sujeita à
divergência.
Vem isto a propósito de mais uma publicação de um suposto ranking das escolas
portuguesas que, apressada e incorrectamente, uma boa parte da comunicação social
tem vindo a designar por “lista das melhores e das piores escolas”.
Concretamente o que se mediu nestas escolas? Respondemos: mediram-se resultados de
aproveitamento escolar (académico) e, nunca, resultados de aproveitamento educativo.
E mediram-se todos os resultados escolares? Não! Mediram-se os resultados nas provas
que os alunos do ensino secundário efectuaram nos exames nacionais no ano lectivo
2009/2010.
O que quer isto dizer? Vejamos um exemplo. A escola A tem alunos de classe média
alta. São jovens com todas as condições de estudo, com excelente apoio e ambiente
familiar. Os professores sentem que esses alunos aprendem a bom ritmo, e que com
muita facilidade correspondem aos objectivos que lhes são solicitados. É uma das
escolas que, habitualmente, obtém um bom posto no ranking nacional.
A escola B está situada num bairro muito problemático. As famílias são disfuncionais,
há desemprego, muita miséria e o recurso a negócios menos claros. Os alunos não têm
qualquer acompanhamento familiar, são nulas as condições de trabalho em casa, alguns
têm mesmo carência de alimentos e de vestuário. Mesmo assim, os professores
empenharam-se na motivação desses alunos para a frequência da escola, através de
múltiplas actividades educativas de carácter interdisciplinar e, muitas delas,
desenvolvidas extra curricularmente. Essa escola obteve um resultado educativo
notável. Reduziu, significativamente, o abandono escolar, o absentismo às aulas, o
insucesso académico e realizaram-se mesmo programas de apoio comunitário. Quanto
aos resultados escolares nos exames nacionais… Bem, houve grandes progressos, mas
não os suficientes para impedirem que a escola B ficasse no fim da lista do ranking
nacional.
A escola A é boa e a escola B é má?
A diferença é que a escola A desenvolveu um esforço no sentido das aprendizagens do
currículo formal e, aí, obteve resultados académicos muito satisfatórios. Já quanto há
escola B, esta centrou as suas energias no alcance de objectivos educativos por parte dos
seus alunos, apostou na transmissão de valores e na educação para a cidadania e, aí,
obteve resultados considerados excelentes. Em que ficamos?
Quando olhamos para o ranking das escolas e, sobretudo, quando comparamos os
resultados académicos dos alunos das escolas públicas, com os resultados académicos
dos alunos das escolas privadas, temos que ter em atenção quais foram os indicadores
de medida. Um indicador de medida vale o que vale. O metro padrão não pode medir
um litro de leite, assim como se pode morrer afogado num rio que, em média, tenha
apenas quarenta centímetros de profundidade…
Os governantes responsáveis pela educação em Portugal perverteram a avaliação das
escolas no momento em que privilegiaram apenas indicadores de medida e de
desenvolvimento inerentes aos actos de aprendizagem do currículo formal. O que tem
estado em causa para se alcançar uma valoração das escolas, tem sido o recurso à
divulgação de rankings cuja elaboração se baseia apenas nos resultados académicos dos
alunos. Para estes responsáveis pouco importam os resultados educativos globais da
instituição escolar.
Há e sempre houve boas e más escolas. Há e sempre houve bons e maus exemplos de
práticas educativas. Mas temos que saber relativizar os resultados em função dos
indicadores de medida.
Temos em todas as nossas instituições escolares excelentes profissionais da educação
que gostariam de ver reconhecido o seu esforço. Os professores estão habituados a fazer
muito e bem. Mas não podem fazer tudo. Melhor diríamos: face às condições de
trabalho em muitas das escolas portuguesas, é injusto e desmotivador que se lhes peça
que façam mais.

João Ruivo
ruivo@ipcb.pt