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Poemas Soltos de João de Deus

Poemas Soltos de João de Deus

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Published by: fredericoboaventura8530 on Mar 17, 2011
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A Cigarra e a Formiga Como a cigarra o seu gosto É levar a temporada De Junho, Julho e Agosto Numa cantiga pegada, De Inverno

também se come, E então rapa frio e fome! Um Inverno a infeliz Chega-se à formiga e diz: - Venho pedir-lhe o favor De me emprestar mantimento, Matar-me a necessidade; Que em chegando a novidade, Até faço um juramento, Pago-lhe seja o que for. Mas pergunta-lhe a formiga: "Pois que fez durante o Estio?" - Eu, cantar ao desafio. "Ah cantar? Pois, minha amiga, Quem leva o Estio a cantar, Leva o Inverno a dançar!" A Enjeitadinha — De que choras tu, anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!... A tua mãe já não vive?

se ma levaram. em a não vendo.. despontava logo em minha alma a luz que ia perdendo.. e ingénua e pura como os anjos do céu (se o não sonharam.. A vida é ai que mal soa."Nunca a vi em minha vida. morreu! A Vida Foi-se-me pouco a pouco amortecendo a luz que nesta vida me guiava.. Em se ela anuviando. E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. já se me a luz de tudo anuviava... A vida é sombra que foge. Andei sempre assim perdida. . despontava ela apenas.) quis mostrar-me que o bem bem pouco dura! Não sei se me voou. olhos fitos na qual até contava ir os degraus do túmulo descendo. A Vida é o dia de Hoje A vida é o dia de hoje. Que tive mãe e. nem saiba eu nunca a minha desventura contar aos que inda em vida não choraram . Alma gémea da minha.

Uma após outra lançou.A vida é nuvem que voa. A vida leva-a o vento. numa loja de tabaco.pena caída Da asa da ave ferida De vale em vale impelida A vida o vento levou! Avarento Puxando um avarento de um pataco para pagar a tampa de um buraco que tinha já nas abas do casaco. A vida é estrela cadente. Voa mais leve que a ave: Nuvem que o vento nos ares. revira-os fulo e dá com um macaco defronte. . A vida é sopro suave. A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvai: A vida dura um momento. A vida é folha que cai! A vida é flor na corrente. Mais leve que o pensamento. A vida . Onda que o vento nos mares. levanta os olhos. vê o céu opaco.

. e até a mim. a comprar sapatos. que são mais baratos! Boas Noites Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: . por ele. Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? .que lhe fazia muito mal ao caco! Diz ele então na força da paixão: . Tinha razão quanto a mim. quem não tem alma de satisfazer as niquices da civilização homem não deve ser: seja saguim. Viva nas tocas como os nossos ratos e coma cocos.Há casaco melhor que aquela pele? Trocava o meu casaco por aquele..Boas tardes. lavadeira! . que escusa tanga. já não sofre tratos a calçar as botas.. caçador! . Vá para os matos..Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira. escusa langotim. Quem não tem coração.Boas tardes.

Até um dia. E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira... É escusado. senhor. Que ainda é perda maior. Perdereis a caçadeira. caçador! Dia de Anos Com que então caiu na asneira De fazer na quinta-feira Vinte e seis anos! Que tolo! . dessa maneira... lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor. senhor! .......Boas noites.Olhai que. lavadeira! .Boas noites.. Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . .Talvez que fosse melhor. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira.Que importa.

Também lhe não aconselho.. não caia nessa! Olhe que a gente começa Às vezes por brincadeira. Já não tem vontade sua. Agora o que vem.Ainda se os desfizesse. Mas depois se se habitua.. Como lhe tomou o gosto. Mas anos. E fá-los queira ou não queira! Estrela . Mas fazê-los não parece De quem tem muito miolo! Não sei quem foi que me disse Que fez a mesma tolice Aqui o ano passado. aposto.. Que faz o mesmo? Coitado! Não faça tal: porque os anos Que nos trazem? Desenganos Que fazem a gente velho: Faça outra coisa: que em suma Não fazer coisa nenhuma..

a luz que nesta vida me guiava.. e não já noite cerrada. Que até no céu mete medo ver essa estrela isolada... Alma gémea da minha. em a não vendo.. Em se ela anuviando. Antes nascesses mais cedo.. despontava logo em minha alma a luz que ia perdendo. estrela da madrugada. despontava ela apenas. estrela da madrugada! Foi-se-me Pouco a Pouco Amortecendo Foi-se-me pouco a pouco amortecendo. olhos fitos na qual até contava ir os degraus do túmulo descendo..Estrela que me nasceste quando a vista mal te alcança nessa abóbada celeste. e ingénua e pura . onde a nossa alma descansa a sua última esperança. Estrela que me nasceste quando a vista mal te alcança! Antes nascesses mais cedo. já se me a luz de tudo anuviava.

Grammatica Rudimentar Aquelle Manuel do Rego É rapaz de tanto tino Que em lirio põe sempre y grego.. E escreve Brasil com z: Assim elle nos quizesse Dizer a razão porquê! . Mas porque achou num auctor Que deriva de sanskrito. quis mostrar-me que o bem bem pouco dura. se ma levaram. E em lyra põe i latino! E como a gente diz ceia Escreve sempre ceiar. Escreve razão com s.como os anjos do céu (se o não sonharam. Assim como de passeia Tira o verbo passeiar! Nunca diz senão peior Não só por ser mais bonito.). Não sei se me voou.. Nem saiba eu nunca a minha desventura contar aos que inda em vida não choraram.

Também como diz . Que uma serpente De olhar de luz .. E o Vieira latinorio! Hymno de Amor Andava um dia Em pequenino Nos arredores De Nazareth. O bom-Jesus..eu soube Julga que eu poude é correcto: Temo que a morte nos roube Rapazinho tão discreto! É um gramático o Rego! É um purista o finorio. O Deus-Menino. Em companhia De San José. Eis senão quando Vê num silvado Andar piando Arrepiado E esvoaçando Um rouxinol. Se Camões fallava grego.

Uma expansão. Tinha encantado. Jesus. Que commovia O coração! Jesus caminha No seu passeio. De uma alegria. E a avesinha Continuando No seu gorgeio Em quanto o via. E de repente O pobrezinho. E penetrante Como diamante. Tão repassado De gratidão. . Tinha attrahido. Salvo e contente. Ou antes pranto Tão soluçado. Corre apressado. doído Do desgraçado Do passarinho. Uma cadencia. Foge a serpente.Resplandecente Como a do sol. Sae do caminho. Rompe n'um canto Tão requebrado. Quebra o encanto.

Que noite e dia N'uma palmeira. (Era já certo) Ella lá estava A pobre ave Cantando o hymno Terno e suave Do seu amor Ao Salvador! .De vez em quando Lá lhe passava À dianteira E mal poisava. Que redobrava De melodia! Assim foi indo E foi seguindo De tal maneira. Que havia perto D'onde morava Nosso Senhor Em pequenino. Não afrouxava Nem repetia.

E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. que todo o dia Tinha levado a anadar. Diz o filho: "Oh minha mãe. Tornam os pobres à estrada. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega... Com effeito a sentinela: . Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" . Mas saltam dois cães de gado. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe. A triste n'um riso amargo). Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões.Se os cães deixarem.Miséria Era já noite cerrada."Quem vem lá?. .. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho. (diz ella.. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar.

por decência Tê-lo com uma tanga pequenina. jovem de talento Na arte do desenho e da pintura. Omissão Uma noviça. Tido em conta de um belo original! A soro costumava. Que lhe encobria aquela saliência Que distingue o menino da menina..Vendo a sua esperança vã. Pede à madre abadessa do convento O favor de lhe ver uma figura. Era a imitação escrupulosa De um menino em tamanho natural Que pertencia a soror Anna Rosa. . Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!..

que beleza! Pernas. naquela parte Pintasse apenas o que tinha à vista Que é o preceito e o primor da arte. Que enorme. E não se cansa de a louvar! Mas lança A vista atenta àquele ponto: "Ai.. braços e tudo. Assim como no mais. filha. que perfeito! Mas confesso. Vê a madre abadessa a maravilha.. Confesso com tristeza..Mas uma tanga tão apropriada No tecido e na cor. que enormíssimo defeito!" Perdão Seria o beijo . que na verdade A gente olhava e não lhe via nada Que desmentisse a naturalidade.. Pobre criança! Que pena! O colorido. de esperar que a nossa artista. Era. pois. Que falta essencial!...

) Perdão! perdão! .. Foi por paixão. a razão (outra não vejo) Por que perdi Tanta afeição? Fiz mal.Que te pedi.. Mas esse excesso.. Unicamente? Não basta tal: Cumpre ser boa.. Quisera então Beijar-te a mão. confesso.. Ser indulgente. de ti! Tu pensas. Beijar-te a face.. Se o cometi. Beijar? que disse! (Que indiscrição. Se o conseguisse. Fiz-te algum mal? Pois bem: perdoa! É tão suave Ao coração Mesmo o perdão De ofensa grave! Se o alcançasse. Dize. Sim. flor Que a mulher basta Que seja casta. por amor De quem?.

Sempre Nem te vejo por entre a gelosia. Eu não vejo outra cousa! . Nunca te posso ver. e todavia. Nunca no teu olhar o meu repousa.

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