Artigo

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o vínculo jurídico cedeu parte de seu espaço à verdade sócio-afetiva. Felicidade e afeto demarcaram seu espaço na noção jurídica de família em todas as esferas. a exemplo do que já havia acontecido na realidade social. 291).´ (Silvana Maria Carbonera. um ato de liberdade. p. 1998.³Com a instalação da igualdade e da liberdade na família. precisamente porque afeto não é um dever e a coabitação uma opção. Da família matrimonializada por contrato chegou-se à família informal. 2 .

união homoafetiva. Palavras-chave: Homosexualidade. the good of everyone and respect for difference. aos olhos do Direito Civil e da Constituição vigente. human dignity. além de apontar e abordar a possibilidade e o reconhecimento dessas entidades familiares. 1 3 . union homosexual. Olga Chaves Magalhães1 Rhavena Maia Silva2 Resumo: Esse projeto tem como finalidade a análise. Abstract: This project aims at examining. unions homoafetivas. Keywords: Homosexuality. bases do Estado Democrático de Direito brasileiro. Universitária do 3º semestre. family Law. the effective promotion of human rights. do bem de todos e do respeito à diferença. a efetiva promoção dos direitos humanos. constitutional principles of equality. Tem-se como meta. while identifying and addressing the possibility and the recognition of these family entities. 2 Universitária do 3º semestre. costitucionalização. na disciplina de Metodologia do Trabalho Científico do Curso de Direito da Universidade Regional do Cariri ± URCA. na disciplina de Metodologia do Trabalho Científico do Curso de Direito da Universidade Regional do Cariri ± URCA. constitucionalisation. the eyes of civil law and the Constitution in force. It has been a goal.U nião Homoafetiva: Vencendo tabus. da dignidade da pessoa humana. direito de família. dos princípios constitucionais da igualdade. bases Democratic State of Brazil. das uniões homoafetivas.

então. ao mesmo tempo. despersonalizada. A unidade familial era gerada somente pelo casamento religioso. dentre os quais: o movimento tem se organizado melhor promovendo marchas para reivindicar seus direitos e as ações judiciais em busca do reconhecimento da União Homoafetiva A nova entidade familiar é pluralista. da não-intervenção estatal na propriedade privada. da 4 . na ultima década tomou maiores proporções. constituída pelo casamento. ela designava o conjunto de pessoas sob o jugo do pater famílias ou. A família na Antiguidade Clássica se destacava seu caráter eminentemente patrimonial. democrática. a família não se representa mais por uma pilha de bens. Todo agrupamento humano é formado por um elo a ligar cada um dos seus indivíduos. que a força física: é a religião do fogo sagrado e dos antepassados. No Direito Romano. que o sentimento. sob a figura do pater potestas. por inúmeros motivos. A família era. Introdução A União entre pessoas do mesmo sexo é um tema que. Este elo é o fato de pertencerem ao mesmo tronco familiar. na religião. constrange-o a uma mudança de padrão a ser seguido. A família antiga é mais uma associação religiosa que uma associação natural. no respeito aos princípios oriundos do mores maiorum que repousava o nexo interno desta entidade. o elo é a família. ou seja. apesar de ser uma realidade há vários anos. Ela é o "embrião" da sociedade. A família antiga sustentava-se no culto aos antepassados. regulado pelo princípio da autoridade. à aceitação da diversidade entre os indivíduos e entre as próprias espécies familiais. a família passa. Com a sociedade burguesa. mais ainda. um acervo patrimonial ou herança. 2. O que une os membros da família antiga é algo mais poderoso que o nascimento. ainda. Essa religião faz com que a família forme um só corpo nesta e na outra vida.1. Adapta-se ao Estado Democrático de Direito e. que significava o alívio de um fardo: as filhas. mas pelo grupo de pessoas unido pelas relações de fidelidade. a se alicerçar sobre os princípios do individualismo. Na Idade medieval. Origem da família A família constitui o primeiro liame que a pessoa institui com o mundo da vida.

abre-se espaço para o reconhecimento de outras como a monoparental. Pereira dispõe: ³Ao conceituar a família. Na largueza desta noção. 5 . soberano tirânico. livre. reprodução sem sexo. a universalidade de filhos sem a presença de pais. A companheira. o casamento. concubina. Diante das mudanças de paradigmas morais de nossa sociedade contemporânea. Na unidade familial moderna. 226 rompe com a prioridade patrimonial. Ela é compreendida como o domínio particular do homem. os cônjuges dos filhos (genros e noras). os filhos ilegítimos. pode agora ser novamente constituído e. A prole ilegítima tem estabelecido o direito ao reconhecimento e a outros direitos. Tornando a família uma entidade pluralista. a união estável e união homoafetiva que se pretende legitimar. acrescenta-se o cônjuge. destaque-se a diversificação. a Carta Constitucional de 1988. É possível hoje. por fim. os cônjuges dos irmãos e os irmãos do cônjuge (cunhados). em seu art. até então negados. Em sentido genérico e biológico. A evolução do instituto familiar No tocante ao termo família. democrática. para a qual o afeto constitui elemento principal. 3. depois de dissolvido. a noção de família desatrelou-se de vez do matrimônio. somente a família e os filhos legítimos estavam sob a tutela da juridicidade. as uniões homoafetivas e tantas outras eram relegadas ao silêncio do legislador. despersonalizada. sexo sem matrimônio e. Com a dessacralização do matrimônio como única forma de família. O centro de gravidade das relações familiares passa a ser a mutua assistência afetiva e não mais a mera procriação da espécie.autonomia da vontade e do patrimonialismo. matrimônio sem reprodução. com a desigualdade entre os filhos. Ainda neste plano geral. aditam-se osfilhos do cônjuge (enteados). do pater. com a desconsideração da família fundada no casamento em detrimento das demais espécies familiais. a mulher é retirada da odiosa situação de relativamente incapaz pelo Estatuto da Mulher Casada. considera-se família conjunto de pessoas que descendem de tronco ancestral comum. sejam eles adulterinos incestuosos ou adotivos. o que não impediria o reconhecimento da união homoafetiva. A questão que demanda reflexão é que esse mesmo vínculo afetivo pode perfeitamente existir entre pessoas do mesmo sexo.

Dignidade deve ser entendida como representando as condições 6 . não somente entre o homem e a mulher. a liberdade. uma sociedade afetiva onde nada mais importante que o cuidado e o amor. trata-se do vínculo afetivo criado pelas pessoas em comum existência. ou ao princípio da autoridade. É.os civilistas enxergam mais a figura da romana Gens ou da grega Genos do que da família propriamente dita. com as instituições que lhe servem meramente de mecanismos de tutela. ao parentesco por consangüinidade. não se confundindo. é a presença de um vínculo afetivo a unir as pessoas com identidade de projetos de vida e propósitos comuns. Enfim. e aos idosos uma senilidade tranqüila. Funda-se na igualdade e na reciprocidade de direitos e deveres. garantindo às crianças um desenvolvimento sadio. O elemento distintivo da família. digna. É espaço da realização plena do indivíduo. A família do século XXI mantém-se em sua essência: a afetividade.´ A unidade familial passa a ser compreendida de forma diferente: não se trata mais de legitimar a produção da prole. amparada e saudável. Ela não se encaixa a modelos. uma instituição democrática. educação. o que identifica a família não é nem a celebração do casamento nem a diferença do sexo do par ou o envolvimento de caráter sexual. a afetividade. A nova entidade familial é solidária. no amparo à criança e ao idoso. Nas palavras de Maria Berenice Dias: "Agora. ó principalmente. constitucionalizada. mas aos companheiros homossexuais." A essa família constitucionalizada. envolvendo no véu do direito a relação ³physica dos dous sexos" e sim de fatores biológicos e psíquicos se vêm aliar outros de natureza sociol gica. que a coloca sob o manto da juridicidade. não se restringe à esfera privada. lazer e alimentação. a igualdade. incorporam-se valores regentes fundamentais: a dignidade da pessoa humana. entendemos que seja ela a não coisificação do ser humano. a solidariedade. antes de tudo baseado no apoio mútuo. pluralista. No que diz respeito à dignidade da pessoa humana. mas nem por isso se estatiza: equilibra-se entre ambos os planos. gerando um comprometimento mútuo. pois não se constitui mera obrigação ou encargo patrimonial. portanto.

garantindo a assistência à criança e ao adolescente. filhos. pois não é mais gerada apenas pelo casamento. È união fundamentalmente afetiva. mas equitativo de apreciação. pois se baseia no dever de cuidado mútuo entre pais. admitindo-se quantas entidades familiares possam emergir do mundo da vida. em última instância. permite a liberdade de escolha do parceiro e da filiação. Enfim. educacionais e psicossociais mínimas que se deve se conceder ao sujeito humano para que possa ele gozar de uma existência plenamente realizada. dentre elas a religiosa. ambas em igualdade de direitos. possibilitando a constituição de nova união. A família é uma instituição igualitária. a liberdade de opção sexual.material. sem que se venha a ferir direitos de nenhum de seus membros. Homosexualismo: Terminologia 7 . A família moderna é livre para traçar os rumos mais adequados à realização individual de cada um de seus componentes. com filiação legítima ou ilegítima e a não diferenciação entre os tipos de famílias. por não rotular os filhos pelo tipo de relação de onde são havidos e. Permite o planejamento familiar de livre decisão. além do idoso. a dignidade não se amolda a um conceito distributivo. porquanto permite a livre dissolução com o fim do vínculo afetivo entre os cônjuges ou companheiros. É pluralista. 4. representaria o próprio direito ao reconhecimento de toda e qualquer entidade familiar. Estado e pela própria família para o inteiro desenvolvimento dos indivíduos que a compõem. A dignidade da pessoa humana no Direito de Família representaria condições fundamentais a serem oferecidas pela sociedade. Podemos elencar essa dignificação da família com base na não-rotulação entre os filhos. Por desigualar aos desiguais. por garantir o direito à diferença. tendo este os mesmos efeitos que o casamento civil. devendo o Estado fornecer o substrato para que seja possível tal projeção. religiosa ou de qualquer outra natureza. Reconhece a pluralidade de uniões. seja ela biológica ou adotiva. Essa nova entidade é também livre. o reconhecimento de seu valor essencial. cônjuges ou companheiros. pois responsabiliza solidariamente os pais pela educação e bem-estar dos filhos e iguala as partes da sociedade afetivo-conjugal. independentemente do afeto psicológico ou anímico.

afinal. o sexo e a construção de uma vida em comum nem sempre se combinam. mais ainda. se diz do enlace afetuoso a unir indivíduos do mesmo sexo em comunhão de vida. um aspecto genérico que se faça distinguir entre os diferentes indivíduos pertencentes a uma universalidade. mas o vínculo emocional estabelecido entre os partícipes. as nomenclaturas são variantes.O nome é aquilo que designa uma pessoa. em nossos tempos de "amor líquido". ao contrário. Com essa intervenção constitucional. a união homoafetiva ou as de qualquer natureza vê surgir uma possibilidade de ser reconhecida com 8 . 5. construir conceitos é tarefa de caracterização. Seu alicerce não é a pulsão sexual. o Estado maior equiparou os gêneros. Através de novas visões sobre a família monoparental e do companheirismo. implica considerar passageiro tal relacionamento. protege-se a mulher. Apesar de não regulamentada expressamente pela norma constitucional. No que concerne aos indivíduos que não mantém relações afetivas ou sexuais com pessoas do sexo oposto. Mas os conceitos. associado na medicina a doença ou patologia. que sofria as maiores discriminações. muito menos a uniões homoafetivas. As palavras servem para nomear as coisas. apresentação. servem para dar-lhe uma pré-noção. Da união homoafetiva Na vigência do código de 1916 era inimaginável o reconhecimento de direitos a famílias concubinárias. Homoafetiva. Isso nos faz constatar a intencionalidade diversa que se estabelece entre ambas. Sabemos que o termo homossexualismo tem tom depreciativo por conta de seu sufixo ³ismo´. o Estado passa a proteger e amparar de forma igual a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar e também a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. Isso significa que sua fundamentação se dá estritamente pelo vínculo libidinoso e. Nesse sentido. Homossexual liga-nos diretamente ao aspecto físico de uma relação. companheira ou concubina. Com a Lex Fundamentallis. somente podendo obter cuidados do Direito de família se acompanhada da prole. Essas entidades deixaram de ser vistas como sociedades de fato com o advento da Constituição de 1988. de forma diferente.

mostrando um comportamento padrão típico. já tão carregados de tanto preconceito. nacionalidade ou sexo. condição essencial da dignidade da pessoa humana e da solidariedade. além de legitimar o preconceito. A questão não está na aceitação da nova família e sim no respeito a ela. geralmente. mas sim a distinção entre juízos de valor pessoal e da realização da justiça clamada pela sociedade. o direito á família e a liberdade. previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. 226 tenha em seu elenco de entidades familiares uma restrição á outras espécies de família. pois uma sociedade livre. começa dentro da própria família. Desafios a enfrentar A união entre pessoas do mesmo sexo enfrenta tabus e preconceitos a muitos anos. justa e solidaria deve promover o bem de todos sem preconceito. pois a sociedade e seus componentes não aceitam o dito como diferente. objetivo máximo do Estado Democrático de Direito brasileiro. Essa discriminação. Tendo como base esses princípios. Maria Berenice Dias: 9 . clausula pétrea. Quando se nega o desejo de um casal homoafetivo de constituir família nega-se o direito constitucional á família. Em excelente ensaio comenta a desembargadora. 6. o Judiciário deve reconhecer esta realidade fática e seu respaldo constitucional e com isso promover o bem de todos numa sociedade pluralista e democrática. Qualquer lei. seja ele de raça. fica evidente que esse preconceito traz como conseqüência uma lacuna no ordenamento jurídico. Não importa quais os preconceitos ou pré-compreensões dos juristas. Como já exposto. os direitos e garantias fundamentais e os tratados internacionais dos quais o Brasil participa não podem ser inibidos por preconceitos de ordem pessoal. Impedir a existência da família homoafetiva é validar a marginalização e a perversão desses relacionamentos. ato administrativo ou sentença que vá de encontro com os princípios constitucionais é materialmente inconstitucional. fica difícil aceitar que o art. vindo a confrontar a dignidade da pessoa humana. classificando as pessoas como coisas. A dignidade da pessoa humana.uma análise do assunto com base nos princípios constitucionais. retirando sua condição humana.

Os juristas e legisladores devem levar em consideração que não se pode deixar o cidadão desamparado e que os valores mudaram e o direito precisa adequar-se a essa nova realidade. outros princípios. ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). posição social ou opção sexual. demonstrando assim uma quebra no principio da isonomia. das uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo. em que aquela se inclui. tratando-se de questão constitucional. Um ordenamento que apóia a discriminação viola. Dentre esses princípios está o da Dignidade da Pessoa Humana. tanto defendida pela nossa constituição. trazendo conseqüências irreparáveis para a sociedade. O Estado não está cumprindo o seu papel. segundo o qual todo ser humano deve ser respeitado. não devendo apoiar qualquer tipo de preconceito. em função de sua orientação sexual. por ele determinado." A relação homoafetiva não esta contida e regulamenta na legislação. para o debate da união entre homossexuais observando os princípios constitucionais. sugeriu a abertura de um processo de Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF). Sobre o exposto acima. principalmente o da dignidade da pessoa humana. deixando para trás cor. não se podendo sub-dimensionar a eficácia jurídica da eleição da dignidade humana como um dos fundamentos do estado democrático de direito. não se podendo ignorar a condição pessoal do indivíduo. George Teixeira Giorgis disserta: "De fato. Infundados preconceitos não podem legitimar restrições de direitos servindo de fortalecimento a estigmas e causando sofrimento a muitos seres humanos. a infringir o princípio maior imposto pela Constituição Federal. como entidade familiar. A decisão teve por motivo o arquivamento. legitimamente constitutiva de sua identidade pessoal. Para ele. da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 3300) que avaliava no Supremo o reconhecimento."Qualquer discriminação baseada na orientação sexual do individuo configura claro desrespeito à dignidade humana. esse ponto é muito importante para o meio jurídico-social. que seria a preservação dos direitos dos cidadãos. seria dispensar tratamento indigno ao ser humano. Segundo Konrad Hesse. além do direito a igualdade." Celso de Mello. sobre o princípio da igualdade: 10 . ventilar-se a possibilidade de desrespeito ou prejuízo de alguém.

assim."Esse valor implica dotar os princípios da igualdade e da isonomia de potencialidade transformadora na configuração de todas as relações jurídicas. eis que decorrem. 1. não pode ser vislumbrado como valor abstrato. em favor daquele que necessita de proteção material. visando a promoção do bem estar de todos. como postulado fundamental do estado de direito. não há motivo para deixar de reconhecer o direito a alimentos. Alguns doutrinadores já aderiram a essa corrente. desprovido de concretude. lastrei-se no afeto e na solidariedade. especialmente do dever de solidariedade social e da afirmação da dignidade humana. A jurisprudência gaúcha recente reconhece ainda o direito à sucessão: 11 . Igualdade jurídica formal é igualdade diante da lei: o fundamento de igualdade jurídica deixa-se fixar. Direitos conquistados Existe. como qualquer outro relacionamento heterossexual. uma tendência de se equiparar analogicamente a União Homoafetiva com a União Estável." 7. como forma de manter sua integridade. no âmbito jurídico. de princípios constitucionais. que.694 do novo Código Civil ± que prevê sua possibilidade apenas entre parentes. repita-se à exaustão. Segundo Cristiano Chaves Farias: ³ Assim. mesmo não contemplados no art. isonomia e dignidade humana. sem dificuldades. justa e igualitária. baseados nos princípios constitucionais da solidariedade. não se pode negar direitos e deveres nas uniões homoafetivas. tornando-se necessário também vislumbrar o direito aos alimentos para os companheiros homoafetivos. se a relação homoafetiva.´ De acordo com os valores constitucionais e tendo em vista que é objetivo fundamental da República construir uma sociedade solidária. tal como deve ocorrer em qualquer outra entidade familiar. essas relações não devem ser mais tratadas nas varas cíveis. Ora. cônjuges ou companheiros ± os alimentos são devidos na união homoafetiva. logicamente. igualdade. sem preconceitos.

que se encontra devidamente regulamentada. O elo afetivo que identifica as entidades familiares impõe seja feita analogia com a união estável.UNIÃO ESTÁVEL HOMOAFETIVA. assumem feição de família. RECONHECIMENTO. A omissão do constituinte e do legislador em reconhecer efeitos jurídicos às uniões homoafetivas impõe que a Justiça complete a lacuna legal fazendo uso da analogia. Em outra jurisprudência encontramos a tentativa do reconhecimento da união: APELAÇÃO CÍVEL. Negado provimento ao apelo. seria colocado o nome de casal adotante: "Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. ³Julgado em 21/12/2005)´ Em 2006. por maioria. enlaçadas pelo afeto. DIREITO SUCESSÓRIO. Sétima Câmara Cível. impositivo que seja reconhecida a existência de uma união estável. CASAL FORMADO POR DUAS PESSOAS DE MESMO SEXO. continuidade e intenção de constituir família. assegurando ao companheiro sobrevivente a totalidade do acervo hereditário. merecedora da proteção estatal. uma mudança nas certidões de nascimento. É o afeto a mais pura exteriorização do ser e do viver. violando os princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade. contudo. com características de duração. não mais podendo o Judiciário se olvidar de emprestar a tutela jurisdicional a uniões que. Relator: Maria Berenice. de forma que a marginalização das relações homoafetivas constitui afronta aos direitos humanos por ser forma de privação do direito à vida. Houve. POSSIBILIDADE. nas quais no lugar de constar os nomes do pai e da mãe. a união formada por pessoas do mesmo sexo. os casais homossexuais obtiveram uma vitória muito importante no que se refere à possibilidade de adoção de crianças. É de ser reconhecida judicialmente a união homoafetiva mantida entre duas mulheres de forma pública e ininterrupta pelo período de 16 anos. Incontrovertida a convivência duradoura. UNIÃO HOMOAFETIVA. afastada a declaração de vacância da herança. (Apelação Cível Nº 70012836755. PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E DA IGUALDADE. decorrência inafastável é 12 . publicidade. Reconhecida como entidade familiar. A união pelo amor é que caracteriza a entidade familiar e não apenas a diversidade de sexos. A homossexualidade é um fato social que se perpetua através dos séculos. Tribunal de Justiça do RS. ANALOGIA. ADOÇÃO. Embargos infringentes acolhidos. pública e contínua entre parceiros do mesmo sexo.

pois a própria união homoafetiva ainda não foi regulamentada." (TJRS. que em 1995 já tinha esboçado um projeto de lei tentando regulamentar esse tipo de união. chamado de Norma Geral Exclusiva. A omissão do legislativo torna mais difícil o reconhecimento de direitos. Relator: Desembargador: Luiz Felipe Brasil Santos. Unânime.) Infelizmente esse tipo de jurisprudência ainda é difícil de ser encontrada. 7ª Câmara Cível. adotando-se uma postura de firme defesa da absoluta prioridade que constitucionalmente é assegurada aos direitos das crianças e dos adolescentes (art. está. sobretudo se estes não forem referentes a condutas tomadas como convencionais pela sociedade. 227 da Constituição Federal). Apelação Cível n. mais importando a qualidade do vínculo e do afeto que permeia o meio familiar em que serão inseridas e que a liga aos seus cuidadores. buscando solucionar os casos. Não havendo dispositivo legal que proteja as relações homossexuais. mas mostra que o direito tem caminhado lentamente para o reconhecimento do direito aos alimentos e à sucessão em união homoafetiva. sendo cada vez mais importante a atuação dos aplicadores normativos. julgado em 05/04/2006. 13 . Negaram provimento. que afirmou: "tudo o que não está explicitamente proibido. 70013801592. publicado no DJ de 12/04/2006. Como precursora na tentativa de regulamentação da união entre pessoas do mesmo sexo está a então deputada Marta Suplicy. É hora de abandonar de vez preconceitos e atitudes hipócritas desprovidas de base científica. Os estudos especializados não apontam qualquer inconveniente em que crianças sejam adotadas por casais homos sexuais. o que demonstra uma grande vitória. 8. Análise da legislação Nossa legislação não regulamenta os direitos e deveres nem reconhece como família a união homoafetiva. Caso em que o laudo especializado comprova o saudável vínculo existente entre as crianças e as adotantes. tendo este por base o pensamento de Kelsen.a possibilidade de que seus componentes possam adotar. implicitamente permitido". se pode levar em consideração o pensamento de Norberto Bobbio.

verificar a necessidade da legalização da União Homoafetiva. Por isso. mas ela serve para reforçar e legalizar o preconceito já existente na sociedade. O reconhecimento pela justiça e pela legislação da União Homoafetiva seria um grande aliado na luta contra o preconceito. com este trabalho. A espada sem a balança é força bruta. A discussão desse assunto não implica somente no fim da questão do preconceito. pois se tenta estabelecer a competência de julgar esse tipo de relação na vara de família. a Justiça segura. situação essa que é insustentável. mudando de forma fundamental a vida de pessoas que não tinham proteção do Estado. direitos estes como os de pensão e à sucessão. e na outra a espada. a 14 . A omissão da legislação quanto à matéria não é o único fator responsável pela marginalização dos casais homoafetivos. está em tramitação no congresso o projeto do Deputado baiano Sérgio Barradas. com a qual pesa o direito. Conclusão Podemos. contudo. nada mudou. pensa-se em uma das maiores e significantes mudanças no tocante ao Direito de família. 9. pois essa é uma realidade que o Estado insiste em não reconhecer. Como disse Ihering: "O direito não é mero pensamento.Após treze anos depois da primeira tentativa de proteger as relações homossexuais. a balança. numa das mãos. com a qual o defende. indispensáveis à realização da dignidade da pessoa humana. pois a cada dia cresce o número de casais homossexuais que saem às ruas para protestar e reivindicar seus direitos. O Direito deve assumir sua função social e mostrar a possibilidade e a necessidade do reconhecimento das diferenças e da aceitação. m aterializando uma atitude que já deveria ter sido tomada há muito tempo. pois essa relação ainda não tem proteção do Estado. Com esse projeto. mas sim no reconhecimento total dos direito que são devidos aos casais homoafetivos. mas sim força viva.

" (IHERING. 2003. com a qual a justiça empunha a espada. Ambas se completam e o verdadeiro estado de direito só existe onde a força.balança sem a espada é a fraqueza do direito. p. usa a mesma destreza com que maneja a balança. 27) 15 .

2007. União Homossexual. 1998. Medida Cautelar na Ação Direta de Inconstitucionalidade n. Rudolf Von. Maria Berenice. HESSE. 1943. Manual de Direito das Famílias. 00006. 4.441/2007 ± Lei de Separação. São Paulo: J. 16 . p. Direito de Família. 2003. Diretos das Famílias. São Paulo: RT. Porto Alegre: Livraria do Advogado. In Revista da AJURIS. publicado no DJ em 09/02/06. Clóvis. Konrad.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEVILÁQUA. Cristiano Chaves de Farias. Relator: Ministro Celso de Mello. São Paulo: Livraria Freitas Bastos. A Natureza Jurídica da Relação Homoerótica. Maria Berenice. 3300 MC/DF. o Preconceito e a Justiça. José Carlos Teixeira. De acordo com a Lei nº 11. G. Elementos de Direito Constitucional da República Federal da Alemanha (tradução de Luís Afonso Heck). ed. 17. DIAS. 2000. Nelson. p. Divórcio e Inventário Extrajudiciais. Lúmen Júris. pp. 330. editor.Tomo 1. GIORGIS. nº 88 . p. STF. DIAS. IHERING. 2004. Rio de Janeiro. Porto Alegre: dezembro de 2002. A luta pelo direito. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor. julgado em 03/02/06. ROSELVALD. 244. FARIAS.340/06 ± Lei Maria da Penha e com a Lei 11.

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