Monografia Marielle de Moraes. Marielle Barros de Moraes

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA INFORMAÇÃO CURSO DE BIBLIOTECONOMIA

MARIELLE BARROS DE MORAES

A FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO NA UFC À LUZ DO NEOLIBERALISMO:

ser ou não ser!

FORTALEZA 2007

MARIELLE BARROS DE MORAES

A FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO NA UFC À LUZ DO NEOLIBERALISMO: ser ou não ser!

Monografia apresentada ao Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará, para a obtenção do grau de Bacharel em Biblioteconomia. Orientador: Profª Drª. Virginia Bentes Pinto

FORTALEZA 2007

M822f Moraes, Marielle Barros de A formação do bibliotecário na UFC: ser ou não ser! / Marielle Barros de Moraes. 2007. 100 f. : il. Orientadora : Profa. Dra. Virginia Bentes Pinto Monografia (Graduação em Biblioteconomia) – Universidade Federal do Ceará. Curso de Biblioteconomia, Fortaleza, 2007. 1. Biblioteconomia. 2. Educação Superior. 3. Neoliberalismo. 5. História do Brasil. I. Pinto, Virginia Bentes (Orient.). Título. CDD 020.23 MARIELLE BARROS DE MORAES

MARIELLE BARROS DE MORAES

A FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO NA UFC À LUZ DO NEOLIBERALISMO: ser ou não ser!

Monografia apresentada ao Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará, para a obtenção do grau de Bacharel em Biblioteconomia.

Aprovada em_____/_____/_____

Conceito: _____________

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________ Profª. Drª. Virginia Bentes Pinto (Orientador) Doutora em Sciences de l‟Information et de la Communication Universidade Federal do Ceará -UFC

_____________________________________________ Prof. Dr. Casemiro Silva Neto (Co-Orientador) Doutor em Comunicação e Cultura Universidade Federal do Ceará -UFC

____________________________________________ Prof. Dr. Wagner Chacon Doutor em Educação Brasileira Universidade Federal do Ceará -UFC

A Deus, criador e fonte da vida. O que seria de mim sem a fé que tenho Nele? Aos meus pais, Leudo e Cleia, e às minhas irmãs, razão pela qual escrevo. Aos meus tios, tias e avós, da família Barros, pelo crédito, apoio e incentivo sempre constantes. Aos amigos, Irmã Natalina, Irmã Rosa Maria e ao Irmão Wilacy, da Congregação da Sagrada Face, bem como ao Padre Flávio, da Congregação dos Padres Salvatorianos, pelo incentivo, apoio e amizade sincera. A todos os professores do Curso de Biblioteconomia, da UFC, em especial, à Profª. Drª. Virginia Bentes Pinto e ao Prof. Dr. Casemiro Silva Neto. Ao Prof. Msc. Estevão Arcanjo, e à Profª. Drª. Alba Pinho de Carvalho e Profª. Drª. Maria Aparecida Lemenhe, do Curso de Ciências Sociais, pelos conhecimentos transmitidos.

AGRADECIMENTOS

Penso que este espaço, nos trabalhos acadêmicos, deve funcionar como instância oportuna para o exercício da memória diante da generosidade e presteza de todas as pessoas que, diretamente ou indiretamente, próximas ou distantes, nos ajudaram nos desafios cotidianos da vida estudantil, contribuindo para que chegássemos a este momento que, para muitos, é o final, mas, para mim, espero ser apenas o começo de outras produções.

Desde quando adquiri a consciência de que teria de esforçar-me o máximo nos estudos, assim o fiz, e obtive êxito na primeira vez em que tentei o exame vestibular, tanto na UECE, para o Curso de Letras, quanto na UFC, para o Curso de Biblioteconomia. Aliás, adentrar nos espaços desta instituição, como estudante, foi a conquista de um sonho que cultivei desde criança, pois, sempre que passava em frente à Reitoria, me sentia interpelada por uma espécie de chamado. Diante das duas aprovações, fui obrigada a optar por uma delas. E devo confessar que a escolha foi difícil. Como já conhecia a profissão de bibliotecário, e também já ensinava, resolvi brincar de Imperatriz e, à semelhança de D. Pedro I, quando teve de escolher entre Portugal e Brasil, também disse ao povo: Fico na Biblioteconomia!

Ainda no Ensino Médio, conheci professores que me deram total incentivo e apoio, dentre eles, Rúsvelin Filho, professor de História do Brasil, e Livramento, professora de Língua Portuguesa, a quem sempre admirei; ambos fizeram-me enveredar pelos estudos mais aprofundados acerca da nossa História e da nossa Língua. Também tive contato com a bibliotecária Edelma, que, com sua dedicação à profissão, me fez perceber que poderia fazer algo efetivo pela sociedade, por meio deste fazer profissional. Também vale lembrar, neste momento, o amigo Felipe, ex-aluno do curso de Administração de Empresas da UFC, que me ajudou a compreender que o único limite do ser-humano é ele mesmo quem o impõe. Ajudou-me, pacientemente, nos estudos para o vestibular. É a ele também que agradeço a superação de alguns obstáculos para chegar até aqui. Agradeço aos meus pais e minhas irmãs pelas orações constantes a cada prova de vestibular que eu ia fazer. Com certeza isso também ajudou e muito no meu êxito nessas provas.

Em relação à monografia, tive a sorte de receber os conselhos e sugestões de um grande número de amigos, colegas e professores que se deram ao trabalho de ler esta peça acadêmica, em vários estágios de sua preparação. Devo, primeiramente, expressar meus agradecimentos à Profª. Lúcia Mara Braga, que, ao sugerir a leitura do livro “Biblioteconomia: dimensão social e educativa”, de Fátima Portela Cysne, levou-me, de forma inconsciente, a enveredar pelas trilhas que propiciaram o primeiro encontro com algumas questões presentes em meu objeto de estudo. Também agradeço a autora da referida obra, que, ao elaborar tão valioso estudo, me fez despertar para a pesquisa na área curricular. Outro fato que me estimulou a chegar até aqui, foi a relação que vinha cultivando com alguns alunos do Curso de Ciências Sociais, de quem, por algumas vezes, escutei as seguintes indagações: O que leva alguém a fazer Biblioteconomia? Por que vocês do Curso de Biblioteconomia são conhecidos na Universidade como apolíticos? A partir deste momento (segundo semestre), já sabia que iria desenvolver um estudo na monografia que relacionasse os conhecimentos da Biblioteconomia com a nossa política social vigente.

A partir da elaboração do projeto desta monografia, recebi a valiosa sugestão do Prof. Msc. Márcio Assumpção. Agradeço-lhe pela paciência em orientar-me no projeto, tanto em salade-aula, quanto nos momentos em que estava em casa e não sabia como avançar com minhas questões de pesquisa e lhe telefonava algumas vezes por volta das 22 horas, temendo não superar o desafio. Portanto, agradeço-lhe, tanto pela tolerância em atender às minhas ligações, como pelas provocações que contribuíram para consolidar a escolha do objeto deste estudo. As suas palavras ainda ecoam em meus labirintos neurais: “Não vejo a relação do neoliberalismo com os currículos do curso. E se não tiver nada a ver, o que você vai fazer?” E isto não soava apenas como uma rima. Diante dessas palavras, o incentivo em caminhar nos estudos acerca deste tema foi se tornando cada vez maior, além da curiosidade que se tornava sempre mais aguçada sobre o tema. Outra valiosa sugestão que recebi foi do Prof. Dr. Antônio Wagner Chacon, pois quando eu não sabia como desenvolver minhas questões de pesquisa e nem elaborar os objetivos, ele me disse: Vá ler!! Num primeiro momento, pensei que era porque ele queria se ver livre de tantas questões que eu o fazia, mas depois compreendi o porquê de ele ter-me dito essas palavras.

Lembro-me, também, do Prof. Msc. José Estevão Arcanjo, do Departamento de Ciências Sociais, que havia lecionado a disciplina de Introdução à Ciência Política, que pensava cursar em nível de graduação. Recordo-me que ele havia comentado acerca do neoliberalismo em sala-de-aula. Procurei a sua ajuda e, mesmo sem tempo suficiente, foi sempre atencioso em relação ao projeto da monografia e seu desenvolvimento. Agradeço-lhe pela paciência, embora seja de outro departamento, foi-me cativando e despertou em mim um grande carinho e admiração. Outros professores do mesmo departamento, Profª. Drª. Alba Pinho de Carvalho, e Profª. Drª. Maria Aparecida Lemenhe, que estavam sempre de ouvidos atentos a escutar-me e a sugerir bibliografias, na disciplina “Teoria Sociológica Clássica”, as quais utilizei nesta monografia quando abordei os temas do Capitalismo e do Neoliberalismo.

Em relação aos outros departamentos, agradeço também a ajuda dos Professores Sander e Assis, do Departamento de História, por emprestarem livros acerca de História do Brasil e sobre o Neoliberalismo, além de me fazerem também visualizar a relação entre os currículos do Curso com o sistema neoliberal. Gostaria de citar aqui a ajuda do Prof. Dr. Eduardo Chagas, do Departamento de Filosofia, pela sua colaboração em relação ao Neoliberalismo, por suas conversas acerca deste tema, além do convite para integrar o seu grupo de estudos sobre Hegel, do qual participei durante três meses, porém, não pude continuar devido os estágios. É que, quando alcançamos os semestres mais avançados do curso, paradoxalmente, deixamos de viver mais intensamente nossa relação com a universidade, pois temos de negociar o tempo entre o estágio e a permanência na instituição.

O Prof. Dr. Casemiro Silva Neto, desde o segundo semestre, já me orientava em relação à idéia do que estudar na monografia, que, como ele sabe, sempre foi o Neoliberalismo aliado a algum conhecimento da Biblioteconomia. Em todo o desenvolvimento deste estudo deume valiosas sugestões, passando suas sextas-feiras à noite e os sábados na UFC, a fim de incentivar-me e dar coragem para terminar este desafio. Além de ter a paciência de ouvir-me quando ligava para sua casa dizendo que achava que não ia conseguir terminar. Agradeço-lhe a paciência, a dedicação e os créditos em mim depositados, quando nem eu mesma mais acreditava na consecução deste empreendimento. Agradeço, profundamente, à Profª. Drª. Virginia Bentes Pinto, a quem dedico um grande carinho e admiração. Desde a gestação desta monografia (o

projeto), quando ainda estava no Canadá, no pós-doutorado, deu-me valiosa colaboração, além da orientação oficial. Quando chegou de viagem, convidei-a para ser minha orientadora e ela, gentilmente, aceitou. Teve a paciência de orientar-me durante os três semestres de elaboração da monografia, experiência que não deve ter sido fácil. Deu-me valiosas sugestões, as quais irei levar para o resto da vida, e penso ainda em transmitir este legado da ajuda ao próximo aos meus filhos. Ensinou-me, antes de tudo, a lutar por aquilo em que acreditamos, principalmente, através do seu exemplo, como nos pede Frei Betto nesta passagem recolhida de seu poema “Ensina a teu Filho”. Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz se se unir àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este País livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.

Jonathas Luis Carvalho Silva, amigo querido (discutimos várias vezes acerca do Curso de Biblioteconomia, do qual, orgulhosamente, fazemos parte). Jonathas passou-me uma lista bibliográfica que poderia ajudar-me na elaboração deste estudo, incluindo até mesmo sua monografia. Agradeço-o pela atenção quando o ligava para perguntar as normas de catalogação e normalização. Renatha James Diógenes Pinheiro, amiga querida, pela força que vem me dando desde quando a conheci. Guardo-a no coração como uma dessas jóias que precisam estar no lugar mais seguro, e dela nunca temos a coragem de nos desfazer. Ah! Como não poderia esquecer, também gostaria de citar aqui os colegas do Movimento Estudantil do qual fiz parte, o DCE da UFC. Pessoas que confiaram nas minhas idéias e ideais. Agradeço a compreensão na minha ausência em algumas reuniões por conta da monografia. Aproveito para sublinhar o respeito que tiveram por mim e a forma como passaram a enxergar a Biblioteconomia. Agradeço a confiança e o convite para ser diretora do DCE, delegando-me a diretoria de Integração Universidade e Sociedade. Gostaria de citar aqui alguns desses membros: Luisa Cela (Psicologia), João Wilson Damasceno (Administração de Empresas), Roger Cid (Filosofia), dentre outros.

Agradeço, ainda, à Irmã Natalina, da Congregação das Religiosas da Sagrada Face, italiana com hábitos brasileiros, grande incentivadora que foi durante todo o estágio da minha vida humana e acadêmica. Sempre com seus ouvidos atentos a ouvir-me, orientar-me, incentivarme. Outra pessoa muito importante neste processo foi o Irmão Wilaci, da mesma congregação, também sempre disposto a escutar-me, continuamente, como ninguém. Estas são duas pessoas

maravilhosas que encontrei na minha vida. Levarei seus exemplos até os últimos dias de minha vida. Por último, mas não menos importante, a Raimundo Cordeiro de Abreu (Aluisio), que vinha fazendo parte da minha vida durante um pouco mais de dois anos, porém sempre atencioso e incentivador. Acho que ele também acreditava mais em mim do que eu mesma. Por isso, mesmo distante, sempre me incentivou.

Chego ao final com a sensação do dever cumprido e com a certeza de que, qualquer escrito acerca de história política e econômica, depende de uma paciência ilimitada, porém aliada aos conhecimentos sobre Biblioteconomia e Sociologia tornou-se um trabalho, antes de tudo, prazeroso. Ratificando, a minha enorme gratidão aos professores Casemiro Silva Neto e Virginia Bentes Pinto, levarei comigo pelo resto da vida, pelos amigos e, antes de tudo, professores, orientadores, que embora não tenham sido professores de sala-de-aula, ensinaram-me não apenas acerca dos estudos biblioteconômicos, mas acerca da vida. Os seus nomes deveriam estar impressos na página de rosto. Os erros que escaparam aos seus olhos treinados (e aos dos leitores anteriores) ficam sendo de minha inteira responsabilidade. Gostaria de terminar com uma frase do escritor francês Antoine de Saint-Exupèry, no seu livro “O Pequeno Príncipe”: “Tu julgarás a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar aos outros. Se conseguires julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio”.

ENSINA A TEU FILHO Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juizes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juizes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados. Jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.

Ensina a teu filho que não ter talento esportivo, ou rosto e corpo de modelo, e sentirse feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.

Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais férteis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou, mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.

Saiba teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas e prédios públicos são hoje chamados de “bandidos”, como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nas ferrovias inglesas e Martin Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.

Ensina a teu filho que pioneiros e profetas de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados pela elite de seu tempo como subversivos, malfeitores, visionários.

Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de sua vida no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra,

uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita da mesma matéria-prima dos lixeiros de Vitória que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.

Ensina a teu filho a evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que nos tenta incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética.

Saiba teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo do português, de Angelim e Frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, Dom Hélder Câmara e Chico Mendes.

Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz caso se una àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.

Ensina a teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem escrúpulos e, se a maioria tiver a mesma reação, será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros, imerecidamente, tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.

Cultiva nele os desejos do espírito.

Saiba teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita. Frei Betto

RESUMO

Apresenta um estudo acerca da formação do bibliotecário na Universidade Federal do Ceará (UFC) e sua relação com o sistema capitalista neoliberal. Busca elementos no contexto sócio-político-econômico brasileiro que provocaram as mudanças nos currículos de formação do bibliotecário em nível nacional e em nível local (Ceará). Analisa os currículos do Curso de Biblioteconomia, dos anos de 1995 e de 2005, na UFC, buscando perceber se o sistema neoliberal influenciou na formulação desses currículos, tentando visualizar os elementos do sistema neoliberal presente no conteúdo das ementas. Para tanto, as ementas dos referidos anos foram analisadas através do método comparativo e, para visualizar as influências do sistema neoliberal, foi utilizada a Análise de Conteúdo. Os resultados apontaram tanto as influências do neoliberalismo, quanto os momentos em que os currículos se recusam a corroborar com o sistema sócio-político-econômico no decorrer da história brasileira. Afirma que a Biblioteconomia há algum tempo vem convivendo com o dilema hamletiano: ser ou não ser. Palavras – chave: Biblioteconomia. Educação Superior. Neoliberalismo. História do Brasil.

ABSTRACT

It presents a study about the formation of the librarian at the Federal University of Ceara (UFC) and their relation to the neoliberal capitalist system. Search elements in the socio-politicaleconomic Brazil that caused the changes in the curriculum for training of biliotecário at national and local level. Analyze the curricula of the Course of Librarianship, the years of 1995 and 2005, the UFC, seeking realize that the system neoliberal influence in the formulation of curricula, trying visualisar the elements of the neoliberal system present in the content of the menus. For both, the menus of those years were analyzed using the comparative method, and for visualisar the influences of the neoliberal system has been used to Content Analysis. The results indicated both the influences of neoliberalism, as the moments where the curricula are refusing to corroborate with the system socio-political-economic in the course of Brazilian history. Affirms that the Library for some time is living with the dilemma hamletiano: to be or not be.

Keywords: Library. Higher Education. Neoliberalism. History of Brazil.

LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Primeiro Ciclo (1965)................................................................................................36 Quadro 2 - Ciclo Profissional (1965)............................................................................................36 Quadro 3 - Semestre I (1988).......................................................................................................42 Quadro 4 – Semestre II (1988).....................................................................................................42 Quadro 5 - Semestre III (1988)....................................................................................................42 Quadro 6 – Semestre IV (1988)....................................................................................................42 Quadro 7 – Semestre V (1988).....................................................................................................43 Quadro 8 – Semestre VI (1988)....................................................................................................43 Quadro 9 – Semestre VII (1988)..................................................................................................43 Quadro 10 – Semestre VIII (1988)...............................................................................................43 Quadro 11 – Semestre I (1995).....................................................................................................44 Quadro 12 – Semestre II (1995)...................................................................................................44 Quadro 13 – Semestre III (1995)..................................................................................................44 Quadro 14 – Semestre IV (1995)..................................................................................................44 Quadro 15 – Semestre V (1995)....................................................................................................45 Quadro 16 – Semestre VI (1995)..................................................................................................45 Quadro 17 – Semestre VII (1995)................................................................................................45 Quadro 18 – Semestre VIII (1995)...............................................................................................45 Quadro 19 – Disciplinas Optativas (1995)...................................................................................46 Quadro 20 – Comissão da Reforma Curricular (2005).................................................................71

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 15 2 DIMENSÕES SÓCIO-POLÍTICAS NA FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO ............. 20 2.1 Os currículos no Brasil ......................................................................................................... 20 2.2 Os currículos no Ceará......................................................................................................... 33 2.2.1 Os modelos de 1965 a 1995 ................................................................................................. 35 3 NEOLIBERALISMO: TRAJETÓRIAS, ALCANCES E IMPLICAÇÕES ...................... 47 3.1 Antecedentes Históricos ....................................................................................................... 47 3.2 Influências na Educação ...................................................................................................... 57 4 AGENCIAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS ..................................................... 65 5 O CURRÍCULO DE 2005 E O NEOLIBERALISMO: auscultando o objeto ..................... 69 5.1 Sedução e Temor ................................................................................................................... 69 5.2 A Reforma curricular: ditos e não-ditos............................................................................. 71 6 DISCIPLINAS E EMENTAS: análises, discussões e sentidos .............................................. 74 7 REFLEXÕES CONCLUSIVAS ............................................................................................. 92 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................... 96

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1 INTRODUÇÃO
As pessoas que não têm uma idéia clara do que entendem por informação, ou do motivo pelo qual deveriam querê-la tanto, estão, ainda assim, dispostas a acreditar que vivemos na era da informação, que torna cada computador aquilo que as relíquias da Santa Cruz representavam na idade da fé: símbolos de salvação. Theodore Roszak

O interesse por este estudo, num primeiro momento, pode ser associado à escolha pela formação em Biblioteconomia, no ano de 2004, porém a consolidação desta iniciativa advém das preocupações e discussões, amiúde, em torno da formação do bibliotecário nos espaços da universidade naquela época. Além do fato de havermos vivenciado, de perto, as mudanças relativas ao currículo de 2005 e, nesse contexto, ter identificado a intensidade com que se expressava o dilema acerca dos rumos ou da identidade que o curso deveria expressar. Isto é, devia possuir feições técnicas ou humanistas? “Ser ou não ser 1”, para usar a conhecida expressão shakespeariana, representa talvez uma das principais questões que há muito vem interpelando docentes e discentes. Noutros termos, significa também perguntar pela relação do curso com o modelo do neoliberalismo.

O trabalho não pleiteia o status de produção acadêmica inédita, uma vez que muitos autores já abordaram o tema em nível nacional, nem pretende preencher ou reparar eventuais lacunas deixadas pelos estudos e pesquisas anteriores. Contudo, ele colabora com as reflexões que procuram pensar, criticamente, os caminhos trilhados pelas profissões, em geral, e em particular a do bibliotecário. A novidade que a ele pode ser creditada, decorre do fato de haver escolhido, como foco de estudo, o currículo implantado na Universidade Federal do Ceará - UFC, no ano de 2005. Sim, porque em nossas primeiras buscas sobre o assunto, identificamos que os estudos mais recentes acerca do currículo de Biblioteconomia, nesta instituição, foram elaborados somente em 1990 e 1993, graças às iniciativas das professoras Fátima Costa e Fátima Portela, respectivamente.

Acontecimentos históricos e revoluções sempre tiveram influência na construção das sociedades e nos rumos da trajetória humana, incluindo as profissões. Basta volver o olhar

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Sobre o referido dilema, ver Hamlet, de William Shakespeare, publicado pela primeira vez por volta de 1603. Ou, conforme McCAUGHREAN, Geraldine. Hamlet e outras histórias. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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na perspectiva do reencontro com o passado, para identificarmos, por exemplo, as mudanças ditadas pela Revolução Industrial, em suas três versões2. Cada uma colabora com os questionamentos que este trabalho pretende desenvolver, porém é na terceira versão que se encontra o significado de nosso interesse maior. Mas por que razão? É que se trata da substituição das máquinas grandes e pesadas do industrialismo pela miniaturização e leveza das novas tecnologias de informação e comunicação. Esses equipamentos, cujos símbolos mais representativos são o computador e a informática, propiciaram a emergência do modelo de globalização econômica (neoliberal) em curso; a reconfiguração dos sistemas social, político, cultural e cognitivo. Isto é, as formas de pensar e de fazer, no âmbito das diversas profissões atuais. E, neste contexto, ai daquelas atividades que se insurgirem contra o mundo inaugurado pelas competências tecnológicas, com suas redes e processos de informação, pois, certamente, estarão destinadas ao desaparecimento, ao descrédito ou ao anonimato, condição que também não deixa de ser um modo de inexistência.

Não por acaso, o campo da Biblioteconomia vem tomando novos direcionamentos práticos e teóricos, ou seja, deixando de centrar-se no paradigma do acervo (documento), que é algo de natureza material e pesado, para acertar suas contas com o paradigma da informação, caracterizado pela imaterialidade, leveza e rapidez dos fluxos informacionais. Vários estudiosos pesquisam ou já pesquisaram sobre este assunto, que tem relação com a atuação profissional do bibliotecário. E como não? Ora, compreender a maneira como este profissional encontra-se atuando no mercado implica, antes de tudo, entender o modelo educacional que o formou, e em que condições ele continua sendo formado, preparado, no momento presente. Dito de outro modo, significa adquirir familiaridade com a história das Escolas de Biblioteconomia, no que concerne ao modo como estas instituições de ensino pensaram e ainda pensam a formação de seus alunos. Como podemos observar, a formação universitária, de qualquer área profissional, ainda está basicamente concentrada no fiel cumprimento de seu currículo. E, no caso do bibliotecário, é este dispositivo disciplinar3 que constitui o objeto de estudo desta monografia.

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As duas primeiras desvalorizaram, respectivamente, o trabalho muscular, e o trabalho mental de rotina. Cf. KUMAR, Krishan. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
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Refere-se à forma como os currículos dispõem sobre a obrigatoriedade do cumprimento das disciplinas, mesmo levando-se em conta as flexibilizações sugeridas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

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É claro que sempre existiu informação4, mas a partir da Segunda Guerra Mundial, principalmente, é que esta matéria-prima vira conceito e ideologia, passando a conquistar cada vez maior status, chegando até mesmo a predicar a sociedade em que vivemos, denominando-a Sociedade de Informação. Este fato concorreu para que o bibliotecário, a despeito de alguma resistência, se aliasse aos novos meios tecnológicos de informação. Por um lado, tendo como objetivo atender às demandas e exigências do momento presente e, de outro, procurando legitimar seu trabalho no contexto das novas performances e competências profissionais. Este acontecimento, parafraseando o historiador Roger Chartier (1997) “está quebrando os muros das bibliotecas”, propiciando o acesso dos especialistas da área (ou não) a vários outros espaços, cujo material de trabalho é a informação em quaisquer suportes, seja físico ou não-físico, tradicionais, como a linguagem do ser humano, os livros, ou modalidades contemporâneas. Estas englobam, por exemplo, telefone móvel (dito celular), videocassete, televisão de alta definição, DAT (digital audio tape), MD (minidisco digital óptico), videodisco (DVD), disket’s, cd‟s, videogames. Sem esquecer a internet, território das informações ciberespaciais ou ciberculturais.

Foram vários os momentos em que modificações se fizeram necessárias nos currículos dos cursos superiores de Biblioteconomia no Brasil, a fim de acompanharem a evolução da sociedade no que diz respeito ao suporte e às demandas informacionais, mas também aos aspectos que concernem às formas de gerenciamento. A gestão da informação, por exemplo, surge como mais um dos campos de trabalho para este profissional, onde o que lhe compete é cuidar do fluxo da informação e da acessibilidade desta para o usuário, na velocidade e na forma como ele deseja. Assim, disciplinas foram retiradas, acrescentadas, ou renomeadas nos currículos, mas não sabemos se foram realizadas mudanças substanciais. Isto é, se realmente aconteceram alterações nas ementas, nos objetivos do curso e nas disciplinas, uma vez que o conjunto destes dispositivos deve orientar-se de acordo com as transformações sociais. De igual modo, os conteúdos programáticos também devem estar aliados ao contexto onde o bibliotecário está inserido, para evitar o alheamento à sua realidade.

4

Desde os nossos órgãos sensoriais, atravessados ao longo da história pelas linguagens e as escritas, até chegar as mais recentes invenções técnico-midiáticas sempre mais sofisticadas.

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É, pois, no território destas e outras questões, complexas e desafiadoras, que este trabalho monográfico ousa se inscrever. Aliás, sobre a importância de iniciativas acadêmicas com esta finalidade, é assim que Cysne (1993, p. 13) se expressa de modo incisivo:

Sem uma proposta de formação para o bibliotecário, fica difícil a elaboração de um currículo que se aproxime do ideal, até porque ainda não há traçado um perfil do bibliotecário que seja consenso e não se tem explicitado que currículo ideal seria esse.

Ao longo do desenvolvimento deste estudo, mobilizamos formas de percepção teóricas e práticas buscando responder à seguinte questão: O Neoliberalismo influenciou na reformulação do último currículo do Curso de Biblioteconomia da UFC? Para tentar responder a esse questionamento, foi assim que definimos os nossos objetivos. Geral: identificar marcas da presença do Neoliberalismo no currículo de formação do bibliotecário cearense implantado em 2005. Específicos: visualizar a cultura em que se dá a formação do bibliotecário, através das trajetórias e memórias dos currículos de Biblioteconomia no Brasil; sublinhar os elementos de caráter sócio-políticos que demandaram as mudanças na estrutura curricular do Curso de Biblioteconomia criado e implantado pela Universidade Federal do Ceará - UFC; comparar se as mudanças nas terminologias de algumas disciplinas e nos textos das ementas de 1995 e 2005 alteraram as substâncias de seus conteúdos.

No entanto, não basta realizar estudos sobre as demandas, temos que realmente modificar o PPP (Projeto Político Pedagógico), bem como os currículos. Para Cysne (1993, p. 103), "as mudanças com relação às concepções de formação e prática profissional foram acontecendo [...] lentamente, mesmo com as exigências de um novo currículo mínimo, aprovado em 1982 e implantado em 1985”. Com base no que afirma essa autora, também não podemos deixar de indagar sobre os currículos dos tempos ditatoriais. O que será que mudou da década de 1960 para a de 1980? E entre a de 1980 e o século XXI? Houve, realmente, mudanças estruturais nesses currículos? Que fatores concorreram para estas mudanças? Os currículos acompanharam o desenvolvimento científico e tecnológico da sociedade em geral, e do contexto em que estavam inseridos? Todas estas questões também colaboraram com a motivação para esta pesquisa, mas não significa que serão respondidas. O desenho da monografia, além desta introdução e da conclusão, apresenta as seguintes partes: Dimensões Sócio-Políticas na Formação do Bibliotecário - contextualiza o

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objeto da pesquisa através do diálogo com diversos autores que analisaram a sociedade e a política do Brasil República, período em que surgiu o primeiro Curso de Biblioteconomia no País. As mudanças que se sucedem nessa trajetória histórica, irão contribuir tanto para a implantação de outros cursos, como para os ajustes de seus respectivos currículos às demandas sociais. Neoliberalismo: trajetórias, alcances e implicações - base teórica, cujas características e categorias desta visão de mundo servem de ferramentas para as análises das influências que ela exerce sobre a formação dos currículos de 1995, e de 2005, com ênfase neste último currículo. Agenciamentos Teórico-Metodológicos - apresenta as formas de encaminhamento teórico e de análises ou tratamento do material empírico. O Currículo de 2005 e o Neoliberalismo: auscultando o objeto - reporta-se ao processo de atualização, do referido currículo, com seus desejos e temores diante do assédio da sociedade neoliberal. Disciplinas e Ementas: análises, discussões e sentidos - responsável pelas análises comparativas das disciplinas e ementas dos currículos de 1995 e 2005, visando a identificar influências dos princípios neoliberais no último currículo atualizado.

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2 DIMENSÕES SÓCIO-POLÍTICAS NA FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO

2.1 Os currículos no Brasil

Este capítulo revisita acontecimentos do Brasil Republicano, uma vez que o primeiro curso de Biblioteconomia do País surgiu logo após a implantação desse regime político. Durante o percurso, buscamos perceber como era a grade curricular desses primeiros cursos a fim de verificar se estava em consonância com a realidade do País àquela época. Em seguida, avançamos pela história do País até chegar ao foco principal desta pesquisa, que é a formação do bibliotecário na Universidade Federal do Ceará (UFC), tentando visualizar os fatores que influenciaram as mudanças nas estruturas dos currículos e, dessa maneira, identificar o perfil do bibliotecário que esta instituição acadêmica vem formando, desde o surgimento do curso até nossa atualidade, com ênfase no currículo de 2005.

Nos dez anos iniciais do século XX, a primeira maior cidade, em tamanho, era o Rio de Janeiro, a capital da nação e “principal porto de entrada, passou pela transformação mais importante de todas”. (HAHNER, 1993, p. 168). Foi beneficiada pelo Governo Federal, que a embelezou e higienizou, para atrair a elite e os convidados estrangeiros. Com a remodelação, a cidade ganhou ares de cidade européia, continente que continuava encantando os brasileiros. Desta forma, o Rio de Janeiro passou a reunir as características propícias para, dentre outras iniciativas relacionadas com a formação profissional, criar e implantar o primeiro curso de Biblioteconomia do Brasil.

Em 1911, foi instituído o Conselho Superior de Ensino (CSE), que tinha caráter consultivo. A criação desse órgão possibilitou a implantação das escolas de Ensino Superior. (RODRIGUES, 1997, p. 28). Antes dele, em 1890, foi promovida uma reforma por Benjamin Constant, que, segundo Lorenzo e Costa (1997, p. 75) “tinha por objetivo essencial transformar o ensino secundário, até então propedêutica útil aos poucos que iriam cursar o ensino superior, em ciclo integral de formação científica e humanística [...]”. Essa reforma era destinada a avaliar a vida escolar global do aluno, a maturidade que alcança ao realizar o seu plano de estudos. (LORENZO; COSTA, 1997, p. 75). Tratava-se de um sistema baseado no baccalaureat francês, e dava acesso direto à matrícula nos cursos superiores sem passar pelo exame vestibular, uma vez que era analisada toda a vida estudantil do aluno.

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Portanto, foi baseado nos moldes europeus, mais especificamente da França, que nasceu o primeiro Curso de Biblioteconomia do Brasil. Tendo sido planejado para atender às necessidades da Biblioteca Nacional, fez parte do Regulamento da própria instituição e seguiu as pistas dos padrões humanísticos da reforma de Constant, e os ideais franceses, como podemos visualizar no seu primeiro currículo. Esse padrão de formação é o da Escola de Chartes de Paris, pois esta, ao lado da Columbia University, com ensino pautado no modelo pragmático e tecnicista, eram os dois exemplos nos quais as Escolas de Biblioteconomia do mundo, a partir do século XIX, se inspiravam. Seu currículo era composto de “quatro disciplinas: Bibliografia, Paleografia e Diplomática, Iconografia e Numismática”. (MATOS, 1977 apud SOUZA, 1990, p. 33). Em seguida, Fonseca (1979 apud SOUZA, 1990, p. 33) afirma que “os conteúdos técnicos de catalogação, classificação, organização e administração de bibliotecas, eram ministrados na disciplina de bibliografia”. Corroborando esta visão, Silva (2006, p. 41) afirma que “a composição do currículo do curso era compreendida pelas áreas e disciplinas: Bibliografia (Administração de Bibliotecas, Catalogação); Paleografia (Cartografia); Iconografia (Silografia e Filatelia).”

O curso visava muito mais ao atendimento à mão-de-obra da Biblioteca Nacional, que servia a uma elite alfabetizada, representada pela classe que dirigia o País, isto é, os latifundiários, ou filhos destes, que tinham oportunidade de estudar na Europa, e de contato com um sistema educacional mais organizado e estruturado do que o nosso. Aos alunos não era oferecida, em sua formação, uma disciplina como espaço crítico, que lhes possibilitasse analisar o contexto em que estavam inseridos, isto é, para que tipo de sociedade eles iriam trabalhar. Visualiza-se, nesse período, uma formação alheia ao seu contexto, porque se tratava de um modelo importado da Europa, cuja realidade contava com um ensino estruturado, com uma economia e uma cultura que faziam com que outros países, dentre eles o Brasil, o adotassem como parâmetro de civilização.

Não são raras as discussões a respeito da predominância do gênero feminino na área em estudo. Mas o que a história tem a dizer sobre isso? Há registros dando conta de que, no mesmo período em que o curso de Biblioteconomia estava começando a se espalhar pelo mundo, ou seja, no final do século XIX, percebeu-se uma grande procura de mulheres pela

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profissão. Aliás, Kremer (2006) afirma que Melvil Dewey tinha a seguinte opinião acerca da entrada de mulheres no curso de Biblioteconomia criado por ele:
Contra as ordens expressas dos curadores da Columbia University, ele [Dewey] abriu as portas às mulheres, que já somavam dezessete dos vinte alunos da primeira turma. Foi por esse motivo demitido da universidade, pouco depois. Em 1889, mudou a sua escola para a University of the State of New York em Albany, com um curso de dois anos em nível de graduação.

Além da questão de gênero, posta pela citação acima, percebemos que, tanto no início do século XX, quanto em seu final, e no limiar do século XXI, a Biblioteconomia brasileira é importada sempre dos países que a tem dominado tanto em sua economia, quanto em sua cultura, conseqüentemente. Primeiramente, foi dominada pelos padrões europeus, uma vez que o consumo de produtos desse Continente era grande na década de 1910, “especialmente por setores de grande poder aquisitivo, cujos hábitos eram pautados por padrões europeus”. (RODRIGUES, 1997, p. 36) Praticamente tudo, na primeira década do século XX, era submetido ao modelo europeu, indo da vida social, passando pela economia, alcançando a educação e, claro, também a Biblioteconomia. Primeiro, foi uma Biblioteconomia importada da Europa e, após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos emergiram como potência bélica e econômica, o modelo importado seguia as normas e padrões dos ianques.

O modernismo estava modificando a maneira de pensar das pessoas e ensejando o aparecimento de várias posturas em relação a ele. Dentre elas, encontramos o “movimento verde-amarelo, que tem como proposta, abandonar as influências européias e fixar-se na originalidade brasileira [...] e o movimento antropofagia, que propõe a apropriação das influências européias [...]” (LORENZO; COSTA, 1997, p. 191). Mas a Biblioteconomia esquivou-se ante o movimento antropofágico, uma vez que se aliou ao modelo francês em suas escolas, importando-os, sem adaptar à realidade local, como se a cultura, o modo de vida e a economia francesa seguissem os mesmos parâmetros dos modelos brasileiros. Muitos autores falam de um alheamento contextual no ensino de Biblioteconomia nas duas primeiras décadas do século XX. Nesse período, “há um crescente processo de burocratização, aparelhamento estatal [...]” (LORENZO; COSTA, 1997, p. 94). Esta burocratização torna-se perceptível tanto no cenário político, do aparelho do Estado, quanto em algumas profissões, principalmente, as de cunho liberal, como a profissão de bibliotecário.

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Se, no início do período republicano, os governantes estavam preocupados em relação à educação do País, mesmo que para prover os seus interesses, parece que acabaram esquecendo dos seus ideais de progresso, pois, como afirma Lorenzo e Costa (1997, p. 192) “na década de 1920, o Brasil tinha 35 livrarias em todo o país.” Como falar em progresso, em “importação” do modelo parisiense, se contávamos apenas com, aproximadamente, uma livraria para cada Estado da nação? Este fato nos leva a inferir sobre o tipo de educação que os dirigentes idealizaram para o País, recolocando a indagação acima nos seguintes termos: como anunciar progresso na educação, no primeiro decênio da república, se eram poucas as instituições de Ensino Superior? E educação genuinamente brasileira, se quando vamos analisar a história da educação, no Brasil, não percebemos um modelo pautado também no ensino dos primeiros habitantes desta Pátria?

O Curso da Biblioteca Nacional perdurou até 1922, pois os diretores do Museu Histórico Nacional, em 2 de agosto de 1921, resolveram criar um curso técnico, que tinha por objetivo precípuo capacitar profissionais para atuarem, tanto na Biblioteca Nacional, quanto no Arquivo Público. Segundo os Anais da Biblioteca Nacional (1916, p. 317) o curso da BN “para ajustar-se à nova situação substituiu o Regulamento da Bibliotheca, de 6 de Setembro, o sobredito curso profissional denominado de Biblioteconomia, pelo instituído no Museu Histórico”. Vale ressaltar que este curso efetivamente nunca ocorreu, o que interrompeu e atrapalhou por um bom período o desenvolvimento do ensino envidado pela BN (que retornou em 1931, com repercussão nas imprensas carioca e mineira).

A partir da década de 1930, é possível perceber que a cidade de São Paulo havia começado a se modernizar já na primeira década do século XX, por isso, começou a atrair para o seu território, em conseqüência do desenvolvimento do comércio cafeeiro, “a instalação de ferrovias e, mais tarde, de rodovias em regiões que ainda não eram produtivas”. (LORENZO; COSTA, 1997, p. 47). Embora o Rio de Janeiro permanecesse como a capital cultural do país, percebemos que, à medida que há o desenvolvimento de novas forças produtivas na economia paulista, os fatos e as transformações sociais surgem com maior força em São Paulo. (LORENZO; COSTA, 1997, p. 241). Iniciava-se, neste momento, uma invasão do modo de ser norte-americano em todo o mundo, porém de forma mais amena do que no período pós-Segunda Guerra Mundial. O que era ditado segundo os padrões europeus, estava passando a ser visto sob a ótica do modo de vida estadunidense. A sociedade brasileira estava

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começando a visualizar outras formas de modernização, a partir da sociedade industrial e do desenvolvimento tecnológico.

O automóvel, identificado como símbolo de modernidade, fazia com que passado e presente se encontrassem num mesmo espaço de tempo nas ruas brasileiras, representados pelas carroças puxadas por animais, pela expansão dos bondes elétricos, trens e automóveis. Lorenzo e Costa (1997, p. 161) corroboram esta visão afirmando que “as noções de moderno versus antigo, tão disseminadas no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, iam sendo desenhadas à medida que o uso das novas técnicas possibilitava modernização dos costumes e da vida cotidiana.” No momento em análise, a energia elétrica invadiu as indústrias, as ruas e as casas brasileiras, fazendo desaparecer a iluminação a gás. Neste contexto, em que a cidade de São Paulo estava inserida em 1936, surge o segundo curso de Biblioteconomia do Brasil, instalado no Mackenzie College, inspirado no modelo que grande parte da sociedade pósSegunda Guerra Mundial estava adotando, ou seja, o modelo norte-americano.

O segundo Curso de Biblioteconomia foi implantado em 1929 e instalado no Mackenzie College, (atual Instituto Prebisteriano Mackenzie). Este curso tinha um caráter mais técnico e visava a preparar os funcionários da própria instituição. O ensino paulista teve como marco inicial a Biblioteca Escolar George Alexandre, do Mackenzie College (1886), e passando já no início do século XX para a biblioteca pública. O curso de São Paulo foi dirigido por Dorothy M. Geddes Gropp, uma bibliotecária ianque, que foi para aquela instituição com a finalidade de auxiliar e orientar a organização da biblioteca, além de substituir temporariamente a diretora Adelpha Silva Rodrigues de Figueiredo (primeira brasileira a freqüentar o curso de Biblioteconomia no Brasil e primeira bibliotecária brasileira a ter um nível superior), que se ausentou para fazer um curso de Biblioteconomia nos EUA. O curioso é que a vinda de Dorothy suscitava comentários do tipo: "Será que para se colocarem livros nas prateleiras há necessidade de se importar uma técnica americana?"

O Curso de Biblioteconomia do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo foi criado em 1936, por Rubens Borba de Moraes, e teve como professores e coordenadores, Adelpha Figueiredo e o próprio fundador. Este curso fora cancelado e extinto pela Prefeitura de São Paulo em 1939, pelo prefeito Prestes Maia, que alegou que a formação não tinha utilidade e viabilidade. Contudo, o curso foi reaberto em 1940, e transferido para a

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Escola de Sociologia e Política de São Paulo (hoje denominado de Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), onde ganhou status de nível superior e existe até hoje.

Pelo seu histórico, São Paulo teve em relação ao ensino de Biblioteconomia um perfil mais “norte-americano”, que chegou a influenciar também os cursos do Rio de Janeiro e até mesmo o da Biblioteca Nacional. Em 1940, o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), do Rio de Janeiro, criou um curso intensivo de Biblioteconomia, que funcionou até 1944, dentro dos “moldes norte-americanos" adotados em São Paulo, constituído das seguintes disciplinas: Catalogação, Classificação, Bibliografia e Referência, Organização e Administração de Bibliotecas.

A partir de 1930, podemos visualizar uma nova era para o Brasil Republicano, que é a tão conhecida Era Vargas. Getúlio Vargas tomou posse da presidência da República em novembro deste mesmo ano, em caráter provisório. O país vivia na chamada política cafécom-leite, ou seja, a alternância no poder por políticos indicados pelos governos de Minas Gerais, maior produtor de leite e de São Paulo, maior produtor de café. O período anterior a 1930, fora governado por Washington Luís (1926-30), este deveria passar o poder para Júlio Prestes, que havia derrotado Vargas nas eleições de março. Contudo, percebe-se que a política do café-com-leite vinha se desestruturando desde a crise de 1929, e o principal motivo para o esfacelamento de tal política foi que Washington Luís, que deveria apoiar um mineiro para a presidência, resolveu apoiar outro paulista, Júlio Prestes. Com isso, o presidente de Minas Gerais revoltou-se e foi buscar apoio nos latifundiários do Rio Grande do Sul, que apontaram à figura de Vargas.

Vieram as eleições, Getúlio havia ganhado. Contudo, apontaram como vencedor Júlio Prestes, porém este nunca chegaria à presidência. Skidmore (1982, p. 21) corrobora este fato afirmando que “os militares mais graduados, dez dias antes, haviam deposto o governo legal do presidente Washington Luís (1926-30), com isso impedindo-o de dar posse ao candidato (Júlio Prestes) que, pelos resultados oficiais, havia derrotado Vargas na eleição presidencial de março”. O final desta saga ocorre com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, período conhecido como Revolução de 30. Entretanto, pode-se visualizar que não houve de fato uma

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revolução, uma vez que não aconteceram mudanças estruturais no país, como o teve na França, em 1789, quando o feudalismo deu lugar ao regime burguês.

Em 1934, o Brasil passou a ser regido por uma constituição que tinha por característica o hibridismo, pois concretizava tanto os ideais do liberalismo5 político, quanto os do reformismo econômico. Naquele período, Vargas já estava disseminando a idéia de que um regime aberto era inviável, então, observa-se que tanto no Brasil, quanto em todo o mundo político ocidental, o liberalismo estava perdendo terreno. Então, em 1937, aconteceu o golpe de Getúlio Vargas, que só foi possível porque a classe média, que manteria o equilíbrio nas eleições livres, estava dividida entre apoiar o tradicional constitucionalismo liberal ou o radicalismo independente, se de direita ou de esquerda. Com o caminho do regime autoritário brasileiro traçado, havia a permanência de um limitado desenvolvimento econômico no Brasil, além de um aumento crescente da população urbana e um rápido crescimento da população não alfabetizada.

Detendo-nos um pouco em relação ao labirinto da História, vamos observar que o Renascimento, em conjunto com o Humanismo e o Iluminismo, impuseram uma profunda alteração na visão de mundo, graças à substituição do teocentrismo pelo antropocentrismo. Neste período, o liberalismo surgiu como representação política e moral da sociedade moderna. (HOLANDA, 2001, p. 15). Uma das obras fundamentais que trata do Liberalismo Político Moderno é de autoria de John Locke, intitulada de Segundo Tratado sobre o Governo Civil (1690). Para Locke, tanto o estado de sociedade, quanto o poder político, nascem de um pacto entre os homens, pois é através do trabalho, que os homens passam a transformar as coisas e, desta forma, adquirem o direito de propriedade. Assim, os homens são livres para ordenar-lhes o agir e regular-lhes as posses e as pessoas de acordo com sua conveniência; porém é necessário um governo a fim de melhor proteger seus direitos. Segundo escreve Skidmore (1982, p. 57), “juntamente com o crescimento da responsabilidade federal, veio um crescimento da burocracia”. E a Biblioteconomia parece ter
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O liberalismo é uma doutrina econômica que vem passando, ao longo de sua existência, por um processo de mutação permanente. É uma expressão de uma visão do mundo, alicerçado no princípio de liberdade individual e fundamentado na racionalidade iluminista que representa o rompimento com a idéia de revelação e providência divina. E parte do pressuposto de que o homem é totalmente livre para se objetivar a si só. Como modo de vida e como teoria do Estado, estabelece normas de proteção aos cidadãos (proprietários) contra perturbações alheias ao cumprimento da lei. (HOLANDA, 2001, p. 16).

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absorvido esse sistema na formação dos alunos, que tiveram de encarar um currículo tecnicista, tanto quanto o governo em análise. Também afirma Skidmore (1982, p. 57) que o referido currículo “foi institucionalizado sob Vargas, com a criação do DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público), organismo federal montado em 1938”. Faz-se importante analisar a conjuntura sócio-política-econômica e cultural da época, pois, neste período, existe um forte movimento de renovação estética, espiritual, colocando em questionamento os esquemas tradicionais aceitos. A revolução de 30, embora tenha cerceado a liberdade do povo brasileiro, em muitos dos seus direitos, trouxe mudanças significativas para a produção intelectual brasileira, dentre elas, temos o aumento da produção acerca da política sociológica brasileira. Trindade (1979, p. 98) corrobora com esta visão afirmando que:
Se a Revolução de 1930 não tivesse gerado conseqüências sobre a evolução política, econômica e social do Brasil, teria tido, ao menos, o mérito de criar um período de produção intelectual dos mais fecundos. Dificilmente se encontra no passado um número tão significativo de obras de análise político - sociológica sobre a realidade brasileira.

Retomando a conjuntura sócio-político-econômica anterior, em 1931, o Curso de Biblioteconomia da BN, que havia sido fechado em 1922, reabriu. O currículo foi estendido para dois anos, porém não incorporou as disciplinas caracterizadas como técnicas. Além das disciplinas de Bibliografia, Paleografia e Diplomática, Iconografia e Numismática, foram feitas mudanças, ou seja, acrescentou-se a este currículo as disciplinas História Literária e Cartografia, e retirou-se a disciplina de Numismática. Continuou como um curso para atender às necessidades da BN, porém aberto para outros interessados.

Muitos brasileiros foram estudar Biblioteconomia nos Estados Unidos, dentre eles, Rubens Borba de Moraes e Adelpha Figueiredo. Em conseqüência desses estudos, foi criada a Escola de Biblioteconomia da Divisão de Bibliotecas da Prefeitura Municipal de São Paulo, em 1936. Neste momento, a Biblioteconomia transitou para os moldes norteamericanos e o seu ensino, em nível superior, começou a ganhar força, pois em 1935, foi criado o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Este departamento “foi constituído pela ação de uma elite culta e obstinada que via na cultura uma forma de aperfeiçoamento da sociedade. Dentro desta iniciativa, as bibliotecas ocuparam um espaço até então inédito para elas”. (MILANESI, 1986, p. 76).

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A Escola de Biblioteconomia da Prefeitura de São Paulo dava ênfase às questões técnicas e tinha duração de três anos. As disciplinas do curso eram: Catalogação, Classificação, História do Livro e Referência. Este curso fechou em 1939 e ressurgiu em 1940 como Escola de Biblioteconomia, anexa à Escola Livre de Sociologia e Política. De acordo com Castro (2000, p. 92), as disciplinas do referido curso eram: a) Organização e Administração de Biblioteca: cujo objetivo precípuo era oferecer aos alunos conhecimentos acerca de administração de bibliotecas e o modo de organizá-la. O conteúdo desta disciplina abrangia os diferentes tipos de bibliotecas e suas arquiteturas, legislação bibliotecária, serviços de atendimento aos leitores em geral e especiais: deficientes visuais, doentes e presidiários, critérios para seleção de pessoal, história das escolas de Biblioteconomia e associações de classes. Ainda, os serviços de seleção, aquisição e empréstimo, incluindo a conservação e o tratamento de revistas e jornais, cuja ênfase era a indexação de periódicos; b) Catalogação: destinava-se a capacitar os alunos a catalogar vários tipos de livros. Na parte teórica, estudavam-se os códigos e tabelas e a história da catalogação, os métodos de leitura técnica do livro, os tipos de catálogos e fichários, as regras de ortografia, pontuação e alfabetação e o estudo comparado dos catálogos sistemáticos e dicionários. Na parte prática, cor das fichas, técnicas de fichamento, os tipos de fichas remissivas, topográficas, analíticas e de série e as regras de alfabetação e arranjo dos catálogos; c) Classificação: estudo dos diversos tipos de classificação, antigos e modernos, com ênfase no Sistema Decimal de Dewey (CDD), além do conhecimento preciso da Library of Congress, dos Estados Unidos, e da Classificação Decimal Universal (CDU); d) Bibliografia e Referência: esta disciplina compreendia os princípios do serviço de referência, estudo das fontes bibliográficas e a prática do seu manuseio; e) História do livro: tinha por objetivo capacitar o aluno a compreender a evolução e o desenvolvimento do livro, com destaque para Portugal e Espanha, América do Norte e Sul e Brasil.

Mister se faz compreender que o material bibliográfico para as disciplinas era, na maioria, de língua inglesa e, em menor quantidade, espanhol e francês, este último devido ao curso da Biblioteca Nacional. Também se faz necessário visualizarmos na descrição acima a disciplina História do Livro, quando afirma que o seu destaque era para a história do livro de Portugal, Espanha, América do Norte e Sul e Brasil. Não é necessário muito esforço para compreendermos que a ênfase desta disciplina estava na história do livro dos países que dominou o Brasil político-econômico e culturalmente, por exemplo, Portugal foi o nosso

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colonizador durante muito tempo (mais de três séculos- 1500 a 1822); Espanha nos dominou durante a União Ibérica (período em que houve a passagem do trono português à coroa espanhola, como resultado de uma crise sucessória que pôs fim à dinastia de Avis- 1580 a 1649) e assim sucessivamente. A partir da década de 1940, os cursos começaram a disseminar-se no Brasil, e ficaram atentos aos novos métodos de organização baseados no Código de Classificação Decimal de Dewey (CDD), no Código de Classificação Decimal Universal (CDU) e nos Códigos de Catalogação (AACR). Corroborando esta afirmação, Barbosa (1979, p. 17) afirma que:
A década de 40 foi, no Brasil, inegavelmente a do início do desenvolvimento das modernas técnicas biblioteconômicas. Várias causas contribuíram para essa evolução, destacando-se entre nós: a atuação do recém-criado Departamento Administrativo do Serviço Público, através de seus concursos especializados, que formando melhores técnicos, abriram novas perspectivas de trabalho; a reforma da Biblioteca Nacional, dando aos futuros profissionais maior soma de conhecimento; o aperfeiçoamento de técnicos brasileiros nas universidades americanas e a criação de um serviço nacional de catalogação cooperativa – único, até hoje, na América Latina.

Na década de 1940, o curso de Biblioteconomia da Prefeitura de São Paulo fora transferido para a Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP) e, no currículo deste curso, foram feitas mudanças significativas em termos de conteúdos pedagógicos. Percebe-se, pois, que o caráter humanista e erudito da profissão vinha perdendo terreno para os aspectos técnicos americanos.

Contudo, mesmo com a censura já implantada no país, a partir da criação do DASP6, o Curso de Biblioteconomia se apresentava alheio à realidade ao seu entorno, pois mesmo com o controle exercido pelo referido órgão em diversas instâncias do cenário brasileiro, o curso fora aprovado e passou pelos olhos da censura. Isto demonstra uma Biblioteconomia alheia à sua realidade, dividida entre o fazer técnico e humanístico da sua profissão. Como o modelo ianque fora implantado, e este primava pela técnica, então os profissionais e os alunos do curso não ofereciam perigo, pois estavam muito mais preocupados em realizar o tratamento técnico da informação do que analisar a sociedade na qual estavam inseridos.

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DASP - Departamento Administrativo do Serviço Público – tornou-se instrumento importante para a melhoria dos padrões administrativos, mas também um meio através do qual Vargas podia aumentar o seu controle (e, para os seus sucessores, os poderes do presidente) sobre a administração federal. (SKIDMORE, 1982, p. 57).

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No curso do DASP, foram ministradas as disciplinas de Catalogação, Bibliografia e Referência, Organização e Administração de Bibliotecas, o mesmo elenco de disciplinas adotado pelo curso da ELSP. Mais uma vez, o Curso de Biblioteconomia se apresentava dentro de um contexto sócio-político-econômico resultante de profundas modificações que se voltavam para o acolhimento dos princípios norte-americanos.

Durante o período da Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi aos campos de batalha lutar contra o fascismo, porém, contraditoriamente, o Brasil era uma ditadura. Com isso, as vozes de protesto foram se apresentando, tanto de estudantes, quanto de jornalistas. Diante desta situação, Vargas acabou com a censura, anistiou os presos políticos e marcou data para as eleições e para a Assembléia Constituinte. Porém, a sua abertura política era uma estratégia para permanecer no governo, pois o próprio presidente começou um movimento para que o próximo presidente só fosse eleito após a promulgação da nova Constituição, pois utilizaria o seu poder para não deixar outro presidente em seu lugar. Diante desse fato, o General Góis Monteiro, simpatizante do Nazismo e sustentador do Golpe de 1937, afastou Getúlio da presidência em 1945. Era o fim do Estado Novo. Logo depois, o governo foi entregue a José Linhares, presidente do Supremo Tribunal, que logo depois passou ao primeiro presidente eleito por voto direto e secreto, o ex-varguista, ex-simpatizante da Alemanha Nazista, o General Eurico Gaspar Dutra.

O período de 1945 a 1964 foi o primeiro da história em que houve eleições diretas e secretas para Presidente da República, deste modo foram eleitos Dutra, Getúlio Vargas (que retornou ao cenário político), Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. Neste período, o país continuou crescendo, porém a situação do povo piorava. Getúlio Vargas demonstrou abertamente sua oposição, a Dutra. A política econômica de Dutra foi dividida em dois períodos: 1946-47 e 1947-50. Skidmore (1982, p. 96) tece seus comentários acerca deste período com estas palavras:
No primeiro período, ensaiou-se o retorno ao princípio do liberalismo do laissezfaire, uma política que foi abalada pelo rápido esgotamento das reservas brasileiras de divisas e do resultante déficit no balanço de pagamentos em 1937. A reintrodução dos controles cambiais, em junho de 1947, marcou o começo da transição para o segundo período, com o aceleramento da industrialização espontânea e uma inclinação para as formas rudimentares de planejamento geral dos gastos federais. (Grifo do autor).

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O governo do General Dutra foi fortemente marcado pela influência norteamericana. Em plena Guerra Fria, o presidente fundou a Escola Superior de Guerra (ESG), que começou a funcionar em 1949, aceitando tanto militares, quanto civis. O mau desta escola é que as aulas eram ministradas pelos militares ianques. Desta forma, ficava evidente a escolha do Brasil ao lado dos Estados Unidos, em detrimento da União Soviética (URSS). O período de Dutra estava acabando e iniciou-se o período eleitoral no Brasil. Parece que Vargas estava voltando como havia prometido.

A Escola de Biblioteconomia da Prefeitura de São Paulo foi criada em um período de fortes mudanças sócio-político-econômicas no Brasil e veio a se caracterizar como uma mudança de trajetória da Biblioteconomia brasileira. Porém, “desde a idéia, até os alunos, o Curso, salvo raras particularidades, é um projeto da elite como toda a Biblioteconomia brasileira dos anos 40 e 50 próximos”. (SOUSA, 1990, p. 45). Com a nova ênfase técnicopedagógica partindo, principalmente, do modelo norte-americano de catalogação e de classificação, conclui-se que a Biblioteconomia brasileira acha-se, neste período, invadida pela Biblioteconomia ianque, assim como o está também o País neste período. A partir do momento que Vargas vai à Guerra, ao lado dos Estados Unidos, lutar contra a ditadura da URSS (sendo o Brasil também uma ditadura), fica cada vez mais evidente a dominação ianque no Brasil. Desta forma, como todo o ensino de Biblioteconomia estava inserido neste contexto, percebe-se, então, que esta área de conhecimento está voltada para os padrões de dominação vigente que é o norte-americano.

Vargas voltou ao poder em 1951, pela primeira vez, pelo voto popular e secreto, permanecendo até 1954, com um governo marcado pela crise econômica e, sobretudo, política. A classe média estava insatisfeita em relação ao desenvolvimento econômico do País. Almejavam uma ordem política isenta de corrupção, mas a situação piorou com a situação política que Vargas havia deixado, pois não havia um só partido que representasse seus interesses. Skidmore (1982, p. 155) corrobora com esta visão afirmando que:
A UDN, que começara em 1944-45 como refúgio natural da classe média, transformara-se em defensora rígida do constitucionalismo liberal no tacanho sentido jurídico. Esposara também uma versão do liberalismo econômico que tendia a afastá-la dos sentimentos nacionalistas dos eleitores da classe média que apoiavam a industrialização.

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Diante deste contexto, a Biblioteconomia, desde fins da década de 40, já contava com cinco cursos na área. Dentre eles, estão o da Biblioteca Nacional, (Rio de Janeiro), na Pontifícia Universidade Católica - PUC, de Campinas (SP), Escola de Sociologia e Política, de São Paulo (SP), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) e em Recife (PE). Em 1950, foi criado o Curso de Minas Gerais e transferido para a Universidade Federal de Pernambuco, mantido pela Prefeitura Municipal. Em 1952, surgiu o curso no Paraná (PR), e, em 1955, no Amazonas (AM). Na década de 50, havia oito cursos de Biblioteconomia no Brasil. (SOUSA, 1990, p. 54). Neste período, também pôde ser realizado o Primeiro Congresso de Bibliotecas do Distrito Federal (1953), e em 1954, o Primeiro Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, em Recife (PE), passando, mais tarde, a denominar-se Congresso Brasileiro de Bibliografia e Documentação (CBBD) e, atualmente, Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação, Ciência e Gestão de Informação (CBBD). Durante os idos da década de 50, o “conservadorismo e a falta de criatividade eram manifestados naquele currículo, que estava centrado na Catalogação, Classificação, Referência, Bibliografia, Organização de Bibliotecas e História dos Livros e das Bibliotecas”. (SOUSA, 1990, p. 55). Observa-se que currículo ainda centrava o seu ensino muito no fazer prático da profissão. Não se visualiza, por exemplo, alguma disciplina que contemple o usuário, razão precípua para haver livros e bibliotecas, muito menos disciplina que encampe discussões acerca do contexto sócio-político-econômico do País.

A década de 1960 representa um marco na Biblioteconomia, tanto no Brasil, quanto no Ceará, pois a profissão é levada à universidade e legitimada socialmente sua prática, com a aprovação da lei 4084/62, regulamentada pelo Decreto 56725/65, e o estabelecimento do primeiro currículo mínimo aprovado pelo CFE, em 1962. (CYSNE, 1993, p. 60).

A partir da década de 1960, mais precisamente, no ano de 1962, o Curso de Biblioteconomia passou a ser regido por um currículo mínimo para o País. Deste modo, as Escolas, além de formarem bibliotecários de acordo com as transformações sócio-políticoeconômicas do País, tiveram a oportunidade de adequar esses mesmos currículos à realidade de cada região. Adentraremos, agora, nos modelos de currículo do Curso de Biblioteconomia

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da Universidade Federal do Ceará- UFC, e os estudaremos em concomitância com o currículo mínimo proposto para o Brasil, visto que era praticamente o mesmo para todo o País.

2.2 Os Currículos no Ceará

A história da Biblioteconomia cearense tem início na década de 1960, mais exatamente, em 1964, no mesmo ano em que o Regime Ditatorial Militar entrou em cena no País. Assim que esse regime apossou-se do poder, tratou de criar o SNI (Serviço Nacional de Informações), cujos agentes secretos estavam em quase todos os lugares: escolas, redações de jornais, universidades, sindicatos, praças, etc. O novo governo dirigia a nação por meio de decretos, os chamados AI (Ato Institucional). O primeiro destes decretos, denominado de AI1, determinava eleição indireta para presidente da República e o primeiro empossado foi o general Humberto de Alencar Castelo Branco, com mandato até 31 de janeiro de 1966. Mesmo com a determinação do AI-2, que acabou com as eleições diretas para Presidente da República, e do AI-3, que também proibia eleições diretas para governadores, os militares ainda faziam questão de criar uma imagem de democracia no Brasil. Fausto (2007, p. 465) afirma que “embora o poder real se deslocasse para outras esferas e os princípios básicos da democracia fossem violados, o regime quase nunca assumiu expressamente sua feição autoritária”. Continuavam alegando que existia partido de oposição e eleições para deputado e senador. E, para reforçar a aparência democrática, promulgaram, em janeiro de 1967, a Constituição de 1967, que vigorou até 1988. No campo educacional, Fausto (2007, p. 467) afirma que os estudantes “que tinham tido papel de relevo no período Goulart foram especialmente visados pela repressão”, com a UNE passando a atuar na clandestinidade. As Ciências Sociais e a Filosofia foram proibidas nas escolas. As universidades foram alvos da repressão. “A Universidade de Brasília, criada com propósitos renovadores e considerada subversiva pelos militares, sofreu também invasão um dia após o golpe”. (FAUSTO, 2007, p. 467). Para agravar a situação, em junho de 1964, o regime militar criou o SNI (Serviço Nacional de Informações), idealizado pelo general Golberi do Couto e Silva, considerado gênio entre eles. “O SNI tinha como principal objetivo „coletar e analisar informações pertinentes à Segurança Nacional, à contrainformação e à informação sobre questões de subversão interna‟”. (FAUSTO, 2007, p. 468).

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Como é possível observar, o regime recém implantado lançava mão de todos os mecanismos para calar os adversários do governo. Mesmo diante deste contexto de perseguição aos estudantes, e às universidades, em 17 de fevereiro de 1964, foi criado o primeiro curso de Biblioteconomia do Ceará, com funcionamento autorizado para o primeiro semestre de 1965, através da Resolução n° 174, de 22 de janeiro de 1965. Este empreendimento, anunciado publicamente por ocasião do 3° Congresso de Bibliografia e Documentação, realizado em Fortaleza, deve-se ao empenho do ex-Reitor da UFC, Prof. Antônio Martins Filho, e da bibliotecária Lydia Sambaquy. Também sempre lembrada, é a importante colaboração da bibliotecária Maria da Conceição Sousa. A criação desse curso visava, num primeiro momento, a formar bibliotecários que iriam atender às necessidades da própria universidade.

Retornando ao ano de 1962, vamos encontrar que cada curso/escola determinava seu programa curricular. Castro (2000, p. 205) afirma que a ausência de um currículo mínimo para os cursos de Biblioteconomia, no Brasil, antes da década de 1960, “estava na ausência de unidade de ponto de vista, entre as Escolas de Biblioteconomia, isto é, quais os saberes a serem incorporados neste currículo”. Com a implantação obrigatória do currículo mínimo de 1962, a duração do curso passou a ser de três anos e as disciplinas eram basicamente aquelas do currículo norte-americano acolhido pelo Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Assim, as eminentemente técnicas (também consideradas mais importantes para a formação) eram: Organização e Administração de Bibliotecas; Catalogação e Classificação; Bibliografia e Referência; Documentação e Paleografia. Enquanto as de cunho humanístico (aparentemente menos destacadas) estavam representadas pela História do Livro e das Bibliotecas; História da Literatura; História da Arte; Introdução aos Estudos Históricos e Evolução do Pensamento Filosófico e Científico. (SOUZA, 1990, p. 70).

Mas como um regime ditatorial, disposto a calar todo e qualquer adversário, que havia fechado a UNE, colocando-a na ilegalidade, aprovou o Curso de Biblioteconomia no Ceará? Ora, na verdade, a Biblioteconomia estava voltada, àquela época, (e, até certo ponto, ainda hoje) aos interesses e padrões do sistema vigente. Prova disso, é que não visualizamos nenhuma disciplina que atente para o contexto sócio-político-econômico brasileiro, espaço em que estava inserido o bibliotecário. Até mesmo porque o curso foi instituído com base no currículo que tinha como base o modelo ianque, que privilegiava a técnica, assim como o

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sistema em que este currículo estava inserido. Ademais, como referido acima, a formação inicial iria atender à necessidade de organização dos acervos da própria instituição. Fausto (2007, p. 513) afirma o seguinte sobre aquele regime:
Privilegiou setores da burocracia do Estado, em especial os dirigentes das empresas estatais, onde havia também, não apenas militares, a ponto de ser possível falar de um condomínio do poder entre os militares como grupo decisório final mais importante, e a burocracia técnica de Estado. A palavra „técnica‟ indica a diferença entre esse novo estrato social e a velha burocracia existente no serviço público.

O regime político em análise dispunha, em seus quadros, não dos políticos profissionais7, pois o Congresso Nacional não era mais uma instância decisória importante. Agora, quem mandava era “a alta cúpula militar, os órgãos de informação e repressão, a burocracia técnica de Estado”. (FAUSTO, 2007, p. 513). É muito fácil perceber que os cursos eminentemente técnicos que, supostamente, não iriam subverter a ordem imposta, porque eles mesmos eram voltados para uma determinada ordem em seu fazer, não foram perseguidos e fechados pela ditadura militar. Exemplo de um desses cursos é o de Biblioteconomia. Não encontramos registros indicando que, neste campo, iniciativas acadêmicas foram cerceadas pelos ditadores. Muito pelo contrário, o que houve foi a criação de cursos logo na implantação desse regime político, conforme referimos acima.

2.2.1 Os modelos de 1965 a 1995

A Biblioteconomia no Ceará, cujo curso passou a funcionar em 1965, tinha um currículo formado por 29 disciplinas, com 150 créditos, duração mínima de dois anos e meio, e máxima de seis anos, composto de dois ciclos: o 1° ciclo (básico) e o ciclo profissional. As disciplinas que integravam o referido curso eram:

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Para Max Weber, existem duas espécies de políticos, os que são políticos profissionais e os que exercem o cargo por vocação. Os políticos por profissão vivem da política e os que agem por vocação vivem para a política. “Quem vive „para‟ a política a transforma em „objeto da sua vida‟, seja porque encontra forma de gozo na simples posse do poder, seja porque o exercício dessa atividade lhe permite achar equilíbrio interno e exprimir valor pessoal, colocando-se a serviço de uma „causa‟ que dá significação à sua vida. O político profissional que vive „da política‟, pode ser um puro „beneficiário‟ ou um „funcionário‟ remunerado”. (WEBER, 2006, p. 68).

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Quadro 1 - Primeiro Ciclo (1965) Código 2020 A 2021 A 2246 A 2256 A Disciplina História da Literatura I História da Literatura II Estudo de Problemas Brasileiros Evolução do Pensamento Filosófico e Científico Quadro 2 - Ciclo Profissional (1965) Disciplina Introdução aos Estudos Históricos Bibliografia I Classificação I Classificação II (Pré-requisito-2346) Classificação III (Pré-requisito-2346) Classificação IV (Pré-requisito- 2347) Catalogação Catalogação II (Pré-requisito- 2350) Catalogação III (Pré-requisito- 2350) Pesquisa Bibliográfica Catalogação IV (Pré-requisito- 2351) Organização e Administração de Bibliotecas I Organização e Administração de Bibliotecas II Documentação I Documentação II História do Livro e das Bibliotecas I História do Livro e das Bibliotecas II Paleografia Referência I (Pré-requisito 2344) Referência II (Pré-requisito 2361) Créditos 3 3 2 4

Código 2265 A 2344 A 2346 A 2347 2348 2349 2350 A 2351 2352 2363 2353 2354 A 2355 2356 A 2357 2358 A 2359 2360 A 2361 A 2362

Créditos 4 5 5 5 6 5 5 6 5 4 5 5 5 5 5 4 5 4 6 5 Continua

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Quadro 2 - Ciclo Profissional (1965) Código 2363 2364 2365 2366 A 3507 A Disciplina Pesquisa Bibliográfica Tópicos Especiais de Biblioteconomia I Tópicos Especiais de Biblioteconomia II Estágio Supervisionado História da Arte 4 Créditos 4 6 5

Sem muito esforço, podemos observar o enfoque tecnicista deste currículo, pois a maioria das disciplinas ministradas era considerada técnica. Apenas uma trata da situação sócio-político do Brasil, e intitula-se “Estudo de Problemas Brasileiros”, porém não se interessava por esses problemas de forma mais efetiva, pois o regime político em que este currículo estava inserido proibia e até mesmo usava da força para proibir tal ato. Para confirmar o que acabamos de afirmar, basta lembrar que à época existiam os instrumentos de censura, que poderiam levar o indivíduo até mesmo à morte. Aliás, importa ressaltar que a referida disciplina era ministrada em forma de seminários, conduzidos por especialistas que possuíam estreitos vínculos pessoais, político e ideológicos com os militares (Escola Superior de Guerra). Quanto às outras disciplinas desse currículo, eram mais (ou preferencialmente) voltadas para o tratamento técnico de acervos.

Na década de 1970 até 1985, não ocorreram mudanças significativas no regime político brasileiro, que permaneceu em mãos de militares até a eleição de Tancredo Neves. Com a saída dos militares do poder, haveria finalmente eleições para Presidente da República, e a transição para o regime democrático. Contudo, o primeiro presidente do pós-ditadura ainda seria eleito de forma indireta. No País, estava fervilhando o movimento das Diretas Já! Milhões de pessoas nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fausto (2007, p. 509) analisa as mobilizações para a retomada da democracia afirmando que:

[...] a população punha todas as suas esperanças nas diretas: a expectativa de uma representação autêntica, mas também a resolução de muitos problemas (salário baixo, segurança, inflação) que apenas uma eleição direta de um presidente da República não poderia solucionar.

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Mesmo diante da manifestação de rua feita pelo povo, a Emenda Dante de Oliveira, que pretendia introduzir eleições diretas no país, não foi aprovada pelos deputados. A população frustrada viu aparecer, como candidatos à presidência, Paulo Maluf e Tancredo Neves. Então, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo e Sarney obtiveram a vitória nas eleições para presidente e vice, respectivamente. Contudo, Tancredo não chegou a assumir o poder devido a sua doença, vindo a falecer em 21 de abril de 1985. Em seu lugar, assume o seu vice, José Sarney, que permaneceu no poder até 1990, quando tomou posse da Presidência da República, Fernando Collor de Mello.

Este período de reconquista da democracia caracterizou-se por mudanças, não só no Brasil, mas em todo o mundo, com repercussões em vários campos de saberes acadêmicos. Na Biblioteconomia, não foi diferente. O currículo que estava em vigor, até então, era o dos tempos ditatoriais, que havia sido implantado em 1965. Desse modo, este currículo provocou grandes insatisfação no meio acadêmico, fazendo com que a área conseguisse a fixação de um currículo mínimo para todo o País. Santos (1998, p. 5) corrobora este pensamento através das seguintes considerações:

Os professores dos Cursos de Biblioteconomia criaram, em 1967, a Associação Brasileira de Ensino de Biblioteconomia e Documentação (ABEBD) que, em 1982, conseguiu a publicação da Resolução N. 08/82 do Conselho Federal de Educação que: „Fixa os Mínimos de Conteúdo e Duração do Curso de Biblioteconomia.‟

No ano de 1984, quando começava a volta da normalidade política do País, também surgiu um novo currículo para o Curso de Biblioteconomia, no contexto nacional e, na UFC, o qual foi implantado em 1985. Este currículo era constituído de 190 créditos, que somavam um total de 2.850 horas, com período mínimo de quatro anos e, máximo, de sete8. O referido currículo era constituído pelas seguintes disciplinas:

1° Ciclo: Introdução à Filosofia Língua Portuguesa I Introdução à Sociologia Introdução aos Estudos Históricos
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Nas fontes que consultamos não foi encontrado o número de créditos específico de cada disciplina. Contudo, há registro de que a maioria das disciplinas ficou com seis e quatro créditos.

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Disciplinas de Fundamentação e Instrumentais: A – Teoria da Comunicação A – Introdução à Sociologia A – História Econômica Social e Política do Brasil A – Introdução aos Estudos Históricos A – História da Cultura e dos Meios de Comunicação A – Introdução à Filosofia A – Lógica A – Língua Portuguesa I A – Literatura em Língua Portuguesa A – Inglês Técnico I A - Estatística Aplicada à Biblioteconomia A – Métodos e Técnicas de Pesquisa I A – Elaboração do Trabalho Intelectual A – Introdução à Biblioteconomia A – História do Livro e das Bibliotecas A – Editoração A – Tecnologia dos Registros dos Conhecimentos

Disciplinas Obrigatórias Profissionais A – Formação e Desenvolvimento de Coleções A – Introdução ao Controle Bibliográfico A – Catalogação A – Catalogação de Materiais Especiais A – Análise da Informação A – Classificação I A – Classificação II A – Classificação III A – Fontes de Informação I A – Fontes de Informação II

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A – Serviço de Informação I A – Serviço de Informação II A – Introdução à Administração A – Organização e Administração de Bibliotecas A - Estudos de Usuários A – Planejamento Bibliotecário A – Estágio Supervisionado

Disciplinas Optativas

- Fundamentos de Educação - Evolução do Pensamento Filosófico - Psicologia Social - Teoria e Prática da Leitura - Teoria da Literatura - Literatura Infantil - Prática de Redação - Técnica Mercadológica em Bibliotecas - Técnicas de Arquivo - Tópicos Especiais de Biblioteconomia I - Tópicos Especiais em Biblioteconomia II - Tópicos Especiais em Biblioteconomia III - Paleografia - Preservação e Restauração de Coleções - Princípios de Computação - Bibliotecas Especializadas e Universitárias - Bibliotecas Públicas e Escolares - Bibliotecas Infanto – Juvenis - Organização e Métodos em Bibliotecas

Como podemos visualizar, há neste currículo uma mesclagem das disciplinas tidas como técnicas com as de cunho mais sociais. Podemos perceber a entrada da Sociologia, como disciplina obrigatória para o curso, o que não víamos no currículo composto durante a

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ditadura militar. No entanto, mesmo com a inserção desta disciplina, o currículo ainda continuou voltado muito mais para as técnicas de tratamento da informação, negligenciando os aspectos relativos ao meio em que o bibliotecário atuará. Outra observação importante sobre este currículo, diz respeito à entrada da disciplina Princípios de Computação 9. E por quê? Ora, a sociedade brasileira mal tomava conhecimento das competências advindas dessa área, e ela já se encontrava contemplada com destaque. Tanto é verdade que sua utilização, mais freqüente, só aconteceria alguns anos depois, por volta de1990.

Importa lembrar, ainda, que o bibliotecário mesmo sabendo lidar com as técnicas de tratamento bibliográfico, competentemente, se ele não se envolver com a sociedade ao seu redor, não souber das suas necessidades e anseios, o seu trabalho será inútil. Não adianta ter a biblioteca mais equipada tecnologicamente (ou com meios eletrônicos) se o usuário não sentir a necessidade dos seus serviços. Esse conjunto de disciplinas acima aponta para uma formação ainda tecnicista, porém percebemos um certo avanço para o lado mais teórico, ao visualizarmos as disciplinas que são ofertadas por outros departamentos, como por exemplo, Introdução à Filosofia, Introdução à Sociologia, entre outras.

Essas disciplinas são ofertadas por outros departamentos, pois os professores do Curso de Biblioteconomia não tinham formação nessas áreas, nem eram obrigados a ter. De qualquer modo, não podemos deixar de sublinhar o sentimento de mal-estar (ainda hoje recorrente), que emergia nesse contexto. E por que razão? De um lado, os alunos sentem-se intimidados com os objetivos propostos para a disciplina; de outro, os professores com outra formação desconhecem o trabalho do bibliotecário, e não conseguem contribuir, de modo mais efetivo, para os sentidos da existência dessas disciplinas na grade curricular. Como o impasse persistia, foi implementada, no ano de 1988, uma nova revisão na grade curricular do Curso de Biblioteconomia. As mudanças foram nos seguintes termos: os títulos de algumas disciplinas, com os devidos conteúdos; ementas; número de créditos; integralização curricular; primeiro ciclo permanente, além do ciclo profissional. (COSTA; CARVALHO; ANDRADE, 1991, p. 8). A seguir, estão discriminadas as disciplinas do Curso de Biblioteconomia, referente à grade curricular de 1988.

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Estas considerações não devem ser interpretadas como recusa às inovações pretendidas pela Biblioteconomia, é apenas uma constatação acerca do que parecia mais sedutor na formação do currículo.

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Quadro 3 - Semestre I (1988) Disciplinas Introdução à Biblioteconomia Língua Portuguesa Introdução à Filosofia Introdução aos Estudos Históricos Quadro 4 - Semestre II (1988) Disciplinas Teoria da Comunicação Introdução à Sociologia História dos Livros e das Bibliotecas Lógica Elaboração do Trabalho Intelectual Créditos 04 06 04 04 06 Créditos 06 06 06 06

Quadro 5 - Semestre III (1988) Disciplinas Editoração História da Cultura e dos Meios de Comunicação Inglês Técnico I Administração de Bibliotecas Introdução ao Controle Bibliográfico Créditos 04 04 06 06 04

Quadro 6 - Semestre IV (1988) Disciplinas Estatística Aplicada à Biblioteconomia Análise da Informação Catalogação Fontes de Informação I Organização e Métodos em Bibliotecas Créditos 04 06 04 04 04

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Quadro 7 - Semestre V (1988) Disciplinas Classificação I Introdução à Informática Fontes de Informação II
Metodologia da Pesquisa em Biblioteconomia

Créditos 04 04 06 06 04

Biblioteca e Sociedade Brasileira

Quadro 8 - Semestre VI (1988) Disciplinas Classificação II Catalogação de Materiais Especiais Estudo de Usuários
Serviços de Informação I

Créditos 04 06 04 06

04 créditos reservados para disciplinas optativas

Quadro 9 - Semestre VII (1988) Disciplinas Classificação III Planejamento Bibliotecário Formação e Desenvolvimento de Coleções Literatura da Língua Portuguesa 04 créditos reservados para disciplinas optativas Quadro 10 - Semestre VIII (1988) Créditos 18 Créditos 06 06 04 04

Disciplinas Estágio Supervisionado

Diante deste contexto, marcado pelo aumento cada vez maior das complexidades sociais, culturais e educacionais, em que o currículo de formação do bibliotecário, mais uma vez, não atendia às novas demandas, o que fazer, então? Ora, seguindo as trilhas abertas pelo modelo sócio-político-econômico que se enunciava através dos mais variados signos, tornouse necessária a criação de outro currículo, haja vista que a tecnologia e o neoliberalismo já haviam invadido o País de forma sempre mais crescente e, ao que parece, irreversível. Agora,

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sob a franca recepção expressa em diversos discursos e iniciativas entusiásticos do então Presidente da República, Fernando Collor de Mello. Trata-se, portanto, do currículo de 1995, cujo desenho aparece representado na estrutura abaixo:

Quadro 11 - Semestre I (1995) Disciplinas Língua Portuguesa Introdução à Filosofia Introdução aos Estudos Históricos Introdução à Biblioteconomia Créditos 06 06 06 06

Quadro 12 - Semestre II (1995) Disciplinas Introdução à Sociologia Lógica História do Livro e das Bibliotecas Elaboração do Trabalho Intelectual Teoria da Comunicação Créditos 06 04 04 06 04

Quadro 13 - Semestre III (1995) Disciplinas Inglês Técnico I Editoração Introdução ao Controle Bibliográfico História da Cultura e dos Meios de Comunicação Administração de Bibliotecas Créditos 06 04 04 04 06

Quadro 14 - Semestre IV (1995) Disciplinas Estatística Aplicada à Biblioteconomia Análise da Informação Créditos 04 06

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Disciplinas Estatística Aplicada à Biblioteconomia Catalogação Fontes de Informação I Organização e Métodos em Bibliotecas

Créditos 04 06 04 04

Quadro 15 - Semestre V (1995) Disciplinas Introdução à Informática Metodologia da Pesquisa em Biblioteconomia Classificação I Fontes de Informação II Biblioteca e Sociedade Brasileira Créditos 04 06 04 06 04

Quadro 16 - Semestre VI (1995) Disciplinas Classificação II Catalogação de Materiais Especiais Estudos de Usuários Serviços de Informação I 04 créditos reservados para disciplinas optativas Créditos 04 06 04 06

Disciplinas Classificação III

Quadro 17 - Semestre VII (1995) Créditos 06 04 06 04

Formação e Desenvolvimento de Coleções Planejamento Bibliotecário Literatura em Língua Portuguesa 04 créditos reservados para disciplinas optativas Quadro 18 - Semestre VIII Disciplina Estágio Supervisionado

Créditos 18

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Quadro 19 - Disciplinas Optativas (1995) Disciplinas Créditos Princípios de Computação Evolução do Pensamento Filosófico e Científico I Documentação I Técnicas de Arquivo Tecnologia dos Registros do Conhecimento Bibliotecas Públicas e Escolares Bibliotecas Especializadas e Escolares Bibliotecas Especializadas e Universitárias Teoria e Prática da Leitura Teorias e Sistemas Psicológicos III Psicologia Social I Literatura Infantil I Fundamentos de Educação Marketing em Bibliotecas O brinquedo no desenvolvimento da criança Novas Tecnologias da Informação Automação em Bibliotecas 04 04 05 04 02 04 04 04 04 04 04 04 04 04 04 04 04

Aliás, a esse respeito, nunca devemos nos esquecer de que esse exigente mercado do trabalho contemporâneo, em última instância, é quem acaba deliberando com extremo rigor a respeito da criação, continuidade, permanência, desaparecimento de determinadas profissões, bem como sobre as características que devem exibir os atuais perfis profissionais. Dito com outras palavras, o mercado influencia, decisivamente, no que concerne à criação dos currículos, tendo em vistas à urgência na formação de técnico-especialistas das mais variadas linhagens, que sejam capazes de dominar a competência adequada para atender às múltiplas demandas e exigências do mercado de cada época. No caso em estudo, o mercado instituído pelo modelo que atende pelo nome de neoliberalismo.

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3 NEOLIBERALISMO: TRAJETÓRIAS, ALCANCES E IMPLICAÇÕES

3.1 Antecedentes Históricos Este capítulo tem como principal finalidade servir de orientação teórica para a realização dos objetivos a que se propõe esta monografia. Sua elaboração obedeceu aos mesmos procedimentos adotados na construção do capítulo anterior. Isto é, partindo do geral para o particular, tece considerações acerca das formas remotas de organização social, segue as trilhas abertas pelas transformações sócio-político-econômicas até alcançar as condições de funcionamento das sociedades de nossos dias. Nele, apresentamos algumas características do Capitalismo, do Liberalismo e do Neoliberalismo, porém, para este último sistema, ou modelo econômico, foi que nossa percepção se voltou com maior interesse. E por qual motivo? É que ele representa o território onde fomos recolher certos elementos identificadores de suas influências na educação, em sentido geral, e, especificamente, na formação do bibliotecário cearense, em especial, depois da implantação do currículo de 2005.

As formas de ver e pensar o mundo, bem como as mentalidades sociais, não resultam do acaso, pois se relacionam com um determinado período, meio cultural e social. Elas nascem da maneira como o homem vive no mundo e da sua capacidade de transformá-lo. O permanente desenvolvimento da sociedade concorreu para o aparecimento de várias formas de organização e sistemas sociais. Na Roma Antiga, por exemplo, temos patrícios, guerreiros, plebeus, escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres, companheiros, aprendizes, servos; e, em quase todas essas classes, aparecem outras gradações particulares. Com o declínio da sociedade feudal, surgiu o capitalismo, responsável por um novo padrão econômico, que gerou novos hábitos mentais, propiciando a emergência da burguesia como nova classe social. “Este novo sistema não eliminou antagonismos entre as classes. Apenas estabeleceu outras classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das antigas”. (MARX; ENGEL‟S, 2003, p. 46). Para Marx e Engel‟s (1867), na mesma proporção em que se desenvolvia a classe burguesa e, por conseqüência, o capital, o proletariado desenvolvia-se também. Ser capitalista não significa somente ocupar uma posição pessoal na produção, mas ocupar também uma posição social. Na sua Crítica à Economia Política, Marx (1867) analisa todo o sistema

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capitalista desenvolvendo a tese de que o modo de produção capitalista tem existência histórica e nasceu em determinadas condições criadas pelo desenvolvimento social. E, certamente, ele mesmo criará as condições para o seu próprio desaparecimento e substituição por um novo modo de produção.

Percebemos, pois que os ideólogos dos mecanismos econômicos e sociais do capitalismo propunham compreender a sociedade capitalista e transformá-la. Estamos nos referindo, aqui, às idéias do socialismo científico que constituía uma proposta revolucionária para o proletariado. Seu maior expoente foi Karl Marx (1818-1883), cuja obra mais conhecida, O Capital, causou uma revolução em vários campos de conhecimentos, desde a economia às ciências sociais em geral. Em outra de suas produções, o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engel‟s (1848) esboçaram as proposições e postulados do socialismo científico, que foram definidos de forma concreta na obra O Capital.

Entre os princípios do socialismo contidos em O Capital destacam-se: uma interpretação sócio-econômica da história - materialismo histórico, onde Marx vai defender a idéia de que toda a sociedade é determinada em última instância pelas suas condições sócioeconômicas (a infra-estrutura) e adaptadas a ela, as instituições, a política, a ideologia e a cultura compõem a chamada superestrutura. Para Marx, o agente que tranformará a sociedade é a luta de classes, o antagonismo entre explorados e exploradores, que é resultado da existência da propriedade privada. Na Idade Antiga, opunham-se cidadãos e escravos; na Idade Média, senhores e servos; na Idade Moderna, nobreza, burguesia e camponeses; e no Mundo Contemporâneo, operários e burgueses, ou pobres e ricos. Nesse contexto, encontra-se a “mais-valia”10, que fica em mãos dos capitalistas, caracterizando a exploração operária. Importante frisar que ainda no livro O Capital, Marx afirma que contra a ordem capitalista e a sociedade burguesa é inevitável a ação política do operariado - a Revolução Socialista - que seria a inauguração de uma nova sociedade. Em um primeiro momento, seria instalado o controle de Estado pela ditadura do proletariado e a socialização dos meios de produção, eliminando assim a propriedade privada. Logo após o

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Trata-se de um dos conceitos mais complexos e caros ao pensamento de Marx. Contudo, este trabalho não comporta seu desenvolvimento. Para o momento, importa apenas enunciar que o referido conceito significa o valor da riqueza produzida pelo operário, além do valor remunerado de sua força de trabalho.

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alcance dessa meta pretendida, seria o comunismo, o qual representaria o fim de todas as desigualdades sócio-econômicas, além de ser o fim do próprio Estado.

Conforme o autor acima referido, as relações sociais estão todas envolvidas nas relações capitalistas, onde as mercadorias adquirem um valor que é determinado pela quantidade do trabalho social. Quem faz um objeto para uso próprio, cria um produto, porém, quem faz um objeto subordinado à divisão do trabalho, dentro da sociedade, está produzindo uma mercadoria. Além do mais, substitui o trabalho humano pelo da máquina, extinguiu postos de trabalho e deixou milhares de pessoas à margem da sociedade. Também alterou o ritmo do trabalho, apoiando-se na robótica, na tecnologia, na rapidez e rotatividade, com implicações na essência mesma das profissões. Este fenômeno concorre para modificar tanto as relações capitalistas, como as de natureza pessoais, sociais, culturais e educacionais, Com isso, inaugura um momento de insegurança e instabilidade, no qual a cultura humana se torne fugaz, fragmentária, sem delimitações de tempo e espaço.

O capitalismo, tem início na Inglaterra, na segunda metade do século XVI e início do XVII. Naquele período, o capital começou a penetrar na produção em grande escala, tanto na subordinação dos artesãos domésticos, quanto no próprio meio capitalista. No início desse sistema econômico em ascensão, a base da sociedade estava no pequeno modo-de-produção, denominado assim por Marx. Este modo-de-produção, na visão de Dobb (1987, p. 94), significa “um sistema em que a produção era executada por pequenos produtores, donos de seus próprios instrumentos de produção, que comerciavam livremente seus próprios produtos”. Dessa maneira, podemos, afirmar que o principal motivo para o surgimento do sistema capitalista foi a concentração da propriedade nas mãos de poucos, bem como o aparecimento de uma classe que, não detendo as propriedades, era obrigada a vender a sua força de trabalho para sobreviver.

A expansão do capitalismo ganhou fôlego no período das Grandes Navegações, através do Mercantilismo, uma política por meio da qual o Estado buscava garantir o seu desenvolvimento comercial e financeiro, fortalecendo, desta forma, o próprio poder. Nesse período, a produção era manufaturada, e a figura do artesão era da maior importância no processo de produção, e os instrumentos são apenas auxílios para os trabalhadores. Entre os séculos XVI e XVII houve várias mudanças na economia mundial, cujas conseqüências

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ensejaram a denominação de Revolução Comercial. O Oceano Atlântico tornou-se o principal eixo econômico europeu. Com a expansão marítima, o comércio europeu recuperou-se e acelerou seu dinamismo. De modo que, até o ano de 1848, o capitalismo ampliou-se nos países industrializados, devido à expansão das fábricas e indústrias.

Nesse contexto da história da humanidade, um dos grandes acontecimentos, ainda hoje recorrente com freqüência em diversas discussões, formais ou informais, dentro ou fora da academia, é a Revolução Industrial, cuja data de nascimento é o século XVIII. Por meio dela, iniciou-se uma fase de acumulação, por parte da população, de bens e serviços, de forma permanente e sistemática, como nunca houvera. Este fato é conseqüência, principalmente, do acúmulo de recursos durante a fase do capitalismo comercial, bem como da implantação de um sistema bancário e, ainda, da Revolução Agrícola. Além disso, a Inglaterra contava com um enorme contingente (grandes reservas) de ferro e de carvão, matérias-primas fundamentais para a construção e funcionamento das máquinas, assim como para a produção da energia necessária para movimentar as engrenagens do sistema emergente.

Talvez, possamos afirmar, sem o cometimento de equívocos, que os principais avanços tecnológicos relacionados ao período da pomposa Revolução Industrial foram: a máquina de fiar, de James Hargreaves (1767), o tear hidráulico, de Richard Arkwright (1768) e o tear mecânico, de Edmund Cartwright (1785). Todas essas invenções, extraordinárias para a época, ganharam maior capacidade quando foram acoplados à máquina a vapor, inventada por Thomas Newcomen (1712) e aperfeiçoada por James Watt somente em (1765). Com a sofisticação das máquinas, houve aumento da produção e da geração de capitais, os quais eram reaplicados em novas máquinas.

Foi uma revolução da produção e da acumulação, que transformou não apenas o interior das fábricas, mas toda a vida social, principalmente em que concerne aos aspectos econômicos, políticos e culturais. A mudança da atividade artesanal, manufaturada, para as atividades das fábricas fez com que ocorressem alterações que conduziram à formação do proletariado urbano e do empresário capitalista. Este assume a função de organizar a produção na empresa, enquanto aquele compete apenas a obrigação de produzir, e sem direito à propriedade pessoal dos meios-de-produção. De acordo com o entendimento de Sunkel (1917, p. 12), “a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, que ocorrem paralelamente na

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Inglaterra, constituem as duas faces de um mesmo processo – o da consolidação do que veio a se chamar „regime capitalista moderno‟”.

Em torno de 1860, a Revolução Industrial passou a assumir novas características como as inovações técnicas; descoberta da eletricidade; a transformação do ferro em aço, inventado por Henry Bessemer; o surgimento e avanço dos meios-de-transportes (ampliação das ferrovias seguida do automóvel e do avião). Em pouco tempo também assistimos ao surgimento do telégrafo, do telefone e o desenvolvimento da indústria química e de outros setores. A partir da revolução técnica, que ocorreu entre 1750 e 1850, o mundo começou a conhecer o capitalismo liberal, que na visão de Sunkel (1971, p. 13) é “um momento de longa evolução que leva paralelamente ao controle da natureza, à tomada do poder pela burguesia e o „laisser-faire‟, „laisser-passer‟”. Uma espécie de mão invisível.

Nesta perspectiva, registra-se uma nítida substituição do trabalho humano pelo da máquina, a partir da implantação e desenvolvimento do sistema capitalista, principalmente após a Revolução Industrial, acabando com determinados postos de trabalho e deixando milhares de pessoas à margem da sociedade. A entrada da maquinaria na produção contribuiu para o trabalho especializar-se, fazendo com que as etapas da produção ficassem baseadas na divisão do trabalho, que separa a produção em operações mínimas, que podem até ser realizadas por meios mecânicos. Com isto, a divisão do trabalho intensifica a desigualdade inata dos homens; as pessoas vão se tornando especialistas. A cada avanço tecnológico, maior é a especialização de tarefas. (HOLANDA, 2001, p. 55) Referidas alterações ocorreram, primeiramente, na indústria automobilística Ford, que utilizava esteiras rolantes nas linhas de montagem para a circulação das partes do produto a ser montado, visando a dinamizar a produção. A racionalização da produção em massa, denominada fordismo, encontra-se ligada ao princípio que orienta a empresa para dedicar-se apenas a um produto, além de investir no domínio das fontes de matéria-prima. O fordismo integrou-se às teorias do engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor, fazendo emergir o taylorismo, que buscava o aumento da produtividade controlando, com rigor, os movimentos das máquinas e dos homens no processo de produção.

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Com a concentração da propriedade dos meios de produção em mãos de uma determinada classe, que consistia apenas de pequena parte da sociedade, ocorre o conseqüente aparecimento dos proletários. Dobb (1987, p. 23) corrobora esta visão afirmando:

Está claro que o traço da sociedade econômica que produz esse resultado, e por isso, se mostra fundamental à nossa concepção de capitalismo como uma ordem econômica distinta, característica de um período da história, é que a história até hoje tem sido a de sociedades de classes, ou seja, de sociedades divididas em classes, nas quais uma delas, ou então uma coalizão de classes com algum interesse comum constitui a classe dominante e se mostra em antagonismo parcial ou completo com a outra ou com as demais classes. (Grifo do autor).

A mecanização industrial, alterou vários setores da vida humana. Na estrutura sócio-econômica separou-se definitivamente o capital (donos dos meios-de-produção) e o trabalho (assalariados). Nesse momento, os trabalhadores perdem a posse das ferramentas de trabalho e passam a viver da única coisa que lhe pertencia: sua força de trabalho.

A partir da segunda metade do século XX, o conhecimento passou a ser sistematicamente desenvolvido, determinando a grande expansão econômica desse período. O capitalismo global passou a ditar os caminhos da tecnologia, orientando-a para a criação de valor econômico. O capital vem utilizando as tecnologias flexíveis e abertas para aproveitar a diversidade do mercado internacional, transformando essas tecnologias em expressão da competição global a fim de ampliar a participação nos mercados globais e a acumulação, favorecendo novos investimentos em tecnologia que concorrem para realimentar o ciclo de acumulação. Ferdinand Braudel (1984) apud Dupas (2001) afirma que “as características essenciais do capitalismo sempre foram flexibilidade ilimitada, capacidade de mudança e profunda adaptação”. É fácil observar que a nova economia encontra-se organizada em torno das redes globais de capital e gerenciamento de informação.

As Tecnologias da Informação vem, cotidianamente, aumentando a produção, por hora, no total da economia. A sociedade vem tomando novos direcionamentos, os valores ensinados pelos antigos, tais como perseverança, domínio de si, curiosidade, flexibilidade e improvisação estão a cada dia sendo substituídos pela velocidade, lógica e razão. O que percebemos é uma sociedade em que predomina o efêmero, a rapidez, a intensidade, a descontinuidade e o imediato. Esses valores, podemos dizer que foram trazidos pelas tecnologias, pois elas ligam e incorporam uma eficácia crescente, introduzindo a velocidade e

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a cooperação entre os lugares por onde a rede se estende. Trata-se da “sociedade de controle”11, no entendimento de Deleuze A técnica e a ciência estão a serviço do capital, pois quem as detém está em nível de superioridade na competição global. Corroborando com esta visão, Dupas (2001, p. 110) afirma que:

As bases do liberalismo, que é necessário que se lhe entenda, a fim de entender o que é o neoliberalismo, tinham surgido com o iluminismo, contestavam o mercantilismo e defendiam os princípios burgueses: propriedade privada, individualismo econômico, liberdade de comércio e de produção, respeito às leis naturais da economia, liberdade de contrato de trabalho sem controle do Estado ou pressão dos sindicatos.

A compreensão, ainda que breve, do neoliberalismo12 como doutrina que se espalhou pelo mundo, influenciando todas as instâncias da sociedade, incluindo o pensar e o fazer das mais deferentes profissões, exige que identifiquemos outros traços de suas raízes. Portanto, vamos estabelecer um diálogo com Hobbes (1588 -1679), para quem os homens vivem no estado de natureza como ser anti-social, e onde a inveja e o individualismo imperam nas mais variadas forma de competição. Referido autor admite que o homem, apesar da sua condição de “ser social”, não possui o instinto natural de sociabilidade e só passa a viver em sociedade como uma forma de sobreviver. Desse modo, são obrigados a abdicar de seus direitos individuais em favor do soberano, ao qual delegam (ou são obrigados a fazê-lo) o direito para que exerça o poder de maneira absoluta. A Revolução Gloriosa, deflagrada na Inglaterra de 1688, marca a vitória do Liberalismo político sobre o Absolutismo, responsável por medidas econômicas e políticas fundamentais para a acumulação primitiva do capital. Nesse período, John Locke, que se encontrava refugiado na Holanda, retorna à Inglaterra e publica, em 1890, o “Segundo Tratado sobre o Governo Civil”, obra que influenciou o pensamento político liberal moderno.
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Para maior intimidade com este conceito, cf. DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. Considerando-se as contraposições às idéias referentes aos direitos sociais e ganhos de produtividade dos trabalhadores, é possível afirmar que a gênese do neoliberalismo se encontra relacionada aos anos de 1940. Seu principal teórico é Friederick Hayeck, mas também conta com a colaboração de K. Poper e M. Friedman. Aliás, é da mente desse último que nasce a idéia da criação de algumas estratégias visando à privatização da educação. Utilizando-se de um sistema de cupons, os pais escolheriam aquelas escolas particulares que parecessem do agrado de cada um e, nelas, matriculariam seus filhos. O pagamento passaria a ser feito mediante cupons, cujos valores deveriam ser fornecidos e pré-estabelecidos pelo Estado. No caso de as referidas escolas trabalharem com mensalidades superiores, os pais ficariam obrigados a complementar o restante do valor cobrado pela escola. Cf. OLIVEIRA, Elenice Gomes. A Reforma da educação profissional brasileira: manifestação das políticas públicas do estado capitalista no contexto neoliberal. Fortaleza, 2003. (Dissertação de Mestrado).

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Assim, podemos observar que, tanto os estudos de Hobbes (1988) quanto de Locke (2004), partem da noção de um estado de natureza, que uma vez mediado por um contrato, chega à institucionalização do governo civil. Ao longo do século XIX, o liberalismo atingiu o apogeu, mas também vivenciou profunda crise. Uma das preocupações de Locke, Hobbes e Rousseau era separar a religião da política e, ao mesmo tempo, enfraquecer os argumentos religiosos que sustentavam governos absolutistas e tiranos. Locke (2004) é o primeiro a afirmar que o indivíduo possui o direito à liberdade e à propriedade. Estes direitos precederiam à criação de um governo, pois este resultaria de uma convenção pela qual os indivíduos decidissem livremente a se associarem para melhor proteger os seus direitos. Na visão de Rousseau (2007), o desenvolvimento humano passa por vários estágios, a começar do mais primitivo, em que os homens se associam apenas para caçar, passando pela fase de agregação permanente (porém com pouca divisão do trabalho e propriedade) e, finalmente, o terceiro estágio, já caracterizado por uma acentuada divisão do trabalho e da propriedade. Esta condição torna-se muito importante para o surgimento da agricultura e da metalurgia. A partir desse último estágio, podemos dizer que se inicia o processo da desigualdade, propriamente dita, relacionada à propriedade e a outras formas de exploração social que daí resultam.

Com o avanço dos recursos tecnológicos, a produção em larga escala, bem como a maior divisão social do trabalho, foram surgindo os diversos monopólios. A política do livre mercado, defendida pelo liberalismo, estava entrando em crise e triunfando as políticas de intervenção estatal. Torna-se importante ressaltar que a Inglaterra já se estava habituando a conquistar a liberdade contra um Estado que personificava a ordem e as tradições. A grande tradição liberal (aquela defendida por Locke e Smith) foi associada rapidamente à uma espécie de vontade compulsiva para levar o Estado à função de principal instância responsável pela guarda das liberdades individuais. (LAGUEUX, 2007).

As premissas que instituem o pensamento liberal foram contornadas por Adam Smith (1723-1790)13, em sua obra intitulada A riqueza das Nações. Para o referido autor, a divisão do trabalho representava o elemento essencial para o desenvolvimento da produção e

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Considerado o mais importante teórico do Liberalismo Econômico. Sua obra A Riqueza das Nações foi publicada pela primeira vez em 1776.

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do mercado, e sua aplicação eficaz dependia da livre concorrência. Esta iniciativa forçaria o empresário a ampliar a sua produção, buscando, incessantemente, novas técnicas, aumentando a qualidade do produto e baixando os custos da produção ao máximo. Desse modo, para Smith, o Estado não competiria operar nenhuma intervenção na economia, posto que seu dever seria apenas o de zelar pela propriedade e pela ordem social.

Seguindo a linha de pensamento de Smith, Thomas Malthus (1766 - 1834), em seu estudo chamado Ensaio sobre a população, afirmava que a natureza colocava limites no progresso material. (MALTHUS, 1986). Tentava explicar tal afirmativa dizendo que a população crescia em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia em progressão aritmética. De modo que a pobreza e o sofrimento eram inerentes à sociedade e as guerras e epidemias desempenhavam relevante papel no equilíbrio temporário entre a

produção e a população. Para Malthus (1986), era necessário conter o número de nascimentos e limitar a assistência aos pobres, como única estratégia capaz de inibir o estímulo e a aceleração do crescimento populacional e, assim, reduzir o avanço da miséria.

Outro representante da escola liberal, também denominada escola clássica, foi David Ricardo (1986), que de acordo com o conteúdo da obra Princípios da economia política e tributação, desenvolveu a teoria do valor do trabalho e defendeu a Lei Férrea dos salários. Segundo esta lei, o preço da força de trabalho seria sempre equivalente ao mínimo necessário à subsistência do trabalhador. Aliás, torna-se oportuno sublinhar que Darwin14 justificou a tese de que só os mais aptos sobrevivem. E Calvino15 resgatou a doutrina judaica do povo eleito de Deus, a qual, nesse contexto, privilegiava os ricos como abençoados por Deus e, por conseqüência, os pobres acabavam figurando na relação dos entes culpados e malditos, ou amaldiçoados.

Em síntese, o que se denomina de Estado Liberal surgiu como conseqüência da reação levada a cabo contra o absolutismo real. E veio buscar fundamentação nas teorias dos

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Ver Origens das Espécies, obra publicada originalmente em 1859, bastante criticada porque muda a crença contemporânea sobre a origem da vida na Terra. 15 João Calvino é tido como um dos principais fundadores da Igreja Presbiteriana. Suas idéias ajudaram o desenvolvimento do capitalismo, pois diziam que os predestinados deveriam poupar, ao contrário do catolicismo, que condenava até a usura.

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contratualistas16 as formas de legitimação do poder, abandonando a idéia de uma legitimação do poder fundada na teoria do direito divino dos reis, passando para a idéia do consentimento dos cidadãos. Ou seja, reforçava-se a constatação de que o poder dos reis não provinha de nenhuma “indicação” divina, mas, ao contrário, resultava do consentimento criado entre os cidadãos. Desta forma, para que houvesse a instituição do mercado, propriamente dito, seria necessário que ficasse estabelecida, com toda clareza, a separação entre os bens considerados públicos e aqueles inscritos na esfera dos privados.

Na compreensão neoliberal, a reivindicação da igualdade na lei não pode ter como base a argumentação de que somos naturalmente iguais, como afirmava Hobbes (1988), ao defender que os homens são naturalmente livres e iguais entre si, e que a lei civil era um obstáculo a essa liberdade. De modo que, somente nos anos 80, após o fracasso do nazismo (de direita, no plano econômico) e do socialismo (de esquerda, no plano político) é que o neoliberalismo chegou ao poder político com a eleição de Margaret Thatcher (1979), na Inglaterra e de Ronald Reagan (1980), nos Estados Unidos. Anteriormente a esse período, o neoliberalismo achava-se restrito aos muros das academias, pois ainda não havia chegado ao poder. Desta forma, visualizamos que, enquanto o liberalismo expressava suas preocupações com o indivíduo, o neoliberalismo está inteiramente voltado para as atividades econômicas, presentes em todas as esferas sociais, incluindo a educação. A liberdade que o neoliberalismo apregoa e deseja é a liberdade econômica das grandes organizações, desprovida do conteúdo político democrático proposto pelo liberalismo clássico. O indivíduo e o seu bem-estar deixam de ser questões centrais, para centrarem-se na ótica mercadológica, que passa a ser o mediador de todas as relações sociais. Um dos autores que confirma esta visão é Holanda (2001, p. 58) quando afirma que “o mercado, única possibilidade de coordenação, é apresentado como o mecanismo que, por si só, coloca em ordem todo o sistema social, dando-lhe sentido e significado. O mercado é o ponto para onde convergem e de onde se irradiam as atividades dos indivíduos”. Neste sentido, ratificando as considerações que estamos desenvolvendo, podemos afirmar que o neoliberalismo é uma

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Pensadores que estudaram e interpretaram a sociedade como uma estrutura contratual. Dentre os contratualistas, podemos citar John Locke e Jean-Jacques Rousseau. É deste último O Contrato Social, publicado pela primeira vez, em 1762. No mesmo ano, publica Emílio, outra de suas obras muito conhecidas e citadas. Ambas foram condenadas e queimadas em praça pública, em Genebra, em 19 de junho daquele ano.

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doutrina sócio-político-econômica, que faz com que a liberdade do indivíduo seja subordinada à liberdade de mercado, à liberdade econômica.

Deste modo, as principais características do sistema neoliberal são, dentre outras: a mínima participação do Estado na economia (Estado-mínimo); a pouca intervenção do governo no mercado de trabalho; a política de privatização de empresas estatais; a livre circulação de capitais internacionais, com ênfase na globalização; a abertura da economia para a entrada de multinacionais; a adoção de medidas contra o protecionismo econômico; a desburocratização do Estado: leis e regras econômicas mais simplificadas para facilitar o funcionamento das atividades econômicas; a diminuição do tamanho do Estado, tornando-o mais eficiente; é um sistema contra os impostos e tributos excessivos; o aumento da produção como objetivo básico para atingir o desenvolvimento econômico; é contra o controle de preços dos produtos e serviços por parte do Estado, ou seja, a lei da oferta e demanda é considerada suficiente para regular os preços; a base da economia deve ser formada por empresas privadas; defesa dos princípios econômicos do capitalismo.

3.2 Influências na Educação A essa altura das considerações até aqui desenvolvidas, principalmente levando em conta a proposta do trabalho, consideramos inadiável, oportuna e pertinente a formulação da seguinte indagação: Qual o lugar da Educação no contexto neoliberal, mais precisamente, de que maneira ela se expressa na elaboração dos currículos acadêmicos e profissionais? Interpretações muito apressadas sobre as reformas educacionais brasileiras podem conduzir, muito facilmente, a conclusões apenas otimistas. Na verdade, mesmo mantendo uma visão crítica, não podemos deixar de reconhecer que diversas iniciativas oficiais passaram a contemplar algumas reivindicações dos trabalhadores no campo da atualização profissional. E, por outro lado, fala-se o tempo todo na importância da formação e capacitação adequadas ao mercado contemporâneo, que reivindica novos investimentos, a partir da alfabetização, passando pelo ensino fundamental e médio, até alcançar à formação de nível superior, ou o terceiro grau, como, às vezes, é chamado.

Neste contexto, encontramos, o prolongamento da escolarização básica no ensino médio, onde o governo brasileiro conseguiu ampliar a oferta de vagas para o atendimento a

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esse nível de escolarização. Mesmo que não seja a educação básica, na perspectiva que vai da educação infantil ao ensino médio, certamente é a do ensino fundamental. O problema é que estas realizações privilegiam a dimensão quantitativa, em detrimento das preocupações qualitativas, pois, como sabemos, a carência de avaliação dessas modalidades que visam à superação de velhos impasses, continua, e, ao que parece, sem solução. Quanto à formação de nível superior, as iniciativas podem ser identificadas através dos permanentes discursos legais, e de alguns investimentos em termos de infra-estrutura material. Inclusive, é da própria LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) a recomendação para que os currículos se renovem permanentemente visando à formação de profissionais que possam atender às diversas demandas desta sociedade que, dentre as mais diferentes denominações, atende também pelo nome de sociedade neoliberal.

De acordo com as reflexões produzidas por Marrach (1996) acerca destas inquietações, o neoliberalismo, como não poderia deixar de ser, vem, sim, interferindo na educação a passos largos, visíveis, e cada vez mais velozes. Aliás, não é difícil identificar marcas dessa interferência nos discursos que circulam, tanto no seu interior, quanto fora da territorialidade acadêmica. Podemos escutar, por um lado, as permanentes e imperiosas exortações dirigidas aos alunos para que, de modo algum, negligenciem o pleno domínio das Tecnologias de Informação e de Comunicação e, por outro, as advertências sobre os riscos que terão de enfrentar aqueles alunos (futuro profissionais) mais resistentes (ou críticos) diante dos assédios desses dispositivos técnico-midiáticos.

Outro exemplo que sinaliza essa marca de encaixamento no modelo neoliberal é quando ouvimos nos discursos da sociedade que os alunos têm um papel a desempenhar como empreendedores, inovadores, a fim de não ficarem à margem do mercado de trabalho. O neoliberalismo vem interferindo quando, nas falas de alguns alunos, percebemos que querem se formar para “encontrar logo um emprego”, ou seja, quando as universidades formam profissionais para atender às demandas do mercado e não mentes pensantes. O trabalhador vem a cada dia se qualificando, porém, é preciso identificar que a desqualificação vem em concomitância. Por exemplo, se antes, o trabalhador realizava todo o processo, atualmente, ele participa apenas de uma etapa do processo. As pessoas sabem manipular as máquinas, mas não sabem mais fazer o que as máquinas fazem. O saber não está mais no trabalhador, mas na máquina, o que Marx chamou de qualificação desqualificante.

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Ainda a respeito do tipo de importância que esse sistema vem conferindo à educação, podemos citar a transferência de certa culpa para o indivíduo. E de que modo? Inculcando, em sua mente, a idéia de que se ele não foi bem sucedido na vida, o problema diz respeito, exclusivamente, à sua postura diante do mundo. Quer dizer, decorre do fato de não haver aproveitado as oportunidades. Mas que tipo de oportunidade? Para muitos, talvez, signifique a possibilidade do ingresso numa dessas escolas do sistema de educação formal, muitas vezes esquecidas pelas ações voltadas para uma educação de qualidade. Ou, quem sabe, seria investir na preparação através dos cursos de capacitação (reciclagem), que seguem as regras e prescrições do neoliberalismo.

A cultura capitalista, do individualismo, está cada vez mais adentrando no modo de viver (existencial) das pessoas. Percebemos este fato em diversos exemplos cotidianos: quando contratamos um plano de saúde particular, segurança particular, estudamos em universidades ou escolas particulares. E todas as demais formas de aquisição de bens e serviços cuja argumentação em torno da qualidade remete ao valor econômico da mercadoria. Portanto, os princípios do Neoliberalismo buscam responder à crise, do estado nacional, causada pela globalização e pelos avanços científicos e tecnológicos. Esse modelo, não tenhamos dúvidas, vem influenciando todo o cotidiano das sociedades, adentrando nos mais diferentes aspectos da natureza, da cultura, da educação e da vida humana.

Revolvendo olhar e outras formas de percepção para o liberalismo, podemos perceber que, enquanto aquele modelo clássico propôs os direitos do homem e do cidadão, dentre eles, o direito à educação, o neoliberalismo (principal representante teórico-ideológico da sociedade pós-moderna), vem procurando enfatizar mais os direitos do consumidor do que as liberdades públicas e democráticas. Além do mais, não faz questão de esconder (ou pelo menos disfarçar) sua postura terminantemente contra a participação do Estado no amparo aos direitos sociais. E o que é pior, direitos legalmente conquistados a custa de permanentes e corajosas mobilizações, os quais, num piscar de olhos, ou melhor, numa rápida e prepotente assinatura, deixam de existir. Às vezes, vamos dormir com a leve sensação da posse de alguns pequenos direitos, e acordamos com o peso da certeza de que não os temos mais.

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Para inserir o neoliberalismo e a repercussão que ele causou no contexto nacional, torna-se indispensável rememorar, inicialmente, algumas passagens ilustrativas relacionadas à figura de Fernando Collor de Mello, que assumiu a Presidência da República do Brasil em 1990, ganhando a eleição, com representativa maioria de votos, de Luiz Inácio Lula da Silva. Collor permaneceu até 1992, ano em que foi expulso do poder pelo povo. Em relação a este período, Mendes (1993, p. 16) afirma que: “O vulto da confiança em 89 seria também o da decepção, em reação pendular, imediata. O aluvião dos votos é o das praças públicas forçando o Congresso ao impeachment; à pena pela traição histórica.”

Apesar do pouco tempo de permanência no governo, Fernando Collor marcou profundamente o País com iniciativas que acolhiam o novo modelo capitalista, uma vez que seu projeto econômico, posto em prática, era apoiado no neoliberalismo, que, neste período, entrou com maior profundidade e aceitação no cenário político brasileiro. Uma das primeiras medidas do governo Collor foi a mudança da moeda brasileira para Cruzeiro (1990), a qual já havia recebido muitos nomes, dentre eles, Cruzado (1986) e Cruzado Novo (1989). Esse período foi profundamente marcado pela ascensão das Tecnologias de Informação e de Comunicação no cotidiano da população, modificando, desta forma, os modos de fazer de muitas profissões. E em relação ao campo da Biblioteconomia? Claro que não foi diferente. Sobre este período da história brasileira, Jannuzzi e Mattos (2001, p. 116) afirmam que:

A posse de Fernando Collor, em março de 1990, promoveu o início de um processo de abertura comercial e financeira da economia brasileira e de uma série de medidas de política econômica e de modificações no papel do Estado que nos permitem batizar a década como a „década do neoliberalismo‟.

Fernando Collor, durante a sua campanha, apresentava-se para a população como um líder carismático. Segundo Max Weber há três tipos puros de dominação legítima: a dominação legal, cujo tipo mais puro é a dominação burocrática; a dominação tradicional, em que o tipo mais puro é a dominação patriarcal, do chefe de família, e a dominação carismática, em virtude de devoção afetiva à pessoa do senhor, pelo seu poder intelectual ou de oratória. O seu tipo mais puro é a dominação do profeta, do herói guerreiro e do grande demagogo. (WEBER, 1979). Ainda segundo esse pensador, a figura do líder carismático surge em todos os domínios e em todas as épocas e revestem o aspecto de duas figuras essenciais: de um lado, a do mágico e do profeta e, de outro lado, a do chefe escolhido para dirigir a guerra, do chefe

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de grupo, do condutor. Para ele, o líder carismático que é natural do Ocidente é a figura do líder demagogo.

Tomando por base os conteúdos dos discursos acima, podemos afirmar que Collor de Mello foi um líder carismático, conforme encerra o sentido weberiano para este termo. Desde o momento em que estava concorrendo para o cargo de Presidente da República, até o momento do confisco das Cadernetas de Poupança, quando a população transtornada, acabou retirando-o da presidência. Depreende-se desse inesperado acontecimento, que Collor, ao confiscar o dinheiro da poupança das pessoas, perdeu o respeito que o povo dedicava a ele. E esta ação, profundamente desastrosa e inesquecível, contribuiu para que pequenos e médios empresários pedissem concordatas e falência, sem contar com diversos outros segmentos que chegaram ao limiar da tolerância, praticando o suicídio.

Este, dentre outros, foi um dos grandes erros do Presidente Collor, talvez o maior, porque lhe custou a perda da estima por parte de quem o elegeu. Sobre este assunto, Maquiavel (2004, p. 72) afirma que “[...] quem se tornar um príncipe pelo favor do povo deve manter sua estima - o que não lhe será difícil, pois a única coisa que o povo pede é não ser oprimido”. Neste sentido, podemos inferir que, pelo fato de Collor haver se comportado como um opressor, diante da população que acabara de elegê-lo, foi, aos poucos, perdendo a sua estima, e este fato culminou com a iniciativa de sua expulsão do poder presidencial.

Com a expulsão de Collor, em 1992, quem assumiu foi o seu vice Itamar Franco, que deu continuidade à abertura comercial iniciada por seu antecessor, mas também houve um afrouxamento das medidas recessivas que haviam norteado a política econômica do período anterior. As mercadorias estrangeiras entravam no País concorrendo com as nacionais. Este fato fez com que pequenos empresários fossem à falência e adentrassem no mundo do desemprego. Itamar Franco permaneceu na presidência até 1993, pois no ano seguinte quem saiu vitorioso nas urnas foi Fernando Henrique Cardoso (FHC), Ministro da Fazenda do governo de Itamar. Com FHC, são criados alguns programas, dentre eles, o Bolsa Escola17, que tem como objetivo fazer com que o aluno permaneça na escola. Neste caso, os pais

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A despeito de algumas discussões sobre sua verdadeira paternidade, tornou-se consensual admitir que o BolsaEscola é um programa nascido na gestão de Fernando Henrique Cardoso, em 2001. Continuou no governo Lula, e sofreu alguns ajustes, tornando-se, juntamente com outras iniciativas, o pacote chamado Bolsa-Família.

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recebem certa quantia, em dinheiro, para cada filho matriculado, na escola pública ou privada, e que seja considerado de baixa renda.

Trata-se de uma forma de incentivo que parece expressar verdadeira preocupação com o acesso e permanência da população nos espaços escolares. No entanto, algumas pesquisas, ou mesmo as próprias matérias jornalísticas, vivem denunciando a redução de investimentos na educação, em todos os níveis. De modo que os sinais positivos, que às vezes se enunciam nesse campo, acabam sendo apagados pela preferência dispensada a outros empreendimentos onde o imediatismo neoliberal parece mais vantajoso. Sim, porque, ao contrário da queda dos impostos, o que assistimos são as comemorações a respeito dos índices de arrecadação cada vez maiores. É claro que parte desse montante é destinada ao pagamento de juros e encargos da dívida pública da União.

Nesse contexto, registra-se um enorme descompasso entre o discurso que valoriza a educação, a escola e a política que privilegiam outros compromissos. E, são cada vez mais recorrentes os discursos sobre qualidade total, modernização da escola, adequação do ensino à competitividade do mercado internacional, nova vocacionalização, incorporação das novíssimas tecnologias de informação e comunicação, abertura das universidades aos financiamentos empresariais, pesquisas práticas, utilitárias, e de produtividade. (MARRACH, 1996).

Do que foi afirmado acima, significa compreender a escola (a educação), mas também o currículo, na perspectiva de um mercado para os produtos da indústria cultural e da informática, o que, aliás, é coerente com a idéia de funcionamento da escola à semelhança do mercado, conforme já referido. Entretanto, parece contraditório porque, enquanto no discurso, os neoliberais condenam a participação direta do Estado no financiamento da educação, na prática, não hesitam em aproveitar os subsídios estatais para divulgar seus produtos didáticos e paradidáticos no mercado escolar. Aliás, são muitos os que contam com linhas especiais de financiamento para seus empreendimentos, cujas finalidades colocam o lucro excessivo acima de qualquer outro objetivo social, educativo ou cultural. Pensar no projeto neoliberal para a educação é pensar que esta deixa de ser um instrumento para a formação de sujeitos históricos, críticos de sua realidade, para se tornar

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uma mercadoria que passa pelos processos de mercado como qualquer outra. Os sujeitos passam a ser formados não para ser cidadãos, mas para se tornarem mercadoria no processo de ensino, e consumidor dos serviços educacionais. A educação, nesta perspectiva, passa a ser uma espécie de adestradora do indivíduo para fazer dele mais um competidor no mercado de trabalho, mas, ao mesmo tempo, uma espécie de “corpo dócil” 18.

Quando os cursos, as universidades, vão buscar no mercado seus parâmetros de currículo é a fim de formar cidadãos para competir no mercado neoliberal. Sabe-se, pois, que, na sociedade capitalista neoliberal, “quem dita as normas, quem aponta os objetivos, quem, enfim, indica os caminhos a serem trilhados pela educação são os empresários.” (OLIVEIRA, 1998, p. 123). Ou seja, a educação passa a ser direcionada para atender ao mercado de trabalho e não para os cidadãos seguirem os caminhos que eles próprios desejam trilhar. Quem passa a ditar a vocação do indivíduo são os mecanismos de mercado e não o próprio indivíduo. Isto, na maioria das vezes, causa um ressentimento por parte do trabalhador em relação ao seu trabalho. Assim, o trabalhador não se encontra no seu fazer, uma vez que o direcionamento para aquela profissão foi imposto pelo mercado. Não por acaso, encontramos indivíduos que possuem duas formaturas: a primeira, escolhida porque o mercado estava absorvendo aquela especialidade, a segunda, fruto de vocação pessoal.

Temos, pois a consciência de que a educação não deve ficar alheia ao seu contexto sócio-político, porém ela também não pode ser dominada nem ditada por ele. Ela deve sim estar ligada à sua realidade, transformando-a, promovendo a cidadania. A educação não deve ser apenas aquela voltada para atender às demandas do mercado de trabalho, mas, antes de tudo, ela deve ser o elo da superação das diferenças, das desigualdades sociais e da democratização (no sentido lato da palavra) do Estado. Vamos finalizar este capítulo dialogando, mais uma vez, com Marrach (1996, p. 43) para recapitular que “no discurso neoliberal a educação deixa de ser parte do campo social e político e passa a ingressar no mercado e funcionar a sua semelhança” (grifo nosso). De acordo com o pensamento dessa autora, a retórica do neoliberalismo atribui um papel importante à educação, mas determina para ela os seguintes objetivos: atrelar a educação escolar à preparação para o trabalho; tratar a pesquisa acadêmica segundo o imperativo do
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Para maior familiaridade com essa expressão, ver a obra Vigiar e Punir: história da violência nas prisões, de

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mercado ou às necessidades da livre iniciativa; valorizar as técnicas de organização, do raciocínio de dimensão estratégica e da capacidade de trabalho cooperativo. Estes objetivos, ao lado de outras características que aparecem no decorrer destas considerações sobre o Neoliberalismo, constituem espécies de categorias que propiciam a identificação de possíveis influências desse modelo sócio-político-econômico no campo da Biblioteconomia, com base no currículo de 2005.

autoria de Michel Foucault.

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4 AGENCIAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

A produção de qualquer trabalho acadêmico (ou não), que pretenda dialogar com as condições inerentes aos modos de pensar e de fazer científicos, requer a mobilização de alguma base teórica e metodológica que lhe garanta sustentação e validade. Sendo assim, com este trabalho não poderia ser diferente. Para a consecução do que estamos propondo nesta monografia, fomos buscar na pesquisa teórica exploratória, e em alguns procedimentos metodológicos19, apresentados e discutidos na seqüência deste capítulo, as possibilidades teórico-metodológicas para a sua realização. De acordo com o entendimento de Gil (1999, p. 3), podemos considerar pesquisas exploratórias como aquelas:

[...] desenvolvidas com o objetivo de proporcionar visão geral, de tipo aproximativo, acerca de determinado fato. Este tipo de pesquisa é realizado especialmente quando o tema escolhido é pouco explorado e torna-se difícil formular hipóteses precisas e operacionalizantes sobre ele. Muitas vezes as pesquisas exploratórias constituem a primeira etapa de uma investigação mais ampla.

A conceituação acima, como podemos observar, vem ao encontro da maneira e da finalidade com que o trabalho foi elaborado, pelo menos, por duas razões. Em primeiro lugar, porque é fácil perceber que houve a preocupação em apresentar uma visão geral do assunto, capaz de possibilitar a identificação de certas características dos momentos históricos e sua relação com o tema pesquisado. Não por acaso, a razão do percurso realizado pela literatura especializada nas áreas de História, Sociologia e da própria Biblioteconomia. Pelo seu grau de importância, também merece registro o capítulo teórico que versa sobre o neoliberalismo, elaborado a partir das marcas e poder de sedução desse sistema sócio-político-econômico na esfera da educação e, por conseqüência, nos currículos.

Em segundo lugar, pelo fato de que, mesmo levando em conta os vários trabalhos sobre a área, permanecem as carências de estudos monográficos que demonstrem interesse pela estrutura dos currículos como objeto de estudo. Inclusive, no próprio Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará - UFC o tema currículo é muito pouco explorado, dificultando a formulação de “hipóteses precisas e operacionalizantes”, conforme expressões da citação acima. E, em se tratando de produções que pretendam identificar as
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A expressão agenciamento metodológico, conforme a empregamos neste texto, encerra o significado de providências (modos de fazer), procedimentos ou encaminhamentos adotados.

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influências do neoliberalismo no campo da Biblioteconomia, elas se tornam ainda mais escassas no âmbito daquela instituição de ensino superior.

O delineamento do objeto de estudo foi feito com base na pesquisa bibliográfica, tendo sido utilizados, essencialmente, materiais como livros, artigos de periódicos científicos e os currículos dos Cursos de Biblioteconomia, em nível nacional. E, na esfera local, os currículos do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará-UFC, existentes nos arquivos da Coordenação do Curso, localizada no campus do Benfica. A respeito da pesquisa bibliográfica nos empreendimentos acadêmicos, convém recapitular a importância que Gil (1999, p. 65) confere a essa atividade:

A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Embora em quase todos os estudos seja exigido algum trabalho desta natureza, há pesquisas exclusivamente a partir de fontes bibliográficas. Parte dos estudos exploratórios podem ser definidos como pesquisas bibliográficas, assim como certo número de pesquisas desenvolvidas a partir da técnica de análise de conteúdo. A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o problema de pesquisa requer dados muito dispersos do espaço. Por exemplo, seria impossível a um pesquisador percorrer todo o território brasileiro em busca de dados sobre a população ou renda per capita; todavia, se tem a sua disposição uma bibliografia adequada, não terá maiores obstáculos para contar com as informações requeridas. A pesquisa bibliográfica também é indispensável nos estudos históricos. Em muitas situações, não há outra maneira de conhecer os fatos passados senão com base em dados secundários.

Os outros agenciamentos dizem respeito aos instrumentos utilizados para as análises e interpretações dos dados, que são o Método Dialético, a Análise de Conteúdo e o Método Comparativo. E qual a razão desta escolha? Numa palavra, pelo fato de que não é mais aconselhável o emprego de um único método ou metodologia. Mas, com outras palavras, a perspectiva dialética propicia uma interpretação mais ampliada da realidade, pois não trata os fenômenos sociais de maneira isolada, mas como um membro (ou parte) do conjunto maior (o todo). Por isso, grandes expoentes do pensamento marxista, a exemplo de Engel‟s e Lênin (apud SILVA, 1987), vão definir o processo dialético de compreensão do mundo, pautados pelos conceitos de conexão, interdependência e interação. Nas palavras de Morin20, significa

20

Ver a importância concedida ao Pensamento Complexo nas diversas obras desse autor.

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acolher a multiplicidade. Além de ressaltarem que a idéia de unidade ou totalidade é da maior importância para suas reflexões sobre esta noção de método.

A análise de Conteúdo, como método analítico, surgiu na década de 30, nos Estados Unidos, embora possamos afirmar que os homens permanentemente estão analisando o mundo ao seu redor. Desde quando analisavam os textos religiosos (hermenêutica), era praticada a interpretação como forma de observar um dado fenômeno. As análises dos conhecimentos produzidas pelos homens é uma construção que parte do mundo sensível (concreto, histórico e social). Berelson (apud BARDIN, 1979, p. 18) afirma que a Análise de Conteúdo “é uma técnica de investigação que tem por finalidade a descrição objetiva, sistemática e quantitativa [mas também qualitativa] do conteúdo manifesto da comunicação”. Portanto, “pode-se aplicar a uma grande diversidade de materiais, como permite abordar uma grande diversidade de objetos de investigação: atitudes, valores, representações, mentalidades, ideologias, etc.” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 214).

Quanto ao Método ou Metodologia Comparativa, trata-se de uma técnica que procede da Sociologia Histórica e da Educação Comparada. O emprego da comparação em educação representa um importante instrumento analítico que possibilita resgatar a heterogeneidade, a singularidade e a complexidade dos processos educativos, incluindo a construção, manutenção ou reformulação dos currículos das diversas áreas. Este método, conforme o próprio título sugere, permite realizar comparações com finalidades de verificar semelhanças e diferenças nas identidades dos conhecimentos. E é exatamente esta questão que se coloca na base da elaboração do trabalho. Podemos dizer, ainda, que este procedimento analítico relaciona-se ao contexto das análises de conteúdos (BAUER; GASKELL, 2002).

O objeto deste estudo, portanto, foi analisado de acordo com os princípios dos métodos aqui selecionados, sem perder de vista a sua relação com o contexto sócio-políticoeconômico do neoliberalismo, pois o planejamento, implantação e atualização do currículo, em qualquer curso, são passíveis de influências das transformações sociais. O currículo não pode ser pensado sem levar em consideração a realidade em que se encontra envolvido. Por exemplo, não podemos mais como pensar um currículo para o Curso de Biblioteconomia que não leve em consideração as transformações decorrentes do desenvolvimento tecnológico.

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Mas sem esquecer as múltiplas implicações (positivas ou negativas) dessas inovações para o fazer e o pensar dos profissionais que o mercado aguarda.

Os métodos acima descritos representam técnicas analíticas que podem ser utilizadas como instrumentos de apreensão das mudanças a que os currículos de formação profissional vão se submetendo no decorrer dos tempos. Estas mudanças ocorrem mediante outras nomeações que as disciplinas recebem, as formas de composição dos seus conteúdos programáticos, a reelaboração dos textos das ementas das unidades curriculares, bem como de cada disciplina reformulada, dentre outros elementos curriculares. O próximo capítulo vai apresentar, discutir e analisar o material empírico sobre o qual foram produzidas as análises propostas. Para este estudo, elas contemplam somente os títulos de algumas disciplinas e suas respectivas ementas, através de comparações entre enunciados do currículo atual e o de 1995, procurando identificar possíveis influências do neoliberalismo no currículo de 2005.

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5 O CURRÍCULO DE 2005 E O NEOLIBERALISMO: Auscultando o Objeto.

5.1 Sedução e Temor

Chegamos ao capítulo que representa o objeto de estudo desta monografia, que é o currículo de 2005. Este currículo resultou do Projeto Pedagógico atualizado em outubro de 2006, em atendimento às propostas do Ministério da Educação e da Nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). Trata-se de uma arquitetura composta por conteúdos teóricos e atividades práticas cujos significados buscam responder aos desafios que se colocam urgentemente para os bibliotecários, há muito, convocados para o atendimento das demandas e exigências de uma sociedade cada vez mais informatizada.

Dispondo-nos a observar o que acontece à nossa volta, não é difícil constatar que as ciências avançam a passos sempre mais velozes, além de tornarem-se cada vez mais especializadas, acarretando a divisão do trabalho e os inconvenientes decorrentes da própria hiperespecialização, do parcelamento e da fragmentação do saber. (MORIN, 2000). Seguindo a linha de raciocínio desse autor, temos que a sociedade atual apresenta, dentre outros malestares, um problema universal, que diz respeito ao excesso e acesso à informação. Isto é, como ter acesso às informações sobre o mundo, que brotam incessantemente como se fora uma espécie de dilúvio? Evidentemente, trata-se de um processo irreversível, mas que pode ser minimizado graças aos processos de organização cuja finalidade é minimizar esse caos e, desse modo, possibilitar condições de acesso.

Consta na apresentação do referido Projeto Pedagógico (2004) que sua elaboração foi orientada por uma concepção de educação fundamentada na perspectiva transdisciplinar, cuja abordagem remete para o aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a viver em conjunto e aprender a ser, conforme também sugere Morin (2000). Esta forma de compreender a educação implica o estabelecimento de interações comunicacionais entre professores, texto e contexto da formação profissional, ensejando a manutenção de diálogos entre os professores e alunos, tendo em vista revisões constantes nos planos de ensino, nos programas e conteúdos. Sem esquecer, também a renovação dos referenciais metodológicos norteadores da gestão do processo ensino-aprendizagem, numa demonstração efetiva de respeito ao compromisso do Curso no que concerne à formação profissional.

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Além das buscas de fundamentações epistemológicas condizentes com o momento presente, torna-se oportuno ressaltar que a Comissão de Reformulação Curricular procurou reunir estudos e discussões decorrentes de fóruns locais, nacionais e internacionais, com a finalidade de reunir subsídios suficientes para a consecução da proposta apresentada no documento que define o Projeto Pedagógico em estudo. Também foi realizado um diagnóstico do curso, que funcionou como instrumento fundamental para a contextualização do trabalho coletivo norteador de sua construção.

Nesta perspectiva, foram estudadas e analisadas as condições e formas de inserção das atividades biblioteconômicas no contexto da sociedade cearense, tendo como principal objetivo identificar suas contribuições e limitações a serem superadas. De maneira que estas iniciativas propiciaram a construção de espaços dialógicos entre a instituição de ensino formadora da profissão (representada Universidade Federal do Ceará –UFC), e a sociedade (representada pelos mais variados segmentos, incluindo o mercado). Os resultados desses encontros foram da maior importância, pois ratificaram pontos de vista antes defendidos com freqüência. Dentre eles, podemos citar a afirmação de que o enfrentamento das demandas informacionais, de nossa atualidade, pede a renovação urgente dos perfis profissionais diante da complexidade do cenário das ciências da informação.

Na verdade, o currículo de formação do bibliotecário na Universidade Federal do Ceará - UFC, a partir do ano de 2005, deixa transparecer a sensação de maior abertura para disciplinas consideradas de cunho humanístico, mas, paradoxalmente, amplia o elenco das disciplinas obrigatórias que dão status tecnicista, ou melhor, tecnológico à profissão. Esta característica pode ser atribuída à condição de uma área que experimenta enormes dilemas no que diz respeito ao desejo de construção e manutenção de uma identidade que lhe garanta reconhecimento e respeitabilidade perante a academia e suas produções científicas.

Neste sentido, podemos inferir o quanto deve ser dolorosa a experiência que a Biblioteconomia tem de pretender apresentar-se como representante das humanidades sem deixar transparecer o remorso, ou a culpa, de estar praticando um ato de infidelidade para com o neoliberalismo, cujos signos mais ilustrativos desse modelo econômico, são os dispositivos tecnológicos da informação e da comunicação. E, como sabemos, o domínio destas ferramentas é que fazem a identidade do bibliotecário contemporâneo.

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5.2 A reforma curricular: ditos e não-ditos

O currículo a que nos estamos referindo foi elaborado por todos os professores do Departamento de Ciências da Informação. Os docentes que integraram a Comissão da Reforma Curricular e do Projeto Político-Pedagógico (PPP), no curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará - UFC encontram-se relacionados no quadro abaixo. Nele, aparecem suas titulações acadêmicas, cargos de chefia, bem como as representações que desempenhavam, na época, em cada unidade curricular do curso. Quadro 20 – Comissão da Reforma Curricular (2005) Cargo

Membros

Profª. Drª. Lídia Eugênia Cavalcante Profª. Drª. Maria do Rosário de Fátima Portela Cysne Prof. Dr. Luiz Tadeu Feitosa Profª. Msc. Maria de Fátima Oliveira Costa

Chefe do Departamento Coordenadora do Curso Coordenador de Estágio Representante Titular da Unidade de Gestão da Informação Profª. Drª.Virgínia Bentes Pinto Representante Titular da Unidade de Pesquisa Prof. Dr. Casemiro Silva Neto Representante Titular da Unidade de Fundamentação Prof. Dr. Raimundo Benedito do Nascimento Representante Titular da Unidade de Tecnologia da Informação Profª. Msc. Maria de Fátima Silva Fontenele Representante Titular da Unidade de Processamento Profª. Drª. Ana Maria Sá de Carvalho Membro Prof. Msc. Antônio Wagner Chacon (atualmente Doutor) Membro Profª. Msc. Rute Batista de Pontes Membro Prof. Msc. Márcio Assumpção Pereira da Silva Membro Profª. Esp. Ivone Bastos Bonfim Andrade Membro
Fonte: Projeto Político Pedagógico do Curso de Biblioteconomia atualizado em outubro de 2006.

Em se tratando das mudanças que podem ser nomeadas de significativas para este novo currículo, podemos afirmar que foram as seguintes: a) Estágio Supervisionado, tanto no que tange ao campo de atuação, bem como ao período, à supervisão e acompanhamento das atividades a ele inerentes; b) a inclusão da disciplina Monografia, devidamente aprovada a partir do primeiro semestre de 2000; c) e a criação do Departamento de Ciências da Informação (a mais importante ou, pelo menos, a que mais repercutiu no contexto da Universidade Federal do Ceará - UFC), aprovada em reunião de Departamento, no dia 17 de

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agosto de 2000, no Conselho do Centro de Humanidades, em 21 de setembro do mesmo ano, e no Conselho Universitário em 14 de maio de 2001.

O Curso de Biblioteconomia da UFC tem duração de 04 anos (08 semestres), com carga horária de 3072 horas/aula. O referido curso disponibiliza 50 vagas anual, no turno diurno (das 13h às 19h e opcionais à noite). Está vinculado ao Centro de Humanidades, no Campus do Benfica. Foi aprovado pelo CONSUNI (Conselho Universitário), em 17 de fevereiro de 1964, cujo reconhecimento pelo MEC se deu através do Decreto n°70168, de 18 de fevereiro de 1972, tendo sido publicado no Diário Oficial da União de 21 de fevereiro de 1972, com sua primeira turma de concludentes prevista para dezembro de 1967.

O texto do Projeto Pedagógico do Curso de Biblioteconomia, atualizado em outubro de 2006, afirma que pretende enfatizar a formação do profissional com domínio no manuseio da tecnologia, sem deixar de lado a competência humana, capaz de perceber a diversidade social, procurando tornar a biblioteca ou unidade de informação um ambiente que funcione como centro cultural da cidade, ou de outra localidade onde estiver inserida. Afirma, ainda, que se torna necessário e urgente entender e interagir com o ambiente sócio-políticoeconômico onde atua, além de destacar que é imprescindível o conhecimento da realidade social e cultural. O currículo de 2005 está organizado em sete unidades: Cada uma dessas áreas busca estabelecer relações entre si. Além das disciplinas ofertadas, é facultada aos alunos a oportunidade de ampliar e dar maior substância aos seus conhecimentos, na área, através das experiências de Monitoria e da Iniciação Científica.

Através do estudo da literatura acerca dos currículos de formação do bibliotecário na Universidade Federal do Ceará -UFC, bem como da literatura acerca de neoliberalismo, visualizamos que tanto os currículos de 1995, quanto no de 2005, objeto desta monografia, existem mais disciplinas que nos anteriores. E que estas disciplinas estão se inclinando muito mais para o viés tecnológico. No currículo de 2005, especificamente, este fato pode ser observado com maior intensidade, pois desde o segundo semestre os alunos já entram em contato com as tecnologias de Informação e de Comunicação, na disciplina denominada Tecnologias da Informação II, o que não ocorria no segundo semestre do currículo de 1995, que ainda atentava para os aspectos sociais e culturais.

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Sendo o neoliberalismo uma das correntes filosóficas do sistema capitalista, no qual o principal objetivo é o lucro e não as pessoas, como afirma Chomsky (2004), podemos perceber que no desenho curricular atual, há predominância de disciplinas com um cunho mais tecnológico, para não dizer tecnicista. Assim, cabe-nos indagar se o motivo que levou os elaboradores do currículo de 2005 a mais uma atualização (embora o discurso não seja explícito) não é, na verdade, atender às expectativas profissionais do mercado que são ideologicamente ligadas ao desejo do sistema neoliberal.

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6 DISCIPLINAS E EMENTAS: ANÁLISES, DISCUSSÕES E SENTIDOS Dando continuidade ao empreendimento acadêmico ora produzido, alcançamos a sua última e desafiadora parte. Trata-se, como vinha sendo anunciado, do capítulo ao qual compete realizar as análises referidas ao longo do desenvolvimento desta monografia, seja através de enunciações explícitas ou implícitas. Portanto, não obstante as diversas passagens anteriores, que se reportavam às atividades realizadas neste momento, ainda consideramos necessário tentar descrever, com a maior clareza possível, alguns procedimentos aqui adotados, conforme as explicações que se seguem.

Decidimos trabalhar somente com as disciplinas obrigatórias. Neste sentido, do total de disciplinas componentes da grade curricular do curso, que são quarenta e duas (sem contar com as optativas), fizemos a seleção de vinte e três, deixando de incluir as disciplinas introdutórias ministradas por outros departamentos, como as introduções à Sociologia e à Filosofia. As análises cuidaram da comparação dos nomes das disciplinas e suas respectivas ementas referentes aos currículos de 1995 e 2005, com ênfase neste último. A principal finalidade é identificar as influências crescentes do neoliberalismo, cujas marcas vão desaguar, de maneira explícita, na última atualização do Projeto Pedagógico.

Para tanto, tivemos que elaborar as seguintes convenções: E1 (primeira ementa ou ementa um) para designar as ementas do currículo de 2005, bem como a ordem de seqüência das análises; D.A. (Denominação anterior) empregada para nomear o currículo de 1995, porém, às vezes, estas iniciais aparecem numeradas. E por qual motivo? É que há situações em que duas disciplinas acabaram se transformando em quatro. Administração de Bibliotecas e Organização & Métodos, por exemplo, agora aparecem nomeadas de Gestão de Recursos Humanos; Gestão de Unidades de Informação; Organização, Sistemas e Métodos em Unidades de informação; e Planejamento de Unidades de Informação. Fato semelhante podemos constatar com a disciplina Introdução à Biblioteconomia que, no atual currículo, se subdividiu em duas, mantendo a primeira denominação em uma delas, e tratando a segunda como Fundamentos Teóricos da Biblioteconomia e Ciência da Informação.

E1 - Cultura e Mídia: Os elementos definidores da cultura, e a oposição natureza/cultura. Os pressupostos antropológicos, etnológicos e etnográficos. Invariantes ou universais da cultura;

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noções de texto cultural; de formas simbólicas; contribuições dos estudos do cotidiano; relação das novas tecnologias da comunicação e da informação com a cultura; cultura, mídia e processos míticos; a construção simbólica de poder e a violência dos símbolos sociais; construção e declínio das identidades tradicionais; novas identidades ou subjetividades, hibridismos, sincretismos e bricolagem nas produções culturais contemporâneas; as novas formas de sociabilidade; novos modos de lidar com o corpo.

D.A.: História da Cultura e dos Meios de Comunicação: Os elementos definidores da cultura. A relação entre natureza e cultura. Os pressupostos antropológicos, arqueológicos, etnológicos e etnográficos da cultura. Os invariantes ou universais da cultura. A contribuição semiótica da cultura e das teorias da comunicação. ANÁLISE: Nessa ementa (E1), podemos observar, tanto em sua extensão como nas marcas em negrito, que seu conteúdo passou por determinada redefinição, mas, provavelmente, muito mais com o simples objetivo de que a disciplina deveria ser visualizada de outra forma. Sim, porque, na verdade, não há registros de mudanças substanciais, pois, por si mesma, através do seu lead (lide), já sabemos que ela vai tratar da forma como a cultura interfere na mídia e esta na cultura. É importante frisar, ainda, que a mídia, meio, ou canal de informações, representa um dos elementos que, na maioria das vezes, vem corroborar com a legitimação do sistema vigente, através dos investimentos no marketing, uma vez que este procedimento estratégico sempre esteve a favor do capital, ou da sociedade capitalista neoliberal.

A disciplina em análise contém, sim, elementos do sistema neoliberal, em especial, quando trata da relação das novas tecnologias da comunicação e da informação com a cultura, tendo em vista que, após a terceira revolução industrial, a robótica, a informatização, ou seja, as tecnologias vêm agindo e modificando a forma de viver das sociedades. Podemos perceber tal fato quando vamos reduzindo cada vez mais a necessidade de ir ao banco, porque podemos movimentar a conta bancária através da internet; quando marcamos consultas médicas on line ou em tempo real; quando compramos passagens via internet; quando não mais conversamos com um amigo através do contato direto, mas pelo msn, orkut, web cam, que são os novos espaços de sociabilidade.

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Estes espaços também trouxeram outras conseqüências, dentre elas, novas identidades para os sujeitos, quando entramos em outro ambiente social, como é o caso do orkut e do msn, onde pode ser criado um outro local de convívio, onde as pessoas podem experimentar-se, sendo o que elas gostariam de ser. No entanto, neste “admirável mundo novo”
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, também podemos nos deparar com inimagináveis modalidades de crimes. Pessoas

que, aparentemente, são consideradas extremamente sociáveis, às vezes, passam a externar graus de periculosidade aterrorizantes, mediante a prática da pedofilia, do roubo através da Internet, do estelionato, ou até do seqüestro virtual, dentre outros crimes.

Outra característica marcante do sistema capitalista neoliberal - as novas formas como passamos a lidar com o corpo -, também aparece descrita na ementa desta disciplina. É que, na sociedade contemporânea, os cientistas parecem haver descoberto a fórmula que os alquimistas tanto buscavam, ou seja, o elixir da eterna juventude: malhar, cirurgias plásticas (para encobrir as rugas, esconder as celulites), além de adotar regimes alimentares, vestir-se e agir como pessoas sempre jovens. A sensação é a de que, para a juventude, o tempo não pode passar, há que se tornar uma eternidade. Esta busca compulsiva vem contribuindo para o surgimento de um novo apartheid entre gordos, velhos e feios.

E2 - História dos Registros do Conhecimento: A gênese dos registros do conhecimento humano. História e evolução do registro informacional e do seu aspecto comunicativo e cultural. O tempo e o espaço da informação registrada. Conhecimento: produção, circulação e gestão.

D.A.: História dos Livros e das Bibliotecas: A gênese dos registros do conhecimento humano. História e evolução do registro informacional e do seu aspecto cultural. O tempo e o espaço da informação registrada. Conhecimento: produção, circulação e gestão.

ANÁLISE: Em relação a essa disciplina (E2), percebemos que, diferentemente da anterior, nada foi modificado em sua ementa. Inferimos, claramente, pelas marcas em negrito, que o conhecimento é tratado como mercadoria, uma vez que, a exemplo de qualquer outro produto, também é obrigado a passar pelas etapas da produção, circulação, gestão e consumo, ou apropriação. O conhecimento é tratado como mercadoria, primeiro, porque amplia o mercado
21

Trata-se do título de uma obra da autoria de Aldous Leonard Huxley, que trata sobre o homem moderno.

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consumidor, pois a educação, que tem por objetivo produzir conhecimento, é vista como geradora de trabalho, de consumo e cidadania (incluir mais pessoas como consumidoras); segundo, porque deixa transparecer a crença de que a educação trará estabilidade política nos países em que ela se encontra subordinada aos padrões e interesses capitalistas, a fim de garantir permanência no poder de quem já o detém (educação para dominação).

Nos países capitalistas, a educação raríssimas vezes é visualizada como promotora da cultura do indivíduo e necessária a este como uma forma de crescimento pessoal. Ela é mais vista como geradora de lucro. Não são escassos os momentos em que escutamos frases do tipo: “temos de estudar para ser alguém na vida”, como se o indivíduo aprendesse a ser na escola. Quem tem conhecimento é, quem não tem não é, e por não-ser, fica excluído da sociedade e passa a viver sem as condições mínimas de sobrevivência. Por isso, corroborando com Heráclito de Éfeso, quando afirma que o ser nada mais é que o não-ser, podemos também afirmar que quem tem conhecimento, por “ter”, é, mas por não ter outros tipos de conhecimentos, também não-é, mas nem por isso ele deixa de ser. Desta forma, explicita-se a eterna luta da sociedade que é dividida entre quem tem e quem não tem. Quem possui determinado conhecimento está em posição de vantagem, especialmente, na sociedade capitalista neoliberal.

A educação vem agindo na sociedade como norteadora de competitividade entre os países, ou seja, quem detém maior número de alfabetizados, de pesquisadores, de incentivo em ciência e tecnologia está em situação de vantagem no mercado neoliberal, por ter maior capacidade de empregabilidade em momentos de crise. Importante observar que, no sistema capitalista neoliberal, o que vale não são as pessoas e, sim, o tamanho do lucro. Da mesma forma, o conhecimento com vistas à aplicabilidade é o que vale na sociedade neoliberal, e não o conhecimento promotor da vida do indivíduo. O conhecimento, sobretudo formal, passa a ser mostrado como elemento para a sobrevivência do indivíduo e dos países, e desta maneira, a educação converte-se em arma de guerra poderosa e individualista, onde cada um procura a sua própria sobrevivência, ao invés de ser promotora da vida em sentido amplo, ou seja, do conjunto das satisfações dos interesses coletivos.

E3 - Informação e Sociedade: Analisar a Informação no contexto das sociedades, observando os processos históricos, ideológicos e socioculturais relacionados aos fenômenos

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informacionais. Refletir sobre os fenômenos sociais no âmbito da chamada Sociedade da Informação. Analisar a informação no espaço midiático e a reordenação das identidades socioculturais, bem como os modos de sociabilidade e as demandas informacionais. Reflexão sobre os cursos de Ciências da Informação e a formação dos profissionais da informação diante das expectativas da sociedade atual, assim como os rumos das produções e das disseminações de informação: as instituições e o gerenciamento dos fluxos de informações. Os novos cenários da Sociedade da Informação.

D.A.: Biblioteca e Sociedade Brasileira: Análise da informação no contexto das sociedades, observando os processos históricos, ideológicos e sócio-culturais relacionando aos fenômenos informacionais. Reflexão sobre os fenômenos sociais no âmbito da chamada “Sociedade da Informação”. Análise da biblioteca no espaço midiático e a reordenação das identidades sócio-culturais, bem como os modos de sociabilidade e as demandas informacionais. Os cursos de Ciências da Informação e a formação dos profissionais da informação diante das expectativas da sociedade atual, assim como os rumos da produção e disseminação da informação. Instituições e gerenciamento dos fluxos de informações. Os novos cenários da Sociedade da Informação.

ANÁLISE: Essa ementa (E3) não apresenta mudança substancial de conteúdo, continua a mesma, e a disciplina mudou apenas de nome, mas a essência é a mesma. A ênfase é posta nos rumos da produção e disseminação da informação, o que nos faz perceber que, mais uma vez, a informação é vista como mercadoria para atender às demandas da sociedade capitalista neoliberal. Pelo que nos é dado perceber, parece que, o currículo do Curso de Biblioteconomia busca formar consumidores, e não propriamente cidadãos. Evidentemente, a educação visa a formar pessoas centradas na sua capacidade de gerar cada vez mais capital, seja ele financeiro, intelectual ou simbólico. E não tem como o sistema neoliberal auferir lucros se as pessoas tiverem um senso crítico aguçado e uma visão crítica acerca da sociedade.

E4 - Teorias da Informação e da Comunicação: A comunicação e a informação como fatores de interação social. Seu desenvolvimento e a busca de fundamentação científica. Influências de outros campos do conhecimento para a elaboração de modelos e teorias. O

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papel das novas tecnologias midiáticas na inauguração do paradigma informacional contemporâneo. Novos investimentos teóricos; os estudos de recepção.

D.A.: Teoria da Comunicação I: A comunicação como evento fundante de interação social. Seu desenvolvimento e a busca de fundamentação científica. Influências de outros campos do conhecimento na elaboração de modelos e teorias. Os novíssimos dispositivos tecnológicos da informação e da comunicação e a inauguração do paradigma comunicacional contemporâneo.

ANÁLISE: Nessa disciplina, a ementa (E4) apresenta as tecnologias de informação e de comunicação como dispositivos de interação social, porém esquecemos, muitas vezes, que dialogar diretamente, de pessoa a pessoa (interfacial), significa aprender que o diálogo é uma experiência central na história das sociedades humanas, em meio às tensões criadoras e conflituosas, entre a unicidade e a multiplicidade, a universalidade e a especificidade, a globalidade e a localidade. É também aprender que a democracia é vida, que a solidariedade, a capacidade de reconhecer que toda contribuição é necessária à vida de todos os seres humanos, cuja forma de expressão mais profunda e vivificante encontra-se na linguagem ou na comunicação tomadas em seu sentido mais profundo.

E5 - Fundamentos Teóricos da Ciência da Informação e da Biblioteconomia: Análise do fenômeno informacional, assim como o surgimento e desenvolvimento da

Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação, sob uma abordagem sociológica, técnica e cultural, de modo a permitir ao aluno obter um melhor entendimento dessas áreas de conhecimento na estrutura e organização da sociedade e da cultura nacional e local. Abordagem filosófica e científica da Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação, enfocando as influências teóricas para a construção destas disciplinas como arte, técnica e ciência. A Ciência da Informação em uma perspectiva de ciência pós-moderna. A Biblioteconomia e a Ciência da Informação: da produção à distribuição dos registros do conhecimento, da biblioteca tradicional aos sistemas de informação nacional e Ciência da Informação: perspectiva Nacional e no mundo.

D.A.: Introdução à Biblioteconomia: A disciplina introduz, de forma geral e abrangente, idéias centrais e mais significativas do corrente debate nacional e internacional acerca do

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conteúdo e das práticas da Biblioteconomia e da Ciência da Informação. Através de estudo individual e em grupos da literatura especializada, de palestras com especialistas e de visitas orientadas a bibliotecas e unidades de informação os seguintes aspectos são abordados: 1) Fundamentos da Biblioteconomia e sua relação com disciplinas afins, tais como Documentação, Ciência da Informação e Computação; 2) Biblioteconomia e Ciberespaço; 3) O emergente mercado da informação como um novo espaço que requer novos papéis do bibliotecário; 4) Perfil, educação e formação do bibliotecário frente às mudanças constantes da sociedade da informação; 5) Legislação profissional e os órgãos de classe; 6) Compromisso social, técnico e cultural da profissão em relação ao controle, processamento, armazenagem, difusão, transferência e disseminação da informação no contexto brasileiro.

ANÁLISE: Através do primeiro destaque da ementa em análise (E5), observamos que a Biblioteconomia é estudada numa correlação com seu contexto sócio-político-econômico, fato não identificado nos primeiros currículos do curso. Muito importante a análise dos sistemas de informação através de sua perspectiva histórica (da biblioteca tradicional aos sistemas de informação nacional e mundo). Contudo, também visualisamos que o currículo de formação do bibliotecário, mais uma vez, vem corroborando com o sistema econômico vigente, pois trata a Biblioteconomia e a Ciência da Informação orientando-se pelo processo de produção até a distribuição dos registros do conhecimento, ou seja, concebe os produtos informacionais de acordo com as perspectivas do mercado. As mercadorias, produtos da sociedade capitalista (defendida pelos neoliberais), são partes dos processos de mercado: produção, circulação e consumo ou apropriação. O mercado é o principal meio ou mediação da sociedade capitalista, pois, sem ele, inexistia o capitalismo.

E6 - Controle dos Registros do Conhecimento: Reflexão e análise da perspectiva histórica do controle dos registros do conhecimento, inserindo no espaço da comunicação e da cultura, abordando seus princípios, finalidades, objetivos e evolução. Estudo sobre a produção atual dos registros do conhecimento no Brasil e no Mundo, as tecnologias utilizadas no suporte da informação, seus conceitos, princípios, objetivos, finalidades e aplicabilidades nos diversos suportes documentários. Organismos internacionais e nacionais envolvidos no controle e produção da representação bibliográfica. Amostra dos serviços e produtos da representação bibliográfica com suas características e funções peculiares.

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D.A.: Introdução ao Controle Bibliográfico: Organismos internacionais e nacionais envolvidos com o controle bibliográfico. Princípios, finalidades, objetivos e evolução do controle bibliográfico universal: conceito e objetivo. A problemática do controle bibliográfico no Brasil. ANÁLISE: É interessante observar que na ementa (E6), encontra-se a palavra Controle. E, um dos princípios do neoliberalismo, é o controle de estado como meio para a transformação da organização social. Esse mesmo Estado que controla o social, paradoxalmente, deixa de controlar os bens e serviços sociais, por exemplo, o provimento de algumas necessidades básicas como saúde, emprego, habitação, alimentação da população. O que se observa é que, a cada dia, o governo, delega para a população a responsabilidade de muitos dos serviços que durante muito tempo foi atribuição do Estado. A partir da entrada do Neoliberalismo no Brasil, no governo do Collor de Mello, a população passou a contratar cada vez mais os serviços privados, em detrimento dos serviços oferecidos pelo Estado. Atualmente, a população prefere custear plano de saúde particular, a ter de ficar anos em uma fila de espera, mesmo que, atualmente, já tenhamos incorporado as tecnologias de informação e de comunicação para facilitar o fluxo das filas de espera. Há também o estudo acerca da produção atual dos registros do conhecimento, ou seja, os novos suportes de informação da sociedade da informação, as questões de copyright, copyleft com os registros de informação na internet. Percebemos que mesmo as ideologias capitalista e neoliberal estando em pleno vigor na sociedade contemporânea, e que o neoliberalismo defende os princípios econômicos do neoliberalismo, não são todos os grupos que estão de acordo com essas ideologias vigentes. Por exemplo, existem sites na internet que já disponibilizam livros na íntegra para os usuários, como forma de contrariar o cerceamento do capitalismo, pois muitas pessoas, pelo menos a maioria da sociedade, não podem custear um livro, pois, mesmo com alguns incentivos governamentais, ainda pode ser considerado artigo de luxo. Então, como forma de contrariar esta sociedade altamente excludente, os “grupos de recusa” estão trabalhando para que, diante do controle do capitalismo, alguma coisa possa ser criada em favor dos que são mais carentes.

E7 - Gestão de Recursos Humanos em Unidades de Informação: O papel dos gestores nas organizações descobrindo potencial, liderança, habilidades e competências nas unidades de

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informação, buscando aplicar técnicas de motivação, desenvolvimento de pessoas, procurando suprir as dificuldades e problemas.

E8 - Gestão de Unidades de Informação: Desenvolvimento de conceitos da Teoria Geral da Administração nos ambientes organizacionais com ênfase na gestão do conhecimento, destacando o papel e a importância do gestor nas unidades de informação.

E9 - Organização, Sistemas e Métodos em Unidades de Informação: A compreensão dos fundamentos da organização, localizando-a numa abordagem sistêmica, ressaltando sua estrutura organizacional com suas normas, rotinas e fluxos de trabalho; destacando o papel e a importância das Unidades de Informação, através de um enfoque organizacional.

E10 - Planejamento de Unidades de Informação: A compreensão dos aspectos gerais do planejamento e a sua importância para a gestão em unidades de informação, considerando fatores como o econômico, social e educacional brasileiro, visando à elaboração e avaliação de planos e projetos.

D.A.1: Administração de Bibliotecas: Enfoque histórico da administração enfatizando as principais abordagens do pensamento administrativo e perspectivas futuras, focalizando os ambientes organizacionais, destacando o papel e a importância do gestor nas unidades de informação.

D.A.2: Organização e Métodos em Bibliotecas: A compreensão dos fundamentos da organização, focalizando-a numa abordagem sistêmica, ressaltando sua estrutura

organizacional com suas normas, rotinas e fluxos de trabalho, destacando os componentes básicos e serviços das unidades de informação, realçando o seu papel e importância através de um enfoque organizacional.

ANÁLISE: Através da análise dessas ementas (E7, E8, E9 e E10), podemos visualizar a importância dada às disciplinas que atentam para a preparação do mercado de trabalho, que é um dos objetivos do Estado Neoliberal quando pensa a educação. A educação para a formação de recursos humanos, como nos incita o título da ementa (E8): Gestão de Recursos Humanos

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em Unidades de Informação. Esses gestores terão o papel de descobrir potenciais lideranças, habilidades e competências para as unidades de informação. Desta forma, percebemos uma educação voltada para a formação de recursos humanos que atenda ao mercado de trabalho, como finalidade última de toda a formação.

Nesta visão, o recurso humano é visto na perspectiva de qualquer recurso material, que deve ser organizado, gerenciado, valorizado, rebaixado, reciclado, abandonado caso não seja mais útil para a empresa. Ou seja, o ser-humano é rebaixado à condição de mercadoria na empresa, e deve estar disponível em qualquer lugar. Importante frisar que o direito do trabalhador à existência depende de seu bom desempenho e rentabilidade. O trabalhador, na sociedade capitalista neoliberal, é quem deve mostrar a sua necessidade na empresa, e não o contrário, pois assim ele fica sob o jugo do patrão.

Embora não esteja contida explicitamente na ementa, não podemos nos esquecer da noção de qualidade total. Este termo é utilizado para aproximar a escola da empresa, ou seja, aliar escola e negócio, mas negócio muito bem administrado. O raciocínio neoliberal é tecnicista, percebe os problemas sociais, políticos, econômicos como de gerência adequada e eficiente, ou inadequada e ineficiente. Ao comparar público e privado, a retórica neoliberal considera que a qualidade da primeira instância é inferior a da segunda, porque a administração pública é ineficaz, desperdiça recursos, usa métodos atrasados. Não leva em conta a diferença social existente entre ambas.

Desta forma, a noção de qualidade traz no seu bojo o tecnicismo, que reduz os problemas sociais a questões administrativas, esvaziando os campos, social e político do debate educacional, transformando os problemas da educação em problemas de mercado e de técnicas de gerenciamento. Com as novas tecnologias de informação e de comunicação, a educação vai para o mercado, através dos financiamentos de pesquisa, marketing cultural, educacional, da mesma forma que com as técnicas de reprodutibilidade do início deste século, a arte foi e ficou no mercado. No fundo, ambos os processos são apenas desdobramentos de um processo maior, o de racionalização ou "desencantamento do mundo”22, analisado por Max Weber, para quem qualquer coisa pode se tornar uma mercadoria.
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Trata-se de expressão por demais conhecida, é daquelas que caíram no gosto popular, repetida com muita freqüência quando a discussão diz respeito ao mal-estar provocado pela Modernidade.

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Também é importante sublinhar a competitividade intrínseca às organizações. Competir a fim de atrair mais mercados consumidores e mais consumidores. As empresas competem entre si, e esta idéia de competição entre empresas é tão trabalhada na mente do trabalhador que este passa a competir com os colegas da mesma empresa, a fim de provar quem é o melhor. O trabalho, desta forma, em vez de gerar solidariedade, gera a luta de classes. Mas, diante desta competitividade, o que acontece é o comprometimento do bom andamento do trabalho, pois a idéia que acaba predominando não é a de fazer bem o trabalho para dignificar o homem, mas a de competir e passar por cima do colega.

E11 - Introdução à Pesquisa Bibliográfica: Noções elementares do estudo com base na pesquisa em bibliotecas, com vistas à produção de trabalhos acadêmicos.

E12 - Metodologia da Pesquisa em Ciência da Informação e Biblioteconomia: Reflexões sobre a ciência e seus pressupostos e outras formas de conhecimento e sua contribuição para o desenvolvimento científico, levando em consideração a natureza e os tipos de conhecimentos, as ciências puras e aplicadas, com ênfase sobre a Ciência da Informação. Abordagens sobre os métodos científicos, os tipos de pesquisa: exploratória experimental (explicativa) e descritivas, bem como e as técnicas de coletas de dados e, finalmente, a elaboração do Projeto de Pesquisa.

E13 - Metodologia do Trabalho Científico: Abordagem dos principais pressupostos teóricos e metodológicos para a utilização dos procedimentos e técnicas da investigação documental com vistas à elaboração de trabalhos técnico-científicos, oferecendo subsídios básicos que orientem o aluno na elaboração de textos técnicos e científicos. Etapas da pesquisa documental: escolha e estudo do tema de pesquisa, delimitação temática com vista ao levantamento das fontes de informação, técnicas para seleção, acesso, análise, esquematização e fichamento de textos para a elaboração da revisão de literatura. Tipologia de documentos técnico-científicos. Estrutura de trabalhos técnico-científicos: monografia, TCC, dissertação, tese, relatório, coletânea, publicações seriadas e periódicas, publicações de referência, resumo, recensão, resenha, memorial e currículo. Normalização da Documentação: órgãos de normalização nacional e internacional: ISO, ABNT, VANCOUVER, NORMAS BRASILEIRAS REGISTRADAS DE DOCUMENTAÇÃO – NBRS.

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E14 - Métodos Quantitativos em Ciência da Informação e Biblioteconomia: Compreensão sobre as atividades de gerenciamento, planejamento e pesquisa, em áreas referentes à Ciência da Informação e Biblioteconomia. Reflexão sobre a necessidade de aplicação na gerência das Unidades de Informação e dos Sistemas de Informação de técnicas análogas às utilizadas correntemente na gerência das Organizações Industriais e Comerciais. Compreensão da organização de dados quantitativos e qualitativos, das medidas de tendências central, das medidas de variabilidade, das técnicas de amostragem dos testes paramétricos e não-paramétricos, da análise de variância e das distribuições bibliométricas. Reflexão da necessidade de analisar problemas da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação e compreender um conjunto de dados relevantes ao seu objeto particular de estudos que visa ao desenvolvimento de modelos para descrever as características e uso nas Unidades de Informação.

E15 - Métodos Quantitativos Aplicados à Ciência da Informação e Biblioteconomia: A organização de dados quantitativos e qualitativos, as medidas de tendências central e as medidas de variabilidade, fazem-se necessária na Ciência da Informação e, em particular, em cursos de Biblioteconomia. Isto se justifica em função da necessidade de analisar problemas da área e compreender um conjunto de dados relevantes ao seu objeto particular de estudos.

D.A.1: Estatítica Aplicada à Biblioteconomia: Compreensão dos fundamentos da estatística a contemplar uma introdução à probabilidade, distribuição de probabilidade e ao estudo de correlação. Dar-se-á ênfase às técnicas de amostragem, testes de hipóteses e as noções de bibliometria (lei de Zipt, lei de Lotka e lei de Bradford). Finalmente, será realizada a prática de laboratório via o pacote estatístico SPSS.

D.A.2: Metodologia da Pesquisa em Biblioteconomia: Orientação de trabalhos. Ciência, conhecimento científico e investigação. O método científico. Tarefas da ciência. Problemas epistemológicos da ciência social.

ANÁLISE: Importante observar neste momento que, no currículo de 1995, a única disciplina que tratava de métodos quantitativos era Estatística Aplicada à Biblioteconomia, e era lecionada por professores do Departamento de Estatística que, muitas vezes, desconhece o fazer bibliotecário e transmite a disciplina como se fosse para uma turma das Ciências Exatas.

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No currículo de 2005, essa mesma disciplina foi renomeada para Métodos Quantitativos em Ciência da Informação e Biblioteconomia, e Métodos Quantitativos Aplicados à Ciência da Informação e Biblioteconomia.

Em grande parte das disciplinas deste currículo, com forme ilustram as ementas (E11, E12, E13, E14, e E15), houve apenas mudanças de nomenclaturas, pois a substância continuou a mesma. Agora, a ênfase deste currículo é muito mais nos aspectos técnicos em detrimento dos culturais ou humanísticos. O que mais constatamos nas análises, até aqui realizadas, foi o desdobramento de disciplinas em duas ou mais, conforme indicamos na abertura deste capítulo. Vimos, até aqui, que a maioria das disciplinas ratifica os padrões sócio-político-econômico vigentes. O currículo de formação do bibliotecário contemporâneo corrobora com o neoliberalismo, embora este mesmo currículo incorpore disciplinas também de cunho humanístico. O modelo neoliberal é resumido na palavra qualidade. Dito de outra forma, é a excelência do ensino e da pesquisa, professores competentes, com domínio de conteúdos, científicos de alto nível e de conhecimentos instrumentais, pesquisas de ponta capazes de gerar tecnologias competitivas na “aldeia global”23

E16 - Geração e uso de Base de Dados para Unidades de Informação: Compreensão dos conceitos básicos sobre Base de Dados e seus objetivos para os sistemas de base de dados. Reflexão sobre a abstração dos dados, modelos de dados, instâncias e esquemas a fim de dar ênfase nos projetos para a geração de Banco de Dados via o Software Ms-Access. Finalmente, dar-se-á ênfase ao tratamento teórico para a compreensão dos bancos de dados Winisis e Mysql.

E17 - Informática Aplicada à Ciência da Informação e Biblioteconomia: Compreensão dos recursos básicos da informática para o profissional da Ciência da Informação Biblioteconomia dentro da sociedade do conhecimento. e

E18 - Informática Documentária: Compreensão da informática documentária suas intervenções na geração e utilização dos documentos: produção de textos, análise e indexação para constituição de base de dados bibliográficos e programas para a interrogação dessas bases de dados.

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E19 - Tecnologia da Informação II: Reflexões teóricas sobre as tecnologias da informação e sua prática nas modernas organizações. A compreensão do uso eficaz das TIC´s a fim de obter e garantir vantagens competitivas. Reflexão sobre a importância das tecnologias da informação e as exigências do perfil moderno dos profissionais da área de Ciência da Informação. Compreensão da aplicação das tecnologias da informação como suporte estratégico nos ambientes colaborativos e cooperativos de aprendizagem via Educação a Distância.

D.A.1: Introdução à Informática: Apresentação da nomenclatura fundamental utilizada em informática, bem como dos princípios matemáticos sobre os quais se baseia esse campo de conhecimento. Descrição dos elementos operacionais em informática, isto é, dos equipamentos para computação (hardware), quanto aos seus aspectos arquitetônicos, e os programas para esses equipamentos (software), no que concerne à sua classificação como Básico ou Aplicativo. Apresentação do conceito de Sistema Operacional e sua utilização, bem como de aplicações da informática, através de programas destinados a: produção de textos, realização de cálculos matemáticos, criação e utilização de bancos de dados e produção de apresentações. Utilização dos recursos disponíveis através da rede Internet.

ANÁLISE: Comparando as ementas (E16, E17, E18 e E19), identificamos que, no currículo de 2005, há uma ênfase tecnológica muito forte, pois aumentaram, em grande parte, as disciplinas com este viés. E esta iniciativa vem ao encontro das características do sistema neoliberal, que se apóia na tecnologia para inserir sua cultura na sociedade. Em diversas comunidades, o processo de alfabetização fugiu dos textos tradicionais para os novos suportes e conteúdos midiáticos. Há daquelas onde o único meio de transporte ainda são os animais, mas já utilizam a TV a cabo, a internet, o celular. Existe uma tentativa constante que visa a transformar as sociedades que são vistas como atrasadas nos modelos de países considerados avançados. Mesmo que as pessoas demonstrem alguma repulsa às tecnologias, parece que não podem fugir delas, pois praticamente tudo, hoje, com um simples clique está em suas mãos.

O próprio assistencialismo do governo também obriga os cidadãos a utilizarem as tecnologias, através dos cartões magnéticos que facilitam o recebimento de seus benefícios nas agências bancárias, que funcionam com sistema automatizado. E por que não falar na
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Expressão de autoria do pensador Marshall McLuhan, popularizada entre leigos e especialistas.

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mais difundida das tecnologias, o rádio, que existe em praticamente todas as casas brasileiras? Este meio, simples, barato e muito acessível, também coloca o indivíduo em contato com todo o Planeta. Reiterando o que dissemos antes, o currículo do Curso de Biblioteconomia de 2005 contempla mais disciplinas que atentam para os objetivos de uma sociedade cujas demandas e exigências do mercado só podem ser atendidas através do domínio e da competente gestão das tecnologias de informação e comunicação cada vez mais sofisticadas. E20 - Representação Temática da Informação: Indexação: Reflexão sobre os problemas e desafios da representação temática no processamento e organização da informação, na perspectiva dos Sistemas de Recuperação de Informação manual e automatizado, levando em consideração os modelos de representação: Representação documentária: representação descritiva (catalogação) e representação temática (princípios, práticas e políticas de indexação). Reflexões acerca da Lingüística, da Terminologia e das linguagens: natural, de especialidade e linguagens construídas: Linguagens de indexação, dando ênfase aos sistemas de classificação bibliográfica, os cabeçalhos de assuntos e os tesauros.

D.A.: Análise da Informação: Informação. Sociedade da Informação. Sistema de recuperação da informação. Arquitetura do sistema documentário. Fundamentos da representação do conhecimento. Tratamento da informação. Análise temática. Linguagem de indexação.

ANÁLISE: Essa disciplina e sua respectiva ementa (E20) fazem parte dos elementos que procuram definir a identidade do Curso, pois, sem elas, ele deixa de ser Biblioteconomia. É a velha questão ontológica do “ter para ser”. Para o ser, ser, ele precisa ter as atribuições, as características do ser, senão, ele não é, é um não-ser. Mas, para ser um não-ser, ele também tem que ser. Então, a Biblioteconomia para ser Biblioteconomia tem que ter as características, as disciplinas que lhe conferem a identidade, que são a Catalogação, Classificação e Indexação. Se retirarem estas disciplinas, ela se torna um não-ser, porque não tem, mas pode vir-a-ser, pois mesmo sem as disciplinas que lhe confere identidade ela continua sendo, pois para estar numa unidade de informação não é necessário dominar as velhas e malfadadas técnicas biblioteconômicas, mas saber seus princípios e trabalhá-los de acordo com a visão de mundo dos sujeitos, e não de acordo com os padrões já estabelecidos, ou pré-estabelecidos, como algo que fosse eterno e não um eterno vir-a-ser como todas as coisas.

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Referida ementa trata a informação no contexto da Sociedade da Informação como matéria-prima imprescindível. As mudanças entre 1995 e 2005 apontam o desejo de um diálogo com as outras disciplinas da mesma unidade curricular. Por exemplo, na disciplina de 1995, não encontramos marcas que remetam a essa intenção com a disciplina de catalogação, muito menos com outras áreas de conhecimento, como é o caso da Lingüística. Neste sentido, há uma ausência dessas representações relacionada ao contexto da sociedade, pois a sociedade está o tempo todo classificando os seres, indexando-os, pois a atribuição de classes socias para os indivíduos é uma forma de analisá-los, de descrevê-los hierarquicamente. E 21 – Fontes Gerais de Informação: O quadro geral das fontes de informação dentro da sua riqueza de possibilidades no que concerne à obtenção de conhecimentos através dessas ferramentas. Destacam-se os canais de comunicação científica e tecnológica, como propulsores dos avanços e recuos no progresso em termos de humanização do homem, bem como as possibilidades e limites do acesso à informação na Sociedade do Conhecimento.

D. A.: Fontes de Informação I: Importância e finalidade das fontes gerais de informação em unidades de informação: bibliotecas, centros de documentação, centros referenciais, etc., e sua utilização no serviço de informação. Fontes de informação primária: características, uso e arranjo.

E22 - Fontes Especializadas de Informação: A comunicação científica e a transferência da informação. As diferentes fontes de informação, segundo suas tipologias, formas, classes, suportes. As particularidades para o acesso e o uso das fontes de informação. Técnicas de levantamenmto bibliográfico. Caracterização de fontes de informação utilitária e gerencial.

D. A: Fontes de Informação II: A comunicação científica e a transferência da informação. As diferentes fontes de informação, segundo suas tipologias, formas, classes, suportes. As particularidades para o acesso e o uso das fontes de informação. Técnicas de levantamento bibliográfico. Caracterização das fontes de informação utilitária e gerencial.

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ANÁLISE: Nestas disciplinas, representadas pelas ementas (E21 e E22), somos obrigados a reconhecer, que foram redefinidas em parte. No entanto, continuam procurando apreender as fontes de informação de acordo com as suas possibilidades de obtenção de conhecimentos, e não como meios voltados para o desenvolvimento da sociedade, promovendo a cultura dos cidadãos na perspectiva de uma experiência de cidadania. Desse modo, um dos pontos positivos que podemos visualizar na disciplina ora analisada é quando ela destaca os canais de informação científica e tecnológica no sentido de meios propulsores dos avanços e recuos no processo de humanização do homem.

Contudo, é necessário lembrar que uma das categorias do neoliberalismo é a pesquisa acadêmica com vistas ao mercado. Por isso, torna-se imperioso saber se as pesquisas divulgadas através desses canais de comunicação científica e tecnológica servem para a divulgação de pesquisas que levam para a liberdade do homem em sua forma plena, ou se estão conduzindo o homem às formas de aprisionamento cada vez maiores nesta sociedade capitalista neoliberal, que incute no cidadão que o Ter é superior ao Ser.

E23 - Editoração: Introdução geral às técnicas de textos e aos processos de produção, encadernação, restauração, distribuição e comercialização de livros e periódicos, fundamentados em técnicas tradicionais e eletrônicas.

D.A.: Editoração: Introdução geral às técnicas de textos e aos processos de produção, distribuição e comercialização de livros e periódicos.

ANÁLISE: Nessa disciplina e sua ementa (E23), podemos perceber que a editoração vem ao encontro dos processos de mercado, ou seja, a produção de mercadoria, com sua distribuição, comercialização e consumo. O livro, como qualquer produto do mercado capitalista, tem seu valor determinado pelo uso, pois quando as escolas adotam seus livros didáticos, obrigam a que os pais contribuam com o aumento do mercado livreiro. Além do que, a moda determina o uso do produto, por exemplo, quando o livro Harry Potter estava no auge da mídia, foi recorde de vendas durante muito tempo. Outro caso que merece nossa atenção refere-se aos direitos autorais, pois se percebe, atualmente, que uma das práticas, que estão a cada dia mais usuais, é a disponibilização de várias obras, na íntegra, no ciberespaço, produções que ainda são resguardadas pelos direitos autorais. Portanto, percebemos as características do sistema

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neoliberal quando alia a escola aos produtos da indústria cultural, incluindo o livro, que ainda se esforça para manter a sua dimensão sacralizada.

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7 REFLEXÕES CONCLUSIVAS

É parte dos pré-requisitos que orientam as formas de produção desta natureza, apresentar um tópico nomeado-o de conclusão. Em breve recapitulação de alguns significados para este termo, encontramos “o ato de concluir” e “acabamento”, dentre outros. À primeira, vista, o encontro fácil com estes significados deveria traduzir-se em puro contentamento. E por qual razão? Ora, pelo fato de que estaríamos diante do que procurávamos, ou seja, de como proceder neste momento. Acontece que os referidos significados, a um tempo em que podem propiciar tranqüilidade pelo que ensinam como sinônimo, também são responsáveis pela capacidade de provocar certas inquietações no contexto discursivo em que aparecem, conforme apontam estas indagações: Seria possível, na verdade, concluir este ou qualquer outro trabalho acadêmico? Com outras palavras, podemos chegar ao seu acabamento final, como se nada tivéssemos mais a dizer sobre ele? Claro que não.

Não há este momento final, marcado pelo esgotamento das palavras, e muito menos em relação ao que o trabalho pode vir a suscitar. Até mesmo porque a finalidade própria dos textos, assim como o desejo de quem os produzem, é constatar que eles continuam produzindo ecos, ressonâncias e sentidos inacabados na relação com seus eventuais leitores. Por isso, rigorosamente falando, esta não é uma conclusão, pelo menos, na concepção de algo acabado As considerações reservadas para este tópico referem-se muito mais aos percursos, percalços e possíveis constatações apreendidas ao longo da trajetória que nos arrastou durante a elaboração do trabalho. Referimo-nos ao grande esforço despendido para a conquista do mínimo de intimidade com a complexidade que o tema expressa, tanto em se tratando de seu campo específico, quanto na relação com nossa área de estudo.

Esta monografia representa um dos empreendimentos mais gratificantes e, ao mesmo tempo, mais dispendioso de tempo, paciência e disciplina, que empreendemos no âmbito acadêmico durante os quatro anos da graduação. Sua consecução exigiu, muitas vezes, um esforço quase sobre-humano, pois tivemos de nos esquecer de que, depois de um fatigante dia de reflexões teóricas e atividades práticas, precisamos repousar, em vez de continuarmos acordados até às cinco horas da manhã. Por isso, queremos afirmar que sua elaboração não foi fácil. Nem poderia ser, uma vez que o empenho, a dedicação e a persistência exigidos para o domínio minimamente necessário do objeto não poderiam ser exercitadas isentas de muito

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desgaste. Entretanto, observávamos que, a cada dia, ela ficava mais provocadora, e pedia cada vez mais atenção para o seu desenvolvimento.

O estudo acerca da formação do bibliotecário, relacionado ao contexto sóciopolítico-econômico em que este currículo está inserido, nunca é demais repetir, não representa tarefa das mais fáceis. Primeiro, porque necessita de conhecimentos mais aprofundados sobre questões que pertencem a outras áreas de conhecimento (História, Sociologia, Educação), embora tenhamos a consciência de que todos os conhecimentos estejam relacionados. Então, através da análise do contexto histórico percebemos que vários foram os momentos em que houve um determinado alheamento contextual por parte dos currículos de formação do bibliotecário. Este fato, acompanhado de outros, colaborou para que o bibliotecário se fosse tornando cada vez mais desconhecido pela sociedade brasileira.

Contudo, mesmo com esse alheamento contextual, os cursos de Biblioteconomia não pararam de surgir. No início, foram fechados por falta de pessoal docente e discente, porém, com o passar do tempo e com a necessidade educacional e informacional cada vez mais crescente no País, os referidos cursos passaram a surgir em maior quantidade. Identificamos este alheamento contextual, por exemplo, na primeira década do século XX, quando foi criado o primeiro curso de Biblioteconomia, na cidade do Rio de Janeiro, pois o padrão de ensino era inteiramente pautado pelo modelo francês, que tinha vertente humanista. Depois, em conseqüência do avanço da cultura norte-americana no Mundo, o modelo ianque invadiu o País e permaneceu durante várias décadas orientando o projeto de ensino de Biblioteconomia brasileiro.

No período seguinte, na ascensão de Getúlio Vargas ao poder, a Biblioteconomia tornou-se mais burocrática, tanto quanto o referido governo. Durante a década de 1940, o conteúdo das disciplinas também foi de cunho eminentemente técnico. Esta situação, presente no período ditatorial, repete-se, agora, como forma de corroborar com o sistema vigente. Desse modo, não podemos afirmar que houve alheamento do currículo em relação ao contexto cultural, pois eram visíveis no desenho curricular da época, disciplinas mais caracterizadas pela sua dimensão tecnicista e pragmática, que abordavam muito pouco as questões sociais, preferindo enfatizar o domínio das técnicas de catalogação e classificação bibliográfica.

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A dúvida hamletiana, que aparece como subtítulo desta monografia, é da maior importância para pensarmos o dilema experimentado pela Biblioteconomia diante do sistema sócio-político-econômico vigente. Como vimos, o sistema econômico que vem norteando praticamente todas as áreas da sociedade é denominado de neoliberalismo. Então, a conhecida pergunta de Hamlet, neste trabalho, assume uma nova versão: “ser ou não ser” neoliberal? Ou, noutros termos, corroborar, ou não, com o sistema vigente? Se disser sim, certamente não escapará da acusação de mantenedora do modelo econômico vigente, como na época de cerceamento das liberdades. Se disser não, ficará alheia à sua realidade, e essa postura poderá culminar com o seu desaparecimento. E o eco repete-se: “ser ou não ser” (neoliberal). Será mais nobre padecer na alma pedradas e flechadas da sorte ultrajante de ser corroboradora do sistema que, na maioria das vezes, aprisiona o indivíduo, ou armar-se contra um mar de infortúnios e, pela luta, lhes dar fim, mas correr o risco de se deparar com o suicídio (o desaparecimento)? Eis, portanto, a questão biblioteconômica.

Em relação ao currículo de 1995 e de 2005, não podemos afirmar que eram alheios à realidade do País, pois corroboravam com as tendências da filosofia neoliberal. Os elementos que demandaram as mudanças nos currículos de formação do bibliotecário foram a economia e a política vigentes. À medida que o Brasil ia sendo dominado economicamente por um determinado país, a Biblioteconomia também adotava o seu parâmetro de ensino como padrão. Ser ou não ser neoliberal? Esta questão traz intrínsecas várias outras, dentre elas, ser ou não ser tecnicista, ser ou não ser mais humanista. O currículo reformulado em 1988 e 1995, por exemplo, teve como preocupações positivas procurar a conciliação das disciplinas técnicas com as humanísticas. Em 2005, o currículo já se tornou mais tecnicista outra vez. Aliás, tão técnico que veio a corroborar, explicitamente, com o sistema neoliberal em curso, caracterizado por uma economia altamente sofisticada.

Conhecimento com vistas à imediata aplicabilidade. Eis um dos principais objetivos do neoliberalismo para a educação. Por isso, os cursos menos valorizados, ou que apresentam menor concorrência no vestibular, são aqueles menos reconhecidos na sociedade, porque o mercado de trabalho é menos receptivo para com eles, pois são desvalorizados, uma vez que não garantem muito lucro, ou lucro imediato para o estudante, ou ainda, porque parecem que não têm aplicabilidade imediata, como é o caso dos cursos de Ciências Sociais, Filosofia e outros. O conhecimento vem, a passos cada vez mais velozes, deixando de atender

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ao crescimento pessoal do indivíduo para atender às múltiplas e complexas demandas do mercado de trabalho contemporâneo.

Com a saída do neoliberalismo dos muros das academias para o poder político, vários aspectos da vida humana foram transformados, dentre eles, o uso mais intenso das Tecnologias de Informação e de Comunicação no cotidiano dos seres humanos, não importando a que classe social ele pertença. Dito de outro modo, na sociedade atual, as pessoas de modo geral, independente do credo religioso, condição social, nível de instrução, sabem manipular ou pelo menos fazem uso de algum tipo de tecnologia. Mesmo que seja através das medidas assistencialistas do Governo Federal, que distribuem cartões magnéticos para os saques dos benefícios junto aos bancos.

Como uma pessoa que, na maioria das vezes, nunca foi à escola poderia imaginar que um dia entraria em uma agência bancária para sacar dinheiro numa máquina sofisticada como aquelas de auto-atendimento? Diante do que o trabalho tentou mostrar, bem como do que expomos nestas considerações finais, parece-nos procedente afirmar que o neoliberalismo está presente em todos os aspectos da vida humana, desde o familiar ao profissional, e com a Biblioteconomia não foi diferente. Este sistema sócio-político-econômico vem transformando os modos de pensar e as formas de fazer das profissões em geral e, em se tratando do objeto de estudo desta monografia, também tem operado intervenções na profissão e na identidade do bibliotecário, conforme apontam as marcas presentes no novo currículo.

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