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Elisiane

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Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB - 15.04.

05 PROSTITUIÇÃO E A LIBERDADE DO CORPO Elisiane Pasini1

Primeiramente quero agradecer o convite e falar que estou encantada de falar deste tema para uma platéia tão especial. Bom, na minha comunicação pretendo levantar alguns elementos para refletirmos a respeito da liberdade do corpo da prostituta na prática da prostituição. Vou começar demonstrando um pouco duas linhas de compreensão sobre se a atividade da prostituição pode ser considerada um trabalho, por estudiosas feministas A partir disso, pretendo falar do lugar e da autonomia do corpo da prostituta. Especificamente, demonstrarei o “uso” que a prostituta faz do seu corpo na prática da prostituição, o qual se torna pleno de relações sociais e que nele estão marcados significados sócio-culturais. Daqui pretendo aprofundar o tema proposto para o debate.

1. PROSTITUIÇÃO É TRABALHO2?

A discussão se o exercício da prostituição pode ser considerada um trabalho ou não tem se polarizado em dois grandes grupos, ambos embasam seus argumentos a partir de perspectivas feministas. O primeiro deles é formado por autoras que se definem como feministas radicais e compreendem a atividade da prostituição como um ato de submissão/escravidão da mulher. Já o outro grupo, encabeçado por feministas liberais, entende o exercício da prostituição como uma escolha. Assim, a discussão perpassa

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Doutora em Ciências Sociais/Unicamp. Ver Pasini 2005.

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apesar de ter sido importante para a consolidação do feminismo e de estudos sobre a mulher. como disse. ao mesmo tempo. 2003) que a atividade da prostituição é usada como um recurso de sobrevivência. Outras autoras afirmam (Raymond. essencialização de corpos físicos. atualmente pode ser rejeitado. Fonseca. Estratégias ou 2 .Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB . Nessa afirmação há o pressuposto de um corpo biológico e de uma opressão patriarcal. compõe-se de autoras (Pateman. os quais. 1993. As idéias sedimentadas na teoria do patriarcado. hoje podem ser lidas apenas como um olhar possível frente às relações de poder e de gênero em sociedades. O primeiro grupo. Raymond. 2004. a autora concluiu que a partir de suas outras pesquisas em morros porto-alegrenses nunca encontrou alguma mulher com um projeto de emprego ligado a sua realização pessoal.05 principalmente no debate se há uma escolha ou uma obrigatoriedade (escravidão). trans-contextuais.15. a partir do exercício da prostituição poderiam provar o controle e o poder sobre as mulheres. Hughes. O conceito de patriarcado. Com os estudos de gênero é possível repensar com os principais alicerces que conceituam o patriarcado. Vejamos alguns elementos de cada uma dessas linhas analíticas. as mulheres – prostitutas – seriam objeto dos homens. Essa opressão das mulheres pelos homens se daria apenas por elas serem do sexo feminino. entre outras) que defendem o exercício da prostituição enquanto sinônimo da dominação masculina. pois se constituiu a partir de aspectos que são rebatidos facilmente: universalização da dominação masculina. que se tornariam trans-históricos. Já Fonseca (1996) rebatendo essa idéia afirma que a atividade da prostituição é uma opção “nada desprezível” para as mulheres com origem humilde e de baixo nível de escolaridade. 1996).04. 2003. A partir desta premissa. trans-culturais. Mas. suas ocupações sempre estavam subordinadas à trajetória de ser esposa e mãe (cf.

Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB . interessa o fato de haver uma centena de motivações que podem ou não levar as mulheres ao exercício da prostituição. mantém a lógica do mercado capitalista. Com isto. É preciso acrescentar que essa escolha deve ser compreendida dentro de um campo de possibilidades. o que acaba por restringir sua liberdade e os seus direitos de cidadania. Para as contratualistas. Minha experiência etnográfica em contextos prostitucionais me mostrou que há tanto prostitutas que fizeram sua escolha como aquelas que se sentem obrigadas pela sociedade a estarem na prostituição. a atividade da prostituição é vista como um ato de exploração. a prostituição é um trabalho.05 não de sobrevivência. uma prática de escravidão. a prostituição feminina é compreendida a partir de um ato de escolha. abuso e violência contra a mulher. o que certamente acarreta ganhas e perdas. O segundo grupo de feministas é formado por acadêmicas e militantes de organizações e é conhecido como feministas liberais ou contratualistas. A prostituição deve ser considerada como um trabalho qualquer pois.04. que tratam a prostituta como vítima e/ou marginal social. Assim. afinal. 3 . Para esse grupo. acredita-se que as prostitutas fizeram uso do seu direito de escolha na decisão de se prostituir. esse grupo critica tanto os escritos como o senso comum. Esta é uma questão que muito nos interessa. a prostituição é uma transação comercial. uma vez que as prostitutas estabelecem um contrato a partir de uma combinação especificando um tipo de trabalho por um período de tempo e uma quantidade de dinheiro. afinal o que se compra e o que se vende no mercado da prostituição: seria o corpo da prostituta o que estaria à venda neste mercado? Retomarei essa questão adiante. sim. Somado a essas duas questões – a opressão do homem e a estratégia de sobrevivência – esse grupo de feministas radicais também defende que a prostituta é a imagem da mulher à venda.15.

Tanto as prostitutas como os freqüentadores de zonas de prostituição agenciam a possibilidade de ter laços distintos: um corpo-afeto e um corpo-mercadoria.05 2. principalmente. que o corpo e o ato sexual não são unidades. Não vendo nada. ela estabelece um contrato de serviços sexuais3 ou. Em cada um desses universos há o que eu chamo de regras em pontos de prostituição.04. Isso de vender o corpo é bobagem. São Paulo e Rio de Janeiro defendo que a atividade da prostituição deve ser considerada um trabalho. É possível observar que o corpo é o terreno dessas interpretações e de uma possível inscrição social. Aliás. além disto. uma das principais conclusões a respeito das pesquisas que realizei em zonas de prostituição femininas é a marca contida nos corpos tanto das prostitutas como dos homens freqüentadores necessárias para separar a vida na prostituição e fora dela. inscritas nos corpos. lis. segundo as palavras de uma prostituta da região da Rua Augusta de São Paulo: Eu alugo umas sacanagens por uma boa grana. analisei como esses corpos que realizam prostituição expressavam diferentes práticas e indicavam a diversidade sobre suas relações sociais. É tudo meu! Também defendo esta idéia por acreditar que há uma separação entre as vivências na prostituição e fora dela e. A compreensão dessa regras são fundamentais pois.15. por que acredito que a prostituta não vende a si e. 3 Ver também Rostagnol (2000). 4 . Neste sentido.Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB . muito menos suas partes sexuais. O CORPO DA PROSTITUTA EM UM CONTEXTO DE PROSTITUIÇÃO A partir dessas análises e de pesquisas antropológicas em universos de prostituição femininas localizadas nas cidades de Porto Alegre. dão visibilidade tanto a ‘performance’ de ser uma prostituta como algumas distinções em suas relações sociais. não. antes ao contrário.

é a prostituta quem decide se fará o programa.15.04. Este olhar coloca a mulher em um lugar de possibilidade de 4 Ver Pasini 2000 a. até por que elas não se entendem e não se colocam apenas enquanto objetos. afinal. As prostitutas têm autonomia em relação ao seu corpo. 2002. b. 2001.05 Mas vamos as tais regras na constituição da relação com o cliente: o tempo do programa. Em outras palavras. que a prostituta tem sim um certo tipo de escolha. esses dois mundos. não fazer sexo oral com o cliente4. mostram que também são mulheres dotadas de vontades e escolhas. 5 . não beijar na boca. a princípio dispostas a realizarem sexo em troca de dinheiro. Tudo isso é fundamental até por que essas mulheres vivem constantemente um “organizar” entre suas relações com os clientes e com os não clientes. mais do que isso. Ao partir da concepção de que as prostitutas não são apenas escravas ou mulheres dominadas pelos homens. c. é interessante perceber que em todos os casos sempre é a prostituta quem aparece como agente. essas regras agenciadas pelos corpos comunicam e. se vai dispor do seu corpo e ficar mais tempo com o homem no quarto do programa.Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB . não gozar. As prostitutas têm uma autonomia no seu trabalho de prostituição. se receberá ou não dinheiro por isso. desta diferenciação. é ela quem agencia o cumprimento (ou não) destas regras. o uso do preservativo. Entretanto. quais os serviços sexuais que ela prestará no quarto de programa: sexo vaginal? Sexo anal? Beijo? Isto é um forte indicativo para demonstrar que o corpo da prostituta não é tão alienado e vitimizado quanto pode parecer e. no qual elas impõem os limites e os termos da interação com seus clientes. Assim. é possível refazer o olhar sobre a questão. Apesar de estarem na rua e. as quais acabam por compor essa fronteira simbólica. marcam essas duas relações. o pagamento. simbolicamente.

A partir desse debate marquei minha própria compreensão do conceito da atividade da prostituição: um trabalho em que durante 6 . o que significa. e que as prostitutas não o detêm em absoluto.Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB . em que ambos buscam o agenciamento do seu sujeito social. as quais. Com isso não afirmo que o poder esteja apenas nas mãos das prostitutas. ora também está com os clientes.04. É como se as prostitutas usassem o desejo dos homens para comandarem a relação. Portanto. À GUISA DE CONCLUSÃO Apresentei um debate entre dois grupos de feministas. Em outras palavras. pois na prática dos programas algumas vezes serão eles que determinarão os acontecimentos. inclusive. são construídas a partir de suas escolhas e comprometimento. continuar olhando para a prostituta enquanto um sujeito vitimizado desta relação da prostituição parece somar coloca-la em um lugar de desprivilegio social. pelo senso comum com tanto preconceito justamente em razão da dificuldade de compreender que a mulher – enquanto sujeito social – tem autonomia do seu corpo: ela pode usá-lo como melhor achar a partir de suas escolhas. acredito que muitas vezes a prostituta é vista. Inclusive. principalmente. Para as prostitutas o fato de estes homens as procurarem e de elas decidirem o que aconteceria na negociação e na prática do programa parecia “empoderá-las”. Isso exemplifica que há circulação do poder. esse poder nem sempre está em suas mãos. fazer parte do comércio sexual. apesar desse ser o discurso das prostitutas que convivi.05 escolha em relação aos seus atos e ao seu corpo.15. em que cada um deles tem uma série de elementos para embasar a discussão para se colocar contra ou a favor do entendimento da prostituição enquanto trabalho. aqui tanto a mulher como o homem tem suas práticas sociais e sexuais dotadas de regras. Entretanto.

rotinas. apenas estou “alugando” minhas idéias. aqui há uma troca em que eu ofereço meu trabalho e recebo um bem que nem sempre é financeiro. por exemplo. há características de organização para o exercício da prostituição – regras. Defendo que não é o corpo da prostituta que está à venda na relação comercial da prostituição. o corpo é o espaço social no qual estão incorporados elementos sócio-culturais que comunicam significados e simbologias do grupo estudado. Pensem comigo. p. não é uma profissão como qualquer outra” (Fonseca. “é evidente que a prostituição.Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB . Em outras palavras. O que quero dizer é que todas nós colocamos nossos serviços a mercê do outro.05 um certo período de tempo se trocam serviços sexuais por um bem e. 19). horários. assim. quando venho falar com vocês não estou colocando minha mente à venda. E. É preciso entender que muitos dos sujeitos que se prostituem usam seus corpos a partir de uma escolha a qual esta colocada em um campo de possibilidades de um possível agenciamento social e. alvo de repressão policial e censura pelo senso comum. precisa ser respeitada enquanto tal. regularidades. além disso. contatos – que a estruturam como um trabalho.04. assim como alerta Fonseca (1996). em que o corpo é o terreno dessas relações. preços. se estabelece uma relação econômica.15. portanto. com seu status estigmatizado. Quero terminar minha fala retomando a questão que provoquei a pouco. Com isso tudo quero dizer que a atividade da prostituição requer um olhar cuidadoso e um debate em que a sociedade enfrente a questão como uma prática social. Entretanto. eu. Isso significa que para as prostitutas o corpo que está na prostituição é um corpo que deve comunicar uma relação calcada no 7 . afinal. 1996. Não é por nada que muitas vezes ouvi das minhas informantes que faziam sexo com os clientes e amor com os não-clientes.

Campinas. Coleção Estudos CDAPH. 8 . Porto Alegre: Dacasa. In: Cadernos Pagu. pontos em ruas. de (orgs. São Paulo: Editora 34. 2002. “O uso do preservativo no cotidiano de prostitutas em ruas centrais de Porto Alegre”. (2004) Pasini.04. “Limites Simbólicos Corporais na prostituição feminina”. “Homens da Vila: Um Estudo sobre Relações de Gênero num universo de Prostituição Feminina”. In: BRUSCHINI. 2000 a.).Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Estadual de Campinas. “Prostituição e Diferenças Sociais”.. _____. _____.pt/temas/tema>. Marcos.). Palmarinca. mundos em pontos: a prostituição na região da Rua Augusta em São Paulo. Cristina. “Corpos em Evidência”. Heloísa B. Ramirez.05 corpo mercadoria. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HUGHES. Elisiane. 2000 b. e Souza. já nas relações afetivas esse mesmo corpo comunicará sentimentos de afeto. n° 14. o que as impede de se estabelecer no lugar de quem tem autonomia do corpo e de suas escolhas. In: BENEDETTI. Celi (orgs. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) . de fidelidade e intimidade. Ana. “Fronteiras da intimidade: uso de preservativo entre prostitutas de rua”.Prostituição e a Liberdade do Corpo Elisiane Pasini CLAM – AMB .apf. Tempos e Lugares de Gênero.Programa de PósGraduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas.15. 2005. Na batalha: Identidade. Talvez a perspectiva de um outro olhar possa transformar o sentido de ser sujeito social na prostituição em nosso país. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) . 2000 c. Erica R. Martha C. Sexualidade e Poder no Universo da Prostituição. A Legalização da Prostituição refreará o Tráfico de Mulheres? In: <www.. valores que compõem essas últimas. (orgs. Bragança Paulista. PINTO. Gênero em Matizes. Nessas questões todas há uma discussão fundamental de cidadania. _____. já que parece mesmo que as prostitutas são consideradas cidadãs pela metade. Costa. In: ALMEIDA. _____. 2001. Rosely G. Donna. FÁBREGAS-MARTINEZ. ______.). Campinas.

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