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Ainda Que Sejamos Infiéis

Ainda Que Sejamos Infiéis

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Este livro é um romance, baseado em histórias reais, editado em 2003, onde foram colocadas varias situações como, adulterio, mentiras, roubo, em um ambiente religioso, onde a cada página podemos descobrir as consequencias na vida daqueles que servem realmente a Deus e dos que buscam seus próprios interesses.
Este livro é um romance, baseado em histórias reais, editado em 2003, onde foram colocadas varias situações como, adulterio, mentiras, roubo, em um ambiente religioso, onde a cada página podemos descobrir as consequencias na vida daqueles que servem realmente a Deus e dos que buscam seus próprios interesses.

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“Se somos infiéis, Ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo”.

(II Timóteo 2 :13)

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Copyright 2003 - by Roberto da Silva Rodrigues Nenhuma parte dessa obra poderá ser reproduzida, guardada pelo sistema retrieval ou transferida de qualquer modo ou qualquer outro meio, seja este eletrônico, mecânico, de fotocópia, de gravação ou outros sem prévia autorização do autor. Capa: Vicente Ângelo Ferreira. Revisão: Valmir Galdino Paes da Silva Mauro Sélvio Barbosa de Melo –MTE/AL - 325 E-mail: mauriselvio@ibest.com.br Impressão: Gráfica e Editora Impacto CNPJ: Insc. Est: Endereço: Fone: FICHA CATALOGRÁFICA RODRIGUES, Roberto da Silva. Ainda que sejamos infiéis. Roberto da Silva Rodrigues. Editora impacto, Maceió(AL), 2003. xi,176 pg. – Dimensão 13x22cm. I - Literatura alagoana. II - Literatura brasileira. III – Romance evangélico. IV – Título.
Direitos de publicação exclusivos do Autor, que se reserva à propriedade dessa obra.

IMPRESSO NO BRASIL 2

DEDICATÒRIA

Às memórias de Alzira Rodrigues de Melo, que me ensinou sobre a fidelidade de Deus e do Evangelista Teófilo Bezerra de Melo, que me mostrou como se edifica a casa sobre a Rocha.

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“Para apresentar a verdade de Cristo, o Senhor, usaram os profetas de metáforas profundas; também nas obras dos apóstolos, eis a mesma verdade. E palavras sensatas Timóteo foi aconselhado a usar. Assim como a recusar as fábulas. Mas Paulo, em nenhum lugar, proíbe o uso de parábolas, nas quais escondem o ouro, as preciosas pedras e pérolas que minerar valem a pena, e com cuidado. As escrituras, em muitos lugares, têm semelhanças nos métodos, posso usá-los sem esconder os áureos raios da verdade, tão claros como a luz do dia”. João Bunyan.

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I

- Poderia fazer este caminho de olhos fechados. Disse o pastor Lucas, enquanto dirigia o carro em direção à igreja naquela manhã de domingo. Há nove anos que fazia aquele mesmo percurso, quase todos os dias. Pensou em como tinha uma vida tranqüila e equilibrada. Os filhos, Lívia e Lucas Júnior, no banco de trás, brincavam com o cinto de segurança, enquanto Rute, sua esposa, revisava o assunto que seria estudado na classe das senhoras, na escola dominical. Dez minutos depois e avistava-se uma praça, com algumas árvores e um playground, uma entrada à esquerda e lá estava a Igreja Evangélica Redenção. Era uma igreja simples, porém bastante organizada, com uma porta central de madeira; suas paredes eram pintadas com uma cor discreta; ao lado, ficava a praça e pelas janelas podia-se ver parte dela. O interior do templo era pintado de branco; os assentos, em sua maioria eram antigos bancos de madeira. Todavia, foram colocadas várias cadeiras para que todos pudessem se sentar no domingo à noite. Havia também, na frente, do lado direito, alguns instrumentos musicais que eram tocados pelo grupo jovem. A igreja tinha pouco mais de 25 anos de existência. Contudo, exercia uma grande influência na

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região. Possuía uma freqüência média de 400 pessoas no domingo, no culto noturno. Parou o carro em frente à igreja, Rute foi a primeira a descer. Em seguida, os filhos, que foram correndo encontrar-se com os colegas. Então fechou os olhos, respirou fundo, estava pronto para mais um dia de trabalho; desceu do carro, trancou-o, fez a volta, segurou a mão de Rute e caminharam em direção a alguns irmãos que estavam à entrada. Parou em frente a uma senhora de pele morena e cabelos grisalhos e disse: - Bom-dia irmã Elza, as salas já estão prontas? - Sim Pr. Lucas, seu gabinete também já está limpo. - Ótimo, então vamos todos entrar, já estamos atrasados. Pela manhã, o encontro começava às 9h00, algumas músicas, uma oração e dividia-se em classes, onde ficavam até às 11h00. As classes eram divididas por idades: berçário, crianças I e II, adolescentes, jovens, homens, mulheres e novos convertidos. Ele ensinava a classe dos novos convertidos. Gostava desta classe, pois participava decisivamente na formação do conhecimento religioso das pessoas que se convertiam. Parou em frente aos alunos que aguardavam-no atentos, abriu a Bíblia e disse: - Hoje vamos conversar sobre o pecado. Como todos sabem, se alguém tiver alguma dúvida é só levantar a mão e perguntar que eu responderei. Não gosto que saiam daqui com dúvidas. Então, vamos começar: É o pecado que separa o homem de Deus, uma vez que Deus é Santo e o pecado cria um grande abismo, entre o homem e Deus. Este abismo só pode ser atravessado através de Jesus, que cria uma ponte; transpondo-se este 8

grande abismo e esta ponte, temos a redenção. A atitude, em vir à igreja e aceitar a Jesus, fez com que vocês participassem da redenção, juntamente, com os que se converteram em todo mundo. Fazemos parte de uma grande família, de um grande corpo, o corpo de Cristo que é a igreja. Levantou os olhos e percebeu que alguém acenava querendo fazer uma pergunta. - Pastor, o senhor disse que o pecado nos separa de Deus e Jesus nos une quando o aceitamos. Mas o que acontece quando nós pecamos depois de convertidos? - Essa é fácil! A cada pecado precisamos nos arrepender para obter o perdão de Deus e mantermos a comunhão com Ele. Para confirmar isto, vamos ler a 1ª carta de João, no Novo Testamento, lá no finalzinho da Bíblia. Todos encontraram? Primeiro capítulo, versículo oito está escrito: “Se dissermos que não temos pecado nenhum a nós mesmo nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça”. Tudo que temos de fazer quando pecamos é nos arrepender e confessar o pecado a Deus que nos purifica imediatamente. - Pr. Lucas - perguntou novamente o irmão - se é tão fácil assim, então podemos pecar à vontade e nos arrepender, logo depois estaremos em paz com Deus! - Cuidado rapaz, não é bem assim. Aquele que se converte de verdade não gosta de pecar; não se sente bem com o pecado, entretanto, sente-se bem com a presença do Espírito Santo em sua vida e o próprio Espírito lhe dá a capacidade de vencer as tentações que surgirem no dia a dia, pois, “ninguém é tentado além da sua força”, conforme 1ª coríntios 10:13.

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Como gosto dessas aulas!... Pensou ele. Responder àquelas perguntas dava-lhe uma segurança maior da sua vocação; a certeza de que tinha escolhido a profissão certa. Também gostava do fato de que os novos convertidos não tinham adquirido ainda o conhecimento teológico; não tinham lido a Bíblia o suficiente para poder questionar os mistérios que ela contém, mistérios estes que ele não se preocupava, achando não interessar aos membros da igreja. Eram coisas que se aprende no seminário e depois ficam guardadas na biblioteca, somente voltando a usá-lo quando participava de congressos e encontros de pastores que queriam sempre exibir seus conhecimentos. O que importava era ensinarlhes a ser bons cristãos e isto já era o suficiente. Poderiam viver tranqüilamente até a hora de encontrarem Jesus no céu. Agora, fazendo o caminho de volta para casa, tinha toda a programação do dia decorada: chegar em casa, tomar banho enquanto Rute prepara o almoço; à tarde, todos vão dormir, enquanto ele vai preparar a mensagem da noite. Um domingo comum, como tantos outros que já existiram em sua vida e como ele desejava que existissem por muito tempo. À noite, sempre chegava pelo menos meia-hora antes do início. Um abraço aqui, uma risada ali, e se podia ter um panorama das pessoas que visitavam e, também, das que faltavam. - Pastor, pastor, venha até aqui! - gritou uma jovem que estava com um pequeno grupo um pouco mais afastado da entrada principal. Ele se aproximava quando ela dizia: - Eu quero lhe apresentar a Karla, ela estuda comigo na faculdade e veio nos fazer uma visita. 10

Karla era uma moça muito bonita. Cabelos pretos até à altura dos ombros, tinha pouco mais de 1,60cm. Todavia, com uma sensualidade desejável, olhos negros e brilhantes; seu rosto era delicado, ainda com feições infantis, mas que, olhando-se bem, podia se notar um pouco de malícia naquele sorriso infantil e naqueles olhos vivos. - Seja bem-vinda Karla, quero que saiba que você não veio aqui por acaso, Deus tem um plano especial para você nesta noite. Cabe a você aceitar o que Deus tem para dar-lhe, - disse o Pr. Lucas enquanto lhe apertava a mão. Ela agradeceu com um sorriso discreto e tímido. Eram 19h55 quando começaram a tocar os instrumentos musicais; todos entraram para o início da reunião. Música, oração, leitura bíblica, oração, apresentações especiais, avisos, músicas, dízimos, algumas músicas suaves e inicia-se a mensagem evangelística que dura cerca de 30 minutos. Após a pregação, Pr. Lucas pede para todos ficarem de pé, fecharem os olhos num momento de extrema importância. Abre os olhos para sondar o ambiente e vê que todos atenderam sua solicitação. Aguarda um pouco enquanto os músicos tocam uma melodia branda, que inspira descanso e paz; logo após, concentra-se e começa fazer o apelo: - Na mensagem, nós ouvimos que Deus amou o mundo de uma maneira tão grande que deu seu filho. Para quê? Simplesmente para morrer e depois poder ressuscitá-lo, mostrando ser poderoso? Não! Ele, Jesus, morreu para que, através da sua morte, todos pudessem obter a salvação. Você pode ser salvo, basta que queira esta salvação. E, para fazer isto, só precisa tomar uma 11

atitude, uma decisão perante todos. Venha até aqui, venha como está, hoje é o dia, esta é a hora, você não veio aqui por acaso, mas foi guiado até aqui pelo Espírito Santo para este momento, porém a decisão é, unicamente, sua. Enquanto falava, olhava diretamente para a jovem universitária que estava em um dos últimos assentos. Percebeu que ela estava inquieta. Ele insistia. Duas outras pessoas saíram de seus lugares e vieram à frente, cabisbaixos. Insistiu mais um pouco, pois sabia que ela viria à frente. Havia prestado atenção à mensagem, mesmo com as constantes interferências de sua colega, que ficava tentando conversar durante a pregação. - Vou chamar pela última vez, porém, lembrese, ninguém pode prever o futuro, ninguém sabe o dia de amanhã; se estará morto ou vivo. Por isso devemos aproveitar as oportunidades que nos são apresentadas agora. Cristo chama-te, não endureça seu coração, entregue-se a Ele e receba de Deus a paz que excede a todo entendimento. Você só tem esta chance, amanhã, realmente, pode ser muito tarde. Parou, baixou a cabeça para terminar o apelo, quando percebeu uma movimentação na igreja. Viu que ela se movimentava para vir à frente, abriu um sorriso, olhou para o lado e fez sinal para que os músicos começassem a tocar e a cantar. Como de costume, retirou o microfone do pedestal e desceu para abraçar todos que ali vieram. - Há uma festa no céu por estas vidas que hoje se entregaram ao Senhor; e da mesma forma, nós também estamos alegres por cada alma que se salva.

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Terminada a reunião, os que foram à frente, aguardavam enquanto Rute anotava os nomes e os endereços. As outras pessoas dirigiam-se à entrada da igreja, onde ficavam longos períodos comentando os acontecimentos do dia. Ele, Pr. Lucas, cumprimentando a todos, chegou a um grupo de rapazes que comentavam: - Viram como é bonita aquela moça que se converteu? - Oh! E como vi. Quem é ela? - Eu sei quem é (disse um deles). Seu nome é Karla, e estuda com a Cris. Ela tem um jeitinho meigo de falar. Parece uma “menininha”, não é Pr. Lucas? - Rapazes, eu não olho para estas coisas. Procuro ver como Deus ver, o coração. E além do mais, já tenho uma linda mulher para quem olhar. - Tudo bem, o senhor já tem a sua, mas que ela é bonita, isso é, e nós estamos solteiros, - completou o rapaz, enquanto o Pr. Lucas afastava-se para um outro grupo formado por homens.

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II

Karla sentia-se muito prestigiada com toda aquela atenção que lhe davam. Ao tempo em que a irmã Rute preenchia sua ficha, várias pessoas chegaram até Karla para parabenizá-la, como se estivesse aniversariando naquele dia. Assim que respondeu todas as perguntas feitas por Rute, foi até à porta onde se encontrou com Cris e ficaram conversando. Alguns jovens aproximaram-se e um deles, com um grande sorriso no rosto, disse: - Todos estamos muito felizes por você ter se convertido Karla; e quero lhe dizer que se precisar de alguma coisa, se tiver alguma dúvida, pode me procurar. Devemos sempre ajudar aqueles que estão iniciando na fé. - Se eu soubesse que era um ambiente tão feliz disse Karla, - teria me convertido bem antes. - Mas eu sempre te convidei, desde que começamos a estudar juntas, você que nunca quis vir disse Cris, abraçando a amiga. Ficaram conversando por algum tempo e depois foram levar Karla ao ponto de ônibus, onde pegou o transporte para casa. Ao chegar em casa, Karla abriu a porta lentamente e sua mãe estava sentada ao sofá assistindo TV. Enquanto trancava a porta, sua mãe lhe disse: 15

- Seu namorado ligou. - E a senhora falou que eu fui à igreja? Perguntou Karla, sentando-se ao lado da mãe. - Eu não! - disse ela. - Até parece que iria acreditar se eu dissesse que você deixou de sair com ele para ir visitar uma igreja de crente. Eu disse que saiu e pronto. Se ele quiser saber aonde foi, que pergunte depois. Ficaram em silêncio por alguns instantes, ao passo que Karla tirava os sapatos e afrouxava a roupa. Com um certo desdém, sua mãe pergunta: - E lá, como foi? Karla vira-se em direção a ela e, bastante empolgada, diz: - Mãe, a senhora não vai acreditar, a igreja é ótima. Assim que cheguei fui muito bem recebida, todos vieram falar comigo, são pessoas muito simpáticas. Quando começou a reunião fiquei um pouco entediada, pensei que seria uma monotonia daquelas; mas começaram as músicas e foi aí que me soltei. Eles têm todo tipo de instrumentos musicais: guitarras, baterias, saxofone e outros mais. As músicas são bastante animadas; as que são lentas também são bonitas; parece que nos colocam mais perto do céu. E depois foi a vez do pastor falar. Como fala bem aquele homem! - E ele, como é? - interrompeu a mãe. - Quando a senhora o conhecer tenho certeza que vai gostar dele-, continuou Karla. Ele é um coroa muito bonitão, não é como estes quarentões que se vêem por aí, barrigudo e mal tratado. Ele é alto, de ombros largos, barba bem frisada com alguns cabelos grisalhos, mas que dão um certo charme.

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- E ele é solteiro? - interrompe novamente a mãe. - Não. É casado. E a esposa dele, a irmã Rute, é uma pessoa muito legal. Nós conversamos um pouco enquanto ela preenchia minha ficha. - Que ficha? - pergunta a mãe surpresa. - Bem... - diz Karla procurando as palavras. Esta foi outra coisa interessante que aconteceu. Quando o pastor começou a falar, de certa forma, aquelas palavras tocaram-me e eu senti como se ele falasse diretamente para mim. Aquilo que ele dizia era a realidade do meu interior e quando ele chamou para ir à frente aqueles que queriam receber Jesus eu fui. - Poupe-me Karla! - disse sua mãe furiosa. Você sai daqui para ir visitar uma igreja e cai na “lábia” de um pastor, pensei que fosse mais esperta. Karla, para justificar-se diz: - Mas mãe, tudo o que ele disse tinha a ver comigo, tocou-me no fundo da alma. - Karla, minha filha, tudo isso eles treinam para poder enganar as pessoas bestas como você e, quando menos esperar, estará vendendo até suas roupas para dar dinheiro ao pastor. - Não, mãe. - defende-se Karla. Lá não é assim Eu nem os vi falarem em dinheiro; são pessoas que querem simplesmente um lugar para se encontrar, cantar algumas músicas e ouvir uma palavra do pastor. - Do jeito que está falando parece que já começaram a fazer uma lavagem cerebral em você. - Não teve nada de lavagem cerebral, eu fui, gostei, e resolvi participar por um tempo. No dia que não quiser mais, eu saio.

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- Você é quem sabe... - respondeu a mãe. - Já está bastante crescidinha para tomar suas próprias decisões; só espero que não traga nenhum problema para dentro de casa. - Não se preocupe mãe, a senhora sabe que quando uma coisa não dá para mim eu caio fora, logo. Beijou a mãe, levantou-se e foi deitar.

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III

Quarta-feira, para ele, Pr. Lucas, era o dia mais cansativo; passava o dia na igreja, era o dia do aconselhamento pastoral. Chegava às 8h00 da manhã e às 12h00 ia para casa almoçar e retornava às 13h00, ficando até à noite para a reunião de oração. Fazendo assim, estava disponível em qualquer horário para as pessoas que quisessem procurá-lo para o aconselhamento. Às 18h00, quando ele terminava de atender um irmão, ao sair do gabinete, viu que Karla o aguardava. Já fazia dois meses que ela havia se convertido, mas era a primeira vez que o procurava para aconselhamento. - Karla, por que não me avisou que estava aí? Eu teria terminado mais cedo para lhe atender. - Tudo bem, eu venho da faculdade e não pretendo voltar para casa, pois não dá tempo de ir e voltar para reunião de oração, por isso, vim agora, sei que o senhor também fica direto. Eles se despediram do “irmão” e entraram no gabinete e ele começou dizendo: - Vamos orar para que Deus direcione tudo o que for dito aqui. Estendeu a mão, fechou os olhos e disse: - Senhor, nós te pedimos que o teu Espírito direcione esta conversa para que possamos tirar de nossas vidas aquilo que tem atrapalhado a comunhão contigo. 19

Desde já, agradecemos-te em nome de Jesus, amém. Então Karla, conte-me qual o motivo que trouxe você até aqui? - Bem... - começou ela. - primeiro eu queria saber o que fazer em relação a minha mãe, pois desde que eu comecei a freqüentar a igreja ela não me deixa em paz. Diz que não há ninguém na nossa família que é crente, que já temos uma tradição religiosa na família e não precisamos mudar. Às vezes, até tenta proibir que eu venha, vive dizendo que o pastor só quer roubar o meu dinheiro, ou então, que eu sou muito jovem para viver “entocada” dentro de uma igreja, sustentando que devo aproveitar a vida enquanto sou jovem e bonita, e quando ficar velha, se eu quiser, procuro uma igreja. - Olha Karla, isso são coisas comuns que acontecem quando passamos a fazer parte de uma igreja. As pessoas não entendem o momento de nossa converssão e a maioria delas nem se esforça para entender. Na verdade, você precisa ter paciência, a paciência é uma qualidade, um fruto, que vem do Espírito e só é desenvolvida à medida que confiamos em Deus. Não brigue com sua mãe, escute-a e depois tente mostrar os seus motivos para que entenda e aceite calmamente. Isto não acontece do dia para noite, mas o mais importante é que você comece a mostrar com os seus atos que a igreja esta lhe fazendo bem, ou melhor, está fazendo bem para as duas. Tente fazer ela enxergar que é uma nova pessoa, nascida de novo e, com certeza, ela vai perceber: esta mudança que ocorreu em você é a mudança que ela também precisa. - É, realmente, eu preciso ter mais calma com minha mãe. - disse Karla, com os olhos cheios de lágrimas. - O problema é que, no espaço de dois meses de 20

convertida, tem sido muito difícil; são atitudes que eu tenho que tomar que muitas vezes não concordo; não consigo ouvir e ficar calada quando sei que estou com a razão, e neste caso, sei que estou certa. Pois, durante estes meses, eu senti uma segurança que nunca havia sentido em minha vida; cada vez que venho à igreja e ouço suas palavras, tenho a certeza de que posso vencer todas as barreiras que a vida me colocar. Ele ouvia as palavras que ela pronunciava, porém tinha a mente vagando em pensamentos diversos. Já estava acostumado com estas conversas; tinha as respostas na “ponta da língua”. Enquanto ela falava, ele passou a observar seus movimentos, seus gestos, seu cabelo caindo constantemente sobre o rosto e que ela retirava, com um movimento rápido, mas que envolvia todo o corpo. Os olhos negros e penetrantes que combinavam perfeitamente com a face, criando uma expressão infantil em um rosto adulto; Karla expressava uma pureza e uma simplicidade que Pr. Lucas nunca tinha observado em outra mulher, e que, de certa forma, chamavam sua atenção. - Pr. Lucas - interrompeu ela, - o senhor parece tão distante! - É só um pouco de cansaço, mas eu ouvi tudo o que disse. Você está no caminho certo. Como eu já falei, a paciência é um fruto do Espírito que todos nós devemos ter. Com o tempo tudo se resolve. É só continuar perseverando na fé que sua mãe perceberá que Cristo vive em você e, com certeza, ela também vai querer receber a paz. - Bem, agora eu queria tirar algumas dúvidas em relação a fazer parte da igreja. - disse Karla, mudando de assunto. 21

- Vamos lá, diga suas dúvidas. - Só pode fazer parte do grupo de música quem é batizado? - É Karla, grupo de música, assim como qualquer outro grupo da igreja, só pode fazer parte quem é membro, e só é membro quem passa pelo batismo. Mas você não está fazendo o curso de novos convertidos? Logo chegará o seu dia de ser batizada! - E se tiver alguma coisa que a igreja seja contra e eu não consiga deixar de fazer? - Se a igreja for contra é porque é o melhor para você. Por isso eu estou aqui, para ajudar a superar suas dificuldades. - O problema é o meu namorado, ele também não gosta que eu freqüente a igreja. - Não sabia que você tinha um namorado! Disse ele surpreso. - Tenho sim, ele faz o mesmo curso que eu. - E em que a sua participação na igreja atrapalha o seu namoro? - Em tudo! Não podemos mais sair para shous, bares, boates, etc. - É Karla, realmente estas coisas não fazem parte de uma vida cristã, e se você as pratica, não terá um bom testemunho diante da igreja e das pessoas que vivem ao seu redor. Porém como já falamos antes, tudo isso é um processo e você vai se livrando das coisas do mundo aos poucos, com paciência e determinação. - Outra coisa que me preocupa é que ele disse me que teve uma namorada que era evangélica e ela não transava com ele porque a igreja não permitia. Nesta situação, eu teria que escolher entre a igreja ou ele; e o

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senhor sabe, nós já temos uma certa intimidade e fica muito difícil parar assim de uma hora para outra. - É uma escolha muito difícil. Sempre teremos que escolher ou o Senhor ou o inimigo, a santidade ou o pecado. Nunca poderá ficar com os dois. Luz e trevas não se misturam e onde brilha a luz toda e qualquer escuridão desaparece. - Então, eu devo deixar o meu namorado? - Se ele impõe esta condição para você, eu não vejo outra alternativa, a não ser que ele mude de idéia. Mas, enquanto estiver com ele não poderá receber o batismo e nem fazer parte de nenhum departamento da igreja. - É, eu já entendi. É uma escolha muito difícil para mim, pois já estamos juntos a um ano e, por outro lado, a igreja foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. - concluiu ela. - Na vida, sempre teremos que tomar decisões difíceis; eu mesmo já estive várias vezes nesta situação e, em todas elas, optei por Jesus e nunca me arrependi. Quando andamos na luz sempre sabemos onde pisamos e jamais tropeçaremos. - Muito obrigada pastor. Esta conversa verdadeiramente ajudou-me e agora eu já sei o que fazer para resolver estes problemas. - Bem, está quase na hora da reunião de oração e eu ainda tenho que fazer um lanche, pois estou morrendo de fome. Você não quer me acompanhar? - Claro! Vamos? Saíram e, juntos, foram à lanchonete que ficava na praça ao lado da igreja. - Que curso você faz? - perguntou Pr. Lucas no momento que caminhavam para a lanchonete 23

- Estou no segundo ano de biologia. - E você está gostando? - A princípio eu queria fazer medicina, contudo é um curso muito concorrido e eu não estava preparada, então optei por biologia. No início foi difícil aceitar, mas agora vejo que este curso tem mais a ver comigo. Enquanto ela falava, ele fez o pedido e sentaram-se à mesa. - Karla, você falou muito de sua mãe, porém de seu pai não disse nada. Ele não interfere na sua vida também? - Não, meus pais divorciaram-se quando eu tinha uns sete anos, e desde então, a única coisa boa que recebo dele é a pensão. Aparece de vez em quando para saber como estou, mas logo começa a discutir com minha mãe e sai irritado; passa um bom tempo sem dar noticia. Ficaram em silêncio um pouco. Enquanto o garçom serve os sanduíches, Karla pergunta: - E o senhor, Pr. Lucas, como é a vida de um homem de Deus? - Minha vida é muito simples, é isto que todos vêem na igreja; cultos, orações, aconselhamentos. A única dificuldade é esta luta para manter todo este povo no caminho de Deus. Entretanto, aos poucos nós vamos conseguindo fazer com que eles tenham uma vida correta diante de Deus. Se todos fossem como você, aberta a qualquer questão, seria mais fácil. Só que as pessoas escondem o que sentem e o que fazem, e isso dificulta o trabalho de transformação de cada um. Karla, com um discreto sorriso malicioso, olha para ele e pergunta: - Pastor, posso fazer uma pergunta pessoal? - Claro que sim. - responde ele. 24

- O senhor já recebeu cantada de alguma irmã? Afinal de contas, o senhor é muito bonito. Com o rosto corado, ele responde: - Desse jeito você deixa-me envergonhado. Já houve sim, mas contornamos a situação para que elas não fiquem decepcionadas e percam a confiança em mim. - Ficou envergonhado porque eu disse que o senhor é bonito? Eu pensei que já estivesse acostumado com elogios. - Ninguém se acostuma com elogios. Você também deve receber vários elogios, bem mais do que eu. Já está acostumada com eles? - É, tem razão, não dá para se acostumar - disse ela sorrindo. Lancharam e depois ficaram conversando por alguns minutos até a hora da reunião. - Bem, Karla, os irmãos já estão chegando e está na hora de ir. Gostei muito desta conversa. Sempre que você quiser pode vir me acompanhar num lanche, antes da reunião. Ambos se levantaram e seguiram para a reunião de oração.

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IV

À noite, em sua cama, as imagens do dia vinham-lhe à cabeça e o que mais passava pela mente não era os problemas que ouvira durante o dia nem os acontecimentos da reunião de oração, relembrava a imagem daquela jovem à sua frente, aqueles cabelos, os lábios, os olhos, negros e ativos, o sorriso; e aquelas imagens fizeram-lhe perder o sono, dormindo depois de muito tempo. Enquanto dormia, sonhou que estava em um quarto escuro, quando alguém abriu a porta. Era um vulto de mulher que se aproximava, lentamente; no instante em que se aproximava, ele percebeu que ela estava nua. Era alguém conhecido, só que ele não conseguia identificar. Parou em sua frente e lhe estendeu as mãos. Segurando-as, começaram a girar lentamente, e à medida que giravam, iam subindo mais e mais até chegarem às nuvens. Uma felicidade inundava-lhe de tal forma, que poderia morrer naquele instante e morreria feliz. De repente, as nuvens começaram a escurecer dando início a uma tempestade e giravam cada vez mais rápido. E, enquanto giravam, ela apertava as mãos dele de forma que não podia se soltar. A sensação de felicidade foi se transformando em pavor. Já estavam girando tão rápido que quase não conseguiam respirar; as mãos dela apertavam, mantendo seus braços presos. Olhou-a e viu em seu rosto um sorriso sarcástico e cruel 27

que transmitia uma sensação de pavor e medo; tentava gritar, mas não conseguia; tentou se mover, mas estava preso demais; achou que era o fim, já estava morto, ninguém poderia lhe tirar daquela situação. Foi quando um nome veio à sua mente. Aquele nome era a salvação para ele. Tentou falar, porém não conseguiu, pois seus lábios estavam colados. O desespero invadiu a sua alma, desta vez era o fim. Aquela mulher havia destruído a sua alma. Contudo, aquele nome veio mais forte à sua mente e ele reuniu todas as forças restantes e gritou, gritou com toda força que possuía: - JESUS. Subitamente abriu os olhos, estava sentado na cama; sua respiração estava acelerada e o coração batia numa velocidade impressionante. - O que foi isso? - Perguntou Rute meio dormindo, meio acordada. - Tive um pesadelo - respondeu ele ainda ofegante. - Deve ter sonhado com o diabo para ter gritado o nome de Jesus tão alto. - Quase isso. Mas já está tudo bem, pode voltar a dormir que eu vou beber um pouco de água. Pensou um pouco sobre o sonho, tentando encontrar algum significado, e logo adormeceu. Na manhã seguinte, nem se lembrava mais do ocorrido. O domingo seguinte foi um dia de muita chuva; poucas pessoas vieram à igreja e aqueles que vieram chegaram bastante molhados. Estava no interior do templo, conversando com os irmãos que já haviam chegado, quando viu Karla entrar. Ela havia se molhado muito, e como estava com uma blusa de malha, esta colou em seu corpo deixando-a totalmente transparente. 28

Aquela imagem o deixou desconcertado; a sensualidade da cena tinha chamado sua atenção. Olhou para os lados para ver se alguém o via, olhou novamente para Karla, dirigiu-se até ela tentando disfarçar os olhos que procuravam seu seios e disse: - Que banho você tomou! Vá enxugar-se para não pegar um resfriado; procure a irmã Elza e peça uma toalha. - Tudo bem Pr. Lucas, eu já estou acostumada a tomar banhos de chuva; o problema é a roupa, mas, espero que seque rápido - disse ela, enquanto descolava a blusa do corpo. Durante toda a manhã, enquanto realizava as atividades da igreja, não conseguia se concentrar; estava constantemente olhando para Karla, onde sentava, com quem falava, seus gestos, suas palavras. Tudo o que ela fazia chamava a sua atenção. Tudo o que ela fazia o fascinava. Ela o havia cativado e ele começava a perceber isso e deixava acontecer. Que mal um pouco de emoção poderia trazer? Era só tomar cuidado para ninguém perceber, a emoção passaria e ele teria esquecido aquele momento. À tarde, em casa, como de costume, entrou no escritório para preparar a mensagem da noite. Sentou-se, abriu a Bíblia e começou a ler. Na ocasião em que lia, a sua mente divagava, e aos poucos, as lembranças de Karla chegavam à sua mente. Encostou-se na cadeira esticando o corpo para trás. Ficou algum tempo organizando suas lembranças e chegou a uma conclusão: estava apaixonado, sentia-se como um adolescente; às vezes pensava que nunca mais teria esta sensação; após mais de dez anos de casamento a relação com a sua esposa já havia esfriado. Não existia nenhuma emoção 29

semelhante na vida atual. Estava tudo muito rotineiro, mecânico, mas agora, havia uma mudança, uma nova sensação invadia-lhe o coração e ele estava gostando. Vagarosamente, Rute abriu a porta e disse-lhe: - Querido, já está na hora de começarmos a nos aprontar para o culto ou vamos nos atrasar. - Já estou terminando, pode começar a se arrumar que eu estou indo - respondeu ele. Assim que ela saiu, pegou seu caderno e procurou por uma mensagem para reunião da noite. Sem a ler, colocou-a junto à Bíblia e foi se aprontar para sair. Os dias se passaram e o que ele achou que ia diminuir, ao contrário, aumentou mais ainda. Procurava sempre um meio de estar com Karla. Observava, para encontrar uma forma de chegar até ela e demonstrar seus sentimentos, mas, suas atividades impediam de se aproximar mais. Então, resolveu escrever uma carta e colocar no papel o sentimento que estava em seu coração. Ligou o computador, aguardou abrir os programas e parou. Lembrou-se que nunca havia escrito uma carta para Rute, pois sempre estiveram tão juntos. Desde que se conheceram, quando ele trabalhava como missionário, em todas as atividades, em todos os encontros, ela sempre esteve ali ao seu lado, dando apoio a todas as atividades que ele realizava. Era uma boa mãe e também boa dona-de-casa. Não podia fazer isso. Parou novamente e começou a sentir que já não havia amor em seu casamento. Sentia a necessidade de uma emoção mais forte; queria alguém que fizesse o seu coração bater mais acelerado e já havia encontrado. Então esticou os braços, estalou os dedos, e começou a digitar: “Quero ser livre, livre para amar, para pensar, para fazer o que vier à cabeça. 30

Tenho vontade de correr, de sair por aí, sem destino, sem direção. Pular, correr, cantar, extravasar! Por que será que a felicidade custa tanto? Por que será que necessito de um amor mútuo? Sim, de um amor mútuo, não só de um, porém de ambos. As pessoas têm caminhos diferentes que se cruzam de repente no meio da caminhada da vida. A jornada, às vezes, torna-se tão bela, e outras, tão ruim, vazia. As pessoas não sabem cativar e não se deixam cativa; elas carregam dentro de si uma força estranha que as move de tal forma, que as fecham, que as impossibilitam de abrir-se para alguém, de entregar-se, de amarem-se verdadeiramente. Quero me entregar à você, mas estou preso. E o que peço, apenas, é que espere até que eu possa me sentir livre para apresentar-me e poder lhe cativar como você me cativou. Quando pensar em mim, pense simplesmente em alguém que você um dia irá conhecer e descobrirá que sempre esteve à minha procura; sou a pessoa que vai completar a sua vida definitivamente”. Quando parou de escrever, olhou a carta e ficou surpreso com o que havia escrito. Imprimiu o texto e deletou o arquivo. Selou a carta e a colocou no correio sem se identificar. Sentiu-se bem por ter escrito a carta e, à medida que o tempo passava, várias outras foram

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enviadas. Aguardava por uma oportunidade em que poderia se declarar pessoalmente a ela.

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V

Os primeiros meses foram muito difíceis para Karla. O rompimento do namoro, as constantes reclamações da mãe, as exigências feitas pela igreja. Tudo isso eram obstáculos a superar. Mas a igreja fazia sentir-se bem, mais segura, mais limpa. E o apoio que lhe era dado, principalmente pelo Pr. Lucas, servia para reafirmar a sua condição de nova criatura. Enfim, chega o dia do batismo. Estava ansiosa, pois depois da cerimônia poderia fazer parte do grupo de músicos, participar, ativamente, das decisões da igreja; poderia votar como todos os membros. Mas Karla tinha um desafio à sua frente: queria que sua mãe viesse assistir ao batismo. Porém, isto era quase impossível. Contudo, seguindo as orientações do Pr. Lucas, começou a ter atitudes diferentes com sua mãe. Começou a agradála, procurava estar mais tempo com ela, o que era muito difícil, pois as duas raramente estavam em casa e, quando estavam, ficavam cada uma em seu canto. Mas, aos poucos, surgiria a oportunidade de convidá-la. Numa manhã de sábado, Karla levantou-se e foi até à área de serviço onde sua mãe colocava as roupas na máquina de lavar. Chegou por trás, beijou-a na nuca e disse: - Bom-dia, mãe!

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Ela olhou-a desconfiada como se estranhasse tanto carinho àquelas horas, mas recebeu o afeto e respondeu com um bom-dia que quase não se pôde ouvir. Karla sentou-se em um banquinho que estava próximo e disse: - Mãe, eu quero lhe pedir uma coisa. Ela põe a máquina para funcionar, vira-se para Karla e, com um olhar cínico, diz: - Não tenho dinheiro. - Não, mãe, não é dinheiro que eu quero rebate Karla. É algo mais simples e bem mais fácil de se conseguir, só depende da senhora. - Então diga logo e pare de rodeios. - Eu quero que a senhora vá comigo à igreja, hoje. - E o que é que eu vou fazer lá se você sabe que eu não gosto de igreja, e ainda mais, igreja de crente? - É que hoje é um dia especial, é o dia do meu batismo; quero que a senhora esteja lá, pois, é para mim, a pessoa mais importante no mundo. - Mas você já foi batizada na igreja católica, não precisa se batizar outra vez. - Só que este batismo é diferente. Quando fui batizada era um bebê, não sabia de nada. Só que agora sei o que é batismo: serve para demonstrar a todos que morri para o mundo e nasci para Deus. - Não vou! Não estou disposta a passar a noite toda ouvindo esta baboseira. - Vamos mãe, por favor, é muito importante para mim que a senhora vá. Ela hesitou um pouco, olhou diretamente para Karla, que estava com a aparência de que iria chorar se recebesse uma resposta negativa, e disse: 34

- Tudo bem, eu vou. Mas se eu não gostar venho logo embora. Só assim eu conheço este pastor de quem você fala tanto. - Foi mais fácil do que pensei - disse Karla baixinho enquanto saía. A noite era de festa, todos bem arrumados, a igreja ornamentada com muitas flores, e a mesa, que fica em frente ao púlpito, estava com a bandeja e os pães e a bandeja dos cálices que seria usada na realização da ceia. Toda a mesa encontrava-se coberta com uma bela toalha de renda que cobria os objetos da ceia e suas pontas chegavam até o chão. Karla entrou com sua mãe, apresentando-a aos que passavam, inclusive Pr. Lucas e sua esposa, acomodou-a em um dos primeiros bancos e foi prepararse para o batismo. Na sala de acesso ao batistério, todos, vestidos com as batas brancas, acompanhavam o desenrolar da cerimônia que era dirigida pelo irmão Antônio Alves, aguardando a hora de serem batizados. Quando começam a tocar os instrumentos, Pr. Lucas desce, lentamente, pelas escadas do batistério com as palmas das mãos encostadas uma na outra e, apoiando o queixo em um sinal de reverência e santidade, chega ao meio do batistério, vira-se para frente e pára. Os que estavam para serem batizados aguardavam enfileirados, por tamanho, a hora de serem chamados. Primeiro as mulheres, depois os homens (porque as mulheres demoram mais para se arrumar após o batismo). Vinte e duas pessoas batizariam-se nesta noite. A música pára de tocar. O silêncio predomina na igreja. Pr. Lucas vira-se para Karla, que era a primeira da fila, e faz um sinal com os olhos. Ela compreende e 35

começa a descer lentamente as escadas, posiciona-se ao seu lado e pára. Ele segura firme suas mãos, que estão com os dedos entrelaçados próximo ao peito, e com a mão levantada sobre sua cabeça pergunta com voz baixa: - Diga seu nome completo. Ela responde e Pr. Lucas, agora levantando a voz, pergunta: - Karla Martins Sobral, você aceita a Jesus como único senhor e salvador da sua vida? - Aceito! - responde, Karla, firmemente. - Então, mediante a tua profissão de fé, e autorizado por Deus e por esta igreja, batizo-te em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém. E a mergulha para trás, fazendo todo o seu corpo submergir acompanhado do refrão de uma música e de vários gritos de aleluia e glória a Deus, que só param com a entrada da segunda pessoa a ser batizada. E assim, segue com todas as vinte e duas pessoas que se batizaram naquela noite. Enquanto os batizados e o Pr. Lucas trocam as roupas molhadas, a igreja canta uma música de celebração pelas pessoas que foram batizadas naquela noite. Depois, entra o pastor, seguido pelos novos membros, que entram enfileirados e se sentam no primeiro banco da coluna central que lhes foi reservado. Pr. Lucas aguarda o término da música, recebe o microfone do irmão Antônio Alves e começa: - Aleluia! Glória a Deus! Este é um dia de festa, de extrema felicidade por todos estes que, uma vez convertidos, passam, a partir de hoje, a fazer parte do Corpo de Cristo.

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Antes de passarmos para a próxima parte da cerimônia, quero explicar, resumidamente aos nossos visitantes, o significado destes atos. Foram duas as ordenanças deixadas por Jesus quando aqui esteve, durante o seu ministério: o primeiro deles foi o batismo; o batismo é demonstração exterior de algo que já aconteceu no interior daqueles que foram batizados, e o que foi isto? Foi a conversão, a mudança de vida, pela qual cada um deles passou e o batismo, através da imersão, demonstra que a pessoa, quando mergulha, morre para o mundo e todas as suas concupiscências, e quando emerge, nasce uma nova criatura para Deus. A segunda ordenança foi a ceia, que é representada por estes elementos que estão na mesa, à nossa frente, o pão e o vinho. Através do batismo, quando nascemos de novo, passamos a fazer parte do Corpo de Cristo e a ceia é a representação deste corpo. Na noite em que foi traído, que era uma noite de páscoa, Jesus tomou a ceia com seus discípulos e a instituiu como ordem para todo o povo de Deus. Agora, há um detalhe muito importante: para nós, cristãos, estes elementos aqui presentes não são o corpo de Cristo, nós não cremos na transubstanciação, cremos que eles, apenas, representam o corpo e o sangue de Cristo. O batismo é administrado somente uma vez, porque pode haver somente um começo de vida espiritual. A ceia, por sua vez, é administrada freqüentemente, ensinando que a vida espiritual deve ser alimentada até que Cristo volte, como Ele mesmo falou. E quem deve tomar a ceia? Toda e qualquer pessoa que, tendo sido batizado, está em comunhão com Deus e sua igreja. 37

Após as explicações, Pr. Lucas chamou os diáconos à frente que descobriram a mesa, dobrando a toalha de renda lentamente. Desceu até à mesa, abriu a Bíblia e disse: - Vamos todos abrir nossas Bíblias na primeira carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 11, versículo 23. Todos de pé. E os diáconos começam a distribuir o primeiro elemento da ceia, o pão. Após a entrega, ele distribui o pão aos diáconos e diz: - Vamos ler: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei. Que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão, e tendo dado graças, o partiu e disse: isto é o meu corpo, que é dado por vós, fazei isto em memória de mim”. Este pão representa o corpo de Cristo que foi dado por nós e do qual nós fazemos parte. Oremos: Senhor, nós te agradecemos por ter dado a tua vida para nossa salvação. Agradecemos pelo teu sacrifício que rasgou o véu que nos separava do Pai. Agradecemos pelo teu Espírito que nos chamou e, hoje, podemos fazer parte do teu Corpo. E, como parte deste corpo, queremos te servir cada dia mais, te amando, trabalhando em pró do teu evangelho, amando todas as pessoas que estão ao nosso redor, para que o bom perfume de Cristo seja espalhado por toda a terra. Em nome de Jesus nós te oramos. Amém! Comamos, dele, todos. E após terem comido o pão, um silêncio profundo dominou o ambiente, durando alguns segundos. Começou, então, a distribuição do segundo elemento, o vinho. - Versículo vinte e cinco diz: “Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, 38

dizendo: este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto todas às vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas às vezes que comerdes deste pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha”. Este vinho representa a comunhão que temos em Jesus e, para intensificar mais esta comunhão, quero que você, agora, troque seu cálice com alguém que está ao seu lado, porque nós somos um corpo, temos o mesmo sangue purificador e servimos ao mesmo Senhor, Pai de todos os que o adoram. E começaram a trocar os cálices uns com os outros. - Agora, parem onde estão, abrace a pessoa que está ao seu lado e, neste clima de comunhão, vamos todos juntos beber deste cálice, anunciando a morte e ressurreição de Jesus até que Ele volte. Bebamos todos. Após terem bebido do cálice, começaram a dar gritos de aleluia e glória a Deus, que foram seguidos por várias músicas animadas e uma grande alegria invadiu o ambiente. Terminada a reunião, todos foram abraçar os novos membros da igreja. Pastor Lucas, à porta, cumprimentava aos visitantes que saíam. Cumprimentou também a mãe de Karla; conversaram por alguns minutos, e as duas foram logo embora. No caminho, Karla pergunta à mãe: - E aí, mãe, gostou da igreja? - É, foi bonzinho - disse a mãe não querendo transparecer que havia gostado. - Então, desde já, eu convido a senhora para a próxima festa que é o aniversário da igreja - afirmou Karla aproveitando a oportunidade.

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- Vou pensar no seu caso - respondeu a mãe sorrindo e foram para casa.

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VI

Vários meses se passaram e estava próxima a festa de aniversário dos 26 anos da igreja, que coincidia com o aniversário de 10 anos do Pr. Lucas como dirigente da mesma. Seria uma grande festa; vários convidados, cantores de outras cidades e um pregador, que foi seu colega de seminário e que pastoreava uma grande igreja na capital do estado, seria o pregador oficial deste encontro. Estavam, os membros, envolvidos com as comemorações e, quase todas as noites, ensaiavam para a apresentação teatral e para as músicas que seriam cantadas na festa. Numa noite de quarta-feira, logo após a reunião de oração, os jovens do grupo musical chegaram até o Pr. Lucas e disseram: - Pastor, nós queremos ficar até mais tarde para ensaiar algumas músicas que estão muito difíceis. E como a festa se aproxima, não queremos deixar para última hora. - Tudo bem - disse o pastor. Só que eu me preocupo em que hora esse ensaio vai terminar e como vocês vão fazer para retornarem às suas casas. comentou com ar de preocupado. - Bem, algumas músicas faltam ser decoradas, mas se não der tempo nós as retiramos do repertório. retrucou um dos jovens. 41

- Isso seria uma pena, porém, eu vou dar um jeito. Eu vou levar a Rute para casa e volto para levá-los também. - completou o pastor. - Sendo assim, nós podemos ensaiar mais tranqüilos. Contudo, tenho certeza que antes da meianoite já teremos terminado. - disse o jovem já se retirando para chamar os outros com o intuito de iniciarem o ensaio. O Pr. Lucas levou sua esposa e disse a ela que voltaria para levar os jovens do grupo musical para suas residências. Voltou à igreja e sentou-se no último banco, enquanto aguardava que o grupo ensaiasse as músicas. O ensaio terminou quando faltavam vinte minutos para a meia-noite; entraram no carro e ele começou a deixar cada um em sua casa. Karla seria a última a ser deixada, pois a sua era a mais distante. Assim que todos desceram, ela veio para o banco da frente, virou-se para ele e disse: - Nossa, já é quase uma hora da manhã! A irmã Rute deve estar preocupada com o senhor. - Eu tenho certeza de que ela já está dormindo. respondeu ele, enquanto dirigia. - Quando me casar - disse Karla - e meu marido tiver que chegar tarde, eu só vou dormir quando ele chegar, porque tenho um sono muito leve e, ficando preocupada, não consigo dormir. Ele respirou fundo, fez um ar de tristeza, aguardou alguns instantes e disse: -Olha Karla, eu vou lhe dizer uma coisa muito pessoal, e digo isso porque sei que você, apesar de ser jovem, é uma pessoa muito amadurecida, sensata e nos conhecemos há algum tempo. A vida de casado, após mais de dez anos juntos, não é a mesma do início do casamento. Não há mais aquele interesse de se estar 42

sempre juntos; o amor esfria e não existe essa preocupação em saber onde o outro está e nem o que está fazendo. A estas horas, ela já deve estar no terceiro sono e nem vai saber a que horas eu cheguei. - É, eu sei como é isso - disse Karla - quando os meus pais estavam se divorciando, eles portavam-se desse jeito; viviam juntos, mas quase não se falavam. E mesmo quando se falavam, era com um tom de voz alterado e sempre discutiam. Então o papai passou a não fazer as refeições conosco e, dentro de pouco tempo, já não dormia mais em casa. Foi um período muito difícil, entretanto, depois que se separaram a situação foi resolvida. - Eu também já estou pensando em separar-me disse pastor Lucas - mas na minha posição é um pouco mais difícil, tem que ter uma preparação maior para que haja uma aceitação da igreja; as pessoas ainda têm muito preconceito em relação ao divórcio, principalmente, entre os crentes. - Eu acho que, se duas pessoas não se amam mais não devem ficar juntas, é negativo para elas e é ruim para todos que estão ao seu redor. E, ainda mais, impede que a outra pessoa possa amar novamente, ter uma nova chance de ser feliz - respondeu Karla. - É exatamente isto que está acontecendo - disse ele, enquanto parava o carro em frente à casa dela, desligou o motor, e continuou: - Eu só tive a certeza de que não amava mais a minha esposa depois que me vi totalmente apaixonado por outra pessoa; pensei que não seria possível amar novamente, mas fui enganado pelo meu coração. Agora, estou numa situação difícil de se resolver.

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Ela olhou para ele com um ar de curiosidade e perguntou: - E o senhor já resolveu o que vai fazer para viver o seu novo amor? - Claro! - respondeu ele entusiasmado - eu vou lutar pela minha felicidade, mesmo que para isso tenha que lutar contra tudo e contra todos. É só uma questão de tempo para poder tomar algumas decisões. - E essa pessoa, por quem o senhor está apaixonado, ela já sabe do seu amor por ela? - perguntou Karla, com bastante interesse. Então, ele ficou olhando para ela fixamente por algum tempo. Enquanto Karla aguardava a resposta, ele pensou: essa é a hora, tenho que aproveitar a oportunidade e saberei se tenho alguma chance. Segurou a sua mão, fez um ar de suspense, aproximou-se, lentamente, e a beijou. Foi um beijo rápido. Após se beijarem, ficaram em silêncio, por alguns instantes, olhando para frente esperando que alguém retomasse a conversa. Então, ele disse com voz quase imperceptível. - Desculpe-me, não pude me conter. - Tudo bem - respondeu ela - foi só um beijo. - Mas este beijo significa muito para mim. disse Pastor Lucas. Ficaram novamente em silêncio e de repente, como quem decifra um enigma, virou-se para ela e perguntou: - Você já sabia? - Já desconfiava - respondeu ela com frieza nas palavras. - Por causa das cartas?

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- Pelas cartas e, também, pela forma que o senhor me olhava. Juntei uma coisa com a outra e cheguei à conclusão de que era o único que se encaixava com as características do meu “amante anônimo”. - Mas comentou com alguém ou mostrou as cartas a outras pessoas? - Não! - respondeu, Karla, firmemente - estava aguardando para ter certeza, e como havia escrito pedindo segredo, não comentei com ninguém. - E agora que já sabe, o que vai fazer comigo? perguntou ele com um tom de voz melancólico e como se toda a sua vida dependesse daquela resposta. - Eu não sei ainda - respondeu, Karla demonstrando novamente frieza em suas palavras. - O senhor está casado e isso atrapalha um pouco. Eu preciso de um tempo para pensar. Já está muito tarde, acho que devemos ir. - E quando conversaremos novamente? perguntou ele. - Eu sei que encontrará uma oportunidade, mas não tenha pressa. Como já disse, eu preciso de tempo. Boa-noite. Saiu do carro, andou até à porta, virou-se, e com um discreto sorriso mandou um beijo com a mão, entrou e fechou a porta. Assim que a porta foi fechada, ele ligou o carro e saiu lentamente. Enquanto dirigia, pensava em como teve coragem de fazer aquilo, ele que sempre fora tão tímido para com as mulheres.Pois, para conseguir pedir a Rute em namoro, gaguejou tanto que pensou que ia engasgar e tremia mais do que “vara verde em tempestade”. Agora tivera coragem de tomar uma iniciativa daquela. Realmente estava muito apaixonado para poder ter feito aquilo. Estava feliz, mas também 45

havia um sentimento de culpa que rondava seu coração. Como iria contar para Rute? Talvez devesse desistir enquanto era tempo. Afinal de contas, foi só um beijo. Poderia ser esquecido facilmente, e quem sabe até, voltar a se apaixonar por Rute. E assim foi meditando pelas ruas escuras e solitárias da cidade, tentando administrar a luta entre o desejo e a consciência, andando com o carro lentamente, esticando ao máximo o tempo que levava da casa de Karla à sua casa. Quando chegou, a luz da sala estava acesa. Entrou na ponta-dos-pés, apagou a luz, foi para o quarto. Ao começar a tirar a roupa, Rute perguntou: - Que horas são? - Um pouco mais de uma hora - responde com voz baixa e trêmula. - Pensei que já estivesse dormindo? - Eu tentei, mas você sabe que eu não durmo se não estiver em casa. - Então, já pode dormir que eu estou aqui. falou rudemente dirigindo-se ao banheiro. Tomou um banho e foi para cama. - Você não acha que este ensaio está terminando muito tarde? - perguntou Rute, após ele ter se deitado. - Eles têm que deixar as músicas bem preparadas, e se eu posso ajudar, é claro, que vou ajudar. Durma e deixe-me dormir também. - respondeu ele aumentando o tom da voz na medida em que se virava para o lado. Ela estranhou o jeito rude dele a tratar, todavia achou que deveria ser o cansaço. Virou-se para o outro lado e ambos dormiram. No domingo seguinte, Pr. Lucas manteve-se mais afastado de Karla, porém, sempre a acompanhando

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com os olhos. À noite, após o culto, enquanto se despediam, abraçando-a, ela sussurrou em seu ouvido: - Na quarta tem ensaio. Aquele sussurro de tão poucas palavras foi como jogar combustível na chama que ardia em seu coração. Aqueles três dias pareciam não ter mais fim de tão longa que era a ansiedade que o possuía. Na quartafeira seguiu a mesma rotina da semana anterior, porém com um pouco mais de pressa, e depois de deixarem o último jovem em casa, seguiram em silêncio até a casa de Karla. Parou em frente, desligou o carro e antes que ela pudesse esboçar alguma palavra, atirou-se em sua direção e a beijou novamente. Desta vez foi um beijo demorado e apaixonante. Após se beijarem, encostou a cabeça no volante e disse: - Mais uma vez não pude me controlar. Desculpe-me novamente. - Esta sua falta de controle está ficando cada vez mais constante - disse ela com um sorriso irônico. Ele sorriu também, olhou para ela e disse: - É a sua beleza que tira o meu controle - e beijaram-se mais uma vez.

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VII

Três semanas se passaram e eles continuaram se encontrando, sempre às quartas-feiras. O dia da festa havia chegado e ele precisava descobrir uma outra forma de se encontrar com Karla. A festa de comemoração dos vinte e seis anos de existência da Igreja Evangélica Redenção teve um início de comemoração modesta, na quinta-feira, e terminando no domingo com uma grande quantidade de pessoas. Marcaram presença vários visitantes e também pessoas de outras denominações. Vários membros tiveram a oportunidade de testemunhar qual a importância da igreja em suas vidas e a modificação que houve depois que começaram a fazer parte dela. Quase no final da reunião, o irmão Antônio Alves, que era o dirigente da noite, chamou o Pr. Lucas à frente, juntamente com Rute, virou-se para eles e disse: - Foram dez longos anos que se passaram, anos de lutas, provações, ataques constantes do inimigo de nossas almas, anos ouvindo nossos problemas, nos aconselhando, nos mostrando qual era o caminho para salvação. Olhando para trás, parece que foram poucos dias ou parece que foi fácil termos a igreja que temos hoje.Todavia, quem está aqui desde o principio, como eu estou e alguns outros irmãos, sabe que não foi fácil; muito evangelismo e, principalmente, noites e noites de 49

oração incessante; foram as duas armas essenciais que usamos para vencer esta batalha e que continuaremos a usar para prosseguir mais e mais, expandindo, assim, o reino de Deus. Com entusiasmo prosseguiu: - Pastor Lucas, o senhor foi o instrumento que Deus usou para nos fazer crescer. Antes de chegar aqui, esta igreja nunca passou de sessenta membros, sei disso porque sou um dos fundadores desta igreja e, durante os dezesseis anos que antecederam à sua vinda, nós oramos muito para que Deus mandasse-nos um homem de fé, que nos ensinasse a batalhar neste exército, exército da salvação, e o senhor veio e fez esta maravilhosa obra que se vê hoje. Não temos como lhe agradecer por todos estes anos de vida dedicados a esta igreja; não há presente que pague por dez anos de entrega total ao serviço do Senhor Jesus. Por isso, nós compramos esta Bíblia e nela colocamos os nomes de quase todos os que se converteram nestes dez anos de ministério; estão aqui conosco, são duzentas e oitenta e duas assinaturas para comprovar o fruto deste trabalho, que levará consigo por onde quer que ande. Esperamos que não se vá e fique conosco até se aposentar. Agora podem entrar com o bolo, e o senhor tem a palavra para fazer as considerações finais, antes de orarmos. O Pr. Lucas olhou para o bolo que foi colocado em cima da mesa. Estava escrito: Lucas e Rute, nós te amamos. Olhou para frente, esperou um pouco e falou: - Foram muitas lutas sim, noites de sono perdidas; horas ajoelhado pedindo a Deus que endireitasse todos os caminhos tortos; preparando mensagens, pregando, visitando, mas foram todas válidas. Eu não sei nem quantas horas há em dez anos, ou 50

quantos minutos ou segundos, porém quero que vocês saibam que cada instante foi válido, não houve hora perdida, nem um instante sequer. Não teria conseguido a não ser pela ajuda de uma pessoa, uma pessoa que por sinal tem a função de ajudadora, que esteve comigo em cada problema, às vezes, falando, mas na maioria das vezes ficando unicamente em silêncio, ouvindo minhas lamentações, meus desabafos. A Rute, minha esposa, que dividiu comigo toda dificuldade, durante estes dez anos que se passaram. Agradeço a ela, do púlpito, para que saiba que sem ela eu jamais teria conseguido cumprir a árdua tarefa que Deus me entregou. Virou-se para Rute, segurou sua mão, e olhando nos seus olhos, disse: - Rute, muito obrigado por ser quem você é, minha ajudadora, e ainda mais, uma grande amiga que eu encontrei para dividir os meus dias. Agradeço a Deus, todos os dias, por tê-la colocado em minha vida, e peço que Ele te abençoe sempre. Entregou o microfone para o dirigente, abraçou Rute, beijou-lhe a testa e aguardou a oração final que seria feita pelo pastor que havia sido convidado. Após a oração, partiram o bolo e todos comeram e se confraternizaram. Rute, que, com um pedaço de bolo numa das mãos e um copo de refrigerante na outra, procurava um lugar para se sentar, percebeu que havia alguém sozinho do lado de fora da igreja. Dirigiu-se em sua direção e percebeu que era Karla. Chegou até ela, sentou-se ao seu lado, na calçada, e perguntou: - O que aconteceu minha filha, para você estar tão triste?

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- Não foi nada, são alguns probleminhas bobos, nada que deva se preocupar - respondeu ela de cabeça baixa. - Como não me preocupar? Este é um dia de festa e você está triste e acha que eu não devo me preocupar? Preocupo-me sim! Preocupo-me com cada um de vocês, eu quero que vocês estejam felizes. - Não é nada, pode ter certeza, só estou triste, mas não quero estragar a sua alegria com a minha tristeza - respondeu ela até então de cabeça baixa. Rute, que havia tomado um pouco do refrigerante, colocou o copo ao lado, virou-se para Karla e disse: - Eu já sei o que é, os jovens só ficam assim por dois motivos: um é quando brigam com os pais, mas isso não aconteceu, pois a sua mãe está lá dentro conversando com o Lucas e eu vi vocês duas se abraçando quando terminou a reunião. Então, só resta a segunda alternativa que é namorado. Acertei? Quando Rute terminou de falar, Karla levantou a cabeça, olhou para ela e deu um sorriso discreto concordando com o que Rute havia dito. Rute então começou a falar: - Estas coisas do coração são sempre assim, por mais que se previna ninguém está preparado. Quando o amor chega, ele nos toma o controle, e nós, às vezes, fazemos coisas que não queremos; se somos tentados a isso, o que se deve fazer é dar tempo ao tempo e deixar nas mãos de Deus para que Ele resolva. E eu lhe garanto, Ele resolve de uma maneira tão maravilhosa que nós nunca imaginamos e tudo fica bem.

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- O problema é que eu acho que ele não me ama como diz que me ama; acho que ele está mentindo para mim - falou Karla, voltando a baixar a cabeça. - Olha Karla - respondeu Rute - o amor não é uma coisa que surge do nada como algumas pessoas pensam. Ele é desenvolvido à medida que duas pessoas passam a ter algum tipo de relacionamento. Eu não amei o Lucas assim que o conheci. Precisei de tempo para amá-lo. Primeiro, tinha que conhecê-lo, estudar sua personalidade, para então me entregar totalmente a ele através do casamento. Para isso é que serve o namoro, para se conhecerem um ao outro, e então, decidir se é com este mesmo que quer passar o resto da sua vida. Se estiver difícil peça ajuda ao Espírito Santo, que conhece todos os corações. Ele sabe o que é melhor para cada um de nós. Ficaram em silêncio por alguns instantes, então Karla olhou para Rute e disse: - É, a senhora tem razão. Somente o tempo poderá dizer se ele me ama ou não, e o que eu tenho a fazer é unicamente esperar o que Deus quiser. Agora, eu queria, se a senhora não ficar aborrecida, ficar um pouco sozinha. Eu gostei muito do que a senhora me falou, foi muito importante para mim, eu não quero ser maleducada e nem mal-agradecida. Apenas gostaria de ficar um pouco só, se a senhora não se importar. - Tudo bem, Karla, mas saiba que se precisar de alguma coisa, a qualquer hora, pode contar comigo, que estarei sempre pronta a lhe emprestar um ombro amigo respondeu Rute e entrou novamente na igreja. Quando Karla e sua mãe voltavam para casa, sua mãe perguntou:

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- O que foi que houve com você, é sempre tão tagarela e agora está aí como se estivesse com dor de barriga, sem dizer uma palavra? Karla tentou desconversar, mas não convenceu sua mãe e, quando chegaram em casa, ela confessou: - O Pastor Lucas e eu estamos nos encontrando. - Ai, meu Deus! - disse a mãe com um certo desespero. Eu sabia que “neste angu tinha caroço”, eu sabia que toda essa empolgação de igreja tinha alguma coisa; agora eu sei porque essa cara de “jururu”; o pastor elogiou a esposa na igreja e você ficou com ciúmes. Pois fique sabendo que “fotocópia nunca vai ser original” e depois do que eu ouvi dele hoje, sei que nunca vai deixar a esposa para ficar com você, pois ele está te usando e é bom você abrir logo esse olho, porque quando enjoar de você ele te joga para escanteio e arruma outra. Homem é tudo igual, não presta. Não se lembra o que eu passei com seu pai? E agora você se mete numa enrascada dessa? Desde já, fique sabendo que eu não concordo com isso e não me chame mais para ir à igreja. Lá eu não ponho mais os meus pés e acho bom você deixar tudo isso e cuidar de sua vida. Não criei filha para ser amante de nenhum pilantra. Karla ouviu, calada, as reclamações de sua mãe e foi para o seu quarto. Na segunda-feira, Karla saiu da faculdade e caminhava para o ponto de ônibus quando foi surpreendida pelo Pr. Lucas que, parando o carro ao seu lado, pediu que entrasse. Ela entrou e seguiram para um local distante, perto da saída da cidade. - Pensei que nunca mais iria me procurar? comentou Karla enquanto colocava o cinto de segurança. - E o que levou você a pensar isso? 54

- Depois de ontem, com toda aquela declaração de amor em público, pensei que estivesse decidido a restaurar o seu casamento. - Olha Karla, não é porque eu não amo mais a Rute que eu não deva reconhecer todo o esforço e dedicação dela durante estes quatorze anos de casamento. O nosso casamento acabou. Entretanto, o que edificamos fica, nossos filhos, nossas experiências, tudo isso fica guardado para o resto de nossas vidas e, além do mais, aquilo não foi uma declaração de amor, foi um agradecimento pelos anos vividos e, também, uma prévia de despedida, pois logo estaremos separados e o que restará será apenas lembrança. E quero que sejam boas lembranças. Karla olhou para ele com seriedade e perguntou: - E quanto tempo mais eu tenho que esperar para que o senhor separe-se de fato? - Não vai demorar muito. É só esperar pelo momento certo. Agora, o que não posso é deixar que você se afaste de mim. Tenho que te ver. Preciso de você e não posso me afastar por muito tempo, senão vou enlouquecer de tanta saudade. - E o que o senhor sugere que se faça para continuarmos nos encontrando? - perguntou Karla, com uma certa malícia no olhar. Pr. Lucas aproximou-se dela, deu um beijo lento, suave e disse: - Primeiro, eu acho que você deveria parar de chamar-me de “senhor”. Esta palavra coloca uma barreira muito grande entre nós; uma barreira que não existe há algum tempo e, depois, não se preocupe com os nossos encontros. Sempre descobrirei um jeito de ver você, 55

sempre haverá um espaço onde poderemos nos encontrar até desligar-me definitivamente da Rute. E assim, continuaram se encontrando...

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VIII

Mais uma noite de domingo que voltavam para casa. Como de costume, foram direto para a cozinha onde Rute prepararia uma leve refeição antes de irem para cama. Levou os filhos ao quarto, colocou-os na cama, voltou para a cozinha e aguardava enquanto Pr. Lucas terminava sua refeição. - Por que está olhando para mim? - perguntou ele enquanto, comia. - Estou esperando você terminar de comer, quero conversar um assunto importante - respondeu ela calmamente. - Já que é tão importante, então diga logo retrucou ele, ainda de boca cheia. - É sobre um comentário que surgiu na igreja, e com certeza você já deve ter ouvido a respeito desse seu excesso de cuidado com a Karla. Assim que Rute falou o nome de Karla, ele quase se engasgou; bebeu um pouco de café, disfarçou e perguntou: - E o que é que se tem comentado a respeito da Karla, porque eu não estou sabendo de comentário nenhum? - É que alguns jovens estão enciumados da forma como você a trata. Vieram me perguntar se eu não ficava com ciúmes pelo fato de vocês estarem sempre tão 57

juntos antes e depois dos cultos. Também perguntaramme se você, agora, estava fazendo acepção de pessoas, pois toda a sua atenção é para ela. Ele terminou de comer, colocou o prato na pia e, encostando-se, perguntou: - E você, o que disse a eles? - É claro que eu disse que eles estavam vendo coisas demais e que tinha coisas mais importantes para me preocupar, do que ficar ouvindo besteiras. - E então, por que quer falar comigo sobre isso se você já disse o que eles precisavam ouvir? Perguntou ele, tentando encerrar o assunto. Rute respirou fundo, olhou para ele e disse com toda calma do mundo: - É que eu também acho que você está muito próximo desta menina. - Você está desconfiando de mim? - disse ele, interrompendo-a, em um tom de voz elevado, enquanto apontava para o próprio peito. Rute levantou-se, encostou-se à mesa, e de frente a ele, com a voz quase sussurrando, disse: - Fale baixo que as crianças ainda estão acordadas. Não estou desconfiando de você, só que vocês têm estado muito próximos ultimamente. As pessoas vêem isso, comentam e daí pode surgir várias conversas que podem manchar sua imagem, mesmo não tendo feito o que eles dizem. Você mesmo sabe disso, sabe que “devemos fugir da aparência do mal”. - Fugir da aparência do mal? Que mal pode haver em querer ajudar uma jovem da igreja? - indagou o Pr. Lucas enquanto se movimentava na cozinha para fugir do olhar de Rute; e continuou:

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- Quem foi que disse isso? Quero os nomes, isso não vai ficar assim, vou tomar uma providência. Rute, que agora estava sentada, olhava ele se movimentar de um lado para outro da cozinha como se maquinasse algo. Aguardou ele se acalmar um pouco e disse: - Muito me estranha esta sua atitude. Antes, em uma situação como esta você diria: vamos deixar que a justiça de Deus resolva tudo. E agora quer tomar uma providência. Não entendo o que está havendo com você. Está muito preocupado com um assunto muito simples de se resolver, pois é só se afastar um pouco da Karla que logo todos se esquecerão. Ele parou, de onde estava, virou-se para ela e disse: - O que mais me aborrece não é o fato de que as pessoas da igreja façam comentários absurdos; o que me aborrece é que você acredita neles. Você está desconfiando de mim e, o pior, sem motivo algum! Você, que me conhece melhor do que ninguém, sabe todos os meus passos e ainda acha que posso ter alguma coisa com aquela menina, que tem idade para ser minha filha? Isso sim, é o que dói no meu peito. - Os seus passos ultimamente têm sido muito longos para eu poder acompanhar Lucas; não sei onde você passa o dia todo e, às vezes, alguma parte da noite também. Ultimamente você anda muito sumido. Precisamos falar com você e não conseguimos te encontrar. Celular desligado e ninguém da igreja sabe do seu paradeiro - disse ela um pouco mais exaltada. - Uma vez você me procurou, não me encontrou e onde eu estava? Onde sempre estou, fazendo visitas como sempre fiz durante estes dez anos de ministério e 59

você nunca questionou, até hoje, quando resolveu dar uma de detetive e procurar “perna em cobra”. E sabe do que mais, estou cansado desta conversa; tive um domingo cansativo e você ainda vem me aborrecer com desconfianças sem motivo. O melhor que eu faço é ir dormir, pois amanhã é um novo dia e vou continuar fazendo as coisas na qual fui ordenado por Deus para fazer. Saiu da cozinha e foi direto para o quarto, deixando Rute sentada onde estava. Sentada à mesa, com os cotovelos sobre a mesma e as mãos apoiando a cabeça, ela refletia nas palavras que foram ditas àquela noite. Sentia um nó na garganta, um aperto no coração que ela se esforçava para não se transformarem em lágrimas. Juntando os fatos, ela chegou a uma conclusão que se recusava a aceitar: estaria o Lucas me traindo? Impossível! Apesar de estar agindo de forma estranha ultimamente, com certeza seriam os problemas da igreja. E aquela aproximação demasiada com a Karla, não era para desconfiar? Não! Ela é uma jovem muito carente de afeto; seus pais divorciaram-se quando ela era muito pequena. Com certeza ela vê o Lucas como um substituto do pai ausente e se apegou a ele por causa da sua posição de pastor que é a mesma coisa que ser pai. E toda esta preocupação em querer explicar tudo, ficando nervoso, querendo resolver o assunto de uma forma enérgica, estaria ele escondendo alguma coisa? Bem, se eu continuar pensando assim vou ficar é maluca. O melhor que faço é deixar que o “tempo traga seus cuidados” e entregar tudo nas mãos de Deus. Levantou-se, virou-se para apagar a luz, ergueu a cabeça. fechou os olhos e disse com voz suave: - Pai, Tu sabes todas as coisas, “Tu sondas os corações e os pensamentos e dá a cada um segundo as 60

suas medidas”. Confio no teu poder e “não há nada de oculto que não venha a ser revelado”.Obrigada por resolver mais esta questão em minha vida. Amo-te Pai! Em nome de Jesus, amém! Apagou a luz, seguiu para o quarto dos filhos, ajeitou os lençóis, beijou cada um e foi para o seu. Trocou de roupa, deitou-se. Lucas já estava dormindo e, também, procurou dormir. Durante a semana que se passou não falaram no assunto, seguindo a rotina normalmente até à chegada do próximo domingo. À noite, chegaram na igreja cedo, como de costume, porém Pr. Lucas foi diretamente para o gabinete, não falando com ninguém. Quase no início da reunião, ele abriu a porta e pediu a um jovem, que estava próximo, que chamasse o irmão Antônio Alves até o gabinete. Ele chegou, entrou e sentou, e o pastor disse: - Eu sei que está um pouco em cima da hora, mas eu gostaria que o irmão dirigisse a reunião hoje; eu gostaria de fazer somente a mensagem. É possível? Ele respondeu com firmeza - Claro pastor! O bom soldado de Cristo deve estar sempre preparado para o momento em que for necessário. Ambos sorriram rapidamente e o Pr. Lucas completou: - Então, aqui está a programação da noite, já está pronta. Vamos logo, está na hora. Entregou-lhe o papel e ambos saíram da sala A reunião teve início e o irmão Antônio Alves seguia toda a programação à risca, enquanto o Pr. Lucas permanecia sentado. Alguns estranharam que estivesse tão quieto. Ele, que era tão alegre e ativo durante as

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reuniões, permanecia sentado mesmo quando todos se levantavam para cantar. Na hora programada o irmão Antônio Alves passou-lhe a palavra. Levantou-se calmamente, dirigiu-se até o púlpito, colocou a Bíblia ao lado, respirou fundo enquanto olhava para todos e começou: - Sei que alguns estão se perguntando porque eu estou tão quieto e cabisbaixo. Talvez alguém pense que estou doente, mas não é isto; não estou doente, não fisicamente; no entanto, há uma ferida que foi aberta recentemente e que dói muito, porém Deus é fiel, Ele é quem sara todas as nossas feridas e tem me restaurado. Todavia esta ferida levou-me a fazer uma introspecção, a fazer uma análise de todo o meu íntimo, fazer um julgamento do meu interior e mudar aquilo que não está de acordo com a vontade de Deus. A Palavra de Deus diz em 1º Coríntios 11:31 que “se nós julgarmos a nós mesmos, não seremos julgados” e isso fiz; julguei e retirei o que não estava de acordo com a vontade de Deus. Mas, meus irmãos, o diabo é muito astuto, usa as coisas que não são e as faz parecer que são, para usar aqueles que são mais fracos na fé para tentar destruir os irmãos e principalmente os líderes, porque abalando a base é mais fácil para que o edifício caia. Contudo, nós estamos edificados na rocha eterna que é Jesus e não seremos abalados. Amém, irmãos? Todos confirmaram o amém, mas percebia-se uma certa expectativa na igreja. E ele continuou: - Mas a ferida foi aberta e dói. Dói porque foi feita por aqueles que amamos, aqueles em quem confiamos, os que estão mais ligados, mais próximos. Assim como Jesus, que na noite em que foi preso foi traído por Pedro, que fazia parte do grupo de amigos 62

íntimos juntamente com Tiago e João. Pedro, que disse que estava pronto para morrer se fosse preciso; que arrancou a orelha de Malco de um só golpe; Pedro, que andou sobre as águas com Jesus. Este mesmo Pedro traiu Jesus, negando-o por três vezes, quando ele mais precisava de um amigo ao seu lado. Sem contar o próprio Judas, que o entregou aos sacerdotes por trintas moedas de prata. Da mesma forma, hoje em dia, irmãos têm traído com a língua. A fofoca é a arma que Satanás mais tem usado para destruir a igreja, usando os irmãos uns contra os outros. Isso é inadmissível! Como podemos usar de algo tão maléfico contra aqueles que vão estar conosco eternamente no céu? Se é que, estes que são usados pelo diabo vão para o céu! Graças a Deus que nós temos aprendido que o amor tudo suporta e assim nós oramos e entregamos nas mãos do Senhor para que ele tome conta. Mas têm um porém. Uma vez que a fofoca foi feita, nunca mais será esquecida; não se pode apagar da memória o que foi dito. É como pegar um travesseiro de penas e abri-lo no alto de uma montanha, fazendo com que as penas sejam levadas pelo vento; ainda que se arrependa, nunca mais poderemos recolher todas as penas de volta. Uma vez feita a fofoca, ela fica para sempre. E aquele que foi acusado, injustamente, tem que passar a vida tentando se justificar para provar que é inocente. Isto é muito sério! Isto tem que acabar dentro da igreja! Não podemos permitir que vidas sejam destruídas por causa da falsidade de alguns que, fingindo ser cordeiros, na verdade são lobos vorazes que querem nos destruir! Mas Deus é quem sonda os nossos corações, Ele é quem nos conhece, como está escrito no livro de Jó, cap. 31, dos versículos 4 ao 6. Vamos abrir nossas Bíblias.

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“Não vê Ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos? Se eu tenho andado com falsidade, e se o meu pé se tem apressado após o engano, pese-me Deus em balanças fiéis, e conheça a minha integridade”. Ele, amados, conta todos os nossos passos, conhece nossos caminhos, Ele, e só Ele é que pode nos julgar, porque conhece tudo sobre nossas vidas, e nos retribui segundo as nossas medidas, como está escrito em Jeremias 17:10: “Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações”. Por isso, não julgue a seu irmão, não julgue o Pastor, não julgue nem aqueles que não são crentes, pois só Deus pode fazer isto. Quer alguém para julgar? Julgue a você mesmo, e desta forma vai se corrigir antes que o Senhor corrija-o. Amados, nós precisamos nos amar, e muito, pois só desta forma poderemos ajudar a todos aqueles que vierem até aqui precisando de um auxílio, de uma segurança na vida, de um Deus que resolva todos os seus problemas. Como poderemos ajudar aos outros se não conseguimos resolver nossos próprios problemas!? Eles nunca acreditarão em Deus se não for através de nossas vidas transformadas e restauradas pelo Senhor! Temos que ser santos! Temos que andar em novidade de vida! Temos que mostrar ao mundo que Deus é verdadeiro! E para isto, temos que aprender a perdoar uns aos outros, pois é perdoando que seremos perdoados por Deus. Será que há em nós algo que precisa ser perdoado? Será que precisamos pedir perdão a alguém? Será que há alguma mágoa escondida dentro de nós? Como saberemos? Só Deus, através do Seu Santo Espírito, pode nos dizer o que precisamos perdoar ou a quem precisamos perdoar. Quero que vocês baixem suas cabeças, fechem os olhos; 64

o grupo musical vai tocar uma música bem suave, enquanto eu vou ler um trecho da Bíblia. Escutem repetindo estas palavras no seu íntimo, tomando-as para si, para que possam escutar a voz de Deus no seu interior. Baixem as cabeças e fechem os olhos. “Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar, e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra não me chegou à língua, e tu, Senhor, já a conhece toda. Tu me cercas por trás e por diante, e sobre mim pões a tua mão. Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; é sobremodo elevado, não o posso atingir. Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás. Se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também, Se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares; ainda lá me haverá de guiar a tua mão e a tua destra me susterá. Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa. Pois Tu formaste o meu interior, Tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda. Que preciosos para mim, Senhor, são os teus pensamentos! E como é grande

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a soma deles! Se os contasse, excederiam os grãos de areia: contaria, contaria sem jamais chegar ao fim”. Terminado de ler o texto, Pr. Lucas deu uma pausa de alguns minutos e continuou: - Neste momento em que você abre o seu coração, o Espírito Santo lhe sonda e traz à tona coisas que você havia esquecido, problemas mal resolvidos que Deus quer deixar bem resolvidos definitivamente. Ele lhe sonda e traz à sua mente aquele perdão que você não quis dar, agora você vai liberar este perdão porque o Senhor está revelando que você tem que fazer isto, e só assim você será perdoado por Deus. Continue com a sua cabeça baixa e os olhos fechados, que nós vamos falar com o Pai. Repita comigo: Pai, Tu me sondas e me conheces, por isso nesta hora eu quero liberar o perdão para esta pessoa a quem eu tenho negado a tua bênção, eu libero o perdão agora e te agradeço porque Tu, também, tem me perdoado. Obrigado pelo teu amor. Em nome de Jesus. Amém! Agora vamos colocar em prática aquilo que acabamos de orar. Eu quero que, aqueles que sentirem o desejo de, nesta hora, aproveitando o momento em que o amor de Deus é mais forte em nós, perdoar alguém, que o faça agora. Que você se levante, dirija-se até à pessoa que você magoou e lhe peça perdão. Um de cada vez. Quem é o primeiro a mostrar que está apto a perdoar o outro? Quem é o primeiro a mostrar a mudança que Deus fez em sua vida? Então, um homem levantou-se no meio da igreja e disse: - O Senhor Jesus modificou o meu coração e me mostrou que eu devo pedir perdão ao irmão Antônio Alves, pois ele me repreendeu numa falta que eu tive e eu achava que ele queria ser mais santo que os outros. Somente hoje, percebo que ele estava coberto de razão. 66

Irmão Antonio, sempre quis lhe pedir perdão, mas nunca tive coragem, porém agora, Deus me encorajou e eu posso lhe dizer: me perdoe por ter falado mal do senhor. - Vá até ele! - disse o Pr. Lucas - Mostre o quanto você o ama dando-lhe um abraço bem apertado. Mais alguém quer manifestar o seu perdão publicamente? - Eu quero! - exclamou uma irmã sentada no banco da frente. - Quero pedir perdão a irmã Elza, pois um dia eu cheguei, encontrei a igreja suja e comentei com várias irmãs que ela não estava fazendo um bom trabalho na zeladoria da igreja e merecia ser chamada atenção. No domingo seguinte, eu descobri que ela não havia limpado a igreja naquele dia porque tinha ido visitar uma irmã que estava doente e aproveitou para fazer uma limpeza na casa desta irmã, pois ela morava sozinha e estava sem condições de limpar a própria casa. Irmã Elza, perdoe-me em nome de Jesus. - Isto irmã, assim que devemos fazer, retirar todo laço de nossas vidas para que possamos receber as bênçãos de Deus. Mais alguém quer falar? Então, alguns jovens que estavam juntos se levantaram e um deles falou: - Nós queremos pedir perdão ao senhor, pastor, porque na semana passada nós fizemos alguns comentários à irmã Rute que não foram muito agradáveis; não deve ser comentado aqui para que não se espalhe como as penas da montanha de que o senhor falou. Mas o fato é que nós falamos mal do senhor; queremos que o senhor perdoe-nos por isso, pois estamos arrependidos do que falamos e queremos esquecer o assunto. - Meus filhos - disse o Pr. Lucas - eu os amo demais e não há nada que vocês façam que vá diminuir 67

este amor. É claro que eu perdôo vocês. Não sei nem o que vocês disseram, mas isto não importa mais. O que importa é que vocês estão liberados para receber as bênçãos de Deus, porque vocês liberaram o perdão que estava retido nos seus corações. Venham cá me dar um abraço. O Senhor nos fez um corpo, e, como um corpo, unido e bem ajustado, nós devemos viver. Várias outras pessoas também se levantaram para pedir perdão, prolongando, assim, um pouco mais a reunião. No carro, enquanto voltava para casa, ele assobiava uma canção, enquanto Rute, séria, olhava para frente. - Você está muito feliz, como quem conseguiu uma grande vitória! - falou Rute, virando-se para ele. - E você está muito ranzinza, como quem precisa liberar perdão. - Liberar perdão para quem? - perguntou Rute surpresa. - Liberar perdão para mim. Você tem me tratado com muita frieza ultimamente e muito desconfiada também; e reclama demais! - O que!? - disse ela com a voz alterada. - Você mal fala comigo e diz que eu é que lhe trato com frieza!? Você desaparece sem dizer onde está e eu é que sou desconfiada!? Você não acha que está distorcendo um pouco as coisas? - Desse jeito não dá nem para conversar com você. Já está gritando; vai acabar assustando as crianças. É melhor eu ficar calado porque com você não tem diálogo que resista. - disse Lucas com um pouco de cinismo e ambos se calaram.

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IX

Uma semana depois, numa quarta-feira, quando voltou do almoço, o irmão Antônio Alves já o aguardava. - Boa-tarde, irmão Antônio, que bom vê-lo aqui, em que eu posso ajudá-lo? - perguntou o Pr. Lucas enquanto entravam no gabinete pastoral. - Bem, eu vim aqui para nós termos uma conversa de homem para homem. - respondeu o irmão Antônio com um tom de muita seriedade. Pr. Lucas encostou-se na cadeira como quem toma uma posição defensiva e disse: - Então fale, para que possamos colocar o assunto, seja ele qual for, em pratos limpos. - O senhor sabe que eu tenho um carinho muito grande pela sua pessoa, assim como também pela sua família e peço a Deus todos os dias pela sua saúde; bem como pela sua felicidade e a felicidade de todos os seus entes queridos. Fui um daqueles que solicitou ao seminário o seu nome para pastorear esta congregação; levei a igreja a aceitá-lo como pastor; passei-lhe toda a história da mesma desde a sua fundação até o dia em que tomou posse. Sempre lhe apoiei, mesmo quando alguns não o queriam mais como pastor porque achavam que devia mudar sua posição doutrinária; nós lutamos juntos e conseguimos mostrar a eles que queríamos apenas viver a verdade de Deus nesta igreja. Bem, nestes dez anos, 69

juntos, sinto-me com a liberdade de chegar até o senhor para questionar e até mesmo para exortar em algum assunto que se torne necessário. Tenho o senhor como um dos meus filhos e, me colocando na condição de pai, não posso ver um filho indo por um caminho errado sem adverti-lo para que mude de direção. Somente espero que o senhor, como homem sensato que é, entenda a minha posição e o porquê de estar fazendo isso. - É claro que eu estou disposto a lhe ouvir; também tenho o senhor como um pai para mim, sei que quer me ajudar. Agora, se não disser qual o problema como vou saber? - Pois bem, depois daquele domingo, quando aqueles jovens levantaram para lhe pedir perdão por algo que eles haviam dito, eu sabia o que eles haviam comentado. Até a minha filha caçula, a Cris, estava entre eles e foi ela que me contou que, várias vezes, viu o senhor na faculdade para dar carona para aquela menina, a Karla. Quando eu disse que a conversa era de homem para homem, é porque o assunto é sério. Não que eu esteja dizendo que o senhor tem adulterado com aquela menina; não quero julgar ninguém, quem julga é Deus, mas é que as atitudes falam por si só e as suas atitudes para com ela têm sido um tanto quanto adiantadas demais. O senhor tem protegido muito aquela menina e os jovens, que não medem as conseqüências do que falam, ficaram enciumados e começaram a falar demais. E eu me pergunto: até onde, o que eles falaram, é verdade? Pergunto isso porque, apesar de ser um velho, sou homem como o senhor e tenho carne como o senhor também tem e sei que o diabo tenta a todos. O rei Davi era “o homem segundo o coração de Deus” e nem por isso ele escapou da tentação quando viu Bate-Seba 70

tomando banho na casa dela. Por isso pastor, vigie! A Bíblia diz que: “Aquele que está em pé cuide para que não caia”. Aquilo que aconteceu no domingo à noite foi bom, foi muito bonito, mas o que vale é o dia a dia, a cada instante. A cada tentativa do diabo de destruir-nos, temos de estar preparados para vencer, pois a nossa vida depende disso e, mais ainda para as pessoas que estão nesta igreja, o senhor é o exemplo. A afirmação da fé de cada uma delas depende do seu comportamento; estas vidas estão sobre a sua responsabilidade. - Irmão Antônio, falando desse jeito até parece que o senhor acredita que eu tenha me envolvido com a Karla. O senhor acha que eu seria capaz de trair a Rute, a quem eu tanto amo, com quem estou casado a quase quinze anos por causa de uma menina que tem quase a idade de ser minha filha? É claro que não! E alguma vez, nestes dez anos, aqui, eu já lhe dei motivo para desconfiar de mim? O senhor realmente acha que eu seria capaz de fazer uma coisa desta natureza? - Pastor, esta questão de idade não importa mais nos dias de hoje; existem muitos casamentos em que há uma diferença de mais de vinte anos de um para o outro. E eu não estou achando nada, eu falo do que sei e, como já lhe disse, o senhor tem carne como todo homem tem, e a carne é fraca. Não estou dizendo que o senhor está envolvido com a Karla. Se continuar desse jeito, vai acabar caindo na armadilha do inimigo e é difícil sair dela. Como eu disse logo no começo, não posso deixar de advertir-lhe do perigo que está correndo. Eu quero o bem para o senhor e quero o bem para esta igreja. Saiba que pode contar comigo no que for necessário para que este problema seja logo solucionado. Porém, saiba que, se vier algum escândalo por causa deste assunto, vou ser o 71

primeiro a propôr a sua eliminação para que o pecado não contamine toda a igreja, porque está escrito: “que aquele que traz o escândalo para dentro da igreja é melhor que lhe amarrem uma pedra no pescoço e atirem no fundo do mar”. - Calma, irmão Antônio! Desse jeito o senhor já está me julgando e condenando. Eu estou lhe garantindo que estou limpo diante de Deus e saiba que eu tenho vigiado, e muito, para ser o pastor que esta igreja merece. - Bem pastor, para finalizar, quero lhe dizer que alguns dos líderes vieram conversar comigo, pedindo que eu esclarecesse esta história com o senhor para que a situação não se complique mais ainda. Por isso, que estou aqui; alguns deles até falaram em fazer uma reunião para discutir sobre o assunto, mas eu disse que não era necessário, pois não havia nada para ser discutido e que eles estavam fazendo uma tempestade em copo de água. Porém, agora, que eu tenho a sua confirmação de que nada está acontecendo, é isso que eu vou dizer para aqueles que estão com alguma desconfiança. Vamos colocar uma pedra em cima disso tudo e caminhar para frente. Já disse o que tinha para dizer; chegou a hora de ir embora; até à noite. - Até à noite irmão, e não se preocupe com nada, a situação está totalmente sob controle.

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X

Manhã de sábado, e Rute se preparava para ir à feira. Os filhos haviam ido passar o dia na casa de um amigo da escola e Pr. Lucas estava no seu escritório, lendo. Ela aproximou-se da porta do escritório e disse: - Lucas, já estou indo à feira e vou demorar um pouco; se for sair, deixe recado. Ele, olhando por cima das lentes dos óculos de leitura, meneou a cabeça afirmando que havia escutado o aviso. A feira ficava perto de sua casa, por isso Rute poderia ir andando; ela até achava bom fazer aquela caminhada. De quinze em quinze dias, ia à feira para fazer as compras de verduras e frutas; chegava lá, chamava um carregador, que a acompanhava por toda a feira, e levava as suas compras até em casa. Neste dia, porém, assim que parou na primeira barraca, descobriu que havia deixado o dinheiro das compras em casa. Dispensou o carregador e voltou imediatamente. Enquanto abria a porta, indagava consigo mesma: - Onde será que eu deixei o dinheiro? Ah, Já sei! Deixei em cima da cama enquanto trocava de roupa. Dirigiu-se para o quarto, passou pela porta do escritório e viu que Lucas discava um número telefônico. Subitamente parou, encostou-se na parede e aguardava

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ouvir para quem seria esta ligação. Alguns segundos de espera e ele começou a falar. - Oi, sou eu! O que você está fazendo agora? - Se você quiser, eu estou livre. - Na igreja. - Não, não, a irmã Elza está viajando. - Ela foi para feira, vai passar a manhã toda por lá. - Daqui a meia hora está bom para você? - Ok, não se atrase. Assim que ele desligou o telefone, Rute voltou rapidamente para a porta de entrada da casa e a abriu. Depois fechou com força, avisando que havia chegado. Suas pernas tremiam e sentiu como se estivesse lhe faltando o chão. Lucas do escritório gritou: - Rute, é você? Ela, aproximando-se dele, respondeu com a voz trêmula: - Sim, sou eu. Voltei para pegar o dinheiro que esqueci em cima da cama. - Vou ter que sair. - disse ele enquanto se dirigia ao quarto para tomar banho. - E vai para onde? - perguntou ela como se não soubesse de nada. - Vou fazer uma visita a um irmão que está com um problema; ele acabou de ligar me pedindo para ir à sua casa com urgência. Enquanto tomava banho, ela foi ao escritório. Suas pernas ainda estavam trêmulas; sentia como se o seu peito houvesse diminuído e faltasse espaço dentro dele para que o pulmão pudesse se expandir livremente; sentia o seu coração, apertado, bater a uma velocidade incrível, a ponto de querer saltar pela boca. Contudo, ela precisava 74

ter a certeza; não podia jogar tudo em cima dele. Ele iria arranjar uma desculpa e ficaria o dito pelo não dito. Mas ela sabia o que fazer. Parou em frente ao telefone, tirou-o do gancho, respirou fundo e apertou a tecla REDIAL. Após o número ser re-discado, atendeu uma mulher, sua voz parecia ser conhecida, todavia Rute não pôde identificá-la. - Alô. - Alô! Lucas é você? Pronto, era a certeza que ela queria. Desligou o telefone e saiu do escritório. Suas pernas ainda estavam trêmulas; o peito ainda apertado e agora se esforçava ao máximo para impedir que as lágrimas descessem pelo rosto. Encostou-se à porta do quarto onde Lucas já estava se arrumando e, sem que ele visse o seu rosto, disse: - Já estou indo. Se você chegar para almoçar e eu não tiver chegado ainda, tem almoço pronto na geladeira. É só colocar no microondas. Não precisa me esperar. Ela saiu, foi em direção à feira, porém parou assim que virou a esquina e aguardou o momento em que Lucas saísse. Assim que ele saiu, ela voltou em direção à casa e foi para a outra esquina onde passava uma avenida. Chegando lá, tomou um táxi e pediu para que o motorista, sem pressa, fosse em direção à Igreja Evangélica Redenção. Solicitou que parasse logo no início da praça, ao lado da igreja. Desceu do táxi e foi caminhando, lentamente, em direção ao templo. Agora uma repentina hesitação povoava-lhe a mente. Talvez devesse voltar, esperar que o próprio Lucas contasse a ela quando tivesse coragem ou talvez aquilo fosse tudo um grande mal-entendido e que ela deveria se acalmar e esperar para perguntar mais tarde, ou então simplesmente 75

esquecer. Mas só haveria uma maneira de saber; a única forma de esclarecer aquele assunto, de uma vez por todas, era enfrentando a situação. Rute deveria ir lá; se fosse mentira, descobriria. Ela caminhou lentamente até à entrada da igreja. E lá chegando, encontrou a porta principal entreaberta; entrou e caminhou silenciosamente até o gabinete pastoral que ficava à direita da entrada. Parou em frente à porta do gabinete e, antes que qualquer tipo de hesitação a fizesse desistir, abriu a porta de uma maneira rápida e segura. Os seus olhos se arregalaram com a cena que presenciava. Não podia ser verdade. Fechou os olhos, abriu novamente, e lá estava a mesma cena, no mesmo local. Meu Deus, como era difícil de imaginar seu marido nos braços de outra mulher, ou melhor, seu marido com outra mulher em seus braços; agarrando-a, beijando-a. Ali dentro da própria igreja onde é pastor, onde ensina aos outros sobre a verdade e o amor. Ela parou por um instante; ficou estática diante da cena; as suas pernas tremiam bastante; seu coração batia a uma velocidade impressionante e um ardor lhe subia pelo peito, a ponto de quase a sufocar, porém não podia se mover, não conseguia sair da posição em que se encontrava. Ficou assim por um instante e, após ter recuperado o fôlego, voltou lentamente fechando a porta e saiu. Saiu sem destino, sem direção, sem saber qual rumo tomaria. Apenas queria caminhar, andar bastante para ver se distanciava o máximo possível da sua mente aquela cena que havia deixado para trás. Lucas e Karla estavam sentados no sofá do gabinete, aos beijos, quando viram Rute abrir a porta. Afastaram-se e aguardavam a reação de Rute. Ela fechou novamente a porta e saiu. Lucas levantou-se rapidamente, andava de um lado ao outro, pensando o que fazer. 76

- Vou atrás dela - disse ele. - Se for é pior. - disse Karla - Agora ela está com raiva e, se você for, ela vai jogar toda raiva que tem em cima de você. - Mas eu preciso explicar! - Explicar o quê? Que o que ela viu não é o que está pensando? Acho que não vai acreditar! - comentou Karla. - E o que eu faço agora? - disse Lucas, desesperado. - Ora, você não disse que queria se separar dela? Não vejo melhor situação do que esta! - Precisamos sair daqui antes que chegue outra pessoa.- observou Lucas. E saíram para outro lugar. Enquanto Rute caminhava, as lágrimas corriam pelo rosto, sem poder conter; era uma dor muito grande que lhe invadia o coração. A cada momento que as imagens do gabinete vinham-lhe à mente, ela se perguntava: Mas meu Deus, onde foi que eu errei? O que fiz para que meu marido me trocasse por outra? Será que estou velha demais para ser mulher, estou gorda demais, será que não sirvo mais para despertar prazer em um homem? Toda uma vida dedicada a um marido e agora o que ele faz: troca-me por uma menina que tem metade da minha idade. Como eu fui deixar isso acontecer? Não! Não posso pensar desta maneira. Como posso procurar defeitos em mim quando foi ele quem me traiu? Se estava descontente, devia ter me procurado; devíamos ter conversado. Até que tentei, mas ele não quis: chegou aonde chegou, agora o mal já está feito; acho que jamais poderei perdoá-lo. Por que você fez isso, Lucas, por quê? Ela parou em um ponto de ônibus qualquer, sentou-se porque as suas pernas já doíam de tanto andar 77

e, ali sentada, solitária e decepcionada, passava por sua mente tantos momentos que haviam passados juntos, nascimento dos filhos, casamento... Quando se conheceram, foram momentos incríveis. Como ele poderia ter esquecido de toda aquela vida que haviam passado juntos? Será que mais de quinze anos de convivência não tinham mais nenhum significado para ele? Será que mentiu durante todo esse tempo? Será que nunca conheceu Lucas, realmente? E ali, sentada naquele ponto de ônibus, se deixou ficar sem saber o que fazer da vida, sem saber qual o rumo a tomar, já sem lágrimas para poder chorar, sem esperança, sentindo um enorme vazio. Subitamente, uma voz suave como uma brisa matinal sai de dentro do seu coração e lhe diz: - “Lance sobre Ele a sua ansiedade que Ele tem cuidado de vós!” Ela, sozinha, sentada onde estava, sabia de quem era esta voz que saía do seu interior; já havia escutado antes e era uma voz inconfundível; uma voz de pai e que só é reconhecida por aqueles que são seus filhos, que preenche o vazio do interior de qualquer pessoa. Fechou os olhos e orou dizendo: - Oh! Meu Pai, o que eu fiz para merecer isso? Entretanto, sei que Tu és fiel, ainda que sejamos infiéis. Por isso, quero colocar toda a minha tristeza e dor no teu altar para que Tu, com a tua sabedoria que é infinita, resolva toda esta situação. Agora eu me lembro, que te pedi para que a verdade fosse revelada. E foi isso que Tu fizeste. Mas se eu soubesse que iria doer tanto, talvez não tivesse feito este pedido. Sei que tudo que Tu fazes é sempre o melhor para mim, pois “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus,” e eu te amo muito. O que te peço é que cuide dos meus filhos 78

para que eles não sofram muito com as atitudes erradas do pai e que esta situação seja resolvida da forma mais pacífica possível. Acho que agora, mais do que em qualquer outro momento da minha vida, preciso de Ti, Espírito Santo, consolando-me e me mostrando que o Teu Poder está acima de qualquer problema que venhamos a ter nesta vida. Muito obrigada, Pai, pelo teu Espírito; muito obrigada pelo teu amor. Obrigada por poder lançar todos os meus problemas diante de Ti para que resolvas. Após ter orado, levantou a cabeça, enxugou as lágrimas e pegou um ônibus de volta para casa. Lucas chegou tarde da noite, quando todos já estavam deitados. Entrou silenciosamente e foi ao banheiro tomar banho; vestiu seu pijama, deitou-se lentamente na cama. Rapidamente, Rute sentou-se e disse com autoridade: - Nesta cama você não dorme! Ele, sem dizer uma palavra, pegou no guardaroupa um lençol, puxou o seu travesseiro da cama e foi dormir no sofá. Rute deitou-se, virou para o lado e chorou. Pela manhã, assim que os filhos acordaram, como de costume, foram para o quarto dos pais. Lívia, a mais velha, logo perguntou: - Onde está o papai? - Teve que sair cedo - respondeu Rute, ainda, sonolenta. - Mãe, seu rosto está diferente! Porque os seus olhos estão inchados? - perguntou a filha ao perceber a diferença no rosto da mãe. Rute, para desconversar, disse: - Porque eu dormi muito. Lívia, curiosa, novamente pergunta: 79

- O papai vem nos buscar ou vamos à igreja de táxi? - Nem um, nem outro. Vamos tirar o dia para ficarmos juntos em casa. Somente vamos para igreja à noite. - respondeu Rute, já se levantando. - Oba! Exclamou Lucas Júnior enquanto se enrolava com o lençol. Foi um dia muito difícil para Rute junto com os filhos. Apesar de ter ficado, por vários momentos, isolada em um canto da casa, lembrando-se do acontecimento do dia anterior, tentava manter uma tranqüilidade. Os filhos perguntavam porque ela estava assim ou se estava doente, mas disfarçava e voltava a brincar com eles. Brincaram, assistiram filmes, conversaram. Porém, Rute não quis falar sobre Lucas. Queria esperar um pouco mais para ver qual seria a atitude que ele iria tomar. Ao entardecer, enquanto os filhos tomavam banho, ele chegou, e, sem dizer uma palavra, dirigiu-se para o quarto para tomar banho e se arrumar para dirigirem-se à igreja. Já dentro do carro, o silêncio só era cortado pelos filhos que cantavam alegremente. Na igreja, Rute, ao contrário do costume, sentou-se nas ultimas cadeiras de onde assistia todo o desenrolar da reunião. - Meu Deus. - pensou ela. - Como podem mentir tanto!? Como podem ser tão hipócritas enganando tanta gente!? Olha lá, com a “cara lisa” cantam dizendo “Deus está em nosso meio, por isso vivemos a verdade, Deus está em nosso meio por isso nos amamos”. Não consigo suportar isto. É demais para mim. Saiu do salão principal e foi para o berçário. Próximo do término da reunião, voltou para o salão principal onde o Pr. Lucas

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finalizava a mensagem. Quando ela entrou, foi no momento em que ele dizia: -“... e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”... Ela caminhou pela lateral dos bancos e ficou atrás dos instrumentos musicais, de onde poderia fitá-lo nos olhos. Ele, percebendo que Rute o olhava fixamente, tirou o microfone do pedestal e foi mais à frente onde olhava diretamente para as pessoas, deixando-a de lado sem querer olhar em seus olhos. Rute sentiu um ímpeto de tomar-lhe o microfone e revelar toda a verdade. Mas isso seria muito trágico. Seria um escândalo muito grande para aquelas pessoas que não mereciam isto. De volta para casa, mais uma vez o silêncio dominava o ambiente. Desta vez era mais profundo, pois as crianças, cansadas, estavam quietas, sonolentas e ao chegarem em casa dormiram logo. Rute, após ajeitar os filhos nas camas, foi à cozinha onde Lucas fazia uma pequena refeição. Entrou, sentou à mesa e olhava diretamente para ele enquanto uma lágrima solitária descia pela sua face. Lucas, percebendo a lágrima em seu rosto, baixou a cabeça e continuava a comer. - Por que Lucas? Perguntou Rute com a voz hesitante. Ele continuou em silêncio. Não conseguia se lembrar de nenhuma resposta para a pergunta que ela lhe havia feito e preferiu continuar comendo. Rute, agora sentada, enxuga o rosto e com uma voz mais firme pergunta: - Você já decidiu o que vai fazer? Como vai resolver isso?

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Lucas levantou a cabeça, olhando diretamente para Rute, mastigou calmamente a comida que estava em sua boca e disse friamente: - Não vou fazer nada. Rute respirou fundo e, como quem se prepara para uma batalha, disse: - Não posso deixar as coisas do jeito que estão, ou você resolve esta situação logo ou eu conto para todo mundo. Não posso deixar que você engane meus filhos; não posso deixar que você engane a todos na igreja; não consigo conviver com tanta mentira; não sou tão tolerante assim. Então, ou você resolve esta situação ou todos saberão que você é um mentiroso e adúltero. - Você não pode fazer isto - disse Lucas, aumentando o tom de voz. - Olhe em sua volta esta casa, esta comida, estas roupas, tudo vem da igreja, do salário que eu recebo. Como você vai viver sem isso? Como vai alimentar seus filhos sem dinheiro? Se você fizer isso vai passar fome. Rute, levantou-se da cadeira, apoiou as mãos na mesa e falou com determinação: - Pois você fique sabendo que, muito antes de conhecer-te, conheci um Deus que sempre cuidou de mim. Não vai ser agora que Ele vai me abandonar. E tem mais: eu não preciso do seu salário para sobreviver. DEUS é quem supre todas as minhas necessidades e cuidará dos meus filhos, pois é um Deus de amor e jamais deixará um filho seu passar necessidade. Agora, não posso viver é com essa mentira, essa hipocrisia, essa falsidade, essa enganação que vocês dois estão fazendo com toda essa gente. Eu não sei o que levou você a fazer isto; não sei o que levou você a mentir desse jeito e nem quero mais saber, mas o que sei é que não conheço mais 82

o homem a quem amei e com quem dormi na mesma cama durante quase quinze anos da minha vida. Você me enganou, feriu-me, ficando aí a olhar para mim com essa cara cínica, como se nada tivesse acontecido, e, ainda, quer que eu fique quieta e aceite tudo. Pois saiba que isso não vou fazer. Neste momento, já não era uma lágrima que descia pelo seu rosto e sim um choro forte e descontrolado, fazendo com que a sua voz se embargasse a cada palavra de desabafo e revolta que saía da sua boca. Ela sentou-se, respirou um pouco para se controlar, enxugou o rosto e disse: - Se você não vai tomar uma decisão, então eu vou; você tem uma semana para arrumar um lugar e sair desta casa, não posso conviver com você nesta situação. Também lhe dou uma semana para se afastar das atividades da igreja, até que tudo esteja resolvido. - Rute, você não pode me botar para fora da minha própria casa. - disse ele aumentando novamente o tom da voz. - Eu comprei esta casa com o meu dinheiro e não vou sair dela para lugar nenhum. Se não consegue conviver comigo, saia você. Rute olhou para ele com um ar calmo e seguro e disse: - Você escolhe: ou sai até o próximo domingo ou então vou para justiça. Neste país, adultério ainda é crime, ou você se conserta ou vai pagar por ele. Lucas olhou para Rute com um ar cínico e disse: - Você não tem provas, como poderá me processar!? Eu é que posso lhe processar por me expulsar da minha casa. Rute levantou-se, dirigiu-se até ele e disse: 83

- Você ainda me conhece, não conhece? Espero que se lembre que demoro a tomar uma decisão, mas, quando tomo, não volto atrás, vou até o fim. Conseguir provas é o de menos, isso eu consigo facilmente, pois quem não deve não teme. E ainda que a justiça dos homens seja falha, confio mais é na justiça de Deus e Ele providenciará os meios. Esta conversa já demorou tempo demais, vou para cama. Retirou-se e foi para o quarto; jogou o lençol e o travesseiro dele no chão do corredor e trancou a porta, deitou-se e chorou mais uma vez. Não conseguia dormir; levantou-se da cama, foi para o chão, prostrou-se colocando o rosto no chão e orou dizendo: - Ah meu Pai! A dor é muito grande, não sei se conseguirei suportar. Nunca pensei que chegaria a este ponto, de colocar o Lucas para fora de casa, porém, tinha que tomar esta decisão. Era necessário para ver, se assim, ele se arrepende, deixa o pecado e volta a ser um servo fiel. Uma vez eu te pedi um marido que fosse um filho teu e Tu não És um Deus que se esquece das coisas e, nem, um Deus que nos maltrata. Tu És bom e eu confio na tua bondade, confio no teu amor e confio na tua palavra que diz que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. O que Te peço é que me dê força e paciência para suportar toda essa tribulação que tenho passado e que, pelo Teu Espírito, ensine-me a tomar as decisões certas. Enquanto ela orava, mais uma vez a mesma voz do Espírito Santo veio do seu coração como uma brisa matinal que acalma e sossega o coração aflito e disse: - “Aquele que semeia com lágrimas com júbilo ceifará”.

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Rute parou de falar e ficou ali quieta, sentindo o Espírito de Deus envolver todo o seu ser, consolando-lhe, dando-lhe uma paz que ela jamais poderia imaginar, ainda mais num momento de tantas tribulações. Ali, ela ficou por um longo período; dormiu e, quando acordou, já estava na cama, não sabia como.

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XI

A semana passou rapidamente. Lucas saía logo cedo e somente voltava à noite. No sábado, acordou um pouco mais tarde, porém antes que os filhos acordassem, foi para o quarto, olhou para Rute que ainda estava deitada e disse: - Já arrumei um pequeno apartamento para morar. Onde está minha mala para viagem? - Está em cima do guarda-roupa. - disse ela ainda enrolada nos lençóis. Ele jogou as roupas dentro da mala, fechou-a e levantou-se para sair. Rute sentou-se na cama e olhava para Lucas, que partia. De uma forma suave, como sempre o havia tratado, pergunta-lhe novamente: - Lucas, por quê? Ele parou, virou-se e, olhando para ela, como quem quisesse dar uma resposta, mas nenhuma palavra saiu da sua boca, não sabia o que dizer. Chegou até à porta, parou e ficou olhando para Rute como quem quisesse voltar atrás e pedir perdão. Pensou em Karla, pensou nos filhos, pensou novamente em Karla, pensou na igreja. Outra vez Karla veio-lhe à mente. Pensou em desistir de sair, contudo, baixou a cabeça, virou-se e saiu. Ao sair do quarto, encontrou-se com Lívia que vinha em sua direção.

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- Vai viajar, papai? - perguntou ela enquanto se espreguiçava. Ele, fingindo que não ouvia, seguiu em frente e foi embora. Lívia entrou no quarto perguntando: - Aonde o papai vai? Ele saiu e nem se despediu de mim. Rute, encostando-se na cabeceira da cama pergunta: - O seu irmão já acordou? - Eu acho que sim, pois eu escutei barulho no quarto dele. - respondeu Lívia enquanto deitava na cama. - Então vá chamá-lo porque nós temos um assunto de família muito sério para conversar. Lívia levantou-se e foi chamar o irmão. Vieram ambos e sentaram na cama. Então Rute iniciou dizendo: - Bem, vocês já estão bem crescidos. Lívia já tem doze anos e Lucas Júnior tem nove. - Faço dez anos daqui a dois meses interrompeu Lucas Júnior. - É, eu sei meu filho. Mas como eu ia dizendo, vocês já estão crescidos e podem entender as coisas que vou falar. Eu e seu pai estamos passando por um momento muito difícil em nossas vidas, não posso mais esconder a verdade de vocês. A um bom tempo que eu e seu pai não estamos nos entendendo bem; estamos sempre brigando e, então, resolvemos que seria melhor para nós que ele passasse um tempo fora de casa, para nos acalmarmos um pouco e resolvermos a situação. - E quando é que ele volta? - perguntou Lucas Júnior com ar de tristeza. - Eu não sei quanto tempo vai durar meu filho disse Rute enquanto acariciava o rosto do filho. 88

- Mas ele vem me ver, não vem? - Claro meu filho, ele pode vir lhe visitar a hora que quiser. -Mãe? - perguntou Lívia curiosa - ele tem outra mulher, não tem? Porque a mãe de minha colega disse que um homem somente larga uma mulher quando já tem outra. Rute titubeou na resposta, pensou em mentir, mas não poderia fazer isso com os filhos. - É, não posso esconder de vocês, ele tem uma namorada, porém não me largou. Nós conversamos e decidimos que era melhor ele ir morar em outra casa. - Vocês se separaram, não foi? - pergunta Lucas Júnior com ar de quem entende do assunto. - Não é bem uma separação. Como se diz hoje em dia, nós demos um tempo - respondeu Rute para o filho. Enquanto Rute conversava com Júnior, Lívia demonstrava uma certa revolta e inquietação. Sentou-se na cama e, com lágrimas nos olhos, disse: - Como ele pode fazer isso com a senhora? Eu vou odiá-lo para o resto da vida por causa disso; não quero mais que ele seja meu pai, nunca mais quero vê-lo. Eu o odeio, odeio, odeio! Rute colocou a filha em seu colo, enxugandolhe as lágrimas e disse: - Não precisa odiá-lo minha filha, o ódio é uma coisa muito feia, é um sentimento que nenhum ser humano merece e, além do mais, ele não fez nada contra você. Ele é seu pai e não há nada neste mundo que vá mudar isso. Enquanto estiverem vivos serão sempre pai e filha. Vai demorar um tempo para se acostumar sem ele

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em casa, mas em breve seremos felizes novamente. Você vai ver, é só ter paciência que tudo se resolve. - E se ele não quiser mais voltar? - perguntou Lívia. Rute, com um tímido sorriso, respondeu: - Bem, se ele não quiser mais voltar, ainda seremos uma família, nós três, e faremos tudo que sempre fizemos. - Mãe? - perguntou Lívia mais uma vez - e nós vamos continuar indo para igreja, mesmo com o papai estando lá? - Esta é uma outra coisa que seu pai terá que resolver, pois, na situação em que ele se encontra, não poderá dirigir a igreja. Vai ter que se afastar por um tempo até que tudo esteja resolvido. Mas nós vamos continuar indo à igreja sim, pois é nestas horas que mais precisamos do apoio dos nossos amigos e irmãos. Terminada a conversa, foram se aprontar para tomar o café da manhã. No dia seguinte, Rute decidiu que não iriam à igreja e ficaram todo o dia em casa.

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XII

Na noite de domingo, Lucas chega em cima da hora do início da reunião. Enquanto entrava, irmã Elza perguntou-lhe: - Onde está a irmã Rute, não veio pela manhã, não veio agora, está doente? - Não, quis ficar em casa - disse ele com uma certa arrogância, dirigindo-se diretamente para o gabinete. Irmão Antônio Alves, que já estava avisado que iria dirigir a reunião naquela noite, chega até à porta do gabinete e pergunta: - Já está na hora, podemos começar? - Podemos. Comece que eu vou já - disse Pr. Lucas com uma certa frieza. A reunião se inicia e segue toda a programação definida. Pr. Lucas entra quando estão cantando os louvores que antecedem à mensagem. Entra vagarosamente, senta-se na cadeira que fica atrás do púlpito e, enquanto aguarda que lhe passem a palavra, olha diretamente para cada um dos que estão sentados nos bancos. Conhecia cada uma daquelas vidas que estavam ali, conhecia seus problemas, dificuldades e também suas vitórias.Viu nascer quase todas aquelas crianças que estavam sentadas ali, nos primeiros bancos. Acompanhou o desenvolvimento da maioria dos jovens 91

que estavam no grupo de louvor. Cada mãe, cada pai tinha com ele uma história particular, vivida em algum momento daqueles dez anos de ministério. - Pr. Lucas, o senhor está com a palavra - disse o irmão Antônio Alves, interrompendo seus pensamentos. Respirou fundo, ajeitou a Bíblia na mão, levantou-se, bem vagar, indo em direção ao púlpito, abriu a Bíblia no texto marcado, olhou mais uma vez toda a congregação e iniciou: - Hoje eu não vou pregar uma mensagem, vou comunicar algo que recebi de Deus, que deu um novo rumo à minha vida e, talvez modifique também a vida de alguns de vocês que foram chamados, por Deus, para estar aqui nesta noite. Nós, quando nos convertemos, aceitamos um chamado de Deus para a salvação, e passamos a andar neste chamado. Porém, durante toda a nossa caminhada como cristãos, recebemos constantemente um novo chamado de Deus para o propósito que Ele tem em nossas vidas e algumas vezes este propósito não está de acordo com a nossa vontade. Daí, temos que decidir se queremos ou não andar na perfeita e agradável vontade de Deus. Foi assim com Noé, Abraão, Moisés, Davi, com os profetas, inclusive com o profeta Jonas que tentou se desviar do chamado de Deus indo para Társis, quando Deus queria que ele fosse para Nínive. Foi assim, também, com cada um dos discípulos que foram chamados, por Jesus, para formar a base da igreja primitiva, pois, uma vez que a igreja em Jerusalém estava formada e edificada, era necessário um novo chamamento, uma nova visão para que então se iniciasse um novo ministério para divulgação do reino de Deus também entre gentios. Surgindo assim, um novo 92

chamamento para que o apóstolo Paulo pregasse o evangelho aos que estavam longe e cumprisse a vontade do Pai que é a pregação do evangelho à toda criatura. Da mesma forma Deus, ainda hoje, chama homens e mulheres para assumirem um ministério diante Dele. E, após o cumprimento do primeiro chamado, surge um outro e, cumprindo-se este, surge outro, e assim vamos até alcançarmos nossa morada celestial. Para ficar mais claro, vamos ler o texto da Bíblia que fala de um chamamento específico e fala, ainda, do chamamento que eu recebi de Deus. O livro de Atos dos Apóstolos no capitulo 16, a partir do versículo 6, diz: “E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu. E, tendo contornado Mísia, desceram à Trôade. À noite, sobreveio a Paulo uma visão na qual um varão macedônio estava em pé e lhe rogava, dizendo: passa a Macedônia e ajuda-nos. Assim que teve a visão, imediatamente procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho”. E, como todos sabemos, o Apóstolo Paulo deixou a igreja onde estava e partiu para seguir o chamamento de Deus. Talvez ele quisesse ficar, continuar com o trabalho no local onde estava, mas uma vez que ele ouviu a voz de Deus, era impossível para ele permanecer onde estava. Da mesma forma eu também recebi um chamado específico de Deus para sair da posição em que estou e avançar na obra de propagação do evangelho. E, como aconteceu? Alguns de vocês devem estar se perguntando. Eu vou explicar de forma bem detalhada para que todos possam entender claramente. Esta semana eu tive um sonho que abalou a 93

estrutura da minha vida, um sonho que parecia tão real como se eu estivesse acordado e, no meu sonho, havia uma multidão que estava presa em uma espécie de cercado, eram tantas pessoas que eu não tinha como calcular a quantidade. E elas gritavam: ajuda-nos, ajudanos! Na frente deste cercado havia um portão enorme com uma fechadura no centro; após este cercado, onde estava aquela multidão de pessoas presas, havia um rio e do outro lado eu estava, estava me vendo do outro lado do rio e, ao mesmo tempo, via as pessoas que estavam presas; bem na minha frente havia um barco com motor e, nas minhas mãos, uma chave que eu sabia que era a chave que abria aquela fechadura para pôr em liberdade todos os que estavam presos. Porém eu não me movia. Acordei no meio da noite e fui orar ao Senhor e perguntei qual o significado deste sonho, então o Senhor me mostrou este texto que acabei de ler e compreendi que ele estava me chamando para um novo ministério. Aquelas pessoas, em meu sonho, estavam como aqueles macedônios, precisando de alguém que lhes mostrasse a verdade, que abrisse as cadeias que os aprisionava e eu disse: Senhor, eu quero ser este homem, quero me mover, quero abrir aquela porta para que todos sejam livres para te adorar. Então me veio de dentro uma pergunta: onde seria este lugar para o qual Deus quer que eu vá? Eu me ajoelhei, continuei orando, clamei mais insistentemente e disse: Senhor, eu preciso saber onde é este lugar para que possa cumprir o teu chamado. Aí Deus lembrou-me do rio e eu vi que o ponto onde eu estava parado era aqui, nesta igreja. O rio é a grande avenida que corta nossa cidade e o grande cercado é o outro lado da cidade, com milhões de pessoas que estão aprisionadas, esperando-me para que sejam libertas pelo poder de Deus e, como 94

aquele varão macedônio disse a Paulo “passa a Macedônia e ajuda-nos”, esta multidão também clama por libertação e, eu, tenho a chave que vai abrir o cadeado. Esta chave é a autoridade da palavra de Deus que me foi entregue no dia em que fui consagrado ministro do evangelho. Quando eu vou? Logo! Pois Deus tem pressa e não posso perder tempo, por isso esta é a minha última pregação como pastor desta igreja. Sei que peguei vocês de surpresa, mas as coisas de Deus são assim mesmo. Deus tem pressa, porque o tempo se aproxima. Quem irá comigo? Isso eu não sei, mas sei que Deus também tem chamado outras pessoas para esta missão. Se você é ou não um escolhido, somente você sabe. Quanto a mim, faço minha as palavras do apóstolo Paulo em sua carta aos filipenses, capítulo 3 e versículo 13 que diz: “esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Foi muito proveitoso todo este tempo que passamos juntos, entretanto tenho que seguir em frente, obedecendo à voz do meu Senhor para onde Ele me mandar. Fechou a Bíblia e foi se sentar. O irmão Antônio Alves levantou-se, lentamente, foi até o púlpito, olhou a igreja que estava perplexa e, espantado, disse: - Não olhem para mim, estou tão surpreso quanto qualquer um de vocês; não esperava que isso pudesse acontecer assim, sem um prévio aviso. Porém, se Deus o chamou, o que ele tem que fazer é obedecer à voz divina e partir para cumprir sua missão. Pastor, quero lhe dizer, em nome desta igreja, que nós sempre o amaremos e as portas desta igreja sempre estarão abertas para o senhor. O que nós podemos fazer é abençoar a sua ida para que este outro ministério seja tão abençoado, através 95

da sua vida, como nós fomos durante todos estes anos. Quero chamar toda a liderança da igreja aqui à frente, que nós vamos impor as mãos sobre o Pr. Lucas derramando, assim, sobre ele, todo o nosso amor. Os líderes da igreja fizeram um semicírculo e Pr. Lucas ajoelhou-se no meio; estenderam as mãos e oraram. Enquanto oravam, podia-se sentir uma inquietação na igreja. Todos estavam ansiosos pelo término, para saber onde seria este novo ministério, quem iria com ele e, também, como ficaria a situação da igreja sem pastor. Terminada a reunião, várias pessoas foram até o Pr. Lucas para se despedir e, muitas outras, foram dizerlhe que, após a mensagem, sentiram que Deus também as havia chamado para o novo ministério e perguntavam o endereço, e quando seria a primeira reunião. Respondidas as várias perguntas, despediu-se de todos, entrou no carro e partiu. Na segunda-feira pela manhã, enquanto preparava o almoço, Rute ouviu alguém bater à porta. Ao abri-la, deu de cara com a irmã Elza, com um semblante de tristeza e que foi logo dizendo: - Não sei quando a senhora vai se mudar, como eu gosto muito da senhora, vim me despedir logo. Rute, espantada pergunta: - E para onde é que eu vou? Irmã Elza, com ar de surpresa, vasculha sua memória para ver se não está sofrendo de algum surto de amnésia e responde: - Ora! A senhora vai com o Pr. Lucas para o novo ministério, do outro lado da cidade. Rute, mais espantada ainda, indaga novamente: - Que história de novo ministério é esta? 96

- Eu, agora, não estou entendendo é mais nada diz a irmã Elza, balançando os braços, como quem está perdida no assunto. Rute, já desconfiada de que algo está acontecendo, diz: - É melhor a senhora entrar, sentar-se e contar tudo, detalhadamente, porque não estou sabendo de novo ministério nenhum. - Como não está sabendo! Para todos foi uma surpresa; mas a senhora, que vive com ele, deve estar sabendo da revelação - disse irmã Elza bastante confusa. Rute, já um pouco impaciente falou: - Realmente, não estou sabendo de nenhuma revelação que Lucas venha a ter; mas a senhora conte-me tudo o que se passou ontem, depois eu lhe explico o que está acontecendo. - Bem, foi um choque muito grande para todos quando, na hora da pregação, o Pr. Lucas disse que Deus o havia chamado para um outro ministério e que este foi o último domingo como pastor da igreja e... A cada palavra da irmã Elza, Rute surpreendiase cada vez mais com a situação em que Lucas havia se colocado. Assim que ela terminou de falar, Rute começou a explicar o que estava ocorrendo. - Olhe, irmã Elza, as coisas nem sempre são o que parecem ser. Lucas e eu já estamos separados a uma semana. Irmã Elza, agora mais espantada, exclama: - Mas, como pode ser isso meu Deus! Vocês dois sempre se amaram tanto; nunca vi vocês discutindo e ele sempre disse que a senhora foi a mulher que Deus mandou para ele!

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- Todavia, as coisas mudam - disse Rute quase chorando. - Tudo começou quando a Karla entrou na igreja. Não que seja culpa dela, mas ela virou a cabeça dele e, de lá para cá, ele passou a ser outro: mudou o jeito de ser dentro de casa; mudou a forma de tratar os filhos; estava sempre arrogante. A semana passada, quando eu descobri que eles estão tendo um caso, pedi que saísse de casa e disse, também, que ele deveria se afastar das atividades da igreja, até resolver a situação ou então eu contaria tudo. Daí a senhora chega me dizendo que ele resolveu sair e abrir um novo ministério, do outro lado da cidade. É claro que ele inventou isso para poder escapar e sair como santo na história. Agora, longe de todos os conhecidos, somente Deus sabe o que ele pode aprontar. - Mas que coisa absurda! - retrucou irmã Elza. E a história ontem à noite foi tão bem contada que até eu estava pensando em ir com ele. Cheguei a pedir a Deus que me chamasse para lá, porém como Deus não me disse nada, sosseguei, contudo muitas pessoas vão com ele. - Deus não lhe disse nada porque não há nada de Deus nisso tudo - disse Rute. - Mas o que me preocupa é que, agora, Lucas não terá ninguém para impedi-lo de fazer o que bem quer. Mas isso é com ele, com todos os que forem e com Deus. A minha única preocupação é com o sustento dos meus filhos. Espero que ele mande dinheiro para as despesas, sem a necessidade de recorrer a uma ação judicial. - Bem, irmã Rute - disse irmã Elza. - Agora que já está tudo explicado, e que a senhora não vai mais embora, vou para casa para não tomar mais seu tempo. Vejo a senhora quarta-feira na igreja?

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- Não, irmã Elza, não vou à igreja na quartafeira, pois tenho pouco dinheiro e não sei quando terei mais. Somente vou estar na igreja no próximo domingo, pela manhã. Porém, quero que me faça um favor: sei que a senhora não é de sair contando as coisas que ouve, mas, se encontrar com o irmão Antônio Alves, conte a ele tudo que lhe disse e diga que conversaremos no domingo pela manhã. Despediram-se e irmã Elza foi para sua casa.

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XIII

No domingo pela manhã, quando Rute chegou à igreja percebeu que muitas das pessoas que costumava encontrar não estavam lá. Enquanto entrava, foi logo surpreendida pelo irmão Antônio Alves, que lhe chamava da porta do gabinete pastoral. - Entre irmã Rute, precisamos conversar - disse ele enquanto ela se aproximava. - A irmã Elza contoume, na quarta-feira, o que a senhora havia dito e, desde então, tenho orado ao Senhor para que Ele possa resolver a situação que não está muito boa. Sentaram-se no sofá do gabinete e ele continuou: - O seu marido nos deixou numa situação muito difícil. Como a senhora sabe, a igreja tem uma conta bancária e, como pastor, era ele que assinava os cheques, eu somente fazia os depósitos e, quando fazíamos o balancete financeiro, ele nos mostrava o extrato da conta para colocarmos no relatório. Contudo, o último relatório foi feito há seis meses e de lá para cá não sei quanto tinha na conta; o que sei é que hoje não tem mais nada. Pr. Lucas deixou a igreja sem dinheiro no banco e com as contas de água, luz e telefone atrasadas e, o pior, é que a maioria das pessoas foi com ele, deixando a igreja quase sem condições de se manter. Por que eu estou lhe contando isso? Porque desde que eu soube que ele lhe 101

deixou, e depois que vi o que ele fez com a igreja, sentime na obrigação de lhe ajudar de alguma forma, pois este é o papel da igreja. Acho muito difícil ele voltar com alguma ajuda depois de tudo que aprontou. Rute, sentindo um aperto no coração, devido aos acontecimentos em que se encontrava, perguntou: - E como o senhor pretende me ajudar, já que a igreja não tem dinheiro? - Bem, esta é a proposta que eu quero lhe fazer e espero que a senhora aceite, pois é a única que tenho para apresentar. Tenho uma prima que possui uma escola de primeiro e segundo graus e sei que a senhora tem alguns cursos na área de educação, que foram feitos para poder desenvolver as crianças da nossa escola dominical. Falei com a minha prima e ela me disse que pode lhe arranjar um emprego, de meio expediente, como auxiliar de disciplina das crianças e assim manter sua família e, ainda, poderá colocar seus filhos para estudar lá. É uma escola que tem um conceito muito bom no bairro. Rute, quase sem palavras e com os olhos cheios de lágrimas, disse: - Sabe, irmão Antônio, quando descobri que Lucas estava me traindo, fiquei desesperada; não sabia como iria me virar para me manter com estes dois filhos. Sempre fui muito dependente dele. Foi quando Deus me disse que cuidaria de mim e que eu deveria descansar e depender somente D`Ele. Foi o que fiz, porém não esperava que a resposta de Deus fosse tão rápida. É claro que quero! Como posso rejeitar uma benção como esta? - Então, amanhã passo na escola e confirmo com ela e lhe telefono dizendo quando deverá ir lá com os documentos. Agora, nós temos outro assunto para resolver; creio que será um pouco mais difícil. Temos 102

que contar para estas pessoas que ficaram aqui tudo o que aconteceu, antes que saibam por outros e de forma totalmente deturpada; melhor que seja a senhora que faça isso, para que não digam que estou inventando coisas. - Tudo bem, sabia que teria que fazer isso e me preparei um pouco. Quando chegar a hora, pode me chamar que eu falo. A reunião teve início com o irmão Antônio Alves dizendo: - Bem, meus queridos irmãos, parece que nós somos o remanescente que Deus escolheu para estar nesta igreja e dar continuidade ao trabalho de evangelização nesta comunidade. Não me preocupo com isso, pois não é a primeira vez que faço reuniões com poucas pessoas, o que aliás eu acho bem melhor, é mais proveitoso. Mas todas as coisas são feitas segundo a vontade de Deus e, se for da vontade D`Ele, que venhamos a crescer novamente; assim será. Por termos esta pequena quantidade de pessoas vamos modificar o trabalho do domingo pela manhã: as crianças de dez anos abaixo vão para uma classe única, onde duas professoras tomarão conta delas e o restante, de dez anos acima, ficarão aqui, onde teremos também uma sala única, até termos de novo a necessidade de aumentar a quantidade de salas. Neste momento as crianças saíram e ele voltou a falar. - Agora que as crianças menores saíram, não vamos ter nenhum estudo hoje, pois temos que esclarecer e organizar algumas coisas. Primeiro, quero dizer aos irmãos que eu não sou pastor; já ouvi algum comentário, esta semana, de que eu deveria ficar de vez no lugar do pastor Lucas, mas eu não sou pastor, sou apenas um 103

irmão como cada um de vocês. Não sou maior do que ninguém, apenas, aprouve ao Senhor nosso Deus, que eu estivesse, aqui nesta ocasião, e por isso vou me esforçar ao máximo para realizarmos um bom trabalho nesta igreja, até Deus mandar outro para assumir este lugar de pastor que está vago. O outro assunto que temos a resolver é quanto ao que foi dito aqui, no domingo passado, à noite. E para esclarecer este assunto, quero chamar à frente a irmã Rute, que vai nos contar o que realmente houve para que tudo isso chegasse a acontecer. Rute levantou-se calmamente e, enquanto se dirigia à frente, percebia em alguns rostos o espanto de que ela estivesse ali e que ainda haveria algo para ser dito. Parou em frente a todos, fez uma oração para que Deus direcionasse cada palavra que falaria e começou: - Existe um versículo da Bíblia que eu gosto muito: “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Sei que este versículo refere-se a Jesus que é “o caminho, a verdade e a vida,” mas se refere também aos filhos de Deus, que é o Pai da verdade, para que vivam na verdade e sejam totalmente libertos do pecado. Baseada nestes versículos, percebo que não posso deixar que sejam enganados por quem quer apenas explorar tudo que vocês têm. Não estive aqui domingo passado, mas sei de tudo que foi dito e posso imaginar exatamente como foi. Conheço Lucas muito bem e posso afirmar que cada palavra que saiu de sua boca foi mentirosa, por isso vou contar a verdade para esclarecer tudo. De pouco mais de um ano para cá, o Lucas começou a proceder de maneira diferente dentro de casa e com os filhos. Cheguei a pensar que seria algum problema passageiro, uma crise da meia-idade, talvez. Porém o problema foi se agravando cada vez mais, até chegar a ponto de pedir ao 104

Senhor que resolvesse a situação de uma vez por todas. E foi o que Ele fez. Há quinze dias atrás, eu descobri que o Lucas e a Karla estavam se encontrando; estavam tendo um caso e este era o motivo de ele estar diferente com a família durante todo esse tempo. Então, disse a ele que teria que resolver a situação em casa e, também, aqui na igreja, pois não poderia deixar que continuasse mentindo para tanta gente. Fiz isso para pressionar, para ver se percebia a besteira que estava fazendo. Mas a pressão fez com que ele, no lugar de se arrepender e voltar atrás, prosseguisse com uma mentira maior ainda. Mas isso já era de se esperar, pois “um abismo sempre puxa outro abismo,” uma mentira sempre atrai outra mentira e somente Deus sabe onde isso vai parar. O que oro ao Senhor é para que Lucas arrependa-se e volte para o ponto de onde caiu, para que Deus possa restaurá-lo; mas enquanto isso não acontece, temos que seguir em frente com nossas vidas de acordo com a vontade de Deus. Não sei se você ficou aqui por causa da distância da outra igreja, porque já desconfiava que Lucas estivesse mentindo ou você orou e o Espírito Santo revelou que deveria ficar aqui. Sei que, cada pessoa aqui presente, nesta manhã, foi Deus quem trouxe. Você pode ter outros motivos para estar aqui, mas o motivo maior é que Deus quer você aqui, trabalhando para a reconstrução da estrutura deste corpo onde Cristo é, e sempre será a cabeça. Terminando de falar, entregou o microfone ao irmão Antônio Alves para dar seguimento à reunião. Ele, voltando à frente, percebeu que a maioria dos irmãos estava abismada com o que fora dito por Rute. Pegou o microfone e disse:

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- Percebo que ainda há uma certa inquietação e, talvez, ainda haja alguma dúvida. Por isso, vamos fazer o seguinte: quem tiver qualquer dúvida ou queira dizer alguma coisa, neste momento, tem a palavra para que possa ficar bem esclarecida qualquer dúvida que a venha surgir. Os irmãos olharam uns para os outros esperando ver quem seria o primeiro a levantar-se. Então um rapaz, que estava sentado nas últimas fileiras, levantou-se e foi à frente. Meio desajeitado, pegou o microfone e disse: - Primeiro, quero dizer aos irmãos que me desculpem por alguma coisa que venha falar errado, é que nunca falei ao microfone antes. Eu ainda estou meio atordoado com toda essa confusão que está havendo; sinto-me como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Domingo passado, saí daqui preocupado em saber como iria fazer para mudar de igreja. Também queria ser um escolhido, mas a outra igreja é muito longe, teria que pagar passagem e, para vir para cá, venho a pé. Então resolvi ficar aqui e vim com muita tristeza, pois queria estar lá e quando chego aqui vocês me dizem que quem foi para lá foi enganado e quem está aqui é porque Deus quis, aí eu não entendo mais nada. Foi através do pastor Lucas que me converti, batizei-me com ele. Tudo que sei sobre igreja aprendi com ele e se é um mentiroso, então tudo que aprendi é mentira; minha conversão não vale nada, meu batismo não vale nada. Quem me garante que o que vocês estão falando aqui, também, não é mentira? Sabe de uma coisa: o que eu quero fazer é sumir de igreja e nunca mais entrar em nenhuma delas. Parece que somente querem nos enganar!

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Irmão Antônio Alves pegou o microfone, muito calmamente, dirigiu-se ao rapaz e disse: - Qual o seu nome, irmão? - Sandro - disse ele enquanto sentava. - Olha Sandro, quanto ao que você disse no início, que a sua conversão e o seu batismo não valem nada, valem sim, porque quem se converteu, quem mudou de rumo foi você e mesmo que o pastor Lucas seja um mentiroso, a palavra de Deus é verdadeira e foi a palavra que revelou ao seu coração que precisava mudar e mudou. Não é verdade? Agora atente para o seguinte: as pessoas que estão à frente dos trabalhos da igreja não são melhores do que ninguém; olhe para mim, tenho corpo como você também tem; tenho raciocínio como você também tem; posso pecar como você também pode; somos iguais. Só que, o Senhor me chamou antes mesmo de você nascer e isso me dá um pouco mais de experiência, mas não me faz melhor do que você. Pelo contrário, faz-me cada vez mais seu servo pelo amor que sinto por você. Quanto a descobrir quem está com a verdade, poderia passar a manhã toda lhe mostrando os fatos que provam quem está mentindo e quem está falando a verdade, porém, o que foi dito, foi o suficiente. Quero que você aprenda uma coisa: Jesus disse que nos enviaria, da parte do Pai, o Espírito Santo e que Ele nos guiaria a toda verdade. Quando aceitamos a Jesus, como nosso Senhor e Salvador, o Espírito Santo vem e habita em nós e o que precisamos fazer é apenas ouvir o que o Espírito Santo tem a nos mostrar de verdade. Para fazer isso não depende de pastor nem de obreiro nenhum, é só entrar no seu quarto e orar pedindo a Ele que lhe mostre a verdade e Ele lhe mostrará, pois este é a sua função em nós. Eu não vou lhe dizer quem está com a verdade. 107

Pergunte ao Espírito Santo e acredite no que Ele revelar a você e, então, pode tomar a sua decisão. Mas saiba que, nós amamos muito você e queremos que cresça como Jesus “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens”. Várias perguntas foram levantadas e, tranqüilamente, respondidas. Terminadas as questões, foram, os irmãos, para suas casas, cientes de que uma nova fase iniciaria-se na vida de cada um deles.

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XIV

Ainda não era sete horas da noite e a nova igreja já estava cheia. Havia uma grande expectativa em todos que estavam lá. À medida que as pessoas iam chegando, formavam-se grupos que indagavam qual seria o nome desta nova igreja e quem seriam as pessoas que resolveram assumir o desafio de iniciar um novo trabalho. Pastor Lucas alugara um grande galpão que havia sido um depósito atacadista. Mandou pintar o local e fazer um palanque de madeira, onde foi colocado o púlpito; comprou cadeiras brancas, que davam um “ar de pureza” ao local; comprou instrumentos musicais novos e um grande equipamento de som de alta qualidade. Ele chegou às sete e meia e dirigiu-se para o grupo de músicos que preparava os instrumentos para a reunião. Cumprimentou os jovens, vistoriou o local e foi passando em meio a todos que estavam dentro do galpão, cumprimentando e agradecendo por estarem ali. Às oito horas em ponto, pegou o microfone e iniciou a reunião dizendo: - Primeiro, quero agradecer por cada um de vocês que aceitou o chamado de Deus para iniciar este novo ministério. Não vai ser fácil, pois tem muita gente contra nós, gente que não quer ver o reino de Deus evoluir. Mas nós assumimos este desafio porque 109

confiamos que Deus quer fazer algo novo e maravilhoso, através de nossas vidas. E, por isso, Ele nos libertou das amarras que nos prendiam e de todo sistema que impedia o crescimento. Agora, nós vamos crescer e, com toda certeza, seremos em breve a maior igreja deste município e quem sabe deste estado, porque temos a liberdade e o poder para isso. E para expressar esta liberdade, a primeira coisa que vamos fazer é nos levantar, pegar as cadeiras e colocar encostadas nas paredes e vamos nos sentir livres. Coloque sua cadeira no cantinho, abrindo o espaço no meio que nós vamos cantar, livres como Deus nos fez; o grupo de louvor vai cantar uma música bem animada e sem cadeiras para nos prender. Vamos nos soltar transmitindo, para todos, a liberdade que nós temos. No início, alguns estranharam esta forma de reunião, mas à medida que as músicas iam sendo tocadas, eles foram contagiados pelo ritmo e logo todos estavam soltos para se expressarem. Terminadas as músicas, Pr. Lucas tornou a falar: - Sabe, meus irmãos, a partir do momento em que eu me libertei, pude ouvir com mais clareza a voz de Deus e Ele tem falado, constantemente, comigo e isso tem me dado uma segurança daquilo que eu tenho a fazer nesta localidade. Uma das coisas que Deus me disse foi: “Filho eu te escolhi para libertar o meu povo; te escolhi para libertar multidões;” e aceitei esta tarefa. Logo, quando entrei, várias pessoas perguntaram-me qual seria o nome da igreja e respondi que já havia perguntado isso a Deus e que Ele já havia me dito. Agora, chegou a hora de revelar, e vocês serão testemunhas oculares do nascimento desta igreja, que será uma das maiores do mundo, e que será chamada Igreja Mundial da 110

Libertação. Com este nome, nós vamos nos espalhar pelo mundo e seremos a igreja do novo milênio. Toda a reunião foi muito empolgante e animada. Várias músicas e muitas revelações, que eram sempre seguidas de aplausos e muita euforia; todos tinham sido contagiados pela novidade que surgiu e o encontro terminou bem mais tarde e não houve ninguém que reclamasse do horário. Após o término da reunião, Pr. Lucas marcou com algumas pessoas que assumiriam os cargos da igreja e, entre elas, estava Karla, que assumiria a direção do grupo de louvor. Quando todos saíram, Lucas pegou as ofertas que foram arrecadadas, entrou no carro com Karla e disse: - Agora, nós vamos comemorar a nossa vitória. Onde você quer ir? Karla, ajeitando o cinto de segurança disse: - Não sei. Tenho prova amanhã, logo cedo, e não quero chegar tarde em casa. Lucas, balançando a sacola com as ofertas, disse: - Não se preocupe com o horário; temos que comemorar. Depois da arrecadação de hoje dá para imaginar o que vem pela frente. Karla concordou, e foram para um luxuoso motel onde ficaram até à madrugada. Um mês passou-se e Lucas resolveu visitar os filhos. Parou o carro em frente à garagem, como de costume. Enquanto se aproximava da porta, colocou a mão no bolso e pegou a chave, levou-a a fechadura e parou instantaneamente, como quem acorda de um sonho; percebeu que não era a mesma chave que abria a porta. Ficou parado por alguns instantes, enquanto passava por sua mente cenas que havia vivido naquela 111

casa. Piscou os olhos como quem acorda de um hipnotismo, olhou para os lados para ver se alguém o observava e bateu à porta. Rute abriu a porta de avental e vassoura na mão, pois era um sábado e ela aproveitava para fazer uma faxina na casa. Olhou para ele e esperou que dissesse alguma coisa. - Vim ver os meus filhos - falou Lucas com certa rigidez. - Poderia ter ligado antes para avisar; o telefone ainda é o mesmo - disse Rute, enquanto abria toda a porta sinalizando para que ele entrasse. Após sentar-se no sofá, Lívia aproxima-se pelo corredor, pára ao vê-lo e pergunta: - O que ele está fazendo aqui? - Ele veio lhe ver - disse Rute indo ao quarto chamar Lucas Júnior. Lucas, ficando em pé, estende os braços e diz: - Não vai dar um abraço em seu pai? Lívia, parada onde está, cruza os braços e responde: - Se eu tivesse um pai, ele estaria morando nesta casa. Lucas, sentiu as palavras de Lívia cravarem o seu peito como uma flecha; senta-se novamente e a olha fixamente, percebendo que não se tratava mais de uma criança; sua filha havia crescido, entendia das coisas, e ele não havia percebido. Enquanto olhava para Lívia, Lucas Júnior aproximou-se correndo e, subitamente, parou em frente a ele. Pegou o filho, colocou-o no colo e deu um forte abraço: - Como você está garotão? 112

- Eu estou bem - respondeu Lucas Júnior. - Só não estou gostando muito de ter que mudar de escola, mas a mamãe disse que é bom quando a gente muda de lugar, pois aprende coisas novas e faz novos amigos. Mas e o senhor, quando volta para casa? Lucas, fingindo não ter escutado a pergunta, olha para Lívia e diz: - Por que você não faz como seu irmão e aceita a realidade. Ele ficou triste, como eu também fiquei, porém ele não ficou com raiva de mim e, mesmo sem estar morando aqui, eu ainda sou seu pai e amo muito vocês. Lívia, já com os olhos cheios de lágrimas e com voz alta, diz: - Você não me engana mais, como engana Lucas Júnior. E além disso, não é mais o meu pai. Você foi embora daqui e nem se despediu de mim; mudou de casa e nem lembrou que tem uma filha, e, agora, quer que eu faça de conta que não aconteceu nada. Você é um mentiroso que enganou a minha mãe e a todos na igreja. Não quero que você venha me ver e, se dependesse de mim, você nem entraria mais nesta casa, se dependesse de mim, você estaria morto. Rute, escutando a conversa da cozinha, intervém dizendo: - Lívia, pare com isso e vá para o seu quarto! Ela calou-se e foi para o quarto chorando, obedecendo à ordem da mãe. Após conversar com Lucas Júnior, Lucas foi até onde estava Rute e, tirando do bolso um envelope com dinheiro, discretamente colocou-o sobre a mesa e disse: - Por que eles vão mudar de escola? Não se preocupe com isso; vou continuar sustentando meus 113

filhos; eles vão poder estudar na escola que estavam, pois vou continuar pagando. Rute pára o que está fazendo, vira-se para Lucas e diz: - Não se preocupe você, porque eles vão para uma escola bem melhor e sem pagar nada. - E como isso vai acontecer? - pergunta ele achando que ela estivesse mentindo. - Muito simples - responde Rute. - Comecei a trabalhar na escola da prima do irmão Antônio Alves, como auxiliar de disciplina e os dois vão estudar lá de graça e, ainda, o transporte da escola nos leva e traz todos os dias. Lucas, com certo desprezo diz: - Que bom saber que está se virando sem mim; mas, de qualquer forma, fique com esse dinheiro para alguma necessidade que venham a ter. - Pode deixar o dinheiro aí que eu vou guardar para eles. Entretanto, o mais importante é que agora nós, realmente, aprendemos a confiar em Deus e Ele não nos deixa faltar nada. Lucas olhou-a com o canto dos olhos, esboçou um sorriso cínico e perguntou: - O que você disse a Lívia para ela ficar agressiva desse jeito? Aposto que você fez a cabeça dela contra mim. - Não é preciso fazer a cabeça de ninguém, é só olhar para você e tirar as próprias conclusões. Lívia não é mais nenhuma criancinha; ela cresceu e, de uma forma muito trágica, descobriu o pai que tem; é normal que fique brava. Se quiser fazer as pazes com ela, terá que se esforçar muito, mas é você que tem que mudar a situação se ainda quiser ter o amor de sua filha. 114

Conversaram um pouco sobre os filhos e ele foi embora, voltando depois de quinze dias. O tempo foi passando e, cada vez mais, Lucas diminuía as idas à casa de Rute. Lívia sempre o tratava com desprezo e arrogância. Lucas Júnior, à medida que o tempo passava, diminuía o interesse pelas visitas do pai. Na Igreja Mundial da Libertação as coisas já não eram as mesmas, o sucesso já não era o mesmo, não havia um compromisso dos membros para com a igreja. O tempo ia passando, muitas outras revelações foram surgindo, e as pessoas iam se congregar somente com o interesse de saber qual seria a novidade do momento. Nas reuniões, muitas músicas eram tocadas; havia bastante agitação; uma mensagem emocionante baseada em alguma revelação que ele havia tido e todos se dirigiam, para suas casas, com o mesmo vazio espiritual que haviam chegado. Por isso, não tinham interesse de convidar outros à igreja. Juntamente com a falta de compromisso veio a falta de contribuição, que trouxe grandes dificuldades para Lucas. Mesmo realizando encontros, acampamentos, festivais de música e campanhas, o dinheiro arrecadado não era suficiente para pagar as despesas que aumentavam, sempre mais, a cada evento que se realizava. Em um sábado, à tarde, foi visitar os filhos. Parou o carro em frente, entrou, sentou-se e aguardou Rute chamá-los no quarto. Ela volta sozinha, senta-se à sua frente e diz: - Lívia disse que precisava estudar para uma prova que fará na segunda-feira e não pode vir. Júnior está jogando videogame e disse que, assim que terminar a fase, virá.

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- Tudo bem, eu espero - disse Lucas encostando-se no sofá e relaxando o corpo. Passa-se alguns segundos de silêncio. Rute, olhando para ele, diz: - Sei que não é da minha conta e que não tenho nada a ver com sua vida, mas sua aparência não está muito boa; percebi que você está bem mais gordo, nestes últimos dias. Cuidado com o colesterol! Têm ido ao médico ultimamente? Lucas, olhando para o próprio corpo, responde: - É, comendo em restaurante self-service quase todos os dias não é a melhor dieta que se possa fazer; acho que meu colesterol está normal. Só o que tenho sentido é um pouco de cansaço, por causa do aumento de peso, mas não é nada para se preocupar. É apenas fazer uns exercícios que volto ao meu peso de antes. - Bem, quem sabe se precisa ou não se preocupar é você, mas lembre-se que não tem mais vinte anos. Levantou-se e foi ao quarto, novamente, chamar Lucas Júnior. Ao chegar, Lucas disse ao filho: - E aí garotão, que tal irmos ali na esquina tomar um sorvete? - Eu topo! - respondeu Lucas Júnior, segurando a mão do pai. Lucas virou-se para Rute e perguntou: - Você quer também? - Não, obrigado. Não estou com vontade respondeu ela. - Então vamos - disse ele ao filho e saíram.

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XV

Segunda-feira, Karla chega em casa às 18h30 e vai direto para o quarto; sua mãe, que já havia chegado, aproxima-se da porta do quarto e diz: - Chegou correspondência para você, da Amazônia. Karla pára o que está fazendo e diz: - Cadê, quero ler logo. Sentam-se na cama e Karla lê a correspondência. - O que diz? - pergunta sua mãe. Karla fica olhando-a, por um momento, e diz: - Estão dizendo que o meu currículo foi aprovado e me oferecem uma vaga para estágio remunerado, por dois anos, com possibilidade de ser contratada definitivamente pela organização. - O que foi? Por que esta cara de desânimo? pergunta, a mãe, percebendo uma certa indecisão no olhar de Karla. - Se eu for para a Amazônia, a senhora, como é que fica? A mãe de Karla sorri e diz: - Até parece que eu vou acreditar que você está indecisa, preocupada comigo. Você nunca se preocupou comigo, são incontáveis às vezes que você viajou o final de semana todo e, às vezes, até por mais de quinze dias; 117

quando ia a algum congresso e nem um telefonema dava para saber como estava. E, agora, está em dúvida. Por que está preocupada comigo? - Mas mãe, agora é diferente. São dois anos e a Amazônia não é logo ali; é quase do outro lado do mundo. - Hoje o mundo não é mais tão grande como se pensava antes Karla. Há avião, há telefone ao alcance de todos, há internet; é tudo muito fácil e rápido. Contudo, sei qual é a sua preocupação: está preocupada com o pastorzinho safado, não é? Karla baixa a cabeça e diz: - É que ele deixou tudo por minha causa: a família, a igreja e, além do mais, está passando por uma fase muito difícil; a igreja não está dando o rendimento necessário nem para pagar as despesas. A mãe de Karla segura a correspondência em suas mãos e diz: - Karla, olhe para isso! - e aponta para as folhas de papel. - Você sabe que eu não sou muito boa em dar conselhos, mas vou tentar. Seu futuro está nestas folhas; sei que nunca fui uma mãe muito boa. Esforcei-me e, agora, é a hora de lhe dizer que vá seguir sua vida; não quero filha presa na aba de minha saia pela vida toda. Esta é uma grande chance e você não deve desperdiçar, ainda mais por causa de um homem que não oferece nenhuma segurança. Uma pessoa que, ultimamente, não está podendo sustentar nem a si mesmo, como vai poder lhe dar um futuro seguro? Karla fica pensativa por alguns instantes, olhando para a correspondência. Sua mãe levanta-se para sair do quarto, vira-se para Karla e diz:

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- Este é um momento em que se coloca o coração de lado e se tomam as decisões apenas com a cabeça - sai do quarto e fecha a porta. No domingo seguinte, após a reunião, Lucas levou Karla em casa. Ela ficou em silêncio por todo o percurso, enquanto ele contava as idéias que teve para fazer a igreja novamente encher de pessoas. Ao chegarem à entrada da casa, assim que desligou o carro, ele aproximou-se para beijá-la. Ela o afastou e com seriedade disse: - Lucas, eu tenho uma notícia para lhe dar que não é muito boa. Lucas virou-se para Karla espantado e, pensando que ela estivesse grávida, disse: - Pode confiar em mim, eu estou disposto a lhe ajudar no que for possível; seja qual for o problema, vamos vencer juntos; o que você resolver eu aceito. - Não é um problema - respondeu ela. - É uma decisão que tomei, na qual eu vinha pensando há alguns dias, e somente agora resolvi o que vou fazer. - Então, diga logo! - disse ele quase desesperado. Karla hesitou um pouco, respirou fundo e disse: - Como você sabe, mês que vem termino o meu curso e o mercado de trabalho para minha área aqui é muito restrito. Por isso, eu mandei uns currículos para algumas organizações e faculdades para tentar conseguir algum estágio. Esta semana recebi resposta de uma organização de controle ambiental, na Amazônia, oferecendo-me um estágio remunerado por dois anos, com a possibilidade de ficar efetiva na organização. Pensei bastante, conversei com minha mãe e ela me disse que seria melhor que eu fosse, pois lá poderia me 119

desenvolver bem mais na minha área. Então decidi ir porque sei que será o melhor para mim. - Você não pode fazer isso! - falou Lucas em um tom autoritário. - Você nem conversou comigo, não pediu a minha opinião! Não pode me deixar aqui e se mandar para o meio do mato, para um lugar que só Deus sabe onde fica. E o nosso amor, não significa nada para você? Ela virou-se para ele e, com frieza nos olhos, disse calmamente: - É claro que este amor significou muito para mim, só que há algum tempo que a paixão que sinto por você vem se esfriando. Agora, ficam apenas as lembranças de tudo que passamos juntos. Foi bom enquanto durou, mas infelizmente acabou e, eu não sinto mais por você o que sentia antes. - Você não pode fazer isso comigo! - disse ele com os olhos cheios de lágrimas. - Deixei tudo por você: minha casa, meus filhos, minha esposa, a igreja que fazia parte. Deixei tudo por sua causa e, agora, o que você me diz é que foi bom enquanto durou? Não posso deixar você partir; não pode me abandonar, principalmente agora que preciso tanto de você. - Nunca pedi para você deixar nada por mim; você fez isso porque quis, ou melhor, porque a circunstância o obrigou. Não venha me cobrar nada, pois nunca lhe prometi nada. - disse ela com firmeza. Ele encostou a cabeça ao volante, ficou pensativo, por alguns instantes, enquanto ela preparavase para descer do carro; quando ela abriu a porta, ele segurou-lhe o braço com firmeza, e disse: - Não me abandone Karla, não agora, por favor! Ela olhou diretamente em seus olhos e disse; 120

- Já tomei a minha decisão; somente cabe a você aceitá-la. Tenho que ir Lucas, tenho que viver a minha vida. Nós dois sabíamos que não iria durar para sempre; hesitei muito em tomar esta decisão, mas sei que estou tomando a decisão certa; não dificulte as coisas ainda mais. Tudo o que nós vivemos foi muito bom, porém, infelizmente, termina aqui. Ele soltou o braço e ela saiu do carro. Lucas ficou bastante tempo parado em frente à casa de Karla, olhando para porta, desejando que ela voltasse dizendo que havia se arrependido e resolveria ficar com ele. Mas, isso não aconteceu. Então, ligou o carro e foi embora. Várias vezes, durante a semana, tentou falar com Karla, por telefone, mas ela se recusava falar com ele, inventando a desculpa de que não se encontrava ou que estava ocupada. No domingo seguinte, antes do início da reunião, Karla chegou a ele no gabinete e disse: - Hoje é o meu último dia aqui. Já me despedi do grupo de louvor, no ensaio de ontem, e quero me despedir da igreja formalmente, como você sabe fazer. - Não sei se posso fazer isso - disse ele. - Pode sim - afirmou Karla. - Lá no púlpito você pode fazer qualquer coisa, desde que queira. Ele, numa atitude desesperada, disse: - Karla, você quer que eu assuma tudo? Quer que conte a todos que estamos juntos? Eu conto. Quer que anuncie o casamento? Faço isso! Mas, por favor, não me deixe! Será que você não reconhece tudo que fiz por você? Não reconhece o quanto te amo? Karla olhou para ele e friamente disse:

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- Será que você não percebeu que acabou!? Não percebeu que já tomei a minha decisão!? As coisas mudam, Lucas; e você tem que aceitar a opinião dos outros. Não quero casamento. As pessoas da igreja não precisam que você lhes diga uma coisa que elas já sabem, porém, fingem que não sabem. Tudo que quero é que você anuncie para igreja que vou embora e pronto. Tudo que tínhamos de conversar já conversamos. - virou-se, saiu do gabinete e entrou no templo. Ele, também, entrou logo após e deu início à reunião, que se desenrolou com uma monotonia notável. Na hora dos avisos, ele disse: - Irmãos, com pesar anuncio que a nossa querida irmã Karla está de viagem marcada. Ela me comunicou esta semana que irá passar algum tempo fora, lá no Amazonas, do outro lado do Brasil. Irá estudar. Irmã Karla, venha até aqui. Quero lhe dizer, em nome da igreja, que vamos sentir a sua falta nestes dias em que estará fora. Mas, queremos desejar que tenha sucesso em seus estudos e que lá, no Amazonas, possa levar o bom perfume de Cristo por onde quer que vá. Vamos estar orando para que Deus a abençoe por todos os caminhos por onde passar. Karla pegou o microfone e disse: - Quero dizer aos irmãos que foi muito bom o tempo que passei aqui e que, cada um de vocês, tem um valor especial para mim. Esta viagem não será apenas por algum tempo como o pastor Lucas falou; será um tempo bem maior, pois ganhei uma bolsa de dois anos de estágio numa organização de proteção ambiental e tenho bastante possibilidade de ser efetivada na organização, conto com isso. Portanto, estou me despedindo

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definitivamente. Mas saibam que levarei cada um de vocês em meu coração. Cantou uma música de despedida e entregou o microfone. No final da reunião, o assunto era a viagem de Karla. Todos sabiam que ela namorava o pastor Lucas, porém o assunto não era explícito. Muitos comentavam que ele voltaria para a esposa, mas a maioria achava que, logo, ele estaria namorando outra mulher da mesma idade de Karla. Os grupos que se formavam depois da reunião falavam sobre o assunto, entretanto, mudavam de conversa quando o pastor Lucas aproximava-se. Ele estava em um grupo à porta da igreja quando Karla saía. Chamou-a a parte e disse: - Já vai para casa? Espere um pouco que eu te levo. - Não vou para casa agora - respondeu ela. - O pessoal chamou-me para sair. Vamos comer uma pizza de despedida. Já vou, que eles estão me esperando ali no carro. - Amanhã passo em sua casa para nos despedirmos - disse Lucas. - Não vai dar - disse ela com pressa. - Tenho que arrumar minhas malas e, à noite, vou sair com meus colegas da faculdade. - E quando você viaja? - Na madrugada da terça-feira. - Não vamos nos despedir? - afirmou Lucas com o tom de voz triste. - Nós já nos despedimos, você que não percebeu ainda - disse Karla enquanto se afastava, vagarosamente; entrou no carro e partiram.

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Após todos terem saído, trancou as portas da igreja e foi para o pequeno apartamento onde morava. Entrou, trocou de roupa, foi até à cozinha para comer algo, mas lhe faltou apetite. Tomou um pouco de leite na própria embalagem e foi para cama; deitou-se, ligou o televisor, mas nada do que passava era-lhe interessante; desligou-a, estirou-se na cama com os braços abertos e um imenso vazio invadiu-lhe a alma. - Olhe para você Lucas - pensou ele. - Você está acabado; sem esposa, sem filhos, agora sem namorada. Sua igreja tem mais dívidas do que tem arrecadado. Sua vida tem se tornado em um carrossel de desgraças. Onde será que isso tudo vai parar? Será que vale a pena dar continuidade a uma vida como essa? É uma pena não poder voltar atrás e consertar os erros que se faz. Parou um pouco seus devaneios, sentou-se na cama e lembrou-se de que já havia tido aquela sensação antes. Mas quando foi? Há! Foi num sonho, mas faz tanto tempo!... Que besteira a minha, ficar lembrando de um sonho numa situação dessa. Acho que estou é ficando meio louco com tantos problemas; deve ser o stress. Virou-se para o lado e esperou até dormir. Pela manhã, acordou com alguém batendo à porta. Era o dono do apartamento cobrando o aluguel. Abriu a porta ainda de pijama. - Espero que as ofertas de ontem dêem, pelo menos, para pagar os meses que estão atrasados - disse ele com cinismo nas palavras. Lucas, ainda sonolento, esfregou os olhos lentamente, enquanto pensava numa resposta. - No meio do mês a oferta é muito pouca; as pessoas contribuem mais no começo do mês, quando

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recebem os salários. A oferta de ontem não dá nem para pôr gasolina no carro. - Então venda o carro e pague suas dívidas; só tem carro quem pode. - Não posso fazer isso; o carro, para mim, é praticamente um instrumento de trabalho. - Instrumento de trabalho de pastor para mim é a “lábia”. E isso você tem de sobra. Só que não me convence mais; eu dependo deste aluguel e quero recebêlo agora. - Mas, como eu lhe disse, não tenho dinheiro. Espere mais um pouco, até o final do mês que, pago tudo, todos os meses em atraso. - Bem, a minha economia funciona assim: você não tem dinheiro, mas tem algo que possa ser transformado em dinheiro. Enquanto falava, o homem esticava o pescoço olhando dentro do apartamento, procurando algo que fosse de valor. - Aceito aquela televisão como parte do pagamento. - Já lhe disse que no final do mês pago; são somente quinze dias - disse Lucas tentando ganhar tempo. - Quinze dias é muito tempo e não saio daqui de mãos vazias. Você me dá o televisor agora e o restante em dinheiro, daqui a quinze dias - disse o homem. - E o que é que eu vou fazer sem televisão? perguntou Lucas ao homem. - Leia a Bíblia! - disse ele, e depois deu uma gargalhada debochada. Lucas pensou um pouco e disse: - Somente aceito se for pela dívida completa. 125

O homem deu novamente uma risada cínica e disse: - Tenho uma igual a esta em casa, no quarto do meu filho, e comprei nova. Vale a metade do pagamento. Depois de muito hesitar, Lucas aceitou a proposta do homem e entregou o aparelho de televisão. Após o homem ter ido embora, fechou a porta e tentou ler um livro, mas não conseguia. Uma forte dor de cabeça apareceu-lhe e, também, não conseguia se concentrar na leitura, pensando em como fazer Karla desistir da viagem. Sentiu fome, mas não tinha nada no apartamento para preparar o almoço; saiu e foi comer um sanduíche com refrigerante. Assim que anoiteceu, colocou alguns litros de combustível no carro e foi à casa de Karla. Assim que abriu a porta da casa, a mãe de Karla foi logo dizendo: - Ela já viajou. - Mas ela só iria amanhã de madrugada! - disse Lucas surpreso. - Não, você deve ter se enganado. A viagem sempre esteve marcada para segunda, às nove horas. - Ela deixou o telefone de onde vai ficar hospedada? - Se quisesse que você soubesse o número do telefone, ela mesma teria lhe dado. Passar bem. - disse ela, asperamente, e fechou a porta. Lucas ficou parado um instante com a mente vagando e, aos poucos, sentia novamente a cabeça doer. Virou-se, entrou no carro e voltou ao apartamento. Antes do prédio, onde morava, tinha uma leve subida de uns 500m e, assim que iniciou a subida, subitamente o carro parou. 126

- Como pode ser isso - pensou ele. - Eu coloquei combustível suficiente para ir e vir e ainda sobrar. Tentou ligar o carro novamente, porém não funcionava. Não teve outro jeito: desceu do carro e começou a empurrar. Chegando no apartamento, o coração estava acelerado e a cabeça doía bem mais do que antes. Tomou um banho frio, uma aspirina e tentou dormir. Todavia, o sono somente veio chegar quando já era bastante tarde. Na manhã seguinte, foi consertar o carro. Defeito na parte elétrica. Disse o mecânico. E lá se foi o dinheiro arrecadado no domingo anterior.

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XVI

Mais um domingo havia chegado e, com ele, a expectativa de se ter uma boa arrecadação; passavam-se duas semanas e era início do mês. Assim que entrou, olhou para igreja e percebeu a falta de várias pessoas, dentre elas, alguns que tinham boas contribuições. Iniciou a reunião e esforçou-se bastante enfatizando sempre o amor no ofertar e criou rapidamente alguns projetos que, relatando aos membros da igreja, pedia contribuições para dar início a todos eles. Após a reunião foi rapidamente para o gabinete, onde contava todo dinheiro arrecadado, e logo percebia que não seria suficiente para as despesas. Assim que terminara de contar, alguém bate à porta. Ele guarda o dinheiro na gaveta e manda entrar. - Pastor, o dono do prédio está ai e quer falar com o senhor. - disse o rapaz que bateu à porta. - Mande-o entrar. O homem entra, senta-se e começa logo a falar. - Bem, o senhor sabe o motivo desta minha visita. Esta semana venceu-se o segundo mês em atraso do aluguel do prédio e quero uma definição sua sobre o pagamento. - Olha, seu Manoel, as ofertas de hoje não foram contadas ainda; tenho que esperar passar pelo tesoureiro e depois que ele me der o relatório dos valores 129

recebidos posso lhe pagar. Mas pelo que eu percebi hoje, tenho certeza que foi o suficiente para pagar as despesas. O que digo ao senhor é que, no mais tardar na quartafeira, quando tiver resolvido todos estes problemas burocráticos, vou até sua casa com o dinheiro. Pode ter certeza. O homem balançou a cabeça dizendo que concordava e completou dizendo: - Outra coisa que eu queria dizer é que daqui a dois meses acaba o nosso contrato de locação e quero o prédio. Vou colocar um restaurante aqui e quero começar a reformar o local. Pode ir procurando outro lugar para colocar sua igreja. Dois meses é tempo suficiente para o senhor encontrar outro local. Lucas nada disse a respeito da saída. Confirmaram o encontro na quarta-feira, acompanhou-o até à porta e despediram-se. Voltou, sentou-se para reiniciar a contagem do dinheiro e a dor de cabeça surgiu mais forte do que nos dias anteriores. Levantou-se para pedir a um jovem para comprar um comprimido e assim que pegou na maçaneta da porta, sentiu uma tontura; as vistas escureceram; tentou se apoiar, mas foi impossível e veio ao chão. Quando voltou a si, estava deitado em uma cama e não havia ninguém por perto. A cabeça ainda doía. Olhou para os lados para reconhecer o local; era um quarto hospitalar. Havia um soro preso ao seu braço e suspenso por um gancho preso ao teto, ao lado da cama uma pequena mesa com um oxímetro em cima, que apitava medindo o ritmo do seu batimento cardíaco, através de um sensor preso ao seu dedo e um tensiômetro ao lado do oxímetro. Havia, também, um frigobar no canto do quarto, no lado oposto à entrada do banheiro. 130

Tentou levantar os braços, porém não obteve resultado. Tentou virar-se, mexer as pernas, nada respondia ao seu comando. Ficou desesperado. Sentiu seu coração começar bater forte no peito, a dor de cabeça aumentando; tentou gritar, pedir ajuda, mas o som que lhe saía da boca não se parecia com nenhuma palavra, eram apenas sons que mais pareciam grunhidos. Rapidamente chega uma enfermeira, que foi logo dizendo: - Calma, está tudo bem. Vou fazer sua medicação. Ela pega a prancheta do prontuário médico que está presa ao pé da cama, lê o que está escrito e depois pega o tensiômetro, que está ao lado da cama, põe em seu braço e verifica a pressão arterial; injeta o medicamento pelo equipo do soro, coloca outro, em forma de cápsula embaixo da língua e ele adormece novamente. Mas tarde, acorda com a enfermeira colocando outra vez o tensiômetro em seu braço. Ao lado, um médico de uns trinta anos, com uma bata de linho branca com o nome bordado no bolso, Dr. Pedro Albuquerque. A enfermeira termina o procedimento e diz: - 19 por 14, doutor. - É, está se estabilizando, mas ainda está alta diz o médico com seriedade. Pega o prontuário, encostase ao lado da cama, escreve alguma coisa e começa dizendo: - Senhor Lucas, pode me ouvir? Responda com os olhos. Lucas pisca os olhos e balança a cabeça afirmando que ouvia, e o médico continua: - Bem, meu nome é Dr. Pedro Albuquerque e sou seu médico enquanto estiver aqui. Seu quadro clínico 131

é o seguinte: o senhor teve um acidente vascular cerebral, o que é também conhecido como derrame cerebral. Isto acontece geralmente porque a maioria das pessoas não se preocupa com a hipertensão arterial e, como não sentem nada, não se lembram de verificar a pressão regularmente. Quando ela está alta, basta um pouco de stress, uma irritação ou preocupação, uma má alimentação e os sensíveis vasos, que ficam na cabeça, não agüentam a pressão sanguínea e se rompem, causando, assim, o acidente vascular cerebral e paralisando a parte do cérebro irrigada, por estes vasos, e consecutivamente paralisando as partes do corpo que são comandadas por eles. Eu estava de plantão ontem quando o senhor deu entrada na emergência e a sua pressão no momento era de 220 por 160. Foi um grande milagre estar vivo, mas o pior ainda não passou. Sua pressão está controlada com o medicamento. Contudo, é preciso fazer uma avaliação completa para saber o que foi atingido e depois encaminhá-lo a um fisioterapeuta para iniciar os exercícios de recuperação. Dependendo das lesões que o cérebro sofreu, os movimentos podem ser restaurados, mas para isso é preciso tempo e muita determinação. Agora vamos ver quais os membros que foram atingidos. Consegue mexer as pernas? Lucas faz um leve movimento com o pé esquerdo. - E agora os braços, algum movimento? Ele tentou, mas não conseguiu fazer nenhum movimento com os braços. E o médico continua: - Em relação à fala já percebi que as cordas vocais não respondem corretamente. Mas, consegue engolir ou mover a cabeça? 132

Lucas se esforça e consegue engolir um pouco de saliva; movimenta a cabeça para os lados e depois pisca os olhos confirmando para o médico. O médico pega a prancheta, novamente faz algumas anotações e conclui dizendo: - Acabei de prescrever a sua medicação para a tarde, noite e para amanhã. Pela manhã eu receberei o resultado dos seus exames laboratoriais e virei somente à tarde, para lhe dizer os resultados e qual o procedimento que será adotado para a sua recuperação. Daqui até lá, procure descansar sossegando a sua mente de qualquer preocupação, para que o seu quadro clínico não se agrave. Assim que o médico saiu, começou a se inquietar. Tentou novamente mover os braços e as pernas, abriu a boca para falar alguma palavra que se entendesse, mas os sons não se discerniam; a língua não respondia aos movimentos que ordenava. Lentamente uma sensação de impotência começou a povoar a sua mente e os pensamentos foram surgindo. O que iria fazer agora? Melhor seria que tivesse morrido do que estar naquela situação, um aleijado, mais morto do que vivo. Não tinha mais esposa, Karla foi embora. E a igreja? Quem cuidaria da igreja? Quem recolheria os dízimos para pagar as dívidas? Estava perdido, era mesmo o fim. Teria que morrer pois, mesmo que saísse do hospital, como poderia se manter? Não tinha como pastorear daquele jeito e isso era a única coisa que sabia fazer. Não servia mais para nada, era simplesmente um bolo de carne jogado em cima de uma cama de hospital, esperando a hora de começar a apodrecer. E, o quanto antes começasse, seria melhor, pois não sofreria tanto. Mas o pior é que nem me matar eu consigo, aliás nem 133

consigo pedir para alguém fazer isso. Sou mesmo um inútil, um verme, jogado à mercê da sorte; aguardando, da vida, somente a hora de morrer sem ao menos poder adiantá-la. E onde está Deus que não vê a minha situação? Será que não viu quantas pessoas eu consegui converter? Será que não viu quantos se tornaram cristãos por causa da minha pregação? Será que não leva em conta os meus anos de serviço como pastor, tirando as pessoas do mau caminho? Eu sei que não sou perfeito, não sou o melhor pastor do mundo. Quem é perfeito? Será que a balança da justiça de Deus não está pesando mais para um lado do que para o outro? E a bondade, onde está que não se manifesta numa hora como esta? Esta é uma boa hora para provar se, de fato, Deus existe ou não. Enquanto os pensamentos rolavam por sua mente, as lágrimas derramavam do seu rosto e, no seu peito, a sensação era como se apertassem bastante, dificultando sua respiração. Um nó formava-se na garganta e subia até os olhos, transformando-se em mais lágrimas. E assim ficou por um bom período, até que os pensamentos dissiparam; sua mente cansou e adormeceu. Mais tarde, já acordado, observava a enfermeira que preparava sua medicação na mesinha ao lado da cama. De relance, um pensamento veio-lhe à cabeça. Se eu não tomar o remédio a pressão sobe, tenho outro derrame e morro. E quando ela veio com o comprimido para colocá-lo em sua boca, cerrou os dentes com toda força que tinha impedindo-a de fazer seu trabalho. Ela o olhou como quem já esperasse esta atitude, deu um leve sorriso, colocou a mão no seu queixo e forçou-o para baixo, de forma que não pôde resistir e colocou o

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comprimido “goela abaixo” com a ajuda de meio copo de água e disse: - Não faça isso que não dá certo e, além do mais, você é pastor e todo pastor sabe que Jesus cura. Peça a Ele para te curar. É melhor do que não querer tomar o remédio. - Você diz isso porque não está aqui, aleijado, em cima de uma cama, sem poder se mover. Pensou ele, após o comentário da enfermeira. Porém, aquelas palavras ficaram martelando em sua mente. Já havia pregado muito sobre cura, havia estudado todas as manifestações milagrosas que tinha na Bíblia. Lembrouse de uma passagem bíblica que dizia: “e Jesus curou a todos”. Não conseguia lembrar a referência. Também não importava, não iria pregar sobre o texto, todavia, sabia que estava escrito. Se Jesus curou a todos, poderia me curar também. Afinal de contas, sou um servo d`Ele. Mas que bobagem, isso foi escrito há muito tempo atrás, era outra época e só aconteceu para que a igreja tivesse um início marcante. Jesus morreu, ressuscitou e está no céu só aguardando a hora de voltar para julgar a todos. Ela nem sabe do que falou, apenas disse isso porque sabe que sou pastor e queria me irritar. As enfermeiras são assim mesmo, gostam de irritar os pacientes. Entretanto, enquanto pensava na enfermeira, outra passagem bíblica veio-lhe à mente: “Aquele que crer em mim, ainda que esteja morto, viverá”. Havia pregado várias vezes sobre este versículo e, agora, aquelas palavras vinham de dentro como facadas em sua mente e, por mais que tentasse esquecê-las, vinham com muita força em seu intimo e, como já se achava morto, somente precisava crer para que pudesse voltar à vida.

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XVII

As horas passam muito lentamente quando se está deitado, inerte em cima de uma cama. Ficava sempre na expectativa de chegar alguém da igreja para lhe visitar, para saber como está, mas ninguém aparecia. Estava só. A tarde passou lentamente, a noite foi mais longa ainda e logo cedo, de manhã, o enfermeiro do plantão chegou com uma bacia, com água, para lhe dar banho; e passou no seu corpo uma esponja umedecida na água fria, fazendo-o congelar até os ossos. Após o banho, chegou o café da manhã: leite quente, um mingau de aveia, uma fatia de torrada e uma metade de mamão que lhe era colocado raspado na boca, por uma senhora gorda e de pele negra, que havia trazido a comida. Sentia como se ela fosse uma mãe dando comida a um filho pequeno. - É preciso que alguém faça isso, porém não se preocupe, venho dar comida ao senhor enquanto estiver internado - disse ela enquanto raspava o mamão com a colher. Mais uma vez aquela sensação de impotência vinha à sua mente e, agora, era acompanhada pela certeza de que ninguém viria em sua ajuda. Estava sozinho e a morte era o melhor que poderia esperar da vida. O almoço chegou e, com ele, a mesma senhora, com ares de mãe protecionista, para lhe dar a comida na boca. O sabor do alimento era horrível, sem gosto, 137

insípido. Tentou rejeitar, mas a senhora insistiu colocando a colher entre seus dentes de forma que não teve como evitar e, uma vez que a comida estava na boca, teve que engolir. - O senhor nem imagina porque eu estou fazendo isso? - perguntou a mulher, como se quisesse contar alguma coisa. - O senhor não me conhece, porém eu lhe conheço e vou lhe contar como. Tenho um filho que, hoje tem vinte e quatro anos, mas que por um tempo andou metido com drogas; cheguei a tirá-lo da cadeia, algumas vezes; era um sufoco viver com ele; quando usava droga, ficava muito agressivo. Foi quando, um dia, chegou com uma novidade em casa: “mãe, vou ser crente”. Achei que era conversa fiada e não me importei, entretanto, vi que ele começou a mudar e depois me contou que tinha conhecido um grupo de jovens de uma igreja e resolveu mudar de vida; seguir a Jesus e que o pastor era muito legal e estava lhe ajudando a ser uma pessoa melhor. Hoje ele está jogando em um time de futebol em outra cidade e continua indo à igreja; disse que não larga Jesus por nada. Eu sou muito grata ao senhor por tudo que fez por meu filho e, por isso, tento ajudá-lo da maneira que posso. O nome do meu filho é Jamerson. Acho que o senhor não lembra mais dele, já faz algum tempo que ele viajou. Assim que ela falou o nome do rapaz, ele se lembrou. Um jovem que tinha chegado à igreja Redenção tempos atrás. Ele tinha os traços dela e lembrou-se mais facilmente. Sentiu-se mal com esta lembrança; não tinha dado a atenção devida ao rapaz; lembrou-se dele chegando à igreja, sujo e dizendo que precisava de ajuda, pois não agüentava mais a vida que tinha. Deu alguns conselhos e mandou-o para casa tomar um banho. Não 138

gostava de criminosos nem drogados na igreja, podiam causar problemas. Mas, no domingo seguinte, ele voltou e parecia outra pessoa, limpo, de cabelo cortado. Disse à algumas pessoas: -fiquem de olho neste rapaz, ele deve estar aqui com interesse em alguma garota ou, então, veio espionar para roubar mais tarde. Se perceberem alguma coisa estranha me digam logo que eu o coloco para fora. Mas o tempo passou e o rapaz se firmou na igreja, batizou-se e fazia um ótimo trabalho de evangelismo com os jovens. Conseguiu uma vaga de jogador de futebol e foi embora. Nunca mais ouvira falar dele, até este dia. Realmente sentiu-se mal com cada colher que a senhora colocava em sua boca. Devia ter dado mais atenção ao rapaz. Após o almoço, chegou Dr. Pedro Albuquerque com os exames na mão. - Como passou Sr. Lucas? Espero que tenha resolvido tomar os remédios; a enfermeira me contou que não está colaborando com o tratamento. Tem que colaborar se quiser melhorar. Peguei agora os resultados dos seus exames. Glicose um pouco alta, colesterol altíssimo, o resto está dentro dos padrões, mas a grande preocupação é a pressão arterial que não quer ceder. É uma luta difícil, entretanto, nós vamos vencer, nada que uma boa dieta e uma medicação correta não resolva. Enquanto o médico falava, alguém bateu à porta. Lucas virou a cabeça, curioso com esta visita inesperada e, de súbito, seus olhos deram um salto de espanto. Só poderia ser uma miragem, ou então ela teria vindo para se vingar dele. O que a Rute estava fazendo ali? - Este é o quarto de Lucas Ferraz? Pergunta ela, antes de entrar. 139

- Sim - respondeu o médico. - E a senhora quem é? - Sou a... (hesitou um pouco). - Sou a ex-esposa dele. - Há! É a senhora que está cuidando da estada dele no hospital. - É sim. E como ele está? - O quadro está estável, todavia a pressão arterial tem que baixar mais. Os movimentos ainda não respondem, isso pode levar tempo, mas com esforço temse uma boa chance de recuperação. Tenho aqui o número de uma clínica de fisioterapia para os exercícios de recuperação. Pode procurá-los, que eles atendem em domicílio. Enquanto conversava com o médico, vez ou outra ela olhava para Lucas deitado na cama e percebia a expectativa em seus olhos por vê-la ali. Após o médico ter saído, sentou-se à beira da cama, segurou-lhe a mão e ficou olhando para ele com uma ternura que emocionava a qualquer um, por mais forte que fosse. Ele, nesta circunstância, não se importou por não poder falar, pois mesmo que pudesse não teria palavras para expressar o que sentia; simplesmente deixava que as lágrimas descessem pelo rosto e se perdessem no travesseiro. O único desejo que tinha era de poder retribuir aquele afeto que ela lhe passava, segurando e acariciando a sua mão. Queria apertar-lhe a mão. Reunia toda força e concentração que tinha para retribuir aquele gesto; mostrar-lhe que estava contente com a sua presença, porém era inútil, nem um dedo movia-se. Apenas os olhos poderiam demonstrar o que sentia, e ela compreendeu.

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- Somente pude vir hoje porque estava resolvendo os assuntos da sua internação - disse ela quebrando o silêncio. - O irmão que lhe trouxe aqui, procurou-me ainda no domingo à noite, contando o que havia acontecido e disse que eu era a única que poderia resolver as coisas em seu nome, pois ainda estamos legalmente casados. Tive que pegar o dinheiro do domingo para cobrir o cheque que ele deu como caução para o seu internamento. O dinheiro deu para dois dias e tivemos que vender o carro para que você continuasse neste quarto, senão iria para a enfermaria do serviço público. Ele ouvia tudo que Rute dizia sabendo que, todas as atitudes tomadas eram as melhores possíveis, e sentia segurança em tudo o que Rute dizia. Ela sempre soube se sair em situações difíceis, era sua especialidade; e, neste momento, estava se mostrando tão superior, cuidando dele, resolvendo aquela situação embaraçosa, mesmo depois de tê-la abandonado sem nenhum tipo de ajuda. Realmente, era uma pessoa superior a ele, pena que só começava a perceber isso agora. - O irmão Antônio Alves colocou toda igreja para orar por você, para que se recupere logo. - continuou ela. - As crianças também estão preocupadas. Lucas Júnior quis vir, mas eu disse a ele que não poderia entrar no hospital ainda, por causa da idade, e Lívia não quis vir. Dito isto, ele pensou: Lívia tem um coração de ferro, igual a mim. E sentiu um certo orgulho disso. - Não posso ficar com você o dia todo, tenho meu trabalho esperando-me, mas venho todas as tardes para ver como está e trazer alguma coisa que precise.

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Enquanto Rute falava, entrou a enfermeira com a medicação do horário. - Boa tarde! A senhora é a esposa dele? perguntou ela, enquanto preparava a medicação. - A ex. - disse Rute. E mudando de assunto perguntou: - Como está sendo feito para alimentá-lo? Tem alguém para dar a comida a ele? - Bem, isso é função do acompanhante. Não temos obrigação nem tempo de dar comida na boca a ninguém mas, no caso dele, não se preocupe, pois tem uma senhora da cozinha que me disse que devia muito a ele e que viria todas as refeições para alimentá-lo. Rute virou-se para Lucas, e disse sorrindo: - Muito bem! Um dia no hospital e já arrumou um anjo protetor. Ainda bem, pois é um problema a menos que tenho a resolver. Depois procuro esta senhora para conhecê-la e agradecer. Rute ficou sentada à beira da cama por algum tempo, dizendo coisas que ia se lembrando para poder mantê-lo distraído. Próximo do final da tarde, vistoriou novamente o quarto, arrumando os lençóis e verificando se o gotejamento do soro, preso ao seu braço, caíam normalmente. Segurou-lhe novamente a mão e disse: - Bem, tenho que ir. As crianças estão sozinhas em casa e não posso demorar muito. Amanhã voltarei. Soltou a mão e foi embora. Outra vez sozinho, os pensamentos novamente lhe dominavam a mente. Porém, agora, a sensação que tinha era pior do que antes. A atitude de Rute cuidando dele, aquela senhora que se dispunha a alimentá-lo, não merecia aquilo. Rute devia esquecê-lo, ele a tinha abandonado; não tinha mais nenhuma relação com ela e, 142

agindo daquela forma, o deixava sem jeito, pois sabia que não merecia aquilo, muito pelo contrário, merecia dela desprezo, por tê-la desprezado. E aquela senhora, se ela soubesse como tratou seu filho, achava que ele era um “safado” que só queria “pegar” as meninas da igreja; chegou a pensar que ele queria roubar o dinheiro do templo, deu graças a Deus quando ele disse que iria embora, sentiu-se livre de um peso. E a igreja, ele sim havia roubado, abandonado, destruído a moral dela. Agora, ela orava por ele pedindo a Deus para que recuperasse a saúde. Sentia-se envergonhado com cada atitude de bondade que lhe era prestado e as lágrimas novamente se derramavam pelo rosto, queria chorar alto, sentia-se arrependido do que era. Era mau, porém todos lhe tratavam com amor, e isso era como um tapa em seu rosto e colocava em destaque a sua maldade. As lágrimas que desciam do seu rosto eram como uma enxurrada arrastando tudo que vê pela frente e, além disso, um fogo ardia em seu peito, queimando todo o seu interior; queimando tudo que não servia. Sentia-se vivo e se tornava, aos poucos, uma nova pessoa. No dia seguinte estava mais conformado, havia dormido bem à noite e sentia-se descansado. Colaborou com a medicação, com a alimentação e até esboçou um sorriso para a senhora que lhe dava a comida. Estava ansioso para que a tarde chegasse logo, queria ver Rute novamente, sentia-se como naqueles dias de namoro, quando contava os minutos para se encontrarem, pois agora, vê-la era a única felicidade que ele tinha. Assim que ela chegou, sentiu uma alegria e novamente esboçou aquele sorriso quase imperceptível.

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Olhou para a porta e viu Lívia parada, e seu coração começou a bater forte novamente. - Eu contei como você estava e ela quis vir disse Rute, enquanto ajeitava os lençóis. Lívia entrou e parou de frente a ele, e Rute disse: - Eu vou até o doutor Pedro, que está no corredor, perguntar se está precisando de alguma coisa. E saiu. Lucas olhava para Lívia, ali em pé, parada de frente a ele. Ela era forte como ele - pensou. Estava se tornando uma linda mulher, tinha os olhos da mãe, ativos e sinceros que o observavam como dois raios de luz que penetravam por uma janela de um quarto escuro e clareava todo o ambiente. Queria abraçá-la como fazia quando moravam juntos. Ficavam agarrados e jogavamse juntos na cama ou no sofá. Já fazia tanto tempo que não se abraçavam, que nem se lembrava do seu cheiro. Como pôde perder isso!? Nada no mundo poderia substituir o prazer de estar com seus filhos, de vê-los crescer de participar de cada etapa daquelas vidas que ele havia formado. Pena que havia se dado conta tarde demais. Olhava para Lívia e percebia que uma lágrima solitária descia lentamente pelo seu rosto. Não pôde se conter e os seus olhos jorravam novamente. Estava se tornando um chorão, acabaria se “desidratando pelos olhos”. De repente, Lívia atirou-se em sua direção, agarrou-lhe o pescoço, encostou-se testa com testa; podia sentir suas lágrimas descendo pelo rosto; ela repetia ao seu ouvido: - Não quero que morra, não quero que morra, papai!

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Ela não era tão forte como ele pensava. Ainda bem! Aquilo realmente o havia emocionado; sentia o coração acelerado no peito e um nó se formara na sua garganta, quase o impedindo de respirar; queria abraçála, mas não podia; mas estava feliz. Havia sentido novamente o cheiro de sua filha. Ela o amava e isso era o suficiente, poderia até morrer ali, naquela hora, que morreria feliz. - Desse jeito, antes de se recuperar do derrame vai ter um enfarte - disse o Dr. Pedro, entrando no quarto, acompanhado por Rute. Lívia levantou-se e foi abraçar a mãe, e Dr. Pedro passou a examiná-lo. - Apesar do excesso de emotividade, ele tem melhorado - disse Dr. Pedro. - Quando passar esta fase de fortes emoções, com certeza, a pressão vai baixar e estabilizar e, talvez, vá para casa antes do previsto. E esta notícia alegrou a todos. A tarde foi tranqüila. Rute, sentada ao lado da cama, dava-lhe diversas informações para distraí-lo e Lívia, sentada do outro lado, acariciava-lhe os cabelos. E, como todo bom momento, logo passou.

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XVIII

À noite, sentia-se tranqüilo, sossegado e dormia profundamente. Subitamente, no meio da noite, abriu os olhos. O sonho! Lembrou-se. A sensação que tive é igual à sensação que sinto agora, as mãos atadas, sem poder me livrar e tudo por causa de uma mulher, que não sei de onde veio, seduziu-me e atingiu o meu ponto fraco; levou-me até às nuvens e me atirou de lá sem dó nem piedade. Como fui tolo em deixar-me envolver deste jeito e chegar a pensar que fosse amor, algo que só fez me destruir; que me afastou de tudo que eu tinha e quase me matou. Não por ela em si, mas pelo pecado que ela atraía e no qual eu deixei me envolver. Como me lembro daquele sonho. No começo era bom, sentia-me flutuando, Entretanto, depois se tornou em morte e foi quase o meu fim. Somente me livrei por causa do nome. Ah, o nome! Como pude me esquecer do nome, como fui cego; o pecado cegou-me os olhos e caí em cada uma das suas armadilhas. Preciso libertar-me, preciso do nome, a minha vida depende deste nome e apenas dele posso esperar alguma coisa. Mas como fazer, como utilizar deste nome para me libertar se nem posso pronunciá-lo? Parou um pouco, precisava se concentrar, sua vida dependia disso. Esta não era como as outras orações que fizera. As outras eram apenas repetições de frases decoradas que aprendera no seminário, não serviriam 147

agora. Precisava ser sincero, precisava da verdade, não poderia enganar a Deus e nem a si mesmo. E em sua mente começou: Deus... Hesitou um pouco, não sabia como começar. Imaginou como teria sido quando o filho pródigo avistou, ao longe, as terras do pai sem saber como retornar e, em sua mente, repetiu a frase: “pai, pequei contra o céu e contra ti, não sou digno de ser chamado teu filho, faze-me como um dos teus servos”. É isso! Continuou em sua mente. Pequei, pequei muito, menti, roubei, traí, e por aí vai. Realmente, não sou digno de ser Teu filho, não mereço o Teu amor, mas o Teu amor é derramado sobre mim através de todos que me rodeiam, e isso me deixa constrangido, porque sei que não sou merecedor; merecia sim, o desprezo de cada pessoa que conheço, mas somente recebo o amor. O Teu amor cobre multidões de pecados e eu tenho visto, nestas pessoas que me rodeiam, que elas têm o teu amor, pois de outra forma como poderiam ter me ajudado depois de tudo que fiz? Meu Deus, como fui tolo, durante tantos anos lendo a Bíblia, pregando, mas sem nunca conhecer este amor; estudei tanto sobre Deus e nunca O conheci de verdade. Quero conhecer-Te Deus; o pecado que cometi tornou-se morte e preciso de vida, da Tua vida. Somente o teu amor pode me restaurar, libertar-me desta prisão que eu mesmo me coloquei. À esta altura não continha mais as lágrimas e sentia como se tivesse colocado um peso em seu peito, que se movia, lentamente, em direção à cabeça e parava próximo à boca, querendo sair, mas não conseguia. E ele continuava: meu Deus, perdoa-me, como me arrependo. Foram tantas as pessoas a quem magoei, pessoas que me amam e a quem tanto machuquei. E a ti 148

meu Deus, que me amou, deu-me tudo para viver feliz e eu joguei tudo fora por causa de um desejo da carne. Sei que não Te mereço, porém Te quero. Não me resta mais nada; nada tenho que possa te oferecer, pois tudo que sou é este resto de homem jogado em cima desta cama; este fôlego de vida, e isso eu Te dou. A minha vida é tua, faz dela o que bem quiseres. Não quero ser um filho, contudo, quero ser Teu escravo, porque eu não mereço ser chamado de Teu filho. Tu és a minha única esperança e dependo, unicamente, de Ti. Sentiu o peso apertar-lhe a garganta, reuniu toda a força que tinha e, em sua mente, vinha-lhe cada vez mais forte o nome, respirou fundo e gritou: - JESUS. Todo o peso que tinha imediatamente saiu pela boca, acompanhando aquele grito e se perdendo no ar. Uma paz inigualável inundou-lhe o ser e sentiu a presença de Deus envolvendo-lhe, derramando amor em seu coração. Ficou por várias horas repetindo simplesmente o nome de Jesus, sentindo sua presença, seu amor, sua paz, até que adormeceu. Pela manhã, assim que acordou, rapidamente pensou que tudo tinha sido um sonho e, para confirmar, repetiu novamente o nome de Jesus e podia ouvir, nitidamente, cada letra deste nome. E fechando os olhos, em um tom suave disse: - Obrigado, Pai! Estava ansioso pela chegada de Rute, queria mostrar-lhe a novidade e também precisava dizer-lhe muitas coisas. Às 14h00 ela chegou. Trouxe algumas frutas, iogurte e colocou-os no frigobar e, como de costume, passou a vistoria no quarto; arrumou os lençóis

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e sentou-se ao lado da cama para lhe trazer as notícias de fora. Antes que ela começasse a falar, ele disse: - Perdoe-me! Rute ficou parada como se tivesse levado um susto, franziu a testa e perguntou: - Eu ouvi o que ouvi? - Ouviu sim - disse ele. - E vou repetir: perdoeme. - Como foi isso, como voltou a falar tão rapidamente? - Depois conto. Agora, preciso que você me perdoe. - Você sabe que se não tivesse perdoado não estaria aqui. - Mas eu preciso ouvir você dizer. Rute olhou profundamente em seus olhos, já cheios de lágrimas, e percebeu a sinceridade que havia neles; refletiu alguns instantes, enquanto um flash-back dos acontecimentos passava-lhe pela mente, em questão de segundos. Segurou-lhe a mão e disse: - Eu te perdôo Lucas, eu te perdôo. - Obrigado! - disse ele, novamente chorando e sentindo um alívio na alma. - Agora me conte o que aconteceu? - perguntou Rute. E Lucas, com um largo sorriso no rosto, disse: - Esta noite eu recebi uma visita muito importante. - E quem veio lhe visitar no meio da noite? perguntou ela. E Lucas continuou: - Ele não precisa marcar horário, chega quando se precisa e nunca mais vai embora. Mas deixe eu lhe 150

contar do começo para ficar mais claro. Sabe Rute, quando se está numa situação como esta pensa-se muitas coisas, principalmente coisas ruins; não há mais um incentivo para viver e a única coisa que nos resta é esperar a hora da morte e desejar que ela chegue o mais breve possível. Todavia esta noite eu acordei com um pensamento. E se tudo aquilo que sempre ouvi sobre Deus fosse verdade de fato? Este era o momento de descobrir. Então, chamei por Ele e Ele veio. Somente agora entendi porque está escrito: “buscar-me-eis e me achareis quando me buscares de todo vosso coração”. Ele me mostrou que a primeira coisa a fazer era me arrepender, pois o meu coração estava muito sujo e precisava ser limpo. Daí, chamei pelo nome de Jesus e toda a sujeira do meu coração, de repente, saiu e comecei a falar. Foi assim que Ele me visitou e restaurou-me. Não me pergunte porque não estou de pé, porque não sei ainda, mas sei que vou voltar a andar; não sei como e não sei quando, mas tenho esta certeza dentro de mim. O interessante disso tudo é que há muitos anos que sei tudo isso; ensinei a várias pessoas, entretanto, neste momento, é diferente, pois estas palavras deixaram de ser apenas um conhecimento teológico para ser uma verdade em minha vida. São coisas muito simples, mas que agora fazem uma enorme diferença. Rute olhava-o diretamente, tinha a face molhada pelas lágrimas que desciam, beijou-lhe a mão e disse: - “Ainda que sejamos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-se a si mesmo”. E ficaram em silêncio, olhando um para o outro, por um bom tempo.

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XIX

A recuperação estava sendo rápida e, antes do previsto, Lucas recebeu alta. Com a sobra da venda do carro compraram uma cama hospitalar e uma cadeira de rodas; pagaram o tratamento de fisioterapia que começou em casa, ajudando no processo de recuperação dos movimentos. Um dia após ter voltado para casa, recebeu a visita do irmão Antônio Alves. Ele chegou, sentou-se na cadeira colocada ao lado da cama, ficaram se olhando, por alguns segundos, deram uma risada e o irmão Antônio Alves disse: - Você está bastante diferente da última vez que te vi. - Sou um novo homem, nasci de novo respondeu Lucas, ainda com o sorriso no rosto. - É, eu sei - disse o irmão Antônio Alves. - E mesmo que não tivessem me contado, está estampado em seu rosto. Ficaram conversando por um bom tempo. Lucas contava-lhe sobre suas transformações e o irmão Antônio Alves ouvia atentamente. Na tarde do primeiro sábado, após ter retornado para casa, recebeu a visita do irmão José Carlos, que o tinha levado ao hospital e que ficara responsável pelos objetos da Igreja Mundial da Libertação. Chegou meio 153

acabrunhado, sentou-se na cadeira ao lado da cama e disse: - É triste ver o senhor nesta situação, pastor, mas graças a Deus que está vivo. Quando levei o senhor para o hospital, cheguei a pensar que estivesse morto. - E eu estava - Disse Lucas. - Somente agora estou vivo e bem melhor do que antes. José Carlos olhou-o atravessado, desconfiando de um pouco de insanidade e se perguntando como pode um homem aleijado, em cima de uma cama, dizer que agora está melhor do que quando estava são. Lucas olhou para ele e percebendo sua inquietação disse: -Você já leu 1º Coríntios 13, Zé Carlos? Ele balançou a cabeça dizendo que sim. E Lucas continuou: - Neste texto de Coríntios há uma das melhores definições sobre o amor; transformou-se em várias músicas e muitos livros foram escritos sobre este texto. Mas apenas poderemos realmente compreender o que está escrito, se colocarmos em prática cada uma das manifestações sobre o amor que é descrito nele. Você pode ter o que for, se não tiver amor, e principalmente o amor de Deus em sua vida, você não terá nada; não será nada, estará morto, e era assim que estava. Hoje tenho vida e a tenho em abundância. Mesmo que você me veja aqui deitado nesta cama, limitado, a cada dia tenho aprendido que Deus é ilimitado e, se tivermos fé, venceremos qualquer barreira. Descobri muitas coisas nestes dias, coisas que, se eu tivesse descoberto antes, a minha vida seria outra. Sabe por que eu cheguei a este ponto? Porque a Bíblia diz que “o pecado seca os ossos”

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e quem “semeia pecado, colhe corrupção” e “tudo que o homem plantar isso ele vai colher”. José Carlos franziu a testa sem entender onde Lucas queria chegar e comentou: - O senhor disse que aprendeu coisas novas, mas o senhor é pastor há muito tempo e tudo que o senhor disse já sabia antes de ficar doente. Lucas sorri para ele e diz: - Mas é exatamente aí que está a diferença, meu caro, pois sempre soube da existência destas palavras e de muitas outras. Eram apenas conhecimentos teológicos, não tinham nenhum valor prático para mim; eram tradições religiosas que eu havia aprendido durante todos estes anos, desde que me converti, faziam parte apenas do meu exterior. Agora, porém, descobri que quando a verdade entra no meu coração, quando esta palavra tornase uma verdade no meu íntimo, ela produz resultados que modificam a minha vida, separa o que é carnal do que é espiritual. Como está escrito: “A palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes e penetra até à divisão da alma, do espírito, de juntas e medulas e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. Este versículo, há muito que tenho ele decorado, mas agora é que o mesmo penetrou no meu íntimo, discernindo as intenções do meu coração. Vou lhe dizer uma coisa, Zé Carlos, e quero que você aprenda isso: vale mais apenas um versículo, que seja verdade em sua vida, do que toda uma teologia baseada em mentiras. José Carlos encostou-se na cadeira como se tivesse recebido um golpe no peito, ficou em silêncio por uns segundos e, olhando para Lucas, analisando o contraste entre um homem doente em cima da cama e um 155

homem de fé que surgia das suas palavras. Depois, como se acordasse de uma hipnose, ajeita-se na cadeira e pergunta: - Pastor, mudando de assunto, e a nossa igreja, como é que fica? - Não fica! - respondeu prontamente Lucas.Aquele trabalho se iniciou baseado na mentira e não tem como dar continuidade a um trabalho como este. - E os irmãos? Estão aguardando uma definição sua. - Diga a eles que a igreja fechou e que devem procurar uma igreja perto de suas casas. E se tiverem alguma coisa a me perguntar ou quiserem saber como estou podem vir aqui me visitar; estou sempre à disposição, não saio para nenhum lugar. E sorriu. - E o equipamento de som, os instrumentos e os móveis? - Não é você que está cuidando deles? Venda tudo, pague as dívidas dos aluguéis do prédio e das cadeiras e alguma dívida mais se houver, e se sobrar alguma coisa, entregue de oferta na igreja Redenção, de onde eu retirei a maior parte. - Mas pastor! - insistia José Carlos. - E a revelação que o senhor teve sobre a nossa igreja, de que ela seria a maior desta cidade, e sobre a salvação das pessoas que estão presas do outro lado da cidade? - Meu irmão - disse Lucas. - Sei que você pode me odiar por isso e não tiro seu direito; tudo que foi dito, naquela igreja, fui eu que inventei; nunca teve revelação nenhuma; foi uma farsa e agora sofro as conseqüências dos pecados que cometi. Porém, Deus é fiel e tem me restaurado. Agora, quero somente viver a verdade.

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Dito isto, despediram-se e o irmão José Carlos foi embora e fez tudo conforme Lucas havia pedido. Os dias passaram-se e a recuperação de Lucas mostrava avanços; os braços adquiriram força novamente e as pernas, aos poucos, iam se movendo. Os dias eram tranqüilos; ficava toda à parte da manhã sozinho, enquanto Rute e as crianças estavam na escola. Aproveitava para passar a manhã conversando com Deus. À tarde, geralmente se ocupava de ouvir Lucas Júnior ler a Bíblia para ele ouvir ou contar os seus feitos na escola. Nos finais de semana, recebia várias visitas que saíam maravilhadas com sua rápida recuperação e, principalmente, com suas palavras de verdade e vida. Após alguns meses, quando já se sustentava de muletas, chegou para Rute e disse: - Quero ir à igreja Redenção. Dede que saíra do hospital, nunca havia demonstrado qualquer interesse de ir à igreja ou a outro lugar. Rute ficou alegre com o pedido que fizera porque sabia que ele aguardava o momento certo. Foram de táxi e, pelo caminho, ele observava cada reforma ou novo ponto comercial que surgira durante aquele período que não passava por ali. Chegando ao templo, o táxi parou no mesmo local onde anteriormente ele parava o carro. Rute pagou ao taxista, desceu, abriu a porta e ajudou-o a se equilibrar nas muletas. Uma vez equilibrado, Lucas levantou a cabeça olhando ao redor, verificando as árvores que cresceram, o jardim bem cuidado e uma nova cor na pintura da igreja. Assim que ele desceu do carro, todos, que estavam à entrada da igreja, pararam e observaram cada movimento que ele fazia. Irmã Elza adiantou-se até ele e disse:

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- Pastor Lucas, seja bem-vindo na sua volta; sabia que este dia chegaria. - Obrigado, irmã Elza - disse ele ensaiando os primeiros passos para entrar na igreja. Rute posicionou-se de um lado e irmã Elza do outro, escoltando-o para entrar no templo. Todos continuavam parados, observando sua lenta entrada. Assim que passou pela porta, encontrou-se com irmão Antônio Alves que disse: - Finalmente resolveu tirar o mofo e sair de casa. - Eu estava esperando o momento certo - disse Lucas, sem parar de caminhar. Irmão Antônio Alves foi se preparar para o início da reunião, enquanto Lucas foi se sentar. Acomodou-se na última fileira de bancos e várias pessoas vieram cumprimentá-lo antes do começo da reunião. Os trabalhos foram iniciados e Lucas aproveitava cada momento que se seguia. Cada música que era cantada, cada versículo que era lido, cada palavra que era dita, eram aproveitadas como sendo de vital importância. A reunião foi bastante dinâmica e com muitas participações, em sua maioria por jovens. Sem muitos rodeios, irmão Antônio Alves chega ao microfone e diz: - Meus amados, estou muito feliz. Está conosco, nesta noite, um homem que faz parte deste corpo e que, depois de um tempo afastado, hoje retorna ao nosso convívio. Pastor Lucas, seja bem-vindo de volta ao lar. E como sei que tem algo para nos dizer, não quero me demorar muito; a palavra é sua, tem o tempo que quiser para transmitir aquilo que tem a dizer.

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Lucas levantou-se, lentamente, apoiando-se nas muletas e caminhou até à frente. Colocaram uma cadeira no degrau de cima, próximo ao púlpito, e ele fez sinal pedindo que a colocasse embaixo, próximo às primeiras fileiras de bancos. Sentou-se, apoiou as muletas de lado, pegou o microfone e começou: - Vocês me desculpem pela lentidão. É porque ainda estou em primeira marcha, logo estarei passando a quinta. Todos riram. Ele ajeitou-se na cadeira e continuou: - É difícil passar o que eu tenho a dizer, pois não tenho um esboço teologicamente montado sobre o assunto que quero falar e, mesmo que tivesse, não surtiria o efeito desejado. Por isso, vou procurar usar alguns exemplos bíblicos para tentar explicar a vocês aquilo que aconteceu comigo, da forma mais resumida possível, e o resto o Espírito Santo fará; trazendo ao coração de cada um a revelação, para que haja uma transformação no nosso interior. Se isto não acontecer, tudo que for dito aqui não terá nenhum valor. Acho que todos aqui conhecem a história de Jó, de como Deus tirou tudo que ele tinha e depois devolveu em dobro. Muitos se perguntam porque Deus fez aquilo, pois Jó era um homem justo e temente a Deus, bem mais do que muitos de nós aqui. Mas no final do livro, nas palavras finais de Jó descobrimos o que Deus queria que ele aprendesse: “antes eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te vêem”. Assim como Jó, antes eu não conhecia a Deus de verdade, e tudo que eu fazia em nome de Deus era para manter uma profissão; para manter a minha imagem de bom cristão. Contudo, o meu interior era vazio. Estudei durante vários anos sobre 159

Deus; ensinei durante vários anos sobre Deus; levei várias pessoas a crer na existência de Deus; apesar de tudo isso, não conhecia Deus e, na hora da necessidade, percebi que tudo que sabia era vazio, porque não tinha Deus morando em meu ser. Sabe irmãos, poderia passar várias horas tentando explicar para vocês o que aconteceu comigo; dar exemplos de como me tornei uma nova criatura.Todavia, a única coisa que fará com que se perceba a realidade que eu estou falando é se vocês se colocarem diante de Deus e pedir a Ele que lhes mostre a verdade, e como aconteceu comigo, acontece com todos os que buscam a Deus: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. E uma vez libertos, poderemos viver, única e exclusivamente, para Deus. Temos que buscar a verdade, meus irmãos. Porque é a verdade que direciona os nossos passos; nosso Deus é conhecido como Pai da verdade e, como filhos d`Ele também temos que andar na verdade. E quando eu falo sobre verdade, falo da verdade que brota do nosso interior, a verdade que vem de Deus e modifica todo o nosso exterior; dando frutos que são para a vida, porque é pela árvore que se conhece se os frutos são bons ou maus. Uma das coisas que tenho feito, ultimamente, e que desejo que cada um de vocês faça é que, a cada dia, examinem os seus corações, conheçam a si mesmos; descubram quais as suas falhas e procurem modificar. Uma vez com o interior limpo, todo o seu exterior refletirá o que você é por dentro, como está escrito: “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Na volta para casa, eles receberam a carona de um irmão. No caminho, enquanto o irmão fazia várias perguntas sobre sua nova posição como cristão, Lucas 160

pensava em sua vida, naquilo que aprendera de Deus e como faria para que outros conhecessem a Deus, como ele agora conhecia, e sabia que teria muita dificuldade pela frente. Porém, sentia forças para seguir batalhando pela fé, até o dia, que Cristo o chamasse para o lar eterno.

FIM

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