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Cozinha_futurista

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A cozinha futurista

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A cozinha futurista
de Filippo Tommaso Marinetti

Introdução, tradução e notas: Maria Lúcia Manicelli

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Edição: Joana Monteleone Assistente editorial e projeto gráfico: Marília Chaves Revisão: Diagramação e capa: Marília Chaves Imagem da capa:

[2009] Todos os direitos dessa edição reservados à ALAMEDA CASA EDITORIAL Rua Iperoig, 351 - Perdizes CEP 05016-000 - São Paulo - SP Tel. (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

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Sumário

Introdução
Futurismo A Gastronomia na literatura: prazeres sinestésicos A cozinha Futurista

MárIo de AndrAde, oswAld de AndrAde e A CozInhA FuturIstA
Mário de Andrade na Cozinha Oswald canibal de Andrade Marinetti Antropófago

A CozInhA FuturIstA e lInguAgeM
O Futurismo: proposta de revolução lingüística A Cozinha Futurista e as inovações na língua Dificuldades da tradução

A CozInhA FuturIstA – trAdução
Uma refeição que evitou um suicídio O manifesto da cozinha futurista A revolução cozinhária Os cardápios futuristas Receituário futurista Pequeno dicionário

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indd 6 7/4/2009 15:51:16 .ConClusão reFerênCIAs bIblIográFICAs ApêndICe Capas de diferentes traduções do livro A Cozinha Futurista Come se nutriva l’ardito Cozinha futurista.

indd 7 7/4/2009 15:51:16 .Introdução A Cozinha Futurista S Uma refeição que evitou um suicídio Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 8 7/4/2009 15:51:16 .

uma colônia inglesa no Egito. quando estuda Letras na Sorbonne. entre colonizadores e colonizados. Estudou em uma escola de jesuítas franceses. a revolta contra o status quo social pôde então se desenvolver. Em língua francesa.O FuturismO Em 20 de fevereiro de 1909. Educado em colégio católico.indd 9 7/4/2009 15:51:16 . O menino Filippo nasceu em Alexandria. fundador e o maior expoente do movimento futurista. 9 Cozinha futurista. Conhece toda a agitação cultural e artística daquela cidade. em 1876. aproxima-se de seus ideais. o futuro poeta presenciava a submissão e as condições de vida da população autóctone. Aos dezessete anos descobre Paris. o manifesto atingiria um número maior de leitores. pôde observar a distância entre discurso e atitude. convive com os simbolistas e decadentistas. o jornal francês Le Figaro publicou o Manifesto Futurista. Quem assinou o manifesto foi Filippo Tommaso Marinetti. Fazendo parte da elite dominadora. o colégio Saint-François Xavier.

sendo depois seguido por Dadá e pelo surrealismo. que ele julga estagnadas. é liberal. sua ambição essencial é a de transformar a cultura e literatura italiana. A violência aparece apenas no discurso literário. advogado. mas cumpre o serviço militar e participa da Primeira Guerra como voluntário. velocidade revolucionaram o mundo e passaram a ser os novos ideais de beleza. o mesmo torna-se impraticável quando se trata de um grupo que deveria estar unido em torno (ou em busca) de um ideal estético/artístico. mas suas filhas estudam em colégio de freiras. O futurismo nasceu sob o signo do mundo moderno. Os primeiros vinte anos do século XX marcam o advento do avião. Costuma-se dizer que a história do futurismo confunde-se com a de seu idealizador. Máquinas. volta a Paris e nunca mais se envolve com a justiça. Marinetti foi um filho afetuoso e dócil. promulga-se anticlássico. uma vez satisfeito o orgulho paterno. pessoa gentil no dia-a-dia. do domínio do homem sobre a nature- 10 Cozinha futurista. o gosto pelo escândalo e o exibicionismo eram arquitetados. Havia sim contradições na base do futurismo e. mas adere e defende o fascismo. depois tornou-se pai e esposo exemplar. Marinetti. mas veste a farda da Academia. para entendê-las. do automóvel. rompe com todas as tradições e inaugura o estilo das vanguardas do século XX. Com o Manifesto do Futurismo Marinetti inova. imagina para o filho uma carreira jurídica e o faz voltar à Itália para estudar Direito. a não ser no banco dos réus. como forma de difundir os ideais futuristas. basta verificar as contradições culturais de seu líder: Marinetti diz-se anticlerical. porém.Fillippo Tommaso Marinetti Seu pai. Mas se os princípios são de caráter universal e seu líder despende forças para difundir os ideais pela Europa e pelas Américas. é indisciplinado. eletricidade. Se todas essas contradições podem conviver no espírito de apenas uma pessoa.indd 10 7/4/2009 15:51:16 . Marinetti se forma na Universidade de Gênova em 1899.

instrumento multiplicador dos poderes do homem. Como diz Aurora Fornoni Bernardini. numa poesia febril.A cozinha futurista za. a idolatria pela máquina. dessacralizadora. até 1 2 Bernardini. em que o princípio estético defendido é o verso livre. um mundo de máquinas. de multidões e de velocidade. Petrópolis: Vozes. A literatura então procura transmitir o espírito do mundo moderno. defende – além das palavras em liberdade – a exaltação da intuição contra a inteligência. São Paulo: Perspectiva. Gilberto Mendonça. Aurora Fornoni. cheia de gritos que exclamam e interrogam. os três pilares que sustentam o Futurismo são o verso livre (“perene dinamismo do pensamento. desenrolar ininterrupto de sons e de imagens”). o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (“Stirner mais do que Bakunin”). dividindo-o em três fases. sempre de acordo com a atuação de Marinetti: “de 1905 a 1909.indd 11 7/4/2009 15:51:16 . p. p. quando se redige a maior parte dos manifestos e se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade. o mais fecundo do futurismo. No plano plástico. O futurismo italiano. já que os artistas procuram apresentar a realidade em pleno movimento e não nas suas formas essenciais. o movimento implicou nova ruptura com a tradição. de 1909 a 1919. Podem-se estabelecer algumas datas limítrofes para o Futurismo. 1999.10 Teles. a reação contra os limites e padrões estabelecidos. e o futurismo se transforma em porta-voz oficial do partido. por sua vez. 1980. 15a. 86 11 Cozinha futurista. como se o novo precisasse da revolução para se libertar do antigo. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro.”2 O crítico Luciano de Maria divide o futurismo de Marinetti em apenas duas fases: o período heróico. a primazia do viril ante o feminino. a exaltação da energia e da ação.1 Na base do discurso futurista do início do movimento existe um discurso subliminar: uma solicitação antiburguesa. a reivindicação da valentia e da audácia. quando se fundou o fascismo. e a de 1919 em diante. O futurismo literário. ed.

Na correspondência de Mário de Andrade a Manuel Bandeira podemos encontrar em carta datada de 14 de maio de 1926 . mesmo tendo esta influência sido negada pelos autores. esta foi assimilada e passou a integrar o modernismo. Aurora Fornoni. data da morte de Marinetti. Mário de & BANDEIRA.época da primeira visita de Marinetti ao Brasil . cit. neste caso. 12 Cozinha futurista. 11 ANDRADE. 3 4 Bernardini. introdução e notas: Marcos Antonio de Moraes. p. pp. São Paulo: Edusp/IEB. Correspondência. e um “segundo futurismo”. Op.Fillippo Tommaso Marinetti 1920. como no caso de alguns dos primeiros modernistas brasileiros. A influência existe. 2000. Marinetti exerceu inegável influência em todas as literaturas modernas. 294 a 297. foi oswaldianamente antropofágica: recolhida a influência. Mário de Andrade estava já em desacordo com a postura política de Marinetti e não queria ter seu nome associado à figura do líder futurista/fascista. Eliot e outros. ou “que convém tratá-lo com a maior desimportância até com uma desimportância afetada para que ele não imagine que a gente está indo na onda” 4 Na realidade. Organização. que veio fazer a gente perder quase metade do caminho andado”. é fato que o movimento perdeu sua força inovadora à medida que se aproximava da política.alguns comentários depreciativos em relação ao “carcamano. Manuel. não teria existido sem o futurismo”3 Entretanto. mas a revolução causada pela possibilidade de libertar as palavras das construções sintáticas cristalizadas impregnou de tal modo o espírito modernista brasileiro que estes não vêem nenhuma dependência do futurismo.indd 12 7/4/2009 15:51:16 . “Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado com Joyce. de 1920 até 1944. O Futurismo foi o primeiro grande movimento intelectual italiano do século e deixou marcas inconfundíveis na estética do mundo moderno ao servir de modelo para inúmeras escolas em diversos segmentos das artes. Podemos pensar que a apropriação.

pregando ao mesmo tempo a destruição do passado e sobretudo das literaturas passadas. ao menos é isso o que a crítica demonstra. utilizavam. dispondo-se livremente no papel. Os textos. em tom de discurso inflamado e com uma certa ruptura sintática. sinais gráficos e verbos impecavelmente conjugados. mas o tom. a velha sintaxe tradicional. em nome de uma visão de mundo que se apresenta como totalmente nova. Dentre as idéias futuristas encontramos o culto da máquina e da velocidade. 13 Cozinha futurista. a drástica ruptura com a mentalidade. no futurismo. Vêse. advérbios. unidos por um repertório de idéias e valores comuns. mas mergulhar impetuosamente na vida de todos os dias. em violento conflito com o resto da sociedade. para propor estas novas idéias. uma quantidade maior de manifestos do que de obras literárias. a abolição da conjugação verbal. Ora. a provocação. existem algumas características que são comuns a outros movimentos de vanguarda. aqui reside o primeiro malogro futurista. do advérbio e da pontuação. Pode-se verificar que há. com adjetivos. revolucionando-a. Ao mesmo tempo que pregavam a destruição da sintaxe. pois. o gosto.A cozinha futurista No Manifesto Futurista. que a real novidade proposta pelo futurismo não é o conteúdo. modificando a sintaxe: as palavras não deveriam mais seguir a ordem lógico-sintática. gritadas. do adjetivo. os modelos de comportamento do passado. que provém de uma tradição secular.indd 13 7/4/2009 15:51:16 . são sim entremeados por reivindicações numeradas de ordem militar. A teoria futurista não pode ser facilmente aplicada à literatura. a idéia de que a arte não deve permanecer no isolamento. como: a vontade de apresentar-se como um grupo organizado de artistas militantes.

autores. ou então. movimento político que o transformou em instrumento de propaganda. que estava solidária à grande burguesia industrial propiciadora do desenvolvimento. São Paulo: Nova Stella/Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/Edusp. 5 6 Teles. Op. apesar de proclamar em seus discursos a absoluta inovação de suas técnicas. a arte não é mais representação de mundo. desmonte sistemático e polêmico do passado. a contestação integral da linguagem burguesa.) Literatura Italiana: linhas.. Giorgio Barberi (org. da velocidade. construção de objetos novos.) decadentes e simbolistas do “fin de siècle”. problemas. p. contestação do presente.5 Para o movimento.. Gilberto Mendonça Teles afirma que o próprio Marinetti “dá como seus precursores os nomes de Whitman. (. Mas. do tom provocador. As primeiras intenções contidas no cerne do movimento são transformadas em técnica de oratória e de governo. Somente o desejo de mudar a realidade é que dá ensejo à aproximação do novo. Zola. Verhaeren. 87 Squarotti. Entretanto. 1989.”6 O futurismo evoluiu (ou talvez tenha involuído) de transformador das artes a meio de comunicação servidor da moral e do fascismo. de outro. o futurismo. o futurismo oscila: de um lado. cit.) como toda vanguarda. com sua exaltação eletrizante da máquina como triunfo da vitalidade. justamente por isso. Gustave Kahn. A temática fascista apropria-se do marinettismo e com ele da impetuosidade da linguagem. Sabe-se que só existe revolução se há passado. Marinetti usa grande parte das idéias simbolistas e decadentistas para promover os seus manifestos.485 14 Cozinha futurista. oposição total ao sistema do poder constituído. a utopia de uma reinauguração da expressão. do topete e do desafio. Gilberto Mendonça. não poderia deixar de se aproximar da revolução fascista.indd 14 7/4/2009 15:51:16 ... Paul Adam e outros. “(. mas deve ser destruição.Fillippo Tommaso Marinetti Outra contradição presente no futurismo é a negação do passado literário. há uma exaltação da técnica que não podemos deixar de relacionar à civilização industrial no ápice de seu desenvolvimento. p.

) à volta diária dos caçadores 7 Visser. A GAstrOnOmiA nA LiterAturA: prAzeres sinestésicOs A gastronomia sempre encontrou um campo fecundo na expressão estética. Na literatura. No início. Campus. Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. A refeição em si é um ritual presenciado em todas as culturas. O ritual. como lembra Margareth Visser7. consiste numa série de ações constantemente repetidas. A refeição também é habitual e visa à ordem e à comunicação. o Manifesto da Cozinha Futurista. Rio de Janeiro. T. já exausta do cunho propagandista revelado pelos últimos anos do futurismo. Comemorações marcando transições e lembranças quase sempre exigem comida. Ed. até 1920. Margareth. sendo ao mesmo tempo o comportamento esperado e o correto.. p. o futurismo colaborou de forma incisiva para a mudança ocorrida na literatura do século XX e que. por exemplo. As famílias também se encontram para refeições e este costume remonta a dois milhões de anos. já que encontros sociais são comumente realizados em torno de uma mesa. este manifesto gastronômico nunca foi apreciado com o devido valor pela crítica. já que não havia métodos para evitar que os alimentos se deteriorassem. Entretanto. é difícil encontrar um romance no qual não se descreva ao menos uma refeição.22 15 Cozinha futurista. “(. com toda a cortesia ritual implícita na refeição. 1998. aparece como o último grande feito marinettiano.. O ritual do jantar. após essa data. era necessário reunir as pessoas para que uma carne (proveniente de caça ou sacrifício) fosse melhor aproveitada.A cozinha futurista Pode-se dizer que.indd 15 7/4/2009 15:51:16 . Os dias festivos são solenes ou sagrados. A julgar pela extensa bibliografia contida na obra A Cozinha Futurista. e pela repercussão e discussões que provocaram suas inovações. resumindose a difundir as idéias fascistas. limitou-se a poucas e infrutíferas ações literárias. publicado em 1930 (época em que Marinetti já pertencia a Academia Fascista) por F.

As cenas descritivas de festas. reciprocidade. Desde os alimentos até a bebida que os acompanha. começaram a descobrir todo o prazer que uma refeição pode oferecer. cortesia. que pode ocorrer de forma compulsória – por empecilhos financeiros pessoais ou carestia em épocas de guerra e recessão econômica –. Como diz Brillat-Savarin8 (1755-1826): “Os animais se repastam. O prazer da boa mesa transportou-se para as artes. O sucesso alcançado pelo repasto e sua digestibilidade dependem de cada um destes fatores. Ele também pode trazer conseqüências desagradáveis. banquetes. nutrindo-a. ou a preguiça e indolência. nos casos de dietas auto-impostas como penitências. Entretanto. como a obesidade. devidas à ingestão de alimentos mal escolhidos ou mal combinados. São Paulo: Companhia das Letras. em que as pessoas encontram-se para celebrar a vida. nem sempre este prazer caminha impune. somente o homem de espírito sabe comer. eles haviam decidido não devorar”. ou seja. Com o passar dos séculos. da beleza da sala de refeição ao tipo de música selecionada para acompanhá-la. o homem come. jejuns religiosos ou de emagrecimento. para certos indivíduos que digerem as substâncias de forma diferenciada. p.15 16 Cozinha futurista.indd 16 7/4/2009 15:51:16 . Cada detalhe colabora para tornar mais ou menos agradável este nosso ritual diário. ou por escolha própria. interesse e prazer. este ritual perdeu seu valor econômico e ganhou em sociabilidade.” Quando os homens perceberam que o ato de comer encerrava mais que sua simples subsistência. Outro infortúnio relacionado a este prazer é o de sua própria negação. mas nem sempre. Brillat. a abstinência gastronômica. chás ou simplesmente jantares íntimos 8 Savarin. renovando suas forças. da escolha dos comensais aos assuntos tratados durante a refeição. A Fisiologia do Gosto. 1995. O prazer também está diretamente ligado à gastronomia.Fillippo Tommaso Marinetti e forrageadores proto-humanos para dividirem a comida com seus companheiros – aqueles que habitualmente.

A cozinha futurista permeiam a literatura, enchendo as páginas com uma sensualidade discreta. Fatos e conversas importantes desenrolam-se entre um e outro bocado, sendo este pequeno rito diário sempre um bom pretexto para a reunião das personagens, já que toda refeição familiar compartilhada num minibanquete celebra tanto a interligação quanto o autocontrole dos membros do grupo.9 Mais que acessório literário, a boa mesa tornou-se independente e, cada vez mais, podemos encontrar nas prateleiras das livrarias edições dedicadas à gastronomia. Edições sobre a história da gastronomia dividem espaço com obras sobre a cultura e a filosofia. Os livros “de receitas” evoluíram e, cada vez mais, parecem-se com os livros de arte. E o são. Livros de arte culinária. As fotografias contribuíram em muito para transformar a arte dos chefs em verdadeiras tentações para os nossos olhares. A facilidade de encontrar os ingredientes traz o sonho de uma refeição digna de reis para mais perto de outras camadas da população. As figuras enchem nossos olhos com sua beleza, nossa imaginação encarrega-se de criar o resto: o gosto, a textura, o aroma, o tilintar dos talheres nos pratos. Cinco sentidos unem-se para reproduzir o prazer que sentimos ao saborear uma nova iguaria – ou uma iguaria já conhecida, mas redescoberta a cada novo bocado. A utilização dos sentidos sempre foi importante para a literatura. Descrições sempre se tornam mais interessantes quando extrapolam o campo da visão. É importante reproduzir sons, odores, textura, temperatura, sabores. Marinetti já percebera isto ao longo de sua obra. Em 1939, o manifesto O romance sintético catalisava as tendências um pouco separadas entre os manifestos anteriores, já que este deveria ser otimista, heróico, simultâneo, dinâmico, aeropoético, aeropictórico, olfativo e tátil rumorista.10 Merece atenção o subtítulo do livro Il tamburo di fuoco: drama africano di calore, colore, rumori, odori. Con
9 Visser, Margareth. Op. cit. p.22

10 Marinetti, F.T. Teoria e Invenzione Futurista. Milão: Mondadori, 1968. p. 193

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Fillippo Tommaso Marinetti intermezzi musicali del Maestro Balilla Pratella e accompagnamento intermittente d’intonarumori Russolo. Publicado em 1922, pela Casa Editrice Sonzogno de Milão, esta obra também privilegiava os sentidos. Os manifestos lançados ao longo do movimento também refletiram esta preocupação constante: o Manifesto técnico da literatura futurista (1912) defende a introdução do rumor, do peso e do odor na literatura, já que estes representariam, respectivamente, a manifestação do dinamismo, a faculdade de vôo e a faculdade de dispersão dos elementos. O texto Palavras em liberdade (19..)diz que o poeta futurista jogará nos nervos do leitor as suas sensações visivas, auditivas e olfativas. Seria a irrupção do “vapor-emoção”. No Manifesto do teatro sintético futurista (19..) nos é apresentada a representação da nova era – entremeada de gritos, gesticulação apropriada, enfim, de detalhes emprestados dos outros campos da arte para que o Teatro Futurista seja mais abrangente. O Manifesto do tactilismo, de 1921, é de suma importância para que se possa compreender a revolução “cozinhária”11 futurista. Marinetti defende que é possível educar o tato para que possamos perceber muito mais coisas através deste sentido. Exercícios como tocar “tavole sintetiche” formadas por lixa, veludo, areia, seda, e tantas outras texturas, favoreceriam ao homem a descoberta de outros sentidos, ainda não catalogados pela ciência. Seriam eles: sentido de visão na ponta dos dedos, sentido do equilíbrio absurdo (aquele que faz um atleta, ao final de um salto imperfeito, manter-se em pé), sentido de orientação aviatória (essencial para pilotos), sentido tátil a distância (pressentimento), sentido das costas (deve ser estudado em gatos no escuro), sentido musical (ou do ritmo corporal), sentido da superfadiga-força (a força que irrompe em um estágio avançado de fadiga), sentido de velocidade,

11 O termo “cozinharia” pretende recuperar o neologismo criado por Marinetti, que chamava sua revolução de cucinaria, em vez do existente culinaria.

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A cozinha futurista sentido de nível, sentido tato-cirúrgico (todo cirurgião é ou deveria ser dotado dele) e sentido carnal-materno. O desenvolvimento dos “17 sentidos” proporcionaria uma gama maior de possibilidades, e seria possível, através de determinados materiais táteis, induzir sensações, histórias, sentimentos nas pessoas. Marinetti também propõe a utilização dos cinco sentidos para que um prato possa ser devidamente apreciado e degustado, como na “Aerovianda com rumores e odores”. Diz Marinetti: “(...) futuristicamente comendo, opera-se com os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição”. O prato consiste em quatro pedaços: um quarto de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza as pontas dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. No relato de Marinetti, apenas uma pessoa permaneceu alheia ao entusiasmo que preencheu a sala durante a degustação deste prato. Questionada, descobriu-se que era canhota – esfregava portanto o aparelho tátil com a mão direita enquanto comia com a esquerda. Mas a teoria gastronômica futurista proposta por Marinetti não é exatamente inovadora, apesar de o parecer à primeira vista. Em pleno início do século XIX, Brillat-Savarin12 escreve A Fisiologia do Gosto, obra em que discute filosoficamente diversos assuntos relacionados à gastronomia. Neste livro, além de afirmar que a alimentação influi de maneira direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios, relata

12 Savarin, Brillat. Op. cit. p.15

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Fillippo Tommaso Marinetti um de seus experimentos: um jantar em que foi usada uma de suas invenções, chamada por ele de “irrorador”. O instrumento foi apresentado, durante um jantar, à Sociedade de Estímulo à Indústria Nacional e consiste em uma fonte de compressão adaptada para perfumar ambientes internos. A idéia tão inovadora de Marinetti - perfumar os ambientes durante os jantares para promover uma apreciação mais completa - já havia sido explorada por outro curioso com um século de antecedência. Brillat-Savarin afirma ainda que “quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas, aromatizadas de perfumes, enriquecida de belas mulheres, repletas dos sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.”13 O embrião da cozinha futurista também pode ser encontrado em outros autores. Podemos encontrar a interação dos cinco sentidos na tradição simbolista francesa, desde Rimbaud, que relaciona a sonoridade das letras à música e às cores; em René Ghil (1862-1925), ao instaurar a língua-música, em que vincula certas ordens de sentimentos e idéias às ordens de sons e de timbres vocais. Diz Ghil que “(...) todo instrumento musical tem harmonias próprias: daí seu timbre, que é assim apenas uma cor particular do som”14. Marinetti afirma, no manifesto Palavras em liberdade, que o verbo no infinitivo é redondo e escorregadio como uma roda; os outros modos e tempos do verbo são triangulares, ou quadrados, ou ovais. Nas Correspondências, de Baudelaire, a fusão dos sentidos não se dá em cadeia, na seqüência temporal; pelo contrário, realiza-se num só instante, como se o perfume fosse, a um só tempo, oloroso, táctil,
13 Id. Ibid. 39 14 Moisés, Massaud. História da Literatura brasileira, vol..3 Simbolismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1985. p.11

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A cozinha futurista auditivo e visual. Já Mallarmé, em seu manifesto decadente Aux lecteurs!, de 1886, afirma que “Afinamento de apetites, de sensações, de gosto, de luxo, de prazer; nevrose, histeria, hipnotismo, morfinomania, charlatanismo científico, schopenhaurismo em excesso, tais são os pródromos da evolução social”. E sobre este manifesto, escreve Gilberto Mendonça Teles, em seu Vanguarda européia e modernismo brasileiro: “Podem-se perceber algumas idéias que vão ser levadas ao extremo pelos futuristas e dadaístas, uma vez que o movimento decadentista desapareceria três anos depois.” 15 Ainda no período decadentista, J.-K. Huysmans escreveu o livro Às avessas, em que podemos perceber a mesma intenção sinestésica no ato de comer. “De resto, cada licor correspondia, segundo ele, como gosto, ao som de um instrumento. O curaçao seco, por exemplo, à clarineta cujo canto é picante e aveludado; o kümmel, ao oboé, com seu timbre sonoro anasalado; a menta e o anisete, à flauta, a um só tempo açucarada e picante, pipilante e doce (... )”16 ou ainda “(...) ergueu-se e, melancolicamente, abriu uma caixinha de prata dourada com a tampa enfeitada de aventurinas. Estava cheia de bombons violetas; pegou um e apalpou-o, pensando nas estranhas propriedades desse bombom coberto de açúcar como geada; outrora (...)depositava um desses bombons sobre a língua, deixava-o derreter-se e subitamente surgiam, com infinita doçura, lembranças muito apagadas, muito enfraquecidas, das antigas libertinagens. Tais bombons (...) eram uma gota de perfume de sarcanthus, uma gota de essência feminina, cristalizada num torrão de açúcar; eles penetravam as papilas da boca, evocavam lembranças de água opalizada por vinagres raros, por beijos muito profundos, empapados de odores. De hábito, ele sorria, aspirando esse aroma amoroso, essa sombra de carícias que lhe punha uma ponta de nudez no cérebro

15 Teles, Gilberto Mendonça. Op. cit. pp.56-57 16 Huysmans, J.K. Às Avessas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.78

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não se restringindo à literatura. diferentes combinações de sabores e odores. com os quais era possível preparar sopas e outros alimentos. mas degustar novos pratos. resultantes dos avanços científicos.Fillippo Tommaso Marinetti e reanimava. um filé temperado com tabaco que seria aprovado à perfeição por Brillat-Savarin.” 17 Os ingredientes utilizados nas receitas futuristas eram escolhidos para provocar a melhor experiência sensorial (seria melhor dizer sensual?) possível. ibid. Oswald. Flores. mas parece ser possível reconhecer traços da rebeldia “gastro-astronomista” na cozinha futurista.134 22 Cozinha futurista. Já em 1911. como jornalista. por um segundo. Estimulando o dinamismo. como sobremesa. A combinação de elementos bastante diferenciados e o uso de condimentos inusitados. Entre os modernistas brasileiros não foi muito diferente. O cardápio de um jantar “gastro-astronomista” trazia como entrada violetas frescas sem os cabos. uma salada temperada com óleo de nozes e grappa. Na mesma época. e não ciência. frutos exóticos. temperadas com suco de limão.indd 22 7/4/2009 15:51:17 . ao menos. Cedo percebemos em Oswald de Andrade o gosto pelas artes em geral. um peixe cozido em folhas de eucalipto que evocava Flaubert. A cozinha “gastro-astronomista” não tem por objetivo saciar a fome. café. parecem coincidir nas duas proposições. preferencialmente estando sem apetite. defendeu uma Gastro-astronomia. o gosto não há muito adorado de certas mulheres. brincando com as palavras e remetendo tanto ao movimento artístico quanto aos cubos de comida desidratada. Apollinaire manteve contato com o futurista Marinetti. Marinetti não recebia muito bem este apoio. escrevia críticas 17 Id. frutas da estação. A fome só atrapalharia a degustação. aproximando-se do italiano através de cartas. perfumes e materiais de diferentes texturas. p. queijo temperado com noz-moscada e. Guillaume Apollinaire discutia a idéia de haver um “cubismo culinário”. que era arte.

com o bandeirante Pau lo Prato chorando sobre a trasteza do pó Lhytico no Brasil.16 23 Cozinha futurista. Jambon d’York e Salade. e o cardápio-programa do jantar é uma obra de “arte sinestésica”. provavelmente a “Villa Fortunata” onde aconteceu o jantar. Filet de poisson Parmentier. música. o casal Tarsiwald ofereceu um jantar literário ao escritor paulista Paulo Prado (1869-1943). Dos integrantes do primeiro grupo futurista. escrita em francês: Potage crème de volaille.indd 23 7/4/2009 15:51:17 . Tournedos à la Rossini. Foi o responsável por impulsionar muitas carreiras artísticas. como o trobadour Rainette Olé cantando e a pintora caipiriuschka Tarsilowska do Amaral tocando alaúde. Parfait Praliné e fruits. Aurora Fornoni. Para beber. p.18 O futurismo já flertava com o fascismo 18 Bernardini. caricaturas. A lista de comidas traz uma reprodução gráfica de uma casa. Dinde farcie. Liqueurs e Café. Como sobremesa. saindo em sua defesa publicamente após a conhecida crítica de Monteiro Lobato à sua exposição em 1917. Champagne. como a do traficante de pau brasil Oswald d’Andrade e a leitura do sermão da montanha sobre Ser Mãi da Intanha.A cozinha futurista de pintura. ou mesmo a de Anita Malfatti. escritos diversos sobrepostos à lista de pratos. Em 1927. outras musicais. cit. quando as polêmicas suscitadas pelo movimento já não tinham a força revolucionária de outrora. apenas Marinetti havia resistido no movimento – motivo pelo qual Paolo Angeleri chama-o de marinettismo. Charlotte Russe. como a do escultor Victor Brecheret. enfim. O jantar literário reuniria os cinco sentidos. que tratou como mais uma arte. ou mesmo política. Op. A cOzinhA FuturistA O Manifesto da Cozinha Futurista foi publicado em 1930. além de ilustrações de Tarsila. O programa anunciava algumas intervenções: umas literárias. Este gosto pelas artes não excluía a gastronomia.

e em 1998 a terceira e última edição italiana do livro. foi publicado em formato livro primeiramente em 1932. como Roma. Ferrara.indd 24 7/4/2009 15:51:17 . O livro A Cozinha Futurista. Firenze. época em que uma Itália em guerra. pela coleção Il Cammeo quando ganhou formato de 21 cm e reduziu o número de páginas para 254.Fillippo Tommaso Marinetti desde 1914. toda a polêmica por este suscitada na imprensa da época em diversos países. bem como um receituário e um pequeno dicionário. Turim. Em 1986 algumas partes foram publicadas em fac-símile pela Salimbeni de Firenze. Outra tradução facilmente 24 Cozinha futurista. e apenas quatro ilustrações. a descrição de diversos menus futuristas. Palermo. A obra pode ser encontrada nas bibliotecas das cidades mais importantes da Itália. Gênova. em sua versão original ou traduzida. Com 267 páginas. só foi reeditado em 1986 pela Longanesi. buscava no totalitarismo uma possibilidade de reconquistar a auto-estima. pela Editora Gedisa. Ravena. na Itália. Bolonha. esta também de Milão. por Guido Filippi. e publicada em Barcelona. entre outras e pode ainda ser encontrada em bibliotecas espalhadas pelo mundo. contendo o referido manifesto de 1930. Esta tradução pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da Espanha e também na biblioteca da FFLCH – USP. feita pela Editora Marinotti. também de Milão. destruída. O ano da adesão oficial do futurismo (resumido então a Marinetti e alguns novos adeptos) ao fascismo é 1924 –. concedeu à obra 14 páginas de ilustrações. A Cozinha Futurista já foi traduzida para o espanhol. em 1985 sob o nome La Cocina Futurista: una comida que evitó un suicidio. Giulio Onesti e Enrico Prampolini. pela Editora Sonzogno de Milão. 19 cm. com a colaboração de alguns novos integrantes: Luigi Colombo “Fillía”. Marinetti foi nomeado acadêmico da Itália e vestiu a farda da Academia e em 1930 – praticamente dez anos após o final do período glorioso e fecundo do futurismo – publicou o Manifesto da Cozinha Futurista. 27 cm de tamanho e 160 páginas. No ano de 1929. Milão.

e outra pela Editora Bedford Arts. O livro foi traduzido também para o norueguês com o título Futuristisk Kokebok. Marinetti apóia o regime fascista. Existe ainda uma tradução em alemão. pela guerra. Em inglês há duas publicações. encontrada na Library of Congress. de São Francisco.M. se Marinetti e seus “discípulos” 25 Cozinha futurista. as belas idéias pelas quais se morre. pela coleção Cottas Bibliothek der Moderne e pode ser encontrada nas bibliotecas de Leipzig. o militarismo. na figura de Mussolini. excitado pela recente Revolução Russa. Duas forças políticas emergem no cenário mundial. Na realidade. o gosto pela luta. pelo escritor Steiner Lorne. Gilberto Mendonça Teles acredita ser o mais importante o já referido Manifesto do tactilismo. Esta obra pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca da Universidade de Leuven. Frankfurt e Hamburgo. em 1917. Dos manifestos que surgiram após 1920. Rarish: Die futuristische Küche. Os manifestos do final do período heróico do futurismo (próximos a 1920) já possuem uma forte conotação sócio-política: a nação deveria reerguer-se e recuperar-se de todas as perdas resultantes da guerra. cujos ideais já haviam sido antecipados de certa forma no Manifesto Futurista de 1909. na Bélgica. feita por Nathalie Heinich e publicada em Paris. Esta tradução foi publicada pela Editora Klett-Cotta em 1983. na Itália. a coragem. datado de 11 de janeiro de 1921.indd 25 7/4/2009 15:51:17 . os regimes totalitaristas. e o regime comunista. uma pela Editora Trefoil de Londres. entre outras.A cozinha futurista encontrada é em francês. o futurismo e o fascismo condividem o nacionalismo exacerbado. Ambas as publicações do livro The Futurist Cookbook datam de 1989. que pode ser encontrada na British Library. pela A. feita pelo escritor Klaus M. a audácia e a rebelião. Metailié em 1982 com o título La Cuisine Futuriste. Ora. com introdução de Andreas Viestad e publicada em Oslo pela Spartacus Forlag em 2001. foram feitas a partir da tradução de Suzanne Brill e contam com uma introdução feita por Lesley Chamberlain.

Venezia: Marsilio Editori. o único sentido que ainda faltava ser abordado era o paladar. ao comerem macarrão. rumores e odores (audição e olfato). P. como o chamou Mário de Andrade. politica. sons. Neste Manifesto. cucina ecc. secondo il motto di Rimbaud. que pretendeu revolucionar o modo pelo qual os italianos se alimentam.19 A publicação do Manifesto da Cozinha Futurista deu-se na Gazzetta del Popolo. Marinetti argumenta que este alimento contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada dos napolitanos. 1986. trariam inúmeros benefícios ao povo italiano. em 28 de dezembro de 1930. fotografia. Luciano. música (audição).Fillippo Tommaso Marinetti já haviam escrito manifestos sobre pintura e escultura (visão). 19 De Maria. segundo o autor. O último dos sentidos fora também abordado pelo “agitador futurista”. Ao propor a abolição do macarrão. Surge então o Manifesto da Cozinha Futurista. As pessoas. cinematografo. sonha e age de acordo com o que come e o que bebe. è changer la vie. 15 26 Cozinha futurista. Nas palavras do crítico italiano Luciano De Maria: Marinetti e i compagni dissero la loro su ogni argomento: letteratura. não mastigam e o trabalho de digestão é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. de Turim. ma nel più profondo dello spirito umano. o que provoca desequilíbrio e distúrbio destes órgãos. a proposição que mais choca é a de “abolir o macarrão”. Marinetti defendia novos hábitos alimentares. teatro. tactilismo (tato). Um homem mal nutrido pensa e age mal. erotismo. e non soltanto nelle condizioni esterne dell’esistenza. que. danza. Dentre as diversas idéias apresentadas. come più tardi dei surrealisti. Marinetti afirma que o homem pensa. Un impulso “totalitario” anima il movimento: meta dei futuristi. La nascita dell’avanguardia – saggi sul futurismo italiano.indd 26 7/4/2009 15:51:17 .

o fósforo. um futurista e outro passadista.”20 e acrescenta que a fécula.) enfraquece as fibras e mesmo a coragem dos homens”21. traz uma ampla reportagem sobre o macarrão. não apenas em festas relativas a datas comemorativas do movimento literário. para os clientes que não desejam se aventurar nas receitas inovadoras. cit.. em que as receitas são novamente executadas e degustadas. em seu livro Nunca treze à mesa. O exemplo dado é o do povo indiano. que vive quase exclusivamente do arroz e é extremamente submisso. 94 23 Na verdade. em Palermo ( e não que tenha sido trazido da China para a Itália por Marco Polo). ibid p.15 21 Id. 20 Savarin.que serve os pratos e as bebidas futuristas. Em seus Aforismos. Op. Orietta del Sole. Brillat. porém tem a sensualidade despertada por certa substância ictiófaga.A cozinha futurista Derivariam então: fraqueza. Sem sucesso.. “(. mas como pratos constituintes do cardápio. Brillat-Savarin afirma que “o destino das nações depende de como elas se alimentam. pessimismo. p. p. inatividade nostálgica e neutralismo. 22 O manifesto contra o macarrão é lembrado em diferentes épocas e ocasiões. existem dois cardápios. ibid. mas ainda hoje existe um restaurante na Itália – o Lacerba. Vez ou outra um restaurante promove uma noite futurista. informa que no início do século XX o poeta Marinetti propôs abolir o macarrão da dieta italiana. e entre as afirmações de que já em 1154 o macarrão era produzido na Itália. presente em boa parte da alimentação de quase todos os povos.indd 27 7/4/2009 15:51:17 . 27 Cozinha futurista. Em outra passagem do mesmo livro. suas origens e sua história. 72 22 Id. o escritor afirma que os povos que se alimentam de peixe são menos corajosos que os que se alimentam de carne de gado. de Milão . faz uma referência ao mesmo fato: a tentativa de desvincular o macarrão dos hábitos alimentares italianos.23 A revista Focus (Mondadori) de dezembro/2002.

Ecce homo. importado. de 1888. de virtude livre e de moral?” Nietzsche afirma que sempre nutriu-se mal. ibid p. isto é. afirma Nietzsche. pois o trigo. o macarrão forma a base da pirâmide alimentar defendida pelos nutricionistas. Outro argumento utilizado contra o macarrão é de ordem econômica. era caro e a substituição deste alimento favoreceria a indústria italiana do arroz. Junto com o pão. o que também fazem franceses e ingleses. portanto anterior ao futurismo. a italiana. de ‘germânico’”25. das quais 80% de carboidratos. talvez. de virtude (no significado que essa palavra se dava na Renascença).indd 28 7/4/2009 15:51:17 . Ironia ou não. ou comemorativo. O interesse de Marinetti é. mas molda o comportamento de uma nação: “basta a mínima inércia dos intestinos – tornada depois um hábito péssimo – para fazer de um gênio algo de medíocre. A melhor cozinha. Nietzsche julga como a melhor cozinha justamente aquela que Marinetti pretende revolucionar. no livro Ecce Homo. 53 28 Cozinha futurista. 24 Nietzsche.”24). que a alimentação atinge diretamente o caráter e o comportamento. A dieta mediterrânea – que inclui o macarrão . Nutricionistas defendem que o macarrão faz bem à saúde: 100 gramas de macarrão sem condimentos tem 356 calorias.4% de proteína e 3. que comem até empanturrar os intestinos (“O espírito alemão é uma indigestão. 51 25 Id. arroz e cereais. Friedrich. 2000 p. culpa dos alemães. é a do Piemonte. O filósofo alemão também acredita que a pessoa é o que come.já foi exaltada como exemplo de alimentação sadia e equilibrada em todo o mundo. “Como deves nutrir-te para chegares ao teu máximo de força. 13.Fillippo Tommaso Marinetti O insucesso da tentativa é sempre comentado em tom jocoso. São Paulo: Martin Claret. não só das pessoas individualmente. O problema da importância da alimentação na formação do homem pode também ser verificado em Nietzsche. não chegando nunca ao fundo de alguma coisa.9% de gordura.

o Futurismo havia entrado em crise.A cozinha futurista portanto. Após 1920. desenvolvendo a indústria e propiciando empregos aos italianos. de Marinetti. mas também político. A revolução gastronômica futurista não aconteceu. Pudemos observar que a tradição alimentar vem sendo questionada por inúmeros autores e em diferentes épocas. num período de decadência – os gritos e bramidos marinettianos já não eram ouvidos com tanta atenção pelo mundo literário. em especial Fillìa. co-autor do Manifesto da cozinha futurista. A boa alimentação proporciona melhores soldados. acreditavam poder fortificar a raça e tornar os homens mais competitivos e adequados à guerra. além de estarem demasiado atreladas à figura política do Duce. com o propósito de “melhorar a raça e a economia”. Além disso. embora o objetivo não tenha sido alcançado. É provável que a publicação deste manifesto tenha sido uma tentativa de fazer ressurgir a importância do Movimento Futurista. o problema da interferência da alimentação na personalidade e/ou nas atitudes das pessoas não havia passado despercebido pelos autores do século XIX e início do século XX. Ainda que Marinetti tenha proposto uma revolução gastronômica em seu país. pela negação de todos os estrangeirismos. Mas a importância da alimentação 29 Cozinha futurista. Como já foi dito. não só nutricional. pois as propostas futuristas verificaram-se impraticáveis. desde a matéria prima de certos alimentos até modas gastronômicas/culturais estrangeiras. Percebe-se então o cunho político.indd 29 7/4/2009 15:51:17 . Os alimentos escolhidos também deveriam fortalecer a economia nacional. Marinetti e seus colaboradores. Talvez por Marinetti estar diretamente ligado ao fascismo e defender idéias já então consideradas conservadoras e de forte conotação política. a cultura italiana haveria de se fortalecer pelas modificações propostas. Através da correta escolha e combinação de ingredientes. melhores cidadãos. pretenderam revolucionar a culinária italiana. e ainda contribui para o desenvolvimento econômico do país. o manifesto não repercutiu como deveria esperar seu autor. bastante nacionalista (seria lícito dizer fascista?).

Fillippo Tommaso Marinetti para a vida das pessoas continua ganhando mais e mais importância tanto na literatura como na mídia. Marinetti tentou preparar.indd 30 7/4/2009 15:51:17 . em todos os campos das artes. mais uma prova da personalidade multifacetada de um revolucionário que se ocupou de todos os sentidos. a alimentação italiana era mais resistente e tradicional. Restou-nos o manifesto. 30 Cozinha futurista. Entretanto. uma nova massa. com os ingredientes do futurismo.

indd 31 7/4/2009 15:51:17 . Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista H Cozinha futurista.CApítulo 1 Mário de Andrade.

indd 32 7/4/2009 15:51:17 .Cozinha futurista.

Espero não causar indigestão com a combinação das iguarias. por sua vez. cuja repercussão. Mário de Andrade e Oswald de Andrade.indd 33 7/4/2009 15:51:17 . deu ensejo neste trabalho a uma série de “analogias gastronômicas” entre este e parte da obra de dois escritores modernistas. e oportunamente. Macunaíma 33 Cozinha futurista. o mais respeitado seja aquele com maior capacidade de prover seus familiares. de alguns colaboradores da Revista de Antropofagia liderada por Oswald. Partindo de apontamentos sobre algumas obras destes dois autores. A preocupação com a subsistência de cada indivíduo e de toda a tribo faz com que o mais forte. No livro Macunaíma.máriO de AndrAde nA cOzinhA A repercussão do Manifesto da Cozinha Futurista na mídia possibilitou a realização do livro A cozinha futurista. tentarei estabelecer relações pertinentes entre os autores brasileiros e o “futurismo gastronômico”. a alimentação é fator fundamental para o desenrolar da obra.

Macunaíma é o famoso “herói sem nenhum caráter”. pela dificuldade de sua classificação: história? romance? Acabou por ser rapsódia. Mário de Andrade escreveu Macunaíma na semana de 16 a 23 de dezembro de 1926. devido à série de modificações feitas no texto original. comportamental. musical.ou assimilação .Fillippo Tommaso Marinetti passa a ser respeitado pelos irmãos na medida em que se torna o principal responsável pela alimentação dos mesmos. e já que a rapsódia foi publicada no mesmo ano do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. torna-se difícil não reconhecer analogias entre as duas obras. pois Mário julgou inadequados os dois que escrevera. 34 Cozinha futurista.indd 34 7/4/2009 15:51:17 . e como a digestão – ou assimilação – destes alimentos pode ser significativa para o processo de construção do caráter “identidade” nacional brasileiro. As inúmeras repetições do verbo comer e seus sinônimos chamam a atenção sobre os alimentos ingeridos ao longo da saga de Macunaíma. O resultado de sua obra foi emblemático. O “herói de nossa gente” reflete não uma. O livro provocou dúvidas desde a publicação. reflexo da miscigenação de tantas culturas quantos foram os povos que aqui vive(ra)m. As misturas de raças deram-se não somente no âmbito genético. conquanto não lhe falte caráter. O prefácio nunca chegou a ser publicado. O processo de ingestão e digestão . mas também nas áreas lingüística. e – por que não? – gastronômica. já que Mário de Andrade acabou por construir um “símbolo do brasileiro”. mas as várias influências que determinaram o caráter e a formação do povo brasileiro. O caráter de um povo também poderia ser avaliado verificando-se as bases de sua alimentação. mas o livro só veio a ser publicado em 1928. durante umas férias em Araraquara.pode ser considerado um dos meios de formação da identidade nacional brasileira proposta por Mário de Andrade em Macunaíma.

Padre Antonio Vieira traz desta forma a questão da Eucaristia: “(.) o que alimenta.95-96. O Canibal. ainda amorfo. desde o nascimento e as primeiras 1 2 Vieira.. Alfredo Bosi. se convertia em corpo de Cristo.) o mesmo Cristo que no Sacramento se come. encontramos em Frank Lestringant uma analogia entre um ritual antropofágico indígena e a Eucaristia: “(. que eram associados a uma prática antropofágica. pois o que todos os fiéis desejam não é viver no amor de Cristo? Transportando-nos da cultura cristã para a indígena primitiva. que. 1997. nutre.”2 Mário de Andrade dedica grande atenção à alimentação de seus personagens na obra Macunaíma. São Paulo: Hedra.. seja de forma direta ou sublimada. Lestringant.. O padre José de Acosta empregava o termo hóstia para designar a vítima dos sacrifícios astecas.. destaca que o protagonista é uma “(. no Rosário se digere. 35 Cozinha futurista. quando da missa. pp. Sermões. a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir.A cozinha futurista A antropofagia. 2001.”1 Esta antropofagia está também ligada ao amor..) a palavra despertava inextricavelmente o sentido moderno do pão eucarístico.indd 35 7/4/2009 15:51:17 . alimentação que pode ser uma das bases da formação do caráter nacional. como o Sacramento católico. senão o que digere (.34-36. desde os nossos ancestrais mais primitivos: entretanto ainda hoje podemos averiguar seus resquícios.. Frank. vem sendo praticada há centenas de anos.(.. grandeza e decadência. aumenta. Antonio. e dá forças e vigor ao vivente. pp.. e recebe dentro de si.) espécie de barro vital.. a transformação do tabu em totem.) os primeiros missionários do Novo Mundo perceberam a relação entre a antropofagia ritual e o sacramento da Eucaristia. Pe. em sua História concisa da literatura brasileira. Brasília: Editora Universidade de Brasília. defendida por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago. não é o comer que ele toma na boca..

a ritual . num compósito heterogêneo que é bem o reflexo do Brasil e seus habitantes. Macunaíma tem seu dedão abocanhado e engolido por Sofará. apetite). como a antropofágica. A antropofagia do livro resume-se a três episódios: no primeiro. come tudo e todos que estão em seu caminho. São Paulo: Cultrix..a medicinal. é um eufemismo utilizado por Mário de Andrade. o boi morre por não poder ingerir mais nada após a sombra leprosa acocorar-se nele.seja por haver divisão de alimento pela família ou em ocasiões festivas . Poder-se-ia estabelecer uma divisão entre os diferentes tipos de ingestão. destaca-se aqui o gastronômico. o herói come a carne da perna do Currupira. mulher do irmão mas sua amante. História Concisa da Literatura Brasileira. a metafórica ou sensual. e aquela para o fim mesmo da alimentação. que acarreta a morte de alguns personagens: o filho de Macunaíma e Ci morre após chupar o peito envenenado da mãe. moqueada. logo depois de sua preguiça e de seu apetite sexual (ainda assim. Talvez seja ainda possível reconhecer uma ingestão fatal. “(.Fillippo Tommaso Marinetti diabruras glutonas e sensuais”3.. e no episódio final. mordidas misturam-se a beijos.indd 36 7/4/2009 15:51:17 . Massaud. Enquanto Macunaíma brinca5 com suas mulheres. A Literatura Brasileira através dos Textos. No entanto. e o 3 4 5 Bosi. Moisés. o Gigante Piaimã morre em sua própria macarronada – em que “faltava queijo”. 1992. embora velada ou mascarada pelo clima de sedução. o tico-tico morre após alimentar o Chupinzão.) imbricam-se crendices de vária extração e significado.398-399. Massaud Moisés afirma que. Alfredo. p 395. A gula aparece como um dos primeiros adjetivos dados ao herói. já que as referências à ingestão – ou ausência dela – aparecem aproximadamente 130 vezes no decorrer do livro. O verbo brincar no texto tem conotação sexual. no segundo.”4 Deste compósito. pp. São Paulo: Cultrix. Jiguê. transformado em sombra leprosa. são muitas as passagens em que há uma certa antropofagia. em Macunaíma. 36 Cozinha futurista. 1991.

1998.. A ingestão ritual remete às sociedades indígenas – em Macunaíma estamos na tribo dos tapanhumas – em que as refeições são comunitárias e o alimento dividido entre os indivíduos da tribo segundo determinada ordem.23 37 Cozinha futurista. p. Outro ritual importante no livro é o da macumba a 6 7 8 9 Voltaire. Macunaíma. Op. A família (tribo) de Macunaíma sempre divide as obrigações para obter o alimento e prepará-lo. ou de negar comida à própria mãe ao perceber que ela pretende dividir o alimento com os outros irmãos. ou no jejum quebrado por Macunaíma quando nasce seu filho. Dictionnaire philosophique. O Ritual do Jantar. p. André. Histoire de deux voyages. p. André Thévet (1516?-1592) descreve uma das cerimônias de divisão do corpo de um inimigo capturado: “as tripas são dadas aos jovens machos e todos os miúdos são distribuídos entre as jovens mulheres”8. um ser humano”9. 216 Thévet.25 Lestringant. s.indd 37 7/4/2009 15:51:17 .) o canibalismo constitui. 279 Visser. e o ato sexual pode também significar a assimilação do outro: “é duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem”6 afirma Voltaire. de modo geral. O verbo comer adquire duplo sentido. em que os irmãos passam a noite “bebendo oloniti e comendo carimã com peixe”10.. Margaret. Rio de Janeiro: Campus. que o animal morto e comido toma o lugar da oferta sacrificial original. Esta alimentação ritual também aparece quando da morte da mãe. p. enquanto Frank Lestringant diz que “(. 33. cit. somente o herói pensa individualmente. em Margaret Visser vemos que “Os mitos sobre sacrifício nos dizem. e não hesita em comer sozinho a caça ou as frutas e raízes que encontra. cabendo a ele as entranhas. Mário de. que é dividida. Antropophages. De fato.A cozinha futurista amor muitas vezes torna-se deglutição. São Paulo: Martins Fontes. p. 10 Andrade. Frank. com freqüência.v. 1975. uma maneira particularmente eficaz e direta de fazer unidade com o outro”7. Lembre-se a passagem da anta capturada por Macunaíma.

.4 38 Cozinha futurista. teve que fugir para não ser comido pela sombra leprosa que era Jiguê. já na cidade.Fillippo Tommaso Marinetti que o herói comparece para resolver seu problema com Piaimã. Margaret. teve medo de ser comido na macarronada da família). cozimento de broto de abacate para tuberculose. após ser um comensal em sua mesa – onde comeu cará com feijão dentro. Op. o minhocão temível. por Ceiuci e sua filha mais velha (as mulheres queriam comer o pato. salvando vidas e atenuando dores. pelo Mianiquê-Teibê (assombração medonha). pela surucucu.indd 38 7/4/2009 15:51:17 . assimilado pelo outro pode representar o medo de virar totem.. finalmente. engolido. “Mas era só de brincadeira 11 Visser. pelo Currupira. uma pacuera inteira (sem mastigar) e um côco cheio de água –. em outro momento. remédios aconselhados pra erisipela. Este medo de ser ingerido. A ingestão medicinal ocorre algumas vezes. Chamam ainda atenção as inúmeras vezes em que o herói tem medo de ser comido: Macunaíma teve medo de ser engolido pela cobra preta.) por trás de toda regra de etiqueta da mesa está escondida a determinação de cada pessoa presente de ser um comensal e não uma iguaria. que é feiticeiro: suco de tamarindo pra lombriga. pelo cesto do Gigante Piaimã. cit. Macunaíma teve medo de ser a iguaria. Margaret Visser afirma que “(. agüinha e reza cantada pro sarampo. na passagem em que Macunaíma procura pouso no rancho de Oibê. engolir bagos de chumbo pra não ter filhos. sempre através da figura de Maanape. pelo Gigante Piaimã. por Oibê. que era Macunaíma). e. uma cuia com farinha d’água. p. pelo elevador e pelo carro. que termina com todos os participantes comendo o bode que havia sido oferecido em sacrifício.”11 De fato. pela família de Vesceslau Pietro Pietra (o herói tinha virado torresminhos que “bubuiava” em polenta fervendo. pela cabeça de Capei (que vira Lua). chupar chave de rosário pra curar sapinho.

p. já que o pedaço de perna respondia ao chamado do dono. de palavras de origem indígena e outras importadas diretamente da Europa. Claude. como forma de fugir de um perseguidor após comer seu alimento. cit. diário. 12 Andrade. fruto da mistura das diversas culturas que integram o povo brasileiro.418.) exprime o valor simbólico ligado antes de tudo à ingestão de carne humana”14. 39 Cozinha futurista. Mário de Andrade descreve os alimentos que fazem parte da rotina da tribo.indd 39 7/4/2009 15:51:17 . 184... em lugar de ingerir. Para Lestringant. Macunaíma já o havia feito para escapar do Currupira..A cozinha futurista que ele [Oibê] queria comer o herói”12 Para escapar de Oibê. p.. já que aqui aparece um interminável desfile de termos regionais. 13 Ibid. Esta lista nutricional é relevante.) estava querendo mas era comer o herói”13... e precisam saciar esta necessidade.20. o cará virou num “tartarugal mexemexendo”.. que “(. Tratase da identidade gastronômica nacional. estrangeiros”15.. 182. Por fim. a alimentação como um fim em si mesma. o feijão e a água viraram num lamedo cheio de sapos-bois. Frank. e por fim. Tristes Tropiques. mas também aqueles que aparecem para saciar a fome de “outras tribos”.) vomitam. 14 Lestringant. Assim sendo. a pacuera virou num periantã (barranco flutuante) em que o herói e a princesa escaparam. 15 Lévi-Strauss. os personagens sentem fome todos os dias. o vômito “(. que dera ao menino um pedaço de sua perna como isca. p. os indivíduos detentores de forças temíveis: criminosos. O vômito não aparece somente nesta passagem. Op. marginais. a ingestão de alimentos para matar a fome e nutrir o corpo: um fato repetitivo. e vomitou as iguarias comidas: a farinha virou num areão. p. Mário de. Macunaíma por quatro vezes fez “cosquinha na goela com o furabolo”. que “(. Macunaíma. enquanto Lévi-Strauss analisa a “antropoemia” das sociedades desenvolvidas.

os esplêndidos bombons Falchi. símios: um macaco. licor. mocororó. sapotas. peixes: tambiús. os estradeiros. macarronada (com o chofer e seu sangue como molho). um motor. churrasco. a perna do Curupira. caças: veado-catingueiro. piaçoca. heranças do canibalismo autóctone: sopa feita com um paulista. aves: um macuco. canguaçu. gasolina. onças. manga-jasmim. mucajás. cascudo. broto de abacate. fumo. robalos. ingere-se o bode da macumba. pixuna. monos. “champagna”. jacutinga. aperemas.Fillippo Tommaso Marinetti Da cultura negra. cotia. farinha d’água. capivara. cará com feijão dentro. talus. pacas. sapotis. podemos atribuir isso ao fato de grande parte da flora e fauna brasileiras. abacaxi. o torresmo e a polenta. jacu. picota. Da cultura indígena comem-se frutas: bacuparis. maniveira. a papa-viado. rendas. sanduíches. em meio a muita cachaça. leite da vaca Guzerá (raça bovina vinda da Índia). café. coquinho baguaçu. raízes/leguminosas e seus derivados: tacacá com tucupi. bagre. mutuns (mutum-de-vargem. vidros-de-perfume e caviar. bacuris. antas. pacova (banana). 40 Cozinha futurista. um pato seco de Marajó. tejus. muçuãs. tamanduá. miritis. cigarros de palha de tauari. moluscos: fritada de sururu de Maceió. lambaris. plantas alucinógenas: ipadu. bolo de aipim. uísque. graxains. cogumelos e rãs. mutum-de-fava. ter herdado o nome utilizado pelos índios. Dos europeus temos a lagosta. macacheira. abricôs. suçuarana. Embora os nomes indígenas prevaleçam. quiânti. milho. mutuporanga. queixadas. veado. urus.indd 40 7/4/2009 15:51:17 . os olhos da tigre. abroba (gerimum). coelhos. tabuí. a jaguatirica. tatu-canastra. urumutum). tucunaré. perdizes. sapotilhas. raiz de umbu. jaós. pitomba. lontras. e não porque Mário de Andrade considerasse a influência indígena mais forte que a negra ou a branca. jundiá. beiju membeca (beiju mole). melancias. a pacuera (entranhas de caças). ariticuns. guabijus. guaribas. presunto. pacu. onça-pinima. catetos. extremamente diversa da européia. ratos chamuscados.

”17 Em outras obras de Mario de Andrade também é possível verificar a importância destinada à ingestão de alimentos ou aos rituais que circundam a alimentação. São Paulo. Macunaíma. única em sua variedade de cores. da caninha e outros palimpsestos que escondem a moleza nossa. Os textos foram publicados às quintas-feiras na Folha da Manhã. Maanape e Jiguê. mas todas elas formadoras da identidade nacional. Mário corroborava a opinião da confusão de valores instaurada no Brasil por sua mistura étnica. A contribuição de cada povo serviu para realizar a grande festa que é a culinária brasileira. cheiros e influências. Mário de – Romance do Veludo – Revista de Antropofagia. “O Romance do Veludo é um documento curioso da nossa mixórdia étnica. 41 Cozinha futurista. Por mais forte e indigesta que seja a mistura. espanhóis e já brasileiros. Trata-se de crônicas musicais. após terem se lavado na cova do pezão do Sumé (São Tomé). Quer como literatura quer como música. Comecemos pela obra inacabada O banquete. hoje publicada em formato livro. africanos. se acomodando com as circunstâncias do Brasil. 04. agosto de 1928 17 Revista de Antropofagia. em que se discutem com a mesma paixão a arte. o processo de criação. 1a. Gosto muito desses cocteils. texto publicado em 1928. atingindo até a culinária. sob o título de “Mundo musical”. em 25 de fevereiro de 1945. os elementos que entram nela afinal são todos iromuguanas e a droga é bem digerida pelo estômago brasileiro. acostumado com os chinfrins da pimenta. estas também se encontram registradas por meio de suas influências gastronômicas. mudaram de cor e passaram a representar as três raças formadoras do povo brasileiro. desde maio de 1943 até sua morte. 1ª dentição.A cozinha futurista Assim como os três manos. no. Em “Romance do Veludo”16. do tutu. do dendê. 16 Andrade. o folclore.indd 41 7/4/2009 15:51:17 . dentição. agosto 1928. dançam nele portugas. mas com estilo completamente livre.

p. Janjão é o músico pobre e quase anônimo.”18 Ora. temos assim em qualquer refeição um cenário ideal para o desenrolar de um texto. facilitando aos convivas a explanação de suas opiniões e desobrigando-os das responsabilidades de um confronto intelectual. com um objetivo comum: saciar a fome e compartilhar o alimento e os prazeres advindos destes. cinco personagens encontram-se para um banquete oferecido pela milionária americana Sarah Light com o intuito de obter proteção governamental para o jovem músico nacional Janjão. Mário de Andrade toma a refeição como o momento propício para que assuntos importantes sejam discutidos. projetado para que a violência fique fora de questão. Margareth. Pastor Fido é um estudante. “um sistema de tabus. À mesa. cit. já que todos encontram-se reunidos em torno de uma mesa. Além das teorias sobre música ou arte.Fillippo Tommaso Marinetti a situação dos músicos e das pessoas interessadas – por razões as mais diversas – em proteger a arte e os artistas nacionais.indd 42 7/4/2009 15:51:18 . As maneiras à mesa são. Op. o discurso adquire um tom menos formal. Comer é algo agressivo por natureza e os utensílios requeridos para o ato poderiam rapidamente transformarse em armas. xiii 42 Cozinha futurista. Outro fator relevante é a possibilidade de se determinar o nível cultural de uma pessoa por meio de suas maneiras à mesa. O político Félix de Cima e a virtuose Siomara Ponga são os convidados pertencentes à classe dominante (vale observar que apenas a classe dominante tem nome completo) e que auxiliaram Sarah em sua empreitada. Na fictícia cidade de Mentira. que pode dizer o que realmente pensa sem temores de que o grande objetivo do banquete pereça. único personagem sem amarras políticas. no fundamental. é bastante interessante observar o itinerário dos comes e bebes servidos durante as discussões: 18 Visser. que precisa ser protegido para que possa continuar a produzir sua arte. Numa alusão ao Banquete de Platão.

1972. Brasília: INL. V). Mario de. IX) e As Despedidas (cap. como “o salão da Avenida Higienópolis que era o mais selecionado.VI) e viriam ainda. estabelecer um paralelo com a série “Moquém”. encontramos um texto de fundamental importância para o modernismo brasileiro. Café Pequeno (cap. discutir arte e realidade brasileira. III – Entradas. Nesta série. dentição.A cozinha futurista os capítulos têm como subtítulos a parte do banquete a que se referem. 2a. VII). maravilha de comida lusobrasileira” ou o salão da Rua Duque de Caxias. “O Movimento Modernista” in: Aspectos da Literatura Brasileira.VII). de Oswaldo Costa. onde “o culto da tradição era firme. em torno de uma refeição. o autor comenta o que talvez tenha sido fonte de inspiração às crônicas musicais da Folha da Manhã: os salões em que se reuniam artistas e intelectuais.19 Na obra Aspectos da Literatura Brasileira. já que os cinco textos que a compõem são intitulados: I – Aperitivo. para. 04 a 08 20 Andrade. aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de composição”20 Voltando ao Banquete de Mário. São Paulo: Martins Fontes. II – Hors d’oeuvre. Oswaldo discute os rumos do modernismo em forma mascarada de refeição. dentro do maior modernismo. O Passeio em Pássaros (cap. de cunho afrobrasileiro. II (Encontro no Parque) e III (Jardim de Inverno) precedem a comilança por tratarem da apresentação dos personagens. a partir do capítulo IV (Aperitivo) é o ritual da refeição que dita o tom das discussões. publicada na Revista de Antropofagia entre 7 de abril e 8 de maio de 1928. nos. Pode-se. A cozinha. aqui. Doce de Coco e Frutas (cap. Seguem-se Vatapá (cap. Tinha por pretexto o almoço dominical.indd 43 7/4/2009 15:51:18 . Aqui. Se os capítulos I (Abertura). sendo este último o recomendado 19 Revista de Antropofagia. justamente aquele em que Mário de Andrade analisa “O Movimento Modernista”. Mário descreve alguns salões de vital importância para os jovens modernistas. X). 43 Cozinha futurista. IV – Sobremesa e V – Cafezinho. Salada (cap. vinte anos após a Semana de Arte Moderna. foram servidos como aperitivo Porto e “Cocktail Verde e Amarelo”.

mas a carne estava miraculosa”23 Outra vez podemos estabelecer um paralelo com Marinetti: a utilização de gêneros alimentícios alternativos aos que faltavam em tempos de guerra – a polêmica proposta marinettiana de abolir o macarrão tem 21 Andrade. a utilização de um vocabulário que remete ao utilizado por Marinetti na introdução de seu livro A Cozinha Futurista: “E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros”. “mas em vez de batatinhas: pequenos pedaços de queijo assados na brasa. Está claro que ninguém comeu isso. limão (que pelo menos disfarça o cheiro fatigante da caninha. Vê-se aqui. tudo feito com massa de açúcar pintada. a língua e os dentes”. São Paulo: Duas Cidades. No Vatapá.Fillippo Tommaso Marinetti pela anfitriã por acompanhar melhor alguns pratos fortes do Brasil que seriam servidos. começou a amorosa adoração com os lábios. p. camarão seco. até do paladar dos dentes (…) Eu não sei como explicar… mas vocês homens.indd 44 7/4/2009 15:51:18 . 22 Numa época de escassez devida à Guerra. Era um Chateaubriand. F. Mario de.. p. de um prato chamado “Balé do Racionamento”. feita de caninha (em alambique de barro. foi muito divertido.T. como nesta batida). em vez de cogumelos: leite coalhado em cápsulas salgadinhas. temos a descrição. “É uma delícia da língua. 07 e 11 23 Andrade. já perceberam como é gostoso no meio da multidão a gente se encostar numa mulher…”21. e não se mistura com ele) e um pouco de açúcar verdadeiro (mas um pouco só. palmito. ainda. fabricação particular). 123 22 Marinetti. 125 44 Cozinha futurista. aspargo.. todos se enganaram. os sabores delicados do peixe e do camarão fresco unem-se trêmulos à tempestade dos temperos. 1989. além da aproximação do prazer proporcionado pela comida ao prazer sensual instigado pela mulher. Tradução em português p. o dendê. O Banquete. Alface. A Cozinha Futurista. O Banquete. Vinha um prato de salada junto. Mario de. ou “ajoelhando-se em frente. O político provou do cocktail e constatou se tratar de uma legítima batida paulista.

Pastor Fido. p. mas já personalizada pelo tom local. para suprir com a arte a falta de certos produtos). entregam-se. norte-americana. tão nutrido e convicto. com mentira e tudo. Mas tão cheio. não conseguira resistir à atração da salada e se servira de todas aquelas cores. “Não tinha cheiro nenhum. Chegamos finalmente à Salada. a malícia das experiências sensuais. Bravio. embora não se tivesse entregado totalmente ao prato em que havia até sorvete de creme e suco de pedregulho! 24 Andrade.indd 45 7/4/2009 15:51:18 . O cheiro do vatapá vos trazia aquele sossego das coisas imutáveis”24 A salada aparece como alegoria: é norte-americana. os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações. o vatapá. Siomara Ponga. Espalhara na sala um cheiro vigoroso que envolvera os presentes no favor das mais tropicais miragens. mas uma salada colossal.. “um coroamento da sua existência de comestível espiritual (desculpem). era uma salada fria. e o prato foi comido.. Mario de. mas como era bonita e chamariz!” A descrição da salada aparece em total oposição ao prato anterior.. o moço estudante. especialmente os verdes.”25 A essa salada.A cozinha futurista sua base na elevação de preço do trigo durante a guerra -. que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas. a maior do mundo. O Banquete. aquele cheiro.p. que resfolegava em cima da salada. Seus olhos a cheiravam. A salada. não fazia vista alguma com seus tons de um terra baço.159 25 Andrade. bravo. cuja carreira a impedia de gostar de qualquer coisa.159 45 Cozinha futurista. cozinheiros tornando-se verdadeiros artistas (neste caso. O Banquete. prato principal do banquete de Sarah Light. mas que cheirava. Áspero. manducado por ele antes mesmo que suas mãos o tocassem. todos. seus olhos haviam engolido a salada. “Tinha mil cores. Todas as cores estão nela representadas. que era “feioso e monótono na aparência. estava encantada com o furor quase mítico do prato..” Era o prato preferido da milionária. Felix é descrito como um animal. exceto Janjão. Mario de.

À mesa. porco. mas encapsulado em farinha de trigo. é o conto “O Peru de Natal”. a salada mais sem perfume porém mais vistosa do mundo. gemas de ovo libertas da perigosa albumina e avelãs recobertas de cacau sem açúcar. uma irmã. 46 Cozinha futurista. a salada mais traiçoeira do mundo. 162. Após a morte do pai. ameixas e nozes. Ao menos. escrito entre 1938 e 1942 e publicado no livro Contos Novos. a salada mais encantatória do mundo. “Tinha de tudo. Juca pede que seja feito Peru no Natal. por causa de Gandhi. a carne mansa de um tecido muito tênue. a mãe e a tia. a mãe poderia finalmente comer peru. p. isso lhe dava certos privilégios de idéias inovadoras. e não apenas o que sobrava na ossada após as festas que davam enquanto o pai era vivo. mas já que era considerado doido.indd 46 7/4/2009 15:51:18 . não havia culpa. um irmão. Juca sempre foi considerado doido pela família. perfeito. em respeito aos judeus. havia também pecados: leite de cabra. Assim.Fillippo Tommaso Marinetti Entre perdiz desfiada. uma gorda com os miúdos. alface muito clara e casca ralada de maçãs. a salada mais carcomedora do mundo. de acordo com os personagens respectivamente como: o prato mais lindo do mundo. Um pouco anterior ao Banquete. Era o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo. o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo (e dominava a gente). Mario de. O Banquete. sem caráter. a comida vence a batalha. e outra seca. apenas para os familiares. incapaz de caráter”26 Este prato. o peru. 26 Andrade. todas as vitaminas salutares.. o prato mais alcoolizador que havia agora no mundo. Era um prato inteiramente novo. Neste texto também temos uma refeição como temática central. Juca assumia para si a culpa dos desejos de todos da casa. foi descrito. embora aqui seja o prazer proporcionado pela iguaria a ser ingerida mais forte que a batalha emocional que se dá à mesa. duas farofas. que contam cinco pessoas: ele.. bicho nacional dos celtas.

Em outro poema. o sexo ao Paiçandu. O peru vence. Todos desfrutam de uma felicidade gustativa. Trava-se uma luta entre os dois mortos: o pai e o peru. por extensão. A primeira. para um encontro amoroso. Numa espécie de divisão ritual. 1993. e lá chegando.A cozinha futurista douradinha. 47 Cozinha futurista. em que um menino vai ao céu levado por uma andorinha. existe sensualidade no ato de ingerir a iguaria desejada há muito tempo. Belo Horizonte: Vila Rica. n’O Banquete e em “O Peru de Natal”. e todos passam a comer com sensualidade.indd 47 7/4/2009 15:51:18 . mesmo após a morte. Juca passa à felicidade individual. o prazer gustativo e o prazer carnal se aproximam. e a sombra do pai. entretanto pareceram mais relevantes em três deles. e vai ao encontro de Rose. em “Lenda do Céu”27. Mário de Andrade revela o destino que se deve dar ao seu corpo após a morte. e após essa felicidade. e essa sensualidade é reafirmada ao partir o narrador. Como em Macunaíma. Mário de Andrade considera as comidas do Brasil paradisíacas. Mario de. destinando os pés à Rua Aurora. gozando os prazeres daquela carne macia acompanhada por cerveja. Mais uma vez. com o auxílio de Juca. com bastante manteiga. a cabeça 27 Andrade. Numa declaração de amor à cidade de São Paulo. No céu marioandradino as iguarias são todas brasileiras. para que. possa continuar gozando as delícias de sua terra natal. dividida com todos os familiares que puderam comer até se fartar. “Lenda do Céu”. Juca. com forte cunho nacionalista. há uma contaminação do vocabulário referente aos prazeres gustativo e sexual. como diz o autor. Mário destrincha o próprio corpo. quer que seus restos mortais sejam enterrados em diferentes partes da cidade. in: Poesias completas. este pertencente à série “Lira Paulistana”. constata que “tinha mandioca e açaí/ Mate cana arroz café/ muita banana e feijão/ Milho cacau … Tinha até”. Outras referências gastronômicas podem ser encontradas na obra poética de Mário de Andrade. Quase a ceia de Natal é estragada pela lembrança do pai. em meio a mil maravilhas.

italiano..28 Podemos ainda encontrar resquícios pantagruélicos em “Ode ao Burguês”.. é sempre um cauteloso pouco a pouco. O burguês indigesto de São Paulo é tão sem caráter quanto Macunaíma. 48 Cozinha futurista. Entretanto este poema intitulado ode (teoricamente uma poesia de elogio) demostra o ódio do autor contra o burguês. um homem que sendo francês. eram destinadas às crianças. Poesias Completas.indd 48 7/4/2009 15:51:18 . oh! gelatina pasma!/ Oh purée de batatas morais! ”29 Mario de Andrade faz o retrato da burguesia paulista da época. dono das tradições!/(…) Come! Come-te a ti mesmo. sem caráter. aproximando-se da salada de Sarah Light. aparências contando mais que conteúdo moral ou cultural. Macunaíma é fruto da mistura de tradições. as tripas pro Diabo “que o espírito será de Deus”. brasileiro. o ouvido direito ao Correio. de Macunaíma. escrito pelo mesmo Mário de Andrade. Cauteloso porque mescla várias culturas. o coração ao Pátio do Colégio. e na divisão da primeira anta caçada por Macunaíma.) Eu insulto o burguês funesto! / O indigesto feijão com toucinho. a língua ao alto do Ipiranga. poema de 1920-1921.. O burguês é insultado em sua formação cultural. e. Não havia modo de o herói ser diferente. ritualmente. o nariz aos rosais. intelectual e física: “O burguês níquel. as mãos que ficassem “por aí”. o esquerdo aos telégrafos. foi a parte que coube ao malfadado herói.Fillippo Tommaso Marinetti à Lopes Chaves. tradições 28 Lembremo-nos de que as tripas. através desta. mais consciente de sua “importância” na sociedade não goza dos mesmos privilégios de simpatia que Macunaíma../ o burguês-burguês!/ A digestão bem-feita de São Paulo!/ O homem-curva! O homem-nádegas!/(. os olhos ao Jaraguá. O burguês. é índio. o joelho à Universidade. mas absorve a cultura africana e é contaminado pela européia. em que o alimento auxilia na constituição do típico burguês. Macunaíma não parece em momento algum causar ódio no autor. 29 Andrade. Mário de. provavelmente por sua ingenuidade de herói emprestado de uma mitologia indígena.

da Universidade Federal de Alagoas. Duarte da Costa. portanto. havia virado churrasco. O estrangeiro não era mais ameaça. de sua força. Sua carne não é boa o bastante para ser comida por outrem. Passemos à carne do Bispo Sardinha! OswALd cAnibAL de AndrAde Comidas O horizonte reto Metodicamente Jantou O sol (Julio Paternostro)30 16 de junho de 1556.31 30 Revista de Antropofagia. Mário condena.indd 49 7/4/2009 15:51:18 . homens cheios apenas de comida insossa. segundo o historiador Douglas Aprato. no. a tese sobre o “banquete” encontra respaldo em documentos históricos. 10 31 Apesar de versões que negam que o bispo Sardinha tenha sido comido pelos índios. dom Pedro Fernandes de Sardinha e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. Alguns historiadores levantam a hipótese de que o bispo tenha sido assassinado por homens da guarda do então governador-geral.A cozinha futurista vazias de significado. Data da deglutição do Bispo Sardinha. a quem Sardinha vinha criticando publicamente. 49 Cozinha futurista. de seu poder. este burguês à autofagia. Apropriam-se dele. como cartas de jesuítas da época. Os índios caetés devoram o primeiro bispo do Brasil.

verificamos que ambos tem um livro relacionado de alguma forma à gastronomia anteriormente ao manifesto: Oswald de Andrade escreveu. Sardinha foi devorado por índios. (. com alguns amigos.(. Lei do antropófago..do Brasil. a antropofagia parece ter sido a mais radical das tendências da época.. “Só a antropofagia nos une. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo durante o ano de 1918. de 1930.Fillippo Tommaso Marinetti Oswald de Andrade prega o retorno ao homem natural . A diferença factual de dois anos poderia descartar a hipótese. ”32 Das sucessivas leituras feitas para melhor compreender a obra de Marinetti. Na versão dele. 1a. portanto precedeu em dois anos o Manifesto da Cozinha Futurista. 32 Andrade. ainda na linha de “coincidências” entre os dois autores. O Manifesto Antropófago surgiu em 1928. Para transformá-lo em totem.) A transformação permanente do Tabu em totem. certamente – que se desvencilha dos inimigos ingerindo-os.. Oswald de. Economicamente. dentição. A humana aventura. uma tragédia De acordo com o historiador Moacir Soares Pereira. mas não os caetés nem em Alagoas.) Só me interessa o que não é meu. uma curiosidade persistia: haveria a antropofagia oswaldiana nascido num berço futurista? O Manifesto Antropófago foi publicado em 1928. A terrena finalidade.. no..(. Divergindo em sucessivas batalhas intelectuais de escritores – modernistas ou não – e de outras escolas como o VerdeAmarelo e a Escola da Anta...indd 50 7/4/2009 15:51:18 . Lei do homem. Socialmente. Absorção do inimigo sacro. mas. assimilando assim os valores antes temidos. o bispo foi alvo de tupinambás em território sergipano. 1 50 Cozinha futurista. Já Marinetti havia escrito Le Roi Bombance.) Antropofagia. Filosoficamente. “Manifesto antropófago”.. in: Revista de Antropofagia. publicado no primeiro número da revista de Antropofagia. e marca o início de uma escola literária.

33 0. não faltam modos de preparo.00 0. x ao dia. à moda dos famosos salões 33 Andrade. Existe uma apenas de envelhecer contente”. receita”. com grande encanto e surpresa. Comendo assim. intitulado “Receitas Sentimentais”. À página 104. Apesar de não se relacionar com a culinária. temos um texto assinado pelo pseudônimo Dragoras. as almas sãs se farão robustas e as doentes susterão. João de Barros explicita qual é o objetivo do caderno-livro-diário: fornecer receitas para que as almas matem sua fome de experiência e sua fome de ilusão. temos a “1a. andar sala 2. O livro é um diário de uma garçonnière que Oswald mantinha na rua Líbero Badaró. que ocupa quase toda uma página. Após o texto. Oswald de. o título da obra de Oswald compactua com esta. nas horas de imbecilidade. a marcha de seus males”.A cozinha futurista gastronômica pantagruélica em 1905. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo.15 50.indd 51 7/4/2009 15:51:18 . artistas e intelectuais da época. Ainda que as datas neguem a influência direta em Oswald. 51 Cozinha futurista.0005 Em cápsulas. 1992. com alguns conselhos para as almas: “amemos sempre. esta mais aproximada a uma receita médica: Recipe – Eu te amei ãã Tu não me amavas Eu já não amo Tu és má 0. Esta garçonnière servia como ponto de encontro para amigos. São Paulo: Globo. Criar “o cardápio perfeito para o banquete da vida. Envelheçamos devagar. Já na primeira página. as aproximações são pertinentes. – Há diversas maneiras de amar. 3o. 67.33 Se faltam os ingredientes para aproximá-lo de um livro de cozinha. no ano de 1918-19.

é possível reconhecer nesta obra um esboço do que seriam as características da obra oswaldiana – “o processo fragmentário. o amor pelas situações insólitas e imprevistas com tons de sátira e humor. na grafia de Oswald de Andrade) a quem chamam de Miss Cíclone. p. Provável ironia ao almoço que havia sido oferecido a Monteiro Lobato. a visão de crimes e traições. já havia praticado o que só viria a teorizar 10 anos depois. Todos os amigos que freqüentavam o local contribuíam com o diário. o amor visita a cozinha. bilhetes. Pois foi do mesmo modo formada a cultura brasileira. apenas uma mulher. de colcha de retalhos. Prefácio a O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Oswald. em 1918. os nomes grotescos ou humorísticos. À página 194. também todos traziam e colavam cartas. lê-se a inscrição: “. (Dasy. bilhetes 34 Silva Brito. a Antropofagia. figura dominante de O perfeito Cozinheiro: Deisi.”35 A Cozinha Futurista. o gosto pelo trocadilho. Na realidade. XI-XII 52 Cozinha futurista. também pode ser comparada a O Perfeito Cozinheiro na questão estrutural. todos nele escreviam. produziram o livro-diário. A tradição gastronômica de nosso país apresenta a mesma característica de assimilação das influências diversas para daí resultar em um produto original. ocorre até mesmo um banquete antropofágico na obra.indd 52 7/4/2009 15:51:18 . numa espécie de pastiche. VIII 35 Ibid. Mário da. cartas. Se O Perfeito Cozinheiro é um pastiche de recortes de jornal. recortes de jornais. a que se refere um recorte de jornal colado à página 172.Lobato. o “príncipe de nossa prosa”. p.. de Marinetti e Fillìa. “Há uma espécie de paixão coletiva por Deisi. foste o cordeirinho pascal dessa farra de quaresma”.Fillippo Tommaso Marinetti já citados. Ed Globo. embaixo de uma foto que retrata muitas pessoas em volta de uma longa mesa ao ar livre. que é amante de Oswald”34. charges da imprensa e. Como observa Mario da Silva Brito. Novamente. Dentre eles.

receitas futuristas e um pequeno dicionário que auxiliaria um leigo a compreender a obra e a revolução proposta. que manteve a aparência de “álbum de colagem” e a caligrafia manual. A Cozinha Futurista não dista deste modelo de criação literária. Pastiche também ele. mas são apenas fatos corriqueiros sem nenhuma aparente relação com a antropofagia. mas faltou-lhe a digestão dos elementos previamente ingeridos. Diferenças existem. e pouco aproveitada em Marinetti. que se limitou a reproduzir o conteúdo dos textos jornalísticos e dos cardápios sem todavia apresentar ao leitor a forma original. muito mais privilegiada na obra de Oswald. o poético antefato tragicômico –. Esta obra gastronômica de Marinetti é composta por um texto que poderíamos considerar literário – Uma refeição que evitou um suicídio. o manifesto. traz de volta à literatura um dos pseudônimos (Miramar era Oswald) que comparecem com bastante freqüência em O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. já que é composta da recolha de vários documentos relacionados ao Manifesto da Cozinha Futurista. as cartas de pessoas contra ou a favor do movimento. Marinetti procedeu à ingestão.. mas excetuando a forma. A obra provocou polêmica ao mesclar poesia e prosa numa atitude inovadora para com a língua. Oswald fez sua primeira obra “antropofágica” em 1918.A cozinha futurista etc. Memórias Sentimentais de João Miramar. os métodos de produção se eqüivalem. por certo. Valendo-nos de Padre Antonio Vieira.indd 53 7/4/2009 15:51:18 . os cardápios apresentados nos vários banquetes futuristas que foram oferecidos por ocasião do manifesto e da inauguração do restaurante futurista de Turim (o Santopaladar). Temos. Marinetti utilizou o mesmo processo – a colagem .em 1930. O livro publicado por Oswald de Andrade em 1924. a polêmica por este suscitada e publicada em diferentes jornais e revistas. nesta obra. algumas poucas referências à gastronomia. outros cardápios futuristas criados pelos representantes do movimento. 53 Cozinha futurista.

Excertos de historiadores famosos. Sem pesquisa etimológica. humildes. lingüísticos ou culinários (A cozinha. todos bem assimilados e digeridos. “Sem reminiscências livrescas. temos referências ao ananás. em 1925. “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. folclóricos. Poesia de exportação. o poema “A Roça” nos traz uma descrição da alimentação dos negros que trabalhavam nas fazendas. que resultará na publicação de Poesia Pau-Brasil. Buscando a originalidade nativa nos fatos pictóricos. Toda a gente está lá dentro. como Pero Vaz de Caminha ou Fernão de Magalhães são sistematicamente recortados.Fillippo Tommaso Marinetti No mesmo ano. étnicos. 01. Oswald lança o Manifesto Pau-Brasil. Produtos que serão exportados à Europa. estabeleceu-se um paralelo entre os dois autores: as discussões para batizar o movimento artístico dos rapazes de São Paulo cogitaram o termo “futurismo”. Nesta obra. Apesar de ser composta por ingredientes simples. Sem comparações de apoio. Em “Gandavo”. 1a. com os ingredientes de que dispomos. a pepinos romãs e figos. Em “Poemas da Colonização”. Oswald de. dentição.indd 54 7/4/2009 15:51:18 . No entanto. o Manifesto Pau-Brasil funda a poesia de exportação. econômicos. que foi rejeitado enquanto “marinettismo”. frutos tropicais desconhecidos pelos europeus. 54 Cozinha futurista. a cidras limões e laranjas e à cana-de-açúcar. apenas frases selecionadas engenhosamente. note-se a força de trabalho destes ao final do poema: 36 Andrade. in: Revista de Antropofagia.”36 Mais uma vez. muitas são as referências a iguarias nativas. no. produzida no Brasil. em 1925 Mário de Andrade diria numa carta a Sérgio Milliet: “Essa invenção Pau brasil do nosso Oswald é uma espécie de futurismo de Marinetti. Sem ontologia.” O livro Poesia Pau-Brasil começa com uma leitura pessoal feita por Oswald sobre a História do Brasil. adquirindo assim novo sentido ou poder de persuasão ao serem lidos aos pedaços. O vatapá…).

Entretanto. Oswald de. preferências nacionais. o poema “Walzertraum”37 diz que “aqui dá arroz/ feijão batata/ Leitão e patarata”. Pau Brasil. um poema já prenuncia a antropofagia oswaldiana: DIGESTÃO A couve mineira tem gosto de bife inglês Depois do café e da pinga O gozo de acender a palha Enrolando o fumo De Barbacena ou de Goiás Cigaro cavado Conversa sentada38 Ingredientes brasileiros com gosto de comida estrangeira. que o assimila as influências para transformá-las em originalidade. 55 Cozinha futurista. 38 Os três poemas citados estão em Andrade. As referências gastronômicas são sempre feitas a produtos nacionais. O estrangeiro sendo misturado ao café e à pinga. São Paulo: Globo. em “Postes da Light”. e tem o “trem leiteiro/ que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro”. 37 Numa tradução tendenciosa: “Sonho de Valsa”. uma mistura que revela o caráter do povo brasileiro. nativos.A cozinha futurista A ROÇA Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angu Abóbora chicória e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços Em “rp 1”.indd 55 7/4/2009 15:51:18 . 2000. nosso chocolate tão nacional.

Fillippo Tommaso Marinetti Numa amigável intriga literária.indd 56 7/4/2009 15:51:18 . que acabara de anunciar o noivado com Tarsila. Mário de Andrade divulga em 1925 um poema em homenagem ao amigo Oswald. A resposta de Oswald também vem em forma de poema – paródia publicada em Serafim Ponte Grande. após alguns anos de relacionamento mal explicado à sociedade: Pegue-se 3 litros do visgo da amizade Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo Mexa-se até ficar melado bem pegajento E engula-se tudo de uma vez Como adesão do Mário de Andrade Ao almoço Pra Tarsila E Oswaldo Amém. ambos aludindo a receitas. sob o título “O Amor. com ingredientes e modo de fazer ou ministrar: Tome-se duas dúzias de beijocas Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia Coloque-se dois ovos Agite-se com o braço da Fatalidade 56 Cozinha futurista..Poesia Futurista” .

com 8 páginas.indd 57 7/4/2009 15:51:18 . vários artigos anunciam os jantares nos quais certas figuras da sociedade seriam deglutidas. Além da referência gastronômica óbvia no nome da revista. para que todos os que assim desejam possam participar da comunhão desses tabus. (Só comiam os fortes). real. Às vezes. O catolicismo instituiu a mesma coisa. real em outras. cedida aos antropófagos pelo editor do jornal. a segunda era limitada a uma página do “Diário de São Paulo”. hoje compilada num único volume. publicadas semanalmente. com as raízes. intelectuais que não compreendiam os rumos da literatura modernista. e foram editadas de maio de 1928 a fevereiro de 1929. coloca o ser humano em contato com seus antepassados. de agosto de 1929. a carne destes é oferecida no Açougue. Até que virem totens. Poetas sem brilho. todos seriam ingeridos para reforçar o movimento antropofágico. Escreveu Oswald de Andrade que devemos “admitir a macumba e a missa do gallo. sob a direção de Antonio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. A antropofagia.A cozinha futurista E dê de duas horas em duas horas marcadas No relógio de um ponteiro só! A Revista de Antropofagia. Rubens do Amaral.Lá vem a nossa comida pulando! E a “comida” dizia: “come essa carne porque vai sentir nela o gosto do sangue dos teus antepassados. simbólica em algumas sociedades. mascarando o nosso símbolo. O índio comungava a carne viva. Tudo no fundo é a mesma coisa”. a famí- 57 Cozinha futurista. Hans Staden salvou-se porque chorou. teve duas dentições: a primeira teve dez números em formato revista. o direito de properiedade. por conseguinte. O club de Antropophagia quer agregar todos os elementos sérios. Precisamos rever tudo – o idioma. Foram 16 páginas. Ou ainda: É a comunhão adotada por todas as religiões. com o primitivo e natural. com a verdade de seu povo. porém acovardou-se. Veja só que vigor: . de 17 de março a 1°.

Ascenso Ferreira. a necessidade de divórcio -. talvez com um paladar um pouco mais “modernizado” que o defendido por Oswald. Benedito. em geral indigesto. São Paulo: Perspectiva. acarajé. 277 41 Nunes.39 Segundo Annateresa Fabris. oxinxin. define a tradição de sua terra através dos pratos típicos – vatapá. transformando todos os tabus em totens. 3 40 Fabris. Perspectiva/ EDUSP. várias vezes volta à discussão a tradição indígena. mas a ser consumido necessariamente para criar uma nova ordem de coisas no Brasil”. ou “Os índios não comem a carne de seus inimigos ou chefes com intenção 39 Revista de antropofagia. isto é. O Futurismo Paulista. “Há diferenças psicológicas entre a eliminação física do adversário de maneira ‘científica’ (a cadeira elétrica de Lacerba) e sua deglutição.Fillippo Tommaso Marinetti lia. 1979. p. acaçá. sob diversos nomes (ou pseudônimos): “se há uma coisa vinculada à alma brasileira é este pequeno e inocente vício guloso que levava a velha índia convertida a pedir in extremis ao seu confessor um dedinho de curumim a chupar!” (Ubaldino de Senra). Annateresa. Oswald Canibal. em seu poema intitulado “Bahia”. sinceridade máxima. p. No decorrer dos números da Revista. efó – e pela negação das iguarias estrangeiras: “te dana Petit-pois/ te dana Macarrão/ te dana paté-de-fois-gras!/ Viva o caruru”. num gesto de comunhão e de exorcismo ao mesmo tempo. ou ainda: “A arte é um meio de ‘devorar’ o conteúdo trágico da vida. no. em valores humanos e em obras de arte”41 Outros colaboradores da revista também tinham suas preocupações gastronômicas. 51 e 66 58 Cozinha futurista. caruru. escrever como se fala.indd 58 7/4/2009 15:51:18 . no cardápio antropofágico. abará. São Paulo.40 Benedito Nunes afirma que “A antropofagia transportou para o campo das idéias políticas e sociais o espírito de insurreição artística e literária do Modernismo”. 05. 1994 P.

de Oswald: “Somos concretistas. Talvez nunca tenham sabido da existência desses Manifestos quase “afins”. exige-se “a abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato” ou a afirma-se que “Os defensores do macarrão carregam a bola ou a ruína no estômago. Trazidas nas caravelas. (…) Contra as sublimações antagônicas. do status quo. das idéias e da língua. sua prin- 59 Cozinha futurista. Temos aqui o uso da primeira pessoa do plural – nós – que engloba o leitor. Entretanto.” (China) O Manifesto Antropófago é de 1928 e. além da negação do cotidiano. Comem porque pensam mastigar também o valor do comido – comidos voluntários. fazendo-o acreditar que faz parte também do movimento. e para alcançar tal objetivo. sem dúvida. propondo um novo meio de expressão. quasi todos. portanto. Eric Hobsbawn diz que no campo da arte. Talvez Marinetti tenha sabido da existência da Antropofagia e tenha resolvido imbricar-se nesta área. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. Na verdade. na supressão da pontução e no tom provocatório: No Manifesto de Marinetti. não apenas no conteúdo transformador. como prisioneiros ou arqueólogos”. entendida por ele como culinária. (…) Seu ‘primitivismo’ era. também este anterior ao Manifesto da Cozinha Futurista. Comparemos com o Manifesto Antropófago. a comparação faz-se inevitável. “especialmente das artes visuais.A cozinha futurista gastronômica. Contra a verdade dos povos missionários (…) – É mentira muitas vezes repetida”. As idéias tomam conta. mas também no estilo telegráfico. Ambos os autores querem modificar a mediocridade atual. queimam gente nas praças públicas. procedem à desestruturação da sociedade.indd 59 7/4/2009 15:51:18 . das idéias pré-concebidas.” Ou “Contra todos os importadores de consciência enlatada. inspiraram-se preponderantemente nelas nesse período. afirma-se que os futuristas “Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega”. reagem. as vanguardas ocidentais trataram as culturas não ocidentais em total pé de igualdade.

o escritor questionava a estrutura econômica e cultural do Brasil: País de sobremesa. (…) Os brasileiros estavam começando a descobrir um certo passado. café.Fillippo Tommaso Marinetti cipal atração. 2a dentição. Mário de Andrade escreveu um livro que se chama Dar. Exportamos bananas. verbo intransitivo. ao contrário. País laranja! Temos Coelho Netto. Em 1937. contra o estranja (de outros) ou o infinito (sem dono).indd 60 7/4/2009 15:51:18 .”43 De tudo isso se conclui que a antropofagia é a revolta da sinceridade recalcada durante quatrocentos anos. “A reação da paisagem contra o tempo..”42 O Brasil. 1998. Guilherme de Almeida. Martins Fontes. tinha muito de primitivo por suas raízes indígenas e africanas. no. a disciplina. Rio de Janeiro: Paz e Terra.. 42 Hobsbawn. A Era dos Impérios. Annateresa Fabris diz: “É diferente a atitude de modernistas e futuristas perante a consciência do atraso: os italianos adotam como estratégia fundamental a negação do passado. Os espíritos também.”44 A preocupação com a metáfora gastronômica não cessaria em Oswald. cacau. 4 (editorial) 60 Cozinha futurista. Eric.p. Annateresa. 43 Fabris. enfocam a questão pelo prisma da exaltação de um lugar geográfico emblemático. Da claridade natural contra a sombra da filosofia. Da terra (que é nossa). Do nativo contra o importado. 265 44 Revista de Antropofagia. no qual se enraizará sua consciência nacional. Da sensação espontânea contra a moral. num artigo intitulado “O país da sobremesa”. contra a superioridade do ariano corroído pelo vício e pela moleza das decadências. Os olhos da nossa gente melam. apesar de haver herdado a cultura européia. castanhas do Pará. O açúcar substitui o pão das populações. o sistema. O Futurismo Paulista. Ao comparar os dois movimentos literários. Tudo resultado da gula. O sr. p. coco e fumo. os brasileiros. Da inferioridade do mestiço que trabalha.120-1. Do ingênuo contra o artificioso.

lombinho parnasiano e virado. mArinetti AntrOpOFáGO O livro A Cozinha Futurista.A cozinha futurista Encerrando grandiosamente as relações canibais em Oswald de Andrade. Marinetti corre ao socorro do amigo. em 25 de março de 1950. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil. uma que se parece muito com a morta. juntamente com os futuristas Prampolini e Fillìa. “mas não o suficiente”. Jean de. além de uma taça antropofágica cujo conteúdo desconhecemos e cauim “selo vermelho”. Para não trair a morta. cuja capa reproduzia cenas antropofágicas do livro de Jean de Léry – Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil45. para que fosse salva a vida de seu amigo Giulio Onesti. como já vimos. Para aumentar a tensão. Ano também do jubileu do “Pau Brasil”. além de um lugar reservado aos autógrafos. transformada em “fantásticos laboratórios”. coração de abacate com crustáceos incrustados.indd 61 7/4/2009 15:51:19 . no ano 396 da deglutição do Bispo Sardinha. Giulio Onesti estava deprimido e com instintos suicidas após saber da morte de sua ex-amante. por diferentes ingredientes. batida pau brasil. que se suicidara em Nova Iorque. No verso. para inventar 45 Léry. reproduzimos o cardápio do almoço em comemoração aos 60 anos do escritor. a lista dos pratos: folhadinhos marcianos e canapés voadores. o suicídio parecia ser a melhor alternativa. 61 Cozinha futurista. composto. tem como ingrediente literário apenas o primeiro texto: “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. convida todos os futuristas à cozinha. o mesmo Giulio recebera um telegrama de outra mulher. Marinetti conta como surgiu a idéia de se instaurar uma revolução na cozinha. Neste texto. Proceder-se-ia finalmente à manducação do criador do Manifesto Antropófago. e como solução. deu ensejo a um cardápio de criativo projeto gráfico.

/ Provei meu mel. Os primeiros homens foram expulsos do paraíso porque não conseguiram refrear o impulso de comer um fruto proibido. lembremos que o primeiro ritual antropofágico cristão aconteceu durante a última ceia. ou a forma dos pratos assemelhar-se a elas. diálogo romântico atribuído a Salomão. Antropofagia indireta. em São Paulo ano de 1922. Cem quilos de tâmaras e de bananas. e vem sendo repetido nos últimos dois mil anos. 25.”46 A estreita ligação que existe entre amor e comida remonta à origem do mundo. Eva e o Pecado Original. Dez jarras de óleo./ E como aroma libanês recendem teus velamens” ou ainda “Depois de haver provado o trigo meu. com 22 esculturas./ E sob a língua. basta lembrar de Adão. Ainda no âmbito bíblico. chocolate em pó. com bolos de mel me recupera”. mas ingerimos o corpo de Cristo em forma de hóstia. tradução de Antonio Medina Rodrigues. Talvez Marinetti esteja aludindo à Semana de Arte Moderna. leite e mel. Daí advém o fato da descrição dos pratos futuristas muitas vezes ser entremeada de adjetivos atribuíveis a mulheres. ou “raios de mel.Fillippo Tommaso Marinetti esculturas comestíveis. por certo. farinha de milho. Estes ingredientes ao aludirem ao Cântico dos Cânticos. Dentre os versos do Cântico. 62 Cozinha futurista. mel e leite. metafórica. Os ingredientes. “indispensáveis”: farinha de castanhas. farinha de centeio. Marinetti aproxima os prazeres derivados pela comida ao proporcionado pelas mulheres. pp. açúcar e ovos. destilam teus lábios. Bastaria observar os pratos executados por Marinetti e seus companheiros para a “Mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis”47: 46 Cântico dos cânticos.indd 62 7/4/2009 15:51:19 . encontramos : “do banquete me aproxima. ninfa. podem talvez ser um prenúncio de uma relação amorosa a ser apresentada posteriormente ao leitor. pimenta vermelha. do leite já provei. 37 e 39 47 Caberia aqui ressaltar a coincidência (ou não) de haver uma mostra. farinha de trigo./ O vinho eu já bebi. farinha de amêndoas. e bebemos seu sangue em forma de vinho. na Eucaristia.

e esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas.suave magnetismo das mulheres mais belas. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos . com um tremendo torcer de rins. Enquanto os complexos plásticos comestíveis têm as curvas de uma mulher. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as 63 Cozinha futurista. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis. era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. Às três daquela noite. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda.A cozinha futurista Complexo plástico d’Ela . fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. como uma tigresa alongada. Escultores e escultoras dormiam. Paixão das Loiras . percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. começou a amorosa adoração com os lábios. Levantou-se agilmente. um seu modo de flutuar sensualíssimo. parece oportuno ressaltar o fato de que a ingestão de um prato assemelha-se intensamente a uma relação sexual: De improviso. um sorriso seu de lábios.é de tal modo bela. sem fazer barulho. a língua e os dentes.indd 63 7/4/2009 15:51:19 . Ajoelhandose em frente. Acima. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. com as costas suspeitosas de um ladrão. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens.massa folhada com uma leve curva especial de boca ou ventre ou quadris. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. e das mais belas Áfricas sonhadas.

com leite apenas ordenhado. chocolate. cogumelos trufados. se Giulio apenas se delicia com uma iguaria que enche os olhos e o estômago ou se imagina haver ali uma mulher submissa às suas glutonarias. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. No “Cardápio Noturno de Amor”. não oferece nada para comer. morenas ou uma bela desnuda: “duas coxas de frango cozidas numa bacia de cristal. Este cardápio.indd 64 7/4/2009 15:51:19 . Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. O capítulo “Os Cardápios Futuristas – sugestivos e determinantes” também evoca a sensualidade que se pode obter através da alimentação. ervas. Perfumes diversos são vaporizados nos comensais. O “Cardápio de Solteiro” tenta amenizar a solidão do rapaz com pratos que evocam louras. Marinetti confunde o leitor. vazio e transbordante. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. tudo coberto por pétalas de violeta. lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. apenas para cheirar.Fillippo Tommaso Marinetti grandes jóias do olhar. com a cabeça descoberta. Possessor e possuído. Aproveitador e aproveitado. que já não tem certeza de se tratar de um prato comestível real ou se este prato se transubstanciou em fêmea. berinjelas fritas. Estava ao mesmo tempo desobstruído. frutas e peixes. Talvez para se refrescar. Sem fim. verdadeira tortura psicológica e estomacal. Único e total. liberado. presunto infuso em leite e ostras com vinho Moscato devolvem os amantes às fadigas da cama. 64 Cozinha futurista. O “Cardápio de Núpcias” promete aquecer os estômagos de todos os comensais com risoto à milanesa. risoto.” Mas é no “Cardápio Extremista” que podemos mais uma vez observar a índole canibal latente no futurismo. espinafre com creme. Giulio saiu então no parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão.

No romance. desde o nome dos personagens até o nome da espada do rei – La Succulenta. 09 65 Cozinha futurista. autor de Ubu Rei. desde o início da carreira de Marinetti. morre. Milão: Fratelli Treves. em um castelo onde tudo alude a comida. que prometem um banquete a todo o reino. A obra é uma metáfora gastronômica rabelaisiana. ainda na França. F. e um deles observa que se não lhes for oferecido nada. As mulheres todas fogem. lamentando o fato de não poderem devorá-las: 48 Marinetti.” Os paladares famintos são então aplacados com dois perfumes de “vida carne luxúria morte”. primeiro cozinheiro. no reino dos Citrulli. imploram por qualquer coisa para mastigar.T. e foi bem recebida por Alfred Jarry. como podemos observar no romance Le Roi Bombance – tragédia satírica em quatro atos. Re Baldoria. le loro poppe proeminenti ci nascondevano la magnificenza delle portate”48. simbolicamente) são então passadas a três aproveitadores. p. criada durante a greve geral de 1904 em Milão.A cozinha futurista Os convidados choramingam. Na realidade. seu inspirador.indd 65 7/4/2009 15:51:19 . – A tavola. em prosa . Panciarguta. Alguns homens sentem falta das mulheres. “veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas. já que “la ripugnante sobrietà delle donne e la loro abituale lussuria scombussolavano già da troppo tempo le nostre idee digestive. o futuro histórico-social do mundo é reduzido a uma questão meramente gastronômica: os homens lutariam e se ocupariam incessantemente apenas para garantir sua felicidade gastro-intestinal. não é apenas em A Cozinha futurista que podemos observar esta abordagem antropofágica. o que proporciona uma felicidade estomacal nos homens. A história se desenvolve numa era medieval fictícia. 1920. Entretanto. havia uma atenção especial a este tema. e as cozinhas (o poder.escrito em francês por Marinetti em 1905 e depois traduzida pelo próprio Marinetti para o italiano com o título Re Baldoria.

Ibid. 50 Os habitantes começam a se revoltar. De fato. a ingestão do rei é considerada uma honra para o ingerido. a leccarne senza fine. A fome extrapola os limites. 105 66 Cozinha futurista. exigindo que o rei os alimente. aplacar a fome dos comensais com palavras. apassionatamente. foi salgada e ingerida. così. ad amarmi a tavola e a mangiarmi a letto!”. os homens devoram uns aos outros.indd 66 7/4/2009 15:51:19 .12 50 Id. Podemos. p.. Este já havia nomeado outros cozinheiros. che noi empiamo del nostro sangue di porco! Diventano. F. vieni presto. sempre relacionada à ingestão de carne humana: 49 MARINETTI. Já vimos o que simboliza o vômito em Macunaíma. Numa orgia antropofágica.. ma non si lasciano mangiare! E ci si annoia. sanguinacci saporitissimi. que se fartam nas cozinhas enquanto dizem preparar o alimento para todos. de Mário de Andrade. A carne de todos os que morreram. e os convivas resolvem comer o rei. bobo da corte. Quem assina é “La tua Salsetta”. Re Baldoria. mais uma vez verificar a aproximação dos prazeres gastronômicos e sexuais: “Ah! Vieni. lendo uma carta por ela enviada. Ibid. p. mia grossa polpetta dorata. mas Marinetti nos dá outra informação.Fillippo Tommaso Marinetti Le donne? …Sono vesciche. sem mastigar bem. vieni a baciarmi con le tue belle labbra sugose di prelibati salmi! (…) Vieni. O Idiota. vieni ad amarmi a tavola. através do vômito. como nas tribos indígenas. fato que ocasiona a ressureição do rei e seus seguidores. l’impermeabile pelle!49 O rei sente falta da sua rainha. tenta em vão. nesta carta. p.T. 33 51 Id. perdio. os secretários e os companheiros que por um ou outro motivo desafiavam-se na sala do banquete e perdiam a vida. mulher de estômago forte. pois “poderia haver um túmulo mais digno?”51.

Quel che si vomita è più forte e più vivo di ciò che si è inghiottito!…52 Em uma passagem do livro. 227 53 MARINETTI. se non volete che il corpo mangiato. salsologia. la proprietà comune dei 52 Id. o mar devolve o cadáver dos náufragos… assim também o estômago dos Citrulli os havia restituído à vida.A cozinha futurista Inoltre bisogna guardare bene dal recere le conquiste del nostro stomaco… 1°. Marinetti satiriza nesta obra a ideologia e a práxis socialista: “La sociologia si tramuta in sauçologie.. os homens ressuscitados (vomitados. Bebam. 267 67 Cozinha futurista. F. Re Baldoria. e que fediam muito) sentem fome novamente. ao final. assim como a baleia devolveu Jonas. ed uno dei cardini del socialismo. Entretanto. Perché si vomita sempre molto più di quanto si è mangiato!…Talvolta. um dos personagens alude ao sacramento católico. Ibid. Fra Trippa. e recomeçam a lançar olhares de desejo uns aos outros. defende que sua ingestão e ressuscitamento através do vômito seria simbólico..”53 Segundo Luciano De Maria. este é meu corpo! (e oferece realmente uma parte de seu corpo mutilado). o Santo Sepulcro devolveu Jesus Cristo. Um vampiro filósofo que aparece ao final da história resume o problema: “Di età in età. A antropofagia era real e metafórica ao mesmo tempo. rinsaldandosi l’uno all’altro rivivano in voi per dichiararvi guerra!… 2°. p. p.indd 67 7/4/2009 15:51:19 . indicando que a história poderá se repetir infinitas vezes.T. e diz: Comam. si vomitano persino le budella… talvolta lo stomaco intero!… Masticate con cura gli alimenti! Dividete la carne in tanti piccoli pezzi. i Citrulli vanno perfezionando le loro mascelle nell’arte di divirarsi l’un l’altro con crescente agilità… Ecco il solo progresso possibile. representante eclesiástico da história. Um dos personagens. este é o meu sangue (e oferece o sangue que recolhera em uma taça).

tirano e usurpador. Luciano. Poi. le servette. F. Mais uma vez.76-77 68 Cozinha futurista. A obra.indd 68 7/4/2009 15:51:19 . una dopo l’altra. diviene la socializzazione dei mezzi di produzione culinaria”54.guerreiro feroz e implacável. para trazer à vida seu irmão mais novo. Assim nasce Gazoumah. p. atravessa os oceanos e concebe finalmente a idéia de um filho que resultasse de um nascimento apenas cerebral. sui cuscini. no decorrer da obra. Pp. facendo schioccare la lingua e stroppicciandosi le mammelle per vincerne il troppo dolce prurito. fosse no amor ou no modo de governar . cruel e impetuoso.203 55 MARINETTI. il futurista. pensndo fosse un pesce. Marinetti publicou Mafarka. Mafarka. empreende uma viagem mítica ao reino dos mortos. Louco de dor. que renuncia ao seu trono e ao seu povo após vencer todos os inimigos.T. (…) Mafarka lo mangiò. Este romance africano traz a história de Mafarka-el-Bar . e não biológico. em 1910.. bárbaro e sádico. emanação pura do discurso futurista.55 54 DE MARIA. “La chiave dei simboli in ‘Re Baldoria’” in: La nascita dell’avanguardia. e lo condirono sì bene con viole e cannella. confunde-se o vocabulário referente aos prazeres carnais e estomacais: I cuochi infarcirono lo Zeb con del latte cagliato. il Futurista quase simultaneamente em francês e em italiano. origliavano alle porte della casa sala del convito. E. la sera. Pouco tempo depois. Mafarka si gettò sulle serve che stavano sparecchiando e le possedette. um filho imortal porque nasceu sem a participação da vulva maléfica que predispõe à decrepitude e à morte.o rei de Tell-el-Kibir. Magamal. do qual o autor foi absolvido. em sua tradução italiana. stuzzicante da quell’odore. ridendo come un pazzo.. che un odore caldo e squisito inebbriò voluttuosamente tutta la casa.Fillippo Tommaso Marinetti mezzi di produzione. levou Marinetti a um processo por atentado ao pudor.

declara. de Roma. já destituída da cabeça. Em 1922. 2) Consigli ad una signora scettica. 3) Cuori complicati.arengario. encontramos um conto intitulado “Come si nutriva l’Ardito”. algumas informações puderam ser obtidas no site L’Arengario56. uma vez que uma grande indigestão num livro de contos eróticos pode referir-se ao abuso das “fadigas da cama”. o qual.A cozinha futurista Muitos banquetes (ou orgias) acontecem no decorrer da obra e. um “studio biliografico”. que se pode mesclar com a antropofagia.it/futurismo 69 Cozinha futurista. 5) Matrimonio ad aria compressa.indd 69 7/4/2009 15:51:19 . que ele havia amorosamente comido. entretanto. 7) Grande albergo del pericolo. das pernas e dos braços. de Cremona. Guzzo o personagem Corajoso a que se refere o título. No livro de contos Novelle colle labbra tinte. pela Casa Editrice Ghelfa. traz sete novelas eróticas: 1) Autoritratto. a surpresa: ele carrega consigo o corpo mutilado da amante. que reproduz a capa de inúmeras obras raras ou de difícil localização. a voracidade com que os personagem avançam sobre o alimento remete aos antigos antropófagos. agile e interessante autobiografia. Em 1927. Num clima de insanidade. entre disparos de metralhadora do campo inimigo. por tratarem do amor. Em 1918 foi publicado o livro Come si seducono le donne. neles. 4) Cacce arabe. outro livro traz o amor no título: Scatole d’Amore in Conserva. carrega numa mochila um pedaço de carne salgada. durante a travessia de um rio em meio 56 www. de 1930. não quer dividir com ninguém. 6) Una favolosa indigestione. Atenção à sexta novela. pela editora Excelsior de Milão. Ao abrir a mochila. Algumas obras de Marinetti não são facilmente encontradas. bem como resenhas ou comentários sobre seu conteúdo. Publicado pela Edizioni d’Arte Fauno. cujo título remete à antropofagia. que devoravam os inimigos para saciar seu apetite animal. um livro sobre amor foi lançado por Marinetti: são alguns contos eróticos publicados sob o título Gli Amori Futuristi. Selecionamos alguns títulos aparentemente relevantes a este estudo.

tem uma grande cicatriz. Entretanto. Cosi pure il collo. pedindo que seja ingerida. piccola. temos a descrição de Guzzo: “un certo Guzzo di Trapani tutto nero. dois detalhes invocam o passado ritual antropofágico. e a mochila com os restos da mulher é então carregada pelo tenente. Ibid pp 399 e 405 70 Cozinha futurista. Le mammelline tonde soavi vive. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non parla più! Il ventre umile. timido. Mais tarde: “nelle mie vene il mio sangue ti culla. Num primeiro momento. pp. 1930. ingenuo. fazendo crer o leitor na doçura deste monstro 57 MARINETTI. Imagina-se que ele comerá o resto do cadáver. grandi occhi neri dolcissimi. mas com olhos dulcíssimos. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà.Fillippo Tommaso Marinetti à batalha. assimilando o resto do amor que ele traz. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. o rosto embrutecido. vero Saraceno magro agile scattante.T. Novelle colle labbra tinta: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. de outra cultura.indd 70 7/4/2009 15:51:19 . Guzzo conversa com o cadáver. tremano. Plasticamente falando. de outra cor.57 Guzzo morre. assim. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra”. que responde. Milano: Mondadori. F. Além disso. assim eles se tornariam apenas um. algumas imagens acabam por tornarem-se recorrentes nesta “fase antropofágica” de Marinetti. Observemos como a descrição da jovem morta devorada por Guzzo assemelha-se bastante à descrição dos complexos plásticos comestíveis já citados: Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce.402-3 58 Id. deformado. que havia assistido a toda a cena canibalesca.58 Guzzo é muçulmano. Marinetti pode talvez querer assim atenuar a gravidade do ato canibal.

Eis o que dizem: . Marinetti nos revela. acabam por revelar sua opinião sobre as mulheres. através de Guzzo e seu tenente. a alvorada. o intestino igualmente enamorados. mas os dentes. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas obras de gênio e de língua insaciável. o estômago. a língua. Em “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. O seu coração. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. os futuristas.indd 71 7/4/2009 15:51:19 . a única e todas encontravam-se aqui. se apertado pelo supremo prazer do amor. para que assimilassem com este as qualidades atribuídas à pessoa em vida. Em um diálogo que praticamente encerra o conto. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. o pudor. respondendo a uma pergunta feita por “aquela que se parece bastante mas não o suficiente”.Amamos as mulheres. O fascínio. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. a ingenuidade. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração.A cozinha futurista de cultura desconhecida. São os nossos estados de ânimo realizados. diante de nossas mãos. não só o tato e relativas carícias. O outro excerto alude ao fato comum entre os indígenas americanos (a América era o paraíso na visão de muitos europeus) de ingerir o corpo dos ancestrais mortos. a graça infantil. especialmente as mães. outros detalhes sobre o sexo feminino: 71 Cozinha futurista. o furioso turbilhão do sexo.

Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. Construir de novo. degustada. p. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. Ibid. o ato antropófago. ma non le donne vive. Deglutir até que chegue a hora de um prato melhor. vemos a conformidade deste pensamento de Marinetti com o movimento brasileiro. A mulher é adorada. e no final. Deglutir tudo. le sue gambe. cheirada.indd 72 7/4/2009 15:51:19 . Nada mais oportuno que uma relação canibal: após o ato amoroso. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. cuja força aumenta com a carne ingerida. Non amo la testa della donna. Um texto sob o pseudônimo Darwin afirmava que era necessário: Voltar ao estado natural. A mulher deixa de existir. (Ou ainda: a mulher é comida). Lo so. Devem satisfazer o homem. Ti ho visto. ti approvo. Ora porti il resto sulle spalle. né i suoi piedi. Ao chegarmos aí. Vedi. Guzzo? Sì. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!…59 Não seria absurdo pensar que para o futurista. deixa de pensar. visto que será assimilada pelo outro. Na Revista de Antropofagia. ajuda o homem.Fillippo Tommaso Marinetti Ti piaciono le donne. Lo so. não pode mais escapar. auxiliar a catalisar suas forças. proporcionar-lhes prazer. comida. as mulheres têm tanta importância quanto a comida. sem no entanto atrapalhar seu desenvolvimento ou sua vida. nós 59 Id. le sue braccia.406 72 Cozinha futurista.

não! Cortar. quiseram-se incorporar-se de todos os modos. para possuí-lo.A cozinha futurista teremos atingido o momento supremo em que a idéia se une à força. e a senhora Enif Robert. a no momento de tirar o curativo e enfrentar a cicatriz. para que o médico não tivesse “naquele dia a sua porção de carne a cortar com método”. Milano: Falcchi Editore. somente começa a se acelerar após a leitura do “manual terapêutico do desejo-imaginação” desenvolvido por Marinetti. quer fugir do hospital. havendo uma troca de correspondências entre o futurista F. e ROBERT. e quando se deve proceder à cirurgia. Futurismo como cura. A cirurgia é feita. em meio à guerra. a senhora tem uma crise de nervos. os médicos são equiparados a açougueiros. 73 Cozinha futurista. a ciência se iguala à inspiração e o pensamento circula livremente pelo organismo Nos transportes do amor humano. 1919. para viver dele? 60 Outra obra do futurismo que tem um leve apelo antropofágico é Un Ventre di Donna. Os pontos não cicatrizam. se devoram. p. e em meio a contorsões grita: “Não! Assassinos! Açougueiros! Acorde. ocorre uma segunda cirurgia e a recuperação. no. o objeto amado. O primeiro cirurgião é apelidado pela senhora Robert de “Jack. 1a. com uma doença nervosa. internada num hospital após uma cirurgia sem muito sucesso para a retirada dos órgãos reprodutores inflamados. Un ventre di donna: romanzo chirurgico. Boa parte da obra é escrita de maneira epistolar. quem não sabe que os amantes se comem. F. 7 61 MARINETTI. tirar. dizia o poeta. apesar de não haver menção à ingestão da carne humana. a carne humana 60 Revista de Antropofagia. “romance cirúrgico”. para alimentar-se. não! A minha carne é minha!… Comando eu!… Tenho direito…”61 Neste livro.indd 73 7/4/2009 15:51:19 . numa trincheira. 59 e 81. até com os dentes. nova crise nervosa. Marinetti. dentição. para unir-se a ele. lo sventratore”. T. logo. exaustivamente lenta. Enif.T.

O repertório intelectual de uma cultura é intocável. é que se pode inovar. A renovação de nossa literatura deve muito aos caraíbas e aos tupinambás. F. os secretários eram “açougueiros” e a carne dos “inimigos intelectuais” era sempre oferecida num açougue imaginário. física. julgando que estão livres daquelas amarras intelectuais. teorizada por Oswald. comendo as idéias e assimilando tudo numa digestão bem feita. e somente ingerindo. A Cozinha Futurista.” 62 62 MARINETTI. Tradução em português p.indd 74 7/4/2009 15:51:19 . A nacionalidade foi enfocada por cada um deles.T. Todos preocuparam-se com a culinária. preocupados em fortalecer os cidadãos e a pátria. intelectual ou financeiramente. foi praticada por estes três autores e muitos outros em diversas culturas. seja através da ingestão e a assimilação dos ingredientes formadores da cultura. novamente. outras foram simplesmente descartadas. A antropofagia. os autores renegam o passado literário. Para evitar a indigestão. Muitas vezes. Foi necessário devorar nossos antepassados e nos imbuir de toda a coragem que eles um dia tiveram para que não caíssemos na mesmice literária.85 74 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti com a carne animal que se oferece nos açougues. A digestão seria difícil. Na Revista de Antropofagia. seja através dos alimentos oferecidos ao corpo e à alma. bebendo dessas fontes. em prol de uma modernidade almejada. moral. Podemos assim estabelecer um vínculo sangüíneo entre os três autores. As pessoas e as influências importantes foram assimiladas. uma receita marinettiana: “O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos.

indd 75 7/4/2009 15:51:19 .CApítulo 2 A Cozinha Futurista e a linguagem W Cozinha futurista.

indd 76 7/4/2009 15:51:19 .Cozinha futurista.

devemos começar em 1909. 77 Cozinha futurista. com o Manifesto do Futurismo.O FuturismO: prOpOstA de revOLuçãO LinGüísticA Para melhor compreender as dificuldades apresentadas ao tradutor por um texto futurista. ano do Manifesto Técnico da Literatura Futurista. passando depois para 1912. documentos que já apresentavam as primeiras modificações lingüísticas sugeridas pela vanguarda artística. Por meio da leitura de excertos destes dois manifestos. conseguiu realizar. tentaremos verificar quais experimentos Marinetti tentaria concretizar em suas obras e o que. na prática.indd 77 7/4/2009 15:51:19 .

lanciata a corsa. il salto mortale. il gesto distruttore dei libertari. il passo di corsa. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!. un automobile ruggente. è più bello della Vittoria di Samotracia. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa. che sembra correre sulla mitraglia. l’insonnia febbrile... essa pure. poiché abbiamo già creata l’eterna velocità omnipresente. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità.Fillippo Tommaso Marinetti Manifesto del Futurismo il 20 febbraio 1909 Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo. Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo – il militarismo. Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro. se vogliamo sfondare le misterioseporte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. il patriottismo. No v’è più bellezza. la cui asta ideale attraversa la Terra.. l’estasi e il sonno.. le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna. sfarzo e munificenza. lo schiaffo ed il pugno. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo. se non nella lotta. 78 Cozinha futurista. per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo. saranno elementi essenziali della nostra poesia. l’audacia. Noi viviamo già nell’assoluto. Il coraggio. La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote.indd 78 7/4/2009 15:51:19 . Noi vogliamo esaltare il movimento agressivo. sul circuito della sua orbita. la ribellione. per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali. Bisogna che il poeta si prodighi. con ardore. Perché dovremmo guardarci alle spalle. l’abitudine all’energia e alla temerità.

Appena il necessario per camminare. E l’elica soggiunse: 79 Cozinha futurista.. il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria. una testa previdente. dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne. seduto sul cilindro della benzina. due gambe e due piedi piatti. i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte. le biblioteche.. e combattere contro il moralismo. come ogni imbecile. canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche. ma non avrà mai due ali. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro.indd 79 7/4/2009 15:51:19 . le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi. le stazioni ingorde. (. che scalpitano sulle rotaie. le accademie d’ogni specie. un ventre. la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta. per correre un momento e fermarsi quasi subito sbuffando! Ecco che cosa mi disse l’elica turbinante. le locomotive dall’ampio petto. Bisogno furioso di liberare le parole. e il volo scivolante degli aeroplani.A cozinha futurista Noi vogliamo distruggere i musei. i ponti simili a ginnasi giganti che scavalcano i fiumi. divoratrici di serpi che fumano.) Manifesto tecnico della letteratura futurista 11 maggio 1912 In aeroplano. scaldato il ventre dalla testa dell’aviatore. balenanti al sole con um luccichio di coltelli. io sentii l’inanità ridicola della vecchia sintassi ereditata da Omero. traendole fuori dalla prigione del periodo latino! Questo ha naturalmente. come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi. mentre filavo a duecento metri sopra i possedenti fumaiuoli di Milano.

la percezione per analogia diventa sempre più naturale per l’uomo.Fillippo Tommaso Marinetti Bisogna distruggere la sintassi disponendo i sostantivi a caso. cioè il sostantivo deve essere seguito. il simile a. folla-risacca. il così. Il verbo all’infinito può. gli avverbi e le congiunzioni. 80 Cozinha futurista. come nascono. vecchia fibbia che tiene unite l’una all’altra le parole. L’aggettivo avendo in sé un carattere di sfumatura. perché il sostantivo nudo conservi il suo colore essenziale. Ogni sostantivo deve avere il suo doppio. Si deve usare il verbo all’infinito. senza le soste assurde delle virgole e dei punti. piazza-imbuto. e i segni musicali. porta-rubinetto.indd 80 7/4/2009 15:51:19 . L’avverbio conserva alla frase una fastidiosa unità di tono. donna-golfo. s’impiegheranno segni della matematica: + . dando l’immagine in iscorcio mediante una sola parola essenziale. dal sostantivo a cui è legato per analogia. nella continuità varia di uno stile vivo che si crea da sé.x : = > <. Meglio ancora. solo. una meditazione. è inconcepibile con la nostra visione dinamica. Siccome la velocità aerea ha molteplicato la nostra conoscenza del mondo. il quale. la punteggiatura è naturalmente annullata. Esempio: uomo-torpediniera. poiché suppone una sosta. bisogna fondere direttamente l’oggetto coll’immagine che esso evoca. Si deve abolire l’aggettivo. perché si adatti elasticamente al sostantivo e non lo sottoponga all’io dello scrittore che osserva o immagina. dare il senso della continuità della vita e l’elasticità dell’intuizione che la percepisce. Abolire anche la punteggiatura. Essendo soppressi gli aggettivi. Per accentuare certi movimenti e indicare le loro direzioni. Bisogna dunque sopprimere il come. senza congiunzione. Si deve abolire l’avverbio.

quantunque lontanissimi. press’a poco. (Hanno paragonato per esempio un fox terrier a un piccolissimo puro-sangue. Per dare i movimenti sucessivi d’un oggetto bisogna dare la catena delle analogie che esso evoca. a una piccola macchina Morse. a un’acqua ribollente. Non vi sono categorie d’immagini. V’è in ciò una gradazione di analogie sempre più vaste..indd 81 7/4/2009 15:51:20 . sottoposto a una logica e ad una saggezza spaventose. eccentriche o naturali. il che equivale ancora.. Altri.A cozinha futurista Gli scrittori si sono abbandonati finora all’analogia immediata. bisogna formare delle strette reti d’immagini o analogiem che verrano lanciate nel mare misterioso dei fenomeni. ognuna condensata. e 81 Cozinha futurista.) Per avviluppare e cogliere tutto ciò che vi è di più fuggevole e di più inafferrabile nella materia. e cioè quasi tutto.. nobili o grossolane o volgari. Dunque dobbiamo abolirlo nella letteratura. (.) Bisogna dunque abolire nella lingua tutto ciò che essa contiene in fatto d’immagini stereotipate. Io lo paragono invece. più avanzati. a una specie di fotografia. cioè tutta la psicologia. potrebbero paragonare quello stesso fox-terrier trepidante.. Distruggere nella letteratura l’“io”. vi sono dei rapporti sempre più profondi e solidi. non offre assolutamente più interesse alcuno. Hanno paragonato per esempio l’animale all’uomo o ad un altro animale. Lo stile analogico è dunque padrone assoluto di tutta la materia e della sua intensa vita.) (. L’uomo completamente avariato dalla biblioteca e dal museo. L’intuizione che le percepisce non ha né preferenze né partiti-presi. di metafore scolorite. Siccome ogni specie di ordine è fatalmente un prodotto dell’inteligenza cauta e guardinga bisogna orchestrare le immagini disponendole secondo un maximum di disordine. raccolta in una parola essenziale.

indd 82 7/4/2009 15:51:20 . realçar a velocidade. “salto mortal”.. Il cinematografo ci offre la danza di un oggetto che si divide e si ricompone senza l’intervento umano. a agressividade. Nulla è più interessante.Fillippo Tommaso Marinetti sostituirlo finalmente colla materia. ecco iniziarsi il regno meccanico. em seus manifestos. Vejamos alguns pontos propostos por Marinetti. suprema difinizione dall’inteligenza logica..(. la qual cosa non potranno mai fare i fisici né i chimici. conseguiu praticar. che l’agitarsi della tastiera di un piano forte meccanico. e quindi dalla morte stessa. desde que expostos ao acaso. A análise dos manifestos em si já demonstra a fragilidade destas proposições. construir analogias inéditas e surpreendentes. di cui si deve afferrare l’essenza a colpi d’intuizione.) Noi vogliamo dare. Noi lo libereremo dall’idea della morte. noi prepariamo la creazione dell’uomo meccanico dalle parti cambiabili. usar verbos no infinitivo. são muitas as regras que o futurismo impunha aos escritores que quisessem honrar a ideologia do movimento: abolir a pontuação. sentem uma “necessidade furiosa” ou ouvem da “hélice turbilhonante” os preceitos 82 Cozinha futurista. in letteratura. la vita del motore. per un poeta futurista. “insônia febril”. nuovo animale istintivo del quale conosceremo l’istinto generale allorché avremo conosciuto gl’istinti delle diverse forze che lo compongono. mas que nem ele.. os avanços tecnológicos. della quale gli scienziati non possono conoscere che le reazioni fisico-chimiche. Como podemos observar. Con la conoscenza e l’amicizia della materia.. usar muitos substantivos. (. usa inúmeras palavras para caracterizar os objetivos do grupo: alcançar um “movimento agressivo”. o adjetivo e o advérbio.) Dopo il regno animale. Ao mesmo tempo em que propõe a abolição dos adjetivos.

conquanto freqüentemente sejam precedidos de modais que indicam sua conjugação. que nos parece um adjetivo “camuflado”. 1989. e eis que o ensinamento não é cumprido pelo mestre. Deve-se abolir o advérbio. Teoria Lexical. uma texto sem advérbios ficaria mais veloz. poderíamos pensar em uma mera substituição de um símbolo por outro. p. é caracterizada por este segundo elemento. separado por hífen. Se Marinetti propõe a abolição dos adjetivos. A ausência da pontuação dá margem a infinitas interpretações e analogias. fator positivo num texto futurista.30 83 Cozinha futurista. seria mais convincente que ele mesmo deixasse de usá-los. Abolir a pontuação é outra proposta bastante intrigante. O fato é que Marinetti tenta não usar a pontuação. o segundo teria o objetivo de modificar ou especificar o primeiro1. Apenas algumas linhas de distância. Exemplificando com o próprio manifesto: “homem-torpedeira”. o uso do substantivo com seu duplo. o item 2 do Manifesto Técnico diz: “para que este se adapte elasticamente ao substantivo”. Ora. que estaria assim em movimento. As frases nominais também aparecem com bastante assiduidade. “multidão-ressaca”. já no item 6 temos “a pontuação é naturalmente anulada”. Na prática. São Paulo: Ática. se usamos dois substantivos acoplados. prova de que os substantivos são as palavras com carga semântica mais importante para os futuristas. a certo ponto. de qualquer modo. Os verbos no infinitivo são a proposta com maior incidência nos manifestos.A cozinha futurista do movimento. ou ao menos diminuir a quantidade desta. Se em seu lugar poderiam ser utilizados símbolos matemáticos ou musicais. mas a compreensão ficaria prejudicada 1 Basilio. A praça tem o formato ou a utilidade de um funil. Marinetti propõe. Assim poderíamos proceder com todos os substantivos e seu respectivo duplo. Seria um substantivo composto. Margarida. Na teoria. Ainda sobre a contraditória abolição dos adjetivos.indd 83 7/4/2009 15:51:20 . que caracterizaria o objeto. sem “a velha fivela que mantém as palavras unidas umas às outras”. mas. “praça-funil”.

atirar-nos-ão ao cesto. na primeira década do século. gostaria de lembrar uma passagem do Manifesto do Futurismo que não está reproduzida acima. Marinetti foi o estopim do movimento. tinha 54 anos. A cOzinhA FuturistA e As inOvAções nA LínGuA O Manifesto da Cozinha Futurista segue o modelo dos outros manifestos promulgados pelo movimento futurista: um pequeno texto que explica ou exemplifica o problema a ser abordado. Em poesia. como manuscritos inúteis. outros homens mais jovens e mais válidos que nós.Fillippo Tommaso Marinetti se esta fosse abolida por completo. considerava-se ainda capaz e jovem o bastante para seguir à frente do movimento futurista. fossem estas políticas ou de reciclagem de seus participantes. 84 Cozinha futurista. Os mais velhos dentre nós têm trinta anos: resta-nos portanto pelo menos uma década. Quando da publicação do Manifesto da Cozinha futurista. o nome de Benito Mussolini é lembrado. em 1944. mas isto é dificultado nos textos em prosa. – Nós o desejamos! Na época desse manifesto. que se propõe um estilo original. nascido em 1876. ocorrida com sua morte. e o “autor literário” que tende a uma linguagem mais tradicional. para cumprir nossa obra. 1909. seguido por um conjunto de regras a serem seguidas. que perdem em clareza e inteligibilidade. Marinetti deveria ter sido substituído por outros homens mais jovens e com maior agressividade. Verifica-se então uma bipolaridade entre o difusor das idéias futuristas. no entanto. É oportuno ressaltar que no primeiro parágrafo deste manifesto. Quando tivermos quarenta anos. Antes de partir para a análise da linguagem em A Cozinha Futurista. a disposição dos versos no papel supre a falta de pontos ou vírgulas. e permaneceria fiel a seus ideais até a consumação total da chama.indd 84 7/4/2009 15:51:20 . embora este já tivesse sofrido muitas transformações. contava já 33 anos. Marinetti. acerca da idade dos artistas. Julgando-o pelos seus próprios preconceitos.

e algumas vezes realmente consegue . strambo e misterioso”. situado no início do segundo capítulo. e o Manifesto da Cozinha Futurista. novas palavras ou analogias diferenciadas. Os casos que relevaremos aqui. com pontuação adequada gramaticalmente. o poeta parte para a lago Trasimeno obedecendo a um telegrama “preoccupante. indicando que este acontece anteriormente a outro fato. Nos outros capítulos. estes são separados por vírgula e conjunção. e a palavra antefato inclui um advérbio no prefixo. seguiu-se a publicação do livro A Cozinha Futurista. seguido do manifesto e respectiva polêmica. que reuniu documentação importante acerca da polêmica cozinhária iniciada por Marinetti. O subtítulo do texto. tragicômico e poético. A este manifesto.modificar o uso da língua. e um dicionário dos novos termos. embora não seja possível precisar se ideologicamente ou para sustentar um movimento literário que estava perdendo sua capacidade de persuasão. que ignora os mandamentos futuristas. de provável classificação “literária”. dispondo as palavras em sintaxe convencional. o manifesto. no caso. propondo novas construções. 85 Cozinha futurista. No primeiro parágrafo. Nesta breve análise. por serem de interesse as inovações apresentadas e não as falhas em praticar a própria teoria.A cozinha futurista aludindo às “batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue”. receitas. Lembremo-nos que desde 1926 o futurismo havia aderido ao fascismo. o “antefato” é já duplamente caracterizado por adjetivos. cardápios. serão objetos de estudo o texto literário – “Uma refeição que evitou um suicídio: o tragicômico poético antefato” – . mais uma vez. São inúmeros os casos em que Marinetti segue a linguagem tradicional.indd 85 7/4/2009 15:51:20 . que representa o primeiro capítulo do livro. segue o modelo de apresentação futurista: um texto. Além de utilizar três adjetivos em seqüência. são aqueles em que o poeta tenta . O livro.

mas pela forma de expressão. Quindo mi suiciderò questa notte!” “a meno que?” – gridò Prampolini “a meno que?” ripetè Fillìa. Marinetti utiliza quatro longos sujeitos para o verbo “riempirono” em seqüência. la sua subitanea fuga dai centri abitati. “Abolir o ‘eu’ da literatura” era uma das propostas futuristas e que foi respeitada no texto. separados por vírgulas. pseudônimo de um colaborador futurista. temos a descrição de Giulio Onesti. Pode se tratar de um erro tipográfico. riempirono la conversazione parolibera che precedette il pranzo nel policromo Quisibeve della villa Outra construção que ressalta no texto é o curto diálogo entre os quatro personagens após a declaração do iminente suicídio de Giulio.indd 86 7/4/2009 15:51:20 . mas este não é fechado. che mascherava il suo vero nome. il suo intervento battagliero e creativo nelle serate futuriste di venti anni prima. personagem do “antefato”. No quinto parágrafo do texto. escrito todo ele em terceira pessoa. que chamam a atenção do leitor não só pelo argumento. apesar da sabida participação do autor nos acontecimentos. tomado de um tremor irreprimível. Iniciando pela fala de Giulio Onesti. se esqueça de fechar parênteses: Lungo silenzio. que se abre com um parêntese. Apesar do texto ser de autoria de Marinetti. este aparece como personagem em terceira pessoa. Para caracterizar este personagem. o que imprime um ritmo cadenciado peculiar à frase: “Questo pseudonimo. mas ainda assim é sintomático que um homem. la sua vita di scienza e di ricchezze accumulate al Capo di Buona Speranza.Fillippo Tommaso Marinetti Comecemos com as construções inusitadas. Poi Giulio fu preso da un tremito convulso irrefrenabile: “(non voglio. 86 Cozinha futurista. non debbo tradire la morta.

. nas cozinhas.”3 2 3 Marinetti. ou melhor. partindo do momento da enunciação desta solução. A pontuação. Observemos como a ausência da pontuação torna o ritmo do período veloz: Atmosfera inebriante prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano altissimo torniva melodiosamente. Ibid.. buscando uma solução para o desejo de suicídio. A cozinha futurista. Sempre no plano da construção. para criar comidas que salvassem a vida do amigo. mistura muitos substantivos e adjetivos. O período. ou “. todos os companheiros futuristas lançam-se a um trabalho incessante. sempre seduzindo o leitor com a aparente desordem instaurada na frase.indd 87 7/4/2009 15:51:20 .” – O diálogo segue com uma quádrupla repetição da frase: “a meno que”. pode ser encontrada em diversas outras passagens do “antefato”.. 11 Id.T. una lieve curva de bocca ventre o fianchi”2. proposta por Marinetti. una legerezza di volo che offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donna miste di mozzi di ruote e d’ali d’eliche tutte formate con soffice pasta lievitata. p. a falta desta. p. Milão: Marinotti. podemos encontrar um parágrafo escrito sem utilizar nenhum sinal de pontuação. Este suspense também serve como preâmbulo para a ação que é então desencadeada. bastante longo. exceto o óbvio ponto ao final do mesmo. Eis alguns exemplos: “.. F.A cozinha futurista “a meno que?” – concluse Marinetti – a meno che tu ci conduca imediatamente nelle tue ricche e fornite cucine.11 87 Cozinha futurista. A anáfora auxilia na criação do suspense necessário para que fosse apresentado o desfecho do problema: a cozinha futurista. porém há apenas um verbo e um único advérbio. 1998.

Uma mostra é normalmente inaugurada. 12 88 Cozinha futurista. La spasimante superacuta tensione delle più frenetiche lussurie finalmente appagate. Gioia delle labbra. por seu caráter ambíguo. Arte temporanea. 4 5 Id. Alle sei di pomeriggio svilupparsi in alto di dolci dune di carne e sabbia verso due grandi occhi di smeraldo. deveria também ser degustada. Tutto il cielo nelle nari. tem espelhamento num verbo acompanhado de seu duplo na proposição “inaugurare-assagiare” a mostra de escultura comestível. Nervi. mas esta. Ibid. Schioccar di lingua. Passione. Ibid. p. tutta direttive nuove4 Outro trecho é todo construído mesclando substantivos soltos “ao acaso”. em sua maioria nominais que culminam na afirmação de que “somos o futuro”: Arte leggera aviatoria. tutta leggi nuove. Siamo gl’istintivi nuovi elementi della grande Macchina futura lirica plastica architettonica. atendendo às regras do Manifesto Técnico da Literatura Futurista: Con calma riprendere la materia. frases nominais curtas e verbos no infinitivo. p. como a “nicchia-tana” (que traduzimos por concha-toca). L’eterno femminino fuggente imprigionato nello stomaco. Trattenere il respiro per non guastare un sapore cesellato. Ci giudicate selvaggi.5 O substantivo que deve ser acompanhado de seu duplo.indd 88 7/4/2009 15:51:20 . altri cic redono complicatissimi e civilizzatissimi..Fillippo Tommaso Marinetti A velocidade imprimida à linguagem também pode ser verificada nas construções de frases curtas. Arte mangiabile. Crocifiggerla sotto chiodi acuti di volontà..14 Id.

.... vi avevano inoculato il magnetismo. improvvisatosi scultore-cuoco.. Prampolini e Fillìa parlorono.. Giulio girando appena la testa a destra e a sinistra.. Acreditamos que este tipo de construção seja privilegiado por suprimir o sujeito da frase e também uma conjunção. o que facilitaria muito a tarefa de construir uma linguagem concisa.. alternandosi.. alto complesso plastico di pasta sfogliata scolpita a piani degradanti di piramide..indd 89 7/4/2009 15:51:20 . sem palavras desnecessárias. . collaborando.. ne iniziò l’amorosa adorazione... . Inginocchiatosi davanti. Marinetti. La sua architettura obliqua di curve molli inseguentisi in cielo.... mas sempre privilegiando o “estilo analógico”... Prampolini e Fillìa..A cozinha futurista Parece-nos importante também ressaltar a larga utilização das orações reduzidas... .. Longos parágrafos e períodos são utilizados para descrever locais.. imprigionato nello stomaco.. offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donne.. mais freqüentemente de gerúndio e de particípio.. situações ou personagens..Giulio Onesti. Marinetti. In un alto cilindro di pasta di grano turco girante su perno. . un complesso plastico di cioccolata e torrone rappresentante le forme delle nostalgie e del passato precipitò giù con fragore e inzaccherando tutto. O próprio Maninetti explica esse 89 Cozinha futurista. L’eterno femminino fuggente. moderna. Observemos alguns exemplos que documentam o fenômeno: .. veloccizzandosi scapigliava in tutta la camera una massa enorme di zucchero filaro d’oro. A escrita marinettiana tem também outra peculiaridade que vale a pena evidenciar: o gosto pela visualização.

ou partes destas. três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. 90 Cozinha futurista. recolhida numa palavra essencial. Um dos pratos. transformada em fantásticos laboratórios. que arrancam. 6 Bernardini. encontramos.. cilindro de massa girando em seu eixo. aeropoesias. aeroescultores. Numa rápida lista de elementos referentes a cada uma destas categorias. arte leve voadora. tapete de plumas que parece viajar. para máquinas. cubos de roda.) Em alguns casos precisará juntar as imagens duas a duas. aerodinamismo lírico-plástico. complexo plástico a motor. É grande o repertório lexical que se refere às máquinas. os lugares e mesmo as comidas são sempre relacionadas a máquinas. que era a escultura de uma mulher. espirais de vento expressos em encanamentos. (. Assim temos os poetas que enquanto falam alternam-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina e a cozinha. São Paulo: Perspectiva. as pessoas.”6 Nessas analogias. Outro prato era um complexo plástico a motor comestível. em seu vôo. roda dentada. como as bolas acorrentadas. Aurora Fornoni. perfeito. volantista. zumbido de um aeroplano altivo. globos elétricos. hélices esvoaçantes. 1980. partes destas ou indícios de modernidade: fantásticos laboratórios. grande máquina futura lírica plástica arquitetônica O campo semântico concernente ao vôo traz aeropintores..Fillippo Tommaso Marinetti estilo: “Para dar os movimentos sucessivos de um objeto. asas de hélice. todo um grupo de árvores. cada uma delas condensada. A escolha do vocabulário confirma essa ideologia. equilíbrio.indd 90 7/4/2009 15:51:20 . ao vôo. oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados misturados a cubos de rodas e asas de hélice. tudo feito com macia massa fermentada. aos automóveis e respectiva velocidade. A velocidade é representada pelo automóvel. O Futurismo Italiano. é necessário dar a cadeia de analogias que ele evoca. Essa relação entre a vida cotidiana e a modernidade imposta pelas máquinas estava de acordo com os ideais do movimento.

que em italiano é pronome de segunda pessoa para tratamento de respeito. “la Nuova”. e finalmente livre de seus desejos suicidas. “le” offriremo. sua importância.A cozinha futurista velocidade. complesso plastico “di lei”. “lui [il complesso plastico] vincerà lei”. “la sopraveniente”. palavras lexicais de cunho afetivo. ou. às vezes com inicial maiúscula. Escrevo Mulher com maiúscula. Marinetti usa repetidas vezes o pronome Lei (ela). cujos nomes jamais são mencionados: “Essa”. metafórico. As esculturas representam mulheres que podem ser deglutidas. sugerindo tudo o que constitui o ser. “a lei. a que se suicidou e a outra que se parece muito mas não o suficiente. embora importantíssimas. “quella che le rassomiglia molto ma non abbastanza”. Escolha lexical também recorrente nesta obra é a “erótico-culinária”. “quella bocca imminente”. os adjetivos culinários são usados para mulheres. O ato sexual gerara um fruto. “bellissima donna”.indd 91 7/4/2009 15:51:20 . pois o pronome utilizado no lugar do substantivo em todas as referências feitas a “ela” assume um significado complexo. realizado. como pronome de terceira pessoa referindo-se às Mulheres de Giulio Onesti. “metaforicamente antropofágica”. “la morta”. O processo de nominalização permite a transformação de qualquer vocábulo em substantivos. “nessuno vi man- 91 Cozinha futurista. trabalho muscularmente acelerado. sendo que o contrário também ocorre. da lei”. “per lei”. porém impregnado de um vocabulário humano: “le nuvole partorirono un precipitante fulmine arancione a lunghe gambe verdi”. sua personalidade. “l’altra”. porque não dizer. outras vezes com inicial minúscula.. faz de palavras lexicais corriqueiras e apagadas. e devido a isso. síntese de todos os automóveis famosos. No já citado trecho em que Giulio Onesti degusta uma das esculturas e que foi comparado a um ato sexual. podemos observar que este culmina no nascimento do sol. São inúmeras também as referências anafóricas a estas mulheres. “a lei”. “Lei”. mas que deixa o futurista Giulio Onesti feliz. de cortesia.

Si arminizzi invece sempre più colll’italiana. volontà. Se no texto deste “antefato poético tragicômico” as referências mais importantes estão relacionadas à velocidade. como a pintura. “Lei”. slancio. claro. às máquinas e à degustação erótica. tão idolatrado pelos futuristas. além. avvocati arguti. mas essa promessa não é cumprida.Fillippo Tommaso Marinetti gerà”. Prepariamo una agilità di corpi italiani adatti ai leggerissimi treni di alluminio che sostituiranno gli attuali pesanti di ferro legno acciaio. a escultura ou a arquitetura. esses bem separados por vírgulas. Questi sono stati combattenti eroici. os mesmo modelos são encontrados. no Manifesto da Cozinha Futurista é mais comum encontrar palavras relacionadas à arte. snella trasparenza spiralica di passione. e seqüências de substantivos “ao acaso”. Ibid. 22 92 Cozinha futurista. Ibid. massiccio impiombato da una compattezza opaca e cieca. como os exemplos abaixo: Sentiamo inoltre la necessità di impedire che l’Italiano diventi cubico. e quem ela é.indd 92 7/4/2009 15:51:20 . das referências ao mundo moderno.7 (. tenerezza. tenacia eroica.) Per esempio. Isto se dá provavelmente porque Marinetti pretendia elevar a condição da culinária ao mesmo patamar das artes plásticas não comestíveis. oratori travolgenti. “essa”. p. “la donna”. A um certo ponto do antefato. p. Comecemos com parágrafos que alternam seqüências de adjetivos sem pontuação. artisti ispirati. No tocante às construções sintáticas.8 7 8 Id.. 21 Id. luce. Giulio promete mais tarde dizer o nome dela.. agricoltori tenaci a dispetto della voluminosa pastasciutta cotidiana. contrasta collo spirito vivace e coll’anima appassionata generosa intuitiva dei napoletani. Giulio fica embriagado com a escultura manducada antes de fazê-lo.

opta o poeta pela construções impessoais. e ai paesaggi di colore forma rumore che la radio-televisione fa navigare intorno alla terra? A repetição também aparece neste texto. o diferente. à força de evitar a indicação do sujeito nas frases. O trecho “Le macchine costitueranno presto un obbediente proletariato di ferro acciaio alluminio al servizio degli uomini quasi totalmente alleggeriti dal lavoro manuale” ignora a necessidade de vírgulas entre os componentes metálicos das máquinas. troppo aceto. mas permanecem as conjunções: “. ai legumi. lega coi suoi grovigli gli italiani di oggi ai lenti telai di Penelope e ai sonnolenti velieri. corrigirão: “manca di sale. Perché opporre ancora il suo blocco pesante all’immensa rete di onde corte lunghe che il gfenio italiano ha lanciato sopre oceani e continenti.indd 93 7/4/2009 15:51:20 .” A última frase do manifesto também traz modificações sutis na construção da frase. parecem ter a linguagem mais cuidadosamente trabalhada no sentido de alcançar também a revolução lingüística.” As passagens cujos argumentos são mais “futuristas”. troppo dolce”. al pesce. É possível que aqui o período tenha sido escrito nesse ritmo lento para acentuar o peso do macarrão nos estômagos. ao dizer que indicadores químicos. Notem que não há vírgulas na passagem.. relacionados de alguma forma à revolução cultural e social defendida pelo movimento. noi affermiamo questa verità: si pensa si sogna e si agisce secondo quel che si beve e si mangia. O substantivo mancanza é substituído por manca. metaforicamente o inusual. logo após a crítica feroz ao alimento: La pastasciutta. que se refere também à mão esquerda.. isto é. troppo pepe. O mesmo acontece na descrição dos pratos simultâneos. O 93 Cozinha futurista. na cozinha do futuro. in cerca di vento. nutritivamente inferiore del 40% alla carne. num período longo em que faltaria até mesmo fôlego para o leitor que não impusesse suas próprias pausas no texto.A cozinha futurista Ou ainda. o sono proveniente desse bloco maciço em nossos estômagos. cujas vírgulas foram abolidas: “Questi complessi plastici saporiti colorati profumati e tattili formeranno perfetti pranzi simultanei.

assim como o cheiro. como o intuito dos autores é de mesclar os sentidos para atingir deste modo uma gama completa de sensações. Sobre cada fatia uma rodelinha de limão com alcaparras. melhor dizendo. A observação de uma ou duas receitas propostas pelo manifesto provam que a aparência do prato conta tanto quanto (ou até mais que) o sabor deste. imitando um jogo de damas. pepe. colocando o adjetivo doce no lugar do previsível açúcar. Desde o “antefato” até o Manifesto da Cozinha Futurista. sobram outras. forma. Dissemos acima que a culinária estaria. e o sabor. Dentre os elementos que sobram. Após grelhar o filé com sal e azeite. falta uma coisa. Entretanto. O cilindro é disposto verticalmente no centro do prato. ou. Mais uma vez. limitar-nos-emos a relacioná-los na ordem em que aparecem 94 Cozinha futurista. dispõem-se sobre as fatias alguns filetes de anchova entrelaçados. A lógica lingüística diz que o último elemento também deveria ser um substantivo. aos sentidos. temos uma seqüência de três: “aceto.Fillippo Tommaso Marinetti sentido da palavra é garantido pelo contexto. O Salmão do Alasca aos raios de sol com molho Marte deve ser cuidadosamente trabalhado de forma artística antes de ser apresentado ao comensal. coberto de mel e sustentado a base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. e dolce”. podemos ver tantas referências aos sentidos que nos pareceu mais lógico separar de acordo com cada um deles. no mesmo patamar de outras artes plásticas. para Marinetti. também foi tratado e escolhido com cuidado por Marinetti. Outra invenção famosa da cozinha futurista é o Carnescultura composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. mas o autor preferiu causar este estranhamento. como o vinagre e a pimenta. além do molho que o acompanha. temos a junção dos sentidos para proporcionar o maior prazer gustativo possível.indd 94 7/4/2009 15:51:20 . O vocabulário referente às sensações. A cor. aparência do prato deve ser levada em conta.

brancos. vermelhos. a apreciação das obras de arte por eles produzidas exigem não somente os olhos e relativa admiração. o estômago. vermelhos. os amigos esculpiram tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. selecionando apenas as ocorrências em que ao menos dois sentidos são mencionados na mesma proposição. não somente o tato e relativas carícias. e “luceva di una sua zuccherina peluria eccitanto lo smalto dei denti nelle bocche attente dei due compagni. havia uma atmosfera “prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano torniva melodiosamente”. A carne da curva era a tal ponto gostosa. Sopra. a invenção de complexos plásticos saborosos. estalar de língua. 95 Cozinha futurista. pretos. le sferiche dolcezze di tutte le ideali mammelle”. complexos plásticos saborosos coloridos perfumados e táteis que formarão perfeitas refeições simultâneas.A cozinha futurista nos textos. rosas. a língua. O quarto é revestido de “rosso rimorso vellutato”. o intestino igualmente enamorados. máquina futura lírica plástica arquitetônica. a harmonia da mesa com os sabores e cores das iguarias. alegria dos lábios. Seguem-se certos sabores e certas formas. cuja harmonia original de formas e cores nutra os olhos e excitem a fantasia antes de tentar os lábios. o eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. biscoitos.indd 95 7/4/2009 15:51:20 . conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. todo o céu nas narinas. Giulio inebriado beija com a língua sua obra de arte. violetas e lírios. mas os dentes. o trabalho foi recomeçado sendo os futuristas “deliziosamente pungolati dai lunghi raggi elastici di un’aurora. Aparecem também mãos inspiradas e narinas abertas para dirigir a unha e os dentes. à cozinha eram transportados grandes pesados sacos que descarregavam piramidais montes amarelos. cirri rossi. paisagens de cores forma rumores. trilli d’uccelli e scricchiolii d’acque legnose in cui scoppiava in brilli dorati la laccatura verde”. os futuristas intuíam e saboreavam “ela” entre os perfumes de baunilha.

existem em italiano três formas de tratamento possíveis para o interlocutor (2a. Mantivemos as classes gramaticais sempre que isso não prejudicasse a compreensão em português. pessoa do discurso): Tu. ter acesso às diversas edições do livro para verificar a ocorrência do problema.indd 96 7/4/2009 15:51:20 . tentamos seguir os preceitos futuristas observados na língua original. O uso de maiúsculas e minúsculas iniciais das palavras. O nome dos colaboradores futuristas. diFicuLdAdes dA trAduçãO Na tradução. aqui. Apesar de defender a incorporação dos outros sentidos à literatura. hoje dia muito comum 96 Cozinha futurista. foram mantidos ainda que alguns pudessem ser sugestivos e divertidos. Mantivemos também um parêntese que foi aberto. que não é bem recebida por outrem. bem como o uso de itálico. mas não fechado. mantendo a pontuação e a ausência da mesma. Seria necessário. apesar da possibilidade de ser um erro tipográfico. Mas não nos enveredamos por este campo. indicaria uma pessoa incoveniente. tentamos manter as inversões na ordem das frases. bem como o posicionamento dos adjetivos. mas é provável que isso aconteça devido ao gosto marinettiano pela descrição. a visão continua sendo o maior atrativo disponível aos escritores. nomes dos pratos e de pessoas foi sempre conservado como o original em Italiano. negrito e aspas. que. recorrente em toda a sua obra. Como sabemos. temos em relação à visão o maior número de incidências. entre amigos ou entre familiares.Fillippo Tommaso Marinetti Observando o texto. pseudônimos na realidade. para evitar brincadeiras e analogias impertinentes Um problema verificado. preservando tanto a construção original quanto o entendimento em português. num tratamento informal. se traduzido – Saiosozinho (não precisam me mandar embora) -. Esse é o caso de Escodamé. na primeira parte do livro – “antefato poetico tragicomico” – foi o uso da forma de tratamento entre os futuristas e “Ela”.

. esse tratamento é modificado e passa a “voi”. quando o tratamento é formal. o que reafirma nossa suspeita antropofágica já explicitada anteriormente. publicada no jornal britânico The Herald. acoplado a pintor. com os mesmos dois sentidos encontrados em italiano. poesia e poeta. pois insere leveza e mobilidade às palavras 97 Cozinha futurista. Encontramos a passagem: “nessuno vi mangerà per ora – disse Prampolini – a meno che il magrissimo Fillìa. complexo escultural ou plástico.. quase em italiano.. As notícias em francês foram simplesmente deixadas na língua original. Há no livro algumas partes escritas em francês e em inglês. a lei. pois são simples traduções dos manifestos ou de cardápios já mencionados em italiano. especialmente os referentes às máquinas e ao vôo.A cozinha futurista entre os jovens. Dois outros trechos também foram traduzidos em nota por estarem escritos em latim vulgar. Esta fala é dirigida a ela. à Nova. apresenta informações novas e apreciações críticas do movimento. Ele não se refere às esculturas comestíveis. porém. pictórico. em uma única passagem. foi por esse motivo traduzida em nota ao final do capítulo. Lei. com algumas exceções nas regiões meridionais ou em língua escrita. mas que alude tanto ao volante do automóvel quanto ao que tem a capacidade de voar. usada para motorista. tratamento também formal se dirigido a um único interlocutor. A reportagem em inglês. foi mantida como volantista em português. “Ela”. da lei).”. dinamismo e até aos pratos servidos foi sempre mantido. La. O livro. em relacionamentos profissionais e para demonstrar respeito. confunde o leitor ao misturar os dois tratamentos formais. per lei. é sempre tratada com esse pronome e seus correlatos (Le. escrito em 1932. foram pesquisados e mantidos. “Lei” em italiano. a palavra volantista. entre pessoas que não se conhecem suficientemente. Tratase da polêmica despertada em outros países e publicada nos jornais locais.indd 97 7/4/2009 15:51:20 . já que a raiz latina permite a identificação pelo leitor de língua portuguesa. e Voi. O prefixo aero. mas à mulher. Os campos semânticos. escultor. Assim. é pouco utilizado atualmente.

Fillippo Tommaso Marinetti e, aparentemente, às pessoas e objetos, que parecem perder o “imgombro pesante” no estômago. Culpa do macarrão, obviamente. Foram também encontrados os óbvios aeroplanos, e certos aerodinamismos lírico-plásticos, aerocumes, aerocerâmicas, aeroiguarias e aerobanquetes, que, contrariamente ao esperado, não eram servidos em pleno vôo, embora pudessem ser forjados ambientes que lembrassem a fuselagem de um avião. Ainda nos atendo ao vocabulário relativo a voar, Marinetti opta pra chamar o frango de volatile, palavra de uso comum na Itália, mas que retoma o léxico privilegiado por ele. Passemos agora do vôo à comida. O vocabulário referente à comida não oferece muitos problemas ao falante de português do Brasil, tão grande é a influência italiana em nossa culinária. Os nomes de diferente cortes de macarrão ou de massas rechadas, como ravioli, lasanha, tagliatelle, tagliarini, espaguete, trenette, foram mantidas em italiano, apenas usando a grafia aportuguesada quando esta existia. Assim, no texto em português, podemos nos deparar com tortelini in brodo ou espaguete ao sugo, sem que isso prejudique a compreensão. Uma única nota foi dispensada ao “vermicelli al pomodoro”, por se tratar de um corte não freqüente no Brasil. As palavras que designam refeição ou prato apresentaram mais dificuldades, já que em italiano “pranzo” pode designar tanto o almoço quanto uma refeição mais elaborada, em qualquer horário do dia. Optamos, por isso, às vezes, por refeição no lugar de almoço. Aparecem também palavras com tom bastante pejorativo para certas comidas, como “intrugli” ou “maledetta pietanza”; nesse caso, optamos por lavagem, que remete à comida oferecida aos porcos. “Vivanda” foi quase sempre traduzida por vianda, mantendo assim o mesmo radical latino. Outro vocábulo de difícil tradução foi “bocconi”, utilizado em alguns restaurantes aqui no Brasil, designam comidas que não precisam ser cortadas para serem comidas, têm o tamanho certo para serem intro-

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A cozinha futurista duzidas na boca. Traduzimos uma vez por bocados, outra por prato, já que o bocado pareceria fora de contexto. O nome dos pratos, quase sempre originais, foram traduzidos literalmente. Assim, quando Marinetti propunha um “Tuttoriso”, traduzimos por Todoarroz, com a mesma forma de composição em justaposição feita em italiano. Encontramos também, raras vezes, composições por aglutinação. Aparecem, com a mesma lógica lingüística, Frangofiat, Hortotátil, Decolapaladar, Tedesejo, Carnadorada, Guerranacama, Teamareiassim, Superpaixão, Estanoiteláemcasa, e inúmeras outras contruções similares. O famoso Carnescultura em português não manteve o radical do original “carneplástico”, pois a palavra plástico aqui, embora tenha o sentido de forma, escultura preservado nas Artes Plásticas que envolvem também a pintura, remete ao derivado de petróleo e poderia afastar paladares curiosos. O plástico, em nossa culinária, é a ausência de sabor aliada a uma consistência indesejável em algo a ser ingerido. Os neologismos criados por Marinetti também foram alvo de grande atenção, e sempre que identificados, mesmo quando havia palavra bastante aproximada em português, tentamos construir uma que fosse nova, para mantermo-nos fiéis à construção original. Daí surgiu a revolução “cozinhária”, tradução do neologismo italiano “cucinaria”, usado no lugar da conhecida culinária, palavra que atende tanto o italiano quanto o português. Marinetti recusou também o conhecido “xenofilia”, inventou “esterofilia”, que traduzimos estrangeirofilia. O sentimento que faria alguns cidadãos renegarem sua pátria foi definido “antitalianità”, resultou em antitalianidade em português, bem como os vocábulos justapostos “criticomania” ou “benpensanti”, respectivamente criticomania e bempensantes. A certo ponto da leitura, encontramos um prato “sinottico-singustativo”. Como traduzir este adjetivo tão abrangente? O prato privilegia-

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Fillippo Tommaso Marinetti va diversos ingredientes, coloridos, dispostos de forma determinada e com certos sabores, que deveriam se unir mediante escolhas feitas pelos comensais. O prefixo grego sin- designa uma ação conjunta, logo, ação conjunta dos olhos e ação conjunta dos sabores. Mais uma vez optamos por não traduzir, para que o leitor, ao buscar o significado das partes das palavras, descubra ele também o que é o prato sinótico-singustativo. O cardápio extremista apresenta, entre muitos odores prazerosos ou não, duas palavras novas, ambas referentes ao barulho das rãs entre as águas podres do lago: polichiaccherio e quaccherologia. Traduzimos por policonversação a primeira, embora não reproduza bem o sentido da conversa tumultuada, barulhenta e rumorosa dos anfíbios em questão. A quaccherologia foi mais intrigante. O sufixo –logia indica estudo e quacchero se refere, de acordo com o dicionário, aos “Quakers” – quacre em português -, membros da seita protestante fundada na Inglaterra e difundida nos Estados Unidos, que não aceitam sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, pregam a intransigência puritana e a simplicidade de vida. Optamos pela tradução quacrelogia, ainda que o sentido pretendido pelo autor não pareça claro. Lembrando que o Futurismo é um movimento nacionalista, especialmente nos últimos anos de sua existência, por sua aproximação política com o fascismo, observamos a negação dos vocábulos de origem inglesa ou francesa na cultura – e na culinária – italiana. Marinetti propõe com essa finalidade uma modificação no léxico culinário italiano, utilizando palavras nacionais, de modo a evitar qualquer estrangeirismo. O último capítulo do livro, o “pequeno dicionário da arte cozinhária futurista”, traz opções para palavras já incorporadas ao vocabulário italiano, mas agora renegadas por Marinetti. Os franceses “Marrons Glacés” transformam-se em castanhas confeitadas, “consommé” serão consumidos, “fondants” serão apenas fundentes, “fumoir” será fumatório, “maitre d’hotel” é guiapaladar, “menu” será substituído por lista ou listadepratos, “mélange” será mistura, “flan” vira pasticho, “dessert”

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A cozinha futurista é paraselevantar, “purée” é substituído por pasta e “bouillabaisse” restringe-se a sopa de peixe. É bastante curiosa a reflexão feita para alcançar a palavra “paraselevantar”, peralzarsi em italiano, em substituição ao francês dessert. A sobremesa é a última a ser ingerida, pois café e licores eram via de regra servidos em outra sala. Ao terminar a degustação, o movimento tão caro à idéia futurista era incluída na refeição: todos se levantam. Os ingleses também sofrem retaliação, e o “barman” vira mexedor, “cocktail” vira polibebida, “picnic” se torna um agradável almoçoaosol, “bar” é substituído por aquisebebe, “tea-room” torna-se sala de chá e o internacional “sandwich” transmuta-se em entreosdois. Um último neologismo marinettiano para encerrar as dificuldades: parolibero, usado tanto como substantivo, em “o parolibero Fillìa” quanto como adjetivo, em “uma conversação parolibera”. O processo em italiano foi a aglutinação da palavras parola + libero = parolibero. No entanto, em português parecia inviável a aglutinação de palavra + livre, pela incidência dupla do encontro consonantal “vr”. A solução encontrada foi utilizar um sinônimo de palavra, vocábulo, cuja sílaba final continha a mesma consoante da sílaba inicial de livre. Logo: vocábulo + livre = vocabulivre.

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A CozInhA FuturIstA Tradução Q Cozinha futurista.indd 103 7/4/2009 15:51:21 .

indd 104 7/4/2009 15:51:21 .Cozinha futurista.

Sumário Uma refeição que evitou um suicídio O antefato poético tragicômico O manifesto da cozinha futurista Ideologias e polêmicas A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas Os cardápios futuristas Sugestivos e determinantes Receituário futurista para restaurantes e “aquisebebe” Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista 105 Cozinha futurista.indd 105 7/4/2009 15:51:21 .

indd 106 7/4/2009 15:51:21 .Cozinha futurista.

a primeira cozinha humana. dinamizando-a e espiritualizando-a com novíssimas iguarias nas quais a experiência. Esta nossa cozinha futurista. a arte de se alimentar. ao contrário. a banalidade. os futuristas. tem o propósito alto. regulada como o motor de um hidroplano para altas velocidades. 107 Cozinha futurista.Contrariamente às críticas lançadas e àquelas previsíveis. a revolução cozinhária futurista. isto é. finalmente criar uma harmonia entre o paladar dos homens e sua vida de hoje e de amanhã. essa exclui o plágio e exige originalidade criativa. ilustrada neste volume. até hoje os homens alimentaram-se como as formigas. a inteligência e a fantasia substituam economicamente a qualidade. nobre e útil a todos de modificar radicalmente a alimentação de nossa raça. parecerá louca e perigosa a alguns passadistas tremebundos: ela quer. Como em todas as artes. a repetição e o custo. Salvo algumas exceções louváveis e legendárias. fortificando-a. os gatos e os bois. Nasce conosco. os ratos.indd 107 7/4/2009 15:51:21 .

indd 108 7/4/2009 15:51:21 . A este pânico nós opomos uma cozinha futurista. 108 Cozinha futurista. mas pode-se calcular o perigoso pânico deprimente.Fillippo Tommaso Marinetti Não por acaso esta obra vem publicada durante a crise econômica mundial cujo desenvolvimento parece incalculável. isto é: o otimismo à mesa.

109 Cozinha futurista. em direção ao lago Trasimeno. obedecendo a este preocupante. de automóvel.umA reFeiçãO que evitOu um suicídiO O poético antefato tragicômico Em onze de maio de 1930 o poeta Marinetti partia.indd 109 7/4/2009 15:51:21 . extravagante e misterioso telegrama: “Caríssimo uma vez que Ela partiu definitivamente fui acometido de torturante angústia PT imensa tristeza proíbe-me sobrevivência PT suplico-lhe venha rápido antes que chegue aquela que se parece muito com Ela mas não o suficiente GIULIO”.

é da outra que se parece com ela. Dir-lhes-ei outro dia o seu nome e quem é.”- 110 Cozinha futurista. a casa.. Na verdade. a sua vida de ciência e de riquezas acumuladas no Cabo da Boa Esperança. Pois bem. um verdadeiro Palácio. mas não o suficiente. muito. À mesa. Por outro lado. nas margens feridas e entre os canaviais doloridos do Lago.“querem saber o porquê? Eu lhes digo: Ela. o volantista do automóvel procurou e encontrou. ela se escondia ao fundo do parque.“Intuo em seus paladares a chatice de um antiquíssimo hábito e a convicção de que um tal modo de se nutrir conduz ao suicídio.. a sua repentina fuga dos centros habitados.Fillippo Tommaso Marinetti Marinetti.indd 110 7/4/2009 15:51:21 . você a conhece. confesso-me brutalmente a vocês e a sua provada amizade: há três dias a idéia de suicídio ocupa toda a casa e também o parque. que bebia por amplas janelas uma meia-lua nascente mas já imersa na morte das águas. Marinetti! Ela se suicidou há três dias em Nova Iorque. Na entrada. o rosto emagrecido e a mão estendida muito branca de Giulio Onesti. ainda não tive a força de entrar.... convocou telefonicamente a presença de Enrico Prampolini e Fillìa. O que vocês me aconselham?” Longo silêncio.. Giulio murmurou: . cuja grande genialidade de aeropintores pareceu-lhe adaptar-se ao caso sem dúvida gravíssimo. por uma estranha coincidência. Eu recebi ontem este telegrama. Este pseudônimo que mascarava seu verdadeiro nome. decidido a salvar seu amigo. seu intervento belicoso e criativo nas noitadas futuristas de vinte anos antes. ... encheram a conversação vocabulivre que precedeu o jantar no policromático Aquisebebe da casa. Cirurgicamente. diante da porta do automóvel. Agora. O telegrama anuncia a sua iminente chegada. intervém um fato novo e significativo. que alternava pinheiros umbelíferos oferecidos ao Paraíso e ciprestes diabolicamente mergulhados na tinta do Inferno. na sala revestida de vermelho remorso aveludado. Certamente me chama. mais que uma casa.

indd 111 7/4/2009 15:51:21 . Enrico Prampolini. chocolate em pó. farinha de trigo. pimenta vermelha. leite. descarregando piramidais pilhas amarelas. As minhas aeropoesias ventilarão seus cérebros como hélices esvoaçantes. suicidar-me-ei esta noite!1 .”Entre os cozinheiros estarrecidos e ditatorialmente desautorizados. farinha de centeio. aeropintores e aeroescultores. ao primeiro alvorecer que atravessou o cintilante horizonte pela janela aberta. ovos. brancas. Dez jarras de óleo. farinha de milho. pretas. -“ao trabalho – disse Marinetti – oh.(não quero. chocolate. os fogos acesos.ordenou Giulio. gritou: 1 O parêntese não foi fechado no original.A cozinha futurista Longo silêncio.”-“você será atendido ainda nesta noite”. . não devo trair a morta. vermelhas. Giulio sofreu um tremor convulsivo irreprimível: . Depois do que. mel e leite. Prampolini gritou: -“são necessários às nossas mãos geniais cem sacos dos seguintes ingredientes indispensáveis: farinha de castanhas.“a menos que ? ” – gritou Prampolini . Imediatamente os empregados começaram a transportar grandes e pesados sacos que. açúcar e ovos. farinha de amêndoas. que havia ciumentamente cercado de biombos o seu trabalho criativo. Cem quilos de tâmaras e de bananas. transformavam as cozinhas em fantásticos laboratórios onde as enormes caçarolas emborcadas no chão transformavam-se em pedestais grandiosos predispostos a uma escultura imprevisível. onde camadas atmosféricas noturnas eram intercaladas por camadas de alvoreceres acinzentados com espirais de vento expressos em encanamentos de massa podre.“A menos que ? ” – concluiu Marinetti – a menos que você nos conduza imediatamente às suas ricas e abastecidas cozinhas.”Fillìa improvisou um aerocomplexo plástico de farinha de castanhas. Então.“a menos que ? ” – repetiu Fillìa. 111 Cozinha futurista.

”Derrubou os biombos e apareceu o misterioso suave tremendo complexo plástico d’ela. Vocês têm más bocas vorazes. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Mãos inspiradas. Atmosfera inebriante pródiga de formas cores com planos de luz cortantes e lisíssimas redondezas de esplendores que o zumbido de um aeroplano altíssimo torneava melodiosamente. realizado sob o seu ditado por Giulio Onesti. Acima. No alto. Comestível. sem respirar. girando em seu eixo. Vocês comeriam-na toda.” – Retomaram o trabalho deliciosamente estimulados pelos longos raios elásticos de uma aurora. que se improvisava cozinheiro-escultor. chiados de águas lenhosas cuja laqueadura verde estourava em brilhos dourados. Era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. alto complexo plástico de massa folhada esculpida em camadas degradantes de pirâmide. um cilindro de massa de milho que. a esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. -“não se aproximem – gritou a Marinetti e a Fillìa – não a cheirem. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. ao aumentar a velocidade espalhava por todo o recinto uma massa enorme de algodão-doce de ouro. um seu modo de flutuar sensualíssimo. um sorriso seu de lábios. Venham admirá-la. Afastem-se. Idealizado por Marinetti.indd 112 7/4/2009 15:51:21 . nuvens vermelhas. angustiadíssimo e 112 Cozinha futurista. cada uma com uma leve curva especial de boca ventre ou quadris.Fillippo Tommaso Marinetti -“Tenho-a finalmente entre meus braços e é de tal modo bela. Às sete horas nascia do maior forno da cozinha a paixão das loiras. Narinas abertas para guiar as unhas e os dentes. cantos de pássaros.

de rosas violetas e cachias que no parque e na cozinha a brisa primaveril. síntese de todos os automóveis famosos de curvas longínquas e uma rapidez de vôo que oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados de mulheres misturados a cubos de rodas e a asas de hélice todas feitas com macia massa fermentada. Intuíam-na e saboreavam-na entre os perfumes de baunilha. remisturava. oferecer-lheemos uma aurora artística comestível realmente inesperada. Giulio Onesti manifestava uma inquietude que não correspondia à serenidade futurista de seu cérebro. se bem que ideal. esbeltíssimo “lazo” de massa podre. A torrente do tempo fugia-lhes sob os pés. de biscoitos. ébria de esculpir ela também. 113 Cozinha futurista. Temia a que estava por vir.“se a Nova chega com o crepúsculo ou com a noite. representando as formas da nostalgia e do passado precipitou abaixo com um estrondo e enlameando tudo de líquidas trevas viscosas. Foram desenformados por Prampolini e Fillìa: uma velocidade esguia. o complexo plástico foi por ele mesmo plantado sobre uma gigantesca caçarola de cobre de cabeça para baixo.indd 113 7/4/2009 15:51:21 . Em uma pausa. No silêncio da tarde o trabalho tornou-se muscularmente acelerado. Entretanto.” No entanto. Com bocas de antropófagos simpáticos. Massas saborosas para transportar.A cozinha futurista trêmulo. Prampolini e Fillìa restauravam seus estômagos de quando em quando com um saboroso pedaço de estátua. A sua boca. Marinetti. Giulio Onesti. Competiu subitamente tanto com a força dos raios solares até inebriar o escultor que infantilmente beijou sua obra com a língua. Aquela boca iminente preocupava também os três futuristas que trabalhavam. não trabalhamos para ela. Bruscamente um complexo plástico de chocolate e torrone. Novo silêncio. será aquela de uma convidada qualquer. Giulio Onesti disse: . em equilíbrio sobre as pedras polidas e trementes do pensamento.

Prampolini disse: . na realidade. Sobre-humana. por sua vez. Em um canto. perfeito.indd 114 7/4/2009 15:51:21 .” Soou mediunicamente a campainha ao fundo. os futuristas Marinetti. montes de alabarda e feixes de carabinas. perto de uma vidraça cheia de ácidas e doentias luzes sublacustres. haviam sido amontoados rechaçados brutalmente como por uma mágica força sobre-humana. Às seis da tarde desenvolver-se no alto de doces dunas de carne e areia em direção a dois grandes olhos de esmeralda nos quais a noite já se adensava. Prampolini e Fillìa esperavam o dono da casa convidado. tinham-lhe inoculado o suave magnetismo das mulheres mais belas. Paixão. Mais abaixo sentia-se a estridente felicidade dos riachos paradisíacos. 114 Cozinha futurista. em rixa com dois enormes canhões de montanha. resplandecia no ângulo oposto. A sua arquitetura oblíqua de curvas macias perseguindo-se no céu escondia a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis que mecanicamente engrenavam os seus tufos à roda dentada. Estalar de língua. sob onze globos elétricos. Prampolini e Fillìa. Tinha como título as curvas do mundo e os seus segredos. na vasta sala das armas. A obra-prima. a mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis. Alegria dos lábios. Conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. Todo o céu nas narinas. colaborando. Era um complexo plástico a motor comestível. para inaugurar – experimentar juntos a grande Mostra de escultura comestível já pronta. e das mais belas Áfricas sonhadas.“verão que ele a vencerá. Nervos.Fillippo Tommaso Marinetti Com calma retomar a matéria. Marinetti. Crucificá-la sob pregos agudos de vontade. no parque. *** À meia-noite.

De bruços aos seus pés. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma.indd 115 7/4/2009 15:51:21 . Marinetti. dela. as intenções. que cuidadosamente e esculturalmente escavava para o próprio corpo. porém ao som de duas vozes. a outra feminina e agressiva. Suplico-lhes que me expliquem as razões. Prampolini e Fillìa sobre um amplo tapete de plumas dinamarquesas que pela maciez madreperolada à luz elétrica parecia viajar. os pensamentos que os dominaram enquanto esculpiam tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. sob a curta testa inundada de ricos cabelos quase louros e quase castanhos. Como exauridos por tanto aerodinamismo lírico-plástico. nas peliças e nos tapetes. Disseram: . Uma breve troca de gentilezas assombros regozijos a ela. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. Prampolini e Fillìa falaram alternando-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. cheios de falsa ingenuidade infantil. jaziam cansadíssimos Marinetti. revolucionavam e acendiam as curvas pacatas e a delicada elegância minuciosa do pescoço. nuvem investida por projetores na noite. dos ombros e das ancas esbeltas apenas embainhadas por mohair dourado.A cozinha futurista Entre todos. os grandes olhos verdes. Giulio Onesti sonhava ou escutava. Prontos puseram-se em pé. mas de uma beleza tradicional. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas 115 Cozinha futurista. uma concha-toca para fera refinada.“não me julguem uma idiota – murmurou com graça lânguida – estou estonteada. . e o rosto voltado para o centro da terra. Belíssima mulher. Para sua sorte. nas almofadas. O seu coração. a imobilidade e o silêncio dos cinco. ” A ela. se apertado pelo supremo prazer do amor. aquele intitulado as curvas do mundo e os seus segredos perturbava.“Amamos as mulheres. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. uma viril mas cansada. Depois. O seu engenho me espanta.

de imagens e de ímpetos afinava-se com o murmúrio assobiado e metálico do canavial no Lago acariciado pela brisa noturna.a menos que o macérrimo Fillìa. a língua.. diante de nossas mãos. A mulher contemplou-os por alguns minutos. toda novas diretrizes. você poderá ler esta noite as originais bisbilhotices erótico-sentimentais que suscitaram nos artistas certos sabores e certas formas aparentemente incompreensíveis. O fascínio.” Acrescentou Marinetti: . incandescências a serem esculpidas a qualquer custo e o mais rapidamente elas também. Somos os novos elementos instintivos da grande Máquina futura lírica plástica arquitetônica. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. 116 Cozinha futurista. o furioso turbilhão do sexo. Cem moscões lilases azuis davam uma artística investida enlouquecida em direção aos altos globos elétricos. o pudor. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices.“por caridade – suspirou sorrindo – moderem a sua selvageria.Fillippo Tommaso Marinetti obras de gênio e de língua insaciável. depois jogou a cabeça para trás e adormentou-se também. a graça infantil. Prampolini e Fillìa. a ingenuidade. Arte temporânea. o estômago. A apaixonada superaguda tensão das mais frenéticas luxúrias finalmente apagadas.“neste catálogo da Mostra de escultura comestível. a única e todas encontravam-se aqui. . Arte leve voadora. outros nos crêem complicadíssimos e civilizadíssimos. São os nossos estados de ânimo realizados.” Uma longa pausa de silêncio fulminou de sono Marinetti.. O eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. o intestino igualmente enamorados. mas os dentes. toda novas leis. Vocês nos julgam selvagens. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. a alvorada. não só o tato e relativas carícias. Arte comestível. O fraco murmúrio das respirações carregadas de desejo.“ninguém a comerá por enquanto – disse Prampolini .” .indd 116 7/4/2009 15:51:21 .

Talvez para se refrescar. Levantou-se agilmente. sem fazer barulho. 117 Cozinha futurista. Às três daquela noite. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. liberado. Escultores e escultoras dormiam. Giulio saiu então para o parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as grandes jóias do olhar. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. vazio e transbordante. a língua e os dentes. Sem fim. Aproveitador e aproveitado. Ajoelhandose em frente. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. com a cabeça descoberta.A cozinha futurista De improviso. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. começou a amorosa adoração com os lábios. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos.indd 117 7/4/2009 15:51:21 . Único e total. Possessor e possuído. com as costas suspeitosas de um ladrão. como uma tigresa alongada. Estava ao mesmo tempo desobstruído. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. com um tremendo torcer de rins.

zag cordeiro assado ao molho de leão saladinha à aurora sangue de Baco “terra ricasoli” rodinhas pontuais de alcachofra 118 Cozinha futurista. fecundadora. na Itália e na França. há 23 anos (Fevereiro de 1909). agitou os maiores futuristas.Fillippo Tommaso Marinetti O mAniFestO dA cOzinhA FuturistA Ideologia e polêmicas A refeição do “Penna d’Oca” e o manifesto da cozinha futurista Desde o início do Movimento Futurista Italiano. Balla. ofereceu aos futuristas milaneses um banquete que queria ser um elogio gastronômico do futurismo. Isto era muito discutido entre Marinetti. Esta lista de pratos: ganso gordo sorvete na lua lágrimas do deus “Gavi” brodo de rosas e sol favorito do mediterrâneo zig. a urgência de uma solução impôs-se: O restaurante PENNA D’OCA de Milão. a importância da alimentação sobre a capacidade criativa. em 15 de Novembro de 1930. agressiva das raças. Houve. algumas tentativas de renovação cozinhária. zug. dirigido por Mario Tapparelli.indd 118 7/4/2009 15:51:21 . Subitamente. Sant’Elia. isto é. Russolo. Boccioni.

indd 119 7/4/2009 15:51:21 . Marinetti desafiou as ironias precisando seus pensamentos. 119 Cozinha futurista. Escodamè e Gerbino. S. É. Umberto Notari. Marinetti. convidado a falar diante de um receptor da Radio.A cozinha futurista chuva de algodão doce espuma hilariante “cinzano” fruta colhida no jardim de Eva café e licores agradou muito aos convidados: S. etc. apesar de agradar ao paladar. Repaci. Sansanelli. que deve ser adaptado o mais brevemente possível às necessidades dos novos esforços heróicos e dinâmicos impostos à raça. Escodamè. e os futuristas Depero. lentos. pessimistas. O macarrão. é uma comida passadista porque estufa. Prampolini. Pick Mangiagalli. Gerbino. Exª. Prampolini. disse: . Dep. Dep. Exª Fornaciari Prefeito de Milão. como um de seus princípios. Depero. A cozinha futurista será libertada da velha obsessão por volume e peso e terá. Giordano. Ex. ilude sobre sua capacidade nutritiva. torna-nos céticos. disposto sobre a mesa entre “rodinhas pontuais de alcachofra” e “chuva de algodão doce”. Farinacci. enfeia. S. Steffenini. patriótico favorecer sua substituição pelo arroz. por outro lado. a abolição do macarrão. E era lógico porque. Os menos futuristas eram os que mais aplaudiam.” Este discurso suscitou entre os convidados aplausos enlouquecidos e pouco claras irritações.“anuncio-lhes o próximo lançamento da cozinha futurista para a renovação total do sistema alimentar italiano. O cozinheiro Bulgheroni foi repetidamente aclamado. Chiarelli. as iguarias eram timidamente originais e ainda ligadas à tradição gastronômica. Ravasio. exceto o brodo de rosas que inebriou os paladares futuristas de Marinetti. Marinetti.

eram entrelaçadas imediatamente intermináveis discussões. eles experimentam prudentemente o novo para obter de cada um a máxima vantagem. em qualquer restaurante. aos estivadores. aos camponeses.indd 120 7/4/2009 15:51:21 . por Graça Aranha “liberação do terror estético”. fórmula da “arte120 Cozinha futurista. Arraigados à tradição. Cada vez que. *** No dia 28 de Dezembro de 1930. em todos os jornais estourou uma polêmica violentíssima da qual participaram todas as categorias sociais. por Benedetto Croce “anti-historicismo”.Fillippo Tommaso Marinetti No dia seguinte. na realidade. dois futurismos de direita moderadíssimos e práticos. aos moleques. aos literatos. na Gazzetta del Popolo de Turim apareceu O Manifesto da cozinha futurista O Futurismo italiano. aos soldados. das senhoras aos cozinheiros. era servido macarrão. por nós “orgulho italiano (i)novador”. cantina ou casa da Itália. às amas de leite. O Futurismo italiano enfrenta ainda a impopularidade com um programa de renovação total da cozinha. Entre todos os movimentos artísticos literários. não permanece prisioneiro das vitórias mundiais obtidas “em 20 anos de grandes batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue” como definiu Benito Mussolini. Contra o macarrão O Futurismo foi definido pelos filósofos “misticismo da ação”. aos astrônomos. pai de numerosos futurismos e vanguardistas estrangeiros. é o único que tem por essência a audácia temerária. O novecentismo pictórico e o novecentismo literário são.

esvaziado o teatro do tédio mediante sínteses alógicas por surpresa e dramas de objetos inanimados. ao contrário. criado o esplendor geométrico arquitetônico sem decorativismo. ousadia. 121 Cozinha futurista.indd 121 7/4/2009 15:51:21 . Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega. ternura. nós futuristas negligenciamos o exemplo e a exortação da tradição para inventar a qualquer custo um novo. Consultamos a este respeito os nossos lábios. Nós futuristas sentimos que para o macho a volúpia de amar é escavadora abissal do alto para baixo. nós futuristas após termos agilizado a literatura mundial com as palavras em liberdade e o estilo simultâneo. A volúpia do palato . julgado por todos louco. nós afirmamos esta verdade: pensa-se sonha-se age-se de acordo com o que se bebe e o que se come. vontade. o nosso paladar. delgada transparência espiral de paixão.A cozinha futurista vida original”. Harmonize-se. em leque. de baixo para o alto do corpo humano. Convencidos de que na provável conflagração futura vencerá o povo mais ágil. “religião da velocidade”. as nossas secreções glandulares e entramos genialmente na química gástrica. as nossas papilas gustativas. “método da infalível criação”. “estética da máquina”. Antipraticamente. Preparamos uma agilidade de corpos italianos adaptados aos levíssimos trens de alumínio que substituirão os atuais pesados de ferro madeira aço. enquanto que para a fêmea é horizontal. imensificado a plástica com o anti-realismo. sempre mais com a italiana. é para o macho e para a fêmea sempre ascendente. “esplendor geométrico veloz”. Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente nutridos realizaram grandes coisas no passado. “máximo esforço da humanidade para a síntese”. luz. a nossa língua. ao contrário. tenacidade heróica. então. mais impetuoso. “higiene espiritual”.

aos alemães o chucrute. o macarrão é um alimento que se engole. Estes foram combatentes heróicos. o toucinho defumado e o salame. contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada generosa intuitiva dos napolitanos. Este alimento amiláceo é em grande parte digerido na hora pela saliva e o trabalho de transformação é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Convite à Química O macarrão. Dele derivam: fraqueza. Acreditamos antes de tudo necessário: a) a abolição do macarrão. Signorelli. artistas inspirados. oradores impetuosos. advogados engenhosos. estabelecemos agora a nutrição adequada a uma vida sempre mais aérea e veloz. o rosbife e o pudim. aos legumes. pessimismo. o Dr. Por exemplo.Fillippo Tommaso Marinetti a cinematografia e a fotografia abstratas. não se mastiga. mas aos italianos o macarrão não beneficia. escreve: “Diferentemente do pão e do arroz. agricultores tenazes a despeito do volumoso macarrão quotidiano. inatividade nostálgica e neutralismo”. como prisioneiros ou arqueólogos. liga com seus emaranhados os italianos de hoje aos lentos teares de Penélope e aos sonolentos veleiros. aos holandeses a carne cozida com queijo. Ao comê-lo eles descobrem um típico ceticismo irônico e sentimental que trunca muitas vezes o seu entusiasmo. Um inteligentíssimo professor napolitano. Talvez beneficiem aos ingleses o bacalhau. absurda religião gastronômica italiana. nutritivamente inferior em 40% à carne. Recordem-se ainda que 122 Cozinha futurista. Isto leva a um desequilíbrio com distúrbio destes órgãos. e às paisagens de cores formas rumores que a radio-televisão faz navegar em torno da terra? Os defensores do macarrão carregam a bola de ferro ou a ruína no estômago. à busca de vento.indd 122 7/4/2009 15:51:21 . ao peixe. Porque opor ainda o seu bloco pesante à imensa rede de ondas curtas longas que o gênio italiano lançou sobre os oceanos e continentes.

sal e azeite até que esteja bem dourado. em pó ou pílulas. O “carnescultura” Exemplo: Para preparar o Salmão do Alasca aos raios do sol com molho Marte. b) A abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar a nutrição. c) A abolição das combinações tradicionais para a experimentação de todos as novas combinações aparentemente absurdas. para 2. Acrescen- 123 Cozinha futurista. As máquinas constituirão rapidamente um obediente proletariado de ferro aço alumínio a serviço dos homens quase totalmente aliviados do trabalho manual. d) A abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato. A originalidade absoluta das comidas. compostos albuminosos.indd 123 7/4/2009 15:51:21 . com relativa redução das horas de trabalho. Uma harmonia original da mesa (cristais. permite aperfeiçoar e nobilitar as outras horas com o pensamento as artes e a pregustação de refeições perfeitas. Este. Hoje.A cozinha futurista a abolição do macarrão libertará a Itália do custoso grão estrangeiro e favorecerá a indústria italiana do arroz. segundo o conselho de Jarro Maincave e outros cozinheiros futuristas. Convidamos a química ao dever de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos gratuitos do Estado. gorduras sintéticas e vitaminas. pega-se um belo salmão do Alasca. ornamentos) com os sabores e as cores das comidas. corta-se e passa-se na grelha com pimenta. Em todas as classes as refeições serão distanciadas mas perfeitas no cotidianismo dos equivalentes nutritivos. O almoço perfeito exige: 1. Atingir-se-á assim uma real baixa do preço da vida e do salário. louças. sendo reduzido a duas ou três horas.000kw é necessário somente um operário.

um cálice de licor italiano Aurum. Leve novamente ao forno até que a massa esteja bem cozida. quatro colheres de cassis. Exemplo: O carnescultura criado pelo pintor futurista Fillìa. Apenas retirada da caçarola. limpe-a. pimenta. (Fórmula de Bulgheroni. gemas de ovos cozidos. e será peneirado. (Fórmula de Bulgheroni. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) A invenção dos complexos plásticos apetitosos. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. coloque-a numa caçarola com manteiga. coloque-a sobre uma fatia torrada de pão quadrado ensopado com rum e conhaque e cubra-a com massa folhada. No momento de servir colocam-se sobre as postas de salmão alguns filetes de anchova entrelaçados (como jogo de damas). Sobre cada posta uma rodelinha de limão com alcaparras. sal. azeite. Coloque o molho na molheira e sirva-a muito quente.indd 124 7/4/2009 15:51:22 . Sirva-a com este molho: meio copo de Marsala e vinho branco. cuja harmonia original de forma e cores nutra os olhos e excite a fantasia antes de tentar os lábios. é composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada de onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. pegue uma bela perdiz. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) Exemplo: Para preparar a Perdiz à Monterosa molho Vênus. 124 Cozinha futurista. cozinhe-a em forno muito quente por quinze minutos.Fillippo Tommaso Marinetti tam-se tomates cortados ao meio previamente cozidos sobre a grelha com salsinha e alho. O molho será composto de anchovas. borrifando-a com conhaque. tudo fervido por dez minutos. cubra seu estômago com fatias de presunto e toucinho. zimbro. interpretação sintética das paisagens italianas. casca de laranja picadinha. manjericão.

com pimenta sal limão. Estes pratos terão na cozinha futurista a função analógica imensificante que as imagens têm na literatura. A apresentação rápida entre um prato e outro. O cimo do cone será coberto por pedaços de trufas negras cortadas em forma de aviões negros para a conquista do zênite. Cada prato deve ser precedido por um perfume que será cancelado da mesa por meio de ventiladores. A abolição do garfo e da faca para os complexos plásticos que possam dar um prazer tátil pré-labial. a surpresa e a fantasia. No centro emerge um cone de claras de ovos batidas e solidificadas cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. O uso dosado da poesia e da música como ingredientes inesperados para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma certa vianda. Estes complexos plásticos apetitosos coloridos perfumados e táteis formarão perfeitos almoços simultâneos. 10. vinte sabores para experimentar em poucos instantes.indd 125 7/4/2009 15:51:22 . Um dado bocado poderá resumir uma 125 Cozinha futurista.A cozinha futurista Equador + Pólo Norte Exemplo: o complexo plástico comestível Equador + Pólo Norte criado pelo pintor futurista Enrico Prampolini é composto por um mar equatorial de gemas de ovo em sua própria casca. A criação de pequenos pratos simultâneos e cambiáveis que contenham dez. A abolição da eloquência e da política à mesa. O uso da música limitado nos intervalos entre os pratos para que não distraia a sensibilidade da língua e do palato e sirva para aniquilar o sabor apreciado restabelecendo uma virgindade degustativa. sob os narizes e os olhos dos convidados. O uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. de alguns pratos que eles comerão e de outros que eles não provarão para favorecer a curiosidade.

Viale. pouco cientificamente.indd 126 7/4/2009 15:51:22 .). em uma trattoria de Posillipo. Lombroso. de modo a obter de um produto notável um novo produto com novas propriedades.) por causa das altas temperaturas. e o turbilhão angustioso 126 Cozinha futurista. O uso destes aparelhos deverá ser científico. lâmpadas para a emissão de raios ultravioleta (já que muitas substâncias alimentares irradiadas com raios ultravioleta adquirem propriedades ativas. frutas secas. Londono. etc. jornal dirigido com grande competência e genialidade por Umberto e Delia Notari. a boca beatamente cheia de espaguete ao vôngole. Entre muitos. extratos etc. Não possuem a lucidez espiritual do laboratório. 11.T. obedecem à prepotência de seus paladares. Um conjunto de instrumentos científicos na cozinha: ozonizadores que dêem o perfume do ozônio a bebidas e comidas. Marinetti *** A “Cozinha Italiana”. etc. Parecem falar à mesa. excesso de vinagre. tornam-se mais assimiláveis. especiarias. Os indicadores químicos darão conta da acidez e alcalinidade dos molhos e servirão para corrigir eventuais erros: falta de sal. Pini. eletrolisadores para decompor sucos. Esquecem os outros deveres dinâmicos da raça. evitando por exemplo o erro de cozinhar as comidas em panelas a pressão. esterilizadores centrífugos. Estes. moinhos coloidais para tornar possível a pulverização de farinhas. o que provoca a destruição de substâncias ativas (vitaminas. o desenvolver de uma paixão amorosa ou uma inteira viagem ao extremo Oriente. dializadores. etc. excesso de pimenta. F. excesso de doce.. etc. Foà. impedem o raquitismo nas crianças. defenderam o macarrão os doutores Bettazzi.Fillippo Tommaso Marinetti inteira zona de vida. Ducceschi. iniciou uma pesquisa enquanto enfurecia a polêmica mundial pró e contra o macarrão e pró e contra os pratos futuristas. aparelhos de destilação a pressão comum e à vácuo.

127 Cozinha futurista. etc. são unicamente comparáveis aos excitantes. Prof. Mesmo esforçando-se para legitimar os seus prazeres bocais. Este ávido buraco é a sua incurável tristeza. as músicas. Alguns destes declaram que os perfumes.indd 127 7/4/2009 15:51:22 . enquanto são considerados por nós como atos que criam sobre o comensal um estado de ânimo otimista singularmente útil para uma boa digestão. E o macarrão é antiviril porque o estômago pesado e cheio não é nunca favorável ao entusiasmo físico pela mulher nem à possibilidade de possuí-la diretamente. E não é só: os perfumes. Todos os defensores do macarrão e os obstinados inimigos da cozinha futurista são os temperamentos melancólicos.A cozinha futurista de esplêndidas velocidades e de violentíssimas forças contraditórias que constituem a vida moderna. Na mesma pesquisa brilham entretanto as inteligências dos Médicos que dizem: “o uso habitual e exagerado do macarrão determina certo aumento de peso e exagerado volume abdominal” “os grandes consumidores de macarrão têm caráter lento e pacífico. NICOLA PENDE (clínico). que condimentam os pratos futuristas. Ilude-se. mas não o tapa. os de carne têm caráter veloz e agressivo”. devem convir que outras comidas são pelo menos tão nutritivas quanto o macarrão. encontrará ali dentro a triste satisfação de tapar com ele um buraco negro. Somente uma refeição futurista pode realegrá-lo. Qualquer “macarroneiro” que consulte a própria consciência honestamente no momento de engolir a sua biquotidiana pirâmide de macarrão. contentes com a melancolia e propagandistas da melancolia. preparam o sereno e viril estado de ânimo indispensável para a tarde e a noite. as músicas e o tato.

HERLITZKA (fisiologista) “o valor nutritivo do macarrão não apresenta características especiais que possam torná-lo preferível aos outros tipos de farináceos”. A. é prejudicial”. uma preparação suficiente com a mastigação”. foram feitas pelo “Jornal de Domingo” de Roma e por outros jornais italianos. Prof. convém uma alimentação mista. como o pão. Prof. às pessoas que levam vida sedentária e sobretudo àqueles que. Dr. Senatore ALBERTONI “É questão de gosto e preço de mercado. De qualquer modo. pró e contra o macarrão. C. TARCHETTI *** Outras pesquisas.Fillippo Tommaso Marinetti “deve-se trocar alimentos pela lei biológica: a repetição constante do mesmo alimento. além da sopa. Senatore U. a experiência o mostra. ANTONIO RIVA “o macarrão não pode ser considerado como um alimento de fácil digestão porque dilata o estômago e não sofre.indd 128 7/4/2009 15:51:22 . O Duque 128 Cozinha futurista. e portanto nunca exclusivamente feita de um só alimento”. GABBI (clínico) “penso que o uso do macarrão seja nocivo aos trabalhadores intelectuais. Prof. possam conceder-se carne e outros pratos”. Prof. Prof.

indd 129 7/4/2009 15:51:22 . temperada com molho de tomates. destaca-se este de Ramperti. Recordamos o número completamente dedicado à cozinha futurista do “Travaso” de Roma e as inumeráveis caricaturas que apareceram no “Guerin meschino”. não comem outra coisa além de ‘vermicelli al pomodoro’12”. Paolo Monelli. uma vez. Marinetti”: Caríssimo Lembra-se? Você escreveu. declarou que “os Anjos. Você é a amabilidade em pessoa. T. e deu-me um pequeno posto à sua 1 Massa longa. No entanto.. Cecchino. favoráveis ao macarrão. consagrando com isto a monotonia pouco atraente de Paraíso e da vida dos Anjos. Arturo Rossato. que eu. no Paraíso. etc. Giaquinto. por exemplo. Salvatore di Giacomo etc. tem entretanto suas idéias. Entre todos os artigos. Recordamos. respondendo a uma destas pesquisas. “Giovedì”. “420”. Mas. e não poderia falar com mais graça de alguém que. prefeito de Nápoles. aumentavam as adesões e os entusiasmos pela luta contra o macarrão. pertenço à extrema direita do parlamento futurista. com todos os socos e bofetadas da sua dialética de assalto. enquanto os inimigos da cozinha futurista contentavam-se com ironias fáceis e nostálgicas lamentações. sendo atento e amigo.A cozinha futurista de Bovino. que não são sempre aquelas do tatilismo e das palavras em liberdade. Dona Elvira etc. meu caro Marinetti. os escritos de Massimo Bontempelli. Marco Ramperti. Recordamos os diversos pareceres dos cozinheiros romanos Ratto. por serem incapazes de renovar a sua cozinha. Paggi. “Marc’Aurelio”. Angelo Frattini. Alfredo. parecida com o espaguete. Você queria ser gentil. publicado no “Ambrosiano” como “carta aberta a F. todos. Paolo Buzzi. 129 Cozinha futurista. etc. a polêmica espalhava-se através de centenas de artigos.

e nós deveremos. e entendem. grita-lhe o seu consenso pleno. e tornavam insuportáveis a minha presença na sua assembléia. como fez Esaú por um de lentilhas. Aceitam. o seu manifesto contra o macarrão: e eis que. o salto. Aceitam o soco. reanimado. Veja como é feita. Ainda que eu não seja. quem sabe por quanto tempo ainda. ou então de pedir a sua. o mais jovem do seu regimento. iluminado. 130 Cozinha futurista. por Deus. entre os conversíveis. confesso-lhe. E de fato parece a mais difícil. deseperado. oh! Marinetti. tão sensíveis eram as discrepâncias. a ceder esta prioridade por um prato de macarrão. Parece-me que a revolução alimentar seja a mais cuidadosa ente quantas você tenha suscitado. o seu pálido futurista ad honorem passa de um salto da extrema direita para a extrema esquerda da sua assembléia. agora lhe peço. a honra de servir-lhe. reaver a primazia no mundo: dispostos. os intonarumores. a todas as vantagens. Mas não renunciam ao macarrão. para levar a bandeira desta sua última ofensiva. que desta vez a batalha será fácil. todavia. As críticas serão muitas. Você vê como os italianos. Aceitam o tatilismo. Então apareceu a sua insurreição convival. as palavras em liberdade. e não a um apetite. predicar a barrigas cheias e corações desertos. justamente.Fillippo Tommaso Marinetti direita. Ah! Não creia. absoluto. ai de mim. Capaz de renunciar a todos as comodidades. entre os passadistas sem remédio e sem direito. Desde aquele dia. fanático.indd 130 7/4/2009 15:51:22 . o passo de corrida: mas com sua porção de espaguete. e. Mas creia-me: será necessário ter coragem. já se rebelam. muitas vezes os seus decretos-leis colocaram-me no cruel dilema de assinar a minha demissão. tocados no epigástrio. Marinetti. enquanto poderia muito bem me deixar do lado de fora. infelizmente. Por isso peço. esta nossa gente. o macarrão voltará às mesas. refeito em um momento cheio de audácia fiel.

repensando naquele Polichinelo que resistia a tudo. ativos. esta outra abnegação? Liberemo-nos também do macarrão. oh! Marinetti. no entanto. como em todas as boas revoluções. este outro vício. É um juízo que me vem à mente. segundo o indivíduo. Já que os italianos consentiram ao princípio futurista que se façam os mais ágeis. costumava dizer que do outro lado do Reno. à tenacidade e obstinação de certas atitudes do estômago. Não é a primeira vez que um povo nos ensina a saber renunciar a tudo. entre todos os alimentos estufantes e paralisantes que contradizem o seu programa de rapidez. ninguém saberia cometer uma vilania. a não ser repensando. A nossa. chegará por fim o dia em que se convencerão que. como a perus de Natal. elétricos. o conde de Gobineau. Existe o calcanhar de Aquiles. Que nos incha as bochechas. esta sua última propaganda. com aquela sensação de inutilidade que. e que nos prega à cadeira. e você tem cem razões para atacá-la ferozmente. Mas sendo o mais nefasto. furibundos possíveis. justamente. é a mais conseqüente e lógica entre todas aquelas derivadas do seu manifesto cardinal de há vinte anos: e não se compreenderiam tantas resistências. limitar as próprias refeições à gota essencial e à migalha leonina. estabelece a sua lei. se não fosse por uma salsicha com chucrute. este outro hábito. Este grande amor pelo macarrão é uma debilidade dos italianos. Ora. repletos e estupefatos.indd 131 7/4/2009 15:51:22 . Um francês que estimava os alemães. e existe o paladar do futurista. que é ele também uma escravidão. para alcançar um tal estado de graça. exceto a uma porção de vermicelli. exceto a uma glutonaria. velozes. apopléticos e suspirantes. nada poderia ajudar mais do que o comer pouco e escolhido. pode causar prazer ou vergonha. mas em todo o caso deve ser 131 Cozinha futurista.A cozinha futurista Não importa. O que quer dizer. exprime o seu verbo. como a estátuas de fontes. o macarrão é precisamente o mais difundido e calamitoso. Na verdade. vencendo tarde. que nos liga as entranhas com os seus arames moles. que nos entope o esôfago. E eis aqui a mola da sua revolta reparadora. elasticidade e energia. Venceremos melhor. é também o menos maldito.

em algumas metáforas indecorosas. como moedas falsas. Resumindo. o macarrão não nutre. Mas é um prazer efêmero. Mas é certamente. 132 Cozinha futurista. embaralhamse como os vermicelli absorvidos. O pouco molho que trazem aos lábios é o molho de tomate.Fillippo Tommaso Marinetti detestada por quem ostente uma alma futurista. separar-se a deselegância e a imundície. As palavras aglomeram-se do mesmo modo. naquele voluptuoso empanturrar-se. Dizia-se. para uma tal gulodice. naquela aderência total da massa ao paladar e às vísceras. cheios de chumbo. naquele sentir-se unificado com ela. um verdadeiro alimento italiano. ao lado de seu ímpeto bestial. além dos Alpes. confundem-se. o perigo e a desonra deste mito dos macarrões: macaroni que resultaram. O seu gosto está todo naquele assalto com as mandíbulas tensas. talvez para ter o direito de dizer em Genebra que também os italianos andam armados até os dentes: mas os espaguetes não foram tirados do nosso quadro folclorístico. Depois nos concederam os garfos. E é uma imagem ofensiva: engraçada. Não temos mais nem a sílaba fácil nem a imagem pronta. que serve somente para encher a boca. Os pensamentos desfilam um dentro do outro. quando não é sobre vermicelli despejando molho ao longo de nossos ansiosos braços. os espaguetes infestam e pesam. voce entendeu perfeitamente. O sustento é mínimo se confrontado com o volume. que nós comíamos os espaguetes com as mãos: e talvez o sentido da maledicência era que não podiam. O italiano das alegorias sempre tem a boca ávida arreganhada sobre um prato de tagliatelle. Engolidos que são. meu caro Marinetti. subitamente.indd 132 7/4/2009 15:51:22 . Enche: não fortalece. feia. No fundo. um tempo. aglomerados e amalgamados. disforme. como em 1894 sabia-se quantas devorasse Francesco Crispi. Alguma coisa nos retém. como um tronco. O nosso macarrão é como a nossa retórica. gostariam de dizer as alegorias malignas. Sabe-se hoje em toda a Europa quantas porções dele come Primo Carnera. sentados. ou somente jovem e acordada. E sentimo-nos. Seria necessário ensinar a vanidade deste nosso apetite. Mas é um gosto porco.

Eu juro que restariam imobilizados desde o primeiro movimento. É certo que se pensa. contradições. ou o exílio. O madrigal é insosso. Aquele do macarrão expia-se no mesmo instante. É o encadeamento. um interlocutor ou uma amante. agradável à vista. depois de uma orgia de tagliatelle. Parece que a preocupação de quem se ocupa de cozinha seja aquela de empanturrar. erros de todo gênero. de todos os espíritos. É a barriga que se incha à custa do cérebro. saboroso. energético. se age de acordo com o que se bebe e se come. Quanto paraíso perdido. a picardia é medíocre. rapaz. Experimentem então. li com entusiasmo o manifesto da cozinha futurista. ao tato e ao paladar.A cozinha futurista Pobre do que tiver perto. partir para uma polêmica. naquele momento. como é certo que – a propósito da alimentação – os homens debatem-se ainda hoje entre incertezas. que dê força e substância em pequenas 133 Cozinha futurista. enquanto deveria ser a de preparar um alimento sadio. quando não demolidos desde o princípio. por um momento de descuidada animalidade? Marco Ramperti *** V. encher o ventrículo como se enche um saco. excitar e envenenar com drogas e lavagens. Ou mesmo para a arte de Vênus.indd 133 7/4/2009 15:51:22 . se sonha. intervém na polêmica com esta carta a F.PENNINO. seguia com apaixonado interesse as batalhas purificadoras que o senhor combatia entre a indiferença e a incompreensão dos italianos da época.Marinetti: “Seu férvido admirador desde quando.G. cronista-chefe da “Gazzetta del Popolo”.T. Sabe-se que os pecados da gula são os mais rapidamente punidos pelo Senhor Deus. interrompida como é pelos soluços do intestino. conceituais ou amorosos. a argumentação é impossível.

Fillippo Tommaso Marinetti quantidades. globulinas. sais de cálcio. por exemplo. somente então a potência volitiva. que as verduras contêm verdadeiros tesouros para o organismo humano (ferro. de carne e ovos que são consumidos por aqueles que desejam 134 Cozinha futurista. a vivacidade. pesado e insípido. “Mas a luta contra o macarrão não basta. vitaminas. mas tornar-se-á uma forja de sábias combinações químicas e sensações estéticas. a fantasia.) a menos que com os absurdos cozimentos tais tesouros não sejam estupidamente destruídos e que. então. enfim. de magnésio.indd 134 7/4/2009 15:51:22 . que desperte a fantasia com imagens e panoramas agrestes. fósforo. é um alimento inútil que forma no estômago um bloco indigerível e deve ser substituído pelo integral perfumado e substancioso. a brisa renovadora e saneadora na pesada atmosfera das cozinhas da Itália. quando se conseguir criar e difundir uma alimentação que saiba conciliar a menor quantidade ao máximo de poder nutritivo explosivo dinâmico. (Olhe que sou napolitano e conheço todos os agouros deste alimento). quando a cozinha não mais for mais o reino de donas-de-casa ineptas e de cozinheiros ignorantes e envenenadores. o gênio criador da raça alcançarão seu pleno desenvolvimento. mas contanto que não seja privado de suas substâncias fitínicas com o polimento. que o arroz é um alimento precioso. exterminar tradições erradas: afirmar que o pão branco. com o perfume de jardins tropicais e faça sonhar sem o uso de bebidas alcoólicas. É necessário abater outros ídolos. etc. a teoria das calorias e das necessidades de uma grande quantidade de albumina animal e de gorduras teve seu tempo. Quando banirem das mesas da península o macarrão estufador e adormentador. de potássio. e já foi demonstrado que uma pequena quantidade de alimento bem combinado segundo o conhecimento racional das necessidades do nosso organismo dá muito mais força e energia que pratos de macarrão. bendita a luta contra o funesto macarrão que com a sua cansativa digestão faz pesar o corpo e entorpecer o espírito. Bendita seja.

indd 135 7/4/2009 15:51:22 . “Assim a batalha que o senhor engajou – mesmo que se apresente duríssima. Um químico francês – o prof. Mono – inventou os “alimentos concentrados” cuja eficácia experimentei. um prato de cebolas ou de azeitonas ou estas coisas combinadas. deve ser por isso composta por três quartos dos maravilhosos produtos vegetais que nos são invejados por todo o mundo e por um quarto apenas de produtos animais. É bom que se saiba que uma cenoura crua finamente ralada com óleo e limão. Estes devem ser usados com grande parcimônia especialmente pelos trabalhadores intelectuais.A cozinha futurista sustentar-se bem. Esperamos que os químicos italianos saibam fazer mais e melhor. (O contrário do que acontece comumente). Cada povo deve ter a sua alimentação e aquela do povo italiano deve ser baseada nos produtos desta terra quente. porque deve lutar contra tradições radicadas e tenazes. 135 Cozinha futurista. substanciosas podem-se criar pratos que dão aos olhos. Por outro lado. tem uma enorme importância social e econômica. contra interesses formidáveis e contra a ignorância difusa – deverá encontrar muitos consensos na Itália de hoje. ou tagliatelle à bolonhesa ou bistecas à Bismarck. os trabalhadores manuais e. especialmente se o convite à química lançado pelo senhor encontrar entre os cientistas italianos boa acolhida. porque enquanto visa renovar um ambiente muito fortemente arraigado ao passado. irrequieta. quem desenvolve grande atividade física podem fazer maior uso deles. com as coisas mais simples. ao palato. vulcânica. à fantasia sensações bem mais intensas que os alimentos que hoje desempenham um belo papel nas melhores mesas. sadias. mas eles cometeram o erro de serem estrangeiros antes de tudo e muito caros. em geral. junto com um pouco de nozes e um pedaço de pão preto são para a caldeira humana um combustível muito mais idôneo e rentável que os famigerados macarrão ao ragu. enquanto os soldados.

. Schopenhauer e o macarrão O Dr. G.V. em um artigo sobre a cozinha futurista. de modernismo também na cozinha.Fillippo Tommaso Marinetti “Desculpe se me permiti enviar-lhe esta apressada nota. na carta direta ao jornal “A Cozinha Italiana”. recordamos os mais originais: O cozinheiro-chefe do Rei O Cavalheiro Pettini.. 136 Cozinha futurista. Angelo Vasta.indd 136 7/4/2009 15:51:22 . observa: “os napolitanos rebelaram-se. Carito em “Humanidade Artrítica”: .PENNINO *** Dos muitos artigos surgidos a favor da luta futurista contra o macarrão. Não fez maiores progressos desde o tempo em que Schopenhauer. traz ao debate uma palavra precisa: “Não há dúvidas de que todos os farináceos deixam o corpo pesado e em conseqüência. mas pensei que não deveria ser-lhe desimportante – entre os muitíssimos que indubitavelmente receberá – o entusiástico consenso de um modesto estudioso dos problemas da alimentação”.. que também ela deve responder aos tempos e talvez até antecedê-los”. mas justamente convém recordar o que escrevia o seu concidadão Dr. que me foi sugerida pelo seu belíssimo Manifesto. afirma ainda: “necessidade de inovação. observando o seu alimento quotidiano. Cozinheiro-Chefe de Sua Majestade o Rei da Itália. qualificou-o genialmente como a alimentação dos resignados.. o nosso povinho está ainda numa fase primitiva. ameaçam a inteligência” e mais outros.

falando de Gênova) escreveu: “A prática em arte cirúrgica”. O macarrão é de origem ostrogoda Libero Glauco Silvano. sim. gente dinâmica. até as assim ditas ‘dirigentes’. De onde a nomeada ‘indolência’ com que fomos marcados e vilipendiados nos séculos anteriores. Em tudo o que diz respeito a alimentação.indd 137 7/4/2009 15:51:22 . os tagliarinis etc. Reproduzimos aqui parte de seu divertido artigo contra o macarrão: 137 Cozinha futurista. Então o grandíssimo cirurgião da nossa cidade (como ele dizia.A cozinha futurista “Ai de mim! mesmo as nossas classes altas. as lasanhas. não sabem alimentar-se bem! De onde o torpor da vida fisiológica com os seus inevitáveis reflexos nefastos na esfera psíquica. exercícios esportivos devemos radicalmente reformarmo-nos. a recomendação... No IX e último livro encontrar-se-á uma advertência explícita e formal contra o abuso do macarrão. E escreve: “Giovanni de Vigo iniciou a campanha contra o macarrão no século XIV.. a prescrição quase marinettiana ao muito inchado século XIV: todos os alimentos de massa devem ser usados pouquíssimas vezes “pasti alia denique et victualia paste rarissime sunt concedenda”. mas que não se submetia à digestão de grandes quantidades de “trenette” e de carvão. Amedeo Pescio insurge contra aqueles que chamam glória e honra dos genoveses os raviólis. prelados e ministros.” Um médico do século XIV contra o macarrão Em um artigo do “Século XIX” de Gênova. em um longo artigo “Contribuição para uma arte culinária futurista” propõe algumas inovações alimentares. intelectuais. quando o bom e douto rapaz natural de Rapallo curava a Papas e príncipes. movimento.

como se descendesse de um lombo muito magnânimo para não dever considerar ainda menos o restante das criaturas gastronômicas. Mesmo o nome relembrava o povo. para tirar-lhe de cima aquele tango de canalhice: haviam-no persuadido a não fazê-lo acompanhar por arrogantes e desavergonhadas cebolas. em meio ao qual havia nascido: macarrão. Entretanto. os seus títulos nobiliários? A “Cronaca degli Memorabilia” de Dacovio Saraceno. na casa do pobre ou do rico. por certos alhos pálidos e consumidos por vícios ocultos. adiposas como beldades de marinheiros. pergunto-me. Mas quais eram. confidogli la esistenzia dello nominato macarono. che avevasi invaghito dello ofiziale di guardia al palacio et al quale. Teve sempre a mesma barriga. havia trabalhado ultimamente para enobrecê-lo. Il conobbero gli sudditi dello rege.indd 138 7/4/2009 15:51:22 . por Deus. tra un baciuzzo et un baciozzo. por azeite rançoso e caprino. Um bom cozinheiro. girava os olhos em torno como para impor respeito e reverência. Ergo. lo quà prence affidato avealo a Rotufo.Fillippo Tommaso Marinetti Era tempo de acabar. Este prato. mesmo entre outros igualmente bestiais. tosco e oleoso de sujeira. sob as novas aparências tinha o modo e a vulgaridade do vilão refeito e de nada lhe valia a contínua freqüência com aquele agraciado e epicúreo mestre que se chama manteiga. gli quai molto e volantieri con essolui si solaciavano. et il bolliva- 138 Cozinha futurista. com um alimento bárbaro que vivia como um parasita em nossa civilização: falo dos macarrões ao sugo. por sorte. coco suo genialissimo. fazia-nos a figura de uma chimpanzé em um salão de damas sentimentais: e somente por um equivocado respeito à tradição continuava-se a suportar o seu fedor plebeu. ao tomate ou como mais lhe agrada. idest in Ravenia. lo amore per essolui macarono s’espanse per lo populo omne. per virtude della femina del cuoco. discípulo e êmulo de BrillatSavarin. Dieto macarono erat di spulcia (leggi spelta) et hebbe sua prima dimora in la regia del magno prence Teodarico. existe para cantar-nos vida e milagres: “lo macarono nato fue et notricato appo gli Ostragoti. tumultuosa e invasora: e não importa onde entrasse.

como comumente se afirma (confrontar a este respeito a obra definitiva de exegese histórica escrita por Valbo Scaravacio. Foi somente na Alta Idade Média (Cordazio Camaldolese: Pietanzie in usaggio appo aliquante nostre terre et regioni et insule et peninsule et similia con spiegato lor modo di prepararle in cucina 2) que os pepinos foram substituídos por tomates. acrescento eu. meterem-se a cavar grandes buracos na grama com as pesadas adagas e acocorar-se ao redor. pela excessiva felicidade.A cozinha futurista no cum cipoglia et alio et pastonacca. de qualquer forma mandasse prepará-lo. Talvez porque Boccaccio. tão arraigada era a tradição. intitulada “Verdade e despropósito”). os bigodudos Ostrogodos. limpando a boca sob os bigodes. 139 Cozinha futurista. o grande escritor não conseguia digeri-los nem mesmo assim”. et leccavansi digita et grugno”1. et il condivano cum suggo (sic) di cedriollo. diz o biógrafo. Ah! Os gentis senhores elegantíssimos. sobre as bochechas cheias terrosas.indd 139 7/4/2009 15:51:22 . as dignas consortes. de boa ou má vontade que fosse. Um biográfo bastante minucioso. Entretanto. Parece-me vê-los. lambiam-se os dedos e a cara! Era bem adequada aos seus insensíveis paladares aquela lavagem monstruosa temperada com suco de pepinos. engolia o macarrão já que não devia nem mesmo passar-lhe pela mente. de Boccaccio informa que o autor do Decamerão exigia de sua esposa que temperasse os macarrões com leite de amêndoas amargas: “mas. em angelical espera. em seu retorno da China. em verdade. seu paladar aristocrático o refutava. cujo cultivo havia-se extendido muito desde quando o irmão Serenio. Depois. trouxe a preciosa semente – e não larvas de bicho-da-seda. de poder fazê-lo de outro modo. muitas vezes prolixo. cansadíssimas e imundas. vinham despejar no prato improvisado a verminalha viscosa dos “macarrões” e os braços peludos mergulhavam até os cotovelos no buraco fumegante e as bocas se abriam – nhau nhau – e os olhos lacrimejavam. tinha bom gosto demais para aceitar placidamente aquele prato: e.

eis que o vil e barulhento Aretino recoloca-a sobre os altares: e qual melhor meio de propaganda que as suas excitantes musas em carne e osso? Os que se banquetearam à sua mesa tornaram-se férvidos defensores do macarrão. desapareceram das casas os quadros. havia-se difundido a superstição de que o macarrão fosse o antídoto para toda doença. a maldita lavagem não foi sepultada no esquecimento. nem mesmo a ambrosia”. trata-se de Martone Dagorazzi e suas cem composições poéticas intitulam-se: “A ambrosia dos homens”. Puah. o macarrão: por dizer. compôs um rosário de sonetos para o alto elogio do alimento “a que nada pode ser comparado. muito difundidas. Foram escritos inúmeros opúsculos e volumes de vários tamanhos: as gazetas. as fotografias e todo acidente que os representava: e as editoras retiraram do mercado 140 Cozinha futurista. seguros de que a razão de muitos males provinha daquela alimentação.indd 140 7/4/2009 15:51:22 . Somos. para tornar-se benemérito aos olhos do digno senhor. os desenhos. a panacéia universal.Fillippo Tommaso Marinetti Por pouco. iniciaram uma campanha ativa para que a humanidade se libertasse dos arreios da escravidão. nós filhos do século. Ao final do século XVIII muitos nobres engenhos. e um destes. mesmo se quase inconscientemente engolia macarrão três vezes ao dia: manhã. sendo conhecido por todos: e nem mesmo o eminente cientista alcançou algo concreto. meio-dia e noite. naquele tempo. de cuja benemerência é inútil falar. Deveria caber à nossa época a ventura de repudiar definitivamente este costume bárbaro. Quando já não se falava quase nunca dela. no último estágio do renascimento. Que porcaria. traziam artigos de pessoas que haviam adquirido grande autoridade nos campos das Ciências e das Letras: mas tudo foi inútil contra a abstenção das plebes também porque. muito despreocupados para não mandar ao diabo macarrão e acessórios sem nem mesmo a carta de referências: e ninguém os lamentará ou espalhará ternas lágrimas. Uma última tentativa foi feita na primeira metade de século XIX pelo grande Michele Scrofetta.

agilidade. somente de ouvir-lhe o nome – macarrão. mostram-se indignos de receber as graças de nossos gourmets e dos honestos pais de família e da prole estudiosíssima. reimprimindo mesmo quando se fez necessário.A cozinha futurista todas as suas edições para submetê-las a uma rigorosa censura. Chefe da Central de Notícias de Bolonha. 141 Cozinha futurista. no entanto. puah – as pessoas vomitarão até os intestinos. E conclui: “estou com o Maestro na violenta batalha pela saúde. estou convencido que. apagando sem piedade. agilidade. deva-se fazer uma grande limpeza. A tarefa. pacifistas e congestionantes argumentações do amidáceo mais ilustre do mundo. mas para reconstruir são necessárias milhares e milhares de mãos. do intelectualismo italiano Ferdinando Collai. é colossal: para destruir basta uma única mão que acenda um pavio. Batalha pela saúde. Elas sentem obcuramente que este ou aquele modo não estão certos. não nos faça dormir sobre louros. E vejam que já surgiu o primeiro núcleo de estudiosos que buscam oferecer uma cozinha adequada aos tempos. Quero todavia acreditar que esta vitória.indd 141 7/4/2009 15:51:22 . sob uma rigorosa avaliação. frescor do intelectualismo italiano”. Aliás. sobre os velhos livros de receita. frescor. mas ignoram a que outro santo voltar-se. As nossas donas-de-casa continuam a preparar os alimentos à moda antiga porque não saberiam como fazê-lo de outra forma. o bloco resistente do funestamente celebrado macarrão napolitano ou bolonhês”. Existem outros pratos que. Em alguns meses. polemiza com “as torpes. se bem que notabilíssima.

Os futuristas que combateram em Doberbó. recebeu de um soldado ex-cozinheiro de Savini um milagroso brodo de frango: aquele sagaz e oportuno cozinheiro. barracas bem aparelhadas e decoradas e sábias cozinhas. Isto talvez fosse verdade para os alpinos que.indd 142 7/4/2009 15:51:22 . congelados e transformados pelos tiros dos esquadrões inimigos que separavam os atendentes e os cozinheiros dos combatentes. em Plava e nos reinos de Zagora e depois na Casa Dus. *** Além de muitas adesões de cozinheiros. em sua defesa ao macarrão declara-o ideal alimento para os combatentes. transportado a Plava de maca. Quem poderia esperar um macarrão quente e “al dente”? Marinetti ferido nas Casas de Zagora na ofensiva de maio de 1917. entre todos os combatentes. já que sobre sua cozinha de batalhão rolavam de vez em quando enormes barris austríacos que destruíam os fogões: Marinetti duvidou então pela primeira vez do macarrão como alimento de guerra. são os mais prontos. na Vertoibizza. em Selo. nem com sua maior boa vontade.Fillippo Tommaso Marinetti O macarrão não é alimento para os combatentes Paolo Monelli. em Nervesa e em Cabo Sile estão prontos a testemunhar que sempre comeram péssimos macarrões. a improvisar equipamentos perfeitos. escaladas e avalanches. como Marinetti. sanitaristas e artistas. Isto não é verdade para as tropas que combatem em solo plano. refúgios cômodos. o alimento comum era chocolate sujo de lama e de vez em quando um bife de cavalo cozido em uma panelinha lavada com água de colônia. um macarrão comestível. Para os bombardeiros de Vertoibizza. atrasados. não poderia oferecer. a polêmica sobre a cozinha futurista deu vida a toda uma série de artigos 142 Cozinha futurista. por mais zeloso e devoto que fosse ao simpático cliente de uma única vez. após as batalhas.

nos papilles gustatives. no número de 20 de janeiro de 1931: F. que l’on agit selon ce que l’on boit et mange.T. les sécretions de nos glandes et pénétrons génialement dans le domaine de la chimie gastronomique. affronte encore aujourd’hui l’impopularité avec un programme de rénovation intégrale de la cuisine. et spiralique de la femme italienne. au bout de vingt ans de grandes batailles artistiques et politiques souvent consacrées dans le sang.indd 143 7/4/2009 15:51:22 .Marinetti vient de lancer le manifeste de la cuisine futuriste “Le futurisme italien. Consultons à ce sujet nos lèvres. que l’on rêve.A cozinha futurista e de estudos sobre a qualidade do “arroz”. Nous sentons la necessité d’êmpecher l’Italien de devenir cubique et poussif. volonté. A opinião mundial Explodiu em Paris a polêmica sobre a cozinha futurista após a publicação do manifesto de Marinetti no jornal “Comoedia”. ténacité héroïque. notre langue. Qu’il se harmonise. alimento italiano que deve ser sempre mais propagandeado e usado. notre palais. tendresse. Preparons des 143 Cozinha futurista. nous affirmons cette verité: que l’on pense. Tout em reconaissant que des hommes mal nourris ont créé des grandes choses dans le passé. toujours mieux avec la transparence légère. au contraire. faite de passion. et de s’empêtrer dans une lourdeur opaque et aveugle. élan. lumière.

indd 144 7/4/2009 15:51:23 . en poudre ou en pillules. Convaincus que le peuple le plus agile l’emportera dans les compétitions futures. les arts. à l’âme généreuse. ainsi qu’une originalité absolue de ceux-ci. Nous proclamons tout nécessaires: 1) L’abolition de la pastasciutta. Les machines formeront bientôt un prolétariat servile. elle fait obstacle à l’esprit vivace. absurde religion gastronomique italienne. Le travail quotodien se réduira à deux ou trois heures. 4) L’abolition de la répétition quotidienne des plaisirs du palais. grâce à l’absortion d’équivalents nutritifs gratuits. 3) L’abolition des condiments traditionnels. préparons dès à present l’alimentation la mieux faite pour une existence toujours plus aérienne et rapide. et de vitamines. en réduisant les heures de travail. et la dégustation de repas parfaits. On fera baisser ainsi le prix de la vie et les salaires. au service d’hommes presque allégés de toute occupation manuelle. Exemples: 144 Cozinha futurista. apprêts). comme les archéologues. Elle enserre les Italiens dans ses méandres. Nous invitons la chimie à donner au plus tôt les calories nécessaires au corps. d’hydrates de carbone. comme les fuseaux rétrogrades de Pénélopes ou les voiliers somnolents en quête de vent.Fillippo Tommaso Marinetti corps agiles pour les trains extra-légers d’aluminium de l’avenir. Le repas parfait exige une harmonie original de la table (cristaux. La pâte ne fait pas de bien aux Italiens. qui remplaceront les trains pesants de fer et d’acier. de composés albumineux. avec la saveur et la coloration des mets. intuitive et passioné des Napolitains. Les défenseurs de la pâte en portent dans l’estomac des ruines. vaisselle. 2) L’abolition de poids et du volume dans l’appréciation des aliments. et le reste du temps pourra être ennobli par la pensée.

de sel et d’huile fine. et sur chaque tranche un disque de citron aux câpres. que vous aurez fait cuire au gril avec ail et persil. trempé de rhum et de cognac. en l’arrosant de cognac. on le coupe en tranches. et faites-la cuire au four très chaud pendant un quart d’heure.indd 145 7/4/2009 15:51:23 . mettez-la en casserole avec beurre. La sauce sera faite d’anchois. bouillie pendant dix minutes. Au moment de servir. (Recette de Bulgheroni). en l’assaisonnant de poivre. Servez avec une sauce faite de vin blanc. Ajoutez des tomates coupés en deux. et recouvrez-la d’un feuilleté. chef de la Plume d’Oie). et excite l’imagination avant de tenter les lèvres. de jaunes d’oeufs durs. A peine retirée de la casserole. Bécasse au Monterosa en sauce Vénus Prenez une belle bécasse. d’un demi-verre de marsala. remettez au tour jusqu’à complète cuisson de la pâte. recouvrez-la avec des tranches de jambon et de lard. de découpures d’ecorce d’orange. (Recette de Bulgheroni. posez sur les tranches des filets d’anchois croisés. sel. Le repas parfait exige aussi l’invention d’ensembles plastiques savoureux. videz-la. dont l’harmonie originale de forme et de couleur nourisse les yeux. arrosée d’un petite verre de liqueur Aurum et passé au tamis. posez-la sur un canapé de pain grillé. poivre et genièvre. Mettez la sauce dans la saucière et servez bien chaud. de basilic. d’huile d’olive. Exemples: 145 Cozinha futurista. jusqu’à ce qu’il soit bien doré. on le passe au gril. de quattre cuillerées de myrtilles.A cozinha futurista Saumon de l’Alaska aux rayons de soleil en sauce Mars On prend un beau saumon de l’Alaska.

et on l’entoure à la base d’un anneau de saucisses posé sur trois boulettes de viande de poulet hachée et dorée au feu. L’usage de la musique. Le repas parfait exige enfin: L’abolition de la fourchette et du couteau pour les ensembles plastiques susceptibles de donner un plaisir tactile prélabial. Equateur + Pôle Nord L’ensemble plastique comestible Equateur + Pôle Nord créé par le peintre futuriste Enrico Prampolini. L’usage d’un art des parfums pour favoriser la dégustation. pour ne pas distraire la sensibilité de la langue et du palais. se compose d’une mer équatoriale de jaunes d’oeufs arrosés de sel. est composé d’une épaule de veau roulée. comme de juteuses sections de soleil. Le sommet du cône sera criblé de truffes. découpées en forme d’aéroplanes nègres à la conquête du zenith. colorés. qui sera chassé de la table à l’aide de ventilateurs. se dresse un cône de blancs d’oeufs montés et piqués de quartiers d’orange. Au centre. farcie de onze qualités de lègumes verts. On la dispose verticalement en cylindre au milieu du plat. on la couronne d’un chapeau de miel. 146 Cozinha futurista. mais seulement dans les intervalles des plats. et rôtie au four. créé par le peintre futuriste Fillìa. parfumés et tactiles formeront de parfaits repas simultanéistes. interprétation synthetique des paysages italiens.Fillippo Tommaso Marinetti Le “Viandesculpté” Le Viandesculpté. Ces ensembles plastiques savoureux. Chaque plat doit être précédé d’un parfum.indd 146 7/4/2009 15:51:23 . de poivre et de jus de citron.

marmites autoclaves centrifuges. la surprise.T. sous les yeux et sous le nez des convives. pour un produit nouveau. lampes à rayons ultraviolets pour rendre les substances alimentaires plus actives et assimilables. pour exciter la curionsité. des propriétés nouvelles. trop poivré. électrolyseurs pour décomposer les sucs et les extraits et obtenir. trop salé. qui contiennent dix ou vingt saveurs à déguster en très peu de temps. en tant qu’ingrédients improvisés pour allumer la saveur d’un plat avec leur intensité sensuelle. et en refaisant une virginité dégustative. et serviront à corriger les erreurs: trop fade. Une dotation d’instruments scientifiques en cuisine: ozoniseurs pour donner le parfum de l’ozone aux liquides et mets. de manière à éviter par exemple l’erreur de faire cuire les mets dans des marmites à pression. les frutis secs et les épices à un très haut degré de dispersion. dans la cuisine futuriste. Une bouchée pourra résumer une tranche entière d’existence. la même fonction d’annalogie amplifiante que les images en littérature. ou un voyage en Extrême-Orient. des appareils indicateurs enregisteront l’acidité ou l’alcalinité des sauces.A cozinha futurista tout en effaçant la saveur précédente. le cours d’une passion amoureuse. L’usage tempéré de la poésie et de la musique. L’abolition de l’éloquence et de la politique à table. La présentation rapide. moulins colloïdaux pour pulveriser les farines. dont la haute température provoquerait la destruction des vitamines. et dialyseurs. dans l’intervalle des mets. La création de bouchées simultanéistes et changeantes.indd 147 7/4/2009 15:51:23 . L’usage de ces appareils devra être scientifique. de certains plats qu’ils mangeront et d’autres qu’ils ne mangeront pas.Marinetti 147 Cozinha futurista. et l’imagination. Enfin.” F. Ces bouchées auront. appareils de distillation à pression ordinaire et dans le vide.

“Há um ano dizíamos que Marinetti castigava o pudor hipócrita e a mentira da inteligência. e até o amamos. pois de que adianta levantar o braço numa saudação romana. “Trata-se hoje de refazer o homem italiano. aos sonhos vazios. isto é. lenta. ao ritmo pegajoso e conciliante dos indolentes. O paradoxo gastronômico de Marinetti visa à educação moral.Fillippo Tommaso Marinetti Damos a tradução do arguto artigo que o jornalista francês Audisio lançou. vejam o árabe. uma decisão rápida. para ter pensamentos claros. à renúncia cética. mas duvidamos dele acima de tudo se preparado à maneira romana. e esse é o suculento veneno que estraga o fígado para grande alegria do estômago. de Horácio a Panzini. agora ele frustra a felicidade hipócrita da digestão. “Deve-se regá-lo sobretudo com Salerno ou Frascati para compreender a lentidão do povinho e dos prelados romanos ou napolitanos. e uma ação enérgica: vejam o negro. daquela indiferença amável. pela qual a Roma eterna. daquela ironia serena. cru. sim. no jornal “Comoedia”. como os seus paradoxos à educação estética: é preciso chacoalhar a matéria para acordar o espírito. Nós não somos daqueles que o desprezam. Porque a sua digestão é uma ruminação traiçoeira. daquela sapiência transcendental. ela traz consigo um torpor que beira a felicidade. a favor da cozinha futurista: “Sim. que convida às torpes fantasias. o macarrão é mesmo uma ditadura do estômago. se pode repousá-lo sem esforço sobre o seu ventre gordo? O homem moderno deve ter a barriga reta. sob esta nuvem cozinhária. desafia o passo dos tempos. Ele se recorda sem dúvida dos belos tempos 148 Cozinha futurista. É toda uma moral que Marinetti desventra.. sob o sol.indd 148 7/4/2009 15:51:23 . que são também a origem do sentimento lânguido..

has just issued from Rome a manifesto launching Futurist cooking. É significativa a entrevista do jornal Je suis partout com Marinetti e o artigo de fundo. caricaturas e discussões nos maiores jornais franceses. 149 Cozinha futurista. na primeira página. alemães etc. de Tóquio a Sidney. do jornal Le petit marseillais sobre a cozinha futurista. No more knives and forks. Jornais de Budapeste a Tunísia. literature and drama. Outros artigos na Reinisch-Westfalische Zeitung. publicando também poesias polêmicas.A cozinha futurista violentos nos quais. plantava a semente de uma revolução mundial dos espíritos. No more spaghetti for the Italians. O Times de Londres voltou repetidamente ao tema com escritos diversos. americanos.indd 149 7/4/2009 15:51:23 . que apareceu no The Herald. father of Futurist art. sob o céu de Paris. Entre estes tantos.” *** À publicação em “Comoedia” seguiram-se artigos. ingleses. Practically everything connected with the traditional pleasures of the gourmet will be swept away. que relevam a importância da batalha futurista “contra os alimentos tristemente miseráveis”. este artigo. de Essen. comentários. e no Nieuwe Rotterdamsche Courant. Knives and Forks for All are banned in Futurist Manifesto on Cooking Marinetti. Longo artigo “ITALY MAY DOWN SPAGHETTI” no Chicago Tribune. according to word received yesterday in Paris. esteve entre os primeiros a agitar a polêmica sobre a cozinha futurista: Spaghetti for Italians.

Modern science will be employed in the preparation of sauces and a device similar to litmus paper will be used in a Futuristic kitchen in order to determine the proper degree of acidity or alkalinity in any given sauce. an experience such as a love affair or a journey may be suggested. The new Futuristic meal will petmit a literary influence to pervade the dining-room. Music will be banished from the table except in rare instances when it whill be used to sustain the mood of a former course until the next can be served.Fillippo Tommaso Marinetti No more after-dinner speeches will be tolerated by the new cult. and such supplementary courses will not be eaten at all. “Since everything in modern civilization tends toward elimination of weight. by means of single sucessive mouthfuls. for whith ideal rapid service. The first step would be the elimination of edible pastes from the diet of Italians”. and increased speed. 150 Cozinha futurista. give the principal feature of the new cuisine as a rapid sucession of dishes which contain but one one mouthful or even a fraction of a mouthful. In fact. Marinetti writes. Electrolysis will also be used to decompose sugar and other extracts. Also certains dishes will be cooked under high preassure.indd 150 7/4/2009 15:51:23 . Among the new kitchen and dining-room instruments suggested by Marinetti is an “ozonizer” which will give to liquids the taste and perfume of the ozone. in order to vary the effects of heat. several dishes will be passed beneath the nose of the diner in order to excite his curiosity or to provide a suitable contrast. in the ideal Futuristic meal. the cooking of the future must conform to the ends of evolution. Details of the manifesto. published in the “Comoedia”. also ultra-violet lamps to render certain chemicals in the cooking more active.

The landscape is composed of a roast of veal. and a consistent lightening of weight and reduction of volume of food-stuffs. aquela que nós consideramos mais detestável e mais repugnante é a cozinha internacional de grandes hotéis que abrem todos os grandes banquetes oficiais com um brodo no qual bóiam 4 ou 5 bolinhas de massa real moles e insípidas. For ordinary daily nourishment he recommends scientific nourishment by means os pills and powders. stuffed with eleven kinds of vegetables. so that when a real banquet is 3 spread it may be appreciated aesthetically. Na Itália. by Fillìa. placed vertically upon a plate and crowned with honey. Besides the abolition of macaroni. como em quase todos os países do mundo. para a revisão de tratados.A cozinha futurista As a model for the presentation of a Futuristic meal. para o desarmamento e pela crise universal. submetemonos a este tipo de cozinha internacional de grande hotel unicamente 151 Cozinha futurista. under the new system. The Futurist leader also pleads for discontinuance of daily eating for pleasure. e os fecha a todos com um doce gelatinoso e trêmulo adequado a bocas doentes. entristecedores e monotonizantes. Marinetticalls attention to a Futuristic painting of a synthetic landscape made up of food-stuffs. não possam elucidar nada e concluir pouco depois de ter engolido tais alimentos deprimentes. É lógico que os homens políticos de todos os países que se reúnem para as grandes convenções.indd 151 7/4/2009 15:51:23 . This is one of the meals which. could not be attacked whith a knife and fork and cut into haphazard sections before being eaten. Contra a cozinha do Grande Hotel e a estrangeirofilia Entre as cozinhas que hoje imperam. Marinetti advocates doing away with the ordinary condiments now in use. M.

e que deve ser combatida violentamente. são infelizmente mais indispensáveis a cada dia. 3) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os regentes de orquestra e o público italiano que organizam ou aplaudem 152 Cozinha futurista.indd 152 7/4/2009 15:51:23 . 2) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os intérpretes italianos de fama mundial (artistas do canto. estrangeirófilo. falta de educação. e enamoram-se delas por esnobismo e às vezes desposam-nas absolvendo-as de todo defeito (prepotência. antitalianidade ou feiúra) somente porque elas não falam a língua italiana e vêm de países longínquos ignorados ou pouco conhecidos. a palavra estrangeirofilia. A Gazzetta del Popolo de 24 de setembro de 1931 publicou este manifesto de Marinetti contra a estrangeirofilia: Contra a estrangeirofilia Manifesto futurista às senhoras e aos intelectuais “Apesar da força imperial do Fascismo. inventadas por nós. 1) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os jovens italianos que caem em um êxtase cretino diante de qualquer estrangeira também agora que a crise mundial as empobrece. domina uma mania bestial a que chamamos estrangeirofilia. Exemplo: o excelente e célebre regente Arturo Toscanini que antepôs o seu sucesso pessoal ao prestígio da sua pátria ao renegar os seus hinos nacionais por delicadeza artística e executou os estrangeiros por oportunismo. concertistas e regentes de orquestra) quando se incham até esquecerem-se que o intérprete é o servo útil não necessário do gênio criador. Infelizmente.Fillippo Tommaso Marinetti porque vem do estrangeiro.

um gênio altíssimo em um povo de medíocres iletrados. no exterior. penetradas e admiradas por todos até a saciedade. já apreciadas. 9) São estrangeirófilas e portanto antitalianas as assembléias que ao invés de taxar como infâmia.. contra o nosso exército e contra a nossa grande guerra vitoriosa. à maneira de muitos novecentistas e de muitos racionalistas. espanhóis. variada e divertida) com a esperança de parecer.indd 153 7/4/2009 15:51:23 . Le Corbusier ao invés de filhos de autênticos inovadores italianos como Boccioni. definem “pecadinhos lícitos” as ofensas escritas e publicadas por literatos italianos contra a Itália. da nossa grande guerra vitoriosa.A cozinha futurista concertos no exterior quase sem música italiana. preferem proclamarse filhos de inovadores franceses. esquecem a música italiana em seus concertos na Itália. Brahms etc. maleducadamente. Bach. Picasso. criador da nova arquitetura. Um patriotismo elementar exige pelo menos metade de música italiana moderna ou futurista em substituição àquela de Beethoven. privilegiam os episódios irrelevantes como Caporetto. 6) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os históricos e os críticos militares que. 7) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os literatos ilustres que denigrem. cada um. os escultores e os arquitetos italianos que. toda a literatura italiana (hoje original. máquinas ou aparelhos não inteiramente idealizados e construídos na Itália. criador da nova plástica e Sant’Elia. 8) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os pintores. 4) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que aplaudem ao invés de vaiar os regentes estrangeiros quando. suíços como Cézanne. 5) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os industriais italianos que encontram mil pretextos para refutar uma batalha decisiva com a indústria estrangeira e têm orgulho de vencer disputas internacionais com produtos. 153 Cozinha futurista...

presos pela criticomania. Nestes encontros será premiada a melhor qualidade do vinho que as une. mas certamente nocivos à nossa raça. Consideramos portanto cafona e cretina a senhora italiana que participa orgulhosamente de um “cocktail-party” e relativa disputa alcoólica. nós lhe rogamos a substituir o “cocktailparty” por convenções vespertinas que poderão chamar à vontade de o Asti espumante da senhora B. 13) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que. os italianos e as italianas que saúdam romanamente e depois nos negócios pedem. A menos que ela se submeta à invejada superioridade financeira do exterior. Elegantes senhoras italianas. superioridade agora já destruída pela crise mundial. 12) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade. talvez adequados à raça norte-americana. esquecendo-se de que os estrangeiros. babando-se. enamorados pela paisagem e pelo clima da Itália. E basta que a palavra “bar” seja substituída pela italianíssima “Aquisebebe”. produtos estrangeiros com olhares céticos e pessimistas para os produtos italianos. vaiam sistematica- 154 Cozinha futurista. 11) São estrangeirófilas e portanto culpadas de antitalianidade as senhoras italianas da aristocracia e da alta burguesia que se estusiasmam pelos costumes e esnobismos estrangeiros.. ou o Capri branco da princesa D. Cretina e cafona a senhora italiana que acha mais elegante dizer: “bebi quatro cocktails” do que dizer: “comi um minestrone”. logotipos e nos cardápios). o Barbaresco da condessa C.indd 154 7/4/2009 15:51:23 . Exemplo: o esnobismo americano do álcool e do “cocktail-party”. podem também admirar e estudar a sua língua.Fillippo Tommaso Marinetti 10) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os hoteleiros e negociantes que não aproveitam os rápidos e eficazes meios que têm à sua disposição para influenciar italianamente o mundo (uso da língua italiana nos cartazes.

Outras Nações. Antitalianamente eles esquecem por exemplo esta explícita declaração do poeta futurista inglês Ezra Pound a um jornalista americano: “O movimento que eu. b) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: inteligência. esquecendo-se dos italianos. 155 Cozinha futurista.A cozinha futurista mente comédias e filmes italianos favorecendo assim a invasão de medíocres comédias e filmes estrangeiros. 15) São estrangeirófilos e portanto culpadas de antitalianidade as cultas senhoras e os críticos da Itália. não criticadas nem ameaçadas por inimigos externos. A nossa viril feroz dinâmica e dramática península. cujo cérebro foi desenvelhecido e agilizado pelo Futurismo italiano. não teria acontecido sem o Futurismo italiano” e esta também explícita declaração de Antoine no Journal de Paris: “Nas artes decorativas os caminhos foram há tempos abertos pela escola de Marinetti”. e que mesmo assim criticamno ou relevam-no para correr a pescar preciosamente Futurismos estrangeiros todos derivados do nosso. invejada e ameaçada por todos. podem. pouco populosas. Eliot. Joyce e outros iniciamos em Londres. em pleno enfraquecimento parlamentar social-democrático-comunista-clerical gritávamos: “A palavra Itália deve dominar sobre a palavra Liberdade!”. gritamos hoje: a) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: gênio. cochilando sob o zumbido de complôs revolucionários que podem ser sedados. pronta para explodir para realizar o seu imenso destino. que vinte anos atrás.indd 155 7/4/2009 15:51:23 . capazes de ensinar ao mundo. considerar o orgulho nacional como um artigo de luxo. 14) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os empresários italianos que procuram no exterior professores de teatro e cenógrafos. deve considerar o orgulho nacional como sua primeira lei de vida. Por isso. nós futuristas.

simbolizado pelos escombros do Império Austro-Húngaro que os nossos blindados tiveram que superar na estrada de Tarvisio. e tive na Itália mais vaias do que aplausos e apesar disso agradeço a cada dia as forças cósmicas que me deram a alta honra de nascer italiano. filósofos e filósofas) que tentam hoje. acaba de publicar em Roma um manifesto sobre a Cozinha Futurista. Facas e Garfos para Todos são banidos no Manifesto da Cozinha Futurista Marinetti. construir uma descuidada cúpula dupla de mármore em oferta ao inimigo. Escrevo tudo isto com a serenidade de um patriotismo adamantino. d) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: verdade. fuzilaremos os estrangeirófilos antitalianos. nós. nós brutalmente dizemos: Lembrem-se sempre desta obra-prima italiana que supera até mesmo a Divina Comédia: “Vittorio Veneto”. ao primeiro perigo. literatura e drama futuristas. nunca contra a Itália. artista. Que o fogo da crítica seja direto. No tocante aos muitos céticos e derrotistas (literatos. isto é aos fascistas que vibram por uma autêntica paixão pela Itália e de um desmesurado orgulho italiano. na inquietude de uma paz em equilíbrio. Indulgência plenária na arte e na vida aos verdadeiros patriotas. contra as nações estrangeiras. eu que fui aplaudidíssimo no Exterior.Marinetti Espaguete para Italianos.indd 156 7/4/2009 15:51:23 . pai da arte.” F.Fillippo Tommaso Marinetti c) A palavra Itália deve dominar sobre as palavras: cultura e estatísticas.T. segundo 156 Cozinha futurista. se necessário. Em nome desta obra-prima.

encontram-se um ozonizador que dará aos líquidos o 157 Cozinha futurista. o que. publicado no “Comoedia”. Praticamente tudo o que está relacionado aos tradicionais prazeres dos gourmets será erradicado.A cozinha futurista notícias recebidas ontem de Paris. diversos pratos passarão sob os narizes do comensal somente para excitar a sua curiosidade ou para promover um contraste apropriado. Entre os novos instrumentos de cozinha e de sala de jantar sugeridos por Marinetti. A música será proibida à mesa. apresentam a principal característica da nova “cuisine” como uma sucessão de pratos que contém um só bocado. Detalhes do manifesto. De fato. A nova comida futurista permitirá uma influência literária que invada o comensal. Não mais espaguete para os italianos.”. e aumento da velocidade. Não mais facas e garfos. o cozinheiro do futuro deve adaptarse aos fins da evolução. exceto em raras ocasiões em que será empregada para reter o espírito do último prato até que o próximo possa ser servido. já que estes pratos suplementares não serão ingeridos. pode sugerir experiências tais como uma viagem ou uma aventura amorosa. escreve Marinetti. A ciência moderna será empregada na preparação dos molhos e um dispositivo semelhante ao papel de tornassol será utilizada na cozinha futurista para determinar o grau correto de acidez ou alcalinidade em um dado molho. somado a um serviço rápido ideal. ou mesmo uma fração de bocado. Não mais serão tolerados pelo novo culto discursos após o jantar. “Desde que tudo na civilização moderna tende à eliminação de peso. O primeiro passo deveria ser a eliminação das massas comestíveis da dieta dos italianos.indd 157 7/4/2009 15:51:23 . por meio de sucessivos bocados únicos. na refeição futurista ideal.

e também lâmpadas ultravioleta que tornarão mais ativas certas substâncias culinárias. não poderia ser atacado com garfo e faca. possa ser apreciado esteticamente. e ser cortado em pedaços livremente antes de ser comido.indd 158 7/4/2009 15:51:23 . A eletrólise também será empregada para decompor açúcares e extratos. O líder futurista também sustenta que se deve abandonar o hábito de comer diariamente por prazer. 158 Cozinha futurista. a ponto de permitir que quando um verdadeiro banquete seja servido. alguns pratos serão cozidos sob alta pressão.Fillippo Tommaso Marinetti sabor e o perfume do ozônio. Este é um dos pratos que. de acordo com o novo sistema. Marinetti concentra a atenção em uma pintura futurista de Fillìa. Além disso. disposto verticalmente sobre um prato e coroado com mel. A paisagem é composta por um assado de carne de veado recheado com onze tipos diferentes de vegetais. Além da abolição do macarrão. de modo a variar os efeitos da temperatura. Como um modelo para a apresentação de um prato futurista. Para a alimentação diária normal. de uma paisagem sintética feita com substâncias comestíveis. Marinetti defende o fim dos temperos ordinários atualmente em uso e uma consistente diminuição e redução do volume dos alimentos. ele recomenda uma nutrição científica por meio de pílulas e pós.

consensos. depois de haver coroado com o capacete de alumínio o poeta-recorde de Turim. Ercole Moggi. recebendo sempre pessoalmente. Ao final do Circuito de Poesia de Turim. Marinetti batizou com o nome de SANTOPALADAR o local destinado a impor pela primeira vez a cozinha futurista. em parte entusiastas. em uma matéria de capa com duas colunas. Angelo Giachino. um dos mais brilhantes jornalistas italianos. mas tenta fazê-las penetrar. do “spaghettaro” e de todas as outras gloriosas insígnias do verdadeiro gourmet. vice-secretário geral do movimento futurista italiano à imprensa romana. Não se contenta em lançar umas idéias platônicas. mas também aplausos. anunciou assim na Gazzetta del Popolo de 21 de janeiro de 1931. enciumados da tradição da “sora Felicetta”. Enquanto se trabalhava na decoração do local. Recebendo às vezes algum cabo de couve. uma batata ou outro legume. Em parte hostis.A cozinha futurista A revOLuçãO cOzinháriA Os GrAndes bAnquetes FuturistAs A taberna do santopaladar O manifesto da cozinha futurista provocou numerosos congressos e comícios entre os cozinheiros e donos de restaurantes. a projetada manifestação: “Uma comunicação do pintor Fillìa. entre os quadros futuristas da galeria Codebó. que era incitado à realização dos novos pratos pelos seus próprios clientes. foi escolhido pelo pintor Fillìa e pelo arquiteto Diulgheroff o proprietário de um restaurante de Turim. 159 Cozinha futurista. sustenta-as. ansiosos por transformar cozinha e ambiente.indd 159 7/4/2009 15:51:23 . Fillìa no movimento futurista seria como o subtenente geral da esquadra em ação. movimentou os ambientes gastronômicos da capital. encorajamentos. Tullio d’Albisola. Entre estes últimos. inclusos aqueles jornalísticos.

cabeça de vulcão.. quem sabe? panela em perene ebulição. motor de 200 HP. além de uma idéia prática e original: a abertura de uma cozinha experimental futurista em Turim e que terá como título “Taberna do Santopaladar” na qual serão não apenas futuristicamente estudados. para apreciar o notável “carnescultura” na “Taberna do Santopaladar”. Declarações muito importantes deviam sair daquele cérebro vulcânico. boca de fogo de nitroglicerina. comentando o pronunciamento dos futuristas..Fillippo Tommaso Marinetti Os adeptos do macarrão esperavam que o Manifesto da Cozinha Futurista se mantivesse apenas na teoria. ou discussões polêmicas ou academia literária. deste modo. Assim.. “Santopaladar” sem especulações Conseguimos achar Fillìa e não o deixamos mais escapar. Seria necessário descrevê-lo de maneira futurista: chamá-lo. Turim encaminha-se para ser o berço de um novo renascimento italiano. Fillìa talvez seja o mais dinâmico dos futuristas italianos. Não conhecem evidentemente aqueles queridos rapazes! Os futuristas preanunciam de fato uma forte ofensiva contra a velha cozinha. o gastronômico. mas apresentados ao público os novos pratos. Fillìa antecipou-me: 160 Cozinha futurista. escreveu: “Temos a certeza que as ferrovias do Estado concederão descontos de cinqüenta por cento para que todos os italianos possam deslocar-se em massa a Turim. Evidentemente gosta de Turim já que tentou sempre ali as suas maiores iniciativas.indd 160 7/4/2009 15:51:23 . Trens especiais para Turim Um renomado jornal romano entre o tom sério e o engraçado.

Este cilindro. Os leitores devem saber que Fillìa é o inventor do “carnescultura”. na Itália e no exterior. repito. é composto por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diversas de verduras e legumes cozidos. com o objetivo de estudar. é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. O leitor se perguntará o que é o “carnescultura”. O local não será um simples e vulgar restaurante. Será decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim com o objetivo preciso de passar da teoria à prática na polêmica futurista. que a nossa iniciativa e a nossa atividade para a abertura do “Santopaladar” tem fins unicamente artísticos. Mas não teremos. Fillìa dirigirá a renovação da cozinha italiana e fará aplicar e preparar os novos pratos dos artistas e cozinheiros futuristas.. a fazer uma laparotomia gratuita aos primeiros degustadores do “carnescultura”. mas assumirá um caráter de ambiente artístico abrindo concursos 161 Cozinha futurista. interpretação sintética das paisagens italianas. Donato ter-se-ia proposto. nenhum interesse no maior ou menor sucesso (nós o esperamos imenso) da iniciativa. Como se diz. idealizadores e propulsores de uma nova teoria cozinhária. florescerão. Nós daremos simplesmente à taberna uma fachada futurista. tanto que – segundo vozes que correm – o prof. Não se trata portanto de uma especulação minha ou de Diulgheroff.Peço-lhe para relevar.. A nutrição por rádio No “Santopaladar” de Turim. disposto verticalmente no centro do prato. se forem rosas. A Taberna aparecerá logo em Turim. acima de tudo.indd 161 7/4/2009 15:51:23 . que é o novo prato futurista mais clamorosamente discutido hoje.A cozinha futurista . Eis aqui uma descrição autorizada: “O carnescultura.

Este primeiro capítulo dispensa comentários. por meio do rádio. mas de inventar novos pratos. Não se trata simplesmente de substituir o macarrão pelo arroz. uma difusão de ondas nutrientes.). Provavelmente trate-se de outro neologismo marinettiano. Até hoje. por meio do rádio. Como o rádio pode difundir ondas asfixiantes e adormentadoras (conferências. 162 Cozinha futurista. ou de preferir um prato a outro. em certos restaurantes. o odor dos pratos lavados será transformado em odor de lavanda.indd 162 7/4/2009 15:51:23 . Deve-se. variando-se continuamente o gênero de nutrimentos e de combinações. Entre os pontos mais importantes. De resto a coisa não é lá extraordinária. jazz. uma difusão de ondas nutrientes. Agora reorganizaremos os odores. odores e valores que até ontem pareceriam absurdos. de pintura e de moda futurista. noites de poesia. para preparar os homens aos futuros alimentos químicos e talvez à não distante possibilidade de realizar. mas pretendem renovar o gosto e os hábitos dos italianos. porque eram diversas também as condições gerais de existência. “per-finire”. Por exemplo. é a possibilidade de realizar. poderá também difundir extratos de ótimos 1 No original. Aconteceram na vida prática do homem tais modificações mecânicas e científicas que se pode chegar mesmo a um perfeccionismo cozinhário. notem os seguintes que reproduzo textualmente: a) “os futuristas declarando-se contra o macarrão e indicando novos desenvolvimentos da cozinha italiana. havia um odor que Deus nos livre. a uma organização de sabores. por isso optamos por traduzir novela.Fillippo Tommaso Marinetti e organizando no lugar do habitual café post-prandium ou da habitual dança. não seguem somente o lado importante da economia nacional. É toda uma revolução. O “Santopaladar” lançará em breve o seu preciso programa técnico. per finire é algo que está sempre por acabar. O que há de prodigioso e que talvez tenha escapado até a Marconi. assassinar os velhos enraizados hábitos do paladar. novelas1 etc. dicção de poesia.

para inventar novos pratos que dêem alegria e otimismo. Que paraíso então! O problema é que caminhará rumo à abolição da cozinha e portanto do “Santopaladar”. portanto. a não ser pelos doces. O nosso refinamento sensível pede ao contrário um estudo completamente “artístico” da cozinha. Alcançaremos pratos ricos de diferentes qualidades. Pergunto ao vice-secretário do movimento futurista se a inauguração do “Santopaladar” será feita com solenidade. os fragmentos desordenados de comida. o lado estético. é preciso defender a carne e o vinho de qualquer ataque. a profissão. a sensibilidade”.A cozinha futurista almoços e cafés da manhã. em que será estudado para cada um o prato que leve em consideração o sexo. Responde-me: 163 Cozinha futurista. Combatem-se assim os lamaçais de molho.indd 163 7/4/2009 15:51:23 . enquanto a química não criar substâncias sintéticas que tenham a força da carne e do vinho. O segundo capítulo também é explícito: b) A cozinha até hoje não levou em conta. o caráter. Fillìa nos disse: “Em nosso próximo proclama para o “Santopaladar” estará bem esclarecido que. mas tem a tendência inversa de novos horizontes culinários de renovar o gosto e o entusiasmo do comer.. Não é verdade que os futuristas sejam inimigos do vinho e da carne. que multipliquem ao infinito a alegria de viver: coisa impossível de se obter com os alimentos aos quais se está “habituado”. Outra coisa importante que apreendi é esta: que os pratos futuristas não serão caros. e sobretudo o mole e antiviril macarrão. Marinetti inaugurará o “Santopaladar” Fillìa ainda me fez outras importantes declarações. O Manifesto da cozinha futurista não tem. Um almoço no “Santopaladar” terá um preço normal.. nenhuma base em comum com as afirmações de Marco Ramperti.

E responderá à altura. Acabou-se o tempo das comidas dos Artusi. Saladin. Exª Marinetti. achados.Nada. Senti duas lágrimas rolarem-me nas bochechas. o conhecidíssimo Carnescultura. Esta lista será completada por surpresas indispensáveis para formar a atmosfera da nova refeição e terá além de tudo perfumes. . Seremos duros. Mas então adeus “tajadele al parsott”. que responderá a todas as críticas. a Aerovianda (tátil. poupe ao menos a “salama vecchia” da Romanha. Além disso compreenderá os pratos publicitários do arquiteto Diulgheroff e os alimentos simultâneos de Marinetti e Prampolini.Compreenderá alguns de meus pratos e isto é: Todoarroz (com arroz. Compreenderá os doces Reticulados do céu do escultor Mino Rosso e o Ultraviril do crítico de arte cozinheiro futurista P. Fillìa.Fillippo Tommaso Marinetti . apenas as velhas caçarolas.indd 164 7/4/2009 15:51:24 . No “Santopaladar” teremos um acadêmico.Certamente. música.Pode-se saber a lista dos pratos do almoço inaugural? . À inauguração intervirá também S.E da velha cozinha – pergunto a Fillìa – o que ficará em pé? Responde-me com tom inexorável: . Bastaria a invenção do prato Ultraviril. originalidade. É evidente que o sucesso. salada. . A. junto à loira Albana. delícia de minha juventude voraz. os perfumes e os outros achados. acendia a veia poética de Giosuè Carducci e de Giovanni Pascoli”. a venerável “salama da sugo” que. É acompanhado no exterior. Ah. porque o acontecimento tem uma grande importância. sem considerar a música. Até hoje o pobre consumidor não encontrava ninguém que respondesse por uma má refeição. receita que faria chorar de inveja o doutor Woronoff. vinho e cerveja). 164 Cozinha futurista. com rumores e odores). Este é evidentemente um achado útil. o Docelástico. seja clemente. não poderá ser nada menos que extraordinário.

de qualquer modo. é preciso preparar o paladar às futuras alimentações. O pintor Fillìa. Mas. a necessidade de modificar a cozinha porque se modificou o nosso sistema geral de vida. que as profecias do ilustre Membro da Academia Culinária terão o mesmo resultado que as outras: apressarão o nosso sucesso”. Se os cozinheiros acadêmicos nos combatem somente pela razão técnica. Estamos seguros. Para tanto. teremos os pratos econômicos e os pratos de luxo – os pratos que melhor se equipararão ao macarrão e os pratos para vencer em concorrência as velhas glutonarias. “não se trata. portanto. Impossível também indicar somente os melhores escritos daquele período. reproduzido em todos os jornais. respondendo a diversos ataques. deu ensejo a uma infinidade de polêmicas irônicas e sarcásticas sobre os valores digestivos dos pratos futuristas. são os primeiros exemplos de uma série que criaremos. estão vencidos: sua oposição 165 Cozinha futurista. é o espírito revolucionário do manifesto que deve importar: isto é. Reproduzimos em parte a carta de resposta a um cozinheiro romano que ameaçava os raios da Academia Gastronômica Italiana contra os cozinheiros futuristas: “o protesto dos cozinheiros acadêmicos relembra estranhamente a oposição que os professores de história da arte sempre fizeram aos movimentos de renovação artística neste século e no outro. E.A cozinha futurista Este artigo. esclareceu repetidas vezes no “Lavoro” de Gênova. de falar de “técnica”: aqueles pratos. rompendo os hábitos. porque. como técnica. o restaurante futurista de Turim baterá sem dúvida a ciência dos velhos cozinheiros acadêmicos. criticando os pratos contidos no manifesto da cozinha futurista.indd 165 7/4/2009 15:51:24 . como o meu carneplástico que foi erroneamente visto como oposição ao macarrão. no “Regime Fascista” de Cremona e na “Tribuna” de Roma a importância da iniciativa do Santopaladar.

Fillippo Tommaso Marinetti de artesãos não poderá vencer nossa força de artistas.”. chegamos a um momento em que tudo se deve renovar. os transportes. ainda antes de ser inaugurada. etc. No entanto. alcançava uma notoriedade mundial pela anunciada realização da cozinha futurista. Entretanto. nem mesmo o macarrão teria sido inventado: e continuar-se-ia a comer como os romanos antigos. os trabalhos procediam e o ambiente se formava no domínio preponderante do alumínio italiano “Guinzio e Rossi”: domínio que deveria dar ao local uma atmosfera de metalicida- 166 Cozinha futurista. e por conseqüência futuristas”. enquanto os pratos antigos. Mas se a Academia Gastronômica Nacional insiste em negar nosso esforço que pretende inventar pratos italianíssimos.indd 166 7/4/2009 15:51:24 . *** A Taberna Santopaladar de Turim. E por outro lado. “segundo a cômoda teoria pacifista dos cozinheiros acadêmicos. Eu e o arquiteto Diulgheroff não cuidamos senão de sua inauguração e primeira orientação: estamos seguros da inteligência e da fé na modernidade que animam aqueles cozinheiros. E as criações futuristas alcançarão perfeições técnicas. não se poderão renovar”. médicos ilustres e cozinheiros sábios dão-nos razão e aderem à nossa luta. tecnicamente perfeitos. à qual aderirão os cinqüenta mil artistas inovadores e simpatizantes da Nova Itália”.. “a Taberna Santopaladar decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim gerará uma atmosfera que será o resumo da vida mecânica moderna e será portanto ‘necessário’ servir pratos novos. Como foram renovados os costumes. também se chegará ao triunfo da cozinha futurista. as artes etc. fundaremos então uma Academia Gastronômica Futurista. “a Taberna Santopaladar tem um proprietário e cozinheiros que a dirigirão.

os objetos diversos.A. o sentido da vida de hoje. de leveza e também de serenidade. completado com os ritmos da luz indireta. indispensável ao estado de atividade do organismo ambiental. O alumínio é o mais adequado e o mais expressivo dos materiais. a luz servia então como sistema arterial. os toldos. ágil ossatura de um corpo novo. de elasticidade. A luz também é uma das realidades fundamentais da arquitetura moderna e deve ser “espaço”. tátil. Na Taberna Santopaladar delineava-se então uma pulsante estrutura de alumínio e esta não era friamente utilizada para cobrir o espaço. após uma febril jornada de intenso trabalho na cozinha. na preparação dos pratos. de esplendor.A. Isto é. os vidros trabalhados.Saladin competiam com os cozinheiros do restaurante.A cozinha futurista de. onde o nosso corpo e o nosso espírito têm a necessidade de encontrar a afinação. onde os futuristas Fillìa e P. A primeira refeição futurista A Taberna Santopaladar foi inaugurada na noite de 8 de março de 1931. Piccinelli e Burdese.Saladin) 167 Cozinha futurista. mas servia como elemento operante do interior: alumínio dominante. encerra estes dotes essenciais e é verdadeiramente um filho do século do qual espera glória e eternidade. a síntese e a tradução artística de toda a organização mecânica preponderante.indd 167 7/4/2009 15:51:24 . assim como os materiais “nobres” do passado. com vinho e cerveja (fórmula Fillìa) Aeroprato. Eis a lista da primeira refeição futurista: Antepasto intuitivo (fórmula da Senhora Colombo-Fillìa) Caldo solar (fórmula Piccinelli) Todoarroz. deve ser parte viva das outras formas da construção. com rumores e odores (fórmula Fillìa) Ultraviril (fórmula P. Tudo concorria para completar o interior: os grandes quadros publicitários. No corpo do alumínio.

Apresentamos integralmente a notícia sobre a noite como apareceu no jornal “La Stampa”. Uma notícia redigida nestes termos não pode ser nada além de maravilhosamente futurista. Ninguém a não ser um futurista. é preciso reconhecê-lo sinceramente. as datas do descobrimento da América. segue. cuja data ficará impressa na história da arte cozinhária assim. sonha-se e age-se segundo o que se bebe e o que se come”.Fillippo Tommaso Marinetti Carnescultura (fórmula Fillìa) Paisagem alimentar (fórmula Giachino) Mar da Itália (fórmula Fillìa) Salada mediterrânea (fórmula Burdese) 10. O acontecimento assumirá estão uma importância excepcional. do Tratado de Viena e do Tratado de Versalhes”. os pressupostos de sua doutrina.indd 168 7/4/2009 15:51:24 . da tomada da Bastilha. como indelevelmente foram fixadas. na história do mundo. “Mesmo reconhecendo – adverte Marinetti – que os homens mal ou grosseiramente nutridos tenham realizado grandes coisas no passado. 168 Cozinha futurista. em um completo artigo do redator Dr. pela anunciada inauguração do Santopaladar. Frangofiat (fórmula Diulgheroff) Equador + Pólo Norte (fórmula Prampolini) Docelástico (fórmula Fillìa) Reticulados do céu (fórmula Mino Rosso) Frutas da Itália (composição simultânea) Vinho Costa – Cerveja Metzger – Espumante Cora – Perfumes Dory. nos afirmamos esta verdade: pensa-se. além de todo limite extremo. Stradella: “Ninguém ignora o interesse e as polêmicas que agitam o mundo inteiro.

A cozinha futurista

Rumo ao alimento em pílulas
Não gratificados, então, pelas imensas vitórias pictóricas, literárias, artísticas que acumula há vinte anos, o Futurismo italiano visa, hoje, a uma renovação de base: esta, de fato, ousa afrontar ainda a impopularidade, com um programa de renovação total da cozinha. Omitimos que o Santopaladar, apesar da aparência um pouco blasfema para o passadismo vulgar, é uma deliciosa taberna turinesa, na qual, durante a noite passada, aconteceu lugar a primeira refeição da cozinha futurista: uma lista de quatorzes pratos, vinhos diversos, perfumes, espumantes. O leitor, ou talvez melhor, a amável leitora, desejará conhecer, a fundo, as mais recônditas razões de tal tentativa, para falar passadistamente; ou de tal realização, para falar futuristicamente. O desejo é legítimo. Quanto à satisfação deste, somos tomados por uma sensação de responsabilidade ao responder. Responderemos, em todo caso, cientificamente, exatamente, valendo-nos das mesmas palavras do Chefe dos Futuristas italianos: “Autopraticamente, nós futuristas relevamos o exemplo e as advertências da tradição para inventar a todo custo um novo, julgado por todos “loucura”, razão pela qual estabelecemos agora o nutrimento adequado a uma vida sempre mais aérea e veloz”. Por conseqüência, são abolidos tantos pratos: o macarrão, em primeiro lugar, e enquanto se espera da química o cumprimento de um preciso dever, ou seja aquele “de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos (fornecidos gratuitamente pelo Estado) em pó ou pílulas” invenção única, apta a nos fazer alcançar “uma real diminuição do preço da vida e dos salários, com relativa redução das horas de trabalho”; na espera desse dia, então, poder-se-á realizar a refeição perfeita, que exige uma harmonia original da mesa (cristais, louças, ornamentos) com os sabores e as cores dos alimentos e originalidade absoluta dos próprios alimentos.

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Fillippo Tommaso Marinetti

Na taberna de alumínio
Mas agora retornamos à Taberna Santopaladar idealizada, criada e decorada pelo arquiteto Diulgheroff e pelo pintor Fillìa, e que vocês devem imaginar como uma grande caixa cúbica enxertada, de um lado, em uma outra menor: adornada por colunas semi-incolores inteiramente luminosas e por grandes olhos metálicos, também luminosos, incrustados na metade da parede; fachada, de resto, de puríssimo alumínio, do teto ao chão. Aqui, por volta da meia-noite do domingo, haviam marcado um encontro os futuristas turineses e as pessoas por eles convidadas. Ao cumprimento do ritual estavam presentes, entre outros, S. Exª. Marinetti, Felice Casorati, o pintor Peluzzi, o pintor Vellan, o escultor Alloati, o professor Guerrisi, alguns jornalistas; não faltavam várias belas senhoras, em toilettes deliciosamente passadistas. Speaker oficial, ou seja o anunciador e o ilustrador de cada um dos pratos, era e não poderia deixar de sê-lo, o pintor Fillìa. Quatorze os pratos, já dissemos. Ei-los. Primeiro: Antepasto intuitivo. Não é difícil compreender que se trata, de certo modo, de uma surpresa, e de um outro, de uma preparação para o prato seguinte. Não se pode, a este ponto, esquecer que a invenção de complexos plásticos saborosos, cuja harmonia original de forma e de cor nutre os olhos e excita a fantasia antes de tentar os lábios, seja uma norma fundamental para uma refeição perfeita. Escolheremos, então, uma grande laranja, e através de um furo, liberá-la-emos de sua polpa: o esquelético invólucro nós trataremos de modo a obter a figura de uma pequena cesta, com o cabo e a redonda cavidade. Aqui colocaremos uma fatiazinha de presunto enfiado um em pedaço de grissini, uma alcachofrinha ao azeite, um pimentinha em conserva. No interior desta última será lícito enfiar um bilhetinho enrolado, sobre o qual será precedentemente escrita uma máxima futurista, ou mesmo um elogio a um convidado. Será fácil descobrir a surpresa já que rege “a abolição do garfo e da faca para

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A cozinha futurista os complexos plásticos que possam proporcionar um prazer tátil prélabial”. Em resumo, uma coisa finíssima.

Um prato com rumores e odores
Segunda: Aerovianda, tátil com rumores e odores (idealizada por Fillìa). Aqui há um pouquinho de complicações. Futuristicamente comendo, trabalha-se com todos os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição. Submetemos ao leitor algumas normas da refeição perfeita, que nos servirão para saborear completamente o sabor dos pratos vindouros: o uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Cada prato será, assim, precedido por um perfume com ele afinado, que será eliminado da mesa, mediante ventiladores. Ou como o uso dosado da poesia e da música como ingredientes imprevistos para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma determinada vianda. O segundo prato consiste em quatro pedaços: no prato será servido um pedaço de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza a ponta dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. Resultados maravilhosos: é provar para crer.

O metal que perfuma
Terceiro prato: Caldo solar (idealizado pelo cozinheiro Ernesto Piccinelli). É um consommé no qual são embalados alguns ingredientes, da cor do sol. Excelente. Quarto prato: Todoarroz (de Fillìa). É uma

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Fillippo Tommaso Marinetti coisa muito simples: um risoto à italiana, temperado com vinho, cerveja e fondue. Muito bom. Quinta rodada: Carneplástico. Este prato é um marco miliário da cozinha futurista. Transcrevemos aqui a receita, para a alegria das nossas leitoras: “interpretação sintética das paisagens italianas, é composto de uma almôndega cilíndrica de carne de vitela assada, recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes. Este cilindro, disposto verticalmente sobre a base do prato, é coroado por uma camada de mel, e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. Um prodígio de equilíbrio. Sexta: Ultraviril. Não nos demoraremos em descrições minuciosas: Basta dizer que é um prato para senhoras. Sétima: Paisagem alimentar. É o inverso dos pratos anteriores; esta é só para homens. Excelente. O mar da Itália, a Salada mediterrânea e o Frangofiat, o oitavo, o nono e o décimo pratos, servem-se juntos. Particularmente notável este último, idealizado por Diulgheroff. Pega-se um frango respeitável, e cozinha-se o mesmo em dois tempos: primeiro aferventado, depois assado. Cava-se na coluna da ave uma cavidade grande, dentro da qual colocam-se uma porção de bolinhas, das que se usam para coxim, de aço doce. Sobre a parte posterior da ave costura-se, em três fatias, uma crista de galo crua. Coloca-se no forno a escultura assim preparada, deixando-a por aproximadamente dez minutos. Quando a carne tiver absorvido bem o sabor das bolinhas de aço doce, então o frango é servido à mesa, com adorno de chantilly. Ainda foram servidos outros dois pratos, fora do programa. Um deles, oferecido exclusivamente aos jornalistas, não nos pareceu facilmente decifrável. Acreditamos ter encontrado traços de mortadela de Bolonha, de maionese, daquele tipo de doce turinês conhecido sob a denominação de creme Gianduia; mas, vinte e quatro horas depois da ingestão, após um minucioso exame de consciência, não somos mais capazes de afirmar nada. Mais simples, ao contrário, o outro prato extra,

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A cozinha futurista que o pintor Fillìa definiu Porroniana e Marinetti: porco excitado. Um salame cozido normal veio apresentado imerso em uma solução concentrada de café expresso, e temperado com Água de Colônia. O ritual, assim, está para chegar ao fim. E na hora do espumante falaram Felice Casorati, o escultor Alloatti, o advogado Porrone, Emilio Zanzi, o pintor Peluzzi e enfim S.Exª. Marinetti, que elogiou vivamente Fillìa e Diulgheroff pelos concretos resultados atingidos. Apareceram contemporaneamente: na “Gazzetta del Popolo” um divertido artigo de Ercole Moggi A taverna futurista do santopaladar inaugurada por F.T.Marinetti; no “Regime Fascista” um entusiástico artigo de Luigi Pralavorio: Macarrão já era: Carnescultura, no “Giornale di Genova” um favorável artigo de Marcaraf, A inauguração do Santopaladar. Eram os jornalistas presentes ao almoço. Em seguida, em todos os jornais italianos e estrangeiros, foram reproduzidos os artigos de Moggi e de Stradella, com clamorosos comentários e muitas fotografias reproduzindo os locais, as formas dos pratos, etc., etc. Enquanto jornalistas e fotógrafos de Roma e de Paris chegavam à “Taverna Santopaladar”, Ercole Moggi, após nova entrevista com o pintor Fillìa, publicou na “Gazzetta del Popolo” um outro artigo: Revelados os mistérios da cozinha futurista, em que eram fornecidas as fórmulas exatas das primeiras iguarias realizadas, indicava-se o custo mínimo das refeições futuristas e anunciavam-se outras surpreendentes manifestações iminentes. Sob os títulos: “Os cozinheiros futuristas em teste”- “Isto não é nada, avançaremos muito mais”- “Fillìa contra Artusi”- “Santopaladar? Ora!” os maiores jornais do mundo difundiram, discutiram e polemizaram. De Estocolmo a Nova Iorque, de Paris a Alexandria no Egito atingiam páginas inteiras de jornais ilustrados dedicados ao assunto. A cozinha futurista havia conseguido se impor e iniciava assim o período mais intenso de suas afirmações para a renovação da alimentação.

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fornos elétricos. que. etc. Muitos restaurantes adotam fogões elétricos.P. mas infelizmente continuam a recorrer aos estrangeiros. Em um outro campo. Eis os pontos principais do seu artigo: “Há tanta gente. No manifesto da cozinha futurista fala-se com precisão da necessidade de servir-se da eletricidade e de todas as máquinas que aperfeiçoam o trabalho dos cozinheiros. construtores. com indiscutíveis vantagens sobre os produtos importados. de apresentar os alimentos e os produtos da cidade e do campo segundo o espírito dos nossos tempos. ultimamente nos fazia notar a intensa propaganda da S. falam da necessidade de modificar também o interior dos locais. redator-chefe do “Giornale Vinicolo Italiano” (que inteligentemente se ocupou. O Eng. etc. de dar um ar de modernidade às Feiras de produtos agrícolas e industriais. por exemplo. isto é. da cozinha futurista) o qual aborda o problema da decoração dos locais onde se consomem vinhos e bebidas italianas. mas são estudadas de tempos em tempos de acordo com a necessidade de aplicação e funcionamento. Alamanno Guercini. etc. Portanto. Pittalunga. em muitos escritos. não apenas oferecem as maiores garantias.. logo após a nossa batalha.S para esta produção italiana e sublinhava como infelizmente os proprietários dos grandes restaurantes são ainda desconfiados a respeito das máquinas que.Fillippo Tommaso Marinetti As discussões sobre a cozinha futurista não deveriam naturalmente limitar-se somente ao campo alimentar. porque a nossa vontade de renovação expressou-se sempre claramente a favor de todos os ramos e de todas as atividades da arte e da vida. fornos.indd 174 7/4/2009 15:51:24 .. caldeiras. arquitetos.E. é digno de nota também o artigo do Dr. esquecendo-se de que na Itália existem insuperáveis produtores de fogões. que pode gostar das formas arquitetônicas antigas e degustar vinhos modernos (preparados nos ultramodernos estabelecimentos enológicos!) entre os muros de 174 Cozinha futurista. neste mundo. são para sublinhar as adesões dos diversos jornalistas. etc.

000 foram reservados aos barris de madeira.000.500. é entretanto bebida que se renova anualmente. publicidade. ou nas catacumbas estranhamente complicadas. que 175 Cozinha futurista. Por exemplo: em um estabelecimento de recente edificação. apresentação. Se o vinho é uma bebida de tradição antiquíssima. com respeito a todas as opiniões. restaurantes.indd 175 7/4/2009 15:51:24 . em Roma. explodiram na construção das enormes tinas de 80.000 litros de capacidade. ou se por acaso pensam. uma aliança muito apreciável.000 litros. Provavelmente não querem nem mesmo lembrar que os barris de madeira cujos arredores são abundantemente decorados vão – ai de nós! – diminuindo de importância nas novas cantinas que adotam largamente as enormes baterias de banheiras em cimento armado em andares múltiplos. não atribuem a isso nenhuma importância. Esta gente não pensa de fato que naquelas épocas remotas a uva era esmagada com os pés. e após terem tentado ovalizar-se ao máximo. Nós devemos dominar as nossas predileções artísticas pessoais e percorrer aquelas vias mais úteis e prático-econômicas de propaganda vinícola que parecem dar resultados.A cozinha futurista construção medieval. que se moderniza com o progresso multiforme: é uma bebida dinâmica. na genialidade dos futuristas. não se negará nem se criticará qualquer outra iniciativa da arte para valorizar o vinho: apenas se solicitará que se abram as portas aos artistas de vanguarda e à sua atividade artística e publicitária. Parece-me. decoração. somente 1. no que concerne a arquitetura. que contém carburante-homem e carburante-motor. Até mesmo os pobres tonéis seguem o influxo do modernismo. Com isto. que o vinho poderia hoje procurar e encontrar na arte dos inovadores. de 4. pavilhões. ensurdecidos pela música selvagem à base das “jazz-band”.

na Mostra Colonial. bela e que cumpre sua função. As direções das feiras e das mostras poderão fazer muito. elas se aproveitarão largamente das novas formas de arte. antes de construir stands. pouquíssimas e esporádicas foram até hoje as tentativas. cerveja. comerciantes. da propaganda e valorização do vinho italiano. licores. centenas de bares são em estilo futurista. catálogos. se manifestações vinícolas acontecerem em Roma. É tempo de exaltar e propagandear o vinho com os mesmos critérios da modernidade. Em Paris. do futurismo. restaurantes. Neles há higiene. Em Paris. os vinicultores deveriam considerar seriamente as concepções artísticas novadoras. em Viena. Na Itália. Nos concursos regulares dos pavilhões que tem por objeto o vinho. industriais. E o mais moderno e mais animado era o restaurante italiano idealizado pelos arquitetos futuristas Fiorini e Prampolini. numerosos pavilhões de vinhos. Quero acreditar que em 1932. 176 Cozinha futurista. consumidores.Fillippo Tommaso Marinetti por muitas razões se pode imaginar bem aceita por um extenso público de produtores.. farão coisa útil e boa. aquele da economia: que não deve ser menosprezado nestes momentos difíceis. etc. economia. Muitos catálogos de vinhos franceses são publicações completamente futuristas. Deve haver lugar para todos. E pode-se acrescentar.indd 176 7/4/2009 15:51:24 . de organizar a publicidade. no campo da propaganda vinícola! E se os futuristas italianos se ocuparem com fecunda e prática atividade. enquanto o trabalho destes artistas italianos é apreciado no exterior. esplendor de metais e de cristais. cartazes futuristas. especialidades. o Pavilhão de Arte Sacra é uma realização racional verdadeiramente útil. aos numerosos valores dos locais modernos. eram de estilo racional. em Berlim. Em Pádua. espaço. aplicados praticamente.

na abertura da Mostra pessoal dos pintores futuristas Fillìa e Zucco. . . inaugurando a Mostra dos pintores futuristas Fillìa.“Amici dell’Arte di Novara”. Oriani. Conferências Cozinhárias A polêmica sobre a cozinha futurista era tão intensa e presente em cada um. Saladin. em frente a imensas multidões. . . Zucco. . aos interesses vinícolas nacionais”.“Galleria Vitelli” de Gênova.“Circolo degli Artisti” de Trieste. também desta forma. Mino Rosso. Alimandi e Vignazia. nas quais exaltou e impôs à atenção do público os valores da nova cozinha: . E agora convidamos os artistas inovadores a colaborar conosco.indd 177 7/4/2009 15:51:24 . a propósito da cozinha futurista. na abertura da Mostra do grupo vanguardista e futurista “Sintesi”.Turnê de propaganda em diversas cidades da Tunísia. Pozzo. escrevendo no “Giornale Vinicolo Italiano”. de fevereiro de 1931 a fevereiro de 1932. Marinetti. Diulgheroff.“Galleria Botti” de Florença.A cozinha futurista Eu já esperava isto há um ano. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. 177 Cozinha futurista.Conferências futuristas em Budapeste.“Sala dell’Effort” em Paris. durante a Mostra de Aeropintura Futurista.“Institutos Fascistas de Cultura” de Brescia e Cremona. . . as seguintes conferências. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. a favor e contra os novos pratos futuristas. . na intenção de servir.“Circolo Sociale” di Cúneo. fez. que todas as conferências de Marinetti eram freqüentemente seguidas por clamorosas discussões a favor e contra o macarrão.

todoarroz. por ocasião da Mostra dos grupos futuristas turineses e ligúrios.Fillippo Tommaso Marinetti . Ele me olha e sorri irônico. carnescultura.indd 178 7/4/2009 15:51:24 . Rosina. por iniciativa do Dr. foi organizado.realizado domingo. aerovianda (tátil. Presidente da Federação dos Comerciantes. mar da Itália.“Teatro Nacional” de Savona. 18 de abril. para inovar. eu achava que os futuristas. docelástico. vinhos. A lista era composta pelas seguintes novidades: Antepasto Intuitivo. – Comer no futuro… que poderia haver de mais futurista? 178 Cozinha futurista. com rumores e odores). em Novara – ninguém tenha escrito um processo verbal estenografado consagrando ao futuro os comentários com que Fillìa preanunciava os pratos. no atraso são passadistas vocês também. O horário estabelecido para o banquete já havia passado há muito e ninguém falava em finalmente dar princípio a este convívio luculiano.Escute. Aproximo-me de… . Eis como o diretor do jornal “A Itália Jovem” descreveu em um brilhante artigo o acontecimento: “É realmente um pecado que sobre este jantar futurista . um banquete dirigido pelos futuristas Fillìa e Ermanno Libani.Conferências em Sofia e Istambul. perfumes e músicas da Itália. . caro. espumantes. cervejas. frangofiat. A refeição futurista de Novara Durante a “Mostra de Arte Futurista” no Círculo dos Amigos da Arte de Novara. teriam antecipado mas ao contrário há a mesma espera asfixiante como em todas as refeições deste mundo burguês. fruta simultânea.

aquilo que Fillìa nos apresentará na mostra de arte sacra de Pádua. Isto também já sabíamos. um perto do outro. Em relação aos odores. abertos e lidos em voz alta com grande deleite para os presentes: Emanuelli é o maior jornalista. Há ainda um pedaço de cartolina sobre o qual estão colados. entenda-se o Deus dos futuristas. É composto por uma fatia de erva-doce.indd 179 7/4/2009 15:51:24 . assinado Enrico Emanuelli. sentamo-nos à mesa: Antepasto intuitivo. segundo informações seguras de estudiosos do gênero. um pedaço de seda e um pedaço de lixa: não é obrigatório – explica Fillìa – comer a lixa. servirá apenas para tocar com a mão direita dando sensações pré-labiais que tornam saborosíssimas as iguarias. Estes bilhetes são cuspidos. e consiste em minúsculos bilhetes encondidos dentro das azeitonas recheadas. 179 Cozinha futurista.A cozinha futurista O início da refeição Como Deus quer. Servem-nos elegantíssimos cestinhos escavados em casca de laranja e preenchidos com tudo o que constituía o velho antepasto caro às nossas bisavós: salame de autêntico porco e picles Cirio. morna. para a incolumidade. dos resfriados. Mas algo de novo existe. uma azeitona e uma bergamota. É convicção geral que este prato será na realidade pulado completamente para ser fiel à sua definição de intuitivo: mas não. eram já utilizados mesmo há vinte anos. tudo atravessado por pequenos bastões de grissini que. o garçom passa com um grande esborrifador espargindo a cabeça dos convidados (sugerimos a Fillìa servir uma outra vez tal lavagem capilar. A Aerovianda E chegamos à Aerovianda: é um prato que não aconselho aos esfomeados. um pedaço de veludo. as quais devem ser levadas à boca contemporaneamente com a mão esquerda. dos homens calvos).

Todoarroz: um prato muito viril na forma. prossegue jubilosamente: o que deixou todos em tal estado foi o anúncio de que não haverá discursos oficiais. rãs e salame. alguém – também o grunhido dos porcos? Havia salame também!! . que emite som parecido com o coaxar das rãs. 180 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti A refeição. proprietário do hotel d’Itália. E a digestão é protegida. Sobre um prato ogival são dispostos sobre o maior raio pedaços de filé de peixe cozidos na manteiga sobre os quais são fixados em ordem decrescente com o auxílio de um palito de dentes. Mas por que não reproduziram – pergunta.indd 180 7/4/2009 15:51:24 .A carnescultura – grita Fillìa – é o produto de todos os jardins da Itália. precisam de muita penumbra. Comestibilíssimo: há até quem peça bis. Aqui se corre o risco de uma indigestão! Passemos ao mar da Itália que até os passadistas poderiam sem esforço introduzir no elenco das delícias de família. e composto basicamente por arroz temperado com vinho e cerveja.2 Arroz e feijão. Ótimo. como certos versos de poetas modernos e como todos os químicos brilhantes. Terminado o todoarroz. O cavalheiro Fontana me sussurra: os pratos futuristas. 2 Instrumento de ferro ou madeira. muda-se tudo : apagam-se as luzes brancas e continuam acesas as vermelhas: semi-escuridão. um pedaço de banana da Austrália. Servirão um prato inventado na hora pelo cavalheiro Coppo. entre risos. Um pouco da culpa é também do Grignolino quase mau-caráter. uma cereja confeitada. Os garçons servem enquanto o coaxar das rãs é reproduzido por uma “battistangola”. um pedaço de figo. ironias e sátiras.

O aspecto de um grotesco transatlântico. tinha sido genialmente decorado com 8 enormes painéis do pintor futurista Enrico Prampolini: estes painéis. quiseram realizar pela primeira vez em Paris a cozinha futurista e entraram em acordo com os pintores Prampolini e Fillìa para o preparo da refeição. maçã. em cima e no fundo molho Cirio. mulheres calvas e frangofiat! O docelástico é formado por modestas carolinas recheadas com creme de cores berrantes. as “Edições Franco-Latinas” representadas pelos senhores Bellone e Farina e pelo senhor Pequillo. Sobre o frangofiat. por reconhecimento geral. Para nos acalmar. Neste restaurante adequadíssimo. 181 Cozinha futurista.A cozinha futurista Nos dois lados do prato creme de espinafre. O interior do pavilhão.indd 181 7/4/2009 15:51:24 . O grande banquete futurista de paris Na Exposição Colonial de Paris o arquiteto futurista Fiorini realizou um audaz pavilhão que sediou o Restaurante italiano. o sabor da nossa melhor cozinha. stop. Café. É um doce elástico porque colaram sobre cada um pedaço de ameixa. Davam ao ambiente uma atmosfera simultaneamente africana e mecânica que dava esplendidamente a vontade de interpretar os motivos coloniais segundo uma sensibilidade moderna e futurista. calo-me a título de protesto. fruta seca. A fruta simultânea é composta por diversos pedaços… de fruta descascada conectados entre si: laranja. de mais lírico e de mais inventivo se pode realizar sobre o tema “colonial”. representam o que de mais moderno. Fillìa tece elogios à mulher do futuro careca e de óculos: eis uma combinação de sorte. amplo salão com capacidade para mais de 100 mesas.

Gateauélastique (du peintre Fillìa) 14. bruitiste et parfumé (du peintre Fillìa). Poulet d’acier – à surprise (du peintre Diulgheroff) Cochon excité – à surprise (d’un primitif du 2000). Préface variée (du peintre Prampolini) 6. eram anunciados números de dança. De fato. Aéromets. o mero anúncio da refeição futurista havia levantado entre os compatriotas “bempensantes” uma onda de reprovações e de comentários hostis que ameaçavam uma complexa insurreição es- 182 Cozinha futurista. entre um prato e outro. Equatore + Polo-Nord (du peintre Prampolini) 9. Toutriz (du peintre Fillìa) 7. Les îles alimentaires (du peintre Fillìa) 8. Excitant gastrique (du peintre Ciuffo) 5. Les grandes eaux (du peintre Prampolini) 2. Estavam representados os maiores jornais franceses. Machine à goûter (du peintre Prampolini) 12. descreve assim o banquete: “Os acontecimentos que estamos para expor são de uma gravidade excepcional. Vins – Mousseux – Parfums – Musiques – Bruits et chansons d’Italie. A lista dos pratos: 1. de canto e de música. 10. O jornalista futurista Francesco Monarchi. redator-chefe da Nova Itália. Além de tudo. Paradoxe printanier (du peintre Prampolini) 13. Carrousel d’alcool (du peintre Prampolini) 3. tactile. Viandesculptée (du peintre Fillìa) 11. Hors d’oeuvre simultané (du peintre Fillìa) 4.indd 182 7/4/2009 15:51:24 .Fillippo Tommaso Marinetti A multidão que se empurrava na noite da manifestação para intervir no grande banquete era a melhor de Paris.

Exª. que. Marinetti. na realidade. em uma última dúvida angustiante. a segurança eletrizante de S. sempre sensível a qualquer manifestação italiana. Estes bempensantes achavam indigno o caráter revolucionário dos pratos anunciados. Somente as faces enigmáticas de Prampolini e Fillìa. mantinham o mistério do iminente ritual. Apesar desta onda de pessimismo. dos rumores e das canções representava absolutamente um pesadelo dificilmente superável. No entanto. encheram o salão do Pavilhão futurista na noite da última quarta-feira.indd 183 7/4/2009 15:51:25 . dos pratos táteis. organizadoras do evento junto com as Edições Franco-Latinas.A cozinha futurista piritual. Contrariamente aos nossos hábitos. daremos uma ampla lista de nomes. enfrentando a distância. o Príncipe de Scalea. o imponente aparato do pessoal de serviço e a branca calma tradicional das mesas postas. não ousavam penetrar na sala. Ex. especialmente as gastronômicas. S. reunidos na soleira. a senhora Belloni e a senhorita Farina. as tradições. dos perfumes. recebiam os heróicos convidados. transmitiram a coragem das próprias ações ao titubeantes. muitos corajosos. a inclemência do tempo e o terror do acontecimento. *** Na entrada. idealizadores dos pratos futuristas. Palidíssimas de emoção (palidez que entretanto aumentava sua graça). as duas senhoras estavam na impossibilidade absoluta de animar os temerosos. os títulos das iguarias podiam dar margem às mais negras apreensões e a complicação das músicas. já que esses passarão para a história como precursores no degustar a cozinha do futuro. a festosa alegria do ambiente animado pelos enormes painéis de Prampolini. porque segundo eles. não devem jamais ser tocadas. Por dever jornalístico devemos registrar que. estava à mesa de honra com alguns membros de seu 183 Cozinha futurista.

sidra e bitter e de recolher na outra uma cândida cápsula envolvendo uma dose de anchova.Fillippo Tommaso Marinetti Comissariado. Em outras mesas: o advogado Gheraldi da Sociedade dos Autores. Madame Madika. o senhor Cartello. a senhorita Budy. o Regente do Fascio doutor Saini. o senhor Pequillo das Edições Franco-Latinas. Vittorio Podrecca. Madame Lakowsky. Miss Moos. São anunciadas as duas misturas-aperitivos criadas pelo pintor Prampolini: “As grandes águas” e “Carrossel de álcool”. Madame Ny-eff. com o representante do Ministro Reynaud. a Senhora Podrecca. a Senhora Pequillo. Madame Van Donghen. Madame De Flandreysy. Durio. entre os quais o Comendador Dall’Oppio e o Marquês de San Germano. Surpresa geral ao pescar em uma chocolate e queijo navegantes em Barbera3 . Madame Mola. a senhorita Cirul. Notamos: a Marquesa de San Germano. 3 vinho tinto do Piemonte 184 Cozinha futurista. Algumas caretas.indd 184 7/4/2009 15:51:25 . o doutor Lakowsky. etc. Muitas e elegantes senhoras haviam corajosamente desafiado a aventura. o deputado Ciarlantini. Uma imprevista luz verde torna ainda mais espectrais os comensais. o cavalheiro Gennari do Diretório. Madame Tohaika. etc. o conhecido pintor Sepo. Madame Massenet-Kousnezoff. secretário administrativo do Fascio. a Condessa De Fels. *** Às 21h30 um soar de gongo formidável reconduz os presentes à realidade das coisas. o crítico de arte Eugenio D’Ors da Academia de Madri. o Conde Emanuele Sarmiento. Madame Castello. etc.. tanto que alguns repetiram. mas primeiro resultado satisfatório. o advogado De Martino.

Outra interrupção e Mira Cirul inicia as suas danças que suscitam um grande e continuado entusiasmo. Primeiro intervalo: a senhorita Jole Bertacchini. É devorado pelos comensais que começam a modificar seu primitivo estado de ânimo. conquistaram rapidamente a simpatia dos paladares. Quando começava-se a criar um certo hábito pela cozinha futurista. tomates e espinafre. A “Aerovianda” é composta por frutas e legumes diversos que são comidos com a mão direita sem a ajuda de nenhum talher. cerveja. 185 Cozinha futurista. salame e anchovas). e os garçons esborrifam na nuca de cada comensal um forte perfume de cravo. que se havia oferecido para ilustrar os pratos.A cozinha futurista Três antepastos servidos contemporaneamente cortaram pela raiz as polêmicas sobre os aperitivos. a orquestra entoa um barulhento e violento jazz. banana. veludo e seda. tomates e confeitos). canta deliciosamente e é muito aplaudida. enquanto a mão esquerda acaricia um prato tátil formado por lixa.indd 185 7/4/2009 15:51:25 . vinho. excelente união de peixe. pelos risos gerais e pelos aplausos definitivos e intermináveis. o Conde Sarmiento. se alarmaram pelas suas formas audazes. figo. posto que talvez apenas ela tenha compreendido quanta beleza possa derivar de uma interpretação absolutamente nova e genial da dança. ovos e parmesão. Na verdade. cereja. a arte moderníssima desta dançarina de exceção é dificilmente superável. Nenhuma trégua: o “Todoarroz Fillìa” é anunciado como uma mistura de arroz. o “estimulante gástrico” (rodela de abacaxi com sardinha. anuncia a Aerovianda do pintor Fillìa. Ao mesmo tempo. atum e nozes) e o “início variado” de Prampolini (manteiga. A sala ribomba pelos gritos das senhoras violentamente aspergidas com perfume. Retorna inexorável o imponente desfile de garçons que trazem agora as “ilhas alimentares” de Fillìa. ovos. azeitona. do San Carlo de Napoli. O “antepasto simultâneo” de Fillìa (casca de maçã triturada.

da Ópera de Monte-Carlo.Fillippo Tommaso Marinetti (Apenas uma pessoa permanecia alheia ao entusiasmo geral: imediatamente interrogada descobriu-se que era canhota – por isso esfregava o prato tátil com a direita enquanto comia com a esquerda). Depois de ter louvado as criações gastronômicas dos pintores Prampolini e Fillìa. o “Docelástico” de Fillìa. A Carnescultura de Fillìa. com mais de 2000 artigos e demonstrou o sentido de arte-vida que sempre animou as atividades futuristas. cantou depois admiravelmente algumas canções napolitanas. *** S. acompanhada ao piano pelo Maestro Balbis. S. Exª. o “Paradoxo de primavera” e a “Máquina de degustar” de Prampolini. que havia participado do banquete não somente presidindo-o mas intervindo a todo momento nas discussões e na exaltação das iguarias. Marinetti com sua 186 Cozinha futurista. manifesto que suscitou uma polêmica mundial. e o salame imerso em um molho de café e água de colônia foram declarados excelentes. elogiou o jantar futurista como a primeira realização em Paris do célebre manifesto da cozinha futurista. o Polo Norte + Equador de Prampolini. foram reservados a apenas dez pessoas dois pratos surpresa. Desde já a renovação da cozinha futurista havia triunfado. e após ter relevado a magnífica organização da noite por parte das “Edições Franco-Latinas”. Entre os diversos pratos.indd 186 7/4/2009 15:51:25 . da Ópera e do ex-teatro imperial de São Petersburgo. em duas interpretações. Exª. Marinetti. apesar da audácia de formas e originalidade de conteúdo. demonstrou mais uma vez sua excepcional qualidade de voz que lhe deram fama mundial. foram apreciadíssimos. Outro intervalo: a Senhora Maria Kousnezoff. O senhor Roberto Marino. O corpo do frango mecanizado pelos confeitos de coloração alumínio. O “Frango de aço” de Diulgheroff e o “Porco excitado”.

Exª. *** Enquanto se renovam os aplausos ao breve e vivo discurso de Marinetti. no Corriere della Sera e em muitos outros jornais ita- 187 Cozinha futurista. a definitiva superação entre os convidados de suas últimas dúvidas sobre as conseqüências da cozinha futurista. aludiu então aos números de canto e dança sobressaltando o proposital contraste da parte lírica (exclusivamente tradicional) com o futurismo integral do jantar e das danças. S. acompanhada pelo senhor Abbatino. Marinetti sobre “Futurismo mundial”. a 22 de novembro de 1931.indd 187 7/4/2009 15:51:25 . mais de 300 pessoas participaram do grande aeroalmoço realizado no Hotel Negrino: lá encontravam-se as maiores autoridades da Cidade e da Região. Joséphine Baker transformada subitamente no centro das atrações mais vivo e completo. T. Marinetti. realizou-se o Circuito de Poesia (ganho pelo poeta triestino Sanzin) e uma conferência de F. aparece na sala Joséphine Baker. em todos os jornais lígures. com muito espírito. A Baker recebeu a mais festiva acolhida e participou do final da excepcional noite que se fechou com danças animadíssimas. teve um papel importantíssimo no bom êxito da festa: ao seu irresistível fascínio deve-se. na verdade. Além disso.A cozinha futurista habitual eloquência homenageou a coragem dos presentes e observou com satisfação o contentamento geral. Longos artigos foram dedicados ao acontecimento. uma jornada futurista. em que inaugurou-se uma Mostra de Arte Futurista.” O aeroalmoço futurista de chiavari O Comendador Tapparelli organizou admiravelmente em Chiavari.

é um bruto materialista. por uma cabeça de vitelo nadando. uma espécie de orgia carnescultural que se desenrolou nos salões do Hotel Negrino e que submeteu a uma dura prova o estômago de uns trezentos convidados. de nozes e de tâmaras: tâmaras que se revelaram. desta inocente cabeça. como se sabe. 188 Cozinha futurista. Cada prato foi escrupulosamente preparado pelo célebre cozinheiro Bulgheroni.Fillippo Tommaso Marinetti lianos. para romper com os seus molhos a maciça porta fechada dos ravioli e do macarrão. Damos aqui os pontos essenciais do brincalhão artigo de um redator do Corriere Mercantile: “A parte forte do dia – parte forte ao menos para o cronista ávido de divagações e desejoso de ocasiões para os assim chamados parênteses de cor – foi sem dúvida o “Primeiro aeroalmoço futurista”. esta empada. ao exame dos dentes. em meio a uma profusão de abacaxis. Tâmaras surpresa O almoço. desabrochou uma espécie de pudim que deixou cada esôfago engasgado de admiração.indd 188 7/4/2009 15:51:25 . Era composta. mas a um certo temor racional. cheias de uma surpresa quase ciclópica: elas estavam cuidadosamente recheadas de anchovas de modo que. destes abacaxis e com estas frutas africanas misturadas a peixe. mísera e desconcertada. iniciou-se com uma Empada de aquecimento: uma espécie de antepasto talvez poético demais para ser apreciado devidamente pelo estômago que. muitos dos quais sentiam na cavidade gástrica um certo tremor que não era de todo devido ao apetite. especialmente vindo naquele dia de Milão a Chiavari. entre a mais viva expectativa dos presentes.

de champagne e de licores: sobre esta mistura. Muitos dos convidados já tinham. vinagre e pitadas de sal. ou seja. nadavam.A cozinha futurista As rosas em brodo Prosseguiu-se. vagas e frágeis. menos belas as almôndegas. seu aparelho digestivo em condições não de todo normais. os convidados tentaram corajosamente o experimento da deglutição. composto por partes quase iguais de caldo de carne. acomodadas sobre aeroplanos de miolo de pão. que consiste em uma combinação discretamente diabólica.indd 189 7/4/2009 15:51:25 . Eletricidade atmosférica confeitada E eis que aparecem os garçons com grandes bandejas carregando o “servovoadinhas de pradaria”. enxugá-la com o guardanapo e guardá-la na carteira como recordação do almoço e como testemunho de um banquete a ser contado. misteriosíssimas almôndegas sobre cuja composição não é belo nem útil indagar. então. mais tarde. este prato esteve entre os mais apreciados como aquele que ofereceu a muitos dos convidados o direito de saciar sua fome ao menos com pão. onde fatias de beterraba e fatias de laranja faziam complô aliadas a azeite. porém mais de um com evidente covardia. audaciosamente com um Decolapaladar. aos netos. de modo que não se podem reprovar os que não souberam reprimir um instintivo gesto de terror no momento em que apareceu a taça contendo o “alimento conclusivo”. que como nunca então pareceu um alimento precioso e divino. Alimento que se vangloriava de 189 Cozinha futurista. nome que designava um brodo de natureza bastante bizarra. renunciou a levá-lo a cabo e contentou-se apenas em tirar do prato uma pétala de rosa. Postos diante de tal obra prima da lírica brodística. Teve lugar o terceiro prato. grandes pétalas de rosa. que para os iniciados deve ter extraordinárias virtudes apetitivas. De qualquer modo. “Boi na fuselagem”. a esta altura. Belos os aviões.

serviram na Casa do Fascio um grande Aerobanquete (cujo preço era de 20 liras por pessoa). entre a maior expectativa. foi possível provar um inesquecível ensaio. que foi assim narrado no Resto del Carlino: “O sucesso de curiosidade do Aerobanquete foi enorme. que apenas uma mínima parte dos banqueteadores ousou levar este sabonete à boca: daqueles que ousaram. E levantou-se a falar Marinetti que. T. Chega-se. dado que muitos já estavam aprofundados no momento da decolagem. que declamou com ímpeto aviador um hino quase pindárico intitulado ‘Tubulação’ ”. no Círculo dos Jornalistas.Fillippo Tommaso Marinetti um nome excessivamente dinâmico: “Eletricidade atmosférica confeitada”. uma importante Mostra de Aeropintura que foi inaugurada por F. com admirável eloquência que lhe escapava espontânea como se ele não tivesse tocado na comida. assim. e o salão da Casa do Fascio. ser eternizado em uma lápide de bronze. os pratos futuristas e particularmente as tâmaras anfíbias das quais. O aerobanquete futurista de bolonha Os pintores futuristas Caviglioni e Alberti organizaram em Bolonha. ao menos. Marinetti em 12 de dezembro de 1931. Dizemos infelizmente porque um tal grupo de heróis merecia. no confronto. A seguir os mesmos pintores. exaltando. pelo escrúpulo de cronistas. infelizmente não sabemos os nomes. Devemos dizer. levantou-se o poeta Farfa. escolhido pelo especialíssimo desafio culinário. Ao sentar-se Marinetti.indd 190 7/4/2009 15:51:25 . irrompeu em um violento sermão contra a infâmia do macarrão e o vitupério dos ravioli. Estas queridas e inesquecíveis “eletricidades” tinham a forma de coloridíssimos sabonetes de mármore fingido. no início do banquete. recebeu ontem à noite às 21h30 ( também o horário era ligeiramente fora 190 Cozinha futurista. contendo em seu interior uma massa doce formada por ingredientes que só poderiam ser precisados após uma paciente análise química. ao Amarração digestiva: amarração que nem todos realizaram.

Como no avião O Aerobanquete justificou o próprio nome através do cenário criado pelos organizadores. e pior para quem não sabe distinguir entre as coisas que servem ao prazer do estômago e aquelas destinadas à alegria dos olhos. lá no fundo a cauda. promovidos pela ocasião a motores de avião. A síntese das mesas é evidente. elas são substituídas por batatas cruas. que na fantasia dos promotores queriam ser alumínio. e uma chapa de lata polida serve como apoio de prato onde as senhoras controlam – Oh! o delicioso espelho de sorte – sua comprometida maquiagem. Ghigi. mais atrás dois cilindros de motocicleta. (Desabitada. pintores. Aqui as asas – mas finas e estreitas como em um hidroplano de alta velocidade – aqui a fuselagem..A cozinha futurista dos padrões!) muitas pessoas. E entre as autoridades estavam o Governador da Província comendador Turchi e o Reitor magnífico da Universidade prof. entre as quais notavam-se personalidades e autoridades. mas não há absolutamente flores. Nada das rosetas comuns ou bastões à moda francesa. e é preciso confessar que a forma se presta extraordinariamente ao cozimento perfeito da massa e ao seu abiscoitamento. mas pãezinhos propositadamente modelados. que veio para sancionar com o sagrado selo do Studio. dando a impressão de um avião. senhoras e simples gourmets.indd 191 7/4/2009 15:51:25 . coloridas grosseiramente e entalhadas artísticamente. idem idem. jornalistas. Os copos são os de sempre. o rebelde movimento de ódio ao macarrão. Pouquíssima coisa visível. ou kipfel vienense. Outra descoberta autêntica: o pão. que reproduzem a forma de um monomotor ou de uma hélice. Entre as asas uma grande hélice – parada. 191 Cozinha futurista. As mesas foram dispostas com inclinações e ângulos. para nossa sorte! . como costuma acontecer nos aviões autênticos). No lugar das toalhas de sempre encontramos folhas de papel prateado. os pratos e os talheres.

onde o arroz é sempre aquele… o mesmo. o prato número dois apresenta-se majestosamente entre os “oh” dos presentes. O risoto de laranjas… O aerobanquete é inaugurado de modo levemente passadista: com o antepasto. mas não nos parece nada além de uma salada russa alten-styl. E a laranja foi coberta com manteiga colorida rosa… Antes porém que os pareceres sobre o prato de inauguração se difundam.indd 192 7/4/2009 15:51:25 . 192 Cozinha futurista. sejamos sinceros. mas repentinamente a sala imergiu em uma diáfana luz azul e um motor começa a funcionar na sala ao lado. O pintor Alberti anuncia gravemente – mas por que aquele senhor sorri? – que o avião voa a oito mil metros de altitude e Marinetti confirma com autoridade explicando: . enquanto o pintor Alberti. com o acréscimo de uma fatia de laranja casada com uma fatia de ovo cozido e uma azeitona. mas o molho – ah. O qual se chama “aeroporto picante”. O risoto de laranja. diretor do refeitório. E com pequenas fatias de laranja fritas doura-se a palidez da iguaria.Observem como o barulho dos motores favorecem e nutrem o estômago… É uma espécie de massagem do apetite… 4 Relativo ao pintor futurista Fortunato Depero. Excelência Marinetti rebatiza o prato assim: risoto de laranja. provoca certa inquietude nos escalões. o molho! – é a base de laranja. O cardápio fala de “Estrondos ascensionais” mas S. … e os rumores “nutrientes” Temíamos o advento de qualquer complicação.Fillippo Tommaso Marinetti Última constatação: os garçons usam um colete de celulóide de cor azul. exibe um pomposo e muito chamativo colete deperiano4 de mil cores.

representante dos Aqueus. O vinho em … latas. E não adianta que S. para ouvir se relinchava. Marinetti aumente o seu… gelo. E o carburante nacional (vulgo vinho das nossas colinas) avança triunfalmente. o “Carnescultura com fuselagem de vitelo” – chega.indd 193 7/4/2009 15:51:25 . Mas depois dos experimentos a base de laranja. para se dizer a verdade. e o acompanhamento compreende duas cebolinhas e duas castanhas fritas. as duas castanhas junto com uma lingüiça não produzem mais nenhuma impressão! Um pecado que a carne – depois do habitual giro de apresentação em volta das mesas – chegue quase fria. Marinetti. é futurista somente nas nuances.Isto – exclama – é passadista. E é um sucesso indiscutível.Queremos o carburante nacional. interrogando-o por que ousara cheirar a carne antes de experimentá-la. – E uma homérica risada recebeu a piada. ao contrário.A cozinha futurista Finalmente se desce novamente da “estratosfera” culinária. . promovidos assim ao posto de “entoarumores”.Exª. Trata-se na verdade de um escalope de vitelo. O prato. aliada a uma lingüiça fina. e a multidão não encontra nada melhor que colocar-se a bater furiosamente sopre os pratos de lata. e na expectativa do prato central. entre uma taça de carburante nacional e um aceno nostálgico. os comensais se prestam a mordiscar as asas dos aviões panificados. Exª. não sente nenhuma saudade.Justíssimo… Eu deveria tê-la encostado ao ouvido. É o vinho em galões. aos tortellini com molho. . afirmando que a oito mil metros de altitude os alimentos não possam manter-se fervendo… Pouco depois o chefe do futurismo dirige a própria ofensiva contra o pacífico doutor Magli. Ele é entusiasta do simpósio e pede aliás aos cozinheiros que façam-se presentes. (Seria necessário outro). S. O Aerobanquete prosseguiu assim entre um prato e uma piada. para 193 Cozinha futurista. mas em voz baixa. Isto não é valo… E Magli num reflexo: . servido de algumas latas de óleo extradenso. Mas também o prato central – ou seja.

então o doutor Magli expressou os sentimentos dos “tagliatelistas”. como por exemplo o arroz temperado com laranja. dois cordons bleus da Casa do Fascio fazem sua entrada. logo depois.indd 194 7/4/2009 15:51:25 .Não vêm porque têm medo de nós! Mas trata-se de evidente calúnia. Afirmamos que a genialidade italiana é capaz de inventar outros três 194 Cozinha futurista.Meus senhores. a trincheira da massa com ovos. algumas das quais – acrescentou – são achados importantíssimos. Queremos para tanto que a cozinha italiana não se torne um museu. enquanto um anônimo enviava um telegrama em que dizia textualmente: “Abaixo o macarrão. levantou-se Marinetti para declarar que a sua eloquência estava literalmente tampada pela suculência variada e deliciosa das aeroiguarias degustadas. – Venham os cozinheiros. levantou-se a falar a medalha de ouro Onida. – E então uma voz clara se levanta do fundo da sala. mas a culpa não é nossa… Abaixo a “cozinha-museu” Iniciado pelo antepasto. acolhidos pelos aplausos de Marinetti e seus sequazes. Nós queremos manter a nossa antiga vitalidade goliardesca. mesmo se os anos nos acenam com suas chuvas e suas neblinas. Temem ser satirizados e parece que dizem em seu mudo discurso: . de onde o macarrão está definitivamente em retirada. proclamando: . Mas os dois cozinheiros estão incertos. e Marinetti repete a interpelação. A cozinha futurista é a realização do desejo geral de renovar a nossa alimentação. a barriga. a obesidade. mas os tagliatelle são outra coisa!” Por fim. De fato. O nosso esforço tende a militarizar todas as nossas jovens forças. o banquete encerrou-se com discursos. é a luta contra o peso. Teceu então elogios à cozinha futurista. porque. perdoem-nos. Mas os solicitados demoram a vir. tudo bem.Fillippo Tommaso Marinetti aplaudi-los. Os tagliatelle – diz – são agora a última trincheira dos passadistas.

Exª.indd 195 7/4/2009 15:51:25 . porém mais adequados à sensibilidade modificada e às necessidades modificadas da geração contemporânea. 2) Apareceu nos jornais de Gênova o comunicado da fundação de uma Sociedade chamada P. Paris. um enorme número de caricaturas e de anedotas circulava em todos os semanários. Novara.P. S. invenções e humorismos sugeridos pela cozinha futurista e pela sua realização. igualmente bons. Com uma nova explosiva saudação aos colaboradores bolonheses. com a ponta de um garfo que fazia as vezes de buril”. depreciados. tão profunda era nelas a fé no macarrão. um número incalculável de mulheres se reuniu para assinar uma solene carta-súplica a favor do macarrão. Chiavari e Bolonha. Marinetti concluiu o seu discurso e o Aerobanquete terminou. Esta carta foi dirigida a Marinetti. exaltados. ( Propaganda internacional contra o macarrão) que abria vários concursos para combater a iguaria odiada e inventar novos alimentos.I. nem mesmo com problemas importantíssimos. São típicas as seguintes anedotas: 1) Em Áquila. Seria possível formar diversos volumes recolhendo toda a explosão de bizzarria. Anedotas típicas Além dos milhares de artigos nos quais eram discutidos.A. As mulheres de Áquila que nunca antes se haviam preocupado. julgaram necessária esta sublevação coletiva. enquanto os comensais levavam como recordação os pratos de lata. condenados e defendidos os grandes banquetes futuristas de Torino. nos quais o chefe dos futuristas foi obrigado a marcar a própria assinatura. 3) Houve em Nápoles cortejos populares a favor do macarrão. em todas as revistas ilustradas ou diretamente entre o público. 195 Cozinha futurista.A cozinha futurista mil pratos.

5) Em Turim. No entanto.indd 196 7/4/2009 15:51:25 . superando as primeiras realizações. um novo sentido de otimismo e de alegria dissipou o nostálgico e cinzento hábito dos velhos jantares e os futuristas. os clientes de duas trattorias italianas.Fillippo Tommaso Marinetti 4) Em São Francisco. um teatro de revista intitulado “carnescultura”. enquanto alternam-se as polêmicas. 9) Representou-se em Turim uma opereta de Sparacino e Dall’argine intitulada “Santopaladar”. situadas uma no térreo e outra no primeiro andar de uma casa popular. Califórnia. 7) Apareceram em algumas revistas de grande tiragem fotografias de Marinetti no ato de degustar o macarrão: eram montagens fotográficas executadas por experts adversários da cozinha futurista. para o espanto de todos. que tentavam assim desacreditar a campanha por uma nova alimentação. declamaram-se pró e contra a cozinha futurista. os mais célebres cozinheiros organizaram um congresso para decidir o mérito da cozinha futurista. chegou de improviso F. e aconteceu então uma clamorosa batalha pelas janelas e na rua com projéteis comestíveis e panelas. 196 Cozinha futurista. 6) Em Bolonha. 8) Representou-se. comeu avidamente um prato de espaguete: somente depois os comensais perceberam que Marinetti não era nada além de um estudante habilmente maquiado. Alguns feridos. preparam outras inovações originais. durante um grande jantar estudantil. e aconteceram então discussões e polêmicas violentíssimas entre os dois partidos. em Bolonha. T. Marinetti que.

197 Cozinha futurista. PEIXE COLONIAL AO RUFAR DE TAMBOR: mugem5 aferventada. São fusiformes. a sugerir e determinar os indispensáveis estados de ânimo que não se poderiam sugerir e determinar de outro modo. em janeiro. No momento de servi-lo. estes combatentes à mesa. mediante a arte de harmonizar os pratos futuristas. para entrar na linha de fogo às 4. Combinamos programas de refeições a que nós chamamos SUGESTIVAS E DETERMINANTES. onde será servido um “peixe colonial ao rufar de tambor” e “carne crua esquartejada pelo som de trompa”. espiritualizá-la e dinamizá-la. A cozinha futurista propõe-se ainda.A cozinha futurista Os cArdápiOs FuturistAs sugestivos e determinantes A cozinha futurista propõe não somente uma revolução completa na alimentação da nossa raça. comestíveis. Um passeio sonhador é igualmente inadequado. alcaparras e pimenta vermelha. douradas ou prateadas. infusa por 24 horas em um molho de leite. ou sair em vôo para bombardear cidades ou contra-atacar tropas inimigas. com grandes escamas arredondadas. Inadequada a leitura de um livro ameno.indd 197 7/4/2009 15:51:25 . ao contrário. Cardápio heróico invernal Os combatentes que devem subir no caminhão às 3 da tarde. procurariam em vão uma preparação perfeita no beijo doloroso de uma mãe. de uma esposa. licor. será aberto e recheado 5 Peixe da família dos mugilídeos. Coloquem. com o intuito de torná-la leve. dos filhos ou em cartas apaixonadas.

Fillippo Tommaso Marinetti com conserva de damasco intercalada com rodelas de banana e fatias de abacaxi. No momento de partir. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de verão de pintura-escultura Após um longo período de repouso. pimenta preta e neve. cuja doçura nostálgica e decadente será brutalmente refutada pelos combatentes. conhaque e vermute branco. Eletrocutá-la com correntes elétricas. madressilva e acácia. um pintor ou um escultor que deseje retomar sua atividade criadora às 3 horas da tarde de verão. Será comido sob o rufar continuado de um tambor.indd 198 7/4/2009 15:51:25 . serão espargidos na sala. 198 Cozinha futurista. jasmim. engolirão o Explosãonagarganta. que colocarão como raios a máscara contra gás asfixiante. separando-os uns dos outros com impetuosas notas de trompa sopradas pelo mesmo “comedor”. servi-la sobre um leito de pimenta vermelha. suavíssimos perfumes de rosa. Mastigar atentamente por um minuto cada bocado. com borrifadores. Enquanto estas desaparecem nas bocas. tentaria em vão excitar a própria inspiração em uma refeição suculentatradicional. Extraída da mistura. No momento do Paraselevantar. mantê-la por 24 horas em uma infusão de rum. CARNE CRUA ESQUARTEJADA PELO SOM DE TROMPA: cortar um cubo perfeito de carne bovina. durolíqüido constituído por uma bolota de queijo parmesão macerado em Marsala. romãs e laranjas vermelhas. serão servidos aos combatentes pratos de caqui maduro.

um prato fundo cheio de mel. Comerão tudo? Experimentarão partes? Intuirão as relações fantásticas sem sequer experimentar? À vontade! 199 Cozinha futurista. Acaso. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio vocabulivre primaveril O atravessar de um jardim primaveril entre os doces fogos de uma aurora cheia de timidez infantil deu a três jovens. um grande maço de rabanetes vermelhos. alho. servida uma refeição de puros elementos gastronômicos: uma sopeira de bom molho de tomate. bicarbonato de sódio. uma grande polenta amarela. pétalas de rosa. sob um caramanchão que deixe passar os dedos quentes do sol. um maço de salada. vestidos de lã branca e sem jaqueta. verde. Não quente. Seja-lhe.indd 199 7/4/2009 15:51:25 . eqüidistantes. e desobedecendo continuamente aos hábitos enraizados nos nervos. bananas descascadas e óleo de fígado de bacalhau. uma ansiedade entre o literário e o erótico que não pode ser apagada por um café da manhã normal. sirva-se imediatamente um prato sinóticosingustativo de pimentões. um maço de rosas brancas com caules relativamente espinhosos. deveria passear para digerir e entre inquietudes e pessimismos cerebrais. Ponham a mesa então ao ar livre. sem talheres.A cozinha futurista Empanturrado. mate a fome enquanto observa o quadro do “Jogador de Futebol” de Umberto Boccioni. não temperada e fora do prato. ao contrário. um prato fundo cheio de azeite. terminaria por consumir a jornada fanfarronando artisticamente sem criar arte alguma. um prato fundo cheio de vinagre forte. mas morno.

ruminantes. rumorismos abstratos. Entra então a camponesinha jovem e gorda. Isto fará com que o seu paladar alce súbito vôo procurando no prato sinóptico-singustativo uma indispensável nova harmonia. assobiantes. polemizando à mesa com adjetivos iluminantes. lamber. com altivas palavras em liberdade fora de qualquer ordem lógica e diretamente expressas pelos nervos. desmacular-se. Diretamente sobre as cabeças a camponesinha servirá. Cada dente do alho será então cuidadosamente envolvido nas pétalas de rosa pelos mesmos dedos dos três convidados que assim se distrairão a combinar poesia e prosa. Os jovens a convidarão.Fillippo Tommaso Marinetti Convenientemente comerão. Provam então mergulhar o pimentão no óleo de fígado de bacalhau. ralhantes e cantantes em giro. a seguir. levando nos braços uma bacia cheia de morangos nadando no Grignolino bem açucarado. cochichantes. O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. Põem-se eles finalmente a comer. beber. um prato de tradicionais tortellini in brodo.indd 200 7/4/2009 15:51:25 . Mas o tédio e a monotonia poderiam nascer depois que os paladares tivessem provado o alho com rosas. gritos animalescos que seduziriam todos os animais da primavera. roncantes. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti 200 Cozinha futurista. para que sirva o mais rápido possível. verbos fechados entre dois pontos. Formarão imediatamente uma relação metafórica inusitada entre os pimentões (símbolo de força campestre) e o óleo de fígado de bacalhau (símbolo de mares nórdicos ferozes e necessidade curativa de pulmões doentes).

Esperando a camponesa-cozinheira. dois minutos de grão de bico em azeite e vinagre. arrancado no quarto da esquerda pelo filho convalescente da camponesa. Depois. o assobio que o vento infiltra pela fechadura da porta. Agosto. Depois. Depois. Depois. O rápido crepúsculo sangüíneo agoniza sob as enormes barrigas das trevas como sob chuvosos e quase líquidos cetáceos. Depois. quatro longos apertos de mão na camponesa-cozinheira e todos para fora no escuro vento chuva do bosque. à esquerda dos comensais. Depois. vinte e cinco cerejas ao licor.A cozinha futurista Cardápio musical de outono Em uma cabana de caçadores semi-escondida em um bosque verde-azul-perfumado. sete alcaparras.indd 201 7/4/2009 15:51:25 . silêncio de um minuto. único alimento. A lua a pico serve abundante leite talhado sobre a toalha. doze batatinhas fritas. Duelará com aquele assobio o gemido longo mas afinado de um som de violino. uma codorna assada para cada um dos convidados. pela mesa ainda vazia passará. Depois. sem comer. para serem olhadas e cheiradas intensamente. um gole de vinho Barolo mantido na boca por um minuto. A morena peituda e bunduda cozinheira caprese entra carregando um enorme presunto sobre uma bandeja e diz 201 Cozinha futurista. Depois. dois casais se sentam a uma mesa rústica formada por troncos de carvalho. Depois. um silêncio de quinze minutos durante os quais as bocas continuam a mastigar o vazio. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio noturno de amor Terraço de Capri.

Comam abundantemente. não aquele ilusório de lua. e Hallaua é um alimento de origem árabe.Fillippo Tommaso Marinetti aos dois amantes reclinados nas duas espreguiçadeiras e incertos sobre retomarem as fadigas da cama ou iniciarem aquelas da mesa: . Entrarão então na cama levantando no pequeno copo o bebericável Guerranacama composto de suco de abacaxi. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio turístico (realizada para a Mostra circulante futurista Paris-Londres-Bruxelas-Berlim-Sofia-Istambul-Atenas-Milão) Lista dos pratos: Pré salé aux petits pois. vem ao seu encontro do fundo do quarto aberto. servido com mel. 6 Lacumia é uma espécie de bolinho.” Os dois amantes devoram metade do presunto. ovos. caviar. de origem grega. Depois uma taça de Asti espumante. uma pitada de noz moscada e um cravo: tudo liqüefeito em licor Strega. cada uma com onze gotas de Moscato de Siracusa em sua água marinha. chocolate. circundado de risoto ao açafrão.indd 202 7/4/2009 15:51:25 . Leite verdadeiro. fascinada. deixei-o infuso por uma semana no leite. Roast-beef circundado por lacumias e Hallaua6. a base de gergelim. Seguem as grandes ostras. 202 Cozinha futurista. Para adocicá-lo entretanto e liberá-lo da aspereza e da virulência original. uma pitada de pimenta vermelha. pasta de amêndoas. Depois o Guerranacama.“é um presunto que contém uma centena de carnes diversas de porco. A cama. grande e já cheia de lua.

203 Cozinha futurista. mas escolhido entre os mais inteligentes e mais jovens parasitas da aristocracia e famoso pelo seu conhecimento total de todas as piadas obscenas. QUARTO: o rancor das fronteiras. devido à etiqueta diplomática. Na refeição oficial futurista. convidado não-pertencente a nenhum corpo diplomático e a nenhuma política. SEGUNDO: a reserva dos diálogos.indd 203 7/4/2009 15:51:25 . Enguia marinada recheada com minestrone à milanesa gelado e com damascos recheados de anchovas. o Esganador. Suco de morangos para ser bebido com friturinhas ao óleo. TERCEIRO: as caras feias produzida pelos problemas mundiais insolúveis. após uma distribuição rápida de polibebidas e entreosdois.A cozinha futurista Lingüiças nadando em cerveja pulverizadas de pistaches cristalizados. Poças de mel e poças de vinho dos Castelos romanos alternados em uma planície quadrada de papa de batatas. QUINTO: o tom baixo pálido fúnebre banal dos pratos. Pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado. toma a palavra. sem se levantar. que nadem em um mar de conhaque. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio oficial O cardápio oficial futurista evita os graves defeitos que poluem todos os banquetes oficiais: PRIMEIRO: o silêncio embaraçado que deriva da falta de harmonia preexistente entre os vizinhos da mesa. que deve se desenvolver em um amplo salão adornado por enormes quadros de Fortunato Depero.

gengibre. mel.Fillippo Tommaso Marinetti O Esganador. (Esta iguaria será saboreada enquanto um negrinho de 12 anos fará cócegas nas pernas e beliscará as nádegas das senhoras. 7 Balestite é um explosivo.indd 204 7/4/2009 15:51:26 . risoto de açafrão. e do sorvete desgraçadamente tanto arquitetado que caiu pouco antes na cozinha. apenas terão seu volume diminuído e eis que ainda na entrada. sem abandonar-se entretanto à inconveniência. velho Barolo. açúcar. mas sempre atrasados por impedimentos e desastres automobilísticos e por descarrilamentos ferroviários.) 3) “O tratado sólido”: castelo multicolorido de torrones com. ele. pequeninas bombas de balestite7 que explodirão a tempo perfumando a sala com o típico odor das batalhas. e temperadas mergulhando seus pedaços nas pequenas tigelas oferecidas com azeite. Seguem: 1) “Os antropófagos inscrevem-se em Genebra”: um prato de várias carnes cruas para serem cortadas à vontade. pimenta vermelha. Uma vez generalizado de uma ponta à outra da mesa o fogo cruzado das gargalhadas dos comensais. Os comentários. que acolherão as desculpas do diretor. o Diretor. será servida uma gororoba de semolina. Assim por toda uma meia hora. vinagre. dentro. dirá subitamente a meia voz três piadas obsceníssimas. repetirá suas desculpas. ovos e baunilha. tapioca e leite em sopeira de convento para satirizar e espantar toda diplomacia e toda reserva. as ironias e as brincadeiras. de uma fruta paradisíaca escolhida no Equador. Ao Paraselevantar o diretor da refeição oficial entrará e com muitas desculpas cerimoniosas pedirá para esperar a chegada há muito anunciada. orientando-se pelo maior ou menos grau de mau humor a combater. descoberto por Alfred Nobel. com base de nitroglicerina. Usado para dar mais potência aos canhões 204 Cozinha futurista. 2) “A Sociedade das Nações”: salaminhos negros e canudinhos de chocolate nadando em um creme feito com leite. manteiga.

Todos desejam felicidades como se libertam raças com o medo na ponta dos dedos e da língua. As amigas da esposa. Ninguém pode comer nem provar as bebidas já que. Ser-lhe-á então oferecida uma seleção dos melhores vinhos italianos. profissional. repugna-lhes estabilizar o paladar e o estômago. estando todos no instável. bem penteado. sob uma condição no entanto: que fale por duas horas sobre as possíveis soluções para o problema do desarmamento. da revisão dos tratados e da crise financeira. A sogra espalha febrilmente cumprimentos. prolífico. qualidade e quantidade. O esposo. do ponto de vista intelectual. conselhos. o bêbedo de sempre pescado nas periferias naquela mesma noite e levado à força para a sala do banquete oficial. As crianças se enchem de confetes e rolam sobre as flores de laranjeira do vestido nupcial. 205 Cozinha futurista. olhadas piedosas e olhares de falsa alegria. Logicamente pedirá para continuar bebendo.A cozinha futurista Então entrará. ao invés da fruta milagrosa. em conserva de vinagre. carnal. todas escovas. A virgem já está nos braços dos anjos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de núpcias As refeições de núpcias comuns sob a sua aparente e ostentada festividade escondem mil preocupações: se o casamento será feliz ou não. está em conserva de óleo. Os primos. econômico. pentes e grampos de inveja.indd 205 7/4/2009 15:51:26 .

Fingirá sofrer ou realmente será torturado por dores de origem misteriosa. mesmo temendo a presença de alguns absolutamente mortais”.. O cozinheiro. Eu não hesito. Há cogumelos de toda espécie. ao cair também. Proceda-se à limpeza com a ajuda de todos. será tanto um ganho de tempo mediante um final de viagem imprevista. Uma sopeira de magnífica sopa conhecida e amada por todos (arroz. cheia de risoto à milanesa com açafrão e abundantes trufas de coloração pecado. entrando enfurecido. Conseguirá ou não? Talvez entorne e as marcas sobre o vestido nupcial corrigirão oportunamente a insolente e pouco fortunosa brancura excessiva. nos bosques de Pistóia ensopados de chuva. Se este prato. amarelar o vestido nupcial como uma duna africana.diz a esposa. fígado e feijão em caldo de codorna) é conduzida no alto sobre três dedos pelo cozinheiro que salta com a perna esquerda. pomposamente elogiados pelo habitual caçador maníaco: . exceto aquela venenosa. “São tão bons”. De qualquer modo estão tão bem cozidos que lhes aconselho atacá-los audazmente.Fillippo Tommaso Marinetti Reina então durante a refeição um equilíbrio que responde ao equilíbrio dos estados de ânimo. Muitos devoram os cogumelos. A menos que minha miopia tenha me pregado uma bela peça.“eu mesmo os recolhi todos.indd 206 7/4/2009 15:51:26 .. distante ou próxima? Pouco importa. põe-se a gritar segurando a barriga o janota habitual de todas as festas de casamento. Explode naturalmente uma competição heróica. entre uma perdiz e uma lebre. Serão servidos então cogumelos trufados. certamente um pouco cedo. pede demissão porque foi ofendido 206 Cozinha futurista. equilibrada sobre a cabeça. Todos riem. querida?” “Temo-os menos que suas prováveis traições. ao sair um instante. O esposo se mantenha calmo: será ele que. malvado!” Então. reentrará com uma bacia. “Não tem medo.

Frio intenso nos comensais. a maior. Mas. aquela ali. aos estômagos agora tão aquecidos por equilibrismos de felicidade. por outro lado.acrescenta o janota. sempre sob a eloquência do caçador. no mesmo vale. Comida de caçadores. Segue um Fernet para todos. move-se ainda talvez.indd 207 7/4/2009 15:51:26 . Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio econômico 1) “O agreste absoluto”: maçãs assadas ao forno. 207 Cozinha futurista. que substitui o habitual sorvete inadequado. parece viva. os convidados comem-no abundantemente. Agora está finalmente parada.” -“Para a virtude ambulante dos vermes. custou-me uma perseguição de dez quilômetros. A cada vez reconhecia as mais belas penas avermelhadas.A cozinha futurista mortalmente pelas suspeitas e não pelos cogumelos que são inocentísssssssimos. tive que descer até o fundo da torrente e subir novamente. Recomeça o caçador: “. cogumelos alarmantes e perdizes dinâmicos.Entre todas essas perdizes. embriagados pelo suavíssimo perfume de cloaca suave. Ele mesmo preparou na cozinha esta iguaria formada com a pasta de outras perdizes quase putrefatas e maceradas com os velhos queijos robiola no rum. Entontecidos pelas palavras. De uma costa a outra. move-se”. regando-o com vinhos Barbera e Barolo. verificadísssssssimos. depois recheadas de feijões cozidos em um mar de leite. são servidas lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. isto é.

em ressoantes pratos ornados de sininhos. 3) “Pimentão urbanístico”: grandes pimentões vermelhos que fecharão. Benedetta.indd 208 7/4/2009 15:51:26 . os pratos-retratos: 208 Cozinha futurista. cada um. depois recheadas com anchovas e servidas sobre um leito. metade formado por pesto de espinafre e metade por patê de lentilhas. 2) O silêncio carregado de pensamentos meditativos que contamina e enchumba os pratos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de solteiro A cozinha futurista propõe-se a evitar os defeitos que distinguem as refeições dos solteiros: 1) A solidão anti-humana que fatalmente absorve uma parte das forças vitais do estômago. sobre uma mesa cujas quatro pernas serão constituídas por acordeões. 4) “Bosque inundado ao pôr-do-sol”: endívias cozidas ao vinho. decorada com aeropinturas e aeroesculturas dos futuristas Tato. Este menu deve ser degustado enquanto um hábil recitador faz explodir a lírica humorística do Poeta-record Nacional Farfa. salpicadas por feijão cozido e caramelizado. 4) A inevitável aceleração do ritmo das mandíbulas que fogem do tédio. imitando sua típica voz de míope cano de escapamento. Em uma sala. 3) A falta de carne humana viva e presente que é indispensável para manter o paladar do homem confinado na zona das carnes animais. Dottori e Mino Rosso. uma pasta de maçãs cozidas envoltas em folhas de alface caramelizadas. são apresentados.Fillippo Tommaso Marinetti 2) “Abominação campestre”: berinjelas cozidas em tomate.

estejam os convidados em jejum há dois dias. que se abrem eletricamente mediante botões postos sob os dedos dos convidados dão: a primeira para a massa dos odores do lago.A cozinha futurista 1) “prato-retrato louro”: um belo pedaço de vitela assada esculpido com duas grandes pupilas de alho em um ninho de repolho triturado e fervido e alface verde. 2) “Prato-retrato do amigo moreno”: bochechas bem modeladas de massa podre – bigodes e cabelos de chocolate – grandes córneas de leite e mel – pupilas de alcaçuz. calmo preguiçoso solitário putrefato. Uma romã aberta na boca. do mais amplo e marino dos mares. Brincos pendurados de rabanetinhos vermelhos untados em mel. a quarta sobre a estufa quente e relativa ciranda de plantas odoríferas raras deslizante sobre trilhos. duas coxas de frango cozidas. cheia de leite apenas ordenhado. tudo coberto por pétalas de violeta. Será servido em uma casa de campo construída especialmente por Prampolini (a partir da concepção de Marinetti). As portas-janela. 4) “Porta-retrato dos inimigos”: sete cubos de torrone de Cremona. em uma língua de terra que divida o mais lacustre dos lagos. mas serão saciados apenas de perfumes. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio extremista Para esta refeição em que não comerão. 209 Cozinha futurista. cada um com uma poça de vinagre por cima e sobre um dos lados pendurado um grande sino. a terceira para a massa dos odores do mar e relativa peixaria. a segunda para a massa dos odores de um paiol e relativo reservatório de frutas. Bem engravatado com tripa ao brodo.indd 209 7/4/2009 15:51:26 . 3) “Prato-retrato da bela desnuda”: em uma pequena bacia de cristal.

Um ensurdecedor toque de sinos de 5 minutos. mantidas fora das janelas escancaradas como as comportas de um canal. Vocês se decidem ou não se decidem a comer os pratos refinadíssimos preparados por nós. deslizando automovelmente. Os três complexos-escultura vaporizantes param de um só golpe com a irrupção na sala de três ajudantes de cozinha embainhados de seda branca e alto chapéu branco luminoso. Os onze convidados (5 mulheres. Uma pausa de silêncio concedida à invasiva policonversação e quacrelogia das rãs lacustres que acompanharão a abertura lenta da 8 Flor da esponjeira. Antes da refeição os convidados declamam “Elogio ao outono” do poeta futurista Settimelli e “Entrevista com um Caproni” do poeta futurista Mario Carli. No comprimento de uma mesa em forma de paralelepípedo afloram. desaparecendo e reaparecendo: 1) um complexo-escultural munido de vaporizador com a forma e o odor de um castelo de risoto à milanesa golpeado por um mar de espinafre encristados de creme. cachia8 e pimenta vermelha. grandes artistas? Parem de enrolar ou pegamos todos vocês a chutes”. com o qual capturar à vontade o odor espargido do canto munido de um potente aspirador. Fora. Máxima intensidade dos perfumes da paisagem circundante. 3) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um lago de chocolate que circunda uma ilhota de pimentões recheados com geléia de tâmaras. 210 Cozinha futurista.indd 210 7/4/2009 15:51:26 . mas também imbecis. 5 homens e um neutro) têm um pequeno ventilador de mão cada.Fillippo Tommaso Marinetti Noite de Agosto. que gritam: -“vocês são os chefes. 2) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um navio de berinjelas fritas cobertas de baunilha. O neutro treme como um sismógrafo esperançoso.

O neutro choraminga: -“Por caridade. Gane o convidado neutro: -“Pelo menos doze ostras e dois dedos de Marsala”.indd 211 7/4/2009 15:51:26 . Os cozinheiros espiam pela porta e desaparecem. encontra-se com o perfume idêntico. veios de amoníaco e uma lembrança de ácido fênico. cozinheiros belos. Os ventiladores de mão cancelam tudo. mas subitamente irrompe da outra porta-janela o mar com cem chispares e enguiamentos de odores salinos. Entra um perfume agro-suave-pútrido-delicadíssimo de lírios civilizados que. o terceiro de uva e o quarto de alfarroba) precipitam-se na sala tornada inodora. saindo da estufa. deixadas até agora pensativas ou atônitas. Todos os convidados apontam os ventiladores de mão como escudos contra a porta-janela lacustre. vindo do lago. tragam-nos qualquer coisa para mastigar. Confusão. põem-se a mastigar febrilmente o vazio. de velhos juncos queimados.A cozinha futurista porta-janela pressionada pelos odores de ervas podres. Os dois perfumes de vida carne luxúria morte sintetizam e então apagam todos os onze paladares famintos. Abre-se então a porta-janela do reservatório de frutas e quatro odores (o primeiro de maçãs. Escapa um relincho do convidado neutro. com visões de imensos golfos espumosos e tranqüilos cais verdes frescos ao amanhecer. Curto assombro. ou então veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas”. mas selvagem. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio dinâmico 211 Cozinha futurista. o segundo de abacaxi. Mas a frase é cancelada junto com o mar e relativa peixaria prateada por prepotentes perfumes de rosa de tal modo curvilíneas e carnudas que as onze bocas.

Cabeças inclinadas sobre os pratos. capitães. empurro brutalmente o meu companheiro da direita. Silêncio religioso de bocas que mastigam orações suculentas. tenentes. mas o doutor bufa. pão. Espirram os seus gritos. Inundação de vinho. Mas os mais jovens não amam as pausas e querem rir. digo em alta voz: .Para não empantanar a nossa sensibilidade. levanta tudo ele também e empurra à direita. agir. Fome de bombardeiros depois de uma jornada de trabalho duro.Fillippo Tommaso Marinetti No romance “L’Alcova d’Acciao” F. Despencar de copos. que cede de má vontade. Há muito silêncio à mesa. Marinetti descreve sua ansiedade de fugir do inevitável empantanamento da sensibilidade durante a refeição: “Na noite de primeiro de junho de 1918 na barraca dos bombardeiros desafiadoramente plantada obliquamente sobre uma cresta montanhosa do Vale do Ástico. e o bom doutor está absorvido gravemente demais no ritual do macarrão. coronel Squilloni alegre e posudo na cabeceira da mesa. grita.indd 212 7/4/2009 15:51:26 . T. depois me levanto e brandindo uma garfada de espaguete. prontos. Uns vinte oficiais. deslocamento de dois lugares à direita. Sabem da minha fantasia fecunda em piadas e excitam-me com olhares. eu comando: 212 Cozinha futurista. Todos empurram o doutor. Os jovens. enrolando os espaguetes sangüíneos e fumegantes. gritos. reclama. Levantamno como a um peso. alvoroço. copos. marche! Depois levantando como posso pratos. Os longos garfos vermelhos do pôr-do-sol entrelaçavam-se com os nossos. Risos. espremem-no como uva. comia-se e bebia-se alegremente. faca. O prato de macarrão entorna sobre a farda. Dominando o tumulto. Com quatro bocados aplaco meu estômago. executam o exercício.

rufares e becchegiro9. luminoso banquete aéreo suspenso a pico na planície vêneta crepuscular. imponho: . renovar integralmente a Itália depois da vitória? Imponho-lhe. fora. Como poderíamos.Deslocamento cumprido! Todos sentados! Mas problemas. “Acabem com isso!”. tombos. E você. Mas os jovens são tenazes e com força imprimem à multidão uma volta tumultuosa em torno da mesa. 213 Cozinha futurista. não se esqueça de que a mais alta e preciosa virtude é a elasticidade. uma sífilis. um calo. Ameaçando-o burlescamente.. rimos enquanto o coração chorava na retirada. caro doutor. pratos e copos nas mãos! Giro total da mesa em cortejo! O reboliço se torna infernal.indd 213 7/4/2009 15:51:26 . Onde está o doutro? Onde está? Todos o procuram. curar um gânglio. Como poderia. O doutor me olha assustado. Fora. cirros de porcelana violeta amassados. socos. uma otite. interromper com elasticidade futurista a sua barrigada passadista! Todos riem.A cozinha futurista . sacudidas. Fugiu para o terraço com o seu prato de macarrão.. Agrada muito ao coronel o jogo bizarro. sem elasticidade. sem elasticidade. caro doutro.Para não empantanar a nossa sensibilidade. ou a fraqueza de certos superiores? Com elasticidade abandonamos o Carso após Caporetto. Os meus amigos cantam ao redor do doutor o hino da burla futurista: Iró iró iró pic pic Iró iró iró pac pac 9 O substantivo refere-se provavelmente a um movimento ou um som semelhante ao feito por um barco em alta velocidade. “Basta!”. de assalto! E termina-se a refeição confusamente. garrafas espumantes de ouro. “caramba!”. Turbilhão. ao bater na água. com grande farfalhar de risadas na risada fulva do crepúsculo. todos nuvens de cristal incandescente. problemas a quem ainda deixa empantanar a própria sensibilidade!. debandados. Gritos. Somente o doutor não se diverte. esmagar o passadismo austro-húngaro.

embrulhados em fatias de abacaxi e regados com Asti espumante. conquistar uma vintena de bolas comestíveis e. envoltos e embolotados em uma fatia de polenta esborrifada com água de colônia italiana. as mangas arregaçadas. *** Dinamicamente então propomos os seguintes pratos: “Passos de corrida”: composto de arroz. Com um final de batalha gastronômica. 2) “Em quarta”: 200 fios de algodão doce enrolados num novelo. O habilíssimo entretanto será aquele que conseguir. fugir para o campo. Ao escancarar da porta. tudo enrolado em uma finíssima fatia de presunto macerada em Marsala. bocas abertas e mãos ameaçadoras. serão mantidos fora da porta de uma sala de ginástica onde pelo chão e em pequenas pirâmides serão dispostas as comidas anunciadas. de bocas abertas. 5) “Bombas de mão”: esfera de torrone de Cremona envolta em uma grande bisteca malpassada. 4) “Perdendo uma roda”: quatro tordos assados com muito gengibre e sálvia. Seqüência de bocas dentes mãos. Os convidados vestidos esportivamente. inspirando-se no grande quadro “O jogador de futebol” de Umberto Boccioni. rum e pimenta vermelha. 214 Cozinha futurista. Comerão melhor aqueles que conseguirem manter à distância os adversários com chutes. superando janelas e terraços. um sem a cabeça. os lutadores não ensacam os golpes: engolem-nos. todos se precipitarão furiosamente de assalto. 3) “Colisão de automóveis”: semi esfera de anchovas prensadas conjunta a uma semi esfera de pasta de tâmaras.Fillippo Tommaso Marinetti Maa – gaa – laa Maa – gaa – laa RANRAN ZAAAF Matavam assim as nostalgias”. com bocas mastigantes e mãos agarrantes.indd 214 7/4/2009 15:51:26 . coberta de vinho moscato de Siracusa.

Krimer. Cinco pirâmides (40 cm de altura) de minestrone frio. Civello. reunidos na Direção do Movimento Futurista em Roma. estádios esportivos. arranha-céus. Cinco blocos ovais (20 cm de altura) de pasta de bananas. os pintores Dormal. 215 Cozinha futurista. Pandolfo. sentados cada um sobre tambores (15-60-100 e 300 cm cada) não-comestíveis de macarrão comprimido. Dez cilindros (30 cm de altura) de torrone de Cremona. um sobre o outro em forma de torre.A cozinha futurista Fórmula do aeropoeta futurista e do aeropintor futurista Marinetti Fillìa Cardápio arquitetônico sant’elia Em honra do Poeta-Record nacional de 1931. Maino. Seis esferas (15 cm de diâmetro) de risoto à milanesa. Os futuristas. Samzin. Bellonzi.indd 215 7/4/2009 15:51:26 . pistas sobrelevadas: Trezentos cubos (3 cm de altura) de massa podre. subiram e comeram alternativamente. para melhor construir a casa futurista. prensado. arquitetonicamente. baterias de encouraçados. ligados todavia por fio eletrônico. Gerbino. aperfeiçoamna com os dentes. Vittorio Orazi. Giacomo Giardina. Farfa (vencedor do circuito de poesia “Sant’Elia”). com uma sensibilidade espacial que coloca o glorificado a 600 quilômetros dos glorificantes. belvederes. Burrasca. Rognoni. Sete telas (60 cm de altura) de bacalhau ao leite. com mãos de criança. Oito paralelepípedos (10 cm de altura) de espinafre na manteiga. os poetas futuristas Escodamè. rampas de aeroportos. cais de portos militares. isto é. Vinte tubos (1 metro de altura) de pasta de tâmaras. Vasari e Soggetti. Voltolina e Degiorgio do grupo paduano e os pintores Alf Gaudenzi e verzetti do grupo futurista e vanguardista “Síntese”.

entre as aeropinturas dos futuristas Marasco. Besuntam-nas com curry em pó e devolvem-nas às suas cascas tingidas aqui e ali por azul de metileno. os comensais liberam do casco intactas 5 lagostas e cozinham-nas eletricamente na água do mar. Oriani e Munari. Recheiam-nas com uma pasta de gema de ovo.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropictórico na fuselagem Na ampla fuselagem de um grande Autoestável DeBernardi. Os comensais. Bizarramente depois as 5 lagostas serão dispostas em desordem e distanciadas sobre uma grande aerocerâmica Tullio d’Albisola acolchoada por vinte qualidades diferentes de salada: estas geograficamente dispostas em quadrados. entre as aeroesculturas de metais aplicados dos futuristas Mino Rosso e Thayaht.indd 216 7/4/2009 15:51:26 . Tato. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeroescultural na fuselagem Na grande fuselagem de um Trimotor. comerão assim vilarejos. Benedetta. casca de limão. alcaparras. timo. chácaras e planícies raptadas em velocidade. que se ligam aos aerocumes e às nuvens do horizonte navegado a mil metros. alho. cenoura. os comensais 216 Cozinha futurista. ovas e fígado de lagosta. empunhando pequenos sinos de cerâmica cheios de Barolo misturados a Asti espumante.

A janelinha da direita: tilintar de vidro madeira tintilhões e sininhos. frutas cristalizadas e queijo gruyère. tomate e polpa de lagosta. depois de liberados das formas. pedaços de solha. despenhadeiro. através da outra janelinha. polpa de camarões. regada abundantemente com Vinho Santo toscano.indd 217 7/4/2009 15:51:26 . Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropoético futurista Na fuselagem de um Trimotor voando a 3.000 217 Cozinha futurista. seu companheiro de refeição. ovos. o altímetro redondo denuncia: 3. cebolinhas. Os 11 doces. Os olhos fogem à direita. pão-de-ló e biscoitos triturados. em número de três. denuncia: 20. serão servidos sobre uma grande bandeja no centro da fuselagem. Na boca responde-lhe rusticamente o sabor de uma bolota de mel. Todos serão cozidos eletricamente.000 metros em um céu bipartido: dengoso luar de meia lua madreperolado e esverdeado e semi-esfera de meias nuvens fulguradas de longos escorpiões de ouro. promontório ou ilhota. enquanto os comensais brincarão e devorarão massas de claras em neve como faz o vento lá fora com os cimos e os cúmulos brancos. À frente dos comensais. Abaixo a pico um rio de solidíssima prata derrete o estuário das suas enguias frenéticas em um mar de piche adornado por níquel lunar.A cozinha futurista prepararão uma massa de fécula de batata.000 metros comidos. Perto dele o conta-giros. a sugar a geléia de anis branco que filtra uma nuvem. açúcar semolado e perfumado de baunilha. Encherão onze formas (untadas e enfarinhadas) cada uma de um formato típico de montanha.

Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio tátil O dono da casa terá o cuidado de preparar. veludos. A pico sobre si mesmo. com a colaboração dos pintores futuristas Depero. cartões. sedas. todos serão levados ao salão de banquete provido de muitas pequenas mesas para duas pessoas: estupor do próprio com- 218 Cozinha futurista. sem móveis: sem ver. o velocímetro denuncia: 200 quilômetros digeridos. Presença das mãos vazias. deverá vestir separadamente um dos pijamas. Mastigar o infinito. Obliqüidade da força artística. Um pouco mais de mel das abelhas inspiradoras de poetas gregos na boca do aeropoeta futurista. Balla. Leveza. etc. cada convidado deverá escolher o próprio companheiro de mesa segundo sua inspiração tátil. Escolhas feitas. Do outro lado do altímetro. Cada convidado. Voar.indd 218 7/4/2009 15:51:26 . rapidamente. Prampolini e Diulgheroff. tantos pijamas quantos serão os convidados: cada pijama será feito ou recoberto de materiais táteis diferentes como esponjas. cortiças. todos serão introduzidos em uma grande sala escura. Depois. lixas. lâminas de alumínio. alguns minutos antes da refeição. Amor quente macio muito distante.Fillippo Tommaso Marinetti giros devorados. escovas. A boca do comensal humano da direita suga um tubo de neon amarelo vermelho dourado de verão África eterna. feltros. palhas de aço. Ronco crítico dos intestinos. O estômago do comensal humano central corrige com muitos ácidos vulgares a indigerível potência excitatória do licor de lua abstrato poético suicida.

os garçons esborrifarão em seus rostos perfumes de lavanda e água de colônia. mas cada uma recheada de elementos diversos (como frutas cristalizadas ou fatias finas de carne crua ou alho ou pasta de bananas ou chocolate ou pimenta). 2) “Vianda mágica”: servir-se-ão tigelas não muito grandes. recobertas externamente por materiais têxteis rugosos. os convidados deverão ininterruptamente nutrir seus dedos no pijama do vizinho de mesa.indd 219 7/4/2009 15:51:26 . iniciarão uma lenta dança de grandes gestos geométricos. o conteúdo do prato. um prato fundo de porcelana. já que o menu é todo baseado em prazeres táteis. Todas as vezes que os convidados se afastarem dos pratos para mastigar. Será preciso segurar a tigela com a mão esquerda e agarrar com a direita as esferas misteriosas contidas no interior: Serão todas esferas de açúcar queimado. 219 Cozinha futurista. No prato: folhas de alface sem tempero. enquanto com a mão esquerda girará a manivela. enfiado pela metade. tâmaras e uvas. Entre um prato e outro. A caixa liberará assim ritmos musicais: então todos os garçons. mas sem a ajuda das mãos. de tal modo que os convidados não possam intuir qual sabor será introduzido na boca. imergindo o rosto no prato e inspirando assim o próprio gosto no contato direto dos sabores sobre a pele das bochechas e sobre os lábios. em frente às mesas. Será servida a seguinte lista de iguarias: 1) “Salada polirítmica”: às mesas aproximam-se os garçons portando para cada convidado uma caixa munida de manivela do lado esquerdo e que tem no lado direito. Cada um dos comensais usará a mão direita para levar à boca. sem ajuda de talheres. sem sal. Poder-se-á experimentar a gosto estas verduras/legumes. 3) “Hortotátil”: serão postos à frente dos convidados grandes pratos contendo uma numerosa variedade de verduras/legumes crus e cozidos. até o esgotamento da iguaria.A cozinha futurista panheiro indicado pela sensibilidade refinadíssima dos dedos sobre as matérias táteis.

“Agreste civilizado”: bolo de arroz branco cozido sobre o qual imprimem-se largas e tenras folhas de rosa. Aumenta a temperatura da sala. antes de comer. e os pinheiros verdes. Serve-se o primeiro prato “Sonho alpestre”: pequenas formas ovais de gelo envolvidas por massa de castanhas e apresentada sobre grossos discos de maçã salpicadas com nozes molhadas no vinho Freisa. os seus pastos e seus jardins. Os convidados. cujas paredes são formadas por enormes pinturas futuristas sobre vidro representando: uma paisagem alpina Depero – uma paisagem de planície com lagos e ao fundo colinas Dottori – uma paisagem vulcânica Balla – uma paisagem de mar meridional animado por ilhotas Prampolini. querendo provar à mesa o sabor e o perfume de todas as suas hortas. fazer-nos servir de uma só vez os tantos pratos regionais. no passado. No início da refeição a primeira parede é iluminada por trás e ressaltam assim os perfis geométricos das montanhas brancas e morenas. Na sala é regulada uma temperatura de frescura primaveril. mas não nos foi possível. Apaga-se a primeira parede e acende-se a segunda: brilham as esmeraldas dos campos e os vermelhos das fazendas que se perdem entre as terras redondas das colinas e os azuis metálicos dos lagos. tingem-se as mãos com azul de metileno. um apetitoso alimento para os estrangeiros.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio síntese da itália A Itália sempre foi. Hoje podemos degustá-lo. carne de rã desossada e ce- 220 Cozinha futurista. Proponho portanto este menu-síntese-da-Itália: Uma quadrada sala de teto azul.indd 220 7/4/2009 15:51:26 .

os garçons fazem passar rapidamente sob os seus narizes um quente perfume de gerânio. Temperatura tórrida na sala. sentados em torno de uma mesa de metal com o plano horizontal em linóleo. consultam grandes atlas. Uma sala de restaurante decorado com alumínio e tubos cromados. “Instinto colonial”: um colossal robalo recheado de tâmaras. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio geográfico 1. apresentado navegando em um litro de marsala. É levado à mesa envolto em sutis fatias de cordeiro assado e imerso em vinho de Capri. 3. caranguejos.indd 221 7/4/2009 15:51:26 . Apaga-se a terceira parede e acende-se a última: esplendor das ilhotas luminosas na espuma fervente do mar. o clima é de verão. gomos de laranja. entra na sala. As janelas redondas permitem vislumbrar misteriosas distâncias de paisagens coloniais. “Sugestão do Sul”: uma grande erva-doce na qual são incrustados rabanetes e azeitonas sem caroço. Quando inicia-se a refeição. Enquanto os convivas comem. seguida à distância pelos garçons. Os comensais. a garçonete-lista-de-pratos: formosa moça jovem inteiramente revestida por uma túnica branca na qual é desenhado a cores um completo mapa geográfico africano que lhe envolve todo o corpo. bananas. ostras e alfarroba. 2. pêras cruas e cassis. Apaga-se a segunda parede e acende-se a terceira: dinamismo atmosférico do Vesúvio incandescente. Na sala. 221 Cozinha futurista. Terminada a refeição acendem-se juntas as quatro paredes e são servidos sorvetes misturados a abacaxi. giesta e cachia é esborrifado no ar. Um violento perfume de cravos. enquanto gramofones invisíveis rodam barulhentos discos negros.A cozinha futurista rejas muito maduras.

Devem-se escolher os pratos não segundo a sua composição. pelas regiões e pelas cidades. sobre o joelho esquerdo da garçonete-lista-de-pratos. Neste caso: “Amor sobre o Nilo”. Dominará portanto uma orientação alimentar inspirada pelos continentes. Em volta da pirâmide maior. o nome ZANZIBAR. 7. mas indicando no mapa a cidade ou as regiões que seduzem a fantasia turística e aventureira dos comensais. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio de fim de ano O hábito já matou a alegria das grandes ceias de fim de ano: há muitos anos os mesmos elementos concorrem a uma alegria já muitas vezes apreciada. Exemplo: se um comensal aponta um dedo para o seio esquerdo da Garçonete-lista-de-pratos onde está escrito CAIRO. augúrios e previsões volteiam como cópias de impressão. É preciso destruir os hábitos para sair da monotonia. cubos de laticínios de canela recheados com grãos de café torrados e pistaches.indd 222 7/4/2009 15:51:26 . Cada um conhece com antecedência a engrenagem precisa dos acontecimentos. 222 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti 4. um dos garçons silenciosamente se afastará e retornará em seguida trazendo o prato correspondente àquela cidade. 5. Se um outro comensal aponta com o dedo. Lembranças de família. o garçom lhe servirá a “Vianda Abibi”: meio coco. recheado com chocolate e disposto sobre um fundo de carne crua finamente moída e regada com rum da Jamaica. Assim continuamente. variando para cada refeição os mapas geográficos e as garçonetes-lista-de-pratos e não permitindo conhecer antecipadamente os pratos. 6. pirâmide de tâmaras sem caroço imersa em vinho de palma.

como por uma palavra de ordem. Entretanto.” Todos então. por nós realizado com os futurissimultaneístas de Roma: Mattia. libera-se na sala um peru vivo que se debate assustado entre a surpresa dos homens e os gritos das mulheres que não entendem esta ressurreição da comida ingerida. Pandolfo. anuncia-se que a refeição está pronta. da antesala ao banheiro. explode e os convidados se debandam pela casa enquanto os mais audazes invadem a cozinha. Desfilam os pratos combinados quase 223 Cozinha futurista. Competição violenta entre os fornos acesos. A alegria finalmente. Na sala as mesas foram eliminadas e os convidados sentaram-se em cadeiras dispostas em fila indiana.A cozinha futurista Existem mil maneiras para renovar este banquete: eis um deles. enquanto frigideiras e caçarolas passam de mão em mão entre risadas. Vencido pelo silêncio. à despensa. Belli. levantam-se e lançam-se contra o incauto conservador de tradição. A cozinheira e as duas garçonetes são afastadas à força e cada um se dispõe a idealizar uma variação nos pratos. A ordem é restabelecida e cada um volta a conter a alegria desencadeada por um momento. Vignazia. um dos presentes diz: -“Ainda não expressei meus desejos para o ano novo. Todos comem sob um silêncio imposto: o desejo de barulho e alegria é reprimido. À meia-noite. Subitamente. gritos e chuva de alimentos. uma atrás da outra. Battistella. após a infinita conversação de espera. que é repetidamente esbofeteado.indd 223 7/4/2009 15:51:26 . para tentar estabelecer uma conversação qualquer. Serve-se o infaltável peru que os garçons distribuem em pratos de metal: o peru é recheado de tangerinas e de salame. outros descobriram o depósito dos vinhos e forma-se assim um banquete excepcional que vai da cozinha ao quarto. etc. exasperada pelo torpor muito longo. D’Avila.

não pretendem renunciar à antiga cozinha. para um banquete na Lua.indd 224 7/4/2009 15:51:26 . incapazes ou temerosos. Estupor.” Mas naquele momento apresentam-lhe uma tigela cheia de espumante onde navegam couves-flores.. em benefício próprio. onde finalmente provaremos comidas de sabor desconhecido ao nosso paladar e bebidas imprevisíveis. Um convidado conta à dona da casa: -“Há quinze anos. Se os proprietários e os funcionários dos restaurantes colaborassem. enquanto três ritmos diferentes de música japonesa acompanham o serviço dinâmico.. No escuro. ouve-se a voz de um convidado: -“neste ano conseguiremos romper o invólucro da atmosfera e alcançar os planetas.Fillippo Tommaso Marinetti pela magia. conforme o espírito de veloz harmonia que anima os novos cozinheiros. cilindros de queijo parmesão e ovos cozidos. Os mais jovens berram: -“sepultada a lembrança! devemos iniciar o ano de modo finalmente diferente dos banquetes anteguerra!” Três gramofones funcionam como mesa e sobre discos transformados em pratos rotatórios as senhoras atacam confeitos.” Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio rejuvenescedor Geralmente. gomos de limão e fatias de rosbife: a lembrança do passado naufraga em um presente extraordinário. A dona da casa apaga inesperadamente a luz. as dificuldades a vencer por uma nova alimentação são aumentadas pelos proprietários de restaurantes que. Todas as suas preocupações limitam-se a ajudar o cliente quando veste o sobretudo. Convido-os todos para o próximo fim de ano. nesta mesma data. para convencer das necessidades de nutrir- 224 Cozinha futurista.

comprimido em pequenas esferas cruas de alface esborrifada com grappa e servido sobre uma pasta de tomates frescos e batatas cozidas. 225 Cozinha futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio improvisado Estes cardápios improvisados são aconselhados com o objetivo de atingir um máximo de originalidade. possivelmente diferente para cada indivíduo de modo tal que TODAS AS PESSOAS TENHAM A SENSAÇÃO DE COMER. como seus irmãos que vivem no subterrâneo da história. depois frito em manteiga. Chegamos a essa decisão porque o macarrão é feito de silenciosos longos vermes arqueológicos que. surpresa.indd 225 7/4/2009 15:51:27 . TAMBÉM OBRAS DE ARTE. o garçom deveria proferir este breve e esclarecedor discurso: -“a partir de hoje a nossa cozinha elimina o macarrão. empanturram adoecem inutilizam o estômago. .”O italiano da nossa época veloz não deixará de sensibilizar-se ante tal argumento. imprevisto e alegria.deve chegar a conceber para cada prato uma arquitetura original. além de uma boa comida. O garçom lhe servirá então este “cardápio rejuvenescedor”: arroz cozido. variedade. Vermes brancos que o senhor não deve introduzir no corpo se não quiser deixá-lo fechado escuro e imóvel como um museu. Ao habitual cliente que entra e pede um prato de espaguetes.deve compreender que a forma e a cor são tão importantes quanto o sabor.A cozinha futurista se mais modernamente. A cada cozinheiro pede-se a formação de uma mentalidade que: . muitas dúvidas e muitas ironias poderiam ser superadas e os restaurantes perderiam a trivialidade dos hábitos quotidianos.

mas nunca se deve levar em conta o gosto pessoal dos comensais.deve possivelmente chegar às refeições em movimento. antes de preparar a refeição. levando em conta. o espírito humano da aventura e do heroísmo. 226 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti . enquanto Ela se contentará com pãezinhos e manteiga. estudar o caráter e a sensibilidade de cada um. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio declaração de amor Um tímido enamorado deseja exprimir a uma moça bela e inteligente os seus sentimentos. o sexo. a idade. enquanto come. por meio de tapetes-móveis que deslizam à frente das pessoas. na noite da cidade. Para os cardápios improvisados pode-se naturalmente discutir entre cozinheiros. garçons e Diretores sobre a atribuição das diferentes iguarias. na distribuição dos pratos. que o garçom fará somente admirar. Carnadorada: um grande prato feito com um brilhante espelho. Ela. No centro. . admirará sua imagem refletida no prato. portando todo tipo de alimento: simplificar-se-á assim a preparação individual porque cada um será levado a conquistar o prato preferido para si. de certo modo. no terraço de um grande Hotel. Com este propósito lhe fará servir. a seguinte refeição-declaraçãode-amor: Tedesejo: antepasto composto de elementos diversos. a constituição física e os fatores psicológicos. de escolha refinadíssima. filés de frango perfumados com âmbar e recobertos por uma fina camada de geléia de cerejas.indd 226 7/4/2009 15:51:27 .deve. E a escolha será duplamente apreciada porque desenvolverá.

um de ameixa. onde havia pinturas de Arte Sacra futurista. salgado por pedacinhos de ostras e gotas de água do mar. enchidos com anis. que visitaram em Turim os apartamentos do Engenheiro Barosi e do Doutor Vernazza. etc. Ela. Estanoiteláemcasa: uma laranja muito madura fechada em um pimentão maior esvaziado e enfiado em um grande zabaione ao gim. comerá todos. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio sacro Aos eclesiásticos futuristas. mas contendo. em 20 pratos de alumínio. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa 227 Cozinha futurista. rum. isto é. Os eclesiásticos devem escolher sem errar. gim e bitter. Em frente aos copos. licor de menta. em proporções diversas: água mineral tingida de vermelho – vinho branco dos Castelos Romanos tingidos com azul de metileno – leite frio tingido de laranja. Na superfície são feitos pequenos furos.A cozinha futurista Teamareiassim: pequenos tubos de massa podre recheados de sabores diferentíssimos. Superpaixão: um bolo de massa doce compacta. mediante uma oportuna e humilde consulta à inspiração divina. são dispostos: fatias de carne sortidas maceradas sob uma pasta de abacaxi – cebolas cruas cobertas por geléia – filés de peixe escondidos entre chantilly e zabaione – pãezinhos de manteiga untados com caviar e introduzidos em uma grande abóbora. um de batatas embebidas em conhaque. é oferecida uma refeição assim composta: Sobre uma grande mesa são alinhados 20 copos iguais. sem piscar. um de arroz doce. um de maçãs cozidas no rum.indd 227 7/4/2009 15:51:27 .

Livros contábeis de bolso conterão peixe comprimido. Toda a sala está imersa em uma penumbra misteriosa e as lâmpadas invisíveis permitem somente uma luminosidade suficiente para ver a mesa coberta por uma camada de vidro escuro brilhante. com uma mistura de tendências espirituais e de vontades eróticas. satisfazer ou excitar o apetite. invadidos por um estado de ânimo indefinido que os faz desejar a conquista dos países europeus.Fillippo Tommaso Marinetti Cardápio simultâneo Para executivos. 228 Cozinha futurista. 10 Recipiente térmico.indd 228 7/4/2009 15:51:27 . será confeccionado um cardápio simultâneo que lhes permitirá continuar as diversas atividades (escrever caminhar discursar) e alimentar-se ao mesmo tempo. sem quebrar a casca. Pequenos “termo”10 em forma de canetas-tinteiro repletos de chocolate quente. sem falar. Da pasta poderão folhear cartas e faturas perfumadas com diversas intensidades. Em um grande cachimbo de metal esmaltado de vermelho. impossibilitados pelo turbilhão de negócios a deter-se em um restaurante ou de voltar para casa. serve-lhes vinte ovos frescos que foram furados dos dois lados para injetar em seu interior um tênue perfume de acácias: os negros aspiram o conteúdo dos ovos. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio desejo branco Dez negros reúnem-se à mesa em uma cidade marítima. segurando um lírio na mão. para calmar. com forninho elétrico cozinhará uma sopa. Uma cozinheira negra.

com fortíssima fluorescência verde-amarelada em solução. 11 Substância cristalina. A cozinheira negra retorna ainda com uma bandeja cheia de pedaços de polpa de côco escrustrados de torrone. alaranjada. através da própria lâmina de cristal. enquanto do teto desce lentamente em direção à mesa um globo incandescente de vidro leitoso e por toda a sala se expande um perfume de jasmim. sob a mesa. Amanhecerá assim em taças de cristal um brodo consumido tornado fluorescente mediante uma mínima quantidade de “fluoresceína”11. grappa ou gim. variando intensidade e cor dependendo dos pratos. O estado de ânimo dos negros é quase inconscientemente sugestionado por todos os pratos brancos ou cândidos. e dos dois lados em direção ao centro. Todo o serviço é de cristal. Ao mesmo tempo. 229 Cozinha futurista.indd 229 7/4/2009 15:51:27 . De baixo para cima. A sala de jantar é toda escura.A cozinha futurista Então é trazida uma grande sopeira com leite frio no qual foram imersos pequenos cubos de mussarela e uvas moscatel. bebe-se anis puro. fechados sob uma camada de manteiga e dispostos sobre um leito de arroz cozido e chantilly. A sensibilidade dos negros se apaga no sabor-cor-odor branco dos pratos. fontes luminosas graduáveis iluminarão de cem modos diferentes o plano de cristal. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio astronômico A mesa é constituída por uma lâmina de cristal apoiada sobre reluzentes barras de alumínio. pulverulenta.

na noite da sala. mosaico de pistaches e pimenta vermelha. Uma bomba em forma de telescópio lançará parábolas de espumante Asti. regados com limão e perfumados ternamente com baunilha.Fillippo Tommaso Marinetti Dará meio-dia em carne crua salgada.indd 230 7/4/2009 15:51:27 . Entardecerá um prato feito de fatias muito finas de salmão defumado. único corpo iluminado. mover-se-á lentissimamente sobre o cristal que se tronou abstrato. uma esfera cosmográfica de spumone (50 cm de diâmetro). Fórmula do futurista Dr. beterrabas e laranjas. Depois. Sirocofran 230 Cozinha futurista.

231 Cozinha futurista.A cozinha futurista receitáriO FuturistA para restaurantes e aquisibebe A dosagem sumária de muitas destas fórmulas não deve preocupar mas sim excitar a fantasia inventiva dos cozinheiros futuristas cujos eventuais erros poderão freqüentemente sugerir novas invenções Decisão (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) ¼ de vinho quinado ¼ de rum ¼ de Barolo fervente ¼ de suco de Tangerina Inventina (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) 1/3 de Asti espumante 1/3 de licor de Abacaxi 1/3 de suco de Laranja gelado Vianda simultânea (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Uma gelatina de frango. feito com o Mosto. metade incrustada por quadrados de carne crua de jovem camelo. Para ser comida. regando cada bocado de camelo com um gole de água do Serino e cada bocado de coelho com um gole de Scirá (vinho turco.indd 231 7/4/2009 15:51:27 . temperada com alho e defumada. sem álcool). e metade incrustada por esferas de carne de coelho muito cozidas ao vinho.

232 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Mesa vocabulivre marina (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Sobre um mar de salada crespinha. fatias de banana. uma cereja e um fragmento de figo seco. a outra com pasta de casca de maçãs trituradas. Entredois (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Duas fatias retangulares de pão: uma untada de pasta de anchovas. navega meio melão com. de modo a criar uma precisa decoração verde e vermelha. um obstáculo de pão forte de Siena. Todoarroz (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Arroz branco cozido assim disposto: uma parte no centro do prato em forma de semi esfera – uma outra parte em volta da semi esfera. Pulverizar o navio e o mar com canela ou pimenta vermelha. a bordo. gemas de ovos e queijo parmesão. derramar sobre a semi esfera um molho de vinho branco quente encorpado com fécula e sobre a coroa um molho de cerveja quente. aqui e ali salpicada de fragmentos de ricota. Entre as duas fatias de pão: salame cozido. A poucos centímetros da proa. No momento de servir à mesa. em forma de coroa. um camandantezinho esculpido em queijo holandês que dirige uma frouxa tripulação esboçada em miolos de vitelo cozidos no leite.indd 232 7/4/2009 15:51:27 . Sobre este mar verde e vermelho colocam-se complexos formados por pequenos filés de peixe fervido. Mar da Itália (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Sobre um prato retangular dispõe-se uma base formada por listas geométricas de molho de tomates frescos e de espinafres.

Enquanto isso. dos jardins e dos prados da Itália) é composto por uma grande almôndega cilíndrica (A) de carne de vitela assada recheada por onze qualidades diferentes de legumes e verduras cozidos.A cozinha futurista Cada um desses complexos é mantido unido por um palito de dentes que sustenta verticalmente os diversos elementos. seda e veludo. Serve-se à esquerda de quem come um retângulo formado de lixa. LIXA SEDA VERMELHA VELUDO PRETO 233 Cozinha futurista. Carnescultura (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) O “carnescultura” (interpretação sintética das hortas.indd 233 7/4/2009 15:51:27 . enquanto a mão esquerda alisa leve e repetidamente o retângulo tátil. corações de erva-doce e bergamotas. Aerovianda (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Serve-se à direita de quem come um prato com azeitonas pretas. os garçons esborrifam nas nucas dos comensais um comperfume de cravo enquanto vem da cozinha um violento comrumor de motor de aeroplano contemporaneamente a uma desmúsica de Bach. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato. é coroado por uma camada de mel (C) e sustentado na base por uma anel de lingüiça (B). que se apóia sobre três esferas douradas (D) de carne de frango. Os alimentos devem ser levados diretamente à boca com a mão direita.

Servi-la em abundante molho 234 Cozinha futurista.indd 234 7/4/2009 15:51:27 . em massa podre e em açúcar queimado. Alfabeto alimentar (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Todas as letras do alfabeto são recortadas (com grande espessura.Fillippo Tommaso Marinetti Diabo em túnica negra (polibebida do aeropintor futurista Fillìa) 2/4 de suco de laranja ¼ de grappa ¼ de chocolate líqüido Imergir a gema de um ovo cozido. em queijo. Envolver as trutas em finíssimas fatias de fígado de vitelo. de acordo com as iniciais dos seus nomes que determinarão assim a combinação dos diversos alimentos. Servem-se duas por pessoa. Então deixá-la mergulhada por um minuto em muito suco de limão. Trutas imortais (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Rechear as trutas com nozes trituradas e fritá-las em azeite. de modo que permaneçam em pé) em Mortadela de Bolonha. até a sua consumação. Promontório siciliano (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Atum maçãs azeitonas e amendoins japoneses são triturados juntos. À caça no paraíso (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Cozer lentamente uma lebre em vinho espumante onde se dilui chocolate em pó. A pasta que deriva é espalhada sobre uma omelete fria de ovos e geléia.

Porcoexcitado (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Um salame cru. Carrossel de álcool (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) 2/4 de vinho Barbera ¼ de cidra ¼ de bitter Campari 235 Cozinha futurista.indd 235 7/4/2009 15:51:27 . Fechar a parte superior da esfera com meia ameixa seca.) de alcaçuz em fita. Docelástico (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Recheia-se uma esfera de massa podre com zabaione vermelho no qual é imersa um pedaço (3 cm. salpicada de confeitos prateados que lembram as balas dos caçadores. é servido em pé em um prato contendo café expresso quentíssimo misturado com muita água de colônia. a base de espinafre e zimbro. As grandes águas (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) ¼ de grappa ¼ de gim ¼ de cominho ¼ de anis Sobre o líqüido flutua um bloco de pasta de anchovas envolta cirurgicamente em uma hóstia.A cozinha futurista verde. privado da pele.

bananas sem casca. Prefácio gustativo (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um cilindro de manteiga que sustenta no alto uma azeitona verde. Discos saborosos (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Bolo de frutas variadas que se apóia sobre um disco de chocolate. cheios de geléia de ameixa. O topo do cone será bombardeado de pedaços de trufas negras cortadas em forma de aeroplanos negros à conquista do Zênite. como a vegetação de palmeiras. com pimenta sal limão. uva passa. pinhõezinhos e confeitos. enfiados em um palito de dentes. Equador + Pólo Norte (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um mar equatorial de gemas de ovos em suas cascas. No centro emerge um cone de claras batidas em neve e solidificadas. O bolo é coberto por duas camadas de papa que o dividem ao meio: a primeira feita de molho de tomates e a segunda de espinafre. Entre as bananas são escondidos ovos cozidos sem a gema. Paradoxo primaveril (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um grande cilindro de sorvete de creme que traz no alto. Na base do cilindro: salame. cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol.Fillippo Tommaso Marinetti No líqüido são imersos. 236 Cozinha futurista.indd 236 7/4/2009 15:51:27 . um quadrado de queijo e um quadrado de chocolate.

peguem arroz e façam cozinhar em muito leite convenientemente salgado. exaltando-os e honrando assim o nome glorioso de Mallarmé. 500 gramas de ricota romana. sabe-se bem. Sirocofran) Dentro de finas bexigas coloridíssimas coloca-se uma gota de perfume. após ter mantido o prato no refrigerador por algumas horas. Aproxima-se das bexigas o cigarro aceso e aspira-se o perfume que dali brota. São levadas à mesa junto com o café. Privam-se as tâmaras do caroço e amassam-nas bem (melhor ainda se são passadas na peneira).A cozinha futurista Arroz de Heródias (fórmula do futurista Dr. Tâmaras ao luar (fórmula do futurista Dr. Antepasto fulgurante (fórmula do poeta futurista Luciano Folgore) Pensa que se dormes não mereces fazer um antepasto incomparável. Perfumes prisioneiros (fórmula do futurista Dr. Sirocofran) Para fundir a máxima pureza virginal com a máxima luxúria de perfume. quem dorme. que cantou a virgem Heródias em uma verde paisagem palustre coberta de sensualíssimos lírios turquesa. em pequenos pratos quentes. Escorram-no e temperem-no com finíssimo pó de rizoma de lírio. Sirocofran) 35-40 tâmaras muito maduras e doces. Servir frio. não pega peixes 237 Cozinha futurista. Elas são enchidas e levemente esquentadas de modo a vaporizar o perfume e tornar turvo o invólucro. A polpa assim obtida é incorporada à ricota até obter uma massa bem homogênea.indd 237 7/4/2009 15:51:27 . procurando que os perfumes sejam variados.

para prender até peixe em barril a fim de obter (pagando preços salgados) dois arenques ao leite e não defumados. entende-se) para desfazê-lo no óleo ao qual une-se algumas gotas de vinagre e finalmente estenda aquele leite tenro e picante sobre os arenques que triturastes já e o antepasto fino e excitante todo apetite humano despertará. limpe-os com carinho.Fillippo Tommaso Marinetti enquanto em nosso caso é indispensável estar de tal modo desperto. aliás sutil.indd 238 7/4/2009 15:51:27 . Conta-se que um rei da Patagônia por um tal prato renunciou ao seu reino esta história é certamente uma embroma mas a bondade do prato que te ensino é tão real e alegra o apetite 238 Cozinha futurista. Obtendo-os. Feito isso pegue o leite novamente (o leite dos arenques. logo os arenques a banho meterás quatro ou cinco horas sob água pura e quando houverem perdido a salgadura estenda-os na tábua que os deleita com um pouco de cebola e um ovo cozido depois com o oscilar da lamineta triture tudo finamente e faça de modo que a pasta seja macia e perfeita e por fim como condimento regue com azeite e vinagre a seu contento. depois tire o leite que colocarás a esperar os eventos em um pratinho.

Quando estiver bem quente. com cuidado o suco produzido. Fazer – à parte – um abundante molho de salsinha com alho e cebola em pequena dose. muito mais que o açafrão.A cozinha futurista que parece que Dante na Vita Nuova tenha escrito para ela. acrescentar. Risoto futurista ao alquequenje (fórmula do aeropoeta futurista Paolo Bruzzi) Preparar triturado um quilo de alquequenje separado de sua sutil membrana. tirá-la do fogo e jogar o triturado de alquequenjes (conservando o suco à parte) e o pesto de salsinha. Colocar azeite abundante em uma caçarola. mexendo sempre até ficar cor de ouro. Voltar ao fogo: e apenas tudo esteja dourado (que a cebola não se toste) acrescentar arroz suficiente para seis pessoas. Então. e é velocissimamente digerível como tudo o que pertence à usina (queria dizer cozinha) futurista. recolha-se. Após vinte minutos de cozimento. asas que se jogam fora: e assim parecem um paraquedas. a colheradas. à parte. a qual – de resto – na natureza quase não é mais encontrado. tire tudo do fogo amanteigando bem o risoto e acrescente queijo em abundância. após o Convite “Entendê-la não pode quem não a prova”. 239 Cozinha futurista. caldo convenientemente salgado e ao qual será agregado o suco dos alquequenjes. porque o alquequenje é dotado de asas de bom tecido como o aeroplano. É sintético porque os oito grãos contidos no bulbo ácido são como as “Marinettianas” oito almas em uma bomba. Este risoto é futurista porque o alquequenje é uma fruta quase fora de série: certo.indd 239 7/4/2009 15:51:27 .

Mazza) Preparem um bom risoto de açafrão ou de tomate. Acrescente cubos de queijo (fontina ou mussarela. e recheiem-nas com carne à bolonhesa moída grossa e úmida de seu molho. passem as laranjinhas em farinha branca. ou caciocavallo. Quando esfriar. e deixe-o esfriar. mas mais cozido. Comumanuvem (fórmula do aeropoeta futurista Giulio Onesti) Uma grande massa de chantilly dardejada por suco de laranja. crocantes. em azeite. tendo o cuidado de tirá-lo do fogo não ao dente. alargando-o sem romper as paredes. faz-se uma abertura em seu dorso e completa-se o interior com zabaione vermelho sobre o qual são dispostos 200 gramas de confeitos esféricos prateados. e façam em cada uma delas um furo com o polegar. Em toda a volta da abertura do dorso levantam-se cristas de galo. ou provolone fresco).Fillippo Tommaso Marinetti Laranjinhas de arroz (fórmula do vocabulivre futurista Arm. salame ou presunto cru em cubinhos. menta. pinhõezinhos e uva passa.indd 240 7/4/2009 15:51:27 . geléia de morango e regada delicadamente por Asti espumante. depois em ovo batido e enfim em farinha de rosca. Fritem-nas em abundante azeite até que fiquem loiro-douradas e sirvam-nas quentes. Façam muitas bolotas do tamanho médio de uma laranja. Assim prontas. molhando as mãos em água ou. melhor. Cubram com mais risoto e arredonde-os novamente. (Não deve ser ao dente para que os grãos de arroz possam aderir uns aos outros). 240 Cozinha futurista. Frango de aço (fórmula do aeropintor futurista Diulgheroff) Assa-se um frango completamente esvaziado.

Saladin) Sobre um prato retangular dispõem-se fatias finas de língua de vitelo fervida e cortada de comprido. 2 figos. uma meia lua de melancia. Apresentar este risoto com um acompanhamento de creme de baunilha sem açúcar. olhos fechados.indd 241 7/4/2009 15:51:27 . pinhõezinhos. uma pequena esfera de gorgonzola. nozes. 241 Cozinha futurista. um buquê de salada radicchio. Ultraviril (Fórmula do crítico de arte futurista P. enquanto o grande pintor e vocabulivre Depero declamará a sua célebre “Jacopson”. para ser comido. de modo que resultem 12 Vinho licoroso feito com uva passa.A cozinha futurista Palavras em liberdade (fórmula do aeropoeta futurista Escodamè) Três mariscos. Golfo de Trieste (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Cozinhar um quilo de vôngole sem casca em um molho de cebola e alho acrescentando lentamente o arroz. cravos. Vitelo embriagado (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Rechear a carne crua de vitelo com maçãs descascadas. atacando aqui e ali com as mãos. 5 biscoitinhos de amêndoa: todos dispostos ordenadamente sobre um grande leito de mussarela. Cozinhar no forno. um pequeno cubo de parmesão. 8 bolinhas de caviar. Servir frio em banho de Asti espumante ou de passito12 de Lipari. A. Sobre estas sobrepõem-se duas fileiras de patas de caranguejo assadas no espeto. Sorvete simultâneo (fórmula do poeta vocabulivre futurista Giuseppe Steiner) Creme de leite e quadradinhos de cebola crua gelados juntos.

muira puama. Saladin) 3 grãos de café 1 parte de licor feito com as seguintes plantas: coca. coberta de zabaione verde. uma de grãos e uma fatia fina de trufa coberta por ovas de lagosta.Fillippo Tommaso Marinetti paralelas e em senso longitudinal ao eixo do prato. Saltoemcarne (Polibebida do crítico de arte futurista P. equinácea 1 parte de licor de chá 1 parte de kirch Maismenosparaseparado (Polibebida do crítico de arte futurista P. ioimbe. Na parte posterior da lagosta dispõem-se três ovos cozidos cortados longitudinalmente e de modo que a gema se apóie sobre as fatia de língua. A.indd 242 7/4/2009 15:51:27 . Saladin) ¼ de licor de melissa ¼ de gemas de abeto ¼ de bananas ¼ de aspérula perfumada 242 Cozinha futurista. damiana. Entre estas duas fileiras coloca-se o corpo de uma lagosta previamente descascada e desossada. A. enquanto completam a guarnição do prato duas fileiras de pequenos cilindros compostos por uma rodela de limão. A parte anterior é coroada com seis cristas de galo como divisores. ginseng. cola. Saladin) 1 castanha confeitada 1 parte de licor de rosas 1 parte de licor de abacaxi 1 parte de licor de timo ou tomilho Amor alpestre (Polibebida do crítico de arte futurista P. A.

Dispõem-se depois. alcaparras. Saladin) Sobre um prato redondo serve-se zabaione vermelho de modo a formar uma grande mancha. Parasocar (Fórmula do crítico de arte futurista P. A. No meio desta dispõe-se um belo disco de cebola furado e atravessado por um galho de angélica confeitado. A. Saladin) ¼ de licor de cascas verdes de amêndoas ¼ de licor de genciana ¼ de licor de absinto ¼ de licor de genebra Homemulhermeianoite (Fórmula do crítico de arte futurista P. Do lado oposto dispõem-se 3 talos de alho-porró 243 Cozinha futurista. A. equidistantemente entre eles e em forma de cone. duas castanhas confeitadas e serve-se um prato para cada casal. 3 meios pimentões vermelhos assados e recheados com uma massa de legumes composta de pontas de aspargos. azeitonas. Saladin) Cobre-se o fundo de um prato redondo com fondente levemente perfumado com grappa. como indicado no desenho. Saladin) 1/3 de licor de artemísia 1/3 de licor de ruibarbo 1/3 de grappa Centelha (Polibebida do crítico de arte futurista P. alcachofras.A cozinha futurista Desanuviante (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. Sobre um raio do prato dispõem-se.indd 243 7/4/2009 15:51:27 . corações de aipo e de erva-doce. cebolinha.

Fillippo Tommaso Marinetti fervidos. Um arabesco de trufas raladas que parte do 2o. pimentão e termina naquele da parte externa completa o prato. Hortocubo (fórmula do crítico de arte futurista P. A. Saladin) cubinhos de aipo de verona fritos e cobertos de páprica cubinhos de cenoura fritos e cobertos de rábano ralado; ervilhas fervidas; cebolinha de Ivrea em conserva cobertas de salsinha picada; barrinhas de queijo fontina. N.B. Os cubinhos não devem ultrapassar 1 cm³. Branco e preto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Mostra individual sobre as paredes internas do Estômago de arabescos à vontade, de chantilly pulverizado com carvão de tília. Contra a indigestão mais negra. Pró dentadura mais branca. Terra de Pozzuoli e verde veronês (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Cidras confeitadas, recheadas de sépia frita e picada. Mastigá-los bem como se fossem críticos antifuturistas. Cenouras + calças = professor (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Uma cenoura crua em pé, com a parte fina para baixo, onde serão aplicadas com um palito de dentes duas berinjelas fervidas, na função de calças roxas marchadoras. À cenoura, deixar as folhas verdes na ponta, representando a esperança da aposentadoria. Mandibular tudo sem cerimônias.

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A cozinha futurista Cravos no espeto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Longos finos cilindros de massa folhada. Dispor em fila sobre cada um quatro cravos: branco, rosa, vermelho, púrpura, assados em licor frio ou no Roob Coccola di Zara. Ao comê-los pensar no fenecido estilo floral. Morangomama (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Um prato rosa com duas mamas femininas eretas feitas de ricota rosada ao Campari e bicos de morango confeitado. Outros morangos frescos sobre a cobertura de ricota para morder em uma ideal multiplicação de mamas imaginárias. Cafémaná (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Café de cevada torrada, adoçado com maná. Servi-lo quentíssimo para que os comensais o esfriem assoprando em cada um as piadas mais congelantes. Senado da digestão (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Quatro comensais pedirão cada um duas conhecidas comidas ou bebidas digestivas. Ou então oito comensais, uma cada. Os outros convidados votarão secretamente contra uma ou outra. Resultará vencedora aquela que obtiver menos votos contra.

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Fillippo Tommaso Marinetti Aeroplano libanês (fórmula do piloto-aviador, poeta e aeropintor futurista Fedele Azari) Castanhas confeitadas imersas por 2 minutos em água de Colônia e depois por 3 minutos no leite, então servidas sobre uma papa (cinzelada em forma de delgado aeroplano) de bananas, maçãs, tâmaras e ervilhas. Reticulados do céu (fórmula do aeroescultor futurista Mino Rosso) A base é um disco de bala de cereja. O cilindro grande: Três folhas de massa folhada recheadas com polpa de tamarindo e cobertas por fondente de chocolate. O cilindro pequeno: coroas de merengue sobrepostos cobertas com fondente de tangerina. O centro do cilindro superior contém chantilly com polpa de tamarindo e pistaches descascados. A asa é bala de tangerina. Pouco antes de ser apresentado à mesa o doce deverá ser coberto com fios de açúcar verde. Antepasto intuitivo (fórmula Senhora Colombo-Fillìa) Esvazia-se uma laranja em forma de cestinha na qual se dispõem qualidades diferentes de salame, manteiga, cogumelos em conserva, anchovas e pimentas verdes. A cestinha perfuma de laranja os diversos elementos. Dentro das pimentas escondem-se bilhetinhos com frases de propaganda futurista ou frases surpresa (por exemplo: “O futurismo é um movimento anti-histórico”- “Viva perigosamente”- “Médicos, farmacêuticos e coveiros, com a cozinha futurista ficarão desempregados”, etc.)

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A cozinha futurista Leite à luz verde (fórmula da senhorita Germana Colombo) Em uma grande tigela de leite frio imergem-se algumas colherinhas de mel, muitos grãos de uva preta e alguns rabanetes vermelhos. Comer enquanto uma desluz verde ilumina a tigela. Beber juntamente uma polibebida feita com água mineral, cerveja e suco de amoras. Faisão futurista (fórmula do aeropoeta Dr. Pino Masnata) Assar um faisão bem esvaziado, depois deixá-lo uma hora em banho-maria no moscato de Siracusa. Depois uma hora no leite. Recheálo com mostarda de Cremona e frutas cristalizadas. Aeroporto picante (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Uma camada de salada russa com maionese coberta de verde. Em volta medalhões variados compostos de pãezinhos recheados de laranja, clara de ovo e frutas mistas. Com manteiga tingida de vermelho e anchovas ou sardinhas formar no campo verde perfis de aeroplanos. Estrondos ascensionais (arroz com laranja) (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Risoto em branco com molho luminoso: o molho é composto de ossos de vitelo cozido em marsala e um pouco de rum, casca de laranja cortada em tirinhas finas, fervidas com gotas de vinagre. Acrescentar suco de laranja. Perfumar com “molho nacional”, que se encontra no comércio.

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Fillippo Tommaso Marinetti Fuselagem de vitelo (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni)Fatias de vitelo encostadas na fuselagem montanha composta por castanhas cozidas, cebolinhas e lingüiças. Tudo coberto de pó de chocolate. Aparições cósmicas (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Ervas-doces, beterrabas, brócolis, cenouras amarelas sobre um pastel de espinafre. Acrescentar cabelos de anjo de açúcar. Os legumes são cozidos cortados em formato de estrela, lua, etc e servidos na manteiga. Aterrissagem digestiva (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Com papa de castanhas cozidas em água com açúcar e favas de baunilha formar montanhas e planícies. Por cima, com sorvete de creme de cor azul, formar camadas de atmosfera sulcadas por aeroplanos de massa podre inclinados em direção ao chão. Mamas italianas ao sol (fórmula da aeropintora futurista Marisa Mori) Formam-se duas meias esferas cheias de pasta confeitada de amêndoas. No centro de cada uma apóia-se um morango fresco. Então se derramam na bandeja zabaione e zonas de chantilly. Pode-se cobrir tudo com pimenta-do-reino forte e guarnecer com pimentas vermelhas. Algaespuma tirrena (com guarnições de coral) (fórmula de aeroceramista futurista Tullio d’Albisola, PoetaRecord de Turim)

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Congelar. e uma constelação de grãos de romã madura. deixando-a endurecer.. Quando limpa. O centro do abacaxi é coberto por uma camada de atum sobre a qual se apóia uma meia noz. Decorar os lados com angélica cândida em forma de coroa e a parte posterior com castanhas confeitadas.A cozinha futurista Prende-se um maço de algas marinhas de recentíssima pesca de rede. O todo. Acordaestômago (fórmula do aeropintor futurista Ciuffo) Uma fatia de abacaxi sobre a qual dispõe-se um raio de sardinhas. Pulveriza-se a folha com açúcar e espuma-se com uma onda de chantilly. gomos de ouriços do mar pescados sob lua cheia. será servido à mesa apenas pronto. advertindo que a pesca não tenha ocorrido nas vizinhanças de fossas ou desaguadouros porque a referida alga assimila facilmente os maus cheiros. preenchendo o vazio com uma bavaroise de baunilha. Bomba à Marinetti (fórmula do cozinheiro futurista Alicata) Revestir uma forma de bomba com gelatina de laranja decorando a parte da cúpula com pequenos morangos. esfregar no suco de limão. Cobrir a decoração com uma camada de gelatina. com brodo ondeado e coberto por uma folha de celofane azul. 249 Cozinha futurista. fresco.indd 249 7/4/2009 15:51:28 . A guarnição de corais será obtida com um monte de cachos de pimentas vermelhas picantes. lava-se e enxágua-se em abundante água corrente. gomos de laranja e limões confeitados. Revestir o vazio com biscoito tipo inglês dando forma quadrada. sobre um prato redondo plano. arquitetado e arabescado com arte. desenformar e servir com uma guarnição de meios damascos com gelatina.

Meio copo de Asti espumante. Um ritual (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Um pequeno cilindro oco de gelo coberto externamente de mel. eqüidistantes: um montinho de amêndoas torradas. No centro do pratinho. café torrado. Em seu interior e no fundo: sorvete de creme. O regenerador (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Uma gema de ovo. que comprimem bananas e anchovas. de espessura) como divisor impermeável. fatias de banana. anchovas. licor Strega. um copo contendo: vermute. fatias de tomate. Dentro: fatias de banana. depois amendoins de Chivasso. Avanvera (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Sobre um pratinho de alumínio. com mostarda espalhada em sue interior.Fillippo Tommaso Marinetti Doceforte (fórmula da Senhora Barosi) Entreosdois formado por duas fatias de pão com manteiga. tudo regado de vermute e licor de menta. Sobre: leite com mel ou mel (1 cm.indd 250 7/4/2009 15:51:28 . Sobre o mel: alquermes. Fogonaboca (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) No fundo do copo: uísque com marascas em conserva. 250 Cozinha futurista. conhaque. fatias de queijo parmesão. vermute e licor Strega. pedaços de abacaxi. com o interior também espalhado de mostarda. previamente imersas em pimenta Caiena.

Vernazza) 4/8 de vinho Vernaccia 3/8 de vermute 1/8 de aguardente Tâmara pouco madura recheada de mascarpone empastado com licor Aurum (Pescara). Três colherinhas de açúcar. emblema fascista tomado da antiga Roma 251 Cozinha futurista. aparecerão no líqüido os olhos de gordura depositadas pelo presunto: neste caso a polibebida poderá ser intitulada “aquele porco que pisca os olhos”) 13 Talvez o fascio lictório. cozidos previamente em água. distribuídas como estrelas: um pepino. A tâmara assim confeitada é envolta em finas fatias de presunto cru e depois em folhas de alface. (Introduzir-se-á o palito no copo. Simultânea (polibebida do futurista Dr. O lictório13 (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Diferentes caules de cardo ou salsão do comprimento de 10 cm.A cozinha futurista Três nozes torradas. O interior do cilindro recheado com carne moída. Sobre a semi esfera de arroz.indd 251 7/4/2009 15:51:28 . Tudo enfiado em um palito sobre o qual se enfilará também uma pequena pimenta vermelha em conserva recheada de queijo parmesão em pedacinhos. Tudo batido por 10 minutos. um pedaço de banana. um pedaço de beterraba. óleo sal pimenta. dispostos direitos de modo a formar um cilindro vazio. Fixados: embaixo por uma semi esfera de risoto branco e em cima por um meio limão. Apresentado em um copo dentro do qual se dispõe uma banana descascada e visível..

uma anchova coberta por uma tirinha de banana.indd 252 7/4/2009 15:51:28 . Cozimento rápido para manter o forte da bebida. sobre a qual são traçadas algumas linhas com molho de tomate misturado com rum. Chuleta-tênis (fórmula do futurista Dr. Temperado o risoto. Para formar o cabo da raquete. 14 militante da causa fascista 252 Cozinha futurista. Vernazza) Bife de vitelo cozido na manteiga e cortado em forma de encordoamento de raquete: na hora de servir.Fillippo Tommaso Marinetti Risoto Trinacria (fórmula do futurista Dr. Depois bolinhas esféricas perfeitas com cereja em conserva (sem o cabinho) envoltas com massa de ricota. acrescentar e misturar algumas azeitonas verdes e guarnecer com gomos bem limpos de tangerina. cobrir com uma fina camada de massa (feita de mascarpone amassado com nozes trituradas). ao qual se acrescentará: pedacinhos de barriga de atum em conserva e tomate em mínima quantidade. ovos. Vernazza) Filé de peixe entre dois grossos discos de maçã: tudo coberto de rum e flambado no momento de servir. Vernazza) Arroz cozido normalmente. queijo e noz moscada. Molho preparado com a fritura de pouca cebola e manteiga. Bocado “squadrista”14 (fórmula do futurista Dr.

espinafres.A cozinha futurista Aerovianda atlântica (fórmula do futurista Dr.indd 253 7/4/2009 15:51:28 . Sobre a superfície branca dispor longas fatias de banana e no centro meia tâmara recheada de licor Aurum amassado com amêndoas doces e amargas trituradas. Rosas diabólicas (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. Vernazza) Zabaione duro gelado em um prato fundo. de farinha suco de meio limão uma colher de azeite 253 Cozinha futurista. Vernazza) Pasta de legumes (lentilhas. etc) de cor verde clara. fatias de laranja embebidas em marasquino Zara. Entre o zabaione e o chantilly. Por cima dispor (um por comensal) aeroplanos formados por: folhadinhos de formato triangular (asas) – cenoura cortada de comprido (fuselagem) – cristas de galo cozidas em manteiga (leme) – bergamotas cortadas em discos e colocadas em pé (hélice). Esquiador comestível (fórmula do futurista Dr. Por cima: uma camada de chantilly. ervilhas. Dos dois lados desta composição que lembra esqui: discos de fruta cristalizada dentro do qual está enfiado um grissini doce.

) Doce Mafarka (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 50 gr. Sirva-os à mesa quentíssimos.Fillippo Tommaso Marinetti Misture bem os ingredientes citados e forme assim uma massa não muito densa. e levem ao gelo. depois de ter cortado o caule na altura do cálice.indd 254 7/4/2009 15:51:28 . de arroz 2 ovos Casca de limão fresco 50 gr. (Indicadíssimos para recém-casados. Tirem-no fogo e. e viva o aço! 254 Cozinha futurista. Quando estiver bem deaço sirvam-no com biscoitos finos. de café Açúcar a vontade 100 gr. depois coloquem o arroz e cozinhem-no muito seco e al dente. quando estiver frio. jogue lá dentro rosas vermelhas aveludadas despetaladas. Bom apetite. a água de flor de laranjeira. ralem dentro a casca do limão e espalhem. de água de flor de laranjeira ½ litro de leite Cozinhem no leite o café e adocem a gosto. e frite-as em azeite fervente como se usa para fazes alcachofras à la jedia. – Veja a fórmula seguinte. comam à meia-noite em janeiro. despejem-no assim em uma forma. especialmente se vêm cobertas do doce futurista Mafarka. misturando bem.

Pulo de áscaro15 (fórmula do futurista Giachino. de mussarela de búfala 6 anchovas 25 gr. meia anchova. proprietário do Santopaladar) Cozer uma coxa de carneiro com louro. alecrim e alho. Quando o preparado estiver bem frio. de manteiga 100 gr. 2 ou 3 azeitonas sem o caroço. incorporando-o bem. 15 Pejorativo. 3 ou 4 alcaparras.indd 255 7/4/2009 15:51:28 . 255 Cozinha futurista. de alcaparras 100 gr.A cozinha futurista Bombardeamento de Adrianópolis (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. Depois que o arroz for tirado do fogo misturem imediatamente um ovo. e uma pitada abundante de pimenta do reino. e depois passem em farinha de rosca e fritem. pimenta. darão a forma de uma esfera. dividam-no em 10 partes. e aproximadamente na metade do cozimento acrescentar a manteiga e sal suficiente. banhem-na no outro ovo que já foi batido. de azeitonas 50 gr. soldado da colônia italiana em Eritréia. e em cada uma destas incorporarão uma fatia de mussarela. de arroz ½ litro de leite Coloquem para cozinhar bem al dente o arroz no leite. A cada parte. assim preparada.

Arroz verde (fórmula do futurista Giachino. cogumelos em conserva.indd 256 7/4/2009 15:51:28 . proprietário do Santopaladar) Sobre um fundo de espinfre servir arroz branco fervido e temperado com manteiga e recoberto por um denso creme de ervilhas e pistaches em pó. escorrê-la. fatias de abacaxi e manteiga. atum. vinho branco seco e suco de limão. proprietário do Santopaladar) 256 Cozinha futurista. e acrescentar à carne tâmaras recheadas com pistaches salgados. Ovos divorciados (fórmula do futurista Giachino. pepinos. Unir as duas extremidades do presunto e mantê-las fechadas com filés de anchova. proprietário do Santopaladar) Sobre uma larga fatia de presunto colocar salame cru. recheada com geléia e servida em um brodo de rosas quentes realçado por gotas de água de Colônia italiana. proprietário do Santopaladar) Sobre um creme de ervilhas dispor um filé de vitelo cozido em manteiga. Aplacafome (fórmula do futurista Giachino.Fillippo Tommaso Marinetti Cozida a coxa. uma fatia de presunto e uma fruta cristalizada. Verter sobre o filé molho de tomate e acrescentar um anel de maçã. Compenetração (fórmula do futurista Giachino. Sopa zoológica (fórmula do futurista Giachino. proprietário do Santopaladar) Massa em forma de animais composta de farinha de arroz e ovos. alcachofrinhas. azeitonas.

257 Cozinha futurista.A cozinha futurista Dividir na metade ovos cozidos extraindo intactas as gemas. Bananas surpresa (fórmula do futurista Piccinelli. Levar ao fogo em uma caçarola com manteiga e acrescentar um pouco de caldo de carne. Passar os nabos recheados em gema de ovo e no pão ralado e cozê-los ao forno. licor Campari e anis com essência de Rosas Brancas. Boca de fogo (fórmula do futurista Giachino. cebolas e alecrim. Servir com legumes. Voltar ao fogo com meio copo de suco de ameixa. Depois acrescentam-se seis ameixas sem caroço recheadas com amêndoas. proprietário do Santopaladar) Pequenos nabos novos fervidos por 10 minutos com louro. deixando cozinhar até secar. proprietário do Santopaladar) Misturar à medula de ossobucos dourados em manteiga farinha de rosca. Rosabranca (fórmula do futurista Giachino. nozes e uma baga de zimbro. proprietário do Santopaladar) Doses diferentes de laranjada.indd 257 7/4/2009 15:51:28 . Tornar novamente ao fogo com um cálice de vinho branco seco e suco de limão. Dispor as gemas sobre uma pasta de batatas e as claras sobre uma pasta de cenouras. cozinheiro do Santopaladar) Fazer um furo em todo o comprimento de uma banana descascada e enchê-lo com carne de frango moída. Nabo-carteira (fórmula do futurista Giachino. Cortá-los depois como carteiras e recheá-los com anchovas banhadas em ovo e rum.

Fillippo Tommaso Marinetti pequenO diciOnáriO da arte cozinhária futurista Castanhas confeitadas: substitui marrons glacê Comperfume: termo que indica a afinidade olfativa de um dado perfume com o sabor de uma determinada vianda. Comrumor: termo que indica a afinidade rumorística de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: a conmúsica do carnescultura e o balé “HOP-FROG” do maestro futurista Franco Casavola. Conmúsica: termo que indica a afinidade acústica de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. Comtátil: termo que indica a afinidade tátil de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o comrumor do arroz ao molho de laranja e o motor de motocicleta ou o “despertar da cidade” do rumorista Luigi Russolo. exemplo: o comperfume da massa de batatas e a rosa.indd 258 7/4/2009 15:51:28 . 258 Cozinha futurista. Exemplo: o comtátil da pasta de bananas e o veludo ou a carne feminina.

Desmúsica: termo que indica a complementaridade de uma dada música com o sabor de uma dada vianda.indd 259 7/4/2009 15:51:28 . uma importante decisão. Desrumor: termo que indica a complementaridade de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. Desperfume: termo que indica a complementaridade de um dado perfume com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o desrumor do “Mar da Itália” e o chiado do óleo fritando. Destátil: termo que indica a complementaridade de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. 259 Cozinha futurista. Consumado: substitui CONSOMMÉ. Exemplo: o desperfume da carne crua e o jasmim. Exemplo: o destátil do “Equador + Pólo Norte” e a esponja. após breve mas profunda meditação. Exemplo: a desmúsica das tâmaras com anchovas e a Nona Sinfonia de Beethoven. dos refrigerantes e da espuma do mar.A cozinha futurista Comluz: termo que indica a afinidade óptica de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Decisão: nome genérico de polibebidas quentes-tônicas que servem para tomar. Exemplo: a comluz do “porcoexcitado” e um relampejar vermelho.

Lista ou Listadepratos: substitui MENU. Mexedor: substitui BARMAN.indd 260 7/4/2009 15:51:28 . Fumatório: substitui FUMOIR. Inventina: nome genérico de polibebidas refrescantes e levemente embriagantes que servem para encontrar fulminantemente uma idéia nova. Exemplo: a desluz de um sorvete de chocolate e uma luz laranja quentíssima. Guiapaladar: substitui MAÎTRE D’HOTEL. Mistura: substitui MÉLANGE. Fondentes: substitui FONDANTS.Fillippo Tommaso Marinetti Desluz: termo que indica a complementaridade de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. 260 Cozinha futurista. Guerranacama: polibebida fecundadora.

Polibebida: substitui COCKTAIL. Sala de chá: substitui TEA-ROOM Sganasciatore: personagem futurista que tem por tarefa alegrar os banquetes oficiais. Pasta: substitui PURÉE Almoçoaosol: substitui picnic.indd 261 7/4/2009 15:51:28 .A cozinha futurista Paznacama: polibebida sonífera. Paraselevantar: substitui DESSERT. Pasticho: substitui FLAN. Cedonacama: polibebida aquecedora invernal. 261 Cozinha futurista. Aquisebebe: substitui BAR.

indd 262 7/4/2009 15:51:28 .Fillippo Tommaso Marinetti Entreosdois: substitui SANDWICH Sopa de peixe: substitui BOUILLABAISSE 262 Cozinha futurista.

ConClusão O Cozinha futurista.indd 263 7/4/2009 15:51:28 .

indd 264 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

agora. O Futurismo. Cinema e. olfato e paladar. primeiro grande movimento literário do século na Itália. Os representantes do Futurismo procuraram se manifestar em relação a diversas esferas da arte e cultura. passando da Literatura à Pintura. audição. Arquitetura.O objetivo deste trabalho foi proporcionar ao leitor de língua portuguesa e aos estudiosos do Futurismo o acesso a uma obra importante do movimento. a euforia dos homens pelas multidões. também à Gastronomia. Teatro. de Filippo Tommaso Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”.indd 265 7/4/2009 15:51:28 . no início. Esta trazia. oferecia novos modos de expressão para representar a nova sociedade que se formava a partir do final do século XIX. Escultura. Todos os sentidos foram privilegiados pelos manifestos: visão. propiciando assim um contato maior com o mundo modernizado que se lhes apresentava. pelas 265 Cozinha futurista. embora praticamente desconhecida e ainda não publicada no Brasil: A cozinha futurista. tato. pelas máquinas. além de outros doze polemicamente instituídos por Marinetti no manifesto de 1921.

ou pior. A trajetória do Futurismo segue a História. na população. se não excita o apetite. passando para a Idade Média esfomeada. Além de conter o polêmico manifesto. para sustentar a tese de que “macarrão não faz bem aos italianos”. a saber os manifestos do Futurismo e Técnico da Literatura Futurista. são postos em prática pelo autor. ou fúria. com receitas assustadoras. Certas descrições. certamente mantém o bom humor à mesa. com fartura em grandes banquetes. além de revigorar a raça. ajudaria a fortalecer a economia. O resultado é a estranheza de algumas construções sintáticas e a inovação do vocabulário. que muitas vezes refutam os pratos inovadores. A expressão da gastronomia na literatura não é novidade: desde as antigas civilizações. A cozinha futurista é um livro intrigante.indd 266 7/4/2009 15:51:28 . revelam aos poucos a intolerância de Marinetti para com os hábitos tradicionais. Os argumentos econômicos de Marinetti soam bastante convincentes: modificar os hábitos alimentares. aparentemente incompreensíveis. Algumas das regras contidas no “Manual de Redação e Estilo Futurista”.Fillippo Tommaso Marinetti indústrias. O otimismo. permeando o Renascimento e toda a literatura 266 Cozinha futurista. nada melhor que uma linguagem adequada. Propuseram modificar o hábito mais arraigado da tradição italiana – o macarrão – para despertar interesse. O Manifesto da Cozinha Futurista aparece como grito desafiador de um movimento que não atingia mais os seus objetivos. pelos avanços científicos e pelos meios de comunicação e. ingerido certas iguarias. faz imaginar se alguém já teria preparado. traz inúmeras opiniões. Para evidenciar o futurismo proposto. a euforia e o impacto iniciais foram perdendo força na medida em que deixaram de ser novidades. o homem moderno alienado pela cultura de massas. mais tarde. O receitário futurista. A forma dos pratos. A cozinha italiana nunca mais seria a mesma. Os artigos de jornais fazem transparecer o “passadismo” dos estômagos. aproximam-se da política para garantir a subsistência do movimento enquanto se afastam da vanguarda literária. de pessoas inusitadas.

Op. desejavam fundar um movimento nacional. seria algum cozinheiro famoso. O Futurismo italiano e o Modernismo brasileiro foram aproximados neste trabalho a partir do viés culinário-antropofágico. As coincidências culinárias . O “encontro” dos três autores propiciou o questionamento sobre as possíveis interferências da obra de um na obra do(s) outro(s). e que continuou importando cultura por ainda mais cem anos. simbologias e objetivos diferenciados. desde a declaração de Mário de Andrade: “Gosto porém muito de arte culinária. p. Não queriam ser discípulos do movimento europeu. e até a um canibalismo inesperado em Marinetti. nome que rejeitaram pouco tempo depois. para cada um. invento pratos e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe. Boas surpresas foram colhidas ao longo do processo. mas permitem que aproximemos e comparemos afinidades. embora a digestão da carne humana tenha. Oswald de Andrade e Mário de Andrade – as referências à culinária em si e ao canibalismo real.”1. por não refletir o exato perfil de seus participantes. metafórica ou não – revelam uma preocupação comum. temas e formas de composição literária. Os escritores brasileiros que revolucionaram as artes no início do século chamaram-se no início de futuristas. independente.22 267 Cozinha futurista. Buscou-se nos três autores trabalhados – Marinetti. 1 Andrade. aos convites-cardápio de Oswald.que poderiam ser chamadas de influência ou contribuição – situam-se apenas no campo da suposição. cit.A cozinha futurista subsequente. O banquete. Mario de. que atendesse aos anseios de um país – ex-colônia de Portugal por mais de três séculos. os livros trazem com bastante freqüência o prazer da mesa para suas páginas.ingestão de carne humana. significados. Estas interferências . metafórico e intelectual.indd 267 7/4/2009 15:51:28 .

um autor que analisou e criticou sua nação. sendo praticamente reduzido aos seus manifestos. participando da construção de uma nova sociedade para o novo século.indd 268 7/4/2009 15:51:28 . Colecionando histórias de índios e organizando-as num herói nacional. A obra literária de Marinetti é vasta e interessante. embora os títulos sejam pouco conhecidos ou lidos. Esperamos que este livro “cozinhário” possa contribuir com os estudos feitos tanto na área gastronômica quanto na literária. 268 Cozinha futurista. Colecionando fotos e bilhetes. Infelizmente este trabalho não pode ir além da Cozinha. estudioso de vários campos das artes. parece ser a forma de composição comum aos três autores nas obras aqui estudadas.Fillippo Tommaso Marinetti O pastiche. merece mais atenção por parte dos pesquisadores. Há uma espécie de preconceito em relação ao escritor. colando-os num diário. De qualquer forma. reproduzindo-os num grande livro. ou talvez outros se aventurem pela obra marinettiana. Colecionando recortes de jornal e receitas de amigos. a verificar todos os incômodos que este suscitou. A partir da leitura das obras literárias de Marinetti pudemos observar que o escritor é muitas vezes esquecido. talvez pela idéia corrente de que teria servido ao regime fascista de Mussolini. e que desperte em outros estudiosos o interesse por esta figura tão contraditória e interessante do Futurismo italiano. como Marinetti. Talvez Marinetti tenha somente se servido do regime. como fez Oswald. Talvez em outro trabalho possamos verificar a invasão futurista nos outros cômodos da casa. a colcha de retalhos. como cantou Mário.

reFerênCIAs bIblIográFICAs K Cozinha futurista.indd 269 7/4/2009 15:51:28 .

indd 270 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

Re Baldoria: tragedia satirica in quattro atti. ___________. e FILLÌA. 1969. 1970. 1980.indd 271 7/4/2009 15:51:28 . Milano: Giuseppe Morreale. Lausanne: L’Âge d’Homme. Milano: Fratelli Treves. Filippo Tommaso. Milano: Monddori. Milano: Mondadori. Les mots en libertés futuristes. Materiais para o estudo do Futurismo russo e do Futurismo italiano. 1969. 1927. ___________. São Paulo. Un ventre di donna: romanzo chirurgico. 1920. e ROBERT. L’alcova d’acciaio. Luigi Colombo. 1998. Milano: Facchi. Bibliografia específica sobre Futurismo BERNARDINI. 3ª. Teoria e invenzione futurista. 1919. introduzione. 1931. Novelle colle labbra tinte: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta.reFerênciAs bibLiOGráFicAs Bibliografia específica de Marinetti MARINETTI. Milano: Cristhian Marinotti Edizioni. Spagna veloce e toro futurista. Filippo Tommaso. Paris: C. 1984. testo e note a cura di Luciano De Maria. ___________. Mondadori. MARINETTI. Milano: Mondadori. Lausanne: L’Âge d’Homme. Ed. La grande Milano tradizionale e futurista. La cucina futurista. ___________. 271 Cozinha futurista. Dissertação de Mestrado. 1987. Milano: A. Aurora Fornoni. 1930. Mafarka. ___________. ___________. prefazione di Aldo Palazzeschi. MARINETTI. Le futurisme. Milano: Mondadori. le futuriste. 1968. ___________. ___________. in prosa. Milano: Sonzogno. Filippo Tommaso. ___________. Bourgois. Il tamburo di fuoco. Signora Enif. 19--. Una sensibilità italiana nata in Egitto. ___________.

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ApêndICe U Cozinha futurista.indd 281 7/4/2009 15:51:29 .

indd 282 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

ApêndICe 1 CApAs do lIvro A CozinhA FuturistA eM dIFerentes edIções e trAduções Capa do livro na edição espanhola Capa do livro na edição em língua inglesa Capa do livro em edição norueguesa Capa do livro na edição italiana de 1932.indd 283 7/4/2009 15:51:29 . Capa da edição em alemão 283 Cozinha futurista.

abbacinante di audacia eroica e di maffia insolente che sappia correre più di loro. con un passo più veloce del loro. l’ineluttabile fatalità della guerra. lo slancio e la você alta e il coraggio temerario d’un capo ardito! Un capo. Tu senti la tristezza e la noia di riprendere ancora il fucile e di costatare colla necessità di uccidere. Tu li conosci bene. poiché ognuno ha una spiccata personalità. il gesto. Bisogna sopratutto ricompensarli a tempo. Fedeli come mastini. Affretati di conoscrle bene tutti. Così. superiore in tutto. l’occhio. in questa città di avventurieri rapaci e di operai ribelli nel rombo catarroso delle officine che hanno l’eterno ritmo asmatico? A II anni di distanza eccoci di nuovo lanciati in una nuova conflagrazione. comandarli in guerra! Ocorre per questo avere l’anima. Comprendo prefettamente quanto ti proccupi il dover raggiungere l’esercito al fronte. Questa volontà deve irrigidire I nostri nervi contro ogni viltà sentimentale. Bisogna spesso prenderli a pugni.indd 284 7/4/2009 15:51:29 . non esagerare la tua angoscia. abbandonando la tua dolce amica in questa città turbulenta e caotica. Coraggio! su! la lotta sarà breve e decisiva. senza dogmatismo disciplinare e senza rancore. ma rapidamente senza ingiustizia.Apêndice 2: cOme si nutrivA L’ArditO Via. Cozinha futurista. attraverso boscaglie di pericoli. Come potrà vivere quella bella camelia fragile senza la calda ovatta del tuo amore. Fra tre giorni ti troverai nel tuo reparto d’assalto fra quei terribili arditi verdirossi. e scatenarli spesso contro il nemico da ammazzare! Mestiere difficile. si può portarli contro le morti più spaventose. ceffi spavaldi selvaggi tracotanti e giocondi che hanno già superato in ferocia tutti I Marat e in eroismo tutti gli arditi grigio-verdi dell’ultima guerra. Sono belve indomabili ma generosissime.

Neanche un pezzettino.Tutti con me! Fate silenzio! Silenzio! Silen…zio! Silen…zio!… Quando saremo nell’acqua. grandi occhi neri dolcissimi.No! No! non voglio aprire il mio zaino. bestemmiano.indd 285 7/4/2009 15:51:29 . Ne prende uno per il collo. fetenti! Mascalzone! Te la cucinerò io. Il caporale dice che ho dentro un pezzo di carne salata. Signor tenente. Succhiasassi. Ringhiano. Non posso. Scoppierà subito una lite nei ranghi: è Guzzo che grida: .Fissati bene nella memoria I nomi anzi I soprannomi di quegli eroi: vampa. Cozinha futurista. Con scatto viperino l’ardito si volta e morde la mano. non la tocchiamo. vogliono vedere la carne salata. cazzotti sfollatori. Assassino. signor tenente! A lei non può piacere. Al fiume prima tappa. un pezzettino! Guzzo. lasciala vedere. Fulmine. ruzzoloni. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra. Setteferite. Bruciapreti. Interviene il tenente comandante del reparto con calci e schiaffi. Guzzo. è vero! Ho dentro lo zaino la carne salata. non è rubata! Me la voglio mangiare tutta io! Non mi permetto di offrirla a lei. Ma la mano potente stringe meglio la gola e la belva cede. fez rossi. è troppo amara! Tutti gli arditi circondano Guzzo con lazzi gridi ingiurie. minacciano gli arditi verdirossi. vero Sareceno magro agile scattante. silenzio assoluto! Seguitemi e guardate il mio braccio destro. ma è mia. Ti raccomando un certo Guzzo di Trapani tutto nero. Tutto è domato. cedendo a poco a poco ed incanalandosi con spintoni e risate dietro il tenente che grida: . risponde Guzzo irato. Spaccafucili. la tua carne salata! Scoppia la rissa: arruffio di braccia. Si guazza a mostrarla.

Non ti vede. Guzzo in ginocchio. Lo investe sfarzosamente. Velluti carnali con pallori umani che vibrano. Corrono dei riflessi furbissimi. a tua scelta. L’acqua s’infiamma di mille estasi. tutto acceso di Cozinha futurista. case color smeraldo. Se guida meglio così il proprio destino e si tien meno legata la propria vita ai fili sparsi della Fortuna. svegliando miracolosamente fogliami e fusti fantastici d’argento lieve. A un metro a destra Guzzo è in ginocchio. Tutti a terra nel fango e nell’acqua. Ecco. pieno di ombre lunghe come cappellacci a sghimbescio sugli occhi gelati del fiume. a un metro da Guzzo. urla la sua gioia bianca. Davanti a te un ardito ammantellato. Guzzo fruga sempre nel suo zaino. si incrociano. s’arricchisce di diamanti. La colonna degli arditi si ferma dietro al braccio destro del tenente. forme spettrali. implorano. isolotti di giaccio. Due minuti dopo russa catarrosamente con un rumore acqueo che domina lo sciacquio del fiume.Tu puoi allora. carponi. metterti in coda al reparto o prendere la testa. Ha lo zaino più pesante. I piedi diguazzano e flic-flaccano nel pantano. paesaggi d’oro liquido. Non si crede veduto! Ad un tratto due proiettori si accendono sulla riva nemica. Sembrano pezzi di nave impennati che affondino. nel fango. ma è forte e conosce bene I guadi. curvo sul suo zaino. poi si ferma. Fruga dentro. Siete delle ombre umane che si acqattano.indd 286 7/4/2009 15:51:29 . Si sforza di aprirlo. striscia. Gorghi di pupille ardenti. Uno specchio d’acqua breve poi una piccola lingua di terra grigia quasi bluastra nel violaceo comosso crepuscolo. ecco il primo fascio di luce è a due metri. spiagge di madreperla. Lo apre. Sopra giganteggiano i tronconi del ponte saltato. Nasce la luna con gioielli rubati all’acqua bollente di risate. mentre la forbice tagliente formata da due proiettori si apre con lento mistero. È preferibile camminare in testa. Tappeti veloci di zaffiri e smeraldi. Troverai fra I più arditi verdirossi Guzzo. Sono due scope lunghe d’argento polverulento.

giù giù su te. è assorto.Cara. tutti I diamanti. Ora tu apri le tue braccia che non hai più e mi tendi le labbra che non hai più! Ti terrò con me sotto le mie labbra ancora un’ora. tutti I velluti. Si! Si! Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. nel tuo calore rovente umido succiante! Paradiso inferno iddio mio. con te. carponi. Vedi? Tutto è bello intorno a noi. perché non ti bruci contro le sbarre furenti precise dei tiri di mitragliatrice… Sono capitombolato giù dal cielo disperato nero. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. tutte le sete. Le mammelline tonde soavi vive. estrae dallo zaino qualcosa che splende più di lui. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. E c’è pure la musica. Umana. squartato e rullante della mia vita morta. Ha veramente fra le mani un pezzo di carne. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non aprla più! Il ventre umile. Avvicinati! Non ti sente. Musiche e splendori! Le cose più ricche. la musica che sale. Spargonointorno le belle rose granate che scoppiano profumando… Bella! Cara! Mi vuoi? Mi vuoi? Oh! Sento che mi vuoi! Sento che mi desideri. Sono caduto giù dall’alto dei miei eroismi. mio mio! Bevo l’infinito in te. in alto sopra di noi. sulla riva nemica… Tu sei l’unica mia gioia calda in questa notte gelata! Ti porterò sulle spalle senza farti male e camminerò curvo. né spaventarti.indd 287 7/4/2009 15:51:29 . timido. sono qui con te.splendori. Fischiano gli angeli di fuoco sul nostro letto. Tu con calma guardalo bene. piena d’ogni speranza e di ogni benedizione!” ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Cozinha futurista. in te. Guzzo mormorava: . Cosi pure il collo. poi andremo insieme avanti. tremano. senza stupirti. ingenuo. immensa divina. le vesti più belle! Tutte le perle. piccola. scende risale sotto le volte della cattedrale. giù! La morte ci dà quest’ultima notte di festa.

e con você flebile di donna ripete a memoria un brano di lettera: . Piange. Se lo carica sulle spalle e si alza.Portami con te in guerra. di splendore in splendore e si spegne.La mitragliatrice nemica punteggia queste ultime parole. Non amo la testa della donna. Guzzo? Sì.Ho fatto ciò che volevi! Ti ho mangiata la faccia di baci. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. Porta con te la mia carne e baciami giorno e notte. Lo so. Buio. baciami. Lo so. ssssssssss del fiume. Un sibilo lungo. cinghia e lega allo zaino. ma non le donne vive.indd 288 7/4/2009 15:51:29 . piccola. Guzzo si scuote. Gli arditi si ammucchiano poi davanti nel guado che sognando travolge succhia mastica raggi di stelle. Tu devi allora appoggiare la mano sulla spalla di Guzzo e parlargli: Ti piaciono le donne. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? Cozinha futurista. né i suoi piedi. Il fascio di luce scivola lontano. e tutta la tua cara testa coi capelli l’ho mangiata! Le tue gambe. raggomitola ciò che gli tremola luminosamente nelle mani. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. stringe tutto in una pelle nera. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. la fronte. Flic-flac di passi intorno. mangiami la faccia di baci. lontano. I tuoi oiedini santi. divorami. gli occhi. Sei a tre centimetri dalla spalla di Guzzo. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Poi silenzio. sono tua! Tua! Poi Guzzo cambiando voce: . tutto ho mangiato con millioni di baci! E ora sei me stesso! Nelle mie vene il mio sangue ti culla. Vedi.

le sue braccia. Mondadori. Ora porti il resto sulle spalle. voluttuose. In: MARINETTI. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Accidenti alla mitragliatrice! grida Guzzo. Poi avanti! Mentre camminerai fra gli spudorati splendori scandalosi dei proiettori che ti cercano. Novelle colle Labbra Tinte. Colpito cadrà nell’acqua. F. Ti ho visto. su di te. poi svincola il cadavere di Guzzo dalle erbacce e spingilo nella corrente che lo porterà al mare. Tu allora non esitare. Milano. Cozinha futurista. Sempre avanti lo stesso! Guzzo si caccerà con un balzo contro la palla che lo cercava scherzosamente pur volendolo scansare. 1930. amico! Se muoio prendi il mio zaino e seppelliscilo. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!… Grazie. T. le sue gambe.So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. sentirai piangere vicino a te. stacca lo zaino e caricatelo sulle spalle. ti approvo. in te! Piangerà il corpo della bella di Guzzo! E il suo pianto colerà sulla tua schiena a gocce lente.indd 289 7/4/2009 15:51:29 .

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Aos funcionários da Biblioteca. acima de tudo. suporte decisivo. Maria Augusta Fonseca. À Paola pelo apoio e pelas broncas. Lucia Wataghin por ter me orientado com competência. Ao Prof. Drª. À Vera e ao Chef Picard.indd 291 7/4/2009 15:51:29 . à Carla por aturar muitos dias de mau humor. sempre disponíveis em busca de algum livro desaparecido. Alain Mouzart pelas dicas na tradução. Andrea Lombardi e à Profª. Drª. pelo incentivo e por dividirem os segredos de suas cozinhas. embora não compreendendo os dias e noites silenciosos debruçados sobre livros. Ao Rodrigo. abriu para este trabalho os caminhos da antropofagia. companheirismo e paciência enquanto eu me perdia entre receitas possíveis e impossíveis. À Profª. Aos meus pais – Mary e Domingos . acreditando que tudo daria certo. Ao meu irmão Junior pela paciência na solução dos infindáveis problemas técnicos.que. Aurora Fornoni Bernardini pelas sugestões dadas no exame de qualificação. apoiaram à sua maneira. que sem saber. ajudando. à Claudia.AGrAdecimentOs Agradeço à Profª. que mesmo distante se fez tão presente e participante. Ao Prof. por provar que sempre vale a pena lutar pela felicidade. Dr. incentivando e. Drª. Cozinha futurista.

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