A cozinha futurista

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de Filippo Tommaso Marinetti

Introdução, tradução e notas: Maria Lúcia Manicelli

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Edição: Joana Monteleone Assistente editorial e projeto gráfico: Marília Chaves Revisão: Diagramação e capa: Marília Chaves Imagem da capa:

[2009] Todos os direitos dessa edição reservados à ALAMEDA CASA EDITORIAL Rua Iperoig, 351 - Perdizes CEP 05016-000 - São Paulo - SP Tel. (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

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Sumário

Introdução
Futurismo A Gastronomia na literatura: prazeres sinestésicos A cozinha Futurista

MárIo de AndrAde, oswAld de AndrAde e A CozInhA FuturIstA
Mário de Andrade na Cozinha Oswald canibal de Andrade Marinetti Antropófago

A CozInhA FuturIstA e lInguAgeM
O Futurismo: proposta de revolução lingüística A Cozinha Futurista e as inovações na língua Dificuldades da tradução

A CozInhA FuturIstA – trAdução
Uma refeição que evitou um suicídio O manifesto da cozinha futurista A revolução cozinhária Os cardápios futuristas Receituário futurista Pequeno dicionário

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ConClusão reFerênCIAs bIblIográFICAs ApêndICe Capas de diferentes traduções do livro A Cozinha Futurista Come se nutriva l’ardito Cozinha futurista.indd 6 7/4/2009 15:51:16 .

indd 7 7/4/2009 15:51:16 .Introdução A Cozinha Futurista S Uma refeição que evitou um suicídio Cozinha futurista.

indd 8 7/4/2009 15:51:16 .Cozinha futurista.

pôde observar a distância entre discurso e atitude. em 1876. quando estuda Letras na Sorbonne. Educado em colégio católico.O FuturismO Em 20 de fevereiro de 1909. o manifesto atingiria um número maior de leitores. entre colonizadores e colonizados. o colégio Saint-François Xavier. aproxima-se de seus ideais. Aos dezessete anos descobre Paris. convive com os simbolistas e decadentistas. O menino Filippo nasceu em Alexandria. o futuro poeta presenciava a submissão e as condições de vida da população autóctone. Fazendo parte da elite dominadora. uma colônia inglesa no Egito. a revolta contra o status quo social pôde então se desenvolver. Conhece toda a agitação cultural e artística daquela cidade. 9 Cozinha futurista. Estudou em uma escola de jesuítas franceses. Quem assinou o manifesto foi Filippo Tommaso Marinetti. o jornal francês Le Figaro publicou o Manifesto Futurista. Em língua francesa.indd 9 7/4/2009 15:51:16 . fundador e o maior expoente do movimento futurista.

depois tornou-se pai e esposo exemplar. promulga-se anticlássico. é liberal. basta verificar as contradições culturais de seu líder: Marinetti diz-se anticlerical. Havia sim contradições na base do futurismo e. mas cumpre o serviço militar e participa da Primeira Guerra como voluntário. Costuma-se dizer que a história do futurismo confunde-se com a de seu idealizador. Marinetti se forma na Universidade de Gênova em 1899. rompe com todas as tradições e inaugura o estilo das vanguardas do século XX. para entendê-las. o gosto pelo escândalo e o exibicionismo eram arquitetados. mas adere e defende o fascismo. velocidade revolucionaram o mundo e passaram a ser os novos ideais de beleza. o mesmo torna-se impraticável quando se trata de um grupo que deveria estar unido em torno (ou em busca) de um ideal estético/artístico.indd 10 7/4/2009 15:51:16 . sendo depois seguido por Dadá e pelo surrealismo. como forma de difundir os ideais futuristas. a não ser no banco dos réus. O futurismo nasceu sob o signo do mundo moderno. porém. eletricidade. advogado. uma vez satisfeito o orgulho paterno. sua ambição essencial é a de transformar a cultura e literatura italiana. Os primeiros vinte anos do século XX marcam o advento do avião. Mas se os princípios são de caráter universal e seu líder despende forças para difundir os ideais pela Europa e pelas Américas. Se todas essas contradições podem conviver no espírito de apenas uma pessoa. A violência aparece apenas no discurso literário. que ele julga estagnadas. mas suas filhas estudam em colégio de freiras. pessoa gentil no dia-a-dia.Fillippo Tommaso Marinetti Seu pai. é indisciplinado. volta a Paris e nunca mais se envolve com a justiça. Máquinas. do domínio do homem sobre a nature- 10 Cozinha futurista. Marinetti foi um filho afetuoso e dócil. do automóvel. mas veste a farda da Academia. imagina para o filho uma carreira jurídica e o faz voltar à Itália para estudar Direito. Com o Manifesto do Futurismo Marinetti inova. Marinetti.

Como diz Aurora Fornoni Bernardini. desenrolar ininterrupto de sons e de imagens”). a idolatria pela máquina. 1980. São Paulo: Perspectiva. já que os artistas procuram apresentar a realidade em pleno movimento e não nas suas formas essenciais. Podem-se estabelecer algumas datas limítrofes para o Futurismo. e o futurismo se transforma em porta-voz oficial do partido. dessacralizadora. sempre de acordo com a atuação de Marinetti: “de 1905 a 1909. por sua vez. Gilberto Mendonça. e a de 1919 em diante. até 1 2 Bernardini.”2 O crítico Luciano de Maria divide o futurismo de Marinetti em apenas duas fases: o período heróico. A literatura então procura transmitir o espírito do mundo moderno. dividindo-o em três fases. de 1909 a 1919. O futurismo italiano. a primazia do viril ante o feminino. Petrópolis: Vozes. numa poesia febril. defende – além das palavras em liberdade – a exaltação da intuição contra a inteligência. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro.1 Na base do discurso futurista do início do movimento existe um discurso subliminar: uma solicitação antiburguesa. O futurismo literário.A cozinha futurista za. p. o mais fecundo do futurismo.10 Teles. ed. o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (“Stirner mais do que Bakunin”). em que o princípio estético defendido é o verso livre.indd 11 7/4/2009 15:51:16 . os três pilares que sustentam o Futurismo são o verso livre (“perene dinamismo do pensamento. instrumento multiplicador dos poderes do homem. Aurora Fornoni. cheia de gritos que exclamam e interrogam. No plano plástico. 1999. 86 11 Cozinha futurista. o movimento implicou nova ruptura com a tradição. quando se redige a maior parte dos manifestos e se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade. como se o novo precisasse da revolução para se libertar do antigo. p. de multidões e de velocidade. um mundo de máquinas. 15a. a exaltação da energia e da ação. a reação contra os limites e padrões estabelecidos. quando se fundou o fascismo. a reivindicação da valentia e da audácia.

alguns comentários depreciativos em relação ao “carcamano.Fillippo Tommaso Marinetti 1920. Marinetti exerceu inegável influência em todas as literaturas modernas. 12 Cozinha futurista. Mário de & BANDEIRA. Op. de 1920 até 1944. São Paulo: Edusp/IEB.época da primeira visita de Marinetti ao Brasil . Manuel. esta foi assimilada e passou a integrar o modernismo. não teria existido sem o futurismo”3 Entretanto.indd 12 7/4/2009 15:51:16 . 3 4 Bernardini. que veio fazer a gente perder quase metade do caminho andado”. p. Mário de Andrade estava já em desacordo com a postura política de Marinetti e não queria ter seu nome associado à figura do líder futurista/fascista. Eliot e outros. e um “segundo futurismo”. ou “que convém tratá-lo com a maior desimportância até com uma desimportância afetada para que ele não imagine que a gente está indo na onda” 4 Na realidade. 11 ANDRADE. Aurora Fornoni. Podemos pensar que a apropriação. Organização. Correspondência. cit. mesmo tendo esta influência sido negada pelos autores. neste caso. foi oswaldianamente antropofágica: recolhida a influência. é fato que o movimento perdeu sua força inovadora à medida que se aproximava da política. mas a revolução causada pela possibilidade de libertar as palavras das construções sintáticas cristalizadas impregnou de tal modo o espírito modernista brasileiro que estes não vêem nenhuma dependência do futurismo. 2000. A influência existe. pp. “Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado com Joyce. data da morte de Marinetti. como no caso de alguns dos primeiros modernistas brasileiros. Na correspondência de Mário de Andrade a Manuel Bandeira podemos encontrar em carta datada de 14 de maio de 1926 . 294 a 297. introdução e notas: Marcos Antonio de Moraes. O Futurismo foi o primeiro grande movimento intelectual italiano do século e deixou marcas inconfundíveis na estética do mundo moderno ao servir de modelo para inúmeras escolas em diversos segmentos das artes.

gritadas. a provocação.indd 13 7/4/2009 15:51:16 . como: a vontade de apresentar-se como um grupo organizado de artistas militantes. Vêse. Pode-se verificar que há. utilizavam. em tom de discurso inflamado e com uma certa ruptura sintática. Ao mesmo tempo que pregavam a destruição da sintaxe. unidos por um repertório de idéias e valores comuns. ao menos é isso o que a crítica demonstra. sinais gráficos e verbos impecavelmente conjugados. revolucionando-a. mas o tom. pois. a velha sintaxe tradicional. mas mergulhar impetuosamente na vida de todos os dias. Ora. são sim entremeados por reivindicações numeradas de ordem militar. aqui reside o primeiro malogro futurista. Os textos. os modelos de comportamento do passado. a abolição da conjugação verbal. que a real novidade proposta pelo futurismo não é o conteúdo. em nome de uma visão de mundo que se apresenta como totalmente nova. do advérbio e da pontuação. do adjetivo. que provém de uma tradição secular. com adjetivos. 13 Cozinha futurista. no futurismo.A cozinha futurista No Manifesto Futurista. advérbios. Dentre as idéias futuristas encontramos o culto da máquina e da velocidade. existem algumas características que são comuns a outros movimentos de vanguarda. dispondo-se livremente no papel. uma quantidade maior de manifestos do que de obras literárias. a idéia de que a arte não deve permanecer no isolamento. a drástica ruptura com a mentalidade. o gosto. pregando ao mesmo tempo a destruição do passado e sobretudo das literaturas passadas. A teoria futurista não pode ser facilmente aplicada à literatura. em violento conflito com o resto da sociedade. modificando a sintaxe: as palavras não deveriam mais seguir a ordem lógico-sintática. para propor estas novas idéias.

ou então. do tom provocador. Somente o desejo de mudar a realidade é que dá ensejo à aproximação do novo. a contestação integral da linguagem burguesa. São Paulo: Nova Stella/Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/Edusp. da velocidade.. a utopia de uma reinauguração da expressão. p. cit. Gilberto Mendonça.Fillippo Tommaso Marinetti Outra contradição presente no futurismo é a negação do passado literário. o futurismo. do topete e do desafio.485 14 Cozinha futurista. problemas.”6 O futurismo evoluiu (ou talvez tenha involuído) de transformador das artes a meio de comunicação servidor da moral e do fascismo. movimento político que o transformou em instrumento de propaganda. Sabe-se que só existe revolução se há passado. Gustave Kahn. Gilberto Mendonça Teles afirma que o próprio Marinetti “dá como seus precursores os nomes de Whitman.. Paul Adam e outros.) como toda vanguarda. há uma exaltação da técnica que não podemos deixar de relacionar à civilização industrial no ápice de seu desenvolvimento. a arte não é mais representação de mundo. A temática fascista apropria-se do marinettismo e com ele da impetuosidade da linguagem. mas deve ser destruição. Zola. não poderia deixar de se aproximar da revolução fascista. apesar de proclamar em seus discursos a absoluta inovação de suas técnicas. 1989..indd 14 7/4/2009 15:51:16 . contestação do presente. autores.5 Para o movimento. “(. 5 6 Teles. oposição total ao sistema do poder constituído. justamente por isso. (. com sua exaltação eletrizante da máquina como triunfo da vitalidade. Giorgio Barberi (org. de outro. Entretanto. Marinetti usa grande parte das idéias simbolistas e decadentistas para promover os seus manifestos. que estava solidária à grande burguesia industrial propiciadora do desenvolvimento. Op.) decadentes e simbolistas do “fin de siècle”.) Literatura Italiana: linhas. Mas. construção de objetos novos. 87 Squarotti. p. Verhaeren. desmonte sistemático e polêmico do passado. o futurismo oscila: de um lado.. As primeiras intenções contidas no cerne do movimento são transformadas em técnica de oratória e de governo.

limitou-se a poucas e infrutíferas ações literárias. Ed. Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. aparece como o último grande feito marinettiano. Os dias festivos são solenes ou sagrados. e pela repercussão e discussões que provocaram suas inovações. é difícil encontrar um romance no qual não se descreva ao menos uma refeição. T. este manifesto gastronômico nunca foi apreciado com o devido valor pela crítica. consiste numa série de ações constantemente repetidas. Margareth. publicado em 1930 (época em que Marinetti já pertencia a Academia Fascista) por F. Comemorações marcando transições e lembranças quase sempre exigem comida. o futurismo colaborou de forma incisiva para a mudança ocorrida na literatura do século XX e que. O ritual. A julgar pela extensa bibliografia contida na obra A Cozinha Futurista.22 15 Cozinha futurista. era necessário reunir as pessoas para que uma carne (proveniente de caça ou sacrifício) fosse melhor aproveitada.indd 15 7/4/2009 15:51:16 . Entretanto. Rio de Janeiro. como lembra Margareth Visser7.. No início.A cozinha futurista Pode-se dizer que. resumindose a difundir as idéias fascistas.) à volta diária dos caçadores 7 Visser. A refeição em si é um ritual presenciado em todas as culturas. já que encontros sociais são comumente realizados em torno de uma mesa. A GAstrOnOmiA nA LiterAturA: prAzeres sinestésicOs A gastronomia sempre encontrou um campo fecundo na expressão estética. Campus. sendo ao mesmo tempo o comportamento esperado e o correto. 1998.. com toda a cortesia ritual implícita na refeição. já que não havia métodos para evitar que os alimentos se deteriorassem. “(. após essa data. por exemplo. O ritual do jantar. As famílias também se encontram para refeições e este costume remonta a dois milhões de anos. já exausta do cunho propagandista revelado pelos últimos anos do futurismo. Na literatura. A refeição também é habitual e visa à ordem e à comunicação. p. até 1920. o Manifesto da Cozinha Futurista.

renovando suas forças. eles haviam decidido não devorar”. que pode ocorrer de forma compulsória – por empecilhos financeiros pessoais ou carestia em épocas de guerra e recessão econômica –. Desde os alimentos até a bebida que os acompanha. A Fisiologia do Gosto. da beleza da sala de refeição ao tipo de música selecionada para acompanhá-la. O prazer também está diretamente ligado à gastronomia. o homem come. interesse e prazer. este ritual perdeu seu valor econômico e ganhou em sociabilidade. Outro infortúnio relacionado a este prazer é o de sua própria negação. da escolha dos comensais aos assuntos tratados durante a refeição.Fillippo Tommaso Marinetti e forrageadores proto-humanos para dividirem a comida com seus companheiros – aqueles que habitualmente. Com o passar dos séculos. jejuns religiosos ou de emagrecimento. começaram a descobrir todo o prazer que uma refeição pode oferecer.15 16 Cozinha futurista. ou a preguiça e indolência. somente o homem de espírito sabe comer. para certos indivíduos que digerem as substâncias de forma diferenciada. São Paulo: Companhia das Letras. Como diz Brillat-Savarin8 (1755-1826): “Os animais se repastam. cortesia. nutrindo-a. chás ou simplesmente jantares íntimos 8 Savarin. Brillat. 1995. Cada detalhe colabora para tornar mais ou menos agradável este nosso ritual diário. ou por escolha própria. devidas à ingestão de alimentos mal escolhidos ou mal combinados. nem sempre este prazer caminha impune. reciprocidade.” Quando os homens perceberam que o ato de comer encerrava mais que sua simples subsistência. em que as pessoas encontram-se para celebrar a vida. O sucesso alcançado pelo repasto e sua digestibilidade dependem de cada um destes fatores. a abstinência gastronômica.indd 16 7/4/2009 15:51:16 . Entretanto. Ele também pode trazer conseqüências desagradáveis. As cenas descritivas de festas. ou seja. como a obesidade. mas nem sempre. O prazer da boa mesa transportou-se para as artes. p. nos casos de dietas auto-impostas como penitências. banquetes.

A cozinha futurista permeiam a literatura, enchendo as páginas com uma sensualidade discreta. Fatos e conversas importantes desenrolam-se entre um e outro bocado, sendo este pequeno rito diário sempre um bom pretexto para a reunião das personagens, já que toda refeição familiar compartilhada num minibanquete celebra tanto a interligação quanto o autocontrole dos membros do grupo.9 Mais que acessório literário, a boa mesa tornou-se independente e, cada vez mais, podemos encontrar nas prateleiras das livrarias edições dedicadas à gastronomia. Edições sobre a história da gastronomia dividem espaço com obras sobre a cultura e a filosofia. Os livros “de receitas” evoluíram e, cada vez mais, parecem-se com os livros de arte. E o são. Livros de arte culinária. As fotografias contribuíram em muito para transformar a arte dos chefs em verdadeiras tentações para os nossos olhares. A facilidade de encontrar os ingredientes traz o sonho de uma refeição digna de reis para mais perto de outras camadas da população. As figuras enchem nossos olhos com sua beleza, nossa imaginação encarrega-se de criar o resto: o gosto, a textura, o aroma, o tilintar dos talheres nos pratos. Cinco sentidos unem-se para reproduzir o prazer que sentimos ao saborear uma nova iguaria – ou uma iguaria já conhecida, mas redescoberta a cada novo bocado. A utilização dos sentidos sempre foi importante para a literatura. Descrições sempre se tornam mais interessantes quando extrapolam o campo da visão. É importante reproduzir sons, odores, textura, temperatura, sabores. Marinetti já percebera isto ao longo de sua obra. Em 1939, o manifesto O romance sintético catalisava as tendências um pouco separadas entre os manifestos anteriores, já que este deveria ser otimista, heróico, simultâneo, dinâmico, aeropoético, aeropictórico, olfativo e tátil rumorista.10 Merece atenção o subtítulo do livro Il tamburo di fuoco: drama africano di calore, colore, rumori, odori. Con
9 Visser, Margareth. Op. cit. p.22

10 Marinetti, F.T. Teoria e Invenzione Futurista. Milão: Mondadori, 1968. p. 193

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Fillippo Tommaso Marinetti intermezzi musicali del Maestro Balilla Pratella e accompagnamento intermittente d’intonarumori Russolo. Publicado em 1922, pela Casa Editrice Sonzogno de Milão, esta obra também privilegiava os sentidos. Os manifestos lançados ao longo do movimento também refletiram esta preocupação constante: o Manifesto técnico da literatura futurista (1912) defende a introdução do rumor, do peso e do odor na literatura, já que estes representariam, respectivamente, a manifestação do dinamismo, a faculdade de vôo e a faculdade de dispersão dos elementos. O texto Palavras em liberdade (19..)diz que o poeta futurista jogará nos nervos do leitor as suas sensações visivas, auditivas e olfativas. Seria a irrupção do “vapor-emoção”. No Manifesto do teatro sintético futurista (19..) nos é apresentada a representação da nova era – entremeada de gritos, gesticulação apropriada, enfim, de detalhes emprestados dos outros campos da arte para que o Teatro Futurista seja mais abrangente. O Manifesto do tactilismo, de 1921, é de suma importância para que se possa compreender a revolução “cozinhária”11 futurista. Marinetti defende que é possível educar o tato para que possamos perceber muito mais coisas através deste sentido. Exercícios como tocar “tavole sintetiche” formadas por lixa, veludo, areia, seda, e tantas outras texturas, favoreceriam ao homem a descoberta de outros sentidos, ainda não catalogados pela ciência. Seriam eles: sentido de visão na ponta dos dedos, sentido do equilíbrio absurdo (aquele que faz um atleta, ao final de um salto imperfeito, manter-se em pé), sentido de orientação aviatória (essencial para pilotos), sentido tátil a distância (pressentimento), sentido das costas (deve ser estudado em gatos no escuro), sentido musical (ou do ritmo corporal), sentido da superfadiga-força (a força que irrompe em um estágio avançado de fadiga), sentido de velocidade,

11 O termo “cozinharia” pretende recuperar o neologismo criado por Marinetti, que chamava sua revolução de cucinaria, em vez do existente culinaria.

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A cozinha futurista sentido de nível, sentido tato-cirúrgico (todo cirurgião é ou deveria ser dotado dele) e sentido carnal-materno. O desenvolvimento dos “17 sentidos” proporcionaria uma gama maior de possibilidades, e seria possível, através de determinados materiais táteis, induzir sensações, histórias, sentimentos nas pessoas. Marinetti também propõe a utilização dos cinco sentidos para que um prato possa ser devidamente apreciado e degustado, como na “Aerovianda com rumores e odores”. Diz Marinetti: “(...) futuristicamente comendo, opera-se com os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição”. O prato consiste em quatro pedaços: um quarto de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza as pontas dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. No relato de Marinetti, apenas uma pessoa permaneceu alheia ao entusiasmo que preencheu a sala durante a degustação deste prato. Questionada, descobriu-se que era canhota – esfregava portanto o aparelho tátil com a mão direita enquanto comia com a esquerda. Mas a teoria gastronômica futurista proposta por Marinetti não é exatamente inovadora, apesar de o parecer à primeira vista. Em pleno início do século XIX, Brillat-Savarin12 escreve A Fisiologia do Gosto, obra em que discute filosoficamente diversos assuntos relacionados à gastronomia. Neste livro, além de afirmar que a alimentação influi de maneira direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios, relata

12 Savarin, Brillat. Op. cit. p.15

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Fillippo Tommaso Marinetti um de seus experimentos: um jantar em que foi usada uma de suas invenções, chamada por ele de “irrorador”. O instrumento foi apresentado, durante um jantar, à Sociedade de Estímulo à Indústria Nacional e consiste em uma fonte de compressão adaptada para perfumar ambientes internos. A idéia tão inovadora de Marinetti - perfumar os ambientes durante os jantares para promover uma apreciação mais completa - já havia sido explorada por outro curioso com um século de antecedência. Brillat-Savarin afirma ainda que “quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas, aromatizadas de perfumes, enriquecida de belas mulheres, repletas dos sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.”13 O embrião da cozinha futurista também pode ser encontrado em outros autores. Podemos encontrar a interação dos cinco sentidos na tradição simbolista francesa, desde Rimbaud, que relaciona a sonoridade das letras à música e às cores; em René Ghil (1862-1925), ao instaurar a língua-música, em que vincula certas ordens de sentimentos e idéias às ordens de sons e de timbres vocais. Diz Ghil que “(...) todo instrumento musical tem harmonias próprias: daí seu timbre, que é assim apenas uma cor particular do som”14. Marinetti afirma, no manifesto Palavras em liberdade, que o verbo no infinitivo é redondo e escorregadio como uma roda; os outros modos e tempos do verbo são triangulares, ou quadrados, ou ovais. Nas Correspondências, de Baudelaire, a fusão dos sentidos não se dá em cadeia, na seqüência temporal; pelo contrário, realiza-se num só instante, como se o perfume fosse, a um só tempo, oloroso, táctil,
13 Id. Ibid. 39 14 Moisés, Massaud. História da Literatura brasileira, vol..3 Simbolismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1985. p.11

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A cozinha futurista auditivo e visual. Já Mallarmé, em seu manifesto decadente Aux lecteurs!, de 1886, afirma que “Afinamento de apetites, de sensações, de gosto, de luxo, de prazer; nevrose, histeria, hipnotismo, morfinomania, charlatanismo científico, schopenhaurismo em excesso, tais são os pródromos da evolução social”. E sobre este manifesto, escreve Gilberto Mendonça Teles, em seu Vanguarda européia e modernismo brasileiro: “Podem-se perceber algumas idéias que vão ser levadas ao extremo pelos futuristas e dadaístas, uma vez que o movimento decadentista desapareceria três anos depois.” 15 Ainda no período decadentista, J.-K. Huysmans escreveu o livro Às avessas, em que podemos perceber a mesma intenção sinestésica no ato de comer. “De resto, cada licor correspondia, segundo ele, como gosto, ao som de um instrumento. O curaçao seco, por exemplo, à clarineta cujo canto é picante e aveludado; o kümmel, ao oboé, com seu timbre sonoro anasalado; a menta e o anisete, à flauta, a um só tempo açucarada e picante, pipilante e doce (... )”16 ou ainda “(...) ergueu-se e, melancolicamente, abriu uma caixinha de prata dourada com a tampa enfeitada de aventurinas. Estava cheia de bombons violetas; pegou um e apalpou-o, pensando nas estranhas propriedades desse bombom coberto de açúcar como geada; outrora (...)depositava um desses bombons sobre a língua, deixava-o derreter-se e subitamente surgiam, com infinita doçura, lembranças muito apagadas, muito enfraquecidas, das antigas libertinagens. Tais bombons (...) eram uma gota de perfume de sarcanthus, uma gota de essência feminina, cristalizada num torrão de açúcar; eles penetravam as papilas da boca, evocavam lembranças de água opalizada por vinagres raros, por beijos muito profundos, empapados de odores. De hábito, ele sorria, aspirando esse aroma amoroso, essa sombra de carícias que lhe punha uma ponta de nudez no cérebro

15 Teles, Gilberto Mendonça. Op. cit. pp.56-57 16 Huysmans, J.K. Às Avessas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.78

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Flores. o gosto não há muito adorado de certas mulheres. um filé temperado com tabaco que seria aprovado à perfeição por Brillat-Savarin. escrevia críticas 17 Id.Fillippo Tommaso Marinetti e reanimava. café. A fome só atrapalharia a degustação. mas degustar novos pratos. perfumes e materiais de diferentes texturas. como jornalista. com os quais era possível preparar sopas e outros alimentos. queijo temperado com noz-moscada e. A combinação de elementos bastante diferenciados e o uso de condimentos inusitados. Oswald.” 17 Os ingredientes utilizados nas receitas futuristas eram escolhidos para provocar a melhor experiência sensorial (seria melhor dizer sensual?) possível. Marinetti não recebia muito bem este apoio. defendeu uma Gastro-astronomia. que era arte. O cardápio de um jantar “gastro-astronomista” trazia como entrada violetas frescas sem os cabos. preferencialmente estando sem apetite. por um segundo. Estimulando o dinamismo. e não ciência. brincando com as palavras e remetendo tanto ao movimento artístico quanto aos cubos de comida desidratada.134 22 Cozinha futurista. aproximando-se do italiano através de cartas. Cedo percebemos em Oswald de Andrade o gosto pelas artes em geral. frutas da estação. frutos exóticos. como sobremesa. ibid. parecem coincidir nas duas proposições. Já em 1911. Na mesma época. mas parece ser possível reconhecer traços da rebeldia “gastro-astronomista” na cozinha futurista.indd 22 7/4/2009 15:51:17 . não se restringindo à literatura. p. ao menos. temperadas com suco de limão. resultantes dos avanços científicos. Guillaume Apollinaire discutia a idéia de haver um “cubismo culinário”. um peixe cozido em folhas de eucalipto que evocava Flaubert. Apollinaire manteve contato com o futurista Marinetti. diferentes combinações de sabores e odores. Entre os modernistas brasileiros não foi muito diferente. uma salada temperada com óleo de nozes e grappa. A cozinha “gastro-astronomista” não tem por objetivo saciar a fome.

Charlotte Russe. caricaturas. Filet de poisson Parmentier. Champagne. Op. ou mesmo política. que tratou como mais uma arte. A cOzinhA FuturistA O Manifesto da Cozinha Futurista foi publicado em 1930. Tournedos à la Rossini. apenas Marinetti havia resistido no movimento – motivo pelo qual Paolo Angeleri chama-o de marinettismo. Jambon d’York e Salade. Em 1927. Para beber. escrita em francês: Potage crème de volaille. além de ilustrações de Tarsila. quando as polêmicas suscitadas pelo movimento já não tinham a força revolucionária de outrora. Foi o responsável por impulsionar muitas carreiras artísticas.18 O futurismo já flertava com o fascismo 18 Bernardini. como a do traficante de pau brasil Oswald d’Andrade e a leitura do sermão da montanha sobre Ser Mãi da Intanha. o casal Tarsiwald ofereceu um jantar literário ao escritor paulista Paulo Prado (1869-1943).A cozinha futurista de pintura. Este gosto pelas artes não excluía a gastronomia. Como sobremesa. provavelmente a “Villa Fortunata” onde aconteceu o jantar. Dinde farcie. Liqueurs e Café. escritos diversos sobrepostos à lista de pratos. ou mesmo a de Anita Malfatti. e o cardápio-programa do jantar é uma obra de “arte sinestésica”. p. Dos integrantes do primeiro grupo futurista. O jantar literário reuniria os cinco sentidos.16 23 Cozinha futurista. saindo em sua defesa publicamente após a conhecida crítica de Monteiro Lobato à sua exposição em 1917. como a do escultor Victor Brecheret. O programa anunciava algumas intervenções: umas literárias. Aurora Fornoni. outras musicais. Parfait Praliné e fruits. cit. enfim.indd 23 7/4/2009 15:51:17 . com o bandeirante Pau lo Prato chorando sobre a trasteza do pó Lhytico no Brasil. A lista de comidas traz uma reprodução gráfica de uma casa. como o trobadour Rainette Olé cantando e a pintora caipiriuschka Tarsilowska do Amaral tocando alaúde. música.

destruída. contendo o referido manifesto de 1930. Milão. No ano de 1929. feita pela Editora Marinotti. com a colaboração de alguns novos integrantes: Luigi Colombo “Fillía”. Giulio Onesti e Enrico Prampolini. concedeu à obra 14 páginas de ilustrações. Ferrara. A Cozinha Futurista já foi traduzida para o espanhol. 19 cm. Palermo. Turim. Bolonha. 27 cm de tamanho e 160 páginas. época em que uma Itália em guerra. também de Milão. em 1985 sob o nome La Cocina Futurista: una comida que evitó un suicidio. Outra tradução facilmente 24 Cozinha futurista. em sua versão original ou traduzida. foi publicado em formato livro primeiramente em 1932. entre outras e pode ainda ser encontrada em bibliotecas espalhadas pelo mundo. pela coleção Il Cammeo quando ganhou formato de 21 cm e reduziu o número de páginas para 254. Marinetti foi nomeado acadêmico da Itália e vestiu a farda da Academia e em 1930 – praticamente dez anos após o final do período glorioso e fecundo do futurismo – publicou o Manifesto da Cozinha Futurista. O livro A Cozinha Futurista. na Itália. e publicada em Barcelona. como Roma. a descrição de diversos menus futuristas.Fillippo Tommaso Marinetti desde 1914. Ravena. toda a polêmica por este suscitada na imprensa da época em diversos países. pela Editora Gedisa. Em 1986 algumas partes foram publicadas em fac-símile pela Salimbeni de Firenze. Gênova. esta também de Milão. A obra pode ser encontrada nas bibliotecas das cidades mais importantes da Itália. Firenze. bem como um receituário e um pequeno dicionário. Com 267 páginas. O ano da adesão oficial do futurismo (resumido então a Marinetti e alguns novos adeptos) ao fascismo é 1924 –.indd 24 7/4/2009 15:51:17 . Esta tradução pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da Espanha e também na biblioteca da FFLCH – USP. por Guido Filippi. pela Editora Sonzogno de Milão. e apenas quatro ilustrações. buscava no totalitarismo uma possibilidade de reconquistar a auto-estima. só foi reeditado em 1986 pela Longanesi. e em 1998 a terceira e última edição italiana do livro.

que pode ser encontrada na British Library. Marinetti apóia o regime fascista.indd 25 7/4/2009 15:51:17 . Duas forças políticas emergem no cenário mundial. encontrada na Library of Congress. Os manifestos do final do período heróico do futurismo (próximos a 1920) já possuem uma forte conotação sócio-política: a nação deveria reerguer-se e recuperar-se de todas as perdas resultantes da guerra. cujos ideais já haviam sido antecipados de certa forma no Manifesto Futurista de 1909. excitado pela recente Revolução Russa. pela A. o gosto pela luta. Ora. uma pela Editora Trefoil de Londres. foram feitas a partir da tradução de Suzanne Brill e contam com uma introdução feita por Lesley Chamberlain. datado de 11 de janeiro de 1921. a coragem. na Bélgica. Rarish: Die futuristische Küche. Na realidade. pela coleção Cottas Bibliothek der Moderne e pode ser encontrada nas bibliotecas de Leipzig. e o regime comunista. Esta obra pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca da Universidade de Leuven. O livro foi traduzido também para o norueguês com o título Futuristisk Kokebok. em 1917. na Itália. se Marinetti e seus “discípulos” 25 Cozinha futurista. na figura de Mussolini. Esta tradução foi publicada pela Editora Klett-Cotta em 1983.M. de São Francisco.A cozinha futurista encontrada é em francês. e outra pela Editora Bedford Arts. feita por Nathalie Heinich e publicada em Paris. pela guerra. Existe ainda uma tradução em alemão. feita pelo escritor Klaus M. com introdução de Andreas Viestad e publicada em Oslo pela Spartacus Forlag em 2001. o futurismo e o fascismo condividem o nacionalismo exacerbado. Gilberto Mendonça Teles acredita ser o mais importante o já referido Manifesto do tactilismo. as belas idéias pelas quais se morre. Ambas as publicações do livro The Futurist Cookbook datam de 1989. pelo escritor Steiner Lorne. a audácia e a rebelião. os regimes totalitaristas. entre outras. Frankfurt e Hamburgo. Metailié em 1982 com o título La Cuisine Futuriste. Dos manifestos que surgiram após 1920. o militarismo. Em inglês há duas publicações.

Surge então o Manifesto da Cozinha Futurista. fotografia. è changer la vie.indd 26 7/4/2009 15:51:17 . o que provoca desequilíbrio e distúrbio destes órgãos. como o chamou Mário de Andrade. teatro. Luciano. música (audição). secondo il motto di Rimbaud. cucina ecc. que pretendeu revolucionar o modo pelo qual os italianos se alimentam. segundo o autor. politica. que.Fillippo Tommaso Marinetti já haviam escrito manifestos sobre pintura e escultura (visão). Dentre as diversas idéias apresentadas. 15 26 Cozinha futurista. trariam inúmeros benefícios ao povo italiano. a proposição que mais choca é a de “abolir o macarrão”. La nascita dell’avanguardia – saggi sul futurismo italiano. Marinetti afirma que o homem pensa. erotismo. sons. Nas palavras do crítico italiano Luciano De Maria: Marinetti e i compagni dissero la loro su ogni argomento: letteratura. de Turim. Venezia: Marsilio Editori. em 28 de dezembro de 1930. As pessoas. Un impulso “totalitario” anima il movimento: meta dei futuristi. 1986. ma nel più profondo dello spirito umano. Neste Manifesto. Marinetti defendia novos hábitos alimentares. Um homem mal nutrido pensa e age mal. e non soltanto nelle condizioni esterne dell’esistenza. 19 De Maria. come più tardi dei surrealisti. ao comerem macarrão. o único sentido que ainda faltava ser abordado era o paladar.19 A publicação do Manifesto da Cozinha Futurista deu-se na Gazzetta del Popolo. tactilismo (tato). não mastigam e o trabalho de digestão é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Ao propor a abolição do macarrão. cinematografo. sonha e age de acordo com o que come e o que bebe. O último dos sentidos fora também abordado pelo “agitador futurista”. danza. Marinetti argumenta que este alimento contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada dos napolitanos. P. rumores e odores (audição e olfato).

Op. o escritor afirma que os povos que se alimentam de peixe são menos corajosos que os que se alimentam de carne de gado. em Palermo ( e não que tenha sido trazido da China para a Itália por Marco Polo). O exemplo dado é o do povo indiano. mas como pratos constituintes do cardápio.”20 e acrescenta que a fécula. 94 23 Na verdade.15 21 Id. em que as receitas são novamente executadas e degustadas. Em seus Aforismos. Brillat-Savarin afirma que “o destino das nações depende de como elas se alimentam.. existem dois cardápios. Orietta del Sole. p. 27 Cozinha futurista. inatividade nostálgica e neutralismo. porém tem a sensualidade despertada por certa substância ictiófaga. cit. suas origens e sua história. presente em boa parte da alimentação de quase todos os povos. faz uma referência ao mesmo fato: a tentativa de desvincular o macarrão dos hábitos alimentares italianos. Vez ou outra um restaurante promove uma noite futurista. p. mas ainda hoje existe um restaurante na Itália – o Lacerba. um futurista e outro passadista. para os clientes que não desejam se aventurar nas receitas inovadoras. e entre as afirmações de que já em 1154 o macarrão era produzido na Itália. o fósforo. ibid. informa que no início do século XX o poeta Marinetti propôs abolir o macarrão da dieta italiana. 22 O manifesto contra o macarrão é lembrado em diferentes épocas e ocasiões. 20 Savarin.23 A revista Focus (Mondadori) de dezembro/2002. pessimismo.) enfraquece as fibras e mesmo a coragem dos homens”21. Sem sucesso. traz uma ampla reportagem sobre o macarrão.indd 27 7/4/2009 15:51:17 . em seu livro Nunca treze à mesa. de Milão .que serve os pratos e as bebidas futuristas. ibid p. “(.A cozinha futurista Derivariam então: fraqueza.. Brillat. não apenas em festas relativas a datas comemorativas do movimento literário. que vive quase exclusivamente do arroz e é extremamente submisso. Em outra passagem do mesmo livro. 72 22 Id.

ibid p. 13. talvez. das quais 80% de carboidratos. no livro Ecce Homo. que a alimentação atinge diretamente o caráter e o comportamento. A melhor cozinha. Friedrich. portanto anterior ao futurismo.já foi exaltada como exemplo de alimentação sadia e equilibrada em todo o mundo. O interesse de Marinetti é. O filósofo alemão também acredita que a pessoa é o que come. culpa dos alemães. a italiana. Ecce homo. era caro e a substituição deste alimento favoreceria a indústria italiana do arroz. Nutricionistas defendem que o macarrão faz bem à saúde: 100 gramas de macarrão sem condimentos tem 356 calorias. afirma Nietzsche. de virtude (no significado que essa palavra se dava na Renascença).4% de proteína e 3. o que também fazem franceses e ingleses. o macarrão forma a base da pirâmide alimentar defendida pelos nutricionistas. O problema da importância da alimentação na formação do homem pode também ser verificado em Nietzsche. 2000 p. 51 25 Id. A dieta mediterrânea – que inclui o macarrão . importado.Fillippo Tommaso Marinetti O insucesso da tentativa é sempre comentado em tom jocoso. que comem até empanturrar os intestinos (“O espírito alemão é uma indigestão. Junto com o pão. 24 Nietzsche. “Como deves nutrir-te para chegares ao teu máximo de força.9% de gordura. não chegando nunca ao fundo de alguma coisa. de virtude livre e de moral?” Nietzsche afirma que sempre nutriu-se mal.”24). isto é. 53 28 Cozinha futurista.indd 28 7/4/2009 15:51:17 . de ‘germânico’”25. não só das pessoas individualmente. mas molda o comportamento de uma nação: “basta a mínima inércia dos intestinos – tornada depois um hábito péssimo – para fazer de um gênio algo de medíocre. Ironia ou não. pois o trigo. arroz e cereais. de 1888. é a do Piemonte. Outro argumento utilizado contra o macarrão é de ordem econômica. ou comemorativo. São Paulo: Martin Claret. Nietzsche julga como a melhor cozinha justamente aquela que Marinetti pretende revolucionar.

num período de decadência – os gritos e bramidos marinettianos já não eram ouvidos com tanta atenção pelo mundo literário. bastante nacionalista (seria lícito dizer fascista?).A cozinha futurista portanto. Como já foi dito. É provável que a publicação deste manifesto tenha sido uma tentativa de fazer ressurgir a importância do Movimento Futurista. Após 1920. pois as propostas futuristas verificaram-se impraticáveis. com o propósito de “melhorar a raça e a economia”. A boa alimentação proporciona melhores soldados. o Futurismo havia entrado em crise. e ainda contribui para o desenvolvimento econômico do país. mas também político. Ainda que Marinetti tenha proposto uma revolução gastronômica em seu país. Além disso. co-autor do Manifesto da cozinha futurista. de Marinetti. desde a matéria prima de certos alimentos até modas gastronômicas/culturais estrangeiras. além de estarem demasiado atreladas à figura política do Duce. Percebe-se então o cunho político. Pudemos observar que a tradição alimentar vem sendo questionada por inúmeros autores e em diferentes épocas. Talvez por Marinetti estar diretamente ligado ao fascismo e defender idéias já então consideradas conservadoras e de forte conotação política. A revolução gastronômica futurista não aconteceu. não só nutricional.indd 29 7/4/2009 15:51:17 . o problema da interferência da alimentação na personalidade e/ou nas atitudes das pessoas não havia passado despercebido pelos autores do século XIX e início do século XX. melhores cidadãos. a cultura italiana haveria de se fortalecer pelas modificações propostas. embora o objetivo não tenha sido alcançado. Marinetti e seus colaboradores. pretenderam revolucionar a culinária italiana. acreditavam poder fortificar a raça e tornar os homens mais competitivos e adequados à guerra. o manifesto não repercutiu como deveria esperar seu autor. pela negação de todos os estrangeirismos. Os alimentos escolhidos também deveriam fortalecer a economia nacional. Mas a importância da alimentação 29 Cozinha futurista. Através da correta escolha e combinação de ingredientes. desenvolvendo a indústria e propiciando empregos aos italianos. em especial Fillìa.

Marinetti tentou preparar. a alimentação italiana era mais resistente e tradicional. mais uma prova da personalidade multifacetada de um revolucionário que se ocupou de todos os sentidos. 30 Cozinha futurista. com os ingredientes do futurismo. Entretanto. Restou-nos o manifesto.Fillippo Tommaso Marinetti para a vida das pessoas continua ganhando mais e mais importância tanto na literatura como na mídia.indd 30 7/4/2009 15:51:17 . em todos os campos das artes. uma nova massa.

indd 31 7/4/2009 15:51:17 . Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista H Cozinha futurista.CApítulo 1 Mário de Andrade.

Cozinha futurista.indd 32 7/4/2009 15:51:17 .

deu ensejo neste trabalho a uma série de “analogias gastronômicas” entre este e parte da obra de dois escritores modernistas. Mário de Andrade e Oswald de Andrade. tentarei estabelecer relações pertinentes entre os autores brasileiros e o “futurismo gastronômico”.indd 33 7/4/2009 15:51:17 . Espero não causar indigestão com a combinação das iguarias. e oportunamente. de alguns colaboradores da Revista de Antropofagia liderada por Oswald. Partindo de apontamentos sobre algumas obras destes dois autores. No livro Macunaíma. o mais respeitado seja aquele com maior capacidade de prover seus familiares. por sua vez. Macunaíma 33 Cozinha futurista.máriO de AndrAde nA cOzinhA A repercussão do Manifesto da Cozinha Futurista na mídia possibilitou a realização do livro A cozinha futurista. a alimentação é fator fundamental para o desenrolar da obra. A preocupação com a subsistência de cada indivíduo e de toda a tribo faz com que o mais forte. cuja repercussão.

e como a digestão – ou assimilação – destes alimentos pode ser significativa para o processo de construção do caráter “identidade” nacional brasileiro. O “herói de nossa gente” reflete não uma. As inúmeras repetições do verbo comer e seus sinônimos chamam a atenção sobre os alimentos ingeridos ao longo da saga de Macunaíma. Mário de Andrade escreveu Macunaíma na semana de 16 a 23 de dezembro de 1926. pois Mário julgou inadequados os dois que escrevera. e – por que não? – gastronômica. durante umas férias em Araraquara.indd 34 7/4/2009 15:51:17 . O resultado de sua obra foi emblemático. O livro provocou dúvidas desde a publicação. comportamental. já que Mário de Andrade acabou por construir um “símbolo do brasileiro”. conquanto não lhe falte caráter. mas também nas áreas lingüística. 34 Cozinha futurista. torna-se difícil não reconhecer analogias entre as duas obras. Macunaíma é o famoso “herói sem nenhum caráter”. devido à série de modificações feitas no texto original.Fillippo Tommaso Marinetti passa a ser respeitado pelos irmãos na medida em que se torna o principal responsável pela alimentação dos mesmos. As misturas de raças deram-se não somente no âmbito genético. O caráter de um povo também poderia ser avaliado verificando-se as bases de sua alimentação.pode ser considerado um dos meios de formação da identidade nacional brasileira proposta por Mário de Andrade em Macunaíma. reflexo da miscigenação de tantas culturas quantos foram os povos que aqui vive(ra)m.ou assimilação . pela dificuldade de sua classificação: história? romance? Acabou por ser rapsódia. mas o livro só veio a ser publicado em 1928. O processo de ingestão e digestão . O prefácio nunca chegou a ser publicado. e já que a rapsódia foi publicada no mesmo ano do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. musical. mas as várias influências que determinaram o caráter e a formação do povo brasileiro.

) o que alimenta. alimentação que pode ser uma das bases da formação do caráter nacional. não é o comer que ele toma na boca.. pois o que todos os fiéis desejam não é viver no amor de Cristo? Transportando-nos da cultura cristã para a indígena primitiva..(. Lestringant. aumenta. nutre. Sermões. a transformação do tabu em totem. ainda amorfo. Pe. O padre José de Acosta empregava o termo hóstia para designar a vítima dos sacrifícios astecas. encontramos em Frank Lestringant uma analogia entre um ritual antropofágico indígena e a Eucaristia: “(. 2001. pp. O Canibal.) a palavra despertava inextricavelmente o sentido moderno do pão eucarístico... e dá forças e vigor ao vivente.) o mesmo Cristo que no Sacramento se come.A cozinha futurista A antropofagia. vem sendo praticada há centenas de anos... desde os nossos ancestrais mais primitivos: entretanto ainda hoje podemos averiguar seus resquícios.95-96. grandeza e decadência. defendida por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago. Alfredo Bosi..34-36. no Rosário se digere. Frank. destaca que o protagonista é uma “(.”1 Esta antropofagia está também ligada ao amor.. que eram associados a uma prática antropofágica.indd 35 7/4/2009 15:51:17 . desde o nascimento e as primeiras 1 2 Vieira. como o Sacramento católico.. 1997. senão o que digere (. em sua História concisa da literatura brasileira. e recebe dentro de si. se convertia em corpo de Cristo.) os primeiros missionários do Novo Mundo perceberam a relação entre a antropofagia ritual e o sacramento da Eucaristia. seja de forma direta ou sublimada. Antonio. quando da missa. a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir.) espécie de barro vital. que.”2 Mário de Andrade dedica grande atenção à alimentação de seus personagens na obra Macunaíma. Padre Antonio Vieira traz desta forma a questão da Eucaristia: “(. pp. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 35 Cozinha futurista. São Paulo: Hedra..

São Paulo: Cultrix. Macunaíma tem seu dedão abocanhado e engolido por Sofará. A Literatura Brasileira através dos Textos.. o Gigante Piaimã morre em sua própria macarronada – em que “faltava queijo”. A antropofagia do livro resume-se a três episódios: no primeiro. mulher do irmão mas sua amante. No entanto.”4 Deste compósito. destaca-se aqui o gastronômico. logo depois de sua preguiça e de seu apetite sexual (ainda assim. a metafórica ou sensual. 36 Cozinha futurista. apetite). Talvez seja ainda possível reconhecer uma ingestão fatal. embora velada ou mascarada pelo clima de sedução. Jiguê.. São Paulo: Cultrix. 1991. O verbo brincar no texto tem conotação sexual.indd 36 7/4/2009 15:51:17 . são muitas as passagens em que há uma certa antropofagia. História Concisa da Literatura Brasileira. já que as referências à ingestão – ou ausência dela – aparecem aproximadamente 130 vezes no decorrer do livro. Enquanto Macunaíma brinca5 com suas mulheres. Massaud Moisés afirma que. como a antropofágica. é um eufemismo utilizado por Mário de Andrade. “(. p 395. o boi morre por não poder ingerir mais nada após a sombra leprosa acocorar-se nele. Massaud.seja por haver divisão de alimento pela família ou em ocasiões festivas . come tudo e todos que estão em seu caminho. em Macunaíma.Fillippo Tommaso Marinetti diabruras glutonas e sensuais”3. num compósito heterogêneo que é bem o reflexo do Brasil e seus habitantes. Poder-se-ia estabelecer uma divisão entre os diferentes tipos de ingestão. e no episódio final. o herói come a carne da perna do Currupira. que acarreta a morte de alguns personagens: o filho de Macunaíma e Ci morre após chupar o peito envenenado da mãe. Alfredo.398-399. no segundo.) imbricam-se crendices de vária extração e significado.a medicinal. a ritual . transformado em sombra leprosa. pp. e aquela para o fim mesmo da alimentação. 1992. o tico-tico morre após alimentar o Chupinzão. moqueada. A gula aparece como um dos primeiros adjetivos dados ao herói. Moisés. e o 3 4 5 Bosi. mordidas misturam-se a beijos.

De fato. A ingestão ritual remete às sociedades indígenas – em Macunaíma estamos na tribo dos tapanhumas – em que as refeições são comunitárias e o alimento dividido entre os indivíduos da tribo segundo determinada ordem. 216 Thévet. um ser humano”9. A família (tribo) de Macunaíma sempre divide as obrigações para obter o alimento e prepará-lo. 1998. p. Rio de Janeiro: Campus. André. p. 279 Visser. enquanto Frank Lestringant diz que “(. Antropophages. Histoire de deux voyages. com freqüência. Outro ritual importante no livro é o da macumba a 6 7 8 9 Voltaire. de modo geral.. que o animal morto e comido toma o lugar da oferta sacrificial original.v.A cozinha futurista amor muitas vezes torna-se deglutição.25 Lestringant. p. Esta alimentação ritual também aparece quando da morte da mãe. O verbo comer adquire duplo sentido. 10 Andrade. e não hesita em comer sozinho a caça ou as frutas e raízes que encontra.) o canibalismo constitui. cabendo a ele as entranhas. ou no jejum quebrado por Macunaíma quando nasce seu filho. Op. e o ato sexual pode também significar a assimilação do outro: “é duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem”6 afirma Voltaire. em Margaret Visser vemos que “Os mitos sobre sacrifício nos dizem. em que os irmãos passam a noite “bebendo oloniti e comendo carimã com peixe”10. André Thévet (1516?-1592) descreve uma das cerimônias de divisão do corpo de um inimigo capturado: “as tripas são dadas aos jovens machos e todos os miúdos são distribuídos entre as jovens mulheres”8. Margaret.indd 37 7/4/2009 15:51:17 .. São Paulo: Martins Fontes. uma maneira particularmente eficaz e direta de fazer unidade com o outro”7. Macunaíma. Mário de. Lembre-se a passagem da anta capturada por Macunaíma. O Ritual do Jantar.23 37 Cozinha futurista. s. p. ou de negar comida à própria mãe ao perceber que ela pretende dividir o alimento com os outros irmãos. 33. 1975. cit. que é dividida. Frank. Dictionnaire philosophique. p. somente o herói pensa individualmente.

engolido. uma pacuera inteira (sem mastigar) e um côco cheio de água –. e. pelo cesto do Gigante Piaimã.. remédios aconselhados pra erisipela. salvando vidas e atenuando dores.4 38 Cozinha futurista. o minhocão temível.Fillippo Tommaso Marinetti que o herói comparece para resolver seu problema com Piaimã. finalmente. pelo elevador e pelo carro.”11 De fato. agüinha e reza cantada pro sarampo. Chamam ainda atenção as inúmeras vezes em que o herói tem medo de ser comido: Macunaíma teve medo de ser engolido pela cobra preta. Macunaíma teve medo de ser a iguaria. na passagem em que Macunaíma procura pouso no rancho de Oibê. após ser um comensal em sua mesa – onde comeu cará com feijão dentro. chupar chave de rosário pra curar sapinho. pela cabeça de Capei (que vira Lua). por Ceiuci e sua filha mais velha (as mulheres queriam comer o pato. que era Macunaíma). que termina com todos os participantes comendo o bode que havia sido oferecido em sacrifício. Margaret. por Oibê. Margaret Visser afirma que “(. pela surucucu. pelo Gigante Piaimã.) por trás de toda regra de etiqueta da mesa está escondida a determinação de cada pessoa presente de ser um comensal e não uma iguaria. “Mas era só de brincadeira 11 Visser. pela família de Vesceslau Pietro Pietra (o herói tinha virado torresminhos que “bubuiava” em polenta fervendo. A ingestão medicinal ocorre algumas vezes. Este medo de ser ingerido. Op. que é feiticeiro: suco de tamarindo pra lombriga. pelo Currupira. teve que fugir para não ser comido pela sombra leprosa que era Jiguê. teve medo de ser comido na macarronada da família). em outro momento. pelo Mianiquê-Teibê (assombração medonha). já na cidade.. uma cuia com farinha d’água. assimilado pelo outro pode representar o medo de virar totem.indd 38 7/4/2009 15:51:17 . engolir bagos de chumbo pra não ter filhos. sempre através da figura de Maanape. cit. cozimento de broto de abacate para tuberculose. p.

Esta lista nutricional é relevante. Mário de Andrade descreve os alimentos que fazem parte da rotina da tribo.418.. p. Macunaíma já o havia feito para escapar do Currupira. 13 Ibid. e precisam saciar esta necessidade. Tratase da identidade gastronômica nacional. que “(. de palavras de origem indígena e outras importadas diretamente da Europa. 14 Lestringant. o vômito “(. os personagens sentem fome todos os dias.20. Tristes Tropiques.indd 39 7/4/2009 15:51:17 . Claude.. e vomitou as iguarias comidas: a farinha virou num areão.) vomitam. a pacuera virou num periantã (barranco flutuante) em que o herói e a princesa escaparam. mas também aqueles que aparecem para saciar a fome de “outras tribos”. fruto da mistura das diversas culturas que integram o povo brasileiro. como forma de fugir de um perseguidor após comer seu alimento. 12 Andrade. 15 Lévi-Strauss.. os indivíduos detentores de forças temíveis: criminosos. estrangeiros”15. Op... Macunaíma. marginais. já que o pedaço de perna respondia ao chamado do dono. Para Lestringant. Frank. Assim sendo. p. p. enquanto Lévi-Strauss analisa a “antropoemia” das sociedades desenvolvidas. que dera ao menino um pedaço de sua perna como isca.. Macunaíma por quatro vezes fez “cosquinha na goela com o furabolo”. 184. e por fim. O vômito não aparece somente nesta passagem.) estava querendo mas era comer o herói”13. Por fim. o feijão e a água viraram num lamedo cheio de sapos-bois. em lugar de ingerir. Mário de. que “(. já que aqui aparece um interminável desfile de termos regionais.. 182. o cará virou num “tartarugal mexemexendo”. p.. cit.A cozinha futurista que ele [Oibê] queria comer o herói”12 Para escapar de Oibê. diário. 39 Cozinha futurista.) exprime o valor simbólico ligado antes de tudo à ingestão de carne humana”14. a ingestão de alimentos para matar a fome e nutrir o corpo: um fato repetitivo. a alimentação como um fim em si mesma.

Embora os nomes indígenas prevaleçam. tejus. fumo. monos. gasolina. coelhos. guabijus. a jaguatirica. ariticuns. bacuris. abroba (gerimum). manga-jasmim. pacas. pitomba. churrasco. cogumelos e rãs.Fillippo Tommaso Marinetti Da cultura negra. um pato seco de Marajó. extremamente diversa da européia. macacheira. tamanduá. jacu. ter herdado o nome utilizado pelos índios. moluscos: fritada de sururu de Maceió. farinha d’água. e não porque Mário de Andrade considerasse a influência indígena mais forte que a negra ou a branca. sapotas. pixuna. robalos. um motor. onça-pinima. sapotis. miritis. piaçoca. onças. a perna do Curupira. aperemas. urus. caças: veado-catingueiro. macarronada (com o chofer e seu sangue como molho). mutum-de-fava. melancias. aves: um macuco. tatu-canastra. símios: um macaco. suçuarana. jacutinga. a pacuera (entranhas de caças). maniveira. pacu. sanduíches. cará com feijão dentro. sapotilhas. canguaçu. bolo de aipim. tucunaré. guaribas. graxains. jaós. licor. abricôs. lontras. jundiá. raízes/leguminosas e seus derivados: tacacá com tucupi. picota. Da cultura indígena comem-se frutas: bacuparis. perdizes. mutuporanga. o torresmo e a polenta. heranças do canibalismo autóctone: sopa feita com um paulista. café. pacova (banana). talus. coquinho baguaçu. ingere-se o bode da macumba.indd 40 7/4/2009 15:51:17 . cascudo. milho. uísque. capivara. os olhos da tigre. os esplêndidos bombons Falchi. bagre. em meio a muita cachaça. Dos europeus temos a lagosta. mutuns (mutum-de-vargem. 40 Cozinha futurista. os estradeiros. broto de abacate. catetos. peixes: tambiús. vidros-de-perfume e caviar. beiju membeca (beiju mole). raiz de umbu. presunto. urumutum). lambaris. ratos chamuscados. antas. abacaxi. quiânti. cigarros de palha de tauari. veado. leite da vaca Guzerá (raça bovina vinda da Índia). podemos atribuir isso ao fato de grande parte da flora e fauna brasileiras. plantas alucinógenas: ipadu. muçuãs. tabuí. “champagna”. queixadas. cotia. rendas. a papa-viado. mucajás. mocororó.

Por mais forte e indigesta que seja a mistura. acostumado com os chinfrins da pimenta. mas todas elas formadoras da identidade nacional. São Paulo.”17 Em outras obras de Mario de Andrade também é possível verificar a importância destinada à ingestão de alimentos ou aos rituais que circundam a alimentação. mas com estilo completamente livre. 41 Cozinha futurista. do tutu.A cozinha futurista Assim como os três manos. texto publicado em 1928. da caninha e outros palimpsestos que escondem a moleza nossa. Mário de – Romance do Veludo – Revista de Antropofagia. espanhóis e já brasileiros. 1ª dentição. sob o título de “Mundo musical”. mudaram de cor e passaram a representar as três raças formadoras do povo brasileiro. os elementos que entram nela afinal são todos iromuguanas e a droga é bem digerida pelo estômago brasileiro. A contribuição de cada povo serviu para realizar a grande festa que é a culinária brasileira. 04. o folclore. desde maio de 1943 até sua morte. Mário corroborava a opinião da confusão de valores instaurada no Brasil por sua mistura étnica. agosto 1928. 16 Andrade. Trata-se de crônicas musicais. cheiros e influências. em que se discutem com a mesma paixão a arte. dançam nele portugas. 1a. estas também se encontram registradas por meio de suas influências gastronômicas. africanos. após terem se lavado na cova do pezão do Sumé (São Tomé). no. Quer como literatura quer como música. dentição. Comecemos pela obra inacabada O banquete. Em “Romance do Veludo”16. Gosto muito desses cocteils. agosto de 1928 17 Revista de Antropofagia. hoje publicada em formato livro. atingindo até a culinária. Macunaíma. Maanape e Jiguê. “O Romance do Veludo é um documento curioso da nossa mixórdia étnica. em 25 de fevereiro de 1945. do dendê. única em sua variedade de cores.indd 41 7/4/2009 15:51:17 . Os textos foram publicados às quintas-feiras na Folha da Manhã. o processo de criação. se acomodando com as circunstâncias do Brasil.

”18 Ora. facilitando aos convivas a explanação de suas opiniões e desobrigando-os das responsabilidades de um confronto intelectual. Outro fator relevante é a possibilidade de se determinar o nível cultural de uma pessoa por meio de suas maneiras à mesa. Op. O político Félix de Cima e a virtuose Siomara Ponga são os convidados pertencentes à classe dominante (vale observar que apenas a classe dominante tem nome completo) e que auxiliaram Sarah em sua empreitada. projetado para que a violência fique fora de questão. Na fictícia cidade de Mentira. o discurso adquire um tom menos formal. Comer é algo agressivo por natureza e os utensílios requeridos para o ato poderiam rapidamente transformarse em armas. no fundamental. é bastante interessante observar o itinerário dos comes e bebes servidos durante as discussões: 18 Visser. que precisa ser protegido para que possa continuar a produzir sua arte. único personagem sem amarras políticas.indd 42 7/4/2009 15:51:18 . p. Margareth. xiii 42 Cozinha futurista. Além das teorias sobre música ou arte. cinco personagens encontram-se para um banquete oferecido pela milionária americana Sarah Light com o intuito de obter proteção governamental para o jovem músico nacional Janjão. cit. Numa alusão ao Banquete de Platão. que pode dizer o que realmente pensa sem temores de que o grande objetivo do banquete pereça. Pastor Fido é um estudante. temos assim em qualquer refeição um cenário ideal para o desenrolar de um texto. com um objetivo comum: saciar a fome e compartilhar o alimento e os prazeres advindos destes. “um sistema de tabus. Janjão é o músico pobre e quase anônimo. As maneiras à mesa são. já que todos encontram-se reunidos em torno de uma mesa.Fillippo Tommaso Marinetti a situação dos músicos e das pessoas interessadas – por razões as mais diversas – em proteger a arte e os artistas nacionais. Mário de Andrade toma a refeição como o momento propício para que assuntos importantes sejam discutidos. À mesa.

Mário descreve alguns salões de vital importância para os jovens modernistas.VII). 04 a 08 20 Andrade. X). 1972. “O Movimento Modernista” in: Aspectos da Literatura Brasileira.indd 43 7/4/2009 15:51:18 . vinte anos após a Semana de Arte Moderna. Oswaldo discute os rumos do modernismo em forma mascarada de refeição. maravilha de comida lusobrasileira” ou o salão da Rua Duque de Caxias. Brasília: INL. Se os capítulos I (Abertura). o autor comenta o que talvez tenha sido fonte de inspiração às crônicas musicais da Folha da Manhã: os salões em que se reuniam artistas e intelectuais. Salada (cap. São Paulo: Martins Fontes. 2a. IV – Sobremesa e V – Cafezinho. Doce de Coco e Frutas (cap. aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de composição”20 Voltando ao Banquete de Mário. nos.VI) e viriam ainda. sendo este último o recomendado 19 Revista de Antropofagia. foram servidos como aperitivo Porto e “Cocktail Verde e Amarelo”.19 Na obra Aspectos da Literatura Brasileira. a partir do capítulo IV (Aperitivo) é o ritual da refeição que dita o tom das discussões. V). estabelecer um paralelo com a série “Moquém”. de cunho afrobrasileiro. II (Encontro no Parque) e III (Jardim de Inverno) precedem a comilança por tratarem da apresentação dos personagens. VII).A cozinha futurista os capítulos têm como subtítulos a parte do banquete a que se referem. dentro do maior modernismo. II – Hors d’oeuvre. para. em torno de uma refeição. encontramos um texto de fundamental importância para o modernismo brasileiro. III – Entradas. O Passeio em Pássaros (cap. Café Pequeno (cap. publicada na Revista de Antropofagia entre 7 de abril e 8 de maio de 1928. justamente aquele em que Mário de Andrade analisa “O Movimento Modernista”. Nesta série. dentição. A cozinha. aqui. Pode-se. 43 Cozinha futurista. já que os cinco textos que a compõem são intitulados: I – Aperitivo. IX) e As Despedidas (cap. Seguem-se Vatapá (cap. Mario de. como “o salão da Avenida Higienópolis que era o mais selecionado. de Oswaldo Costa. Aqui. discutir arte e realidade brasileira. onde “o culto da tradição era firme. Tinha por pretexto o almoço dominical.

O Banquete. até do paladar dos dentes (…) Eu não sei como explicar… mas vocês homens. e não se mistura com ele) e um pouco de açúcar verdadeiro (mas um pouco só. todos se enganaram. Tradução em português p. F. já perceberam como é gostoso no meio da multidão a gente se encostar numa mulher…”21.. mas a carne estava miraculosa”23 Outra vez podemos estabelecer um paralelo com Marinetti: a utilização de gêneros alimentícios alternativos aos que faltavam em tempos de guerra – a polêmica proposta marinettiana de abolir o macarrão tem 21 Andrade. começou a amorosa adoração com os lábios. Mario de. ainda. foi muito divertido. ou “ajoelhando-se em frente. como nesta batida). tudo feito com massa de açúcar pintada. Era um Chateaubriand. Vê-se aqui.. “É uma delícia da língua. a utilização de um vocabulário que remete ao utilizado por Marinetti na introdução de seu livro A Cozinha Futurista: “E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros”. A Cozinha Futurista.indd 44 7/4/2009 15:51:18 . Alface. Mario de. além da aproximação do prazer proporcionado pela comida ao prazer sensual instigado pela mulher. O político provou do cocktail e constatou se tratar de uma legítima batida paulista. “mas em vez de batatinhas: pequenos pedaços de queijo assados na brasa. 1989. p. São Paulo: Duas Cidades. aspargo. 07 e 11 23 Andrade. O Banquete. Vinha um prato de salada junto. palmito. fabricação particular). feita de caninha (em alambique de barro. camarão seco. limão (que pelo menos disfarça o cheiro fatigante da caninha. 22 Numa época de escassez devida à Guerra. Está claro que ninguém comeu isso. 123 22 Marinetti.Fillippo Tommaso Marinetti pela anfitriã por acompanhar melhor alguns pratos fortes do Brasil que seriam servidos.T. No Vatapá. 125 44 Cozinha futurista. os sabores delicados do peixe e do camarão fresco unem-se trêmulos à tempestade dos temperos. de um prato chamado “Balé do Racionamento”. p. em vez de cogumelos: leite coalhado em cápsulas salgadinhas. o dendê. a língua e os dentes”. temos a descrição.

Mas tão cheio.. não fazia vista alguma com seus tons de um terra baço. Mario de. que resfolegava em cima da salada.A cozinha futurista sua base na elevação de preço do trigo durante a guerra -. o vatapá. tão nutrido e convicto. não conseguira resistir à atração da salada e se servira de todas aquelas cores. Chegamos finalmente à Salada. mas que cheirava.” Era o prato preferido da milionária. que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas. aquele cheiro. entregam-se. era uma salada fria.. estava encantada com o furor quase mítico do prato. cuja carreira a impedia de gostar de qualquer coisa. os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações. mas uma salada colossal. mas já personalizada pelo tom local.. prato principal do banquete de Sarah Light. a malícia das experiências sensuais. exceto Janjão. “Não tinha cheiro nenhum.159 45 Cozinha futurista. Seus olhos a cheiravam. O Banquete. e o prato foi comido. norte-americana. que era “feioso e monótono na aparência.”25 A essa salada. bravo.indd 45 7/4/2009 15:51:18 . p.159 25 Andrade. todos. cozinheiros tornando-se verdadeiros artistas (neste caso. com mentira e tudo. Felix é descrito como um animal. Espalhara na sala um cheiro vigoroso que envolvera os presentes no favor das mais tropicais miragens. Pastor Fido. O cheiro do vatapá vos trazia aquele sossego das coisas imutáveis”24 A salada aparece como alegoria: é norte-americana. mas como era bonita e chamariz!” A descrição da salada aparece em total oposição ao prato anterior. manducado por ele antes mesmo que suas mãos o tocassem. “Tinha mil cores.. Todas as cores estão nela representadas. O Banquete. seus olhos haviam engolido a salada. “um coroamento da sua existência de comestível espiritual (desculpem). para suprir com a arte a falta de certos produtos). a maior do mundo. embora não se tivesse entregado totalmente ao prato em que havia até sorvete de creme e suco de pedregulho! 24 Andrade. Áspero. o moço estudante. A salada.p. especialmente os verdes. Siomara Ponga. Mario de. Bravio.

isso lhe dava certos privilégios de idéias inovadoras. bicho nacional dos celtas. que contam cinco pessoas: ele. apenas para os familiares. incapaz de caráter”26 Este prato. “Tinha de tudo. escrito entre 1938 e 1942 e publicado no livro Contos Novos. por causa de Gandhi. o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo (e dominava a gente).. em respeito aos judeus. Após a morte do pai. havia também pecados: leite de cabra.indd 46 7/4/2009 15:51:18 . Assim. a salada mais traiçoeira do mundo. mas já que era considerado doido. sem caráter. uma irmã. uma gorda com os miúdos. embora aqui seja o prazer proporcionado pela iguaria a ser ingerida mais forte que a batalha emocional que se dá à mesa. gemas de ovo libertas da perigosa albumina e avelãs recobertas de cacau sem açúcar. Juca assumia para si a culpa dos desejos de todos da casa. é o conto “O Peru de Natal”.Fillippo Tommaso Marinetti Entre perdiz desfiada. Juca sempre foi considerado doido pela família. mas encapsulado em farinha de trigo. ameixas e nozes. e não apenas o que sobrava na ossada após as festas que davam enquanto o pai era vivo. p. a carne mansa de um tecido muito tênue. a salada mais carcomedora do mundo. o peru. a comida vence a batalha. alface muito clara e casca ralada de maçãs. Era um prato inteiramente novo. Mario de. perfeito. de acordo com os personagens respectivamente como: o prato mais lindo do mundo. a salada mais encantatória do mundo. Era o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo. 162. Juca pede que seja feito Peru no Natal. Um pouco anterior ao Banquete. e outra seca. duas farofas. foi descrito. O Banquete.. 46 Cozinha futurista. todas as vitaminas salutares. a salada mais sem perfume porém mais vistosa do mundo. um irmão. Neste texto também temos uma refeição como temática central. não havia culpa. Ao menos. a mãe poderia finalmente comer peru. porco. À mesa. 26 Andrade. o prato mais alcoolizador que havia agora no mundo. a mãe e a tia.

com bastante manteiga. e vai ao encontro de Rose. Como em Macunaíma. No céu marioandradino as iguarias são todas brasileiras. mesmo após a morte. Quase a ceia de Natal é estragada pela lembrança do pai. “Lenda do Céu”. 1993. Mário de Andrade revela o destino que se deve dar ao seu corpo após a morte. n’O Banquete e em “O Peru de Natal”. Mario de. com forte cunho nacionalista. o prazer gustativo e o prazer carnal se aproximam. e essa sensualidade é reafirmada ao partir o narrador. para que. Belo Horizonte: Vila Rica. e a sombra do pai. Juca. Em outro poema. por extensão. o sexo ao Paiçandu. para um encontro amoroso. como diz o autor. quer que seus restos mortais sejam enterrados em diferentes partes da cidade. em meio a mil maravilhas. e após essa felicidade. há uma contaminação do vocabulário referente aos prazeres gustativo e sexual. entretanto pareceram mais relevantes em três deles. Todos desfrutam de uma felicidade gustativa.A cozinha futurista douradinha. dividida com todos os familiares que puderam comer até se fartar. in: Poesias completas. a cabeça 27 Andrade. e todos passam a comer com sensualidade. constata que “tinha mandioca e açaí/ Mate cana arroz café/ muita banana e feijão/ Milho cacau … Tinha até”. e lá chegando. Numa declaração de amor à cidade de São Paulo. Juca passa à felicidade individual. O peru vence. este pertencente à série “Lira Paulistana”. Mário de Andrade considera as comidas do Brasil paradisíacas. gozando os prazeres daquela carne macia acompanhada por cerveja. Mais uma vez. Numa espécie de divisão ritual. Mário destrincha o próprio corpo. possa continuar gozando as delícias de sua terra natal. destinando os pés à Rua Aurora. Trava-se uma luta entre os dois mortos: o pai e o peru. em “Lenda do Céu”27. Outras referências gastronômicas podem ser encontradas na obra poética de Mário de Andrade. 47 Cozinha futurista. com o auxílio de Juca. existe sensualidade no ato de ingerir a iguaria desejada há muito tempo. em que um menino vai ao céu levado por uma andorinha. A primeira.indd 47 7/4/2009 15:51:18 .

poema de 1920-1921. aproximando-se da salada de Sarah Light. dono das tradições!/(…) Come! Come-te a ti mesmo. 29 Andrade. as tripas pro Diabo “que o espírito será de Deus”. 48 Cozinha futurista. um homem que sendo francês. o ouvido direito ao Correio. Cauteloso porque mescla várias culturas. Poesias Completas.. o joelho à Universidade. as mãos que ficassem “por aí”. Macunaíma não parece em momento algum causar ódio no autor. intelectual e física: “O burguês níquel. a língua ao alto do Ipiranga. Entretanto este poema intitulado ode (teoricamente uma poesia de elogio) demostra o ódio do autor contra o burguês. Não havia modo de o herói ser diferente. e. tradições 28 Lembremo-nos de que as tripas. escrito pelo mesmo Mário de Andrade. brasileiro.Fillippo Tommaso Marinetti à Lopes Chaves. em que o alimento auxilia na constituição do típico burguês. o coração ao Pátio do Colégio. é índio... é sempre um cauteloso pouco a pouco. de Macunaíma../ o burguês-burguês!/ A digestão bem-feita de São Paulo!/ O homem-curva! O homem-nádegas!/(. italiano. Macunaíma é fruto da mistura de tradições. O burguês. mas absorve a cultura africana e é contaminado pela européia. oh! gelatina pasma!/ Oh purée de batatas morais! ”29 Mario de Andrade faz o retrato da burguesia paulista da época.28 Podemos ainda encontrar resquícios pantagruélicos em “Ode ao Burguês”. mais consciente de sua “importância” na sociedade não goza dos mesmos privilégios de simpatia que Macunaíma. o esquerdo aos telégrafos. Mário de. O burguês indigesto de São Paulo é tão sem caráter quanto Macunaíma. provavelmente por sua ingenuidade de herói emprestado de uma mitologia indígena. ritualmente. foi a parte que coube ao malfadado herói.indd 48 7/4/2009 15:51:18 . os olhos ao Jaraguá. O burguês é insultado em sua formação cultural. através desta.) Eu insulto o burguês funesto! / O indigesto feijão com toucinho. eram destinadas às crianças. sem caráter. aparências contando mais que conteúdo moral ou cultural. o nariz aos rosais. e na divisão da primeira anta caçada por Macunaíma.

Passemos à carne do Bispo Sardinha! OswALd cAnibAL de AndrAde Comidas O horizonte reto Metodicamente Jantou O sol (Julio Paternostro)30 16 de junho de 1556.A cozinha futurista vazias de significado. havia virado churrasco. 10 31 Apesar de versões que negam que o bispo Sardinha tenha sido comido pelos índios. Alguns historiadores levantam a hipótese de que o bispo tenha sido assassinado por homens da guarda do então governador-geral. Sua carne não é boa o bastante para ser comida por outrem. no. de seu poder. 49 Cozinha futurista. O estrangeiro não era mais ameaça. a quem Sardinha vinha criticando publicamente. este burguês à autofagia. segundo o historiador Douglas Aprato. Os índios caetés devoram o primeiro bispo do Brasil. portanto. de sua força. dom Pedro Fernandes de Sardinha e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. Data da deglutição do Bispo Sardinha. Apropriam-se dele. Mário condena.31 30 Revista de Antropofagia. da Universidade Federal de Alagoas.indd 49 7/4/2009 15:51:18 . Duarte da Costa. a tese sobre o “banquete” encontra respaldo em documentos históricos. homens cheios apenas de comida insossa. como cartas de jesuítas da época.

. “Só a antropofagia nos une.. a antropofagia parece ter sido a mais radical das tendências da época. 1a. “Manifesto antropófago”. Na versão dele. A terrena finalidade. ”32 Das sucessivas leituras feitas para melhor compreender a obra de Marinetti. uma curiosidade persistia: haveria a antropofagia oswaldiana nascido num berço futurista? O Manifesto Antropófago foi publicado em 1928. com alguns amigos.. certamente – que se desvencilha dos inimigos ingerindo-os.) Só me interessa o que não é meu. (. Filosoficamente.) Antropofagia.Fillippo Tommaso Marinetti Oswald de Andrade prega o retorno ao homem natural . ainda na linha de “coincidências” entre os dois autores. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo durante o ano de 1918. Socialmente. Lei do antropófago. Absorção do inimigo sacro. verificamos que ambos tem um livro relacionado de alguma forma à gastronomia anteriormente ao manifesto: Oswald de Andrade escreveu. uma tragédia De acordo com o historiador Moacir Soares Pereira. dentição.do Brasil. Já Marinetti havia escrito Le Roi Bombance. e marca o início de uma escola literária. no. 32 Andrade.. assimilando assim os valores antes temidos. mas não os caetés nem em Alagoas. Lei do homem. O Manifesto Antropófago surgiu em 1928.indd 50 7/4/2009 15:51:18 .. Sardinha foi devorado por índios. mas. Divergindo em sucessivas batalhas intelectuais de escritores – modernistas ou não – e de outras escolas como o VerdeAmarelo e a Escola da Anta.. publicado no primeiro número da revista de Antropofagia. in: Revista de Antropofagia. Para transformá-lo em totem..) A transformação permanente do Tabu em totem.(. 1 50 Cozinha futurista. A diferença factual de dois anos poderia descartar a hipótese.. de 1930. A humana aventura. portanto precedeu em dois anos o Manifesto da Cozinha Futurista. Economicamente. Oswald de.(. o bispo foi alvo de tupinambás em território sergipano.

indd 51 7/4/2009 15:51:18 . intitulado “Receitas Sentimentais”.00 0. Comendo assim. Já na primeira página. 67. as aproximações são pertinentes. as almas sãs se farão robustas e as doentes susterão. nas horas de imbecilidade. 3o. 51 Cozinha futurista.33 Se faltam os ingredientes para aproximá-lo de um livro de cozinha. 1992.0005 Em cápsulas. o título da obra de Oswald compactua com esta. com alguns conselhos para as almas: “amemos sempre. Existe uma apenas de envelhecer contente”. x ao dia. Ainda que as datas neguem a influência direta em Oswald. a marcha de seus males”.A cozinha futurista gastronômica pantagruélica em 1905. – Há diversas maneiras de amar. receita”. que ocupa quase toda uma página. não faltam modos de preparo. Esta garçonnière servia como ponto de encontro para amigos. Envelheçamos devagar. À página 104. artistas e intelectuais da época. no ano de 1918-19. Criar “o cardápio perfeito para o banquete da vida. temos a “1a. João de Barros explicita qual é o objetivo do caderno-livro-diário: fornecer receitas para que as almas matem sua fome de experiência e sua fome de ilusão. temos um texto assinado pelo pseudônimo Dragoras. São Paulo: Globo. O livro é um diário de uma garçonnière que Oswald mantinha na rua Líbero Badaró. com grande encanto e surpresa. esta mais aproximada a uma receita médica: Recipe – Eu te amei ãã Tu não me amavas Eu já não amo Tu és má 0. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Após o texto. à moda dos famosos salões 33 Andrade. Oswald de. Apesar de não se relacionar com a culinária.15 50.33 0. andar sala 2.

Novamente. a que se refere um recorte de jornal colado à página 172.Lobato. apenas uma mulher. o amor visita a cozinha. Dentre eles. XI-XII 52 Cozinha futurista. todos nele escreviam. também pode ser comparada a O Perfeito Cozinheiro na questão estrutural. charges da imprensa e. À página 194. o gosto pelo trocadilho. os nomes grotescos ou humorísticos. em 1918. numa espécie de pastiche.”35 A Cozinha Futurista. Oswald.indd 52 7/4/2009 15:51:18 . Ed Globo. de colcha de retalhos. é possível reconhecer nesta obra um esboço do que seriam as características da obra oswaldiana – “o processo fragmentário. produziram o livro-diário. ocorre até mesmo um banquete antropofágico na obra. bilhetes. que é amante de Oswald”34. a visão de crimes e traições. também todos traziam e colavam cartas. Prefácio a O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Como observa Mario da Silva Brito. Se O Perfeito Cozinheiro é um pastiche de recortes de jornal. já havia praticado o que só viria a teorizar 10 anos depois.Fillippo Tommaso Marinetti já citados. o “príncipe de nossa prosa”. embaixo de uma foto que retrata muitas pessoas em volta de uma longa mesa ao ar livre. A tradição gastronômica de nosso país apresenta a mesma característica de assimilação das influências diversas para daí resultar em um produto original. VIII 35 Ibid. o amor pelas situações insólitas e imprevistas com tons de sátira e humor. figura dominante de O perfeito Cozinheiro: Deisi.. a Antropofagia. p. na grafia de Oswald de Andrade) a quem chamam de Miss Cíclone. Pois foi do mesmo modo formada a cultura brasileira. foste o cordeirinho pascal dessa farra de quaresma”. Todos os amigos que freqüentavam o local contribuíam com o diário. Na realidade. bilhetes 34 Silva Brito. cartas. p. recortes de jornais. “Há uma espécie de paixão coletiva por Deisi. (Dasy. Provável ironia ao almoço que havia sido oferecido a Monteiro Lobato. lê-se a inscrição: “. Mário da. de Marinetti e Fillìa.

outros cardápios futuristas criados pelos representantes do movimento. já que é composta da recolha de vários documentos relacionados ao Manifesto da Cozinha Futurista. A Cozinha Futurista não dista deste modelo de criação literária. receitas futuristas e um pequeno dicionário que auxiliaria um leigo a compreender a obra e a revolução proposta.. as cartas de pessoas contra ou a favor do movimento. mas são apenas fatos corriqueiros sem nenhuma aparente relação com a antropofagia. traz de volta à literatura um dos pseudônimos (Miramar era Oswald) que comparecem com bastante freqüência em O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. A obra provocou polêmica ao mesclar poesia e prosa numa atitude inovadora para com a língua.indd 53 7/4/2009 15:51:18 . por certo. os cardápios apresentados nos vários banquetes futuristas que foram oferecidos por ocasião do manifesto e da inauguração do restaurante futurista de Turim (o Santopaladar). Oswald fez sua primeira obra “antropofágica” em 1918.em 1930. mas excetuando a forma. Diferenças existem. Marinetti procedeu à ingestão.A cozinha futurista etc. O livro publicado por Oswald de Andrade em 1924. o manifesto. algumas poucas referências à gastronomia. que se limitou a reproduzir o conteúdo dos textos jornalísticos e dos cardápios sem todavia apresentar ao leitor a forma original. 53 Cozinha futurista. mas faltou-lhe a digestão dos elementos previamente ingeridos. Marinetti utilizou o mesmo processo – a colagem . Esta obra gastronômica de Marinetti é composta por um texto que poderíamos considerar literário – Uma refeição que evitou um suicídio. Pastiche também ele. muito mais privilegiada na obra de Oswald. nesta obra. os métodos de produção se eqüivalem. Valendo-nos de Padre Antonio Vieira. Temos. e pouco aproveitada em Marinetti. Memórias Sentimentais de João Miramar. a polêmica por este suscitada e publicada em diferentes jornais e revistas. o poético antefato tragicômico –. que manteve a aparência de “álbum de colagem” e a caligrafia manual.

lingüísticos ou culinários (A cozinha. Nesta obra. econômicos. dentição. o poema “A Roça” nos traz uma descrição da alimentação dos negros que trabalhavam nas fazendas. Excertos de historiadores famosos. todos bem assimilados e digeridos. Oswald lança o Manifesto Pau-Brasil. temos referências ao ananás. 1a. Buscando a originalidade nativa nos fatos pictóricos. O vatapá…). estabeleceu-se um paralelo entre os dois autores: as discussões para batizar o movimento artístico dos rapazes de São Paulo cogitaram o termo “futurismo”.indd 54 7/4/2009 15:51:18 . 54 Cozinha futurista. em 1925. produzida no Brasil. “Sem reminiscências livrescas. em 1925 Mário de Andrade diria numa carta a Sérgio Milliet: “Essa invenção Pau brasil do nosso Oswald é uma espécie de futurismo de Marinetti. in: Revista de Antropofagia. que resultará na publicação de Poesia Pau-Brasil. muitas são as referências a iguarias nativas. étnicos. frutos tropicais desconhecidos pelos europeus.”36 Mais uma vez. “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. Sem comparações de apoio. note-se a força de trabalho destes ao final do poema: 36 Andrade. como Pero Vaz de Caminha ou Fernão de Magalhães são sistematicamente recortados. Produtos que serão exportados à Europa. Em “Poemas da Colonização”. apenas frases selecionadas engenhosamente. Oswald de.” O livro Poesia Pau-Brasil começa com uma leitura pessoal feita por Oswald sobre a História do Brasil. Sem pesquisa etimológica. No entanto. adquirindo assim novo sentido ou poder de persuasão ao serem lidos aos pedaços. Sem ontologia. no. a cidras limões e laranjas e à cana-de-açúcar. Poesia de exportação.Fillippo Tommaso Marinetti No mesmo ano. a pepinos romãs e figos. humildes. que foi rejeitado enquanto “marinettismo”. com os ingredientes de que dispomos. Apesar de ser composta por ingredientes simples. folclóricos. 01. Toda a gente está lá dentro. o Manifesto Pau-Brasil funda a poesia de exportação. Em “Gandavo”.

38 Os três poemas citados estão em Andrade. São Paulo: Globo. 55 Cozinha futurista. O estrangeiro sendo misturado ao café e à pinga.indd 55 7/4/2009 15:51:18 . Pau Brasil. uma mistura que revela o caráter do povo brasileiro. que o assimila as influências para transformá-las em originalidade. nativos. Entretanto. preferências nacionais. o poema “Walzertraum”37 diz que “aqui dá arroz/ feijão batata/ Leitão e patarata”. Oswald de. 2000. 37 Numa tradução tendenciosa: “Sonho de Valsa”. um poema já prenuncia a antropofagia oswaldiana: DIGESTÃO A couve mineira tem gosto de bife inglês Depois do café e da pinga O gozo de acender a palha Enrolando o fumo De Barbacena ou de Goiás Cigaro cavado Conversa sentada38 Ingredientes brasileiros com gosto de comida estrangeira. nosso chocolate tão nacional. As referências gastronômicas são sempre feitas a produtos nacionais.A cozinha futurista A ROÇA Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angu Abóbora chicória e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços Em “rp 1”. em “Postes da Light”. e tem o “trem leiteiro/ que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro”.

após alguns anos de relacionamento mal explicado à sociedade: Pegue-se 3 litros do visgo da amizade Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo Mexa-se até ficar melado bem pegajento E engula-se tudo de uma vez Como adesão do Mário de Andrade Ao almoço Pra Tarsila E Oswaldo Amém. com ingredientes e modo de fazer ou ministrar: Tome-se duas dúzias de beijocas Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia Coloque-se dois ovos Agite-se com o braço da Fatalidade 56 Cozinha futurista.indd 56 7/4/2009 15:51:18 .Poesia Futurista” .. Mário de Andrade divulga em 1925 um poema em homenagem ao amigo Oswald. ambos aludindo a receitas. A resposta de Oswald também vem em forma de poema – paródia publicada em Serafim Ponte Grande. sob o título “O Amor.Fillippo Tommaso Marinetti Numa amigável intriga literária. que acabara de anunciar o noivado com Tarsila.

Rubens do Amaral. real em outras. teve duas dentições: a primeira teve dez números em formato revista. Hans Staden salvou-se porque chorou. real.indd 57 7/4/2009 15:51:18 . Às vezes. simbólica em algumas sociedades. Além da referência gastronômica óbvia no nome da revista. o direito de properiedade. O club de Antropophagia quer agregar todos os elementos sérios. Foram 16 páginas. vários artigos anunciam os jantares nos quais certas figuras da sociedade seriam deglutidas. a segunda era limitada a uma página do “Diário de São Paulo”. A antropofagia. Precisamos rever tudo – o idioma.A cozinha futurista E dê de duas horas em duas horas marcadas No relógio de um ponteiro só! A Revista de Antropofagia. Tudo no fundo é a mesma coisa”. Escreveu Oswald de Andrade que devemos “admitir a macumba e a missa do gallo. de agosto de 1929. Veja só que vigor: . a carne destes é oferecida no Açougue. com a verdade de seu povo. sob a direção de Antonio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. com o primitivo e natural. hoje compilada num único volume. Ou ainda: É a comunhão adotada por todas as religiões. intelectuais que não compreendiam os rumos da literatura modernista. (Só comiam os fortes).Lá vem a nossa comida pulando! E a “comida” dizia: “come essa carne porque vai sentir nela o gosto do sangue dos teus antepassados. e foram editadas de maio de 1928 a fevereiro de 1929. para que todos os que assim desejam possam participar da comunhão desses tabus. com as raízes. O catolicismo instituiu a mesma coisa. por conseguinte. O índio comungava a carne viva. Até que virem totens. com 8 páginas. porém acovardou-se. mascarando o nosso símbolo. todos seriam ingeridos para reforçar o movimento antropofágico. cedida aos antropófagos pelo editor do jornal. coloca o ser humano em contato com seus antepassados. publicadas semanalmente. de 17 de março a 1°. Poetas sem brilho. a famí- 57 Cozinha futurista.

escrever como se fala. em seu poema intitulado “Bahia”. Ascenso Ferreira. num gesto de comunhão e de exorcismo ao mesmo tempo. caruru. 05. p. “Há diferenças psicológicas entre a eliminação física do adversário de maneira ‘científica’ (a cadeira elétrica de Lacerba) e sua deglutição. São Paulo. ou ainda: “A arte é um meio de ‘devorar’ o conteúdo trágico da vida.40 Benedito Nunes afirma que “A antropofagia transportou para o campo das idéias políticas e sociais o espírito de insurreição artística e literária do Modernismo”. talvez com um paladar um pouco mais “modernizado” que o defendido por Oswald. oxinxin.indd 58 7/4/2009 15:51:18 . ou “Os índios não comem a carne de seus inimigos ou chefes com intenção 39 Revista de antropofagia. 1979. Perspectiva/ EDUSP. define a tradição de sua terra através dos pratos típicos – vatapá. 51 e 66 58 Cozinha futurista. abará. Annateresa. Benedito.39 Segundo Annateresa Fabris. acarajé. 277 41 Nunes. em valores humanos e em obras de arte”41 Outros colaboradores da revista também tinham suas preocupações gastronômicas. transformando todos os tabus em totens. no. 3 40 Fabris. O Futurismo Paulista. mas a ser consumido necessariamente para criar uma nova ordem de coisas no Brasil”. acaçá. 1994 P. sob diversos nomes (ou pseudônimos): “se há uma coisa vinculada à alma brasileira é este pequeno e inocente vício guloso que levava a velha índia convertida a pedir in extremis ao seu confessor um dedinho de curumim a chupar!” (Ubaldino de Senra). no cardápio antropofágico.Fillippo Tommaso Marinetti lia. sinceridade máxima. efó – e pela negação das iguarias estrangeiras: “te dana Petit-pois/ te dana Macarrão/ te dana paté-de-fois-gras!/ Viva o caruru”. várias vezes volta à discussão a tradição indígena. p. No decorrer dos números da Revista. em geral indigesto. Oswald Canibal. isto é. São Paulo: Perspectiva. a necessidade de divórcio -.

Suprimamos as idéias e as outras paralisias. exige-se “a abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato” ou a afirma-se que “Os defensores do macarrão carregam a bola ou a ruína no estômago. não apenas no conteúdo transformador. das idéias pré-concebidas. além da negação do cotidiano. Temos aqui o uso da primeira pessoa do plural – nós – que engloba o leitor. sem dúvida. fazendo-o acreditar que faz parte também do movimento. Comem porque pensam mastigar também o valor do comido – comidos voluntários. na supressão da pontução e no tom provocatório: No Manifesto de Marinetti. Talvez nunca tenham sabido da existência desses Manifestos quase “afins”. mas também no estilo telegráfico. queimam gente nas praças públicas. das idéias e da língua.” (China) O Manifesto Antropófago é de 1928 e. afirma-se que os futuristas “Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega”. Ambos os autores querem modificar a mediocridade atual. as vanguardas ocidentais trataram as culturas não ocidentais em total pé de igualdade. “especialmente das artes visuais. portanto. reagem. procedem à desestruturação da sociedade. como prisioneiros ou arqueólogos”. inspiraram-se preponderantemente nelas nesse período. (…) Contra as sublimações antagônicas.indd 59 7/4/2009 15:51:18 . Talvez Marinetti tenha sabido da existência da Antropofagia e tenha resolvido imbricar-se nesta área. (…) Seu ‘primitivismo’ era. e para alcançar tal objetivo. também este anterior ao Manifesto da Cozinha Futurista.” Ou “Contra todos os importadores de consciência enlatada. Entretanto. Na verdade. de Oswald: “Somos concretistas. propondo um novo meio de expressão. As idéias tomam conta. quasi todos. do status quo. Trazidas nas caravelas. a comparação faz-se inevitável. Eric Hobsbawn diz que no campo da arte. Contra a verdade dos povos missionários (…) – É mentira muitas vezes repetida”. entendida por ele como culinária.A cozinha futurista gastronômica. Comparemos com o Manifesto Antropófago. sua prin- 59 Cozinha futurista.

no qual se enraizará sua consciência nacional.Fillippo Tommaso Marinetti cipal atração.indd 60 7/4/2009 15:51:18 . contra o estranja (de outros) ou o infinito (sem dono). os brasileiros. Da sensação espontânea contra a moral. Em 1937. apesar de haver herdado a cultura européia. 1998. Do ingênuo contra o artificioso.”42 O Brasil. 4 (editorial) 60 Cozinha futurista. ao contrário. enfocam a questão pelo prisma da exaltação de um lugar geográfico emblemático. cacau. Da terra (que é nossa). a disciplina. (…) Os brasileiros estavam começando a descobrir um certo passado. o escritor questionava a estrutura econômica e cultural do Brasil: País de sobremesa. 42 Hobsbawn. café. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Da inferioridade do mestiço que trabalha. Martins Fontes. Os olhos da nossa gente melam. 265 44 Revista de Antropofagia.p. O sr. Tudo resultado da gula. Ao comparar os dois movimentos literários. O Futurismo Paulista. Do nativo contra o importado. Da claridade natural contra a sombra da filosofia. 2a dentição. no. contra a superioridade do ariano corroído pelo vício e pela moleza das decadências.”43 De tudo isso se conclui que a antropofagia é a revolta da sinceridade recalcada durante quatrocentos anos. castanhas do Pará. Os espíritos também.”44 A preocupação com a metáfora gastronômica não cessaria em Oswald.. Mário de Andrade escreveu um livro que se chama Dar. o sistema. verbo intransitivo. “A reação da paisagem contra o tempo. Eric. O açúcar substitui o pão das populações. num artigo intitulado “O país da sobremesa”. Annateresa Fabris diz: “É diferente a atitude de modernistas e futuristas perante a consciência do atraso: os italianos adotam como estratégia fundamental a negação do passado. 43 Fabris. Exportamos bananas. País laranja! Temos Coelho Netto. tinha muito de primitivo por suas raízes indígenas e africanas. A Era dos Impérios. coco e fumo.120-1. Guilherme de Almeida.. Annateresa. p.

Marinetti conta como surgiu a idéia de se instaurar uma revolução na cozinha. o mesmo Giulio recebera um telegrama de outra mulher. para que fosse salva a vida de seu amigo Giulio Onesti. “mas não o suficiente”. juntamente com os futuristas Prampolini e Fillìa. além de um lugar reservado aos autógrafos. além de uma taça antropofágica cujo conteúdo desconhecemos e cauim “selo vermelho”. e como solução. batida pau brasil. a lista dos pratos: folhadinhos marcianos e canapés voadores. Marinetti corre ao socorro do amigo. No verso. Ano também do jubileu do “Pau Brasil”. coração de abacate com crustáceos incrustados. Proceder-se-ia finalmente à manducação do criador do Manifesto Antropófago. por diferentes ingredientes. cuja capa reproduzia cenas antropofágicas do livro de Jean de Léry – Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil45. lombinho parnasiano e virado. 61 Cozinha futurista. uma que se parece muito com a morta. Para aumentar a tensão. deu ensejo a um cardápio de criativo projeto gráfico. em 25 de março de 1950. reproduzimos o cardápio do almoço em comemoração aos 60 anos do escritor.indd 61 7/4/2009 15:51:19 . composto. o suicídio parecia ser a melhor alternativa. mArinetti AntrOpOFáGO O livro A Cozinha Futurista. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil. que se suicidara em Nova Iorque. convida todos os futuristas à cozinha. transformada em “fantásticos laboratórios”. no ano 396 da deglutição do Bispo Sardinha.A cozinha futurista Encerrando grandiosamente as relações canibais em Oswald de Andrade. para inventar 45 Léry. como já vimos. Jean de. tem como ingrediente literário apenas o primeiro texto: “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. Para não trair a morta. Neste texto. Giulio Onesti estava deprimido e com instintos suicidas após saber da morte de sua ex-amante.

Os primeiros homens foram expulsos do paraíso porque não conseguiram refrear o impulso de comer um fruto proibido. em São Paulo ano de 1922. 25. farinha de amêndoas./ O vinho eu já bebi. Eva e o Pecado Original. farinha de centeio. “indispensáveis”: farinha de castanhas. metafórica. tradução de Antonio Medina Rodrigues. Ainda no âmbito bíblico. Dez jarras de óleo. mas ingerimos o corpo de Cristo em forma de hóstia. Cem quilos de tâmaras e de bananas. mel e leite. do leite já provei. chocolate em pó. Os ingredientes. Dentre os versos do Cântico./ E sob a língua. com 22 esculturas.”46 A estreita ligação que existe entre amor e comida remonta à origem do mundo. com bolos de mel me recupera”. encontramos : “do banquete me aproxima. farinha de trigo. açúcar e ovos. diálogo romântico atribuído a Salomão. e bebemos seu sangue em forma de vinho. Estes ingredientes ao aludirem ao Cântico dos Cânticos. ou “raios de mel. Talvez Marinetti esteja aludindo à Semana de Arte Moderna./ Provei meu mel. basta lembrar de Adão. ou a forma dos pratos assemelhar-se a elas. na Eucaristia. leite e mel. Daí advém o fato da descrição dos pratos futuristas muitas vezes ser entremeada de adjetivos atribuíveis a mulheres. farinha de milho. por certo. Marinetti aproxima os prazeres derivados pela comida ao proporcionado pelas mulheres. ninfa. e vem sendo repetido nos últimos dois mil anos. Antropofagia indireta. pp. podem talvez ser um prenúncio de uma relação amorosa a ser apresentada posteriormente ao leitor. Bastaria observar os pratos executados por Marinetti e seus companheiros para a “Mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis”47: 46 Cântico dos cânticos. pimenta vermelha. destilam teus lábios. lembremos que o primeiro ritual antropofágico cristão aconteceu durante a última ceia. 37 e 39 47 Caberia aqui ressaltar a coincidência (ou não) de haver uma mostra.Fillippo Tommaso Marinetti esculturas comestíveis. 62 Cozinha futurista.indd 62 7/4/2009 15:51:19 ./ E como aroma libanês recendem teus velamens” ou ainda “Depois de haver provado o trigo meu.

e esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. Escultores e escultoras dormiam. e das mais belas Áfricas sonhadas. Enquanto os complexos plásticos comestíveis têm as curvas de uma mulher. era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. sem fazer barulho. como uma tigresa alongada. Às três daquela noite. a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. um sorriso seu de lábios.A cozinha futurista Complexo plástico d’Ela .massa folhada com uma leve curva especial de boca ou ventre ou quadris. Paixão das Loiras . com um tremendo torcer de rins. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. Ajoelhandose em frente. a língua e os dentes. Acima.é de tal modo bela. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as 63 Cozinha futurista. com as costas suspeitosas de um ladrão.suave magnetismo das mulheres mais belas. começou a amorosa adoração com os lábios. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. parece oportuno ressaltar o fato de que a ingestão de um prato assemelha-se intensamente a uma relação sexual: De improviso. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos .indd 63 7/4/2009 15:51:19 . um seu modo de flutuar sensualíssimo. Levantou-se agilmente. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda.

frutas e peixes. cogumelos trufados. com a cabeça descoberta. Estava ao mesmo tempo desobstruído. Perfumes diversos são vaporizados nos comensais. O capítulo “Os Cardápios Futuristas – sugestivos e determinantes” também evoca a sensualidade que se pode obter através da alimentação. Giulio saiu então no parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. que já não tem certeza de se tratar de um prato comestível real ou se este prato se transubstanciou em fêmea. apenas para cheirar. Aproveitador e aproveitado. chocolate. liberado. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. se Giulio apenas se delicia com uma iguaria que enche os olhos e o estômago ou se imagina haver ali uma mulher submissa às suas glutonarias. tudo coberto por pétalas de violeta. Marinetti confunde o leitor. Talvez para se refrescar. risoto. Este cardápio. No “Cardápio Noturno de Amor”. O “Cardápio de Solteiro” tenta amenizar a solidão do rapaz com pratos que evocam louras. Único e total. verdadeira tortura psicológica e estomacal.indd 64 7/4/2009 15:51:19 . Possessor e possuído. vazio e transbordante. presunto infuso em leite e ostras com vinho Moscato devolvem os amantes às fadigas da cama. ervas. Sem fim. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. morenas ou uma bela desnuda: “duas coxas de frango cozidas numa bacia de cristal. O “Cardápio de Núpcias” promete aquecer os estômagos de todos os comensais com risoto à milanesa. berinjelas fritas.Fillippo Tommaso Marinetti grandes jóias do olhar. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. não oferece nada para comer.” Mas é no “Cardápio Extremista” que podemos mais uma vez observar a índole canibal latente no futurismo. lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. espinafre com creme. 64 Cozinha futurista. com leite apenas ordenhado.

Panciarguta. como podemos observar no romance Le Roi Bombance – tragédia satírica em quatro atos.escrito em francês por Marinetti em 1905 e depois traduzida pelo próprio Marinetti para o italiano com o título Re Baldoria. autor de Ubu Rei.” Os paladares famintos são então aplacados com dois perfumes de “vida carne luxúria morte”. No romance. que prometem um banquete a todo o reino. no reino dos Citrulli. desde o nome dos personagens até o nome da espada do rei – La Succulenta. le loro poppe proeminenti ci nascondevano la magnificenza delle portate”48. em prosa . simbolicamente) são então passadas a três aproveitadores. e foi bem recebida por Alfred Jarry. e um deles observa que se não lhes for oferecido nada. A história se desenvolve numa era medieval fictícia. em um castelo onde tudo alude a comida. F. desde o início da carreira de Marinetti. ainda na França.A cozinha futurista Os convidados choramingam. – A tavola. p. seu inspirador. Re Baldoria. já que “la ripugnante sobrietà delle donne e la loro abituale lussuria scombussolavano già da troppo tempo le nostre idee digestive. havia uma atenção especial a este tema. 1920. primeiro cozinheiro. 09 65 Cozinha futurista. Na realidade. o que proporciona uma felicidade estomacal nos homens. criada durante a greve geral de 1904 em Milão. As mulheres todas fogem. Milão: Fratelli Treves. o futuro histórico-social do mundo é reduzido a uma questão meramente gastronômica: os homens lutariam e se ocupariam incessantemente apenas para garantir sua felicidade gastro-intestinal. e as cozinhas (o poder. não é apenas em A Cozinha futurista que podemos observar esta abordagem antropofágica. A obra é uma metáfora gastronômica rabelaisiana. imploram por qualquer coisa para mastigar. morre. “veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas.T.indd 65 7/4/2009 15:51:19 . lamentando o fato de não poderem devorá-las: 48 Marinetti. Alguns homens sentem falta das mulheres. Entretanto.

p. mais uma vez verificar a aproximação dos prazeres gastronômicos e sexuais: “Ah! Vieni. sanguinacci saporitissimi. tenta em vão. lendo uma carta por ela enviada. ma non si lasciano mangiare! E ci si annoia. de Mário de Andrade. os secretários e os companheiros que por um ou outro motivo desafiavam-se na sala do banquete e perdiam a vida. vieni ad amarmi a tavola. Já vimos o que simboliza o vômito em Macunaíma. Quem assina é “La tua Salsetta”. vieni presto. aplacar a fome dos comensais com palavras. Numa orgia antropofágica. nesta carta.T. vieni a baciarmi con le tue belle labbra sugose di prelibati salmi! (…) Vieni. fato que ocasiona a ressureição do rei e seus seguidores. a ingestão do rei é considerada uma honra para o ingerido. foi salgada e ingerida. A fome extrapola os limites. p. Este já havia nomeado outros cozinheiros. ad amarmi a tavola e a mangiarmi a letto!”..indd 66 7/4/2009 15:51:19 . os homens devoram uns aos outros. Ibid. exigindo que o rei os alimente. De fato. Podemos. sempre relacionada à ingestão de carne humana: 49 MARINETTI. sem mastigar bem. e os convivas resolvem comer o rei. através do vômito. mulher de estômago forte. perdio.. apassionatamente. p. como nas tribos indígenas. Re Baldoria. mas Marinetti nos dá outra informação. 105 66 Cozinha futurista. 33 51 Id. O Idiota.12 50 Id. l’impermeabile pelle!49 O rei sente falta da sua rainha. mia grossa polpetta dorata. que se fartam nas cozinhas enquanto dizem preparar o alimento para todos. F. a leccarne senza fine. pois “poderia haver um túmulo mais digno?”51. Ibid. così. 50 Os habitantes começam a se revoltar. bobo da corte. che noi empiamo del nostro sangue di porco! Diventano.Fillippo Tommaso Marinetti Le donne? …Sono vesciche. A carne de todos os que morreram.

Marinetti satiriza nesta obra a ideologia e a práxis socialista: “La sociologia si tramuta in sauçologie. Ibid. salsologia. Re Baldoria. Fra Trippa. representante eclesiástico da história. e que fediam muito) sentem fome novamente. defende que sua ingestão e ressuscitamento através do vômito seria simbólico. este é o meu sangue (e oferece o sangue que recolhera em uma taça).indd 67 7/4/2009 15:51:19 . Quel che si vomita è più forte e più vivo di ciò che si è inghiottito!…52 Em uma passagem do livro.”53 Segundo Luciano De Maria. la proprietà comune dei 52 Id. Perché si vomita sempre molto più di quanto si è mangiato!…Talvolta. se non volete che il corpo mangiato. A antropofagia era real e metafórica ao mesmo tempo. i Citrulli vanno perfezionando le loro mascelle nell’arte di divirarsi l’un l’altro con crescente agilità… Ecco il solo progresso possibile.. um dos personagens alude ao sacramento católico. indicando que a história poderá se repetir infinitas vezes.A cozinha futurista Inoltre bisogna guardare bene dal recere le conquiste del nostro stomaco… 1°. este é meu corpo! (e oferece realmente uma parte de seu corpo mutilado). 227 53 MARINETTI. o Santo Sepulcro devolveu Jesus Cristo. os homens ressuscitados (vomitados. rinsaldandosi l’uno all’altro rivivano in voi per dichiararvi guerra!… 2°. e recomeçam a lançar olhares de desejo uns aos outros. Um vampiro filósofo que aparece ao final da história resume o problema: “Di età in età. p. Entretanto.. Um dos personagens. p. 267 67 Cozinha futurista. si vomitano persino le budella… talvolta lo stomaco intero!… Masticate con cura gli alimenti! Dividete la carne in tanti piccoli pezzi. ed uno dei cardini del socialismo. Bebam. ao final. F. assim como a baleia devolveu Jonas. e diz: Comam.T. o mar devolve o cadáver dos náufragos… assim também o estômago dos Citrulli os havia restituído à vida.

ridendo come un pazzo. diviene la socializzazione dei mezzi di produzione culinaria”54.Fillippo Tommaso Marinetti mezzi di produzione. um filho imortal porque nasceu sem a participação da vulva maléfica que predispõe à decrepitude e à morte. que renuncia ao seu trono e ao seu povo após vencer todos os inimigos. Magamal. Mais uma vez. no decorrer da obra. Pouco tempo depois.203 55 MARINETTI. atravessa os oceanos e concebe finalmente a idéia de um filho que resultasse de um nascimento apenas cerebral. bárbaro e sádico.o rei de Tell-el-Kibir. la sera. em sua tradução italiana. A obra. e não biológico.indd 68 7/4/2009 15:51:19 . Marinetti publicou Mafarka.T. il futurista. e lo condirono sì bene con viole e cannella. levou Marinetti a um processo por atentado ao pudor. (…) Mafarka lo mangiò. Luciano. cruel e impetuoso.. do qual o autor foi absolvido.76-77 68 Cozinha futurista. emanação pura do discurso futurista. Este romance africano traz a história de Mafarka-el-Bar . E. una dopo l’altra. Mafarka.55 54 DE MARIA.. sui cuscini. confunde-se o vocabulário referente aos prazeres carnais e estomacais: I cuochi infarcirono lo Zeb con del latte cagliato. p. em 1910. “La chiave dei simboli in ‘Re Baldoria’” in: La nascita dell’avanguardia. pensndo fosse un pesce. empreende uma viagem mítica ao reino dos mortos. origliavano alle porte della casa sala del convito. Poi. facendo schioccare la lingua e stroppicciandosi le mammelle per vincerne il troppo dolce prurito. Pp. para trazer à vida seu irmão mais novo. le servette. fosse no amor ou no modo de governar . il Futurista quase simultaneamente em francês e em italiano. stuzzicante da quell’odore. Mafarka si gettò sulle serve che stavano sparecchiando e le possedette. Assim nasce Gazoumah.guerreiro feroz e implacável. F. che un odore caldo e squisito inebbriò voluttuosamente tutta la casa. tirano e usurpador. Louco de dor.

que reproduz a capa de inúmeras obras raras ou de difícil localização. de Cremona. carrega numa mochila um pedaço de carne salgada. 5) Matrimonio ad aria compressa. declara.arengario.it/futurismo 69 Cozinha futurista. uma vez que uma grande indigestão num livro de contos eróticos pode referir-se ao abuso das “fadigas da cama”. entretanto. pela Casa Editrice Ghelfa. 6) Una favolosa indigestione. a surpresa: ele carrega consigo o corpo mutilado da amante.indd 69 7/4/2009 15:51:19 . que se pode mesclar com a antropofagia. durante a travessia de um rio em meio 56 www.A cozinha futurista Muitos banquetes (ou orgias) acontecem no decorrer da obra e. bem como resenhas ou comentários sobre seu conteúdo. Selecionamos alguns títulos aparentemente relevantes a este estudo. Em 1922. o qual. a voracidade com que os personagem avançam sobre o alimento remete aos antigos antropófagos. de 1930. um “studio biliografico”. pela editora Excelsior de Milão. que devoravam os inimigos para saciar seu apetite animal. agile e interessante autobiografia. Num clima de insanidade. Guzzo o personagem Corajoso a que se refere o título. que ele havia amorosamente comido. 3) Cuori complicati. traz sete novelas eróticas: 1) Autoritratto. de Roma. Ao abrir a mochila. 2) Consigli ad una signora scettica. 7) Grande albergo del pericolo. não quer dividir com ninguém. Atenção à sexta novela. já destituída da cabeça. Em 1927. por tratarem do amor. um livro sobre amor foi lançado por Marinetti: são alguns contos eróticos publicados sob o título Gli Amori Futuristi. outro livro traz o amor no título: Scatole d’Amore in Conserva. Publicado pela Edizioni d’Arte Fauno. 4) Cacce arabe. das pernas e dos braços. algumas informações puderam ser obtidas no site L’Arengario56. entre disparos de metralhadora do campo inimigo. cujo título remete à antropofagia. neles. Algumas obras de Marinetti não são facilmente encontradas. encontramos um conto intitulado “Come si nutriva l’Ardito”. No livro de contos Novelle colle labbra tinte. Em 1918 foi publicado o livro Come si seducono le donne.

vero Saraceno magro agile scattante. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. Novelle colle labbra tinta: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. de outra cultura. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”.58 Guzzo é muçulmano. Marinetti pode talvez querer assim atenuar a gravidade do ato canibal. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra”. o rosto embrutecido.T.402-3 58 Id. Observemos como a descrição da jovem morta devorada por Guzzo assemelha-se bastante à descrição dos complexos plásticos comestíveis já citados: Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. ingenuo. Além disso. dois detalhes invocam o passado ritual antropofágico. e a mochila com os restos da mulher é então carregada pelo tenente. Plasticamente falando. que havia assistido a toda a cena canibalesca. deformado. Guzzo conversa com o cadáver. tremano. Milano: Mondadori. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non parla più! Il ventre umile. Ibid pp 399 e 405 70 Cozinha futurista. que responde. Le mammelline tonde soavi vive. Imagina-se que ele comerá o resto do cadáver. Mais tarde: “nelle mie vene il mio sangue ti culla. de outra cor. Num primeiro momento. timido.57 Guzzo morre. pp. mas com olhos dulcíssimos.indd 70 7/4/2009 15:51:19 . assim. algumas imagens acabam por tornarem-se recorrentes nesta “fase antropofágica” de Marinetti. assimilando o resto do amor que ele traz. Cosi pure il collo. piccola. pedindo que seja ingerida. F. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente.Fillippo Tommaso Marinetti à batalha. Entretanto. assim eles se tornariam apenas um. tem uma grande cicatriz. temos a descrição de Guzzo: “un certo Guzzo di Trapani tutto nero. fazendo crer o leitor na doçura deste monstro 57 MARINETTI. grandi occhi neri dolcissimi. 1930.

o intestino igualmente enamorados. a alvorada. a ingenuidade. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. O outro excerto alude ao fato comum entre os indígenas americanos (a América era o paraíso na visão de muitos europeus) de ingerir o corpo dos ancestrais mortos. o furioso turbilhão do sexo. através de Guzzo e seu tenente. a graça infantil. o pudor. os futuristas. especialmente as mães. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. a língua. outros detalhes sobre o sexo feminino: 71 Cozinha futurista. não só o tato e relativas carícias. acabam por revelar sua opinião sobre as mulheres. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas obras de gênio e de língua insaciável. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. Marinetti nos revela. o estômago.Amamos as mulheres.A cozinha futurista de cultura desconhecida. Eis o que dizem: . Em um diálogo que praticamente encerra o conto. diante de nossas mãos. mas os dentes. a única e todas encontravam-se aqui. São os nossos estados de ânimo realizados. se apertado pelo supremo prazer do amor. O fascínio. respondendo a uma pergunta feita por “aquela que se parece bastante mas não o suficiente”. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. Em “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”.indd 71 7/4/2009 15:51:19 . pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. para que assimilassem com este as qualidades atribuídas à pessoa em vida. O seu coração.

Vedi.indd 72 7/4/2009 15:51:19 . o ato antropófago. Deglutir tudo. Deglutir até que chegue a hora de um prato melhor. Construir de novo. (Ou ainda: a mulher é comida). as mulheres têm tanta importância quanto a comida. Ti ho visto. ma non le donne vive. né i suoi piedi. Guzzo? Sì. p. le sue braccia. visto que será assimilada pelo outro. A mulher é adorada.Fillippo Tommaso Marinetti Ti piaciono le donne. ajuda o homem. Ibid. auxiliar a catalisar suas forças. A mulher deixa de existir. comida. Ora porti il resto sulle spalle. Non amo la testa della donna. não pode mais escapar. Lo so.406 72 Cozinha futurista. proporcionar-lhes prazer. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. degustada. nós 59 Id. e no final. ti approvo. cuja força aumenta com a carne ingerida. vemos a conformidade deste pensamento de Marinetti com o movimento brasileiro. deixa de pensar. Devem satisfazer o homem. le sue gambe. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!…59 Não seria absurdo pensar que para o futurista. Lo so. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. cheirada. Um texto sob o pseudônimo Darwin afirmava que era necessário: Voltar ao estado natural. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. sem no entanto atrapalhar seu desenvolvimento ou sua vida. Ao chegarmos aí. Nada mais oportuno que uma relação canibal: após o ato amoroso. Na Revista de Antropofagia.

internada num hospital após uma cirurgia sem muito sucesso para a retirada dos órgãos reprodutores inflamados. para viver dele? 60 Outra obra do futurismo que tem um leve apelo antropofágico é Un Ventre di Donna. a no momento de tirar o curativo e enfrentar a cicatriz. não! Cortar. em meio à guerra. dizia o poeta. quem não sabe que os amantes se comem. e ROBERT. 1919. dentição. os médicos são equiparados a açougueiros. p. O primeiro cirurgião é apelidado pela senhora Robert de “Jack. 1a. para que o médico não tivesse “naquele dia a sua porção de carne a cortar com método”. A cirurgia é feita. Marinetti. Boa parte da obra é escrita de maneira epistolar. até com os dentes. a senhora tem uma crise de nervos. tirar. e em meio a contorsões grita: “Não! Assassinos! Açougueiros! Acorde. quer fugir do hospital. somente começa a se acelerar após a leitura do “manual terapêutico do desejo-imaginação” desenvolvido por Marinetti. Un ventre di donna: romanzo chirurgico.T. exaustivamente lenta. a carne humana 60 Revista de Antropofagia. havendo uma troca de correspondências entre o futurista F. no. a ciência se iguala à inspiração e o pensamento circula livremente pelo organismo Nos transportes do amor humano. Milano: Falcchi Editore. o objeto amado. para alimentar-se. lo sventratore”. 7 61 MARINETTI. Enif. T. 73 Cozinha futurista. Futurismo como cura. e a senhora Enif Robert. Os pontos não cicatrizam. F. apesar de não haver menção à ingestão da carne humana. para unir-se a ele.indd 73 7/4/2009 15:51:19 . numa trincheira. ocorre uma segunda cirurgia e a recuperação. “romance cirúrgico”. com uma doença nervosa. quiseram-se incorporar-se de todos os modos. nova crise nervosa. logo.A cozinha futurista teremos atingido o momento supremo em que a idéia se une à força. não! A minha carne é minha!… Comando eu!… Tenho direito…”61 Neste livro. para possuí-lo. e quando se deve proceder à cirurgia. se devoram. 59 e 81.

outras foram simplesmente descartadas. física. os autores renegam o passado literário. teorizada por Oswald. seja através dos alimentos oferecidos ao corpo e à alma. moral. em prol de uma modernidade almejada. bebendo dessas fontes.indd 74 7/4/2009 15:51:19 .85 74 Cozinha futurista. os secretários eram “açougueiros” e a carne dos “inimigos intelectuais” era sempre oferecida num açougue imaginário. Para evitar a indigestão. julgando que estão livres daquelas amarras intelectuais. As pessoas e as influências importantes foram assimiladas. foi praticada por estes três autores e muitos outros em diversas culturas. A renovação de nossa literatura deve muito aos caraíbas e aos tupinambás. A antropofagia. novamente. seja através da ingestão e a assimilação dos ingredientes formadores da cultura. Tradução em português p. A nacionalidade foi enfocada por cada um deles.T. A digestão seria difícil. Podemos assim estabelecer um vínculo sangüíneo entre os três autores. F. preocupados em fortalecer os cidadãos e a pátria. intelectual ou financeiramente. Na Revista de Antropofagia. A Cozinha Futurista. e somente ingerindo.Fillippo Tommaso Marinetti com a carne animal que se oferece nos açougues. O repertório intelectual de uma cultura é intocável. Muitas vezes. Todos preocuparam-se com a culinária. uma receita marinettiana: “O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. Foi necessário devorar nossos antepassados e nos imbuir de toda a coragem que eles um dia tiveram para que não caíssemos na mesmice literária. comendo as idéias e assimilando tudo numa digestão bem feita.” 62 62 MARINETTI. é que se pode inovar.

CApítulo 2 A Cozinha Futurista e a linguagem W Cozinha futurista.indd 75 7/4/2009 15:51:19 .

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documentos que já apresentavam as primeiras modificações lingüísticas sugeridas pela vanguarda artística. tentaremos verificar quais experimentos Marinetti tentaria concretizar em suas obras e o que. na prática. com o Manifesto do Futurismo.O FuturismO: prOpOstA de revOLuçãO LinGüísticA Para melhor compreender as dificuldades apresentadas ao tradutor por um texto futurista. devemos começar em 1909. passando depois para 1912. conseguiu realizar.indd 77 7/4/2009 15:51:19 . ano do Manifesto Técnico da Literatura Futurista. 77 Cozinha futurista. Por meio da leitura de excertos destes dois manifestos.

le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna. il gesto distruttore dei libertari.Fillippo Tommaso Marinetti Manifesto del Futurismo il 20 febbraio 1909 Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo. Noi viviamo già nell’assoluto.indd 78 7/4/2009 15:51:19 . per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali. se non nella lotta. Il coraggio. l’abitudine all’energia e alla temerità.. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità.. No v’è più bellezza... che sembra correre sulla mitraglia. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!. il passo di corsa. lanciata a corsa. l’insonnia febbrile. la ribellione. Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo – il militarismo. è più bello della Vittoria di Samotracia. Bisogna che il poeta si prodighi. per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo. essa pure. 78 Cozinha futurista. saranno elementi essenziali della nostra poesia. la cui asta ideale attraversa la Terra. con ardore. Perché dovremmo guardarci alle spalle. Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa. il salto mortale. Noi vogliamo esaltare il movimento agressivo. l’audacia. un automobile ruggente. se vogliamo sfondare le misterioseporte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. sfarzo e munificenza. poiché abbiamo già creata l’eterna velocità omnipresente. La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante. l’estasi e il sonno. sul circuito della sua orbita. lo schiaffo ed il pugno. il patriottismo. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo.

il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria. i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte. come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi. dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne. (.A cozinha futurista Noi vogliamo distruggere i musei. ma non avrà mai due ali. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro. i ponti simili a ginnasi giganti che scavalcano i fiumi. mentre filavo a duecento metri sopra i possedenti fumaiuoli di Milano. una testa previdente..) Manifesto tecnico della letteratura futurista 11 maggio 1912 In aeroplano.indd 79 7/4/2009 15:51:19 . io sentii l’inanità ridicola della vecchia sintassi ereditata da Omero. le accademie d’ogni specie. canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche. le stazioni ingorde. le locomotive dall’ampio petto. seduto sul cilindro della benzina. scaldato il ventre dalla testa dell’aviatore. E l’elica soggiunse: 79 Cozinha futurista.. un ventre. traendole fuori dalla prigione del periodo latino! Questo ha naturalmente. e combattere contro il moralismo. balenanti al sole con um luccichio di coltelli. Appena il necessario per camminare. la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta. due gambe e due piedi piatti. le biblioteche. divoratrici di serpi che fumano. come ogni imbecile. Bisogno furioso di liberare le parole. le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi. che scalpitano sulle rotaie. e il volo scivolante degli aeroplani. per correre un momento e fermarsi quasi subito sbuffando! Ecco che cosa mi disse l’elica turbinante.

x : = > <. dare il senso della continuità della vita e l’elasticità dell’intuizione che la percepisce. è inconcepibile con la nostra visione dinamica. Bisogna dunque sopprimere il come. Essendo soppressi gli aggettivi. e i segni musicali. gli avverbi e le congiunzioni. Il verbo all’infinito può. Ogni sostantivo deve avere il suo doppio. il così. il simile a. Abolire anche la punteggiatura. donna-golfo. dal sostantivo a cui è legato per analogia. Siccome la velocità aerea ha molteplicato la nostra conoscenza del mondo. folla-risacca. vecchia fibbia che tiene unite l’una all’altra le parole. 80 Cozinha futurista. una meditazione.Fillippo Tommaso Marinetti Bisogna distruggere la sintassi disponendo i sostantivi a caso. porta-rubinetto. la punteggiatura è naturalmente annullata. piazza-imbuto. senza congiunzione. solo. poiché suppone una sosta. Si deve usare il verbo all’infinito. L’aggettivo avendo in sé un carattere di sfumatura. nella continuità varia di uno stile vivo che si crea da sé. Per accentuare certi movimenti e indicare le loro direzioni. il quale. cioè il sostantivo deve essere seguito. dando l’immagine in iscorcio mediante una sola parola essenziale. perché il sostantivo nudo conservi il suo colore essenziale. la percezione per analogia diventa sempre più naturale per l’uomo. bisogna fondere direttamente l’oggetto coll’immagine che esso evoca. perché si adatti elasticamente al sostantivo e non lo sottoponga all’io dello scrittore che osserva o immagina. Si deve abolire l’avverbio. come nascono. Esempio: uomo-torpediniera.indd 80 7/4/2009 15:51:19 . Si deve abolire l’aggettivo. s’impiegheranno segni della matematica: + . senza le soste assurde delle virgole e dei punti. Meglio ancora. L’avverbio conserva alla frase una fastidiosa unità di tono.

ognuna condensata. press’a poco. Io lo paragono invece. nobili o grossolane o volgari. bisogna formare delle strette reti d’immagini o analogiem che verrano lanciate nel mare misterioso dei fenomeni. L’intuizione che le percepisce non ha né preferenze né partiti-presi. V’è in ciò una gradazione di analogie sempre più vaste.. Lo stile analogico è dunque padrone assoluto di tutta la materia e della sua intensa vita. a un’acqua ribollente. di metafore scolorite. più avanzati. raccolta in una parola essenziale. sottoposto a una logica e ad una saggezza spaventose.A cozinha futurista Gli scrittori si sono abbandonati finora all’analogia immediata. Per dare i movimenti sucessivi d’un oggetto bisogna dare la catena delle analogie che esso evoca. quantunque lontanissimi. Dunque dobbiamo abolirlo nella letteratura. il che equivale ancora. L’uomo completamente avariato dalla biblioteca e dal museo. (.) (. Siccome ogni specie di ordine è fatalmente un prodotto dell’inteligenza cauta e guardinga bisogna orchestrare le immagini disponendole secondo un maximum di disordine. a una piccola macchina Morse. (Hanno paragonato per esempio un fox terrier a un piccolissimo puro-sangue. eccentriche o naturali. vi sono dei rapporti sempre più profondi e solidi. Non vi sono categorie d’immagini.indd 81 7/4/2009 15:51:20 . non offre assolutamente più interesse alcuno.. e cioè quasi tutto. Distruggere nella letteratura l’“io”. Hanno paragonato per esempio l’animale all’uomo o ad un altro animale.. cioè tutta la psicologia. e 81 Cozinha futurista..) Per avviluppare e cogliere tutto ciò che vi è di più fuggevole e di più inafferrabile nella materia. potrebbero paragonare quello stesso fox-terrier trepidante. a una specie di fotografia. Altri.) Bisogna dunque abolire nella lingua tutto ciò che essa contiene in fatto d’immagini stereotipate.

A análise dos manifestos em si já demonstra a fragilidade destas proposições.) Noi vogliamo dare. Noi lo libereremo dall’idea della morte. per un poeta futurista. o adjetivo e o advérbio. la qual cosa non potranno mai fare i fisici né i chimici. são muitas as regras que o futurismo impunha aos escritores que quisessem honrar a ideologia do movimento: abolir a pontuação. Il cinematografo ci offre la danza di un oggetto che si divide e si ricompone senza l’intervento umano. di cui si deve afferrare l’essenza a colpi d’intuizione. “insônia febril”.Fillippo Tommaso Marinetti sostituirlo finalmente colla materia. a agressividade. usa inúmeras palavras para caracterizar os objetivos do grupo: alcançar um “movimento agressivo”.. usar muitos substantivos. Nulla è più interessante.(. conseguiu praticar. desde que expostos ao acaso. Vejamos alguns pontos propostos por Marinetti. Ao mesmo tempo em que propõe a abolição dos adjetivos. suprema difinizione dall’inteligenza logica. Como podemos observar. che l’agitarsi della tastiera di un piano forte meccanico. nuovo animale istintivo del quale conosceremo l’istinto generale allorché avremo conosciuto gl’istinti delle diverse forze che lo compongono. della quale gli scienziati non possono conoscere che le reazioni fisico-chimiche. mas que nem ele.. in letteratura.) Dopo il regno animale. “salto mortal”. em seus manifestos. construir analogias inéditas e surpreendentes. la vita del motore. e quindi dalla morte stessa. os avanços tecnológicos.. realçar a velocidade. noi prepariamo la creazione dell’uomo meccanico dalle parti cambiabili.indd 82 7/4/2009 15:51:20 . ecco iniziarsi il regno meccanico. usar verbos no infinitivo. (. Con la conoscenza e l’amicizia della materia. sentem uma “necessidade furiosa” ou ouvem da “hélice turbilhonante” os preceitos 82 Cozinha futurista..

a certo ponto.A cozinha futurista do movimento. que estaria assim em movimento. Ainda sobre a contraditória abolição dos adjetivos. Apenas algumas linhas de distância. separado por hífen. que nos parece um adjetivo “camuflado”. Exemplificando com o próprio manifesto: “homem-torpedeira”. A ausência da pontuação dá margem a infinitas interpretações e analogias. Se em seu lugar poderiam ser utilizados símbolos matemáticos ou musicais. Na teoria. Marinetti propõe. “praça-funil”. As frases nominais também aparecem com bastante assiduidade. 1989. sem “a velha fivela que mantém as palavras unidas umas às outras”. fator positivo num texto futurista. Na prática. seria mais convincente que ele mesmo deixasse de usá-los. já no item 6 temos “a pontuação é naturalmente anulada”. Margarida. conquanto freqüentemente sejam precedidos de modais que indicam sua conjugação. prova de que os substantivos são as palavras com carga semântica mais importante para os futuristas. O fato é que Marinetti tenta não usar a pontuação. Assim poderíamos proceder com todos os substantivos e seu respectivo duplo. mas. poderíamos pensar em uma mera substituição de um símbolo por outro. o segundo teria o objetivo de modificar ou especificar o primeiro1. Seria um substantivo composto. se usamos dois substantivos acoplados. Os verbos no infinitivo são a proposta com maior incidência nos manifestos. São Paulo: Ática. e eis que o ensinamento não é cumprido pelo mestre. de qualquer modo. A praça tem o formato ou a utilidade de um funil. Deve-se abolir o advérbio. que caracterizaria o objeto. o item 2 do Manifesto Técnico diz: “para que este se adapte elasticamente ao substantivo”. “multidão-ressaca”. Teoria Lexical. mas a compreensão ficaria prejudicada 1 Basilio. Se Marinetti propõe a abolição dos adjetivos. p.indd 83 7/4/2009 15:51:20 .30 83 Cozinha futurista. Abolir a pontuação é outra proposta bastante intrigante. Ora. uma texto sem advérbios ficaria mais veloz. o uso do substantivo com seu duplo. é caracterizada por este segundo elemento. ou ao menos diminuir a quantidade desta.

considerava-se ainda capaz e jovem o bastante para seguir à frente do movimento futurista. fossem estas políticas ou de reciclagem de seus participantes. Antes de partir para a análise da linguagem em A Cozinha Futurista. nascido em 1876. para cumprir nossa obra.indd 84 7/4/2009 15:51:20 .Fillippo Tommaso Marinetti se esta fosse abolida por completo. É oportuno ressaltar que no primeiro parágrafo deste manifesto. Verifica-se então uma bipolaridade entre o difusor das idéias futuristas. na primeira década do século. e o “autor literário” que tende a uma linguagem mais tradicional. o nome de Benito Mussolini é lembrado. gostaria de lembrar uma passagem do Manifesto do Futurismo que não está reproduzida acima. 84 Cozinha futurista. no entanto. outros homens mais jovens e mais válidos que nós. em 1944. ocorrida com sua morte. – Nós o desejamos! Na época desse manifesto. A cOzinhA FuturistA e As inOvAções nA LínGuA O Manifesto da Cozinha Futurista segue o modelo dos outros manifestos promulgados pelo movimento futurista: um pequeno texto que explica ou exemplifica o problema a ser abordado. Os mais velhos dentre nós têm trinta anos: resta-nos portanto pelo menos uma década. tinha 54 anos. e permaneceria fiel a seus ideais até a consumação total da chama. Julgando-o pelos seus próprios preconceitos. que perdem em clareza e inteligibilidade. Marinetti deveria ter sido substituído por outros homens mais jovens e com maior agressividade. contava já 33 anos. seguido por um conjunto de regras a serem seguidas. Marinetti foi o estopim do movimento. Quando tivermos quarenta anos. como manuscritos inúteis. que se propõe um estilo original. Marinetti. Quando da publicação do Manifesto da Cozinha futurista. 1909. atirar-nos-ão ao cesto. acerca da idade dos artistas. mas isto é dificultado nos textos em prosa. Em poesia. a disposição dos versos no papel supre a falta de pontos ou vírgulas. embora este já tivesse sofrido muitas transformações.

A cozinha futurista aludindo às “batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue”. que ignora os mandamentos futuristas. seguido do manifesto e respectiva polêmica.indd 85 7/4/2009 15:51:20 . com pontuação adequada gramaticalmente. segue o modelo de apresentação futurista: um texto. receitas. no caso. e o Manifesto da Cozinha Futurista. estes são separados por vírgula e conjunção. Além de utilizar três adjetivos em seqüência. O subtítulo do texto. seguiu-se a publicação do livro A Cozinha Futurista. mais uma vez. A este manifesto. o manifesto. o poeta parte para a lago Trasimeno obedecendo a um telegrama “preoccupante. serão objetos de estudo o texto literário – “Uma refeição que evitou um suicídio: o tragicômico poético antefato” – . cardápios. Lembremo-nos que desde 1926 o futurismo havia aderido ao fascismo. de provável classificação “literária”. dispondo as palavras em sintaxe convencional.modificar o uso da língua. tragicômico e poético. O livro. Os casos que relevaremos aqui. Nesta breve análise. situado no início do segundo capítulo.e algumas vezes realmente consegue . e um dicionário dos novos termos. que reuniu documentação importante acerca da polêmica cozinhária iniciada por Marinetti. o “antefato” é já duplamente caracterizado por adjetivos. que representa o primeiro capítulo do livro. propondo novas construções. strambo e misterioso”. No primeiro parágrafo. 85 Cozinha futurista. indicando que este acontece anteriormente a outro fato. por serem de interesse as inovações apresentadas e não as falhas em praticar a própria teoria. Nos outros capítulos. São inúmeros os casos em que Marinetti segue a linguagem tradicional. embora não seja possível precisar se ideologicamente ou para sustentar um movimento literário que estava perdendo sua capacidade de persuasão. e a palavra antefato inclui um advérbio no prefixo. são aqueles em que o poeta tenta . novas palavras ou analogias diferenciadas.

personagem do “antefato”. mas este não é fechado. pseudônimo de um colaborador futurista. No quinto parágrafo do texto.indd 86 7/4/2009 15:51:20 . apesar da sabida participação do autor nos acontecimentos. “Abolir o ‘eu’ da literatura” era uma das propostas futuristas e que foi respeitada no texto. tomado de um tremor irreprimível. temos a descrição de Giulio Onesti. que se abre com um parêntese. mas ainda assim é sintomático que um homem. Poi Giulio fu preso da un tremito convulso irrefrenabile: “(non voglio. Apesar do texto ser de autoria de Marinetti. non debbo tradire la morta. Iniciando pela fala de Giulio Onesti. escrito todo ele em terceira pessoa. riempirono la conversazione parolibera che precedette il pranzo nel policromo Quisibeve della villa Outra construção que ressalta no texto é o curto diálogo entre os quatro personagens após a declaração do iminente suicídio de Giulio.Fillippo Tommaso Marinetti Comecemos com as construções inusitadas. la sua subitanea fuga dai centri abitati. Marinetti utiliza quatro longos sujeitos para o verbo “riempirono” em seqüência. che mascherava il suo vero nome. 86 Cozinha futurista. Quindo mi suiciderò questa notte!” “a meno que?” – gridò Prampolini “a meno que?” ripetè Fillìa. que chamam a atenção do leitor não só pelo argumento. separados por vírgulas. o que imprime um ritmo cadenciado peculiar à frase: “Questo pseudonimo. se esqueça de fechar parênteses: Lungo silenzio. este aparece como personagem em terceira pessoa. Para caracterizar este personagem. la sua vita di scienza e di ricchezze accumulate al Capo di Buona Speranza. mas pela forma de expressão. Pode se tratar de um erro tipográfico. il suo intervento battagliero e creativo nelle serate futuriste di venti anni prima.

exceto o óbvio ponto ao final do mesmo. bastante longo.. ou “. mistura muitos substantivos e adjetivos. todos os companheiros futuristas lançam-se a um trabalho incessante. pode ser encontrada em diversas outras passagens do “antefato”. Sempre no plano da construção. porém há apenas um verbo e um único advérbio. Eis alguns exemplos: “. Observemos como a ausência da pontuação torna o ritmo do período veloz: Atmosfera inebriante prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano altissimo torniva melodiosamente. p. p. nas cozinhas. A pontuação.. 1998. una legerezza di volo che offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donna miste di mozzi di ruote e d’ali d’eliche tutte formate con soffice pasta lievitata. A anáfora auxilia na criação do suspense necessário para que fosse apresentado o desfecho do problema: a cozinha futurista.indd 87 7/4/2009 15:51:20 . Ibid.T. a falta desta. sempre seduzindo o leitor com a aparente desordem instaurada na frase. ou melhor. 11 Id.”3 2 3 Marinetti. una lieve curva de bocca ventre o fianchi”2. A cozinha futurista. buscando uma solução para o desejo de suicídio. O período. partindo do momento da enunciação desta solução.” – O diálogo segue com uma quádrupla repetição da frase: “a meno que”. podemos encontrar um parágrafo escrito sem utilizar nenhum sinal de pontuação. proposta por Marinetti.A cozinha futurista “a meno que?” – concluse Marinetti – a meno che tu ci conduca imediatamente nelle tue ricche e fornite cucine. Milão: Marinotti.11 87 Cozinha futurista... para criar comidas que salvassem a vida do amigo. Este suspense também serve como preâmbulo para a ação que é então desencadeada. F.

Gioia delle labbra.14 Id. Tutto il cielo nelle nari. Ibid. como a “nicchia-tana” (que traduzimos por concha-toca). tutta leggi nuove. 12 88 Cozinha futurista. em sua maioria nominais que culminam na afirmação de que “somos o futuro”: Arte leggera aviatoria.. tutta direttive nuove4 Outro trecho é todo construído mesclando substantivos soltos “ao acaso”. L’eterno femminino fuggente imprigionato nello stomaco. Ibid. Siamo gl’istintivi nuovi elementi della grande Macchina futura lirica plastica architettonica. 4 5 Id.Fillippo Tommaso Marinetti A velocidade imprimida à linguagem também pode ser verificada nas construções de frases curtas. Passione. p. por seu caráter ambíguo. Trattenere il respiro per non guastare un sapore cesellato. Uma mostra é normalmente inaugurada. Schioccar di lingua. frases nominais curtas e verbos no infinitivo. Alle sei di pomeriggio svilupparsi in alto di dolci dune di carne e sabbia verso due grandi occhi di smeraldo. Nervi. tem espelhamento num verbo acompanhado de seu duplo na proposição “inaugurare-assagiare” a mostra de escultura comestível.. La spasimante superacuta tensione delle più frenetiche lussurie finalmente appagate. p.5 O substantivo que deve ser acompanhado de seu duplo. deveria também ser degustada. altri cic redono complicatissimi e civilizzatissimi. Arte mangiabile. Ci giudicate selvaggi. Arte temporanea.indd 88 7/4/2009 15:51:20 . mas esta. Crocifiggerla sotto chiodi acuti di volontà. atendendo às regras do Manifesto Técnico da Literatura Futurista: Con calma riprendere la materia.

sem palavras desnecessárias...... Acreditamos que este tipo de construção seja privilegiado por suprimir o sujeito da frase e também uma conjunção..A cozinha futurista Parece-nos importante também ressaltar a larga utilização das orações reduzidas....Giulio Onesti. offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donne. Longos parágrafos e períodos são utilizados para descrever locais... L’eterno femminino fuggente. . alto complesso plastico di pasta sfogliata scolpita a piani degradanti di piramide. In un alto cilindro di pasta di grano turco girante su perno... ne iniziò l’amorosa adorazione. .. o que facilitaria muito a tarefa de construir uma linguagem concisa. alternandosi. vi avevano inoculato il magnetismo..... Marinetti. moderna...indd 89 7/4/2009 15:51:20 . mas sempre privilegiando o “estilo analógico”. improvvisatosi scultore-cuoco.... Inginocchiatosi davanti.. . collaborando. veloccizzandosi scapigliava in tutta la camera una massa enorme di zucchero filaro d’oro. Marinetti. Giulio girando appena la testa a destra e a sinistra.. O próprio Maninetti explica esse 89 Cozinha futurista. imprigionato nello stomaco. situações ou personagens. un complesso plastico di cioccolata e torrone rappresentante le forme delle nostalgie e del passato precipitò giù con fragore e inzaccherando tutto. Observemos alguns exemplos que documentam o fenômeno: . La sua architettura obliqua di curve molli inseguentisi in cielo. A escrita marinettiana tem também outra peculiaridade que vale a pena evidenciar: o gosto pela visualização. ... Prampolini e Fillìa parlorono.. Prampolini e Fillìa. mais freqüentemente de gerúndio e de particípio.

indd 90 7/4/2009 15:51:20 . Essa relação entre a vida cotidiana e a modernidade imposta pelas máquinas estava de acordo com os ideais do movimento. A velocidade é representada pelo automóvel. que era a escultura de uma mulher. asas de hélice. cubos de roda. roda dentada. É grande o repertório lexical que se refere às máquinas. aerodinamismo lírico-plástico. espirais de vento expressos em encanamentos. transformada em fantásticos laboratórios. Numa rápida lista de elementos referentes a cada uma destas categorias. 6 Bernardini.”6 Nessas analogias.Fillippo Tommaso Marinetti estilo: “Para dar os movimentos sucessivos de um objeto. 1980. tudo feito com macia massa fermentada. Aurora Fornoni. oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados misturados a cubos de rodas e asas de hélice.. em seu vôo. aeropoesias. cilindro de massa girando em seu eixo. aos automóveis e respectiva velocidade.. Um dos pratos. 90 Cozinha futurista. que arrancam. globos elétricos. partes destas ou indícios de modernidade: fantásticos laboratórios. São Paulo: Perspectiva. equilíbrio. Outro prato era um complexo plástico a motor comestível. os lugares e mesmo as comidas são sempre relacionadas a máquinas. como as bolas acorrentadas. aeroescultores. zumbido de um aeroplano altivo. três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. A escolha do vocabulário confirma essa ideologia. grande máquina futura lírica plástica arquitetônica O campo semântico concernente ao vôo traz aeropintores. todo um grupo de árvores. O Futurismo Italiano. ao vôo. Assim temos os poetas que enquanto falam alternam-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina e a cozinha. as pessoas. volantista. para máquinas. tapete de plumas que parece viajar. ou partes destas. perfeito. é necessário dar a cadeia de analogias que ele evoca.) Em alguns casos precisará juntar as imagens duas a duas. hélices esvoaçantes. arte leve voadora. complexo plástico a motor. encontramos. recolhida numa palavra essencial. (. cada uma delas condensada.

A cozinha futurista velocidade.indd 91 7/4/2009 15:51:20 . porém impregnado de um vocabulário humano: “le nuvole partorirono un precipitante fulmine arancione a lunghe gambe verdi”. “la sopraveniente”. O ato sexual gerara um fruto. como pronome de terceira pessoa referindo-se às Mulheres de Giulio Onesti.. “nessuno vi man- 91 Cozinha futurista. os adjetivos culinários são usados para mulheres. As esculturas representam mulheres que podem ser deglutidas. “quella che le rassomiglia molto ma non abbastanza”. mas que deixa o futurista Giulio Onesti feliz. ou. “l’altra”. metafórico. outras vezes com inicial minúscula. da lei”. às vezes com inicial maiúscula. “a lei. porque não dizer. “la morta”. realizado. a que se suicidou e a outra que se parece muito mas não o suficiente. sugerindo tudo o que constitui o ser. sendo que o contrário também ocorre. “la Nuova”. “lui [il complesso plastico] vincerà lei”. “bellissima donna”. sua personalidade. O processo de nominalização permite a transformação de qualquer vocábulo em substantivos. “le” offriremo. “quella bocca imminente”. Escolha lexical também recorrente nesta obra é a “erótico-culinária”. embora importantíssimas. “Lei”. e finalmente livre de seus desejos suicidas. São inúmeras também as referências anafóricas a estas mulheres. palavras lexicais de cunho afetivo. pois o pronome utilizado no lugar do substantivo em todas as referências feitas a “ela” assume um significado complexo. trabalho muscularmente acelerado. cujos nomes jamais são mencionados: “Essa”. faz de palavras lexicais corriqueiras e apagadas. podemos observar que este culmina no nascimento do sol. e devido a isso. que em italiano é pronome de segunda pessoa para tratamento de respeito. complesso plastico “di lei”. de cortesia. “per lei”. Escrevo Mulher com maiúscula. sua importância. “metaforicamente antropofágica”. “a lei”. No já citado trecho em que Giulio Onesti degusta uma das esculturas e que foi comparado a um ato sexual. Marinetti usa repetidas vezes o pronome Lei (ela). síntese de todos os automóveis famosos.

p. Ibid. avvocati arguti.8 7 8 Id. Isto se dá provavelmente porque Marinetti pretendia elevar a condição da culinária ao mesmo patamar das artes plásticas não comestíveis.) Per esempio. das referências ao mundo moderno. a escultura ou a arquitetura. tenerezza. contrasta collo spirito vivace e coll’anima appassionata generosa intuitiva dei napoletani. Questi sono stati combattenti eroici. tenacia eroica. artisti ispirati. às máquinas e à degustação erótica. “essa”. “Lei”. claro.. Giulio promete mais tarde dizer o nome dela. como a pintura. mas essa promessa não é cumprida. Se no texto deste “antefato poético tragicômico” as referências mais importantes estão relacionadas à velocidade.Fillippo Tommaso Marinetti gerà”. agricoltori tenaci a dispetto della voluminosa pastasciutta cotidiana. No tocante às construções sintáticas. snella trasparenza spiralica di passione. e seqüências de substantivos “ao acaso”. Ibid. no Manifesto da Cozinha Futurista é mais comum encontrar palavras relacionadas à arte. luce. p. Prepariamo una agilità di corpi italiani adatti ai leggerissimi treni di alluminio che sostituiranno gli attuali pesanti di ferro legno acciaio. A um certo ponto do antefato. volontà. os mesmo modelos são encontrados. massiccio impiombato da una compattezza opaca e cieca. esses bem separados por vírgulas.7 (.. 21 Id. Giulio fica embriagado com a escultura manducada antes de fazê-lo. slancio. e quem ela é.indd 92 7/4/2009 15:51:20 . tão idolatrado pelos futuristas. “la donna”. oratori travolgenti. como os exemplos abaixo: Sentiamo inoltre la necessità di impedire che l’Italiano diventi cubico. Comecemos com parágrafos que alternam seqüências de adjetivos sem pontuação. 22 92 Cozinha futurista. além. Si arminizzi invece sempre più colll’italiana.

relacionados de alguma forma à revolução cultural e social defendida pelo movimento. mas permanecem as conjunções: “. ai legumi. troppo dolce”. O 93 Cozinha futurista. o diferente. ao dizer que indicadores químicos.. metaforicamente o inusual. O trecho “Le macchine costitueranno presto un obbediente proletariato di ferro acciaio alluminio al servizio degli uomini quasi totalmente alleggeriti dal lavoro manuale” ignora a necessidade de vírgulas entre os componentes metálicos das máquinas. Perché opporre ancora il suo blocco pesante all’immensa rete di onde corte lunghe che il gfenio italiano ha lanciato sopre oceani e continenti.indd 93 7/4/2009 15:51:20 . O mesmo acontece na descrição dos pratos simultâneos. logo após a crítica feroz ao alimento: La pastasciutta.A cozinha futurista Ou ainda. à força de evitar a indicação do sujeito nas frases. troppo pepe. o sono proveniente desse bloco maciço em nossos estômagos.. num período longo em que faltaria até mesmo fôlego para o leitor que não impusesse suas próprias pausas no texto. parecem ter a linguagem mais cuidadosamente trabalhada no sentido de alcançar também a revolução lingüística. Notem que não há vírgulas na passagem. que se refere também à mão esquerda.” As passagens cujos argumentos são mais “futuristas”. corrigirão: “manca di sale. troppo aceto. isto é.” A última frase do manifesto também traz modificações sutis na construção da frase. in cerca di vento. e ai paesaggi di colore forma rumore che la radio-televisione fa navigare intorno alla terra? A repetição também aparece neste texto. É possível que aqui o período tenha sido escrito nesse ritmo lento para acentuar o peso do macarrão nos estômagos. na cozinha do futuro. nutritivamente inferiore del 40% alla carne. al pesce. O substantivo mancanza é substituído por manca. cujas vírgulas foram abolidas: “Questi complessi plastici saporiti colorati profumati e tattili formeranno perfetti pranzi simultanei. lega coi suoi grovigli gli italiani di oggi ai lenti telai di Penelope e ai sonnolenti velieri. noi affermiamo questa verità: si pensa si sogna e si agisce secondo quel che si beve e si mangia. opta o poeta pela construções impessoais.

aparência do prato deve ser levada em conta.indd 94 7/4/2009 15:51:20 . ou. como o intuito dos autores é de mesclar os sentidos para atingir deste modo uma gama completa de sensações. colocando o adjetivo doce no lugar do previsível açúcar. A cor. Dentre os elementos que sobram. além do molho que o acompanha. Mais uma vez. temos a junção dos sentidos para proporcionar o maior prazer gustativo possível. sobram outras. e dolce”. para Marinetti. Desde o “antefato” até o Manifesto da Cozinha Futurista. Dissemos acima que a culinária estaria. podemos ver tantas referências aos sentidos que nos pareceu mais lógico separar de acordo com cada um deles. O cilindro é disposto verticalmente no centro do prato. Sobre cada fatia uma rodelinha de limão com alcaparras. limitar-nos-emos a relacioná-los na ordem em que aparecem 94 Cozinha futurista. como o vinagre e a pimenta. forma. Outra invenção famosa da cozinha futurista é o Carnescultura composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. temos uma seqüência de três: “aceto. A observação de uma ou duas receitas propostas pelo manifesto provam que a aparência do prato conta tanto quanto (ou até mais que) o sabor deste. O vocabulário referente às sensações. coberto de mel e sustentado a base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. Entretanto. A lógica lingüística diz que o último elemento também deveria ser um substantivo. falta uma coisa. mas o autor preferiu causar este estranhamento. pepe. também foi tratado e escolhido com cuidado por Marinetti. melhor dizendo. O Salmão do Alasca aos raios de sol com molho Marte deve ser cuidadosamente trabalhado de forma artística antes de ser apresentado ao comensal. aos sentidos. assim como o cheiro. Após grelhar o filé com sal e azeite. e o sabor.Fillippo Tommaso Marinetti sentido da palavra é garantido pelo contexto. no mesmo patamar de outras artes plásticas. dispõem-se sobre as fatias alguns filetes de anchova entrelaçados. imitando um jogo de damas.

A carne da curva era a tal ponto gostosa. vermelhos. biscoitos. le sferiche dolcezze di tutte le ideali mammelle”. todo o céu nas narinas. a invenção de complexos plásticos saborosos. brancos.indd 95 7/4/2009 15:51:20 . Seguem-se certos sabores e certas formas. máquina futura lírica plástica arquitetônica. O quarto é revestido de “rosso rimorso vellutato”. violetas e lírios. alegria dos lábios. os futuristas intuíam e saboreavam “ela” entre os perfumes de baunilha. havia uma atmosfera “prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano torniva melodiosamente”. 95 Cozinha futurista. rosas. a harmonia da mesa com os sabores e cores das iguarias. conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. os amigos esculpiram tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. o estômago. a língua. a apreciação das obras de arte por eles produzidas exigem não somente os olhos e relativa admiração. não somente o tato e relativas carícias. estalar de língua. mas os dentes. trilli d’uccelli e scricchiolii d’acque legnose in cui scoppiava in brilli dorati la laccatura verde”. o eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. complexos plásticos saborosos coloridos perfumados e táteis que formarão perfeitas refeições simultâneas. Giulio inebriado beija com a língua sua obra de arte. e “luceva di una sua zuccherina peluria eccitanto lo smalto dei denti nelle bocche attente dei due compagni. cirri rossi. Aparecem também mãos inspiradas e narinas abertas para dirigir a unha e os dentes. o intestino igualmente enamorados. Sopra.A cozinha futurista nos textos. paisagens de cores forma rumores. vermelhos. à cozinha eram transportados grandes pesados sacos que descarregavam piramidais montes amarelos. pretos. cuja harmonia original de formas e cores nutra os olhos e excitem a fantasia antes de tentar os lábios. o trabalho foi recomeçado sendo os futuristas “deliziosamente pungolati dai lunghi raggi elastici di un’aurora. selecionando apenas as ocorrências em que ao menos dois sentidos são mencionados na mesma proposição.

preservando tanto a construção original quanto o entendimento em português. Mantivemos as classes gramaticais sempre que isso não prejudicasse a compreensão em português. mas não fechado. entre amigos ou entre familiares. O nome dos colaboradores futuristas. mas é provável que isso aconteça devido ao gosto marinettiano pela descrição. Como sabemos. que não é bem recebida por outrem. Mantivemos também um parêntese que foi aberto. existem em italiano três formas de tratamento possíveis para o interlocutor (2a. mantendo a pontuação e a ausência da mesma. pseudônimos na realidade. indicaria uma pessoa incoveniente. Apesar de defender a incorporação dos outros sentidos à literatura. bem como o posicionamento dos adjetivos. aqui. Mas não nos enveredamos por este campo. recorrente em toda a sua obra. num tratamento informal.Fillippo Tommaso Marinetti Observando o texto. negrito e aspas. ter acesso às diversas edições do livro para verificar a ocorrência do problema. apesar da possibilidade de ser um erro tipográfico. Esse é o caso de Escodamé. tentamos manter as inversões na ordem das frases. nomes dos pratos e de pessoas foi sempre conservado como o original em Italiano. que. se traduzido – Saiosozinho (não precisam me mandar embora) -. para evitar brincadeiras e analogias impertinentes Um problema verificado. pessoa do discurso): Tu. na primeira parte do livro – “antefato poetico tragicomico” – foi o uso da forma de tratamento entre os futuristas e “Ela”. foram mantidos ainda que alguns pudessem ser sugestivos e divertidos. hoje dia muito comum 96 Cozinha futurista. Seria necessário. tentamos seguir os preceitos futuristas observados na língua original. a visão continua sendo o maior atrativo disponível aos escritores. diFicuLdAdes dA trAduçãO Na tradução. O uso de maiúsculas e minúsculas iniciais das palavras. temos em relação à visão o maior número de incidências. bem como o uso de itálico.indd 96 7/4/2009 15:51:20 .

com algumas exceções nas regiões meridionais ou em língua escrita. complexo escultural ou plástico. Tratase da polêmica despertada em outros países e publicada nos jornais locais. escultor. é sempre tratada com esse pronome e seus correlatos (Le. publicada no jornal britânico The Herald. em uma única passagem. especialmente os referentes às máquinas e ao vôo. pictórico. Há no livro algumas partes escritas em francês e em inglês. Assim. porém. As notícias em francês foram simplesmente deixadas na língua original. Lei. “Lei” em italiano. tratamento também formal se dirigido a um único interlocutor. Ele não se refere às esculturas comestíveis.A cozinha futurista entre os jovens. com os mesmos dois sentidos encontrados em italiano. poesia e poeta.indd 97 7/4/2009 15:51:20 .. pois insere leveza e mobilidade às palavras 97 Cozinha futurista.”. da lei). La. A reportagem em inglês. é pouco utilizado atualmente.. quando o tratamento é formal. entre pessoas que não se conhecem suficientemente. confunde o leitor ao misturar os dois tratamentos formais. foi mantida como volantista em português. per lei. Os campos semânticos. mas que alude tanto ao volante do automóvel quanto ao que tem a capacidade de voar. a palavra volantista. Encontramos a passagem: “nessuno vi mangerà per ora – disse Prampolini – a meno che il magrissimo Fillìa. quase em italiano. esse tratamento é modificado e passa a “voi”. usada para motorista. o que reafirma nossa suspeita antropofágica já explicitada anteriormente. à Nova. pois são simples traduções dos manifestos ou de cardápios já mencionados em italiano. dinamismo e até aos pratos servidos foi sempre mantido. acoplado a pintor. e Voi. Esta fala é dirigida a ela. Dois outros trechos também foram traduzidos em nota por estarem escritos em latim vulgar. apresenta informações novas e apreciações críticas do movimento. O livro. “Ela”. mas à mulher. foram pesquisados e mantidos. já que a raiz latina permite a identificação pelo leitor de língua portuguesa. em relacionamentos profissionais e para demonstrar respeito. foi por esse motivo traduzida em nota ao final do capítulo. a lei.. escrito em 1932. O prefixo aero.

Fillippo Tommaso Marinetti e, aparentemente, às pessoas e objetos, que parecem perder o “imgombro pesante” no estômago. Culpa do macarrão, obviamente. Foram também encontrados os óbvios aeroplanos, e certos aerodinamismos lírico-plásticos, aerocumes, aerocerâmicas, aeroiguarias e aerobanquetes, que, contrariamente ao esperado, não eram servidos em pleno vôo, embora pudessem ser forjados ambientes que lembrassem a fuselagem de um avião. Ainda nos atendo ao vocabulário relativo a voar, Marinetti opta pra chamar o frango de volatile, palavra de uso comum na Itália, mas que retoma o léxico privilegiado por ele. Passemos agora do vôo à comida. O vocabulário referente à comida não oferece muitos problemas ao falante de português do Brasil, tão grande é a influência italiana em nossa culinária. Os nomes de diferente cortes de macarrão ou de massas rechadas, como ravioli, lasanha, tagliatelle, tagliarini, espaguete, trenette, foram mantidas em italiano, apenas usando a grafia aportuguesada quando esta existia. Assim, no texto em português, podemos nos deparar com tortelini in brodo ou espaguete ao sugo, sem que isso prejudique a compreensão. Uma única nota foi dispensada ao “vermicelli al pomodoro”, por se tratar de um corte não freqüente no Brasil. As palavras que designam refeição ou prato apresentaram mais dificuldades, já que em italiano “pranzo” pode designar tanto o almoço quanto uma refeição mais elaborada, em qualquer horário do dia. Optamos, por isso, às vezes, por refeição no lugar de almoço. Aparecem também palavras com tom bastante pejorativo para certas comidas, como “intrugli” ou “maledetta pietanza”; nesse caso, optamos por lavagem, que remete à comida oferecida aos porcos. “Vivanda” foi quase sempre traduzida por vianda, mantendo assim o mesmo radical latino. Outro vocábulo de difícil tradução foi “bocconi”, utilizado em alguns restaurantes aqui no Brasil, designam comidas que não precisam ser cortadas para serem comidas, têm o tamanho certo para serem intro-

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A cozinha futurista duzidas na boca. Traduzimos uma vez por bocados, outra por prato, já que o bocado pareceria fora de contexto. O nome dos pratos, quase sempre originais, foram traduzidos literalmente. Assim, quando Marinetti propunha um “Tuttoriso”, traduzimos por Todoarroz, com a mesma forma de composição em justaposição feita em italiano. Encontramos também, raras vezes, composições por aglutinação. Aparecem, com a mesma lógica lingüística, Frangofiat, Hortotátil, Decolapaladar, Tedesejo, Carnadorada, Guerranacama, Teamareiassim, Superpaixão, Estanoiteláemcasa, e inúmeras outras contruções similares. O famoso Carnescultura em português não manteve o radical do original “carneplástico”, pois a palavra plástico aqui, embora tenha o sentido de forma, escultura preservado nas Artes Plásticas que envolvem também a pintura, remete ao derivado de petróleo e poderia afastar paladares curiosos. O plástico, em nossa culinária, é a ausência de sabor aliada a uma consistência indesejável em algo a ser ingerido. Os neologismos criados por Marinetti também foram alvo de grande atenção, e sempre que identificados, mesmo quando havia palavra bastante aproximada em português, tentamos construir uma que fosse nova, para mantermo-nos fiéis à construção original. Daí surgiu a revolução “cozinhária”, tradução do neologismo italiano “cucinaria”, usado no lugar da conhecida culinária, palavra que atende tanto o italiano quanto o português. Marinetti recusou também o conhecido “xenofilia”, inventou “esterofilia”, que traduzimos estrangeirofilia. O sentimento que faria alguns cidadãos renegarem sua pátria foi definido “antitalianità”, resultou em antitalianidade em português, bem como os vocábulos justapostos “criticomania” ou “benpensanti”, respectivamente criticomania e bempensantes. A certo ponto da leitura, encontramos um prato “sinottico-singustativo”. Como traduzir este adjetivo tão abrangente? O prato privilegia-

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Fillippo Tommaso Marinetti va diversos ingredientes, coloridos, dispostos de forma determinada e com certos sabores, que deveriam se unir mediante escolhas feitas pelos comensais. O prefixo grego sin- designa uma ação conjunta, logo, ação conjunta dos olhos e ação conjunta dos sabores. Mais uma vez optamos por não traduzir, para que o leitor, ao buscar o significado das partes das palavras, descubra ele também o que é o prato sinótico-singustativo. O cardápio extremista apresenta, entre muitos odores prazerosos ou não, duas palavras novas, ambas referentes ao barulho das rãs entre as águas podres do lago: polichiaccherio e quaccherologia. Traduzimos por policonversação a primeira, embora não reproduza bem o sentido da conversa tumultuada, barulhenta e rumorosa dos anfíbios em questão. A quaccherologia foi mais intrigante. O sufixo –logia indica estudo e quacchero se refere, de acordo com o dicionário, aos “Quakers” – quacre em português -, membros da seita protestante fundada na Inglaterra e difundida nos Estados Unidos, que não aceitam sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, pregam a intransigência puritana e a simplicidade de vida. Optamos pela tradução quacrelogia, ainda que o sentido pretendido pelo autor não pareça claro. Lembrando que o Futurismo é um movimento nacionalista, especialmente nos últimos anos de sua existência, por sua aproximação política com o fascismo, observamos a negação dos vocábulos de origem inglesa ou francesa na cultura – e na culinária – italiana. Marinetti propõe com essa finalidade uma modificação no léxico culinário italiano, utilizando palavras nacionais, de modo a evitar qualquer estrangeirismo. O último capítulo do livro, o “pequeno dicionário da arte cozinhária futurista”, traz opções para palavras já incorporadas ao vocabulário italiano, mas agora renegadas por Marinetti. Os franceses “Marrons Glacés” transformam-se em castanhas confeitadas, “consommé” serão consumidos, “fondants” serão apenas fundentes, “fumoir” será fumatório, “maitre d’hotel” é guiapaladar, “menu” será substituído por lista ou listadepratos, “mélange” será mistura, “flan” vira pasticho, “dessert”

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A cozinha futurista é paraselevantar, “purée” é substituído por pasta e “bouillabaisse” restringe-se a sopa de peixe. É bastante curiosa a reflexão feita para alcançar a palavra “paraselevantar”, peralzarsi em italiano, em substituição ao francês dessert. A sobremesa é a última a ser ingerida, pois café e licores eram via de regra servidos em outra sala. Ao terminar a degustação, o movimento tão caro à idéia futurista era incluída na refeição: todos se levantam. Os ingleses também sofrem retaliação, e o “barman” vira mexedor, “cocktail” vira polibebida, “picnic” se torna um agradável almoçoaosol, “bar” é substituído por aquisebebe, “tea-room” torna-se sala de chá e o internacional “sandwich” transmuta-se em entreosdois. Um último neologismo marinettiano para encerrar as dificuldades: parolibero, usado tanto como substantivo, em “o parolibero Fillìa” quanto como adjetivo, em “uma conversação parolibera”. O processo em italiano foi a aglutinação da palavras parola + libero = parolibero. No entanto, em português parecia inviável a aglutinação de palavra + livre, pela incidência dupla do encontro consonantal “vr”. A solução encontrada foi utilizar um sinônimo de palavra, vocábulo, cuja sílaba final continha a mesma consoante da sílaba inicial de livre. Logo: vocábulo + livre = vocabulivre.

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indd 103 7/4/2009 15:51:21 .A CozInhA FuturIstA Tradução Q Cozinha futurista.

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indd 105 7/4/2009 15:51:21 .Sumário Uma refeição que evitou um suicídio O antefato poético tragicômico O manifesto da cozinha futurista Ideologias e polêmicas A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas Os cardápios futuristas Sugestivos e determinantes Receituário futurista para restaurantes e “aquisebebe” Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista 105 Cozinha futurista.

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os ratos. 107 Cozinha futurista. os futuristas. fortificando-a. nobre e útil a todos de modificar radicalmente a alimentação de nossa raça. parecerá louca e perigosa a alguns passadistas tremebundos: ela quer. a arte de se alimentar. ao contrário. finalmente criar uma harmonia entre o paladar dos homens e sua vida de hoje e de amanhã. até hoje os homens alimentaram-se como as formigas.Contrariamente às críticas lançadas e àquelas previsíveis. a banalidade. a repetição e o custo. Nasce conosco. essa exclui o plágio e exige originalidade criativa. isto é. Como em todas as artes. Salvo algumas exceções louváveis e legendárias.indd 107 7/4/2009 15:51:21 . a inteligência e a fantasia substituam economicamente a qualidade. dinamizando-a e espiritualizando-a com novíssimas iguarias nas quais a experiência. Esta nossa cozinha futurista. a primeira cozinha humana. regulada como o motor de um hidroplano para altas velocidades. os gatos e os bois. tem o propósito alto. a revolução cozinhária futurista. ilustrada neste volume.

mas pode-se calcular o perigoso pânico deprimente.Fillippo Tommaso Marinetti Não por acaso esta obra vem publicada durante a crise econômica mundial cujo desenvolvimento parece incalculável. A este pânico nós opomos uma cozinha futurista. 108 Cozinha futurista. isto é: o otimismo à mesa.indd 108 7/4/2009 15:51:21 .

109 Cozinha futurista.umA reFeiçãO que evitOu um suicídiO O poético antefato tragicômico Em onze de maio de 1930 o poeta Marinetti partia. em direção ao lago Trasimeno.indd 109 7/4/2009 15:51:21 . de automóvel. obedecendo a este preocupante. extravagante e misterioso telegrama: “Caríssimo uma vez que Ela partiu definitivamente fui acometido de torturante angústia PT imensa tristeza proíbe-me sobrevivência PT suplico-lhe venha rápido antes que chegue aquela que se parece muito com Ela mas não o suficiente GIULIO”.

cuja grande genialidade de aeropintores pareceu-lhe adaptar-se ao caso sem dúvida gravíssimo. ainda não tive a força de entrar. por uma estranha coincidência... confesso-me brutalmente a vocês e a sua provada amizade: há três dias a idéia de suicídio ocupa toda a casa e também o parque. diante da porta do automóvel.. Agora. Giulio murmurou: . . seu intervento belicoso e criativo nas noitadas futuristas de vinte anos antes.Fillippo Tommaso Marinetti Marinetti. na sala revestida de vermelho remorso aveludado. encheram a conversação vocabulivre que precedeu o jantar no policromático Aquisebebe da casa.. um verdadeiro Palácio.”- 110 Cozinha futurista. nas margens feridas e entre os canaviais doloridos do Lago.. Eu recebi ontem este telegrama. mas não o suficiente. você a conhece. Na entrada.. muito. o rosto emagrecido e a mão estendida muito branca de Giulio Onesti. convocou telefonicamente a presença de Enrico Prampolini e Fillìa. que bebia por amplas janelas uma meia-lua nascente mas já imersa na morte das águas. Dir-lhes-ei outro dia o seu nome e quem é. O telegrama anuncia a sua iminente chegada. O que vocês me aconselham?” Longo silêncio.indd 110 7/4/2009 15:51:21 . Por outro lado. é da outra que se parece com ela. a sua vida de ciência e de riquezas acumuladas no Cabo da Boa Esperança. o volantista do automóvel procurou e encontrou. Certamente me chama. mais que uma casa. que alternava pinheiros umbelíferos oferecidos ao Paraíso e ciprestes diabolicamente mergulhados na tinta do Inferno.. decidido a salvar seu amigo. Pois bem. Este pseudônimo que mascarava seu verdadeiro nome. À mesa. Cirurgicamente. ela se escondia ao fundo do parque. intervém um fato novo e significativo. a casa. a sua repentina fuga dos centros habitados. Marinetti! Ela se suicidou há três dias em Nova Iorque.“querem saber o porquê? Eu lhes digo: Ela. Na verdade.“Intuo em seus paladares a chatice de um antiquíssimo hábito e a convicção de que um tal modo de se nutrir conduz ao suicídio..

Enrico Prampolini. aeropintores e aeroescultores. farinha de amêndoas. farinha de centeio. Giulio sofreu um tremor convulsivo irreprimível: . mel e leite. Prampolini gritou: -“são necessários às nossas mãos geniais cem sacos dos seguintes ingredientes indispensáveis: farinha de castanhas.“a menos que ? ” – repetiu Fillìa. transformavam as cozinhas em fantásticos laboratórios onde as enormes caçarolas emborcadas no chão transformavam-se em pedestais grandiosos predispostos a uma escultura imprevisível.”Fillìa improvisou um aerocomplexo plástico de farinha de castanhas. descarregando piramidais pilhas amarelas.”-“você será atendido ainda nesta noite”. Cem quilos de tâmaras e de bananas. gritou: 1 O parêntese não foi fechado no original. pimenta vermelha. chocolate em pó. açúcar e ovos.A cozinha futurista Longo silêncio. As minhas aeropoesias ventilarão seus cérebros como hélices esvoaçantes. ao primeiro alvorecer que atravessou o cintilante horizonte pela janela aberta. vermelhas. suicidar-me-ei esta noite!1 . não devo trair a morta. Então. 111 Cozinha futurista. Dez jarras de óleo. farinha de trigo. ovos. .indd 111 7/4/2009 15:51:21 .”Entre os cozinheiros estarrecidos e ditatorialmente desautorizados. -“ao trabalho – disse Marinetti – oh.ordenou Giulio. brancas.“a menos que ? ” – gritou Prampolini . que havia ciumentamente cercado de biombos o seu trabalho criativo. farinha de milho. chocolate. onde camadas atmosféricas noturnas eram intercaladas por camadas de alvoreceres acinzentados com espirais de vento expressos em encanamentos de massa podre. pretas. os fogos acesos. leite. Imediatamente os empregados começaram a transportar grandes e pesados sacos que. Depois do que.(não quero.“A menos que ? ” – concluiu Marinetti – a menos que você nos conduza imediatamente às suas ricas e abastecidas cozinhas.

ao aumentar a velocidade espalhava por todo o recinto uma massa enorme de algodão-doce de ouro. angustiadíssimo e 112 Cozinha futurista. Venham admirá-la. Idealizado por Marinetti. um seu modo de flutuar sensualíssimo. sem respirar. cantos de pássaros.”Derrubou os biombos e apareceu o misterioso suave tremendo complexo plástico d’ela. um cilindro de massa de milho que. -“não se aproximem – gritou a Marinetti e a Fillìa – não a cheirem. Era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. Vocês têm más bocas vorazes.Fillippo Tommaso Marinetti -“Tenho-a finalmente entre meus braços e é de tal modo bela. Vocês comeriam-na toda. um sorriso seu de lábios. girando em seu eixo. cada uma com uma leve curva especial de boca ventre ou quadris. Às sete horas nascia do maior forno da cozinha a paixão das loiras. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. Afastem-se. a esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. realizado sob o seu ditado por Giulio Onesti.” – Retomaram o trabalho deliciosamente estimulados pelos longos raios elásticos de uma aurora. chiados de águas lenhosas cuja laqueadura verde estourava em brilhos dourados. Comestível. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Acima. Narinas abertas para guiar as unhas e os dentes. No alto. Mãos inspiradas. Atmosfera inebriante pródiga de formas cores com planos de luz cortantes e lisíssimas redondezas de esplendores que o zumbido de um aeroplano altíssimo torneava melodiosamente. nuvens vermelhas. alto complexo plástico de massa folhada esculpida em camadas degradantes de pirâmide.indd 112 7/4/2009 15:51:21 . que se improvisava cozinheiro-escultor.

Bruscamente um complexo plástico de chocolate e torrone. será aquela de uma convidada qualquer. Com bocas de antropófagos simpáticos. 113 Cozinha futurista. Giulio Onesti. não trabalhamos para ela. ébria de esculpir ela também. Temia a que estava por vir. oferecer-lheemos uma aurora artística comestível realmente inesperada. de rosas violetas e cachias que no parque e na cozinha a brisa primaveril. A torrente do tempo fugia-lhes sob os pés. Marinetti. Aquela boca iminente preocupava também os três futuristas que trabalhavam. Em uma pausa.indd 113 7/4/2009 15:51:21 . Giulio Onesti manifestava uma inquietude que não correspondia à serenidade futurista de seu cérebro.A cozinha futurista trêmulo.“se a Nova chega com o crepúsculo ou com a noite. representando as formas da nostalgia e do passado precipitou abaixo com um estrondo e enlameando tudo de líquidas trevas viscosas. de biscoitos. No silêncio da tarde o trabalho tornou-se muscularmente acelerado. o complexo plástico foi por ele mesmo plantado sobre uma gigantesca caçarola de cobre de cabeça para baixo. Intuíam-na e saboreavam-na entre os perfumes de baunilha. síntese de todos os automóveis famosos de curvas longínquas e uma rapidez de vôo que oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados de mulheres misturados a cubos de rodas e a asas de hélice todas feitas com macia massa fermentada.” No entanto. remisturava. Foram desenformados por Prampolini e Fillìa: uma velocidade esguia. Giulio Onesti disse: . Prampolini e Fillìa restauravam seus estômagos de quando em quando com um saboroso pedaço de estátua. Massas saborosas para transportar. esbeltíssimo “lazo” de massa podre. Competiu subitamente tanto com a força dos raios solares até inebriar o escultor que infantilmente beijou sua obra com a língua. se bem que ideal. em equilíbrio sobre as pedras polidas e trementes do pensamento. A sua boca. Entretanto. Novo silêncio.

indd 114 7/4/2009 15:51:21 . *** À meia-noite. tinham-lhe inoculado o suave magnetismo das mulheres mais belas. Nervos. Sobre-humana. A sua arquitetura oblíqua de curvas macias perseguindo-se no céu escondia a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis que mecanicamente engrenavam os seus tufos à roda dentada. resplandecia no ângulo oposto. Crucificá-la sob pregos agudos de vontade. a mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis. perfeito. na realidade. para inaugurar – experimentar juntos a grande Mostra de escultura comestível já pronta. montes de alabarda e feixes de carabinas. A obra-prima. no parque. os futuristas Marinetti. Às seis da tarde desenvolver-se no alto de doces dunas de carne e areia em direção a dois grandes olhos de esmeralda nos quais a noite já se adensava. Todo o céu nas narinas. 114 Cozinha futurista. Tinha como título as curvas do mundo e os seus segredos. Mais abaixo sentia-se a estridente felicidade dos riachos paradisíacos. Prampolini e Fillìa esperavam o dono da casa convidado. Prampolini disse: . perto de uma vidraça cheia de ácidas e doentias luzes sublacustres. na vasta sala das armas. Marinetti. Paixão. Conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. colaborando. Estalar de língua. Em um canto. e das mais belas Áfricas sonhadas. Prampolini e Fillìa. por sua vez.“verão que ele a vencerá. em rixa com dois enormes canhões de montanha.” Soou mediunicamente a campainha ao fundo. Era um complexo plástico a motor comestível. haviam sido amontoados rechaçados brutalmente como por uma mágica força sobre-humana.Fillippo Tommaso Marinetti Com calma retomar a matéria. Alegria dos lábios. sob onze globos elétricos.

” A ela. Suplico-lhes que me expliquem as razões. cheios de falsa ingenuidade infantil. dos ombros e das ancas esbeltas apenas embainhadas por mohair dourado.“não me julguem uma idiota – murmurou com graça lânguida – estou estonteada. O seu coração. revolucionavam e acendiam as curvas pacatas e a delicada elegância minuciosa do pescoço. Para sua sorte. mas de uma beleza tradicional. os grandes olhos verdes. aquele intitulado as curvas do mundo e os seus segredos perturbava. Prontos puseram-se em pé. nas almofadas. Como exauridos por tanto aerodinamismo lírico-plástico. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. nuvem investida por projetores na noite. Marinetti. . O seu engenho me espanta. dela. De bruços aos seus pés. uma viril mas cansada. Prampolini e Fillìa sobre um amplo tapete de plumas dinamarquesas que pela maciez madreperolada à luz elétrica parecia viajar. a imobilidade e o silêncio dos cinco. os pensamentos que os dominaram enquanto esculpiam tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. Giulio Onesti sonhava ou escutava. jaziam cansadíssimos Marinetti. e o rosto voltado para o centro da terra.“Amamos as mulheres. as intenções. a outra feminina e agressiva. se apertado pelo supremo prazer do amor. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. Disseram: . uma concha-toca para fera refinada. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas 115 Cozinha futurista. Prampolini e Fillìa falaram alternando-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. que cuidadosamente e esculturalmente escavava para o próprio corpo. sob a curta testa inundada de ricos cabelos quase louros e quase castanhos.indd 115 7/4/2009 15:51:21 .A cozinha futurista Entre todos. nas peliças e nos tapetes. porém ao som de duas vozes. Depois. Uma breve troca de gentilezas assombros regozijos a ela. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. Belíssima mulher.

Arte comestível. o estômago. outros nos crêem complicadíssimos e civilizadíssimos. A apaixonada superaguda tensão das mais frenéticas luxúrias finalmente apagadas. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices.“por caridade – suspirou sorrindo – moderem a sua selvageria. Cem moscões lilases azuis davam uma artística investida enlouquecida em direção aos altos globos elétricos. depois jogou a cabeça para trás e adormentou-se também. a única e todas encontravam-se aqui.“neste catálogo da Mostra de escultura comestível. a ingenuidade. incandescências a serem esculpidas a qualquer custo e o mais rapidamente elas também. toda novas leis. O eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. Somos os novos elementos instintivos da grande Máquina futura lírica plástica arquitetônica. Arte temporânea. Vocês nos julgam selvagens.” . o intestino igualmente enamorados. a graça infantil. diante de nossas mãos. . São os nossos estados de ânimo realizados. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão.a menos que o macérrimo Fillìa.” Acrescentou Marinetti: . 116 Cozinha futurista. O fascínio. toda novas diretrizes. não só o tato e relativas carícias. o pudor.indd 116 7/4/2009 15:51:21 . A mulher contemplou-os por alguns minutos.” Uma longa pausa de silêncio fulminou de sono Marinetti. mas os dentes. o furioso turbilhão do sexo. de imagens e de ímpetos afinava-se com o murmúrio assobiado e metálico do canavial no Lago acariciado pela brisa noturna. Prampolini e Fillìa.“ninguém a comerá por enquanto – disse Prampolini . Arte leve voadora.. você poderá ler esta noite as originais bisbilhotices erótico-sentimentais que suscitaram nos artistas certos sabores e certas formas aparentemente incompreensíveis. O fraco murmúrio das respirações carregadas de desejo.Fillippo Tommaso Marinetti obras de gênio e de língua insaciável. a língua. a alvorada..

Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as grandes jóias do olhar. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. Talvez para se refrescar. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. vazio e transbordante. com um tremendo torcer de rins. Estava ao mesmo tempo desobstruído. Escultores e escultoras dormiam. com a cabeça descoberta. Aproveitador e aproveitado. Levantou-se agilmente. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. Ajoelhandose em frente. sem fazer barulho. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. como uma tigresa alongada. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. a língua e os dentes. Às três daquela noite. liberado. começou a amorosa adoração com os lábios. Possessor e possuído. Sem fim.A cozinha futurista De improviso. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Único e total. com as costas suspeitosas de um ladrão. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. Giulio saiu então para o parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente.indd 117 7/4/2009 15:51:21 . percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. 117 Cozinha futurista.

dirigido por Mario Tapparelli.indd 118 7/4/2009 15:51:21 . agressiva das raças. zag cordeiro assado ao molho de leão saladinha à aurora sangue de Baco “terra ricasoli” rodinhas pontuais de alcachofra 118 Cozinha futurista. a importância da alimentação sobre a capacidade criativa.Fillippo Tommaso Marinetti O mAniFestO dA cOzinhA FuturistA Ideologia e polêmicas A refeição do “Penna d’Oca” e o manifesto da cozinha futurista Desde o início do Movimento Futurista Italiano. fecundadora. algumas tentativas de renovação cozinhária. a urgência de uma solução impôs-se: O restaurante PENNA D’OCA de Milão. Esta lista de pratos: ganso gordo sorvete na lua lágrimas do deus “Gavi” brodo de rosas e sol favorito do mediterrâneo zig. Isto era muito discutido entre Marinetti. Houve. na Itália e na França. Balla. zug. agitou os maiores futuristas. Subitamente. em 15 de Novembro de 1930. Boccioni. há 23 anos (Fevereiro de 1909). isto é. ofereceu aos futuristas milaneses um banquete que queria ser um elogio gastronômico do futurismo. Russolo. Sant’Elia.

Prampolini. convidado a falar diante de um receptor da Radio. Exª Fornaciari Prefeito de Milão. 119 Cozinha futurista. Giordano. Repaci. ilude sobre sua capacidade nutritiva. Sansanelli. Dep. as iguarias eram timidamente originais e ainda ligadas à tradição gastronômica. Umberto Notari. Dep. Escodamè e Gerbino.“anuncio-lhes o próximo lançamento da cozinha futurista para a renovação total do sistema alimentar italiano. como um de seus princípios. O cozinheiro Bulgheroni foi repetidamente aclamado. Marinetti desafiou as ironias precisando seus pensamentos. lentos. e os futuristas Depero.” Este discurso suscitou entre os convidados aplausos enlouquecidos e pouco claras irritações. Prampolini. Chiarelli. A cozinha futurista será libertada da velha obsessão por volume e peso e terá. torna-nos céticos. Steffenini. disposto sobre a mesa entre “rodinhas pontuais de alcachofra” e “chuva de algodão doce”. É. Farinacci. Os menos futuristas eram os que mais aplaudiam.indd 119 7/4/2009 15:51:21 . Marinetti. Pick Mangiagalli. Gerbino. Exª. a abolição do macarrão. que deve ser adaptado o mais brevemente possível às necessidades dos novos esforços heróicos e dinâmicos impostos à raça. exceto o brodo de rosas que inebriou os paladares futuristas de Marinetti. pessimistas. é uma comida passadista porque estufa. Escodamè. patriótico favorecer sua substituição pelo arroz. enfeia.A cozinha futurista chuva de algodão doce espuma hilariante “cinzano” fruta colhida no jardim de Eva café e licores agradou muito aos convidados: S. por outro lado. S. Ex. Depero. disse: . Ravasio. S. apesar de agradar ao paladar. etc. E era lógico porque. Marinetti. O macarrão.

na realidade. em todos os jornais estourou uma polêmica violentíssima da qual participaram todas as categorias sociais. aos soldados. na Gazzetta del Popolo de Turim apareceu O Manifesto da cozinha futurista O Futurismo italiano. aos estivadores. O novecentismo pictórico e o novecentismo literário são. aos astrônomos. pai de numerosos futurismos e vanguardistas estrangeiros. eram entrelaçadas imediatamente intermináveis discussões. *** No dia 28 de Dezembro de 1930.indd 120 7/4/2009 15:51:21 . O Futurismo italiano enfrenta ainda a impopularidade com um programa de renovação total da cozinha. Cada vez que. cantina ou casa da Itália. Contra o macarrão O Futurismo foi definido pelos filósofos “misticismo da ação”. das senhoras aos cozinheiros. aos camponeses. por Benedetto Croce “anti-historicismo”. aos moleques.Fillippo Tommaso Marinetti No dia seguinte. Entre todos os movimentos artísticos literários. é o único que tem por essência a audácia temerária. não permanece prisioneiro das vitórias mundiais obtidas “em 20 anos de grandes batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue” como definiu Benito Mussolini. era servido macarrão. dois futurismos de direita moderadíssimos e práticos. eles experimentam prudentemente o novo para obter de cada um a máxima vantagem. Arraigados à tradição. fórmula da “arte120 Cozinha futurista. em qualquer restaurante. aos literatos. por nós “orgulho italiano (i)novador”. às amas de leite. por Graça Aranha “liberação do terror estético”.

ousadia. vontade. enquanto que para a fêmea é horizontal. nós futuristas após termos agilizado a literatura mundial com as palavras em liberdade e o estilo simultâneo. “método da infalível criação”. Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega. “esplendor geométrico veloz”. nós afirmamos esta verdade: pensa-se sonha-se age-se de acordo com o que se bebe e o que se come. ternura. “religião da velocidade”. a nossa língua. Convencidos de que na provável conflagração futura vencerá o povo mais ágil. “máximo esforço da humanidade para a síntese”. ao contrário. luz. em leque. as nossas papilas gustativas. de baixo para o alto do corpo humano. Preparamos uma agilidade de corpos italianos adaptados aos levíssimos trens de alumínio que substituirão os atuais pesados de ferro madeira aço. julgado por todos louco. Antipraticamente. é para o macho e para a fêmea sempre ascendente. “higiene espiritual”. Harmonize-se. sempre mais com a italiana. “estética da máquina”. Nós futuristas sentimos que para o macho a volúpia de amar é escavadora abissal do alto para baixo. mais impetuoso. A volúpia do palato . as nossas secreções glandulares e entramos genialmente na química gástrica. ao contrário. o nosso paladar.indd 121 7/4/2009 15:51:21 . Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente nutridos realizaram grandes coisas no passado. 121 Cozinha futurista. esvaziado o teatro do tédio mediante sínteses alógicas por surpresa e dramas de objetos inanimados. tenacidade heróica. criado o esplendor geométrico arquitetônico sem decorativismo.A cozinha futurista vida original”. então. imensificado a plástica com o anti-realismo. Consultamos a este respeito os nossos lábios. nós futuristas negligenciamos o exemplo e a exortação da tradição para inventar a qualquer custo um novo. delgada transparência espiral de paixão.

e às paisagens de cores formas rumores que a radio-televisão faz navegar em torno da terra? Os defensores do macarrão carregam a bola de ferro ou a ruína no estômago. agricultores tenazes a despeito do volumoso macarrão quotidiano. mas aos italianos o macarrão não beneficia. Isto leva a um desequilíbrio com distúrbio destes órgãos. Dele derivam: fraqueza. o macarrão é um alimento que se engole. absurda religião gastronômica italiana. artistas inspirados. advogados engenhosos. não se mastiga. oradores impetuosos. escreve: “Diferentemente do pão e do arroz. Recordem-se ainda que 122 Cozinha futurista. aos holandeses a carne cozida com queijo. Porque opor ainda o seu bloco pesante à imensa rede de ondas curtas longas que o gênio italiano lançou sobre os oceanos e continentes. o toucinho defumado e o salame. Um inteligentíssimo professor napolitano. inatividade nostálgica e neutralismo”. liga com seus emaranhados os italianos de hoje aos lentos teares de Penélope e aos sonolentos veleiros. aos alemães o chucrute. pessimismo. contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada generosa intuitiva dos napolitanos. o rosbife e o pudim. aos legumes. ao peixe. Acreditamos antes de tudo necessário: a) a abolição do macarrão. Estes foram combatentes heróicos.indd 122 7/4/2009 15:51:21 . Convite à Química O macarrão. Este alimento amiláceo é em grande parte digerido na hora pela saliva e o trabalho de transformação é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. como prisioneiros ou arqueólogos. Por exemplo.Fillippo Tommaso Marinetti a cinematografia e a fotografia abstratas. estabelecemos agora a nutrição adequada a uma vida sempre mais aérea e veloz. Ao comê-lo eles descobrem um típico ceticismo irônico e sentimental que trunca muitas vezes o seu entusiasmo. o Dr. à busca de vento. Signorelli. Talvez beneficiem aos ingleses o bacalhau. nutritivamente inferior em 40% à carne.

Convidamos a química ao dever de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos gratuitos do Estado. A originalidade absoluta das comidas. As máquinas constituirão rapidamente um obediente proletariado de ferro aço alumínio a serviço dos homens quase totalmente aliviados do trabalho manual. com relativa redução das horas de trabalho.000kw é necessário somente um operário. pega-se um belo salmão do Alasca. Acrescen- 123 Cozinha futurista. para 2. b) A abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar a nutrição. Em todas as classes as refeições serão distanciadas mas perfeitas no cotidianismo dos equivalentes nutritivos. Atingir-se-á assim uma real baixa do preço da vida e do salário. sal e azeite até que esteja bem dourado. d) A abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato. gorduras sintéticas e vitaminas.indd 123 7/4/2009 15:51:21 . O almoço perfeito exige: 1. segundo o conselho de Jarro Maincave e outros cozinheiros futuristas. Este. O “carnescultura” Exemplo: Para preparar o Salmão do Alasca aos raios do sol com molho Marte. corta-se e passa-se na grelha com pimenta. ornamentos) com os sabores e as cores das comidas. em pó ou pílulas. Uma harmonia original da mesa (cristais. permite aperfeiçoar e nobilitar as outras horas com o pensamento as artes e a pregustação de refeições perfeitas.A cozinha futurista a abolição do macarrão libertará a Itália do custoso grão estrangeiro e favorecerá a indústria italiana do arroz. louças. Hoje. c) A abolição das combinações tradicionais para a experimentação de todos as novas combinações aparentemente absurdas. compostos albuminosos. sendo reduzido a duas ou três horas.

Sirva-a com este molho: meio copo de Marsala e vinho branco. (Fórmula de Bulgheroni. é composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada de onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. tudo fervido por dez minutos.indd 124 7/4/2009 15:51:22 . Coloque o molho na molheira e sirva-a muito quente. pimenta.Fillippo Tommaso Marinetti tam-se tomates cortados ao meio previamente cozidos sobre a grelha com salsinha e alho. coloque-a numa caçarola com manteiga. O molho será composto de anchovas. um cálice de licor italiano Aurum. quatro colheres de cassis. pegue uma bela perdiz. (Fórmula de Bulgheroni. limpe-a. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) Exemplo: Para preparar a Perdiz à Monterosa molho Vênus. manjericão. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. Exemplo: O carnescultura criado pelo pintor futurista Fillìa. No momento de servir colocam-se sobre as postas de salmão alguns filetes de anchova entrelaçados (como jogo de damas). borrifando-a com conhaque. zimbro. Sobre cada posta uma rodelinha de limão com alcaparras. cozinhe-a em forno muito quente por quinze minutos. 124 Cozinha futurista. e será peneirado. casca de laranja picadinha. cuja harmonia original de forma e cores nutra os olhos e excite a fantasia antes de tentar os lábios. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) A invenção dos complexos plásticos apetitosos. Leve novamente ao forno até que a massa esteja bem cozida. cubra seu estômago com fatias de presunto e toucinho. interpretação sintética das paisagens italianas. Apenas retirada da caçarola. azeite. coloque-a sobre uma fatia torrada de pão quadrado ensopado com rum e conhaque e cubra-a com massa folhada. sal. gemas de ovos cozidos.

indd 125 7/4/2009 15:51:22 . No centro emerge um cone de claras de ovos batidas e solidificadas cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. A criação de pequenos pratos simultâneos e cambiáveis que contenham dez. A apresentação rápida entre um prato e outro. O uso da música limitado nos intervalos entre os pratos para que não distraia a sensibilidade da língua e do palato e sirva para aniquilar o sabor apreciado restabelecendo uma virgindade degustativa. A abolição do garfo e da faca para os complexos plásticos que possam dar um prazer tátil pré-labial. A abolição da eloquência e da política à mesa. de alguns pratos que eles comerão e de outros que eles não provarão para favorecer a curiosidade. sob os narizes e os olhos dos convidados.A cozinha futurista Equador + Pólo Norte Exemplo: o complexo plástico comestível Equador + Pólo Norte criado pelo pintor futurista Enrico Prampolini é composto por um mar equatorial de gemas de ovo em sua própria casca. com pimenta sal limão. O uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Estes complexos plásticos apetitosos coloridos perfumados e táteis formarão perfeitos almoços simultâneos. vinte sabores para experimentar em poucos instantes. Estes pratos terão na cozinha futurista a função analógica imensificante que as imagens têm na literatura. Cada prato deve ser precedido por um perfume que será cancelado da mesa por meio de ventiladores. O cimo do cone será coberto por pedaços de trufas negras cortadas em forma de aviões negros para a conquista do zênite. Um dado bocado poderá resumir uma 125 Cozinha futurista. 10. a surpresa e a fantasia. O uso dosado da poesia e da música como ingredientes inesperados para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma certa vianda.

etc. F. especiarias. Estes. jornal dirigido com grande competência e genialidade por Umberto e Delia Notari. moinhos coloidais para tornar possível a pulverização de farinhas. eletrolisadores para decompor sucos.indd 126 7/4/2009 15:51:22 . impedem o raquitismo nas crianças. extratos etc.). etc. Um conjunto de instrumentos científicos na cozinha: ozonizadores que dêem o perfume do ozônio a bebidas e comidas. Lombroso. o que provoca a destruição de substâncias ativas (vitaminas. de modo a obter de um produto notável um novo produto com novas propriedades. Entre muitos. Ducceschi. excesso de pimenta. Parecem falar à mesa. defenderam o macarrão os doutores Bettazzi.. excesso de doce. Os indicadores químicos darão conta da acidez e alcalinidade dos molhos e servirão para corrigir eventuais erros: falta de sal. evitando por exemplo o erro de cozinhar as comidas em panelas a pressão. a boca beatamente cheia de espaguete ao vôngole. Pini. tornam-se mais assimiláveis. excesso de vinagre. Foà. dializadores. iniciou uma pesquisa enquanto enfurecia a polêmica mundial pró e contra o macarrão e pró e contra os pratos futuristas. etc. e o turbilhão angustioso 126 Cozinha futurista. Não possuem a lucidez espiritual do laboratório. frutas secas. etc. em uma trattoria de Posillipo. lâmpadas para a emissão de raios ultravioleta (já que muitas substâncias alimentares irradiadas com raios ultravioleta adquirem propriedades ativas. obedecem à prepotência de seus paladares.T. esterilizadores centrífugos. Esquecem os outros deveres dinâmicos da raça. Marinetti *** A “Cozinha Italiana”. Londono. 11. aparelhos de destilação a pressão comum e à vácuo. O uso destes aparelhos deverá ser científico. pouco cientificamente.) por causa das altas temperaturas. o desenvolver de uma paixão amorosa ou uma inteira viagem ao extremo Oriente.Fillippo Tommaso Marinetti inteira zona de vida. Viale.

Este ávido buraco é a sua incurável tristeza. Qualquer “macarroneiro” que consulte a própria consciência honestamente no momento de engolir a sua biquotidiana pirâmide de macarrão. mas não o tapa. Somente uma refeição futurista pode realegrá-lo. Prof. NICOLA PENDE (clínico). são unicamente comparáveis aos excitantes. Mesmo esforçando-se para legitimar os seus prazeres bocais. encontrará ali dentro a triste satisfação de tapar com ele um buraco negro. os de carne têm caráter veloz e agressivo”. Ilude-se.A cozinha futurista de esplêndidas velocidades e de violentíssimas forças contraditórias que constituem a vida moderna. contentes com a melancolia e propagandistas da melancolia. Na mesma pesquisa brilham entretanto as inteligências dos Médicos que dizem: “o uso habitual e exagerado do macarrão determina certo aumento de peso e exagerado volume abdominal” “os grandes consumidores de macarrão têm caráter lento e pacífico. 127 Cozinha futurista. E o macarrão é antiviril porque o estômago pesado e cheio não é nunca favorável ao entusiasmo físico pela mulher nem à possibilidade de possuí-la diretamente. devem convir que outras comidas são pelo menos tão nutritivas quanto o macarrão. preparam o sereno e viril estado de ânimo indispensável para a tarde e a noite. etc. Todos os defensores do macarrão e os obstinados inimigos da cozinha futurista são os temperamentos melancólicos. as músicas. enquanto são considerados por nós como atos que criam sobre o comensal um estado de ânimo otimista singularmente útil para uma boa digestão. as músicas e o tato. que condimentam os pratos futuristas. E não é só: os perfumes.indd 127 7/4/2009 15:51:22 . Alguns destes declaram que os perfumes.

HERLITZKA (fisiologista) “o valor nutritivo do macarrão não apresenta características especiais que possam torná-lo preferível aos outros tipos de farináceos”. é prejudicial”. convém uma alimentação mista. pró e contra o macarrão. De qualquer modo.indd 128 7/4/2009 15:51:22 . C. Prof. A. Prof.Fillippo Tommaso Marinetti “deve-se trocar alimentos pela lei biológica: a repetição constante do mesmo alimento. Senatore ALBERTONI “É questão de gosto e preço de mercado. Prof. e portanto nunca exclusivamente feita de um só alimento”. Prof. foram feitas pelo “Jornal de Domingo” de Roma e por outros jornais italianos. ANTONIO RIVA “o macarrão não pode ser considerado como um alimento de fácil digestão porque dilata o estômago e não sofre. Prof. Senatore U. como o pão. GABBI (clínico) “penso que o uso do macarrão seja nocivo aos trabalhadores intelectuais. uma preparação suficiente com a mastigação”. a experiência o mostra. possam conceder-se carne e outros pratos”. O Duque 128 Cozinha futurista. Dr. às pessoas que levam vida sedentária e sobretudo àqueles que. TARCHETTI *** Outras pesquisas. além da sopa.

no Paraíso. Salvatore di Giacomo etc. e deu-me um pequeno posto à sua 1 Massa longa. Angelo Frattini. respondendo a uma destas pesquisas. “Marc’Aurelio”. prefeito de Nápoles. com todos os socos e bofetadas da sua dialética de assalto. Você queria ser gentil. por exemplo. que não são sempre aquelas do tatilismo e das palavras em liberdade. tem entretanto suas idéias. a polêmica espalhava-se através de centenas de artigos. Cecchino. enquanto os inimigos da cozinha futurista contentavam-se com ironias fáceis e nostálgicas lamentações. Recordamos o número completamente dedicado à cozinha futurista do “Travaso” de Roma e as inumeráveis caricaturas que apareceram no “Guerin meschino”. T. “Giovedì”. todos. Giaquinto. os escritos de Massimo Bontempelli. destaca-se este de Ramperti. consagrando com isto a monotonia pouco atraente de Paraíso e da vida dos Anjos. e não poderia falar com mais graça de alguém que. Recordamos. 129 Cozinha futurista. Marco Ramperti. etc. Dona Elvira etc. Arturo Rossato. Marinetti”: Caríssimo Lembra-se? Você escreveu. não comem outra coisa além de ‘vermicelli al pomodoro’12”. publicado no “Ambrosiano” como “carta aberta a F. temperada com molho de tomates. Alfredo. aumentavam as adesões e os entusiasmos pela luta contra o macarrão. Entre todos os artigos. sendo atento e amigo.. Mas. meu caro Marinetti. Paggi. que eu. pertenço à extrema direita do parlamento futurista.A cozinha futurista de Bovino. declarou que “os Anjos. “420”. Paolo Monelli. etc. parecida com o espaguete. No entanto. favoráveis ao macarrão. Você é a amabilidade em pessoa.indd 129 7/4/2009 15:51:22 . Paolo Buzzi. por serem incapazes de renovar a sua cozinha. uma vez. Recordamos os diversos pareceres dos cozinheiros romanos Ratto.

Aceitam. enquanto poderia muito bem me deixar do lado de fora. reaver a primazia no mundo: dispostos. entre os passadistas sem remédio e sem direito. todavia. muitas vezes os seus decretos-leis colocaram-me no cruel dilema de assinar a minha demissão. Por isso peço. que desta vez a batalha será fácil. infelizmente. Marinetti. Desde aquele dia. o passo de corrida: mas com sua porção de espaguete. o seu manifesto contra o macarrão: e eis que. Parece-me que a revolução alimentar seja a mais cuidadosa ente quantas você tenha suscitado. Aceitam o soco. a todas as vantagens. reanimado. deseperado.indd 130 7/4/2009 15:51:22 . e não a um apetite. Ah! Não creia. quem sabe por quanto tempo ainda. e nós deveremos. esta nossa gente. a honra de servir-lhe. já se rebelam. Capaz de renunciar a todos as comodidades. iluminado. as palavras em liberdade. agora lhe peço. As críticas serão muitas. Ainda que eu não seja. o mais jovem do seu regimento. o macarrão voltará às mesas. o salto. Veja como é feita. Aceitam o tatilismo. absoluto. ai de mim. tão sensíveis eram as discrepâncias. e tornavam insuportáveis a minha presença na sua assembléia. tocados no epigástrio. ou então de pedir a sua. confesso-lhe. predicar a barrigas cheias e corações desertos. e entendem. e.Fillippo Tommaso Marinetti direita. 130 Cozinha futurista. oh! Marinetti. E de fato parece a mais difícil. Mas não renunciam ao macarrão. como fez Esaú por um de lentilhas. a ceder esta prioridade por um prato de macarrão. os intonarumores. Então apareceu a sua insurreição convival. por Deus. o seu pálido futurista ad honorem passa de um salto da extrema direita para a extrema esquerda da sua assembléia. grita-lhe o seu consenso pleno. fanático. refeito em um momento cheio de audácia fiel. entre os conversíveis. Mas creia-me: será necessário ter coragem. Você vê como os italianos. justamente. para levar a bandeira desta sua última ofensiva.

como a perus de Natal. Ora. mas em todo o caso deve ser 131 Cozinha futurista. é a mais conseqüente e lógica entre todas aquelas derivadas do seu manifesto cardinal de há vinte anos: e não se compreenderiam tantas resistências. E eis aqui a mola da sua revolta reparadora. é também o menos maldito. elasticidade e energia. no entanto. justamente. que nos liga as entranhas com os seus arames moles. Um francês que estimava os alemães. este outro hábito. ninguém saberia cometer uma vilania. vencendo tarde. estabelece a sua lei. segundo o indivíduo. Já que os italianos consentiram ao princípio futurista que se façam os mais ágeis. exceto a uma porção de vermicelli. a não ser repensando. que é ele também uma escravidão. e você tem cem razões para atacá-la ferozmente. apopléticos e suspirantes. entre todos os alimentos estufantes e paralisantes que contradizem o seu programa de rapidez. Mas sendo o mais nefasto. O que quer dizer. esta outra abnegação? Liberemo-nos também do macarrão. repensando naquele Polichinelo que resistia a tudo. oh! Marinetti. se não fosse por uma salsicha com chucrute.A cozinha futurista Não importa. furibundos possíveis. o conde de Gobineau. e que nos prega à cadeira. É um juízo que me vem à mente. como em todas as boas revoluções. ativos. o macarrão é precisamente o mais difundido e calamitoso. Venceremos melhor. elétricos. costumava dizer que do outro lado do Reno. nada poderia ajudar mais do que o comer pouco e escolhido. como a estátuas de fontes. pode causar prazer ou vergonha. chegará por fim o dia em que se convencerão que. este outro vício. para alcançar um tal estado de graça. limitar as próprias refeições à gota essencial e à migalha leonina. que nos entope o esôfago. Este grande amor pelo macarrão é uma debilidade dos italianos. Que nos incha as bochechas. e existe o paladar do futurista. à tenacidade e obstinação de certas atitudes do estômago. exceto a uma glutonaria. exprime o seu verbo. repletos e estupefatos. A nossa.indd 131 7/4/2009 15:51:22 . esta sua última propaganda. Não é a primeira vez que um povo nos ensina a saber renunciar a tudo. com aquela sensação de inutilidade que. Existe o calcanhar de Aquiles. velozes. Na verdade.

subitamente. um tempo. aglomerados e amalgamados. Seria necessário ensinar a vanidade deste nosso apetite. que nós comíamos os espaguetes com as mãos: e talvez o sentido da maledicência era que não podiam. Depois nos concederam os garfos. os espaguetes infestam e pesam. em algumas metáforas indecorosas. como em 1894 sabia-se quantas devorasse Francesco Crispi. gostariam de dizer as alegorias malignas. Mas é um prazer efêmero. talvez para ter o direito de dizer em Genebra que também os italianos andam armados até os dentes: mas os espaguetes não foram tirados do nosso quadro folclorístico. O sustento é mínimo se confrontado com o volume.indd 132 7/4/2009 15:51:22 . Não temos mais nem a sílaba fácil nem a imagem pronta. Mas é certamente. E é uma imagem ofensiva: engraçada. feia. E sentimo-nos. quando não é sobre vermicelli despejando molho ao longo de nossos ansiosos braços. ao lado de seu ímpeto bestial. disforme. O nosso macarrão é como a nossa retórica. além dos Alpes. como moedas falsas. confundem-se. para uma tal gulodice. que serve somente para encher a boca. meu caro Marinetti. voce entendeu perfeitamente. naquele voluptuoso empanturrar-se. O pouco molho que trazem aos lábios é o molho de tomate. naquela aderência total da massa ao paladar e às vísceras. Mas é um gosto porco. Alguma coisa nos retém. Dizia-se.Fillippo Tommaso Marinetti detestada por quem ostente uma alma futurista. Os pensamentos desfilam um dentro do outro. o macarrão não nutre. sentados. o perigo e a desonra deste mito dos macarrões: macaroni que resultaram. Sabe-se hoje em toda a Europa quantas porções dele come Primo Carnera. embaralhamse como os vermicelli absorvidos. cheios de chumbo. Engolidos que são. separar-se a deselegância e a imundície. Resumindo. Enche: não fortalece. O seu gosto está todo naquele assalto com as mandíbulas tensas. naquele sentir-se unificado com ela. 132 Cozinha futurista. No fundo. O italiano das alegorias sempre tem a boca ávida arreganhada sobre um prato de tagliatelle. As palavras aglomeram-se do mesmo modo. um verdadeiro alimento italiano. ou somente jovem e acordada. como um tronco.

ao tato e ao paladar. li com entusiasmo o manifesto da cozinha futurista.PENNINO. como é certo que – a propósito da alimentação – os homens debatem-se ainda hoje entre incertezas. Ou mesmo para a arte de Vênus.Marinetti: “Seu férvido admirador desde quando. se sonha. saboroso. Parece que a preocupação de quem se ocupa de cozinha seja aquela de empanturrar. que dê força e substância em pequenas 133 Cozinha futurista. Sabe-se que os pecados da gula são os mais rapidamente punidos pelo Senhor Deus. um interlocutor ou uma amante. se age de acordo com o que se bebe e se come.G. conceituais ou amorosos. Quanto paraíso perdido. É certo que se pensa. É o encadeamento.T. quando não demolidos desde o princípio. excitar e envenenar com drogas e lavagens. enquanto deveria ser a de preparar um alimento sadio. seguia com apaixonado interesse as batalhas purificadoras que o senhor combatia entre a indiferença e a incompreensão dos italianos da época. a picardia é medíocre. por um momento de descuidada animalidade? Marco Ramperti *** V. Experimentem então. ou o exílio. contradições. agradável à vista. a argumentação é impossível. Eu juro que restariam imobilizados desde o primeiro movimento. O madrigal é insosso. erros de todo gênero. depois de uma orgia de tagliatelle. cronista-chefe da “Gazzetta del Popolo”. partir para uma polêmica. É a barriga que se incha à custa do cérebro. encher o ventrículo como se enche um saco. intervém na polêmica com esta carta a F. rapaz. energético. naquele momento. Aquele do macarrão expia-se no mesmo instante.A cozinha futurista Pobre do que tiver perto. interrompida como é pelos soluços do intestino. de todos os espíritos.indd 133 7/4/2009 15:51:22 .

de magnésio. que desperte a fantasia com imagens e panoramas agrestes. exterminar tradições erradas: afirmar que o pão branco. quando a cozinha não mais for mais o reino de donas-de-casa ineptas e de cozinheiros ignorantes e envenenadores. mas contanto que não seja privado de suas substâncias fitínicas com o polimento. que o arroz é um alimento precioso.indd 134 7/4/2009 15:51:22 . a brisa renovadora e saneadora na pesada atmosfera das cozinhas da Itália. de carne e ovos que são consumidos por aqueles que desejam 134 Cozinha futurista. enfim. É necessário abater outros ídolos. quando se conseguir criar e difundir uma alimentação que saiba conciliar a menor quantidade ao máximo de poder nutritivo explosivo dinâmico. pesado e insípido. com o perfume de jardins tropicais e faça sonhar sem o uso de bebidas alcoólicas. sais de cálcio. é um alimento inútil que forma no estômago um bloco indigerível e deve ser substituído pelo integral perfumado e substancioso. etc. a teoria das calorias e das necessidades de uma grande quantidade de albumina animal e de gorduras teve seu tempo. bendita a luta contra o funesto macarrão que com a sua cansativa digestão faz pesar o corpo e entorpecer o espírito. globulinas. a vivacidade. que as verduras contêm verdadeiros tesouros para o organismo humano (ferro. fósforo. Bendita seja. (Olhe que sou napolitano e conheço todos os agouros deste alimento).Fillippo Tommaso Marinetti quantidades. por exemplo. a fantasia. então. somente então a potência volitiva. o gênio criador da raça alcançarão seu pleno desenvolvimento. “Mas a luta contra o macarrão não basta. mas tornar-se-á uma forja de sábias combinações químicas e sensações estéticas. e já foi demonstrado que uma pequena quantidade de alimento bem combinado segundo o conhecimento racional das necessidades do nosso organismo dá muito mais força e energia que pratos de macarrão. vitaminas. Quando banirem das mesas da península o macarrão estufador e adormentador. de potássio.) a menos que com os absurdos cozimentos tais tesouros não sejam estupidamente destruídos e que.

junto com um pouco de nozes e um pedaço de pão preto são para a caldeira humana um combustível muito mais idôneo e rentável que os famigerados macarrão ao ragu. ou tagliatelle à bolonhesa ou bistecas à Bismarck. (O contrário do que acontece comumente). em geral. um prato de cebolas ou de azeitonas ou estas coisas combinadas. “Assim a batalha que o senhor engajou – mesmo que se apresente duríssima. substanciosas podem-se criar pratos que dão aos olhos. porque enquanto visa renovar um ambiente muito fortemente arraigado ao passado. vulcânica. Estes devem ser usados com grande parcimônia especialmente pelos trabalhadores intelectuais. os trabalhadores manuais e. É bom que se saiba que uma cenoura crua finamente ralada com óleo e limão. enquanto os soldados.indd 135 7/4/2009 15:51:22 . mas eles cometeram o erro de serem estrangeiros antes de tudo e muito caros.A cozinha futurista sustentar-se bem. Esperamos que os químicos italianos saibam fazer mais e melhor. Por outro lado. ao palato. deve ser por isso composta por três quartos dos maravilhosos produtos vegetais que nos são invejados por todo o mundo e por um quarto apenas de produtos animais. Cada povo deve ter a sua alimentação e aquela do povo italiano deve ser baseada nos produtos desta terra quente. quem desenvolve grande atividade física podem fazer maior uso deles. à fantasia sensações bem mais intensas que os alimentos que hoje desempenham um belo papel nas melhores mesas. sadias. especialmente se o convite à química lançado pelo senhor encontrar entre os cientistas italianos boa acolhida. irrequieta. contra interesses formidáveis e contra a ignorância difusa – deverá encontrar muitos consensos na Itália de hoje. com as coisas mais simples. Mono – inventou os “alimentos concentrados” cuja eficácia experimentei. 135 Cozinha futurista. porque deve lutar contra tradições radicadas e tenazes. Um químico francês – o prof. tem uma enorme importância social e econômica.

traz ao debate uma palavra precisa: “Não há dúvidas de que todos os farináceos deixam o corpo pesado e em conseqüência.V.. mas justamente convém recordar o que escrevia o seu concidadão Dr. Carito em “Humanidade Artrítica”: . recordamos os mais originais: O cozinheiro-chefe do Rei O Cavalheiro Pettini. na carta direta ao jornal “A Cozinha Italiana”. afirma ainda: “necessidade de inovação. o nosso povinho está ainda numa fase primitiva.PENNINO *** Dos muitos artigos surgidos a favor da luta futurista contra o macarrão. qualificou-o genialmente como a alimentação dos resignados. Schopenhauer e o macarrão O Dr.indd 136 7/4/2009 15:51:22 ..Fillippo Tommaso Marinetti “Desculpe se me permiti enviar-lhe esta apressada nota. em um artigo sobre a cozinha futurista. que também ela deve responder aos tempos e talvez até antecedê-los”. 136 Cozinha futurista. Não fez maiores progressos desde o tempo em que Schopenhauer. Angelo Vasta. observando o seu alimento quotidiano. G. mas pensei que não deveria ser-lhe desimportante – entre os muitíssimos que indubitavelmente receberá – o entusiástico consenso de um modesto estudioso dos problemas da alimentação”. Cozinheiro-Chefe de Sua Majestade o Rei da Itália. observa: “os napolitanos rebelaram-se. ameaçam a inteligência” e mais outros. de modernismo também na cozinha... que me foi sugerida pelo seu belíssimo Manifesto.

Reproduzimos aqui parte de seu divertido artigo contra o macarrão: 137 Cozinha futurista. até as assim ditas ‘dirigentes’. Amedeo Pescio insurge contra aqueles que chamam glória e honra dos genoveses os raviólis. exercícios esportivos devemos radicalmente reformarmo-nos. os tagliarinis etc. Então o grandíssimo cirurgião da nossa cidade (como ele dizia. Em tudo o que diz respeito a alimentação. prelados e ministros. sim. quando o bom e douto rapaz natural de Rapallo curava a Papas e príncipes. em um longo artigo “Contribuição para uma arte culinária futurista” propõe algumas inovações alimentares.. E escreve: “Giovanni de Vigo iniciou a campanha contra o macarrão no século XIV. a prescrição quase marinettiana ao muito inchado século XIV: todos os alimentos de massa devem ser usados pouquíssimas vezes “pasti alia denique et victualia paste rarissime sunt concedenda”. intelectuais. O macarrão é de origem ostrogoda Libero Glauco Silvano. gente dinâmica.” Um médico do século XIV contra o macarrão Em um artigo do “Século XIX” de Gênova. as lasanhas. mas que não se submetia à digestão de grandes quantidades de “trenette” e de carvão..indd 137 7/4/2009 15:51:22 . De onde a nomeada ‘indolência’ com que fomos marcados e vilipendiados nos séculos anteriores.. No IX e último livro encontrar-se-á uma advertência explícita e formal contra o abuso do macarrão. falando de Gênova) escreveu: “A prática em arte cirúrgica”. a recomendação.A cozinha futurista “Ai de mim! mesmo as nossas classes altas. movimento. não sabem alimentar-se bem! De onde o torpor da vida fisiológica com os seus inevitáveis reflexos nefastos na esfera psíquica.

discípulo e êmulo de BrillatSavarin. com um alimento bárbaro que vivia como um parasita em nossa civilização: falo dos macarrões ao sugo. Teve sempre a mesma barriga. Mas quais eram. por azeite rançoso e caprino. tumultuosa e invasora: e não importa onde entrasse. os seus títulos nobiliários? A “Cronaca degli Memorabilia” de Dacovio Saraceno. pergunto-me. Este prato. Dieto macarono erat di spulcia (leggi spelta) et hebbe sua prima dimora in la regia del magno prence Teodarico. ao tomate ou como mais lhe agrada. Ergo. como se descendesse de um lombo muito magnânimo para não dever considerar ainda menos o restante das criaturas gastronômicas. Um bom cozinheiro. existe para cantar-nos vida e milagres: “lo macarono nato fue et notricato appo gli Ostragoti. Entretanto. mesmo entre outros igualmente bestiais. tosco e oleoso de sujeira. sob as novas aparências tinha o modo e a vulgaridade do vilão refeito e de nada lhe valia a contínua freqüência com aquele agraciado e epicúreo mestre que se chama manteiga. gli quai molto e volantieri con essolui si solaciavano. para tirar-lhe de cima aquele tango de canalhice: haviam-no persuadido a não fazê-lo acompanhar por arrogantes e desavergonhadas cebolas. Il conobbero gli sudditi dello rege. lo quà prence affidato avealo a Rotufo. idest in Ravenia. fazia-nos a figura de uma chimpanzé em um salão de damas sentimentais: e somente por um equivocado respeito à tradição continuava-se a suportar o seu fedor plebeu. na casa do pobre ou do rico. Mesmo o nome relembrava o povo. lo amore per essolui macarono s’espanse per lo populo omne. havia trabalhado ultimamente para enobrecê-lo. che avevasi invaghito dello ofiziale di guardia al palacio et al quale. adiposas como beldades de marinheiros. em meio ao qual havia nascido: macarrão. tra un baciuzzo et un baciozzo.Fillippo Tommaso Marinetti Era tempo de acabar. confidogli la esistenzia dello nominato macarono. por sorte. per virtude della femina del cuoco. girava os olhos em torno como para impor respeito e reverência.indd 138 7/4/2009 15:51:22 . por certos alhos pálidos e consumidos por vícios ocultos. coco suo genialissimo. por Deus. et il bolliva- 138 Cozinha futurista.

Foi somente na Alta Idade Média (Cordazio Camaldolese: Pietanzie in usaggio appo aliquante nostre terre et regioni et insule et peninsule et similia con spiegato lor modo di prepararle in cucina 2) que os pepinos foram substituídos por tomates. meterem-se a cavar grandes buracos na grama com as pesadas adagas e acocorar-se ao redor. as dignas consortes. sobre as bochechas cheias terrosas. vinham despejar no prato improvisado a verminalha viscosa dos “macarrões” e os braços peludos mergulhavam até os cotovelos no buraco fumegante e as bocas se abriam – nhau nhau – e os olhos lacrimejavam. de Boccaccio informa que o autor do Decamerão exigia de sua esposa que temperasse os macarrões com leite de amêndoas amargas: “mas. trouxe a preciosa semente – e não larvas de bicho-da-seda. Entretanto. tinha bom gosto demais para aceitar placidamente aquele prato: e. Ah! Os gentis senhores elegantíssimos. engolia o macarrão já que não devia nem mesmo passar-lhe pela mente. pela excessiva felicidade. Depois. cansadíssimas e imundas. limpando a boca sob os bigodes. Um biográfo bastante minucioso. de poder fazê-lo de outro modo.A cozinha futurista no cum cipoglia et alio et pastonacca. como comumente se afirma (confrontar a este respeito a obra definitiva de exegese histórica escrita por Valbo Scaravacio. intitulada “Verdade e despropósito”). lambiam-se os dedos e a cara! Era bem adequada aos seus insensíveis paladares aquela lavagem monstruosa temperada com suco de pepinos. et il condivano cum suggo (sic) di cedriollo. seu paladar aristocrático o refutava. Parece-me vê-los. et leccavansi digita et grugno”1. 139 Cozinha futurista. diz o biógrafo. cujo cultivo havia-se extendido muito desde quando o irmão Serenio. tão arraigada era a tradição. os bigodudos Ostrogodos. em verdade. de qualquer forma mandasse prepará-lo. acrescento eu. em angelical espera. o grande escritor não conseguia digeri-los nem mesmo assim”. Talvez porque Boccaccio. muitas vezes prolixo. de boa ou má vontade que fosse.indd 139 7/4/2009 15:51:22 . em seu retorno da China.

havia-se difundido a superstição de que o macarrão fosse o antídoto para toda doença. nem mesmo a ambrosia”. desapareceram das casas os quadros. eis que o vil e barulhento Aretino recoloca-a sobre os altares: e qual melhor meio de propaganda que as suas excitantes musas em carne e osso? Os que se banquetearam à sua mesa tornaram-se férvidos defensores do macarrão. a panacéia universal. o macarrão: por dizer.indd 140 7/4/2009 15:51:22 . Que porcaria. compôs um rosário de sonetos para o alto elogio do alimento “a que nada pode ser comparado. no último estágio do renascimento. Deveria caber à nossa época a ventura de repudiar definitivamente este costume bárbaro. e um destes.Fillippo Tommaso Marinetti Por pouco. as fotografias e todo acidente que os representava: e as editoras retiraram do mercado 140 Cozinha futurista. de cuja benemerência é inútil falar. sendo conhecido por todos: e nem mesmo o eminente cientista alcançou algo concreto. trata-se de Martone Dagorazzi e suas cem composições poéticas intitulam-se: “A ambrosia dos homens”. meio-dia e noite. Quando já não se falava quase nunca dela. naquele tempo. iniciaram uma campanha ativa para que a humanidade se libertasse dos arreios da escravidão. Ao final do século XVIII muitos nobres engenhos. nós filhos do século. muito difundidas. mesmo se quase inconscientemente engolia macarrão três vezes ao dia: manhã. muito despreocupados para não mandar ao diabo macarrão e acessórios sem nem mesmo a carta de referências: e ninguém os lamentará ou espalhará ternas lágrimas. Foram escritos inúmeros opúsculos e volumes de vários tamanhos: as gazetas. para tornar-se benemérito aos olhos do digno senhor. os desenhos. traziam artigos de pessoas que haviam adquirido grande autoridade nos campos das Ciências e das Letras: mas tudo foi inútil contra a abstenção das plebes também porque. Puah. Somos. a maldita lavagem não foi sepultada no esquecimento. seguros de que a razão de muitos males provinha daquela alimentação. Uma última tentativa foi feita na primeira metade de século XIX pelo grande Michele Scrofetta.

frescor. Existem outros pratos que. Em alguns meses. reimprimindo mesmo quando se fez necessário. estou convencido que. agilidade. mas ignoram a que outro santo voltar-se. não nos faça dormir sobre louros. no entanto. somente de ouvir-lhe o nome – macarrão. Elas sentem obcuramente que este ou aquele modo não estão certos. A tarefa. sob uma rigorosa avaliação. pacifistas e congestionantes argumentações do amidáceo mais ilustre do mundo. puah – as pessoas vomitarão até os intestinos.indd 141 7/4/2009 15:51:22 . As nossas donas-de-casa continuam a preparar os alimentos à moda antiga porque não saberiam como fazê-lo de outra forma. mas para reconstruir são necessárias milhares e milhares de mãos. agilidade. 141 Cozinha futurista. Quero todavia acreditar que esta vitória. frescor do intelectualismo italiano”. deva-se fazer uma grande limpeza. E conclui: “estou com o Maestro na violenta batalha pela saúde. é colossal: para destruir basta uma única mão que acenda um pavio. Chefe da Central de Notícias de Bolonha. sobre os velhos livros de receita. do intelectualismo italiano Ferdinando Collai.A cozinha futurista todas as suas edições para submetê-las a uma rigorosa censura. o bloco resistente do funestamente celebrado macarrão napolitano ou bolonhês”. se bem que notabilíssima. apagando sem piedade. polemiza com “as torpes. mostram-se indignos de receber as graças de nossos gourmets e dos honestos pais de família e da prole estudiosíssima. Aliás. E vejam que já surgiu o primeiro núcleo de estudiosos que buscam oferecer uma cozinha adequada aos tempos. Batalha pela saúde.

o alimento comum era chocolate sujo de lama e de vez em quando um bife de cavalo cozido em uma panelinha lavada com água de colônia. Para os bombardeiros de Vertoibizza. Os futuristas que combateram em Doberbó. atrasados. em Plava e nos reinos de Zagora e depois na Casa Dus. transportado a Plava de maca.indd 142 7/4/2009 15:51:22 .Fillippo Tommaso Marinetti O macarrão não é alimento para os combatentes Paolo Monelli. nem com sua maior boa vontade. escaladas e avalanches. após as batalhas. são os mais prontos. refúgios cômodos. um macarrão comestível. sanitaristas e artistas. Isto não é verdade para as tropas que combatem em solo plano. a polêmica sobre a cozinha futurista deu vida a toda uma série de artigos 142 Cozinha futurista. na Vertoibizza. por mais zeloso e devoto que fosse ao simpático cliente de uma única vez. em Selo. *** Além de muitas adesões de cozinheiros. como Marinetti. não poderia oferecer. já que sobre sua cozinha de batalhão rolavam de vez em quando enormes barris austríacos que destruíam os fogões: Marinetti duvidou então pela primeira vez do macarrão como alimento de guerra. a improvisar equipamentos perfeitos. barracas bem aparelhadas e decoradas e sábias cozinhas. em sua defesa ao macarrão declara-o ideal alimento para os combatentes. Quem poderia esperar um macarrão quente e “al dente”? Marinetti ferido nas Casas de Zagora na ofensiva de maio de 1917. recebeu de um soldado ex-cozinheiro de Savini um milagroso brodo de frango: aquele sagaz e oportuno cozinheiro. entre todos os combatentes. congelados e transformados pelos tiros dos esquadrões inimigos que separavam os atendentes e os cozinheiros dos combatentes. Isto talvez fosse verdade para os alpinos que. em Nervesa e em Cabo Sile estão prontos a testemunhar que sempre comeram péssimos macarrões.

les sécretions de nos glandes et pénétrons génialement dans le domaine de la chimie gastronomique. notre palais. Consultons à ce sujet nos lèvres. tendresse. faite de passion. élan. lumière.Marinetti vient de lancer le manifeste de la cuisine futuriste “Le futurisme italien. no número de 20 de janeiro de 1931: F. au bout de vingt ans de grandes batailles artistiques et politiques souvent consacrées dans le sang. notre langue.indd 143 7/4/2009 15:51:22 . A opinião mundial Explodiu em Paris a polêmica sobre a cozinha futurista após a publicação do manifesto de Marinetti no jornal “Comoedia”. et spiralique de la femme italienne.T. volonté. que l’on rêve. et de s’empêtrer dans une lourdeur opaque et aveugle. au contraire. Preparons des 143 Cozinha futurista. Nous sentons la necessité d’êmpecher l’Italien de devenir cubique et poussif. affronte encore aujourd’hui l’impopularité avec un programme de rénovation intégrale de la cuisine. nos papilles gustatives. toujours mieux avec la transparence légère. alimento italiano que deve ser sempre mais propagandeado e usado. ténacité héroïque.A cozinha futurista e de estudos sobre a qualidade do “arroz”. que l’on agit selon ce que l’on boit et mange. nous affirmons cette verité: que l’on pense. Qu’il se harmonise. Tout em reconaissant que des hommes mal nourris ont créé des grandes choses dans le passé.

3) L’abolition des condiments traditionnels. comme les fuseaux rétrogrades de Pénélopes ou les voiliers somnolents en quête de vent. La pâte ne fait pas de bien aux Italiens. Exemples: 144 Cozinha futurista. absurde religion gastronomique italienne. 4) L’abolition de la répétition quotidienne des plaisirs du palais. Nous proclamons tout nécessaires: 1) L’abolition de la pastasciutta. d’hydrates de carbone. qui remplaceront les trains pesants de fer et d’acier. apprêts). 2) L’abolition de poids et du volume dans l’appréciation des aliments.Fillippo Tommaso Marinetti corps agiles pour les trains extra-légers d’aluminium de l’avenir. à l’âme généreuse. grâce à l’absortion d’équivalents nutritifs gratuits. Le repas parfait exige une harmonie original de la table (cristaux. préparons dès à present l’alimentation la mieux faite pour une existence toujours plus aérienne et rapide. On fera baisser ainsi le prix de la vie et les salaires. vaisselle. les arts. Le travail quotodien se réduira à deux ou trois heures. Nous invitons la chimie à donner au plus tôt les calories nécessaires au corps. Elle enserre les Italiens dans ses méandres. avec la saveur et la coloration des mets. comme les archéologues. et de vitamines. en poudre ou en pillules. Convaincus que le peuple le plus agile l’emportera dans les compétitions futures. Les défenseurs de la pâte en portent dans l’estomac des ruines.indd 144 7/4/2009 15:51:23 . de composés albumineux. et la dégustation de repas parfaits. Les machines formeront bientôt un prolétariat servile. elle fait obstacle à l’esprit vivace. en réduisant les heures de travail. et le reste du temps pourra être ennobli par la pensée. intuitive et passioné des Napolitains. ainsi qu’une originalité absolue de ceux-ci. au service d’hommes presque allégés de toute occupation manuelle.

posez-la sur un canapé de pain grillé.A cozinha futurista Saumon de l’Alaska aux rayons de soleil en sauce Mars On prend un beau saumon de l’Alaska. videz-la. de quattre cuillerées de myrtilles. Le repas parfait exige aussi l’invention d’ensembles plastiques savoureux. on le passe au gril. d’un demi-verre de marsala. Ajoutez des tomates coupés en deux. et recouvrez-la d’un feuilleté. La sauce sera faite d’anchois. bouillie pendant dix minutes. Bécasse au Monterosa en sauce Vénus Prenez une belle bécasse. Servez avec une sauce faite de vin blanc. (Recette de Bulgheroni. sel. Au moment de servir.indd 145 7/4/2009 15:51:23 . en l’assaisonnant de poivre. jusqu’à ce qu’il soit bien doré. en l’arrosant de cognac. chef de la Plume d’Oie). recouvrez-la avec des tranches de jambon et de lard. de sel et d’huile fine. A peine retirée de la casserole. d’huile d’olive. on le coupe en tranches. de jaunes d’oeufs durs. et faites-la cuire au four très chaud pendant un quart d’heure. Exemples: 145 Cozinha futurista. (Recette de Bulgheroni). arrosée d’un petite verre de liqueur Aurum et passé au tamis. de basilic. posez sur les tranches des filets d’anchois croisés. remettez au tour jusqu’à complète cuisson de la pâte. et excite l’imagination avant de tenter les lèvres. mettez-la en casserole avec beurre. et sur chaque tranche un disque de citron aux câpres. que vous aurez fait cuire au gril avec ail et persil. dont l’harmonie originale de forme et de couleur nourisse les yeux. trempé de rhum et de cognac. Mettez la sauce dans la saucière et servez bien chaud. de découpures d’ecorce d’orange. poivre et genièvre.

on la couronne d’un chapeau de miel. comme de juteuses sections de soleil. On la dispose verticalement en cylindre au milieu du plat. Chaque plat doit être précédé d’un parfum. Equateur + Pôle Nord L’ensemble plastique comestible Equateur + Pôle Nord créé par le peintre futuriste Enrico Prampolini. 146 Cozinha futurista. créé par le peintre futuriste Fillìa.indd 146 7/4/2009 15:51:23 . Le repas parfait exige enfin: L’abolition de la fourchette et du couteau pour les ensembles plastiques susceptibles de donner un plaisir tactile prélabial. L’usage d’un art des parfums pour favoriser la dégustation. et on l’entoure à la base d’un anneau de saucisses posé sur trois boulettes de viande de poulet hachée et dorée au feu. est composé d’une épaule de veau roulée. pour ne pas distraire la sensibilité de la langue et du palais.Fillippo Tommaso Marinetti Le “Viandesculpté” Le Viandesculpté. et rôtie au four. colorés. Au centre. Ces ensembles plastiques savoureux. Le sommet du cône sera criblé de truffes. se dresse un cône de blancs d’oeufs montés et piqués de quartiers d’orange. parfumés et tactiles formeront de parfaits repas simultanéistes. découpées en forme d’aéroplanes nègres à la conquête du zenith. interprétation synthetique des paysages italiens. qui sera chassé de la table à l’aide de ventilateurs. mais seulement dans les intervalles des plats. se compose d’une mer équatoriale de jaunes d’oeufs arrosés de sel. L’usage de la musique. farcie de onze qualités de lègumes verts. de poivre et de jus de citron.

dans la cuisine futuriste. les frutis secs et les épices à un très haut degré de dispersion. Enfin. Ces bouchées auront. le cours d’une passion amoureuse. L’usage tempéré de la poésie et de la musique. électrolyseurs pour décomposer les sucs et les extraits et obtenir. moulins colloïdaux pour pulveriser les farines. lampes à rayons ultraviolets pour rendre les substances alimentaires plus actives et assimilables.Marinetti 147 Cozinha futurista. trop poivré. en tant qu’ingrédients improvisés pour allumer la saveur d’un plat avec leur intensité sensuelle. sous les yeux et sous le nez des convives.A cozinha futurista tout en effaçant la saveur précédente. des propriétés nouvelles. Une bouchée pourra résumer une tranche entière d’existence. L’abolition de l’éloquence et de la politique à table. ou un voyage en Extrême-Orient. La création de bouchées simultanéistes et changeantes. et l’imagination. et serviront à corriger les erreurs: trop fade. trop salé. appareils de distillation à pression ordinaire et dans le vide. Une dotation d’instruments scientifiques en cuisine: ozoniseurs pour donner le parfum de l’ozone aux liquides et mets. La présentation rapide. pour un produit nouveau. marmites autoclaves centrifuges.T.indd 147 7/4/2009 15:51:23 . et en refaisant une virginité dégustative. dont la haute température provoquerait la destruction des vitamines. des appareils indicateurs enregisteront l’acidité ou l’alcalinité des sauces. qui contiennent dix ou vingt saveurs à déguster en très peu de temps. pour exciter la curionsité. de certains plats qu’ils mangeront et d’autres qu’ils ne mangeront pas. la surprise. de manière à éviter par exemple l’erreur de faire cuire les mets dans des marmites à pression.” F. la même fonction d’annalogie amplifiante que les images en littérature. et dialyseurs. dans l’intervalle des mets. L’usage de ces appareils devra être scientifique.

à renúncia cética. o macarrão é mesmo uma ditadura do estômago. como os seus paradoxos à educação estética: é preciso chacoalhar a matéria para acordar o espírito.indd 148 7/4/2009 15:51:23 .. sim. a favor da cozinha futurista: “Sim. aos sonhos vazios. mas duvidamos dele acima de tudo se preparado à maneira romana. ao ritmo pegajoso e conciliante dos indolentes. sob o sol. “Deve-se regá-lo sobretudo com Salerno ou Frascati para compreender a lentidão do povinho e dos prelados romanos ou napolitanos. daquela sapiência transcendental. Porque a sua digestão é uma ruminação traiçoeira. daquela ironia serena. daquela indiferença amável. se pode repousá-lo sem esforço sobre o seu ventre gordo? O homem moderno deve ter a barriga reta. que são também a origem do sentimento lânguido. de Horácio a Panzini. O paradoxo gastronômico de Marinetti visa à educação moral. vejam o árabe. que convida às torpes fantasias. pois de que adianta levantar o braço numa saudação romana. ela traz consigo um torpor que beira a felicidade. e até o amamos. e uma ação enérgica: vejam o negro. desafia o passo dos tempos. isto é. “Trata-se hoje de refazer o homem italiano. agora ele frustra a felicidade hipócrita da digestão. e esse é o suculento veneno que estraga o fígado para grande alegria do estômago. no jornal “Comoedia”. sob esta nuvem cozinhária. Ele se recorda sem dúvida dos belos tempos 148 Cozinha futurista. uma decisão rápida. pela qual a Roma eterna. Nós não somos daqueles que o desprezam. cru.Fillippo Tommaso Marinetti Damos a tradução do arguto artigo que o jornalista francês Audisio lançou. É toda uma moral que Marinetti desventra.. lenta. “Há um ano dizíamos que Marinetti castigava o pudor hipócrita e a mentira da inteligência. para ter pensamentos claros.

publicando também poesias polêmicas.indd 149 7/4/2009 15:51:23 . O Times de Londres voltou repetidamente ao tema com escritos diversos. caricaturas e discussões nos maiores jornais franceses. 149 Cozinha futurista. do jornal Le petit marseillais sobre a cozinha futurista. Jornais de Budapeste a Tunísia. É significativa a entrevista do jornal Je suis partout com Marinetti e o artigo de fundo. esteve entre os primeiros a agitar a polêmica sobre a cozinha futurista: Spaghetti for Italians. ingleses. Longo artigo “ITALY MAY DOWN SPAGHETTI” no Chicago Tribune. este artigo. has just issued from Rome a manifesto launching Futurist cooking. e no Nieuwe Rotterdamsche Courant. according to word received yesterday in Paris. Outros artigos na Reinisch-Westfalische Zeitung. de Essen.” *** À publicação em “Comoedia” seguiram-se artigos. literature and drama. comentários. sob o céu de Paris. plantava a semente de uma revolução mundial dos espíritos. americanos. No more spaghetti for the Italians. que relevam a importância da batalha futurista “contra os alimentos tristemente miseráveis”. No more knives and forks. alemães etc. na primeira página. que apareceu no The Herald. de Tóquio a Sidney.A cozinha futurista violentos nos quais. father of Futurist art. Practically everything connected with the traditional pleasures of the gourmet will be swept away. Knives and Forks for All are banned in Futurist Manifesto on Cooking Marinetti. Entre estes tantos.

and increased speed. an experience such as a love affair or a journey may be suggested. for whith ideal rapid service. also ultra-violet lamps to render certain chemicals in the cooking more active. published in the “Comoedia”. and such supplementary courses will not be eaten at all. by means of single sucessive mouthfuls. Marinetti writes. 150 Cozinha futurista. Music will be banished from the table except in rare instances when it whill be used to sustain the mood of a former course until the next can be served. Details of the manifesto. the cooking of the future must conform to the ends of evolution.Fillippo Tommaso Marinetti No more after-dinner speeches will be tolerated by the new cult. in the ideal Futuristic meal. The new Futuristic meal will petmit a literary influence to pervade the dining-room. Modern science will be employed in the preparation of sauces and a device similar to litmus paper will be used in a Futuristic kitchen in order to determine the proper degree of acidity or alkalinity in any given sauce. give the principal feature of the new cuisine as a rapid sucession of dishes which contain but one one mouthful or even a fraction of a mouthful.indd 150 7/4/2009 15:51:23 . several dishes will be passed beneath the nose of the diner in order to excite his curiosity or to provide a suitable contrast. Also certains dishes will be cooked under high preassure. Electrolysis will also be used to decompose sugar and other extracts. “Since everything in modern civilization tends toward elimination of weight. in order to vary the effects of heat. The first step would be the elimination of edible pastes from the diet of Italians”. In fact. Among the new kitchen and dining-room instruments suggested by Marinetti is an “ozonizer” which will give to liquids the taste and perfume of the ozone.

É lógico que os homens políticos de todos os países que se reúnem para as grandes convenções. The landscape is composed of a roast of veal. aquela que nós consideramos mais detestável e mais repugnante é a cozinha internacional de grandes hotéis que abrem todos os grandes banquetes oficiais com um brodo no qual bóiam 4 ou 5 bolinhas de massa real moles e insípidas. and a consistent lightening of weight and reduction of volume of food-stuffs. entristecedores e monotonizantes. stuffed with eleven kinds of vegetables. submetemonos a este tipo de cozinha internacional de grande hotel unicamente 151 Cozinha futurista. como em quase todos os países do mundo. Contra a cozinha do Grande Hotel e a estrangeirofilia Entre as cozinhas que hoje imperam.A cozinha futurista As a model for the presentation of a Futuristic meal. The Futurist leader also pleads for discontinuance of daily eating for pleasure. under the new system. This is one of the meals which. Marinetticalls attention to a Futuristic painting of a synthetic landscape made up of food-stuffs. para a revisão de tratados. by Fillìa. placed vertically upon a plate and crowned with honey. M.indd 151 7/4/2009 15:51:23 . e os fecha a todos com um doce gelatinoso e trêmulo adequado a bocas doentes. For ordinary daily nourishment he recommends scientific nourishment by means os pills and powders. Na Itália. could not be attacked whith a knife and fork and cut into haphazard sections before being eaten. Marinetti advocates doing away with the ordinary condiments now in use. para o desarmamento e pela crise universal. Besides the abolition of macaroni. so that when a real banquet is 3 spread it may be appreciated aesthetically. não possam elucidar nada e concluir pouco depois de ter engolido tais alimentos deprimentes.

e que deve ser combatida violentamente. inventadas por nós. antitalianidade ou feiúra) somente porque elas não falam a língua italiana e vêm de países longínquos ignorados ou pouco conhecidos. concertistas e regentes de orquestra) quando se incham até esquecerem-se que o intérprete é o servo útil não necessário do gênio criador. são infelizmente mais indispensáveis a cada dia. e enamoram-se delas por esnobismo e às vezes desposam-nas absolvendo-as de todo defeito (prepotência. falta de educação. estrangeirófilo. 2) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os intérpretes italianos de fama mundial (artistas do canto. a palavra estrangeirofilia. 1) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os jovens italianos que caem em um êxtase cretino diante de qualquer estrangeira também agora que a crise mundial as empobrece. Exemplo: o excelente e célebre regente Arturo Toscanini que antepôs o seu sucesso pessoal ao prestígio da sua pátria ao renegar os seus hinos nacionais por delicadeza artística e executou os estrangeiros por oportunismo. A Gazzetta del Popolo de 24 de setembro de 1931 publicou este manifesto de Marinetti contra a estrangeirofilia: Contra a estrangeirofilia Manifesto futurista às senhoras e aos intelectuais “Apesar da força imperial do Fascismo. Infelizmente. domina uma mania bestial a que chamamos estrangeirofilia.indd 152 7/4/2009 15:51:23 . 3) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os regentes de orquestra e o público italiano que organizam ou aplaudem 152 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti porque vem do estrangeiro.

. da nossa grande guerra vitoriosa. criador da nova plástica e Sant’Elia. um gênio altíssimo em um povo de medíocres iletrados. 9) São estrangeirófilas e portanto antitalianas as assembléias que ao invés de taxar como infâmia. contra o nosso exército e contra a nossa grande guerra vitoriosa. 7) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os literatos ilustres que denigrem.indd 153 7/4/2009 15:51:23 . esquecem a música italiana em seus concertos na Itália.. 6) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os históricos e os críticos militares que. criador da nova arquitetura. Picasso.. 5) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os industriais italianos que encontram mil pretextos para refutar uma batalha decisiva com a indústria estrangeira e têm orgulho de vencer disputas internacionais com produtos. toda a literatura italiana (hoje original. 4) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que aplaudem ao invés de vaiar os regentes estrangeiros quando. máquinas ou aparelhos não inteiramente idealizados e construídos na Itália. 153 Cozinha futurista. cada um. preferem proclamarse filhos de inovadores franceses. variada e divertida) com a esperança de parecer. privilegiam os episódios irrelevantes como Caporetto. maleducadamente. Brahms etc. à maneira de muitos novecentistas e de muitos racionalistas. os escultores e os arquitetos italianos que. Bach. definem “pecadinhos lícitos” as ofensas escritas e publicadas por literatos italianos contra a Itália. no exterior. 8) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os pintores. penetradas e admiradas por todos até a saciedade. Um patriotismo elementar exige pelo menos metade de música italiana moderna ou futurista em substituição àquela de Beethoven. espanhóis. suíços como Cézanne.A cozinha futurista concertos no exterior quase sem música italiana. Le Corbusier ao invés de filhos de autênticos inovadores italianos como Boccioni. já apreciadas.

E basta que a palavra “bar” seja substituída pela italianíssima “Aquisebebe”.. Elegantes senhoras italianas. Consideramos portanto cafona e cretina a senhora italiana que participa orgulhosamente de um “cocktail-party” e relativa disputa alcoólica. podem também admirar e estudar a sua língua. talvez adequados à raça norte-americana. superioridade agora já destruída pela crise mundial. Exemplo: o esnobismo americano do álcool e do “cocktail-party”. babando-se. nós lhe rogamos a substituir o “cocktailparty” por convenções vespertinas que poderão chamar à vontade de o Asti espumante da senhora B. os italianos e as italianas que saúdam romanamente e depois nos negócios pedem.indd 154 7/4/2009 15:51:23 . o Barbaresco da condessa C.Fillippo Tommaso Marinetti 10) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os hoteleiros e negociantes que não aproveitam os rápidos e eficazes meios que têm à sua disposição para influenciar italianamente o mundo (uso da língua italiana nos cartazes. esquecendo-se de que os estrangeiros. presos pela criticomania. logotipos e nos cardápios). Nestes encontros será premiada a melhor qualidade do vinho que as une. produtos estrangeiros com olhares céticos e pessimistas para os produtos italianos. vaiam sistematica- 154 Cozinha futurista. ou o Capri branco da princesa D. mas certamente nocivos à nossa raça. 13) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que. 12) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade. A menos que ela se submeta à invejada superioridade financeira do exterior. 11) São estrangeirófilas e portanto culpadas de antitalianidade as senhoras italianas da aristocracia e da alta burguesia que se estusiasmam pelos costumes e esnobismos estrangeiros. enamorados pela paisagem e pelo clima da Itália. Cretina e cafona a senhora italiana que acha mais elegante dizer: “bebi quatro cocktails” do que dizer: “comi um minestrone”.

Outras Nações. Por isso. não teria acontecido sem o Futurismo italiano” e esta também explícita declaração de Antoine no Journal de Paris: “Nas artes decorativas os caminhos foram há tempos abertos pela escola de Marinetti”. podem.indd 155 7/4/2009 15:51:23 . esquecendo-se dos italianos. considerar o orgulho nacional como um artigo de luxo. invejada e ameaçada por todos. em pleno enfraquecimento parlamentar social-democrático-comunista-clerical gritávamos: “A palavra Itália deve dominar sobre a palavra Liberdade!”. pronta para explodir para realizar o seu imenso destino. A nossa viril feroz dinâmica e dramática península.A cozinha futurista mente comédias e filmes italianos favorecendo assim a invasão de medíocres comédias e filmes estrangeiros. cochilando sob o zumbido de complôs revolucionários que podem ser sedados. Antitalianamente eles esquecem por exemplo esta explícita declaração do poeta futurista inglês Ezra Pound a um jornalista americano: “O movimento que eu. 14) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os empresários italianos que procuram no exterior professores de teatro e cenógrafos. gritamos hoje: a) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: gênio. cujo cérebro foi desenvelhecido e agilizado pelo Futurismo italiano. e que mesmo assim criticamno ou relevam-no para correr a pescar preciosamente Futurismos estrangeiros todos derivados do nosso. Joyce e outros iniciamos em Londres. 15) São estrangeirófilos e portanto culpadas de antitalianidade as cultas senhoras e os críticos da Itália. não criticadas nem ameaçadas por inimigos externos. b) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: inteligência. capazes de ensinar ao mundo. que vinte anos atrás. 155 Cozinha futurista. Eliot. deve considerar o orgulho nacional como sua primeira lei de vida. pouco populosas. nós futuristas.

Em nome desta obra-prima. ao primeiro perigo. se necessário. literatura e drama futuristas.” F.Marinetti Espaguete para Italianos. pai da arte. na inquietude de uma paz em equilíbrio. fuzilaremos os estrangeirófilos antitalianos. simbolizado pelos escombros do Império Austro-Húngaro que os nossos blindados tiveram que superar na estrada de Tarvisio.indd 156 7/4/2009 15:51:23 . Facas e Garfos para Todos são banidos no Manifesto da Cozinha Futurista Marinetti. acaba de publicar em Roma um manifesto sobre a Cozinha Futurista. contra as nações estrangeiras. segundo 156 Cozinha futurista. construir uma descuidada cúpula dupla de mármore em oferta ao inimigo. eu que fui aplaudidíssimo no Exterior. nós. filósofos e filósofas) que tentam hoje. nós brutalmente dizemos: Lembrem-se sempre desta obra-prima italiana que supera até mesmo a Divina Comédia: “Vittorio Veneto”. Escrevo tudo isto com a serenidade de um patriotismo adamantino.T.Fillippo Tommaso Marinetti c) A palavra Itália deve dominar sobre as palavras: cultura e estatísticas. d) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: verdade. nunca contra a Itália. Indulgência plenária na arte e na vida aos verdadeiros patriotas. Que o fogo da crítica seja direto. isto é aos fascistas que vibram por uma autêntica paixão pela Itália e de um desmesurado orgulho italiano. No tocante aos muitos céticos e derrotistas (literatos. artista. e tive na Itália mais vaias do que aplausos e apesar disso agradeço a cada dia as forças cósmicas que me deram a alta honra de nascer italiano.

na refeição futurista ideal. “Desde que tudo na civilização moderna tende à eliminação de peso. encontram-se um ozonizador que dará aos líquidos o 157 Cozinha futurista. publicado no “Comoedia”. O primeiro passo deveria ser a eliminação das massas comestíveis da dieta dos italianos. somado a um serviço rápido ideal. A nova comida futurista permitirá uma influência literária que invada o comensal. Não mais serão tolerados pelo novo culto discursos após o jantar. Não mais espaguete para os italianos. por meio de sucessivos bocados únicos. o cozinheiro do futuro deve adaptarse aos fins da evolução. pode sugerir experiências tais como uma viagem ou uma aventura amorosa.”. o que.A cozinha futurista notícias recebidas ontem de Paris. e aumento da velocidade. ou mesmo uma fração de bocado. Não mais facas e garfos. apresentam a principal característica da nova “cuisine” como uma sucessão de pratos que contém um só bocado. diversos pratos passarão sob os narizes do comensal somente para excitar a sua curiosidade ou para promover um contraste apropriado. Praticamente tudo o que está relacionado aos tradicionais prazeres dos gourmets será erradicado. De fato. já que estes pratos suplementares não serão ingeridos. A música será proibida à mesa. escreve Marinetti. A ciência moderna será empregada na preparação dos molhos e um dispositivo semelhante ao papel de tornassol será utilizada na cozinha futurista para determinar o grau correto de acidez ou alcalinidade em um dado molho. Entre os novos instrumentos de cozinha e de sala de jantar sugeridos por Marinetti. Detalhes do manifesto.indd 157 7/4/2009 15:51:23 . exceto em raras ocasiões em que será empregada para reter o espírito do último prato até que o próximo possa ser servido.

Fillippo Tommaso Marinetti sabor e o perfume do ozônio. de modo a variar os efeitos da temperatura. ele recomenda uma nutrição científica por meio de pílulas e pós. alguns pratos serão cozidos sob alta pressão.indd 158 7/4/2009 15:51:23 . A eletrólise também será empregada para decompor açúcares e extratos. 158 Cozinha futurista. O líder futurista também sustenta que se deve abandonar o hábito de comer diariamente por prazer. de acordo com o novo sistema. possa ser apreciado esteticamente. não poderia ser atacado com garfo e faca. Para a alimentação diária normal. Além disso. Como um modelo para a apresentação de um prato futurista. Marinetti concentra a atenção em uma pintura futurista de Fillìa. Marinetti defende o fim dos temperos ordinários atualmente em uso e uma consistente diminuição e redução do volume dos alimentos. disposto verticalmente sobre um prato e coroado com mel. e ser cortado em pedaços livremente antes de ser comido. e também lâmpadas ultravioleta que tornarão mais ativas certas substâncias culinárias. Além da abolição do macarrão. a ponto de permitir que quando um verdadeiro banquete seja servido. de uma paisagem sintética feita com substâncias comestíveis. A paisagem é composta por um assado de carne de veado recheado com onze tipos diferentes de vegetais. Este é um dos pratos que.

Ao final do Circuito de Poesia de Turim. ansiosos por transformar cozinha e ambiente. Recebendo às vezes algum cabo de couve. depois de haver coroado com o capacete de alumínio o poeta-recorde de Turim. um dos mais brilhantes jornalistas italianos. Fillìa no movimento futurista seria como o subtenente geral da esquadra em ação. mas também aplausos. em parte entusiastas.A cozinha futurista A revOLuçãO cOzinháriA Os GrAndes bAnquetes FuturistAs A taberna do santopaladar O manifesto da cozinha futurista provocou numerosos congressos e comícios entre os cozinheiros e donos de restaurantes. consensos. entre os quadros futuristas da galeria Codebó. Tullio d’Albisola. foi escolhido pelo pintor Fillìa e pelo arquiteto Diulgheroff o proprietário de um restaurante de Turim. uma batata ou outro legume. 159 Cozinha futurista. do “spaghettaro” e de todas as outras gloriosas insígnias do verdadeiro gourmet. sustenta-as. Marinetti batizou com o nome de SANTOPALADAR o local destinado a impor pela primeira vez a cozinha futurista.indd 159 7/4/2009 15:51:23 . mas tenta fazê-las penetrar. que era incitado à realização dos novos pratos pelos seus próprios clientes. Em parte hostis. Não se contenta em lançar umas idéias platônicas. Angelo Giachino. movimentou os ambientes gastronômicos da capital. vice-secretário geral do movimento futurista italiano à imprensa romana. inclusos aqueles jornalísticos. Entre estes últimos. Ercole Moggi. a projetada manifestação: “Uma comunicação do pintor Fillìa. em uma matéria de capa com duas colunas. enciumados da tradição da “sora Felicetta”. recebendo sempre pessoalmente. anunciou assim na Gazzetta del Popolo de 21 de janeiro de 1931. encorajamentos. Enquanto se trabalhava na decoração do local.

.Fillippo Tommaso Marinetti Os adeptos do macarrão esperavam que o Manifesto da Cozinha Futurista se mantivesse apenas na teoria. Evidentemente gosta de Turim já que tentou sempre ali as suas maiores iniciativas. motor de 200 HP. “Santopaladar” sem especulações Conseguimos achar Fillìa e não o deixamos mais escapar. Declarações muito importantes deviam sair daquele cérebro vulcânico. cabeça de vulcão. para apreciar o notável “carnescultura” na “Taberna do Santopaladar”.. comentando o pronunciamento dos futuristas. Trens especiais para Turim Um renomado jornal romano entre o tom sério e o engraçado. Assim. escreveu: “Temos a certeza que as ferrovias do Estado concederão descontos de cinqüenta por cento para que todos os italianos possam deslocar-se em massa a Turim. Fillìa antecipou-me: 160 Cozinha futurista. além de uma idéia prática e original: a abertura de uma cozinha experimental futurista em Turim e que terá como título “Taberna do Santopaladar” na qual serão não apenas futuristicamente estudados. deste modo. Fillìa talvez seja o mais dinâmico dos futuristas italianos. o gastronômico. ou discussões polêmicas ou academia literária. mas apresentados ao público os novos pratos. quem sabe? panela em perene ebulição.indd 160 7/4/2009 15:51:23 .. Seria necessário descrevê-lo de maneira futurista: chamá-lo. Turim encaminha-se para ser o berço de um novo renascimento italiano. Não conhecem evidentemente aqueles queridos rapazes! Os futuristas preanunciam de fato uma forte ofensiva contra a velha cozinha. boca de fogo de nitroglicerina.

Donato ter-se-ia proposto. a fazer uma laparotomia gratuita aos primeiros degustadores do “carnescultura”. nenhum interesse no maior ou menor sucesso (nós o esperamos imenso) da iniciativa. na Itália e no exterior. é composto por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diversas de verduras e legumes cozidos. Será decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim com o objetivo preciso de passar da teoria à prática na polêmica futurista. se forem rosas. disposto verticalmente no centro do prato. interpretação sintética das paisagens italianas. tanto que – segundo vozes que correm – o prof. idealizadores e propulsores de uma nova teoria cozinhária. mas assumirá um caráter de ambiente artístico abrindo concursos 161 Cozinha futurista. Mas não teremos.Peço-lhe para relevar. Fillìa dirigirá a renovação da cozinha italiana e fará aplicar e preparar os novos pratos dos artistas e cozinheiros futuristas. que é o novo prato futurista mais clamorosamente discutido hoje. Como se diz. O local não será um simples e vulgar restaurante. florescerão. A Taberna aparecerá logo em Turim. acima de tudo. Eis aqui uma descrição autorizada: “O carnescultura. repito. é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. O leitor se perguntará o que é o “carnescultura”.indd 161 7/4/2009 15:51:23 . Este cilindro. Os leitores devem saber que Fillìa é o inventor do “carnescultura”. que a nossa iniciativa e a nossa atividade para a abertura do “Santopaladar” tem fins unicamente artísticos.. Nós daremos simplesmente à taberna uma fachada futurista.A cozinha futurista . Não se trata portanto de uma especulação minha ou de Diulgheroff. A nutrição por rádio No “Santopaladar” de Turim.. com o objetivo de estudar.

per finire é algo que está sempre por acabar. Até hoje. Deve-se. Este primeiro capítulo dispensa comentários. uma difusão de ondas nutrientes. de pintura e de moda futurista.indd 162 7/4/2009 15:51:23 . por meio do rádio. poderá também difundir extratos de ótimos 1 No original. a uma organização de sabores. em certos restaurantes. variando-se continuamente o gênero de nutrimentos e de combinações. Não se trata simplesmente de substituir o macarrão pelo arroz. Aconteceram na vida prática do homem tais modificações mecânicas e científicas que se pode chegar mesmo a um perfeccionismo cozinhário. uma difusão de ondas nutrientes. assassinar os velhos enraizados hábitos do paladar. “per-finire”. O “Santopaladar” lançará em breve o seu preciso programa técnico. Por exemplo. De resto a coisa não é lá extraordinária. para preparar os homens aos futuros alimentos químicos e talvez à não distante possibilidade de realizar. por isso optamos por traduzir novela.). novelas1 etc. Agora reorganizaremos os odores. notem os seguintes que reproduzo textualmente: a) “os futuristas declarando-se contra o macarrão e indicando novos desenvolvimentos da cozinha italiana. havia um odor que Deus nos livre. mas de inventar novos pratos. Como o rádio pode difundir ondas asfixiantes e adormentadoras (conferências. jazz.Fillippo Tommaso Marinetti e organizando no lugar do habitual café post-prandium ou da habitual dança. não seguem somente o lado importante da economia nacional. é a possibilidade de realizar. mas pretendem renovar o gosto e os hábitos dos italianos. O que há de prodigioso e que talvez tenha escapado até a Marconi. ou de preferir um prato a outro. odores e valores que até ontem pareceriam absurdos. noites de poesia. porque eram diversas também as condições gerais de existência. Entre os pontos mais importantes. Provavelmente trate-se de outro neologismo marinettiano. o odor dos pratos lavados será transformado em odor de lavanda. 162 Cozinha futurista. por meio do rádio. É toda uma revolução. dicção de poesia.

enquanto a química não criar substâncias sintéticas que tenham a força da carne e do vinho. O segundo capítulo também é explícito: b) A cozinha até hoje não levou em conta.. Outra coisa importante que apreendi é esta: que os pratos futuristas não serão caros. Marinetti inaugurará o “Santopaladar” Fillìa ainda me fez outras importantes declarações. Responde-me: 163 Cozinha futurista. em que será estudado para cada um o prato que leve em consideração o sexo. Alcançaremos pratos ricos de diferentes qualidades. Combatem-se assim os lamaçais de molho. que multipliquem ao infinito a alegria de viver: coisa impossível de se obter com os alimentos aos quais se está “habituado”. Fillìa nos disse: “Em nosso próximo proclama para o “Santopaladar” estará bem esclarecido que. nenhuma base em comum com as afirmações de Marco Ramperti.A cozinha futurista almoços e cafés da manhã. a não ser pelos doces. o lado estético. O Manifesto da cozinha futurista não tem. é preciso defender a carne e o vinho de qualquer ataque. portanto. para inventar novos pratos que dêem alegria e otimismo. mas tem a tendência inversa de novos horizontes culinários de renovar o gosto e o entusiasmo do comer. o caráter. O nosso refinamento sensível pede ao contrário um estudo completamente “artístico” da cozinha. Não é verdade que os futuristas sejam inimigos do vinho e da carne. Um almoço no “Santopaladar” terá um preço normal.. Pergunto ao vice-secretário do movimento futurista se a inauguração do “Santopaladar” será feita com solenidade. a profissão. Que paraíso então! O problema é que caminhará rumo à abolição da cozinha e portanto do “Santopaladar”. e sobretudo o mole e antiviril macarrão. a sensibilidade”.indd 163 7/4/2009 15:51:23 . os fragmentos desordenados de comida.

E da velha cozinha – pergunto a Fillìa – o que ficará em pé? Responde-me com tom inexorável: . vinho e cerveja). 164 Cozinha futurista. o conhecidíssimo Carnescultura. música. E responderá à altura. a Aerovianda (tátil. A. junto à loira Albana. Esta lista será completada por surpresas indispensáveis para formar a atmosfera da nova refeição e terá além de tudo perfumes. Seremos duros. originalidade. delícia de minha juventude voraz. sem considerar a música. Mas então adeus “tajadele al parsott”.Pode-se saber a lista dos pratos do almoço inaugural? . porque o acontecimento tem uma grande importância. poupe ao menos a “salama vecchia” da Romanha. No “Santopaladar” teremos um acadêmico.Compreenderá alguns de meus pratos e isto é: Todoarroz (com arroz. Compreenderá os doces Reticulados do céu do escultor Mino Rosso e o Ultraviril do crítico de arte cozinheiro futurista P. o Docelástico. que responderá a todas as críticas. seja clemente. os perfumes e os outros achados.Certamente. Além disso compreenderá os pratos publicitários do arquiteto Diulgheroff e os alimentos simultâneos de Marinetti e Prampolini. Ah. Acabou-se o tempo das comidas dos Artusi. Exª Marinetti. com rumores e odores). Fillìa. a venerável “salama da sugo” que. É evidente que o sucesso. Até hoje o pobre consumidor não encontrava ninguém que respondesse por uma má refeição. salada. Senti duas lágrimas rolarem-me nas bochechas.Nada.Fillippo Tommaso Marinetti . achados.indd 164 7/4/2009 15:51:24 . receita que faria chorar de inveja o doutor Woronoff. acendia a veia poética de Giosuè Carducci e de Giovanni Pascoli”. apenas as velhas caçarolas. não poderá ser nada menos que extraordinário. É acompanhado no exterior. . À inauguração intervirá também S. Bastaria a invenção do prato Ultraviril. . Saladin. Este é evidentemente um achado útil.

Estamos seguros. estão vencidos: sua oposição 165 Cozinha futurista. teremos os pratos econômicos e os pratos de luxo – os pratos que melhor se equipararão ao macarrão e os pratos para vencer em concorrência as velhas glutonarias. Impossível também indicar somente os melhores escritos daquele período. rompendo os hábitos. Mas. reproduzido em todos os jornais. no “Regime Fascista” de Cremona e na “Tribuna” de Roma a importância da iniciativa do Santopaladar. criticando os pratos contidos no manifesto da cozinha futurista. respondendo a diversos ataques. portanto.indd 165 7/4/2009 15:51:24 . como o meu carneplástico que foi erroneamente visto como oposição ao macarrão. de qualquer modo. é o espírito revolucionário do manifesto que deve importar: isto é. é preciso preparar o paladar às futuras alimentações. Se os cozinheiros acadêmicos nos combatem somente pela razão técnica. “não se trata. deu ensejo a uma infinidade de polêmicas irônicas e sarcásticas sobre os valores digestivos dos pratos futuristas. E. que as profecias do ilustre Membro da Academia Culinária terão o mesmo resultado que as outras: apressarão o nosso sucesso”. esclareceu repetidas vezes no “Lavoro” de Gênova. Reproduzimos em parte a carta de resposta a um cozinheiro romano que ameaçava os raios da Academia Gastronômica Italiana contra os cozinheiros futuristas: “o protesto dos cozinheiros acadêmicos relembra estranhamente a oposição que os professores de história da arte sempre fizeram aos movimentos de renovação artística neste século e no outro. são os primeiros exemplos de uma série que criaremos. o restaurante futurista de Turim baterá sem dúvida a ciência dos velhos cozinheiros acadêmicos. como técnica. Para tanto. a necessidade de modificar a cozinha porque se modificou o nosso sistema geral de vida. porque. de falar de “técnica”: aqueles pratos. O pintor Fillìa.A cozinha futurista Este artigo.

nem mesmo o macarrão teria sido inventado: e continuar-se-ia a comer como os romanos antigos. ainda antes de ser inaugurada. Entretanto. Mas se a Academia Gastronômica Nacional insiste em negar nosso esforço que pretende inventar pratos italianíssimos. *** A Taberna Santopaladar de Turim. médicos ilustres e cozinheiros sábios dão-nos razão e aderem à nossa luta. E as criações futuristas alcançarão perfeições técnicas. e por conseqüência futuristas”. os trabalhos procediam e o ambiente se formava no domínio preponderante do alumínio italiano “Guinzio e Rossi”: domínio que deveria dar ao local uma atmosfera de metalicida- 166 Cozinha futurista. fundaremos então uma Academia Gastronômica Futurista. enquanto os pratos antigos. etc. alcançava uma notoriedade mundial pela anunciada realização da cozinha futurista.”. chegamos a um momento em que tudo se deve renovar. Eu e o arquiteto Diulgheroff não cuidamos senão de sua inauguração e primeira orientação: estamos seguros da inteligência e da fé na modernidade que animam aqueles cozinheiros.indd 166 7/4/2009 15:51:24 . “a Taberna Santopaladar tem um proprietário e cozinheiros que a dirigirão. Como foram renovados os costumes. “a Taberna Santopaladar decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim gerará uma atmosfera que será o resumo da vida mecânica moderna e será portanto ‘necessário’ servir pratos novos. as artes etc. os transportes. E por outro lado. à qual aderirão os cinqüenta mil artistas inovadores e simpatizantes da Nova Itália”.. não se poderão renovar”. também se chegará ao triunfo da cozinha futurista. “segundo a cômoda teoria pacifista dos cozinheiros acadêmicos. tecnicamente perfeitos. No entanto.Fillippo Tommaso Marinetti de artesãos não poderá vencer nossa força de artistas.

o sentido da vida de hoje. assim como os materiais “nobres” do passado. após uma febril jornada de intenso trabalho na cozinha. Isto é. ágil ossatura de um corpo novo. A primeira refeição futurista A Taberna Santopaladar foi inaugurada na noite de 8 de março de 1931. com rumores e odores (fórmula Fillìa) Ultraviril (fórmula P. deve ser parte viva das outras formas da construção. Piccinelli e Burdese. Eis a lista da primeira refeição futurista: Antepasto intuitivo (fórmula da Senhora Colombo-Fillìa) Caldo solar (fórmula Piccinelli) Todoarroz. os vidros trabalhados. os objetos diversos. onde os futuristas Fillìa e P. mas servia como elemento operante do interior: alumínio dominante. de esplendor. a síntese e a tradução artística de toda a organização mecânica preponderante. indispensável ao estado de atividade do organismo ambiental. na preparação dos pratos.A cozinha futurista de.A.Saladin competiam com os cozinheiros do restaurante. de elasticidade. tátil.Saladin) 167 Cozinha futurista. Tudo concorria para completar o interior: os grandes quadros publicitários. Na Taberna Santopaladar delineava-se então uma pulsante estrutura de alumínio e esta não era friamente utilizada para cobrir o espaço. encerra estes dotes essenciais e é verdadeiramente um filho do século do qual espera glória e eternidade. O alumínio é o mais adequado e o mais expressivo dos materiais. No corpo do alumínio. de leveza e também de serenidade.A. A luz também é uma das realidades fundamentais da arquitetura moderna e deve ser “espaço”. completado com os ritmos da luz indireta. a luz servia então como sistema arterial. os toldos. com vinho e cerveja (fórmula Fillìa) Aeroprato. onde o nosso corpo e o nosso espírito têm a necessidade de encontrar a afinação.indd 167 7/4/2009 15:51:24 .

nos afirmamos esta verdade: pensa-se. em um completo artigo do redator Dr. Apresentamos integralmente a notícia sobre a noite como apareceu no jornal “La Stampa”. O acontecimento assumirá estão uma importância excepcional. as datas do descobrimento da América. Ninguém a não ser um futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Carnescultura (fórmula Fillìa) Paisagem alimentar (fórmula Giachino) Mar da Itália (fórmula Fillìa) Salada mediterrânea (fórmula Burdese) 10. do Tratado de Viena e do Tratado de Versalhes”. Uma notícia redigida nestes termos não pode ser nada além de maravilhosamente futurista. os pressupostos de sua doutrina. é preciso reconhecê-lo sinceramente. pela anunciada inauguração do Santopaladar. Stradella: “Ninguém ignora o interesse e as polêmicas que agitam o mundo inteiro. sonha-se e age-se segundo o que se bebe e o que se come”. cuja data ficará impressa na história da arte cozinhária assim. Frangofiat (fórmula Diulgheroff) Equador + Pólo Norte (fórmula Prampolini) Docelástico (fórmula Fillìa) Reticulados do céu (fórmula Mino Rosso) Frutas da Itália (composição simultânea) Vinho Costa – Cerveja Metzger – Espumante Cora – Perfumes Dory.indd 168 7/4/2009 15:51:24 . da tomada da Bastilha. “Mesmo reconhecendo – adverte Marinetti – que os homens mal ou grosseiramente nutridos tenham realizado grandes coisas no passado. segue. na história do mundo. como indelevelmente foram fixadas. além de todo limite extremo. 168 Cozinha futurista.

A cozinha futurista

Rumo ao alimento em pílulas
Não gratificados, então, pelas imensas vitórias pictóricas, literárias, artísticas que acumula há vinte anos, o Futurismo italiano visa, hoje, a uma renovação de base: esta, de fato, ousa afrontar ainda a impopularidade, com um programa de renovação total da cozinha. Omitimos que o Santopaladar, apesar da aparência um pouco blasfema para o passadismo vulgar, é uma deliciosa taberna turinesa, na qual, durante a noite passada, aconteceu lugar a primeira refeição da cozinha futurista: uma lista de quatorzes pratos, vinhos diversos, perfumes, espumantes. O leitor, ou talvez melhor, a amável leitora, desejará conhecer, a fundo, as mais recônditas razões de tal tentativa, para falar passadistamente; ou de tal realização, para falar futuristicamente. O desejo é legítimo. Quanto à satisfação deste, somos tomados por uma sensação de responsabilidade ao responder. Responderemos, em todo caso, cientificamente, exatamente, valendo-nos das mesmas palavras do Chefe dos Futuristas italianos: “Autopraticamente, nós futuristas relevamos o exemplo e as advertências da tradição para inventar a todo custo um novo, julgado por todos “loucura”, razão pela qual estabelecemos agora o nutrimento adequado a uma vida sempre mais aérea e veloz”. Por conseqüência, são abolidos tantos pratos: o macarrão, em primeiro lugar, e enquanto se espera da química o cumprimento de um preciso dever, ou seja aquele “de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos (fornecidos gratuitamente pelo Estado) em pó ou pílulas” invenção única, apta a nos fazer alcançar “uma real diminuição do preço da vida e dos salários, com relativa redução das horas de trabalho”; na espera desse dia, então, poder-se-á realizar a refeição perfeita, que exige uma harmonia original da mesa (cristais, louças, ornamentos) com os sabores e as cores dos alimentos e originalidade absoluta dos próprios alimentos.

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Fillippo Tommaso Marinetti

Na taberna de alumínio
Mas agora retornamos à Taberna Santopaladar idealizada, criada e decorada pelo arquiteto Diulgheroff e pelo pintor Fillìa, e que vocês devem imaginar como uma grande caixa cúbica enxertada, de um lado, em uma outra menor: adornada por colunas semi-incolores inteiramente luminosas e por grandes olhos metálicos, também luminosos, incrustados na metade da parede; fachada, de resto, de puríssimo alumínio, do teto ao chão. Aqui, por volta da meia-noite do domingo, haviam marcado um encontro os futuristas turineses e as pessoas por eles convidadas. Ao cumprimento do ritual estavam presentes, entre outros, S. Exª. Marinetti, Felice Casorati, o pintor Peluzzi, o pintor Vellan, o escultor Alloati, o professor Guerrisi, alguns jornalistas; não faltavam várias belas senhoras, em toilettes deliciosamente passadistas. Speaker oficial, ou seja o anunciador e o ilustrador de cada um dos pratos, era e não poderia deixar de sê-lo, o pintor Fillìa. Quatorze os pratos, já dissemos. Ei-los. Primeiro: Antepasto intuitivo. Não é difícil compreender que se trata, de certo modo, de uma surpresa, e de um outro, de uma preparação para o prato seguinte. Não se pode, a este ponto, esquecer que a invenção de complexos plásticos saborosos, cuja harmonia original de forma e de cor nutre os olhos e excita a fantasia antes de tentar os lábios, seja uma norma fundamental para uma refeição perfeita. Escolheremos, então, uma grande laranja, e através de um furo, liberá-la-emos de sua polpa: o esquelético invólucro nós trataremos de modo a obter a figura de uma pequena cesta, com o cabo e a redonda cavidade. Aqui colocaremos uma fatiazinha de presunto enfiado um em pedaço de grissini, uma alcachofrinha ao azeite, um pimentinha em conserva. No interior desta última será lícito enfiar um bilhetinho enrolado, sobre o qual será precedentemente escrita uma máxima futurista, ou mesmo um elogio a um convidado. Será fácil descobrir a surpresa já que rege “a abolição do garfo e da faca para

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A cozinha futurista os complexos plásticos que possam proporcionar um prazer tátil prélabial”. Em resumo, uma coisa finíssima.

Um prato com rumores e odores
Segunda: Aerovianda, tátil com rumores e odores (idealizada por Fillìa). Aqui há um pouquinho de complicações. Futuristicamente comendo, trabalha-se com todos os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição. Submetemos ao leitor algumas normas da refeição perfeita, que nos servirão para saborear completamente o sabor dos pratos vindouros: o uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Cada prato será, assim, precedido por um perfume com ele afinado, que será eliminado da mesa, mediante ventiladores. Ou como o uso dosado da poesia e da música como ingredientes imprevistos para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma determinada vianda. O segundo prato consiste em quatro pedaços: no prato será servido um pedaço de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza a ponta dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. Resultados maravilhosos: é provar para crer.

O metal que perfuma
Terceiro prato: Caldo solar (idealizado pelo cozinheiro Ernesto Piccinelli). É um consommé no qual são embalados alguns ingredientes, da cor do sol. Excelente. Quarto prato: Todoarroz (de Fillìa). É uma

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Fillippo Tommaso Marinetti coisa muito simples: um risoto à italiana, temperado com vinho, cerveja e fondue. Muito bom. Quinta rodada: Carneplástico. Este prato é um marco miliário da cozinha futurista. Transcrevemos aqui a receita, para a alegria das nossas leitoras: “interpretação sintética das paisagens italianas, é composto de uma almôndega cilíndrica de carne de vitela assada, recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes. Este cilindro, disposto verticalmente sobre a base do prato, é coroado por uma camada de mel, e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. Um prodígio de equilíbrio. Sexta: Ultraviril. Não nos demoraremos em descrições minuciosas: Basta dizer que é um prato para senhoras. Sétima: Paisagem alimentar. É o inverso dos pratos anteriores; esta é só para homens. Excelente. O mar da Itália, a Salada mediterrânea e o Frangofiat, o oitavo, o nono e o décimo pratos, servem-se juntos. Particularmente notável este último, idealizado por Diulgheroff. Pega-se um frango respeitável, e cozinha-se o mesmo em dois tempos: primeiro aferventado, depois assado. Cava-se na coluna da ave uma cavidade grande, dentro da qual colocam-se uma porção de bolinhas, das que se usam para coxim, de aço doce. Sobre a parte posterior da ave costura-se, em três fatias, uma crista de galo crua. Coloca-se no forno a escultura assim preparada, deixando-a por aproximadamente dez minutos. Quando a carne tiver absorvido bem o sabor das bolinhas de aço doce, então o frango é servido à mesa, com adorno de chantilly. Ainda foram servidos outros dois pratos, fora do programa. Um deles, oferecido exclusivamente aos jornalistas, não nos pareceu facilmente decifrável. Acreditamos ter encontrado traços de mortadela de Bolonha, de maionese, daquele tipo de doce turinês conhecido sob a denominação de creme Gianduia; mas, vinte e quatro horas depois da ingestão, após um minucioso exame de consciência, não somos mais capazes de afirmar nada. Mais simples, ao contrário, o outro prato extra,

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A cozinha futurista que o pintor Fillìa definiu Porroniana e Marinetti: porco excitado. Um salame cozido normal veio apresentado imerso em uma solução concentrada de café expresso, e temperado com Água de Colônia. O ritual, assim, está para chegar ao fim. E na hora do espumante falaram Felice Casorati, o escultor Alloatti, o advogado Porrone, Emilio Zanzi, o pintor Peluzzi e enfim S.Exª. Marinetti, que elogiou vivamente Fillìa e Diulgheroff pelos concretos resultados atingidos. Apareceram contemporaneamente: na “Gazzetta del Popolo” um divertido artigo de Ercole Moggi A taverna futurista do santopaladar inaugurada por F.T.Marinetti; no “Regime Fascista” um entusiástico artigo de Luigi Pralavorio: Macarrão já era: Carnescultura, no “Giornale di Genova” um favorável artigo de Marcaraf, A inauguração do Santopaladar. Eram os jornalistas presentes ao almoço. Em seguida, em todos os jornais italianos e estrangeiros, foram reproduzidos os artigos de Moggi e de Stradella, com clamorosos comentários e muitas fotografias reproduzindo os locais, as formas dos pratos, etc., etc. Enquanto jornalistas e fotógrafos de Roma e de Paris chegavam à “Taverna Santopaladar”, Ercole Moggi, após nova entrevista com o pintor Fillìa, publicou na “Gazzetta del Popolo” um outro artigo: Revelados os mistérios da cozinha futurista, em que eram fornecidas as fórmulas exatas das primeiras iguarias realizadas, indicava-se o custo mínimo das refeições futuristas e anunciavam-se outras surpreendentes manifestações iminentes. Sob os títulos: “Os cozinheiros futuristas em teste”- “Isto não é nada, avançaremos muito mais”- “Fillìa contra Artusi”- “Santopaladar? Ora!” os maiores jornais do mundo difundiram, discutiram e polemizaram. De Estocolmo a Nova Iorque, de Paris a Alexandria no Egito atingiam páginas inteiras de jornais ilustrados dedicados ao assunto. A cozinha futurista havia conseguido se impor e iniciava assim o período mais intenso de suas afirmações para a renovação da alimentação.

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por exemplo. ultimamente nos fazia notar a intensa propaganda da S. etc.. No manifesto da cozinha futurista fala-se com precisão da necessidade de servir-se da eletricidade e de todas as máquinas que aperfeiçoam o trabalho dos cozinheiros.S para esta produção italiana e sublinhava como infelizmente os proprietários dos grandes restaurantes são ainda desconfiados a respeito das máquinas que. que. com indiscutíveis vantagens sobre os produtos importados.E.. caldeiras. etc. etc. que pode gostar das formas arquitetônicas antigas e degustar vinhos modernos (preparados nos ultramodernos estabelecimentos enológicos!) entre os muros de 174 Cozinha futurista. de dar um ar de modernidade às Feiras de produtos agrícolas e industriais. porque a nossa vontade de renovação expressou-se sempre claramente a favor de todos os ramos e de todas as atividades da arte e da vida. Portanto. fornos. etc. não apenas oferecem as maiores garantias. construtores. Alamanno Guercini. Em um outro campo. Pittalunga. da cozinha futurista) o qual aborda o problema da decoração dos locais onde se consomem vinhos e bebidas italianas. mas são estudadas de tempos em tempos de acordo com a necessidade de aplicação e funcionamento. são para sublinhar as adesões dos diversos jornalistas. Muitos restaurantes adotam fogões elétricos. Eis os pontos principais do seu artigo: “Há tanta gente.Fillippo Tommaso Marinetti As discussões sobre a cozinha futurista não deveriam naturalmente limitar-se somente ao campo alimentar.indd 174 7/4/2009 15:51:24 . neste mundo. esquecendo-se de que na Itália existem insuperáveis produtores de fogões. falam da necessidade de modificar também o interior dos locais. arquitetos. de apresentar os alimentos e os produtos da cidade e do campo segundo o espírito dos nossos tempos. mas infelizmente continuam a recorrer aos estrangeiros. O Eng. logo após a nossa batalha. em muitos escritos. fornos elétricos. isto é. é digno de nota também o artigo do Dr.P. redator-chefe do “Giornale Vinicolo Italiano” (que inteligentemente se ocupou.

000 litros de capacidade. Se o vinho é uma bebida de tradição antiquíssima. de 4. que se moderniza com o progresso multiforme: é uma bebida dinâmica. decoração. na genialidade dos futuristas. pavilhões. Parece-me. restaurantes. publicidade. Nós devemos dominar as nossas predileções artísticas pessoais e percorrer aquelas vias mais úteis e prático-econômicas de propaganda vinícola que parecem dar resultados. Por exemplo: em um estabelecimento de recente edificação. que 175 Cozinha futurista. que contém carburante-homem e carburante-motor.indd 175 7/4/2009 15:51:24 . apresentação. não se negará nem se criticará qualquer outra iniciativa da arte para valorizar o vinho: apenas se solicitará que se abram as portas aos artistas de vanguarda e à sua atividade artística e publicitária. no que concerne a arquitetura. somente 1. ensurdecidos pela música selvagem à base das “jazz-band”. explodiram na construção das enormes tinas de 80. é entretanto bebida que se renova anualmente. em Roma. Esta gente não pensa de fato que naquelas épocas remotas a uva era esmagada com os pés. Com isto.000 foram reservados aos barris de madeira.000.000 litros.500. não atribuem a isso nenhuma importância. ou se por acaso pensam. e após terem tentado ovalizar-se ao máximo. ou nas catacumbas estranhamente complicadas. Provavelmente não querem nem mesmo lembrar que os barris de madeira cujos arredores são abundantemente decorados vão – ai de nós! – diminuindo de importância nas novas cantinas que adotam largamente as enormes baterias de banheiras em cimento armado em andares múltiplos.A cozinha futurista construção medieval. com respeito a todas as opiniões. Até mesmo os pobres tonéis seguem o influxo do modernismo. que o vinho poderia hoje procurar e encontrar na arte dos inovadores. uma aliança muito apreciável.

. farão coisa útil e boa. E o mais moderno e mais animado era o restaurante italiano idealizado pelos arquitetos futuristas Fiorini e Prampolini. especialidades. catálogos. da propaganda e valorização do vinho italiano. Na Itália. de organizar a publicidade. se manifestações vinícolas acontecerem em Roma. 176 Cozinha futurista. Deve haver lugar para todos. Em Pádua. no campo da propaganda vinícola! E se os futuristas italianos se ocuparem com fecunda e prática atividade. aquele da economia: que não deve ser menosprezado nestes momentos difíceis. esplendor de metais e de cristais. As direções das feiras e das mostras poderão fazer muito. licores. do futurismo. Neles há higiene. industriais. cartazes futuristas. elas se aproveitarão largamente das novas formas de arte. os vinicultores deveriam considerar seriamente as concepções artísticas novadoras. em Viena.Fillippo Tommaso Marinetti por muitas razões se pode imaginar bem aceita por um extenso público de produtores. cerveja. em Berlim. na Mostra Colonial. restaurantes. Quero acreditar que em 1932. numerosos pavilhões de vinhos. espaço. eram de estilo racional. comerciantes. o Pavilhão de Arte Sacra é uma realização racional verdadeiramente útil. consumidores. Em Paris. aplicados praticamente. É tempo de exaltar e propagandear o vinho com os mesmos critérios da modernidade. antes de construir stands.indd 176 7/4/2009 15:51:24 . pouquíssimas e esporádicas foram até hoje as tentativas. centenas de bares são em estilo futurista. etc. economia. Nos concursos regulares dos pavilhões que tem por objeto o vinho. enquanto o trabalho destes artistas italianos é apreciado no exterior. aos numerosos valores dos locais modernos. Em Paris. E pode-se acrescentar. Muitos catálogos de vinhos franceses são publicações completamente futuristas. bela e que cumpre sua função.

.Turnê de propaganda em diversas cidades da Tunísia. de fevereiro de 1931 a fevereiro de 1932. as seguintes conferências. . inaugurando a Mostra dos pintores futuristas Fillìa. . na abertura da Mostra do grupo vanguardista e futurista “Sintesi”. na abertura da Mostra pessoal dos pintores futuristas Fillìa e Zucco.“Circolo Sociale” di Cúneo. Saladin.Conferências futuristas em Budapeste.“Galleria Vitelli” de Gênova. . Alimandi e Vignazia. E agora convidamos os artistas inovadores a colaborar conosco. que todas as conferências de Marinetti eram freqüentemente seguidas por clamorosas discussões a favor e contra o macarrão. a favor e contra os novos pratos futuristas. .indd 177 7/4/2009 15:51:24 . Zucco. Oriani. em frente a imensas multidões.“Amici dell’Arte di Novara”. . aos interesses vinícolas nacionais”. 177 Cozinha futurista.“Galleria Botti” de Florença.“Sala dell’Effort” em Paris.A cozinha futurista Eu já esperava isto há um ano. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. nas quais exaltou e impôs à atenção do público os valores da nova cozinha: . também desta forma. Marinetti. fez. Diulgheroff. Mino Rosso. escrevendo no “Giornale Vinicolo Italiano”. na intenção de servir. Pozzo.“Institutos Fascistas de Cultura” de Brescia e Cremona. . durante a Mostra de Aeropintura Futurista. Conferências Cozinhárias A polêmica sobre a cozinha futurista era tão intensa e presente em cada um. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. . a propósito da cozinha futurista.“Circolo degli Artisti” de Trieste.

A lista era composta pelas seguintes novidades: Antepasto Intuitivo. fruta simultânea. teriam antecipado mas ao contrário há a mesma espera asfixiante como em todas as refeições deste mundo burguês. perfumes e músicas da Itália. – Comer no futuro… que poderia haver de mais futurista? 178 Cozinha futurista. carnescultura. espumantes. foi organizado. por ocasião da Mostra dos grupos futuristas turineses e ligúrios. .“Teatro Nacional” de Savona. no atraso são passadistas vocês também. A refeição futurista de Novara Durante a “Mostra de Arte Futurista” no Círculo dos Amigos da Arte de Novara. Rosina. eu achava que os futuristas. caro. em Novara – ninguém tenha escrito um processo verbal estenografado consagrando ao futuro os comentários com que Fillìa preanunciava os pratos. frangofiat. um banquete dirigido pelos futuristas Fillìa e Ermanno Libani. cervejas. vinhos.realizado domingo. O horário estabelecido para o banquete já havia passado há muito e ninguém falava em finalmente dar princípio a este convívio luculiano. Ele me olha e sorri irônico. por iniciativa do Dr. para inovar. aerovianda (tátil. 18 de abril. com rumores e odores).Escute. docelástico. todoarroz.indd 178 7/4/2009 15:51:24 . Aproximo-me de… .Fillippo Tommaso Marinetti . Presidente da Federação dos Comerciantes. Eis como o diretor do jornal “A Itália Jovem” descreveu em um brilhante artigo o acontecimento: “É realmente um pecado que sobre este jantar futurista . mar da Itália.Conferências em Sofia e Istambul.

e consiste em minúsculos bilhetes encondidos dentro das azeitonas recheadas. Estes bilhetes são cuspidos. assinado Enrico Emanuelli. É convicção geral que este prato será na realidade pulado completamente para ser fiel à sua definição de intuitivo: mas não. eram já utilizados mesmo há vinte anos. Há ainda um pedaço de cartolina sobre o qual estão colados.indd 179 7/4/2009 15:51:24 .A cozinha futurista O início da refeição Como Deus quer. tudo atravessado por pequenos bastões de grissini que. para a incolumidade. Mas algo de novo existe. dos resfriados. Servem-nos elegantíssimos cestinhos escavados em casca de laranja e preenchidos com tudo o que constituía o velho antepasto caro às nossas bisavós: salame de autêntico porco e picles Cirio. Em relação aos odores. sentamo-nos à mesa: Antepasto intuitivo. morna. Isto também já sabíamos. abertos e lidos em voz alta com grande deleite para os presentes: Emanuelli é o maior jornalista. 179 Cozinha futurista. uma azeitona e uma bergamota. um pedaço de seda e um pedaço de lixa: não é obrigatório – explica Fillìa – comer a lixa. dos homens calvos). servirá apenas para tocar com a mão direita dando sensações pré-labiais que tornam saborosíssimas as iguarias. o garçom passa com um grande esborrifador espargindo a cabeça dos convidados (sugerimos a Fillìa servir uma outra vez tal lavagem capilar. entenda-se o Deus dos futuristas. um pedaço de veludo. A Aerovianda E chegamos à Aerovianda: é um prato que não aconselho aos esfomeados. É composto por uma fatia de erva-doce. as quais devem ser levadas à boca contemporaneamente com a mão esquerda. um perto do outro. segundo informações seguras de estudiosos do gênero. aquilo que Fillìa nos apresentará na mostra de arte sacra de Pádua.

Aqui se corre o risco de uma indigestão! Passemos ao mar da Itália que até os passadistas poderiam sem esforço introduzir no elenco das delícias de família. um pedaço de banana da Austrália. Os garçons servem enquanto o coaxar das rãs é reproduzido por uma “battistangola”. Terminado o todoarroz.2 Arroz e feijão. proprietário do hotel d’Itália. ironias e sátiras. rãs e salame. entre risos. precisam de muita penumbra. E a digestão é protegida. prossegue jubilosamente: o que deixou todos em tal estado foi o anúncio de que não haverá discursos oficiais. 180 Cozinha futurista.indd 180 7/4/2009 15:51:24 . Comestibilíssimo: há até quem peça bis. Servirão um prato inventado na hora pelo cavalheiro Coppo.Fillippo Tommaso Marinetti A refeição. Um pouco da culpa é também do Grignolino quase mau-caráter. como certos versos de poetas modernos e como todos os químicos brilhantes. que emite som parecido com o coaxar das rãs. Ótimo. Todoarroz: um prato muito viril na forma. 2 Instrumento de ferro ou madeira. alguém – também o grunhido dos porcos? Havia salame também!! . Mas por que não reproduziram – pergunta. O cavalheiro Fontana me sussurra: os pratos futuristas. e composto basicamente por arroz temperado com vinho e cerveja. um pedaço de figo.A carnescultura – grita Fillìa – é o produto de todos os jardins da Itália. muda-se tudo : apagam-se as luzes brancas e continuam acesas as vermelhas: semi-escuridão. Sobre um prato ogival são dispostos sobre o maior raio pedaços de filé de peixe cozidos na manteiga sobre os quais são fixados em ordem decrescente com o auxílio de um palito de dentes. uma cereja confeitada.

fruta seca. as “Edições Franco-Latinas” representadas pelos senhores Bellone e Farina e pelo senhor Pequillo. É um doce elástico porque colaram sobre cada um pedaço de ameixa. Fillìa tece elogios à mulher do futuro careca e de óculos: eis uma combinação de sorte. A fruta simultânea é composta por diversos pedaços… de fruta descascada conectados entre si: laranja. O interior do pavilhão. O aspecto de um grotesco transatlântico. 181 Cozinha futurista. O grande banquete futurista de paris Na Exposição Colonial de Paris o arquiteto futurista Fiorini realizou um audaz pavilhão que sediou o Restaurante italiano. Café. mulheres calvas e frangofiat! O docelástico é formado por modestas carolinas recheadas com creme de cores berrantes. de mais lírico e de mais inventivo se pode realizar sobre o tema “colonial”. maçã.A cozinha futurista Nos dois lados do prato creme de espinafre. stop. por reconhecimento geral. Davam ao ambiente uma atmosfera simultaneamente africana e mecânica que dava esplendidamente a vontade de interpretar os motivos coloniais segundo uma sensibilidade moderna e futurista. o sabor da nossa melhor cozinha. calo-me a título de protesto. representam o que de mais moderno. Neste restaurante adequadíssimo.indd 181 7/4/2009 15:51:24 . Sobre o frangofiat. quiseram realizar pela primeira vez em Paris a cozinha futurista e entraram em acordo com os pintores Prampolini e Fillìa para o preparo da refeição. amplo salão com capacidade para mais de 100 mesas. tinha sido genialmente decorado com 8 enormes painéis do pintor futurista Enrico Prampolini: estes painéis. em cima e no fundo molho Cirio. Para nos acalmar.

Machine à goûter (du peintre Prampolini) 12. eram anunciados números de dança. O jornalista futurista Francesco Monarchi. Equatore + Polo-Nord (du peintre Prampolini) 9.Fillippo Tommaso Marinetti A multidão que se empurrava na noite da manifestação para intervir no grande banquete era a melhor de Paris. A lista dos pratos: 1. Viandesculptée (du peintre Fillìa) 11. Carrousel d’alcool (du peintre Prampolini) 3. Estavam representados os maiores jornais franceses. redator-chefe da Nova Itália. 10. Gateauélastique (du peintre Fillìa) 14. tactile. Paradoxe printanier (du peintre Prampolini) 13. Poulet d’acier – à surprise (du peintre Diulgheroff) Cochon excité – à surprise (d’un primitif du 2000). entre um prato e outro. Préface variée (du peintre Prampolini) 6. Além de tudo. Les îles alimentaires (du peintre Fillìa) 8. Aéromets. de canto e de música. De fato. Les grandes eaux (du peintre Prampolini) 2. bruitiste et parfumé (du peintre Fillìa). descreve assim o banquete: “Os acontecimentos que estamos para expor são de uma gravidade excepcional. Vins – Mousseux – Parfums – Musiques – Bruits et chansons d’Italie. Toutriz (du peintre Fillìa) 7.indd 182 7/4/2009 15:51:24 . Hors d’oeuvre simultané (du peintre Fillìa) 4. o mero anúncio da refeição futurista havia levantado entre os compatriotas “bempensantes” uma onda de reprovações e de comentários hostis que ameaçavam uma complexa insurreição es- 182 Cozinha futurista. Excitant gastrique (du peintre Ciuffo) 5.

Somente as faces enigmáticas de Prampolini e Fillìa. as duas senhoras estavam na impossibilidade absoluta de animar os temerosos. o imponente aparato do pessoal de serviço e a branca calma tradicional das mesas postas. muitos corajosos. enfrentando a distância. recebiam os heróicos convidados. porque segundo eles. a segurança eletrizante de S. o Príncipe de Scalea.A cozinha futurista piritual. a festosa alegria do ambiente animado pelos enormes painéis de Prampolini. mantinham o mistério do iminente ritual. Palidíssimas de emoção (palidez que entretanto aumentava sua graça). idealizadores dos pratos futuristas. não devem jamais ser tocadas. dos pratos táteis. não ousavam penetrar na sala. Contrariamente aos nossos hábitos. No entanto. já que esses passarão para a história como precursores no degustar a cozinha do futuro. que. Ex. estava à mesa de honra com alguns membros de seu 183 Cozinha futurista. daremos uma ampla lista de nomes. transmitiram a coragem das próprias ações ao titubeantes. organizadoras do evento junto com as Edições Franco-Latinas. em uma última dúvida angustiante. encheram o salão do Pavilhão futurista na noite da última quarta-feira. a senhora Belloni e a senhorita Farina. Marinetti. Por dever jornalístico devemos registrar que. dos perfumes. reunidos na soleira. Estes bempensantes achavam indigno o caráter revolucionário dos pratos anunciados. sempre sensível a qualquer manifestação italiana. a inclemência do tempo e o terror do acontecimento. *** Na entrada. as tradições. S.indd 183 7/4/2009 15:51:25 . dos rumores e das canções representava absolutamente um pesadelo dificilmente superável. na realidade. os títulos das iguarias podiam dar margem às mais negras apreensões e a complicação das músicas. Exª. especialmente as gastronômicas. Apesar desta onda de pessimismo.

o doutor Lakowsky. o senhor Cartello. a Senhora Podrecca. 3 vinho tinto do Piemonte 184 Cozinha futurista. a Senhora Pequillo. etc. Madame Massenet-Kousnezoff. tanto que alguns repetiram. Madame Ny-eff. etc.Fillippo Tommaso Marinetti Comissariado. Surpresa geral ao pescar em uma chocolate e queijo navegantes em Barbera3 . o senhor Pequillo das Edições Franco-Latinas. a senhorita Budy.. sidra e bitter e de recolher na outra uma cândida cápsula envolvendo uma dose de anchova. *** Às 21h30 um soar de gongo formidável reconduz os presentes à realidade das coisas. Uma imprevista luz verde torna ainda mais espectrais os comensais. Em outras mesas: o advogado Gheraldi da Sociedade dos Autores. o Regente do Fascio doutor Saini. a senhorita Cirul. o cavalheiro Gennari do Diretório. o advogado De Martino. São anunciadas as duas misturas-aperitivos criadas pelo pintor Prampolini: “As grandes águas” e “Carrossel de álcool”. Muitas e elegantes senhoras haviam corajosamente desafiado a aventura. Madame Tohaika. o deputado Ciarlantini. Notamos: a Marquesa de San Germano. com o representante do Ministro Reynaud. mas primeiro resultado satisfatório. Madame Van Donghen. entre os quais o Comendador Dall’Oppio e o Marquês de San Germano. o conhecido pintor Sepo. Algumas caretas. Madame Lakowsky. Miss Moos. o crítico de arte Eugenio D’Ors da Academia de Madri. Madame Madika. Madame De Flandreysy. Vittorio Podrecca.indd 184 7/4/2009 15:51:25 . Madame Mola. Durio. a Condessa De Fels. o Conde Emanuele Sarmiento. secretário administrativo do Fascio. Madame Castello. etc.

Quando começava-se a criar um certo hábito pela cozinha futurista. o Conde Sarmiento. salame e anchovas). azeitona. o “estimulante gástrico” (rodela de abacaxi com sardinha. vinho. a orquestra entoa um barulhento e violento jazz. que se havia oferecido para ilustrar os pratos. cereja. excelente união de peixe. pelos risos gerais e pelos aplausos definitivos e intermináveis. ovos. canta deliciosamente e é muito aplaudida. A “Aerovianda” é composta por frutas e legumes diversos que são comidos com a mão direita sem a ajuda de nenhum talher. tomates e espinafre. posto que talvez apenas ela tenha compreendido quanta beleza possa derivar de uma interpretação absolutamente nova e genial da dança. Outra interrupção e Mira Cirul inicia as suas danças que suscitam um grande e continuado entusiasmo. tomates e confeitos). Primeiro intervalo: a senhorita Jole Bertacchini. É devorado pelos comensais que começam a modificar seu primitivo estado de ânimo. 185 Cozinha futurista. conquistaram rapidamente a simpatia dos paladares. Nenhuma trégua: o “Todoarroz Fillìa” é anunciado como uma mistura de arroz. e os garçons esborrifam na nuca de cada comensal um forte perfume de cravo. veludo e seda. O “antepasto simultâneo” de Fillìa (casca de maçã triturada. Na verdade. banana. se alarmaram pelas suas formas audazes.A cozinha futurista Três antepastos servidos contemporaneamente cortaram pela raiz as polêmicas sobre os aperitivos. a arte moderníssima desta dançarina de exceção é dificilmente superável. do San Carlo de Napoli. A sala ribomba pelos gritos das senhoras violentamente aspergidas com perfume. anuncia a Aerovianda do pintor Fillìa. atum e nozes) e o “início variado” de Prampolini (manteiga. ovos e parmesão. enquanto a mão esquerda acaricia um prato tátil formado por lixa. Retorna inexorável o imponente desfile de garçons que trazem agora as “ilhas alimentares” de Fillìa. cerveja. figo.indd 185 7/4/2009 15:51:25 . Ao mesmo tempo.

e após ter relevado a magnífica organização da noite por parte das “Edições Franco-Latinas”. Entre os diversos pratos. manifesto que suscitou uma polêmica mundial. da Ópera e do ex-teatro imperial de São Petersburgo. o “Paradoxo de primavera” e a “Máquina de degustar” de Prampolini. acompanhada ao piano pelo Maestro Balbis. da Ópera de Monte-Carlo.indd 186 7/4/2009 15:51:25 . O “Frango de aço” de Diulgheroff e o “Porco excitado”. Exª. O corpo do frango mecanizado pelos confeitos de coloração alumínio.Fillippo Tommaso Marinetti (Apenas uma pessoa permanecia alheia ao entusiasmo geral: imediatamente interrogada descobriu-se que era canhota – por isso esfregava o prato tátil com a direita enquanto comia com a esquerda). em duas interpretações. Marinetti. o “Docelástico” de Fillìa. foram apreciadíssimos. apesar da audácia de formas e originalidade de conteúdo. que havia participado do banquete não somente presidindo-o mas intervindo a todo momento nas discussões e na exaltação das iguarias. Depois de ter louvado as criações gastronômicas dos pintores Prampolini e Fillìa. foram reservados a apenas dez pessoas dois pratos surpresa. O senhor Roberto Marino. Outro intervalo: a Senhora Maria Kousnezoff. cantou depois admiravelmente algumas canções napolitanas. com mais de 2000 artigos e demonstrou o sentido de arte-vida que sempre animou as atividades futuristas. S. Marinetti com sua 186 Cozinha futurista. elogiou o jantar futurista como a primeira realização em Paris do célebre manifesto da cozinha futurista. *** S. demonstrou mais uma vez sua excepcional qualidade de voz que lhe deram fama mundial. A Carnescultura de Fillìa. o Polo Norte + Equador de Prampolini. Exª. Desde já a renovação da cozinha futurista havia triunfado. e o salame imerso em um molho de café e água de colônia foram declarados excelentes.

Longos artigos foram dedicados ao acontecimento. a 22 de novembro de 1931. uma jornada futurista. em que inaugurou-se uma Mostra de Arte Futurista. com muito espírito. Exª. em todos os jornais lígures. T. A Baker recebeu a mais festiva acolhida e participou do final da excepcional noite que se fechou com danças animadíssimas. na verdade. a definitiva superação entre os convidados de suas últimas dúvidas sobre as conseqüências da cozinha futurista. Além disso. realizou-se o Circuito de Poesia (ganho pelo poeta triestino Sanzin) e uma conferência de F. acompanhada pelo senhor Abbatino.” O aeroalmoço futurista de chiavari O Comendador Tapparelli organizou admiravelmente em Chiavari.indd 187 7/4/2009 15:51:25 . mais de 300 pessoas participaram do grande aeroalmoço realizado no Hotel Negrino: lá encontravam-se as maiores autoridades da Cidade e da Região. teve um papel importantíssimo no bom êxito da festa: ao seu irresistível fascínio deve-se. aparece na sala Joséphine Baker. S. no Corriere della Sera e em muitos outros jornais ita- 187 Cozinha futurista. aludiu então aos números de canto e dança sobressaltando o proposital contraste da parte lírica (exclusivamente tradicional) com o futurismo integral do jantar e das danças.A cozinha futurista habitual eloquência homenageou a coragem dos presentes e observou com satisfação o contentamento geral. Joséphine Baker transformada subitamente no centro das atrações mais vivo e completo. *** Enquanto se renovam os aplausos ao breve e vivo discurso de Marinetti. Marinetti. Marinetti sobre “Futurismo mundial”.

muitos dos quais sentiam na cavidade gástrica um certo tremor que não era de todo devido ao apetite. Era composta. esta empada. desabrochou uma espécie de pudim que deixou cada esôfago engasgado de admiração. destes abacaxis e com estas frutas africanas misturadas a peixe. como se sabe. uma espécie de orgia carnescultural que se desenrolou nos salões do Hotel Negrino e que submeteu a uma dura prova o estômago de uns trezentos convidados. mísera e desconcertada. mas a um certo temor racional. é um bruto materialista. desta inocente cabeça.Fillippo Tommaso Marinetti lianos. ao exame dos dentes. de nozes e de tâmaras: tâmaras que se revelaram. por uma cabeça de vitelo nadando. especialmente vindo naquele dia de Milão a Chiavari. para romper com os seus molhos a maciça porta fechada dos ravioli e do macarrão. em meio a uma profusão de abacaxis. Tâmaras surpresa O almoço. cheias de uma surpresa quase ciclópica: elas estavam cuidadosamente recheadas de anchovas de modo que. Damos aqui os pontos essenciais do brincalhão artigo de um redator do Corriere Mercantile: “A parte forte do dia – parte forte ao menos para o cronista ávido de divagações e desejoso de ocasiões para os assim chamados parênteses de cor – foi sem dúvida o “Primeiro aeroalmoço futurista”. Cada prato foi escrupulosamente preparado pelo célebre cozinheiro Bulgheroni. 188 Cozinha futurista. entre a mais viva expectativa dos presentes.indd 188 7/4/2009 15:51:25 . iniciou-se com uma Empada de aquecimento: uma espécie de antepasto talvez poético demais para ser apreciado devidamente pelo estômago que.

aos netos.A cozinha futurista As rosas em brodo Prosseguiu-se. Postos diante de tal obra prima da lírica brodística. enxugá-la com o guardanapo e guardá-la na carteira como recordação do almoço e como testemunho de um banquete a ser contado. composto por partes quase iguais de caldo de carne. nome que designava um brodo de natureza bastante bizarra. Belos os aviões. De qualquer modo. que como nunca então pareceu um alimento precioso e divino. seu aparelho digestivo em condições não de todo normais. renunciou a levá-lo a cabo e contentou-se apenas em tirar do prato uma pétala de rosa. audaciosamente com um Decolapaladar. que consiste em uma combinação discretamente diabólica. então. porém mais de um com evidente covardia. onde fatias de beterraba e fatias de laranja faziam complô aliadas a azeite. Muitos dos convidados já tinham. acomodadas sobre aeroplanos de miolo de pão. mais tarde. nadavam. de modo que não se podem reprovar os que não souberam reprimir um instintivo gesto de terror no momento em que apareceu a taça contendo o “alimento conclusivo”. vagas e frágeis. Teve lugar o terceiro prato.indd 189 7/4/2009 15:51:25 . Alimento que se vangloriava de 189 Cozinha futurista. que para os iniciados deve ter extraordinárias virtudes apetitivas. Eletricidade atmosférica confeitada E eis que aparecem os garçons com grandes bandejas carregando o “servovoadinhas de pradaria”. de champagne e de licores: sobre esta mistura. menos belas as almôndegas. misteriosíssimas almôndegas sobre cuja composição não é belo nem útil indagar. a esta altura. este prato esteve entre os mais apreciados como aquele que ofereceu a muitos dos convidados o direito de saciar sua fome ao menos com pão. ou seja. “Boi na fuselagem”. os convidados tentaram corajosamente o experimento da deglutição. vinagre e pitadas de sal. grandes pétalas de rosa.

pelo escrúpulo de cronistas. e o salão da Casa do Fascio. que apenas uma mínima parte dos banqueteadores ousou levar este sabonete à boca: daqueles que ousaram. E levantou-se a falar Marinetti que. Chega-se. Dizemos infelizmente porque um tal grupo de heróis merecia. ao Amarração digestiva: amarração que nem todos realizaram.Fillippo Tommaso Marinetti um nome excessivamente dinâmico: “Eletricidade atmosférica confeitada”. uma importante Mostra de Aeropintura que foi inaugurada por F. assim. O aerobanquete futurista de bolonha Os pintores futuristas Caviglioni e Alberti organizaram em Bolonha. Ao sentar-se Marinetti. levantou-se o poeta Farfa. que declamou com ímpeto aviador um hino quase pindárico intitulado ‘Tubulação’ ”. A seguir os mesmos pintores. serviram na Casa do Fascio um grande Aerobanquete (cujo preço era de 20 liras por pessoa). dado que muitos já estavam aprofundados no momento da decolagem. exaltando. recebeu ontem à noite às 21h30 ( também o horário era ligeiramente fora 190 Cozinha futurista. Devemos dizer. no início do banquete. escolhido pelo especialíssimo desafio culinário. com admirável eloquência que lhe escapava espontânea como se ele não tivesse tocado na comida. infelizmente não sabemos os nomes. foi possível provar um inesquecível ensaio. Estas queridas e inesquecíveis “eletricidades” tinham a forma de coloridíssimos sabonetes de mármore fingido. irrompeu em um violento sermão contra a infâmia do macarrão e o vitupério dos ravioli. T. os pratos futuristas e particularmente as tâmaras anfíbias das quais. no confronto. Marinetti em 12 de dezembro de 1931. entre a maior expectativa.indd 190 7/4/2009 15:51:25 . contendo em seu interior uma massa doce formada por ingredientes que só poderiam ser precisados após uma paciente análise química. que foi assim narrado no Resto del Carlino: “O sucesso de curiosidade do Aerobanquete foi enorme. no Círculo dos Jornalistas. ser eternizado em uma lápide de bronze. ao menos.

coloridas grosseiramente e entalhadas artísticamente. para nossa sorte! .A cozinha futurista dos padrões!) muitas pessoas. Nada das rosetas comuns ou bastões à moda francesa. (Desabitada. como costuma acontecer nos aviões autênticos). Como no avião O Aerobanquete justificou o próprio nome através do cenário criado pelos organizadores. promovidos pela ocasião a motores de avião. senhoras e simples gourmets. Os copos são os de sempre. que na fantasia dos promotores queriam ser alumínio. Outra descoberta autêntica: o pão. entre as quais notavam-se personalidades e autoridades. idem idem. e uma chapa de lata polida serve como apoio de prato onde as senhoras controlam – Oh! o delicioso espelho de sorte – sua comprometida maquiagem.. que veio para sancionar com o sagrado selo do Studio. os pratos e os talheres. E entre as autoridades estavam o Governador da Província comendador Turchi e o Reitor magnífico da Universidade prof. ou kipfel vienense. jornalistas. que reproduzem a forma de um monomotor ou de uma hélice. mas pãezinhos propositadamente modelados. No lugar das toalhas de sempre encontramos folhas de papel prateado. elas são substituídas por batatas cruas. e é preciso confessar que a forma se presta extraordinariamente ao cozimento perfeito da massa e ao seu abiscoitamento. mais atrás dois cilindros de motocicleta. Pouquíssima coisa visível. dando a impressão de um avião. lá no fundo a cauda. As mesas foram dispostas com inclinações e ângulos. mas não há absolutamente flores. 191 Cozinha futurista.indd 191 7/4/2009 15:51:25 . Ghigi. o rebelde movimento de ódio ao macarrão. A síntese das mesas é evidente. Entre as asas uma grande hélice – parada. e pior para quem não sabe distinguir entre as coisas que servem ao prazer do estômago e aquelas destinadas à alegria dos olhos. Aqui as asas – mas finas e estreitas como em um hidroplano de alta velocidade – aqui a fuselagem. pintores.

E com pequenas fatias de laranja fritas doura-se a palidez da iguaria. provoca certa inquietude nos escalões. o prato número dois apresenta-se majestosamente entre os “oh” dos presentes. sejamos sinceros. O risoto de laranja.Fillippo Tommaso Marinetti Última constatação: os garçons usam um colete de celulóide de cor azul. o molho! – é a base de laranja. 192 Cozinha futurista. diretor do refeitório. com o acréscimo de uma fatia de laranja casada com uma fatia de ovo cozido e uma azeitona. mas repentinamente a sala imergiu em uma diáfana luz azul e um motor começa a funcionar na sala ao lado. O pintor Alberti anuncia gravemente – mas por que aquele senhor sorri? – que o avião voa a oito mil metros de altitude e Marinetti confirma com autoridade explicando: . onde o arroz é sempre aquele… o mesmo. enquanto o pintor Alberti. mas o molho – ah. O qual se chama “aeroporto picante”. E a laranja foi coberta com manteiga colorida rosa… Antes porém que os pareceres sobre o prato de inauguração se difundam.Observem como o barulho dos motores favorecem e nutrem o estômago… É uma espécie de massagem do apetite… 4 Relativo ao pintor futurista Fortunato Depero. … e os rumores “nutrientes” Temíamos o advento de qualquer complicação.indd 192 7/4/2009 15:51:25 . O risoto de laranjas… O aerobanquete é inaugurado de modo levemente passadista: com o antepasto. Excelência Marinetti rebatiza o prato assim: risoto de laranja. mas não nos parece nada além de uma salada russa alten-styl. exibe um pomposo e muito chamativo colete deperiano4 de mil cores. O cardápio fala de “Estrondos ascensionais” mas S.

mas em voz baixa. aos tortellini com molho. os comensais se prestam a mordiscar as asas dos aviões panificados. . Ele é entusiasta do simpósio e pede aliás aos cozinheiros que façam-se presentes. e na expectativa do prato central. servido de algumas latas de óleo extradenso. para se dizer a verdade.A cozinha futurista Finalmente se desce novamente da “estratosfera” culinária. afirmando que a oito mil metros de altitude os alimentos não possam manter-se fervendo… Pouco depois o chefe do futurismo dirige a própria ofensiva contra o pacífico doutor Magli. Exª. Marinetti aumente o seu… gelo.Justíssimo… Eu deveria tê-la encostado ao ouvido. Marinetti. O vinho em … latas. ao contrário. para ouvir se relinchava. (Seria necessário outro). não sente nenhuma saudade.Exª. e o acompanhamento compreende duas cebolinhas e duas castanhas fritas. interrogando-o por que ousara cheirar a carne antes de experimentá-la. Mas também o prato central – ou seja. representante dos Aqueus. e a multidão não encontra nada melhor que colocar-se a bater furiosamente sopre os pratos de lata. as duas castanhas junto com uma lingüiça não produzem mais nenhuma impressão! Um pecado que a carne – depois do habitual giro de apresentação em volta das mesas – chegue quase fria. É o vinho em galões. aliada a uma lingüiça fina. Isto não é valo… E Magli num reflexo: . Trata-se na verdade de um escalope de vitelo. O prato. Mas depois dos experimentos a base de laranja. E o carburante nacional (vulgo vinho das nossas colinas) avança triunfalmente. para 193 Cozinha futurista. é futurista somente nas nuances. – E uma homérica risada recebeu a piada. E é um sucesso indiscutível. o “Carnescultura com fuselagem de vitelo” – chega. entre uma taça de carburante nacional e um aceno nostálgico.indd 193 7/4/2009 15:51:25 . promovidos assim ao posto de “entoarumores”. . S.Queremos o carburante nacional. E não adianta que S. O Aerobanquete prosseguiu assim entre um prato e uma piada.Isto – exclama – é passadista.

algumas das quais – acrescentou – são achados importantíssimos. Queremos para tanto que a cozinha italiana não se torne um museu. logo depois. – E então uma voz clara se levanta do fundo da sala. levantou-se a falar a medalha de ouro Onida. e Marinetti repete a interpelação. Teceu então elogios à cozinha futurista.indd 194 7/4/2009 15:51:25 . acolhidos pelos aplausos de Marinetti e seus sequazes. Nós queremos manter a nossa antiga vitalidade goliardesca. – Venham os cozinheiros. enquanto um anônimo enviava um telegrama em que dizia textualmente: “Abaixo o macarrão. então o doutor Magli expressou os sentimentos dos “tagliatelistas”. o banquete encerrou-se com discursos. como por exemplo o arroz temperado com laranja. porque. Os tagliatelle – diz – são agora a última trincheira dos passadistas. Mas os dois cozinheiros estão incertos.Não vêm porque têm medo de nós! Mas trata-se de evidente calúnia. tudo bem. Afirmamos que a genialidade italiana é capaz de inventar outros três 194 Cozinha futurista. Temem ser satirizados e parece que dizem em seu mudo discurso: . a trincheira da massa com ovos. perdoem-nos. a obesidade. mas os tagliatelle são outra coisa!” Por fim. a barriga. O nosso esforço tende a militarizar todas as nossas jovens forças. dois cordons bleus da Casa do Fascio fazem sua entrada. proclamando: . é a luta contra o peso. A cozinha futurista é a realização do desejo geral de renovar a nossa alimentação. De fato.Fillippo Tommaso Marinetti aplaudi-los. mesmo se os anos nos acenam com suas chuvas e suas neblinas.Meus senhores. levantou-se Marinetti para declarar que a sua eloquência estava literalmente tampada pela suculência variada e deliciosa das aeroiguarias degustadas. Mas os solicitados demoram a vir. mas a culpa não é nossa… Abaixo a “cozinha-museu” Iniciado pelo antepasto. de onde o macarrão está definitivamente em retirada.

julgaram necessária esta sublevação coletiva. em todas as revistas ilustradas ou diretamente entre o público. S. nem mesmo com problemas importantíssimos. Esta carta foi dirigida a Marinetti. Anedotas típicas Além dos milhares de artigos nos quais eram discutidos. Novara. invenções e humorismos sugeridos pela cozinha futurista e pela sua realização. porém mais adequados à sensibilidade modificada e às necessidades modificadas da geração contemporânea.P.A cozinha futurista mil pratos. enquanto os comensais levavam como recordação os pratos de lata. Com uma nova explosiva saudação aos colaboradores bolonheses.I. um número incalculável de mulheres se reuniu para assinar uma solene carta-súplica a favor do macarrão. 3) Houve em Nápoles cortejos populares a favor do macarrão.Exª. São típicas as seguintes anedotas: 1) Em Áquila. 195 Cozinha futurista. Seria possível formar diversos volumes recolhendo toda a explosão de bizzarria. condenados e defendidos os grandes banquetes futuristas de Torino. ( Propaganda internacional contra o macarrão) que abria vários concursos para combater a iguaria odiada e inventar novos alimentos. igualmente bons. tão profunda era nelas a fé no macarrão. com a ponta de um garfo que fazia as vezes de buril”. exaltados. um enorme número de caricaturas e de anedotas circulava em todos os semanários.indd 195 7/4/2009 15:51:25 . Marinetti concluiu o seu discurso e o Aerobanquete terminou. Paris.A. 2) Apareceu nos jornais de Gênova o comunicado da fundação de uma Sociedade chamada P. depreciados. As mulheres de Áquila que nunca antes se haviam preocupado. Chiavari e Bolonha. nos quais o chefe dos futuristas foi obrigado a marcar a própria assinatura.

Fillippo Tommaso Marinetti 4) Em São Francisco. os clientes de duas trattorias italianas. Marinetti que. 196 Cozinha futurista. chegou de improviso F. comeu avidamente um prato de espaguete: somente depois os comensais perceberam que Marinetti não era nada além de um estudante habilmente maquiado. um teatro de revista intitulado “carnescultura”. superando as primeiras realizações. Alguns feridos. 9) Representou-se em Turim uma opereta de Sparacino e Dall’argine intitulada “Santopaladar”. 5) Em Turim. em Bolonha. para o espanto de todos. e aconteceu então uma clamorosa batalha pelas janelas e na rua com projéteis comestíveis e panelas. durante um grande jantar estudantil. preparam outras inovações originais.indd 196 7/4/2009 15:51:25 . 6) Em Bolonha. T. Califórnia. um novo sentido de otimismo e de alegria dissipou o nostálgico e cinzento hábito dos velhos jantares e os futuristas. No entanto. os mais célebres cozinheiros organizaram um congresso para decidir o mérito da cozinha futurista. 7) Apareceram em algumas revistas de grande tiragem fotografias de Marinetti no ato de degustar o macarrão: eram montagens fotográficas executadas por experts adversários da cozinha futurista. enquanto alternam-se as polêmicas. 8) Representou-se. e aconteceram então discussões e polêmicas violentíssimas entre os dois partidos. situadas uma no térreo e outra no primeiro andar de uma casa popular. declamaram-se pró e contra a cozinha futurista. que tentavam assim desacreditar a campanha por uma nova alimentação.

com o intuito de torná-la leve. 197 Cozinha futurista. infusa por 24 horas em um molho de leite. onde será servido um “peixe colonial ao rufar de tambor” e “carne crua esquartejada pelo som de trompa”. estes combatentes à mesa. procurariam em vão uma preparação perfeita no beijo doloroso de uma mãe. espiritualizá-la e dinamizá-la. comestíveis. em janeiro. douradas ou prateadas. dos filhos ou em cartas apaixonadas. Coloquem. ou sair em vôo para bombardear cidades ou contra-atacar tropas inimigas. ao contrário. Combinamos programas de refeições a que nós chamamos SUGESTIVAS E DETERMINANTES. a sugerir e determinar os indispensáveis estados de ânimo que não se poderiam sugerir e determinar de outro modo. com grandes escamas arredondadas. licor. mediante a arte de harmonizar os pratos futuristas. A cozinha futurista propõe-se ainda. Inadequada a leitura de um livro ameno. No momento de servi-lo. será aberto e recheado 5 Peixe da família dos mugilídeos. de uma esposa. Cardápio heróico invernal Os combatentes que devem subir no caminhão às 3 da tarde. São fusiformes. alcaparras e pimenta vermelha.indd 197 7/4/2009 15:51:25 . PEIXE COLONIAL AO RUFAR DE TAMBOR: mugem5 aferventada. para entrar na linha de fogo às 4. Um passeio sonhador é igualmente inadequado.A cozinha futurista Os cArdápiOs FuturistAs sugestivos e determinantes A cozinha futurista propõe não somente uma revolução completa na alimentação da nossa raça.

serão espargidos na sala. suavíssimos perfumes de rosa. que colocarão como raios a máscara contra gás asfixiante. com borrifadores. romãs e laranjas vermelhas. durolíqüido constituído por uma bolota de queijo parmesão macerado em Marsala. Mastigar atentamente por um minuto cada bocado. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de verão de pintura-escultura Após um longo período de repouso. 198 Cozinha futurista. servi-la sobre um leito de pimenta vermelha.indd 198 7/4/2009 15:51:25 . madressilva e acácia. Eletrocutá-la com correntes elétricas. Extraída da mistura. conhaque e vermute branco. um pintor ou um escultor que deseje retomar sua atividade criadora às 3 horas da tarde de verão. CARNE CRUA ESQUARTEJADA PELO SOM DE TROMPA: cortar um cubo perfeito de carne bovina. No momento de partir. jasmim. mantê-la por 24 horas em uma infusão de rum. Será comido sob o rufar continuado de um tambor. Enquanto estas desaparecem nas bocas. engolirão o Explosãonagarganta. cuja doçura nostálgica e decadente será brutalmente refutada pelos combatentes. serão servidos aos combatentes pratos de caqui maduro. No momento do Paraselevantar. separando-os uns dos outros com impetuosas notas de trompa sopradas pelo mesmo “comedor”.Fillippo Tommaso Marinetti com conserva de damasco intercalada com rodelas de banana e fatias de abacaxi. pimenta preta e neve. tentaria em vão excitar a própria inspiração em uma refeição suculentatradicional.

e desobedecendo continuamente aos hábitos enraizados nos nervos. um prato fundo cheio de vinagre forte. bicarbonato de sódio. um maço de rosas brancas com caules relativamente espinhosos. um grande maço de rabanetes vermelhos. vestidos de lã branca e sem jaqueta. mas morno. uma grande polenta amarela. Comerão tudo? Experimentarão partes? Intuirão as relações fantásticas sem sequer experimentar? À vontade! 199 Cozinha futurista. pétalas de rosa.indd 199 7/4/2009 15:51:25 . um maço de salada. servida uma refeição de puros elementos gastronômicos: uma sopeira de bom molho de tomate. eqüidistantes. um prato fundo cheio de azeite. alho. bananas descascadas e óleo de fígado de bacalhau. uma ansiedade entre o literário e o erótico que não pode ser apagada por um café da manhã normal. ao contrário. mate a fome enquanto observa o quadro do “Jogador de Futebol” de Umberto Boccioni. não temperada e fora do prato. um prato fundo cheio de mel. deveria passear para digerir e entre inquietudes e pessimismos cerebrais. Seja-lhe. sob um caramanchão que deixe passar os dedos quentes do sol.A cozinha futurista Empanturrado. verde. Acaso. Não quente. terminaria por consumir a jornada fanfarronando artisticamente sem criar arte alguma. sirva-se imediatamente um prato sinóticosingustativo de pimentões. sem talheres. Ponham a mesa então ao ar livre. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio vocabulivre primaveril O atravessar de um jardim primaveril entre os doces fogos de uma aurora cheia de timidez infantil deu a três jovens.

ruminantes. Põem-se eles finalmente a comer. com altivas palavras em liberdade fora de qualquer ordem lógica e diretamente expressas pelos nervos. polemizando à mesa com adjetivos iluminantes. O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. rumorismos abstratos. verbos fechados entre dois pontos. lamber. Entra então a camponesinha jovem e gorda. levando nos braços uma bacia cheia de morangos nadando no Grignolino bem açucarado. gritos animalescos que seduziriam todos os animais da primavera. Mas o tédio e a monotonia poderiam nascer depois que os paladares tivessem provado o alho com rosas. ralhantes e cantantes em giro. Cada dente do alho será então cuidadosamente envolvido nas pétalas de rosa pelos mesmos dedos dos três convidados que assim se distrairão a combinar poesia e prosa. Os jovens a convidarão. Diretamente sobre as cabeças a camponesinha servirá.indd 200 7/4/2009 15:51:25 . desmacular-se. um prato de tradicionais tortellini in brodo. para que sirva o mais rápido possível. assobiantes.Fillippo Tommaso Marinetti Convenientemente comerão. cochichantes. beber. Formarão imediatamente uma relação metafórica inusitada entre os pimentões (símbolo de força campestre) e o óleo de fígado de bacalhau (símbolo de mares nórdicos ferozes e necessidade curativa de pulmões doentes). Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti 200 Cozinha futurista. a seguir. Provam então mergulhar o pimentão no óleo de fígado de bacalhau. roncantes. Isto fará com que o seu paladar alce súbito vôo procurando no prato sinóptico-singustativo uma indispensável nova harmonia.

à esquerda dos comensais. Depois. um silêncio de quinze minutos durante os quais as bocas continuam a mastigar o vazio. vinte e cinco cerejas ao licor. dois minutos de grão de bico em azeite e vinagre. Depois. o assobio que o vento infiltra pela fechadura da porta.A cozinha futurista Cardápio musical de outono Em uma cabana de caçadores semi-escondida em um bosque verde-azul-perfumado. arrancado no quarto da esquerda pelo filho convalescente da camponesa. uma codorna assada para cada um dos convidados. quatro longos apertos de mão na camponesa-cozinheira e todos para fora no escuro vento chuva do bosque. Depois. Depois. Depois. O rápido crepúsculo sangüíneo agoniza sob as enormes barrigas das trevas como sob chuvosos e quase líquidos cetáceos. dois casais se sentam a uma mesa rústica formada por troncos de carvalho. único alimento. pela mesa ainda vazia passará. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio noturno de amor Terraço de Capri. Agosto. Esperando a camponesa-cozinheira. doze batatinhas fritas. para serem olhadas e cheiradas intensamente. silêncio de um minuto. Duelará com aquele assobio o gemido longo mas afinado de um som de violino. Depois. sete alcaparras. Depois. A lua a pico serve abundante leite talhado sobre a toalha. sem comer.indd 201 7/4/2009 15:51:25 . Depois. A morena peituda e bunduda cozinheira caprese entra carregando um enorme presunto sobre uma bandeja e diz 201 Cozinha futurista. Depois. um gole de vinho Barolo mantido na boca por um minuto.

deixei-o infuso por uma semana no leite. circundado de risoto ao açafrão. Comam abundantemente. Leite verdadeiro. Para adocicá-lo entretanto e liberá-lo da aspereza e da virulência original.indd 202 7/4/2009 15:51:25 . vem ao seu encontro do fundo do quarto aberto. cada uma com onze gotas de Moscato de Siracusa em sua água marinha. ovos. Roast-beef circundado por lacumias e Hallaua6. chocolate. Entrarão então na cama levantando no pequeno copo o bebericável Guerranacama composto de suco de abacaxi.Fillippo Tommaso Marinetti aos dois amantes reclinados nas duas espreguiçadeiras e incertos sobre retomarem as fadigas da cama ou iniciarem aquelas da mesa: . 202 Cozinha futurista. A cama. servido com mel. Depois o Guerranacama. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio turístico (realizada para a Mostra circulante futurista Paris-Londres-Bruxelas-Berlim-Sofia-Istambul-Atenas-Milão) Lista dos pratos: Pré salé aux petits pois. uma pitada de noz moscada e um cravo: tudo liqüefeito em licor Strega.“é um presunto que contém uma centena de carnes diversas de porco. 6 Lacumia é uma espécie de bolinho. a base de gergelim. e Hallaua é um alimento de origem árabe. Depois uma taça de Asti espumante. Seguem as grandes ostras. de origem grega. fascinada. uma pitada de pimenta vermelha. grande e já cheia de lua. caviar. não aquele ilusório de lua. pasta de amêndoas.” Os dois amantes devoram metade do presunto.

devido à etiqueta diplomática. Suco de morangos para ser bebido com friturinhas ao óleo. SEGUNDO: a reserva dos diálogos. Na refeição oficial futurista. Pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado.A cozinha futurista Lingüiças nadando em cerveja pulverizadas de pistaches cristalizados. o Esganador. Enguia marinada recheada com minestrone à milanesa gelado e com damascos recheados de anchovas. Poças de mel e poças de vinho dos Castelos romanos alternados em uma planície quadrada de papa de batatas. mas escolhido entre os mais inteligentes e mais jovens parasitas da aristocracia e famoso pelo seu conhecimento total de todas as piadas obscenas. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio oficial O cardápio oficial futurista evita os graves defeitos que poluem todos os banquetes oficiais: PRIMEIRO: o silêncio embaraçado que deriva da falta de harmonia preexistente entre os vizinhos da mesa. 203 Cozinha futurista. toma a palavra. QUINTO: o tom baixo pálido fúnebre banal dos pratos. que nadem em um mar de conhaque. TERCEIRO: as caras feias produzida pelos problemas mundiais insolúveis. sem se levantar. QUARTO: o rancor das fronteiras. que deve se desenvolver em um amplo salão adornado por enormes quadros de Fortunato Depero. convidado não-pertencente a nenhum corpo diplomático e a nenhuma política. após uma distribuição rápida de polibebidas e entreosdois.indd 203 7/4/2009 15:51:25 .

dentro. as ironias e as brincadeiras. Assim por toda uma meia hora. orientando-se pelo maior ou menos grau de mau humor a combater. descoberto por Alfred Nobel. repetirá suas desculpas.indd 204 7/4/2009 15:51:26 . (Esta iguaria será saboreada enquanto um negrinho de 12 anos fará cócegas nas pernas e beliscará as nádegas das senhoras.Fillippo Tommaso Marinetti O Esganador. velho Barolo. o Diretor. Uma vez generalizado de uma ponta à outra da mesa o fogo cruzado das gargalhadas dos comensais. Seguem: 1) “Os antropófagos inscrevem-se em Genebra”: um prato de várias carnes cruas para serem cortadas à vontade. pequeninas bombas de balestite7 que explodirão a tempo perfumando a sala com o típico odor das batalhas. Ao Paraselevantar o diretor da refeição oficial entrará e com muitas desculpas cerimoniosas pedirá para esperar a chegada há muito anunciada. risoto de açafrão.) 3) “O tratado sólido”: castelo multicolorido de torrones com. vinagre. apenas terão seu volume diminuído e eis que ainda na entrada. açúcar. com base de nitroglicerina. 7 Balestite é um explosivo. Os comentários. mas sempre atrasados por impedimentos e desastres automobilísticos e por descarrilamentos ferroviários. que acolherão as desculpas do diretor. e temperadas mergulhando seus pedaços nas pequenas tigelas oferecidas com azeite. ele. mel. manteiga. 2) “A Sociedade das Nações”: salaminhos negros e canudinhos de chocolate nadando em um creme feito com leite. ovos e baunilha. e do sorvete desgraçadamente tanto arquitetado que caiu pouco antes na cozinha. de uma fruta paradisíaca escolhida no Equador. dirá subitamente a meia voz três piadas obsceníssimas. tapioca e leite em sopeira de convento para satirizar e espantar toda diplomacia e toda reserva. sem abandonar-se entretanto à inconveniência. pimenta vermelha. gengibre. será servida uma gororoba de semolina. Usado para dar mais potência aos canhões 204 Cozinha futurista.

conselhos. Logicamente pedirá para continuar bebendo. olhadas piedosas e olhares de falsa alegria. bem penteado. repugna-lhes estabilizar o paladar e o estômago.indd 205 7/4/2009 15:51:26 . As crianças se enchem de confetes e rolam sobre as flores de laranjeira do vestido nupcial. econômico. Ninguém pode comer nem provar as bebidas já que. ao invés da fruta milagrosa. do ponto de vista intelectual. sob uma condição no entanto: que fale por duas horas sobre as possíveis soluções para o problema do desarmamento. O esposo. 205 Cozinha futurista.A cozinha futurista Então entrará. da revisão dos tratados e da crise financeira. A sogra espalha febrilmente cumprimentos. prolífico. qualidade e quantidade. todas escovas. está em conserva de óleo. estando todos no instável. profissional. carnal. Os primos. Todos desejam felicidades como se libertam raças com o medo na ponta dos dedos e da língua. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de núpcias As refeições de núpcias comuns sob a sua aparente e ostentada festividade escondem mil preocupações: se o casamento será feliz ou não. As amigas da esposa. em conserva de vinagre. pentes e grampos de inveja. o bêbedo de sempre pescado nas periferias naquela mesma noite e levado à força para a sala do banquete oficial. Ser-lhe-á então oferecida uma seleção dos melhores vinhos italianos. A virgem já está nos braços dos anjos.

“eu mesmo os recolhi todos. distante ou próxima? Pouco importa. Conseguirá ou não? Talvez entorne e as marcas sobre o vestido nupcial corrigirão oportunamente a insolente e pouco fortunosa brancura excessiva. nos bosques de Pistóia ensopados de chuva. põe-se a gritar segurando a barriga o janota habitual de todas as festas de casamento. Fingirá sofrer ou realmente será torturado por dores de origem misteriosa. exceto aquela venenosa. Todos riem. querida?” “Temo-os menos que suas prováveis traições. “Não tem medo.. mesmo temendo a presença de alguns absolutamente mortais”. pede demissão porque foi ofendido 206 Cozinha futurista. fígado e feijão em caldo de codorna) é conduzida no alto sobre três dedos pelo cozinheiro que salta com a perna esquerda. entre uma perdiz e uma lebre. equilibrada sobre a cabeça. Há cogumelos de toda espécie. será tanto um ganho de tempo mediante um final de viagem imprevista. ao sair um instante.. Proceda-se à limpeza com a ajuda de todos. pomposamente elogiados pelo habitual caçador maníaco: .diz a esposa. entrando enfurecido. reentrará com uma bacia. Serão servidos então cogumelos trufados. Se este prato. O esposo se mantenha calmo: será ele que. Muitos devoram os cogumelos. Eu não hesito. De qualquer modo estão tão bem cozidos que lhes aconselho atacá-los audazmente. Explode naturalmente uma competição heróica. Uma sopeira de magnífica sopa conhecida e amada por todos (arroz.Fillippo Tommaso Marinetti Reina então durante a refeição um equilíbrio que responde ao equilíbrio dos estados de ânimo. cheia de risoto à milanesa com açafrão e abundantes trufas de coloração pecado. amarelar o vestido nupcial como uma duna africana. malvado!” Então. “São tão bons”. A menos que minha miopia tenha me pregado uma bela peça. ao cair também. O cozinheiro. certamente um pouco cedo.indd 206 7/4/2009 15:51:26 .

Entontecidos pelas palavras.A cozinha futurista mortalmente pelas suspeitas e não pelos cogumelos que são inocentísssssssimos. verificadísssssssimos. Ele mesmo preparou na cozinha esta iguaria formada com a pasta de outras perdizes quase putrefatas e maceradas com os velhos queijos robiola no rum. embriagados pelo suavíssimo perfume de cloaca suave. tive que descer até o fundo da torrente e subir novamente.Entre todas essas perdizes. A cada vez reconhecia as mais belas penas avermelhadas. move-se”. depois recheadas de feijões cozidos em um mar de leite. por outro lado.indd 207 7/4/2009 15:51:26 . De uma costa a outra. são servidas lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. custou-me uma perseguição de dez quilômetros. aos estômagos agora tão aquecidos por equilibrismos de felicidade. que substitui o habitual sorvete inadequado. regando-o com vinhos Barbera e Barolo. os convidados comem-no abundantemente. aquela ali. Mas. Comida de caçadores. a maior. Recomeça o caçador: “. sempre sob a eloquência do caçador. no mesmo vale. cogumelos alarmantes e perdizes dinâmicos. Agora está finalmente parada. move-se ainda talvez. 207 Cozinha futurista. isto é. Frio intenso nos comensais. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio econômico 1) “O agreste absoluto”: maçãs assadas ao forno. parece viva. Segue um Fernet para todos.acrescenta o janota.” -“Para a virtude ambulante dos vermes.

4) A inevitável aceleração do ritmo das mandíbulas que fogem do tédio. depois recheadas com anchovas e servidas sobre um leito. metade formado por pesto de espinafre e metade por patê de lentilhas. cada um. os pratos-retratos: 208 Cozinha futurista. Benedetta. sobre uma mesa cujas quatro pernas serão constituídas por acordeões. 2) O silêncio carregado de pensamentos meditativos que contamina e enchumba os pratos. decorada com aeropinturas e aeroesculturas dos futuristas Tato.Fillippo Tommaso Marinetti 2) “Abominação campestre”: berinjelas cozidas em tomate. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de solteiro A cozinha futurista propõe-se a evitar os defeitos que distinguem as refeições dos solteiros: 1) A solidão anti-humana que fatalmente absorve uma parte das forças vitais do estômago. 4) “Bosque inundado ao pôr-do-sol”: endívias cozidas ao vinho. 3) “Pimentão urbanístico”: grandes pimentões vermelhos que fecharão. imitando sua típica voz de míope cano de escapamento. uma pasta de maçãs cozidas envoltas em folhas de alface caramelizadas. Este menu deve ser degustado enquanto um hábil recitador faz explodir a lírica humorística do Poeta-record Nacional Farfa. em ressoantes pratos ornados de sininhos. 3) A falta de carne humana viva e presente que é indispensável para manter o paladar do homem confinado na zona das carnes animais. são apresentados. salpicadas por feijão cozido e caramelizado.indd 208 7/4/2009 15:51:26 . Em uma sala. Dottori e Mino Rosso.

Será servido em uma casa de campo construída especialmente por Prampolini (a partir da concepção de Marinetti). a segunda para a massa dos odores de um paiol e relativo reservatório de frutas. tudo coberto por pétalas de violeta. Bem engravatado com tripa ao brodo. cada um com uma poça de vinagre por cima e sobre um dos lados pendurado um grande sino.A cozinha futurista 1) “prato-retrato louro”: um belo pedaço de vitela assada esculpido com duas grandes pupilas de alho em um ninho de repolho triturado e fervido e alface verde. 3) “Prato-retrato da bela desnuda”: em uma pequena bacia de cristal. 4) “Porta-retrato dos inimigos”: sete cubos de torrone de Cremona. 209 Cozinha futurista. a quarta sobre a estufa quente e relativa ciranda de plantas odoríferas raras deslizante sobre trilhos. calmo preguiçoso solitário putrefato. Uma romã aberta na boca. As portas-janela. a terceira para a massa dos odores do mar e relativa peixaria. mas serão saciados apenas de perfumes. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio extremista Para esta refeição em que não comerão. do mais amplo e marino dos mares. estejam os convidados em jejum há dois dias. 2) “Prato-retrato do amigo moreno”: bochechas bem modeladas de massa podre – bigodes e cabelos de chocolate – grandes córneas de leite e mel – pupilas de alcaçuz. cheia de leite apenas ordenhado. Brincos pendurados de rabanetinhos vermelhos untados em mel.indd 209 7/4/2009 15:51:26 . que se abrem eletricamente mediante botões postos sob os dedos dos convidados dão: a primeira para a massa dos odores do lago. duas coxas de frango cozidas. em uma língua de terra que divida o mais lacustre dos lagos.

2) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um navio de berinjelas fritas cobertas de baunilha. cachia8 e pimenta vermelha. Os três complexos-escultura vaporizantes param de um só golpe com a irrupção na sala de três ajudantes de cozinha embainhados de seda branca e alto chapéu branco luminoso. mantidas fora das janelas escancaradas como as comportas de um canal. desaparecendo e reaparecendo: 1) um complexo-escultural munido de vaporizador com a forma e o odor de um castelo de risoto à milanesa golpeado por um mar de espinafre encristados de creme. 210 Cozinha futurista. Os onze convidados (5 mulheres. que gritam: -“vocês são os chefes. mas também imbecis.Fillippo Tommaso Marinetti Noite de Agosto. Antes da refeição os convidados declamam “Elogio ao outono” do poeta futurista Settimelli e “Entrevista com um Caproni” do poeta futurista Mario Carli. No comprimento de uma mesa em forma de paralelepípedo afloram. 3) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um lago de chocolate que circunda uma ilhota de pimentões recheados com geléia de tâmaras. Vocês se decidem ou não se decidem a comer os pratos refinadíssimos preparados por nós. Um ensurdecedor toque de sinos de 5 minutos. O neutro treme como um sismógrafo esperançoso. Uma pausa de silêncio concedida à invasiva policonversação e quacrelogia das rãs lacustres que acompanharão a abertura lenta da 8 Flor da esponjeira. deslizando automovelmente.indd 210 7/4/2009 15:51:26 . grandes artistas? Parem de enrolar ou pegamos todos vocês a chutes”. Máxima intensidade dos perfumes da paisagem circundante. 5 homens e um neutro) têm um pequeno ventilador de mão cada. com o qual capturar à vontade o odor espargido do canto munido de um potente aspirador. Fora.

cozinheiros belos. Os cozinheiros espiam pela porta e desaparecem. de velhos juncos queimados. mas subitamente irrompe da outra porta-janela o mar com cem chispares e enguiamentos de odores salinos. Mas a frase é cancelada junto com o mar e relativa peixaria prateada por prepotentes perfumes de rosa de tal modo curvilíneas e carnudas que as onze bocas. com visões de imensos golfos espumosos e tranqüilos cais verdes frescos ao amanhecer. tragam-nos qualquer coisa para mastigar. Gane o convidado neutro: -“Pelo menos doze ostras e dois dedos de Marsala”. Todos os convidados apontam os ventiladores de mão como escudos contra a porta-janela lacustre. saindo da estufa. o segundo de abacaxi.A cozinha futurista porta-janela pressionada pelos odores de ervas podres. Entra um perfume agro-suave-pútrido-delicadíssimo de lírios civilizados que. Os ventiladores de mão cancelam tudo. põem-se a mastigar febrilmente o vazio. Confusão. deixadas até agora pensativas ou atônitas. Curto assombro. veios de amoníaco e uma lembrança de ácido fênico.indd 211 7/4/2009 15:51:26 . Abre-se então a porta-janela do reservatório de frutas e quatro odores (o primeiro de maçãs. ou então veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas”. o terceiro de uva e o quarto de alfarroba) precipitam-se na sala tornada inodora. mas selvagem. Escapa um relincho do convidado neutro. O neutro choraminga: -“Por caridade. encontra-se com o perfume idêntico. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio dinâmico 211 Cozinha futurista. vindo do lago. Os dois perfumes de vida carne luxúria morte sintetizam e então apagam todos os onze paladares famintos.

levanta tudo ele também e empurra à direita. Despencar de copos. Marinetti descreve sua ansiedade de fugir do inevitável empantanamento da sensibilidade durante a refeição: “Na noite de primeiro de junho de 1918 na barraca dos bombardeiros desafiadoramente plantada obliquamente sobre uma cresta montanhosa do Vale do Ástico. empurro brutalmente o meu companheiro da direita. Dominando o tumulto. gritos.Para não empantanar a nossa sensibilidade. alvoroço. Fome de bombardeiros depois de uma jornada de trabalho duro.indd 212 7/4/2009 15:51:26 . O prato de macarrão entorna sobre a farda. Todos empurram o doutor. agir. espremem-no como uva. Inundação de vinho. Os longos garfos vermelhos do pôr-do-sol entrelaçavam-se com os nossos. Risos. coronel Squilloni alegre e posudo na cabeceira da mesa. prontos. executam o exercício. enrolando os espaguetes sangüíneos e fumegantes. depois me levanto e brandindo uma garfada de espaguete. copos. Mas os mais jovens não amam as pausas e querem rir. eu comando: 212 Cozinha futurista. digo em alta voz: . Silêncio religioso de bocas que mastigam orações suculentas. Há muito silêncio à mesa. reclama. faca. T. capitães. Os jovens. Cabeças inclinadas sobre os pratos. mas o doutor bufa. tenentes. Com quatro bocados aplaco meu estômago. grita.Fillippo Tommaso Marinetti No romance “L’Alcova d’Acciao” F. Sabem da minha fantasia fecunda em piadas e excitam-me com olhares. Levantamno como a um peso. que cede de má vontade. comia-se e bebia-se alegremente. Espirram os seus gritos. marche! Depois levantando como posso pratos. pão. e o bom doutor está absorvido gravemente demais no ritual do macarrão. Uns vinte oficiais. deslocamento de dois lugares à direita.

cirros de porcelana violeta amassados. caro doutor. sem elasticidade. Somente o doutor não se diverte. com grande farfalhar de risadas na risada fulva do crepúsculo. rufares e becchegiro9. um calo. caro doutro. rimos enquanto o coração chorava na retirada. interromper com elasticidade futurista a sua barrigada passadista! Todos riem. garrafas espumantes de ouro. luminoso banquete aéreo suspenso a pico na planície vêneta crepuscular. ou a fraqueza de certos superiores? Com elasticidade abandonamos o Carso após Caporetto. debandados. socos. sacudidas. “Acabem com isso!”. todos nuvens de cristal incandescente. curar um gânglio. esmagar o passadismo austro-húngaro.A cozinha futurista . Como poderia. Turbilhão.Deslocamento cumprido! Todos sentados! Mas problemas. uma sífilis.indd 213 7/4/2009 15:51:26 . tombos. problemas a quem ainda deixa empantanar a própria sensibilidade!. imponho: . Fugiu para o terraço com o seu prato de macarrão. sem elasticidade. Mas os jovens são tenazes e com força imprimem à multidão uma volta tumultuosa em torno da mesa. “Basta!”. Gritos. de assalto! E termina-se a refeição confusamente. Como poderíamos. Agrada muito ao coronel o jogo bizarro. pratos e copos nas mãos! Giro total da mesa em cortejo! O reboliço se torna infernal. renovar integralmente a Itália depois da vitória? Imponho-lhe. Fora.Para não empantanar a nossa sensibilidade. ao bater na água. uma otite. “caramba!”. E você. Ameaçando-o burlescamente... Os meus amigos cantam ao redor do doutor o hino da burla futurista: Iró iró iró pic pic Iró iró iró pac pac 9 O substantivo refere-se provavelmente a um movimento ou um som semelhante ao feito por um barco em alta velocidade. fora. Onde está o doutro? Onde está? Todos o procuram. O doutor me olha assustado. 213 Cozinha futurista. não se esqueça de que a mais alta e preciosa virtude é a elasticidade.

todos se precipitarão furiosamente de assalto.indd 214 7/4/2009 15:51:26 . inspirando-se no grande quadro “O jogador de futebol” de Umberto Boccioni. Ao escancarar da porta. conquistar uma vintena de bolas comestíveis e. fugir para o campo. serão mantidos fora da porta de uma sala de ginástica onde pelo chão e em pequenas pirâmides serão dispostas as comidas anunciadas. Com um final de batalha gastronômica. 2) “Em quarta”: 200 fios de algodão doce enrolados num novelo. tudo enrolado em uma finíssima fatia de presunto macerada em Marsala. *** Dinamicamente então propomos os seguintes pratos: “Passos de corrida”: composto de arroz.Fillippo Tommaso Marinetti Maa – gaa – laa Maa – gaa – laa RANRAN ZAAAF Matavam assim as nostalgias”. rum e pimenta vermelha. com bocas mastigantes e mãos agarrantes. de bocas abertas. envoltos e embolotados em uma fatia de polenta esborrifada com água de colônia italiana. Seqüência de bocas dentes mãos. coberta de vinho moscato de Siracusa. as mangas arregaçadas. 214 Cozinha futurista. um sem a cabeça. superando janelas e terraços. Os convidados vestidos esportivamente. Comerão melhor aqueles que conseguirem manter à distância os adversários com chutes. bocas abertas e mãos ameaçadoras. 3) “Colisão de automóveis”: semi esfera de anchovas prensadas conjunta a uma semi esfera de pasta de tâmaras. embrulhados em fatias de abacaxi e regados com Asti espumante. os lutadores não ensacam os golpes: engolem-nos. 4) “Perdendo uma roda”: quatro tordos assados com muito gengibre e sálvia. 5) “Bombas de mão”: esfera de torrone de Cremona envolta em uma grande bisteca malpassada. O habilíssimo entretanto será aquele que conseguir.

estádios esportivos. reunidos na Direção do Movimento Futurista em Roma. com uma sensibilidade espacial que coloca o glorificado a 600 quilômetros dos glorificantes. para melhor construir a casa futurista. arranha-céus. Civello. aperfeiçoamna com os dentes. ligados todavia por fio eletrônico. Sete telas (60 cm de altura) de bacalhau ao leite. isto é. Vittorio Orazi. Cinco pirâmides (40 cm de altura) de minestrone frio. Dez cilindros (30 cm de altura) de torrone de Cremona. Rognoni. prensado. rampas de aeroportos.indd 215 7/4/2009 15:51:26 . os poetas futuristas Escodamè. Pandolfo. Giacomo Giardina. Os futuristas. Seis esferas (15 cm de diâmetro) de risoto à milanesa. Maino. arquitetonicamente. 215 Cozinha futurista. belvederes. com mãos de criança. baterias de encouraçados. Voltolina e Degiorgio do grupo paduano e os pintores Alf Gaudenzi e verzetti do grupo futurista e vanguardista “Síntese”. Vinte tubos (1 metro de altura) de pasta de tâmaras. Krimer.A cozinha futurista Fórmula do aeropoeta futurista e do aeropintor futurista Marinetti Fillìa Cardápio arquitetônico sant’elia Em honra do Poeta-Record nacional de 1931. Cinco blocos ovais (20 cm de altura) de pasta de bananas. Oito paralelepípedos (10 cm de altura) de espinafre na manteiga. cais de portos militares. pistas sobrelevadas: Trezentos cubos (3 cm de altura) de massa podre. subiram e comeram alternativamente. Gerbino. Samzin. sentados cada um sobre tambores (15-60-100 e 300 cm cada) não-comestíveis de macarrão comprimido. um sobre o outro em forma de torre. os pintores Dormal. Vasari e Soggetti. Bellonzi. Burrasca. Farfa (vencedor do circuito de poesia “Sant’Elia”).

Os comensais. comerão assim vilarejos.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropictórico na fuselagem Na ampla fuselagem de um grande Autoestável DeBernardi. Tato. Recheiam-nas com uma pasta de gema de ovo. casca de limão. Benedetta. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeroescultural na fuselagem Na grande fuselagem de um Trimotor. timo. cenoura. entre as aeropinturas dos futuristas Marasco. entre as aeroesculturas de metais aplicados dos futuristas Mino Rosso e Thayaht. alho. empunhando pequenos sinos de cerâmica cheios de Barolo misturados a Asti espumante. chácaras e planícies raptadas em velocidade. alcaparras. ovas e fígado de lagosta. Besuntam-nas com curry em pó e devolvem-nas às suas cascas tingidas aqui e ali por azul de metileno. Bizarramente depois as 5 lagostas serão dispostas em desordem e distanciadas sobre uma grande aerocerâmica Tullio d’Albisola acolchoada por vinte qualidades diferentes de salada: estas geograficamente dispostas em quadrados. que se ligam aos aerocumes e às nuvens do horizonte navegado a mil metros. os comensais 216 Cozinha futurista. Oriani e Munari.indd 216 7/4/2009 15:51:26 . os comensais liberam do casco intactas 5 lagostas e cozinham-nas eletricamente na água do mar.

depois de liberados das formas. A janelinha da direita: tilintar de vidro madeira tintilhões e sininhos. polpa de camarões. frutas cristalizadas e queijo gruyère. cebolinhas. Todos serão cozidos eletricamente. Encherão onze formas (untadas e enfarinhadas) cada uma de um formato típico de montanha. Na boca responde-lhe rusticamente o sabor de uma bolota de mel. despenhadeiro. pão-de-ló e biscoitos triturados.indd 217 7/4/2009 15:51:26 . tomate e polpa de lagosta. a sugar a geléia de anis branco que filtra uma nuvem. Os olhos fogem à direita. em número de três.A cozinha futurista prepararão uma massa de fécula de batata. À frente dos comensais. o altímetro redondo denuncia: 3.000 metros em um céu bipartido: dengoso luar de meia lua madreperolado e esverdeado e semi-esfera de meias nuvens fulguradas de longos escorpiões de ouro. seu companheiro de refeição. promontório ou ilhota. Os 11 doces. serão servidos sobre uma grande bandeja no centro da fuselagem. açúcar semolado e perfumado de baunilha. Abaixo a pico um rio de solidíssima prata derrete o estuário das suas enguias frenéticas em um mar de piche adornado por níquel lunar. Perto dele o conta-giros. enquanto os comensais brincarão e devorarão massas de claras em neve como faz o vento lá fora com os cimos e os cúmulos brancos. ovos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropoético futurista Na fuselagem de um Trimotor voando a 3.000 217 Cozinha futurista. através da outra janelinha. pedaços de solha.000 metros comidos. regada abundantemente com Vinho Santo toscano. denuncia: 20.

todos serão levados ao salão de banquete provido de muitas pequenas mesas para duas pessoas: estupor do próprio com- 218 Cozinha futurista. Presença das mãos vazias. todos serão introduzidos em uma grande sala escura. com a colaboração dos pintores futuristas Depero. Ronco crítico dos intestinos. Escolhas feitas. A boca do comensal humano da direita suga um tubo de neon amarelo vermelho dourado de verão África eterna. sem móveis: sem ver. Mastigar o infinito. Prampolini e Diulgheroff. A pico sobre si mesmo. cartões. etc. lâminas de alumínio. lixas. Balla. rapidamente. escovas. Cada convidado. veludos. tantos pijamas quantos serão os convidados: cada pijama será feito ou recoberto de materiais táteis diferentes como esponjas. Um pouco mais de mel das abelhas inspiradoras de poetas gregos na boca do aeropoeta futurista. feltros. sedas. Do outro lado do altímetro. palhas de aço. Obliqüidade da força artística. cortiças. Leveza. Depois. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio tátil O dono da casa terá o cuidado de preparar. Voar.indd 218 7/4/2009 15:51:26 . O estômago do comensal humano central corrige com muitos ácidos vulgares a indigerível potência excitatória do licor de lua abstrato poético suicida. Amor quente macio muito distante. deverá vestir separadamente um dos pijamas. alguns minutos antes da refeição. o velocímetro denuncia: 200 quilômetros digeridos. cada convidado deverá escolher o próprio companheiro de mesa segundo sua inspiração tátil.Fillippo Tommaso Marinetti giros devorados.

o conteúdo do prato. enquanto com a mão esquerda girará a manivela. 3) “Hortotátil”: serão postos à frente dos convidados grandes pratos contendo uma numerosa variedade de verduras/legumes crus e cozidos. já que o menu é todo baseado em prazeres táteis. em frente às mesas. Será preciso segurar a tigela com a mão esquerda e agarrar com a direita as esferas misteriosas contidas no interior: Serão todas esferas de açúcar queimado. os convidados deverão ininterruptamente nutrir seus dedos no pijama do vizinho de mesa. Todas as vezes que os convidados se afastarem dos pratos para mastigar.indd 219 7/4/2009 15:51:26 . 2) “Vianda mágica”: servir-se-ão tigelas não muito grandes. 219 Cozinha futurista. enfiado pela metade. sem sal. de tal modo que os convidados não possam intuir qual sabor será introduzido na boca. Cada um dos comensais usará a mão direita para levar à boca. imergindo o rosto no prato e inspirando assim o próprio gosto no contato direto dos sabores sobre a pele das bochechas e sobre os lábios. os garçons esborrifarão em seus rostos perfumes de lavanda e água de colônia. A caixa liberará assim ritmos musicais: então todos os garçons. Entre um prato e outro. mas cada uma recheada de elementos diversos (como frutas cristalizadas ou fatias finas de carne crua ou alho ou pasta de bananas ou chocolate ou pimenta). Poder-se-á experimentar a gosto estas verduras/legumes. um prato fundo de porcelana. até o esgotamento da iguaria. No prato: folhas de alface sem tempero.A cozinha futurista panheiro indicado pela sensibilidade refinadíssima dos dedos sobre as matérias táteis. recobertas externamente por materiais têxteis rugosos. tâmaras e uvas. Será servida a seguinte lista de iguarias: 1) “Salada polirítmica”: às mesas aproximam-se os garçons portando para cada convidado uma caixa munida de manivela do lado esquerdo e que tem no lado direito. iniciarão uma lenta dança de grandes gestos geométricos. mas sem a ajuda das mãos. sem ajuda de talheres.

querendo provar à mesa o sabor e o perfume de todas as suas hortas. Na sala é regulada uma temperatura de frescura primaveril. Os convidados. Apaga-se a primeira parede e acende-se a segunda: brilham as esmeraldas dos campos e os vermelhos das fazendas que se perdem entre as terras redondas das colinas e os azuis metálicos dos lagos. Proponho portanto este menu-síntese-da-Itália: Uma quadrada sala de teto azul. no passado. No início da refeição a primeira parede é iluminada por trás e ressaltam assim os perfis geométricos das montanhas brancas e morenas. “Agreste civilizado”: bolo de arroz branco cozido sobre o qual imprimem-se largas e tenras folhas de rosa. Hoje podemos degustá-lo. e os pinheiros verdes. tingem-se as mãos com azul de metileno. os seus pastos e seus jardins. antes de comer. mas não nos foi possível. cujas paredes são formadas por enormes pinturas futuristas sobre vidro representando: uma paisagem alpina Depero – uma paisagem de planície com lagos e ao fundo colinas Dottori – uma paisagem vulcânica Balla – uma paisagem de mar meridional animado por ilhotas Prampolini. um apetitoso alimento para os estrangeiros.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio síntese da itália A Itália sempre foi. carne de rã desossada e ce- 220 Cozinha futurista. Serve-se o primeiro prato “Sonho alpestre”: pequenas formas ovais de gelo envolvidas por massa de castanhas e apresentada sobre grossos discos de maçã salpicadas com nozes molhadas no vinho Freisa. Aumenta a temperatura da sala.indd 220 7/4/2009 15:51:26 . fazer-nos servir de uma só vez os tantos pratos regionais.

apresentado navegando em um litro de marsala. entra na sala. Enquanto os convivas comem. 2. a garçonete-lista-de-pratos: formosa moça jovem inteiramente revestida por uma túnica branca na qual é desenhado a cores um completo mapa geográfico africano que lhe envolve todo o corpo. gomos de laranja. 221 Cozinha futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio geográfico 1. Apaga-se a segunda parede e acende-se a terceira: dinamismo atmosférico do Vesúvio incandescente. bananas.indd 221 7/4/2009 15:51:26 . Apaga-se a terceira parede e acende-se a última: esplendor das ilhotas luminosas na espuma fervente do mar. Na sala. giesta e cachia é esborrifado no ar. pêras cruas e cassis. Uma sala de restaurante decorado com alumínio e tubos cromados. enquanto gramofones invisíveis rodam barulhentos discos negros. Os comensais. É levado à mesa envolto em sutis fatias de cordeiro assado e imerso em vinho de Capri. o clima é de verão. Um violento perfume de cravos. caranguejos. consultam grandes atlas. Temperatura tórrida na sala. “Sugestão do Sul”: uma grande erva-doce na qual são incrustados rabanetes e azeitonas sem caroço. sentados em torno de uma mesa de metal com o plano horizontal em linóleo. os garçons fazem passar rapidamente sob os seus narizes um quente perfume de gerânio. ostras e alfarroba.A cozinha futurista rejas muito maduras. As janelas redondas permitem vislumbrar misteriosas distâncias de paisagens coloniais. 3. Terminada a refeição acendem-se juntas as quatro paredes e são servidos sorvetes misturados a abacaxi. seguida à distância pelos garçons. “Instinto colonial”: um colossal robalo recheado de tâmaras. Quando inicia-se a refeição.

Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio de fim de ano O hábito já matou a alegria das grandes ceias de fim de ano: há muitos anos os mesmos elementos concorrem a uma alegria já muitas vezes apreciada. variando para cada refeição os mapas geográficos e as garçonetes-lista-de-pratos e não permitindo conhecer antecipadamente os pratos. mas indicando no mapa a cidade ou as regiões que seduzem a fantasia turística e aventureira dos comensais. Em volta da pirâmide maior. Dominará portanto uma orientação alimentar inspirada pelos continentes. pirâmide de tâmaras sem caroço imersa em vinho de palma. um dos garçons silenciosamente se afastará e retornará em seguida trazendo o prato correspondente àquela cidade. sobre o joelho esquerdo da garçonete-lista-de-pratos. 6. Assim continuamente. É preciso destruir os hábitos para sair da monotonia. Exemplo: se um comensal aponta um dedo para o seio esquerdo da Garçonete-lista-de-pratos onde está escrito CAIRO. Neste caso: “Amor sobre o Nilo”. Devem-se escolher os pratos não segundo a sua composição. Se um outro comensal aponta com o dedo. pelas regiões e pelas cidades. o garçom lhe servirá a “Vianda Abibi”: meio coco. 222 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti 4. cubos de laticínios de canela recheados com grãos de café torrados e pistaches. recheado com chocolate e disposto sobre um fundo de carne crua finamente moída e regada com rum da Jamaica. 5. Lembranças de família.indd 222 7/4/2009 15:51:26 . 7. Cada um conhece com antecedência a engrenagem precisa dos acontecimentos. o nome ZANZIBAR. augúrios e previsões volteiam como cópias de impressão.

Battistella. levantam-se e lançam-se contra o incauto conservador de tradição. Serve-se o infaltável peru que os garçons distribuem em pratos de metal: o peru é recheado de tangerinas e de salame. uma atrás da outra. para tentar estabelecer uma conversação qualquer. Pandolfo. da antesala ao banheiro. Vencido pelo silêncio. Vignazia. Belli. exasperada pelo torpor muito longo. anuncia-se que a refeição está pronta. Competição violenta entre os fornos acesos.A cozinha futurista Existem mil maneiras para renovar este banquete: eis um deles. Entretanto. como por uma palavra de ordem. D’Avila. outros descobriram o depósito dos vinhos e forma-se assim um banquete excepcional que vai da cozinha ao quarto. Desfilam os pratos combinados quase 223 Cozinha futurista. após a infinita conversação de espera. Na sala as mesas foram eliminadas e os convidados sentaram-se em cadeiras dispostas em fila indiana. A alegria finalmente. libera-se na sala um peru vivo que se debate assustado entre a surpresa dos homens e os gritos das mulheres que não entendem esta ressurreição da comida ingerida.indd 223 7/4/2009 15:51:26 . A cozinheira e as duas garçonetes são afastadas à força e cada um se dispõe a idealizar uma variação nos pratos. explode e os convidados se debandam pela casa enquanto os mais audazes invadem a cozinha. um dos presentes diz: -“Ainda não expressei meus desejos para o ano novo. À meia-noite. que é repetidamente esbofeteado. Todos comem sob um silêncio imposto: o desejo de barulho e alegria é reprimido. etc. A ordem é restabelecida e cada um volta a conter a alegria desencadeada por um momento. gritos e chuva de alimentos. por nós realizado com os futurissimultaneístas de Roma: Mattia.” Todos então. à despensa. enquanto frigideiras e caçarolas passam de mão em mão entre risadas. Subitamente.

” Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio rejuvenescedor Geralmente. Um convidado conta à dona da casa: -“Há quinze anos. conforme o espírito de veloz harmonia que anima os novos cozinheiros.indd 224 7/4/2009 15:51:26 . enquanto três ritmos diferentes de música japonesa acompanham o serviço dinâmico. Convido-os todos para o próximo fim de ano. No escuro. Estupor. nesta mesma data. gomos de limão e fatias de rosbife: a lembrança do passado naufraga em um presente extraordinário. em benefício próprio. as dificuldades a vencer por uma nova alimentação são aumentadas pelos proprietários de restaurantes que. incapazes ou temerosos.” Mas naquele momento apresentam-lhe uma tigela cheia de espumante onde navegam couves-flores. Todas as suas preocupações limitam-se a ajudar o cliente quando veste o sobretudo. onde finalmente provaremos comidas de sabor desconhecido ao nosso paladar e bebidas imprevisíveis. Os mais jovens berram: -“sepultada a lembrança! devemos iniciar o ano de modo finalmente diferente dos banquetes anteguerra!” Três gramofones funcionam como mesa e sobre discos transformados em pratos rotatórios as senhoras atacam confeitos.. para um banquete na Lua. não pretendem renunciar à antiga cozinha.Fillippo Tommaso Marinetti pela magia.. Se os proprietários e os funcionários dos restaurantes colaborassem. A dona da casa apaga inesperadamente a luz. ouve-se a voz de um convidado: -“neste ano conseguiremos romper o invólucro da atmosfera e alcançar os planetas. para convencer das necessidades de nutrir- 224 Cozinha futurista. cilindros de queijo parmesão e ovos cozidos.

225 Cozinha futurista.indd 225 7/4/2009 15:51:27 .deve chegar a conceber para cada prato uma arquitetura original. A cada cozinheiro pede-se a formação de uma mentalidade que: . possivelmente diferente para cada indivíduo de modo tal que TODAS AS PESSOAS TENHAM A SENSAÇÃO DE COMER. como seus irmãos que vivem no subterrâneo da história. TAMBÉM OBRAS DE ARTE. o garçom deveria proferir este breve e esclarecedor discurso: -“a partir de hoje a nossa cozinha elimina o macarrão. muitas dúvidas e muitas ironias poderiam ser superadas e os restaurantes perderiam a trivialidade dos hábitos quotidianos. imprevisto e alegria. empanturram adoecem inutilizam o estômago. Chegamos a essa decisão porque o macarrão é feito de silenciosos longos vermes arqueológicos que. variedade. Vermes brancos que o senhor não deve introduzir no corpo se não quiser deixá-lo fechado escuro e imóvel como um museu. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio improvisado Estes cardápios improvisados são aconselhados com o objetivo de atingir um máximo de originalidade. surpresa.”O italiano da nossa época veloz não deixará de sensibilizar-se ante tal argumento. . depois frito em manteiga. comprimido em pequenas esferas cruas de alface esborrifada com grappa e servido sobre uma pasta de tomates frescos e batatas cozidas.deve compreender que a forma e a cor são tão importantes quanto o sabor. O garçom lhe servirá então este “cardápio rejuvenescedor”: arroz cozido. Ao habitual cliente que entra e pede um prato de espaguetes. além de uma boa comida.A cozinha futurista se mais modernamente.

antes de preparar a refeição.deve. admirará sua imagem refletida no prato. Ela. de escolha refinadíssima. levando em conta. Carnadorada: um grande prato feito com um brilhante espelho. portando todo tipo de alimento: simplificar-se-á assim a preparação individual porque cada um será levado a conquistar o prato preferido para si. garçons e Diretores sobre a atribuição das diferentes iguarias. por meio de tapetes-móveis que deslizam à frente das pessoas.indd 226 7/4/2009 15:51:27 .deve possivelmente chegar às refeições em movimento. o espírito humano da aventura e do heroísmo. no terraço de um grande Hotel. na noite da cidade. . Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio declaração de amor Um tímido enamorado deseja exprimir a uma moça bela e inteligente os seus sentimentos. de certo modo. E a escolha será duplamente apreciada porque desenvolverá. estudar o caráter e a sensibilidade de cada um. Com este propósito lhe fará servir. na distribuição dos pratos. enquanto come. que o garçom fará somente admirar. 226 Cozinha futurista. a constituição física e os fatores psicológicos. Para os cardápios improvisados pode-se naturalmente discutir entre cozinheiros. mas nunca se deve levar em conta o gosto pessoal dos comensais. a seguinte refeição-declaraçãode-amor: Tedesejo: antepasto composto de elementos diversos.Fillippo Tommaso Marinetti . No centro. filés de frango perfumados com âmbar e recobertos por uma fina camada de geléia de cerejas. enquanto Ela se contentará com pãezinhos e manteiga. o sexo. a idade.

um de ameixa. rum. onde havia pinturas de Arte Sacra futurista. Estanoiteláemcasa: uma laranja muito madura fechada em um pimentão maior esvaziado e enfiado em um grande zabaione ao gim. Ela. um de arroz doce. salgado por pedacinhos de ostras e gotas de água do mar. etc. que visitaram em Turim os apartamentos do Engenheiro Barosi e do Doutor Vernazza. isto é. Em frente aos copos.A cozinha futurista Teamareiassim: pequenos tubos de massa podre recheados de sabores diferentíssimos. são dispostos: fatias de carne sortidas maceradas sob uma pasta de abacaxi – cebolas cruas cobertas por geléia – filés de peixe escondidos entre chantilly e zabaione – pãezinhos de manteiga untados com caviar e introduzidos em uma grande abóbora. é oferecida uma refeição assim composta: Sobre uma grande mesa são alinhados 20 copos iguais.indd 227 7/4/2009 15:51:27 . sem piscar. Na superfície são feitos pequenos furos. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio sacro Aos eclesiásticos futuristas. licor de menta. um de maçãs cozidas no rum. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa 227 Cozinha futurista. enchidos com anis. em 20 pratos de alumínio. gim e bitter. mediante uma oportuna e humilde consulta à inspiração divina. mas contendo. um de batatas embebidas em conhaque. comerá todos. Os eclesiásticos devem escolher sem errar. Superpaixão: um bolo de massa doce compacta. em proporções diversas: água mineral tingida de vermelho – vinho branco dos Castelos Romanos tingidos com azul de metileno – leite frio tingido de laranja.

impossibilitados pelo turbilhão de negócios a deter-se em um restaurante ou de voltar para casa. sem falar. satisfazer ou excitar o apetite. Pequenos “termo”10 em forma de canetas-tinteiro repletos de chocolate quente. segurando um lírio na mão. 10 Recipiente térmico.Fillippo Tommaso Marinetti Cardápio simultâneo Para executivos. Livros contábeis de bolso conterão peixe comprimido. 228 Cozinha futurista. Em um grande cachimbo de metal esmaltado de vermelho. com forninho elétrico cozinhará uma sopa. serve-lhes vinte ovos frescos que foram furados dos dois lados para injetar em seu interior um tênue perfume de acácias: os negros aspiram o conteúdo dos ovos. Da pasta poderão folhear cartas e faturas perfumadas com diversas intensidades. será confeccionado um cardápio simultâneo que lhes permitirá continuar as diversas atividades (escrever caminhar discursar) e alimentar-se ao mesmo tempo. invadidos por um estado de ânimo indefinido que os faz desejar a conquista dos países europeus. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio desejo branco Dez negros reúnem-se à mesa em uma cidade marítima. para calmar. com uma mistura de tendências espirituais e de vontades eróticas. Uma cozinheira negra.indd 228 7/4/2009 15:51:27 . Toda a sala está imersa em uma penumbra misteriosa e as lâmpadas invisíveis permitem somente uma luminosidade suficiente para ver a mesa coberta por uma camada de vidro escuro brilhante. sem quebrar a casca.

O estado de ânimo dos negros é quase inconscientemente sugestionado por todos os pratos brancos ou cândidos. A sensibilidade dos negros se apaga no sabor-cor-odor branco dos pratos. com fortíssima fluorescência verde-amarelada em solução. A sala de jantar é toda escura. 11 Substância cristalina. grappa ou gim. e dos dois lados em direção ao centro. fontes luminosas graduáveis iluminarão de cem modos diferentes o plano de cristal. Ao mesmo tempo. variando intensidade e cor dependendo dos pratos.indd 229 7/4/2009 15:51:27 . sob a mesa. fechados sob uma camada de manteiga e dispostos sobre um leito de arroz cozido e chantilly. através da própria lâmina de cristal. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio astronômico A mesa é constituída por uma lâmina de cristal apoiada sobre reluzentes barras de alumínio. A cozinheira negra retorna ainda com uma bandeja cheia de pedaços de polpa de côco escrustrados de torrone. alaranjada. Amanhecerá assim em taças de cristal um brodo consumido tornado fluorescente mediante uma mínima quantidade de “fluoresceína”11. bebe-se anis puro. De baixo para cima. enquanto do teto desce lentamente em direção à mesa um globo incandescente de vidro leitoso e por toda a sala se expande um perfume de jasmim. pulverulenta. 229 Cozinha futurista.A cozinha futurista Então é trazida uma grande sopeira com leite frio no qual foram imersos pequenos cubos de mussarela e uvas moscatel. Todo o serviço é de cristal.

beterrabas e laranjas. Depois. na noite da sala. Fórmula do futurista Dr. mosaico de pistaches e pimenta vermelha. Sirocofran 230 Cozinha futurista. Entardecerá um prato feito de fatias muito finas de salmão defumado. mover-se-á lentissimamente sobre o cristal que se tronou abstrato.indd 230 7/4/2009 15:51:27 .Fillippo Tommaso Marinetti Dará meio-dia em carne crua salgada. único corpo iluminado. uma esfera cosmográfica de spumone (50 cm de diâmetro). regados com limão e perfumados ternamente com baunilha. Uma bomba em forma de telescópio lançará parábolas de espumante Asti.

indd 231 7/4/2009 15:51:27 . e metade incrustada por esferas de carne de coelho muito cozidas ao vinho. feito com o Mosto. 231 Cozinha futurista. Para ser comida. metade incrustada por quadrados de carne crua de jovem camelo. regando cada bocado de camelo com um gole de água do Serino e cada bocado de coelho com um gole de Scirá (vinho turco. sem álcool). temperada com alho e defumada.A cozinha futurista receitáriO FuturistA para restaurantes e aquisibebe A dosagem sumária de muitas destas fórmulas não deve preocupar mas sim excitar a fantasia inventiva dos cozinheiros futuristas cujos eventuais erros poderão freqüentemente sugerir novas invenções Decisão (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) ¼ de vinho quinado ¼ de rum ¼ de Barolo fervente ¼ de suco de Tangerina Inventina (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) 1/3 de Asti espumante 1/3 de licor de Abacaxi 1/3 de suco de Laranja gelado Vianda simultânea (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Uma gelatina de frango.

fatias de banana. uma cereja e um fragmento de figo seco. A poucos centímetros da proa. Entredois (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Duas fatias retangulares de pão: uma untada de pasta de anchovas. em forma de coroa. um obstáculo de pão forte de Siena. um camandantezinho esculpido em queijo holandês que dirige uma frouxa tripulação esboçada em miolos de vitelo cozidos no leite. Entre as duas fatias de pão: salame cozido. derramar sobre a semi esfera um molho de vinho branco quente encorpado com fécula e sobre a coroa um molho de cerveja quente.indd 232 7/4/2009 15:51:27 . 232 Cozinha futurista. aqui e ali salpicada de fragmentos de ricota. a bordo. gemas de ovos e queijo parmesão. a outra com pasta de casca de maçãs trituradas. de modo a criar uma precisa decoração verde e vermelha. Sobre este mar verde e vermelho colocam-se complexos formados por pequenos filés de peixe fervido. No momento de servir à mesa. Todoarroz (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Arroz branco cozido assim disposto: uma parte no centro do prato em forma de semi esfera – uma outra parte em volta da semi esfera. navega meio melão com. Pulverizar o navio e o mar com canela ou pimenta vermelha. Mar da Itália (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Sobre um prato retangular dispõe-se uma base formada por listas geométricas de molho de tomates frescos e de espinafres.Fillippo Tommaso Marinetti Mesa vocabulivre marina (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Sobre um mar de salada crespinha.

Os alimentos devem ser levados diretamente à boca com a mão direita. é coroado por uma camada de mel (C) e sustentado na base por uma anel de lingüiça (B).A cozinha futurista Cada um desses complexos é mantido unido por um palito de dentes que sustenta verticalmente os diversos elementos. Aerovianda (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Serve-se à direita de quem come um prato com azeitonas pretas. Enquanto isso. que se apóia sobre três esferas douradas (D) de carne de frango. dos jardins e dos prados da Itália) é composto por uma grande almôndega cilíndrica (A) de carne de vitela assada recheada por onze qualidades diferentes de legumes e verduras cozidos.indd 233 7/4/2009 15:51:27 . Serve-se à esquerda de quem come um retângulo formado de lixa. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato. seda e veludo. LIXA SEDA VERMELHA VELUDO PRETO 233 Cozinha futurista. enquanto a mão esquerda alisa leve e repetidamente o retângulo tátil. corações de erva-doce e bergamotas. Carnescultura (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) O “carnescultura” (interpretação sintética das hortas. os garçons esborrifam nas nucas dos comensais um comperfume de cravo enquanto vem da cozinha um violento comrumor de motor de aeroplano contemporaneamente a uma desmúsica de Bach.

Envolver as trutas em finíssimas fatias de fígado de vitelo. Servi-la em abundante molho 234 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Diabo em túnica negra (polibebida do aeropintor futurista Fillìa) 2/4 de suco de laranja ¼ de grappa ¼ de chocolate líqüido Imergir a gema de um ovo cozido.indd 234 7/4/2009 15:51:27 . em queijo. de acordo com as iniciais dos seus nomes que determinarão assim a combinação dos diversos alimentos. em massa podre e em açúcar queimado. Alfabeto alimentar (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Todas as letras do alfabeto são recortadas (com grande espessura. Promontório siciliano (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Atum maçãs azeitonas e amendoins japoneses são triturados juntos. Então deixá-la mergulhada por um minuto em muito suco de limão. À caça no paraíso (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Cozer lentamente uma lebre em vinho espumante onde se dilui chocolate em pó. até a sua consumação. de modo que permaneçam em pé) em Mortadela de Bolonha. Trutas imortais (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Rechear as trutas com nozes trituradas e fritá-las em azeite. A pasta que deriva é espalhada sobre uma omelete fria de ovos e geléia. Servem-se duas por pessoa.

As grandes águas (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) ¼ de grappa ¼ de gim ¼ de cominho ¼ de anis Sobre o líqüido flutua um bloco de pasta de anchovas envolta cirurgicamente em uma hóstia. é servido em pé em um prato contendo café expresso quentíssimo misturado com muita água de colônia. Fechar a parte superior da esfera com meia ameixa seca. Carrossel de álcool (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) 2/4 de vinho Barbera ¼ de cidra ¼ de bitter Campari 235 Cozinha futurista. Docelástico (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Recheia-se uma esfera de massa podre com zabaione vermelho no qual é imersa um pedaço (3 cm.) de alcaçuz em fita. salpicada de confeitos prateados que lembram as balas dos caçadores.indd 235 7/4/2009 15:51:27 .A cozinha futurista verde. a base de espinafre e zimbro. Porcoexcitado (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Um salame cru. privado da pele.

bananas sem casca. pinhõezinhos e confeitos.indd 236 7/4/2009 15:51:27 . Entre as bananas são escondidos ovos cozidos sem a gema. 236 Cozinha futurista. Paradoxo primaveril (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um grande cilindro de sorvete de creme que traz no alto.Fillippo Tommaso Marinetti No líqüido são imersos. como a vegetação de palmeiras. com pimenta sal limão. Na base do cilindro: salame. enfiados em um palito de dentes. cheios de geléia de ameixa. Prefácio gustativo (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um cilindro de manteiga que sustenta no alto uma azeitona verde. cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. No centro emerge um cone de claras batidas em neve e solidificadas. O topo do cone será bombardeado de pedaços de trufas negras cortadas em forma de aeroplanos negros à conquista do Zênite. uva passa. Equador + Pólo Norte (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um mar equatorial de gemas de ovos em suas cascas. Discos saborosos (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Bolo de frutas variadas que se apóia sobre um disco de chocolate. um quadrado de queijo e um quadrado de chocolate. O bolo é coberto por duas camadas de papa que o dividem ao meio: a primeira feita de molho de tomates e a segunda de espinafre.

Aproxima-se das bexigas o cigarro aceso e aspira-se o perfume que dali brota. Privam-se as tâmaras do caroço e amassam-nas bem (melhor ainda se são passadas na peneira). Sirocofran) Dentro de finas bexigas coloridíssimas coloca-se uma gota de perfume. procurando que os perfumes sejam variados. sabe-se bem. 500 gramas de ricota romana. Sirocofran) Para fundir a máxima pureza virginal com a máxima luxúria de perfume. Tâmaras ao luar (fórmula do futurista Dr. que cantou a virgem Heródias em uma verde paisagem palustre coberta de sensualíssimos lírios turquesa. A polpa assim obtida é incorporada à ricota até obter uma massa bem homogênea.indd 237 7/4/2009 15:51:27 . não pega peixes 237 Cozinha futurista. Perfumes prisioneiros (fórmula do futurista Dr. São levadas à mesa junto com o café. Sirocofran) 35-40 tâmaras muito maduras e doces. Servir frio. após ter mantido o prato no refrigerador por algumas horas. Escorram-no e temperem-no com finíssimo pó de rizoma de lírio. peguem arroz e façam cozinhar em muito leite convenientemente salgado. em pequenos pratos quentes. Antepasto fulgurante (fórmula do poeta futurista Luciano Folgore) Pensa que se dormes não mereces fazer um antepasto incomparável.A cozinha futurista Arroz de Heródias (fórmula do futurista Dr. exaltando-os e honrando assim o nome glorioso de Mallarmé. Elas são enchidas e levemente esquentadas de modo a vaporizar o perfume e tornar turvo o invólucro. quem dorme.

para prender até peixe em barril a fim de obter (pagando preços salgados) dois arenques ao leite e não defumados.Fillippo Tommaso Marinetti enquanto em nosso caso é indispensável estar de tal modo desperto. Feito isso pegue o leite novamente (o leite dos arenques. entende-se) para desfazê-lo no óleo ao qual une-se algumas gotas de vinagre e finalmente estenda aquele leite tenro e picante sobre os arenques que triturastes já e o antepasto fino e excitante todo apetite humano despertará. depois tire o leite que colocarás a esperar os eventos em um pratinho. logo os arenques a banho meterás quatro ou cinco horas sob água pura e quando houverem perdido a salgadura estenda-os na tábua que os deleita com um pouco de cebola e um ovo cozido depois com o oscilar da lamineta triture tudo finamente e faça de modo que a pasta seja macia e perfeita e por fim como condimento regue com azeite e vinagre a seu contento. Obtendo-os. Conta-se que um rei da Patagônia por um tal prato renunciou ao seu reino esta história é certamente uma embroma mas a bondade do prato que te ensino é tão real e alegra o apetite 238 Cozinha futurista. aliás sutil. limpe-os com carinho.indd 238 7/4/2009 15:51:27 .

A cozinha futurista que parece que Dante na Vita Nuova tenha escrito para ela. Então. a colheradas. com cuidado o suco produzido. Este risoto é futurista porque o alquequenje é uma fruta quase fora de série: certo. Risoto futurista ao alquequenje (fórmula do aeropoeta futurista Paolo Bruzzi) Preparar triturado um quilo de alquequenje separado de sua sutil membrana. mexendo sempre até ficar cor de ouro. 239 Cozinha futurista. a qual – de resto – na natureza quase não é mais encontrado. à parte. e é velocissimamente digerível como tudo o que pertence à usina (queria dizer cozinha) futurista. recolha-se. Quando estiver bem quente. asas que se jogam fora: e assim parecem um paraquedas. porque o alquequenje é dotado de asas de bom tecido como o aeroplano. É sintético porque os oito grãos contidos no bulbo ácido são como as “Marinettianas” oito almas em uma bomba. Fazer – à parte – um abundante molho de salsinha com alho e cebola em pequena dose. após o Convite “Entendê-la não pode quem não a prova”. Após vinte minutos de cozimento. tirá-la do fogo e jogar o triturado de alquequenjes (conservando o suco à parte) e o pesto de salsinha. Voltar ao fogo: e apenas tudo esteja dourado (que a cebola não se toste) acrescentar arroz suficiente para seis pessoas.indd 239 7/4/2009 15:51:27 . muito mais que o açafrão. tire tudo do fogo amanteigando bem o risoto e acrescente queijo em abundância. Colocar azeite abundante em uma caçarola. caldo convenientemente salgado e ao qual será agregado o suco dos alquequenjes. acrescentar.

e deixe-o esfriar. Mazza) Preparem um bom risoto de açafrão ou de tomate. Frango de aço (fórmula do aeropintor futurista Diulgheroff) Assa-se um frango completamente esvaziado. tendo o cuidado de tirá-lo do fogo não ao dente. ou caciocavallo. pinhõezinhos e uva passa. Assim prontas. molhando as mãos em água ou. passem as laranjinhas em farinha branca.Fillippo Tommaso Marinetti Laranjinhas de arroz (fórmula do vocabulivre futurista Arm. (Não deve ser ao dente para que os grãos de arroz possam aderir uns aos outros). Façam muitas bolotas do tamanho médio de uma laranja. Fritem-nas em abundante azeite até que fiquem loiro-douradas e sirvam-nas quentes.indd 240 7/4/2009 15:51:27 . Acrescente cubos de queijo (fontina ou mussarela. Em toda a volta da abertura do dorso levantam-se cristas de galo. depois em ovo batido e enfim em farinha de rosca. mas mais cozido. melhor. 240 Cozinha futurista. geléia de morango e regada delicadamente por Asti espumante. em azeite. crocantes. Cubram com mais risoto e arredonde-os novamente. salame ou presunto cru em cubinhos. alargando-o sem romper as paredes. Comumanuvem (fórmula do aeropoeta futurista Giulio Onesti) Uma grande massa de chantilly dardejada por suco de laranja. ou provolone fresco). faz-se uma abertura em seu dorso e completa-se o interior com zabaione vermelho sobre o qual são dispostos 200 gramas de confeitos esféricos prateados. menta. Quando esfriar. e recheiem-nas com carne à bolonhesa moída grossa e úmida de seu molho. e façam em cada uma delas um furo com o polegar.

Vitelo embriagado (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Rechear a carne crua de vitelo com maçãs descascadas. 8 bolinhas de caviar. Sorvete simultâneo (fórmula do poeta vocabulivre futurista Giuseppe Steiner) Creme de leite e quadradinhos de cebola crua gelados juntos. para ser comido.indd 241 7/4/2009 15:51:27 . Ultraviril (Fórmula do crítico de arte futurista P.A cozinha futurista Palavras em liberdade (fórmula do aeropoeta futurista Escodamè) Três mariscos. pinhõezinhos. nozes. 2 figos. Saladin) Sobre um prato retangular dispõem-se fatias finas de língua de vitelo fervida e cortada de comprido. 5 biscoitinhos de amêndoa: todos dispostos ordenadamente sobre um grande leito de mussarela. Golfo de Trieste (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Cozinhar um quilo de vôngole sem casca em um molho de cebola e alho acrescentando lentamente o arroz. A. uma pequena esfera de gorgonzola. atacando aqui e ali com as mãos. Sobre estas sobrepõem-se duas fileiras de patas de caranguejo assadas no espeto. Cozinhar no forno. um buquê de salada radicchio. enquanto o grande pintor e vocabulivre Depero declamará a sua célebre “Jacopson”. Servir frio em banho de Asti espumante ou de passito12 de Lipari. cravos. olhos fechados. Apresentar este risoto com um acompanhamento de creme de baunilha sem açúcar. 241 Cozinha futurista. um pequeno cubo de parmesão. uma meia lua de melancia. de modo que resultem 12 Vinho licoroso feito com uva passa.

A parte anterior é coroada com seis cristas de galo como divisores. A. Saladin) ¼ de licor de melissa ¼ de gemas de abeto ¼ de bananas ¼ de aspérula perfumada 242 Cozinha futurista. muira puama. Saladin) 3 grãos de café 1 parte de licor feito com as seguintes plantas: coca. ginseng. A. damiana. Saladin) 1 castanha confeitada 1 parte de licor de rosas 1 parte de licor de abacaxi 1 parte de licor de timo ou tomilho Amor alpestre (Polibebida do crítico de arte futurista P. enquanto completam a guarnição do prato duas fileiras de pequenos cilindros compostos por uma rodela de limão.Fillippo Tommaso Marinetti paralelas e em senso longitudinal ao eixo do prato. A. uma de grãos e uma fatia fina de trufa coberta por ovas de lagosta. cola. Na parte posterior da lagosta dispõem-se três ovos cozidos cortados longitudinalmente e de modo que a gema se apóie sobre as fatia de língua. Saltoemcarne (Polibebida do crítico de arte futurista P. coberta de zabaione verde. Entre estas duas fileiras coloca-se o corpo de uma lagosta previamente descascada e desossada. equinácea 1 parte de licor de chá 1 parte de kirch Maismenosparaseparado (Polibebida do crítico de arte futurista P. ioimbe.indd 242 7/4/2009 15:51:27 .

Do lado oposto dispõem-se 3 talos de alho-porró 243 Cozinha futurista. 3 meios pimentões vermelhos assados e recheados com uma massa de legumes composta de pontas de aspargos. equidistantemente entre eles e em forma de cone. Parasocar (Fórmula do crítico de arte futurista P. cebolinha. como indicado no desenho. Saladin) Sobre um prato redondo serve-se zabaione vermelho de modo a formar uma grande mancha. Saladin) ¼ de licor de cascas verdes de amêndoas ¼ de licor de genciana ¼ de licor de absinto ¼ de licor de genebra Homemulhermeianoite (Fórmula do crítico de arte futurista P.indd 243 7/4/2009 15:51:27 . A. A. alcaparras. Saladin) 1/3 de licor de artemísia 1/3 de licor de ruibarbo 1/3 de grappa Centelha (Polibebida do crítico de arte futurista P. alcachofras. corações de aipo e de erva-doce. duas castanhas confeitadas e serve-se um prato para cada casal. azeitonas. No meio desta dispõe-se um belo disco de cebola furado e atravessado por um galho de angélica confeitado. Sobre um raio do prato dispõem-se.A cozinha futurista Desanuviante (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. A. Saladin) Cobre-se o fundo de um prato redondo com fondente levemente perfumado com grappa. Dispõem-se depois.

Fillippo Tommaso Marinetti fervidos. Um arabesco de trufas raladas que parte do 2o. pimentão e termina naquele da parte externa completa o prato. Hortocubo (fórmula do crítico de arte futurista P. A. Saladin) cubinhos de aipo de verona fritos e cobertos de páprica cubinhos de cenoura fritos e cobertos de rábano ralado; ervilhas fervidas; cebolinha de Ivrea em conserva cobertas de salsinha picada; barrinhas de queijo fontina. N.B. Os cubinhos não devem ultrapassar 1 cm³. Branco e preto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Mostra individual sobre as paredes internas do Estômago de arabescos à vontade, de chantilly pulverizado com carvão de tília. Contra a indigestão mais negra. Pró dentadura mais branca. Terra de Pozzuoli e verde veronês (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Cidras confeitadas, recheadas de sépia frita e picada. Mastigá-los bem como se fossem críticos antifuturistas. Cenouras + calças = professor (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Uma cenoura crua em pé, com a parte fina para baixo, onde serão aplicadas com um palito de dentes duas berinjelas fervidas, na função de calças roxas marchadoras. À cenoura, deixar as folhas verdes na ponta, representando a esperança da aposentadoria. Mandibular tudo sem cerimônias.

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A cozinha futurista Cravos no espeto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Longos finos cilindros de massa folhada. Dispor em fila sobre cada um quatro cravos: branco, rosa, vermelho, púrpura, assados em licor frio ou no Roob Coccola di Zara. Ao comê-los pensar no fenecido estilo floral. Morangomama (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Um prato rosa com duas mamas femininas eretas feitas de ricota rosada ao Campari e bicos de morango confeitado. Outros morangos frescos sobre a cobertura de ricota para morder em uma ideal multiplicação de mamas imaginárias. Cafémaná (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Café de cevada torrada, adoçado com maná. Servi-lo quentíssimo para que os comensais o esfriem assoprando em cada um as piadas mais congelantes. Senado da digestão (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Quatro comensais pedirão cada um duas conhecidas comidas ou bebidas digestivas. Ou então oito comensais, uma cada. Os outros convidados votarão secretamente contra uma ou outra. Resultará vencedora aquela que obtiver menos votos contra.

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Fillippo Tommaso Marinetti Aeroplano libanês (fórmula do piloto-aviador, poeta e aeropintor futurista Fedele Azari) Castanhas confeitadas imersas por 2 minutos em água de Colônia e depois por 3 minutos no leite, então servidas sobre uma papa (cinzelada em forma de delgado aeroplano) de bananas, maçãs, tâmaras e ervilhas. Reticulados do céu (fórmula do aeroescultor futurista Mino Rosso) A base é um disco de bala de cereja. O cilindro grande: Três folhas de massa folhada recheadas com polpa de tamarindo e cobertas por fondente de chocolate. O cilindro pequeno: coroas de merengue sobrepostos cobertas com fondente de tangerina. O centro do cilindro superior contém chantilly com polpa de tamarindo e pistaches descascados. A asa é bala de tangerina. Pouco antes de ser apresentado à mesa o doce deverá ser coberto com fios de açúcar verde. Antepasto intuitivo (fórmula Senhora Colombo-Fillìa) Esvazia-se uma laranja em forma de cestinha na qual se dispõem qualidades diferentes de salame, manteiga, cogumelos em conserva, anchovas e pimentas verdes. A cestinha perfuma de laranja os diversos elementos. Dentro das pimentas escondem-se bilhetinhos com frases de propaganda futurista ou frases surpresa (por exemplo: “O futurismo é um movimento anti-histórico”- “Viva perigosamente”- “Médicos, farmacêuticos e coveiros, com a cozinha futurista ficarão desempregados”, etc.)

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A cozinha futurista Leite à luz verde (fórmula da senhorita Germana Colombo) Em uma grande tigela de leite frio imergem-se algumas colherinhas de mel, muitos grãos de uva preta e alguns rabanetes vermelhos. Comer enquanto uma desluz verde ilumina a tigela. Beber juntamente uma polibebida feita com água mineral, cerveja e suco de amoras. Faisão futurista (fórmula do aeropoeta Dr. Pino Masnata) Assar um faisão bem esvaziado, depois deixá-lo uma hora em banho-maria no moscato de Siracusa. Depois uma hora no leite. Recheálo com mostarda de Cremona e frutas cristalizadas. Aeroporto picante (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Uma camada de salada russa com maionese coberta de verde. Em volta medalhões variados compostos de pãezinhos recheados de laranja, clara de ovo e frutas mistas. Com manteiga tingida de vermelho e anchovas ou sardinhas formar no campo verde perfis de aeroplanos. Estrondos ascensionais (arroz com laranja) (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Risoto em branco com molho luminoso: o molho é composto de ossos de vitelo cozido em marsala e um pouco de rum, casca de laranja cortada em tirinhas finas, fervidas com gotas de vinagre. Acrescentar suco de laranja. Perfumar com “molho nacional”, que se encontra no comércio.

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Fillippo Tommaso Marinetti Fuselagem de vitelo (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni)Fatias de vitelo encostadas na fuselagem montanha composta por castanhas cozidas, cebolinhas e lingüiças. Tudo coberto de pó de chocolate. Aparições cósmicas (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Ervas-doces, beterrabas, brócolis, cenouras amarelas sobre um pastel de espinafre. Acrescentar cabelos de anjo de açúcar. Os legumes são cozidos cortados em formato de estrela, lua, etc e servidos na manteiga. Aterrissagem digestiva (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Com papa de castanhas cozidas em água com açúcar e favas de baunilha formar montanhas e planícies. Por cima, com sorvete de creme de cor azul, formar camadas de atmosfera sulcadas por aeroplanos de massa podre inclinados em direção ao chão. Mamas italianas ao sol (fórmula da aeropintora futurista Marisa Mori) Formam-se duas meias esferas cheias de pasta confeitada de amêndoas. No centro de cada uma apóia-se um morango fresco. Então se derramam na bandeja zabaione e zonas de chantilly. Pode-se cobrir tudo com pimenta-do-reino forte e guarnecer com pimentas vermelhas. Algaespuma tirrena (com guarnições de coral) (fórmula de aeroceramista futurista Tullio d’Albisola, PoetaRecord de Turim)

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e uma constelação de grãos de romã madura. Cobrir a decoração com uma camada de gelatina. Revestir o vazio com biscoito tipo inglês dando forma quadrada. Quando limpa. preenchendo o vazio com uma bavaroise de baunilha. desenformar e servir com uma guarnição de meios damascos com gelatina.. deixando-a endurecer. com brodo ondeado e coberto por uma folha de celofane azul. A guarnição de corais será obtida com um monte de cachos de pimentas vermelhas picantes. arquitetado e arabescado com arte. esfregar no suco de limão. Pulveriza-se a folha com açúcar e espuma-se com uma onda de chantilly. O todo. Bomba à Marinetti (fórmula do cozinheiro futurista Alicata) Revestir uma forma de bomba com gelatina de laranja decorando a parte da cúpula com pequenos morangos. gomos de ouriços do mar pescados sob lua cheia. será servido à mesa apenas pronto. 249 Cozinha futurista. gomos de laranja e limões confeitados. fresco. Acordaestômago (fórmula do aeropintor futurista Ciuffo) Uma fatia de abacaxi sobre a qual dispõe-se um raio de sardinhas. Decorar os lados com angélica cândida em forma de coroa e a parte posterior com castanhas confeitadas.A cozinha futurista Prende-se um maço de algas marinhas de recentíssima pesca de rede.indd 249 7/4/2009 15:51:28 . lava-se e enxágua-se em abundante água corrente. Congelar. O centro do abacaxi é coberto por uma camada de atum sobre a qual se apóia uma meia noz. sobre um prato redondo plano. advertindo que a pesca não tenha ocorrido nas vizinhanças de fossas ou desaguadouros porque a referida alga assimila facilmente os maus cheiros.

Dentro: fatias de banana. com o interior também espalhado de mostarda. depois amendoins de Chivasso. fatias de queijo parmesão.indd 250 7/4/2009 15:51:28 . Fogonaboca (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) No fundo do copo: uísque com marascas em conserva. Meio copo de Asti espumante. Sobre o mel: alquermes. licor Strega. Avanvera (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Sobre um pratinho de alumínio. anchovas. que comprimem bananas e anchovas. O regenerador (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Uma gema de ovo. Um ritual (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Um pequeno cilindro oco de gelo coberto externamente de mel.Fillippo Tommaso Marinetti Doceforte (fórmula da Senhora Barosi) Entreosdois formado por duas fatias de pão com manteiga. previamente imersas em pimenta Caiena. vermute e licor Strega. Sobre: leite com mel ou mel (1 cm. fatias de tomate. No centro do pratinho. pedaços de abacaxi. fatias de banana. com mostarda espalhada em sue interior. café torrado. eqüidistantes: um montinho de amêndoas torradas. Em seu interior e no fundo: sorvete de creme. conhaque. de espessura) como divisor impermeável. um copo contendo: vermute. tudo regado de vermute e licor de menta. 250 Cozinha futurista.

Fixados: embaixo por uma semi esfera de risoto branco e em cima por um meio limão. A tâmara assim confeitada é envolta em finas fatias de presunto cru e depois em folhas de alface.A cozinha futurista Três nozes torradas. (Introduzir-se-á o palito no copo. um pedaço de banana. Tudo enfiado em um palito sobre o qual se enfilará também uma pequena pimenta vermelha em conserva recheada de queijo parmesão em pedacinhos. emblema fascista tomado da antiga Roma 251 Cozinha futurista. O interior do cilindro recheado com carne moída. óleo sal pimenta. Simultânea (polibebida do futurista Dr. dispostos direitos de modo a formar um cilindro vazio. Tudo batido por 10 minutos. O lictório13 (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Diferentes caules de cardo ou salsão do comprimento de 10 cm. Apresentado em um copo dentro do qual se dispõe uma banana descascada e visível. aparecerão no líqüido os olhos de gordura depositadas pelo presunto: neste caso a polibebida poderá ser intitulada “aquele porco que pisca os olhos”) 13 Talvez o fascio lictório. Sobre a semi esfera de arroz..indd 251 7/4/2009 15:51:28 . cozidos previamente em água. Três colherinhas de açúcar. um pedaço de beterraba. Vernazza) 4/8 de vinho Vernaccia 3/8 de vermute 1/8 de aguardente Tâmara pouco madura recheada de mascarpone empastado com licor Aurum (Pescara). distribuídas como estrelas: um pepino.

ao qual se acrescentará: pedacinhos de barriga de atum em conserva e tomate em mínima quantidade. Temperado o risoto.indd 252 7/4/2009 15:51:28 . acrescentar e misturar algumas azeitonas verdes e guarnecer com gomos bem limpos de tangerina. queijo e noz moscada. Bocado “squadrista”14 (fórmula do futurista Dr. sobre a qual são traçadas algumas linhas com molho de tomate misturado com rum. cobrir com uma fina camada de massa (feita de mascarpone amassado com nozes trituradas). Chuleta-tênis (fórmula do futurista Dr. ovos. Para formar o cabo da raquete. Vernazza) Arroz cozido normalmente. Cozimento rápido para manter o forte da bebida. Molho preparado com a fritura de pouca cebola e manteiga. uma anchova coberta por uma tirinha de banana. Vernazza) Bife de vitelo cozido na manteiga e cortado em forma de encordoamento de raquete: na hora de servir. Depois bolinhas esféricas perfeitas com cereja em conserva (sem o cabinho) envoltas com massa de ricota. 14 militante da causa fascista 252 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Risoto Trinacria (fórmula do futurista Dr. Vernazza) Filé de peixe entre dois grossos discos de maçã: tudo coberto de rum e flambado no momento de servir.

Vernazza) Zabaione duro gelado em um prato fundo. de farinha suco de meio limão uma colher de azeite 253 Cozinha futurista. Rosas diabólicas (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. espinafres. fatias de laranja embebidas em marasquino Zara. Sobre a superfície branca dispor longas fatias de banana e no centro meia tâmara recheada de licor Aurum amassado com amêndoas doces e amargas trituradas. Entre o zabaione e o chantilly.A cozinha futurista Aerovianda atlântica (fórmula do futurista Dr. ervilhas. Por cima: uma camada de chantilly. Esquiador comestível (fórmula do futurista Dr. Vernazza) Pasta de legumes (lentilhas. Por cima dispor (um por comensal) aeroplanos formados por: folhadinhos de formato triangular (asas) – cenoura cortada de comprido (fuselagem) – cristas de galo cozidas em manteiga (leme) – bergamotas cortadas em discos e colocadas em pé (hélice).indd 253 7/4/2009 15:51:28 . Dos dois lados desta composição que lembra esqui: discos de fruta cristalizada dentro do qual está enfiado um grissini doce. etc) de cor verde clara.

de água de flor de laranjeira ½ litro de leite Cozinhem no leite o café e adocem a gosto. Quando estiver bem deaço sirvam-no com biscoitos finos. (Indicadíssimos para recém-casados. depois coloquem o arroz e cozinhem-no muito seco e al dente.Fillippo Tommaso Marinetti Misture bem os ingredientes citados e forme assim uma massa não muito densa. e levem ao gelo. especialmente se vêm cobertas do doce futurista Mafarka.) Doce Mafarka (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 50 gr.indd 254 7/4/2009 15:51:28 . de café Açúcar a vontade 100 gr. a água de flor de laranjeira. Sirva-os à mesa quentíssimos. Bom apetite. comam à meia-noite em janeiro. jogue lá dentro rosas vermelhas aveludadas despetaladas. Tirem-no fogo e. quando estiver frio. e frite-as em azeite fervente como se usa para fazes alcachofras à la jedia. – Veja a fórmula seguinte. e viva o aço! 254 Cozinha futurista. despejem-no assim em uma forma. misturando bem. ralem dentro a casca do limão e espalhem. de arroz 2 ovos Casca de limão fresco 50 gr. depois de ter cortado o caule na altura do cálice.

pimenta.indd 255 7/4/2009 15:51:28 . Quando o preparado estiver bem frio. e em cada uma destas incorporarão uma fatia de mussarela.A cozinha futurista Bombardeamento de Adrianópolis (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. de arroz ½ litro de leite Coloquem para cozinhar bem al dente o arroz no leite. A cada parte. 2 ou 3 azeitonas sem o caroço. proprietário do Santopaladar) Cozer uma coxa de carneiro com louro. de manteiga 100 gr. e depois passem em farinha de rosca e fritem. banhem-na no outro ovo que já foi batido. soldado da colônia italiana em Eritréia. meia anchova. darão a forma de uma esfera. incorporando-o bem. de alcaparras 100 gr. 15 Pejorativo. 255 Cozinha futurista. e aproximadamente na metade do cozimento acrescentar a manteiga e sal suficiente. Pulo de áscaro15 (fórmula do futurista Giachino. 3 ou 4 alcaparras. de mussarela de búfala 6 anchovas 25 gr. e uma pitada abundante de pimenta do reino. alecrim e alho. Depois que o arroz for tirado do fogo misturem imediatamente um ovo. assim preparada. de azeitonas 50 gr. dividam-no em 10 partes.

indd 256 7/4/2009 15:51:28 . recheada com geléia e servida em um brodo de rosas quentes realçado por gotas de água de Colônia italiana. Aplacafome (fórmula do futurista Giachino. Compenetração (fórmula do futurista Giachino. atum. proprietário do Santopaladar) Sobre um fundo de espinfre servir arroz branco fervido e temperado com manteiga e recoberto por um denso creme de ervilhas e pistaches em pó. Arroz verde (fórmula do futurista Giachino. cogumelos em conserva. proprietário do Santopaladar) Sobre um creme de ervilhas dispor um filé de vitelo cozido em manteiga. proprietário do Santopaladar) Massa em forma de animais composta de farinha de arroz e ovos. alcachofrinhas. proprietário do Santopaladar) 256 Cozinha futurista. e acrescentar à carne tâmaras recheadas com pistaches salgados. proprietário do Santopaladar) Sobre uma larga fatia de presunto colocar salame cru. vinho branco seco e suco de limão. fatias de abacaxi e manteiga. Unir as duas extremidades do presunto e mantê-las fechadas com filés de anchova. pepinos. Ovos divorciados (fórmula do futurista Giachino. uma fatia de presunto e uma fruta cristalizada. escorrê-la. Sopa zoológica (fórmula do futurista Giachino. Verter sobre o filé molho de tomate e acrescentar um anel de maçã. azeitonas.Fillippo Tommaso Marinetti Cozida a coxa.

257 Cozinha futurista. Voltar ao fogo com meio copo de suco de ameixa. proprietário do Santopaladar) Pequenos nabos novos fervidos por 10 minutos com louro. cozinheiro do Santopaladar) Fazer um furo em todo o comprimento de uma banana descascada e enchê-lo com carne de frango moída. Rosabranca (fórmula do futurista Giachino. proprietário do Santopaladar) Misturar à medula de ossobucos dourados em manteiga farinha de rosca. Servir com legumes.A cozinha futurista Dividir na metade ovos cozidos extraindo intactas as gemas. nozes e uma baga de zimbro. cebolas e alecrim. Passar os nabos recheados em gema de ovo e no pão ralado e cozê-los ao forno. Bananas surpresa (fórmula do futurista Piccinelli. proprietário do Santopaladar) Doses diferentes de laranjada. Dispor as gemas sobre uma pasta de batatas e as claras sobre uma pasta de cenouras. deixando cozinhar até secar. Tornar novamente ao fogo com um cálice de vinho branco seco e suco de limão. Nabo-carteira (fórmula do futurista Giachino. Boca de fogo (fórmula do futurista Giachino. Levar ao fogo em uma caçarola com manteiga e acrescentar um pouco de caldo de carne. Depois acrescentam-se seis ameixas sem caroço recheadas com amêndoas.indd 257 7/4/2009 15:51:28 . Cortá-los depois como carteiras e recheá-los com anchovas banhadas em ovo e rum. licor Campari e anis com essência de Rosas Brancas.

258 Cozinha futurista. Exemplo: o comrumor do arroz ao molho de laranja e o motor de motocicleta ou o “despertar da cidade” do rumorista Luigi Russolo. Conmúsica: termo que indica a afinidade acústica de uma dada música com o sabor de uma dada vianda.indd 258 7/4/2009 15:51:28 . Comrumor: termo que indica a afinidade rumorística de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. Comtátil: termo que indica a afinidade tátil de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda.Fillippo Tommaso Marinetti pequenO diciOnáriO da arte cozinhária futurista Castanhas confeitadas: substitui marrons glacê Comperfume: termo que indica a afinidade olfativa de um dado perfume com o sabor de uma determinada vianda. exemplo: o comperfume da massa de batatas e a rosa. Exemplo: o comtátil da pasta de bananas e o veludo ou a carne feminina. Exemplo: a conmúsica do carnescultura e o balé “HOP-FROG” do maestro futurista Franco Casavola.

Decisão: nome genérico de polibebidas quentes-tônicas que servem para tomar. Exemplo: o desrumor do “Mar da Itália” e o chiado do óleo fritando. Exemplo: o destátil do “Equador + Pólo Norte” e a esponja.A cozinha futurista Comluz: termo que indica a afinidade óptica de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Desperfume: termo que indica a complementaridade de um dado perfume com o sabor de uma dada vianda. dos refrigerantes e da espuma do mar. Desmúsica: termo que indica a complementaridade de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. uma importante decisão. Exemplo: a desmúsica das tâmaras com anchovas e a Nona Sinfonia de Beethoven. Exemplo: a comluz do “porcoexcitado” e um relampejar vermelho. Destátil: termo que indica a complementaridade de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Desrumor: termo que indica a complementaridade de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. Consumado: substitui CONSOMMÉ. Exemplo: o desperfume da carne crua e o jasmim. 259 Cozinha futurista.indd 259 7/4/2009 15:51:28 . após breve mas profunda meditação.

Guerranacama: polibebida fecundadora. Mexedor: substitui BARMAN. Inventina: nome genérico de polibebidas refrescantes e levemente embriagantes que servem para encontrar fulminantemente uma idéia nova. Exemplo: a desluz de um sorvete de chocolate e uma luz laranja quentíssima.indd 260 7/4/2009 15:51:28 . Fondentes: substitui FONDANTS. Fumatório: substitui FUMOIR.Fillippo Tommaso Marinetti Desluz: termo que indica a complementaridade de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Lista ou Listadepratos: substitui MENU. Mistura: substitui MÉLANGE. Guiapaladar: substitui MAÎTRE D’HOTEL. 260 Cozinha futurista.

Polibebida: substitui COCKTAIL. Cedonacama: polibebida aquecedora invernal. Pasticho: substitui FLAN. Sala de chá: substitui TEA-ROOM Sganasciatore: personagem futurista que tem por tarefa alegrar os banquetes oficiais. 261 Cozinha futurista.A cozinha futurista Paznacama: polibebida sonífera. Pasta: substitui PURÉE Almoçoaosol: substitui picnic. Aquisebebe: substitui BAR. Paraselevantar: substitui DESSERT.indd 261 7/4/2009 15:51:28 .

Fillippo Tommaso Marinetti Entreosdois: substitui SANDWICH Sopa de peixe: substitui BOUILLABAISSE 262 Cozinha futurista.indd 262 7/4/2009 15:51:28 .

indd 263 7/4/2009 15:51:28 .ConClusão O Cozinha futurista.

indd 264 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

também à Gastronomia. pelas 265 Cozinha futurista. Escultura. a euforia dos homens pelas multidões. Teatro. primeiro grande movimento literário do século na Itália. Cinema e. olfato e paladar. agora. audição. O Futurismo. de Filippo Tommaso Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”.O objetivo deste trabalho foi proporcionar ao leitor de língua portuguesa e aos estudiosos do Futurismo o acesso a uma obra importante do movimento. Os representantes do Futurismo procuraram se manifestar em relação a diversas esferas da arte e cultura. Arquitetura. tato. oferecia novos modos de expressão para representar a nova sociedade que se formava a partir do final do século XIX. Esta trazia. além de outros doze polemicamente instituídos por Marinetti no manifesto de 1921. embora praticamente desconhecida e ainda não publicada no Brasil: A cozinha futurista. pelas máquinas.indd 265 7/4/2009 15:51:28 . no início. propiciando assim um contato maior com o mundo modernizado que se lhes apresentava. passando da Literatura à Pintura. Todos os sentidos foram privilegiados pelos manifestos: visão.

na população. permeando o Renascimento e toda a literatura 266 Cozinha futurista. ou pior. Os argumentos econômicos de Marinetti soam bastante convincentes: modificar os hábitos alimentares. A expressão da gastronomia na literatura não é novidade: desde as antigas civilizações.indd 266 7/4/2009 15:51:28 . O receitário futurista. Os artigos de jornais fazem transparecer o “passadismo” dos estômagos. Propuseram modificar o hábito mais arraigado da tradição italiana – o macarrão – para despertar interesse. passando para a Idade Média esfomeada. certamente mantém o bom humor à mesa. para sustentar a tese de que “macarrão não faz bem aos italianos”. O resultado é a estranheza de algumas construções sintáticas e a inovação do vocabulário. ajudaria a fortalecer a economia. além de revigorar a raça. ou fúria. A cozinha italiana nunca mais seria a mesma. faz imaginar se alguém já teria preparado. a euforia e o impacto iniciais foram perdendo força na medida em que deixaram de ser novidades. aparentemente incompreensíveis. Para evidenciar o futurismo proposto. revelam aos poucos a intolerância de Marinetti para com os hábitos tradicionais. que muitas vezes refutam os pratos inovadores.Fillippo Tommaso Marinetti indústrias. O Manifesto da Cozinha Futurista aparece como grito desafiador de um movimento que não atingia mais os seus objetivos. aproximam-se da política para garantir a subsistência do movimento enquanto se afastam da vanguarda literária. pelos avanços científicos e pelos meios de comunicação e. ingerido certas iguarias. com receitas assustadoras. Certas descrições. mais tarde. A trajetória do Futurismo segue a História. com fartura em grandes banquetes. Algumas das regras contidas no “Manual de Redação e Estilo Futurista”. de pessoas inusitadas. o homem moderno alienado pela cultura de massas. traz inúmeras opiniões. nada melhor que uma linguagem adequada. A cozinha futurista é um livro intrigante. são postos em prática pelo autor. O otimismo. se não excita o apetite. a saber os manifestos do Futurismo e Técnico da Literatura Futurista. Além de conter o polêmico manifesto. A forma dos pratos.

O banquete. para cada um. Estas interferências .22 267 Cozinha futurista. As coincidências culinárias .que poderiam ser chamadas de influência ou contribuição – situam-se apenas no campo da suposição.”1.A cozinha futurista subsequente. Oswald de Andrade e Mário de Andrade – as referências à culinária em si e ao canibalismo real. os livros trazem com bastante freqüência o prazer da mesa para suas páginas. temas e formas de composição literária. Os escritores brasileiros que revolucionaram as artes no início do século chamaram-se no início de futuristas. Op. e até a um canibalismo inesperado em Marinetti. metafórica ou não – revelam uma preocupação comum. p. independente. que atendesse aos anseios de um país – ex-colônia de Portugal por mais de três séculos. desejavam fundar um movimento nacional. embora a digestão da carne humana tenha. nome que rejeitaram pouco tempo depois. Buscou-se nos três autores trabalhados – Marinetti. cit. e que continuou importando cultura por ainda mais cem anos.ingestão de carne humana. Boas surpresas foram colhidas ao longo do processo. O “encontro” dos três autores propiciou o questionamento sobre as possíveis interferências da obra de um na obra do(s) outro(s).indd 267 7/4/2009 15:51:28 . seria algum cozinheiro famoso. significados. invento pratos e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe. 1 Andrade. Mario de. por não refletir o exato perfil de seus participantes. mas permitem que aproximemos e comparemos afinidades. metafórico e intelectual. desde a declaração de Mário de Andrade: “Gosto porém muito de arte culinária. aos convites-cardápio de Oswald. O Futurismo italiano e o Modernismo brasileiro foram aproximados neste trabalho a partir do viés culinário-antropofágico. Não queriam ser discípulos do movimento europeu. simbologias e objetivos diferenciados.

talvez pela idéia corrente de que teria servido ao regime fascista de Mussolini. De qualquer forma. parece ser a forma de composição comum aos três autores nas obras aqui estudadas. um autor que analisou e criticou sua nação. Colecionando fotos e bilhetes. Infelizmente este trabalho não pode ir além da Cozinha. A partir da leitura das obras literárias de Marinetti pudemos observar que o escritor é muitas vezes esquecido. como fez Oswald. e que desperte em outros estudiosos o interesse por esta figura tão contraditória e interessante do Futurismo italiano. sendo praticamente reduzido aos seus manifestos.indd 268 7/4/2009 15:51:28 . a colcha de retalhos. Há uma espécie de preconceito em relação ao escritor. embora os títulos sejam pouco conhecidos ou lidos. Colecionando recortes de jornal e receitas de amigos. merece mais atenção por parte dos pesquisadores. Esperamos que este livro “cozinhário” possa contribuir com os estudos feitos tanto na área gastronômica quanto na literária. como Marinetti. Talvez Marinetti tenha somente se servido do regime. Colecionando histórias de índios e organizando-as num herói nacional. ou talvez outros se aventurem pela obra marinettiana. A obra literária de Marinetti é vasta e interessante.Fillippo Tommaso Marinetti O pastiche. 268 Cozinha futurista. reproduzindo-os num grande livro. Talvez em outro trabalho possamos verificar a invasão futurista nos outros cômodos da casa. participando da construção de uma nova sociedade para o novo século. colando-os num diário. estudioso de vários campos das artes. como cantou Mário. a verificar todos os incômodos que este suscitou.

indd 269 7/4/2009 15:51:28 .reFerênCIAs bIblIográFICAs K Cozinha futurista.

indd 270 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

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indd 281 7/4/2009 15:51:29 .ApêndICe U Cozinha futurista.

indd 282 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

indd 283 7/4/2009 15:51:29 . Capa da edição em alemão 283 Cozinha futurista.ApêndICe 1 CApAs do lIvro A CozinhA FuturistA eM dIFerentes edIções e trAduções Capa do livro na edição espanhola Capa do livro na edição em língua inglesa Capa do livro em edição norueguesa Capa do livro na edição italiana de 1932.

ceffi spavaldi selvaggi tracotanti e giocondi che hanno già superato in ferocia tutti I Marat e in eroismo tutti gli arditi grigio-verdi dell’ultima guerra. Così. l’ineluttabile fatalità della guerra. Comprendo prefettamente quanto ti proccupi il dover raggiungere l’esercito al fronte. non esagerare la tua angoscia. Bisogna sopratutto ricompensarli a tempo. Fedeli come mastini. attraverso boscaglie di pericoli. Affretati di conoscrle bene tutti. Sono belve indomabili ma generosissime.Apêndice 2: cOme si nutrivA L’ArditO Via. lo slancio e la você alta e il coraggio temerario d’un capo ardito! Un capo. in questa città di avventurieri rapaci e di operai ribelli nel rombo catarroso delle officine che hanno l’eterno ritmo asmatico? A II anni di distanza eccoci di nuovo lanciati in una nuova conflagrazione. abbacinante di audacia eroica e di maffia insolente che sappia correre più di loro. Tu senti la tristezza e la noia di riprendere ancora il fucile e di costatare colla necessità di uccidere. Coraggio! su! la lotta sarà breve e decisiva. senza dogmatismo disciplinare e senza rancore.indd 284 7/4/2009 15:51:29 . Cozinha futurista. ma rapidamente senza ingiustizia. abbandonando la tua dolce amica in questa città turbulenta e caotica. Come potrà vivere quella bella camelia fragile senza la calda ovatta del tuo amore. comandarli in guerra! Ocorre per questo avere l’anima. poiché ognuno ha una spiccata personalità. Fra tre giorni ti troverai nel tuo reparto d’assalto fra quei terribili arditi verdirossi. e scatenarli spesso contro il nemico da ammazzare! Mestiere difficile. si può portarli contro le morti più spaventose. Tu li conosci bene. il gesto. l’occhio. con un passo più veloce del loro. Bisogna spesso prenderli a pugni. Questa volontà deve irrigidire I nostri nervi contro ogni viltà sentimentale. superiore in tutto.

Tutti con me! Fate silenzio! Silenzio! Silen…zio! Silen…zio!… Quando saremo nell’acqua. Spaccafucili. Cozinha futurista. fetenti! Mascalzone! Te la cucinerò io. non la tocchiamo. Guzzo. Assassino. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra. è troppo amara! Tutti gli arditi circondano Guzzo con lazzi gridi ingiurie. cazzotti sfollatori. cedendo a poco a poco ed incanalandosi con spintoni e risate dietro il tenente che grida: . Non posso. non è rubata! Me la voglio mangiare tutta io! Non mi permetto di offrirla a lei. Con scatto viperino l’ardito si volta e morde la mano. minacciano gli arditi verdirossi. Ringhiano. grandi occhi neri dolcissimi. vero Sareceno magro agile scattante. un pezzettino! Guzzo. risponde Guzzo irato. vogliono vedere la carne salata. Signor tenente. Il caporale dice che ho dentro un pezzo di carne salata. è vero! Ho dentro lo zaino la carne salata. Setteferite. lasciala vedere. ruzzoloni.No! No! non voglio aprire il mio zaino. bestemmiano. Fulmine. la tua carne salata! Scoppia la rissa: arruffio di braccia. Neanche un pezzettino. ma è mia. Si guazza a mostrarla. Bruciapreti. Ne prende uno per il collo. Tutto è domato. Al fiume prima tappa. signor tenente! A lei non può piacere. Succhiasassi. Interviene il tenente comandante del reparto con calci e schiaffi.indd 285 7/4/2009 15:51:29 . Scoppierà subito una lite nei ranghi: è Guzzo che grida: .Fissati bene nella memoria I nomi anzi I soprannomi di quegli eroi: vampa. Ma la mano potente stringe meglio la gola e la belva cede. Ti raccomando un certo Guzzo di Trapani tutto nero. silenzio assoluto! Seguitemi e guardate il mio braccio destro. fez rossi.

pieno di ombre lunghe come cappellacci a sghimbescio sugli occhi gelati del fiume. Tutti a terra nel fango e nell’acqua. s’arricchisce di diamanti. implorano. Se guida meglio così il proprio destino e si tien meno legata la propria vita ai fili sparsi della Fortuna. Non si crede veduto! Ad un tratto due proiettori si accendono sulla riva nemica.Tu puoi allora. Due minuti dopo russa catarrosamente con un rumore acqueo che domina lo sciacquio del fiume. Sembrano pezzi di nave impennati che affondino. si incrociano. Siete delle ombre umane che si acqattano. Sono due scope lunghe d’argento polverulento. metterti in coda al reparto o prendere la testa. ecco il primo fascio di luce è a due metri. Non ti vede. isolotti di giaccio. Ecco. I piedi diguazzano e flic-flaccano nel pantano. Ha lo zaino più pesante. Uno specchio d’acqua breve poi una piccola lingua di terra grigia quasi bluastra nel violaceo comosso crepuscolo. spiagge di madreperla. a tua scelta. Tappeti veloci di zaffiri e smeraldi. Si sforza di aprirlo. L’acqua s’infiamma di mille estasi. ma è forte e conosce bene I guadi. curvo sul suo zaino. svegliando miracolosamente fogliami e fusti fantastici d’argento lieve. Guzzo fruga sempre nel suo zaino.indd 286 7/4/2009 15:51:29 . È preferibile camminare in testa. a un metro da Guzzo. Davanti a te un ardito ammantellato. A un metro a destra Guzzo è in ginocchio. paesaggi d’oro liquido. striscia. Velluti carnali con pallori umani che vibrano. case color smeraldo. Corrono dei riflessi furbissimi. nel fango. Nasce la luna con gioielli rubati all’acqua bollente di risate. Gorghi di pupille ardenti. Lo investe sfarzosamente. Sopra giganteggiano i tronconi del ponte saltato. forme spettrali. Guzzo in ginocchio. carponi. poi si ferma. La colonna degli arditi si ferma dietro al braccio destro del tenente. Fruga dentro. Troverai fra I più arditi verdirossi Guzzo. tutto acceso di Cozinha futurista. Lo apre. urla la sua gioia bianca. mentre la forbice tagliente formata da due proiettori si apre con lento mistero.

la musica che sale.Cara. Tu con calma guardalo bene. ingenuo. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. Le mammelline tonde soavi vive. in alto sopra di noi. le vesti più belle! Tutte le perle. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non aprla più! Il ventre umile. tutte le sete. con te. squartato e rullante della mia vita morta. Ora tu apri le tue braccia che non hai più e mi tendi le labbra che non hai più! Ti terrò con me sotto le mie labbra ancora un’ora. mio mio! Bevo l’infinito in te. carponi. né spaventarti. poi andremo insieme avanti. sono qui con te. Umana. scende risale sotto le volte della cattedrale. perché non ti bruci contro le sbarre furenti precise dei tiri di mitragliatrice… Sono capitombolato giù dal cielo disperato nero. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà.splendori. Avvicinati! Non ti sente. nel tuo calore rovente umido succiante! Paradiso inferno iddio mio. Ha veramente fra le mani un pezzo di carne. immensa divina. Guzzo mormorava: . estrae dallo zaino qualcosa che splende più di lui. tutti I velluti. tutti I diamanti. E c’è pure la musica. Vedi? Tutto è bello intorno a noi. piccola. Cosi pure il collo. Sono caduto giù dall’alto dei miei eroismi. Musiche e splendori! Le cose più ricche. tremano. Fischiano gli angeli di fuoco sul nostro letto. piena d’ogni speranza e di ogni benedizione!” ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Cozinha futurista.indd 287 7/4/2009 15:51:29 . senza stupirti. giù giù su te. sulla riva nemica… Tu sei l’unica mia gioia calda in questa notte gelata! Ti porterò sulle spalle senza farti male e camminerò curvo. Si! Si! Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. Spargonointorno le belle rose granate che scoppiano profumando… Bella! Cara! Mi vuoi? Mi vuoi? Oh! Sento che mi vuoi! Sento che mi desideri. giù! La morte ci dà quest’ultima notte di festa. in te. timido. è assorto.

Guzzo? Sì. mangiami la faccia di baci. piccola. Guzzo si scuote. Sei a tre centimetri dalla spalla di Guzzo. Un sibilo lungo. cinghia e lega allo zaino. Gli arditi si ammucchiano poi davanti nel guado che sognando travolge succhia mastica raggi di stelle. Porta con te la mia carne e baciami giorno e notte. Il fascio di luce scivola lontano. gli occhi.indd 288 7/4/2009 15:51:29 .Ho fatto ciò che volevi! Ti ho mangiata la faccia di baci. baciami. Tu devi allora appoggiare la mano sulla spalla di Guzzo e parlargli: Ti piaciono le donne. Lo so. lontano. né i suoi piedi. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. ssssssssss del fiume. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. Buio. la fronte. tutto ho mangiato con millioni di baci! E ora sei me stesso! Nelle mie vene il mio sangue ti culla. stringe tutto in una pelle nera. I tuoi oiedini santi. Flic-flac di passi intorno. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? Cozinha futurista. raggomitola ciò che gli tremola luminosamente nelle mani.La mitragliatrice nemica punteggia queste ultime parole. divorami. Lo so. e con você flebile di donna ripete a memoria un brano di lettera: .Portami con te in guerra. Piange. e tutta la tua cara testa coi capelli l’ho mangiata! Le tue gambe. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Poi silenzio. Vedi. ma non le donne vive. sono tua! Tua! Poi Guzzo cambiando voce: . di splendore in splendore e si spegne. Se lo carica sulle spalle e si alza. Non amo la testa della donna.

amico! Se muoio prendi il mio zaino e seppelliscilo. Tu allora non esitare. poi svincola il cadavere di Guzzo dalle erbacce e spingilo nella corrente che lo porterà al mare. F. Milano. Mondadori. T. In: MARINETTI. su di te. Sempre avanti lo stesso! Guzzo si caccerà con un balzo contro la palla che lo cercava scherzosamente pur volendolo scansare. 1930. Ora porti il resto sulle spalle. le sue braccia. Ti ho visto. Poi avanti! Mentre camminerai fra gli spudorati splendori scandalosi dei proiettori che ti cercano. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Accidenti alla mitragliatrice! grida Guzzo. stacca lo zaino e caricatelo sulle spalle. sentirai piangere vicino a te. Novelle colle Labbra Tinte.indd 289 7/4/2009 15:51:29 . voluttuose. Cozinha futurista. in te! Piangerà il corpo della bella di Guzzo! E il suo pianto colerà sulla tua schiena a gocce lente. le sue gambe. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!… Grazie. ti approvo.So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. Colpito cadrà nell’acqua.

Cozinha futurista.indd 290 7/4/2009 15:51:29 .

Ao Prof. que sem saber. Aos funcionários da Biblioteca. À Paola pelo apoio e pelas broncas. Drª. Andrea Lombardi e à Profª. suporte decisivo. Ao Prof. Ao meu irmão Junior pela paciência na solução dos infindáveis problemas técnicos. sempre disponíveis em busca de algum livro desaparecido. por provar que sempre vale a pena lutar pela felicidade. incentivando e. pelo incentivo e por dividirem os segredos de suas cozinhas. companheirismo e paciência enquanto eu me perdia entre receitas possíveis e impossíveis.AGrAdecimentOs Agradeço à Profª. Aos meus pais – Mary e Domingos . à Carla por aturar muitos dias de mau humor. Lucia Wataghin por ter me orientado com competência.indd 291 7/4/2009 15:51:29 . ajudando. À Profª. Alain Mouzart pelas dicas na tradução. Drª. Drª. acreditando que tudo daria certo. que mesmo distante se fez tão presente e participante. Maria Augusta Fonseca. abriu para este trabalho os caminhos da antropofagia. apoiaram à sua maneira. Aurora Fornoni Bernardini pelas sugestões dadas no exame de qualificação. à Claudia. Dr. embora não compreendendo os dias e noites silenciosos debruçados sobre livros.que. acima de tudo. Cozinha futurista. Ao Rodrigo. À Vera e ao Chef Picard.

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