A cozinha futurista

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A cozinha futurista
de Filippo Tommaso Marinetti

Introdução, tradução e notas: Maria Lúcia Manicelli

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Edição: Joana Monteleone Assistente editorial e projeto gráfico: Marília Chaves Revisão: Diagramação e capa: Marília Chaves Imagem da capa:

[2009] Todos os direitos dessa edição reservados à ALAMEDA CASA EDITORIAL Rua Iperoig, 351 - Perdizes CEP 05016-000 - São Paulo - SP Tel. (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

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Sumário

Introdução
Futurismo A Gastronomia na literatura: prazeres sinestésicos A cozinha Futurista

MárIo de AndrAde, oswAld de AndrAde e A CozInhA FuturIstA
Mário de Andrade na Cozinha Oswald canibal de Andrade Marinetti Antropófago

A CozInhA FuturIstA e lInguAgeM
O Futurismo: proposta de revolução lingüística A Cozinha Futurista e as inovações na língua Dificuldades da tradução

A CozInhA FuturIstA – trAdução
Uma refeição que evitou um suicídio O manifesto da cozinha futurista A revolução cozinhária Os cardápios futuristas Receituário futurista Pequeno dicionário

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ConClusão reFerênCIAs bIblIográFICAs ApêndICe Capas de diferentes traduções do livro A Cozinha Futurista Come se nutriva l’ardito Cozinha futurista.indd 6 7/4/2009 15:51:16 .

indd 7 7/4/2009 15:51:16 .Introdução A Cozinha Futurista S Uma refeição que evitou um suicídio Cozinha futurista.

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o futuro poeta presenciava a submissão e as condições de vida da população autóctone. o jornal francês Le Figaro publicou o Manifesto Futurista.O FuturismO Em 20 de fevereiro de 1909. 9 Cozinha futurista. quando estuda Letras na Sorbonne. Quem assinou o manifesto foi Filippo Tommaso Marinetti. pôde observar a distância entre discurso e atitude. a revolta contra o status quo social pôde então se desenvolver. uma colônia inglesa no Egito. O menino Filippo nasceu em Alexandria. o colégio Saint-François Xavier. entre colonizadores e colonizados. Conhece toda a agitação cultural e artística daquela cidade. Em língua francesa. o manifesto atingiria um número maior de leitores. Estudou em uma escola de jesuítas franceses. Educado em colégio católico. Fazendo parte da elite dominadora. convive com os simbolistas e decadentistas. aproxima-se de seus ideais. Aos dezessete anos descobre Paris.indd 9 7/4/2009 15:51:16 . fundador e o maior expoente do movimento futurista. em 1876.

para entendê-las. pessoa gentil no dia-a-dia. Costuma-se dizer que a história do futurismo confunde-se com a de seu idealizador. que ele julga estagnadas. promulga-se anticlássico. A violência aparece apenas no discurso literário. como forma de difundir os ideais futuristas. porém. mas adere e defende o fascismo. mas veste a farda da Academia. do domínio do homem sobre a nature- 10 Cozinha futurista. eletricidade. sua ambição essencial é a de transformar a cultura e literatura italiana. Os primeiros vinte anos do século XX marcam o advento do avião. uma vez satisfeito o orgulho paterno. Se todas essas contradições podem conviver no espírito de apenas uma pessoa. é liberal. Mas se os princípios são de caráter universal e seu líder despende forças para difundir os ideais pela Europa e pelas Américas. depois tornou-se pai e esposo exemplar. basta verificar as contradições culturais de seu líder: Marinetti diz-se anticlerical. mas cumpre o serviço militar e participa da Primeira Guerra como voluntário. Marinetti se forma na Universidade de Gênova em 1899.Fillippo Tommaso Marinetti Seu pai. velocidade revolucionaram o mundo e passaram a ser os novos ideais de beleza. rompe com todas as tradições e inaugura o estilo das vanguardas do século XX. Marinetti foi um filho afetuoso e dócil. Com o Manifesto do Futurismo Marinetti inova.indd 10 7/4/2009 15:51:16 . sendo depois seguido por Dadá e pelo surrealismo. O futurismo nasceu sob o signo do mundo moderno. a não ser no banco dos réus. Máquinas. é indisciplinado. imagina para o filho uma carreira jurídica e o faz voltar à Itália para estudar Direito. o mesmo torna-se impraticável quando se trata de um grupo que deveria estar unido em torno (ou em busca) de um ideal estético/artístico. Havia sim contradições na base do futurismo e. o gosto pelo escândalo e o exibicionismo eram arquitetados. do automóvel. advogado. Marinetti. volta a Paris e nunca mais se envolve com a justiça. mas suas filhas estudam em colégio de freiras.

São Paulo: Perspectiva. os três pilares que sustentam o Futurismo são o verso livre (“perene dinamismo do pensamento.1 Na base do discurso futurista do início do movimento existe um discurso subliminar: uma solicitação antiburguesa. 15a. já que os artistas procuram apresentar a realidade em pleno movimento e não nas suas formas essenciais. até 1 2 Bernardini. em que o princípio estético defendido é o verso livre. cheia de gritos que exclamam e interrogam. p. a reação contra os limites e padrões estabelecidos. um mundo de máquinas. instrumento multiplicador dos poderes do homem. o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (“Stirner mais do que Bakunin”).”2 O crítico Luciano de Maria divide o futurismo de Marinetti em apenas duas fases: o período heróico. Gilberto Mendonça. 86 11 Cozinha futurista. o movimento implicou nova ruptura com a tradição. a reivindicação da valentia e da audácia. p. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro. quando se fundou o fascismo. dessacralizadora. ed. 1980. a primazia do viril ante o feminino. dividindo-o em três fases. a exaltação da energia e da ação. de multidões e de velocidade. defende – além das palavras em liberdade – a exaltação da intuição contra a inteligência. O futurismo italiano. Como diz Aurora Fornoni Bernardini. como se o novo precisasse da revolução para se libertar do antigo. sempre de acordo com a atuação de Marinetti: “de 1905 a 1909. o mais fecundo do futurismo. Petrópolis: Vozes.A cozinha futurista za. Podem-se estabelecer algumas datas limítrofes para o Futurismo. e a de 1919 em diante. de 1909 a 1919. a idolatria pela máquina.indd 11 7/4/2009 15:51:16 . No plano plástico. O futurismo literário. quando se redige a maior parte dos manifestos e se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade. Aurora Fornoni. 1999.10 Teles. por sua vez. numa poesia febril. A literatura então procura transmitir o espírito do mundo moderno. desenrolar ininterrupto de sons e de imagens”). e o futurismo se transforma em porta-voz oficial do partido.

mesmo tendo esta influência sido negada pelos autores. Na correspondência de Mário de Andrade a Manuel Bandeira podemos encontrar em carta datada de 14 de maio de 1926 .alguns comentários depreciativos em relação ao “carcamano. como no caso de alguns dos primeiros modernistas brasileiros. Podemos pensar que a apropriação. de 1920 até 1944. 294 a 297. não teria existido sem o futurismo”3 Entretanto. p.época da primeira visita de Marinetti ao Brasil . A influência existe. Marinetti exerceu inegável influência em todas as literaturas modernas. 3 4 Bernardini. mas a revolução causada pela possibilidade de libertar as palavras das construções sintáticas cristalizadas impregnou de tal modo o espírito modernista brasileiro que estes não vêem nenhuma dependência do futurismo. e um “segundo futurismo”. pp. 2000. é fato que o movimento perdeu sua força inovadora à medida que se aproximava da política. Manuel. Eliot e outros.Fillippo Tommaso Marinetti 1920.indd 12 7/4/2009 15:51:16 . Op. data da morte de Marinetti. neste caso. cit. esta foi assimilada e passou a integrar o modernismo. 11 ANDRADE. Organização. Mário de & BANDEIRA. Aurora Fornoni. O Futurismo foi o primeiro grande movimento intelectual italiano do século e deixou marcas inconfundíveis na estética do mundo moderno ao servir de modelo para inúmeras escolas em diversos segmentos das artes. Mário de Andrade estava já em desacordo com a postura política de Marinetti e não queria ter seu nome associado à figura do líder futurista/fascista. ou “que convém tratá-lo com a maior desimportância até com uma desimportância afetada para que ele não imagine que a gente está indo na onda” 4 Na realidade. introdução e notas: Marcos Antonio de Moraes. foi oswaldianamente antropofágica: recolhida a influência. que veio fazer a gente perder quase metade do caminho andado”. “Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado com Joyce. Correspondência. São Paulo: Edusp/IEB. 12 Cozinha futurista.

a idéia de que a arte não deve permanecer no isolamento. sinais gráficos e verbos impecavelmente conjugados. a drástica ruptura com a mentalidade. modificando a sintaxe: as palavras não deveriam mais seguir a ordem lógico-sintática. em violento conflito com o resto da sociedade. o gosto. existem algumas características que são comuns a outros movimentos de vanguarda. do adjetivo.indd 13 7/4/2009 15:51:16 . dispondo-se livremente no papel. são sim entremeados por reivindicações numeradas de ordem militar. ao menos é isso o que a crítica demonstra. a provocação. que provém de uma tradição secular.A cozinha futurista No Manifesto Futurista. em nome de uma visão de mundo que se apresenta como totalmente nova. A teoria futurista não pode ser facilmente aplicada à literatura. Dentre as idéias futuristas encontramos o culto da máquina e da velocidade. aqui reside o primeiro malogro futurista. os modelos de comportamento do passado. a abolição da conjugação verbal. Os textos. mas o tom. Pode-se verificar que há. uma quantidade maior de manifestos do que de obras literárias. para propor estas novas idéias. que a real novidade proposta pelo futurismo não é o conteúdo. como: a vontade de apresentar-se como um grupo organizado de artistas militantes. advérbios. Vêse. pois. mas mergulhar impetuosamente na vida de todos os dias. com adjetivos. utilizavam. a velha sintaxe tradicional. no futurismo. 13 Cozinha futurista. Ao mesmo tempo que pregavam a destruição da sintaxe. pregando ao mesmo tempo a destruição do passado e sobretudo das literaturas passadas. do advérbio e da pontuação. em tom de discurso inflamado e com uma certa ruptura sintática. revolucionando-a. gritadas. unidos por um repertório de idéias e valores comuns. Ora.

Fillippo Tommaso Marinetti Outra contradição presente no futurismo é a negação do passado literário. oposição total ao sistema do poder constituído. apesar de proclamar em seus discursos a absoluta inovação de suas técnicas. “(. o futurismo oscila: de um lado. a utopia de uma reinauguração da expressão. Giorgio Barberi (org. 87 Squarotti. do tom provocador. Gustave Kahn. Paul Adam e outros. Sabe-se que só existe revolução se há passado. São Paulo: Nova Stella/Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/Edusp. p. Entretanto. Zola. Gilberto Mendonça Teles afirma que o próprio Marinetti “dá como seus precursores os nomes de Whitman. Verhaeren. desmonte sistemático e polêmico do passado.) decadentes e simbolistas do “fin de siècle”. construção de objetos novos. de outro. movimento político que o transformou em instrumento de propaganda.. o futurismo. que estava solidária à grande burguesia industrial propiciadora do desenvolvimento.. justamente por isso.) como toda vanguarda. 5 6 Teles. há uma exaltação da técnica que não podemos deixar de relacionar à civilização industrial no ápice de seu desenvolvimento. problemas.) Literatura Italiana: linhas. autores. Mas. As primeiras intenções contidas no cerne do movimento são transformadas em técnica de oratória e de governo. Op.. mas deve ser destruição. Somente o desejo de mudar a realidade é que dá ensejo à aproximação do novo.485 14 Cozinha futurista. com sua exaltação eletrizante da máquina como triunfo da vitalidade. Gilberto Mendonça. (.”6 O futurismo evoluiu (ou talvez tenha involuído) de transformador das artes a meio de comunicação servidor da moral e do fascismo. cit. Marinetti usa grande parte das idéias simbolistas e decadentistas para promover os seus manifestos.. não poderia deixar de se aproximar da revolução fascista. p.indd 14 7/4/2009 15:51:16 . da velocidade. A temática fascista apropria-se do marinettismo e com ele da impetuosidade da linguagem. ou então. do topete e do desafio. contestação do presente. 1989. a arte não é mais representação de mundo.5 Para o movimento. a contestação integral da linguagem burguesa.

com toda a cortesia ritual implícita na refeição.22 15 Cozinha futurista. consiste numa série de ações constantemente repetidas. Os dias festivos são solenes ou sagrados. e pela repercussão e discussões que provocaram suas inovações. Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. como lembra Margareth Visser7. Ed. era necessário reunir as pessoas para que uma carne (proveniente de caça ou sacrifício) fosse melhor aproveitada. é difícil encontrar um romance no qual não se descreva ao menos uma refeição. aparece como o último grande feito marinettiano. 1998. Comemorações marcando transições e lembranças quase sempre exigem comida. limitou-se a poucas e infrutíferas ações literárias. O ritual. Margareth.) à volta diária dos caçadores 7 Visser. sendo ao mesmo tempo o comportamento esperado e o correto. publicado em 1930 (época em que Marinetti já pertencia a Academia Fascista) por F. já que encontros sociais são comumente realizados em torno de uma mesa. No início. A refeição também é habitual e visa à ordem e à comunicação. A GAstrOnOmiA nA LiterAturA: prAzeres sinestésicOs A gastronomia sempre encontrou um campo fecundo na expressão estética. As famílias também se encontram para refeições e este costume remonta a dois milhões de anos. T. Rio de Janeiro.. até 1920. o Manifesto da Cozinha Futurista. A refeição em si é um ritual presenciado em todas as culturas. já que não havia métodos para evitar que os alimentos se deteriorassem. “(. após essa data. Campus. resumindose a difundir as idéias fascistas. Na literatura. por exemplo. Entretanto.indd 15 7/4/2009 15:51:16 . O ritual do jantar. este manifesto gastronômico nunca foi apreciado com o devido valor pela crítica.A cozinha futurista Pode-se dizer que.. p. A julgar pela extensa bibliografia contida na obra A Cozinha Futurista. já exausta do cunho propagandista revelado pelos últimos anos do futurismo. o futurismo colaborou de forma incisiva para a mudança ocorrida na literatura do século XX e que.

que pode ocorrer de forma compulsória – por empecilhos financeiros pessoais ou carestia em épocas de guerra e recessão econômica –. Como diz Brillat-Savarin8 (1755-1826): “Os animais se repastam. Brillat. eles haviam decidido não devorar”. a abstinência gastronômica. reciprocidade. chás ou simplesmente jantares íntimos 8 Savarin. O prazer também está diretamente ligado à gastronomia. 1995. mas nem sempre.Fillippo Tommaso Marinetti e forrageadores proto-humanos para dividirem a comida com seus companheiros – aqueles que habitualmente. O prazer da boa mesa transportou-se para as artes. ou seja. este ritual perdeu seu valor econômico e ganhou em sociabilidade. Entretanto. da beleza da sala de refeição ao tipo de música selecionada para acompanhá-la. A Fisiologia do Gosto. O sucesso alcançado pelo repasto e sua digestibilidade dependem de cada um destes fatores. Desde os alimentos até a bebida que os acompanha. banquetes. devidas à ingestão de alimentos mal escolhidos ou mal combinados. cortesia. jejuns religiosos ou de emagrecimento. Outro infortúnio relacionado a este prazer é o de sua própria negação. o homem come. nos casos de dietas auto-impostas como penitências. renovando suas forças. As cenas descritivas de festas. da escolha dos comensais aos assuntos tratados durante a refeição. Com o passar dos séculos.indd 16 7/4/2009 15:51:16 . em que as pessoas encontram-se para celebrar a vida. Cada detalhe colabora para tornar mais ou menos agradável este nosso ritual diário. nem sempre este prazer caminha impune. ou por escolha própria. Ele também pode trazer conseqüências desagradáveis. São Paulo: Companhia das Letras.” Quando os homens perceberam que o ato de comer encerrava mais que sua simples subsistência.15 16 Cozinha futurista. p. somente o homem de espírito sabe comer. como a obesidade. ou a preguiça e indolência. interesse e prazer. começaram a descobrir todo o prazer que uma refeição pode oferecer. nutrindo-a. para certos indivíduos que digerem as substâncias de forma diferenciada.

A cozinha futurista permeiam a literatura, enchendo as páginas com uma sensualidade discreta. Fatos e conversas importantes desenrolam-se entre um e outro bocado, sendo este pequeno rito diário sempre um bom pretexto para a reunião das personagens, já que toda refeição familiar compartilhada num minibanquete celebra tanto a interligação quanto o autocontrole dos membros do grupo.9 Mais que acessório literário, a boa mesa tornou-se independente e, cada vez mais, podemos encontrar nas prateleiras das livrarias edições dedicadas à gastronomia. Edições sobre a história da gastronomia dividem espaço com obras sobre a cultura e a filosofia. Os livros “de receitas” evoluíram e, cada vez mais, parecem-se com os livros de arte. E o são. Livros de arte culinária. As fotografias contribuíram em muito para transformar a arte dos chefs em verdadeiras tentações para os nossos olhares. A facilidade de encontrar os ingredientes traz o sonho de uma refeição digna de reis para mais perto de outras camadas da população. As figuras enchem nossos olhos com sua beleza, nossa imaginação encarrega-se de criar o resto: o gosto, a textura, o aroma, o tilintar dos talheres nos pratos. Cinco sentidos unem-se para reproduzir o prazer que sentimos ao saborear uma nova iguaria – ou uma iguaria já conhecida, mas redescoberta a cada novo bocado. A utilização dos sentidos sempre foi importante para a literatura. Descrições sempre se tornam mais interessantes quando extrapolam o campo da visão. É importante reproduzir sons, odores, textura, temperatura, sabores. Marinetti já percebera isto ao longo de sua obra. Em 1939, o manifesto O romance sintético catalisava as tendências um pouco separadas entre os manifestos anteriores, já que este deveria ser otimista, heróico, simultâneo, dinâmico, aeropoético, aeropictórico, olfativo e tátil rumorista.10 Merece atenção o subtítulo do livro Il tamburo di fuoco: drama africano di calore, colore, rumori, odori. Con
9 Visser, Margareth. Op. cit. p.22

10 Marinetti, F.T. Teoria e Invenzione Futurista. Milão: Mondadori, 1968. p. 193

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Fillippo Tommaso Marinetti intermezzi musicali del Maestro Balilla Pratella e accompagnamento intermittente d’intonarumori Russolo. Publicado em 1922, pela Casa Editrice Sonzogno de Milão, esta obra também privilegiava os sentidos. Os manifestos lançados ao longo do movimento também refletiram esta preocupação constante: o Manifesto técnico da literatura futurista (1912) defende a introdução do rumor, do peso e do odor na literatura, já que estes representariam, respectivamente, a manifestação do dinamismo, a faculdade de vôo e a faculdade de dispersão dos elementos. O texto Palavras em liberdade (19..)diz que o poeta futurista jogará nos nervos do leitor as suas sensações visivas, auditivas e olfativas. Seria a irrupção do “vapor-emoção”. No Manifesto do teatro sintético futurista (19..) nos é apresentada a representação da nova era – entremeada de gritos, gesticulação apropriada, enfim, de detalhes emprestados dos outros campos da arte para que o Teatro Futurista seja mais abrangente. O Manifesto do tactilismo, de 1921, é de suma importância para que se possa compreender a revolução “cozinhária”11 futurista. Marinetti defende que é possível educar o tato para que possamos perceber muito mais coisas através deste sentido. Exercícios como tocar “tavole sintetiche” formadas por lixa, veludo, areia, seda, e tantas outras texturas, favoreceriam ao homem a descoberta de outros sentidos, ainda não catalogados pela ciência. Seriam eles: sentido de visão na ponta dos dedos, sentido do equilíbrio absurdo (aquele que faz um atleta, ao final de um salto imperfeito, manter-se em pé), sentido de orientação aviatória (essencial para pilotos), sentido tátil a distância (pressentimento), sentido das costas (deve ser estudado em gatos no escuro), sentido musical (ou do ritmo corporal), sentido da superfadiga-força (a força que irrompe em um estágio avançado de fadiga), sentido de velocidade,

11 O termo “cozinharia” pretende recuperar o neologismo criado por Marinetti, que chamava sua revolução de cucinaria, em vez do existente culinaria.

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A cozinha futurista sentido de nível, sentido tato-cirúrgico (todo cirurgião é ou deveria ser dotado dele) e sentido carnal-materno. O desenvolvimento dos “17 sentidos” proporcionaria uma gama maior de possibilidades, e seria possível, através de determinados materiais táteis, induzir sensações, histórias, sentimentos nas pessoas. Marinetti também propõe a utilização dos cinco sentidos para que um prato possa ser devidamente apreciado e degustado, como na “Aerovianda com rumores e odores”. Diz Marinetti: “(...) futuristicamente comendo, opera-se com os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição”. O prato consiste em quatro pedaços: um quarto de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza as pontas dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. No relato de Marinetti, apenas uma pessoa permaneceu alheia ao entusiasmo que preencheu a sala durante a degustação deste prato. Questionada, descobriu-se que era canhota – esfregava portanto o aparelho tátil com a mão direita enquanto comia com a esquerda. Mas a teoria gastronômica futurista proposta por Marinetti não é exatamente inovadora, apesar de o parecer à primeira vista. Em pleno início do século XIX, Brillat-Savarin12 escreve A Fisiologia do Gosto, obra em que discute filosoficamente diversos assuntos relacionados à gastronomia. Neste livro, além de afirmar que a alimentação influi de maneira direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios, relata

12 Savarin, Brillat. Op. cit. p.15

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Fillippo Tommaso Marinetti um de seus experimentos: um jantar em que foi usada uma de suas invenções, chamada por ele de “irrorador”. O instrumento foi apresentado, durante um jantar, à Sociedade de Estímulo à Indústria Nacional e consiste em uma fonte de compressão adaptada para perfumar ambientes internos. A idéia tão inovadora de Marinetti - perfumar os ambientes durante os jantares para promover uma apreciação mais completa - já havia sido explorada por outro curioso com um século de antecedência. Brillat-Savarin afirma ainda que “quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas, aromatizadas de perfumes, enriquecida de belas mulheres, repletas dos sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.”13 O embrião da cozinha futurista também pode ser encontrado em outros autores. Podemos encontrar a interação dos cinco sentidos na tradição simbolista francesa, desde Rimbaud, que relaciona a sonoridade das letras à música e às cores; em René Ghil (1862-1925), ao instaurar a língua-música, em que vincula certas ordens de sentimentos e idéias às ordens de sons e de timbres vocais. Diz Ghil que “(...) todo instrumento musical tem harmonias próprias: daí seu timbre, que é assim apenas uma cor particular do som”14. Marinetti afirma, no manifesto Palavras em liberdade, que o verbo no infinitivo é redondo e escorregadio como uma roda; os outros modos e tempos do verbo são triangulares, ou quadrados, ou ovais. Nas Correspondências, de Baudelaire, a fusão dos sentidos não se dá em cadeia, na seqüência temporal; pelo contrário, realiza-se num só instante, como se o perfume fosse, a um só tempo, oloroso, táctil,
13 Id. Ibid. 39 14 Moisés, Massaud. História da Literatura brasileira, vol..3 Simbolismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1985. p.11

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A cozinha futurista auditivo e visual. Já Mallarmé, em seu manifesto decadente Aux lecteurs!, de 1886, afirma que “Afinamento de apetites, de sensações, de gosto, de luxo, de prazer; nevrose, histeria, hipnotismo, morfinomania, charlatanismo científico, schopenhaurismo em excesso, tais são os pródromos da evolução social”. E sobre este manifesto, escreve Gilberto Mendonça Teles, em seu Vanguarda européia e modernismo brasileiro: “Podem-se perceber algumas idéias que vão ser levadas ao extremo pelos futuristas e dadaístas, uma vez que o movimento decadentista desapareceria três anos depois.” 15 Ainda no período decadentista, J.-K. Huysmans escreveu o livro Às avessas, em que podemos perceber a mesma intenção sinestésica no ato de comer. “De resto, cada licor correspondia, segundo ele, como gosto, ao som de um instrumento. O curaçao seco, por exemplo, à clarineta cujo canto é picante e aveludado; o kümmel, ao oboé, com seu timbre sonoro anasalado; a menta e o anisete, à flauta, a um só tempo açucarada e picante, pipilante e doce (... )”16 ou ainda “(...) ergueu-se e, melancolicamente, abriu uma caixinha de prata dourada com a tampa enfeitada de aventurinas. Estava cheia de bombons violetas; pegou um e apalpou-o, pensando nas estranhas propriedades desse bombom coberto de açúcar como geada; outrora (...)depositava um desses bombons sobre a língua, deixava-o derreter-se e subitamente surgiam, com infinita doçura, lembranças muito apagadas, muito enfraquecidas, das antigas libertinagens. Tais bombons (...) eram uma gota de perfume de sarcanthus, uma gota de essência feminina, cristalizada num torrão de açúcar; eles penetravam as papilas da boca, evocavam lembranças de água opalizada por vinagres raros, por beijos muito profundos, empapados de odores. De hábito, ele sorria, aspirando esse aroma amoroso, essa sombra de carícias que lhe punha uma ponta de nudez no cérebro

15 Teles, Gilberto Mendonça. Op. cit. pp.56-57 16 Huysmans, J.K. Às Avessas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.78

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Guillaume Apollinaire discutia a idéia de haver um “cubismo culinário”. frutas da estação. parecem coincidir nas duas proposições. Cedo percebemos em Oswald de Andrade o gosto pelas artes em geral. A combinação de elementos bastante diferenciados e o uso de condimentos inusitados. temperadas com suco de limão.Fillippo Tommaso Marinetti e reanimava. café. ao menos. uma salada temperada com óleo de nozes e grappa. frutos exóticos. O cardápio de um jantar “gastro-astronomista” trazia como entrada violetas frescas sem os cabos.” 17 Os ingredientes utilizados nas receitas futuristas eram escolhidos para provocar a melhor experiência sensorial (seria melhor dizer sensual?) possível.indd 22 7/4/2009 15:51:17 . Entre os modernistas brasileiros não foi muito diferente. Marinetti não recebia muito bem este apoio. um peixe cozido em folhas de eucalipto que evocava Flaubert. A fome só atrapalharia a degustação. ibid. Flores. o gosto não há muito adorado de certas mulheres. não se restringindo à literatura. Oswald. mas parece ser possível reconhecer traços da rebeldia “gastro-astronomista” na cozinha futurista. por um segundo. como jornalista. defendeu uma Gastro-astronomia. que era arte. p. com os quais era possível preparar sopas e outros alimentos. perfumes e materiais de diferentes texturas. brincando com as palavras e remetendo tanto ao movimento artístico quanto aos cubos de comida desidratada. e não ciência. preferencialmente estando sem apetite.134 22 Cozinha futurista. resultantes dos avanços científicos. mas degustar novos pratos. Já em 1911. Estimulando o dinamismo. escrevia críticas 17 Id. um filé temperado com tabaco que seria aprovado à perfeição por Brillat-Savarin. como sobremesa. diferentes combinações de sabores e odores. queijo temperado com noz-moscada e. aproximando-se do italiano através de cartas. Na mesma época. A cozinha “gastro-astronomista” não tem por objetivo saciar a fome. Apollinaire manteve contato com o futurista Marinetti.

que tratou como mais uma arte. como a do traficante de pau brasil Oswald d’Andrade e a leitura do sermão da montanha sobre Ser Mãi da Intanha. o casal Tarsiwald ofereceu um jantar literário ao escritor paulista Paulo Prado (1869-1943). Para beber. provavelmente a “Villa Fortunata” onde aconteceu o jantar. com o bandeirante Pau lo Prato chorando sobre a trasteza do pó Lhytico no Brasil. Foi o responsável por impulsionar muitas carreiras artísticas. Em 1927. e o cardápio-programa do jantar é uma obra de “arte sinestésica”. Dinde farcie. Tournedos à la Rossini.18 O futurismo já flertava com o fascismo 18 Bernardini. além de ilustrações de Tarsila. apenas Marinetti havia resistido no movimento – motivo pelo qual Paolo Angeleri chama-o de marinettismo. O jantar literário reuniria os cinco sentidos. cit. Op. Aurora Fornoni. Jambon d’York e Salade. Filet de poisson Parmentier. como a do escultor Victor Brecheret. Charlotte Russe. ou mesmo política. ou mesmo a de Anita Malfatti. Dos integrantes do primeiro grupo futurista. escrita em francês: Potage crème de volaille. A lista de comidas traz uma reprodução gráfica de uma casa. quando as polêmicas suscitadas pelo movimento já não tinham a força revolucionária de outrora. Este gosto pelas artes não excluía a gastronomia.A cozinha futurista de pintura. outras musicais. Parfait Praliné e fruits. como o trobadour Rainette Olé cantando e a pintora caipiriuschka Tarsilowska do Amaral tocando alaúde. A cOzinhA FuturistA O Manifesto da Cozinha Futurista foi publicado em 1930. O programa anunciava algumas intervenções: umas literárias. p. saindo em sua defesa publicamente após a conhecida crítica de Monteiro Lobato à sua exposição em 1917. caricaturas.indd 23 7/4/2009 15:51:17 . Champagne. Liqueurs e Café. Como sobremesa. escritos diversos sobrepostos à lista de pratos. enfim.16 23 Cozinha futurista. música.

pela coleção Il Cammeo quando ganhou formato de 21 cm e reduziu o número de páginas para 254. concedeu à obra 14 páginas de ilustrações. destruída. Esta tradução pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da Espanha e também na biblioteca da FFLCH – USP. a descrição de diversos menus futuristas. Ravena. Em 1986 algumas partes foram publicadas em fac-símile pela Salimbeni de Firenze. Com 267 páginas. buscava no totalitarismo uma possibilidade de reconquistar a auto-estima. feita pela Editora Marinotti. época em que uma Itália em guerra.indd 24 7/4/2009 15:51:17 . pela Editora Gedisa. só foi reeditado em 1986 pela Longanesi. por Guido Filippi. A obra pode ser encontrada nas bibliotecas das cidades mais importantes da Itália. Marinetti foi nomeado acadêmico da Itália e vestiu a farda da Academia e em 1930 – praticamente dez anos após o final do período glorioso e fecundo do futurismo – publicou o Manifesto da Cozinha Futurista. toda a polêmica por este suscitada na imprensa da época em diversos países. 27 cm de tamanho e 160 páginas.Fillippo Tommaso Marinetti desde 1914. em sua versão original ou traduzida. entre outras e pode ainda ser encontrada em bibliotecas espalhadas pelo mundo. Gênova. e em 1998 a terceira e última edição italiana do livro. Giulio Onesti e Enrico Prampolini. No ano de 1929. e publicada em Barcelona. Outra tradução facilmente 24 Cozinha futurista. A Cozinha Futurista já foi traduzida para o espanhol. em 1985 sob o nome La Cocina Futurista: una comida que evitó un suicidio. Firenze. na Itália. Milão. também de Milão. bem como um receituário e um pequeno dicionário. contendo o referido manifesto de 1930. Bolonha. O ano da adesão oficial do futurismo (resumido então a Marinetti e alguns novos adeptos) ao fascismo é 1924 –. e apenas quatro ilustrações. 19 cm. Ferrara. com a colaboração de alguns novos integrantes: Luigi Colombo “Fillía”. esta também de Milão. foi publicado em formato livro primeiramente em 1932. Turim. Palermo. pela Editora Sonzogno de Milão. O livro A Cozinha Futurista. como Roma.

Em inglês há duas publicações. as belas idéias pelas quais se morre. feita por Nathalie Heinich e publicada em Paris. o militarismo.A cozinha futurista encontrada é em francês. se Marinetti e seus “discípulos” 25 Cozinha futurista. O livro foi traduzido também para o norueguês com o título Futuristisk Kokebok. Esta tradução foi publicada pela Editora Klett-Cotta em 1983. o gosto pela luta. os regimes totalitaristas. a coragem. na Bélgica. Metailié em 1982 com o título La Cuisine Futuriste. pela A. pelo escritor Steiner Lorne. e o regime comunista. na figura de Mussolini. Rarish: Die futuristische Küche. em 1917. pela guerra. com introdução de Andreas Viestad e publicada em Oslo pela Spartacus Forlag em 2001. Dos manifestos que surgiram após 1920. datado de 11 de janeiro de 1921. pela coleção Cottas Bibliothek der Moderne e pode ser encontrada nas bibliotecas de Leipzig. foram feitas a partir da tradução de Suzanne Brill e contam com uma introdução feita por Lesley Chamberlain. que pode ser encontrada na British Library. Na realidade. excitado pela recente Revolução Russa. feita pelo escritor Klaus M. Existe ainda uma tradução em alemão. o futurismo e o fascismo condividem o nacionalismo exacerbado. Os manifestos do final do período heróico do futurismo (próximos a 1920) já possuem uma forte conotação sócio-política: a nação deveria reerguer-se e recuperar-se de todas as perdas resultantes da guerra. uma pela Editora Trefoil de Londres. na Itália. Duas forças políticas emergem no cenário mundial. a audácia e a rebelião. Frankfurt e Hamburgo. encontrada na Library of Congress. de São Francisco.indd 25 7/4/2009 15:51:17 . cujos ideais já haviam sido antecipados de certa forma no Manifesto Futurista de 1909.M. Ora. Gilberto Mendonça Teles acredita ser o mais importante o já referido Manifesto do tactilismo. Ambas as publicações do livro The Futurist Cookbook datam de 1989. e outra pela Editora Bedford Arts. entre outras. Esta obra pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca da Universidade de Leuven. Marinetti apóia o regime fascista.

trariam inúmeros benefícios ao povo italiano. cinematografo. 15 26 Cozinha futurista. em 28 de dezembro de 1930. è changer la vie. como o chamou Mário de Andrade. Marinetti afirma que o homem pensa. rumores e odores (audição e olfato). teatro. ao comerem macarrão.Fillippo Tommaso Marinetti já haviam escrito manifestos sobre pintura e escultura (visão). a proposição que mais choca é a de “abolir o macarrão”. 1986. não mastigam e o trabalho de digestão é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Luciano. Marinetti defendia novos hábitos alimentares. sons. danza. P. o único sentido que ainda faltava ser abordado era o paladar. As pessoas. Um homem mal nutrido pensa e age mal. Marinetti argumenta que este alimento contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada dos napolitanos. O último dos sentidos fora também abordado pelo “agitador futurista”. Nas palavras do crítico italiano Luciano De Maria: Marinetti e i compagni dissero la loro su ogni argomento: letteratura. erotismo. tactilismo (tato). o que provoca desequilíbrio e distúrbio destes órgãos. Venezia: Marsilio Editori. Surge então o Manifesto da Cozinha Futurista. cucina ecc. Neste Manifesto. que pretendeu revolucionar o modo pelo qual os italianos se alimentam. sonha e age de acordo com o que come e o que bebe. La nascita dell’avanguardia – saggi sul futurismo italiano. de Turim. segundo o autor. come più tardi dei surrealisti. politica. Dentre as diversas idéias apresentadas. Ao propor a abolição do macarrão. 19 De Maria.indd 26 7/4/2009 15:51:17 . Un impulso “totalitario” anima il movimento: meta dei futuristi. secondo il motto di Rimbaud. música (audição). fotografia. ma nel più profondo dello spirito umano.19 A publicação do Manifesto da Cozinha Futurista deu-se na Gazzetta del Popolo. que. e non soltanto nelle condizioni esterne dell’esistenza.

cit. Brillat.23 A revista Focus (Mondadori) de dezembro/2002. Vez ou outra um restaurante promove uma noite futurista. pessimismo. 20 Savarin. informa que no início do século XX o poeta Marinetti propôs abolir o macarrão da dieta italiana. para os clientes que não desejam se aventurar nas receitas inovadoras. p. porém tem a sensualidade despertada por certa substância ictiófaga.15 21 Id.. o escritor afirma que os povos que se alimentam de peixe são menos corajosos que os que se alimentam de carne de gado. “(. e entre as afirmações de que já em 1154 o macarrão era produzido na Itália. Em outra passagem do mesmo livro. O exemplo dado é o do povo indiano. o fósforo. ibid.que serve os pratos e as bebidas futuristas. em seu livro Nunca treze à mesa.A cozinha futurista Derivariam então: fraqueza. traz uma ampla reportagem sobre o macarrão. em Palermo ( e não que tenha sido trazido da China para a Itália por Marco Polo). Op. Em seus Aforismos. p. Orietta del Sole. 27 Cozinha futurista. 94 23 Na verdade.indd 27 7/4/2009 15:51:17 . existem dois cardápios. suas origens e sua história. não apenas em festas relativas a datas comemorativas do movimento literário. Sem sucesso. que vive quase exclusivamente do arroz e é extremamente submisso. inatividade nostálgica e neutralismo.) enfraquece as fibras e mesmo a coragem dos homens”21.. de Milão . mas como pratos constituintes do cardápio. um futurista e outro passadista. em que as receitas são novamente executadas e degustadas. 72 22 Id. Brillat-Savarin afirma que “o destino das nações depende de como elas se alimentam. ibid p. mas ainda hoje existe um restaurante na Itália – o Lacerba.”20 e acrescenta que a fécula. faz uma referência ao mesmo fato: a tentativa de desvincular o macarrão dos hábitos alimentares italianos. presente em boa parte da alimentação de quase todos os povos. 22 O manifesto contra o macarrão é lembrado em diferentes épocas e ocasiões.

ou comemorativo. 24 Nietzsche. o macarrão forma a base da pirâmide alimentar defendida pelos nutricionistas. que comem até empanturrar os intestinos (“O espírito alemão é uma indigestão. afirma Nietzsche. A dieta mediterrânea – que inclui o macarrão . Nutricionistas defendem que o macarrão faz bem à saúde: 100 gramas de macarrão sem condimentos tem 356 calorias. 53 28 Cozinha futurista. não só das pessoas individualmente. Friedrich. era caro e a substituição deste alimento favoreceria a indústria italiana do arroz. de 1888.9% de gordura. ibid p. importado. O interesse de Marinetti é. o que também fazem franceses e ingleses. portanto anterior ao futurismo. “Como deves nutrir-te para chegares ao teu máximo de força.4% de proteína e 3.indd 28 7/4/2009 15:51:17 . 2000 p. no livro Ecce Homo. não chegando nunca ao fundo de alguma coisa. de virtude livre e de moral?” Nietzsche afirma que sempre nutriu-se mal. O filósofo alemão também acredita que a pessoa é o que come. Outro argumento utilizado contra o macarrão é de ordem econômica. talvez. Nietzsche julga como a melhor cozinha justamente aquela que Marinetti pretende revolucionar. de virtude (no significado que essa palavra se dava na Renascença).”24).já foi exaltada como exemplo de alimentação sadia e equilibrada em todo o mundo. isto é.Fillippo Tommaso Marinetti O insucesso da tentativa é sempre comentado em tom jocoso. São Paulo: Martin Claret. das quais 80% de carboidratos. O problema da importância da alimentação na formação do homem pode também ser verificado em Nietzsche. a italiana. 51 25 Id. A melhor cozinha. que a alimentação atinge diretamente o caráter e o comportamento. Ecce homo. culpa dos alemães. pois o trigo. Ironia ou não. de ‘germânico’”25. 13. Junto com o pão. mas molda o comportamento de uma nação: “basta a mínima inércia dos intestinos – tornada depois um hábito péssimo – para fazer de um gênio algo de medíocre. é a do Piemonte. arroz e cereais.

de Marinetti. Através da correta escolha e combinação de ingredientes. Marinetti e seus colaboradores. desenvolvendo a indústria e propiciando empregos aos italianos. A boa alimentação proporciona melhores soldados.A cozinha futurista portanto. além de estarem demasiado atreladas à figura política do Duce. desde a matéria prima de certos alimentos até modas gastronômicas/culturais estrangeiras. Os alimentos escolhidos também deveriam fortalecer a economia nacional. acreditavam poder fortificar a raça e tornar os homens mais competitivos e adequados à guerra. a cultura italiana haveria de se fortalecer pelas modificações propostas. Além disso. pela negação de todos os estrangeirismos. Mas a importância da alimentação 29 Cozinha futurista. bastante nacionalista (seria lícito dizer fascista?). pretenderam revolucionar a culinária italiana. É provável que a publicação deste manifesto tenha sido uma tentativa de fazer ressurgir a importância do Movimento Futurista. A revolução gastronômica futurista não aconteceu. e ainda contribui para o desenvolvimento econômico do país. Talvez por Marinetti estar diretamente ligado ao fascismo e defender idéias já então consideradas conservadoras e de forte conotação política. mas também político.indd 29 7/4/2009 15:51:17 . embora o objetivo não tenha sido alcançado. num período de decadência – os gritos e bramidos marinettianos já não eram ouvidos com tanta atenção pelo mundo literário. Pudemos observar que a tradição alimentar vem sendo questionada por inúmeros autores e em diferentes épocas. o manifesto não repercutiu como deveria esperar seu autor. Como já foi dito. não só nutricional. o problema da interferência da alimentação na personalidade e/ou nas atitudes das pessoas não havia passado despercebido pelos autores do século XIX e início do século XX. melhores cidadãos. em especial Fillìa. o Futurismo havia entrado em crise. Percebe-se então o cunho político. com o propósito de “melhorar a raça e a economia”. Após 1920. pois as propostas futuristas verificaram-se impraticáveis. co-autor do Manifesto da cozinha futurista. Ainda que Marinetti tenha proposto uma revolução gastronômica em seu país.

em todos os campos das artes.Fillippo Tommaso Marinetti para a vida das pessoas continua ganhando mais e mais importância tanto na literatura como na mídia. Restou-nos o manifesto. Marinetti tentou preparar. uma nova massa. mais uma prova da personalidade multifacetada de um revolucionário que se ocupou de todos os sentidos. Entretanto.indd 30 7/4/2009 15:51:17 . com os ingredientes do futurismo. 30 Cozinha futurista. a alimentação italiana era mais resistente e tradicional.

indd 31 7/4/2009 15:51:17 .CApítulo 1 Mário de Andrade. Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista H Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 32 7/4/2009 15:51:17 .

o mais respeitado seja aquele com maior capacidade de prover seus familiares. Espero não causar indigestão com a combinação das iguarias. e oportunamente. por sua vez. A preocupação com a subsistência de cada indivíduo e de toda a tribo faz com que o mais forte.indd 33 7/4/2009 15:51:17 . tentarei estabelecer relações pertinentes entre os autores brasileiros e o “futurismo gastronômico”. Macunaíma 33 Cozinha futurista. Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Partindo de apontamentos sobre algumas obras destes dois autores. deu ensejo neste trabalho a uma série de “analogias gastronômicas” entre este e parte da obra de dois escritores modernistas. de alguns colaboradores da Revista de Antropofagia liderada por Oswald. cuja repercussão.máriO de AndrAde nA cOzinhA A repercussão do Manifesto da Cozinha Futurista na mídia possibilitou a realização do livro A cozinha futurista. No livro Macunaíma. a alimentação é fator fundamental para o desenrolar da obra.

ou assimilação . O caráter de um povo também poderia ser avaliado verificando-se as bases de sua alimentação. conquanto não lhe falte caráter. e como a digestão – ou assimilação – destes alimentos pode ser significativa para o processo de construção do caráter “identidade” nacional brasileiro. pela dificuldade de sua classificação: história? romance? Acabou por ser rapsódia. O resultado de sua obra foi emblemático. e – por que não? – gastronômica. O livro provocou dúvidas desde a publicação. torna-se difícil não reconhecer analogias entre as duas obras. mas o livro só veio a ser publicado em 1928. durante umas férias em Araraquara. musical.indd 34 7/4/2009 15:51:17 . 34 Cozinha futurista. comportamental. e já que a rapsódia foi publicada no mesmo ano do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. mas as várias influências que determinaram o caráter e a formação do povo brasileiro. devido à série de modificações feitas no texto original. O prefácio nunca chegou a ser publicado.pode ser considerado um dos meios de formação da identidade nacional brasileira proposta por Mário de Andrade em Macunaíma. pois Mário julgou inadequados os dois que escrevera. Macunaíma é o famoso “herói sem nenhum caráter”. As misturas de raças deram-se não somente no âmbito genético. As inúmeras repetições do verbo comer e seus sinônimos chamam a atenção sobre os alimentos ingeridos ao longo da saga de Macunaíma. O processo de ingestão e digestão . reflexo da miscigenação de tantas culturas quantos foram os povos que aqui vive(ra)m.Fillippo Tommaso Marinetti passa a ser respeitado pelos irmãos na medida em que se torna o principal responsável pela alimentação dos mesmos. Mário de Andrade escreveu Macunaíma na semana de 16 a 23 de dezembro de 1926. já que Mário de Andrade acabou por construir um “símbolo do brasileiro”. mas também nas áreas lingüística. O “herói de nossa gente” reflete não uma.

. desde os nossos ancestrais mais primitivos: entretanto ainda hoje podemos averiguar seus resquícios.. senão o que digere (. vem sendo praticada há centenas de anos.”2 Mário de Andrade dedica grande atenção à alimentação de seus personagens na obra Macunaíma. O padre José de Acosta empregava o termo hóstia para designar a vítima dos sacrifícios astecas. pp. Frank. não é o comer que ele toma na boca.. O Canibal. destaca que o protagonista é uma “(. Sermões. Brasília: Editora Universidade de Brasília. nutre.”1 Esta antropofagia está também ligada ao amor.) a palavra despertava inextricavelmente o sentido moderno do pão eucarístico.) o mesmo Cristo que no Sacramento se come. e dá forças e vigor ao vivente. a transformação do tabu em totem. Antonio. que eram associados a uma prática antropofágica. Alfredo Bosi. Lestringant. seja de forma direta ou sublimada. São Paulo: Hedra. desde o nascimento e as primeiras 1 2 Vieira. quando da missa. pois o que todos os fiéis desejam não é viver no amor de Cristo? Transportando-nos da cultura cristã para a indígena primitiva. no Rosário se digere. se convertia em corpo de Cristo.) espécie de barro vital... Padre Antonio Vieira traz desta forma a questão da Eucaristia: “(. que.(. como o Sacramento católico. encontramos em Frank Lestringant uma analogia entre um ritual antropofágico indígena e a Eucaristia: “(. ainda amorfo.. grandeza e decadência. Pe.indd 35 7/4/2009 15:51:17 . e recebe dentro de si.34-36....) os primeiros missionários do Novo Mundo perceberam a relação entre a antropofagia ritual e o sacramento da Eucaristia. alimentação que pode ser uma das bases da formação do caráter nacional. pp.A cozinha futurista A antropofagia. 1997. defendida por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago.95-96. 2001. 35 Cozinha futurista..) o que alimenta. aumenta. em sua História concisa da literatura brasileira. a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir.

o herói come a carne da perna do Currupira. pp. o Gigante Piaimã morre em sua própria macarronada – em que “faltava queijo”.. mulher do irmão mas sua amante. como a antropofágica..) imbricam-se crendices de vária extração e significado. já que as referências à ingestão – ou ausência dela – aparecem aproximadamente 130 vezes no decorrer do livro. Jiguê. a ritual . p 395. “(.Fillippo Tommaso Marinetti diabruras glutonas e sensuais”3. o tico-tico morre após alimentar o Chupinzão.”4 Deste compósito. come tudo e todos que estão em seu caminho. Poder-se-ia estabelecer uma divisão entre os diferentes tipos de ingestão. apetite). que acarreta a morte de alguns personagens: o filho de Macunaíma e Ci morre após chupar o peito envenenado da mãe. 1992. Moisés. A antropofagia do livro resume-se a três episódios: no primeiro.indd 36 7/4/2009 15:51:17 . Massaud Moisés afirma que. destaca-se aqui o gastronômico. transformado em sombra leprosa. História Concisa da Literatura Brasileira. 1991. a metafórica ou sensual. A gula aparece como um dos primeiros adjetivos dados ao herói.a medicinal. no segundo. em Macunaíma. No entanto. Alfredo. São Paulo: Cultrix. Enquanto Macunaíma brinca5 com suas mulheres. moqueada.398-399. e no episódio final. O verbo brincar no texto tem conotação sexual. e aquela para o fim mesmo da alimentação. o boi morre por não poder ingerir mais nada após a sombra leprosa acocorar-se nele. num compósito heterogêneo que é bem o reflexo do Brasil e seus habitantes. 36 Cozinha futurista. embora velada ou mascarada pelo clima de sedução. mordidas misturam-se a beijos. Talvez seja ainda possível reconhecer uma ingestão fatal. Massaud. é um eufemismo utilizado por Mário de Andrade. Macunaíma tem seu dedão abocanhado e engolido por Sofará. e o 3 4 5 Bosi. são muitas as passagens em que há uma certa antropofagia. logo depois de sua preguiça e de seu apetite sexual (ainda assim. A Literatura Brasileira através dos Textos.seja por haver divisão de alimento pela família ou em ocasiões festivas . São Paulo: Cultrix.

ou no jejum quebrado por Macunaíma quando nasce seu filho. somente o herói pensa individualmente. 279 Visser. 1975. De fato. cit.v. enquanto Frank Lestringant diz que “(. com freqüência. São Paulo: Martins Fontes. p. Dictionnaire philosophique. uma maneira particularmente eficaz e direta de fazer unidade com o outro”7. p. um ser humano”9. 216 Thévet. Op. que é dividida. 33. A família (tribo) de Macunaíma sempre divide as obrigações para obter o alimento e prepará-lo. de modo geral. ou de negar comida à própria mãe ao perceber que ela pretende dividir o alimento com os outros irmãos. s. O verbo comer adquire duplo sentido.25 Lestringant.23 37 Cozinha futurista. A ingestão ritual remete às sociedades indígenas – em Macunaíma estamos na tribo dos tapanhumas – em que as refeições são comunitárias e o alimento dividido entre os indivíduos da tribo segundo determinada ordem.) o canibalismo constitui. Rio de Janeiro: Campus.A cozinha futurista amor muitas vezes torna-se deglutição. 1998. p. em que os irmãos passam a noite “bebendo oloniti e comendo carimã com peixe”10. cabendo a ele as entranhas.indd 37 7/4/2009 15:51:17 . Antropophages. e o ato sexual pode também significar a assimilação do outro: “é duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem”6 afirma Voltaire. 10 Andrade. e não hesita em comer sozinho a caça ou as frutas e raízes que encontra.. Frank. Histoire de deux voyages. Lembre-se a passagem da anta capturada por Macunaíma. Outro ritual importante no livro é o da macumba a 6 7 8 9 Voltaire. p. André. em Margaret Visser vemos que “Os mitos sobre sacrifício nos dizem. O Ritual do Jantar. Mário de.. André Thévet (1516?-1592) descreve uma das cerimônias de divisão do corpo de um inimigo capturado: “as tripas são dadas aos jovens machos e todos os miúdos são distribuídos entre as jovens mulheres”8. Esta alimentação ritual também aparece quando da morte da mãe. Macunaíma. p. Margaret. que o animal morto e comido toma o lugar da oferta sacrificial original.

após ser um comensal em sua mesa – onde comeu cará com feijão dentro. teve medo de ser comido na macarronada da família). cit.Fillippo Tommaso Marinetti que o herói comparece para resolver seu problema com Piaimã. assimilado pelo outro pode representar o medo de virar totem. que é feiticeiro: suco de tamarindo pra lombriga. pela família de Vesceslau Pietro Pietra (o herói tinha virado torresminhos que “bubuiava” em polenta fervendo. pelo Mianiquê-Teibê (assombração medonha). por Ceiuci e sua filha mais velha (as mulheres queriam comer o pato.”11 De fato. pelo cesto do Gigante Piaimã. Margaret Visser afirma que “(. cozimento de broto de abacate para tuberculose. que era Macunaíma). e. Macunaíma teve medo de ser a iguaria. engolido. chupar chave de rosário pra curar sapinho. A ingestão medicinal ocorre algumas vezes. Margaret. pela surucucu. Op. em outro momento. salvando vidas e atenuando dores. Este medo de ser ingerido. pelo Gigante Piaimã. engolir bagos de chumbo pra não ter filhos. pela cabeça de Capei (que vira Lua). já na cidade.4 38 Cozinha futurista. uma cuia com farinha d’água. na passagem em que Macunaíma procura pouso no rancho de Oibê.. teve que fugir para não ser comido pela sombra leprosa que era Jiguê. p. que termina com todos os participantes comendo o bode que havia sido oferecido em sacrifício. pelo elevador e pelo carro. finalmente. “Mas era só de brincadeira 11 Visser. uma pacuera inteira (sem mastigar) e um côco cheio de água –.) por trás de toda regra de etiqueta da mesa está escondida a determinação de cada pessoa presente de ser um comensal e não uma iguaria. agüinha e reza cantada pro sarampo. por Oibê. pelo Currupira. remédios aconselhados pra erisipela.indd 38 7/4/2009 15:51:17 . sempre através da figura de Maanape. o minhocão temível. Chamam ainda atenção as inúmeras vezes em que o herói tem medo de ser comido: Macunaíma teve medo de ser engolido pela cobra preta..

A cozinha futurista que ele [Oibê] queria comer o herói”12 Para escapar de Oibê. o vômito “(. Mário de Andrade descreve os alimentos que fazem parte da rotina da tribo.20. Esta lista nutricional é relevante. a pacuera virou num periantã (barranco flutuante) em que o herói e a princesa escaparam. Mário de. que “(.418. e precisam saciar esta necessidade.. Frank. Assim sendo. marginais. os personagens sentem fome todos os dias. que “(. fruto da mistura das diversas culturas que integram o povo brasileiro.. estrangeiros”15. cit. enquanto Lévi-Strauss analisa a “antropoemia” das sociedades desenvolvidas. que dera ao menino um pedaço de sua perna como isca. os indivíduos detentores de forças temíveis: criminosos. 14 Lestringant..) exprime o valor simbólico ligado antes de tudo à ingestão de carne humana”14. de palavras de origem indígena e outras importadas diretamente da Europa. diário.) vomitam. Tratase da identidade gastronômica nacional. a alimentação como um fim em si mesma. p. 13 Ibid. como forma de fugir de um perseguidor após comer seu alimento.. já que o pedaço de perna respondia ao chamado do dono. O vômito não aparece somente nesta passagem. Por fim. 12 Andrade. 182. Claude.. Macunaíma já o havia feito para escapar do Currupira.) estava querendo mas era comer o herói”13. p. a ingestão de alimentos para matar a fome e nutrir o corpo: um fato repetitivo. e vomitou as iguarias comidas: a farinha virou num areão. Macunaíma. já que aqui aparece um interminável desfile de termos regionais. mas também aqueles que aparecem para saciar a fome de “outras tribos”. Para Lestringant. Op. 184. o feijão e a água viraram num lamedo cheio de sapos-bois...indd 39 7/4/2009 15:51:17 . p. em lugar de ingerir. Macunaíma por quatro vezes fez “cosquinha na goela com o furabolo”. 15 Lévi-Strauss. Tristes Tropiques. e por fim. p. 39 Cozinha futurista. o cará virou num “tartarugal mexemexendo”..

cigarros de palha de tauari. miritis. jacutinga. raízes/leguminosas e seus derivados: tacacá com tucupi. canguaçu. onça-pinima. urumutum). mocororó. manga-jasmim. presunto. tejus. plantas alucinógenas: ipadu. leite da vaca Guzerá (raça bovina vinda da Índia).Fillippo Tommaso Marinetti Da cultura negra. jaós. aperemas.indd 40 7/4/2009 15:51:17 . lambaris. Embora os nomes indígenas prevaleçam. veado. 40 Cozinha futurista. a papa-viado. peixes: tambiús. broto de abacate. macarronada (com o chofer e seu sangue como molho). moluscos: fritada de sururu de Maceió. beiju membeca (beiju mole). raiz de umbu. abricôs. abacaxi. aves: um macuco. talus. fumo. urus. um motor. cotia. queixadas. gasolina. ratos chamuscados. jundiá. a pacuera (entranhas de caças). mutum-de-fava. piaçoca. mutuns (mutum-de-vargem. abroba (gerimum). tucunaré. jacu. churrasco. pacova (banana). símios: um macaco. os esplêndidos bombons Falchi. onças. sanduíches. sapotas. rendas. mutuporanga. farinha d’água. capivara. cará com feijão dentro. ter herdado o nome utilizado pelos índios. monos. a perna do Curupira. catetos. quiânti. graxains. sapotilhas. suçuarana. a jaguatirica. pixuna. guabijus. heranças do canibalismo autóctone: sopa feita com um paulista. melancias. pacu. robalos. perdizes. licor. macacheira. extremamente diversa da européia. um pato seco de Marajó. bacuris. “champagna”. Dos europeus temos a lagosta. podemos atribuir isso ao fato de grande parte da flora e fauna brasileiras. cogumelos e rãs. os olhos da tigre. os estradeiros. bolo de aipim. coquinho baguaçu. ingere-se o bode da macumba. tamanduá. o torresmo e a polenta. lontras. mucajás. vidros-de-perfume e caviar. tatu-canastra. bagre. maniveira. coelhos. pacas. pitomba. café. ariticuns. caças: veado-catingueiro. tabuí. em meio a muita cachaça. sapotis. guaribas. muçuãs. picota. Da cultura indígena comem-se frutas: bacuparis. cascudo. milho. e não porque Mário de Andrade considerasse a influência indígena mais forte que a negra ou a branca. uísque. antas.

Maanape e Jiguê. Trata-se de crônicas musicais. Os textos foram publicados às quintas-feiras na Folha da Manhã.indd 41 7/4/2009 15:51:17 . estas também se encontram registradas por meio de suas influências gastronômicas. mudaram de cor e passaram a representar as três raças formadoras do povo brasileiro. mas todas elas formadoras da identidade nacional. em 25 de fevereiro de 1945. 16 Andrade. Mário corroborava a opinião da confusão de valores instaurada no Brasil por sua mistura étnica. 1ª dentição. o folclore. o processo de criação. texto publicado em 1928. dançam nele portugas. se acomodando com as circunstâncias do Brasil. hoje publicada em formato livro. 04. Quer como literatura quer como música. Mário de – Romance do Veludo – Revista de Antropofagia. do dendê. agosto de 1928 17 Revista de Antropofagia. dentição. “O Romance do Veludo é um documento curioso da nossa mixórdia étnica. os elementos que entram nela afinal são todos iromuguanas e a droga é bem digerida pelo estômago brasileiro. Comecemos pela obra inacabada O banquete. São Paulo. desde maio de 1943 até sua morte. A contribuição de cada povo serviu para realizar a grande festa que é a culinária brasileira. Em “Romance do Veludo”16. africanos. cheiros e influências. Macunaíma. 1a.A cozinha futurista Assim como os três manos. após terem se lavado na cova do pezão do Sumé (São Tomé). Por mais forte e indigesta que seja a mistura. única em sua variedade de cores. atingindo até a culinária. no. sob o título de “Mundo musical”. espanhóis e já brasileiros. agosto 1928. 41 Cozinha futurista.”17 Em outras obras de Mario de Andrade também é possível verificar a importância destinada à ingestão de alimentos ou aos rituais que circundam a alimentação. mas com estilo completamente livre. da caninha e outros palimpsestos que escondem a moleza nossa. do tutu. acostumado com os chinfrins da pimenta. em que se discutem com a mesma paixão a arte. Gosto muito desses cocteils.

Janjão é o músico pobre e quase anônimo. À mesa. Mário de Andrade toma a refeição como o momento propício para que assuntos importantes sejam discutidos. cinco personagens encontram-se para um banquete oferecido pela milionária americana Sarah Light com o intuito de obter proteção governamental para o jovem músico nacional Janjão. no fundamental. Pastor Fido é um estudante. xiii 42 Cozinha futurista. Outro fator relevante é a possibilidade de se determinar o nível cultural de uma pessoa por meio de suas maneiras à mesa. Margareth.indd 42 7/4/2009 15:51:18 . Comer é algo agressivo por natureza e os utensílios requeridos para o ato poderiam rapidamente transformarse em armas. com um objetivo comum: saciar a fome e compartilhar o alimento e os prazeres advindos destes. Numa alusão ao Banquete de Platão. que precisa ser protegido para que possa continuar a produzir sua arte. As maneiras à mesa são. p. único personagem sem amarras políticas. Na fictícia cidade de Mentira. o discurso adquire um tom menos formal. projetado para que a violência fique fora de questão.Fillippo Tommaso Marinetti a situação dos músicos e das pessoas interessadas – por razões as mais diversas – em proteger a arte e os artistas nacionais. já que todos encontram-se reunidos em torno de uma mesa. “um sistema de tabus. é bastante interessante observar o itinerário dos comes e bebes servidos durante as discussões: 18 Visser. Op. cit.”18 Ora. facilitando aos convivas a explanação de suas opiniões e desobrigando-os das responsabilidades de um confronto intelectual. temos assim em qualquer refeição um cenário ideal para o desenrolar de um texto. que pode dizer o que realmente pensa sem temores de que o grande objetivo do banquete pereça. O político Félix de Cima e a virtuose Siomara Ponga são os convidados pertencentes à classe dominante (vale observar que apenas a classe dominante tem nome completo) e que auxiliaram Sarah em sua empreitada. Além das teorias sobre música ou arte.

Seguem-se Vatapá (cap. Aqui. de cunho afrobrasileiro. nos. IX) e As Despedidas (cap. Oswaldo discute os rumos do modernismo em forma mascarada de refeição. discutir arte e realidade brasileira. 43 Cozinha futurista.A cozinha futurista os capítulos têm como subtítulos a parte do banquete a que se referem. 2a. Mário descreve alguns salões de vital importância para os jovens modernistas. sendo este último o recomendado 19 Revista de Antropofagia. onde “o culto da tradição era firme. dentro do maior modernismo. O Passeio em Pássaros (cap. Salada (cap. a partir do capítulo IV (Aperitivo) é o ritual da refeição que dita o tom das discussões. “O Movimento Modernista” in: Aspectos da Literatura Brasileira. encontramos um texto de fundamental importância para o modernismo brasileiro.VII). aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de composição”20 Voltando ao Banquete de Mário.indd 43 7/4/2009 15:51:18 . Brasília: INL. São Paulo: Martins Fontes. justamente aquele em que Mário de Andrade analisa “O Movimento Modernista”. II – Hors d’oeuvre. publicada na Revista de Antropofagia entre 7 de abril e 8 de maio de 1928. A cozinha.19 Na obra Aspectos da Literatura Brasileira. V). aqui. IV – Sobremesa e V – Cafezinho. vinte anos após a Semana de Arte Moderna. Nesta série. como “o salão da Avenida Higienópolis que era o mais selecionado. Se os capítulos I (Abertura). II (Encontro no Parque) e III (Jardim de Inverno) precedem a comilança por tratarem da apresentação dos personagens. em torno de uma refeição. o autor comenta o que talvez tenha sido fonte de inspiração às crônicas musicais da Folha da Manhã: os salões em que se reuniam artistas e intelectuais. Mario de. Tinha por pretexto o almoço dominical. Café Pequeno (cap. já que os cinco textos que a compõem são intitulados: I – Aperitivo. X). dentição. para. 1972. Pode-se. 04 a 08 20 Andrade. VII).VI) e viriam ainda. III – Entradas. foram servidos como aperitivo Porto e “Cocktail Verde e Amarelo”. estabelecer um paralelo com a série “Moquém”. maravilha de comida lusobrasileira” ou o salão da Rua Duque de Caxias. de Oswaldo Costa. Doce de Coco e Frutas (cap.

Vinha um prato de salada junto. Vê-se aqui.. limão (que pelo menos disfarça o cheiro fatigante da caninha. Tradução em português p. O Banquete. a utilização de um vocabulário que remete ao utilizado por Marinetti na introdução de seu livro A Cozinha Futurista: “E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros”. Está claro que ninguém comeu isso. aspargo. além da aproximação do prazer proporcionado pela comida ao prazer sensual instigado pela mulher. até do paladar dos dentes (…) Eu não sei como explicar… mas vocês homens. fabricação particular). No Vatapá. 07 e 11 23 Andrade. A Cozinha Futurista. palmito. tudo feito com massa de açúcar pintada. 123 22 Marinetti. como nesta batida). o dendê. Mario de. todos se enganaram. O Banquete.. ou “ajoelhando-se em frente. p. de um prato chamado “Balé do Racionamento”. 22 Numa época de escassez devida à Guerra.T. começou a amorosa adoração com os lábios. “mas em vez de batatinhas: pequenos pedaços de queijo assados na brasa. p. foi muito divertido. e não se mistura com ele) e um pouco de açúcar verdadeiro (mas um pouco só. Alface. 125 44 Cozinha futurista. ainda. Era um Chateaubriand. feita de caninha (em alambique de barro. Mario de. camarão seco. em vez de cogumelos: leite coalhado em cápsulas salgadinhas.indd 44 7/4/2009 15:51:18 . São Paulo: Duas Cidades. a língua e os dentes”. temos a descrição. O político provou do cocktail e constatou se tratar de uma legítima batida paulista. “É uma delícia da língua.Fillippo Tommaso Marinetti pela anfitriã por acompanhar melhor alguns pratos fortes do Brasil que seriam servidos. já perceberam como é gostoso no meio da multidão a gente se encostar numa mulher…”21. os sabores delicados do peixe e do camarão fresco unem-se trêmulos à tempestade dos temperos. 1989. F. mas a carne estava miraculosa”23 Outra vez podemos estabelecer um paralelo com Marinetti: a utilização de gêneros alimentícios alternativos aos que faltavam em tempos de guerra – a polêmica proposta marinettiana de abolir o macarrão tem 21 Andrade.

estava encantada com o furor quase mítico do prato.159 25 Andrade. mas uma salada colossal. entregam-se. A salada. com mentira e tudo.. manducado por ele antes mesmo que suas mãos o tocassem. “Tinha mil cores. e o prato foi comido. mas já personalizada pelo tom local.indd 45 7/4/2009 15:51:18 . não conseguira resistir à atração da salada e se servira de todas aquelas cores.”25 A essa salada. para suprir com a arte a falta de certos produtos).. Mario de. que resfolegava em cima da salada. Áspero. tão nutrido e convicto. cozinheiros tornando-se verdadeiros artistas (neste caso. O Banquete. aquele cheiro. O Banquete. o vatapá. a maior do mundo. Mas tão cheio. especialmente os verdes. Chegamos finalmente à Salada. “um coroamento da sua existência de comestível espiritual (desculpem). cuja carreira a impedia de gostar de qualquer coisa. os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações. que era “feioso e monótono na aparência. prato principal do banquete de Sarah Light.” Era o prato preferido da milionária. bravo. mas que cheirava.159 45 Cozinha futurista. “Não tinha cheiro nenhum. Seus olhos a cheiravam. que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas.A cozinha futurista sua base na elevação de preço do trigo durante a guerra -.p. Pastor Fido. norte-americana. era uma salada fria. Bravio. seus olhos haviam engolido a salada. Espalhara na sala um cheiro vigoroso que envolvera os presentes no favor das mais tropicais miragens. não fazia vista alguma com seus tons de um terra baço. O cheiro do vatapá vos trazia aquele sossego das coisas imutáveis”24 A salada aparece como alegoria: é norte-americana. Siomara Ponga. Mario de. Felix é descrito como um animal. exceto Janjão. embora não se tivesse entregado totalmente ao prato em que havia até sorvete de creme e suco de pedregulho! 24 Andrade. mas como era bonita e chamariz!” A descrição da salada aparece em total oposição ao prato anterior.. o moço estudante.. a malícia das experiências sensuais. todos. p. Todas as cores estão nela representadas.

a mãe poderia finalmente comer peru. Juca assumia para si a culpa dos desejos de todos da casa. incapaz de caráter”26 Este prato. Ao menos. Juca pede que seja feito Peru no Natal. O Banquete.indd 46 7/4/2009 15:51:18 . de acordo com os personagens respectivamente como: o prato mais lindo do mundo. o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo (e dominava a gente). uma gorda com os miúdos. não havia culpa. Era um prato inteiramente novo.. p. foi descrito. gemas de ovo libertas da perigosa albumina e avelãs recobertas de cacau sem açúcar. 26 Andrade. Mario de. por causa de Gandhi. 46 Cozinha futurista. Era o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo. a mãe e a tia. perfeito.Fillippo Tommaso Marinetti Entre perdiz desfiada. e outra seca. Um pouco anterior ao Banquete. a salada mais traiçoeira do mundo. bicho nacional dos celtas. o peru. apenas para os familiares. a salada mais encantatória do mundo. em respeito aos judeus. mas já que era considerado doido. Neste texto também temos uma refeição como temática central. o prato mais alcoolizador que havia agora no mundo. mas encapsulado em farinha de trigo. havia também pecados: leite de cabra. 162. À mesa. a comida vence a batalha. é o conto “O Peru de Natal”. alface muito clara e casca ralada de maçãs. “Tinha de tudo. a carne mansa de um tecido muito tênue. sem caráter. Juca sempre foi considerado doido pela família. todas as vitaminas salutares. um irmão. Após a morte do pai. Assim. ameixas e nozes. duas farofas. embora aqui seja o prazer proporcionado pela iguaria a ser ingerida mais forte que a batalha emocional que se dá à mesa. escrito entre 1938 e 1942 e publicado no livro Contos Novos. porco. uma irmã. que contam cinco pessoas: ele. isso lhe dava certos privilégios de idéias inovadoras. a salada mais carcomedora do mundo.. a salada mais sem perfume porém mais vistosa do mundo. e não apenas o que sobrava na ossada após as festas que davam enquanto o pai era vivo.

Em outro poema. como diz o autor. e essa sensualidade é reafirmada ao partir o narrador. entretanto pareceram mais relevantes em três deles. Trava-se uma luta entre os dois mortos: o pai e o peru. e após essa felicidade.A cozinha futurista douradinha. para que. em meio a mil maravilhas. Numa declaração de amor à cidade de São Paulo. A primeira. em que um menino vai ao céu levado por uma andorinha. Como em Macunaíma. Outras referências gastronômicas podem ser encontradas na obra poética de Mário de Andrade. Mais uma vez. para um encontro amoroso. mesmo após a morte. o prazer gustativo e o prazer carnal se aproximam. Juca passa à felicidade individual. Mário de Andrade revela o destino que se deve dar ao seu corpo após a morte. existe sensualidade no ato de ingerir a iguaria desejada há muito tempo. Juca. No céu marioandradino as iguarias são todas brasileiras. e a sombra do pai. O peru vence. Belo Horizonte: Vila Rica. Todos desfrutam de uma felicidade gustativa. com bastante manteiga. Mario de. possa continuar gozando as delícias de sua terra natal. este pertencente à série “Lira Paulistana”. destinando os pés à Rua Aurora. 1993. há uma contaminação do vocabulário referente aos prazeres gustativo e sexual. Mário destrincha o próprio corpo. com forte cunho nacionalista. com o auxílio de Juca. gozando os prazeres daquela carne macia acompanhada por cerveja. e lá chegando. “Lenda do Céu”. dividida com todos os familiares que puderam comer até se fartar. quer que seus restos mortais sejam enterrados em diferentes partes da cidade. o sexo ao Paiçandu. Numa espécie de divisão ritual. e vai ao encontro de Rose. constata que “tinha mandioca e açaí/ Mate cana arroz café/ muita banana e feijão/ Milho cacau … Tinha até”. n’O Banquete e em “O Peru de Natal”. Quase a ceia de Natal é estragada pela lembrança do pai. a cabeça 27 Andrade. 47 Cozinha futurista. por extensão. Mário de Andrade considera as comidas do Brasil paradisíacas. in: Poesias completas. e todos passam a comer com sensualidade.indd 47 7/4/2009 15:51:18 . em “Lenda do Céu”27.

Mário de. italiano. poema de 1920-1921. dono das tradições!/(…) Come! Come-te a ti mesmo. o joelho à Universidade. o coração ao Pátio do Colégio. O burguês indigesto de São Paulo é tão sem caráter quanto Macunaíma. ritualmente. em que o alimento auxilia na constituição do típico burguês. aparências contando mais que conteúdo moral ou cultural.. o nariz aos rosais. o esquerdo aos telégrafos. Entretanto este poema intitulado ode (teoricamente uma poesia de elogio) demostra o ódio do autor contra o burguês. O burguês é insultado em sua formação cultural.. escrito pelo mesmo Mário de Andrade.Fillippo Tommaso Marinetti à Lopes Chaves. aproximando-se da salada de Sarah Light. e na divisão da primeira anta caçada por Macunaíma. mas absorve a cultura africana e é contaminado pela européia. Macunaíma não parece em momento algum causar ódio no autor. foi a parte que coube ao malfadado herói. Poesias Completas. e. eram destinadas às crianças. de Macunaíma. brasileiro. os olhos ao Jaraguá. Não havia modo de o herói ser diferente. intelectual e física: “O burguês níquel. Cauteloso porque mescla várias culturas. um homem que sendo francês. Macunaíma é fruto da mistura de tradições. O burguês.. as tripas pro Diabo “que o espírito será de Deus”. 48 Cozinha futurista. sem caráter.) Eu insulto o burguês funesto! / O indigesto feijão com toucinho. é índio.28 Podemos ainda encontrar resquícios pantagruélicos em “Ode ao Burguês”.indd 48 7/4/2009 15:51:18 . o ouvido direito ao Correio. mais consciente de sua “importância” na sociedade não goza dos mesmos privilégios de simpatia que Macunaíma. através desta. é sempre um cauteloso pouco a pouco. as mãos que ficassem “por aí”. oh! gelatina pasma!/ Oh purée de batatas morais! ”29 Mario de Andrade faz o retrato da burguesia paulista da época. tradições 28 Lembremo-nos de que as tripas../ o burguês-burguês!/ A digestão bem-feita de São Paulo!/ O homem-curva! O homem-nádegas!/(. 29 Andrade. a língua ao alto do Ipiranga. provavelmente por sua ingenuidade de herói emprestado de uma mitologia indígena.

10 31 Apesar de versões que negam que o bispo Sardinha tenha sido comido pelos índios. a tese sobre o “banquete” encontra respaldo em documentos históricos. Sua carne não é boa o bastante para ser comida por outrem. Apropriam-se dele.A cozinha futurista vazias de significado. Data da deglutição do Bispo Sardinha. Passemos à carne do Bispo Sardinha! OswALd cAnibAL de AndrAde Comidas O horizonte reto Metodicamente Jantou O sol (Julio Paternostro)30 16 de junho de 1556. no. Duarte da Costa. como cartas de jesuítas da época. O estrangeiro não era mais ameaça. Os índios caetés devoram o primeiro bispo do Brasil. segundo o historiador Douglas Aprato. a quem Sardinha vinha criticando publicamente. 49 Cozinha futurista. Mário condena.31 30 Revista de Antropofagia. de seu poder. de sua força. este burguês à autofagia. homens cheios apenas de comida insossa. portanto.indd 49 7/4/2009 15:51:18 . da Universidade Federal de Alagoas. Alguns historiadores levantam a hipótese de que o bispo tenha sido assassinado por homens da guarda do então governador-geral. dom Pedro Fernandes de Sardinha e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. havia virado churrasco.

assimilando assim os valores antes temidos.) A transformação permanente do Tabu em totem. 1 50 Cozinha futurista.. A diferença factual de dois anos poderia descartar a hipótese. (. ”32 Das sucessivas leituras feitas para melhor compreender a obra de Marinetti. Filosoficamente. Socialmente. Na versão dele. Lei do homem. portanto precedeu em dois anos o Manifesto da Cozinha Futurista.do Brasil. Divergindo em sucessivas batalhas intelectuais de escritores – modernistas ou não – e de outras escolas como o VerdeAmarelo e a Escola da Anta. com alguns amigos. mas. 1a. in: Revista de Antropofagia. a antropofagia parece ter sido a mais radical das tendências da época.(. de 1930. O Manifesto Antropófago surgiu em 1928. ainda na linha de “coincidências” entre os dois autores. Para transformá-lo em totem. uma curiosidade persistia: haveria a antropofagia oswaldiana nascido num berço futurista? O Manifesto Antropófago foi publicado em 1928. 32 Andrade. Economicamente. publicado no primeiro número da revista de Antropofagia. certamente – que se desvencilha dos inimigos ingerindo-os. o bispo foi alvo de tupinambás em território sergipano. Sardinha foi devorado por índios. Absorção do inimigo sacro. Já Marinetti havia escrito Le Roi Bombance. verificamos que ambos tem um livro relacionado de alguma forma à gastronomia anteriormente ao manifesto: Oswald de Andrade escreveu. Lei do antropófago.. “Só a antropofagia nos une. mas não os caetés nem em Alagoas. Oswald de. dentição.) Só me interessa o que não é meu..) Antropofagia.. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo durante o ano de 1918. uma tragédia De acordo com o historiador Moacir Soares Pereira. e marca o início de uma escola literária.. “Manifesto antropófago”.Fillippo Tommaso Marinetti Oswald de Andrade prega o retorno ao homem natural . no.. A terrena finalidade.indd 50 7/4/2009 15:51:18 . A humana aventura...(.

51 Cozinha futurista.15 50. artistas e intelectuais da época. o título da obra de Oswald compactua com esta. no ano de 1918-19. Já na primeira página. as aproximações são pertinentes. 67. João de Barros explicita qual é o objetivo do caderno-livro-diário: fornecer receitas para que as almas matem sua fome de experiência e sua fome de ilusão. O livro é um diário de uma garçonnière que Oswald mantinha na rua Líbero Badaró.0005 Em cápsulas.00 0. Existe uma apenas de envelhecer contente”. andar sala 2. temos um texto assinado pelo pseudônimo Dragoras. 3o. x ao dia. Apesar de não se relacionar com a culinária.33 Se faltam os ingredientes para aproximá-lo de um livro de cozinha. não faltam modos de preparo. que ocupa quase toda uma página. Criar “o cardápio perfeito para o banquete da vida. São Paulo: Globo. intitulado “Receitas Sentimentais”. com grande encanto e surpresa. Após o texto. com alguns conselhos para as almas: “amemos sempre. À página 104. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Ainda que as datas neguem a influência direta em Oswald.indd 51 7/4/2009 15:51:18 . Comendo assim.A cozinha futurista gastronômica pantagruélica em 1905. – Há diversas maneiras de amar. Esta garçonnière servia como ponto de encontro para amigos. a marcha de seus males”. receita”. à moda dos famosos salões 33 Andrade. nas horas de imbecilidade. as almas sãs se farão robustas e as doentes susterão. Envelheçamos devagar. temos a “1a. Oswald de. esta mais aproximada a uma receita médica: Recipe – Eu te amei ãã Tu não me amavas Eu já não amo Tu és má 0.33 0. 1992.

Todos os amigos que freqüentavam o local contribuíam com o diário. XI-XII 52 Cozinha futurista. recortes de jornais. embaixo de uma foto que retrata muitas pessoas em volta de uma longa mesa ao ar livre. Ed Globo. “Há uma espécie de paixão coletiva por Deisi. VIII 35 Ibid. bilhetes. Na realidade. a Antropofagia. Se O Perfeito Cozinheiro é um pastiche de recortes de jornal.indd 52 7/4/2009 15:51:18 . produziram o livro-diário. Dentre eles. a visão de crimes e traições. figura dominante de O perfeito Cozinheiro: Deisi. o gosto pelo trocadilho. o “príncipe de nossa prosa”. charges da imprensa e. A tradição gastronômica de nosso país apresenta a mesma característica de assimilação das influências diversas para daí resultar em um produto original. em 1918.Lobato. na grafia de Oswald de Andrade) a quem chamam de Miss Cíclone. de colcha de retalhos. foste o cordeirinho pascal dessa farra de quaresma”. o amor pelas situações insólitas e imprevistas com tons de sátira e humor. todos nele escreviam. Prefácio a O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. p. é possível reconhecer nesta obra um esboço do que seriam as características da obra oswaldiana – “o processo fragmentário. Pois foi do mesmo modo formada a cultura brasileira. p. Como observa Mario da Silva Brito. Oswald. já havia praticado o que só viria a teorizar 10 anos depois. lê-se a inscrição: “. os nomes grotescos ou humorísticos.”35 A Cozinha Futurista. Mário da.. bilhetes 34 Silva Brito. cartas. que é amante de Oswald”34. (Dasy. Novamente. o amor visita a cozinha. a que se refere um recorte de jornal colado à página 172. Provável ironia ao almoço que havia sido oferecido a Monteiro Lobato.Fillippo Tommaso Marinetti já citados. apenas uma mulher. ocorre até mesmo um banquete antropofágico na obra. também todos traziam e colavam cartas. também pode ser comparada a O Perfeito Cozinheiro na questão estrutural. À página 194. numa espécie de pastiche. de Marinetti e Fillìa.

Esta obra gastronômica de Marinetti é composta por um texto que poderíamos considerar literário – Uma refeição que evitou um suicídio. por certo. muito mais privilegiada na obra de Oswald. Temos.. os métodos de produção se eqüivalem. Pastiche também ele. que manteve a aparência de “álbum de colagem” e a caligrafia manual. e pouco aproveitada em Marinetti. A obra provocou polêmica ao mesclar poesia e prosa numa atitude inovadora para com a língua. Oswald fez sua primeira obra “antropofágica” em 1918. traz de volta à literatura um dos pseudônimos (Miramar era Oswald) que comparecem com bastante freqüência em O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. mas excetuando a forma. nesta obra. que se limitou a reproduzir o conteúdo dos textos jornalísticos e dos cardápios sem todavia apresentar ao leitor a forma original. 53 Cozinha futurista. algumas poucas referências à gastronomia. receitas futuristas e um pequeno dicionário que auxiliaria um leigo a compreender a obra e a revolução proposta. mas faltou-lhe a digestão dos elementos previamente ingeridos. Valendo-nos de Padre Antonio Vieira. os cardápios apresentados nos vários banquetes futuristas que foram oferecidos por ocasião do manifesto e da inauguração do restaurante futurista de Turim (o Santopaladar).indd 53 7/4/2009 15:51:18 . O livro publicado por Oswald de Andrade em 1924. as cartas de pessoas contra ou a favor do movimento.A cozinha futurista etc. o manifesto. Memórias Sentimentais de João Miramar. Marinetti procedeu à ingestão.em 1930. mas são apenas fatos corriqueiros sem nenhuma aparente relação com a antropofagia. Diferenças existem. a polêmica por este suscitada e publicada em diferentes jornais e revistas. outros cardápios futuristas criados pelos representantes do movimento. o poético antefato tragicômico –. A Cozinha Futurista não dista deste modelo de criação literária. já que é composta da recolha de vários documentos relacionados ao Manifesto da Cozinha Futurista. Marinetti utilizou o mesmo processo – a colagem .

”36 Mais uma vez. em 1925 Mário de Andrade diria numa carta a Sérgio Milliet: “Essa invenção Pau brasil do nosso Oswald é uma espécie de futurismo de Marinetti. muitas são as referências a iguarias nativas. apenas frases selecionadas engenhosamente. a cidras limões e laranjas e à cana-de-açúcar. em 1925. Sem comparações de apoio. O vatapá…). no.” O livro Poesia Pau-Brasil começa com uma leitura pessoal feita por Oswald sobre a História do Brasil. 54 Cozinha futurista. Em “Gandavo”. Apesar de ser composta por ingredientes simples. 1a. lingüísticos ou culinários (A cozinha. econômicos. Excertos de historiadores famosos. com os ingredientes de que dispomos. Sem pesquisa etimológica. Nesta obra.Fillippo Tommaso Marinetti No mesmo ano. o Manifesto Pau-Brasil funda a poesia de exportação. o poema “A Roça” nos traz uma descrição da alimentação dos negros que trabalhavam nas fazendas. produzida no Brasil. todos bem assimilados e digeridos. Poesia de exportação. temos referências ao ananás. humildes. No entanto. que resultará na publicação de Poesia Pau-Brasil. a pepinos romãs e figos. Oswald de. note-se a força de trabalho destes ao final do poema: 36 Andrade. étnicos. dentição. 01. adquirindo assim novo sentido ou poder de persuasão ao serem lidos aos pedaços. frutos tropicais desconhecidos pelos europeus. como Pero Vaz de Caminha ou Fernão de Magalhães são sistematicamente recortados. Buscando a originalidade nativa nos fatos pictóricos. Sem ontologia. “Sem reminiscências livrescas. Produtos que serão exportados à Europa. que foi rejeitado enquanto “marinettismo”. folclóricos. in: Revista de Antropofagia. Em “Poemas da Colonização”. Oswald lança o Manifesto Pau-Brasil. Toda a gente está lá dentro. estabeleceu-se um paralelo entre os dois autores: as discussões para batizar o movimento artístico dos rapazes de São Paulo cogitaram o termo “futurismo”.indd 54 7/4/2009 15:51:18 . “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”.

Pau Brasil. Entretanto. e tem o “trem leiteiro/ que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro”.indd 55 7/4/2009 15:51:18 . Oswald de. nosso chocolate tão nacional. o poema “Walzertraum”37 diz que “aqui dá arroz/ feijão batata/ Leitão e patarata”. 37 Numa tradução tendenciosa: “Sonho de Valsa”.A cozinha futurista A ROÇA Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angu Abóbora chicória e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços Em “rp 1”. em “Postes da Light”. 38 Os três poemas citados estão em Andrade. 2000. As referências gastronômicas são sempre feitas a produtos nacionais. preferências nacionais. uma mistura que revela o caráter do povo brasileiro. São Paulo: Globo. nativos. um poema já prenuncia a antropofagia oswaldiana: DIGESTÃO A couve mineira tem gosto de bife inglês Depois do café e da pinga O gozo de acender a palha Enrolando o fumo De Barbacena ou de Goiás Cigaro cavado Conversa sentada38 Ingredientes brasileiros com gosto de comida estrangeira. 55 Cozinha futurista. que o assimila as influências para transformá-las em originalidade. O estrangeiro sendo misturado ao café e à pinga.

após alguns anos de relacionamento mal explicado à sociedade: Pegue-se 3 litros do visgo da amizade Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo Mexa-se até ficar melado bem pegajento E engula-se tudo de uma vez Como adesão do Mário de Andrade Ao almoço Pra Tarsila E Oswaldo Amém. ambos aludindo a receitas. Mário de Andrade divulga em 1925 um poema em homenagem ao amigo Oswald.Poesia Futurista” . A resposta de Oswald também vem em forma de poema – paródia publicada em Serafim Ponte Grande. que acabara de anunciar o noivado com Tarsila. sob o título “O Amor.Fillippo Tommaso Marinetti Numa amigável intriga literária.indd 56 7/4/2009 15:51:18 .. com ingredientes e modo de fazer ou ministrar: Tome-se duas dúzias de beijocas Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia Coloque-se dois ovos Agite-se com o braço da Fatalidade 56 Cozinha futurista.

Escreveu Oswald de Andrade que devemos “admitir a macumba e a missa do gallo. todos seriam ingeridos para reforçar o movimento antropofágico. (Só comiam os fortes). Precisamos rever tudo – o idioma. Até que virem totens. sob a direção de Antonio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. a carne destes é oferecida no Açougue. Hans Staden salvou-se porque chorou. real em outras. Tudo no fundo é a mesma coisa”. Foram 16 páginas. vários artigos anunciam os jantares nos quais certas figuras da sociedade seriam deglutidas. intelectuais que não compreendiam os rumos da literatura modernista. de 17 de março a 1°. teve duas dentições: a primeira teve dez números em formato revista. Veja só que vigor: .Lá vem a nossa comida pulando! E a “comida” dizia: “come essa carne porque vai sentir nela o gosto do sangue dos teus antepassados. o direito de properiedade. real. Às vezes. para que todos os que assim desejam possam participar da comunhão desses tabus.A cozinha futurista E dê de duas horas em duas horas marcadas No relógio de um ponteiro só! A Revista de Antropofagia. O índio comungava a carne viva. cedida aos antropófagos pelo editor do jornal. com a verdade de seu povo. O catolicismo instituiu a mesma coisa. simbólica em algumas sociedades. publicadas semanalmente. com as raízes. e foram editadas de maio de 1928 a fevereiro de 1929. a famí- 57 Cozinha futurista. O club de Antropophagia quer agregar todos os elementos sérios. Rubens do Amaral. a segunda era limitada a uma página do “Diário de São Paulo”.indd 57 7/4/2009 15:51:18 . por conseguinte. com o primitivo e natural. Poetas sem brilho. A antropofagia. Ou ainda: É a comunhão adotada por todas as religiões. coloca o ser humano em contato com seus antepassados. com 8 páginas. porém acovardou-se. de agosto de 1929. Além da referência gastronômica óbvia no nome da revista. hoje compilada num único volume. mascarando o nosso símbolo.

em geral indigesto.40 Benedito Nunes afirma que “A antropofagia transportou para o campo das idéias políticas e sociais o espírito de insurreição artística e literária do Modernismo”. escrever como se fala.Fillippo Tommaso Marinetti lia. 51 e 66 58 Cozinha futurista. num gesto de comunhão e de exorcismo ao mesmo tempo. Oswald Canibal. abará. ou “Os índios não comem a carne de seus inimigos ou chefes com intenção 39 Revista de antropofagia. acaçá. a necessidade de divórcio -.39 Segundo Annateresa Fabris. no. talvez com um paladar um pouco mais “modernizado” que o defendido por Oswald. p. caruru. sob diversos nomes (ou pseudônimos): “se há uma coisa vinculada à alma brasileira é este pequeno e inocente vício guloso que levava a velha índia convertida a pedir in extremis ao seu confessor um dedinho de curumim a chupar!” (Ubaldino de Senra). 3 40 Fabris. No decorrer dos números da Revista. 277 41 Nunes. “Há diferenças psicológicas entre a eliminação física do adversário de maneira ‘científica’ (a cadeira elétrica de Lacerba) e sua deglutição. São Paulo: Perspectiva.indd 58 7/4/2009 15:51:18 . oxinxin. efó – e pela negação das iguarias estrangeiras: “te dana Petit-pois/ te dana Macarrão/ te dana paté-de-fois-gras!/ Viva o caruru”. O Futurismo Paulista. várias vezes volta à discussão a tradição indígena. em seu poema intitulado “Bahia”. isto é. ou ainda: “A arte é um meio de ‘devorar’ o conteúdo trágico da vida. sinceridade máxima. Perspectiva/ EDUSP. no cardápio antropofágico. p. Benedito. 1979. 1994 P. acarajé. transformando todos os tabus em totens. Ascenso Ferreira. Annateresa. define a tradição de sua terra através dos pratos típicos – vatapá. em valores humanos e em obras de arte”41 Outros colaboradores da revista também tinham suas preocupações gastronômicas. 05. mas a ser consumido necessariamente para criar uma nova ordem de coisas no Brasil”. São Paulo.

(…) Seu ‘primitivismo’ era. Ambos os autores querem modificar a mediocridade atual.” (China) O Manifesto Antropófago é de 1928 e. Temos aqui o uso da primeira pessoa do plural – nós – que engloba o leitor. e para alcançar tal objetivo. As idéias tomam conta.” Ou “Contra todos os importadores de consciência enlatada. também este anterior ao Manifesto da Cozinha Futurista. sua prin- 59 Cozinha futurista. fazendo-o acreditar que faz parte também do movimento. das idéias e da língua. Eric Hobsbawn diz que no campo da arte. além da negação do cotidiano. exige-se “a abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato” ou a afirma-se que “Os defensores do macarrão carregam a bola ou a ruína no estômago. Comparemos com o Manifesto Antropófago. Entretanto. das idéias pré-concebidas. quasi todos. “especialmente das artes visuais. reagem. procedem à desestruturação da sociedade. Comem porque pensam mastigar também o valor do comido – comidos voluntários. a comparação faz-se inevitável. Contra a verdade dos povos missionários (…) – É mentira muitas vezes repetida”. não apenas no conteúdo transformador. na supressão da pontução e no tom provocatório: No Manifesto de Marinetti. afirma-se que os futuristas “Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega”.A cozinha futurista gastronômica.indd 59 7/4/2009 15:51:18 . mas também no estilo telegráfico. inspiraram-se preponderantemente nelas nesse período. (…) Contra as sublimações antagônicas. as vanguardas ocidentais trataram as culturas não ocidentais em total pé de igualdade. do status quo. queimam gente nas praças públicas. Trazidas nas caravelas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. entendida por ele como culinária. Talvez nunca tenham sabido da existência desses Manifestos quase “afins”. de Oswald: “Somos concretistas. Talvez Marinetti tenha sabido da existência da Antropofagia e tenha resolvido imbricar-se nesta área. sem dúvida. portanto. como prisioneiros ou arqueólogos”. propondo um novo meio de expressão. Na verdade.

A Era dos Impérios.indd 60 7/4/2009 15:51:18 .”44 A preocupação com a metáfora gastronômica não cessaria em Oswald. apesar de haver herdado a cultura européia. o escritor questionava a estrutura econômica e cultural do Brasil: País de sobremesa.”43 De tudo isso se conclui que a antropofagia é a revolta da sinceridade recalcada durante quatrocentos anos. 43 Fabris. Annateresa. verbo intransitivo. no. a disciplina. p. café. Do ingênuo contra o artificioso. O açúcar substitui o pão das populações. num artigo intitulado “O país da sobremesa”. 42 Hobsbawn. 2a dentição. Eric. 265 44 Revista de Antropofagia. “A reação da paisagem contra o tempo. Da sensação espontânea contra a moral. O Futurismo Paulista. os brasileiros. cacau. Exportamos bananas. coco e fumo. Do nativo contra o importado. País laranja! Temos Coelho Netto. O sr.Fillippo Tommaso Marinetti cipal atração.. Os olhos da nossa gente melam. Mário de Andrade escreveu um livro que se chama Dar.120-1. o sistema. contra a superioridade do ariano corroído pelo vício e pela moleza das decadências. castanhas do Pará.p.. Da terra (que é nossa). (…) Os brasileiros estavam começando a descobrir um certo passado. Guilherme de Almeida. Ao comparar os dois movimentos literários. Tudo resultado da gula. Rio de Janeiro: Paz e Terra. no qual se enraizará sua consciência nacional. Annateresa Fabris diz: “É diferente a atitude de modernistas e futuristas perante a consciência do atraso: os italianos adotam como estratégia fundamental a negação do passado. Os espíritos também. enfocam a questão pelo prisma da exaltação de um lugar geográfico emblemático. tinha muito de primitivo por suas raízes indígenas e africanas. Da claridade natural contra a sombra da filosofia. Em 1937.”42 O Brasil. 1998. contra o estranja (de outros) ou o infinito (sem dono). ao contrário. Da inferioridade do mestiço que trabalha. Martins Fontes. 4 (editorial) 60 Cozinha futurista.

além de um lugar reservado aos autógrafos. batida pau brasil. Ano também do jubileu do “Pau Brasil”. Neste texto. Proceder-se-ia finalmente à manducação do criador do Manifesto Antropófago. que se suicidara em Nova Iorque. Marinetti conta como surgiu a idéia de se instaurar uma revolução na cozinha. uma que se parece muito com a morta. coração de abacate com crustáceos incrustados. Para aumentar a tensão. tem como ingrediente literário apenas o primeiro texto: “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. deu ensejo a um cardápio de criativo projeto gráfico. convida todos os futuristas à cozinha. Marinetti corre ao socorro do amigo. Giulio Onesti estava deprimido e com instintos suicidas após saber da morte de sua ex-amante. juntamente com os futuristas Prampolini e Fillìa. Jean de. “mas não o suficiente”. a lista dos pratos: folhadinhos marcianos e canapés voadores. cuja capa reproduzia cenas antropofágicas do livro de Jean de Léry – Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil45.A cozinha futurista Encerrando grandiosamente as relações canibais em Oswald de Andrade. reproduzimos o cardápio do almoço em comemoração aos 60 anos do escritor. além de uma taça antropofágica cujo conteúdo desconhecemos e cauim “selo vermelho”. por diferentes ingredientes. transformada em “fantásticos laboratórios”. o suicídio parecia ser a melhor alternativa. e como solução. no ano 396 da deglutição do Bispo Sardinha. em 25 de março de 1950. mArinetti AntrOpOFáGO O livro A Cozinha Futurista. para que fosse salva a vida de seu amigo Giulio Onesti. para inventar 45 Léry. o mesmo Giulio recebera um telegrama de outra mulher. composto. como já vimos. lombinho parnasiano e virado. 61 Cozinha futurista. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil. Para não trair a morta.indd 61 7/4/2009 15:51:19 . No verso.

Eva e o Pecado Original. Talvez Marinetti esteja aludindo à Semana de Arte Moderna. açúcar e ovos./ E como aroma libanês recendem teus velamens” ou ainda “Depois de haver provado o trigo meu. destilam teus lábios. farinha de milho. Estes ingredientes ao aludirem ao Cântico dos Cânticos. leite e mel.Fillippo Tommaso Marinetti esculturas comestíveis. metafórica. na Eucaristia. do leite já provei. 25. ou a forma dos pratos assemelhar-se a elas. basta lembrar de Adão. chocolate em pó. Daí advém o fato da descrição dos pratos futuristas muitas vezes ser entremeada de adjetivos atribuíveis a mulheres. pimenta vermelha. mas ingerimos o corpo de Cristo em forma de hóstia. podem talvez ser um prenúncio de uma relação amorosa a ser apresentada posteriormente ao leitor. e vem sendo repetido nos últimos dois mil anos. pp. Cem quilos de tâmaras e de bananas.indd 62 7/4/2009 15:51:19 . Dentre os versos do Cântico./ Provei meu mel. Dez jarras de óleo. ou “raios de mel. ninfa. com bolos de mel me recupera”. 62 Cozinha futurista. Ainda no âmbito bíblico. tradução de Antonio Medina Rodrigues. 37 e 39 47 Caberia aqui ressaltar a coincidência (ou não) de haver uma mostra. Bastaria observar os pratos executados por Marinetti e seus companheiros para a “Mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis”47: 46 Cântico dos cânticos. farinha de centeio. encontramos : “do banquete me aproxima. lembremos que o primeiro ritual antropofágico cristão aconteceu durante a última ceia. diálogo romântico atribuído a Salomão./ O vinho eu já bebi. farinha de trigo. “indispensáveis”: farinha de castanhas. por certo. com 22 esculturas. Marinetti aproxima os prazeres derivados pela comida ao proporcionado pelas mulheres. Os ingredientes. e bebemos seu sangue em forma de vinho. mel e leite. Antropofagia indireta.”46 A estreita ligação que existe entre amor e comida remonta à origem do mundo. em São Paulo ano de 1922./ E sob a língua. Os primeiros homens foram expulsos do paraíso porque não conseguiram refrear o impulso de comer um fruto proibido. farinha de amêndoas.

começou a amorosa adoração com os lábios. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. sem fazer barulho. e das mais belas Áfricas sonhadas.é de tal modo bela. a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis. e esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. Levantou-se agilmente. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. Escultores e escultoras dormiam. Acima. um sorriso seu de lábios. Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos .massa folhada com uma leve curva especial de boca ou ventre ou quadris. Ajoelhandose em frente. Paixão das Loiras . com as costas suspeitosas de um ladrão. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. parece oportuno ressaltar o fato de que a ingestão de um prato assemelha-se intensamente a uma relação sexual: De improviso.A cozinha futurista Complexo plástico d’Ela . Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda.suave magnetismo das mulheres mais belas.indd 63 7/4/2009 15:51:19 . Às três daquela noite. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. com um tremendo torcer de rins. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as 63 Cozinha futurista. Enquanto os complexos plásticos comestíveis têm as curvas de uma mulher. um seu modo de flutuar sensualíssimo. era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. a língua e os dentes. como uma tigresa alongada.

64 Cozinha futurista. vazio e transbordante. Giulio saiu então no parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. O “Cardápio de Núpcias” promete aquecer os estômagos de todos os comensais com risoto à milanesa. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. se Giulio apenas se delicia com uma iguaria que enche os olhos e o estômago ou se imagina haver ali uma mulher submissa às suas glutonarias. Sem fim. Aproveitador e aproveitado. No “Cardápio Noturno de Amor”.Fillippo Tommaso Marinetti grandes jóias do olhar. tudo coberto por pétalas de violeta. presunto infuso em leite e ostras com vinho Moscato devolvem os amantes às fadigas da cama.” Mas é no “Cardápio Extremista” que podemos mais uma vez observar a índole canibal latente no futurismo. chocolate. O “Cardápio de Solteiro” tenta amenizar a solidão do rapaz com pratos que evocam louras. Estava ao mesmo tempo desobstruído. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. não oferece nada para comer. berinjelas fritas.indd 64 7/4/2009 15:51:19 . as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. risoto. cogumelos trufados. Único e total. verdadeira tortura psicológica e estomacal. lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. morenas ou uma bela desnuda: “duas coxas de frango cozidas numa bacia de cristal. com leite apenas ordenhado. Marinetti confunde o leitor. ervas. Possessor e possuído. com a cabeça descoberta. O capítulo “Os Cardápios Futuristas – sugestivos e determinantes” também evoca a sensualidade que se pode obter através da alimentação. frutas e peixes. apenas para cheirar. que já não tem certeza de se tratar de um prato comestível real ou se este prato se transubstanciou em fêmea. liberado. Talvez para se refrescar. Este cardápio. espinafre com creme. Perfumes diversos são vaporizados nos comensais.

As mulheres todas fogem. Entretanto. Alguns homens sentem falta das mulheres. ainda na França. o futuro histórico-social do mundo é reduzido a uma questão meramente gastronômica: os homens lutariam e se ocupariam incessantemente apenas para garantir sua felicidade gastro-intestinal. lamentando o fato de não poderem devorá-las: 48 Marinetti. no reino dos Citrulli.” Os paladares famintos são então aplacados com dois perfumes de “vida carne luxúria morte”. Milão: Fratelli Treves. criada durante a greve geral de 1904 em Milão. e um deles observa que se não lhes for oferecido nada. imploram por qualquer coisa para mastigar. em um castelo onde tudo alude a comida. não é apenas em A Cozinha futurista que podemos observar esta abordagem antropofágica. que prometem um banquete a todo o reino. simbolicamente) são então passadas a três aproveitadores.indd 65 7/4/2009 15:51:19 . No romance. Re Baldoria. le loro poppe proeminenti ci nascondevano la magnificenza delle portate”48. 1920. desde o início da carreira de Marinetti. o que proporciona uma felicidade estomacal nos homens. 09 65 Cozinha futurista.T. Panciarguta. já que “la ripugnante sobrietà delle donne e la loro abituale lussuria scombussolavano già da troppo tempo le nostre idee digestive. – A tavola. morre. F. autor de Ubu Rei. “veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas. como podemos observar no romance Le Roi Bombance – tragédia satírica em quatro atos. seu inspirador. desde o nome dos personagens até o nome da espada do rei – La Succulenta. primeiro cozinheiro. A história se desenvolve numa era medieval fictícia. havia uma atenção especial a este tema. p. e foi bem recebida por Alfred Jarry. Na realidade.A cozinha futurista Os convidados choramingam. em prosa . A obra é uma metáfora gastronômica rabelaisiana.escrito em francês por Marinetti em 1905 e depois traduzida pelo próprio Marinetti para o italiano com o título Re Baldoria. e as cozinhas (o poder.

apassionatamente. Ibid. fato que ocasiona a ressureição do rei e seus seguidores. de Mário de Andrade. mia grossa polpetta dorata. Já vimos o que simboliza o vômito em Macunaíma. Numa orgia antropofágica. sempre relacionada à ingestão de carne humana: 49 MARINETTI. così. que se fartam nas cozinhas enquanto dizem preparar o alimento para todos. aplacar a fome dos comensais com palavras. tenta em vão. A carne de todos os que morreram.indd 66 7/4/2009 15:51:19 . e os convivas resolvem comer o rei. foi salgada e ingerida. através do vômito. como nas tribos indígenas. F. exigindo que o rei os alimente. nesta carta. vieni a baciarmi con le tue belle labbra sugose di prelibati salmi! (…) Vieni. mas Marinetti nos dá outra informação. 50 Os habitantes começam a se revoltar. mulher de estômago forte.Fillippo Tommaso Marinetti Le donne? …Sono vesciche.T. Quem assina é “La tua Salsetta”. pois “poderia haver um túmulo mais digno?”51. 33 51 Id. os homens devoram uns aos outros. ad amarmi a tavola e a mangiarmi a letto!”. bobo da corte. sanguinacci saporitissimi. p. Podemos. os secretários e os companheiros que por um ou outro motivo desafiavam-se na sala do banquete e perdiam a vida. De fato. p. Este já havia nomeado outros cozinheiros.. che noi empiamo del nostro sangue di porco! Diventano. l’impermeabile pelle!49 O rei sente falta da sua rainha.. ma non si lasciano mangiare! E ci si annoia. sem mastigar bem. 105 66 Cozinha futurista. perdio. A fome extrapola os limites. a leccarne senza fine. Re Baldoria. mais uma vez verificar a aproximação dos prazeres gastronômicos e sexuais: “Ah! Vieni. a ingestão do rei é considerada uma honra para o ingerido.12 50 Id. p. O Idiota. vieni ad amarmi a tavola. lendo uma carta por ela enviada. vieni presto. Ibid.

defende que sua ingestão e ressuscitamento através do vômito seria simbólico. e diz: Comam. Um vampiro filósofo que aparece ao final da história resume o problema: “Di età in età. representante eclesiástico da história.”53 Segundo Luciano De Maria. ao final. este é meu corpo! (e oferece realmente uma parte de seu corpo mutilado). ed uno dei cardini del socialismo. salsologia.T. este é o meu sangue (e oferece o sangue que recolhera em uma taça). p. Perché si vomita sempre molto più di quanto si è mangiato!…Talvolta. 227 53 MARINETTI. um dos personagens alude ao sacramento católico.. o Santo Sepulcro devolveu Jesus Cristo. 267 67 Cozinha futurista. si vomitano persino le budella… talvolta lo stomaco intero!… Masticate con cura gli alimenti! Dividete la carne in tanti piccoli pezzi. Entretanto. e que fediam muito) sentem fome novamente. Um dos personagens. indicando que a história poderá se repetir infinitas vezes. F. se non volete che il corpo mangiato.. p. Ibid. Fra Trippa.indd 67 7/4/2009 15:51:19 .A cozinha futurista Inoltre bisogna guardare bene dal recere le conquiste del nostro stomaco… 1°. la proprietà comune dei 52 Id. Re Baldoria. i Citrulli vanno perfezionando le loro mascelle nell’arte di divirarsi l’un l’altro con crescente agilità… Ecco il solo progresso possibile. os homens ressuscitados (vomitados. Quel che si vomita è più forte e più vivo di ciò che si è inghiottito!…52 Em uma passagem do livro. Bebam. Marinetti satiriza nesta obra a ideologia e a práxis socialista: “La sociologia si tramuta in sauçologie. o mar devolve o cadáver dos náufragos… assim também o estômago dos Citrulli os havia restituído à vida. e recomeçam a lançar olhares de desejo uns aos outros. rinsaldandosi l’uno all’altro rivivano in voi per dichiararvi guerra!… 2°. A antropofagia era real e metafórica ao mesmo tempo. assim como a baleia devolveu Jonas.

que renuncia ao seu trono e ao seu povo após vencer todos os inimigos. Marinetti publicou Mafarka. no decorrer da obra. E. do qual o autor foi absolvido. e lo condirono sì bene con viole e cannella. una dopo l’altra. Poi. Mafarka si gettò sulle serve che stavano sparecchiando e le possedette. il futurista. (…) Mafarka lo mangiò. la sera. fosse no amor ou no modo de governar . “La chiave dei simboli in ‘Re Baldoria’” in: La nascita dell’avanguardia. F. e não biológico. Louco de dor.indd 68 7/4/2009 15:51:19 . Pouco tempo depois. pensndo fosse un pesce.guerreiro feroz e implacável. Luciano. empreende uma viagem mítica ao reino dos mortos. Mais uma vez.o rei de Tell-el-Kibir. il Futurista quase simultaneamente em francês e em italiano. tirano e usurpador. cruel e impetuoso. para trazer à vida seu irmão mais novo. che un odore caldo e squisito inebbriò voluttuosamente tutta la casa. em 1910.55 54 DE MARIA. Assim nasce Gazoumah. Este romance africano traz a história de Mafarka-el-Bar .. bárbaro e sádico. levou Marinetti a um processo por atentado ao pudor. emanação pura do discurso futurista. A obra.76-77 68 Cozinha futurista. le servette. Pp. p.T.203 55 MARINETTI. Mafarka. atravessa os oceanos e concebe finalmente a idéia de um filho que resultasse de um nascimento apenas cerebral. ridendo come un pazzo. stuzzicante da quell’odore.. facendo schioccare la lingua e stroppicciandosi le mammelle per vincerne il troppo dolce prurito. sui cuscini.Fillippo Tommaso Marinetti mezzi di produzione. em sua tradução italiana. um filho imortal porque nasceu sem a participação da vulva maléfica que predispõe à decrepitude e à morte. Magamal. confunde-se o vocabulário referente aos prazeres carnais e estomacais: I cuochi infarcirono lo Zeb con del latte cagliato. origliavano alle porte della casa sala del convito. diviene la socializzazione dei mezzi di produzione culinaria”54.

pela editora Excelsior de Milão. um livro sobre amor foi lançado por Marinetti: são alguns contos eróticos publicados sob o título Gli Amori Futuristi. um “studio biliografico”. algumas informações puderam ser obtidas no site L’Arengario56. Selecionamos alguns títulos aparentemente relevantes a este estudo. que se pode mesclar com a antropofagia. 6) Una favolosa indigestione. declara. das pernas e dos braços. Ao abrir a mochila. 2) Consigli ad una signora scettica. 7) Grande albergo del pericolo. já destituída da cabeça. Algumas obras de Marinetti não são facilmente encontradas. de Roma. traz sete novelas eróticas: 1) Autoritratto. Em 1922. 3) Cuori complicati. que devoravam os inimigos para saciar seu apetite animal. Publicado pela Edizioni d’Arte Fauno. carrega numa mochila um pedaço de carne salgada. No livro de contos Novelle colle labbra tinte. que reproduz a capa de inúmeras obras raras ou de difícil localização.arengario. a voracidade com que os personagem avançam sobre o alimento remete aos antigos antropófagos. 4) Cacce arabe. uma vez que uma grande indigestão num livro de contos eróticos pode referir-se ao abuso das “fadigas da cama”. 5) Matrimonio ad aria compressa. entretanto.A cozinha futurista Muitos banquetes (ou orgias) acontecem no decorrer da obra e. Atenção à sexta novela. outro livro traz o amor no título: Scatole d’Amore in Conserva. agile e interessante autobiografia. cujo título remete à antropofagia. a surpresa: ele carrega consigo o corpo mutilado da amante. Guzzo o personagem Corajoso a que se refere o título.it/futurismo 69 Cozinha futurista. Em 1918 foi publicado o livro Come si seducono le donne. Num clima de insanidade.indd 69 7/4/2009 15:51:19 . bem como resenhas ou comentários sobre seu conteúdo. durante a travessia de um rio em meio 56 www. Em 1927. pela Casa Editrice Ghelfa. que ele havia amorosamente comido. não quer dividir com ninguém. de 1930. neles. o qual. de Cremona. entre disparos de metralhadora do campo inimigo. por tratarem do amor. encontramos um conto intitulado “Come si nutriva l’Ardito”.

que responde. Guzzo conversa com o cadáver. Plasticamente falando. vero Saraceno magro agile scattante. timido. e a mochila com os restos da mulher é então carregada pelo tenente. que havia assistido a toda a cena canibalesca. Marinetti pode talvez querer assim atenuar a gravidade do ato canibal. fazendo crer o leitor na doçura deste monstro 57 MARINETTI. temos a descrição de Guzzo: “un certo Guzzo di Trapani tutto nero. dois detalhes invocam o passado ritual antropofágico. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra”. Além disso. Novelle colle labbra tinta: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. tremano. mas com olhos dulcíssimos.402-3 58 Id. pp. assim eles se tornariam apenas um. Imagina-se que ele comerá o resto do cadáver.indd 70 7/4/2009 15:51:19 . tem uma grande cicatriz. Le mammelline tonde soavi vive. piccola. Observemos como a descrição da jovem morta devorada por Guzzo assemelha-se bastante à descrição dos complexos plásticos comestíveis já citados: Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. Entretanto. deformado.58 Guzzo é muçulmano. 1930. Ibid pp 399 e 405 70 Cozinha futurista. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. de outra cultura. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà.T. Cosi pure il collo. assimilando o resto do amor que ele traz. F.Fillippo Tommaso Marinetti à batalha. Mais tarde: “nelle mie vene il mio sangue ti culla.57 Guzzo morre. o rosto embrutecido. Num primeiro momento. grandi occhi neri dolcissimi. assim. ingenuo. algumas imagens acabam por tornarem-se recorrentes nesta “fase antropofágica” de Marinetti. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non parla più! Il ventre umile. Milano: Mondadori. de outra cor. pedindo que seja ingerida. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”.

os futuristas. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. diante de nossas mãos. especialmente as mães. para que assimilassem com este as qualidades atribuídas à pessoa em vida. o estômago.Amamos as mulheres.A cozinha futurista de cultura desconhecida. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. O seu coração. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. O outro excerto alude ao fato comum entre os indígenas americanos (a América era o paraíso na visão de muitos europeus) de ingerir o corpo dos ancestrais mortos. mas os dentes.indd 71 7/4/2009 15:51:19 . Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas obras de gênio e de língua insaciável. O fascínio. não só o tato e relativas carícias. se apertado pelo supremo prazer do amor. Eis o que dizem: . a graça infantil. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. Marinetti nos revela. a língua. a única e todas encontravam-se aqui. outros detalhes sobre o sexo feminino: 71 Cozinha futurista. o furioso turbilhão do sexo. Em “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. respondendo a uma pergunta feita por “aquela que se parece bastante mas não o suficiente”. a ingenuidade. a alvorada. o intestino igualmente enamorados. acabam por revelar sua opinião sobre as mulheres. o pudor. Em um diálogo que praticamente encerra o conto. através de Guzzo e seu tenente. São os nossos estados de ânimo realizados. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma.

vemos a conformidade deste pensamento de Marinetti com o movimento brasileiro. auxiliar a catalisar suas forças. comida. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. cheirada. A mulher deixa de existir. o ato antropófago. não pode mais escapar. Ora porti il resto sulle spalle. le sue gambe.indd 72 7/4/2009 15:51:19 . Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!…59 Não seria absurdo pensar que para o futurista. deixa de pensar. nós 59 Id. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. ajuda o homem. Na Revista de Antropofagia. né i suoi piedi. Ti ho visto. e no final. Guzzo? Sì. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. Lo so. proporcionar-lhes prazer. visto que será assimilada pelo outro.Fillippo Tommaso Marinetti Ti piaciono le donne. le sue braccia. Non amo la testa della donna. Nada mais oportuno que uma relação canibal: após o ato amoroso. ti approvo. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. Deglutir tudo. Ao chegarmos aí. Lo so. Devem satisfazer o homem. A mulher é adorada. cuja força aumenta com a carne ingerida. (Ou ainda: a mulher é comida). degustada. ma non le donne vive. sem no entanto atrapalhar seu desenvolvimento ou sua vida. Um texto sob o pseudônimo Darwin afirmava que era necessário: Voltar ao estado natural. Deglutir até que chegue a hora de um prato melhor. Construir de novo.406 72 Cozinha futurista. Vedi. Ibid. as mulheres têm tanta importância quanto a comida. p.

se devoram. Un ventre di donna: romanzo chirurgico. 59 e 81. o objeto amado. p. 1a. para que o médico não tivesse “naquele dia a sua porção de carne a cortar com método”. apesar de não haver menção à ingestão da carne humana. e em meio a contorsões grita: “Não! Assassinos! Açougueiros! Acorde. não! A minha carne é minha!… Comando eu!… Tenho direito…”61 Neste livro. para unir-se a ele. Marinetti. e a senhora Enif Robert. Os pontos não cicatrizam. logo. para possuí-lo. para viver dele? 60 Outra obra do futurismo que tem um leve apelo antropofágico é Un Ventre di Donna. lo sventratore”. e quando se deve proceder à cirurgia. “romance cirúrgico”.A cozinha futurista teremos atingido o momento supremo em que a idéia se une à força.T. Enif. dizia o poeta. internada num hospital após uma cirurgia sem muito sucesso para a retirada dos órgãos reprodutores inflamados. somente começa a se acelerar após a leitura do “manual terapêutico do desejo-imaginação” desenvolvido por Marinetti. exaustivamente lenta. e ROBERT. os médicos são equiparados a açougueiros. quiseram-se incorporar-se de todos os modos. Boa parte da obra é escrita de maneira epistolar. a ciência se iguala à inspiração e o pensamento circula livremente pelo organismo Nos transportes do amor humano. F. quer fugir do hospital. para alimentar-se. ocorre uma segunda cirurgia e a recuperação. dentição. 1919. 7 61 MARINETTI. Milano: Falcchi Editore. Futurismo como cura. quem não sabe que os amantes se comem. tirar. a carne humana 60 Revista de Antropofagia. com uma doença nervosa. 73 Cozinha futurista. nova crise nervosa. a no momento de tirar o curativo e enfrentar a cicatriz. a senhora tem uma crise de nervos. não! Cortar. até com os dentes. O primeiro cirurgião é apelidado pela senhora Robert de “Jack. A cirurgia é feita. T.indd 73 7/4/2009 15:51:19 . em meio à guerra. numa trincheira. no. havendo uma troca de correspondências entre o futurista F.

teorizada por Oswald.indd 74 7/4/2009 15:51:19 .T. Tradução em português p. os autores renegam o passado literário. física. As pessoas e as influências importantes foram assimiladas. Foi necessário devorar nossos antepassados e nos imbuir de toda a coragem que eles um dia tiveram para que não caíssemos na mesmice literária. Muitas vezes. preocupados em fortalecer os cidadãos e a pátria. os secretários eram “açougueiros” e a carne dos “inimigos intelectuais” era sempre oferecida num açougue imaginário. em prol de uma modernidade almejada. A nacionalidade foi enfocada por cada um deles. Para evitar a indigestão. outras foram simplesmente descartadas. A antropofagia. comendo as idéias e assimilando tudo numa digestão bem feita. O repertório intelectual de uma cultura é intocável. A renovação de nossa literatura deve muito aos caraíbas e aos tupinambás. e somente ingerindo.Fillippo Tommaso Marinetti com a carne animal que se oferece nos açougues. Podemos assim estabelecer um vínculo sangüíneo entre os três autores. A Cozinha Futurista. seja através dos alimentos oferecidos ao corpo e à alma. Todos preocuparam-se com a culinária. F. moral. foi praticada por estes três autores e muitos outros em diversas culturas.85 74 Cozinha futurista. julgando que estão livres daquelas amarras intelectuais. novamente. é que se pode inovar. intelectual ou financeiramente.” 62 62 MARINETTI. Na Revista de Antropofagia. A digestão seria difícil. bebendo dessas fontes. uma receita marinettiana: “O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. seja através da ingestão e a assimilação dos ingredientes formadores da cultura.

indd 75 7/4/2009 15:51:19 .CApítulo 2 A Cozinha Futurista e a linguagem W Cozinha futurista.

indd 76 7/4/2009 15:51:19 .Cozinha futurista.

devemos começar em 1909. Por meio da leitura de excertos destes dois manifestos. tentaremos verificar quais experimentos Marinetti tentaria concretizar em suas obras e o que. passando depois para 1912. 77 Cozinha futurista. ano do Manifesto Técnico da Literatura Futurista. documentos que já apresentavam as primeiras modificações lingüísticas sugeridas pela vanguarda artística. com o Manifesto do Futurismo. na prática.O FuturismO: prOpOstA de revOLuçãO LinGüísticA Para melhor compreender as dificuldades apresentadas ao tradutor por um texto futurista. conseguiu realizar.indd 77 7/4/2009 15:51:19 .

il passo di corsa. l’audacia. Perché dovremmo guardarci alle spalle. con ardore. poiché abbiamo già creata l’eterna velocità omnipresente. se non nella lotta. Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo – il militarismo. la ribellione. Noi viviamo già nell’assoluto. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità. il patriottismo. La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote. 78 Cozinha futurista. l’abitudine all’energia e alla temerità. per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali. se vogliamo sfondare le misterioseporte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. essa pure. che sembra correre sulla mitraglia. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!.. è più bello della Vittoria di Samotracia.Fillippo Tommaso Marinetti Manifesto del Futurismo il 20 febbraio 1909 Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo. Noi vogliamo esaltare il movimento agressivo. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa.. la cui asta ideale attraversa la Terra.. l’estasi e il sonno. l’insonnia febbrile. un automobile ruggente. Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro. le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna. sfarzo e munificenza. lo schiaffo ed il pugno. Bisogna che il poeta si prodighi.. il salto mortale. lanciata a corsa.indd 78 7/4/2009 15:51:19 . Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo. Il coraggio. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante. il gesto distruttore dei libertari. saranno elementi essenziali della nostra poesia. sul circuito della sua orbita. No v’è più bellezza. per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo.

A cozinha futurista Noi vogliamo distruggere i musei. il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria. una testa previdente. divoratrici di serpi che fumano. le accademie d’ogni specie. balenanti al sole con um luccichio di coltelli. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro. ma non avrà mai due ali. le locomotive dall’ampio petto. Bisogno furioso di liberare le parole. come ogni imbecile. i ponti simili a ginnasi giganti che scavalcano i fiumi. la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta. per correre un momento e fermarsi quasi subito sbuffando! Ecco che cosa mi disse l’elica turbinante. le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi. E l’elica soggiunse: 79 Cozinha futurista. i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte. io sentii l’inanità ridicola della vecchia sintassi ereditata da Omero. e combattere contro il moralismo. dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne. le stazioni ingorde. come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi.. seduto sul cilindro della benzina.indd 79 7/4/2009 15:51:19 . due gambe e due piedi piatti. scaldato il ventre dalla testa dell’aviatore.) Manifesto tecnico della letteratura futurista 11 maggio 1912 In aeroplano. le biblioteche. un ventre. (.. canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche. e il volo scivolante degli aeroplani. che scalpitano sulle rotaie. Appena il necessario per camminare. traendole fuori dalla prigione del periodo latino! Questo ha naturalmente. mentre filavo a duecento metri sopra i possedenti fumaiuoli di Milano.

Esempio: uomo-torpediniera. 80 Cozinha futurista. Essendo soppressi gli aggettivi. vecchia fibbia che tiene unite l’una all’altra le parole. bisogna fondere direttamente l’oggetto coll’immagine che esso evoca. e i segni musicali. nella continuità varia di uno stile vivo che si crea da sé. Per accentuare certi movimenti e indicare le loro direzioni. porta-rubinetto. Bisogna dunque sopprimere il come. piazza-imbuto. una meditazione. la percezione per analogia diventa sempre più naturale per l’uomo. Si deve abolire l’avverbio. poiché suppone una sosta. dare il senso della continuità della vita e l’elasticità dell’intuizione che la percepisce. il simile a. Si deve usare il verbo all’infinito. donna-golfo. dando l’immagine in iscorcio mediante una sola parola essenziale. il quale. senza le soste assurde delle virgole e dei punti. L’aggettivo avendo in sé un carattere di sfumatura. è inconcepibile con la nostra visione dinamica. L’avverbio conserva alla frase una fastidiosa unità di tono. folla-risacca. Il verbo all’infinito può. s’impiegheranno segni della matematica: + . il così. dal sostantivo a cui è legato per analogia.indd 80 7/4/2009 15:51:19 . come nascono. solo. perché il sostantivo nudo conservi il suo colore essenziale. Si deve abolire l’aggettivo. senza congiunzione. perché si adatti elasticamente al sostantivo e non lo sottoponga all’io dello scrittore che osserva o immagina.x : = > <. gli avverbi e le congiunzioni. Ogni sostantivo deve avere il suo doppio. Siccome la velocità aerea ha molteplicato la nostra conoscenza del mondo. Abolire anche la punteggiatura. la punteggiatura è naturalmente annullata. cioè il sostantivo deve essere seguito. Meglio ancora.Fillippo Tommaso Marinetti Bisogna distruggere la sintassi disponendo i sostantivi a caso.

Distruggere nella letteratura l’“io”. bisogna formare delle strette reti d’immagini o analogiem che verrano lanciate nel mare misterioso dei fenomeni. Siccome ogni specie di ordine è fatalmente un prodotto dell’inteligenza cauta e guardinga bisogna orchestrare le immagini disponendole secondo un maximum di disordine. Hanno paragonato per esempio l’animale all’uomo o ad un altro animale. (Hanno paragonato per esempio un fox terrier a un piccolissimo puro-sangue. Per dare i movimenti sucessivi d’un oggetto bisogna dare la catena delle analogie che esso evoca. sottoposto a una logica e ad una saggezza spaventose. a una piccola macchina Morse. Io lo paragono invece. a un’acqua ribollente. ognuna condensata. nobili o grossolane o volgari. il che equivale ancora.indd 81 7/4/2009 15:51:20 . L’uomo completamente avariato dalla biblioteca e dal museo. e 81 Cozinha futurista. a una specie di fotografia. Altri.) Per avviluppare e cogliere tutto ciò che vi è di più fuggevole e di più inafferrabile nella materia. più avanzati. Lo stile analogico è dunque padrone assoluto di tutta la materia e della sua intensa vita... vi sono dei rapporti sempre più profondi e solidi.. cioè tutta la psicologia. (.) (. eccentriche o naturali. quantunque lontanissimi.. Non vi sono categorie d’immagini. potrebbero paragonare quello stesso fox-terrier trepidante. di metafore scolorite. press’a poco. non offre assolutamente più interesse alcuno. e cioè quasi tutto. raccolta in una parola essenziale. Dunque dobbiamo abolirlo nella letteratura. V’è in ciò una gradazione di analogie sempre più vaste.A cozinha futurista Gli scrittori si sono abbandonati finora all’analogia immediata. L’intuizione che le percepisce non ha né preferenze né partiti-presi.) Bisogna dunque abolire nella lingua tutto ciò che essa contiene in fatto d’immagini stereotipate.

Con la conoscenza e l’amicizia della materia. conseguiu praticar. sentem uma “necessidade furiosa” ou ouvem da “hélice turbilhonante” os preceitos 82 Cozinha futurista.) Noi vogliamo dare. Nulla è più interessante.(. (. “insônia febril”. mas que nem ele. os avanços tecnológicos. suprema difinizione dall’inteligenza logica. ecco iniziarsi il regno meccanico. Vejamos alguns pontos propostos por Marinetti. Como podemos observar. desde que expostos ao acaso. di cui si deve afferrare l’essenza a colpi d’intuizione.. o adjetivo e o advérbio. a agressividade. são muitas as regras que o futurismo impunha aos escritores que quisessem honrar a ideologia do movimento: abolir a pontuação... nuovo animale istintivo del quale conosceremo l’istinto generale allorché avremo conosciuto gl’istinti delle diverse forze che lo compongono. usa inúmeras palavras para caracterizar os objetivos do grupo: alcançar um “movimento agressivo”.indd 82 7/4/2009 15:51:20 . em seus manifestos. la qual cosa non potranno mai fare i fisici né i chimici. la vita del motore. usar muitos substantivos.. Ao mesmo tempo em que propõe a abolição dos adjetivos. della quale gli scienziati non possono conoscere che le reazioni fisico-chimiche. in letteratura. construir analogias inéditas e surpreendentes. realçar a velocidade. che l’agitarsi della tastiera di un piano forte meccanico. “salto mortal”.) Dopo il regno animale. Il cinematografo ci offre la danza di un oggetto che si divide e si ricompone senza l’intervento umano. A análise dos manifestos em si já demonstra a fragilidade destas proposições. per un poeta futurista. e quindi dalla morte stessa. usar verbos no infinitivo.Fillippo Tommaso Marinetti sostituirlo finalmente colla materia. Noi lo libereremo dall’idea della morte. noi prepariamo la creazione dell’uomo meccanico dalle parti cambiabili.

Assim poderíamos proceder com todos os substantivos e seu respectivo duplo. mas. Margarida. p. 1989. Os verbos no infinitivo são a proposta com maior incidência nos manifestos. o item 2 do Manifesto Técnico diz: “para que este se adapte elasticamente ao substantivo”. poderíamos pensar em uma mera substituição de um símbolo por outro. é caracterizada por este segundo elemento. uma texto sem advérbios ficaria mais veloz. A ausência da pontuação dá margem a infinitas interpretações e analogias. Ora. As frases nominais também aparecem com bastante assiduidade. que estaria assim em movimento.A cozinha futurista do movimento. Seria um substantivo composto. Marinetti propõe. Deve-se abolir o advérbio. conquanto freqüentemente sejam precedidos de modais que indicam sua conjugação. o segundo teria o objetivo de modificar ou especificar o primeiro1. se usamos dois substantivos acoplados. que nos parece um adjetivo “camuflado”. de qualquer modo. sem “a velha fivela que mantém as palavras unidas umas às outras”.indd 83 7/4/2009 15:51:20 . prova de que os substantivos são as palavras com carga semântica mais importante para os futuristas. Teoria Lexical. já no item 6 temos “a pontuação é naturalmente anulada”. a certo ponto. e eis que o ensinamento não é cumprido pelo mestre. “praça-funil”. São Paulo: Ática. Se Marinetti propõe a abolição dos adjetivos. Na teoria. seria mais convincente que ele mesmo deixasse de usá-los. Abolir a pontuação é outra proposta bastante intrigante. ou ao menos diminuir a quantidade desta. separado por hífen. A praça tem o formato ou a utilidade de um funil. Na prática. Exemplificando com o próprio manifesto: “homem-torpedeira”. Apenas algumas linhas de distância. mas a compreensão ficaria prejudicada 1 Basilio.30 83 Cozinha futurista. o uso do substantivo com seu duplo. O fato é que Marinetti tenta não usar a pontuação. Se em seu lugar poderiam ser utilizados símbolos matemáticos ou musicais. que caracterizaria o objeto. fator positivo num texto futurista. “multidão-ressaca”. Ainda sobre a contraditória abolição dos adjetivos.

Quando tivermos quarenta anos. a disposição dos versos no papel supre a falta de pontos ou vírgulas. Verifica-se então uma bipolaridade entre o difusor das idéias futuristas. – Nós o desejamos! Na época desse manifesto. no entanto. o nome de Benito Mussolini é lembrado.Fillippo Tommaso Marinetti se esta fosse abolida por completo. Marinetti. A cOzinhA FuturistA e As inOvAções nA LínGuA O Manifesto da Cozinha Futurista segue o modelo dos outros manifestos promulgados pelo movimento futurista: um pequeno texto que explica ou exemplifica o problema a ser abordado. 84 Cozinha futurista. 1909. e permaneceria fiel a seus ideais até a consumação total da chama. para cumprir nossa obra. como manuscritos inúteis. nascido em 1876. que perdem em clareza e inteligibilidade. ocorrida com sua morte. Julgando-o pelos seus próprios preconceitos. embora este já tivesse sofrido muitas transformações. outros homens mais jovens e mais válidos que nós. na primeira década do século. tinha 54 anos. em 1944. Marinetti foi o estopim do movimento. Os mais velhos dentre nós têm trinta anos: resta-nos portanto pelo menos uma década. Marinetti deveria ter sido substituído por outros homens mais jovens e com maior agressividade.indd 84 7/4/2009 15:51:20 . que se propõe um estilo original. contava já 33 anos. É oportuno ressaltar que no primeiro parágrafo deste manifesto. Antes de partir para a análise da linguagem em A Cozinha Futurista. Quando da publicação do Manifesto da Cozinha futurista. Em poesia. fossem estas políticas ou de reciclagem de seus participantes. atirar-nos-ão ao cesto. e o “autor literário” que tende a uma linguagem mais tradicional. gostaria de lembrar uma passagem do Manifesto do Futurismo que não está reproduzida acima. considerava-se ainda capaz e jovem o bastante para seguir à frente do movimento futurista. seguido por um conjunto de regras a serem seguidas. acerca da idade dos artistas. mas isto é dificultado nos textos em prosa.

strambo e misterioso”.e algumas vezes realmente consegue .modificar o uso da língua. e o Manifesto da Cozinha Futurista. e a palavra antefato inclui um advérbio no prefixo. segue o modelo de apresentação futurista: um texto. são aqueles em que o poeta tenta . de provável classificação “literária”. com pontuação adequada gramaticalmente. que representa o primeiro capítulo do livro. Além de utilizar três adjetivos em seqüência. que ignora os mandamentos futuristas.indd 85 7/4/2009 15:51:20 . embora não seja possível precisar se ideologicamente ou para sustentar um movimento literário que estava perdendo sua capacidade de persuasão. receitas. indicando que este acontece anteriormente a outro fato. no caso. mais uma vez. propondo novas construções. o “antefato” é já duplamente caracterizado por adjetivos. O livro. Lembremo-nos que desde 1926 o futurismo havia aderido ao fascismo. o poeta parte para a lago Trasimeno obedecendo a um telegrama “preoccupante. cardápios. São inúmeros os casos em que Marinetti segue a linguagem tradicional. o manifesto. A este manifesto. por serem de interesse as inovações apresentadas e não as falhas em praticar a própria teoria. situado no início do segundo capítulo. seguiu-se a publicação do livro A Cozinha Futurista. Nos outros capítulos. serão objetos de estudo o texto literário – “Uma refeição que evitou um suicídio: o tragicômico poético antefato” – . e um dicionário dos novos termos. 85 Cozinha futurista.A cozinha futurista aludindo às “batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue”. dispondo as palavras em sintaxe convencional. seguido do manifesto e respectiva polêmica. estes são separados por vírgula e conjunção. Nesta breve análise. tragicômico e poético. Os casos que relevaremos aqui. O subtítulo do texto. que reuniu documentação importante acerca da polêmica cozinhária iniciada por Marinetti. novas palavras ou analogias diferenciadas. No primeiro parágrafo.

No quinto parágrafo do texto. che mascherava il suo vero nome. Marinetti utiliza quatro longos sujeitos para o verbo “riempirono” em seqüência. que chamam a atenção do leitor não só pelo argumento. 86 Cozinha futurista. riempirono la conversazione parolibera che precedette il pranzo nel policromo Quisibeve della villa Outra construção que ressalta no texto é o curto diálogo entre os quatro personagens após a declaração do iminente suicídio de Giulio. escrito todo ele em terceira pessoa.indd 86 7/4/2009 15:51:20 . mas este não é fechado. la sua subitanea fuga dai centri abitati. “Abolir o ‘eu’ da literatura” era uma das propostas futuristas e que foi respeitada no texto. personagem do “antefato”. mas pela forma de expressão. Iniciando pela fala de Giulio Onesti.Fillippo Tommaso Marinetti Comecemos com as construções inusitadas. Quindo mi suiciderò questa notte!” “a meno que?” – gridò Prampolini “a meno que?” ripetè Fillìa. Apesar do texto ser de autoria de Marinetti. pseudônimo de um colaborador futurista. tomado de um tremor irreprimível. apesar da sabida participação do autor nos acontecimentos. la sua vita di scienza e di ricchezze accumulate al Capo di Buona Speranza. este aparece como personagem em terceira pessoa. Poi Giulio fu preso da un tremito convulso irrefrenabile: “(non voglio. separados por vírgulas. non debbo tradire la morta. se esqueça de fechar parênteses: Lungo silenzio. que se abre com um parêntese. o que imprime um ritmo cadenciado peculiar à frase: “Questo pseudonimo. Para caracterizar este personagem. Pode se tratar de um erro tipográfico. mas ainda assim é sintomático que um homem. temos a descrição de Giulio Onesti. il suo intervento battagliero e creativo nelle serate futuriste di venti anni prima.

Sempre no plano da construção. porém há apenas um verbo e um único advérbio. ou “.”3 2 3 Marinetti. exceto o óbvio ponto ao final do mesmo.. mistura muitos substantivos e adjetivos.” – O diálogo segue com uma quádrupla repetição da frase: “a meno que”. F. O período.. para criar comidas que salvassem a vida do amigo. proposta por Marinetti.11 87 Cozinha futurista.indd 87 7/4/2009 15:51:20 . p. A cozinha futurista.. buscando uma solução para o desejo de suicídio. Milão: Marinotti. una legerezza di volo che offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donna miste di mozzi di ruote e d’ali d’eliche tutte formate con soffice pasta lievitata. ou melhor. Este suspense também serve como preâmbulo para a ação que é então desencadeada. todos os companheiros futuristas lançam-se a um trabalho incessante. A pontuação.A cozinha futurista “a meno que?” – concluse Marinetti – a meno che tu ci conduca imediatamente nelle tue ricche e fornite cucine. nas cozinhas. p. una lieve curva de bocca ventre o fianchi”2. sempre seduzindo o leitor com a aparente desordem instaurada na frase. A anáfora auxilia na criação do suspense necessário para que fosse apresentado o desfecho do problema: a cozinha futurista. bastante longo. Observemos como a ausência da pontuação torna o ritmo do período veloz: Atmosfera inebriante prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano altissimo torniva melodiosamente. a falta desta. Ibid. 11 Id. pode ser encontrada em diversas outras passagens do “antefato”. podemos encontrar um parágrafo escrito sem utilizar nenhum sinal de pontuação.. Eis alguns exemplos: “. 1998. partindo do momento da enunciação desta solução.T.

Ibid.Fillippo Tommaso Marinetti A velocidade imprimida à linguagem também pode ser verificada nas construções de frases curtas. Tutto il cielo nelle nari. Siamo gl’istintivi nuovi elementi della grande Macchina futura lirica plastica architettonica. Alle sei di pomeriggio svilupparsi in alto di dolci dune di carne e sabbia verso due grandi occhi di smeraldo. Ci giudicate selvaggi. tutta direttive nuove4 Outro trecho é todo construído mesclando substantivos soltos “ao acaso”. Trattenere il respiro per non guastare un sapore cesellato. tutta leggi nuove. Ibid. tem espelhamento num verbo acompanhado de seu duplo na proposição “inaugurare-assagiare” a mostra de escultura comestível. p. La spasimante superacuta tensione delle più frenetiche lussurie finalmente appagate. Gioia delle labbra. Crocifiggerla sotto chiodi acuti di volontà. Nervi. Arte mangiabile. em sua maioria nominais que culminam na afirmação de que “somos o futuro”: Arte leggera aviatoria. 4 5 Id.. Arte temporanea. Uma mostra é normalmente inaugurada.5 O substantivo que deve ser acompanhado de seu duplo.indd 88 7/4/2009 15:51:20 . por seu caráter ambíguo. Schioccar di lingua. L’eterno femminino fuggente imprigionato nello stomaco. 12 88 Cozinha futurista. Passione. mas esta. p. altri cic redono complicatissimi e civilizzatissimi. deveria também ser degustada.14 Id. atendendo às regras do Manifesto Técnico da Literatura Futurista: Con calma riprendere la materia. frases nominais curtas e verbos no infinitivo. como a “nicchia-tana” (que traduzimos por concha-toca)..

Marinetti... mas sempre privilegiando o “estilo analógico”.. ne iniziò l’amorosa adorazione. Acreditamos que este tipo de construção seja privilegiado por suprimir o sujeito da frase e também uma conjunção. situações ou personagens. collaborando. sem palavras desnecessárias... moderna. Giulio girando appena la testa a destra e a sinistra. Marinetti. alto complesso plastico di pasta sfogliata scolpita a piani degradanti di piramide..indd 89 7/4/2009 15:51:20 . offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donne. A escrita marinettiana tem também outra peculiaridade que vale a pena evidenciar: o gosto pela visualização. mais freqüentemente de gerúndio e de particípio... Prampolini e Fillìa parlorono. Observemos alguns exemplos que documentam o fenômeno: . o que facilitaria muito a tarefa de construir uma linguagem concisa...... In un alto cilindro di pasta di grano turco girante su perno. . Prampolini e Fillìa. veloccizzandosi scapigliava in tutta la camera una massa enorme di zucchero filaro d’oro.. imprigionato nello stomaco.. .... L’eterno femminino fuggente. improvvisatosi scultore-cuoco.. Inginocchiatosi davanti. La sua architettura obliqua di curve molli inseguentisi in cielo.... ... vi avevano inoculato il magnetismo.. alternandosi.. Longos parágrafos e períodos são utilizados para descrever locais.. . un complesso plastico di cioccolata e torrone rappresentante le forme delle nostalgie e del passato precipitò giù con fragore e inzaccherando tutto.A cozinha futurista Parece-nos importante também ressaltar a larga utilização das orações reduzidas. O próprio Maninetti explica esse 89 Cozinha futurista..Giulio Onesti.

três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. A escolha do vocabulário confirma essa ideologia.”6 Nessas analogias. recolhida numa palavra essencial. como as bolas acorrentadas. tudo feito com macia massa fermentada. encontramos. é necessário dar a cadeia de analogias que ele evoca. ou partes destas. em seu vôo. arte leve voadora. Numa rápida lista de elementos referentes a cada uma destas categorias. Assim temos os poetas que enquanto falam alternam-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina e a cozinha. aerodinamismo lírico-plástico. as pessoas. tapete de plumas que parece viajar. todo um grupo de árvores. grande máquina futura lírica plástica arquitetônica O campo semântico concernente ao vôo traz aeropintores. para máquinas. É grande o repertório lexical que se refere às máquinas.. aos automóveis e respectiva velocidade. Essa relação entre a vida cotidiana e a modernidade imposta pelas máquinas estava de acordo com os ideais do movimento. São Paulo: Perspectiva. aeroescultores. (. espirais de vento expressos em encanamentos. partes destas ou indícios de modernidade: fantásticos laboratórios. roda dentada. cubos de roda. perfeito. aeropoesias. equilíbrio. globos elétricos. complexo plástico a motor. que era a escultura de uma mulher. zumbido de um aeroplano altivo. 6 Bernardini. Um dos pratos.. ao vôo. cilindro de massa girando em seu eixo. que arrancam. volantista.Fillippo Tommaso Marinetti estilo: “Para dar os movimentos sucessivos de um objeto. transformada em fantásticos laboratórios. os lugares e mesmo as comidas são sempre relacionadas a máquinas. hélices esvoaçantes.indd 90 7/4/2009 15:51:20 . oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados misturados a cubos de rodas e asas de hélice. Aurora Fornoni. A velocidade é representada pelo automóvel.) Em alguns casos precisará juntar as imagens duas a duas. 90 Cozinha futurista. O Futurismo Italiano. Outro prato era um complexo plástico a motor comestível. cada uma delas condensada. asas de hélice. 1980.

“la sopraveniente”. metafórico. “quella che le rassomiglia molto ma non abbastanza”. “metaforicamente antropofágica”. realizado. “nessuno vi man- 91 Cozinha futurista. trabalho muscularmente acelerado. mas que deixa o futurista Giulio Onesti feliz. porém impregnado de um vocabulário humano: “le nuvole partorirono un precipitante fulmine arancione a lunghe gambe verdi”. “le” offriremo. As esculturas representam mulheres que podem ser deglutidas. pois o pronome utilizado no lugar do substantivo em todas as referências feitas a “ela” assume um significado complexo. palavras lexicais de cunho afetivo. embora importantíssimas. cujos nomes jamais são mencionados: “Essa”. O processo de nominalização permite a transformação de qualquer vocábulo em substantivos. como pronome de terceira pessoa referindo-se às Mulheres de Giulio Onesti. “a lei. outras vezes com inicial minúscula. “la morta”. “l’altra”. podemos observar que este culmina no nascimento do sol. O ato sexual gerara um fruto. porque não dizer. sua importância. a que se suicidou e a outra que se parece muito mas não o suficiente.. São inúmeras também as referências anafóricas a estas mulheres. sugerindo tudo o que constitui o ser. ou. sendo que o contrário também ocorre. complesso plastico “di lei”. Escolha lexical também recorrente nesta obra é a “erótico-culinária”. de cortesia. Marinetti usa repetidas vezes o pronome Lei (ela). faz de palavras lexicais corriqueiras e apagadas. os adjetivos culinários são usados para mulheres. às vezes com inicial maiúscula. síntese de todos os automóveis famosos. “a lei”. “per lei”. “la Nuova”.indd 91 7/4/2009 15:51:20 .A cozinha futurista velocidade. sua personalidade. e devido a isso. “Lei”. “quella bocca imminente”. da lei”. No já citado trecho em que Giulio Onesti degusta uma das esculturas e que foi comparado a um ato sexual. “lui [il complesso plastico] vincerà lei”. Escrevo Mulher com maiúscula. “bellissima donna”. e finalmente livre de seus desejos suicidas. que em italiano é pronome de segunda pessoa para tratamento de respeito.

volontà.. p. snella trasparenza spiralica di passione. como a pintura. “la donna”. como os exemplos abaixo: Sentiamo inoltre la necessità di impedire che l’Italiano diventi cubico. Prepariamo una agilità di corpi italiani adatti ai leggerissimi treni di alluminio che sostituiranno gli attuali pesanti di ferro legno acciaio. além. massiccio impiombato da una compattezza opaca e cieca.7 (. a escultura ou a arquitetura.. Comecemos com parágrafos que alternam seqüências de adjetivos sem pontuação. artisti ispirati.indd 92 7/4/2009 15:51:20 .) Per esempio.8 7 8 Id. Ibid. tenerezza. 22 92 Cozinha futurista. Ibid. slancio. das referências ao mundo moderno.Fillippo Tommaso Marinetti gerà”. “essa”. no Manifesto da Cozinha Futurista é mais comum encontrar palavras relacionadas à arte. oratori travolgenti. Questi sono stati combattenti eroici. agricoltori tenaci a dispetto della voluminosa pastasciutta cotidiana. esses bem separados por vírgulas. os mesmo modelos são encontrados. Giulio fica embriagado com a escultura manducada antes de fazê-lo. “Lei”. avvocati arguti. Isto se dá provavelmente porque Marinetti pretendia elevar a condição da culinária ao mesmo patamar das artes plásticas não comestíveis. Se no texto deste “antefato poético tragicômico” as referências mais importantes estão relacionadas à velocidade. 21 Id. mas essa promessa não é cumprida. às máquinas e à degustação erótica. p. Giulio promete mais tarde dizer o nome dela. e seqüências de substantivos “ao acaso”. A um certo ponto do antefato. tão idolatrado pelos futuristas. No tocante às construções sintáticas. e quem ela é. contrasta collo spirito vivace e coll’anima appassionata generosa intuitiva dei napoletani. Si arminizzi invece sempre più colll’italiana. tenacia eroica. claro. luce.

Notem que não há vírgulas na passagem.” As passagens cujos argumentos são mais “futuristas”. e ai paesaggi di colore forma rumore che la radio-televisione fa navigare intorno alla terra? A repetição também aparece neste texto. num período longo em que faltaria até mesmo fôlego para o leitor que não impusesse suas próprias pausas no texto. que se refere também à mão esquerda.” A última frase do manifesto também traz modificações sutis na construção da frase. na cozinha do futuro. nutritivamente inferiore del 40% alla carne.indd 93 7/4/2009 15:51:20 . ai legumi. mas permanecem as conjunções: “.A cozinha futurista Ou ainda... É possível que aqui o período tenha sido escrito nesse ritmo lento para acentuar o peso do macarrão nos estômagos. o diferente. cujas vírgulas foram abolidas: “Questi complessi plastici saporiti colorati profumati e tattili formeranno perfetti pranzi simultanei. O trecho “Le macchine costitueranno presto un obbediente proletariato di ferro acciaio alluminio al servizio degli uomini quasi totalmente alleggeriti dal lavoro manuale” ignora a necessidade de vírgulas entre os componentes metálicos das máquinas. troppo pepe. O 93 Cozinha futurista. isto é. opta o poeta pela construções impessoais. o sono proveniente desse bloco maciço em nossos estômagos. al pesce. Perché opporre ancora il suo blocco pesante all’immensa rete di onde corte lunghe che il gfenio italiano ha lanciato sopre oceani e continenti. O substantivo mancanza é substituído por manca. parecem ter a linguagem mais cuidadosamente trabalhada no sentido de alcançar também a revolução lingüística. noi affermiamo questa verità: si pensa si sogna e si agisce secondo quel che si beve e si mangia. logo após a crítica feroz ao alimento: La pastasciutta. troppo dolce”. metaforicamente o inusual. O mesmo acontece na descrição dos pratos simultâneos. in cerca di vento. lega coi suoi grovigli gli italiani di oggi ai lenti telai di Penelope e ai sonnolenti velieri. troppo aceto. à força de evitar a indicação do sujeito nas frases. ao dizer que indicadores químicos. corrigirão: “manca di sale. relacionados de alguma forma à revolução cultural e social defendida pelo movimento.

e o sabor. Sobre cada fatia uma rodelinha de limão com alcaparras. no mesmo patamar de outras artes plásticas. também foi tratado e escolhido com cuidado por Marinetti. O Salmão do Alasca aos raios de sol com molho Marte deve ser cuidadosamente trabalhado de forma artística antes de ser apresentado ao comensal. limitar-nos-emos a relacioná-los na ordem em que aparecem 94 Cozinha futurista. podemos ver tantas referências aos sentidos que nos pareceu mais lógico separar de acordo com cada um deles. A observação de uma ou duas receitas propostas pelo manifesto provam que a aparência do prato conta tanto quanto (ou até mais que) o sabor deste. A cor. sobram outras. pepe. Após grelhar o filé com sal e azeite. imitando um jogo de damas. como o vinagre e a pimenta. assim como o cheiro. além do molho que o acompanha. A lógica lingüística diz que o último elemento também deveria ser um substantivo. Outra invenção famosa da cozinha futurista é o Carnescultura composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. O vocabulário referente às sensações. Dentre os elementos que sobram. ou. Mais uma vez. temos uma seqüência de três: “aceto. colocando o adjetivo doce no lugar do previsível açúcar. aparência do prato deve ser levada em conta. como o intuito dos autores é de mesclar os sentidos para atingir deste modo uma gama completa de sensações.Fillippo Tommaso Marinetti sentido da palavra é garantido pelo contexto. Entretanto. dispõem-se sobre as fatias alguns filetes de anchova entrelaçados. Dissemos acima que a culinária estaria. mas o autor preferiu causar este estranhamento. temos a junção dos sentidos para proporcionar o maior prazer gustativo possível.indd 94 7/4/2009 15:51:20 . forma. coberto de mel e sustentado a base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. e dolce”. aos sentidos. para Marinetti. Desde o “antefato” até o Manifesto da Cozinha Futurista. O cilindro é disposto verticalmente no centro do prato. melhor dizendo. falta uma coisa.

havia uma atmosfera “prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano torniva melodiosamente”. os amigos esculpiram tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. não somente o tato e relativas carícias. A carne da curva era a tal ponto gostosa. mas os dentes. todo o céu nas narinas. violetas e lírios. o trabalho foi recomeçado sendo os futuristas “deliziosamente pungolati dai lunghi raggi elastici di un’aurora. a língua. rosas. cirri rossi. o eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. complexos plásticos saborosos coloridos perfumados e táteis que formarão perfeitas refeições simultâneas. le sferiche dolcezze di tutte le ideali mammelle”. a harmonia da mesa com os sabores e cores das iguarias. trilli d’uccelli e scricchiolii d’acque legnose in cui scoppiava in brilli dorati la laccatura verde”. máquina futura lírica plástica arquitetônica. e “luceva di una sua zuccherina peluria eccitanto lo smalto dei denti nelle bocche attente dei due compagni. Sopra. Giulio inebriado beija com a língua sua obra de arte. brancos. conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. os futuristas intuíam e saboreavam “ela” entre os perfumes de baunilha. o intestino igualmente enamorados. o estômago. estalar de língua. 95 Cozinha futurista. Aparecem também mãos inspiradas e narinas abertas para dirigir a unha e os dentes. biscoitos. O quarto é revestido de “rosso rimorso vellutato”. pretos.A cozinha futurista nos textos. à cozinha eram transportados grandes pesados sacos que descarregavam piramidais montes amarelos. a apreciação das obras de arte por eles produzidas exigem não somente os olhos e relativa admiração. cuja harmonia original de formas e cores nutra os olhos e excitem a fantasia antes de tentar os lábios. vermelhos. a invenção de complexos plásticos saborosos. selecionando apenas as ocorrências em que ao menos dois sentidos são mencionados na mesma proposição. paisagens de cores forma rumores. alegria dos lábios. Seguem-se certos sabores e certas formas. vermelhos.indd 95 7/4/2009 15:51:20 .

indicaria uma pessoa incoveniente. O nome dos colaboradores futuristas. entre amigos ou entre familiares. temos em relação à visão o maior número de incidências. num tratamento informal. se traduzido – Saiosozinho (não precisam me mandar embora) -. tentamos seguir os preceitos futuristas observados na língua original.Fillippo Tommaso Marinetti Observando o texto. Seria necessário. que não é bem recebida por outrem. Mas não nos enveredamos por este campo. Como sabemos. recorrente em toda a sua obra. diFicuLdAdes dA trAduçãO Na tradução. hoje dia muito comum 96 Cozinha futurista. Mantivemos também um parêntese que foi aberto. Mantivemos as classes gramaticais sempre que isso não prejudicasse a compreensão em português. Esse é o caso de Escodamé. foram mantidos ainda que alguns pudessem ser sugestivos e divertidos. Apesar de defender a incorporação dos outros sentidos à literatura. na primeira parte do livro – “antefato poetico tragicomico” – foi o uso da forma de tratamento entre os futuristas e “Ela”. pessoa do discurso): Tu. O uso de maiúsculas e minúsculas iniciais das palavras. preservando tanto a construção original quanto o entendimento em português. mantendo a pontuação e a ausência da mesma. mas é provável que isso aconteça devido ao gosto marinettiano pela descrição. pseudônimos na realidade. que. a visão continua sendo o maior atrativo disponível aos escritores. apesar da possibilidade de ser um erro tipográfico. nomes dos pratos e de pessoas foi sempre conservado como o original em Italiano. bem como o posicionamento dos adjetivos. bem como o uso de itálico. negrito e aspas.indd 96 7/4/2009 15:51:20 . ter acesso às diversas edições do livro para verificar a ocorrência do problema. para evitar brincadeiras e analogias impertinentes Um problema verificado. aqui. mas não fechado. tentamos manter as inversões na ordem das frases. existem em italiano três formas de tratamento possíveis para o interlocutor (2a.

quando o tratamento é formal. escrito em 1932. especialmente os referentes às máquinas e ao vôo. Dois outros trechos também foram traduzidos em nota por estarem escritos em latim vulgar. foram pesquisados e mantidos. a palavra volantista.. tratamento também formal se dirigido a um único interlocutor. foi mantida como volantista em português. dinamismo e até aos pratos servidos foi sempre mantido. é pouco utilizado atualmente. mas à mulher. escultor. apresenta informações novas e apreciações críticas do movimento. a lei. entre pessoas que não se conhecem suficientemente. La. com os mesmos dois sentidos encontrados em italiano. confunde o leitor ao misturar os dois tratamentos formais. Encontramos a passagem: “nessuno vi mangerà per ora – disse Prampolini – a meno che il magrissimo Fillìa. Tratase da polêmica despertada em outros países e publicada nos jornais locais. Esta fala é dirigida a ela.”. esse tratamento é modificado e passa a “voi”. per lei. As notícias em francês foram simplesmente deixadas na língua original. porém. A reportagem em inglês. em relacionamentos profissionais e para demonstrar respeito. quase em italiano. O prefixo aero. já que a raiz latina permite a identificação pelo leitor de língua portuguesa. poesia e poeta. usada para motorista.. “Ela”. o que reafirma nossa suspeita antropofágica já explicitada anteriormente. foi por esse motivo traduzida em nota ao final do capítulo. Os campos semânticos. pois são simples traduções dos manifestos ou de cardápios já mencionados em italiano.indd 97 7/4/2009 15:51:20 . pictórico. acoplado a pintor. Ele não se refere às esculturas comestíveis. Há no livro algumas partes escritas em francês e em inglês.A cozinha futurista entre os jovens. à Nova. e Voi. “Lei” em italiano. complexo escultural ou plástico. publicada no jornal britânico The Herald. O livro. em uma única passagem. da lei).. pois insere leveza e mobilidade às palavras 97 Cozinha futurista. mas que alude tanto ao volante do automóvel quanto ao que tem a capacidade de voar. Lei. é sempre tratada com esse pronome e seus correlatos (Le. com algumas exceções nas regiões meridionais ou em língua escrita. Assim.

Fillippo Tommaso Marinetti e, aparentemente, às pessoas e objetos, que parecem perder o “imgombro pesante” no estômago. Culpa do macarrão, obviamente. Foram também encontrados os óbvios aeroplanos, e certos aerodinamismos lírico-plásticos, aerocumes, aerocerâmicas, aeroiguarias e aerobanquetes, que, contrariamente ao esperado, não eram servidos em pleno vôo, embora pudessem ser forjados ambientes que lembrassem a fuselagem de um avião. Ainda nos atendo ao vocabulário relativo a voar, Marinetti opta pra chamar o frango de volatile, palavra de uso comum na Itália, mas que retoma o léxico privilegiado por ele. Passemos agora do vôo à comida. O vocabulário referente à comida não oferece muitos problemas ao falante de português do Brasil, tão grande é a influência italiana em nossa culinária. Os nomes de diferente cortes de macarrão ou de massas rechadas, como ravioli, lasanha, tagliatelle, tagliarini, espaguete, trenette, foram mantidas em italiano, apenas usando a grafia aportuguesada quando esta existia. Assim, no texto em português, podemos nos deparar com tortelini in brodo ou espaguete ao sugo, sem que isso prejudique a compreensão. Uma única nota foi dispensada ao “vermicelli al pomodoro”, por se tratar de um corte não freqüente no Brasil. As palavras que designam refeição ou prato apresentaram mais dificuldades, já que em italiano “pranzo” pode designar tanto o almoço quanto uma refeição mais elaborada, em qualquer horário do dia. Optamos, por isso, às vezes, por refeição no lugar de almoço. Aparecem também palavras com tom bastante pejorativo para certas comidas, como “intrugli” ou “maledetta pietanza”; nesse caso, optamos por lavagem, que remete à comida oferecida aos porcos. “Vivanda” foi quase sempre traduzida por vianda, mantendo assim o mesmo radical latino. Outro vocábulo de difícil tradução foi “bocconi”, utilizado em alguns restaurantes aqui no Brasil, designam comidas que não precisam ser cortadas para serem comidas, têm o tamanho certo para serem intro-

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A cozinha futurista duzidas na boca. Traduzimos uma vez por bocados, outra por prato, já que o bocado pareceria fora de contexto. O nome dos pratos, quase sempre originais, foram traduzidos literalmente. Assim, quando Marinetti propunha um “Tuttoriso”, traduzimos por Todoarroz, com a mesma forma de composição em justaposição feita em italiano. Encontramos também, raras vezes, composições por aglutinação. Aparecem, com a mesma lógica lingüística, Frangofiat, Hortotátil, Decolapaladar, Tedesejo, Carnadorada, Guerranacama, Teamareiassim, Superpaixão, Estanoiteláemcasa, e inúmeras outras contruções similares. O famoso Carnescultura em português não manteve o radical do original “carneplástico”, pois a palavra plástico aqui, embora tenha o sentido de forma, escultura preservado nas Artes Plásticas que envolvem também a pintura, remete ao derivado de petróleo e poderia afastar paladares curiosos. O plástico, em nossa culinária, é a ausência de sabor aliada a uma consistência indesejável em algo a ser ingerido. Os neologismos criados por Marinetti também foram alvo de grande atenção, e sempre que identificados, mesmo quando havia palavra bastante aproximada em português, tentamos construir uma que fosse nova, para mantermo-nos fiéis à construção original. Daí surgiu a revolução “cozinhária”, tradução do neologismo italiano “cucinaria”, usado no lugar da conhecida culinária, palavra que atende tanto o italiano quanto o português. Marinetti recusou também o conhecido “xenofilia”, inventou “esterofilia”, que traduzimos estrangeirofilia. O sentimento que faria alguns cidadãos renegarem sua pátria foi definido “antitalianità”, resultou em antitalianidade em português, bem como os vocábulos justapostos “criticomania” ou “benpensanti”, respectivamente criticomania e bempensantes. A certo ponto da leitura, encontramos um prato “sinottico-singustativo”. Como traduzir este adjetivo tão abrangente? O prato privilegia-

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Fillippo Tommaso Marinetti va diversos ingredientes, coloridos, dispostos de forma determinada e com certos sabores, que deveriam se unir mediante escolhas feitas pelos comensais. O prefixo grego sin- designa uma ação conjunta, logo, ação conjunta dos olhos e ação conjunta dos sabores. Mais uma vez optamos por não traduzir, para que o leitor, ao buscar o significado das partes das palavras, descubra ele também o que é o prato sinótico-singustativo. O cardápio extremista apresenta, entre muitos odores prazerosos ou não, duas palavras novas, ambas referentes ao barulho das rãs entre as águas podres do lago: polichiaccherio e quaccherologia. Traduzimos por policonversação a primeira, embora não reproduza bem o sentido da conversa tumultuada, barulhenta e rumorosa dos anfíbios em questão. A quaccherologia foi mais intrigante. O sufixo –logia indica estudo e quacchero se refere, de acordo com o dicionário, aos “Quakers” – quacre em português -, membros da seita protestante fundada na Inglaterra e difundida nos Estados Unidos, que não aceitam sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, pregam a intransigência puritana e a simplicidade de vida. Optamos pela tradução quacrelogia, ainda que o sentido pretendido pelo autor não pareça claro. Lembrando que o Futurismo é um movimento nacionalista, especialmente nos últimos anos de sua existência, por sua aproximação política com o fascismo, observamos a negação dos vocábulos de origem inglesa ou francesa na cultura – e na culinária – italiana. Marinetti propõe com essa finalidade uma modificação no léxico culinário italiano, utilizando palavras nacionais, de modo a evitar qualquer estrangeirismo. O último capítulo do livro, o “pequeno dicionário da arte cozinhária futurista”, traz opções para palavras já incorporadas ao vocabulário italiano, mas agora renegadas por Marinetti. Os franceses “Marrons Glacés” transformam-se em castanhas confeitadas, “consommé” serão consumidos, “fondants” serão apenas fundentes, “fumoir” será fumatório, “maitre d’hotel” é guiapaladar, “menu” será substituído por lista ou listadepratos, “mélange” será mistura, “flan” vira pasticho, “dessert”

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A cozinha futurista é paraselevantar, “purée” é substituído por pasta e “bouillabaisse” restringe-se a sopa de peixe. É bastante curiosa a reflexão feita para alcançar a palavra “paraselevantar”, peralzarsi em italiano, em substituição ao francês dessert. A sobremesa é a última a ser ingerida, pois café e licores eram via de regra servidos em outra sala. Ao terminar a degustação, o movimento tão caro à idéia futurista era incluída na refeição: todos se levantam. Os ingleses também sofrem retaliação, e o “barman” vira mexedor, “cocktail” vira polibebida, “picnic” se torna um agradável almoçoaosol, “bar” é substituído por aquisebebe, “tea-room” torna-se sala de chá e o internacional “sandwich” transmuta-se em entreosdois. Um último neologismo marinettiano para encerrar as dificuldades: parolibero, usado tanto como substantivo, em “o parolibero Fillìa” quanto como adjetivo, em “uma conversação parolibera”. O processo em italiano foi a aglutinação da palavras parola + libero = parolibero. No entanto, em português parecia inviável a aglutinação de palavra + livre, pela incidência dupla do encontro consonantal “vr”. A solução encontrada foi utilizar um sinônimo de palavra, vocábulo, cuja sílaba final continha a mesma consoante da sílaba inicial de livre. Logo: vocábulo + livre = vocabulivre.

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A CozInhA FuturIstA Tradução Q Cozinha futurista.indd 103 7/4/2009 15:51:21 .

indd 104 7/4/2009 15:51:21 .Cozinha futurista.

Sumário Uma refeição que evitou um suicídio O antefato poético tragicômico O manifesto da cozinha futurista Ideologias e polêmicas A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas Os cardápios futuristas Sugestivos e determinantes Receituário futurista para restaurantes e “aquisebebe” Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista 105 Cozinha futurista.indd 105 7/4/2009 15:51:21 .

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os futuristas. Salvo algumas exceções louváveis e legendárias.Contrariamente às críticas lançadas e àquelas previsíveis. finalmente criar uma harmonia entre o paladar dos homens e sua vida de hoje e de amanhã. Como em todas as artes. tem o propósito alto. a primeira cozinha humana. a inteligência e a fantasia substituam economicamente a qualidade. parecerá louca e perigosa a alguns passadistas tremebundos: ela quer. Esta nossa cozinha futurista. os ratos. fortificando-a. essa exclui o plágio e exige originalidade criativa. dinamizando-a e espiritualizando-a com novíssimas iguarias nas quais a experiência. 107 Cozinha futurista.indd 107 7/4/2009 15:51:21 . Nasce conosco. a banalidade. regulada como o motor de um hidroplano para altas velocidades. a revolução cozinhária futurista. a arte de se alimentar. a repetição e o custo. os gatos e os bois. isto é. ao contrário. ilustrada neste volume. nobre e útil a todos de modificar radicalmente a alimentação de nossa raça. até hoje os homens alimentaram-se como as formigas.

108 Cozinha futurista.indd 108 7/4/2009 15:51:21 . isto é: o otimismo à mesa. mas pode-se calcular o perigoso pânico deprimente. A este pânico nós opomos uma cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Não por acaso esta obra vem publicada durante a crise econômica mundial cujo desenvolvimento parece incalculável.

umA reFeiçãO que evitOu um suicídiO O poético antefato tragicômico Em onze de maio de 1930 o poeta Marinetti partia. 109 Cozinha futurista. extravagante e misterioso telegrama: “Caríssimo uma vez que Ela partiu definitivamente fui acometido de torturante angústia PT imensa tristeza proíbe-me sobrevivência PT suplico-lhe venha rápido antes que chegue aquela que se parece muito com Ela mas não o suficiente GIULIO”.indd 109 7/4/2009 15:51:21 . em direção ao lago Trasimeno. de automóvel. obedecendo a este preocupante.

decidido a salvar seu amigo. Pois bem.”- 110 Cozinha futurista. por uma estranha coincidência. o volantista do automóvel procurou e encontrou. Na entrada. intervém um fato novo e significativo. Eu recebi ontem este telegrama.. cuja grande genialidade de aeropintores pareceu-lhe adaptar-se ao caso sem dúvida gravíssimo. nas margens feridas e entre os canaviais doloridos do Lago.. mas não o suficiente. Na verdade. o rosto emagrecido e a mão estendida muito branca de Giulio Onesti. confesso-me brutalmente a vocês e a sua provada amizade: há três dias a idéia de suicídio ocupa toda a casa e também o parque. . que alternava pinheiros umbelíferos oferecidos ao Paraíso e ciprestes diabolicamente mergulhados na tinta do Inferno. diante da porta do automóvel.. que bebia por amplas janelas uma meia-lua nascente mas já imersa na morte das águas.. O telegrama anuncia a sua iminente chegada. Marinetti! Ela se suicidou há três dias em Nova Iorque. você a conhece. seu intervento belicoso e criativo nas noitadas futuristas de vinte anos antes. a casa. Certamente me chama. é da outra que se parece com ela.indd 110 7/4/2009 15:51:21 .. muito. encheram a conversação vocabulivre que precedeu o jantar no policromático Aquisebebe da casa. a sua vida de ciência e de riquezas acumuladas no Cabo da Boa Esperança. Dir-lhes-ei outro dia o seu nome e quem é.Fillippo Tommaso Marinetti Marinetti. Por outro lado..“querem saber o porquê? Eu lhes digo: Ela. Agora. na sala revestida de vermelho remorso aveludado. Cirurgicamente. um verdadeiro Palácio. ainda não tive a força de entrar..“Intuo em seus paladares a chatice de um antiquíssimo hábito e a convicção de que um tal modo de se nutrir conduz ao suicídio. a sua repentina fuga dos centros habitados. O que vocês me aconselham?” Longo silêncio.. ela se escondia ao fundo do parque. Este pseudônimo que mascarava seu verdadeiro nome. Giulio murmurou: . convocou telefonicamente a presença de Enrico Prampolini e Fillìa. À mesa. mais que uma casa.

”-“você será atendido ainda nesta noite”. os fogos acesos.A cozinha futurista Longo silêncio. chocolate em pó. ao primeiro alvorecer que atravessou o cintilante horizonte pela janela aberta. 111 Cozinha futurista. Dez jarras de óleo. Prampolini gritou: -“são necessários às nossas mãos geniais cem sacos dos seguintes ingredientes indispensáveis: farinha de castanhas. Cem quilos de tâmaras e de bananas. suicidar-me-ei esta noite!1 . farinha de trigo. ovos. aeropintores e aeroescultores.“a menos que ? ” – gritou Prampolini . farinha de centeio. que havia ciumentamente cercado de biombos o seu trabalho criativo. Giulio sofreu um tremor convulsivo irreprimível: . leite.ordenou Giulio.“a menos que ? ” – repetiu Fillìa.(não quero. . gritou: 1 O parêntese não foi fechado no original.”Fillìa improvisou um aerocomplexo plástico de farinha de castanhas. Imediatamente os empregados começaram a transportar grandes e pesados sacos que. açúcar e ovos. Enrico Prampolini. chocolate. farinha de milho. As minhas aeropoesias ventilarão seus cérebros como hélices esvoaçantes. não devo trair a morta. vermelhas. Depois do que. brancas. descarregando piramidais pilhas amarelas. farinha de amêndoas. mel e leite. transformavam as cozinhas em fantásticos laboratórios onde as enormes caçarolas emborcadas no chão transformavam-se em pedestais grandiosos predispostos a uma escultura imprevisível.indd 111 7/4/2009 15:51:21 . pretas. pimenta vermelha.“A menos que ? ” – concluiu Marinetti – a menos que você nos conduza imediatamente às suas ricas e abastecidas cozinhas.”Entre os cozinheiros estarrecidos e ditatorialmente desautorizados. Então. -“ao trabalho – disse Marinetti – oh. onde camadas atmosféricas noturnas eram intercaladas por camadas de alvoreceres acinzentados com espirais de vento expressos em encanamentos de massa podre.

ao aumentar a velocidade espalhava por todo o recinto uma massa enorme de algodão-doce de ouro. Era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. cantos de pássaros. Mãos inspiradas. Idealizado por Marinetti. Vocês comeriam-na toda. Comestível. que se improvisava cozinheiro-escultor.” – Retomaram o trabalho deliciosamente estimulados pelos longos raios elásticos de uma aurora.”Derrubou os biombos e apareceu o misterioso suave tremendo complexo plástico d’ela. Afastem-se. um seu modo de flutuar sensualíssimo.Fillippo Tommaso Marinetti -“Tenho-a finalmente entre meus braços e é de tal modo bela. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. Vocês têm más bocas vorazes. chiados de águas lenhosas cuja laqueadura verde estourava em brilhos dourados. um sorriso seu de lábios. alto complexo plástico de massa folhada esculpida em camadas degradantes de pirâmide. Narinas abertas para guiar as unhas e os dentes. a esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. No alto. Às sete horas nascia do maior forno da cozinha a paixão das loiras. girando em seu eixo. angustiadíssimo e 112 Cozinha futurista. cada uma com uma leve curva especial de boca ventre ou quadris. Atmosfera inebriante pródiga de formas cores com planos de luz cortantes e lisíssimas redondezas de esplendores que o zumbido de um aeroplano altíssimo torneava melodiosamente. sem respirar. -“não se aproximem – gritou a Marinetti e a Fillìa – não a cheirem. Venham admirá-la. nuvens vermelhas. realizado sob o seu ditado por Giulio Onesti.indd 112 7/4/2009 15:51:21 . E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. um cilindro de massa de milho que. Acima.

esbeltíssimo “lazo” de massa podre. de rosas violetas e cachias que no parque e na cozinha a brisa primaveril.indd 113 7/4/2009 15:51:21 . remisturava. Marinetti. será aquela de uma convidada qualquer. A sua boca. No silêncio da tarde o trabalho tornou-se muscularmente acelerado. se bem que ideal. Giulio Onesti disse: . síntese de todos os automóveis famosos de curvas longínquas e uma rapidez de vôo que oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados de mulheres misturados a cubos de rodas e a asas de hélice todas feitas com macia massa fermentada. Giulio Onesti manifestava uma inquietude que não correspondia à serenidade futurista de seu cérebro. de biscoitos.“se a Nova chega com o crepúsculo ou com a noite. Novo silêncio. representando as formas da nostalgia e do passado precipitou abaixo com um estrondo e enlameando tudo de líquidas trevas viscosas. o complexo plástico foi por ele mesmo plantado sobre uma gigantesca caçarola de cobre de cabeça para baixo. não trabalhamos para ela. ébria de esculpir ela também. Massas saborosas para transportar. oferecer-lheemos uma aurora artística comestível realmente inesperada. em equilíbrio sobre as pedras polidas e trementes do pensamento. Aquela boca iminente preocupava também os três futuristas que trabalhavam. Em uma pausa. 113 Cozinha futurista. Giulio Onesti. A torrente do tempo fugia-lhes sob os pés. Entretanto.A cozinha futurista trêmulo. Bruscamente um complexo plástico de chocolate e torrone. Temia a que estava por vir. Competiu subitamente tanto com a força dos raios solares até inebriar o escultor que infantilmente beijou sua obra com a língua.” No entanto. Prampolini e Fillìa restauravam seus estômagos de quando em quando com um saboroso pedaço de estátua. Foram desenformados por Prampolini e Fillìa: uma velocidade esguia. Intuíam-na e saboreavam-na entre os perfumes de baunilha. Com bocas de antropófagos simpáticos.

Alegria dos lábios.” Soou mediunicamente a campainha ao fundo. Em um canto. resplandecia no ângulo oposto. para inaugurar – experimentar juntos a grande Mostra de escultura comestível já pronta. Sobre-humana. por sua vez. Às seis da tarde desenvolver-se no alto de doces dunas de carne e areia em direção a dois grandes olhos de esmeralda nos quais a noite já se adensava. em rixa com dois enormes canhões de montanha. sob onze globos elétricos. e das mais belas Áfricas sonhadas. Tinha como título as curvas do mundo e os seus segredos. tinham-lhe inoculado o suave magnetismo das mulheres mais belas. colaborando. na realidade. Marinetti.Fillippo Tommaso Marinetti Com calma retomar a matéria. no parque.“verão que ele a vencerá. perfeito. Era um complexo plástico a motor comestível.indd 114 7/4/2009 15:51:21 . os futuristas Marinetti. Todo o céu nas narinas. Conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. Crucificá-la sob pregos agudos de vontade. a mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis. haviam sido amontoados rechaçados brutalmente como por uma mágica força sobre-humana. na vasta sala das armas. perto de uma vidraça cheia de ácidas e doentias luzes sublacustres. A obra-prima. A sua arquitetura oblíqua de curvas macias perseguindo-se no céu escondia a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis que mecanicamente engrenavam os seus tufos à roda dentada. Nervos. Estalar de língua. Prampolini e Fillìa esperavam o dono da casa convidado. Paixão. *** À meia-noite. montes de alabarda e feixes de carabinas. Mais abaixo sentia-se a estridente felicidade dos riachos paradisíacos. 114 Cozinha futurista. Prampolini disse: . Prampolini e Fillìa.

. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. dela. que cuidadosamente e esculturalmente escavava para o próprio corpo. os pensamentos que os dominaram enquanto esculpiam tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. se apertado pelo supremo prazer do amor.“não me julguem uma idiota – murmurou com graça lânguida – estou estonteada. ” A ela. nas peliças e nos tapetes. aquele intitulado as curvas do mundo e os seus segredos perturbava. Para sua sorte. Prampolini e Fillìa falaram alternando-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. as intenções. Uma breve troca de gentilezas assombros regozijos a ela. Como exauridos por tanto aerodinamismo lírico-plástico. os grandes olhos verdes. Prampolini e Fillìa sobre um amplo tapete de plumas dinamarquesas que pela maciez madreperolada à luz elétrica parecia viajar. a outra feminina e agressiva. uma concha-toca para fera refinada. Suplico-lhes que me expliquem as razões. Belíssima mulher. uma viril mas cansada. Depois. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas 115 Cozinha futurista. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. dos ombros e das ancas esbeltas apenas embainhadas por mohair dourado. e o rosto voltado para o centro da terra. Disseram: . cheios de falsa ingenuidade infantil. Prontos puseram-se em pé. nuvem investida por projetores na noite. porém ao som de duas vozes. sob a curta testa inundada de ricos cabelos quase louros e quase castanhos. revolucionavam e acendiam as curvas pacatas e a delicada elegância minuciosa do pescoço. De bruços aos seus pés. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma.“Amamos as mulheres. a imobilidade e o silêncio dos cinco.indd 115 7/4/2009 15:51:21 . mas de uma beleza tradicional. Marinetti. O seu engenho me espanta. Giulio Onesti sonhava ou escutava.A cozinha futurista Entre todos. O seu coração. jaziam cansadíssimos Marinetti. nas almofadas.

a alvorada. outros nos crêem complicadíssimos e civilizadíssimos. a língua. mas os dentes.Fillippo Tommaso Marinetti obras de gênio e de língua insaciável.” Uma longa pausa de silêncio fulminou de sono Marinetti. O eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. Prampolini e Fillìa. diante de nossas mãos. A mulher contemplou-os por alguns minutos. Arte temporânea. . você poderá ler esta noite as originais bisbilhotices erótico-sentimentais que suscitaram nos artistas certos sabores e certas formas aparentemente incompreensíveis. Vocês nos julgam selvagens. não só o tato e relativas carícias.. toda novas leis.” Acrescentou Marinetti: .“por caridade – suspirou sorrindo – moderem a sua selvageria. de imagens e de ímpetos afinava-se com o murmúrio assobiado e metálico do canavial no Lago acariciado pela brisa noturna. A apaixonada superaguda tensão das mais frenéticas luxúrias finalmente apagadas. o intestino igualmente enamorados. São os nossos estados de ânimo realizados. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. a graça infantil.indd 116 7/4/2009 15:51:21 . Cem moscões lilases azuis davam uma artística investida enlouquecida em direção aos altos globos elétricos. o furioso turbilhão do sexo. Somos os novos elementos instintivos da grande Máquina futura lírica plástica arquitetônica. a única e todas encontravam-se aqui.. O fascínio.a menos que o macérrimo Fillìa. a ingenuidade.“ninguém a comerá por enquanto – disse Prampolini . os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. o pudor. O fraco murmúrio das respirações carregadas de desejo. Arte leve voadora. toda novas diretrizes. depois jogou a cabeça para trás e adormentou-se também.“neste catálogo da Mostra de escultura comestível. incandescências a serem esculpidas a qualquer custo e o mais rapidamente elas também. Arte comestível. o estômago.” . 116 Cozinha futurista.

fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Talvez para se refrescar. Possessor e possuído. liberado. Levantou-se agilmente.indd 117 7/4/2009 15:51:21 . vazio e transbordante. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. como uma tigresa alongada. a língua e os dentes. com as costas suspeitosas de um ladrão. Estava ao mesmo tempo desobstruído. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as grandes jóias do olhar. com um tremendo torcer de rins. Escultores e escultoras dormiam. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. Ajoelhandose em frente. Giulio saiu então para o parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. 117 Cozinha futurista. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. Sem fim. Às três daquela noite. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos.A cozinha futurista De improviso. Único e total. começou a amorosa adoração com os lábios. com a cabeça descoberta. Aproveitador e aproveitado. sem fazer barulho.

Fillippo Tommaso Marinetti O mAniFestO dA cOzinhA FuturistA Ideologia e polêmicas A refeição do “Penna d’Oca” e o manifesto da cozinha futurista Desde o início do Movimento Futurista Italiano. Balla. agitou os maiores futuristas. a urgência de uma solução impôs-se: O restaurante PENNA D’OCA de Milão. ofereceu aos futuristas milaneses um banquete que queria ser um elogio gastronômico do futurismo. algumas tentativas de renovação cozinhária. fecundadora. Russolo. na Itália e na França. zug. Houve. em 15 de Novembro de 1930. Isto era muito discutido entre Marinetti. isto é. a importância da alimentação sobre a capacidade criativa. Esta lista de pratos: ganso gordo sorvete na lua lágrimas do deus “Gavi” brodo de rosas e sol favorito do mediterrâneo zig. Subitamente.indd 118 7/4/2009 15:51:21 . Sant’Elia. zag cordeiro assado ao molho de leão saladinha à aurora sangue de Baco “terra ricasoli” rodinhas pontuais de alcachofra 118 Cozinha futurista. dirigido por Mario Tapparelli. há 23 anos (Fevereiro de 1909). Boccioni. agressiva das raças.

apesar de agradar ao paladar. convidado a falar diante de um receptor da Radio. Pick Mangiagalli. Os menos futuristas eram os que mais aplaudiam. e os futuristas Depero. Prampolini. É. lentos. Escodamè e Gerbino. E era lógico porque. Giordano. disposto sobre a mesa entre “rodinhas pontuais de alcachofra” e “chuva de algodão doce”. ilude sobre sua capacidade nutritiva.indd 119 7/4/2009 15:51:21 . por outro lado.A cozinha futurista chuva de algodão doce espuma hilariante “cinzano” fruta colhida no jardim de Eva café e licores agradou muito aos convidados: S. exceto o brodo de rosas que inebriou os paladares futuristas de Marinetti. Gerbino. que deve ser adaptado o mais brevemente possível às necessidades dos novos esforços heróicos e dinâmicos impostos à raça. Marinetti desafiou as ironias precisando seus pensamentos. Marinetti. Escodamè. S. Marinetti. pessimistas. Farinacci. Exª Fornaciari Prefeito de Milão. Steffenini. a abolição do macarrão. Repaci.” Este discurso suscitou entre os convidados aplausos enlouquecidos e pouco claras irritações. Dep. O macarrão. A cozinha futurista será libertada da velha obsessão por volume e peso e terá. Prampolini. Sansanelli. disse: . Ravasio. é uma comida passadista porque estufa. as iguarias eram timidamente originais e ainda ligadas à tradição gastronômica. Umberto Notari. S. Dep. Depero. 119 Cozinha futurista. Chiarelli. enfeia.“anuncio-lhes o próximo lançamento da cozinha futurista para a renovação total do sistema alimentar italiano. como um de seus princípios. patriótico favorecer sua substituição pelo arroz. torna-nos céticos. O cozinheiro Bulgheroni foi repetidamente aclamado. Exª. etc. Ex.

por Graça Aranha “liberação do terror estético”.Fillippo Tommaso Marinetti No dia seguinte. às amas de leite. Entre todos os movimentos artísticos literários. das senhoras aos cozinheiros. O Futurismo italiano enfrenta ainda a impopularidade com um programa de renovação total da cozinha. Cada vez que. aos literatos. na realidade. na Gazzetta del Popolo de Turim apareceu O Manifesto da cozinha futurista O Futurismo italiano. eram entrelaçadas imediatamente intermináveis discussões. eles experimentam prudentemente o novo para obter de cada um a máxima vantagem. Contra o macarrão O Futurismo foi definido pelos filósofos “misticismo da ação”. era servido macarrão. por nós “orgulho italiano (i)novador”. em todos os jornais estourou uma polêmica violentíssima da qual participaram todas as categorias sociais. pai de numerosos futurismos e vanguardistas estrangeiros. O novecentismo pictórico e o novecentismo literário são. em qualquer restaurante. é o único que tem por essência a audácia temerária. *** No dia 28 de Dezembro de 1930. por Benedetto Croce “anti-historicismo”. cantina ou casa da Itália. aos soldados.indd 120 7/4/2009 15:51:21 . aos camponeses. aos moleques. dois futurismos de direita moderadíssimos e práticos. Arraigados à tradição. não permanece prisioneiro das vitórias mundiais obtidas “em 20 anos de grandes batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue” como definiu Benito Mussolini. fórmula da “arte120 Cozinha futurista. aos estivadores. aos astrônomos.

as nossas papilas gustativas. o nosso paladar. imensificado a plástica com o anti-realismo. tenacidade heróica. Consultamos a este respeito os nossos lábios. “higiene espiritual”. A volúpia do palato . enquanto que para a fêmea é horizontal. Preparamos uma agilidade de corpos italianos adaptados aos levíssimos trens de alumínio que substituirão os atuais pesados de ferro madeira aço. de baixo para o alto do corpo humano. Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente nutridos realizaram grandes coisas no passado. é para o macho e para a fêmea sempre ascendente. ousadia. nós afirmamos esta verdade: pensa-se sonha-se age-se de acordo com o que se bebe e o que se come. “esplendor geométrico veloz”. ternura. as nossas secreções glandulares e entramos genialmente na química gástrica. “religião da velocidade”.A cozinha futurista vida original”. ao contrário. sempre mais com a italiana. mais impetuoso. julgado por todos louco. a nossa língua. “método da infalível criação”. em leque. Convencidos de que na provável conflagração futura vencerá o povo mais ágil. 121 Cozinha futurista. então. “máximo esforço da humanidade para a síntese”.indd 121 7/4/2009 15:51:21 . nós futuristas negligenciamos o exemplo e a exortação da tradição para inventar a qualquer custo um novo. “estética da máquina”. Nós futuristas sentimos que para o macho a volúpia de amar é escavadora abissal do alto para baixo. Antipraticamente. luz. criado o esplendor geométrico arquitetônico sem decorativismo. Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega. delgada transparência espiral de paixão. vontade. Harmonize-se. ao contrário. nós futuristas após termos agilizado a literatura mundial com as palavras em liberdade e o estilo simultâneo. esvaziado o teatro do tédio mediante sínteses alógicas por surpresa e dramas de objetos inanimados.

Este alimento amiláceo é em grande parte digerido na hora pela saliva e o trabalho de transformação é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Talvez beneficiem aos ingleses o bacalhau. aos legumes. oradores impetuosos. aos holandeses a carne cozida com queijo. Dele derivam: fraqueza. pessimismo. Ao comê-lo eles descobrem um típico ceticismo irônico e sentimental que trunca muitas vezes o seu entusiasmo. agricultores tenazes a despeito do volumoso macarrão quotidiano. o rosbife e o pudim. o macarrão é um alimento que se engole. e às paisagens de cores formas rumores que a radio-televisão faz navegar em torno da terra? Os defensores do macarrão carregam a bola de ferro ou a ruína no estômago. Por exemplo. nutritivamente inferior em 40% à carne. aos alemães o chucrute. Estes foram combatentes heróicos. ao peixe. não se mastiga. à busca de vento. Porque opor ainda o seu bloco pesante à imensa rede de ondas curtas longas que o gênio italiano lançou sobre os oceanos e continentes. artistas inspirados. o toucinho defumado e o salame. Convite à Química O macarrão. Signorelli. contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada generosa intuitiva dos napolitanos. Recordem-se ainda que 122 Cozinha futurista. absurda religião gastronômica italiana.Fillippo Tommaso Marinetti a cinematografia e a fotografia abstratas. estabelecemos agora a nutrição adequada a uma vida sempre mais aérea e veloz. advogados engenhosos. Isto leva a um desequilíbrio com distúrbio destes órgãos. Um inteligentíssimo professor napolitano. liga com seus emaranhados os italianos de hoje aos lentos teares de Penélope e aos sonolentos veleiros. escreve: “Diferentemente do pão e do arroz.indd 122 7/4/2009 15:51:21 . o Dr. como prisioneiros ou arqueólogos. mas aos italianos o macarrão não beneficia. Acreditamos antes de tudo necessário: a) a abolição do macarrão. inatividade nostálgica e neutralismo”.

ornamentos) com os sabores e as cores das comidas.000kw é necessário somente um operário. segundo o conselho de Jarro Maincave e outros cozinheiros futuristas.A cozinha futurista a abolição do macarrão libertará a Itália do custoso grão estrangeiro e favorecerá a indústria italiana do arroz. b) A abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar a nutrição. Uma harmonia original da mesa (cristais. permite aperfeiçoar e nobilitar as outras horas com o pensamento as artes e a pregustação de refeições perfeitas. O “carnescultura” Exemplo: Para preparar o Salmão do Alasca aos raios do sol com molho Marte. compostos albuminosos. pega-se um belo salmão do Alasca. Convidamos a química ao dever de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos gratuitos do Estado. c) A abolição das combinações tradicionais para a experimentação de todos as novas combinações aparentemente absurdas. Em todas as classes as refeições serão distanciadas mas perfeitas no cotidianismo dos equivalentes nutritivos. louças. gorduras sintéticas e vitaminas. sendo reduzido a duas ou três horas. com relativa redução das horas de trabalho. A originalidade absoluta das comidas. As máquinas constituirão rapidamente um obediente proletariado de ferro aço alumínio a serviço dos homens quase totalmente aliviados do trabalho manual. d) A abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato. sal e azeite até que esteja bem dourado. Acrescen- 123 Cozinha futurista. corta-se e passa-se na grelha com pimenta. Este.indd 123 7/4/2009 15:51:21 . para 2. em pó ou pílulas. Atingir-se-á assim uma real baixa do preço da vida e do salário. Hoje. O almoço perfeito exige: 1.

124 Cozinha futurista. limpe-a.indd 124 7/4/2009 15:51:22 . coloque-a sobre uma fatia torrada de pão quadrado ensopado com rum e conhaque e cubra-a com massa folhada. quatro colheres de cassis. Sirva-a com este molho: meio copo de Marsala e vinho branco. casca de laranja picadinha. um cálice de licor italiano Aurum. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. Coloque o molho na molheira e sirva-a muito quente. borrifando-a com conhaque. Apenas retirada da caçarola. No momento de servir colocam-se sobre as postas de salmão alguns filetes de anchova entrelaçados (como jogo de damas). sal. azeite. cozinhe-a em forno muito quente por quinze minutos.Fillippo Tommaso Marinetti tam-se tomates cortados ao meio previamente cozidos sobre a grelha com salsinha e alho. (Fórmula de Bulgheroni. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) A invenção dos complexos plásticos apetitosos. pimenta. pegue uma bela perdiz. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) Exemplo: Para preparar a Perdiz à Monterosa molho Vênus. e será peneirado. cuja harmonia original de forma e cores nutra os olhos e excite a fantasia antes de tentar os lábios. Leve novamente ao forno até que a massa esteja bem cozida. é composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada de onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. (Fórmula de Bulgheroni. Sobre cada posta uma rodelinha de limão com alcaparras. Exemplo: O carnescultura criado pelo pintor futurista Fillìa. interpretação sintética das paisagens italianas. zimbro. gemas de ovos cozidos. cubra seu estômago com fatias de presunto e toucinho. manjericão. coloque-a numa caçarola com manteiga. tudo fervido por dez minutos. O molho será composto de anchovas.

com pimenta sal limão. a surpresa e a fantasia. O uso da música limitado nos intervalos entre os pratos para que não distraia a sensibilidade da língua e do palato e sirva para aniquilar o sabor apreciado restabelecendo uma virgindade degustativa. No centro emerge um cone de claras de ovos batidas e solidificadas cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. 10. vinte sabores para experimentar em poucos instantes. O uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. A abolição da eloquência e da política à mesa. A apresentação rápida entre um prato e outro.A cozinha futurista Equador + Pólo Norte Exemplo: o complexo plástico comestível Equador + Pólo Norte criado pelo pintor futurista Enrico Prampolini é composto por um mar equatorial de gemas de ovo em sua própria casca. de alguns pratos que eles comerão e de outros que eles não provarão para favorecer a curiosidade. O uso dosado da poesia e da música como ingredientes inesperados para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma certa vianda. A abolição do garfo e da faca para os complexos plásticos que possam dar um prazer tátil pré-labial. Um dado bocado poderá resumir uma 125 Cozinha futurista. Estes complexos plásticos apetitosos coloridos perfumados e táteis formarão perfeitos almoços simultâneos. A criação de pequenos pratos simultâneos e cambiáveis que contenham dez. Estes pratos terão na cozinha futurista a função analógica imensificante que as imagens têm na literatura. sob os narizes e os olhos dos convidados. Cada prato deve ser precedido por um perfume que será cancelado da mesa por meio de ventiladores. O cimo do cone será coberto por pedaços de trufas negras cortadas em forma de aviões negros para a conquista do zênite.indd 125 7/4/2009 15:51:22 .

frutas secas. o que provoca a destruição de substâncias ativas (vitaminas. Ducceschi. Marinetti *** A “Cozinha Italiana”. eletrolisadores para decompor sucos. impedem o raquitismo nas crianças.). esterilizadores centrífugos. moinhos coloidais para tornar possível a pulverização de farinhas. e o turbilhão angustioso 126 Cozinha futurista. Parecem falar à mesa. Foà.) por causa das altas temperaturas.Fillippo Tommaso Marinetti inteira zona de vida. Os indicadores químicos darão conta da acidez e alcalinidade dos molhos e servirão para corrigir eventuais erros: falta de sal. excesso de doce. evitando por exemplo o erro de cozinhar as comidas em panelas a pressão. especiarias.. tornam-se mais assimiláveis. Estes. Um conjunto de instrumentos científicos na cozinha: ozonizadores que dêem o perfume do ozônio a bebidas e comidas. etc. etc. aparelhos de destilação a pressão comum e à vácuo. o desenvolver de uma paixão amorosa ou uma inteira viagem ao extremo Oriente. lâmpadas para a emissão de raios ultravioleta (já que muitas substâncias alimentares irradiadas com raios ultravioleta adquirem propriedades ativas. O uso destes aparelhos deverá ser científico. a boca beatamente cheia de espaguete ao vôngole. Londono. de modo a obter de um produto notável um novo produto com novas propriedades. pouco cientificamente. Viale. Pini. Lombroso. Não possuem a lucidez espiritual do laboratório. defenderam o macarrão os doutores Bettazzi. extratos etc.indd 126 7/4/2009 15:51:22 . dializadores. jornal dirigido com grande competência e genialidade por Umberto e Delia Notari. etc. em uma trattoria de Posillipo. F. 11. etc. excesso de vinagre. obedecem à prepotência de seus paladares.T. excesso de pimenta. iniciou uma pesquisa enquanto enfurecia a polêmica mundial pró e contra o macarrão e pró e contra os pratos futuristas. Esquecem os outros deveres dinâmicos da raça. Entre muitos.

que condimentam os pratos futuristas. Alguns destes declaram que os perfumes. os de carne têm caráter veloz e agressivo”. E não é só: os perfumes.indd 127 7/4/2009 15:51:22 . as músicas. as músicas e o tato. 127 Cozinha futurista. Prof. contentes com a melancolia e propagandistas da melancolia. NICOLA PENDE (clínico). devem convir que outras comidas são pelo menos tão nutritivas quanto o macarrão. preparam o sereno e viril estado de ânimo indispensável para a tarde e a noite. Este ávido buraco é a sua incurável tristeza. Qualquer “macarroneiro” que consulte a própria consciência honestamente no momento de engolir a sua biquotidiana pirâmide de macarrão. Somente uma refeição futurista pode realegrá-lo. encontrará ali dentro a triste satisfação de tapar com ele um buraco negro. são unicamente comparáveis aos excitantes. Ilude-se.A cozinha futurista de esplêndidas velocidades e de violentíssimas forças contraditórias que constituem a vida moderna. enquanto são considerados por nós como atos que criam sobre o comensal um estado de ânimo otimista singularmente útil para uma boa digestão. Mesmo esforçando-se para legitimar os seus prazeres bocais. Todos os defensores do macarrão e os obstinados inimigos da cozinha futurista são os temperamentos melancólicos. Na mesma pesquisa brilham entretanto as inteligências dos Médicos que dizem: “o uso habitual e exagerado do macarrão determina certo aumento de peso e exagerado volume abdominal” “os grandes consumidores de macarrão têm caráter lento e pacífico. E o macarrão é antiviril porque o estômago pesado e cheio não é nunca favorável ao entusiasmo físico pela mulher nem à possibilidade de possuí-la diretamente. mas não o tapa. etc.

HERLITZKA (fisiologista) “o valor nutritivo do macarrão não apresenta características especiais que possam torná-lo preferível aos outros tipos de farináceos”. Prof. Prof. Prof. GABBI (clínico) “penso que o uso do macarrão seja nocivo aos trabalhadores intelectuais. Senatore ALBERTONI “É questão de gosto e preço de mercado.Fillippo Tommaso Marinetti “deve-se trocar alimentos pela lei biológica: a repetição constante do mesmo alimento. Prof. pró e contra o macarrão. Senatore U. é prejudicial”. e portanto nunca exclusivamente feita de um só alimento”. uma preparação suficiente com a mastigação”. além da sopa. De qualquer modo. O Duque 128 Cozinha futurista. às pessoas que levam vida sedentária e sobretudo àqueles que. possam conceder-se carne e outros pratos”. Dr. Prof. a experiência o mostra. como o pão. convém uma alimentação mista. TARCHETTI *** Outras pesquisas. C. A. foram feitas pelo “Jornal de Domingo” de Roma e por outros jornais italianos.indd 128 7/4/2009 15:51:22 . ANTONIO RIVA “o macarrão não pode ser considerado como um alimento de fácil digestão porque dilata o estômago e não sofre.

“420”. consagrando com isto a monotonia pouco atraente de Paraíso e da vida dos Anjos. Alfredo.A cozinha futurista de Bovino. por exemplo. que não são sempre aquelas do tatilismo e das palavras em liberdade. meu caro Marinetti. etc.. todos. temperada com molho de tomates. por serem incapazes de renovar a sua cozinha. no Paraíso.indd 129 7/4/2009 15:51:22 . etc. e deu-me um pequeno posto à sua 1 Massa longa. Salvatore di Giacomo etc. No entanto. “Giovedì”. Você é a amabilidade em pessoa. uma vez. Angelo Frattini. destaca-se este de Ramperti. prefeito de Nápoles. favoráveis ao macarrão. Entre todos os artigos. Paolo Buzzi. Você queria ser gentil. Paolo Monelli. Recordamos os diversos pareceres dos cozinheiros romanos Ratto. aumentavam as adesões e os entusiasmos pela luta contra o macarrão. não comem outra coisa além de ‘vermicelli al pomodoro’12”. respondendo a uma destas pesquisas. 129 Cozinha futurista. com todos os socos e bofetadas da sua dialética de assalto. Mas. “Marc’Aurelio”. parecida com o espaguete. Marinetti”: Caríssimo Lembra-se? Você escreveu. a polêmica espalhava-se através de centenas de artigos. Marco Ramperti. tem entretanto suas idéias. Recordamos. Cecchino. enquanto os inimigos da cozinha futurista contentavam-se com ironias fáceis e nostálgicas lamentações. T. Recordamos o número completamente dedicado à cozinha futurista do “Travaso” de Roma e as inumeráveis caricaturas que apareceram no “Guerin meschino”. os escritos de Massimo Bontempelli. publicado no “Ambrosiano” como “carta aberta a F. Giaquinto. pertenço à extrema direita do parlamento futurista. Paggi. sendo atento e amigo. Dona Elvira etc. declarou que “os Anjos. Arturo Rossato. que eu. e não poderia falar com mais graça de alguém que.

os intonarumores. Mas não renunciam ao macarrão. Você vê como os italianos. esta nossa gente. refeito em um momento cheio de audácia fiel. reaver a primazia no mundo: dispostos. o seu manifesto contra o macarrão: e eis que. Aceitam o tatilismo. infelizmente. tocados no epigástrio. grita-lhe o seu consenso pleno. Aceitam. o macarrão voltará às mesas. predicar a barrigas cheias e corações desertos. como fez Esaú por um de lentilhas. entre os passadistas sem remédio e sem direito. e não a um apetite. 130 Cozinha futurista. As críticas serão muitas. o salto. Ah! Não creia. Ainda que eu não seja. fanático. Marinetti. as palavras em liberdade. todavia. quem sabe por quanto tempo ainda. Desde aquele dia. Veja como é feita. absoluto. para levar a bandeira desta sua última ofensiva. deseperado. iluminado. e nós deveremos. a honra de servir-lhe. tão sensíveis eram as discrepâncias. entre os conversíveis. E de fato parece a mais difícil. ou então de pedir a sua. Por isso peço. oh! Marinetti. enquanto poderia muito bem me deixar do lado de fora. e tornavam insuportáveis a minha presença na sua assembléia. e entendem.indd 130 7/4/2009 15:51:22 . a todas as vantagens. o mais jovem do seu regimento. a ceder esta prioridade por um prato de macarrão. Aceitam o soco.Fillippo Tommaso Marinetti direita. e. reanimado. o passo de corrida: mas com sua porção de espaguete. ai de mim. o seu pálido futurista ad honorem passa de um salto da extrema direita para a extrema esquerda da sua assembléia. confesso-lhe. muitas vezes os seus decretos-leis colocaram-me no cruel dilema de assinar a minha demissão. justamente. Parece-me que a revolução alimentar seja a mais cuidadosa ente quantas você tenha suscitado. já se rebelam. Mas creia-me: será necessário ter coragem. Capaz de renunciar a todos as comodidades. Então apareceu a sua insurreição convival. por Deus. agora lhe peço. que desta vez a batalha será fácil.

nada poderia ajudar mais do que o comer pouco e escolhido.indd 131 7/4/2009 15:51:22 . Um francês que estimava os alemães. vencendo tarde. E eis aqui a mola da sua revolta reparadora. exceto a uma glutonaria. e você tem cem razões para atacá-la ferozmente. a não ser repensando. pode causar prazer ou vergonha. segundo o indivíduo. furibundos possíveis. este outro vício. esta outra abnegação? Liberemo-nos também do macarrão. como a perus de Natal. oh! Marinetti. e existe o paladar do futurista. É um juízo que me vem à mente. repensando naquele Polichinelo que resistia a tudo. é também o menos maldito.A cozinha futurista Não importa. chegará por fim o dia em que se convencerão que. à tenacidade e obstinação de certas atitudes do estômago. que é ele também uma escravidão. estabelece a sua lei. se não fosse por uma salsicha com chucrute. como a estátuas de fontes. Que nos incha as bochechas. para alcançar um tal estado de graça. exprime o seu verbo. mas em todo o caso deve ser 131 Cozinha futurista. costumava dizer que do outro lado do Reno. exceto a uma porção de vermicelli. entre todos os alimentos estufantes e paralisantes que contradizem o seu programa de rapidez. Já que os italianos consentiram ao princípio futurista que se façam os mais ágeis. Existe o calcanhar de Aquiles. e que nos prega à cadeira. ativos. justamente. elétricos. que nos liga as entranhas com os seus arames moles. o conde de Gobineau. Mas sendo o mais nefasto. Ora. A nossa. com aquela sensação de inutilidade que. velozes. o macarrão é precisamente o mais difundido e calamitoso. Não é a primeira vez que um povo nos ensina a saber renunciar a tudo. como em todas as boas revoluções. ninguém saberia cometer uma vilania. apopléticos e suspirantes. repletos e estupefatos. que nos entope o esôfago. este outro hábito. esta sua última propaganda. Na verdade. limitar as próprias refeições à gota essencial e à migalha leonina. Venceremos melhor. O que quer dizer. é a mais conseqüente e lógica entre todas aquelas derivadas do seu manifesto cardinal de há vinte anos: e não se compreenderiam tantas resistências. Este grande amor pelo macarrão é uma debilidade dos italianos. elasticidade e energia. no entanto.

quando não é sobre vermicelli despejando molho ao longo de nossos ansiosos braços. No fundo. Mas é certamente. para uma tal gulodice. Mas é um prazer efêmero. naquela aderência total da massa ao paladar e às vísceras. As palavras aglomeram-se do mesmo modo. cheios de chumbo. E é uma imagem ofensiva: engraçada. confundem-se. em algumas metáforas indecorosas. Engolidos que são. como um tronco. embaralhamse como os vermicelli absorvidos. O italiano das alegorias sempre tem a boca ávida arreganhada sobre um prato de tagliatelle. o macarrão não nutre. aglomerados e amalgamados. E sentimo-nos. ou somente jovem e acordada. Enche: não fortalece. o perigo e a desonra deste mito dos macarrões: macaroni que resultaram. feia. O sustento é mínimo se confrontado com o volume. O nosso macarrão é como a nossa retórica. gostariam de dizer as alegorias malignas. O seu gosto está todo naquele assalto com as mandíbulas tensas. sentados. naquele sentir-se unificado com ela. que serve somente para encher a boca. disforme. ao lado de seu ímpeto bestial. os espaguetes infestam e pesam. um verdadeiro alimento italiano. que nós comíamos os espaguetes com as mãos: e talvez o sentido da maledicência era que não podiam. como em 1894 sabia-se quantas devorasse Francesco Crispi.Fillippo Tommaso Marinetti detestada por quem ostente uma alma futurista. Alguma coisa nos retém. Dizia-se. 132 Cozinha futurista. Mas é um gosto porco. como moedas falsas. um tempo. meu caro Marinetti. Seria necessário ensinar a vanidade deste nosso apetite. talvez para ter o direito de dizer em Genebra que também os italianos andam armados até os dentes: mas os espaguetes não foram tirados do nosso quadro folclorístico. voce entendeu perfeitamente. Sabe-se hoje em toda a Europa quantas porções dele come Primo Carnera. além dos Alpes. Depois nos concederam os garfos. Os pensamentos desfilam um dentro do outro. naquele voluptuoso empanturrar-se. Não temos mais nem a sílaba fácil nem a imagem pronta. separar-se a deselegância e a imundície. subitamente. Resumindo. O pouco molho que trazem aos lábios é o molho de tomate.indd 132 7/4/2009 15:51:22 .

que dê força e substância em pequenas 133 Cozinha futurista. de todos os espíritos.indd 133 7/4/2009 15:51:22 . agradável à vista. Aquele do macarrão expia-se no mesmo instante.Marinetti: “Seu férvido admirador desde quando. ao tato e ao paladar. naquele momento. É certo que se pensa. É a barriga que se incha à custa do cérebro. li com entusiasmo o manifesto da cozinha futurista. É o encadeamento. Experimentem então. se sonha.PENNINO. a picardia é medíocre. um interlocutor ou uma amante. ou o exílio. enquanto deveria ser a de preparar um alimento sadio. se age de acordo com o que se bebe e se come. saboroso. cronista-chefe da “Gazzetta del Popolo”. intervém na polêmica com esta carta a F. contradições. energético. a argumentação é impossível. Eu juro que restariam imobilizados desde o primeiro movimento. partir para uma polêmica.A cozinha futurista Pobre do que tiver perto. O madrigal é insosso.T. rapaz. seguia com apaixonado interesse as batalhas purificadoras que o senhor combatia entre a indiferença e a incompreensão dos italianos da época. como é certo que – a propósito da alimentação – os homens debatem-se ainda hoje entre incertezas. interrompida como é pelos soluços do intestino. encher o ventrículo como se enche um saco. Quanto paraíso perdido. Parece que a preocupação de quem se ocupa de cozinha seja aquela de empanturrar.G. conceituais ou amorosos. erros de todo gênero. Sabe-se que os pecados da gula são os mais rapidamente punidos pelo Senhor Deus. depois de uma orgia de tagliatelle. excitar e envenenar com drogas e lavagens. Ou mesmo para a arte de Vênus. por um momento de descuidada animalidade? Marco Ramperti *** V. quando não demolidos desde o princípio.

a fantasia. que as verduras contêm verdadeiros tesouros para o organismo humano (ferro. mas contanto que não seja privado de suas substâncias fitínicas com o polimento. fósforo. exterminar tradições erradas: afirmar que o pão branco. Quando banirem das mesas da península o macarrão estufador e adormentador. é um alimento inútil que forma no estômago um bloco indigerível e deve ser substituído pelo integral perfumado e substancioso. de potássio. etc. mas tornar-se-á uma forja de sábias combinações químicas e sensações estéticas. somente então a potência volitiva. Bendita seja. que desperte a fantasia com imagens e panoramas agrestes. com o perfume de jardins tropicais e faça sonhar sem o uso de bebidas alcoólicas. sais de cálcio. por exemplo. vitaminas. o gênio criador da raça alcançarão seu pleno desenvolvimento.Fillippo Tommaso Marinetti quantidades. de carne e ovos que são consumidos por aqueles que desejam 134 Cozinha futurista. e já foi demonstrado que uma pequena quantidade de alimento bem combinado segundo o conhecimento racional das necessidades do nosso organismo dá muito mais força e energia que pratos de macarrão.indd 134 7/4/2009 15:51:22 . globulinas. É necessário abater outros ídolos. então. enfim. quando se conseguir criar e difundir uma alimentação que saiba conciliar a menor quantidade ao máximo de poder nutritivo explosivo dinâmico. pesado e insípido. a vivacidade. (Olhe que sou napolitano e conheço todos os agouros deste alimento). “Mas a luta contra o macarrão não basta. a teoria das calorias e das necessidades de uma grande quantidade de albumina animal e de gorduras teve seu tempo. quando a cozinha não mais for mais o reino de donas-de-casa ineptas e de cozinheiros ignorantes e envenenadores. a brisa renovadora e saneadora na pesada atmosfera das cozinhas da Itália.) a menos que com os absurdos cozimentos tais tesouros não sejam estupidamente destruídos e que. de magnésio. que o arroz é um alimento precioso. bendita a luta contra o funesto macarrão que com a sua cansativa digestão faz pesar o corpo e entorpecer o espírito.

Por outro lado. “Assim a batalha que o senhor engajou – mesmo que se apresente duríssima. deve ser por isso composta por três quartos dos maravilhosos produtos vegetais que nos são invejados por todo o mundo e por um quarto apenas de produtos animais. contra interesses formidáveis e contra a ignorância difusa – deverá encontrar muitos consensos na Itália de hoje. vulcânica. os trabalhadores manuais e. 135 Cozinha futurista. ao palato. sadias. Estes devem ser usados com grande parcimônia especialmente pelos trabalhadores intelectuais. junto com um pouco de nozes e um pedaço de pão preto são para a caldeira humana um combustível muito mais idôneo e rentável que os famigerados macarrão ao ragu. ou tagliatelle à bolonhesa ou bistecas à Bismarck. tem uma enorme importância social e econômica. Esperamos que os químicos italianos saibam fazer mais e melhor. Um químico francês – o prof. enquanto os soldados.indd 135 7/4/2009 15:51:22 . à fantasia sensações bem mais intensas que os alimentos que hoje desempenham um belo papel nas melhores mesas. (O contrário do que acontece comumente). Cada povo deve ter a sua alimentação e aquela do povo italiano deve ser baseada nos produtos desta terra quente. mas eles cometeram o erro de serem estrangeiros antes de tudo e muito caros. substanciosas podem-se criar pratos que dão aos olhos.A cozinha futurista sustentar-se bem. porque enquanto visa renovar um ambiente muito fortemente arraigado ao passado. em geral. porque deve lutar contra tradições radicadas e tenazes. irrequieta. Mono – inventou os “alimentos concentrados” cuja eficácia experimentei. com as coisas mais simples. quem desenvolve grande atividade física podem fazer maior uso deles. especialmente se o convite à química lançado pelo senhor encontrar entre os cientistas italianos boa acolhida. um prato de cebolas ou de azeitonas ou estas coisas combinadas. É bom que se saiba que uma cenoura crua finamente ralada com óleo e limão.

observando o seu alimento quotidiano. recordamos os mais originais: O cozinheiro-chefe do Rei O Cavalheiro Pettini. ameaçam a inteligência” e mais outros. que me foi sugerida pelo seu belíssimo Manifesto. 136 Cozinha futurista. traz ao debate uma palavra precisa: “Não há dúvidas de que todos os farináceos deixam o corpo pesado e em conseqüência.V. mas pensei que não deveria ser-lhe desimportante – entre os muitíssimos que indubitavelmente receberá – o entusiástico consenso de um modesto estudioso dos problemas da alimentação”. observa: “os napolitanos rebelaram-se. que também ela deve responder aos tempos e talvez até antecedê-los”. G. Carito em “Humanidade Artrítica”: . Não fez maiores progressos desde o tempo em que Schopenhauer. qualificou-o genialmente como a alimentação dos resignados.indd 136 7/4/2009 15:51:22 . Angelo Vasta. afirma ainda: “necessidade de inovação.Fillippo Tommaso Marinetti “Desculpe se me permiti enviar-lhe esta apressada nota.. na carta direta ao jornal “A Cozinha Italiana”. Cozinheiro-Chefe de Sua Majestade o Rei da Itália. o nosso povinho está ainda numa fase primitiva. Schopenhauer e o macarrão O Dr... em um artigo sobre a cozinha futurista.PENNINO *** Dos muitos artigos surgidos a favor da luta futurista contra o macarrão. de modernismo também na cozinha.. mas justamente convém recordar o que escrevia o seu concidadão Dr.

a recomendação. No IX e último livro encontrar-se-á uma advertência explícita e formal contra o abuso do macarrão. movimento. intelectuais.indd 137 7/4/2009 15:51:22 .. Em tudo o que diz respeito a alimentação. em um longo artigo “Contribuição para uma arte culinária futurista” propõe algumas inovações alimentares... exercícios esportivos devemos radicalmente reformarmo-nos. Reproduzimos aqui parte de seu divertido artigo contra o macarrão: 137 Cozinha futurista. os tagliarinis etc.A cozinha futurista “Ai de mim! mesmo as nossas classes altas. as lasanhas. Amedeo Pescio insurge contra aqueles que chamam glória e honra dos genoveses os raviólis. quando o bom e douto rapaz natural de Rapallo curava a Papas e príncipes. prelados e ministros. falando de Gênova) escreveu: “A prática em arte cirúrgica”. E escreve: “Giovanni de Vigo iniciou a campanha contra o macarrão no século XIV. até as assim ditas ‘dirigentes’. Então o grandíssimo cirurgião da nossa cidade (como ele dizia. De onde a nomeada ‘indolência’ com que fomos marcados e vilipendiados nos séculos anteriores. gente dinâmica. a prescrição quase marinettiana ao muito inchado século XIV: todos os alimentos de massa devem ser usados pouquíssimas vezes “pasti alia denique et victualia paste rarissime sunt concedenda”. O macarrão é de origem ostrogoda Libero Glauco Silvano. mas que não se submetia à digestão de grandes quantidades de “trenette” e de carvão.” Um médico do século XIV contra o macarrão Em um artigo do “Século XIX” de Gênova. sim. não sabem alimentar-se bem! De onde o torpor da vida fisiológica com os seus inevitáveis reflexos nefastos na esfera psíquica.

por Deus. ao tomate ou como mais lhe agrada. Ergo. por certos alhos pálidos e consumidos por vícios ocultos. Teve sempre a mesma barriga. tra un baciuzzo et un baciozzo. Entretanto. como se descendesse de um lombo muito magnânimo para não dever considerar ainda menos o restante das criaturas gastronômicas. gli quai molto e volantieri con essolui si solaciavano. et il bolliva- 138 Cozinha futurista. per virtude della femina del cuoco. os seus títulos nobiliários? A “Cronaca degli Memorabilia” de Dacovio Saraceno. idest in Ravenia. Mesmo o nome relembrava o povo. lo quà prence affidato avealo a Rotufo. tumultuosa e invasora: e não importa onde entrasse. Um bom cozinheiro. por sorte. por azeite rançoso e caprino. pergunto-me. havia trabalhado ultimamente para enobrecê-lo. para tirar-lhe de cima aquele tango de canalhice: haviam-no persuadido a não fazê-lo acompanhar por arrogantes e desavergonhadas cebolas. em meio ao qual havia nascido: macarrão. che avevasi invaghito dello ofiziale di guardia al palacio et al quale. Il conobbero gli sudditi dello rege. discípulo e êmulo de BrillatSavarin. confidogli la esistenzia dello nominato macarono. coco suo genialissimo. na casa do pobre ou do rico.Fillippo Tommaso Marinetti Era tempo de acabar. Dieto macarono erat di spulcia (leggi spelta) et hebbe sua prima dimora in la regia del magno prence Teodarico. existe para cantar-nos vida e milagres: “lo macarono nato fue et notricato appo gli Ostragoti. lo amore per essolui macarono s’espanse per lo populo omne. mesmo entre outros igualmente bestiais. tosco e oleoso de sujeira. girava os olhos em torno como para impor respeito e reverência. com um alimento bárbaro que vivia como um parasita em nossa civilização: falo dos macarrões ao sugo. Mas quais eram. adiposas como beldades de marinheiros. fazia-nos a figura de uma chimpanzé em um salão de damas sentimentais: e somente por um equivocado respeito à tradição continuava-se a suportar o seu fedor plebeu. Este prato.indd 138 7/4/2009 15:51:22 . sob as novas aparências tinha o modo e a vulgaridade do vilão refeito e de nada lhe valia a contínua freqüência com aquele agraciado e epicúreo mestre que se chama manteiga.

em seu retorno da China. seu paladar aristocrático o refutava. trouxe a preciosa semente – e não larvas de bicho-da-seda. em verdade. Foi somente na Alta Idade Média (Cordazio Camaldolese: Pietanzie in usaggio appo aliquante nostre terre et regioni et insule et peninsule et similia con spiegato lor modo di prepararle in cucina 2) que os pepinos foram substituídos por tomates. como comumente se afirma (confrontar a este respeito a obra definitiva de exegese histórica escrita por Valbo Scaravacio. Entretanto. et leccavansi digita et grugno”1. Ah! Os gentis senhores elegantíssimos. cujo cultivo havia-se extendido muito desde quando o irmão Serenio. Parece-me vê-los. muitas vezes prolixo. Um biográfo bastante minucioso. o grande escritor não conseguia digeri-los nem mesmo assim”. os bigodudos Ostrogodos. meterem-se a cavar grandes buracos na grama com as pesadas adagas e acocorar-se ao redor. pela excessiva felicidade. 139 Cozinha futurista. tinha bom gosto demais para aceitar placidamente aquele prato: e. intitulada “Verdade e despropósito”). et il condivano cum suggo (sic) di cedriollo. tão arraigada era a tradição. acrescento eu. em angelical espera.indd 139 7/4/2009 15:51:22 . cansadíssimas e imundas. as dignas consortes. engolia o macarrão já que não devia nem mesmo passar-lhe pela mente. de poder fazê-lo de outro modo. diz o biógrafo. de qualquer forma mandasse prepará-lo. de Boccaccio informa que o autor do Decamerão exigia de sua esposa que temperasse os macarrões com leite de amêndoas amargas: “mas. Talvez porque Boccaccio. Depois. lambiam-se os dedos e a cara! Era bem adequada aos seus insensíveis paladares aquela lavagem monstruosa temperada com suco de pepinos. de boa ou má vontade que fosse. limpando a boca sob os bigodes.A cozinha futurista no cum cipoglia et alio et pastonacca. vinham despejar no prato improvisado a verminalha viscosa dos “macarrões” e os braços peludos mergulhavam até os cotovelos no buraco fumegante e as bocas se abriam – nhau nhau – e os olhos lacrimejavam. sobre as bochechas cheias terrosas.

Somos. Foram escritos inúmeros opúsculos e volumes de vários tamanhos: as gazetas. muito despreocupados para não mandar ao diabo macarrão e acessórios sem nem mesmo a carta de referências: e ninguém os lamentará ou espalhará ternas lágrimas. compôs um rosário de sonetos para o alto elogio do alimento “a que nada pode ser comparado. mesmo se quase inconscientemente engolia macarrão três vezes ao dia: manhã. nem mesmo a ambrosia”. Que porcaria. os desenhos. naquele tempo. as fotografias e todo acidente que os representava: e as editoras retiraram do mercado 140 Cozinha futurista. havia-se difundido a superstição de que o macarrão fosse o antídoto para toda doença. a maldita lavagem não foi sepultada no esquecimento. e um destes. no último estágio do renascimento. seguros de que a razão de muitos males provinha daquela alimentação.indd 140 7/4/2009 15:51:22 . o macarrão: por dizer. Uma última tentativa foi feita na primeira metade de século XIX pelo grande Michele Scrofetta. Quando já não se falava quase nunca dela. meio-dia e noite. trata-se de Martone Dagorazzi e suas cem composições poéticas intitulam-se: “A ambrosia dos homens”. de cuja benemerência é inútil falar. muito difundidas. sendo conhecido por todos: e nem mesmo o eminente cientista alcançou algo concreto. Deveria caber à nossa época a ventura de repudiar definitivamente este costume bárbaro. a panacéia universal. iniciaram uma campanha ativa para que a humanidade se libertasse dos arreios da escravidão. Ao final do século XVIII muitos nobres engenhos. para tornar-se benemérito aos olhos do digno senhor. Puah. traziam artigos de pessoas que haviam adquirido grande autoridade nos campos das Ciências e das Letras: mas tudo foi inútil contra a abstenção das plebes também porque. eis que o vil e barulhento Aretino recoloca-a sobre os altares: e qual melhor meio de propaganda que as suas excitantes musas em carne e osso? Os que se banquetearam à sua mesa tornaram-se férvidos defensores do macarrão.Fillippo Tommaso Marinetti Por pouco. nós filhos do século. desapareceram das casas os quadros.

Aliás. Batalha pela saúde. o bloco resistente do funestamente celebrado macarrão napolitano ou bolonhês”. mas ignoram a que outro santo voltar-se. sob uma rigorosa avaliação. do intelectualismo italiano Ferdinando Collai. A tarefa. puah – as pessoas vomitarão até os intestinos. somente de ouvir-lhe o nome – macarrão. frescor do intelectualismo italiano”. polemiza com “as torpes. pacifistas e congestionantes argumentações do amidáceo mais ilustre do mundo. deva-se fazer uma grande limpeza. agilidade. E conclui: “estou com o Maestro na violenta batalha pela saúde. reimprimindo mesmo quando se fez necessário. As nossas donas-de-casa continuam a preparar os alimentos à moda antiga porque não saberiam como fazê-lo de outra forma. não nos faça dormir sobre louros. mostram-se indignos de receber as graças de nossos gourmets e dos honestos pais de família e da prole estudiosíssima. sobre os velhos livros de receita. E vejam que já surgiu o primeiro núcleo de estudiosos que buscam oferecer uma cozinha adequada aos tempos. frescor. Em alguns meses. mas para reconstruir são necessárias milhares e milhares de mãos. Existem outros pratos que. Chefe da Central de Notícias de Bolonha. é colossal: para destruir basta uma única mão que acenda um pavio. Quero todavia acreditar que esta vitória. apagando sem piedade.indd 141 7/4/2009 15:51:22 . estou convencido que. 141 Cozinha futurista. Elas sentem obcuramente que este ou aquele modo não estão certos. no entanto.A cozinha futurista todas as suas edições para submetê-las a uma rigorosa censura. se bem que notabilíssima. agilidade.

em Selo. sanitaristas e artistas. *** Além de muitas adesões de cozinheiros. nem com sua maior boa vontade. como Marinetti. entre todos os combatentes. um macarrão comestível. o alimento comum era chocolate sujo de lama e de vez em quando um bife de cavalo cozido em uma panelinha lavada com água de colônia. na Vertoibizza. Os futuristas que combateram em Doberbó. congelados e transformados pelos tiros dos esquadrões inimigos que separavam os atendentes e os cozinheiros dos combatentes. em Plava e nos reinos de Zagora e depois na Casa Dus. a improvisar equipamentos perfeitos. transportado a Plava de maca. Isto não é verdade para as tropas que combatem em solo plano. não poderia oferecer. por mais zeloso e devoto que fosse ao simpático cliente de uma única vez. refúgios cômodos. já que sobre sua cozinha de batalhão rolavam de vez em quando enormes barris austríacos que destruíam os fogões: Marinetti duvidou então pela primeira vez do macarrão como alimento de guerra. em sua defesa ao macarrão declara-o ideal alimento para os combatentes. Isto talvez fosse verdade para os alpinos que. atrasados. recebeu de um soldado ex-cozinheiro de Savini um milagroso brodo de frango: aquele sagaz e oportuno cozinheiro. são os mais prontos. em Nervesa e em Cabo Sile estão prontos a testemunhar que sempre comeram péssimos macarrões. Quem poderia esperar um macarrão quente e “al dente”? Marinetti ferido nas Casas de Zagora na ofensiva de maio de 1917.indd 142 7/4/2009 15:51:22 . Para os bombardeiros de Vertoibizza. escaladas e avalanches. após as batalhas.Fillippo Tommaso Marinetti O macarrão não é alimento para os combatentes Paolo Monelli. barracas bem aparelhadas e decoradas e sábias cozinhas. a polêmica sobre a cozinha futurista deu vida a toda uma série de artigos 142 Cozinha futurista.

que l’on rêve. lumière. A opinião mundial Explodiu em Paris a polêmica sobre a cozinha futurista após a publicação do manifesto de Marinetti no jornal “Comoedia”. faite de passion. Preparons des 143 Cozinha futurista. affronte encore aujourd’hui l’impopularité avec un programme de rénovation intégrale de la cuisine. au bout de vingt ans de grandes batailles artistiques et politiques souvent consacrées dans le sang. no número de 20 de janeiro de 1931: F. volonté.Marinetti vient de lancer le manifeste de la cuisine futuriste “Le futurisme italien. alimento italiano que deve ser sempre mais propagandeado e usado. élan. et spiralique de la femme italienne. Qu’il se harmonise.indd 143 7/4/2009 15:51:22 .A cozinha futurista e de estudos sobre a qualidade do “arroz”. Tout em reconaissant que des hommes mal nourris ont créé des grandes choses dans le passé. les sécretions de nos glandes et pénétrons génialement dans le domaine de la chimie gastronomique. au contraire.T. toujours mieux avec la transparence légère. Consultons à ce sujet nos lèvres. notre palais. notre langue. nos papilles gustatives. nous affirmons cette verité: que l’on pense. tendresse. Nous sentons la necessité d’êmpecher l’Italien de devenir cubique et poussif. ténacité héroïque. que l’on agit selon ce que l’on boit et mange. et de s’empêtrer dans une lourdeur opaque et aveugle.

La pâte ne fait pas de bien aux Italiens. absurde religion gastronomique italienne. préparons dès à present l’alimentation la mieux faite pour une existence toujours plus aérienne et rapide. comme les fuseaux rétrogrades de Pénélopes ou les voiliers somnolents en quête de vent. comme les archéologues. à l’âme généreuse. d’hydrates de carbone. Le travail quotodien se réduira à deux ou trois heures. 4) L’abolition de la répétition quotidienne des plaisirs du palais. elle fait obstacle à l’esprit vivace. les arts. Elle enserre les Italiens dans ses méandres. en poudre ou en pillules. et le reste du temps pourra être ennobli par la pensée. Nous invitons la chimie à donner au plus tôt les calories nécessaires au corps. 3) L’abolition des condiments traditionnels. Le repas parfait exige une harmonie original de la table (cristaux. qui remplaceront les trains pesants de fer et d’acier. au service d’hommes presque allégés de toute occupation manuelle. Les machines formeront bientôt un prolétariat servile. apprêts). Exemples: 144 Cozinha futurista. avec la saveur et la coloration des mets. 2) L’abolition de poids et du volume dans l’appréciation des aliments.Fillippo Tommaso Marinetti corps agiles pour les trains extra-légers d’aluminium de l’avenir. Convaincus que le peuple le plus agile l’emportera dans les compétitions futures. intuitive et passioné des Napolitains. en réduisant les heures de travail. On fera baisser ainsi le prix de la vie et les salaires. vaisselle. et la dégustation de repas parfaits. de composés albumineux. Les défenseurs de la pâte en portent dans l’estomac des ruines. grâce à l’absortion d’équivalents nutritifs gratuits. Nous proclamons tout nécessaires: 1) L’abolition de la pastasciutta. ainsi qu’une originalité absolue de ceux-ci. et de vitamines.indd 144 7/4/2009 15:51:23 .

Exemples: 145 Cozinha futurista. (Recette de Bulgheroni). mettez-la en casserole avec beurre. de découpures d’ecorce d’orange. de sel et d’huile fine. trempé de rhum et de cognac. dont l’harmonie originale de forme et de couleur nourisse les yeux. et recouvrez-la d’un feuilleté. et excite l’imagination avant de tenter les lèvres. recouvrez-la avec des tranches de jambon et de lard. poivre et genièvre. remettez au tour jusqu’à complète cuisson de la pâte. et sur chaque tranche un disque de citron aux câpres. posez-la sur un canapé de pain grillé. de basilic. d’un demi-verre de marsala. Mettez la sauce dans la saucière et servez bien chaud. Au moment de servir. de quattre cuillerées de myrtilles. Le repas parfait exige aussi l’invention d’ensembles plastiques savoureux. on le coupe en tranches. en l’arrosant de cognac. et faites-la cuire au four très chaud pendant un quart d’heure. posez sur les tranches des filets d’anchois croisés. sel. A peine retirée de la casserole.A cozinha futurista Saumon de l’Alaska aux rayons de soleil en sauce Mars On prend un beau saumon de l’Alaska. Bécasse au Monterosa en sauce Vénus Prenez une belle bécasse. d’huile d’olive. bouillie pendant dix minutes. videz-la. chef de la Plume d’Oie). jusqu’à ce qu’il soit bien doré. Servez avec une sauce faite de vin blanc. que vous aurez fait cuire au gril avec ail et persil. La sauce sera faite d’anchois. (Recette de Bulgheroni. en l’assaisonnant de poivre.indd 145 7/4/2009 15:51:23 . arrosée d’un petite verre de liqueur Aurum et passé au tamis. on le passe au gril. de jaunes d’oeufs durs. Ajoutez des tomates coupés en deux.

Ces ensembles plastiques savoureux. créé par le peintre futuriste Fillìa.Fillippo Tommaso Marinetti Le “Viandesculpté” Le Viandesculpté. est composé d’une épaule de veau roulée. farcie de onze qualités de lègumes verts. On la dispose verticalement en cylindre au milieu du plat. Equateur + Pôle Nord L’ensemble plastique comestible Equateur + Pôle Nord créé par le peintre futuriste Enrico Prampolini. Le sommet du cône sera criblé de truffes.indd 146 7/4/2009 15:51:23 . on la couronne d’un chapeau de miel. qui sera chassé de la table à l’aide de ventilateurs. et rôtie au four. Le repas parfait exige enfin: L’abolition de la fourchette et du couteau pour les ensembles plastiques susceptibles de donner un plaisir tactile prélabial. parfumés et tactiles formeront de parfaits repas simultanéistes. L’usage de la musique. se compose d’une mer équatoriale de jaunes d’oeufs arrosés de sel. se dresse un cône de blancs d’oeufs montés et piqués de quartiers d’orange. Au centre. colorés. et on l’entoure à la base d’un anneau de saucisses posé sur trois boulettes de viande de poulet hachée et dorée au feu. comme de juteuses sections de soleil. interprétation synthetique des paysages italiens. pour ne pas distraire la sensibilité de la langue et du palais. mais seulement dans les intervalles des plats. 146 Cozinha futurista. L’usage d’un art des parfums pour favoriser la dégustation. découpées en forme d’aéroplanes nègres à la conquête du zenith. Chaque plat doit être précédé d’un parfum. de poivre et de jus de citron.

en tant qu’ingrédients improvisés pour allumer la saveur d’un plat avec leur intensité sensuelle. de certains plats qu’ils mangeront et d’autres qu’ils ne mangeront pas. appareils de distillation à pression ordinaire et dans le vide. et dialyseurs. L’usage tempéré de la poésie et de la musique. trop salé. le cours d’une passion amoureuse.indd 147 7/4/2009 15:51:23 . L’usage de ces appareils devra être scientifique. Enfin.A cozinha futurista tout en effaçant la saveur précédente. Ces bouchées auront. ou un voyage en Extrême-Orient. de manière à éviter par exemple l’erreur de faire cuire les mets dans des marmites à pression. pour exciter la curionsité. et l’imagination. des propriétés nouvelles. qui contiennent dix ou vingt saveurs à déguster en très peu de temps. La présentation rapide. lampes à rayons ultraviolets pour rendre les substances alimentaires plus actives et assimilables. et en refaisant une virginité dégustative. Une bouchée pourra résumer une tranche entière d’existence. sous les yeux et sous le nez des convives. La création de bouchées simultanéistes et changeantes. pour un produit nouveau. moulins colloïdaux pour pulveriser les farines. la surprise.Marinetti 147 Cozinha futurista. la même fonction d’annalogie amplifiante que les images en littérature. dans la cuisine futuriste. L’abolition de l’éloquence et de la politique à table. électrolyseurs pour décomposer les sucs et les extraits et obtenir.T. dans l’intervalle des mets. Une dotation d’instruments scientifiques en cuisine: ozoniseurs pour donner le parfum de l’ozone aux liquides et mets. les frutis secs et les épices à un très haut degré de dispersion. dont la haute température provoquerait la destruction des vitamines. trop poivré. marmites autoclaves centrifuges. des appareils indicateurs enregisteront l’acidité ou l’alcalinité des sauces.” F. et serviront à corriger les erreurs: trop fade.

ela traz consigo um torpor que beira a felicidade. cru.. sim. sob esta nuvem cozinhária. pois de que adianta levantar o braço numa saudação romana.. Ele se recorda sem dúvida dos belos tempos 148 Cozinha futurista. no jornal “Comoedia”. se pode repousá-lo sem esforço sobre o seu ventre gordo? O homem moderno deve ter a barriga reta. vejam o árabe. daquela sapiência transcendental. mas duvidamos dele acima de tudo se preparado à maneira romana. para ter pensamentos claros. e uma ação enérgica: vejam o negro. É toda uma moral que Marinetti desventra. daquela indiferença amável. Nós não somos daqueles que o desprezam. uma decisão rápida. Porque a sua digestão é uma ruminação traiçoeira. daquela ironia serena. ao ritmo pegajoso e conciliante dos indolentes.Fillippo Tommaso Marinetti Damos a tradução do arguto artigo que o jornalista francês Audisio lançou. pela qual a Roma eterna. que convida às torpes fantasias. que são também a origem do sentimento lânguido. sob o sol. de Horácio a Panzini. e até o amamos. e esse é o suculento veneno que estraga o fígado para grande alegria do estômago. isto é.indd 148 7/4/2009 15:51:23 . “Há um ano dizíamos que Marinetti castigava o pudor hipócrita e a mentira da inteligência. à renúncia cética. como os seus paradoxos à educação estética: é preciso chacoalhar a matéria para acordar o espírito. “Deve-se regá-lo sobretudo com Salerno ou Frascati para compreender a lentidão do povinho e dos prelados romanos ou napolitanos. O paradoxo gastronômico de Marinetti visa à educação moral. aos sonhos vazios. agora ele frustra a felicidade hipócrita da digestão. lenta. o macarrão é mesmo uma ditadura do estômago. a favor da cozinha futurista: “Sim. “Trata-se hoje de refazer o homem italiano. desafia o passo dos tempos.

Longo artigo “ITALY MAY DOWN SPAGHETTI” no Chicago Tribune. de Tóquio a Sidney. este artigo. de Essen. O Times de Londres voltou repetidamente ao tema com escritos diversos. do jornal Le petit marseillais sobre a cozinha futurista. e no Nieuwe Rotterdamsche Courant. comentários. alemães etc. No more spaghetti for the Italians. ingleses.A cozinha futurista violentos nos quais. Outros artigos na Reinisch-Westfalische Zeitung. Knives and Forks for All are banned in Futurist Manifesto on Cooking Marinetti. na primeira página. esteve entre os primeiros a agitar a polêmica sobre a cozinha futurista: Spaghetti for Italians. É significativa a entrevista do jornal Je suis partout com Marinetti e o artigo de fundo. caricaturas e discussões nos maiores jornais franceses. 149 Cozinha futurista. has just issued from Rome a manifesto launching Futurist cooking. publicando também poesias polêmicas. sob o céu de Paris. americanos. plantava a semente de uma revolução mundial dos espíritos. father of Futurist art. que relevam a importância da batalha futurista “contra os alimentos tristemente miseráveis”. No more knives and forks. que apareceu no The Herald. Practically everything connected with the traditional pleasures of the gourmet will be swept away. Jornais de Budapeste a Tunísia. according to word received yesterday in Paris. literature and drama.” *** À publicação em “Comoedia” seguiram-se artigos. Entre estes tantos.indd 149 7/4/2009 15:51:23 .

150 Cozinha futurista. in order to vary the effects of heat. the cooking of the future must conform to the ends of evolution. an experience such as a love affair or a journey may be suggested. Details of the manifesto. Among the new kitchen and dining-room instruments suggested by Marinetti is an “ozonizer” which will give to liquids the taste and perfume of the ozone. In fact. also ultra-violet lamps to render certain chemicals in the cooking more active. “Since everything in modern civilization tends toward elimination of weight. Also certains dishes will be cooked under high preassure.indd 150 7/4/2009 15:51:23 . and such supplementary courses will not be eaten at all. Modern science will be employed in the preparation of sauces and a device similar to litmus paper will be used in a Futuristic kitchen in order to determine the proper degree of acidity or alkalinity in any given sauce. by means of single sucessive mouthfuls. Marinetti writes.Fillippo Tommaso Marinetti No more after-dinner speeches will be tolerated by the new cult. for whith ideal rapid service. and increased speed. Electrolysis will also be used to decompose sugar and other extracts. give the principal feature of the new cuisine as a rapid sucession of dishes which contain but one one mouthful or even a fraction of a mouthful. in the ideal Futuristic meal. The new Futuristic meal will petmit a literary influence to pervade the dining-room. The first step would be the elimination of edible pastes from the diet of Italians”. several dishes will be passed beneath the nose of the diner in order to excite his curiosity or to provide a suitable contrast. Music will be banished from the table except in rare instances when it whill be used to sustain the mood of a former course until the next can be served. published in the “Comoedia”.

This is one of the meals which. under the new system. M. É lógico que os homens políticos de todos os países que se reúnem para as grandes convenções. aquela que nós consideramos mais detestável e mais repugnante é a cozinha internacional de grandes hotéis que abrem todos os grandes banquetes oficiais com um brodo no qual bóiam 4 ou 5 bolinhas de massa real moles e insípidas. não possam elucidar nada e concluir pouco depois de ter engolido tais alimentos deprimentes. Contra a cozinha do Grande Hotel e a estrangeirofilia Entre as cozinhas que hoje imperam. para o desarmamento e pela crise universal.A cozinha futurista As a model for the presentation of a Futuristic meal. placed vertically upon a plate and crowned with honey. Na Itália. by Fillìa. submetemonos a este tipo de cozinha internacional de grande hotel unicamente 151 Cozinha futurista. and a consistent lightening of weight and reduction of volume of food-stuffs. The landscape is composed of a roast of veal. stuffed with eleven kinds of vegetables. como em quase todos os países do mundo. para a revisão de tratados. could not be attacked whith a knife and fork and cut into haphazard sections before being eaten. so that when a real banquet is 3 spread it may be appreciated aesthetically. For ordinary daily nourishment he recommends scientific nourishment by means os pills and powders. entristecedores e monotonizantes. e os fecha a todos com um doce gelatinoso e trêmulo adequado a bocas doentes. The Futurist leader also pleads for discontinuance of daily eating for pleasure. Marinetticalls attention to a Futuristic painting of a synthetic landscape made up of food-stuffs. Marinetti advocates doing away with the ordinary condiments now in use. Besides the abolition of macaroni.indd 151 7/4/2009 15:51:23 .

Exemplo: o excelente e célebre regente Arturo Toscanini que antepôs o seu sucesso pessoal ao prestígio da sua pátria ao renegar os seus hinos nacionais por delicadeza artística e executou os estrangeiros por oportunismo. 2) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os intérpretes italianos de fama mundial (artistas do canto. domina uma mania bestial a que chamamos estrangeirofilia. e que deve ser combatida violentamente. inventadas por nós. a palavra estrangeirofilia. antitalianidade ou feiúra) somente porque elas não falam a língua italiana e vêm de países longínquos ignorados ou pouco conhecidos. Infelizmente.indd 152 7/4/2009 15:51:23 . A Gazzetta del Popolo de 24 de setembro de 1931 publicou este manifesto de Marinetti contra a estrangeirofilia: Contra a estrangeirofilia Manifesto futurista às senhoras e aos intelectuais “Apesar da força imperial do Fascismo. 1) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os jovens italianos que caem em um êxtase cretino diante de qualquer estrangeira também agora que a crise mundial as empobrece.Fillippo Tommaso Marinetti porque vem do estrangeiro. 3) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os regentes de orquestra e o público italiano que organizam ou aplaudem 152 Cozinha futurista. concertistas e regentes de orquestra) quando se incham até esquecerem-se que o intérprete é o servo útil não necessário do gênio criador. falta de educação. e enamoram-se delas por esnobismo e às vezes desposam-nas absolvendo-as de todo defeito (prepotência. são infelizmente mais indispensáveis a cada dia. estrangeirófilo.

um gênio altíssimo em um povo de medíocres iletrados. maleducadamente. toda a literatura italiana (hoje original.indd 153 7/4/2009 15:51:23 . os escultores e os arquitetos italianos que. suíços como Cézanne. 5) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os industriais italianos que encontram mil pretextos para refutar uma batalha decisiva com a indústria estrangeira e têm orgulho de vencer disputas internacionais com produtos. 7) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os literatos ilustres que denigrem. 6) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os históricos e os críticos militares que.. cada um. da nossa grande guerra vitoriosa. 153 Cozinha futurista.A cozinha futurista concertos no exterior quase sem música italiana. espanhóis. máquinas ou aparelhos não inteiramente idealizados e construídos na Itália. Picasso. contra o nosso exército e contra a nossa grande guerra vitoriosa.. preferem proclamarse filhos de inovadores franceses. privilegiam os episódios irrelevantes como Caporetto. definem “pecadinhos lícitos” as ofensas escritas e publicadas por literatos italianos contra a Itália. 9) São estrangeirófilas e portanto antitalianas as assembléias que ao invés de taxar como infâmia. 8) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os pintores. no exterior.. Um patriotismo elementar exige pelo menos metade de música italiana moderna ou futurista em substituição àquela de Beethoven. Bach. esquecem a música italiana em seus concertos na Itália. variada e divertida) com a esperança de parecer. 4) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que aplaudem ao invés de vaiar os regentes estrangeiros quando. criador da nova plástica e Sant’Elia. já apreciadas. criador da nova arquitetura. à maneira de muitos novecentistas e de muitos racionalistas. Le Corbusier ao invés de filhos de autênticos inovadores italianos como Boccioni. penetradas e admiradas por todos até a saciedade. Brahms etc.

Exemplo: o esnobismo americano do álcool e do “cocktail-party”. enamorados pela paisagem e pelo clima da Itália. 13) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que. Consideramos portanto cafona e cretina a senhora italiana que participa orgulhosamente de um “cocktail-party” e relativa disputa alcoólica. podem também admirar e estudar a sua língua. Nestes encontros será premiada a melhor qualidade do vinho que as une.indd 154 7/4/2009 15:51:23 . nós lhe rogamos a substituir o “cocktailparty” por convenções vespertinas que poderão chamar à vontade de o Asti espumante da senhora B. 12) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade. mas certamente nocivos à nossa raça. E basta que a palavra “bar” seja substituída pela italianíssima “Aquisebebe”. A menos que ela se submeta à invejada superioridade financeira do exterior.. esquecendo-se de que os estrangeiros. vaiam sistematica- 154 Cozinha futurista. o Barbaresco da condessa C. ou o Capri branco da princesa D. babando-se. produtos estrangeiros com olhares céticos e pessimistas para os produtos italianos. talvez adequados à raça norte-americana. Cretina e cafona a senhora italiana que acha mais elegante dizer: “bebi quatro cocktails” do que dizer: “comi um minestrone”. 11) São estrangeirófilas e portanto culpadas de antitalianidade as senhoras italianas da aristocracia e da alta burguesia que se estusiasmam pelos costumes e esnobismos estrangeiros. logotipos e nos cardápios). presos pela criticomania. Elegantes senhoras italianas. superioridade agora já destruída pela crise mundial. os italianos e as italianas que saúdam romanamente e depois nos negócios pedem.Fillippo Tommaso Marinetti 10) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os hoteleiros e negociantes que não aproveitam os rápidos e eficazes meios que têm à sua disposição para influenciar italianamente o mundo (uso da língua italiana nos cartazes.

Por isso. 155 Cozinha futurista. considerar o orgulho nacional como um artigo de luxo. 14) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os empresários italianos que procuram no exterior professores de teatro e cenógrafos. Eliot. cujo cérebro foi desenvelhecido e agilizado pelo Futurismo italiano. Joyce e outros iniciamos em Londres. pronta para explodir para realizar o seu imenso destino. capazes de ensinar ao mundo. em pleno enfraquecimento parlamentar social-democrático-comunista-clerical gritávamos: “A palavra Itália deve dominar sobre a palavra Liberdade!”. A nossa viril feroz dinâmica e dramática península.indd 155 7/4/2009 15:51:23 . b) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: inteligência.A cozinha futurista mente comédias e filmes italianos favorecendo assim a invasão de medíocres comédias e filmes estrangeiros. invejada e ameaçada por todos. Antitalianamente eles esquecem por exemplo esta explícita declaração do poeta futurista inglês Ezra Pound a um jornalista americano: “O movimento que eu. que vinte anos atrás. deve considerar o orgulho nacional como sua primeira lei de vida. gritamos hoje: a) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: gênio. esquecendo-se dos italianos. cochilando sob o zumbido de complôs revolucionários que podem ser sedados. não criticadas nem ameaçadas por inimigos externos. podem. Outras Nações. pouco populosas. e que mesmo assim criticamno ou relevam-no para correr a pescar preciosamente Futurismos estrangeiros todos derivados do nosso. 15) São estrangeirófilos e portanto culpadas de antitalianidade as cultas senhoras e os críticos da Itália. nós futuristas. não teria acontecido sem o Futurismo italiano” e esta também explícita declaração de Antoine no Journal de Paris: “Nas artes decorativas os caminhos foram há tempos abertos pela escola de Marinetti”.

acaba de publicar em Roma um manifesto sobre a Cozinha Futurista. artista. segundo 156 Cozinha futurista. eu que fui aplaudidíssimo no Exterior. pai da arte. Facas e Garfos para Todos são banidos no Manifesto da Cozinha Futurista Marinetti.T. ao primeiro perigo.indd 156 7/4/2009 15:51:23 . Indulgência plenária na arte e na vida aos verdadeiros patriotas. simbolizado pelos escombros do Império Austro-Húngaro que os nossos blindados tiveram que superar na estrada de Tarvisio. se necessário. fuzilaremos os estrangeirófilos antitalianos. contra as nações estrangeiras. e tive na Itália mais vaias do que aplausos e apesar disso agradeço a cada dia as forças cósmicas que me deram a alta honra de nascer italiano.Marinetti Espaguete para Italianos. d) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: verdade.Fillippo Tommaso Marinetti c) A palavra Itália deve dominar sobre as palavras: cultura e estatísticas. Em nome desta obra-prima. na inquietude de uma paz em equilíbrio. nós. No tocante aos muitos céticos e derrotistas (literatos. construir uma descuidada cúpula dupla de mármore em oferta ao inimigo. filósofos e filósofas) que tentam hoje. literatura e drama futuristas. nós brutalmente dizemos: Lembrem-se sempre desta obra-prima italiana que supera até mesmo a Divina Comédia: “Vittorio Veneto”. nunca contra a Itália. Escrevo tudo isto com a serenidade de um patriotismo adamantino.” F. Que o fogo da crítica seja direto. isto é aos fascistas que vibram por uma autêntica paixão pela Itália e de um desmesurado orgulho italiano.

diversos pratos passarão sob os narizes do comensal somente para excitar a sua curiosidade ou para promover um contraste apropriado. Entre os novos instrumentos de cozinha e de sala de jantar sugeridos por Marinetti. Não mais facas e garfos. exceto em raras ocasiões em que será empregada para reter o espírito do último prato até que o próximo possa ser servido. na refeição futurista ideal. Detalhes do manifesto. o cozinheiro do futuro deve adaptarse aos fins da evolução. O primeiro passo deveria ser a eliminação das massas comestíveis da dieta dos italianos. e aumento da velocidade. encontram-se um ozonizador que dará aos líquidos o 157 Cozinha futurista. somado a um serviço rápido ideal. publicado no “Comoedia”. pode sugerir experiências tais como uma viagem ou uma aventura amorosa. De fato. A ciência moderna será empregada na preparação dos molhos e um dispositivo semelhante ao papel de tornassol será utilizada na cozinha futurista para determinar o grau correto de acidez ou alcalinidade em um dado molho. Praticamente tudo o que está relacionado aos tradicionais prazeres dos gourmets será erradicado. o que. por meio de sucessivos bocados únicos. já que estes pratos suplementares não serão ingeridos. escreve Marinetti. A música será proibida à mesa.indd 157 7/4/2009 15:51:23 . A nova comida futurista permitirá uma influência literária que invada o comensal. Não mais serão tolerados pelo novo culto discursos após o jantar. apresentam a principal característica da nova “cuisine” como uma sucessão de pratos que contém um só bocado.”. Não mais espaguete para os italianos. ou mesmo uma fração de bocado. “Desde que tudo na civilização moderna tende à eliminação de peso.A cozinha futurista notícias recebidas ontem de Paris.

Marinetti defende o fim dos temperos ordinários atualmente em uso e uma consistente diminuição e redução do volume dos alimentos. a ponto de permitir que quando um verdadeiro banquete seja servido. ele recomenda uma nutrição científica por meio de pílulas e pós. O líder futurista também sustenta que se deve abandonar o hábito de comer diariamente por prazer. não poderia ser atacado com garfo e faca. alguns pratos serão cozidos sob alta pressão. de acordo com o novo sistema. Como um modelo para a apresentação de um prato futurista. de uma paisagem sintética feita com substâncias comestíveis. de modo a variar os efeitos da temperatura. Para a alimentação diária normal. Este é um dos pratos que. disposto verticalmente sobre um prato e coroado com mel. possa ser apreciado esteticamente. e também lâmpadas ultravioleta que tornarão mais ativas certas substâncias culinárias. A eletrólise também será empregada para decompor açúcares e extratos. Marinetti concentra a atenção em uma pintura futurista de Fillìa. Além da abolição do macarrão. Além disso.Fillippo Tommaso Marinetti sabor e o perfume do ozônio. 158 Cozinha futurista. A paisagem é composta por um assado de carne de veado recheado com onze tipos diferentes de vegetais.indd 158 7/4/2009 15:51:23 . e ser cortado em pedaços livremente antes de ser comido.

Enquanto se trabalhava na decoração do local. a projetada manifestação: “Uma comunicação do pintor Fillìa. sustenta-as. vice-secretário geral do movimento futurista italiano à imprensa romana. que era incitado à realização dos novos pratos pelos seus próprios clientes. Ercole Moggi. Recebendo às vezes algum cabo de couve. em uma matéria de capa com duas colunas. em parte entusiastas. movimentou os ambientes gastronômicos da capital. Ao final do Circuito de Poesia de Turim. ansiosos por transformar cozinha e ambiente. Em parte hostis. Marinetti batizou com o nome de SANTOPALADAR o local destinado a impor pela primeira vez a cozinha futurista. Angelo Giachino. Entre estes últimos. Tullio d’Albisola.A cozinha futurista A revOLuçãO cOzinháriA Os GrAndes bAnquetes FuturistAs A taberna do santopaladar O manifesto da cozinha futurista provocou numerosos congressos e comícios entre os cozinheiros e donos de restaurantes. Não se contenta em lançar umas idéias platônicas. encorajamentos. depois de haver coroado com o capacete de alumínio o poeta-recorde de Turim. foi escolhido pelo pintor Fillìa e pelo arquiteto Diulgheroff o proprietário de um restaurante de Turim. do “spaghettaro” e de todas as outras gloriosas insígnias do verdadeiro gourmet. mas tenta fazê-las penetrar. um dos mais brilhantes jornalistas italianos. inclusos aqueles jornalísticos. Fillìa no movimento futurista seria como o subtenente geral da esquadra em ação. consensos.indd 159 7/4/2009 15:51:23 . enciumados da tradição da “sora Felicetta”. uma batata ou outro legume. recebendo sempre pessoalmente. anunciou assim na Gazzetta del Popolo de 21 de janeiro de 1931. 159 Cozinha futurista. mas também aplausos. entre os quadros futuristas da galeria Codebó.

. “Santopaladar” sem especulações Conseguimos achar Fillìa e não o deixamos mais escapar. cabeça de vulcão.. Seria necessário descrevê-lo de maneira futurista: chamá-lo. boca de fogo de nitroglicerina..indd 160 7/4/2009 15:51:23 . Fillìa talvez seja o mais dinâmico dos futuristas italianos. escreveu: “Temos a certeza que as ferrovias do Estado concederão descontos de cinqüenta por cento para que todos os italianos possam deslocar-se em massa a Turim. comentando o pronunciamento dos futuristas. Declarações muito importantes deviam sair daquele cérebro vulcânico. motor de 200 HP. Evidentemente gosta de Turim já que tentou sempre ali as suas maiores iniciativas. Fillìa antecipou-me: 160 Cozinha futurista. mas apresentados ao público os novos pratos. Trens especiais para Turim Um renomado jornal romano entre o tom sério e o engraçado. para apreciar o notável “carnescultura” na “Taberna do Santopaladar”. quem sabe? panela em perene ebulição. ou discussões polêmicas ou academia literária. Assim. Turim encaminha-se para ser o berço de um novo renascimento italiano.Fillippo Tommaso Marinetti Os adeptos do macarrão esperavam que o Manifesto da Cozinha Futurista se mantivesse apenas na teoria. além de uma idéia prática e original: a abertura de uma cozinha experimental futurista em Turim e que terá como título “Taberna do Santopaladar” na qual serão não apenas futuristicamente estudados. deste modo. o gastronômico. Não conhecem evidentemente aqueles queridos rapazes! Os futuristas preanunciam de fato uma forte ofensiva contra a velha cozinha.

Peço-lhe para relevar. Será decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim com o objetivo preciso de passar da teoria à prática na polêmica futurista. Os leitores devem saber que Fillìa é o inventor do “carnescultura”. Fillìa dirigirá a renovação da cozinha italiana e fará aplicar e preparar os novos pratos dos artistas e cozinheiros futuristas. tanto que – segundo vozes que correm – o prof.. a fazer uma laparotomia gratuita aos primeiros degustadores do “carnescultura”. idealizadores e propulsores de uma nova teoria cozinhária. Eis aqui uma descrição autorizada: “O carnescultura. florescerão. repito. que é o novo prato futurista mais clamorosamente discutido hoje. disposto verticalmente no centro do prato. interpretação sintética das paisagens italianas. A nutrição por rádio No “Santopaladar” de Turim. Mas não teremos. O local não será um simples e vulgar restaurante. Como se diz. Este cilindro.indd 161 7/4/2009 15:51:23 . A Taberna aparecerá logo em Turim.A cozinha futurista . Não se trata portanto de uma especulação minha ou de Diulgheroff.. nenhum interesse no maior ou menor sucesso (nós o esperamos imenso) da iniciativa. se forem rosas. mas assumirá um caráter de ambiente artístico abrindo concursos 161 Cozinha futurista. é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. que a nossa iniciativa e a nossa atividade para a abertura do “Santopaladar” tem fins unicamente artísticos. com o objetivo de estudar. acima de tudo. Donato ter-se-ia proposto. é composto por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diversas de verduras e legumes cozidos. Nós daremos simplesmente à taberna uma fachada futurista. O leitor se perguntará o que é o “carnescultura”. na Itália e no exterior.

é a possibilidade de realizar. É toda uma revolução. Aconteceram na vida prática do homem tais modificações mecânicas e científicas que se pode chegar mesmo a um perfeccionismo cozinhário. Provavelmente trate-se de outro neologismo marinettiano. Entre os pontos mais importantes. variando-se continuamente o gênero de nutrimentos e de combinações. dicção de poesia. por meio do rádio. uma difusão de ondas nutrientes. Por exemplo. Não se trata simplesmente de substituir o macarrão pelo arroz. 162 Cozinha futurista. mas pretendem renovar o gosto e os hábitos dos italianos. poderá também difundir extratos de ótimos 1 No original. de pintura e de moda futurista. assassinar os velhos enraizados hábitos do paladar. De resto a coisa não é lá extraordinária. Como o rádio pode difundir ondas asfixiantes e adormentadoras (conferências. Este primeiro capítulo dispensa comentários. O que há de prodigioso e que talvez tenha escapado até a Marconi. per finire é algo que está sempre por acabar. por isso optamos por traduzir novela. a uma organização de sabores. novelas1 etc. o odor dos pratos lavados será transformado em odor de lavanda. jazz. notem os seguintes que reproduzo textualmente: a) “os futuristas declarando-se contra o macarrão e indicando novos desenvolvimentos da cozinha italiana. Agora reorganizaremos os odores. em certos restaurantes. para preparar os homens aos futuros alimentos químicos e talvez à não distante possibilidade de realizar.). Até hoje. mas de inventar novos pratos. noites de poesia. por meio do rádio. odores e valores que até ontem pareceriam absurdos.indd 162 7/4/2009 15:51:23 . Deve-se. porque eram diversas também as condições gerais de existência. “per-finire”. não seguem somente o lado importante da economia nacional.Fillippo Tommaso Marinetti e organizando no lugar do habitual café post-prandium ou da habitual dança. havia um odor que Deus nos livre. ou de preferir um prato a outro. uma difusão de ondas nutrientes. O “Santopaladar” lançará em breve o seu preciso programa técnico.

a sensibilidade”. a profissão.indd 163 7/4/2009 15:51:23 . nenhuma base em comum com as afirmações de Marco Ramperti. o caráter. O Manifesto da cozinha futurista não tem. Marinetti inaugurará o “Santopaladar” Fillìa ainda me fez outras importantes declarações. e sobretudo o mole e antiviril macarrão. Que paraíso então! O problema é que caminhará rumo à abolição da cozinha e portanto do “Santopaladar”. Pergunto ao vice-secretário do movimento futurista se a inauguração do “Santopaladar” será feita com solenidade. portanto. a não ser pelos doces. Alcançaremos pratos ricos de diferentes qualidades. os fragmentos desordenados de comida. é preciso defender a carne e o vinho de qualquer ataque. Outra coisa importante que apreendi é esta: que os pratos futuristas não serão caros. O segundo capítulo também é explícito: b) A cozinha até hoje não levou em conta. O nosso refinamento sensível pede ao contrário um estudo completamente “artístico” da cozinha. em que será estudado para cada um o prato que leve em consideração o sexo. mas tem a tendência inversa de novos horizontes culinários de renovar o gosto e o entusiasmo do comer. que multipliquem ao infinito a alegria de viver: coisa impossível de se obter com os alimentos aos quais se está “habituado”. Responde-me: 163 Cozinha futurista... enquanto a química não criar substâncias sintéticas que tenham a força da carne e do vinho. Um almoço no “Santopaladar” terá um preço normal.A cozinha futurista almoços e cafés da manhã. Fillìa nos disse: “Em nosso próximo proclama para o “Santopaladar” estará bem esclarecido que. Não é verdade que os futuristas sejam inimigos do vinho e da carne. para inventar novos pratos que dêem alegria e otimismo. Combatem-se assim os lamaçais de molho. o lado estético.

indd 164 7/4/2009 15:51:24 . . o Docelástico. À inauguração intervirá também S. No “Santopaladar” teremos um acadêmico. delícia de minha juventude voraz. sem considerar a música.Nada.Certamente. 164 Cozinha futurista. . que responderá a todas as críticas. apenas as velhas caçarolas. não poderá ser nada menos que extraordinário. acendia a veia poética de Giosuè Carducci e de Giovanni Pascoli”.Fillippo Tommaso Marinetti . É acompanhado no exterior. Até hoje o pobre consumidor não encontrava ninguém que respondesse por uma má refeição. música. a venerável “salama da sugo” que. Bastaria a invenção do prato Ultraviril. a Aerovianda (tátil.Pode-se saber a lista dos pratos do almoço inaugural? . Ah. junto à loira Albana. Esta lista será completada por surpresas indispensáveis para formar a atmosfera da nova refeição e terá além de tudo perfumes. Além disso compreenderá os pratos publicitários do arquiteto Diulgheroff e os alimentos simultâneos de Marinetti e Prampolini. A. É evidente que o sucesso. porque o acontecimento tem uma grande importância. achados. E responderá à altura. receita que faria chorar de inveja o doutor Woronoff. originalidade. Seremos duros. com rumores e odores). Este é evidentemente um achado útil. Saladin. poupe ao menos a “salama vecchia” da Romanha. Acabou-se o tempo das comidas dos Artusi.Compreenderá alguns de meus pratos e isto é: Todoarroz (com arroz. Compreenderá os doces Reticulados do céu do escultor Mino Rosso e o Ultraviril do crítico de arte cozinheiro futurista P. Mas então adeus “tajadele al parsott”.E da velha cozinha – pergunto a Fillìa – o que ficará em pé? Responde-me com tom inexorável: . Fillìa. salada. Senti duas lágrimas rolarem-me nas bochechas. vinho e cerveja). seja clemente. Exª Marinetti. os perfumes e os outros achados. o conhecidíssimo Carnescultura.

Para tanto. de falar de “técnica”: aqueles pratos. estão vencidos: sua oposição 165 Cozinha futurista. é o espírito revolucionário do manifesto que deve importar: isto é. é preciso preparar o paladar às futuras alimentações.indd 165 7/4/2009 15:51:24 . Se os cozinheiros acadêmicos nos combatem somente pela razão técnica. como o meu carneplástico que foi erroneamente visto como oposição ao macarrão. que as profecias do ilustre Membro da Academia Culinária terão o mesmo resultado que as outras: apressarão o nosso sucesso”. Estamos seguros. a necessidade de modificar a cozinha porque se modificou o nosso sistema geral de vida. “não se trata. criticando os pratos contidos no manifesto da cozinha futurista. Impossível também indicar somente os melhores escritos daquele período. são os primeiros exemplos de uma série que criaremos. porque. rompendo os hábitos. de qualquer modo. reproduzido em todos os jornais. o restaurante futurista de Turim baterá sem dúvida a ciência dos velhos cozinheiros acadêmicos. deu ensejo a uma infinidade de polêmicas irônicas e sarcásticas sobre os valores digestivos dos pratos futuristas. Reproduzimos em parte a carta de resposta a um cozinheiro romano que ameaçava os raios da Academia Gastronômica Italiana contra os cozinheiros futuristas: “o protesto dos cozinheiros acadêmicos relembra estranhamente a oposição que os professores de história da arte sempre fizeram aos movimentos de renovação artística neste século e no outro. teremos os pratos econômicos e os pratos de luxo – os pratos que melhor se equipararão ao macarrão e os pratos para vencer em concorrência as velhas glutonarias. respondendo a diversos ataques. Mas. como técnica. esclareceu repetidas vezes no “Lavoro” de Gênova. portanto. no “Regime Fascista” de Cremona e na “Tribuna” de Roma a importância da iniciativa do Santopaladar. E.A cozinha futurista Este artigo. O pintor Fillìa.

No entanto. E as criações futuristas alcançarão perfeições técnicas. “a Taberna Santopaladar tem um proprietário e cozinheiros que a dirigirão. e por conseqüência futuristas”. enquanto os pratos antigos. Entretanto. “a Taberna Santopaladar decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim gerará uma atmosfera que será o resumo da vida mecânica moderna e será portanto ‘necessário’ servir pratos novos.indd 166 7/4/2009 15:51:24 . também se chegará ao triunfo da cozinha futurista. alcançava uma notoriedade mundial pela anunciada realização da cozinha futurista. etc.”. médicos ilustres e cozinheiros sábios dão-nos razão e aderem à nossa luta. Mas se a Academia Gastronômica Nacional insiste em negar nosso esforço que pretende inventar pratos italianíssimos. Eu e o arquiteto Diulgheroff não cuidamos senão de sua inauguração e primeira orientação: estamos seguros da inteligência e da fé na modernidade que animam aqueles cozinheiros. nem mesmo o macarrão teria sido inventado: e continuar-se-ia a comer como os romanos antigos. os transportes. os trabalhos procediam e o ambiente se formava no domínio preponderante do alumínio italiano “Guinzio e Rossi”: domínio que deveria dar ao local uma atmosfera de metalicida- 166 Cozinha futurista. E por outro lado.. *** A Taberna Santopaladar de Turim. tecnicamente perfeitos. as artes etc. Como foram renovados os costumes. “segundo a cômoda teoria pacifista dos cozinheiros acadêmicos. chegamos a um momento em que tudo se deve renovar. não se poderão renovar”. ainda antes de ser inaugurada.Fillippo Tommaso Marinetti de artesãos não poderá vencer nossa força de artistas. fundaremos então uma Academia Gastronômica Futurista. à qual aderirão os cinqüenta mil artistas inovadores e simpatizantes da Nova Itália”.

após uma febril jornada de intenso trabalho na cozinha. deve ser parte viva das outras formas da construção. com rumores e odores (fórmula Fillìa) Ultraviril (fórmula P. de elasticidade. A primeira refeição futurista A Taberna Santopaladar foi inaugurada na noite de 8 de março de 1931.A cozinha futurista de.A. a luz servia então como sistema arterial. o sentido da vida de hoje. A luz também é uma das realidades fundamentais da arquitetura moderna e deve ser “espaço”. indispensável ao estado de atividade do organismo ambiental.A. onde o nosso corpo e o nosso espírito têm a necessidade de encontrar a afinação. com vinho e cerveja (fórmula Fillìa) Aeroprato. completado com os ritmos da luz indireta.Saladin competiam com os cozinheiros do restaurante. Piccinelli e Burdese. na preparação dos pratos.Saladin) 167 Cozinha futurista. ágil ossatura de um corpo novo.indd 167 7/4/2009 15:51:24 . O alumínio é o mais adequado e o mais expressivo dos materiais. Eis a lista da primeira refeição futurista: Antepasto intuitivo (fórmula da Senhora Colombo-Fillìa) Caldo solar (fórmula Piccinelli) Todoarroz. assim como os materiais “nobres” do passado. Isto é. Na Taberna Santopaladar delineava-se então uma pulsante estrutura de alumínio e esta não era friamente utilizada para cobrir o espaço. No corpo do alumínio. Tudo concorria para completar o interior: os grandes quadros publicitários. os objetos diversos. mas servia como elemento operante do interior: alumínio dominante. encerra estes dotes essenciais e é verdadeiramente um filho do século do qual espera glória e eternidade. de esplendor. a síntese e a tradução artística de toda a organização mecânica preponderante. onde os futuristas Fillìa e P. os toldos. os vidros trabalhados. de leveza e também de serenidade. tátil.

sonha-se e age-se segundo o que se bebe e o que se come”. 168 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Carnescultura (fórmula Fillìa) Paisagem alimentar (fórmula Giachino) Mar da Itália (fórmula Fillìa) Salada mediterrânea (fórmula Burdese) 10. da tomada da Bastilha.indd 168 7/4/2009 15:51:24 . Ninguém a não ser um futurista. cuja data ficará impressa na história da arte cozinhária assim. Frangofiat (fórmula Diulgheroff) Equador + Pólo Norte (fórmula Prampolini) Docelástico (fórmula Fillìa) Reticulados do céu (fórmula Mino Rosso) Frutas da Itália (composição simultânea) Vinho Costa – Cerveja Metzger – Espumante Cora – Perfumes Dory. pela anunciada inauguração do Santopaladar. é preciso reconhecê-lo sinceramente. do Tratado de Viena e do Tratado de Versalhes”. Uma notícia redigida nestes termos não pode ser nada além de maravilhosamente futurista. Stradella: “Ninguém ignora o interesse e as polêmicas que agitam o mundo inteiro. em um completo artigo do redator Dr. O acontecimento assumirá estão uma importância excepcional. além de todo limite extremo. os pressupostos de sua doutrina. as datas do descobrimento da América. nos afirmamos esta verdade: pensa-se. segue. na história do mundo. “Mesmo reconhecendo – adverte Marinetti – que os homens mal ou grosseiramente nutridos tenham realizado grandes coisas no passado. Apresentamos integralmente a notícia sobre a noite como apareceu no jornal “La Stampa”. como indelevelmente foram fixadas.

A cozinha futurista

Rumo ao alimento em pílulas
Não gratificados, então, pelas imensas vitórias pictóricas, literárias, artísticas que acumula há vinte anos, o Futurismo italiano visa, hoje, a uma renovação de base: esta, de fato, ousa afrontar ainda a impopularidade, com um programa de renovação total da cozinha. Omitimos que o Santopaladar, apesar da aparência um pouco blasfema para o passadismo vulgar, é uma deliciosa taberna turinesa, na qual, durante a noite passada, aconteceu lugar a primeira refeição da cozinha futurista: uma lista de quatorzes pratos, vinhos diversos, perfumes, espumantes. O leitor, ou talvez melhor, a amável leitora, desejará conhecer, a fundo, as mais recônditas razões de tal tentativa, para falar passadistamente; ou de tal realização, para falar futuristicamente. O desejo é legítimo. Quanto à satisfação deste, somos tomados por uma sensação de responsabilidade ao responder. Responderemos, em todo caso, cientificamente, exatamente, valendo-nos das mesmas palavras do Chefe dos Futuristas italianos: “Autopraticamente, nós futuristas relevamos o exemplo e as advertências da tradição para inventar a todo custo um novo, julgado por todos “loucura”, razão pela qual estabelecemos agora o nutrimento adequado a uma vida sempre mais aérea e veloz”. Por conseqüência, são abolidos tantos pratos: o macarrão, em primeiro lugar, e enquanto se espera da química o cumprimento de um preciso dever, ou seja aquele “de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos (fornecidos gratuitamente pelo Estado) em pó ou pílulas” invenção única, apta a nos fazer alcançar “uma real diminuição do preço da vida e dos salários, com relativa redução das horas de trabalho”; na espera desse dia, então, poder-se-á realizar a refeição perfeita, que exige uma harmonia original da mesa (cristais, louças, ornamentos) com os sabores e as cores dos alimentos e originalidade absoluta dos próprios alimentos.

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Fillippo Tommaso Marinetti

Na taberna de alumínio
Mas agora retornamos à Taberna Santopaladar idealizada, criada e decorada pelo arquiteto Diulgheroff e pelo pintor Fillìa, e que vocês devem imaginar como uma grande caixa cúbica enxertada, de um lado, em uma outra menor: adornada por colunas semi-incolores inteiramente luminosas e por grandes olhos metálicos, também luminosos, incrustados na metade da parede; fachada, de resto, de puríssimo alumínio, do teto ao chão. Aqui, por volta da meia-noite do domingo, haviam marcado um encontro os futuristas turineses e as pessoas por eles convidadas. Ao cumprimento do ritual estavam presentes, entre outros, S. Exª. Marinetti, Felice Casorati, o pintor Peluzzi, o pintor Vellan, o escultor Alloati, o professor Guerrisi, alguns jornalistas; não faltavam várias belas senhoras, em toilettes deliciosamente passadistas. Speaker oficial, ou seja o anunciador e o ilustrador de cada um dos pratos, era e não poderia deixar de sê-lo, o pintor Fillìa. Quatorze os pratos, já dissemos. Ei-los. Primeiro: Antepasto intuitivo. Não é difícil compreender que se trata, de certo modo, de uma surpresa, e de um outro, de uma preparação para o prato seguinte. Não se pode, a este ponto, esquecer que a invenção de complexos plásticos saborosos, cuja harmonia original de forma e de cor nutre os olhos e excita a fantasia antes de tentar os lábios, seja uma norma fundamental para uma refeição perfeita. Escolheremos, então, uma grande laranja, e através de um furo, liberá-la-emos de sua polpa: o esquelético invólucro nós trataremos de modo a obter a figura de uma pequena cesta, com o cabo e a redonda cavidade. Aqui colocaremos uma fatiazinha de presunto enfiado um em pedaço de grissini, uma alcachofrinha ao azeite, um pimentinha em conserva. No interior desta última será lícito enfiar um bilhetinho enrolado, sobre o qual será precedentemente escrita uma máxima futurista, ou mesmo um elogio a um convidado. Será fácil descobrir a surpresa já que rege “a abolição do garfo e da faca para

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A cozinha futurista os complexos plásticos que possam proporcionar um prazer tátil prélabial”. Em resumo, uma coisa finíssima.

Um prato com rumores e odores
Segunda: Aerovianda, tátil com rumores e odores (idealizada por Fillìa). Aqui há um pouquinho de complicações. Futuristicamente comendo, trabalha-se com todos os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição. Submetemos ao leitor algumas normas da refeição perfeita, que nos servirão para saborear completamente o sabor dos pratos vindouros: o uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Cada prato será, assim, precedido por um perfume com ele afinado, que será eliminado da mesa, mediante ventiladores. Ou como o uso dosado da poesia e da música como ingredientes imprevistos para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma determinada vianda. O segundo prato consiste em quatro pedaços: no prato será servido um pedaço de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza a ponta dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. Resultados maravilhosos: é provar para crer.

O metal que perfuma
Terceiro prato: Caldo solar (idealizado pelo cozinheiro Ernesto Piccinelli). É um consommé no qual são embalados alguns ingredientes, da cor do sol. Excelente. Quarto prato: Todoarroz (de Fillìa). É uma

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Fillippo Tommaso Marinetti coisa muito simples: um risoto à italiana, temperado com vinho, cerveja e fondue. Muito bom. Quinta rodada: Carneplástico. Este prato é um marco miliário da cozinha futurista. Transcrevemos aqui a receita, para a alegria das nossas leitoras: “interpretação sintética das paisagens italianas, é composto de uma almôndega cilíndrica de carne de vitela assada, recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes. Este cilindro, disposto verticalmente sobre a base do prato, é coroado por uma camada de mel, e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. Um prodígio de equilíbrio. Sexta: Ultraviril. Não nos demoraremos em descrições minuciosas: Basta dizer que é um prato para senhoras. Sétima: Paisagem alimentar. É o inverso dos pratos anteriores; esta é só para homens. Excelente. O mar da Itália, a Salada mediterrânea e o Frangofiat, o oitavo, o nono e o décimo pratos, servem-se juntos. Particularmente notável este último, idealizado por Diulgheroff. Pega-se um frango respeitável, e cozinha-se o mesmo em dois tempos: primeiro aferventado, depois assado. Cava-se na coluna da ave uma cavidade grande, dentro da qual colocam-se uma porção de bolinhas, das que se usam para coxim, de aço doce. Sobre a parte posterior da ave costura-se, em três fatias, uma crista de galo crua. Coloca-se no forno a escultura assim preparada, deixando-a por aproximadamente dez minutos. Quando a carne tiver absorvido bem o sabor das bolinhas de aço doce, então o frango é servido à mesa, com adorno de chantilly. Ainda foram servidos outros dois pratos, fora do programa. Um deles, oferecido exclusivamente aos jornalistas, não nos pareceu facilmente decifrável. Acreditamos ter encontrado traços de mortadela de Bolonha, de maionese, daquele tipo de doce turinês conhecido sob a denominação de creme Gianduia; mas, vinte e quatro horas depois da ingestão, após um minucioso exame de consciência, não somos mais capazes de afirmar nada. Mais simples, ao contrário, o outro prato extra,

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A cozinha futurista que o pintor Fillìa definiu Porroniana e Marinetti: porco excitado. Um salame cozido normal veio apresentado imerso em uma solução concentrada de café expresso, e temperado com Água de Colônia. O ritual, assim, está para chegar ao fim. E na hora do espumante falaram Felice Casorati, o escultor Alloatti, o advogado Porrone, Emilio Zanzi, o pintor Peluzzi e enfim S.Exª. Marinetti, que elogiou vivamente Fillìa e Diulgheroff pelos concretos resultados atingidos. Apareceram contemporaneamente: na “Gazzetta del Popolo” um divertido artigo de Ercole Moggi A taverna futurista do santopaladar inaugurada por F.T.Marinetti; no “Regime Fascista” um entusiástico artigo de Luigi Pralavorio: Macarrão já era: Carnescultura, no “Giornale di Genova” um favorável artigo de Marcaraf, A inauguração do Santopaladar. Eram os jornalistas presentes ao almoço. Em seguida, em todos os jornais italianos e estrangeiros, foram reproduzidos os artigos de Moggi e de Stradella, com clamorosos comentários e muitas fotografias reproduzindo os locais, as formas dos pratos, etc., etc. Enquanto jornalistas e fotógrafos de Roma e de Paris chegavam à “Taverna Santopaladar”, Ercole Moggi, após nova entrevista com o pintor Fillìa, publicou na “Gazzetta del Popolo” um outro artigo: Revelados os mistérios da cozinha futurista, em que eram fornecidas as fórmulas exatas das primeiras iguarias realizadas, indicava-se o custo mínimo das refeições futuristas e anunciavam-se outras surpreendentes manifestações iminentes. Sob os títulos: “Os cozinheiros futuristas em teste”- “Isto não é nada, avançaremos muito mais”- “Fillìa contra Artusi”- “Santopaladar? Ora!” os maiores jornais do mundo difundiram, discutiram e polemizaram. De Estocolmo a Nova Iorque, de Paris a Alexandria no Egito atingiam páginas inteiras de jornais ilustrados dedicados ao assunto. A cozinha futurista havia conseguido se impor e iniciava assim o período mais intenso de suas afirmações para a renovação da alimentação.

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isto é. fornos. mas são estudadas de tempos em tempos de acordo com a necessidade de aplicação e funcionamento. é digno de nota também o artigo do Dr.Fillippo Tommaso Marinetti As discussões sobre a cozinha futurista não deveriam naturalmente limitar-se somente ao campo alimentar. Portanto. caldeiras. Muitos restaurantes adotam fogões elétricos. neste mundo. por exemplo.P.S para esta produção italiana e sublinhava como infelizmente os proprietários dos grandes restaurantes são ainda desconfiados a respeito das máquinas que. etc.indd 174 7/4/2009 15:51:24 . redator-chefe do “Giornale Vinicolo Italiano” (que inteligentemente se ocupou. arquitetos. da cozinha futurista) o qual aborda o problema da decoração dos locais onde se consomem vinhos e bebidas italianas. mas infelizmente continuam a recorrer aos estrangeiros. que. Em um outro campo. construtores. esquecendo-se de que na Itália existem insuperáveis produtores de fogões. etc. fornos elétricos. com indiscutíveis vantagens sobre os produtos importados. etc.E. falam da necessidade de modificar também o interior dos locais. No manifesto da cozinha futurista fala-se com precisão da necessidade de servir-se da eletricidade e de todas as máquinas que aperfeiçoam o trabalho dos cozinheiros. não apenas oferecem as maiores garantias. Eis os pontos principais do seu artigo: “Há tanta gente. são para sublinhar as adesões dos diversos jornalistas. O Eng. logo após a nossa batalha.. etc. que pode gostar das formas arquitetônicas antigas e degustar vinhos modernos (preparados nos ultramodernos estabelecimentos enológicos!) entre os muros de 174 Cozinha futurista. em muitos escritos. de dar um ar de modernidade às Feiras de produtos agrícolas e industriais. porque a nossa vontade de renovação expressou-se sempre claramente a favor de todos os ramos e de todas as atividades da arte e da vida. Pittalunga.. ultimamente nos fazia notar a intensa propaganda da S. Alamanno Guercini. de apresentar os alimentos e os produtos da cidade e do campo segundo o espírito dos nossos tempos.

Se o vinho é uma bebida de tradição antiquíssima. uma aliança muito apreciável. que contém carburante-homem e carburante-motor.indd 175 7/4/2009 15:51:24 . ou se por acaso pensam. explodiram na construção das enormes tinas de 80. decoração.A cozinha futurista construção medieval.000 litros de capacidade.000 litros. apresentação. Nós devemos dominar as nossas predileções artísticas pessoais e percorrer aquelas vias mais úteis e prático-econômicas de propaganda vinícola que parecem dar resultados. que se moderniza com o progresso multiforme: é uma bebida dinâmica. com respeito a todas as opiniões. não atribuem a isso nenhuma importância. pavilhões. ensurdecidos pela música selvagem à base das “jazz-band”. publicidade. ou nas catacumbas estranhamente complicadas.500. Por exemplo: em um estabelecimento de recente edificação. somente 1. de 4. Com isto. restaurantes. não se negará nem se criticará qualquer outra iniciativa da arte para valorizar o vinho: apenas se solicitará que se abram as portas aos artistas de vanguarda e à sua atividade artística e publicitária. Até mesmo os pobres tonéis seguem o influxo do modernismo. e após terem tentado ovalizar-se ao máximo. Parece-me. Provavelmente não querem nem mesmo lembrar que os barris de madeira cujos arredores são abundantemente decorados vão – ai de nós! – diminuindo de importância nas novas cantinas que adotam largamente as enormes baterias de banheiras em cimento armado em andares múltiplos. que o vinho poderia hoje procurar e encontrar na arte dos inovadores. Esta gente não pensa de fato que naquelas épocas remotas a uva era esmagada com os pés. em Roma.000. que 175 Cozinha futurista. no que concerne a arquitetura.000 foram reservados aos barris de madeira. na genialidade dos futuristas. é entretanto bebida que se renova anualmente.

elas se aproveitarão largamente das novas formas de arte. economia. aplicados praticamente. o Pavilhão de Arte Sacra é uma realização racional verdadeiramente útil. antes de construir stands. cartazes futuristas. esplendor de metais e de cristais. etc. aos numerosos valores dos locais modernos. do futurismo. É tempo de exaltar e propagandear o vinho com os mesmos critérios da modernidade.. Muitos catálogos de vinhos franceses são publicações completamente futuristas. E pode-se acrescentar. em Berlim. licores. enquanto o trabalho destes artistas italianos é apreciado no exterior. Nos concursos regulares dos pavilhões que tem por objeto o vinho. Na Itália. Em Pádua.Fillippo Tommaso Marinetti por muitas razões se pode imaginar bem aceita por um extenso público de produtores. no campo da propaganda vinícola! E se os futuristas italianos se ocuparem com fecunda e prática atividade. Em Paris. eram de estilo racional. industriais. catálogos. em Viena. Neles há higiene. numerosos pavilhões de vinhos. comerciantes. os vinicultores deveriam considerar seriamente as concepções artísticas novadoras. pouquíssimas e esporádicas foram até hoje as tentativas. na Mostra Colonial. E o mais moderno e mais animado era o restaurante italiano idealizado pelos arquitetos futuristas Fiorini e Prampolini.indd 176 7/4/2009 15:51:24 . se manifestações vinícolas acontecerem em Roma. centenas de bares são em estilo futurista. espaço. de organizar a publicidade. Quero acreditar que em 1932. bela e que cumpre sua função. Deve haver lugar para todos. As direções das feiras e das mostras poderão fazer muito. cerveja. restaurantes. Em Paris. farão coisa útil e boa. da propaganda e valorização do vinho italiano. 176 Cozinha futurista. aquele da economia: que não deve ser menosprezado nestes momentos difíceis. especialidades. consumidores.

. Zucco. de fevereiro de 1931 a fevereiro de 1932.“Amici dell’Arte di Novara”. também desta forma. 177 Cozinha futurista. na intenção de servir.Turnê de propaganda em diversas cidades da Tunísia.Conferências futuristas em Budapeste.“Sala dell’Effort” em Paris. a propósito da cozinha futurista. . escrevendo no “Giornale Vinicolo Italiano”. Pozzo. .“Circolo Sociale” di Cúneo. Conferências Cozinhárias A polêmica sobre a cozinha futurista era tão intensa e presente em cada um. a favor e contra os novos pratos futuristas. Oriani. na abertura da Mostra pessoal dos pintores futuristas Fillìa e Zucco. Alimandi e Vignazia. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. Marinetti. Diulgheroff. fez. Saladin. em frente a imensas multidões.“Galleria Botti” de Florença. Mino Rosso.A cozinha futurista Eu já esperava isto há um ano. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. que todas as conferências de Marinetti eram freqüentemente seguidas por clamorosas discussões a favor e contra o macarrão. durante a Mostra de Aeropintura Futurista. .“Institutos Fascistas de Cultura” de Brescia e Cremona. inaugurando a Mostra dos pintores futuristas Fillìa.“Circolo degli Artisti” de Trieste. nas quais exaltou e impôs à atenção do público os valores da nova cozinha: . aos interesses vinícolas nacionais”. . na abertura da Mostra do grupo vanguardista e futurista “Sintesi”. .“Galleria Vitelli” de Gênova. . E agora convidamos os artistas inovadores a colaborar conosco. as seguintes conferências. .indd 177 7/4/2009 15:51:24 .

“Teatro Nacional” de Savona. aerovianda (tátil. fruta simultânea. por ocasião da Mostra dos grupos futuristas turineses e ligúrios. O horário estabelecido para o banquete já havia passado há muito e ninguém falava em finalmente dar princípio a este convívio luculiano. carnescultura. um banquete dirigido pelos futuristas Fillìa e Ermanno Libani. todoarroz. teriam antecipado mas ao contrário há a mesma espera asfixiante como em todas as refeições deste mundo burguês. 18 de abril. caro.indd 178 7/4/2009 15:51:24 . A refeição futurista de Novara Durante a “Mostra de Arte Futurista” no Círculo dos Amigos da Arte de Novara. vinhos.realizado domingo. eu achava que os futuristas. cervejas. Presidente da Federação dos Comerciantes. Rosina. perfumes e músicas da Itália. foi organizado. A lista era composta pelas seguintes novidades: Antepasto Intuitivo. – Comer no futuro… que poderia haver de mais futurista? 178 Cozinha futurista. em Novara – ninguém tenha escrito um processo verbal estenografado consagrando ao futuro os comentários com que Fillìa preanunciava os pratos. Aproximo-me de… . por iniciativa do Dr. frangofiat. para inovar.Conferências em Sofia e Istambul. docelástico.Escute. espumantes. mar da Itália. no atraso são passadistas vocês também. com rumores e odores). Ele me olha e sorri irônico.Fillippo Tommaso Marinetti . . Eis como o diretor do jornal “A Itália Jovem” descreveu em um brilhante artigo o acontecimento: “É realmente um pecado que sobre este jantar futurista .

sentamo-nos à mesa: Antepasto intuitivo. segundo informações seguras de estudiosos do gênero. um pedaço de veludo. É convicção geral que este prato será na realidade pulado completamente para ser fiel à sua definição de intuitivo: mas não. as quais devem ser levadas à boca contemporaneamente com a mão esquerda. dos resfriados. um perto do outro. dos homens calvos). e consiste em minúsculos bilhetes encondidos dentro das azeitonas recheadas. o garçom passa com um grande esborrifador espargindo a cabeça dos convidados (sugerimos a Fillìa servir uma outra vez tal lavagem capilar.A cozinha futurista O início da refeição Como Deus quer. Há ainda um pedaço de cartolina sobre o qual estão colados. servirá apenas para tocar com a mão direita dando sensações pré-labiais que tornam saborosíssimas as iguarias. Isto também já sabíamos. aquilo que Fillìa nos apresentará na mostra de arte sacra de Pádua. assinado Enrico Emanuelli. para a incolumidade. Estes bilhetes são cuspidos. eram já utilizados mesmo há vinte anos. um pedaço de seda e um pedaço de lixa: não é obrigatório – explica Fillìa – comer a lixa. A Aerovianda E chegamos à Aerovianda: é um prato que não aconselho aos esfomeados. abertos e lidos em voz alta com grande deleite para os presentes: Emanuelli é o maior jornalista. Em relação aos odores. 179 Cozinha futurista. Mas algo de novo existe. morna. Servem-nos elegantíssimos cestinhos escavados em casca de laranja e preenchidos com tudo o que constituía o velho antepasto caro às nossas bisavós: salame de autêntico porco e picles Cirio. entenda-se o Deus dos futuristas. uma azeitona e uma bergamota. É composto por uma fatia de erva-doce.indd 179 7/4/2009 15:51:24 . tudo atravessado por pequenos bastões de grissini que.

Mas por que não reproduziram – pergunta. rãs e salame. Comestibilíssimo: há até quem peça bis. Aqui se corre o risco de uma indigestão! Passemos ao mar da Itália que até os passadistas poderiam sem esforço introduzir no elenco das delícias de família. O cavalheiro Fontana me sussurra: os pratos futuristas. como certos versos de poetas modernos e como todos os químicos brilhantes.indd 180 7/4/2009 15:51:24 . Os garçons servem enquanto o coaxar das rãs é reproduzido por uma “battistangola”. Todoarroz: um prato muito viril na forma. Servirão um prato inventado na hora pelo cavalheiro Coppo. Terminado o todoarroz. e composto basicamente por arroz temperado com vinho e cerveja.2 Arroz e feijão. 180 Cozinha futurista. Um pouco da culpa é também do Grignolino quase mau-caráter. E a digestão é protegida.Fillippo Tommaso Marinetti A refeição. um pedaço de figo.A carnescultura – grita Fillìa – é o produto de todos os jardins da Itália. alguém – também o grunhido dos porcos? Havia salame também!! . ironias e sátiras. uma cereja confeitada. 2 Instrumento de ferro ou madeira. muda-se tudo : apagam-se as luzes brancas e continuam acesas as vermelhas: semi-escuridão. que emite som parecido com o coaxar das rãs. Sobre um prato ogival são dispostos sobre o maior raio pedaços de filé de peixe cozidos na manteiga sobre os quais são fixados em ordem decrescente com o auxílio de um palito de dentes. prossegue jubilosamente: o que deixou todos em tal estado foi o anúncio de que não haverá discursos oficiais. Ótimo. proprietário do hotel d’Itália. um pedaço de banana da Austrália. precisam de muita penumbra. entre risos.

o sabor da nossa melhor cozinha. fruta seca. 181 Cozinha futurista. mulheres calvas e frangofiat! O docelástico é formado por modestas carolinas recheadas com creme de cores berrantes.indd 181 7/4/2009 15:51:24 . as “Edições Franco-Latinas” representadas pelos senhores Bellone e Farina e pelo senhor Pequillo. em cima e no fundo molho Cirio. O interior do pavilhão. por reconhecimento geral. quiseram realizar pela primeira vez em Paris a cozinha futurista e entraram em acordo com os pintores Prampolini e Fillìa para o preparo da refeição. representam o que de mais moderno. É um doce elástico porque colaram sobre cada um pedaço de ameixa. Davam ao ambiente uma atmosfera simultaneamente africana e mecânica que dava esplendidamente a vontade de interpretar os motivos coloniais segundo uma sensibilidade moderna e futurista. calo-me a título de protesto.A cozinha futurista Nos dois lados do prato creme de espinafre. A fruta simultânea é composta por diversos pedaços… de fruta descascada conectados entre si: laranja. Fillìa tece elogios à mulher do futuro careca e de óculos: eis uma combinação de sorte. stop. Sobre o frangofiat. Neste restaurante adequadíssimo. tinha sido genialmente decorado com 8 enormes painéis do pintor futurista Enrico Prampolini: estes painéis. de mais lírico e de mais inventivo se pode realizar sobre o tema “colonial”. Para nos acalmar. amplo salão com capacidade para mais de 100 mesas. O grande banquete futurista de paris Na Exposição Colonial de Paris o arquiteto futurista Fiorini realizou um audaz pavilhão que sediou o Restaurante italiano. Café. maçã. O aspecto de um grotesco transatlântico.

de canto e de música. Excitant gastrique (du peintre Ciuffo) 5. Viandesculptée (du peintre Fillìa) 11. Vins – Mousseux – Parfums – Musiques – Bruits et chansons d’Italie.indd 182 7/4/2009 15:51:24 . descreve assim o banquete: “Os acontecimentos que estamos para expor são de uma gravidade excepcional. De fato. Aéromets. Hors d’oeuvre simultané (du peintre Fillìa) 4. Poulet d’acier – à surprise (du peintre Diulgheroff) Cochon excité – à surprise (d’un primitif du 2000). bruitiste et parfumé (du peintre Fillìa). Carrousel d’alcool (du peintre Prampolini) 3. Préface variée (du peintre Prampolini) 6. Gateauélastique (du peintre Fillìa) 14. entre um prato e outro. Além de tudo. A lista dos pratos: 1. Toutriz (du peintre Fillìa) 7. Estavam representados os maiores jornais franceses. O jornalista futurista Francesco Monarchi. Les grandes eaux (du peintre Prampolini) 2. tactile. Equatore + Polo-Nord (du peintre Prampolini) 9. Machine à goûter (du peintre Prampolini) 12. redator-chefe da Nova Itália. o mero anúncio da refeição futurista havia levantado entre os compatriotas “bempensantes” uma onda de reprovações e de comentários hostis que ameaçavam uma complexa insurreição es- 182 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti A multidão que se empurrava na noite da manifestação para intervir no grande banquete era a melhor de Paris. Les îles alimentaires (du peintre Fillìa) 8. Paradoxe printanier (du peintre Prampolini) 13. 10. eram anunciados números de dança.

Ex. Palidíssimas de emoção (palidez que entretanto aumentava sua graça). muitos corajosos. as duas senhoras estavam na impossibilidade absoluta de animar os temerosos. já que esses passarão para a história como precursores no degustar a cozinha do futuro. *** Na entrada. dos pratos táteis. S. o imponente aparato do pessoal de serviço e a branca calma tradicional das mesas postas. Exª. em uma última dúvida angustiante. a segurança eletrizante de S. Estes bempensantes achavam indigno o caráter revolucionário dos pratos anunciados. daremos uma ampla lista de nomes. No entanto. porque segundo eles. sempre sensível a qualquer manifestação italiana. as tradições. o Príncipe de Scalea.indd 183 7/4/2009 15:51:25 . mantinham o mistério do iminente ritual. reunidos na soleira. a senhora Belloni e a senhorita Farina. Marinetti. os títulos das iguarias podiam dar margem às mais negras apreensões e a complicação das músicas. dos perfumes. estava à mesa de honra com alguns membros de seu 183 Cozinha futurista. não devem jamais ser tocadas. na realidade. a inclemência do tempo e o terror do acontecimento. organizadoras do evento junto com as Edições Franco-Latinas. especialmente as gastronômicas. dos rumores e das canções representava absolutamente um pesadelo dificilmente superável. não ousavam penetrar na sala. encheram o salão do Pavilhão futurista na noite da última quarta-feira. recebiam os heróicos convidados.A cozinha futurista piritual. Por dever jornalístico devemos registrar que. que. Somente as faces enigmáticas de Prampolini e Fillìa. Apesar desta onda de pessimismo. a festosa alegria do ambiente animado pelos enormes painéis de Prampolini. Contrariamente aos nossos hábitos. transmitiram a coragem das próprias ações ao titubeantes. idealizadores dos pratos futuristas. enfrentando a distância.

o deputado Ciarlantini. Madame De Flandreysy. etc. *** Às 21h30 um soar de gongo formidável reconduz os presentes à realidade das coisas. Em outras mesas: o advogado Gheraldi da Sociedade dos Autores. Miss Moos. sidra e bitter e de recolher na outra uma cândida cápsula envolvendo uma dose de anchova. Madame Van Donghen. tanto que alguns repetiram. o senhor Pequillo das Edições Franco-Latinas. a senhorita Budy. o advogado De Martino. Madame Mola. o Regente do Fascio doutor Saini. mas primeiro resultado satisfatório. Madame Madika. a Senhora Podrecca. Vittorio Podrecca. 3 vinho tinto do Piemonte 184 Cozinha futurista. Madame Ny-eff. Algumas caretas. entre os quais o Comendador Dall’Oppio e o Marquês de San Germano. Muitas e elegantes senhoras haviam corajosamente desafiado a aventura. a Condessa De Fels. Madame Massenet-Kousnezoff. o cavalheiro Gennari do Diretório. Durio. secretário administrativo do Fascio.. Madame Tohaika. o crítico de arte Eugenio D’Ors da Academia de Madri. São anunciadas as duas misturas-aperitivos criadas pelo pintor Prampolini: “As grandes águas” e “Carrossel de álcool”. a senhorita Cirul. com o representante do Ministro Reynaud. o Conde Emanuele Sarmiento. Madame Lakowsky.indd 184 7/4/2009 15:51:25 . etc. o conhecido pintor Sepo. Surpresa geral ao pescar em uma chocolate e queijo navegantes em Barbera3 . Uma imprevista luz verde torna ainda mais espectrais os comensais. Notamos: a Marquesa de San Germano. Madame Castello.Fillippo Tommaso Marinetti Comissariado. o doutor Lakowsky. a Senhora Pequillo. o senhor Cartello. etc.

a orquestra entoa um barulhento e violento jazz. canta deliciosamente e é muito aplaudida. Nenhuma trégua: o “Todoarroz Fillìa” é anunciado como uma mistura de arroz. É devorado pelos comensais que começam a modificar seu primitivo estado de ânimo. pelos risos gerais e pelos aplausos definitivos e intermináveis. anuncia a Aerovianda do pintor Fillìa. tomates e espinafre. Na verdade. enquanto a mão esquerda acaricia um prato tátil formado por lixa.A cozinha futurista Três antepastos servidos contemporaneamente cortaram pela raiz as polêmicas sobre os aperitivos. que se havia oferecido para ilustrar os pratos. do San Carlo de Napoli. e os garçons esborrifam na nuca de cada comensal um forte perfume de cravo.indd 185 7/4/2009 15:51:25 . cerveja. tomates e confeitos). cereja. a arte moderníssima desta dançarina de exceção é dificilmente superável. 185 Cozinha futurista. A “Aerovianda” é composta por frutas e legumes diversos que são comidos com a mão direita sem a ajuda de nenhum talher. ovos. atum e nozes) e o “início variado” de Prampolini (manteiga. banana. o Conde Sarmiento. O “antepasto simultâneo” de Fillìa (casca de maçã triturada. Retorna inexorável o imponente desfile de garçons que trazem agora as “ilhas alimentares” de Fillìa. Quando começava-se a criar um certo hábito pela cozinha futurista. vinho. Primeiro intervalo: a senhorita Jole Bertacchini. posto que talvez apenas ela tenha compreendido quanta beleza possa derivar de uma interpretação absolutamente nova e genial da dança. o “estimulante gástrico” (rodela de abacaxi com sardinha. figo. azeitona. veludo e seda. A sala ribomba pelos gritos das senhoras violentamente aspergidas com perfume. se alarmaram pelas suas formas audazes. excelente união de peixe. salame e anchovas). Ao mesmo tempo. ovos e parmesão. conquistaram rapidamente a simpatia dos paladares. Outra interrupção e Mira Cirul inicia as suas danças que suscitam um grande e continuado entusiasmo.

Exª.Fillippo Tommaso Marinetti (Apenas uma pessoa permanecia alheia ao entusiasmo geral: imediatamente interrogada descobriu-se que era canhota – por isso esfregava o prato tátil com a direita enquanto comia com a esquerda). acompanhada ao piano pelo Maestro Balbis. *** S. demonstrou mais uma vez sua excepcional qualidade de voz que lhe deram fama mundial. que havia participado do banquete não somente presidindo-o mas intervindo a todo momento nas discussões e na exaltação das iguarias. Marinetti. Marinetti com sua 186 Cozinha futurista. O corpo do frango mecanizado pelos confeitos de coloração alumínio. elogiou o jantar futurista como a primeira realização em Paris do célebre manifesto da cozinha futurista. em duas interpretações. e após ter relevado a magnífica organização da noite por parte das “Edições Franco-Latinas”. foram reservados a apenas dez pessoas dois pratos surpresa.indd 186 7/4/2009 15:51:25 . O “Frango de aço” de Diulgheroff e o “Porco excitado”. Depois de ter louvado as criações gastronômicas dos pintores Prampolini e Fillìa. e o salame imerso em um molho de café e água de colônia foram declarados excelentes. Outro intervalo: a Senhora Maria Kousnezoff. o Polo Norte + Equador de Prampolini. Entre os diversos pratos. cantou depois admiravelmente algumas canções napolitanas. Exª. com mais de 2000 artigos e demonstrou o sentido de arte-vida que sempre animou as atividades futuristas. S. foram apreciadíssimos. Desde já a renovação da cozinha futurista havia triunfado. da Ópera de Monte-Carlo. o “Docelástico” de Fillìa. apesar da audácia de formas e originalidade de conteúdo. A Carnescultura de Fillìa. o “Paradoxo de primavera” e a “Máquina de degustar” de Prampolini. O senhor Roberto Marino. manifesto que suscitou uma polêmica mundial. da Ópera e do ex-teatro imperial de São Petersburgo.

aparece na sala Joséphine Baker. no Corriere della Sera e em muitos outros jornais ita- 187 Cozinha futurista. acompanhada pelo senhor Abbatino.A cozinha futurista habitual eloquência homenageou a coragem dos presentes e observou com satisfação o contentamento geral. T. *** Enquanto se renovam os aplausos ao breve e vivo discurso de Marinetti. na verdade. A Baker recebeu a mais festiva acolhida e participou do final da excepcional noite que se fechou com danças animadíssimas. Marinetti sobre “Futurismo mundial”. teve um papel importantíssimo no bom êxito da festa: ao seu irresistível fascínio deve-se.indd 187 7/4/2009 15:51:25 . S. aludiu então aos números de canto e dança sobressaltando o proposital contraste da parte lírica (exclusivamente tradicional) com o futurismo integral do jantar e das danças. mais de 300 pessoas participaram do grande aeroalmoço realizado no Hotel Negrino: lá encontravam-se as maiores autoridades da Cidade e da Região. realizou-se o Circuito de Poesia (ganho pelo poeta triestino Sanzin) e uma conferência de F. em todos os jornais lígures. Marinetti.” O aeroalmoço futurista de chiavari O Comendador Tapparelli organizou admiravelmente em Chiavari. em que inaugurou-se uma Mostra de Arte Futurista. Joséphine Baker transformada subitamente no centro das atrações mais vivo e completo. com muito espírito. Exª. a definitiva superação entre os convidados de suas últimas dúvidas sobre as conseqüências da cozinha futurista. a 22 de novembro de 1931. Longos artigos foram dedicados ao acontecimento. Além disso. uma jornada futurista.

mísera e desconcertada. ao exame dos dentes. especialmente vindo naquele dia de Milão a Chiavari. para romper com os seus molhos a maciça porta fechada dos ravioli e do macarrão. em meio a uma profusão de abacaxis. por uma cabeça de vitelo nadando. uma espécie de orgia carnescultural que se desenrolou nos salões do Hotel Negrino e que submeteu a uma dura prova o estômago de uns trezentos convidados. desabrochou uma espécie de pudim que deixou cada esôfago engasgado de admiração. entre a mais viva expectativa dos presentes.Fillippo Tommaso Marinetti lianos. é um bruto materialista. mas a um certo temor racional. iniciou-se com uma Empada de aquecimento: uma espécie de antepasto talvez poético demais para ser apreciado devidamente pelo estômago que. Tâmaras surpresa O almoço. de nozes e de tâmaras: tâmaras que se revelaram.indd 188 7/4/2009 15:51:25 . Damos aqui os pontos essenciais do brincalhão artigo de um redator do Corriere Mercantile: “A parte forte do dia – parte forte ao menos para o cronista ávido de divagações e desejoso de ocasiões para os assim chamados parênteses de cor – foi sem dúvida o “Primeiro aeroalmoço futurista”. muitos dos quais sentiam na cavidade gástrica um certo tremor que não era de todo devido ao apetite. cheias de uma surpresa quase ciclópica: elas estavam cuidadosamente recheadas de anchovas de modo que. 188 Cozinha futurista. esta empada. Cada prato foi escrupulosamente preparado pelo célebre cozinheiro Bulgheroni. destes abacaxis e com estas frutas africanas misturadas a peixe. Era composta. desta inocente cabeça. como se sabe.

onde fatias de beterraba e fatias de laranja faziam complô aliadas a azeite. porém mais de um com evidente covardia. este prato esteve entre os mais apreciados como aquele que ofereceu a muitos dos convidados o direito de saciar sua fome ao menos com pão. vinagre e pitadas de sal. vagas e frágeis. a esta altura. mais tarde. renunciou a levá-lo a cabo e contentou-se apenas em tirar do prato uma pétala de rosa. que consiste em uma combinação discretamente diabólica. menos belas as almôndegas.indd 189 7/4/2009 15:51:25 . seu aparelho digestivo em condições não de todo normais.A cozinha futurista As rosas em brodo Prosseguiu-se. aos netos. ou seja. Teve lugar o terceiro prato. audaciosamente com um Decolapaladar. enxugá-la com o guardanapo e guardá-la na carteira como recordação do almoço e como testemunho de um banquete a ser contado. “Boi na fuselagem”. nadavam. acomodadas sobre aeroplanos de miolo de pão. Alimento que se vangloriava de 189 Cozinha futurista. misteriosíssimas almôndegas sobre cuja composição não é belo nem útil indagar. Belos os aviões. os convidados tentaram corajosamente o experimento da deglutição. Eletricidade atmosférica confeitada E eis que aparecem os garçons com grandes bandejas carregando o “servovoadinhas de pradaria”. de champagne e de licores: sobre esta mistura. Muitos dos convidados já tinham. composto por partes quase iguais de caldo de carne. nome que designava um brodo de natureza bastante bizarra. de modo que não se podem reprovar os que não souberam reprimir um instintivo gesto de terror no momento em que apareceu a taça contendo o “alimento conclusivo”. que para os iniciados deve ter extraordinárias virtudes apetitivas. De qualquer modo. Postos diante de tal obra prima da lírica brodística. que como nunca então pareceu um alimento precioso e divino. então. grandes pétalas de rosa.

e o salão da Casa do Fascio. Dizemos infelizmente porque um tal grupo de heróis merecia. que foi assim narrado no Resto del Carlino: “O sucesso de curiosidade do Aerobanquete foi enorme. ser eternizado em uma lápide de bronze.indd 190 7/4/2009 15:51:25 .Fillippo Tommaso Marinetti um nome excessivamente dinâmico: “Eletricidade atmosférica confeitada”. no Círculo dos Jornalistas. Ao sentar-se Marinetti. foi possível provar um inesquecível ensaio. pelo escrúpulo de cronistas. ao menos. Marinetti em 12 de dezembro de 1931. contendo em seu interior uma massa doce formada por ingredientes que só poderiam ser precisados após uma paciente análise química. levantou-se o poeta Farfa. Chega-se. no início do banquete. dado que muitos já estavam aprofundados no momento da decolagem. com admirável eloquência que lhe escapava espontânea como se ele não tivesse tocado na comida. Estas queridas e inesquecíveis “eletricidades” tinham a forma de coloridíssimos sabonetes de mármore fingido. assim. O aerobanquete futurista de bolonha Os pintores futuristas Caviglioni e Alberti organizaram em Bolonha. uma importante Mostra de Aeropintura que foi inaugurada por F. exaltando. que apenas uma mínima parte dos banqueteadores ousou levar este sabonete à boca: daqueles que ousaram. Devemos dizer. E levantou-se a falar Marinetti que. recebeu ontem à noite às 21h30 ( também o horário era ligeiramente fora 190 Cozinha futurista. serviram na Casa do Fascio um grande Aerobanquete (cujo preço era de 20 liras por pessoa). escolhido pelo especialíssimo desafio culinário. ao Amarração digestiva: amarração que nem todos realizaram. A seguir os mesmos pintores. infelizmente não sabemos os nomes. irrompeu em um violento sermão contra a infâmia do macarrão e o vitupério dos ravioli. que declamou com ímpeto aviador um hino quase pindárico intitulado ‘Tubulação’ ”. os pratos futuristas e particularmente as tâmaras anfíbias das quais. T. no confronto. entre a maior expectativa.

A cozinha futurista dos padrões!) muitas pessoas. os pratos e os talheres. 191 Cozinha futurista.indd 191 7/4/2009 15:51:25 . idem idem. mais atrás dois cilindros de motocicleta. pintores. (Desabitada. e uma chapa de lata polida serve como apoio de prato onde as senhoras controlam – Oh! o delicioso espelho de sorte – sua comprometida maquiagem. ou kipfel vienense. E entre as autoridades estavam o Governador da Província comendador Turchi e o Reitor magnífico da Universidade prof. coloridas grosseiramente e entalhadas artísticamente. dando a impressão de um avião. A síntese das mesas é evidente. Outra descoberta autêntica: o pão. e é preciso confessar que a forma se presta extraordinariamente ao cozimento perfeito da massa e ao seu abiscoitamento. Os copos são os de sempre. para nossa sorte! . entre as quais notavam-se personalidades e autoridades. que reproduzem a forma de um monomotor ou de uma hélice. elas são substituídas por batatas cruas.. que na fantasia dos promotores queriam ser alumínio. lá no fundo a cauda. que veio para sancionar com o sagrado selo do Studio. Como no avião O Aerobanquete justificou o próprio nome através do cenário criado pelos organizadores. mas não há absolutamente flores. senhoras e simples gourmets. Ghigi. o rebelde movimento de ódio ao macarrão. como costuma acontecer nos aviões autênticos). promovidos pela ocasião a motores de avião. Aqui as asas – mas finas e estreitas como em um hidroplano de alta velocidade – aqui a fuselagem. No lugar das toalhas de sempre encontramos folhas de papel prateado. Entre as asas uma grande hélice – parada. Pouquíssima coisa visível. jornalistas. Nada das rosetas comuns ou bastões à moda francesa. e pior para quem não sabe distinguir entre as coisas que servem ao prazer do estômago e aquelas destinadas à alegria dos olhos. mas pãezinhos propositadamente modelados. As mesas foram dispostas com inclinações e ângulos.

O qual se chama “aeroporto picante”. O pintor Alberti anuncia gravemente – mas por que aquele senhor sorri? – que o avião voa a oito mil metros de altitude e Marinetti confirma com autoridade explicando: . O risoto de laranja. provoca certa inquietude nos escalões. exibe um pomposo e muito chamativo colete deperiano4 de mil cores. mas repentinamente a sala imergiu em uma diáfana luz azul e um motor começa a funcionar na sala ao lado. o prato número dois apresenta-se majestosamente entre os “oh” dos presentes.Fillippo Tommaso Marinetti Última constatação: os garçons usam um colete de celulóide de cor azul. enquanto o pintor Alberti.indd 192 7/4/2009 15:51:25 . com o acréscimo de uma fatia de laranja casada com uma fatia de ovo cozido e uma azeitona. 192 Cozinha futurista. diretor do refeitório. O cardápio fala de “Estrondos ascensionais” mas S. E com pequenas fatias de laranja fritas doura-se a palidez da iguaria. sejamos sinceros. … e os rumores “nutrientes” Temíamos o advento de qualquer complicação. O risoto de laranjas… O aerobanquete é inaugurado de modo levemente passadista: com o antepasto. mas o molho – ah. Excelência Marinetti rebatiza o prato assim: risoto de laranja. mas não nos parece nada além de uma salada russa alten-styl. onde o arroz é sempre aquele… o mesmo. o molho! – é a base de laranja.Observem como o barulho dos motores favorecem e nutrem o estômago… É uma espécie de massagem do apetite… 4 Relativo ao pintor futurista Fortunato Depero. E a laranja foi coberta com manteiga colorida rosa… Antes porém que os pareceres sobre o prato de inauguração se difundam.

. os comensais se prestam a mordiscar as asas dos aviões panificados. E o carburante nacional (vulgo vinho das nossas colinas) avança triunfalmente. e o acompanhamento compreende duas cebolinhas e duas castanhas fritas. para ouvir se relinchava. Trata-se na verdade de um escalope de vitelo. . É o vinho em galões. Marinetti aumente o seu… gelo. Exª.Exª. para 193 Cozinha futurista. O prato. entre uma taça de carburante nacional e um aceno nostálgico. promovidos assim ao posto de “entoarumores”. servido de algumas latas de óleo extradenso. as duas castanhas junto com uma lingüiça não produzem mais nenhuma impressão! Um pecado que a carne – depois do habitual giro de apresentação em volta das mesas – chegue quase fria. não sente nenhuma saudade. ao contrário. afirmando que a oito mil metros de altitude os alimentos não possam manter-se fervendo… Pouco depois o chefe do futurismo dirige a própria ofensiva contra o pacífico doutor Magli. aos tortellini com molho. S. Isto não é valo… E Magli num reflexo: . E é um sucesso indiscutível. – E uma homérica risada recebeu a piada. E não adianta que S.Isto – exclama – é passadista. é futurista somente nas nuances. mas em voz baixa. O vinho em … latas. e a multidão não encontra nada melhor que colocar-se a bater furiosamente sopre os pratos de lata.indd 193 7/4/2009 15:51:25 . representante dos Aqueus. Marinetti. interrogando-o por que ousara cheirar a carne antes de experimentá-la.Queremos o carburante nacional.A cozinha futurista Finalmente se desce novamente da “estratosfera” culinária. (Seria necessário outro). aliada a uma lingüiça fina. para se dizer a verdade. Mas depois dos experimentos a base de laranja. o “Carnescultura com fuselagem de vitelo” – chega. e na expectativa do prato central. Mas também o prato central – ou seja. Ele é entusiasta do simpósio e pede aliás aos cozinheiros que façam-se presentes. O Aerobanquete prosseguiu assim entre um prato e uma piada.Justíssimo… Eu deveria tê-la encostado ao ouvido.

perdoem-nos. logo depois. é a luta contra o peso. Teceu então elogios à cozinha futurista. Afirmamos que a genialidade italiana é capaz de inventar outros três 194 Cozinha futurista. levantou-se Marinetti para declarar que a sua eloquência estava literalmente tampada pela suculência variada e deliciosa das aeroiguarias degustadas. de onde o macarrão está definitivamente em retirada. Nós queremos manter a nossa antiga vitalidade goliardesca. O nosso esforço tende a militarizar todas as nossas jovens forças. o banquete encerrou-se com discursos. mas a culpa não é nossa… Abaixo a “cozinha-museu” Iniciado pelo antepasto. A cozinha futurista é a realização do desejo geral de renovar a nossa alimentação. algumas das quais – acrescentou – são achados importantíssimos.Meus senhores. e Marinetti repete a interpelação. dois cordons bleus da Casa do Fascio fazem sua entrada. Queremos para tanto que a cozinha italiana não se torne um museu. proclamando: . Mas os solicitados demoram a vir. acolhidos pelos aplausos de Marinetti e seus sequazes. a trincheira da massa com ovos. levantou-se a falar a medalha de ouro Onida. tudo bem. – Venham os cozinheiros. então o doutor Magli expressou os sentimentos dos “tagliatelistas”. De fato. porque. enquanto um anônimo enviava um telegrama em que dizia textualmente: “Abaixo o macarrão.Fillippo Tommaso Marinetti aplaudi-los. Os tagliatelle – diz – são agora a última trincheira dos passadistas.Não vêm porque têm medo de nós! Mas trata-se de evidente calúnia. – E então uma voz clara se levanta do fundo da sala. como por exemplo o arroz temperado com laranja. mesmo se os anos nos acenam com suas chuvas e suas neblinas. Mas os dois cozinheiros estão incertos.indd 194 7/4/2009 15:51:25 . a barriga. mas os tagliatelle são outra coisa!” Por fim. Temem ser satirizados e parece que dizem em seu mudo discurso: . a obesidade.

nos quais o chefe dos futuristas foi obrigado a marcar a própria assinatura.P.A. 3) Houve em Nápoles cortejos populares a favor do macarrão.Exª. Seria possível formar diversos volumes recolhendo toda a explosão de bizzarria. Paris. igualmente bons.A cozinha futurista mil pratos. enquanto os comensais levavam como recordação os pratos de lata.I. Novara. 2) Apareceu nos jornais de Gênova o comunicado da fundação de uma Sociedade chamada P. depreciados. com a ponta de um garfo que fazia as vezes de buril”. S. Chiavari e Bolonha. porém mais adequados à sensibilidade modificada e às necessidades modificadas da geração contemporânea. nem mesmo com problemas importantíssimos. tão profunda era nelas a fé no macarrão. As mulheres de Áquila que nunca antes se haviam preocupado.indd 195 7/4/2009 15:51:25 . Anedotas típicas Além dos milhares de artigos nos quais eram discutidos. Com uma nova explosiva saudação aos colaboradores bolonheses. julgaram necessária esta sublevação coletiva. São típicas as seguintes anedotas: 1) Em Áquila. condenados e defendidos os grandes banquetes futuristas de Torino. 195 Cozinha futurista. Marinetti concluiu o seu discurso e o Aerobanquete terminou. um número incalculável de mulheres se reuniu para assinar uma solene carta-súplica a favor do macarrão. em todas as revistas ilustradas ou diretamente entre o público. um enorme número de caricaturas e de anedotas circulava em todos os semanários. invenções e humorismos sugeridos pela cozinha futurista e pela sua realização. ( Propaganda internacional contra o macarrão) que abria vários concursos para combater a iguaria odiada e inventar novos alimentos. Esta carta foi dirigida a Marinetti. exaltados.

durante um grande jantar estudantil. em Bolonha. declamaram-se pró e contra a cozinha futurista. 7) Apareceram em algumas revistas de grande tiragem fotografias de Marinetti no ato de degustar o macarrão: eram montagens fotográficas executadas por experts adversários da cozinha futurista. um teatro de revista intitulado “carnescultura”. e aconteceram então discussões e polêmicas violentíssimas entre os dois partidos. preparam outras inovações originais. chegou de improviso F.Fillippo Tommaso Marinetti 4) Em São Francisco. 196 Cozinha futurista. Alguns feridos. um novo sentido de otimismo e de alegria dissipou o nostálgico e cinzento hábito dos velhos jantares e os futuristas. 8) Representou-se. os mais célebres cozinheiros organizaram um congresso para decidir o mérito da cozinha futurista. e aconteceu então uma clamorosa batalha pelas janelas e na rua com projéteis comestíveis e panelas. situadas uma no térreo e outra no primeiro andar de uma casa popular. Califórnia. os clientes de duas trattorias italianas. 5) Em Turim. enquanto alternam-se as polêmicas. T. 9) Representou-se em Turim uma opereta de Sparacino e Dall’argine intitulada “Santopaladar”. que tentavam assim desacreditar a campanha por uma nova alimentação. para o espanto de todos. No entanto.indd 196 7/4/2009 15:51:25 . 6) Em Bolonha. comeu avidamente um prato de espaguete: somente depois os comensais perceberam que Marinetti não era nada além de um estudante habilmente maquiado. superando as primeiras realizações. Marinetti que.

onde será servido um “peixe colonial ao rufar de tambor” e “carne crua esquartejada pelo som de trompa”. será aberto e recheado 5 Peixe da família dos mugilídeos. ou sair em vôo para bombardear cidades ou contra-atacar tropas inimigas. No momento de servi-lo. para entrar na linha de fogo às 4. Inadequada a leitura de um livro ameno. Coloquem. mediante a arte de harmonizar os pratos futuristas. com o intuito de torná-la leve. de uma esposa. procurariam em vão uma preparação perfeita no beijo doloroso de uma mãe. douradas ou prateadas. Um passeio sonhador é igualmente inadequado. dos filhos ou em cartas apaixonadas. ao contrário. comestíveis. 197 Cozinha futurista. Combinamos programas de refeições a que nós chamamos SUGESTIVAS E DETERMINANTES. Cardápio heróico invernal Os combatentes que devem subir no caminhão às 3 da tarde. licor. em janeiro. com grandes escamas arredondadas. infusa por 24 horas em um molho de leite.indd 197 7/4/2009 15:51:25 . A cozinha futurista propõe-se ainda. PEIXE COLONIAL AO RUFAR DE TAMBOR: mugem5 aferventada. a sugerir e determinar os indispensáveis estados de ânimo que não se poderiam sugerir e determinar de outro modo. espiritualizá-la e dinamizá-la. estes combatentes à mesa. alcaparras e pimenta vermelha. São fusiformes.A cozinha futurista Os cArdápiOs FuturistAs sugestivos e determinantes A cozinha futurista propõe não somente uma revolução completa na alimentação da nossa raça.

Fillippo Tommaso Marinetti com conserva de damasco intercalada com rodelas de banana e fatias de abacaxi. No momento de partir. serão servidos aos combatentes pratos de caqui maduro. suavíssimos perfumes de rosa. servi-la sobre um leito de pimenta vermelha. conhaque e vermute branco. cuja doçura nostálgica e decadente será brutalmente refutada pelos combatentes. Enquanto estas desaparecem nas bocas. jasmim. separando-os uns dos outros com impetuosas notas de trompa sopradas pelo mesmo “comedor”. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de verão de pintura-escultura Após um longo período de repouso. romãs e laranjas vermelhas. com borrifadores. pimenta preta e neve. mantê-la por 24 horas em uma infusão de rum. Extraída da mistura. serão espargidos na sala. 198 Cozinha futurista. madressilva e acácia. durolíqüido constituído por uma bolota de queijo parmesão macerado em Marsala. CARNE CRUA ESQUARTEJADA PELO SOM DE TROMPA: cortar um cubo perfeito de carne bovina. No momento do Paraselevantar. que colocarão como raios a máscara contra gás asfixiante. Eletrocutá-la com correntes elétricas. um pintor ou um escultor que deseje retomar sua atividade criadora às 3 horas da tarde de verão. Mastigar atentamente por um minuto cada bocado. tentaria em vão excitar a própria inspiração em uma refeição suculentatradicional. Será comido sob o rufar continuado de um tambor.indd 198 7/4/2009 15:51:25 . engolirão o Explosãonagarganta.

mas morno. bananas descascadas e óleo de fígado de bacalhau. vestidos de lã branca e sem jaqueta. um prato fundo cheio de vinagre forte. um maço de salada. sob um caramanchão que deixe passar os dedos quentes do sol. uma ansiedade entre o literário e o erótico que não pode ser apagada por um café da manhã normal. Acaso.A cozinha futurista Empanturrado. sem talheres. servida uma refeição de puros elementos gastronômicos: uma sopeira de bom molho de tomate. não temperada e fora do prato. verde. Comerão tudo? Experimentarão partes? Intuirão as relações fantásticas sem sequer experimentar? À vontade! 199 Cozinha futurista. deveria passear para digerir e entre inquietudes e pessimismos cerebrais. um prato fundo cheio de azeite. Ponham a mesa então ao ar livre. Seja-lhe. terminaria por consumir a jornada fanfarronando artisticamente sem criar arte alguma. pétalas de rosa. bicarbonato de sódio. um prato fundo cheio de mel. uma grande polenta amarela. ao contrário. eqüidistantes. um maço de rosas brancas com caules relativamente espinhosos. e desobedecendo continuamente aos hábitos enraizados nos nervos. alho. sirva-se imediatamente um prato sinóticosingustativo de pimentões.indd 199 7/4/2009 15:51:25 . mate a fome enquanto observa o quadro do “Jogador de Futebol” de Umberto Boccioni. um grande maço de rabanetes vermelhos. Não quente. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio vocabulivre primaveril O atravessar de um jardim primaveril entre os doces fogos de uma aurora cheia de timidez infantil deu a três jovens.

Põem-se eles finalmente a comer. beber. um prato de tradicionais tortellini in brodo. para que sirva o mais rápido possível. Diretamente sobre as cabeças a camponesinha servirá. Formarão imediatamente uma relação metafórica inusitada entre os pimentões (símbolo de força campestre) e o óleo de fígado de bacalhau (símbolo de mares nórdicos ferozes e necessidade curativa de pulmões doentes). cochichantes. a seguir. Cada dente do alho será então cuidadosamente envolvido nas pétalas de rosa pelos mesmos dedos dos três convidados que assim se distrairão a combinar poesia e prosa. Os jovens a convidarão.Fillippo Tommaso Marinetti Convenientemente comerão. polemizando à mesa com adjetivos iluminantes. lamber. assobiantes. ruminantes. rumorismos abstratos. Provam então mergulhar o pimentão no óleo de fígado de bacalhau. com altivas palavras em liberdade fora de qualquer ordem lógica e diretamente expressas pelos nervos. Isto fará com que o seu paladar alce súbito vôo procurando no prato sinóptico-singustativo uma indispensável nova harmonia. verbos fechados entre dois pontos. Mas o tédio e a monotonia poderiam nascer depois que os paladares tivessem provado o alho com rosas. levando nos braços uma bacia cheia de morangos nadando no Grignolino bem açucarado. Entra então a camponesinha jovem e gorda. roncantes. desmacular-se.indd 200 7/4/2009 15:51:25 . ralhantes e cantantes em giro. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti 200 Cozinha futurista. O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. gritos animalescos que seduziriam todos os animais da primavera.

sem comer. à esquerda dos comensais. vinte e cinco cerejas ao licor. doze batatinhas fritas. Depois. único alimento. Depois. silêncio de um minuto. Depois. Depois. Depois. dois casais se sentam a uma mesa rústica formada por troncos de carvalho. para serem olhadas e cheiradas intensamente. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio noturno de amor Terraço de Capri. arrancado no quarto da esquerda pelo filho convalescente da camponesa. A morena peituda e bunduda cozinheira caprese entra carregando um enorme presunto sobre uma bandeja e diz 201 Cozinha futurista. quatro longos apertos de mão na camponesa-cozinheira e todos para fora no escuro vento chuva do bosque. o assobio que o vento infiltra pela fechadura da porta. dois minutos de grão de bico em azeite e vinagre. Duelará com aquele assobio o gemido longo mas afinado de um som de violino. Depois. um gole de vinho Barolo mantido na boca por um minuto. Depois. Agosto. sete alcaparras. A lua a pico serve abundante leite talhado sobre a toalha. um silêncio de quinze minutos durante os quais as bocas continuam a mastigar o vazio.indd 201 7/4/2009 15:51:25 . pela mesa ainda vazia passará. Depois. Esperando a camponesa-cozinheira. O rápido crepúsculo sangüíneo agoniza sob as enormes barrigas das trevas como sob chuvosos e quase líquidos cetáceos. Depois. uma codorna assada para cada um dos convidados.A cozinha futurista Cardápio musical de outono Em uma cabana de caçadores semi-escondida em um bosque verde-azul-perfumado.

202 Cozinha futurista. vem ao seu encontro do fundo do quarto aberto. Comam abundantemente. A cama. pasta de amêndoas. caviar. fascinada. uma pitada de noz moscada e um cravo: tudo liqüefeito em licor Strega. Roast-beef circundado por lacumias e Hallaua6.” Os dois amantes devoram metade do presunto. e Hallaua é um alimento de origem árabe. chocolate.indd 202 7/4/2009 15:51:25 . servido com mel. Depois uma taça de Asti espumante. uma pitada de pimenta vermelha. deixei-o infuso por uma semana no leite. Depois o Guerranacama.“é um presunto que contém uma centena de carnes diversas de porco.Fillippo Tommaso Marinetti aos dois amantes reclinados nas duas espreguiçadeiras e incertos sobre retomarem as fadigas da cama ou iniciarem aquelas da mesa: . circundado de risoto ao açafrão. a base de gergelim. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio turístico (realizada para a Mostra circulante futurista Paris-Londres-Bruxelas-Berlim-Sofia-Istambul-Atenas-Milão) Lista dos pratos: Pré salé aux petits pois. Leite verdadeiro. cada uma com onze gotas de Moscato de Siracusa em sua água marinha. de origem grega. 6 Lacumia é uma espécie de bolinho. Para adocicá-lo entretanto e liberá-lo da aspereza e da virulência original. grande e já cheia de lua. Entrarão então na cama levantando no pequeno copo o bebericável Guerranacama composto de suco de abacaxi. não aquele ilusório de lua. ovos. Seguem as grandes ostras.

o Esganador. TERCEIRO: as caras feias produzida pelos problemas mundiais insolúveis. SEGUNDO: a reserva dos diálogos. Na refeição oficial futurista. toma a palavra. Enguia marinada recheada com minestrone à milanesa gelado e com damascos recheados de anchovas. QUARTO: o rancor das fronteiras. que deve se desenvolver em um amplo salão adornado por enormes quadros de Fortunato Depero. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio oficial O cardápio oficial futurista evita os graves defeitos que poluem todos os banquetes oficiais: PRIMEIRO: o silêncio embaraçado que deriva da falta de harmonia preexistente entre os vizinhos da mesa. que nadem em um mar de conhaque. devido à etiqueta diplomática. sem se levantar.indd 203 7/4/2009 15:51:25 . 203 Cozinha futurista. convidado não-pertencente a nenhum corpo diplomático e a nenhuma política. QUINTO: o tom baixo pálido fúnebre banal dos pratos. Poças de mel e poças de vinho dos Castelos romanos alternados em uma planície quadrada de papa de batatas. mas escolhido entre os mais inteligentes e mais jovens parasitas da aristocracia e famoso pelo seu conhecimento total de todas as piadas obscenas. Pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado. após uma distribuição rápida de polibebidas e entreosdois. Suco de morangos para ser bebido com friturinhas ao óleo.A cozinha futurista Lingüiças nadando em cerveja pulverizadas de pistaches cristalizados.

tapioca e leite em sopeira de convento para satirizar e espantar toda diplomacia e toda reserva. as ironias e as brincadeiras. repetirá suas desculpas. e temperadas mergulhando seus pedaços nas pequenas tigelas oferecidas com azeite. apenas terão seu volume diminuído e eis que ainda na entrada. ovos e baunilha.Fillippo Tommaso Marinetti O Esganador. Seguem: 1) “Os antropófagos inscrevem-se em Genebra”: um prato de várias carnes cruas para serem cortadas à vontade. pimenta vermelha. 7 Balestite é um explosivo. Usado para dar mais potência aos canhões 204 Cozinha futurista. ele. com base de nitroglicerina. 2) “A Sociedade das Nações”: salaminhos negros e canudinhos de chocolate nadando em um creme feito com leite. Ao Paraselevantar o diretor da refeição oficial entrará e com muitas desculpas cerimoniosas pedirá para esperar a chegada há muito anunciada. açúcar. risoto de açafrão. Os comentários. dirá subitamente a meia voz três piadas obsceníssimas. (Esta iguaria será saboreada enquanto um negrinho de 12 anos fará cócegas nas pernas e beliscará as nádegas das senhoras. de uma fruta paradisíaca escolhida no Equador. que acolherão as desculpas do diretor. o Diretor. velho Barolo. será servida uma gororoba de semolina. vinagre. descoberto por Alfred Nobel. dentro.indd 204 7/4/2009 15:51:26 .) 3) “O tratado sólido”: castelo multicolorido de torrones com. Uma vez generalizado de uma ponta à outra da mesa o fogo cruzado das gargalhadas dos comensais. mel. pequeninas bombas de balestite7 que explodirão a tempo perfumando a sala com o típico odor das batalhas. manteiga. gengibre. sem abandonar-se entretanto à inconveniência. e do sorvete desgraçadamente tanto arquitetado que caiu pouco antes na cozinha. Assim por toda uma meia hora. orientando-se pelo maior ou menos grau de mau humor a combater. mas sempre atrasados por impedimentos e desastres automobilísticos e por descarrilamentos ferroviários.

pentes e grampos de inveja. Ser-lhe-á então oferecida uma seleção dos melhores vinhos italianos. bem penteado. da revisão dos tratados e da crise financeira. profissional.A cozinha futurista Então entrará. o bêbedo de sempre pescado nas periferias naquela mesma noite e levado à força para a sala do banquete oficial.indd 205 7/4/2009 15:51:26 . ao invés da fruta milagrosa. conselhos. do ponto de vista intelectual. Todos desejam felicidades como se libertam raças com o medo na ponta dos dedos e da língua. As crianças se enchem de confetes e rolam sobre as flores de laranjeira do vestido nupcial. repugna-lhes estabilizar o paladar e o estômago. A sogra espalha febrilmente cumprimentos. em conserva de vinagre. Os primos. olhadas piedosas e olhares de falsa alegria. estando todos no instável. O esposo. qualidade e quantidade. 205 Cozinha futurista. sob uma condição no entanto: que fale por duas horas sobre as possíveis soluções para o problema do desarmamento. Ninguém pode comer nem provar as bebidas já que. A virgem já está nos braços dos anjos. As amigas da esposa. Logicamente pedirá para continuar bebendo. está em conserva de óleo. todas escovas. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de núpcias As refeições de núpcias comuns sob a sua aparente e ostentada festividade escondem mil preocupações: se o casamento será feliz ou não. carnal. econômico. prolífico.

Serão servidos então cogumelos trufados. Muitos devoram os cogumelos. Eu não hesito. cheia de risoto à milanesa com açafrão e abundantes trufas de coloração pecado. nos bosques de Pistóia ensopados de chuva. reentrará com uma bacia. malvado!” Então. ao cair também. Se este prato. amarelar o vestido nupcial como uma duna africana. distante ou próxima? Pouco importa.. Há cogumelos de toda espécie. exceto aquela venenosa. põe-se a gritar segurando a barriga o janota habitual de todas as festas de casamento. O cozinheiro. De qualquer modo estão tão bem cozidos que lhes aconselho atacá-los audazmente. equilibrada sobre a cabeça.Fillippo Tommaso Marinetti Reina então durante a refeição um equilíbrio que responde ao equilíbrio dos estados de ânimo. entrando enfurecido. “Não tem medo. fígado e feijão em caldo de codorna) é conduzida no alto sobre três dedos pelo cozinheiro que salta com a perna esquerda. entre uma perdiz e uma lebre. Conseguirá ou não? Talvez entorne e as marcas sobre o vestido nupcial corrigirão oportunamente a insolente e pouco fortunosa brancura excessiva. Fingirá sofrer ou realmente será torturado por dores de origem misteriosa.indd 206 7/4/2009 15:51:26 .“eu mesmo os recolhi todos. pede demissão porque foi ofendido 206 Cozinha futurista.. “São tão bons”. Todos riem. ao sair um instante. A menos que minha miopia tenha me pregado uma bela peça. será tanto um ganho de tempo mediante um final de viagem imprevista.diz a esposa. Uma sopeira de magnífica sopa conhecida e amada por todos (arroz. O esposo se mantenha calmo: será ele que. querida?” “Temo-os menos que suas prováveis traições. pomposamente elogiados pelo habitual caçador maníaco: . Proceda-se à limpeza com a ajuda de todos. mesmo temendo a presença de alguns absolutamente mortais”. Explode naturalmente uma competição heróica. certamente um pouco cedo.

acrescenta o janota.indd 207 7/4/2009 15:51:26 . parece viva. Segue um Fernet para todos. depois recheadas de feijões cozidos em um mar de leite. tive que descer até o fundo da torrente e subir novamente.A cozinha futurista mortalmente pelas suspeitas e não pelos cogumelos que são inocentísssssssimos. aquela ali.Entre todas essas perdizes. regando-o com vinhos Barbera e Barolo. move-se ainda talvez. isto é. Recomeça o caçador: “. 207 Cozinha futurista. a maior. Entontecidos pelas palavras. sempre sob a eloquência do caçador. verificadísssssssimos. custou-me uma perseguição de dez quilômetros. Comida de caçadores. De uma costa a outra. Frio intenso nos comensais. A cada vez reconhecia as mais belas penas avermelhadas. são servidas lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias.” -“Para a virtude ambulante dos vermes. os convidados comem-no abundantemente. Agora está finalmente parada. Mas. Ele mesmo preparou na cozinha esta iguaria formada com a pasta de outras perdizes quase putrefatas e maceradas com os velhos queijos robiola no rum. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio econômico 1) “O agreste absoluto”: maçãs assadas ao forno. embriagados pelo suavíssimo perfume de cloaca suave. no mesmo vale. aos estômagos agora tão aquecidos por equilibrismos de felicidade. que substitui o habitual sorvete inadequado. move-se”. por outro lado. cogumelos alarmantes e perdizes dinâmicos.

metade formado por pesto de espinafre e metade por patê de lentilhas. imitando sua típica voz de míope cano de escapamento. Benedetta. Dottori e Mino Rosso. Em uma sala. são apresentados. sobre uma mesa cujas quatro pernas serão constituídas por acordeões.indd 208 7/4/2009 15:51:26 . 4) “Bosque inundado ao pôr-do-sol”: endívias cozidas ao vinho. salpicadas por feijão cozido e caramelizado. 3) “Pimentão urbanístico”: grandes pimentões vermelhos que fecharão. Este menu deve ser degustado enquanto um hábil recitador faz explodir a lírica humorística do Poeta-record Nacional Farfa. 4) A inevitável aceleração do ritmo das mandíbulas que fogem do tédio. uma pasta de maçãs cozidas envoltas em folhas de alface caramelizadas. decorada com aeropinturas e aeroesculturas dos futuristas Tato. 3) A falta de carne humana viva e presente que é indispensável para manter o paladar do homem confinado na zona das carnes animais. 2) O silêncio carregado de pensamentos meditativos que contamina e enchumba os pratos.Fillippo Tommaso Marinetti 2) “Abominação campestre”: berinjelas cozidas em tomate. os pratos-retratos: 208 Cozinha futurista. depois recheadas com anchovas e servidas sobre um leito. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de solteiro A cozinha futurista propõe-se a evitar os defeitos que distinguem as refeições dos solteiros: 1) A solidão anti-humana que fatalmente absorve uma parte das forças vitais do estômago. cada um. em ressoantes pratos ornados de sininhos.

a terceira para a massa dos odores do mar e relativa peixaria. 4) “Porta-retrato dos inimigos”: sete cubos de torrone de Cremona. mas serão saciados apenas de perfumes. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio extremista Para esta refeição em que não comerão.A cozinha futurista 1) “prato-retrato louro”: um belo pedaço de vitela assada esculpido com duas grandes pupilas de alho em um ninho de repolho triturado e fervido e alface verde. duas coxas de frango cozidas.indd 209 7/4/2009 15:51:26 . calmo preguiçoso solitário putrefato. Bem engravatado com tripa ao brodo. em uma língua de terra que divida o mais lacustre dos lagos. 2) “Prato-retrato do amigo moreno”: bochechas bem modeladas de massa podre – bigodes e cabelos de chocolate – grandes córneas de leite e mel – pupilas de alcaçuz. que se abrem eletricamente mediante botões postos sob os dedos dos convidados dão: a primeira para a massa dos odores do lago. a quarta sobre a estufa quente e relativa ciranda de plantas odoríferas raras deslizante sobre trilhos. Será servido em uma casa de campo construída especialmente por Prampolini (a partir da concepção de Marinetti). 3) “Prato-retrato da bela desnuda”: em uma pequena bacia de cristal. Uma romã aberta na boca. cada um com uma poça de vinagre por cima e sobre um dos lados pendurado um grande sino. a segunda para a massa dos odores de um paiol e relativo reservatório de frutas. 209 Cozinha futurista. As portas-janela. tudo coberto por pétalas de violeta. do mais amplo e marino dos mares. cheia de leite apenas ordenhado. estejam os convidados em jejum há dois dias. Brincos pendurados de rabanetinhos vermelhos untados em mel.

mantidas fora das janelas escancaradas como as comportas de um canal. mas também imbecis. deslizando automovelmente. Uma pausa de silêncio concedida à invasiva policonversação e quacrelogia das rãs lacustres que acompanharão a abertura lenta da 8 Flor da esponjeira. cachia8 e pimenta vermelha. Fora. Os três complexos-escultura vaporizantes param de um só golpe com a irrupção na sala de três ajudantes de cozinha embainhados de seda branca e alto chapéu branco luminoso. 2) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um navio de berinjelas fritas cobertas de baunilha.indd 210 7/4/2009 15:51:26 . Os onze convidados (5 mulheres. 3) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um lago de chocolate que circunda uma ilhota de pimentões recheados com geléia de tâmaras. Máxima intensidade dos perfumes da paisagem circundante. O neutro treme como um sismógrafo esperançoso. que gritam: -“vocês são os chefes. grandes artistas? Parem de enrolar ou pegamos todos vocês a chutes”. 210 Cozinha futurista. No comprimento de uma mesa em forma de paralelepípedo afloram. com o qual capturar à vontade o odor espargido do canto munido de um potente aspirador. desaparecendo e reaparecendo: 1) um complexo-escultural munido de vaporizador com a forma e o odor de um castelo de risoto à milanesa golpeado por um mar de espinafre encristados de creme. Vocês se decidem ou não se decidem a comer os pratos refinadíssimos preparados por nós. Antes da refeição os convidados declamam “Elogio ao outono” do poeta futurista Settimelli e “Entrevista com um Caproni” do poeta futurista Mario Carli.Fillippo Tommaso Marinetti Noite de Agosto. 5 homens e um neutro) têm um pequeno ventilador de mão cada. Um ensurdecedor toque de sinos de 5 minutos.

cozinheiros belos. encontra-se com o perfume idêntico. Curto assombro. saindo da estufa. veios de amoníaco e uma lembrança de ácido fênico. ou então veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas”. põem-se a mastigar febrilmente o vazio. Mas a frase é cancelada junto com o mar e relativa peixaria prateada por prepotentes perfumes de rosa de tal modo curvilíneas e carnudas que as onze bocas. o segundo de abacaxi. deixadas até agora pensativas ou atônitas. Entra um perfume agro-suave-pútrido-delicadíssimo de lírios civilizados que. Abre-se então a porta-janela do reservatório de frutas e quatro odores (o primeiro de maçãs. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio dinâmico 211 Cozinha futurista. com visões de imensos golfos espumosos e tranqüilos cais verdes frescos ao amanhecer. Os ventiladores de mão cancelam tudo. Os cozinheiros espiam pela porta e desaparecem. Confusão. mas subitamente irrompe da outra porta-janela o mar com cem chispares e enguiamentos de odores salinos. Gane o convidado neutro: -“Pelo menos doze ostras e dois dedos de Marsala”.indd 211 7/4/2009 15:51:26 . Todos os convidados apontam os ventiladores de mão como escudos contra a porta-janela lacustre. de velhos juncos queimados. O neutro choraminga: -“Por caridade. vindo do lago. mas selvagem. Escapa um relincho do convidado neutro.A cozinha futurista porta-janela pressionada pelos odores de ervas podres. tragam-nos qualquer coisa para mastigar. o terceiro de uva e o quarto de alfarroba) precipitam-se na sala tornada inodora. Os dois perfumes de vida carne luxúria morte sintetizam e então apagam todos os onze paladares famintos.

mas o doutor bufa.indd 212 7/4/2009 15:51:26 . Os jovens. Os longos garfos vermelhos do pôr-do-sol entrelaçavam-se com os nossos. Marinetti descreve sua ansiedade de fugir do inevitável empantanamento da sensibilidade durante a refeição: “Na noite de primeiro de junho de 1918 na barraca dos bombardeiros desafiadoramente plantada obliquamente sobre uma cresta montanhosa do Vale do Ástico. empurro brutalmente o meu companheiro da direita. enrolando os espaguetes sangüíneos e fumegantes. Sabem da minha fantasia fecunda em piadas e excitam-me com olhares. Fome de bombardeiros depois de uma jornada de trabalho duro. pão. Todos empurram o doutor. Uns vinte oficiais. T. tenentes. espremem-no como uva. Silêncio religioso de bocas que mastigam orações suculentas. faca.Fillippo Tommaso Marinetti No romance “L’Alcova d’Acciao” F. O prato de macarrão entorna sobre a farda. que cede de má vontade.Para não empantanar a nossa sensibilidade. gritos. Levantamno como a um peso. marche! Depois levantando como posso pratos. agir. Dominando o tumulto. eu comando: 212 Cozinha futurista. reclama. prontos. executam o exercício. capitães. Há muito silêncio à mesa. coronel Squilloni alegre e posudo na cabeceira da mesa. Cabeças inclinadas sobre os pratos. Com quatro bocados aplaco meu estômago. alvoroço. comia-se e bebia-se alegremente. e o bom doutor está absorvido gravemente demais no ritual do macarrão. digo em alta voz: . Despencar de copos. grita. Espirram os seus gritos. Mas os mais jovens não amam as pausas e querem rir. Risos. Inundação de vinho. copos. deslocamento de dois lugares à direita. depois me levanto e brandindo uma garfada de espaguete. levanta tudo ele também e empurra à direita.

interromper com elasticidade futurista a sua barrigada passadista! Todos riem. renovar integralmente a Itália depois da vitória? Imponho-lhe. tombos. Gritos. imponho: . ou a fraqueza de certos superiores? Com elasticidade abandonamos o Carso após Caporetto. E você. de assalto! E termina-se a refeição confusamente. com grande farfalhar de risadas na risada fulva do crepúsculo. “caramba!”. fora. sacudidas. Onde está o doutro? Onde está? Todos o procuram. um calo. Turbilhão. Mas os jovens são tenazes e com força imprimem à multidão uma volta tumultuosa em torno da mesa. uma otite.A cozinha futurista . pratos e copos nas mãos! Giro total da mesa em cortejo! O reboliço se torna infernal. Agrada muito ao coronel o jogo bizarro.indd 213 7/4/2009 15:51:26 . não se esqueça de que a mais alta e preciosa virtude é a elasticidade. “Acabem com isso!”. rufares e becchegiro9.. “Basta!”. caro doutro.Deslocamento cumprido! Todos sentados! Mas problemas. socos. debandados. Como poderia. Somente o doutor não se diverte. Fora. Os meus amigos cantam ao redor do doutor o hino da burla futurista: Iró iró iró pic pic Iró iró iró pac pac 9 O substantivo refere-se provavelmente a um movimento ou um som semelhante ao feito por um barco em alta velocidade. uma sífilis. esmagar o passadismo austro-húngaro. sem elasticidade. garrafas espumantes de ouro. cirros de porcelana violeta amassados. curar um gânglio.. Fugiu para o terraço com o seu prato de macarrão. rimos enquanto o coração chorava na retirada. ao bater na água. 213 Cozinha futurista. todos nuvens de cristal incandescente.Para não empantanar a nossa sensibilidade. Como poderíamos. problemas a quem ainda deixa empantanar a própria sensibilidade!. O doutor me olha assustado. luminoso banquete aéreo suspenso a pico na planície vêneta crepuscular. caro doutor. Ameaçando-o burlescamente. sem elasticidade.

com bocas mastigantes e mãos agarrantes. Seqüência de bocas dentes mãos. tudo enrolado em uma finíssima fatia de presunto macerada em Marsala. bocas abertas e mãos ameaçadoras.Fillippo Tommaso Marinetti Maa – gaa – laa Maa – gaa – laa RANRAN ZAAAF Matavam assim as nostalgias”. as mangas arregaçadas. um sem a cabeça. Com um final de batalha gastronômica. 4) “Perdendo uma roda”: quatro tordos assados com muito gengibre e sálvia. serão mantidos fora da porta de uma sala de ginástica onde pelo chão e em pequenas pirâmides serão dispostas as comidas anunciadas. O habilíssimo entretanto será aquele que conseguir. embrulhados em fatias de abacaxi e regados com Asti espumante. de bocas abertas. Os convidados vestidos esportivamente. fugir para o campo. os lutadores não ensacam os golpes: engolem-nos. coberta de vinho moscato de Siracusa. Ao escancarar da porta. superando janelas e terraços. 2) “Em quarta”: 200 fios de algodão doce enrolados num novelo. envoltos e embolotados em uma fatia de polenta esborrifada com água de colônia italiana. 3) “Colisão de automóveis”: semi esfera de anchovas prensadas conjunta a uma semi esfera de pasta de tâmaras. 5) “Bombas de mão”: esfera de torrone de Cremona envolta em uma grande bisteca malpassada. conquistar uma vintena de bolas comestíveis e. *** Dinamicamente então propomos os seguintes pratos: “Passos de corrida”: composto de arroz. todos se precipitarão furiosamente de assalto. Comerão melhor aqueles que conseguirem manter à distância os adversários com chutes. rum e pimenta vermelha. inspirando-se no grande quadro “O jogador de futebol” de Umberto Boccioni.indd 214 7/4/2009 15:51:26 . 214 Cozinha futurista.

Bellonzi. Samzin.A cozinha futurista Fórmula do aeropoeta futurista e do aeropintor futurista Marinetti Fillìa Cardápio arquitetônico sant’elia Em honra do Poeta-Record nacional de 1931. um sobre o outro em forma de torre. Vinte tubos (1 metro de altura) de pasta de tâmaras. belvederes. Cinco blocos ovais (20 cm de altura) de pasta de bananas. os pintores Dormal. Cinco pirâmides (40 cm de altura) de minestrone frio. Giacomo Giardina. Vittorio Orazi. Maino. Voltolina e Degiorgio do grupo paduano e os pintores Alf Gaudenzi e verzetti do grupo futurista e vanguardista “Síntese”. isto é. com uma sensibilidade espacial que coloca o glorificado a 600 quilômetros dos glorificantes. aperfeiçoamna com os dentes. os poetas futuristas Escodamè. prensado. rampas de aeroportos. Civello. pistas sobrelevadas: Trezentos cubos (3 cm de altura) de massa podre. cais de portos militares. Rognoni. estádios esportivos. Burrasca. subiram e comeram alternativamente. Gerbino. sentados cada um sobre tambores (15-60-100 e 300 cm cada) não-comestíveis de macarrão comprimido. Seis esferas (15 cm de diâmetro) de risoto à milanesa. Farfa (vencedor do circuito de poesia “Sant’Elia”). Os futuristas.indd 215 7/4/2009 15:51:26 . com mãos de criança. Sete telas (60 cm de altura) de bacalhau ao leite. ligados todavia por fio eletrônico. reunidos na Direção do Movimento Futurista em Roma. para melhor construir a casa futurista. Vasari e Soggetti. arquitetonicamente. arranha-céus. Krimer. 215 Cozinha futurista. Oito paralelepípedos (10 cm de altura) de espinafre na manteiga. baterias de encouraçados. Pandolfo. Dez cilindros (30 cm de altura) de torrone de Cremona.

Besuntam-nas com curry em pó e devolvem-nas às suas cascas tingidas aqui e ali por azul de metileno. os comensais 216 Cozinha futurista. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeroescultural na fuselagem Na grande fuselagem de um Trimotor. entre as aeropinturas dos futuristas Marasco. comerão assim vilarejos. Benedetta. ovas e fígado de lagosta. entre as aeroesculturas de metais aplicados dos futuristas Mino Rosso e Thayaht. Os comensais. casca de limão. chácaras e planícies raptadas em velocidade. empunhando pequenos sinos de cerâmica cheios de Barolo misturados a Asti espumante.indd 216 7/4/2009 15:51:26 . Oriani e Munari. Recheiam-nas com uma pasta de gema de ovo. cenoura. que se ligam aos aerocumes e às nuvens do horizonte navegado a mil metros. os comensais liberam do casco intactas 5 lagostas e cozinham-nas eletricamente na água do mar. Tato.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropictórico na fuselagem Na ampla fuselagem de um grande Autoestável DeBernardi. Bizarramente depois as 5 lagostas serão dispostas em desordem e distanciadas sobre uma grande aerocerâmica Tullio d’Albisola acolchoada por vinte qualidades diferentes de salada: estas geograficamente dispostas em quadrados. timo. alho. alcaparras.

serão servidos sobre uma grande bandeja no centro da fuselagem. Encherão onze formas (untadas e enfarinhadas) cada uma de um formato típico de montanha. Os 11 doces.000 metros em um céu bipartido: dengoso luar de meia lua madreperolado e esverdeado e semi-esfera de meias nuvens fulguradas de longos escorpiões de ouro. pão-de-ló e biscoitos triturados. cebolinhas. tomate e polpa de lagosta. À frente dos comensais. despenhadeiro. a sugar a geléia de anis branco que filtra uma nuvem. Perto dele o conta-giros. Todos serão cozidos eletricamente. seu companheiro de refeição. pedaços de solha.000 217 Cozinha futurista. açúcar semolado e perfumado de baunilha. Abaixo a pico um rio de solidíssima prata derrete o estuário das suas enguias frenéticas em um mar de piche adornado por níquel lunar. ovos. polpa de camarões. promontório ou ilhota. através da outra janelinha. denuncia: 20. enquanto os comensais brincarão e devorarão massas de claras em neve como faz o vento lá fora com os cimos e os cúmulos brancos.000 metros comidos. regada abundantemente com Vinho Santo toscano. A janelinha da direita: tilintar de vidro madeira tintilhões e sininhos. em número de três.indd 217 7/4/2009 15:51:26 . Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropoético futurista Na fuselagem de um Trimotor voando a 3. o altímetro redondo denuncia: 3. Os olhos fogem à direita. depois de liberados das formas. frutas cristalizadas e queijo gruyère. Na boca responde-lhe rusticamente o sabor de uma bolota de mel.A cozinha futurista prepararão uma massa de fécula de batata.

Um pouco mais de mel das abelhas inspiradoras de poetas gregos na boca do aeropoeta futurista. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio tátil O dono da casa terá o cuidado de preparar. Cada convidado. A boca do comensal humano da direita suga um tubo de neon amarelo vermelho dourado de verão África eterna. A pico sobre si mesmo. Mastigar o infinito. cartões. Leveza. Prampolini e Diulgheroff. deverá vestir separadamente um dos pijamas. o velocímetro denuncia: 200 quilômetros digeridos. sedas. rapidamente. todos serão levados ao salão de banquete provido de muitas pequenas mesas para duas pessoas: estupor do próprio com- 218 Cozinha futurista. Ronco crítico dos intestinos. Balla. Depois. Presença das mãos vazias. todos serão introduzidos em uma grande sala escura. tantos pijamas quantos serão os convidados: cada pijama será feito ou recoberto de materiais táteis diferentes como esponjas. veludos. etc. feltros. palhas de aço. escovas.Fillippo Tommaso Marinetti giros devorados. cada convidado deverá escolher o próprio companheiro de mesa segundo sua inspiração tátil.indd 218 7/4/2009 15:51:26 . Amor quente macio muito distante. com a colaboração dos pintores futuristas Depero. Escolhas feitas. alguns minutos antes da refeição. cortiças. lixas. Obliqüidade da força artística. O estômago do comensal humano central corrige com muitos ácidos vulgares a indigerível potência excitatória do licor de lua abstrato poético suicida. sem móveis: sem ver. lâminas de alumínio. Voar. Do outro lado do altímetro.

em frente às mesas. 219 Cozinha futurista. iniciarão uma lenta dança de grandes gestos geométricos. os garçons esborrifarão em seus rostos perfumes de lavanda e água de colônia. enquanto com a mão esquerda girará a manivela. 2) “Vianda mágica”: servir-se-ão tigelas não muito grandes. de tal modo que os convidados não possam intuir qual sabor será introduzido na boca. até o esgotamento da iguaria. os convidados deverão ininterruptamente nutrir seus dedos no pijama do vizinho de mesa. um prato fundo de porcelana. tâmaras e uvas.A cozinha futurista panheiro indicado pela sensibilidade refinadíssima dos dedos sobre as matérias táteis. mas cada uma recheada de elementos diversos (como frutas cristalizadas ou fatias finas de carne crua ou alho ou pasta de bananas ou chocolate ou pimenta).indd 219 7/4/2009 15:51:26 . recobertas externamente por materiais têxteis rugosos. No prato: folhas de alface sem tempero. Cada um dos comensais usará a mão direita para levar à boca. sem sal. Será preciso segurar a tigela com a mão esquerda e agarrar com a direita as esferas misteriosas contidas no interior: Serão todas esferas de açúcar queimado. 3) “Hortotátil”: serão postos à frente dos convidados grandes pratos contendo uma numerosa variedade de verduras/legumes crus e cozidos. Será servida a seguinte lista de iguarias: 1) “Salada polirítmica”: às mesas aproximam-se os garçons portando para cada convidado uma caixa munida de manivela do lado esquerdo e que tem no lado direito. sem ajuda de talheres. Todas as vezes que os convidados se afastarem dos pratos para mastigar. mas sem a ajuda das mãos. imergindo o rosto no prato e inspirando assim o próprio gosto no contato direto dos sabores sobre a pele das bochechas e sobre os lábios. enfiado pela metade. já que o menu é todo baseado em prazeres táteis. Poder-se-á experimentar a gosto estas verduras/legumes. A caixa liberará assim ritmos musicais: então todos os garçons. Entre um prato e outro. o conteúdo do prato.

fazer-nos servir de uma só vez os tantos pratos regionais. Na sala é regulada uma temperatura de frescura primaveril. Os convidados. “Agreste civilizado”: bolo de arroz branco cozido sobre o qual imprimem-se largas e tenras folhas de rosa. mas não nos foi possível. Serve-se o primeiro prato “Sonho alpestre”: pequenas formas ovais de gelo envolvidas por massa de castanhas e apresentada sobre grossos discos de maçã salpicadas com nozes molhadas no vinho Freisa. Hoje podemos degustá-lo.indd 220 7/4/2009 15:51:26 . querendo provar à mesa o sabor e o perfume de todas as suas hortas. carne de rã desossada e ce- 220 Cozinha futurista. um apetitoso alimento para os estrangeiros. e os pinheiros verdes. Proponho portanto este menu-síntese-da-Itália: Uma quadrada sala de teto azul. antes de comer. No início da refeição a primeira parede é iluminada por trás e ressaltam assim os perfis geométricos das montanhas brancas e morenas. Aumenta a temperatura da sala. os seus pastos e seus jardins.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio síntese da itália A Itália sempre foi. Apaga-se a primeira parede e acende-se a segunda: brilham as esmeraldas dos campos e os vermelhos das fazendas que se perdem entre as terras redondas das colinas e os azuis metálicos dos lagos. cujas paredes são formadas por enormes pinturas futuristas sobre vidro representando: uma paisagem alpina Depero – uma paisagem de planície com lagos e ao fundo colinas Dottori – uma paisagem vulcânica Balla – uma paisagem de mar meridional animado por ilhotas Prampolini. no passado. tingem-se as mãos com azul de metileno.

ostras e alfarroba. consultam grandes atlas. Uma sala de restaurante decorado com alumínio e tubos cromados.A cozinha futurista rejas muito maduras. apresentado navegando em um litro de marsala. caranguejos. sentados em torno de uma mesa de metal com o plano horizontal em linóleo.indd 221 7/4/2009 15:51:26 . Apaga-se a terceira parede e acende-se a última: esplendor das ilhotas luminosas na espuma fervente do mar. pêras cruas e cassis. Na sala. a garçonete-lista-de-pratos: formosa moça jovem inteiramente revestida por uma túnica branca na qual é desenhado a cores um completo mapa geográfico africano que lhe envolve todo o corpo. 221 Cozinha futurista. seguida à distância pelos garçons. o clima é de verão. Os comensais. Enquanto os convivas comem. Quando inicia-se a refeição. “Sugestão do Sul”: uma grande erva-doce na qual são incrustados rabanetes e azeitonas sem caroço. 2. enquanto gramofones invisíveis rodam barulhentos discos negros. Um violento perfume de cravos. gomos de laranja. “Instinto colonial”: um colossal robalo recheado de tâmaras. É levado à mesa envolto em sutis fatias de cordeiro assado e imerso em vinho de Capri. Temperatura tórrida na sala. As janelas redondas permitem vislumbrar misteriosas distâncias de paisagens coloniais. os garçons fazem passar rapidamente sob os seus narizes um quente perfume de gerânio. bananas. giesta e cachia é esborrifado no ar. Apaga-se a segunda parede e acende-se a terceira: dinamismo atmosférico do Vesúvio incandescente. 3. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio geográfico 1. Terminada a refeição acendem-se juntas as quatro paredes e são servidos sorvetes misturados a abacaxi. entra na sala.

6. Neste caso: “Amor sobre o Nilo”. augúrios e previsões volteiam como cópias de impressão. um dos garçons silenciosamente se afastará e retornará em seguida trazendo o prato correspondente àquela cidade. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio de fim de ano O hábito já matou a alegria das grandes ceias de fim de ano: há muitos anos os mesmos elementos concorrem a uma alegria já muitas vezes apreciada.indd 222 7/4/2009 15:51:26 . 222 Cozinha futurista. Dominará portanto uma orientação alimentar inspirada pelos continentes. É preciso destruir os hábitos para sair da monotonia. variando para cada refeição os mapas geográficos e as garçonetes-lista-de-pratos e não permitindo conhecer antecipadamente os pratos. pirâmide de tâmaras sem caroço imersa em vinho de palma. pelas regiões e pelas cidades.Fillippo Tommaso Marinetti 4. Devem-se escolher os pratos não segundo a sua composição. 7. recheado com chocolate e disposto sobre um fundo de carne crua finamente moída e regada com rum da Jamaica. sobre o joelho esquerdo da garçonete-lista-de-pratos. Cada um conhece com antecedência a engrenagem precisa dos acontecimentos. Se um outro comensal aponta com o dedo. Em volta da pirâmide maior. Exemplo: se um comensal aponta um dedo para o seio esquerdo da Garçonete-lista-de-pratos onde está escrito CAIRO. o garçom lhe servirá a “Vianda Abibi”: meio coco. o nome ZANZIBAR. cubos de laticínios de canela recheados com grãos de café torrados e pistaches. Assim continuamente. mas indicando no mapa a cidade ou as regiões que seduzem a fantasia turística e aventureira dos comensais. 5. Lembranças de família.

indd 223 7/4/2009 15:51:26 . Vencido pelo silêncio. outros descobriram o depósito dos vinhos e forma-se assim um banquete excepcional que vai da cozinha ao quarto. gritos e chuva de alimentos. libera-se na sala um peru vivo que se debate assustado entre a surpresa dos homens e os gritos das mulheres que não entendem esta ressurreição da comida ingerida. Belli. levantam-se e lançam-se contra o incauto conservador de tradição. Pandolfo. após a infinita conversação de espera. explode e os convidados se debandam pela casa enquanto os mais audazes invadem a cozinha. Battistella.A cozinha futurista Existem mil maneiras para renovar este banquete: eis um deles. da antesala ao banheiro. como por uma palavra de ordem. Serve-se o infaltável peru que os garçons distribuem em pratos de metal: o peru é recheado de tangerinas e de salame. uma atrás da outra. Desfilam os pratos combinados quase 223 Cozinha futurista. enquanto frigideiras e caçarolas passam de mão em mão entre risadas. à despensa. A cozinheira e as duas garçonetes são afastadas à força e cada um se dispõe a idealizar uma variação nos pratos. Competição violenta entre os fornos acesos. À meia-noite. Todos comem sob um silêncio imposto: o desejo de barulho e alegria é reprimido. A ordem é restabelecida e cada um volta a conter a alegria desencadeada por um momento. Entretanto. um dos presentes diz: -“Ainda não expressei meus desejos para o ano novo. exasperada pelo torpor muito longo. D’Avila. Subitamente.” Todos então. por nós realizado com os futurissimultaneístas de Roma: Mattia. para tentar estabelecer uma conversação qualquer. que é repetidamente esbofeteado. anuncia-se que a refeição está pronta. Na sala as mesas foram eliminadas e os convidados sentaram-se em cadeiras dispostas em fila indiana. Vignazia. etc. A alegria finalmente.

cilindros de queijo parmesão e ovos cozidos. conforme o espírito de veloz harmonia que anima os novos cozinheiros. gomos de limão e fatias de rosbife: a lembrança do passado naufraga em um presente extraordinário. Todas as suas preocupações limitam-se a ajudar o cliente quando veste o sobretudo.indd 224 7/4/2009 15:51:26 .. Convido-os todos para o próximo fim de ano.” Mas naquele momento apresentam-lhe uma tigela cheia de espumante onde navegam couves-flores. Estupor.Fillippo Tommaso Marinetti pela magia. A dona da casa apaga inesperadamente a luz. Os mais jovens berram: -“sepultada a lembrança! devemos iniciar o ano de modo finalmente diferente dos banquetes anteguerra!” Três gramofones funcionam como mesa e sobre discos transformados em pratos rotatórios as senhoras atacam confeitos. nesta mesma data. as dificuldades a vencer por uma nova alimentação são aumentadas pelos proprietários de restaurantes que. para um banquete na Lua. No escuro. Se os proprietários e os funcionários dos restaurantes colaborassem.. ouve-se a voz de um convidado: -“neste ano conseguiremos romper o invólucro da atmosfera e alcançar os planetas. enquanto três ritmos diferentes de música japonesa acompanham o serviço dinâmico. onde finalmente provaremos comidas de sabor desconhecido ao nosso paladar e bebidas imprevisíveis. não pretendem renunciar à antiga cozinha. para convencer das necessidades de nutrir- 224 Cozinha futurista. Um convidado conta à dona da casa: -“Há quinze anos. em benefício próprio. incapazes ou temerosos.” Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio rejuvenescedor Geralmente.

TAMBÉM OBRAS DE ARTE. imprevisto e alegria. 225 Cozinha futurista.indd 225 7/4/2009 15:51:27 . comprimido em pequenas esferas cruas de alface esborrifada com grappa e servido sobre uma pasta de tomates frescos e batatas cozidas. Ao habitual cliente que entra e pede um prato de espaguetes. O garçom lhe servirá então este “cardápio rejuvenescedor”: arroz cozido. surpresa. empanturram adoecem inutilizam o estômago. muitas dúvidas e muitas ironias poderiam ser superadas e os restaurantes perderiam a trivialidade dos hábitos quotidianos. como seus irmãos que vivem no subterrâneo da história. variedade. além de uma boa comida. o garçom deveria proferir este breve e esclarecedor discurso: -“a partir de hoje a nossa cozinha elimina o macarrão.deve chegar a conceber para cada prato uma arquitetura original. . possivelmente diferente para cada indivíduo de modo tal que TODAS AS PESSOAS TENHAM A SENSAÇÃO DE COMER.”O italiano da nossa época veloz não deixará de sensibilizar-se ante tal argumento. Vermes brancos que o senhor não deve introduzir no corpo se não quiser deixá-lo fechado escuro e imóvel como um museu. Chegamos a essa decisão porque o macarrão é feito de silenciosos longos vermes arqueológicos que.A cozinha futurista se mais modernamente. depois frito em manteiga. A cada cozinheiro pede-se a formação de uma mentalidade que: . Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio improvisado Estes cardápios improvisados são aconselhados com o objetivo de atingir um máximo de originalidade.deve compreender que a forma e a cor são tão importantes quanto o sabor.

a seguinte refeição-declaraçãode-amor: Tedesejo: antepasto composto de elementos diversos. Para os cardápios improvisados pode-se naturalmente discutir entre cozinheiros. portando todo tipo de alimento: simplificar-se-á assim a preparação individual porque cada um será levado a conquistar o prato preferido para si. E a escolha será duplamente apreciada porque desenvolverá. de escolha refinadíssima.deve. no terraço de um grande Hotel. na distribuição dos pratos. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio declaração de amor Um tímido enamorado deseja exprimir a uma moça bela e inteligente os seus sentimentos. estudar o caráter e a sensibilidade de cada um. o sexo. na noite da cidade. . a idade. enquanto Ela se contentará com pãezinhos e manteiga. antes de preparar a refeição. Carnadorada: um grande prato feito com um brilhante espelho. o espírito humano da aventura e do heroísmo. enquanto come. No centro. mas nunca se deve levar em conta o gosto pessoal dos comensais. a constituição física e os fatores psicológicos. de certo modo. por meio de tapetes-móveis que deslizam à frente das pessoas. que o garçom fará somente admirar. levando em conta. 226 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti . admirará sua imagem refletida no prato. filés de frango perfumados com âmbar e recobertos por uma fina camada de geléia de cerejas.deve possivelmente chegar às refeições em movimento.indd 226 7/4/2009 15:51:27 . Com este propósito lhe fará servir. Ela. garçons e Diretores sobre a atribuição das diferentes iguarias.

Na superfície são feitos pequenos furos. mediante uma oportuna e humilde consulta à inspiração divina. sem piscar. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio sacro Aos eclesiásticos futuristas. são dispostos: fatias de carne sortidas maceradas sob uma pasta de abacaxi – cebolas cruas cobertas por geléia – filés de peixe escondidos entre chantilly e zabaione – pãezinhos de manteiga untados com caviar e introduzidos em uma grande abóbora. um de arroz doce. etc. em proporções diversas: água mineral tingida de vermelho – vinho branco dos Castelos Romanos tingidos com azul de metileno – leite frio tingido de laranja. que visitaram em Turim os apartamentos do Engenheiro Barosi e do Doutor Vernazza. Em frente aos copos. Superpaixão: um bolo de massa doce compacta. gim e bitter. salgado por pedacinhos de ostras e gotas de água do mar. enchidos com anis. um de batatas embebidas em conhaque. em 20 pratos de alumínio. Ela. mas contendo. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa 227 Cozinha futurista. é oferecida uma refeição assim composta: Sobre uma grande mesa são alinhados 20 copos iguais. um de maçãs cozidas no rum. isto é. Os eclesiásticos devem escolher sem errar. licor de menta. um de ameixa. rum. Estanoiteláemcasa: uma laranja muito madura fechada em um pimentão maior esvaziado e enfiado em um grande zabaione ao gim.A cozinha futurista Teamareiassim: pequenos tubos de massa podre recheados de sabores diferentíssimos.indd 227 7/4/2009 15:51:27 . comerá todos. onde havia pinturas de Arte Sacra futurista.

Da pasta poderão folhear cartas e faturas perfumadas com diversas intensidades.Fillippo Tommaso Marinetti Cardápio simultâneo Para executivos. Em um grande cachimbo de metal esmaltado de vermelho. 228 Cozinha futurista. Livros contábeis de bolso conterão peixe comprimido. Toda a sala está imersa em uma penumbra misteriosa e as lâmpadas invisíveis permitem somente uma luminosidade suficiente para ver a mesa coberta por uma camada de vidro escuro brilhante. serve-lhes vinte ovos frescos que foram furados dos dois lados para injetar em seu interior um tênue perfume de acácias: os negros aspiram o conteúdo dos ovos. Pequenos “termo”10 em forma de canetas-tinteiro repletos de chocolate quente. será confeccionado um cardápio simultâneo que lhes permitirá continuar as diversas atividades (escrever caminhar discursar) e alimentar-se ao mesmo tempo.indd 228 7/4/2009 15:51:27 . segurando um lírio na mão. satisfazer ou excitar o apetite. para calmar. com forninho elétrico cozinhará uma sopa. sem quebrar a casca. Uma cozinheira negra. invadidos por um estado de ânimo indefinido que os faz desejar a conquista dos países europeus. impossibilitados pelo turbilhão de negócios a deter-se em um restaurante ou de voltar para casa. 10 Recipiente térmico. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio desejo branco Dez negros reúnem-se à mesa em uma cidade marítima. com uma mistura de tendências espirituais e de vontades eróticas. sem falar.

indd 229 7/4/2009 15:51:27 . fontes luminosas graduáveis iluminarão de cem modos diferentes o plano de cristal. 229 Cozinha futurista. grappa ou gim. com fortíssima fluorescência verde-amarelada em solução. A sala de jantar é toda escura. Amanhecerá assim em taças de cristal um brodo consumido tornado fluorescente mediante uma mínima quantidade de “fluoresceína”11. sob a mesa. 11 Substância cristalina. variando intensidade e cor dependendo dos pratos. pulverulenta.A cozinha futurista Então é trazida uma grande sopeira com leite frio no qual foram imersos pequenos cubos de mussarela e uvas moscatel. A cozinheira negra retorna ainda com uma bandeja cheia de pedaços de polpa de côco escrustrados de torrone. fechados sob uma camada de manteiga e dispostos sobre um leito de arroz cozido e chantilly. Ao mesmo tempo. Todo o serviço é de cristal. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio astronômico A mesa é constituída por uma lâmina de cristal apoiada sobre reluzentes barras de alumínio. alaranjada. enquanto do teto desce lentamente em direção à mesa um globo incandescente de vidro leitoso e por toda a sala se expande um perfume de jasmim. bebe-se anis puro. De baixo para cima. e dos dois lados em direção ao centro. O estado de ânimo dos negros é quase inconscientemente sugestionado por todos os pratos brancos ou cândidos. através da própria lâmina de cristal. A sensibilidade dos negros se apaga no sabor-cor-odor branco dos pratos.

Depois. Uma bomba em forma de telescópio lançará parábolas de espumante Asti. na noite da sala. mosaico de pistaches e pimenta vermelha. Sirocofran 230 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Dará meio-dia em carne crua salgada. Entardecerá um prato feito de fatias muito finas de salmão defumado. beterrabas e laranjas. mover-se-á lentissimamente sobre o cristal que se tronou abstrato. único corpo iluminado. Fórmula do futurista Dr. uma esfera cosmográfica de spumone (50 cm de diâmetro). regados com limão e perfumados ternamente com baunilha.indd 230 7/4/2009 15:51:27 .

feito com o Mosto. regando cada bocado de camelo com um gole de água do Serino e cada bocado de coelho com um gole de Scirá (vinho turco.A cozinha futurista receitáriO FuturistA para restaurantes e aquisibebe A dosagem sumária de muitas destas fórmulas não deve preocupar mas sim excitar a fantasia inventiva dos cozinheiros futuristas cujos eventuais erros poderão freqüentemente sugerir novas invenções Decisão (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) ¼ de vinho quinado ¼ de rum ¼ de Barolo fervente ¼ de suco de Tangerina Inventina (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) 1/3 de Asti espumante 1/3 de licor de Abacaxi 1/3 de suco de Laranja gelado Vianda simultânea (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Uma gelatina de frango. Para ser comida. sem álcool).indd 231 7/4/2009 15:51:27 . temperada com alho e defumada. 231 Cozinha futurista. metade incrustada por quadrados de carne crua de jovem camelo. e metade incrustada por esferas de carne de coelho muito cozidas ao vinho.

232 Cozinha futurista. um camandantezinho esculpido em queijo holandês que dirige uma frouxa tripulação esboçada em miolos de vitelo cozidos no leite. uma cereja e um fragmento de figo seco. a outra com pasta de casca de maçãs trituradas. a bordo. gemas de ovos e queijo parmesão. Entredois (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Duas fatias retangulares de pão: uma untada de pasta de anchovas. navega meio melão com. fatias de banana.indd 232 7/4/2009 15:51:27 . Mar da Itália (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Sobre um prato retangular dispõe-se uma base formada por listas geométricas de molho de tomates frescos e de espinafres. derramar sobre a semi esfera um molho de vinho branco quente encorpado com fécula e sobre a coroa um molho de cerveja quente.Fillippo Tommaso Marinetti Mesa vocabulivre marina (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Sobre um mar de salada crespinha. de modo a criar uma precisa decoração verde e vermelha. em forma de coroa. A poucos centímetros da proa. Entre as duas fatias de pão: salame cozido. Todoarroz (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Arroz branco cozido assim disposto: uma parte no centro do prato em forma de semi esfera – uma outra parte em volta da semi esfera. Sobre este mar verde e vermelho colocam-se complexos formados por pequenos filés de peixe fervido. Pulverizar o navio e o mar com canela ou pimenta vermelha. No momento de servir à mesa. um obstáculo de pão forte de Siena. aqui e ali salpicada de fragmentos de ricota.

Serve-se à esquerda de quem come um retângulo formado de lixa. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato. enquanto a mão esquerda alisa leve e repetidamente o retângulo tátil. Enquanto isso. Os alimentos devem ser levados diretamente à boca com a mão direita. Aerovianda (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Serve-se à direita de quem come um prato com azeitonas pretas. é coroado por uma camada de mel (C) e sustentado na base por uma anel de lingüiça (B).A cozinha futurista Cada um desses complexos é mantido unido por um palito de dentes que sustenta verticalmente os diversos elementos. seda e veludo. Carnescultura (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) O “carnescultura” (interpretação sintética das hortas. corações de erva-doce e bergamotas.indd 233 7/4/2009 15:51:27 . que se apóia sobre três esferas douradas (D) de carne de frango. dos jardins e dos prados da Itália) é composto por uma grande almôndega cilíndrica (A) de carne de vitela assada recheada por onze qualidades diferentes de legumes e verduras cozidos. LIXA SEDA VERMELHA VELUDO PRETO 233 Cozinha futurista. os garçons esborrifam nas nucas dos comensais um comperfume de cravo enquanto vem da cozinha um violento comrumor de motor de aeroplano contemporaneamente a uma desmúsica de Bach.

de acordo com as iniciais dos seus nomes que determinarão assim a combinação dos diversos alimentos.Fillippo Tommaso Marinetti Diabo em túnica negra (polibebida do aeropintor futurista Fillìa) 2/4 de suco de laranja ¼ de grappa ¼ de chocolate líqüido Imergir a gema de um ovo cozido. Alfabeto alimentar (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Todas as letras do alfabeto são recortadas (com grande espessura. Trutas imortais (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Rechear as trutas com nozes trituradas e fritá-las em azeite. em queijo. Servem-se duas por pessoa. em massa podre e em açúcar queimado. Servi-la em abundante molho 234 Cozinha futurista. de modo que permaneçam em pé) em Mortadela de Bolonha. até a sua consumação. Envolver as trutas em finíssimas fatias de fígado de vitelo. Então deixá-la mergulhada por um minuto em muito suco de limão. A pasta que deriva é espalhada sobre uma omelete fria de ovos e geléia. Promontório siciliano (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Atum maçãs azeitonas e amendoins japoneses são triturados juntos.indd 234 7/4/2009 15:51:27 . À caça no paraíso (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Cozer lentamente uma lebre em vinho espumante onde se dilui chocolate em pó.

salpicada de confeitos prateados que lembram as balas dos caçadores. Porcoexcitado (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Um salame cru. a base de espinafre e zimbro. Carrossel de álcool (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) 2/4 de vinho Barbera ¼ de cidra ¼ de bitter Campari 235 Cozinha futurista. Fechar a parte superior da esfera com meia ameixa seca.indd 235 7/4/2009 15:51:27 . Docelástico (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Recheia-se uma esfera de massa podre com zabaione vermelho no qual é imersa um pedaço (3 cm. é servido em pé em um prato contendo café expresso quentíssimo misturado com muita água de colônia. As grandes águas (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) ¼ de grappa ¼ de gim ¼ de cominho ¼ de anis Sobre o líqüido flutua um bloco de pasta de anchovas envolta cirurgicamente em uma hóstia.) de alcaçuz em fita.A cozinha futurista verde. privado da pele.

O topo do cone será bombardeado de pedaços de trufas negras cortadas em forma de aeroplanos negros à conquista do Zênite. uva passa. com pimenta sal limão.Fillippo Tommaso Marinetti No líqüido são imersos. Prefácio gustativo (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um cilindro de manteiga que sustenta no alto uma azeitona verde.indd 236 7/4/2009 15:51:27 . enfiados em um palito de dentes. bananas sem casca. cheios de geléia de ameixa. 236 Cozinha futurista. pinhõezinhos e confeitos. como a vegetação de palmeiras. Discos saborosos (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Bolo de frutas variadas que se apóia sobre um disco de chocolate. Na base do cilindro: salame. um quadrado de queijo e um quadrado de chocolate. Paradoxo primaveril (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um grande cilindro de sorvete de creme que traz no alto. No centro emerge um cone de claras batidas em neve e solidificadas. cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. Entre as bananas são escondidos ovos cozidos sem a gema. Equador + Pólo Norte (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um mar equatorial de gemas de ovos em suas cascas. O bolo é coberto por duas camadas de papa que o dividem ao meio: a primeira feita de molho de tomates e a segunda de espinafre.

Sirocofran) Dentro de finas bexigas coloridíssimas coloca-se uma gota de perfume. não pega peixes 237 Cozinha futurista. Perfumes prisioneiros (fórmula do futurista Dr. Privam-se as tâmaras do caroço e amassam-nas bem (melhor ainda se são passadas na peneira). que cantou a virgem Heródias em uma verde paisagem palustre coberta de sensualíssimos lírios turquesa. Aproxima-se das bexigas o cigarro aceso e aspira-se o perfume que dali brota. Sirocofran) Para fundir a máxima pureza virginal com a máxima luxúria de perfume. Sirocofran) 35-40 tâmaras muito maduras e doces. procurando que os perfumes sejam variados. em pequenos pratos quentes. A polpa assim obtida é incorporada à ricota até obter uma massa bem homogênea. Elas são enchidas e levemente esquentadas de modo a vaporizar o perfume e tornar turvo o invólucro. São levadas à mesa junto com o café. Servir frio. exaltando-os e honrando assim o nome glorioso de Mallarmé. após ter mantido o prato no refrigerador por algumas horas. peguem arroz e façam cozinhar em muito leite convenientemente salgado. sabe-se bem. 500 gramas de ricota romana.A cozinha futurista Arroz de Heródias (fórmula do futurista Dr. Antepasto fulgurante (fórmula do poeta futurista Luciano Folgore) Pensa que se dormes não mereces fazer um antepasto incomparável. quem dorme. Escorram-no e temperem-no com finíssimo pó de rizoma de lírio.indd 237 7/4/2009 15:51:27 . Tâmaras ao luar (fórmula do futurista Dr.

Feito isso pegue o leite novamente (o leite dos arenques. Obtendo-os.Fillippo Tommaso Marinetti enquanto em nosso caso é indispensável estar de tal modo desperto.indd 238 7/4/2009 15:51:27 . aliás sutil. limpe-os com carinho. para prender até peixe em barril a fim de obter (pagando preços salgados) dois arenques ao leite e não defumados. depois tire o leite que colocarás a esperar os eventos em um pratinho. Conta-se que um rei da Patagônia por um tal prato renunciou ao seu reino esta história é certamente uma embroma mas a bondade do prato que te ensino é tão real e alegra o apetite 238 Cozinha futurista. entende-se) para desfazê-lo no óleo ao qual une-se algumas gotas de vinagre e finalmente estenda aquele leite tenro e picante sobre os arenques que triturastes já e o antepasto fino e excitante todo apetite humano despertará. logo os arenques a banho meterás quatro ou cinco horas sob água pura e quando houverem perdido a salgadura estenda-os na tábua que os deleita com um pouco de cebola e um ovo cozido depois com o oscilar da lamineta triture tudo finamente e faça de modo que a pasta seja macia e perfeita e por fim como condimento regue com azeite e vinagre a seu contento.

tire tudo do fogo amanteigando bem o risoto e acrescente queijo em abundância. asas que se jogam fora: e assim parecem um paraquedas. acrescentar. Risoto futurista ao alquequenje (fórmula do aeropoeta futurista Paolo Bruzzi) Preparar triturado um quilo de alquequenje separado de sua sutil membrana. Voltar ao fogo: e apenas tudo esteja dourado (que a cebola não se toste) acrescentar arroz suficiente para seis pessoas. mexendo sempre até ficar cor de ouro. Fazer – à parte – um abundante molho de salsinha com alho e cebola em pequena dose. Então.indd 239 7/4/2009 15:51:27 . tirá-la do fogo e jogar o triturado de alquequenjes (conservando o suco à parte) e o pesto de salsinha. à parte. Colocar azeite abundante em uma caçarola. recolha-se. É sintético porque os oito grãos contidos no bulbo ácido são como as “Marinettianas” oito almas em uma bomba. Após vinte minutos de cozimento. muito mais que o açafrão. Este risoto é futurista porque o alquequenje é uma fruta quase fora de série: certo. caldo convenientemente salgado e ao qual será agregado o suco dos alquequenjes.A cozinha futurista que parece que Dante na Vita Nuova tenha escrito para ela. porque o alquequenje é dotado de asas de bom tecido como o aeroplano. após o Convite “Entendê-la não pode quem não a prova”. e é velocissimamente digerível como tudo o que pertence à usina (queria dizer cozinha) futurista. a qual – de resto – na natureza quase não é mais encontrado. 239 Cozinha futurista. Quando estiver bem quente. com cuidado o suco produzido. a colheradas.

indd 240 7/4/2009 15:51:27 . geléia de morango e regada delicadamente por Asti espumante. ou caciocavallo. crocantes. e deixe-o esfriar. melhor. salame ou presunto cru em cubinhos.Fillippo Tommaso Marinetti Laranjinhas de arroz (fórmula do vocabulivre futurista Arm. ou provolone fresco). pinhõezinhos e uva passa. mas mais cozido. Acrescente cubos de queijo (fontina ou mussarela. Mazza) Preparem um bom risoto de açafrão ou de tomate. Frango de aço (fórmula do aeropintor futurista Diulgheroff) Assa-se um frango completamente esvaziado. e façam em cada uma delas um furo com o polegar. tendo o cuidado de tirá-lo do fogo não ao dente. molhando as mãos em água ou. Quando esfriar. 240 Cozinha futurista. Cubram com mais risoto e arredonde-os novamente. Comumanuvem (fórmula do aeropoeta futurista Giulio Onesti) Uma grande massa de chantilly dardejada por suco de laranja. (Não deve ser ao dente para que os grãos de arroz possam aderir uns aos outros). depois em ovo batido e enfim em farinha de rosca. Assim prontas. menta. faz-se uma abertura em seu dorso e completa-se o interior com zabaione vermelho sobre o qual são dispostos 200 gramas de confeitos esféricos prateados. Façam muitas bolotas do tamanho médio de uma laranja. passem as laranjinhas em farinha branca. e recheiem-nas com carne à bolonhesa moída grossa e úmida de seu molho. alargando-o sem romper as paredes. Fritem-nas em abundante azeite até que fiquem loiro-douradas e sirvam-nas quentes. em azeite. Em toda a volta da abertura do dorso levantam-se cristas de galo.

Golfo de Trieste (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Cozinhar um quilo de vôngole sem casca em um molho de cebola e alho acrescentando lentamente o arroz. enquanto o grande pintor e vocabulivre Depero declamará a sua célebre “Jacopson”. para ser comido. atacando aqui e ali com as mãos. pinhõezinhos. 8 bolinhas de caviar.A cozinha futurista Palavras em liberdade (fórmula do aeropoeta futurista Escodamè) Três mariscos. 2 figos. de modo que resultem 12 Vinho licoroso feito com uva passa.indd 241 7/4/2009 15:51:27 . uma meia lua de melancia. 241 Cozinha futurista. A. Ultraviril (Fórmula do crítico de arte futurista P. Saladin) Sobre um prato retangular dispõem-se fatias finas de língua de vitelo fervida e cortada de comprido. olhos fechados. Servir frio em banho de Asti espumante ou de passito12 de Lipari. cravos. um buquê de salada radicchio. Vitelo embriagado (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Rechear a carne crua de vitelo com maçãs descascadas. Cozinhar no forno. nozes. Sorvete simultâneo (fórmula do poeta vocabulivre futurista Giuseppe Steiner) Creme de leite e quadradinhos de cebola crua gelados juntos. Sobre estas sobrepõem-se duas fileiras de patas de caranguejo assadas no espeto. uma pequena esfera de gorgonzola. 5 biscoitinhos de amêndoa: todos dispostos ordenadamente sobre um grande leito de mussarela. um pequeno cubo de parmesão. Apresentar este risoto com um acompanhamento de creme de baunilha sem açúcar.

ioimbe. A. enquanto completam a guarnição do prato duas fileiras de pequenos cilindros compostos por uma rodela de limão. Entre estas duas fileiras coloca-se o corpo de uma lagosta previamente descascada e desossada. cola. Na parte posterior da lagosta dispõem-se três ovos cozidos cortados longitudinalmente e de modo que a gema se apóie sobre as fatia de língua. equinácea 1 parte de licor de chá 1 parte de kirch Maismenosparaseparado (Polibebida do crítico de arte futurista P.Fillippo Tommaso Marinetti paralelas e em senso longitudinal ao eixo do prato. Saladin) ¼ de licor de melissa ¼ de gemas de abeto ¼ de bananas ¼ de aspérula perfumada 242 Cozinha futurista. Saladin) 1 castanha confeitada 1 parte de licor de rosas 1 parte de licor de abacaxi 1 parte de licor de timo ou tomilho Amor alpestre (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. A. damiana. Saladin) 3 grãos de café 1 parte de licor feito com as seguintes plantas: coca. Saltoemcarne (Polibebida do crítico de arte futurista P. A parte anterior é coroada com seis cristas de galo como divisores. muira puama. coberta de zabaione verde.indd 242 7/4/2009 15:51:27 . uma de grãos e uma fatia fina de trufa coberta por ovas de lagosta. ginseng.

Parasocar (Fórmula do crítico de arte futurista P.indd 243 7/4/2009 15:51:27 .A cozinha futurista Desanuviante (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. Saladin) 1/3 de licor de artemísia 1/3 de licor de ruibarbo 1/3 de grappa Centelha (Polibebida do crítico de arte futurista P. como indicado no desenho. Saladin) Cobre-se o fundo de um prato redondo com fondente levemente perfumado com grappa. A. Sobre um raio do prato dispõem-se. No meio desta dispõe-se um belo disco de cebola furado e atravessado por um galho de angélica confeitado. A. Saladin) Sobre um prato redondo serve-se zabaione vermelho de modo a formar uma grande mancha. Saladin) ¼ de licor de cascas verdes de amêndoas ¼ de licor de genciana ¼ de licor de absinto ¼ de licor de genebra Homemulhermeianoite (Fórmula do crítico de arte futurista P. alcachofras. cebolinha. corações de aipo e de erva-doce. azeitonas. alcaparras. equidistantemente entre eles e em forma de cone. Do lado oposto dispõem-se 3 talos de alho-porró 243 Cozinha futurista. Dispõem-se depois. duas castanhas confeitadas e serve-se um prato para cada casal. A. 3 meios pimentões vermelhos assados e recheados com uma massa de legumes composta de pontas de aspargos.

Fillippo Tommaso Marinetti fervidos. Um arabesco de trufas raladas que parte do 2o. pimentão e termina naquele da parte externa completa o prato. Hortocubo (fórmula do crítico de arte futurista P. A. Saladin) cubinhos de aipo de verona fritos e cobertos de páprica cubinhos de cenoura fritos e cobertos de rábano ralado; ervilhas fervidas; cebolinha de Ivrea em conserva cobertas de salsinha picada; barrinhas de queijo fontina. N.B. Os cubinhos não devem ultrapassar 1 cm³. Branco e preto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Mostra individual sobre as paredes internas do Estômago de arabescos à vontade, de chantilly pulverizado com carvão de tília. Contra a indigestão mais negra. Pró dentadura mais branca. Terra de Pozzuoli e verde veronês (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Cidras confeitadas, recheadas de sépia frita e picada. Mastigá-los bem como se fossem críticos antifuturistas. Cenouras + calças = professor (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Uma cenoura crua em pé, com a parte fina para baixo, onde serão aplicadas com um palito de dentes duas berinjelas fervidas, na função de calças roxas marchadoras. À cenoura, deixar as folhas verdes na ponta, representando a esperança da aposentadoria. Mandibular tudo sem cerimônias.

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A cozinha futurista Cravos no espeto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Longos finos cilindros de massa folhada. Dispor em fila sobre cada um quatro cravos: branco, rosa, vermelho, púrpura, assados em licor frio ou no Roob Coccola di Zara. Ao comê-los pensar no fenecido estilo floral. Morangomama (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Um prato rosa com duas mamas femininas eretas feitas de ricota rosada ao Campari e bicos de morango confeitado. Outros morangos frescos sobre a cobertura de ricota para morder em uma ideal multiplicação de mamas imaginárias. Cafémaná (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Café de cevada torrada, adoçado com maná. Servi-lo quentíssimo para que os comensais o esfriem assoprando em cada um as piadas mais congelantes. Senado da digestão (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Quatro comensais pedirão cada um duas conhecidas comidas ou bebidas digestivas. Ou então oito comensais, uma cada. Os outros convidados votarão secretamente contra uma ou outra. Resultará vencedora aquela que obtiver menos votos contra.

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Fillippo Tommaso Marinetti Aeroplano libanês (fórmula do piloto-aviador, poeta e aeropintor futurista Fedele Azari) Castanhas confeitadas imersas por 2 minutos em água de Colônia e depois por 3 minutos no leite, então servidas sobre uma papa (cinzelada em forma de delgado aeroplano) de bananas, maçãs, tâmaras e ervilhas. Reticulados do céu (fórmula do aeroescultor futurista Mino Rosso) A base é um disco de bala de cereja. O cilindro grande: Três folhas de massa folhada recheadas com polpa de tamarindo e cobertas por fondente de chocolate. O cilindro pequeno: coroas de merengue sobrepostos cobertas com fondente de tangerina. O centro do cilindro superior contém chantilly com polpa de tamarindo e pistaches descascados. A asa é bala de tangerina. Pouco antes de ser apresentado à mesa o doce deverá ser coberto com fios de açúcar verde. Antepasto intuitivo (fórmula Senhora Colombo-Fillìa) Esvazia-se uma laranja em forma de cestinha na qual se dispõem qualidades diferentes de salame, manteiga, cogumelos em conserva, anchovas e pimentas verdes. A cestinha perfuma de laranja os diversos elementos. Dentro das pimentas escondem-se bilhetinhos com frases de propaganda futurista ou frases surpresa (por exemplo: “O futurismo é um movimento anti-histórico”- “Viva perigosamente”- “Médicos, farmacêuticos e coveiros, com a cozinha futurista ficarão desempregados”, etc.)

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A cozinha futurista Leite à luz verde (fórmula da senhorita Germana Colombo) Em uma grande tigela de leite frio imergem-se algumas colherinhas de mel, muitos grãos de uva preta e alguns rabanetes vermelhos. Comer enquanto uma desluz verde ilumina a tigela. Beber juntamente uma polibebida feita com água mineral, cerveja e suco de amoras. Faisão futurista (fórmula do aeropoeta Dr. Pino Masnata) Assar um faisão bem esvaziado, depois deixá-lo uma hora em banho-maria no moscato de Siracusa. Depois uma hora no leite. Recheálo com mostarda de Cremona e frutas cristalizadas. Aeroporto picante (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Uma camada de salada russa com maionese coberta de verde. Em volta medalhões variados compostos de pãezinhos recheados de laranja, clara de ovo e frutas mistas. Com manteiga tingida de vermelho e anchovas ou sardinhas formar no campo verde perfis de aeroplanos. Estrondos ascensionais (arroz com laranja) (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Risoto em branco com molho luminoso: o molho é composto de ossos de vitelo cozido em marsala e um pouco de rum, casca de laranja cortada em tirinhas finas, fervidas com gotas de vinagre. Acrescentar suco de laranja. Perfumar com “molho nacional”, que se encontra no comércio.

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Fillippo Tommaso Marinetti Fuselagem de vitelo (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni)Fatias de vitelo encostadas na fuselagem montanha composta por castanhas cozidas, cebolinhas e lingüiças. Tudo coberto de pó de chocolate. Aparições cósmicas (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Ervas-doces, beterrabas, brócolis, cenouras amarelas sobre um pastel de espinafre. Acrescentar cabelos de anjo de açúcar. Os legumes são cozidos cortados em formato de estrela, lua, etc e servidos na manteiga. Aterrissagem digestiva (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Com papa de castanhas cozidas em água com açúcar e favas de baunilha formar montanhas e planícies. Por cima, com sorvete de creme de cor azul, formar camadas de atmosfera sulcadas por aeroplanos de massa podre inclinados em direção ao chão. Mamas italianas ao sol (fórmula da aeropintora futurista Marisa Mori) Formam-se duas meias esferas cheias de pasta confeitada de amêndoas. No centro de cada uma apóia-se um morango fresco. Então se derramam na bandeja zabaione e zonas de chantilly. Pode-se cobrir tudo com pimenta-do-reino forte e guarnecer com pimentas vermelhas. Algaespuma tirrena (com guarnições de coral) (fórmula de aeroceramista futurista Tullio d’Albisola, PoetaRecord de Turim)

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Cobrir a decoração com uma camada de gelatina. O centro do abacaxi é coberto por uma camada de atum sobre a qual se apóia uma meia noz.. Decorar os lados com angélica cândida em forma de coroa e a parte posterior com castanhas confeitadas. arquitetado e arabescado com arte. advertindo que a pesca não tenha ocorrido nas vizinhanças de fossas ou desaguadouros porque a referida alga assimila facilmente os maus cheiros. lava-se e enxágua-se em abundante água corrente. sobre um prato redondo plano. A guarnição de corais será obtida com um monte de cachos de pimentas vermelhas picantes. gomos de ouriços do mar pescados sob lua cheia. com brodo ondeado e coberto por uma folha de celofane azul. esfregar no suco de limão. desenformar e servir com uma guarnição de meios damascos com gelatina.indd 249 7/4/2009 15:51:28 .A cozinha futurista Prende-se um maço de algas marinhas de recentíssima pesca de rede. gomos de laranja e limões confeitados. preenchendo o vazio com uma bavaroise de baunilha. deixando-a endurecer. Congelar. Bomba à Marinetti (fórmula do cozinheiro futurista Alicata) Revestir uma forma de bomba com gelatina de laranja decorando a parte da cúpula com pequenos morangos. Acordaestômago (fórmula do aeropintor futurista Ciuffo) Uma fatia de abacaxi sobre a qual dispõe-se um raio de sardinhas. Revestir o vazio com biscoito tipo inglês dando forma quadrada. Quando limpa. 249 Cozinha futurista. será servido à mesa apenas pronto. O todo. e uma constelação de grãos de romã madura. fresco. Pulveriza-se a folha com açúcar e espuma-se com uma onda de chantilly.

fatias de banana. Meio copo de Asti espumante. depois amendoins de Chivasso. de espessura) como divisor impermeável. café torrado. vermute e licor Strega. Avanvera (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Sobre um pratinho de alumínio. No centro do pratinho. eqüidistantes: um montinho de amêndoas torradas. anchovas.Fillippo Tommaso Marinetti Doceforte (fórmula da Senhora Barosi) Entreosdois formado por duas fatias de pão com manteiga. licor Strega. fatias de tomate.indd 250 7/4/2009 15:51:28 . Dentro: fatias de banana. com mostarda espalhada em sue interior. pedaços de abacaxi. O regenerador (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Uma gema de ovo. Em seu interior e no fundo: sorvete de creme. previamente imersas em pimenta Caiena. 250 Cozinha futurista. Um ritual (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Um pequeno cilindro oco de gelo coberto externamente de mel. um copo contendo: vermute. conhaque. Fogonaboca (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) No fundo do copo: uísque com marascas em conserva. Sobre o mel: alquermes. Sobre: leite com mel ou mel (1 cm. que comprimem bananas e anchovas. tudo regado de vermute e licor de menta. fatias de queijo parmesão. com o interior também espalhado de mostarda.

Três colherinhas de açúcar. um pedaço de beterraba. Vernazza) 4/8 de vinho Vernaccia 3/8 de vermute 1/8 de aguardente Tâmara pouco madura recheada de mascarpone empastado com licor Aurum (Pescara). aparecerão no líqüido os olhos de gordura depositadas pelo presunto: neste caso a polibebida poderá ser intitulada “aquele porco que pisca os olhos”) 13 Talvez o fascio lictório. óleo sal pimenta.. Simultânea (polibebida do futurista Dr. Tudo enfiado em um palito sobre o qual se enfilará também uma pequena pimenta vermelha em conserva recheada de queijo parmesão em pedacinhos. O lictório13 (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Diferentes caules de cardo ou salsão do comprimento de 10 cm. A tâmara assim confeitada é envolta em finas fatias de presunto cru e depois em folhas de alface. O interior do cilindro recheado com carne moída.A cozinha futurista Três nozes torradas. emblema fascista tomado da antiga Roma 251 Cozinha futurista. dispostos direitos de modo a formar um cilindro vazio. Fixados: embaixo por uma semi esfera de risoto branco e em cima por um meio limão. (Introduzir-se-á o palito no copo.indd 251 7/4/2009 15:51:28 . um pedaço de banana. cozidos previamente em água. distribuídas como estrelas: um pepino. Sobre a semi esfera de arroz. Tudo batido por 10 minutos. Apresentado em um copo dentro do qual se dispõe uma banana descascada e visível.

ao qual se acrescentará: pedacinhos de barriga de atum em conserva e tomate em mínima quantidade. Para formar o cabo da raquete. cobrir com uma fina camada de massa (feita de mascarpone amassado com nozes trituradas). acrescentar e misturar algumas azeitonas verdes e guarnecer com gomos bem limpos de tangerina. Chuleta-tênis (fórmula do futurista Dr. Vernazza) Arroz cozido normalmente. Cozimento rápido para manter o forte da bebida.indd 252 7/4/2009 15:51:28 . Bocado “squadrista”14 (fórmula do futurista Dr. Vernazza) Bife de vitelo cozido na manteiga e cortado em forma de encordoamento de raquete: na hora de servir. Vernazza) Filé de peixe entre dois grossos discos de maçã: tudo coberto de rum e flambado no momento de servir. queijo e noz moscada. uma anchova coberta por uma tirinha de banana. Depois bolinhas esféricas perfeitas com cereja em conserva (sem o cabinho) envoltas com massa de ricota.Fillippo Tommaso Marinetti Risoto Trinacria (fórmula do futurista Dr. Temperado o risoto. ovos. 14 militante da causa fascista 252 Cozinha futurista. Molho preparado com a fritura de pouca cebola e manteiga. sobre a qual são traçadas algumas linhas com molho de tomate misturado com rum.

etc) de cor verde clara. Por cima dispor (um por comensal) aeroplanos formados por: folhadinhos de formato triangular (asas) – cenoura cortada de comprido (fuselagem) – cristas de galo cozidas em manteiga (leme) – bergamotas cortadas em discos e colocadas em pé (hélice). Entre o zabaione e o chantilly. Vernazza) Pasta de legumes (lentilhas. espinafres. Dos dois lados desta composição que lembra esqui: discos de fruta cristalizada dentro do qual está enfiado um grissini doce. ervilhas. fatias de laranja embebidas em marasquino Zara. de farinha suco de meio limão uma colher de azeite 253 Cozinha futurista. Por cima: uma camada de chantilly.indd 253 7/4/2009 15:51:28 . Sobre a superfície branca dispor longas fatias de banana e no centro meia tâmara recheada de licor Aurum amassado com amêndoas doces e amargas trituradas. Vernazza) Zabaione duro gelado em um prato fundo. Esquiador comestível (fórmula do futurista Dr.A cozinha futurista Aerovianda atlântica (fórmula do futurista Dr. Rosas diabólicas (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr.

indd 254 7/4/2009 15:51:28 . especialmente se vêm cobertas do doce futurista Mafarka. Sirva-os à mesa quentíssimos. e frite-as em azeite fervente como se usa para fazes alcachofras à la jedia. comam à meia-noite em janeiro.) Doce Mafarka (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 50 gr. Quando estiver bem deaço sirvam-no com biscoitos finos. (Indicadíssimos para recém-casados. Bom apetite. jogue lá dentro rosas vermelhas aveludadas despetaladas. e levem ao gelo. – Veja a fórmula seguinte. e viva o aço! 254 Cozinha futurista. misturando bem. depois coloquem o arroz e cozinhem-no muito seco e al dente.Fillippo Tommaso Marinetti Misture bem os ingredientes citados e forme assim uma massa não muito densa. de água de flor de laranjeira ½ litro de leite Cozinhem no leite o café e adocem a gosto. de café Açúcar a vontade 100 gr. despejem-no assim em uma forma. depois de ter cortado o caule na altura do cálice. ralem dentro a casca do limão e espalhem. a água de flor de laranjeira. de arroz 2 ovos Casca de limão fresco 50 gr. Tirem-no fogo e. quando estiver frio.

3 ou 4 alcaparras. proprietário do Santopaladar) Cozer uma coxa de carneiro com louro.A cozinha futurista Bombardeamento de Adrianópolis (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. e em cada uma destas incorporarão uma fatia de mussarela. de azeitonas 50 gr. Quando o preparado estiver bem frio. Pulo de áscaro15 (fórmula do futurista Giachino. assim preparada. incorporando-o bem. e uma pitada abundante de pimenta do reino. soldado da colônia italiana em Eritréia. 255 Cozinha futurista. darão a forma de uma esfera. 15 Pejorativo. Depois que o arroz for tirado do fogo misturem imediatamente um ovo. alecrim e alho. banhem-na no outro ovo que já foi batido. e depois passem em farinha de rosca e fritem. dividam-no em 10 partes. meia anchova.indd 255 7/4/2009 15:51:28 . de alcaparras 100 gr. de mussarela de búfala 6 anchovas 25 gr. de arroz ½ litro de leite Coloquem para cozinhar bem al dente o arroz no leite. 2 ou 3 azeitonas sem o caroço. pimenta. de manteiga 100 gr. A cada parte. e aproximadamente na metade do cozimento acrescentar a manteiga e sal suficiente.

proprietário do Santopaladar) 256 Cozinha futurista. escorrê-la. vinho branco seco e suco de limão. fatias de abacaxi e manteiga. alcachofrinhas. atum.indd 256 7/4/2009 15:51:28 . Ovos divorciados (fórmula do futurista Giachino. Compenetração (fórmula do futurista Giachino. Unir as duas extremidades do presunto e mantê-las fechadas com filés de anchova. azeitonas. Arroz verde (fórmula do futurista Giachino. recheada com geléia e servida em um brodo de rosas quentes realçado por gotas de água de Colônia italiana. uma fatia de presunto e uma fruta cristalizada. Sopa zoológica (fórmula do futurista Giachino. cogumelos em conserva. proprietário do Santopaladar) Sobre um fundo de espinfre servir arroz branco fervido e temperado com manteiga e recoberto por um denso creme de ervilhas e pistaches em pó. pepinos.Fillippo Tommaso Marinetti Cozida a coxa. proprietário do Santopaladar) Sobre um creme de ervilhas dispor um filé de vitelo cozido em manteiga. proprietário do Santopaladar) Massa em forma de animais composta de farinha de arroz e ovos. e acrescentar à carne tâmaras recheadas com pistaches salgados. proprietário do Santopaladar) Sobre uma larga fatia de presunto colocar salame cru. Verter sobre o filé molho de tomate e acrescentar um anel de maçã. Aplacafome (fórmula do futurista Giachino.

Levar ao fogo em uma caçarola com manteiga e acrescentar um pouco de caldo de carne. Bananas surpresa (fórmula do futurista Piccinelli. nozes e uma baga de zimbro. cozinheiro do Santopaladar) Fazer um furo em todo o comprimento de uma banana descascada e enchê-lo com carne de frango moída. proprietário do Santopaladar) Pequenos nabos novos fervidos por 10 minutos com louro. cebolas e alecrim. Voltar ao fogo com meio copo de suco de ameixa. Passar os nabos recheados em gema de ovo e no pão ralado e cozê-los ao forno.A cozinha futurista Dividir na metade ovos cozidos extraindo intactas as gemas. Nabo-carteira (fórmula do futurista Giachino. Tornar novamente ao fogo com um cálice de vinho branco seco e suco de limão. Rosabranca (fórmula do futurista Giachino. proprietário do Santopaladar) Doses diferentes de laranjada.indd 257 7/4/2009 15:51:28 . deixando cozinhar até secar. Depois acrescentam-se seis ameixas sem caroço recheadas com amêndoas. licor Campari e anis com essência de Rosas Brancas. Dispor as gemas sobre uma pasta de batatas e as claras sobre uma pasta de cenouras. proprietário do Santopaladar) Misturar à medula de ossobucos dourados em manteiga farinha de rosca. 257 Cozinha futurista. Servir com legumes. Cortá-los depois como carteiras e recheá-los com anchovas banhadas em ovo e rum. Boca de fogo (fórmula do futurista Giachino.

Fillippo Tommaso Marinetti pequenO diciOnáriO da arte cozinhária futurista Castanhas confeitadas: substitui marrons glacê Comperfume: termo que indica a afinidade olfativa de um dado perfume com o sabor de uma determinada vianda.indd 258 7/4/2009 15:51:28 . 258 Cozinha futurista. Comtátil: termo que indica a afinidade tátil de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: a conmúsica do carnescultura e o balé “HOP-FROG” do maestro futurista Franco Casavola. Conmúsica: termo que indica a afinidade acústica de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o comrumor do arroz ao molho de laranja e o motor de motocicleta ou o “despertar da cidade” do rumorista Luigi Russolo. Comrumor: termo que indica a afinidade rumorística de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o comtátil da pasta de bananas e o veludo ou a carne feminina. exemplo: o comperfume da massa de batatas e a rosa.

259 Cozinha futurista.A cozinha futurista Comluz: termo que indica a afinidade óptica de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: a comluz do “porcoexcitado” e um relampejar vermelho. Exemplo: o desperfume da carne crua e o jasmim.indd 259 7/4/2009 15:51:28 . Exemplo: o destátil do “Equador + Pólo Norte” e a esponja. Decisão: nome genérico de polibebidas quentes-tônicas que servem para tomar. Desrumor: termo que indica a complementaridade de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. uma importante decisão. Desperfume: termo que indica a complementaridade de um dado perfume com o sabor de uma dada vianda. Destátil: termo que indica a complementaridade de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Consumado: substitui CONSOMMÉ. Desmúsica: termo que indica a complementaridade de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: a desmúsica das tâmaras com anchovas e a Nona Sinfonia de Beethoven. Exemplo: o desrumor do “Mar da Itália” e o chiado do óleo fritando. dos refrigerantes e da espuma do mar. após breve mas profunda meditação.

260 Cozinha futurista. Lista ou Listadepratos: substitui MENU.indd 260 7/4/2009 15:51:28 . Guerranacama: polibebida fecundadora. Fumatório: substitui FUMOIR. Exemplo: a desluz de um sorvete de chocolate e uma luz laranja quentíssima.Fillippo Tommaso Marinetti Desluz: termo que indica a complementaridade de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Guiapaladar: substitui MAÎTRE D’HOTEL. Mexedor: substitui BARMAN. Inventina: nome genérico de polibebidas refrescantes e levemente embriagantes que servem para encontrar fulminantemente uma idéia nova. Fondentes: substitui FONDANTS. Mistura: substitui MÉLANGE.

Pasta: substitui PURÉE Almoçoaosol: substitui picnic. Cedonacama: polibebida aquecedora invernal. Sala de chá: substitui TEA-ROOM Sganasciatore: personagem futurista que tem por tarefa alegrar os banquetes oficiais. 261 Cozinha futurista. Polibebida: substitui COCKTAIL. Aquisebebe: substitui BAR. Pasticho: substitui FLAN. Paraselevantar: substitui DESSERT.indd 261 7/4/2009 15:51:28 .A cozinha futurista Paznacama: polibebida sonífera.

Fillippo Tommaso Marinetti Entreosdois: substitui SANDWICH Sopa de peixe: substitui BOUILLABAISSE 262 Cozinha futurista.indd 262 7/4/2009 15:51:28 .

ConClusão O Cozinha futurista.indd 263 7/4/2009 15:51:28 .

Cozinha futurista.indd 264 7/4/2009 15:51:28 .

audição. agora. embora praticamente desconhecida e ainda não publicada no Brasil: A cozinha futurista. Escultura. no início. a euforia dos homens pelas multidões. primeiro grande movimento literário do século na Itália. O Futurismo. Cinema e. Teatro. propiciando assim um contato maior com o mundo modernizado que se lhes apresentava. tato.O objetivo deste trabalho foi proporcionar ao leitor de língua portuguesa e aos estudiosos do Futurismo o acesso a uma obra importante do movimento. além de outros doze polemicamente instituídos por Marinetti no manifesto de 1921. de Filippo Tommaso Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. pelas 265 Cozinha futurista. olfato e paladar. também à Gastronomia. oferecia novos modos de expressão para representar a nova sociedade que se formava a partir do final do século XIX. Todos os sentidos foram privilegiados pelos manifestos: visão. pelas máquinas. Esta trazia. passando da Literatura à Pintura. Arquitetura. Os representantes do Futurismo procuraram se manifestar em relação a diversas esferas da arte e cultura.indd 265 7/4/2009 15:51:28 .

ou pior. A forma dos pratos. revelam aos poucos a intolerância de Marinetti para com os hábitos tradicionais. mais tarde. Algumas das regras contidas no “Manual de Redação e Estilo Futurista”. para sustentar a tese de que “macarrão não faz bem aos italianos”. faz imaginar se alguém já teria preparado. com receitas assustadoras. nada melhor que uma linguagem adequada. pelos avanços científicos e pelos meios de comunicação e. Além de conter o polêmico manifesto. traz inúmeras opiniões. o homem moderno alienado pela cultura de massas. Propuseram modificar o hábito mais arraigado da tradição italiana – o macarrão – para despertar interesse.indd 266 7/4/2009 15:51:28 . ajudaria a fortalecer a economia. A cozinha futurista é um livro intrigante. Os argumentos econômicos de Marinetti soam bastante convincentes: modificar os hábitos alimentares. permeando o Renascimento e toda a literatura 266 Cozinha futurista. ingerido certas iguarias. Os artigos de jornais fazem transparecer o “passadismo” dos estômagos. certamente mantém o bom humor à mesa. aparentemente incompreensíveis. O receitário futurista. aproximam-se da política para garantir a subsistência do movimento enquanto se afastam da vanguarda literária. A expressão da gastronomia na literatura não é novidade: desde as antigas civilizações. O Manifesto da Cozinha Futurista aparece como grito desafiador de um movimento que não atingia mais os seus objetivos. além de revigorar a raça. se não excita o apetite. O resultado é a estranheza de algumas construções sintáticas e a inovação do vocabulário. a euforia e o impacto iniciais foram perdendo força na medida em que deixaram de ser novidades. ou fúria. com fartura em grandes banquetes. a saber os manifestos do Futurismo e Técnico da Literatura Futurista. A cozinha italiana nunca mais seria a mesma. O otimismo. passando para a Idade Média esfomeada. na população. que muitas vezes refutam os pratos inovadores. de pessoas inusitadas. Para evidenciar o futurismo proposto. Certas descrições. A trajetória do Futurismo segue a História.Fillippo Tommaso Marinetti indústrias. são postos em prática pelo autor.

metafórica ou não – revelam uma preocupação comum. Não queriam ser discípulos do movimento europeu. aos convites-cardápio de Oswald. nome que rejeitaram pouco tempo depois. mas permitem que aproximemos e comparemos afinidades. cit. invento pratos e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe. Buscou-se nos três autores trabalhados – Marinetti. O Futurismo italiano e o Modernismo brasileiro foram aproximados neste trabalho a partir do viés culinário-antropofágico.22 267 Cozinha futurista.ingestão de carne humana. os livros trazem com bastante freqüência o prazer da mesa para suas páginas.A cozinha futurista subsequente. metafórico e intelectual. Oswald de Andrade e Mário de Andrade – as referências à culinária em si e ao canibalismo real. Boas surpresas foram colhidas ao longo do processo. embora a digestão da carne humana tenha. simbologias e objetivos diferenciados. e até a um canibalismo inesperado em Marinetti. por não refletir o exato perfil de seus participantes. p.que poderiam ser chamadas de influência ou contribuição – situam-se apenas no campo da suposição. independente. significados. desejavam fundar um movimento nacional. para cada um.indd 267 7/4/2009 15:51:28 . Op. e que continuou importando cultura por ainda mais cem anos. que atendesse aos anseios de um país – ex-colônia de Portugal por mais de três séculos. Mario de.”1. temas e formas de composição literária. 1 Andrade. Os escritores brasileiros que revolucionaram as artes no início do século chamaram-se no início de futuristas. Estas interferências . seria algum cozinheiro famoso. O “encontro” dos três autores propiciou o questionamento sobre as possíveis interferências da obra de um na obra do(s) outro(s). O banquete. desde a declaração de Mário de Andrade: “Gosto porém muito de arte culinária. As coincidências culinárias .

A partir da leitura das obras literárias de Marinetti pudemos observar que o escritor é muitas vezes esquecido. reproduzindo-os num grande livro. Há uma espécie de preconceito em relação ao escritor. Talvez Marinetti tenha somente se servido do regime. A obra literária de Marinetti é vasta e interessante. Colecionando fotos e bilhetes. 268 Cozinha futurista. ou talvez outros se aventurem pela obra marinettiana. De qualquer forma. talvez pela idéia corrente de que teria servido ao regime fascista de Mussolini. Esperamos que este livro “cozinhário” possa contribuir com os estudos feitos tanto na área gastronômica quanto na literária. e que desperte em outros estudiosos o interesse por esta figura tão contraditória e interessante do Futurismo italiano. Infelizmente este trabalho não pode ir além da Cozinha. Colecionando histórias de índios e organizando-as num herói nacional. parece ser a forma de composição comum aos três autores nas obras aqui estudadas.indd 268 7/4/2009 15:51:28 . participando da construção de uma nova sociedade para o novo século. Talvez em outro trabalho possamos verificar a invasão futurista nos outros cômodos da casa. sendo praticamente reduzido aos seus manifestos. como fez Oswald. estudioso de vários campos das artes. colando-os num diário. embora os títulos sejam pouco conhecidos ou lidos. a verificar todos os incômodos que este suscitou. merece mais atenção por parte dos pesquisadores. Colecionando recortes de jornal e receitas de amigos. como cantou Mário.Fillippo Tommaso Marinetti O pastiche. a colcha de retalhos. como Marinetti. um autor que analisou e criticou sua nação.

reFerênCIAs bIblIográFICAs K Cozinha futurista.indd 269 7/4/2009 15:51:28 .

indd 270 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

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indd 281 7/4/2009 15:51:29 .ApêndICe U Cozinha futurista.

indd 282 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

indd 283 7/4/2009 15:51:29 . Capa da edição em alemão 283 Cozinha futurista.ApêndICe 1 CApAs do lIvro A CozinhA FuturistA eM dIFerentes edIções e trAduções Capa do livro na edição espanhola Capa do livro na edição em língua inglesa Capa do livro em edição norueguesa Capa do livro na edição italiana de 1932.

abbandonando la tua dolce amica in questa città turbulenta e caotica. comandarli in guerra! Ocorre per questo avere l’anima. Cozinha futurista. superiore in tutto. ma rapidamente senza ingiustizia. Comprendo prefettamente quanto ti proccupi il dover raggiungere l’esercito al fronte. Bisogna sopratutto ricompensarli a tempo. senza dogmatismo disciplinare e senza rancore. l’ineluttabile fatalità della guerra. con un passo più veloce del loro. Tu senti la tristezza e la noia di riprendere ancora il fucile e di costatare colla necessità di uccidere. Fedeli come mastini. Questa volontà deve irrigidire I nostri nervi contro ogni viltà sentimentale. e scatenarli spesso contro il nemico da ammazzare! Mestiere difficile.Apêndice 2: cOme si nutrivA L’ArditO Via. in questa città di avventurieri rapaci e di operai ribelli nel rombo catarroso delle officine che hanno l’eterno ritmo asmatico? A II anni di distanza eccoci di nuovo lanciati in una nuova conflagrazione. Come potrà vivere quella bella camelia fragile senza la calda ovatta del tuo amore. si può portarli contro le morti più spaventose. Sono belve indomabili ma generosissime. Bisogna spesso prenderli a pugni. lo slancio e la você alta e il coraggio temerario d’un capo ardito! Un capo. poiché ognuno ha una spiccata personalità. Coraggio! su! la lotta sarà breve e decisiva. non esagerare la tua angoscia. Tu li conosci bene. Così. l’occhio. abbacinante di audacia eroica e di maffia insolente che sappia correre più di loro. Affretati di conoscrle bene tutti. Fra tre giorni ti troverai nel tuo reparto d’assalto fra quei terribili arditi verdirossi. ceffi spavaldi selvaggi tracotanti e giocondi che hanno già superato in ferocia tutti I Marat e in eroismo tutti gli arditi grigio-verdi dell’ultima guerra. il gesto. attraverso boscaglie di pericoli.indd 284 7/4/2009 15:51:29 .

cazzotti sfollatori. Interviene il tenente comandante del reparto con calci e schiaffi. silenzio assoluto! Seguitemi e guardate il mio braccio destro. Guzzo. Ringhiano. non è rubata! Me la voglio mangiare tutta io! Non mi permetto di offrirla a lei. Neanche un pezzettino. Cozinha futurista. Fulmine. Con scatto viperino l’ardito si volta e morde la mano. risponde Guzzo irato. la tua carne salata! Scoppia la rissa: arruffio di braccia. cedendo a poco a poco ed incanalandosi con spintoni e risate dietro il tenente che grida: . lasciala vedere. è vero! Ho dentro lo zaino la carne salata. signor tenente! A lei non può piacere. Tutto è domato.Fissati bene nella memoria I nomi anzi I soprannomi di quegli eroi: vampa. vero Sareceno magro agile scattante. Non posso. grandi occhi neri dolcissimi. un pezzettino! Guzzo.Tutti con me! Fate silenzio! Silenzio! Silen…zio! Silen…zio!… Quando saremo nell’acqua. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra. Ma la mano potente stringe meglio la gola e la belva cede. non la tocchiamo. Scoppierà subito una lite nei ranghi: è Guzzo che grida: . Signor tenente. fez rossi. Succhiasassi. Assassino. Il caporale dice che ho dentro un pezzo di carne salata. vogliono vedere la carne salata. ma è mia. fetenti! Mascalzone! Te la cucinerò io. Al fiume prima tappa. Ne prende uno per il collo. Setteferite.No! No! non voglio aprire il mio zaino. è troppo amara! Tutti gli arditi circondano Guzzo con lazzi gridi ingiurie. Ti raccomando un certo Guzzo di Trapani tutto nero. bestemmiano. ruzzoloni. Si guazza a mostrarla.indd 285 7/4/2009 15:51:29 . Spaccafucili. Bruciapreti. minacciano gli arditi verdirossi.

Due minuti dopo russa catarrosamente con un rumore acqueo che domina lo sciacquio del fiume. L’acqua s’infiamma di mille estasi. urla la sua gioia bianca. A un metro a destra Guzzo è in ginocchio. Ecco. nel fango. Guzzo fruga sempre nel suo zaino. Nasce la luna con gioielli rubati all’acqua bollente di risate. ecco il primo fascio di luce è a due metri. curvo sul suo zaino. ma è forte e conosce bene I guadi. paesaggi d’oro liquido. striscia. Non si crede veduto! Ad un tratto due proiettori si accendono sulla riva nemica. Lo apre. si incrociano. poi si ferma. Se guida meglio così il proprio destino e si tien meno legata la propria vita ai fili sparsi della Fortuna. Sono due scope lunghe d’argento polverulento. forme spettrali.indd 286 7/4/2009 15:51:29 . tutto acceso di Cozinha futurista. metterti in coda al reparto o prendere la testa. Si sforza di aprirlo. Guzzo in ginocchio. svegliando miracolosamente fogliami e fusti fantastici d’argento lieve. Corrono dei riflessi furbissimi. Fruga dentro. Velluti carnali con pallori umani che vibrano. Troverai fra I più arditi verdirossi Guzzo. Gorghi di pupille ardenti. spiagge di madreperla. pieno di ombre lunghe come cappellacci a sghimbescio sugli occhi gelati del fiume. implorano. a tua scelta. s’arricchisce di diamanti. Non ti vede. isolotti di giaccio. La colonna degli arditi si ferma dietro al braccio destro del tenente. carponi. È preferibile camminare in testa. I piedi diguazzano e flic-flaccano nel pantano. a un metro da Guzzo. Tappeti veloci di zaffiri e smeraldi. Sembrano pezzi di nave impennati che affondino. case color smeraldo. Tutti a terra nel fango e nell’acqua. Siete delle ombre umane che si acqattano. Uno specchio d’acqua breve poi una piccola lingua di terra grigia quasi bluastra nel violaceo comosso crepuscolo. mentre la forbice tagliente formata da due proiettori si apre con lento mistero.Tu puoi allora. Sopra giganteggiano i tronconi del ponte saltato. Ha lo zaino più pesante. Davanti a te un ardito ammantellato. Lo investe sfarzosamente.

sono qui con te. Le mammelline tonde soavi vive. Spargonointorno le belle rose granate che scoppiano profumando… Bella! Cara! Mi vuoi? Mi vuoi? Oh! Sento che mi vuoi! Sento che mi desideri. tutti I velluti. poi andremo insieme avanti. carponi. Umana.indd 287 7/4/2009 15:51:29 . timido. immensa divina. Ha veramente fra le mani un pezzo di carne. Vedi? Tutto è bello intorno a noi. tutte le sete. nel tuo calore rovente umido succiante! Paradiso inferno iddio mio.splendori. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non aprla più! Il ventre umile. Sono caduto giù dall’alto dei miei eroismi. tremano. tutti I diamanti.Cara. giù! La morte ci dà quest’ultima notte di festa. Guzzo mormorava: . le vesti più belle! Tutte le perle. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. scende risale sotto le volte della cattedrale. estrae dallo zaino qualcosa che splende più di lui. Fischiano gli angeli di fuoco sul nostro letto. perché non ti bruci contro le sbarre furenti precise dei tiri di mitragliatrice… Sono capitombolato giù dal cielo disperato nero. in alto sopra di noi. senza stupirti. E c’è pure la musica. con te. né spaventarti. Avvicinati! Non ti sente. Ora tu apri le tue braccia che non hai più e mi tendi le labbra che non hai più! Ti terrò con me sotto le mie labbra ancora un’ora. la musica che sale. sulla riva nemica… Tu sei l’unica mia gioia calda in questa notte gelata! Ti porterò sulle spalle senza farti male e camminerò curvo. mio mio! Bevo l’infinito in te. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. Tu con calma guardalo bene. è assorto. Si! Si! Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. squartato e rullante della mia vita morta. in te. ingenuo. piccola. Cosi pure il collo. giù giù su te. Musiche e splendori! Le cose più ricche. piena d’ogni speranza e di ogni benedizione!” ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Cozinha futurista.

Porta con te la mia carne e baciami giorno e notte.Ho fatto ciò che volevi! Ti ho mangiata la faccia di baci. Il fascio di luce scivola lontano. di splendore in splendore e si spegne. divorami. Sei a tre centimetri dalla spalla di Guzzo. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Poi silenzio. Lo so. tutto ho mangiato con millioni di baci! E ora sei me stesso! Nelle mie vene il mio sangue ti culla. Se lo carica sulle spalle e si alza. Flic-flac di passi intorno. ssssssssss del fiume. Un sibilo lungo. Lo so. Gli arditi si ammucchiano poi davanti nel guado che sognando travolge succhia mastica raggi di stelle. Tu devi allora appoggiare la mano sulla spalla di Guzzo e parlargli: Ti piaciono le donne. stringe tutto in una pelle nera. lontano. Vedi. mangiami la faccia di baci. Guzzo si scuote. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. sono tua! Tua! Poi Guzzo cambiando voce: .Portami con te in guerra. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. I tuoi oiedini santi.La mitragliatrice nemica punteggia queste ultime parole. e tutta la tua cara testa coi capelli l’ho mangiata! Le tue gambe. Non amo la testa della donna. gli occhi.indd 288 7/4/2009 15:51:29 . Piange. cinghia e lega allo zaino. e con você flebile di donna ripete a memoria un brano di lettera: . ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. Guzzo? Sì. raggomitola ciò che gli tremola luminosamente nelle mani. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? Cozinha futurista. Buio. piccola. baciami. la fronte. ma non le donne vive. né i suoi piedi.

Tu allora non esitare. Milano. Novelle colle Labbra Tinte. Mondadori. T. Ti ho visto. Colpito cadrà nell’acqua. amico! Se muoio prendi il mio zaino e seppelliscilo. F. Ora porti il resto sulle spalle. ti approvo. Cozinha futurista. Poi avanti! Mentre camminerai fra gli spudorati splendori scandalosi dei proiettori che ti cercano. 1930. sentirai piangere vicino a te. le sue gambe. in te! Piangerà il corpo della bella di Guzzo! E il suo pianto colerà sulla tua schiena a gocce lente. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Accidenti alla mitragliatrice! grida Guzzo.indd 289 7/4/2009 15:51:29 . voluttuose. le sue braccia. stacca lo zaino e caricatelo sulle spalle. Sempre avanti lo stesso! Guzzo si caccerà con un balzo contro la palla che lo cercava scherzosamente pur volendolo scansare.So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. poi svincola il cadavere di Guzzo dalle erbacce e spingilo nella corrente che lo porterà al mare. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!… Grazie. In: MARINETTI. su di te.

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pelo incentivo e por dividirem os segredos de suas cozinhas. incentivando e. embora não compreendendo os dias e noites silenciosos debruçados sobre livros. Maria Augusta Fonseca. Ao Rodrigo. À Vera e ao Chef Picard. Aos meus pais – Mary e Domingos . que sem saber. Andrea Lombardi e à Profª. Alain Mouzart pelas dicas na tradução. apoiaram à sua maneira. Ao meu irmão Junior pela paciência na solução dos infindáveis problemas técnicos. Lucia Wataghin por ter me orientado com competência. sempre disponíveis em busca de algum livro desaparecido. suporte decisivo. acreditando que tudo daria certo. à Claudia.que. companheirismo e paciência enquanto eu me perdia entre receitas possíveis e impossíveis. ajudando. acima de tudo.AGrAdecimentOs Agradeço à Profª. À Paola pelo apoio e pelas broncas. Dr. por provar que sempre vale a pena lutar pela felicidade. abriu para este trabalho os caminhos da antropofagia. Drª. Cozinha futurista. Drª. Ao Prof. Ao Prof. que mesmo distante se fez tão presente e participante. À Profª. Drª.indd 291 7/4/2009 15:51:29 . Aurora Fornoni Bernardini pelas sugestões dadas no exame de qualificação. à Carla por aturar muitos dias de mau humor. Aos funcionários da Biblioteca.

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