A cozinha futurista

Cozinha futurista.indd 1

7/4/2009 15:51:15

Cozinha futurista.indd 2

7/4/2009 15:51:15

A cozinha futurista
de Filippo Tommaso Marinetti

Introdução, tradução e notas: Maria Lúcia Manicelli

Cozinha futurista.indd 3

7/4/2009 15:51:16

Edição: Joana Monteleone Assistente editorial e projeto gráfico: Marília Chaves Revisão: Diagramação e capa: Marília Chaves Imagem da capa:

[2009] Todos os direitos dessa edição reservados à ALAMEDA CASA EDITORIAL Rua Iperoig, 351 - Perdizes CEP 05016-000 - São Paulo - SP Tel. (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

Cozinha futurista.indd 4

7/4/2009 15:51:16

Sumário

Introdução
Futurismo A Gastronomia na literatura: prazeres sinestésicos A cozinha Futurista

MárIo de AndrAde, oswAld de AndrAde e A CozInhA FuturIstA
Mário de Andrade na Cozinha Oswald canibal de Andrade Marinetti Antropófago

A CozInhA FuturIstA e lInguAgeM
O Futurismo: proposta de revolução lingüística A Cozinha Futurista e as inovações na língua Dificuldades da tradução

A CozInhA FuturIstA – trAdução
Uma refeição que evitou um suicídio O manifesto da cozinha futurista A revolução cozinhária Os cardápios futuristas Receituário futurista Pequeno dicionário

Cozinha futurista.indd 5

7/4/2009 15:51:16

indd 6 7/4/2009 15:51:16 .ConClusão reFerênCIAs bIblIográFICAs ApêndICe Capas de diferentes traduções do livro A Cozinha Futurista Come se nutriva l’ardito Cozinha futurista.

indd 7 7/4/2009 15:51:16 .Introdução A Cozinha Futurista S Uma refeição que evitou um suicídio Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 8 7/4/2009 15:51:16 .

convive com os simbolistas e decadentistas. fundador e o maior expoente do movimento futurista. Fazendo parte da elite dominadora. em 1876. a revolta contra o status quo social pôde então se desenvolver. o futuro poeta presenciava a submissão e as condições de vida da população autóctone. O menino Filippo nasceu em Alexandria. pôde observar a distância entre discurso e atitude. Educado em colégio católico.indd 9 7/4/2009 15:51:16 . quando estuda Letras na Sorbonne. o jornal francês Le Figaro publicou o Manifesto Futurista. Estudou em uma escola de jesuítas franceses. Aos dezessete anos descobre Paris. entre colonizadores e colonizados. aproxima-se de seus ideais. Quem assinou o manifesto foi Filippo Tommaso Marinetti. Conhece toda a agitação cultural e artística daquela cidade. Em língua francesa. 9 Cozinha futurista. o manifesto atingiria um número maior de leitores. o colégio Saint-François Xavier.O FuturismO Em 20 de fevereiro de 1909. uma colônia inglesa no Egito.

para entendê-las.indd 10 7/4/2009 15:51:16 . basta verificar as contradições culturais de seu líder: Marinetti diz-se anticlerical. sua ambição essencial é a de transformar a cultura e literatura italiana. pessoa gentil no dia-a-dia. eletricidade. porém. que ele julga estagnadas. a não ser no banco dos réus. depois tornou-se pai e esposo exemplar. rompe com todas as tradições e inaugura o estilo das vanguardas do século XX. volta a Paris e nunca mais se envolve com a justiça. Marinetti se forma na Universidade de Gênova em 1899. como forma de difundir os ideais futuristas. mas adere e defende o fascismo. é indisciplinado. mas veste a farda da Academia. O futurismo nasceu sob o signo do mundo moderno. uma vez satisfeito o orgulho paterno. Com o Manifesto do Futurismo Marinetti inova. A violência aparece apenas no discurso literário. Máquinas. Marinetti foi um filho afetuoso e dócil. do domínio do homem sobre a nature- 10 Cozinha futurista. promulga-se anticlássico. Havia sim contradições na base do futurismo e. é liberal. mas suas filhas estudam em colégio de freiras. velocidade revolucionaram o mundo e passaram a ser os novos ideais de beleza. sendo depois seguido por Dadá e pelo surrealismo. advogado. imagina para o filho uma carreira jurídica e o faz voltar à Itália para estudar Direito. o gosto pelo escândalo e o exibicionismo eram arquitetados. Os primeiros vinte anos do século XX marcam o advento do avião. Se todas essas contradições podem conviver no espírito de apenas uma pessoa. Mas se os princípios são de caráter universal e seu líder despende forças para difundir os ideais pela Europa e pelas Américas. o mesmo torna-se impraticável quando se trata de um grupo que deveria estar unido em torno (ou em busca) de um ideal estético/artístico. mas cumpre o serviço militar e participa da Primeira Guerra como voluntário.Fillippo Tommaso Marinetti Seu pai. Costuma-se dizer que a história do futurismo confunde-se com a de seu idealizador. do automóvel. Marinetti.

1980. o mais fecundo do futurismo. cheia de gritos que exclamam e interrogam. o movimento implicou nova ruptura com a tradição. a primazia do viril ante o feminino. 86 11 Cozinha futurista. o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (“Stirner mais do que Bakunin”). O futurismo literário.”2 O crítico Luciano de Maria divide o futurismo de Marinetti em apenas duas fases: o período heróico.10 Teles.indd 11 7/4/2009 15:51:16 . Vanguarda européia e Modernismo brasileiro.A cozinha futurista za. Podem-se estabelecer algumas datas limítrofes para o Futurismo. Como diz Aurora Fornoni Bernardini. Gilberto Mendonça. já que os artistas procuram apresentar a realidade em pleno movimento e não nas suas formas essenciais. um mundo de máquinas. de multidões e de velocidade. desenrolar ininterrupto de sons e de imagens”). a idolatria pela máquina. em que o princípio estético defendido é o verso livre. quando se redige a maior parte dos manifestos e se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade. dividindo-o em três fases. os três pilares que sustentam o Futurismo são o verso livre (“perene dinamismo do pensamento. dessacralizadora. por sua vez. quando se fundou o fascismo.1 Na base do discurso futurista do início do movimento existe um discurso subliminar: uma solicitação antiburguesa. ed. instrumento multiplicador dos poderes do homem. a exaltação da energia e da ação. como se o novo precisasse da revolução para se libertar do antigo. a reação contra os limites e padrões estabelecidos. O futurismo italiano. p. No plano plástico. 1999. 15a. p. até 1 2 Bernardini. e o futurismo se transforma em porta-voz oficial do partido. São Paulo: Perspectiva. sempre de acordo com a atuação de Marinetti: “de 1905 a 1909. Aurora Fornoni. e a de 1919 em diante. a reivindicação da valentia e da audácia. Petrópolis: Vozes. A literatura então procura transmitir o espírito do mundo moderno. defende – além das palavras em liberdade – a exaltação da intuição contra a inteligência. numa poesia febril. de 1909 a 1919.

São Paulo: Edusp/IEB. Aurora Fornoni. pp. Op. A influência existe. data da morte de Marinetti. 294 a 297. Mário de Andrade estava já em desacordo com a postura política de Marinetti e não queria ter seu nome associado à figura do líder futurista/fascista. Na correspondência de Mário de Andrade a Manuel Bandeira podemos encontrar em carta datada de 14 de maio de 1926 . Eliot e outros. mas a revolução causada pela possibilidade de libertar as palavras das construções sintáticas cristalizadas impregnou de tal modo o espírito modernista brasileiro que estes não vêem nenhuma dependência do futurismo. “Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado com Joyce. Mário de & BANDEIRA. foi oswaldianamente antropofágica: recolhida a influência.alguns comentários depreciativos em relação ao “carcamano. Organização. Correspondência. 12 Cozinha futurista. não teria existido sem o futurismo”3 Entretanto. 2000. mesmo tendo esta influência sido negada pelos autores. introdução e notas: Marcos Antonio de Moraes. que veio fazer a gente perder quase metade do caminho andado”. 11 ANDRADE.época da primeira visita de Marinetti ao Brasil . como no caso de alguns dos primeiros modernistas brasileiros. cit.Fillippo Tommaso Marinetti 1920. e um “segundo futurismo”. Podemos pensar que a apropriação. 3 4 Bernardini. de 1920 até 1944. esta foi assimilada e passou a integrar o modernismo. ou “que convém tratá-lo com a maior desimportância até com uma desimportância afetada para que ele não imagine que a gente está indo na onda” 4 Na realidade. O Futurismo foi o primeiro grande movimento intelectual italiano do século e deixou marcas inconfundíveis na estética do mundo moderno ao servir de modelo para inúmeras escolas em diversos segmentos das artes. Marinetti exerceu inegável influência em todas as literaturas modernas. Manuel. neste caso. é fato que o movimento perdeu sua força inovadora à medida que se aproximava da política.indd 12 7/4/2009 15:51:16 . p.

para propor estas novas idéias. Vêse. Os textos. são sim entremeados por reivindicações numeradas de ordem militar. ao menos é isso o que a crítica demonstra. em nome de uma visão de mundo que se apresenta como totalmente nova. o gosto. pois. a idéia de que a arte não deve permanecer no isolamento. Dentre as idéias futuristas encontramos o culto da máquina e da velocidade. existem algumas características que são comuns a outros movimentos de vanguarda. gritadas. a provocação.A cozinha futurista No Manifesto Futurista. unidos por um repertório de idéias e valores comuns. Pode-se verificar que há. uma quantidade maior de manifestos do que de obras literárias. dispondo-se livremente no papel.indd 13 7/4/2009 15:51:16 . mas mergulhar impetuosamente na vida de todos os dias. a abolição da conjugação verbal. que provém de uma tradição secular. A teoria futurista não pode ser facilmente aplicada à literatura. que a real novidade proposta pelo futurismo não é o conteúdo. Ora. 13 Cozinha futurista. mas o tom. do advérbio e da pontuação. em tom de discurso inflamado e com uma certa ruptura sintática. pregando ao mesmo tempo a destruição do passado e sobretudo das literaturas passadas. do adjetivo. sinais gráficos e verbos impecavelmente conjugados. a drástica ruptura com a mentalidade. como: a vontade de apresentar-se como um grupo organizado de artistas militantes. revolucionando-a. no futurismo. utilizavam. modificando a sintaxe: as palavras não deveriam mais seguir a ordem lógico-sintática. aqui reside o primeiro malogro futurista. os modelos de comportamento do passado. com adjetivos. advérbios. Ao mesmo tempo que pregavam a destruição da sintaxe. em violento conflito com o resto da sociedade. a velha sintaxe tradicional.

Verhaeren. Sabe-se que só existe revolução se há passado. mas deve ser destruição. construção de objetos novos. a arte não é mais representação de mundo. Marinetti usa grande parte das idéias simbolistas e decadentistas para promover os seus manifestos.Fillippo Tommaso Marinetti Outra contradição presente no futurismo é a negação do passado literário. o futurismo. As primeiras intenções contidas no cerne do movimento são transformadas em técnica de oratória e de governo.) como toda vanguarda. Entretanto. do topete e do desafio. Paul Adam e outros. de outro. p. problemas. a contestação integral da linguagem burguesa. “(. (. movimento político que o transformou em instrumento de propaganda. apesar de proclamar em seus discursos a absoluta inovação de suas técnicas.indd 14 7/4/2009 15:51:16 .) Literatura Italiana: linhas. da velocidade. com sua exaltação eletrizante da máquina como triunfo da vitalidade. A temática fascista apropria-se do marinettismo e com ele da impetuosidade da linguagem. São Paulo: Nova Stella/Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/Edusp.. a utopia de uma reinauguração da expressão. que estava solidária à grande burguesia industrial propiciadora do desenvolvimento.5 Para o movimento. ou então. Mas. contestação do presente. p.”6 O futurismo evoluiu (ou talvez tenha involuído) de transformador das artes a meio de comunicação servidor da moral e do fascismo.) decadentes e simbolistas do “fin de siècle”. autores.485 14 Cozinha futurista. cit. Gustave Kahn... Gilberto Mendonça Teles afirma que o próprio Marinetti “dá como seus precursores os nomes de Whitman. Zola. 87 Squarotti. há uma exaltação da técnica que não podemos deixar de relacionar à civilização industrial no ápice de seu desenvolvimento. 1989. Giorgio Barberi (org. o futurismo oscila: de um lado. Gilberto Mendonça. não poderia deixar de se aproximar da revolução fascista.. oposição total ao sistema do poder constituído. 5 6 Teles. desmonte sistemático e polêmico do passado. justamente por isso. Op. Somente o desejo de mudar a realidade é que dá ensejo à aproximação do novo. do tom provocador.

O ritual do jantar. resumindose a difundir as idéias fascistas. aparece como o último grande feito marinettiano. após essa data.. limitou-se a poucas e infrutíferas ações literárias. era necessário reunir as pessoas para que uma carne (proveniente de caça ou sacrifício) fosse melhor aproveitada. T. Comemorações marcando transições e lembranças quase sempre exigem comida. consiste numa série de ações constantemente repetidas. e pela repercussão e discussões que provocaram suas inovações. o futurismo colaborou de forma incisiva para a mudança ocorrida na literatura do século XX e que. Ed. publicado em 1930 (época em que Marinetti já pertencia a Academia Fascista) por F. Rio de Janeiro. até 1920. A julgar pela extensa bibliografia contida na obra A Cozinha Futurista. A refeição em si é um ritual presenciado em todas as culturas. A refeição também é habitual e visa à ordem e à comunicação. Os dias festivos são solenes ou sagrados. por exemplo.. como lembra Margareth Visser7.) à volta diária dos caçadores 7 Visser. com toda a cortesia ritual implícita na refeição. já que encontros sociais são comumente realizados em torno de uma mesa. 1998. o Manifesto da Cozinha Futurista.22 15 Cozinha futurista. já que não havia métodos para evitar que os alimentos se deteriorassem. já exausta do cunho propagandista revelado pelos últimos anos do futurismo. O ritual. Campus. A GAstrOnOmiA nA LiterAturA: prAzeres sinestésicOs A gastronomia sempre encontrou um campo fecundo na expressão estética.A cozinha futurista Pode-se dizer que. Na literatura. No início. As famílias também se encontram para refeições e este costume remonta a dois milhões de anos.indd 15 7/4/2009 15:51:16 . “(. é difícil encontrar um romance no qual não se descreva ao menos uma refeição. Margareth. p. este manifesto gastronômico nunca foi apreciado com o devido valor pela crítica. Entretanto. Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. sendo ao mesmo tempo o comportamento esperado e o correto.

ou por escolha própria.Fillippo Tommaso Marinetti e forrageadores proto-humanos para dividirem a comida com seus companheiros – aqueles que habitualmente. jejuns religiosos ou de emagrecimento. nem sempre este prazer caminha impune.15 16 Cozinha futurista. reciprocidade. a abstinência gastronômica. Outro infortúnio relacionado a este prazer é o de sua própria negação.” Quando os homens perceberam que o ato de comer encerrava mais que sua simples subsistência. para certos indivíduos que digerem as substâncias de forma diferenciada. São Paulo: Companhia das Letras. mas nem sempre. p. Como diz Brillat-Savarin8 (1755-1826): “Os animais se repastam. O sucesso alcançado pelo repasto e sua digestibilidade dependem de cada um destes fatores. começaram a descobrir todo o prazer que uma refeição pode oferecer. O prazer da boa mesa transportou-se para as artes. da beleza da sala de refeição ao tipo de música selecionada para acompanhá-la. ou a preguiça e indolência. Cada detalhe colabora para tornar mais ou menos agradável este nosso ritual diário. Entretanto. cortesia. que pode ocorrer de forma compulsória – por empecilhos financeiros pessoais ou carestia em épocas de guerra e recessão econômica –. renovando suas forças. banquetes. Desde os alimentos até a bebida que os acompanha. A Fisiologia do Gosto. Com o passar dos séculos. devidas à ingestão de alimentos mal escolhidos ou mal combinados. chás ou simplesmente jantares íntimos 8 Savarin. este ritual perdeu seu valor econômico e ganhou em sociabilidade. Brillat. interesse e prazer. o homem come. Ele também pode trazer conseqüências desagradáveis. 1995. somente o homem de espírito sabe comer. nos casos de dietas auto-impostas como penitências. ou seja. O prazer também está diretamente ligado à gastronomia.indd 16 7/4/2009 15:51:16 . As cenas descritivas de festas. como a obesidade. da escolha dos comensais aos assuntos tratados durante a refeição. nutrindo-a. eles haviam decidido não devorar”. em que as pessoas encontram-se para celebrar a vida.

A cozinha futurista permeiam a literatura, enchendo as páginas com uma sensualidade discreta. Fatos e conversas importantes desenrolam-se entre um e outro bocado, sendo este pequeno rito diário sempre um bom pretexto para a reunião das personagens, já que toda refeição familiar compartilhada num minibanquete celebra tanto a interligação quanto o autocontrole dos membros do grupo.9 Mais que acessório literário, a boa mesa tornou-se independente e, cada vez mais, podemos encontrar nas prateleiras das livrarias edições dedicadas à gastronomia. Edições sobre a história da gastronomia dividem espaço com obras sobre a cultura e a filosofia. Os livros “de receitas” evoluíram e, cada vez mais, parecem-se com os livros de arte. E o são. Livros de arte culinária. As fotografias contribuíram em muito para transformar a arte dos chefs em verdadeiras tentações para os nossos olhares. A facilidade de encontrar os ingredientes traz o sonho de uma refeição digna de reis para mais perto de outras camadas da população. As figuras enchem nossos olhos com sua beleza, nossa imaginação encarrega-se de criar o resto: o gosto, a textura, o aroma, o tilintar dos talheres nos pratos. Cinco sentidos unem-se para reproduzir o prazer que sentimos ao saborear uma nova iguaria – ou uma iguaria já conhecida, mas redescoberta a cada novo bocado. A utilização dos sentidos sempre foi importante para a literatura. Descrições sempre se tornam mais interessantes quando extrapolam o campo da visão. É importante reproduzir sons, odores, textura, temperatura, sabores. Marinetti já percebera isto ao longo de sua obra. Em 1939, o manifesto O romance sintético catalisava as tendências um pouco separadas entre os manifestos anteriores, já que este deveria ser otimista, heróico, simultâneo, dinâmico, aeropoético, aeropictórico, olfativo e tátil rumorista.10 Merece atenção o subtítulo do livro Il tamburo di fuoco: drama africano di calore, colore, rumori, odori. Con
9 Visser, Margareth. Op. cit. p.22

10 Marinetti, F.T. Teoria e Invenzione Futurista. Milão: Mondadori, 1968. p. 193

17

Cozinha futurista.indd 17

7/4/2009 15:51:16

Fillippo Tommaso Marinetti intermezzi musicali del Maestro Balilla Pratella e accompagnamento intermittente d’intonarumori Russolo. Publicado em 1922, pela Casa Editrice Sonzogno de Milão, esta obra também privilegiava os sentidos. Os manifestos lançados ao longo do movimento também refletiram esta preocupação constante: o Manifesto técnico da literatura futurista (1912) defende a introdução do rumor, do peso e do odor na literatura, já que estes representariam, respectivamente, a manifestação do dinamismo, a faculdade de vôo e a faculdade de dispersão dos elementos. O texto Palavras em liberdade (19..)diz que o poeta futurista jogará nos nervos do leitor as suas sensações visivas, auditivas e olfativas. Seria a irrupção do “vapor-emoção”. No Manifesto do teatro sintético futurista (19..) nos é apresentada a representação da nova era – entremeada de gritos, gesticulação apropriada, enfim, de detalhes emprestados dos outros campos da arte para que o Teatro Futurista seja mais abrangente. O Manifesto do tactilismo, de 1921, é de suma importância para que se possa compreender a revolução “cozinhária”11 futurista. Marinetti defende que é possível educar o tato para que possamos perceber muito mais coisas através deste sentido. Exercícios como tocar “tavole sintetiche” formadas por lixa, veludo, areia, seda, e tantas outras texturas, favoreceriam ao homem a descoberta de outros sentidos, ainda não catalogados pela ciência. Seriam eles: sentido de visão na ponta dos dedos, sentido do equilíbrio absurdo (aquele que faz um atleta, ao final de um salto imperfeito, manter-se em pé), sentido de orientação aviatória (essencial para pilotos), sentido tátil a distância (pressentimento), sentido das costas (deve ser estudado em gatos no escuro), sentido musical (ou do ritmo corporal), sentido da superfadiga-força (a força que irrompe em um estágio avançado de fadiga), sentido de velocidade,

11 O termo “cozinharia” pretende recuperar o neologismo criado por Marinetti, que chamava sua revolução de cucinaria, em vez do existente culinaria.

18

Cozinha futurista.indd 18

7/4/2009 15:51:16

A cozinha futurista sentido de nível, sentido tato-cirúrgico (todo cirurgião é ou deveria ser dotado dele) e sentido carnal-materno. O desenvolvimento dos “17 sentidos” proporcionaria uma gama maior de possibilidades, e seria possível, através de determinados materiais táteis, induzir sensações, histórias, sentimentos nas pessoas. Marinetti também propõe a utilização dos cinco sentidos para que um prato possa ser devidamente apreciado e degustado, como na “Aerovianda com rumores e odores”. Diz Marinetti: “(...) futuristicamente comendo, opera-se com os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição”. O prato consiste em quatro pedaços: um quarto de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza as pontas dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. No relato de Marinetti, apenas uma pessoa permaneceu alheia ao entusiasmo que preencheu a sala durante a degustação deste prato. Questionada, descobriu-se que era canhota – esfregava portanto o aparelho tátil com a mão direita enquanto comia com a esquerda. Mas a teoria gastronômica futurista proposta por Marinetti não é exatamente inovadora, apesar de o parecer à primeira vista. Em pleno início do século XIX, Brillat-Savarin12 escreve A Fisiologia do Gosto, obra em que discute filosoficamente diversos assuntos relacionados à gastronomia. Neste livro, além de afirmar que a alimentação influi de maneira direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios, relata

12 Savarin, Brillat. Op. cit. p.15

19

Cozinha futurista.indd 19

7/4/2009 15:51:16

Fillippo Tommaso Marinetti um de seus experimentos: um jantar em que foi usada uma de suas invenções, chamada por ele de “irrorador”. O instrumento foi apresentado, durante um jantar, à Sociedade de Estímulo à Indústria Nacional e consiste em uma fonte de compressão adaptada para perfumar ambientes internos. A idéia tão inovadora de Marinetti - perfumar os ambientes durante os jantares para promover uma apreciação mais completa - já havia sido explorada por outro curioso com um século de antecedência. Brillat-Savarin afirma ainda que “quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas, aromatizadas de perfumes, enriquecida de belas mulheres, repletas dos sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.”13 O embrião da cozinha futurista também pode ser encontrado em outros autores. Podemos encontrar a interação dos cinco sentidos na tradição simbolista francesa, desde Rimbaud, que relaciona a sonoridade das letras à música e às cores; em René Ghil (1862-1925), ao instaurar a língua-música, em que vincula certas ordens de sentimentos e idéias às ordens de sons e de timbres vocais. Diz Ghil que “(...) todo instrumento musical tem harmonias próprias: daí seu timbre, que é assim apenas uma cor particular do som”14. Marinetti afirma, no manifesto Palavras em liberdade, que o verbo no infinitivo é redondo e escorregadio como uma roda; os outros modos e tempos do verbo são triangulares, ou quadrados, ou ovais. Nas Correspondências, de Baudelaire, a fusão dos sentidos não se dá em cadeia, na seqüência temporal; pelo contrário, realiza-se num só instante, como se o perfume fosse, a um só tempo, oloroso, táctil,
13 Id. Ibid. 39 14 Moisés, Massaud. História da Literatura brasileira, vol..3 Simbolismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1985. p.11

20

Cozinha futurista.indd 20

7/4/2009 15:51:16

A cozinha futurista auditivo e visual. Já Mallarmé, em seu manifesto decadente Aux lecteurs!, de 1886, afirma que “Afinamento de apetites, de sensações, de gosto, de luxo, de prazer; nevrose, histeria, hipnotismo, morfinomania, charlatanismo científico, schopenhaurismo em excesso, tais são os pródromos da evolução social”. E sobre este manifesto, escreve Gilberto Mendonça Teles, em seu Vanguarda européia e modernismo brasileiro: “Podem-se perceber algumas idéias que vão ser levadas ao extremo pelos futuristas e dadaístas, uma vez que o movimento decadentista desapareceria três anos depois.” 15 Ainda no período decadentista, J.-K. Huysmans escreveu o livro Às avessas, em que podemos perceber a mesma intenção sinestésica no ato de comer. “De resto, cada licor correspondia, segundo ele, como gosto, ao som de um instrumento. O curaçao seco, por exemplo, à clarineta cujo canto é picante e aveludado; o kümmel, ao oboé, com seu timbre sonoro anasalado; a menta e o anisete, à flauta, a um só tempo açucarada e picante, pipilante e doce (... )”16 ou ainda “(...) ergueu-se e, melancolicamente, abriu uma caixinha de prata dourada com a tampa enfeitada de aventurinas. Estava cheia de bombons violetas; pegou um e apalpou-o, pensando nas estranhas propriedades desse bombom coberto de açúcar como geada; outrora (...)depositava um desses bombons sobre a língua, deixava-o derreter-se e subitamente surgiam, com infinita doçura, lembranças muito apagadas, muito enfraquecidas, das antigas libertinagens. Tais bombons (...) eram uma gota de perfume de sarcanthus, uma gota de essência feminina, cristalizada num torrão de açúcar; eles penetravam as papilas da boca, evocavam lembranças de água opalizada por vinagres raros, por beijos muito profundos, empapados de odores. De hábito, ele sorria, aspirando esse aroma amoroso, essa sombra de carícias que lhe punha uma ponta de nudez no cérebro

15 Teles, Gilberto Mendonça. Op. cit. pp.56-57 16 Huysmans, J.K. Às Avessas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.78

21

Cozinha futurista.indd 21

7/4/2009 15:51:16

uma salada temperada com óleo de nozes e grappa. Guillaume Apollinaire discutia a idéia de haver um “cubismo culinário”. O cardápio de um jantar “gastro-astronomista” trazia como entrada violetas frescas sem os cabos. resultantes dos avanços científicos. ibid. Flores. brincando com as palavras e remetendo tanto ao movimento artístico quanto aos cubos de comida desidratada. mas degustar novos pratos. perfumes e materiais de diferentes texturas. por um segundo. temperadas com suco de limão. Apollinaire manteve contato com o futurista Marinetti. café. frutos exóticos. que era arte. A cozinha “gastro-astronomista” não tem por objetivo saciar a fome.indd 22 7/4/2009 15:51:17 . com os quais era possível preparar sopas e outros alimentos. Marinetti não recebia muito bem este apoio. queijo temperado com noz-moscada e. parecem coincidir nas duas proposições. preferencialmente estando sem apetite. aproximando-se do italiano através de cartas. Estimulando o dinamismo. e não ciência. A combinação de elementos bastante diferenciados e o uso de condimentos inusitados. A fome só atrapalharia a degustação. o gosto não há muito adorado de certas mulheres. mas parece ser possível reconhecer traços da rebeldia “gastro-astronomista” na cozinha futurista. um peixe cozido em folhas de eucalipto que evocava Flaubert. Entre os modernistas brasileiros não foi muito diferente. diferentes combinações de sabores e odores.134 22 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti e reanimava.” 17 Os ingredientes utilizados nas receitas futuristas eram escolhidos para provocar a melhor experiência sensorial (seria melhor dizer sensual?) possível. como sobremesa. escrevia críticas 17 Id. como jornalista. Cedo percebemos em Oswald de Andrade o gosto pelas artes em geral. um filé temperado com tabaco que seria aprovado à perfeição por Brillat-Savarin. Oswald. Já em 1911. Na mesma época. não se restringindo à literatura. p. defendeu uma Gastro-astronomia. ao menos. frutas da estação.

indd 23 7/4/2009 15:51:17 . provavelmente a “Villa Fortunata” onde aconteceu o jantar. A cOzinhA FuturistA O Manifesto da Cozinha Futurista foi publicado em 1930. Tournedos à la Rossini. apenas Marinetti havia resistido no movimento – motivo pelo qual Paolo Angeleri chama-o de marinettismo. Para beber. cit. como a do escultor Victor Brecheret. Como sobremesa. Op. Foi o responsável por impulsionar muitas carreiras artísticas. p. escritos diversos sobrepostos à lista de pratos. Dos integrantes do primeiro grupo futurista. Parfait Praliné e fruits.18 O futurismo já flertava com o fascismo 18 Bernardini. outras musicais. com o bandeirante Pau lo Prato chorando sobre a trasteza do pó Lhytico no Brasil. como a do traficante de pau brasil Oswald d’Andrade e a leitura do sermão da montanha sobre Ser Mãi da Intanha. Dinde farcie. enfim. o casal Tarsiwald ofereceu um jantar literário ao escritor paulista Paulo Prado (1869-1943). A lista de comidas traz uma reprodução gráfica de uma casa. música. O programa anunciava algumas intervenções: umas literárias. saindo em sua defesa publicamente após a conhecida crítica de Monteiro Lobato à sua exposição em 1917.16 23 Cozinha futurista. Aurora Fornoni. que tratou como mais uma arte. Filet de poisson Parmentier. Charlotte Russe. caricaturas. Champagne. escrita em francês: Potage crème de volaille. Em 1927.A cozinha futurista de pintura. como o trobadour Rainette Olé cantando e a pintora caipiriuschka Tarsilowska do Amaral tocando alaúde. Este gosto pelas artes não excluía a gastronomia. Liqueurs e Café. além de ilustrações de Tarsila. quando as polêmicas suscitadas pelo movimento já não tinham a força revolucionária de outrora. ou mesmo a de Anita Malfatti. ou mesmo política. e o cardápio-programa do jantar é uma obra de “arte sinestésica”. Jambon d’York e Salade. O jantar literário reuniria os cinco sentidos.

Com 267 páginas. pela coleção Il Cammeo quando ganhou formato de 21 cm e reduziu o número de páginas para 254. contendo o referido manifesto de 1930. A obra pode ser encontrada nas bibliotecas das cidades mais importantes da Itália. destruída. Bolonha. com a colaboração de alguns novos integrantes: Luigi Colombo “Fillía”. esta também de Milão. também de Milão. Ferrara. por Guido Filippi. Turim. em sua versão original ou traduzida.indd 24 7/4/2009 15:51:17 . em 1985 sob o nome La Cocina Futurista: una comida que evitó un suicidio. toda a polêmica por este suscitada na imprensa da época em diversos países. como Roma. bem como um receituário e um pequeno dicionário. Gênova. Esta tradução pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da Espanha e também na biblioteca da FFLCH – USP. Em 1986 algumas partes foram publicadas em fac-símile pela Salimbeni de Firenze.Fillippo Tommaso Marinetti desde 1914. Giulio Onesti e Enrico Prampolini. pela Editora Gedisa. Firenze. A Cozinha Futurista já foi traduzida para o espanhol. época em que uma Itália em guerra. No ano de 1929. concedeu à obra 14 páginas de ilustrações. Palermo. na Itália. e apenas quatro ilustrações. 27 cm de tamanho e 160 páginas. Outra tradução facilmente 24 Cozinha futurista. e em 1998 a terceira e última edição italiana do livro. O livro A Cozinha Futurista. e publicada em Barcelona. pela Editora Sonzogno de Milão. Milão. Marinetti foi nomeado acadêmico da Itália e vestiu a farda da Academia e em 1930 – praticamente dez anos após o final do período glorioso e fecundo do futurismo – publicou o Manifesto da Cozinha Futurista. Ravena. buscava no totalitarismo uma possibilidade de reconquistar a auto-estima. entre outras e pode ainda ser encontrada em bibliotecas espalhadas pelo mundo. foi publicado em formato livro primeiramente em 1932. feita pela Editora Marinotti. só foi reeditado em 1986 pela Longanesi. 19 cm. O ano da adesão oficial do futurismo (resumido então a Marinetti e alguns novos adeptos) ao fascismo é 1924 –. a descrição de diversos menus futuristas.

na figura de Mussolini. uma pela Editora Trefoil de Londres. cujos ideais já haviam sido antecipados de certa forma no Manifesto Futurista de 1909. as belas idéias pelas quais se morre. que pode ser encontrada na British Library.indd 25 7/4/2009 15:51:17 . com introdução de Andreas Viestad e publicada em Oslo pela Spartacus Forlag em 2001. Ora. na Bélgica. O livro foi traduzido também para o norueguês com o título Futuristisk Kokebok. e outra pela Editora Bedford Arts. os regimes totalitaristas. Esta obra pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca da Universidade de Leuven.M. e o regime comunista. pela guerra. Os manifestos do final do período heróico do futurismo (próximos a 1920) já possuem uma forte conotação sócio-política: a nação deveria reerguer-se e recuperar-se de todas as perdas resultantes da guerra. Existe ainda uma tradução em alemão. Dos manifestos que surgiram após 1920. o militarismo. datado de 11 de janeiro de 1921. excitado pela recente Revolução Russa. feita pelo escritor Klaus M. a audácia e a rebelião. entre outras. Rarish: Die futuristische Küche. pelo escritor Steiner Lorne. Ambas as publicações do livro The Futurist Cookbook datam de 1989. na Itália. Esta tradução foi publicada pela Editora Klett-Cotta em 1983. feita por Nathalie Heinich e publicada em Paris. Na realidade. Frankfurt e Hamburgo. se Marinetti e seus “discípulos” 25 Cozinha futurista. a coragem. o futurismo e o fascismo condividem o nacionalismo exacerbado. foram feitas a partir da tradução de Suzanne Brill e contam com uma introdução feita por Lesley Chamberlain. encontrada na Library of Congress. Metailié em 1982 com o título La Cuisine Futuriste. Duas forças políticas emergem no cenário mundial. o gosto pela luta. Marinetti apóia o regime fascista.A cozinha futurista encontrada é em francês. Em inglês há duas publicações. pela coleção Cottas Bibliothek der Moderne e pode ser encontrada nas bibliotecas de Leipzig. Gilberto Mendonça Teles acredita ser o mais importante o já referido Manifesto do tactilismo. pela A. em 1917. de São Francisco.

a proposição que mais choca é a de “abolir o macarrão”. que pretendeu revolucionar o modo pelo qual os italianos se alimentam. Um homem mal nutrido pensa e age mal. Luciano. rumores e odores (audição e olfato). segundo o autor. Neste Manifesto. em 28 de dezembro de 1930. O último dos sentidos fora também abordado pelo “agitador futurista”. erotismo. Surge então o Manifesto da Cozinha Futurista. Marinetti defendia novos hábitos alimentares. secondo il motto di Rimbaud. fotografia. que. Marinetti argumenta que este alimento contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada dos napolitanos. e non soltanto nelle condizioni esterne dell’esistenza.indd 26 7/4/2009 15:51:17 . Venezia: Marsilio Editori. música (audição). Marinetti afirma que o homem pensa. de Turim. ma nel più profondo dello spirito umano. o único sentido que ainda faltava ser abordado era o paladar.Fillippo Tommaso Marinetti já haviam escrito manifestos sobre pintura e escultura (visão). tactilismo (tato). danza. P. ao comerem macarrão. Nas palavras do crítico italiano Luciano De Maria: Marinetti e i compagni dissero la loro su ogni argomento: letteratura. não mastigam e o trabalho de digestão é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. sons. cucina ecc. è changer la vie. trariam inúmeros benefícios ao povo italiano. Ao propor a abolição do macarrão. politica. Un impulso “totalitario” anima il movimento: meta dei futuristi. cinematografo. 15 26 Cozinha futurista. come più tardi dei surrealisti. 1986. como o chamou Mário de Andrade. La nascita dell’avanguardia – saggi sul futurismo italiano. teatro. Dentre as diversas idéias apresentadas. sonha e age de acordo com o que come e o que bebe. 19 De Maria. o que provoca desequilíbrio e distúrbio destes órgãos.19 A publicação do Manifesto da Cozinha Futurista deu-se na Gazzetta del Popolo. As pessoas.

Op.) enfraquece as fibras e mesmo a coragem dos homens”21. o fósforo.que serve os pratos e as bebidas futuristas. não apenas em festas relativas a datas comemorativas do movimento literário.indd 27 7/4/2009 15:51:17 .A cozinha futurista Derivariam então: fraqueza. mas como pratos constituintes do cardápio. presente em boa parte da alimentação de quase todos os povos. em Palermo ( e não que tenha sido trazido da China para a Itália por Marco Polo). Orietta del Sole. p. Vez ou outra um restaurante promove uma noite futurista. p. um futurista e outro passadista. Brillat. ibid p. o escritor afirma que os povos que se alimentam de peixe são menos corajosos que os que se alimentam de carne de gado. Brillat-Savarin afirma que “o destino das nações depende de como elas se alimentam. Em seus Aforismos. “(. 22 O manifesto contra o macarrão é lembrado em diferentes épocas e ocasiões.”20 e acrescenta que a fécula. de Milão . que vive quase exclusivamente do arroz e é extremamente submisso. 20 Savarin. para os clientes que não desejam se aventurar nas receitas inovadoras. suas origens e sua história. faz uma referência ao mesmo fato: a tentativa de desvincular o macarrão dos hábitos alimentares italianos. 94 23 Na verdade.15 21 Id. existem dois cardápios. em que as receitas são novamente executadas e degustadas. mas ainda hoje existe um restaurante na Itália – o Lacerba. 27 Cozinha futurista. O exemplo dado é o do povo indiano.. em seu livro Nunca treze à mesa. e entre as afirmações de que já em 1154 o macarrão era produzido na Itália. 72 22 Id. traz uma ampla reportagem sobre o macarrão. pessimismo. Em outra passagem do mesmo livro.23 A revista Focus (Mondadori) de dezembro/2002. porém tem a sensualidade despertada por certa substância ictiófaga. inatividade nostálgica e neutralismo. Sem sucesso. cit. informa que no início do século XX o poeta Marinetti propôs abolir o macarrão da dieta italiana. ibid..

ibid p. talvez. culpa dos alemães. afirma Nietzsche. 13. A melhor cozinha. ou comemorativo. não só das pessoas individualmente. 51 25 Id.Fillippo Tommaso Marinetti O insucesso da tentativa é sempre comentado em tom jocoso. O interesse de Marinetti é. de 1888. o que também fazem franceses e ingleses. no livro Ecce Homo. arroz e cereais. Ecce homo. Outro argumento utilizado contra o macarrão é de ordem econômica. era caro e a substituição deste alimento favoreceria a indústria italiana do arroz.9% de gordura. que a alimentação atinge diretamente o caráter e o comportamento. O problema da importância da alimentação na formação do homem pode também ser verificado em Nietzsche. São Paulo: Martin Claret. A dieta mediterrânea – que inclui o macarrão . isto é. O filósofo alemão também acredita que a pessoa é o que come. 53 28 Cozinha futurista. Junto com o pão. Ironia ou não. que comem até empanturrar os intestinos (“O espírito alemão é uma indigestão.4% de proteína e 3. Friedrich. de virtude livre e de moral?” Nietzsche afirma que sempre nutriu-se mal. Nietzsche julga como a melhor cozinha justamente aquela que Marinetti pretende revolucionar. pois o trigo. Nutricionistas defendem que o macarrão faz bem à saúde: 100 gramas de macarrão sem condimentos tem 356 calorias. “Como deves nutrir-te para chegares ao teu máximo de força. 24 Nietzsche. é a do Piemonte. não chegando nunca ao fundo de alguma coisa. importado. das quais 80% de carboidratos. a italiana.já foi exaltada como exemplo de alimentação sadia e equilibrada em todo o mundo.indd 28 7/4/2009 15:51:17 . portanto anterior ao futurismo. o macarrão forma a base da pirâmide alimentar defendida pelos nutricionistas. 2000 p.”24). de ‘germânico’”25. mas molda o comportamento de uma nação: “basta a mínima inércia dos intestinos – tornada depois um hábito péssimo – para fazer de um gênio algo de medíocre. de virtude (no significado que essa palavra se dava na Renascença).

Como já foi dito.indd 29 7/4/2009 15:51:17 . A revolução gastronômica futurista não aconteceu. o manifesto não repercutiu como deveria esperar seu autor. de Marinetti. e ainda contribui para o desenvolvimento econômico do país. co-autor do Manifesto da cozinha futurista. o problema da interferência da alimentação na personalidade e/ou nas atitudes das pessoas não havia passado despercebido pelos autores do século XIX e início do século XX. desde a matéria prima de certos alimentos até modas gastronômicas/culturais estrangeiras. com o propósito de “melhorar a raça e a economia”. embora o objetivo não tenha sido alcançado. melhores cidadãos. acreditavam poder fortificar a raça e tornar os homens mais competitivos e adequados à guerra. A boa alimentação proporciona melhores soldados.A cozinha futurista portanto. Talvez por Marinetti estar diretamente ligado ao fascismo e defender idéias já então consideradas conservadoras e de forte conotação política. bastante nacionalista (seria lícito dizer fascista?). pretenderam revolucionar a culinária italiana. pela negação de todos os estrangeirismos. Marinetti e seus colaboradores. além de estarem demasiado atreladas à figura política do Duce. Após 1920. Os alimentos escolhidos também deveriam fortalecer a economia nacional. Percebe-se então o cunho político. Através da correta escolha e combinação de ingredientes. Além disso. Ainda que Marinetti tenha proposto uma revolução gastronômica em seu país. mas também político. o Futurismo havia entrado em crise. a cultura italiana haveria de se fortalecer pelas modificações propostas. pois as propostas futuristas verificaram-se impraticáveis. Pudemos observar que a tradição alimentar vem sendo questionada por inúmeros autores e em diferentes épocas. não só nutricional. em especial Fillìa. num período de decadência – os gritos e bramidos marinettianos já não eram ouvidos com tanta atenção pelo mundo literário. Mas a importância da alimentação 29 Cozinha futurista. desenvolvendo a indústria e propiciando empregos aos italianos. É provável que a publicação deste manifesto tenha sido uma tentativa de fazer ressurgir a importância do Movimento Futurista.

Marinetti tentou preparar. Entretanto. Restou-nos o manifesto. a alimentação italiana era mais resistente e tradicional. em todos os campos das artes. 30 Cozinha futurista.indd 30 7/4/2009 15:51:17 . mais uma prova da personalidade multifacetada de um revolucionário que se ocupou de todos os sentidos. com os ingredientes do futurismo.Fillippo Tommaso Marinetti para a vida das pessoas continua ganhando mais e mais importância tanto na literatura como na mídia. uma nova massa.

indd 31 7/4/2009 15:51:17 . Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista H Cozinha futurista.CApítulo 1 Mário de Andrade.

Cozinha futurista.indd 32 7/4/2009 15:51:17 .

a alimentação é fator fundamental para o desenrolar da obra. Partindo de apontamentos sobre algumas obras destes dois autores. de alguns colaboradores da Revista de Antropofagia liderada por Oswald. Macunaíma 33 Cozinha futurista. o mais respeitado seja aquele com maior capacidade de prover seus familiares. No livro Macunaíma. Espero não causar indigestão com a combinação das iguarias.indd 33 7/4/2009 15:51:17 . cuja repercussão. e oportunamente. tentarei estabelecer relações pertinentes entre os autores brasileiros e o “futurismo gastronômico”.máriO de AndrAde nA cOzinhA A repercussão do Manifesto da Cozinha Futurista na mídia possibilitou a realização do livro A cozinha futurista. por sua vez. deu ensejo neste trabalho a uma série de “analogias gastronômicas” entre este e parte da obra de dois escritores modernistas. A preocupação com a subsistência de cada indivíduo e de toda a tribo faz com que o mais forte. Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

comportamental. e – por que não? – gastronômica. O caráter de um povo também poderia ser avaliado verificando-se as bases de sua alimentação. Macunaíma é o famoso “herói sem nenhum caráter”. pois Mário julgou inadequados os dois que escrevera. mas também nas áreas lingüística.Fillippo Tommaso Marinetti passa a ser respeitado pelos irmãos na medida em que se torna o principal responsável pela alimentação dos mesmos.pode ser considerado um dos meios de formação da identidade nacional brasileira proposta por Mário de Andrade em Macunaíma.indd 34 7/4/2009 15:51:17 . O livro provocou dúvidas desde a publicação. O resultado de sua obra foi emblemático. O processo de ingestão e digestão . mas o livro só veio a ser publicado em 1928. já que Mário de Andrade acabou por construir um “símbolo do brasileiro”.ou assimilação . mas as várias influências que determinaram o caráter e a formação do povo brasileiro. Mário de Andrade escreveu Macunaíma na semana de 16 a 23 de dezembro de 1926. As inúmeras repetições do verbo comer e seus sinônimos chamam a atenção sobre os alimentos ingeridos ao longo da saga de Macunaíma. devido à série de modificações feitas no texto original. 34 Cozinha futurista. durante umas férias em Araraquara. e já que a rapsódia foi publicada no mesmo ano do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. reflexo da miscigenação de tantas culturas quantos foram os povos que aqui vive(ra)m. As misturas de raças deram-se não somente no âmbito genético. O “herói de nossa gente” reflete não uma. conquanto não lhe falte caráter. O prefácio nunca chegou a ser publicado. musical. e como a digestão – ou assimilação – destes alimentos pode ser significativa para o processo de construção do caráter “identidade” nacional brasileiro. pela dificuldade de sua classificação: história? romance? Acabou por ser rapsódia. torna-se difícil não reconhecer analogias entre as duas obras.

Lestringant. seja de forma direta ou sublimada. a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir.) o que alimenta. e recebe dentro de si. alimentação que pode ser uma das bases da formação do caráter nacional.”2 Mário de Andrade dedica grande atenção à alimentação de seus personagens na obra Macunaíma.) a palavra despertava inextricavelmente o sentido moderno do pão eucarístico. Sermões.. em sua História concisa da literatura brasileira.. que eram associados a uma prática antropofágica. desde os nossos ancestrais mais primitivos: entretanto ainda hoje podemos averiguar seus resquícios.) o mesmo Cristo que no Sacramento se come. São Paulo: Hedra.34-36.. Antonio.. desde o nascimento e as primeiras 1 2 Vieira. vem sendo praticada há centenas de anos. a transformação do tabu em totem. Pe. O Canibal. grandeza e decadência. como o Sacramento católico. pp.”1 Esta antropofagia está também ligada ao amor. ainda amorfo. Frank. encontramos em Frank Lestringant uma analogia entre um ritual antropofágico indígena e a Eucaristia: “(. 2001.(. Padre Antonio Vieira traz desta forma a questão da Eucaristia: “(.) espécie de barro vital. Brasília: Editora Universidade de Brasília.indd 35 7/4/2009 15:51:17 . 35 Cozinha futurista. que. defendida por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago. pp.) os primeiros missionários do Novo Mundo perceberam a relação entre a antropofagia ritual e o sacramento da Eucaristia... e dá forças e vigor ao vivente. destaca que o protagonista é uma “(. 1997. aumenta..A cozinha futurista A antropofagia. quando da missa. se convertia em corpo de Cristo. senão o que digere (. nutre... Alfredo Bosi.. O padre José de Acosta empregava o termo hóstia para designar a vítima dos sacrifícios astecas. não é o comer que ele toma na boca. no Rosário se digere.95-96. pois o que todos os fiéis desejam não é viver no amor de Cristo? Transportando-nos da cultura cristã para a indígena primitiva.

mordidas misturam-se a beijos. moqueada.indd 36 7/4/2009 15:51:17 . no segundo. é um eufemismo utilizado por Mário de Andrade. a ritual . 36 Cozinha futurista. a metafórica ou sensual. São Paulo: Cultrix. Massaud Moisés afirma que. que acarreta a morte de alguns personagens: o filho de Macunaíma e Ci morre após chupar o peito envenenado da mãe.a medicinal. O verbo brincar no texto tem conotação sexual. e aquela para o fim mesmo da alimentação.398-399. em Macunaíma. Macunaíma tem seu dedão abocanhado e engolido por Sofará. e no episódio final. o Gigante Piaimã morre em sua própria macarronada – em que “faltava queijo”.) imbricam-se crendices de vária extração e significado. Massaud. A Literatura Brasileira através dos Textos. num compósito heterogêneo que é bem o reflexo do Brasil e seus habitantes. transformado em sombra leprosa.. História Concisa da Literatura Brasileira. logo depois de sua preguiça e de seu apetite sexual (ainda assim. pp. Moisés. o herói come a carne da perna do Currupira. já que as referências à ingestão – ou ausência dela – aparecem aproximadamente 130 vezes no decorrer do livro. o boi morre por não poder ingerir mais nada após a sombra leprosa acocorar-se nele. mulher do irmão mas sua amante. São Paulo: Cultrix. Poder-se-ia estabelecer uma divisão entre os diferentes tipos de ingestão. 1991. Enquanto Macunaíma brinca5 com suas mulheres..”4 Deste compósito. Alfredo. 1992. o tico-tico morre após alimentar o Chupinzão. A antropofagia do livro resume-se a três episódios: no primeiro. No entanto.seja por haver divisão de alimento pela família ou em ocasiões festivas . apetite). são muitas as passagens em que há uma certa antropofagia. e o 3 4 5 Bosi. “(. embora velada ou mascarada pelo clima de sedução. Jiguê. come tudo e todos que estão em seu caminho. como a antropofágica. p 395.Fillippo Tommaso Marinetti diabruras glutonas e sensuais”3. Talvez seja ainda possível reconhecer uma ingestão fatal. destaca-se aqui o gastronômico. A gula aparece como um dos primeiros adjetivos dados ao herói.

de modo geral. De fato.25 Lestringant. Lembre-se a passagem da anta capturada por Macunaíma. s. que o animal morto e comido toma o lugar da oferta sacrificial original. A ingestão ritual remete às sociedades indígenas – em Macunaíma estamos na tribo dos tapanhumas – em que as refeições são comunitárias e o alimento dividido entre os indivíduos da tribo segundo determinada ordem.23 37 Cozinha futurista. A família (tribo) de Macunaíma sempre divide as obrigações para obter o alimento e prepará-lo.indd 37 7/4/2009 15:51:17 . cabendo a ele as entranhas. Rio de Janeiro: Campus. p. 1975. p.A cozinha futurista amor muitas vezes torna-se deglutição.) o canibalismo constitui. em Margaret Visser vemos que “Os mitos sobre sacrifício nos dizem. somente o herói pensa individualmente. ou de negar comida à própria mãe ao perceber que ela pretende dividir o alimento com os outros irmãos. André. 279 Visser. Frank. e não hesita em comer sozinho a caça ou as frutas e raízes que encontra. enquanto Frank Lestringant diz que “(. que é dividida. em que os irmãos passam a noite “bebendo oloniti e comendo carimã com peixe”10. Esta alimentação ritual também aparece quando da morte da mãe. Histoire de deux voyages. Op. Antropophages. e o ato sexual pode também significar a assimilação do outro: “é duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem”6 afirma Voltaire. Margaret.. Macunaíma. O Ritual do Jantar.v. p. p. ou no jejum quebrado por Macunaíma quando nasce seu filho. 33. um ser humano”9.. com freqüência. Dictionnaire philosophique. 1998. 216 Thévet. Outro ritual importante no livro é o da macumba a 6 7 8 9 Voltaire. uma maneira particularmente eficaz e direta de fazer unidade com o outro”7. São Paulo: Martins Fontes. André Thévet (1516?-1592) descreve uma das cerimônias de divisão do corpo de um inimigo capturado: “as tripas são dadas aos jovens machos e todos os miúdos são distribuídos entre as jovens mulheres”8. cit. p. 10 Andrade. Mário de. O verbo comer adquire duplo sentido.

em outro momento. assimilado pelo outro pode representar o medo de virar totem. remédios aconselhados pra erisipela. agüinha e reza cantada pro sarampo. Macunaíma teve medo de ser a iguaria. pela família de Vesceslau Pietro Pietra (o herói tinha virado torresminhos que “bubuiava” em polenta fervendo. Chamam ainda atenção as inúmeras vezes em que o herói tem medo de ser comido: Macunaíma teve medo de ser engolido pela cobra preta. p. pela cabeça de Capei (que vira Lua). “Mas era só de brincadeira 11 Visser. A ingestão medicinal ocorre algumas vezes. na passagem em que Macunaíma procura pouso no rancho de Oibê. pelo Currupira. chupar chave de rosário pra curar sapinho.Fillippo Tommaso Marinetti que o herói comparece para resolver seu problema com Piaimã. uma pacuera inteira (sem mastigar) e um côco cheio de água –.indd 38 7/4/2009 15:51:17 . pelo Mianiquê-Teibê (assombração medonha). Este medo de ser ingerido.. que era Macunaíma). uma cuia com farinha d’água. pelo cesto do Gigante Piaimã. salvando vidas e atenuando dores.”11 De fato. engolido. cozimento de broto de abacate para tuberculose. teve medo de ser comido na macarronada da família). finalmente.4 38 Cozinha futurista. pelo elevador e pelo carro.) por trás de toda regra de etiqueta da mesa está escondida a determinação de cada pessoa presente de ser um comensal e não uma iguaria. pela surucucu. por Ceiuci e sua filha mais velha (as mulheres queriam comer o pato. e. Op.. após ser um comensal em sua mesa – onde comeu cará com feijão dentro. o minhocão temível. sempre através da figura de Maanape. que termina com todos os participantes comendo o bode que havia sido oferecido em sacrifício. engolir bagos de chumbo pra não ter filhos. pelo Gigante Piaimã. Margaret. que é feiticeiro: suco de tamarindo pra lombriga. Margaret Visser afirma que “(. cit. por Oibê. teve que fugir para não ser comido pela sombra leprosa que era Jiguê. já na cidade.

p. o feijão e a água viraram num lamedo cheio de sapos-bois. os indivíduos detentores de forças temíveis: criminosos. já que o pedaço de perna respondia ao chamado do dono. Mário de. Frank. 13 Ibid. Claude. Por fim. Macunaíma por quatro vezes fez “cosquinha na goela com o furabolo”. 184. o vômito “(.indd 39 7/4/2009 15:51:17 . Assim sendo. estrangeiros”15. e vomitou as iguarias comidas: a farinha virou num areão. que “(. p.. que “(. Mário de Andrade descreve os alimentos que fazem parte da rotina da tribo. fruto da mistura das diversas culturas que integram o povo brasileiro. Para Lestringant.. cit. Macunaíma. mas também aqueles que aparecem para saciar a fome de “outras tribos”. 39 Cozinha futurista. e precisam saciar esta necessidade. a pacuera virou num periantã (barranco flutuante) em que o herói e a princesa escaparam..418. p. de palavras de origem indígena e outras importadas diretamente da Europa.. Macunaíma já o havia feito para escapar do Currupira. como forma de fugir de um perseguidor após comer seu alimento. que dera ao menino um pedaço de sua perna como isca. em lugar de ingerir. Esta lista nutricional é relevante. 182. 12 Andrade. 14 Lestringant. enquanto Lévi-Strauss analisa a “antropoemia” das sociedades desenvolvidas.A cozinha futurista que ele [Oibê] queria comer o herói”12 Para escapar de Oibê. a ingestão de alimentos para matar a fome e nutrir o corpo: um fato repetitivo.) estava querendo mas era comer o herói”13. os personagens sentem fome todos os dias.) vomitam... a alimentação como um fim em si mesma. Tratase da identidade gastronômica nacional. o cará virou num “tartarugal mexemexendo”. Op. marginais.20.. e por fim.) exprime o valor simbólico ligado antes de tudo à ingestão de carne humana”14. 15 Lévi-Strauss. p. já que aqui aparece um interminável desfile de termos regionais. diário.. O vômito não aparece somente nesta passagem. Tristes Tropiques.

bagre. leite da vaca Guzerá (raça bovina vinda da Índia). cascudo. os olhos da tigre. muçuãs. bolo de aipim. e não porque Mário de Andrade considerasse a influência indígena mais forte que a negra ou a branca. urus. cigarros de palha de tauari. sapotas.Fillippo Tommaso Marinetti Da cultura negra. lambaris. mucajás. vidros-de-perfume e caviar. jundiá. 40 Cozinha futurista. graxains.indd 40 7/4/2009 15:51:17 . sapotis. milho. pitomba. robalos. bacuris. tejus. mutuporanga. pacas. raiz de umbu. a pacuera (entranhas de caças). fumo. veado. podemos atribuir isso ao fato de grande parte da flora e fauna brasileiras. maniveira. tabuí. quiânti. heranças do canibalismo autóctone: sopa feita com um paulista. o torresmo e a polenta. beiju membeca (beiju mole). presunto. pixuna. ter herdado o nome utilizado pelos índios. capivara. uísque. a jaguatirica. a perna do Curupira. tamanduá. moluscos: fritada de sururu de Maceió. um motor. abroba (gerimum). aves: um macuco. sapotilhas. urumutum). ingere-se o bode da macumba. um pato seco de Marajó. cogumelos e rãs. pacu. a papa-viado. melancias. guaribas. símios: um macaco. raízes/leguminosas e seus derivados: tacacá com tucupi. broto de abacate. coelhos. picota. mutum-de-fava. abricôs. Dos europeus temos a lagosta. miritis. peixes: tambiús. sanduíches. os esplêndidos bombons Falchi. licor. extremamente diversa da européia. cará com feijão dentro. cotia. jaós. farinha d’água. coquinho baguaçu. caças: veado-catingueiro. ariticuns. aperemas. abacaxi. guabijus. monos. perdizes. em meio a muita cachaça. canguaçu. suçuarana. gasolina. pacova (banana). piaçoca. talus. lontras. antas. tucunaré. mutuns (mutum-de-vargem. café. macacheira. queixadas. plantas alucinógenas: ipadu. onças. Da cultura indígena comem-se frutas: bacuparis. onça-pinima. jacu. mocororó. Embora os nomes indígenas prevaleçam. “champagna”. jacutinga. manga-jasmim. tatu-canastra. rendas. macarronada (com o chofer e seu sangue como molho). catetos. ratos chamuscados. churrasco. os estradeiros.

Quer como literatura quer como música.”17 Em outras obras de Mario de Andrade também é possível verificar a importância destinada à ingestão de alimentos ou aos rituais que circundam a alimentação. da caninha e outros palimpsestos que escondem a moleza nossa. 1ª dentição. Gosto muito desses cocteils. agosto 1928. se acomodando com as circunstâncias do Brasil. Mário de – Romance do Veludo – Revista de Antropofagia. em que se discutem com a mesma paixão a arte. cheiros e influências. 04. Em “Romance do Veludo”16. o folclore. Mário corroborava a opinião da confusão de valores instaurada no Brasil por sua mistura étnica. A contribuição de cada povo serviu para realizar a grande festa que é a culinária brasileira. desde maio de 1943 até sua morte. única em sua variedade de cores. após terem se lavado na cova do pezão do Sumé (São Tomé). africanos. Maanape e Jiguê. o processo de criação. mudaram de cor e passaram a representar as três raças formadoras do povo brasileiro. texto publicado em 1928. hoje publicada em formato livro. dançam nele portugas. espanhóis e já brasileiros.A cozinha futurista Assim como os três manos. agosto de 1928 17 Revista de Antropofagia. mas com estilo completamente livre. Comecemos pela obra inacabada O banquete. dentição. 1a. “O Romance do Veludo é um documento curioso da nossa mixórdia étnica. 41 Cozinha futurista. atingindo até a culinária. Os textos foram publicados às quintas-feiras na Folha da Manhã. em 25 de fevereiro de 1945. acostumado com os chinfrins da pimenta. 16 Andrade. sob o título de “Mundo musical”.indd 41 7/4/2009 15:51:17 . São Paulo. Por mais forte e indigesta que seja a mistura. no. Trata-se de crônicas musicais. mas todas elas formadoras da identidade nacional. estas também se encontram registradas por meio de suas influências gastronômicas. Macunaíma. os elementos que entram nela afinal são todos iromuguanas e a droga é bem digerida pelo estômago brasileiro. do tutu. do dendê.

Outro fator relevante é a possibilidade de se determinar o nível cultural de uma pessoa por meio de suas maneiras à mesa. Numa alusão ao Banquete de Platão. As maneiras à mesa são. Margareth. com um objetivo comum: saciar a fome e compartilhar o alimento e os prazeres advindos destes. Na fictícia cidade de Mentira. “um sistema de tabus. projetado para que a violência fique fora de questão. Janjão é o músico pobre e quase anônimo.Fillippo Tommaso Marinetti a situação dos músicos e das pessoas interessadas – por razões as mais diversas – em proteger a arte e os artistas nacionais. que pode dizer o que realmente pensa sem temores de que o grande objetivo do banquete pereça.”18 Ora. no fundamental. único personagem sem amarras políticas. O político Félix de Cima e a virtuose Siomara Ponga são os convidados pertencentes à classe dominante (vale observar que apenas a classe dominante tem nome completo) e que auxiliaram Sarah em sua empreitada. Pastor Fido é um estudante. p. facilitando aos convivas a explanação de suas opiniões e desobrigando-os das responsabilidades de um confronto intelectual. já que todos encontram-se reunidos em torno de uma mesa. Comer é algo agressivo por natureza e os utensílios requeridos para o ato poderiam rapidamente transformarse em armas. xiii 42 Cozinha futurista.indd 42 7/4/2009 15:51:18 . o discurso adquire um tom menos formal. Mário de Andrade toma a refeição como o momento propício para que assuntos importantes sejam discutidos. que precisa ser protegido para que possa continuar a produzir sua arte. cinco personagens encontram-se para um banquete oferecido pela milionária americana Sarah Light com o intuito de obter proteção governamental para o jovem músico nacional Janjão. À mesa. cit. temos assim em qualquer refeição um cenário ideal para o desenrolar de um texto. Além das teorias sobre música ou arte. é bastante interessante observar o itinerário dos comes e bebes servidos durante as discussões: 18 Visser. Op.

04 a 08 20 Andrade. III – Entradas. de Oswaldo Costa. estabelecer um paralelo com a série “Moquém”. II (Encontro no Parque) e III (Jardim de Inverno) precedem a comilança por tratarem da apresentação dos personagens. IX) e As Despedidas (cap. Salada (cap. II – Hors d’oeuvre. sendo este último o recomendado 19 Revista de Antropofagia. de cunho afrobrasileiro. Mário descreve alguns salões de vital importância para os jovens modernistas. discutir arte e realidade brasileira. X).19 Na obra Aspectos da Literatura Brasileira. justamente aquele em que Mário de Andrade analisa “O Movimento Modernista”. Nesta série. São Paulo: Martins Fontes. A cozinha.VII). 1972. Se os capítulos I (Abertura). Pode-se. o autor comenta o que talvez tenha sido fonte de inspiração às crônicas musicais da Folha da Manhã: os salões em que se reuniam artistas e intelectuais. como “o salão da Avenida Higienópolis que era o mais selecionado. encontramos um texto de fundamental importância para o modernismo brasileiro. aqui. aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de composição”20 Voltando ao Banquete de Mário. Doce de Coco e Frutas (cap. Café Pequeno (cap. dentro do maior modernismo.indd 43 7/4/2009 15:51:18 . 43 Cozinha futurista.A cozinha futurista os capítulos têm como subtítulos a parte do banquete a que se referem.VI) e viriam ainda. publicada na Revista de Antropofagia entre 7 de abril e 8 de maio de 1928. em torno de uma refeição. “O Movimento Modernista” in: Aspectos da Literatura Brasileira. foram servidos como aperitivo Porto e “Cocktail Verde e Amarelo”. Seguem-se Vatapá (cap. Oswaldo discute os rumos do modernismo em forma mascarada de refeição. Tinha por pretexto o almoço dominical. VII). Mario de. V). já que os cinco textos que a compõem são intitulados: I – Aperitivo. maravilha de comida lusobrasileira” ou o salão da Rua Duque de Caxias. Brasília: INL. nos. IV – Sobremesa e V – Cafezinho. Aqui. O Passeio em Pássaros (cap. para. 2a. dentição. onde “o culto da tradição era firme. vinte anos após a Semana de Arte Moderna. a partir do capítulo IV (Aperitivo) é o ritual da refeição que dita o tom das discussões.

São Paulo: Duas Cidades. Vê-se aqui. O Banquete. a língua e os dentes”. mas a carne estava miraculosa”23 Outra vez podemos estabelecer um paralelo com Marinetti: a utilização de gêneros alimentícios alternativos aos que faltavam em tempos de guerra – a polêmica proposta marinettiana de abolir o macarrão tem 21 Andrade.indd 44 7/4/2009 15:51:18 . A Cozinha Futurista. 123 22 Marinetti. feita de caninha (em alambique de barro. “mas em vez de batatinhas: pequenos pedaços de queijo assados na brasa.. Era um Chateaubriand. começou a amorosa adoração com os lábios. palmito. No Vatapá. o dendê. camarão seco. Mario de. F. “É uma delícia da língua. Tradução em português p. em vez de cogumelos: leite coalhado em cápsulas salgadinhas. temos a descrição. p.T. 22 Numa época de escassez devida à Guerra. limão (que pelo menos disfarça o cheiro fatigante da caninha. 125 44 Cozinha futurista. Alface. p. fabricação particular). ainda. e não se mistura com ele) e um pouco de açúcar verdadeiro (mas um pouco só. 07 e 11 23 Andrade. 1989. Está claro que ninguém comeu isso. como nesta batida). tudo feito com massa de açúcar pintada. Vinha um prato de salada junto. a utilização de um vocabulário que remete ao utilizado por Marinetti na introdução de seu livro A Cozinha Futurista: “E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros”. os sabores delicados do peixe e do camarão fresco unem-se trêmulos à tempestade dos temperos. todos se enganaram. já perceberam como é gostoso no meio da multidão a gente se encostar numa mulher…”21. além da aproximação do prazer proporcionado pela comida ao prazer sensual instigado pela mulher. até do paladar dos dentes (…) Eu não sei como explicar… mas vocês homens.. de um prato chamado “Balé do Racionamento”. Mario de. O Banquete. aspargo. O político provou do cocktail e constatou se tratar de uma legítima batida paulista.Fillippo Tommaso Marinetti pela anfitriã por acompanhar melhor alguns pratos fortes do Brasil que seriam servidos. foi muito divertido. ou “ajoelhando-se em frente.

manducado por ele antes mesmo que suas mãos o tocassem. que resfolegava em cima da salada.159 45 Cozinha futurista... “Não tinha cheiro nenhum. era uma salada fria. p. Espalhara na sala um cheiro vigoroso que envolvera os presentes no favor das mais tropicais miragens.”25 A essa salada. mas uma salada colossal. todos. especialmente os verdes. entregam-se. Todas as cores estão nela representadas. não conseguira resistir à atração da salada e se servira de todas aquelas cores. exceto Janjão.p. “Tinha mil cores. Pastor Fido. a malícia das experiências sensuais. cozinheiros tornando-se verdadeiros artistas (neste caso.indd 45 7/4/2009 15:51:18 . Mas tão cheio. A salada. o moço estudante. e o prato foi comido. os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações. que era “feioso e monótono na aparência. “um coroamento da sua existência de comestível espiritual (desculpem). O cheiro do vatapá vos trazia aquele sossego das coisas imutáveis”24 A salada aparece como alegoria: é norte-americana. Bravio. Seus olhos a cheiravam. não fazia vista alguma com seus tons de um terra baço. Chegamos finalmente à Salada. embora não se tivesse entregado totalmente ao prato em que havia até sorvete de creme e suco de pedregulho! 24 Andrade. norte-americana. que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas. o vatapá. seus olhos haviam engolido a salada. O Banquete. Felix é descrito como um animal. com mentira e tudo. para suprir com a arte a falta de certos produtos). tão nutrido e convicto. prato principal do banquete de Sarah Light. mas já personalizada pelo tom local. a maior do mundo. O Banquete. Siomara Ponga. mas como era bonita e chamariz!” A descrição da salada aparece em total oposição ao prato anterior. aquele cheiro. mas que cheirava.159 25 Andrade. estava encantada com o furor quase mítico do prato.A cozinha futurista sua base na elevação de preço do trigo durante a guerra -.” Era o prato preferido da milionária. cuja carreira a impedia de gostar de qualquer coisa. bravo. Mario de. Áspero... Mario de.

Juca assumia para si a culpa dos desejos de todos da casa. uma gorda com os miúdos. que contam cinco pessoas: ele. e outra seca. a mãe poderia finalmente comer peru. a salada mais traiçoeira do mundo. havia também pecados: leite de cabra. Era um prato inteiramente novo. a salada mais encantatória do mundo. embora aqui seja o prazer proporcionado pela iguaria a ser ingerida mais forte que a batalha emocional que se dá à mesa. é o conto “O Peru de Natal”. “Tinha de tudo.Fillippo Tommaso Marinetti Entre perdiz desfiada. À mesa. Um pouco anterior ao Banquete. 26 Andrade. de acordo com os personagens respectivamente como: o prato mais lindo do mundo. o peru. escrito entre 1938 e 1942 e publicado no livro Contos Novos.indd 46 7/4/2009 15:51:18 . sem caráter. a carne mansa de um tecido muito tênue.. duas farofas. mas encapsulado em farinha de trigo. Neste texto também temos uma refeição como temática central. e não apenas o que sobrava na ossada após as festas que davam enquanto o pai era vivo. o prato mais alcoolizador que havia agora no mundo. todas as vitaminas salutares. Assim. o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo (e dominava a gente). a mãe e a tia. Era o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo. foi descrito. p. por causa de Gandhi. Mario de. apenas para os familiares. não havia culpa. 162. uma irmã. Juca sempre foi considerado doido pela família. um irmão. bicho nacional dos celtas. ameixas e nozes. a salada mais sem perfume porém mais vistosa do mundo. gemas de ovo libertas da perigosa albumina e avelãs recobertas de cacau sem açúcar. Após a morte do pai. a comida vence a batalha. Ao menos. em respeito aos judeus.. O Banquete. isso lhe dava certos privilégios de idéias inovadoras. perfeito. alface muito clara e casca ralada de maçãs. Juca pede que seja feito Peru no Natal. porco. incapaz de caráter”26 Este prato. a salada mais carcomedora do mundo. mas já que era considerado doido. 46 Cozinha futurista.

mesmo após a morte. 1993. para um encontro amoroso. entretanto pareceram mais relevantes em três deles. o prazer gustativo e o prazer carnal se aproximam. No céu marioandradino as iguarias são todas brasileiras. Como em Macunaíma. Mário destrincha o próprio corpo. o sexo ao Paiçandu. com forte cunho nacionalista. Em outro poema. Numa declaração de amor à cidade de São Paulo. e após essa felicidade. constata que “tinha mandioca e açaí/ Mate cana arroz café/ muita banana e feijão/ Milho cacau … Tinha até”. a cabeça 27 Andrade. há uma contaminação do vocabulário referente aos prazeres gustativo e sexual. como diz o autor. e a sombra do pai. Juca passa à felicidade individual. em que um menino vai ao céu levado por uma andorinha. Numa espécie de divisão ritual. em meio a mil maravilhas.indd 47 7/4/2009 15:51:18 . Mais uma vez. Mario de. Mário de Andrade considera as comidas do Brasil paradisíacas. e essa sensualidade é reafirmada ao partir o narrador. 47 Cozinha futurista. e todos passam a comer com sensualidade. Todos desfrutam de uma felicidade gustativa. A primeira. n’O Banquete e em “O Peru de Natal”. possa continuar gozando as delícias de sua terra natal. Outras referências gastronômicas podem ser encontradas na obra poética de Mário de Andrade. para que. Mário de Andrade revela o destino que se deve dar ao seu corpo após a morte. com o auxílio de Juca. Quase a ceia de Natal é estragada pela lembrança do pai. existe sensualidade no ato de ingerir a iguaria desejada há muito tempo. quer que seus restos mortais sejam enterrados em diferentes partes da cidade. e lá chegando. in: Poesias completas. dividida com todos os familiares que puderam comer até se fartar. “Lenda do Céu”.A cozinha futurista douradinha. Belo Horizonte: Vila Rica. este pertencente à série “Lira Paulistana”. com bastante manteiga. gozando os prazeres daquela carne macia acompanhada por cerveja. por extensão. em “Lenda do Céu”27. Trava-se uma luta entre os dois mortos: o pai e o peru. Juca. destinando os pés à Rua Aurora. O peru vence. e vai ao encontro de Rose.

29 Andrade. o nariz aos rosais. O burguês. oh! gelatina pasma!/ Oh purée de batatas morais! ”29 Mario de Andrade faz o retrato da burguesia paulista da época.indd 48 7/4/2009 15:51:18 . provavelmente por sua ingenuidade de herói emprestado de uma mitologia indígena. brasileiro. as tripas pro Diabo “que o espírito será de Deus”.. eram destinadas às crianças. as mãos que ficassem “por aí”./ o burguês-burguês!/ A digestão bem-feita de São Paulo!/ O homem-curva! O homem-nádegas!/(. o coração ao Pátio do Colégio. dono das tradições!/(…) Come! Come-te a ti mesmo. o joelho à Universidade. o esquerdo aos telégrafos. tradições 28 Lembremo-nos de que as tripas. Macunaíma não parece em momento algum causar ódio no autor. os olhos ao Jaraguá. foi a parte que coube ao malfadado herói. escrito pelo mesmo Mário de Andrade. Mário de. intelectual e física: “O burguês níquel. Cauteloso porque mescla várias culturas. aparências contando mais que conteúdo moral ou cultural. poema de 1920-1921. é sempre um cauteloso pouco a pouco. Macunaíma é fruto da mistura de tradições. em que o alimento auxilia na constituição do típico burguês. Não havia modo de o herói ser diferente.28 Podemos ainda encontrar resquícios pantagruélicos em “Ode ao Burguês”. o ouvido direito ao Correio. através desta. O burguês é insultado em sua formação cultural.Fillippo Tommaso Marinetti à Lopes Chaves. Entretanto este poema intitulado ode (teoricamente uma poesia de elogio) demostra o ódio do autor contra o burguês.. é índio. mais consciente de sua “importância” na sociedade não goza dos mesmos privilégios de simpatia que Macunaíma. mas absorve a cultura africana e é contaminado pela européia. e.) Eu insulto o burguês funesto! / O indigesto feijão com toucinho.. um homem que sendo francês. de Macunaíma. aproximando-se da salada de Sarah Light. 48 Cozinha futurista. italiano. sem caráter. ritualmente. O burguês indigesto de São Paulo é tão sem caráter quanto Macunaíma. e na divisão da primeira anta caçada por Macunaíma. a língua ao alto do Ipiranga. Poesias Completas..

como cartas de jesuítas da época.A cozinha futurista vazias de significado. O estrangeiro não era mais ameaça.indd 49 7/4/2009 15:51:18 . Passemos à carne do Bispo Sardinha! OswALd cAnibAL de AndrAde Comidas O horizonte reto Metodicamente Jantou O sol (Julio Paternostro)30 16 de junho de 1556. segundo o historiador Douglas Aprato. no. da Universidade Federal de Alagoas. de seu poder. Mário condena. Alguns historiadores levantam a hipótese de que o bispo tenha sido assassinado por homens da guarda do então governador-geral. 49 Cozinha futurista. homens cheios apenas de comida insossa. Sua carne não é boa o bastante para ser comida por outrem.31 30 Revista de Antropofagia. Data da deglutição do Bispo Sardinha. havia virado churrasco. dom Pedro Fernandes de Sardinha e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. Duarte da Costa. de sua força. a tese sobre o “banquete” encontra respaldo em documentos históricos. Apropriam-se dele. Os índios caetés devoram o primeiro bispo do Brasil. a quem Sardinha vinha criticando publicamente. este burguês à autofagia. 10 31 Apesar de versões que negam que o bispo Sardinha tenha sido comido pelos índios. portanto.

(. e marca o início de uma escola literária. A diferença factual de dois anos poderia descartar a hipótese. uma tragédia De acordo com o historiador Moacir Soares Pereira. assimilando assim os valores antes temidos. uma curiosidade persistia: haveria a antropofagia oswaldiana nascido num berço futurista? O Manifesto Antropófago foi publicado em 1928.(. Para transformá-lo em totem. ”32 Das sucessivas leituras feitas para melhor compreender a obra de Marinetti. Divergindo em sucessivas batalhas intelectuais de escritores – modernistas ou não – e de outras escolas como o VerdeAmarelo e a Escola da Anta.. “Só a antropofagia nos une. Lei do homem.) Só me interessa o que não é meu. com alguns amigos.. Na versão dele. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo durante o ano de 1918. A terrena finalidade.. “Manifesto antropófago”. 1 50 Cozinha futurista. 1a. mas não os caetés nem em Alagoas.(.. A humana aventura. Já Marinetti havia escrito Le Roi Bombance. portanto precedeu em dois anos o Manifesto da Cozinha Futurista.) Antropofagia.. dentição. Lei do antropófago.. O Manifesto Antropófago surgiu em 1928. publicado no primeiro número da revista de Antropofagia. mas. verificamos que ambos tem um livro relacionado de alguma forma à gastronomia anteriormente ao manifesto: Oswald de Andrade escreveu. Sardinha foi devorado por índios. 32 Andrade. no. Filosoficamente.indd 50 7/4/2009 15:51:18 . a antropofagia parece ter sido a mais radical das tendências da época. Economicamente.do Brasil.. Socialmente.) A transformação permanente do Tabu em totem. ainda na linha de “coincidências” entre os dois autores. de 1930. Oswald de. certamente – que se desvencilha dos inimigos ingerindo-os. Absorção do inimigo sacro.Fillippo Tommaso Marinetti Oswald de Andrade prega o retorno ao homem natural .. in: Revista de Antropofagia. o bispo foi alvo de tupinambás em território sergipano.

À página 104. Após o texto. temos a “1a. a marcha de seus males”. x ao dia.15 50.indd 51 7/4/2009 15:51:18 . as aproximações são pertinentes. que ocupa quase toda uma página. – Há diversas maneiras de amar. à moda dos famosos salões 33 Andrade. com alguns conselhos para as almas: “amemos sempre. 3o. 51 Cozinha futurista. no ano de 1918-19.0005 Em cápsulas. 1992. O livro é um diário de uma garçonnière que Oswald mantinha na rua Líbero Badaró. receita”. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo.00 0. nas horas de imbecilidade. Já na primeira página. Existe uma apenas de envelhecer contente”. esta mais aproximada a uma receita médica: Recipe – Eu te amei ãã Tu não me amavas Eu já não amo Tu és má 0. temos um texto assinado pelo pseudônimo Dragoras.33 Se faltam os ingredientes para aproximá-lo de um livro de cozinha. Apesar de não se relacionar com a culinária. as almas sãs se farão robustas e as doentes susterão. 67. não faltam modos de preparo. Envelheçamos devagar. com grande encanto e surpresa. artistas e intelectuais da época. Esta garçonnière servia como ponto de encontro para amigos. Ainda que as datas neguem a influência direta em Oswald. andar sala 2. Comendo assim. São Paulo: Globo.A cozinha futurista gastronômica pantagruélica em 1905.33 0. Oswald de. intitulado “Receitas Sentimentais”. Criar “o cardápio perfeito para o banquete da vida. João de Barros explicita qual é o objetivo do caderno-livro-diário: fornecer receitas para que as almas matem sua fome de experiência e sua fome de ilusão. o título da obra de Oswald compactua com esta.

”35 A Cozinha Futurista. figura dominante de O perfeito Cozinheiro: Deisi. numa espécie de pastiche. também pode ser comparada a O Perfeito Cozinheiro na questão estrutural.. charges da imprensa e. VIII 35 Ibid. o “príncipe de nossa prosa”. Prefácio a O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. lê-se a inscrição: “. os nomes grotescos ou humorísticos. a que se refere um recorte de jornal colado à página 172. já havia praticado o que só viria a teorizar 10 anos depois. bilhetes 34 Silva Brito. p. o amor pelas situações insólitas e imprevistas com tons de sátira e humor. a visão de crimes e traições. é possível reconhecer nesta obra um esboço do que seriam as características da obra oswaldiana – “o processo fragmentário. Todos os amigos que freqüentavam o local contribuíam com o diário. Pois foi do mesmo modo formada a cultura brasileira. À página 194. na grafia de Oswald de Andrade) a quem chamam de Miss Cíclone. cartas. embaixo de uma foto que retrata muitas pessoas em volta de uma longa mesa ao ar livre. também todos traziam e colavam cartas. “Há uma espécie de paixão coletiva por Deisi. de colcha de retalhos. Como observa Mario da Silva Brito.Fillippo Tommaso Marinetti já citados. todos nele escreviam. produziram o livro-diário. ocorre até mesmo um banquete antropofágico na obra. de Marinetti e Fillìa. p. o amor visita a cozinha. (Dasy. Provável ironia ao almoço que havia sido oferecido a Monteiro Lobato. em 1918. foste o cordeirinho pascal dessa farra de quaresma”. que é amante de Oswald”34. Oswald.indd 52 7/4/2009 15:51:18 . Na realidade. A tradição gastronômica de nosso país apresenta a mesma característica de assimilação das influências diversas para daí resultar em um produto original. Ed Globo. recortes de jornais. o gosto pelo trocadilho. bilhetes.Lobato. apenas uma mulher. XI-XII 52 Cozinha futurista. Dentre eles. Se O Perfeito Cozinheiro é um pastiche de recortes de jornal. Novamente. a Antropofagia. Mário da.

o manifesto. muito mais privilegiada na obra de Oswald.indd 53 7/4/2009 15:51:18 . mas excetuando a forma. receitas futuristas e um pequeno dicionário que auxiliaria um leigo a compreender a obra e a revolução proposta. por certo. Marinetti procedeu à ingestão. que se limitou a reproduzir o conteúdo dos textos jornalísticos e dos cardápios sem todavia apresentar ao leitor a forma original. 53 Cozinha futurista. os cardápios apresentados nos vários banquetes futuristas que foram oferecidos por ocasião do manifesto e da inauguração do restaurante futurista de Turim (o Santopaladar). mas faltou-lhe a digestão dos elementos previamente ingeridos. nesta obra. Oswald fez sua primeira obra “antropofágica” em 1918. Diferenças existem. A Cozinha Futurista não dista deste modelo de criação literária. outros cardápios futuristas criados pelos representantes do movimento. O livro publicado por Oswald de Andrade em 1924. o poético antefato tragicômico –. a polêmica por este suscitada e publicada em diferentes jornais e revistas.em 1930.A cozinha futurista etc. Valendo-nos de Padre Antonio Vieira. traz de volta à literatura um dos pseudônimos (Miramar era Oswald) que comparecem com bastante freqüência em O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Pastiche também ele. e pouco aproveitada em Marinetti. Memórias Sentimentais de João Miramar. Temos. já que é composta da recolha de vários documentos relacionados ao Manifesto da Cozinha Futurista. que manteve a aparência de “álbum de colagem” e a caligrafia manual. Esta obra gastronômica de Marinetti é composta por um texto que poderíamos considerar literário – Uma refeição que evitou um suicídio. A obra provocou polêmica ao mesclar poesia e prosa numa atitude inovadora para com a língua. algumas poucas referências à gastronomia. os métodos de produção se eqüivalem. Marinetti utilizou o mesmo processo – a colagem . as cartas de pessoas contra ou a favor do movimento. mas são apenas fatos corriqueiros sem nenhuma aparente relação com a antropofagia..

Nesta obra. como Pero Vaz de Caminha ou Fernão de Magalhães são sistematicamente recortados. que resultará na publicação de Poesia Pau-Brasil. Sem comparações de apoio. dentição. No entanto. frutos tropicais desconhecidos pelos europeus. Produtos que serão exportados à Europa. Sem pesquisa etimológica.Fillippo Tommaso Marinetti No mesmo ano. Poesia de exportação. “Sem reminiscências livrescas. Oswald de. produzida no Brasil. o poema “A Roça” nos traz uma descrição da alimentação dos negros que trabalhavam nas fazendas. Toda a gente está lá dentro. Excertos de historiadores famosos. a pepinos romãs e figos. adquirindo assim novo sentido ou poder de persuasão ao serem lidos aos pedaços. folclóricos. a cidras limões e laranjas e à cana-de-açúcar. lingüísticos ou culinários (A cozinha. temos referências ao ananás. estabeleceu-se um paralelo entre os dois autores: as discussões para batizar o movimento artístico dos rapazes de São Paulo cogitaram o termo “futurismo”. Em “Gandavo”.indd 54 7/4/2009 15:51:18 . Oswald lança o Manifesto Pau-Brasil. note-se a força de trabalho destes ao final do poema: 36 Andrade. Sem ontologia.” O livro Poesia Pau-Brasil começa com uma leitura pessoal feita por Oswald sobre a História do Brasil. que foi rejeitado enquanto “marinettismo”. “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. Buscando a originalidade nativa nos fatos pictóricos. muitas são as referências a iguarias nativas.”36 Mais uma vez. 01. em 1925 Mário de Andrade diria numa carta a Sérgio Milliet: “Essa invenção Pau brasil do nosso Oswald é uma espécie de futurismo de Marinetti. O vatapá…). Em “Poemas da Colonização”. in: Revista de Antropofagia. 1a. humildes. Apesar de ser composta por ingredientes simples. em 1925. apenas frases selecionadas engenhosamente. com os ingredientes de que dispomos. econômicos. todos bem assimilados e digeridos. 54 Cozinha futurista. étnicos. o Manifesto Pau-Brasil funda a poesia de exportação. no.

O estrangeiro sendo misturado ao café e à pinga.indd 55 7/4/2009 15:51:18 . 55 Cozinha futurista. 38 Os três poemas citados estão em Andrade. nativos. um poema já prenuncia a antropofagia oswaldiana: DIGESTÃO A couve mineira tem gosto de bife inglês Depois do café e da pinga O gozo de acender a palha Enrolando o fumo De Barbacena ou de Goiás Cigaro cavado Conversa sentada38 Ingredientes brasileiros com gosto de comida estrangeira. São Paulo: Globo. 2000. o poema “Walzertraum”37 diz que “aqui dá arroz/ feijão batata/ Leitão e patarata”. Oswald de. preferências nacionais. que o assimila as influências para transformá-las em originalidade. As referências gastronômicas são sempre feitas a produtos nacionais. em “Postes da Light”. uma mistura que revela o caráter do povo brasileiro. nosso chocolate tão nacional. e tem o “trem leiteiro/ que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro”. Entretanto. Pau Brasil. 37 Numa tradução tendenciosa: “Sonho de Valsa”.A cozinha futurista A ROÇA Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angu Abóbora chicória e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços Em “rp 1”.

Poesia Futurista” . A resposta de Oswald também vem em forma de poema – paródia publicada em Serafim Ponte Grande. que acabara de anunciar o noivado com Tarsila.. com ingredientes e modo de fazer ou ministrar: Tome-se duas dúzias de beijocas Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia Coloque-se dois ovos Agite-se com o braço da Fatalidade 56 Cozinha futurista.indd 56 7/4/2009 15:51:18 . sob o título “O Amor.Fillippo Tommaso Marinetti Numa amigável intriga literária. ambos aludindo a receitas. Mário de Andrade divulga em 1925 um poema em homenagem ao amigo Oswald. após alguns anos de relacionamento mal explicado à sociedade: Pegue-se 3 litros do visgo da amizade Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo Mexa-se até ficar melado bem pegajento E engula-se tudo de uma vez Como adesão do Mário de Andrade Ao almoço Pra Tarsila E Oswaldo Amém.

coloca o ser humano em contato com seus antepassados. para que todos os que assim desejam possam participar da comunhão desses tabus. com 8 páginas. Às vezes. Até que virem totens.Lá vem a nossa comida pulando! E a “comida” dizia: “come essa carne porque vai sentir nela o gosto do sangue dos teus antepassados. Além da referência gastronômica óbvia no nome da revista. real. Veja só que vigor: . Foram 16 páginas. intelectuais que não compreendiam os rumos da literatura modernista. a segunda era limitada a uma página do “Diário de São Paulo”. Poetas sem brilho. hoje compilada num único volume. (Só comiam os fortes). a carne destes é oferecida no Açougue. de agosto de 1929.indd 57 7/4/2009 15:51:18 . com as raízes. e foram editadas de maio de 1928 a fevereiro de 1929. porém acovardou-se. teve duas dentições: a primeira teve dez números em formato revista. Tudo no fundo é a mesma coisa”. todos seriam ingeridos para reforçar o movimento antropofágico. O club de Antropophagia quer agregar todos os elementos sérios. mascarando o nosso símbolo. de 17 de março a 1°. vários artigos anunciam os jantares nos quais certas figuras da sociedade seriam deglutidas. sob a direção de Antonio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. simbólica em algumas sociedades. com a verdade de seu povo. real em outras. Escreveu Oswald de Andrade que devemos “admitir a macumba e a missa do gallo. a famí- 57 Cozinha futurista. publicadas semanalmente. Rubens do Amaral. Precisamos rever tudo – o idioma. O índio comungava a carne viva. o direito de properiedade.A cozinha futurista E dê de duas horas em duas horas marcadas No relógio de um ponteiro só! A Revista de Antropofagia. com o primitivo e natural. por conseguinte. O catolicismo instituiu a mesma coisa. Ou ainda: É a comunhão adotada por todas as religiões. A antropofagia. cedida aos antropófagos pelo editor do jornal. Hans Staden salvou-se porque chorou.

mas a ser consumido necessariamente para criar uma nova ordem de coisas no Brasil”. Ascenso Ferreira. O Futurismo Paulista. a necessidade de divórcio -. isto é. em valores humanos e em obras de arte”41 Outros colaboradores da revista também tinham suas preocupações gastronômicas. sob diversos nomes (ou pseudônimos): “se há uma coisa vinculada à alma brasileira é este pequeno e inocente vício guloso que levava a velha índia convertida a pedir in extremis ao seu confessor um dedinho de curumim a chupar!” (Ubaldino de Senra). no cardápio antropofágico. define a tradição de sua terra através dos pratos típicos – vatapá. abará. p. 1994 P. São Paulo. em geral indigesto. acarajé. caruru. Oswald Canibal. São Paulo: Perspectiva. 51 e 66 58 Cozinha futurista.40 Benedito Nunes afirma que “A antropofagia transportou para o campo das idéias políticas e sociais o espírito de insurreição artística e literária do Modernismo”. ou “Os índios não comem a carne de seus inimigos ou chefes com intenção 39 Revista de antropofagia. Annateresa. 277 41 Nunes. Perspectiva/ EDUSP. talvez com um paladar um pouco mais “modernizado” que o defendido por Oswald. ou ainda: “A arte é um meio de ‘devorar’ o conteúdo trágico da vida. 3 40 Fabris.Fillippo Tommaso Marinetti lia. No decorrer dos números da Revista. transformando todos os tabus em totens. várias vezes volta à discussão a tradição indígena. oxinxin. 05. efó – e pela negação das iguarias estrangeiras: “te dana Petit-pois/ te dana Macarrão/ te dana paté-de-fois-gras!/ Viva o caruru”. acaçá. p. 1979. em seu poema intitulado “Bahia”.indd 58 7/4/2009 15:51:18 . sinceridade máxima. escrever como se fala. num gesto de comunhão e de exorcismo ao mesmo tempo. Benedito. “Há diferenças psicológicas entre a eliminação física do adversário de maneira ‘científica’ (a cadeira elétrica de Lacerba) e sua deglutição. no.39 Segundo Annateresa Fabris.

entendida por ele como culinária. Temos aqui o uso da primeira pessoa do plural – nós – que engloba o leitor. Entretanto. Talvez Marinetti tenha sabido da existência da Antropofagia e tenha resolvido imbricar-se nesta área. a comparação faz-se inevitável. também este anterior ao Manifesto da Cozinha Futurista. afirma-se que os futuristas “Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega”. das idéias e da língua. sua prin- 59 Cozinha futurista. Eric Hobsbawn diz que no campo da arte. e para alcançar tal objetivo. portanto. (…) Contra as sublimações antagônicas.indd 59 7/4/2009 15:51:18 . na supressão da pontução e no tom provocatório: No Manifesto de Marinetti.” (China) O Manifesto Antropófago é de 1928 e. Ambos os autores querem modificar a mediocridade atual.” Ou “Contra todos os importadores de consciência enlatada. sem dúvida. como prisioneiros ou arqueólogos”. Talvez nunca tenham sabido da existência desses Manifestos quase “afins”. Na verdade. Contra a verdade dos povos missionários (…) – É mentira muitas vezes repetida”. propondo um novo meio de expressão. inspiraram-se preponderantemente nelas nesse período. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. fazendo-o acreditar que faz parte também do movimento. de Oswald: “Somos concretistas. das idéias pré-concebidas. Comem porque pensam mastigar também o valor do comido – comidos voluntários. (…) Seu ‘primitivismo’ era. “especialmente das artes visuais. reagem. procedem à desestruturação da sociedade. do status quo. além da negação do cotidiano. Trazidas nas caravelas. As idéias tomam conta. queimam gente nas praças públicas. as vanguardas ocidentais trataram as culturas não ocidentais em total pé de igualdade. quasi todos. mas também no estilo telegráfico. Comparemos com o Manifesto Antropófago. não apenas no conteúdo transformador.A cozinha futurista gastronômica. exige-se “a abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato” ou a afirma-se que “Os defensores do macarrão carregam a bola ou a ruína no estômago.

4 (editorial) 60 Cozinha futurista. 1998. 43 Fabris. 2a dentição. no qual se enraizará sua consciência nacional. Do ingênuo contra o artificioso. Mário de Andrade escreveu um livro que se chama Dar. 42 Hobsbawn. O açúcar substitui o pão das populações. O sr. 265 44 Revista de Antropofagia.. “A reação da paisagem contra o tempo. apesar de haver herdado a cultura européia. cacau. Eric. Guilherme de Almeida. num artigo intitulado “O país da sobremesa”. Tudo resultado da gula. tinha muito de primitivo por suas raízes indígenas e africanas. os brasileiros.”42 O Brasil. ao contrário. p. enfocam a questão pelo prisma da exaltação de um lugar geográfico emblemático. A Era dos Impérios. Do nativo contra o importado. Da claridade natural contra a sombra da filosofia. Annateresa Fabris diz: “É diferente a atitude de modernistas e futuristas perante a consciência do atraso: os italianos adotam como estratégia fundamental a negação do passado. Exportamos bananas. Os olhos da nossa gente melam. Annateresa.”43 De tudo isso se conclui que a antropofagia é a revolta da sinceridade recalcada durante quatrocentos anos. País laranja! Temos Coelho Netto.”44 A preocupação com a metáfora gastronômica não cessaria em Oswald. no. coco e fumo. contra o estranja (de outros) ou o infinito (sem dono). (…) Os brasileiros estavam começando a descobrir um certo passado. Em 1937. Da sensação espontânea contra a moral. contra a superioridade do ariano corroído pelo vício e pela moleza das decadências.. o escritor questionava a estrutura econômica e cultural do Brasil: País de sobremesa.p. café.indd 60 7/4/2009 15:51:18 .120-1. Ao comparar os dois movimentos literários. Martins Fontes. castanhas do Pará. Os espíritos também. a disciplina. Da terra (que é nossa). verbo intransitivo. O Futurismo Paulista. Rio de Janeiro: Paz e Terra.Fillippo Tommaso Marinetti cipal atração. Da inferioridade do mestiço que trabalha. o sistema.

No verso.A cozinha futurista Encerrando grandiosamente as relações canibais em Oswald de Andrade. 61 Cozinha futurista. Giulio Onesti estava deprimido e com instintos suicidas após saber da morte de sua ex-amante. Ano também do jubileu do “Pau Brasil”. a lista dos pratos: folhadinhos marcianos e canapés voadores. o suicídio parecia ser a melhor alternativa. o mesmo Giulio recebera um telegrama de outra mulher. convida todos os futuristas à cozinha. Jean de. Neste texto. uma que se parece muito com a morta. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil. além de um lugar reservado aos autógrafos. reproduzimos o cardápio do almoço em comemoração aos 60 anos do escritor. Para não trair a morta. cuja capa reproduzia cenas antropofágicas do livro de Jean de Léry – Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil45.indd 61 7/4/2009 15:51:19 . composto. Para aumentar a tensão. Marinetti conta como surgiu a idéia de se instaurar uma revolução na cozinha. batida pau brasil. em 25 de março de 1950. mArinetti AntrOpOFáGO O livro A Cozinha Futurista. para inventar 45 Léry. por diferentes ingredientes. e como solução. além de uma taça antropofágica cujo conteúdo desconhecemos e cauim “selo vermelho”. “mas não o suficiente”. Proceder-se-ia finalmente à manducação do criador do Manifesto Antropófago. como já vimos. deu ensejo a um cardápio de criativo projeto gráfico. Marinetti corre ao socorro do amigo. juntamente com os futuristas Prampolini e Fillìa. para que fosse salva a vida de seu amigo Giulio Onesti. coração de abacate com crustáceos incrustados. no ano 396 da deglutição do Bispo Sardinha. que se suicidara em Nova Iorque. tem como ingrediente literário apenas o primeiro texto: “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. lombinho parnasiano e virado. transformada em “fantásticos laboratórios”.

Estes ingredientes ao aludirem ao Cântico dos Cânticos. mel e leite. ou “raios de mel. Cem quilos de tâmaras e de bananas. “indispensáveis”: farinha de castanhas. Marinetti aproxima os prazeres derivados pela comida ao proporcionado pelas mulheres. Os ingredientes. Os primeiros homens foram expulsos do paraíso porque não conseguiram refrear o impulso de comer um fruto proibido. com bolos de mel me recupera”. Bastaria observar os pratos executados por Marinetti e seus companheiros para a “Mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis”47: 46 Cântico dos cânticos. Dez jarras de óleo. lembremos que o primeiro ritual antropofágico cristão aconteceu durante a última ceia. metafórica. Antropofagia indireta. ninfa. na Eucaristia. encontramos : “do banquete me aproxima./ O vinho eu já bebi. 37 e 39 47 Caberia aqui ressaltar a coincidência (ou não) de haver uma mostra. 25. farinha de amêndoas. em São Paulo ano de 1922. podem talvez ser um prenúncio de uma relação amorosa a ser apresentada posteriormente ao leitor. diálogo romântico atribuído a Salomão. Dentre os versos do Cântico. farinha de milho. pp./ E sob a língua. ou a forma dos pratos assemelhar-se a elas. basta lembrar de Adão. leite e mel. Talvez Marinetti esteja aludindo à Semana de Arte Moderna. Daí advém o fato da descrição dos pratos futuristas muitas vezes ser entremeada de adjetivos atribuíveis a mulheres. e vem sendo repetido nos últimos dois mil anos. açúcar e ovos. com 22 esculturas. destilam teus lábios. Ainda no âmbito bíblico. por certo. farinha de trigo. do leite já provei.indd 62 7/4/2009 15:51:19 . tradução de Antonio Medina Rodrigues.”46 A estreita ligação que existe entre amor e comida remonta à origem do mundo. farinha de centeio. mas ingerimos o corpo de Cristo em forma de hóstia.Fillippo Tommaso Marinetti esculturas comestíveis./ E como aroma libanês recendem teus velamens” ou ainda “Depois de haver provado o trigo meu. 62 Cozinha futurista. pimenta vermelha. Eva e o Pecado Original. chocolate em pó./ Provei meu mel. e bebemos seu sangue em forma de vinho.

com um tremendo torcer de rins. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as 63 Cozinha futurista. sem fazer barulho. começou a amorosa adoração com os lábios.massa folhada com uma leve curva especial de boca ou ventre ou quadris. um sorriso seu de lábios. Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos .suave magnetismo das mulheres mais belas. Enquanto os complexos plásticos comestíveis têm as curvas de uma mulher. parece oportuno ressaltar o fato de que a ingestão de um prato assemelha-se intensamente a uma relação sexual: De improviso.A cozinha futurista Complexo plástico d’Ela . convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. como uma tigresa alongada. a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. e das mais belas Áfricas sonhadas. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Às três daquela noite.indd 63 7/4/2009 15:51:19 . Paixão das Loiras . e esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. um seu modo de flutuar sensualíssimo. Escultores e escultoras dormiam. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Levantou-se agilmente. Ajoelhandose em frente. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. com as costas suspeitosas de um ladrão.é de tal modo bela. a língua e os dentes. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. Acima. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos.

verdadeira tortura psicológica e estomacal. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. espinafre com creme.” Mas é no “Cardápio Extremista” que podemos mais uma vez observar a índole canibal latente no futurismo. tudo coberto por pétalas de violeta. que já não tem certeza de se tratar de um prato comestível real ou se este prato se transubstanciou em fêmea. O capítulo “Os Cardápios Futuristas – sugestivos e determinantes” também evoca a sensualidade que se pode obter através da alimentação. Sem fim. berinjelas fritas. Único e total. No “Cardápio Noturno de Amor”. Este cardápio. Marinetti confunde o leitor. presunto infuso em leite e ostras com vinho Moscato devolvem os amantes às fadigas da cama. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias.Fillippo Tommaso Marinetti grandes jóias do olhar. Aproveitador e aproveitado. Perfumes diversos são vaporizados nos comensais. apenas para cheirar. Estava ao mesmo tempo desobstruído. ervas. Talvez para se refrescar. Giulio saiu então no parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. frutas e peixes. não oferece nada para comer. cogumelos trufados. liberado. O “Cardápio de Núpcias” promete aquecer os estômagos de todos os comensais com risoto à milanesa. morenas ou uma bela desnuda: “duas coxas de frango cozidas numa bacia de cristal.indd 64 7/4/2009 15:51:19 . vazio e transbordante. 64 Cozinha futurista. O “Cardápio de Solteiro” tenta amenizar a solidão do rapaz com pratos que evocam louras. com a cabeça descoberta. se Giulio apenas se delicia com uma iguaria que enche os olhos e o estômago ou se imagina haver ali uma mulher submissa às suas glutonarias. Possessor e possuído. chocolate. risoto. com leite apenas ordenhado.

como podemos observar no romance Le Roi Bombance – tragédia satírica em quatro atos. o que proporciona uma felicidade estomacal nos homens. 1920. o futuro histórico-social do mundo é reduzido a uma questão meramente gastronômica: os homens lutariam e se ocupariam incessantemente apenas para garantir sua felicidade gastro-intestinal. não é apenas em A Cozinha futurista que podemos observar esta abordagem antropofágica. criada durante a greve geral de 1904 em Milão. A história se desenvolve numa era medieval fictícia. No romance. e as cozinhas (o poder.indd 65 7/4/2009 15:51:19 .escrito em francês por Marinetti em 1905 e depois traduzida pelo próprio Marinetti para o italiano com o título Re Baldoria. já que “la ripugnante sobrietà delle donne e la loro abituale lussuria scombussolavano già da troppo tempo le nostre idee digestive. Re Baldoria. ainda na França. autor de Ubu Rei. havia uma atenção especial a este tema.A cozinha futurista Os convidados choramingam. imploram por qualquer coisa para mastigar. F. le loro poppe proeminenti ci nascondevano la magnificenza delle portate”48.” Os paladares famintos são então aplacados com dois perfumes de “vida carne luxúria morte”. As mulheres todas fogem. desde o início da carreira de Marinetti. p.T. morre. Na realidade. Panciarguta. simbolicamente) são então passadas a três aproveitadores. seu inspirador. – A tavola. desde o nome dos personagens até o nome da espada do rei – La Succulenta. Alguns homens sentem falta das mulheres. Entretanto. e foi bem recebida por Alfred Jarry. que prometem um banquete a todo o reino. em um castelo onde tudo alude a comida. e um deles observa que se não lhes for oferecido nada. em prosa . 09 65 Cozinha futurista. lamentando o fato de não poderem devorá-las: 48 Marinetti. no reino dos Citrulli. Milão: Fratelli Treves. A obra é uma metáfora gastronômica rabelaisiana. primeiro cozinheiro. “veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas.

T. vieni presto.indd 66 7/4/2009 15:51:19 . de Mário de Andrade. F. sanguinacci saporitissimi. De fato. 50 Os habitantes começam a se revoltar. 105 66 Cozinha futurista. mais uma vez verificar a aproximação dos prazeres gastronômicos e sexuais: “Ah! Vieni. O Idiota. ma non si lasciano mangiare! E ci si annoia. sem mastigar bem. vieni a baciarmi con le tue belle labbra sugose di prelibati salmi! (…) Vieni. lendo uma carta por ela enviada. p. aplacar a fome dos comensais com palavras. exigindo que o rei os alimente. através do vômito. A carne de todos os que morreram. fato que ocasiona a ressureição do rei e seus seguidores. perdio. vieni ad amarmi a tavola. p. A fome extrapola os limites. apassionatamente. Quem assina é “La tua Salsetta”. Já vimos o que simboliza o vômito em Macunaíma. bobo da corte. Ibid. mulher de estômago forte. Podemos. pois “poderia haver um túmulo mais digno?”51. como nas tribos indígenas. Numa orgia antropofágica. foi salgada e ingerida. que se fartam nas cozinhas enquanto dizem preparar o alimento para todos. tenta em vão. sempre relacionada à ingestão de carne humana: 49 MARINETTI. mia grossa polpetta dorata. Ibid.. l’impermeabile pelle!49 O rei sente falta da sua rainha.12 50 Id. Re Baldoria. a leccarne senza fine.Fillippo Tommaso Marinetti Le donne? …Sono vesciche. così. p. 33 51 Id. che noi empiamo del nostro sangue di porco! Diventano. os homens devoram uns aos outros. a ingestão do rei é considerada uma honra para o ingerido. nesta carta. Este já havia nomeado outros cozinheiros.. os secretários e os companheiros que por um ou outro motivo desafiavam-se na sala do banquete e perdiam a vida. ad amarmi a tavola e a mangiarmi a letto!”. mas Marinetti nos dá outra informação. e os convivas resolvem comer o rei.

la proprietà comune dei 52 Id. e diz: Comam. rinsaldandosi l’uno all’altro rivivano in voi per dichiararvi guerra!… 2°. Marinetti satiriza nesta obra a ideologia e a práxis socialista: “La sociologia si tramuta in sauçologie. Ibid. o mar devolve o cadáver dos náufragos… assim também o estômago dos Citrulli os havia restituído à vida. Quel che si vomita è più forte e più vivo di ciò che si è inghiottito!…52 Em uma passagem do livro. o Santo Sepulcro devolveu Jesus Cristo. representante eclesiástico da história. e recomeçam a lançar olhares de desejo uns aos outros. Fra Trippa. Entretanto. A antropofagia era real e metafórica ao mesmo tempo. defende que sua ingestão e ressuscitamento através do vômito seria simbólico. assim como a baleia devolveu Jonas. Um dos personagens. 267 67 Cozinha futurista. indicando que a história poderá se repetir infinitas vezes. p. 227 53 MARINETTI... ao final. salsologia. Re Baldoria.indd 67 7/4/2009 15:51:19 . Bebam.T. p. um dos personagens alude ao sacramento católico. i Citrulli vanno perfezionando le loro mascelle nell’arte di divirarsi l’un l’altro con crescente agilità… Ecco il solo progresso possibile. este é o meu sangue (e oferece o sangue que recolhera em uma taça).”53 Segundo Luciano De Maria. este é meu corpo! (e oferece realmente uma parte de seu corpo mutilado). F. si vomitano persino le budella… talvolta lo stomaco intero!… Masticate con cura gli alimenti! Dividete la carne in tanti piccoli pezzi. Perché si vomita sempre molto più di quanto si è mangiato!…Talvolta.A cozinha futurista Inoltre bisogna guardare bene dal recere le conquiste del nostro stomaco… 1°. os homens ressuscitados (vomitados. ed uno dei cardini del socialismo. se non volete che il corpo mangiato. e que fediam muito) sentem fome novamente. Um vampiro filósofo que aparece ao final da história resume o problema: “Di età in età.

Luciano. Pp. Este romance africano traz a história de Mafarka-el-Bar . Mafarka si gettò sulle serve che stavano sparecchiando e le possedette. (…) Mafarka lo mangiò.guerreiro feroz e implacável. F. para trazer à vida seu irmão mais novo. em 1910. che un odore caldo e squisito inebbriò voluttuosamente tutta la casa. Magamal.Fillippo Tommaso Marinetti mezzi di produzione. Mais uma vez. confunde-se o vocabulário referente aos prazeres carnais e estomacais: I cuochi infarcirono lo Zeb con del latte cagliato. Poi. no decorrer da obra. stuzzicante da quell’odore. emanação pura do discurso futurista. empreende uma viagem mítica ao reino dos mortos.76-77 68 Cozinha futurista.55 54 DE MARIA.. origliavano alle porte della casa sala del convito.. il futurista. “La chiave dei simboli in ‘Re Baldoria’” in: La nascita dell’avanguardia. una dopo l’altra. e não biológico. atravessa os oceanos e concebe finalmente a idéia de um filho que resultasse de um nascimento apenas cerebral. E. fosse no amor ou no modo de governar . Assim nasce Gazoumah. Marinetti publicou Mafarka. sui cuscini. pensndo fosse un pesce.203 55 MARINETTI. levou Marinetti a um processo por atentado ao pudor.T. diviene la socializzazione dei mezzi di produzione culinaria”54. p. Louco de dor.o rei de Tell-el-Kibir. e lo condirono sì bene con viole e cannella. em sua tradução italiana. bárbaro e sádico. A obra. Mafarka. il Futurista quase simultaneamente em francês e em italiano. facendo schioccare la lingua e stroppicciandosi le mammelle per vincerne il troppo dolce prurito. um filho imortal porque nasceu sem a participação da vulva maléfica que predispõe à decrepitude e à morte. que renuncia ao seu trono e ao seu povo após vencer todos os inimigos.indd 68 7/4/2009 15:51:19 . le servette. Pouco tempo depois. la sera. cruel e impetuoso. tirano e usurpador. do qual o autor foi absolvido. ridendo come un pazzo.

Atenção à sexta novela.A cozinha futurista Muitos banquetes (ou orgias) acontecem no decorrer da obra e. entretanto. Em 1922. Publicado pela Edizioni d’Arte Fauno. 3) Cuori complicati. bem como resenhas ou comentários sobre seu conteúdo. que devoravam os inimigos para saciar seu apetite animal.it/futurismo 69 Cozinha futurista. Em 1927. 2) Consigli ad una signora scettica. Algumas obras de Marinetti não são facilmente encontradas. carrega numa mochila um pedaço de carne salgada. 6) Una favolosa indigestione. Num clima de insanidade. algumas informações puderam ser obtidas no site L’Arengario56. neles. 4) Cacce arabe.indd 69 7/4/2009 15:51:19 . já destituída da cabeça. de 1930. que ele havia amorosamente comido. não quer dividir com ninguém. declara. Selecionamos alguns títulos aparentemente relevantes a este estudo. de Roma. pela editora Excelsior de Milão. traz sete novelas eróticas: 1) Autoritratto.arengario. No livro de contos Novelle colle labbra tinte. cujo título remete à antropofagia. 7) Grande albergo del pericolo. pela Casa Editrice Ghelfa. agile e interessante autobiografia. um “studio biliografico”. Guzzo o personagem Corajoso a que se refere o título. encontramos um conto intitulado “Come si nutriva l’Ardito”. um livro sobre amor foi lançado por Marinetti: são alguns contos eróticos publicados sob o título Gli Amori Futuristi. das pernas e dos braços. durante a travessia de um rio em meio 56 www. que reproduz a capa de inúmeras obras raras ou de difícil localização. Ao abrir a mochila. a voracidade com que os personagem avançam sobre o alimento remete aos antigos antropófagos. que se pode mesclar com a antropofagia. o qual. de Cremona. uma vez que uma grande indigestão num livro de contos eróticos pode referir-se ao abuso das “fadigas da cama”. a surpresa: ele carrega consigo o corpo mutilado da amante. entre disparos de metralhadora do campo inimigo. Em 1918 foi publicado o livro Come si seducono le donne. por tratarem do amor. 5) Matrimonio ad aria compressa. outro livro traz o amor no título: Scatole d’Amore in Conserva.

pp. que havia assistido a toda a cena canibalesca.Fillippo Tommaso Marinetti à batalha. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra”. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà.402-3 58 Id. de outra cor. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non parla più! Il ventre umile. tremano. Mais tarde: “nelle mie vene il mio sangue ti culla. tem uma grande cicatriz. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. F. timido. temos a descrição de Guzzo: “un certo Guzzo di Trapani tutto nero. piccola.T. mas com olhos dulcíssimos. assim. algumas imagens acabam por tornarem-se recorrentes nesta “fase antropofágica” de Marinetti. assim eles se tornariam apenas um. o rosto embrutecido. vero Saraceno magro agile scattante. Observemos como a descrição da jovem morta devorada por Guzzo assemelha-se bastante à descrição dos complexos plásticos comestíveis já citados: Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. Num primeiro momento.indd 70 7/4/2009 15:51:19 . Ibid pp 399 e 405 70 Cozinha futurista. pedindo que seja ingerida. Cosi pure il collo. fazendo crer o leitor na doçura deste monstro 57 MARINETTI. 1930.57 Guzzo morre. Além disso. assimilando o resto do amor que ele traz. Imagina-se que ele comerá o resto do cadáver. dois detalhes invocam o passado ritual antropofágico. Guzzo conversa com o cadáver. ingenuo. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente.58 Guzzo é muçulmano. Milano: Mondadori. de outra cultura. Entretanto. Novelle colle labbra tinta: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. Le mammelline tonde soavi vive. grandi occhi neri dolcissimi. Marinetti pode talvez querer assim atenuar a gravidade do ato canibal. que responde. e a mochila com os restos da mulher é então carregada pelo tenente. Plasticamente falando. deformado.

a língua. O outro excerto alude ao fato comum entre os indígenas americanos (a América era o paraíso na visão de muitos europeus) de ingerir o corpo dos ancestrais mortos. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. através de Guzzo e seu tenente. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. Em “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. o furioso turbilhão do sexo. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas obras de gênio e de língua insaciável. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. acabam por revelar sua opinião sobre as mulheres. o estômago. O fascínio. respondendo a uma pergunta feita por “aquela que se parece bastante mas não o suficiente”. o intestino igualmente enamorados. a única e todas encontravam-se aqui. para que assimilassem com este as qualidades atribuídas à pessoa em vida.Amamos as mulheres. outros detalhes sobre o sexo feminino: 71 Cozinha futurista. O seu coração. especialmente as mães. a alvorada. a ingenuidade. mas os dentes.indd 71 7/4/2009 15:51:19 . os futuristas. não só o tato e relativas carícias. São os nossos estados de ânimo realizados. a graça infantil.A cozinha futurista de cultura desconhecida. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. Eis o que dizem: . Marinetti nos revela. diante de nossas mãos. se apertado pelo supremo prazer do amor. Em um diálogo que praticamente encerra o conto. o pudor.

as mulheres têm tanta importância quanto a comida.406 72 Cozinha futurista. Um texto sob o pseudônimo Darwin afirmava que era necessário: Voltar ao estado natural. o ato antropófago. Na Revista de Antropofagia. Deglutir até que chegue a hora de um prato melhor. deixa de pensar. vemos a conformidade deste pensamento de Marinetti com o movimento brasileiro. né i suoi piedi. ajuda o homem. Construir de novo. Ora porti il resto sulle spalle. ma non le donne vive. Deglutir tudo. Devem satisfazer o homem. A mulher deixa de existir. nós 59 Id. visto que será assimilada pelo outro. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. Ibid. Guzzo? Sì. Nada mais oportuno que uma relação canibal: após o ato amoroso.indd 72 7/4/2009 15:51:19 . Ao chegarmos aí. Lo so. le sue braccia. cuja força aumenta com a carne ingerida. não pode mais escapar. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. proporcionar-lhes prazer. auxiliar a catalisar suas forças. le sue gambe. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. Non amo la testa della donna. (Ou ainda: a mulher é comida). ti approvo. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!…59 Não seria absurdo pensar que para o futurista. p. comida. degustada. Ti ho visto. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. Vedi. e no final. cheirada. sem no entanto atrapalhar seu desenvolvimento ou sua vida.Fillippo Tommaso Marinetti Ti piaciono le donne. A mulher é adorada. Lo so.

A cozinha futurista teremos atingido o momento supremo em que a idéia se une à força. T. para que o médico não tivesse “naquele dia a sua porção de carne a cortar com método”. para unir-se a ele. e quando se deve proceder à cirurgia. numa trincheira. a carne humana 60 Revista de Antropofagia. Un ventre di donna: romanzo chirurgico. para alimentar-se. e a senhora Enif Robert. Enif. os médicos são equiparados a açougueiros. somente começa a se acelerar após a leitura do “manual terapêutico do desejo-imaginação” desenvolvido por Marinetti. nova crise nervosa. ocorre uma segunda cirurgia e a recuperação. Boa parte da obra é escrita de maneira epistolar. a no momento de tirar o curativo e enfrentar a cicatriz. 59 e 81. em meio à guerra. se devoram. Os pontos não cicatrizam. e em meio a contorsões grita: “Não! Assassinos! Açougueiros! Acorde. tirar. para viver dele? 60 Outra obra do futurismo que tem um leve apelo antropofágico é Un Ventre di Donna. não! Cortar. quiseram-se incorporar-se de todos os modos. havendo uma troca de correspondências entre o futurista F. quer fugir do hospital. o objeto amado. 1a. apesar de não haver menção à ingestão da carne humana.T. p. não! A minha carne é minha!… Comando eu!… Tenho direito…”61 Neste livro. a ciência se iguala à inspiração e o pensamento circula livremente pelo organismo Nos transportes do amor humano. quem não sabe que os amantes se comem. dentição. Futurismo como cura. Marinetti. “romance cirúrgico”. exaustivamente lenta. A cirurgia é feita. dizia o poeta. 7 61 MARINETTI. a senhora tem uma crise de nervos. internada num hospital após uma cirurgia sem muito sucesso para a retirada dos órgãos reprodutores inflamados. 1919.indd 73 7/4/2009 15:51:19 . no. lo sventratore”. com uma doença nervosa. logo. Milano: Falcchi Editore. até com os dentes. F. O primeiro cirurgião é apelidado pela senhora Robert de “Jack. e ROBERT. para possuí-lo. 73 Cozinha futurista.

Muitas vezes.85 74 Cozinha futurista. é que se pode inovar. física. novamente. preocupados em fortalecer os cidadãos e a pátria. os secretários eram “açougueiros” e a carne dos “inimigos intelectuais” era sempre oferecida num açougue imaginário. seja através da ingestão e a assimilação dos ingredientes formadores da cultura. A nacionalidade foi enfocada por cada um deles. e somente ingerindo.indd 74 7/4/2009 15:51:19 . A antropofagia. bebendo dessas fontes. A digestão seria difícil. F. A Cozinha Futurista. Na Revista de Antropofagia. Podemos assim estabelecer um vínculo sangüíneo entre os três autores. Foi necessário devorar nossos antepassados e nos imbuir de toda a coragem que eles um dia tiveram para que não caíssemos na mesmice literária. A renovação de nossa literatura deve muito aos caraíbas e aos tupinambás. seja através dos alimentos oferecidos ao corpo e à alma. uma receita marinettiana: “O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. os autores renegam o passado literário. outras foram simplesmente descartadas.T. Todos preocuparam-se com a culinária. foi praticada por estes três autores e muitos outros em diversas culturas. Tradução em português p. comendo as idéias e assimilando tudo numa digestão bem feita. moral. As pessoas e as influências importantes foram assimiladas. intelectual ou financeiramente. em prol de uma modernidade almejada.Fillippo Tommaso Marinetti com a carne animal que se oferece nos açougues.” 62 62 MARINETTI. Para evitar a indigestão. O repertório intelectual de uma cultura é intocável. teorizada por Oswald. julgando que estão livres daquelas amarras intelectuais.

indd 75 7/4/2009 15:51:19 .CApítulo 2 A Cozinha Futurista e a linguagem W Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 76 7/4/2009 15:51:19 .

documentos que já apresentavam as primeiras modificações lingüísticas sugeridas pela vanguarda artística. 77 Cozinha futurista. conseguiu realizar.indd 77 7/4/2009 15:51:19 . devemos começar em 1909. com o Manifesto do Futurismo.O FuturismO: prOpOstA de revOLuçãO LinGüísticA Para melhor compreender as dificuldades apresentadas ao tradutor por um texto futurista. tentaremos verificar quais experimentos Marinetti tentaria concretizar em suas obras e o que. ano do Manifesto Técnico da Literatura Futurista. Por meio da leitura de excertos destes dois manifestos. passando depois para 1912. na prática.

Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo – il militarismo.. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo. essa pure. lanciata a corsa. La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote. saranno elementi essenziali della nostra poesia.. il patriottismo. No v’è più bellezza. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante. le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna. Noi vogliamo esaltare il movimento agressivo.. un automobile ruggente. per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo. sul circuito della sua orbita. Il coraggio. l’insonnia febbrile. Perché dovremmo guardarci alle spalle. che sembra correre sulla mitraglia. il gesto distruttore dei libertari. sfarzo e munificenza. l’estasi e il sonno. per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali. con ardore. il salto mortale. 78 Cozinha futurista. la ribellione. Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro. l’audacia. lo schiaffo ed il pugno. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!. se vogliamo sfondare le misterioseporte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. se non nella lotta. è più bello della Vittoria di Samotracia. l’abitudine all’energia e alla temerità.indd 78 7/4/2009 15:51:19 . la cui asta ideale attraversa la Terra. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa. Noi viviamo già nell’assoluto. Bisogna che il poeta si prodighi.Fillippo Tommaso Marinetti Manifesto del Futurismo il 20 febbraio 1909 Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo. il passo di corsa.. poiché abbiamo già creata l’eterna velocità omnipresente.

che scalpitano sulle rotaie. le biblioteche. balenanti al sole con um luccichio di coltelli. le stazioni ingorde. le accademie d’ogni specie.A cozinha futurista Noi vogliamo distruggere i musei. e combattere contro il moralismo. scaldato il ventre dalla testa dell’aviatore.. ma non avrà mai due ali. E l’elica soggiunse: 79 Cozinha futurista. come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi. i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte. divoratrici di serpi che fumano. canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche.) Manifesto tecnico della letteratura futurista 11 maggio 1912 In aeroplano. due gambe e due piedi piatti. il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria. le locomotive dall’ampio petto. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro. Bisogno furioso di liberare le parole. seduto sul cilindro della benzina. come ogni imbecile. la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta. per correre un momento e fermarsi quasi subito sbuffando! Ecco che cosa mi disse l’elica turbinante. (. dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne. io sentii l’inanità ridicola della vecchia sintassi ereditata da Omero. mentre filavo a duecento metri sopra i possedenti fumaiuoli di Milano. e il volo scivolante degli aeroplani. le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi. Appena il necessario per camminare. i ponti simili a ginnasi giganti che scavalcano i fiumi.indd 79 7/4/2009 15:51:19 . un ventre. traendole fuori dalla prigione del periodo latino! Questo ha naturalmente. una testa previdente..

gli avverbi e le congiunzioni. la punteggiatura è naturalmente annullata. dare il senso della continuità della vita e l’elasticità dell’intuizione che la percepisce. L’aggettivo avendo in sé un carattere di sfumatura. la percezione per analogia diventa sempre più naturale per l’uomo. poiché suppone una sosta. Esempio: uomo-torpediniera. Bisogna dunque sopprimere il come. il simile a.Fillippo Tommaso Marinetti Bisogna distruggere la sintassi disponendo i sostantivi a caso. perché il sostantivo nudo conservi il suo colore essenziale. il quale. Per accentuare certi movimenti e indicare le loro direzioni. vecchia fibbia che tiene unite l’una all’altra le parole. Abolire anche la punteggiatura. Meglio ancora. piazza-imbuto. Ogni sostantivo deve avere il suo doppio. s’impiegheranno segni della matematica: + . L’avverbio conserva alla frase una fastidiosa unità di tono. senza congiunzione. e i segni musicali. Si deve abolire l’avverbio. perché si adatti elasticamente al sostantivo e non lo sottoponga all’io dello scrittore che osserva o immagina. è inconcepibile con la nostra visione dinamica. Si deve abolire l’aggettivo.x : = > <. Essendo soppressi gli aggettivi. senza le soste assurde delle virgole e dei punti. donna-golfo.indd 80 7/4/2009 15:51:19 . Siccome la velocità aerea ha molteplicato la nostra conoscenza del mondo. folla-risacca. bisogna fondere direttamente l’oggetto coll’immagine che esso evoca. Si deve usare il verbo all’infinito. dando l’immagine in iscorcio mediante una sola parola essenziale. il così. Il verbo all’infinito può. dal sostantivo a cui è legato per analogia. come nascono. nella continuità varia di uno stile vivo che si crea da sé. cioè il sostantivo deve essere seguito. solo. una meditazione. porta-rubinetto. 80 Cozinha futurista.

Hanno paragonato per esempio l’animale all’uomo o ad un altro animale.) (.. potrebbero paragonare quello stesso fox-terrier trepidante. sottoposto a una logica e ad una saggezza spaventose. di metafore scolorite. Lo stile analogico è dunque padrone assoluto di tutta la materia e della sua intensa vita. nobili o grossolane o volgari... il che equivale ancora.) Per avviluppare e cogliere tutto ciò che vi è di più fuggevole e di più inafferrabile nella materia. Siccome ogni specie di ordine è fatalmente un prodotto dell’inteligenza cauta e guardinga bisogna orchestrare le immagini disponendole secondo un maximum di disordine. V’è in ciò una gradazione di analogie sempre più vaste. L’uomo completamente avariato dalla biblioteca e dal museo. L’intuizione che le percepisce non ha né preferenze né partiti-presi. ognuna condensata. a una piccola macchina Morse. più avanzati. (. e 81 Cozinha futurista.indd 81 7/4/2009 15:51:20 .A cozinha futurista Gli scrittori si sono abbandonati finora all’analogia immediata. Per dare i movimenti sucessivi d’un oggetto bisogna dare la catena delle analogie che esso evoca. vi sono dei rapporti sempre più profondi e solidi. cioè tutta la psicologia.) Bisogna dunque abolire nella lingua tutto ciò che essa contiene in fatto d’immagini stereotipate. e cioè quasi tutto. Io lo paragono invece.. Dunque dobbiamo abolirlo nella letteratura. bisogna formare delle strette reti d’immagini o analogiem che verrano lanciate nel mare misterioso dei fenomeni. raccolta in una parola essenziale. a un’acqua ribollente. press’a poco. a una specie di fotografia. non offre assolutamente più interesse alcuno. Non vi sono categorie d’immagini. eccentriche o naturali. Distruggere nella letteratura l’“io”. (Hanno paragonato per esempio un fox terrier a un piccolissimo puro-sangue. Altri. quantunque lontanissimi.

) Dopo il regno animale. usa inúmeras palavras para caracterizar os objetivos do grupo: alcançar um “movimento agressivo”. Con la conoscenza e l’amicizia della materia. sentem uma “necessidade furiosa” ou ouvem da “hélice turbilhonante” os preceitos 82 Cozinha futurista. della quale gli scienziati non possono conoscere che le reazioni fisico-chimiche. desde que expostos ao acaso. são muitas as regras que o futurismo impunha aos escritores que quisessem honrar a ideologia do movimento: abolir a pontuação. e quindi dalla morte stessa. Como podemos observar. Ao mesmo tempo em que propõe a abolição dos adjetivos.(. la qual cosa non potranno mai fare i fisici né i chimici. “salto mortal”. in letteratura. Nulla è più interessante. usar verbos no infinitivo. suprema difinizione dall’inteligenza logica. o adjetivo e o advérbio.) Noi vogliamo dare.. di cui si deve afferrare l’essenza a colpi d’intuizione. noi prepariamo la creazione dell’uomo meccanico dalle parti cambiabili. per un poeta futurista. (. la vita del motore. Il cinematografo ci offre la danza di un oggetto che si divide e si ricompone senza l’intervento umano. construir analogias inéditas e surpreendentes. em seus manifestos. mas que nem ele.Fillippo Tommaso Marinetti sostituirlo finalmente colla materia.indd 82 7/4/2009 15:51:20 . Vejamos alguns pontos propostos por Marinetti.. che l’agitarsi della tastiera di un piano forte meccanico. os avanços tecnológicos. A análise dos manifestos em si já demonstra a fragilidade destas proposições. “insônia febril”.. ecco iniziarsi il regno meccanico. usar muitos substantivos.. realçar a velocidade. a agressividade. nuovo animale istintivo del quale conosceremo l’istinto generale allorché avremo conosciuto gl’istinti delle diverse forze che lo compongono. conseguiu praticar. Noi lo libereremo dall’idea della morte.

o segundo teria o objetivo de modificar ou especificar o primeiro1. seria mais convincente que ele mesmo deixasse de usá-los.30 83 Cozinha futurista. é caracterizada por este segundo elemento. O fato é que Marinetti tenta não usar a pontuação. ou ao menos diminuir a quantidade desta. o item 2 do Manifesto Técnico diz: “para que este se adapte elasticamente ao substantivo”. e eis que o ensinamento não é cumprido pelo mestre. Teoria Lexical. prova de que os substantivos são as palavras com carga semântica mais importante para os futuristas. uma texto sem advérbios ficaria mais veloz. já no item 6 temos “a pontuação é naturalmente anulada”. Ainda sobre a contraditória abolição dos adjetivos. Assim poderíamos proceder com todos os substantivos e seu respectivo duplo. fator positivo num texto futurista. separado por hífen. 1989. “praça-funil”. sem “a velha fivela que mantém as palavras unidas umas às outras”. “multidão-ressaca”. Se em seu lugar poderiam ser utilizados símbolos matemáticos ou musicais. o uso do substantivo com seu duplo. Na teoria. Marinetti propõe. que nos parece um adjetivo “camuflado”. Seria um substantivo composto. que estaria assim em movimento. conquanto freqüentemente sejam precedidos de modais que indicam sua conjugação. Na prática. São Paulo: Ática. Apenas algumas linhas de distância. Margarida.indd 83 7/4/2009 15:51:20 . que caracterizaria o objeto. Deve-se abolir o advérbio. de qualquer modo. a certo ponto. mas a compreensão ficaria prejudicada 1 Basilio. se usamos dois substantivos acoplados. Se Marinetti propõe a abolição dos adjetivos. mas. A praça tem o formato ou a utilidade de um funil. A ausência da pontuação dá margem a infinitas interpretações e analogias. p. Os verbos no infinitivo são a proposta com maior incidência nos manifestos.A cozinha futurista do movimento. Exemplificando com o próprio manifesto: “homem-torpedeira”. Abolir a pontuação é outra proposta bastante intrigante. poderíamos pensar em uma mera substituição de um símbolo por outro. Ora. As frases nominais também aparecem com bastante assiduidade.

que se propõe um estilo original. gostaria de lembrar uma passagem do Manifesto do Futurismo que não está reproduzida acima. que perdem em clareza e inteligibilidade. Marinetti. Julgando-o pelos seus próprios preconceitos. acerca da idade dos artistas. Antes de partir para a análise da linguagem em A Cozinha Futurista. na primeira década do século. em 1944. para cumprir nossa obra. atirar-nos-ão ao cesto. ocorrida com sua morte. Marinetti foi o estopim do movimento. seguido por um conjunto de regras a serem seguidas. considerava-se ainda capaz e jovem o bastante para seguir à frente do movimento futurista. Verifica-se então uma bipolaridade entre o difusor das idéias futuristas. 84 Cozinha futurista. mas isto é dificultado nos textos em prosa. A cOzinhA FuturistA e As inOvAções nA LínGuA O Manifesto da Cozinha Futurista segue o modelo dos outros manifestos promulgados pelo movimento futurista: um pequeno texto que explica ou exemplifica o problema a ser abordado. tinha 54 anos. outros homens mais jovens e mais válidos que nós. Quando tivermos quarenta anos.Fillippo Tommaso Marinetti se esta fosse abolida por completo. É oportuno ressaltar que no primeiro parágrafo deste manifesto. contava já 33 anos. – Nós o desejamos! Na época desse manifesto. Em poesia. o nome de Benito Mussolini é lembrado. fossem estas políticas ou de reciclagem de seus participantes. e permaneceria fiel a seus ideais até a consumação total da chama. nascido em 1876. a disposição dos versos no papel supre a falta de pontos ou vírgulas. Quando da publicação do Manifesto da Cozinha futurista. como manuscritos inúteis. embora este já tivesse sofrido muitas transformações. no entanto. Os mais velhos dentre nós têm trinta anos: resta-nos portanto pelo menos uma década. 1909. e o “autor literário” que tende a uma linguagem mais tradicional.indd 84 7/4/2009 15:51:20 . Marinetti deveria ter sido substituído por outros homens mais jovens e com maior agressividade.

e o Manifesto da Cozinha Futurista. Nos outros capítulos. e a palavra antefato inclui um advérbio no prefixo. Além de utilizar três adjetivos em seqüência. são aqueles em que o poeta tenta . O subtítulo do texto. indicando que este acontece anteriormente a outro fato. que reuniu documentação importante acerca da polêmica cozinhária iniciada por Marinetti. com pontuação adequada gramaticalmente. de provável classificação “literária”.modificar o uso da língua. 85 Cozinha futurista. No primeiro parágrafo. que ignora os mandamentos futuristas. situado no início do segundo capítulo.indd 85 7/4/2009 15:51:20 . strambo e misterioso”. embora não seja possível precisar se ideologicamente ou para sustentar um movimento literário que estava perdendo sua capacidade de persuasão. Os casos que relevaremos aqui. cardápios. São inúmeros os casos em que Marinetti segue a linguagem tradicional. estes são separados por vírgula e conjunção. novas palavras ou analogias diferenciadas. segue o modelo de apresentação futurista: um texto. no caso. que representa o primeiro capítulo do livro. A este manifesto.e algumas vezes realmente consegue . seguido do manifesto e respectiva polêmica. serão objetos de estudo o texto literário – “Uma refeição que evitou um suicídio: o tragicômico poético antefato” – . tragicômico e poético. o poeta parte para a lago Trasimeno obedecendo a um telegrama “preoccupante. por serem de interesse as inovações apresentadas e não as falhas em praticar a própria teoria. Lembremo-nos que desde 1926 o futurismo havia aderido ao fascismo. dispondo as palavras em sintaxe convencional. propondo novas construções. o “antefato” é já duplamente caracterizado por adjetivos. seguiu-se a publicação do livro A Cozinha Futurista. receitas.A cozinha futurista aludindo às “batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue”. O livro. mais uma vez. o manifesto. Nesta breve análise. e um dicionário dos novos termos.

Fillippo Tommaso Marinetti Comecemos com as construções inusitadas. Iniciando pela fala de Giulio Onesti. la sua subitanea fuga dai centri abitati. que chamam a atenção do leitor não só pelo argumento. escrito todo ele em terceira pessoa. apesar da sabida participação do autor nos acontecimentos. que se abre com um parêntese. No quinto parágrafo do texto. il suo intervento battagliero e creativo nelle serate futuriste di venti anni prima. non debbo tradire la morta. personagem do “antefato”. mas pela forma de expressão. pseudônimo de um colaborador futurista. Poi Giulio fu preso da un tremito convulso irrefrenabile: “(non voglio. mas este não é fechado. Para caracterizar este personagem. tomado de um tremor irreprimível. Marinetti utiliza quatro longos sujeitos para o verbo “riempirono” em seqüência. la sua vita di scienza e di ricchezze accumulate al Capo di Buona Speranza. este aparece como personagem em terceira pessoa. Apesar do texto ser de autoria de Marinetti. riempirono la conversazione parolibera che precedette il pranzo nel policromo Quisibeve della villa Outra construção que ressalta no texto é o curto diálogo entre os quatro personagens após a declaração do iminente suicídio de Giulio. temos a descrição de Giulio Onesti. se esqueça de fechar parênteses: Lungo silenzio. separados por vírgulas. “Abolir o ‘eu’ da literatura” era uma das propostas futuristas e que foi respeitada no texto. 86 Cozinha futurista. che mascherava il suo vero nome.indd 86 7/4/2009 15:51:20 . Pode se tratar de um erro tipográfico. o que imprime um ritmo cadenciado peculiar à frase: “Questo pseudonimo. Quindo mi suiciderò questa notte!” “a meno que?” – gridò Prampolini “a meno que?” ripetè Fillìa. mas ainda assim é sintomático que um homem.

una lieve curva de bocca ventre o fianchi”2.T. bastante longo. partindo do momento da enunciação desta solução. una legerezza di volo che offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donna miste di mozzi di ruote e d’ali d’eliche tutte formate con soffice pasta lievitata. A pontuação. 1998. buscando uma solução para o desejo de suicídio.11 87 Cozinha futurista.A cozinha futurista “a meno que?” – concluse Marinetti – a meno che tu ci conduca imediatamente nelle tue ricche e fornite cucine.”3 2 3 Marinetti. sempre seduzindo o leitor com a aparente desordem instaurada na frase. proposta por Marinetti. a falta desta. pode ser encontrada em diversas outras passagens do “antefato”. exceto o óbvio ponto ao final do mesmo.” – O diálogo segue com uma quádrupla repetição da frase: “a meno que”. A anáfora auxilia na criação do suspense necessário para que fosse apresentado o desfecho do problema: a cozinha futurista. ou “. 11 Id. ou melhor. O período.indd 87 7/4/2009 15:51:20 . A cozinha futurista. Milão: Marinotti. nas cozinhas.. para criar comidas que salvassem a vida do amigo. Sempre no plano da construção. Ibid. podemos encontrar um parágrafo escrito sem utilizar nenhum sinal de pontuação. F.. mistura muitos substantivos e adjetivos. Eis alguns exemplos: “. p.. porém há apenas um verbo e um único advérbio. todos os companheiros futuristas lançam-se a um trabalho incessante. Este suspense também serve como preâmbulo para a ação que é então desencadeada. p. Observemos como a ausência da pontuação torna o ritmo do período veloz: Atmosfera inebriante prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano altissimo torniva melodiosamente..

Fillippo Tommaso Marinetti A velocidade imprimida à linguagem também pode ser verificada nas construções de frases curtas. tutta direttive nuove4 Outro trecho é todo construído mesclando substantivos soltos “ao acaso”. em sua maioria nominais que culminam na afirmação de que “somos o futuro”: Arte leggera aviatoria. Crocifiggerla sotto chiodi acuti di volontà. tutta leggi nuove. altri cic redono complicatissimi e civilizzatissimi. deveria também ser degustada.5 O substantivo que deve ser acompanhado de seu duplo. p. atendendo às regras do Manifesto Técnico da Literatura Futurista: Con calma riprendere la materia.indd 88 7/4/2009 15:51:20 . Schioccar di lingua. Passione. Alle sei di pomeriggio svilupparsi in alto di dolci dune di carne e sabbia verso due grandi occhi di smeraldo. tem espelhamento num verbo acompanhado de seu duplo na proposição “inaugurare-assagiare” a mostra de escultura comestível. Tutto il cielo nelle nari.14 Id. Ci giudicate selvaggi. Siamo gl’istintivi nuovi elementi della grande Macchina futura lirica plastica architettonica. p. Arte mangiabile. L’eterno femminino fuggente imprigionato nello stomaco. Trattenere il respiro per non guastare un sapore cesellato. Uma mostra é normalmente inaugurada. 4 5 Id. Ibid. frases nominais curtas e verbos no infinitivo. mas esta. como a “nicchia-tana” (que traduzimos por concha-toca). Ibid. Nervi. La spasimante superacuta tensione delle più frenetiche lussurie finalmente appagate. Arte temporanea. por seu caráter ambíguo. 12 88 Cozinha futurista.. Gioia delle labbra..

alto complesso plastico di pasta sfogliata scolpita a piani degradanti di piramide.. Giulio girando appena la testa a destra e a sinistra. Prampolini e Fillìa parlorono. un complesso plastico di cioccolata e torrone rappresentante le forme delle nostalgie e del passato precipitò giù con fragore e inzaccherando tutto. La sua architettura obliqua di curve molli inseguentisi in cielo.... Marinetti.Giulio Onesti. vi avevano inoculato il magnetismo. alternandosi.. ... Observemos alguns exemplos que documentam o fenômeno: .indd 89 7/4/2009 15:51:20 . A escrita marinettiana tem também outra peculiaridade que vale a pena evidenciar: o gosto pela visualização. situações ou personagens. imprigionato nello stomaco......... mais freqüentemente de gerúndio e de particípio. O próprio Maninetti explica esse 89 Cozinha futurista. veloccizzandosi scapigliava in tutta la camera una massa enorme di zucchero filaro d’oro. o que facilitaria muito a tarefa de construir uma linguagem concisa... moderna.. offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donne. Acreditamos que este tipo de construção seja privilegiado por suprimir o sujeito da frase e também uma conjunção.. ne iniziò l’amorosa adorazione. Inginocchiatosi davanti. Prampolini e Fillìa.... mas sempre privilegiando o “estilo analógico”.. . improvvisatosi scultore-cuoco. Longos parágrafos e períodos são utilizados para descrever locais. .... Marinetti.A cozinha futurista Parece-nos importante também ressaltar a larga utilização das orações reduzidas.. L’eterno femminino fuggente. collaborando. sem palavras desnecessárias.. . In un alto cilindro di pasta di grano turco girante su perno.

) Em alguns casos precisará juntar as imagens duas a duas. em seu vôo. aos automóveis e respectiva velocidade. recolhida numa palavra essencial. É grande o repertório lexical que se refere às máquinas. Aurora Fornoni. é necessário dar a cadeia de analogias que ele evoca. partes destas ou indícios de modernidade: fantásticos laboratórios. aeroescultores. grande máquina futura lírica plástica arquitetônica O campo semântico concernente ao vôo traz aeropintores. que era a escultura de uma mulher. cilindro de massa girando em seu eixo. asas de hélice.”6 Nessas analogias. (. espirais de vento expressos em encanamentos. tudo feito com macia massa fermentada. zumbido de um aeroplano altivo. roda dentada. oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados misturados a cubos de rodas e asas de hélice. equilíbrio. 90 Cozinha futurista. A escolha do vocabulário confirma essa ideologia. hélices esvoaçantes. complexo plástico a motor. três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. globos elétricos. Um dos pratos. as pessoas. tapete de plumas que parece viajar. São Paulo: Perspectiva. O Futurismo Italiano. perfeito. que arrancam. como as bolas acorrentadas. transformada em fantásticos laboratórios. aeropoesias.. arte leve voadora. cubos de roda. Essa relação entre a vida cotidiana e a modernidade imposta pelas máquinas estava de acordo com os ideais do movimento.. volantista.Fillippo Tommaso Marinetti estilo: “Para dar os movimentos sucessivos de um objeto. Numa rápida lista de elementos referentes a cada uma destas categorias. 1980. A velocidade é representada pelo automóvel. Assim temos os poetas que enquanto falam alternam-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina e a cozinha. aerodinamismo lírico-plástico. para máquinas. Outro prato era um complexo plástico a motor comestível. os lugares e mesmo as comidas são sempre relacionadas a máquinas. todo um grupo de árvores. cada uma delas condensada. ou partes destas. 6 Bernardini. encontramos.indd 90 7/4/2009 15:51:20 . ao vôo.

sua importância. cujos nomes jamais são mencionados: “Essa”. O processo de nominalização permite a transformação de qualquer vocábulo em substantivos. complesso plastico “di lei”. pois o pronome utilizado no lugar do substantivo em todas as referências feitas a “ela” assume um significado complexo. faz de palavras lexicais corriqueiras e apagadas. da lei”. “lui [il complesso plastico] vincerà lei”. “a lei”. trabalho muscularmente acelerado. “metaforicamente antropofágica”. palavras lexicais de cunho afetivo. e devido a isso. sua personalidade. As esculturas representam mulheres que podem ser deglutidas. No já citado trecho em que Giulio Onesti degusta uma das esculturas e que foi comparado a um ato sexual. O ato sexual gerara um fruto. São inúmeras também as referências anafóricas a estas mulheres. “l’altra”. como pronome de terceira pessoa referindo-se às Mulheres de Giulio Onesti. “le” offriremo. mas que deixa o futurista Giulio Onesti feliz. porque não dizer. realizado. “la Nuova”. “quella bocca imminente”. “Lei”. os adjetivos culinários são usados para mulheres.. “per lei”. às vezes com inicial maiúscula. ou. “nessuno vi man- 91 Cozinha futurista. outras vezes com inicial minúscula. podemos observar que este culmina no nascimento do sol. a que se suicidou e a outra que se parece muito mas não o suficiente. Escolha lexical também recorrente nesta obra é a “erótico-culinária”. que em italiano é pronome de segunda pessoa para tratamento de respeito.A cozinha futurista velocidade. embora importantíssimas. e finalmente livre de seus desejos suicidas. “la morta”. Marinetti usa repetidas vezes o pronome Lei (ela). de cortesia. “quella che le rassomiglia molto ma non abbastanza”. sendo que o contrário também ocorre. síntese de todos os automóveis famosos. porém impregnado de um vocabulário humano: “le nuvole partorirono un precipitante fulmine arancione a lunghe gambe verdi”. “a lei. metafórico. Escrevo Mulher com maiúscula. “bellissima donna”. sugerindo tudo o que constitui o ser.indd 91 7/4/2009 15:51:20 . “la sopraveniente”.

No tocante às construções sintáticas. Isto se dá provavelmente porque Marinetti pretendia elevar a condição da culinária ao mesmo patamar das artes plásticas não comestíveis. p.) Per esempio. mas essa promessa não é cumprida. p.. e seqüências de substantivos “ao acaso”. “Lei”. “essa”.8 7 8 Id. Comecemos com parágrafos que alternam seqüências de adjetivos sem pontuação. Prepariamo una agilità di corpi italiani adatti ai leggerissimi treni di alluminio che sostituiranno gli attuali pesanti di ferro legno acciaio. snella trasparenza spiralica di passione. a escultura ou a arquitetura. Giulio fica embriagado com a escultura manducada antes de fazê-lo. “la donna”. Si arminizzi invece sempre più colll’italiana.. claro. tão idolatrado pelos futuristas. luce.indd 92 7/4/2009 15:51:20 . Giulio promete mais tarde dizer o nome dela. tenerezza.7 (. avvocati arguti. 21 Id. como os exemplos abaixo: Sentiamo inoltre la necessità di impedire che l’Italiano diventi cubico. agricoltori tenaci a dispetto della voluminosa pastasciutta cotidiana. tenacia eroica. Se no texto deste “antefato poético tragicômico” as referências mais importantes estão relacionadas à velocidade. além. volontà. às máquinas e à degustação erótica. contrasta collo spirito vivace e coll’anima appassionata generosa intuitiva dei napoletani. massiccio impiombato da una compattezza opaca e cieca.Fillippo Tommaso Marinetti gerà”. slancio. das referências ao mundo moderno. oratori travolgenti. esses bem separados por vírgulas. artisti ispirati. A um certo ponto do antefato. Ibid. e quem ela é. os mesmo modelos são encontrados. Ibid. no Manifesto da Cozinha Futurista é mais comum encontrar palavras relacionadas à arte. 22 92 Cozinha futurista. como a pintura. Questi sono stati combattenti eroici.

à força de evitar a indicação do sujeito nas frases. lega coi suoi grovigli gli italiani di oggi ai lenti telai di Penelope e ai sonnolenti velieri.indd 93 7/4/2009 15:51:20 . e ai paesaggi di colore forma rumore che la radio-televisione fa navigare intorno alla terra? A repetição também aparece neste texto. logo após a crítica feroz ao alimento: La pastasciutta. É possível que aqui o período tenha sido escrito nesse ritmo lento para acentuar o peso do macarrão nos estômagos. o diferente. opta o poeta pela construções impessoais. corrigirão: “manca di sale. troppo aceto. parecem ter a linguagem mais cuidadosamente trabalhada no sentido de alcançar também a revolução lingüística. ao dizer que indicadores químicos.. Perché opporre ancora il suo blocco pesante all’immensa rete di onde corte lunghe che il gfenio italiano ha lanciato sopre oceani e continenti. cujas vírgulas foram abolidas: “Questi complessi plastici saporiti colorati profumati e tattili formeranno perfetti pranzi simultanei. troppo dolce”. Notem que não há vírgulas na passagem. noi affermiamo questa verità: si pensa si sogna e si agisce secondo quel che si beve e si mangia. in cerca di vento. mas permanecem as conjunções: “. que se refere também à mão esquerda. o sono proveniente desse bloco maciço em nossos estômagos.” As passagens cujos argumentos são mais “futuristas”. O substantivo mancanza é substituído por manca.” A última frase do manifesto também traz modificações sutis na construção da frase. O trecho “Le macchine costitueranno presto un obbediente proletariato di ferro acciaio alluminio al servizio degli uomini quasi totalmente alleggeriti dal lavoro manuale” ignora a necessidade de vírgulas entre os componentes metálicos das máquinas. nutritivamente inferiore del 40% alla carne. O 93 Cozinha futurista.. isto é. al pesce. ai legumi. troppo pepe. num período longo em que faltaria até mesmo fôlego para o leitor que não impusesse suas próprias pausas no texto. relacionados de alguma forma à revolução cultural e social defendida pelo movimento. metaforicamente o inusual. na cozinha do futuro. O mesmo acontece na descrição dos pratos simultâneos.A cozinha futurista Ou ainda.

Após grelhar o filé com sal e azeite. assim como o cheiro. temos a junção dos sentidos para proporcionar o maior prazer gustativo possível. Desde o “antefato” até o Manifesto da Cozinha Futurista. A observação de uma ou duas receitas propostas pelo manifesto provam que a aparência do prato conta tanto quanto (ou até mais que) o sabor deste. podemos ver tantas referências aos sentidos que nos pareceu mais lógico separar de acordo com cada um deles. colocando o adjetivo doce no lugar do previsível açúcar. para Marinetti. pepe. temos uma seqüência de três: “aceto. falta uma coisa. como o intuito dos autores é de mesclar os sentidos para atingir deste modo uma gama completa de sensações.Fillippo Tommaso Marinetti sentido da palavra é garantido pelo contexto. imitando um jogo de damas. e o sabor. O vocabulário referente às sensações. melhor dizendo. forma. O Salmão do Alasca aos raios de sol com molho Marte deve ser cuidadosamente trabalhado de forma artística antes de ser apresentado ao comensal.indd 94 7/4/2009 15:51:20 . A lógica lingüística diz que o último elemento também deveria ser um substantivo. limitar-nos-emos a relacioná-los na ordem em que aparecem 94 Cozinha futurista. ou. coberto de mel e sustentado a base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. também foi tratado e escolhido com cuidado por Marinetti. Outra invenção famosa da cozinha futurista é o Carnescultura composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. aos sentidos. aparência do prato deve ser levada em conta. além do molho que o acompanha. como o vinagre e a pimenta. Sobre cada fatia uma rodelinha de limão com alcaparras. mas o autor preferiu causar este estranhamento. no mesmo patamar de outras artes plásticas. A cor. e dolce”. Entretanto. sobram outras. Mais uma vez. O cilindro é disposto verticalmente no centro do prato. Dentre os elementos que sobram. Dissemos acima que a culinária estaria. dispõem-se sobre as fatias alguns filetes de anchova entrelaçados.

cuja harmonia original de formas e cores nutra os olhos e excitem a fantasia antes de tentar os lábios. le sferiche dolcezze di tutte le ideali mammelle”. todo o céu nas narinas. pretos. conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. cirri rossi. o eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. a língua. a apreciação das obras de arte por eles produzidas exigem não somente os olhos e relativa admiração. A carne da curva era a tal ponto gostosa. o trabalho foi recomeçado sendo os futuristas “deliziosamente pungolati dai lunghi raggi elastici di un’aurora. rosas. não somente o tato e relativas carícias. à cozinha eram transportados grandes pesados sacos que descarregavam piramidais montes amarelos.A cozinha futurista nos textos. vermelhos. violetas e lírios. O quarto é revestido de “rosso rimorso vellutato”. alegria dos lábios. os amigos esculpiram tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. 95 Cozinha futurista. o intestino igualmente enamorados. o estômago. a invenção de complexos plásticos saborosos. brancos. estalar de língua. complexos plásticos saborosos coloridos perfumados e táteis que formarão perfeitas refeições simultâneas.indd 95 7/4/2009 15:51:20 . havia uma atmosfera “prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano torniva melodiosamente”. trilli d’uccelli e scricchiolii d’acque legnose in cui scoppiava in brilli dorati la laccatura verde”. Sopra. selecionando apenas as ocorrências em que ao menos dois sentidos são mencionados na mesma proposição. vermelhos. Aparecem também mãos inspiradas e narinas abertas para dirigir a unha e os dentes. mas os dentes. os futuristas intuíam e saboreavam “ela” entre os perfumes de baunilha. Giulio inebriado beija com a língua sua obra de arte. paisagens de cores forma rumores. e “luceva di una sua zuccherina peluria eccitanto lo smalto dei denti nelle bocche attente dei due compagni. Seguem-se certos sabores e certas formas. máquina futura lírica plástica arquitetônica. a harmonia da mesa com os sabores e cores das iguarias. biscoitos.

tentamos manter as inversões na ordem das frases. foram mantidos ainda que alguns pudessem ser sugestivos e divertidos. Seria necessário. indicaria uma pessoa incoveniente. diFicuLdAdes dA trAduçãO Na tradução. a visão continua sendo o maior atrativo disponível aos escritores. mas é provável que isso aconteça devido ao gosto marinettiano pela descrição. que. bem como o posicionamento dos adjetivos. O nome dos colaboradores futuristas. pseudônimos na realidade. tentamos seguir os preceitos futuristas observados na língua original. que não é bem recebida por outrem. negrito e aspas. pessoa do discurso): Tu. entre amigos ou entre familiares. Apesar de defender a incorporação dos outros sentidos à literatura. se traduzido – Saiosozinho (não precisam me mandar embora) -.indd 96 7/4/2009 15:51:20 . apesar da possibilidade de ser um erro tipográfico. na primeira parte do livro – “antefato poetico tragicomico” – foi o uso da forma de tratamento entre os futuristas e “Ela”. Como sabemos. O uso de maiúsculas e minúsculas iniciais das palavras. Mantivemos as classes gramaticais sempre que isso não prejudicasse a compreensão em português. existem em italiano três formas de tratamento possíveis para o interlocutor (2a. bem como o uso de itálico. Mantivemos também um parêntese que foi aberto. preservando tanto a construção original quanto o entendimento em português. Esse é o caso de Escodamé. recorrente em toda a sua obra. Mas não nos enveredamos por este campo.Fillippo Tommaso Marinetti Observando o texto. para evitar brincadeiras e analogias impertinentes Um problema verificado. ter acesso às diversas edições do livro para verificar a ocorrência do problema. temos em relação à visão o maior número de incidências. hoje dia muito comum 96 Cozinha futurista. num tratamento informal. mantendo a pontuação e a ausência da mesma. mas não fechado. aqui. nomes dos pratos e de pessoas foi sempre conservado como o original em Italiano.

em relacionamentos profissionais e para demonstrar respeito. apresenta informações novas e apreciações críticas do movimento. Há no livro algumas partes escritas em francês e em inglês. “Ela”. a lei.A cozinha futurista entre os jovens. esse tratamento é modificado e passa a “voi”.indd 97 7/4/2009 15:51:20 . As notícias em francês foram simplesmente deixadas na língua original. La. é pouco utilizado atualmente.. o que reafirma nossa suspeita antropofágica já explicitada anteriormente. O prefixo aero.”. dinamismo e até aos pratos servidos foi sempre mantido. quando o tratamento é formal. Esta fala é dirigida a ela. usada para motorista. entre pessoas que não se conhecem suficientemente. Lei. “Lei” em italiano. A reportagem em inglês. com algumas exceções nas regiões meridionais ou em língua escrita. já que a raiz latina permite a identificação pelo leitor de língua portuguesa. Os campos semânticos. em uma única passagem. Dois outros trechos também foram traduzidos em nota por estarem escritos em latim vulgar. à Nova. foram pesquisados e mantidos. O livro. per lei. pois insere leveza e mobilidade às palavras 97 Cozinha futurista. com os mesmos dois sentidos encontrados em italiano.. Ele não se refere às esculturas comestíveis. pois são simples traduções dos manifestos ou de cardápios já mencionados em italiano. foi mantida como volantista em português. Tratase da polêmica despertada em outros países e publicada nos jornais locais. da lei). publicada no jornal britânico The Herald. mas que alude tanto ao volante do automóvel quanto ao que tem a capacidade de voar. mas à mulher. complexo escultural ou plástico. acoplado a pintor. foi por esse motivo traduzida em nota ao final do capítulo. especialmente os referentes às máquinas e ao vôo. e Voi. confunde o leitor ao misturar os dois tratamentos formais. escultor.. porém. a palavra volantista. Assim. Encontramos a passagem: “nessuno vi mangerà per ora – disse Prampolini – a meno che il magrissimo Fillìa. quase em italiano. é sempre tratada com esse pronome e seus correlatos (Le. pictórico. poesia e poeta. tratamento também formal se dirigido a um único interlocutor. escrito em 1932.

Fillippo Tommaso Marinetti e, aparentemente, às pessoas e objetos, que parecem perder o “imgombro pesante” no estômago. Culpa do macarrão, obviamente. Foram também encontrados os óbvios aeroplanos, e certos aerodinamismos lírico-plásticos, aerocumes, aerocerâmicas, aeroiguarias e aerobanquetes, que, contrariamente ao esperado, não eram servidos em pleno vôo, embora pudessem ser forjados ambientes que lembrassem a fuselagem de um avião. Ainda nos atendo ao vocabulário relativo a voar, Marinetti opta pra chamar o frango de volatile, palavra de uso comum na Itália, mas que retoma o léxico privilegiado por ele. Passemos agora do vôo à comida. O vocabulário referente à comida não oferece muitos problemas ao falante de português do Brasil, tão grande é a influência italiana em nossa culinária. Os nomes de diferente cortes de macarrão ou de massas rechadas, como ravioli, lasanha, tagliatelle, tagliarini, espaguete, trenette, foram mantidas em italiano, apenas usando a grafia aportuguesada quando esta existia. Assim, no texto em português, podemos nos deparar com tortelini in brodo ou espaguete ao sugo, sem que isso prejudique a compreensão. Uma única nota foi dispensada ao “vermicelli al pomodoro”, por se tratar de um corte não freqüente no Brasil. As palavras que designam refeição ou prato apresentaram mais dificuldades, já que em italiano “pranzo” pode designar tanto o almoço quanto uma refeição mais elaborada, em qualquer horário do dia. Optamos, por isso, às vezes, por refeição no lugar de almoço. Aparecem também palavras com tom bastante pejorativo para certas comidas, como “intrugli” ou “maledetta pietanza”; nesse caso, optamos por lavagem, que remete à comida oferecida aos porcos. “Vivanda” foi quase sempre traduzida por vianda, mantendo assim o mesmo radical latino. Outro vocábulo de difícil tradução foi “bocconi”, utilizado em alguns restaurantes aqui no Brasil, designam comidas que não precisam ser cortadas para serem comidas, têm o tamanho certo para serem intro-

98

Cozinha futurista.indd 98

7/4/2009 15:51:20

A cozinha futurista duzidas na boca. Traduzimos uma vez por bocados, outra por prato, já que o bocado pareceria fora de contexto. O nome dos pratos, quase sempre originais, foram traduzidos literalmente. Assim, quando Marinetti propunha um “Tuttoriso”, traduzimos por Todoarroz, com a mesma forma de composição em justaposição feita em italiano. Encontramos também, raras vezes, composições por aglutinação. Aparecem, com a mesma lógica lingüística, Frangofiat, Hortotátil, Decolapaladar, Tedesejo, Carnadorada, Guerranacama, Teamareiassim, Superpaixão, Estanoiteláemcasa, e inúmeras outras contruções similares. O famoso Carnescultura em português não manteve o radical do original “carneplástico”, pois a palavra plástico aqui, embora tenha o sentido de forma, escultura preservado nas Artes Plásticas que envolvem também a pintura, remete ao derivado de petróleo e poderia afastar paladares curiosos. O plástico, em nossa culinária, é a ausência de sabor aliada a uma consistência indesejável em algo a ser ingerido. Os neologismos criados por Marinetti também foram alvo de grande atenção, e sempre que identificados, mesmo quando havia palavra bastante aproximada em português, tentamos construir uma que fosse nova, para mantermo-nos fiéis à construção original. Daí surgiu a revolução “cozinhária”, tradução do neologismo italiano “cucinaria”, usado no lugar da conhecida culinária, palavra que atende tanto o italiano quanto o português. Marinetti recusou também o conhecido “xenofilia”, inventou “esterofilia”, que traduzimos estrangeirofilia. O sentimento que faria alguns cidadãos renegarem sua pátria foi definido “antitalianità”, resultou em antitalianidade em português, bem como os vocábulos justapostos “criticomania” ou “benpensanti”, respectivamente criticomania e bempensantes. A certo ponto da leitura, encontramos um prato “sinottico-singustativo”. Como traduzir este adjetivo tão abrangente? O prato privilegia-

99

Cozinha futurista.indd 99

7/4/2009 15:51:20

Fillippo Tommaso Marinetti va diversos ingredientes, coloridos, dispostos de forma determinada e com certos sabores, que deveriam se unir mediante escolhas feitas pelos comensais. O prefixo grego sin- designa uma ação conjunta, logo, ação conjunta dos olhos e ação conjunta dos sabores. Mais uma vez optamos por não traduzir, para que o leitor, ao buscar o significado das partes das palavras, descubra ele também o que é o prato sinótico-singustativo. O cardápio extremista apresenta, entre muitos odores prazerosos ou não, duas palavras novas, ambas referentes ao barulho das rãs entre as águas podres do lago: polichiaccherio e quaccherologia. Traduzimos por policonversação a primeira, embora não reproduza bem o sentido da conversa tumultuada, barulhenta e rumorosa dos anfíbios em questão. A quaccherologia foi mais intrigante. O sufixo –logia indica estudo e quacchero se refere, de acordo com o dicionário, aos “Quakers” – quacre em português -, membros da seita protestante fundada na Inglaterra e difundida nos Estados Unidos, que não aceitam sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, pregam a intransigência puritana e a simplicidade de vida. Optamos pela tradução quacrelogia, ainda que o sentido pretendido pelo autor não pareça claro. Lembrando que o Futurismo é um movimento nacionalista, especialmente nos últimos anos de sua existência, por sua aproximação política com o fascismo, observamos a negação dos vocábulos de origem inglesa ou francesa na cultura – e na culinária – italiana. Marinetti propõe com essa finalidade uma modificação no léxico culinário italiano, utilizando palavras nacionais, de modo a evitar qualquer estrangeirismo. O último capítulo do livro, o “pequeno dicionário da arte cozinhária futurista”, traz opções para palavras já incorporadas ao vocabulário italiano, mas agora renegadas por Marinetti. Os franceses “Marrons Glacés” transformam-se em castanhas confeitadas, “consommé” serão consumidos, “fondants” serão apenas fundentes, “fumoir” será fumatório, “maitre d’hotel” é guiapaladar, “menu” será substituído por lista ou listadepratos, “mélange” será mistura, “flan” vira pasticho, “dessert”

100

Cozinha futurista.indd 100

7/4/2009 15:51:21

A cozinha futurista é paraselevantar, “purée” é substituído por pasta e “bouillabaisse” restringe-se a sopa de peixe. É bastante curiosa a reflexão feita para alcançar a palavra “paraselevantar”, peralzarsi em italiano, em substituição ao francês dessert. A sobremesa é a última a ser ingerida, pois café e licores eram via de regra servidos em outra sala. Ao terminar a degustação, o movimento tão caro à idéia futurista era incluída na refeição: todos se levantam. Os ingleses também sofrem retaliação, e o “barman” vira mexedor, “cocktail” vira polibebida, “picnic” se torna um agradável almoçoaosol, “bar” é substituído por aquisebebe, “tea-room” torna-se sala de chá e o internacional “sandwich” transmuta-se em entreosdois. Um último neologismo marinettiano para encerrar as dificuldades: parolibero, usado tanto como substantivo, em “o parolibero Fillìa” quanto como adjetivo, em “uma conversação parolibera”. O processo em italiano foi a aglutinação da palavras parola + libero = parolibero. No entanto, em português parecia inviável a aglutinação de palavra + livre, pela incidência dupla do encontro consonantal “vr”. A solução encontrada foi utilizar um sinônimo de palavra, vocábulo, cuja sílaba final continha a mesma consoante da sílaba inicial de livre. Logo: vocábulo + livre = vocabulivre.

101

Cozinha futurista.indd 101

7/4/2009 15:51:21

Cozinha futurista.indd 102

7/4/2009 15:51:21

A CozInhA FuturIstA Tradução Q Cozinha futurista.indd 103 7/4/2009 15:51:21 .

Cozinha futurista.indd 104 7/4/2009 15:51:21 .

Sumário Uma refeição que evitou um suicídio O antefato poético tragicômico O manifesto da cozinha futurista Ideologias e polêmicas A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas Os cardápios futuristas Sugestivos e determinantes Receituário futurista para restaurantes e “aquisebebe” Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista 105 Cozinha futurista.indd 105 7/4/2009 15:51:21 .

Cozinha futurista.indd 106 7/4/2009 15:51:21 .

até hoje os homens alimentaram-se como as formigas. Como em todas as artes. a inteligência e a fantasia substituam economicamente a qualidade. 107 Cozinha futurista. Esta nossa cozinha futurista. regulada como o motor de um hidroplano para altas velocidades. os futuristas. a arte de se alimentar. fortificando-a. essa exclui o plágio e exige originalidade criativa. finalmente criar uma harmonia entre o paladar dos homens e sua vida de hoje e de amanhã. a banalidade. dinamizando-a e espiritualizando-a com novíssimas iguarias nas quais a experiência. ao contrário. isto é. os gatos e os bois. parecerá louca e perigosa a alguns passadistas tremebundos: ela quer. a repetição e o custo. a revolução cozinhária futurista. os ratos. Nasce conosco.indd 107 7/4/2009 15:51:21 .Contrariamente às críticas lançadas e àquelas previsíveis. nobre e útil a todos de modificar radicalmente a alimentação de nossa raça. tem o propósito alto. Salvo algumas exceções louváveis e legendárias. a primeira cozinha humana. ilustrada neste volume.

Fillippo Tommaso Marinetti Não por acaso esta obra vem publicada durante a crise econômica mundial cujo desenvolvimento parece incalculável. 108 Cozinha futurista.indd 108 7/4/2009 15:51:21 . isto é: o otimismo à mesa. A este pânico nós opomos uma cozinha futurista. mas pode-se calcular o perigoso pânico deprimente.

de automóvel. em direção ao lago Trasimeno. obedecendo a este preocupante.umA reFeiçãO que evitOu um suicídiO O poético antefato tragicômico Em onze de maio de 1930 o poeta Marinetti partia.indd 109 7/4/2009 15:51:21 . extravagante e misterioso telegrama: “Caríssimo uma vez que Ela partiu definitivamente fui acometido de torturante angústia PT imensa tristeza proíbe-me sobrevivência PT suplico-lhe venha rápido antes que chegue aquela que se parece muito com Ela mas não o suficiente GIULIO”. 109 Cozinha futurista.

o volantista do automóvel procurou e encontrou. intervém um fato novo e significativo.. mas não o suficiente.Fillippo Tommaso Marinetti Marinetti. À mesa. Dir-lhes-ei outro dia o seu nome e quem é. O que vocês me aconselham?” Longo silêncio. decidido a salvar seu amigo.. cuja grande genialidade de aeropintores pareceu-lhe adaptar-se ao caso sem dúvida gravíssimo. seu intervento belicoso e criativo nas noitadas futuristas de vinte anos antes. Este pseudônimo que mascarava seu verdadeiro nome. muito. Eu recebi ontem este telegrama... Giulio murmurou: . você a conhece. a sua repentina fuga dos centros habitados.. por uma estranha coincidência. um verdadeiro Palácio.“Intuo em seus paladares a chatice de um antiquíssimo hábito e a convicção de que um tal modo de se nutrir conduz ao suicídio. Na verdade. Marinetti! Ela se suicidou há três dias em Nova Iorque. que bebia por amplas janelas uma meia-lua nascente mas já imersa na morte das águas. convocou telefonicamente a presença de Enrico Prampolini e Fillìa. confesso-me brutalmente a vocês e a sua provada amizade: há três dias a idéia de suicídio ocupa toda a casa e também o parque. a sua vida de ciência e de riquezas acumuladas no Cabo da Boa Esperança. nas margens feridas e entre os canaviais doloridos do Lago.“querem saber o porquê? Eu lhes digo: Ela. mais que uma casa. ainda não tive a força de entrar..”- 110 Cozinha futurista. Agora. ela se escondia ao fundo do parque. encheram a conversação vocabulivre que precedeu o jantar no policromático Aquisebebe da casa. Por outro lado. Na entrada. O telegrama anuncia a sua iminente chegada.indd 110 7/4/2009 15:51:21 . diante da porta do automóvel. que alternava pinheiros umbelíferos oferecidos ao Paraíso e ciprestes diabolicamente mergulhados na tinta do Inferno.. Cirurgicamente. Certamente me chama.. Pois bem. na sala revestida de vermelho remorso aveludado. . a casa. é da outra que se parece com ela. o rosto emagrecido e a mão estendida muito branca de Giulio Onesti.

leite.“a menos que ? ” – gritou Prampolini . farinha de milho. não devo trair a morta. pimenta vermelha.”Fillìa improvisou um aerocomplexo plástico de farinha de castanhas. -“ao trabalho – disse Marinetti – oh. As minhas aeropoesias ventilarão seus cérebros como hélices esvoaçantes.“A menos que ? ” – concluiu Marinetti – a menos que você nos conduza imediatamente às suas ricas e abastecidas cozinhas.(não quero. 111 Cozinha futurista. chocolate.ordenou Giulio. pretas. gritou: 1 O parêntese não foi fechado no original.A cozinha futurista Longo silêncio.”Entre os cozinheiros estarrecidos e ditatorialmente desautorizados. transformavam as cozinhas em fantásticos laboratórios onde as enormes caçarolas emborcadas no chão transformavam-se em pedestais grandiosos predispostos a uma escultura imprevisível. ovos. farinha de trigo. os fogos acesos. Prampolini gritou: -“são necessários às nossas mãos geniais cem sacos dos seguintes ingredientes indispensáveis: farinha de castanhas. Então. aeropintores e aeroescultores. suicidar-me-ei esta noite!1 . Depois do que. Enrico Prampolini. que havia ciumentamente cercado de biombos o seu trabalho criativo. descarregando piramidais pilhas amarelas. ao primeiro alvorecer que atravessou o cintilante horizonte pela janela aberta. açúcar e ovos.“a menos que ? ” – repetiu Fillìa. Giulio sofreu um tremor convulsivo irreprimível: . brancas.indd 111 7/4/2009 15:51:21 . Imediatamente os empregados começaram a transportar grandes e pesados sacos que. chocolate em pó. . farinha de amêndoas. Cem quilos de tâmaras e de bananas. mel e leite. farinha de centeio. onde camadas atmosféricas noturnas eram intercaladas por camadas de alvoreceres acinzentados com espirais de vento expressos em encanamentos de massa podre. vermelhas. Dez jarras de óleo.”-“você será atendido ainda nesta noite”.

E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. angustiadíssimo e 112 Cozinha futurista. -“não se aproximem – gritou a Marinetti e a Fillìa – não a cheirem. Era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. Comestível.”Derrubou os biombos e apareceu o misterioso suave tremendo complexo plástico d’ela. que se improvisava cozinheiro-escultor. nuvens vermelhas. Vocês têm más bocas vorazes. Vocês comeriam-na toda. ao aumentar a velocidade espalhava por todo o recinto uma massa enorme de algodão-doce de ouro. um cilindro de massa de milho que. realizado sob o seu ditado por Giulio Onesti. Às sete horas nascia do maior forno da cozinha a paixão das loiras. Atmosfera inebriante pródiga de formas cores com planos de luz cortantes e lisíssimas redondezas de esplendores que o zumbido de um aeroplano altíssimo torneava melodiosamente. um seu modo de flutuar sensualíssimo. a esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. Acima. No alto. Mãos inspiradas. chiados de águas lenhosas cuja laqueadura verde estourava em brilhos dourados. um sorriso seu de lábios. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. alto complexo plástico de massa folhada esculpida em camadas degradantes de pirâmide.” – Retomaram o trabalho deliciosamente estimulados pelos longos raios elásticos de uma aurora.Fillippo Tommaso Marinetti -“Tenho-a finalmente entre meus braços e é de tal modo bela. Afastem-se.indd 112 7/4/2009 15:51:21 . girando em seu eixo. cantos de pássaros. Narinas abertas para guiar as unhas e os dentes. sem respirar. Idealizado por Marinetti. cada uma com uma leve curva especial de boca ventre ou quadris. Venham admirá-la.

ébria de esculpir ela também. No silêncio da tarde o trabalho tornou-se muscularmente acelerado. Aquela boca iminente preocupava também os três futuristas que trabalhavam. representando as formas da nostalgia e do passado precipitou abaixo com um estrondo e enlameando tudo de líquidas trevas viscosas.“se a Nova chega com o crepúsculo ou com a noite. Giulio Onesti disse: .indd 113 7/4/2009 15:51:21 . Marinetti. se bem que ideal. A sua boca. Novo silêncio. de rosas violetas e cachias que no parque e na cozinha a brisa primaveril. Entretanto. Com bocas de antropófagos simpáticos. será aquela de uma convidada qualquer. Bruscamente um complexo plástico de chocolate e torrone. oferecer-lheemos uma aurora artística comestível realmente inesperada. A torrente do tempo fugia-lhes sob os pés. síntese de todos os automóveis famosos de curvas longínquas e uma rapidez de vôo que oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados de mulheres misturados a cubos de rodas e a asas de hélice todas feitas com macia massa fermentada. não trabalhamos para ela. Intuíam-na e saboreavam-na entre os perfumes de baunilha. em equilíbrio sobre as pedras polidas e trementes do pensamento. esbeltíssimo “lazo” de massa podre.A cozinha futurista trêmulo. Giulio Onesti. Foram desenformados por Prampolini e Fillìa: uma velocidade esguia. o complexo plástico foi por ele mesmo plantado sobre uma gigantesca caçarola de cobre de cabeça para baixo. Prampolini e Fillìa restauravam seus estômagos de quando em quando com um saboroso pedaço de estátua. Em uma pausa. Competiu subitamente tanto com a força dos raios solares até inebriar o escultor que infantilmente beijou sua obra com a língua. Massas saborosas para transportar. remisturava. Giulio Onesti manifestava uma inquietude que não correspondia à serenidade futurista de seu cérebro. de biscoitos. 113 Cozinha futurista. Temia a que estava por vir.” No entanto.

montes de alabarda e feixes de carabinas. por sua vez. A obra-prima. Todo o céu nas narinas.” Soou mediunicamente a campainha ao fundo. Prampolini disse: . na vasta sala das armas. no parque. Tinha como título as curvas do mundo e os seus segredos. Estalar de língua. em rixa com dois enormes canhões de montanha.indd 114 7/4/2009 15:51:21 . os futuristas Marinetti. colaborando. *** À meia-noite. Alegria dos lábios. Às seis da tarde desenvolver-se no alto de doces dunas de carne e areia em direção a dois grandes olhos de esmeralda nos quais a noite já se adensava. Conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. perto de uma vidraça cheia de ácidas e doentias luzes sublacustres. Prampolini e Fillìa. para inaugurar – experimentar juntos a grande Mostra de escultura comestível já pronta. sob onze globos elétricos. Era um complexo plástico a motor comestível. Sobre-humana. e das mais belas Áfricas sonhadas.Fillippo Tommaso Marinetti Com calma retomar a matéria. perfeito. na realidade. haviam sido amontoados rechaçados brutalmente como por uma mágica força sobre-humana. 114 Cozinha futurista. Marinetti. Nervos. a mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis. Em um canto. A sua arquitetura oblíqua de curvas macias perseguindo-se no céu escondia a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis que mecanicamente engrenavam os seus tufos à roda dentada. Mais abaixo sentia-se a estridente felicidade dos riachos paradisíacos. Prampolini e Fillìa esperavam o dono da casa convidado. Paixão. resplandecia no ângulo oposto. tinham-lhe inoculado o suave magnetismo das mulheres mais belas. Crucificá-la sob pregos agudos de vontade.“verão que ele a vencerá.

Marinetti. Suplico-lhes que me expliquem as razões. nas almofadas. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. sob a curta testa inundada de ricos cabelos quase louros e quase castanhos. Uma breve troca de gentilezas assombros regozijos a ela. dela. dos ombros e das ancas esbeltas apenas embainhadas por mohair dourado. nas peliças e nos tapetes. os pensamentos que os dominaram enquanto esculpiam tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. mas de uma beleza tradicional. que cuidadosamente e esculturalmente escavava para o próprio corpo. nuvem investida por projetores na noite. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas 115 Cozinha futurista. Depois. uma viril mas cansada. Prampolini e Fillìa falaram alternando-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. Belíssima mulher. uma concha-toca para fera refinada. Disseram: .“não me julguem uma idiota – murmurou com graça lânguida – estou estonteada. os grandes olhos verdes. aquele intitulado as curvas do mundo e os seus segredos perturbava. O seu coração. a outra feminina e agressiva. Como exauridos por tanto aerodinamismo lírico-plástico. . a imobilidade e o silêncio dos cinco. Prampolini e Fillìa sobre um amplo tapete de plumas dinamarquesas que pela maciez madreperolada à luz elétrica parecia viajar. e o rosto voltado para o centro da terra. porém ao som de duas vozes. se apertado pelo supremo prazer do amor. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. O seu engenho me espanta. Prontos puseram-se em pé.A cozinha futurista Entre todos. Para sua sorte.“Amamos as mulheres. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. revolucionavam e acendiam as curvas pacatas e a delicada elegância minuciosa do pescoço. jaziam cansadíssimos Marinetti. as intenções. cheios de falsa ingenuidade infantil. Giulio Onesti sonhava ou escutava. De bruços aos seus pés.indd 115 7/4/2009 15:51:21 . ” A ela.

o furioso turbilhão do sexo. você poderá ler esta noite as originais bisbilhotices erótico-sentimentais que suscitaram nos artistas certos sabores e certas formas aparentemente incompreensíveis.“ninguém a comerá por enquanto – disse Prampolini . de imagens e de ímpetos afinava-se com o murmúrio assobiado e metálico do canavial no Lago acariciado pela brisa noturna. O fraco murmúrio das respirações carregadas de desejo.indd 116 7/4/2009 15:51:21 . O fascínio. mas os dentes. São os nossos estados de ânimo realizados.” .Fillippo Tommaso Marinetti obras de gênio e de língua insaciável. o pudor. outros nos crêem complicadíssimos e civilizadíssimos. Cem moscões lilases azuis davam uma artística investida enlouquecida em direção aos altos globos elétricos. a única e todas encontravam-se aqui. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. toda novas leis. incandescências a serem esculpidas a qualquer custo e o mais rapidamente elas também. a língua. diante de nossas mãos. 116 Cozinha futurista. .” Uma longa pausa de silêncio fulminou de sono Marinetti. a ingenuidade. O eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. Arte comestível. A apaixonada superaguda tensão das mais frenéticas luxúrias finalmente apagadas. toda novas diretrizes. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. A mulher contemplou-os por alguns minutos. a alvorada.“neste catálogo da Mostra de escultura comestível. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. não só o tato e relativas carícias. Vocês nos julgam selvagens.” Acrescentou Marinetti: . o intestino igualmente enamorados.“por caridade – suspirou sorrindo – moderem a sua selvageria. Somos os novos elementos instintivos da grande Máquina futura lírica plástica arquitetônica.a menos que o macérrimo Fillìa.. a graça infantil. depois jogou a cabeça para trás e adormentou-se também. o estômago. Prampolini e Fillìa. Arte leve voadora. Arte temporânea..

vazio e transbordante. Estava ao mesmo tempo desobstruído. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. Possessor e possuído. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. 117 Cozinha futurista. liberado. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Sem fim. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. sem fazer barulho. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. Único e total. com a cabeça descoberta. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. Escultores e escultoras dormiam. Giulio saiu então para o parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão.indd 117 7/4/2009 15:51:21 . Ajoelhandose em frente. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. Talvez para se refrescar. como uma tigresa alongada. Levantou-se agilmente. a língua e os dentes. começou a amorosa adoração com os lábios. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. Às três daquela noite. com um tremendo torcer de rins.A cozinha futurista De improviso. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as grandes jóias do olhar. Aproveitador e aproveitado. com as costas suspeitosas de um ladrão.

Balla. zug. agressiva das raças. Russolo. Sant’Elia. Isto era muito discutido entre Marinetti. Subitamente.Fillippo Tommaso Marinetti O mAniFestO dA cOzinhA FuturistA Ideologia e polêmicas A refeição do “Penna d’Oca” e o manifesto da cozinha futurista Desde o início do Movimento Futurista Italiano. ofereceu aos futuristas milaneses um banquete que queria ser um elogio gastronômico do futurismo. Houve. há 23 anos (Fevereiro de 1909). a urgência de uma solução impôs-se: O restaurante PENNA D’OCA de Milão. na Itália e na França. Boccioni.indd 118 7/4/2009 15:51:21 . isto é. zag cordeiro assado ao molho de leão saladinha à aurora sangue de Baco “terra ricasoli” rodinhas pontuais de alcachofra 118 Cozinha futurista. Esta lista de pratos: ganso gordo sorvete na lua lágrimas do deus “Gavi” brodo de rosas e sol favorito do mediterrâneo zig. a importância da alimentação sobre a capacidade criativa. em 15 de Novembro de 1930. agitou os maiores futuristas. fecundadora. algumas tentativas de renovação cozinhária. dirigido por Mario Tapparelli.

Steffenini. a abolição do macarrão. Sansanelli. Exª. Chiarelli. E era lógico porque. por outro lado. S. Ravasio. patriótico favorecer sua substituição pelo arroz. exceto o brodo de rosas que inebriou os paladares futuristas de Marinetti. Marinetti. apesar de agradar ao paladar. e os futuristas Depero.“anuncio-lhes o próximo lançamento da cozinha futurista para a renovação total do sistema alimentar italiano. Gerbino. torna-nos céticos. Farinacci. ilude sobre sua capacidade nutritiva. O macarrão.A cozinha futurista chuva de algodão doce espuma hilariante “cinzano” fruta colhida no jardim de Eva café e licores agradou muito aos convidados: S. Giordano. enfeia. disposto sobre a mesa entre “rodinhas pontuais de alcachofra” e “chuva de algodão doce”. Depero. Os menos futuristas eram os que mais aplaudiam. O cozinheiro Bulgheroni foi repetidamente aclamado. Marinetti desafiou as ironias precisando seus pensamentos. Dep. disse: . Repaci. A cozinha futurista será libertada da velha obsessão por volume e peso e terá. como um de seus princípios.indd 119 7/4/2009 15:51:21 . que deve ser adaptado o mais brevemente possível às necessidades dos novos esforços heróicos e dinâmicos impostos à raça. Prampolini. etc. Marinetti. S. Dep.” Este discurso suscitou entre os convidados aplausos enlouquecidos e pouco claras irritações. Umberto Notari. as iguarias eram timidamente originais e ainda ligadas à tradição gastronômica. Exª Fornaciari Prefeito de Milão. lentos. 119 Cozinha futurista. É. convidado a falar diante de um receptor da Radio. Escodamè e Gerbino. pessimistas. Escodamè. é uma comida passadista porque estufa. Prampolini. Ex. Pick Mangiagalli.

eram entrelaçadas imediatamente intermináveis discussões. por Graça Aranha “liberação do terror estético”. aos literatos. Arraigados à tradição. eles experimentam prudentemente o novo para obter de cada um a máxima vantagem. cantina ou casa da Itália. por Benedetto Croce “anti-historicismo”. O novecentismo pictórico e o novecentismo literário são. O Futurismo italiano enfrenta ainda a impopularidade com um programa de renovação total da cozinha. era servido macarrão. Contra o macarrão O Futurismo foi definido pelos filósofos “misticismo da ação”.indd 120 7/4/2009 15:51:21 . às amas de leite. na Gazzetta del Popolo de Turim apareceu O Manifesto da cozinha futurista O Futurismo italiano. Cada vez que. aos astrônomos. em todos os jornais estourou uma polêmica violentíssima da qual participaram todas as categorias sociais. não permanece prisioneiro das vitórias mundiais obtidas “em 20 anos de grandes batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue” como definiu Benito Mussolini. por nós “orgulho italiano (i)novador”. pai de numerosos futurismos e vanguardistas estrangeiros. aos moleques. dois futurismos de direita moderadíssimos e práticos. aos camponeses. na realidade. Entre todos os movimentos artísticos literários. em qualquer restaurante. aos estivadores. é o único que tem por essência a audácia temerária. *** No dia 28 de Dezembro de 1930. das senhoras aos cozinheiros. fórmula da “arte120 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti No dia seguinte. aos soldados.

“esplendor geométrico veloz”. criado o esplendor geométrico arquitetônico sem decorativismo. esvaziado o teatro do tédio mediante sínteses alógicas por surpresa e dramas de objetos inanimados. é para o macho e para a fêmea sempre ascendente.A cozinha futurista vida original”. Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente nutridos realizaram grandes coisas no passado. ternura. Antipraticamente. luz. vontade. o nosso paladar. tenacidade heróica. nós futuristas negligenciamos o exemplo e a exortação da tradição para inventar a qualquer custo um novo. a nossa língua. mais impetuoso. Preparamos uma agilidade de corpos italianos adaptados aos levíssimos trens de alumínio que substituirão os atuais pesados de ferro madeira aço. ao contrário. nós afirmamos esta verdade: pensa-se sonha-se age-se de acordo com o que se bebe e o que se come. as nossas secreções glandulares e entramos genialmente na química gástrica. “estética da máquina”. nós futuristas após termos agilizado a literatura mundial com as palavras em liberdade e o estilo simultâneo. as nossas papilas gustativas. “higiene espiritual”. ao contrário. “religião da velocidade”. enquanto que para a fêmea é horizontal. Convencidos de que na provável conflagração futura vencerá o povo mais ágil. 121 Cozinha futurista. delgada transparência espiral de paixão. Consultamos a este respeito os nossos lábios. “método da infalível criação”. julgado por todos louco. de baixo para o alto do corpo humano.indd 121 7/4/2009 15:51:21 . Nós futuristas sentimos que para o macho a volúpia de amar é escavadora abissal do alto para baixo. então. “máximo esforço da humanidade para a síntese”. imensificado a plástica com o anti-realismo. Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega. ousadia. A volúpia do palato . sempre mais com a italiana. em leque. Harmonize-se.

aos legumes. nutritivamente inferior em 40% à carne. Talvez beneficiem aos ingleses o bacalhau. estabelecemos agora a nutrição adequada a uma vida sempre mais aérea e veloz. inatividade nostálgica e neutralismo”. o rosbife e o pudim. pessimismo. à busca de vento. advogados engenhosos. Convite à Química O macarrão. Porque opor ainda o seu bloco pesante à imensa rede de ondas curtas longas que o gênio italiano lançou sobre os oceanos e continentes. Este alimento amiláceo é em grande parte digerido na hora pela saliva e o trabalho de transformação é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Ao comê-lo eles descobrem um típico ceticismo irônico e sentimental que trunca muitas vezes o seu entusiasmo. Estes foram combatentes heróicos. escreve: “Diferentemente do pão e do arroz. Acreditamos antes de tudo necessário: a) a abolição do macarrão. contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada generosa intuitiva dos napolitanos.Fillippo Tommaso Marinetti a cinematografia e a fotografia abstratas. Por exemplo. absurda religião gastronômica italiana. e às paisagens de cores formas rumores que a radio-televisão faz navegar em torno da terra? Os defensores do macarrão carregam a bola de ferro ou a ruína no estômago. mas aos italianos o macarrão não beneficia. como prisioneiros ou arqueólogos. liga com seus emaranhados os italianos de hoje aos lentos teares de Penélope e aos sonolentos veleiros. Recordem-se ainda que 122 Cozinha futurista. agricultores tenazes a despeito do volumoso macarrão quotidiano. aos alemães o chucrute. Um inteligentíssimo professor napolitano. não se mastiga. artistas inspirados. Signorelli. oradores impetuosos. Dele derivam: fraqueza. o Dr. o macarrão é um alimento que se engole.indd 122 7/4/2009 15:51:21 . aos holandeses a carne cozida com queijo. ao peixe. Isto leva a um desequilíbrio com distúrbio destes órgãos. o toucinho defumado e o salame.

Este. em pó ou pílulas.000kw é necessário somente um operário. Acrescen- 123 Cozinha futurista. Atingir-se-á assim uma real baixa do preço da vida e do salário. c) A abolição das combinações tradicionais para a experimentação de todos as novas combinações aparentemente absurdas. segundo o conselho de Jarro Maincave e outros cozinheiros futuristas. sal e azeite até que esteja bem dourado. A originalidade absoluta das comidas. O almoço perfeito exige: 1. para 2. Hoje. com relativa redução das horas de trabalho. ornamentos) com os sabores e as cores das comidas. Convidamos a química ao dever de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos gratuitos do Estado. corta-se e passa-se na grelha com pimenta. gorduras sintéticas e vitaminas. Em todas as classes as refeições serão distanciadas mas perfeitas no cotidianismo dos equivalentes nutritivos. compostos albuminosos. permite aperfeiçoar e nobilitar as outras horas com o pensamento as artes e a pregustação de refeições perfeitas. O “carnescultura” Exemplo: Para preparar o Salmão do Alasca aos raios do sol com molho Marte. d) A abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato. louças. sendo reduzido a duas ou três horas.indd 123 7/4/2009 15:51:21 . b) A abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar a nutrição.A cozinha futurista a abolição do macarrão libertará a Itália do custoso grão estrangeiro e favorecerá a indústria italiana do arroz. As máquinas constituirão rapidamente um obediente proletariado de ferro aço alumínio a serviço dos homens quase totalmente aliviados do trabalho manual. pega-se um belo salmão do Alasca. Uma harmonia original da mesa (cristais.

coloque-a sobre uma fatia torrada de pão quadrado ensopado com rum e conhaque e cubra-a com massa folhada. Coloque o molho na molheira e sirva-a muito quente. um cálice de licor italiano Aurum. borrifando-a com conhaque. é composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada de onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. Apenas retirada da caçarola.indd 124 7/4/2009 15:51:22 . cuja harmonia original de forma e cores nutra os olhos e excite a fantasia antes de tentar os lábios. gemas de ovos cozidos. e será peneirado. No momento de servir colocam-se sobre as postas de salmão alguns filetes de anchova entrelaçados (como jogo de damas). (Fórmula de Bulgheroni. O molho será composto de anchovas. zimbro. casca de laranja picadinha. azeite. Exemplo: O carnescultura criado pelo pintor futurista Fillìa. tudo fervido por dez minutos. manjericão. pegue uma bela perdiz. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) A invenção dos complexos plásticos apetitosos. quatro colheres de cassis. 124 Cozinha futurista. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. interpretação sintética das paisagens italianas.Fillippo Tommaso Marinetti tam-se tomates cortados ao meio previamente cozidos sobre a grelha com salsinha e alho. (Fórmula de Bulgheroni. pimenta. Sobre cada posta uma rodelinha de limão com alcaparras. cozinhe-a em forno muito quente por quinze minutos. limpe-a. Sirva-a com este molho: meio copo de Marsala e vinho branco. cubra seu estômago com fatias de presunto e toucinho. coloque-a numa caçarola com manteiga. sal. Leve novamente ao forno até que a massa esteja bem cozida. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) Exemplo: Para preparar a Perdiz à Monterosa molho Vênus.

sob os narizes e os olhos dos convidados. Um dado bocado poderá resumir uma 125 Cozinha futurista. O uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação.A cozinha futurista Equador + Pólo Norte Exemplo: o complexo plástico comestível Equador + Pólo Norte criado pelo pintor futurista Enrico Prampolini é composto por um mar equatorial de gemas de ovo em sua própria casca. com pimenta sal limão. Estes pratos terão na cozinha futurista a função analógica imensificante que as imagens têm na literatura. Estes complexos plásticos apetitosos coloridos perfumados e táteis formarão perfeitos almoços simultâneos. O cimo do cone será coberto por pedaços de trufas negras cortadas em forma de aviões negros para a conquista do zênite. O uso dosado da poesia e da música como ingredientes inesperados para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma certa vianda. A apresentação rápida entre um prato e outro. A abolição do garfo e da faca para os complexos plásticos que possam dar um prazer tátil pré-labial. A abolição da eloquência e da política à mesa. de alguns pratos que eles comerão e de outros que eles não provarão para favorecer a curiosidade. a surpresa e a fantasia. O uso da música limitado nos intervalos entre os pratos para que não distraia a sensibilidade da língua e do palato e sirva para aniquilar o sabor apreciado restabelecendo uma virgindade degustativa. A criação de pequenos pratos simultâneos e cambiáveis que contenham dez. 10. vinte sabores para experimentar em poucos instantes. No centro emerge um cone de claras de ovos batidas e solidificadas cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol.indd 125 7/4/2009 15:51:22 . Cada prato deve ser precedido por um perfume que será cancelado da mesa por meio de ventiladores.

excesso de vinagre. Esquecem os outros deveres dinâmicos da raça. a boca beatamente cheia de espaguete ao vôngole. etc. etc. excesso de pimenta. em uma trattoria de Posillipo. o que provoca a destruição de substâncias ativas (vitaminas. Não possuem a lucidez espiritual do laboratório. extratos etc. Londono. tornam-se mais assimiláveis. F. jornal dirigido com grande competência e genialidade por Umberto e Delia Notari. Um conjunto de instrumentos científicos na cozinha: ozonizadores que dêem o perfume do ozônio a bebidas e comidas.).indd 126 7/4/2009 15:51:22 . Ducceschi. aparelhos de destilação a pressão comum e à vácuo. esterilizadores centrífugos. etc. evitando por exemplo o erro de cozinhar as comidas em panelas a pressão. O uso destes aparelhos deverá ser científico. eletrolisadores para decompor sucos. excesso de doce. frutas secas. especiarias..T. impedem o raquitismo nas crianças. moinhos coloidais para tornar possível a pulverização de farinhas. Entre muitos. Viale. Foà. o desenvolver de uma paixão amorosa ou uma inteira viagem ao extremo Oriente.) por causa das altas temperaturas. Parecem falar à mesa. pouco cientificamente. iniciou uma pesquisa enquanto enfurecia a polêmica mundial pró e contra o macarrão e pró e contra os pratos futuristas. defenderam o macarrão os doutores Bettazzi. e o turbilhão angustioso 126 Cozinha futurista. dializadores. obedecem à prepotência de seus paladares. 11. de modo a obter de um produto notável um novo produto com novas propriedades. Marinetti *** A “Cozinha Italiana”. Lombroso.Fillippo Tommaso Marinetti inteira zona de vida. Os indicadores químicos darão conta da acidez e alcalinidade dos molhos e servirão para corrigir eventuais erros: falta de sal. etc. Pini. lâmpadas para a emissão de raios ultravioleta (já que muitas substâncias alimentares irradiadas com raios ultravioleta adquirem propriedades ativas. Estes.

Este ávido buraco é a sua incurável tristeza. etc. os de carne têm caráter veloz e agressivo”. E não é só: os perfumes. contentes com a melancolia e propagandistas da melancolia. NICOLA PENDE (clínico). Prof. preparam o sereno e viril estado de ânimo indispensável para a tarde e a noite. Somente uma refeição futurista pode realegrá-lo. Na mesma pesquisa brilham entretanto as inteligências dos Médicos que dizem: “o uso habitual e exagerado do macarrão determina certo aumento de peso e exagerado volume abdominal” “os grandes consumidores de macarrão têm caráter lento e pacífico. Ilude-se. E o macarrão é antiviril porque o estômago pesado e cheio não é nunca favorável ao entusiasmo físico pela mulher nem à possibilidade de possuí-la diretamente. as músicas e o tato. Todos os defensores do macarrão e os obstinados inimigos da cozinha futurista são os temperamentos melancólicos.indd 127 7/4/2009 15:51:22 . as músicas. devem convir que outras comidas são pelo menos tão nutritivas quanto o macarrão. são unicamente comparáveis aos excitantes. enquanto são considerados por nós como atos que criam sobre o comensal um estado de ânimo otimista singularmente útil para uma boa digestão. Qualquer “macarroneiro” que consulte a própria consciência honestamente no momento de engolir a sua biquotidiana pirâmide de macarrão. 127 Cozinha futurista.A cozinha futurista de esplêndidas velocidades e de violentíssimas forças contraditórias que constituem a vida moderna. mas não o tapa. Mesmo esforçando-se para legitimar os seus prazeres bocais. Alguns destes declaram que os perfumes. que condimentam os pratos futuristas. encontrará ali dentro a triste satisfação de tapar com ele um buraco negro.

como o pão. e portanto nunca exclusivamente feita de um só alimento”. Prof. ANTONIO RIVA “o macarrão não pode ser considerado como um alimento de fácil digestão porque dilata o estômago e não sofre. De qualquer modo. pró e contra o macarrão. O Duque 128 Cozinha futurista. Prof. Senatore U. HERLITZKA (fisiologista) “o valor nutritivo do macarrão não apresenta características especiais que possam torná-lo preferível aos outros tipos de farináceos”. uma preparação suficiente com a mastigação”. Dr. GABBI (clínico) “penso que o uso do macarrão seja nocivo aos trabalhadores intelectuais. é prejudicial”. além da sopa. C. possam conceder-se carne e outros pratos”. Senatore ALBERTONI “É questão de gosto e preço de mercado. convém uma alimentação mista. TARCHETTI *** Outras pesquisas. a experiência o mostra. A. às pessoas que levam vida sedentária e sobretudo àqueles que. foram feitas pelo “Jornal de Domingo” de Roma e por outros jornais italianos.Fillippo Tommaso Marinetti “deve-se trocar alimentos pela lei biológica: a repetição constante do mesmo alimento. Prof.indd 128 7/4/2009 15:51:22 . Prof. Prof.

Dona Elvira etc. Recordamos os diversos pareceres dos cozinheiros romanos Ratto. No entanto. sendo atento e amigo.indd 129 7/4/2009 15:51:22 . Recordamos. “Giovedì”. Você é a amabilidade em pessoa. aumentavam as adesões e os entusiasmos pela luta contra o macarrão. Recordamos o número completamente dedicado à cozinha futurista do “Travaso” de Roma e as inumeráveis caricaturas que apareceram no “Guerin meschino”. respondendo a uma destas pesquisas. Giaquinto. Paolo Monelli. com todos os socos e bofetadas da sua dialética de assalto. Mas. “Marc’Aurelio”. Você queria ser gentil. favoráveis ao macarrão.. temperada com molho de tomates. todos.A cozinha futurista de Bovino. Marinetti”: Caríssimo Lembra-se? Você escreveu. tem entretanto suas idéias. Paolo Buzzi. meu caro Marinetti. não comem outra coisa além de ‘vermicelli al pomodoro’12”. prefeito de Nápoles. Cecchino. consagrando com isto a monotonia pouco atraente de Paraíso e da vida dos Anjos. publicado no “Ambrosiano” como “carta aberta a F. e deu-me um pequeno posto à sua 1 Massa longa. por exemplo. no Paraíso. que não são sempre aquelas do tatilismo e das palavras em liberdade. etc. por serem incapazes de renovar a sua cozinha. a polêmica espalhava-se através de centenas de artigos. os escritos de Massimo Bontempelli. “420”. que eu. parecida com o espaguete. uma vez. Salvatore di Giacomo etc. pertenço à extrema direita do parlamento futurista. Entre todos os artigos. Angelo Frattini. declarou que “os Anjos. enquanto os inimigos da cozinha futurista contentavam-se com ironias fáceis e nostálgicas lamentações. Paggi. destaca-se este de Ramperti. 129 Cozinha futurista. Alfredo. T. Arturo Rossato. etc. Marco Ramperti. e não poderia falar com mais graça de alguém que.

Aceitam. a todas as vantagens. absoluto. já se rebelam. as palavras em liberdade. o macarrão voltará às mesas. enquanto poderia muito bem me deixar do lado de fora. o salto. E de fato parece a mais difícil. entre os passadistas sem remédio e sem direito. reanimado. Você vê como os italianos. Mas não renunciam ao macarrão. deseperado. oh! Marinetti. Então apareceu a sua insurreição convival. e. para levar a bandeira desta sua última ofensiva. o seu manifesto contra o macarrão: e eis que. agora lhe peço.Fillippo Tommaso Marinetti direita. Aceitam o tatilismo. como fez Esaú por um de lentilhas. predicar a barrigas cheias e corações desertos. ai de mim. tocados no epigástrio. e não a um apetite. o seu pálido futurista ad honorem passa de um salto da extrema direita para a extrema esquerda da sua assembléia. e entendem. Veja como é feita. infelizmente. esta nossa gente. Mas creia-me: será necessário ter coragem. Ainda que eu não seja. tão sensíveis eram as discrepâncias. os intonarumores. As críticas serão muitas. Parece-me que a revolução alimentar seja a mais cuidadosa ente quantas você tenha suscitado. Por isso peço. e tornavam insuportáveis a minha presença na sua assembléia. reaver a primazia no mundo: dispostos. a honra de servir-lhe. Desde aquele dia. entre os conversíveis. Aceitam o soco. e nós deveremos. Marinetti. fanático. todavia. ou então de pedir a sua.indd 130 7/4/2009 15:51:22 . por Deus. a ceder esta prioridade por um prato de macarrão. quem sabe por quanto tempo ainda. refeito em um momento cheio de audácia fiel. grita-lhe o seu consenso pleno. justamente. 130 Cozinha futurista. confesso-lhe. o mais jovem do seu regimento. o passo de corrida: mas com sua porção de espaguete. muitas vezes os seus decretos-leis colocaram-me no cruel dilema de assinar a minha demissão. Capaz de renunciar a todos as comodidades. Ah! Não creia. iluminado. que desta vez a batalha será fácil.

que é ele também uma escravidão. justamente. com aquela sensação de inutilidade que. elasticidade e energia. chegará por fim o dia em que se convencerão que. esta outra abnegação? Liberemo-nos também do macarrão. A nossa. e existe o paladar do futurista. o conde de Gobineau. Venceremos melhor. pode causar prazer ou vergonha. limitar as próprias refeições à gota essencial e à migalha leonina. mas em todo o caso deve ser 131 Cozinha futurista. Um francês que estimava os alemães. oh! Marinetti.A cozinha futurista Não importa. nada poderia ajudar mais do que o comer pouco e escolhido. que nos liga as entranhas com os seus arames moles. Não é a primeira vez que um povo nos ensina a saber renunciar a tudo. para alcançar um tal estado de graça. que nos entope o esôfago. Ora. É um juízo que me vem à mente. à tenacidade e obstinação de certas atitudes do estômago. como a perus de Natal. se não fosse por uma salsicha com chucrute. o macarrão é precisamente o mais difundido e calamitoso. exprime o seu verbo. este outro hábito. segundo o indivíduo. como a estátuas de fontes. Este grande amor pelo macarrão é uma debilidade dos italianos. costumava dizer que do outro lado do Reno. E eis aqui a mola da sua revolta reparadora. exceto a uma porção de vermicelli. este outro vício. no entanto. e que nos prega à cadeira. elétricos. repletos e estupefatos. ativos. Na verdade. a não ser repensando. esta sua última propaganda. é também o menos maldito. repensando naquele Polichinelo que resistia a tudo. Já que os italianos consentiram ao princípio futurista que se façam os mais ágeis. Existe o calcanhar de Aquiles. estabelece a sua lei. Mas sendo o mais nefasto. e você tem cem razões para atacá-la ferozmente. ninguém saberia cometer uma vilania. furibundos possíveis. Que nos incha as bochechas. vencendo tarde. como em todas as boas revoluções. entre todos os alimentos estufantes e paralisantes que contradizem o seu programa de rapidez. apopléticos e suspirantes. velozes. O que quer dizer. exceto a uma glutonaria. é a mais conseqüente e lógica entre todas aquelas derivadas do seu manifesto cardinal de há vinte anos: e não se compreenderiam tantas resistências.indd 131 7/4/2009 15:51:22 .

Alguma coisa nos retém. aglomerados e amalgamados. feia. Enche: não fortalece. confundem-se. um tempo. Engolidos que são. Não temos mais nem a sílaba fácil nem a imagem pronta. para uma tal gulodice. O sustento é mínimo se confrontado com o volume. separar-se a deselegância e a imundície. voce entendeu perfeitamente. como moedas falsas. Seria necessário ensinar a vanidade deste nosso apetite. sentados. embaralhamse como os vermicelli absorvidos. naquele voluptuoso empanturrar-se.indd 132 7/4/2009 15:51:22 . subitamente.Fillippo Tommaso Marinetti detestada por quem ostente uma alma futurista. E é uma imagem ofensiva: engraçada. além dos Alpes. os espaguetes infestam e pesam. Dizia-se. que nós comíamos os espaguetes com as mãos: e talvez o sentido da maledicência era que não podiam. O pouco molho que trazem aos lábios é o molho de tomate. naquele sentir-se unificado com ela. naquela aderência total da massa ao paladar e às vísceras. 132 Cozinha futurista. um verdadeiro alimento italiano. Os pensamentos desfilam um dentro do outro. disforme. quando não é sobre vermicelli despejando molho ao longo de nossos ansiosos braços. ao lado de seu ímpeto bestial. gostariam de dizer as alegorias malignas. Sabe-se hoje em toda a Europa quantas porções dele come Primo Carnera. em algumas metáforas indecorosas. Mas é certamente. o perigo e a desonra deste mito dos macarrões: macaroni que resultaram. O italiano das alegorias sempre tem a boca ávida arreganhada sobre um prato de tagliatelle. que serve somente para encher a boca. talvez para ter o direito de dizer em Genebra que também os italianos andam armados até os dentes: mas os espaguetes não foram tirados do nosso quadro folclorístico. E sentimo-nos. O nosso macarrão é como a nossa retórica. cheios de chumbo. como em 1894 sabia-se quantas devorasse Francesco Crispi. ou somente jovem e acordada. Resumindo. Mas é um gosto porco. Depois nos concederam os garfos. Mas é um prazer efêmero. meu caro Marinetti. As palavras aglomeram-se do mesmo modo. O seu gosto está todo naquele assalto com as mandíbulas tensas. como um tronco. No fundo. o macarrão não nutre.

contradições. encher o ventrículo como se enche um saco. Ou mesmo para a arte de Vênus. se age de acordo com o que se bebe e se come.G. excitar e envenenar com drogas e lavagens. energético. por um momento de descuidada animalidade? Marco Ramperti *** V.indd 133 7/4/2009 15:51:22 . a argumentação é impossível. de todos os espíritos. Quanto paraíso perdido. a picardia é medíocre. É certo que se pensa. Aquele do macarrão expia-se no mesmo instante. Parece que a preocupação de quem se ocupa de cozinha seja aquela de empanturrar. saboroso.A cozinha futurista Pobre do que tiver perto. rapaz. ao tato e ao paladar.PENNINO. como é certo que – a propósito da alimentação – os homens debatem-se ainda hoje entre incertezas. erros de todo gênero. agradável à vista. Sabe-se que os pecados da gula são os mais rapidamente punidos pelo Senhor Deus. cronista-chefe da “Gazzetta del Popolo”. conceituais ou amorosos. se sonha. li com entusiasmo o manifesto da cozinha futurista. É o encadeamento. depois de uma orgia de tagliatelle. Experimentem então. que dê força e substância em pequenas 133 Cozinha futurista.T. Eu juro que restariam imobilizados desde o primeiro movimento. naquele momento. É a barriga que se incha à custa do cérebro.Marinetti: “Seu férvido admirador desde quando. interrompida como é pelos soluços do intestino. O madrigal é insosso. partir para uma polêmica. um interlocutor ou uma amante. intervém na polêmica com esta carta a F. seguia com apaixonado interesse as batalhas purificadoras que o senhor combatia entre a indiferença e a incompreensão dos italianos da época. quando não demolidos desde o princípio. ou o exílio. enquanto deveria ser a de preparar um alimento sadio.

Quando banirem das mesas da península o macarrão estufador e adormentador. com o perfume de jardins tropicais e faça sonhar sem o uso de bebidas alcoólicas. a teoria das calorias e das necessidades de uma grande quantidade de albumina animal e de gorduras teve seu tempo. exterminar tradições erradas: afirmar que o pão branco. enfim. é um alimento inútil que forma no estômago um bloco indigerível e deve ser substituído pelo integral perfumado e substancioso. fósforo. bendita a luta contra o funesto macarrão que com a sua cansativa digestão faz pesar o corpo e entorpecer o espírito. a brisa renovadora e saneadora na pesada atmosfera das cozinhas da Itália. (Olhe que sou napolitano e conheço todos os agouros deste alimento). que as verduras contêm verdadeiros tesouros para o organismo humano (ferro. de potássio. por exemplo. sais de cálcio.) a menos que com os absurdos cozimentos tais tesouros não sejam estupidamente destruídos e que.indd 134 7/4/2009 15:51:22 . mas tornar-se-á uma forja de sábias combinações químicas e sensações estéticas. a fantasia. globulinas. etc. “Mas a luta contra o macarrão não basta. que desperte a fantasia com imagens e panoramas agrestes. de carne e ovos que são consumidos por aqueles que desejam 134 Cozinha futurista. que o arroz é um alimento precioso. e já foi demonstrado que uma pequena quantidade de alimento bem combinado segundo o conhecimento racional das necessidades do nosso organismo dá muito mais força e energia que pratos de macarrão. É necessário abater outros ídolos. a vivacidade. Bendita seja. pesado e insípido. quando se conseguir criar e difundir uma alimentação que saiba conciliar a menor quantidade ao máximo de poder nutritivo explosivo dinâmico. mas contanto que não seja privado de suas substâncias fitínicas com o polimento. somente então a potência volitiva. então.Fillippo Tommaso Marinetti quantidades. quando a cozinha não mais for mais o reino de donas-de-casa ineptas e de cozinheiros ignorantes e envenenadores. vitaminas. o gênio criador da raça alcançarão seu pleno desenvolvimento. de magnésio.

Por outro lado. Mono – inventou os “alimentos concentrados” cuja eficácia experimentei. quem desenvolve grande atividade física podem fazer maior uso deles. tem uma enorme importância social e econômica. à fantasia sensações bem mais intensas que os alimentos que hoje desempenham um belo papel nas melhores mesas. mas eles cometeram o erro de serem estrangeiros antes de tudo e muito caros. ao palato. porque deve lutar contra tradições radicadas e tenazes. em geral.A cozinha futurista sustentar-se bem. Esperamos que os químicos italianos saibam fazer mais e melhor. os trabalhadores manuais e. contra interesses formidáveis e contra a ignorância difusa – deverá encontrar muitos consensos na Itália de hoje. com as coisas mais simples. porque enquanto visa renovar um ambiente muito fortemente arraigado ao passado. substanciosas podem-se criar pratos que dão aos olhos. Um químico francês – o prof. Estes devem ser usados com grande parcimônia especialmente pelos trabalhadores intelectuais. junto com um pouco de nozes e um pedaço de pão preto são para a caldeira humana um combustível muito mais idôneo e rentável que os famigerados macarrão ao ragu. sadias. vulcânica. É bom que se saiba que uma cenoura crua finamente ralada com óleo e limão. ou tagliatelle à bolonhesa ou bistecas à Bismarck. Cada povo deve ter a sua alimentação e aquela do povo italiano deve ser baseada nos produtos desta terra quente. (O contrário do que acontece comumente). “Assim a batalha que o senhor engajou – mesmo que se apresente duríssima. 135 Cozinha futurista. deve ser por isso composta por três quartos dos maravilhosos produtos vegetais que nos são invejados por todo o mundo e por um quarto apenas de produtos animais. especialmente se o convite à química lançado pelo senhor encontrar entre os cientistas italianos boa acolhida. enquanto os soldados.indd 135 7/4/2009 15:51:22 . um prato de cebolas ou de azeitonas ou estas coisas combinadas. irrequieta.

mas justamente convém recordar o que escrevia o seu concidadão Dr.Fillippo Tommaso Marinetti “Desculpe se me permiti enviar-lhe esta apressada nota. na carta direta ao jornal “A Cozinha Italiana”. mas pensei que não deveria ser-lhe desimportante – entre os muitíssimos que indubitavelmente receberá – o entusiástico consenso de um modesto estudioso dos problemas da alimentação”. de modernismo também na cozinha. observa: “os napolitanos rebelaram-se. que também ela deve responder aos tempos e talvez até antecedê-los”.indd 136 7/4/2009 15:51:22 . em um artigo sobre a cozinha futurista... observando o seu alimento quotidiano. Angelo Vasta. Não fez maiores progressos desde o tempo em que Schopenhauer. G. afirma ainda: “necessidade de inovação.V. 136 Cozinha futurista. que me foi sugerida pelo seu belíssimo Manifesto.. Schopenhauer e o macarrão O Dr. qualificou-o genialmente como a alimentação dos resignados. traz ao debate uma palavra precisa: “Não há dúvidas de que todos os farináceos deixam o corpo pesado e em conseqüência. Cozinheiro-Chefe de Sua Majestade o Rei da Itália. Carito em “Humanidade Artrítica”: . recordamos os mais originais: O cozinheiro-chefe do Rei O Cavalheiro Pettini.PENNINO *** Dos muitos artigos surgidos a favor da luta futurista contra o macarrão.. o nosso povinho está ainda numa fase primitiva. ameaçam a inteligência” e mais outros.

Amedeo Pescio insurge contra aqueles que chamam glória e honra dos genoveses os raviólis. intelectuais. a recomendação.A cozinha futurista “Ai de mim! mesmo as nossas classes altas.” Um médico do século XIV contra o macarrão Em um artigo do “Século XIX” de Gênova. exercícios esportivos devemos radicalmente reformarmo-nos. mas que não se submetia à digestão de grandes quantidades de “trenette” e de carvão. prelados e ministros. os tagliarinis etc. as lasanhas. Então o grandíssimo cirurgião da nossa cidade (como ele dizia. sim.indd 137 7/4/2009 15:51:22 . movimento. Reproduzimos aqui parte de seu divertido artigo contra o macarrão: 137 Cozinha futurista. No IX e último livro encontrar-se-á uma advertência explícita e formal contra o abuso do macarrão. O macarrão é de origem ostrogoda Libero Glauco Silvano. não sabem alimentar-se bem! De onde o torpor da vida fisiológica com os seus inevitáveis reflexos nefastos na esfera psíquica. até as assim ditas ‘dirigentes’. em um longo artigo “Contribuição para uma arte culinária futurista” propõe algumas inovações alimentares. a prescrição quase marinettiana ao muito inchado século XIV: todos os alimentos de massa devem ser usados pouquíssimas vezes “pasti alia denique et victualia paste rarissime sunt concedenda”.. E escreve: “Giovanni de Vigo iniciou a campanha contra o macarrão no século XIV. De onde a nomeada ‘indolência’ com que fomos marcados e vilipendiados nos séculos anteriores. quando o bom e douto rapaz natural de Rapallo curava a Papas e príncipes.. Em tudo o que diz respeito a alimentação.. gente dinâmica. falando de Gênova) escreveu: “A prática em arte cirúrgica”.

fazia-nos a figura de uma chimpanzé em um salão de damas sentimentais: e somente por um equivocado respeito à tradição continuava-se a suportar o seu fedor plebeu. mesmo entre outros igualmente bestiais.indd 138 7/4/2009 15:51:22 . Mesmo o nome relembrava o povo. tumultuosa e invasora: e não importa onde entrasse. por sorte. gli quai molto e volantieri con essolui si solaciavano. Dieto macarono erat di spulcia (leggi spelta) et hebbe sua prima dimora in la regia del magno prence Teodarico. existe para cantar-nos vida e milagres: “lo macarono nato fue et notricato appo gli Ostragoti. na casa do pobre ou do rico. tosco e oleoso de sujeira. et il bolliva- 138 Cozinha futurista. com um alimento bárbaro que vivia como um parasita em nossa civilização: falo dos macarrões ao sugo. lo quà prence affidato avealo a Rotufo. adiposas como beldades de marinheiros. por Deus. ao tomate ou como mais lhe agrada. como se descendesse de um lombo muito magnânimo para não dever considerar ainda menos o restante das criaturas gastronômicas. Il conobbero gli sudditi dello rege.Fillippo Tommaso Marinetti Era tempo de acabar. Ergo. sob as novas aparências tinha o modo e a vulgaridade do vilão refeito e de nada lhe valia a contínua freqüência com aquele agraciado e epicúreo mestre que se chama manteiga. em meio ao qual havia nascido: macarrão. Teve sempre a mesma barriga. Um bom cozinheiro. pergunto-me. coco suo genialissimo. para tirar-lhe de cima aquele tango de canalhice: haviam-no persuadido a não fazê-lo acompanhar por arrogantes e desavergonhadas cebolas. per virtude della femina del cuoco. girava os olhos em torno como para impor respeito e reverência. confidogli la esistenzia dello nominato macarono. Entretanto. che avevasi invaghito dello ofiziale di guardia al palacio et al quale. tra un baciuzzo et un baciozzo. os seus títulos nobiliários? A “Cronaca degli Memorabilia” de Dacovio Saraceno. por azeite rançoso e caprino. havia trabalhado ultimamente para enobrecê-lo. idest in Ravenia. discípulo e êmulo de BrillatSavarin. Este prato. Mas quais eram. por certos alhos pálidos e consumidos por vícios ocultos. lo amore per essolui macarono s’espanse per lo populo omne.

Parece-me vê-los. muitas vezes prolixo. sobre as bochechas cheias terrosas. cujo cultivo havia-se extendido muito desde quando o irmão Serenio. os bigodudos Ostrogodos. de qualquer forma mandasse prepará-lo. Um biográfo bastante minucioso. seu paladar aristocrático o refutava.A cozinha futurista no cum cipoglia et alio et pastonacca. como comumente se afirma (confrontar a este respeito a obra definitiva de exegese histórica escrita por Valbo Scaravacio. acrescento eu. tão arraigada era a tradição. pela excessiva felicidade. Talvez porque Boccaccio. de Boccaccio informa que o autor do Decamerão exigia de sua esposa que temperasse os macarrões com leite de amêndoas amargas: “mas. diz o biógrafo. em seu retorno da China. Depois. engolia o macarrão já que não devia nem mesmo passar-lhe pela mente. limpando a boca sob os bigodes. cansadíssimas e imundas. 139 Cozinha futurista. Entretanto. o grande escritor não conseguia digeri-los nem mesmo assim”. trouxe a preciosa semente – e não larvas de bicho-da-seda. de boa ou má vontade que fosse. de poder fazê-lo de outro modo. em verdade. vinham despejar no prato improvisado a verminalha viscosa dos “macarrões” e os braços peludos mergulhavam até os cotovelos no buraco fumegante e as bocas se abriam – nhau nhau – e os olhos lacrimejavam. tinha bom gosto demais para aceitar placidamente aquele prato: e. Foi somente na Alta Idade Média (Cordazio Camaldolese: Pietanzie in usaggio appo aliquante nostre terre et regioni et insule et peninsule et similia con spiegato lor modo di prepararle in cucina 2) que os pepinos foram substituídos por tomates. et il condivano cum suggo (sic) di cedriollo. em angelical espera. Ah! Os gentis senhores elegantíssimos.indd 139 7/4/2009 15:51:22 . as dignas consortes. lambiam-se os dedos e a cara! Era bem adequada aos seus insensíveis paladares aquela lavagem monstruosa temperada com suco de pepinos. meterem-se a cavar grandes buracos na grama com as pesadas adagas e acocorar-se ao redor. intitulada “Verdade e despropósito”). et leccavansi digita et grugno”1.

os desenhos. nem mesmo a ambrosia”. seguros de que a razão de muitos males provinha daquela alimentação. traziam artigos de pessoas que haviam adquirido grande autoridade nos campos das Ciências e das Letras: mas tudo foi inútil contra a abstenção das plebes também porque. Quando já não se falava quase nunca dela. compôs um rosário de sonetos para o alto elogio do alimento “a que nada pode ser comparado. Ao final do século XVIII muitos nobres engenhos. e um destes.Fillippo Tommaso Marinetti Por pouco. a panacéia universal. iniciaram uma campanha ativa para que a humanidade se libertasse dos arreios da escravidão. havia-se difundido a superstição de que o macarrão fosse o antídoto para toda doença. as fotografias e todo acidente que os representava: e as editoras retiraram do mercado 140 Cozinha futurista. mesmo se quase inconscientemente engolia macarrão três vezes ao dia: manhã. Uma última tentativa foi feita na primeira metade de século XIX pelo grande Michele Scrofetta. nós filhos do século. naquele tempo. Foram escritos inúmeros opúsculos e volumes de vários tamanhos: as gazetas. Puah. muito despreocupados para não mandar ao diabo macarrão e acessórios sem nem mesmo a carta de referências: e ninguém os lamentará ou espalhará ternas lágrimas. para tornar-se benemérito aos olhos do digno senhor. o macarrão: por dizer. Que porcaria. desapareceram das casas os quadros. Deveria caber à nossa época a ventura de repudiar definitivamente este costume bárbaro. Somos. meio-dia e noite. no último estágio do renascimento. muito difundidas. eis que o vil e barulhento Aretino recoloca-a sobre os altares: e qual melhor meio de propaganda que as suas excitantes musas em carne e osso? Os que se banquetearam à sua mesa tornaram-se férvidos defensores do macarrão. de cuja benemerência é inútil falar. trata-se de Martone Dagorazzi e suas cem composições poéticas intitulam-se: “A ambrosia dos homens”.indd 140 7/4/2009 15:51:22 . sendo conhecido por todos: e nem mesmo o eminente cientista alcançou algo concreto. a maldita lavagem não foi sepultada no esquecimento.

sob uma rigorosa avaliação. sobre os velhos livros de receita. Chefe da Central de Notícias de Bolonha.indd 141 7/4/2009 15:51:22 . no entanto. somente de ouvir-lhe o nome – macarrão. mas para reconstruir são necessárias milhares e milhares de mãos. pacifistas e congestionantes argumentações do amidáceo mais ilustre do mundo. mostram-se indignos de receber as graças de nossos gourmets e dos honestos pais de família e da prole estudiosíssima. puah – as pessoas vomitarão até os intestinos. Batalha pela saúde. Quero todavia acreditar que esta vitória. Existem outros pratos que. o bloco resistente do funestamente celebrado macarrão napolitano ou bolonhês”. se bem que notabilíssima. não nos faça dormir sobre louros. frescor do intelectualismo italiano”. deva-se fazer uma grande limpeza. apagando sem piedade. é colossal: para destruir basta uma única mão que acenda um pavio. frescor. do intelectualismo italiano Ferdinando Collai. As nossas donas-de-casa continuam a preparar os alimentos à moda antiga porque não saberiam como fazê-lo de outra forma. A tarefa. polemiza com “as torpes. agilidade. 141 Cozinha futurista. agilidade. reimprimindo mesmo quando se fez necessário. E conclui: “estou com o Maestro na violenta batalha pela saúde. Aliás.A cozinha futurista todas as suas edições para submetê-las a uma rigorosa censura. estou convencido que. Elas sentem obcuramente que este ou aquele modo não estão certos. Em alguns meses. mas ignoram a que outro santo voltar-se. E vejam que já surgiu o primeiro núcleo de estudiosos que buscam oferecer uma cozinha adequada aos tempos.

indd 142 7/4/2009 15:51:22 . Os futuristas que combateram em Doberbó. Quem poderia esperar um macarrão quente e “al dente”? Marinetti ferido nas Casas de Zagora na ofensiva de maio de 1917. nem com sua maior boa vontade. em Plava e nos reinos de Zagora e depois na Casa Dus. como Marinetti. a improvisar equipamentos perfeitos. em Nervesa e em Cabo Sile estão prontos a testemunhar que sempre comeram péssimos macarrões. recebeu de um soldado ex-cozinheiro de Savini um milagroso brodo de frango: aquele sagaz e oportuno cozinheiro. barracas bem aparelhadas e decoradas e sábias cozinhas. *** Além de muitas adesões de cozinheiros. por mais zeloso e devoto que fosse ao simpático cliente de uma única vez. não poderia oferecer. transportado a Plava de maca. em Selo. o alimento comum era chocolate sujo de lama e de vez em quando um bife de cavalo cozido em uma panelinha lavada com água de colônia. atrasados. congelados e transformados pelos tiros dos esquadrões inimigos que separavam os atendentes e os cozinheiros dos combatentes. Para os bombardeiros de Vertoibizza. Isto talvez fosse verdade para os alpinos que. a polêmica sobre a cozinha futurista deu vida a toda uma série de artigos 142 Cozinha futurista. em sua defesa ao macarrão declara-o ideal alimento para os combatentes. após as batalhas. escaladas e avalanches. já que sobre sua cozinha de batalhão rolavam de vez em quando enormes barris austríacos que destruíam os fogões: Marinetti duvidou então pela primeira vez do macarrão como alimento de guerra. na Vertoibizza. refúgios cômodos. entre todos os combatentes. são os mais prontos. Isto não é verdade para as tropas que combatem em solo plano. sanitaristas e artistas. um macarrão comestível.Fillippo Tommaso Marinetti O macarrão não é alimento para os combatentes Paolo Monelli.

que l’on agit selon ce que l’on boit et mange. et spiralique de la femme italienne. tendresse. Nous sentons la necessité d’êmpecher l’Italien de devenir cubique et poussif.A cozinha futurista e de estudos sobre a qualidade do “arroz”. lumière. Tout em reconaissant que des hommes mal nourris ont créé des grandes choses dans le passé.Marinetti vient de lancer le manifeste de la cuisine futuriste “Le futurisme italien. toujours mieux avec la transparence légère. que l’on rêve. affronte encore aujourd’hui l’impopularité avec un programme de rénovation intégrale de la cuisine. nous affirmons cette verité: que l’on pense. les sécretions de nos glandes et pénétrons génialement dans le domaine de la chimie gastronomique. notre langue. alimento italiano que deve ser sempre mais propagandeado e usado. notre palais. élan. au bout de vingt ans de grandes batailles artistiques et politiques souvent consacrées dans le sang. volonté. no número de 20 de janeiro de 1931: F.indd 143 7/4/2009 15:51:22 . Qu’il se harmonise. A opinião mundial Explodiu em Paris a polêmica sobre a cozinha futurista após a publicação do manifesto de Marinetti no jornal “Comoedia”.T. nos papilles gustatives. Consultons à ce sujet nos lèvres. ténacité héroïque. au contraire. et de s’empêtrer dans une lourdeur opaque et aveugle. faite de passion. Preparons des 143 Cozinha futurista.

préparons dès à present l’alimentation la mieux faite pour une existence toujours plus aérienne et rapide. en poudre ou en pillules. Le travail quotodien se réduira à deux ou trois heures. 3) L’abolition des condiments traditionnels. intuitive et passioné des Napolitains. absurde religion gastronomique italienne. La pâte ne fait pas de bien aux Italiens. d’hydrates de carbone. à l’âme généreuse. Le repas parfait exige une harmonie original de la table (cristaux. Les défenseurs de la pâte en portent dans l’estomac des ruines. et le reste du temps pourra être ennobli par la pensée. Les machines formeront bientôt un prolétariat servile. vaisselle.Fillippo Tommaso Marinetti corps agiles pour les trains extra-légers d’aluminium de l’avenir. Convaincus que le peuple le plus agile l’emportera dans les compétitions futures. Nous invitons la chimie à donner au plus tôt les calories nécessaires au corps. et la dégustation de repas parfaits. comme les fuseaux rétrogrades de Pénélopes ou les voiliers somnolents en quête de vent. Elle enserre les Italiens dans ses méandres.indd 144 7/4/2009 15:51:23 . grâce à l’absortion d’équivalents nutritifs gratuits. et de vitamines. On fera baisser ainsi le prix de la vie et les salaires. au service d’hommes presque allégés de toute occupation manuelle. Exemples: 144 Cozinha futurista. les arts. 2) L’abolition de poids et du volume dans l’appréciation des aliments. ainsi qu’une originalité absolue de ceux-ci. en réduisant les heures de travail. 4) L’abolition de la répétition quotidienne des plaisirs du palais. apprêts). avec la saveur et la coloration des mets. comme les archéologues. de composés albumineux. Nous proclamons tout nécessaires: 1) L’abolition de la pastasciutta. qui remplaceront les trains pesants de fer et d’acier. elle fait obstacle à l’esprit vivace.

chef de la Plume d’Oie). de quattre cuillerées de myrtilles. La sauce sera faite d’anchois. Servez avec une sauce faite de vin blanc. remettez au tour jusqu’à complète cuisson de la pâte. et excite l’imagination avant de tenter les lèvres. et sur chaque tranche un disque de citron aux câpres. posez-la sur un canapé de pain grillé. de découpures d’ecorce d’orange. (Recette de Bulgheroni. jusqu’à ce qu’il soit bien doré. trempé de rhum et de cognac.indd 145 7/4/2009 15:51:23 . Mettez la sauce dans la saucière et servez bien chaud. on le coupe en tranches. en l’assaisonnant de poivre.A cozinha futurista Saumon de l’Alaska aux rayons de soleil en sauce Mars On prend un beau saumon de l’Alaska. mettez-la en casserole avec beurre. posez sur les tranches des filets d’anchois croisés. que vous aurez fait cuire au gril avec ail et persil. de basilic. A peine retirée de la casserole. de sel et d’huile fine. Exemples: 145 Cozinha futurista. d’un demi-verre de marsala. dont l’harmonie originale de forme et de couleur nourisse les yeux. recouvrez-la avec des tranches de jambon et de lard. et faites-la cuire au four très chaud pendant un quart d’heure. d’huile d’olive. en l’arrosant de cognac. de jaunes d’oeufs durs. Ajoutez des tomates coupés en deux. on le passe au gril. sel. videz-la. et recouvrez-la d’un feuilleté. Le repas parfait exige aussi l’invention d’ensembles plastiques savoureux. (Recette de Bulgheroni). Au moment de servir. arrosée d’un petite verre de liqueur Aurum et passé au tamis. Bécasse au Monterosa en sauce Vénus Prenez une belle bécasse. poivre et genièvre. bouillie pendant dix minutes.

et on l’entoure à la base d’un anneau de saucisses posé sur trois boulettes de viande de poulet hachée et dorée au feu. Le repas parfait exige enfin: L’abolition de la fourchette et du couteau pour les ensembles plastiques susceptibles de donner un plaisir tactile prélabial. colorés. de poivre et de jus de citron. Equateur + Pôle Nord L’ensemble plastique comestible Equateur + Pôle Nord créé par le peintre futuriste Enrico Prampolini. 146 Cozinha futurista. se dresse un cône de blancs d’oeufs montés et piqués de quartiers d’orange. qui sera chassé de la table à l’aide de ventilateurs. et rôtie au four. Chaque plat doit être précédé d’un parfum. farcie de onze qualités de lègumes verts. se compose d’une mer équatoriale de jaunes d’oeufs arrosés de sel. créé par le peintre futuriste Fillìa.Fillippo Tommaso Marinetti Le “Viandesculpté” Le Viandesculpté. parfumés et tactiles formeront de parfaits repas simultanéistes. Le sommet du cône sera criblé de truffes. pour ne pas distraire la sensibilité de la langue et du palais. On la dispose verticalement en cylindre au milieu du plat. comme de juteuses sections de soleil. est composé d’une épaule de veau roulée.indd 146 7/4/2009 15:51:23 . L’usage d’un art des parfums pour favoriser la dégustation. Au centre. découpées en forme d’aéroplanes nègres à la conquête du zenith. mais seulement dans les intervalles des plats. L’usage de la musique. on la couronne d’un chapeau de miel. Ces ensembles plastiques savoureux. interprétation synthetique des paysages italiens.

des propriétés nouvelles. les frutis secs et les épices à un très haut degré de dispersion. sous les yeux et sous le nez des convives. L’abolition de l’éloquence et de la politique à table. pour exciter la curionsité. trop salé. de manière à éviter par exemple l’erreur de faire cuire les mets dans des marmites à pression. L’usage de ces appareils devra être scientifique. et serviront à corriger les erreurs: trop fade. Ces bouchées auront. la surprise. des appareils indicateurs enregisteront l’acidité ou l’alcalinité des sauces. La création de bouchées simultanéistes et changeantes. la même fonction d’annalogie amplifiante que les images en littérature. lampes à rayons ultraviolets pour rendre les substances alimentaires plus actives et assimilables. trop poivré. dans l’intervalle des mets. Enfin. dans la cuisine futuriste. L’usage tempéré de la poésie et de la musique. qui contiennent dix ou vingt saveurs à déguster en très peu de temps.indd 147 7/4/2009 15:51:23 . appareils de distillation à pression ordinaire et dans le vide. dont la haute température provoquerait la destruction des vitamines. pour un produit nouveau. La présentation rapide. de certains plats qu’ils mangeront et d’autres qu’ils ne mangeront pas.” F. électrolyseurs pour décomposer les sucs et les extraits et obtenir. et dialyseurs. en tant qu’ingrédients improvisés pour allumer la saveur d’un plat avec leur intensité sensuelle.Marinetti 147 Cozinha futurista. ou un voyage en Extrême-Orient. Une bouchée pourra résumer une tranche entière d’existence. et en refaisant une virginité dégustative. moulins colloïdaux pour pulveriser les farines. Une dotation d’instruments scientifiques en cuisine: ozoniseurs pour donner le parfum de l’ozone aux liquides et mets.T. marmites autoclaves centrifuges. le cours d’une passion amoureuse. et l’imagination.A cozinha futurista tout en effaçant la saveur précédente.

indd 148 7/4/2009 15:51:23 . pela qual a Roma eterna. daquela indiferença amável. agora ele frustra a felicidade hipócrita da digestão. e uma ação enérgica: vejam o negro. desafia o passo dos tempos. de Horácio a Panzini. O paradoxo gastronômico de Marinetti visa à educação moral. ela traz consigo um torpor que beira a felicidade. à renúncia cética. aos sonhos vazios. a favor da cozinha futurista: “Sim. e até o amamos. que convida às torpes fantasias. para ter pensamentos claros. sim. uma decisão rápida.. e esse é o suculento veneno que estraga o fígado para grande alegria do estômago. que são também a origem do sentimento lânguido. sob o sol. sob esta nuvem cozinhária. ao ritmo pegajoso e conciliante dos indolentes. daquela sapiência transcendental. “Trata-se hoje de refazer o homem italiano. lenta. cru. daquela ironia serena. se pode repousá-lo sem esforço sobre o seu ventre gordo? O homem moderno deve ter a barriga reta. “Há um ano dizíamos que Marinetti castigava o pudor hipócrita e a mentira da inteligência. Nós não somos daqueles que o desprezam. Ele se recorda sem dúvida dos belos tempos 148 Cozinha futurista. o macarrão é mesmo uma ditadura do estômago. no jornal “Comoedia”. pois de que adianta levantar o braço numa saudação romana. “Deve-se regá-lo sobretudo com Salerno ou Frascati para compreender a lentidão do povinho e dos prelados romanos ou napolitanos. como os seus paradoxos à educação estética: é preciso chacoalhar a matéria para acordar o espírito. vejam o árabe. É toda uma moral que Marinetti desventra. isto é. Porque a sua digestão é uma ruminação traiçoeira.Fillippo Tommaso Marinetti Damos a tradução do arguto artigo que o jornalista francês Audisio lançou. mas duvidamos dele acima de tudo se preparado à maneira romana..

plantava a semente de uma revolução mundial dos espíritos.indd 149 7/4/2009 15:51:23 . americanos. alemães etc. comentários. esteve entre os primeiros a agitar a polêmica sobre a cozinha futurista: Spaghetti for Italians. na primeira página.” *** À publicação em “Comoedia” seguiram-se artigos. Knives and Forks for All are banned in Futurist Manifesto on Cooking Marinetti. É significativa a entrevista do jornal Je suis partout com Marinetti e o artigo de fundo. 149 Cozinha futurista. sob o céu de Paris. literature and drama. Practically everything connected with the traditional pleasures of the gourmet will be swept away. publicando também poesias polêmicas. este artigo. caricaturas e discussões nos maiores jornais franceses. Jornais de Budapeste a Tunísia. Longo artigo “ITALY MAY DOWN SPAGHETTI” no Chicago Tribune. e no Nieuwe Rotterdamsche Courant. ingleses. Entre estes tantos. que apareceu no The Herald. de Tóquio a Sidney. O Times de Londres voltou repetidamente ao tema com escritos diversos. has just issued from Rome a manifesto launching Futurist cooking. father of Futurist art. de Essen. No more knives and forks.A cozinha futurista violentos nos quais. according to word received yesterday in Paris. que relevam a importância da batalha futurista “contra os alimentos tristemente miseráveis”. do jornal Le petit marseillais sobre a cozinha futurista. No more spaghetti for the Italians. Outros artigos na Reinisch-Westfalische Zeitung.

Among the new kitchen and dining-room instruments suggested by Marinetti is an “ozonizer” which will give to liquids the taste and perfume of the ozone. the cooking of the future must conform to the ends of evolution. The new Futuristic meal will petmit a literary influence to pervade the dining-room. Music will be banished from the table except in rare instances when it whill be used to sustain the mood of a former course until the next can be served. published in the “Comoedia”. by means of single sucessive mouthfuls. also ultra-violet lamps to render certain chemicals in the cooking more active. Marinetti writes. in order to vary the effects of heat. “Since everything in modern civilization tends toward elimination of weight. The first step would be the elimination of edible pastes from the diet of Italians”. for whith ideal rapid service. and such supplementary courses will not be eaten at all. Details of the manifesto. in the ideal Futuristic meal. and increased speed. In fact. give the principal feature of the new cuisine as a rapid sucession of dishes which contain but one one mouthful or even a fraction of a mouthful. several dishes will be passed beneath the nose of the diner in order to excite his curiosity or to provide a suitable contrast.Fillippo Tommaso Marinetti No more after-dinner speeches will be tolerated by the new cult. Electrolysis will also be used to decompose sugar and other extracts. Also certains dishes will be cooked under high preassure.indd 150 7/4/2009 15:51:23 . Modern science will be employed in the preparation of sauces and a device similar to litmus paper will be used in a Futuristic kitchen in order to determine the proper degree of acidity or alkalinity in any given sauce. an experience such as a love affair or a journey may be suggested. 150 Cozinha futurista.

A cozinha futurista As a model for the presentation of a Futuristic meal. stuffed with eleven kinds of vegetables. and a consistent lightening of weight and reduction of volume of food-stuffs. não possam elucidar nada e concluir pouco depois de ter engolido tais alimentos deprimentes. The landscape is composed of a roast of veal. This is one of the meals which. Na Itália. by Fillìa. under the new system. so that when a real banquet is 3 spread it may be appreciated aesthetically. submetemonos a este tipo de cozinha internacional de grande hotel unicamente 151 Cozinha futurista. como em quase todos os países do mundo. placed vertically upon a plate and crowned with honey. entristecedores e monotonizantes. could not be attacked whith a knife and fork and cut into haphazard sections before being eaten. Contra a cozinha do Grande Hotel e a estrangeirofilia Entre as cozinhas que hoje imperam.indd 151 7/4/2009 15:51:23 . For ordinary daily nourishment he recommends scientific nourishment by means os pills and powders. para a revisão de tratados. e os fecha a todos com um doce gelatinoso e trêmulo adequado a bocas doentes. Marinetticalls attention to a Futuristic painting of a synthetic landscape made up of food-stuffs. Marinetti advocates doing away with the ordinary condiments now in use. The Futurist leader also pleads for discontinuance of daily eating for pleasure. É lógico que os homens políticos de todos os países que se reúnem para as grandes convenções. aquela que nós consideramos mais detestável e mais repugnante é a cozinha internacional de grandes hotéis que abrem todos os grandes banquetes oficiais com um brodo no qual bóiam 4 ou 5 bolinhas de massa real moles e insípidas. Besides the abolition of macaroni. para o desarmamento e pela crise universal. M.

concertistas e regentes de orquestra) quando se incham até esquecerem-se que o intérprete é o servo útil não necessário do gênio criador. estrangeirófilo. domina uma mania bestial a que chamamos estrangeirofilia. antitalianidade ou feiúra) somente porque elas não falam a língua italiana e vêm de países longínquos ignorados ou pouco conhecidos. Infelizmente. falta de educação.indd 152 7/4/2009 15:51:23 . a palavra estrangeirofilia. A Gazzetta del Popolo de 24 de setembro de 1931 publicou este manifesto de Marinetti contra a estrangeirofilia: Contra a estrangeirofilia Manifesto futurista às senhoras e aos intelectuais “Apesar da força imperial do Fascismo. são infelizmente mais indispensáveis a cada dia. e que deve ser combatida violentamente. Exemplo: o excelente e célebre regente Arturo Toscanini que antepôs o seu sucesso pessoal ao prestígio da sua pátria ao renegar os seus hinos nacionais por delicadeza artística e executou os estrangeiros por oportunismo. 1) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os jovens italianos que caem em um êxtase cretino diante de qualquer estrangeira também agora que a crise mundial as empobrece.Fillippo Tommaso Marinetti porque vem do estrangeiro. inventadas por nós. 3) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os regentes de orquestra e o público italiano que organizam ou aplaudem 152 Cozinha futurista. 2) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os intérpretes italianos de fama mundial (artistas do canto. e enamoram-se delas por esnobismo e às vezes desposam-nas absolvendo-as de todo defeito (prepotência.

6) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os históricos e os críticos militares que. Bach. à maneira de muitos novecentistas e de muitos racionalistas. os escultores e os arquitetos italianos que. 9) São estrangeirófilas e portanto antitalianas as assembléias que ao invés de taxar como infâmia. um gênio altíssimo em um povo de medíocres iletrados.indd 153 7/4/2009 15:51:23 . 4) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que aplaudem ao invés de vaiar os regentes estrangeiros quando. criador da nova plástica e Sant’Elia.. 8) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os pintores. Le Corbusier ao invés de filhos de autênticos inovadores italianos como Boccioni. variada e divertida) com a esperança de parecer. definem “pecadinhos lícitos” as ofensas escritas e publicadas por literatos italianos contra a Itália. preferem proclamarse filhos de inovadores franceses. penetradas e admiradas por todos até a saciedade. Um patriotismo elementar exige pelo menos metade de música italiana moderna ou futurista em substituição àquela de Beethoven. no exterior. Brahms etc. criador da nova arquitetura. cada um. 5) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os industriais italianos que encontram mil pretextos para refutar uma batalha decisiva com a indústria estrangeira e têm orgulho de vencer disputas internacionais com produtos. já apreciadas... 7) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os literatos ilustres que denigrem. esquecem a música italiana em seus concertos na Itália. privilegiam os episódios irrelevantes como Caporetto. 153 Cozinha futurista. maleducadamente. máquinas ou aparelhos não inteiramente idealizados e construídos na Itália. da nossa grande guerra vitoriosa. suíços como Cézanne. espanhóis. Picasso. toda a literatura italiana (hoje original.A cozinha futurista concertos no exterior quase sem música italiana. contra o nosso exército e contra a nossa grande guerra vitoriosa.

Elegantes senhoras italianas.Fillippo Tommaso Marinetti 10) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os hoteleiros e negociantes que não aproveitam os rápidos e eficazes meios que têm à sua disposição para influenciar italianamente o mundo (uso da língua italiana nos cartazes. logotipos e nos cardápios). A menos que ela se submeta à invejada superioridade financeira do exterior. produtos estrangeiros com olhares céticos e pessimistas para os produtos italianos. o Barbaresco da condessa C. podem também admirar e estudar a sua língua. Exemplo: o esnobismo americano do álcool e do “cocktail-party”.indd 154 7/4/2009 15:51:23 . os italianos e as italianas que saúdam romanamente e depois nos negócios pedem. E basta que a palavra “bar” seja substituída pela italianíssima “Aquisebebe”. 12) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade. ou o Capri branco da princesa D. 13) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que. Nestes encontros será premiada a melhor qualidade do vinho que as une. presos pela criticomania. enamorados pela paisagem e pelo clima da Itália. esquecendo-se de que os estrangeiros. nós lhe rogamos a substituir o “cocktailparty” por convenções vespertinas que poderão chamar à vontade de o Asti espumante da senhora B. mas certamente nocivos à nossa raça. Consideramos portanto cafona e cretina a senhora italiana que participa orgulhosamente de um “cocktail-party” e relativa disputa alcoólica. 11) São estrangeirófilas e portanto culpadas de antitalianidade as senhoras italianas da aristocracia e da alta burguesia que se estusiasmam pelos costumes e esnobismos estrangeiros. babando-se. Cretina e cafona a senhora italiana que acha mais elegante dizer: “bebi quatro cocktails” do que dizer: “comi um minestrone”. vaiam sistematica- 154 Cozinha futurista. superioridade agora já destruída pela crise mundial.. talvez adequados à raça norte-americana.

Antitalianamente eles esquecem por exemplo esta explícita declaração do poeta futurista inglês Ezra Pound a um jornalista americano: “O movimento que eu. Eliot. e que mesmo assim criticamno ou relevam-no para correr a pescar preciosamente Futurismos estrangeiros todos derivados do nosso. cochilando sob o zumbido de complôs revolucionários que podem ser sedados. pronta para explodir para realizar o seu imenso destino.A cozinha futurista mente comédias e filmes italianos favorecendo assim a invasão de medíocres comédias e filmes estrangeiros. A nossa viril feroz dinâmica e dramática península. em pleno enfraquecimento parlamentar social-democrático-comunista-clerical gritávamos: “A palavra Itália deve dominar sobre a palavra Liberdade!”.indd 155 7/4/2009 15:51:23 . deve considerar o orgulho nacional como sua primeira lei de vida. nós futuristas. invejada e ameaçada por todos. cujo cérebro foi desenvelhecido e agilizado pelo Futurismo italiano. 155 Cozinha futurista. Joyce e outros iniciamos em Londres. podem. não criticadas nem ameaçadas por inimigos externos. não teria acontecido sem o Futurismo italiano” e esta também explícita declaração de Antoine no Journal de Paris: “Nas artes decorativas os caminhos foram há tempos abertos pela escola de Marinetti”. Por isso. Outras Nações. esquecendo-se dos italianos. pouco populosas. 14) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os empresários italianos que procuram no exterior professores de teatro e cenógrafos. b) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: inteligência. 15) São estrangeirófilos e portanto culpadas de antitalianidade as cultas senhoras e os críticos da Itália. que vinte anos atrás. gritamos hoje: a) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: gênio. considerar o orgulho nacional como um artigo de luxo. capazes de ensinar ao mundo.

nós.T. Facas e Garfos para Todos são banidos no Manifesto da Cozinha Futurista Marinetti. se necessário. Indulgência plenária na arte e na vida aos verdadeiros patriotas. No tocante aos muitos céticos e derrotistas (literatos. nós brutalmente dizemos: Lembrem-se sempre desta obra-prima italiana que supera até mesmo a Divina Comédia: “Vittorio Veneto”. eu que fui aplaudidíssimo no Exterior. construir uma descuidada cúpula dupla de mármore em oferta ao inimigo. na inquietude de uma paz em equilíbrio. e tive na Itália mais vaias do que aplausos e apesar disso agradeço a cada dia as forças cósmicas que me deram a alta honra de nascer italiano. acaba de publicar em Roma um manifesto sobre a Cozinha Futurista. pai da arte. Escrevo tudo isto com a serenidade de um patriotismo adamantino. ao primeiro perigo.indd 156 7/4/2009 15:51:23 .Fillippo Tommaso Marinetti c) A palavra Itália deve dominar sobre as palavras: cultura e estatísticas. segundo 156 Cozinha futurista.Marinetti Espaguete para Italianos. filósofos e filósofas) que tentam hoje. literatura e drama futuristas. contra as nações estrangeiras. artista. simbolizado pelos escombros do Império Austro-Húngaro que os nossos blindados tiveram que superar na estrada de Tarvisio. isto é aos fascistas que vibram por uma autêntica paixão pela Itália e de um desmesurado orgulho italiano. fuzilaremos os estrangeirófilos antitalianos. Que o fogo da crítica seja direto. d) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: verdade.” F. Em nome desta obra-prima. nunca contra a Itália.

Detalhes do manifesto. Entre os novos instrumentos de cozinha e de sala de jantar sugeridos por Marinetti. diversos pratos passarão sob os narizes do comensal somente para excitar a sua curiosidade ou para promover um contraste apropriado. Não mais espaguete para os italianos. O primeiro passo deveria ser a eliminação das massas comestíveis da dieta dos italianos. ou mesmo uma fração de bocado. pode sugerir experiências tais como uma viagem ou uma aventura amorosa. “Desde que tudo na civilização moderna tende à eliminação de peso. o que. A nova comida futurista permitirá uma influência literária que invada o comensal. Não mais facas e garfos. por meio de sucessivos bocados únicos. A música será proibida à mesa. e aumento da velocidade. apresentam a principal característica da nova “cuisine” como uma sucessão de pratos que contém um só bocado. Não mais serão tolerados pelo novo culto discursos após o jantar. na refeição futurista ideal. somado a um serviço rápido ideal. publicado no “Comoedia”.A cozinha futurista notícias recebidas ontem de Paris. exceto em raras ocasiões em que será empregada para reter o espírito do último prato até que o próximo possa ser servido. De fato. Praticamente tudo o que está relacionado aos tradicionais prazeres dos gourmets será erradicado. já que estes pratos suplementares não serão ingeridos.indd 157 7/4/2009 15:51:23 .”. escreve Marinetti. encontram-se um ozonizador que dará aos líquidos o 157 Cozinha futurista. A ciência moderna será empregada na preparação dos molhos e um dispositivo semelhante ao papel de tornassol será utilizada na cozinha futurista para determinar o grau correto de acidez ou alcalinidade em um dado molho. o cozinheiro do futuro deve adaptarse aos fins da evolução.

Marinetti defende o fim dos temperos ordinários atualmente em uso e uma consistente diminuição e redução do volume dos alimentos.indd 158 7/4/2009 15:51:23 . 158 Cozinha futurista. de uma paisagem sintética feita com substâncias comestíveis. de acordo com o novo sistema.Fillippo Tommaso Marinetti sabor e o perfume do ozônio. não poderia ser atacado com garfo e faca. e também lâmpadas ultravioleta que tornarão mais ativas certas substâncias culinárias. A eletrólise também será empregada para decompor açúcares e extratos. O líder futurista também sustenta que se deve abandonar o hábito de comer diariamente por prazer. ele recomenda uma nutrição científica por meio de pílulas e pós. e ser cortado em pedaços livremente antes de ser comido. de modo a variar os efeitos da temperatura. Para a alimentação diária normal. Como um modelo para a apresentação de um prato futurista. Este é um dos pratos que. Além disso. alguns pratos serão cozidos sob alta pressão. Além da abolição do macarrão. disposto verticalmente sobre um prato e coroado com mel. A paisagem é composta por um assado de carne de veado recheado com onze tipos diferentes de vegetais. a ponto de permitir que quando um verdadeiro banquete seja servido. possa ser apreciado esteticamente. Marinetti concentra a atenção em uma pintura futurista de Fillìa.

Não se contenta em lançar umas idéias platônicas. anunciou assim na Gazzetta del Popolo de 21 de janeiro de 1931. consensos. Em parte hostis. Marinetti batizou com o nome de SANTOPALADAR o local destinado a impor pela primeira vez a cozinha futurista.indd 159 7/4/2009 15:51:23 . uma batata ou outro legume. 159 Cozinha futurista. foi escolhido pelo pintor Fillìa e pelo arquiteto Diulgheroff o proprietário de um restaurante de Turim. Entre estes últimos. Angelo Giachino. Ao final do Circuito de Poesia de Turim. inclusos aqueles jornalísticos. enciumados da tradição da “sora Felicetta”. vice-secretário geral do movimento futurista italiano à imprensa romana. entre os quadros futuristas da galeria Codebó. do “spaghettaro” e de todas as outras gloriosas insígnias do verdadeiro gourmet. em parte entusiastas. Enquanto se trabalhava na decoração do local. a projetada manifestação: “Uma comunicação do pintor Fillìa. mas também aplausos. recebendo sempre pessoalmente. Ercole Moggi. que era incitado à realização dos novos pratos pelos seus próprios clientes. Recebendo às vezes algum cabo de couve. encorajamentos. Tullio d’Albisola. sustenta-as. um dos mais brilhantes jornalistas italianos. depois de haver coroado com o capacete de alumínio o poeta-recorde de Turim. Fillìa no movimento futurista seria como o subtenente geral da esquadra em ação.A cozinha futurista A revOLuçãO cOzinháriA Os GrAndes bAnquetes FuturistAs A taberna do santopaladar O manifesto da cozinha futurista provocou numerosos congressos e comícios entre os cozinheiros e donos de restaurantes. ansiosos por transformar cozinha e ambiente. mas tenta fazê-las penetrar. movimentou os ambientes gastronômicos da capital. em uma matéria de capa com duas colunas.

mas apresentados ao público os novos pratos. Fillìa talvez seja o mais dinâmico dos futuristas italianos. “Santopaladar” sem especulações Conseguimos achar Fillìa e não o deixamos mais escapar. o gastronômico. cabeça de vulcão. Trens especiais para Turim Um renomado jornal romano entre o tom sério e o engraçado.. Fillìa antecipou-me: 160 Cozinha futurista. boca de fogo de nitroglicerina. comentando o pronunciamento dos futuristas.Fillippo Tommaso Marinetti Os adeptos do macarrão esperavam que o Manifesto da Cozinha Futurista se mantivesse apenas na teoria.. Turim encaminha-se para ser o berço de um novo renascimento italiano. Não conhecem evidentemente aqueles queridos rapazes! Os futuristas preanunciam de fato uma forte ofensiva contra a velha cozinha. Declarações muito importantes deviam sair daquele cérebro vulcânico. ou discussões polêmicas ou academia literária. Evidentemente gosta de Turim já que tentou sempre ali as suas maiores iniciativas. motor de 200 HP. Assim.. quem sabe? panela em perene ebulição. escreveu: “Temos a certeza que as ferrovias do Estado concederão descontos de cinqüenta por cento para que todos os italianos possam deslocar-se em massa a Turim. deste modo.indd 160 7/4/2009 15:51:23 . para apreciar o notável “carnescultura” na “Taberna do Santopaladar”. além de uma idéia prática e original: a abertura de uma cozinha experimental futurista em Turim e que terá como título “Taberna do Santopaladar” na qual serão não apenas futuristicamente estudados. Seria necessário descrevê-lo de maneira futurista: chamá-lo.

Será decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim com o objetivo preciso de passar da teoria à prática na polêmica futurista. é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. se forem rosas. interpretação sintética das paisagens italianas. Este cilindro. na Itália e no exterior. Não se trata portanto de uma especulação minha ou de Diulgheroff.A cozinha futurista . Como se diz. a fazer uma laparotomia gratuita aos primeiros degustadores do “carnescultura”. com o objetivo de estudar. repito. Mas não teremos. disposto verticalmente no centro do prato. O local não será um simples e vulgar restaurante. tanto que – segundo vozes que correm – o prof. Os leitores devem saber que Fillìa é o inventor do “carnescultura”. O leitor se perguntará o que é o “carnescultura”. florescerão.indd 161 7/4/2009 15:51:23 .. A nutrição por rádio No “Santopaladar” de Turim. é composto por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diversas de verduras e legumes cozidos. mas assumirá um caráter de ambiente artístico abrindo concursos 161 Cozinha futurista. que a nossa iniciativa e a nossa atividade para a abertura do “Santopaladar” tem fins unicamente artísticos. Donato ter-se-ia proposto.Peço-lhe para relevar.. idealizadores e propulsores de uma nova teoria cozinhária. Nós daremos simplesmente à taberna uma fachada futurista. Eis aqui uma descrição autorizada: “O carnescultura. A Taberna aparecerá logo em Turim. Fillìa dirigirá a renovação da cozinha italiana e fará aplicar e preparar os novos pratos dos artistas e cozinheiros futuristas. acima de tudo. que é o novo prato futurista mais clamorosamente discutido hoje. nenhum interesse no maior ou menor sucesso (nós o esperamos imenso) da iniciativa.

O que há de prodigioso e que talvez tenha escapado até a Marconi. por meio do rádio. De resto a coisa não é lá extraordinária. uma difusão de ondas nutrientes. Provavelmente trate-se de outro neologismo marinettiano. novelas1 etc. a uma organização de sabores. Não se trata simplesmente de substituir o macarrão pelo arroz. 162 Cozinha futurista. uma difusão de ondas nutrientes. de pintura e de moda futurista. Até hoje. para preparar os homens aos futuros alimentos químicos e talvez à não distante possibilidade de realizar. per finire é algo que está sempre por acabar. o odor dos pratos lavados será transformado em odor de lavanda. ou de preferir um prato a outro. Entre os pontos mais importantes. não seguem somente o lado importante da economia nacional. notem os seguintes que reproduzo textualmente: a) “os futuristas declarando-se contra o macarrão e indicando novos desenvolvimentos da cozinha italiana.indd 162 7/4/2009 15:51:23 . Aconteceram na vida prática do homem tais modificações mecânicas e científicas que se pode chegar mesmo a um perfeccionismo cozinhário. Agora reorganizaremos os odores. Por exemplo. noites de poesia. mas pretendem renovar o gosto e os hábitos dos italianos. porque eram diversas também as condições gerais de existência. dicção de poesia. jazz. por isso optamos por traduzir novela.). havia um odor que Deus nos livre. Como o rádio pode difundir ondas asfixiantes e adormentadoras (conferências. Este primeiro capítulo dispensa comentários. é a possibilidade de realizar. assassinar os velhos enraizados hábitos do paladar. Deve-se. É toda uma revolução. “per-finire”. poderá também difundir extratos de ótimos 1 No original. mas de inventar novos pratos. odores e valores que até ontem pareceriam absurdos.Fillippo Tommaso Marinetti e organizando no lugar do habitual café post-prandium ou da habitual dança. variando-se continuamente o gênero de nutrimentos e de combinações. por meio do rádio. em certos restaurantes. O “Santopaladar” lançará em breve o seu preciso programa técnico.

Fillìa nos disse: “Em nosso próximo proclama para o “Santopaladar” estará bem esclarecido que. Combatem-se assim os lamaçais de molho. O segundo capítulo também é explícito: b) A cozinha até hoje não levou em conta. Não é verdade que os futuristas sejam inimigos do vinho e da carne. mas tem a tendência inversa de novos horizontes culinários de renovar o gosto e o entusiasmo do comer. que multipliquem ao infinito a alegria de viver: coisa impossível de se obter com os alimentos aos quais se está “habituado”. os fragmentos desordenados de comida. o caráter. e sobretudo o mole e antiviril macarrão. Que paraíso então! O problema é que caminhará rumo à abolição da cozinha e portanto do “Santopaladar”. para inventar novos pratos que dêem alegria e otimismo. Um almoço no “Santopaladar” terá um preço normal. portanto. nenhuma base em comum com as afirmações de Marco Ramperti. O Manifesto da cozinha futurista não tem. Marinetti inaugurará o “Santopaladar” Fillìa ainda me fez outras importantes declarações. o lado estético. enquanto a química não criar substâncias sintéticas que tenham a força da carne e do vinho.indd 163 7/4/2009 15:51:23 . a sensibilidade”. a não ser pelos doces. em que será estudado para cada um o prato que leve em consideração o sexo. Responde-me: 163 Cozinha futurista.. Outra coisa importante que apreendi é esta: que os pratos futuristas não serão caros.A cozinha futurista almoços e cafés da manhã. O nosso refinamento sensível pede ao contrário um estudo completamente “artístico” da cozinha. Pergunto ao vice-secretário do movimento futurista se a inauguração do “Santopaladar” será feita com solenidade.. Alcançaremos pratos ricos de diferentes qualidades. a profissão. é preciso defender a carne e o vinho de qualquer ataque.

É acompanhado no exterior.Certamente. que responderá a todas as críticas. achados. A. À inauguração intervirá também S. E responderá à altura. receita que faria chorar de inveja o doutor Woronoff. acendia a veia poética de Giosuè Carducci e de Giovanni Pascoli”. seja clemente. a Aerovianda (tátil.Pode-se saber a lista dos pratos do almoço inaugural? . poupe ao menos a “salama vecchia” da Romanha. Até hoje o pobre consumidor não encontrava ninguém que respondesse por uma má refeição. música.indd 164 7/4/2009 15:51:24 . Compreenderá os doces Reticulados do céu do escultor Mino Rosso e o Ultraviril do crítico de arte cozinheiro futurista P. . o conhecidíssimo Carnescultura. porque o acontecimento tem uma grande importância. Senti duas lágrimas rolarem-me nas bochechas. salada. Bastaria a invenção do prato Ultraviril. vinho e cerveja).Fillippo Tommaso Marinetti . Exª Marinetti. Este é evidentemente um achado útil.Compreenderá alguns de meus pratos e isto é: Todoarroz (com arroz. o Docelástico. a venerável “salama da sugo” que. Seremos duros. originalidade.Nada. 164 Cozinha futurista. não poderá ser nada menos que extraordinário. Mas então adeus “tajadele al parsott”. sem considerar a música. Esta lista será completada por surpresas indispensáveis para formar a atmosfera da nova refeição e terá além de tudo perfumes. junto à loira Albana. apenas as velhas caçarolas. Ah. É evidente que o sucesso. Além disso compreenderá os pratos publicitários do arquiteto Diulgheroff e os alimentos simultâneos de Marinetti e Prampolini. . No “Santopaladar” teremos um acadêmico. Acabou-se o tempo das comidas dos Artusi.E da velha cozinha – pergunto a Fillìa – o que ficará em pé? Responde-me com tom inexorável: . Fillìa. os perfumes e os outros achados. delícia de minha juventude voraz. Saladin. com rumores e odores).

o restaurante futurista de Turim baterá sem dúvida a ciência dos velhos cozinheiros acadêmicos. de qualquer modo. O pintor Fillìa. Reproduzimos em parte a carta de resposta a um cozinheiro romano que ameaçava os raios da Academia Gastronômica Italiana contra os cozinheiros futuristas: “o protesto dos cozinheiros acadêmicos relembra estranhamente a oposição que os professores de história da arte sempre fizeram aos movimentos de renovação artística neste século e no outro. é o espírito revolucionário do manifesto que deve importar: isto é. Impossível também indicar somente os melhores escritos daquele período. de falar de “técnica”: aqueles pratos. esclareceu repetidas vezes no “Lavoro” de Gênova. que as profecias do ilustre Membro da Academia Culinária terão o mesmo resultado que as outras: apressarão o nosso sucesso”. criticando os pratos contidos no manifesto da cozinha futurista. reproduzido em todos os jornais.indd 165 7/4/2009 15:51:24 . Se os cozinheiros acadêmicos nos combatem somente pela razão técnica. “não se trata. deu ensejo a uma infinidade de polêmicas irônicas e sarcásticas sobre os valores digestivos dos pratos futuristas. respondendo a diversos ataques. E. são os primeiros exemplos de uma série que criaremos. como o meu carneplástico que foi erroneamente visto como oposição ao macarrão. porque.A cozinha futurista Este artigo. a necessidade de modificar a cozinha porque se modificou o nosso sistema geral de vida. Estamos seguros. no “Regime Fascista” de Cremona e na “Tribuna” de Roma a importância da iniciativa do Santopaladar. estão vencidos: sua oposição 165 Cozinha futurista. como técnica. portanto. Para tanto. teremos os pratos econômicos e os pratos de luxo – os pratos que melhor se equipararão ao macarrão e os pratos para vencer em concorrência as velhas glutonarias. Mas. é preciso preparar o paladar às futuras alimentações. rompendo os hábitos.

etc.indd 166 7/4/2009 15:51:24 . as artes etc. ainda antes de ser inaugurada. Como foram renovados os costumes. e por conseqüência futuristas”. não se poderão renovar”.”. “segundo a cômoda teoria pacifista dos cozinheiros acadêmicos.. alcançava uma notoriedade mundial pela anunciada realização da cozinha futurista. chegamos a um momento em que tudo se deve renovar. os trabalhos procediam e o ambiente se formava no domínio preponderante do alumínio italiano “Guinzio e Rossi”: domínio que deveria dar ao local uma atmosfera de metalicida- 166 Cozinha futurista. os transportes. Eu e o arquiteto Diulgheroff não cuidamos senão de sua inauguração e primeira orientação: estamos seguros da inteligência e da fé na modernidade que animam aqueles cozinheiros. também se chegará ao triunfo da cozinha futurista. Entretanto. “a Taberna Santopaladar decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim gerará uma atmosfera que será o resumo da vida mecânica moderna e será portanto ‘necessário’ servir pratos novos. No entanto. Mas se a Academia Gastronômica Nacional insiste em negar nosso esforço que pretende inventar pratos italianíssimos. à qual aderirão os cinqüenta mil artistas inovadores e simpatizantes da Nova Itália”. fundaremos então uma Academia Gastronômica Futurista. médicos ilustres e cozinheiros sábios dão-nos razão e aderem à nossa luta. E por outro lado. “a Taberna Santopaladar tem um proprietário e cozinheiros que a dirigirão. nem mesmo o macarrão teria sido inventado: e continuar-se-ia a comer como os romanos antigos. enquanto os pratos antigos.Fillippo Tommaso Marinetti de artesãos não poderá vencer nossa força de artistas. *** A Taberna Santopaladar de Turim. tecnicamente perfeitos. E as criações futuristas alcançarão perfeições técnicas.

ágil ossatura de um corpo novo. assim como os materiais “nobres” do passado. o sentido da vida de hoje. de elasticidade. O alumínio é o mais adequado e o mais expressivo dos materiais. Eis a lista da primeira refeição futurista: Antepasto intuitivo (fórmula da Senhora Colombo-Fillìa) Caldo solar (fórmula Piccinelli) Todoarroz. os toldos. onde os futuristas Fillìa e P. de leveza e também de serenidade. onde o nosso corpo e o nosso espírito têm a necessidade de encontrar a afinação. com vinho e cerveja (fórmula Fillìa) Aeroprato. mas servia como elemento operante do interior: alumínio dominante.Saladin) 167 Cozinha futurista. Piccinelli e Burdese. A primeira refeição futurista A Taberna Santopaladar foi inaugurada na noite de 8 de março de 1931. encerra estes dotes essenciais e é verdadeiramente um filho do século do qual espera glória e eternidade. Tudo concorria para completar o interior: os grandes quadros publicitários. Isto é. de esplendor. os vidros trabalhados. indispensável ao estado de atividade do organismo ambiental. tátil.A. a síntese e a tradução artística de toda a organização mecânica preponderante.A cozinha futurista de. No corpo do alumínio. os objetos diversos.indd 167 7/4/2009 15:51:24 . com rumores e odores (fórmula Fillìa) Ultraviril (fórmula P. completado com os ritmos da luz indireta. deve ser parte viva das outras formas da construção. A luz também é uma das realidades fundamentais da arquitetura moderna e deve ser “espaço”.Saladin competiam com os cozinheiros do restaurante. na preparação dos pratos. após uma febril jornada de intenso trabalho na cozinha.A. Na Taberna Santopaladar delineava-se então uma pulsante estrutura de alumínio e esta não era friamente utilizada para cobrir o espaço. a luz servia então como sistema arterial.

Ninguém a não ser um futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Carnescultura (fórmula Fillìa) Paisagem alimentar (fórmula Giachino) Mar da Itália (fórmula Fillìa) Salada mediterrânea (fórmula Burdese) 10.indd 168 7/4/2009 15:51:24 . sonha-se e age-se segundo o que se bebe e o que se come”. em um completo artigo do redator Dr. as datas do descobrimento da América. pela anunciada inauguração do Santopaladar. 168 Cozinha futurista. “Mesmo reconhecendo – adverte Marinetti – que os homens mal ou grosseiramente nutridos tenham realizado grandes coisas no passado. segue. é preciso reconhecê-lo sinceramente. nos afirmamos esta verdade: pensa-se. além de todo limite extremo. como indelevelmente foram fixadas. O acontecimento assumirá estão uma importância excepcional. Frangofiat (fórmula Diulgheroff) Equador + Pólo Norte (fórmula Prampolini) Docelástico (fórmula Fillìa) Reticulados do céu (fórmula Mino Rosso) Frutas da Itália (composição simultânea) Vinho Costa – Cerveja Metzger – Espumante Cora – Perfumes Dory. da tomada da Bastilha. Apresentamos integralmente a notícia sobre a noite como apareceu no jornal “La Stampa”. do Tratado de Viena e do Tratado de Versalhes”. Uma notícia redigida nestes termos não pode ser nada além de maravilhosamente futurista. cuja data ficará impressa na história da arte cozinhária assim. na história do mundo. Stradella: “Ninguém ignora o interesse e as polêmicas que agitam o mundo inteiro. os pressupostos de sua doutrina.

A cozinha futurista

Rumo ao alimento em pílulas
Não gratificados, então, pelas imensas vitórias pictóricas, literárias, artísticas que acumula há vinte anos, o Futurismo italiano visa, hoje, a uma renovação de base: esta, de fato, ousa afrontar ainda a impopularidade, com um programa de renovação total da cozinha. Omitimos que o Santopaladar, apesar da aparência um pouco blasfema para o passadismo vulgar, é uma deliciosa taberna turinesa, na qual, durante a noite passada, aconteceu lugar a primeira refeição da cozinha futurista: uma lista de quatorzes pratos, vinhos diversos, perfumes, espumantes. O leitor, ou talvez melhor, a amável leitora, desejará conhecer, a fundo, as mais recônditas razões de tal tentativa, para falar passadistamente; ou de tal realização, para falar futuristicamente. O desejo é legítimo. Quanto à satisfação deste, somos tomados por uma sensação de responsabilidade ao responder. Responderemos, em todo caso, cientificamente, exatamente, valendo-nos das mesmas palavras do Chefe dos Futuristas italianos: “Autopraticamente, nós futuristas relevamos o exemplo e as advertências da tradição para inventar a todo custo um novo, julgado por todos “loucura”, razão pela qual estabelecemos agora o nutrimento adequado a uma vida sempre mais aérea e veloz”. Por conseqüência, são abolidos tantos pratos: o macarrão, em primeiro lugar, e enquanto se espera da química o cumprimento de um preciso dever, ou seja aquele “de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos (fornecidos gratuitamente pelo Estado) em pó ou pílulas” invenção única, apta a nos fazer alcançar “uma real diminuição do preço da vida e dos salários, com relativa redução das horas de trabalho”; na espera desse dia, então, poder-se-á realizar a refeição perfeita, que exige uma harmonia original da mesa (cristais, louças, ornamentos) com os sabores e as cores dos alimentos e originalidade absoluta dos próprios alimentos.

169

Cozinha futurista.indd 169

7/4/2009 15:51:24

Fillippo Tommaso Marinetti

Na taberna de alumínio
Mas agora retornamos à Taberna Santopaladar idealizada, criada e decorada pelo arquiteto Diulgheroff e pelo pintor Fillìa, e que vocês devem imaginar como uma grande caixa cúbica enxertada, de um lado, em uma outra menor: adornada por colunas semi-incolores inteiramente luminosas e por grandes olhos metálicos, também luminosos, incrustados na metade da parede; fachada, de resto, de puríssimo alumínio, do teto ao chão. Aqui, por volta da meia-noite do domingo, haviam marcado um encontro os futuristas turineses e as pessoas por eles convidadas. Ao cumprimento do ritual estavam presentes, entre outros, S. Exª. Marinetti, Felice Casorati, o pintor Peluzzi, o pintor Vellan, o escultor Alloati, o professor Guerrisi, alguns jornalistas; não faltavam várias belas senhoras, em toilettes deliciosamente passadistas. Speaker oficial, ou seja o anunciador e o ilustrador de cada um dos pratos, era e não poderia deixar de sê-lo, o pintor Fillìa. Quatorze os pratos, já dissemos. Ei-los. Primeiro: Antepasto intuitivo. Não é difícil compreender que se trata, de certo modo, de uma surpresa, e de um outro, de uma preparação para o prato seguinte. Não se pode, a este ponto, esquecer que a invenção de complexos plásticos saborosos, cuja harmonia original de forma e de cor nutre os olhos e excita a fantasia antes de tentar os lábios, seja uma norma fundamental para uma refeição perfeita. Escolheremos, então, uma grande laranja, e através de um furo, liberá-la-emos de sua polpa: o esquelético invólucro nós trataremos de modo a obter a figura de uma pequena cesta, com o cabo e a redonda cavidade. Aqui colocaremos uma fatiazinha de presunto enfiado um em pedaço de grissini, uma alcachofrinha ao azeite, um pimentinha em conserva. No interior desta última será lícito enfiar um bilhetinho enrolado, sobre o qual será precedentemente escrita uma máxima futurista, ou mesmo um elogio a um convidado. Será fácil descobrir a surpresa já que rege “a abolição do garfo e da faca para

170

Cozinha futurista.indd 170

7/4/2009 15:51:24

A cozinha futurista os complexos plásticos que possam proporcionar um prazer tátil prélabial”. Em resumo, uma coisa finíssima.

Um prato com rumores e odores
Segunda: Aerovianda, tátil com rumores e odores (idealizada por Fillìa). Aqui há um pouquinho de complicações. Futuristicamente comendo, trabalha-se com todos os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição. Submetemos ao leitor algumas normas da refeição perfeita, que nos servirão para saborear completamente o sabor dos pratos vindouros: o uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Cada prato será, assim, precedido por um perfume com ele afinado, que será eliminado da mesa, mediante ventiladores. Ou como o uso dosado da poesia e da música como ingredientes imprevistos para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma determinada vianda. O segundo prato consiste em quatro pedaços: no prato será servido um pedaço de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza a ponta dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. Resultados maravilhosos: é provar para crer.

O metal que perfuma
Terceiro prato: Caldo solar (idealizado pelo cozinheiro Ernesto Piccinelli). É um consommé no qual são embalados alguns ingredientes, da cor do sol. Excelente. Quarto prato: Todoarroz (de Fillìa). É uma

171

Cozinha futurista.indd 171

7/4/2009 15:51:24

Fillippo Tommaso Marinetti coisa muito simples: um risoto à italiana, temperado com vinho, cerveja e fondue. Muito bom. Quinta rodada: Carneplástico. Este prato é um marco miliário da cozinha futurista. Transcrevemos aqui a receita, para a alegria das nossas leitoras: “interpretação sintética das paisagens italianas, é composto de uma almôndega cilíndrica de carne de vitela assada, recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes. Este cilindro, disposto verticalmente sobre a base do prato, é coroado por uma camada de mel, e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. Um prodígio de equilíbrio. Sexta: Ultraviril. Não nos demoraremos em descrições minuciosas: Basta dizer que é um prato para senhoras. Sétima: Paisagem alimentar. É o inverso dos pratos anteriores; esta é só para homens. Excelente. O mar da Itália, a Salada mediterrânea e o Frangofiat, o oitavo, o nono e o décimo pratos, servem-se juntos. Particularmente notável este último, idealizado por Diulgheroff. Pega-se um frango respeitável, e cozinha-se o mesmo em dois tempos: primeiro aferventado, depois assado. Cava-se na coluna da ave uma cavidade grande, dentro da qual colocam-se uma porção de bolinhas, das que se usam para coxim, de aço doce. Sobre a parte posterior da ave costura-se, em três fatias, uma crista de galo crua. Coloca-se no forno a escultura assim preparada, deixando-a por aproximadamente dez minutos. Quando a carne tiver absorvido bem o sabor das bolinhas de aço doce, então o frango é servido à mesa, com adorno de chantilly. Ainda foram servidos outros dois pratos, fora do programa. Um deles, oferecido exclusivamente aos jornalistas, não nos pareceu facilmente decifrável. Acreditamos ter encontrado traços de mortadela de Bolonha, de maionese, daquele tipo de doce turinês conhecido sob a denominação de creme Gianduia; mas, vinte e quatro horas depois da ingestão, após um minucioso exame de consciência, não somos mais capazes de afirmar nada. Mais simples, ao contrário, o outro prato extra,

172

Cozinha futurista.indd 172

7/4/2009 15:51:24

A cozinha futurista que o pintor Fillìa definiu Porroniana e Marinetti: porco excitado. Um salame cozido normal veio apresentado imerso em uma solução concentrada de café expresso, e temperado com Água de Colônia. O ritual, assim, está para chegar ao fim. E na hora do espumante falaram Felice Casorati, o escultor Alloatti, o advogado Porrone, Emilio Zanzi, o pintor Peluzzi e enfim S.Exª. Marinetti, que elogiou vivamente Fillìa e Diulgheroff pelos concretos resultados atingidos. Apareceram contemporaneamente: na “Gazzetta del Popolo” um divertido artigo de Ercole Moggi A taverna futurista do santopaladar inaugurada por F.T.Marinetti; no “Regime Fascista” um entusiástico artigo de Luigi Pralavorio: Macarrão já era: Carnescultura, no “Giornale di Genova” um favorável artigo de Marcaraf, A inauguração do Santopaladar. Eram os jornalistas presentes ao almoço. Em seguida, em todos os jornais italianos e estrangeiros, foram reproduzidos os artigos de Moggi e de Stradella, com clamorosos comentários e muitas fotografias reproduzindo os locais, as formas dos pratos, etc., etc. Enquanto jornalistas e fotógrafos de Roma e de Paris chegavam à “Taverna Santopaladar”, Ercole Moggi, após nova entrevista com o pintor Fillìa, publicou na “Gazzetta del Popolo” um outro artigo: Revelados os mistérios da cozinha futurista, em que eram fornecidas as fórmulas exatas das primeiras iguarias realizadas, indicava-se o custo mínimo das refeições futuristas e anunciavam-se outras surpreendentes manifestações iminentes. Sob os títulos: “Os cozinheiros futuristas em teste”- “Isto não é nada, avançaremos muito mais”- “Fillìa contra Artusi”- “Santopaladar? Ora!” os maiores jornais do mundo difundiram, discutiram e polemizaram. De Estocolmo a Nova Iorque, de Paris a Alexandria no Egito atingiam páginas inteiras de jornais ilustrados dedicados ao assunto. A cozinha futurista havia conseguido se impor e iniciava assim o período mais intenso de suas afirmações para a renovação da alimentação.

173

Cozinha futurista.indd 173

7/4/2009 15:51:24

caldeiras.. Portanto. falam da necessidade de modificar também o interior dos locais. que. por exemplo. com indiscutíveis vantagens sobre os produtos importados. logo após a nossa batalha. não apenas oferecem as maiores garantias. Em um outro campo. esquecendo-se de que na Itália existem insuperáveis produtores de fogões. porque a nossa vontade de renovação expressou-se sempre claramente a favor de todos os ramos e de todas as atividades da arte e da vida. são para sublinhar as adesões dos diversos jornalistas. etc. etc. etc. da cozinha futurista) o qual aborda o problema da decoração dos locais onde se consomem vinhos e bebidas italianas. Pittalunga. etc. fornos. fornos elétricos. redator-chefe do “Giornale Vinicolo Italiano” (que inteligentemente se ocupou. Muitos restaurantes adotam fogões elétricos. Eis os pontos principais do seu artigo: “Há tanta gente. que pode gostar das formas arquitetônicas antigas e degustar vinhos modernos (preparados nos ultramodernos estabelecimentos enológicos!) entre os muros de 174 Cozinha futurista. mas são estudadas de tempos em tempos de acordo com a necessidade de aplicação e funcionamento. é digno de nota também o artigo do Dr.. O Eng. mas infelizmente continuam a recorrer aos estrangeiros.S para esta produção italiana e sublinhava como infelizmente os proprietários dos grandes restaurantes são ainda desconfiados a respeito das máquinas que.indd 174 7/4/2009 15:51:24 .P. construtores.Fillippo Tommaso Marinetti As discussões sobre a cozinha futurista não deveriam naturalmente limitar-se somente ao campo alimentar. Alamanno Guercini. neste mundo. de dar um ar de modernidade às Feiras de produtos agrícolas e industriais. No manifesto da cozinha futurista fala-se com precisão da necessidade de servir-se da eletricidade e de todas as máquinas que aperfeiçoam o trabalho dos cozinheiros. ultimamente nos fazia notar a intensa propaganda da S. em muitos escritos. de apresentar os alimentos e os produtos da cidade e do campo segundo o espírito dos nossos tempos.E. isto é. arquitetos.

Nós devemos dominar as nossas predileções artísticas pessoais e percorrer aquelas vias mais úteis e prático-econômicas de propaganda vinícola que parecem dar resultados. Esta gente não pensa de fato que naquelas épocas remotas a uva era esmagada com os pés.500. explodiram na construção das enormes tinas de 80. não atribuem a isso nenhuma importância. que o vinho poderia hoje procurar e encontrar na arte dos inovadores. apresentação. é entretanto bebida que se renova anualmente. somente 1. ensurdecidos pela música selvagem à base das “jazz-band”. com respeito a todas as opiniões. no que concerne a arquitetura.indd 175 7/4/2009 15:51:24 . e após terem tentado ovalizar-se ao máximo. ou se por acaso pensam. na genialidade dos futuristas. pavilhões. Até mesmo os pobres tonéis seguem o influxo do modernismo. que se moderniza com o progresso multiforme: é uma bebida dinâmica. Parece-me.A cozinha futurista construção medieval. publicidade. que contém carburante-homem e carburante-motor. restaurantes. Se o vinho é uma bebida de tradição antiquíssima. em Roma.000. Provavelmente não querem nem mesmo lembrar que os barris de madeira cujos arredores são abundantemente decorados vão – ai de nós! – diminuindo de importância nas novas cantinas que adotam largamente as enormes baterias de banheiras em cimento armado em andares múltiplos. Com isto.000 litros de capacidade.000 litros. ou nas catacumbas estranhamente complicadas. decoração.000 foram reservados aos barris de madeira. que 175 Cozinha futurista. não se negará nem se criticará qualquer outra iniciativa da arte para valorizar o vinho: apenas se solicitará que se abram as portas aos artistas de vanguarda e à sua atividade artística e publicitária. uma aliança muito apreciável. de 4. Por exemplo: em um estabelecimento de recente edificação.

antes de construir stands. economia. cerveja. Muitos catálogos de vinhos franceses são publicações completamente futuristas. da propaganda e valorização do vinho italiano. de organizar a publicidade. Em Paris.indd 176 7/4/2009 15:51:24 . As direções das feiras e das mostras poderão fazer muito. consumidores. centenas de bares são em estilo futurista. licores. pouquíssimas e esporádicas foram até hoje as tentativas. aquele da economia: que não deve ser menosprezado nestes momentos difíceis. numerosos pavilhões de vinhos. Na Itália. restaurantes. eram de estilo racional. no campo da propaganda vinícola! E se os futuristas italianos se ocuparem com fecunda e prática atividade. E o mais moderno e mais animado era o restaurante italiano idealizado pelos arquitetos futuristas Fiorini e Prampolini. especialidades. catálogos. Quero acreditar que em 1932. na Mostra Colonial. Nos concursos regulares dos pavilhões que tem por objeto o vinho. se manifestações vinícolas acontecerem em Roma. etc. Neles há higiene. É tempo de exaltar e propagandear o vinho com os mesmos critérios da modernidade. elas se aproveitarão largamente das novas formas de arte. comerciantes. esplendor de metais e de cristais. 176 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti por muitas razões se pode imaginar bem aceita por um extenso público de produtores. aos numerosos valores dos locais modernos. em Berlim.. do futurismo. farão coisa útil e boa. cartazes futuristas. Em Paris. em Viena. Em Pádua. E pode-se acrescentar. Deve haver lugar para todos. bela e que cumpre sua função. espaço. enquanto o trabalho destes artistas italianos é apreciado no exterior. industriais. o Pavilhão de Arte Sacra é uma realização racional verdadeiramente útil. os vinicultores deveriam considerar seriamente as concepções artísticas novadoras. aplicados praticamente.

que todas as conferências de Marinetti eram freqüentemente seguidas por clamorosas discussões a favor e contra o macarrão. Saladin. fez. 177 Cozinha futurista. a propósito da cozinha futurista.“Amici dell’Arte di Novara”. escrevendo no “Giornale Vinicolo Italiano”. nas quais exaltou e impôs à atenção do público os valores da nova cozinha: . as seguintes conferências. . Zucco. . inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. .“Sala dell’Effort” em Paris. .“Galleria Vitelli” de Gênova. Diulgheroff.“Circolo Sociale” di Cúneo. de fevereiro de 1931 a fevereiro de 1932. . também desta forma. em frente a imensas multidões. . Oriani.indd 177 7/4/2009 15:51:24 . . na abertura da Mostra do grupo vanguardista e futurista “Sintesi”.Conferências futuristas em Budapeste. Pozzo. Conferências Cozinhárias A polêmica sobre a cozinha futurista era tão intensa e presente em cada um. Mino Rosso.Turnê de propaganda em diversas cidades da Tunísia.A cozinha futurista Eu já esperava isto há um ano. . E agora convidamos os artistas inovadores a colaborar conosco. na intenção de servir. na abertura da Mostra pessoal dos pintores futuristas Fillìa e Zucco.“Circolo degli Artisti” de Trieste.“Galleria Botti” de Florença. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. durante a Mostra de Aeropintura Futurista. a favor e contra os novos pratos futuristas. inaugurando a Mostra dos pintores futuristas Fillìa. Alimandi e Vignazia.“Institutos Fascistas de Cultura” de Brescia e Cremona. Marinetti. aos interesses vinícolas nacionais”.

Ele me olha e sorri irônico. por ocasião da Mostra dos grupos futuristas turineses e ligúrios. – Comer no futuro… que poderia haver de mais futurista? 178 Cozinha futurista. para inovar. vinhos. espumantes. Eis como o diretor do jornal “A Itália Jovem” descreveu em um brilhante artigo o acontecimento: “É realmente um pecado que sobre este jantar futurista . carnescultura. A refeição futurista de Novara Durante a “Mostra de Arte Futurista” no Círculo dos Amigos da Arte de Novara. Presidente da Federação dos Comerciantes.Fillippo Tommaso Marinetti .“Teatro Nacional” de Savona. por iniciativa do Dr.indd 178 7/4/2009 15:51:24 . todoarroz. O horário estabelecido para o banquete já havia passado há muito e ninguém falava em finalmente dar princípio a este convívio luculiano. docelástico. eu achava que os futuristas.Conferências em Sofia e Istambul.realizado domingo. A lista era composta pelas seguintes novidades: Antepasto Intuitivo. .Escute. caro. mar da Itália. foi organizado. Aproximo-me de… . Rosina. aerovianda (tátil. em Novara – ninguém tenha escrito um processo verbal estenografado consagrando ao futuro os comentários com que Fillìa preanunciava os pratos. teriam antecipado mas ao contrário há a mesma espera asfixiante como em todas as refeições deste mundo burguês. fruta simultânea. frangofiat. 18 de abril. cervejas. um banquete dirigido pelos futuristas Fillìa e Ermanno Libani. no atraso são passadistas vocês também. com rumores e odores). perfumes e músicas da Itália.

entenda-se o Deus dos futuristas. tudo atravessado por pequenos bastões de grissini que. É composto por uma fatia de erva-doce. abertos e lidos em voz alta com grande deleite para os presentes: Emanuelli é o maior jornalista. as quais devem ser levadas à boca contemporaneamente com a mão esquerda. um perto do outro. Em relação aos odores. aquilo que Fillìa nos apresentará na mostra de arte sacra de Pádua. É convicção geral que este prato será na realidade pulado completamente para ser fiel à sua definição de intuitivo: mas não. A Aerovianda E chegamos à Aerovianda: é um prato que não aconselho aos esfomeados. assinado Enrico Emanuelli.A cozinha futurista O início da refeição Como Deus quer. segundo informações seguras de estudiosos do gênero. eram já utilizados mesmo há vinte anos. servirá apenas para tocar com a mão direita dando sensações pré-labiais que tornam saborosíssimas as iguarias.indd 179 7/4/2009 15:51:24 . e consiste em minúsculos bilhetes encondidos dentro das azeitonas recheadas. dos resfriados. o garçom passa com um grande esborrifador espargindo a cabeça dos convidados (sugerimos a Fillìa servir uma outra vez tal lavagem capilar. 179 Cozinha futurista. Estes bilhetes são cuspidos. um pedaço de veludo. dos homens calvos). um pedaço de seda e um pedaço de lixa: não é obrigatório – explica Fillìa – comer a lixa. para a incolumidade. sentamo-nos à mesa: Antepasto intuitivo. morna. Isto também já sabíamos. Mas algo de novo existe. Servem-nos elegantíssimos cestinhos escavados em casca de laranja e preenchidos com tudo o que constituía o velho antepasto caro às nossas bisavós: salame de autêntico porco e picles Cirio. uma azeitona e uma bergamota. Há ainda um pedaço de cartolina sobre o qual estão colados.

um pedaço de banana da Austrália. Mas por que não reproduziram – pergunta. alguém – também o grunhido dos porcos? Havia salame também!! . entre risos. proprietário do hotel d’Itália. Sobre um prato ogival são dispostos sobre o maior raio pedaços de filé de peixe cozidos na manteiga sobre os quais são fixados em ordem decrescente com o auxílio de um palito de dentes. Todoarroz: um prato muito viril na forma. Servirão um prato inventado na hora pelo cavalheiro Coppo. prossegue jubilosamente: o que deixou todos em tal estado foi o anúncio de que não haverá discursos oficiais. Aqui se corre o risco de uma indigestão! Passemos ao mar da Itália que até os passadistas poderiam sem esforço introduzir no elenco das delícias de família. 180 Cozinha futurista. como certos versos de poetas modernos e como todos os químicos brilhantes.A carnescultura – grita Fillìa – é o produto de todos os jardins da Itália. Terminado o todoarroz. uma cereja confeitada. Ótimo. Os garçons servem enquanto o coaxar das rãs é reproduzido por uma “battistangola”.indd 180 7/4/2009 15:51:24 . 2 Instrumento de ferro ou madeira.2 Arroz e feijão. um pedaço de figo. e composto basicamente por arroz temperado com vinho e cerveja. precisam de muita penumbra. Um pouco da culpa é também do Grignolino quase mau-caráter. que emite som parecido com o coaxar das rãs. Comestibilíssimo: há até quem peça bis. E a digestão é protegida. ironias e sátiras. O cavalheiro Fontana me sussurra: os pratos futuristas.Fillippo Tommaso Marinetti A refeição. rãs e salame. muda-se tudo : apagam-se as luzes brancas e continuam acesas as vermelhas: semi-escuridão.

O interior do pavilhão. o sabor da nossa melhor cozinha. É um doce elástico porque colaram sobre cada um pedaço de ameixa. tinha sido genialmente decorado com 8 enormes painéis do pintor futurista Enrico Prampolini: estes painéis.A cozinha futurista Nos dois lados do prato creme de espinafre. Neste restaurante adequadíssimo. amplo salão com capacidade para mais de 100 mesas. stop. maçã. calo-me a título de protesto. O aspecto de um grotesco transatlântico.indd 181 7/4/2009 15:51:24 . A fruta simultânea é composta por diversos pedaços… de fruta descascada conectados entre si: laranja. Para nos acalmar. 181 Cozinha futurista. O grande banquete futurista de paris Na Exposição Colonial de Paris o arquiteto futurista Fiorini realizou um audaz pavilhão que sediou o Restaurante italiano. mulheres calvas e frangofiat! O docelástico é formado por modestas carolinas recheadas com creme de cores berrantes. em cima e no fundo molho Cirio. de mais lírico e de mais inventivo se pode realizar sobre o tema “colonial”. Sobre o frangofiat. quiseram realizar pela primeira vez em Paris a cozinha futurista e entraram em acordo com os pintores Prampolini e Fillìa para o preparo da refeição. as “Edições Franco-Latinas” representadas pelos senhores Bellone e Farina e pelo senhor Pequillo. fruta seca. representam o que de mais moderno. por reconhecimento geral. Fillìa tece elogios à mulher do futuro careca e de óculos: eis uma combinação de sorte. Café. Davam ao ambiente uma atmosfera simultaneamente africana e mecânica que dava esplendidamente a vontade de interpretar os motivos coloniais segundo uma sensibilidade moderna e futurista.

Toutriz (du peintre Fillìa) 7. Poulet d’acier – à surprise (du peintre Diulgheroff) Cochon excité – à surprise (d’un primitif du 2000). A lista dos pratos: 1. De fato. Hors d’oeuvre simultané (du peintre Fillìa) 4. de canto e de música. descreve assim o banquete: “Os acontecimentos que estamos para expor são de uma gravidade excepcional. Préface variée (du peintre Prampolini) 6. eram anunciados números de dança. Além de tudo. O jornalista futurista Francesco Monarchi. Gateauélastique (du peintre Fillìa) 14. Les îles alimentaires (du peintre Fillìa) 8. Machine à goûter (du peintre Prampolini) 12. Excitant gastrique (du peintre Ciuffo) 5. Paradoxe printanier (du peintre Prampolini) 13. redator-chefe da Nova Itália. Estavam representados os maiores jornais franceses. Carrousel d’alcool (du peintre Prampolini) 3. Les grandes eaux (du peintre Prampolini) 2. Viandesculptée (du peintre Fillìa) 11. Vins – Mousseux – Parfums – Musiques – Bruits et chansons d’Italie. o mero anúncio da refeição futurista havia levantado entre os compatriotas “bempensantes” uma onda de reprovações e de comentários hostis que ameaçavam uma complexa insurreição es- 182 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti A multidão que se empurrava na noite da manifestação para intervir no grande banquete era a melhor de Paris. tactile. entre um prato e outro. Aéromets. 10. Equatore + Polo-Nord (du peintre Prampolini) 9.indd 182 7/4/2009 15:51:24 . bruitiste et parfumé (du peintre Fillìa).

o Príncipe de Scalea. a festosa alegria do ambiente animado pelos enormes painéis de Prampolini. S. que. já que esses passarão para a história como precursores no degustar a cozinha do futuro. Palidíssimas de emoção (palidez que entretanto aumentava sua graça). mantinham o mistério do iminente ritual. não ousavam penetrar na sala. porque segundo eles. na realidade. as duas senhoras estavam na impossibilidade absoluta de animar os temerosos. dos perfumes.indd 183 7/4/2009 15:51:25 . sempre sensível a qualquer manifestação italiana. os títulos das iguarias podiam dar margem às mais negras apreensões e a complicação das músicas. a inclemência do tempo e o terror do acontecimento. Contrariamente aos nossos hábitos. não devem jamais ser tocadas. No entanto. o imponente aparato do pessoal de serviço e a branca calma tradicional das mesas postas. enfrentando a distância. Exª. Ex. *** Na entrada. Somente as faces enigmáticas de Prampolini e Fillìa. dos rumores e das canções representava absolutamente um pesadelo dificilmente superável. recebiam os heróicos convidados. organizadoras do evento junto com as Edições Franco-Latinas. a senhora Belloni e a senhorita Farina. em uma última dúvida angustiante. a segurança eletrizante de S. especialmente as gastronômicas. Apesar desta onda de pessimismo. dos pratos táteis. estava à mesa de honra com alguns membros de seu 183 Cozinha futurista. Estes bempensantes achavam indigno o caráter revolucionário dos pratos anunciados. reunidos na soleira.A cozinha futurista piritual. muitos corajosos. Marinetti. as tradições. transmitiram a coragem das próprias ações ao titubeantes. Por dever jornalístico devemos registrar que. idealizadores dos pratos futuristas. daremos uma ampla lista de nomes. encheram o salão do Pavilhão futurista na noite da última quarta-feira.

etc. Madame Castello. o Regente do Fascio doutor Saini.. etc. Madame De Flandreysy. secretário administrativo do Fascio. a senhorita Budy. Notamos: a Marquesa de San Germano. o doutor Lakowsky. Madame Lakowsky. o Conde Emanuele Sarmiento. com o representante do Ministro Reynaud. o advogado De Martino. *** Às 21h30 um soar de gongo formidável reconduz os presentes à realidade das coisas. Durio. Madame Madika. Miss Moos. mas primeiro resultado satisfatório. a Senhora Pequillo. Madame Ny-eff. Muitas e elegantes senhoras haviam corajosamente desafiado a aventura. Madame Van Donghen. Madame Massenet-Kousnezoff. 3 vinho tinto do Piemonte 184 Cozinha futurista. entre os quais o Comendador Dall’Oppio e o Marquês de San Germano. Madame Tohaika. Madame Mola. o crítico de arte Eugenio D’Ors da Academia de Madri. Vittorio Podrecca. a senhorita Cirul. tanto que alguns repetiram.indd 184 7/4/2009 15:51:25 . Uma imprevista luz verde torna ainda mais espectrais os comensais. São anunciadas as duas misturas-aperitivos criadas pelo pintor Prampolini: “As grandes águas” e “Carrossel de álcool”. o conhecido pintor Sepo. a Condessa De Fels.Fillippo Tommaso Marinetti Comissariado. o senhor Cartello. o deputado Ciarlantini. Surpresa geral ao pescar em uma chocolate e queijo navegantes em Barbera3 . sidra e bitter e de recolher na outra uma cândida cápsula envolvendo uma dose de anchova. Algumas caretas. etc. Em outras mesas: o advogado Gheraldi da Sociedade dos Autores. a Senhora Podrecca. o cavalheiro Gennari do Diretório. o senhor Pequillo das Edições Franco-Latinas.

cereja. Retorna inexorável o imponente desfile de garçons que trazem agora as “ilhas alimentares” de Fillìa. ovos e parmesão. A “Aerovianda” é composta por frutas e legumes diversos que são comidos com a mão direita sem a ajuda de nenhum talher. vinho. banana.indd 185 7/4/2009 15:51:25 . A sala ribomba pelos gritos das senhoras violentamente aspergidas com perfume. o “estimulante gástrico” (rodela de abacaxi com sardinha. veludo e seda. se alarmaram pelas suas formas audazes. a arte moderníssima desta dançarina de exceção é dificilmente superável. Primeiro intervalo: a senhorita Jole Bertacchini. anuncia a Aerovianda do pintor Fillìa. Nenhuma trégua: o “Todoarroz Fillìa” é anunciado como uma mistura de arroz. cerveja. que se havia oferecido para ilustrar os pratos. 185 Cozinha futurista. O “antepasto simultâneo” de Fillìa (casca de maçã triturada. azeitona. do San Carlo de Napoli. a orquestra entoa um barulhento e violento jazz. canta deliciosamente e é muito aplaudida. excelente união de peixe. É devorado pelos comensais que começam a modificar seu primitivo estado de ânimo. tomates e espinafre. figo. posto que talvez apenas ela tenha compreendido quanta beleza possa derivar de uma interpretação absolutamente nova e genial da dança. o Conde Sarmiento. conquistaram rapidamente a simpatia dos paladares. tomates e confeitos). ovos. pelos risos gerais e pelos aplausos definitivos e intermináveis. e os garçons esborrifam na nuca de cada comensal um forte perfume de cravo.A cozinha futurista Três antepastos servidos contemporaneamente cortaram pela raiz as polêmicas sobre os aperitivos. enquanto a mão esquerda acaricia um prato tátil formado por lixa. atum e nozes) e o “início variado” de Prampolini (manteiga. Outra interrupção e Mira Cirul inicia as suas danças que suscitam um grande e continuado entusiasmo. salame e anchovas). Quando começava-se a criar um certo hábito pela cozinha futurista. Na verdade. Ao mesmo tempo.

o Polo Norte + Equador de Prampolini. Marinetti com sua 186 Cozinha futurista. demonstrou mais uma vez sua excepcional qualidade de voz que lhe deram fama mundial. Depois de ter louvado as criações gastronômicas dos pintores Prampolini e Fillìa. foram reservados a apenas dez pessoas dois pratos surpresa. e após ter relevado a magnífica organização da noite por parte das “Edições Franco-Latinas”.indd 186 7/4/2009 15:51:25 . o “Paradoxo de primavera” e a “Máquina de degustar” de Prampolini. em duas interpretações. que havia participado do banquete não somente presidindo-o mas intervindo a todo momento nas discussões e na exaltação das iguarias.Fillippo Tommaso Marinetti (Apenas uma pessoa permanecia alheia ao entusiasmo geral: imediatamente interrogada descobriu-se que era canhota – por isso esfregava o prato tátil com a direita enquanto comia com a esquerda). Desde já a renovação da cozinha futurista havia triunfado. O corpo do frango mecanizado pelos confeitos de coloração alumínio. com mais de 2000 artigos e demonstrou o sentido de arte-vida que sempre animou as atividades futuristas. Entre os diversos pratos. elogiou o jantar futurista como a primeira realização em Paris do célebre manifesto da cozinha futurista. S. foram apreciadíssimos. O senhor Roberto Marino. o “Docelástico” de Fillìa. Outro intervalo: a Senhora Maria Kousnezoff. acompanhada ao piano pelo Maestro Balbis. cantou depois admiravelmente algumas canções napolitanas. O “Frango de aço” de Diulgheroff e o “Porco excitado”. da Ópera e do ex-teatro imperial de São Petersburgo. *** S. A Carnescultura de Fillìa. manifesto que suscitou uma polêmica mundial. Exª. da Ópera de Monte-Carlo. e o salame imerso em um molho de café e água de colônia foram declarados excelentes. Marinetti. Exª. apesar da audácia de formas e originalidade de conteúdo.

A Baker recebeu a mais festiva acolhida e participou do final da excepcional noite que se fechou com danças animadíssimas. com muito espírito.indd 187 7/4/2009 15:51:25 . Além disso. na verdade. em que inaugurou-se uma Mostra de Arte Futurista. no Corriere della Sera e em muitos outros jornais ita- 187 Cozinha futurista. Exª. *** Enquanto se renovam os aplausos ao breve e vivo discurso de Marinetti. acompanhada pelo senhor Abbatino. Marinetti sobre “Futurismo mundial”. em todos os jornais lígures. S. a definitiva superação entre os convidados de suas últimas dúvidas sobre as conseqüências da cozinha futurista. a 22 de novembro de 1931. aludiu então aos números de canto e dança sobressaltando o proposital contraste da parte lírica (exclusivamente tradicional) com o futurismo integral do jantar e das danças. Marinetti. realizou-se o Circuito de Poesia (ganho pelo poeta triestino Sanzin) e uma conferência de F. aparece na sala Joséphine Baker. teve um papel importantíssimo no bom êxito da festa: ao seu irresistível fascínio deve-se. Longos artigos foram dedicados ao acontecimento. mais de 300 pessoas participaram do grande aeroalmoço realizado no Hotel Negrino: lá encontravam-se as maiores autoridades da Cidade e da Região. Joséphine Baker transformada subitamente no centro das atrações mais vivo e completo.A cozinha futurista habitual eloquência homenageou a coragem dos presentes e observou com satisfação o contentamento geral. uma jornada futurista.” O aeroalmoço futurista de chiavari O Comendador Tapparelli organizou admiravelmente em Chiavari. T.

ao exame dos dentes. mas a um certo temor racional. de nozes e de tâmaras: tâmaras que se revelaram.Fillippo Tommaso Marinetti lianos. Tâmaras surpresa O almoço. em meio a uma profusão de abacaxis. Cada prato foi escrupulosamente preparado pelo célebre cozinheiro Bulgheroni. entre a mais viva expectativa dos presentes. para romper com os seus molhos a maciça porta fechada dos ravioli e do macarrão. 188 Cozinha futurista. desabrochou uma espécie de pudim que deixou cada esôfago engasgado de admiração. cheias de uma surpresa quase ciclópica: elas estavam cuidadosamente recheadas de anchovas de modo que. é um bruto materialista. mísera e desconcertada. muitos dos quais sentiam na cavidade gástrica um certo tremor que não era de todo devido ao apetite. como se sabe. uma espécie de orgia carnescultural que se desenrolou nos salões do Hotel Negrino e que submeteu a uma dura prova o estômago de uns trezentos convidados. por uma cabeça de vitelo nadando. Era composta. destes abacaxis e com estas frutas africanas misturadas a peixe.indd 188 7/4/2009 15:51:25 . especialmente vindo naquele dia de Milão a Chiavari. esta empada. Damos aqui os pontos essenciais do brincalhão artigo de um redator do Corriere Mercantile: “A parte forte do dia – parte forte ao menos para o cronista ávido de divagações e desejoso de ocasiões para os assim chamados parênteses de cor – foi sem dúvida o “Primeiro aeroalmoço futurista”. desta inocente cabeça. iniciou-se com uma Empada de aquecimento: uma espécie de antepasto talvez poético demais para ser apreciado devidamente pelo estômago que.

acomodadas sobre aeroplanos de miolo de pão. nome que designava um brodo de natureza bastante bizarra. de champagne e de licores: sobre esta mistura. seu aparelho digestivo em condições não de todo normais. de modo que não se podem reprovar os que não souberam reprimir um instintivo gesto de terror no momento em que apareceu a taça contendo o “alimento conclusivo”. então. enxugá-la com o guardanapo e guardá-la na carteira como recordação do almoço e como testemunho de um banquete a ser contado. porém mais de um com evidente covardia. audaciosamente com um Decolapaladar. misteriosíssimas almôndegas sobre cuja composição não é belo nem útil indagar. Muitos dos convidados já tinham. Alimento que se vangloriava de 189 Cozinha futurista.A cozinha futurista As rosas em brodo Prosseguiu-se. Belos os aviões. renunciou a levá-lo a cabo e contentou-se apenas em tirar do prato uma pétala de rosa.indd 189 7/4/2009 15:51:25 . mais tarde. que como nunca então pareceu um alimento precioso e divino. De qualquer modo. menos belas as almôndegas. que consiste em uma combinação discretamente diabólica. a esta altura. ou seja. vagas e frágeis. aos netos. grandes pétalas de rosa. Teve lugar o terceiro prato. onde fatias de beterraba e fatias de laranja faziam complô aliadas a azeite. os convidados tentaram corajosamente o experimento da deglutição. Postos diante de tal obra prima da lírica brodística. vinagre e pitadas de sal. nadavam. Eletricidade atmosférica confeitada E eis que aparecem os garçons com grandes bandejas carregando o “servovoadinhas de pradaria”. este prato esteve entre os mais apreciados como aquele que ofereceu a muitos dos convidados o direito de saciar sua fome ao menos com pão. “Boi na fuselagem”. que para os iniciados deve ter extraordinárias virtudes apetitivas. composto por partes quase iguais de caldo de carne.

irrompeu em um violento sermão contra a infâmia do macarrão e o vitupério dos ravioli. ao Amarração digestiva: amarração que nem todos realizaram. recebeu ontem à noite às 21h30 ( também o horário era ligeiramente fora 190 Cozinha futurista. uma importante Mostra de Aeropintura que foi inaugurada por F. T. no confronto. e o salão da Casa do Fascio.indd 190 7/4/2009 15:51:25 . Estas queridas e inesquecíveis “eletricidades” tinham a forma de coloridíssimos sabonetes de mármore fingido. assim. levantou-se o poeta Farfa. A seguir os mesmos pintores. infelizmente não sabemos os nomes. Dizemos infelizmente porque um tal grupo de heróis merecia. no início do banquete. exaltando. Chega-se. que declamou com ímpeto aviador um hino quase pindárico intitulado ‘Tubulação’ ”. dado que muitos já estavam aprofundados no momento da decolagem. contendo em seu interior uma massa doce formada por ingredientes que só poderiam ser precisados após uma paciente análise química. Marinetti em 12 de dezembro de 1931. O aerobanquete futurista de bolonha Os pintores futuristas Caviglioni e Alberti organizaram em Bolonha.Fillippo Tommaso Marinetti um nome excessivamente dinâmico: “Eletricidade atmosférica confeitada”. que apenas uma mínima parte dos banqueteadores ousou levar este sabonete à boca: daqueles que ousaram. entre a maior expectativa. com admirável eloquência que lhe escapava espontânea como se ele não tivesse tocado na comida. Ao sentar-se Marinetti. escolhido pelo especialíssimo desafio culinário. serviram na Casa do Fascio um grande Aerobanquete (cujo preço era de 20 liras por pessoa). que foi assim narrado no Resto del Carlino: “O sucesso de curiosidade do Aerobanquete foi enorme. ao menos. E levantou-se a falar Marinetti que. pelo escrúpulo de cronistas. os pratos futuristas e particularmente as tâmaras anfíbias das quais. no Círculo dos Jornalistas. Devemos dizer. ser eternizado em uma lápide de bronze. foi possível provar um inesquecível ensaio.

191 Cozinha futurista. como costuma acontecer nos aviões autênticos). As mesas foram dispostas com inclinações e ângulos. senhoras e simples gourmets. Entre as asas uma grande hélice – parada. jornalistas. idem idem. e é preciso confessar que a forma se presta extraordinariamente ao cozimento perfeito da massa e ao seu abiscoitamento. No lugar das toalhas de sempre encontramos folhas de papel prateado. e pior para quem não sabe distinguir entre as coisas que servem ao prazer do estômago e aquelas destinadas à alegria dos olhos. que veio para sancionar com o sagrado selo do Studio. (Desabitada. coloridas grosseiramente e entalhadas artísticamente. ou kipfel vienense. que na fantasia dos promotores queriam ser alumínio. para nossa sorte! . mas pãezinhos propositadamente modelados. Os copos são os de sempre. mas não há absolutamente flores. elas são substituídas por batatas cruas. dando a impressão de um avião. Como no avião O Aerobanquete justificou o próprio nome através do cenário criado pelos organizadores. e uma chapa de lata polida serve como apoio de prato onde as senhoras controlam – Oh! o delicioso espelho de sorte – sua comprometida maquiagem. pintores. Aqui as asas – mas finas e estreitas como em um hidroplano de alta velocidade – aqui a fuselagem. Nada das rosetas comuns ou bastões à moda francesa. mais atrás dois cilindros de motocicleta. o rebelde movimento de ódio ao macarrão.A cozinha futurista dos padrões!) muitas pessoas. Ghigi. que reproduzem a forma de um monomotor ou de uma hélice. E entre as autoridades estavam o Governador da Província comendador Turchi e o Reitor magnífico da Universidade prof. A síntese das mesas é evidente. lá no fundo a cauda. Outra descoberta autêntica: o pão. promovidos pela ocasião a motores de avião. Pouquíssima coisa visível. entre as quais notavam-se personalidades e autoridades. os pratos e os talheres..indd 191 7/4/2009 15:51:25 .

mas o molho – ah. O risoto de laranjas… O aerobanquete é inaugurado de modo levemente passadista: com o antepasto. onde o arroz é sempre aquele… o mesmo. sejamos sinceros. 192 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Última constatação: os garçons usam um colete de celulóide de cor azul. provoca certa inquietude nos escalões. mas não nos parece nada além de uma salada russa alten-styl. E com pequenas fatias de laranja fritas doura-se a palidez da iguaria. mas repentinamente a sala imergiu em uma diáfana luz azul e um motor começa a funcionar na sala ao lado. enquanto o pintor Alberti.indd 192 7/4/2009 15:51:25 . O pintor Alberti anuncia gravemente – mas por que aquele senhor sorri? – que o avião voa a oito mil metros de altitude e Marinetti confirma com autoridade explicando: . Excelência Marinetti rebatiza o prato assim: risoto de laranja. o molho! – é a base de laranja. O cardápio fala de “Estrondos ascensionais” mas S. exibe um pomposo e muito chamativo colete deperiano4 de mil cores. E a laranja foi coberta com manteiga colorida rosa… Antes porém que os pareceres sobre o prato de inauguração se difundam. o prato número dois apresenta-se majestosamente entre os “oh” dos presentes. O risoto de laranja. O qual se chama “aeroporto picante”. … e os rumores “nutrientes” Temíamos o advento de qualquer complicação. com o acréscimo de uma fatia de laranja casada com uma fatia de ovo cozido e uma azeitona.Observem como o barulho dos motores favorecem e nutrem o estômago… É uma espécie de massagem do apetite… 4 Relativo ao pintor futurista Fortunato Depero. diretor do refeitório.

Justíssimo… Eu deveria tê-la encostado ao ouvido. – E uma homérica risada recebeu a piada. Exª. afirmando que a oito mil metros de altitude os alimentos não possam manter-se fervendo… Pouco depois o chefe do futurismo dirige a própria ofensiva contra o pacífico doutor Magli. Mas também o prato central – ou seja. não sente nenhuma saudade. os comensais se prestam a mordiscar as asas dos aviões panificados.Isto – exclama – é passadista. E o carburante nacional (vulgo vinho das nossas colinas) avança triunfalmente. representante dos Aqueus.Queremos o carburante nacional. aos tortellini com molho. . É o vinho em galões. S. as duas castanhas junto com uma lingüiça não produzem mais nenhuma impressão! Um pecado que a carne – depois do habitual giro de apresentação em volta das mesas – chegue quase fria. Marinetti. Trata-se na verdade de um escalope de vitelo. para ouvir se relinchava. O vinho em … latas. Isto não é valo… E Magli num reflexo: .A cozinha futurista Finalmente se desce novamente da “estratosfera” culinária. para 193 Cozinha futurista. e o acompanhamento compreende duas cebolinhas e duas castanhas fritas. E não adianta que S. interrogando-o por que ousara cheirar a carne antes de experimentá-la. Ele é entusiasta do simpósio e pede aliás aos cozinheiros que façam-se presentes. aliada a uma lingüiça fina. mas em voz baixa. é futurista somente nas nuances. E é um sucesso indiscutível. para se dizer a verdade.indd 193 7/4/2009 15:51:25 . O prato. entre uma taça de carburante nacional e um aceno nostálgico. ao contrário. servido de algumas latas de óleo extradenso. Marinetti aumente o seu… gelo. O Aerobanquete prosseguiu assim entre um prato e uma piada. . Mas depois dos experimentos a base de laranja. (Seria necessário outro). e a multidão não encontra nada melhor que colocar-se a bater furiosamente sopre os pratos de lata. o “Carnescultura com fuselagem de vitelo” – chega. e na expectativa do prato central.Exª. promovidos assim ao posto de “entoarumores”.

mesmo se os anos nos acenam com suas chuvas e suas neblinas. Queremos para tanto que a cozinha italiana não se torne um museu.Meus senhores. Temem ser satirizados e parece que dizem em seu mudo discurso: .indd 194 7/4/2009 15:51:25 . a trincheira da massa com ovos. Afirmamos que a genialidade italiana é capaz de inventar outros três 194 Cozinha futurista. acolhidos pelos aplausos de Marinetti e seus sequazes. proclamando: . perdoem-nos. de onde o macarrão está definitivamente em retirada. De fato. porque.Fillippo Tommaso Marinetti aplaudi-los. dois cordons bleus da Casa do Fascio fazem sua entrada. Os tagliatelle – diz – são agora a última trincheira dos passadistas. mas a culpa não é nossa… Abaixo a “cozinha-museu” Iniciado pelo antepasto. – Venham os cozinheiros. mas os tagliatelle são outra coisa!” Por fim. Mas os dois cozinheiros estão incertos. e Marinetti repete a interpelação. o banquete encerrou-se com discursos.Não vêm porque têm medo de nós! Mas trata-se de evidente calúnia. como por exemplo o arroz temperado com laranja. Nós queremos manter a nossa antiga vitalidade goliardesca. então o doutor Magli expressou os sentimentos dos “tagliatelistas”. é a luta contra o peso. enquanto um anônimo enviava um telegrama em que dizia textualmente: “Abaixo o macarrão. a barriga. Teceu então elogios à cozinha futurista. levantou-se a falar a medalha de ouro Onida. A cozinha futurista é a realização do desejo geral de renovar a nossa alimentação. levantou-se Marinetti para declarar que a sua eloquência estava literalmente tampada pela suculência variada e deliciosa das aeroiguarias degustadas. logo depois. algumas das quais – acrescentou – são achados importantíssimos. Mas os solicitados demoram a vir. a obesidade. – E então uma voz clara se levanta do fundo da sala. tudo bem. O nosso esforço tende a militarizar todas as nossas jovens forças.

exaltados. As mulheres de Áquila que nunca antes se haviam preocupado.A cozinha futurista mil pratos. com a ponta de um garfo que fazia as vezes de buril”. Com uma nova explosiva saudação aos colaboradores bolonheses.I. depreciados. Paris. invenções e humorismos sugeridos pela cozinha futurista e pela sua realização. nem mesmo com problemas importantíssimos. S. igualmente bons. 195 Cozinha futurista. Esta carta foi dirigida a Marinetti. Marinetti concluiu o seu discurso e o Aerobanquete terminou. enquanto os comensais levavam como recordação os pratos de lata. Anedotas típicas Além dos milhares de artigos nos quais eram discutidos. 3) Houve em Nápoles cortejos populares a favor do macarrão. tão profunda era nelas a fé no macarrão. porém mais adequados à sensibilidade modificada e às necessidades modificadas da geração contemporânea.indd 195 7/4/2009 15:51:25 .Exª. 2) Apareceu nos jornais de Gênova o comunicado da fundação de uma Sociedade chamada P. julgaram necessária esta sublevação coletiva. condenados e defendidos os grandes banquetes futuristas de Torino. ( Propaganda internacional contra o macarrão) que abria vários concursos para combater a iguaria odiada e inventar novos alimentos. Novara. nos quais o chefe dos futuristas foi obrigado a marcar a própria assinatura. Chiavari e Bolonha.A. em todas as revistas ilustradas ou diretamente entre o público. um número incalculável de mulheres se reuniu para assinar uma solene carta-súplica a favor do macarrão. São típicas as seguintes anedotas: 1) Em Áquila.P. um enorme número de caricaturas e de anedotas circulava em todos os semanários. Seria possível formar diversos volumes recolhendo toda a explosão de bizzarria.

em Bolonha. os mais célebres cozinheiros organizaram um congresso para decidir o mérito da cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti 4) Em São Francisco. um novo sentido de otimismo e de alegria dissipou o nostálgico e cinzento hábito dos velhos jantares e os futuristas. 9) Representou-se em Turim uma opereta de Sparacino e Dall’argine intitulada “Santopaladar”. e aconteceram então discussões e polêmicas violentíssimas entre os dois partidos. No entanto. Califórnia. Alguns feridos. situadas uma no térreo e outra no primeiro andar de uma casa popular. comeu avidamente um prato de espaguete: somente depois os comensais perceberam que Marinetti não era nada além de um estudante habilmente maquiado. para o espanto de todos. preparam outras inovações originais. Marinetti que. chegou de improviso F. um teatro de revista intitulado “carnescultura”. 7) Apareceram em algumas revistas de grande tiragem fotografias de Marinetti no ato de degustar o macarrão: eram montagens fotográficas executadas por experts adversários da cozinha futurista. durante um grande jantar estudantil. os clientes de duas trattorias italianas. enquanto alternam-se as polêmicas. 8) Representou-se.indd 196 7/4/2009 15:51:25 . 5) Em Turim. 196 Cozinha futurista. 6) Em Bolonha. declamaram-se pró e contra a cozinha futurista. T. que tentavam assim desacreditar a campanha por uma nova alimentação. e aconteceu então uma clamorosa batalha pelas janelas e na rua com projéteis comestíveis e panelas. superando as primeiras realizações.

Inadequada a leitura de um livro ameno. será aberto e recheado 5 Peixe da família dos mugilídeos. espiritualizá-la e dinamizá-la. Coloquem. dos filhos ou em cartas apaixonadas.A cozinha futurista Os cArdápiOs FuturistAs sugestivos e determinantes A cozinha futurista propõe não somente uma revolução completa na alimentação da nossa raça. com o intuito de torná-la leve. Combinamos programas de refeições a que nós chamamos SUGESTIVAS E DETERMINANTES. A cozinha futurista propõe-se ainda. mediante a arte de harmonizar os pratos futuristas. alcaparras e pimenta vermelha. Um passeio sonhador é igualmente inadequado. No momento de servi-lo. infusa por 24 horas em um molho de leite. procurariam em vão uma preparação perfeita no beijo doloroso de uma mãe. de uma esposa. a sugerir e determinar os indispensáveis estados de ânimo que não se poderiam sugerir e determinar de outro modo. PEIXE COLONIAL AO RUFAR DE TAMBOR: mugem5 aferventada. ao contrário. em janeiro. licor. douradas ou prateadas. Cardápio heróico invernal Os combatentes que devem subir no caminhão às 3 da tarde. com grandes escamas arredondadas.indd 197 7/4/2009 15:51:25 . ou sair em vôo para bombardear cidades ou contra-atacar tropas inimigas. onde será servido um “peixe colonial ao rufar de tambor” e “carne crua esquartejada pelo som de trompa”. São fusiformes. para entrar na linha de fogo às 4. 197 Cozinha futurista. comestíveis. estes combatentes à mesa.

pimenta preta e neve. romãs e laranjas vermelhas. Mastigar atentamente por um minuto cada bocado. durolíqüido constituído por uma bolota de queijo parmesão macerado em Marsala. mantê-la por 24 horas em uma infusão de rum. suavíssimos perfumes de rosa. Extraída da mistura. cuja doçura nostálgica e decadente será brutalmente refutada pelos combatentes. No momento do Paraselevantar. Eletrocutá-la com correntes elétricas. madressilva e acácia. que colocarão como raios a máscara contra gás asfixiante. engolirão o Explosãonagarganta.indd 198 7/4/2009 15:51:25 . um pintor ou um escultor que deseje retomar sua atividade criadora às 3 horas da tarde de verão. serão espargidos na sala. Será comido sob o rufar continuado de um tambor. conhaque e vermute branco. serão servidos aos combatentes pratos de caqui maduro. servi-la sobre um leito de pimenta vermelha.Fillippo Tommaso Marinetti com conserva de damasco intercalada com rodelas de banana e fatias de abacaxi. tentaria em vão excitar a própria inspiração em uma refeição suculentatradicional. Enquanto estas desaparecem nas bocas. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de verão de pintura-escultura Após um longo período de repouso. 198 Cozinha futurista. com borrifadores. separando-os uns dos outros com impetuosas notas de trompa sopradas pelo mesmo “comedor”. No momento de partir. CARNE CRUA ESQUARTEJADA PELO SOM DE TROMPA: cortar um cubo perfeito de carne bovina. jasmim.

Ponham a mesa então ao ar livre. pétalas de rosa. sem talheres. um prato fundo cheio de vinagre forte.A cozinha futurista Empanturrado. sirva-se imediatamente um prato sinóticosingustativo de pimentões. um prato fundo cheio de azeite. e desobedecendo continuamente aos hábitos enraizados nos nervos. alho. Comerão tudo? Experimentarão partes? Intuirão as relações fantásticas sem sequer experimentar? À vontade! 199 Cozinha futurista. um maço de rosas brancas com caules relativamente espinhosos.indd 199 7/4/2009 15:51:25 . mas morno. uma ansiedade entre o literário e o erótico que não pode ser apagada por um café da manhã normal. bicarbonato de sódio. um grande maço de rabanetes vermelhos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio vocabulivre primaveril O atravessar de um jardim primaveril entre os doces fogos de uma aurora cheia de timidez infantil deu a três jovens. terminaria por consumir a jornada fanfarronando artisticamente sem criar arte alguma. Não quente. Seja-lhe. ao contrário. bananas descascadas e óleo de fígado de bacalhau. um maço de salada. deveria passear para digerir e entre inquietudes e pessimismos cerebrais. um prato fundo cheio de mel. servida uma refeição de puros elementos gastronômicos: uma sopeira de bom molho de tomate. verde. vestidos de lã branca e sem jaqueta. eqüidistantes. sob um caramanchão que deixe passar os dedos quentes do sol. não temperada e fora do prato. uma grande polenta amarela. mate a fome enquanto observa o quadro do “Jogador de Futebol” de Umberto Boccioni. Acaso.

beber. com altivas palavras em liberdade fora de qualquer ordem lógica e diretamente expressas pelos nervos. Diretamente sobre as cabeças a camponesinha servirá. levando nos braços uma bacia cheia de morangos nadando no Grignolino bem açucarado. gritos animalescos que seduziriam todos os animais da primavera. assobiantes. cochichantes. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti 200 Cozinha futurista. ruminantes. ralhantes e cantantes em giro.indd 200 7/4/2009 15:51:25 . Mas o tédio e a monotonia poderiam nascer depois que os paladares tivessem provado o alho com rosas. lamber. O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. Cada dente do alho será então cuidadosamente envolvido nas pétalas de rosa pelos mesmos dedos dos três convidados que assim se distrairão a combinar poesia e prosa. Entra então a camponesinha jovem e gorda. Provam então mergulhar o pimentão no óleo de fígado de bacalhau. a seguir. roncantes.Fillippo Tommaso Marinetti Convenientemente comerão. Isto fará com que o seu paladar alce súbito vôo procurando no prato sinóptico-singustativo uma indispensável nova harmonia. verbos fechados entre dois pontos. rumorismos abstratos. Os jovens a convidarão. desmacular-se. para que sirva o mais rápido possível. Põem-se eles finalmente a comer. um prato de tradicionais tortellini in brodo. polemizando à mesa com adjetivos iluminantes. Formarão imediatamente uma relação metafórica inusitada entre os pimentões (símbolo de força campestre) e o óleo de fígado de bacalhau (símbolo de mares nórdicos ferozes e necessidade curativa de pulmões doentes).

Duelará com aquele assobio o gemido longo mas afinado de um som de violino. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio noturno de amor Terraço de Capri. Depois. sete alcaparras.indd 201 7/4/2009 15:51:25 . Depois. vinte e cinco cerejas ao licor. arrancado no quarto da esquerda pelo filho convalescente da camponesa.A cozinha futurista Cardápio musical de outono Em uma cabana de caçadores semi-escondida em um bosque verde-azul-perfumado. O rápido crepúsculo sangüíneo agoniza sob as enormes barrigas das trevas como sob chuvosos e quase líquidos cetáceos. quatro longos apertos de mão na camponesa-cozinheira e todos para fora no escuro vento chuva do bosque. à esquerda dos comensais. Depois. Depois. doze batatinhas fritas. Depois. único alimento. Depois. sem comer. Esperando a camponesa-cozinheira. Agosto. silêncio de um minuto. um gole de vinho Barolo mantido na boca por um minuto. Depois. Depois. Depois. o assobio que o vento infiltra pela fechadura da porta. dois minutos de grão de bico em azeite e vinagre. pela mesa ainda vazia passará. A morena peituda e bunduda cozinheira caprese entra carregando um enorme presunto sobre uma bandeja e diz 201 Cozinha futurista. uma codorna assada para cada um dos convidados. um silêncio de quinze minutos durante os quais as bocas continuam a mastigar o vazio. A lua a pico serve abundante leite talhado sobre a toalha. para serem olhadas e cheiradas intensamente. dois casais se sentam a uma mesa rústica formada por troncos de carvalho.

“é um presunto que contém uma centena de carnes diversas de porco. circundado de risoto ao açafrão. Para adocicá-lo entretanto e liberá-lo da aspereza e da virulência original. Seguem as grandes ostras.Fillippo Tommaso Marinetti aos dois amantes reclinados nas duas espreguiçadeiras e incertos sobre retomarem as fadigas da cama ou iniciarem aquelas da mesa: . uma pitada de pimenta vermelha. deixei-o infuso por uma semana no leite. A cama. 6 Lacumia é uma espécie de bolinho. e Hallaua é um alimento de origem árabe. grande e já cheia de lua. Comam abundantemente. ovos. Depois o Guerranacama. servido com mel. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio turístico (realizada para a Mostra circulante futurista Paris-Londres-Bruxelas-Berlim-Sofia-Istambul-Atenas-Milão) Lista dos pratos: Pré salé aux petits pois. pasta de amêndoas. Roast-beef circundado por lacumias e Hallaua6. Entrarão então na cama levantando no pequeno copo o bebericável Guerranacama composto de suco de abacaxi. cada uma com onze gotas de Moscato de Siracusa em sua água marinha. a base de gergelim. caviar. 202 Cozinha futurista.” Os dois amantes devoram metade do presunto.indd 202 7/4/2009 15:51:25 . vem ao seu encontro do fundo do quarto aberto. de origem grega. chocolate. uma pitada de noz moscada e um cravo: tudo liqüefeito em licor Strega. Leite verdadeiro. não aquele ilusório de lua. Depois uma taça de Asti espumante. fascinada.

que deve se desenvolver em um amplo salão adornado por enormes quadros de Fortunato Depero.A cozinha futurista Lingüiças nadando em cerveja pulverizadas de pistaches cristalizados. 203 Cozinha futurista. QUINTO: o tom baixo pálido fúnebre banal dos pratos. mas escolhido entre os mais inteligentes e mais jovens parasitas da aristocracia e famoso pelo seu conhecimento total de todas as piadas obscenas. após uma distribuição rápida de polibebidas e entreosdois. QUARTO: o rancor das fronteiras. Enguia marinada recheada com minestrone à milanesa gelado e com damascos recheados de anchovas. Suco de morangos para ser bebido com friturinhas ao óleo. sem se levantar. TERCEIRO: as caras feias produzida pelos problemas mundiais insolúveis. o Esganador. devido à etiqueta diplomática. que nadem em um mar de conhaque. Na refeição oficial futurista. convidado não-pertencente a nenhum corpo diplomático e a nenhuma política. Pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado.indd 203 7/4/2009 15:51:25 . SEGUNDO: a reserva dos diálogos. toma a palavra. Poças de mel e poças de vinho dos Castelos romanos alternados em uma planície quadrada de papa de batatas. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio oficial O cardápio oficial futurista evita os graves defeitos que poluem todos os banquetes oficiais: PRIMEIRO: o silêncio embaraçado que deriva da falta de harmonia preexistente entre os vizinhos da mesa.

que acolherão as desculpas do diretor. Seguem: 1) “Os antropófagos inscrevem-se em Genebra”: um prato de várias carnes cruas para serem cortadas à vontade. pimenta vermelha. com base de nitroglicerina. ele. manteiga. 7 Balestite é um explosivo. orientando-se pelo maior ou menos grau de mau humor a combater. (Esta iguaria será saboreada enquanto um negrinho de 12 anos fará cócegas nas pernas e beliscará as nádegas das senhoras. Os comentários. mel. sem abandonar-se entretanto à inconveniência. e temperadas mergulhando seus pedaços nas pequenas tigelas oferecidas com azeite. Uma vez generalizado de uma ponta à outra da mesa o fogo cruzado das gargalhadas dos comensais.) 3) “O tratado sólido”: castelo multicolorido de torrones com. descoberto por Alfred Nobel. velho Barolo. e do sorvete desgraçadamente tanto arquitetado que caiu pouco antes na cozinha. vinagre.Fillippo Tommaso Marinetti O Esganador. as ironias e as brincadeiras. gengibre. apenas terão seu volume diminuído e eis que ainda na entrada. mas sempre atrasados por impedimentos e desastres automobilísticos e por descarrilamentos ferroviários. açúcar. o Diretor. 2) “A Sociedade das Nações”: salaminhos negros e canudinhos de chocolate nadando em um creme feito com leite. repetirá suas desculpas. de uma fruta paradisíaca escolhida no Equador. dentro. será servida uma gororoba de semolina. Assim por toda uma meia hora. tapioca e leite em sopeira de convento para satirizar e espantar toda diplomacia e toda reserva. pequeninas bombas de balestite7 que explodirão a tempo perfumando a sala com o típico odor das batalhas. Ao Paraselevantar o diretor da refeição oficial entrará e com muitas desculpas cerimoniosas pedirá para esperar a chegada há muito anunciada. ovos e baunilha. dirá subitamente a meia voz três piadas obsceníssimas. Usado para dar mais potência aos canhões 204 Cozinha futurista. risoto de açafrão.indd 204 7/4/2009 15:51:26 .

indd 205 7/4/2009 15:51:26 . Ser-lhe-á então oferecida uma seleção dos melhores vinhos italianos. prolífico. o bêbedo de sempre pescado nas periferias naquela mesma noite e levado à força para a sala do banquete oficial. da revisão dos tratados e da crise financeira. conselhos. olhadas piedosas e olhares de falsa alegria. A sogra espalha febrilmente cumprimentos. repugna-lhes estabilizar o paladar e o estômago. estando todos no instável. 205 Cozinha futurista. O esposo. qualidade e quantidade. do ponto de vista intelectual. pentes e grampos de inveja. A virgem já está nos braços dos anjos. econômico. sob uma condição no entanto: que fale por duas horas sobre as possíveis soluções para o problema do desarmamento. ao invés da fruta milagrosa. As amigas da esposa.A cozinha futurista Então entrará. Ninguém pode comer nem provar as bebidas já que. bem penteado. está em conserva de óleo. Logicamente pedirá para continuar bebendo. Todos desejam felicidades como se libertam raças com o medo na ponta dos dedos e da língua. profissional. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de núpcias As refeições de núpcias comuns sob a sua aparente e ostentada festividade escondem mil preocupações: se o casamento será feliz ou não. todas escovas. carnal. Os primos. em conserva de vinagre. As crianças se enchem de confetes e rolam sobre as flores de laranjeira do vestido nupcial.

. De qualquer modo estão tão bem cozidos que lhes aconselho atacá-los audazmente. mesmo temendo a presença de alguns absolutamente mortais”. certamente um pouco cedo. nos bosques de Pistóia ensopados de chuva. Muitos devoram os cogumelos. Uma sopeira de magnífica sopa conhecida e amada por todos (arroz. pomposamente elogiados pelo habitual caçador maníaco: . Há cogumelos de toda espécie. pede demissão porque foi ofendido 206 Cozinha futurista. equilibrada sobre a cabeça. entre uma perdiz e uma lebre. Proceda-se à limpeza com a ajuda de todos. põe-se a gritar segurando a barriga o janota habitual de todas as festas de casamento. cheia de risoto à milanesa com açafrão e abundantes trufas de coloração pecado.. amarelar o vestido nupcial como uma duna africana. ao sair um instante.indd 206 7/4/2009 15:51:26 . “São tão bons”. entrando enfurecido. O cozinheiro. será tanto um ganho de tempo mediante um final de viagem imprevista. exceto aquela venenosa. querida?” “Temo-os menos que suas prováveis traições.“eu mesmo os recolhi todos. distante ou próxima? Pouco importa. Explode naturalmente uma competição heróica. “Não tem medo. Eu não hesito. Se este prato. reentrará com uma bacia. A menos que minha miopia tenha me pregado uma bela peça. fígado e feijão em caldo de codorna) é conduzida no alto sobre três dedos pelo cozinheiro que salta com a perna esquerda. Fingirá sofrer ou realmente será torturado por dores de origem misteriosa. malvado!” Então. ao cair também. Conseguirá ou não? Talvez entorne e as marcas sobre o vestido nupcial corrigirão oportunamente a insolente e pouco fortunosa brancura excessiva.Fillippo Tommaso Marinetti Reina então durante a refeição um equilíbrio que responde ao equilíbrio dos estados de ânimo. Todos riem. Serão servidos então cogumelos trufados. O esposo se mantenha calmo: será ele que.diz a esposa.

regando-o com vinhos Barbera e Barolo. Comida de caçadores. que substitui o habitual sorvete inadequado.A cozinha futurista mortalmente pelas suspeitas e não pelos cogumelos que são inocentísssssssimos. Agora está finalmente parada. Segue um Fernet para todos. no mesmo vale. move-se ainda talvez. por outro lado. verificadísssssssimos. Mas. isto é. De uma costa a outra. aquela ali. sempre sob a eloquência do caçador. Ele mesmo preparou na cozinha esta iguaria formada com a pasta de outras perdizes quase putrefatas e maceradas com os velhos queijos robiola no rum. os convidados comem-no abundantemente. são servidas lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias.Entre todas essas perdizes. tive que descer até o fundo da torrente e subir novamente. embriagados pelo suavíssimo perfume de cloaca suave.” -“Para a virtude ambulante dos vermes. parece viva. a maior. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio econômico 1) “O agreste absoluto”: maçãs assadas ao forno. 207 Cozinha futurista.indd 207 7/4/2009 15:51:26 . A cada vez reconhecia as mais belas penas avermelhadas. Entontecidos pelas palavras. Frio intenso nos comensais. aos estômagos agora tão aquecidos por equilibrismos de felicidade. depois recheadas de feijões cozidos em um mar de leite. custou-me uma perseguição de dez quilômetros.acrescenta o janota. move-se”. Recomeça o caçador: “. cogumelos alarmantes e perdizes dinâmicos.

decorada com aeropinturas e aeroesculturas dos futuristas Tato. Benedetta. cada um. Este menu deve ser degustado enquanto um hábil recitador faz explodir a lírica humorística do Poeta-record Nacional Farfa. 3) A falta de carne humana viva e presente que é indispensável para manter o paladar do homem confinado na zona das carnes animais.indd 208 7/4/2009 15:51:26 . Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de solteiro A cozinha futurista propõe-se a evitar os defeitos que distinguem as refeições dos solteiros: 1) A solidão anti-humana que fatalmente absorve uma parte das forças vitais do estômago.Fillippo Tommaso Marinetti 2) “Abominação campestre”: berinjelas cozidas em tomate. os pratos-retratos: 208 Cozinha futurista. 4) A inevitável aceleração do ritmo das mandíbulas que fogem do tédio. 3) “Pimentão urbanístico”: grandes pimentões vermelhos que fecharão. sobre uma mesa cujas quatro pernas serão constituídas por acordeões. imitando sua típica voz de míope cano de escapamento. em ressoantes pratos ornados de sininhos. são apresentados. depois recheadas com anchovas e servidas sobre um leito. salpicadas por feijão cozido e caramelizado. Em uma sala. uma pasta de maçãs cozidas envoltas em folhas de alface caramelizadas. Dottori e Mino Rosso. metade formado por pesto de espinafre e metade por patê de lentilhas. 4) “Bosque inundado ao pôr-do-sol”: endívias cozidas ao vinho. 2) O silêncio carregado de pensamentos meditativos que contamina e enchumba os pratos.

2) “Prato-retrato do amigo moreno”: bochechas bem modeladas de massa podre – bigodes e cabelos de chocolate – grandes córneas de leite e mel – pupilas de alcaçuz. estejam os convidados em jejum há dois dias. mas serão saciados apenas de perfumes. Brincos pendurados de rabanetinhos vermelhos untados em mel. tudo coberto por pétalas de violeta. do mais amplo e marino dos mares. a segunda para a massa dos odores de um paiol e relativo reservatório de frutas. duas coxas de frango cozidas.indd 209 7/4/2009 15:51:26 . Será servido em uma casa de campo construída especialmente por Prampolini (a partir da concepção de Marinetti). a terceira para a massa dos odores do mar e relativa peixaria. cada um com uma poça de vinagre por cima e sobre um dos lados pendurado um grande sino. calmo preguiçoso solitário putrefato. Bem engravatado com tripa ao brodo. que se abrem eletricamente mediante botões postos sob os dedos dos convidados dão: a primeira para a massa dos odores do lago. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio extremista Para esta refeição em que não comerão.A cozinha futurista 1) “prato-retrato louro”: um belo pedaço de vitela assada esculpido com duas grandes pupilas de alho em um ninho de repolho triturado e fervido e alface verde. em uma língua de terra que divida o mais lacustre dos lagos. 3) “Prato-retrato da bela desnuda”: em uma pequena bacia de cristal. Uma romã aberta na boca. cheia de leite apenas ordenhado. 4) “Porta-retrato dos inimigos”: sete cubos de torrone de Cremona. 209 Cozinha futurista. a quarta sobre a estufa quente e relativa ciranda de plantas odoríferas raras deslizante sobre trilhos. As portas-janela.

Antes da refeição os convidados declamam “Elogio ao outono” do poeta futurista Settimelli e “Entrevista com um Caproni” do poeta futurista Mario Carli. O neutro treme como um sismógrafo esperançoso. mantidas fora das janelas escancaradas como as comportas de um canal. Os três complexos-escultura vaporizantes param de um só golpe com a irrupção na sala de três ajudantes de cozinha embainhados de seda branca e alto chapéu branco luminoso. Um ensurdecedor toque de sinos de 5 minutos. Os onze convidados (5 mulheres. Fora. Máxima intensidade dos perfumes da paisagem circundante. 5 homens e um neutro) têm um pequeno ventilador de mão cada. 3) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um lago de chocolate que circunda uma ilhota de pimentões recheados com geléia de tâmaras. 210 Cozinha futurista. 2) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um navio de berinjelas fritas cobertas de baunilha. Uma pausa de silêncio concedida à invasiva policonversação e quacrelogia das rãs lacustres que acompanharão a abertura lenta da 8 Flor da esponjeira. grandes artistas? Parem de enrolar ou pegamos todos vocês a chutes”.indd 210 7/4/2009 15:51:26 . Vocês se decidem ou não se decidem a comer os pratos refinadíssimos preparados por nós. com o qual capturar à vontade o odor espargido do canto munido de um potente aspirador. No comprimento de uma mesa em forma de paralelepípedo afloram. cachia8 e pimenta vermelha. deslizando automovelmente. que gritam: -“vocês são os chefes.Fillippo Tommaso Marinetti Noite de Agosto. desaparecendo e reaparecendo: 1) um complexo-escultural munido de vaporizador com a forma e o odor de um castelo de risoto à milanesa golpeado por um mar de espinafre encristados de creme. mas também imbecis.

vindo do lago. mas subitamente irrompe da outra porta-janela o mar com cem chispares e enguiamentos de odores salinos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio dinâmico 211 Cozinha futurista. Os ventiladores de mão cancelam tudo. Curto assombro. Todos os convidados apontam os ventiladores de mão como escudos contra a porta-janela lacustre. Gane o convidado neutro: -“Pelo menos doze ostras e dois dedos de Marsala”. o segundo de abacaxi. saindo da estufa. Escapa um relincho do convidado neutro. deixadas até agora pensativas ou atônitas. de velhos juncos queimados. Abre-se então a porta-janela do reservatório de frutas e quatro odores (o primeiro de maçãs. Os dois perfumes de vida carne luxúria morte sintetizam e então apagam todos os onze paladares famintos. encontra-se com o perfume idêntico. Os cozinheiros espiam pela porta e desaparecem.indd 211 7/4/2009 15:51:26 . o terceiro de uva e o quarto de alfarroba) precipitam-se na sala tornada inodora. Entra um perfume agro-suave-pútrido-delicadíssimo de lírios civilizados que. põem-se a mastigar febrilmente o vazio. veios de amoníaco e uma lembrança de ácido fênico. ou então veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas”.A cozinha futurista porta-janela pressionada pelos odores de ervas podres. mas selvagem. Mas a frase é cancelada junto com o mar e relativa peixaria prateada por prepotentes perfumes de rosa de tal modo curvilíneas e carnudas que as onze bocas. O neutro choraminga: -“Por caridade. Confusão. cozinheiros belos. tragam-nos qualquer coisa para mastigar. com visões de imensos golfos espumosos e tranqüilos cais verdes frescos ao amanhecer.

Uns vinte oficiais. Com quatro bocados aplaco meu estômago. O prato de macarrão entorna sobre a farda. coronel Squilloni alegre e posudo na cabeceira da mesa. depois me levanto e brandindo uma garfada de espaguete. executam o exercício. empurro brutalmente o meu companheiro da direita. comia-se e bebia-se alegremente. espremem-no como uva. copos. deslocamento de dois lugares à direita.Para não empantanar a nossa sensibilidade. marche! Depois levantando como posso pratos. mas o doutor bufa. Espirram os seus gritos. prontos. Sabem da minha fantasia fecunda em piadas e excitam-me com olhares. Silêncio religioso de bocas que mastigam orações suculentas. Inundação de vinho. Mas os mais jovens não amam as pausas e querem rir. gritos. capitães. Dominando o tumulto. Levantamno como a um peso. agir. grita. tenentes. Cabeças inclinadas sobre os pratos.indd 212 7/4/2009 15:51:26 . alvoroço. faca. Fome de bombardeiros depois de uma jornada de trabalho duro. T. Todos empurram o doutor. digo em alta voz: .Fillippo Tommaso Marinetti No romance “L’Alcova d’Acciao” F. e o bom doutor está absorvido gravemente demais no ritual do macarrão. eu comando: 212 Cozinha futurista. Há muito silêncio à mesa. Os longos garfos vermelhos do pôr-do-sol entrelaçavam-se com os nossos. reclama. enrolando os espaguetes sangüíneos e fumegantes. que cede de má vontade. Despencar de copos. Marinetti descreve sua ansiedade de fugir do inevitável empantanamento da sensibilidade durante a refeição: “Na noite de primeiro de junho de 1918 na barraca dos bombardeiros desafiadoramente plantada obliquamente sobre uma cresta montanhosa do Vale do Ástico. levanta tudo ele também e empurra à direita. Os jovens. pão. Risos.

sem elasticidade. de assalto! E termina-se a refeição confusamente. debandados. 213 Cozinha futurista. caro doutro. com grande farfalhar de risadas na risada fulva do crepúsculo. rimos enquanto o coração chorava na retirada. uma sífilis. Como poderia. Fora. problemas a quem ainda deixa empantanar a própria sensibilidade!.. caro doutor. sacudidas.A cozinha futurista .indd 213 7/4/2009 15:51:26 . socos. “Basta!”. um calo. Turbilhão. interromper com elasticidade futurista a sua barrigada passadista! Todos riem. garrafas espumantes de ouro. ou a fraqueza de certos superiores? Com elasticidade abandonamos o Carso após Caporetto. renovar integralmente a Itália depois da vitória? Imponho-lhe. “caramba!”. curar um gânglio. cirros de porcelana violeta amassados. imponho: . todos nuvens de cristal incandescente. uma otite. pratos e copos nas mãos! Giro total da mesa em cortejo! O reboliço se torna infernal. luminoso banquete aéreo suspenso a pico na planície vêneta crepuscular.Deslocamento cumprido! Todos sentados! Mas problemas. Gritos. sem elasticidade. ao bater na água. Agrada muito ao coronel o jogo bizarro. Como poderíamos. fora.. rufares e becchegiro9. Somente o doutor não se diverte. E você.Para não empantanar a nossa sensibilidade. Mas os jovens são tenazes e com força imprimem à multidão uma volta tumultuosa em torno da mesa. Onde está o doutro? Onde está? Todos o procuram. O doutor me olha assustado. não se esqueça de que a mais alta e preciosa virtude é a elasticidade. esmagar o passadismo austro-húngaro. Fugiu para o terraço com o seu prato de macarrão. “Acabem com isso!”. tombos. Ameaçando-o burlescamente. Os meus amigos cantam ao redor do doutor o hino da burla futurista: Iró iró iró pic pic Iró iró iró pac pac 9 O substantivo refere-se provavelmente a um movimento ou um som semelhante ao feito por um barco em alta velocidade.

Os convidados vestidos esportivamente. 2) “Em quarta”: 200 fios de algodão doce enrolados num novelo. Comerão melhor aqueles que conseguirem manter à distância os adversários com chutes. coberta de vinho moscato de Siracusa. Seqüência de bocas dentes mãos. bocas abertas e mãos ameaçadoras. O habilíssimo entretanto será aquele que conseguir. Com um final de batalha gastronômica. de bocas abertas. as mangas arregaçadas. envoltos e embolotados em uma fatia de polenta esborrifada com água de colônia italiana. *** Dinamicamente então propomos os seguintes pratos: “Passos de corrida”: composto de arroz. Ao escancarar da porta. todos se precipitarão furiosamente de assalto. embrulhados em fatias de abacaxi e regados com Asti espumante.indd 214 7/4/2009 15:51:26 . inspirando-se no grande quadro “O jogador de futebol” de Umberto Boccioni. conquistar uma vintena de bolas comestíveis e. 5) “Bombas de mão”: esfera de torrone de Cremona envolta em uma grande bisteca malpassada. fugir para o campo. tudo enrolado em uma finíssima fatia de presunto macerada em Marsala. 4) “Perdendo uma roda”: quatro tordos assados com muito gengibre e sálvia. serão mantidos fora da porta de uma sala de ginástica onde pelo chão e em pequenas pirâmides serão dispostas as comidas anunciadas. rum e pimenta vermelha. superando janelas e terraços. 3) “Colisão de automóveis”: semi esfera de anchovas prensadas conjunta a uma semi esfera de pasta de tâmaras. 214 Cozinha futurista. um sem a cabeça.Fillippo Tommaso Marinetti Maa – gaa – laa Maa – gaa – laa RANRAN ZAAAF Matavam assim as nostalgias”. os lutadores não ensacam os golpes: engolem-nos. com bocas mastigantes e mãos agarrantes.

Gerbino. Maino. Cinco blocos ovais (20 cm de altura) de pasta de bananas. Seis esferas (15 cm de diâmetro) de risoto à milanesa. Vinte tubos (1 metro de altura) de pasta de tâmaras.A cozinha futurista Fórmula do aeropoeta futurista e do aeropintor futurista Marinetti Fillìa Cardápio arquitetônico sant’elia Em honra do Poeta-Record nacional de 1931. Rognoni. Giacomo Giardina. prensado. belvederes. baterias de encouraçados. os poetas futuristas Escodamè. arranha-céus. Vasari e Soggetti. Samzin. Bellonzi. ligados todavia por fio eletrônico. Farfa (vencedor do circuito de poesia “Sant’Elia”). pistas sobrelevadas: Trezentos cubos (3 cm de altura) de massa podre. Voltolina e Degiorgio do grupo paduano e os pintores Alf Gaudenzi e verzetti do grupo futurista e vanguardista “Síntese”. subiram e comeram alternativamente. cais de portos militares. Civello. Os futuristas. Dez cilindros (30 cm de altura) de torrone de Cremona. Burrasca. reunidos na Direção do Movimento Futurista em Roma. Pandolfo. com uma sensibilidade espacial que coloca o glorificado a 600 quilômetros dos glorificantes. os pintores Dormal. isto é. sentados cada um sobre tambores (15-60-100 e 300 cm cada) não-comestíveis de macarrão comprimido.indd 215 7/4/2009 15:51:26 . para melhor construir a casa futurista. arquitetonicamente. com mãos de criança. Vittorio Orazi. 215 Cozinha futurista. um sobre o outro em forma de torre. Sete telas (60 cm de altura) de bacalhau ao leite. rampas de aeroportos. aperfeiçoamna com os dentes. Krimer. estádios esportivos. Cinco pirâmides (40 cm de altura) de minestrone frio. Oito paralelepípedos (10 cm de altura) de espinafre na manteiga.

Os comensais. Tato. casca de limão. empunhando pequenos sinos de cerâmica cheios de Barolo misturados a Asti espumante. chácaras e planícies raptadas em velocidade. alcaparras. que se ligam aos aerocumes e às nuvens do horizonte navegado a mil metros. Besuntam-nas com curry em pó e devolvem-nas às suas cascas tingidas aqui e ali por azul de metileno. timo. comerão assim vilarejos. Oriani e Munari. alho. ovas e fígado de lagosta. Benedetta. os comensais 216 Cozinha futurista. entre as aeropinturas dos futuristas Marasco. entre as aeroesculturas de metais aplicados dos futuristas Mino Rosso e Thayaht. cenoura. Bizarramente depois as 5 lagostas serão dispostas em desordem e distanciadas sobre uma grande aerocerâmica Tullio d’Albisola acolchoada por vinte qualidades diferentes de salada: estas geograficamente dispostas em quadrados. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeroescultural na fuselagem Na grande fuselagem de um Trimotor.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropictórico na fuselagem Na ampla fuselagem de um grande Autoestável DeBernardi.indd 216 7/4/2009 15:51:26 . os comensais liberam do casco intactas 5 lagostas e cozinham-nas eletricamente na água do mar. Recheiam-nas com uma pasta de gema de ovo.

Abaixo a pico um rio de solidíssima prata derrete o estuário das suas enguias frenéticas em um mar de piche adornado por níquel lunar. regada abundantemente com Vinho Santo toscano. a sugar a geléia de anis branco que filtra uma nuvem. Os 11 doces. tomate e polpa de lagosta. enquanto os comensais brincarão e devorarão massas de claras em neve como faz o vento lá fora com os cimos e os cúmulos brancos. pedaços de solha. A janelinha da direita: tilintar de vidro madeira tintilhões e sininhos. o altímetro redondo denuncia: 3. frutas cristalizadas e queijo gruyère. Os olhos fogem à direita.000 metros comidos. polpa de camarões. açúcar semolado e perfumado de baunilha. despenhadeiro. denuncia: 20. À frente dos comensais. serão servidos sobre uma grande bandeja no centro da fuselagem. promontório ou ilhota. cebolinhas. em número de três. através da outra janelinha. Todos serão cozidos eletricamente.A cozinha futurista prepararão uma massa de fécula de batata. depois de liberados das formas. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropoético futurista Na fuselagem de um Trimotor voando a 3.000 metros em um céu bipartido: dengoso luar de meia lua madreperolado e esverdeado e semi-esfera de meias nuvens fulguradas de longos escorpiões de ouro.000 217 Cozinha futurista. pão-de-ló e biscoitos triturados.indd 217 7/4/2009 15:51:26 . Perto dele o conta-giros. seu companheiro de refeição. Na boca responde-lhe rusticamente o sabor de uma bolota de mel. Encherão onze formas (untadas e enfarinhadas) cada uma de um formato típico de montanha. ovos.

rapidamente. Amor quente macio muito distante. Voar. A pico sobre si mesmo. alguns minutos antes da refeição. Mastigar o infinito. lixas. com a colaboração dos pintores futuristas Depero. deverá vestir separadamente um dos pijamas. etc. Balla. escovas. Do outro lado do altímetro. Leveza. sedas. sem móveis: sem ver. Cada convidado.Fillippo Tommaso Marinetti giros devorados. cada convidado deverá escolher o próprio companheiro de mesa segundo sua inspiração tátil. Um pouco mais de mel das abelhas inspiradoras de poetas gregos na boca do aeropoeta futurista. Prampolini e Diulgheroff. tantos pijamas quantos serão os convidados: cada pijama será feito ou recoberto de materiais táteis diferentes como esponjas. palhas de aço. cartões. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio tátil O dono da casa terá o cuidado de preparar. veludos. O estômago do comensal humano central corrige com muitos ácidos vulgares a indigerível potência excitatória do licor de lua abstrato poético suicida. lâminas de alumínio. todos serão levados ao salão de banquete provido de muitas pequenas mesas para duas pessoas: estupor do próprio com- 218 Cozinha futurista. A boca do comensal humano da direita suga um tubo de neon amarelo vermelho dourado de verão África eterna. Ronco crítico dos intestinos. Presença das mãos vazias. cortiças. Depois. todos serão introduzidos em uma grande sala escura. Obliqüidade da força artística. feltros. o velocímetro denuncia: 200 quilômetros digeridos. Escolhas feitas.indd 218 7/4/2009 15:51:26 .

Todas as vezes que os convidados se afastarem dos pratos para mastigar. já que o menu é todo baseado em prazeres táteis. enquanto com a mão esquerda girará a manivela. sem ajuda de talheres. sem sal. Será servida a seguinte lista de iguarias: 1) “Salada polirítmica”: às mesas aproximam-se os garçons portando para cada convidado uma caixa munida de manivela do lado esquerdo e que tem no lado direito. Entre um prato e outro. mas sem a ajuda das mãos.A cozinha futurista panheiro indicado pela sensibilidade refinadíssima dos dedos sobre as matérias táteis. 219 Cozinha futurista. recobertas externamente por materiais têxteis rugosos. 3) “Hortotátil”: serão postos à frente dos convidados grandes pratos contendo uma numerosa variedade de verduras/legumes crus e cozidos. Poder-se-á experimentar a gosto estas verduras/legumes. mas cada uma recheada de elementos diversos (como frutas cristalizadas ou fatias finas de carne crua ou alho ou pasta de bananas ou chocolate ou pimenta). enfiado pela metade. o conteúdo do prato. tâmaras e uvas. os convidados deverão ininterruptamente nutrir seus dedos no pijama do vizinho de mesa. iniciarão uma lenta dança de grandes gestos geométricos.indd 219 7/4/2009 15:51:26 . os garçons esborrifarão em seus rostos perfumes de lavanda e água de colônia. Cada um dos comensais usará a mão direita para levar à boca. Será preciso segurar a tigela com a mão esquerda e agarrar com a direita as esferas misteriosas contidas no interior: Serão todas esferas de açúcar queimado. 2) “Vianda mágica”: servir-se-ão tigelas não muito grandes. de tal modo que os convidados não possam intuir qual sabor será introduzido na boca. No prato: folhas de alface sem tempero. imergindo o rosto no prato e inspirando assim o próprio gosto no contato direto dos sabores sobre a pele das bochechas e sobre os lábios. um prato fundo de porcelana. em frente às mesas. A caixa liberará assim ritmos musicais: então todos os garçons. até o esgotamento da iguaria.

carne de rã desossada e ce- 220 Cozinha futurista. No início da refeição a primeira parede é iluminada por trás e ressaltam assim os perfis geométricos das montanhas brancas e morenas. e os pinheiros verdes. mas não nos foi possível. cujas paredes são formadas por enormes pinturas futuristas sobre vidro representando: uma paisagem alpina Depero – uma paisagem de planície com lagos e ao fundo colinas Dottori – uma paisagem vulcânica Balla – uma paisagem de mar meridional animado por ilhotas Prampolini. fazer-nos servir de uma só vez os tantos pratos regionais. no passado. Apaga-se a primeira parede e acende-se a segunda: brilham as esmeraldas dos campos e os vermelhos das fazendas que se perdem entre as terras redondas das colinas e os azuis metálicos dos lagos. querendo provar à mesa o sabor e o perfume de todas as suas hortas. Na sala é regulada uma temperatura de frescura primaveril. Serve-se o primeiro prato “Sonho alpestre”: pequenas formas ovais de gelo envolvidas por massa de castanhas e apresentada sobre grossos discos de maçã salpicadas com nozes molhadas no vinho Freisa. antes de comer. “Agreste civilizado”: bolo de arroz branco cozido sobre o qual imprimem-se largas e tenras folhas de rosa. os seus pastos e seus jardins. um apetitoso alimento para os estrangeiros. Os convidados. tingem-se as mãos com azul de metileno.indd 220 7/4/2009 15:51:26 . Hoje podemos degustá-lo.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio síntese da itália A Itália sempre foi. Aumenta a temperatura da sala. Proponho portanto este menu-síntese-da-Itália: Uma quadrada sala de teto azul.

221 Cozinha futurista. pêras cruas e cassis. entra na sala. Enquanto os convivas comem.A cozinha futurista rejas muito maduras. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio geográfico 1. sentados em torno de uma mesa de metal com o plano horizontal em linóleo. 3. o clima é de verão. Apaga-se a terceira parede e acende-se a última: esplendor das ilhotas luminosas na espuma fervente do mar. Temperatura tórrida na sala. Terminada a refeição acendem-se juntas as quatro paredes e são servidos sorvetes misturados a abacaxi. É levado à mesa envolto em sutis fatias de cordeiro assado e imerso em vinho de Capri. gomos de laranja. seguida à distância pelos garçons. apresentado navegando em um litro de marsala. ostras e alfarroba. Quando inicia-se a refeição. Apaga-se a segunda parede e acende-se a terceira: dinamismo atmosférico do Vesúvio incandescente. “Sugestão do Sul”: uma grande erva-doce na qual são incrustados rabanetes e azeitonas sem caroço. consultam grandes atlas. caranguejos. 2. “Instinto colonial”: um colossal robalo recheado de tâmaras. bananas. os garçons fazem passar rapidamente sob os seus narizes um quente perfume de gerânio. Um violento perfume de cravos. Na sala. Os comensais.indd 221 7/4/2009 15:51:26 . Uma sala de restaurante decorado com alumínio e tubos cromados. As janelas redondas permitem vislumbrar misteriosas distâncias de paisagens coloniais. giesta e cachia é esborrifado no ar. a garçonete-lista-de-pratos: formosa moça jovem inteiramente revestida por uma túnica branca na qual é desenhado a cores um completo mapa geográfico africano que lhe envolve todo o corpo. enquanto gramofones invisíveis rodam barulhentos discos negros.

sobre o joelho esquerdo da garçonete-lista-de-pratos. o garçom lhe servirá a “Vianda Abibi”: meio coco. Exemplo: se um comensal aponta um dedo para o seio esquerdo da Garçonete-lista-de-pratos onde está escrito CAIRO. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio de fim de ano O hábito já matou a alegria das grandes ceias de fim de ano: há muitos anos os mesmos elementos concorrem a uma alegria já muitas vezes apreciada. Dominará portanto uma orientação alimentar inspirada pelos continentes. 5. recheado com chocolate e disposto sobre um fundo de carne crua finamente moída e regada com rum da Jamaica. o nome ZANZIBAR. 222 Cozinha futurista. 6. Se um outro comensal aponta com o dedo. 7. Em volta da pirâmide maior. mas indicando no mapa a cidade ou as regiões que seduzem a fantasia turística e aventureira dos comensais. Cada um conhece com antecedência a engrenagem precisa dos acontecimentos. pirâmide de tâmaras sem caroço imersa em vinho de palma. pelas regiões e pelas cidades. Neste caso: “Amor sobre o Nilo”. um dos garçons silenciosamente se afastará e retornará em seguida trazendo o prato correspondente àquela cidade. variando para cada refeição os mapas geográficos e as garçonetes-lista-de-pratos e não permitindo conhecer antecipadamente os pratos. augúrios e previsões volteiam como cópias de impressão. Devem-se escolher os pratos não segundo a sua composição.Fillippo Tommaso Marinetti 4. Lembranças de família. Assim continuamente. cubos de laticínios de canela recheados com grãos de café torrados e pistaches. É preciso destruir os hábitos para sair da monotonia.indd 222 7/4/2009 15:51:26 .

por nós realizado com os futurissimultaneístas de Roma: Mattia. A alegria finalmente.A cozinha futurista Existem mil maneiras para renovar este banquete: eis um deles. Subitamente. à despensa. gritos e chuva de alimentos. Vignazia. Na sala as mesas foram eliminadas e os convidados sentaram-se em cadeiras dispostas em fila indiana. Competição violenta entre os fornos acesos. um dos presentes diz: -“Ainda não expressei meus desejos para o ano novo. Desfilam os pratos combinados quase 223 Cozinha futurista. anuncia-se que a refeição está pronta. À meia-noite. para tentar estabelecer uma conversação qualquer. D’Avila. Serve-se o infaltável peru que os garçons distribuem em pratos de metal: o peru é recheado de tangerinas e de salame. após a infinita conversação de espera.indd 223 7/4/2009 15:51:26 . levantam-se e lançam-se contra o incauto conservador de tradição. exasperada pelo torpor muito longo. que é repetidamente esbofeteado. Battistella. Todos comem sob um silêncio imposto: o desejo de barulho e alegria é reprimido. Pandolfo. libera-se na sala um peru vivo que se debate assustado entre a surpresa dos homens e os gritos das mulheres que não entendem esta ressurreição da comida ingerida. uma atrás da outra. Entretanto. etc. enquanto frigideiras e caçarolas passam de mão em mão entre risadas. Vencido pelo silêncio.” Todos então. A cozinheira e as duas garçonetes são afastadas à força e cada um se dispõe a idealizar uma variação nos pratos. A ordem é restabelecida e cada um volta a conter a alegria desencadeada por um momento. como por uma palavra de ordem. Belli. da antesala ao banheiro. outros descobriram o depósito dos vinhos e forma-se assim um banquete excepcional que vai da cozinha ao quarto. explode e os convidados se debandam pela casa enquanto os mais audazes invadem a cozinha.

enquanto três ritmos diferentes de música japonesa acompanham o serviço dinâmico. para convencer das necessidades de nutrir- 224 Cozinha futurista. onde finalmente provaremos comidas de sabor desconhecido ao nosso paladar e bebidas imprevisíveis. Se os proprietários e os funcionários dos restaurantes colaborassem. nesta mesma data. A dona da casa apaga inesperadamente a luz.indd 224 7/4/2009 15:51:26 . gomos de limão e fatias de rosbife: a lembrança do passado naufraga em um presente extraordinário.. Estupor. não pretendem renunciar à antiga cozinha. conforme o espírito de veloz harmonia que anima os novos cozinheiros. as dificuldades a vencer por uma nova alimentação são aumentadas pelos proprietários de restaurantes que. Um convidado conta à dona da casa: -“Há quinze anos. para um banquete na Lua. Convido-os todos para o próximo fim de ano.. No escuro. em benefício próprio.” Mas naquele momento apresentam-lhe uma tigela cheia de espumante onde navegam couves-flores. cilindros de queijo parmesão e ovos cozidos. incapazes ou temerosos. Todas as suas preocupações limitam-se a ajudar o cliente quando veste o sobretudo.Fillippo Tommaso Marinetti pela magia.” Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio rejuvenescedor Geralmente. ouve-se a voz de um convidado: -“neste ano conseguiremos romper o invólucro da atmosfera e alcançar os planetas. Os mais jovens berram: -“sepultada a lembrança! devemos iniciar o ano de modo finalmente diferente dos banquetes anteguerra!” Três gramofones funcionam como mesa e sobre discos transformados em pratos rotatórios as senhoras atacam confeitos.

variedade. comprimido em pequenas esferas cruas de alface esborrifada com grappa e servido sobre uma pasta de tomates frescos e batatas cozidas.”O italiano da nossa época veloz não deixará de sensibilizar-se ante tal argumento. imprevisto e alegria. O garçom lhe servirá então este “cardápio rejuvenescedor”: arroz cozido. o garçom deveria proferir este breve e esclarecedor discurso: -“a partir de hoje a nossa cozinha elimina o macarrão. Chegamos a essa decisão porque o macarrão é feito de silenciosos longos vermes arqueológicos que.deve chegar a conceber para cada prato uma arquitetura original. 225 Cozinha futurista. surpresa. como seus irmãos que vivem no subterrâneo da história. A cada cozinheiro pede-se a formação de uma mentalidade que: .A cozinha futurista se mais modernamente. depois frito em manteiga.deve compreender que a forma e a cor são tão importantes quanto o sabor. muitas dúvidas e muitas ironias poderiam ser superadas e os restaurantes perderiam a trivialidade dos hábitos quotidianos. Vermes brancos que o senhor não deve introduzir no corpo se não quiser deixá-lo fechado escuro e imóvel como um museu.indd 225 7/4/2009 15:51:27 . Ao habitual cliente que entra e pede um prato de espaguetes. . TAMBÉM OBRAS DE ARTE. possivelmente diferente para cada indivíduo de modo tal que TODAS AS PESSOAS TENHAM A SENSAÇÃO DE COMER. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio improvisado Estes cardápios improvisados são aconselhados com o objetivo de atingir um máximo de originalidade. empanturram adoecem inutilizam o estômago. além de uma boa comida.

mas nunca se deve levar em conta o gosto pessoal dos comensais. a constituição física e os fatores psicológicos. a idade. o espírito humano da aventura e do heroísmo. na distribuição dos pratos. estudar o caráter e a sensibilidade de cada um.deve possivelmente chegar às refeições em movimento. 226 Cozinha futurista. a seguinte refeição-declaraçãode-amor: Tedesejo: antepasto composto de elementos diversos. de certo modo. Para os cardápios improvisados pode-se naturalmente discutir entre cozinheiros. . o sexo. admirará sua imagem refletida no prato.deve.Fillippo Tommaso Marinetti . portando todo tipo de alimento: simplificar-se-á assim a preparação individual porque cada um será levado a conquistar o prato preferido para si. filés de frango perfumados com âmbar e recobertos por uma fina camada de geléia de cerejas. Ela. garçons e Diretores sobre a atribuição das diferentes iguarias. levando em conta. Com este propósito lhe fará servir. No centro. enquanto come. na noite da cidade. por meio de tapetes-móveis que deslizam à frente das pessoas. no terraço de um grande Hotel. Carnadorada: um grande prato feito com um brilhante espelho. que o garçom fará somente admirar. enquanto Ela se contentará com pãezinhos e manteiga. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio declaração de amor Um tímido enamorado deseja exprimir a uma moça bela e inteligente os seus sentimentos. antes de preparar a refeição.indd 226 7/4/2009 15:51:27 . E a escolha será duplamente apreciada porque desenvolverá. de escolha refinadíssima.

um de ameixa. isto é. um de maçãs cozidas no rum. em proporções diversas: água mineral tingida de vermelho – vinho branco dos Castelos Romanos tingidos com azul de metileno – leite frio tingido de laranja. em 20 pratos de alumínio.A cozinha futurista Teamareiassim: pequenos tubos de massa podre recheados de sabores diferentíssimos. Os eclesiásticos devem escolher sem errar. sem piscar. etc. onde havia pinturas de Arte Sacra futurista. Na superfície são feitos pequenos furos. comerá todos. salgado por pedacinhos de ostras e gotas de água do mar. enchidos com anis.indd 227 7/4/2009 15:51:27 . rum. que visitaram em Turim os apartamentos do Engenheiro Barosi e do Doutor Vernazza. Em frente aos copos. gim e bitter. um de arroz doce. mas contendo. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa 227 Cozinha futurista. Ela. um de batatas embebidas em conhaque. Estanoiteláemcasa: uma laranja muito madura fechada em um pimentão maior esvaziado e enfiado em um grande zabaione ao gim. mediante uma oportuna e humilde consulta à inspiração divina. Superpaixão: um bolo de massa doce compacta. são dispostos: fatias de carne sortidas maceradas sob uma pasta de abacaxi – cebolas cruas cobertas por geléia – filés de peixe escondidos entre chantilly e zabaione – pãezinhos de manteiga untados com caviar e introduzidos em uma grande abóbora. licor de menta. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio sacro Aos eclesiásticos futuristas. é oferecida uma refeição assim composta: Sobre uma grande mesa são alinhados 20 copos iguais.

serve-lhes vinte ovos frescos que foram furados dos dois lados para injetar em seu interior um tênue perfume de acácias: os negros aspiram o conteúdo dos ovos. segurando um lírio na mão. com forninho elétrico cozinhará uma sopa. sem falar. Em um grande cachimbo de metal esmaltado de vermelho. Da pasta poderão folhear cartas e faturas perfumadas com diversas intensidades. 228 Cozinha futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio desejo branco Dez negros reúnem-se à mesa em uma cidade marítima. com uma mistura de tendências espirituais e de vontades eróticas. Uma cozinheira negra. 10 Recipiente térmico. Livros contábeis de bolso conterão peixe comprimido. para calmar. satisfazer ou excitar o apetite. será confeccionado um cardápio simultâneo que lhes permitirá continuar as diversas atividades (escrever caminhar discursar) e alimentar-se ao mesmo tempo. impossibilitados pelo turbilhão de negócios a deter-se em um restaurante ou de voltar para casa. sem quebrar a casca.Fillippo Tommaso Marinetti Cardápio simultâneo Para executivos.indd 228 7/4/2009 15:51:27 . Toda a sala está imersa em uma penumbra misteriosa e as lâmpadas invisíveis permitem somente uma luminosidade suficiente para ver a mesa coberta por uma camada de vidro escuro brilhante. invadidos por um estado de ânimo indefinido que os faz desejar a conquista dos países europeus. Pequenos “termo”10 em forma de canetas-tinteiro repletos de chocolate quente.

grappa ou gim. alaranjada. 11 Substância cristalina. com fortíssima fluorescência verde-amarelada em solução.indd 229 7/4/2009 15:51:27 . bebe-se anis puro. A sensibilidade dos negros se apaga no sabor-cor-odor branco dos pratos. fechados sob uma camada de manteiga e dispostos sobre um leito de arroz cozido e chantilly. Ao mesmo tempo. fontes luminosas graduáveis iluminarão de cem modos diferentes o plano de cristal. enquanto do teto desce lentamente em direção à mesa um globo incandescente de vidro leitoso e por toda a sala se expande um perfume de jasmim. 229 Cozinha futurista.A cozinha futurista Então é trazida uma grande sopeira com leite frio no qual foram imersos pequenos cubos de mussarela e uvas moscatel. Amanhecerá assim em taças de cristal um brodo consumido tornado fluorescente mediante uma mínima quantidade de “fluoresceína”11. e dos dois lados em direção ao centro. A cozinheira negra retorna ainda com uma bandeja cheia de pedaços de polpa de côco escrustrados de torrone. variando intensidade e cor dependendo dos pratos. sob a mesa. O estado de ânimo dos negros é quase inconscientemente sugestionado por todos os pratos brancos ou cândidos. pulverulenta. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio astronômico A mesa é constituída por uma lâmina de cristal apoiada sobre reluzentes barras de alumínio. Todo o serviço é de cristal. através da própria lâmina de cristal. A sala de jantar é toda escura. De baixo para cima.

indd 230 7/4/2009 15:51:27 . Sirocofran 230 Cozinha futurista. uma esfera cosmográfica de spumone (50 cm de diâmetro). Fórmula do futurista Dr. na noite da sala. Entardecerá um prato feito de fatias muito finas de salmão defumado. regados com limão e perfumados ternamente com baunilha. Depois. mosaico de pistaches e pimenta vermelha. beterrabas e laranjas. único corpo iluminado. Uma bomba em forma de telescópio lançará parábolas de espumante Asti. mover-se-á lentissimamente sobre o cristal que se tronou abstrato.Fillippo Tommaso Marinetti Dará meio-dia em carne crua salgada.

feito com o Mosto. metade incrustada por quadrados de carne crua de jovem camelo.indd 231 7/4/2009 15:51:27 . 231 Cozinha futurista. e metade incrustada por esferas de carne de coelho muito cozidas ao vinho. regando cada bocado de camelo com um gole de água do Serino e cada bocado de coelho com um gole de Scirá (vinho turco. temperada com alho e defumada.A cozinha futurista receitáriO FuturistA para restaurantes e aquisibebe A dosagem sumária de muitas destas fórmulas não deve preocupar mas sim excitar a fantasia inventiva dos cozinheiros futuristas cujos eventuais erros poderão freqüentemente sugerir novas invenções Decisão (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) ¼ de vinho quinado ¼ de rum ¼ de Barolo fervente ¼ de suco de Tangerina Inventina (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) 1/3 de Asti espumante 1/3 de licor de Abacaxi 1/3 de suco de Laranja gelado Vianda simultânea (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Uma gelatina de frango. sem álcool). Para ser comida.

a bordo. navega meio melão com. Sobre este mar verde e vermelho colocam-se complexos formados por pequenos filés de peixe fervido. um camandantezinho esculpido em queijo holandês que dirige uma frouxa tripulação esboçada em miolos de vitelo cozidos no leite. Mar da Itália (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Sobre um prato retangular dispõe-se uma base formada por listas geométricas de molho de tomates frescos e de espinafres. Todoarroz (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Arroz branco cozido assim disposto: uma parte no centro do prato em forma de semi esfera – uma outra parte em volta da semi esfera. Pulverizar o navio e o mar com canela ou pimenta vermelha. um obstáculo de pão forte de Siena.Fillippo Tommaso Marinetti Mesa vocabulivre marina (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Sobre um mar de salada crespinha.indd 232 7/4/2009 15:51:27 . aqui e ali salpicada de fragmentos de ricota. fatias de banana. Entredois (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Duas fatias retangulares de pão: uma untada de pasta de anchovas. uma cereja e um fragmento de figo seco. em forma de coroa. 232 Cozinha futurista. derramar sobre a semi esfera um molho de vinho branco quente encorpado com fécula e sobre a coroa um molho de cerveja quente. de modo a criar uma precisa decoração verde e vermelha. No momento de servir à mesa. gemas de ovos e queijo parmesão. Entre as duas fatias de pão: salame cozido. a outra com pasta de casca de maçãs trituradas. A poucos centímetros da proa.

Serve-se à esquerda de quem come um retângulo formado de lixa.indd 233 7/4/2009 15:51:27 . os garçons esborrifam nas nucas dos comensais um comperfume de cravo enquanto vem da cozinha um violento comrumor de motor de aeroplano contemporaneamente a uma desmúsica de Bach. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato. Enquanto isso. que se apóia sobre três esferas douradas (D) de carne de frango. LIXA SEDA VERMELHA VELUDO PRETO 233 Cozinha futurista. Os alimentos devem ser levados diretamente à boca com a mão direita. é coroado por uma camada de mel (C) e sustentado na base por uma anel de lingüiça (B). enquanto a mão esquerda alisa leve e repetidamente o retângulo tátil.A cozinha futurista Cada um desses complexos é mantido unido por um palito de dentes que sustenta verticalmente os diversos elementos. Carnescultura (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) O “carnescultura” (interpretação sintética das hortas. corações de erva-doce e bergamotas. dos jardins e dos prados da Itália) é composto por uma grande almôndega cilíndrica (A) de carne de vitela assada recheada por onze qualidades diferentes de legumes e verduras cozidos. Aerovianda (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Serve-se à direita de quem come um prato com azeitonas pretas. seda e veludo.

Trutas imortais (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Rechear as trutas com nozes trituradas e fritá-las em azeite. Servem-se duas por pessoa. Promontório siciliano (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Atum maçãs azeitonas e amendoins japoneses são triturados juntos. Alfabeto alimentar (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Todas as letras do alfabeto são recortadas (com grande espessura. Então deixá-la mergulhada por um minuto em muito suco de limão. A pasta que deriva é espalhada sobre uma omelete fria de ovos e geléia. em massa podre e em açúcar queimado. de acordo com as iniciais dos seus nomes que determinarão assim a combinação dos diversos alimentos. À caça no paraíso (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Cozer lentamente uma lebre em vinho espumante onde se dilui chocolate em pó.indd 234 7/4/2009 15:51:27 . Envolver as trutas em finíssimas fatias de fígado de vitelo. de modo que permaneçam em pé) em Mortadela de Bolonha. Servi-la em abundante molho 234 Cozinha futurista. até a sua consumação.Fillippo Tommaso Marinetti Diabo em túnica negra (polibebida do aeropintor futurista Fillìa) 2/4 de suco de laranja ¼ de grappa ¼ de chocolate líqüido Imergir a gema de um ovo cozido. em queijo.

privado da pele. Docelástico (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Recheia-se uma esfera de massa podre com zabaione vermelho no qual é imersa um pedaço (3 cm.) de alcaçuz em fita. salpicada de confeitos prateados que lembram as balas dos caçadores. Fechar a parte superior da esfera com meia ameixa seca. a base de espinafre e zimbro.indd 235 7/4/2009 15:51:27 . Carrossel de álcool (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) 2/4 de vinho Barbera ¼ de cidra ¼ de bitter Campari 235 Cozinha futurista. As grandes águas (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) ¼ de grappa ¼ de gim ¼ de cominho ¼ de anis Sobre o líqüido flutua um bloco de pasta de anchovas envolta cirurgicamente em uma hóstia.A cozinha futurista verde. Porcoexcitado (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Um salame cru. é servido em pé em um prato contendo café expresso quentíssimo misturado com muita água de colônia.

indd 236 7/4/2009 15:51:27 . No centro emerge um cone de claras batidas em neve e solidificadas. Discos saborosos (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Bolo de frutas variadas que se apóia sobre um disco de chocolate. cheios de geléia de ameixa. Prefácio gustativo (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um cilindro de manteiga que sustenta no alto uma azeitona verde. O topo do cone será bombardeado de pedaços de trufas negras cortadas em forma de aeroplanos negros à conquista do Zênite. Paradoxo primaveril (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um grande cilindro de sorvete de creme que traz no alto. Na base do cilindro: salame. cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. enfiados em um palito de dentes. O bolo é coberto por duas camadas de papa que o dividem ao meio: a primeira feita de molho de tomates e a segunda de espinafre. 236 Cozinha futurista. uva passa. um quadrado de queijo e um quadrado de chocolate. Entre as bananas são escondidos ovos cozidos sem a gema. bananas sem casca.Fillippo Tommaso Marinetti No líqüido são imersos. com pimenta sal limão. como a vegetação de palmeiras. pinhõezinhos e confeitos. Equador + Pólo Norte (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um mar equatorial de gemas de ovos em suas cascas.

Aproxima-se das bexigas o cigarro aceso e aspira-se o perfume que dali brota. Sirocofran) Para fundir a máxima pureza virginal com a máxima luxúria de perfume. Tâmaras ao luar (fórmula do futurista Dr. sabe-se bem.indd 237 7/4/2009 15:51:27 . após ter mantido o prato no refrigerador por algumas horas. A polpa assim obtida é incorporada à ricota até obter uma massa bem homogênea. São levadas à mesa junto com o café. 500 gramas de ricota romana. Sirocofran) 35-40 tâmaras muito maduras e doces. que cantou a virgem Heródias em uma verde paisagem palustre coberta de sensualíssimos lírios turquesa. peguem arroz e façam cozinhar em muito leite convenientemente salgado. Elas são enchidas e levemente esquentadas de modo a vaporizar o perfume e tornar turvo o invólucro. Perfumes prisioneiros (fórmula do futurista Dr. procurando que os perfumes sejam variados. Antepasto fulgurante (fórmula do poeta futurista Luciano Folgore) Pensa que se dormes não mereces fazer um antepasto incomparável.A cozinha futurista Arroz de Heródias (fórmula do futurista Dr. exaltando-os e honrando assim o nome glorioso de Mallarmé. não pega peixes 237 Cozinha futurista. em pequenos pratos quentes. Servir frio. Sirocofran) Dentro de finas bexigas coloridíssimas coloca-se uma gota de perfume. quem dorme. Privam-se as tâmaras do caroço e amassam-nas bem (melhor ainda se são passadas na peneira). Escorram-no e temperem-no com finíssimo pó de rizoma de lírio.

indd 238 7/4/2009 15:51:27 . depois tire o leite que colocarás a esperar os eventos em um pratinho. para prender até peixe em barril a fim de obter (pagando preços salgados) dois arenques ao leite e não defumados.Fillippo Tommaso Marinetti enquanto em nosso caso é indispensável estar de tal modo desperto. entende-se) para desfazê-lo no óleo ao qual une-se algumas gotas de vinagre e finalmente estenda aquele leite tenro e picante sobre os arenques que triturastes já e o antepasto fino e excitante todo apetite humano despertará. Obtendo-os. Conta-se que um rei da Patagônia por um tal prato renunciou ao seu reino esta história é certamente uma embroma mas a bondade do prato que te ensino é tão real e alegra o apetite 238 Cozinha futurista. limpe-os com carinho. Feito isso pegue o leite novamente (o leite dos arenques. aliás sutil. logo os arenques a banho meterás quatro ou cinco horas sob água pura e quando houverem perdido a salgadura estenda-os na tábua que os deleita com um pouco de cebola e um ovo cozido depois com o oscilar da lamineta triture tudo finamente e faça de modo que a pasta seja macia e perfeita e por fim como condimento regue com azeite e vinagre a seu contento.

à parte. mexendo sempre até ficar cor de ouro. Então. com cuidado o suco produzido. recolha-se. a colheradas. Fazer – à parte – um abundante molho de salsinha com alho e cebola em pequena dose. muito mais que o açafrão. Este risoto é futurista porque o alquequenje é uma fruta quase fora de série: certo.A cozinha futurista que parece que Dante na Vita Nuova tenha escrito para ela. após o Convite “Entendê-la não pode quem não a prova”. acrescentar. Após vinte minutos de cozimento. Quando estiver bem quente.indd 239 7/4/2009 15:51:27 . É sintético porque os oito grãos contidos no bulbo ácido são como as “Marinettianas” oito almas em uma bomba. caldo convenientemente salgado e ao qual será agregado o suco dos alquequenjes. Voltar ao fogo: e apenas tudo esteja dourado (que a cebola não se toste) acrescentar arroz suficiente para seis pessoas. e é velocissimamente digerível como tudo o que pertence à usina (queria dizer cozinha) futurista. 239 Cozinha futurista. asas que se jogam fora: e assim parecem um paraquedas. a qual – de resto – na natureza quase não é mais encontrado. Risoto futurista ao alquequenje (fórmula do aeropoeta futurista Paolo Bruzzi) Preparar triturado um quilo de alquequenje separado de sua sutil membrana. tire tudo do fogo amanteigando bem o risoto e acrescente queijo em abundância. Colocar azeite abundante em uma caçarola. tirá-la do fogo e jogar o triturado de alquequenjes (conservando o suco à parte) e o pesto de salsinha. porque o alquequenje é dotado de asas de bom tecido como o aeroplano.

molhando as mãos em água ou. Façam muitas bolotas do tamanho médio de uma laranja. Em toda a volta da abertura do dorso levantam-se cristas de galo. 240 Cozinha futurista. menta. pinhõezinhos e uva passa. mas mais cozido. melhor. ou provolone fresco). (Não deve ser ao dente para que os grãos de arroz possam aderir uns aos outros).Fillippo Tommaso Marinetti Laranjinhas de arroz (fórmula do vocabulivre futurista Arm. passem as laranjinhas em farinha branca. e façam em cada uma delas um furo com o polegar. geléia de morango e regada delicadamente por Asti espumante. Comumanuvem (fórmula do aeropoeta futurista Giulio Onesti) Uma grande massa de chantilly dardejada por suco de laranja. ou caciocavallo. e recheiem-nas com carne à bolonhesa moída grossa e úmida de seu molho. crocantes. depois em ovo batido e enfim em farinha de rosca. e deixe-o esfriar. Assim prontas. salame ou presunto cru em cubinhos. Fritem-nas em abundante azeite até que fiquem loiro-douradas e sirvam-nas quentes. Quando esfriar. em azeite.indd 240 7/4/2009 15:51:27 . Frango de aço (fórmula do aeropintor futurista Diulgheroff) Assa-se um frango completamente esvaziado. alargando-o sem romper as paredes. tendo o cuidado de tirá-lo do fogo não ao dente. Mazza) Preparem um bom risoto de açafrão ou de tomate. Cubram com mais risoto e arredonde-os novamente. Acrescente cubos de queijo (fontina ou mussarela. faz-se uma abertura em seu dorso e completa-se o interior com zabaione vermelho sobre o qual são dispostos 200 gramas de confeitos esféricos prateados.

5 biscoitinhos de amêndoa: todos dispostos ordenadamente sobre um grande leito de mussarela. 241 Cozinha futurista. uma meia lua de melancia. Servir frio em banho de Asti espumante ou de passito12 de Lipari. pinhõezinhos. atacando aqui e ali com as mãos. cravos. Ultraviril (Fórmula do crítico de arte futurista P. de modo que resultem 12 Vinho licoroso feito com uva passa. 2 figos. um pequeno cubo de parmesão. Sobre estas sobrepõem-se duas fileiras de patas de caranguejo assadas no espeto. Sorvete simultâneo (fórmula do poeta vocabulivre futurista Giuseppe Steiner) Creme de leite e quadradinhos de cebola crua gelados juntos. uma pequena esfera de gorgonzola. A. nozes. Apresentar este risoto com um acompanhamento de creme de baunilha sem açúcar. um buquê de salada radicchio. olhos fechados. para ser comido. 8 bolinhas de caviar.A cozinha futurista Palavras em liberdade (fórmula do aeropoeta futurista Escodamè) Três mariscos. Saladin) Sobre um prato retangular dispõem-se fatias finas de língua de vitelo fervida e cortada de comprido. Vitelo embriagado (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Rechear a carne crua de vitelo com maçãs descascadas. Cozinhar no forno. Golfo de Trieste (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Cozinhar um quilo de vôngole sem casca em um molho de cebola e alho acrescentando lentamente o arroz.indd 241 7/4/2009 15:51:27 . enquanto o grande pintor e vocabulivre Depero declamará a sua célebre “Jacopson”.

enquanto completam a guarnição do prato duas fileiras de pequenos cilindros compostos por uma rodela de limão. Entre estas duas fileiras coloca-se o corpo de uma lagosta previamente descascada e desossada.Fillippo Tommaso Marinetti paralelas e em senso longitudinal ao eixo do prato. A. Na parte posterior da lagosta dispõem-se três ovos cozidos cortados longitudinalmente e de modo que a gema se apóie sobre as fatia de língua. Saladin) 1 castanha confeitada 1 parte de licor de rosas 1 parte de licor de abacaxi 1 parte de licor de timo ou tomilho Amor alpestre (Polibebida do crítico de arte futurista P. Saltoemcarne (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. Saladin) 3 grãos de café 1 parte de licor feito com as seguintes plantas: coca. Saladin) ¼ de licor de melissa ¼ de gemas de abeto ¼ de bananas ¼ de aspérula perfumada 242 Cozinha futurista. coberta de zabaione verde. muira puama.indd 242 7/4/2009 15:51:27 . A. ginseng. equinácea 1 parte de licor de chá 1 parte de kirch Maismenosparaseparado (Polibebida do crítico de arte futurista P. ioimbe. cola. damiana. uma de grãos e uma fatia fina de trufa coberta por ovas de lagosta. A parte anterior é coroada com seis cristas de galo como divisores.

Saladin) 1/3 de licor de artemísia 1/3 de licor de ruibarbo 1/3 de grappa Centelha (Polibebida do crítico de arte futurista P. Parasocar (Fórmula do crítico de arte futurista P. como indicado no desenho. Saladin) Sobre um prato redondo serve-se zabaione vermelho de modo a formar uma grande mancha. equidistantemente entre eles e em forma de cone. duas castanhas confeitadas e serve-se um prato para cada casal. A. alcachofras. azeitonas. Sobre um raio do prato dispõem-se.A cozinha futurista Desanuviante (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. Dispõem-se depois.indd 243 7/4/2009 15:51:27 . cebolinha. Saladin) Cobre-se o fundo de um prato redondo com fondente levemente perfumado com grappa. A. corações de aipo e de erva-doce. Saladin) ¼ de licor de cascas verdes de amêndoas ¼ de licor de genciana ¼ de licor de absinto ¼ de licor de genebra Homemulhermeianoite (Fórmula do crítico de arte futurista P. alcaparras. A. No meio desta dispõe-se um belo disco de cebola furado e atravessado por um galho de angélica confeitado. Do lado oposto dispõem-se 3 talos de alho-porró 243 Cozinha futurista. 3 meios pimentões vermelhos assados e recheados com uma massa de legumes composta de pontas de aspargos.

Fillippo Tommaso Marinetti fervidos. Um arabesco de trufas raladas que parte do 2o. pimentão e termina naquele da parte externa completa o prato. Hortocubo (fórmula do crítico de arte futurista P. A. Saladin) cubinhos de aipo de verona fritos e cobertos de páprica cubinhos de cenoura fritos e cobertos de rábano ralado; ervilhas fervidas; cebolinha de Ivrea em conserva cobertas de salsinha picada; barrinhas de queijo fontina. N.B. Os cubinhos não devem ultrapassar 1 cm³. Branco e preto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Mostra individual sobre as paredes internas do Estômago de arabescos à vontade, de chantilly pulverizado com carvão de tília. Contra a indigestão mais negra. Pró dentadura mais branca. Terra de Pozzuoli e verde veronês (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Cidras confeitadas, recheadas de sépia frita e picada. Mastigá-los bem como se fossem críticos antifuturistas. Cenouras + calças = professor (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Uma cenoura crua em pé, com a parte fina para baixo, onde serão aplicadas com um palito de dentes duas berinjelas fervidas, na função de calças roxas marchadoras. À cenoura, deixar as folhas verdes na ponta, representando a esperança da aposentadoria. Mandibular tudo sem cerimônias.

244

Cozinha futurista.indd 244

7/4/2009 15:51:27

A cozinha futurista Cravos no espeto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Longos finos cilindros de massa folhada. Dispor em fila sobre cada um quatro cravos: branco, rosa, vermelho, púrpura, assados em licor frio ou no Roob Coccola di Zara. Ao comê-los pensar no fenecido estilo floral. Morangomama (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Um prato rosa com duas mamas femininas eretas feitas de ricota rosada ao Campari e bicos de morango confeitado. Outros morangos frescos sobre a cobertura de ricota para morder em uma ideal multiplicação de mamas imaginárias. Cafémaná (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Café de cevada torrada, adoçado com maná. Servi-lo quentíssimo para que os comensais o esfriem assoprando em cada um as piadas mais congelantes. Senado da digestão (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Quatro comensais pedirão cada um duas conhecidas comidas ou bebidas digestivas. Ou então oito comensais, uma cada. Os outros convidados votarão secretamente contra uma ou outra. Resultará vencedora aquela que obtiver menos votos contra.

245

Cozinha futurista.indd 245

7/4/2009 15:51:27

Fillippo Tommaso Marinetti Aeroplano libanês (fórmula do piloto-aviador, poeta e aeropintor futurista Fedele Azari) Castanhas confeitadas imersas por 2 minutos em água de Colônia e depois por 3 minutos no leite, então servidas sobre uma papa (cinzelada em forma de delgado aeroplano) de bananas, maçãs, tâmaras e ervilhas. Reticulados do céu (fórmula do aeroescultor futurista Mino Rosso) A base é um disco de bala de cereja. O cilindro grande: Três folhas de massa folhada recheadas com polpa de tamarindo e cobertas por fondente de chocolate. O cilindro pequeno: coroas de merengue sobrepostos cobertas com fondente de tangerina. O centro do cilindro superior contém chantilly com polpa de tamarindo e pistaches descascados. A asa é bala de tangerina. Pouco antes de ser apresentado à mesa o doce deverá ser coberto com fios de açúcar verde. Antepasto intuitivo (fórmula Senhora Colombo-Fillìa) Esvazia-se uma laranja em forma de cestinha na qual se dispõem qualidades diferentes de salame, manteiga, cogumelos em conserva, anchovas e pimentas verdes. A cestinha perfuma de laranja os diversos elementos. Dentro das pimentas escondem-se bilhetinhos com frases de propaganda futurista ou frases surpresa (por exemplo: “O futurismo é um movimento anti-histórico”- “Viva perigosamente”- “Médicos, farmacêuticos e coveiros, com a cozinha futurista ficarão desempregados”, etc.)

246

Cozinha futurista.indd 246

7/4/2009 15:51:27

A cozinha futurista Leite à luz verde (fórmula da senhorita Germana Colombo) Em uma grande tigela de leite frio imergem-se algumas colherinhas de mel, muitos grãos de uva preta e alguns rabanetes vermelhos. Comer enquanto uma desluz verde ilumina a tigela. Beber juntamente uma polibebida feita com água mineral, cerveja e suco de amoras. Faisão futurista (fórmula do aeropoeta Dr. Pino Masnata) Assar um faisão bem esvaziado, depois deixá-lo uma hora em banho-maria no moscato de Siracusa. Depois uma hora no leite. Recheálo com mostarda de Cremona e frutas cristalizadas. Aeroporto picante (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Uma camada de salada russa com maionese coberta de verde. Em volta medalhões variados compostos de pãezinhos recheados de laranja, clara de ovo e frutas mistas. Com manteiga tingida de vermelho e anchovas ou sardinhas formar no campo verde perfis de aeroplanos. Estrondos ascensionais (arroz com laranja) (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Risoto em branco com molho luminoso: o molho é composto de ossos de vitelo cozido em marsala e um pouco de rum, casca de laranja cortada em tirinhas finas, fervidas com gotas de vinagre. Acrescentar suco de laranja. Perfumar com “molho nacional”, que se encontra no comércio.

247

Cozinha futurista.indd 247

7/4/2009 15:51:27

Fillippo Tommaso Marinetti Fuselagem de vitelo (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni)Fatias de vitelo encostadas na fuselagem montanha composta por castanhas cozidas, cebolinhas e lingüiças. Tudo coberto de pó de chocolate. Aparições cósmicas (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Ervas-doces, beterrabas, brócolis, cenouras amarelas sobre um pastel de espinafre. Acrescentar cabelos de anjo de açúcar. Os legumes são cozidos cortados em formato de estrela, lua, etc e servidos na manteiga. Aterrissagem digestiva (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Com papa de castanhas cozidas em água com açúcar e favas de baunilha formar montanhas e planícies. Por cima, com sorvete de creme de cor azul, formar camadas de atmosfera sulcadas por aeroplanos de massa podre inclinados em direção ao chão. Mamas italianas ao sol (fórmula da aeropintora futurista Marisa Mori) Formam-se duas meias esferas cheias de pasta confeitada de amêndoas. No centro de cada uma apóia-se um morango fresco. Então se derramam na bandeja zabaione e zonas de chantilly. Pode-se cobrir tudo com pimenta-do-reino forte e guarnecer com pimentas vermelhas. Algaespuma tirrena (com guarnições de coral) (fórmula de aeroceramista futurista Tullio d’Albisola, PoetaRecord de Turim)

248

Cozinha futurista.indd 248

7/4/2009 15:51:28

deixando-a endurecer. Revestir o vazio com biscoito tipo inglês dando forma quadrada. O centro do abacaxi é coberto por uma camada de atum sobre a qual se apóia uma meia noz. preenchendo o vazio com uma bavaroise de baunilha. Pulveriza-se a folha com açúcar e espuma-se com uma onda de chantilly. advertindo que a pesca não tenha ocorrido nas vizinhanças de fossas ou desaguadouros porque a referida alga assimila facilmente os maus cheiros. sobre um prato redondo plano. será servido à mesa apenas pronto. Acordaestômago (fórmula do aeropintor futurista Ciuffo) Uma fatia de abacaxi sobre a qual dispõe-se um raio de sardinhas. arquitetado e arabescado com arte. A guarnição de corais será obtida com um monte de cachos de pimentas vermelhas picantes.A cozinha futurista Prende-se um maço de algas marinhas de recentíssima pesca de rede.indd 249 7/4/2009 15:51:28 . Congelar. e uma constelação de grãos de romã madura. Quando limpa. Decorar os lados com angélica cândida em forma de coroa e a parte posterior com castanhas confeitadas. com brodo ondeado e coberto por uma folha de celofane azul. O todo. gomos de laranja e limões confeitados. Bomba à Marinetti (fórmula do cozinheiro futurista Alicata) Revestir uma forma de bomba com gelatina de laranja decorando a parte da cúpula com pequenos morangos.. 249 Cozinha futurista. desenformar e servir com uma guarnição de meios damascos com gelatina. gomos de ouriços do mar pescados sob lua cheia. esfregar no suco de limão. lava-se e enxágua-se em abundante água corrente. fresco. Cobrir a decoração com uma camada de gelatina.

fatias de banana. Sobre o mel: alquermes. licor Strega. 250 Cozinha futurista. vermute e licor Strega. fatias de queijo parmesão. conhaque. pedaços de abacaxi. Um ritual (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Um pequeno cilindro oco de gelo coberto externamente de mel. com o interior também espalhado de mostarda. de espessura) como divisor impermeável. depois amendoins de Chivasso. No centro do pratinho.Fillippo Tommaso Marinetti Doceforte (fórmula da Senhora Barosi) Entreosdois formado por duas fatias de pão com manteiga. Dentro: fatias de banana. anchovas. O regenerador (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Uma gema de ovo. Avanvera (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Sobre um pratinho de alumínio. eqüidistantes: um montinho de amêndoas torradas. com mostarda espalhada em sue interior. tudo regado de vermute e licor de menta. que comprimem bananas e anchovas. Em seu interior e no fundo: sorvete de creme. um copo contendo: vermute. Meio copo de Asti espumante. Fogonaboca (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) No fundo do copo: uísque com marascas em conserva. café torrado. previamente imersas em pimenta Caiena. Sobre: leite com mel ou mel (1 cm.indd 250 7/4/2009 15:51:28 . fatias de tomate.

um pedaço de banana. óleo sal pimenta. A tâmara assim confeitada é envolta em finas fatias de presunto cru e depois em folhas de alface. O interior do cilindro recheado com carne moída. Fixados: embaixo por uma semi esfera de risoto branco e em cima por um meio limão. cozidos previamente em água. emblema fascista tomado da antiga Roma 251 Cozinha futurista. Simultânea (polibebida do futurista Dr. aparecerão no líqüido os olhos de gordura depositadas pelo presunto: neste caso a polibebida poderá ser intitulada “aquele porco que pisca os olhos”) 13 Talvez o fascio lictório. Vernazza) 4/8 de vinho Vernaccia 3/8 de vermute 1/8 de aguardente Tâmara pouco madura recheada de mascarpone empastado com licor Aurum (Pescara). Tudo batido por 10 minutos. dispostos direitos de modo a formar um cilindro vazio. Tudo enfiado em um palito sobre o qual se enfilará também uma pequena pimenta vermelha em conserva recheada de queijo parmesão em pedacinhos.. O lictório13 (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Diferentes caules de cardo ou salsão do comprimento de 10 cm. Sobre a semi esfera de arroz.indd 251 7/4/2009 15:51:28 . Três colherinhas de açúcar. distribuídas como estrelas: um pepino. (Introduzir-se-á o palito no copo. um pedaço de beterraba. Apresentado em um copo dentro do qual se dispõe uma banana descascada e visível.A cozinha futurista Três nozes torradas.

Depois bolinhas esféricas perfeitas com cereja em conserva (sem o cabinho) envoltas com massa de ricota. Vernazza) Arroz cozido normalmente. Molho preparado com a fritura de pouca cebola e manteiga. Bocado “squadrista”14 (fórmula do futurista Dr. uma anchova coberta por uma tirinha de banana. Vernazza) Filé de peixe entre dois grossos discos de maçã: tudo coberto de rum e flambado no momento de servir. cobrir com uma fina camada de massa (feita de mascarpone amassado com nozes trituradas). 14 militante da causa fascista 252 Cozinha futurista. Cozimento rápido para manter o forte da bebida. acrescentar e misturar algumas azeitonas verdes e guarnecer com gomos bem limpos de tangerina. Para formar o cabo da raquete. ovos. Vernazza) Bife de vitelo cozido na manteiga e cortado em forma de encordoamento de raquete: na hora de servir. Temperado o risoto.Fillippo Tommaso Marinetti Risoto Trinacria (fórmula do futurista Dr. queijo e noz moscada.indd 252 7/4/2009 15:51:28 . ao qual se acrescentará: pedacinhos de barriga de atum em conserva e tomate em mínima quantidade. Chuleta-tênis (fórmula do futurista Dr. sobre a qual são traçadas algumas linhas com molho de tomate misturado com rum.

Entre o zabaione e o chantilly. fatias de laranja embebidas em marasquino Zara. Vernazza) Pasta de legumes (lentilhas. Por cima: uma camada de chantilly. Dos dois lados desta composição que lembra esqui: discos de fruta cristalizada dentro do qual está enfiado um grissini doce. ervilhas. espinafres.A cozinha futurista Aerovianda atlântica (fórmula do futurista Dr. Vernazza) Zabaione duro gelado em um prato fundo. Sobre a superfície branca dispor longas fatias de banana e no centro meia tâmara recheada de licor Aurum amassado com amêndoas doces e amargas trituradas. Rosas diabólicas (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. de farinha suco de meio limão uma colher de azeite 253 Cozinha futurista. etc) de cor verde clara. Por cima dispor (um por comensal) aeroplanos formados por: folhadinhos de formato triangular (asas) – cenoura cortada de comprido (fuselagem) – cristas de galo cozidas em manteiga (leme) – bergamotas cortadas em discos e colocadas em pé (hélice).indd 253 7/4/2009 15:51:28 . Esquiador comestível (fórmula do futurista Dr.

Quando estiver bem deaço sirvam-no com biscoitos finos. despejem-no assim em uma forma. Sirva-os à mesa quentíssimos. comam à meia-noite em janeiro. depois coloquem o arroz e cozinhem-no muito seco e al dente. e levem ao gelo. misturando bem.indd 254 7/4/2009 15:51:28 . quando estiver frio. ralem dentro a casca do limão e espalhem. depois de ter cortado o caule na altura do cálice.Fillippo Tommaso Marinetti Misture bem os ingredientes citados e forme assim uma massa não muito densa. (Indicadíssimos para recém-casados. Bom apetite. Tirem-no fogo e.) Doce Mafarka (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 50 gr. de café Açúcar a vontade 100 gr. especialmente se vêm cobertas do doce futurista Mafarka. de água de flor de laranjeira ½ litro de leite Cozinhem no leite o café e adocem a gosto. a água de flor de laranjeira. de arroz 2 ovos Casca de limão fresco 50 gr. jogue lá dentro rosas vermelhas aveludadas despetaladas. e viva o aço! 254 Cozinha futurista. – Veja a fórmula seguinte. e frite-as em azeite fervente como se usa para fazes alcachofras à la jedia.

Quando o preparado estiver bem frio. incorporando-o bem. 255 Cozinha futurista. de mussarela de búfala 6 anchovas 25 gr. meia anchova. e depois passem em farinha de rosca e fritem. de manteiga 100 gr. de azeitonas 50 gr.indd 255 7/4/2009 15:51:28 . 3 ou 4 alcaparras. Pulo de áscaro15 (fórmula do futurista Giachino. darão a forma de uma esfera. 15 Pejorativo. de arroz ½ litro de leite Coloquem para cozinhar bem al dente o arroz no leite. Depois que o arroz for tirado do fogo misturem imediatamente um ovo. proprietário do Santopaladar) Cozer uma coxa de carneiro com louro. pimenta. banhem-na no outro ovo que já foi batido. de alcaparras 100 gr. A cada parte. e em cada uma destas incorporarão uma fatia de mussarela. 2 ou 3 azeitonas sem o caroço. e uma pitada abundante de pimenta do reino. dividam-no em 10 partes. alecrim e alho. assim preparada. e aproximadamente na metade do cozimento acrescentar a manteiga e sal suficiente. soldado da colônia italiana em Eritréia.A cozinha futurista Bombardeamento de Adrianópolis (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr.

pepinos. Unir as duas extremidades do presunto e mantê-las fechadas com filés de anchova. cogumelos em conserva. Aplacafome (fórmula do futurista Giachino. alcachofrinhas. atum. proprietário do Santopaladar) Sobre uma larga fatia de presunto colocar salame cru. uma fatia de presunto e uma fruta cristalizada. vinho branco seco e suco de limão. e acrescentar à carne tâmaras recheadas com pistaches salgados. Verter sobre o filé molho de tomate e acrescentar um anel de maçã. recheada com geléia e servida em um brodo de rosas quentes realçado por gotas de água de Colônia italiana.indd 256 7/4/2009 15:51:28 . Ovos divorciados (fórmula do futurista Giachino. Sopa zoológica (fórmula do futurista Giachino.Fillippo Tommaso Marinetti Cozida a coxa. proprietário do Santopaladar) 256 Cozinha futurista. proprietário do Santopaladar) Sobre um creme de ervilhas dispor um filé de vitelo cozido em manteiga. proprietário do Santopaladar) Massa em forma de animais composta de farinha de arroz e ovos. proprietário do Santopaladar) Sobre um fundo de espinfre servir arroz branco fervido e temperado com manteiga e recoberto por um denso creme de ervilhas e pistaches em pó. fatias de abacaxi e manteiga. Compenetração (fórmula do futurista Giachino. escorrê-la. azeitonas. Arroz verde (fórmula do futurista Giachino.

licor Campari e anis com essência de Rosas Brancas. Cortá-los depois como carteiras e recheá-los com anchovas banhadas em ovo e rum. Servir com legumes. Boca de fogo (fórmula do futurista Giachino. Passar os nabos recheados em gema de ovo e no pão ralado e cozê-los ao forno. nozes e uma baga de zimbro. deixando cozinhar até secar. Nabo-carteira (fórmula do futurista Giachino. proprietário do Santopaladar) Misturar à medula de ossobucos dourados em manteiga farinha de rosca. 257 Cozinha futurista. proprietário do Santopaladar) Pequenos nabos novos fervidos por 10 minutos com louro. Dispor as gemas sobre uma pasta de batatas e as claras sobre uma pasta de cenouras. Levar ao fogo em uma caçarola com manteiga e acrescentar um pouco de caldo de carne. cozinheiro do Santopaladar) Fazer um furo em todo o comprimento de uma banana descascada e enchê-lo com carne de frango moída. cebolas e alecrim. Tornar novamente ao fogo com um cálice de vinho branco seco e suco de limão. Rosabranca (fórmula do futurista Giachino. proprietário do Santopaladar) Doses diferentes de laranjada. Voltar ao fogo com meio copo de suco de ameixa. Depois acrescentam-se seis ameixas sem caroço recheadas com amêndoas.A cozinha futurista Dividir na metade ovos cozidos extraindo intactas as gemas. Bananas surpresa (fórmula do futurista Piccinelli.indd 257 7/4/2009 15:51:28 .

Conmúsica: termo que indica a afinidade acústica de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o comrumor do arroz ao molho de laranja e o motor de motocicleta ou o “despertar da cidade” do rumorista Luigi Russolo. Exemplo: a conmúsica do carnescultura e o balé “HOP-FROG” do maestro futurista Franco Casavola. exemplo: o comperfume da massa de batatas e a rosa. Comrumor: termo que indica a afinidade rumorística de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. 258 Cozinha futurista.indd 258 7/4/2009 15:51:28 . Exemplo: o comtátil da pasta de bananas e o veludo ou a carne feminina. Comtátil: termo que indica a afinidade tátil de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda.Fillippo Tommaso Marinetti pequenO diciOnáriO da arte cozinhária futurista Castanhas confeitadas: substitui marrons glacê Comperfume: termo que indica a afinidade olfativa de um dado perfume com o sabor de uma determinada vianda.

Exemplo: o desrumor do “Mar da Itália” e o chiado do óleo fritando. uma importante decisão. Desrumor: termo que indica a complementaridade de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. 259 Cozinha futurista. Desmúsica: termo que indica a complementaridade de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: a comluz do “porcoexcitado” e um relampejar vermelho. Decisão: nome genérico de polibebidas quentes-tônicas que servem para tomar. após breve mas profunda meditação.A cozinha futurista Comluz: termo que indica a afinidade óptica de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Consumado: substitui CONSOMMÉ. Exemplo: o destátil do “Equador + Pólo Norte” e a esponja. dos refrigerantes e da espuma do mar.indd 259 7/4/2009 15:51:28 . Desperfume: termo que indica a complementaridade de um dado perfume com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: a desmúsica das tâmaras com anchovas e a Nona Sinfonia de Beethoven. Destátil: termo que indica a complementaridade de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o desperfume da carne crua e o jasmim.

indd 260 7/4/2009 15:51:28 . Guerranacama: polibebida fecundadora. Mexedor: substitui BARMAN. Fumatório: substitui FUMOIR. Inventina: nome genérico de polibebidas refrescantes e levemente embriagantes que servem para encontrar fulminantemente uma idéia nova. 260 Cozinha futurista. Guiapaladar: substitui MAÎTRE D’HOTEL. Exemplo: a desluz de um sorvete de chocolate e uma luz laranja quentíssima. Mistura: substitui MÉLANGE.Fillippo Tommaso Marinetti Desluz: termo que indica a complementaridade de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Lista ou Listadepratos: substitui MENU. Fondentes: substitui FONDANTS.

Sala de chá: substitui TEA-ROOM Sganasciatore: personagem futurista que tem por tarefa alegrar os banquetes oficiais.indd 261 7/4/2009 15:51:28 . Pasta: substitui PURÉE Almoçoaosol: substitui picnic. 261 Cozinha futurista. Aquisebebe: substitui BAR. Paraselevantar: substitui DESSERT. Pasticho: substitui FLAN. Polibebida: substitui COCKTAIL. Cedonacama: polibebida aquecedora invernal.A cozinha futurista Paznacama: polibebida sonífera.

Fillippo Tommaso Marinetti Entreosdois: substitui SANDWICH Sopa de peixe: substitui BOUILLABAISSE 262 Cozinha futurista.indd 262 7/4/2009 15:51:28 .

indd 263 7/4/2009 15:51:28 .ConClusão O Cozinha futurista.

indd 264 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

O Futurismo. a euforia dos homens pelas multidões. no início. embora praticamente desconhecida e ainda não publicada no Brasil: A cozinha futurista. Todos os sentidos foram privilegiados pelos manifestos: visão. primeiro grande movimento literário do século na Itália. Teatro. Esta trazia. agora. propiciando assim um contato maior com o mundo modernizado que se lhes apresentava.O objetivo deste trabalho foi proporcionar ao leitor de língua portuguesa e aos estudiosos do Futurismo o acesso a uma obra importante do movimento. pelas 265 Cozinha futurista. tato. também à Gastronomia. pelas máquinas. além de outros doze polemicamente instituídos por Marinetti no manifesto de 1921.indd 265 7/4/2009 15:51:28 . Arquitetura. oferecia novos modos de expressão para representar a nova sociedade que se formava a partir do final do século XIX. audição. olfato e paladar. passando da Literatura à Pintura. Cinema e. Os representantes do Futurismo procuraram se manifestar em relação a diversas esferas da arte e cultura. Escultura. de Filippo Tommaso Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”.

Algumas das regras contidas no “Manual de Redação e Estilo Futurista”. ou pior. para sustentar a tese de que “macarrão não faz bem aos italianos”. traz inúmeras opiniões. a saber os manifestos do Futurismo e Técnico da Literatura Futurista. se não excita o apetite. que muitas vezes refutam os pratos inovadores. O receitário futurista. ajudaria a fortalecer a economia. permeando o Renascimento e toda a literatura 266 Cozinha futurista. faz imaginar se alguém já teria preparado. ingerido certas iguarias. na população. O Manifesto da Cozinha Futurista aparece como grito desafiador de um movimento que não atingia mais os seus objetivos. revelam aos poucos a intolerância de Marinetti para com os hábitos tradicionais. aproximam-se da política para garantir a subsistência do movimento enquanto se afastam da vanguarda literária. A forma dos pratos. O resultado é a estranheza de algumas construções sintáticas e a inovação do vocabulário. ou fúria.Fillippo Tommaso Marinetti indústrias. mais tarde. com receitas assustadoras. Propuseram modificar o hábito mais arraigado da tradição italiana – o macarrão – para despertar interesse. são postos em prática pelo autor. A cozinha italiana nunca mais seria a mesma. a euforia e o impacto iniciais foram perdendo força na medida em que deixaram de ser novidades. além de revigorar a raça. Certas descrições. passando para a Idade Média esfomeada. certamente mantém o bom humor à mesa. Os artigos de jornais fazem transparecer o “passadismo” dos estômagos. Os argumentos econômicos de Marinetti soam bastante convincentes: modificar os hábitos alimentares. A trajetória do Futurismo segue a História. nada melhor que uma linguagem adequada. O otimismo. A cozinha futurista é um livro intrigante.indd 266 7/4/2009 15:51:28 . aparentemente incompreensíveis. de pessoas inusitadas. com fartura em grandes banquetes. pelos avanços científicos e pelos meios de comunicação e. Para evidenciar o futurismo proposto. A expressão da gastronomia na literatura não é novidade: desde as antigas civilizações. Além de conter o polêmico manifesto. o homem moderno alienado pela cultura de massas.

temas e formas de composição literária. As coincidências culinárias . por não refletir o exato perfil de seus participantes. p. que atendesse aos anseios de um país – ex-colônia de Portugal por mais de três séculos.que poderiam ser chamadas de influência ou contribuição – situam-se apenas no campo da suposição. O banquete. Oswald de Andrade e Mário de Andrade – as referências à culinária em si e ao canibalismo real.”1. desejavam fundar um movimento nacional.22 267 Cozinha futurista.indd 267 7/4/2009 15:51:28 . O “encontro” dos três autores propiciou o questionamento sobre as possíveis interferências da obra de um na obra do(s) outro(s). Não queriam ser discípulos do movimento europeu. 1 Andrade. seria algum cozinheiro famoso. mas permitem que aproximemos e comparemos afinidades.ingestão de carne humana. nome que rejeitaram pouco tempo depois. e que continuou importando cultura por ainda mais cem anos. Op. Buscou-se nos três autores trabalhados – Marinetti. e até a um canibalismo inesperado em Marinetti. Os escritores brasileiros que revolucionaram as artes no início do século chamaram-se no início de futuristas. Mario de. desde a declaração de Mário de Andrade: “Gosto porém muito de arte culinária. metafórico e intelectual. para cada um. O Futurismo italiano e o Modernismo brasileiro foram aproximados neste trabalho a partir do viés culinário-antropofágico. invento pratos e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe. simbologias e objetivos diferenciados. aos convites-cardápio de Oswald. metafórica ou não – revelam uma preocupação comum. cit. os livros trazem com bastante freqüência o prazer da mesa para suas páginas. significados. embora a digestão da carne humana tenha. Boas surpresas foram colhidas ao longo do processo. Estas interferências .A cozinha futurista subsequente. independente.

embora os títulos sejam pouco conhecidos ou lidos. De qualquer forma. ou talvez outros se aventurem pela obra marinettiana. Esperamos que este livro “cozinhário” possa contribuir com os estudos feitos tanto na área gastronômica quanto na literária. Talvez em outro trabalho possamos verificar a invasão futurista nos outros cômodos da casa. Infelizmente este trabalho não pode ir além da Cozinha. parece ser a forma de composição comum aos três autores nas obras aqui estudadas.indd 268 7/4/2009 15:51:28 . a verificar todos os incômodos que este suscitou. Talvez Marinetti tenha somente se servido do regime. a colcha de retalhos. Colecionando recortes de jornal e receitas de amigos. como fez Oswald. como Marinetti. como cantou Mário. 268 Cozinha futurista. Colecionando fotos e bilhetes. A partir da leitura das obras literárias de Marinetti pudemos observar que o escritor é muitas vezes esquecido. A obra literária de Marinetti é vasta e interessante. colando-os num diário.Fillippo Tommaso Marinetti O pastiche. Há uma espécie de preconceito em relação ao escritor. reproduzindo-os num grande livro. talvez pela idéia corrente de que teria servido ao regime fascista de Mussolini. um autor que analisou e criticou sua nação. Colecionando histórias de índios e organizando-as num herói nacional. estudioso de vários campos das artes. sendo praticamente reduzido aos seus manifestos. participando da construção de uma nova sociedade para o novo século. e que desperte em outros estudiosos o interesse por esta figura tão contraditória e interessante do Futurismo italiano. merece mais atenção por parte dos pesquisadores.

reFerênCIAs bIblIográFICAs K Cozinha futurista.indd 269 7/4/2009 15:51:28 .

indd 270 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

Novelle colle labbra tinte: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. Filippo Tommaso. São Paulo. Bourgois. e ROBERT. Milano: Giuseppe Morreale. 1998. testo e note a cura di Luciano De Maria. Milano: Facchi. La grande Milano tradizionale e futurista. le futuriste. 1927. Milano: Monddori. 19--. Una sensibilità italiana nata in Egitto. 1969. ___________. MARINETTI. Filippo Tommaso. e FILLÌA. Milano: Fratelli Treves. La cucina futurista. in prosa.reFerênciAs bibLiOGráFicAs Bibliografia específica de Marinetti MARINETTI. 3ª. 1984. prefazione di Aldo Palazzeschi. ___________. Signora Enif. Le futurisme. Filippo Tommaso. Ed. Milano: Cristhian Marinotti Edizioni. 1931. 1969. ___________. Les mots en libertés futuristes. L’alcova d’acciaio. MARINETTI. Re Baldoria: tragedia satirica in quattro atti. Milano: A. Il tamburo di fuoco. 1980. introduzione. 1970. Dissertação de Mestrado. ___________. ___________. ___________. ___________. ___________. 1919. Mafarka. 1987. 1930. 271 Cozinha futurista. 1920. Luigi Colombo. Milano: Mondadori. Mondadori. Teoria e invenzione futurista. ___________. Lausanne: L’Âge d’Homme. Materiais para o estudo do Futurismo russo e do Futurismo italiano. Spagna veloce e toro futurista. Milano: Sonzogno. Milano: Mondadori. Aurora Fornoni. ___________. Milano: Mondadori. Un ventre di donna: romanzo chirurgico. Paris: C. Bibliografia específica sobre Futurismo BERNARDINI.indd 271 7/4/2009 15:51:28 . 1968. Lausanne: L’Âge d’Homme.

CRISPOLTI. São Paulo: Perspectiva/ EDUSP. Milano: Mondadori. Enrico. Paris: J. 1961. FABRIS. São Paulo: 1972. Antologia do futurismo italiano: manifestos e poemas. 1986. São Paulo: Perspectiva: 1980. São Paulo. __________. 1994. no. São Paulo. Tese de Doutorado. Trapani: Celebes. La poetica del decadentismo. ___________. Lisboa: Editorial Verga. in: Folha de São Paulo. 1999. 1999. __________. pp. 77-109. O futurismo paulista : hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil. mai. Francesco. i disegni e le fotografie di un movimento “rivoluzionario”. La nascita dell’avanguardia: saggi sul futurismo italiano. Corti. José Mendes (org. Walter. BINNI. 1987 __________. Venezia: Marsilio. pp. Henk. 1990. in: Língua e Literatura. 9-17. São Paulo. _________________. Campinas: Mercado de Letras. Poesia e poéticas do Futurismo: russo e italiano. 1986. Modernismo e vanguarda: o caso brasileiro. Storia e critica del Futurismo. I futuristi : I manifesti.indd 272 7/4/2009 15:51:29 . Modernidade e Modernismo no Brasil. DE MARIA. 272 Cozinha futurista. GRISI. 1979.Fillippo Tommaso Marinetti __________. 1994. __________. Campinas: Mercado de Letras. Luciano. ___________. 1994 __________. São Paulo: Perspectiva/ EDUSP. __________. “Glossário de termos italianos”. le parole in libertà. Vitalité et contradictions de l’avantgarde: Italie-France 1909-1924. 1971. 1973. Milano: Garzanti. Marinetti e i Futuristi. O Futurismo italiano. FERREIRA. “A trajetória de uma idéia: o futurismo no Brasil”. che fu l’unica avanguardia italiana della cultura europea. Firenze: Sansoni.). BRIOSI. São Paulo. Roma/Bari: Laterza. Annateresa. 1994. Per conoscere Marinetti e il Futurismo. 1994. Sandro & HILLENAAR. 24. Futurismo : uma poética da modernidade. 1988. la poesia. Roma: Newton. 1990. Il mito della Macchina e altri temi del Futurismo.

1991. Os Condenados: a trilogia do exílio. lettere inedite di Gian Pietro Lucini ad Aldo Palazzeschi. 1994. futuristi: saggi e interventi / Gian Pietro Lucini. Um homem sem profissão: sob as ordens de mamãe. ___________________. Il Futurismo. Luis Bensaja dei.indd 273 7/4/2009 15:51:29 . PAPINI. ___________________. O momento futurista: avant garde. ideologia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. futurismo. 2. ___________________. O futurismo italiano : estetica. A marcha das utopias. London: Alcove Press. Introdução de Benedito Nunes. VERDONE. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. teses de concursos e ensaios. Marinetti. A morta. São Paulo: Globo. 1978. São Paulo: Globo. Firenze: Vallecchi. 1927. John. 1990. SCHIRO. a cura di Mario Artioli . 1978. 2. 273 Cozinha futurista. São Paulo: Globo. manifestos. The concept of the avant-garde: explorations in modernism. WEIGHTMAN. Mon coeur Balance/ Leur Âme. Do Pau-Brasil à Antropofagia e às Utopias. Bologna: M.A cozinha futurista LUCINI. São Paulo: Globo. Boni. Bibliografia específica de Oswald de Andrade ANDRADE. 2a.ed. 1975. Oswald de. fixação de textos e notas de Haroldo de Campos. Paris: Klincksieck. ___________________. Lisboa.ed. Claude.ed. São Paulo: EDUSP. ___________________. avant guerre. 1999. Ministério da Educação e Cultura. 5. 1991. 1966. Pau-Brasil. L’esperienza futurista. Marjorie. ___________________. 1994. ed. PERLOFF. Gian Pietro. Femmes et machines de 1900 : lecture d’une obsession Modern style. 1993 QUIGUER. ___________________. 1973. 1979. Giovanni. Memórias sentimentas de João Miramar. fascismo. 1990. Prefácio de Haroldo de Campos. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo/ Editora Globo. Caminho. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação. e a linguagem da ruptura (tradução Sebastião Uchoa Leite). Mario. Roma: Tascabili Economici Newton.

2a. 1991. São Paulo. Os contos de Belazarte. O Santeiro do Mangue e outros poemas. 274 Cozinha futurista. Aspectos da Literatura Brasileira.ed. por Mário da Silva Brito. __________________. Mário de. 1992. 5a. 1991. Belo Horizonte: Itatiaia. transcrição tipográfica de Jorge Schwartz. São Paulo. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Neto.M. Serafim Ponte Grande/ Ensaios de Antonio Candido. _________________. verbo intransitivo. 1984. Editora Globo. 3a. Réquiem para Miss Cíclone. ___________________. Contos novos.ed. musa dialógica da pré-história textual oswaldiana.ed. O banquete. São Paulo: Duas Cidades. O perfeito cozinheiro das almas deste mundo/ O perfeito cozinheiro das almas deste mundo. __________________. __________________. 1974. 1986. Cartas a Anita Malfatti [1921-1939]. São Paulo: Globo. Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade / prefácio de Raúl Antelo. __________________. A utopia antropofágica/ A antropofagia ao alcance de todos por Benedito Nunes. Livraria Martins Editora. por Haroldo de Campos.Fillippo Tommaso Marinetti _________________. São Paulo: L. 1987. Específica de Mário de Andrade ANDRADE. Cartas a Prudente de Moraes. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Belo Horizonte: Villa Rica.ed. 1987. São Paulo: Editora Ex Libris. 1947 __________________.indd 274 7/4/2009 15:51:29 . 12a. O perfeito cozinheiro das almas deste mundo: diário coletivo da garçonnière de Oswald de Andrade. __________________. São Paulo. 13. 1985. 1990. Editora Globo. 1918. São Paulo: Global Editora. Ed.ed. Amar. Editora. 2a. __________________. 1989. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. São Paulo: Editora Globo: 1990. __________________. facsimilar / textos de Mário da Silva Brito e Haroldo de Campos. Haroldo de campos e Mário da Silva Brito.ed. __________________.

São Paulo: Martins. A escrava que não é Isaura.. _______________. São Paulo: Livraria Martins Editora. __________________. São Paulo: Companhia das Letras. Firenze: Sansoni. Genève: Librairie Droz. Campinas: Ed. __________________. 3. Toda a História. 1972. 1996. 1993. Venezia: Marsilio. Paris: Folio. _______________. Ática. planejamento: Marta Rosseti Batista. IEB. As (in)fidelidades da tradução: servidões e autonomia do tradutor. São Paulo. Categorie italiane. Oeuvres en Prose I. Giorgio. da Unicamp. Textes Inédits. O cacto e as ruínas.Gallimard. São Paulo: Ed. São Paulo: Perspectiva. Nelson. Telê Porto Ancona Lopez. ed. seleção. Storia dell’arte italiana. 1997. São Paulo: Duas Cidades. ARRUDA. Alberto. Francis. Belo Horizonte: Itatiaia. __________________. 1999. Brasil : 1o. Bibliotèque de la Pléiade. José Jobson de A. Carlo Giulio. Affonso (org.indd 275 7/4/2009 15:51:29 . 275 Cozinha futurista. BATISTA. 1952. Quatro pessoas. Obra Imatura: Há uma gota de sangue em cada poema. 1996. Guillaume. Primeiro andar.A cozinha futurista __________________. AVILA. Marta Rosseti. Martins/MEC. 1997.ed. Torino: Einaudi. ARGAN. AUBERT. ASOR ROSA. 1972. 1985. Outros achados e perdidos. 3 ed. 1980. Genus italicum: saggi sulla identità letteraria italiana nel corso del tempo. Poesias completas. 1988. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 11a.1919. 3. documentação/pesquisa. ed. _______________. 1960. Davi. tempo modernista 1917/1929. 2002. Paris: Gallimard. Croniques d’Art 1902. Yone Soares de Lima.) O Modernismo. 1975. ARRIGUCCI Jr. APOLLINAIRE. 2002. Bibliografia Geral AGAMBEN. e PILETTI. São Paulo.

22 por 22: A Semana de Arte Moderna vista pelos seus contemporâneos. Movimento brasileiro: contribuição ao estudo do modernismo. 276 Cozinha futurista. O ser e o tempo na poesia. São Paulo: Companhia das Letras. 1985. in: Magia e técnica. BOSI. São Paulo: Companhia das Letras. v. Literatura e resistência. São Paulo: Brasiliense. São Paulo. BOAVENTURA. 1977. Vida e morte da antropofagia. O pré modernismo ( A literatura brasileira. Letteratura italiana del novecento. Mario da Silva. ________________.Fillippo Tommaso Marinetti BENJAMIN. ____________. Sandro. 2000. Campinas: Editora da Unicamp e São Paulo: Ex Libris. BOPP. BRITO. ____________. São Paulo: Secretaria da Cultura. 2001. Dialética da colonização. São Paulo: Ática. Rio de Janeiro/ Brasília: Civilização Brasileira/ INL. 1922 1928. São Paulo: Cultrix. Raul. 1966. 5) São Paulo: Cultrix. ___________. São Paulo: Ática. As Metamorfoses de Oswald de Andrade.indd 276 7/4/2009 15:51:29 . Rio de Janeiro: São José. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura. _________________. 1992. 2002. Céu. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1977. Historia do modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna. Maria Eugênia. “Marinetti em São Paulo” in: Cartola de Mágico. ___________. A vanguarda antropofágica. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Companhia das Letras. Edusp. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1978. 1995. ____________. Walter. inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. 1974. 1972. “O narrador”. 1988 ____________. 1985 ________________ . 2000. O salão e a selva: uma biografia ilustrada de Oswald de Andrade. arte e política. BRIOSI. Ciência e Tecnologia/ Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas. __________. Milano: Ape. Alfredo. 1976. Movimentos modernistas no Brasil. ____________. 1966.

1982. Francesco. FLORA. Jacques. Literatura e cultura de 1900 a 1945. Manifestes du Surrealisme. Storia della letteratura italiana. 2002. Annateresa. Laura de Souza. Boris. 1971. Haroldo de. Andre. DERRIDA. 1994. in: A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva. 2a ed. 1970. 1972. Metalinguagem: ensaios de teoria e crítica literária. 1968. 1970. A Revolução de 1930. Francesco. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. 1970. São Paulo: ECA. Professoras na cozinha. “Freud e a cena da escritura”. 1982.A cozinha futurista ___________. DE SANCTIS. Marilena. São Paulo: Brasiliense. ___________. São Paulo: Nova Alexandria. ___________. & McFARLANE. Rio de Janeiro: Alhambra. 1968. São Paulo: Perseu Abramo. Modernismo : guia geral 1890 1930. Malcolm. São Paulo: Brasiliense. 1993 _____________________. São Paulo: Duas Cidades. São Paulo: Duas Cidades. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Introduzione di Cesare Milanese. tradução. Milano: Mondadori. 1998. São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Ed. CAMPOS. Paris: Gallimard. 2001. CARPEAUX. FONSECA. 1970. CHAUÍ. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Antonio. 1989. Maria Augusta. SENAC. BRADBURY. 1997. Modernidade e modernismo no Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro. O discurso e a cidade. Otto Maria. ___________. As revoltas modernistas na literatura. Roma: Grandi Tascabili Economici Newton. 277 Cozinha futurista. Literatura e sociedade : estudos de teoria e história literária.indd 277 7/4/2009 15:51:29 . prefácio e notas de Antonio Lazaro de Almeida Prado. História da literatura ocidental. tradução: Denise Bottmann. James Walter. Storia della letteratura italiana. Oswald de Andrade: o homem que come. Vários escritos. Poesia do modernismo. Petrópolis: Vozes. 1965. BRETON. 1965. Ensaios críticos. CHAUÍ. Campinas: Mercado de Letras. CANDIDO. FAUSTO. ___________. FABRIS.

De caçador a gourmet – Uma história da gastronomia. 278 Cozinha futurista. Maria Paula. _______________. A literatura brasileira: modernismo. Lucia. São Paulo FFLCH/USP. __________. 2001. São Paulo: Ed. 1988. Maria Leonor. Modernismo brasileiro e vanguarda. 1987. HELENA. México: Siglo XXI Editora. MACEDO LEAL.ed. KIRSCH.7. ____________. 1969. São Paulo: T. Totem et Tabou. LESTRINGANT.Fillippo Tommaso Marinetti _________________. Paris: Payot. Claude. Eric. Rio de Janeiro: Francisco Alves. São Paulo. MARTINS. Às avessas. 1932. lenguage. A história da gastronomia. São Paulo: Duas Cidades.A. 1990. São Paulo: Cia das Letras. HUYSMANS. 1997. FROTA. Frank. 1977. São Paulo: Paz e Terra. Totens e tabus da modernidade brasileira. 1975. Oswald de Andrade 1890-1954. Introdução à lingüística. LÉVI-STRAUSS. Mário. Gaby. 1985. novena na França e na Alemanha”.. 1993. Arte. VI. HOBSBAWN. São Paulo: Companhia das Letras. SENAC. JAKOBSON. 1989. A era dos extremos. etnologia. Lingüística e comunicação. A crítica literária no Brasil. 1998. 1930 : a crítica e o modernismo. FREUD.indd 278 7/4/2009 15:51:29 . Queiroz. MARTINS. LAFETÁ. Campinas: Fontes/ Fapesp. São Paulo: Cultrix. São Paulo: Secretaria do Estado da Cultura: Art Editora. Roman. Vol. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. FRANCO. 1983. SENAC. 1997. Poética da tradução. Ariovaldo. Sigmund. Wilson. A singularidade na escrita tradutória. 1998. 2a. O canibal: grandeza e decadência. São Paulo: Ática.-K. Tradução de Mary Lucy Murray Del Priore. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro/ Niterói: Universidade Federal Fluminense/CEUFF. São Paulo: Cultrix. São Paulo: Edusp/Fapesp. Tese de doutorado. João Luiz. 1974 LARANJEIRA. Nilce Sant’Anna.ed. 1995. A era dos impérios. J. 2000. “Poética da tradução e recepção estética: Nove.

1990. Benedito. São Paulo: Ática. Friedrich. da Unicamp. 2000. Oswald canibal. São Paulo: Perspectiva. José Paulo. __________. 1981. MILTON. História da Literatura Brasileira – Vol. John. José. 2001. São Paulo: Martins Fontes. A volta de McLuhananaíma: cinco estudos solenes e uma brincadeira séria. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro. Instituto de Estudos da Linguagem. Tradução. A carne.A cozinha futurista ____________. 1987. Campinas. PAES. 5 modernismo 1922 – atualidade. ed. __________. 2. MOISÉS. (org. São Paulo: Perspectiva. Georges. Portugal: Publicações Europa-América. História da inteligência brasileira. _________. 3 Simbolismo. “Visões do mundo e tradução”. Assim falou Zaratustra. Escola de tradutores. São Paulo: Cultrix/EDUSP.indd 279 7/4/2009 15:51:29 . Barcelona: Tusquets. Gilberto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Ecce Homo. Teoria e prática. São Paulo: Edusp/IEB. in: Os problemas teóricos da tradução. Mario. 1993.) Makunaíma e Jurupari: cosmogonias ameríndias. NIETZSCHE. a ponte necessária. Marcos Antonio de (org. MORAES. 1978. 1975. 1998. História da Literatura Brasileira – Vol. Mira-Sintra. 2002. 1988. 279 Cozinha futurista. 1979. Richard M. Octavio. NUNES. Paulo. 1987. PRAZ. MEDEIROS. Sérgio. PAZ.) Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. A tradução vivida. São Paulo: Cia das Letras. 6. 1996. Tradução. Massaud. Lisboa: Assírio & Alvim. MOUNIN. 1985. São Paulo: Editora Martins Claret. MENDONÇA TELLES. ed. São Paulo: Cultrix. Livro de bem comer. 1983. ___________. 1990. a morte e o diabo na literatura romântica. RÓNAI. Traducción: literatura y literalidad. MORSE. Aspectos e problemas da arte de traduzir. 1975. A antropofagia de Oswald de Andrade / Dissertação (mestrado) Universidade Estadual de Campinas. QUITÉRIO. São Paulo: Cultrix/Edusp. 2 ed. São Paulo: Cultrix. 1992. Campinas: Ed.

Companhia das Letras. Ungaretti e os modernistas: encontros e desencontros. Orietta Del. 2001. São Paulo: Hedra. 1995. Sermões. Carlo. Letteratura italiana contemporanea: dal romanticismo al futurismo. Karl. São Paulo: Companhia da Letras. VISSER. 280 Cozinha futurista. Vanguardas latino-americanas. s. São Paulo: Iluminuras/ Edusp/Fapesp. 1973. Giorgio Barberi. Rio de Janeiro: Record. A invenção do restaurante. São Paulo. 1993. Poeti del ‘900. Rio de Janeiro. Vol II. O ritual do jantar. _________________. Napoli: R. Roma: Grandi Tascabili Economici Newton. Roma/ Bari: Laterza. _________________. SALOMÃO (atribuído a). autores. Storia della Letteratura Italiana del Novecento. VIEIRA. Brescia: La Scuola. Il Novecento italiano: cultura e letteratura. SOLE. São Paulo: Perspectiva. WATAGHIN. 1985. _________________. 1995. SQUAROTTI. La Letteratura Italiana del nostro secolo. Giacinto. São Paulo: Badaró. Ed Campus. Nunca treza à mesa. A fisiologia do gosto. 1998. Pe. SAVARIN. Milano: Mondadori. Roma: Newton. Tese de Doutorado. Antonio. 1984. 1922. São Paulo: Nova Stella/ Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/ Edusp. SCHWARZ. 1989. Margaret. Literatura Italiana: linhas. Verona: A Mondadori. Lucia. SPANG. problemas. Cântico dos cânticos. São Paulo. 1983. 1999. 1998. 1983. VOSSLER. SPAGNOLETTI. _________________. Jorge. Rebecca L. Tradução de Antonio Medina Rodrigues. 1994. Brillat.indd 280 7/4/2009 15:51:29 . Dal tramonto dell’ermetismo alla neovanguardia. Otto secoli di poesia italiana da S. 2003. Francesco d’Assisi a Pasolini. Ricciardi.Fillippo Tommaso Marinetti SALINARI. Vanguarda e cosmopolitismo na década de 20.d. ______________.

indd 281 7/4/2009 15:51:29 .ApêndICe U Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 282 7/4/2009 15:51:29 .

indd 283 7/4/2009 15:51:29 . Capa da edição em alemão 283 Cozinha futurista.ApêndICe 1 CApAs do lIvro A CozinhA FuturistA eM dIFerentes edIções e trAduções Capa do livro na edição espanhola Capa do livro na edição em língua inglesa Capa do livro em edição norueguesa Capa do livro na edição italiana de 1932.

indd 284 7/4/2009 15:51:29 . non esagerare la tua angoscia. abbacinante di audacia eroica e di maffia insolente che sappia correre più di loro. senza dogmatismo disciplinare e senza rancore.Apêndice 2: cOme si nutrivA L’ArditO Via. Bisogna sopratutto ricompensarli a tempo. Fra tre giorni ti troverai nel tuo reparto d’assalto fra quei terribili arditi verdirossi. comandarli in guerra! Ocorre per questo avere l’anima. Sono belve indomabili ma generosissime. Così. Tu li conosci bene. ceffi spavaldi selvaggi tracotanti e giocondi che hanno già superato in ferocia tutti I Marat e in eroismo tutti gli arditi grigio-verdi dell’ultima guerra. abbandonando la tua dolce amica in questa città turbulenta e caotica. Come potrà vivere quella bella camelia fragile senza la calda ovatta del tuo amore. ma rapidamente senza ingiustizia. e scatenarli spesso contro il nemico da ammazzare! Mestiere difficile. Questa volontà deve irrigidire I nostri nervi contro ogni viltà sentimentale. in questa città di avventurieri rapaci e di operai ribelli nel rombo catarroso delle officine che hanno l’eterno ritmo asmatico? A II anni di distanza eccoci di nuovo lanciati in una nuova conflagrazione. Fedeli come mastini. Tu senti la tristezza e la noia di riprendere ancora il fucile e di costatare colla necessità di uccidere. con un passo più veloce del loro. l’ineluttabile fatalità della guerra. si può portarli contro le morti più spaventose. lo slancio e la você alta e il coraggio temerario d’un capo ardito! Un capo. attraverso boscaglie di pericoli. Cozinha futurista. superiore in tutto. Coraggio! su! la lotta sarà breve e decisiva. Affretati di conoscrle bene tutti. il gesto. l’occhio. Bisogna spesso prenderli a pugni. poiché ognuno ha una spiccata personalità. Comprendo prefettamente quanto ti proccupi il dover raggiungere l’esercito al fronte.

Neanche un pezzettino. Tutto è domato. è troppo amara! Tutti gli arditi circondano Guzzo con lazzi gridi ingiurie. Succhiasassi. lasciala vedere. Si guazza a mostrarla. ruzzoloni. Signor tenente. Scoppierà subito una lite nei ranghi: è Guzzo che grida: . fez rossi. Con scatto viperino l’ardito si volta e morde la mano. un pezzettino! Guzzo. Ma la mano potente stringe meglio la gola e la belva cede. Bruciapreti. Spaccafucili. Cozinha futurista.Fissati bene nella memoria I nomi anzi I soprannomi di quegli eroi: vampa. Al fiume prima tappa. silenzio assoluto! Seguitemi e guardate il mio braccio destro. non la tocchiamo. Fulmine. grandi occhi neri dolcissimi. vero Sareceno magro agile scattante. è vero! Ho dentro lo zaino la carne salata. Ti raccomando un certo Guzzo di Trapani tutto nero. la tua carne salata! Scoppia la rissa: arruffio di braccia. ma è mia.Tutti con me! Fate silenzio! Silenzio! Silen…zio! Silen…zio!… Quando saremo nell’acqua. Assassino. vogliono vedere la carne salata. Interviene il tenente comandante del reparto con calci e schiaffi. fetenti! Mascalzone! Te la cucinerò io.No! No! non voglio aprire il mio zaino. risponde Guzzo irato. non è rubata! Me la voglio mangiare tutta io! Non mi permetto di offrirla a lei. Guzzo. Ne prende uno per il collo. cedendo a poco a poco ed incanalandosi con spintoni e risate dietro il tenente che grida: . Setteferite. Ringhiano. cazzotti sfollatori.indd 285 7/4/2009 15:51:29 . signor tenente! A lei non può piacere. minacciano gli arditi verdirossi. Il caporale dice che ho dentro un pezzo di carne salata. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra. Non posso. bestemmiano.

Davanti a te un ardito ammantellato. Non si crede veduto! Ad un tratto due proiettori si accendono sulla riva nemica. Nasce la luna con gioielli rubati all’acqua bollente di risate. Gorghi di pupille ardenti. Non ti vede. L’acqua s’infiamma di mille estasi. curvo sul suo zaino. isolotti di giaccio. A un metro a destra Guzzo è in ginocchio. nel fango. forme spettrali. Lo apre. striscia. Guzzo fruga sempre nel suo zaino. carponi. È preferibile camminare in testa. ma è forte e conosce bene I guadi. Ecco. Se guida meglio così il proprio destino e si tien meno legata la propria vita ai fili sparsi della Fortuna. Guzzo in ginocchio. paesaggi d’oro liquido. Tutti a terra nel fango e nell’acqua. implorano. Lo investe sfarzosamente. Due minuti dopo russa catarrosamente con un rumore acqueo che domina lo sciacquio del fiume.indd 286 7/4/2009 15:51:29 . si incrociano. Uno specchio d’acqua breve poi una piccola lingua di terra grigia quasi bluastra nel violaceo comosso crepuscolo. Sembrano pezzi di nave impennati che affondino. Sopra giganteggiano i tronconi del ponte saltato. Velluti carnali con pallori umani che vibrano. a un metro da Guzzo. Troverai fra I più arditi verdirossi Guzzo. ecco il primo fascio di luce è a due metri. I piedi diguazzano e flic-flaccano nel pantano. pieno di ombre lunghe come cappellacci a sghimbescio sugli occhi gelati del fiume. spiagge di madreperla. urla la sua gioia bianca. metterti in coda al reparto o prendere la testa. Siete delle ombre umane che si acqattano. Sono due scope lunghe d’argento polverulento. case color smeraldo. Tappeti veloci di zaffiri e smeraldi.Tu puoi allora. tutto acceso di Cozinha futurista. La colonna degli arditi si ferma dietro al braccio destro del tenente. Ha lo zaino più pesante. Si sforza di aprirlo. a tua scelta. poi si ferma. svegliando miracolosamente fogliami e fusti fantastici d’argento lieve. Fruga dentro. Corrono dei riflessi furbissimi. mentre la forbice tagliente formata da due proiettori si apre con lento mistero. s’arricchisce di diamanti.

piena d’ogni speranza e di ogni benedizione!” ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Cozinha futurista. mio mio! Bevo l’infinito in te. perché non ti bruci contro le sbarre furenti precise dei tiri di mitragliatrice… Sono capitombolato giù dal cielo disperato nero. ingenuo. nel tuo calore rovente umido succiante! Paradiso inferno iddio mio. tutti I velluti. immensa divina. Le mammelline tonde soavi vive. la musica che sale. Fischiano gli angeli di fuoco sul nostro letto. con te. è assorto. poi andremo insieme avanti. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. tutte le sete. Spargonointorno le belle rose granate che scoppiano profumando… Bella! Cara! Mi vuoi? Mi vuoi? Oh! Sento che mi vuoi! Sento che mi desideri. Tu con calma guardalo bene. in alto sopra di noi. Ha veramente fra le mani un pezzo di carne.Cara. le vesti più belle! Tutte le perle. Musiche e splendori! Le cose più ricche.splendori. giù! La morte ci dà quest’ultima notte di festa.indd 287 7/4/2009 15:51:29 . piccola. tutti I diamanti. E c’è pure la musica. né spaventarti. in te. senza stupirti. sulla riva nemica… Tu sei l’unica mia gioia calda in questa notte gelata! Ti porterò sulle spalle senza farti male e camminerò curvo. Sono caduto giù dall’alto dei miei eroismi. estrae dallo zaino qualcosa che splende più di lui. sono qui con te. tremano. Avvicinati! Non ti sente. timido. Ora tu apri le tue braccia che non hai più e mi tendi le labbra che non hai più! Ti terrò con me sotto le mie labbra ancora un’ora. carponi. Guzzo mormorava: . Umana. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. Cosi pure il collo. squartato e rullante della mia vita morta. Si! Si! Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. Vedi? Tutto è bello intorno a noi. scende risale sotto le volte della cattedrale. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non aprla più! Il ventre umile. giù giù su te.

Portami con te in guerra. né i suoi piedi. di splendore in splendore e si spegne. Lo so. gli occhi. la fronte. raggomitola ciò che gli tremola luminosamente nelle mani. ssssssssss del fiume. Sei a tre centimetri dalla spalla di Guzzo. Vedi.Ho fatto ciò che volevi! Ti ho mangiata la faccia di baci. I tuoi oiedini santi. Buio. Lo so. cinghia e lega allo zaino. Il fascio di luce scivola lontano. ma non le donne vive.indd 288 7/4/2009 15:51:29 . Porta con te la mia carne e baciami giorno e notte. Un sibilo lungo. divorami. Guzzo si scuote. e con você flebile di donna ripete a memoria un brano di lettera: .La mitragliatrice nemica punteggia queste ultime parole. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. baciami. Tu devi allora appoggiare la mano sulla spalla di Guzzo e parlargli: Ti piaciono le donne. Non amo la testa della donna. Piange. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? Cozinha futurista. piccola. e tutta la tua cara testa coi capelli l’ho mangiata! Le tue gambe. Flic-flac di passi intorno. stringe tutto in una pelle nera. sono tua! Tua! Poi Guzzo cambiando voce: . lontano. Gli arditi si ammucchiano poi davanti nel guado che sognando travolge succhia mastica raggi di stelle. mangiami la faccia di baci. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. Se lo carica sulle spalle e si alza. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. tutto ho mangiato con millioni di baci! E ora sei me stesso! Nelle mie vene il mio sangue ti culla. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Poi silenzio. Guzzo? Sì.

Cozinha futurista. Sempre avanti lo stesso! Guzzo si caccerà con un balzo contro la palla che lo cercava scherzosamente pur volendolo scansare. Poi avanti! Mentre camminerai fra gli spudorati splendori scandalosi dei proiettori che ti cercano. Colpito cadrà nell’acqua. le sue braccia. F. Novelle colle Labbra Tinte. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Accidenti alla mitragliatrice! grida Guzzo. Tu allora non esitare. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!… Grazie. in te! Piangerà il corpo della bella di Guzzo! E il suo pianto colerà sulla tua schiena a gocce lente. T. su di te. sentirai piangere vicino a te.So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. ti approvo.indd 289 7/4/2009 15:51:29 . voluttuose. Ora porti il resto sulle spalle. Milano. le sue gambe. poi svincola il cadavere di Guzzo dalle erbacce e spingilo nella corrente che lo porterà al mare. 1930. Ti ho visto. amico! Se muoio prendi il mio zaino e seppelliscilo. stacca lo zaino e caricatelo sulle spalle. Mondadori. In: MARINETTI.

indd 290 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

Cozinha futurista. à Claudia.indd 291 7/4/2009 15:51:29 . Ao Prof. Ao Rodrigo. À Profª. Alain Mouzart pelas dicas na tradução. embora não compreendendo os dias e noites silenciosos debruçados sobre livros. pelo incentivo e por dividirem os segredos de suas cozinhas. Drª. Aos funcionários da Biblioteca. À Paola pelo apoio e pelas broncas. Aos meus pais – Mary e Domingos . à Carla por aturar muitos dias de mau humor. por provar que sempre vale a pena lutar pela felicidade. Ao Prof. sempre disponíveis em busca de algum livro desaparecido. que sem saber. Lucia Wataghin por ter me orientado com competência. que mesmo distante se fez tão presente e participante.que. Andrea Lombardi e à Profª. abriu para este trabalho os caminhos da antropofagia. Drª. Drª. À Vera e ao Chef Picard. acreditando que tudo daria certo. acima de tudo. Maria Augusta Fonseca.AGrAdecimentOs Agradeço à Profª. suporte decisivo. incentivando e. Ao meu irmão Junior pela paciência na solução dos infindáveis problemas técnicos. apoiaram à sua maneira. companheirismo e paciência enquanto eu me perdia entre receitas possíveis e impossíveis. Aurora Fornoni Bernardini pelas sugestões dadas no exame de qualificação. ajudando. Dr.

Cozinha futurista.indd 292 7/4/2009 15:51:29 .

indd 293 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 294 7/4/2009 15:51:29 .

indd 295 7/4/2009 15:51:30 .Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 296 7/4/2009 15:51:30 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful