A cozinha futurista

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A cozinha futurista
de Filippo Tommaso Marinetti

Introdução, tradução e notas: Maria Lúcia Manicelli

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Edição: Joana Monteleone Assistente editorial e projeto gráfico: Marília Chaves Revisão: Diagramação e capa: Marília Chaves Imagem da capa:

[2009] Todos os direitos dessa edição reservados à ALAMEDA CASA EDITORIAL Rua Iperoig, 351 - Perdizes CEP 05016-000 - São Paulo - SP Tel. (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

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Sumário

Introdução
Futurismo A Gastronomia na literatura: prazeres sinestésicos A cozinha Futurista

MárIo de AndrAde, oswAld de AndrAde e A CozInhA FuturIstA
Mário de Andrade na Cozinha Oswald canibal de Andrade Marinetti Antropófago

A CozInhA FuturIstA e lInguAgeM
O Futurismo: proposta de revolução lingüística A Cozinha Futurista e as inovações na língua Dificuldades da tradução

A CozInhA FuturIstA – trAdução
Uma refeição que evitou um suicídio O manifesto da cozinha futurista A revolução cozinhária Os cardápios futuristas Receituário futurista Pequeno dicionário

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ConClusão reFerênCIAs bIblIográFICAs ApêndICe Capas de diferentes traduções do livro A Cozinha Futurista Come se nutriva l’ardito Cozinha futurista.indd 6 7/4/2009 15:51:16 .

indd 7 7/4/2009 15:51:16 .Introdução A Cozinha Futurista S Uma refeição que evitou um suicídio Cozinha futurista.

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quando estuda Letras na Sorbonne. Quem assinou o manifesto foi Filippo Tommaso Marinetti. Em língua francesa. Aos dezessete anos descobre Paris. convive com os simbolistas e decadentistas. o futuro poeta presenciava a submissão e as condições de vida da população autóctone. em 1876. fundador e o maior expoente do movimento futurista. Fazendo parte da elite dominadora. o colégio Saint-François Xavier. Estudou em uma escola de jesuítas franceses. o jornal francês Le Figaro publicou o Manifesto Futurista. pôde observar a distância entre discurso e atitude. entre colonizadores e colonizados. 9 Cozinha futurista. Conhece toda a agitação cultural e artística daquela cidade. a revolta contra o status quo social pôde então se desenvolver. Educado em colégio católico. O menino Filippo nasceu em Alexandria. o manifesto atingiria um número maior de leitores.O FuturismO Em 20 de fevereiro de 1909.indd 9 7/4/2009 15:51:16 . aproxima-se de seus ideais. uma colônia inglesa no Egito.

A violência aparece apenas no discurso literário. mas suas filhas estudam em colégio de freiras. a não ser no banco dos réus. Costuma-se dizer que a história do futurismo confunde-se com a de seu idealizador.Fillippo Tommaso Marinetti Seu pai. é indisciplinado. para entendê-las. mas cumpre o serviço militar e participa da Primeira Guerra como voluntário. sua ambição essencial é a de transformar a cultura e literatura italiana. mas veste a farda da Academia. eletricidade. Marinetti foi um filho afetuoso e dócil.indd 10 7/4/2009 15:51:16 . basta verificar as contradições culturais de seu líder: Marinetti diz-se anticlerical. depois tornou-se pai e esposo exemplar. imagina para o filho uma carreira jurídica e o faz voltar à Itália para estudar Direito. que ele julga estagnadas. O futurismo nasceu sob o signo do mundo moderno. Havia sim contradições na base do futurismo e. como forma de difundir os ideais futuristas. velocidade revolucionaram o mundo e passaram a ser os novos ideais de beleza. do automóvel. sendo depois seguido por Dadá e pelo surrealismo. Os primeiros vinte anos do século XX marcam o advento do avião. Marinetti. é liberal. volta a Paris e nunca mais se envolve com a justiça. promulga-se anticlássico. o mesmo torna-se impraticável quando se trata de um grupo que deveria estar unido em torno (ou em busca) de um ideal estético/artístico. Mas se os princípios são de caráter universal e seu líder despende forças para difundir os ideais pela Europa e pelas Américas. do domínio do homem sobre a nature- 10 Cozinha futurista. o gosto pelo escândalo e o exibicionismo eram arquitetados. Com o Manifesto do Futurismo Marinetti inova. advogado. rompe com todas as tradições e inaugura o estilo das vanguardas do século XX. porém. uma vez satisfeito o orgulho paterno. pessoa gentil no dia-a-dia. Marinetti se forma na Universidade de Gênova em 1899. mas adere e defende o fascismo. Máquinas. Se todas essas contradições podem conviver no espírito de apenas uma pessoa.

em que o princípio estético defendido é o verso livre. dividindo-o em três fases. a idolatria pela máquina. instrumento multiplicador dos poderes do homem. sempre de acordo com a atuação de Marinetti: “de 1905 a 1909. a reação contra os limites e padrões estabelecidos.10 Teles. a reivindicação da valentia e da audácia. Aurora Fornoni. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro. ed. desenrolar ininterrupto de sons e de imagens”). o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (“Stirner mais do que Bakunin”). e o futurismo se transforma em porta-voz oficial do partido. quando se redige a maior parte dos manifestos e se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade. defende – além das palavras em liberdade – a exaltação da intuição contra a inteligência. Como diz Aurora Fornoni Bernardini. já que os artistas procuram apresentar a realidade em pleno movimento e não nas suas formas essenciais. 15a. O futurismo literário. p. 1980. numa poesia febril. os três pilares que sustentam o Futurismo são o verso livre (“perene dinamismo do pensamento. 1999. a exaltação da energia e da ação. dessacralizadora. São Paulo: Perspectiva. como se o novo precisasse da revolução para se libertar do antigo. cheia de gritos que exclamam e interrogam. No plano plástico.”2 O crítico Luciano de Maria divide o futurismo de Marinetti em apenas duas fases: o período heróico. de multidões e de velocidade. um mundo de máquinas.A cozinha futurista za. Gilberto Mendonça. o mais fecundo do futurismo. Petrópolis: Vozes. até 1 2 Bernardini. A literatura então procura transmitir o espírito do mundo moderno. Podem-se estabelecer algumas datas limítrofes para o Futurismo. 86 11 Cozinha futurista. por sua vez. quando se fundou o fascismo. e a de 1919 em diante.1 Na base do discurso futurista do início do movimento existe um discurso subliminar: uma solicitação antiburguesa. O futurismo italiano.indd 11 7/4/2009 15:51:16 . de 1909 a 1919. p. a primazia do viril ante o feminino. o movimento implicou nova ruptura com a tradição.

Manuel. Mário de Andrade estava já em desacordo com a postura política de Marinetti e não queria ter seu nome associado à figura do líder futurista/fascista. que veio fazer a gente perder quase metade do caminho andado”. é fato que o movimento perdeu sua força inovadora à medida que se aproximava da política. 2000. esta foi assimilada e passou a integrar o modernismo. cit. 11 ANDRADE.época da primeira visita de Marinetti ao Brasil . pp. Eliot e outros. Marinetti exerceu inegável influência em todas as literaturas modernas. Aurora Fornoni. Organização. 12 Cozinha futurista. “Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado com Joyce. como no caso de alguns dos primeiros modernistas brasileiros. mesmo tendo esta influência sido negada pelos autores. não teria existido sem o futurismo”3 Entretanto. ou “que convém tratá-lo com a maior desimportância até com uma desimportância afetada para que ele não imagine que a gente está indo na onda” 4 Na realidade. e um “segundo futurismo”.alguns comentários depreciativos em relação ao “carcamano. O Futurismo foi o primeiro grande movimento intelectual italiano do século e deixou marcas inconfundíveis na estética do mundo moderno ao servir de modelo para inúmeras escolas em diversos segmentos das artes. de 1920 até 1944.Fillippo Tommaso Marinetti 1920. introdução e notas: Marcos Antonio de Moraes. p. São Paulo: Edusp/IEB. data da morte de Marinetti. neste caso. Op. Podemos pensar que a apropriação.indd 12 7/4/2009 15:51:16 . foi oswaldianamente antropofágica: recolhida a influência. Correspondência. 294 a 297. A influência existe. Mário de & BANDEIRA. Na correspondência de Mário de Andrade a Manuel Bandeira podemos encontrar em carta datada de 14 de maio de 1926 . mas a revolução causada pela possibilidade de libertar as palavras das construções sintáticas cristalizadas impregnou de tal modo o espírito modernista brasileiro que estes não vêem nenhuma dependência do futurismo. 3 4 Bernardini.

revolucionando-a. unidos por um repertório de idéias e valores comuns. o gosto. uma quantidade maior de manifestos do que de obras literárias. em tom de discurso inflamado e com uma certa ruptura sintática. Dentre as idéias futuristas encontramos o culto da máquina e da velocidade. em violento conflito com o resto da sociedade. do adjetivo. a provocação.A cozinha futurista No Manifesto Futurista. a idéia de que a arte não deve permanecer no isolamento. mas mergulhar impetuosamente na vida de todos os dias. a drástica ruptura com a mentalidade. os modelos de comportamento do passado. utilizavam. do advérbio e da pontuação. com adjetivos. modificando a sintaxe: as palavras não deveriam mais seguir a ordem lógico-sintática. Ao mesmo tempo que pregavam a destruição da sintaxe. que provém de uma tradição secular. 13 Cozinha futurista. aqui reside o primeiro malogro futurista. ao menos é isso o que a crítica demonstra. que a real novidade proposta pelo futurismo não é o conteúdo. no futurismo. são sim entremeados por reivindicações numeradas de ordem militar. como: a vontade de apresentar-se como um grupo organizado de artistas militantes. pregando ao mesmo tempo a destruição do passado e sobretudo das literaturas passadas. existem algumas características que são comuns a outros movimentos de vanguarda. Ora. A teoria futurista não pode ser facilmente aplicada à literatura. a abolição da conjugação verbal. gritadas.indd 13 7/4/2009 15:51:16 . advérbios. Os textos. mas o tom. Pode-se verificar que há. para propor estas novas idéias. sinais gráficos e verbos impecavelmente conjugados. a velha sintaxe tradicional. pois. Vêse. dispondo-se livremente no papel. em nome de uma visão de mundo que se apresenta como totalmente nova.

) Literatura Italiana: linhas.Fillippo Tommaso Marinetti Outra contradição presente no futurismo é a negação do passado literário.5 Para o movimento. a contestação integral da linguagem burguesa. a utopia de uma reinauguração da expressão. movimento político que o transformou em instrumento de propaganda. autores. Giorgio Barberi (org. mas deve ser destruição.) como toda vanguarda.. 5 6 Teles. justamente por isso. Gustave Kahn. As primeiras intenções contidas no cerne do movimento são transformadas em técnica de oratória e de governo. ou então.485 14 Cozinha futurista. Mas. 87 Squarotti. apesar de proclamar em seus discursos a absoluta inovação de suas técnicas. oposição total ao sistema do poder constituído. do topete e do desafio. p. problemas.indd 14 7/4/2009 15:51:16 .”6 O futurismo evoluiu (ou talvez tenha involuído) de transformador das artes a meio de comunicação servidor da moral e do fascismo. Op. com sua exaltação eletrizante da máquina como triunfo da vitalidade. construção de objetos novos. Somente o desejo de mudar a realidade é que dá ensejo à aproximação do novo. Verhaeren.) decadentes e simbolistas do “fin de siècle”. Marinetti usa grande parte das idéias simbolistas e decadentistas para promover os seus manifestos. p.. Paul Adam e outros. A temática fascista apropria-se do marinettismo e com ele da impetuosidade da linguagem. Gilberto Mendonça. não poderia deixar de se aproximar da revolução fascista. Gilberto Mendonça Teles afirma que o próprio Marinetti “dá como seus precursores os nomes de Whitman. desmonte sistemático e polêmico do passado. Sabe-se que só existe revolução se há passado. Entretanto. há uma exaltação da técnica que não podemos deixar de relacionar à civilização industrial no ápice de seu desenvolvimento. contestação do presente. 1989. que estava solidária à grande burguesia industrial propiciadora do desenvolvimento. cit. do tom provocador.. São Paulo: Nova Stella/Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/Edusp. “(. a arte não é mais representação de mundo. o futurismo. Zola. (. da velocidade. o futurismo oscila: de um lado.. de outro.

Entretanto. “(. No início.) à volta diária dos caçadores 7 Visser. O ritual do jantar. 1998. Campus. já exausta do cunho propagandista revelado pelos últimos anos do futurismo.. o Manifesto da Cozinha Futurista. Ed. limitou-se a poucas e infrutíferas ações literárias. já que não havia métodos para evitar que os alimentos se deteriorassem. por exemplo.A cozinha futurista Pode-se dizer que. como lembra Margareth Visser7. sendo ao mesmo tempo o comportamento esperado e o correto. A refeição em si é um ritual presenciado em todas as culturas. já que encontros sociais são comumente realizados em torno de uma mesa. O ritual. era necessário reunir as pessoas para que uma carne (proveniente de caça ou sacrifício) fosse melhor aproveitada. Na literatura. é difícil encontrar um romance no qual não se descreva ao menos uma refeição. com toda a cortesia ritual implícita na refeição. As famílias também se encontram para refeições e este costume remonta a dois milhões de anos. Os dias festivos são solenes ou sagrados. e pela repercussão e discussões que provocaram suas inovações. p. aparece como o último grande feito marinettiano. este manifesto gastronômico nunca foi apreciado com o devido valor pela crítica. publicado em 1930 (época em que Marinetti já pertencia a Academia Fascista) por F.indd 15 7/4/2009 15:51:16 . A GAstrOnOmiA nA LiterAturA: prAzeres sinestésicOs A gastronomia sempre encontrou um campo fecundo na expressão estética. Rio de Janeiro. A julgar pela extensa bibliografia contida na obra A Cozinha Futurista. Comemorações marcando transições e lembranças quase sempre exigem comida. Margareth. A refeição também é habitual e visa à ordem e à comunicação. resumindose a difundir as idéias fascistas. o futurismo colaborou de forma incisiva para a mudança ocorrida na literatura do século XX e que. até 1920. consiste numa série de ações constantemente repetidas..22 15 Cozinha futurista. após essa data. T. Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”.

indd 16 7/4/2009 15:51:16 . chás ou simplesmente jantares íntimos 8 Savarin. reciprocidade. ou por escolha própria. Como diz Brillat-Savarin8 (1755-1826): “Os animais se repastam. Ele também pode trazer conseqüências desagradáveis. A Fisiologia do Gosto. para certos indivíduos que digerem as substâncias de forma diferenciada. As cenas descritivas de festas. jejuns religiosos ou de emagrecimento. cortesia. O sucesso alcançado pelo repasto e sua digestibilidade dependem de cada um destes fatores. nutrindo-a. nos casos de dietas auto-impostas como penitências. Outro infortúnio relacionado a este prazer é o de sua própria negação. o homem come. interesse e prazer. Com o passar dos séculos.” Quando os homens perceberam que o ato de comer encerrava mais que sua simples subsistência. nem sempre este prazer caminha impune. devidas à ingestão de alimentos mal escolhidos ou mal combinados. ou seja.Fillippo Tommaso Marinetti e forrageadores proto-humanos para dividirem a comida com seus companheiros – aqueles que habitualmente. Cada detalhe colabora para tornar mais ou menos agradável este nosso ritual diário. 1995. Desde os alimentos até a bebida que os acompanha. eles haviam decidido não devorar”. que pode ocorrer de forma compulsória – por empecilhos financeiros pessoais ou carestia em épocas de guerra e recessão econômica –. como a obesidade. Brillat. em que as pessoas encontram-se para celebrar a vida. da escolha dos comensais aos assuntos tratados durante a refeição. ou a preguiça e indolência. O prazer da boa mesa transportou-se para as artes. começaram a descobrir todo o prazer que uma refeição pode oferecer. p. a abstinência gastronômica. Entretanto. banquetes. São Paulo: Companhia das Letras. somente o homem de espírito sabe comer. da beleza da sala de refeição ao tipo de música selecionada para acompanhá-la. O prazer também está diretamente ligado à gastronomia. este ritual perdeu seu valor econômico e ganhou em sociabilidade. renovando suas forças.15 16 Cozinha futurista. mas nem sempre.

A cozinha futurista permeiam a literatura, enchendo as páginas com uma sensualidade discreta. Fatos e conversas importantes desenrolam-se entre um e outro bocado, sendo este pequeno rito diário sempre um bom pretexto para a reunião das personagens, já que toda refeição familiar compartilhada num minibanquete celebra tanto a interligação quanto o autocontrole dos membros do grupo.9 Mais que acessório literário, a boa mesa tornou-se independente e, cada vez mais, podemos encontrar nas prateleiras das livrarias edições dedicadas à gastronomia. Edições sobre a história da gastronomia dividem espaço com obras sobre a cultura e a filosofia. Os livros “de receitas” evoluíram e, cada vez mais, parecem-se com os livros de arte. E o são. Livros de arte culinária. As fotografias contribuíram em muito para transformar a arte dos chefs em verdadeiras tentações para os nossos olhares. A facilidade de encontrar os ingredientes traz o sonho de uma refeição digna de reis para mais perto de outras camadas da população. As figuras enchem nossos olhos com sua beleza, nossa imaginação encarrega-se de criar o resto: o gosto, a textura, o aroma, o tilintar dos talheres nos pratos. Cinco sentidos unem-se para reproduzir o prazer que sentimos ao saborear uma nova iguaria – ou uma iguaria já conhecida, mas redescoberta a cada novo bocado. A utilização dos sentidos sempre foi importante para a literatura. Descrições sempre se tornam mais interessantes quando extrapolam o campo da visão. É importante reproduzir sons, odores, textura, temperatura, sabores. Marinetti já percebera isto ao longo de sua obra. Em 1939, o manifesto O romance sintético catalisava as tendências um pouco separadas entre os manifestos anteriores, já que este deveria ser otimista, heróico, simultâneo, dinâmico, aeropoético, aeropictórico, olfativo e tátil rumorista.10 Merece atenção o subtítulo do livro Il tamburo di fuoco: drama africano di calore, colore, rumori, odori. Con
9 Visser, Margareth. Op. cit. p.22

10 Marinetti, F.T. Teoria e Invenzione Futurista. Milão: Mondadori, 1968. p. 193

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Fillippo Tommaso Marinetti intermezzi musicali del Maestro Balilla Pratella e accompagnamento intermittente d’intonarumori Russolo. Publicado em 1922, pela Casa Editrice Sonzogno de Milão, esta obra também privilegiava os sentidos. Os manifestos lançados ao longo do movimento também refletiram esta preocupação constante: o Manifesto técnico da literatura futurista (1912) defende a introdução do rumor, do peso e do odor na literatura, já que estes representariam, respectivamente, a manifestação do dinamismo, a faculdade de vôo e a faculdade de dispersão dos elementos. O texto Palavras em liberdade (19..)diz que o poeta futurista jogará nos nervos do leitor as suas sensações visivas, auditivas e olfativas. Seria a irrupção do “vapor-emoção”. No Manifesto do teatro sintético futurista (19..) nos é apresentada a representação da nova era – entremeada de gritos, gesticulação apropriada, enfim, de detalhes emprestados dos outros campos da arte para que o Teatro Futurista seja mais abrangente. O Manifesto do tactilismo, de 1921, é de suma importância para que se possa compreender a revolução “cozinhária”11 futurista. Marinetti defende que é possível educar o tato para que possamos perceber muito mais coisas através deste sentido. Exercícios como tocar “tavole sintetiche” formadas por lixa, veludo, areia, seda, e tantas outras texturas, favoreceriam ao homem a descoberta de outros sentidos, ainda não catalogados pela ciência. Seriam eles: sentido de visão na ponta dos dedos, sentido do equilíbrio absurdo (aquele que faz um atleta, ao final de um salto imperfeito, manter-se em pé), sentido de orientação aviatória (essencial para pilotos), sentido tátil a distância (pressentimento), sentido das costas (deve ser estudado em gatos no escuro), sentido musical (ou do ritmo corporal), sentido da superfadiga-força (a força que irrompe em um estágio avançado de fadiga), sentido de velocidade,

11 O termo “cozinharia” pretende recuperar o neologismo criado por Marinetti, que chamava sua revolução de cucinaria, em vez do existente culinaria.

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A cozinha futurista sentido de nível, sentido tato-cirúrgico (todo cirurgião é ou deveria ser dotado dele) e sentido carnal-materno. O desenvolvimento dos “17 sentidos” proporcionaria uma gama maior de possibilidades, e seria possível, através de determinados materiais táteis, induzir sensações, histórias, sentimentos nas pessoas. Marinetti também propõe a utilização dos cinco sentidos para que um prato possa ser devidamente apreciado e degustado, como na “Aerovianda com rumores e odores”. Diz Marinetti: “(...) futuristicamente comendo, opera-se com os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição”. O prato consiste em quatro pedaços: um quarto de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza as pontas dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. No relato de Marinetti, apenas uma pessoa permaneceu alheia ao entusiasmo que preencheu a sala durante a degustação deste prato. Questionada, descobriu-se que era canhota – esfregava portanto o aparelho tátil com a mão direita enquanto comia com a esquerda. Mas a teoria gastronômica futurista proposta por Marinetti não é exatamente inovadora, apesar de o parecer à primeira vista. Em pleno início do século XIX, Brillat-Savarin12 escreve A Fisiologia do Gosto, obra em que discute filosoficamente diversos assuntos relacionados à gastronomia. Neste livro, além de afirmar que a alimentação influi de maneira direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios, relata

12 Savarin, Brillat. Op. cit. p.15

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Fillippo Tommaso Marinetti um de seus experimentos: um jantar em que foi usada uma de suas invenções, chamada por ele de “irrorador”. O instrumento foi apresentado, durante um jantar, à Sociedade de Estímulo à Indústria Nacional e consiste em uma fonte de compressão adaptada para perfumar ambientes internos. A idéia tão inovadora de Marinetti - perfumar os ambientes durante os jantares para promover uma apreciação mais completa - já havia sido explorada por outro curioso com um século de antecedência. Brillat-Savarin afirma ainda que “quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas, aromatizadas de perfumes, enriquecida de belas mulheres, repletas dos sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.”13 O embrião da cozinha futurista também pode ser encontrado em outros autores. Podemos encontrar a interação dos cinco sentidos na tradição simbolista francesa, desde Rimbaud, que relaciona a sonoridade das letras à música e às cores; em René Ghil (1862-1925), ao instaurar a língua-música, em que vincula certas ordens de sentimentos e idéias às ordens de sons e de timbres vocais. Diz Ghil que “(...) todo instrumento musical tem harmonias próprias: daí seu timbre, que é assim apenas uma cor particular do som”14. Marinetti afirma, no manifesto Palavras em liberdade, que o verbo no infinitivo é redondo e escorregadio como uma roda; os outros modos e tempos do verbo são triangulares, ou quadrados, ou ovais. Nas Correspondências, de Baudelaire, a fusão dos sentidos não se dá em cadeia, na seqüência temporal; pelo contrário, realiza-se num só instante, como se o perfume fosse, a um só tempo, oloroso, táctil,
13 Id. Ibid. 39 14 Moisés, Massaud. História da Literatura brasileira, vol..3 Simbolismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1985. p.11

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A cozinha futurista auditivo e visual. Já Mallarmé, em seu manifesto decadente Aux lecteurs!, de 1886, afirma que “Afinamento de apetites, de sensações, de gosto, de luxo, de prazer; nevrose, histeria, hipnotismo, morfinomania, charlatanismo científico, schopenhaurismo em excesso, tais são os pródromos da evolução social”. E sobre este manifesto, escreve Gilberto Mendonça Teles, em seu Vanguarda européia e modernismo brasileiro: “Podem-se perceber algumas idéias que vão ser levadas ao extremo pelos futuristas e dadaístas, uma vez que o movimento decadentista desapareceria três anos depois.” 15 Ainda no período decadentista, J.-K. Huysmans escreveu o livro Às avessas, em que podemos perceber a mesma intenção sinestésica no ato de comer. “De resto, cada licor correspondia, segundo ele, como gosto, ao som de um instrumento. O curaçao seco, por exemplo, à clarineta cujo canto é picante e aveludado; o kümmel, ao oboé, com seu timbre sonoro anasalado; a menta e o anisete, à flauta, a um só tempo açucarada e picante, pipilante e doce (... )”16 ou ainda “(...) ergueu-se e, melancolicamente, abriu uma caixinha de prata dourada com a tampa enfeitada de aventurinas. Estava cheia de bombons violetas; pegou um e apalpou-o, pensando nas estranhas propriedades desse bombom coberto de açúcar como geada; outrora (...)depositava um desses bombons sobre a língua, deixava-o derreter-se e subitamente surgiam, com infinita doçura, lembranças muito apagadas, muito enfraquecidas, das antigas libertinagens. Tais bombons (...) eram uma gota de perfume de sarcanthus, uma gota de essência feminina, cristalizada num torrão de açúcar; eles penetravam as papilas da boca, evocavam lembranças de água opalizada por vinagres raros, por beijos muito profundos, empapados de odores. De hábito, ele sorria, aspirando esse aroma amoroso, essa sombra de carícias que lhe punha uma ponta de nudez no cérebro

15 Teles, Gilberto Mendonça. Op. cit. pp.56-57 16 Huysmans, J.K. Às Avessas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.78

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frutos exóticos. Estimulando o dinamismo.” 17 Os ingredientes utilizados nas receitas futuristas eram escolhidos para provocar a melhor experiência sensorial (seria melhor dizer sensual?) possível. A cozinha “gastro-astronomista” não tem por objetivo saciar a fome.134 22 Cozinha futurista. um peixe cozido em folhas de eucalipto que evocava Flaubert. ibid. por um segundo. Guillaume Apollinaire discutia a idéia de haver um “cubismo culinário”. com os quais era possível preparar sopas e outros alimentos. p. brincando com as palavras e remetendo tanto ao movimento artístico quanto aos cubos de comida desidratada. e não ciência. Marinetti não recebia muito bem este apoio. Cedo percebemos em Oswald de Andrade o gosto pelas artes em geral. escrevia críticas 17 Id. uma salada temperada com óleo de nozes e grappa. que era arte. mas parece ser possível reconhecer traços da rebeldia “gastro-astronomista” na cozinha futurista. Na mesma época. A combinação de elementos bastante diferenciados e o uso de condimentos inusitados. Apollinaire manteve contato com o futurista Marinetti. resultantes dos avanços científicos. Oswald. não se restringindo à literatura.Fillippo Tommaso Marinetti e reanimava.indd 22 7/4/2009 15:51:17 . café. Flores. diferentes combinações de sabores e odores. A fome só atrapalharia a degustação. temperadas com suco de limão. queijo temperado com noz-moscada e. um filé temperado com tabaco que seria aprovado à perfeição por Brillat-Savarin. Entre os modernistas brasileiros não foi muito diferente. preferencialmente estando sem apetite. como jornalista. Já em 1911. O cardápio de um jantar “gastro-astronomista” trazia como entrada violetas frescas sem os cabos. perfumes e materiais de diferentes texturas. o gosto não há muito adorado de certas mulheres. ao menos. frutas da estação. parecem coincidir nas duas proposições. mas degustar novos pratos. como sobremesa. aproximando-se do italiano através de cartas. defendeu uma Gastro-astronomia.

Dos integrantes do primeiro grupo futurista. escrita em francês: Potage crème de volaille. Dinde farcie. e o cardápio-programa do jantar é uma obra de “arte sinestésica”. saindo em sua defesa publicamente após a conhecida crítica de Monteiro Lobato à sua exposição em 1917. enfim. ou mesmo política.A cozinha futurista de pintura.16 23 Cozinha futurista.indd 23 7/4/2009 15:51:17 . caricaturas. Op. ou mesmo a de Anita Malfatti.18 O futurismo já flertava com o fascismo 18 Bernardini. apenas Marinetti havia resistido no movimento – motivo pelo qual Paolo Angeleri chama-o de marinettismo. Foi o responsável por impulsionar muitas carreiras artísticas. Este gosto pelas artes não excluía a gastronomia. Champagne. como a do traficante de pau brasil Oswald d’Andrade e a leitura do sermão da montanha sobre Ser Mãi da Intanha. Tournedos à la Rossini. Para beber. O jantar literário reuniria os cinco sentidos. quando as polêmicas suscitadas pelo movimento já não tinham a força revolucionária de outrora. cit. Charlotte Russe. Liqueurs e Café. Jambon d’York e Salade. com o bandeirante Pau lo Prato chorando sobre a trasteza do pó Lhytico no Brasil. outras musicais. música. Em 1927. p. escritos diversos sobrepostos à lista de pratos. além de ilustrações de Tarsila. o casal Tarsiwald ofereceu um jantar literário ao escritor paulista Paulo Prado (1869-1943). provavelmente a “Villa Fortunata” onde aconteceu o jantar. como o trobadour Rainette Olé cantando e a pintora caipiriuschka Tarsilowska do Amaral tocando alaúde. A cOzinhA FuturistA O Manifesto da Cozinha Futurista foi publicado em 1930. O programa anunciava algumas intervenções: umas literárias. Parfait Praliné e fruits. como a do escultor Victor Brecheret. Aurora Fornoni. A lista de comidas traz uma reprodução gráfica de uma casa. que tratou como mais uma arte. Filet de poisson Parmentier. Como sobremesa.

pela coleção Il Cammeo quando ganhou formato de 21 cm e reduziu o número de páginas para 254. Ravena. Turim. entre outras e pode ainda ser encontrada em bibliotecas espalhadas pelo mundo. bem como um receituário e um pequeno dicionário. com a colaboração de alguns novos integrantes: Luigi Colombo “Fillía”. na Itália. e em 1998 a terceira e última edição italiana do livro. esta também de Milão. pela Editora Sonzogno de Milão. também de Milão. época em que uma Itália em guerra. Gênova. Com 267 páginas.indd 24 7/4/2009 15:51:17 . buscava no totalitarismo uma possibilidade de reconquistar a auto-estima. destruída. Marinetti foi nomeado acadêmico da Itália e vestiu a farda da Academia e em 1930 – praticamente dez anos após o final do período glorioso e fecundo do futurismo – publicou o Manifesto da Cozinha Futurista. Palermo. em 1985 sob o nome La Cocina Futurista: una comida que evitó un suicidio. concedeu à obra 14 páginas de ilustrações. Firenze. A Cozinha Futurista já foi traduzida para o espanhol. e apenas quatro ilustrações. Esta tradução pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da Espanha e também na biblioteca da FFLCH – USP. toda a polêmica por este suscitada na imprensa da época em diversos países.Fillippo Tommaso Marinetti desde 1914. Giulio Onesti e Enrico Prampolini. 27 cm de tamanho e 160 páginas. feita pela Editora Marinotti. Ferrara. Outra tradução facilmente 24 Cozinha futurista. Milão. No ano de 1929. e publicada em Barcelona. contendo o referido manifesto de 1930. como Roma. O livro A Cozinha Futurista. por Guido Filippi. 19 cm. foi publicado em formato livro primeiramente em 1932. a descrição de diversos menus futuristas. Bolonha. O ano da adesão oficial do futurismo (resumido então a Marinetti e alguns novos adeptos) ao fascismo é 1924 –. só foi reeditado em 1986 pela Longanesi. A obra pode ser encontrada nas bibliotecas das cidades mais importantes da Itália. pela Editora Gedisa. em sua versão original ou traduzida. Em 1986 algumas partes foram publicadas em fac-símile pela Salimbeni de Firenze.

os regimes totalitaristas. o militarismo. na Bélgica. feita pelo escritor Klaus M. Na realidade. o gosto pela luta. e outra pela Editora Bedford Arts.A cozinha futurista encontrada é em francês. pela coleção Cottas Bibliothek der Moderne e pode ser encontrada nas bibliotecas de Leipzig. e o regime comunista. Esta obra pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca da Universidade de Leuven. Em inglês há duas publicações. uma pela Editora Trefoil de Londres. de São Francisco. Esta tradução foi publicada pela Editora Klett-Cotta em 1983. na Itália. encontrada na Library of Congress. Os manifestos do final do período heróico do futurismo (próximos a 1920) já possuem uma forte conotação sócio-política: a nação deveria reerguer-se e recuperar-se de todas as perdas resultantes da guerra. O livro foi traduzido também para o norueguês com o título Futuristisk Kokebok. Existe ainda uma tradução em alemão. a audácia e a rebelião. entre outras.indd 25 7/4/2009 15:51:17 . na figura de Mussolini. que pode ser encontrada na British Library. Ambas as publicações do livro The Futurist Cookbook datam de 1989. com introdução de Andreas Viestad e publicada em Oslo pela Spartacus Forlag em 2001. pelo escritor Steiner Lorne. cujos ideais já haviam sido antecipados de certa forma no Manifesto Futurista de 1909. pela A. Marinetti apóia o regime fascista. Metailié em 1982 com o título La Cuisine Futuriste. em 1917. Rarish: Die futuristische Küche. se Marinetti e seus “discípulos” 25 Cozinha futurista. datado de 11 de janeiro de 1921. Frankfurt e Hamburgo. feita por Nathalie Heinich e publicada em Paris. as belas idéias pelas quais se morre. a coragem.M. o futurismo e o fascismo condividem o nacionalismo exacerbado. Dos manifestos que surgiram após 1920. Ora. excitado pela recente Revolução Russa. Gilberto Mendonça Teles acredita ser o mais importante o já referido Manifesto do tactilismo. foram feitas a partir da tradução de Suzanne Brill e contam com uma introdução feita por Lesley Chamberlain. pela guerra. Duas forças políticas emergem no cenário mundial.

Luciano. Marinetti argumenta que este alimento contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada dos napolitanos. è changer la vie. cucina ecc. em 28 de dezembro de 1930. rumores e odores (audição e olfato). ma nel più profondo dello spirito umano. fotografia. come più tardi dei surrealisti. erotismo. como o chamou Mário de Andrade. a proposição que mais choca é a de “abolir o macarrão”. 15 26 Cozinha futurista. o único sentido que ainda faltava ser abordado era o paladar. Neste Manifesto. ao comerem macarrão. O último dos sentidos fora também abordado pelo “agitador futurista”.Fillippo Tommaso Marinetti já haviam escrito manifestos sobre pintura e escultura (visão). politica. música (audição). tactilismo (tato). Un impulso “totalitario” anima il movimento: meta dei futuristi. de Turim. trariam inúmeros benefícios ao povo italiano. não mastigam e o trabalho de digestão é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Dentre as diversas idéias apresentadas. cinematografo. o que provoca desequilíbrio e distúrbio destes órgãos. Marinetti afirma que o homem pensa. sons. Nas palavras do crítico italiano Luciano De Maria: Marinetti e i compagni dissero la loro su ogni argomento: letteratura.indd 26 7/4/2009 15:51:17 . Ao propor a abolição do macarrão. As pessoas.19 A publicação do Manifesto da Cozinha Futurista deu-se na Gazzetta del Popolo. segundo o autor. e non soltanto nelle condizioni esterne dell’esistenza. La nascita dell’avanguardia – saggi sul futurismo italiano. Surge então o Manifesto da Cozinha Futurista. Venezia: Marsilio Editori. que. teatro. sonha e age de acordo com o que come e o que bebe. danza. que pretendeu revolucionar o modo pelo qual os italianos se alimentam. 19 De Maria. secondo il motto di Rimbaud. Marinetti defendia novos hábitos alimentares. Um homem mal nutrido pensa e age mal. P. 1986.

94 23 Na verdade. traz uma ampla reportagem sobre o macarrão. ibid p. Op. Brillat-Savarin afirma que “o destino das nações depende de como elas se alimentam.A cozinha futurista Derivariam então: fraqueza. p. “(.indd 27 7/4/2009 15:51:17 . em seu livro Nunca treze à mesa. 72 22 Id.15 21 Id. mas ainda hoje existe um restaurante na Itália – o Lacerba. Vez ou outra um restaurante promove uma noite futurista. suas origens e sua história. ibid. presente em boa parte da alimentação de quase todos os povos. porém tem a sensualidade despertada por certa substância ictiófaga. em que as receitas são novamente executadas e degustadas.. 27 Cozinha futurista.que serve os pratos e as bebidas futuristas. cit. inatividade nostálgica e neutralismo. o fósforo. o escritor afirma que os povos que se alimentam de peixe são menos corajosos que os que se alimentam de carne de gado. Orietta del Sole. informa que no início do século XX o poeta Marinetti propôs abolir o macarrão da dieta italiana. mas como pratos constituintes do cardápio.. Brillat. Em seus Aforismos. 20 Savarin. 22 O manifesto contra o macarrão é lembrado em diferentes épocas e ocasiões. não apenas em festas relativas a datas comemorativas do movimento literário.) enfraquece as fibras e mesmo a coragem dos homens”21. que vive quase exclusivamente do arroz e é extremamente submisso. Sem sucesso. faz uma referência ao mesmo fato: a tentativa de desvincular o macarrão dos hábitos alimentares italianos. em Palermo ( e não que tenha sido trazido da China para a Itália por Marco Polo). para os clientes que não desejam se aventurar nas receitas inovadoras. existem dois cardápios.23 A revista Focus (Mondadori) de dezembro/2002. p. e entre as afirmações de que já em 1154 o macarrão era produzido na Itália. pessimismo. Em outra passagem do mesmo livro.”20 e acrescenta que a fécula. um futurista e outro passadista. O exemplo dado é o do povo indiano. de Milão .

o macarrão forma a base da pirâmide alimentar defendida pelos nutricionistas. o que também fazem franceses e ingleses. Ecce homo. São Paulo: Martin Claret. afirma Nietzsche.já foi exaltada como exemplo de alimentação sadia e equilibrada em todo o mundo. ibid p. era caro e a substituição deste alimento favoreceria a indústria italiana do arroz. mas molda o comportamento de uma nação: “basta a mínima inércia dos intestinos – tornada depois um hábito péssimo – para fazer de um gênio algo de medíocre. portanto anterior ao futurismo. de ‘germânico’”25. talvez. A dieta mediterrânea – que inclui o macarrão . é a do Piemonte. ou comemorativo. não só das pessoas individualmente. que a alimentação atinge diretamente o caráter e o comportamento. O interesse de Marinetti é. Nutricionistas defendem que o macarrão faz bem à saúde: 100 gramas de macarrão sem condimentos tem 356 calorias. O filósofo alemão também acredita que a pessoa é o que come. Junto com o pão. que comem até empanturrar os intestinos (“O espírito alemão é uma indigestão. de 1888. arroz e cereais. “Como deves nutrir-te para chegares ao teu máximo de força. 51 25 Id. Ironia ou não. O problema da importância da alimentação na formação do homem pode também ser verificado em Nietzsche. não chegando nunca ao fundo de alguma coisa.9% de gordura.4% de proteína e 3. Outro argumento utilizado contra o macarrão é de ordem econômica.indd 28 7/4/2009 15:51:17 . no livro Ecce Homo. pois o trigo. de virtude (no significado que essa palavra se dava na Renascença). isto é. A melhor cozinha.Fillippo Tommaso Marinetti O insucesso da tentativa é sempre comentado em tom jocoso. Nietzsche julga como a melhor cozinha justamente aquela que Marinetti pretende revolucionar. 2000 p. 53 28 Cozinha futurista. das quais 80% de carboidratos. 24 Nietzsche. de virtude livre e de moral?” Nietzsche afirma que sempre nutriu-se mal. Friedrich. importado.”24). culpa dos alemães. 13. a italiana.

pela negação de todos os estrangeirismos. A boa alimentação proporciona melhores soldados. melhores cidadãos. embora o objetivo não tenha sido alcançado. pois as propostas futuristas verificaram-se impraticáveis. além de estarem demasiado atreladas à figura política do Duce. mas também político. Percebe-se então o cunho político. Como já foi dito. bastante nacionalista (seria lícito dizer fascista?). A revolução gastronômica futurista não aconteceu. acreditavam poder fortificar a raça e tornar os homens mais competitivos e adequados à guerra. o manifesto não repercutiu como deveria esperar seu autor. num período de decadência – os gritos e bramidos marinettianos já não eram ouvidos com tanta atenção pelo mundo literário. em especial Fillìa. Após 1920. o Futurismo havia entrado em crise. Através da correta escolha e combinação de ingredientes.indd 29 7/4/2009 15:51:17 . Talvez por Marinetti estar diretamente ligado ao fascismo e defender idéias já então consideradas conservadoras e de forte conotação política. É provável que a publicação deste manifesto tenha sido uma tentativa de fazer ressurgir a importância do Movimento Futurista. não só nutricional. Pudemos observar que a tradição alimentar vem sendo questionada por inúmeros autores e em diferentes épocas. desde a matéria prima de certos alimentos até modas gastronômicas/culturais estrangeiras. e ainda contribui para o desenvolvimento econômico do país. a cultura italiana haveria de se fortalecer pelas modificações propostas. Os alimentos escolhidos também deveriam fortalecer a economia nacional. Mas a importância da alimentação 29 Cozinha futurista. Ainda que Marinetti tenha proposto uma revolução gastronômica em seu país. desenvolvendo a indústria e propiciando empregos aos italianos. o problema da interferência da alimentação na personalidade e/ou nas atitudes das pessoas não havia passado despercebido pelos autores do século XIX e início do século XX. pretenderam revolucionar a culinária italiana. Além disso. de Marinetti. co-autor do Manifesto da cozinha futurista. com o propósito de “melhorar a raça e a economia”. Marinetti e seus colaboradores.A cozinha futurista portanto.

a alimentação italiana era mais resistente e tradicional. em todos os campos das artes. 30 Cozinha futurista. Restou-nos o manifesto.Fillippo Tommaso Marinetti para a vida das pessoas continua ganhando mais e mais importância tanto na literatura como na mídia. Marinetti tentou preparar. Entretanto. mais uma prova da personalidade multifacetada de um revolucionário que se ocupou de todos os sentidos. com os ingredientes do futurismo. uma nova massa.indd 30 7/4/2009 15:51:17 .

Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista H Cozinha futurista.indd 31 7/4/2009 15:51:17 .CApítulo 1 Mário de Andrade.

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Macunaíma 33 Cozinha futurista. de alguns colaboradores da Revista de Antropofagia liderada por Oswald. e oportunamente. A preocupação com a subsistência de cada indivíduo e de toda a tribo faz com que o mais forte. cuja repercussão. deu ensejo neste trabalho a uma série de “analogias gastronômicas” entre este e parte da obra de dois escritores modernistas. Partindo de apontamentos sobre algumas obras destes dois autores. Mário de Andrade e Oswald de Andrade.máriO de AndrAde nA cOzinhA A repercussão do Manifesto da Cozinha Futurista na mídia possibilitou a realização do livro A cozinha futurista. por sua vez.indd 33 7/4/2009 15:51:17 . tentarei estabelecer relações pertinentes entre os autores brasileiros e o “futurismo gastronômico”. a alimentação é fator fundamental para o desenrolar da obra. o mais respeitado seja aquele com maior capacidade de prover seus familiares. Espero não causar indigestão com a combinação das iguarias. No livro Macunaíma.

Fillippo Tommaso Marinetti passa a ser respeitado pelos irmãos na medida em que se torna o principal responsável pela alimentação dos mesmos. conquanto não lhe falte caráter. As inúmeras repetições do verbo comer e seus sinônimos chamam a atenção sobre os alimentos ingeridos ao longo da saga de Macunaíma.ou assimilação . mas o livro só veio a ser publicado em 1928. e – por que não? – gastronômica. pois Mário julgou inadequados os dois que escrevera. O resultado de sua obra foi emblemático. já que Mário de Andrade acabou por construir um “símbolo do brasileiro”. mas as várias influências que determinaram o caráter e a formação do povo brasileiro. devido à série de modificações feitas no texto original. musical.pode ser considerado um dos meios de formação da identidade nacional brasileira proposta por Mário de Andrade em Macunaíma. Mário de Andrade escreveu Macunaíma na semana de 16 a 23 de dezembro de 1926. mas também nas áreas lingüística. torna-se difícil não reconhecer analogias entre as duas obras. pela dificuldade de sua classificação: história? romance? Acabou por ser rapsódia. e já que a rapsódia foi publicada no mesmo ano do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. O livro provocou dúvidas desde a publicação.indd 34 7/4/2009 15:51:17 . O “herói de nossa gente” reflete não uma. As misturas de raças deram-se não somente no âmbito genético. durante umas férias em Araraquara. reflexo da miscigenação de tantas culturas quantos foram os povos que aqui vive(ra)m. O prefácio nunca chegou a ser publicado. O processo de ingestão e digestão . 34 Cozinha futurista. comportamental. Macunaíma é o famoso “herói sem nenhum caráter”. e como a digestão – ou assimilação – destes alimentos pode ser significativa para o processo de construção do caráter “identidade” nacional brasileiro. O caráter de um povo também poderia ser avaliado verificando-se as bases de sua alimentação.

A cozinha futurista A antropofagia.) o mesmo Cristo que no Sacramento se come. e recebe dentro de si. desde os nossos ancestrais mais primitivos: entretanto ainda hoje podemos averiguar seus resquícios..”2 Mário de Andrade dedica grande atenção à alimentação de seus personagens na obra Macunaíma. como o Sacramento católico..) a palavra despertava inextricavelmente o sentido moderno do pão eucarístico. vem sendo praticada há centenas de anos.95-96. O Canibal. aumenta.) espécie de barro vital. Sermões. em sua História concisa da literatura brasileira. grandeza e decadência.. ainda amorfo. quando da missa. nutre.. pois o que todos os fiéis desejam não é viver no amor de Cristo? Transportando-nos da cultura cristã para a indígena primitiva. que. alimentação que pode ser uma das bases da formação do caráter nacional. Lestringant.. seja de forma direta ou sublimada.34-36. pp.(.) o que alimenta. Antonio... 1997. que eram associados a uma prática antropofágica. a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir. Padre Antonio Vieira traz desta forma a questão da Eucaristia: “(. Frank. 2001. destaca que o protagonista é uma “(. senão o que digere (. O padre José de Acosta empregava o termo hóstia para designar a vítima dos sacrifícios astecas. e dá forças e vigor ao vivente. Brasília: Editora Universidade de Brasília. se convertia em corpo de Cristo..”1 Esta antropofagia está também ligada ao amor. no Rosário se digere. pp.. defendida por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago.. Alfredo Bosi. encontramos em Frank Lestringant uma analogia entre um ritual antropofágico indígena e a Eucaristia: “(. 35 Cozinha futurista. desde o nascimento e as primeiras 1 2 Vieira. São Paulo: Hedra. não é o comer que ele toma na boca.indd 35 7/4/2009 15:51:17 . a transformação do tabu em totem. Pe.) os primeiros missionários do Novo Mundo perceberam a relação entre a antropofagia ritual e o sacramento da Eucaristia.

A gula aparece como um dos primeiros adjetivos dados ao herói. Enquanto Macunaíma brinca5 com suas mulheres. 1992. Massaud. História Concisa da Literatura Brasileira. já que as referências à ingestão – ou ausência dela – aparecem aproximadamente 130 vezes no decorrer do livro.. a ritual .398-399. Jiguê. apetite). Poder-se-ia estabelecer uma divisão entre os diferentes tipos de ingestão. São Paulo: Cultrix. o herói come a carne da perna do Currupira. 1991. o boi morre por não poder ingerir mais nada após a sombra leprosa acocorar-se nele. Macunaíma tem seu dedão abocanhado e engolido por Sofará.”4 Deste compósito. 36 Cozinha futurista. come tudo e todos que estão em seu caminho.) imbricam-se crendices de vária extração e significado. o tico-tico morre após alimentar o Chupinzão. Massaud Moisés afirma que. são muitas as passagens em que há uma certa antropofagia. o Gigante Piaimã morre em sua própria macarronada – em que “faltava queijo”. num compósito heterogêneo que é bem o reflexo do Brasil e seus habitantes. no segundo. como a antropofágica. p 395. em Macunaíma.a medicinal.. A antropofagia do livro resume-se a três episódios: no primeiro. No entanto. e no episódio final.Fillippo Tommaso Marinetti diabruras glutonas e sensuais”3. mordidas misturam-se a beijos. embora velada ou mascarada pelo clima de sedução. pp. transformado em sombra leprosa. e o 3 4 5 Bosi. Moisés. moqueada. “(. A Literatura Brasileira através dos Textos. São Paulo: Cultrix. mulher do irmão mas sua amante. é um eufemismo utilizado por Mário de Andrade. O verbo brincar no texto tem conotação sexual.seja por haver divisão de alimento pela família ou em ocasiões festivas . que acarreta a morte de alguns personagens: o filho de Macunaíma e Ci morre após chupar o peito envenenado da mãe. destaca-se aqui o gastronômico. e aquela para o fim mesmo da alimentação.indd 36 7/4/2009 15:51:17 . Talvez seja ainda possível reconhecer uma ingestão fatal. logo depois de sua preguiça e de seu apetite sexual (ainda assim. Alfredo. a metafórica ou sensual.

1975. Outro ritual importante no livro é o da macumba a 6 7 8 9 Voltaire. p. Mário de. que é dividida. cit.A cozinha futurista amor muitas vezes torna-se deglutição. Rio de Janeiro: Campus. s. 279 Visser. Macunaíma.23 37 Cozinha futurista. Op. Dictionnaire philosophique. com freqüência. e o ato sexual pode também significar a assimilação do outro: “é duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem”6 afirma Voltaire. André Thévet (1516?-1592) descreve uma das cerimônias de divisão do corpo de um inimigo capturado: “as tripas são dadas aos jovens machos e todos os miúdos são distribuídos entre as jovens mulheres”8. Frank. cabendo a ele as entranhas.) o canibalismo constitui. que o animal morto e comido toma o lugar da oferta sacrificial original. De fato. O verbo comer adquire duplo sentido.indd 37 7/4/2009 15:51:17 .. 216 Thévet. ou de negar comida à própria mãe ao perceber que ela pretende dividir o alimento com os outros irmãos.. Esta alimentação ritual também aparece quando da morte da mãe. um ser humano”9. somente o herói pensa individualmente. e não hesita em comer sozinho a caça ou as frutas e raízes que encontra. p.v. Antropophages. A ingestão ritual remete às sociedades indígenas – em Macunaíma estamos na tribo dos tapanhumas – em que as refeições são comunitárias e o alimento dividido entre os indivíduos da tribo segundo determinada ordem. 33. p. ou no jejum quebrado por Macunaíma quando nasce seu filho. enquanto Frank Lestringant diz que “(. uma maneira particularmente eficaz e direta de fazer unidade com o outro”7. Lembre-se a passagem da anta capturada por Macunaíma. 1998. André. São Paulo: Martins Fontes.25 Lestringant. Margaret. 10 Andrade. em Margaret Visser vemos que “Os mitos sobre sacrifício nos dizem. de modo geral. p. em que os irmãos passam a noite “bebendo oloniti e comendo carimã com peixe”10. p. A família (tribo) de Macunaíma sempre divide as obrigações para obter o alimento e prepará-lo. Histoire de deux voyages. O Ritual do Jantar.

finalmente. sempre através da figura de Maanape. pelo Currupira. assimilado pelo outro pode representar o medo de virar totem. pela surucucu. Chamam ainda atenção as inúmeras vezes em que o herói tem medo de ser comido: Macunaíma teve medo de ser engolido pela cobra preta. por Ceiuci e sua filha mais velha (as mulheres queriam comer o pato. pelo cesto do Gigante Piaimã. pelo Mianiquê-Teibê (assombração medonha). uma cuia com farinha d’água. uma pacuera inteira (sem mastigar) e um côco cheio de água –. cozimento de broto de abacate para tuberculose. já na cidade. salvando vidas e atenuando dores. chupar chave de rosário pra curar sapinho. “Mas era só de brincadeira 11 Visser. pelo Gigante Piaimã.”11 De fato. Macunaíma teve medo de ser a iguaria.) por trás de toda regra de etiqueta da mesa está escondida a determinação de cada pessoa presente de ser um comensal e não uma iguaria. em outro momento. e. por Oibê.indd 38 7/4/2009 15:51:17 . cit. que é feiticeiro: suco de tamarindo pra lombriga. Margaret Visser afirma que “(. teve que fugir para não ser comido pela sombra leprosa que era Jiguê. que termina com todos os participantes comendo o bode que havia sido oferecido em sacrifício.Fillippo Tommaso Marinetti que o herói comparece para resolver seu problema com Piaimã. pela cabeça de Capei (que vira Lua). p.. que era Macunaíma). A ingestão medicinal ocorre algumas vezes. na passagem em que Macunaíma procura pouso no rancho de Oibê. Este medo de ser ingerido. remédios aconselhados pra erisipela. Op.. engolido. pelo elevador e pelo carro. o minhocão temível. pela família de Vesceslau Pietro Pietra (o herói tinha virado torresminhos que “bubuiava” em polenta fervendo. engolir bagos de chumbo pra não ter filhos. após ser um comensal em sua mesa – onde comeu cará com feijão dentro. Margaret. teve medo de ser comido na macarronada da família). agüinha e reza cantada pro sarampo.4 38 Cozinha futurista.

Op. a pacuera virou num periantã (barranco flutuante) em que o herói e a princesa escaparam. a ingestão de alimentos para matar a fome e nutrir o corpo: um fato repetitivo. o vômito “(. Para Lestringant. Tristes Tropiques. Por fim.. 184. Mário de Andrade descreve os alimentos que fazem parte da rotina da tribo.A cozinha futurista que ele [Oibê] queria comer o herói”12 Para escapar de Oibê. fruto da mistura das diversas culturas que integram o povo brasileiro. a alimentação como um fim em si mesma. 13 Ibid.. Macunaíma por quatro vezes fez “cosquinha na goela com o furabolo”. p. e vomitou as iguarias comidas: a farinha virou num areão. diário.. O vômito não aparece somente nesta passagem. mas também aqueles que aparecem para saciar a fome de “outras tribos”. Mário de. como forma de fugir de um perseguidor após comer seu alimento... que dera ao menino um pedaço de sua perna como isca. 39 Cozinha futurista. 182. Tratase da identidade gastronômica nacional.. 14 Lestringant.. Claude. já que o pedaço de perna respondia ao chamado do dono. os personagens sentem fome todos os dias. Esta lista nutricional é relevante. o feijão e a água viraram num lamedo cheio de sapos-bois. cit..) estava querendo mas era comer o herói”13. Frank. enquanto Lévi-Strauss analisa a “antropoemia” das sociedades desenvolvidas. p. marginais. de palavras de origem indígena e outras importadas diretamente da Europa.418. p. 12 Andrade. p. e por fim.indd 39 7/4/2009 15:51:17 .) vomitam. já que aqui aparece um interminável desfile de termos regionais. os indivíduos detentores de forças temíveis: criminosos.) exprime o valor simbólico ligado antes de tudo à ingestão de carne humana”14. que “(. que “(. Macunaíma já o havia feito para escapar do Currupira. o cará virou num “tartarugal mexemexendo”. 15 Lévi-Strauss. Assim sendo. e precisam saciar esta necessidade. em lugar de ingerir. estrangeiros”15.20. Macunaíma.

maniveira. suçuarana. lontras. mutuporanga. canguaçu. tamanduá. cascudo. Dos europeus temos a lagosta. macacheira. vidros-de-perfume e caviar. aves: um macuco. 40 Cozinha futurista. piaçoca. a pacuera (entranhas de caças). graxains. tejus. raízes/leguminosas e seus derivados: tacacá com tucupi. heranças do canibalismo autóctone: sopa feita com um paulista. onças. uísque. coelhos. caças: veado-catingueiro. capivara. podemos atribuir isso ao fato de grande parte da flora e fauna brasileiras. onça-pinima. símios: um macaco. a papa-viado. sapotis. manga-jasmim. “champagna”. o torresmo e a polenta. cigarros de palha de tauari. os olhos da tigre. um pato seco de Marajó. os estradeiros. pixuna. mutuns (mutum-de-vargem. ter herdado o nome utilizado pelos índios. macarronada (com o chofer e seu sangue como molho). urus.indd 40 7/4/2009 15:51:17 . farinha d’água. catetos. em meio a muita cachaça. broto de abacate. pacova (banana). sapotas. ratos chamuscados. coquinho baguaçu. bacuris. a perna do Curupira. bagre. queixadas. muçuãs. os esplêndidos bombons Falchi. mocororó. lambaris. guabijus. perdizes. um motor. extremamente diversa da européia. mutum-de-fava. sapotilhas. abroba (gerimum). licor. milho. raiz de umbu. abricôs. beiju membeca (beiju mole). tatu-canastra. jaós. tabuí. peixes: tambiús. melancias. sanduíches. ariticuns. presunto. jacutinga. rendas. jundiá. leite da vaca Guzerá (raça bovina vinda da Índia). e não porque Mário de Andrade considerasse a influência indígena mais forte que a negra ou a branca. monos. pitomba. tucunaré. plantas alucinógenas: ipadu. mucajás. fumo. talus. pacas. veado. quiânti. ingere-se o bode da macumba. a jaguatirica. pacu. churrasco. guaribas. cotia. robalos. miritis. urumutum).Fillippo Tommaso Marinetti Da cultura negra. picota. Da cultura indígena comem-se frutas: bacuparis. jacu. Embora os nomes indígenas prevaleçam. cará com feijão dentro. abacaxi. bolo de aipim. café. aperemas. gasolina. moluscos: fritada de sururu de Maceió. antas. cogumelos e rãs.

Maanape e Jiguê. Mário corroborava a opinião da confusão de valores instaurada no Brasil por sua mistura étnica. Comecemos pela obra inacabada O banquete. única em sua variedade de cores. 16 Andrade. 41 Cozinha futurista.”17 Em outras obras de Mario de Andrade também é possível verificar a importância destinada à ingestão de alimentos ou aos rituais que circundam a alimentação. se acomodando com as circunstâncias do Brasil. 04.A cozinha futurista Assim como os três manos. estas também se encontram registradas por meio de suas influências gastronômicas. Mário de – Romance do Veludo – Revista de Antropofagia. Os textos foram publicados às quintas-feiras na Folha da Manhã. dentição. 1a. Macunaíma. o folclore. agosto 1928. africanos. agosto de 1928 17 Revista de Antropofagia. Em “Romance do Veludo”16. cheiros e influências. os elementos que entram nela afinal são todos iromuguanas e a droga é bem digerida pelo estômago brasileiro. atingindo até a culinária. Quer como literatura quer como música. Gosto muito desses cocteils.indd 41 7/4/2009 15:51:17 . sob o título de “Mundo musical”. espanhóis e já brasileiros. hoje publicada em formato livro. em 25 de fevereiro de 1945. acostumado com os chinfrins da pimenta. desde maio de 1943 até sua morte. mas com estilo completamente livre. 1ª dentição. texto publicado em 1928. Por mais forte e indigesta que seja a mistura. São Paulo. A contribuição de cada povo serviu para realizar a grande festa que é a culinária brasileira. após terem se lavado na cova do pezão do Sumé (São Tomé). mas todas elas formadoras da identidade nacional. “O Romance do Veludo é um documento curioso da nossa mixórdia étnica. dançam nele portugas. do dendê. da caninha e outros palimpsestos que escondem a moleza nossa. mudaram de cor e passaram a representar as três raças formadoras do povo brasileiro. em que se discutem com a mesma paixão a arte. Trata-se de crônicas musicais. o processo de criação. no. do tutu.

À mesa. Margareth. que precisa ser protegido para que possa continuar a produzir sua arte. facilitando aos convivas a explanação de suas opiniões e desobrigando-os das responsabilidades de um confronto intelectual. Numa alusão ao Banquete de Platão. p. no fundamental. Mário de Andrade toma a refeição como o momento propício para que assuntos importantes sejam discutidos. projetado para que a violência fique fora de questão. único personagem sem amarras políticas.”18 Ora. cinco personagens encontram-se para um banquete oferecido pela milionária americana Sarah Light com o intuito de obter proteção governamental para o jovem músico nacional Janjão. Na fictícia cidade de Mentira. já que todos encontram-se reunidos em torno de uma mesa.indd 42 7/4/2009 15:51:18 . Comer é algo agressivo por natureza e os utensílios requeridos para o ato poderiam rapidamente transformarse em armas. Além das teorias sobre música ou arte. que pode dizer o que realmente pensa sem temores de que o grande objetivo do banquete pereça. O político Félix de Cima e a virtuose Siomara Ponga são os convidados pertencentes à classe dominante (vale observar que apenas a classe dominante tem nome completo) e que auxiliaram Sarah em sua empreitada. é bastante interessante observar o itinerário dos comes e bebes servidos durante as discussões: 18 Visser. Pastor Fido é um estudante. Outro fator relevante é a possibilidade de se determinar o nível cultural de uma pessoa por meio de suas maneiras à mesa. temos assim em qualquer refeição um cenário ideal para o desenrolar de um texto.Fillippo Tommaso Marinetti a situação dos músicos e das pessoas interessadas – por razões as mais diversas – em proteger a arte e os artistas nacionais. xiii 42 Cozinha futurista. o discurso adquire um tom menos formal. cit. Janjão é o músico pobre e quase anônimo. Op. “um sistema de tabus. As maneiras à mesa são. com um objetivo comum: saciar a fome e compartilhar o alimento e os prazeres advindos destes.

II – Hors d’oeuvre. dentição. Doce de Coco e Frutas (cap.VII). como “o salão da Avenida Higienópolis que era o mais selecionado. São Paulo: Martins Fontes. em torno de uma refeição. de Oswaldo Costa. o autor comenta o que talvez tenha sido fonte de inspiração às crônicas musicais da Folha da Manhã: os salões em que se reuniam artistas e intelectuais. Salada (cap. Aqui. já que os cinco textos que a compõem são intitulados: I – Aperitivo. onde “o culto da tradição era firme. sendo este último o recomendado 19 Revista de Antropofagia. IV – Sobremesa e V – Cafezinho. IX) e As Despedidas (cap.VI) e viriam ainda. V). dentro do maior modernismo. para. Pode-se. VII). foram servidos como aperitivo Porto e “Cocktail Verde e Amarelo”.19 Na obra Aspectos da Literatura Brasileira. aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de composição”20 Voltando ao Banquete de Mário. maravilha de comida lusobrasileira” ou o salão da Rua Duque de Caxias. aqui. encontramos um texto de fundamental importância para o modernismo brasileiro. Se os capítulos I (Abertura). Mário descreve alguns salões de vital importância para os jovens modernistas. 04 a 08 20 Andrade. O Passeio em Pássaros (cap. A cozinha. justamente aquele em que Mário de Andrade analisa “O Movimento Modernista”. estabelecer um paralelo com a série “Moquém”. X). publicada na Revista de Antropofagia entre 7 de abril e 8 de maio de 1928. “O Movimento Modernista” in: Aspectos da Literatura Brasileira. Mario de. discutir arte e realidade brasileira.indd 43 7/4/2009 15:51:18 . III – Entradas. 43 Cozinha futurista. II (Encontro no Parque) e III (Jardim de Inverno) precedem a comilança por tratarem da apresentação dos personagens.A cozinha futurista os capítulos têm como subtítulos a parte do banquete a que se referem. a partir do capítulo IV (Aperitivo) é o ritual da refeição que dita o tom das discussões. 2a. de cunho afrobrasileiro. 1972. Oswaldo discute os rumos do modernismo em forma mascarada de refeição. nos. vinte anos após a Semana de Arte Moderna. Café Pequeno (cap. Brasília: INL. Nesta série. Seguem-se Vatapá (cap. Tinha por pretexto o almoço dominical.

em vez de cogumelos: leite coalhado em cápsulas salgadinhas.. Vinha um prato de salada junto. aspargo. de um prato chamado “Balé do Racionamento”. p. e não se mistura com ele) e um pouco de açúcar verdadeiro (mas um pouco só. a utilização de um vocabulário que remete ao utilizado por Marinetti na introdução de seu livro A Cozinha Futurista: “E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros”. “É uma delícia da língua. São Paulo: Duas Cidades. até do paladar dos dentes (…) Eu não sei como explicar… mas vocês homens. p. tudo feito com massa de açúcar pintada. Mario de. começou a amorosa adoração com os lábios. ainda.T. mas a carne estava miraculosa”23 Outra vez podemos estabelecer um paralelo com Marinetti: a utilização de gêneros alimentícios alternativos aos que faltavam em tempos de guerra – a polêmica proposta marinettiana de abolir o macarrão tem 21 Andrade. Alface. A Cozinha Futurista. como nesta batida). Era um Chateaubriand. Tradução em português p. além da aproximação do prazer proporcionado pela comida ao prazer sensual instigado pela mulher. temos a descrição. ou “ajoelhando-se em frente. os sabores delicados do peixe e do camarão fresco unem-se trêmulos à tempestade dos temperos. F. No Vatapá. Está claro que ninguém comeu isso. 22 Numa época de escassez devida à Guerra. todos se enganaram. “mas em vez de batatinhas: pequenos pedaços de queijo assados na brasa. foi muito divertido. O Banquete. 1989. 07 e 11 23 Andrade. fabricação particular). feita de caninha (em alambique de barro. o dendê. O Banquete. a língua e os dentes”. Vê-se aqui.indd 44 7/4/2009 15:51:18 . O político provou do cocktail e constatou se tratar de uma legítima batida paulista. camarão seco. limão (que pelo menos disfarça o cheiro fatigante da caninha. 125 44 Cozinha futurista. já perceberam como é gostoso no meio da multidão a gente se encostar numa mulher…”21.Fillippo Tommaso Marinetti pela anfitriã por acompanhar melhor alguns pratos fortes do Brasil que seriam servidos. 123 22 Marinetti. Mario de.. palmito.

O cheiro do vatapá vos trazia aquele sossego das coisas imutáveis”24 A salada aparece como alegoria: é norte-americana. Felix é descrito como um animal. Espalhara na sala um cheiro vigoroso que envolvera os presentes no favor das mais tropicais miragens. A salada. Chegamos finalmente à Salada. especialmente os verdes. que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas. mas que cheirava. não fazia vista alguma com seus tons de um terra baço. Seus olhos a cheiravam. estava encantada com o furor quase mítico do prato.”25 A essa salada...159 45 Cozinha futurista.p. que resfolegava em cima da salada.159 25 Andrade. mas já personalizada pelo tom local. e o prato foi comido. aquele cheiro. O Banquete. norte-americana. cuja carreira a impedia de gostar de qualquer coisa. os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações. manducado por ele antes mesmo que suas mãos o tocassem. “Tinha mil cores. seus olhos haviam engolido a salada. O Banquete. cozinheiros tornando-se verdadeiros artistas (neste caso. prato principal do banquete de Sarah Light. Pastor Fido. Mario de. tão nutrido e convicto.A cozinha futurista sua base na elevação de preço do trigo durante a guerra -. “um coroamento da sua existência de comestível espiritual (desculpem). o moço estudante. bravo. p. embora não se tivesse entregado totalmente ao prato em que havia até sorvete de creme e suco de pedregulho! 24 Andrade.. Áspero. a malícia das experiências sensuais. entregam-se. Siomara Ponga. o vatapá. exceto Janjão. Todas as cores estão nela representadas. Mario de. Mas tão cheio.” Era o prato preferido da milionária. a maior do mundo. mas uma salada colossal. para suprir com a arte a falta de certos produtos).indd 45 7/4/2009 15:51:18 . mas como era bonita e chamariz!” A descrição da salada aparece em total oposição ao prato anterior. Bravio. com mentira e tudo. “Não tinha cheiro nenhum. que era “feioso e monótono na aparência. era uma salada fria. todos.. não conseguira resistir à atração da salada e se servira de todas aquelas cores.

a mãe e a tia. foi descrito. por causa de Gandhi. Juca pede que seja feito Peru no Natal. 162. todas as vitaminas salutares. “Tinha de tudo. a comida vence a batalha. O Banquete. p. a carne mansa de um tecido muito tênue. À mesa. um irmão. uma irmã. embora aqui seja o prazer proporcionado pela iguaria a ser ingerida mais forte que a batalha emocional que se dá à mesa. duas farofas. Juca sempre foi considerado doido pela família. incapaz de caráter”26 Este prato.indd 46 7/4/2009 15:51:18 . havia também pecados: leite de cabra. porco. não havia culpa. gemas de ovo libertas da perigosa albumina e avelãs recobertas de cacau sem açúcar.Fillippo Tommaso Marinetti Entre perdiz desfiada. 46 Cozinha futurista. perfeito. é o conto “O Peru de Natal”. Era um prato inteiramente novo. e outra seca. a salada mais encantatória do mundo. Mario de. apenas para os familiares. o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo (e dominava a gente). bicho nacional dos celtas. sem caráter. escrito entre 1938 e 1942 e publicado no livro Contos Novos. Juca assumia para si a culpa dos desejos de todos da casa. a salada mais carcomedora do mundo. Neste texto também temos uma refeição como temática central. o peru.. Assim. e não apenas o que sobrava na ossada após as festas que davam enquanto o pai era vivo. Era o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo. a salada mais traiçoeira do mundo. Um pouco anterior ao Banquete. mas já que era considerado doido. o prato mais alcoolizador que havia agora no mundo. a mãe poderia finalmente comer peru. Ao menos. mas encapsulado em farinha de trigo. ameixas e nozes. em respeito aos judeus. uma gorda com os miúdos. de acordo com os personagens respectivamente como: o prato mais lindo do mundo. 26 Andrade. Após a morte do pai.. alface muito clara e casca ralada de maçãs. isso lhe dava certos privilégios de idéias inovadoras. que contam cinco pessoas: ele. a salada mais sem perfume porém mais vistosa do mundo.

Outras referências gastronômicas podem ser encontradas na obra poética de Mário de Andrade. 47 Cozinha futurista. 1993. entretanto pareceram mais relevantes em três deles. e após essa felicidade. No céu marioandradino as iguarias são todas brasileiras. Mário de Andrade considera as comidas do Brasil paradisíacas. n’O Banquete e em “O Peru de Natal”. e vai ao encontro de Rose. Numa espécie de divisão ritual. Mário de Andrade revela o destino que se deve dar ao seu corpo após a morte. Quase a ceia de Natal é estragada pela lembrança do pai. Belo Horizonte: Vila Rica. há uma contaminação do vocabulário referente aos prazeres gustativo e sexual. e essa sensualidade é reafirmada ao partir o narrador. existe sensualidade no ato de ingerir a iguaria desejada há muito tempo. “Lenda do Céu”. este pertencente à série “Lira Paulistana”. quer que seus restos mortais sejam enterrados em diferentes partes da cidade. constata que “tinha mandioca e açaí/ Mate cana arroz café/ muita banana e feijão/ Milho cacau … Tinha até”. com bastante manteiga. mesmo após a morte. Em outro poema. o prazer gustativo e o prazer carnal se aproximam. para que. e todos passam a comer com sensualidade. A primeira. Juca. como diz o autor. em “Lenda do Céu”27. Mais uma vez. e lá chegando. Todos desfrutam de uma felicidade gustativa. com forte cunho nacionalista. a cabeça 27 Andrade. em meio a mil maravilhas. para um encontro amoroso. por extensão. em que um menino vai ao céu levado por uma andorinha. Juca passa à felicidade individual. Mário destrincha o próprio corpo. o sexo ao Paiçandu.A cozinha futurista douradinha. O peru vence. possa continuar gozando as delícias de sua terra natal. com o auxílio de Juca. Mario de. in: Poesias completas. Como em Macunaíma. Trava-se uma luta entre os dois mortos: o pai e o peru. destinando os pés à Rua Aurora.indd 47 7/4/2009 15:51:18 . gozando os prazeres daquela carne macia acompanhada por cerveja. dividida com todos os familiares que puderam comer até se fartar. e a sombra do pai. Numa declaração de amor à cidade de São Paulo.

) Eu insulto o burguês funesto! / O indigesto feijão com toucinho. dono das tradições!/(…) Come! Come-te a ti mesmo.. ritualmente. de Macunaíma. mas absorve a cultura africana e é contaminado pela européia. um homem que sendo francês. 48 Cozinha futurista.. oh! gelatina pasma!/ Oh purée de batatas morais! ”29 Mario de Andrade faz o retrato da burguesia paulista da época. sem caráter. o nariz aos rosais. mais consciente de sua “importância” na sociedade não goza dos mesmos privilégios de simpatia que Macunaíma.28 Podemos ainda encontrar resquícios pantagruélicos em “Ode ao Burguês”. O burguês indigesto de São Paulo é tão sem caráter quanto Macunaíma. Macunaíma é fruto da mistura de tradições. brasileiro. aparências contando mais que conteúdo moral ou cultural. e. O burguês. escrito pelo mesmo Mário de Andrade. é índio. as tripas pro Diabo “que o espírito será de Deus”. o coração ao Pátio do Colégio. o joelho à Universidade. 29 Andrade.Fillippo Tommaso Marinetti à Lopes Chaves. Macunaíma não parece em momento algum causar ódio no autor.. Poesias Completas. em que o alimento auxilia na constituição do típico burguês. os olhos ao Jaraguá./ o burguês-burguês!/ A digestão bem-feita de São Paulo!/ O homem-curva! O homem-nádegas!/(. Cauteloso porque mescla várias culturas. e na divisão da primeira anta caçada por Macunaíma. italiano. Entretanto este poema intitulado ode (teoricamente uma poesia de elogio) demostra o ódio do autor contra o burguês. poema de 1920-1921. as mãos que ficassem “por aí”. O burguês é insultado em sua formação cultural. Mário de. foi a parte que coube ao malfadado herói. é sempre um cauteloso pouco a pouco. intelectual e física: “O burguês níquel. Não havia modo de o herói ser diferente. a língua ao alto do Ipiranga. eram destinadas às crianças. tradições 28 Lembremo-nos de que as tripas. o esquerdo aos telégrafos.. provavelmente por sua ingenuidade de herói emprestado de uma mitologia indígena. o ouvido direito ao Correio. aproximando-se da salada de Sarah Light. através desta.indd 48 7/4/2009 15:51:18 .

da Universidade Federal de Alagoas.31 30 Revista de Antropofagia.indd 49 7/4/2009 15:51:18 . Sua carne não é boa o bastante para ser comida por outrem. Os índios caetés devoram o primeiro bispo do Brasil. Data da deglutição do Bispo Sardinha. no. 49 Cozinha futurista. Passemos à carne do Bispo Sardinha! OswALd cAnibAL de AndrAde Comidas O horizonte reto Metodicamente Jantou O sol (Julio Paternostro)30 16 de junho de 1556. O estrangeiro não era mais ameaça. homens cheios apenas de comida insossa. havia virado churrasco. portanto. de seu poder. a tese sobre o “banquete” encontra respaldo em documentos históricos. este burguês à autofagia. Mário condena. segundo o historiador Douglas Aprato. Alguns historiadores levantam a hipótese de que o bispo tenha sido assassinado por homens da guarda do então governador-geral. a quem Sardinha vinha criticando publicamente.A cozinha futurista vazias de significado. dom Pedro Fernandes de Sardinha e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. Apropriam-se dele. 10 31 Apesar de versões que negam que o bispo Sardinha tenha sido comido pelos índios. como cartas de jesuítas da época. de sua força. Duarte da Costa.

. de 1930.) Só me interessa o que não é meu. uma curiosidade persistia: haveria a antropofagia oswaldiana nascido num berço futurista? O Manifesto Antropófago foi publicado em 1928. “Manifesto antropófago”.) Antropofagia. Lei do homem. e marca o início de uma escola literária. 32 Andrade. Para transformá-lo em totem.. portanto precedeu em dois anos o Manifesto da Cozinha Futurista. Já Marinetti havia escrito Le Roi Bombance. Absorção do inimigo sacro.. verificamos que ambos tem um livro relacionado de alguma forma à gastronomia anteriormente ao manifesto: Oswald de Andrade escreveu. no..(. com alguns amigos.indd 50 7/4/2009 15:51:18 . A terrena finalidade. Socialmente.. assimilando assim os valores antes temidos.. a antropofagia parece ter sido a mais radical das tendências da época.Fillippo Tommaso Marinetti Oswald de Andrade prega o retorno ao homem natural . 1 50 Cozinha futurista. in: Revista de Antropofagia. Oswald de.do Brasil.. ”32 Das sucessivas leituras feitas para melhor compreender a obra de Marinetti.. Economicamente. Divergindo em sucessivas batalhas intelectuais de escritores – modernistas ou não – e de outras escolas como o VerdeAmarelo e a Escola da Anta. (. Lei do antropófago. uma tragédia De acordo com o historiador Moacir Soares Pereira. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo durante o ano de 1918. certamente – que se desvencilha dos inimigos ingerindo-os. mas.(. “Só a antropofagia nos une.) A transformação permanente do Tabu em totem. dentição. ainda na linha de “coincidências” entre os dois autores. Na versão dele. Filosoficamente. Sardinha foi devorado por índios. A humana aventura. O Manifesto Antropófago surgiu em 1928. o bispo foi alvo de tupinambás em território sergipano. A diferença factual de dois anos poderia descartar a hipótese. publicado no primeiro número da revista de Antropofagia. mas não os caetés nem em Alagoas. 1a.

receita”. no ano de 1918-19. João de Barros explicita qual é o objetivo do caderno-livro-diário: fornecer receitas para que as almas matem sua fome de experiência e sua fome de ilusão. com grande encanto e surpresa. intitulado “Receitas Sentimentais”. a marcha de seus males”. nas horas de imbecilidade. Comendo assim. x ao dia.15 50. não faltam modos de preparo. as aproximações são pertinentes. com alguns conselhos para as almas: “amemos sempre.33 0. Existe uma apenas de envelhecer contente”. Já na primeira página. 3o. Ainda que as datas neguem a influência direta em Oswald. À página 104. Apesar de não se relacionar com a culinária. temos a “1a. andar sala 2. o título da obra de Oswald compactua com esta.0005 Em cápsulas. Após o texto. as almas sãs se farão robustas e as doentes susterão. temos um texto assinado pelo pseudônimo Dragoras. artistas e intelectuais da época. O livro é um diário de uma garçonnière que Oswald mantinha na rua Líbero Badaró. Criar “o cardápio perfeito para o banquete da vida. 51 Cozinha futurista. – Há diversas maneiras de amar. que ocupa quase toda uma página. 67. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. São Paulo: Globo.33 Se faltam os ingredientes para aproximá-lo de um livro de cozinha. 1992. Envelheçamos devagar. Oswald de. Esta garçonnière servia como ponto de encontro para amigos.00 0. esta mais aproximada a uma receita médica: Recipe – Eu te amei ãã Tu não me amavas Eu já não amo Tu és má 0. à moda dos famosos salões 33 Andrade.indd 51 7/4/2009 15:51:18 .A cozinha futurista gastronômica pantagruélica em 1905.

“Há uma espécie de paixão coletiva por Deisi. À página 194. Pois foi do mesmo modo formada a cultura brasileira. cartas. apenas uma mulher.. recortes de jornais. figura dominante de O perfeito Cozinheiro: Deisi. produziram o livro-diário. Todos os amigos que freqüentavam o local contribuíam com o diário. já havia praticado o que só viria a teorizar 10 anos depois. também pode ser comparada a O Perfeito Cozinheiro na questão estrutural. Se O Perfeito Cozinheiro é um pastiche de recortes de jornal. Mário da. de colcha de retalhos. todos nele escreviam.Fillippo Tommaso Marinetti já citados. é possível reconhecer nesta obra um esboço do que seriam as características da obra oswaldiana – “o processo fragmentário. a Antropofagia. A tradição gastronômica de nosso país apresenta a mesma característica de assimilação das influências diversas para daí resultar em um produto original. o gosto pelo trocadilho. de Marinetti e Fillìa. também todos traziam e colavam cartas. os nomes grotescos ou humorísticos. p.”35 A Cozinha Futurista. Como observa Mario da Silva Brito. (Dasy. charges da imprensa e. o amor pelas situações insólitas e imprevistas com tons de sátira e humor. Dentre eles. Oswald. XI-XII 52 Cozinha futurista. Na realidade. Novamente. VIII 35 Ibid. bilhetes. em 1918. Prefácio a O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. p.indd 52 7/4/2009 15:51:18 . Provável ironia ao almoço que havia sido oferecido a Monteiro Lobato. Ed Globo. embaixo de uma foto que retrata muitas pessoas em volta de uma longa mesa ao ar livre. bilhetes 34 Silva Brito. lê-se a inscrição: “. numa espécie de pastiche. a que se refere um recorte de jornal colado à página 172. na grafia de Oswald de Andrade) a quem chamam de Miss Cíclone.Lobato. ocorre até mesmo um banquete antropofágico na obra. foste o cordeirinho pascal dessa farra de quaresma”. o amor visita a cozinha. a visão de crimes e traições. o “príncipe de nossa prosa”. que é amante de Oswald”34.

Memórias Sentimentais de João Miramar.em 1930. mas excetuando a forma. Valendo-nos de Padre Antonio Vieira.A cozinha futurista etc.indd 53 7/4/2009 15:51:18 . traz de volta à literatura um dos pseudônimos (Miramar era Oswald) que comparecem com bastante freqüência em O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Pastiche também ele. os métodos de produção se eqüivalem. receitas futuristas e um pequeno dicionário que auxiliaria um leigo a compreender a obra e a revolução proposta. mas faltou-lhe a digestão dos elementos previamente ingeridos. as cartas de pessoas contra ou a favor do movimento. 53 Cozinha futurista. já que é composta da recolha de vários documentos relacionados ao Manifesto da Cozinha Futurista. Diferenças existem. nesta obra. A obra provocou polêmica ao mesclar poesia e prosa numa atitude inovadora para com a língua.. O livro publicado por Oswald de Andrade em 1924. o manifesto. que manteve a aparência de “álbum de colagem” e a caligrafia manual. que se limitou a reproduzir o conteúdo dos textos jornalísticos e dos cardápios sem todavia apresentar ao leitor a forma original. Temos. muito mais privilegiada na obra de Oswald. Esta obra gastronômica de Marinetti é composta por um texto que poderíamos considerar literário – Uma refeição que evitou um suicídio. os cardápios apresentados nos vários banquetes futuristas que foram oferecidos por ocasião do manifesto e da inauguração do restaurante futurista de Turim (o Santopaladar). por certo. a polêmica por este suscitada e publicada em diferentes jornais e revistas. Oswald fez sua primeira obra “antropofágica” em 1918. Marinetti utilizou o mesmo processo – a colagem . mas são apenas fatos corriqueiros sem nenhuma aparente relação com a antropofagia. o poético antefato tragicômico –. Marinetti procedeu à ingestão. A Cozinha Futurista não dista deste modelo de criação literária. outros cardápios futuristas criados pelos representantes do movimento. algumas poucas referências à gastronomia. e pouco aproveitada em Marinetti.

adquirindo assim novo sentido ou poder de persuasão ao serem lidos aos pedaços. No entanto. em 1925. Produtos que serão exportados à Europa. econômicos. dentição. Poesia de exportação. 1a. O vatapá…). Em “Gandavo”.Fillippo Tommaso Marinetti No mesmo ano. Buscando a originalidade nativa nos fatos pictóricos. Sem pesquisa etimológica. produzida no Brasil. todos bem assimilados e digeridos. lingüísticos ou culinários (A cozinha. como Pero Vaz de Caminha ou Fernão de Magalhães são sistematicamente recortados. Excertos de historiadores famosos. Nesta obra. Toda a gente está lá dentro.indd 54 7/4/2009 15:51:18 . o Manifesto Pau-Brasil funda a poesia de exportação. 54 Cozinha futurista. Apesar de ser composta por ingredientes simples. em 1925 Mário de Andrade diria numa carta a Sérgio Milliet: “Essa invenção Pau brasil do nosso Oswald é uma espécie de futurismo de Marinetti. apenas frases selecionadas engenhosamente. humildes. Oswald de. que foi rejeitado enquanto “marinettismo”.”36 Mais uma vez. estabeleceu-se um paralelo entre os dois autores: as discussões para batizar o movimento artístico dos rapazes de São Paulo cogitaram o termo “futurismo”. Oswald lança o Manifesto Pau-Brasil. o poema “A Roça” nos traz uma descrição da alimentação dos negros que trabalhavam nas fazendas. no. étnicos. muitas são as referências a iguarias nativas.” O livro Poesia Pau-Brasil começa com uma leitura pessoal feita por Oswald sobre a História do Brasil. Sem ontologia. “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. note-se a força de trabalho destes ao final do poema: 36 Andrade. com os ingredientes de que dispomos. que resultará na publicação de Poesia Pau-Brasil. in: Revista de Antropofagia. “Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. frutos tropicais desconhecidos pelos europeus. a cidras limões e laranjas e à cana-de-açúcar. temos referências ao ananás. a pepinos romãs e figos. 01. folclóricos. Em “Poemas da Colonização”.

55 Cozinha futurista. Entretanto. um poema já prenuncia a antropofagia oswaldiana: DIGESTÃO A couve mineira tem gosto de bife inglês Depois do café e da pinga O gozo de acender a palha Enrolando o fumo De Barbacena ou de Goiás Cigaro cavado Conversa sentada38 Ingredientes brasileiros com gosto de comida estrangeira. Oswald de. nativos. São Paulo: Globo. nosso chocolate tão nacional. Pau Brasil.A cozinha futurista A ROÇA Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angu Abóbora chicória e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços Em “rp 1”. 37 Numa tradução tendenciosa: “Sonho de Valsa”. 38 Os três poemas citados estão em Andrade. em “Postes da Light”. O estrangeiro sendo misturado ao café e à pinga.indd 55 7/4/2009 15:51:18 . o poema “Walzertraum”37 diz que “aqui dá arroz/ feijão batata/ Leitão e patarata”. 2000. uma mistura que revela o caráter do povo brasileiro. que o assimila as influências para transformá-las em originalidade. preferências nacionais. As referências gastronômicas são sempre feitas a produtos nacionais. e tem o “trem leiteiro/ que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro”.

após alguns anos de relacionamento mal explicado à sociedade: Pegue-se 3 litros do visgo da amizade Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo Mexa-se até ficar melado bem pegajento E engula-se tudo de uma vez Como adesão do Mário de Andrade Ao almoço Pra Tarsila E Oswaldo Amém.Fillippo Tommaso Marinetti Numa amigável intriga literária.Poesia Futurista” .. que acabara de anunciar o noivado com Tarsila. sob o título “O Amor.indd 56 7/4/2009 15:51:18 . A resposta de Oswald também vem em forma de poema – paródia publicada em Serafim Ponte Grande. Mário de Andrade divulga em 1925 um poema em homenagem ao amigo Oswald. com ingredientes e modo de fazer ou ministrar: Tome-se duas dúzias de beijocas Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia Coloque-se dois ovos Agite-se com o braço da Fatalidade 56 Cozinha futurista. ambos aludindo a receitas.

a carne destes é oferecida no Açougue. Além da referência gastronômica óbvia no nome da revista. Precisamos rever tudo – o idioma. sob a direção de Antonio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. Tudo no fundo é a mesma coisa”. real em outras. publicadas semanalmente. simbólica em algumas sociedades. O catolicismo instituiu a mesma coisa. a segunda era limitada a uma página do “Diário de São Paulo”. mascarando o nosso símbolo. vários artigos anunciam os jantares nos quais certas figuras da sociedade seriam deglutidas. Escreveu Oswald de Andrade que devemos “admitir a macumba e a missa do gallo. todos seriam ingeridos para reforçar o movimento antropofágico. coloca o ser humano em contato com seus antepassados. O índio comungava a carne viva. Poetas sem brilho. porém acovardou-se. teve duas dentições: a primeira teve dez números em formato revista. com o primitivo e natural. Às vezes. de agosto de 1929.indd 57 7/4/2009 15:51:18 . real. Veja só que vigor: . Foram 16 páginas. Hans Staden salvou-se porque chorou. O club de Antropophagia quer agregar todos os elementos sérios. com a verdade de seu povo. Ou ainda: É a comunhão adotada por todas as religiões. com as raízes. cedida aos antropófagos pelo editor do jornal. intelectuais que não compreendiam os rumos da literatura modernista. por conseguinte. Rubens do Amaral. e foram editadas de maio de 1928 a fevereiro de 1929. (Só comiam os fortes). para que todos os que assim desejam possam participar da comunhão desses tabus. Até que virem totens. o direito de properiedade. hoje compilada num único volume. com 8 páginas. de 17 de março a 1°.A cozinha futurista E dê de duas horas em duas horas marcadas No relógio de um ponteiro só! A Revista de Antropofagia. A antropofagia. a famí- 57 Cozinha futurista.Lá vem a nossa comida pulando! E a “comida” dizia: “come essa carne porque vai sentir nela o gosto do sangue dos teus antepassados.

p. Ascenso Ferreira. a necessidade de divórcio -. no. 1994 P. define a tradição de sua terra através dos pratos típicos – vatapá. várias vezes volta à discussão a tradição indígena. 1979.indd 58 7/4/2009 15:51:18 . mas a ser consumido necessariamente para criar uma nova ordem de coisas no Brasil”. caruru. oxinxin. No decorrer dos números da Revista. 277 41 Nunes. 3 40 Fabris. Benedito. 05. em seu poema intitulado “Bahia”. sob diversos nomes (ou pseudônimos): “se há uma coisa vinculada à alma brasileira é este pequeno e inocente vício guloso que levava a velha índia convertida a pedir in extremis ao seu confessor um dedinho de curumim a chupar!” (Ubaldino de Senra). 51 e 66 58 Cozinha futurista. Perspectiva/ EDUSP. ou ainda: “A arte é um meio de ‘devorar’ o conteúdo trágico da vida. Oswald Canibal. transformando todos os tabus em totens. acarajé. O Futurismo Paulista. escrever como se fala. p. abará. em geral indigesto. efó – e pela negação das iguarias estrangeiras: “te dana Petit-pois/ te dana Macarrão/ te dana paté-de-fois-gras!/ Viva o caruru”. isto é. sinceridade máxima.Fillippo Tommaso Marinetti lia. no cardápio antropofágico.40 Benedito Nunes afirma que “A antropofagia transportou para o campo das idéias políticas e sociais o espírito de insurreição artística e literária do Modernismo”. num gesto de comunhão e de exorcismo ao mesmo tempo.39 Segundo Annateresa Fabris. acaçá. “Há diferenças psicológicas entre a eliminação física do adversário de maneira ‘científica’ (a cadeira elétrica de Lacerba) e sua deglutição. Annateresa. São Paulo. São Paulo: Perspectiva. talvez com um paladar um pouco mais “modernizado” que o defendido por Oswald. em valores humanos e em obras de arte”41 Outros colaboradores da revista também tinham suas preocupações gastronômicas. ou “Os índios não comem a carne de seus inimigos ou chefes com intenção 39 Revista de antropofagia.

não apenas no conteúdo transformador. Entretanto. Comem porque pensam mastigar também o valor do comido – comidos voluntários. fazendo-o acreditar que faz parte também do movimento. também este anterior ao Manifesto da Cozinha Futurista. entendida por ele como culinária.A cozinha futurista gastronômica.” Ou “Contra todos os importadores de consciência enlatada. sem dúvida. reagem. das idéias pré-concebidas. das idéias e da língua. Ambos os autores querem modificar a mediocridade atual. Eric Hobsbawn diz que no campo da arte. como prisioneiros ou arqueólogos”. afirma-se que os futuristas “Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega”. sua prin- 59 Cozinha futurista. Trazidas nas caravelas. “especialmente das artes visuais. procedem à desestruturação da sociedade. (…) Seu ‘primitivismo’ era. a comparação faz-se inevitável. Contra a verdade dos povos missionários (…) – É mentira muitas vezes repetida”. Temos aqui o uso da primeira pessoa do plural – nós – que engloba o leitor. portanto. além da negação do cotidiano. propondo um novo meio de expressão. Talvez Marinetti tenha sabido da existência da Antropofagia e tenha resolvido imbricar-se nesta área. e para alcançar tal objetivo. mas também no estilo telegráfico. de Oswald: “Somos concretistas. inspiraram-se preponderantemente nelas nesse período. na supressão da pontução e no tom provocatório: No Manifesto de Marinetti. exige-se “a abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato” ou a afirma-se que “Os defensores do macarrão carregam a bola ou a ruína no estômago. Comparemos com o Manifesto Antropófago. do status quo. as vanguardas ocidentais trataram as culturas não ocidentais em total pé de igualdade. (…) Contra as sublimações antagônicas. Na verdade. queimam gente nas praças públicas.” (China) O Manifesto Antropófago é de 1928 e.indd 59 7/4/2009 15:51:18 . As idéias tomam conta. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. quasi todos. Talvez nunca tenham sabido da existência desses Manifestos quase “afins”.

O sr. enfocam a questão pelo prisma da exaltação de um lugar geográfico emblemático. (…) Os brasileiros estavam começando a descobrir um certo passado. o sistema. Ao comparar os dois movimentos literários. tinha muito de primitivo por suas raízes indígenas e africanas.. a disciplina. Os olhos da nossa gente melam. Annateresa. Eric. A Era dos Impérios. Do nativo contra o importado. p. num artigo intitulado “O país da sobremesa”. 2a dentição. os brasileiros. no qual se enraizará sua consciência nacional. O Futurismo Paulista. Annateresa Fabris diz: “É diferente a atitude de modernistas e futuristas perante a consciência do atraso: os italianos adotam como estratégia fundamental a negação do passado. verbo intransitivo. Tudo resultado da gula. contra a superioridade do ariano corroído pelo vício e pela moleza das decadências.. 4 (editorial) 60 Cozinha futurista.”43 De tudo isso se conclui que a antropofagia é a revolta da sinceridade recalcada durante quatrocentos anos. Guilherme de Almeida. o escritor questionava a estrutura econômica e cultural do Brasil: País de sobremesa. café. Em 1937. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 42 Hobsbawn. castanhas do Pará. 1998.”42 O Brasil. 43 Fabris. País laranja! Temos Coelho Netto. Martins Fontes. Do ingênuo contra o artificioso. 265 44 Revista de Antropofagia. Os espíritos também.120-1. apesar de haver herdado a cultura européia. coco e fumo. “A reação da paisagem contra o tempo. Da claridade natural contra a sombra da filosofia. cacau. Exportamos bananas.”44 A preocupação com a metáfora gastronômica não cessaria em Oswald. Da inferioridade do mestiço que trabalha. Mário de Andrade escreveu um livro que se chama Dar.Fillippo Tommaso Marinetti cipal atração. Da terra (que é nossa).indd 60 7/4/2009 15:51:18 . O açúcar substitui o pão das populações. ao contrário. no. contra o estranja (de outros) ou o infinito (sem dono). Da sensação espontânea contra a moral.p.

Para não trair a morta. para inventar 45 Léry. Giulio Onesti estava deprimido e com instintos suicidas após saber da morte de sua ex-amante. o suicídio parecia ser a melhor alternativa. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil. batida pau brasil.indd 61 7/4/2009 15:51:19 . em 25 de março de 1950. composto. No verso. o mesmo Giulio recebera um telegrama de outra mulher.A cozinha futurista Encerrando grandiosamente as relações canibais em Oswald de Andrade. cuja capa reproduzia cenas antropofágicas do livro de Jean de Léry – Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil45. Neste texto. além de uma taça antropofágica cujo conteúdo desconhecemos e cauim “selo vermelho”. e como solução. 61 Cozinha futurista. transformada em “fantásticos laboratórios”. Ano também do jubileu do “Pau Brasil”. tem como ingrediente literário apenas o primeiro texto: “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. Marinetti corre ao socorro do amigo. Proceder-se-ia finalmente à manducação do criador do Manifesto Antropófago. uma que se parece muito com a morta. Para aumentar a tensão. deu ensejo a um cardápio de criativo projeto gráfico. reproduzimos o cardápio do almoço em comemoração aos 60 anos do escritor. lombinho parnasiano e virado. Marinetti conta como surgiu a idéia de se instaurar uma revolução na cozinha. “mas não o suficiente”. para que fosse salva a vida de seu amigo Giulio Onesti. que se suicidara em Nova Iorque. a lista dos pratos: folhadinhos marcianos e canapés voadores. como já vimos. juntamente com os futuristas Prampolini e Fillìa. no ano 396 da deglutição do Bispo Sardinha. convida todos os futuristas à cozinha. além de um lugar reservado aos autógrafos. Jean de. por diferentes ingredientes. coração de abacate com crustáceos incrustados. mArinetti AntrOpOFáGO O livro A Cozinha Futurista.

farinha de centeio. Talvez Marinetti esteja aludindo à Semana de Arte Moderna. açúcar e ovos. mel e leite. diálogo romântico atribuído a Salomão. encontramos : “do banquete me aproxima. basta lembrar de Adão.Fillippo Tommaso Marinetti esculturas comestíveis. lembremos que o primeiro ritual antropofágico cristão aconteceu durante a última ceia. Os ingredientes. chocolate em pó. podem talvez ser um prenúncio de uma relação amorosa a ser apresentada posteriormente ao leitor.indd 62 7/4/2009 15:51:19 . Os primeiros homens foram expulsos do paraíso porque não conseguiram refrear o impulso de comer um fruto proibido. Antropofagia indireta. metafórica. Bastaria observar os pratos executados por Marinetti e seus companheiros para a “Mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis”47: 46 Cântico dos cânticos. Dez jarras de óleo. 37 e 39 47 Caberia aqui ressaltar a coincidência (ou não) de haver uma mostra. pp. tradução de Antonio Medina Rodrigues. farinha de amêndoas. com 22 esculturas. farinha de milho. na Eucaristia. farinha de trigo./ E sob a língua. mas ingerimos o corpo de Cristo em forma de hóstia. Ainda no âmbito bíblico. em São Paulo ano de 1922. por certo. ou a forma dos pratos assemelhar-se a elas. 25. pimenta vermelha. “indispensáveis”: farinha de castanhas. do leite já provei. ou “raios de mel. Dentre os versos do Cântico.”46 A estreita ligação que existe entre amor e comida remonta à origem do mundo. 62 Cozinha futurista./ O vinho eu já bebi. leite e mel. Daí advém o fato da descrição dos pratos futuristas muitas vezes ser entremeada de adjetivos atribuíveis a mulheres. Estes ingredientes ao aludirem ao Cântico dos Cânticos. destilam teus lábios. Eva e o Pecado Original. Marinetti aproxima os prazeres derivados pela comida ao proporcionado pelas mulheres./ Provei meu mel. ninfa. Cem quilos de tâmaras e de bananas. e vem sendo repetido nos últimos dois mil anos. com bolos de mel me recupera”. e bebemos seu sangue em forma de vinho./ E como aroma libanês recendem teus velamens” ou ainda “Depois de haver provado o trigo meu.

com um tremendo torcer de rins. era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. Escultores e escultoras dormiam. começou a amorosa adoração com os lábios.indd 63 7/4/2009 15:51:19 . Ajoelhandose em frente. a língua e os dentes. Levantou-se agilmente.é de tal modo bela. Às três daquela noite. um seu modo de flutuar sensualíssimo. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as 63 Cozinha futurista. Acima. como uma tigresa alongada. com as costas suspeitosas de um ladrão. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. e esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Paixão das Loiras . fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio.massa folhada com uma leve curva especial de boca ou ventre ou quadris.suave magnetismo das mulheres mais belas. Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos . e das mais belas Áfricas sonhadas.A cozinha futurista Complexo plástico d’Ela . a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. parece oportuno ressaltar o fato de que a ingestão de um prato assemelha-se intensamente a uma relação sexual: De improviso. Enquanto os complexos plásticos comestíveis têm as curvas de uma mulher. um sorriso seu de lábios. sem fazer barulho. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno.

Aproveitador e aproveitado. Giulio saiu então no parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão.” Mas é no “Cardápio Extremista” que podemos mais uma vez observar a índole canibal latente no futurismo. risoto. Possessor e possuído. ervas. se Giulio apenas se delicia com uma iguaria que enche os olhos e o estômago ou se imagina haver ali uma mulher submissa às suas glutonarias. espinafre com creme. vazio e transbordante. tudo coberto por pétalas de violeta. com leite apenas ordenhado.Fillippo Tommaso Marinetti grandes jóias do olhar. Estava ao mesmo tempo desobstruído. 64 Cozinha futurista. O “Cardápio de Núpcias” promete aquecer os estômagos de todos os comensais com risoto à milanesa. No “Cardápio Noturno de Amor”.indd 64 7/4/2009 15:51:19 . não oferece nada para comer. Marinetti confunde o leitor. cogumelos trufados. Único e total. Este cardápio. O capítulo “Os Cardápios Futuristas – sugestivos e determinantes” também evoca a sensualidade que se pode obter através da alimentação. Sem fim. que já não tem certeza de se tratar de um prato comestível real ou se este prato se transubstanciou em fêmea. Perfumes diversos são vaporizados nos comensais. liberado. berinjelas fritas. O “Cardápio de Solteiro” tenta amenizar a solidão do rapaz com pratos que evocam louras. apenas para cheirar. presunto infuso em leite e ostras com vinho Moscato devolvem os amantes às fadigas da cama. verdadeira tortura psicológica e estomacal. lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. com a cabeça descoberta. morenas ou uma bela desnuda: “duas coxas de frango cozidas numa bacia de cristal. frutas e peixes. Talvez para se refrescar. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. chocolate.

havia uma atenção especial a este tema. desde o início da carreira de Marinetti. no reino dos Citrulli. lamentando o fato de não poderem devorá-las: 48 Marinetti. seu inspirador.escrito em francês por Marinetti em 1905 e depois traduzida pelo próprio Marinetti para o italiano com o título Re Baldoria. Panciarguta.” Os paladares famintos são então aplacados com dois perfumes de “vida carne luxúria morte”. A obra é uma metáfora gastronômica rabelaisiana. desde o nome dos personagens até o nome da espada do rei – La Succulenta. já que “la ripugnante sobrietà delle donne e la loro abituale lussuria scombussolavano già da troppo tempo le nostre idee digestive. Milão: Fratelli Treves. o futuro histórico-social do mundo é reduzido a uma questão meramente gastronômica: os homens lutariam e se ocupariam incessantemente apenas para garantir sua felicidade gastro-intestinal. em prosa . imploram por qualquer coisa para mastigar.T. Re Baldoria. autor de Ubu Rei. em um castelo onde tudo alude a comida. As mulheres todas fogem. que prometem um banquete a todo o reino. primeiro cozinheiro. – A tavola. e as cozinhas (o poder. “veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas. Na realidade. e foi bem recebida por Alfred Jarry. o que proporciona uma felicidade estomacal nos homens. 1920. Alguns homens sentem falta das mulheres. e um deles observa que se não lhes for oferecido nada. A história se desenvolve numa era medieval fictícia. morre. le loro poppe proeminenti ci nascondevano la magnificenza delle portate”48.indd 65 7/4/2009 15:51:19 .A cozinha futurista Os convidados choramingam. criada durante a greve geral de 1904 em Milão. não é apenas em A Cozinha futurista que podemos observar esta abordagem antropofágica. No romance. p. simbolicamente) são então passadas a três aproveitadores. ainda na França. 09 65 Cozinha futurista. como podemos observar no romance Le Roi Bombance – tragédia satírica em quatro atos. F. Entretanto.

de Mário de Andrade. l’impermeabile pelle!49 O rei sente falta da sua rainha. 105 66 Cozinha futurista.T. Quem assina é “La tua Salsetta”. a ingestão do rei é considerada uma honra para o ingerido. fato que ocasiona a ressureição do rei e seus seguidores. mas Marinetti nos dá outra informação. De fato. através do vômito. mais uma vez verificar a aproximação dos prazeres gastronômicos e sexuais: “Ah! Vieni. Re Baldoria. pois “poderia haver um túmulo mais digno?”51. os homens devoram uns aos outros. A fome extrapola os limites. p. os secretários e os companheiros que por um ou outro motivo desafiavam-se na sala do banquete e perdiam a vida. sanguinacci saporitissimi. Já vimos o que simboliza o vômito em Macunaíma. Este já havia nomeado outros cozinheiros. così. p. como nas tribos indígenas. lendo uma carta por ela enviada. vieni ad amarmi a tavola. sem mastigar bem. vieni presto. p. Numa orgia antropofágica. apassionatamente. nesta carta. Ibid. mulher de estômago forte. exigindo que o rei os alimente.. que se fartam nas cozinhas enquanto dizem preparar o alimento para todos. bobo da corte. e os convivas resolvem comer o rei. 33 51 Id. tenta em vão.indd 66 7/4/2009 15:51:19 . foi salgada e ingerida. aplacar a fome dos comensais com palavras. O Idiota. che noi empiamo del nostro sangue di porco! Diventano.Fillippo Tommaso Marinetti Le donne? …Sono vesciche.12 50 Id. perdio. ma non si lasciano mangiare! E ci si annoia. mia grossa polpetta dorata. A carne de todos os que morreram. F. Ibid. a leccarne senza fine. vieni a baciarmi con le tue belle labbra sugose di prelibati salmi! (…) Vieni. ad amarmi a tavola e a mangiarmi a letto!”. 50 Os habitantes começam a se revoltar. Podemos.. sempre relacionada à ingestão de carne humana: 49 MARINETTI.

este é o meu sangue (e oferece o sangue que recolhera em uma taça). A antropofagia era real e metafórica ao mesmo tempo.. i Citrulli vanno perfezionando le loro mascelle nell’arte di divirarsi l’un l’altro con crescente agilità… Ecco il solo progresso possibile. Um dos personagens. Bebam. Perché si vomita sempre molto più di quanto si è mangiato!…Talvolta.”53 Segundo Luciano De Maria. e recomeçam a lançar olhares de desejo uns aos outros. la proprietà comune dei 52 Id. salsologia. este é meu corpo! (e oferece realmente uma parte de seu corpo mutilado).. o mar devolve o cadáver dos náufragos… assim também o estômago dos Citrulli os havia restituído à vida. Fra Trippa.T.indd 67 7/4/2009 15:51:19 . ao final. Quel che si vomita è più forte e più vivo di ciò che si è inghiottito!…52 Em uma passagem do livro. e diz: Comam. defende que sua ingestão e ressuscitamento através do vômito seria simbólico. 227 53 MARINETTI.A cozinha futurista Inoltre bisogna guardare bene dal recere le conquiste del nostro stomaco… 1°. se non volete che il corpo mangiato. 267 67 Cozinha futurista. F. um dos personagens alude ao sacramento católico. si vomitano persino le budella… talvolta lo stomaco intero!… Masticate con cura gli alimenti! Dividete la carne in tanti piccoli pezzi. indicando que a história poderá se repetir infinitas vezes. o Santo Sepulcro devolveu Jesus Cristo. representante eclesiástico da história. p. Marinetti satiriza nesta obra a ideologia e a práxis socialista: “La sociologia si tramuta in sauçologie. Ibid. e que fediam muito) sentem fome novamente. os homens ressuscitados (vomitados. p. Entretanto. rinsaldandosi l’uno all’altro rivivano in voi per dichiararvi guerra!… 2°. Um vampiro filósofo que aparece ao final da história resume o problema: “Di età in età. ed uno dei cardini del socialismo. Re Baldoria. assim como a baleia devolveu Jonas.

atravessa os oceanos e concebe finalmente a idéia de um filho que resultasse de um nascimento apenas cerebral. Pouco tempo depois. Assim nasce Gazoumah. empreende uma viagem mítica ao reino dos mortos.o rei de Tell-el-Kibir. che un odore caldo e squisito inebbriò voluttuosamente tutta la casa. tirano e usurpador. fosse no amor ou no modo de governar . (…) Mafarka lo mangiò. facendo schioccare la lingua e stroppicciandosi le mammelle per vincerne il troppo dolce prurito. diviene la socializzazione dei mezzi di produzione culinaria”54. do qual o autor foi absolvido. levou Marinetti a um processo por atentado ao pudor. Louco de dor. Mais uma vez. una dopo l’altra. il futurista. sui cuscini. cruel e impetuoso. p. no decorrer da obra.Fillippo Tommaso Marinetti mezzi di produzione.55 54 DE MARIA. A obra. Magamal. bárbaro e sádico. il Futurista quase simultaneamente em francês e em italiano. Luciano. E. “La chiave dei simboli in ‘Re Baldoria’” in: La nascita dell’avanguardia. confunde-se o vocabulário referente aos prazeres carnais e estomacais: I cuochi infarcirono lo Zeb con del latte cagliato. la sera. e não biológico.203 55 MARINETTI. que renuncia ao seu trono e ao seu povo após vencer todos os inimigos.. um filho imortal porque nasceu sem a participação da vulva maléfica que predispõe à decrepitude e à morte.guerreiro feroz e implacável. Mafarka. Este romance africano traz a história de Mafarka-el-Bar . emanação pura do discurso futurista.T. pensndo fosse un pesce. para trazer à vida seu irmão mais novo. Marinetti publicou Mafarka.76-77 68 Cozinha futurista. origliavano alle porte della casa sala del convito. F. stuzzicante da quell’odore. e lo condirono sì bene con viole e cannella. Poi. le servette.. Pp. Mafarka si gettò sulle serve che stavano sparecchiando e le possedette. em 1910.indd 68 7/4/2009 15:51:19 . ridendo come un pazzo. em sua tradução italiana.

não quer dividir com ninguém. entre disparos de metralhadora do campo inimigo. Algumas obras de Marinetti não são facilmente encontradas. declara. que se pode mesclar com a antropofagia. 4) Cacce arabe. 6) Una favolosa indigestione. 7) Grande albergo del pericolo. de Cremona. durante a travessia de um rio em meio 56 www.A cozinha futurista Muitos banquetes (ou orgias) acontecem no decorrer da obra e. Ao abrir a mochila. de 1930. Atenção à sexta novela. entretanto. uma vez que uma grande indigestão num livro de contos eróticos pode referir-se ao abuso das “fadigas da cama”.it/futurismo 69 Cozinha futurista. bem como resenhas ou comentários sobre seu conteúdo. de Roma. Num clima de insanidade. que reproduz a capa de inúmeras obras raras ou de difícil localização. encontramos um conto intitulado “Come si nutriva l’Ardito”. Em 1922. Guzzo o personagem Corajoso a que se refere o título. pela editora Excelsior de Milão. 3) Cuori complicati. a surpresa: ele carrega consigo o corpo mutilado da amante. um livro sobre amor foi lançado por Marinetti: são alguns contos eróticos publicados sob o título Gli Amori Futuristi. neles. Em 1927. No livro de contos Novelle colle labbra tinte. traz sete novelas eróticas: 1) Autoritratto. por tratarem do amor. que devoravam os inimigos para saciar seu apetite animal. algumas informações puderam ser obtidas no site L’Arengario56. a voracidade com que os personagem avançam sobre o alimento remete aos antigos antropófagos.arengario. pela Casa Editrice Ghelfa. Publicado pela Edizioni d’Arte Fauno. 2) Consigli ad una signora scettica. Selecionamos alguns títulos aparentemente relevantes a este estudo. das pernas e dos braços. outro livro traz o amor no título: Scatole d’Amore in Conserva. 5) Matrimonio ad aria compressa. carrega numa mochila um pedaço de carne salgada.indd 69 7/4/2009 15:51:19 . agile e interessante autobiografia. que ele havia amorosamente comido. um “studio biliografico”. Em 1918 foi publicado o livro Come si seducono le donne. o qual. já destituída da cabeça. cujo título remete à antropofagia.

forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non parla più! Il ventre umile. tremano. piccola. temos a descrição de Guzzo: “un certo Guzzo di Trapani tutto nero. Ibid pp 399 e 405 70 Cozinha futurista. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. de outra cultura. Entretanto. vero Saraceno magro agile scattante. Guzzo conversa com o cadáver. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. Novelle colle labbra tinta: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. Além disso. F. pedindo que seja ingerida. Le mammelline tonde soavi vive. ingenuo. o rosto embrutecido. pp.57 Guzzo morre. Num primeiro momento. e a mochila com os restos da mulher é então carregada pelo tenente.58 Guzzo é muçulmano. Milano: Mondadori. deformado.indd 70 7/4/2009 15:51:19 . de outra cor. 1930. grandi occhi neri dolcissimi. dois detalhes invocam o passado ritual antropofágico.Fillippo Tommaso Marinetti à batalha. algumas imagens acabam por tornarem-se recorrentes nesta “fase antropofágica” de Marinetti. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra”. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”. tem uma grande cicatriz.T. Observemos como a descrição da jovem morta devorada por Guzzo assemelha-se bastante à descrição dos complexos plásticos comestíveis já citados: Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. Plasticamente falando. mas com olhos dulcíssimos. assim. timido. Imagina-se que ele comerá o resto do cadáver. Marinetti pode talvez querer assim atenuar a gravidade do ato canibal.402-3 58 Id. fazendo crer o leitor na doçura deste monstro 57 MARINETTI. assim eles se tornariam apenas um. que havia assistido a toda a cena canibalesca. Cosi pure il collo. assimilando o resto do amor que ele traz. que responde. Mais tarde: “nelle mie vene il mio sangue ti culla.

pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. a única e todas encontravam-se aqui. outros detalhes sobre o sexo feminino: 71 Cozinha futurista. O seu coração. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. Eis o que dizem: . o furioso turbilhão do sexo.indd 71 7/4/2009 15:51:19 . diante de nossas mãos. Em um diálogo que praticamente encerra o conto. se apertado pelo supremo prazer do amor. respondendo a uma pergunta feita por “aquela que se parece bastante mas não o suficiente”. os futuristas. Em “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. especialmente as mães. O outro excerto alude ao fato comum entre os indígenas americanos (a América era o paraíso na visão de muitos europeus) de ingerir o corpo dos ancestrais mortos. o pudor. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas obras de gênio e de língua insaciável. a graça infantil. o estômago.Amamos as mulheres. a língua. Marinetti nos revela. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. o intestino igualmente enamorados. O fascínio. através de Guzzo e seu tenente. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. para que assimilassem com este as qualidades atribuídas à pessoa em vida. mas os dentes. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices.A cozinha futurista de cultura desconhecida. não só o tato e relativas carícias. acabam por revelar sua opinião sobre as mulheres. São os nossos estados de ânimo realizados. a alvorada. a ingenuidade.

comida.406 72 Cozinha futurista. cheirada. visto que será assimilada pelo outro. Ibid. Construir de novo. Nada mais oportuno que uma relação canibal: após o ato amoroso. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. Na Revista de Antropofagia. Non amo la testa della donna. Ora porti il resto sulle spalle. ajuda o homem. nós 59 Id. Deglutir tudo. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. A mulher deixa de existir. Deglutir até que chegue a hora de um prato melhor. A mulher é adorada.Fillippo Tommaso Marinetti Ti piaciono le donne. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. Devem satisfazer o homem. o ato antropófago. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. Guzzo? Sì. Um texto sob o pseudônimo Darwin afirmava que era necessário: Voltar ao estado natural. degustada. Ti ho visto. (Ou ainda: a mulher é comida). le sue braccia. Lo so. Lo so. né i suoi piedi. Vedi. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!…59 Não seria absurdo pensar que para o futurista. as mulheres têm tanta importância quanto a comida. p. não pode mais escapar. ti approvo. cuja força aumenta com a carne ingerida. le sue gambe. deixa de pensar. vemos a conformidade deste pensamento de Marinetti com o movimento brasileiro. auxiliar a catalisar suas forças. ma non le donne vive. Ao chegarmos aí. sem no entanto atrapalhar seu desenvolvimento ou sua vida. e no final. proporcionar-lhes prazer.indd 72 7/4/2009 15:51:19 .

“romance cirúrgico”. se devoram. para unir-se a ele. quiseram-se incorporar-se de todos os modos. 73 Cozinha futurista. Milano: Falcchi Editore. a senhora tem uma crise de nervos. A cirurgia é feita. havendo uma troca de correspondências entre o futurista F. 59 e 81. ocorre uma segunda cirurgia e a recuperação. Enif. não! A minha carne é minha!… Comando eu!… Tenho direito…”61 Neste livro. a no momento de tirar o curativo e enfrentar a cicatriz. p. dizia o poeta. quer fugir do hospital. tirar. para possuí-lo. até com os dentes. Un ventre di donna: romanzo chirurgico.indd 73 7/4/2009 15:51:19 . para alimentar-se. em meio à guerra. não! Cortar. para que o médico não tivesse “naquele dia a sua porção de carne a cortar com método”. dentição. F. a ciência se iguala à inspiração e o pensamento circula livremente pelo organismo Nos transportes do amor humano.T. Futurismo como cura. e ROBERT. 1919. internada num hospital após uma cirurgia sem muito sucesso para a retirada dos órgãos reprodutores inflamados. e em meio a contorsões grita: “Não! Assassinos! Açougueiros! Acorde. e a senhora Enif Robert.A cozinha futurista teremos atingido o momento supremo em que a idéia se une à força. para viver dele? 60 Outra obra do futurismo que tem um leve apelo antropofágico é Un Ventre di Donna. o objeto amado. Os pontos não cicatrizam. Marinetti. apesar de não haver menção à ingestão da carne humana. os médicos são equiparados a açougueiros. nova crise nervosa. no. T. 7 61 MARINETTI. a carne humana 60 Revista de Antropofagia. com uma doença nervosa. O primeiro cirurgião é apelidado pela senhora Robert de “Jack. somente começa a se acelerar após a leitura do “manual terapêutico do desejo-imaginação” desenvolvido por Marinetti. Boa parte da obra é escrita de maneira epistolar. lo sventratore”. 1a. exaustivamente lenta. quem não sabe que os amantes se comem. e quando se deve proceder à cirurgia. logo. numa trincheira.

teorizada por Oswald.indd 74 7/4/2009 15:51:19 . As pessoas e as influências importantes foram assimiladas. Podemos assim estabelecer um vínculo sangüíneo entre os três autores. seja através dos alimentos oferecidos ao corpo e à alma. moral. preocupados em fortalecer os cidadãos e a pátria. bebendo dessas fontes. seja através da ingestão e a assimilação dos ingredientes formadores da cultura. Para evitar a indigestão. A Cozinha Futurista. outras foram simplesmente descartadas. os secretários eram “açougueiros” e a carne dos “inimigos intelectuais” era sempre oferecida num açougue imaginário. O repertório intelectual de uma cultura é intocável. e somente ingerindo. intelectual ou financeiramente. novamente. A digestão seria difícil. comendo as idéias e assimilando tudo numa digestão bem feita. julgando que estão livres daquelas amarras intelectuais. uma receita marinettiana: “O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos.” 62 62 MARINETTI. em prol de uma modernidade almejada. Muitas vezes. A antropofagia. Todos preocuparam-se com a culinária. Na Revista de Antropofagia. F.85 74 Cozinha futurista. Foi necessário devorar nossos antepassados e nos imbuir de toda a coragem que eles um dia tiveram para que não caíssemos na mesmice literária. foi praticada por estes três autores e muitos outros em diversas culturas. A nacionalidade foi enfocada por cada um deles. Tradução em português p. é que se pode inovar.Fillippo Tommaso Marinetti com a carne animal que se oferece nos açougues.T. A renovação de nossa literatura deve muito aos caraíbas e aos tupinambás. os autores renegam o passado literário. física.

CApítulo 2 A Cozinha Futurista e a linguagem W Cozinha futurista.indd 75 7/4/2009 15:51:19 .

indd 76 7/4/2009 15:51:19 .Cozinha futurista.

Por meio da leitura de excertos destes dois manifestos. 77 Cozinha futurista.indd 77 7/4/2009 15:51:19 .O FuturismO: prOpOstA de revOLuçãO LinGüísticA Para melhor compreender as dificuldades apresentadas ao tradutor por um texto futurista. documentos que já apresentavam as primeiras modificações lingüísticas sugeridas pela vanguarda artística. passando depois para 1912. devemos começar em 1909. na prática. ano do Manifesto Técnico da Literatura Futurista. com o Manifesto do Futurismo. tentaremos verificar quais experimentos Marinetti tentaria concretizar em suas obras e o que. conseguiu realizar.

le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna. se non nella lotta.Fillippo Tommaso Marinetti Manifesto del Futurismo il 20 febbraio 1909 Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo. Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo – il militarismo. essa pure. lanciata a corsa.. Noi viviamo già nell’assoluto.indd 78 7/4/2009 15:51:19 . il patriottismo. l’abitudine all’energia e alla temerità. il passo di corsa. il salto mortale. se vogliamo sfondare le misterioseporte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. No v’è più bellezza. il gesto distruttore dei libertari. la ribellione. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante. Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro. La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote. è più bello della Vittoria di Samotracia. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa. Bisogna che il poeta si prodighi. Perché dovremmo guardarci alle spalle. saranno elementi essenziali della nostra poesia... Il coraggio. sfarzo e munificenza. un automobile ruggente. Noi vogliamo esaltare il movimento agressivo. con ardore.. la cui asta ideale attraversa la Terra. che sembra correre sulla mitraglia. l’audacia. lo schiaffo ed il pugno. sul circuito della sua orbita. 78 Cozinha futurista. l’estasi e il sonno. l’insonnia febbrile. poiché abbiamo già creata l’eterna velocità omnipresente. per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali. per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo.

divoratrici di serpi che fumano. mentre filavo a duecento metri sopra i possedenti fumaiuoli di Milano. balenanti al sole con um luccichio di coltelli. Bisogno furioso di liberare le parole. come ogni imbecile. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro. il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria. io sentii l’inanità ridicola della vecchia sintassi ereditata da Omero. e combattere contro il moralismo.. le stazioni ingorde. Appena il necessario per camminare.. le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi.) Manifesto tecnico della letteratura futurista 11 maggio 1912 In aeroplano. ma non avrà mai due ali. una testa previdente. le locomotive dall’ampio petto. due gambe e due piedi piatti. dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne. le biblioteche. E l’elica soggiunse: 79 Cozinha futurista. e il volo scivolante degli aeroplani. i ponti simili a ginnasi giganti che scavalcano i fiumi. per correre un momento e fermarsi quasi subito sbuffando! Ecco che cosa mi disse l’elica turbinante. seduto sul cilindro della benzina. la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta. i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte. come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi.indd 79 7/4/2009 15:51:19 .A cozinha futurista Noi vogliamo distruggere i musei. (. che scalpitano sulle rotaie. scaldato il ventre dalla testa dell’aviatore. un ventre. le accademie d’ogni specie. traendole fuori dalla prigione del periodo latino! Questo ha naturalmente. canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche.

folla-risacca. Si deve abolire l’avverbio. poiché suppone una sosta. la percezione per analogia diventa sempre più naturale per l’uomo. L’aggettivo avendo in sé un carattere di sfumatura.x : = > <. s’impiegheranno segni della matematica: + . Siccome la velocità aerea ha molteplicato la nostra conoscenza del mondo. il così. Per accentuare certi movimenti e indicare le loro direzioni. Si deve abolire l’aggettivo. e i segni musicali. Ogni sostantivo deve avere il suo doppio. senza congiunzione. Il verbo all’infinito può. solo. senza le soste assurde delle virgole e dei punti. 80 Cozinha futurista. è inconcepibile con la nostra visione dinamica. gli avverbi e le congiunzioni. nella continuità varia di uno stile vivo che si crea da sé. Abolire anche la punteggiatura. Essendo soppressi gli aggettivi. perché il sostantivo nudo conservi il suo colore essenziale. Bisogna dunque sopprimere il come. dando l’immagine in iscorcio mediante una sola parola essenziale. vecchia fibbia che tiene unite l’una all’altra le parole. bisogna fondere direttamente l’oggetto coll’immagine che esso evoca. perché si adatti elasticamente al sostantivo e non lo sottoponga all’io dello scrittore che osserva o immagina.Fillippo Tommaso Marinetti Bisogna distruggere la sintassi disponendo i sostantivi a caso. Esempio: uomo-torpediniera.indd 80 7/4/2009 15:51:19 . donna-golfo. dare il senso della continuità della vita e l’elasticità dell’intuizione che la percepisce. il simile a. la punteggiatura è naturalmente annullata. Meglio ancora. porta-rubinetto. L’avverbio conserva alla frase una fastidiosa unità di tono. dal sostantivo a cui è legato per analogia. il quale. piazza-imbuto. come nascono. cioè il sostantivo deve essere seguito. una meditazione. Si deve usare il verbo all’infinito.

. a una piccola macchina Morse. potrebbero paragonare quello stesso fox-terrier trepidante. raccolta in una parola essenziale. Non vi sono categorie d’immagini. vi sono dei rapporti sempre più profondi e solidi. e 81 Cozinha futurista. Dunque dobbiamo abolirlo nella letteratura. Siccome ogni specie di ordine è fatalmente un prodotto dell’inteligenza cauta e guardinga bisogna orchestrare le immagini disponendole secondo un maximum di disordine. L’uomo completamente avariato dalla biblioteca e dal museo.. Lo stile analogico è dunque padrone assoluto di tutta la materia e della sua intensa vita. a un’acqua ribollente. e cioè quasi tutto.A cozinha futurista Gli scrittori si sono abbandonati finora all’analogia immediata. non offre assolutamente più interesse alcuno. Per dare i movimenti sucessivi d’un oggetto bisogna dare la catena delle analogie che esso evoca. ognuna condensata. sottoposto a una logica e ad una saggezza spaventose. V’è in ciò una gradazione di analogie sempre più vaste..indd 81 7/4/2009 15:51:20 . Altri. cioè tutta la psicologia.) Per avviluppare e cogliere tutto ciò che vi è di più fuggevole e di più inafferrabile nella materia. di metafore scolorite. Hanno paragonato per esempio l’animale all’uomo o ad un altro animale.. eccentriche o naturali. più avanzati. Distruggere nella letteratura l’“io”. bisogna formare delle strette reti d’immagini o analogiem che verrano lanciate nel mare misterioso dei fenomeni. quantunque lontanissimi. press’a poco. (Hanno paragonato per esempio un fox terrier a un piccolissimo puro-sangue. L’intuizione che le percepisce non ha né preferenze né partiti-presi.) (. nobili o grossolane o volgari. Io lo paragono invece. (. il che equivale ancora.) Bisogna dunque abolire nella lingua tutto ciò che essa contiene in fatto d’immagini stereotipate. a una specie di fotografia.

sentem uma “necessidade furiosa” ou ouvem da “hélice turbilhonante” os preceitos 82 Cozinha futurista. che l’agitarsi della tastiera di un piano forte meccanico. usar muitos substantivos. Con la conoscenza e l’amicizia della materia.(. os avanços tecnológicos.) Dopo il regno animale. desde que expostos ao acaso. ecco iniziarsi il regno meccanico. Vejamos alguns pontos propostos por Marinetti. Ao mesmo tempo em que propõe a abolição dos adjetivos.. usa inúmeras palavras para caracterizar os objetivos do grupo: alcançar um “movimento agressivo”. a agressividade. o adjetivo e o advérbio. A análise dos manifestos em si já demonstra a fragilidade destas proposições..Fillippo Tommaso Marinetti sostituirlo finalmente colla materia.. Nulla è più interessante. “insônia febril”. della quale gli scienziati non possono conoscere che le reazioni fisico-chimiche. são muitas as regras que o futurismo impunha aos escritores que quisessem honrar a ideologia do movimento: abolir a pontuação. em seus manifestos. la qual cosa non potranno mai fare i fisici né i chimici. (. nuovo animale istintivo del quale conosceremo l’istinto generale allorché avremo conosciuto gl’istinti delle diverse forze che lo compongono. usar verbos no infinitivo.indd 82 7/4/2009 15:51:20 . realçar a velocidade. “salto mortal”. la vita del motore.) Noi vogliamo dare.. mas que nem ele. noi prepariamo la creazione dell’uomo meccanico dalle parti cambiabili. Como podemos observar. conseguiu praticar. di cui si deve afferrare l’essenza a colpi d’intuizione. e quindi dalla morte stessa. construir analogias inéditas e surpreendentes. in letteratura. Il cinematografo ci offre la danza di un oggetto che si divide e si ricompone senza l’intervento umano. suprema difinizione dall’inteligenza logica. Noi lo libereremo dall’idea della morte. per un poeta futurista.

o uso do substantivo com seu duplo. fator positivo num texto futurista. Deve-se abolir o advérbio. p. prova de que os substantivos são as palavras com carga semântica mais importante para os futuristas. poderíamos pensar em uma mera substituição de um símbolo por outro. Na teoria. e eis que o ensinamento não é cumprido pelo mestre. Exemplificando com o próprio manifesto: “homem-torpedeira”. seria mais convincente que ele mesmo deixasse de usá-los. Marinetti propõe. separado por hífen. o item 2 do Manifesto Técnico diz: “para que este se adapte elasticamente ao substantivo”.A cozinha futurista do movimento. que estaria assim em movimento. que nos parece um adjetivo “camuflado”. conquanto freqüentemente sejam precedidos de modais que indicam sua conjugação. Os verbos no infinitivo são a proposta com maior incidência nos manifestos. ou ao menos diminuir a quantidade desta. A ausência da pontuação dá margem a infinitas interpretações e analogias. 1989. já no item 6 temos “a pontuação é naturalmente anulada”.indd 83 7/4/2009 15:51:20 . uma texto sem advérbios ficaria mais veloz. Assim poderíamos proceder com todos os substantivos e seu respectivo duplo. A praça tem o formato ou a utilidade de um funil. Ora. Apenas algumas linhas de distância. Na prática. Margarida. que caracterizaria o objeto. se usamos dois substantivos acoplados. o segundo teria o objetivo de modificar ou especificar o primeiro1. As frases nominais também aparecem com bastante assiduidade. Ainda sobre a contraditória abolição dos adjetivos. mas a compreensão ficaria prejudicada 1 Basilio.30 83 Cozinha futurista. Se Marinetti propõe a abolição dos adjetivos. é caracterizada por este segundo elemento. Se em seu lugar poderiam ser utilizados símbolos matemáticos ou musicais. a certo ponto. O fato é que Marinetti tenta não usar a pontuação. Teoria Lexical. São Paulo: Ática. “multidão-ressaca”. Abolir a pontuação é outra proposta bastante intrigante. mas. de qualquer modo. Seria um substantivo composto. sem “a velha fivela que mantém as palavras unidas umas às outras”. “praça-funil”.

Marinetti. Quando da publicação do Manifesto da Cozinha futurista. a disposição dos versos no papel supre a falta de pontos ou vírgulas. atirar-nos-ão ao cesto. Verifica-se então uma bipolaridade entre o difusor das idéias futuristas. que se propõe um estilo original.Fillippo Tommaso Marinetti se esta fosse abolida por completo. que perdem em clareza e inteligibilidade. e o “autor literário” que tende a uma linguagem mais tradicional. nascido em 1876. Antes de partir para a análise da linguagem em A Cozinha Futurista. na primeira década do século. considerava-se ainda capaz e jovem o bastante para seguir à frente do movimento futurista. Julgando-o pelos seus próprios preconceitos.indd 84 7/4/2009 15:51:20 . 1909. Em poesia. Quando tivermos quarenta anos. em 1944. acerca da idade dos artistas. ocorrida com sua morte. Os mais velhos dentre nós têm trinta anos: resta-nos portanto pelo menos uma década. gostaria de lembrar uma passagem do Manifesto do Futurismo que não está reproduzida acima. É oportuno ressaltar que no primeiro parágrafo deste manifesto. no entanto. como manuscritos inúteis. – Nós o desejamos! Na época desse manifesto. A cOzinhA FuturistA e As inOvAções nA LínGuA O Manifesto da Cozinha Futurista segue o modelo dos outros manifestos promulgados pelo movimento futurista: um pequeno texto que explica ou exemplifica o problema a ser abordado. e permaneceria fiel a seus ideais até a consumação total da chama. Marinetti foi o estopim do movimento. contava já 33 anos. o nome de Benito Mussolini é lembrado. tinha 54 anos. outros homens mais jovens e mais válidos que nós. fossem estas políticas ou de reciclagem de seus participantes. seguido por um conjunto de regras a serem seguidas. para cumprir nossa obra. mas isto é dificultado nos textos em prosa. Marinetti deveria ter sido substituído por outros homens mais jovens e com maior agressividade. 84 Cozinha futurista. embora este já tivesse sofrido muitas transformações.

segue o modelo de apresentação futurista: um texto. embora não seja possível precisar se ideologicamente ou para sustentar um movimento literário que estava perdendo sua capacidade de persuasão. O subtítulo do texto. São inúmeros os casos em que Marinetti segue a linguagem tradicional. que representa o primeiro capítulo do livro. de provável classificação “literária”. receitas. que ignora os mandamentos futuristas. são aqueles em que o poeta tenta . propondo novas construções. O livro. tragicômico e poético. seguido do manifesto e respectiva polêmica. que reuniu documentação importante acerca da polêmica cozinhária iniciada por Marinetti. A este manifesto. 85 Cozinha futurista. situado no início do segundo capítulo. novas palavras ou analogias diferenciadas. e um dicionário dos novos termos.indd 85 7/4/2009 15:51:20 .e algumas vezes realmente consegue . cardápios. e a palavra antefato inclui um advérbio no prefixo. Nesta breve análise. No primeiro parágrafo. o poeta parte para a lago Trasimeno obedecendo a um telegrama “preoccupante. seguiu-se a publicação do livro A Cozinha Futurista. o “antefato” é já duplamente caracterizado por adjetivos. Nos outros capítulos.modificar o uso da língua. estes são separados por vírgula e conjunção. Os casos que relevaremos aqui. indicando que este acontece anteriormente a outro fato. serão objetos de estudo o texto literário – “Uma refeição que evitou um suicídio: o tragicômico poético antefato” – . com pontuação adequada gramaticalmente. dispondo as palavras em sintaxe convencional. por serem de interesse as inovações apresentadas e não as falhas em praticar a própria teoria. o manifesto.A cozinha futurista aludindo às “batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue”. strambo e misterioso”. mais uma vez. no caso. e o Manifesto da Cozinha Futurista. Além de utilizar três adjetivos em seqüência. Lembremo-nos que desde 1926 o futurismo havia aderido ao fascismo.

No quinto parágrafo do texto. apesar da sabida participação do autor nos acontecimentos. Marinetti utiliza quatro longos sujeitos para o verbo “riempirono” em seqüência.indd 86 7/4/2009 15:51:20 . tomado de um tremor irreprimível. Iniciando pela fala de Giulio Onesti. pseudônimo de um colaborador futurista. se esqueça de fechar parênteses: Lungo silenzio. temos a descrição de Giulio Onesti. separados por vírgulas. Poi Giulio fu preso da un tremito convulso irrefrenabile: “(non voglio.Fillippo Tommaso Marinetti Comecemos com as construções inusitadas. 86 Cozinha futurista. “Abolir o ‘eu’ da literatura” era uma das propostas futuristas e que foi respeitada no texto. la sua subitanea fuga dai centri abitati. mas pela forma de expressão. che mascherava il suo vero nome. personagem do “antefato”. non debbo tradire la morta. Para caracterizar este personagem. il suo intervento battagliero e creativo nelle serate futuriste di venti anni prima. Pode se tratar de um erro tipográfico. riempirono la conversazione parolibera che precedette il pranzo nel policromo Quisibeve della villa Outra construção que ressalta no texto é o curto diálogo entre os quatro personagens após a declaração do iminente suicídio de Giulio. escrito todo ele em terceira pessoa. Apesar do texto ser de autoria de Marinetti. Quindo mi suiciderò questa notte!” “a meno que?” – gridò Prampolini “a meno que?” ripetè Fillìa. mas ainda assim é sintomático que um homem. mas este não é fechado. este aparece como personagem em terceira pessoa. que chamam a atenção do leitor não só pelo argumento. o que imprime um ritmo cadenciado peculiar à frase: “Questo pseudonimo. que se abre com um parêntese. la sua vita di scienza e di ricchezze accumulate al Capo di Buona Speranza.

a falta desta. porém há apenas um verbo e um único advérbio. todos os companheiros futuristas lançam-se a um trabalho incessante.. bastante longo. 11 Id. partindo do momento da enunciação desta solução.T. una lieve curva de bocca ventre o fianchi”2.indd 87 7/4/2009 15:51:20 . mistura muitos substantivos e adjetivos. Este suspense também serve como preâmbulo para a ação que é então desencadeada.” – O diálogo segue com uma quádrupla repetição da frase: “a meno que”. exceto o óbvio ponto ao final do mesmo.”3 2 3 Marinetti.. A anáfora auxilia na criação do suspense necessário para que fosse apresentado o desfecho do problema: a cozinha futurista.A cozinha futurista “a meno que?” – concluse Marinetti – a meno che tu ci conduca imediatamente nelle tue ricche e fornite cucine.. buscando uma solução para o desejo de suicídio. A cozinha futurista. pode ser encontrada em diversas outras passagens do “antefato”. para criar comidas que salvassem a vida do amigo. Ibid. ou melhor. Milão: Marinotti. proposta por Marinetti. O período. 1998. Observemos como a ausência da pontuação torna o ritmo do período veloz: Atmosfera inebriante prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano altissimo torniva melodiosamente. sempre seduzindo o leitor com a aparente desordem instaurada na frase. podemos encontrar um parágrafo escrito sem utilizar nenhum sinal de pontuação. Eis alguns exemplos: “. F. p. ou “.. Sempre no plano da construção. p. A pontuação.11 87 Cozinha futurista. nas cozinhas. una legerezza di volo che offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donna miste di mozzi di ruote e d’ali d’eliche tutte formate con soffice pasta lievitata.

Alle sei di pomeriggio svilupparsi in alto di dolci dune di carne e sabbia verso due grandi occhi di smeraldo. como a “nicchia-tana” (que traduzimos por concha-toca). p. por seu caráter ambíguo. Arte temporanea. 4 5 Id.14 Id.. Uma mostra é normalmente inaugurada. Arte mangiabile. Passione. tutta direttive nuove4 Outro trecho é todo construído mesclando substantivos soltos “ao acaso”.Fillippo Tommaso Marinetti A velocidade imprimida à linguagem também pode ser verificada nas construções de frases curtas. 12 88 Cozinha futurista. Gioia delle labbra. mas esta. Nervi. Siamo gl’istintivi nuovi elementi della grande Macchina futura lirica plastica architettonica. Tutto il cielo nelle nari. tem espelhamento num verbo acompanhado de seu duplo na proposição “inaugurare-assagiare” a mostra de escultura comestível. Ibid. em sua maioria nominais que culminam na afirmação de que “somos o futuro”: Arte leggera aviatoria. L’eterno femminino fuggente imprigionato nello stomaco. tutta leggi nuove.. Ibid. deveria também ser degustada.5 O substantivo que deve ser acompanhado de seu duplo.indd 88 7/4/2009 15:51:20 . atendendo às regras do Manifesto Técnico da Literatura Futurista: Con calma riprendere la materia. La spasimante superacuta tensione delle più frenetiche lussurie finalmente appagate. Crocifiggerla sotto chiodi acuti di volontà. frases nominais curtas e verbos no infinitivo. Ci giudicate selvaggi. Schioccar di lingua. Trattenere il respiro per non guastare un sapore cesellato. altri cic redono complicatissimi e civilizzatissimi. p.

A cozinha futurista Parece-nos importante também ressaltar a larga utilização das orações reduzidas. Marinetti. Observemos alguns exemplos que documentam o fenômeno: . Acreditamos que este tipo de construção seja privilegiado por suprimir o sujeito da frase e também uma conjunção. . L’eterno femminino fuggente... A escrita marinettiana tem também outra peculiaridade que vale a pena evidenciar: o gosto pela visualização.. improvvisatosi scultore-cuoco. .. Giulio girando appena la testa a destra e a sinistra. imprigionato nello stomaco. Longos parágrafos e períodos são utilizados para descrever locais. moderna. . In un alto cilindro di pasta di grano turco girante su perno.. Prampolini e Fillìa parlorono. Inginocchiatosi davanti..... Prampolini e Fillìa.. o que facilitaria muito a tarefa de construir uma linguagem concisa.. Marinetti.. vi avevano inoculato il magnetismo.. un complesso plastico di cioccolata e torrone rappresentante le forme delle nostalgie e del passato precipitò giù con fragore e inzaccherando tutto. alternandosi.. ne iniziò l’amorosa adorazione. collaborando. offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donne...... mas sempre privilegiando o “estilo analógico”... O próprio Maninetti explica esse 89 Cozinha futurista.. alto complesso plastico di pasta sfogliata scolpita a piani degradanti di piramide. . La sua architettura obliqua di curve molli inseguentisi in cielo. veloccizzandosi scapigliava in tutta la camera una massa enorme di zucchero filaro d’oro..indd 89 7/4/2009 15:51:20 . sem palavras desnecessárias......Giulio Onesti. situações ou personagens. mais freqüentemente de gerúndio e de particípio.

transformada em fantásticos laboratórios. zumbido de um aeroplano altivo. as pessoas. asas de hélice. que arrancam. Numa rápida lista de elementos referentes a cada uma destas categorias. roda dentada. Outro prato era um complexo plástico a motor comestível. cilindro de massa girando em seu eixo. Aurora Fornoni. cada uma delas condensada. recolhida numa palavra essencial. espirais de vento expressos em encanamentos. cubos de roda. em seu vôo. 6 Bernardini. que era a escultura de uma mulher. Assim temos os poetas que enquanto falam alternam-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina e a cozinha. (.”6 Nessas analogias. três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. globos elétricos. Essa relação entre a vida cotidiana e a modernidade imposta pelas máquinas estava de acordo com os ideais do movimento. A velocidade é representada pelo automóvel. para máquinas. é necessário dar a cadeia de analogias que ele evoca.Fillippo Tommaso Marinetti estilo: “Para dar os movimentos sucessivos de um objeto. 90 Cozinha futurista. os lugares e mesmo as comidas são sempre relacionadas a máquinas. ao vôo. perfeito. partes destas ou indícios de modernidade: fantásticos laboratórios. tudo feito com macia massa fermentada. São Paulo: Perspectiva.. todo um grupo de árvores. oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados misturados a cubos de rodas e asas de hélice. aeroescultores. volantista. O Futurismo Italiano. encontramos.indd 90 7/4/2009 15:51:20 . 1980. arte leve voadora. Um dos pratos.. equilíbrio. aerodinamismo lírico-plástico. grande máquina futura lírica plástica arquitetônica O campo semântico concernente ao vôo traz aeropintores. ou partes destas. É grande o repertório lexical que se refere às máquinas. A escolha do vocabulário confirma essa ideologia.) Em alguns casos precisará juntar as imagens duas a duas. tapete de plumas que parece viajar. aos automóveis e respectiva velocidade. como as bolas acorrentadas. hélices esvoaçantes. aeropoesias. complexo plástico a motor.

sugerindo tudo o que constitui o ser. sendo que o contrário também ocorre. Escolha lexical também recorrente nesta obra é a “erótico-culinária”. “bellissima donna”. “per lei”. “le” offriremo. “quella bocca imminente”. “quella che le rassomiglia molto ma non abbastanza”.A cozinha futurista velocidade. Marinetti usa repetidas vezes o pronome Lei (ela). e devido a isso. “Lei”. “a lei”. pois o pronome utilizado no lugar do substantivo em todas as referências feitas a “ela” assume um significado complexo. No já citado trecho em que Giulio Onesti degusta uma das esculturas e que foi comparado a um ato sexual. realizado. “la Nuova”. “nessuno vi man- 91 Cozinha futurista. sua importância. O ato sexual gerara um fruto. faz de palavras lexicais corriqueiras e apagadas. síntese de todos os automóveis famosos. complesso plastico “di lei”. cujos nomes jamais são mencionados: “Essa”. sua personalidade.indd 91 7/4/2009 15:51:20 . às vezes com inicial maiúscula. trabalho muscularmente acelerado. “l’altra”. porque não dizer. como pronome de terceira pessoa referindo-se às Mulheres de Giulio Onesti. palavras lexicais de cunho afetivo. podemos observar que este culmina no nascimento do sol. porém impregnado de um vocabulário humano: “le nuvole partorirono un precipitante fulmine arancione a lunghe gambe verdi”. e finalmente livre de seus desejos suicidas. ou. “metaforicamente antropofágica”. outras vezes com inicial minúscula. metafórico. a que se suicidou e a outra que se parece muito mas não o suficiente.. Escrevo Mulher com maiúscula. O processo de nominalização permite a transformação de qualquer vocábulo em substantivos. de cortesia. mas que deixa o futurista Giulio Onesti feliz. “la morta”. que em italiano é pronome de segunda pessoa para tratamento de respeito. “lui [il complesso plastico] vincerà lei”. da lei”. os adjetivos culinários são usados para mulheres. As esculturas representam mulheres que podem ser deglutidas. São inúmeras também as referências anafóricas a estas mulheres. embora importantíssimas. “a lei. “la sopraveniente”.

avvocati arguti. e seqüências de substantivos “ao acaso”. tenerezza. esses bem separados por vírgulas. Ibid. contrasta collo spirito vivace e coll’anima appassionata generosa intuitiva dei napoletani. como a pintura. slancio.8 7 8 Id. como os exemplos abaixo: Sentiamo inoltre la necessità di impedire che l’Italiano diventi cubico.. 22 92 Cozinha futurista..7 (. Se no texto deste “antefato poético tragicômico” as referências mais importantes estão relacionadas à velocidade. tenacia eroica. volontà. no Manifesto da Cozinha Futurista é mais comum encontrar palavras relacionadas à arte. “Lei”. Isto se dá provavelmente porque Marinetti pretendia elevar a condição da culinária ao mesmo patamar das artes plásticas não comestíveis.) Per esempio. p. Comecemos com parágrafos que alternam seqüências de adjetivos sem pontuação. Ibid. às máquinas e à degustação erótica. a escultura ou a arquitetura. Prepariamo una agilità di corpi italiani adatti ai leggerissimi treni di alluminio che sostituiranno gli attuali pesanti di ferro legno acciaio. Si arminizzi invece sempre più colll’italiana. luce. mas essa promessa não é cumprida. agricoltori tenaci a dispetto della voluminosa pastasciutta cotidiana. os mesmo modelos são encontrados. Questi sono stati combattenti eroici. além. No tocante às construções sintáticas. “la donna”. snella trasparenza spiralica di passione. e quem ela é. “essa”. claro.Fillippo Tommaso Marinetti gerà”. das referências ao mundo moderno. massiccio impiombato da una compattezza opaca e cieca. Giulio promete mais tarde dizer o nome dela.indd 92 7/4/2009 15:51:20 . 21 Id. p. A um certo ponto do antefato. artisti ispirati. oratori travolgenti. tão idolatrado pelos futuristas. Giulio fica embriagado com a escultura manducada antes de fazê-lo.

Perché opporre ancora il suo blocco pesante all’immensa rete di onde corte lunghe che il gfenio italiano ha lanciato sopre oceani e continenti. parecem ter a linguagem mais cuidadosamente trabalhada no sentido de alcançar também a revolução lingüística. metaforicamente o inusual. que se refere também à mão esquerda. logo após a crítica feroz ao alimento: La pastasciutta. ao dizer que indicadores químicos.. lega coi suoi grovigli gli italiani di oggi ai lenti telai di Penelope e ai sonnolenti velieri. Notem que não há vírgulas na passagem. al pesce. troppo aceto. corrigirão: “manca di sale. opta o poeta pela construções impessoais.” A última frase do manifesto também traz modificações sutis na construção da frase. O trecho “Le macchine costitueranno presto un obbediente proletariato di ferro acciaio alluminio al servizio degli uomini quasi totalmente alleggeriti dal lavoro manuale” ignora a necessidade de vírgulas entre os componentes metálicos das máquinas.. O 93 Cozinha futurista. in cerca di vento. isto é. num período longo em que faltaria até mesmo fôlego para o leitor que não impusesse suas próprias pausas no texto. troppo pepe. ai legumi. É possível que aqui o período tenha sido escrito nesse ritmo lento para acentuar o peso do macarrão nos estômagos. troppo dolce”. O substantivo mancanza é substituído por manca. noi affermiamo questa verità: si pensa si sogna e si agisce secondo quel che si beve e si mangia.” As passagens cujos argumentos são mais “futuristas”. mas permanecem as conjunções: “. e ai paesaggi di colore forma rumore che la radio-televisione fa navigare intorno alla terra? A repetição também aparece neste texto. o sono proveniente desse bloco maciço em nossos estômagos. relacionados de alguma forma à revolução cultural e social defendida pelo movimento. na cozinha do futuro. cujas vírgulas foram abolidas: “Questi complessi plastici saporiti colorati profumati e tattili formeranno perfetti pranzi simultanei.A cozinha futurista Ou ainda.indd 93 7/4/2009 15:51:20 . nutritivamente inferiore del 40% alla carne. o diferente. à força de evitar a indicação do sujeito nas frases. O mesmo acontece na descrição dos pratos simultâneos.

e dolce”. A lógica lingüística diz que o último elemento também deveria ser um substantivo. melhor dizendo. sobram outras. mas o autor preferiu causar este estranhamento. falta uma coisa. Dissemos acima que a culinária estaria. como o intuito dos autores é de mesclar os sentidos para atingir deste modo uma gama completa de sensações. Após grelhar o filé com sal e azeite. também foi tratado e escolhido com cuidado por Marinetti. aos sentidos.Fillippo Tommaso Marinetti sentido da palavra é garantido pelo contexto. A cor. ou.indd 94 7/4/2009 15:51:20 . assim como o cheiro. temos a junção dos sentidos para proporcionar o maior prazer gustativo possível. dispõem-se sobre as fatias alguns filetes de anchova entrelaçados. coberto de mel e sustentado a base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. aparência do prato deve ser levada em conta. Sobre cada fatia uma rodelinha de limão com alcaparras. imitando um jogo de damas. e o sabor. como o vinagre e a pimenta. podemos ver tantas referências aos sentidos que nos pareceu mais lógico separar de acordo com cada um deles. Dentre os elementos que sobram. temos uma seqüência de três: “aceto. colocando o adjetivo doce no lugar do previsível açúcar. pepe. no mesmo patamar de outras artes plásticas. Desde o “antefato” até o Manifesto da Cozinha Futurista. para Marinetti. O Salmão do Alasca aos raios de sol com molho Marte deve ser cuidadosamente trabalhado de forma artística antes de ser apresentado ao comensal. O vocabulário referente às sensações. forma. Mais uma vez. Outra invenção famosa da cozinha futurista é o Carnescultura composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. Entretanto. além do molho que o acompanha. A observação de uma ou duas receitas propostas pelo manifesto provam que a aparência do prato conta tanto quanto (ou até mais que) o sabor deste. limitar-nos-emos a relacioná-los na ordem em que aparecem 94 Cozinha futurista. O cilindro é disposto verticalmente no centro do prato.

selecionando apenas as ocorrências em que ao menos dois sentidos são mencionados na mesma proposição. havia uma atmosfera “prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano torniva melodiosamente”. rosas. 95 Cozinha futurista. complexos plásticos saborosos coloridos perfumados e táteis que formarão perfeitas refeições simultâneas. conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. Aparecem também mãos inspiradas e narinas abertas para dirigir a unha e os dentes. violetas e lírios. Seguem-se certos sabores e certas formas. pretos. Giulio inebriado beija com a língua sua obra de arte. brancos. mas os dentes. a harmonia da mesa com os sabores e cores das iguarias. O quarto é revestido de “rosso rimorso vellutato”. A carne da curva era a tal ponto gostosa. os futuristas intuíam e saboreavam “ela” entre os perfumes de baunilha. vermelhos. o intestino igualmente enamorados. a língua. o eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. cirri rossi. trilli d’uccelli e scricchiolii d’acque legnose in cui scoppiava in brilli dorati la laccatura verde”. cuja harmonia original de formas e cores nutra os olhos e excitem a fantasia antes de tentar os lábios. a invenção de complexos plásticos saborosos. a apreciação das obras de arte por eles produzidas exigem não somente os olhos e relativa admiração. vermelhos. não somente o tato e relativas carícias. le sferiche dolcezze di tutte le ideali mammelle”.indd 95 7/4/2009 15:51:20 . e “luceva di una sua zuccherina peluria eccitanto lo smalto dei denti nelle bocche attente dei due compagni. todo o céu nas narinas. alegria dos lábios. o trabalho foi recomeçado sendo os futuristas “deliziosamente pungolati dai lunghi raggi elastici di un’aurora. os amigos esculpiram tantos deliciosos odores sabores cores ou formas.A cozinha futurista nos textos. biscoitos. máquina futura lírica plástica arquitetônica. Sopra. paisagens de cores forma rumores. à cozinha eram transportados grandes pesados sacos que descarregavam piramidais montes amarelos. estalar de língua. o estômago.

Fillippo Tommaso Marinetti Observando o texto. para evitar brincadeiras e analogias impertinentes Um problema verificado. ter acesso às diversas edições do livro para verificar a ocorrência do problema. preservando tanto a construção original quanto o entendimento em português. apesar da possibilidade de ser um erro tipográfico. diFicuLdAdes dA trAduçãO Na tradução. negrito e aspas. Seria necessário. bem como o uso de itálico. existem em italiano três formas de tratamento possíveis para o interlocutor (2a. pessoa do discurso): Tu. nomes dos pratos e de pessoas foi sempre conservado como o original em Italiano. entre amigos ou entre familiares. mas é provável que isso aconteça devido ao gosto marinettiano pela descrição. Mas não nos enveredamos por este campo. Mantivemos as classes gramaticais sempre que isso não prejudicasse a compreensão em português. mantendo a pontuação e a ausência da mesma. mas não fechado. Mantivemos também um parêntese que foi aberto. hoje dia muito comum 96 Cozinha futurista. temos em relação à visão o maior número de incidências. num tratamento informal. indicaria uma pessoa incoveniente. Esse é o caso de Escodamé. tentamos seguir os preceitos futuristas observados na língua original. aqui. O uso de maiúsculas e minúsculas iniciais das palavras. se traduzido – Saiosozinho (não precisam me mandar embora) -. tentamos manter as inversões na ordem das frases. bem como o posicionamento dos adjetivos. a visão continua sendo o maior atrativo disponível aos escritores. foram mantidos ainda que alguns pudessem ser sugestivos e divertidos. O nome dos colaboradores futuristas. Como sabemos. que não é bem recebida por outrem. Apesar de defender a incorporação dos outros sentidos à literatura. que. na primeira parte do livro – “antefato poetico tragicomico” – foi o uso da forma de tratamento entre os futuristas e “Ela”. recorrente em toda a sua obra. pseudônimos na realidade.indd 96 7/4/2009 15:51:20 .

a palavra volantista. pois são simples traduções dos manifestos ou de cardápios já mencionados em italiano. escultor. o que reafirma nossa suspeita antropofágica já explicitada anteriormente. com os mesmos dois sentidos encontrados em italiano. La. tratamento também formal se dirigido a um único interlocutor.. Tratase da polêmica despertada em outros países e publicada nos jornais locais. mas à mulher... entre pessoas que não se conhecem suficientemente. foram pesquisados e mantidos.A cozinha futurista entre os jovens. Esta fala é dirigida a ela. foi mantida como volantista em português. especialmente os referentes às máquinas e ao vôo.indd 97 7/4/2009 15:51:20 . a lei. já que a raiz latina permite a identificação pelo leitor de língua portuguesa. mas que alude tanto ao volante do automóvel quanto ao que tem a capacidade de voar. com algumas exceções nas regiões meridionais ou em língua escrita. acoplado a pintor. Lei. Ele não se refere às esculturas comestíveis. em relacionamentos profissionais e para demonstrar respeito. escrito em 1932. à Nova. “Lei” em italiano. As notícias em francês foram simplesmente deixadas na língua original. é sempre tratada com esse pronome e seus correlatos (Le. usada para motorista. esse tratamento é modificado e passa a “voi”. Assim. porém. poesia e poeta. da lei). per lei. Os campos semânticos. foi por esse motivo traduzida em nota ao final do capítulo. Encontramos a passagem: “nessuno vi mangerà per ora – disse Prampolini – a meno che il magrissimo Fillìa. Há no livro algumas partes escritas em francês e em inglês. e Voi. quase em italiano. é pouco utilizado atualmente. “Ela”. pictórico. apresenta informações novas e apreciações críticas do movimento.”. pois insere leveza e mobilidade às palavras 97 Cozinha futurista. quando o tratamento é formal. em uma única passagem. O livro. complexo escultural ou plástico. A reportagem em inglês. publicada no jornal britânico The Herald. confunde o leitor ao misturar os dois tratamentos formais. dinamismo e até aos pratos servidos foi sempre mantido. Dois outros trechos também foram traduzidos em nota por estarem escritos em latim vulgar. O prefixo aero.

Fillippo Tommaso Marinetti e, aparentemente, às pessoas e objetos, que parecem perder o “imgombro pesante” no estômago. Culpa do macarrão, obviamente. Foram também encontrados os óbvios aeroplanos, e certos aerodinamismos lírico-plásticos, aerocumes, aerocerâmicas, aeroiguarias e aerobanquetes, que, contrariamente ao esperado, não eram servidos em pleno vôo, embora pudessem ser forjados ambientes que lembrassem a fuselagem de um avião. Ainda nos atendo ao vocabulário relativo a voar, Marinetti opta pra chamar o frango de volatile, palavra de uso comum na Itália, mas que retoma o léxico privilegiado por ele. Passemos agora do vôo à comida. O vocabulário referente à comida não oferece muitos problemas ao falante de português do Brasil, tão grande é a influência italiana em nossa culinária. Os nomes de diferente cortes de macarrão ou de massas rechadas, como ravioli, lasanha, tagliatelle, tagliarini, espaguete, trenette, foram mantidas em italiano, apenas usando a grafia aportuguesada quando esta existia. Assim, no texto em português, podemos nos deparar com tortelini in brodo ou espaguete ao sugo, sem que isso prejudique a compreensão. Uma única nota foi dispensada ao “vermicelli al pomodoro”, por se tratar de um corte não freqüente no Brasil. As palavras que designam refeição ou prato apresentaram mais dificuldades, já que em italiano “pranzo” pode designar tanto o almoço quanto uma refeição mais elaborada, em qualquer horário do dia. Optamos, por isso, às vezes, por refeição no lugar de almoço. Aparecem também palavras com tom bastante pejorativo para certas comidas, como “intrugli” ou “maledetta pietanza”; nesse caso, optamos por lavagem, que remete à comida oferecida aos porcos. “Vivanda” foi quase sempre traduzida por vianda, mantendo assim o mesmo radical latino. Outro vocábulo de difícil tradução foi “bocconi”, utilizado em alguns restaurantes aqui no Brasil, designam comidas que não precisam ser cortadas para serem comidas, têm o tamanho certo para serem intro-

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A cozinha futurista duzidas na boca. Traduzimos uma vez por bocados, outra por prato, já que o bocado pareceria fora de contexto. O nome dos pratos, quase sempre originais, foram traduzidos literalmente. Assim, quando Marinetti propunha um “Tuttoriso”, traduzimos por Todoarroz, com a mesma forma de composição em justaposição feita em italiano. Encontramos também, raras vezes, composições por aglutinação. Aparecem, com a mesma lógica lingüística, Frangofiat, Hortotátil, Decolapaladar, Tedesejo, Carnadorada, Guerranacama, Teamareiassim, Superpaixão, Estanoiteláemcasa, e inúmeras outras contruções similares. O famoso Carnescultura em português não manteve o radical do original “carneplástico”, pois a palavra plástico aqui, embora tenha o sentido de forma, escultura preservado nas Artes Plásticas que envolvem também a pintura, remete ao derivado de petróleo e poderia afastar paladares curiosos. O plástico, em nossa culinária, é a ausência de sabor aliada a uma consistência indesejável em algo a ser ingerido. Os neologismos criados por Marinetti também foram alvo de grande atenção, e sempre que identificados, mesmo quando havia palavra bastante aproximada em português, tentamos construir uma que fosse nova, para mantermo-nos fiéis à construção original. Daí surgiu a revolução “cozinhária”, tradução do neologismo italiano “cucinaria”, usado no lugar da conhecida culinária, palavra que atende tanto o italiano quanto o português. Marinetti recusou também o conhecido “xenofilia”, inventou “esterofilia”, que traduzimos estrangeirofilia. O sentimento que faria alguns cidadãos renegarem sua pátria foi definido “antitalianità”, resultou em antitalianidade em português, bem como os vocábulos justapostos “criticomania” ou “benpensanti”, respectivamente criticomania e bempensantes. A certo ponto da leitura, encontramos um prato “sinottico-singustativo”. Como traduzir este adjetivo tão abrangente? O prato privilegia-

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Fillippo Tommaso Marinetti va diversos ingredientes, coloridos, dispostos de forma determinada e com certos sabores, que deveriam se unir mediante escolhas feitas pelos comensais. O prefixo grego sin- designa uma ação conjunta, logo, ação conjunta dos olhos e ação conjunta dos sabores. Mais uma vez optamos por não traduzir, para que o leitor, ao buscar o significado das partes das palavras, descubra ele também o que é o prato sinótico-singustativo. O cardápio extremista apresenta, entre muitos odores prazerosos ou não, duas palavras novas, ambas referentes ao barulho das rãs entre as águas podres do lago: polichiaccherio e quaccherologia. Traduzimos por policonversação a primeira, embora não reproduza bem o sentido da conversa tumultuada, barulhenta e rumorosa dos anfíbios em questão. A quaccherologia foi mais intrigante. O sufixo –logia indica estudo e quacchero se refere, de acordo com o dicionário, aos “Quakers” – quacre em português -, membros da seita protestante fundada na Inglaterra e difundida nos Estados Unidos, que não aceitam sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, pregam a intransigência puritana e a simplicidade de vida. Optamos pela tradução quacrelogia, ainda que o sentido pretendido pelo autor não pareça claro. Lembrando que o Futurismo é um movimento nacionalista, especialmente nos últimos anos de sua existência, por sua aproximação política com o fascismo, observamos a negação dos vocábulos de origem inglesa ou francesa na cultura – e na culinária – italiana. Marinetti propõe com essa finalidade uma modificação no léxico culinário italiano, utilizando palavras nacionais, de modo a evitar qualquer estrangeirismo. O último capítulo do livro, o “pequeno dicionário da arte cozinhária futurista”, traz opções para palavras já incorporadas ao vocabulário italiano, mas agora renegadas por Marinetti. Os franceses “Marrons Glacés” transformam-se em castanhas confeitadas, “consommé” serão consumidos, “fondants” serão apenas fundentes, “fumoir” será fumatório, “maitre d’hotel” é guiapaladar, “menu” será substituído por lista ou listadepratos, “mélange” será mistura, “flan” vira pasticho, “dessert”

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A cozinha futurista é paraselevantar, “purée” é substituído por pasta e “bouillabaisse” restringe-se a sopa de peixe. É bastante curiosa a reflexão feita para alcançar a palavra “paraselevantar”, peralzarsi em italiano, em substituição ao francês dessert. A sobremesa é a última a ser ingerida, pois café e licores eram via de regra servidos em outra sala. Ao terminar a degustação, o movimento tão caro à idéia futurista era incluída na refeição: todos se levantam. Os ingleses também sofrem retaliação, e o “barman” vira mexedor, “cocktail” vira polibebida, “picnic” se torna um agradável almoçoaosol, “bar” é substituído por aquisebebe, “tea-room” torna-se sala de chá e o internacional “sandwich” transmuta-se em entreosdois. Um último neologismo marinettiano para encerrar as dificuldades: parolibero, usado tanto como substantivo, em “o parolibero Fillìa” quanto como adjetivo, em “uma conversação parolibera”. O processo em italiano foi a aglutinação da palavras parola + libero = parolibero. No entanto, em português parecia inviável a aglutinação de palavra + livre, pela incidência dupla do encontro consonantal “vr”. A solução encontrada foi utilizar um sinônimo de palavra, vocábulo, cuja sílaba final continha a mesma consoante da sílaba inicial de livre. Logo: vocábulo + livre = vocabulivre.

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indd 103 7/4/2009 15:51:21 .A CozInhA FuturIstA Tradução Q Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 104 7/4/2009 15:51:21 .

Sumário Uma refeição que evitou um suicídio O antefato poético tragicômico O manifesto da cozinha futurista Ideologias e polêmicas A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas Os cardápios futuristas Sugestivos e determinantes Receituário futurista para restaurantes e “aquisebebe” Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista 105 Cozinha futurista.indd 105 7/4/2009 15:51:21 .

indd 106 7/4/2009 15:51:21 .Cozinha futurista.

os gatos e os bois. fortificando-a. finalmente criar uma harmonia entre o paladar dos homens e sua vida de hoje e de amanhã. essa exclui o plágio e exige originalidade criativa. a banalidade. os ratos. ilustrada neste volume. a revolução cozinhária futurista. Como em todas as artes. os futuristas.Contrariamente às críticas lançadas e àquelas previsíveis. tem o propósito alto. Nasce conosco. Esta nossa cozinha futurista. dinamizando-a e espiritualizando-a com novíssimas iguarias nas quais a experiência. regulada como o motor de um hidroplano para altas velocidades. a primeira cozinha humana. até hoje os homens alimentaram-se como as formigas. a arte de se alimentar. Salvo algumas exceções louváveis e legendárias. a repetição e o custo. isto é. 107 Cozinha futurista. a inteligência e a fantasia substituam economicamente a qualidade.indd 107 7/4/2009 15:51:21 . nobre e útil a todos de modificar radicalmente a alimentação de nossa raça. parecerá louca e perigosa a alguns passadistas tremebundos: ela quer. ao contrário.

isto é: o otimismo à mesa.Fillippo Tommaso Marinetti Não por acaso esta obra vem publicada durante a crise econômica mundial cujo desenvolvimento parece incalculável.indd 108 7/4/2009 15:51:21 . A este pânico nós opomos uma cozinha futurista. 108 Cozinha futurista. mas pode-se calcular o perigoso pânico deprimente.

umA reFeiçãO que evitOu um suicídiO O poético antefato tragicômico Em onze de maio de 1930 o poeta Marinetti partia.indd 109 7/4/2009 15:51:21 . obedecendo a este preocupante. em direção ao lago Trasimeno. 109 Cozinha futurista. extravagante e misterioso telegrama: “Caríssimo uma vez que Ela partiu definitivamente fui acometido de torturante angústia PT imensa tristeza proíbe-me sobrevivência PT suplico-lhe venha rápido antes que chegue aquela que se parece muito com Ela mas não o suficiente GIULIO”. de automóvel.

Na entrada. mais que uma casa. confesso-me brutalmente a vocês e a sua provada amizade: há três dias a idéia de suicídio ocupa toda a casa e também o parque. é da outra que se parece com ela. decidido a salvar seu amigo. a sua vida de ciência e de riquezas acumuladas no Cabo da Boa Esperança.“Intuo em seus paladares a chatice de um antiquíssimo hábito e a convicção de que um tal modo de se nutrir conduz ao suicídio. intervém um fato novo e significativo. muito. um verdadeiro Palácio. Cirurgicamente. Este pseudônimo que mascarava seu verdadeiro nome. nas margens feridas e entre os canaviais doloridos do Lago. Agora. Giulio murmurou: . Pois bem. Por outro lado.indd 110 7/4/2009 15:51:21 . Certamente me chama. na sala revestida de vermelho remorso aveludado. À mesa. Eu recebi ontem este telegrama. você a conhece. ainda não tive a força de entrar. mas não o suficiente. o volantista do automóvel procurou e encontrou. convocou telefonicamente a presença de Enrico Prampolini e Fillìa.... seu intervento belicoso e criativo nas noitadas futuristas de vinte anos antes. cuja grande genialidade de aeropintores pareceu-lhe adaptar-se ao caso sem dúvida gravíssimo. Na verdade. Dir-lhes-ei outro dia o seu nome e quem é.”- 110 Cozinha futurista.. que alternava pinheiros umbelíferos oferecidos ao Paraíso e ciprestes diabolicamente mergulhados na tinta do Inferno. por uma estranha coincidência. o rosto emagrecido e a mão estendida muito branca de Giulio Onesti. que bebia por amplas janelas uma meia-lua nascente mas já imersa na morte das águas.“querem saber o porquê? Eu lhes digo: Ela. a sua repentina fuga dos centros habitados. diante da porta do automóvel. encheram a conversação vocabulivre que precedeu o jantar no policromático Aquisebebe da casa. O que vocês me aconselham?” Longo silêncio.. . Marinetti! Ela se suicidou há três dias em Nova Iorque. O telegrama anuncia a sua iminente chegada.Fillippo Tommaso Marinetti Marinetti.. ela se escondia ao fundo do parque. a casa...

indd 111 7/4/2009 15:51:21 . chocolate. vermelhas.ordenou Giulio. ovos. não devo trair a morta. Giulio sofreu um tremor convulsivo irreprimível: . leite.”Entre os cozinheiros estarrecidos e ditatorialmente desautorizados.(não quero. ao primeiro alvorecer que atravessou o cintilante horizonte pela janela aberta. açúcar e ovos. farinha de milho.“a menos que ? ” – gritou Prampolini . brancas. mel e leite. 111 Cozinha futurista. aeropintores e aeroescultores. Imediatamente os empregados começaram a transportar grandes e pesados sacos que. Prampolini gritou: -“são necessários às nossas mãos geniais cem sacos dos seguintes ingredientes indispensáveis: farinha de castanhas. -“ao trabalho – disse Marinetti – oh. Enrico Prampolini.“A menos que ? ” – concluiu Marinetti – a menos que você nos conduza imediatamente às suas ricas e abastecidas cozinhas. farinha de centeio. gritou: 1 O parêntese não foi fechado no original. suicidar-me-ei esta noite!1 . chocolate em pó. . pimenta vermelha. pretas. que havia ciumentamente cercado de biombos o seu trabalho criativo. transformavam as cozinhas em fantásticos laboratórios onde as enormes caçarolas emborcadas no chão transformavam-se em pedestais grandiosos predispostos a uma escultura imprevisível. os fogos acesos.”Fillìa improvisou um aerocomplexo plástico de farinha de castanhas. onde camadas atmosféricas noturnas eram intercaladas por camadas de alvoreceres acinzentados com espirais de vento expressos em encanamentos de massa podre.”-“você será atendido ainda nesta noite”.“a menos que ? ” – repetiu Fillìa. As minhas aeropoesias ventilarão seus cérebros como hélices esvoaçantes. farinha de amêndoas.A cozinha futurista Longo silêncio. Cem quilos de tâmaras e de bananas. Dez jarras de óleo. farinha de trigo. descarregando piramidais pilhas amarelas. Depois do que. Então.

nuvens vermelhas.”Derrubou os biombos e apareceu o misterioso suave tremendo complexo plástico d’ela. Vocês comeriam-na toda.” – Retomaram o trabalho deliciosamente estimulados pelos longos raios elásticos de uma aurora. angustiadíssimo e 112 Cozinha futurista.indd 112 7/4/2009 15:51:21 . alto complexo plástico de massa folhada esculpida em camadas degradantes de pirâmide. sem respirar. um cilindro de massa de milho que. -“não se aproximem – gritou a Marinetti e a Fillìa – não a cheirem. Mãos inspiradas. Narinas abertas para guiar as unhas e os dentes. Idealizado por Marinetti. ao aumentar a velocidade espalhava por todo o recinto uma massa enorme de algodão-doce de ouro. um sorriso seu de lábios. a esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. Afastem-se. realizado sob o seu ditado por Giulio Onesti. chiados de águas lenhosas cuja laqueadura verde estourava em brilhos dourados. Acima. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Atmosfera inebriante pródiga de formas cores com planos de luz cortantes e lisíssimas redondezas de esplendores que o zumbido de um aeroplano altíssimo torneava melodiosamente. girando em seu eixo. cantos de pássaros. um seu modo de flutuar sensualíssimo. No alto. cada uma com uma leve curva especial de boca ventre ou quadris. que se improvisava cozinheiro-escultor. Às sete horas nascia do maior forno da cozinha a paixão das loiras. Venham admirá-la. Vocês têm más bocas vorazes. Era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. Comestível.Fillippo Tommaso Marinetti -“Tenho-a finalmente entre meus braços e é de tal modo bela.

em equilíbrio sobre as pedras polidas e trementes do pensamento. remisturava. Competiu subitamente tanto com a força dos raios solares até inebriar o escultor que infantilmente beijou sua obra com a língua. será aquela de uma convidada qualquer. síntese de todos os automóveis famosos de curvas longínquas e uma rapidez de vôo que oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados de mulheres misturados a cubos de rodas e a asas de hélice todas feitas com macia massa fermentada. o complexo plástico foi por ele mesmo plantado sobre uma gigantesca caçarola de cobre de cabeça para baixo. Bruscamente um complexo plástico de chocolate e torrone. Prampolini e Fillìa restauravam seus estômagos de quando em quando com um saboroso pedaço de estátua. esbeltíssimo “lazo” de massa podre.“se a Nova chega com o crepúsculo ou com a noite.” No entanto.indd 113 7/4/2009 15:51:21 . No silêncio da tarde o trabalho tornou-se muscularmente acelerado. não trabalhamos para ela.A cozinha futurista trêmulo. Marinetti. oferecer-lheemos uma aurora artística comestível realmente inesperada. Massas saborosas para transportar. Aquela boca iminente preocupava também os três futuristas que trabalhavam. Giulio Onesti. Com bocas de antropófagos simpáticos. A sua boca. A torrente do tempo fugia-lhes sob os pés. se bem que ideal. ébria de esculpir ela também. Giulio Onesti manifestava uma inquietude que não correspondia à serenidade futurista de seu cérebro. representando as formas da nostalgia e do passado precipitou abaixo com um estrondo e enlameando tudo de líquidas trevas viscosas. Intuíam-na e saboreavam-na entre os perfumes de baunilha. Giulio Onesti disse: . Foram desenformados por Prampolini e Fillìa: uma velocidade esguia. 113 Cozinha futurista. Novo silêncio. de biscoitos. de rosas violetas e cachias que no parque e na cozinha a brisa primaveril. Temia a que estava por vir. Entretanto. Em uma pausa.

Marinetti. Alegria dos lábios. Sobre-humana. e das mais belas Áfricas sonhadas. Todo o céu nas narinas. na realidade. perto de uma vidraça cheia de ácidas e doentias luzes sublacustres.Fillippo Tommaso Marinetti Com calma retomar a matéria. Nervos. Prampolini disse: . no parque. por sua vez. Paixão. perfeito. para inaugurar – experimentar juntos a grande Mostra de escultura comestível já pronta. em rixa com dois enormes canhões de montanha. Era um complexo plástico a motor comestível. Estalar de língua.indd 114 7/4/2009 15:51:21 . Mais abaixo sentia-se a estridente felicidade dos riachos paradisíacos. na vasta sala das armas.” Soou mediunicamente a campainha ao fundo. montes de alabarda e feixes de carabinas. tinham-lhe inoculado o suave magnetismo das mulheres mais belas. resplandecia no ângulo oposto. a mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis. 114 Cozinha futurista. os futuristas Marinetti. Em um canto. Às seis da tarde desenvolver-se no alto de doces dunas de carne e areia em direção a dois grandes olhos de esmeralda nos quais a noite já se adensava. Tinha como título as curvas do mundo e os seus segredos. Crucificá-la sob pregos agudos de vontade. sob onze globos elétricos. haviam sido amontoados rechaçados brutalmente como por uma mágica força sobre-humana. Prampolini e Fillìa esperavam o dono da casa convidado. Prampolini e Fillìa. A sua arquitetura oblíqua de curvas macias perseguindo-se no céu escondia a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis que mecanicamente engrenavam os seus tufos à roda dentada. Conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. A obra-prima. *** À meia-noite.“verão que ele a vencerá. colaborando.

dos ombros e das ancas esbeltas apenas embainhadas por mohair dourado. O seu coração. Suplico-lhes que me expliquem as razões. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas 115 Cozinha futurista. Disseram: . jaziam cansadíssimos Marinetti. se apertado pelo supremo prazer do amor. uma viril mas cansada. Como exauridos por tanto aerodinamismo lírico-plástico. os grandes olhos verdes. uma concha-toca para fera refinada.indd 115 7/4/2009 15:51:21 . a outra feminina e agressiva. que cuidadosamente e esculturalmente escavava para o próprio corpo. aquele intitulado as curvas do mundo e os seus segredos perturbava. e o rosto voltado para o centro da terra. Giulio Onesti sonhava ou escutava. Depois. Para sua sorte. Marinetti. sob a curta testa inundada de ricos cabelos quase louros e quase castanhos. as intenções. os pensamentos que os dominaram enquanto esculpiam tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. De bruços aos seus pés. Prampolini e Fillìa falaram alternando-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina. O seu engenho me espanta. nuvem investida por projetores na noite. porém ao som de duas vozes. dela. a imobilidade e o silêncio dos cinco. Prampolini e Fillìa sobre um amplo tapete de plumas dinamarquesas que pela maciez madreperolada à luz elétrica parecia viajar. ” A ela. Uma breve troca de gentilezas assombros regozijos a ela. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas.“não me julguem uma idiota – murmurou com graça lânguida – estou estonteada. Prontos puseram-se em pé. .A cozinha futurista Entre todos. mas de uma beleza tradicional. revolucionavam e acendiam as curvas pacatas e a delicada elegância minuciosa do pescoço. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. nas almofadas. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. nas peliças e nos tapetes.“Amamos as mulheres. cheios de falsa ingenuidade infantil. Belíssima mulher.

Somos os novos elementos instintivos da grande Máquina futura lírica plástica arquitetônica.” Acrescentou Marinetti: . depois jogou a cabeça para trás e adormentou-se também. não só o tato e relativas carícias. Cem moscões lilases azuis davam uma artística investida enlouquecida em direção aos altos globos elétricos. a língua. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. o estômago. Arte leve voadora. de imagens e de ímpetos afinava-se com o murmúrio assobiado e metálico do canavial no Lago acariciado pela brisa noturna. mas os dentes. a alvorada.“por caridade – suspirou sorrindo – moderem a sua selvageria. você poderá ler esta noite as originais bisbilhotices erótico-sentimentais que suscitaram nos artistas certos sabores e certas formas aparentemente incompreensíveis. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. São os nossos estados de ânimo realizados. a graça infantil. 116 Cozinha futurista. toda novas diretrizes. A apaixonada superaguda tensão das mais frenéticas luxúrias finalmente apagadas. a ingenuidade. a única e todas encontravam-se aqui. Arte comestível.a menos que o macérrimo Fillìa. Arte temporânea. Prampolini e Fillìa. diante de nossas mãos. A mulher contemplou-os por alguns minutos. O fascínio.Fillippo Tommaso Marinetti obras de gênio e de língua insaciável. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. O eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. incandescências a serem esculpidas a qualquer custo e o mais rapidamente elas também. ..“ninguém a comerá por enquanto – disse Prampolini . o pudor.. o furioso turbilhão do sexo. o intestino igualmente enamorados. toda novas leis.“neste catálogo da Mostra de escultura comestível. O fraco murmúrio das respirações carregadas de desejo.indd 116 7/4/2009 15:51:21 .” Uma longa pausa de silêncio fulminou de sono Marinetti. outros nos crêem complicadíssimos e civilizadíssimos. Vocês nos julgam selvagens.” .

Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. a língua e os dentes. sem fazer barulho. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. como uma tigresa alongada. Sem fim. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. Talvez para se refrescar. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as grandes jóias do olhar. Escultores e escultoras dormiam. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. começou a amorosa adoração com os lábios. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. Ajoelhandose em frente. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida.indd 117 7/4/2009 15:51:21 . Aproveitador e aproveitado.A cozinha futurista De improviso. Levantou-se agilmente. com um tremendo torcer de rins. Estava ao mesmo tempo desobstruído. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. 117 Cozinha futurista. vazio e transbordante. liberado. com a cabeça descoberta. Giulio saiu então para o parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. com as costas suspeitosas de um ladrão. Único e total. Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. Às três daquela noite. Possessor e possuído.

em 15 de Novembro de 1930. dirigido por Mario Tapparelli. zag cordeiro assado ao molho de leão saladinha à aurora sangue de Baco “terra ricasoli” rodinhas pontuais de alcachofra 118 Cozinha futurista. agressiva das raças. Houve. ofereceu aos futuristas milaneses um banquete que queria ser um elogio gastronômico do futurismo. há 23 anos (Fevereiro de 1909). Subitamente. Russolo. Esta lista de pratos: ganso gordo sorvete na lua lágrimas do deus “Gavi” brodo de rosas e sol favorito do mediterrâneo zig. zug. Boccioni. na Itália e na França. isto é. Sant’Elia. fecundadora. a urgência de uma solução impôs-se: O restaurante PENNA D’OCA de Milão. Balla. a importância da alimentação sobre a capacidade criativa. Isto era muito discutido entre Marinetti.Fillippo Tommaso Marinetti O mAniFestO dA cOzinhA FuturistA Ideologia e polêmicas A refeição do “Penna d’Oca” e o manifesto da cozinha futurista Desde o início do Movimento Futurista Italiano. agitou os maiores futuristas. algumas tentativas de renovação cozinhária.indd 118 7/4/2009 15:51:21 .

como um de seus princípios. a abolição do macarrão. exceto o brodo de rosas que inebriou os paladares futuristas de Marinetti.A cozinha futurista chuva de algodão doce espuma hilariante “cinzano” fruta colhida no jardim de Eva café e licores agradou muito aos convidados: S. lentos. Marinetti. Exª. Pick Mangiagalli. Giordano. etc. Farinacci. Gerbino. Depero. Chiarelli. Ex. Escodamè. apesar de agradar ao paladar. O macarrão.” Este discurso suscitou entre os convidados aplausos enlouquecidos e pouco claras irritações. 119 Cozinha futurista. as iguarias eram timidamente originais e ainda ligadas à tradição gastronômica. torna-nos céticos. enfeia. É. convidado a falar diante de um receptor da Radio. Escodamè e Gerbino. Prampolini. Exª Fornaciari Prefeito de Milão. Repaci.indd 119 7/4/2009 15:51:21 . patriótico favorecer sua substituição pelo arroz. disposto sobre a mesa entre “rodinhas pontuais de alcachofra” e “chuva de algodão doce”. e os futuristas Depero. Prampolini. disse: . por outro lado. pessimistas. Marinetti. é uma comida passadista porque estufa. S. Ravasio.“anuncio-lhes o próximo lançamento da cozinha futurista para a renovação total do sistema alimentar italiano. S. A cozinha futurista será libertada da velha obsessão por volume e peso e terá. Umberto Notari. Sansanelli. E era lógico porque. que deve ser adaptado o mais brevemente possível às necessidades dos novos esforços heróicos e dinâmicos impostos à raça. O cozinheiro Bulgheroni foi repetidamente aclamado. Marinetti desafiou as ironias precisando seus pensamentos. Dep. Os menos futuristas eram os que mais aplaudiam. ilude sobre sua capacidade nutritiva. Dep. Steffenini.

*** No dia 28 de Dezembro de 1930. O Futurismo italiano enfrenta ainda a impopularidade com um programa de renovação total da cozinha. por Graça Aranha “liberação do terror estético”. na Gazzetta del Popolo de Turim apareceu O Manifesto da cozinha futurista O Futurismo italiano. às amas de leite. aos literatos. aos astrônomos. das senhoras aos cozinheiros. era servido macarrão. Contra o macarrão O Futurismo foi definido pelos filósofos “misticismo da ação”. aos camponeses. aos estivadores. Entre todos os movimentos artísticos literários. cantina ou casa da Itália. aos soldados. fórmula da “arte120 Cozinha futurista. eram entrelaçadas imediatamente intermináveis discussões. eles experimentam prudentemente o novo para obter de cada um a máxima vantagem. não permanece prisioneiro das vitórias mundiais obtidas “em 20 anos de grandes batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue” como definiu Benito Mussolini. na realidade. em todos os jornais estourou uma polêmica violentíssima da qual participaram todas as categorias sociais. Cada vez que.indd 120 7/4/2009 15:51:21 . em qualquer restaurante. Arraigados à tradição. aos moleques.Fillippo Tommaso Marinetti No dia seguinte. O novecentismo pictórico e o novecentismo literário são. dois futurismos de direita moderadíssimos e práticos. pai de numerosos futurismos e vanguardistas estrangeiros. por Benedetto Croce “anti-historicismo”. por nós “orgulho italiano (i)novador”. é o único que tem por essência a audácia temerária.

Harmonize-se. nós afirmamos esta verdade: pensa-se sonha-se age-se de acordo com o que se bebe e o que se come. luz. A volúpia do palato . enquanto que para a fêmea é horizontal. vontade. imensificado a plástica com o anti-realismo. ao contrário. Antipraticamente. delgada transparência espiral de paixão. o nosso paladar. mais impetuoso.indd 121 7/4/2009 15:51:21 . as nossas papilas gustativas. em leque. ousadia. ao contrário. Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega. as nossas secreções glandulares e entramos genialmente na química gástrica. Consultamos a este respeito os nossos lábios. nós futuristas após termos agilizado a literatura mundial com as palavras em liberdade e o estilo simultâneo. tenacidade heróica. julgado por todos louco. é para o macho e para a fêmea sempre ascendente. ternura. sempre mais com a italiana. Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente nutridos realizaram grandes coisas no passado. então. “estética da máquina”. Preparamos uma agilidade de corpos italianos adaptados aos levíssimos trens de alumínio que substituirão os atuais pesados de ferro madeira aço.A cozinha futurista vida original”. 121 Cozinha futurista. a nossa língua. “esplendor geométrico veloz”. “higiene espiritual”. esvaziado o teatro do tédio mediante sínteses alógicas por surpresa e dramas de objetos inanimados. Nós futuristas sentimos que para o macho a volúpia de amar é escavadora abissal do alto para baixo. “máximo esforço da humanidade para a síntese”. “método da infalível criação”. “religião da velocidade”. criado o esplendor geométrico arquitetônico sem decorativismo. nós futuristas negligenciamos o exemplo e a exortação da tradição para inventar a qualquer custo um novo. Convencidos de que na provável conflagração futura vencerá o povo mais ágil. de baixo para o alto do corpo humano.

advogados engenhosos. Signorelli. à busca de vento. Porque opor ainda o seu bloco pesante à imensa rede de ondas curtas longas que o gênio italiano lançou sobre os oceanos e continentes. Talvez beneficiem aos ingleses o bacalhau.indd 122 7/4/2009 15:51:21 . Isto leva a um desequilíbrio com distúrbio destes órgãos. pessimismo. Dele derivam: fraqueza.Fillippo Tommaso Marinetti a cinematografia e a fotografia abstratas. o toucinho defumado e o salame. Ao comê-lo eles descobrem um típico ceticismo irônico e sentimental que trunca muitas vezes o seu entusiasmo. liga com seus emaranhados os italianos de hoje aos lentos teares de Penélope e aos sonolentos veleiros. oradores impetuosos. Recordem-se ainda que 122 Cozinha futurista. contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada generosa intuitiva dos napolitanos. Estes foram combatentes heróicos. como prisioneiros ou arqueólogos. o rosbife e o pudim. e às paisagens de cores formas rumores que a radio-televisão faz navegar em torno da terra? Os defensores do macarrão carregam a bola de ferro ou a ruína no estômago. artistas inspirados. aos holandeses a carne cozida com queijo. agricultores tenazes a despeito do volumoso macarrão quotidiano. escreve: “Diferentemente do pão e do arroz. Um inteligentíssimo professor napolitano. não se mastiga. Este alimento amiláceo é em grande parte digerido na hora pela saliva e o trabalho de transformação é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Convite à Química O macarrão. Acreditamos antes de tudo necessário: a) a abolição do macarrão. inatividade nostálgica e neutralismo”. nutritivamente inferior em 40% à carne. ao peixe. o Dr. aos alemães o chucrute. aos legumes. estabelecemos agora a nutrição adequada a uma vida sempre mais aérea e veloz. o macarrão é um alimento que se engole. absurda religião gastronômica italiana. mas aos italianos o macarrão não beneficia. Por exemplo.

Hoje. ornamentos) com os sabores e as cores das comidas. Em todas as classes as refeições serão distanciadas mas perfeitas no cotidianismo dos equivalentes nutritivos. b) A abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar a nutrição. para 2. O “carnescultura” Exemplo: Para preparar o Salmão do Alasca aos raios do sol com molho Marte. A originalidade absoluta das comidas. Este. permite aperfeiçoar e nobilitar as outras horas com o pensamento as artes e a pregustação de refeições perfeitas.000kw é necessário somente um operário. Convidamos a química ao dever de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos gratuitos do Estado. c) A abolição das combinações tradicionais para a experimentação de todos as novas combinações aparentemente absurdas. O almoço perfeito exige: 1. em pó ou pílulas. Uma harmonia original da mesa (cristais. sal e azeite até que esteja bem dourado. Atingir-se-á assim uma real baixa do preço da vida e do salário. louças. Acrescen- 123 Cozinha futurista.A cozinha futurista a abolição do macarrão libertará a Itália do custoso grão estrangeiro e favorecerá a indústria italiana do arroz. com relativa redução das horas de trabalho.indd 123 7/4/2009 15:51:21 . sendo reduzido a duas ou três horas. segundo o conselho de Jarro Maincave e outros cozinheiros futuristas. d) A abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato. pega-se um belo salmão do Alasca. gorduras sintéticas e vitaminas. corta-se e passa-se na grelha com pimenta. As máquinas constituirão rapidamente um obediente proletariado de ferro aço alumínio a serviço dos homens quase totalmente aliviados do trabalho manual. compostos albuminosos.

Exemplo: O carnescultura criado pelo pintor futurista Fillìa. (Fórmula de Bulgheroni. cubra seu estômago com fatias de presunto e toucinho. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) Exemplo: Para preparar a Perdiz à Monterosa molho Vênus. O molho será composto de anchovas. interpretação sintética das paisagens italianas. Coloque o molho na molheira e sirva-a muito quente. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) A invenção dos complexos plásticos apetitosos. sal. é composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada de onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. azeite. cozinhe-a em forno muito quente por quinze minutos.Fillippo Tommaso Marinetti tam-se tomates cortados ao meio previamente cozidos sobre a grelha com salsinha e alho. tudo fervido por dez minutos. Leve novamente ao forno até que a massa esteja bem cozida. (Fórmula de Bulgheroni. limpe-a. cuja harmonia original de forma e cores nutra os olhos e excite a fantasia antes de tentar os lábios. pimenta. zimbro. coloque-a sobre uma fatia torrada de pão quadrado ensopado com rum e conhaque e cubra-a com massa folhada. borrifando-a com conhaque.indd 124 7/4/2009 15:51:22 . gemas de ovos cozidos. e será peneirado. um cálice de licor italiano Aurum. manjericão. 124 Cozinha futurista. Apenas retirada da caçarola. quatro colheres de cassis. pegue uma bela perdiz. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. No momento de servir colocam-se sobre as postas de salmão alguns filetes de anchova entrelaçados (como jogo de damas). coloque-a numa caçarola com manteiga. Sobre cada posta uma rodelinha de limão com alcaparras. casca de laranja picadinha. Sirva-a com este molho: meio copo de Marsala e vinho branco.

O uso dosado da poesia e da música como ingredientes inesperados para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma certa vianda. O uso da música limitado nos intervalos entre os pratos para que não distraia a sensibilidade da língua e do palato e sirva para aniquilar o sabor apreciado restabelecendo uma virgindade degustativa. 10. Estes pratos terão na cozinha futurista a função analógica imensificante que as imagens têm na literatura. Cada prato deve ser precedido por um perfume que será cancelado da mesa por meio de ventiladores. A abolição do garfo e da faca para os complexos plásticos que possam dar um prazer tátil pré-labial.indd 125 7/4/2009 15:51:22 . A criação de pequenos pratos simultâneos e cambiáveis que contenham dez. A apresentação rápida entre um prato e outro. A abolição da eloquência e da política à mesa. No centro emerge um cone de claras de ovos batidas e solidificadas cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. a surpresa e a fantasia.A cozinha futurista Equador + Pólo Norte Exemplo: o complexo plástico comestível Equador + Pólo Norte criado pelo pintor futurista Enrico Prampolini é composto por um mar equatorial de gemas de ovo em sua própria casca. sob os narizes e os olhos dos convidados. Estes complexos plásticos apetitosos coloridos perfumados e táteis formarão perfeitos almoços simultâneos. de alguns pratos que eles comerão e de outros que eles não provarão para favorecer a curiosidade. com pimenta sal limão. O cimo do cone será coberto por pedaços de trufas negras cortadas em forma de aviões negros para a conquista do zênite. vinte sabores para experimentar em poucos instantes. Um dado bocado poderá resumir uma 125 Cozinha futurista. O uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação.

tornam-se mais assimiláveis. Esquecem os outros deveres dinâmicos da raça. Marinetti *** A “Cozinha Italiana”. Não possuem a lucidez espiritual do laboratório.indd 126 7/4/2009 15:51:22 . esterilizadores centrífugos. eletrolisadores para decompor sucos. etc. Entre muitos. excesso de doce.. o desenvolver de uma paixão amorosa ou uma inteira viagem ao extremo Oriente. frutas secas.Fillippo Tommaso Marinetti inteira zona de vida.) por causa das altas temperaturas. lâmpadas para a emissão de raios ultravioleta (já que muitas substâncias alimentares irradiadas com raios ultravioleta adquirem propriedades ativas. Lombroso. Estes. F. dializadores. jornal dirigido com grande competência e genialidade por Umberto e Delia Notari. Viale. defenderam o macarrão os doutores Bettazzi. etc. Um conjunto de instrumentos científicos na cozinha: ozonizadores que dêem o perfume do ozônio a bebidas e comidas. a boca beatamente cheia de espaguete ao vôngole. etc. extratos etc. O uso destes aparelhos deverá ser científico. Foà. de modo a obter de um produto notável um novo produto com novas propriedades. em uma trattoria de Posillipo. especiarias. pouco cientificamente. obedecem à prepotência de seus paladares. excesso de vinagre. Os indicadores químicos darão conta da acidez e alcalinidade dos molhos e servirão para corrigir eventuais erros: falta de sal. Pini.). moinhos coloidais para tornar possível a pulverização de farinhas. Londono.T. aparelhos de destilação a pressão comum e à vácuo. Parecem falar à mesa. o que provoca a destruição de substâncias ativas (vitaminas. iniciou uma pesquisa enquanto enfurecia a polêmica mundial pró e contra o macarrão e pró e contra os pratos futuristas. Ducceschi. etc. evitando por exemplo o erro de cozinhar as comidas em panelas a pressão. e o turbilhão angustioso 126 Cozinha futurista. impedem o raquitismo nas crianças. excesso de pimenta. 11.

Somente uma refeição futurista pode realegrá-lo. enquanto são considerados por nós como atos que criam sobre o comensal um estado de ânimo otimista singularmente útil para uma boa digestão. as músicas e o tato. preparam o sereno e viril estado de ânimo indispensável para a tarde e a noite. E o macarrão é antiviril porque o estômago pesado e cheio não é nunca favorável ao entusiasmo físico pela mulher nem à possibilidade de possuí-la diretamente. Qualquer “macarroneiro” que consulte a própria consciência honestamente no momento de engolir a sua biquotidiana pirâmide de macarrão.indd 127 7/4/2009 15:51:22 . Ilude-se. Prof. 127 Cozinha futurista. mas não o tapa. etc. E não é só: os perfumes. NICOLA PENDE (clínico). são unicamente comparáveis aos excitantes. Mesmo esforçando-se para legitimar os seus prazeres bocais. contentes com a melancolia e propagandistas da melancolia. devem convir que outras comidas são pelo menos tão nutritivas quanto o macarrão. as músicas.A cozinha futurista de esplêndidas velocidades e de violentíssimas forças contraditórias que constituem a vida moderna. os de carne têm caráter veloz e agressivo”. que condimentam os pratos futuristas. Este ávido buraco é a sua incurável tristeza. Alguns destes declaram que os perfumes. encontrará ali dentro a triste satisfação de tapar com ele um buraco negro. Na mesma pesquisa brilham entretanto as inteligências dos Médicos que dizem: “o uso habitual e exagerado do macarrão determina certo aumento de peso e exagerado volume abdominal” “os grandes consumidores de macarrão têm caráter lento e pacífico. Todos os defensores do macarrão e os obstinados inimigos da cozinha futurista são os temperamentos melancólicos.

De qualquer modo. ANTONIO RIVA “o macarrão não pode ser considerado como um alimento de fácil digestão porque dilata o estômago e não sofre. Prof. Prof. HERLITZKA (fisiologista) “o valor nutritivo do macarrão não apresenta características especiais que possam torná-lo preferível aos outros tipos de farináceos”. a experiência o mostra. como o pão.indd 128 7/4/2009 15:51:22 . foram feitas pelo “Jornal de Domingo” de Roma e por outros jornais italianos. uma preparação suficiente com a mastigação”. Prof. TARCHETTI *** Outras pesquisas. pró e contra o macarrão. Dr. Senatore U. C.Fillippo Tommaso Marinetti “deve-se trocar alimentos pela lei biológica: a repetição constante do mesmo alimento. GABBI (clínico) “penso que o uso do macarrão seja nocivo aos trabalhadores intelectuais. além da sopa. e portanto nunca exclusivamente feita de um só alimento”. convém uma alimentação mista. Senatore ALBERTONI “É questão de gosto e preço de mercado. possam conceder-se carne e outros pratos”. O Duque 128 Cozinha futurista. Prof. é prejudicial”. A. Prof. às pessoas que levam vida sedentária e sobretudo àqueles que.

e deu-me um pequeno posto à sua 1 Massa longa. tem entretanto suas idéias. T. por serem incapazes de renovar a sua cozinha. a polêmica espalhava-se através de centenas de artigos. “420”. consagrando com isto a monotonia pouco atraente de Paraíso e da vida dos Anjos. Dona Elvira etc. Paolo Monelli. aumentavam as adesões e os entusiasmos pela luta contra o macarrão. declarou que “os Anjos. temperada com molho de tomates. “Giovedì”. Recordamos o número completamente dedicado à cozinha futurista do “Travaso” de Roma e as inumeráveis caricaturas que apareceram no “Guerin meschino”.A cozinha futurista de Bovino. no Paraíso. os escritos de Massimo Bontempelli. prefeito de Nápoles. Recordamos os diversos pareceres dos cozinheiros romanos Ratto. enquanto os inimigos da cozinha futurista contentavam-se com ironias fáceis e nostálgicas lamentações. Marinetti”: Caríssimo Lembra-se? Você escreveu. publicado no “Ambrosiano” como “carta aberta a F. Mas. com todos os socos e bofetadas da sua dialética de assalto. sendo atento e amigo. Você queria ser gentil. parecida com o espaguete. que eu. 129 Cozinha futurista. que não são sempre aquelas do tatilismo e das palavras em liberdade. Arturo Rossato. “Marc’Aurelio”. Giaquinto. Entre todos os artigos. não comem outra coisa além de ‘vermicelli al pomodoro’12”. Cecchino. Você é a amabilidade em pessoa. Paolo Buzzi. etc.. Salvatore di Giacomo etc. Angelo Frattini. respondendo a uma destas pesquisas. todos. destaca-se este de Ramperti. No entanto. meu caro Marinetti. pertenço à extrema direita do parlamento futurista.indd 129 7/4/2009 15:51:22 . Marco Ramperti. uma vez. Alfredo. Paggi. etc. Recordamos. favoráveis ao macarrão. e não poderia falar com mais graça de alguém que. por exemplo.

ou então de pedir a sua.indd 130 7/4/2009 15:51:22 . Você vê como os italianos. a todas as vantagens. Desde aquele dia. tão sensíveis eram as discrepâncias. como fez Esaú por um de lentilhas. Por isso peço. e nós deveremos. já se rebelam.Fillippo Tommaso Marinetti direita. infelizmente. Aceitam o soco. a ceder esta prioridade por um prato de macarrão. enquanto poderia muito bem me deixar do lado de fora. Aceitam. As críticas serão muitas. Capaz de renunciar a todos as comodidades. por Deus. Veja como é feita. Ah! Não creia. o seu manifesto contra o macarrão: e eis que. entre os passadistas sem remédio e sem direito. deseperado. oh! Marinetti. predicar a barrigas cheias e corações desertos. justamente. fanático. muitas vezes os seus decretos-leis colocaram-me no cruel dilema de assinar a minha demissão. quem sabe por quanto tempo ainda. a honra de servir-lhe. que desta vez a batalha será fácil. Mas creia-me: será necessário ter coragem. absoluto. iluminado. e tornavam insuportáveis a minha presença na sua assembléia. o passo de corrida: mas com sua porção de espaguete. todavia. Mas não renunciam ao macarrão. o macarrão voltará às mesas. Ainda que eu não seja. e não a um apetite. o seu pálido futurista ad honorem passa de um salto da extrema direita para a extrema esquerda da sua assembléia. para levar a bandeira desta sua última ofensiva. refeito em um momento cheio de audácia fiel. e entendem. E de fato parece a mais difícil. reaver a primazia no mundo: dispostos. tocados no epigástrio. e. Marinetti. reanimado. Aceitam o tatilismo. agora lhe peço. ai de mim. confesso-lhe. esta nossa gente. o salto. entre os conversíveis. Então apareceu a sua insurreição convival. os intonarumores. o mais jovem do seu regimento. as palavras em liberdade. Parece-me que a revolução alimentar seja a mais cuidadosa ente quantas você tenha suscitado. 130 Cozinha futurista. grita-lhe o seu consenso pleno.

estabelece a sua lei. é a mais conseqüente e lógica entre todas aquelas derivadas do seu manifesto cardinal de há vinte anos: e não se compreenderiam tantas resistências. entre todos os alimentos estufantes e paralisantes que contradizem o seu programa de rapidez. apopléticos e suspirantes. que nos liga as entranhas com os seus arames moles. limitar as próprias refeições à gota essencial e à migalha leonina. segundo o indivíduo. chegará por fim o dia em que se convencerão que. exceto a uma porção de vermicelli. E eis aqui a mola da sua revolta reparadora. que é ele também uma escravidão. O que quer dizer. É um juízo que me vem à mente. à tenacidade e obstinação de certas atitudes do estômago. e você tem cem razões para atacá-la ferozmente. mas em todo o caso deve ser 131 Cozinha futurista. ninguém saberia cometer uma vilania. a não ser repensando. como a estátuas de fontes. elétricos. Ora. e existe o paladar do futurista. Um francês que estimava os alemães. elasticidade e energia.indd 131 7/4/2009 15:51:22 . repensando naquele Polichinelo que resistia a tudo. que nos entope o esôfago. justamente. Na verdade. A nossa. no entanto. vencendo tarde. furibundos possíveis. o conde de Gobineau. como a perus de Natal. nada poderia ajudar mais do que o comer pouco e escolhido. esta sua última propaganda. pode causar prazer ou vergonha. Mas sendo o mais nefasto. o macarrão é precisamente o mais difundido e calamitoso. ativos. Este grande amor pelo macarrão é uma debilidade dos italianos. este outro hábito. exprime o seu verbo. oh! Marinetti. Não é a primeira vez que um povo nos ensina a saber renunciar a tudo. como em todas as boas revoluções. Já que os italianos consentiram ao princípio futurista que se façam os mais ágeis. exceto a uma glutonaria. este outro vício. Que nos incha as bochechas. Venceremos melhor. esta outra abnegação? Liberemo-nos também do macarrão. e que nos prega à cadeira. costumava dizer que do outro lado do Reno. com aquela sensação de inutilidade que. se não fosse por uma salsicha com chucrute. é também o menos maldito.A cozinha futurista Não importa. repletos e estupefatos. para alcançar um tal estado de graça. Existe o calcanhar de Aquiles. velozes.

Mas é certamente. gostariam de dizer as alegorias malignas. talvez para ter o direito de dizer em Genebra que também os italianos andam armados até os dentes: mas os espaguetes não foram tirados do nosso quadro folclorístico. Resumindo. O italiano das alegorias sempre tem a boca ávida arreganhada sobre um prato de tagliatelle. que nós comíamos os espaguetes com as mãos: e talvez o sentido da maledicência era que não podiam. Seria necessário ensinar a vanidade deste nosso apetite. feia. o macarrão não nutre. ao lado de seu ímpeto bestial. Não temos mais nem a sílaba fácil nem a imagem pronta. No fundo. O pouco molho que trazem aos lábios é o molho de tomate. como moedas falsas. O seu gosto está todo naquele assalto com as mandíbulas tensas. Enche: não fortalece. naquele voluptuoso empanturrar-se. Engolidos que são. Mas é um prazer efêmero. naquela aderência total da massa ao paladar e às vísceras. em algumas metáforas indecorosas. sentados. embaralhamse como os vermicelli absorvidos. E sentimo-nos. disforme. Depois nos concederam os garfos. Sabe-se hoje em toda a Europa quantas porções dele come Primo Carnera. cheios de chumbo. além dos Alpes. ou somente jovem e acordada. Mas é um gosto porco.Fillippo Tommaso Marinetti detestada por quem ostente uma alma futurista. um tempo. O nosso macarrão é como a nossa retórica. os espaguetes infestam e pesam. para uma tal gulodice.indd 132 7/4/2009 15:51:22 . Dizia-se. quando não é sobre vermicelli despejando molho ao longo de nossos ansiosos braços. separar-se a deselegância e a imundície. naquele sentir-se unificado com ela. um verdadeiro alimento italiano. subitamente. confundem-se. voce entendeu perfeitamente. As palavras aglomeram-se do mesmo modo. como em 1894 sabia-se quantas devorasse Francesco Crispi. que serve somente para encher a boca. como um tronco. Os pensamentos desfilam um dentro do outro. aglomerados e amalgamados. o perigo e a desonra deste mito dos macarrões: macaroni que resultaram. Alguma coisa nos retém. meu caro Marinetti. E é uma imagem ofensiva: engraçada. O sustento é mínimo se confrontado com o volume. 132 Cozinha futurista.

como é certo que – a propósito da alimentação – os homens debatem-se ainda hoje entre incertezas. enquanto deveria ser a de preparar um alimento sadio. li com entusiasmo o manifesto da cozinha futurista.Marinetti: “Seu férvido admirador desde quando. ou o exílio. se sonha. naquele momento.T. depois de uma orgia de tagliatelle. Experimentem então.G. seguia com apaixonado interesse as batalhas purificadoras que o senhor combatia entre a indiferença e a incompreensão dos italianos da época.PENNINO. Parece que a preocupação de quem se ocupa de cozinha seja aquela de empanturrar. erros de todo gênero. agradável à vista. ao tato e ao paladar. É o encadeamento.A cozinha futurista Pobre do que tiver perto. encher o ventrículo como se enche um saco. rapaz.indd 133 7/4/2009 15:51:22 . que dê força e substância em pequenas 133 Cozinha futurista. Ou mesmo para a arte de Vênus. excitar e envenenar com drogas e lavagens. intervém na polêmica com esta carta a F. O madrigal é insosso. um interlocutor ou uma amante. Quanto paraíso perdido. cronista-chefe da “Gazzetta del Popolo”. a picardia é medíocre. saboroso. energético. conceituais ou amorosos. por um momento de descuidada animalidade? Marco Ramperti *** V. Sabe-se que os pecados da gula são os mais rapidamente punidos pelo Senhor Deus. contradições. interrompida como é pelos soluços do intestino. quando não demolidos desde o princípio. É a barriga que se incha à custa do cérebro. de todos os espíritos. Eu juro que restariam imobilizados desde o primeiro movimento. partir para uma polêmica. É certo que se pensa. se age de acordo com o que se bebe e se come. a argumentação é impossível. Aquele do macarrão expia-se no mesmo instante.

enfim. globulinas.Fillippo Tommaso Marinetti quantidades.) a menos que com os absurdos cozimentos tais tesouros não sejam estupidamente destruídos e que. de potássio. quando a cozinha não mais for mais o reino de donas-de-casa ineptas e de cozinheiros ignorantes e envenenadores. a fantasia. de magnésio.indd 134 7/4/2009 15:51:22 . (Olhe que sou napolitano e conheço todos os agouros deste alimento). “Mas a luta contra o macarrão não basta. Bendita seja. e já foi demonstrado que uma pequena quantidade de alimento bem combinado segundo o conhecimento racional das necessidades do nosso organismo dá muito mais força e energia que pratos de macarrão. com o perfume de jardins tropicais e faça sonhar sem o uso de bebidas alcoólicas. vitaminas. que o arroz é um alimento precioso. mas contanto que não seja privado de suas substâncias fitínicas com o polimento. Quando banirem das mesas da península o macarrão estufador e adormentador. de carne e ovos que são consumidos por aqueles que desejam 134 Cozinha futurista. fósforo. etc. exterminar tradições erradas: afirmar que o pão branco. a vivacidade. É necessário abater outros ídolos. sais de cálcio. por exemplo. a brisa renovadora e saneadora na pesada atmosfera das cozinhas da Itália. mas tornar-se-á uma forja de sábias combinações químicas e sensações estéticas. que desperte a fantasia com imagens e panoramas agrestes. que as verduras contêm verdadeiros tesouros para o organismo humano (ferro. o gênio criador da raça alcançarão seu pleno desenvolvimento. quando se conseguir criar e difundir uma alimentação que saiba conciliar a menor quantidade ao máximo de poder nutritivo explosivo dinâmico. bendita a luta contra o funesto macarrão que com a sua cansativa digestão faz pesar o corpo e entorpecer o espírito. é um alimento inútil que forma no estômago um bloco indigerível e deve ser substituído pelo integral perfumado e substancioso. pesado e insípido. a teoria das calorias e das necessidades de uma grande quantidade de albumina animal e de gorduras teve seu tempo. somente então a potência volitiva. então.

deve ser por isso composta por três quartos dos maravilhosos produtos vegetais que nos são invejados por todo o mundo e por um quarto apenas de produtos animais. com as coisas mais simples. “Assim a batalha que o senhor engajou – mesmo que se apresente duríssima. Esperamos que os químicos italianos saibam fazer mais e melhor. porque enquanto visa renovar um ambiente muito fortemente arraigado ao passado. 135 Cozinha futurista. vulcânica. quem desenvolve grande atividade física podem fazer maior uso deles. ao palato. irrequieta. em geral. especialmente se o convite à química lançado pelo senhor encontrar entre os cientistas italianos boa acolhida. enquanto os soldados. os trabalhadores manuais e. porque deve lutar contra tradições radicadas e tenazes.A cozinha futurista sustentar-se bem. Por outro lado. um prato de cebolas ou de azeitonas ou estas coisas combinadas. junto com um pouco de nozes e um pedaço de pão preto são para a caldeira humana um combustível muito mais idôneo e rentável que os famigerados macarrão ao ragu. Estes devem ser usados com grande parcimônia especialmente pelos trabalhadores intelectuais. sadias. substanciosas podem-se criar pratos que dão aos olhos.indd 135 7/4/2009 15:51:22 . Cada povo deve ter a sua alimentação e aquela do povo italiano deve ser baseada nos produtos desta terra quente. tem uma enorme importância social e econômica. mas eles cometeram o erro de serem estrangeiros antes de tudo e muito caros. (O contrário do que acontece comumente). ou tagliatelle à bolonhesa ou bistecas à Bismarck. contra interesses formidáveis e contra a ignorância difusa – deverá encontrar muitos consensos na Itália de hoje. à fantasia sensações bem mais intensas que os alimentos que hoje desempenham um belo papel nas melhores mesas. Mono – inventou os “alimentos concentrados” cuja eficácia experimentei. É bom que se saiba que uma cenoura crua finamente ralada com óleo e limão. Um químico francês – o prof.

ameaçam a inteligência” e mais outros. observa: “os napolitanos rebelaram-se.. mas pensei que não deveria ser-lhe desimportante – entre os muitíssimos que indubitavelmente receberá – o entusiástico consenso de um modesto estudioso dos problemas da alimentação”. traz ao debate uma palavra precisa: “Não há dúvidas de que todos os farináceos deixam o corpo pesado e em conseqüência. que também ela deve responder aos tempos e talvez até antecedê-los”. que me foi sugerida pelo seu belíssimo Manifesto. Schopenhauer e o macarrão O Dr. na carta direta ao jornal “A Cozinha Italiana”. 136 Cozinha futurista. em um artigo sobre a cozinha futurista.indd 136 7/4/2009 15:51:22 . G. observando o seu alimento quotidiano. de modernismo também na cozinha. Carito em “Humanidade Artrítica”: . recordamos os mais originais: O cozinheiro-chefe do Rei O Cavalheiro Pettini. afirma ainda: “necessidade de inovação...Fillippo Tommaso Marinetti “Desculpe se me permiti enviar-lhe esta apressada nota.PENNINO *** Dos muitos artigos surgidos a favor da luta futurista contra o macarrão. Angelo Vasta. o nosso povinho está ainda numa fase primitiva.V. mas justamente convém recordar o que escrevia o seu concidadão Dr. Cozinheiro-Chefe de Sua Majestade o Rei da Itália.. qualificou-o genialmente como a alimentação dos resignados. Não fez maiores progressos desde o tempo em que Schopenhauer.

quando o bom e douto rapaz natural de Rapallo curava a Papas e príncipes. não sabem alimentar-se bem! De onde o torpor da vida fisiológica com os seus inevitáveis reflexos nefastos na esfera psíquica. E escreve: “Giovanni de Vigo iniciou a campanha contra o macarrão no século XIV.. prelados e ministros.indd 137 7/4/2009 15:51:22 . intelectuais. Reproduzimos aqui parte de seu divertido artigo contra o macarrão: 137 Cozinha futurista. a prescrição quase marinettiana ao muito inchado século XIV: todos os alimentos de massa devem ser usados pouquíssimas vezes “pasti alia denique et victualia paste rarissime sunt concedenda”. sim. a recomendação. até as assim ditas ‘dirigentes’. No IX e último livro encontrar-se-á uma advertência explícita e formal contra o abuso do macarrão.. mas que não se submetia à digestão de grandes quantidades de “trenette” e de carvão. falando de Gênova) escreveu: “A prática em arte cirúrgica”. exercícios esportivos devemos radicalmente reformarmo-nos..A cozinha futurista “Ai de mim! mesmo as nossas classes altas.” Um médico do século XIV contra o macarrão Em um artigo do “Século XIX” de Gênova. Amedeo Pescio insurge contra aqueles que chamam glória e honra dos genoveses os raviólis. De onde a nomeada ‘indolência’ com que fomos marcados e vilipendiados nos séculos anteriores. O macarrão é de origem ostrogoda Libero Glauco Silvano. gente dinâmica. os tagliarinis etc. movimento. Então o grandíssimo cirurgião da nossa cidade (como ele dizia. em um longo artigo “Contribuição para uma arte culinária futurista” propõe algumas inovações alimentares. as lasanhas. Em tudo o que diz respeito a alimentação.

para tirar-lhe de cima aquele tango de canalhice: haviam-no persuadido a não fazê-lo acompanhar por arrogantes e desavergonhadas cebolas. lo quà prence affidato avealo a Rotufo. tosco e oleoso de sujeira. sob as novas aparências tinha o modo e a vulgaridade do vilão refeito e de nada lhe valia a contínua freqüência com aquele agraciado e epicúreo mestre que se chama manteiga. tumultuosa e invasora: e não importa onde entrasse. com um alimento bárbaro que vivia como um parasita em nossa civilização: falo dos macarrões ao sugo. por azeite rançoso e caprino. et il bolliva- 138 Cozinha futurista. os seus títulos nobiliários? A “Cronaca degli Memorabilia” de Dacovio Saraceno. Il conobbero gli sudditi dello rege. Teve sempre a mesma barriga. na casa do pobre ou do rico. existe para cantar-nos vida e milagres: “lo macarono nato fue et notricato appo gli Ostragoti. tra un baciuzzo et un baciozzo. Mas quais eram. coco suo genialissimo. fazia-nos a figura de uma chimpanzé em um salão de damas sentimentais: e somente por um equivocado respeito à tradição continuava-se a suportar o seu fedor plebeu. como se descendesse de um lombo muito magnânimo para não dever considerar ainda menos o restante das criaturas gastronômicas. pergunto-me. Este prato. Ergo. girava os olhos em torno como para impor respeito e reverência. per virtude della femina del cuoco. havia trabalhado ultimamente para enobrecê-lo.indd 138 7/4/2009 15:51:22 . por sorte. discípulo e êmulo de BrillatSavarin. confidogli la esistenzia dello nominato macarono. em meio ao qual havia nascido: macarrão. ao tomate ou como mais lhe agrada. lo amore per essolui macarono s’espanse per lo populo omne. mesmo entre outros igualmente bestiais. gli quai molto e volantieri con essolui si solaciavano. por Deus. Mesmo o nome relembrava o povo. Dieto macarono erat di spulcia (leggi spelta) et hebbe sua prima dimora in la regia del magno prence Teodarico. idest in Ravenia.Fillippo Tommaso Marinetti Era tempo de acabar. adiposas como beldades de marinheiros. che avevasi invaghito dello ofiziale di guardia al palacio et al quale. Entretanto. Um bom cozinheiro. por certos alhos pálidos e consumidos por vícios ocultos.

as dignas consortes. Ah! Os gentis senhores elegantíssimos. tão arraigada era a tradição. cujo cultivo havia-se extendido muito desde quando o irmão Serenio. seu paladar aristocrático o refutava. acrescento eu. de boa ou má vontade que fosse. Um biográfo bastante minucioso. Entretanto. diz o biógrafo. et leccavansi digita et grugno”1. Foi somente na Alta Idade Média (Cordazio Camaldolese: Pietanzie in usaggio appo aliquante nostre terre et regioni et insule et peninsule et similia con spiegato lor modo di prepararle in cucina 2) que os pepinos foram substituídos por tomates. de qualquer forma mandasse prepará-lo. em angelical espera. sobre as bochechas cheias terrosas.A cozinha futurista no cum cipoglia et alio et pastonacca. muitas vezes prolixo.indd 139 7/4/2009 15:51:22 . vinham despejar no prato improvisado a verminalha viscosa dos “macarrões” e os braços peludos mergulhavam até os cotovelos no buraco fumegante e as bocas se abriam – nhau nhau – e os olhos lacrimejavam. os bigodudos Ostrogodos. Parece-me vê-los. tinha bom gosto demais para aceitar placidamente aquele prato: e. Talvez porque Boccaccio. lambiam-se os dedos e a cara! Era bem adequada aos seus insensíveis paladares aquela lavagem monstruosa temperada com suco de pepinos. Depois. cansadíssimas e imundas. em verdade. de poder fazê-lo de outro modo. o grande escritor não conseguia digeri-los nem mesmo assim”. pela excessiva felicidade. em seu retorno da China. intitulada “Verdade e despropósito”). limpando a boca sob os bigodes. de Boccaccio informa que o autor do Decamerão exigia de sua esposa que temperasse os macarrões com leite de amêndoas amargas: “mas. 139 Cozinha futurista. como comumente se afirma (confrontar a este respeito a obra definitiva de exegese histórica escrita por Valbo Scaravacio. trouxe a preciosa semente – e não larvas de bicho-da-seda. et il condivano cum suggo (sic) di cedriollo. engolia o macarrão já que não devia nem mesmo passar-lhe pela mente. meterem-se a cavar grandes buracos na grama com as pesadas adagas e acocorar-se ao redor.

desapareceram das casas os quadros. para tornar-se benemérito aos olhos do digno senhor. muito difundidas. Somos. Que porcaria. de cuja benemerência é inútil falar. iniciaram uma campanha ativa para que a humanidade se libertasse dos arreios da escravidão. os desenhos. nós filhos do século. compôs um rosário de sonetos para o alto elogio do alimento “a que nada pode ser comparado.Fillippo Tommaso Marinetti Por pouco. as fotografias e todo acidente que os representava: e as editoras retiraram do mercado 140 Cozinha futurista. meio-dia e noite. mesmo se quase inconscientemente engolia macarrão três vezes ao dia: manhã. Uma última tentativa foi feita na primeira metade de século XIX pelo grande Michele Scrofetta. muito despreocupados para não mandar ao diabo macarrão e acessórios sem nem mesmo a carta de referências: e ninguém os lamentará ou espalhará ternas lágrimas. nem mesmo a ambrosia”. traziam artigos de pessoas que haviam adquirido grande autoridade nos campos das Ciências e das Letras: mas tudo foi inútil contra a abstenção das plebes também porque. o macarrão: por dizer. eis que o vil e barulhento Aretino recoloca-a sobre os altares: e qual melhor meio de propaganda que as suas excitantes musas em carne e osso? Os que se banquetearam à sua mesa tornaram-se férvidos defensores do macarrão. e um destes. Puah. naquele tempo. sendo conhecido por todos: e nem mesmo o eminente cientista alcançou algo concreto. Ao final do século XVIII muitos nobres engenhos. a panacéia universal.indd 140 7/4/2009 15:51:22 . havia-se difundido a superstição de que o macarrão fosse o antídoto para toda doença. Deveria caber à nossa época a ventura de repudiar definitivamente este costume bárbaro. seguros de que a razão de muitos males provinha daquela alimentação. Foram escritos inúmeros opúsculos e volumes de vários tamanhos: as gazetas. trata-se de Martone Dagorazzi e suas cem composições poéticas intitulam-se: “A ambrosia dos homens”. no último estágio do renascimento. a maldita lavagem não foi sepultada no esquecimento. Quando já não se falava quase nunca dela.

pacifistas e congestionantes argumentações do amidáceo mais ilustre do mundo. Elas sentem obcuramente que este ou aquele modo não estão certos. no entanto.indd 141 7/4/2009 15:51:22 . Chefe da Central de Notícias de Bolonha. mas para reconstruir são necessárias milhares e milhares de mãos.A cozinha futurista todas as suas edições para submetê-las a uma rigorosa censura. do intelectualismo italiano Ferdinando Collai. puah – as pessoas vomitarão até os intestinos. reimprimindo mesmo quando se fez necessário. frescor do intelectualismo italiano”. Em alguns meses. E vejam que já surgiu o primeiro núcleo de estudiosos que buscam oferecer uma cozinha adequada aos tempos. As nossas donas-de-casa continuam a preparar os alimentos à moda antiga porque não saberiam como fazê-lo de outra forma. sob uma rigorosa avaliação. Aliás. deva-se fazer uma grande limpeza. A tarefa. polemiza com “as torpes. o bloco resistente do funestamente celebrado macarrão napolitano ou bolonhês”. mostram-se indignos de receber as graças de nossos gourmets e dos honestos pais de família e da prole estudiosíssima. Batalha pela saúde. agilidade. 141 Cozinha futurista. frescor. Existem outros pratos que. somente de ouvir-lhe o nome – macarrão. apagando sem piedade. se bem que notabilíssima. mas ignoram a que outro santo voltar-se. Quero todavia acreditar que esta vitória. é colossal: para destruir basta uma única mão que acenda um pavio. não nos faça dormir sobre louros. agilidade. estou convencido que. E conclui: “estou com o Maestro na violenta batalha pela saúde. sobre os velhos livros de receita.

após as batalhas. Isto talvez fosse verdade para os alpinos que. como Marinetti. refúgios cômodos.Fillippo Tommaso Marinetti O macarrão não é alimento para os combatentes Paolo Monelli. atrasados. Os futuristas que combateram em Doberbó. a improvisar equipamentos perfeitos. não poderia oferecer. Para os bombardeiros de Vertoibizza. por mais zeloso e devoto que fosse ao simpático cliente de uma única vez. *** Além de muitas adesões de cozinheiros. em Nervesa e em Cabo Sile estão prontos a testemunhar que sempre comeram péssimos macarrões. recebeu de um soldado ex-cozinheiro de Savini um milagroso brodo de frango: aquele sagaz e oportuno cozinheiro. em Selo. transportado a Plava de maca. sanitaristas e artistas. entre todos os combatentes. congelados e transformados pelos tiros dos esquadrões inimigos que separavam os atendentes e os cozinheiros dos combatentes. barracas bem aparelhadas e decoradas e sábias cozinhas. em Plava e nos reinos de Zagora e depois na Casa Dus. o alimento comum era chocolate sujo de lama e de vez em quando um bife de cavalo cozido em uma panelinha lavada com água de colônia. já que sobre sua cozinha de batalhão rolavam de vez em quando enormes barris austríacos que destruíam os fogões: Marinetti duvidou então pela primeira vez do macarrão como alimento de guerra. escaladas e avalanches.indd 142 7/4/2009 15:51:22 . em sua defesa ao macarrão declara-o ideal alimento para os combatentes. Isto não é verdade para as tropas que combatem em solo plano. nem com sua maior boa vontade. Quem poderia esperar um macarrão quente e “al dente”? Marinetti ferido nas Casas de Zagora na ofensiva de maio de 1917. um macarrão comestível. na Vertoibizza. são os mais prontos. a polêmica sobre a cozinha futurista deu vida a toda uma série de artigos 142 Cozinha futurista.

affronte encore aujourd’hui l’impopularité avec un programme de rénovation intégrale de la cuisine.T. et spiralique de la femme italienne. no número de 20 de janeiro de 1931: F. que l’on agit selon ce que l’on boit et mange. Preparons des 143 Cozinha futurista.indd 143 7/4/2009 15:51:22 . élan. nos papilles gustatives. Consultons à ce sujet nos lèvres. les sécretions de nos glandes et pénétrons génialement dans le domaine de la chimie gastronomique. alimento italiano que deve ser sempre mais propagandeado e usado.Marinetti vient de lancer le manifeste de la cuisine futuriste “Le futurisme italien. nous affirmons cette verité: que l’on pense. notre langue. faite de passion. tendresse. Qu’il se harmonise. toujours mieux avec la transparence légère.A cozinha futurista e de estudos sobre a qualidade do “arroz”. au bout de vingt ans de grandes batailles artistiques et politiques souvent consacrées dans le sang. Nous sentons la necessité d’êmpecher l’Italien de devenir cubique et poussif. lumière. notre palais. Tout em reconaissant que des hommes mal nourris ont créé des grandes choses dans le passé. et de s’empêtrer dans une lourdeur opaque et aveugle. volonté. A opinião mundial Explodiu em Paris a polêmica sobre a cozinha futurista após a publicação do manifesto de Marinetti no jornal “Comoedia”. au contraire. que l’on rêve. ténacité héroïque.

Fillippo Tommaso Marinetti corps agiles pour les trains extra-légers d’aluminium de l’avenir. grâce à l’absortion d’équivalents nutritifs gratuits. au service d’hommes presque allégés de toute occupation manuelle. et de vitamines. en poudre ou en pillules. Exemples: 144 Cozinha futurista. Nous proclamons tout nécessaires: 1) L’abolition de la pastasciutta. absurde religion gastronomique italienne. Nous invitons la chimie à donner au plus tôt les calories nécessaires au corps. vaisselle. avec la saveur et la coloration des mets. On fera baisser ainsi le prix de la vie et les salaires. 2) L’abolition de poids et du volume dans l’appréciation des aliments. La pâte ne fait pas de bien aux Italiens. Les défenseurs de la pâte en portent dans l’estomac des ruines. Les machines formeront bientôt un prolétariat servile. intuitive et passioné des Napolitains. d’hydrates de carbone. de composés albumineux. comme les fuseaux rétrogrades de Pénélopes ou les voiliers somnolents en quête de vent. et le reste du temps pourra être ennobli par la pensée. comme les archéologues. elle fait obstacle à l’esprit vivace. Le travail quotodien se réduira à deux ou trois heures. Elle enserre les Italiens dans ses méandres. à l’âme généreuse. en réduisant les heures de travail. qui remplaceront les trains pesants de fer et d’acier. apprêts). Le repas parfait exige une harmonie original de la table (cristaux. les arts. Convaincus que le peuple le plus agile l’emportera dans les compétitions futures.indd 144 7/4/2009 15:51:23 . préparons dès à present l’alimentation la mieux faite pour une existence toujours plus aérienne et rapide. 3) L’abolition des condiments traditionnels. ainsi qu’une originalité absolue de ceux-ci. 4) L’abolition de la répétition quotidienne des plaisirs du palais. et la dégustation de repas parfaits.

en l’arrosant de cognac. Ajoutez des tomates coupés en deux. bouillie pendant dix minutes. et faites-la cuire au four très chaud pendant un quart d’heure. et excite l’imagination avant de tenter les lèvres. que vous aurez fait cuire au gril avec ail et persil. d’un demi-verre de marsala. on le passe au gril. Bécasse au Monterosa en sauce Vénus Prenez une belle bécasse. de jaunes d’oeufs durs. posez sur les tranches des filets d’anchois croisés. et recouvrez-la d’un feuilleté. et sur chaque tranche un disque de citron aux câpres. jusqu’à ce qu’il soit bien doré. remettez au tour jusqu’à complète cuisson de la pâte. poivre et genièvre. en l’assaisonnant de poivre. videz-la. arrosée d’un petite verre de liqueur Aurum et passé au tamis.A cozinha futurista Saumon de l’Alaska aux rayons de soleil en sauce Mars On prend un beau saumon de l’Alaska. de découpures d’ecorce d’orange. on le coupe en tranches. posez-la sur un canapé de pain grillé.indd 145 7/4/2009 15:51:23 . trempé de rhum et de cognac. dont l’harmonie originale de forme et de couleur nourisse les yeux. sel. de sel et d’huile fine. Mettez la sauce dans la saucière et servez bien chaud. (Recette de Bulgheroni. chef de la Plume d’Oie). de quattre cuillerées de myrtilles. La sauce sera faite d’anchois. mettez-la en casserole avec beurre. Exemples: 145 Cozinha futurista. A peine retirée de la casserole. de basilic. Le repas parfait exige aussi l’invention d’ensembles plastiques savoureux. (Recette de Bulgheroni). d’huile d’olive. Au moment de servir. recouvrez-la avec des tranches de jambon et de lard. Servez avec une sauce faite de vin blanc.

pour ne pas distraire la sensibilité de la langue et du palais. on la couronne d’un chapeau de miel. Chaque plat doit être précédé d’un parfum. parfumés et tactiles formeront de parfaits repas simultanéistes. découpées en forme d’aéroplanes nègres à la conquête du zenith. et on l’entoure à la base d’un anneau de saucisses posé sur trois boulettes de viande de poulet hachée et dorée au feu. qui sera chassé de la table à l’aide de ventilateurs. Le sommet du cône sera criblé de truffes. On la dispose verticalement en cylindre au milieu du plat. mais seulement dans les intervalles des plats. se compose d’une mer équatoriale de jaunes d’oeufs arrosés de sel. interprétation synthetique des paysages italiens. Equateur + Pôle Nord L’ensemble plastique comestible Equateur + Pôle Nord créé par le peintre futuriste Enrico Prampolini. Au centre. 146 Cozinha futurista. se dresse un cône de blancs d’oeufs montés et piqués de quartiers d’orange.indd 146 7/4/2009 15:51:23 . L’usage d’un art des parfums pour favoriser la dégustation. Le repas parfait exige enfin: L’abolition de la fourchette et du couteau pour les ensembles plastiques susceptibles de donner un plaisir tactile prélabial. de poivre et de jus de citron.Fillippo Tommaso Marinetti Le “Viandesculpté” Le Viandesculpté. est composé d’une épaule de veau roulée. créé par le peintre futuriste Fillìa. et rôtie au four. Ces ensembles plastiques savoureux. L’usage de la musique. colorés. farcie de onze qualités de lègumes verts. comme de juteuses sections de soleil.

Une dotation d’instruments scientifiques en cuisine: ozoniseurs pour donner le parfum de l’ozone aux liquides et mets. ou un voyage en Extrême-Orient. la surprise. trop poivré. pour un produit nouveau. La présentation rapide. appareils de distillation à pression ordinaire et dans le vide. de manière à éviter par exemple l’erreur de faire cuire les mets dans des marmites à pression. de certains plats qu’ils mangeront et d’autres qu’ils ne mangeront pas. dans la cuisine futuriste. et serviront à corriger les erreurs: trop fade. et dialyseurs. les frutis secs et les épices à un très haut degré de dispersion. dont la haute température provoquerait la destruction des vitamines. et en refaisant une virginité dégustative. dans l’intervalle des mets.” F. la même fonction d’annalogie amplifiante que les images en littérature. pour exciter la curionsité.Marinetti 147 Cozinha futurista. L’abolition de l’éloquence et de la politique à table. Ces bouchées auront. lampes à rayons ultraviolets pour rendre les substances alimentaires plus actives et assimilables. L’usage de ces appareils devra être scientifique. des appareils indicateurs enregisteront l’acidité ou l’alcalinité des sauces. Une bouchée pourra résumer une tranche entière d’existence. La création de bouchées simultanéistes et changeantes. moulins colloïdaux pour pulveriser les farines. Enfin. trop salé.A cozinha futurista tout en effaçant la saveur précédente. en tant qu’ingrédients improvisés pour allumer la saveur d’un plat avec leur intensité sensuelle. électrolyseurs pour décomposer les sucs et les extraits et obtenir. sous les yeux et sous le nez des convives. qui contiennent dix ou vingt saveurs à déguster en très peu de temps.indd 147 7/4/2009 15:51:23 . et l’imagination. marmites autoclaves centrifuges. le cours d’une passion amoureuse. L’usage tempéré de la poésie et de la musique. des propriétés nouvelles.T.

sob esta nuvem cozinhária. É toda uma moral que Marinetti desventra. pois de que adianta levantar o braço numa saudação romana. aos sonhos vazios.indd 148 7/4/2009 15:51:23 . sob o sol. que convida às torpes fantasias. “Há um ano dizíamos que Marinetti castigava o pudor hipócrita e a mentira da inteligência. pela qual a Roma eterna. isto é. como os seus paradoxos à educação estética: é preciso chacoalhar a matéria para acordar o espírito. à renúncia cética. e uma ação enérgica: vejam o negro. vejam o árabe. desafia o passo dos tempos. e esse é o suculento veneno que estraga o fígado para grande alegria do estômago.. agora ele frustra a felicidade hipócrita da digestão. cru. O paradoxo gastronômico de Marinetti visa à educação moral. uma decisão rápida. de Horácio a Panzini. no jornal “Comoedia”. “Deve-se regá-lo sobretudo com Salerno ou Frascati para compreender a lentidão do povinho e dos prelados romanos ou napolitanos. e até o amamos. lenta. mas duvidamos dele acima de tudo se preparado à maneira romana. Nós não somos daqueles que o desprezam. se pode repousá-lo sem esforço sobre o seu ventre gordo? O homem moderno deve ter a barriga reta. daquela sapiência transcendental.. para ter pensamentos claros. Porque a sua digestão é uma ruminação traiçoeira. daquela ironia serena. o macarrão é mesmo uma ditadura do estômago. ela traz consigo um torpor que beira a felicidade. Ele se recorda sem dúvida dos belos tempos 148 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Damos a tradução do arguto artigo que o jornalista francês Audisio lançou. a favor da cozinha futurista: “Sim. daquela indiferença amável. sim. ao ritmo pegajoso e conciliante dos indolentes. que são também a origem do sentimento lânguido. “Trata-se hoje de refazer o homem italiano.

No more spaghetti for the Italians. americanos.A cozinha futurista violentos nos quais. Practically everything connected with the traditional pleasures of the gourmet will be swept away. Outros artigos na Reinisch-Westfalische Zeitung. father of Futurist art. caricaturas e discussões nos maiores jornais franceses. na primeira página. plantava a semente de uma revolução mundial dos espíritos. esteve entre os primeiros a agitar a polêmica sobre a cozinha futurista: Spaghetti for Italians. É significativa a entrevista do jornal Je suis partout com Marinetti e o artigo de fundo. publicando também poesias polêmicas. sob o céu de Paris. que apareceu no The Herald. do jornal Le petit marseillais sobre a cozinha futurista. Jornais de Budapeste a Tunísia. 149 Cozinha futurista. has just issued from Rome a manifesto launching Futurist cooking. alemães etc. comentários.” *** À publicação em “Comoedia” seguiram-se artigos. O Times de Londres voltou repetidamente ao tema com escritos diversos. de Tóquio a Sidney.indd 149 7/4/2009 15:51:23 . este artigo. Longo artigo “ITALY MAY DOWN SPAGHETTI” no Chicago Tribune. Knives and Forks for All are banned in Futurist Manifesto on Cooking Marinetti. de Essen. e no Nieuwe Rotterdamsche Courant. literature and drama. ingleses. according to word received yesterday in Paris. Entre estes tantos. que relevam a importância da batalha futurista “contra os alimentos tristemente miseráveis”. No more knives and forks.

The first step would be the elimination of edible pastes from the diet of Italians”. Modern science will be employed in the preparation of sauces and a device similar to litmus paper will be used in a Futuristic kitchen in order to determine the proper degree of acidity or alkalinity in any given sauce. by means of single sucessive mouthfuls. in the ideal Futuristic meal.Fillippo Tommaso Marinetti No more after-dinner speeches will be tolerated by the new cult. “Since everything in modern civilization tends toward elimination of weight. Among the new kitchen and dining-room instruments suggested by Marinetti is an “ozonizer” which will give to liquids the taste and perfume of the ozone. published in the “Comoedia”. and such supplementary courses will not be eaten at all. The new Futuristic meal will petmit a literary influence to pervade the dining-room. and increased speed. Music will be banished from the table except in rare instances when it whill be used to sustain the mood of a former course until the next can be served. for whith ideal rapid service. in order to vary the effects of heat. In fact. Details of the manifesto. Electrolysis will also be used to decompose sugar and other extracts. Also certains dishes will be cooked under high preassure. several dishes will be passed beneath the nose of the diner in order to excite his curiosity or to provide a suitable contrast. Marinetti writes. give the principal feature of the new cuisine as a rapid sucession of dishes which contain but one one mouthful or even a fraction of a mouthful. the cooking of the future must conform to the ends of evolution. also ultra-violet lamps to render certain chemicals in the cooking more active. 150 Cozinha futurista.indd 150 7/4/2009 15:51:23 . an experience such as a love affair or a journey may be suggested.

Besides the abolition of macaroni. The Futurist leader also pleads for discontinuance of daily eating for pleasure. É lógico que os homens políticos de todos os países que se reúnem para as grandes convenções. submetemonos a este tipo de cozinha internacional de grande hotel unicamente 151 Cozinha futurista. entristecedores e monotonizantes. This is one of the meals which. and a consistent lightening of weight and reduction of volume of food-stuffs. placed vertically upon a plate and crowned with honey. para o desarmamento e pela crise universal. stuffed with eleven kinds of vegetables. Na Itália. como em quase todos os países do mundo. Marinetti advocates doing away with the ordinary condiments now in use. Contra a cozinha do Grande Hotel e a estrangeirofilia Entre as cozinhas que hoje imperam.A cozinha futurista As a model for the presentation of a Futuristic meal. by Fillìa. could not be attacked whith a knife and fork and cut into haphazard sections before being eaten. under the new system. so that when a real banquet is 3 spread it may be appreciated aesthetically. para a revisão de tratados. For ordinary daily nourishment he recommends scientific nourishment by means os pills and powders.indd 151 7/4/2009 15:51:23 . não possam elucidar nada e concluir pouco depois de ter engolido tais alimentos deprimentes. e os fecha a todos com um doce gelatinoso e trêmulo adequado a bocas doentes. The landscape is composed of a roast of veal. Marinetticalls attention to a Futuristic painting of a synthetic landscape made up of food-stuffs. M. aquela que nós consideramos mais detestável e mais repugnante é a cozinha internacional de grandes hotéis que abrem todos os grandes banquetes oficiais com um brodo no qual bóiam 4 ou 5 bolinhas de massa real moles e insípidas.

concertistas e regentes de orquestra) quando se incham até esquecerem-se que o intérprete é o servo útil não necessário do gênio criador. 3) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os regentes de orquestra e o público italiano que organizam ou aplaudem 152 Cozinha futurista. a palavra estrangeirofilia.Fillippo Tommaso Marinetti porque vem do estrangeiro. são infelizmente mais indispensáveis a cada dia. Exemplo: o excelente e célebre regente Arturo Toscanini que antepôs o seu sucesso pessoal ao prestígio da sua pátria ao renegar os seus hinos nacionais por delicadeza artística e executou os estrangeiros por oportunismo. antitalianidade ou feiúra) somente porque elas não falam a língua italiana e vêm de países longínquos ignorados ou pouco conhecidos. e enamoram-se delas por esnobismo e às vezes desposam-nas absolvendo-as de todo defeito (prepotência. falta de educação. 1) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os jovens italianos que caem em um êxtase cretino diante de qualquer estrangeira também agora que a crise mundial as empobrece. Infelizmente. domina uma mania bestial a que chamamos estrangeirofilia. estrangeirófilo. A Gazzetta del Popolo de 24 de setembro de 1931 publicou este manifesto de Marinetti contra a estrangeirofilia: Contra a estrangeirofilia Manifesto futurista às senhoras e aos intelectuais “Apesar da força imperial do Fascismo. 2) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os intérpretes italianos de fama mundial (artistas do canto. e que deve ser combatida violentamente. inventadas por nós.indd 152 7/4/2009 15:51:23 .

preferem proclamarse filhos de inovadores franceses. Le Corbusier ao invés de filhos de autênticos inovadores italianos como Boccioni. à maneira de muitos novecentistas e de muitos racionalistas. já apreciadas.A cozinha futurista concertos no exterior quase sem música italiana. 153 Cozinha futurista. toda a literatura italiana (hoje original. Um patriotismo elementar exige pelo menos metade de música italiana moderna ou futurista em substituição àquela de Beethoven. um gênio altíssimo em um povo de medíocres iletrados.. criador da nova arquitetura. contra o nosso exército e contra a nossa grande guerra vitoriosa. privilegiam os episódios irrelevantes como Caporetto. Brahms etc. variada e divertida) com a esperança de parecer. maleducadamente. cada um.. criador da nova plástica e Sant’Elia. suíços como Cézanne. 5) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os industriais italianos que encontram mil pretextos para refutar uma batalha decisiva com a indústria estrangeira e têm orgulho de vencer disputas internacionais com produtos. 6) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os históricos e os críticos militares que. definem “pecadinhos lícitos” as ofensas escritas e publicadas por literatos italianos contra a Itália. 9) São estrangeirófilas e portanto antitalianas as assembléias que ao invés de taxar como infâmia.indd 153 7/4/2009 15:51:23 . máquinas ou aparelhos não inteiramente idealizados e construídos na Itália. da nossa grande guerra vitoriosa. Bach. espanhóis. 8) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os pintores. penetradas e admiradas por todos até a saciedade. 7) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os literatos ilustres que denigrem. 4) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que aplaudem ao invés de vaiar os regentes estrangeiros quando. Picasso.. esquecem a música italiana em seus concertos na Itália. os escultores e os arquitetos italianos que. no exterior.

produtos estrangeiros com olhares céticos e pessimistas para os produtos italianos. o Barbaresco da condessa C. superioridade agora já destruída pela crise mundial. 12) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade. talvez adequados à raça norte-americana. 11) São estrangeirófilas e portanto culpadas de antitalianidade as senhoras italianas da aristocracia e da alta burguesia que se estusiasmam pelos costumes e esnobismos estrangeiros. enamorados pela paisagem e pelo clima da Itália.Fillippo Tommaso Marinetti 10) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os hoteleiros e negociantes que não aproveitam os rápidos e eficazes meios que têm à sua disposição para influenciar italianamente o mundo (uso da língua italiana nos cartazes. Cretina e cafona a senhora italiana que acha mais elegante dizer: “bebi quatro cocktails” do que dizer: “comi um minestrone”. Elegantes senhoras italianas. Nestes encontros será premiada a melhor qualidade do vinho que as une.indd 154 7/4/2009 15:51:23 . presos pela criticomania. Exemplo: o esnobismo americano do álcool e do “cocktail-party”. mas certamente nocivos à nossa raça. vaiam sistematica- 154 Cozinha futurista. os italianos e as italianas que saúdam romanamente e depois nos negócios pedem. 13) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que. babando-se. ou o Capri branco da princesa D. logotipos e nos cardápios). esquecendo-se de que os estrangeiros. Consideramos portanto cafona e cretina a senhora italiana que participa orgulhosamente de um “cocktail-party” e relativa disputa alcoólica. podem também admirar e estudar a sua língua. E basta que a palavra “bar” seja substituída pela italianíssima “Aquisebebe”. A menos que ela se submeta à invejada superioridade financeira do exterior. nós lhe rogamos a substituir o “cocktailparty” por convenções vespertinas que poderão chamar à vontade de o Asti espumante da senhora B..

não teria acontecido sem o Futurismo italiano” e esta também explícita declaração de Antoine no Journal de Paris: “Nas artes decorativas os caminhos foram há tempos abertos pela escola de Marinetti”. 155 Cozinha futurista. Outras Nações. cujo cérebro foi desenvelhecido e agilizado pelo Futurismo italiano. capazes de ensinar ao mundo. nós futuristas. podem. 14) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os empresários italianos que procuram no exterior professores de teatro e cenógrafos. Antitalianamente eles esquecem por exemplo esta explícita declaração do poeta futurista inglês Ezra Pound a um jornalista americano: “O movimento que eu. 15) São estrangeirófilos e portanto culpadas de antitalianidade as cultas senhoras e os críticos da Itália. gritamos hoje: a) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: gênio. invejada e ameaçada por todos. em pleno enfraquecimento parlamentar social-democrático-comunista-clerical gritávamos: “A palavra Itália deve dominar sobre a palavra Liberdade!”. não criticadas nem ameaçadas por inimigos externos. Eliot. Joyce e outros iniciamos em Londres. Por isso. deve considerar o orgulho nacional como sua primeira lei de vida. que vinte anos atrás. pouco populosas. considerar o orgulho nacional como um artigo de luxo. b) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: inteligência. esquecendo-se dos italianos. cochilando sob o zumbido de complôs revolucionários que podem ser sedados.A cozinha futurista mente comédias e filmes italianos favorecendo assim a invasão de medíocres comédias e filmes estrangeiros. e que mesmo assim criticamno ou relevam-no para correr a pescar preciosamente Futurismos estrangeiros todos derivados do nosso. A nossa viril feroz dinâmica e dramática península.indd 155 7/4/2009 15:51:23 . pronta para explodir para realizar o seu imenso destino.

d) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: verdade.T. nunca contra a Itália. na inquietude de uma paz em equilíbrio. eu que fui aplaudidíssimo no Exterior. nós brutalmente dizemos: Lembrem-se sempre desta obra-prima italiana que supera até mesmo a Divina Comédia: “Vittorio Veneto”. fuzilaremos os estrangeirófilos antitalianos. segundo 156 Cozinha futurista. construir uma descuidada cúpula dupla de mármore em oferta ao inimigo.Fillippo Tommaso Marinetti c) A palavra Itália deve dominar sobre as palavras: cultura e estatísticas.” F. contra as nações estrangeiras. Em nome desta obra-prima. Indulgência plenária na arte e na vida aos verdadeiros patriotas. e tive na Itália mais vaias do que aplausos e apesar disso agradeço a cada dia as forças cósmicas que me deram a alta honra de nascer italiano. pai da arte. literatura e drama futuristas. isto é aos fascistas que vibram por uma autêntica paixão pela Itália e de um desmesurado orgulho italiano. Escrevo tudo isto com a serenidade de um patriotismo adamantino. se necessário. nós. Facas e Garfos para Todos são banidos no Manifesto da Cozinha Futurista Marinetti. filósofos e filósofas) que tentam hoje. Que o fogo da crítica seja direto. artista.Marinetti Espaguete para Italianos. No tocante aos muitos céticos e derrotistas (literatos.indd 156 7/4/2009 15:51:23 . simbolizado pelos escombros do Império Austro-Húngaro que os nossos blindados tiveram que superar na estrada de Tarvisio. acaba de publicar em Roma um manifesto sobre a Cozinha Futurista. ao primeiro perigo.

A ciência moderna será empregada na preparação dos molhos e um dispositivo semelhante ao papel de tornassol será utilizada na cozinha futurista para determinar o grau correto de acidez ou alcalinidade em um dado molho. já que estes pratos suplementares não serão ingeridos. por meio de sucessivos bocados únicos. pode sugerir experiências tais como uma viagem ou uma aventura amorosa. o que. e aumento da velocidade. De fato.indd 157 7/4/2009 15:51:23 . na refeição futurista ideal. ou mesmo uma fração de bocado. exceto em raras ocasiões em que será empregada para reter o espírito do último prato até que o próximo possa ser servido. Não mais serão tolerados pelo novo culto discursos após o jantar. diversos pratos passarão sob os narizes do comensal somente para excitar a sua curiosidade ou para promover um contraste apropriado. o cozinheiro do futuro deve adaptarse aos fins da evolução. O primeiro passo deveria ser a eliminação das massas comestíveis da dieta dos italianos. apresentam a principal característica da nova “cuisine” como uma sucessão de pratos que contém um só bocado. publicado no “Comoedia”.A cozinha futurista notícias recebidas ontem de Paris. escreve Marinetti. A nova comida futurista permitirá uma influência literária que invada o comensal. Não mais espaguete para os italianos. A música será proibida à mesa. “Desde que tudo na civilização moderna tende à eliminação de peso. Detalhes do manifesto. Não mais facas e garfos. Entre os novos instrumentos de cozinha e de sala de jantar sugeridos por Marinetti. Praticamente tudo o que está relacionado aos tradicionais prazeres dos gourmets será erradicado. encontram-se um ozonizador que dará aos líquidos o 157 Cozinha futurista. somado a um serviço rápido ideal.”.

O líder futurista também sustenta que se deve abandonar o hábito de comer diariamente por prazer. Este é um dos pratos que. de acordo com o novo sistema. não poderia ser atacado com garfo e faca. Além disso.Fillippo Tommaso Marinetti sabor e o perfume do ozônio. Marinetti defende o fim dos temperos ordinários atualmente em uso e uma consistente diminuição e redução do volume dos alimentos. Marinetti concentra a atenção em uma pintura futurista de Fillìa. de uma paisagem sintética feita com substâncias comestíveis.indd 158 7/4/2009 15:51:23 . ele recomenda uma nutrição científica por meio de pílulas e pós. alguns pratos serão cozidos sob alta pressão. e ser cortado em pedaços livremente antes de ser comido. de modo a variar os efeitos da temperatura. possa ser apreciado esteticamente. A paisagem é composta por um assado de carne de veado recheado com onze tipos diferentes de vegetais. Além da abolição do macarrão. Para a alimentação diária normal. 158 Cozinha futurista. Como um modelo para a apresentação de um prato futurista. a ponto de permitir que quando um verdadeiro banquete seja servido. A eletrólise também será empregada para decompor açúcares e extratos. e também lâmpadas ultravioleta que tornarão mais ativas certas substâncias culinárias. disposto verticalmente sobre um prato e coroado com mel.

que era incitado à realização dos novos pratos pelos seus próprios clientes. encorajamentos. recebendo sempre pessoalmente. vice-secretário geral do movimento futurista italiano à imprensa romana. Ao final do Circuito de Poesia de Turim. um dos mais brilhantes jornalistas italianos.indd 159 7/4/2009 15:51:23 . Ercole Moggi. Entre estes últimos. entre os quadros futuristas da galeria Codebó. 159 Cozinha futurista. Angelo Giachino. Recebendo às vezes algum cabo de couve. inclusos aqueles jornalísticos. enciumados da tradição da “sora Felicetta”. em parte entusiastas.A cozinha futurista A revOLuçãO cOzinháriA Os GrAndes bAnquetes FuturistAs A taberna do santopaladar O manifesto da cozinha futurista provocou numerosos congressos e comícios entre os cozinheiros e donos de restaurantes. a projetada manifestação: “Uma comunicação do pintor Fillìa. ansiosos por transformar cozinha e ambiente. anunciou assim na Gazzetta del Popolo de 21 de janeiro de 1931. Marinetti batizou com o nome de SANTOPALADAR o local destinado a impor pela primeira vez a cozinha futurista. do “spaghettaro” e de todas as outras gloriosas insígnias do verdadeiro gourmet. Tullio d’Albisola. Enquanto se trabalhava na decoração do local. Fillìa no movimento futurista seria como o subtenente geral da esquadra em ação. sustenta-as. mas tenta fazê-las penetrar. em uma matéria de capa com duas colunas. Em parte hostis. foi escolhido pelo pintor Fillìa e pelo arquiteto Diulgheroff o proprietário de um restaurante de Turim. depois de haver coroado com o capacete de alumínio o poeta-recorde de Turim. movimentou os ambientes gastronômicos da capital. Não se contenta em lançar umas idéias platônicas. consensos. mas também aplausos. uma batata ou outro legume.

cabeça de vulcão. Turim encaminha-se para ser o berço de um novo renascimento italiano. motor de 200 HP...Fillippo Tommaso Marinetti Os adeptos do macarrão esperavam que o Manifesto da Cozinha Futurista se mantivesse apenas na teoria. comentando o pronunciamento dos futuristas. deste modo. quem sabe? panela em perene ebulição. além de uma idéia prática e original: a abertura de uma cozinha experimental futurista em Turim e que terá como título “Taberna do Santopaladar” na qual serão não apenas futuristicamente estudados.. o gastronômico.indd 160 7/4/2009 15:51:23 . Evidentemente gosta de Turim já que tentou sempre ali as suas maiores iniciativas. Fillìa talvez seja o mais dinâmico dos futuristas italianos. boca de fogo de nitroglicerina. Seria necessário descrevê-lo de maneira futurista: chamá-lo. Trens especiais para Turim Um renomado jornal romano entre o tom sério e o engraçado. “Santopaladar” sem especulações Conseguimos achar Fillìa e não o deixamos mais escapar. para apreciar o notável “carnescultura” na “Taberna do Santopaladar”. Declarações muito importantes deviam sair daquele cérebro vulcânico. Fillìa antecipou-me: 160 Cozinha futurista. escreveu: “Temos a certeza que as ferrovias do Estado concederão descontos de cinqüenta por cento para que todos os italianos possam deslocar-se em massa a Turim. Assim. mas apresentados ao público os novos pratos. ou discussões polêmicas ou academia literária. Não conhecem evidentemente aqueles queridos rapazes! Os futuristas preanunciam de fato uma forte ofensiva contra a velha cozinha.

Eis aqui uma descrição autorizada: “O carnescultura. A nutrição por rádio No “Santopaladar” de Turim. Fillìa dirigirá a renovação da cozinha italiana e fará aplicar e preparar os novos pratos dos artistas e cozinheiros futuristas. repito. Será decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim com o objetivo preciso de passar da teoria à prática na polêmica futurista. na Itália e no exterior. disposto verticalmente no centro do prato.. que a nossa iniciativa e a nossa atividade para a abertura do “Santopaladar” tem fins unicamente artísticos. idealizadores e propulsores de uma nova teoria cozinhária. interpretação sintética das paisagens italianas. Mas não teremos.Peço-lhe para relevar. é composto por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diversas de verduras e legumes cozidos.A cozinha futurista . Os leitores devem saber que Fillìa é o inventor do “carnescultura”. tanto que – segundo vozes que correm – o prof. O local não será um simples e vulgar restaurante. com o objetivo de estudar. A Taberna aparecerá logo em Turim. que é o novo prato futurista mais clamorosamente discutido hoje. nenhum interesse no maior ou menor sucesso (nós o esperamos imenso) da iniciativa. Não se trata portanto de uma especulação minha ou de Diulgheroff. Este cilindro.. Como se diz. se forem rosas. Donato ter-se-ia proposto. a fazer uma laparotomia gratuita aos primeiros degustadores do “carnescultura”. O leitor se perguntará o que é o “carnescultura”.indd 161 7/4/2009 15:51:23 . mas assumirá um caráter de ambiente artístico abrindo concursos 161 Cozinha futurista. Nós daremos simplesmente à taberna uma fachada futurista. acima de tudo. florescerão. é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”.

por meio do rádio. odores e valores que até ontem pareceriam absurdos. em certos restaurantes. Como o rádio pode difundir ondas asfixiantes e adormentadoras (conferências. poderá também difundir extratos de ótimos 1 No original.indd 162 7/4/2009 15:51:23 . novelas1 etc. Até hoje. uma difusão de ondas nutrientes. notem os seguintes que reproduzo textualmente: a) “os futuristas declarando-se contra o macarrão e indicando novos desenvolvimentos da cozinha italiana. mas pretendem renovar o gosto e os hábitos dos italianos. ou de preferir um prato a outro. por isso optamos por traduzir novela. 162 Cozinha futurista. O que há de prodigioso e que talvez tenha escapado até a Marconi. porque eram diversas também as condições gerais de existência. O “Santopaladar” lançará em breve o seu preciso programa técnico. Este primeiro capítulo dispensa comentários. por meio do rádio. mas de inventar novos pratos. Aconteceram na vida prática do homem tais modificações mecânicas e científicas que se pode chegar mesmo a um perfeccionismo cozinhário. não seguem somente o lado importante da economia nacional. De resto a coisa não é lá extraordinária. per finire é algo que está sempre por acabar. havia um odor que Deus nos livre. é a possibilidade de realizar. de pintura e de moda futurista. uma difusão de ondas nutrientes. assassinar os velhos enraizados hábitos do paladar. “per-finire”. a uma organização de sabores. É toda uma revolução. Agora reorganizaremos os odores.). Deve-se. jazz. o odor dos pratos lavados será transformado em odor de lavanda. noites de poesia. Por exemplo.Fillippo Tommaso Marinetti e organizando no lugar do habitual café post-prandium ou da habitual dança. dicção de poesia. variando-se continuamente o gênero de nutrimentos e de combinações. para preparar os homens aos futuros alimentos químicos e talvez à não distante possibilidade de realizar. Provavelmente trate-se de outro neologismo marinettiano. Não se trata simplesmente de substituir o macarrão pelo arroz. Entre os pontos mais importantes.

Alcançaremos pratos ricos de diferentes qualidades. Não é verdade que os futuristas sejam inimigos do vinho e da carne. Pergunto ao vice-secretário do movimento futurista se a inauguração do “Santopaladar” será feita com solenidade. o lado estético. Marinetti inaugurará o “Santopaladar” Fillìa ainda me fez outras importantes declarações.indd 163 7/4/2009 15:51:23 . a profissão. Que paraíso então! O problema é que caminhará rumo à abolição da cozinha e portanto do “Santopaladar”. Responde-me: 163 Cozinha futurista. nenhuma base em comum com as afirmações de Marco Ramperti. a sensibilidade”. Fillìa nos disse: “Em nosso próximo proclama para o “Santopaladar” estará bem esclarecido que.. que multipliquem ao infinito a alegria de viver: coisa impossível de se obter com os alimentos aos quais se está “habituado”. O Manifesto da cozinha futurista não tem. O segundo capítulo também é explícito: b) A cozinha até hoje não levou em conta.. Combatem-se assim os lamaçais de molho. enquanto a química não criar substâncias sintéticas que tenham a força da carne e do vinho. para inventar novos pratos que dêem alegria e otimismo. é preciso defender a carne e o vinho de qualquer ataque. Um almoço no “Santopaladar” terá um preço normal. Outra coisa importante que apreendi é esta: que os pratos futuristas não serão caros. e sobretudo o mole e antiviril macarrão. portanto. o caráter. a não ser pelos doces.A cozinha futurista almoços e cafés da manhã. em que será estudado para cada um o prato que leve em consideração o sexo. os fragmentos desordenados de comida. mas tem a tendência inversa de novos horizontes culinários de renovar o gosto e o entusiasmo do comer. O nosso refinamento sensível pede ao contrário um estudo completamente “artístico” da cozinha.

salada. Esta lista será completada por surpresas indispensáveis para formar a atmosfera da nova refeição e terá além de tudo perfumes.Certamente. junto à loira Albana. poupe ao menos a “salama vecchia” da Romanha. acendia a veia poética de Giosuè Carducci e de Giovanni Pascoli”. a venerável “salama da sugo” que. com rumores e odores). Compreenderá os doces Reticulados do céu do escultor Mino Rosso e o Ultraviril do crítico de arte cozinheiro futurista P. É acompanhado no exterior. o conhecidíssimo Carnescultura.Nada.Compreenderá alguns de meus pratos e isto é: Todoarroz (com arroz. Ah.E da velha cozinha – pergunto a Fillìa – o que ficará em pé? Responde-me com tom inexorável: . música. E responderá à altura. É evidente que o sucesso. seja clemente. Fillìa. A.Pode-se saber a lista dos pratos do almoço inaugural? . Até hoje o pobre consumidor não encontrava ninguém que respondesse por uma má refeição. Além disso compreenderá os pratos publicitários do arquiteto Diulgheroff e os alimentos simultâneos de Marinetti e Prampolini. . Bastaria a invenção do prato Ultraviril. achados. a Aerovianda (tátil. Este é evidentemente um achado útil. Mas então adeus “tajadele al parsott”. .indd 164 7/4/2009 15:51:24 . Acabou-se o tempo das comidas dos Artusi. os perfumes e os outros achados. Exª Marinetti. sem considerar a música.Fillippo Tommaso Marinetti . originalidade. não poderá ser nada menos que extraordinário. que responderá a todas as críticas. vinho e cerveja). Senti duas lágrimas rolarem-me nas bochechas. 164 Cozinha futurista. receita que faria chorar de inveja o doutor Woronoff. porque o acontecimento tem uma grande importância. Seremos duros. o Docelástico. delícia de minha juventude voraz. apenas as velhas caçarolas. Saladin. À inauguração intervirá também S. No “Santopaladar” teremos um acadêmico.

O pintor Fillìa. é preciso preparar o paladar às futuras alimentações. portanto. de qualquer modo. Estamos seguros. o restaurante futurista de Turim baterá sem dúvida a ciência dos velhos cozinheiros acadêmicos. no “Regime Fascista” de Cremona e na “Tribuna” de Roma a importância da iniciativa do Santopaladar. “não se trata. criticando os pratos contidos no manifesto da cozinha futurista. respondendo a diversos ataques. Mas.indd 165 7/4/2009 15:51:24 .A cozinha futurista Este artigo. Se os cozinheiros acadêmicos nos combatem somente pela razão técnica. Impossível também indicar somente os melhores escritos daquele período. Para tanto. que as profecias do ilustre Membro da Academia Culinária terão o mesmo resultado que as outras: apressarão o nosso sucesso”. como técnica. Reproduzimos em parte a carta de resposta a um cozinheiro romano que ameaçava os raios da Academia Gastronômica Italiana contra os cozinheiros futuristas: “o protesto dos cozinheiros acadêmicos relembra estranhamente a oposição que os professores de história da arte sempre fizeram aos movimentos de renovação artística neste século e no outro. é o espírito revolucionário do manifesto que deve importar: isto é. como o meu carneplástico que foi erroneamente visto como oposição ao macarrão. deu ensejo a uma infinidade de polêmicas irônicas e sarcásticas sobre os valores digestivos dos pratos futuristas. de falar de “técnica”: aqueles pratos. esclareceu repetidas vezes no “Lavoro” de Gênova. são os primeiros exemplos de uma série que criaremos. porque. a necessidade de modificar a cozinha porque se modificou o nosso sistema geral de vida. teremos os pratos econômicos e os pratos de luxo – os pratos que melhor se equipararão ao macarrão e os pratos para vencer em concorrência as velhas glutonarias. E. reproduzido em todos os jornais. estão vencidos: sua oposição 165 Cozinha futurista. rompendo os hábitos.

No entanto. etc. alcançava uma notoriedade mundial pela anunciada realização da cozinha futurista. e por conseqüência futuristas”.indd 166 7/4/2009 15:51:24 . enquanto os pratos antigos. fundaremos então uma Academia Gastronômica Futurista. não se poderão renovar”. E por outro lado.”. médicos ilustres e cozinheiros sábios dão-nos razão e aderem à nossa luta. ainda antes de ser inaugurada.. tecnicamente perfeitos. à qual aderirão os cinqüenta mil artistas inovadores e simpatizantes da Nova Itália”. “a Taberna Santopaladar decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim gerará uma atmosfera que será o resumo da vida mecânica moderna e será portanto ‘necessário’ servir pratos novos. Como foram renovados os costumes. também se chegará ao triunfo da cozinha futurista. *** A Taberna Santopaladar de Turim. “a Taberna Santopaladar tem um proprietário e cozinheiros que a dirigirão. Entretanto. “segundo a cômoda teoria pacifista dos cozinheiros acadêmicos. os transportes. Mas se a Academia Gastronômica Nacional insiste em negar nosso esforço que pretende inventar pratos italianíssimos. Eu e o arquiteto Diulgheroff não cuidamos senão de sua inauguração e primeira orientação: estamos seguros da inteligência e da fé na modernidade que animam aqueles cozinheiros. as artes etc. nem mesmo o macarrão teria sido inventado: e continuar-se-ia a comer como os romanos antigos.Fillippo Tommaso Marinetti de artesãos não poderá vencer nossa força de artistas. os trabalhos procediam e o ambiente se formava no domínio preponderante do alumínio italiano “Guinzio e Rossi”: domínio que deveria dar ao local uma atmosfera de metalicida- 166 Cozinha futurista. E as criações futuristas alcançarão perfeições técnicas. chegamos a um momento em que tudo se deve renovar.

Isto é. os toldos. de leveza e também de serenidade. com vinho e cerveja (fórmula Fillìa) Aeroprato. encerra estes dotes essenciais e é verdadeiramente um filho do século do qual espera glória e eternidade. deve ser parte viva das outras formas da construção.Saladin competiam com os cozinheiros do restaurante. tátil. Piccinelli e Burdese. Eis a lista da primeira refeição futurista: Antepasto intuitivo (fórmula da Senhora Colombo-Fillìa) Caldo solar (fórmula Piccinelli) Todoarroz.A. com rumores e odores (fórmula Fillìa) Ultraviril (fórmula P. Tudo concorria para completar o interior: os grandes quadros publicitários. assim como os materiais “nobres” do passado. ágil ossatura de um corpo novo. o sentido da vida de hoje. indispensável ao estado de atividade do organismo ambiental. de elasticidade.Saladin) 167 Cozinha futurista. A luz também é uma das realidades fundamentais da arquitetura moderna e deve ser “espaço”. O alumínio é o mais adequado e o mais expressivo dos materiais. na preparação dos pratos.A.indd 167 7/4/2009 15:51:24 . Na Taberna Santopaladar delineava-se então uma pulsante estrutura de alumínio e esta não era friamente utilizada para cobrir o espaço. mas servia como elemento operante do interior: alumínio dominante. a síntese e a tradução artística de toda a organização mecânica preponderante. A primeira refeição futurista A Taberna Santopaladar foi inaugurada na noite de 8 de março de 1931. os vidros trabalhados. após uma febril jornada de intenso trabalho na cozinha. os objetos diversos. onde o nosso corpo e o nosso espírito têm a necessidade de encontrar a afinação. onde os futuristas Fillìa e P. de esplendor.A cozinha futurista de. completado com os ritmos da luz indireta. No corpo do alumínio. a luz servia então como sistema arterial.

indd 168 7/4/2009 15:51:24 . cuja data ficará impressa na história da arte cozinhária assim. é preciso reconhecê-lo sinceramente. os pressupostos de sua doutrina. da tomada da Bastilha. do Tratado de Viena e do Tratado de Versalhes”. Frangofiat (fórmula Diulgheroff) Equador + Pólo Norte (fórmula Prampolini) Docelástico (fórmula Fillìa) Reticulados do céu (fórmula Mino Rosso) Frutas da Itália (composição simultânea) Vinho Costa – Cerveja Metzger – Espumante Cora – Perfumes Dory. nos afirmamos esta verdade: pensa-se. “Mesmo reconhecendo – adverte Marinetti – que os homens mal ou grosseiramente nutridos tenham realizado grandes coisas no passado. Stradella: “Ninguém ignora o interesse e as polêmicas que agitam o mundo inteiro. Uma notícia redigida nestes termos não pode ser nada além de maravilhosamente futurista. as datas do descobrimento da América. O acontecimento assumirá estão uma importância excepcional. como indelevelmente foram fixadas.Fillippo Tommaso Marinetti Carnescultura (fórmula Fillìa) Paisagem alimentar (fórmula Giachino) Mar da Itália (fórmula Fillìa) Salada mediterrânea (fórmula Burdese) 10. Apresentamos integralmente a notícia sobre a noite como apareceu no jornal “La Stampa”. 168 Cozinha futurista. em um completo artigo do redator Dr. Ninguém a não ser um futurista. sonha-se e age-se segundo o que se bebe e o que se come”. pela anunciada inauguração do Santopaladar. além de todo limite extremo. segue. na história do mundo.

A cozinha futurista

Rumo ao alimento em pílulas
Não gratificados, então, pelas imensas vitórias pictóricas, literárias, artísticas que acumula há vinte anos, o Futurismo italiano visa, hoje, a uma renovação de base: esta, de fato, ousa afrontar ainda a impopularidade, com um programa de renovação total da cozinha. Omitimos que o Santopaladar, apesar da aparência um pouco blasfema para o passadismo vulgar, é uma deliciosa taberna turinesa, na qual, durante a noite passada, aconteceu lugar a primeira refeição da cozinha futurista: uma lista de quatorzes pratos, vinhos diversos, perfumes, espumantes. O leitor, ou talvez melhor, a amável leitora, desejará conhecer, a fundo, as mais recônditas razões de tal tentativa, para falar passadistamente; ou de tal realização, para falar futuristicamente. O desejo é legítimo. Quanto à satisfação deste, somos tomados por uma sensação de responsabilidade ao responder. Responderemos, em todo caso, cientificamente, exatamente, valendo-nos das mesmas palavras do Chefe dos Futuristas italianos: “Autopraticamente, nós futuristas relevamos o exemplo e as advertências da tradição para inventar a todo custo um novo, julgado por todos “loucura”, razão pela qual estabelecemos agora o nutrimento adequado a uma vida sempre mais aérea e veloz”. Por conseqüência, são abolidos tantos pratos: o macarrão, em primeiro lugar, e enquanto se espera da química o cumprimento de um preciso dever, ou seja aquele “de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos (fornecidos gratuitamente pelo Estado) em pó ou pílulas” invenção única, apta a nos fazer alcançar “uma real diminuição do preço da vida e dos salários, com relativa redução das horas de trabalho”; na espera desse dia, então, poder-se-á realizar a refeição perfeita, que exige uma harmonia original da mesa (cristais, louças, ornamentos) com os sabores e as cores dos alimentos e originalidade absoluta dos próprios alimentos.

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Fillippo Tommaso Marinetti

Na taberna de alumínio
Mas agora retornamos à Taberna Santopaladar idealizada, criada e decorada pelo arquiteto Diulgheroff e pelo pintor Fillìa, e que vocês devem imaginar como uma grande caixa cúbica enxertada, de um lado, em uma outra menor: adornada por colunas semi-incolores inteiramente luminosas e por grandes olhos metálicos, também luminosos, incrustados na metade da parede; fachada, de resto, de puríssimo alumínio, do teto ao chão. Aqui, por volta da meia-noite do domingo, haviam marcado um encontro os futuristas turineses e as pessoas por eles convidadas. Ao cumprimento do ritual estavam presentes, entre outros, S. Exª. Marinetti, Felice Casorati, o pintor Peluzzi, o pintor Vellan, o escultor Alloati, o professor Guerrisi, alguns jornalistas; não faltavam várias belas senhoras, em toilettes deliciosamente passadistas. Speaker oficial, ou seja o anunciador e o ilustrador de cada um dos pratos, era e não poderia deixar de sê-lo, o pintor Fillìa. Quatorze os pratos, já dissemos. Ei-los. Primeiro: Antepasto intuitivo. Não é difícil compreender que se trata, de certo modo, de uma surpresa, e de um outro, de uma preparação para o prato seguinte. Não se pode, a este ponto, esquecer que a invenção de complexos plásticos saborosos, cuja harmonia original de forma e de cor nutre os olhos e excita a fantasia antes de tentar os lábios, seja uma norma fundamental para uma refeição perfeita. Escolheremos, então, uma grande laranja, e através de um furo, liberá-la-emos de sua polpa: o esquelético invólucro nós trataremos de modo a obter a figura de uma pequena cesta, com o cabo e a redonda cavidade. Aqui colocaremos uma fatiazinha de presunto enfiado um em pedaço de grissini, uma alcachofrinha ao azeite, um pimentinha em conserva. No interior desta última será lícito enfiar um bilhetinho enrolado, sobre o qual será precedentemente escrita uma máxima futurista, ou mesmo um elogio a um convidado. Será fácil descobrir a surpresa já que rege “a abolição do garfo e da faca para

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A cozinha futurista os complexos plásticos que possam proporcionar um prazer tátil prélabial”. Em resumo, uma coisa finíssima.

Um prato com rumores e odores
Segunda: Aerovianda, tátil com rumores e odores (idealizada por Fillìa). Aqui há um pouquinho de complicações. Futuristicamente comendo, trabalha-se com todos os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição. Submetemos ao leitor algumas normas da refeição perfeita, que nos servirão para saborear completamente o sabor dos pratos vindouros: o uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Cada prato será, assim, precedido por um perfume com ele afinado, que será eliminado da mesa, mediante ventiladores. Ou como o uso dosado da poesia e da música como ingredientes imprevistos para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma determinada vianda. O segundo prato consiste em quatro pedaços: no prato será servido um pedaço de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza a ponta dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. Resultados maravilhosos: é provar para crer.

O metal que perfuma
Terceiro prato: Caldo solar (idealizado pelo cozinheiro Ernesto Piccinelli). É um consommé no qual são embalados alguns ingredientes, da cor do sol. Excelente. Quarto prato: Todoarroz (de Fillìa). É uma

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Fillippo Tommaso Marinetti coisa muito simples: um risoto à italiana, temperado com vinho, cerveja e fondue. Muito bom. Quinta rodada: Carneplástico. Este prato é um marco miliário da cozinha futurista. Transcrevemos aqui a receita, para a alegria das nossas leitoras: “interpretação sintética das paisagens italianas, é composto de uma almôndega cilíndrica de carne de vitela assada, recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes. Este cilindro, disposto verticalmente sobre a base do prato, é coroado por uma camada de mel, e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. Um prodígio de equilíbrio. Sexta: Ultraviril. Não nos demoraremos em descrições minuciosas: Basta dizer que é um prato para senhoras. Sétima: Paisagem alimentar. É o inverso dos pratos anteriores; esta é só para homens. Excelente. O mar da Itália, a Salada mediterrânea e o Frangofiat, o oitavo, o nono e o décimo pratos, servem-se juntos. Particularmente notável este último, idealizado por Diulgheroff. Pega-se um frango respeitável, e cozinha-se o mesmo em dois tempos: primeiro aferventado, depois assado. Cava-se na coluna da ave uma cavidade grande, dentro da qual colocam-se uma porção de bolinhas, das que se usam para coxim, de aço doce. Sobre a parte posterior da ave costura-se, em três fatias, uma crista de galo crua. Coloca-se no forno a escultura assim preparada, deixando-a por aproximadamente dez minutos. Quando a carne tiver absorvido bem o sabor das bolinhas de aço doce, então o frango é servido à mesa, com adorno de chantilly. Ainda foram servidos outros dois pratos, fora do programa. Um deles, oferecido exclusivamente aos jornalistas, não nos pareceu facilmente decifrável. Acreditamos ter encontrado traços de mortadela de Bolonha, de maionese, daquele tipo de doce turinês conhecido sob a denominação de creme Gianduia; mas, vinte e quatro horas depois da ingestão, após um minucioso exame de consciência, não somos mais capazes de afirmar nada. Mais simples, ao contrário, o outro prato extra,

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A cozinha futurista que o pintor Fillìa definiu Porroniana e Marinetti: porco excitado. Um salame cozido normal veio apresentado imerso em uma solução concentrada de café expresso, e temperado com Água de Colônia. O ritual, assim, está para chegar ao fim. E na hora do espumante falaram Felice Casorati, o escultor Alloatti, o advogado Porrone, Emilio Zanzi, o pintor Peluzzi e enfim S.Exª. Marinetti, que elogiou vivamente Fillìa e Diulgheroff pelos concretos resultados atingidos. Apareceram contemporaneamente: na “Gazzetta del Popolo” um divertido artigo de Ercole Moggi A taverna futurista do santopaladar inaugurada por F.T.Marinetti; no “Regime Fascista” um entusiástico artigo de Luigi Pralavorio: Macarrão já era: Carnescultura, no “Giornale di Genova” um favorável artigo de Marcaraf, A inauguração do Santopaladar. Eram os jornalistas presentes ao almoço. Em seguida, em todos os jornais italianos e estrangeiros, foram reproduzidos os artigos de Moggi e de Stradella, com clamorosos comentários e muitas fotografias reproduzindo os locais, as formas dos pratos, etc., etc. Enquanto jornalistas e fotógrafos de Roma e de Paris chegavam à “Taverna Santopaladar”, Ercole Moggi, após nova entrevista com o pintor Fillìa, publicou na “Gazzetta del Popolo” um outro artigo: Revelados os mistérios da cozinha futurista, em que eram fornecidas as fórmulas exatas das primeiras iguarias realizadas, indicava-se o custo mínimo das refeições futuristas e anunciavam-se outras surpreendentes manifestações iminentes. Sob os títulos: “Os cozinheiros futuristas em teste”- “Isto não é nada, avançaremos muito mais”- “Fillìa contra Artusi”- “Santopaladar? Ora!” os maiores jornais do mundo difundiram, discutiram e polemizaram. De Estocolmo a Nova Iorque, de Paris a Alexandria no Egito atingiam páginas inteiras de jornais ilustrados dedicados ao assunto. A cozinha futurista havia conseguido se impor e iniciava assim o período mais intenso de suas afirmações para a renovação da alimentação.

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redator-chefe do “Giornale Vinicolo Italiano” (que inteligentemente se ocupou.E. fornos. da cozinha futurista) o qual aborda o problema da decoração dos locais onde se consomem vinhos e bebidas italianas. caldeiras. etc. mas infelizmente continuam a recorrer aos estrangeiros. em muitos escritos.Fillippo Tommaso Marinetti As discussões sobre a cozinha futurista não deveriam naturalmente limitar-se somente ao campo alimentar. porque a nossa vontade de renovação expressou-se sempre claramente a favor de todos os ramos e de todas as atividades da arte e da vida. etc. por exemplo. neste mundo. O Eng. com indiscutíveis vantagens sobre os produtos importados.indd 174 7/4/2009 15:51:24 . é digno de nota também o artigo do Dr. que. Eis os pontos principais do seu artigo: “Há tanta gente.. ultimamente nos fazia notar a intensa propaganda da S. Alamanno Guercini. de dar um ar de modernidade às Feiras de produtos agrícolas e industriais. logo após a nossa batalha. construtores. etc. Portanto.. falam da necessidade de modificar também o interior dos locais. isto é.P. não apenas oferecem as maiores garantias.S para esta produção italiana e sublinhava como infelizmente os proprietários dos grandes restaurantes são ainda desconfiados a respeito das máquinas que. fornos elétricos. mas são estudadas de tempos em tempos de acordo com a necessidade de aplicação e funcionamento. que pode gostar das formas arquitetônicas antigas e degustar vinhos modernos (preparados nos ultramodernos estabelecimentos enológicos!) entre os muros de 174 Cozinha futurista. No manifesto da cozinha futurista fala-se com precisão da necessidade de servir-se da eletricidade e de todas as máquinas que aperfeiçoam o trabalho dos cozinheiros. esquecendo-se de que na Itália existem insuperáveis produtores de fogões. etc. são para sublinhar as adesões dos diversos jornalistas. Muitos restaurantes adotam fogões elétricos. de apresentar os alimentos e os produtos da cidade e do campo segundo o espírito dos nossos tempos. Pittalunga. Em um outro campo. arquitetos.

que se moderniza com o progresso multiforme: é uma bebida dinâmica. pavilhões. ou se por acaso pensam. no que concerne a arquitetura. restaurantes. em Roma. é entretanto bebida que se renova anualmente. de 4. decoração. que o vinho poderia hoje procurar e encontrar na arte dos inovadores. Provavelmente não querem nem mesmo lembrar que os barris de madeira cujos arredores são abundantemente decorados vão – ai de nós! – diminuindo de importância nas novas cantinas que adotam largamente as enormes baterias de banheiras em cimento armado em andares múltiplos.A cozinha futurista construção medieval. e após terem tentado ovalizar-se ao máximo. somente 1. Esta gente não pensa de fato que naquelas épocas remotas a uva era esmagada com os pés. Por exemplo: em um estabelecimento de recente edificação. ou nas catacumbas estranhamente complicadas.000 litros de capacidade.000 foram reservados aos barris de madeira.500. explodiram na construção das enormes tinas de 80. apresentação. Com isto. na genialidade dos futuristas. Se o vinho é uma bebida de tradição antiquíssima. Até mesmo os pobres tonéis seguem o influxo do modernismo. com respeito a todas as opiniões. Parece-me. ensurdecidos pela música selvagem à base das “jazz-band”.000.indd 175 7/4/2009 15:51:24 . Nós devemos dominar as nossas predileções artísticas pessoais e percorrer aquelas vias mais úteis e prático-econômicas de propaganda vinícola que parecem dar resultados. que 175 Cozinha futurista. que contém carburante-homem e carburante-motor. uma aliança muito apreciável. não atribuem a isso nenhuma importância. publicidade. não se negará nem se criticará qualquer outra iniciativa da arte para valorizar o vinho: apenas se solicitará que se abram as portas aos artistas de vanguarda e à sua atividade artística e publicitária.000 litros.

As direções das feiras e das mostras poderão fazer muito. pouquíssimas e esporádicas foram até hoje as tentativas. se manifestações vinícolas acontecerem em Roma. industriais. numerosos pavilhões de vinhos. Em Paris. comerciantes.. economia. Muitos catálogos de vinhos franceses são publicações completamente futuristas. esplendor de metais e de cristais. antes de construir stands. em Viena. do futurismo. consumidores. da propaganda e valorização do vinho italiano. etc. o Pavilhão de Arte Sacra é uma realização racional verdadeiramente útil. no campo da propaganda vinícola! E se os futuristas italianos se ocuparem com fecunda e prática atividade. E pode-se acrescentar. em Berlim. na Mostra Colonial. Em Pádua. aquele da economia: que não deve ser menosprezado nestes momentos difíceis. E o mais moderno e mais animado era o restaurante italiano idealizado pelos arquitetos futuristas Fiorini e Prampolini. cartazes futuristas. catálogos. Na Itália. 176 Cozinha futurista. aplicados praticamente. Quero acreditar que em 1932.Fillippo Tommaso Marinetti por muitas razões se pode imaginar bem aceita por um extenso público de produtores. farão coisa útil e boa. Deve haver lugar para todos. eram de estilo racional. centenas de bares são em estilo futurista. Nos concursos regulares dos pavilhões que tem por objeto o vinho. especialidades. aos numerosos valores dos locais modernos. elas se aproveitarão largamente das novas formas de arte. bela e que cumpre sua função. cerveja. de organizar a publicidade.indd 176 7/4/2009 15:51:24 . É tempo de exaltar e propagandear o vinho com os mesmos critérios da modernidade. restaurantes. Em Paris. licores. os vinicultores deveriam considerar seriamente as concepções artísticas novadoras. Neles há higiene. espaço. enquanto o trabalho destes artistas italianos é apreciado no exterior.

. durante a Mostra de Aeropintura Futurista. .indd 177 7/4/2009 15:51:24 .“Galleria Botti” de Florença.“Institutos Fascistas de Cultura” de Brescia e Cremona. na abertura da Mostra pessoal dos pintores futuristas Fillìa e Zucco. Oriani. Pozzo.A cozinha futurista Eu já esperava isto há um ano. de fevereiro de 1931 a fevereiro de 1932. fez. nas quais exaltou e impôs à atenção do público os valores da nova cozinha: .“Amici dell’Arte di Novara”. . E agora convidamos os artistas inovadores a colaborar conosco.Turnê de propaganda em diversas cidades da Tunísia. Conferências Cozinhárias A polêmica sobre a cozinha futurista era tão intensa e presente em cada um. . . escrevendo no “Giornale Vinicolo Italiano”.Conferências futuristas em Budapeste. inaugurando a Mostra dos pintores futuristas Fillìa. que todas as conferências de Marinetti eram freqüentemente seguidas por clamorosas discussões a favor e contra o macarrão. na intenção de servir. em frente a imensas multidões.“Sala dell’Effort” em Paris. .“Galleria Vitelli” de Gênova. Marinetti. aos interesses vinícolas nacionais”. a propósito da cozinha futurista. a favor e contra os novos pratos futuristas. na abertura da Mostra do grupo vanguardista e futurista “Sintesi”. . Mino Rosso. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. Diulgheroff. Saladin. inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. 177 Cozinha futurista. as seguintes conferências.“Circolo Sociale” di Cúneo. Zucco.“Circolo degli Artisti” de Trieste. Alimandi e Vignazia. também desta forma. .

docelástico. aerovianda (tátil. cervejas. perfumes e músicas da Itália. O horário estabelecido para o banquete já havia passado há muito e ninguém falava em finalmente dar princípio a este convívio luculiano. – Comer no futuro… que poderia haver de mais futurista? 178 Cozinha futurista. Presidente da Federação dos Comerciantes. mar da Itália. eu achava que os futuristas. no atraso são passadistas vocês também. carnescultura. com rumores e odores). A refeição futurista de Novara Durante a “Mostra de Arte Futurista” no Círculo dos Amigos da Arte de Novara.“Teatro Nacional” de Savona. A lista era composta pelas seguintes novidades: Antepasto Intuitivo. Aproximo-me de… . caro.Escute. vinhos. Eis como o diretor do jornal “A Itália Jovem” descreveu em um brilhante artigo o acontecimento: “É realmente um pecado que sobre este jantar futurista . . espumantes. Rosina. foi organizado. 18 de abril. para inovar. por iniciativa do Dr.realizado domingo. em Novara – ninguém tenha escrito um processo verbal estenografado consagrando ao futuro os comentários com que Fillìa preanunciava os pratos. Ele me olha e sorri irônico.Fillippo Tommaso Marinetti . um banquete dirigido pelos futuristas Fillìa e Ermanno Libani. por ocasião da Mostra dos grupos futuristas turineses e ligúrios. frangofiat.indd 178 7/4/2009 15:51:24 . todoarroz. fruta simultânea.Conferências em Sofia e Istambul. teriam antecipado mas ao contrário há a mesma espera asfixiante como em todas as refeições deste mundo burguês.

indd 179 7/4/2009 15:51:24 . Em relação aos odores. Há ainda um pedaço de cartolina sobre o qual estão colados. dos resfriados. tudo atravessado por pequenos bastões de grissini que. Isto também já sabíamos. assinado Enrico Emanuelli. Servem-nos elegantíssimos cestinhos escavados em casca de laranja e preenchidos com tudo o que constituía o velho antepasto caro às nossas bisavós: salame de autêntico porco e picles Cirio. o garçom passa com um grande esborrifador espargindo a cabeça dos convidados (sugerimos a Fillìa servir uma outra vez tal lavagem capilar. segundo informações seguras de estudiosos do gênero. morna. É convicção geral que este prato será na realidade pulado completamente para ser fiel à sua definição de intuitivo: mas não. as quais devem ser levadas à boca contemporaneamente com a mão esquerda. para a incolumidade. e consiste em minúsculos bilhetes encondidos dentro das azeitonas recheadas. servirá apenas para tocar com a mão direita dando sensações pré-labiais que tornam saborosíssimas as iguarias. um pedaço de veludo. Estes bilhetes são cuspidos. É composto por uma fatia de erva-doce. abertos e lidos em voz alta com grande deleite para os presentes: Emanuelli é o maior jornalista.A cozinha futurista O início da refeição Como Deus quer. entenda-se o Deus dos futuristas. Mas algo de novo existe. aquilo que Fillìa nos apresentará na mostra de arte sacra de Pádua. 179 Cozinha futurista. eram já utilizados mesmo há vinte anos. uma azeitona e uma bergamota. dos homens calvos). sentamo-nos à mesa: Antepasto intuitivo. um perto do outro. um pedaço de seda e um pedaço de lixa: não é obrigatório – explica Fillìa – comer a lixa. A Aerovianda E chegamos à Aerovianda: é um prato que não aconselho aos esfomeados.

Todoarroz: um prato muito viril na forma. Servirão um prato inventado na hora pelo cavalheiro Coppo. E a digestão é protegida. Sobre um prato ogival são dispostos sobre o maior raio pedaços de filé de peixe cozidos na manteiga sobre os quais são fixados em ordem decrescente com o auxílio de um palito de dentes. Comestibilíssimo: há até quem peça bis. que emite som parecido com o coaxar das rãs. um pedaço de banana da Austrália. uma cereja confeitada. como certos versos de poetas modernos e como todos os químicos brilhantes. O cavalheiro Fontana me sussurra: os pratos futuristas. e composto basicamente por arroz temperado com vinho e cerveja. proprietário do hotel d’Itália. Mas por que não reproduziram – pergunta. Um pouco da culpa é também do Grignolino quase mau-caráter.2 Arroz e feijão.Fillippo Tommaso Marinetti A refeição. um pedaço de figo. prossegue jubilosamente: o que deixou todos em tal estado foi o anúncio de que não haverá discursos oficiais. Os garçons servem enquanto o coaxar das rãs é reproduzido por uma “battistangola”. 2 Instrumento de ferro ou madeira. entre risos. ironias e sátiras. muda-se tudo : apagam-se as luzes brancas e continuam acesas as vermelhas: semi-escuridão. rãs e salame. 180 Cozinha futurista. Ótimo.A carnescultura – grita Fillìa – é o produto de todos os jardins da Itália. precisam de muita penumbra. Terminado o todoarroz. Aqui se corre o risco de uma indigestão! Passemos ao mar da Itália que até os passadistas poderiam sem esforço introduzir no elenco das delícias de família. alguém – também o grunhido dos porcos? Havia salame também!! .indd 180 7/4/2009 15:51:24 .

stop. O interior do pavilhão. Neste restaurante adequadíssimo. o sabor da nossa melhor cozinha. Café. calo-me a título de protesto. O grande banquete futurista de paris Na Exposição Colonial de Paris o arquiteto futurista Fiorini realizou um audaz pavilhão que sediou o Restaurante italiano. Davam ao ambiente uma atmosfera simultaneamente africana e mecânica que dava esplendidamente a vontade de interpretar os motivos coloniais segundo uma sensibilidade moderna e futurista. amplo salão com capacidade para mais de 100 mesas. em cima e no fundo molho Cirio. por reconhecimento geral. as “Edições Franco-Latinas” representadas pelos senhores Bellone e Farina e pelo senhor Pequillo.A cozinha futurista Nos dois lados do prato creme de espinafre.indd 181 7/4/2009 15:51:24 . O aspecto de um grotesco transatlântico. É um doce elástico porque colaram sobre cada um pedaço de ameixa. representam o que de mais moderno. tinha sido genialmente decorado com 8 enormes painéis do pintor futurista Enrico Prampolini: estes painéis. mulheres calvas e frangofiat! O docelástico é formado por modestas carolinas recheadas com creme de cores berrantes. Sobre o frangofiat. 181 Cozinha futurista. fruta seca. maçã. Fillìa tece elogios à mulher do futuro careca e de óculos: eis uma combinação de sorte. de mais lírico e de mais inventivo se pode realizar sobre o tema “colonial”. quiseram realizar pela primeira vez em Paris a cozinha futurista e entraram em acordo com os pintores Prampolini e Fillìa para o preparo da refeição. Para nos acalmar. A fruta simultânea é composta por diversos pedaços… de fruta descascada conectados entre si: laranja.

O jornalista futurista Francesco Monarchi. Les îles alimentaires (du peintre Fillìa) 8. Gateauélastique (du peintre Fillìa) 14. Hors d’oeuvre simultané (du peintre Fillìa) 4. tactile. Poulet d’acier – à surprise (du peintre Diulgheroff) Cochon excité – à surprise (d’un primitif du 2000). Préface variée (du peintre Prampolini) 6. Além de tudo. Les grandes eaux (du peintre Prampolini) 2. Estavam representados os maiores jornais franceses. 10. de canto e de música. Paradoxe printanier (du peintre Prampolini) 13. Aéromets. Machine à goûter (du peintre Prampolini) 12. Carrousel d’alcool (du peintre Prampolini) 3. Toutriz (du peintre Fillìa) 7.indd 182 7/4/2009 15:51:24 . Vins – Mousseux – Parfums – Musiques – Bruits et chansons d’Italie. Excitant gastrique (du peintre Ciuffo) 5. bruitiste et parfumé (du peintre Fillìa). o mero anúncio da refeição futurista havia levantado entre os compatriotas “bempensantes” uma onda de reprovações e de comentários hostis que ameaçavam uma complexa insurreição es- 182 Cozinha futurista. eram anunciados números de dança. Equatore + Polo-Nord (du peintre Prampolini) 9. redator-chefe da Nova Itália.Fillippo Tommaso Marinetti A multidão que se empurrava na noite da manifestação para intervir no grande banquete era a melhor de Paris. A lista dos pratos: 1. De fato. descreve assim o banquete: “Os acontecimentos que estamos para expor são de uma gravidade excepcional. entre um prato e outro. Viandesculptée (du peintre Fillìa) 11.

a segurança eletrizante de S. S. mantinham o mistério do iminente ritual. Estes bempensantes achavam indigno o caráter revolucionário dos pratos anunciados. muitos corajosos.A cozinha futurista piritual. Marinetti. não devem jamais ser tocadas. Somente as faces enigmáticas de Prampolini e Fillìa. a festosa alegria do ambiente animado pelos enormes painéis de Prampolini. Contrariamente aos nossos hábitos. organizadoras do evento junto com as Edições Franco-Latinas. o Príncipe de Scalea. especialmente as gastronômicas. sempre sensível a qualquer manifestação italiana. os títulos das iguarias podiam dar margem às mais negras apreensões e a complicação das músicas. transmitiram a coragem das próprias ações ao titubeantes.indd 183 7/4/2009 15:51:25 . não ousavam penetrar na sala. já que esses passarão para a história como precursores no degustar a cozinha do futuro. Apesar desta onda de pessimismo. estava à mesa de honra com alguns membros de seu 183 Cozinha futurista. que. dos perfumes. as tradições. dos rumores e das canções representava absolutamente um pesadelo dificilmente superável. em uma última dúvida angustiante. na realidade. recebiam os heróicos convidados. idealizadores dos pratos futuristas. No entanto. Exª. as duas senhoras estavam na impossibilidade absoluta de animar os temerosos. daremos uma ampla lista de nomes. encheram o salão do Pavilhão futurista na noite da última quarta-feira. a senhora Belloni e a senhorita Farina. dos pratos táteis. enfrentando a distância. reunidos na soleira. Por dever jornalístico devemos registrar que. Ex. *** Na entrada. o imponente aparato do pessoal de serviço e a branca calma tradicional das mesas postas. a inclemência do tempo e o terror do acontecimento. Palidíssimas de emoção (palidez que entretanto aumentava sua graça). porque segundo eles.

Vittorio Podrecca. tanto que alguns repetiram. Muitas e elegantes senhoras haviam corajosamente desafiado a aventura. Madame De Flandreysy. o doutor Lakowsky. o cavalheiro Gennari do Diretório. Madame Mola. com o representante do Ministro Reynaud. *** Às 21h30 um soar de gongo formidável reconduz os presentes à realidade das coisas. o advogado De Martino. a Senhora Podrecca. 3 vinho tinto do Piemonte 184 Cozinha futurista. Madame Lakowsky. Madame Castello. o Conde Emanuele Sarmiento. etc. o conhecido pintor Sepo. Surpresa geral ao pescar em uma chocolate e queijo navegantes em Barbera3 . a senhorita Cirul. Madame Van Donghen. entre os quais o Comendador Dall’Oppio e o Marquês de San Germano. o Regente do Fascio doutor Saini. Durio. o senhor Cartello. Notamos: a Marquesa de San Germano. etc. sidra e bitter e de recolher na outra uma cândida cápsula envolvendo uma dose de anchova. Algumas caretas.indd 184 7/4/2009 15:51:25 . a Condessa De Fels. o crítico de arte Eugenio D’Ors da Academia de Madri..Fillippo Tommaso Marinetti Comissariado. mas primeiro resultado satisfatório. a senhorita Budy. Madame Tohaika. a Senhora Pequillo. Madame Madika. o senhor Pequillo das Edições Franco-Latinas. etc. Madame Ny-eff. Em outras mesas: o advogado Gheraldi da Sociedade dos Autores. Madame Massenet-Kousnezoff. Miss Moos. Uma imprevista luz verde torna ainda mais espectrais os comensais. São anunciadas as duas misturas-aperitivos criadas pelo pintor Prampolini: “As grandes águas” e “Carrossel de álcool”. secretário administrativo do Fascio. o deputado Ciarlantini.

enquanto a mão esquerda acaricia um prato tátil formado por lixa. tomates e espinafre. A “Aerovianda” é composta por frutas e legumes diversos que são comidos com a mão direita sem a ajuda de nenhum talher. Ao mesmo tempo. ovos e parmesão. se alarmaram pelas suas formas audazes. 185 Cozinha futurista. Primeiro intervalo: a senhorita Jole Bertacchini. conquistaram rapidamente a simpatia dos paladares. e os garçons esborrifam na nuca de cada comensal um forte perfume de cravo. anuncia a Aerovianda do pintor Fillìa. O “antepasto simultâneo” de Fillìa (casca de maçã triturada. cereja. A sala ribomba pelos gritos das senhoras violentamente aspergidas com perfume. do San Carlo de Napoli. o “estimulante gástrico” (rodela de abacaxi com sardinha. atum e nozes) e o “início variado” de Prampolini (manteiga. Na verdade. banana. posto que talvez apenas ela tenha compreendido quanta beleza possa derivar de uma interpretação absolutamente nova e genial da dança. azeitona. Quando começava-se a criar um certo hábito pela cozinha futurista. Nenhuma trégua: o “Todoarroz Fillìa” é anunciado como uma mistura de arroz.indd 185 7/4/2009 15:51:25 . veludo e seda. vinho. Outra interrupção e Mira Cirul inicia as suas danças que suscitam um grande e continuado entusiasmo. excelente união de peixe. cerveja. É devorado pelos comensais que começam a modificar seu primitivo estado de ânimo. pelos risos gerais e pelos aplausos definitivos e intermináveis. figo. canta deliciosamente e é muito aplaudida. salame e anchovas). a arte moderníssima desta dançarina de exceção é dificilmente superável. o Conde Sarmiento. a orquestra entoa um barulhento e violento jazz.A cozinha futurista Três antepastos servidos contemporaneamente cortaram pela raiz as polêmicas sobre os aperitivos. tomates e confeitos). Retorna inexorável o imponente desfile de garçons que trazem agora as “ilhas alimentares” de Fillìa. ovos. que se havia oferecido para ilustrar os pratos.

O “Frango de aço” de Diulgheroff e o “Porco excitado”. da Ópera e do ex-teatro imperial de São Petersburgo. apesar da audácia de formas e originalidade de conteúdo. acompanhada ao piano pelo Maestro Balbis. *** S. o “Paradoxo de primavera” e a “Máquina de degustar” de Prampolini. em duas interpretações. O corpo do frango mecanizado pelos confeitos de coloração alumínio. e após ter relevado a magnífica organização da noite por parte das “Edições Franco-Latinas”. com mais de 2000 artigos e demonstrou o sentido de arte-vida que sempre animou as atividades futuristas. S. da Ópera de Monte-Carlo. o Polo Norte + Equador de Prampolini. Desde já a renovação da cozinha futurista havia triunfado. Outro intervalo: a Senhora Maria Kousnezoff. Marinetti. que havia participado do banquete não somente presidindo-o mas intervindo a todo momento nas discussões e na exaltação das iguarias. manifesto que suscitou uma polêmica mundial.indd 186 7/4/2009 15:51:25 . A Carnescultura de Fillìa. elogiou o jantar futurista como a primeira realização em Paris do célebre manifesto da cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti (Apenas uma pessoa permanecia alheia ao entusiasmo geral: imediatamente interrogada descobriu-se que era canhota – por isso esfregava o prato tátil com a direita enquanto comia com a esquerda). foram apreciadíssimos. Depois de ter louvado as criações gastronômicas dos pintores Prampolini e Fillìa. Entre os diversos pratos. Marinetti com sua 186 Cozinha futurista. foram reservados a apenas dez pessoas dois pratos surpresa. O senhor Roberto Marino. e o salame imerso em um molho de café e água de colônia foram declarados excelentes. Exª. Exª. demonstrou mais uma vez sua excepcional qualidade de voz que lhe deram fama mundial. o “Docelástico” de Fillìa. cantou depois admiravelmente algumas canções napolitanas.

em que inaugurou-se uma Mostra de Arte Futurista. mais de 300 pessoas participaram do grande aeroalmoço realizado no Hotel Negrino: lá encontravam-se as maiores autoridades da Cidade e da Região. S.indd 187 7/4/2009 15:51:25 . realizou-se o Circuito de Poesia (ganho pelo poeta triestino Sanzin) e uma conferência de F. a 22 de novembro de 1931. Longos artigos foram dedicados ao acontecimento. Marinetti. no Corriere della Sera e em muitos outros jornais ita- 187 Cozinha futurista. na verdade. Marinetti sobre “Futurismo mundial”. T. A Baker recebeu a mais festiva acolhida e participou do final da excepcional noite que se fechou com danças animadíssimas. aparece na sala Joséphine Baker. a definitiva superação entre os convidados de suas últimas dúvidas sobre as conseqüências da cozinha futurista. Exª. teve um papel importantíssimo no bom êxito da festa: ao seu irresistível fascínio deve-se. Joséphine Baker transformada subitamente no centro das atrações mais vivo e completo. acompanhada pelo senhor Abbatino.A cozinha futurista habitual eloquência homenageou a coragem dos presentes e observou com satisfação o contentamento geral. uma jornada futurista. *** Enquanto se renovam os aplausos ao breve e vivo discurso de Marinetti. com muito espírito. Além disso. aludiu então aos números de canto e dança sobressaltando o proposital contraste da parte lírica (exclusivamente tradicional) com o futurismo integral do jantar e das danças. em todos os jornais lígures.” O aeroalmoço futurista de chiavari O Comendador Tapparelli organizou admiravelmente em Chiavari.

uma espécie de orgia carnescultural que se desenrolou nos salões do Hotel Negrino e que submeteu a uma dura prova o estômago de uns trezentos convidados. mas a um certo temor racional. por uma cabeça de vitelo nadando. muitos dos quais sentiam na cavidade gástrica um certo tremor que não era de todo devido ao apetite. esta empada. de nozes e de tâmaras: tâmaras que se revelaram. Era composta.indd 188 7/4/2009 15:51:25 . ao exame dos dentes. mísera e desconcertada. em meio a uma profusão de abacaxis. Tâmaras surpresa O almoço. especialmente vindo naquele dia de Milão a Chiavari. Cada prato foi escrupulosamente preparado pelo célebre cozinheiro Bulgheroni. 188 Cozinha futurista. entre a mais viva expectativa dos presentes.Fillippo Tommaso Marinetti lianos. para romper com os seus molhos a maciça porta fechada dos ravioli e do macarrão. é um bruto materialista. destes abacaxis e com estas frutas africanas misturadas a peixe. como se sabe. Damos aqui os pontos essenciais do brincalhão artigo de um redator do Corriere Mercantile: “A parte forte do dia – parte forte ao menos para o cronista ávido de divagações e desejoso de ocasiões para os assim chamados parênteses de cor – foi sem dúvida o “Primeiro aeroalmoço futurista”. desabrochou uma espécie de pudim que deixou cada esôfago engasgado de admiração. desta inocente cabeça. iniciou-se com uma Empada de aquecimento: uma espécie de antepasto talvez poético demais para ser apreciado devidamente pelo estômago que. cheias de uma surpresa quase ciclópica: elas estavam cuidadosamente recheadas de anchovas de modo que.

renunciou a levá-lo a cabo e contentou-se apenas em tirar do prato uma pétala de rosa. de modo que não se podem reprovar os que não souberam reprimir um instintivo gesto de terror no momento em que apareceu a taça contendo o “alimento conclusivo”. “Boi na fuselagem”. aos netos. Teve lugar o terceiro prato. Eletricidade atmosférica confeitada E eis que aparecem os garçons com grandes bandejas carregando o “servovoadinhas de pradaria”. mais tarde. acomodadas sobre aeroplanos de miolo de pão. menos belas as almôndegas. Belos os aviões. Alimento que se vangloriava de 189 Cozinha futurista. vagas e frágeis. então.A cozinha futurista As rosas em brodo Prosseguiu-se. grandes pétalas de rosa. De qualquer modo. enxugá-la com o guardanapo e guardá-la na carteira como recordação do almoço e como testemunho de um banquete a ser contado. que como nunca então pareceu um alimento precioso e divino. nome que designava um brodo de natureza bastante bizarra. seu aparelho digestivo em condições não de todo normais. Postos diante de tal obra prima da lírica brodística. onde fatias de beterraba e fatias de laranja faziam complô aliadas a azeite. que consiste em uma combinação discretamente diabólica. ou seja. os convidados tentaram corajosamente o experimento da deglutição. este prato esteve entre os mais apreciados como aquele que ofereceu a muitos dos convidados o direito de saciar sua fome ao menos com pão.indd 189 7/4/2009 15:51:25 . composto por partes quase iguais de caldo de carne. que para os iniciados deve ter extraordinárias virtudes apetitivas. a esta altura. vinagre e pitadas de sal. de champagne e de licores: sobre esta mistura. porém mais de um com evidente covardia. audaciosamente com um Decolapaladar. Muitos dos convidados já tinham. misteriosíssimas almôndegas sobre cuja composição não é belo nem útil indagar. nadavam.

assim. Estas queridas e inesquecíveis “eletricidades” tinham a forma de coloridíssimos sabonetes de mármore fingido. T. contendo em seu interior uma massa doce formada por ingredientes que só poderiam ser precisados após uma paciente análise química. Devemos dizer. e o salão da Casa do Fascio. com admirável eloquência que lhe escapava espontânea como se ele não tivesse tocado na comida. ao menos. Dizemos infelizmente porque um tal grupo de heróis merecia. ao Amarração digestiva: amarração que nem todos realizaram. levantou-se o poeta Farfa. A seguir os mesmos pintores. E levantou-se a falar Marinetti que. uma importante Mostra de Aeropintura que foi inaugurada por F.Fillippo Tommaso Marinetti um nome excessivamente dinâmico: “Eletricidade atmosférica confeitada”. entre a maior expectativa. escolhido pelo especialíssimo desafio culinário. dado que muitos já estavam aprofundados no momento da decolagem. irrompeu em um violento sermão contra a infâmia do macarrão e o vitupério dos ravioli. serviram na Casa do Fascio um grande Aerobanquete (cujo preço era de 20 liras por pessoa). que apenas uma mínima parte dos banqueteadores ousou levar este sabonete à boca: daqueles que ousaram. exaltando.indd 190 7/4/2009 15:51:25 . O aerobanquete futurista de bolonha Os pintores futuristas Caviglioni e Alberti organizaram em Bolonha. pelo escrúpulo de cronistas. que declamou com ímpeto aviador um hino quase pindárico intitulado ‘Tubulação’ ”. que foi assim narrado no Resto del Carlino: “O sucesso de curiosidade do Aerobanquete foi enorme. no confronto. os pratos futuristas e particularmente as tâmaras anfíbias das quais. Ao sentar-se Marinetti. no Círculo dos Jornalistas. recebeu ontem à noite às 21h30 ( também o horário era ligeiramente fora 190 Cozinha futurista. Chega-se. ser eternizado em uma lápide de bronze. Marinetti em 12 de dezembro de 1931. foi possível provar um inesquecível ensaio. infelizmente não sabemos os nomes. no início do banquete.

Ghigi. e pior para quem não sabe distinguir entre as coisas que servem ao prazer do estômago e aquelas destinadas à alegria dos olhos. os pratos e os talheres. para nossa sorte! . Como no avião O Aerobanquete justificou o próprio nome através do cenário criado pelos organizadores. o rebelde movimento de ódio ao macarrão. Pouquíssima coisa visível. (Desabitada. que veio para sancionar com o sagrado selo do Studio. como costuma acontecer nos aviões autênticos). Os copos são os de sempre. e é preciso confessar que a forma se presta extraordinariamente ao cozimento perfeito da massa e ao seu abiscoitamento. mas pãezinhos propositadamente modelados. ou kipfel vienense. lá no fundo a cauda. No lugar das toalhas de sempre encontramos folhas de papel prateado. Nada das rosetas comuns ou bastões à moda francesa. A síntese das mesas é evidente.A cozinha futurista dos padrões!) muitas pessoas. promovidos pela ocasião a motores de avião. mais atrás dois cilindros de motocicleta. idem idem. As mesas foram dispostas com inclinações e ângulos. mas não há absolutamente flores. jornalistas. que na fantasia dos promotores queriam ser alumínio. Aqui as asas – mas finas e estreitas como em um hidroplano de alta velocidade – aqui a fuselagem.. que reproduzem a forma de um monomotor ou de uma hélice. Entre as asas uma grande hélice – parada. elas são substituídas por batatas cruas.indd 191 7/4/2009 15:51:25 . Outra descoberta autêntica: o pão. senhoras e simples gourmets. E entre as autoridades estavam o Governador da Província comendador Turchi e o Reitor magnífico da Universidade prof. coloridas grosseiramente e entalhadas artísticamente. entre as quais notavam-se personalidades e autoridades. 191 Cozinha futurista. pintores. e uma chapa de lata polida serve como apoio de prato onde as senhoras controlam – Oh! o delicioso espelho de sorte – sua comprometida maquiagem. dando a impressão de um avião.

192 Cozinha futurista. … e os rumores “nutrientes” Temíamos o advento de qualquer complicação. O cardápio fala de “Estrondos ascensionais” mas S. O qual se chama “aeroporto picante”.Fillippo Tommaso Marinetti Última constatação: os garçons usam um colete de celulóide de cor azul. mas repentinamente a sala imergiu em uma diáfana luz azul e um motor começa a funcionar na sala ao lado. o prato número dois apresenta-se majestosamente entre os “oh” dos presentes. O risoto de laranjas… O aerobanquete é inaugurado de modo levemente passadista: com o antepasto.indd 192 7/4/2009 15:51:25 . O risoto de laranja. provoca certa inquietude nos escalões. com o acréscimo de uma fatia de laranja casada com uma fatia de ovo cozido e uma azeitona. exibe um pomposo e muito chamativo colete deperiano4 de mil cores. mas não nos parece nada além de uma salada russa alten-styl. sejamos sinceros.Observem como o barulho dos motores favorecem e nutrem o estômago… É uma espécie de massagem do apetite… 4 Relativo ao pintor futurista Fortunato Depero. enquanto o pintor Alberti. o molho! – é a base de laranja. E com pequenas fatias de laranja fritas doura-se a palidez da iguaria. mas o molho – ah. Excelência Marinetti rebatiza o prato assim: risoto de laranja. E a laranja foi coberta com manteiga colorida rosa… Antes porém que os pareceres sobre o prato de inauguração se difundam. onde o arroz é sempre aquele… o mesmo. O pintor Alberti anuncia gravemente – mas por que aquele senhor sorri? – que o avião voa a oito mil metros de altitude e Marinetti confirma com autoridade explicando: . diretor do refeitório.

O vinho em … latas. não sente nenhuma saudade. S. Trata-se na verdade de um escalope de vitelo. o “Carnescultura com fuselagem de vitelo” – chega. . servido de algumas latas de óleo extradenso. O prato.A cozinha futurista Finalmente se desce novamente da “estratosfera” culinária. entre uma taça de carburante nacional e um aceno nostálgico. E é um sucesso indiscutível. Marinetti. Exª.Justíssimo… Eu deveria tê-la encostado ao ouvido. Isto não é valo… E Magli num reflexo: . O Aerobanquete prosseguiu assim entre um prato e uma piada. e a multidão não encontra nada melhor que colocar-se a bater furiosamente sopre os pratos de lata. É o vinho em galões. para 193 Cozinha futurista.indd 193 7/4/2009 15:51:25 . representante dos Aqueus. aos tortellini com molho. E não adianta que S. e o acompanhamento compreende duas cebolinhas e duas castanhas fritas. é futurista somente nas nuances. e na expectativa do prato central.Exª.Queremos o carburante nacional. Marinetti aumente o seu… gelo. (Seria necessário outro). aliada a uma lingüiça fina. ao contrário. mas em voz baixa. E o carburante nacional (vulgo vinho das nossas colinas) avança triunfalmente. os comensais se prestam a mordiscar as asas dos aviões panificados.Isto – exclama – é passadista. Ele é entusiasta do simpósio e pede aliás aos cozinheiros que façam-se presentes. afirmando que a oito mil metros de altitude os alimentos não possam manter-se fervendo… Pouco depois o chefe do futurismo dirige a própria ofensiva contra o pacífico doutor Magli. – E uma homérica risada recebeu a piada. promovidos assim ao posto de “entoarumores”. interrogando-o por que ousara cheirar a carne antes de experimentá-la. Mas depois dos experimentos a base de laranja. para ouvir se relinchava. . para se dizer a verdade. Mas também o prato central – ou seja. as duas castanhas junto com uma lingüiça não produzem mais nenhuma impressão! Um pecado que a carne – depois do habitual giro de apresentação em volta das mesas – chegue quase fria.

acolhidos pelos aplausos de Marinetti e seus sequazes.Não vêm porque têm medo de nós! Mas trata-se de evidente calúnia. o banquete encerrou-se com discursos. Mas os solicitados demoram a vir. Os tagliatelle – diz – são agora a última trincheira dos passadistas. porque. Teceu então elogios à cozinha futurista. perdoem-nos. Queremos para tanto que a cozinha italiana não se torne um museu. mas os tagliatelle são outra coisa!” Por fim. como por exemplo o arroz temperado com laranja. e Marinetti repete a interpelação. Mas os dois cozinheiros estão incertos.indd 194 7/4/2009 15:51:25 . algumas das quais – acrescentou – são achados importantíssimos. levantou-se a falar a medalha de ouro Onida. a obesidade. A cozinha futurista é a realização do desejo geral de renovar a nossa alimentação. – E então uma voz clara se levanta do fundo da sala.Meus senhores. mesmo se os anos nos acenam com suas chuvas e suas neblinas. dois cordons bleus da Casa do Fascio fazem sua entrada. De fato. levantou-se Marinetti para declarar que a sua eloquência estava literalmente tampada pela suculência variada e deliciosa das aeroiguarias degustadas. Nós queremos manter a nossa antiga vitalidade goliardesca.Fillippo Tommaso Marinetti aplaudi-los. enquanto um anônimo enviava um telegrama em que dizia textualmente: “Abaixo o macarrão. tudo bem. é a luta contra o peso. mas a culpa não é nossa… Abaixo a “cozinha-museu” Iniciado pelo antepasto. a trincheira da massa com ovos. O nosso esforço tende a militarizar todas as nossas jovens forças. a barriga. – Venham os cozinheiros. logo depois. então o doutor Magli expressou os sentimentos dos “tagliatelistas”. Temem ser satirizados e parece que dizem em seu mudo discurso: . de onde o macarrão está definitivamente em retirada. proclamando: . Afirmamos que a genialidade italiana é capaz de inventar outros três 194 Cozinha futurista.

um enorme número de caricaturas e de anedotas circulava em todos os semanários.I.A. exaltados. depreciados. um número incalculável de mulheres se reuniu para assinar uma solene carta-súplica a favor do macarrão. ( Propaganda internacional contra o macarrão) que abria vários concursos para combater a iguaria odiada e inventar novos alimentos.Exª. com a ponta de um garfo que fazia as vezes de buril”. Novara. Anedotas típicas Além dos milhares de artigos nos quais eram discutidos. Seria possível formar diversos volumes recolhendo toda a explosão de bizzarria. 3) Houve em Nápoles cortejos populares a favor do macarrão. porém mais adequados à sensibilidade modificada e às necessidades modificadas da geração contemporânea. As mulheres de Áquila que nunca antes se haviam preocupado. Com uma nova explosiva saudação aos colaboradores bolonheses. S. em todas as revistas ilustradas ou diretamente entre o público. Marinetti concluiu o seu discurso e o Aerobanquete terminou. julgaram necessária esta sublevação coletiva.A cozinha futurista mil pratos. Paris. tão profunda era nelas a fé no macarrão. 195 Cozinha futurista. igualmente bons. Chiavari e Bolonha. nem mesmo com problemas importantíssimos. Esta carta foi dirigida a Marinetti.P. São típicas as seguintes anedotas: 1) Em Áquila. invenções e humorismos sugeridos pela cozinha futurista e pela sua realização.indd 195 7/4/2009 15:51:25 . condenados e defendidos os grandes banquetes futuristas de Torino. nos quais o chefe dos futuristas foi obrigado a marcar a própria assinatura. enquanto os comensais levavam como recordação os pratos de lata. 2) Apareceu nos jornais de Gênova o comunicado da fundação de uma Sociedade chamada P.

os clientes de duas trattorias italianas. preparam outras inovações originais. um novo sentido de otimismo e de alegria dissipou o nostálgico e cinzento hábito dos velhos jantares e os futuristas.Fillippo Tommaso Marinetti 4) Em São Francisco. Califórnia. No entanto. um teatro de revista intitulado “carnescultura”. que tentavam assim desacreditar a campanha por uma nova alimentação. comeu avidamente um prato de espaguete: somente depois os comensais perceberam que Marinetti não era nada além de um estudante habilmente maquiado. enquanto alternam-se as polêmicas. superando as primeiras realizações. Alguns feridos. Marinetti que. em Bolonha. 9) Representou-se em Turim uma opereta de Sparacino e Dall’argine intitulada “Santopaladar”. para o espanto de todos. situadas uma no térreo e outra no primeiro andar de uma casa popular.indd 196 7/4/2009 15:51:25 . durante um grande jantar estudantil. 6) Em Bolonha. 8) Representou-se. chegou de improviso F. e aconteceram então discussões e polêmicas violentíssimas entre os dois partidos. 196 Cozinha futurista. T. 7) Apareceram em algumas revistas de grande tiragem fotografias de Marinetti no ato de degustar o macarrão: eram montagens fotográficas executadas por experts adversários da cozinha futurista. 5) Em Turim. e aconteceu então uma clamorosa batalha pelas janelas e na rua com projéteis comestíveis e panelas. os mais célebres cozinheiros organizaram um congresso para decidir o mérito da cozinha futurista. declamaram-se pró e contra a cozinha futurista.

douradas ou prateadas. A cozinha futurista propõe-se ainda. Um passeio sonhador é igualmente inadequado. a sugerir e determinar os indispensáveis estados de ânimo que não se poderiam sugerir e determinar de outro modo. No momento de servi-lo. Cardápio heróico invernal Os combatentes que devem subir no caminhão às 3 da tarde. dos filhos ou em cartas apaixonadas. estes combatentes à mesa. ao contrário. Combinamos programas de refeições a que nós chamamos SUGESTIVAS E DETERMINANTES. procurariam em vão uma preparação perfeita no beijo doloroso de uma mãe. Coloquem. licor. será aberto e recheado 5 Peixe da família dos mugilídeos. Inadequada a leitura de um livro ameno. em janeiro.indd 197 7/4/2009 15:51:25 . 197 Cozinha futurista. comestíveis. alcaparras e pimenta vermelha. com grandes escamas arredondadas. mediante a arte de harmonizar os pratos futuristas. onde será servido um “peixe colonial ao rufar de tambor” e “carne crua esquartejada pelo som de trompa”. ou sair em vôo para bombardear cidades ou contra-atacar tropas inimigas. para entrar na linha de fogo às 4. espiritualizá-la e dinamizá-la. infusa por 24 horas em um molho de leite. de uma esposa.A cozinha futurista Os cArdápiOs FuturistAs sugestivos e determinantes A cozinha futurista propõe não somente uma revolução completa na alimentação da nossa raça. São fusiformes. PEIXE COLONIAL AO RUFAR DE TAMBOR: mugem5 aferventada. com o intuito de torná-la leve.

Será comido sob o rufar continuado de um tambor. engolirão o Explosãonagarganta. serão servidos aos combatentes pratos de caqui maduro. jasmim. servi-la sobre um leito de pimenta vermelha. No momento de partir. pimenta preta e neve. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de verão de pintura-escultura Após um longo período de repouso. durolíqüido constituído por uma bolota de queijo parmesão macerado em Marsala. Eletrocutá-la com correntes elétricas. que colocarão como raios a máscara contra gás asfixiante. mantê-la por 24 horas em uma infusão de rum. Enquanto estas desaparecem nas bocas. Mastigar atentamente por um minuto cada bocado. suavíssimos perfumes de rosa. CARNE CRUA ESQUARTEJADA PELO SOM DE TROMPA: cortar um cubo perfeito de carne bovina. com borrifadores. Extraída da mistura.Fillippo Tommaso Marinetti com conserva de damasco intercalada com rodelas de banana e fatias de abacaxi. separando-os uns dos outros com impetuosas notas de trompa sopradas pelo mesmo “comedor”. conhaque e vermute branco. madressilva e acácia. serão espargidos na sala. tentaria em vão excitar a própria inspiração em uma refeição suculentatradicional. um pintor ou um escultor que deseje retomar sua atividade criadora às 3 horas da tarde de verão. 198 Cozinha futurista.indd 198 7/4/2009 15:51:25 . romãs e laranjas vermelhas. No momento do Paraselevantar. cuja doçura nostálgica e decadente será brutalmente refutada pelos combatentes.

servida uma refeição de puros elementos gastronômicos: uma sopeira de bom molho de tomate. não temperada e fora do prato. uma ansiedade entre o literário e o erótico que não pode ser apagada por um café da manhã normal. bicarbonato de sódio. um grande maço de rabanetes vermelhos. alho. um prato fundo cheio de vinagre forte. terminaria por consumir a jornada fanfarronando artisticamente sem criar arte alguma. mas morno. um maço de rosas brancas com caules relativamente espinhosos. mate a fome enquanto observa o quadro do “Jogador de Futebol” de Umberto Boccioni. e desobedecendo continuamente aos hábitos enraizados nos nervos. uma grande polenta amarela. verde. deveria passear para digerir e entre inquietudes e pessimismos cerebrais. Comerão tudo? Experimentarão partes? Intuirão as relações fantásticas sem sequer experimentar? À vontade! 199 Cozinha futurista. bananas descascadas e óleo de fígado de bacalhau. um maço de salada. Seja-lhe. ao contrário. Ponham a mesa então ao ar livre. vestidos de lã branca e sem jaqueta. pétalas de rosa. sirva-se imediatamente um prato sinóticosingustativo de pimentões.indd 199 7/4/2009 15:51:25 . eqüidistantes. Acaso. um prato fundo cheio de azeite.A cozinha futurista Empanturrado. sob um caramanchão que deixe passar os dedos quentes do sol. sem talheres. um prato fundo cheio de mel. Não quente. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio vocabulivre primaveril O atravessar de um jardim primaveril entre os doces fogos de uma aurora cheia de timidez infantil deu a três jovens.

levando nos braços uma bacia cheia de morangos nadando no Grignolino bem açucarado. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti 200 Cozinha futurista. verbos fechados entre dois pontos. para que sirva o mais rápido possível. Diretamente sobre as cabeças a camponesinha servirá. Formarão imediatamente uma relação metafórica inusitada entre os pimentões (símbolo de força campestre) e o óleo de fígado de bacalhau (símbolo de mares nórdicos ferozes e necessidade curativa de pulmões doentes). Isto fará com que o seu paladar alce súbito vôo procurando no prato sinóptico-singustativo uma indispensável nova harmonia. Provam então mergulhar o pimentão no óleo de fígado de bacalhau.Fillippo Tommaso Marinetti Convenientemente comerão. roncantes. Mas o tédio e a monotonia poderiam nascer depois que os paladares tivessem provado o alho com rosas. O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. desmacular-se. Cada dente do alho será então cuidadosamente envolvido nas pétalas de rosa pelos mesmos dedos dos três convidados que assim se distrairão a combinar poesia e prosa. beber. rumorismos abstratos. assobiantes. ruminantes.indd 200 7/4/2009 15:51:25 . com altivas palavras em liberdade fora de qualquer ordem lógica e diretamente expressas pelos nervos. Entra então a camponesinha jovem e gorda. Põem-se eles finalmente a comer. um prato de tradicionais tortellini in brodo. a seguir. cochichantes. Os jovens a convidarão. lamber. gritos animalescos que seduziriam todos os animais da primavera. ralhantes e cantantes em giro. polemizando à mesa com adjetivos iluminantes.

único alimento. silêncio de um minuto. Depois. Depois. pela mesa ainda vazia passará. vinte e cinco cerejas ao licor. Depois. Depois. um silêncio de quinze minutos durante os quais as bocas continuam a mastigar o vazio. dois casais se sentam a uma mesa rústica formada por troncos de carvalho.A cozinha futurista Cardápio musical de outono Em uma cabana de caçadores semi-escondida em um bosque verde-azul-perfumado. Depois. Agosto. Esperando a camponesa-cozinheira. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio noturno de amor Terraço de Capri. arrancado no quarto da esquerda pelo filho convalescente da camponesa. sem comer.indd 201 7/4/2009 15:51:25 . Depois. dois minutos de grão de bico em azeite e vinagre. para serem olhadas e cheiradas intensamente. uma codorna assada para cada um dos convidados. doze batatinhas fritas. Depois. A lua a pico serve abundante leite talhado sobre a toalha. sete alcaparras. à esquerda dos comensais. quatro longos apertos de mão na camponesa-cozinheira e todos para fora no escuro vento chuva do bosque. A morena peituda e bunduda cozinheira caprese entra carregando um enorme presunto sobre uma bandeja e diz 201 Cozinha futurista. o assobio que o vento infiltra pela fechadura da porta. Duelará com aquele assobio o gemido longo mas afinado de um som de violino. Depois. O rápido crepúsculo sangüíneo agoniza sob as enormes barrigas das trevas como sob chuvosos e quase líquidos cetáceos. Depois. um gole de vinho Barolo mantido na boca por um minuto.

não aquele ilusório de lua. circundado de risoto ao açafrão. 6 Lacumia é uma espécie de bolinho. deixei-o infuso por uma semana no leite. 202 Cozinha futurista. a base de gergelim. uma pitada de pimenta vermelha.indd 202 7/4/2009 15:51:25 . Depois o Guerranacama. e Hallaua é um alimento de origem árabe. Roast-beef circundado por lacumias e Hallaua6. fascinada. pasta de amêndoas. uma pitada de noz moscada e um cravo: tudo liqüefeito em licor Strega. caviar. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio turístico (realizada para a Mostra circulante futurista Paris-Londres-Bruxelas-Berlim-Sofia-Istambul-Atenas-Milão) Lista dos pratos: Pré salé aux petits pois. de origem grega. Para adocicá-lo entretanto e liberá-lo da aspereza e da virulência original. chocolate. Entrarão então na cama levantando no pequeno copo o bebericável Guerranacama composto de suco de abacaxi. grande e já cheia de lua. cada uma com onze gotas de Moscato de Siracusa em sua água marinha. Comam abundantemente. ovos. Depois uma taça de Asti espumante.“é um presunto que contém uma centena de carnes diversas de porco.” Os dois amantes devoram metade do presunto. A cama.Fillippo Tommaso Marinetti aos dois amantes reclinados nas duas espreguiçadeiras e incertos sobre retomarem as fadigas da cama ou iniciarem aquelas da mesa: . Leite verdadeiro. servido com mel. Seguem as grandes ostras. vem ao seu encontro do fundo do quarto aberto.

QUARTO: o rancor das fronteiras. Enguia marinada recheada com minestrone à milanesa gelado e com damascos recheados de anchovas. QUINTO: o tom baixo pálido fúnebre banal dos pratos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio oficial O cardápio oficial futurista evita os graves defeitos que poluem todos os banquetes oficiais: PRIMEIRO: o silêncio embaraçado que deriva da falta de harmonia preexistente entre os vizinhos da mesa.indd 203 7/4/2009 15:51:25 . toma a palavra. que nadem em um mar de conhaque. devido à etiqueta diplomática. sem se levantar. TERCEIRO: as caras feias produzida pelos problemas mundiais insolúveis. Suco de morangos para ser bebido com friturinhas ao óleo. 203 Cozinha futurista. mas escolhido entre os mais inteligentes e mais jovens parasitas da aristocracia e famoso pelo seu conhecimento total de todas as piadas obscenas. convidado não-pertencente a nenhum corpo diplomático e a nenhuma política.A cozinha futurista Lingüiças nadando em cerveja pulverizadas de pistaches cristalizados. que deve se desenvolver em um amplo salão adornado por enormes quadros de Fortunato Depero. após uma distribuição rápida de polibebidas e entreosdois. o Esganador. Pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado. SEGUNDO: a reserva dos diálogos. Na refeição oficial futurista. Poças de mel e poças de vinho dos Castelos romanos alternados em uma planície quadrada de papa de batatas.

manteiga. apenas terão seu volume diminuído e eis que ainda na entrada. Seguem: 1) “Os antropófagos inscrevem-se em Genebra”: um prato de várias carnes cruas para serem cortadas à vontade. açúcar. dentro.Fillippo Tommaso Marinetti O Esganador. pimenta vermelha. o Diretor. repetirá suas desculpas.) 3) “O tratado sólido”: castelo multicolorido de torrones com. ovos e baunilha. velho Barolo. 2) “A Sociedade das Nações”: salaminhos negros e canudinhos de chocolate nadando em um creme feito com leite. Usado para dar mais potência aos canhões 204 Cozinha futurista. ele.indd 204 7/4/2009 15:51:26 . será servida uma gororoba de semolina. dirá subitamente a meia voz três piadas obsceníssimas. orientando-se pelo maior ou menos grau de mau humor a combater. descoberto por Alfred Nobel. Os comentários. com base de nitroglicerina. de uma fruta paradisíaca escolhida no Equador. gengibre. sem abandonar-se entretanto à inconveniência. mas sempre atrasados por impedimentos e desastres automobilísticos e por descarrilamentos ferroviários. pequeninas bombas de balestite7 que explodirão a tempo perfumando a sala com o típico odor das batalhas. as ironias e as brincadeiras. Ao Paraselevantar o diretor da refeição oficial entrará e com muitas desculpas cerimoniosas pedirá para esperar a chegada há muito anunciada. Assim por toda uma meia hora. e temperadas mergulhando seus pedaços nas pequenas tigelas oferecidas com azeite. vinagre. e do sorvete desgraçadamente tanto arquitetado que caiu pouco antes na cozinha. tapioca e leite em sopeira de convento para satirizar e espantar toda diplomacia e toda reserva. risoto de açafrão. 7 Balestite é um explosivo. que acolherão as desculpas do diretor. (Esta iguaria será saboreada enquanto um negrinho de 12 anos fará cócegas nas pernas e beliscará as nádegas das senhoras. mel. Uma vez generalizado de uma ponta à outra da mesa o fogo cruzado das gargalhadas dos comensais.

todas escovas. As amigas da esposa. em conserva de vinagre. prolífico. Logicamente pedirá para continuar bebendo. As crianças se enchem de confetes e rolam sobre as flores de laranjeira do vestido nupcial. Todos desejam felicidades como se libertam raças com o medo na ponta dos dedos e da língua. está em conserva de óleo. econômico. estando todos no instável. do ponto de vista intelectual. sob uma condição no entanto: que fale por duas horas sobre as possíveis soluções para o problema do desarmamento. A virgem já está nos braços dos anjos. conselhos. Ninguém pode comer nem provar as bebidas já que. carnal. ao invés da fruta milagrosa. 205 Cozinha futurista. Ser-lhe-á então oferecida uma seleção dos melhores vinhos italianos. o bêbedo de sempre pescado nas periferias naquela mesma noite e levado à força para a sala do banquete oficial. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de núpcias As refeições de núpcias comuns sob a sua aparente e ostentada festividade escondem mil preocupações: se o casamento será feliz ou não. olhadas piedosas e olhares de falsa alegria. repugna-lhes estabilizar o paladar e o estômago. da revisão dos tratados e da crise financeira. profissional.indd 205 7/4/2009 15:51:26 . qualidade e quantidade. Os primos. O esposo. bem penteado. pentes e grampos de inveja. A sogra espalha febrilmente cumprimentos.A cozinha futurista Então entrará.

. equilibrada sobre a cabeça. Explode naturalmente uma competição heróica.. pede demissão porque foi ofendido 206 Cozinha futurista. Muitos devoram os cogumelos. Uma sopeira de magnífica sopa conhecida e amada por todos (arroz. pomposamente elogiados pelo habitual caçador maníaco: . distante ou próxima? Pouco importa. Serão servidos então cogumelos trufados. malvado!” Então. querida?” “Temo-os menos que suas prováveis traições.“eu mesmo os recolhi todos. ao cair também. Eu não hesito. reentrará com uma bacia. “Não tem medo. mesmo temendo a presença de alguns absolutamente mortais”. fígado e feijão em caldo de codorna) é conduzida no alto sobre três dedos pelo cozinheiro que salta com a perna esquerda. O cozinheiro.Fillippo Tommaso Marinetti Reina então durante a refeição um equilíbrio que responde ao equilíbrio dos estados de ânimo. Fingirá sofrer ou realmente será torturado por dores de origem misteriosa. Se este prato. De qualquer modo estão tão bem cozidos que lhes aconselho atacá-los audazmente. A menos que minha miopia tenha me pregado uma bela peça. “São tão bons”. O esposo se mantenha calmo: será ele que. Há cogumelos de toda espécie. Todos riem. certamente um pouco cedo. entrando enfurecido. Proceda-se à limpeza com a ajuda de todos. ao sair um instante. será tanto um ganho de tempo mediante um final de viagem imprevista.diz a esposa. põe-se a gritar segurando a barriga o janota habitual de todas as festas de casamento. amarelar o vestido nupcial como uma duna africana. cheia de risoto à milanesa com açafrão e abundantes trufas de coloração pecado. entre uma perdiz e uma lebre. exceto aquela venenosa. Conseguirá ou não? Talvez entorne e as marcas sobre o vestido nupcial corrigirão oportunamente a insolente e pouco fortunosa brancura excessiva. nos bosques de Pistóia ensopados de chuva.indd 206 7/4/2009 15:51:26 .

no mesmo vale. a maior. aos estômagos agora tão aquecidos por equilibrismos de felicidade. regando-o com vinhos Barbera e Barolo. cogumelos alarmantes e perdizes dinâmicos. Recomeça o caçador: “. verificadísssssssimos. A cada vez reconhecia as mais belas penas avermelhadas. De uma costa a outra. por outro lado. embriagados pelo suavíssimo perfume de cloaca suave. tive que descer até o fundo da torrente e subir novamente.indd 207 7/4/2009 15:51:26 .Entre todas essas perdizes. são servidas lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. Agora está finalmente parada.” -“Para a virtude ambulante dos vermes. sempre sob a eloquência do caçador.acrescenta o janota. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio econômico 1) “O agreste absoluto”: maçãs assadas ao forno. Ele mesmo preparou na cozinha esta iguaria formada com a pasta de outras perdizes quase putrefatas e maceradas com os velhos queijos robiola no rum. Frio intenso nos comensais.A cozinha futurista mortalmente pelas suspeitas e não pelos cogumelos que são inocentísssssssimos. Mas. move-se”. os convidados comem-no abundantemente. que substitui o habitual sorvete inadequado. move-se ainda talvez. custou-me uma perseguição de dez quilômetros. isto é. aquela ali. parece viva. Comida de caçadores. 207 Cozinha futurista. depois recheadas de feijões cozidos em um mar de leite. Segue um Fernet para todos. Entontecidos pelas palavras.

Benedetta. decorada com aeropinturas e aeroesculturas dos futuristas Tato. 4) “Bosque inundado ao pôr-do-sol”: endívias cozidas ao vinho. metade formado por pesto de espinafre e metade por patê de lentilhas. sobre uma mesa cujas quatro pernas serão constituídas por acordeões.indd 208 7/4/2009 15:51:26 . são apresentados. em ressoantes pratos ornados de sininhos. 2) O silêncio carregado de pensamentos meditativos que contamina e enchumba os pratos. os pratos-retratos: 208 Cozinha futurista. salpicadas por feijão cozido e caramelizado. Este menu deve ser degustado enquanto um hábil recitador faz explodir a lírica humorística do Poeta-record Nacional Farfa. cada um. 4) A inevitável aceleração do ritmo das mandíbulas que fogem do tédio. depois recheadas com anchovas e servidas sobre um leito. Dottori e Mino Rosso.Fillippo Tommaso Marinetti 2) “Abominação campestre”: berinjelas cozidas em tomate. 3) A falta de carne humana viva e presente que é indispensável para manter o paladar do homem confinado na zona das carnes animais. 3) “Pimentão urbanístico”: grandes pimentões vermelhos que fecharão. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de solteiro A cozinha futurista propõe-se a evitar os defeitos que distinguem as refeições dos solteiros: 1) A solidão anti-humana que fatalmente absorve uma parte das forças vitais do estômago. uma pasta de maçãs cozidas envoltas em folhas de alface caramelizadas. imitando sua típica voz de míope cano de escapamento. Em uma sala.

a quarta sobre a estufa quente e relativa ciranda de plantas odoríferas raras deslizante sobre trilhos. 3) “Prato-retrato da bela desnuda”: em uma pequena bacia de cristal.indd 209 7/4/2009 15:51:26 . a segunda para a massa dos odores de um paiol e relativo reservatório de frutas.A cozinha futurista 1) “prato-retrato louro”: um belo pedaço de vitela assada esculpido com duas grandes pupilas de alho em um ninho de repolho triturado e fervido e alface verde. Brincos pendurados de rabanetinhos vermelhos untados em mel. calmo preguiçoso solitário putrefato. em uma língua de terra que divida o mais lacustre dos lagos. cheia de leite apenas ordenhado. que se abrem eletricamente mediante botões postos sob os dedos dos convidados dão: a primeira para a massa dos odores do lago. cada um com uma poça de vinagre por cima e sobre um dos lados pendurado um grande sino. tudo coberto por pétalas de violeta. mas serão saciados apenas de perfumes. 2) “Prato-retrato do amigo moreno”: bochechas bem modeladas de massa podre – bigodes e cabelos de chocolate – grandes córneas de leite e mel – pupilas de alcaçuz. do mais amplo e marino dos mares. duas coxas de frango cozidas. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio extremista Para esta refeição em que não comerão. a terceira para a massa dos odores do mar e relativa peixaria. 4) “Porta-retrato dos inimigos”: sete cubos de torrone de Cremona. Bem engravatado com tripa ao brodo. As portas-janela. 209 Cozinha futurista. estejam os convidados em jejum há dois dias. Uma romã aberta na boca. Será servido em uma casa de campo construída especialmente por Prampolini (a partir da concepção de Marinetti).

que gritam: -“vocês são os chefes. 210 Cozinha futurista. deslizando automovelmente. 5 homens e um neutro) têm um pequeno ventilador de mão cada. O neutro treme como um sismógrafo esperançoso. Os três complexos-escultura vaporizantes param de um só golpe com a irrupção na sala de três ajudantes de cozinha embainhados de seda branca e alto chapéu branco luminoso. mas também imbecis. No comprimento de uma mesa em forma de paralelepípedo afloram. grandes artistas? Parem de enrolar ou pegamos todos vocês a chutes”. com o qual capturar à vontade o odor espargido do canto munido de um potente aspirador. Antes da refeição os convidados declamam “Elogio ao outono” do poeta futurista Settimelli e “Entrevista com um Caproni” do poeta futurista Mario Carli. desaparecendo e reaparecendo: 1) um complexo-escultural munido de vaporizador com a forma e o odor de um castelo de risoto à milanesa golpeado por um mar de espinafre encristados de creme. 3) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um lago de chocolate que circunda uma ilhota de pimentões recheados com geléia de tâmaras. Um ensurdecedor toque de sinos de 5 minutos.Fillippo Tommaso Marinetti Noite de Agosto.indd 210 7/4/2009 15:51:26 . Máxima intensidade dos perfumes da paisagem circundante. Uma pausa de silêncio concedida à invasiva policonversação e quacrelogia das rãs lacustres que acompanharão a abertura lenta da 8 Flor da esponjeira. Fora. Os onze convidados (5 mulheres. cachia8 e pimenta vermelha. mantidas fora das janelas escancaradas como as comportas de um canal. 2) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um navio de berinjelas fritas cobertas de baunilha. Vocês se decidem ou não se decidem a comer os pratos refinadíssimos preparados por nós.

A cozinha futurista porta-janela pressionada pelos odores de ervas podres. mas selvagem. Todos os convidados apontam os ventiladores de mão como escudos contra a porta-janela lacustre. Os cozinheiros espiam pela porta e desaparecem. O neutro choraminga: -“Por caridade. tragam-nos qualquer coisa para mastigar. Confusão. vindo do lago. o segundo de abacaxi. Mas a frase é cancelada junto com o mar e relativa peixaria prateada por prepotentes perfumes de rosa de tal modo curvilíneas e carnudas que as onze bocas. Os dois perfumes de vida carne luxúria morte sintetizam e então apagam todos os onze paladares famintos. de velhos juncos queimados. o terceiro de uva e o quarto de alfarroba) precipitam-se na sala tornada inodora. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio dinâmico 211 Cozinha futurista. mas subitamente irrompe da outra porta-janela o mar com cem chispares e enguiamentos de odores salinos. Gane o convidado neutro: -“Pelo menos doze ostras e dois dedos de Marsala”. Abre-se então a porta-janela do reservatório de frutas e quatro odores (o primeiro de maçãs. cozinheiros belos. saindo da estufa. Entra um perfume agro-suave-pútrido-delicadíssimo de lírios civilizados que. Escapa um relincho do convidado neutro. deixadas até agora pensativas ou atônitas. põem-se a mastigar febrilmente o vazio. Curto assombro.indd 211 7/4/2009 15:51:26 . com visões de imensos golfos espumosos e tranqüilos cais verdes frescos ao amanhecer. ou então veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas”. veios de amoníaco e uma lembrança de ácido fênico. Os ventiladores de mão cancelam tudo. encontra-se com o perfume idêntico.

depois me levanto e brandindo uma garfada de espaguete. Inundação de vinho. mas o doutor bufa. levanta tudo ele também e empurra à direita. espremem-no como uva. Os jovens.Fillippo Tommaso Marinetti No romance “L’Alcova d’Acciao” F. Fome de bombardeiros depois de uma jornada de trabalho duro. Todos empurram o doutor. alvoroço. T. agir. Uns vinte oficiais. Dominando o tumulto. faca. Sabem da minha fantasia fecunda em piadas e excitam-me com olhares. deslocamento de dois lugares à direita. Com quatro bocados aplaco meu estômago. comia-se e bebia-se alegremente. Silêncio religioso de bocas que mastigam orações suculentas. coronel Squilloni alegre e posudo na cabeceira da mesa. executam o exercício. Despencar de copos. eu comando: 212 Cozinha futurista. digo em alta voz: . empurro brutalmente o meu companheiro da direita.indd 212 7/4/2009 15:51:26 . e o bom doutor está absorvido gravemente demais no ritual do macarrão. copos. pão. Cabeças inclinadas sobre os pratos. que cede de má vontade. reclama. prontos. Os longos garfos vermelhos do pôr-do-sol entrelaçavam-se com os nossos. marche! Depois levantando como posso pratos. grita. Espirram os seus gritos. Mas os mais jovens não amam as pausas e querem rir. gritos. Há muito silêncio à mesa. tenentes. capitães.Para não empantanar a nossa sensibilidade. Levantamno como a um peso. Risos. O prato de macarrão entorna sobre a farda. enrolando os espaguetes sangüíneos e fumegantes. Marinetti descreve sua ansiedade de fugir do inevitável empantanamento da sensibilidade durante a refeição: “Na noite de primeiro de junho de 1918 na barraca dos bombardeiros desafiadoramente plantada obliquamente sobre uma cresta montanhosa do Vale do Ástico.

um calo. rufares e becchegiro9..Para não empantanar a nossa sensibilidade. sacudidas. Agrada muito ao coronel o jogo bizarro. problemas a quem ainda deixa empantanar a própria sensibilidade!. Como poderia. E você. caro doutro. luminoso banquete aéreo suspenso a pico na planície vêneta crepuscular. não se esqueça de que a mais alta e preciosa virtude é a elasticidade. O doutor me olha assustado. tombos. rimos enquanto o coração chorava na retirada. cirros de porcelana violeta amassados. todos nuvens de cristal incandescente. de assalto! E termina-se a refeição confusamente. Gritos. esmagar o passadismo austro-húngaro. renovar integralmente a Itália depois da vitória? Imponho-lhe. garrafas espumantes de ouro. “caramba!”. socos. curar um gânglio. Os meus amigos cantam ao redor do doutor o hino da burla futurista: Iró iró iró pic pic Iró iró iró pac pac 9 O substantivo refere-se provavelmente a um movimento ou um som semelhante ao feito por um barco em alta velocidade. uma sífilis. “Basta!”. caro doutor.Deslocamento cumprido! Todos sentados! Mas problemas. com grande farfalhar de risadas na risada fulva do crepúsculo.indd 213 7/4/2009 15:51:26 . Ameaçando-o burlescamente. interromper com elasticidade futurista a sua barrigada passadista! Todos riem. Mas os jovens são tenazes e com força imprimem à multidão uma volta tumultuosa em torno da mesa. Somente o doutor não se diverte. ou a fraqueza de certos superiores? Com elasticidade abandonamos o Carso após Caporetto. ao bater na água. fora. sem elasticidade.A cozinha futurista .. Como poderíamos. Fora. Turbilhão. imponho: . Fugiu para o terraço com o seu prato de macarrão. pratos e copos nas mãos! Giro total da mesa em cortejo! O reboliço se torna infernal. 213 Cozinha futurista. Onde está o doutro? Onde está? Todos o procuram. “Acabem com isso!”. sem elasticidade. uma otite. debandados.

tudo enrolado em uma finíssima fatia de presunto macerada em Marsala. O habilíssimo entretanto será aquele que conseguir. rum e pimenta vermelha.indd 214 7/4/2009 15:51:26 . 5) “Bombas de mão”: esfera de torrone de Cremona envolta em uma grande bisteca malpassada. Os convidados vestidos esportivamente. inspirando-se no grande quadro “O jogador de futebol” de Umberto Boccioni. 4) “Perdendo uma roda”: quatro tordos assados com muito gengibre e sálvia. todos se precipitarão furiosamente de assalto. coberta de vinho moscato de Siracusa. 214 Cozinha futurista. conquistar uma vintena de bolas comestíveis e.Fillippo Tommaso Marinetti Maa – gaa – laa Maa – gaa – laa RANRAN ZAAAF Matavam assim as nostalgias”. com bocas mastigantes e mãos agarrantes. 2) “Em quarta”: 200 fios de algodão doce enrolados num novelo. Com um final de batalha gastronômica. Ao escancarar da porta. Comerão melhor aqueles que conseguirem manter à distância os adversários com chutes. de bocas abertas. *** Dinamicamente então propomos os seguintes pratos: “Passos de corrida”: composto de arroz. embrulhados em fatias de abacaxi e regados com Asti espumante. 3) “Colisão de automóveis”: semi esfera de anchovas prensadas conjunta a uma semi esfera de pasta de tâmaras. serão mantidos fora da porta de uma sala de ginástica onde pelo chão e em pequenas pirâmides serão dispostas as comidas anunciadas. bocas abertas e mãos ameaçadoras. superando janelas e terraços. as mangas arregaçadas. Seqüência de bocas dentes mãos. envoltos e embolotados em uma fatia de polenta esborrifada com água de colônia italiana. os lutadores não ensacam os golpes: engolem-nos. um sem a cabeça. fugir para o campo.

Samzin. Dez cilindros (30 cm de altura) de torrone de Cremona. Sete telas (60 cm de altura) de bacalhau ao leite. Os futuristas. Vinte tubos (1 metro de altura) de pasta de tâmaras. Cinco blocos ovais (20 cm de altura) de pasta de bananas. ligados todavia por fio eletrônico. Pandolfo. Maino. pistas sobrelevadas: Trezentos cubos (3 cm de altura) de massa podre.A cozinha futurista Fórmula do aeropoeta futurista e do aeropintor futurista Marinetti Fillìa Cardápio arquitetônico sant’elia Em honra do Poeta-Record nacional de 1931. rampas de aeroportos.indd 215 7/4/2009 15:51:26 . Seis esferas (15 cm de diâmetro) de risoto à milanesa. cais de portos militares. isto é. com mãos de criança. Oito paralelepípedos (10 cm de altura) de espinafre na manteiga. Gerbino. baterias de encouraçados. os pintores Dormal. sentados cada um sobre tambores (15-60-100 e 300 cm cada) não-comestíveis de macarrão comprimido. Farfa (vencedor do circuito de poesia “Sant’Elia”). um sobre o outro em forma de torre. belvederes. arranha-céus. reunidos na Direção do Movimento Futurista em Roma. aperfeiçoamna com os dentes. Krimer. Rognoni. 215 Cozinha futurista. subiram e comeram alternativamente. Civello. arquitetonicamente. Giacomo Giardina. Voltolina e Degiorgio do grupo paduano e os pintores Alf Gaudenzi e verzetti do grupo futurista e vanguardista “Síntese”. com uma sensibilidade espacial que coloca o glorificado a 600 quilômetros dos glorificantes. estádios esportivos. Burrasca. Bellonzi. para melhor construir a casa futurista. Cinco pirâmides (40 cm de altura) de minestrone frio. Vittorio Orazi. prensado. Vasari e Soggetti. os poetas futuristas Escodamè.

Oriani e Munari. entre as aeropinturas dos futuristas Marasco. empunhando pequenos sinos de cerâmica cheios de Barolo misturados a Asti espumante. os comensais 216 Cozinha futurista. comerão assim vilarejos. timo. Bizarramente depois as 5 lagostas serão dispostas em desordem e distanciadas sobre uma grande aerocerâmica Tullio d’Albisola acolchoada por vinte qualidades diferentes de salada: estas geograficamente dispostas em quadrados. cenoura. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeroescultural na fuselagem Na grande fuselagem de um Trimotor. Tato. entre as aeroesculturas de metais aplicados dos futuristas Mino Rosso e Thayaht. Recheiam-nas com uma pasta de gema de ovo. que se ligam aos aerocumes e às nuvens do horizonte navegado a mil metros. Os comensais. ovas e fígado de lagosta. chácaras e planícies raptadas em velocidade. os comensais liberam do casco intactas 5 lagostas e cozinham-nas eletricamente na água do mar. alho.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropictórico na fuselagem Na ampla fuselagem de um grande Autoestável DeBernardi.indd 216 7/4/2009 15:51:26 . casca de limão. Benedetta. Besuntam-nas com curry em pó e devolvem-nas às suas cascas tingidas aqui e ali por azul de metileno. alcaparras.

A cozinha futurista prepararão uma massa de fécula de batata.000 metros comidos. Encherão onze formas (untadas e enfarinhadas) cada uma de um formato típico de montanha. enquanto os comensais brincarão e devorarão massas de claras em neve como faz o vento lá fora com os cimos e os cúmulos brancos. polpa de camarões. o altímetro redondo denuncia: 3.000 217 Cozinha futurista. em número de três. Na boca responde-lhe rusticamente o sabor de uma bolota de mel. açúcar semolado e perfumado de baunilha. a sugar a geléia de anis branco que filtra uma nuvem. Os olhos fogem à direita. denuncia: 20. cebolinhas. pedaços de solha. Abaixo a pico um rio de solidíssima prata derrete o estuário das suas enguias frenéticas em um mar de piche adornado por níquel lunar. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropoético futurista Na fuselagem de um Trimotor voando a 3. frutas cristalizadas e queijo gruyère. depois de liberados das formas. À frente dos comensais. Todos serão cozidos eletricamente. promontório ou ilhota. regada abundantemente com Vinho Santo toscano. seu companheiro de refeição. Perto dele o conta-giros. A janelinha da direita: tilintar de vidro madeira tintilhões e sininhos. através da outra janelinha. tomate e polpa de lagosta. serão servidos sobre uma grande bandeja no centro da fuselagem.indd 217 7/4/2009 15:51:26 .000 metros em um céu bipartido: dengoso luar de meia lua madreperolado e esverdeado e semi-esfera de meias nuvens fulguradas de longos escorpiões de ouro. despenhadeiro. Os 11 doces. ovos. pão-de-ló e biscoitos triturados.

escovas. A pico sobre si mesmo. lixas. Obliqüidade da força artística. com a colaboração dos pintores futuristas Depero. Voar. todos serão introduzidos em uma grande sala escura. Amor quente macio muito distante. cartões. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio tátil O dono da casa terá o cuidado de preparar. Prampolini e Diulgheroff. Cada convidado. sedas.indd 218 7/4/2009 15:51:26 . A boca do comensal humano da direita suga um tubo de neon amarelo vermelho dourado de verão África eterna. sem móveis: sem ver. Do outro lado do altímetro. cortiças. o velocímetro denuncia: 200 quilômetros digeridos. Mastigar o infinito. lâminas de alumínio. Escolhas feitas. feltros.Fillippo Tommaso Marinetti giros devorados. alguns minutos antes da refeição. rapidamente. cada convidado deverá escolher o próprio companheiro de mesa segundo sua inspiração tátil. Ronco crítico dos intestinos. O estômago do comensal humano central corrige com muitos ácidos vulgares a indigerível potência excitatória do licor de lua abstrato poético suicida. palhas de aço. Leveza. veludos. deverá vestir separadamente um dos pijamas. todos serão levados ao salão de banquete provido de muitas pequenas mesas para duas pessoas: estupor do próprio com- 218 Cozinha futurista. Depois. etc. Presença das mãos vazias. Balla. Um pouco mais de mel das abelhas inspiradoras de poetas gregos na boca do aeropoeta futurista. tantos pijamas quantos serão os convidados: cada pijama será feito ou recoberto de materiais táteis diferentes como esponjas.

Cada um dos comensais usará a mão direita para levar à boca. já que o menu é todo baseado em prazeres táteis. mas sem a ajuda das mãos. No prato: folhas de alface sem tempero. enfiado pela metade. Poder-se-á experimentar a gosto estas verduras/legumes. enquanto com a mão esquerda girará a manivela. o conteúdo do prato. iniciarão uma lenta dança de grandes gestos geométricos. Entre um prato e outro. os convidados deverão ininterruptamente nutrir seus dedos no pijama do vizinho de mesa. 3) “Hortotátil”: serão postos à frente dos convidados grandes pratos contendo uma numerosa variedade de verduras/legumes crus e cozidos. um prato fundo de porcelana. imergindo o rosto no prato e inspirando assim o próprio gosto no contato direto dos sabores sobre a pele das bochechas e sobre os lábios. os garçons esborrifarão em seus rostos perfumes de lavanda e água de colônia. de tal modo que os convidados não possam intuir qual sabor será introduzido na boca.A cozinha futurista panheiro indicado pela sensibilidade refinadíssima dos dedos sobre as matérias táteis. tâmaras e uvas.indd 219 7/4/2009 15:51:26 . 2) “Vianda mágica”: servir-se-ão tigelas não muito grandes. recobertas externamente por materiais têxteis rugosos. em frente às mesas. sem sal. até o esgotamento da iguaria. mas cada uma recheada de elementos diversos (como frutas cristalizadas ou fatias finas de carne crua ou alho ou pasta de bananas ou chocolate ou pimenta). Será servida a seguinte lista de iguarias: 1) “Salada polirítmica”: às mesas aproximam-se os garçons portando para cada convidado uma caixa munida de manivela do lado esquerdo e que tem no lado direito. sem ajuda de talheres. 219 Cozinha futurista. Será preciso segurar a tigela com a mão esquerda e agarrar com a direita as esferas misteriosas contidas no interior: Serão todas esferas de açúcar queimado. Todas as vezes que os convidados se afastarem dos pratos para mastigar. A caixa liberará assim ritmos musicais: então todos os garçons.

no passado. um apetitoso alimento para os estrangeiros. tingem-se as mãos com azul de metileno. querendo provar à mesa o sabor e o perfume de todas as suas hortas. Aumenta a temperatura da sala.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio síntese da itália A Itália sempre foi. cujas paredes são formadas por enormes pinturas futuristas sobre vidro representando: uma paisagem alpina Depero – uma paisagem de planície com lagos e ao fundo colinas Dottori – uma paisagem vulcânica Balla – uma paisagem de mar meridional animado por ilhotas Prampolini. No início da refeição a primeira parede é iluminada por trás e ressaltam assim os perfis geométricos das montanhas brancas e morenas. Na sala é regulada uma temperatura de frescura primaveril. Apaga-se a primeira parede e acende-se a segunda: brilham as esmeraldas dos campos e os vermelhos das fazendas que se perdem entre as terras redondas das colinas e os azuis metálicos dos lagos. os seus pastos e seus jardins. e os pinheiros verdes. Os convidados. Serve-se o primeiro prato “Sonho alpestre”: pequenas formas ovais de gelo envolvidas por massa de castanhas e apresentada sobre grossos discos de maçã salpicadas com nozes molhadas no vinho Freisa. Proponho portanto este menu-síntese-da-Itália: Uma quadrada sala de teto azul. antes de comer. carne de rã desossada e ce- 220 Cozinha futurista.indd 220 7/4/2009 15:51:26 . Hoje podemos degustá-lo. mas não nos foi possível. “Agreste civilizado”: bolo de arroz branco cozido sobre o qual imprimem-se largas e tenras folhas de rosa. fazer-nos servir de uma só vez os tantos pratos regionais.

Os comensais. Um violento perfume de cravos. Temperatura tórrida na sala. Apaga-se a terceira parede e acende-se a última: esplendor das ilhotas luminosas na espuma fervente do mar. Terminada a refeição acendem-se juntas as quatro paredes e são servidos sorvetes misturados a abacaxi. 3. “Instinto colonial”: um colossal robalo recheado de tâmaras. Apaga-se a segunda parede e acende-se a terceira: dinamismo atmosférico do Vesúvio incandescente. caranguejos. giesta e cachia é esborrifado no ar. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio geográfico 1.A cozinha futurista rejas muito maduras. “Sugestão do Sul”: uma grande erva-doce na qual são incrustados rabanetes e azeitonas sem caroço. apresentado navegando em um litro de marsala. Quando inicia-se a refeição. sentados em torno de uma mesa de metal com o plano horizontal em linóleo. 221 Cozinha futurista. enquanto gramofones invisíveis rodam barulhentos discos negros. pêras cruas e cassis. As janelas redondas permitem vislumbrar misteriosas distâncias de paisagens coloniais. os garçons fazem passar rapidamente sob os seus narizes um quente perfume de gerânio. 2. consultam grandes atlas. a garçonete-lista-de-pratos: formosa moça jovem inteiramente revestida por uma túnica branca na qual é desenhado a cores um completo mapa geográfico africano que lhe envolve todo o corpo. seguida à distância pelos garçons. entra na sala. o clima é de verão. Na sala. Uma sala de restaurante decorado com alumínio e tubos cromados. Enquanto os convivas comem. É levado à mesa envolto em sutis fatias de cordeiro assado e imerso em vinho de Capri.indd 221 7/4/2009 15:51:26 . bananas. ostras e alfarroba. gomos de laranja.

Fillippo Tommaso Marinetti 4. 6. Assim continuamente. Dominará portanto uma orientação alimentar inspirada pelos continentes. variando para cada refeição os mapas geográficos e as garçonetes-lista-de-pratos e não permitindo conhecer antecipadamente os pratos. um dos garçons silenciosamente se afastará e retornará em seguida trazendo o prato correspondente àquela cidade. Neste caso: “Amor sobre o Nilo”.indd 222 7/4/2009 15:51:26 . Se um outro comensal aponta com o dedo. Lembranças de família. Cada um conhece com antecedência a engrenagem precisa dos acontecimentos. Exemplo: se um comensal aponta um dedo para o seio esquerdo da Garçonete-lista-de-pratos onde está escrito CAIRO. cubos de laticínios de canela recheados com grãos de café torrados e pistaches. mas indicando no mapa a cidade ou as regiões que seduzem a fantasia turística e aventureira dos comensais. Em volta da pirâmide maior. pelas regiões e pelas cidades. Devem-se escolher os pratos não segundo a sua composição. 7. 222 Cozinha futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio de fim de ano O hábito já matou a alegria das grandes ceias de fim de ano: há muitos anos os mesmos elementos concorrem a uma alegria já muitas vezes apreciada. pirâmide de tâmaras sem caroço imersa em vinho de palma. sobre o joelho esquerdo da garçonete-lista-de-pratos. É preciso destruir os hábitos para sair da monotonia. 5. recheado com chocolate e disposto sobre um fundo de carne crua finamente moída e regada com rum da Jamaica. o nome ZANZIBAR. o garçom lhe servirá a “Vianda Abibi”: meio coco. augúrios e previsões volteiam como cópias de impressão.

Battistella. Vencido pelo silêncio.indd 223 7/4/2009 15:51:26 . etc. levantam-se e lançam-se contra o incauto conservador de tradição. A ordem é restabelecida e cada um volta a conter a alegria desencadeada por um momento. como por uma palavra de ordem. Vignazia. libera-se na sala um peru vivo que se debate assustado entre a surpresa dos homens e os gritos das mulheres que não entendem esta ressurreição da comida ingerida. anuncia-se que a refeição está pronta. Serve-se o infaltável peru que os garçons distribuem em pratos de metal: o peru é recheado de tangerinas e de salame.A cozinha futurista Existem mil maneiras para renovar este banquete: eis um deles. uma atrás da outra. para tentar estabelecer uma conversação qualquer. A alegria finalmente. por nós realizado com os futurissimultaneístas de Roma: Mattia. Desfilam os pratos combinados quase 223 Cozinha futurista. à despensa. A cozinheira e as duas garçonetes são afastadas à força e cada um se dispõe a idealizar uma variação nos pratos. Subitamente. após a infinita conversação de espera. exasperada pelo torpor muito longo. Todos comem sob um silêncio imposto: o desejo de barulho e alegria é reprimido. Entretanto. da antesala ao banheiro. enquanto frigideiras e caçarolas passam de mão em mão entre risadas. Belli. Na sala as mesas foram eliminadas e os convidados sentaram-se em cadeiras dispostas em fila indiana. À meia-noite.” Todos então. explode e os convidados se debandam pela casa enquanto os mais audazes invadem a cozinha. Pandolfo. um dos presentes diz: -“Ainda não expressei meus desejos para o ano novo. Competição violenta entre os fornos acesos. que é repetidamente esbofeteado. outros descobriram o depósito dos vinhos e forma-se assim um banquete excepcional que vai da cozinha ao quarto. gritos e chuva de alimentos. D’Avila.

No escuro. para convencer das necessidades de nutrir- 224 Cozinha futurista. Se os proprietários e os funcionários dos restaurantes colaborassem. gomos de limão e fatias de rosbife: a lembrança do passado naufraga em um presente extraordinário.” Mas naquele momento apresentam-lhe uma tigela cheia de espumante onde navegam couves-flores. A dona da casa apaga inesperadamente a luz.Fillippo Tommaso Marinetti pela magia. onde finalmente provaremos comidas de sabor desconhecido ao nosso paladar e bebidas imprevisíveis. Estupor. para um banquete na Lua. enquanto três ritmos diferentes de música japonesa acompanham o serviço dinâmico. ouve-se a voz de um convidado: -“neste ano conseguiremos romper o invólucro da atmosfera e alcançar os planetas. Todas as suas preocupações limitam-se a ajudar o cliente quando veste o sobretudo.” Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio rejuvenescedor Geralmente. cilindros de queijo parmesão e ovos cozidos. as dificuldades a vencer por uma nova alimentação são aumentadas pelos proprietários de restaurantes que. incapazes ou temerosos. em benefício próprio. Os mais jovens berram: -“sepultada a lembrança! devemos iniciar o ano de modo finalmente diferente dos banquetes anteguerra!” Três gramofones funcionam como mesa e sobre discos transformados em pratos rotatórios as senhoras atacam confeitos.. conforme o espírito de veloz harmonia que anima os novos cozinheiros.indd 224 7/4/2009 15:51:26 . Convido-os todos para o próximo fim de ano. não pretendem renunciar à antiga cozinha.. Um convidado conta à dona da casa: -“Há quinze anos. nesta mesma data.

A cada cozinheiro pede-se a formação de uma mentalidade que: . 225 Cozinha futurista. TAMBÉM OBRAS DE ARTE. .deve compreender que a forma e a cor são tão importantes quanto o sabor. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio improvisado Estes cardápios improvisados são aconselhados com o objetivo de atingir um máximo de originalidade. imprevisto e alegria.indd 225 7/4/2009 15:51:27 . muitas dúvidas e muitas ironias poderiam ser superadas e os restaurantes perderiam a trivialidade dos hábitos quotidianos.”O italiano da nossa época veloz não deixará de sensibilizar-se ante tal argumento. empanturram adoecem inutilizam o estômago. O garçom lhe servirá então este “cardápio rejuvenescedor”: arroz cozido. Vermes brancos que o senhor não deve introduzir no corpo se não quiser deixá-lo fechado escuro e imóvel como um museu. comprimido em pequenas esferas cruas de alface esborrifada com grappa e servido sobre uma pasta de tomates frescos e batatas cozidas. variedade.deve chegar a conceber para cada prato uma arquitetura original. o garçom deveria proferir este breve e esclarecedor discurso: -“a partir de hoje a nossa cozinha elimina o macarrão. possivelmente diferente para cada indivíduo de modo tal que TODAS AS PESSOAS TENHAM A SENSAÇÃO DE COMER. além de uma boa comida. Ao habitual cliente que entra e pede um prato de espaguetes. surpresa. depois frito em manteiga. Chegamos a essa decisão porque o macarrão é feito de silenciosos longos vermes arqueológicos que. como seus irmãos que vivem no subterrâneo da história.A cozinha futurista se mais modernamente.

Para os cardápios improvisados pode-se naturalmente discutir entre cozinheiros. na noite da cidade. enquanto Ela se contentará com pãezinhos e manteiga. filés de frango perfumados com âmbar e recobertos por uma fina camada de geléia de cerejas. . de escolha refinadíssima. No centro. Com este propósito lhe fará servir. a constituição física e os fatores psicológicos. mas nunca se deve levar em conta o gosto pessoal dos comensais. no terraço de um grande Hotel. portando todo tipo de alimento: simplificar-se-á assim a preparação individual porque cada um será levado a conquistar o prato preferido para si. E a escolha será duplamente apreciada porque desenvolverá. admirará sua imagem refletida no prato. antes de preparar a refeição. de certo modo. na distribuição dos pratos. a seguinte refeição-declaraçãode-amor: Tedesejo: antepasto composto de elementos diversos.deve possivelmente chegar às refeições em movimento. Carnadorada: um grande prato feito com um brilhante espelho. levando em conta. o espírito humano da aventura e do heroísmo. estudar o caráter e a sensibilidade de cada um. a idade. Ela.indd 226 7/4/2009 15:51:27 .Fillippo Tommaso Marinetti . 226 Cozinha futurista. garçons e Diretores sobre a atribuição das diferentes iguarias. enquanto come. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio declaração de amor Um tímido enamorado deseja exprimir a uma moça bela e inteligente os seus sentimentos.deve. por meio de tapetes-móveis que deslizam à frente das pessoas. o sexo. que o garçom fará somente admirar.

Superpaixão: um bolo de massa doce compacta. um de batatas embebidas em conhaque. Em frente aos copos. Estanoiteláemcasa: uma laranja muito madura fechada em um pimentão maior esvaziado e enfiado em um grande zabaione ao gim. um de maçãs cozidas no rum. licor de menta. em proporções diversas: água mineral tingida de vermelho – vinho branco dos Castelos Romanos tingidos com azul de metileno – leite frio tingido de laranja. que visitaram em Turim os apartamentos do Engenheiro Barosi e do Doutor Vernazza. em 20 pratos de alumínio. mediante uma oportuna e humilde consulta à inspiração divina. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio sacro Aos eclesiásticos futuristas.A cozinha futurista Teamareiassim: pequenos tubos de massa podre recheados de sabores diferentíssimos. enchidos com anis. Ela. etc. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa 227 Cozinha futurista. um de arroz doce. isto é. mas contendo.indd 227 7/4/2009 15:51:27 . comerá todos. um de ameixa. Na superfície são feitos pequenos furos. onde havia pinturas de Arte Sacra futurista. sem piscar. Os eclesiásticos devem escolher sem errar. rum. são dispostos: fatias de carne sortidas maceradas sob uma pasta de abacaxi – cebolas cruas cobertas por geléia – filés de peixe escondidos entre chantilly e zabaione – pãezinhos de manteiga untados com caviar e introduzidos em uma grande abóbora. salgado por pedacinhos de ostras e gotas de água do mar. gim e bitter. é oferecida uma refeição assim composta: Sobre uma grande mesa são alinhados 20 copos iguais.

com forninho elétrico cozinhará uma sopa. satisfazer ou excitar o apetite. impossibilitados pelo turbilhão de negócios a deter-se em um restaurante ou de voltar para casa. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio desejo branco Dez negros reúnem-se à mesa em uma cidade marítima. Toda a sala está imersa em uma penumbra misteriosa e as lâmpadas invisíveis permitem somente uma luminosidade suficiente para ver a mesa coberta por uma camada de vidro escuro brilhante. Pequenos “termo”10 em forma de canetas-tinteiro repletos de chocolate quente. 228 Cozinha futurista. sem quebrar a casca. segurando um lírio na mão. será confeccionado um cardápio simultâneo que lhes permitirá continuar as diversas atividades (escrever caminhar discursar) e alimentar-se ao mesmo tempo. Livros contábeis de bolso conterão peixe comprimido.Fillippo Tommaso Marinetti Cardápio simultâneo Para executivos. para calmar. sem falar. invadidos por um estado de ânimo indefinido que os faz desejar a conquista dos países europeus. serve-lhes vinte ovos frescos que foram furados dos dois lados para injetar em seu interior um tênue perfume de acácias: os negros aspiram o conteúdo dos ovos. Uma cozinheira negra. Da pasta poderão folhear cartas e faturas perfumadas com diversas intensidades. 10 Recipiente térmico. com uma mistura de tendências espirituais e de vontades eróticas.indd 228 7/4/2009 15:51:27 . Em um grande cachimbo de metal esmaltado de vermelho.

variando intensidade e cor dependendo dos pratos. com fortíssima fluorescência verde-amarelada em solução. A sensibilidade dos negros se apaga no sabor-cor-odor branco dos pratos.indd 229 7/4/2009 15:51:27 . sob a mesa.A cozinha futurista Então é trazida uma grande sopeira com leite frio no qual foram imersos pequenos cubos de mussarela e uvas moscatel. através da própria lâmina de cristal. fontes luminosas graduáveis iluminarão de cem modos diferentes o plano de cristal. alaranjada. bebe-se anis puro. O estado de ânimo dos negros é quase inconscientemente sugestionado por todos os pratos brancos ou cândidos. 11 Substância cristalina. A sala de jantar é toda escura. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio astronômico A mesa é constituída por uma lâmina de cristal apoiada sobre reluzentes barras de alumínio. pulverulenta. grappa ou gim. Ao mesmo tempo. enquanto do teto desce lentamente em direção à mesa um globo incandescente de vidro leitoso e por toda a sala se expande um perfume de jasmim. 229 Cozinha futurista. e dos dois lados em direção ao centro. Todo o serviço é de cristal. A cozinheira negra retorna ainda com uma bandeja cheia de pedaços de polpa de côco escrustrados de torrone. De baixo para cima. fechados sob uma camada de manteiga e dispostos sobre um leito de arroz cozido e chantilly. Amanhecerá assim em taças de cristal um brodo consumido tornado fluorescente mediante uma mínima quantidade de “fluoresceína”11.

regados com limão e perfumados ternamente com baunilha. beterrabas e laranjas. único corpo iluminado.indd 230 7/4/2009 15:51:27 . uma esfera cosmográfica de spumone (50 cm de diâmetro). Entardecerá um prato feito de fatias muito finas de salmão defumado. na noite da sala. Uma bomba em forma de telescópio lançará parábolas de espumante Asti. Sirocofran 230 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti Dará meio-dia em carne crua salgada. Depois. mosaico de pistaches e pimenta vermelha. mover-se-á lentissimamente sobre o cristal que se tronou abstrato. Fórmula do futurista Dr.

feito com o Mosto. temperada com alho e defumada. regando cada bocado de camelo com um gole de água do Serino e cada bocado de coelho com um gole de Scirá (vinho turco. metade incrustada por quadrados de carne crua de jovem camelo.A cozinha futurista receitáriO FuturistA para restaurantes e aquisibebe A dosagem sumária de muitas destas fórmulas não deve preocupar mas sim excitar a fantasia inventiva dos cozinheiros futuristas cujos eventuais erros poderão freqüentemente sugerir novas invenções Decisão (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) ¼ de vinho quinado ¼ de rum ¼ de Barolo fervente ¼ de suco de Tangerina Inventina (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) 1/3 de Asti espumante 1/3 de licor de Abacaxi 1/3 de suco de Laranja gelado Vianda simultânea (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Uma gelatina de frango. e metade incrustada por esferas de carne de coelho muito cozidas ao vinho.indd 231 7/4/2009 15:51:27 . sem álcool). Para ser comida. 231 Cozinha futurista.

a outra com pasta de casca de maçãs trituradas.indd 232 7/4/2009 15:51:27 . Sobre este mar verde e vermelho colocam-se complexos formados por pequenos filés de peixe fervido. derramar sobre a semi esfera um molho de vinho branco quente encorpado com fécula e sobre a coroa um molho de cerveja quente. Entre as duas fatias de pão: salame cozido. Todoarroz (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Arroz branco cozido assim disposto: uma parte no centro do prato em forma de semi esfera – uma outra parte em volta da semi esfera.Fillippo Tommaso Marinetti Mesa vocabulivre marina (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Sobre um mar de salada crespinha. de modo a criar uma precisa decoração verde e vermelha. 232 Cozinha futurista. em forma de coroa. fatias de banana. aqui e ali salpicada de fragmentos de ricota. Pulverizar o navio e o mar com canela ou pimenta vermelha. uma cereja e um fragmento de figo seco. A poucos centímetros da proa. um camandantezinho esculpido em queijo holandês que dirige uma frouxa tripulação esboçada em miolos de vitelo cozidos no leite. No momento de servir à mesa. Mar da Itália (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Sobre um prato retangular dispõe-se uma base formada por listas geométricas de molho de tomates frescos e de espinafres. Entredois (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Duas fatias retangulares de pão: uma untada de pasta de anchovas. um obstáculo de pão forte de Siena. navega meio melão com. a bordo. gemas de ovos e queijo parmesão.

é coroado por uma camada de mel (C) e sustentado na base por uma anel de lingüiça (B). Aerovianda (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Serve-se à direita de quem come um prato com azeitonas pretas. dos jardins e dos prados da Itália) é composto por uma grande almôndega cilíndrica (A) de carne de vitela assada recheada por onze qualidades diferentes de legumes e verduras cozidos. que se apóia sobre três esferas douradas (D) de carne de frango. enquanto a mão esquerda alisa leve e repetidamente o retângulo tátil. Enquanto isso.A cozinha futurista Cada um desses complexos é mantido unido por um palito de dentes que sustenta verticalmente os diversos elementos. corações de erva-doce e bergamotas. Carnescultura (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) O “carnescultura” (interpretação sintética das hortas. Serve-se à esquerda de quem come um retângulo formado de lixa. os garçons esborrifam nas nucas dos comensais um comperfume de cravo enquanto vem da cozinha um violento comrumor de motor de aeroplano contemporaneamente a uma desmúsica de Bach. seda e veludo. Os alimentos devem ser levados diretamente à boca com a mão direita. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato.indd 233 7/4/2009 15:51:27 . LIXA SEDA VERMELHA VELUDO PRETO 233 Cozinha futurista.

A pasta que deriva é espalhada sobre uma omelete fria de ovos e geléia. de acordo com as iniciais dos seus nomes que determinarão assim a combinação dos diversos alimentos. de modo que permaneçam em pé) em Mortadela de Bolonha. em massa podre e em açúcar queimado. até a sua consumação. À caça no paraíso (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Cozer lentamente uma lebre em vinho espumante onde se dilui chocolate em pó. Servem-se duas por pessoa. Servi-la em abundante molho 234 Cozinha futurista. Então deixá-la mergulhada por um minuto em muito suco de limão.indd 234 7/4/2009 15:51:27 .Fillippo Tommaso Marinetti Diabo em túnica negra (polibebida do aeropintor futurista Fillìa) 2/4 de suco de laranja ¼ de grappa ¼ de chocolate líqüido Imergir a gema de um ovo cozido. em queijo. Envolver as trutas em finíssimas fatias de fígado de vitelo. Trutas imortais (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Rechear as trutas com nozes trituradas e fritá-las em azeite. Alfabeto alimentar (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Todas as letras do alfabeto são recortadas (com grande espessura. Promontório siciliano (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Atum maçãs azeitonas e amendoins japoneses são triturados juntos.

salpicada de confeitos prateados que lembram as balas dos caçadores.indd 235 7/4/2009 15:51:27 . Docelástico (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Recheia-se uma esfera de massa podre com zabaione vermelho no qual é imersa um pedaço (3 cm. Fechar a parte superior da esfera com meia ameixa seca. é servido em pé em um prato contendo café expresso quentíssimo misturado com muita água de colônia. a base de espinafre e zimbro. Carrossel de álcool (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) 2/4 de vinho Barbera ¼ de cidra ¼ de bitter Campari 235 Cozinha futurista. privado da pele. As grandes águas (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) ¼ de grappa ¼ de gim ¼ de cominho ¼ de anis Sobre o líqüido flutua um bloco de pasta de anchovas envolta cirurgicamente em uma hóstia. Porcoexcitado (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Um salame cru.) de alcaçuz em fita.A cozinha futurista verde.

um quadrado de queijo e um quadrado de chocolate. 236 Cozinha futurista. uva passa. como a vegetação de palmeiras. enfiados em um palito de dentes.indd 236 7/4/2009 15:51:27 . cheios de geléia de ameixa. O topo do cone será bombardeado de pedaços de trufas negras cortadas em forma de aeroplanos negros à conquista do Zênite. Prefácio gustativo (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um cilindro de manteiga que sustenta no alto uma azeitona verde. Equador + Pólo Norte (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um mar equatorial de gemas de ovos em suas cascas. No centro emerge um cone de claras batidas em neve e solidificadas. Entre as bananas são escondidos ovos cozidos sem a gema.Fillippo Tommaso Marinetti No líqüido são imersos. Discos saborosos (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Bolo de frutas variadas que se apóia sobre um disco de chocolate. cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. pinhõezinhos e confeitos. Na base do cilindro: salame. com pimenta sal limão. bananas sem casca. Paradoxo primaveril (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um grande cilindro de sorvete de creme que traz no alto. O bolo é coberto por duas camadas de papa que o dividem ao meio: a primeira feita de molho de tomates e a segunda de espinafre.

Tâmaras ao luar (fórmula do futurista Dr. A polpa assim obtida é incorporada à ricota até obter uma massa bem homogênea. Sirocofran) Para fundir a máxima pureza virginal com a máxima luxúria de perfume. quem dorme. não pega peixes 237 Cozinha futurista. São levadas à mesa junto com o café. Escorram-no e temperem-no com finíssimo pó de rizoma de lírio. sabe-se bem. Perfumes prisioneiros (fórmula do futurista Dr. Aproxima-se das bexigas o cigarro aceso e aspira-se o perfume que dali brota. que cantou a virgem Heródias em uma verde paisagem palustre coberta de sensualíssimos lírios turquesa. após ter mantido o prato no refrigerador por algumas horas. Sirocofran) Dentro de finas bexigas coloridíssimas coloca-se uma gota de perfume.A cozinha futurista Arroz de Heródias (fórmula do futurista Dr. exaltando-os e honrando assim o nome glorioso de Mallarmé. 500 gramas de ricota romana.indd 237 7/4/2009 15:51:27 . Privam-se as tâmaras do caroço e amassam-nas bem (melhor ainda se são passadas na peneira). peguem arroz e façam cozinhar em muito leite convenientemente salgado. procurando que os perfumes sejam variados. Antepasto fulgurante (fórmula do poeta futurista Luciano Folgore) Pensa que se dormes não mereces fazer um antepasto incomparável. Elas são enchidas e levemente esquentadas de modo a vaporizar o perfume e tornar turvo o invólucro. Servir frio. Sirocofran) 35-40 tâmaras muito maduras e doces. em pequenos pratos quentes.

Conta-se que um rei da Patagônia por um tal prato renunciou ao seu reino esta história é certamente uma embroma mas a bondade do prato que te ensino é tão real e alegra o apetite 238 Cozinha futurista. logo os arenques a banho meterás quatro ou cinco horas sob água pura e quando houverem perdido a salgadura estenda-os na tábua que os deleita com um pouco de cebola e um ovo cozido depois com o oscilar da lamineta triture tudo finamente e faça de modo que a pasta seja macia e perfeita e por fim como condimento regue com azeite e vinagre a seu contento. Feito isso pegue o leite novamente (o leite dos arenques. aliás sutil.indd 238 7/4/2009 15:51:27 . depois tire o leite que colocarás a esperar os eventos em um pratinho. entende-se) para desfazê-lo no óleo ao qual une-se algumas gotas de vinagre e finalmente estenda aquele leite tenro e picante sobre os arenques que triturastes já e o antepasto fino e excitante todo apetite humano despertará. Obtendo-os. para prender até peixe em barril a fim de obter (pagando preços salgados) dois arenques ao leite e não defumados. limpe-os com carinho.Fillippo Tommaso Marinetti enquanto em nosso caso é indispensável estar de tal modo desperto.

a qual – de resto – na natureza quase não é mais encontrado. caldo convenientemente salgado e ao qual será agregado o suco dos alquequenjes. Fazer – à parte – um abundante molho de salsinha com alho e cebola em pequena dose. Colocar azeite abundante em uma caçarola. após o Convite “Entendê-la não pode quem não a prova”. acrescentar. É sintético porque os oito grãos contidos no bulbo ácido são como as “Marinettianas” oito almas em uma bomba. recolha-se. Após vinte minutos de cozimento. tirá-la do fogo e jogar o triturado de alquequenjes (conservando o suco à parte) e o pesto de salsinha. 239 Cozinha futurista. Então. com cuidado o suco produzido. Risoto futurista ao alquequenje (fórmula do aeropoeta futurista Paolo Bruzzi) Preparar triturado um quilo de alquequenje separado de sua sutil membrana.A cozinha futurista que parece que Dante na Vita Nuova tenha escrito para ela. a colheradas.indd 239 7/4/2009 15:51:27 . mexendo sempre até ficar cor de ouro. e é velocissimamente digerível como tudo o que pertence à usina (queria dizer cozinha) futurista. Quando estiver bem quente. tire tudo do fogo amanteigando bem o risoto e acrescente queijo em abundância. à parte. Voltar ao fogo: e apenas tudo esteja dourado (que a cebola não se toste) acrescentar arroz suficiente para seis pessoas. porque o alquequenje é dotado de asas de bom tecido como o aeroplano. asas que se jogam fora: e assim parecem um paraquedas. Este risoto é futurista porque o alquequenje é uma fruta quase fora de série: certo. muito mais que o açafrão.

ou caciocavallo. passem as laranjinhas em farinha branca. Mazza) Preparem um bom risoto de açafrão ou de tomate. Façam muitas bolotas do tamanho médio de uma laranja. pinhõezinhos e uva passa. Em toda a volta da abertura do dorso levantam-se cristas de galo. faz-se uma abertura em seu dorso e completa-se o interior com zabaione vermelho sobre o qual são dispostos 200 gramas de confeitos esféricos prateados. (Não deve ser ao dente para que os grãos de arroz possam aderir uns aos outros). geléia de morango e regada delicadamente por Asti espumante. e deixe-o esfriar.indd 240 7/4/2009 15:51:27 . alargando-o sem romper as paredes. Cubram com mais risoto e arredonde-os novamente. Fritem-nas em abundante azeite até que fiquem loiro-douradas e sirvam-nas quentes. salame ou presunto cru em cubinhos.Fillippo Tommaso Marinetti Laranjinhas de arroz (fórmula do vocabulivre futurista Arm. e recheiem-nas com carne à bolonhesa moída grossa e úmida de seu molho. e façam em cada uma delas um furo com o polegar. Quando esfriar. melhor. em azeite. menta. Acrescente cubos de queijo (fontina ou mussarela. Frango de aço (fórmula do aeropintor futurista Diulgheroff) Assa-se um frango completamente esvaziado. depois em ovo batido e enfim em farinha de rosca. Comumanuvem (fórmula do aeropoeta futurista Giulio Onesti) Uma grande massa de chantilly dardejada por suco de laranja. molhando as mãos em água ou. mas mais cozido. ou provolone fresco). 240 Cozinha futurista. tendo o cuidado de tirá-lo do fogo não ao dente. Assim prontas. crocantes.

uma meia lua de melancia. A. Vitelo embriagado (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Rechear a carne crua de vitelo com maçãs descascadas. Golfo de Trieste (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Cozinhar um quilo de vôngole sem casca em um molho de cebola e alho acrescentando lentamente o arroz. para ser comido. atacando aqui e ali com as mãos. Saladin) Sobre um prato retangular dispõem-se fatias finas de língua de vitelo fervida e cortada de comprido. cravos. 241 Cozinha futurista. nozes. Sobre estas sobrepõem-se duas fileiras de patas de caranguejo assadas no espeto.indd 241 7/4/2009 15:51:27 . enquanto o grande pintor e vocabulivre Depero declamará a sua célebre “Jacopson”. de modo que resultem 12 Vinho licoroso feito com uva passa.A cozinha futurista Palavras em liberdade (fórmula do aeropoeta futurista Escodamè) Três mariscos. Cozinhar no forno. Sorvete simultâneo (fórmula do poeta vocabulivre futurista Giuseppe Steiner) Creme de leite e quadradinhos de cebola crua gelados juntos. 2 figos. pinhõezinhos. Ultraviril (Fórmula do crítico de arte futurista P. 5 biscoitinhos de amêndoa: todos dispostos ordenadamente sobre um grande leito de mussarela. um buquê de salada radicchio. uma pequena esfera de gorgonzola. um pequeno cubo de parmesão. 8 bolinhas de caviar. Servir frio em banho de Asti espumante ou de passito12 de Lipari. olhos fechados. Apresentar este risoto com um acompanhamento de creme de baunilha sem açúcar.

Fillippo Tommaso Marinetti paralelas e em senso longitudinal ao eixo do prato. equinácea 1 parte de licor de chá 1 parte de kirch Maismenosparaseparado (Polibebida do crítico de arte futurista P. Saladin) 1 castanha confeitada 1 parte de licor de rosas 1 parte de licor de abacaxi 1 parte de licor de timo ou tomilho Amor alpestre (Polibebida do crítico de arte futurista P. A parte anterior é coroada com seis cristas de galo como divisores. ginseng. A. cola. Saladin) 3 grãos de café 1 parte de licor feito com as seguintes plantas: coca. A. coberta de zabaione verde.indd 242 7/4/2009 15:51:27 . muira puama. Entre estas duas fileiras coloca-se o corpo de uma lagosta previamente descascada e desossada. Saltoemcarne (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. ioimbe. damiana. Na parte posterior da lagosta dispõem-se três ovos cozidos cortados longitudinalmente e de modo que a gema se apóie sobre as fatia de língua. uma de grãos e uma fatia fina de trufa coberta por ovas de lagosta. enquanto completam a guarnição do prato duas fileiras de pequenos cilindros compostos por uma rodela de limão. Saladin) ¼ de licor de melissa ¼ de gemas de abeto ¼ de bananas ¼ de aspérula perfumada 242 Cozinha futurista.

Saladin) Sobre um prato redondo serve-se zabaione vermelho de modo a formar uma grande mancha. A.indd 243 7/4/2009 15:51:27 . Saladin) 1/3 de licor de artemísia 1/3 de licor de ruibarbo 1/3 de grappa Centelha (Polibebida do crítico de arte futurista P. equidistantemente entre eles e em forma de cone. A. Sobre um raio do prato dispõem-se. como indicado no desenho. No meio desta dispõe-se um belo disco de cebola furado e atravessado por um galho de angélica confeitado. Saladin) ¼ de licor de cascas verdes de amêndoas ¼ de licor de genciana ¼ de licor de absinto ¼ de licor de genebra Homemulhermeianoite (Fórmula do crítico de arte futurista P.A cozinha futurista Desanuviante (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. Saladin) Cobre-se o fundo de um prato redondo com fondente levemente perfumado com grappa. alcachofras. alcaparras. A. duas castanhas confeitadas e serve-se um prato para cada casal. Dispõem-se depois. Parasocar (Fórmula do crítico de arte futurista P. 3 meios pimentões vermelhos assados e recheados com uma massa de legumes composta de pontas de aspargos. azeitonas. cebolinha. Do lado oposto dispõem-se 3 talos de alho-porró 243 Cozinha futurista. corações de aipo e de erva-doce.

Fillippo Tommaso Marinetti fervidos. Um arabesco de trufas raladas que parte do 2o. pimentão e termina naquele da parte externa completa o prato. Hortocubo (fórmula do crítico de arte futurista P. A. Saladin) cubinhos de aipo de verona fritos e cobertos de páprica cubinhos de cenoura fritos e cobertos de rábano ralado; ervilhas fervidas; cebolinha de Ivrea em conserva cobertas de salsinha picada; barrinhas de queijo fontina. N.B. Os cubinhos não devem ultrapassar 1 cm³. Branco e preto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Mostra individual sobre as paredes internas do Estômago de arabescos à vontade, de chantilly pulverizado com carvão de tília. Contra a indigestão mais negra. Pró dentadura mais branca. Terra de Pozzuoli e verde veronês (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Cidras confeitadas, recheadas de sépia frita e picada. Mastigá-los bem como se fossem críticos antifuturistas. Cenouras + calças = professor (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Uma cenoura crua em pé, com a parte fina para baixo, onde serão aplicadas com um palito de dentes duas berinjelas fervidas, na função de calças roxas marchadoras. À cenoura, deixar as folhas verdes na ponta, representando a esperança da aposentadoria. Mandibular tudo sem cerimônias.

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A cozinha futurista Cravos no espeto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Longos finos cilindros de massa folhada. Dispor em fila sobre cada um quatro cravos: branco, rosa, vermelho, púrpura, assados em licor frio ou no Roob Coccola di Zara. Ao comê-los pensar no fenecido estilo floral. Morangomama (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Um prato rosa com duas mamas femininas eretas feitas de ricota rosada ao Campari e bicos de morango confeitado. Outros morangos frescos sobre a cobertura de ricota para morder em uma ideal multiplicação de mamas imaginárias. Cafémaná (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Café de cevada torrada, adoçado com maná. Servi-lo quentíssimo para que os comensais o esfriem assoprando em cada um as piadas mais congelantes. Senado da digestão (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Quatro comensais pedirão cada um duas conhecidas comidas ou bebidas digestivas. Ou então oito comensais, uma cada. Os outros convidados votarão secretamente contra uma ou outra. Resultará vencedora aquela que obtiver menos votos contra.

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Fillippo Tommaso Marinetti Aeroplano libanês (fórmula do piloto-aviador, poeta e aeropintor futurista Fedele Azari) Castanhas confeitadas imersas por 2 minutos em água de Colônia e depois por 3 minutos no leite, então servidas sobre uma papa (cinzelada em forma de delgado aeroplano) de bananas, maçãs, tâmaras e ervilhas. Reticulados do céu (fórmula do aeroescultor futurista Mino Rosso) A base é um disco de bala de cereja. O cilindro grande: Três folhas de massa folhada recheadas com polpa de tamarindo e cobertas por fondente de chocolate. O cilindro pequeno: coroas de merengue sobrepostos cobertas com fondente de tangerina. O centro do cilindro superior contém chantilly com polpa de tamarindo e pistaches descascados. A asa é bala de tangerina. Pouco antes de ser apresentado à mesa o doce deverá ser coberto com fios de açúcar verde. Antepasto intuitivo (fórmula Senhora Colombo-Fillìa) Esvazia-se uma laranja em forma de cestinha na qual se dispõem qualidades diferentes de salame, manteiga, cogumelos em conserva, anchovas e pimentas verdes. A cestinha perfuma de laranja os diversos elementos. Dentro das pimentas escondem-se bilhetinhos com frases de propaganda futurista ou frases surpresa (por exemplo: “O futurismo é um movimento anti-histórico”- “Viva perigosamente”- “Médicos, farmacêuticos e coveiros, com a cozinha futurista ficarão desempregados”, etc.)

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A cozinha futurista Leite à luz verde (fórmula da senhorita Germana Colombo) Em uma grande tigela de leite frio imergem-se algumas colherinhas de mel, muitos grãos de uva preta e alguns rabanetes vermelhos. Comer enquanto uma desluz verde ilumina a tigela. Beber juntamente uma polibebida feita com água mineral, cerveja e suco de amoras. Faisão futurista (fórmula do aeropoeta Dr. Pino Masnata) Assar um faisão bem esvaziado, depois deixá-lo uma hora em banho-maria no moscato de Siracusa. Depois uma hora no leite. Recheálo com mostarda de Cremona e frutas cristalizadas. Aeroporto picante (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Uma camada de salada russa com maionese coberta de verde. Em volta medalhões variados compostos de pãezinhos recheados de laranja, clara de ovo e frutas mistas. Com manteiga tingida de vermelho e anchovas ou sardinhas formar no campo verde perfis de aeroplanos. Estrondos ascensionais (arroz com laranja) (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Risoto em branco com molho luminoso: o molho é composto de ossos de vitelo cozido em marsala e um pouco de rum, casca de laranja cortada em tirinhas finas, fervidas com gotas de vinagre. Acrescentar suco de laranja. Perfumar com “molho nacional”, que se encontra no comércio.

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Fillippo Tommaso Marinetti Fuselagem de vitelo (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni)Fatias de vitelo encostadas na fuselagem montanha composta por castanhas cozidas, cebolinhas e lingüiças. Tudo coberto de pó de chocolate. Aparições cósmicas (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Ervas-doces, beterrabas, brócolis, cenouras amarelas sobre um pastel de espinafre. Acrescentar cabelos de anjo de açúcar. Os legumes são cozidos cortados em formato de estrela, lua, etc e servidos na manteiga. Aterrissagem digestiva (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Com papa de castanhas cozidas em água com açúcar e favas de baunilha formar montanhas e planícies. Por cima, com sorvete de creme de cor azul, formar camadas de atmosfera sulcadas por aeroplanos de massa podre inclinados em direção ao chão. Mamas italianas ao sol (fórmula da aeropintora futurista Marisa Mori) Formam-se duas meias esferas cheias de pasta confeitada de amêndoas. No centro de cada uma apóia-se um morango fresco. Então se derramam na bandeja zabaione e zonas de chantilly. Pode-se cobrir tudo com pimenta-do-reino forte e guarnecer com pimentas vermelhas. Algaespuma tirrena (com guarnições de coral) (fórmula de aeroceramista futurista Tullio d’Albisola, PoetaRecord de Turim)

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Congelar. Acordaestômago (fórmula do aeropintor futurista Ciuffo) Uma fatia de abacaxi sobre a qual dispõe-se um raio de sardinhas. e uma constelação de grãos de romã madura. Revestir o vazio com biscoito tipo inglês dando forma quadrada.. 249 Cozinha futurista. desenformar e servir com uma guarnição de meios damascos com gelatina. A guarnição de corais será obtida com um monte de cachos de pimentas vermelhas picantes.indd 249 7/4/2009 15:51:28 . Pulveriza-se a folha com açúcar e espuma-se com uma onda de chantilly. gomos de laranja e limões confeitados. O todo. O centro do abacaxi é coberto por uma camada de atum sobre a qual se apóia uma meia noz. advertindo que a pesca não tenha ocorrido nas vizinhanças de fossas ou desaguadouros porque a referida alga assimila facilmente os maus cheiros. sobre um prato redondo plano. Decorar os lados com angélica cândida em forma de coroa e a parte posterior com castanhas confeitadas. deixando-a endurecer. com brodo ondeado e coberto por uma folha de celofane azul. esfregar no suco de limão.A cozinha futurista Prende-se um maço de algas marinhas de recentíssima pesca de rede. Cobrir a decoração com uma camada de gelatina. Bomba à Marinetti (fórmula do cozinheiro futurista Alicata) Revestir uma forma de bomba com gelatina de laranja decorando a parte da cúpula com pequenos morangos. gomos de ouriços do mar pescados sob lua cheia. Quando limpa. preenchendo o vazio com uma bavaroise de baunilha. arquitetado e arabescado com arte. será servido à mesa apenas pronto. fresco. lava-se e enxágua-se em abundante água corrente.

Sobre: leite com mel ou mel (1 cm. licor Strega. Em seu interior e no fundo: sorvete de creme. No centro do pratinho.Fillippo Tommaso Marinetti Doceforte (fórmula da Senhora Barosi) Entreosdois formado por duas fatias de pão com manteiga. conhaque. Um ritual (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Um pequeno cilindro oco de gelo coberto externamente de mel. previamente imersas em pimenta Caiena. anchovas. depois amendoins de Chivasso. pedaços de abacaxi. que comprimem bananas e anchovas. Sobre o mel: alquermes. fatias de tomate. vermute e licor Strega. 250 Cozinha futurista. tudo regado de vermute e licor de menta. Avanvera (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Sobre um pratinho de alumínio. Meio copo de Asti espumante. Fogonaboca (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) No fundo do copo: uísque com marascas em conserva. fatias de banana. com o interior também espalhado de mostarda. Dentro: fatias de banana. café torrado. fatias de queijo parmesão.indd 250 7/4/2009 15:51:28 . com mostarda espalhada em sue interior. de espessura) como divisor impermeável. O regenerador (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Uma gema de ovo. eqüidistantes: um montinho de amêndoas torradas. um copo contendo: vermute.

dispostos direitos de modo a formar um cilindro vazio. óleo sal pimenta. cozidos previamente em água. emblema fascista tomado da antiga Roma 251 Cozinha futurista. Vernazza) 4/8 de vinho Vernaccia 3/8 de vermute 1/8 de aguardente Tâmara pouco madura recheada de mascarpone empastado com licor Aurum (Pescara). Fixados: embaixo por uma semi esfera de risoto branco e em cima por um meio limão.indd 251 7/4/2009 15:51:28 . distribuídas como estrelas: um pepino. O interior do cilindro recheado com carne moída. Sobre a semi esfera de arroz. aparecerão no líqüido os olhos de gordura depositadas pelo presunto: neste caso a polibebida poderá ser intitulada “aquele porco que pisca os olhos”) 13 Talvez o fascio lictório. A tâmara assim confeitada é envolta em finas fatias de presunto cru e depois em folhas de alface. Apresentado em um copo dentro do qual se dispõe uma banana descascada e visível. Tudo batido por 10 minutos. Tudo enfiado em um palito sobre o qual se enfilará também uma pequena pimenta vermelha em conserva recheada de queijo parmesão em pedacinhos. um pedaço de banana.A cozinha futurista Três nozes torradas. Simultânea (polibebida do futurista Dr. Três colherinhas de açúcar. O lictório13 (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Diferentes caules de cardo ou salsão do comprimento de 10 cm. um pedaço de beterraba.. (Introduzir-se-á o palito no copo.

Molho preparado com a fritura de pouca cebola e manteiga. Chuleta-tênis (fórmula do futurista Dr. ovos. uma anchova coberta por uma tirinha de banana.Fillippo Tommaso Marinetti Risoto Trinacria (fórmula do futurista Dr. Vernazza) Bife de vitelo cozido na manteiga e cortado em forma de encordoamento de raquete: na hora de servir. ao qual se acrescentará: pedacinhos de barriga de atum em conserva e tomate em mínima quantidade. sobre a qual são traçadas algumas linhas com molho de tomate misturado com rum. Depois bolinhas esféricas perfeitas com cereja em conserva (sem o cabinho) envoltas com massa de ricota. Bocado “squadrista”14 (fórmula do futurista Dr.indd 252 7/4/2009 15:51:28 . Para formar o cabo da raquete. Vernazza) Arroz cozido normalmente. Vernazza) Filé de peixe entre dois grossos discos de maçã: tudo coberto de rum e flambado no momento de servir. acrescentar e misturar algumas azeitonas verdes e guarnecer com gomos bem limpos de tangerina. 14 militante da causa fascista 252 Cozinha futurista. Cozimento rápido para manter o forte da bebida. queijo e noz moscada. cobrir com uma fina camada de massa (feita de mascarpone amassado com nozes trituradas). Temperado o risoto.

Rosas diabólicas (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. espinafres. Por cima: uma camada de chantilly. fatias de laranja embebidas em marasquino Zara. Por cima dispor (um por comensal) aeroplanos formados por: folhadinhos de formato triangular (asas) – cenoura cortada de comprido (fuselagem) – cristas de galo cozidas em manteiga (leme) – bergamotas cortadas em discos e colocadas em pé (hélice). Esquiador comestível (fórmula do futurista Dr.A cozinha futurista Aerovianda atlântica (fórmula do futurista Dr. Entre o zabaione e o chantilly. etc) de cor verde clara. Vernazza) Pasta de legumes (lentilhas. de farinha suco de meio limão uma colher de azeite 253 Cozinha futurista.indd 253 7/4/2009 15:51:28 . Sobre a superfície branca dispor longas fatias de banana e no centro meia tâmara recheada de licor Aurum amassado com amêndoas doces e amargas trituradas. Dos dois lados desta composição que lembra esqui: discos de fruta cristalizada dentro do qual está enfiado um grissini doce. Vernazza) Zabaione duro gelado em um prato fundo. ervilhas.

Sirva-os à mesa quentíssimos. de água de flor de laranjeira ½ litro de leite Cozinhem no leite o café e adocem a gosto. – Veja a fórmula seguinte. e frite-as em azeite fervente como se usa para fazes alcachofras à la jedia. Tirem-no fogo e. de arroz 2 ovos Casca de limão fresco 50 gr. de café Açúcar a vontade 100 gr.indd 254 7/4/2009 15:51:28 . especialmente se vêm cobertas do doce futurista Mafarka.Fillippo Tommaso Marinetti Misture bem os ingredientes citados e forme assim uma massa não muito densa. depois coloquem o arroz e cozinhem-no muito seco e al dente. jogue lá dentro rosas vermelhas aveludadas despetaladas. a água de flor de laranjeira. despejem-no assim em uma forma. misturando bem. e viva o aço! 254 Cozinha futurista. Quando estiver bem deaço sirvam-no com biscoitos finos. ralem dentro a casca do limão e espalhem. Bom apetite. depois de ter cortado o caule na altura do cálice. e levem ao gelo. (Indicadíssimos para recém-casados. quando estiver frio. comam à meia-noite em janeiro.) Doce Mafarka (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 50 gr.

meia anchova. banhem-na no outro ovo que já foi batido. 15 Pejorativo. 255 Cozinha futurista. de alcaparras 100 gr. e depois passem em farinha de rosca e fritem. 2 ou 3 azeitonas sem o caroço. A cada parte. Depois que o arroz for tirado do fogo misturem imediatamente um ovo. incorporando-o bem. assim preparada. Quando o preparado estiver bem frio.indd 255 7/4/2009 15:51:28 . e em cada uma destas incorporarão uma fatia de mussarela. de azeitonas 50 gr. proprietário do Santopaladar) Cozer uma coxa de carneiro com louro. Pulo de áscaro15 (fórmula do futurista Giachino. soldado da colônia italiana em Eritréia. de mussarela de búfala 6 anchovas 25 gr.A cozinha futurista Bombardeamento de Adrianópolis (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. de arroz ½ litro de leite Coloquem para cozinhar bem al dente o arroz no leite. e aproximadamente na metade do cozimento acrescentar a manteiga e sal suficiente. pimenta. e uma pitada abundante de pimenta do reino. darão a forma de uma esfera. dividam-no em 10 partes. 3 ou 4 alcaparras. alecrim e alho. de manteiga 100 gr.

proprietário do Santopaladar) 256 Cozinha futurista. azeitonas. Ovos divorciados (fórmula do futurista Giachino. recheada com geléia e servida em um brodo de rosas quentes realçado por gotas de água de Colônia italiana. Arroz verde (fórmula do futurista Giachino. Verter sobre o filé molho de tomate e acrescentar um anel de maçã. cogumelos em conserva. Compenetração (fórmula do futurista Giachino. uma fatia de presunto e uma fruta cristalizada. proprietário do Santopaladar) Sobre uma larga fatia de presunto colocar salame cru. atum. escorrê-la. fatias de abacaxi e manteiga.indd 256 7/4/2009 15:51:28 . Sopa zoológica (fórmula do futurista Giachino. proprietário do Santopaladar) Sobre um creme de ervilhas dispor um filé de vitelo cozido em manteiga. Aplacafome (fórmula do futurista Giachino. proprietário do Santopaladar) Sobre um fundo de espinfre servir arroz branco fervido e temperado com manteiga e recoberto por um denso creme de ervilhas e pistaches em pó. Unir as duas extremidades do presunto e mantê-las fechadas com filés de anchova.Fillippo Tommaso Marinetti Cozida a coxa. proprietário do Santopaladar) Massa em forma de animais composta de farinha de arroz e ovos. e acrescentar à carne tâmaras recheadas com pistaches salgados. pepinos. vinho branco seco e suco de limão. alcachofrinhas.

deixando cozinhar até secar. Tornar novamente ao fogo com um cálice de vinho branco seco e suco de limão.A cozinha futurista Dividir na metade ovos cozidos extraindo intactas as gemas. proprietário do Santopaladar) Pequenos nabos novos fervidos por 10 minutos com louro. licor Campari e anis com essência de Rosas Brancas. cozinheiro do Santopaladar) Fazer um furo em todo o comprimento de uma banana descascada e enchê-lo com carne de frango moída. Cortá-los depois como carteiras e recheá-los com anchovas banhadas em ovo e rum. proprietário do Santopaladar) Doses diferentes de laranjada. cebolas e alecrim. Voltar ao fogo com meio copo de suco de ameixa. 257 Cozinha futurista. Servir com legumes. Levar ao fogo em uma caçarola com manteiga e acrescentar um pouco de caldo de carne. nozes e uma baga de zimbro. Passar os nabos recheados em gema de ovo e no pão ralado e cozê-los ao forno. Bananas surpresa (fórmula do futurista Piccinelli. proprietário do Santopaladar) Misturar à medula de ossobucos dourados em manteiga farinha de rosca. Nabo-carteira (fórmula do futurista Giachino.indd 257 7/4/2009 15:51:28 . Rosabranca (fórmula do futurista Giachino. Depois acrescentam-se seis ameixas sem caroço recheadas com amêndoas. Boca de fogo (fórmula do futurista Giachino. Dispor as gemas sobre uma pasta de batatas e as claras sobre uma pasta de cenouras.

258 Cozinha futurista. Conmúsica: termo que indica a afinidade acústica de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: a conmúsica do carnescultura e o balé “HOP-FROG” do maestro futurista Franco Casavola. Exemplo: o comtátil da pasta de bananas e o veludo ou a carne feminina.indd 258 7/4/2009 15:51:28 . exemplo: o comperfume da massa de batatas e a rosa. Comrumor: termo que indica a afinidade rumorística de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. Comtátil: termo que indica a afinidade tátil de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda.Fillippo Tommaso Marinetti pequenO diciOnáriO da arte cozinhária futurista Castanhas confeitadas: substitui marrons glacê Comperfume: termo que indica a afinidade olfativa de um dado perfume com o sabor de uma determinada vianda. Exemplo: o comrumor do arroz ao molho de laranja e o motor de motocicleta ou o “despertar da cidade” do rumorista Luigi Russolo.

dos refrigerantes e da espuma do mar. Exemplo: o desperfume da carne crua e o jasmim. Desperfume: termo que indica a complementaridade de um dado perfume com o sabor de uma dada vianda. Consumado: substitui CONSOMMÉ. Destátil: termo que indica a complementaridade de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o destátil do “Equador + Pólo Norte” e a esponja. Desrumor: termo que indica a complementaridade de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. Desmúsica: termo que indica a complementaridade de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. 259 Cozinha futurista. uma importante decisão.indd 259 7/4/2009 15:51:28 . Exemplo: a desmúsica das tâmaras com anchovas e a Nona Sinfonia de Beethoven. Exemplo: a comluz do “porcoexcitado” e um relampejar vermelho. Decisão: nome genérico de polibebidas quentes-tônicas que servem para tomar.A cozinha futurista Comluz: termo que indica a afinidade óptica de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o desrumor do “Mar da Itália” e o chiado do óleo fritando. após breve mas profunda meditação.

Guiapaladar: substitui MAÎTRE D’HOTEL. 260 Cozinha futurista. Lista ou Listadepratos: substitui MENU. Guerranacama: polibebida fecundadora.Fillippo Tommaso Marinetti Desluz: termo que indica a complementaridade de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Mexedor: substitui BARMAN. Mistura: substitui MÉLANGE. Fondentes: substitui FONDANTS. Exemplo: a desluz de um sorvete de chocolate e uma luz laranja quentíssima. Inventina: nome genérico de polibebidas refrescantes e levemente embriagantes que servem para encontrar fulminantemente uma idéia nova.indd 260 7/4/2009 15:51:28 . Fumatório: substitui FUMOIR.

Aquisebebe: substitui BAR. Pasta: substitui PURÉE Almoçoaosol: substitui picnic. Cedonacama: polibebida aquecedora invernal. Polibebida: substitui COCKTAIL. Pasticho: substitui FLAN. 261 Cozinha futurista.A cozinha futurista Paznacama: polibebida sonífera. Sala de chá: substitui TEA-ROOM Sganasciatore: personagem futurista que tem por tarefa alegrar os banquetes oficiais.indd 261 7/4/2009 15:51:28 . Paraselevantar: substitui DESSERT.

indd 262 7/4/2009 15:51:28 .Fillippo Tommaso Marinetti Entreosdois: substitui SANDWICH Sopa de peixe: substitui BOUILLABAISSE 262 Cozinha futurista.

indd 263 7/4/2009 15:51:28 .ConClusão O Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 264 7/4/2009 15:51:28 .

pelas máquinas. de Filippo Tommaso Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. Escultura. olfato e paladar. propiciando assim um contato maior com o mundo modernizado que se lhes apresentava. passando da Literatura à Pintura. primeiro grande movimento literário do século na Itália.O objetivo deste trabalho foi proporcionar ao leitor de língua portuguesa e aos estudiosos do Futurismo o acesso a uma obra importante do movimento. Cinema e. tato. Teatro. audição. além de outros doze polemicamente instituídos por Marinetti no manifesto de 1921.indd 265 7/4/2009 15:51:28 . Os representantes do Futurismo procuraram se manifestar em relação a diversas esferas da arte e cultura. a euforia dos homens pelas multidões. embora praticamente desconhecida e ainda não publicada no Brasil: A cozinha futurista. Arquitetura. Todos os sentidos foram privilegiados pelos manifestos: visão. no início. pelas 265 Cozinha futurista. O Futurismo. também à Gastronomia. Esta trazia. agora. oferecia novos modos de expressão para representar a nova sociedade que se formava a partir do final do século XIX.

A cozinha italiana nunca mais seria a mesma. Propuseram modificar o hábito mais arraigado da tradição italiana – o macarrão – para despertar interesse. A cozinha futurista é um livro intrigante. pelos avanços científicos e pelos meios de comunicação e. ingerido certas iguarias. Algumas das regras contidas no “Manual de Redação e Estilo Futurista”. além de revigorar a raça. A expressão da gastronomia na literatura não é novidade: desde as antigas civilizações. O resultado é a estranheza de algumas construções sintáticas e a inovação do vocabulário. O Manifesto da Cozinha Futurista aparece como grito desafiador de um movimento que não atingia mais os seus objetivos. revelam aos poucos a intolerância de Marinetti para com os hábitos tradicionais. traz inúmeras opiniões. de pessoas inusitadas. Para evidenciar o futurismo proposto. o homem moderno alienado pela cultura de massas. permeando o Renascimento e toda a literatura 266 Cozinha futurista. a saber os manifestos do Futurismo e Técnico da Literatura Futurista. Os argumentos econômicos de Marinetti soam bastante convincentes: modificar os hábitos alimentares. para sustentar a tese de que “macarrão não faz bem aos italianos”. ou fúria. ou pior. Os artigos de jornais fazem transparecer o “passadismo” dos estômagos. a euforia e o impacto iniciais foram perdendo força na medida em que deixaram de ser novidades.indd 266 7/4/2009 15:51:28 . certamente mantém o bom humor à mesa. A forma dos pratos. com receitas assustadoras. O otimismo. Certas descrições.Fillippo Tommaso Marinetti indústrias. mais tarde. Além de conter o polêmico manifesto. faz imaginar se alguém já teria preparado. passando para a Idade Média esfomeada. A trajetória do Futurismo segue a História. que muitas vezes refutam os pratos inovadores. aproximam-se da política para garantir a subsistência do movimento enquanto se afastam da vanguarda literária. se não excita o apetite. ajudaria a fortalecer a economia. O receitário futurista. são postos em prática pelo autor. nada melhor que uma linguagem adequada. com fartura em grandes banquetes. na população. aparentemente incompreensíveis.

e que continuou importando cultura por ainda mais cem anos. O banquete. nome que rejeitaram pouco tempo depois. p. invento pratos e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe. embora a digestão da carne humana tenha. Buscou-se nos três autores trabalhados – Marinetti. aos convites-cardápio de Oswald. cit.indd 267 7/4/2009 15:51:28 . Boas surpresas foram colhidas ao longo do processo. que atendesse aos anseios de um país – ex-colônia de Portugal por mais de três séculos. os livros trazem com bastante freqüência o prazer da mesa para suas páginas. significados. seria algum cozinheiro famoso. e até a um canibalismo inesperado em Marinetti. independente. Não queriam ser discípulos do movimento europeu. Estas interferências . metafórico e intelectual. O Futurismo italiano e o Modernismo brasileiro foram aproximados neste trabalho a partir do viés culinário-antropofágico. para cada um. desde a declaração de Mário de Andrade: “Gosto porém muito de arte culinária. Mario de. temas e formas de composição literária. mas permitem que aproximemos e comparemos afinidades.que poderiam ser chamadas de influência ou contribuição – situam-se apenas no campo da suposição. As coincidências culinárias . Oswald de Andrade e Mário de Andrade – as referências à culinária em si e ao canibalismo real. desejavam fundar um movimento nacional. 1 Andrade.22 267 Cozinha futurista. por não refletir o exato perfil de seus participantes. O “encontro” dos três autores propiciou o questionamento sobre as possíveis interferências da obra de um na obra do(s) outro(s).A cozinha futurista subsequente. Os escritores brasileiros que revolucionaram as artes no início do século chamaram-se no início de futuristas. Op.ingestão de carne humana. simbologias e objetivos diferenciados.”1. metafórica ou não – revelam uma preocupação comum.

estudioso de vários campos das artes. merece mais atenção por parte dos pesquisadores. participando da construção de uma nova sociedade para o novo século. a verificar todos os incômodos que este suscitou. A partir da leitura das obras literárias de Marinetti pudemos observar que o escritor é muitas vezes esquecido. Colecionando recortes de jornal e receitas de amigos. Esperamos que este livro “cozinhário” possa contribuir com os estudos feitos tanto na área gastronômica quanto na literária. como Marinetti. um autor que analisou e criticou sua nação. ou talvez outros se aventurem pela obra marinettiana. reproduzindo-os num grande livro. Infelizmente este trabalho não pode ir além da Cozinha.Fillippo Tommaso Marinetti O pastiche. 268 Cozinha futurista. Colecionando histórias de índios e organizando-as num herói nacional. talvez pela idéia corrente de que teria servido ao regime fascista de Mussolini. colando-os num diário. como cantou Mário. embora os títulos sejam pouco conhecidos ou lidos. e que desperte em outros estudiosos o interesse por esta figura tão contraditória e interessante do Futurismo italiano.indd 268 7/4/2009 15:51:28 . Há uma espécie de preconceito em relação ao escritor. parece ser a forma de composição comum aos três autores nas obras aqui estudadas. como fez Oswald. sendo praticamente reduzido aos seus manifestos. Talvez em outro trabalho possamos verificar a invasão futurista nos outros cômodos da casa. a colcha de retalhos. Colecionando fotos e bilhetes. Talvez Marinetti tenha somente se servido do regime. De qualquer forma. A obra literária de Marinetti é vasta e interessante.

indd 269 7/4/2009 15:51:28 .reFerênCIAs bIblIográFICAs K Cozinha futurista.

indd 270 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

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indd 281 7/4/2009 15:51:29 .ApêndICe U Cozinha futurista.

indd 282 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

indd 283 7/4/2009 15:51:29 .ApêndICe 1 CApAs do lIvro A CozinhA FuturistA eM dIFerentes edIções e trAduções Capa do livro na edição espanhola Capa do livro na edição em língua inglesa Capa do livro em edição norueguesa Capa do livro na edição italiana de 1932. Capa da edição em alemão 283 Cozinha futurista.

Coraggio! su! la lotta sarà breve e decisiva. l’occhio. Bisogna sopratutto ricompensarli a tempo. Così. lo slancio e la você alta e il coraggio temerario d’un capo ardito! Un capo. Comprendo prefettamente quanto ti proccupi il dover raggiungere l’esercito al fronte. abbandonando la tua dolce amica in questa città turbulenta e caotica. l’ineluttabile fatalità della guerra. con un passo più veloce del loro. poiché ognuno ha una spiccata personalità.Apêndice 2: cOme si nutrivA L’ArditO Via. Fra tre giorni ti troverai nel tuo reparto d’assalto fra quei terribili arditi verdirossi. Tu li conosci bene. Fedeli come mastini. attraverso boscaglie di pericoli. non esagerare la tua angoscia. si può portarli contro le morti più spaventose. in questa città di avventurieri rapaci e di operai ribelli nel rombo catarroso delle officine che hanno l’eterno ritmo asmatico? A II anni di distanza eccoci di nuovo lanciati in una nuova conflagrazione. il gesto. Come potrà vivere quella bella camelia fragile senza la calda ovatta del tuo amore. Sono belve indomabili ma generosissime. Affretati di conoscrle bene tutti. Questa volontà deve irrigidire I nostri nervi contro ogni viltà sentimentale. ceffi spavaldi selvaggi tracotanti e giocondi che hanno già superato in ferocia tutti I Marat e in eroismo tutti gli arditi grigio-verdi dell’ultima guerra.indd 284 7/4/2009 15:51:29 . ma rapidamente senza ingiustizia. senza dogmatismo disciplinare e senza rancore. e scatenarli spesso contro il nemico da ammazzare! Mestiere difficile. superiore in tutto. abbacinante di audacia eroica e di maffia insolente che sappia correre più di loro. comandarli in guerra! Ocorre per questo avere l’anima. Cozinha futurista. Bisogna spesso prenderli a pugni. Tu senti la tristezza e la noia di riprendere ancora il fucile e di costatare colla necessità di uccidere.

risponde Guzzo irato. Assassino.Tutti con me! Fate silenzio! Silenzio! Silen…zio! Silen…zio!… Quando saremo nell’acqua. Tutto è domato. signor tenente! A lei non può piacere. Bruciapreti.indd 285 7/4/2009 15:51:29 . Il caporale dice che ho dentro un pezzo di carne salata. Interviene il tenente comandante del reparto con calci e schiaffi. la tua carne salata! Scoppia la rissa: arruffio di braccia. bestemmiano. Con scatto viperino l’ardito si volta e morde la mano. Ne prende uno per il collo. Non posso. Scoppierà subito una lite nei ranghi: è Guzzo che grida: . fetenti! Mascalzone! Te la cucinerò io.Fissati bene nella memoria I nomi anzi I soprannomi di quegli eroi: vampa. Neanche un pezzettino. Al fiume prima tappa. cedendo a poco a poco ed incanalandosi con spintoni e risate dietro il tenente che grida: . cazzotti sfollatori. Ma la mano potente stringe meglio la gola e la belva cede. Signor tenente. lasciala vedere. Succhiasassi. vero Sareceno magro agile scattante.No! No! non voglio aprire il mio zaino. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra. Fulmine. Spaccafucili. grandi occhi neri dolcissimi. ma è mia. non è rubata! Me la voglio mangiare tutta io! Non mi permetto di offrirla a lei. non la tocchiamo. Ringhiano. vogliono vedere la carne salata. è troppo amara! Tutti gli arditi circondano Guzzo con lazzi gridi ingiurie. silenzio assoluto! Seguitemi e guardate il mio braccio destro. Guzzo. Si guazza a mostrarla. fez rossi. Cozinha futurista. Ti raccomando un certo Guzzo di Trapani tutto nero. ruzzoloni. un pezzettino! Guzzo. è vero! Ho dentro lo zaino la carne salata. Setteferite. minacciano gli arditi verdirossi.

La colonna degli arditi si ferma dietro al braccio destro del tenente. Guzzo in ginocchio. Lo investe sfarzosamente. a tua scelta. Sembrano pezzi di nave impennati che affondino. case color smeraldo. ma è forte e conosce bene I guadi. L’acqua s’infiamma di mille estasi.Tu puoi allora. isolotti di giaccio. Due minuti dopo russa catarrosamente con un rumore acqueo che domina lo sciacquio del fiume. Ecco. Siete delle ombre umane che si acqattano. Nasce la luna con gioielli rubati all’acqua bollente di risate. Fruga dentro. Tutti a terra nel fango e nell’acqua. Tappeti veloci di zaffiri e smeraldi. Velluti carnali con pallori umani che vibrano. urla la sua gioia bianca. implorano. Sono due scope lunghe d’argento polverulento. Uno specchio d’acqua breve poi una piccola lingua di terra grigia quasi bluastra nel violaceo comosso crepuscolo. Lo apre. poi si ferma. A un metro a destra Guzzo è in ginocchio. a un metro da Guzzo. si incrociano. Gorghi di pupille ardenti. Ha lo zaino più pesante. I piedi diguazzano e flic-flaccano nel pantano. tutto acceso di Cozinha futurista. spiagge di madreperla. Non ti vede. ecco il primo fascio di luce è a due metri. Sopra giganteggiano i tronconi del ponte saltato. Non si crede veduto! Ad un tratto due proiettori si accendono sulla riva nemica. Troverai fra I più arditi verdirossi Guzzo. Guzzo fruga sempre nel suo zaino. Davanti a te un ardito ammantellato. svegliando miracolosamente fogliami e fusti fantastici d’argento lieve. pieno di ombre lunghe come cappellacci a sghimbescio sugli occhi gelati del fiume. forme spettrali.indd 286 7/4/2009 15:51:29 . Si sforza di aprirlo. paesaggi d’oro liquido. carponi. mentre la forbice tagliente formata da due proiettori si apre con lento mistero. Corrono dei riflessi furbissimi. curvo sul suo zaino. Se guida meglio così il proprio destino e si tien meno legata la propria vita ai fili sparsi della Fortuna. metterti in coda al reparto o prendere la testa. È preferibile camminare in testa. striscia. s’arricchisce di diamanti. nel fango.

con te. Fischiano gli angeli di fuoco sul nostro letto. nel tuo calore rovente umido succiante! Paradiso inferno iddio mio. Sono caduto giù dall’alto dei miei eroismi. in alto sopra di noi. Musiche e splendori! Le cose più ricche. perché non ti bruci contro le sbarre furenti precise dei tiri di mitragliatrice… Sono capitombolato giù dal cielo disperato nero. poi andremo insieme avanti. Spargonointorno le belle rose granate che scoppiano profumando… Bella! Cara! Mi vuoi? Mi vuoi? Oh! Sento che mi vuoi! Sento che mi desideri. le vesti più belle! Tutte le perle. squartato e rullante della mia vita morta. sulla riva nemica… Tu sei l’unica mia gioia calda in questa notte gelata! Ti porterò sulle spalle senza farti male e camminerò curvo. Ora tu apri le tue braccia che non hai più e mi tendi le labbra che non hai più! Ti terrò con me sotto le mie labbra ancora un’ora. Avvicinati! Non ti sente. tutte le sete. E c’è pure la musica. in te. né spaventarti. giù! La morte ci dà quest’ultima notte di festa. timido. piccola. Le mammelline tonde soavi vive. la musica che sale. giù giù su te.Cara. sono qui con te. mio mio! Bevo l’infinito in te. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. tutti I diamanti. Guzzo mormorava: . immensa divina. Tu con calma guardalo bene. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. scende risale sotto le volte della cattedrale. Umana. Cosi pure il collo. ingenuo. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non aprla più! Il ventre umile. Ha veramente fra le mani un pezzo di carne. tremano. estrae dallo zaino qualcosa che splende più di lui. Si! Si! Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. piena d’ogni speranza e di ogni benedizione!” ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Cozinha futurista. tutti I velluti. Vedi? Tutto è bello intorno a noi. è assorto. senza stupirti. carponi.indd 287 7/4/2009 15:51:29 .splendori.

Lo so. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? Cozinha futurista. Lo so. raggomitola ciò che gli tremola luminosamente nelle mani. e con você flebile di donna ripete a memoria un brano di lettera: . Vedi. sono tua! Tua! Poi Guzzo cambiando voce: . mangiami la faccia di baci. stringe tutto in una pelle nera. Tu devi allora appoggiare la mano sulla spalla di Guzzo e parlargli: Ti piaciono le donne. né i suoi piedi. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”.indd 288 7/4/2009 15:51:29 . la fronte. divorami. Piange. Sei a tre centimetri dalla spalla di Guzzo. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. cinghia e lega allo zaino. baciami. Buio. piccola. Guzzo si scuote. Un sibilo lungo. Flic-flac di passi intorno. ma non le donne vive. ssssssssss del fiume. di splendore in splendore e si spegne. tutto ho mangiato con millioni di baci! E ora sei me stesso! Nelle mie vene il mio sangue ti culla. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. I tuoi oiedini santi.La mitragliatrice nemica punteggia queste ultime parole. Guzzo? Sì. e tutta la tua cara testa coi capelli l’ho mangiata! Le tue gambe. lontano. Se lo carica sulle spalle e si alza. Non amo la testa della donna. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Poi silenzio. Il fascio di luce scivola lontano.Portami con te in guerra.Ho fatto ciò che volevi! Ti ho mangiata la faccia di baci. Porta con te la mia carne e baciami giorno e notte. gli occhi. Gli arditi si ammucchiano poi davanti nel guado che sognando travolge succhia mastica raggi di stelle.

stacca lo zaino e caricatelo sulle spalle. in te! Piangerà il corpo della bella di Guzzo! E il suo pianto colerà sulla tua schiena a gocce lente. poi svincola il cadavere di Guzzo dalle erbacce e spingilo nella corrente che lo porterà al mare. le sue braccia. Mondadori. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Accidenti alla mitragliatrice! grida Guzzo. sentirai piangere vicino a te. Milano. In: MARINETTI. voluttuose. Tu allora non esitare. Ti ho visto. Colpito cadrà nell’acqua. Poi avanti! Mentre camminerai fra gli spudorati splendori scandalosi dei proiettori che ti cercano. Sempre avanti lo stesso! Guzzo si caccerà con un balzo contro la palla che lo cercava scherzosamente pur volendolo scansare. amico! Se muoio prendi il mio zaino e seppelliscilo. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!… Grazie. ti approvo. 1930. su di te. Ora porti il resto sulle spalle.So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. T. le sue gambe. F. Cozinha futurista. Novelle colle Labbra Tinte.indd 289 7/4/2009 15:51:29 .

Cozinha futurista.indd 290 7/4/2009 15:51:29 .

à Claudia. Andrea Lombardi e à Profª. embora não compreendendo os dias e noites silenciosos debruçados sobre livros. abriu para este trabalho os caminhos da antropofagia. que mesmo distante se fez tão presente e participante. acreditando que tudo daria certo. Ao Rodrigo. Maria Augusta Fonseca. sempre disponíveis em busca de algum livro desaparecido. apoiaram à sua maneira. Alain Mouzart pelas dicas na tradução. à Carla por aturar muitos dias de mau humor.que. Lucia Wataghin por ter me orientado com competência. ajudando. À Profª. incentivando e. suporte decisivo. Aos meus pais – Mary e Domingos .AGrAdecimentOs Agradeço à Profª. Cozinha futurista. Aos funcionários da Biblioteca. por provar que sempre vale a pena lutar pela felicidade. Drª. Ao Prof. Aurora Fornoni Bernardini pelas sugestões dadas no exame de qualificação. Ao Prof. Dr. Drª. companheirismo e paciência enquanto eu me perdia entre receitas possíveis e impossíveis. À Vera e ao Chef Picard. À Paola pelo apoio e pelas broncas. Drª. Ao meu irmão Junior pela paciência na solução dos infindáveis problemas técnicos. pelo incentivo e por dividirem os segredos de suas cozinhas.indd 291 7/4/2009 15:51:29 . que sem saber. acima de tudo.

indd 292 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

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