A cozinha futurista

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A cozinha futurista
de Filippo Tommaso Marinetti

Introdução, tradução e notas: Maria Lúcia Manicelli

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Edição: Joana Monteleone Assistente editorial e projeto gráfico: Marília Chaves Revisão: Diagramação e capa: Marília Chaves Imagem da capa:

[2009] Todos os direitos dessa edição reservados à ALAMEDA CASA EDITORIAL Rua Iperoig, 351 - Perdizes CEP 05016-000 - São Paulo - SP Tel. (11) 3862-0850 www.alamedaeditorial.com.br

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Sumário

Introdução
Futurismo A Gastronomia na literatura: prazeres sinestésicos A cozinha Futurista

MárIo de AndrAde, oswAld de AndrAde e A CozInhA FuturIstA
Mário de Andrade na Cozinha Oswald canibal de Andrade Marinetti Antropófago

A CozInhA FuturIstA e lInguAgeM
O Futurismo: proposta de revolução lingüística A Cozinha Futurista e as inovações na língua Dificuldades da tradução

A CozInhA FuturIstA – trAdução
Uma refeição que evitou um suicídio O manifesto da cozinha futurista A revolução cozinhária Os cardápios futuristas Receituário futurista Pequeno dicionário

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indd 6 7/4/2009 15:51:16 .ConClusão reFerênCIAs bIblIográFICAs ApêndICe Capas de diferentes traduções do livro A Cozinha Futurista Come se nutriva l’ardito Cozinha futurista.

indd 7 7/4/2009 15:51:16 .Introdução A Cozinha Futurista S Uma refeição que evitou um suicídio Cozinha futurista.

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O FuturismO Em 20 de fevereiro de 1909. o colégio Saint-François Xavier. O menino Filippo nasceu em Alexandria.indd 9 7/4/2009 15:51:16 . o manifesto atingiria um número maior de leitores. Fazendo parte da elite dominadora. em 1876. o jornal francês Le Figaro publicou o Manifesto Futurista. uma colônia inglesa no Egito. fundador e o maior expoente do movimento futurista. convive com os simbolistas e decadentistas. Aos dezessete anos descobre Paris. o futuro poeta presenciava a submissão e as condições de vida da população autóctone. Estudou em uma escola de jesuítas franceses. aproxima-se de seus ideais. 9 Cozinha futurista. pôde observar a distância entre discurso e atitude. Conhece toda a agitação cultural e artística daquela cidade. quando estuda Letras na Sorbonne. entre colonizadores e colonizados. Educado em colégio católico. Quem assinou o manifesto foi Filippo Tommaso Marinetti. a revolta contra o status quo social pôde então se desenvolver. Em língua francesa.

rompe com todas as tradições e inaugura o estilo das vanguardas do século XX. que ele julga estagnadas. sendo depois seguido por Dadá e pelo surrealismo. Marinetti se forma na Universidade de Gênova em 1899. Com o Manifesto do Futurismo Marinetti inova. eletricidade. Costuma-se dizer que a história do futurismo confunde-se com a de seu idealizador. Mas se os princípios são de caráter universal e seu líder despende forças para difundir os ideais pela Europa e pelas Américas. uma vez satisfeito o orgulho paterno. porém. a não ser no banco dos réus. é indisciplinado. mas adere e defende o fascismo. imagina para o filho uma carreira jurídica e o faz voltar à Itália para estudar Direito. advogado. é liberal. Se todas essas contradições podem conviver no espírito de apenas uma pessoa. Marinetti foi um filho afetuoso e dócil. o gosto pelo escândalo e o exibicionismo eram arquitetados. mas veste a farda da Academia.indd 10 7/4/2009 15:51:16 . A violência aparece apenas no discurso literário. velocidade revolucionaram o mundo e passaram a ser os novos ideais de beleza. o mesmo torna-se impraticável quando se trata de um grupo que deveria estar unido em torno (ou em busca) de um ideal estético/artístico. promulga-se anticlássico. do domínio do homem sobre a nature- 10 Cozinha futurista. volta a Paris e nunca mais se envolve com a justiça.Fillippo Tommaso Marinetti Seu pai. como forma de difundir os ideais futuristas. mas cumpre o serviço militar e participa da Primeira Guerra como voluntário. pessoa gentil no dia-a-dia. Máquinas. depois tornou-se pai e esposo exemplar. Os primeiros vinte anos do século XX marcam o advento do avião. mas suas filhas estudam em colégio de freiras. basta verificar as contradições culturais de seu líder: Marinetti diz-se anticlerical. do automóvel. O futurismo nasceu sob o signo do mundo moderno. para entendê-las. sua ambição essencial é a de transformar a cultura e literatura italiana. Havia sim contradições na base do futurismo e. Marinetti.

indd 11 7/4/2009 15:51:16 . dessacralizadora. defende – além das palavras em liberdade – a exaltação da intuição contra a inteligência. Gilberto Mendonça. O futurismo italiano. São Paulo: Perspectiva. Petrópolis: Vozes. quando se fundou o fascismo.”2 O crítico Luciano de Maria divide o futurismo de Marinetti em apenas duas fases: o período heróico. os três pilares que sustentam o Futurismo são o verso livre (“perene dinamismo do pensamento. e a de 1919 em diante. quando se redige a maior parte dos manifestos e se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade.1 Na base do discurso futurista do início do movimento existe um discurso subliminar: uma solicitação antiburguesa. de 1909 a 1919. como se o novo precisasse da revolução para se libertar do antigo. ed. a reação contra os limites e padrões estabelecidos. até 1 2 Bernardini. Vanguarda européia e Modernismo brasileiro. numa poesia febril. um mundo de máquinas. a reivindicação da valentia e da audácia. p. e o futurismo se transforma em porta-voz oficial do partido.A cozinha futurista za. o maquinismo (“a psicologia do progresso”) e a anarquia (“Stirner mais do que Bakunin”). cheia de gritos que exclamam e interrogam. de multidões e de velocidade. por sua vez. já que os artistas procuram apresentar a realidade em pleno movimento e não nas suas formas essenciais. a exaltação da energia e da ação. Aurora Fornoni. o movimento implicou nova ruptura com a tradição. o mais fecundo do futurismo. a primazia do viril ante o feminino. dividindo-o em três fases. 1980. 86 11 Cozinha futurista. No plano plástico. instrumento multiplicador dos poderes do homem. 1999. 15a. Podem-se estabelecer algumas datas limítrofes para o Futurismo. em que o princípio estético defendido é o verso livre. Como diz Aurora Fornoni Bernardini. O futurismo literário. a idolatria pela máquina. desenrolar ininterrupto de sons e de imagens”). sempre de acordo com a atuação de Marinetti: “de 1905 a 1909. A literatura então procura transmitir o espírito do mundo moderno.10 Teles. p.

p. 294 a 297. 12 Cozinha futurista. foi oswaldianamente antropofágica: recolhida a influência. 2000. Aurora Fornoni. A influência existe. mesmo tendo esta influência sido negada pelos autores.Fillippo Tommaso Marinetti 1920.alguns comentários depreciativos em relação ao “carcamano. esta foi assimilada e passou a integrar o modernismo. São Paulo: Edusp/IEB. Na correspondência de Mário de Andrade a Manuel Bandeira podemos encontrar em carta datada de 14 de maio de 1926 . cit. Organização. de 1920 até 1944. neste caso. Mário de Andrade estava já em desacordo com a postura política de Marinetti e não queria ter seu nome associado à figura do líder futurista/fascista. e um “segundo futurismo”. mas a revolução causada pela possibilidade de libertar as palavras das construções sintáticas cristalizadas impregnou de tal modo o espírito modernista brasileiro que estes não vêem nenhuma dependência do futurismo. Podemos pensar que a apropriação. Eliot e outros. O Futurismo foi o primeiro grande movimento intelectual italiano do século e deixou marcas inconfundíveis na estética do mundo moderno ao servir de modelo para inúmeras escolas em diversos segmentos das artes. não teria existido sem o futurismo”3 Entretanto. é fato que o movimento perdeu sua força inovadora à medida que se aproximava da política. ou “que convém tratá-lo com a maior desimportância até com uma desimportância afetada para que ele não imagine que a gente está indo na onda” 4 Na realidade. data da morte de Marinetti. como no caso de alguns dos primeiros modernistas brasileiros.indd 12 7/4/2009 15:51:16 . pp. Correspondência. Mário de & BANDEIRA. introdução e notas: Marcos Antonio de Moraes. Marinetti exerceu inegável influência em todas as literaturas modernas. que veio fazer a gente perder quase metade do caminho andado”. “Pound reconhece que o movimento literário londrino por ele inaugurado com Joyce.época da primeira visita de Marinetti ao Brasil . 11 ANDRADE. 3 4 Bernardini. Op. Manuel.

os modelos de comportamento do passado. Pode-se verificar que há. sinais gráficos e verbos impecavelmente conjugados. que provém de uma tradição secular. que a real novidade proposta pelo futurismo não é o conteúdo. mas o tom. a abolição da conjugação verbal. a idéia de que a arte não deve permanecer no isolamento. advérbios. utilizavam. revolucionando-a. Os textos. Dentre as idéias futuristas encontramos o culto da máquina e da velocidade. aqui reside o primeiro malogro futurista. Ao mesmo tempo que pregavam a destruição da sintaxe.A cozinha futurista No Manifesto Futurista. a drástica ruptura com a mentalidade. gritadas. no futurismo. Vêse. como: a vontade de apresentar-se como um grupo organizado de artistas militantes. em violento conflito com o resto da sociedade. do advérbio e da pontuação. com adjetivos. modificando a sintaxe: as palavras não deveriam mais seguir a ordem lógico-sintática. pois.indd 13 7/4/2009 15:51:16 . para propor estas novas idéias. o gosto. uma quantidade maior de manifestos do que de obras literárias. a provocação. 13 Cozinha futurista. em nome de uma visão de mundo que se apresenta como totalmente nova. unidos por um repertório de idéias e valores comuns. existem algumas características que são comuns a outros movimentos de vanguarda. pregando ao mesmo tempo a destruição do passado e sobretudo das literaturas passadas. ao menos é isso o que a crítica demonstra. são sim entremeados por reivindicações numeradas de ordem militar. do adjetivo. A teoria futurista não pode ser facilmente aplicada à literatura. Ora. mas mergulhar impetuosamente na vida de todos os dias. a velha sintaxe tradicional. em tom de discurso inflamado e com uma certa ruptura sintática. dispondo-se livremente no papel.

o futurismo. Sabe-se que só existe revolução se há passado. com sua exaltação eletrizante da máquina como triunfo da vitalidade. Paul Adam e outros.) decadentes e simbolistas do “fin de siècle”. movimento político que o transformou em instrumento de propaganda. As primeiras intenções contidas no cerne do movimento são transformadas em técnica de oratória e de governo. Op. Somente o desejo de mudar a realidade é que dá ensejo à aproximação do novo. Mas.) como toda vanguarda. do topete e do desafio. a arte não é mais representação de mundo. cit. São Paulo: Nova Stella/Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro/Edusp. Gilberto Mendonça. A temática fascista apropria-se do marinettismo e com ele da impetuosidade da linguagem. (. 1989. a contestação integral da linguagem burguesa.. desmonte sistemático e polêmico do passado. oposição total ao sistema do poder constituído.) Literatura Italiana: linhas. Marinetti usa grande parte das idéias simbolistas e decadentistas para promover os seus manifestos.485 14 Cozinha futurista.5 Para o movimento. contestação do presente.. a utopia de uma reinauguração da expressão. há uma exaltação da técnica que não podemos deixar de relacionar à civilização industrial no ápice de seu desenvolvimento. o futurismo oscila: de um lado. 87 Squarotti. Gilberto Mendonça Teles afirma que o próprio Marinetti “dá como seus precursores os nomes de Whitman. construção de objetos novos.”6 O futurismo evoluiu (ou talvez tenha involuído) de transformador das artes a meio de comunicação servidor da moral e do fascismo. do tom provocador. mas deve ser destruição.Fillippo Tommaso Marinetti Outra contradição presente no futurismo é a negação do passado literário. problemas. da velocidade. p. que estava solidária à grande burguesia industrial propiciadora do desenvolvimento. Zola. autores.indd 14 7/4/2009 15:51:16 .. “(. p. Giorgio Barberi (org. Gustave Kahn. 5 6 Teles.. Entretanto. Verhaeren. não poderia deixar de se aproximar da revolução fascista. ou então. justamente por isso. de outro. apesar de proclamar em seus discursos a absoluta inovação de suas técnicas.

limitou-se a poucas e infrutíferas ações literárias. era necessário reunir as pessoas para que uma carne (proveniente de caça ou sacrifício) fosse melhor aproveitada. Na literatura. sendo ao mesmo tempo o comportamento esperado e o correto. A refeição em si é um ritual presenciado em todas as culturas. com toda a cortesia ritual implícita na refeição. consiste numa série de ações constantemente repetidas. por exemplo. até 1920. Comemorações marcando transições e lembranças quase sempre exigem comida. o Manifesto da Cozinha Futurista. O ritual do jantar. p.. Margareth. Campus. A julgar pela extensa bibliografia contida na obra A Cozinha Futurista. como lembra Margareth Visser7.indd 15 7/4/2009 15:51:16 .A cozinha futurista Pode-se dizer que. “(. resumindose a difundir as idéias fascistas. e pela repercussão e discussões que provocaram suas inovações. este manifesto gastronômico nunca foi apreciado com o devido valor pela crítica. A GAstrOnOmiA nA LiterAturA: prAzeres sinestésicOs A gastronomia sempre encontrou um campo fecundo na expressão estética. publicado em 1930 (época em que Marinetti já pertencia a Academia Fascista) por F.. Entretanto. T.22 15 Cozinha futurista. é difícil encontrar um romance no qual não se descreva ao menos uma refeição. o futurismo colaborou de forma incisiva para a mudança ocorrida na literatura do século XX e que. após essa data. A refeição também é habitual e visa à ordem e à comunicação.) à volta diária dos caçadores 7 Visser. Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. Os dias festivos são solenes ou sagrados. já que não havia métodos para evitar que os alimentos se deteriorassem. Ed. aparece como o último grande feito marinettiano. As famílias também se encontram para refeições e este costume remonta a dois milhões de anos. 1998. O ritual. já que encontros sociais são comumente realizados em torno de uma mesa. Rio de Janeiro. No início. já exausta do cunho propagandista revelado pelos últimos anos do futurismo.

banquetes. ou por escolha própria. o homem come. nos casos de dietas auto-impostas como penitências. O prazer também está diretamente ligado à gastronomia. a abstinência gastronômica. reciprocidade. este ritual perdeu seu valor econômico e ganhou em sociabilidade. Com o passar dos séculos. O sucesso alcançado pelo repasto e sua digestibilidade dependem de cada um destes fatores. para certos indivíduos que digerem as substâncias de forma diferenciada. jejuns religiosos ou de emagrecimento. Brillat. ou seja. da escolha dos comensais aos assuntos tratados durante a refeição. A Fisiologia do Gosto. Ele também pode trazer conseqüências desagradáveis.” Quando os homens perceberam que o ato de comer encerrava mais que sua simples subsistência. 1995. Entretanto. chás ou simplesmente jantares íntimos 8 Savarin.Fillippo Tommaso Marinetti e forrageadores proto-humanos para dividirem a comida com seus companheiros – aqueles que habitualmente. Desde os alimentos até a bebida que os acompanha. em que as pessoas encontram-se para celebrar a vida. como a obesidade. p. As cenas descritivas de festas. da beleza da sala de refeição ao tipo de música selecionada para acompanhá-la. somente o homem de espírito sabe comer. mas nem sempre. ou a preguiça e indolência. São Paulo: Companhia das Letras.indd 16 7/4/2009 15:51:16 . nutrindo-a. interesse e prazer. renovando suas forças. Como diz Brillat-Savarin8 (1755-1826): “Os animais se repastam. devidas à ingestão de alimentos mal escolhidos ou mal combinados.15 16 Cozinha futurista. Cada detalhe colabora para tornar mais ou menos agradável este nosso ritual diário. Outro infortúnio relacionado a este prazer é o de sua própria negação. O prazer da boa mesa transportou-se para as artes. começaram a descobrir todo o prazer que uma refeição pode oferecer. cortesia. eles haviam decidido não devorar”. que pode ocorrer de forma compulsória – por empecilhos financeiros pessoais ou carestia em épocas de guerra e recessão econômica –. nem sempre este prazer caminha impune.

A cozinha futurista permeiam a literatura, enchendo as páginas com uma sensualidade discreta. Fatos e conversas importantes desenrolam-se entre um e outro bocado, sendo este pequeno rito diário sempre um bom pretexto para a reunião das personagens, já que toda refeição familiar compartilhada num minibanquete celebra tanto a interligação quanto o autocontrole dos membros do grupo.9 Mais que acessório literário, a boa mesa tornou-se independente e, cada vez mais, podemos encontrar nas prateleiras das livrarias edições dedicadas à gastronomia. Edições sobre a história da gastronomia dividem espaço com obras sobre a cultura e a filosofia. Os livros “de receitas” evoluíram e, cada vez mais, parecem-se com os livros de arte. E o são. Livros de arte culinária. As fotografias contribuíram em muito para transformar a arte dos chefs em verdadeiras tentações para os nossos olhares. A facilidade de encontrar os ingredientes traz o sonho de uma refeição digna de reis para mais perto de outras camadas da população. As figuras enchem nossos olhos com sua beleza, nossa imaginação encarrega-se de criar o resto: o gosto, a textura, o aroma, o tilintar dos talheres nos pratos. Cinco sentidos unem-se para reproduzir o prazer que sentimos ao saborear uma nova iguaria – ou uma iguaria já conhecida, mas redescoberta a cada novo bocado. A utilização dos sentidos sempre foi importante para a literatura. Descrições sempre se tornam mais interessantes quando extrapolam o campo da visão. É importante reproduzir sons, odores, textura, temperatura, sabores. Marinetti já percebera isto ao longo de sua obra. Em 1939, o manifesto O romance sintético catalisava as tendências um pouco separadas entre os manifestos anteriores, já que este deveria ser otimista, heróico, simultâneo, dinâmico, aeropoético, aeropictórico, olfativo e tátil rumorista.10 Merece atenção o subtítulo do livro Il tamburo di fuoco: drama africano di calore, colore, rumori, odori. Con
9 Visser, Margareth. Op. cit. p.22

10 Marinetti, F.T. Teoria e Invenzione Futurista. Milão: Mondadori, 1968. p. 193

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Fillippo Tommaso Marinetti intermezzi musicali del Maestro Balilla Pratella e accompagnamento intermittente d’intonarumori Russolo. Publicado em 1922, pela Casa Editrice Sonzogno de Milão, esta obra também privilegiava os sentidos. Os manifestos lançados ao longo do movimento também refletiram esta preocupação constante: o Manifesto técnico da literatura futurista (1912) defende a introdução do rumor, do peso e do odor na literatura, já que estes representariam, respectivamente, a manifestação do dinamismo, a faculdade de vôo e a faculdade de dispersão dos elementos. O texto Palavras em liberdade (19..)diz que o poeta futurista jogará nos nervos do leitor as suas sensações visivas, auditivas e olfativas. Seria a irrupção do “vapor-emoção”. No Manifesto do teatro sintético futurista (19..) nos é apresentada a representação da nova era – entremeada de gritos, gesticulação apropriada, enfim, de detalhes emprestados dos outros campos da arte para que o Teatro Futurista seja mais abrangente. O Manifesto do tactilismo, de 1921, é de suma importância para que se possa compreender a revolução “cozinhária”11 futurista. Marinetti defende que é possível educar o tato para que possamos perceber muito mais coisas através deste sentido. Exercícios como tocar “tavole sintetiche” formadas por lixa, veludo, areia, seda, e tantas outras texturas, favoreceriam ao homem a descoberta de outros sentidos, ainda não catalogados pela ciência. Seriam eles: sentido de visão na ponta dos dedos, sentido do equilíbrio absurdo (aquele que faz um atleta, ao final de um salto imperfeito, manter-se em pé), sentido de orientação aviatória (essencial para pilotos), sentido tátil a distância (pressentimento), sentido das costas (deve ser estudado em gatos no escuro), sentido musical (ou do ritmo corporal), sentido da superfadiga-força (a força que irrompe em um estágio avançado de fadiga), sentido de velocidade,

11 O termo “cozinharia” pretende recuperar o neologismo criado por Marinetti, que chamava sua revolução de cucinaria, em vez do existente culinaria.

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A cozinha futurista sentido de nível, sentido tato-cirúrgico (todo cirurgião é ou deveria ser dotado dele) e sentido carnal-materno. O desenvolvimento dos “17 sentidos” proporcionaria uma gama maior de possibilidades, e seria possível, através de determinados materiais táteis, induzir sensações, histórias, sentimentos nas pessoas. Marinetti também propõe a utilização dos cinco sentidos para que um prato possa ser devidamente apreciado e degustado, como na “Aerovianda com rumores e odores”. Diz Marinetti: “(...) futuristicamente comendo, opera-se com os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição”. O prato consiste em quatro pedaços: um quarto de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza as pontas dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. No relato de Marinetti, apenas uma pessoa permaneceu alheia ao entusiasmo que preencheu a sala durante a degustação deste prato. Questionada, descobriu-se que era canhota – esfregava portanto o aparelho tátil com a mão direita enquanto comia com a esquerda. Mas a teoria gastronômica futurista proposta por Marinetti não é exatamente inovadora, apesar de o parecer à primeira vista. Em pleno início do século XIX, Brillat-Savarin12 escreve A Fisiologia do Gosto, obra em que discute filosoficamente diversos assuntos relacionados à gastronomia. Neste livro, além de afirmar que a alimentação influi de maneira direta sobre a saúde, a felicidade e mesmo os negócios, relata

12 Savarin, Brillat. Op. cit. p.15

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Fillippo Tommaso Marinetti um de seus experimentos: um jantar em que foi usada uma de suas invenções, chamada por ele de “irrorador”. O instrumento foi apresentado, durante um jantar, à Sociedade de Estímulo à Indústria Nacional e consiste em uma fonte de compressão adaptada para perfumar ambientes internos. A idéia tão inovadora de Marinetti - perfumar os ambientes durante os jantares para promover uma apreciação mais completa - já havia sido explorada por outro curioso com um século de antecedência. Brillat-Savarin afirma ainda que “quem compareceu a um banquete suntuoso, numa sala ornada de espelhos, flores, pinturas, esculturas, aromatizadas de perfumes, enriquecida de belas mulheres, repletas dos sons de uma suave harmonia; este, afirmamos, não precisará de um grande esforço de inteligência para se convencer de que todas as ciências foram chamadas para realçar e enquadrar adequadamente os prazeres do gosto.”13 O embrião da cozinha futurista também pode ser encontrado em outros autores. Podemos encontrar a interação dos cinco sentidos na tradição simbolista francesa, desde Rimbaud, que relaciona a sonoridade das letras à música e às cores; em René Ghil (1862-1925), ao instaurar a língua-música, em que vincula certas ordens de sentimentos e idéias às ordens de sons e de timbres vocais. Diz Ghil que “(...) todo instrumento musical tem harmonias próprias: daí seu timbre, que é assim apenas uma cor particular do som”14. Marinetti afirma, no manifesto Palavras em liberdade, que o verbo no infinitivo é redondo e escorregadio como uma roda; os outros modos e tempos do verbo são triangulares, ou quadrados, ou ovais. Nas Correspondências, de Baudelaire, a fusão dos sentidos não se dá em cadeia, na seqüência temporal; pelo contrário, realiza-se num só instante, como se o perfume fosse, a um só tempo, oloroso, táctil,
13 Id. Ibid. 39 14 Moisés, Massaud. História da Literatura brasileira, vol..3 Simbolismo. São Paulo: Cultrix-Edusp, 1985. p.11

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A cozinha futurista auditivo e visual. Já Mallarmé, em seu manifesto decadente Aux lecteurs!, de 1886, afirma que “Afinamento de apetites, de sensações, de gosto, de luxo, de prazer; nevrose, histeria, hipnotismo, morfinomania, charlatanismo científico, schopenhaurismo em excesso, tais são os pródromos da evolução social”. E sobre este manifesto, escreve Gilberto Mendonça Teles, em seu Vanguarda européia e modernismo brasileiro: “Podem-se perceber algumas idéias que vão ser levadas ao extremo pelos futuristas e dadaístas, uma vez que o movimento decadentista desapareceria três anos depois.” 15 Ainda no período decadentista, J.-K. Huysmans escreveu o livro Às avessas, em que podemos perceber a mesma intenção sinestésica no ato de comer. “De resto, cada licor correspondia, segundo ele, como gosto, ao som de um instrumento. O curaçao seco, por exemplo, à clarineta cujo canto é picante e aveludado; o kümmel, ao oboé, com seu timbre sonoro anasalado; a menta e o anisete, à flauta, a um só tempo açucarada e picante, pipilante e doce (... )”16 ou ainda “(...) ergueu-se e, melancolicamente, abriu uma caixinha de prata dourada com a tampa enfeitada de aventurinas. Estava cheia de bombons violetas; pegou um e apalpou-o, pensando nas estranhas propriedades desse bombom coberto de açúcar como geada; outrora (...)depositava um desses bombons sobre a língua, deixava-o derreter-se e subitamente surgiam, com infinita doçura, lembranças muito apagadas, muito enfraquecidas, das antigas libertinagens. Tais bombons (...) eram uma gota de perfume de sarcanthus, uma gota de essência feminina, cristalizada num torrão de açúcar; eles penetravam as papilas da boca, evocavam lembranças de água opalizada por vinagres raros, por beijos muito profundos, empapados de odores. De hábito, ele sorria, aspirando esse aroma amoroso, essa sombra de carícias que lhe punha uma ponta de nudez no cérebro

15 Teles, Gilberto Mendonça. Op. cit. pp.56-57 16 Huysmans, J.K. Às Avessas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.78

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ao menos.Fillippo Tommaso Marinetti e reanimava. café. não se restringindo à literatura. Flores. escrevia críticas 17 Id. preferencialmente estando sem apetite. Guillaume Apollinaire discutia a idéia de haver um “cubismo culinário”. Apollinaire manteve contato com o futurista Marinetti. Marinetti não recebia muito bem este apoio. A combinação de elementos bastante diferenciados e o uso de condimentos inusitados. Na mesma época. um peixe cozido em folhas de eucalipto que evocava Flaubert. queijo temperado com noz-moscada e. A fome só atrapalharia a degustação. um filé temperado com tabaco que seria aprovado à perfeição por Brillat-Savarin. ibid. Estimulando o dinamismo. O cardápio de um jantar “gastro-astronomista” trazia como entrada violetas frescas sem os cabos. Oswald. resultantes dos avanços científicos.indd 22 7/4/2009 15:51:17 . mas parece ser possível reconhecer traços da rebeldia “gastro-astronomista” na cozinha futurista. temperadas com suco de limão. frutas da estação. parecem coincidir nas duas proposições. o gosto não há muito adorado de certas mulheres. A cozinha “gastro-astronomista” não tem por objetivo saciar a fome.” 17 Os ingredientes utilizados nas receitas futuristas eram escolhidos para provocar a melhor experiência sensorial (seria melhor dizer sensual?) possível. p. diferentes combinações de sabores e odores. uma salada temperada com óleo de nozes e grappa. aproximando-se do italiano através de cartas. com os quais era possível preparar sopas e outros alimentos. mas degustar novos pratos. frutos exóticos. que era arte. Cedo percebemos em Oswald de Andrade o gosto pelas artes em geral.134 22 Cozinha futurista. perfumes e materiais de diferentes texturas. como sobremesa. Já em 1911. Entre os modernistas brasileiros não foi muito diferente. brincando com as palavras e remetendo tanto ao movimento artístico quanto aos cubos de comida desidratada. por um segundo. como jornalista. e não ciência. defendeu uma Gastro-astronomia.

Aurora Fornoni. com o bandeirante Pau lo Prato chorando sobre a trasteza do pó Lhytico no Brasil. Foi o responsável por impulsionar muitas carreiras artísticas. Op. como a do escultor Victor Brecheret. provavelmente a “Villa Fortunata” onde aconteceu o jantar. Em 1927. como a do traficante de pau brasil Oswald d’Andrade e a leitura do sermão da montanha sobre Ser Mãi da Intanha. o casal Tarsiwald ofereceu um jantar literário ao escritor paulista Paulo Prado (1869-1943). e o cardápio-programa do jantar é uma obra de “arte sinestésica”. A cOzinhA FuturistA O Manifesto da Cozinha Futurista foi publicado em 1930. A lista de comidas traz uma reprodução gráfica de uma casa. Dos integrantes do primeiro grupo futurista. Como sobremesa. ou mesmo política. Para beber. p.indd 23 7/4/2009 15:51:17 . além de ilustrações de Tarsila. Charlotte Russe. cit. O jantar literário reuniria os cinco sentidos. Tournedos à la Rossini. Este gosto pelas artes não excluía a gastronomia. escrita em francês: Potage crème de volaille. música. escritos diversos sobrepostos à lista de pratos. Parfait Praliné e fruits. O programa anunciava algumas intervenções: umas literárias. caricaturas. Champagne.16 23 Cozinha futurista. Dinde farcie.A cozinha futurista de pintura. ou mesmo a de Anita Malfatti. saindo em sua defesa publicamente após a conhecida crítica de Monteiro Lobato à sua exposição em 1917. apenas Marinetti havia resistido no movimento – motivo pelo qual Paolo Angeleri chama-o de marinettismo.18 O futurismo já flertava com o fascismo 18 Bernardini. outras musicais. enfim. quando as polêmicas suscitadas pelo movimento já não tinham a força revolucionária de outrora. como o trobadour Rainette Olé cantando e a pintora caipiriuschka Tarsilowska do Amaral tocando alaúde. Jambon d’York e Salade. que tratou como mais uma arte. Liqueurs e Café. Filet de poisson Parmentier.

pela Editora Sonzogno de Milão.Fillippo Tommaso Marinetti desde 1914. pela Editora Gedisa. com a colaboração de alguns novos integrantes: Luigi Colombo “Fillía”. época em que uma Itália em guerra. feita pela Editora Marinotti.indd 24 7/4/2009 15:51:17 . em 1985 sob o nome La Cocina Futurista: una comida que evitó un suicidio. O livro A Cozinha Futurista. Ferrara. Milão. contendo o referido manifesto de 1930. 27 cm de tamanho e 160 páginas. concedeu à obra 14 páginas de ilustrações. bem como um receituário e um pequeno dicionário. Em 1986 algumas partes foram publicadas em fac-símile pela Salimbeni de Firenze. foi publicado em formato livro primeiramente em 1932. A Cozinha Futurista já foi traduzida para o espanhol. Marinetti foi nomeado acadêmico da Itália e vestiu a farda da Academia e em 1930 – praticamente dez anos após o final do período glorioso e fecundo do futurismo – publicou o Manifesto da Cozinha Futurista. Ravena. Turim. No ano de 1929. e em 1998 a terceira e última edição italiana do livro. na Itália. e publicada em Barcelona. por Guido Filippi. Palermo. também de Milão. entre outras e pode ainda ser encontrada em bibliotecas espalhadas pelo mundo. Com 267 páginas. só foi reeditado em 1986 pela Longanesi. Outra tradução facilmente 24 Cozinha futurista. a descrição de diversos menus futuristas. e apenas quatro ilustrações. em sua versão original ou traduzida. Bolonha. O ano da adesão oficial do futurismo (resumido então a Marinetti e alguns novos adeptos) ao fascismo é 1924 –. como Roma. destruída. Esta tradução pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da Espanha e também na biblioteca da FFLCH – USP. Giulio Onesti e Enrico Prampolini. buscava no totalitarismo uma possibilidade de reconquistar a auto-estima. pela coleção Il Cammeo quando ganhou formato de 21 cm e reduziu o número de páginas para 254. 19 cm. Gênova. A obra pode ser encontrada nas bibliotecas das cidades mais importantes da Itália. Firenze. esta também de Milão. toda a polêmica por este suscitada na imprensa da época em diversos países.

indd 25 7/4/2009 15:51:17 . Gilberto Mendonça Teles acredita ser o mais importante o já referido Manifesto do tactilismo. na Itália. Rarish: Die futuristische Küche. de São Francisco. Na realidade. Em inglês há duas publicações. a coragem. cujos ideais já haviam sido antecipados de certa forma no Manifesto Futurista de 1909. excitado pela recente Revolução Russa. foram feitas a partir da tradução de Suzanne Brill e contam com uma introdução feita por Lesley Chamberlain. feita por Nathalie Heinich e publicada em Paris. feita pelo escritor Klaus M. a audácia e a rebelião. na figura de Mussolini. encontrada na Library of Congress. pela A. Os manifestos do final do período heróico do futurismo (próximos a 1920) já possuem uma forte conotação sócio-política: a nação deveria reerguer-se e recuperar-se de todas as perdas resultantes da guerra. os regimes totalitaristas. em 1917. Duas forças políticas emergem no cenário mundial. as belas idéias pelas quais se morre. Metailié em 1982 com o título La Cuisine Futuriste. Esta obra pode ser encontrada na Biblioteca Nacional da França e na Biblioteca da Universidade de Leuven. na Bélgica. Ambas as publicações do livro The Futurist Cookbook datam de 1989. o gosto pela luta. entre outras. datado de 11 de janeiro de 1921. Dos manifestos que surgiram após 1920. Existe ainda uma tradução em alemão. pelo escritor Steiner Lorne. pela guerra. O livro foi traduzido também para o norueguês com o título Futuristisk Kokebok. com introdução de Andreas Viestad e publicada em Oslo pela Spartacus Forlag em 2001. o futurismo e o fascismo condividem o nacionalismo exacerbado. Ora.A cozinha futurista encontrada é em francês. uma pela Editora Trefoil de Londres. e outra pela Editora Bedford Arts. que pode ser encontrada na British Library. Frankfurt e Hamburgo. pela coleção Cottas Bibliothek der Moderne e pode ser encontrada nas bibliotecas de Leipzig. e o regime comunista. Esta tradução foi publicada pela Editora Klett-Cotta em 1983.M. o militarismo. Marinetti apóia o regime fascista. se Marinetti e seus “discípulos” 25 Cozinha futurista.

que pretendeu revolucionar o modo pelo qual os italianos se alimentam. Neste Manifesto. erotismo. 15 26 Cozinha futurista. come più tardi dei surrealisti. P. politica. As pessoas. è changer la vie. de Turim. ma nel più profondo dello spirito umano. em 28 de dezembro de 1930. danza. Surge então o Manifesto da Cozinha Futurista. 1986. música (audição). Un impulso “totalitario” anima il movimento: meta dei futuristi. teatro. e non soltanto nelle condizioni esterne dell’esistenza. trariam inúmeros benefícios ao povo italiano. a proposição que mais choca é a de “abolir o macarrão”. fotografia. segundo o autor. como o chamou Mário de Andrade. o único sentido que ainda faltava ser abordado era o paladar. rumores e odores (audição e olfato). 19 De Maria. Marinetti defendia novos hábitos alimentares.indd 26 7/4/2009 15:51:17 . Ao propor a abolição do macarrão. La nascita dell’avanguardia – saggi sul futurismo italiano.Fillippo Tommaso Marinetti já haviam escrito manifestos sobre pintura e escultura (visão). secondo il motto di Rimbaud. Marinetti afirma que o homem pensa. Um homem mal nutrido pensa e age mal. não mastigam e o trabalho de digestão é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. O último dos sentidos fora também abordado pelo “agitador futurista”. Luciano. ao comerem macarrão. Nas palavras do crítico italiano Luciano De Maria: Marinetti e i compagni dissero la loro su ogni argomento: letteratura. Dentre as diversas idéias apresentadas.19 A publicação do Manifesto da Cozinha Futurista deu-se na Gazzetta del Popolo. sons. Marinetti argumenta que este alimento contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada dos napolitanos. tactilismo (tato). sonha e age de acordo com o que come e o que bebe. o que provoca desequilíbrio e distúrbio destes órgãos. Venezia: Marsilio Editori. cucina ecc. cinematografo. que.

Vez ou outra um restaurante promove uma noite futurista. pessimismo. 22 O manifesto contra o macarrão é lembrado em diferentes épocas e ocasiões.indd 27 7/4/2009 15:51:17 . cit. mas ainda hoje existe um restaurante na Itália – o Lacerba. Op. porém tem a sensualidade despertada por certa substância ictiófaga. suas origens e sua história. informa que no início do século XX o poeta Marinetti propôs abolir o macarrão da dieta italiana. que vive quase exclusivamente do arroz e é extremamente submisso.. presente em boa parte da alimentação de quase todos os povos. em que as receitas são novamente executadas e degustadas. não apenas em festas relativas a datas comemorativas do movimento literário. Em seus Aforismos. 20 Savarin.A cozinha futurista Derivariam então: fraqueza. p. de Milão . ibid p.que serve os pratos e as bebidas futuristas.15 21 Id.”20 e acrescenta que a fécula. Brillat-Savarin afirma que “o destino das nações depende de como elas se alimentam. 27 Cozinha futurista. faz uma referência ao mesmo fato: a tentativa de desvincular o macarrão dos hábitos alimentares italianos.23 A revista Focus (Mondadori) de dezembro/2002. o escritor afirma que os povos que se alimentam de peixe são menos corajosos que os que se alimentam de carne de gado. traz uma ampla reportagem sobre o macarrão. Orietta del Sole. um futurista e outro passadista. “(. ibid. em Palermo ( e não que tenha sido trazido da China para a Itália por Marco Polo). 94 23 Na verdade. e entre as afirmações de que já em 1154 o macarrão era produzido na Itália. 72 22 Id. Sem sucesso. o fósforo. O exemplo dado é o do povo indiano.) enfraquece as fibras e mesmo a coragem dos homens”21. existem dois cardápios. mas como pratos constituintes do cardápio. para os clientes que não desejam se aventurar nas receitas inovadoras. em seu livro Nunca treze à mesa. inatividade nostálgica e neutralismo. Em outra passagem do mesmo livro.. Brillat. p.

Ironia ou não. Ecce homo. é a do Piemonte. que comem até empanturrar os intestinos (“O espírito alemão é uma indigestão. O problema da importância da alimentação na formação do homem pode também ser verificado em Nietzsche. isto é. afirma Nietzsche. não chegando nunca ao fundo de alguma coisa. de virtude livre e de moral?” Nietzsche afirma que sempre nutriu-se mal. ibid p. A dieta mediterrânea – que inclui o macarrão . o que também fazem franceses e ingleses. de ‘germânico’”25. que a alimentação atinge diretamente o caráter e o comportamento. importado. Outro argumento utilizado contra o macarrão é de ordem econômica. de virtude (no significado que essa palavra se dava na Renascença). arroz e cereais. mas molda o comportamento de uma nação: “basta a mínima inércia dos intestinos – tornada depois um hábito péssimo – para fazer de um gênio algo de medíocre. O filósofo alemão também acredita que a pessoa é o que come. 2000 p. 13. Friedrich. a italiana.Fillippo Tommaso Marinetti O insucesso da tentativa é sempre comentado em tom jocoso. Junto com o pão. “Como deves nutrir-te para chegares ao teu máximo de força. 51 25 Id. pois o trigo. não só das pessoas individualmente. A melhor cozinha. ou comemorativo.9% de gordura. Nutricionistas defendem que o macarrão faz bem à saúde: 100 gramas de macarrão sem condimentos tem 356 calorias. O interesse de Marinetti é. 24 Nietzsche.indd 28 7/4/2009 15:51:17 .já foi exaltada como exemplo de alimentação sadia e equilibrada em todo o mundo. culpa dos alemães. 53 28 Cozinha futurista. era caro e a substituição deste alimento favoreceria a indústria italiana do arroz.4% de proteína e 3. São Paulo: Martin Claret. no livro Ecce Homo. de 1888. das quais 80% de carboidratos. portanto anterior ao futurismo. o macarrão forma a base da pirâmide alimentar defendida pelos nutricionistas. talvez.”24). Nietzsche julga como a melhor cozinha justamente aquela que Marinetti pretende revolucionar.

o manifesto não repercutiu como deveria esperar seu autor. melhores cidadãos. não só nutricional. Pudemos observar que a tradição alimentar vem sendo questionada por inúmeros autores e em diferentes épocas. Percebe-se então o cunho político. Como já foi dito. Ainda que Marinetti tenha proposto uma revolução gastronômica em seu país. pretenderam revolucionar a culinária italiana. Através da correta escolha e combinação de ingredientes. Mas a importância da alimentação 29 Cozinha futurista. além de estarem demasiado atreladas à figura política do Duce.A cozinha futurista portanto. em especial Fillìa. desde a matéria prima de certos alimentos até modas gastronômicas/culturais estrangeiras. A revolução gastronômica futurista não aconteceu. e ainda contribui para o desenvolvimento econômico do país. desenvolvendo a indústria e propiciando empregos aos italianos. mas também político. de Marinetti. Além disso. com o propósito de “melhorar a raça e a economia”. o Futurismo havia entrado em crise. Os alimentos escolhidos também deveriam fortalecer a economia nacional. pela negação de todos os estrangeirismos. co-autor do Manifesto da cozinha futurista.indd 29 7/4/2009 15:51:17 . acreditavam poder fortificar a raça e tornar os homens mais competitivos e adequados à guerra. Talvez por Marinetti estar diretamente ligado ao fascismo e defender idéias já então consideradas conservadoras e de forte conotação política. Marinetti e seus colaboradores. bastante nacionalista (seria lícito dizer fascista?). embora o objetivo não tenha sido alcançado. pois as propostas futuristas verificaram-se impraticáveis. Após 1920. A boa alimentação proporciona melhores soldados. a cultura italiana haveria de se fortalecer pelas modificações propostas. É provável que a publicação deste manifesto tenha sido uma tentativa de fazer ressurgir a importância do Movimento Futurista. num período de decadência – os gritos e bramidos marinettianos já não eram ouvidos com tanta atenção pelo mundo literário. o problema da interferência da alimentação na personalidade e/ou nas atitudes das pessoas não havia passado despercebido pelos autores do século XIX e início do século XX.

a alimentação italiana era mais resistente e tradicional.indd 30 7/4/2009 15:51:17 . em todos os campos das artes. Marinetti tentou preparar.Fillippo Tommaso Marinetti para a vida das pessoas continua ganhando mais e mais importância tanto na literatura como na mídia. 30 Cozinha futurista. Entretanto. mais uma prova da personalidade multifacetada de um revolucionário que se ocupou de todos os sentidos. Restou-nos o manifesto. com os ingredientes do futurismo. uma nova massa.

Oswald de Andrade e a Cozinha Futurista H Cozinha futurista.CApítulo 1 Mário de Andrade.indd 31 7/4/2009 15:51:17 .

Cozinha futurista.indd 32 7/4/2009 15:51:17 .

de alguns colaboradores da Revista de Antropofagia liderada por Oswald. deu ensejo neste trabalho a uma série de “analogias gastronômicas” entre este e parte da obra de dois escritores modernistas. a alimentação é fator fundamental para o desenrolar da obra. Espero não causar indigestão com a combinação das iguarias. por sua vez. No livro Macunaíma. o mais respeitado seja aquele com maior capacidade de prover seus familiares. A preocupação com a subsistência de cada indivíduo e de toda a tribo faz com que o mais forte. tentarei estabelecer relações pertinentes entre os autores brasileiros e o “futurismo gastronômico”. Partindo de apontamentos sobre algumas obras destes dois autores. e oportunamente.máriO de AndrAde nA cOzinhA A repercussão do Manifesto da Cozinha Futurista na mídia possibilitou a realização do livro A cozinha futurista.indd 33 7/4/2009 15:51:17 . Mário de Andrade e Oswald de Andrade. cuja repercussão. Macunaíma 33 Cozinha futurista.

mas o livro só veio a ser publicado em 1928. 34 Cozinha futurista. Macunaíma é o famoso “herói sem nenhum caráter”. mas também nas áreas lingüística.pode ser considerado um dos meios de formação da identidade nacional brasileira proposta por Mário de Andrade em Macunaíma. As misturas de raças deram-se não somente no âmbito genético. conquanto não lhe falte caráter. O prefácio nunca chegou a ser publicado. As inúmeras repetições do verbo comer e seus sinônimos chamam a atenção sobre os alimentos ingeridos ao longo da saga de Macunaíma. e como a digestão – ou assimilação – destes alimentos pode ser significativa para o processo de construção do caráter “identidade” nacional brasileiro. Mário de Andrade escreveu Macunaíma na semana de 16 a 23 de dezembro de 1926. pois Mário julgou inadequados os dois que escrevera.Fillippo Tommaso Marinetti passa a ser respeitado pelos irmãos na medida em que se torna o principal responsável pela alimentação dos mesmos. já que Mário de Andrade acabou por construir um “símbolo do brasileiro”.ou assimilação . musical. devido à série de modificações feitas no texto original. O processo de ingestão e digestão .indd 34 7/4/2009 15:51:17 . O “herói de nossa gente” reflete não uma. e já que a rapsódia foi publicada no mesmo ano do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. O resultado de sua obra foi emblemático. reflexo da miscigenação de tantas culturas quantos foram os povos que aqui vive(ra)m. O caráter de um povo também poderia ser avaliado verificando-se as bases de sua alimentação. e – por que não? – gastronômica. pela dificuldade de sua classificação: história? romance? Acabou por ser rapsódia. durante umas férias em Araraquara. comportamental. torna-se difícil não reconhecer analogias entre as duas obras. mas as várias influências que determinaram o caráter e a formação do povo brasileiro. O livro provocou dúvidas desde a publicação.

aumenta. Pe. 35 Cozinha futurista. 2001. São Paulo: Hedra...95-96. a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir. senão o que digere (. nutre. Lestringant. em sua História concisa da literatura brasileira.. não é o comer que ele toma na boca.) os primeiros missionários do Novo Mundo perceberam a relação entre a antropofagia ritual e o sacramento da Eucaristia.) o mesmo Cristo que no Sacramento se come. e dá forças e vigor ao vivente. alimentação que pode ser uma das bases da formação do caráter nacional. quando da missa..indd 35 7/4/2009 15:51:17 .) a palavra despertava inextricavelmente o sentido moderno do pão eucarístico.. Antonio.) o que alimenta.. pp. grandeza e decadência. que eram associados a uma prática antropofágica. encontramos em Frank Lestringant uma analogia entre um ritual antropofágico indígena e a Eucaristia: “(.(. desde o nascimento e as primeiras 1 2 Vieira. O Canibal. defendida por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago. como o Sacramento católico.34-36.. Alfredo Bosi. a transformação do tabu em totem.. no Rosário se digere. seja de forma direta ou sublimada.”1 Esta antropofagia está também ligada ao amor. Padre Antonio Vieira traz desta forma a questão da Eucaristia: “(. Sermões. pp. se convertia em corpo de Cristo. O padre José de Acosta empregava o termo hóstia para designar a vítima dos sacrifícios astecas. e recebe dentro de si.) espécie de barro vital.. desde os nossos ancestrais mais primitivos: entretanto ainda hoje podemos averiguar seus resquícios.A cozinha futurista A antropofagia.”2 Mário de Andrade dedica grande atenção à alimentação de seus personagens na obra Macunaíma. 1997.. pois o que todos os fiéis desejam não é viver no amor de Cristo? Transportando-nos da cultura cristã para a indígena primitiva. que. Frank. vem sendo praticada há centenas de anos. ainda amorfo. destaca que o protagonista é uma “(. Brasília: Editora Universidade de Brasília.

1992. A antropofagia do livro resume-se a três episódios: no primeiro. A Literatura Brasileira através dos Textos. p 395. a metafórica ou sensual.. No entanto. transformado em sombra leprosa. logo depois de sua preguiça e de seu apetite sexual (ainda assim.indd 36 7/4/2009 15:51:17 . apetite). A gula aparece como um dos primeiros adjetivos dados ao herói.a medicinal. e no episódio final. embora velada ou mascarada pelo clima de sedução. o boi morre por não poder ingerir mais nada após a sombra leprosa acocorar-se nele.398-399. come tudo e todos que estão em seu caminho. já que as referências à ingestão – ou ausência dela – aparecem aproximadamente 130 vezes no decorrer do livro. e o 3 4 5 Bosi. Massaud. é um eufemismo utilizado por Mário de Andrade.”4 Deste compósito.) imbricam-se crendices de vária extração e significado. como a antropofágica. Moisés. Massaud Moisés afirma que. 1991. a ritual .Fillippo Tommaso Marinetti diabruras glutonas e sensuais”3.. que acarreta a morte de alguns personagens: o filho de Macunaíma e Ci morre após chupar o peito envenenado da mãe. Alfredo. Talvez seja ainda possível reconhecer uma ingestão fatal. são muitas as passagens em que há uma certa antropofagia. o Gigante Piaimã morre em sua própria macarronada – em que “faltava queijo”. O verbo brincar no texto tem conotação sexual. Enquanto Macunaíma brinca5 com suas mulheres. e aquela para o fim mesmo da alimentação. moqueada. Macunaíma tem seu dedão abocanhado e engolido por Sofará. São Paulo: Cultrix. mulher do irmão mas sua amante. mordidas misturam-se a beijos. História Concisa da Literatura Brasileira. em Macunaíma. 36 Cozinha futurista. num compósito heterogêneo que é bem o reflexo do Brasil e seus habitantes. Jiguê. no segundo. São Paulo: Cultrix. Poder-se-ia estabelecer uma divisão entre os diferentes tipos de ingestão. destaca-se aqui o gastronômico. o tico-tico morre após alimentar o Chupinzão. “(. pp. o herói come a carne da perna do Currupira.seja por haver divisão de alimento pela família ou em ocasiões festivas .

De fato. São Paulo: Martins Fontes. 216 Thévet.v. que o animal morto e comido toma o lugar da oferta sacrificial original. Mário de. e não hesita em comer sozinho a caça ou as frutas e raízes que encontra. de modo geral. Op.) o canibalismo constitui. A família (tribo) de Macunaíma sempre divide as obrigações para obter o alimento e prepará-lo. Esta alimentação ritual também aparece quando da morte da mãe. p. p. que é dividida. cit. Lembre-se a passagem da anta capturada por Macunaíma. enquanto Frank Lestringant diz que “(. Margaret.. ou de negar comida à própria mãe ao perceber que ela pretende dividir o alimento com os outros irmãos. cabendo a ele as entranhas. 1998.25 Lestringant. André. com freqüência. p.. ou no jejum quebrado por Macunaíma quando nasce seu filho. A ingestão ritual remete às sociedades indígenas – em Macunaíma estamos na tribo dos tapanhumas – em que as refeições são comunitárias e o alimento dividido entre os indivíduos da tribo segundo determinada ordem. Dictionnaire philosophique. s. Rio de Janeiro: Campus. p.23 37 Cozinha futurista. 33. 1975. Histoire de deux voyages. O Ritual do Jantar. O verbo comer adquire duplo sentido. em que os irmãos passam a noite “bebendo oloniti e comendo carimã com peixe”10. André Thévet (1516?-1592) descreve uma das cerimônias de divisão do corpo de um inimigo capturado: “as tripas são dadas aos jovens machos e todos os miúdos são distribuídos entre as jovens mulheres”8. e o ato sexual pode também significar a assimilação do outro: “é duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem”6 afirma Voltaire.indd 37 7/4/2009 15:51:17 . Macunaíma. Outro ritual importante no livro é o da macumba a 6 7 8 9 Voltaire.A cozinha futurista amor muitas vezes torna-se deglutição. p. Frank. em Margaret Visser vemos que “Os mitos sobre sacrifício nos dizem. 279 Visser. uma maneira particularmente eficaz e direta de fazer unidade com o outro”7. 10 Andrade. um ser humano”9. somente o herói pensa individualmente. Antropophages.

cit. pelo elevador e pelo carro.4 38 Cozinha futurista. cozimento de broto de abacate para tuberculose. engolir bagos de chumbo pra não ter filhos. salvando vidas e atenuando dores. Chamam ainda atenção as inúmeras vezes em que o herói tem medo de ser comido: Macunaíma teve medo de ser engolido pela cobra preta. Este medo de ser ingerido. após ser um comensal em sua mesa – onde comeu cará com feijão dentro. que é feiticeiro: suco de tamarindo pra lombriga. em outro momento. Margaret. assimilado pelo outro pode representar o medo de virar totem. o minhocão temível. pela família de Vesceslau Pietro Pietra (o herói tinha virado torresminhos que “bubuiava” em polenta fervendo.) por trás de toda regra de etiqueta da mesa está escondida a determinação de cada pessoa presente de ser um comensal e não uma iguaria.”11 De fato.indd 38 7/4/2009 15:51:17 . pela cabeça de Capei (que vira Lua). por Ceiuci e sua filha mais velha (as mulheres queriam comer o pato. na passagem em que Macunaíma procura pouso no rancho de Oibê. pelo cesto do Gigante Piaimã. e.. engolido. agüinha e reza cantada pro sarampo. já na cidade. por Oibê. Margaret Visser afirma que “(. teve que fugir para não ser comido pela sombra leprosa que era Jiguê. finalmente. remédios aconselhados pra erisipela. “Mas era só de brincadeira 11 Visser. pela surucucu. pelo Currupira.. Op. uma pacuera inteira (sem mastigar) e um côco cheio de água –. Macunaíma teve medo de ser a iguaria. teve medo de ser comido na macarronada da família). p. uma cuia com farinha d’água. pelo Mianiquê-Teibê (assombração medonha). A ingestão medicinal ocorre algumas vezes. pelo Gigante Piaimã.Fillippo Tommaso Marinetti que o herói comparece para resolver seu problema com Piaimã. que termina com todos os participantes comendo o bode que havia sido oferecido em sacrifício. chupar chave de rosário pra curar sapinho. sempre através da figura de Maanape. que era Macunaíma).

15 Lévi-Strauss. Frank. e vomitou as iguarias comidas: a farinha virou num areão. Para Lestringant. marginais. Assim sendo.418. Mário de. o feijão e a água viraram num lamedo cheio de sapos-bois. enquanto Lévi-Strauss analisa a “antropoemia” das sociedades desenvolvidas.) exprime o valor simbólico ligado antes de tudo à ingestão de carne humana”14. que “(. a pacuera virou num periantã (barranco flutuante) em que o herói e a princesa escaparam. que dera ao menino um pedaço de sua perna como isca. que “(. Mário de Andrade descreve os alimentos que fazem parte da rotina da tribo. Tristes Tropiques. Op. em lugar de ingerir. Macunaíma por quatro vezes fez “cosquinha na goela com o furabolo”. mas também aqueles que aparecem para saciar a fome de “outras tribos”. já que o pedaço de perna respondia ao chamado do dono.. os indivíduos detentores de forças temíveis: criminosos.A cozinha futurista que ele [Oibê] queria comer o herói”12 Para escapar de Oibê.) estava querendo mas era comer o herói”13. Tratase da identidade gastronômica nacional. 39 Cozinha futurista. 184.. estrangeiros”15. 182. Esta lista nutricional é relevante.indd 39 7/4/2009 15:51:17 . fruto da mistura das diversas culturas que integram o povo brasileiro. diário. Macunaíma já o havia feito para escapar do Currupira. Por fim. a ingestão de alimentos para matar a fome e nutrir o corpo: um fato repetitivo.. 13 Ibid.. já que aqui aparece um interminável desfile de termos regionais.20... o vômito “(. Macunaíma. 14 Lestringant.) vomitam. de palavras de origem indígena e outras importadas diretamente da Europa. p. o cará virou num “tartarugal mexemexendo”. Claude. cit. p. os personagens sentem fome todos os dias.. p. e por fim. a alimentação como um fim em si mesma. e precisam saciar esta necessidade. 12 Andrade. O vômito não aparece somente nesta passagem. como forma de fugir de um perseguidor após comer seu alimento.. p.

ratos chamuscados. presunto. muçuãs. abricôs. mucajás. extremamente diversa da européia. um motor. pitomba. cascudo. tabuí. guaribas. jacutinga. sapotis. plantas alucinógenas: ipadu. a pacuera (entranhas de caças). jacu. macacheira. lontras. pacu. coelhos. pacova (banana). café.Fillippo Tommaso Marinetti Da cultura negra. broto de abacate. gasolina. sapotas. abacaxi. manga-jasmim. onças. mutum-de-fava. pixuna. fumo. beiju membeca (beiju mole). monos. robalos. queixadas. picota. bagre. peixes: tambiús. perdizes. mutuns (mutum-de-vargem. cará com feijão dentro. raiz de umbu. ingere-se o bode da macumba. raízes/leguminosas e seus derivados: tacacá com tucupi. lambaris. suçuarana. 40 Cozinha futurista. churrasco. tamanduá. farinha d’água. bolo de aipim. Dos europeus temos a lagosta. jundiá. onça-pinima. graxains. catetos. macarronada (com o chofer e seu sangue como molho). Embora os nomes indígenas prevaleçam. milho. licor. mocororó. aves: um macuco. cotia. cigarros de palha de tauari. Da cultura indígena comem-se frutas: bacuparis. sapotilhas. ariticuns. heranças do canibalismo autóctone: sopa feita com um paulista. tejus. canguaçu. leite da vaca Guzerá (raça bovina vinda da Índia). urumutum). abroba (gerimum). em meio a muita cachaça. os estradeiros. tatu-canastra. tucunaré. cogumelos e rãs. mutuporanga. uísque. a perna do Curupira. os olhos da tigre. símios: um macaco. veado. capivara. jaós. moluscos: fritada de sururu de Maceió. aperemas. antas. e não porque Mário de Andrade considerasse a influência indígena mais forte que a negra ou a branca. pacas. os esplêndidos bombons Falchi. caças: veado-catingueiro. piaçoca. quiânti. ter herdado o nome utilizado pelos índios. “champagna”. sanduíches.indd 40 7/4/2009 15:51:17 . um pato seco de Marajó. maniveira. miritis. urus. bacuris. a jaguatirica. vidros-de-perfume e caviar. guabijus. a papa-viado. o torresmo e a polenta. talus. rendas. melancias. coquinho baguaçu. podemos atribuir isso ao fato de grande parte da flora e fauna brasileiras.

São Paulo.indd 41 7/4/2009 15:51:17 . Maanape e Jiguê. sob o título de “Mundo musical”. Gosto muito desses cocteils. Trata-se de crônicas musicais. após terem se lavado na cova do pezão do Sumé (São Tomé). Comecemos pela obra inacabada O banquete. da caninha e outros palimpsestos que escondem a moleza nossa. agosto 1928. mas todas elas formadoras da identidade nacional. A contribuição de cada povo serviu para realizar a grande festa que é a culinária brasileira. 16 Andrade. 41 Cozinha futurista. do tutu. do dendê. dentição. “O Romance do Veludo é um documento curioso da nossa mixórdia étnica. Mário de – Romance do Veludo – Revista de Antropofagia.A cozinha futurista Assim como os três manos. única em sua variedade de cores. estas também se encontram registradas por meio de suas influências gastronômicas. o processo de criação. se acomodando com as circunstâncias do Brasil. 1ª dentição. atingindo até a culinária. 1a. africanos. mas com estilo completamente livre. Por mais forte e indigesta que seja a mistura. Macunaíma. em 25 de fevereiro de 1945. desde maio de 1943 até sua morte. no. espanhóis e já brasileiros. os elementos que entram nela afinal são todos iromuguanas e a droga é bem digerida pelo estômago brasileiro. Mário corroborava a opinião da confusão de valores instaurada no Brasil por sua mistura étnica. o folclore. Em “Romance do Veludo”16. em que se discutem com a mesma paixão a arte. Os textos foram publicados às quintas-feiras na Folha da Manhã. Quer como literatura quer como música. 04.”17 Em outras obras de Mario de Andrade também é possível verificar a importância destinada à ingestão de alimentos ou aos rituais que circundam a alimentação. texto publicado em 1928. acostumado com os chinfrins da pimenta. cheiros e influências. mudaram de cor e passaram a representar as três raças formadoras do povo brasileiro. agosto de 1928 17 Revista de Antropofagia. dançam nele portugas. hoje publicada em formato livro.

já que todos encontram-se reunidos em torno de uma mesa.Fillippo Tommaso Marinetti a situação dos músicos e das pessoas interessadas – por razões as mais diversas – em proteger a arte e os artistas nacionais. que pode dizer o que realmente pensa sem temores de que o grande objetivo do banquete pereça. Margareth. facilitando aos convivas a explanação de suas opiniões e desobrigando-os das responsabilidades de um confronto intelectual. temos assim em qualquer refeição um cenário ideal para o desenrolar de um texto. Numa alusão ao Banquete de Platão. é bastante interessante observar o itinerário dos comes e bebes servidos durante as discussões: 18 Visser. Op.”18 Ora. “um sistema de tabus. com um objetivo comum: saciar a fome e compartilhar o alimento e os prazeres advindos destes. À mesa. cinco personagens encontram-se para um banquete oferecido pela milionária americana Sarah Light com o intuito de obter proteção governamental para o jovem músico nacional Janjão. Pastor Fido é um estudante. no fundamental. Mário de Andrade toma a refeição como o momento propício para que assuntos importantes sejam discutidos. o discurso adquire um tom menos formal. cit. Na fictícia cidade de Mentira. O político Félix de Cima e a virtuose Siomara Ponga são os convidados pertencentes à classe dominante (vale observar que apenas a classe dominante tem nome completo) e que auxiliaram Sarah em sua empreitada. Além das teorias sobre música ou arte. projetado para que a violência fique fora de questão. único personagem sem amarras políticas. p. As maneiras à mesa são. que precisa ser protegido para que possa continuar a produzir sua arte. xiii 42 Cozinha futurista. Janjão é o músico pobre e quase anônimo. Comer é algo agressivo por natureza e os utensílios requeridos para o ato poderiam rapidamente transformarse em armas. Outro fator relevante é a possibilidade de se determinar o nível cultural de uma pessoa por meio de suas maneiras à mesa.indd 42 7/4/2009 15:51:18 .

para. IX) e As Despedidas (cap. X). 04 a 08 20 Andrade. Se os capítulos I (Abertura).A cozinha futurista os capítulos têm como subtítulos a parte do banquete a que se referem.VI) e viriam ainda. a partir do capítulo IV (Aperitivo) é o ritual da refeição que dita o tom das discussões. II – Hors d’oeuvre. 2a. Mario de. nos. Tinha por pretexto o almoço dominical. Aqui. aqui. VII). foram servidos como aperitivo Porto e “Cocktail Verde e Amarelo”. o autor comenta o que talvez tenha sido fonte de inspiração às crônicas musicais da Folha da Manhã: os salões em que se reuniam artistas e intelectuais. III – Entradas. Brasília: INL. Café Pequeno (cap. II (Encontro no Parque) e III (Jardim de Inverno) precedem a comilança por tratarem da apresentação dos personagens. dentição. de Oswaldo Costa. aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de composição”20 Voltando ao Banquete de Mário. encontramos um texto de fundamental importância para o modernismo brasileiro. dentro do maior modernismo. discutir arte e realidade brasileira. IV – Sobremesa e V – Cafezinho. Seguem-se Vatapá (cap. em torno de uma refeição. maravilha de comida lusobrasileira” ou o salão da Rua Duque de Caxias. vinte anos após a Semana de Arte Moderna. Oswaldo discute os rumos do modernismo em forma mascarada de refeição. 1972. Pode-se.19 Na obra Aspectos da Literatura Brasileira. “O Movimento Modernista” in: Aspectos da Literatura Brasileira.indd 43 7/4/2009 15:51:18 . Doce de Coco e Frutas (cap. Salada (cap. O Passeio em Pássaros (cap. estabelecer um paralelo com a série “Moquém”. V). já que os cinco textos que a compõem são intitulados: I – Aperitivo. justamente aquele em que Mário de Andrade analisa “O Movimento Modernista”.VII). 43 Cozinha futurista. como “o salão da Avenida Higienópolis que era o mais selecionado. A cozinha. São Paulo: Martins Fontes. Mário descreve alguns salões de vital importância para os jovens modernistas. sendo este último o recomendado 19 Revista de Antropofagia. publicada na Revista de Antropofagia entre 7 de abril e 8 de maio de 1928. de cunho afrobrasileiro. Nesta série. onde “o culto da tradição era firme.

o dendê. Está claro que ninguém comeu isso.. a língua e os dentes”. camarão seco. Vinha um prato de salada junto. Era um Chateaubriand. palmito.T. Tradução em português p.. além da aproximação do prazer proporcionado pela comida ao prazer sensual instigado pela mulher. fabricação particular). limão (que pelo menos disfarça o cheiro fatigante da caninha. mas a carne estava miraculosa”23 Outra vez podemos estabelecer um paralelo com Marinetti: a utilização de gêneros alimentícios alternativos aos que faltavam em tempos de guerra – a polêmica proposta marinettiana de abolir o macarrão tem 21 Andrade. até do paladar dos dentes (…) Eu não sei como explicar… mas vocês homens. 125 44 Cozinha futurista. os sabores delicados do peixe e do camarão fresco unem-se trêmulos à tempestade dos temperos. e não se mistura com ele) e um pouco de açúcar verdadeiro (mas um pouco só. F. O Banquete. Alface.Fillippo Tommaso Marinetti pela anfitriã por acompanhar melhor alguns pratos fortes do Brasil que seriam servidos. 123 22 Marinetti. p. de um prato chamado “Balé do Racionamento”. ou “ajoelhando-se em frente. Mario de. Vê-se aqui. No Vatapá. O Banquete. São Paulo: Duas Cidades. todos se enganaram. aspargo. 1989. 22 Numa época de escassez devida à Guerra. ainda. tudo feito com massa de açúcar pintada. 07 e 11 23 Andrade. “mas em vez de batatinhas: pequenos pedaços de queijo assados na brasa. A Cozinha Futurista. começou a amorosa adoração com os lábios. a utilização de um vocabulário que remete ao utilizado por Marinetti na introdução de seu livro A Cozinha Futurista: “E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros”. Mario de. “É uma delícia da língua. temos a descrição. como nesta batida). já perceberam como é gostoso no meio da multidão a gente se encostar numa mulher…”21. em vez de cogumelos: leite coalhado em cápsulas salgadinhas. foi muito divertido. feita de caninha (em alambique de barro.indd 44 7/4/2009 15:51:18 . p. O político provou do cocktail e constatou se tratar de uma legítima batida paulista.

Mario de. mas uma salada colossal. Bravio. mas já personalizada pelo tom local. Pastor Fido. exceto Janjão. prato principal do banquete de Sarah Light. entregam-se. mas como era bonita e chamariz!” A descrição da salada aparece em total oposição ao prato anterior. cuja carreira a impedia de gostar de qualquer coisa. cozinheiros tornando-se verdadeiros artistas (neste caso. manducado por ele antes mesmo que suas mãos o tocassem.”25 A essa salada. Mas tão cheio. que era “feioso e monótono na aparência. a malícia das experiências sensuais. A salada. Chegamos finalmente à Salada. e o prato foi comido. os caminhos percorridos pelo sacrifício de centenas de gerações.. “um coroamento da sua existência de comestível espiritual (desculpem). Seus olhos a cheiravam. que se percebia nele a paciência das enormes tradições sedimentadas. embora não se tivesse entregado totalmente ao prato em que havia até sorvete de creme e suco de pedregulho! 24 Andrade. norte-americana.indd 45 7/4/2009 15:51:18 . “Tinha mil cores. Áspero. O cheiro do vatapá vos trazia aquele sossego das coisas imutáveis”24 A salada aparece como alegoria: é norte-americana. seus olhos haviam engolido a salada. para suprir com a arte a falta de certos produtos). era uma salada fria. p. “Não tinha cheiro nenhum.159 45 Cozinha futurista. mas que cheirava.p. Todas as cores estão nela representadas. o moço estudante. estava encantada com o furor quase mítico do prato. não fazia vista alguma com seus tons de um terra baço.A cozinha futurista sua base na elevação de preço do trigo durante a guerra -. Siomara Ponga. aquele cheiro. o vatapá.” Era o prato preferido da milionária. O Banquete. a maior do mundo. com mentira e tudo.. que resfolegava em cima da salada. especialmente os verdes.159 25 Andrade.. Espalhara na sala um cheiro vigoroso que envolvera os presentes no favor das mais tropicais miragens. tão nutrido e convicto. bravo. Mario de. todos. Felix é descrito como um animal. O Banquete.. não conseguira resistir à atração da salada e se servira de todas aquelas cores.

. foi descrito. e outra seca. Juca pede que seja feito Peru no Natal. a mãe poderia finalmente comer peru. perfeito. Um pouco anterior ao Banquete. a salada mais encantatória do mundo. um irmão. o prato mais alcoolizador que havia agora no mundo. havia também pecados: leite de cabra. ameixas e nozes. escrito entre 1938 e 1942 e publicado no livro Contos Novos. Após a morte do pai. de acordo com os personagens respectivamente como: o prato mais lindo do mundo. a salada mais traiçoeira do mundo. 26 Andrade. Era um prato inteiramente novo. que contam cinco pessoas: ele. apenas para os familiares. por causa de Gandhi. “Tinha de tudo. mas já que era considerado doido. a salada mais sem perfume porém mais vistosa do mundo. Era o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo. a mãe e a tia. incapaz de caráter”26 Este prato. Neste texto também temos uma refeição como temática central. Mario de. o peru. é o conto “O Peru de Natal”. gemas de ovo libertas da perigosa albumina e avelãs recobertas de cacau sem açúcar. p. uma irmã. isso lhe dava certos privilégios de idéias inovadoras. a comida vence a batalha.. e não apenas o que sobrava na ossada após as festas que davam enquanto o pai era vivo. não havia culpa. porco. alface muito clara e casca ralada de maçãs. sem caráter. Assim. mas encapsulado em farinha de trigo. 46 Cozinha futurista. em respeito aos judeus. a carne mansa de um tecido muito tênue. O Banquete. Juca assumia para si a culpa dos desejos de todos da casa. À mesa. uma gorda com os miúdos. duas farofas. a salada mais carcomedora do mundo. Juca sempre foi considerado doido pela família. todas as vitaminas salutares. bicho nacional dos celtas. embora aqui seja o prazer proporcionado pela iguaria a ser ingerida mais forte que a batalha emocional que se dá à mesa. Ao menos.indd 46 7/4/2009 15:51:18 . 162.Fillippo Tommaso Marinetti Entre perdiz desfiada. o prato mais odioso e ao mesmo tempo mais simpático do mundo (e dominava a gente).

1993. Numa espécie de divisão ritual. Mário de Andrade revela o destino que se deve dar ao seu corpo após a morte. e lá chegando. gozando os prazeres daquela carne macia acompanhada por cerveja. com bastante manteiga. e vai ao encontro de Rose. Juca. Mario de. como diz o autor. e após essa felicidade. o sexo ao Paiçandu. em meio a mil maravilhas. Outras referências gastronômicas podem ser encontradas na obra poética de Mário de Andrade. mesmo após a morte.A cozinha futurista douradinha. e essa sensualidade é reafirmada ao partir o narrador. e a sombra do pai. em “Lenda do Céu”27. e todos passam a comer com sensualidade. A primeira. por extensão. há uma contaminação do vocabulário referente aos prazeres gustativo e sexual. com forte cunho nacionalista. destinando os pés à Rua Aurora. o prazer gustativo e o prazer carnal se aproximam. existe sensualidade no ato de ingerir a iguaria desejada há muito tempo.indd 47 7/4/2009 15:51:18 . em que um menino vai ao céu levado por uma andorinha. Juca passa à felicidade individual. Mário de Andrade considera as comidas do Brasil paradisíacas. in: Poesias completas. Como em Macunaíma. Mais uma vez. Belo Horizonte: Vila Rica. Todos desfrutam de uma felicidade gustativa. para que. Numa declaração de amor à cidade de São Paulo. Mário destrincha o próprio corpo. a cabeça 27 Andrade. este pertencente à série “Lira Paulistana”. entretanto pareceram mais relevantes em três deles. No céu marioandradino as iguarias são todas brasileiras. dividida com todos os familiares que puderam comer até se fartar. n’O Banquete e em “O Peru de Natal”. possa continuar gozando as delícias de sua terra natal. Quase a ceia de Natal é estragada pela lembrança do pai. para um encontro amoroso. “Lenda do Céu”. com o auxílio de Juca. 47 Cozinha futurista. Trava-se uma luta entre os dois mortos: o pai e o peru. constata que “tinha mandioca e açaí/ Mate cana arroz café/ muita banana e feijão/ Milho cacau … Tinha até”. O peru vence. quer que seus restos mortais sejam enterrados em diferentes partes da cidade. Em outro poema.

O burguês indigesto de São Paulo é tão sem caráter quanto Macunaíma. as tripas pro Diabo “que o espírito será de Deus”. é índio. italiano. ritualmente. foi a parte que coube ao malfadado herói. poema de 1920-1921. através desta. e. O burguês. sem caráter. mais consciente de sua “importância” na sociedade não goza dos mesmos privilégios de simpatia que Macunaíma. aproximando-se da salada de Sarah Light. o ouvido direito ao Correio. mas absorve a cultura africana e é contaminado pela européia.Fillippo Tommaso Marinetti à Lopes Chaves. os olhos ao Jaraguá.indd 48 7/4/2009 15:51:18 ..28 Podemos ainda encontrar resquícios pantagruélicos em “Ode ao Burguês”. o nariz aos rosais. oh! gelatina pasma!/ Oh purée de batatas morais! ”29 Mario de Andrade faz o retrato da burguesia paulista da época. as mãos que ficassem “por aí”.. e na divisão da primeira anta caçada por Macunaíma. em que o alimento auxilia na constituição do típico burguês. Macunaíma não parece em momento algum causar ódio no autor. um homem que sendo francês. é sempre um cauteloso pouco a pouco. intelectual e física: “O burguês níquel.) Eu insulto o burguês funesto! / O indigesto feijão com toucinho./ o burguês-burguês!/ A digestão bem-feita de São Paulo!/ O homem-curva! O homem-nádegas!/(. Mário de. a língua ao alto do Ipiranga. brasileiro. de Macunaíma. 29 Andrade. o coração ao Pátio do Colégio. Macunaíma é fruto da mistura de tradições. aparências contando mais que conteúdo moral ou cultural. O burguês é insultado em sua formação cultural. Cauteloso porque mescla várias culturas. escrito pelo mesmo Mário de Andrade. dono das tradições!/(…) Come! Come-te a ti mesmo. o joelho à Universidade. eram destinadas às crianças. o esquerdo aos telégrafos.. Entretanto este poema intitulado ode (teoricamente uma poesia de elogio) demostra o ódio do autor contra o burguês. 48 Cozinha futurista.. tradições 28 Lembremo-nos de que as tripas. provavelmente por sua ingenuidade de herói emprestado de uma mitologia indígena. Não havia modo de o herói ser diferente. Poesias Completas.

31 30 Revista de Antropofagia. a quem Sardinha vinha criticando publicamente. segundo o historiador Douglas Aprato. de sua força. Data da deglutição do Bispo Sardinha. Mário condena. 10 31 Apesar de versões que negam que o bispo Sardinha tenha sido comido pelos índios. 49 Cozinha futurista. portanto. no. como cartas de jesuítas da época. este burguês à autofagia. Passemos à carne do Bispo Sardinha! OswALd cAnibAL de AndrAde Comidas O horizonte reto Metodicamente Jantou O sol (Julio Paternostro)30 16 de junho de 1556. da Universidade Federal de Alagoas. Duarte da Costa. O estrangeiro não era mais ameaça.A cozinha futurista vazias de significado. homens cheios apenas de comida insossa. Sua carne não é boa o bastante para ser comida por outrem. de seu poder. Alguns historiadores levantam a hipótese de que o bispo tenha sido assassinado por homens da guarda do então governador-geral. a tese sobre o “banquete” encontra respaldo em documentos históricos. dom Pedro Fernandes de Sardinha e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região.indd 49 7/4/2009 15:51:18 . havia virado churrasco. Apropriam-se dele. Os índios caetés devoram o primeiro bispo do Brasil.

Absorção do inimigo sacro. dentição. Filosoficamente. uma tragédia De acordo com o historiador Moacir Soares Pereira. Na versão dele. e marca o início de uma escola literária.Fillippo Tommaso Marinetti Oswald de Andrade prega o retorno ao homem natural . Socialmente. o bispo foi alvo de tupinambás em território sergipano. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo durante o ano de 1918. Já Marinetti havia escrito Le Roi Bombance. A terrena finalidade.. “Manifesto antropófago”. portanto precedeu em dois anos o Manifesto da Cozinha Futurista.. (. com alguns amigos.. 32 Andrade. uma curiosidade persistia: haveria a antropofagia oswaldiana nascido num berço futurista? O Manifesto Antropófago foi publicado em 1928. no.. verificamos que ambos tem um livro relacionado de alguma forma à gastronomia anteriormente ao manifesto: Oswald de Andrade escreveu. ainda na linha de “coincidências” entre os dois autores. Para transformá-lo em totem. Lei do homem.do Brasil.. O Manifesto Antropófago surgiu em 1928. a antropofagia parece ter sido a mais radical das tendências da época. Oswald de.) A transformação permanente do Tabu em totem.. mas. mas não os caetés nem em Alagoas. Sardinha foi devorado por índios. Divergindo em sucessivas batalhas intelectuais de escritores – modernistas ou não – e de outras escolas como o VerdeAmarelo e a Escola da Anta. assimilando assim os valores antes temidos. “Só a antropofagia nos une.(. Lei do antropófago. de 1930. publicado no primeiro número da revista de Antropofagia. certamente – que se desvencilha dos inimigos ingerindo-os. ”32 Das sucessivas leituras feitas para melhor compreender a obra de Marinetti. 1a. Economicamente.. A diferença factual de dois anos poderia descartar a hipótese.) Só me interessa o que não é meu..) Antropofagia. 1 50 Cozinha futurista.indd 50 7/4/2009 15:51:18 .(. A humana aventura. in: Revista de Antropofagia.

Ainda que as datas neguem a influência direta em Oswald. Envelheçamos devagar. o título da obra de Oswald compactua com esta. Esta garçonnière servia como ponto de encontro para amigos. 3o. Apesar de não se relacionar com a culinária. à moda dos famosos salões 33 Andrade. nas horas de imbecilidade.15 50.indd 51 7/4/2009 15:51:18 . Oswald de. Já na primeira página. Existe uma apenas de envelhecer contente”.A cozinha futurista gastronômica pantagruélica em 1905.33 Se faltam os ingredientes para aproximá-lo de um livro de cozinha. artistas e intelectuais da época. temos a “1a. com grande encanto e surpresa. temos um texto assinado pelo pseudônimo Dragoras. x ao dia.33 0. Após o texto. O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. a marcha de seus males”. São Paulo: Globo. que ocupa quase toda uma página. as aproximações são pertinentes. João de Barros explicita qual é o objetivo do caderno-livro-diário: fornecer receitas para que as almas matem sua fome de experiência e sua fome de ilusão. 67. não faltam modos de preparo. as almas sãs se farão robustas e as doentes susterão. – Há diversas maneiras de amar. no ano de 1918-19.0005 Em cápsulas. Comendo assim. intitulado “Receitas Sentimentais”. com alguns conselhos para as almas: “amemos sempre. esta mais aproximada a uma receita médica: Recipe – Eu te amei ãã Tu não me amavas Eu já não amo Tu és má 0. O livro é um diário de uma garçonnière que Oswald mantinha na rua Líbero Badaró.00 0. 1992. Criar “o cardápio perfeito para o banquete da vida. 51 Cozinha futurista. À página 104. receita”. andar sala 2.

“Há uma espécie de paixão coletiva por Deisi. lê-se a inscrição: “. Mário da. o amor pelas situações insólitas e imprevistas com tons de sátira e humor.indd 52 7/4/2009 15:51:18 . numa espécie de pastiche. o “príncipe de nossa prosa”. p. embaixo de uma foto que retrata muitas pessoas em volta de uma longa mesa ao ar livre.Lobato. já havia praticado o que só viria a teorizar 10 anos depois. a Antropofagia. foste o cordeirinho pascal dessa farra de quaresma”. p. também pode ser comparada a O Perfeito Cozinheiro na questão estrutural. VIII 35 Ibid. Prefácio a O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Ed Globo. bilhetes 34 Silva Brito. na grafia de Oswald de Andrade) a quem chamam de Miss Cíclone.. Novamente. a visão de crimes e traições. bilhetes. A tradição gastronômica de nosso país apresenta a mesma característica de assimilação das influências diversas para daí resultar em um produto original. Oswald. todos nele escreviam. Como observa Mario da Silva Brito.Fillippo Tommaso Marinetti já citados. que é amante de Oswald”34. apenas uma mulher. À página 194. Dentre eles. produziram o livro-diário. XI-XII 52 Cozinha futurista. os nomes grotescos ou humorísticos. a que se refere um recorte de jornal colado à página 172. de Marinetti e Fillìa. em 1918. de colcha de retalhos. Se O Perfeito Cozinheiro é um pastiche de recortes de jornal. o gosto pelo trocadilho. (Dasy. cartas. figura dominante de O perfeito Cozinheiro: Deisi. charges da imprensa e. recortes de jornais. também todos traziam e colavam cartas. Na realidade. Provável ironia ao almoço que havia sido oferecido a Monteiro Lobato. é possível reconhecer nesta obra um esboço do que seriam as características da obra oswaldiana – “o processo fragmentário. Todos os amigos que freqüentavam o local contribuíam com o diário. Pois foi do mesmo modo formada a cultura brasileira. o amor visita a cozinha.”35 A Cozinha Futurista. ocorre até mesmo um banquete antropofágico na obra.

Valendo-nos de Padre Antonio Vieira. os cardápios apresentados nos vários banquetes futuristas que foram oferecidos por ocasião do manifesto e da inauguração do restaurante futurista de Turim (o Santopaladar). e pouco aproveitada em Marinetti. Marinetti utilizou o mesmo processo – a colagem . o manifesto. mas excetuando a forma. outros cardápios futuristas criados pelos representantes do movimento. mas são apenas fatos corriqueiros sem nenhuma aparente relação com a antropofagia. Diferenças existem. o poético antefato tragicômico –. A Cozinha Futurista não dista deste modelo de criação literária. Memórias Sentimentais de João Miramar. algumas poucas referências à gastronomia. as cartas de pessoas contra ou a favor do movimento.em 1930.. por certo. Esta obra gastronômica de Marinetti é composta por um texto que poderíamos considerar literário – Uma refeição que evitou um suicídio. O livro publicado por Oswald de Andrade em 1924.A cozinha futurista etc. mas faltou-lhe a digestão dos elementos previamente ingeridos. que se limitou a reproduzir o conteúdo dos textos jornalísticos e dos cardápios sem todavia apresentar ao leitor a forma original. os métodos de produção se eqüivalem. 53 Cozinha futurista. A obra provocou polêmica ao mesclar poesia e prosa numa atitude inovadora para com a língua. traz de volta à literatura um dos pseudônimos (Miramar era Oswald) que comparecem com bastante freqüência em O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Oswald fez sua primeira obra “antropofágica” em 1918. muito mais privilegiada na obra de Oswald. Temos. nesta obra.indd 53 7/4/2009 15:51:18 . Marinetti procedeu à ingestão. a polêmica por este suscitada e publicada em diferentes jornais e revistas. receitas futuristas e um pequeno dicionário que auxiliaria um leigo a compreender a obra e a revolução proposta. que manteve a aparência de “álbum de colagem” e a caligrafia manual. já que é composta da recolha de vários documentos relacionados ao Manifesto da Cozinha Futurista. Pastiche também ele.

que foi rejeitado enquanto “marinettismo”. Sem ontologia. Apesar de ser composta por ingredientes simples. folclóricos. humildes. in: Revista de Antropofagia. em 1925 Mário de Andrade diria numa carta a Sérgio Milliet: “Essa invenção Pau brasil do nosso Oswald é uma espécie de futurismo de Marinetti. Em “Poemas da Colonização”. no.indd 54 7/4/2009 15:51:18 . a pepinos romãs e figos. Produtos que serão exportados à Europa. como Pero Vaz de Caminha ou Fernão de Magalhães são sistematicamente recortados.” O livro Poesia Pau-Brasil começa com uma leitura pessoal feita por Oswald sobre a História do Brasil. 1a. No entanto. estabeleceu-se um paralelo entre os dois autores: as discussões para batizar o movimento artístico dos rapazes de São Paulo cogitaram o termo “futurismo”. Nesta obra. o poema “A Roça” nos traz uma descrição da alimentação dos negros que trabalhavam nas fazendas. todos bem assimilados e digeridos. muitas são as referências a iguarias nativas. Excertos de historiadores famosos. lingüísticos ou culinários (A cozinha. em 1925. o Manifesto Pau-Brasil funda a poesia de exportação. adquirindo assim novo sentido ou poder de persuasão ao serem lidos aos pedaços. O vatapá…). “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. Sem pesquisa etimológica. note-se a força de trabalho destes ao final do poema: 36 Andrade. econômicos.”36 Mais uma vez. Oswald lança o Manifesto Pau-Brasil.Fillippo Tommaso Marinetti No mesmo ano. com os ingredientes de que dispomos. a cidras limões e laranjas e à cana-de-açúcar. produzida no Brasil. temos referências ao ananás. frutos tropicais desconhecidos pelos europeus. Em “Gandavo”. “Sem reminiscências livrescas. Buscando a originalidade nativa nos fatos pictóricos. que resultará na publicação de Poesia Pau-Brasil. 01. 54 Cozinha futurista. Oswald de. Poesia de exportação. dentição. Sem comparações de apoio. Toda a gente está lá dentro. étnicos. apenas frases selecionadas engenhosamente.

A cozinha futurista A ROÇA Os cem negros da fazenda Comiam feijão e angu Abóbora chicória e cambuquira Pegavam uma roda de carro Nos braços Em “rp 1”. Entretanto. O estrangeiro sendo misturado ao café e à pinga. 37 Numa tradução tendenciosa: “Sonho de Valsa”. o poema “Walzertraum”37 diz que “aqui dá arroz/ feijão batata/ Leitão e patarata”. uma mistura que revela o caráter do povo brasileiro. em “Postes da Light”. que o assimila as influências para transformá-las em originalidade. preferências nacionais. 38 Os três poemas citados estão em Andrade. nosso chocolate tão nacional. Oswald de. Pau Brasil. São Paulo: Globo.indd 55 7/4/2009 15:51:18 . As referências gastronômicas são sempre feitas a produtos nacionais. 55 Cozinha futurista. nativos. um poema já prenuncia a antropofagia oswaldiana: DIGESTÃO A couve mineira tem gosto de bife inglês Depois do café e da pinga O gozo de acender a palha Enrolando o fumo De Barbacena ou de Goiás Cigaro cavado Conversa sentada38 Ingredientes brasileiros com gosto de comida estrangeira. 2000. e tem o “trem leiteiro/ que leva leite para todos os bebês do Rio de Janeiro”.

. com ingredientes e modo de fazer ou ministrar: Tome-se duas dúzias de beijocas Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia Coloque-se dois ovos Agite-se com o braço da Fatalidade 56 Cozinha futurista. após alguns anos de relacionamento mal explicado à sociedade: Pegue-se 3 litros do visgo da amizade Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo Mexa-se até ficar melado bem pegajento E engula-se tudo de uma vez Como adesão do Mário de Andrade Ao almoço Pra Tarsila E Oswaldo Amém.Fillippo Tommaso Marinetti Numa amigável intriga literária. A resposta de Oswald também vem em forma de poema – paródia publicada em Serafim Ponte Grande. que acabara de anunciar o noivado com Tarsila.indd 56 7/4/2009 15:51:18 . Mário de Andrade divulga em 1925 um poema em homenagem ao amigo Oswald. ambos aludindo a receitas.Poesia Futurista” . sob o título “O Amor.

mascarando o nosso símbolo. O índio comungava a carne viva. a segunda era limitada a uma página do “Diário de São Paulo”. Precisamos rever tudo – o idioma. sob a direção de Antonio Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. Rubens do Amaral. (Só comiam os fortes). Até que virem totens. vários artigos anunciam os jantares nos quais certas figuras da sociedade seriam deglutidas.A cozinha futurista E dê de duas horas em duas horas marcadas No relógio de um ponteiro só! A Revista de Antropofagia. O club de Antropophagia quer agregar todos os elementos sérios. e foram editadas de maio de 1928 a fevereiro de 1929. Às vezes. a carne destes é oferecida no Açougue. de agosto de 1929. todos seriam ingeridos para reforçar o movimento antropofágico. porém acovardou-se. com a verdade de seu povo.Lá vem a nossa comida pulando! E a “comida” dizia: “come essa carne porque vai sentir nela o gosto do sangue dos teus antepassados. publicadas semanalmente.indd 57 7/4/2009 15:51:18 . simbólica em algumas sociedades. com 8 páginas. hoje compilada num único volume. Além da referência gastronômica óbvia no nome da revista. A antropofagia. O catolicismo instituiu a mesma coisa. Ou ainda: É a comunhão adotada por todas as religiões. Tudo no fundo é a mesma coisa”. Poetas sem brilho. teve duas dentições: a primeira teve dez números em formato revista. Veja só que vigor: . real em outras. de 17 de março a 1°. por conseguinte. Hans Staden salvou-se porque chorou. com as raízes. intelectuais que não compreendiam os rumos da literatura modernista. cedida aos antropófagos pelo editor do jornal. com o primitivo e natural. o direito de properiedade. coloca o ser humano em contato com seus antepassados. a famí- 57 Cozinha futurista. Foram 16 páginas. real. Escreveu Oswald de Andrade que devemos “admitir a macumba e a missa do gallo. para que todos os que assim desejam possam participar da comunhão desses tabus.

3 40 Fabris. no cardápio antropofágico. em seu poema intitulado “Bahia”. São Paulo: Perspectiva.indd 58 7/4/2009 15:51:18 . em geral indigesto. sob diversos nomes (ou pseudônimos): “se há uma coisa vinculada à alma brasileira é este pequeno e inocente vício guloso que levava a velha índia convertida a pedir in extremis ao seu confessor um dedinho de curumim a chupar!” (Ubaldino de Senra). acaçá.Fillippo Tommaso Marinetti lia. ou “Os índios não comem a carne de seus inimigos ou chefes com intenção 39 Revista de antropofagia. transformando todos os tabus em totens. 51 e 66 58 Cozinha futurista. p. acarajé. várias vezes volta à discussão a tradição indígena. Benedito. abará. p. num gesto de comunhão e de exorcismo ao mesmo tempo. oxinxin. No decorrer dos números da Revista. Ascenso Ferreira.40 Benedito Nunes afirma que “A antropofagia transportou para o campo das idéias políticas e sociais o espírito de insurreição artística e literária do Modernismo”. caruru. “Há diferenças psicológicas entre a eliminação física do adversário de maneira ‘científica’ (a cadeira elétrica de Lacerba) e sua deglutição.39 Segundo Annateresa Fabris. Annateresa. a necessidade de divórcio -. efó – e pela negação das iguarias estrangeiras: “te dana Petit-pois/ te dana Macarrão/ te dana paté-de-fois-gras!/ Viva o caruru”. define a tradição de sua terra através dos pratos típicos – vatapá. talvez com um paladar um pouco mais “modernizado” que o defendido por Oswald. O Futurismo Paulista. sinceridade máxima. 1994 P. mas a ser consumido necessariamente para criar uma nova ordem de coisas no Brasil”. escrever como se fala. São Paulo. ou ainda: “A arte é um meio de ‘devorar’ o conteúdo trágico da vida. isto é. 1979. Oswald Canibal. 05. no. Perspectiva/ EDUSP. 277 41 Nunes. em valores humanos e em obras de arte”41 Outros colaboradores da revista também tinham suas preocupações gastronômicas.

(…) Contra as sublimações antagônicas. Entretanto. Na verdade. As idéias tomam conta. propondo um novo meio de expressão.A cozinha futurista gastronômica. Ambos os autores querem modificar a mediocridade atual. Contra a verdade dos povos missionários (…) – É mentira muitas vezes repetida”. também este anterior ao Manifesto da Cozinha Futurista. mas também no estilo telegráfico. (…) Seu ‘primitivismo’ era. exige-se “a abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato” ou a afirma-se que “Os defensores do macarrão carregam a bola ou a ruína no estômago.” Ou “Contra todos os importadores de consciência enlatada. a comparação faz-se inevitável. Comem porque pensam mastigar também o valor do comido – comidos voluntários. inspiraram-se preponderantemente nelas nesse período. e para alcançar tal objetivo. queimam gente nas praças públicas. como prisioneiros ou arqueólogos”. portanto. além da negação do cotidiano. “especialmente das artes visuais. Trazidas nas caravelas. reagem. das idéias e da língua. das idéias pré-concebidas. Eric Hobsbawn diz que no campo da arte. fazendo-o acreditar que faz parte também do movimento. na supressão da pontução e no tom provocatório: No Manifesto de Marinetti. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. entendida por ele como culinária. de Oswald: “Somos concretistas. do status quo. sua prin- 59 Cozinha futurista. não apenas no conteúdo transformador. Talvez Marinetti tenha sabido da existência da Antropofagia e tenha resolvido imbricar-se nesta área. Comparemos com o Manifesto Antropófago.indd 59 7/4/2009 15:51:18 . procedem à desestruturação da sociedade. quasi todos. as vanguardas ocidentais trataram as culturas não ocidentais em total pé de igualdade.” (China) O Manifesto Antropófago é de 1928 e. afirma-se que os futuristas “Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega”. Temos aqui o uso da primeira pessoa do plural – nós – que engloba o leitor. Talvez nunca tenham sabido da existência desses Manifestos quase “afins”. sem dúvida.

.”43 De tudo isso se conclui que a antropofagia é a revolta da sinceridade recalcada durante quatrocentos anos.p. Do ingênuo contra o artificioso. num artigo intitulado “O país da sobremesa”. contra o estranja (de outros) ou o infinito (sem dono). (…) Os brasileiros estavam começando a descobrir um certo passado. O Futurismo Paulista. cacau. Da claridade natural contra a sombra da filosofia. enfocam a questão pelo prisma da exaltação de um lugar geográfico emblemático.. O açúcar substitui o pão das populações. 1998. País laranja! Temos Coelho Netto. tinha muito de primitivo por suas raízes indígenas e africanas. Do nativo contra o importado. a disciplina. Mário de Andrade escreveu um livro que se chama Dar. no. A Era dos Impérios. 43 Fabris. verbo intransitivo. 4 (editorial) 60 Cozinha futurista. apesar de haver herdado a cultura européia. Da terra (que é nossa). p. Os espíritos também. Annateresa Fabris diz: “É diferente a atitude de modernistas e futuristas perante a consciência do atraso: os italianos adotam como estratégia fundamental a negação do passado. Exportamos bananas. o escritor questionava a estrutura econômica e cultural do Brasil: País de sobremesa. café. o sistema.indd 60 7/4/2009 15:51:18 . castanhas do Pará. 265 44 Revista de Antropofagia. Martins Fontes.120-1. Da inferioridade do mestiço que trabalha. Os olhos da nossa gente melam.Fillippo Tommaso Marinetti cipal atração. Annateresa.”42 O Brasil. Eric. Guilherme de Almeida. os brasileiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra. coco e fumo. 42 Hobsbawn. 2a dentição.”44 A preocupação com a metáfora gastronômica não cessaria em Oswald. Ao comparar os dois movimentos literários. O sr. ao contrário. contra a superioridade do ariano corroído pelo vício e pela moleza das decadências. “A reação da paisagem contra o tempo. Tudo resultado da gula. Em 1937. no qual se enraizará sua consciência nacional. Da sensação espontânea contra a moral.

reproduzimos o cardápio do almoço em comemoração aos 60 anos do escritor. Giulio Onesti estava deprimido e com instintos suicidas após saber da morte de sua ex-amante. No verso. cuja capa reproduzia cenas antropofágicas do livro de Jean de Léry – Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil45.A cozinha futurista Encerrando grandiosamente as relações canibais em Oswald de Andrade. Proceder-se-ia finalmente à manducação do criador do Manifesto Antropófago. 61 Cozinha futurista. além de um lugar reservado aos autógrafos. para que fosse salva a vida de seu amigo Giulio Onesti. Jean de. Marinetti corre ao socorro do amigo. lombinho parnasiano e virado. coração de abacate com crustáceos incrustados. Neste texto. no ano 396 da deglutição do Bispo Sardinha. que se suicidara em Nova Iorque. uma que se parece muito com a morta. Para aumentar a tensão. em 25 de março de 1950. juntamente com os futuristas Prampolini e Fillìa. Ano também do jubileu do “Pau Brasil”. a lista dos pratos: folhadinhos marcianos e canapés voadores. Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil. para inventar 45 Léry. o suicídio parecia ser a melhor alternativa.indd 61 7/4/2009 15:51:19 . Para não trair a morta. convida todos os futuristas à cozinha. por diferentes ingredientes. tem como ingrediente literário apenas o primeiro texto: “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”. composto. deu ensejo a um cardápio de criativo projeto gráfico. transformada em “fantásticos laboratórios”. além de uma taça antropofágica cujo conteúdo desconhecemos e cauim “selo vermelho”. e como solução. como já vimos. batida pau brasil. mArinetti AntrOpOFáGO O livro A Cozinha Futurista. o mesmo Giulio recebera um telegrama de outra mulher. Marinetti conta como surgiu a idéia de se instaurar uma revolução na cozinha. “mas não o suficiente”.

chocolate em pó. mel e leite. farinha de amêndoas. leite e mel. Dentre os versos do Cântico. Marinetti aproxima os prazeres derivados pela comida ao proporcionado pelas mulheres./ O vinho eu já bebi. com bolos de mel me recupera”. Dez jarras de óleo./ E sob a língua. “indispensáveis”: farinha de castanhas. Talvez Marinetti esteja aludindo à Semana de Arte Moderna. pp. por certo. ninfa. 37 e 39 47 Caberia aqui ressaltar a coincidência (ou não) de haver uma mostra. Os ingredientes.indd 62 7/4/2009 15:51:19 . Bastaria observar os pratos executados por Marinetti e seus companheiros para a “Mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis”47: 46 Cântico dos cânticos. Ainda no âmbito bíblico. farinha de centeio. Os primeiros homens foram expulsos do paraíso porque não conseguiram refrear o impulso de comer um fruto proibido. açúcar e ovos. encontramos : “do banquete me aproxima. metafórica. diálogo romântico atribuído a Salomão. 62 Cozinha futurista. tradução de Antonio Medina Rodrigues. 25. Antropofagia indireta. em São Paulo ano de 1922. e vem sendo repetido nos últimos dois mil anos./ Provei meu mel. mas ingerimos o corpo de Cristo em forma de hóstia. lembremos que o primeiro ritual antropofágico cristão aconteceu durante a última ceia. e bebemos seu sangue em forma de vinho. farinha de trigo. ou “raios de mel. basta lembrar de Adão. na Eucaristia. farinha de milho. Daí advém o fato da descrição dos pratos futuristas muitas vezes ser entremeada de adjetivos atribuíveis a mulheres. com 22 esculturas. Eva e o Pecado Original. podem talvez ser um prenúncio de uma relação amorosa a ser apresentada posteriormente ao leitor.”46 A estreita ligação que existe entre amor e comida remonta à origem do mundo. pimenta vermelha. ou a forma dos pratos assemelhar-se a elas. do leite já provei. Cem quilos de tâmaras e de bananas. Estes ingredientes ao aludirem ao Cântico dos Cânticos. destilam teus lábios./ E como aroma libanês recendem teus velamens” ou ainda “Depois de haver provado o trigo meu.Fillippo Tommaso Marinetti esculturas comestíveis.

fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. Às três daquela noite. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Paixão das Loiras . Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. Todas as Curvas do Mundo e seus Segredos . mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis. sem fazer barulho. Enquanto os complexos plásticos comestíveis têm as curvas de uma mulher. Ajoelhandose em frente.é de tal modo bela. com as costas suspeitosas de um ladrão. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as 63 Cozinha futurista.A cozinha futurista Complexo plástico d’Ela .suave magnetismo das mulheres mais belas. um sorriso seu de lábios. Levantou-se agilmente. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. e esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. a língua e os dentes. Escultores e escultoras dormiam. Acima.indd 63 7/4/2009 15:51:19 . com um tremendo torcer de rins. um seu modo de flutuar sensualíssimo. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado.massa folhada com uma leve curva especial de boca ou ventre ou quadris. e das mais belas Áfricas sonhadas. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. como uma tigresa alongada. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. parece oportuno ressaltar o fato de que a ingestão de um prato assemelha-se intensamente a uma relação sexual: De improviso. começou a amorosa adoração com os lábios.

Giulio saiu então no parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. O “Cardápio de Núpcias” promete aquecer os estômagos de todos os comensais com risoto à milanesa. berinjelas fritas. morenas ou uma bela desnuda: “duas coxas de frango cozidas numa bacia de cristal. vazio e transbordante. Possessor e possuído. Este cardápio. com a cabeça descoberta. espinafre com creme. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. tudo coberto por pétalas de violeta. 64 Cozinha futurista. Estava ao mesmo tempo desobstruído.indd 64 7/4/2009 15:51:19 .Fillippo Tommaso Marinetti grandes jóias do olhar. Marinetti confunde o leitor. Sem fim. não oferece nada para comer. risoto. chocolate. cogumelos trufados. apenas para cheirar. frutas e peixes. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. com leite apenas ordenhado. Talvez para se refrescar. O capítulo “Os Cardápios Futuristas – sugestivos e determinantes” também evoca a sensualidade que se pode obter através da alimentação. verdadeira tortura psicológica e estomacal. No “Cardápio Noturno de Amor”. liberado. Único e total. presunto infuso em leite e ostras com vinho Moscato devolvem os amantes às fadigas da cama. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. se Giulio apenas se delicia com uma iguaria que enche os olhos e o estômago ou se imagina haver ali uma mulher submissa às suas glutonarias.” Mas é no “Cardápio Extremista” que podemos mais uma vez observar a índole canibal latente no futurismo. lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. Perfumes diversos são vaporizados nos comensais. que já não tem certeza de se tratar de um prato comestível real ou se este prato se transubstanciou em fêmea. ervas. Aproveitador e aproveitado. O “Cardápio de Solteiro” tenta amenizar a solidão do rapaz com pratos que evocam louras.

F. e as cozinhas (o poder. já que “la ripugnante sobrietà delle donne e la loro abituale lussuria scombussolavano già da troppo tempo le nostre idee digestive. Entretanto. não é apenas em A Cozinha futurista que podemos observar esta abordagem antropofágica.escrito em francês por Marinetti em 1905 e depois traduzida pelo próprio Marinetti para o italiano com o título Re Baldoria. e foi bem recebida por Alfred Jarry.” Os paladares famintos são então aplacados com dois perfumes de “vida carne luxúria morte”. em prosa . havia uma atenção especial a este tema. 09 65 Cozinha futurista. o que proporciona uma felicidade estomacal nos homens. em um castelo onde tudo alude a comida. autor de Ubu Rei. 1920. Panciarguta. Milão: Fratelli Treves. desde o início da carreira de Marinetti. imploram por qualquer coisa para mastigar. le loro poppe proeminenti ci nascondevano la magnificenza delle portate”48. p.indd 65 7/4/2009 15:51:19 . o futuro histórico-social do mundo é reduzido a uma questão meramente gastronômica: os homens lutariam e se ocupariam incessantemente apenas para garantir sua felicidade gastro-intestinal. no reino dos Citrulli. como podemos observar no romance Le Roi Bombance – tragédia satírica em quatro atos. lamentando o fato de não poderem devorá-las: 48 Marinetti. – A tavola. morre. seu inspirador. A obra é uma metáfora gastronômica rabelaisiana.T. Na realidade. desde o nome dos personagens até o nome da espada do rei – La Succulenta. As mulheres todas fogem. simbolicamente) são então passadas a três aproveitadores. primeiro cozinheiro. e um deles observa que se não lhes for oferecido nada. A história se desenvolve numa era medieval fictícia. criada durante a greve geral de 1904 em Milão. No romance. “veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas. ainda na França. Alguns homens sentem falta das mulheres.A cozinha futurista Os convidados choramingam. Re Baldoria. que prometem um banquete a todo o reino.

ma non si lasciano mangiare! E ci si annoia. F. os homens devoram uns aos outros. aplacar a fome dos comensais com palavras. l’impermeabile pelle!49 O rei sente falta da sua rainha. De fato. a ingestão do rei é considerada uma honra para o ingerido. de Mário de Andrade.indd 66 7/4/2009 15:51:19 . Já vimos o que simboliza o vômito em Macunaíma. sanguinacci saporitissimi. perdio. 50 Os habitantes começam a se revoltar. A carne de todos os que morreram. bobo da corte. os secretários e os companheiros que por um ou outro motivo desafiavam-se na sala do banquete e perdiam a vida. vieni presto. mas Marinetti nos dá outra informação. nesta carta. a leccarne senza fine. O Idiota. p. 105 66 Cozinha futurista. pois “poderia haver um túmulo mais digno?”51. Podemos.. sempre relacionada à ingestão de carne humana: 49 MARINETTI.. così. Quem assina é “La tua Salsetta”. tenta em vão. Numa orgia antropofágica. Re Baldoria. mais uma vez verificar a aproximação dos prazeres gastronômicos e sexuais: “Ah! Vieni. Este já havia nomeado outros cozinheiros. lendo uma carta por ela enviada.Fillippo Tommaso Marinetti Le donne? …Sono vesciche. A fome extrapola os limites. Ibid. como nas tribos indígenas. exigindo que o rei os alimente.12 50 Id. p. vieni a baciarmi con le tue belle labbra sugose di prelibati salmi! (…) Vieni. che noi empiamo del nostro sangue di porco! Diventano. sem mastigar bem. através do vômito. que se fartam nas cozinhas enquanto dizem preparar o alimento para todos. vieni ad amarmi a tavola. 33 51 Id. Ibid. fato que ocasiona a ressureição do rei e seus seguidores. p. foi salgada e ingerida. e os convivas resolvem comer o rei. ad amarmi a tavola e a mangiarmi a letto!”. apassionatamente. mulher de estômago forte. mia grossa polpetta dorata.T.

o Santo Sepulcro devolveu Jesus Cristo. assim como a baleia devolveu Jonas. um dos personagens alude ao sacramento católico. 267 67 Cozinha futurista. Marinetti satiriza nesta obra a ideologia e a práxis socialista: “La sociologia si tramuta in sauçologie. ao final. F. os homens ressuscitados (vomitados. ed uno dei cardini del socialismo. e diz: Comam. e recomeçam a lançar olhares de desejo uns aos outros. Quel che si vomita è più forte e più vivo di ciò che si è inghiottito!…52 Em uma passagem do livro. e que fediam muito) sentem fome novamente. representante eclesiástico da história. rinsaldandosi l’uno all’altro rivivano in voi per dichiararvi guerra!… 2°. p. Entretanto. Um dos personagens.. indicando que a história poderá se repetir infinitas vezes. salsologia.indd 67 7/4/2009 15:51:19 .T. p. Ibid. o mar devolve o cadáver dos náufragos… assim também o estômago dos Citrulli os havia restituído à vida. Um vampiro filósofo que aparece ao final da história resume o problema: “Di età in età.”53 Segundo Luciano De Maria. i Citrulli vanno perfezionando le loro mascelle nell’arte di divirarsi l’un l’altro con crescente agilità… Ecco il solo progresso possibile. se non volete che il corpo mangiato. este é meu corpo! (e oferece realmente uma parte de seu corpo mutilado). defende que sua ingestão e ressuscitamento através do vômito seria simbólico. 227 53 MARINETTI.. Perché si vomita sempre molto più di quanto si è mangiato!…Talvolta. A antropofagia era real e metafórica ao mesmo tempo. Re Baldoria. la proprietà comune dei 52 Id. Fra Trippa. Bebam.A cozinha futurista Inoltre bisogna guardare bene dal recere le conquiste del nostro stomaco… 1°. este é o meu sangue (e oferece o sangue que recolhera em uma taça). si vomitano persino le budella… talvolta lo stomaco intero!… Masticate con cura gli alimenti! Dividete la carne in tanti piccoli pezzi.

Louco de dor..o rei de Tell-el-Kibir. Mafarka. Este romance africano traz a história de Mafarka-el-Bar . ridendo come un pazzo. um filho imortal porque nasceu sem a participação da vulva maléfica que predispõe à decrepitude e à morte. Mais uma vez. “La chiave dei simboli in ‘Re Baldoria’” in: La nascita dell’avanguardia. Poi. pensndo fosse un pesce.. empreende uma viagem mítica ao reino dos mortos. do qual o autor foi absolvido. levou Marinetti a um processo por atentado ao pudor. em 1910. p. sui cuscini. tirano e usurpador.55 54 DE MARIA. para trazer à vida seu irmão mais novo. bárbaro e sádico.guerreiro feroz e implacável. cruel e impetuoso. que renuncia ao seu trono e ao seu povo após vencer todos os inimigos. le servette. confunde-se o vocabulário referente aos prazeres carnais e estomacais: I cuochi infarcirono lo Zeb con del latte cagliato.203 55 MARINETTI. il futurista. emanação pura do discurso futurista. una dopo l’altra. Pouco tempo depois. che un odore caldo e squisito inebbriò voluttuosamente tutta la casa. Pp.T. A obra. (…) Mafarka lo mangiò. no decorrer da obra. stuzzicante da quell’odore. diviene la socializzazione dei mezzi di produzione culinaria”54.76-77 68 Cozinha futurista. Luciano. F. origliavano alle porte della casa sala del convito. e lo condirono sì bene con viole e cannella. em sua tradução italiana. E. Magamal. Mafarka si gettò sulle serve che stavano sparecchiando e le possedette. fosse no amor ou no modo de governar .Fillippo Tommaso Marinetti mezzi di produzione. e não biológico. la sera.indd 68 7/4/2009 15:51:19 . atravessa os oceanos e concebe finalmente a idéia de um filho que resultasse de um nascimento apenas cerebral. Assim nasce Gazoumah. Marinetti publicou Mafarka. facendo schioccare la lingua e stroppicciandosi le mammelle per vincerne il troppo dolce prurito. il Futurista quase simultaneamente em francês e em italiano.

Num clima de insanidade. bem como resenhas ou comentários sobre seu conteúdo. a voracidade com que os personagem avançam sobre o alimento remete aos antigos antropófagos. não quer dividir com ninguém. Em 1922. algumas informações puderam ser obtidas no site L’Arengario56. cujo título remete à antropofagia. que se pode mesclar com a antropofagia. Publicado pela Edizioni d’Arte Fauno. traz sete novelas eróticas: 1) Autoritratto. das pernas e dos braços. de Cremona. carrega numa mochila um pedaço de carne salgada. a surpresa: ele carrega consigo o corpo mutilado da amante. Em 1918 foi publicado o livro Come si seducono le donne. Guzzo o personagem Corajoso a que se refere o título. agile e interessante autobiografia. um “studio biliografico”. pela editora Excelsior de Milão. Atenção à sexta novela.arengario. Em 1927. declara. entre disparos de metralhadora do campo inimigo. um livro sobre amor foi lançado por Marinetti: são alguns contos eróticos publicados sob o título Gli Amori Futuristi. pela Casa Editrice Ghelfa. que ele havia amorosamente comido. o qual. Selecionamos alguns títulos aparentemente relevantes a este estudo. por tratarem do amor. 5) Matrimonio ad aria compressa. 3) Cuori complicati. 7) Grande albergo del pericolo. já destituída da cabeça. uma vez que uma grande indigestão num livro de contos eróticos pode referir-se ao abuso das “fadigas da cama”. 4) Cacce arabe. de 1930. 6) Una favolosa indigestione. 2) Consigli ad una signora scettica. Algumas obras de Marinetti não são facilmente encontradas. Ao abrir a mochila. de Roma.A cozinha futurista Muitos banquetes (ou orgias) acontecem no decorrer da obra e. que devoravam os inimigos para saciar seu apetite animal. outro livro traz o amor no título: Scatole d’Amore in Conserva. encontramos um conto intitulado “Come si nutriva l’Ardito”. No livro de contos Novelle colle labbra tinte. neles.it/futurismo 69 Cozinha futurista. que reproduz a capa de inúmeras obras raras ou de difícil localização. durante a travessia de um rio em meio 56 www. entretanto.indd 69 7/4/2009 15:51:19 .

Cosi pure il collo. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. Além disso. timido. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra”. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”.Fillippo Tommaso Marinetti à batalha. mas com olhos dulcíssimos.402-3 58 Id. o rosto embrutecido. Guzzo conversa com o cadáver.57 Guzzo morre. temos a descrição de Guzzo: “un certo Guzzo di Trapani tutto nero. 1930. que havia assistido a toda a cena canibalesca. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non parla più! Il ventre umile. ingenuo. grandi occhi neri dolcissimi. pedindo que seja ingerida. tem uma grande cicatriz. Entretanto. deformado. Imagina-se que ele comerá o resto do cadáver. Novelle colle labbra tinta: simultaneità e programmi di vita con varianti a scelta. fazendo crer o leitor na doçura deste monstro 57 MARINETTI. Marinetti pode talvez querer assim atenuar a gravidade do ato canibal. tremano. dois detalhes invocam o passado ritual antropofágico.58 Guzzo é muçulmano. F. Ibid pp 399 e 405 70 Cozinha futurista. Num primeiro momento. Plasticamente falando. Mais tarde: “nelle mie vene il mio sangue ti culla.T. que responde.indd 70 7/4/2009 15:51:19 . I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. vero Saraceno magro agile scattante. pp. algumas imagens acabam por tornarem-se recorrentes nesta “fase antropofágica” de Marinetti. de outra cor. assimilando o resto do amor que ele traz. assim. Le mammelline tonde soavi vive. e a mochila com os restos da mulher é então carregada pelo tenente. assim eles se tornariam apenas um. piccola. Observemos como a descrição da jovem morta devorada por Guzzo assemelha-se bastante à descrição dos complexos plásticos comestíveis já citados: Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce. Milano: Mondadori. de outra cultura.

a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices. acabam por revelar sua opinião sobre as mulheres. O seu coração. a ingenuidade. a alvorada. a língua. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. não só o tato e relativas carícias. O fascínio. Eis o que dizem: . o pudor. outros detalhes sobre o sexo feminino: 71 Cozinha futurista. mas os dentes. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas obras de gênio e de língua insaciável.indd 71 7/4/2009 15:51:19 .Amamos as mulheres. o estômago. o furioso turbilhão do sexo. O outro excerto alude ao fato comum entre os indígenas americanos (a América era o paraíso na visão de muitos europeus) de ingerir o corpo dos ancestrais mortos. a única e todas encontravam-se aqui. para que assimilassem com este as qualidades atribuídas à pessoa em vida. através de Guzzo e seu tenente.A cozinha futurista de cultura desconhecida. os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. Em um diálogo que praticamente encerra o conto. os futuristas. o intestino igualmente enamorados. se apertado pelo supremo prazer do amor. Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas. Marinetti nos revela. São os nossos estados de ânimo realizados. respondendo a uma pergunta feita por “aquela que se parece bastante mas não o suficiente”. a graça infantil. diante de nossas mãos. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. especialmente as mães. Em “Uma refeição que evitou um suicídio – O poético antefato tragicômico”.

visto que será assimilada pelo outro. auxiliar a catalisar suas forças. cuja força aumenta com a carne ingerida. Ti ho visto. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. ti approvo. A mulher deixa de existir. Na Revista de Antropofagia. proporcionar-lhes prazer. p. não pode mais escapar. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. nós 59 Id. sem no entanto atrapalhar seu desenvolvimento ou sua vida. o ato antropófago. Ao chegarmos aí. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!…59 Não seria absurdo pensar que para o futurista. (Ou ainda: a mulher é comida). che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. Um texto sob o pseudônimo Darwin afirmava que era necessário: Voltar ao estado natural. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. le sue braccia. Deglutir até que chegue a hora de um prato melhor. Non amo la testa della donna. e no final. ajuda o homem. le sue gambe. Devem satisfazer o homem. as mulheres têm tanta importância quanto a comida. cheirada. Ora porti il resto sulle spalle. A mulher é adorada. ma non le donne vive. Lo so. Nada mais oportuno que uma relação canibal: após o ato amoroso. Vedi. né i suoi piedi. Ibid. Deglutir tudo. Lo so. comida.406 72 Cozinha futurista. vemos a conformidade deste pensamento de Marinetti com o movimento brasileiro. Construir de novo.indd 72 7/4/2009 15:51:19 . deixa de pensar.Fillippo Tommaso Marinetti Ti piaciono le donne. degustada. Guzzo? Sì.

até com os dentes. O primeiro cirurgião é apelidado pela senhora Robert de “Jack. Enif. logo. o objeto amado. internada num hospital após uma cirurgia sem muito sucesso para a retirada dos órgãos reprodutores inflamados. a senhora tem uma crise de nervos. p. A cirurgia é feita. numa trincheira. Boa parte da obra é escrita de maneira epistolar. não! A minha carne é minha!… Comando eu!… Tenho direito…”61 Neste livro. a carne humana 60 Revista de Antropofagia. no. a ciência se iguala à inspiração e o pensamento circula livremente pelo organismo Nos transportes do amor humano. quem não sabe que os amantes se comem. 1a. os médicos são equiparados a açougueiros. Marinetti. Futurismo como cura. quiseram-se incorporar-se de todos os modos. nova crise nervosa. para alimentar-se. e ROBERT. Un ventre di donna: romanzo chirurgico. dentição. para unir-se a ele. para viver dele? 60 Outra obra do futurismo que tem um leve apelo antropofágico é Un Ventre di Donna. para possuí-lo. quer fugir do hospital.A cozinha futurista teremos atingido o momento supremo em que a idéia se une à força. exaustivamente lenta. apesar de não haver menção à ingestão da carne humana. em meio à guerra.indd 73 7/4/2009 15:51:19 .T. 73 Cozinha futurista. com uma doença nervosa. lo sventratore”. 7 61 MARINETTI. havendo uma troca de correspondências entre o futurista F. Os pontos não cicatrizam. a no momento de tirar o curativo e enfrentar a cicatriz. ocorre uma segunda cirurgia e a recuperação. dizia o poeta. não! Cortar. T. 1919. F. “romance cirúrgico”. e quando se deve proceder à cirurgia. tirar. somente começa a se acelerar após a leitura do “manual terapêutico do desejo-imaginação” desenvolvido por Marinetti. se devoram. e a senhora Enif Robert. e em meio a contorsões grita: “Não! Assassinos! Açougueiros! Acorde. Milano: Falcchi Editore. 59 e 81. para que o médico não tivesse “naquele dia a sua porção de carne a cortar com método”.

Podemos assim estabelecer um vínculo sangüíneo entre os três autores. e somente ingerindo. Todos preocuparam-se com a culinária. os autores renegam o passado literário. moral. julgando que estão livres daquelas amarras intelectuais. seja através dos alimentos oferecidos ao corpo e à alma. A Cozinha Futurista. Foi necessário devorar nossos antepassados e nos imbuir de toda a coragem que eles um dia tiveram para que não caíssemos na mesmice literária. comendo as idéias e assimilando tudo numa digestão bem feita. os secretários eram “açougueiros” e a carne dos “inimigos intelectuais” era sempre oferecida num açougue imaginário. física. outras foram simplesmente descartadas.Fillippo Tommaso Marinetti com a carne animal que se oferece nos açougues. A digestão seria difícil.85 74 Cozinha futurista. em prol de uma modernidade almejada. As pessoas e as influências importantes foram assimiladas. é que se pode inovar. uma receita marinettiana: “O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. Na Revista de Antropofagia. Tradução em português p. intelectual ou financeiramente. A nacionalidade foi enfocada por cada um deles.” 62 62 MARINETTI. Para evitar a indigestão. bebendo dessas fontes.indd 74 7/4/2009 15:51:19 . novamente. A renovação de nossa literatura deve muito aos caraíbas e aos tupinambás. A antropofagia. seja através da ingestão e a assimilação dos ingredientes formadores da cultura. foi praticada por estes três autores e muitos outros em diversas culturas. teorizada por Oswald. F.T. O repertório intelectual de uma cultura é intocável. Muitas vezes. preocupados em fortalecer os cidadãos e a pátria.

CApítulo 2 A Cozinha Futurista e a linguagem W Cozinha futurista.indd 75 7/4/2009 15:51:19 .

indd 76 7/4/2009 15:51:19 .Cozinha futurista.

Por meio da leitura de excertos destes dois manifestos.O FuturismO: prOpOstA de revOLuçãO LinGüísticA Para melhor compreender as dificuldades apresentadas ao tradutor por um texto futurista. conseguiu realizar. passando depois para 1912. com o Manifesto do Futurismo. tentaremos verificar quais experimentos Marinetti tentaria concretizar em suas obras e o que. na prática. devemos começar em 1909. 77 Cozinha futurista.indd 77 7/4/2009 15:51:19 . ano do Manifesto Técnico da Literatura Futurista. documentos que já apresentavam as primeiras modificações lingüísticas sugeridas pela vanguarda artística.

La poesia deve essere concepita come un violento assalto contro le forze ignote. che sembra correre sulla mitraglia. Nessuna opera che non abbia un carattere aggressivo può essere un capolavoro.. No v’è più bellezza. Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità. Noi vogliamo esaltare il movimento agressivo..indd 78 7/4/2009 15:51:19 . il passo di corsa. l’estasi e il sonno. il salto mortale. lanciata a corsa. l’insonnia febbrile. se non nella lotta. Noi vogliamo inneggiare all’uomo che tiene il volante. se vogliamo sfondare le misterioseporte dell’Impossibile? Il Tempo e lo Spazio morirono ieri. la cui asta ideale attraversa la Terra. lo schiaffo ed il pugno. Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo – il militarismo. Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!. poiché abbiamo già creata l’eterna velocità omnipresente. Perché dovremmo guardarci alle spalle. l’audacia. 78 Cozinha futurista. con ardore. è più bello della Vittoria di Samotracia.. il gesto distruttore dei libertari.. per ridurle a prostrarsi davanti all’uomo. le belle idee per cui si muore e il disprezzo della donna. un automobile ruggente. sfarzo e munificenza. l’abitudine all’energia e alla temerità. Bisogna che il poeta si prodighi. saranno elementi essenziali della nostra poesia. per aumentare l’entusiastico fervore degli elementi primordiali. la ribellione. La letteratura esaltò fino ad oggi l’immobilità pensosa. sul circuito della sua orbita. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall’alito esplosivo.Fillippo Tommaso Marinetti Manifesto del Futurismo il 20 febbraio 1909 Noi vogliamo cantare l’amor del pericolo. Il coraggio. essa pure. il patriottismo. Noi viviamo già nell’assoluto.

mentre filavo a duecento metri sopra i possedenti fumaiuoli di Milano.A cozinha futurista Noi vogliamo distruggere i musei. Appena il necessario per camminare. come enormi cavalli d’acciaio imbrigliati di tubi. E l’elica soggiunse: 79 Cozinha futurista.. scaldato il ventre dalla testa dell’aviatore. due gambe e due piedi piatti. il femminismo e contro ogni viltà opportunistica o utilitaria. Noi canteremo le grandi folle agitate dal lavoro. i piroscafi avventurosi che fiutano l’orizzonte. traendole fuori dalla prigione del periodo latino! Questo ha naturalmente. le accademie d’ogni specie. e il volo scivolante degli aeroplani. dal piacere o dalla sommossa: canteremo le maree multicolori e polifoniche delle rivoluzioni nelle capitali moderne. e combattere contro il moralismo. per correre un momento e fermarsi quasi subito sbuffando! Ecco che cosa mi disse l’elica turbinante. le stazioni ingorde. ma non avrà mai due ali. la cui elica garrisce al vento come una bandiera e sembra applaudire come una folla entusiasta.) Manifesto tecnico della letteratura futurista 11 maggio 1912 In aeroplano.indd 79 7/4/2009 15:51:19 . come ogni imbecile. (. una testa previdente. balenanti al sole con um luccichio di coltelli. i ponti simili a ginnasi giganti che scavalcano i fiumi. io sentii l’inanità ridicola della vecchia sintassi ereditata da Omero. canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei cantieri incendiati da violente lune elettriche. le officine appese alle nuvole pei contorti fili dei loro fumi. seduto sul cilindro della benzina.. che scalpitano sulle rotaie. le locomotive dall’ampio petto. un ventre. le biblioteche. Bisogno furioso di liberare le parole. divoratrici di serpi che fumano.

perché il sostantivo nudo conservi il suo colore essenziale. piazza-imbuto. Abolire anche la punteggiatura. una meditazione. Si deve abolire l’avverbio.indd 80 7/4/2009 15:51:19 . Si deve usare il verbo all’infinito. nella continuità varia di uno stile vivo che si crea da sé.x : = > <. Bisogna dunque sopprimere il come. come nascono. dando l’immagine in iscorcio mediante una sola parola essenziale.Fillippo Tommaso Marinetti Bisogna distruggere la sintassi disponendo i sostantivi a caso. L’aggettivo avendo in sé un carattere di sfumatura. donna-golfo. L’avverbio conserva alla frase una fastidiosa unità di tono. vecchia fibbia che tiene unite l’una all’altra le parole. porta-rubinetto. e i segni musicali. Per accentuare certi movimenti e indicare le loro direzioni. 80 Cozinha futurista. bisogna fondere direttamente l’oggetto coll’immagine che esso evoca. dal sostantivo a cui è legato per analogia. il quale. è inconcepibile con la nostra visione dinamica. Meglio ancora. Ogni sostantivo deve avere il suo doppio. la punteggiatura è naturalmente annullata. cioè il sostantivo deve essere seguito. dare il senso della continuità della vita e l’elasticità dell’intuizione che la percepisce. gli avverbi e le congiunzioni. Il verbo all’infinito può. solo. poiché suppone una sosta. folla-risacca. Essendo soppressi gli aggettivi. senza congiunzione. senza le soste assurde delle virgole e dei punti. Siccome la velocità aerea ha molteplicato la nostra conoscenza del mondo. s’impiegheranno segni della matematica: + . il simile a. Si deve abolire l’aggettivo. perché si adatti elasticamente al sostantivo e non lo sottoponga all’io dello scrittore che osserva o immagina. la percezione per analogia diventa sempre più naturale per l’uomo. Esempio: uomo-torpediniera. il così.

) Bisogna dunque abolire nella lingua tutto ciò che essa contiene in fatto d’immagini stereotipate. a una piccola macchina Morse.indd 81 7/4/2009 15:51:20 . L’uomo completamente avariato dalla biblioteca e dal museo. Per dare i movimenti sucessivi d’un oggetto bisogna dare la catena delle analogie che esso evoca. Hanno paragonato per esempio l’animale all’uomo o ad un altro animale. Non vi sono categorie d’immagini. eccentriche o naturali. sottoposto a una logica e ad una saggezza spaventose.) (. a una specie di fotografia. quantunque lontanissimi. raccolta in una parola essenziale. Siccome ogni specie di ordine è fatalmente un prodotto dell’inteligenza cauta e guardinga bisogna orchestrare le immagini disponendole secondo un maximum di disordine.. L’intuizione che le percepisce non ha né preferenze né partiti-presi. press’a poco.. (. non offre assolutamente più interesse alcuno. vi sono dei rapporti sempre più profondi e solidi.) Per avviluppare e cogliere tutto ciò che vi è di più fuggevole e di più inafferrabile nella materia. potrebbero paragonare quello stesso fox-terrier trepidante. il che equivale ancora. e 81 Cozinha futurista. Dunque dobbiamo abolirlo nella letteratura. di metafore scolorite. più avanzati. (Hanno paragonato per esempio un fox terrier a un piccolissimo puro-sangue. Lo stile analogico è dunque padrone assoluto di tutta la materia e della sua intensa vita. bisogna formare delle strette reti d’immagini o analogiem che verrano lanciate nel mare misterioso dei fenomeni. a un’acqua ribollente. Altri. e cioè quasi tutto. ognuna condensata.. V’è in ciò una gradazione di analogie sempre più vaste. Distruggere nella letteratura l’“io”.A cozinha futurista Gli scrittori si sono abbandonati finora all’analogia immediata.. nobili o grossolane o volgari. Io lo paragono invece. cioè tutta la psicologia.

usa inúmeras palavras para caracterizar os objetivos do grupo: alcançar um “movimento agressivo”. ecco iniziarsi il regno meccanico.. la vita del motore.) Noi vogliamo dare. in letteratura. usar muitos substantivos. Noi lo libereremo dall’idea della morte. che l’agitarsi della tastiera di un piano forte meccanico. nuovo animale istintivo del quale conosceremo l’istinto generale allorché avremo conosciuto gl’istinti delle diverse forze che lo compongono. della quale gli scienziati non possono conoscere che le reazioni fisico-chimiche. desde que expostos ao acaso. sentem uma “necessidade furiosa” ou ouvem da “hélice turbilhonante” os preceitos 82 Cozinha futurista. Nulla è più interessante. são muitas as regras que o futurismo impunha aos escritores que quisessem honrar a ideologia do movimento: abolir a pontuação. a agressividade. Como podemos observar. realçar a velocidade. di cui si deve afferrare l’essenza a colpi d’intuizione.indd 82 7/4/2009 15:51:20 . os avanços tecnológicos.(.. “salto mortal”. construir analogias inéditas e surpreendentes.) Dopo il regno animale. usar verbos no infinitivo. Vejamos alguns pontos propostos por Marinetti. noi prepariamo la creazione dell’uomo meccanico dalle parti cambiabili.Fillippo Tommaso Marinetti sostituirlo finalmente colla materia. mas que nem ele.. o adjetivo e o advérbio. (. em seus manifestos. Ao mesmo tempo em que propõe a abolição dos adjetivos. e quindi dalla morte stessa. Il cinematografo ci offre la danza di un oggetto che si divide e si ricompone senza l’intervento umano. Con la conoscenza e l’amicizia della materia. suprema difinizione dall’inteligenza logica. “insônia febril”. A análise dos manifestos em si já demonstra a fragilidade destas proposições. per un poeta futurista. la qual cosa non potranno mai fare i fisici né i chimici.. conseguiu praticar.

poderíamos pensar em uma mera substituição de um símbolo por outro.A cozinha futurista do movimento. p. o item 2 do Manifesto Técnico diz: “para que este se adapte elasticamente ao substantivo”. 1989. seria mais convincente que ele mesmo deixasse de usá-los. de qualquer modo. As frases nominais também aparecem com bastante assiduidade. separado por hífen. e eis que o ensinamento não é cumprido pelo mestre. Marinetti propõe. São Paulo: Ática. Na teoria. mas a compreensão ficaria prejudicada 1 Basilio. sem “a velha fivela que mantém as palavras unidas umas às outras”. uma texto sem advérbios ficaria mais veloz. Deve-se abolir o advérbio. se usamos dois substantivos acoplados. a certo ponto. é caracterizada por este segundo elemento. o segundo teria o objetivo de modificar ou especificar o primeiro1. O fato é que Marinetti tenta não usar a pontuação. A praça tem o formato ou a utilidade de um funil. A ausência da pontuação dá margem a infinitas interpretações e analogias. Os verbos no infinitivo são a proposta com maior incidência nos manifestos. Exemplificando com o próprio manifesto: “homem-torpedeira”. ou ao menos diminuir a quantidade desta. mas. Seria um substantivo composto.indd 83 7/4/2009 15:51:20 . Apenas algumas linhas de distância. o uso do substantivo com seu duplo. “praça-funil”.30 83 Cozinha futurista. fator positivo num texto futurista. Ainda sobre a contraditória abolição dos adjetivos. já no item 6 temos “a pontuação é naturalmente anulada”. Se em seu lugar poderiam ser utilizados símbolos matemáticos ou musicais. Na prática. Abolir a pontuação é outra proposta bastante intrigante. Assim poderíamos proceder com todos os substantivos e seu respectivo duplo. que nos parece um adjetivo “camuflado”. que estaria assim em movimento. conquanto freqüentemente sejam precedidos de modais que indicam sua conjugação. Se Marinetti propõe a abolição dos adjetivos. Teoria Lexical. que caracterizaria o objeto. prova de que os substantivos são as palavras com carga semântica mais importante para os futuristas. Ora. Margarida. “multidão-ressaca”.

no entanto. 84 Cozinha futurista. Marinetti. É oportuno ressaltar que no primeiro parágrafo deste manifesto. Os mais velhos dentre nós têm trinta anos: resta-nos portanto pelo menos uma década. contava já 33 anos.Fillippo Tommaso Marinetti se esta fosse abolida por completo. Marinetti foi o estopim do movimento. como manuscritos inúteis. Marinetti deveria ter sido substituído por outros homens mais jovens e com maior agressividade. mas isto é dificultado nos textos em prosa. Quando tivermos quarenta anos. o nome de Benito Mussolini é lembrado. considerava-se ainda capaz e jovem o bastante para seguir à frente do movimento futurista. ocorrida com sua morte. que se propõe um estilo original. na primeira década do século. seguido por um conjunto de regras a serem seguidas. Julgando-o pelos seus próprios preconceitos. e o “autor literário” que tende a uma linguagem mais tradicional. atirar-nos-ão ao cesto. Quando da publicação do Manifesto da Cozinha futurista. embora este já tivesse sofrido muitas transformações. fossem estas políticas ou de reciclagem de seus participantes. outros homens mais jovens e mais válidos que nós. nascido em 1876. que perdem em clareza e inteligibilidade. 1909. para cumprir nossa obra. a disposição dos versos no papel supre a falta de pontos ou vírgulas. acerca da idade dos artistas. – Nós o desejamos! Na época desse manifesto.indd 84 7/4/2009 15:51:20 . gostaria de lembrar uma passagem do Manifesto do Futurismo que não está reproduzida acima. Em poesia. A cOzinhA FuturistA e As inOvAções nA LínGuA O Manifesto da Cozinha Futurista segue o modelo dos outros manifestos promulgados pelo movimento futurista: um pequeno texto que explica ou exemplifica o problema a ser abordado. tinha 54 anos. Antes de partir para a análise da linguagem em A Cozinha Futurista. em 1944. e permaneceria fiel a seus ideais até a consumação total da chama. Verifica-se então uma bipolaridade entre o difusor das idéias futuristas.

seguiu-se a publicação do livro A Cozinha Futurista. tragicômico e poético. estes são separados por vírgula e conjunção. serão objetos de estudo o texto literário – “Uma refeição que evitou um suicídio: o tragicômico poético antefato” – . o manifesto. O subtítulo do texto. no caso. segue o modelo de apresentação futurista: um texto. Lembremo-nos que desde 1926 o futurismo havia aderido ao fascismo. que reuniu documentação importante acerca da polêmica cozinhária iniciada por Marinetti. embora não seja possível precisar se ideologicamente ou para sustentar um movimento literário que estava perdendo sua capacidade de persuasão. com pontuação adequada gramaticalmente.A cozinha futurista aludindo às “batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue”. propondo novas construções. de provável classificação “literária”. A este manifesto. Os casos que relevaremos aqui. que ignora os mandamentos futuristas. strambo e misterioso”. seguido do manifesto e respectiva polêmica. São inúmeros os casos em que Marinetti segue a linguagem tradicional.indd 85 7/4/2009 15:51:20 . o “antefato” é já duplamente caracterizado por adjetivos. No primeiro parágrafo. Nesta breve análise. o poeta parte para a lago Trasimeno obedecendo a um telegrama “preoccupante. situado no início do segundo capítulo. são aqueles em que o poeta tenta . receitas. e o Manifesto da Cozinha Futurista. e a palavra antefato inclui um advérbio no prefixo. Além de utilizar três adjetivos em seqüência. Nos outros capítulos. e um dicionário dos novos termos. por serem de interesse as inovações apresentadas e não as falhas em praticar a própria teoria. O livro. novas palavras ou analogias diferenciadas.modificar o uso da língua.e algumas vezes realmente consegue . indicando que este acontece anteriormente a outro fato. cardápios. mais uma vez. que representa o primeiro capítulo do livro. dispondo as palavras em sintaxe convencional. 85 Cozinha futurista.

mas este não é fechado. Poi Giulio fu preso da un tremito convulso irrefrenabile: “(non voglio. 86 Cozinha futurista. il suo intervento battagliero e creativo nelle serate futuriste di venti anni prima. este aparece como personagem em terceira pessoa. Para caracterizar este personagem. Quindo mi suiciderò questa notte!” “a meno que?” – gridò Prampolini “a meno que?” ripetè Fillìa. separados por vírgulas. la sua vita di scienza e di ricchezze accumulate al Capo di Buona Speranza. Iniciando pela fala de Giulio Onesti. Pode se tratar de um erro tipográfico. “Abolir o ‘eu’ da literatura” era uma das propostas futuristas e que foi respeitada no texto. que se abre com um parêntese. tomado de um tremor irreprimível. se esqueça de fechar parênteses: Lungo silenzio.Fillippo Tommaso Marinetti Comecemos com as construções inusitadas. mas ainda assim é sintomático que um homem. riempirono la conversazione parolibera che precedette il pranzo nel policromo Quisibeve della villa Outra construção que ressalta no texto é o curto diálogo entre os quatro personagens após a declaração do iminente suicídio de Giulio. la sua subitanea fuga dai centri abitati. temos a descrição de Giulio Onesti. personagem do “antefato”. que chamam a atenção do leitor não só pelo argumento. Apesar do texto ser de autoria de Marinetti. che mascherava il suo vero nome. apesar da sabida participação do autor nos acontecimentos. pseudônimo de um colaborador futurista. No quinto parágrafo do texto. Marinetti utiliza quatro longos sujeitos para o verbo “riempirono” em seqüência. escrito todo ele em terceira pessoa. mas pela forma de expressão. non debbo tradire la morta. o que imprime um ritmo cadenciado peculiar à frase: “Questo pseudonimo.indd 86 7/4/2009 15:51:20 .

nas cozinhas. partindo do momento da enunciação desta solução. proposta por Marinetti. pode ser encontrada em diversas outras passagens do “antefato”. a falta desta. todos os companheiros futuristas lançam-se a um trabalho incessante.” – O diálogo segue com uma quádrupla repetição da frase: “a meno que”. buscando uma solução para o desejo de suicídio.11 87 Cozinha futurista. A pontuação. para criar comidas que salvassem a vida do amigo. Este suspense também serve como preâmbulo para a ação que é então desencadeada. F. ou melhor.A cozinha futurista “a meno que?” – concluse Marinetti – a meno che tu ci conduca imediatamente nelle tue ricche e fornite cucine. Ibid. 11 Id. p. 1998. O período..T. sempre seduzindo o leitor com a aparente desordem instaurada na frase. Observemos como a ausência da pontuação torna o ritmo do período veloz: Atmosfera inebriante prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano altissimo torniva melodiosamente. A anáfora auxilia na criação do suspense necessário para que fosse apresentado o desfecho do problema: a cozinha futurista. A cozinha futurista.. una legerezza di volo che offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donna miste di mozzi di ruote e d’ali d’eliche tutte formate con soffice pasta lievitata. porém há apenas um verbo e um único advérbio. Eis alguns exemplos: “. ou “.. una lieve curva de bocca ventre o fianchi”2.indd 87 7/4/2009 15:51:20 . bastante longo.. Sempre no plano da construção. mistura muitos substantivos e adjetivos.”3 2 3 Marinetti. Milão: Marinotti. podemos encontrar um parágrafo escrito sem utilizar nenhum sinal de pontuação. p. exceto o óbvio ponto ao final do mesmo.

Tutto il cielo nelle nari. p. Uma mostra é normalmente inaugurada.Fillippo Tommaso Marinetti A velocidade imprimida à linguagem também pode ser verificada nas construções de frases curtas. p.indd 88 7/4/2009 15:51:20 . como a “nicchia-tana” (que traduzimos por concha-toca). frases nominais curtas e verbos no infinitivo. tutta direttive nuove4 Outro trecho é todo construído mesclando substantivos soltos “ao acaso”. Alle sei di pomeriggio svilupparsi in alto di dolci dune di carne e sabbia verso due grandi occhi di smeraldo. Gioia delle labbra. atendendo às regras do Manifesto Técnico da Literatura Futurista: Con calma riprendere la materia. Arte mangiabile. Schioccar di lingua. Passione. tutta leggi nuove. tem espelhamento num verbo acompanhado de seu duplo na proposição “inaugurare-assagiare” a mostra de escultura comestível. deveria também ser degustada. Nervi. 12 88 Cozinha futurista. por seu caráter ambíguo. Crocifiggerla sotto chiodi acuti di volontà. Arte temporanea. 4 5 Id. La spasimante superacuta tensione delle più frenetiche lussurie finalmente appagate. L’eterno femminino fuggente imprigionato nello stomaco.. em sua maioria nominais que culminam na afirmação de que “somos o futuro”: Arte leggera aviatoria.14 Id. Ibid. altri cic redono complicatissimi e civilizzatissimi.. Siamo gl’istintivi nuovi elementi della grande Macchina futura lirica plastica architettonica. Ci giudicate selvaggi.5 O substantivo que deve ser acompanhado de seu duplo. Trattenere il respiro per non guastare un sapore cesellato. mas esta. Ibid.

collaborando. L’eterno femminino fuggente... Marinetti.. improvvisatosi scultore-cuoco. A escrita marinettiana tem também outra peculiaridade que vale a pena evidenciar: o gosto pela visualização. Prampolini e Fillìa... ne iniziò l’amorosa adorazione... . un complesso plastico di cioccolata e torrone rappresentante le forme delle nostalgie e del passato precipitò giù con fragore e inzaccherando tutto. Longos parágrafos e períodos são utilizados para descrever locais... situações ou personagens..A cozinha futurista Parece-nos importante também ressaltar a larga utilização das orações reduzidas.. offriva alle bocche guardanti 29 argentee caviglie di donne. ... Observemos alguns exemplos que documentam o fenômeno: . alto complesso plastico di pasta sfogliata scolpita a piani degradanti di piramide. .. moderna. imprigionato nello stomaco. O próprio Maninetti explica esse 89 Cozinha futurista.indd 89 7/4/2009 15:51:20 . La sua architettura obliqua di curve molli inseguentisi in cielo... Prampolini e Fillìa parlorono.. In un alto cilindro di pasta di grano turco girante su perno... vi avevano inoculato il magnetismo.. o que facilitaria muito a tarefa de construir uma linguagem concisa. . mais freqüentemente de gerúndio e de particípio. veloccizzandosi scapigliava in tutta la camera una massa enorme di zucchero filaro d’oro....Giulio Onesti.. mas sempre privilegiando o “estilo analógico”.. Giulio girando appena la testa a destra e a sinistra.. alternandosi.. sem palavras desnecessárias. Marinetti. Acreditamos que este tipo de construção seja privilegiado por suprimir o sujeito da frase e também uma conjunção.. Inginocchiatosi davanti.

partes destas ou indícios de modernidade: fantásticos laboratórios. globos elétricos.Fillippo Tommaso Marinetti estilo: “Para dar os movimentos sucessivos de um objeto. aeroescultores. em seu vôo. equilíbrio.”6 Nessas analogias... cada uma delas condensada. Essa relação entre a vida cotidiana e a modernidade imposta pelas máquinas estava de acordo com os ideais do movimento. os lugares e mesmo as comidas são sempre relacionadas a máquinas. grande máquina futura lírica plástica arquitetônica O campo semântico concernente ao vôo traz aeropintores. todo um grupo de árvores. aerodinamismo lírico-plástico. O Futurismo Italiano. roda dentada. (. hélices esvoaçantes. São Paulo: Perspectiva. cilindro de massa girando em seu eixo. É grande o repertório lexical que se refere às máquinas. as pessoas. ao vôo. tudo feito com macia massa fermentada. espirais de vento expressos em encanamentos. aeropoesias. A escolha do vocabulário confirma essa ideologia.) Em alguns casos precisará juntar as imagens duas a duas. oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados misturados a cubos de rodas e asas de hélice. cubos de roda. A velocidade é representada pelo automóvel. Aurora Fornoni.indd 90 7/4/2009 15:51:20 . 6 Bernardini. como as bolas acorrentadas. que arrancam. aos automóveis e respectiva velocidade. complexo plástico a motor. Um dos pratos. 1980. recolhida numa palavra essencial. que era a escultura de uma mulher. Outro prato era um complexo plástico a motor comestível. Assim temos os poetas que enquanto falam alternam-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina e a cozinha. zumbido de um aeroplano altivo. volantista. perfeito. Numa rápida lista de elementos referentes a cada uma destas categorias. para máquinas. transformada em fantásticos laboratórios. arte leve voadora. ou partes destas. 90 Cozinha futurista. asas de hélice. encontramos. é necessário dar a cadeia de analogias que ele evoca. tapete de plumas que parece viajar. três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina.

síntese de todos os automóveis famosos. “a lei. ou. palavras lexicais de cunho afetivo. e finalmente livre de seus desejos suicidas. da lei”. trabalho muscularmente acelerado. “quella che le rassomiglia molto ma non abbastanza”. e devido a isso. “Lei”. “bellissima donna”. “per lei”. mas que deixa o futurista Giulio Onesti feliz. “la Nuova”. Marinetti usa repetidas vezes o pronome Lei (ela). porque não dizer. Escrevo Mulher com maiúscula. “la sopraveniente”. “nessuno vi man- 91 Cozinha futurista. outras vezes com inicial minúscula. faz de palavras lexicais corriqueiras e apagadas. O processo de nominalização permite a transformação de qualquer vocábulo em substantivos. metafórico.A cozinha futurista velocidade. “la morta”. “l’altra”. como pronome de terceira pessoa referindo-se às Mulheres de Giulio Onesti. cujos nomes jamais são mencionados: “Essa”. os adjetivos culinários são usados para mulheres. complesso plastico “di lei”. que em italiano é pronome de segunda pessoa para tratamento de respeito. de cortesia. “lui [il complesso plastico] vincerà lei”. As esculturas representam mulheres que podem ser deglutidas. podemos observar que este culmina no nascimento do sol. São inúmeras também as referências anafóricas a estas mulheres. No já citado trecho em que Giulio Onesti degusta uma das esculturas e que foi comparado a um ato sexual. sugerindo tudo o que constitui o ser.. porém impregnado de um vocabulário humano: “le nuvole partorirono un precipitante fulmine arancione a lunghe gambe verdi”. a que se suicidou e a outra que se parece muito mas não o suficiente. sua personalidade. “metaforicamente antropofágica”. “a lei”. pois o pronome utilizado no lugar do substantivo em todas as referências feitas a “ela” assume um significado complexo. Escolha lexical também recorrente nesta obra é a “erótico-culinária”. realizado. O ato sexual gerara um fruto. sua importância.indd 91 7/4/2009 15:51:20 . sendo que o contrário também ocorre. embora importantíssimas. “quella bocca imminente”. às vezes com inicial maiúscula. “le” offriremo.

massiccio impiombato da una compattezza opaca e cieca. e seqüências de substantivos “ao acaso”.Fillippo Tommaso Marinetti gerà”. snella trasparenza spiralica di passione. volontà. das referências ao mundo moderno. Giulio promete mais tarde dizer o nome dela. Si arminizzi invece sempre più colll’italiana. às máquinas e à degustação erótica. luce. slancio. agricoltori tenaci a dispetto della voluminosa pastasciutta cotidiana. Se no texto deste “antefato poético tragicômico” as referências mais importantes estão relacionadas à velocidade. “Lei”. Isto se dá provavelmente porque Marinetti pretendia elevar a condição da culinária ao mesmo patamar das artes plásticas não comestíveis. como a pintura. no Manifesto da Cozinha Futurista é mais comum encontrar palavras relacionadas à arte. e quem ela é. Giulio fica embriagado com a escultura manducada antes de fazê-lo. claro. 21 Id.. 22 92 Cozinha futurista. esses bem separados por vírgulas..8 7 8 Id.7 (. tão idolatrado pelos futuristas. tenerezza. avvocati arguti. Ibid. Comecemos com parágrafos que alternam seqüências de adjetivos sem pontuação. tenacia eroica. A um certo ponto do antefato. como os exemplos abaixo: Sentiamo inoltre la necessità di impedire che l’Italiano diventi cubico. mas essa promessa não é cumprida. Questi sono stati combattenti eroici. p. os mesmo modelos são encontrados. “la donna”. além. contrasta collo spirito vivace e coll’anima appassionata generosa intuitiva dei napoletani. “essa”.indd 92 7/4/2009 15:51:20 . a escultura ou a arquitetura.) Per esempio. No tocante às construções sintáticas. p. Prepariamo una agilità di corpi italiani adatti ai leggerissimi treni di alluminio che sostituiranno gli attuali pesanti di ferro legno acciaio. Ibid. oratori travolgenti. artisti ispirati.

troppo pepe.” As passagens cujos argumentos são mais “futuristas”.” A última frase do manifesto também traz modificações sutis na construção da frase. cujas vírgulas foram abolidas: “Questi complessi plastici saporiti colorati profumati e tattili formeranno perfetti pranzi simultanei. Perché opporre ancora il suo blocco pesante all’immensa rete di onde corte lunghe che il gfenio italiano ha lanciato sopre oceani e continenti. isto é. Notem que não há vírgulas na passagem. troppo aceto. logo após a crítica feroz ao alimento: La pastasciutta.indd 93 7/4/2009 15:51:20 . opta o poeta pela construções impessoais. metaforicamente o inusual.A cozinha futurista Ou ainda. noi affermiamo questa verità: si pensa si sogna e si agisce secondo quel che si beve e si mangia.. relacionados de alguma forma à revolução cultural e social defendida pelo movimento.. O 93 Cozinha futurista. nutritivamente inferiore del 40% alla carne. É possível que aqui o período tenha sido escrito nesse ritmo lento para acentuar o peso do macarrão nos estômagos. o sono proveniente desse bloco maciço em nossos estômagos. mas permanecem as conjunções: “. troppo dolce”. que se refere também à mão esquerda. à força de evitar a indicação do sujeito nas frases. num período longo em que faltaria até mesmo fôlego para o leitor que não impusesse suas próprias pausas no texto. O substantivo mancanza é substituído por manca. al pesce. corrigirão: “manca di sale. parecem ter a linguagem mais cuidadosamente trabalhada no sentido de alcançar também a revolução lingüística. in cerca di vento. na cozinha do futuro. O mesmo acontece na descrição dos pratos simultâneos. lega coi suoi grovigli gli italiani di oggi ai lenti telai di Penelope e ai sonnolenti velieri. ao dizer que indicadores químicos. o diferente. O trecho “Le macchine costitueranno presto un obbediente proletariato di ferro acciaio alluminio al servizio degli uomini quasi totalmente alleggeriti dal lavoro manuale” ignora a necessidade de vírgulas entre os componentes metálicos das máquinas. ai legumi. e ai paesaggi di colore forma rumore che la radio-televisione fa navigare intorno alla terra? A repetição também aparece neste texto.

Após grelhar o filé com sal e azeite. Dissemos acima que a culinária estaria. A observação de uma ou duas receitas propostas pelo manifesto provam que a aparência do prato conta tanto quanto (ou até mais que) o sabor deste. assim como o cheiro. aos sentidos. também foi tratado e escolhido com cuidado por Marinetti. Dentre os elementos que sobram.indd 94 7/4/2009 15:51:20 .Fillippo Tommaso Marinetti sentido da palavra é garantido pelo contexto. ou. Mais uma vez. imitando um jogo de damas. Outra invenção famosa da cozinha futurista é o Carnescultura composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. e dolce”. temos a junção dos sentidos para proporcionar o maior prazer gustativo possível. forma. coberto de mel e sustentado a base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. temos uma seqüência de três: “aceto. falta uma coisa. O cilindro é disposto verticalmente no centro do prato. para Marinetti. além do molho que o acompanha. pepe. como o intuito dos autores é de mesclar os sentidos para atingir deste modo uma gama completa de sensações. O vocabulário referente às sensações. Entretanto. colocando o adjetivo doce no lugar do previsível açúcar. A lógica lingüística diz que o último elemento também deveria ser um substantivo. dispõem-se sobre as fatias alguns filetes de anchova entrelaçados. sobram outras. limitar-nos-emos a relacioná-los na ordem em que aparecem 94 Cozinha futurista. Desde o “antefato” até o Manifesto da Cozinha Futurista. aparência do prato deve ser levada em conta. podemos ver tantas referências aos sentidos que nos pareceu mais lógico separar de acordo com cada um deles. como o vinagre e a pimenta. no mesmo patamar de outras artes plásticas. O Salmão do Alasca aos raios de sol com molho Marte deve ser cuidadosamente trabalhado de forma artística antes de ser apresentado ao comensal. A cor. melhor dizendo. Sobre cada fatia uma rodelinha de limão com alcaparras. mas o autor preferiu causar este estranhamento. e o sabor.

Sopra. máquina futura lírica plástica arquitetônica. cirri rossi. Seguem-se certos sabores e certas formas. os amigos esculpiram tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. selecionando apenas as ocorrências em que ao menos dois sentidos são mencionados na mesma proposição. o eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. biscoitos. a invenção de complexos plásticos saborosos. vermelhos.indd 95 7/4/2009 15:51:20 . complexos plásticos saborosos coloridos perfumados e táteis que formarão perfeitas refeições simultâneas. O quarto é revestido de “rosso rimorso vellutato”. os futuristas intuíam e saboreavam “ela” entre os perfumes de baunilha. alegria dos lábios. e “luceva di una sua zuccherina peluria eccitanto lo smalto dei denti nelle bocche attente dei due compagni. todo o céu nas narinas. brancos. estalar de língua. cuja harmonia original de formas e cores nutra os olhos e excitem a fantasia antes de tentar os lábios. violetas e lírios. mas os dentes. o intestino igualmente enamorados. o estômago. pretos. a língua. Aparecem também mãos inspiradas e narinas abertas para dirigir a unha e os dentes. a harmonia da mesa com os sabores e cores das iguarias. o trabalho foi recomeçado sendo os futuristas “deliziosamente pungolati dai lunghi raggi elastici di un’aurora. A carne da curva era a tal ponto gostosa. vermelhos. havia uma atmosfera “prodiga di forme colori con piani di luci taglienti e levigatissime rotondità di splendori che il ronzio di un aeroplano torniva melodiosamente”. le sferiche dolcezze di tutte le ideali mammelle”. rosas. a apreciação das obras de arte por eles produzidas exigem não somente os olhos e relativa admiração.A cozinha futurista nos textos. conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. não somente o tato e relativas carícias. à cozinha eram transportados grandes pesados sacos que descarregavam piramidais montes amarelos. paisagens de cores forma rumores. trilli d’uccelli e scricchiolii d’acque legnose in cui scoppiava in brilli dorati la laccatura verde”. 95 Cozinha futurista. Giulio inebriado beija com a língua sua obra de arte.

num tratamento informal. pseudônimos na realidade. entre amigos ou entre familiares. diFicuLdAdes dA trAduçãO Na tradução. pessoa do discurso): Tu.indd 96 7/4/2009 15:51:20 . O uso de maiúsculas e minúsculas iniciais das palavras. bem como o posicionamento dos adjetivos. Esse é o caso de Escodamé. preservando tanto a construção original quanto o entendimento em português. negrito e aspas. recorrente em toda a sua obra. que. Mantivemos também um parêntese que foi aberto. tentamos manter as inversões na ordem das frases. indicaria uma pessoa incoveniente. nomes dos pratos e de pessoas foi sempre conservado como o original em Italiano. O nome dos colaboradores futuristas. ter acesso às diversas edições do livro para verificar a ocorrência do problema. hoje dia muito comum 96 Cozinha futurista. mantendo a pontuação e a ausência da mesma. mas é provável que isso aconteça devido ao gosto marinettiano pela descrição. para evitar brincadeiras e analogias impertinentes Um problema verificado. Seria necessário. se traduzido – Saiosozinho (não precisam me mandar embora) -. Mas não nos enveredamos por este campo. temos em relação à visão o maior número de incidências. mas não fechado. Como sabemos. na primeira parte do livro – “antefato poetico tragicomico” – foi o uso da forma de tratamento entre os futuristas e “Ela”. foram mantidos ainda que alguns pudessem ser sugestivos e divertidos. Mantivemos as classes gramaticais sempre que isso não prejudicasse a compreensão em português. a visão continua sendo o maior atrativo disponível aos escritores. existem em italiano três formas de tratamento possíveis para o interlocutor (2a. bem como o uso de itálico. Apesar de defender a incorporação dos outros sentidos à literatura. tentamos seguir os preceitos futuristas observados na língua original. aqui. que não é bem recebida por outrem. apesar da possibilidade de ser um erro tipográfico.Fillippo Tommaso Marinetti Observando o texto.

mas à mulher.. a lei. publicada no jornal britânico The Herald. em uma única passagem. confunde o leitor ao misturar os dois tratamentos formais. especialmente os referentes às máquinas e ao vôo. é pouco utilizado atualmente. escultor. com algumas exceções nas regiões meridionais ou em língua escrita. entre pessoas que não se conhecem suficientemente. poesia e poeta. já que a raiz latina permite a identificação pelo leitor de língua portuguesa. esse tratamento é modificado e passa a “voi”. foram pesquisados e mantidos. com os mesmos dois sentidos encontrados em italiano. quase em italiano. foi por esse motivo traduzida em nota ao final do capítulo. escrito em 1932.A cozinha futurista entre os jovens. mas que alude tanto ao volante do automóvel quanto ao que tem a capacidade de voar. Os campos semânticos. As notícias em francês foram simplesmente deixadas na língua original. e Voi.. à Nova. A reportagem em inglês. “Ela”. é sempre tratada com esse pronome e seus correlatos (Le. complexo escultural ou plástico. acoplado a pintor. tratamento também formal se dirigido a um único interlocutor. Esta fala é dirigida a ela. o que reafirma nossa suspeita antropofágica já explicitada anteriormente.indd 97 7/4/2009 15:51:20 . Ele não se refere às esculturas comestíveis. Assim. quando o tratamento é formal. Lei. Dois outros trechos também foram traduzidos em nota por estarem escritos em latim vulgar. Há no livro algumas partes escritas em francês e em inglês. em relacionamentos profissionais e para demonstrar respeito. pictórico. O livro. dinamismo e até aos pratos servidos foi sempre mantido. a palavra volantista. apresenta informações novas e apreciações críticas do movimento. pois são simples traduções dos manifestos ou de cardápios já mencionados em italiano. pois insere leveza e mobilidade às palavras 97 Cozinha futurista. La. porém. Encontramos a passagem: “nessuno vi mangerà per ora – disse Prampolini – a meno che il magrissimo Fillìa. usada para motorista. Tratase da polêmica despertada em outros países e publicada nos jornais locais. O prefixo aero.”. foi mantida como volantista em português.. da lei). “Lei” em italiano. per lei.

Fillippo Tommaso Marinetti e, aparentemente, às pessoas e objetos, que parecem perder o “imgombro pesante” no estômago. Culpa do macarrão, obviamente. Foram também encontrados os óbvios aeroplanos, e certos aerodinamismos lírico-plásticos, aerocumes, aerocerâmicas, aeroiguarias e aerobanquetes, que, contrariamente ao esperado, não eram servidos em pleno vôo, embora pudessem ser forjados ambientes que lembrassem a fuselagem de um avião. Ainda nos atendo ao vocabulário relativo a voar, Marinetti opta pra chamar o frango de volatile, palavra de uso comum na Itália, mas que retoma o léxico privilegiado por ele. Passemos agora do vôo à comida. O vocabulário referente à comida não oferece muitos problemas ao falante de português do Brasil, tão grande é a influência italiana em nossa culinária. Os nomes de diferente cortes de macarrão ou de massas rechadas, como ravioli, lasanha, tagliatelle, tagliarini, espaguete, trenette, foram mantidas em italiano, apenas usando a grafia aportuguesada quando esta existia. Assim, no texto em português, podemos nos deparar com tortelini in brodo ou espaguete ao sugo, sem que isso prejudique a compreensão. Uma única nota foi dispensada ao “vermicelli al pomodoro”, por se tratar de um corte não freqüente no Brasil. As palavras que designam refeição ou prato apresentaram mais dificuldades, já que em italiano “pranzo” pode designar tanto o almoço quanto uma refeição mais elaborada, em qualquer horário do dia. Optamos, por isso, às vezes, por refeição no lugar de almoço. Aparecem também palavras com tom bastante pejorativo para certas comidas, como “intrugli” ou “maledetta pietanza”; nesse caso, optamos por lavagem, que remete à comida oferecida aos porcos. “Vivanda” foi quase sempre traduzida por vianda, mantendo assim o mesmo radical latino. Outro vocábulo de difícil tradução foi “bocconi”, utilizado em alguns restaurantes aqui no Brasil, designam comidas que não precisam ser cortadas para serem comidas, têm o tamanho certo para serem intro-

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A cozinha futurista duzidas na boca. Traduzimos uma vez por bocados, outra por prato, já que o bocado pareceria fora de contexto. O nome dos pratos, quase sempre originais, foram traduzidos literalmente. Assim, quando Marinetti propunha um “Tuttoriso”, traduzimos por Todoarroz, com a mesma forma de composição em justaposição feita em italiano. Encontramos também, raras vezes, composições por aglutinação. Aparecem, com a mesma lógica lingüística, Frangofiat, Hortotátil, Decolapaladar, Tedesejo, Carnadorada, Guerranacama, Teamareiassim, Superpaixão, Estanoiteláemcasa, e inúmeras outras contruções similares. O famoso Carnescultura em português não manteve o radical do original “carneplástico”, pois a palavra plástico aqui, embora tenha o sentido de forma, escultura preservado nas Artes Plásticas que envolvem também a pintura, remete ao derivado de petróleo e poderia afastar paladares curiosos. O plástico, em nossa culinária, é a ausência de sabor aliada a uma consistência indesejável em algo a ser ingerido. Os neologismos criados por Marinetti também foram alvo de grande atenção, e sempre que identificados, mesmo quando havia palavra bastante aproximada em português, tentamos construir uma que fosse nova, para mantermo-nos fiéis à construção original. Daí surgiu a revolução “cozinhária”, tradução do neologismo italiano “cucinaria”, usado no lugar da conhecida culinária, palavra que atende tanto o italiano quanto o português. Marinetti recusou também o conhecido “xenofilia”, inventou “esterofilia”, que traduzimos estrangeirofilia. O sentimento que faria alguns cidadãos renegarem sua pátria foi definido “antitalianità”, resultou em antitalianidade em português, bem como os vocábulos justapostos “criticomania” ou “benpensanti”, respectivamente criticomania e bempensantes. A certo ponto da leitura, encontramos um prato “sinottico-singustativo”. Como traduzir este adjetivo tão abrangente? O prato privilegia-

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Fillippo Tommaso Marinetti va diversos ingredientes, coloridos, dispostos de forma determinada e com certos sabores, que deveriam se unir mediante escolhas feitas pelos comensais. O prefixo grego sin- designa uma ação conjunta, logo, ação conjunta dos olhos e ação conjunta dos sabores. Mais uma vez optamos por não traduzir, para que o leitor, ao buscar o significado das partes das palavras, descubra ele também o que é o prato sinótico-singustativo. O cardápio extremista apresenta, entre muitos odores prazerosos ou não, duas palavras novas, ambas referentes ao barulho das rãs entre as águas podres do lago: polichiaccherio e quaccherologia. Traduzimos por policonversação a primeira, embora não reproduza bem o sentido da conversa tumultuada, barulhenta e rumorosa dos anfíbios em questão. A quaccherologia foi mais intrigante. O sufixo –logia indica estudo e quacchero se refere, de acordo com o dicionário, aos “Quakers” – quacre em português -, membros da seita protestante fundada na Inglaterra e difundida nos Estados Unidos, que não aceitam sacramento algum, não prestam juramento perante a justiça, pregam a intransigência puritana e a simplicidade de vida. Optamos pela tradução quacrelogia, ainda que o sentido pretendido pelo autor não pareça claro. Lembrando que o Futurismo é um movimento nacionalista, especialmente nos últimos anos de sua existência, por sua aproximação política com o fascismo, observamos a negação dos vocábulos de origem inglesa ou francesa na cultura – e na culinária – italiana. Marinetti propõe com essa finalidade uma modificação no léxico culinário italiano, utilizando palavras nacionais, de modo a evitar qualquer estrangeirismo. O último capítulo do livro, o “pequeno dicionário da arte cozinhária futurista”, traz opções para palavras já incorporadas ao vocabulário italiano, mas agora renegadas por Marinetti. Os franceses “Marrons Glacés” transformam-se em castanhas confeitadas, “consommé” serão consumidos, “fondants” serão apenas fundentes, “fumoir” será fumatório, “maitre d’hotel” é guiapaladar, “menu” será substituído por lista ou listadepratos, “mélange” será mistura, “flan” vira pasticho, “dessert”

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A cozinha futurista é paraselevantar, “purée” é substituído por pasta e “bouillabaisse” restringe-se a sopa de peixe. É bastante curiosa a reflexão feita para alcançar a palavra “paraselevantar”, peralzarsi em italiano, em substituição ao francês dessert. A sobremesa é a última a ser ingerida, pois café e licores eram via de regra servidos em outra sala. Ao terminar a degustação, o movimento tão caro à idéia futurista era incluída na refeição: todos se levantam. Os ingleses também sofrem retaliação, e o “barman” vira mexedor, “cocktail” vira polibebida, “picnic” se torna um agradável almoçoaosol, “bar” é substituído por aquisebebe, “tea-room” torna-se sala de chá e o internacional “sandwich” transmuta-se em entreosdois. Um último neologismo marinettiano para encerrar as dificuldades: parolibero, usado tanto como substantivo, em “o parolibero Fillìa” quanto como adjetivo, em “uma conversação parolibera”. O processo em italiano foi a aglutinação da palavras parola + libero = parolibero. No entanto, em português parecia inviável a aglutinação de palavra + livre, pela incidência dupla do encontro consonantal “vr”. A solução encontrada foi utilizar um sinônimo de palavra, vocábulo, cuja sílaba final continha a mesma consoante da sílaba inicial de livre. Logo: vocábulo + livre = vocabulivre.

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A CozInhA FuturIstA Tradução Q Cozinha futurista.indd 103 7/4/2009 15:51:21 .

indd 104 7/4/2009 15:51:21 .Cozinha futurista.

indd 105 7/4/2009 15:51:21 .Sumário Uma refeição que evitou um suicídio O antefato poético tragicômico O manifesto da cozinha futurista Ideologias e polêmicas A revolução cozinhária Os grandes banquetes futuristas Os cardápios futuristas Sugestivos e determinantes Receituário futurista para restaurantes e “aquisebebe” Pequeno dicionário da arte cozinhária futurista 105 Cozinha futurista.

Cozinha futurista.indd 106 7/4/2009 15:51:21 .

essa exclui o plágio e exige originalidade criativa. a revolução cozinhária futurista. nobre e útil a todos de modificar radicalmente a alimentação de nossa raça. os ratos. isto é. dinamizando-a e espiritualizando-a com novíssimas iguarias nas quais a experiência.Contrariamente às críticas lançadas e àquelas previsíveis. a arte de se alimentar.indd 107 7/4/2009 15:51:21 . parecerá louca e perigosa a alguns passadistas tremebundos: ela quer. Nasce conosco. a repetição e o custo. a banalidade. finalmente criar uma harmonia entre o paladar dos homens e sua vida de hoje e de amanhã. Esta nossa cozinha futurista. os gatos e os bois. a inteligência e a fantasia substituam economicamente a qualidade. até hoje os homens alimentaram-se como as formigas. ao contrário. ilustrada neste volume. 107 Cozinha futurista. Salvo algumas exceções louváveis e legendárias. tem o propósito alto. a primeira cozinha humana. regulada como o motor de um hidroplano para altas velocidades. fortificando-a. os futuristas. Como em todas as artes.

indd 108 7/4/2009 15:51:21 .Fillippo Tommaso Marinetti Não por acaso esta obra vem publicada durante a crise econômica mundial cujo desenvolvimento parece incalculável. mas pode-se calcular o perigoso pânico deprimente. A este pânico nós opomos uma cozinha futurista. 108 Cozinha futurista. isto é: o otimismo à mesa.

obedecendo a este preocupante.indd 109 7/4/2009 15:51:21 . de automóvel. 109 Cozinha futurista.umA reFeiçãO que evitOu um suicídiO O poético antefato tragicômico Em onze de maio de 1930 o poeta Marinetti partia. extravagante e misterioso telegrama: “Caríssimo uma vez que Ela partiu definitivamente fui acometido de torturante angústia PT imensa tristeza proíbe-me sobrevivência PT suplico-lhe venha rápido antes que chegue aquela que se parece muito com Ela mas não o suficiente GIULIO”. em direção ao lago Trasimeno.

Na entrada. O telegrama anuncia a sua iminente chegada. cuja grande genialidade de aeropintores pareceu-lhe adaptar-se ao caso sem dúvida gravíssimo. muito. Agora. ela se escondia ao fundo do parque. confesso-me brutalmente a vocês e a sua provada amizade: há três dias a idéia de suicídio ocupa toda a casa e também o parque. intervém um fato novo e significativo. mais que uma casa. Este pseudônimo que mascarava seu verdadeiro nome.. o volantista do automóvel procurou e encontrou. Por outro lado..Fillippo Tommaso Marinetti Marinetti. Giulio murmurou: . convocou telefonicamente a presença de Enrico Prampolini e Fillìa. O que vocês me aconselham?” Longo silêncio..indd 110 7/4/2009 15:51:21 . você a conhece. seu intervento belicoso e criativo nas noitadas futuristas de vinte anos antes. que bebia por amplas janelas uma meia-lua nascente mas já imersa na morte das águas. a sua vida de ciência e de riquezas acumuladas no Cabo da Boa Esperança. Pois bem. ainda não tive a força de entrar. decidido a salvar seu amigo. ... Marinetti! Ela se suicidou há três dias em Nova Iorque. o rosto emagrecido e a mão estendida muito branca de Giulio Onesti.”- 110 Cozinha futurista. a casa.. mas não o suficiente. Na verdade. nas margens feridas e entre os canaviais doloridos do Lago. encheram a conversação vocabulivre que precedeu o jantar no policromático Aquisebebe da casa.“querem saber o porquê? Eu lhes digo: Ela. a sua repentina fuga dos centros habitados.. na sala revestida de vermelho remorso aveludado. que alternava pinheiros umbelíferos oferecidos ao Paraíso e ciprestes diabolicamente mergulhados na tinta do Inferno. por uma estranha coincidência. Dir-lhes-ei outro dia o seu nome e quem é. Cirurgicamente. é da outra que se parece com ela. À mesa. diante da porta do automóvel. um verdadeiro Palácio.“Intuo em seus paladares a chatice de um antiquíssimo hábito e a convicção de que um tal modo de se nutrir conduz ao suicídio. Certamente me chama. Eu recebi ontem este telegrama..

aeropintores e aeroescultores.“a menos que ? ” – repetiu Fillìa. Cem quilos de tâmaras e de bananas.ordenou Giulio. Dez jarras de óleo. farinha de amêndoas. chocolate. que havia ciumentamente cercado de biombos o seu trabalho criativo.“a menos que ? ” – gritou Prampolini . As minhas aeropoesias ventilarão seus cérebros como hélices esvoaçantes. descarregando piramidais pilhas amarelas. açúcar e ovos. Imediatamente os empregados começaram a transportar grandes e pesados sacos que.“A menos que ? ” – concluiu Marinetti – a menos que você nos conduza imediatamente às suas ricas e abastecidas cozinhas. ao primeiro alvorecer que atravessou o cintilante horizonte pela janela aberta. farinha de trigo. mel e leite. os fogos acesos.(não quero. não devo trair a morta. pretas. farinha de centeio. Giulio sofreu um tremor convulsivo irreprimível: . vermelhas.”Fillìa improvisou um aerocomplexo plástico de farinha de castanhas. farinha de milho. Prampolini gritou: -“são necessários às nossas mãos geniais cem sacos dos seguintes ingredientes indispensáveis: farinha de castanhas. Depois do que. pimenta vermelha. transformavam as cozinhas em fantásticos laboratórios onde as enormes caçarolas emborcadas no chão transformavam-se em pedestais grandiosos predispostos a uma escultura imprevisível. Enrico Prampolini.”-“você será atendido ainda nesta noite”.indd 111 7/4/2009 15:51:21 . ovos. gritou: 1 O parêntese não foi fechado no original. onde camadas atmosféricas noturnas eram intercaladas por camadas de alvoreceres acinzentados com espirais de vento expressos em encanamentos de massa podre. suicidar-me-ei esta noite!1 . brancas. Então.”Entre os cozinheiros estarrecidos e ditatorialmente desautorizados. .A cozinha futurista Longo silêncio. -“ao trabalho – disse Marinetti – oh. chocolate em pó. leite. 111 Cozinha futurista.

Narinas abertas para guiar as unhas e os dentes. Comestível.Fillippo Tommaso Marinetti -“Tenho-a finalmente entre meus braços e é de tal modo bela. Era a tal ponto saborosa a carne da curva que significava a síntese de todos os movimentos do quadril. fascinante e carnal que pode curar qualquer desejo de suicídio. cada uma com uma leve curva especial de boca ventre ou quadris. Vocês têm más bocas vorazes. um cilindro de massa de milho que. Afastem-se. angustiadíssimo e 112 Cozinha futurista. chiados de águas lenhosas cuja laqueadura verde estourava em brilhos dourados. Vocês comeriam-na toda.indd 112 7/4/2009 15:51:21 .”Derrubou os biombos e apareceu o misterioso suave tremendo complexo plástico d’ela.” – Retomaram o trabalho deliciosamente estimulados pelos longos raios elásticos de uma aurora. No alto. Às sete horas nascia do maior forno da cozinha a paixão das loiras. um sorriso seu de lábios. cantos de pássaros. que se improvisava cozinheiro-escultor. alto complexo plástico de massa folhada esculpida em camadas degradantes de pirâmide. E brilhava de uma sua penugem açucarada excitando o esmalte dos dentes nas bocas atentas dos dois companheiros. Acima. um seu modo de flutuar sensualíssimo. a esférica doçura de todos os seios ideais falavam em distância geométrica à cúpula do ventre mantida pelas linhas-força das coxas dinâmicas. sem respirar. Mãos inspiradas. girando em seu eixo. nuvens vermelhas. ao aumentar a velocidade espalhava por todo o recinto uma massa enorme de algodão-doce de ouro. Atmosfera inebriante pródiga de formas cores com planos de luz cortantes e lisíssimas redondezas de esplendores que o zumbido de um aeroplano altíssimo torneava melodiosamente. Venham admirá-la. -“não se aproximem – gritou a Marinetti e a Fillìa – não a cheirem. realizado sob o seu ditado por Giulio Onesti. Idealizado por Marinetti.

Novo silêncio. Giulio Onesti. ébria de esculpir ela também. Marinetti. Intuíam-na e saboreavam-na entre os perfumes de baunilha. Com bocas de antropófagos simpáticos. Aquela boca iminente preocupava também os três futuristas que trabalhavam. A torrente do tempo fugia-lhes sob os pés. A sua boca. representando as formas da nostalgia e do passado precipitou abaixo com um estrondo e enlameando tudo de líquidas trevas viscosas. Competiu subitamente tanto com a força dos raios solares até inebriar o escultor que infantilmente beijou sua obra com a língua. será aquela de uma convidada qualquer. síntese de todos os automóveis famosos de curvas longínquas e uma rapidez de vôo que oferecia às bocas observadoras 29 tornozelos prateados de mulheres misturados a cubos de rodas e a asas de hélice todas feitas com macia massa fermentada. Massas saborosas para transportar. No silêncio da tarde o trabalho tornou-se muscularmente acelerado.“se a Nova chega com o crepúsculo ou com a noite. Em uma pausa. o complexo plástico foi por ele mesmo plantado sobre uma gigantesca caçarola de cobre de cabeça para baixo.indd 113 7/4/2009 15:51:21 . Bruscamente um complexo plástico de chocolate e torrone. em equilíbrio sobre as pedras polidas e trementes do pensamento.A cozinha futurista trêmulo. Temia a que estava por vir. Entretanto. Giulio Onesti disse: .” No entanto. 113 Cozinha futurista. não trabalhamos para ela. Foram desenformados por Prampolini e Fillìa: uma velocidade esguia. de rosas violetas e cachias que no parque e na cozinha a brisa primaveril. oferecer-lheemos uma aurora artística comestível realmente inesperada. Prampolini e Fillìa restauravam seus estômagos de quando em quando com um saboroso pedaço de estátua. de biscoitos. Giulio Onesti manifestava uma inquietude que não correspondia à serenidade futurista de seu cérebro. se bem que ideal. esbeltíssimo “lazo” de massa podre. remisturava.

na realidade. na vasta sala das armas. Prampolini e Fillìa esperavam o dono da casa convidado.indd 114 7/4/2009 15:51:21 . Alegria dos lábios. haviam sido amontoados rechaçados brutalmente como por uma mágica força sobre-humana. A sua arquitetura oblíqua de curvas macias perseguindo-se no céu escondia a graça de todos os pezinhos femininos em uma farta e açucarada relojoaria verde de palmeiras de oásis que mecanicamente engrenavam os seus tufos à roda dentada. 114 Cozinha futurista. Paixão. Marinetti. Era um complexo plástico a motor comestível. Prampolini e Fillìa. Estalar de língua. Às seis da tarde desenvolver-se no alto de doces dunas de carne e areia em direção a dois grandes olhos de esmeralda nos quais a noite já se adensava. Conter a respiração para não estragar um sabor cinzelado. A obra-prima. Todo o céu nas narinas. colaborando. perfeito. Sobre-humana.Fillippo Tommaso Marinetti Com calma retomar a matéria. perto de uma vidraça cheia de ácidas e doentias luzes sublacustres. e das mais belas Áfricas sonhadas.“verão que ele a vencerá. Em um canto. montes de alabarda e feixes de carabinas. em rixa com dois enormes canhões de montanha. no parque. Nervos. Prampolini disse: . por sua vez. sob onze globos elétricos. resplandecia no ângulo oposto. Crucificá-la sob pregos agudos de vontade. Mais abaixo sentia-se a estridente felicidade dos riachos paradisíacos. Tinha como título as curvas do mundo e os seus segredos.” Soou mediunicamente a campainha ao fundo. os futuristas Marinetti. *** À meia-noite. para inaugurar – experimentar juntos a grande Mostra de escultura comestível já pronta. a mostra dos 22 complexos plásticos comestíveis. tinham-lhe inoculado o suave magnetismo das mulheres mais belas.

uma concha-toca para fera refinada. nas peliças e nos tapetes. nuvem investida por projetores na noite. pareceu-nos o fruto ideal para morder mastigar sugar. que cuidadosamente e esculturalmente escavava para o próprio corpo. mas de uma beleza tradicional. Giulio Onesti sonhava ou escutava. nas almofadas. Marinetti.“Amamos as mulheres. Prampolini e Fillìa falaram alternando-se como três êmbolos bem lubrificados da mesma máquina.“não me julguem uma idiota – murmurou com graça lânguida – estou estonteada. Belíssima mulher. os pensamentos que os dominaram enquanto esculpiam tantos deliciosos odores sabores cores ou formas. Para sua sorte. Prontos puseram-se em pé. os grandes olhos verdes. uma viril mas cansada. Disseram: . jaziam cansadíssimos Marinetti. a outra feminina e agressiva. revolucionavam e acendiam as curvas pacatas e a delicada elegância minuciosa do pescoço. a imobilidade e o silêncio dos cinco. Depois. ” A ela. dela. . O seu coração. sob a curta testa inundada de ricos cabelos quase louros e quase castanhos. se apertado pelo supremo prazer do amor. Muitas vezes nos torturamos com mil beijos gulosos na ânsia de comermos uma. Prampolini e Fillìa sobre um amplo tapete de plumas dinamarquesas que pela maciez madreperolada à luz elétrica parecia viajar. as intenções.A cozinha futurista Entre todos. e o rosto voltado para o centro da terra. De bruços aos seus pés. dos ombros e das ancas esbeltas apenas embainhadas por mohair dourado. cheios de falsa ingenuidade infantil. Suplico-lhes que me expliquem as razões. O seu engenho me espanta. porém ao som de duas vozes. Todas as formas da fome que caracterizam o amor nos guiaram na criação destas 115 Cozinha futurista. aquele intitulado as curvas do mundo e os seus segredos perturbava. Como exauridos por tanto aerodinamismo lírico-plástico. Uma breve troca de gentilezas assombros regozijos a ela.indd 115 7/4/2009 15:51:21 . Nuas sempre nos pareceram tragicamente vestidas.

o intestino igualmente enamorados. O fascínio. a única e todas encontravam-se aqui. não só o tato e relativas carícias.. uma expressão artística tão intensa que exige não só os olhos e relativa admiração. o estômago. depois jogou a cabeça para trás e adormentou-se também. Arte temporânea. a alvorada. diante de nossas mãos. Vocês nos julgam selvagens. a ingenuidade. de imagens e de ímpetos afinava-se com o murmúrio assobiado e metálico do canavial no Lago acariciado pela brisa noturna. a língua. O eterno feminino fugitivo aprisionado no estômago. toda novas leis. você poderá ler esta noite as originais bisbilhotices erótico-sentimentais que suscitaram nos artistas certos sabores e certas formas aparentemente incompreensíveis. Arte comestível.indd 116 7/4/2009 15:51:21 . os pruridos e as rebeliões contra a antiquíssima escravidão. o furioso turbilhão do sexo..” Acrescentou Marinetti: . 116 Cozinha futurista. Cem moscões lilases azuis davam uma artística investida enlouquecida em direção aos altos globos elétricos. incandescências a serem esculpidas a qualquer custo e o mais rapidamente elas também. o pudor. O fraco murmúrio das respirações carregadas de desejo.“neste catálogo da Mostra de escultura comestível. Prampolini e Fillìa.Fillippo Tommaso Marinetti obras de gênio e de língua insaciável. Somos os novos elementos instintivos da grande Máquina futura lírica plástica arquitetônica. toda novas diretrizes. a graça infantil. outros nos crêem complicadíssimos e civilizadíssimos. A apaixonada superaguda tensão das mais frenéticas luxúrias finalmente apagadas. A mulher contemplou-os por alguns minutos. São os nossos estados de ânimo realizados. . mas os dentes.” .a menos que o macérrimo Fillìa.“ninguém a comerá por enquanto – disse Prampolini .“por caridade – suspirou sorrindo – moderem a sua selvageria.” Uma longa pausa de silêncio fulminou de sono Marinetti. Arte leve voadora. a chuva de todas as impaciências e de todas as denguices.

Escultores e escultoras dormiam. com as costas suspeitosas de um ladrão. Às três daquela noite. Giulio girando naquele instante a cabeça para a direita e para a esquerda. Giulio saiu então para o parque todo invadido pelos sobressaltantes encanamentos dos rumores do trovão. Aproveitador e aproveitado. como uma tigresa alongada. Quando a sua língua deslizou sobre os longos cílios que defendiam as grandes jóias do olhar. Seguiu-se a chuva das lágrimas vãs. Possessor e possuído. Sem fim. 117 Cozinha futurista. as nuvens velozmente adensadas sobre o Lago deram à luz um precipitante raio cor-de-laranja com longas pernas verdes que rompeu o canavial a poucos metros da sala das armas. liberado. Talvez para se refrescar. com um tremendo torcer de rins. Estava ao mesmo tempo desobstruído.A cozinha futurista De improviso.indd 117 7/4/2009 15:51:21 . Ao alvorecer comeu as esferas mamais de todo leite materno. sem fazer barulho. com a cabeça descoberta. percorreu com o olhar circular a sua grande sala de armas e decidido dirigiu-se ao alto complexo plástico as curvas do mundo e os seus segredos. vazio e transbordante. começou a amorosa adoração com os lábios. Levantou-se agilmente. Apalpando e derrubando o belo palmar açucarado. convenceu-se que escultores e escultoras de vida dormiam profundamente. Intensificava-se assim o sono dos escultores e das escultoras de vida. Ajoelhandose em frente. mordeu e comeu um suave pezinho patinador de nuvens. Único e total. fincou os dentes no farto coração dos corações do prazer. a língua e os dentes.

Fillippo Tommaso Marinetti O mAniFestO dA cOzinhA FuturistA Ideologia e polêmicas A refeição do “Penna d’Oca” e o manifesto da cozinha futurista Desde o início do Movimento Futurista Italiano. Isto era muito discutido entre Marinetti. algumas tentativas de renovação cozinhária. Balla. zug. Sant’Elia.indd 118 7/4/2009 15:51:21 . agressiva das raças. Boccioni. agitou os maiores futuristas. isto é. Russolo. na Itália e na França. zag cordeiro assado ao molho de leão saladinha à aurora sangue de Baco “terra ricasoli” rodinhas pontuais de alcachofra 118 Cozinha futurista. Esta lista de pratos: ganso gordo sorvete na lua lágrimas do deus “Gavi” brodo de rosas e sol favorito do mediterrâneo zig. ofereceu aos futuristas milaneses um banquete que queria ser um elogio gastronômico do futurismo. Houve. em 15 de Novembro de 1930. a importância da alimentação sobre a capacidade criativa. fecundadora. Subitamente. há 23 anos (Fevereiro de 1909). a urgência de uma solução impôs-se: O restaurante PENNA D’OCA de Milão. dirigido por Mario Tapparelli.

e os futuristas Depero. O macarrão. etc. que deve ser adaptado o mais brevemente possível às necessidades dos novos esforços heróicos e dinâmicos impostos à raça. pessimistas. Prampolini. Ravasio. convidado a falar diante de um receptor da Radio. Gerbino. Prampolini. Escodamè. Depero. as iguarias eram timidamente originais e ainda ligadas à tradição gastronômica. por outro lado. Umberto Notari. disse: . Dep. A cozinha futurista será libertada da velha obsessão por volume e peso e terá. como um de seus princípios.indd 119 7/4/2009 15:51:21 . O cozinheiro Bulgheroni foi repetidamente aclamado. Escodamè e Gerbino. Exª. S. Exª Fornaciari Prefeito de Milão.” Este discurso suscitou entre os convidados aplausos enlouquecidos e pouco claras irritações. Marinetti. E era lógico porque. É. exceto o brodo de rosas que inebriou os paladares futuristas de Marinetti. Ex. ilude sobre sua capacidade nutritiva. 119 Cozinha futurista. Os menos futuristas eram os que mais aplaudiam. a abolição do macarrão. S. Pick Mangiagalli. lentos. patriótico favorecer sua substituição pelo arroz. Marinetti desafiou as ironias precisando seus pensamentos.“anuncio-lhes o próximo lançamento da cozinha futurista para a renovação total do sistema alimentar italiano. é uma comida passadista porque estufa. Chiarelli. enfeia. torna-nos céticos. apesar de agradar ao paladar. Dep. Marinetti.A cozinha futurista chuva de algodão doce espuma hilariante “cinzano” fruta colhida no jardim de Eva café e licores agradou muito aos convidados: S. disposto sobre a mesa entre “rodinhas pontuais de alcachofra” e “chuva de algodão doce”. Giordano. Farinacci. Repaci. Steffenini. Sansanelli.

pai de numerosos futurismos e vanguardistas estrangeiros.Fillippo Tommaso Marinetti No dia seguinte. não permanece prisioneiro das vitórias mundiais obtidas “em 20 anos de grandes batalhas artísticas políticas muitas vezes consagradas com sangue” como definiu Benito Mussolini. aos literatos. das senhoras aos cozinheiros. às amas de leite. aos astrônomos. Entre todos os movimentos artísticos literários. O Futurismo italiano enfrenta ainda a impopularidade com um programa de renovação total da cozinha. aos camponeses. O novecentismo pictórico e o novecentismo literário são. eles experimentam prudentemente o novo para obter de cada um a máxima vantagem. Cada vez que. dois futurismos de direita moderadíssimos e práticos.indd 120 7/4/2009 15:51:21 . Arraigados à tradição. eram entrelaçadas imediatamente intermináveis discussões. aos estivadores. por Benedetto Croce “anti-historicismo”. por Graça Aranha “liberação do terror estético”. em qualquer restaurante. é o único que tem por essência a audácia temerária. na realidade. fórmula da “arte120 Cozinha futurista. era servido macarrão. aos soldados. cantina ou casa da Itália. na Gazzetta del Popolo de Turim apareceu O Manifesto da cozinha futurista O Futurismo italiano. Contra o macarrão O Futurismo foi definido pelos filósofos “misticismo da ação”. *** No dia 28 de Dezembro de 1930. em todos os jornais estourou uma polêmica violentíssima da qual participaram todas as categorias sociais. aos moleques. por nós “orgulho italiano (i)novador”.

a nossa língua. A volúpia do palato . em leque. nós afirmamos esta verdade: pensa-se sonha-se age-se de acordo com o que se bebe e o que se come. as nossas secreções glandulares e entramos genialmente na química gástrica. Antipraticamente. “esplendor geométrico veloz”. luz. 121 Cozinha futurista. sempre mais com a italiana. vontade. “religião da velocidade”. Nós futuristas sentimos que para o macho a volúpia de amar é escavadora abissal do alto para baixo. então. nós futuristas negligenciamos o exemplo e a exortação da tradição para inventar a qualquer custo um novo. julgado por todos louco. tenacidade heróica. criado o esplendor geométrico arquitetônico sem decorativismo. ousadia. Consultamos a este respeito os nossos lábios.indd 121 7/4/2009 15:51:21 . “estética da máquina”. as nossas papilas gustativas. nós futuristas após termos agilizado a literatura mundial com as palavras em liberdade e o estilo simultâneo. Mesmo reconhecendo que homens mal ou grosseiramente nutridos realizaram grandes coisas no passado. mais impetuoso. Harmonize-se. “máximo esforço da humanidade para a síntese”. ternura. Convencidos de que na provável conflagração futura vencerá o povo mais ágil. de baixo para o alto do corpo humano. esvaziado o teatro do tédio mediante sínteses alógicas por surpresa e dramas de objetos inanimados. ao contrário. Preparamos uma agilidade de corpos italianos adaptados aos levíssimos trens de alumínio que substituirão os atuais pesados de ferro madeira aço. é para o macho e para a fêmea sempre ascendente. ao contrário. enquanto que para a fêmea é horizontal. “higiene espiritual”. delgada transparência espiral de paixão. imensificado a plástica com o anti-realismo.A cozinha futurista vida original”. o nosso paladar. Sentimos além disso a necessidade de impedir que o Italiano torne-se cúbico maciço enchumbado por uma compactação opaca e cega. “método da infalível criação”.

absurda religião gastronômica italiana. artistas inspirados. o rosbife e o pudim. Porque opor ainda o seu bloco pesante à imensa rede de ondas curtas longas que o gênio italiano lançou sobre os oceanos e continentes. advogados engenhosos. e às paisagens de cores formas rumores que a radio-televisão faz navegar em torno da terra? Os defensores do macarrão carregam a bola de ferro ou a ruína no estômago. escreve: “Diferentemente do pão e do arroz.Fillippo Tommaso Marinetti a cinematografia e a fotografia abstratas. Um inteligentíssimo professor napolitano.indd 122 7/4/2009 15:51:21 . liga com seus emaranhados os italianos de hoje aos lentos teares de Penélope e aos sonolentos veleiros. mas aos italianos o macarrão não beneficia. aos legumes. contrasta com o espírito vivaz e com a alma apaixonada generosa intuitiva dos napolitanos. ao peixe. Acreditamos antes de tudo necessário: a) a abolição do macarrão. aos holandeses a carne cozida com queijo. Por exemplo. estabelecemos agora a nutrição adequada a uma vida sempre mais aérea e veloz. nutritivamente inferior em 40% à carne. agricultores tenazes a despeito do volumoso macarrão quotidiano. o toucinho defumado e o salame. Convite à Química O macarrão. Este alimento amiláceo é em grande parte digerido na hora pela saliva e o trabalho de transformação é desempenhado pelo pâncreas e pelo fígado. Dele derivam: fraqueza. como prisioneiros ou arqueólogos. Estes foram combatentes heróicos. à busca de vento. o Dr. o macarrão é um alimento que se engole. oradores impetuosos. pessimismo. Talvez beneficiem aos ingleses o bacalhau. Ao comê-lo eles descobrem um típico ceticismo irônico e sentimental que trunca muitas vezes o seu entusiasmo. Recordem-se ainda que 122 Cozinha futurista. aos alemães o chucrute. Isto leva a um desequilíbrio com distúrbio destes órgãos. inatividade nostálgica e neutralismo”. não se mastiga. Signorelli.

b) A abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar a nutrição. A originalidade absoluta das comidas.indd 123 7/4/2009 15:51:21 . Este. permite aperfeiçoar e nobilitar as outras horas com o pensamento as artes e a pregustação de refeições perfeitas.000kw é necessário somente um operário. gorduras sintéticas e vitaminas. Convidamos a química ao dever de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos gratuitos do Estado. Acrescen- 123 Cozinha futurista. sal e azeite até que esteja bem dourado. d) A abolição do cotidianismo medíocre nos prazeres do palato. c) A abolição das combinações tradicionais para a experimentação de todos as novas combinações aparentemente absurdas. compostos albuminosos. louças. O “carnescultura” Exemplo: Para preparar o Salmão do Alasca aos raios do sol com molho Marte. pega-se um belo salmão do Alasca.A cozinha futurista a abolição do macarrão libertará a Itália do custoso grão estrangeiro e favorecerá a indústria italiana do arroz. Uma harmonia original da mesa (cristais. O almoço perfeito exige: 1. para 2. Atingir-se-á assim uma real baixa do preço da vida e do salário. com relativa redução das horas de trabalho. ornamentos) com os sabores e as cores das comidas. As máquinas constituirão rapidamente um obediente proletariado de ferro aço alumínio a serviço dos homens quase totalmente aliviados do trabalho manual. Em todas as classes as refeições serão distanciadas mas perfeitas no cotidianismo dos equivalentes nutritivos. Hoje. segundo o conselho de Jarro Maincave e outros cozinheiros futuristas. corta-se e passa-se na grelha com pimenta. sendo reduzido a duas ou três horas. em pó ou pílulas.

cubra seu estômago com fatias de presunto e toucinho. (Fórmula de Bulgheroni. borrifando-a com conhaque. sal. Sirva-a com este molho: meio copo de Marsala e vinho branco. No momento de servir colocam-se sobre as postas de salmão alguns filetes de anchova entrelaçados (como jogo de damas). e será peneirado. coloque-a numa caçarola com manteiga. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) Exemplo: Para preparar a Perdiz à Monterosa molho Vênus. cozinhe-a em forno muito quente por quinze minutos. tudo fervido por dez minutos. Sobre cada posta uma rodelinha de limão com alcaparras.indd 124 7/4/2009 15:51:22 . casca de laranja picadinha. limpe-a. pimenta. interpretação sintética das paisagens italianas. Leve novamente ao forno até que a massa esteja bem cozida. pegue uma bela perdiz. O molho será composto de anchovas. (Fórmula de Bulgheroni.Fillippo Tommaso Marinetti tam-se tomates cortados ao meio previamente cozidos sobre a grelha com salsinha e alho. cuja harmonia original de forma e cores nutra os olhos e excite a fantasia antes de tentar os lábios. Apenas retirada da caçarola. Exemplo: O carnescultura criado pelo pintor futurista Fillìa. Coloque o molho na molheira e sirva-a muito quente. quatro colheres de cassis. gemas de ovos cozidos. azeite. manjericão. primeiro cozinheiro do Penna d’Oca) A invenção dos complexos plásticos apetitosos. coloque-a sobre uma fatia torrada de pão quadrado ensopado com rum e conhaque e cubra-a com massa folhada. 124 Cozinha futurista. um cálice de licor italiano Aurum. é composta por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada de onze qualidades diferentes de verduras e legumes cozidos. zimbro.

O cimo do cone será coberto por pedaços de trufas negras cortadas em forma de aviões negros para a conquista do zênite. O uso da música limitado nos intervalos entre os pratos para que não distraia a sensibilidade da língua e do palato e sirva para aniquilar o sabor apreciado restabelecendo uma virgindade degustativa. vinte sabores para experimentar em poucos instantes. 10.A cozinha futurista Equador + Pólo Norte Exemplo: o complexo plástico comestível Equador + Pólo Norte criado pelo pintor futurista Enrico Prampolini é composto por um mar equatorial de gemas de ovo em sua própria casca. No centro emerge um cone de claras de ovos batidas e solidificadas cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. A abolição da eloquência e da política à mesa. sob os narizes e os olhos dos convidados. O uso dosado da poesia e da música como ingredientes inesperados para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma certa vianda. Um dado bocado poderá resumir uma 125 Cozinha futurista. a surpresa e a fantasia. de alguns pratos que eles comerão e de outros que eles não provarão para favorecer a curiosidade. A apresentação rápida entre um prato e outro. Cada prato deve ser precedido por um perfume que será cancelado da mesa por meio de ventiladores. A abolição do garfo e da faca para os complexos plásticos que possam dar um prazer tátil pré-labial.indd 125 7/4/2009 15:51:22 . Estes pratos terão na cozinha futurista a função analógica imensificante que as imagens têm na literatura. O uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. com pimenta sal limão. A criação de pequenos pratos simultâneos e cambiáveis que contenham dez. Estes complexos plásticos apetitosos coloridos perfumados e táteis formarão perfeitos almoços simultâneos.

jornal dirigido com grande competência e genialidade por Umberto e Delia Notari. Ducceschi. evitando por exemplo o erro de cozinhar as comidas em panelas a pressão. 11. etc. Esquecem os outros deveres dinâmicos da raça.indd 126 7/4/2009 15:51:22 .). e o turbilhão angustioso 126 Cozinha futurista. O uso destes aparelhos deverá ser científico. obedecem à prepotência de seus paladares. pouco cientificamente. em uma trattoria de Posillipo.) por causa das altas temperaturas. etc. etc. Parecem falar à mesa. Foà. moinhos coloidais para tornar possível a pulverização de farinhas. Londono. Um conjunto de instrumentos científicos na cozinha: ozonizadores que dêem o perfume do ozônio a bebidas e comidas. excesso de doce. excesso de vinagre. impedem o raquitismo nas crianças. lâmpadas para a emissão de raios ultravioleta (já que muitas substâncias alimentares irradiadas com raios ultravioleta adquirem propriedades ativas. dializadores. Os indicadores químicos darão conta da acidez e alcalinidade dos molhos e servirão para corrigir eventuais erros: falta de sal. Lombroso. excesso de pimenta. etc. esterilizadores centrífugos. iniciou uma pesquisa enquanto enfurecia a polêmica mundial pró e contra o macarrão e pró e contra os pratos futuristas. Marinetti *** A “Cozinha Italiana”. a boca beatamente cheia de espaguete ao vôngole. frutas secas. F. Entre muitos. o que provoca a destruição de substâncias ativas (vitaminas. extratos etc.. Estes. especiarias. defenderam o macarrão os doutores Bettazzi. Viale.T. de modo a obter de um produto notável um novo produto com novas propriedades. aparelhos de destilação a pressão comum e à vácuo. Não possuem a lucidez espiritual do laboratório. Pini. eletrolisadores para decompor sucos. o desenvolver de uma paixão amorosa ou uma inteira viagem ao extremo Oriente. tornam-se mais assimiláveis.Fillippo Tommaso Marinetti inteira zona de vida.

E o macarrão é antiviril porque o estômago pesado e cheio não é nunca favorável ao entusiasmo físico pela mulher nem à possibilidade de possuí-la diretamente. que condimentam os pratos futuristas. NICOLA PENDE (clínico). as músicas e o tato. contentes com a melancolia e propagandistas da melancolia. os de carne têm caráter veloz e agressivo”. Na mesma pesquisa brilham entretanto as inteligências dos Médicos que dizem: “o uso habitual e exagerado do macarrão determina certo aumento de peso e exagerado volume abdominal” “os grandes consumidores de macarrão têm caráter lento e pacífico. Prof. encontrará ali dentro a triste satisfação de tapar com ele um buraco negro. Somente uma refeição futurista pode realegrá-lo. E não é só: os perfumes. são unicamente comparáveis aos excitantes. Qualquer “macarroneiro” que consulte a própria consciência honestamente no momento de engolir a sua biquotidiana pirâmide de macarrão. preparam o sereno e viril estado de ânimo indispensável para a tarde e a noite. Mesmo esforçando-se para legitimar os seus prazeres bocais. Ilude-se.indd 127 7/4/2009 15:51:22 . Todos os defensores do macarrão e os obstinados inimigos da cozinha futurista são os temperamentos melancólicos. Este ávido buraco é a sua incurável tristeza. as músicas.A cozinha futurista de esplêndidas velocidades e de violentíssimas forças contraditórias que constituem a vida moderna. mas não o tapa. 127 Cozinha futurista. devem convir que outras comidas são pelo menos tão nutritivas quanto o macarrão. enquanto são considerados por nós como atos que criam sobre o comensal um estado de ânimo otimista singularmente útil para uma boa digestão. Alguns destes declaram que os perfumes. etc.

De qualquer modo. C. uma preparação suficiente com a mastigação”. Dr. O Duque 128 Cozinha futurista. foram feitas pelo “Jornal de Domingo” de Roma e por outros jornais italianos. convém uma alimentação mista. como o pão. e portanto nunca exclusivamente feita de um só alimento”. GABBI (clínico) “penso que o uso do macarrão seja nocivo aos trabalhadores intelectuais. Prof. Prof.indd 128 7/4/2009 15:51:22 . HERLITZKA (fisiologista) “o valor nutritivo do macarrão não apresenta características especiais que possam torná-lo preferível aos outros tipos de farináceos”.Fillippo Tommaso Marinetti “deve-se trocar alimentos pela lei biológica: a repetição constante do mesmo alimento. Senatore ALBERTONI “É questão de gosto e preço de mercado. é prejudicial”. possam conceder-se carne e outros pratos”. a experiência o mostra. Prof. pró e contra o macarrão. além da sopa. Senatore U. Prof. A. ANTONIO RIVA “o macarrão não pode ser considerado como um alimento de fácil digestão porque dilata o estômago e não sofre. às pessoas que levam vida sedentária e sobretudo àqueles que. TARCHETTI *** Outras pesquisas. Prof.

Salvatore di Giacomo etc. a polêmica espalhava-se através de centenas de artigos. no Paraíso. etc. No entanto. declarou que “os Anjos. consagrando com isto a monotonia pouco atraente de Paraíso e da vida dos Anjos. Marco Ramperti. por exemplo. Alfredo. destaca-se este de Ramperti. 129 Cozinha futurista. T. Você é a amabilidade em pessoa. Dona Elvira etc. por serem incapazes de renovar a sua cozinha. etc. que não são sempre aquelas do tatilismo e das palavras em liberdade. Recordamos.A cozinha futurista de Bovino. todos. aumentavam as adesões e os entusiasmos pela luta contra o macarrão. respondendo a uma destas pesquisas. Angelo Frattini. Arturo Rossato. Recordamos o número completamente dedicado à cozinha futurista do “Travaso” de Roma e as inumeráveis caricaturas que apareceram no “Guerin meschino”. temperada com molho de tomates. com todos os socos e bofetadas da sua dialética de assalto. Entre todos os artigos. favoráveis ao macarrão. os escritos de Massimo Bontempelli. pertenço à extrema direita do parlamento futurista. Paolo Buzzi. Giaquinto. Você queria ser gentil. e não poderia falar com mais graça de alguém que. Marinetti”: Caríssimo Lembra-se? Você escreveu. que eu. prefeito de Nápoles. Mas.. enquanto os inimigos da cozinha futurista contentavam-se com ironias fáceis e nostálgicas lamentações. meu caro Marinetti. parecida com o espaguete. publicado no “Ambrosiano” como “carta aberta a F. uma vez. “Giovedì”. Recordamos os diversos pareceres dos cozinheiros romanos Ratto.indd 129 7/4/2009 15:51:22 . Paolo Monelli. “Marc’Aurelio”. “420”. Paggi. Cecchino. não comem outra coisa além de ‘vermicelli al pomodoro’12”. tem entretanto suas idéias. e deu-me um pequeno posto à sua 1 Massa longa. sendo atento e amigo.

Mas creia-me: será necessário ter coragem. a ceder esta prioridade por um prato de macarrão. Você vê como os italianos. ai de mim. tocados no epigástrio. que desta vez a batalha será fácil. quem sabe por quanto tempo ainda. 130 Cozinha futurista. o macarrão voltará às mesas. justamente. Mas não renunciam ao macarrão. Aceitam o tatilismo. o salto. Então apareceu a sua insurreição convival. os intonarumores. deseperado. para levar a bandeira desta sua última ofensiva. E de fato parece a mais difícil. tão sensíveis eram as discrepâncias. Parece-me que a revolução alimentar seja a mais cuidadosa ente quantas você tenha suscitado. Desde aquele dia. como fez Esaú por um de lentilhas. todavia. absoluto. enquanto poderia muito bem me deixar do lado de fora. e entendem. Ainda que eu não seja. reanimado. Marinetti. Ah! Não creia. e nós deveremos. o passo de corrida: mas com sua porção de espaguete. o seu manifesto contra o macarrão: e eis que. esta nossa gente. infelizmente. fanático. refeito em um momento cheio de audácia fiel. reaver a primazia no mundo: dispostos. e tornavam insuportáveis a minha presença na sua assembléia. já se rebelam. Por isso peço.indd 130 7/4/2009 15:51:22 . e não a um apetite. Veja como é feita.Fillippo Tommaso Marinetti direita. iluminado. agora lhe peço. o mais jovem do seu regimento. grita-lhe o seu consenso pleno. oh! Marinetti. Aceitam o soco. as palavras em liberdade. o seu pálido futurista ad honorem passa de um salto da extrema direita para a extrema esquerda da sua assembléia. muitas vezes os seus decretos-leis colocaram-me no cruel dilema de assinar a minha demissão. por Deus. Aceitam. a honra de servir-lhe. entre os conversíveis. As críticas serão muitas. entre os passadistas sem remédio e sem direito. predicar a barrigas cheias e corações desertos. Capaz de renunciar a todos as comodidades. a todas as vantagens. confesso-lhe. e. ou então de pedir a sua.

furibundos possíveis. Mas sendo o mais nefasto. e você tem cem razões para atacá-la ferozmente. Já que os italianos consentiram ao princípio futurista que se façam os mais ágeis. costumava dizer que do outro lado do Reno. Ora. A nossa. à tenacidade e obstinação de certas atitudes do estômago. Existe o calcanhar de Aquiles. Na verdade. se não fosse por uma salsicha com chucrute. E eis aqui a mola da sua revolta reparadora. esta outra abnegação? Liberemo-nos também do macarrão. que é ele também uma escravidão. exprime o seu verbo. chegará por fim o dia em que se convencerão que. e existe o paladar do futurista. este outro vício. como a estátuas de fontes. ninguém saberia cometer uma vilania. exceto a uma glutonaria. pode causar prazer ou vergonha. elasticidade e energia. exceto a uma porção de vermicelli. O que quer dizer. repensando naquele Polichinelo que resistia a tudo. limitar as próprias refeições à gota essencial e à migalha leonina.indd 131 7/4/2009 15:51:22 . com aquela sensação de inutilidade que. mas em todo o caso deve ser 131 Cozinha futurista. o macarrão é precisamente o mais difundido e calamitoso. É um juízo que me vem à mente. oh! Marinetti. e que nos prega à cadeira. o conde de Gobineau. Não é a primeira vez que um povo nos ensina a saber renunciar a tudo. elétricos. apopléticos e suspirantes. Este grande amor pelo macarrão é uma debilidade dos italianos. nada poderia ajudar mais do que o comer pouco e escolhido. este outro hábito. como a perus de Natal. Que nos incha as bochechas. é também o menos maldito. para alcançar um tal estado de graça. repletos e estupefatos. entre todos os alimentos estufantes e paralisantes que contradizem o seu programa de rapidez. justamente. ativos.A cozinha futurista Não importa. que nos liga as entranhas com os seus arames moles. a não ser repensando. no entanto. vencendo tarde. que nos entope o esôfago. segundo o indivíduo. esta sua última propaganda. estabelece a sua lei. como em todas as boas revoluções. Um francês que estimava os alemães. velozes. Venceremos melhor. é a mais conseqüente e lógica entre todas aquelas derivadas do seu manifesto cardinal de há vinte anos: e não se compreenderiam tantas resistências.

para uma tal gulodice. Não temos mais nem a sílaba fácil nem a imagem pronta. Depois nos concederam os garfos. Mas é um prazer efêmero. ao lado de seu ímpeto bestial. ou somente jovem e acordada. O pouco molho que trazem aos lábios é o molho de tomate. Sabe-se hoje em toda a Europa quantas porções dele come Primo Carnera. Seria necessário ensinar a vanidade deste nosso apetite. Dizia-se. um tempo. que nós comíamos os espaguetes com as mãos: e talvez o sentido da maledicência era que não podiam. talvez para ter o direito de dizer em Genebra que também os italianos andam armados até os dentes: mas os espaguetes não foram tirados do nosso quadro folclorístico. separar-se a deselegância e a imundície. Resumindo. O sustento é mínimo se confrontado com o volume. O seu gosto está todo naquele assalto com as mandíbulas tensas. No fundo. O italiano das alegorias sempre tem a boca ávida arreganhada sobre um prato de tagliatelle. os espaguetes infestam e pesam. que serve somente para encher a boca. em algumas metáforas indecorosas. subitamente. disforme. o perigo e a desonra deste mito dos macarrões: macaroni que resultaram. cheios de chumbo.indd 132 7/4/2009 15:51:22 .Fillippo Tommaso Marinetti detestada por quem ostente uma alma futurista. feia. Os pensamentos desfilam um dentro do outro. voce entendeu perfeitamente. além dos Alpes. E sentimo-nos. E é uma imagem ofensiva: engraçada. como moedas falsas. o macarrão não nutre. um verdadeiro alimento italiano. como em 1894 sabia-se quantas devorasse Francesco Crispi. naquele sentir-se unificado com ela. 132 Cozinha futurista. meu caro Marinetti. quando não é sobre vermicelli despejando molho ao longo de nossos ansiosos braços. naquele voluptuoso empanturrar-se. Engolidos que são. aglomerados e amalgamados. As palavras aglomeram-se do mesmo modo. como um tronco. Mas é um gosto porco. Alguma coisa nos retém. embaralhamse como os vermicelli absorvidos. gostariam de dizer as alegorias malignas. O nosso macarrão é como a nossa retórica. Enche: não fortalece. Mas é certamente. naquela aderência total da massa ao paladar e às vísceras. sentados. confundem-se.

energético.indd 133 7/4/2009 15:51:22 . erros de todo gênero. encher o ventrículo como se enche um saco. É a barriga que se incha à custa do cérebro. conceituais ou amorosos. li com entusiasmo o manifesto da cozinha futurista. rapaz. quando não demolidos desde o princípio. É certo que se pensa.Marinetti: “Seu férvido admirador desde quando. que dê força e substância em pequenas 133 Cozinha futurista. excitar e envenenar com drogas e lavagens. seguia com apaixonado interesse as batalhas purificadoras que o senhor combatia entre a indiferença e a incompreensão dos italianos da época. depois de uma orgia de tagliatelle. Quanto paraíso perdido.G. a picardia é medíocre. Aquele do macarrão expia-se no mesmo instante. saboroso. cronista-chefe da “Gazzetta del Popolo”. enquanto deveria ser a de preparar um alimento sadio. naquele momento. Sabe-se que os pecados da gula são os mais rapidamente punidos pelo Senhor Deus. a argumentação é impossível.T. agradável à vista.A cozinha futurista Pobre do que tiver perto. por um momento de descuidada animalidade? Marco Ramperti *** V. interrompida como é pelos soluços do intestino. como é certo que – a propósito da alimentação – os homens debatem-se ainda hoje entre incertezas. de todos os espíritos. se sonha. se age de acordo com o que se bebe e se come. O madrigal é insosso. um interlocutor ou uma amante. intervém na polêmica com esta carta a F. Ou mesmo para a arte de Vênus. contradições. ou o exílio. ao tato e ao paladar. Eu juro que restariam imobilizados desde o primeiro movimento.PENNINO. Experimentem então. partir para uma polêmica. Parece que a preocupação de quem se ocupa de cozinha seja aquela de empanturrar. É o encadeamento.

enfim. sais de cálcio.) a menos que com os absurdos cozimentos tais tesouros não sejam estupidamente destruídos e que. bendita a luta contra o funesto macarrão que com a sua cansativa digestão faz pesar o corpo e entorpecer o espírito. vitaminas. com o perfume de jardins tropicais e faça sonhar sem o uso de bebidas alcoólicas. exterminar tradições erradas: afirmar que o pão branco. quando se conseguir criar e difundir uma alimentação que saiba conciliar a menor quantidade ao máximo de poder nutritivo explosivo dinâmico. por exemplo. de carne e ovos que são consumidos por aqueles que desejam 134 Cozinha futurista. mas contanto que não seja privado de suas substâncias fitínicas com o polimento. pesado e insípido. fósforo. (Olhe que sou napolitano e conheço todos os agouros deste alimento). quando a cozinha não mais for mais o reino de donas-de-casa ineptas e de cozinheiros ignorantes e envenenadores. que as verduras contêm verdadeiros tesouros para o organismo humano (ferro. que desperte a fantasia com imagens e panoramas agrestes. que o arroz é um alimento precioso. e já foi demonstrado que uma pequena quantidade de alimento bem combinado segundo o conhecimento racional das necessidades do nosso organismo dá muito mais força e energia que pratos de macarrão.Fillippo Tommaso Marinetti quantidades. somente então a potência volitiva. de magnésio. então. Quando banirem das mesas da península o macarrão estufador e adormentador. É necessário abater outros ídolos. a brisa renovadora e saneadora na pesada atmosfera das cozinhas da Itália. a vivacidade. a teoria das calorias e das necessidades de uma grande quantidade de albumina animal e de gorduras teve seu tempo. mas tornar-se-á uma forja de sábias combinações químicas e sensações estéticas. Bendita seja. globulinas.indd 134 7/4/2009 15:51:22 . “Mas a luta contra o macarrão não basta. a fantasia. de potássio. é um alimento inútil que forma no estômago um bloco indigerível e deve ser substituído pelo integral perfumado e substancioso. etc. o gênio criador da raça alcançarão seu pleno desenvolvimento.

Estes devem ser usados com grande parcimônia especialmente pelos trabalhadores intelectuais. Cada povo deve ter a sua alimentação e aquela do povo italiano deve ser baseada nos produtos desta terra quente. especialmente se o convite à química lançado pelo senhor encontrar entre os cientistas italianos boa acolhida. (O contrário do que acontece comumente). porque enquanto visa renovar um ambiente muito fortemente arraigado ao passado. sadias. junto com um pouco de nozes e um pedaço de pão preto são para a caldeira humana um combustível muito mais idôneo e rentável que os famigerados macarrão ao ragu. os trabalhadores manuais e. substanciosas podem-se criar pratos que dão aos olhos. ao palato. É bom que se saiba que uma cenoura crua finamente ralada com óleo e limão. 135 Cozinha futurista. com as coisas mais simples. contra interesses formidáveis e contra a ignorância difusa – deverá encontrar muitos consensos na Itália de hoje. em geral. irrequieta. porque deve lutar contra tradições radicadas e tenazes.indd 135 7/4/2009 15:51:22 . tem uma enorme importância social e econômica. quem desenvolve grande atividade física podem fazer maior uso deles. à fantasia sensações bem mais intensas que os alimentos que hoje desempenham um belo papel nas melhores mesas.A cozinha futurista sustentar-se bem. um prato de cebolas ou de azeitonas ou estas coisas combinadas. Esperamos que os químicos italianos saibam fazer mais e melhor. deve ser por isso composta por três quartos dos maravilhosos produtos vegetais que nos são invejados por todo o mundo e por um quarto apenas de produtos animais. mas eles cometeram o erro de serem estrangeiros antes de tudo e muito caros. Por outro lado. Mono – inventou os “alimentos concentrados” cuja eficácia experimentei. vulcânica. “Assim a batalha que o senhor engajou – mesmo que se apresente duríssima. Um químico francês – o prof. enquanto os soldados. ou tagliatelle à bolonhesa ou bistecas à Bismarck.

Cozinheiro-Chefe de Sua Majestade o Rei da Itália. Angelo Vasta.indd 136 7/4/2009 15:51:22 . mas justamente convém recordar o que escrevia o seu concidadão Dr.. recordamos os mais originais: O cozinheiro-chefe do Rei O Cavalheiro Pettini..Fillippo Tommaso Marinetti “Desculpe se me permiti enviar-lhe esta apressada nota. o nosso povinho está ainda numa fase primitiva. que me foi sugerida pelo seu belíssimo Manifesto. observando o seu alimento quotidiano. qualificou-o genialmente como a alimentação dos resignados. traz ao debate uma palavra precisa: “Não há dúvidas de que todos os farináceos deixam o corpo pesado e em conseqüência. na carta direta ao jornal “A Cozinha Italiana”.. Schopenhauer e o macarrão O Dr. G. em um artigo sobre a cozinha futurista. afirma ainda: “necessidade de inovação.. mas pensei que não deveria ser-lhe desimportante – entre os muitíssimos que indubitavelmente receberá – o entusiástico consenso de um modesto estudioso dos problemas da alimentação”.PENNINO *** Dos muitos artigos surgidos a favor da luta futurista contra o macarrão. de modernismo também na cozinha. Carito em “Humanidade Artrítica”: . observa: “os napolitanos rebelaram-se. ameaçam a inteligência” e mais outros. que também ela deve responder aos tempos e talvez até antecedê-los”. Não fez maiores progressos desde o tempo em que Schopenhauer. 136 Cozinha futurista.V.

exercícios esportivos devemos radicalmente reformarmo-nos. No IX e último livro encontrar-se-á uma advertência explícita e formal contra o abuso do macarrão. Em tudo o que diz respeito a alimentação. O macarrão é de origem ostrogoda Libero Glauco Silvano.indd 137 7/4/2009 15:51:22 . até as assim ditas ‘dirigentes’..A cozinha futurista “Ai de mim! mesmo as nossas classes altas. mas que não se submetia à digestão de grandes quantidades de “trenette” e de carvão. intelectuais. a prescrição quase marinettiana ao muito inchado século XIV: todos os alimentos de massa devem ser usados pouquíssimas vezes “pasti alia denique et victualia paste rarissime sunt concedenda”. Reproduzimos aqui parte de seu divertido artigo contra o macarrão: 137 Cozinha futurista. gente dinâmica. E escreve: “Giovanni de Vigo iniciou a campanha contra o macarrão no século XIV. a recomendação. prelados e ministros. falando de Gênova) escreveu: “A prática em arte cirúrgica”. movimento. quando o bom e douto rapaz natural de Rapallo curava a Papas e príncipes. De onde a nomeada ‘indolência’ com que fomos marcados e vilipendiados nos séculos anteriores. não sabem alimentar-se bem! De onde o torpor da vida fisiológica com os seus inevitáveis reflexos nefastos na esfera psíquica. sim. em um longo artigo “Contribuição para uma arte culinária futurista” propõe algumas inovações alimentares. Amedeo Pescio insurge contra aqueles que chamam glória e honra dos genoveses os raviólis.. os tagliarinis etc.” Um médico do século XIV contra o macarrão Em um artigo do “Século XIX” de Gênova. Então o grandíssimo cirurgião da nossa cidade (como ele dizia. as lasanhas..

et il bolliva- 138 Cozinha futurista. lo quà prence affidato avealo a Rotufo. che avevasi invaghito dello ofiziale di guardia al palacio et al quale. em meio ao qual havia nascido: macarrão. existe para cantar-nos vida e milagres: “lo macarono nato fue et notricato appo gli Ostragoti. girava os olhos em torno como para impor respeito e reverência. como se descendesse de um lombo muito magnânimo para não dever considerar ainda menos o restante das criaturas gastronômicas. na casa do pobre ou do rico. Il conobbero gli sudditi dello rege. havia trabalhado ultimamente para enobrecê-lo. com um alimento bárbaro que vivia como um parasita em nossa civilização: falo dos macarrões ao sugo. por azeite rançoso e caprino.indd 138 7/4/2009 15:51:22 . para tirar-lhe de cima aquele tango de canalhice: haviam-no persuadido a não fazê-lo acompanhar por arrogantes e desavergonhadas cebolas. Teve sempre a mesma barriga. Este prato. discípulo e êmulo de BrillatSavarin. Entretanto. mesmo entre outros igualmente bestiais. Mesmo o nome relembrava o povo. Ergo. gli quai molto e volantieri con essolui si solaciavano.Fillippo Tommaso Marinetti Era tempo de acabar. confidogli la esistenzia dello nominato macarono. tra un baciuzzo et un baciozzo. pergunto-me. fazia-nos a figura de uma chimpanzé em um salão de damas sentimentais: e somente por um equivocado respeito à tradição continuava-se a suportar o seu fedor plebeu. os seus títulos nobiliários? A “Cronaca degli Memorabilia” de Dacovio Saraceno. tosco e oleoso de sujeira. tumultuosa e invasora: e não importa onde entrasse. por certos alhos pálidos e consumidos por vícios ocultos. sob as novas aparências tinha o modo e a vulgaridade do vilão refeito e de nada lhe valia a contínua freqüência com aquele agraciado e epicúreo mestre que se chama manteiga. coco suo genialissimo. idest in Ravenia. por sorte. por Deus. per virtude della femina del cuoco. adiposas como beldades de marinheiros. lo amore per essolui macarono s’espanse per lo populo omne. Mas quais eram. Dieto macarono erat di spulcia (leggi spelta) et hebbe sua prima dimora in la regia del magno prence Teodarico. Um bom cozinheiro. ao tomate ou como mais lhe agrada.

pela excessiva felicidade. intitulada “Verdade e despropósito”). engolia o macarrão já que não devia nem mesmo passar-lhe pela mente. tão arraigada era a tradição. limpando a boca sob os bigodes.indd 139 7/4/2009 15:51:22 . meterem-se a cavar grandes buracos na grama com as pesadas adagas e acocorar-se ao redor. tinha bom gosto demais para aceitar placidamente aquele prato: e. 139 Cozinha futurista. Talvez porque Boccaccio. Um biográfo bastante minucioso. Entretanto. acrescento eu. em angelical espera. lambiam-se os dedos e a cara! Era bem adequada aos seus insensíveis paladares aquela lavagem monstruosa temperada com suco de pepinos. vinham despejar no prato improvisado a verminalha viscosa dos “macarrões” e os braços peludos mergulhavam até os cotovelos no buraco fumegante e as bocas se abriam – nhau nhau – e os olhos lacrimejavam. diz o biógrafo. seu paladar aristocrático o refutava. os bigodudos Ostrogodos. sobre as bochechas cheias terrosas. Foi somente na Alta Idade Média (Cordazio Camaldolese: Pietanzie in usaggio appo aliquante nostre terre et regioni et insule et peninsule et similia con spiegato lor modo di prepararle in cucina 2) que os pepinos foram substituídos por tomates. cujo cultivo havia-se extendido muito desde quando o irmão Serenio. Parece-me vê-los. como comumente se afirma (confrontar a este respeito a obra definitiva de exegese histórica escrita por Valbo Scaravacio. cansadíssimas e imundas. de Boccaccio informa que o autor do Decamerão exigia de sua esposa que temperasse os macarrões com leite de amêndoas amargas: “mas. de poder fazê-lo de outro modo. de boa ou má vontade que fosse. Ah! Os gentis senhores elegantíssimos. trouxe a preciosa semente – e não larvas de bicho-da-seda. em verdade. et leccavansi digita et grugno”1. Depois. de qualquer forma mandasse prepará-lo. as dignas consortes. o grande escritor não conseguia digeri-los nem mesmo assim”. et il condivano cum suggo (sic) di cedriollo.A cozinha futurista no cum cipoglia et alio et pastonacca. muitas vezes prolixo. em seu retorno da China.

muito difundidas. meio-dia e noite. desapareceram das casas os quadros. eis que o vil e barulhento Aretino recoloca-a sobre os altares: e qual melhor meio de propaganda que as suas excitantes musas em carne e osso? Os que se banquetearam à sua mesa tornaram-se férvidos defensores do macarrão. Uma última tentativa foi feita na primeira metade de século XIX pelo grande Michele Scrofetta. nem mesmo a ambrosia”. os desenhos. no último estágio do renascimento. mesmo se quase inconscientemente engolia macarrão três vezes ao dia: manhã. iniciaram uma campanha ativa para que a humanidade se libertasse dos arreios da escravidão. o macarrão: por dizer. Puah. as fotografias e todo acidente que os representava: e as editoras retiraram do mercado 140 Cozinha futurista. seguros de que a razão de muitos males provinha daquela alimentação. para tornar-se benemérito aos olhos do digno senhor. a maldita lavagem não foi sepultada no esquecimento.indd 140 7/4/2009 15:51:22 . de cuja benemerência é inútil falar. compôs um rosário de sonetos para o alto elogio do alimento “a que nada pode ser comparado. Ao final do século XVIII muitos nobres engenhos. Somos. Quando já não se falava quase nunca dela. traziam artigos de pessoas que haviam adquirido grande autoridade nos campos das Ciências e das Letras: mas tudo foi inútil contra a abstenção das plebes também porque. Foram escritos inúmeros opúsculos e volumes de vários tamanhos: as gazetas. e um destes. trata-se de Martone Dagorazzi e suas cem composições poéticas intitulam-se: “A ambrosia dos homens”. nós filhos do século. naquele tempo. muito despreocupados para não mandar ao diabo macarrão e acessórios sem nem mesmo a carta de referências: e ninguém os lamentará ou espalhará ternas lágrimas. sendo conhecido por todos: e nem mesmo o eminente cientista alcançou algo concreto. Deveria caber à nossa época a ventura de repudiar definitivamente este costume bárbaro.Fillippo Tommaso Marinetti Por pouco. a panacéia universal. havia-se difundido a superstição de que o macarrão fosse o antídoto para toda doença. Que porcaria.

A tarefa. As nossas donas-de-casa continuam a preparar os alimentos à moda antiga porque não saberiam como fazê-lo de outra forma. não nos faça dormir sobre louros.indd 141 7/4/2009 15:51:22 . deva-se fazer uma grande limpeza. E conclui: “estou com o Maestro na violenta batalha pela saúde.A cozinha futurista todas as suas edições para submetê-las a uma rigorosa censura. do intelectualismo italiano Ferdinando Collai. frescor. Chefe da Central de Notícias de Bolonha. E vejam que já surgiu o primeiro núcleo de estudiosos que buscam oferecer uma cozinha adequada aos tempos. frescor do intelectualismo italiano”. mas para reconstruir são necessárias milhares e milhares de mãos. Em alguns meses. é colossal: para destruir basta uma única mão que acenda um pavio. Quero todavia acreditar que esta vitória. puah – as pessoas vomitarão até os intestinos. sobre os velhos livros de receita. mostram-se indignos de receber as graças de nossos gourmets e dos honestos pais de família e da prole estudiosíssima. agilidade. polemiza com “as torpes. sob uma rigorosa avaliação. apagando sem piedade. Elas sentem obcuramente que este ou aquele modo não estão certos. reimprimindo mesmo quando se fez necessário. pacifistas e congestionantes argumentações do amidáceo mais ilustre do mundo. no entanto. o bloco resistente do funestamente celebrado macarrão napolitano ou bolonhês”. se bem que notabilíssima. mas ignoram a que outro santo voltar-se. agilidade. estou convencido que. Existem outros pratos que. Aliás. somente de ouvir-lhe o nome – macarrão. 141 Cozinha futurista. Batalha pela saúde.

não poderia oferecer.Fillippo Tommaso Marinetti O macarrão não é alimento para os combatentes Paolo Monelli. são os mais prontos. já que sobre sua cozinha de batalhão rolavam de vez em quando enormes barris austríacos que destruíam os fogões: Marinetti duvidou então pela primeira vez do macarrão como alimento de guerra. o alimento comum era chocolate sujo de lama e de vez em quando um bife de cavalo cozido em uma panelinha lavada com água de colônia. sanitaristas e artistas. refúgios cômodos. em Nervesa e em Cabo Sile estão prontos a testemunhar que sempre comeram péssimos macarrões. em Selo. a improvisar equipamentos perfeitos. em Plava e nos reinos de Zagora e depois na Casa Dus. Isto talvez fosse verdade para os alpinos que.indd 142 7/4/2009 15:51:22 . nem com sua maior boa vontade. Os futuristas que combateram em Doberbó. por mais zeloso e devoto que fosse ao simpático cliente de uma única vez. como Marinetti. após as batalhas. barracas bem aparelhadas e decoradas e sábias cozinhas. na Vertoibizza. entre todos os combatentes. escaladas e avalanches. Para os bombardeiros de Vertoibizza. em sua defesa ao macarrão declara-o ideal alimento para os combatentes. Isto não é verdade para as tropas que combatem em solo plano. atrasados. Quem poderia esperar um macarrão quente e “al dente”? Marinetti ferido nas Casas de Zagora na ofensiva de maio de 1917. transportado a Plava de maca. um macarrão comestível. recebeu de um soldado ex-cozinheiro de Savini um milagroso brodo de frango: aquele sagaz e oportuno cozinheiro. a polêmica sobre a cozinha futurista deu vida a toda uma série de artigos 142 Cozinha futurista. *** Além de muitas adesões de cozinheiros. congelados e transformados pelos tiros dos esquadrões inimigos que separavam os atendentes e os cozinheiros dos combatentes.

A cozinha futurista e de estudos sobre a qualidade do “arroz”. lumière. ténacité héroïque. volonté. nos papilles gustatives. faite de passion. affronte encore aujourd’hui l’impopularité avec un programme de rénovation intégrale de la cuisine. et de s’empêtrer dans une lourdeur opaque et aveugle. tendresse. au bout de vingt ans de grandes batailles artistiques et politiques souvent consacrées dans le sang. Tout em reconaissant que des hommes mal nourris ont créé des grandes choses dans le passé.T. Preparons des 143 Cozinha futurista. nous affirmons cette verité: que l’on pense.Marinetti vient de lancer le manifeste de la cuisine futuriste “Le futurisme italien.indd 143 7/4/2009 15:51:22 . que l’on agit selon ce que l’on boit et mange. toujours mieux avec la transparence légère. alimento italiano que deve ser sempre mais propagandeado e usado. no número de 20 de janeiro de 1931: F. Nous sentons la necessité d’êmpecher l’Italien de devenir cubique et poussif. notre palais. au contraire. A opinião mundial Explodiu em Paris a polêmica sobre a cozinha futurista após a publicação do manifesto de Marinetti no jornal “Comoedia”. notre langue. que l’on rêve. Qu’il se harmonise. les sécretions de nos glandes et pénétrons génialement dans le domaine de la chimie gastronomique. élan. et spiralique de la femme italienne. Consultons à ce sujet nos lèvres.

à l’âme généreuse. en réduisant les heures de travail. avec la saveur et la coloration des mets. Les machines formeront bientôt un prolétariat servile. en poudre ou en pillules. préparons dès à present l’alimentation la mieux faite pour une existence toujours plus aérienne et rapide. Nous proclamons tout nécessaires: 1) L’abolition de la pastasciutta. Exemples: 144 Cozinha futurista. intuitive et passioné des Napolitains. et de vitamines. et la dégustation de repas parfaits. On fera baisser ainsi le prix de la vie et les salaires. La pâte ne fait pas de bien aux Italiens. d’hydrates de carbone. au service d’hommes presque allégés de toute occupation manuelle. et le reste du temps pourra être ennobli par la pensée. apprêts).Fillippo Tommaso Marinetti corps agiles pour les trains extra-légers d’aluminium de l’avenir. Elle enserre les Italiens dans ses méandres. comme les fuseaux rétrogrades de Pénélopes ou les voiliers somnolents en quête de vent. qui remplaceront les trains pesants de fer et d’acier. les arts. 2) L’abolition de poids et du volume dans l’appréciation des aliments. grâce à l’absortion d’équivalents nutritifs gratuits. 3) L’abolition des condiments traditionnels. Le repas parfait exige une harmonie original de la table (cristaux. elle fait obstacle à l’esprit vivace. 4) L’abolition de la répétition quotidienne des plaisirs du palais. ainsi qu’une originalité absolue de ceux-ci. Les défenseurs de la pâte en portent dans l’estomac des ruines. Le travail quotodien se réduira à deux ou trois heures. absurde religion gastronomique italienne. Convaincus que le peuple le plus agile l’emportera dans les compétitions futures. vaisselle. comme les archéologues. de composés albumineux.indd 144 7/4/2009 15:51:23 . Nous invitons la chimie à donner au plus tôt les calories nécessaires au corps.

(Recette de Bulgheroni). d’un demi-verre de marsala. on le coupe en tranches. Au moment de servir. (Recette de Bulgheroni. La sauce sera faite d’anchois. et recouvrez-la d’un feuilleté. trempé de rhum et de cognac. Ajoutez des tomates coupés en deux. de découpures d’ecorce d’orange. et faites-la cuire au four très chaud pendant un quart d’heure. Servez avec une sauce faite de vin blanc. videz-la. arrosée d’un petite verre de liqueur Aurum et passé au tamis. A peine retirée de la casserole. de basilic. en l’assaisonnant de poivre. on le passe au gril. Bécasse au Monterosa en sauce Vénus Prenez une belle bécasse.indd 145 7/4/2009 15:51:23 . que vous aurez fait cuire au gril avec ail et persil.A cozinha futurista Saumon de l’Alaska aux rayons de soleil en sauce Mars On prend un beau saumon de l’Alaska. Exemples: 145 Cozinha futurista. de sel et d’huile fine. recouvrez-la avec des tranches de jambon et de lard. Mettez la sauce dans la saucière et servez bien chaud. dont l’harmonie originale de forme et de couleur nourisse les yeux. poivre et genièvre. en l’arrosant de cognac. posez-la sur un canapé de pain grillé. de quattre cuillerées de myrtilles. bouillie pendant dix minutes. mettez-la en casserole avec beurre. jusqu’à ce qu’il soit bien doré. et excite l’imagination avant de tenter les lèvres. posez sur les tranches des filets d’anchois croisés. Le repas parfait exige aussi l’invention d’ensembles plastiques savoureux. remettez au tour jusqu’à complète cuisson de la pâte. de jaunes d’oeufs durs. d’huile d’olive. chef de la Plume d’Oie). et sur chaque tranche un disque de citron aux câpres. sel.

parfumés et tactiles formeront de parfaits repas simultanéistes. Au centre. et on l’entoure à la base d’un anneau de saucisses posé sur trois boulettes de viande de poulet hachée et dorée au feu. de poivre et de jus de citron. farcie de onze qualités de lègumes verts. colorés. créé par le peintre futuriste Fillìa. Equateur + Pôle Nord L’ensemble plastique comestible Equateur + Pôle Nord créé par le peintre futuriste Enrico Prampolini. Chaque plat doit être précédé d’un parfum. se compose d’une mer équatoriale de jaunes d’oeufs arrosés de sel. 146 Cozinha futurista. se dresse un cône de blancs d’oeufs montés et piqués de quartiers d’orange. Ces ensembles plastiques savoureux. découpées en forme d’aéroplanes nègres à la conquête du zenith. pour ne pas distraire la sensibilité de la langue et du palais.Fillippo Tommaso Marinetti Le “Viandesculpté” Le Viandesculpté. Le sommet du cône sera criblé de truffes. mais seulement dans les intervalles des plats. On la dispose verticalement en cylindre au milieu du plat. comme de juteuses sections de soleil. on la couronne d’un chapeau de miel. et rôtie au four. est composé d’une épaule de veau roulée. L’usage de la musique. Le repas parfait exige enfin: L’abolition de la fourchette et du couteau pour les ensembles plastiques susceptibles de donner un plaisir tactile prélabial. L’usage d’un art des parfums pour favoriser la dégustation.indd 146 7/4/2009 15:51:23 . qui sera chassé de la table à l’aide de ventilateurs. interprétation synthetique des paysages italiens.

qui contiennent dix ou vingt saveurs à déguster en très peu de temps. Une dotation d’instruments scientifiques en cuisine: ozoniseurs pour donner le parfum de l’ozone aux liquides et mets. pour un produit nouveau. de certains plats qu’ils mangeront et d’autres qu’ils ne mangeront pas.indd 147 7/4/2009 15:51:23 . La création de bouchées simultanéistes et changeantes. en tant qu’ingrédients improvisés pour allumer la saveur d’un plat avec leur intensité sensuelle. des appareils indicateurs enregisteront l’acidité ou l’alcalinité des sauces. trop poivré. la même fonction d’annalogie amplifiante que les images en littérature. appareils de distillation à pression ordinaire et dans le vide. le cours d’une passion amoureuse. Enfin. et serviront à corriger les erreurs: trop fade. moulins colloïdaux pour pulveriser les farines. de manière à éviter par exemple l’erreur de faire cuire les mets dans des marmites à pression. dans la cuisine futuriste.A cozinha futurista tout en effaçant la saveur précédente. dont la haute température provoquerait la destruction des vitamines. Une bouchée pourra résumer une tranche entière d’existence. trop salé. dans l’intervalle des mets. pour exciter la curionsité. ou un voyage en Extrême-Orient. et l’imagination. sous les yeux et sous le nez des convives. L’usage de ces appareils devra être scientifique. et dialyseurs. La présentation rapide. électrolyseurs pour décomposer les sucs et les extraits et obtenir. Ces bouchées auront. marmites autoclaves centrifuges. L’abolition de l’éloquence et de la politique à table. et en refaisant une virginité dégustative.T. la surprise.Marinetti 147 Cozinha futurista.” F. lampes à rayons ultraviolets pour rendre les substances alimentaires plus actives et assimilables. des propriétés nouvelles. les frutis secs et les épices à un très haut degré de dispersion. L’usage tempéré de la poésie et de la musique.

mas duvidamos dele acima de tudo se preparado à maneira romana. ela traz consigo um torpor que beira a felicidade. isto é. e uma ação enérgica: vejam o negro. que são também a origem do sentimento lânguido. uma decisão rápida. É toda uma moral que Marinetti desventra. à renúncia cética. desafia o passo dos tempos. sob o sol. “Há um ano dizíamos que Marinetti castigava o pudor hipócrita e a mentira da inteligência. como os seus paradoxos à educação estética: é preciso chacoalhar a matéria para acordar o espírito. pois de que adianta levantar o braço numa saudação romana. sob esta nuvem cozinhária. a favor da cozinha futurista: “Sim.indd 148 7/4/2009 15:51:23 . ao ritmo pegajoso e conciliante dos indolentes. Ele se recorda sem dúvida dos belos tempos 148 Cozinha futurista. “Deve-se regá-lo sobretudo com Salerno ou Frascati para compreender a lentidão do povinho e dos prelados romanos ou napolitanos. sim. e esse é o suculento veneno que estraga o fígado para grande alegria do estômago. para ter pensamentos claros. vejam o árabe. daquela ironia serena. pela qual a Roma eterna. lenta.Fillippo Tommaso Marinetti Damos a tradução do arguto artigo que o jornalista francês Audisio lançou.. que convida às torpes fantasias. se pode repousá-lo sem esforço sobre o seu ventre gordo? O homem moderno deve ter a barriga reta. Nós não somos daqueles que o desprezam.. de Horácio a Panzini. daquela indiferença amável. cru. daquela sapiência transcendental. no jornal “Comoedia”. e até o amamos. o macarrão é mesmo uma ditadura do estômago. O paradoxo gastronômico de Marinetti visa à educação moral. Porque a sua digestão é uma ruminação traiçoeira. “Trata-se hoje de refazer o homem italiano. aos sonhos vazios. agora ele frustra a felicidade hipócrita da digestão.

” *** À publicação em “Comoedia” seguiram-se artigos. Longo artigo “ITALY MAY DOWN SPAGHETTI” no Chicago Tribune. e no Nieuwe Rotterdamsche Courant. que apareceu no The Herald. literature and drama. de Tóquio a Sidney. americanos. este artigo. É significativa a entrevista do jornal Je suis partout com Marinetti e o artigo de fundo. O Times de Londres voltou repetidamente ao tema com escritos diversos. No more spaghetti for the Italians. has just issued from Rome a manifesto launching Futurist cooking. Practically everything connected with the traditional pleasures of the gourmet will be swept away. father of Futurist art. Outros artigos na Reinisch-Westfalische Zeitung. sob o céu de Paris. Knives and Forks for All are banned in Futurist Manifesto on Cooking Marinetti. esteve entre os primeiros a agitar a polêmica sobre a cozinha futurista: Spaghetti for Italians. No more knives and forks. ingleses. according to word received yesterday in Paris. Entre estes tantos. na primeira página. comentários. de Essen. alemães etc. do jornal Le petit marseillais sobre a cozinha futurista. publicando também poesias polêmicas. que relevam a importância da batalha futurista “contra os alimentos tristemente miseráveis”.indd 149 7/4/2009 15:51:23 . plantava a semente de uma revolução mundial dos espíritos. caricaturas e discussões nos maiores jornais franceses.A cozinha futurista violentos nos quais. 149 Cozinha futurista. Jornais de Budapeste a Tunísia.

Modern science will be employed in the preparation of sauces and a device similar to litmus paper will be used in a Futuristic kitchen in order to determine the proper degree of acidity or alkalinity in any given sauce. “Since everything in modern civilization tends toward elimination of weight. by means of single sucessive mouthfuls. Marinetti writes. for whith ideal rapid service. and increased speed. The first step would be the elimination of edible pastes from the diet of Italians”. and such supplementary courses will not be eaten at all. 150 Cozinha futurista. Also certains dishes will be cooked under high preassure. also ultra-violet lamps to render certain chemicals in the cooking more active.indd 150 7/4/2009 15:51:23 . in order to vary the effects of heat. in the ideal Futuristic meal. Electrolysis will also be used to decompose sugar and other extracts. the cooking of the future must conform to the ends of evolution. The new Futuristic meal will petmit a literary influence to pervade the dining-room. In fact. give the principal feature of the new cuisine as a rapid sucession of dishes which contain but one one mouthful or even a fraction of a mouthful. several dishes will be passed beneath the nose of the diner in order to excite his curiosity or to provide a suitable contrast. Among the new kitchen and dining-room instruments suggested by Marinetti is an “ozonizer” which will give to liquids the taste and perfume of the ozone. published in the “Comoedia”. Details of the manifesto.Fillippo Tommaso Marinetti No more after-dinner speeches will be tolerated by the new cult. Music will be banished from the table except in rare instances when it whill be used to sustain the mood of a former course until the next can be served. an experience such as a love affair or a journey may be suggested.

Marinetticalls attention to a Futuristic painting of a synthetic landscape made up of food-stuffs. For ordinary daily nourishment he recommends scientific nourishment by means os pills and powders. placed vertically upon a plate and crowned with honey. under the new system. stuffed with eleven kinds of vegetables. aquela que nós consideramos mais detestável e mais repugnante é a cozinha internacional de grandes hotéis que abrem todos os grandes banquetes oficiais com um brodo no qual bóiam 4 ou 5 bolinhas de massa real moles e insípidas. entristecedores e monotonizantes. Contra a cozinha do Grande Hotel e a estrangeirofilia Entre as cozinhas que hoje imperam. so that when a real banquet is 3 spread it may be appreciated aesthetically.indd 151 7/4/2009 15:51:23 . como em quase todos os países do mundo. e os fecha a todos com um doce gelatinoso e trêmulo adequado a bocas doentes. para a revisão de tratados. The landscape is composed of a roast of veal. submetemonos a este tipo de cozinha internacional de grande hotel unicamente 151 Cozinha futurista. Besides the abolition of macaroni. M. This is one of the meals which. by Fillìa. É lógico que os homens políticos de todos os países que se reúnem para as grandes convenções. The Futurist leader also pleads for discontinuance of daily eating for pleasure. não possam elucidar nada e concluir pouco depois de ter engolido tais alimentos deprimentes. could not be attacked whith a knife and fork and cut into haphazard sections before being eaten.A cozinha futurista As a model for the presentation of a Futuristic meal. and a consistent lightening of weight and reduction of volume of food-stuffs. Marinetti advocates doing away with the ordinary condiments now in use. Na Itália. para o desarmamento e pela crise universal.

domina uma mania bestial a que chamamos estrangeirofilia.Fillippo Tommaso Marinetti porque vem do estrangeiro. antitalianidade ou feiúra) somente porque elas não falam a língua italiana e vêm de países longínquos ignorados ou pouco conhecidos. concertistas e regentes de orquestra) quando se incham até esquecerem-se que o intérprete é o servo útil não necessário do gênio criador. são infelizmente mais indispensáveis a cada dia. A Gazzetta del Popolo de 24 de setembro de 1931 publicou este manifesto de Marinetti contra a estrangeirofilia: Contra a estrangeirofilia Manifesto futurista às senhoras e aos intelectuais “Apesar da força imperial do Fascismo. 3) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os regentes de orquestra e o público italiano que organizam ou aplaudem 152 Cozinha futurista. Infelizmente. 2) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os intérpretes italianos de fama mundial (artistas do canto. estrangeirófilo. 1) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os jovens italianos que caem em um êxtase cretino diante de qualquer estrangeira também agora que a crise mundial as empobrece. Exemplo: o excelente e célebre regente Arturo Toscanini que antepôs o seu sucesso pessoal ao prestígio da sua pátria ao renegar os seus hinos nacionais por delicadeza artística e executou os estrangeiros por oportunismo.indd 152 7/4/2009 15:51:23 . e enamoram-se delas por esnobismo e às vezes desposam-nas absolvendo-as de todo defeito (prepotência. falta de educação. a palavra estrangeirofilia. inventadas por nós. e que deve ser combatida violentamente.

toda a literatura italiana (hoje original. preferem proclamarse filhos de inovadores franceses. à maneira de muitos novecentistas e de muitos racionalistas. Picasso. criador da nova plástica e Sant’Elia. máquinas ou aparelhos não inteiramente idealizados e construídos na Itália.A cozinha futurista concertos no exterior quase sem música italiana. os escultores e os arquitetos italianos que. contra o nosso exército e contra a nossa grande guerra vitoriosa. criador da nova arquitetura. 5) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os industriais italianos que encontram mil pretextos para refutar uma batalha decisiva com a indústria estrangeira e têm orgulho de vencer disputas internacionais com produtos. no exterior. 8) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os pintores. 4) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que aplaudem ao invés de vaiar os regentes estrangeiros quando. Um patriotismo elementar exige pelo menos metade de música italiana moderna ou futurista em substituição àquela de Beethoven.indd 153 7/4/2009 15:51:23 . variada e divertida) com a esperança de parecer. cada um. 153 Cozinha futurista.. Le Corbusier ao invés de filhos de autênticos inovadores italianos como Boccioni. maleducadamente.. esquecem a música italiana em seus concertos na Itália.. 7) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os literatos ilustres que denigrem. 9) São estrangeirófilas e portanto antitalianas as assembléias que ao invés de taxar como infâmia. privilegiam os episódios irrelevantes como Caporetto. Brahms etc. 6) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os históricos e os críticos militares que. espanhóis. da nossa grande guerra vitoriosa. suíços como Cézanne. já apreciadas. penetradas e admiradas por todos até a saciedade. definem “pecadinhos lícitos” as ofensas escritas e publicadas por literatos italianos contra a Itália. Bach. um gênio altíssimo em um povo de medíocres iletrados.

vaiam sistematica- 154 Cozinha futurista. E basta que a palavra “bar” seja substituída pela italianíssima “Aquisebebe”. podem também admirar e estudar a sua língua. o Barbaresco da condessa C.indd 154 7/4/2009 15:51:23 . Elegantes senhoras italianas. presos pela criticomania. enamorados pela paisagem e pelo clima da Itália. esquecendo-se de que os estrangeiros. Cretina e cafona a senhora italiana que acha mais elegante dizer: “bebi quatro cocktails” do que dizer: “comi um minestrone”.. Nestes encontros será premiada a melhor qualidade do vinho que as une. logotipos e nos cardápios). 11) São estrangeirófilas e portanto culpadas de antitalianidade as senhoras italianas da aristocracia e da alta burguesia que se estusiasmam pelos costumes e esnobismos estrangeiros. ou o Capri branco da princesa D. 12) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade. mas certamente nocivos à nossa raça. superioridade agora já destruída pela crise mundial. Consideramos portanto cafona e cretina a senhora italiana que participa orgulhosamente de um “cocktail-party” e relativa disputa alcoólica. babando-se. nós lhe rogamos a substituir o “cocktailparty” por convenções vespertinas que poderão chamar à vontade de o Asti espumante da senhora B. produtos estrangeiros com olhares céticos e pessimistas para os produtos italianos. A menos que ela se submeta à invejada superioridade financeira do exterior. talvez adequados à raça norte-americana. Exemplo: o esnobismo americano do álcool e do “cocktail-party”. os italianos e as italianas que saúdam romanamente e depois nos negócios pedem.Fillippo Tommaso Marinetti 10) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os hoteleiros e negociantes que não aproveitam os rápidos e eficazes meios que têm à sua disposição para influenciar italianamente o mundo (uso da língua italiana nos cartazes. 13) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os públicos italianos que.

A cozinha futurista mente comédias e filmes italianos favorecendo assim a invasão de medíocres comédias e filmes estrangeiros. pronta para explodir para realizar o seu imenso destino. considerar o orgulho nacional como um artigo de luxo. Eliot. nós futuristas. 15) São estrangeirófilos e portanto culpadas de antitalianidade as cultas senhoras e os críticos da Itália. podem. gritamos hoje: a) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: gênio. Outras Nações. que vinte anos atrás. capazes de ensinar ao mundo. Joyce e outros iniciamos em Londres. cujo cérebro foi desenvelhecido e agilizado pelo Futurismo italiano. esquecendo-se dos italianos. deve considerar o orgulho nacional como sua primeira lei de vida. invejada e ameaçada por todos. não teria acontecido sem o Futurismo italiano” e esta também explícita declaração de Antoine no Journal de Paris: “Nas artes decorativas os caminhos foram há tempos abertos pela escola de Marinetti”. em pleno enfraquecimento parlamentar social-democrático-comunista-clerical gritávamos: “A palavra Itália deve dominar sobre a palavra Liberdade!”. 155 Cozinha futurista. pouco populosas. A nossa viril feroz dinâmica e dramática península. Por isso. cochilando sob o zumbido de complôs revolucionários que podem ser sedados. não criticadas nem ameaçadas por inimigos externos. e que mesmo assim criticamno ou relevam-no para correr a pescar preciosamente Futurismos estrangeiros todos derivados do nosso. 14) São estrangeirófilos e portanto culpados de antitalianidade os empresários italianos que procuram no exterior professores de teatro e cenógrafos. Antitalianamente eles esquecem por exemplo esta explícita declaração do poeta futurista inglês Ezra Pound a um jornalista americano: “O movimento que eu. b) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: inteligência.indd 155 7/4/2009 15:51:23 .

fuzilaremos os estrangeirófilos antitalianos. isto é aos fascistas que vibram por uma autêntica paixão pela Itália e de um desmesurado orgulho italiano. se necessário. Que o fogo da crítica seja direto. Facas e Garfos para Todos são banidos no Manifesto da Cozinha Futurista Marinetti. e tive na Itália mais vaias do que aplausos e apesar disso agradeço a cada dia as forças cósmicas que me deram a alta honra de nascer italiano. Em nome desta obra-prima. literatura e drama futuristas. No tocante aos muitos céticos e derrotistas (literatos. ao primeiro perigo. contra as nações estrangeiras.Marinetti Espaguete para Italianos.” F. d) A palavra Itália deve dominar sobre a palavra: verdade.Fillippo Tommaso Marinetti c) A palavra Itália deve dominar sobre as palavras: cultura e estatísticas. nunca contra a Itália. eu que fui aplaudidíssimo no Exterior. nós. artista. filósofos e filósofas) que tentam hoje. acaba de publicar em Roma um manifesto sobre a Cozinha Futurista. Indulgência plenária na arte e na vida aos verdadeiros patriotas. simbolizado pelos escombros do Império Austro-Húngaro que os nossos blindados tiveram que superar na estrada de Tarvisio. nós brutalmente dizemos: Lembrem-se sempre desta obra-prima italiana que supera até mesmo a Divina Comédia: “Vittorio Veneto”. na inquietude de uma paz em equilíbrio. pai da arte. segundo 156 Cozinha futurista.T. construir uma descuidada cúpula dupla de mármore em oferta ao inimigo.indd 156 7/4/2009 15:51:23 . Escrevo tudo isto com a serenidade de um patriotismo adamantino.

na refeição futurista ideal. Entre os novos instrumentos de cozinha e de sala de jantar sugeridos por Marinetti. Não mais facas e garfos.indd 157 7/4/2009 15:51:23 . A música será proibida à mesa. exceto em raras ocasiões em que será empregada para reter o espírito do último prato até que o próximo possa ser servido. O primeiro passo deveria ser a eliminação das massas comestíveis da dieta dos italianos. por meio de sucessivos bocados únicos. De fato. diversos pratos passarão sob os narizes do comensal somente para excitar a sua curiosidade ou para promover um contraste apropriado. escreve Marinetti. Não mais serão tolerados pelo novo culto discursos após o jantar. e aumento da velocidade. Praticamente tudo o que está relacionado aos tradicionais prazeres dos gourmets será erradicado. A nova comida futurista permitirá uma influência literária que invada o comensal. o cozinheiro do futuro deve adaptarse aos fins da evolução. Detalhes do manifesto. somado a um serviço rápido ideal. pode sugerir experiências tais como uma viagem ou uma aventura amorosa. “Desde que tudo na civilização moderna tende à eliminação de peso. ou mesmo uma fração de bocado. o que. apresentam a principal característica da nova “cuisine” como uma sucessão de pratos que contém um só bocado. publicado no “Comoedia”.”. Não mais espaguete para os italianos. encontram-se um ozonizador que dará aos líquidos o 157 Cozinha futurista.A cozinha futurista notícias recebidas ontem de Paris. já que estes pratos suplementares não serão ingeridos. A ciência moderna será empregada na preparação dos molhos e um dispositivo semelhante ao papel de tornassol será utilizada na cozinha futurista para determinar o grau correto de acidez ou alcalinidade em um dado molho.

Além disso. O líder futurista também sustenta que se deve abandonar o hábito de comer diariamente por prazer. Marinetti defende o fim dos temperos ordinários atualmente em uso e uma consistente diminuição e redução do volume dos alimentos. A paisagem é composta por um assado de carne de veado recheado com onze tipos diferentes de vegetais. Este é um dos pratos que.indd 158 7/4/2009 15:51:23 . disposto verticalmente sobre um prato e coroado com mel. alguns pratos serão cozidos sob alta pressão. Marinetti concentra a atenção em uma pintura futurista de Fillìa. e também lâmpadas ultravioleta que tornarão mais ativas certas substâncias culinárias. de acordo com o novo sistema. Além da abolição do macarrão. e ser cortado em pedaços livremente antes de ser comido. A eletrólise também será empregada para decompor açúcares e extratos. Como um modelo para a apresentação de um prato futurista.Fillippo Tommaso Marinetti sabor e o perfume do ozônio. Para a alimentação diária normal. de modo a variar os efeitos da temperatura. possa ser apreciado esteticamente. a ponto de permitir que quando um verdadeiro banquete seja servido. de uma paisagem sintética feita com substâncias comestíveis. ele recomenda uma nutrição científica por meio de pílulas e pós. não poderia ser atacado com garfo e faca. 158 Cozinha futurista.

que era incitado à realização dos novos pratos pelos seus próprios clientes. a projetada manifestação: “Uma comunicação do pintor Fillìa. vice-secretário geral do movimento futurista italiano à imprensa romana. movimentou os ambientes gastronômicos da capital. Recebendo às vezes algum cabo de couve. Fillìa no movimento futurista seria como o subtenente geral da esquadra em ação. encorajamentos. uma batata ou outro legume. um dos mais brilhantes jornalistas italianos. Marinetti batizou com o nome de SANTOPALADAR o local destinado a impor pela primeira vez a cozinha futurista. enciumados da tradição da “sora Felicetta”. foi escolhido pelo pintor Fillìa e pelo arquiteto Diulgheroff o proprietário de um restaurante de Turim. depois de haver coroado com o capacete de alumínio o poeta-recorde de Turim. recebendo sempre pessoalmente.indd 159 7/4/2009 15:51:23 . Ercole Moggi. inclusos aqueles jornalísticos. do “spaghettaro” e de todas as outras gloriosas insígnias do verdadeiro gourmet. Não se contenta em lançar umas idéias platônicas. mas tenta fazê-las penetrar. anunciou assim na Gazzetta del Popolo de 21 de janeiro de 1931. entre os quadros futuristas da galeria Codebó. ansiosos por transformar cozinha e ambiente. Angelo Giachino. Tullio d’Albisola. em uma matéria de capa com duas colunas. Enquanto se trabalhava na decoração do local. Em parte hostis. consensos. 159 Cozinha futurista. mas também aplausos. Entre estes últimos. Ao final do Circuito de Poesia de Turim. sustenta-as.A cozinha futurista A revOLuçãO cOzinháriA Os GrAndes bAnquetes FuturistAs A taberna do santopaladar O manifesto da cozinha futurista provocou numerosos congressos e comícios entre os cozinheiros e donos de restaurantes. em parte entusiastas.

Declarações muito importantes deviam sair daquele cérebro vulcânico. além de uma idéia prática e original: a abertura de uma cozinha experimental futurista em Turim e que terá como título “Taberna do Santopaladar” na qual serão não apenas futuristicamente estudados. comentando o pronunciamento dos futuristas.. cabeça de vulcão. Trens especiais para Turim Um renomado jornal romano entre o tom sério e o engraçado. motor de 200 HP. Evidentemente gosta de Turim já que tentou sempre ali as suas maiores iniciativas. para apreciar o notável “carnescultura” na “Taberna do Santopaladar”. Fillìa talvez seja o mais dinâmico dos futuristas italianos. Não conhecem evidentemente aqueles queridos rapazes! Os futuristas preanunciam de fato uma forte ofensiva contra a velha cozinha. ou discussões polêmicas ou academia literária. Seria necessário descrevê-lo de maneira futurista: chamá-lo. o gastronômico.. escreveu: “Temos a certeza que as ferrovias do Estado concederão descontos de cinqüenta por cento para que todos os italianos possam deslocar-se em massa a Turim..indd 160 7/4/2009 15:51:23 . Assim. boca de fogo de nitroglicerina. “Santopaladar” sem especulações Conseguimos achar Fillìa e não o deixamos mais escapar. deste modo.Fillippo Tommaso Marinetti Os adeptos do macarrão esperavam que o Manifesto da Cozinha Futurista se mantivesse apenas na teoria. mas apresentados ao público os novos pratos. quem sabe? panela em perene ebulição. Turim encaminha-se para ser o berço de um novo renascimento italiano. Fillìa antecipou-me: 160 Cozinha futurista.

acima de tudo. repito. Fillìa dirigirá a renovação da cozinha italiana e fará aplicar e preparar os novos pratos dos artistas e cozinheiros futuristas. idealizadores e propulsores de uma nova teoria cozinhária. que é o novo prato futurista mais clamorosamente discutido hoje. O leitor se perguntará o que é o “carnescultura”. Como se diz. tanto que – segundo vozes que correm – o prof.indd 161 7/4/2009 15:51:23 . Eis aqui uma descrição autorizada: “O carnescultura. Mas não teremos. Os leitores devem saber que Fillìa é o inventor do “carnescultura”. O local não será um simples e vulgar restaurante. Será decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim com o objetivo preciso de passar da teoria à prática na polêmica futurista. disposto verticalmente no centro do prato. mas assumirá um caráter de ambiente artístico abrindo concursos 161 Cozinha futurista. Não se trata portanto de uma especulação minha ou de Diulgheroff. Donato ter-se-ia proposto. A nutrição por rádio No “Santopaladar” de Turim. interpretação sintética das paisagens italianas..A cozinha futurista . com o objetivo de estudar. florescerão. a fazer uma laparotomia gratuita aos primeiros degustadores do “carnescultura”. que a nossa iniciativa e a nossa atividade para a abertura do “Santopaladar” tem fins unicamente artísticos.Peço-lhe para relevar. Este cilindro. é composto por uma grande almôndega cilíndrica de carne de vitela assada recheada com onze qualidades diversas de verduras e legumes cozidos. é coroado por uma camada de mel e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. na Itália e no exterior. nenhum interesse no maior ou menor sucesso (nós o esperamos imenso) da iniciativa.. Nós daremos simplesmente à taberna uma fachada futurista. se forem rosas. A Taberna aparecerá logo em Turim.

mas pretendem renovar o gosto e os hábitos dos italianos. dicção de poesia. Como o rádio pode difundir ondas asfixiantes e adormentadoras (conferências. novelas1 etc. porque eram diversas também as condições gerais de existência. de pintura e de moda futurista. uma difusão de ondas nutrientes. mas de inventar novos pratos.Fillippo Tommaso Marinetti e organizando no lugar do habitual café post-prandium ou da habitual dança. Este primeiro capítulo dispensa comentários.indd 162 7/4/2009 15:51:23 . Deve-se. por meio do rádio. a uma organização de sabores. jazz. assassinar os velhos enraizados hábitos do paladar. por meio do rádio. por isso optamos por traduzir novela. Provavelmente trate-se de outro neologismo marinettiano. poderá também difundir extratos de ótimos 1 No original. 162 Cozinha futurista. é a possibilidade de realizar. noites de poesia. variando-se continuamente o gênero de nutrimentos e de combinações. per finire é algo que está sempre por acabar. não seguem somente o lado importante da economia nacional. em certos restaurantes. O “Santopaladar” lançará em breve o seu preciso programa técnico.). o odor dos pratos lavados será transformado em odor de lavanda. Não se trata simplesmente de substituir o macarrão pelo arroz. Por exemplo. ou de preferir um prato a outro. uma difusão de ondas nutrientes. “per-finire”. odores e valores que até ontem pareceriam absurdos. Aconteceram na vida prática do homem tais modificações mecânicas e científicas que se pode chegar mesmo a um perfeccionismo cozinhário. É toda uma revolução. notem os seguintes que reproduzo textualmente: a) “os futuristas declarando-se contra o macarrão e indicando novos desenvolvimentos da cozinha italiana. O que há de prodigioso e que talvez tenha escapado até a Marconi. havia um odor que Deus nos livre. para preparar os homens aos futuros alimentos químicos e talvez à não distante possibilidade de realizar. Agora reorganizaremos os odores. De resto a coisa não é lá extraordinária. Até hoje. Entre os pontos mais importantes.

e sobretudo o mole e antiviril macarrão. Alcançaremos pratos ricos de diferentes qualidades. nenhuma base em comum com as afirmações de Marco Ramperti.indd 163 7/4/2009 15:51:23 . portanto. os fragmentos desordenados de comida. Combatem-se assim os lamaçais de molho.A cozinha futurista almoços e cafés da manhã. é preciso defender a carne e o vinho de qualquer ataque. que multipliquem ao infinito a alegria de viver: coisa impossível de se obter com os alimentos aos quais se está “habituado”. Que paraíso então! O problema é que caminhará rumo à abolição da cozinha e portanto do “Santopaladar”. para inventar novos pratos que dêem alegria e otimismo. Outra coisa importante que apreendi é esta: que os pratos futuristas não serão caros. Pergunto ao vice-secretário do movimento futurista se a inauguração do “Santopaladar” será feita com solenidade. mas tem a tendência inversa de novos horizontes culinários de renovar o gosto e o entusiasmo do comer. Responde-me: 163 Cozinha futurista. em que será estudado para cada um o prato que leve em consideração o sexo. Marinetti inaugurará o “Santopaladar” Fillìa ainda me fez outras importantes declarações. enquanto a química não criar substâncias sintéticas que tenham a força da carne e do vinho. o lado estético. O Manifesto da cozinha futurista não tem. a sensibilidade”.. Um almoço no “Santopaladar” terá um preço normal. O segundo capítulo também é explícito: b) A cozinha até hoje não levou em conta. o caráter.. Não é verdade que os futuristas sejam inimigos do vinho e da carne. Fillìa nos disse: “Em nosso próximo proclama para o “Santopaladar” estará bem esclarecido que. O nosso refinamento sensível pede ao contrário um estudo completamente “artístico” da cozinha. a não ser pelos doces. a profissão.

164 Cozinha futurista. poupe ao menos a “salama vecchia” da Romanha. Fillìa. música. seja clemente. Este é evidentemente um achado útil. Bastaria a invenção do prato Ultraviril. À inauguração intervirá também S. originalidade. Esta lista será completada por surpresas indispensáveis para formar a atmosfera da nova refeição e terá além de tudo perfumes. Mas então adeus “tajadele al parsott”. Acabou-se o tempo das comidas dos Artusi. a venerável “salama da sugo” que. apenas as velhas caçarolas. É acompanhado no exterior.E da velha cozinha – pergunto a Fillìa – o que ficará em pé? Responde-me com tom inexorável: . os perfumes e os outros achados.Certamente.indd 164 7/4/2009 15:51:24 . não poderá ser nada menos que extraordinário.Pode-se saber a lista dos pratos do almoço inaugural? . Ah. junto à loira Albana. o conhecidíssimo Carnescultura. sem considerar a música. . acendia a veia poética de Giosuè Carducci e de Giovanni Pascoli”. Além disso compreenderá os pratos publicitários do arquiteto Diulgheroff e os alimentos simultâneos de Marinetti e Prampolini. a Aerovianda (tátil. .Nada. É evidente que o sucesso. receita que faria chorar de inveja o doutor Woronoff. E responderá à altura. que responderá a todas as críticas. A.Compreenderá alguns de meus pratos e isto é: Todoarroz (com arroz.Fillippo Tommaso Marinetti . Seremos duros. salada. Senti duas lágrimas rolarem-me nas bochechas. delícia de minha juventude voraz. achados. o Docelástico. porque o acontecimento tem uma grande importância. Até hoje o pobre consumidor não encontrava ninguém que respondesse por uma má refeição. Exª Marinetti. Saladin. Compreenderá os doces Reticulados do céu do escultor Mino Rosso e o Ultraviril do crítico de arte cozinheiro futurista P. No “Santopaladar” teremos um acadêmico. vinho e cerveja). com rumores e odores).

rompendo os hábitos. E. criticando os pratos contidos no manifesto da cozinha futurista. Mas. como o meu carneplástico que foi erroneamente visto como oposição ao macarrão. Para tanto. porque. é o espírito revolucionário do manifesto que deve importar: isto é. como técnica. Impossível também indicar somente os melhores escritos daquele período. Reproduzimos em parte a carta de resposta a um cozinheiro romano que ameaçava os raios da Academia Gastronômica Italiana contra os cozinheiros futuristas: “o protesto dos cozinheiros acadêmicos relembra estranhamente a oposição que os professores de história da arte sempre fizeram aos movimentos de renovação artística neste século e no outro. O pintor Fillìa. de qualquer modo. portanto. o restaurante futurista de Turim baterá sem dúvida a ciência dos velhos cozinheiros acadêmicos.A cozinha futurista Este artigo. é preciso preparar o paladar às futuras alimentações. são os primeiros exemplos de uma série que criaremos. reproduzido em todos os jornais. de falar de “técnica”: aqueles pratos. a necessidade de modificar a cozinha porque se modificou o nosso sistema geral de vida. teremos os pratos econômicos e os pratos de luxo – os pratos que melhor se equipararão ao macarrão e os pratos para vencer em concorrência as velhas glutonarias. “não se trata.indd 165 7/4/2009 15:51:24 . que as profecias do ilustre Membro da Academia Culinária terão o mesmo resultado que as outras: apressarão o nosso sucesso”. Estamos seguros. estão vencidos: sua oposição 165 Cozinha futurista. Se os cozinheiros acadêmicos nos combatem somente pela razão técnica. deu ensejo a uma infinidade de polêmicas irônicas e sarcásticas sobre os valores digestivos dos pratos futuristas. no “Regime Fascista” de Cremona e na “Tribuna” de Roma a importância da iniciativa do Santopaladar. esclareceu repetidas vezes no “Lavoro” de Gênova. respondendo a diversos ataques.

indd 166 7/4/2009 15:51:24 . fundaremos então uma Academia Gastronômica Futurista. também se chegará ao triunfo da cozinha futurista. E por outro lado. chegamos a um momento em que tudo se deve renovar. etc. não se poderão renovar”. Como foram renovados os costumes. médicos ilustres e cozinheiros sábios dão-nos razão e aderem à nossa luta. “a Taberna Santopaladar tem um proprietário e cozinheiros que a dirigirão. alcançava uma notoriedade mundial pela anunciada realização da cozinha futurista. nem mesmo o macarrão teria sido inventado: e continuar-se-ia a comer como os romanos antigos. No entanto. os transportes. Mas se a Academia Gastronômica Nacional insiste em negar nosso esforço que pretende inventar pratos italianíssimos. *** A Taberna Santopaladar de Turim. ainda antes de ser inaugurada. as artes etc. e por conseqüência futuristas”. E as criações futuristas alcançarão perfeições técnicas. os trabalhos procediam e o ambiente se formava no domínio preponderante do alumínio italiano “Guinzio e Rossi”: domínio que deveria dar ao local uma atmosfera de metalicida- 166 Cozinha futurista. enquanto os pratos antigos.”. Eu e o arquiteto Diulgheroff não cuidamos senão de sua inauguração e primeira orientação: estamos seguros da inteligência e da fé na modernidade que animam aqueles cozinheiros.. “segundo a cômoda teoria pacifista dos cozinheiros acadêmicos. tecnicamente perfeitos. Entretanto.Fillippo Tommaso Marinetti de artesãos não poderá vencer nossa força de artistas. à qual aderirão os cinqüenta mil artistas inovadores e simpatizantes da Nova Itália”. “a Taberna Santopaladar decorada pelo arquiteto Diulgheroff e por mim gerará uma atmosfera que será o resumo da vida mecânica moderna e será portanto ‘necessário’ servir pratos novos.

mas servia como elemento operante do interior: alumínio dominante. Isto é. Tudo concorria para completar o interior: os grandes quadros publicitários. com vinho e cerveja (fórmula Fillìa) Aeroprato. na preparação dos pratos. deve ser parte viva das outras formas da construção. com rumores e odores (fórmula Fillìa) Ultraviril (fórmula P. A primeira refeição futurista A Taberna Santopaladar foi inaugurada na noite de 8 de março de 1931. os toldos. o sentido da vida de hoje. completado com os ritmos da luz indireta. A luz também é uma das realidades fundamentais da arquitetura moderna e deve ser “espaço”. de esplendor. onde o nosso corpo e o nosso espírito têm a necessidade de encontrar a afinação. onde os futuristas Fillìa e P. de elasticidade.indd 167 7/4/2009 15:51:24 . tátil. a luz servia então como sistema arterial.A.Saladin competiam com os cozinheiros do restaurante.Saladin) 167 Cozinha futurista. ágil ossatura de um corpo novo. encerra estes dotes essenciais e é verdadeiramente um filho do século do qual espera glória e eternidade. de leveza e também de serenidade. assim como os materiais “nobres” do passado. No corpo do alumínio. Na Taberna Santopaladar delineava-se então uma pulsante estrutura de alumínio e esta não era friamente utilizada para cobrir o espaço. Eis a lista da primeira refeição futurista: Antepasto intuitivo (fórmula da Senhora Colombo-Fillìa) Caldo solar (fórmula Piccinelli) Todoarroz. O alumínio é o mais adequado e o mais expressivo dos materiais. após uma febril jornada de intenso trabalho na cozinha. os objetos diversos.A cozinha futurista de. indispensável ao estado de atividade do organismo ambiental. Piccinelli e Burdese. a síntese e a tradução artística de toda a organização mecânica preponderante. os vidros trabalhados.A.

indd 168 7/4/2009 15:51:24 . em um completo artigo do redator Dr. Uma notícia redigida nestes termos não pode ser nada além de maravilhosamente futurista. como indelevelmente foram fixadas.Fillippo Tommaso Marinetti Carnescultura (fórmula Fillìa) Paisagem alimentar (fórmula Giachino) Mar da Itália (fórmula Fillìa) Salada mediterrânea (fórmula Burdese) 10. sonha-se e age-se segundo o que se bebe e o que se come”. além de todo limite extremo. do Tratado de Viena e do Tratado de Versalhes”. cuja data ficará impressa na história da arte cozinhária assim. 168 Cozinha futurista. as datas do descobrimento da América. da tomada da Bastilha. Apresentamos integralmente a notícia sobre a noite como apareceu no jornal “La Stampa”. Frangofiat (fórmula Diulgheroff) Equador + Pólo Norte (fórmula Prampolini) Docelástico (fórmula Fillìa) Reticulados do céu (fórmula Mino Rosso) Frutas da Itália (composição simultânea) Vinho Costa – Cerveja Metzger – Espumante Cora – Perfumes Dory. “Mesmo reconhecendo – adverte Marinetti – que os homens mal ou grosseiramente nutridos tenham realizado grandes coisas no passado. segue. O acontecimento assumirá estão uma importância excepcional. nos afirmamos esta verdade: pensa-se. Stradella: “Ninguém ignora o interesse e as polêmicas que agitam o mundo inteiro. pela anunciada inauguração do Santopaladar. os pressupostos de sua doutrina. Ninguém a não ser um futurista. na história do mundo. é preciso reconhecê-lo sinceramente.

A cozinha futurista

Rumo ao alimento em pílulas
Não gratificados, então, pelas imensas vitórias pictóricas, literárias, artísticas que acumula há vinte anos, o Futurismo italiano visa, hoje, a uma renovação de base: esta, de fato, ousa afrontar ainda a impopularidade, com um programa de renovação total da cozinha. Omitimos que o Santopaladar, apesar da aparência um pouco blasfema para o passadismo vulgar, é uma deliciosa taberna turinesa, na qual, durante a noite passada, aconteceu lugar a primeira refeição da cozinha futurista: uma lista de quatorzes pratos, vinhos diversos, perfumes, espumantes. O leitor, ou talvez melhor, a amável leitora, desejará conhecer, a fundo, as mais recônditas razões de tal tentativa, para falar passadistamente; ou de tal realização, para falar futuristicamente. O desejo é legítimo. Quanto à satisfação deste, somos tomados por uma sensação de responsabilidade ao responder. Responderemos, em todo caso, cientificamente, exatamente, valendo-nos das mesmas palavras do Chefe dos Futuristas italianos: “Autopraticamente, nós futuristas relevamos o exemplo e as advertências da tradição para inventar a todo custo um novo, julgado por todos “loucura”, razão pela qual estabelecemos agora o nutrimento adequado a uma vida sempre mais aérea e veloz”. Por conseqüência, são abolidos tantos pratos: o macarrão, em primeiro lugar, e enquanto se espera da química o cumprimento de um preciso dever, ou seja aquele “de dar rapidamente ao corpo as calorias necessárias mediante equivalentes nutritivos (fornecidos gratuitamente pelo Estado) em pó ou pílulas” invenção única, apta a nos fazer alcançar “uma real diminuição do preço da vida e dos salários, com relativa redução das horas de trabalho”; na espera desse dia, então, poder-se-á realizar a refeição perfeita, que exige uma harmonia original da mesa (cristais, louças, ornamentos) com os sabores e as cores dos alimentos e originalidade absoluta dos próprios alimentos.

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Fillippo Tommaso Marinetti

Na taberna de alumínio
Mas agora retornamos à Taberna Santopaladar idealizada, criada e decorada pelo arquiteto Diulgheroff e pelo pintor Fillìa, e que vocês devem imaginar como uma grande caixa cúbica enxertada, de um lado, em uma outra menor: adornada por colunas semi-incolores inteiramente luminosas e por grandes olhos metálicos, também luminosos, incrustados na metade da parede; fachada, de resto, de puríssimo alumínio, do teto ao chão. Aqui, por volta da meia-noite do domingo, haviam marcado um encontro os futuristas turineses e as pessoas por eles convidadas. Ao cumprimento do ritual estavam presentes, entre outros, S. Exª. Marinetti, Felice Casorati, o pintor Peluzzi, o pintor Vellan, o escultor Alloati, o professor Guerrisi, alguns jornalistas; não faltavam várias belas senhoras, em toilettes deliciosamente passadistas. Speaker oficial, ou seja o anunciador e o ilustrador de cada um dos pratos, era e não poderia deixar de sê-lo, o pintor Fillìa. Quatorze os pratos, já dissemos. Ei-los. Primeiro: Antepasto intuitivo. Não é difícil compreender que se trata, de certo modo, de uma surpresa, e de um outro, de uma preparação para o prato seguinte. Não se pode, a este ponto, esquecer que a invenção de complexos plásticos saborosos, cuja harmonia original de forma e de cor nutre os olhos e excita a fantasia antes de tentar os lábios, seja uma norma fundamental para uma refeição perfeita. Escolheremos, então, uma grande laranja, e através de um furo, liberá-la-emos de sua polpa: o esquelético invólucro nós trataremos de modo a obter a figura de uma pequena cesta, com o cabo e a redonda cavidade. Aqui colocaremos uma fatiazinha de presunto enfiado um em pedaço de grissini, uma alcachofrinha ao azeite, um pimentinha em conserva. No interior desta última será lícito enfiar um bilhetinho enrolado, sobre o qual será precedentemente escrita uma máxima futurista, ou mesmo um elogio a um convidado. Será fácil descobrir a surpresa já que rege “a abolição do garfo e da faca para

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A cozinha futurista os complexos plásticos que possam proporcionar um prazer tátil prélabial”. Em resumo, uma coisa finíssima.

Um prato com rumores e odores
Segunda: Aerovianda, tátil com rumores e odores (idealizada por Fillìa). Aqui há um pouquinho de complicações. Futuristicamente comendo, trabalha-se com todos os cinco sentidos: tato, paladar, olfato, visão e audição. Submetemos ao leitor algumas normas da refeição perfeita, que nos servirão para saborear completamente o sabor dos pratos vindouros: o uso da arte dos perfumes para favorecer a degustação. Cada prato será, assim, precedido por um perfume com ele afinado, que será eliminado da mesa, mediante ventiladores. Ou como o uso dosado da poesia e da música como ingredientes imprevistos para acender com a sua intensidade sensual os sabores de uma determinada vianda. O segundo prato consiste em quatro pedaços: no prato será servido um pedaço de erva-doce, uma azeitona, uma fruta cristalizada, e o “aparelho tátil”. Come-se a azeitona, depois a fruta cristalizada, depois a erva-doce. Ao mesmo tempo, passa-se com delicadeza a ponta dos dedos indicador e médio da mão esquerda sobre o aparelho retangular, formado por um retalho de damasco vermelho, um quadradinho de veludo preto e um pedacinho de lixa. De uma fonte sonora, cuidadosamente escondida, partem as notas de um trecho de ópera wagneriana e, simultaneamente, o mais hábil e gentil dos garçons pulveriza pelo ar um perfume. Resultados maravilhosos: é provar para crer.

O metal que perfuma
Terceiro prato: Caldo solar (idealizado pelo cozinheiro Ernesto Piccinelli). É um consommé no qual são embalados alguns ingredientes, da cor do sol. Excelente. Quarto prato: Todoarroz (de Fillìa). É uma

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Fillippo Tommaso Marinetti coisa muito simples: um risoto à italiana, temperado com vinho, cerveja e fondue. Muito bom. Quinta rodada: Carneplástico. Este prato é um marco miliário da cozinha futurista. Transcrevemos aqui a receita, para a alegria das nossas leitoras: “interpretação sintética das paisagens italianas, é composto de uma almôndega cilíndrica de carne de vitela assada, recheada com onze qualidades diferentes de verduras e legumes. Este cilindro, disposto verticalmente sobre a base do prato, é coroado por uma camada de mel, e sustentado na base por um anel de lingüiça que se apóia sobre três esferas douradas de carne de frango”. Um prodígio de equilíbrio. Sexta: Ultraviril. Não nos demoraremos em descrições minuciosas: Basta dizer que é um prato para senhoras. Sétima: Paisagem alimentar. É o inverso dos pratos anteriores; esta é só para homens. Excelente. O mar da Itália, a Salada mediterrânea e o Frangofiat, o oitavo, o nono e o décimo pratos, servem-se juntos. Particularmente notável este último, idealizado por Diulgheroff. Pega-se um frango respeitável, e cozinha-se o mesmo em dois tempos: primeiro aferventado, depois assado. Cava-se na coluna da ave uma cavidade grande, dentro da qual colocam-se uma porção de bolinhas, das que se usam para coxim, de aço doce. Sobre a parte posterior da ave costura-se, em três fatias, uma crista de galo crua. Coloca-se no forno a escultura assim preparada, deixando-a por aproximadamente dez minutos. Quando a carne tiver absorvido bem o sabor das bolinhas de aço doce, então o frango é servido à mesa, com adorno de chantilly. Ainda foram servidos outros dois pratos, fora do programa. Um deles, oferecido exclusivamente aos jornalistas, não nos pareceu facilmente decifrável. Acreditamos ter encontrado traços de mortadela de Bolonha, de maionese, daquele tipo de doce turinês conhecido sob a denominação de creme Gianduia; mas, vinte e quatro horas depois da ingestão, após um minucioso exame de consciência, não somos mais capazes de afirmar nada. Mais simples, ao contrário, o outro prato extra,

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A cozinha futurista que o pintor Fillìa definiu Porroniana e Marinetti: porco excitado. Um salame cozido normal veio apresentado imerso em uma solução concentrada de café expresso, e temperado com Água de Colônia. O ritual, assim, está para chegar ao fim. E na hora do espumante falaram Felice Casorati, o escultor Alloatti, o advogado Porrone, Emilio Zanzi, o pintor Peluzzi e enfim S.Exª. Marinetti, que elogiou vivamente Fillìa e Diulgheroff pelos concretos resultados atingidos. Apareceram contemporaneamente: na “Gazzetta del Popolo” um divertido artigo de Ercole Moggi A taverna futurista do santopaladar inaugurada por F.T.Marinetti; no “Regime Fascista” um entusiástico artigo de Luigi Pralavorio: Macarrão já era: Carnescultura, no “Giornale di Genova” um favorável artigo de Marcaraf, A inauguração do Santopaladar. Eram os jornalistas presentes ao almoço. Em seguida, em todos os jornais italianos e estrangeiros, foram reproduzidos os artigos de Moggi e de Stradella, com clamorosos comentários e muitas fotografias reproduzindo os locais, as formas dos pratos, etc., etc. Enquanto jornalistas e fotógrafos de Roma e de Paris chegavam à “Taverna Santopaladar”, Ercole Moggi, após nova entrevista com o pintor Fillìa, publicou na “Gazzetta del Popolo” um outro artigo: Revelados os mistérios da cozinha futurista, em que eram fornecidas as fórmulas exatas das primeiras iguarias realizadas, indicava-se o custo mínimo das refeições futuristas e anunciavam-se outras surpreendentes manifestações iminentes. Sob os títulos: “Os cozinheiros futuristas em teste”- “Isto não é nada, avançaremos muito mais”- “Fillìa contra Artusi”- “Santopaladar? Ora!” os maiores jornais do mundo difundiram, discutiram e polemizaram. De Estocolmo a Nova Iorque, de Paris a Alexandria no Egito atingiam páginas inteiras de jornais ilustrados dedicados ao assunto. A cozinha futurista havia conseguido se impor e iniciava assim o período mais intenso de suas afirmações para a renovação da alimentação.

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No manifesto da cozinha futurista fala-se com precisão da necessidade de servir-se da eletricidade e de todas as máquinas que aperfeiçoam o trabalho dos cozinheiros. fornos elétricos. da cozinha futurista) o qual aborda o problema da decoração dos locais onde se consomem vinhos e bebidas italianas. não apenas oferecem as maiores garantias. são para sublinhar as adesões dos diversos jornalistas. Alamanno Guercini. etc. isto é. construtores..Fillippo Tommaso Marinetti As discussões sobre a cozinha futurista não deveriam naturalmente limitar-se somente ao campo alimentar. ultimamente nos fazia notar a intensa propaganda da S. logo após a nossa batalha. é digno de nota também o artigo do Dr. Em um outro campo. de dar um ar de modernidade às Feiras de produtos agrícolas e industriais. caldeiras. etc. Muitos restaurantes adotam fogões elétricos.E. mas são estudadas de tempos em tempos de acordo com a necessidade de aplicação e funcionamento. com indiscutíveis vantagens sobre os produtos importados. falam da necessidade de modificar também o interior dos locais. Eis os pontos principais do seu artigo: “Há tanta gente. em muitos escritos. esquecendo-se de que na Itália existem insuperáveis produtores de fogões.indd 174 7/4/2009 15:51:24 . Pittalunga. arquitetos.P. que pode gostar das formas arquitetônicas antigas e degustar vinhos modernos (preparados nos ultramodernos estabelecimentos enológicos!) entre os muros de 174 Cozinha futurista. O Eng. por exemplo. porque a nossa vontade de renovação expressou-se sempre claramente a favor de todos os ramos e de todas as atividades da arte e da vida. etc. de apresentar os alimentos e os produtos da cidade e do campo segundo o espírito dos nossos tempos. Portanto. fornos.. etc. redator-chefe do “Giornale Vinicolo Italiano” (que inteligentemente se ocupou. mas infelizmente continuam a recorrer aos estrangeiros.S para esta produção italiana e sublinhava como infelizmente os proprietários dos grandes restaurantes são ainda desconfiados a respeito das máquinas que. neste mundo. que.

explodiram na construção das enormes tinas de 80. ou nas catacumbas estranhamente complicadas. ou se por acaso pensam. publicidade. e após terem tentado ovalizar-se ao máximo.indd 175 7/4/2009 15:51:24 .000 litros. que 175 Cozinha futurista. que se moderniza com o progresso multiforme: é uma bebida dinâmica. Provavelmente não querem nem mesmo lembrar que os barris de madeira cujos arredores são abundantemente decorados vão – ai de nós! – diminuindo de importância nas novas cantinas que adotam largamente as enormes baterias de banheiras em cimento armado em andares múltiplos. Com isto. que contém carburante-homem e carburante-motor.000 litros de capacidade.000 foram reservados aos barris de madeira. não se negará nem se criticará qualquer outra iniciativa da arte para valorizar o vinho: apenas se solicitará que se abram as portas aos artistas de vanguarda e à sua atividade artística e publicitária. ensurdecidos pela música selvagem à base das “jazz-band”.000. apresentação. que o vinho poderia hoje procurar e encontrar na arte dos inovadores. Parece-me. não atribuem a isso nenhuma importância. pavilhões. Por exemplo: em um estabelecimento de recente edificação. Até mesmo os pobres tonéis seguem o influxo do modernismo. Se o vinho é uma bebida de tradição antiquíssima. Esta gente não pensa de fato que naquelas épocas remotas a uva era esmagada com os pés.500. com respeito a todas as opiniões. uma aliança muito apreciável. de 4.A cozinha futurista construção medieval. somente 1. em Roma. no que concerne a arquitetura. é entretanto bebida que se renova anualmente. Nós devemos dominar as nossas predileções artísticas pessoais e percorrer aquelas vias mais úteis e prático-econômicas de propaganda vinícola que parecem dar resultados. na genialidade dos futuristas. restaurantes. decoração.

Na Itália. aplicados praticamente. o Pavilhão de Arte Sacra é uma realização racional verdadeiramente útil. Muitos catálogos de vinhos franceses são publicações completamente futuristas. catálogos. licores. os vinicultores deveriam considerar seriamente as concepções artísticas novadoras. E o mais moderno e mais animado era o restaurante italiano idealizado pelos arquitetos futuristas Fiorini e Prampolini. elas se aproveitarão largamente das novas formas de arte. espaço. As direções das feiras e das mostras poderão fazer muito.Fillippo Tommaso Marinetti por muitas razões se pode imaginar bem aceita por um extenso público de produtores. É tempo de exaltar e propagandear o vinho com os mesmos critérios da modernidade. se manifestações vinícolas acontecerem em Roma. aos numerosos valores dos locais modernos. antes de construir stands. 176 Cozinha futurista. Nos concursos regulares dos pavilhões que tem por objeto o vinho. Em Paris. economia. de organizar a publicidade. Em Pádua. em Berlim. da propaganda e valorização do vinho italiano. na Mostra Colonial. consumidores. bela e que cumpre sua função. centenas de bares são em estilo futurista. esplendor de metais e de cristais.indd 176 7/4/2009 15:51:24 . do futurismo. etc. Deve haver lugar para todos. industriais. aquele da economia: que não deve ser menosprezado nestes momentos difíceis. cartazes futuristas.. especialidades. eram de estilo racional. farão coisa útil e boa. pouquíssimas e esporádicas foram até hoje as tentativas. E pode-se acrescentar. Quero acreditar que em 1932. no campo da propaganda vinícola! E se os futuristas italianos se ocuparem com fecunda e prática atividade. em Viena. Neles há higiene. enquanto o trabalho destes artistas italianos é apreciado no exterior. cerveja. Em Paris. comerciantes. restaurantes. numerosos pavilhões de vinhos.

a propósito da cozinha futurista. a favor e contra os novos pratos futuristas.Turnê de propaganda em diversas cidades da Tunísia.indd 177 7/4/2009 15:51:24 . Conferências Cozinhárias A polêmica sobre a cozinha futurista era tão intensa e presente em cada um. Mino Rosso. . inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista. na intenção de servir. escrevendo no “Giornale Vinicolo Italiano”. nas quais exaltou e impôs à atenção do público os valores da nova cozinha: . . .“Institutos Fascistas de Cultura” de Brescia e Cremona. . aos interesses vinícolas nacionais”. na abertura da Mostra do grupo vanguardista e futurista “Sintesi”. na abertura da Mostra pessoal dos pintores futuristas Fillìa e Zucco. Saladin.“Galleria Botti” de Florença. E agora convidamos os artistas inovadores a colaborar conosco.Conferências futuristas em Budapeste. Diulgheroff. durante a Mostra de Aeropintura Futurista. que todas as conferências de Marinetti eram freqüentemente seguidas por clamorosas discussões a favor e contra o macarrão. as seguintes conferências.“Amici dell’Arte di Novara”. 177 Cozinha futurista. . inaugurando a Mostra de Aeropintura Futurista.“Circolo Sociale” di Cúneo. também desta forma. Alimandi e Vignazia. Pozzo.“Galleria Vitelli” de Gênova. . em frente a imensas multidões. . fez.A cozinha futurista Eu já esperava isto há um ano. Zucco. Oriani. Marinetti. . inaugurando a Mostra dos pintores futuristas Fillìa.“Sala dell’Effort” em Paris.“Circolo degli Artisti” de Trieste. de fevereiro de 1931 a fevereiro de 1932.

carnescultura. no atraso são passadistas vocês também. por ocasião da Mostra dos grupos futuristas turineses e ligúrios.indd 178 7/4/2009 15:51:24 . perfumes e músicas da Itália. Rosina. frangofiat.realizado domingo. vinhos. docelástico. mar da Itália. aerovianda (tátil. eu achava que os futuristas. com rumores e odores). A lista era composta pelas seguintes novidades: Antepasto Intuitivo. Ele me olha e sorri irônico. Presidente da Federação dos Comerciantes. A refeição futurista de Novara Durante a “Mostra de Arte Futurista” no Círculo dos Amigos da Arte de Novara. – Comer no futuro… que poderia haver de mais futurista? 178 Cozinha futurista. em Novara – ninguém tenha escrito um processo verbal estenografado consagrando ao futuro os comentários com que Fillìa preanunciava os pratos. foi organizado. 18 de abril. para inovar. Eis como o diretor do jornal “A Itália Jovem” descreveu em um brilhante artigo o acontecimento: “É realmente um pecado que sobre este jantar futurista . .Escute. teriam antecipado mas ao contrário há a mesma espera asfixiante como em todas as refeições deste mundo burguês. um banquete dirigido pelos futuristas Fillìa e Ermanno Libani. O horário estabelecido para o banquete já havia passado há muito e ninguém falava em finalmente dar princípio a este convívio luculiano. Aproximo-me de… . caro. por iniciativa do Dr.Fillippo Tommaso Marinetti . cervejas.Conferências em Sofia e Istambul.“Teatro Nacional” de Savona. fruta simultânea. espumantes. todoarroz.

Estes bilhetes são cuspidos.indd 179 7/4/2009 15:51:24 . e consiste em minúsculos bilhetes encondidos dentro das azeitonas recheadas. Em relação aos odores. Servem-nos elegantíssimos cestinhos escavados em casca de laranja e preenchidos com tudo o que constituía o velho antepasto caro às nossas bisavós: salame de autêntico porco e picles Cirio. o garçom passa com um grande esborrifador espargindo a cabeça dos convidados (sugerimos a Fillìa servir uma outra vez tal lavagem capilar. um pedaço de seda e um pedaço de lixa: não é obrigatório – explica Fillìa – comer a lixa. aquilo que Fillìa nos apresentará na mostra de arte sacra de Pádua. 179 Cozinha futurista. dos homens calvos). segundo informações seguras de estudiosos do gênero. abertos e lidos em voz alta com grande deleite para os presentes: Emanuelli é o maior jornalista. eram já utilizados mesmo há vinte anos. para a incolumidade. um pedaço de veludo. entenda-se o Deus dos futuristas. assinado Enrico Emanuelli. tudo atravessado por pequenos bastões de grissini que. Mas algo de novo existe. Isto também já sabíamos. A Aerovianda E chegamos à Aerovianda: é um prato que não aconselho aos esfomeados. sentamo-nos à mesa: Antepasto intuitivo. uma azeitona e uma bergamota. as quais devem ser levadas à boca contemporaneamente com a mão esquerda. É convicção geral que este prato será na realidade pulado completamente para ser fiel à sua definição de intuitivo: mas não. servirá apenas para tocar com a mão direita dando sensações pré-labiais que tornam saborosíssimas as iguarias. É composto por uma fatia de erva-doce. morna. Há ainda um pedaço de cartolina sobre o qual estão colados. dos resfriados.A cozinha futurista O início da refeição Como Deus quer. um perto do outro.

Aqui se corre o risco de uma indigestão! Passemos ao mar da Itália que até os passadistas poderiam sem esforço introduzir no elenco das delícias de família. muda-se tudo : apagam-se as luzes brancas e continuam acesas as vermelhas: semi-escuridão. proprietário do hotel d’Itália. Ótimo. Terminado o todoarroz. Servirão um prato inventado na hora pelo cavalheiro Coppo. Mas por que não reproduziram – pergunta. e composto basicamente por arroz temperado com vinho e cerveja. um pedaço de figo. precisam de muita penumbra. alguém – também o grunhido dos porcos? Havia salame também!! . O cavalheiro Fontana me sussurra: os pratos futuristas. como certos versos de poetas modernos e como todos os químicos brilhantes. Sobre um prato ogival são dispostos sobre o maior raio pedaços de filé de peixe cozidos na manteiga sobre os quais são fixados em ordem decrescente com o auxílio de um palito de dentes. que emite som parecido com o coaxar das rãs. 2 Instrumento de ferro ou madeira.indd 180 7/4/2009 15:51:24 .2 Arroz e feijão. entre risos.A carnescultura – grita Fillìa – é o produto de todos os jardins da Itália. prossegue jubilosamente: o que deixou todos em tal estado foi o anúncio de que não haverá discursos oficiais. Um pouco da culpa é também do Grignolino quase mau-caráter. uma cereja confeitada. E a digestão é protegida. ironias e sátiras. rãs e salame. um pedaço de banana da Austrália.Fillippo Tommaso Marinetti A refeição. Todoarroz: um prato muito viril na forma. 180 Cozinha futurista. Comestibilíssimo: há até quem peça bis. Os garçons servem enquanto o coaxar das rãs é reproduzido por uma “battistangola”.

Neste restaurante adequadíssimo. Sobre o frangofiat. fruta seca. stop. o sabor da nossa melhor cozinha. O grande banquete futurista de paris Na Exposição Colonial de Paris o arquiteto futurista Fiorini realizou um audaz pavilhão que sediou o Restaurante italiano. quiseram realizar pela primeira vez em Paris a cozinha futurista e entraram em acordo com os pintores Prampolini e Fillìa para o preparo da refeição. mulheres calvas e frangofiat! O docelástico é formado por modestas carolinas recheadas com creme de cores berrantes. O interior do pavilhão. A fruta simultânea é composta por diversos pedaços… de fruta descascada conectados entre si: laranja. 181 Cozinha futurista. por reconhecimento geral. Café. Davam ao ambiente uma atmosfera simultaneamente africana e mecânica que dava esplendidamente a vontade de interpretar os motivos coloniais segundo uma sensibilidade moderna e futurista. Para nos acalmar. representam o que de mais moderno. maçã. É um doce elástico porque colaram sobre cada um pedaço de ameixa.A cozinha futurista Nos dois lados do prato creme de espinafre. Fillìa tece elogios à mulher do futuro careca e de óculos: eis uma combinação de sorte. tinha sido genialmente decorado com 8 enormes painéis do pintor futurista Enrico Prampolini: estes painéis. em cima e no fundo molho Cirio. as “Edições Franco-Latinas” representadas pelos senhores Bellone e Farina e pelo senhor Pequillo. amplo salão com capacidade para mais de 100 mesas.indd 181 7/4/2009 15:51:24 . calo-me a título de protesto. O aspecto de um grotesco transatlântico. de mais lírico e de mais inventivo se pode realizar sobre o tema “colonial”.

A lista dos pratos: 1.indd 182 7/4/2009 15:51:24 . eram anunciados números de dança. Estavam representados os maiores jornais franceses. Les grandes eaux (du peintre Prampolini) 2. Les îles alimentaires (du peintre Fillìa) 8. Viandesculptée (du peintre Fillìa) 11. tactile. Poulet d’acier – à surprise (du peintre Diulgheroff) Cochon excité – à surprise (d’un primitif du 2000). Préface variée (du peintre Prampolini) 6. Carrousel d’alcool (du peintre Prampolini) 3. De fato. Hors d’oeuvre simultané (du peintre Fillìa) 4. Paradoxe printanier (du peintre Prampolini) 13. bruitiste et parfumé (du peintre Fillìa).Fillippo Tommaso Marinetti A multidão que se empurrava na noite da manifestação para intervir no grande banquete era a melhor de Paris. Além de tudo. entre um prato e outro. o mero anúncio da refeição futurista havia levantado entre os compatriotas “bempensantes” uma onda de reprovações e de comentários hostis que ameaçavam uma complexa insurreição es- 182 Cozinha futurista. Vins – Mousseux – Parfums – Musiques – Bruits et chansons d’Italie. Aéromets. Excitant gastrique (du peintre Ciuffo) 5. O jornalista futurista Francesco Monarchi. de canto e de música. Machine à goûter (du peintre Prampolini) 12. Gateauélastique (du peintre Fillìa) 14. Equatore + Polo-Nord (du peintre Prampolini) 9. 10. descreve assim o banquete: “Os acontecimentos que estamos para expor são de uma gravidade excepcional. Toutriz (du peintre Fillìa) 7. redator-chefe da Nova Itália.

a segurança eletrizante de S. organizadoras do evento junto com as Edições Franco-Latinas. daremos uma ampla lista de nomes. a senhora Belloni e a senhorita Farina. Palidíssimas de emoção (palidez que entretanto aumentava sua graça). transmitiram a coragem das próprias ações ao titubeantes. em uma última dúvida angustiante. sempre sensível a qualquer manifestação italiana. estava à mesa de honra com alguns membros de seu 183 Cozinha futurista. Marinetti. o Príncipe de Scalea. enfrentando a distância. reunidos na soleira. especialmente as gastronômicas. S. as tradições. a festosa alegria do ambiente animado pelos enormes painéis de Prampolini.indd 183 7/4/2009 15:51:25 . já que esses passarão para a história como precursores no degustar a cozinha do futuro. Apesar desta onda de pessimismo. as duas senhoras estavam na impossibilidade absoluta de animar os temerosos. Contrariamente aos nossos hábitos. Somente as faces enigmáticas de Prampolini e Fillìa. encheram o salão do Pavilhão futurista na noite da última quarta-feira. Ex. recebiam os heróicos convidados. Exª. na realidade. que.A cozinha futurista piritual. idealizadores dos pratos futuristas. dos rumores e das canções representava absolutamente um pesadelo dificilmente superável. os títulos das iguarias podiam dar margem às mais negras apreensões e a complicação das músicas. dos pratos táteis. a inclemência do tempo e o terror do acontecimento. *** Na entrada. Estes bempensantes achavam indigno o caráter revolucionário dos pratos anunciados. não ousavam penetrar na sala. dos perfumes. No entanto. não devem jamais ser tocadas. porque segundo eles. muitos corajosos. Por dever jornalístico devemos registrar que. mantinham o mistério do iminente ritual. o imponente aparato do pessoal de serviço e a branca calma tradicional das mesas postas.

Madame De Flandreysy. São anunciadas as duas misturas-aperitivos criadas pelo pintor Prampolini: “As grandes águas” e “Carrossel de álcool”. mas primeiro resultado satisfatório. Madame Mola. a senhorita Cirul. 3 vinho tinto do Piemonte 184 Cozinha futurista. com o representante do Ministro Reynaud. Madame Massenet-Kousnezoff. Notamos: a Marquesa de San Germano. o cavalheiro Gennari do Diretório. Madame Lakowsky.. Vittorio Podrecca. Madame Madika. o Conde Emanuele Sarmiento. tanto que alguns repetiram. sidra e bitter e de recolher na outra uma cândida cápsula envolvendo uma dose de anchova. Madame Ny-eff. o crítico de arte Eugenio D’Ors da Academia de Madri. o doutor Lakowsky. a senhorita Budy.Fillippo Tommaso Marinetti Comissariado. Madame Van Donghen. etc. a Senhora Podrecca. secretário administrativo do Fascio. *** Às 21h30 um soar de gongo formidável reconduz os presentes à realidade das coisas. Madame Castello. etc. Miss Moos. o senhor Cartello. o senhor Pequillo das Edições Franco-Latinas. a Senhora Pequillo. Madame Tohaika. Muitas e elegantes senhoras haviam corajosamente desafiado a aventura. Surpresa geral ao pescar em uma chocolate e queijo navegantes em Barbera3 . etc. o deputado Ciarlantini. Durio. o Regente do Fascio doutor Saini. o conhecido pintor Sepo. a Condessa De Fels. entre os quais o Comendador Dall’Oppio e o Marquês de San Germano. o advogado De Martino.indd 184 7/4/2009 15:51:25 . Algumas caretas. Uma imprevista luz verde torna ainda mais espectrais os comensais. Em outras mesas: o advogado Gheraldi da Sociedade dos Autores.

pelos risos gerais e pelos aplausos definitivos e intermináveis. posto que talvez apenas ela tenha compreendido quanta beleza possa derivar de uma interpretação absolutamente nova e genial da dança. Outra interrupção e Mira Cirul inicia as suas danças que suscitam um grande e continuado entusiasmo. o “estimulante gástrico” (rodela de abacaxi com sardinha. anuncia a Aerovianda do pintor Fillìa. veludo e seda. azeitona. ovos. banana. cereja. excelente união de peixe. Quando começava-se a criar um certo hábito pela cozinha futurista. a arte moderníssima desta dançarina de exceção é dificilmente superável. O “antepasto simultâneo” de Fillìa (casca de maçã triturada. a orquestra entoa um barulhento e violento jazz. Na verdade. Primeiro intervalo: a senhorita Jole Bertacchini. que se havia oferecido para ilustrar os pratos.indd 185 7/4/2009 15:51:25 . canta deliciosamente e é muito aplaudida. vinho. do San Carlo de Napoli. Ao mesmo tempo. A “Aerovianda” é composta por frutas e legumes diversos que são comidos com a mão direita sem a ajuda de nenhum talher. É devorado pelos comensais que começam a modificar seu primitivo estado de ânimo. cerveja. o Conde Sarmiento. figo. conquistaram rapidamente a simpatia dos paladares.A cozinha futurista Três antepastos servidos contemporaneamente cortaram pela raiz as polêmicas sobre os aperitivos. Nenhuma trégua: o “Todoarroz Fillìa” é anunciado como uma mistura de arroz. atum e nozes) e o “início variado” de Prampolini (manteiga. e os garçons esborrifam na nuca de cada comensal um forte perfume de cravo. enquanto a mão esquerda acaricia um prato tátil formado por lixa. tomates e confeitos). 185 Cozinha futurista. salame e anchovas). tomates e espinafre. Retorna inexorável o imponente desfile de garçons que trazem agora as “ilhas alimentares” de Fillìa. se alarmaram pelas suas formas audazes. A sala ribomba pelos gritos das senhoras violentamente aspergidas com perfume. ovos e parmesão.

da Ópera de Monte-Carlo. e após ter relevado a magnífica organização da noite por parte das “Edições Franco-Latinas”. O corpo do frango mecanizado pelos confeitos de coloração alumínio. Outro intervalo: a Senhora Maria Kousnezoff. foram apreciadíssimos. O “Frango de aço” de Diulgheroff e o “Porco excitado”. Depois de ter louvado as criações gastronômicas dos pintores Prampolini e Fillìa. O senhor Roberto Marino. em duas interpretações. apesar da audácia de formas e originalidade de conteúdo. Marinetti com sua 186 Cozinha futurista. o “Paradoxo de primavera” e a “Máquina de degustar” de Prampolini. que havia participado do banquete não somente presidindo-o mas intervindo a todo momento nas discussões e na exaltação das iguarias. Marinetti. o Polo Norte + Equador de Prampolini. Exª. acompanhada ao piano pelo Maestro Balbis. elogiou o jantar futurista como a primeira realização em Paris do célebre manifesto da cozinha futurista. Exª.Fillippo Tommaso Marinetti (Apenas uma pessoa permanecia alheia ao entusiasmo geral: imediatamente interrogada descobriu-se que era canhota – por isso esfregava o prato tátil com a direita enquanto comia com a esquerda). Desde já a renovação da cozinha futurista havia triunfado. o “Docelástico” de Fillìa. demonstrou mais uma vez sua excepcional qualidade de voz que lhe deram fama mundial. da Ópera e do ex-teatro imperial de São Petersburgo. cantou depois admiravelmente algumas canções napolitanas. e o salame imerso em um molho de café e água de colônia foram declarados excelentes. foram reservados a apenas dez pessoas dois pratos surpresa. *** S. S. com mais de 2000 artigos e demonstrou o sentido de arte-vida que sempre animou as atividades futuristas. A Carnescultura de Fillìa. manifesto que suscitou uma polêmica mundial.indd 186 7/4/2009 15:51:25 . Entre os diversos pratos.

Exª. na verdade. em que inaugurou-se uma Mostra de Arte Futurista. *** Enquanto se renovam os aplausos ao breve e vivo discurso de Marinetti. a definitiva superação entre os convidados de suas últimas dúvidas sobre as conseqüências da cozinha futurista. a 22 de novembro de 1931. Joséphine Baker transformada subitamente no centro das atrações mais vivo e completo. T. teve um papel importantíssimo no bom êxito da festa: ao seu irresistível fascínio deve-se. uma jornada futurista. S.indd 187 7/4/2009 15:51:25 . Longos artigos foram dedicados ao acontecimento. Além disso. com muito espírito. acompanhada pelo senhor Abbatino.” O aeroalmoço futurista de chiavari O Comendador Tapparelli organizou admiravelmente em Chiavari.A cozinha futurista habitual eloquência homenageou a coragem dos presentes e observou com satisfação o contentamento geral. no Corriere della Sera e em muitos outros jornais ita- 187 Cozinha futurista. aparece na sala Joséphine Baker. em todos os jornais lígures. Marinetti sobre “Futurismo mundial”. A Baker recebeu a mais festiva acolhida e participou do final da excepcional noite que se fechou com danças animadíssimas. Marinetti. realizou-se o Circuito de Poesia (ganho pelo poeta triestino Sanzin) e uma conferência de F. mais de 300 pessoas participaram do grande aeroalmoço realizado no Hotel Negrino: lá encontravam-se as maiores autoridades da Cidade e da Região. aludiu então aos números de canto e dança sobressaltando o proposital contraste da parte lírica (exclusivamente tradicional) com o futurismo integral do jantar e das danças.

Damos aqui os pontos essenciais do brincalhão artigo de um redator do Corriere Mercantile: “A parte forte do dia – parte forte ao menos para o cronista ávido de divagações e desejoso de ocasiões para os assim chamados parênteses de cor – foi sem dúvida o “Primeiro aeroalmoço futurista”. esta empada. Tâmaras surpresa O almoço. para romper com os seus molhos a maciça porta fechada dos ravioli e do macarrão. muitos dos quais sentiam na cavidade gástrica um certo tremor que não era de todo devido ao apetite. como se sabe. de nozes e de tâmaras: tâmaras que se revelaram. desabrochou uma espécie de pudim que deixou cada esôfago engasgado de admiração. Era composta. ao exame dos dentes. Cada prato foi escrupulosamente preparado pelo célebre cozinheiro Bulgheroni. por uma cabeça de vitelo nadando. entre a mais viva expectativa dos presentes.indd 188 7/4/2009 15:51:25 . cheias de uma surpresa quase ciclópica: elas estavam cuidadosamente recheadas de anchovas de modo que. é um bruto materialista. especialmente vindo naquele dia de Milão a Chiavari. mísera e desconcertada. em meio a uma profusão de abacaxis. desta inocente cabeça. mas a um certo temor racional. uma espécie de orgia carnescultural que se desenrolou nos salões do Hotel Negrino e que submeteu a uma dura prova o estômago de uns trezentos convidados. iniciou-se com uma Empada de aquecimento: uma espécie de antepasto talvez poético demais para ser apreciado devidamente pelo estômago que. destes abacaxis e com estas frutas africanas misturadas a peixe. 188 Cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti lianos.

enxugá-la com o guardanapo e guardá-la na carteira como recordação do almoço e como testemunho de um banquete a ser contado. Muitos dos convidados já tinham. ou seja. Teve lugar o terceiro prato. os convidados tentaram corajosamente o experimento da deglutição. aos netos.A cozinha futurista As rosas em brodo Prosseguiu-se. “Boi na fuselagem”. audaciosamente com um Decolapaladar. então. de modo que não se podem reprovar os que não souberam reprimir um instintivo gesto de terror no momento em que apareceu a taça contendo o “alimento conclusivo”. grandes pétalas de rosa. renunciou a levá-lo a cabo e contentou-se apenas em tirar do prato uma pétala de rosa. a esta altura. De qualquer modo. misteriosíssimas almôndegas sobre cuja composição não é belo nem útil indagar. nome que designava um brodo de natureza bastante bizarra. composto por partes quase iguais de caldo de carne. vagas e frágeis. menos belas as almôndegas. acomodadas sobre aeroplanos de miolo de pão.indd 189 7/4/2009 15:51:25 . porém mais de um com evidente covardia. Alimento que se vangloriava de 189 Cozinha futurista. vinagre e pitadas de sal. mais tarde. este prato esteve entre os mais apreciados como aquele que ofereceu a muitos dos convidados o direito de saciar sua fome ao menos com pão. seu aparelho digestivo em condições não de todo normais. onde fatias de beterraba e fatias de laranja faziam complô aliadas a azeite. Postos diante de tal obra prima da lírica brodística. de champagne e de licores: sobre esta mistura. que como nunca então pareceu um alimento precioso e divino. nadavam. Belos os aviões. que para os iniciados deve ter extraordinárias virtudes apetitivas. que consiste em uma combinação discretamente diabólica. Eletricidade atmosférica confeitada E eis que aparecem os garçons com grandes bandejas carregando o “servovoadinhas de pradaria”.

Ao sentar-se Marinetti. com admirável eloquência que lhe escapava espontânea como se ele não tivesse tocado na comida.indd 190 7/4/2009 15:51:25 . entre a maior expectativa. Devemos dizer. ao menos. Estas queridas e inesquecíveis “eletricidades” tinham a forma de coloridíssimos sabonetes de mármore fingido. pelo escrúpulo de cronistas. assim. exaltando. O aerobanquete futurista de bolonha Os pintores futuristas Caviglioni e Alberti organizaram em Bolonha. ser eternizado em uma lápide de bronze. Marinetti em 12 de dezembro de 1931. A seguir os mesmos pintores. uma importante Mostra de Aeropintura que foi inaugurada por F. que foi assim narrado no Resto del Carlino: “O sucesso de curiosidade do Aerobanquete foi enorme. T. Dizemos infelizmente porque um tal grupo de heróis merecia. que declamou com ímpeto aviador um hino quase pindárico intitulado ‘Tubulação’ ”. levantou-se o poeta Farfa. infelizmente não sabemos os nomes. serviram na Casa do Fascio um grande Aerobanquete (cujo preço era de 20 liras por pessoa). irrompeu em um violento sermão contra a infâmia do macarrão e o vitupério dos ravioli. contendo em seu interior uma massa doce formada por ingredientes que só poderiam ser precisados após uma paciente análise química. ao Amarração digestiva: amarração que nem todos realizaram.Fillippo Tommaso Marinetti um nome excessivamente dinâmico: “Eletricidade atmosférica confeitada”. os pratos futuristas e particularmente as tâmaras anfíbias das quais. recebeu ontem à noite às 21h30 ( também o horário era ligeiramente fora 190 Cozinha futurista. no confronto. escolhido pelo especialíssimo desafio culinário. e o salão da Casa do Fascio. E levantou-se a falar Marinetti que. foi possível provar um inesquecível ensaio. dado que muitos já estavam aprofundados no momento da decolagem. Chega-se. no Círculo dos Jornalistas. que apenas uma mínima parte dos banqueteadores ousou levar este sabonete à boca: daqueles que ousaram. no início do banquete.

E entre as autoridades estavam o Governador da Província comendador Turchi e o Reitor magnífico da Universidade prof. como costuma acontecer nos aviões autênticos). Entre as asas uma grande hélice – parada. (Desabitada. os pratos e os talheres. coloridas grosseiramente e entalhadas artísticamente.A cozinha futurista dos padrões!) muitas pessoas. Os copos são os de sempre. lá no fundo a cauda. ou kipfel vienense. elas são substituídas por batatas cruas.. Pouquíssima coisa visível. Nada das rosetas comuns ou bastões à moda francesa. Ghigi. As mesas foram dispostas com inclinações e ângulos. 191 Cozinha futurista. entre as quais notavam-se personalidades e autoridades. promovidos pela ocasião a motores de avião. pintores. e pior para quem não sabe distinguir entre as coisas que servem ao prazer do estômago e aquelas destinadas à alegria dos olhos.indd 191 7/4/2009 15:51:25 . mas não há absolutamente flores. senhoras e simples gourmets. para nossa sorte! . mas pãezinhos propositadamente modelados. Outra descoberta autêntica: o pão. que veio para sancionar com o sagrado selo do Studio. No lugar das toalhas de sempre encontramos folhas de papel prateado. o rebelde movimento de ódio ao macarrão. jornalistas. dando a impressão de um avião. idem idem. mais atrás dois cilindros de motocicleta. que reproduzem a forma de um monomotor ou de uma hélice. e é preciso confessar que a forma se presta extraordinariamente ao cozimento perfeito da massa e ao seu abiscoitamento. Aqui as asas – mas finas e estreitas como em um hidroplano de alta velocidade – aqui a fuselagem. Como no avião O Aerobanquete justificou o próprio nome através do cenário criado pelos organizadores. A síntese das mesas é evidente. que na fantasia dos promotores queriam ser alumínio. e uma chapa de lata polida serve como apoio de prato onde as senhoras controlam – Oh! o delicioso espelho de sorte – sua comprometida maquiagem.

O qual se chama “aeroporto picante”. o prato número dois apresenta-se majestosamente entre os “oh” dos presentes. enquanto o pintor Alberti.indd 192 7/4/2009 15:51:25 . mas repentinamente a sala imergiu em uma diáfana luz azul e um motor começa a funcionar na sala ao lado. diretor do refeitório. mas não nos parece nada além de uma salada russa alten-styl. provoca certa inquietude nos escalões. com o acréscimo de uma fatia de laranja casada com uma fatia de ovo cozido e uma azeitona.Fillippo Tommaso Marinetti Última constatação: os garçons usam um colete de celulóide de cor azul. onde o arroz é sempre aquele… o mesmo. 192 Cozinha futurista. O risoto de laranja.Observem como o barulho dos motores favorecem e nutrem o estômago… É uma espécie de massagem do apetite… 4 Relativo ao pintor futurista Fortunato Depero. E com pequenas fatias de laranja fritas doura-se a palidez da iguaria. O cardápio fala de “Estrondos ascensionais” mas S. O risoto de laranjas… O aerobanquete é inaugurado de modo levemente passadista: com o antepasto. Excelência Marinetti rebatiza o prato assim: risoto de laranja. exibe um pomposo e muito chamativo colete deperiano4 de mil cores. sejamos sinceros. mas o molho – ah. … e os rumores “nutrientes” Temíamos o advento de qualquer complicação. o molho! – é a base de laranja. O pintor Alberti anuncia gravemente – mas por que aquele senhor sorri? – que o avião voa a oito mil metros de altitude e Marinetti confirma com autoridade explicando: . E a laranja foi coberta com manteiga colorida rosa… Antes porém que os pareceres sobre o prato de inauguração se difundam.

para ouvir se relinchava. É o vinho em galões. não sente nenhuma saudade. aliada a uma lingüiça fina. as duas castanhas junto com uma lingüiça não produzem mais nenhuma impressão! Um pecado que a carne – depois do habitual giro de apresentação em volta das mesas – chegue quase fria. é futurista somente nas nuances. Marinetti aumente o seu… gelo. ao contrário. interrogando-o por que ousara cheirar a carne antes de experimentá-la. representante dos Aqueus. (Seria necessário outro). mas em voz baixa. e o acompanhamento compreende duas cebolinhas e duas castanhas fritas. . servido de algumas latas de óleo extradenso. Isto não é valo… E Magli num reflexo: . S.Queremos o carburante nacional. para 193 Cozinha futurista. E é um sucesso indiscutível. Exª. e na expectativa do prato central. e a multidão não encontra nada melhor que colocar-se a bater furiosamente sopre os pratos de lata.Justíssimo… Eu deveria tê-la encostado ao ouvido. E não adianta que S. E o carburante nacional (vulgo vinho das nossas colinas) avança triunfalmente. afirmando que a oito mil metros de altitude os alimentos não possam manter-se fervendo… Pouco depois o chefe do futurismo dirige a própria ofensiva contra o pacífico doutor Magli. os comensais se prestam a mordiscar as asas dos aviões panificados. – E uma homérica risada recebeu a piada.indd 193 7/4/2009 15:51:25 . Mas também o prato central – ou seja. O prato. entre uma taça de carburante nacional e um aceno nostálgico.A cozinha futurista Finalmente se desce novamente da “estratosfera” culinária.Exª. Ele é entusiasta do simpósio e pede aliás aos cozinheiros que façam-se presentes. O Aerobanquete prosseguiu assim entre um prato e uma piada. aos tortellini com molho. Mas depois dos experimentos a base de laranja. Marinetti. Trata-se na verdade de um escalope de vitelo. para se dizer a verdade.Isto – exclama – é passadista. promovidos assim ao posto de “entoarumores”. O vinho em … latas. o “Carnescultura com fuselagem de vitelo” – chega. .

como por exemplo o arroz temperado com laranja.Fillippo Tommaso Marinetti aplaudi-los. proclamando: . – E então uma voz clara se levanta do fundo da sala. enquanto um anônimo enviava um telegrama em que dizia textualmente: “Abaixo o macarrão.indd 194 7/4/2009 15:51:25 . De fato. Mas os solicitados demoram a vir. algumas das quais – acrescentou – são achados importantíssimos. mesmo se os anos nos acenam com suas chuvas e suas neblinas. o banquete encerrou-se com discursos. é a luta contra o peso. O nosso esforço tende a militarizar todas as nossas jovens forças. acolhidos pelos aplausos de Marinetti e seus sequazes. a barriga. de onde o macarrão está definitivamente em retirada. a trincheira da massa com ovos. dois cordons bleus da Casa do Fascio fazem sua entrada. logo depois. porque. A cozinha futurista é a realização do desejo geral de renovar a nossa alimentação. Mas os dois cozinheiros estão incertos.Meus senhores. e Marinetti repete a interpelação. Queremos para tanto que a cozinha italiana não se torne um museu. tudo bem. perdoem-nos. mas os tagliatelle são outra coisa!” Por fim. a obesidade. Os tagliatelle – diz – são agora a última trincheira dos passadistas. levantou-se Marinetti para declarar que a sua eloquência estava literalmente tampada pela suculência variada e deliciosa das aeroiguarias degustadas. Temem ser satirizados e parece que dizem em seu mudo discurso: . então o doutor Magli expressou os sentimentos dos “tagliatelistas”. Afirmamos que a genialidade italiana é capaz de inventar outros três 194 Cozinha futurista. levantou-se a falar a medalha de ouro Onida. Nós queremos manter a nossa antiga vitalidade goliardesca.Não vêm porque têm medo de nós! Mas trata-se de evidente calúnia. Teceu então elogios à cozinha futurista. – Venham os cozinheiros. mas a culpa não é nossa… Abaixo a “cozinha-museu” Iniciado pelo antepasto.

São típicas as seguintes anedotas: 1) Em Áquila. nem mesmo com problemas importantíssimos. S. nos quais o chefe dos futuristas foi obrigado a marcar a própria assinatura. depreciados. Marinetti concluiu o seu discurso e o Aerobanquete terminou. ( Propaganda internacional contra o macarrão) que abria vários concursos para combater a iguaria odiada e inventar novos alimentos. Esta carta foi dirigida a Marinetti. 3) Houve em Nápoles cortejos populares a favor do macarrão. tão profunda era nelas a fé no macarrão. Anedotas típicas Além dos milhares de artigos nos quais eram discutidos. As mulheres de Áquila que nunca antes se haviam preocupado. julgaram necessária esta sublevação coletiva. exaltados. Novara. Paris. invenções e humorismos sugeridos pela cozinha futurista e pela sua realização. enquanto os comensais levavam como recordação os pratos de lata. Com uma nova explosiva saudação aos colaboradores bolonheses.P. igualmente bons.indd 195 7/4/2009 15:51:25 . um número incalculável de mulheres se reuniu para assinar uma solene carta-súplica a favor do macarrão.Exª.A. 2) Apareceu nos jornais de Gênova o comunicado da fundação de uma Sociedade chamada P. condenados e defendidos os grandes banquetes futuristas de Torino. Chiavari e Bolonha. Seria possível formar diversos volumes recolhendo toda a explosão de bizzarria.A cozinha futurista mil pratos. 195 Cozinha futurista. em todas as revistas ilustradas ou diretamente entre o público. um enorme número de caricaturas e de anedotas circulava em todos os semanários. com a ponta de um garfo que fazia as vezes de buril”.I. porém mais adequados à sensibilidade modificada e às necessidades modificadas da geração contemporânea.

8) Representou-se. e aconteceu então uma clamorosa batalha pelas janelas e na rua com projéteis comestíveis e panelas. chegou de improviso F. enquanto alternam-se as polêmicas. para o espanto de todos. 6) Em Bolonha. em Bolonha. os clientes de duas trattorias italianas. preparam outras inovações originais. os mais célebres cozinheiros organizaram um congresso para decidir o mérito da cozinha futurista. Marinetti que. 9) Representou-se em Turim uma opereta de Sparacino e Dall’argine intitulada “Santopaladar”. 196 Cozinha futurista. que tentavam assim desacreditar a campanha por uma nova alimentação. e aconteceram então discussões e polêmicas violentíssimas entre os dois partidos. um teatro de revista intitulado “carnescultura”. declamaram-se pró e contra a cozinha futurista.indd 196 7/4/2009 15:51:25 . comeu avidamente um prato de espaguete: somente depois os comensais perceberam que Marinetti não era nada além de um estudante habilmente maquiado. Alguns feridos. T. 5) Em Turim. Califórnia. No entanto. 7) Apareceram em algumas revistas de grande tiragem fotografias de Marinetti no ato de degustar o macarrão: eram montagens fotográficas executadas por experts adversários da cozinha futurista.Fillippo Tommaso Marinetti 4) Em São Francisco. superando as primeiras realizações. situadas uma no térreo e outra no primeiro andar de uma casa popular. durante um grande jantar estudantil. um novo sentido de otimismo e de alegria dissipou o nostálgico e cinzento hábito dos velhos jantares e os futuristas.

Um passeio sonhador é igualmente inadequado. onde será servido um “peixe colonial ao rufar de tambor” e “carne crua esquartejada pelo som de trompa”. Inadequada a leitura de um livro ameno. mediante a arte de harmonizar os pratos futuristas. ao contrário. comestíveis. será aberto e recheado 5 Peixe da família dos mugilídeos. com o intuito de torná-la leve. a sugerir e determinar os indispensáveis estados de ânimo que não se poderiam sugerir e determinar de outro modo. 197 Cozinha futurista. A cozinha futurista propõe-se ainda. com grandes escamas arredondadas. estes combatentes à mesa. procurariam em vão uma preparação perfeita no beijo doloroso de uma mãe. infusa por 24 horas em um molho de leite. dos filhos ou em cartas apaixonadas. para entrar na linha de fogo às 4. alcaparras e pimenta vermelha. No momento de servi-lo. São fusiformes. em janeiro. Cardápio heróico invernal Os combatentes que devem subir no caminhão às 3 da tarde. ou sair em vôo para bombardear cidades ou contra-atacar tropas inimigas. PEIXE COLONIAL AO RUFAR DE TAMBOR: mugem5 aferventada.A cozinha futurista Os cArdápiOs FuturistAs sugestivos e determinantes A cozinha futurista propõe não somente uma revolução completa na alimentação da nossa raça. douradas ou prateadas. Combinamos programas de refeições a que nós chamamos SUGESTIVAS E DETERMINANTES. licor. espiritualizá-la e dinamizá-la.indd 197 7/4/2009 15:51:25 . de uma esposa. Coloquem.

cuja doçura nostálgica e decadente será brutalmente refutada pelos combatentes. que colocarão como raios a máscara contra gás asfixiante. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de verão de pintura-escultura Após um longo período de repouso. suavíssimos perfumes de rosa. separando-os uns dos outros com impetuosas notas de trompa sopradas pelo mesmo “comedor”. serão servidos aos combatentes pratos de caqui maduro. Enquanto estas desaparecem nas bocas. jasmim. conhaque e vermute branco. romãs e laranjas vermelhas. tentaria em vão excitar a própria inspiração em uma refeição suculentatradicional. No momento de partir. CARNE CRUA ESQUARTEJADA PELO SOM DE TROMPA: cortar um cubo perfeito de carne bovina. No momento do Paraselevantar.Fillippo Tommaso Marinetti com conserva de damasco intercalada com rodelas de banana e fatias de abacaxi. 198 Cozinha futurista. durolíqüido constituído por uma bolota de queijo parmesão macerado em Marsala. Será comido sob o rufar continuado de um tambor. servi-la sobre um leito de pimenta vermelha.indd 198 7/4/2009 15:51:25 . madressilva e acácia. Mastigar atentamente por um minuto cada bocado. engolirão o Explosãonagarganta. mantê-la por 24 horas em uma infusão de rum. Eletrocutá-la com correntes elétricas. com borrifadores. serão espargidos na sala. um pintor ou um escultor que deseje retomar sua atividade criadora às 3 horas da tarde de verão. pimenta preta e neve. Extraída da mistura.

um maço de salada. mas morno. um prato fundo cheio de vinagre forte. deveria passear para digerir e entre inquietudes e pessimismos cerebrais. servida uma refeição de puros elementos gastronômicos: uma sopeira de bom molho de tomate. Comerão tudo? Experimentarão partes? Intuirão as relações fantásticas sem sequer experimentar? À vontade! 199 Cozinha futurista. mate a fome enquanto observa o quadro do “Jogador de Futebol” de Umberto Boccioni. vestidos de lã branca e sem jaqueta. alho. Seja-lhe. Não quente. sob um caramanchão que deixe passar os dedos quentes do sol. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio vocabulivre primaveril O atravessar de um jardim primaveril entre os doces fogos de uma aurora cheia de timidez infantil deu a três jovens. terminaria por consumir a jornada fanfarronando artisticamente sem criar arte alguma. Acaso. sirva-se imediatamente um prato sinóticosingustativo de pimentões. verde. sem talheres. uma ansiedade entre o literário e o erótico que não pode ser apagada por um café da manhã normal. ao contrário. bicarbonato de sódio. bananas descascadas e óleo de fígado de bacalhau. eqüidistantes. um prato fundo cheio de mel. e desobedecendo continuamente aos hábitos enraizados nos nervos.A cozinha futurista Empanturrado. um maço de rosas brancas com caules relativamente espinhosos. pétalas de rosa. uma grande polenta amarela. Ponham a mesa então ao ar livre.indd 199 7/4/2009 15:51:25 . um prato fundo cheio de azeite. não temperada e fora do prato. um grande maço de rabanetes vermelhos.

Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti 200 Cozinha futurista. a seguir. ralhantes e cantantes em giro. Põem-se eles finalmente a comer. levando nos braços uma bacia cheia de morangos nadando no Grignolino bem açucarado. Isto fará com que o seu paladar alce súbito vôo procurando no prato sinóptico-singustativo uma indispensável nova harmonia. para que sirva o mais rápido possível. desmacular-se. ruminantes. O bicarbonato de sódio a disposição constituirá o verbo no infinitivo de todos os problemas alimentares e digestivos. Mas o tédio e a monotonia poderiam nascer depois que os paladares tivessem provado o alho com rosas.Fillippo Tommaso Marinetti Convenientemente comerão. assobiantes. gritos animalescos que seduziriam todos os animais da primavera. Os jovens a convidarão. Entra então a camponesinha jovem e gorda. polemizando à mesa com adjetivos iluminantes. Formarão imediatamente uma relação metafórica inusitada entre os pimentões (símbolo de força campestre) e o óleo de fígado de bacalhau (símbolo de mares nórdicos ferozes e necessidade curativa de pulmões doentes). um prato de tradicionais tortellini in brodo. Provam então mergulhar o pimentão no óleo de fígado de bacalhau. beber. lamber. verbos fechados entre dois pontos.indd 200 7/4/2009 15:51:25 . Cada dente do alho será então cuidadosamente envolvido nas pétalas de rosa pelos mesmos dedos dos três convidados que assim se distrairão a combinar poesia e prosa. com altivas palavras em liberdade fora de qualquer ordem lógica e diretamente expressas pelos nervos. cochichantes. rumorismos abstratos. Diretamente sobre as cabeças a camponesinha servirá. roncantes.

O rápido crepúsculo sangüíneo agoniza sob as enormes barrigas das trevas como sob chuvosos e quase líquidos cetáceos. Depois. Esperando a camponesa-cozinheira. Depois. vinte e cinco cerejas ao licor. Depois.A cozinha futurista Cardápio musical de outono Em uma cabana de caçadores semi-escondida em um bosque verde-azul-perfumado. A lua a pico serve abundante leite talhado sobre a toalha. doze batatinhas fritas. Agosto. para serem olhadas e cheiradas intensamente. único alimento. pela mesa ainda vazia passará. Depois. à esquerda dos comensais. sem comer. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio noturno de amor Terraço de Capri. o assobio que o vento infiltra pela fechadura da porta. quatro longos apertos de mão na camponesa-cozinheira e todos para fora no escuro vento chuva do bosque. dois casais se sentam a uma mesa rústica formada por troncos de carvalho. dois minutos de grão de bico em azeite e vinagre. Duelará com aquele assobio o gemido longo mas afinado de um som de violino. Depois.indd 201 7/4/2009 15:51:25 . silêncio de um minuto. um gole de vinho Barolo mantido na boca por um minuto. Depois. Depois. uma codorna assada para cada um dos convidados. Depois. arrancado no quarto da esquerda pelo filho convalescente da camponesa. Depois. A morena peituda e bunduda cozinheira caprese entra carregando um enorme presunto sobre uma bandeja e diz 201 Cozinha futurista. um silêncio de quinze minutos durante os quais as bocas continuam a mastigar o vazio. sete alcaparras.

Depois uma taça de Asti espumante.” Os dois amantes devoram metade do presunto. uma pitada de pimenta vermelha. deixei-o infuso por uma semana no leite. chocolate. Entrarão então na cama levantando no pequeno copo o bebericável Guerranacama composto de suco de abacaxi.Fillippo Tommaso Marinetti aos dois amantes reclinados nas duas espreguiçadeiras e incertos sobre retomarem as fadigas da cama ou iniciarem aquelas da mesa: . grande e já cheia de lua. uma pitada de noz moscada e um cravo: tudo liqüefeito em licor Strega.indd 202 7/4/2009 15:51:25 . Seguem as grandes ostras. 6 Lacumia é uma espécie de bolinho. cada uma com onze gotas de Moscato de Siracusa em sua água marinha. a base de gergelim. ovos. vem ao seu encontro do fundo do quarto aberto. fascinada. A cama. Leite verdadeiro.“é um presunto que contém uma centena de carnes diversas de porco. circundado de risoto ao açafrão. 202 Cozinha futurista. caviar. não aquele ilusório de lua. de origem grega. servido com mel. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio turístico (realizada para a Mostra circulante futurista Paris-Londres-Bruxelas-Berlim-Sofia-Istambul-Atenas-Milão) Lista dos pratos: Pré salé aux petits pois. e Hallaua é um alimento de origem árabe. pasta de amêndoas. Comam abundantemente. Roast-beef circundado por lacumias e Hallaua6. Depois o Guerranacama. Para adocicá-lo entretanto e liberá-lo da aspereza e da virulência original.

Suco de morangos para ser bebido com friturinhas ao óleo. que deve se desenvolver em um amplo salão adornado por enormes quadros de Fortunato Depero. toma a palavra. QUARTO: o rancor das fronteiras.A cozinha futurista Lingüiças nadando em cerveja pulverizadas de pistaches cristalizados. o Esganador. após uma distribuição rápida de polibebidas e entreosdois. mas escolhido entre os mais inteligentes e mais jovens parasitas da aristocracia e famoso pelo seu conhecimento total de todas as piadas obscenas. QUINTO: o tom baixo pálido fúnebre banal dos pratos. convidado não-pertencente a nenhum corpo diplomático e a nenhuma política.indd 203 7/4/2009 15:51:25 . 203 Cozinha futurista. que nadem em um mar de conhaque. sem se levantar. Pêssegos com o coração de vinho doce toscano fechado. TERCEIRO: as caras feias produzida pelos problemas mundiais insolúveis. SEGUNDO: a reserva dos diálogos. Poças de mel e poças de vinho dos Castelos romanos alternados em uma planície quadrada de papa de batatas. Na refeição oficial futurista. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio oficial O cardápio oficial futurista evita os graves defeitos que poluem todos os banquetes oficiais: PRIMEIRO: o silêncio embaraçado que deriva da falta de harmonia preexistente entre os vizinhos da mesa. devido à etiqueta diplomática. Enguia marinada recheada com minestrone à milanesa gelado e com damascos recheados de anchovas.

descoberto por Alfred Nobel. o Diretor. Seguem: 1) “Os antropófagos inscrevem-se em Genebra”: um prato de várias carnes cruas para serem cortadas à vontade. (Esta iguaria será saboreada enquanto um negrinho de 12 anos fará cócegas nas pernas e beliscará as nádegas das senhoras. orientando-se pelo maior ou menos grau de mau humor a combater. pequeninas bombas de balestite7 que explodirão a tempo perfumando a sala com o típico odor das batalhas.Fillippo Tommaso Marinetti O Esganador. de uma fruta paradisíaca escolhida no Equador. as ironias e as brincadeiras. ovos e baunilha. pimenta vermelha. mas sempre atrasados por impedimentos e desastres automobilísticos e por descarrilamentos ferroviários. repetirá suas desculpas. Ao Paraselevantar o diretor da refeição oficial entrará e com muitas desculpas cerimoniosas pedirá para esperar a chegada há muito anunciada. vinagre. risoto de açafrão. sem abandonar-se entretanto à inconveniência. que acolherão as desculpas do diretor. gengibre. dentro. 7 Balestite é um explosivo. mel. açúcar.) 3) “O tratado sólido”: castelo multicolorido de torrones com. e temperadas mergulhando seus pedaços nas pequenas tigelas oferecidas com azeite. manteiga. Uma vez generalizado de uma ponta à outra da mesa o fogo cruzado das gargalhadas dos comensais. será servida uma gororoba de semolina. Os comentários. Usado para dar mais potência aos canhões 204 Cozinha futurista. tapioca e leite em sopeira de convento para satirizar e espantar toda diplomacia e toda reserva. dirá subitamente a meia voz três piadas obsceníssimas. e do sorvete desgraçadamente tanto arquitetado que caiu pouco antes na cozinha. ele. apenas terão seu volume diminuído e eis que ainda na entrada.indd 204 7/4/2009 15:51:26 . 2) “A Sociedade das Nações”: salaminhos negros e canudinhos de chocolate nadando em um creme feito com leite. Assim por toda uma meia hora. velho Barolo. com base de nitroglicerina.

econômico. sob uma condição no entanto: que fale por duas horas sobre as possíveis soluções para o problema do desarmamento. Ser-lhe-á então oferecida uma seleção dos melhores vinhos italianos. estando todos no instável. bem penteado.indd 205 7/4/2009 15:51:26 . As amigas da esposa. prolífico. o bêbedo de sempre pescado nas periferias naquela mesma noite e levado à força para a sala do banquete oficial. olhadas piedosas e olhares de falsa alegria. do ponto de vista intelectual. está em conserva de óleo. em conserva de vinagre. pentes e grampos de inveja. ao invés da fruta milagrosa. carnal. 205 Cozinha futurista. O esposo. conselhos. Os primos. repugna-lhes estabilizar o paladar e o estômago. Todos desejam felicidades como se libertam raças com o medo na ponta dos dedos e da língua. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de núpcias As refeições de núpcias comuns sob a sua aparente e ostentada festividade escondem mil preocupações: se o casamento será feliz ou não. A sogra espalha febrilmente cumprimentos.A cozinha futurista Então entrará. As crianças se enchem de confetes e rolam sobre as flores de laranjeira do vestido nupcial. profissional. qualidade e quantidade. todas escovas. Ninguém pode comer nem provar as bebidas já que. A virgem já está nos braços dos anjos. Logicamente pedirá para continuar bebendo. da revisão dos tratados e da crise financeira.

entre uma perdiz e uma lebre. Há cogumelos de toda espécie. mesmo temendo a presença de alguns absolutamente mortais”. exceto aquela venenosa. equilibrada sobre a cabeça. Explode naturalmente uma competição heróica. Proceda-se à limpeza com a ajuda de todos. “Não tem medo. pede demissão porque foi ofendido 206 Cozinha futurista. distante ou próxima? Pouco importa. De qualquer modo estão tão bem cozidos que lhes aconselho atacá-los audazmente. cheia de risoto à milanesa com açafrão e abundantes trufas de coloração pecado. querida?” “Temo-os menos que suas prováveis traições. Eu não hesito. Se este prato.Fillippo Tommaso Marinetti Reina então durante a refeição um equilíbrio que responde ao equilíbrio dos estados de ânimo. amarelar o vestido nupcial como uma duna africana.. ao cair também. nos bosques de Pistóia ensopados de chuva. Fingirá sofrer ou realmente será torturado por dores de origem misteriosa. Serão servidos então cogumelos trufados. reentrará com uma bacia. certamente um pouco cedo. O cozinheiro.diz a esposa. O esposo se mantenha calmo: será ele que. “São tão bons”. entrando enfurecido. fígado e feijão em caldo de codorna) é conduzida no alto sobre três dedos pelo cozinheiro que salta com a perna esquerda. põe-se a gritar segurando a barriga o janota habitual de todas as festas de casamento. malvado!” Então. Todos riem.“eu mesmo os recolhi todos. Conseguirá ou não? Talvez entorne e as marcas sobre o vestido nupcial corrigirão oportunamente a insolente e pouco fortunosa brancura excessiva. Muitos devoram os cogumelos. Uma sopeira de magnífica sopa conhecida e amada por todos (arroz. ao sair um instante. A menos que minha miopia tenha me pregado uma bela peça. pomposamente elogiados pelo habitual caçador maníaco: . será tanto um ganho de tempo mediante um final de viagem imprevista..indd 206 7/4/2009 15:51:26 .

A cada vez reconhecia as mais belas penas avermelhadas. parece viva. isto é. Ele mesmo preparou na cozinha esta iguaria formada com a pasta de outras perdizes quase putrefatas e maceradas com os velhos queijos robiola no rum. regando-o com vinhos Barbera e Barolo. 207 Cozinha futurista. tive que descer até o fundo da torrente e subir novamente. Mas. Comida de caçadores.” -“Para a virtude ambulante dos vermes. De uma costa a outra. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio econômico 1) “O agreste absoluto”: maçãs assadas ao forno. aquela ali. custou-me uma perseguição de dez quilômetros. Frio intenso nos comensais. Entontecidos pelas palavras. Segue um Fernet para todos. cogumelos alarmantes e perdizes dinâmicos.indd 207 7/4/2009 15:51:26 . que substitui o habitual sorvete inadequado. por outro lado.A cozinha futurista mortalmente pelas suspeitas e não pelos cogumelos que são inocentísssssssimos. Agora está finalmente parada. Recomeça o caçador: “.acrescenta o janota. são servidas lebres e perdizes cozidas em vinho com especiarias. a maior. move-se ainda talvez. move-se”. depois recheadas de feijões cozidos em um mar de leite. aos estômagos agora tão aquecidos por equilibrismos de felicidade. sempre sob a eloquência do caçador. no mesmo vale. os convidados comem-no abundantemente.Entre todas essas perdizes. verificadísssssssimos. embriagados pelo suavíssimo perfume de cloaca suave.

4) “Bosque inundado ao pôr-do-sol”: endívias cozidas ao vinho. Este menu deve ser degustado enquanto um hábil recitador faz explodir a lírica humorística do Poeta-record Nacional Farfa.Fillippo Tommaso Marinetti 2) “Abominação campestre”: berinjelas cozidas em tomate. cada um.indd 208 7/4/2009 15:51:26 . 2) O silêncio carregado de pensamentos meditativos que contamina e enchumba os pratos. salpicadas por feijão cozido e caramelizado. depois recheadas com anchovas e servidas sobre um leito. os pratos-retratos: 208 Cozinha futurista. Benedetta. decorada com aeropinturas e aeroesculturas dos futuristas Tato. 3) “Pimentão urbanístico”: grandes pimentões vermelhos que fecharão. são apresentados. Dottori e Mino Rosso. metade formado por pesto de espinafre e metade por patê de lentilhas. 4) A inevitável aceleração do ritmo das mandíbulas que fogem do tédio. Em uma sala. sobre uma mesa cujas quatro pernas serão constituídas por acordeões. 3) A falta de carne humana viva e presente que é indispensável para manter o paladar do homem confinado na zona das carnes animais. em ressoantes pratos ornados de sininhos. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio de solteiro A cozinha futurista propõe-se a evitar os defeitos que distinguem as refeições dos solteiros: 1) A solidão anti-humana que fatalmente absorve uma parte das forças vitais do estômago. imitando sua típica voz de míope cano de escapamento. uma pasta de maçãs cozidas envoltas em folhas de alface caramelizadas.

calmo preguiçoso solitário putrefato. 2) “Prato-retrato do amigo moreno”: bochechas bem modeladas de massa podre – bigodes e cabelos de chocolate – grandes córneas de leite e mel – pupilas de alcaçuz. do mais amplo e marino dos mares. estejam os convidados em jejum há dois dias. Brincos pendurados de rabanetinhos vermelhos untados em mel. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio extremista Para esta refeição em que não comerão. Uma romã aberta na boca. 3) “Prato-retrato da bela desnuda”: em uma pequena bacia de cristal. a terceira para a massa dos odores do mar e relativa peixaria. Bem engravatado com tripa ao brodo. cada um com uma poça de vinagre por cima e sobre um dos lados pendurado um grande sino. tudo coberto por pétalas de violeta. a segunda para a massa dos odores de um paiol e relativo reservatório de frutas. em uma língua de terra que divida o mais lacustre dos lagos. Será servido em uma casa de campo construída especialmente por Prampolini (a partir da concepção de Marinetti). As portas-janela. duas coxas de frango cozidas. a quarta sobre a estufa quente e relativa ciranda de plantas odoríferas raras deslizante sobre trilhos.indd 209 7/4/2009 15:51:26 . que se abrem eletricamente mediante botões postos sob os dedos dos convidados dão: a primeira para a massa dos odores do lago. mas serão saciados apenas de perfumes. 4) “Porta-retrato dos inimigos”: sete cubos de torrone de Cremona. 209 Cozinha futurista. cheia de leite apenas ordenhado.A cozinha futurista 1) “prato-retrato louro”: um belo pedaço de vitela assada esculpido com duas grandes pupilas de alho em um ninho de repolho triturado e fervido e alface verde.

O neutro treme como um sismógrafo esperançoso. 2) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um navio de berinjelas fritas cobertas de baunilha. No comprimento de uma mesa em forma de paralelepípedo afloram. Os três complexos-escultura vaporizantes param de um só golpe com a irrupção na sala de três ajudantes de cozinha embainhados de seda branca e alto chapéu branco luminoso. que gritam: -“vocês são os chefes. 3) um complexo-escultura munido de vaporizador com a forma e o odor de um lago de chocolate que circunda uma ilhota de pimentões recheados com geléia de tâmaras. Os onze convidados (5 mulheres.Fillippo Tommaso Marinetti Noite de Agosto. Antes da refeição os convidados declamam “Elogio ao outono” do poeta futurista Settimelli e “Entrevista com um Caproni” do poeta futurista Mario Carli. 210 Cozinha futurista. grandes artistas? Parem de enrolar ou pegamos todos vocês a chutes”. Uma pausa de silêncio concedida à invasiva policonversação e quacrelogia das rãs lacustres que acompanharão a abertura lenta da 8 Flor da esponjeira. Vocês se decidem ou não se decidem a comer os pratos refinadíssimos preparados por nós. com o qual capturar à vontade o odor espargido do canto munido de um potente aspirador. Fora.indd 210 7/4/2009 15:51:26 . Máxima intensidade dos perfumes da paisagem circundante. mas também imbecis. desaparecendo e reaparecendo: 1) um complexo-escultural munido de vaporizador com a forma e o odor de um castelo de risoto à milanesa golpeado por um mar de espinafre encristados de creme. 5 homens e um neutro) têm um pequeno ventilador de mão cada. deslizando automovelmente. cachia8 e pimenta vermelha. Um ensurdecedor toque de sinos de 5 minutos. mantidas fora das janelas escancaradas como as comportas de um canal.

mas selvagem. encontra-se com o perfume idêntico. Os dois perfumes de vida carne luxúria morte sintetizam e então apagam todos os onze paladares famintos. com visões de imensos golfos espumosos e tranqüilos cais verdes frescos ao amanhecer. Escapa um relincho do convidado neutro. põem-se a mastigar febrilmente o vazio. veios de amoníaco e uma lembrança de ácido fênico. Confusão. deixadas até agora pensativas ou atônitas.indd 211 7/4/2009 15:51:26 . tragam-nos qualquer coisa para mastigar. saindo da estufa. mas subitamente irrompe da outra porta-janela o mar com cem chispares e enguiamentos de odores salinos. Curto assombro. cozinheiros belos. Entra um perfume agro-suave-pútrido-delicadíssimo de lírios civilizados que. vindo do lago. Abre-se então a porta-janela do reservatório de frutas e quatro odores (o primeiro de maçãs.A cozinha futurista porta-janela pressionada pelos odores de ervas podres. Todos os convidados apontam os ventiladores de mão como escudos contra a porta-janela lacustre. O neutro choraminga: -“Por caridade. Mas a frase é cancelada junto com o mar e relativa peixaria prateada por prepotentes perfumes de rosa de tal modo curvilíneas e carnudas que as onze bocas. ou então veremos as feias bocas dos machões fincarem os dentes nas carnes insípidas das nossas cinco amigas”. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti Cardápio dinâmico 211 Cozinha futurista. de velhos juncos queimados. Os ventiladores de mão cancelam tudo. o segundo de abacaxi. Gane o convidado neutro: -“Pelo menos doze ostras e dois dedos de Marsala”. o terceiro de uva e o quarto de alfarroba) precipitam-se na sala tornada inodora. Os cozinheiros espiam pela porta e desaparecem.

Fome de bombardeiros depois de uma jornada de trabalho duro. Espirram os seus gritos. T. gritos. agir. executam o exercício. mas o doutor bufa. Levantamno como a um peso.Fillippo Tommaso Marinetti No romance “L’Alcova d’Acciao” F. Com quatro bocados aplaco meu estômago. comia-se e bebia-se alegremente. Despencar de copos. marche! Depois levantando como posso pratos. Há muito silêncio à mesa. enrolando os espaguetes sangüíneos e fumegantes. Todos empurram o doutor. empurro brutalmente o meu companheiro da direita. espremem-no como uva. depois me levanto e brandindo uma garfada de espaguete. alvoroço. Cabeças inclinadas sobre os pratos. e o bom doutor está absorvido gravemente demais no ritual do macarrão. pão. copos. Mas os mais jovens não amam as pausas e querem rir. eu comando: 212 Cozinha futurista. tenentes. deslocamento de dois lugares à direita. Dominando o tumulto. O prato de macarrão entorna sobre a farda. Risos. prontos. Marinetti descreve sua ansiedade de fugir do inevitável empantanamento da sensibilidade durante a refeição: “Na noite de primeiro de junho de 1918 na barraca dos bombardeiros desafiadoramente plantada obliquamente sobre uma cresta montanhosa do Vale do Ástico. capitães.Para não empantanar a nossa sensibilidade. Os longos garfos vermelhos do pôr-do-sol entrelaçavam-se com os nossos. coronel Squilloni alegre e posudo na cabeceira da mesa. levanta tudo ele também e empurra à direita. reclama. Silêncio religioso de bocas que mastigam orações suculentas. grita. Sabem da minha fantasia fecunda em piadas e excitam-me com olhares. Os jovens. Uns vinte oficiais. faca. digo em alta voz: . Inundação de vinho. que cede de má vontade.indd 212 7/4/2009 15:51:26 .

Deslocamento cumprido! Todos sentados! Mas problemas. Fora. Como poderia. fora. de assalto! E termina-se a refeição confusamente. caro doutor. Fugiu para o terraço com o seu prato de macarrão. esmagar o passadismo austro-húngaro. renovar integralmente a Itália depois da vitória? Imponho-lhe. cirros de porcelana violeta amassados.. não se esqueça de que a mais alta e preciosa virtude é a elasticidade. uma otite. Gritos. 213 Cozinha futurista. debandados. luminoso banquete aéreo suspenso a pico na planície vêneta crepuscular. socos. Mas os jovens são tenazes e com força imprimem à multidão uma volta tumultuosa em torno da mesa.. todos nuvens de cristal incandescente.indd 213 7/4/2009 15:51:26 . sem elasticidade.A cozinha futurista . caro doutro. garrafas espumantes de ouro.Para não empantanar a nossa sensibilidade. Como poderíamos. ao bater na água. Somente o doutor não se diverte. O doutor me olha assustado. imponho: . “caramba!”. “Acabem com isso!”. rufares e becchegiro9. Os meus amigos cantam ao redor do doutor o hino da burla futurista: Iró iró iró pic pic Iró iró iró pac pac 9 O substantivo refere-se provavelmente a um movimento ou um som semelhante ao feito por um barco em alta velocidade. rimos enquanto o coração chorava na retirada. Turbilhão. E você. sacudidas. interromper com elasticidade futurista a sua barrigada passadista! Todos riem. pratos e copos nas mãos! Giro total da mesa em cortejo! O reboliço se torna infernal. um calo. Agrada muito ao coronel o jogo bizarro. ou a fraqueza de certos superiores? Com elasticidade abandonamos o Carso após Caporetto. problemas a quem ainda deixa empantanar a própria sensibilidade!. sem elasticidade. Ameaçando-o burlescamente. uma sífilis. Onde está o doutro? Onde está? Todos o procuram. “Basta!”. curar um gânglio. com grande farfalhar de risadas na risada fulva do crepúsculo. tombos.

rum e pimenta vermelha. 3) “Colisão de automóveis”: semi esfera de anchovas prensadas conjunta a uma semi esfera de pasta de tâmaras. todos se precipitarão furiosamente de assalto. Seqüência de bocas dentes mãos. com bocas mastigantes e mãos agarrantes. Ao escancarar da porta. as mangas arregaçadas. 214 Cozinha futurista. tudo enrolado em uma finíssima fatia de presunto macerada em Marsala. coberta de vinho moscato de Siracusa. os lutadores não ensacam os golpes: engolem-nos. de bocas abertas. Com um final de batalha gastronômica. bocas abertas e mãos ameaçadoras.Fillippo Tommaso Marinetti Maa – gaa – laa Maa – gaa – laa RANRAN ZAAAF Matavam assim as nostalgias”. *** Dinamicamente então propomos os seguintes pratos: “Passos de corrida”: composto de arroz. fugir para o campo. 4) “Perdendo uma roda”: quatro tordos assados com muito gengibre e sálvia. Os convidados vestidos esportivamente. um sem a cabeça. Comerão melhor aqueles que conseguirem manter à distância os adversários com chutes. envoltos e embolotados em uma fatia de polenta esborrifada com água de colônia italiana. embrulhados em fatias de abacaxi e regados com Asti espumante. 2) “Em quarta”: 200 fios de algodão doce enrolados num novelo. O habilíssimo entretanto será aquele que conseguir. serão mantidos fora da porta de uma sala de ginástica onde pelo chão e em pequenas pirâmides serão dispostas as comidas anunciadas. conquistar uma vintena de bolas comestíveis e. inspirando-se no grande quadro “O jogador de futebol” de Umberto Boccioni.indd 214 7/4/2009 15:51:26 . 5) “Bombas de mão”: esfera de torrone de Cremona envolta em uma grande bisteca malpassada. superando janelas e terraços.

baterias de encouraçados. Os futuristas. estádios esportivos. 215 Cozinha futurista. Seis esferas (15 cm de diâmetro) de risoto à milanesa. Civello. um sobre o outro em forma de torre. Rognoni. Cinco blocos ovais (20 cm de altura) de pasta de bananas. os pintores Dormal. rampas de aeroportos. Voltolina e Degiorgio do grupo paduano e os pintores Alf Gaudenzi e verzetti do grupo futurista e vanguardista “Síntese”. prensado. Cinco pirâmides (40 cm de altura) de minestrone frio. ligados todavia por fio eletrônico. com mãos de criança. Bellonzi. Gerbino. Vinte tubos (1 metro de altura) de pasta de tâmaras. Vittorio Orazi. para melhor construir a casa futurista. belvederes. Oito paralelepípedos (10 cm de altura) de espinafre na manteiga. os poetas futuristas Escodamè. sentados cada um sobre tambores (15-60-100 e 300 cm cada) não-comestíveis de macarrão comprimido. subiram e comeram alternativamente. Krimer. Sete telas (60 cm de altura) de bacalhau ao leite. cais de portos militares. arranha-céus. isto é. Vasari e Soggetti. Maino. Giacomo Giardina. pistas sobrelevadas: Trezentos cubos (3 cm de altura) de massa podre. com uma sensibilidade espacial que coloca o glorificado a 600 quilômetros dos glorificantes.A cozinha futurista Fórmula do aeropoeta futurista e do aeropintor futurista Marinetti Fillìa Cardápio arquitetônico sant’elia Em honra do Poeta-Record nacional de 1931. Pandolfo. reunidos na Direção do Movimento Futurista em Roma.indd 215 7/4/2009 15:51:26 . Samzin. Dez cilindros (30 cm de altura) de torrone de Cremona. Farfa (vencedor do circuito de poesia “Sant’Elia”). arquitetonicamente. Burrasca. aperfeiçoamna com os dentes.

Benedetta. entre as aeropinturas dos futuristas Marasco.indd 216 7/4/2009 15:51:26 . Tato. os comensais liberam do casco intactas 5 lagostas e cozinham-nas eletricamente na água do mar.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropictórico na fuselagem Na ampla fuselagem de um grande Autoestável DeBernardi. que se ligam aos aerocumes e às nuvens do horizonte navegado a mil metros. alcaparras. Bizarramente depois as 5 lagostas serão dispostas em desordem e distanciadas sobre uma grande aerocerâmica Tullio d’Albisola acolchoada por vinte qualidades diferentes de salada: estas geograficamente dispostas em quadrados. os comensais 216 Cozinha futurista. alho. Recheiam-nas com uma pasta de gema de ovo. Besuntam-nas com curry em pó e devolvem-nas às suas cascas tingidas aqui e ali por azul de metileno. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeroescultural na fuselagem Na grande fuselagem de um Trimotor. cenoura. chácaras e planícies raptadas em velocidade. ovas e fígado de lagosta. casca de limão. entre as aeroesculturas de metais aplicados dos futuristas Mino Rosso e Thayaht. timo. Oriani e Munari. comerão assim vilarejos. Os comensais. empunhando pequenos sinos de cerâmica cheios de Barolo misturados a Asti espumante.

enquanto os comensais brincarão e devorarão massas de claras em neve como faz o vento lá fora com os cimos e os cúmulos brancos. Todos serão cozidos eletricamente.000 metros em um céu bipartido: dengoso luar de meia lua madreperolado e esverdeado e semi-esfera de meias nuvens fulguradas de longos escorpiões de ouro. Abaixo a pico um rio de solidíssima prata derrete o estuário das suas enguias frenéticas em um mar de piche adornado por níquel lunar. A janelinha da direita: tilintar de vidro madeira tintilhões e sininhos. promontório ou ilhota. denuncia: 20. Os 11 doces. pedaços de solha. em número de três. polpa de camarões. o altímetro redondo denuncia: 3. tomate e polpa de lagosta. seu companheiro de refeição. através da outra janelinha.A cozinha futurista prepararão uma massa de fécula de batata.000 metros comidos. Perto dele o conta-giros. serão servidos sobre uma grande bandeja no centro da fuselagem. açúcar semolado e perfumado de baunilha. cebolinhas. frutas cristalizadas e queijo gruyère. a sugar a geléia de anis branco que filtra uma nuvem.000 217 Cozinha futurista. À frente dos comensais. Na boca responde-lhe rusticamente o sabor de uma bolota de mel. regada abundantemente com Vinho Santo toscano. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio aeropoético futurista Na fuselagem de um Trimotor voando a 3. pão-de-ló e biscoitos triturados. Os olhos fogem à direita. Encherão onze formas (untadas e enfarinhadas) cada uma de um formato típico de montanha.indd 217 7/4/2009 15:51:26 . depois de liberados das formas. despenhadeiro. ovos.

Mastigar o infinito.indd 218 7/4/2009 15:51:26 . deverá vestir separadamente um dos pijamas. Balla. sem móveis: sem ver. cartões. Depois. sedas. A boca do comensal humano da direita suga um tubo de neon amarelo vermelho dourado de verão África eterna. O estômago do comensal humano central corrige com muitos ácidos vulgares a indigerível potência excitatória do licor de lua abstrato poético suicida. o velocímetro denuncia: 200 quilômetros digeridos. Amor quente macio muito distante. Fórmula do aeropoeta futurista Marinetti e do aeropintor futurista Fillìa Cardápio tátil O dono da casa terá o cuidado de preparar. palhas de aço. A pico sobre si mesmo. Voar. cortiças. todos serão levados ao salão de banquete provido de muitas pequenas mesas para duas pessoas: estupor do próprio com- 218 Cozinha futurista. todos serão introduzidos em uma grande sala escura. lâminas de alumínio. tantos pijamas quantos serão os convidados: cada pijama será feito ou recoberto de materiais táteis diferentes como esponjas. Um pouco mais de mel das abelhas inspiradoras de poetas gregos na boca do aeropoeta futurista. com a colaboração dos pintores futuristas Depero. rapidamente.Fillippo Tommaso Marinetti giros devorados. alguns minutos antes da refeição. Obliqüidade da força artística. veludos. Leveza. escovas. etc. Prampolini e Diulgheroff. cada convidado deverá escolher o próprio companheiro de mesa segundo sua inspiração tátil. Do outro lado do altímetro. Escolhas feitas. Cada convidado. lixas. feltros. Presença das mãos vazias. Ronco crítico dos intestinos.

enquanto com a mão esquerda girará a manivela.A cozinha futurista panheiro indicado pela sensibilidade refinadíssima dos dedos sobre as matérias táteis. 219 Cozinha futurista. recobertas externamente por materiais têxteis rugosos. A caixa liberará assim ritmos musicais: então todos os garçons. os garçons esborrifarão em seus rostos perfumes de lavanda e água de colônia. Entre um prato e outro. No prato: folhas de alface sem tempero. o conteúdo do prato. de tal modo que os convidados não possam intuir qual sabor será introduzido na boca. sem sal. um prato fundo de porcelana. Poder-se-á experimentar a gosto estas verduras/legumes. mas sem a ajuda das mãos. tâmaras e uvas. Cada um dos comensais usará a mão direita para levar à boca.indd 219 7/4/2009 15:51:26 . até o esgotamento da iguaria. em frente às mesas. imergindo o rosto no prato e inspirando assim o próprio gosto no contato direto dos sabores sobre a pele das bochechas e sobre os lábios. Todas as vezes que os convidados se afastarem dos pratos para mastigar. enfiado pela metade. sem ajuda de talheres. mas cada uma recheada de elementos diversos (como frutas cristalizadas ou fatias finas de carne crua ou alho ou pasta de bananas ou chocolate ou pimenta). 3) “Hortotátil”: serão postos à frente dos convidados grandes pratos contendo uma numerosa variedade de verduras/legumes crus e cozidos. já que o menu é todo baseado em prazeres táteis. 2) “Vianda mágica”: servir-se-ão tigelas não muito grandes. iniciarão uma lenta dança de grandes gestos geométricos. Será preciso segurar a tigela com a mão esquerda e agarrar com a direita as esferas misteriosas contidas no interior: Serão todas esferas de açúcar queimado. os convidados deverão ininterruptamente nutrir seus dedos no pijama do vizinho de mesa. Será servida a seguinte lista de iguarias: 1) “Salada polirítmica”: às mesas aproximam-se os garçons portando para cada convidado uma caixa munida de manivela do lado esquerdo e que tem no lado direito.

Serve-se o primeiro prato “Sonho alpestre”: pequenas formas ovais de gelo envolvidas por massa de castanhas e apresentada sobre grossos discos de maçã salpicadas com nozes molhadas no vinho Freisa. os seus pastos e seus jardins. Apaga-se a primeira parede e acende-se a segunda: brilham as esmeraldas dos campos e os vermelhos das fazendas que se perdem entre as terras redondas das colinas e os azuis metálicos dos lagos. no passado. mas não nos foi possível. Os convidados. No início da refeição a primeira parede é iluminada por trás e ressaltam assim os perfis geométricos das montanhas brancas e morenas. Proponho portanto este menu-síntese-da-Itália: Uma quadrada sala de teto azul. um apetitoso alimento para os estrangeiros.Fillippo Tommaso Marinetti Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio síntese da itália A Itália sempre foi. Na sala é regulada uma temperatura de frescura primaveril. fazer-nos servir de uma só vez os tantos pratos regionais. tingem-se as mãos com azul de metileno. e os pinheiros verdes. carne de rã desossada e ce- 220 Cozinha futurista. Hoje podemos degustá-lo. “Agreste civilizado”: bolo de arroz branco cozido sobre o qual imprimem-se largas e tenras folhas de rosa. cujas paredes são formadas por enormes pinturas futuristas sobre vidro representando: uma paisagem alpina Depero – uma paisagem de planície com lagos e ao fundo colinas Dottori – uma paisagem vulcânica Balla – uma paisagem de mar meridional animado por ilhotas Prampolini. Aumenta a temperatura da sala. antes de comer. querendo provar à mesa o sabor e o perfume de todas as suas hortas.indd 220 7/4/2009 15:51:26 .

Terminada a refeição acendem-se juntas as quatro paredes e são servidos sorvetes misturados a abacaxi.A cozinha futurista rejas muito maduras. seguida à distância pelos garçons. giesta e cachia é esborrifado no ar. “Sugestão do Sul”: uma grande erva-doce na qual são incrustados rabanetes e azeitonas sem caroço. consultam grandes atlas. entra na sala. 3. a garçonete-lista-de-pratos: formosa moça jovem inteiramente revestida por uma túnica branca na qual é desenhado a cores um completo mapa geográfico africano que lhe envolve todo o corpo. pêras cruas e cassis. ostras e alfarroba. Temperatura tórrida na sala. 221 Cozinha futurista. gomos de laranja. sentados em torno de uma mesa de metal com o plano horizontal em linóleo. o clima é de verão. As janelas redondas permitem vislumbrar misteriosas distâncias de paisagens coloniais. bananas. caranguejos. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio geográfico 1. Na sala. “Instinto colonial”: um colossal robalo recheado de tâmaras. apresentado navegando em um litro de marsala. É levado à mesa envolto em sutis fatias de cordeiro assado e imerso em vinho de Capri. Apaga-se a segunda parede e acende-se a terceira: dinamismo atmosférico do Vesúvio incandescente. Uma sala de restaurante decorado com alumínio e tubos cromados. Apaga-se a terceira parede e acende-se a última: esplendor das ilhotas luminosas na espuma fervente do mar. Os comensais. Um violento perfume de cravos. Enquanto os convivas comem. os garçons fazem passar rapidamente sob os seus narizes um quente perfume de gerânio. 2.indd 221 7/4/2009 15:51:26 . enquanto gramofones invisíveis rodam barulhentos discos negros. Quando inicia-se a refeição.

cubos de laticínios de canela recheados com grãos de café torrados e pistaches. mas indicando no mapa a cidade ou as regiões que seduzem a fantasia turística e aventureira dos comensais. Se um outro comensal aponta com o dedo. variando para cada refeição os mapas geográficos e as garçonetes-lista-de-pratos e não permitindo conhecer antecipadamente os pratos. 5.indd 222 7/4/2009 15:51:26 . Dominará portanto uma orientação alimentar inspirada pelos continentes. Exemplo: se um comensal aponta um dedo para o seio esquerdo da Garçonete-lista-de-pratos onde está escrito CAIRO. o nome ZANZIBAR. pirâmide de tâmaras sem caroço imersa em vinho de palma. Neste caso: “Amor sobre o Nilo”. pelas regiões e pelas cidades. augúrios e previsões volteiam como cópias de impressão. recheado com chocolate e disposto sobre um fundo de carne crua finamente moída e regada com rum da Jamaica. Lembranças de família. 222 Cozinha futurista. 6. sobre o joelho esquerdo da garçonete-lista-de-pratos. Em volta da pirâmide maior. um dos garçons silenciosamente se afastará e retornará em seguida trazendo o prato correspondente àquela cidade. É preciso destruir os hábitos para sair da monotonia. o garçom lhe servirá a “Vianda Abibi”: meio coco. Cada um conhece com antecedência a engrenagem precisa dos acontecimentos. Assim continuamente. Devem-se escolher os pratos não segundo a sua composição.Fillippo Tommaso Marinetti 4. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio de fim de ano O hábito já matou a alegria das grandes ceias de fim de ano: há muitos anos os mesmos elementos concorrem a uma alegria já muitas vezes apreciada. 7.

Todos comem sob um silêncio imposto: o desejo de barulho e alegria é reprimido. A cozinheira e as duas garçonetes são afastadas à força e cada um se dispõe a idealizar uma variação nos pratos. da antesala ao banheiro.A cozinha futurista Existem mil maneiras para renovar este banquete: eis um deles. uma atrás da outra. para tentar estabelecer uma conversação qualquer. exasperada pelo torpor muito longo. etc. Serve-se o infaltável peru que os garçons distribuem em pratos de metal: o peru é recheado de tangerinas e de salame. após a infinita conversação de espera. Entretanto. Na sala as mesas foram eliminadas e os convidados sentaram-se em cadeiras dispostas em fila indiana. A alegria finalmente. por nós realizado com os futurissimultaneístas de Roma: Mattia. Pandolfo. à despensa. À meia-noite. Competição violenta entre os fornos acesos. explode e os convidados se debandam pela casa enquanto os mais audazes invadem a cozinha. que é repetidamente esbofeteado. gritos e chuva de alimentos. outros descobriram o depósito dos vinhos e forma-se assim um banquete excepcional que vai da cozinha ao quarto.indd 223 7/4/2009 15:51:26 . Subitamente. Vignazia. Desfilam os pratos combinados quase 223 Cozinha futurista. Vencido pelo silêncio. um dos presentes diz: -“Ainda não expressei meus desejos para o ano novo. como por uma palavra de ordem. libera-se na sala um peru vivo que se debate assustado entre a surpresa dos homens e os gritos das mulheres que não entendem esta ressurreição da comida ingerida. levantam-se e lançam-se contra o incauto conservador de tradição. A ordem é restabelecida e cada um volta a conter a alegria desencadeada por um momento. enquanto frigideiras e caçarolas passam de mão em mão entre risadas. anuncia-se que a refeição está pronta. D’Avila. Battistella.” Todos então. Belli.

ouve-se a voz de um convidado: -“neste ano conseguiremos romper o invólucro da atmosfera e alcançar os planetas. enquanto três ritmos diferentes de música japonesa acompanham o serviço dinâmico. em benefício próprio. gomos de limão e fatias de rosbife: a lembrança do passado naufraga em um presente extraordinário.Fillippo Tommaso Marinetti pela magia.” Mas naquele momento apresentam-lhe uma tigela cheia de espumante onde navegam couves-flores. Todas as suas preocupações limitam-se a ajudar o cliente quando veste o sobretudo... incapazes ou temerosos. No escuro. Os mais jovens berram: -“sepultada a lembrança! devemos iniciar o ano de modo finalmente diferente dos banquetes anteguerra!” Três gramofones funcionam como mesa e sobre discos transformados em pratos rotatórios as senhoras atacam confeitos. não pretendem renunciar à antiga cozinha. para um banquete na Lua. conforme o espírito de veloz harmonia que anima os novos cozinheiros. A dona da casa apaga inesperadamente a luz. onde finalmente provaremos comidas de sabor desconhecido ao nosso paladar e bebidas imprevisíveis. Estupor. as dificuldades a vencer por uma nova alimentação são aumentadas pelos proprietários de restaurantes que. nesta mesma data.” Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio rejuvenescedor Geralmente. Convido-os todos para o próximo fim de ano. Um convidado conta à dona da casa: -“Há quinze anos. Se os proprietários e os funcionários dos restaurantes colaborassem.indd 224 7/4/2009 15:51:26 . para convencer das necessidades de nutrir- 224 Cozinha futurista. cilindros de queijo parmesão e ovos cozidos.

deve compreender que a forma e a cor são tão importantes quanto o sabor. O garçom lhe servirá então este “cardápio rejuvenescedor”: arroz cozido. 225 Cozinha futurista. surpresa. .deve chegar a conceber para cada prato uma arquitetura original. possivelmente diferente para cada indivíduo de modo tal que TODAS AS PESSOAS TENHAM A SENSAÇÃO DE COMER. Ao habitual cliente que entra e pede um prato de espaguetes. muitas dúvidas e muitas ironias poderiam ser superadas e os restaurantes perderiam a trivialidade dos hábitos quotidianos. Vermes brancos que o senhor não deve introduzir no corpo se não quiser deixá-lo fechado escuro e imóvel como um museu. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio improvisado Estes cardápios improvisados são aconselhados com o objetivo de atingir um máximo de originalidade. como seus irmãos que vivem no subterrâneo da história.A cozinha futurista se mais modernamente. o garçom deveria proferir este breve e esclarecedor discurso: -“a partir de hoje a nossa cozinha elimina o macarrão. imprevisto e alegria. além de uma boa comida. Chegamos a essa decisão porque o macarrão é feito de silenciosos longos vermes arqueológicos que. TAMBÉM OBRAS DE ARTE. depois frito em manteiga.indd 225 7/4/2009 15:51:27 . empanturram adoecem inutilizam o estômago. A cada cozinheiro pede-se a formação de uma mentalidade que: .”O italiano da nossa época veloz não deixará de sensibilizar-se ante tal argumento. comprimido em pequenas esferas cruas de alface esborrifada com grappa e servido sobre uma pasta de tomates frescos e batatas cozidas. variedade.

E a escolha será duplamente apreciada porque desenvolverá. Para os cardápios improvisados pode-se naturalmente discutir entre cozinheiros. portando todo tipo de alimento: simplificar-se-á assim a preparação individual porque cada um será levado a conquistar o prato preferido para si. Com este propósito lhe fará servir. a seguinte refeição-declaraçãode-amor: Tedesejo: antepasto composto de elementos diversos. estudar o caráter e a sensibilidade de cada um. o espírito humano da aventura e do heroísmo. na noite da cidade. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio declaração de amor Um tímido enamorado deseja exprimir a uma moça bela e inteligente os seus sentimentos. que o garçom fará somente admirar. filés de frango perfumados com âmbar e recobertos por uma fina camada de geléia de cerejas.indd 226 7/4/2009 15:51:27 . de certo modo. enquanto come.deve possivelmente chegar às refeições em movimento. garçons e Diretores sobre a atribuição das diferentes iguarias. enquanto Ela se contentará com pãezinhos e manteiga. por meio de tapetes-móveis que deslizam à frente das pessoas. a constituição física e os fatores psicológicos. levando em conta. . o sexo. mas nunca se deve levar em conta o gosto pessoal dos comensais. 226 Cozinha futurista.deve. a idade. admirará sua imagem refletida no prato. na distribuição dos pratos. de escolha refinadíssima.Fillippo Tommaso Marinetti . Ela. no terraço de um grande Hotel. Carnadorada: um grande prato feito com um brilhante espelho. No centro. antes de preparar a refeição.

um de ameixa. rum. onde havia pinturas de Arte Sacra futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio sacro Aos eclesiásticos futuristas. um de batatas embebidas em conhaque. mediante uma oportuna e humilde consulta à inspiração divina. um de arroz doce. Na superfície são feitos pequenos furos. salgado por pedacinhos de ostras e gotas de água do mar. mas contendo. são dispostos: fatias de carne sortidas maceradas sob uma pasta de abacaxi – cebolas cruas cobertas por geléia – filés de peixe escondidos entre chantilly e zabaione – pãezinhos de manteiga untados com caviar e introduzidos em uma grande abóbora. enchidos com anis. um de maçãs cozidas no rum. em 20 pratos de alumínio. Ela. sem piscar. Em frente aos copos. que visitaram em Turim os apartamentos do Engenheiro Barosi e do Doutor Vernazza. Os eclesiásticos devem escolher sem errar.indd 227 7/4/2009 15:51:27 . é oferecida uma refeição assim composta: Sobre uma grande mesa são alinhados 20 copos iguais. gim e bitter. comerá todos. etc. Estanoiteláemcasa: uma laranja muito madura fechada em um pimentão maior esvaziado e enfiado em um grande zabaione ao gim. licor de menta. em proporções diversas: água mineral tingida de vermelho – vinho branco dos Castelos Romanos tingidos com azul de metileno – leite frio tingido de laranja. Superpaixão: um bolo de massa doce compacta. isto é.A cozinha futurista Teamareiassim: pequenos tubos de massa podre recheados de sabores diferentíssimos. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa 227 Cozinha futurista.

com uma mistura de tendências espirituais e de vontades eróticas. será confeccionado um cardápio simultâneo que lhes permitirá continuar as diversas atividades (escrever caminhar discursar) e alimentar-se ao mesmo tempo. satisfazer ou excitar o apetite.Fillippo Tommaso Marinetti Cardápio simultâneo Para executivos. sem falar. impossibilitados pelo turbilhão de negócios a deter-se em um restaurante ou de voltar para casa. Em um grande cachimbo de metal esmaltado de vermelho. Toda a sala está imersa em uma penumbra misteriosa e as lâmpadas invisíveis permitem somente uma luminosidade suficiente para ver a mesa coberta por uma camada de vidro escuro brilhante. para calmar. com forninho elétrico cozinhará uma sopa. Pequenos “termo”10 em forma de canetas-tinteiro repletos de chocolate quente. serve-lhes vinte ovos frescos que foram furados dos dois lados para injetar em seu interior um tênue perfume de acácias: os negros aspiram o conteúdo dos ovos. segurando um lírio na mão. Uma cozinheira negra. 228 Cozinha futurista. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio desejo branco Dez negros reúnem-se à mesa em uma cidade marítima.indd 228 7/4/2009 15:51:27 . Livros contábeis de bolso conterão peixe comprimido. 10 Recipiente térmico. invadidos por um estado de ânimo indefinido que os faz desejar a conquista dos países europeus. sem quebrar a casca. Da pasta poderão folhear cartas e faturas perfumadas com diversas intensidades.

De baixo para cima. A sala de jantar é toda escura. variando intensidade e cor dependendo dos pratos. e dos dois lados em direção ao centro. bebe-se anis puro. Fórmula do aeropintor futurista Fillìa Cardápio astronômico A mesa é constituída por uma lâmina de cristal apoiada sobre reluzentes barras de alumínio. fechados sob uma camada de manteiga e dispostos sobre um leito de arroz cozido e chantilly.indd 229 7/4/2009 15:51:27 . fontes luminosas graduáveis iluminarão de cem modos diferentes o plano de cristal. Ao mesmo tempo. O estado de ânimo dos negros é quase inconscientemente sugestionado por todos os pratos brancos ou cândidos. pulverulenta. com fortíssima fluorescência verde-amarelada em solução.A cozinha futurista Então é trazida uma grande sopeira com leite frio no qual foram imersos pequenos cubos de mussarela e uvas moscatel. alaranjada. sob a mesa. através da própria lâmina de cristal. 11 Substância cristalina. grappa ou gim. Todo o serviço é de cristal. A sensibilidade dos negros se apaga no sabor-cor-odor branco dos pratos. 229 Cozinha futurista. A cozinheira negra retorna ainda com uma bandeja cheia de pedaços de polpa de côco escrustrados de torrone. enquanto do teto desce lentamente em direção à mesa um globo incandescente de vidro leitoso e por toda a sala se expande um perfume de jasmim. Amanhecerá assim em taças de cristal um brodo consumido tornado fluorescente mediante uma mínima quantidade de “fluoresceína”11.

Fórmula do futurista Dr. Uma bomba em forma de telescópio lançará parábolas de espumante Asti. regados com limão e perfumados ternamente com baunilha.indd 230 7/4/2009 15:51:27 . Depois.Fillippo Tommaso Marinetti Dará meio-dia em carne crua salgada. beterrabas e laranjas. uma esfera cosmográfica de spumone (50 cm de diâmetro). mover-se-á lentissimamente sobre o cristal que se tronou abstrato. na noite da sala. Sirocofran 230 Cozinha futurista. Entardecerá um prato feito de fatias muito finas de salmão defumado. mosaico de pistaches e pimenta vermelha. único corpo iluminado.

metade incrustada por quadrados de carne crua de jovem camelo. Para ser comida. e metade incrustada por esferas de carne de coelho muito cozidas ao vinho. regando cada bocado de camelo com um gole de água do Serino e cada bocado de coelho com um gole de Scirá (vinho turco.A cozinha futurista receitáriO FuturistA para restaurantes e aquisibebe A dosagem sumária de muitas destas fórmulas não deve preocupar mas sim excitar a fantasia inventiva dos cozinheiros futuristas cujos eventuais erros poderão freqüentemente sugerir novas invenções Decisão (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) ¼ de vinho quinado ¼ de rum ¼ de Barolo fervente ¼ de suco de Tangerina Inventina (polibebida do aeropoeta futurista Marinetti) 1/3 de Asti espumante 1/3 de licor de Abacaxi 1/3 de suco de Laranja gelado Vianda simultânea (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Uma gelatina de frango. sem álcool).indd 231 7/4/2009 15:51:27 . temperada com alho e defumada. 231 Cozinha futurista. feito com o Mosto.

navega meio melão com. Mar da Itália (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Sobre um prato retangular dispõe-se uma base formada por listas geométricas de molho de tomates frescos e de espinafres. gemas de ovos e queijo parmesão. a outra com pasta de casca de maçãs trituradas. Entredois (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Duas fatias retangulares de pão: uma untada de pasta de anchovas. No momento de servir à mesa. de modo a criar uma precisa decoração verde e vermelha. aqui e ali salpicada de fragmentos de ricota. Entre as duas fatias de pão: salame cozido. Sobre este mar verde e vermelho colocam-se complexos formados por pequenos filés de peixe fervido. fatias de banana.Fillippo Tommaso Marinetti Mesa vocabulivre marina (fórmula do aeropoeta futurista Marinetti) Sobre um mar de salada crespinha. um camandantezinho esculpido em queijo holandês que dirige uma frouxa tripulação esboçada em miolos de vitelo cozidos no leite. um obstáculo de pão forte de Siena. a bordo. Todoarroz (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Arroz branco cozido assim disposto: uma parte no centro do prato em forma de semi esfera – uma outra parte em volta da semi esfera. derramar sobre a semi esfera um molho de vinho branco quente encorpado com fécula e sobre a coroa um molho de cerveja quente. A poucos centímetros da proa. em forma de coroa. 232 Cozinha futurista. Pulverizar o navio e o mar com canela ou pimenta vermelha.indd 232 7/4/2009 15:51:27 . uma cereja e um fragmento de figo seco.

Os alimentos devem ser levados diretamente à boca com a mão direita.indd 233 7/4/2009 15:51:27 . dos jardins e dos prados da Itália) é composto por uma grande almôndega cilíndrica (A) de carne de vitela assada recheada por onze qualidades diferentes de legumes e verduras cozidos.A cozinha futurista Cada um desses complexos é mantido unido por um palito de dentes que sustenta verticalmente os diversos elementos. Serve-se à esquerda de quem come um retângulo formado de lixa. os garçons esborrifam nas nucas dos comensais um comperfume de cravo enquanto vem da cozinha um violento comrumor de motor de aeroplano contemporaneamente a uma desmúsica de Bach. Este cilindro disposto verticalmente no centro do prato. LIXA SEDA VERMELHA VELUDO PRETO 233 Cozinha futurista. seda e veludo. que se apóia sobre três esferas douradas (D) de carne de frango. é coroado por uma camada de mel (C) e sustentado na base por uma anel de lingüiça (B). Aerovianda (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Serve-se à direita de quem come um prato com azeitonas pretas. Carnescultura (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) O “carnescultura” (interpretação sintética das hortas. enquanto a mão esquerda alisa leve e repetidamente o retângulo tátil. Enquanto isso. corações de erva-doce e bergamotas.

Alfabeto alimentar (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Todas as letras do alfabeto são recortadas (com grande espessura. Promontório siciliano (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Atum maçãs azeitonas e amendoins japoneses são triturados juntos. Servi-la em abundante molho 234 Cozinha futurista. em massa podre e em açúcar queimado. Envolver as trutas em finíssimas fatias de fígado de vitelo. A pasta que deriva é espalhada sobre uma omelete fria de ovos e geléia. À caça no paraíso (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Cozer lentamente uma lebre em vinho espumante onde se dilui chocolate em pó. Servem-se duas por pessoa. até a sua consumação. de acordo com as iniciais dos seus nomes que determinarão assim a combinação dos diversos alimentos. Trutas imortais (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Rechear as trutas com nozes trituradas e fritá-las em azeite.Fillippo Tommaso Marinetti Diabo em túnica negra (polibebida do aeropintor futurista Fillìa) 2/4 de suco de laranja ¼ de grappa ¼ de chocolate líqüido Imergir a gema de um ovo cozido.indd 234 7/4/2009 15:51:27 . Então deixá-la mergulhada por um minuto em muito suco de limão. em queijo. de modo que permaneçam em pé) em Mortadela de Bolonha.

) de alcaçuz em fita. a base de espinafre e zimbro.indd 235 7/4/2009 15:51:27 . Fechar a parte superior da esfera com meia ameixa seca. Docelástico (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Recheia-se uma esfera de massa podre com zabaione vermelho no qual é imersa um pedaço (3 cm.A cozinha futurista verde. privado da pele. As grandes águas (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) ¼ de grappa ¼ de gim ¼ de cominho ¼ de anis Sobre o líqüido flutua um bloco de pasta de anchovas envolta cirurgicamente em uma hóstia. é servido em pé em um prato contendo café expresso quentíssimo misturado com muita água de colônia. Carrossel de álcool (polibebida do aeropintor futurista Prampolini) 2/4 de vinho Barbera ¼ de cidra ¼ de bitter Campari 235 Cozinha futurista. Porcoexcitado (fórmula do aeropintor futurista Fillìa) Um salame cru. salpicada de confeitos prateados que lembram as balas dos caçadores.

como a vegetação de palmeiras. cheios de geléia de ameixa. bananas sem casca. uva passa. Entre as bananas são escondidos ovos cozidos sem a gema. enfiados em um palito de dentes. O topo do cone será bombardeado de pedaços de trufas negras cortadas em forma de aeroplanos negros à conquista do Zênite. Na base do cilindro: salame.indd 236 7/4/2009 15:51:27 . um quadrado de queijo e um quadrado de chocolate. Paradoxo primaveril (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um grande cilindro de sorvete de creme que traz no alto.Fillippo Tommaso Marinetti No líqüido são imersos. Equador + Pólo Norte (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um mar equatorial de gemas de ovos em suas cascas. No centro emerge um cone de claras batidas em neve e solidificadas. 236 Cozinha futurista. cheio de gomos de laranja como suculentas seções de sol. O bolo é coberto por duas camadas de papa que o dividem ao meio: a primeira feita de molho de tomates e a segunda de espinafre. Prefácio gustativo (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Um cilindro de manteiga que sustenta no alto uma azeitona verde. Discos saborosos (fórmula do aeropintor futurista Prampolini) Bolo de frutas variadas que se apóia sobre um disco de chocolate. com pimenta sal limão. pinhõezinhos e confeitos.

exaltando-os e honrando assim o nome glorioso de Mallarmé. Sirocofran) Para fundir a máxima pureza virginal com a máxima luxúria de perfume. que cantou a virgem Heródias em uma verde paisagem palustre coberta de sensualíssimos lírios turquesa. Aproxima-se das bexigas o cigarro aceso e aspira-se o perfume que dali brota. Elas são enchidas e levemente esquentadas de modo a vaporizar o perfume e tornar turvo o invólucro. Antepasto fulgurante (fórmula do poeta futurista Luciano Folgore) Pensa que se dormes não mereces fazer um antepasto incomparável.A cozinha futurista Arroz de Heródias (fórmula do futurista Dr. peguem arroz e façam cozinhar em muito leite convenientemente salgado. sabe-se bem. 500 gramas de ricota romana. Privam-se as tâmaras do caroço e amassam-nas bem (melhor ainda se são passadas na peneira). A polpa assim obtida é incorporada à ricota até obter uma massa bem homogênea. Perfumes prisioneiros (fórmula do futurista Dr. Servir frio.indd 237 7/4/2009 15:51:27 . após ter mantido o prato no refrigerador por algumas horas. São levadas à mesa junto com o café. Tâmaras ao luar (fórmula do futurista Dr. Escorram-no e temperem-no com finíssimo pó de rizoma de lírio. em pequenos pratos quentes. Sirocofran) Dentro de finas bexigas coloridíssimas coloca-se uma gota de perfume. Sirocofran) 35-40 tâmaras muito maduras e doces. não pega peixes 237 Cozinha futurista. quem dorme. procurando que os perfumes sejam variados.

Conta-se que um rei da Patagônia por um tal prato renunciou ao seu reino esta história é certamente uma embroma mas a bondade do prato que te ensino é tão real e alegra o apetite 238 Cozinha futurista. logo os arenques a banho meterás quatro ou cinco horas sob água pura e quando houverem perdido a salgadura estenda-os na tábua que os deleita com um pouco de cebola e um ovo cozido depois com o oscilar da lamineta triture tudo finamente e faça de modo que a pasta seja macia e perfeita e por fim como condimento regue com azeite e vinagre a seu contento. limpe-os com carinho. Feito isso pegue o leite novamente (o leite dos arenques.indd 238 7/4/2009 15:51:27 . Obtendo-os. aliás sutil. entende-se) para desfazê-lo no óleo ao qual une-se algumas gotas de vinagre e finalmente estenda aquele leite tenro e picante sobre os arenques que triturastes já e o antepasto fino e excitante todo apetite humano despertará. depois tire o leite que colocarás a esperar os eventos em um pratinho.Fillippo Tommaso Marinetti enquanto em nosso caso é indispensável estar de tal modo desperto. para prender até peixe em barril a fim de obter (pagando preços salgados) dois arenques ao leite e não defumados.

tire tudo do fogo amanteigando bem o risoto e acrescente queijo em abundância. muito mais que o açafrão. após o Convite “Entendê-la não pode quem não a prova”. Quando estiver bem quente. mexendo sempre até ficar cor de ouro. recolha-se. com cuidado o suco produzido. Após vinte minutos de cozimento. É sintético porque os oito grãos contidos no bulbo ácido são como as “Marinettianas” oito almas em uma bomba.indd 239 7/4/2009 15:51:27 . Fazer – à parte – um abundante molho de salsinha com alho e cebola em pequena dose. à parte. caldo convenientemente salgado e ao qual será agregado o suco dos alquequenjes. a colheradas. tirá-la do fogo e jogar o triturado de alquequenjes (conservando o suco à parte) e o pesto de salsinha. Este risoto é futurista porque o alquequenje é uma fruta quase fora de série: certo. 239 Cozinha futurista. e é velocissimamente digerível como tudo o que pertence à usina (queria dizer cozinha) futurista.A cozinha futurista que parece que Dante na Vita Nuova tenha escrito para ela. acrescentar. asas que se jogam fora: e assim parecem um paraquedas. a qual – de resto – na natureza quase não é mais encontrado. Voltar ao fogo: e apenas tudo esteja dourado (que a cebola não se toste) acrescentar arroz suficiente para seis pessoas. Colocar azeite abundante em uma caçarola. porque o alquequenje é dotado de asas de bom tecido como o aeroplano. Risoto futurista ao alquequenje (fórmula do aeropoeta futurista Paolo Bruzzi) Preparar triturado um quilo de alquequenje separado de sua sutil membrana. Então.

indd 240 7/4/2009 15:51:27 . mas mais cozido. ou provolone fresco). geléia de morango e regada delicadamente por Asti espumante. alargando-o sem romper as paredes. Mazza) Preparem um bom risoto de açafrão ou de tomate. Cubram com mais risoto e arredonde-os novamente. em azeite. pinhõezinhos e uva passa. Façam muitas bolotas do tamanho médio de uma laranja. Comumanuvem (fórmula do aeropoeta futurista Giulio Onesti) Uma grande massa de chantilly dardejada por suco de laranja. depois em ovo batido e enfim em farinha de rosca. (Não deve ser ao dente para que os grãos de arroz possam aderir uns aos outros). melhor.Fillippo Tommaso Marinetti Laranjinhas de arroz (fórmula do vocabulivre futurista Arm. Frango de aço (fórmula do aeropintor futurista Diulgheroff) Assa-se um frango completamente esvaziado. faz-se uma abertura em seu dorso e completa-se o interior com zabaione vermelho sobre o qual são dispostos 200 gramas de confeitos esféricos prateados. ou caciocavallo. Fritem-nas em abundante azeite até que fiquem loiro-douradas e sirvam-nas quentes. menta. Em toda a volta da abertura do dorso levantam-se cristas de galo. passem as laranjinhas em farinha branca. salame ou presunto cru em cubinhos. crocantes. e deixe-o esfriar. Quando esfriar. 240 Cozinha futurista. molhando as mãos em água ou. tendo o cuidado de tirá-lo do fogo não ao dente. e recheiem-nas com carne à bolonhesa moída grossa e úmida de seu molho. Acrescente cubos de queijo (fontina ou mussarela. Assim prontas. e façam em cada uma delas um furo com o polegar.

Vitelo embriagado (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Rechear a carne crua de vitelo com maçãs descascadas. nozes. Ultraviril (Fórmula do crítico de arte futurista P. Apresentar este risoto com um acompanhamento de creme de baunilha sem açúcar. olhos fechados. Sobre estas sobrepõem-se duas fileiras de patas de caranguejo assadas no espeto. 2 figos. uma pequena esfera de gorgonzola. atacando aqui e ali com as mãos. Saladin) Sobre um prato retangular dispõem-se fatias finas de língua de vitelo fervida e cortada de comprido. para ser comido.A cozinha futurista Palavras em liberdade (fórmula do aeropoeta futurista Escodamè) Três mariscos. Sorvete simultâneo (fórmula do poeta vocabulivre futurista Giuseppe Steiner) Creme de leite e quadradinhos de cebola crua gelados juntos. de modo que resultem 12 Vinho licoroso feito com uva passa. pinhõezinhos. A. um pequeno cubo de parmesão. 8 bolinhas de caviar. enquanto o grande pintor e vocabulivre Depero declamará a sua célebre “Jacopson”. 5 biscoitinhos de amêndoa: todos dispostos ordenadamente sobre um grande leito de mussarela. cravos. um buquê de salada radicchio. 241 Cozinha futurista. Servir frio em banho de Asti espumante ou de passito12 de Lipari. Cozinhar no forno. Golfo de Trieste (fórmula do aeropoeta futurista Bruno Sanzin) Cozinhar um quilo de vôngole sem casca em um molho de cebola e alho acrescentando lentamente o arroz. uma meia lua de melancia.indd 241 7/4/2009 15:51:27 .

A. ginseng. A. damiana. muira puama. A. cola.indd 242 7/4/2009 15:51:27 . Saladin) 3 grãos de café 1 parte de licor feito com as seguintes plantas: coca. Saladin) 1 castanha confeitada 1 parte de licor de rosas 1 parte de licor de abacaxi 1 parte de licor de timo ou tomilho Amor alpestre (Polibebida do crítico de arte futurista P. Na parte posterior da lagosta dispõem-se três ovos cozidos cortados longitudinalmente e de modo que a gema se apóie sobre as fatia de língua. Saladin) ¼ de licor de melissa ¼ de gemas de abeto ¼ de bananas ¼ de aspérula perfumada 242 Cozinha futurista. equinácea 1 parte de licor de chá 1 parte de kirch Maismenosparaseparado (Polibebida do crítico de arte futurista P. uma de grãos e uma fatia fina de trufa coberta por ovas de lagosta. A parte anterior é coroada com seis cristas de galo como divisores. Saltoemcarne (Polibebida do crítico de arte futurista P. coberta de zabaione verde. enquanto completam a guarnição do prato duas fileiras de pequenos cilindros compostos por uma rodela de limão. Entre estas duas fileiras coloca-se o corpo de uma lagosta previamente descascada e desossada. ioimbe.Fillippo Tommaso Marinetti paralelas e em senso longitudinal ao eixo do prato.

Do lado oposto dispõem-se 3 talos de alho-porró 243 Cozinha futurista. duas castanhas confeitadas e serve-se um prato para cada casal. Parasocar (Fórmula do crítico de arte futurista P. Saladin) Cobre-se o fundo de um prato redondo com fondente levemente perfumado com grappa. azeitonas. A. A. 3 meios pimentões vermelhos assados e recheados com uma massa de legumes composta de pontas de aspargos. como indicado no desenho. Saladin) Sobre um prato redondo serve-se zabaione vermelho de modo a formar uma grande mancha. No meio desta dispõe-se um belo disco de cebola furado e atravessado por um galho de angélica confeitado.A cozinha futurista Desanuviante (Polibebida do crítico de arte futurista P. A. cebolinha. Saladin) 1/3 de licor de artemísia 1/3 de licor de ruibarbo 1/3 de grappa Centelha (Polibebida do crítico de arte futurista P. corações de aipo e de erva-doce. A. alcachofras. Saladin) ¼ de licor de cascas verdes de amêndoas ¼ de licor de genciana ¼ de licor de absinto ¼ de licor de genebra Homemulhermeianoite (Fórmula do crítico de arte futurista P.indd 243 7/4/2009 15:51:27 . equidistantemente entre eles e em forma de cone. Dispõem-se depois. alcaparras. Sobre um raio do prato dispõem-se.

Fillippo Tommaso Marinetti fervidos. Um arabesco de trufas raladas que parte do 2o. pimentão e termina naquele da parte externa completa o prato. Hortocubo (fórmula do crítico de arte futurista P. A. Saladin) cubinhos de aipo de verona fritos e cobertos de páprica cubinhos de cenoura fritos e cobertos de rábano ralado; ervilhas fervidas; cebolinha de Ivrea em conserva cobertas de salsinha picada; barrinhas de queijo fontina. N.B. Os cubinhos não devem ultrapassar 1 cm³. Branco e preto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Mostra individual sobre as paredes internas do Estômago de arabescos à vontade, de chantilly pulverizado com carvão de tília. Contra a indigestão mais negra. Pró dentadura mais branca. Terra de Pozzuoli e verde veronês (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Cidras confeitadas, recheadas de sépia frita e picada. Mastigá-los bem como se fossem críticos antifuturistas. Cenouras + calças = professor (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Uma cenoura crua em pé, com a parte fina para baixo, onde serão aplicadas com um palito de dentes duas berinjelas fervidas, na função de calças roxas marchadoras. À cenoura, deixar as folhas verdes na ponta, representando a esperança da aposentadoria. Mandibular tudo sem cerimônias.

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A cozinha futurista Cravos no espeto (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Longos finos cilindros de massa folhada. Dispor em fila sobre cada um quatro cravos: branco, rosa, vermelho, púrpura, assados em licor frio ou no Roob Coccola di Zara. Ao comê-los pensar no fenecido estilo floral. Morangomama (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Um prato rosa com duas mamas femininas eretas feitas de ricota rosada ao Campari e bicos de morango confeitado. Outros morangos frescos sobre a cobertura de ricota para morder em uma ideal multiplicação de mamas imaginárias. Cafémaná (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Café de cevada torrada, adoçado com maná. Servi-lo quentíssimo para que os comensais o esfriem assoprando em cada um as piadas mais congelantes. Senado da digestão (fórmula do futurista Farfa Poeta-Record nacional) Quatro comensais pedirão cada um duas conhecidas comidas ou bebidas digestivas. Ou então oito comensais, uma cada. Os outros convidados votarão secretamente contra uma ou outra. Resultará vencedora aquela que obtiver menos votos contra.

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Fillippo Tommaso Marinetti Aeroplano libanês (fórmula do piloto-aviador, poeta e aeropintor futurista Fedele Azari) Castanhas confeitadas imersas por 2 minutos em água de Colônia e depois por 3 minutos no leite, então servidas sobre uma papa (cinzelada em forma de delgado aeroplano) de bananas, maçãs, tâmaras e ervilhas. Reticulados do céu (fórmula do aeroescultor futurista Mino Rosso) A base é um disco de bala de cereja. O cilindro grande: Três folhas de massa folhada recheadas com polpa de tamarindo e cobertas por fondente de chocolate. O cilindro pequeno: coroas de merengue sobrepostos cobertas com fondente de tangerina. O centro do cilindro superior contém chantilly com polpa de tamarindo e pistaches descascados. A asa é bala de tangerina. Pouco antes de ser apresentado à mesa o doce deverá ser coberto com fios de açúcar verde. Antepasto intuitivo (fórmula Senhora Colombo-Fillìa) Esvazia-se uma laranja em forma de cestinha na qual se dispõem qualidades diferentes de salame, manteiga, cogumelos em conserva, anchovas e pimentas verdes. A cestinha perfuma de laranja os diversos elementos. Dentro das pimentas escondem-se bilhetinhos com frases de propaganda futurista ou frases surpresa (por exemplo: “O futurismo é um movimento anti-histórico”- “Viva perigosamente”- “Médicos, farmacêuticos e coveiros, com a cozinha futurista ficarão desempregados”, etc.)

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A cozinha futurista Leite à luz verde (fórmula da senhorita Germana Colombo) Em uma grande tigela de leite frio imergem-se algumas colherinhas de mel, muitos grãos de uva preta e alguns rabanetes vermelhos. Comer enquanto uma desluz verde ilumina a tigela. Beber juntamente uma polibebida feita com água mineral, cerveja e suco de amoras. Faisão futurista (fórmula do aeropoeta Dr. Pino Masnata) Assar um faisão bem esvaziado, depois deixá-lo uma hora em banho-maria no moscato de Siracusa. Depois uma hora no leite. Recheálo com mostarda de Cremona e frutas cristalizadas. Aeroporto picante (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Uma camada de salada russa com maionese coberta de verde. Em volta medalhões variados compostos de pãezinhos recheados de laranja, clara de ovo e frutas mistas. Com manteiga tingida de vermelho e anchovas ou sardinhas formar no campo verde perfis de aeroplanos. Estrondos ascensionais (arroz com laranja) (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Risoto em branco com molho luminoso: o molho é composto de ossos de vitelo cozido em marsala e um pouco de rum, casca de laranja cortada em tirinhas finas, fervidas com gotas de vinagre. Acrescentar suco de laranja. Perfumar com “molho nacional”, que se encontra no comércio.

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Fillippo Tommaso Marinetti Fuselagem de vitelo (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni)Fatias de vitelo encostadas na fuselagem montanha composta por castanhas cozidas, cebolinhas e lingüiças. Tudo coberto de pó de chocolate. Aparições cósmicas (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Ervas-doces, beterrabas, brócolis, cenouras amarelas sobre um pastel de espinafre. Acrescentar cabelos de anjo de açúcar. Os legumes são cozidos cortados em formato de estrela, lua, etc e servidos na manteiga. Aterrissagem digestiva (fórmula do aeropintor futurista Caviglioni) Com papa de castanhas cozidas em água com açúcar e favas de baunilha formar montanhas e planícies. Por cima, com sorvete de creme de cor azul, formar camadas de atmosfera sulcadas por aeroplanos de massa podre inclinados em direção ao chão. Mamas italianas ao sol (fórmula da aeropintora futurista Marisa Mori) Formam-se duas meias esferas cheias de pasta confeitada de amêndoas. No centro de cada uma apóia-se um morango fresco. Então se derramam na bandeja zabaione e zonas de chantilly. Pode-se cobrir tudo com pimenta-do-reino forte e guarnecer com pimentas vermelhas. Algaespuma tirrena (com guarnições de coral) (fórmula de aeroceramista futurista Tullio d’Albisola, PoetaRecord de Turim)

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O todo. Pulveriza-se a folha com açúcar e espuma-se com uma onda de chantilly. advertindo que a pesca não tenha ocorrido nas vizinhanças de fossas ou desaguadouros porque a referida alga assimila facilmente os maus cheiros. 249 Cozinha futurista. sobre um prato redondo plano. e uma constelação de grãos de romã madura. arquitetado e arabescado com arte. desenformar e servir com uma guarnição de meios damascos com gelatina. Bomba à Marinetti (fórmula do cozinheiro futurista Alicata) Revestir uma forma de bomba com gelatina de laranja decorando a parte da cúpula com pequenos morangos. Revestir o vazio com biscoito tipo inglês dando forma quadrada. Cobrir a decoração com uma camada de gelatina. gomos de laranja e limões confeitados. A guarnição de corais será obtida com um monte de cachos de pimentas vermelhas picantes. lava-se e enxágua-se em abundante água corrente. esfregar no suco de limão. preenchendo o vazio com uma bavaroise de baunilha. Congelar. Decorar os lados com angélica cândida em forma de coroa e a parte posterior com castanhas confeitadas. gomos de ouriços do mar pescados sob lua cheia. Quando limpa. será servido à mesa apenas pronto. deixando-a endurecer. fresco. O centro do abacaxi é coberto por uma camada de atum sobre a qual se apóia uma meia noz.indd 249 7/4/2009 15:51:28 .A cozinha futurista Prende-se um maço de algas marinhas de recentíssima pesca de rede. Acordaestômago (fórmula do aeropintor futurista Ciuffo) Uma fatia de abacaxi sobre a qual dispõe-se um raio de sardinhas. com brodo ondeado e coberto por uma folha de celofane azul..

fatias de queijo parmesão. fatias de banana. anchovas. No centro do pratinho. depois amendoins de Chivasso.Fillippo Tommaso Marinetti Doceforte (fórmula da Senhora Barosi) Entreosdois formado por duas fatias de pão com manteiga. eqüidistantes: um montinho de amêndoas torradas. que comprimem bananas e anchovas. com mostarda espalhada em sue interior. Dentro: fatias de banana. Em seu interior e no fundo: sorvete de creme. 250 Cozinha futurista. Um ritual (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Um pequeno cilindro oco de gelo coberto externamente de mel. Meio copo de Asti espumante. Sobre: leite com mel ou mel (1 cm. O regenerador (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Uma gema de ovo. de espessura) como divisor impermeável. tudo regado de vermute e licor de menta. um copo contendo: vermute. café torrado. licor Strega. previamente imersas em pimenta Caiena. pedaços de abacaxi. conhaque.indd 250 7/4/2009 15:51:28 . vermute e licor Strega. Fogonaboca (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) No fundo do copo: uísque com marascas em conserva. com o interior também espalhado de mostarda. Avanvera (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Sobre um pratinho de alumínio. fatias de tomate. Sobre o mel: alquermes.

(Introduzir-se-á o palito no copo. A tâmara assim confeitada é envolta em finas fatias de presunto cru e depois em folhas de alface. Três colherinhas de açúcar. aparecerão no líqüido os olhos de gordura depositadas pelo presunto: neste caso a polibebida poderá ser intitulada “aquele porco que pisca os olhos”) 13 Talvez o fascio lictório.indd 251 7/4/2009 15:51:28 . O interior do cilindro recheado com carne moída. Tudo batido por 10 minutos. distribuídas como estrelas: um pepino. óleo sal pimenta. Vernazza) 4/8 de vinho Vernaccia 3/8 de vermute 1/8 de aguardente Tâmara pouco madura recheada de mascarpone empastado com licor Aurum (Pescara).A cozinha futurista Três nozes torradas. emblema fascista tomado da antiga Roma 251 Cozinha futurista. um pedaço de banana. Tudo enfiado em um palito sobre o qual se enfilará também uma pequena pimenta vermelha em conserva recheada de queijo parmesão em pedacinhos. O lictório13 (fórmula do futurista Engenheiro Barosi) Diferentes caules de cardo ou salsão do comprimento de 10 cm.. cozidos previamente em água. Sobre a semi esfera de arroz. um pedaço de beterraba. Simultânea (polibebida do futurista Dr. Fixados: embaixo por uma semi esfera de risoto branco e em cima por um meio limão. Apresentado em um copo dentro do qual se dispõe uma banana descascada e visível. dispostos direitos de modo a formar um cilindro vazio.

Depois bolinhas esféricas perfeitas com cereja em conserva (sem o cabinho) envoltas com massa de ricota. Cozimento rápido para manter o forte da bebida. uma anchova coberta por uma tirinha de banana. Vernazza) Bife de vitelo cozido na manteiga e cortado em forma de encordoamento de raquete: na hora de servir.Fillippo Tommaso Marinetti Risoto Trinacria (fórmula do futurista Dr. Temperado o risoto. acrescentar e misturar algumas azeitonas verdes e guarnecer com gomos bem limpos de tangerina. Molho preparado com a fritura de pouca cebola e manteiga. Chuleta-tênis (fórmula do futurista Dr. ao qual se acrescentará: pedacinhos de barriga de atum em conserva e tomate em mínima quantidade. Para formar o cabo da raquete.indd 252 7/4/2009 15:51:28 . ovos. Vernazza) Arroz cozido normalmente. Vernazza) Filé de peixe entre dois grossos discos de maçã: tudo coberto de rum e flambado no momento de servir. sobre a qual são traçadas algumas linhas com molho de tomate misturado com rum. 14 militante da causa fascista 252 Cozinha futurista. cobrir com uma fina camada de massa (feita de mascarpone amassado com nozes trituradas). queijo e noz moscada. Bocado “squadrista”14 (fórmula do futurista Dr.

A cozinha futurista Aerovianda atlântica (fórmula do futurista Dr. espinafres. Dos dois lados desta composição que lembra esqui: discos de fruta cristalizada dentro do qual está enfiado um grissini doce. fatias de laranja embebidas em marasquino Zara. etc) de cor verde clara. Vernazza) Pasta de legumes (lentilhas. Esquiador comestível (fórmula do futurista Dr.indd 253 7/4/2009 15:51:28 . Por cima: uma camada de chantilly. de farinha suco de meio limão uma colher de azeite 253 Cozinha futurista. ervilhas. Entre o zabaione e o chantilly. Por cima dispor (um por comensal) aeroplanos formados por: folhadinhos de formato triangular (asas) – cenoura cortada de comprido (fuselagem) – cristas de galo cozidas em manteiga (leme) – bergamotas cortadas em discos e colocadas em pé (hélice). Rosas diabólicas (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. Vernazza) Zabaione duro gelado em um prato fundo. Sobre a superfície branca dispor longas fatias de banana e no centro meia tâmara recheada de licor Aurum amassado com amêndoas doces e amargas trituradas.

especialmente se vêm cobertas do doce futurista Mafarka. ralem dentro a casca do limão e espalhem. jogue lá dentro rosas vermelhas aveludadas despetaladas. a água de flor de laranjeira. comam à meia-noite em janeiro. de café Açúcar a vontade 100 gr. quando estiver frio. de arroz 2 ovos Casca de limão fresco 50 gr. e frite-as em azeite fervente como se usa para fazes alcachofras à la jedia. (Indicadíssimos para recém-casados. Bom apetite. misturando bem.) Doce Mafarka (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 50 gr. de água de flor de laranjeira ½ litro de leite Cozinhem no leite o café e adocem a gosto. depois de ter cortado o caule na altura do cálice. – Veja a fórmula seguinte.indd 254 7/4/2009 15:51:28 .Fillippo Tommaso Marinetti Misture bem os ingredientes citados e forme assim uma massa não muito densa. e levem ao gelo. depois coloquem o arroz e cozinhem-no muito seco e al dente. despejem-no assim em uma forma. Sirva-os à mesa quentíssimos. Tirem-no fogo e. e viva o aço! 254 Cozinha futurista. Quando estiver bem deaço sirvam-no com biscoitos finos.

Quando o preparado estiver bem frio. Pulo de áscaro15 (fórmula do futurista Giachino. de manteiga 100 gr. pimenta.A cozinha futurista Bombardeamento de Adrianópolis (fórmula do futurista Pascà d’Angelo) 2 ovos 100 gr. e uma pitada abundante de pimenta do reino. 255 Cozinha futurista. alecrim e alho. e em cada uma destas incorporarão uma fatia de mussarela. e depois passem em farinha de rosca e fritem. proprietário do Santopaladar) Cozer uma coxa de carneiro com louro. soldado da colônia italiana em Eritréia. de arroz ½ litro de leite Coloquem para cozinhar bem al dente o arroz no leite. de alcaparras 100 gr. de azeitonas 50 gr. darão a forma de uma esfera. banhem-na no outro ovo que já foi batido. e aproximadamente na metade do cozimento acrescentar a manteiga e sal suficiente. de mussarela de búfala 6 anchovas 25 gr. meia anchova. assim preparada. Depois que o arroz for tirado do fogo misturem imediatamente um ovo. 3 ou 4 alcaparras. A cada parte. dividam-no em 10 partes. 15 Pejorativo.indd 255 7/4/2009 15:51:28 . incorporando-o bem. 2 ou 3 azeitonas sem o caroço.

Compenetração (fórmula do futurista Giachino. atum. proprietário do Santopaladar) 256 Cozinha futurista. Ovos divorciados (fórmula do futurista Giachino.Fillippo Tommaso Marinetti Cozida a coxa. proprietário do Santopaladar) Sobre um creme de ervilhas dispor um filé de vitelo cozido em manteiga. azeitonas.indd 256 7/4/2009 15:51:28 . e acrescentar à carne tâmaras recheadas com pistaches salgados. pepinos. alcachofrinhas. proprietário do Santopaladar) Sobre uma larga fatia de presunto colocar salame cru. uma fatia de presunto e uma fruta cristalizada. recheada com geléia e servida em um brodo de rosas quentes realçado por gotas de água de Colônia italiana. cogumelos em conserva. Sopa zoológica (fórmula do futurista Giachino. fatias de abacaxi e manteiga. proprietário do Santopaladar) Massa em forma de animais composta de farinha de arroz e ovos. vinho branco seco e suco de limão. proprietário do Santopaladar) Sobre um fundo de espinfre servir arroz branco fervido e temperado com manteiga e recoberto por um denso creme de ervilhas e pistaches em pó. Arroz verde (fórmula do futurista Giachino. Aplacafome (fórmula do futurista Giachino. Unir as duas extremidades do presunto e mantê-las fechadas com filés de anchova. Verter sobre o filé molho de tomate e acrescentar um anel de maçã. escorrê-la.

Nabo-carteira (fórmula do futurista Giachino. Cortá-los depois como carteiras e recheá-los com anchovas banhadas em ovo e rum. licor Campari e anis com essência de Rosas Brancas. 257 Cozinha futurista. Tornar novamente ao fogo com um cálice de vinho branco seco e suco de limão. proprietário do Santopaladar) Pequenos nabos novos fervidos por 10 minutos com louro. proprietário do Santopaladar) Doses diferentes de laranjada. Depois acrescentam-se seis ameixas sem caroço recheadas com amêndoas. deixando cozinhar até secar.indd 257 7/4/2009 15:51:28 . Boca de fogo (fórmula do futurista Giachino. cozinheiro do Santopaladar) Fazer um furo em todo o comprimento de uma banana descascada e enchê-lo com carne de frango moída. Rosabranca (fórmula do futurista Giachino. Levar ao fogo em uma caçarola com manteiga e acrescentar um pouco de caldo de carne. Dispor as gemas sobre uma pasta de batatas e as claras sobre uma pasta de cenouras.A cozinha futurista Dividir na metade ovos cozidos extraindo intactas as gemas. Servir com legumes. Voltar ao fogo com meio copo de suco de ameixa. Passar os nabos recheados em gema de ovo e no pão ralado e cozê-los ao forno. proprietário do Santopaladar) Misturar à medula de ossobucos dourados em manteiga farinha de rosca. Bananas surpresa (fórmula do futurista Piccinelli. nozes e uma baga de zimbro. cebolas e alecrim.

Exemplo: o comtátil da pasta de bananas e o veludo ou a carne feminina. Exemplo: a conmúsica do carnescultura e o balé “HOP-FROG” do maestro futurista Franco Casavola.Fillippo Tommaso Marinetti pequenO diciOnáriO da arte cozinhária futurista Castanhas confeitadas: substitui marrons glacê Comperfume: termo que indica a afinidade olfativa de um dado perfume com o sabor de uma determinada vianda.indd 258 7/4/2009 15:51:28 . Comrumor: termo que indica a afinidade rumorística de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. 258 Cozinha futurista. Conmúsica: termo que indica a afinidade acústica de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. exemplo: o comperfume da massa de batatas e a rosa. Comtátil: termo que indica a afinidade tátil de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o comrumor do arroz ao molho de laranja e o motor de motocicleta ou o “despertar da cidade” do rumorista Luigi Russolo.

Consumado: substitui CONSOMMÉ.indd 259 7/4/2009 15:51:28 . Exemplo: o destátil do “Equador + Pólo Norte” e a esponja. Desmúsica: termo que indica a complementaridade de uma dada música com o sabor de uma dada vianda. Destátil: termo que indica a complementaridade de uma dada matéria com o sabor de uma dada vianda. Exemplo: o desperfume da carne crua e o jasmim. Exemplo: o desrumor do “Mar da Itália” e o chiado do óleo fritando. Exemplo: a desmúsica das tâmaras com anchovas e a Nona Sinfonia de Beethoven. dos refrigerantes e da espuma do mar.A cozinha futurista Comluz: termo que indica a afinidade óptica de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. 259 Cozinha futurista. Exemplo: a comluz do “porcoexcitado” e um relampejar vermelho. Decisão: nome genérico de polibebidas quentes-tônicas que servem para tomar. Desperfume: termo que indica a complementaridade de um dado perfume com o sabor de uma dada vianda. uma importante decisão. Desrumor: termo que indica a complementaridade de um dado rumor com o sabor de uma dada vianda. após breve mas profunda meditação.

Exemplo: a desluz de um sorvete de chocolate e uma luz laranja quentíssima. Fumatório: substitui FUMOIR. Fondentes: substitui FONDANTS. 260 Cozinha futurista.indd 260 7/4/2009 15:51:28 .Fillippo Tommaso Marinetti Desluz: termo que indica a complementaridade de uma dada luz com o sabor de uma dada vianda. Inventina: nome genérico de polibebidas refrescantes e levemente embriagantes que servem para encontrar fulminantemente uma idéia nova. Lista ou Listadepratos: substitui MENU. Mistura: substitui MÉLANGE. Mexedor: substitui BARMAN. Guerranacama: polibebida fecundadora. Guiapaladar: substitui MAÎTRE D’HOTEL.

Aquisebebe: substitui BAR. Sala de chá: substitui TEA-ROOM Sganasciatore: personagem futurista que tem por tarefa alegrar os banquetes oficiais. Pasta: substitui PURÉE Almoçoaosol: substitui picnic. 261 Cozinha futurista. Cedonacama: polibebida aquecedora invernal. Paraselevantar: substitui DESSERT.indd 261 7/4/2009 15:51:28 .A cozinha futurista Paznacama: polibebida sonífera. Polibebida: substitui COCKTAIL. Pasticho: substitui FLAN.

indd 262 7/4/2009 15:51:28 .Fillippo Tommaso Marinetti Entreosdois: substitui SANDWICH Sopa de peixe: substitui BOUILLABAISSE 262 Cozinha futurista.

indd 263 7/4/2009 15:51:28 .ConClusão O Cozinha futurista.

indd 264 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

O objetivo deste trabalho foi proporcionar ao leitor de língua portuguesa e aos estudiosos do Futurismo o acesso a uma obra importante do movimento. de Filippo Tommaso Marinetti e Luigi Colombo “Fillìa”. Arquitetura. tato. passando da Literatura à Pintura. Cinema e. Os representantes do Futurismo procuraram se manifestar em relação a diversas esferas da arte e cultura. no início. pelas 265 Cozinha futurista. Esta trazia. oferecia novos modos de expressão para representar a nova sociedade que se formava a partir do final do século XIX. audição. embora praticamente desconhecida e ainda não publicada no Brasil: A cozinha futurista. O Futurismo. propiciando assim um contato maior com o mundo modernizado que se lhes apresentava. primeiro grande movimento literário do século na Itália. Escultura. agora. também à Gastronomia.indd 265 7/4/2009 15:51:28 . a euforia dos homens pelas multidões. além de outros doze polemicamente instituídos por Marinetti no manifesto de 1921. olfato e paladar. Teatro. Todos os sentidos foram privilegiados pelos manifestos: visão. pelas máquinas.

se não excita o apetite. ou fúria. na população. Propuseram modificar o hábito mais arraigado da tradição italiana – o macarrão – para despertar interesse. O Manifesto da Cozinha Futurista aparece como grito desafiador de um movimento que não atingia mais os seus objetivos. O otimismo. ingerido certas iguarias. A expressão da gastronomia na literatura não é novidade: desde as antigas civilizações. para sustentar a tese de que “macarrão não faz bem aos italianos”. o homem moderno alienado pela cultura de massas. revelam aos poucos a intolerância de Marinetti para com os hábitos tradicionais. Para evidenciar o futurismo proposto. A cozinha futurista é um livro intrigante. A cozinha italiana nunca mais seria a mesma. traz inúmeras opiniões. pelos avanços científicos e pelos meios de comunicação e. de pessoas inusitadas. O resultado é a estranheza de algumas construções sintáticas e a inovação do vocabulário. com receitas assustadoras. aproximam-se da política para garantir a subsistência do movimento enquanto se afastam da vanguarda literária.indd 266 7/4/2009 15:51:28 . passando para a Idade Média esfomeada. O receitário futurista. ajudaria a fortalecer a economia. Algumas das regras contidas no “Manual de Redação e Estilo Futurista”.Fillippo Tommaso Marinetti indústrias. A forma dos pratos. além de revigorar a raça. aparentemente incompreensíveis. certamente mantém o bom humor à mesa. A trajetória do Futurismo segue a História. a euforia e o impacto iniciais foram perdendo força na medida em que deixaram de ser novidades. Além de conter o polêmico manifesto. nada melhor que uma linguagem adequada. com fartura em grandes banquetes. Certas descrições. mais tarde. faz imaginar se alguém já teria preparado. ou pior. Os argumentos econômicos de Marinetti soam bastante convincentes: modificar os hábitos alimentares. a saber os manifestos do Futurismo e Técnico da Literatura Futurista. permeando o Renascimento e toda a literatura 266 Cozinha futurista. que muitas vezes refutam os pratos inovadores. são postos em prática pelo autor. Os artigos de jornais fazem transparecer o “passadismo” dos estômagos.

os livros trazem com bastante freqüência o prazer da mesa para suas páginas.ingestão de carne humana. Os escritores brasileiros que revolucionaram as artes no início do século chamaram-se no início de futuristas. para cada um. As coincidências culinárias .A cozinha futurista subsequente. e que continuou importando cultura por ainda mais cem anos. que atendesse aos anseios de um país – ex-colônia de Portugal por mais de três séculos. Estas interferências . metafórico e intelectual. Op. e até a um canibalismo inesperado em Marinetti. O Futurismo italiano e o Modernismo brasileiro foram aproximados neste trabalho a partir do viés culinário-antropofágico. aos convites-cardápio de Oswald. Não queriam ser discípulos do movimento europeu.que poderiam ser chamadas de influência ou contribuição – situam-se apenas no campo da suposição. O banquete. O “encontro” dos três autores propiciou o questionamento sobre as possíveis interferências da obra de um na obra do(s) outro(s). temas e formas de composição literária. metafórica ou não – revelam uma preocupação comum. embora a digestão da carne humana tenha. Boas surpresas foram colhidas ao longo do processo. p. nome que rejeitaram pouco tempo depois. por não refletir o exato perfil de seus participantes. Mario de. cit. Oswald de Andrade e Mário de Andrade – as referências à culinária em si e ao canibalismo real. independente. desejavam fundar um movimento nacional.22 267 Cozinha futurista. Buscou-se nos três autores trabalhados – Marinetti. mas permitem que aproximemos e comparemos afinidades.”1. 1 Andrade.indd 267 7/4/2009 15:51:28 . desde a declaração de Mário de Andrade: “Gosto porém muito de arte culinária. significados. seria algum cozinheiro famoso. simbologias e objetivos diferenciados. invento pratos e creio mesmo que se tivesse nascido noutra classe.

Infelizmente este trabalho não pode ir além da Cozinha. a verificar todos os incômodos que este suscitou. a colcha de retalhos.Fillippo Tommaso Marinetti O pastiche. talvez pela idéia corrente de que teria servido ao regime fascista de Mussolini. como cantou Mário. um autor que analisou e criticou sua nação. A partir da leitura das obras literárias de Marinetti pudemos observar que o escritor é muitas vezes esquecido. parece ser a forma de composição comum aos três autores nas obras aqui estudadas. merece mais atenção por parte dos pesquisadores. De qualquer forma. Há uma espécie de preconceito em relação ao escritor. e que desperte em outros estudiosos o interesse por esta figura tão contraditória e interessante do Futurismo italiano. Colecionando histórias de índios e organizando-as num herói nacional. ou talvez outros se aventurem pela obra marinettiana.indd 268 7/4/2009 15:51:28 . Talvez Marinetti tenha somente se servido do regime. Colecionando fotos e bilhetes. colando-os num diário. embora os títulos sejam pouco conhecidos ou lidos. como fez Oswald. reproduzindo-os num grande livro. 268 Cozinha futurista. A obra literária de Marinetti é vasta e interessante. como Marinetti. participando da construção de uma nova sociedade para o novo século. Colecionando recortes de jornal e receitas de amigos. estudioso de vários campos das artes. sendo praticamente reduzido aos seus manifestos. Esperamos que este livro “cozinhário” possa contribuir com os estudos feitos tanto na área gastronômica quanto na literária. Talvez em outro trabalho possamos verificar a invasão futurista nos outros cômodos da casa.

indd 269 7/4/2009 15:51:28 .reFerênCIAs bIblIográFICAs K Cozinha futurista.

indd 270 7/4/2009 15:51:28 .Cozinha futurista.

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ApêndICe U Cozinha futurista.indd 281 7/4/2009 15:51:29 .

indd 282 7/4/2009 15:51:29 .Cozinha futurista.

indd 283 7/4/2009 15:51:29 . Capa da edição em alemão 283 Cozinha futurista.ApêndICe 1 CApAs do lIvro A CozinhA FuturistA eM dIFerentes edIções e trAduções Capa do livro na edição espanhola Capa do livro na edição em língua inglesa Capa do livro em edição norueguesa Capa do livro na edição italiana de 1932.

Bisogna spesso prenderli a pugni. con un passo più veloce del loro. attraverso boscaglie di pericoli. Cozinha futurista. l’ineluttabile fatalità della guerra. in questa città di avventurieri rapaci e di operai ribelli nel rombo catarroso delle officine che hanno l’eterno ritmo asmatico? A II anni di distanza eccoci di nuovo lanciati in una nuova conflagrazione.Apêndice 2: cOme si nutrivA L’ArditO Via. ma rapidamente senza ingiustizia. Affretati di conoscrle bene tutti. abbacinante di audacia eroica e di maffia insolente che sappia correre più di loro. Questa volontà deve irrigidire I nostri nervi contro ogni viltà sentimentale. Fedeli come mastini. si può portarli contro le morti più spaventose. Coraggio! su! la lotta sarà breve e decisiva. Comprendo prefettamente quanto ti proccupi il dover raggiungere l’esercito al fronte. Come potrà vivere quella bella camelia fragile senza la calda ovatta del tuo amore. Sono belve indomabili ma generosissime. Tu li conosci bene. Bisogna sopratutto ricompensarli a tempo. comandarli in guerra! Ocorre per questo avere l’anima. ceffi spavaldi selvaggi tracotanti e giocondi che hanno già superato in ferocia tutti I Marat e in eroismo tutti gli arditi grigio-verdi dell’ultima guerra. senza dogmatismo disciplinare e senza rancore. Fra tre giorni ti troverai nel tuo reparto d’assalto fra quei terribili arditi verdirossi. il gesto. superiore in tutto. Tu senti la tristezza e la noia di riprendere ancora il fucile e di costatare colla necessità di uccidere. e scatenarli spesso contro il nemico da ammazzare! Mestiere difficile. non esagerare la tua angoscia. l’occhio. abbandonando la tua dolce amica in questa città turbulenta e caotica.indd 284 7/4/2009 15:51:29 . lo slancio e la você alta e il coraggio temerario d’un capo ardito! Un capo. poiché ognuno ha una spiccata personalità. Così.

Ma la mano potente stringe meglio la gola e la belva cede. Si guazza a mostrarla. Interviene il tenente comandante del reparto con calci e schiaffi.Fissati bene nella memoria I nomi anzi I soprannomi di quegli eroi: vampa. Cozinha futurista. ma la bocca cattiva deformata da una rasoiata alla guancia sinistra. grandi occhi neri dolcissimi. fetenti! Mascalzone! Te la cucinerò io. Neanche un pezzettino. Signor tenente. Ti raccomando un certo Guzzo di Trapani tutto nero. Ringhiano.Tutti con me! Fate silenzio! Silenzio! Silen…zio! Silen…zio!… Quando saremo nell’acqua. fez rossi. lasciala vedere. Succhiasassi. Assassino.No! No! non voglio aprire il mio zaino. la tua carne salata! Scoppia la rissa: arruffio di braccia. cazzotti sfollatori. cedendo a poco a poco ed incanalandosi con spintoni e risate dietro il tenente che grida: . Ne prende uno per il collo. Bruciapreti. un pezzettino! Guzzo. vogliono vedere la carne salata. è vero! Ho dentro lo zaino la carne salata.indd 285 7/4/2009 15:51:29 . è troppo amara! Tutti gli arditi circondano Guzzo con lazzi gridi ingiurie. Il caporale dice che ho dentro un pezzo di carne salata. ma è mia. bestemmiano. Tutto è domato. non la tocchiamo. Setteferite. minacciano gli arditi verdirossi. Non posso. Guzzo. Spaccafucili. Fulmine. risponde Guzzo irato. vero Sareceno magro agile scattante. Scoppierà subito una lite nei ranghi: è Guzzo che grida: . ruzzoloni. silenzio assoluto! Seguitemi e guardate il mio braccio destro. Al fiume prima tappa. Con scatto viperino l’ardito si volta e morde la mano. signor tenente! A lei non può piacere. non è rubata! Me la voglio mangiare tutta io! Non mi permetto di offrirla a lei.

Tutti a terra nel fango e nell’acqua. case color smeraldo. nel fango. tutto acceso di Cozinha futurista. Velluti carnali con pallori umani che vibrano. Ha lo zaino più pesante. Troverai fra I più arditi verdirossi Guzzo. a un metro da Guzzo. Lo investe sfarzosamente. Siete delle ombre umane che si acqattano. forme spettrali. L’acqua s’infiamma di mille estasi. Fruga dentro. Lo apre. Tappeti veloci di zaffiri e smeraldi. Sono due scope lunghe d’argento polverulento.indd 286 7/4/2009 15:51:29 . svegliando miracolosamente fogliami e fusti fantastici d’argento lieve. Due minuti dopo russa catarrosamente con un rumore acqueo che domina lo sciacquio del fiume. metterti in coda al reparto o prendere la testa. pieno di ombre lunghe come cappellacci a sghimbescio sugli occhi gelati del fiume. implorano. paesaggi d’oro liquido. Davanti a te un ardito ammantellato. s’arricchisce di diamanti. poi si ferma. striscia. Nasce la luna con gioielli rubati all’acqua bollente di risate. ecco il primo fascio di luce è a due metri. si incrociano. Guzzo fruga sempre nel suo zaino. Non ti vede. La colonna degli arditi si ferma dietro al braccio destro del tenente. spiagge di madreperla. carponi. Sopra giganteggiano i tronconi del ponte saltato. a tua scelta. A un metro a destra Guzzo è in ginocchio. curvo sul suo zaino. Sembrano pezzi di nave impennati che affondino. isolotti di giaccio. Si sforza di aprirlo.Tu puoi allora. Corrono dei riflessi furbissimi. Uno specchio d’acqua breve poi una piccola lingua di terra grigia quasi bluastra nel violaceo comosso crepuscolo. mentre la forbice tagliente formata da due proiettori si apre con lento mistero. Ecco. Se guida meglio così il proprio destino e si tien meno legata la propria vita ai fili sparsi della Fortuna. Non si crede veduto! Ad un tratto due proiettori si accendono sulla riva nemica. Guzzo in ginocchio. ma è forte e conosce bene I guadi. I piedi diguazzano e flic-flaccano nel pantano. È preferibile camminare in testa. urla la sua gioia bianca. Gorghi di pupille ardenti.

indd 287 7/4/2009 15:51:29 . Spargonointorno le belle rose granate che scoppiano profumando… Bella! Cara! Mi vuoi? Mi vuoi? Oh! Sento che mi vuoi! Sento che mi desideri. con te. tutti I diamanti. timido. la musica che sale. scende risale sotto le volte della cattedrale. Umana. perché non ti bruci contro le sbarre furenti precise dei tiri di mitragliatrice… Sono capitombolato giù dal cielo disperato nero. I due tagli delle cosce sono chiusi da cuffie di seta nera aderente. nel tuo calore rovente umido succiante! Paradiso inferno iddio mio. Le mammelline tonde soavi vive. piccola. immensa divina. ingenuo. giù giù su te. le vesti più belle! Tutte le perle. Guzzo mormorava: . Musiche e splendori! Le cose più ricche. tutti I velluti. piena d’ogni speranza e di ogni benedizione!” ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Cozinha futurista. mio mio! Bevo l’infinito in te. Sono caduto giù dall’alto dei miei eroismi. Vedi? Tutto è bello intorno a noi. Fischiano gli angeli di fuoco sul nostro letto. squartato e rullante della mia vita morta. Ora tu apri le tue braccia che non hai più e mi tendi le labbra che non hai più! Ti terrò con me sotto le mie labbra ancora un’ora. tutte le sete. sulla riva nemica… Tu sei l’unica mia gioia calda in questa notte gelata! Ti porterò sulle spalle senza farti male e camminerò curvo. Avvicinati! Non ti sente. né spaventarti. poi andremo insieme avanti. Tu con calma guardalo bene.Cara. in te. Cosi pure il collo. estrae dallo zaino qualcosa che splende più di lui. giù! La morte ci dà quest’ultima notte di festa. E c’è pure la musica. sono qui con te. forse parleranno tanto più che la testa perduta lontana non aprla più! Il ventre umile. mansueto s’incurva verso il lieve sognante piccolo giardino fra le cosce sensuali troncate a metà. Ha veramente fra le mani un pezzo di carne. senza stupirti.splendori. in alto sopra di noi. carponi. tremano. è assorto. Si! Si! Un pezzo di carne di donna nuda decapitata senza braccia e senza gambe! Il tronco grazioso di una piccola donna! Sembra ceselato e imbrillantato di sale prezioso che luce.

baciami. ma dimmi perché? Perché una donna non deve né pensare né camminare. la fronte. tutto ho mangiato con millioni di baci! E ora sei me stesso! Nelle mie vene il mio sangue ti culla. Buio. gli occhi. Gli arditi si ammucchiano poi davanti nel guado che sognando travolge succhia mastica raggi di stelle. e tutta la tua cara testa coi capelli l’ho mangiata! Le tue gambe. ma non le donne vive.La mitragliatrice nemica punteggia queste ultime parole.Ho fatto ciò che volevi! Ti ho mangiata la faccia di baci. ssssssssss del fiume. divorami. raggomitola ciò che gli tremola luminosamente nelle mani. Tu devi allora appoggiare la mano sulla spalla di Guzzo e parlargli: Ti piaciono le donne. di splendore in splendore e si spegne. la mia la voglio coricata immobile… Voglio che non pensi ad altri. e con você flebile di donna ripete a memoria un brano di lettera: . sono tua! Tua! Poi Guzzo cambiando voce: . Vedi. Non amo la testa della donna. Guzzo si scuote. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Poi silenzio. che non veda nessuno e che non fugga mai!… Lo so. Sei a tre centimetri dalla spalla di Guzzo. Perché dici sempre lo so? Cosa sai tu di me? Cozinha futurista. né i suoi piedi. Porta con te la mia carne e baciami giorno e notte. Lo so. Il fascio di luce scivola lontano. piccola. mangiami la faccia di baci. Un sibilo lungo. lontano. cinghia e lega allo zaino. Se lo carica sulle spalle e si alza. Lo so. stringe tutto in una pelle nera.Portami con te in guerra. I tuoi oiedini santi. Flic-flac di passi intorno.indd 288 7/4/2009 15:51:29 . Piange. Guzzo? Sì. con la tenerezza che le madri morte hanno in Paradiso!”.

amico! Se muoio prendi il mio zaino e seppelliscilo. in te! Piangerà il corpo della bella di Guzzo! E il suo pianto colerà sulla tua schiena a gocce lente. ti approvo. poi svincola il cadavere di Guzzo dalle erbacce e spingilo nella corrente che lo porterà al mare. le sue gambe. Ti ho visto. Cozinha futurista. Mondadori. Tu allora non esitare. le sue braccia.indd 289 7/4/2009 15:51:29 . Milano. stacca lo zaino e caricatelo sulle spalle. su di te.So che hai ucciso la tua amica e che hai divorato amorosamente la sua testa. In: MARINETTI. Sempre avanti lo stesso! Guzzo si caccerà con un balzo contro la palla che lo cercava scherzosamente pur volendolo scansare. Novelle colle Labbra Tinte. sentirai piangere vicino a te. Ora porti il resto sulle spalle. ta ta ta ta ta ta ta ta ta tà Accidenti alla mitragliatrice! grida Guzzo. Poi avanti! Mentre camminerai fra gli spudorati splendori scandalosi dei proiettori che ti cercano. T. Hai risolto il più grave problema… Sei un grande filosofo!… Grazie. F. voluttuose. Colpito cadrà nell’acqua. 1930.

Cozinha futurista.indd 290 7/4/2009 15:51:29 .

à Claudia. Alain Mouzart pelas dicas na tradução. incentivando e. por provar que sempre vale a pena lutar pela felicidade. ajudando. Lucia Wataghin por ter me orientado com competência. pelo incentivo e por dividirem os segredos de suas cozinhas.AGrAdecimentOs Agradeço à Profª. Drª. acreditando que tudo daria certo. que mesmo distante se fez tão presente e participante. companheirismo e paciência enquanto eu me perdia entre receitas possíveis e impossíveis. embora não compreendendo os dias e noites silenciosos debruçados sobre livros. Cozinha futurista. Aos funcionários da Biblioteca. sempre disponíveis em busca de algum livro desaparecido. Maria Augusta Fonseca. À Paola pelo apoio e pelas broncas.que. que sem saber. À Profª. Andrea Lombardi e à Profª. abriu para este trabalho os caminhos da antropofagia.indd 291 7/4/2009 15:51:29 . Ao Prof. Ao meu irmão Junior pela paciência na solução dos infindáveis problemas técnicos. Drª. Dr. apoiaram à sua maneira. Drª. À Vera e ao Chef Picard. Ao Rodrigo. à Carla por aturar muitos dias de mau humor. acima de tudo. Aurora Fornoni Bernardini pelas sugestões dadas no exame de qualificação. suporte decisivo. Ao Prof. Aos meus pais – Mary e Domingos .

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