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Territorialidade

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Capítulo 3

A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO

A ExTENSãO DAS TERRITORIALIDADES CULTURAIS: O LOCAL E O GLObAL NA CONTEMPORANEIDADE
Conteúdo programático
O local e o global e as representações das identidades culturais

Objetivo
Compreender os deslocamentos e as afirmações territoriais na contemporaneidade a partir do encontro entre as territorialidades locais e as globais.

Eu sou de ninguém Eu sou de todo mundo E todo mundo me quer bem Eu sou de ninguém Eu sou de todo mundo E todo mundo é meu também
Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte

Agora, vamos tratar da relação entre as territorialidades locais e globais e suas implicações no universo da cultura. Anteriormente, apresentamos a base teórica da proposta pedagógica, ou seja, os conceitos fundamentais dos Estudos Culturais. Esse conjunto conceitual é aqui comparado a uma corrente. A imagem da corrente representa a intenção que tivemos ao trabalhar os conceitos desta disciplina. Os conceitos apresentados estão interligados, como os elos de uma corrente, compondo um todo lógico e interdependente; dissociado, o conceito não tem sentido. Também, a teoria, quando afastada da realidade, é estéril, não permite o entendimento das demandas sociais. Assim, a discussão conceitual aqui apresentada visa expor a corrente teórica dos estudos culturais para que os desdobramentos culturais modelados na contemporaneidade possam ser compreendidos.

Deslocamentos territoriais:
entre o global e o local
Estamos em um contexto histórico que marca o fechamento do século XX e o início de uma nova era. As ciências humanas estão diante do desafio de compreender essa realidade. A contemporaneidade inaugura um modelo de sociedade global. O conhecimento passa a exigir uma outra lógica de construção. Vejamos como Ianni (1994) descreve esse cenário:
As relações, os processos e as estruturas econômicas, políticas, demográficas, geográficas, históricas, culturais e sociais, que se desenvolvem em escala mundial, adquirem preeminência sobre as relações, os processos e as estruturas que se desenvolvem em escala nacional. O pensamento científico, em suas produções mais notáveis [...], não é suficiente para apreender a constituição e os movimentos da sociedade global.

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Estudos Culturais – Capítulo 3
As territorialidades locais e globais têm hoje uma movimentação histórica nunca vista. Em alguns contextos, o local caminha para o global; em outros, o local insiste em demarcar sua fronteira, reafirmando valores identitários ancestrais. Em outras conjunturas, o global absorve o local em um processo de assimilação cultural. A ciência deve transitar em todas essas direções para compreender as novas demandas que se apresentam. Exige-se um novo paradigma, como sugere Ianni: a globalização.

Global e local, local e global? Que desdobramentos tem essa relação para os estudos culturais? Antes de chegar à resposta, aceite nossa sugestão a seguir.

Pense sobre este fragmento de O mundo é um moinho, de Cartola:

Ainda é cedo, amor Mal começaste a conhecer a vida Já anuncias a hora de partida Sem saber mesmo o rumo que irás tomar [...]
Cartola

Trata-se de uma música de grande representatividade na MPB, e a grande maioria de nós, independentemente da idade, ao ouvi-la, pode facilmente reconhecer e acompanhar a letra.

Cartola foi um homem que se permitiu viver e morrer de amores. Os eus-poéticos que ele construía também assumiam essa representação. Seu repertório confirma sua devoção pelas pessoas.

A história mais conhecida é que Cartola compôs essa música para sua filha, que estava prestes a sair de casa. Porém, recentemente, Nilcemar Nogueira, neta do compositor, ao publicar uma biografia póstuma, revelou que, na verdade, a canção foi criada com base na história de um colega de trabalho de Cartola.
Eu-poético Aquele que fala no poema.

Shutterstock/Julia Lutgendorf

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a Idade Moderna marca a transição do feudalismo para o mercantilismo. gênero. geridos por uma sociedade do conhecimento que tem na comunicação o elemento-chave. os processos econômicos e tecnológicos que geram a globalização rompem com qualquer estrutura rígida. cooperação. conflito ou integração. já viveu algum deslocamento decisivo? Por que os deslocamentos colocam em suspensão nossas vidas? Por que nos marcam com vontade e dúvida. monitoramento do sistema financeiro. segurança alimentar. a letra aborda o lamento de alguém por causa da iminente partida de uma pessoa querida. meio ambiente. desenvolvimento local. especialmente no que diz respeito ao capital. essa interação pode ganhar aspectos de negociação. incentivada pela globalização. entre outras coisas. A regra hegemônica constrói os paradigmas dominantes no globo. Dependendo do contexto. informações e. nos últimos anos as organizações da sociedade civil passaram a formar redes em torno de temas comuns – questão urbana. entre outros –. incorporando uma concepção virtual absolutamente flutuante. cidadania. fortalecendo-se com a troca de experiências. ouça essa canção de Cartola procurando compreender a razão de tanta apreensão. a depender dos interesses econômicos. se firmam pela definição das fronteiras territoriais. Trata-se de uma relação bastante complexa. E você. Leitura complementar REDES INTERNACIONAIS DE ORGANIzAçõES: SOCIEDADE CIvIL GLObAL – ARTICULAçãO COM O LOCAL [. A noção de lugar não se refere mais ao espaço físico somente. provavelmente se deslocando do seio familiar em busca de sua independência.] superando o localismo e o isolamento. assim. A nova ordem econômica impõe a formação das monarquias nacionais que..De qualquer modo. medo e alegria? No Ocidente. Trata-se do deslocamento de uma territorialidade local para uma dimensão global. em al- 72 . Na verdade. Se possível. A dinâmica entre o local e o global ganha novos contornos. o não lugar é a possibilidade de deslocamento entre o local e o global. podemos pensar em um não lugar. os deslocamentos podem promover aproximações e distanciamentos: ao mesmo tempo que a globalização rompe fronteiras. Se avaliarmos essa conjuntura com a lógica tradicional. que se movimenta permanentemente. Hoje.. o local perde a raiz.

Apesar do reduzido impacto sobre o sistema econômico. 73 . Muitas das redes vão além da virtualidade e seus objetivos são amplos e ambiciosos.. fornecendo créditos rotativos para essas atividades. ações conjuntas. outras ampliam-se para grupos de cidadãos e organizações de base. até porque atendem a um público que está fora dele. algumas redes desenvolvem atividades alternativas.Estudos Culturais – Capítulo 3 guns casos. A luta contra a corrupção nas transações comerciais internacionais é alvo de uma rede específica. e que decide sobre as questões que envolvem as vidas de milhões de pessoas. essas iniciativas de apoio financeiro são pulverizadas e marginais e não atingem o sistema financeiro. em alguns casos. NGONET Non Governamental Organization Network (Rede de Organizações Não Governamentais). Apesar da sua importância no fortalecimento das organizações e do próprio tecido social. nos organismos financeiros (OMC e Banco Mundial). umas restringem-se a um país ou região. do comércio internacional e agir como lobby. da dívida. Lobby Grupo de pessoas que têm como atividade buscar influenciar decisões. Algumas agregam apenas ONGs. que se intensificaram a partir da ECO-92. percebe-se uma preocupação intensa com a questão da ética na política e com a participação dos cidadãos no processo. nelas estão alternativas mais amplas de organização econômica na direção do empowerment da sociedade civil. ética de confiança. pequenos negócios orientados por princípios de responsabilidade solidária. tanto no setor produtivo e de distribuição quanto no financeiro. abrangendo. enquanto boa parte tem como raio de ação os cinco continentes. Além de acompanhar os efeitos das políticas globais de ajuste estrutural. sem sequer passar pelos controles formais dos diversos governos? Algumas experiências nesse rumo começam a ser tentadas.. a International Transparency. e a capacitação de entidades para ter acesso a fontes de financiamentos públicos com a promoção de outras redes e plataformas de ação conjunta. Procura-se também articular os vários tipos de ação: o lobby. financiando habitação ou instrumentos de trabalhos. uso de recursos públicos de baixo custo. como a Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais [. atuam como pequenos empréstimos e a curto prazo. o que dá lugar a perguntar-se: não caberia também à sociedade civil exercer uma pressão mais forte e coordenada sobre o sistema financeiro especulativo e artificial.] para monitoração das atividades do sistema financeiro internacional. hoje totalmente fora do alcance do Estado e da própria sociedade civil. sinalizando o papel da sociedade civil de controle sobre o mercado. com base em organizações especializadas como a NGONET e a Associação para o Progresso da Comunidade (APC). simplicidade nas operações. mais de cem organizações. São sistemas autossustentáveis. Para isso tem contribuído bastante a utilização das novas tecnologias de comunicação. No vasto leque de temas com que se ocupam. poupança comunitária.

utilizados como espaço público de denúncia e condenação de atos de governos ou de políticas de instituições multilaterais (Tribunais Internacionais). Salvador: UFBA. Mas tudo começou em 1951. Áustria. com recursos de ONGs do Hemisfério Norte ou programas de Organizações Intergovernamentais. já que cada vez mais os centros de decisão mais importantes se situam nas grandes corporações econômicas e em reduzido número de governos. A união monetária foi aprovada pelo Tratado de Maastricht. Holanda. Portugal. o Tratado de Roma. A UE é formada por 15 países. Dinamarca. se concluída. mediante controle dos atos. No caso de formação de uma união aduaneira hemisférica em 2005 (ALCA). É difícil. entrou em vigor em 1958. Itália. Canadá e México. seja como espaço para realização de projetos concretos de desenvolvimento urbano. Irlanda. A problemática do poder local está presente na atuação dessas redes. O objetivo é que as tarifas para o comércio intrabloco sejam reduzidas até que fiquem zeradas. o euro: França. contudo. criação de instâncias de interlocução ou. Suécia e Finlândia. A Alca (Área de Livre Comércio das Américas) é uma proposta dos EUA de integração comercial que. avaliar sua eficácia. 2001. intercâmbio de experiências. Elenaldo. 74 . proposições de leis e políticas. Grécia. TEIXEIRA. especialmente no caso do México. facilitando o fluxo de bens e serviços na região. preferências tarifárias. ed. mas apenas 11 adotaram a moeda única. A União Europeia é resultado de uma tentativa bem-sucedida da segunda metade do século XX. O local e o global: limites e desafios da participação cidadã. o que significa o aumento do saldo de suas balanças comerciais. desempenham importante papel político e confirmam o caráter institucional da sociedade civil global em construção. em 1991. São Paulo: Cortez. Decorridos pouco mais de cinco anos de sua implementação. Os países-membros da Alca terão. Espanha. Luxemburgo. tanto que já participam das negociações. 2. quando seis nações devastadas pela guerra decidiram unir suas matérias-primas industriais de carvão e de aço para evitar a guerra entre elas. abrangerá todos os países das Américas. entre si. Conheça alguns dos blocos econômicos da atualidade: O Nafta (North American Free Trade Area) é uma zona de livre comércio entre os países da América do Norte: Estados Unidos. Recife: EQUIP. A constituição de base desta comunidade.Outros organismos de caráter internacional. com exceção de Cuba. seja como lócus de redefinição das relações sociedade/estado. Bélgica. cujos instrumentos criam possibilidades de fazer ouvir “outras vozes do planeta”. os países do NAFTA também serão incluídos nela. Reino Unido. ainda. Alemanha. o intercâmbio comercial entre os países aumentou.

htm>. Equador. Atividades 1. A que segmento social ela está relacionada politicamente? Como é a sua atuação? 75 . o interesse de todo o mundo. O Mercosul é o mais importante projeto de política externa do Brasil. O principal objetivo da CAN é contribuir para o desenvolvimento da região mediante a integração econômica e social dos países-membros e a gradual formação de um mercado comum latino-americano. estabelece uma relação que envolve. para o desenvolvimento econômico e social. conflitos. negociações e integração. atraído. cujo objetivo é promover a expansão da integração regional e a constituição de um mercado comum. Produza um breve texto discutindo o papel das organizações não governamentais na superação do isolamento e da discriminação de determinados grupos políticos.Estudos Culturais – Capítulo 3 A Comunidade Andina (CAN) é uma organização sub-regional com personalidade jurídica internacional composta por: Bolívia. Decorridos praticamente dez anos desde a assinatura do Tratado de Assunção. O conhecimento precisa atuar em um plano complexo para abranger as contradições entre o local e o global que estão sendo processadas na contemporaneidade. ou seja. ALBUQUERQUE. assim. 2008. assim. Tércio Waldir de. ao mesmo tempo. A música de Cartola O mundo é um moinho foi utilizada como um exemplo dos deslocamentos territoriais que ocorrem em nossas vidas. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. 2. Os cinco países tinham mais de 111 milhões de habitantes e PIB de US$ 270 bilhões em 1999.trf1.br/judice/jud13/ entendendo. A globalização impõe uma nova lógica de compreensão da realidade ao romper com as fronteiras erguidas na Idade Moderna. que tem sabido aproveitar os ensinamentos e as oportunidades da globalização e tem. Acesso em: 12 mar. o Mercosul representa hoje um agrupamento regional economicamente pujante e politicamente estável. A interatividade entre as dimensões locais e globais é dialógica. Disponível em: <http://www. Síntese Você estudou: A corrente teórica corresponde a uma rede de conceitos interligados e interdependentes que dão fundamento para a compreensão de uma realidade. cada vez mais. Peru e Venezuela. A Aladi (Associação Latino-Americana de Integração) é uma organização intergovernamental.gov. contribuindo. Colômbia. Pesquise e apresente a política de atuação de alguma ONG que exista em sua região.mt.

ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1999. Ela encontra Josué. Europa Filmes. Disponível em: <http://www. São Paulo: Cortez. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. Dora acaba acolhendo o menino e o leva pelo interior do Nordeste.asp?bis=cultura01>. estéreo. TRIBUNA DA IMPRENSA.htm>. Recife: EQUIP. Rio de Janeiro: EMI Music Brasil. 1994. é uma ex-professora que trabalha na Central do Brasil escrevendo cartas para pessoas analfabetas. São Paulo: Unesp. Até as rosas já comentam. n.gov. 1998.mt. 8. um menino que perdeu a mãe atropelada e o qual nunca conheceu o pai. 21. Anotações 76 . p. Brasil/ França. ed. TEIXEIRA. 147-163. Acesso em: 12 mar. tribunadaimprensa.Central do Brasil. Acesso em: 18 dez. Tércio Waldir de. São Paulo: Brasiliense. 113 min. As consequências da modernidade. Anthony. concorreu também ao Oscar de melhor filme estrangeiro e de melhor atriz. VIEIRA. 2008. interpretada por Fernanda Montenegro. O filme.com. Estudos avançados. GIDDENS. Mundialização e cultura. Salvador: UFBA.trf1. para tentarem encontrar o pai dele. O mundo é um moinho. Renato. IANNI. v. ed. 2005. 1 CD: digital. Elenaldo. ORTIZ. 1998. CARTOLA.br/judice/jud13/entendendo. 2. Cidadania e globalização. Rio de Janeiro: Record. A personagem Dora. Octávio. 2007. Globalização: novo paradigma das ciências sociais. Liszt. direção de Walter Salles. O local e o global: limites e desafios da participação cidadã. 8. 1991. 1994.br/anteriores/2007/outubro/10/bis. Referências ALBUQUERQUE. 2001. Disponível em: <http://www.

TERRITORIAIS Conteúdo programático O global e o local no âmbito do processo de globalização Objetivo Situar o processo de globalização a partir das tensões entre as territorialidades locais e globais para entender as novas formas de organização das identidades.Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO GLObALIzAçãO: A REDEfINIçãO DAS DISTâNCIAS SOCIAIS. ECONôMICAS. CULTURAIS. .

os processos culturais se estendem por todo o mundo. o particular e o universal. ao mesmo tempo. especialmente as do início do século XX. a nação. mas seria capaz de conceituá-la? Saberia dizer em que aspectos das nossas vidas a globalização está presente? Como ela se relaciona aos estudos culturais? encontros e Desencontros territoriais: o processo De globalização Tradicionalmente. o continente. Mas esse modelo não consegue explicar o fenômeno da globalização contemporânea como um processo que engloba. para efeito de estudo. conhecido e desconhecido. Ainda que esses trabalhos estabelecessem pontes interativas com o ambiente global. A contemporaneidade rompe com a dicotomia entre o local e o global. a cidade. Buscavam os elementos políticos e econômicos que constituíam as estruturas sociais: o estado. padronização e divisão das identidades culturais. o foco era a localidade. O território local desloca-se em comunicação global. o particular e o universal como duas instâncias separadas. a sociologia e a história empenhavam-se na compreensão das territorialidades macrossociais.. o lá vem para cá e o desconhecido se revela. Ortiz emprega o termo “glocal” para caracterizar o processo de globalização cultural. 78 . inclusive. na sua dinâmica complexa e contraditória. situar a pesquisa em uma determinada comunidade. firma-se como disciplina acadêmica ao tomar os ambientes microssociais como fonte de estudo. ganham visibilidade os estudos tribais. A divisão entre interno e externo. no mesmo período. A antropologia. por exemplo. A junção dos termos “global” e “local” indica trocas territoriais que promovem. Nesse contexto. mantendo determinadas relações entre si e guardando cada uma a sua autonomia. tornando inseparáveis as instâncias local e global.. assim nomeados porque enfocavam um grupo social bem marcado cultural e espacialmente. que se interpenetram. Ambientes microssociais Diz respeito a delimitar. o interno é externalizado. Nessa perspectiva. Em outra vertente.] Os antropólogos se acostumaram a ver o local e o global. A globalização quebra as fronteiras construídas na e pela modernidade. um determinado recorte social. Vieira (2005) considera: [. você tem ouvido falar muito em “globalização”. estabelecem uma fronteira entre as territorialidades locais e globais para a compreensão dos processos culturais. as pesquisas antropológicas. fenômeno que Ortiz (1994) denomina de “mundialização da cultura”. A esse respeito.Certamente. quebra-se com a formação de uma cultura globalizada. lá e cá.

Giddens (1991). culturais. A circulação da produção incorpora uma lógica de mercado para atender aos interesses dos grupos financeiros privados em vez das necessidades do cidadão. que redimensiona a circulação da informação. no livro As consequências da modernidade. apresenta a teoria do desencaixe para explicar esse fenômeno. a compreensão que reduz a economia à modelagem desse fenômeno é limitada. opera como um movimento que paralelamente concentra e aproxima a riqueza mundial. Giddens (2005) acrescenta: Muito disso se deve ao papel das corporações transnacionais (CTs). O mercado se universaliza embasado na formação de grandes oligopólios que controlam a economia planetária. o fenômeno da globalização é visto essencialmente sob essa perspectiva. influenciando processos de produção global e a distribuição internacional do trabalho. A contribuição dessa conjuntura para o curso da globalização é alimentada pela sociedade do conhecimento. além dos econômicos. pela ciência. cujas operações massivas se expandem através de fronteiras nacionais.Estudos Culturais – Capítulo 3 O termo “glocal” sugere a presença do global no local e vice-versa. assim. Cotidianamente. Isso é fruto de uma tradição científica que compreende a realidade com foco na produção material. a globalização. Alguns assinalam a integração eletrônica dos mercados financeiros globais e o enorme volume de fluxo de capital global. compreensão de questões problematizadas na sociedade. Como você percebe esse movimento cultural em sua territorialidade? Você pode identificar e descrever elementos da cultura global que estão presentes no local em que você vive? E elementos da sua cultura local que estão presentes no global? A dimensão política da globalização Os deslocamentos territoriais que promovem a fragmentação também contribuem para a concentração de capitais. Ele considera que a globalização provoca um desenraizamento dos grupos sociais de menor prestígio como expressão de poder em um determinado território. em qualquer área de conhecimento. Oligopólio Conglomerado econômico formado por um número reduzido de empresas que conTeoria Rede de conceitos com uma amarração lógica. A teoria fornece base conceitual para a trolam o mercado. Não raro vemos nos jornais. sociais. Com essa perspectiva. envolvendo uma variedade de bens e serviços muito maior do que antes. É inegável que os impulsos econômicos conferem uma dimensão significativa à globalização. revistas e textos acadêmicos a expressão “globalização econômica”. 79 . a circularidade econômica se ajusta ao perfil cultural dos setores sociais de maior poder. Nesse aspecto. com mais velocidade e alcance. A globalização é fruto da convergência de fatores políticos. Outros se concentram na abrangência sem precedentes do comércio mundial. Entretanto. Para ele.

religião. sexualidade. Embora enfatizando diferentes [perspectivas]. Rússia. “fábrica global”. tanto global quanto localmente. “mcdonaldização do mundo”. muitas vezes. etc. ky Sergey Zhaffs burgo. argumentando que: Surgem dessa perspectiva algumas expressões. Tencionar Ter interesse ou intenção de. Raça. O primeiro relaciona-se à funcionalidade da ordem econômica. 80 . ao mesmo tempo. etnia. as negociações e as integrações que existem entre diferentes identidades emergentes. combinando as dimensões econômica e política. Vieira (2005) confirma a tendência de concentração mercadológica. As territorialidades locais reagem marcando identidades afirmativas. Ou seja. manifesta-se tencionando. Discutiremos as tensões. ou seja. o local e o global compõem o panorama político da contemporaneidade em uma relação de troca contínua e permanente. a globalização não é um movimento único. “cidade global”. o direito de expressar suas singularidades e particularidades. o consumo. Entretanto. no mundo global. vamos tratar dos chamados “identitários contemporâneos” que fazem parte dessas relações. Na sequência. A conjunção desses elementos solidifica um mercado hegemônico que estabelece um padrão de negociação global. A realidade apresenta um cenário de diálogo entre as territorialidades globais e locais. cDonald’s ao loja da rede M com uma Stephan Mosel Centro comercial em Piccadilly Circus. Essas manifestações apresentam identidades diversas que se processam. O local.Nessa perspectiva. de São Peters Vista da cidade fundo. gênero serão alguns dos temas que tentaremos compreender melhor. modela ideologicamente o consumidor com base nos valores do capital fornecedor. “disneylândia global”. essas metáforas parecem sugerir a ideia de uma padronização do comportamento humano. de cunho político. A construção da amplitude territorial está mediada por relações de poder complexas que envolvem. O segundo. projetar. a globalização atinge dois objetivos no mercado. Londres. como “aldeia global”. “shopping center global”. conflito e negociação entre diversos grupos.

Há 24 mil povos no mundo.. uma vez que as notícias transitam em tempo real e não mais como dantes. há mais de cinco séculos. Para países em situação de miserabilidade a globalização é aterradora. “mundialização”. do desgoverno.809 línguas no mundo e evidentemente não são todos que podem gozar dos privilégios da globalização.. ouvimos e lemos inúmeras matérias que os conceituam das mais diversas maneiras e formas.] Para Clovis Rossi1. a globalização se divide em três períodos distintos: 1450-1850 – Primeira fase – Expansionismo mercantilista 1850-1950 – Segunda fase – Industrial-imperialista-colonialista Pós-1989 – Globalização recente – Cibernética-tecnológica-associativa Na verdade. levou 13 dias para cruzar o Atlântico e chegar à Europa. [. O primeiro.Estudos Culturais – Capítulo 3 Leitura complementar ENTENDENDO A GLObALIzAçãO E SUA INfLUêNCIA NOS bLOCOS ECONôMICOS [. Buenos Aires e Frankfurt. segundo alguns.Paulo.] “Globalização”. pois lhe dá condições de gerir e ingerir. 2 Professor de história e mestrando na UFRGS. Para um país como os Estados Unidos da América a situação global é excepcional. [.. e hoje vemos. o efeito globalizante pode ser visto sob aspectos negativos e positivos. a depender da ótica com que é olhado.. Nova York e Tel Aviv. Eis ao vivo e em cores. seus problemas de corrupção. um exemplo do que seja globalização é: A notícia do assassinato do presidente norte-americano Abraham Lincoln. afiado para cortar as possibilidades de que sejam acobertadas suas misérias e mazelas. afiado para cortar o isolamento às vezes pretendido e 1 Do Conselho Editorial da Folha de S. Para os países em desenvolvimento a mundialização é uma faca de dois gumes. a globalização. levou 13 segundos para cair como um raio sobre São Paulo e Tóquio. permite comparações que muitas vezes não são benéficas e acabam por atrapalhar planos e metas governamentais. interfere no cultivo das tradições. O segundo gume.. 81 . A queda da Bolsa de Valores de Hong Kong (outubro-novembro/97). a partir dos anos 1980.] Na visão de Voltaire Schilling2. em 1865. para outros. fluir e influir nos mais diversos pontos do universo em tempo real. “internacionalização” são termos que podem ser considerados sinônimos do que o mundo vem experimentando. Há 6. representa ingerência externa. de má gestão da coisa pública..

mais e mais países busquem aproximação para poder comprar. as mudanças de mentalidade e de comportamento.. [. sua tecnologia. a União Europeia. pois através dele passa a ser possível uma integração dos demais temas como pessoas. a cada dia. e a partir dessas parcerias surgem os hoje conhecidos blocos econômicos. político.. a produção e o consumo se aliam e todos os envolvidos acabam percebendo ser indispensável esse tipo de convivência para a sobrevivência de seus investimentos e equilíbrio de suas contas. no qual os planos e metas são vistos e revistos a todo instante. e o que significava uma pequena relação de interesses transforma-se em um gigantesco conglomerado de estados e empresas. e não 3 Coordenadora do Departamento de Desenvolvimento Gerencial do Ietec. se transformam em alavancas mundiais. Podemos trazer como exemplos mais conhecidos desta nova realidade o Nafta. as novas tecnologias e a formação profissional alijam uma série de pessoas. cultural e comercial. vender e permutar seus produtos e serviços.] para a população em geral. 82 . Nesse ensaio dos efeitos gerados pela globalização aparecem as relações comerciais. Os profissionais não estão acompanhando o desenvolvimento tecnológico.propiciar uma abertura para os demais países do mundo e assim gerar possibilidades reais de um entrelaçamento social. o comércio é o carro-chefe. globais.] Nessa esteira de desenvolvimento globalizado e com a necessidade de que.. inicialmente formadas entre países fronteiriços para depois transpor distâncias e criar um mercado efetivamente global. é importante que os governos envolvidos nesse processo procurem torná-los o mais transparentes possível.. a busca pelo desenvolvimento e troca de tecnologias se tornam necessários..] Um dos efeitos considerados negativos da globalização para o Brasil está na questão ligada ao despreparo de grande parte de sua força de trabalho. a Aladi e o Mercosul. propiciando a toda coletividade conhecer os detalhes dos compromissos que serão assumidos. do volume de negociações que os envolvem e. segundo avaliação feita por Maria das Graças Reggiani Almeida3: A globalização. indispensável. o que inicialmente representava um pequeno negócio internacional transforma-se em um verdadeiro bloco de integração econômica. bens e serviços. hoje.. em que alguns se destacam mais que outros em razão de número de países. a Alca. Assim. em pouco tempo. No estabelecimento de políticas de aproximação. a Comunidade Andina. mas. Tudo isso não era pensado e não era tido como imperioso. Cada país sai em busca do seu igual para poder criar parcerias promissoras. impossível imaginar de modo diverso. em que é possível perceber claramente a necessidade de que todos procurem parceiros para seu desenvolvimento. demonstrando com clareza as vantagens e desvantagens e o grau de interferência [. [.

O fenômeno denominado “globalização” quebra as fronteiras construídas na e pela modernidade. o país será.gov. assim. sem dúvida alguma. quando o governo está comprometido com o desenvolvimento sustentável. Disse o entrevistado: “Tem oito ou dez empresas americanas. De outro lado. O surgimento de um bloco econômico nem sempre significa vantagens imediatas a seus componentes. com elevação do nível de desemprego. Associação Brasileira dos Produtores de Celulose e Papel. perdas de benefícios e outros. precisam criar condições de competitividade com os demais e para que isso ocorra é necessário que o próprio governo adote medidas de incentivo ao desenvolvimento. que no momento da abertura comercial as empresas locais não tenham condição de sobreviver à entrada das concorrentes. em especial.. trouxe uma informação assustadora. 2008. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. o presidente da Abracelpa. A divisão entre interno e externo. é o mentor e maior interessado nesse processo. Em recente entrevista aos meios de comunicações. De repente lá tem uma crise econômica e eles resolvem despejar o produto no Brasil.] ALBUQUERQUE. Osmar Zogbi. Este tipo de procedimento nesses processos pode facilitar muito o seu desenvolvimento e. beneficiado. no momento em que todos os aspectos forem bem conhecidos e discutidos. sua vinculação a um bloco econômico vai significar uma ampliação. lá e cá..Estudos Culturais – Capítulo 3 somente dar a conhecer a grupos de interesses de uma forma fechada e às vezes isolada. mas na condição de vida de seu povo. e. conhecido e desconhecido. que. por vezes. como já dissemos.htm>.trf1. quebra-se pela demanda de se formar uma cultura globalizada. Tércio Waldir de. que. redução salarial. não só em sua balança comercial. valendo inclusive o estudo de viabilidade de uma reserva de mercado por um período necessário para que as indústrias brasileiras possam se adequar e chegar a uma condição de igualdade de tecnologia e produção com os demais países. além de criar uma situação social insustentável.mt. ao ser indagado sobre os benefícios ou prejuízos ao seu seguimento caso o Brasil participe efetivamente da Alca. 83 . 4 Em entrevista ao Jornal da Globo de 30 de janeiro de 2003. evitando. [. cada uma isoladamente representa toda a produção brasileira de celulose e papel. Síntese Você estudou: A contemporaneidade rompe com a dicotomia entre o local e o global. com os Estados Unidos da América. Nesse sentido o cuidado deve ser maior. Aí acaba com a indústria brasileira4”. Disponível em: <http://www. Acesso em: 12 mar.br/ judice/jud13/entendendo.

VIEIRA. Acesso em: 12 mar. Octávio. paralelamente. Cidadania e globalização. Em seguida. Liszt. ed. 2. GIDDENS. Mundialização da cultura. é um movimento que.O processo globalizante provoca um desenraizamento dos grupos sociais de menor prestígio em um determinado território. v. São Paulo: Brasiliense. escreva um texto no qual você discute sobre resultados dessa configuração para a sociedade global. Qual o sentido da desterritorialização para o avanço da globalização cultural? Como você percebe a desterritorialização em seu território? Há grupos que se opõem a esse movimento? Como eles agem? Referências ALBUQUERQUE. São Paulo: Abril. Identifique possíveis consequências culturais da formação de blocos econômicos para os países envolvidos.br/judice/jud13/entendendo. 2005.trf1. Anotações 84 .htm>. São Paulo: Unesp. _____. Disponível em: <http://www. 8. assim. 1994. 1991. A globalização. A globalização atua no mercado em duas perspectivas: incentivo ao consumo em larga escala e ajuste ideológico do consumidor a partir dos valores e princípios do capital fornecedor. ALMANAQUE ABRIL 2008. Sociologia. 1994. Globalização: novo paradigma das ciências sociais. Renato. ed. Estudos avançados. 34. IANNI. 147-163. concentra e aproxima a riqueza mundial.1.gov. p. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. ORTIZ.mt. As consequências da modernidade. ed. 2008. 2005. 21. 8. Atividades 1. Rio de Janeiro: Record. Tércio Waldir de. Anthony. 2008. n. Porto Alegre: Artmed.

Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO RAçA: UMA CATEGORIA POLÍTICA PARA A COMPREENSãO DA DIvERSIDADE hUMANA Conteúdo programático As subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações que se estabelecem na sociedade. na construção e discussão do conceito de “raça” Objetivos Compreender as subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações raciais que se estabelecem na sociedade como construções resultantes da percepção das diferenças e das construções identitárias que elas originam. Apresentar a construção política do conceito de raça em oposição à concepção biológica que produz hierarquias entre os grupos humanos. .

Zumbi. orientação sexual.. afirmar cultura e identidade são o caminho para romper com os mecanismos de exclusão gerados pela discriminação. atitudes essas provenientes dos sistemas culturais de todas as sociedades humanas. cremos que a educação é capaz de oferecer tanto aos jovens como aos adultos a possibilidade de questionar e desconstruir os mitos de superioridade e inferioridade entre grupos humanos que foram introjetados neles pela cultura racista na qual foram socializados. comandante guerreiro! Guerreiro-mor capitão da capitania de minha cabeça [. as relações de gênero. Kabengele Munanga Anteriormente.] A felicidade do negro é uma felicidade guerreira. discutimos a dinâmica da relação entre o local e o global. No entanto. Quem somos. “identidade”. Esses debates relacionam grupos identitários que se organizam para afirmar suas necessidades políticas. Isso mesmo: conquistar poder e espaço. Chegamos à discussão sobre um ponto essencial na sociedade brasileira e também nas sociedades de quase todos os países que compõem este planeta. Fundamentamos nossa apresentação sobre uma série de conceitos: “cultura”.. Optamos por selecionar as questões que nos parecem mais recorrentes na nossa realidade. você diria que essas pessoas são de raças diferentes? Etnias diferentes? Como esses fatores estão relacionados às identidades culturais? 86 . a interação entre as religiosidades. A diversidade de grupos contemplados pelos estudos culturais é muito ampla. “território”. Gilberto Gil Não existem leis no mundo que sejam capazes de erradicar as atitudes preconceituosas existentes nas cabeças das pessoas. vamos refletir sobre as tensões étnico-raciais. no que se refere à raça e à etnia? Observando as imagens da página seguinte. entre outros. Vamos assumir o compromisso com a inclusão dos grupos sociais historicamente marginalizados. Aprofunde as leituras propostas buscando outras que não estão aqui. por isso é tão importante que você continue pesquisando. A partir daqui. Sabemos que esta disciplina não abrange todos os aspectos relacionados ao tema. enfrentando preconceitos e discriminações.

pois os mecanismos organizados garantiam o ingresso apenas daqueles que tinham determinado perfil. por exemplo. reservar espaços. para quem não obteve a oportunidade de sequer poder lutar para ocupá-los. cotas raciais. E ainda o debate sobre a oficialização de cotas para outros grupos em outros setores do país. Acreditamos que compreendendo essas questões. apesar de não concretamente. como você responderia? Por quê? 87 . Shutterstock/Hasan Shaheed Uma das formas que a contemporaneidade estabeleceu para reconhecer as diferenças e minimizar os efeitos das desigualdades foi criar maneiras de compensar as perdas de quem foi submetido aos mecanismos de exclusão de certos povos e de diferenciação entre eles. Vemos discussões acaloradas sobre ações afirmativas. que antes eram ocupados exclusivamente por grupos privilegiados. à discussão do conceito de “raça”. etc. então. Assim. temos no Brasil.Estudos Culturais – Capítulo 3 Fotos: Orangestock/Marco Andras. Vamos voltar. em um formulário. já consolidadas oficialmente. você tivesse que responder qual é a sua raça. você poderá desenvolver uma base mais sólida para argumentar sobre esses temas tão polêmicos. Se. Na organização do mundo moderno. entre outras medidas. Daí. há a inferiorização de grupos que apresentam características somáticas e culturais diferentes das referentes aos povos da Europa Ocidental. cotas para as mulheres na política.

foram desqualificados e utilizados para representar negativamente as pessoas que faziam parte dos povos dominados. não? Mas na organização das sociedades. E assim o mundo moderno se organizou. vemos pessoas “estranhando” seus semelhantes por não acreditar que sejam realmente semelhantes. um dos recursos mais explorados para criar e manter certas populações como subalternas foi justamente afirmar que pertenciam a uma determinada raça. Com o domínio político e econômico de um povo sobre o outro – sem se analisar como as relações de fato se estabeleceram –. deixou-se de considerar o termo “raça” como o ideal para classificar os seres humanos. indicando. na zoologia. 88 . Em suas primeiras acepções. Refere-se a fenótipo. surgiram as desigualdades que inferiorizam até hoje quem não pertence aos grupos considerados superiores. Quem não fizesse parte dos grupos de descendentes da parte ocidental da Europa era comumente classificado como inferior. entre o final do século XIX e início do século XX.A palavra “raça” não foi criada para designar seres humanos. acrescidas de aspectos culturais. pois as diferenças genéticas entre os grupos considerados como sendo de raças diferentes não justificariam a separação. Esquisito. Foi ainda observando os conceitos biológicos de raças puras que os grupos humanos também foram classificados a partir de critérios que buscam valorizar alguns em detrimento de outros. Explorando parcialmente conceitos científicos e utilizando-os para embasar suas teorias. Assim. muitas vezes. classificaram a humanidade com base nessas características. então. o termo que durante tanto tempo foi utilizado para classificar pessoas e separá-las deixou de ser adequado para se referir a humanos. a cor da pele e a textura do cabelo? Os elementos fenotípicos normalmente se evidenciam em um primeiro contato. que é a característica física de um indivíduo. Então. representantes de grupos hegemônicos. Quando olha para alguém. pessoas com a mesma ascendência e de caracteres físicos parecidos. Os caracteres físicos que marcam a pertença a grupos não europeus. o que você vê primeiro? Os traços do rosto. Passou a se referir a humanos a partir da Renascença. dependendo da construção identitária desenvolvida pelas pessoas que estão interagindo. classificava as espécies animais (hoje essa conceituação está em desuso). Fenotípicos Que têm a mesma aparência. por exemplo. E o que fazer? Riscar a palavra “raça” do dicionário? Com isso também seria possível riscar o termo que ela originou. Essa percepção pode estabelecer uma relação tranquila ou tensa. determinada pela sua carga genética e pelas condições ambientais. considerando as relações entre colonizados e colonizadores. designava categoria e espécie. Quando dogmas de grupos políticos de maior prestígio social começaram a ser questionados. o “racismo”? Vejamos como alguns teóricos que discutem as questões raciais tratam esse assunto.

Eugenia Teoria que acredita na possibilidade de melhoramento genético da espécie humana para produzir “seres aperfeiçoados”. Ele cita um exemplo no qual sugere que eliminar o termo dificultaria até mesmo perceber o preconceito. Ele afirma: Repito aqui a posição que tenho adotado: raça é não apenas uma categoria política necessária para organizar a resistência ao racismo no Brasil. sem misturas. Isso porque. assim. favorecendo. Tal supressão. com base em que categoria teórica isso será analisado? Outros autores também trazem questões próximas às de Guimarães. não se justificaria seu uso nem politicamente por quem foi vítima das ações engendradas. discorre sobre o conceito de “raça”. Mas. ao discutir os conceitos de Pierre-André Taguieff. o parentesco pelo sangue.. e. segundo Taguieff. mas é também categoria analítica indispensável: a única que revela que as discriminações e desigualdades que a noção brasileira de “cor” enseja são efetivamente raciais e não apenas de classe [. Quando alguém se queixa de ter sofrido discriminação por causa de sua cor.] a uma eugenia lexical negativa que crê matar o racismo eliminando a palavra. 89 . assim como muitos teóricos. e mesmo das psicológicas e sociais. ele deixa de ter utilidade. e esse termo foi cunhado com a intenção científica e política de desqualificar pessoas. a ideia de raça é desprovida de conteúdo ou valor científico. acredita que a palavra “raça” deve ser completamente abolida de qualquer debate sobre seres humanos. Defende a ideia da existência de “raças puras”.. Assim. a uma origem comum.. do ponto de vista da genética. por isso. ela evidencia a continuidade das descendências. O autor faz tais afirmações sempre reconhecendo a complexidade da discussão e os caminhos variados aos quais o tema pode levar. simbolicamente.Estudos Culturais – Capítulo 3 Paul Gilroy (Apud GUIMARÃES. mas argumenta em favor da manutenção do termo até o momento em que a sociedade como um todo consiga de fato desconstruir as elaborações sociais criadas a partir da crença na existência de raças e no racismo que resulta dela.]. pois reforçaria os mecanismos racistas do “quero dizer”. 2001). a hereditariedade das características fisiológicas. Jacques D’Adesky (2001). Seja qual for seu grau de indeterminação. Mas é importante afirmar que reconhecer a não cientificidade do conceito de “raça” não eliminaria a eficácia do uso do termo para o debate das relações raciais em determinados campos. como alguns debatedores do tema sugerem. teria consequências contrárias ao efeito imaginado. a utilização política do termo: Existe consenso na afirmativa de que raça remete. superiores as que são fruto de miscigenação. tampouco por quem afirmava as diferenças. Podemos perceber isso nas palavras do próprio D’Adesky ainda citando Taguieff: A eliminação no vocabulário da palavra “raça” como prescrição da ação antirracista remete [. se não somos diferentes biologicamente. Lexical Relativo a vocabulário. reconhecendo sua complexidade e incluindo.. Guimarães (2001) reconhece a pertinência das ideias de Gilroy e concorda com muitas delas. a normalização do racismo simbólico.

saudações quilombistas no Dia Nacional da Consciência Negra. e a nossos governantes. Somáticos Referentes ao corpo. como disse o poeta. soubemos por pesquisadores da UFRJ que as principais causas de mortalidade de homens negros são violentas. referimo-nos a certos valores que são atribuídos a determinados grupos. Senhor Presidente da República. compreendendo como uma categoria que constrói um processo de identidade para a compreensão da diversidade. Se passarmos a classificar todos os grupos diversos como “etnias”. e que recebo em nome do povo afrodescendente deste país. 90 . Tenho recebido das mãos de Vossa Excelência honrarias que muito me orgulham. diversos grupos que lutam contra o racismo acreditam que utilizar a palavra “raça” é uma atitude política. observo que as desigualdades raciais no Brasil continuam agudas e profundas. pois entendo que os méritos a ele pertencem. então. 20 de novembro de 2007. Leitura complementar CARTA AO PRESIDENTE LULA Rio de Janeiro. enquanto os brancos morrem mais por doenças. Ainda hoje. Por isso não poderia deixar de me manifestar no dia de hoje ao povo negro. Ao falar de “raça”. mesmo equivocadamente. Só no dia de hoje. pois a felicidade do negro. Enquanto muito me alegram e me honram a outorga da Grã Cruz da Ordem do Mérito Cultural e a minha inclusão na mais alta classe da Ordem do Rio Branco. as exclusões que resultam da negação dos direitos desses grupos seriam classificadas como “etnicismo”? Como a população em geral se apropriaria desse vocábulo e entenderia o que ele designa? As questões sobre raça. é uma felicidade guerreira. como homicídios. a elementos biológicos e somáticos. na pessoa de Vossa Excelência. Acervo Abdias Nascimento/IPEAFRO/Bia Parreiras Abdias Nascimento é professor e militante do Movimento Social Afro-brasileiro. também. por exemplo. nosso querido Lula. nesse sentido. a todo o povo brasileiro. A leitura política do conceito de “raça” opõe-se ao sentido biológico-genético. soubemos que a Fundação Seade concluiu que brancos ocupam quatro vezes mais cargos executivos que negros.Imbuídos do sentido criado por ideias desse tipo. Diariamente recebo notícias de pesquisas quantitativas que confirmam este fato. são associadas.

o que significa investimento de recursos humanos e orçamentários.639/03 e a implantação da política de cotas reparatórias nas universidades. fomentam. sobre o Estatuto da Igualdade Racial. e que objetiva intimidar todo um povo e enganar toda uma nação. essa campanha desestabilizadora da sociedade. como coisa sem valor. e não a realidade social. Vilipendiar Tratar com desprezo. suas recentes visitas à África. Senhor Presidente. como Vossa Excelência. como categoria socialmente construída. Ora. com crescente agressividade. nossa querida Matilde Ribeiro. lhe apresenta o Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial. 91 . rejeitada. que pensam na necessidade de políticas públicas de combate a essas desigualdades. em que a desinformação deliberada rivaliza com a malevolência racista. Assusta pensar que legisladores capazes de semelhante agressão se pronunciarão. procuram ingressar no mercado de trabalho. estão deflagrando uma campanha no sentido de desacreditar essas estatísticas e vilipendiar aqueles. causa divisões perigosas em nossa sociedade. refletir. Há décadas os intelectuais negros afirmam que raça nada tem a ver com biologia ou genética. pois nossa população aguarda políticas efetivas. somadas a outras iniciativas. Como consequência. daqui a alguns meses. diante de um momento tão encorajador. usando o falso argumento de que o critério de classificação racial. para valer. Haja vista a violência em nossas cidades que alcança índices de genocídio entre a juventude negra e favelada. Assistimos como. com a transversalidade de raça e gênero. Estamos acumulando décadas perdidas com a falta de desenvolvimento econômico intensivo em emprego.Estudos Culturais – Capítulo 3 Setores poderosos. fruto de todo um processo de deliberações para a construção dessas políticas públicas. os problemas sociais vêm atingindo patamares perigosos. Venho hoje lhe convocar a não esmorecer na sua decisão de implementá-las. é uma dura realidade discriminatória baseada em características de aparência. mas que. como a promulgação da lei 10. têm propiciado um novo clima que permite debater questões sérias que vinham sendo ocultadas ou negadas pelas elites entrincheiradas no mundo acadêmico e no universo da mídia. após receber com grande repercussão os porta-vozes dessa campanha. Senhor Presidente. se mandou “calar a boca” aos negros que usaram de seu legítimo direito democrático de apresentar as suas demandas. associada à redução do papel do estado na área social. a cada ano. para absorver as legiões de jovens que. na casa dos representantes do povo. Há muito tempo os economistas comprometidos com o povo brasileiro vêm falando que o nosso país precisa crescer. detentores dos meios de comunicação de massa no país. Novamente nos acusam de racismo. Preterida Desprezada. hoje a Ministra da SEPPIR. cujas propostas abrem novas perspectivas para melhorar as relações sociorraciais e trazer um vento de esperança à população negra preterida.

Zumbi vive em nós. pois o quilombismo é uma proposta para a nação. tendo trabalhos publicados no Brasil e exterior.org.br/onl/new. Axé! NASCIMENTO.Reconheço o grande avanço que significa a lei 10. apesar da campanha de mídia que caracteriza programas dessa natureza como criminosos e racistas. a consciência negra neste país. não só dos afrodescendentes! Finalmente. celebrar Zumbi do Quilombo dos Palmares. enquanto as populações dos quilombos do Brasil são agredidas e têm seus direitos desrespeitados! Aliás. ou tem a sua implementação dificultada. quero dizer que tenho fé nas forças que querem transformar o meu país. Por isto. com coerência. Senhor Presidente. Você conhece o cartunista Maurício Pestana? Além de cartunista. movimento da sociedade civil que conduziu à criação da Fundação Cultural Palmares e à desapropriação das terras da Serra da Barriga. Também nutro a convicção maior de que as energias que brotam do coração de Zumbi dos Palmares e de todos os nossos ancestrais ampliarão.php?sec=news&id=2375>.irohin. aceite nossas saudações quilombistas. e convoco Vossa Excelência a continuar investindo cada vez mais neste setor. É preciso avançar nas titulações e fazer valer os direitos das comunidades quilombolas contra as ameaças constantes de despejo de seus territórios. mas tenho que elevar a minha voz para dizer que esta lei não está sendo cumprida. uma onda de violência. Disponível em: <http://www. e do município de União dos Palmares. faltaram as bandeiras do Brasil. Deflagra-se. Trata-se de um simbolismo fundamental. cada vez mais. Esta data. na qualidade de cofundador e ex-presidente do Memorial Zumbi. Abdias. que visa fazer o resgate de nossa história e de nossa memória e torná-las patrimônio cultural de todo o povo brasileiro. do estado de Alagoas. Carta ao presidente Lula. Acesso em: 22 nov. no ato cívico realizado ontem nas terras de Palmares. tendo sido hoje assassinado um quilombola no estado do Espírito Santo. venho lhe indagar como. também no intuito de favorecer tais interesses. Ele aborda em grande parte de seu 92 . Não podemos. 2007. é escritor e roteirista.639/03. por todos aqueles que não querem mudanças nas relações de dominação racial em nosso país. ainda. herói nacional. homens e mulheres da resistência antirracismo e da construção de um Brasil justo e democrático. Reconheço o avanço contido no Programa Brasil Quilombola. esta luta e as políticas públicas de igualdade racial são bandeiras do Brasil e de seus governos locais e estaduais. De negros e de brancos que sonham o sonho bom da liberdade e da justiça. no intuito de desmoralizá-los e favorecer os interesses fundiários estabelecidos.

A produção de saberes e práticas pedagógicas. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. _____. A utilização para a classificação de humanos foi fortalecida na modernidade quando começou a designar um grupo de pessoas da mesma ascendência e de caracteres físicos parecidos. o professor Abdias Nascimento utiliza as expressões “povo negro” e “felicidade do negro”. “raça” é uma construção social que reflete um processo de reconhecimento e pertencimento. São destinadas aos grupos de menor expressão de poder. a exemplo da reserva de cotas. MUNANGA. 31-44. Síntese A discussão do conceito de “raça” parte das construções sociais que estabelecem hierarquias entre os grupos racialmente identificados. Cadernos Penesb. A origem do conceito de “raça”.com. GUIMARÃES. Antonio Sérgio Alfredo. Nessa dimensão. uma dimensão de identidade. Rio de Janeiro: Pallas. são apresentadas como uma alternativa para correção das desigualdades historicamente construídas em função das diferenças raciais. A afirmação política do conceito de “raça” opõe-se à noção originária da biologia.mauriciopestana. Rio de Janeiro: Vozes. Classes. Kabengele.br. Você pode conhecer mais sobre o trabalho de Maurício Pestana em www.). 2001. Pluralismo étnico e multiculturalismo: racismos e antirracismos no Brasil. 2001. A argumentação da carta é construída para reivindicar do poder público central a continuidade e o avanço das políticas afirmativas relacionadas aos negros. Jacques. violência e direitos humanos em África. principalmente. ou seja. inicialmente classificou espécies de animais. 2001. 1999. Etnicidade. como é o caso dos negros no Brasil. 93 . na biologia. Ivanilde (Org. In: OLIVEIRA. a discriminação racial. raças e democracia. São Paulo: Editora 34. Atividades 1. As políticas afirmativas. p. Qual o seu posicionamento sobre essa questão? Referências D’ADESKY. Essas categorias reforçam ou fragilizam o conceito de “raça” no sentido político? Justifique sua resposta. Niterói: EdUFF. No início da carta ao Presidente da República.Estudos Culturais – Capítulo 3 trabalho a questão das chamadas “minorias” brasileiras e. 2.

MEC.irohin. Superando o racismo na escola.br/ onl/new. NASCIMENTO._____. Abdias. Carta ao presidente Lula. 1999. Disponível em: <http://www.php?sec=news&id=2375>. Brasília.org. Acesso em: 22 nov. 2007. Anotações 94 .

Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO ETNIA: UMA AfIRMAçãO àS DIfERENçAS Conteúdo programático As subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações que estabelecem na sociedade. Reconhecer os aspectos que envolvem o conceito de “etnia” para a afirmação de um grupo identitário na contemporaneidade. . tendo como foco construir e problematizar o conceito de “etnia” Objetivos Compreender as subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações étnicas em sociedade como resultado da percepção das diferenças e das construções identitárias.

. cantos de trabalho. Gu errilhas. reggae. Muitas vezes é atualizado e modificado a partir do contato com outros signos. na discussão sobre etnicidade. choro. São representações musicais comuns a diversas vertentes culturais brasileiras.. samba. meu berço e nação Zumbi protetor. Jo tz.] Brasil. A RUGEND S. o uso da música marca uma representação cultural das etnias diversas que compõem a nossa sociedade. Fam hann Mori ília de faze ndeiros. axé.. rock. baião. rap. guardião padroeiro Mandai a alforria pro meu coração Wally Salomão e Gilberto Gil. exemplificando com alguns trechos de músicas brasileiras. Em cada estalo... meu Brasil brasileiro Meu grande terreiro. eu canto assim: A felicidade do negro é uma felicidade guerreira! [. Temos histórias em forma de spirituals. Johann Moritz. jazz. 96 . forró. para deixar o diferente é preciso de algum modo conceber ou vivenciar um ponto em comum [.. Zumbi. as sonoridades acrescentam outras informações ao texto e ajudam a compreendê-lo. em todo estopim.. muitas das quais estão ligadas à matriz negra. A felicidade guerreira Matriz Elemento originário em uma determinada cultura que serve de referência em outra territorialidade cultural. A melodia. no pó do motim Em cada intervalo da guerra sem fim Eu canto. o ritmo. Vamos começar a entender o conceito de “etnia”. blues.. Procure também ouvir essas músicas. o valor desses grupos. Muniz Sodré RUGEND A S. No caso específico deste tema. maxixe.] nas diferenças.. A inferiorização histórica de negros e indígenas no Brasil denota a importância de resgatar.

tutsis. o que esses grupos produzem não é reconhecido como tendo o mesmo valor.] A minha também tá pouca Cota de índio Apesar da minha roupa Também sou índio Djavan. 97 . Suas matrizes culturais estão presentes na cultura nacional em setores variados. é preciso fazê-lo de forma a resgatar o valor que eles possuem. hutus. No confronto com a cultura dos grupos dominantes da sociedade. Hoje. Os membros dos grupos étnicos consideram-se culturalmente distintos de outros grupos na sociedade. e em troca. judeus. Giddens (2005) afirma que a etnicidade. Nesse sentido.. e as letras sugerem a necessidade de reconhecer seus costumes. quando se discutem esses temas. refere-se: às práticas e às visões de mundo de uma determinada comunidade de pessoas que as distinguem de outras.. religião. e estilos de roupa ou adornos. as trocas que ocorreram geraram novos subsídios culturais. e as produções mais representativas desses dois grupos foram classificadas como inferiores. a construção das relações étnicas. sérvios. Cara de índio Você consegue perceber de que forma essas músicas tratam das diferenças? Nas letras de Zumbi. Elas revelam traços das características desses dois grupos e também que a matriz cultural indígena vem sendo cotidianamente desrespeitada. mas as mais comuns são língua.Estudos Culturais – Capítulo 3 Nessa terra tudo dá Não para o índio [. etc. há uma representação de modos de vida relacionados às culturas negra e indígena. A etnia estaria relacionada aos elementos culturais que compõem a identidade dos grupos. O problema é que dentro da construção do Brasil estabeleceram-se relações hierárquicas. se distinguiriam de seus antagonistas por questões étnicas e não raciais. Assim. a felicidade guerreira e Cara de índio. índios. Com o desenvolver das sociedades. são vistos dessa forma por esses outros grupos. pois com o encontro entre os grupos humanos diversos no território brasileiro. Diferentes características podem servir para distinguir um grupo étnico do outro. O conceito de “etnia” já foi apresentado quando tratamos da etnicidade. Existe uma identificação entre o indígena e o negro a partir das formas de exclusão com as quais lidam cotidianamente. croatas. história ou linhagem (real ou imaginada). as questões políticas e econômicas também influenciam o desenvolvimento das elaborações étnicas.

pelo movimento negro ou pelos pesquisadores das relações raciais. não acreditam que os termos sejam sinônimos. cultura. ela construirá sua identidade da forma que desejar ou que for possível. “negros”. Além disso. por exemplo. os diversos grupos étnicos que compõem estes três grandes conjuntos.. cultura. uma pessoa que é considerada branca em Salvador. As características somáticas também podem ser vistas de forma diferenciada. “escurinho”. a exemplo de Zarur (2007). com essa substituição. Contínuo de cor Expressão que denomina a grande variedade de matizes de pele resultante das várias formas de miscigenação ocorridas no Brasil. determina o campo de afirmação das diferenças. Por exemplo. “moreno”. costumes. a definição de Bobbio (Apud GOMES. Outros. Reconhece-se que. tomando a identidade como meio de continuidade cultural dos grupos sociais. São questões relacionadas ao que Guimarães chama de contínuo de cor. o que alguns chamam de raça. acham que o ideal seria substituir o termo “raça” por “etnia”. Enquanto os traços étnicos relacionam-se com construções de identidade com base em elementos. os matizes de cores variaram muito e são explorados para designá-las diferentes termos como “mulato”. do ponto de vista biológico. por exemplo. a raça não pode ser desconsiderada. Sinais diacríticos Marcadores culturais construídos socialmente que identificam culturalmente determinados povos. Nessa acepção. Devido ao alto grau de miscigenação ocorrida com o passar do tempo no Brasil.. nesse caso. especialmente os de menor expressão de poder. Porém. 98 . “brancos” designam. os somáticos identificam.A dimensão étnica. Neste aspecto. Dentro de cada um deles existe uma série de outros que formam etnias diferenciadas. de forma genérica. não seria possível discutir questões como o racismo. monumentos históricos e territórios”. em Porto Alegre pode ser considerada negra. Essa corrente busca o reconhecimento dos grupos diversos e a visibilidade dos seus sinais diacríticos positivos para afirmação e sobrevivência da pluralidade. Raça é. a princípio. Alguns teóricos. então. uma construção social. pois tem uma operacionalidade dentro da cultura. porém. estabelecendo os marcadores culturais que tornam único um dado grupo étnico. O discurso que defende a padronização encontra oposição nas análises étnicas propostas pelos estudos culturais. Assim. 1995) ilustra bem o que constitui um grupo étnico: “[. “caboclo”. como língua. somos todos iguais. Dependendo dos interesses que motivem suas ações. histórica e política. “cabo verde”. da política e nas relações sociais.] um grupo social cuja identidade se define pela comunidade de língua. a etnia estabelece uma ponte entre o passado e o presente. no contexto da cultura. como vimos. o conceito de “raça” é ressignificado.. etc. tradições. Os termos “índios”. Os elementos que aproximam os membros de um grupo étnico não podem ser confundidos com as características somáticas dos indivíduos. quando utilizado.

.] Um dia. Mas naquele tempo. segundo Moura (1988).Estudos Culturais – Capítulo 3 etc. o PT. como piloto comercial da Funai. “raça” e “etnia”. e para o índio tribal de que havia “muita terra pra pouco índio”. de um lado. para respondê-las. quando fazia exames médicos no Hospital da Aeronáutica de São Paulo. estudante universitário. principalmente. como componente importante da sociedade nacional O Índio. a Unind – União das Nações Indígenas – em 1977. como indígena do povo terena do pantanal sul-mato-grossense e. no mês de maio. É importante observar que os dois termos. representantes dos povos indígenas de toda a América Latina e do Caribe irão se reunir com outros segmentos da sociedade para compartilhar o tema da igualdade racial. Desse modo. sem deixar de ser quem sou!” [. No Censo de 1980. pude sentir de perto aquele olhar frio e marcante de diversos setores da sociedade nacional e. foram listadas cerca de 136 palavras diferentes para se referir à cor da pele. e isso foi reacendido nas últimas semanas. para uma reunião com Muhammar Al Kadafi na Líbia. mas não para um substituir o outro. jovens estudantes criaram a frase indefensável para o poder público. para o índio estudante o apelido de “índio aculturado”. Formas imperiosas do conceito racista de encurralar o primeiro brasileiro numa armadilha engenhosa que não deixava alternativa entre um mundo e outro. Como fundador do primeiro movimento indígena no Brasil. e parte do projeto em formação de um partido da sociedade e da inclusão dos discriminados. você reveja o conteúdo discutido até agora e estabeleça essa ponte com as questões propostas nas atividades. Lula. Tinha que viajar com o presidente da entidade. podem ser utilizados para complementar um ao outro. agente tutor de povos soberanos e seu espírito colonizador e preconceituoso: “Posso ser o que você é. 99 . mal-acostumados que eram e continuam sendo na condução das realidades indígenas vivas no nosso Brasil. liderados por chefes como Mário Juruna e Celestino Xavante. do Estado brasileiro.. fui acionado pelo representante de um partido político em formação. proliferavam-se nos bastidores do governo federal. em 1981. Leitura complementar TUDO ESTá NA NATUREzA Se tudo der certo. ao mesmo tempo. retornamos à questão proposta anteriormente: Falar em “etnicismo” poderia ajudar no combate ao racismo? Quais são os mecanismos necessários para desfazer os resultados desastrosos dessa forma de discriminação? Encerramos com essas questões e sugerimos que. Naquele tempo.

Assim. Esquecidos. pela primeira vez na história nomeou um indígena para a chefia de gabinete da Funai e outro como diretor-geral do Parque Indígena do Xingu. certamente as eleições que se aproximam servirão como escadas para que todos no Brasil busquem um novo pacto social e político consigo mesmos. e mesmo na ditadura militar. quebrando vícios e dando mostras de que tudo iria mudar. gerencial e financeiro. como Megaron. Após 20 anos de caminhada como uma persistente formiga. Tempos depois. abandonados por migalhas.. Mário Juruna. mesmo não sendo da classe trabalhadora ou partidários. Por isso. do governo neoliberal. Hibes Wassú ou Ângelo Kretan – que exclui. em que as 230 sociedades indígenas não sejam parte do passado ou de uma tutela viciada no indigenismo colonizador e escravista. Lula. Esse tempo chegou. Politicamente.. aliados de primeira hora. Os povos indígenas. o então ministro do interior. povos soberanos como os tupiniquins e os guaranis e caiuás. ou os terena. Airton Soares. mas de alegria. diante da Guerra do Paraguai. com lágrimas nos olhos afirmava que seu grande sonho era ter três minutos no horário nobre da TV Globo para poder dizer aos brasileiros que o tempo da liberdade e da inclusão social chegaria para todos. que eu não conhecia direito. sem direito a um plano de ação efetivo do ponto de vista político. Nada justifica essa cegueira do poder público. como Marçal Guarani. 100 . Em Madri. Mário Andreazza. pude viajar pela primeira e única vez na primeira classe. inclusive quando indigenistas e antropólogos assumiram a presidência da Funai. graças à articulação de líderes indígenas. numa escala para a Líbia. foi eleito por Brizola. quando representantes dos dois setores se digladiam em público por meio da imprensa. num jumbo das Aerolíneas Argentinas. mas da conscientização do sistema do Estado brasileiro. vimos quase com olhos marejados não de tristeza. alojado no Hilton Hotel enquanto tomava uísque. pelo menos parece que chegou. que com suas estratégias e seus comandos internos conduziram o Exército brasileiro para a conquista de territórios como o Pantanal. em nome dos bons costumes sociológicos. que jazem sem terras. Lá estavam também o peão Jair Meneghelli e um dos únicos deputados do PT. Como isso não depende apenas da vontade indígena. foram mantidos no mesmo curral da ditadura militar. a não ser a arrogância e a necessidade de anular conquistas palmilhadas – inclusive com a morte de líderes. o poder foi tomado pelo sindicalista Lula e pelo PT. Raoni. o único representante político no Congresso Nacional como deputado federal. que estamos no caminho certo – pois os aliados sinalizam com suas contradições que nada mais têm a fazer a não ser entregar o poder indigenista ao seu verdadeiro dono: o indígena. Melobô e Aritana. foram eles os primeiros a detonar essas conquistas.

Com a medida.. O MEC esclareceu que a lei não prevê uma data limite para a implementação do tema nas escolas. nesta terça-feira. mas nunca volta. com a publicação no Diário Oficial. a partir desses dois grupos étnicos. Acesso em: 7 jan.Estudos Culturais – Capítulo 3 Por isso.Tudo está na natureza encadeado em movimento.. A história e cultura da população indígena. o A Lei n. Eles pensam que a maré vai. recolhendo fúrias. os alunos terão que esperar mais um pouco. será um tema transversal aos já abordados em disciplinas como história. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraco.. 101 . geografia e literatura. quero ver se eles resistem à surpresa.asp?id=89>. Como as mudanças nos livros didáticos são feitas de três em três anos. 11. Tudo está na natureza. 10. e 2011.. De acordo com o Ministério da Educação (MEC). ambos os temas passam a fazer parte da grade curricular de todas as escolas públicas e particulares... Disponível em: <http://www. que já previa a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira em todas as escolas brasileiras. uma vez que a lei sancionada não cria uma nova disciplina.. assim como da afro-brasileira. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas Entrou em vigor.. nesses momentos fortifica-nos a lembrança guerreira da performance de Bibi Ferreira. fui recuando. para o Ensino Fundamental. a medida será implementada de forma gradual nas escolas. Quando eles virem invertida a correnteza.. O objetivo da nova lei é valorizar os diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira. TERENA. no caso do Ensino Médio.... A lei que fora sancionada nesta segunda-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a valer nesta terça.465/08 altera um artigo da Lei de Diretrizes e o Bases (LDB) e substitui a Lei n. sem que haja a necessidade de mudança na grade curricular. na peça Gota d’água: .com/colunistasLer.afropress. 2008.. Marcos. e quero saber como que eles reagem à ressaca. mas que os professores já podem abordá-lo em suas aulas. a lei que torna obrigatórias as aulas de história e cultura do povo indígena para alunos do Ensino Médio e Ensino Fundamental de escolas públicas e particulares do país.639/03. Sobre a inclusão do assunto no material escolar. Até agora eles estavam comandando meu destino e eu fui.. os livros de história e geografia só deverão ter capítulos sobre o tema em 2010...

Disponível em: <http://oglobo. compreendendo identidade e alteridade. 102 . O GLOBO ONLINE. Sobre isso. mas tem sido permanente. Brasil negro: a questão racial. Mas não somente essas populações foram – e continuam sendo – motivo de conflito. No que tange ao comportamento humano. 2008. ainda apresentamos traços negativos que remontam séculos e séculos. Acesso em: 4 abr. Acesso em: 8 abr. intolerantes e tolerantes. Esse é o enigma com o qual se defrontam uns e outros.br/reportagens/negros/11. 2008. Somos judeus ou palestinos? Novos Tempos. a questão racial revela. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas. subordinados e dominantes. Disponível em: <http://www. modificada mas persistente. pertinentes à história do Brasil. nuançada e estridente. segregados e arrogantes. a exemplo de judeus e palestinos. Octavio. em todo o mundo. a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil.com/educacao/ mat/2008/03/11/aulas_sobre_historia_cultura_indigena_passam_ser_obrigatorias_nas_escolas-426180474. econômica e política. cooperação e hierarquização. de forma particularmente evidente. Modifica-se ao acaso das situações. das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais. como funciona a fábrica da sociedade. dominação e alienação. Mais do que tudo isso.globo. leia o que diz o renomado cientista social Octavio Ianni: A questão racial parece um desafio do presente. diferentes grupos étnicos se opõem.asp>.” IANNI. mas reitera-se continuamente. resgatando as suas contribuições nas áreas social.shtml>. Novo Milênio. no Brasil. Em função da nossa história. Também será valorizado o papel do negro e do índio na formação da sociedade nacional. Onde? Só se for nos comerciais. nos outdoors.comciencia. Nova Era. No mundo contemporâneo.tais como o estudo da história da África e dos africanos. nos panfletos que anunciam artigos esotéricos. a discussão da questão racial é especialmente voltada para a conjuntura que envolve negros e indígenas. discriminados e preconceituosos. diversidade e desigualdade.

temos uma opinião. Poderia haver quem dissesse: “Mas isso são eles! Eu não moro lá nem tenho parentes naquela região. Existindo uma guerra. Prestemos atenção em como exercitamos essa opinião. mesmo sem ter descoberto o que fazer com isso. para tanto..Estudos Culturais – Capítulo 3 Desenvolvemos vacinas – as quais estão perdendo efeito diante de velhas – novas doenças.. Fundamental. Vemos homens. E também estamos dando seguimento a diversas tiranias.] O ser humano evolui individualmente e não sozinho. descobrimos a visão holística do mundo e do homem. mostra a completa impossibilidade de inteligência – porque a agressão é a manifestação suprema da ignorância. Para nós. desenvolvemos tecnologias de comunicação incríveis num curtíssimo espaço de tempo. Pior. Fizemos clones de seres vivos. me vem a nítida sensação de que um dia não irá bastar fazer a minha parte – terei que fazer uma parte maior. hoje mais econômicas do que militares ou monárquicas. pois mostram o lado animal selvagem que temos. [. A meta é a correção. contra o abuso. jamais de aniquilação. estaríamos a ver dois senhores bem idosos. social na acepção da palavra. Isso deve ser assim. É preciso entender que solução definitiva não significa solução imediata. manter diálogos francos consigo mesmo. Eles que se explodam”. nações mais novas. Quando paro para pensar nessas coisas. Estaremos sendo meio palestinos ou judeus com nossos entes queridos ou com aqueles estranhos que nada nos dizem. mas são espelhos dos nossos atos? Será que não devemos usar a sabedoria que está faltando a estes povos em nosso cotidiano? Os terrorismos e atentados corriqueiros que praticamos passam despercebidos aos olhos. Ao lidarmos com a 103 . a guerra e o terrorismo estão entre os piores. Fomos à Lua. não comentadas pelos órgãos competentes para não alarmar a população. mulheres e crianças morrendo por caprichos de poucos que se dizem governantes. existe uma explicação sobre por que as coisas não funcionam assim. fica o desespero de ver que o tempo não ensinou o suficiente para eles.] Diante dos fatos de nossas vidas quase sempre tomamos uma posição. Em uma caricatura. postergando uma solução definitiva. Podemos atravessar a vida inteira repetindo ineficientes tréguas com nossos defeitos. Das diversas formas de violência que mantemos entre nós.. nossas convicções. assistimos nações com milênios de existência usando a fé de seu povo para incitar o suicídio criminoso dos atentados. estendemos a longevidade humana. simplesmente porque não os colocamos em nossas manchetes. de comida e água mesmo. ou mesmo negociando um cessar-fogo após o outro. [. vivendo num planeta com fome e sede. que seja contra a ignorância.. São exemplos que desmontam qualquer pretensão de orgulho. trocando bengaladas até a morte. com grande sabedoria. contra a passividade. que sejam batalhas de transformação. Na magnífica obra Por quem os sinos dobram. A filantropia pessoa a pessoa não vai resolver assuntos que precisam de um movimento coletivo. Fazemos parte de um todo aqui mesmo. além de justiça.

2. Pensando nisso.com.sampaonline. os dois termos correspondem aos elementos culturais que compõem a identidade de um grupo social. […] WIEGERINCK. no texto Somos judeus ou palestinos?. Por meio de um texto. Seria possível ressignificar a expressão “programa de índio”? Como? c) Tomando como exemplo o seu ambiente de trabalho ou o local em que você estuda. descreva como essas questões podem ser abordadas e contribuir para a percepção das diferenças com base nos aspectos que estamos discutindo nesta disciplina. Desejo que todos caminhem em busca de um Acordo de Paz definitivo. por exemplo.htm>. o conceito de “etnia” é insuficiente para compreender as questões relativas ao racismo. qual o significado de expressões como “programa de índio”? b) Refletindo sobre as palavras de Marcos Terena. João Antonio.br/colunas/wiegerinck/ coluna2001set14. ao estabelecer os marcadores culturais de um grupo social. 104 . Atividades 1. As relações étnicas que se estabelecem no Brasil – com a ignorância. iremos perceber que somos todos judeus e palestinos. responda às questões: a) No que se refere à exclusão social. afirma-se como um mecanismo afirmativo de identidade. Considerando o que vimos até agora nesta disciplina. discuta o posicionamento de João Antonio Wiegerinck. A simples substituição da palavra “raça” por “etnia” é insuficiente. a intolerância às diferenças e a manutenção do poder de certos grupos prestigiados – cunharam expressões como “programa de índio”. A etnia. você acha possível ser outra pessoa sem deixar de ser quem é? Como isso pode acontecer? 3. Somos judeus ou palestinos?. ou seja. pois os termos não são sinônimos. Disponível em: <http://www. utilizando o conceito de “etnia” para afirmar positivamente as diferenças. Combinados. Síntese Você estudou: O conceito de “etnia” estabelece uma relação com o sentido de “etnicidade”. 2008. Além disso. na leitura complementar. destaque algumas das questões sociais. Acesso em: 25 fev. a respeito da coexistência étnica entre judeus e palestinos.realidade. econômicas e culturais que o texto apresenta.

IANNI.comciencia.asp?id=89>. Porto Alegre: Artmed. Brasil negro: a questão racial. Tudo está na natureza. Sociologia. A utopia brasileira: etnia e construção da nação no pensamento social brasileiro. Somos judeus ou palestinos? Disponível em: <http://www. 2008.ar/ar/libros/brasil/flacso/zarur. Acesso em: 7 jan. Octavio. 2008. Anotações 105 .com/educacao/mat/2008/03/11/aulas_sobre_historia_cultura_indigena_passam_ser_obrigatorias_nas_escolas-426180474. João Antonio. Disponível em: <http://bibliotecavirtual. Acesso em: 25 fev. pdf>.shtml>.br/colunas/wiegerinck/coluna2001set14. ZARUR. ed. O GLOBO ONLINE.com/ colunistasLer. sampaonline. Acesso em: 8 abr. Disponível em: <http://www.Estudos Culturais – Capítulo 3 Referências GIDDENS.htm>.org. George. Acesso em: 7 jan.asp>. 2005. Acesso em: 4 abr. TERENA. Disponível em: <http://www. Marcos. 2008.com. 4. WIEGERINCK.globo. 2008.afropress. 2008.clacso.br/ reportagens/negros/11. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas. Disponível em: <http://oglobo. Anthony.

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