Você está na página 1de 260

ANA ELVIRA STEINBACH SILVA RAPOSO RICARDO DIAS DE CASTRO (Organizadores

)

Trânsito de fronteiras entre Educação e Saúde na Escola Infantil

EDITORA DA UFPB JOÃO PESSOA - PB 2012

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA REITOR RÔMULO SOARES POLARI VICE-REITORA MARIA YARA CAMPOS MATOS

EDITORA UNIVERSITÁRIA DA UFPB DIRETOR JOSÉ LUIZ DA SILVA VICE-DIRETOR JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO SUPERVISOR DE EDITORAÇÃO ALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JUNIOR

D A UN IV ER SID A D E FED ER A L D A PA R AÍB A C e lso A u g u s to G u im a rã e s SC iêtoc ia s A g rá ria s ) an n s ( G u s ta v o H e n riq u e d e A ra ú jo F re ire ( C iê n c ia s S o cia is e A p lica d a s ) Ja n E d so n R o d rig u e s L e ite (L in g u ístic a , L e tra s e A rte s) Jo ã o M a rco s B e z e rra d o Ó (C iê n c ia s E x a ta s e d a T e r ra ) Jo sé H u m b e rto V ila r d a S ilv a ( C iê n cia s A g rá ria s) M a ria d e F á tim a A g ra ( C iê n cia s d a S a ú d e ) M a ria R e g in a V a sc o n c e lo s B a rb on cia s B io ló g ic a s) (C iê s a R ica rd o d e S o u s a R o s a ( In te rd is cip lin a r) V a ld in e y V e lo s o G o u v e ia ( C iê n cia s H u m a n a s)
Copyright © 2012 Coordenação Geral Edna Gusmão de Góes Brennand Coordenação de Produção Maria Helena da Silva Virgínio Revisão Linguística Maria Nazareth de Lima Arrais Diagramação e Normalização Técnica Fabiana França Capa Renato Mota Arrais de Lima Validação Silvio José Rossi O s te x to s d e ste liv ro sã o d e r e s p o n s a b ilid a d e d o s a u to r e s .

C O N S ELH O ED IT O R IA L

T687 Trânsito de fronteiras entre Educação e Saúde na Escola Infantil / Ana Elvira Steinbach Silva Raposo, Ricardo Dias de Castro (Organizadores) . - João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2012. 262p. ISBN: 978-85-7745-919-3 1. Educação infantil. 2. Corporeidade. 3. Organização Ambiental. 4. Conforto ambiental l. Castro, Ricardo Dias de ll. Raposo, Ana Elvira Steinbach Silva.

UFPB/CE/BS CDU: 37.018.43 D ire ito s d e s ta e d iç ã o re s e rv a d o s à : EDITORA UNIVERSITÁRIA/UFPB Caixa Postal 5081 - Cidade Universitária - CEP: 58051-970

João Pessoa - Paraíba - Brasil Impresso no Brasil Printed in Brazil Foi feito depósito legal

SUMÁRIO APRESENTAÇÃO 1 EDUCAÇÃO E SAÚDE Ana Elvira Steinbach Silva Raposo Eduardo Antônio de Pontes Costa Ranulfo Cardoso Junior Ricardo Dias de Castro 2 SAÚDE E TRABALHO DOCENTE Eduardo Antônio de Pontes Costa Paulo Cesar Zambrony de Souza 3 CORPOREIDADE E EDUCAÇÃO Iraquitan de Oliveira Caminha 4 ORGANIZAÇÃO E CONFORTO AMBIENTAL Glorismar Gomes da Silva 07 09 83 153 187 .

Os textos aqui apresentados foram produzidos por professores-formadores e professores-pesquisadores atuantes no Curso de Graduação em Pedagogia. o trabalho interdisciplinar a ser desenvolvido pelos profissionais da educação e da saúde apresenta-se como fundamental. Ranulfo Cardoso Júnior e Ricardo Dias de Castro. na modalidade a distância. culturais e até biológicos que influenciam no processo de ensinoaprendizagem ou na prevenção/intervenção nos processos de saúde/doença que afetam os escolares. É nesse sentido que os textos que integram este livro. habilitação em Educação Infantil. do respeito e do direito. corpo e sociedade. metodológica e prática do saber e do fazer para uma educação aberta e plural. pautada nos princípios da inclusão. apresentam uma perspectiva dialógica teórica. construída a partir da transdisciplinaridade e integralidade desses eixos. intitulado Trânsito de Fronteiras entre Educação e Saúde na Escola Infantil. A complexidade das problemáticas comuns a esses campos de atuação percebidos em articulação – educação e saúde – requer uma melhor qualidade na formação de educadores e de agentes de saúde. necessária para desconstrução e construção de saberes necessários para compreender a relação existente entre a educação e a saúde. pensamento. que tem como propósito produzir conhecimentos que focalizam a formação de professores. social e cultural. O capítulo 1 deste livro. . elaborado por Ana Elvira Steinbach Silva Raposo. cuida e incorpora a realidade dos seus aprendentes para promoção da saúde e da educação. propõe discutir conceitos em educação e saúde a partir de uma perspectiva filosófica. sexualidade. E faz isso transitando entre as fronteiras dos conhecimentos colocados em articulação. Os autores elaboram um percurso que direciona para a idealização de uma escola que educa.APRESENTAÇÃO Impulsionado pelas demandas contemporâneas. políticos. Eduardo Antônio de Pontes Costa. consequentemente. linguagem. ofertado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em parceria com a Universidade Aberta do Brasil (UAB/MEC). Considera-se aqui a necessidade de compreensão dos aspectos sociais. na melhoria da qualidade de vida das pessoas. Alguns dos autores integram o Grupo de Estudos Transdisciplinares em Educação e Saúde (CNPq/UFPB).

Iraquitan de Oliveira Caminha nos convida para. pautados no contexto social contemporâneo. e que este se relaciona com a saúde. produzido por Eduardo Antônio de Pontes Costa e Cesar Zambrony de Souza. é propósito deste livro fomentar a construção de saberes relacionados aos aspectos físicos e biológicos que conduzam a um processo de ensino-aprendizagem mais eficiente. de um ensaio que contribui para inclusão de ações de educação e saúde. Finalmente. Glorismar Gomes da Silva propõe uma análise relacionada a organização e conforto ambiental que direciona para a inclusão e democratização da educação. As reflexões propostas neste livro apontam para a produção de práticas e conceitos de educação e saúde que superem o caráter higienista e biológico ainda marcadamente presentes no espaço escolar infantil. portanto. saúde e trabalho na experiência docente são expostas nesse capítulo. Assim. As nuances relacionadas ao gênero e as relações de poder que influenciam no trabalho docente e a produção de subjetividades. colabora para discussão acerca da profissionalização docente no Brasil. na medida em que produz e reproduz influências no cotidiano da escola. o capítulo 2 desta obra.Levando em consideração que a prática docente atrelada às atividades de educação e saúde é influenciada pela concepção do próprio trabalho docente. Partindo para a reflexão sobre a construção de uma pedagogia do corpo. Trata-se. compreender o discurso do educador acerca do corpo e a produção de uma educação que esteja relacionada ao cuidado com o corpo. Ana Elvira Steinbach Silva Raposo Ricardo Dias de Castro . partindo do ponto de vista do ambiente. ao mesmo tempo em que contribuem para a construção de uma pedagogia que considere a qualidade de vida como indicador de educação e de saúde. especialmente infantil.

Essas várias décadas se constituem distintos momentos da cultura moderna. em primeira edição. eram ainda incipientes as contribuições da antropologia e da sociologia no campo da saúde. questionar o que a educação tem a ver com a saúde e vice-versa. Professor do Departamento de Metodologia da Educação. nos anos 40. Doutor em Farmacologia de Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos. do Centro de Educação. século XX. antes de qualquer coisa. entre eles. Doutor em Farmacologia de Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos. da Faculdade de Ciências Médicas de Campina Grande.1 EDUCAÇÃO E SAÚDE Ana Elvira Steinbach Silva Raposo 1 Eduardo Antônio de Pontes Costa 2 Ranulfo Cardoso Junior3 Ricardo Dias de Castro4 1 CONCEITOS EM EDUCAÇÃO E SAÚDE Discutir o tema da educação e saúde requer. da Universidade Federal da Paraíba. da Universidade Federal da Paraíba. Professor do Curso de Medicina. do Centro de Ciências da Saúde. Assim. do Centro de Educação. Para tanto. por exemplo. Professor do Departamento de Clínica e Odontologia Social. Nos anos 60. nos anos 40. e teve uma reedição revisada pelo autor nos anos 60 e outra nos anos 70. Doutor em Educação. que é o assunto abordado pelo livro citado. refletir sobre a diferença que os conceitos de saúde e de doença podem fazer na educação. É preciso. . iniciaremos a discussão sobre a relação entre os conceitos de normal e patológico e como os mesmos se traduzem em ações de educação e saúde. Começamos com a leitura da obra do filósofo Georges Canguilhem “O normal e o patológico” que foi produzida. a 1 2 3 4 Doutora em Saúde Coletiva/Ciências Humanas e Saúde. o fenômeno da saúde e da doença. e os marcos culturais dessas épocas são importantes para se compreenderem as lutas pelo status de conhecimento válido para o debate das ideias sobre saúde e doença. Essas ciências foram rapidamente se fortalecendo como discursos válidos para a compreensão de fenômenos sociais. também. da Universidade Federal da Paraíba. Professora do Departamento de Habilitações Pedagógicas.

leva que o provoca excitação a disparar emocional um e. presentes no mundo da vida e. a reação a situações de estresse cotidiano. pela fabricação de substâncias que são normais. que esses estados – em . O primeiro ponto de vista. a ler conosco. reagir com alterações corporais. relaciona-se mais com a dimensão bioquímica do funcionamento corporal . o de Goldstein. os conceitos de saúde e de doença mudam com o tempo. Esse autor toma como ponto de partida as concepções diferentes sobre saúde e doença de Goldstein e Lariche.as anomalias das células acontecem como consequência de uma alteração igualmente fisiológica. apenas. e o entendimento de que esses são conceitos mutantes e que dependem dos valores de cada época e de cada sociedade está presente na obra que ora convidamos você. Canguilhem (2002) contribui para a nossa compreensão sobre o que é saúde e o que é doença. ou seja.Educação e saúde 10 liberação sexual transformou concepções e práticas de homens e mulheres e. normas. é pela intensidade e a repetição ou frequência dessas situações a que estamos sujeitos que podem ocorrer desequilíbrios que. Diríamos que ter saúde é. no extremo. que se refere ao conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos. organismo processo de adaptação caracterizado pelo aumento da secreção de adrenalina. com várias consequências. mas como complementares. também. de variações quantitativas de estímulos externos. Esse autor coloca o problema do normal (ou fisiológico) e do anormal (ou patológico) como uma questão apenas de intensidade. bioquímicos. o de Lariche. essas questões ganharam dimensão política. dependendo. Porém. tomando-as não como opostos excludentes. Essa é a tese de Canguilhem (2002). que relativizam valores. por exemplo. O segundo ponto de vista. regras. pode ser definido como uma visão do externo para o interno. principalmente na sociedade contemporânea e seus fenômenos sociais e culturais complexos. Para ele. nos anos 70. do comportamento que influencia a alteração ou as reações orgânicas. numa perspectiva dialética. Portanto. ou seja. pelo movimento da contracultura. crenças e práticas culturais. transformarse-iam em doença. Canguilhem (2002) vai abordar a saúde e a doença de um ponto de vista mais abrangente. costumes. o funcionamento normal do corpo pode se tornar anormal ou patológico. internos. ao perturbar a homeostasia. presentes no mundo das células. caro leitor.

Os estímulos externos são. Queremos. entre outras. disfunções sexuais. Não se trata aqui de entrarmos em um tratado da medicina para definir termos de saúde e doença pelo vocabulário biomédico. gerando lesões corporais como úlceras. simplesmente. as situações de violência social e sexual. mais recentemente. diabetes. ainda. e o afastamento social servia para distanciar o problema. essas condições. Sabemos. a respeito das inúmeras formas de existir e que demandam uma ampla compreensão e uma atuação educacional diferenciada: a surdez. as visões que fundamentam preconceitos contra doenças são visões que não se sustentam em uma teoria filosófica como a de Canguilhem (2002). Esses estímulos externos geram. A história é farta em exemplos de exclusão daqueles que se afastam do que é socialmente visto como “normal”. hipertensão. de um lado. medo. de outro. Era o que o conhecimento científico da época preconizava: o isolamento dos afetados por essas doenças integrava as estratégias de controle. e. O mesmo podemos dizer. apontar para o entendimento de que as definições de saúde e doença são construídas. “tudo demais é veneno”. Os estímulos internos vêm do funcionamento normal das substâncias secretadas pelo corpo humano e que podem sofrer alterações de quantidade. resultando em dois tipos: externos e internos. ao . reações de defesa para o enfrentamento ou a fuga dessas situações. Sendo assim. contudo. Seriam. por exemplo. no nosso corpo.Educação e saúde 11 sua gênese – são idênticos. A reação primeira de rejeitar o enfrentamento reflexivo sobre essas questões é. pelo conhecimento médico disponível. Eles variam apenas pela quantidade dos estímulos a que o corpo está submetido. Não havia preocupação com a solidariedade pelas pessoas com essas enfermidades. o autismo. doenças? Em que sentido uma concepção de normalidade as diferencia para fins de educação? Por que o valor “normal” para a educação precede o conhecimento sobre o anormal? Estratégias para superar as deficiências humanas são inerentes ao trabalho do educador. pelas concepções que construímos sobre esses dois aspectos da vida. hoje. Podemos nos lembrar de preconceitos contra os doentes de hanseníase (lepra) ou tuberculose ou. dos portadores de HIV/Aids. fome ou solidão que existem em nossas vidas. desemprego. Em outras palavras. portanto. a síndrome de Down. que o isolamento contribuía para um dano maior a essas pessoas. a cegueira. afastando-os do convívio social. e a discriminação era uma forma de agravamento da doença.

a primeira vertente que destacamos é a dos egípcios. dos assírios e dos hebreus que. está presente. Devemos. fazer um passeio pela história da humanidade e acompanhar como se deu a evolução do conceito de causalidade da/s doença/s. e a busca da cura estava em restabelecer o equilíbrio da energia interna do organismo. no contexto latino-americano: os indicadores de saúde de grandes grupos populacionais praticamente estagnaram ou até. revestidos de um caráter religioso. particularmente. tida como quase uma polêmica. as causas foram naturalizadas. em muitos países. também. em que a doença era vista como um desequilíbrio entre os “humores” que compõem o organismo humano. observamos que a ideia de desequilíbrio (ou disnomia) dos organismos humanos. portanto. a corrente médico-social que sustenta que a doença deve ser analisada como um processo social precisa comprovar sua formulação e qual a sua utilidade prática. pensar se a patologia ou o anormal estão nos distanciando de trabalhar educativamente dentro de uma visão inclusiva. dos caldeus. é dominante o paradigma que conceitua a doença como um fenômeno biológico individual. A seguir. O equilíbrio (ou .Educação e saúde 12 contrário. Buscamos também abordar novos dados históricos que vão permitir uma melhor apropriação da discussão. que vem acompanhando o desenvolvimento da medicina: seria a doença essencialmente biológica ou. excluindo o caráter mágico ou religioso. onde a maior referência é a figura de Hipócrates (conhecido como o “pai da medicina”). mas as concepções gregas de saúde e doença são enriquecidas por meio de cuidadosas observações da natureza e pelo nascimento da prática clínica. Não obstante. Uma segunda concepção é a da medicina hindu e a da chinesa. social? Ainda hoje. Na Antiguidade. A tarefa a que nos propomos neste capítulo é. portanto. a negação do conhecimento. O corpo desempenhava um papel ativo. admitiam que o corpo humano era “passivo”. deterioraram-se. Da mesma forma. e que elementos externos – naturais ou sobrenaturais – penetravam nesse corpo-receptáculo e provocariam as doenças. as condições de saúde da maioria da população do planeta revelam os claros limites da concepção biológica da doença e as evidências de que a medicina clínica não vem dando respostas satisfatórias para a melhoria das condições de saúde de grandes grupos populacionais. na Grécia. ao contrário.

então. o sistema fabril – em contraposição ao modelo agropecuário – é intensificado e. seus elementos. e os experimentos clínicos e as observações anatômicas são retomados. acusando. Com o número crescente de epidemias nesse período histórico. a doença como resultado das bruxarias dos endemoninhados. por leigos (não religiosos). Na busca do reconhecimento do seu status científico. que a doença poderia passar de uma pessoa para outra. A Medicina Social pode ser traduzida como campo das práticas e dos conhecimentos relacionados com a saúde. o valor histórico dessa ideia. da política e da economia. Por isso a terapêutica (a busca da cura) se baseava na aplicação dos elementos contrários. a ênfase recai sobre as doenças infecciosas e começa-se a elaborar a noção de “contágio”. o forte tom religioso na prática médica indicava como explicação para as causas da influência da conjugação de certos planetas ou até a ideia de culpabilização das vítimas. água e fogo. A teoria das causas é abandonada. e a observação dos “sinais” e “sintomas” é a nova linguagem.Educação e saúde 13 isonomia) era consequência da harmonia perfeita de quatro elementos: terra. existiria um agente (bactéria) que a causaria. e a prática da medicina volta a revestir-se de um caráter religioso. Ao final do século XVIII. dando-se ênfase à prática clínica. começamse as relações entre as doenças e as novas condições de vida e de trabalho. ou seja. com essas transformações. a Revolução Francesa provoca mudanças sociais profundas. por exemplo. é estabelecido o primado da bacteriologia. para cada doença. predominantemente. Predomina. e a teoria da unicausalidade das doenças ganha força. para tentar restabelecer o equilíbrio inicial. analisa as formas correntes de interpretação dos problemas de saúde e da prática médica (OPS. A partir da segunda metade do século XIX. ar. bem posteriormente. Uma personalidade de destaque nesse período . a medicina tenta se dissociar das ciências sociais. Não obstante. A medicina volta a ser exercida. São os primórdios da formulação da medicina social. O processo de urbanização é forte. como sua preocupação principal. Ela Estuda a sociedade. e se buscam as localizações (sede) das doenças no organismo. de fato. Os gregos estabeleceram correspondências entre os humores. ou seja. ainda. A Idade Média não avança na teoria da causalidade. 1976). os leprosos e judeus pelo envenenamento dos poços ou vendo. Chega o Renascimento. que só vai ganhar destaque. o individual sobre o coletivo. qualidades e órgãos-sede.

Dois outros modelos. provavelmente. nessa formulação. Para interferir nessa cadeia e executar medidas preventivas. Já o modelo ecológico é a mais bem acabada formulação da multicausalidade. a “rede de causalidade”. há uma simplificação exagerada do processo denominado complexo de causação. Ele agrega uma grande potencialidade transformadora e. por meio do modelo da balança de Gordon. No início do século XX. O modelo com maior valor explicativo . histórico e intemporal. com um feedback regulador. são complementares para . os do hospedeiro e os do meio ambiente. precisamente na década de 20. Nesse cenário. é que se agrega outro fator ao conceito de multicausalidade: os fatores psíquicos. p. Na década de 40. Na sequência da história. 2005.e que busca aproximar os conhecimentos epidemiológicos com os interesses populares . O modelo da determinação social da doença enuncia que o marco dentro do qual a doença é gerada é o padrão de desgaste social. de social e de cultural são fundamentais para entendermos como essa mesma criança é produzida. aparece a primeira formulação do conceito de multicausalidade. e partindo-se do modelo da determinação social. Configura-se como um sistema fechado. ainda não é o hegemônico.d]. apud BARATA. processa uma redução naturalista na interpretação das relações sociais que o ser humano estabelece com a natureza e com outros seres humanos.15). Ressaltamos. os conceitos de biológico. sendo.é chamado de “Determinação Social da Doença”. e o modelo ecológico são destaques. o movimento da Medicina Integral vai definir o homem como ser “bio-psico-social”.Educação e saúde 14 é Louis Pasteur. Focando-o mais criticamente. por isso mesmo. O primeiro define que as cadeias lineares de causação são tão complexas que estariam muito além da nossa compreensão. dessa forma. bastava identificar um componente mais frágil à intervenção. ainda no início do século XX. Contudo. como estamos educando as crianças nas creches e pré-escolas e cuidando delas? Para nós. São conhecidos três tipos de fatores: os do agente. como se não houvesse interação entre esses três fatores. Contudo. A insuficiência dessa formulação unicausal só ficará evidente no início do século XX. inclusive. esse modelo reduz a vida humana à sua condição animal. qual o significado de educação e de saúde? Nesse sentido. de MacMahom ([s. porque não interessa aos grupos dominantes em um contexto “hegemônico” de economia capitalista. que não podemos perder a complexidade que constitui e produz esses mesmos conceitos: eles não são residuais.

É o caso. enfim. Por exemplo. entre outros. . “tal pai. que as crianças estabelecem com as outras. Exemplo: convívio. ao enfatizar. Concernente à amizade e à união de várias pessoas. que deve ser pautada pela lógica dos papéis que irão determinar o que elas podem fazer e o que não podem. 2. E o que significa social? Em algumas acepções. muitas vezes é utilizado como sinônimo de cultura. primeiro gênero. ao conjunto dos cidadãos de um país. para legitimar a não qualificação de determinadas crianças. Tais significações não se referem. de generalizações de toda ordem. a partir da abordagem histórico-social que orienta as suas análises para pensar a construção do conhecimento ou do pensamento na criança. a forma como interage e se expressa consigo mesma e com o outro não se produz por leis biológicas ou da natureza. A importância das significações culturais produzidas pelos homens é imprescindível ao seu desenvolvimento psicossocial. como podemos situar os conceitos de biológico. do conhecimento espontâneo. no sentido de que. Elas existem. tal filho!”. na relação com o outro é que elas vão aprendendo umas com as outras. que surgem para justificar uma suposta incapacidade. Um terceiro aspecto do social remete à comunidade. da educação das meninas. no meio externo e são apropriadas ou internalizadas pelas crianças ao longo de suas vidas.Educação e saúde 15 pensarmos como a criança é constituída. em algumas afirmações interessantes e preocupantes. por exemplo. por exemplo: “aquela criança não nasceu para aprender”. Nessa direção. como unidade dinâmica. Concernente à sociedade. necessariamente. Nesse discurso. a aspectos que chegam à tona a partir dos nossos referenciais biológicos. O conceito de social. de sociedade. aponta para a construção de espaços de socialização entre as crianças. com o adulto. Observamos que a criança já nasce em um contexto em que o seu comportamento. Então. Vygotsky (2003). “ela não aprende porque herdou do pai ou da mãe o não gosto pelos estudos”. o termo biológico remete ao que é relativo ou próprio dos seres vivos. em especial. inclusive. no uso comum. social e cultural na sua relação com a Educação Infantil? Através de um olhar mais atento sob a ótica do senso comum. inicialmente. que irá produzir os lugares comuns em que o biológico ou o cultural ganham expressão para explicar a origem dos nossos comportamentos. remete a dois gêneros: 1. à ideia de coletivo. reivindicação.

Educação e saúde

16

O cultural significa tudo o que é produzido pelos homens. Na sua relação com o biológico e o social, podemos dizer que o cultural consiste nas informações que são transmitidas de um organismo para o outro, por meio dos sentidos, e armazenadas a partir das atividades psicológicas e cognitivas, em especial, das crianças. Vejamos o cotidiano de crianças que participam de creches ou da Educação Infantil, do convívio com os pais, com outras crianças, observando como as pessoas falam, como se comportam, como se vestem, como produzem regrais sociais, normas, hábitos e conceitos. Elas passam a assimilar conhecimentos, informações que constituem e constituíram boa parte da sua apreensão de mundo, ou seja, a forma como elas vão produzidos seus sentidos, sua concepção de mundo. Aqui, o processo de internalização, que corresponde, como observamos, à própria formação da consciência, constitui-se, também, em um processo de produção de subjetividade, na relação que se estabelece com o outro, por meio da qual são produzidos novos conhecimentos e se produz uma cultura. É comum comprarmos e/ou vendermos a ideia de seletividade social, racial, de gênero, e aqui vamos colocando as normas prescritivas que são produzidas pela sociedade, para o que deve ser educativamente o comportamento ideal para as meninas. Um exemplo disso é que, para atuar nas creches ou na Educação Infantil, devemos ter apenas professoras, e não professores; que a figura masculina não pode atuar com crianças, e assim vamos naturalizando as práticas sociais, educativas, em que o biológico, o social e o cultural assumem expressiva relevância nessas produções. Sobre a questão de gênero na sua interface com o componente biológico, social e o cultural, podemos afirmar que gênero é um conjunto de crenças, de prescrições sociais e atribuições, que produzimos e reproduzimos com os outros, tendo por base a divisão social e sexual do trabalho. Essa construção social lugar da menina, lugar do menino, lugar do homem, lugar da mulher - funciona como uma espécie de “filtro cultural”, a partir do qual a criança passa a interpretar o seu mundo: corpo da mulher ou corpo do homem. Observamos que todas as sociedades classificam o que é próprio dos homens e, consequentemente, próprio das mulheres e, a partir dessas concepções culturais, são estabelecidos códigos morais de cada sexo, com uma série de proibições simbólicas. Destaca-se, portanto, a importância do simbólico para a formação de conceitos pela criança.

Educação e saúde

17

A dimensão cultural corresponde a essa produção e também funciona como mediação nesse processo de simbolização. O simbólico é uma das instituições de códigos culturais que, mediante prescrições morais e sociais, como a questão de gênero, regulamenta a existência humana. A socialização e a individualização do ser humano resultam de um processo único: o da sua humanização, ou seja, da sua progressiva emergência da ordem biológica e de transição para a cultura. O pensamento simbólico constitui a raiz, em si mesma, da cultura, do biológico e do social. Dando seguimento à nossa discussão, chegamos ao ponto em que se propõe a apresentação dos fundamentos conceituais que embasam o campo de trabalho que denominamos de Educação e Saúde. Educação e Saúde são campos de prática e de conhecimento que se ocupam da ligação entre a ação de saúde e o pensar e fazer do dia a dia da população. Além disso, constitui uma unidade que problematiza dois campos das relações humanas e sociais e os coloca em complementaridade. São campos com problemáticas comuns e que se entrelaçam nos saberes científicos e populares. Por exemplo, os saberes das mães que cuidam de seus bebês, os saberes das parteiras, os saberes sociais que adquirimos com a leitura e a escrita, entre outros. Já a educação em saúde constitui um conjunto de saberes, representações e práticas educativas orientadas para a prevenção de doenças e promoção da saúde (COSTA; LÓPEZ, 1996). Em outras palavras, a unidade Educação e Saúde é um recurso por meio do qual o conhecimento, cientificamente produzido no campo da saúde, intermediado pelos profissionais de saúde ou de educação, no caso escolar ou não escolar, atinge a vida cotidiana das pessoas. E o que se espera como resultado da utilização desse recurso? Espera-se que a compreensão dos condicionantes do processo saúde-doença ofereça subsídios para que a população-alvo da intervenção educativa adote novos hábitos e condutas promotoras de saúde. Por meio da educação, transmitem-se valores e concepções de saúde. Quanto mais elevado o nível educacional, melhor a saúde da pessoa. A educação também constrói normas e moralidades que repercutem na saúde de grupos de pessoas ou de indivíduos. Vemos o uso das expressões “educação para a saúde”, “educação em saúde” e “educação e saúde”. Embora tenham diferentes definições, pois são distintas as articulações, os limites ou os contextos de sua utilização, elas se

Educação e saúde

18

caracterizam e se unificam pela interdisciplinaridade, portanto, não têm fronteiras rígidas, são expressões permeáveis conceitualmente. Trabalharemos aqui na perspectiva de tentar definir melhor apenas “educação e saúde” ou “educação em saúde”, a serem aplicadas no âmbito do trabalho da educação infantil e de sua prática cotidiana no cuidar de crianças e educá-las. Mas, para não sucumbirmos à rigidez da normatividade desses dois campos, temos em Michel Foucault o crítico do viés normativo, que fabrica discursos ou verdades discursivas que se constituem redes de poder. Foucault analisa a sociedade moderna e modernizadora e aponta para a sua característica social mais marcante, que é o desenvolvimento de tecnologias de poder e saber sobre a vida humana, denominadas por ele de biopolítica e biopoder. Um dos livros de Foucault, que trata de uma nova forma de entendimento das normas sociais para a população, é “O cuidado de si”, trazendo a noção de que precisamos da autonomia para assumir os riscos de existir. Riscos estéticos e éticos. Em todo caso, esse é o cuidado de si. No nosso entender, é necessário pensar a Educação e a Saúde não mais como uma educação sanitarizada (educação sanitária), ou localizada no interior da saúde (educação em saúde), ou, ainda, educação para a saúde (como se a saúde pudesse ser um estado que se atingisse depois de educado!). É preciso recuperar a dimensão da Educação e da Saúde/doença e estabelecer as articulações entre esses dois campos e os movimentos (organizados) sociais. E mais – como práticas sociais articuladas com as necessidades e possibilidades das classes populares na formulação de políticas sociais e das formas de organização social que lhes interessam (MELO, 1987 apud SCHALL; STRUCHINER, 1999). Para compreendermos melhor a construção dos conceitos de Educação e Saúde, faremos um breve histórico. Em conformidade com os interesses das classes dirigentes do Estado e com objetivo de controle social sobre as classes subalternas, o discurso desenvolvido em torno da questão saúde, no século XVIII, foi essencialmente normalizador e regulador. No Brasil do século XIX, o discurso sanitário segue a tendência europeia, concentrando-se nas cidades e desenvolvendo-se em torno da moralidade e da disciplinarização higiênica. O hospital, o hospício, a prisão e a escola despontam como espaços de atenção, cuidado e educação à saúde. Esse estilo de pensar, nessa época, ilustra bem a reserva de mercado que interesses hegemônicos fazem em torno da saúde, e onde se fortalece o saber

Educação e saúde

19

técnico do especialista da área biomédica, conferindo-lhe o exclusivo poder da cura e do controle sobre a doença. Por outro lado, rotulam-se as eventuais resistências e os saberes alternativos como cegueira política, ignorância do povo ou má-fé dos charlatães. Esse discurso predominou no campo da educação e da saúde, durante quase seis décadas no século XX, podendo ser encontrado ainda hoje como orientador de práticas educativas. Sob esse ponto de vista, as práticas populares de Educação e Saúde seriam excluídas. Esse discurso biologicista defende que os problemas de saúde são decorrentes da não observância das normas de higiene pelos indivíduos e que a mudança de atitudes e de comportamentos individuais garantiria a resolutividade dos problemas de saúde. No Brasil do início do século XX, em virtude da urgência do controle sobre as epidemias de varíola, peste, febre amarela, tuberculose, entre outras, nos grandes centros urbanos, desenvolveram-se as primeiras práticas sistemáticas de educação em saúde. Tais práticas se voltavam, principalmente, para as classes subalternas (pois, doentes, acarretavam transtornos para a economia agroexportadora) e caracterizavam-se pelo autoritarismo, com imposição de normas e de medidas de saneamento e urbanização com o respaldo da cientificidade. Acontecimento ilustrativo desse momento foi a polícia sanitária liderada por Osvaldo Cruz, que empregou recursos como a vacinação compulsória e a vigilância sobre as atitudes e a moralidade dos pobres, com a finalidade de controlar a disseminação de doenças. No início de 1960, século passado, com o advento da Medicina Comunitária, verifica-se um apelo à participação da comunidade para a solução dos problemas de saúde nela vivenciados. Escudados nesse apelo de participação comunitária, os determinantes sociais dos problemas de saúde não eram levados em consideração. Ratifica-se, com uma aparente nova formulação, o mesmo discurso da culpabilidade dos sujeitos, com a ressalva de a culpabilização passar da individualidade para a coletividade. As práticas de educação em saúde comunitária partiam, então, do pressuposto de que as comunidades seriam as responsáveis pela resolução de seus problemas de saúde, devendo, para isso, ser conscientizadas. Durante a fase da repressão política no Brasil, houve uma evidente limitação à organização social, e os espaços institucionais mais criativos e críticos foram cerceados. Com isso, os campos da educação e da saúde sofreram pesadas

Educação e saúde

20

consequências. O regime militar privilegiou a medicina curativa, em detrimento dos serviços de atenção preventiva, e expandiu os serviços médicos privados. Oliveira e Smeke (2001) admitem que, durante esse período, a educação em saúde correspondeu ao controle sobre os sujeitos. Com a repressão, perdeu-se o movimento de educação popular em curso no país, iniciado por Paulo Freire, que foi exilado. Em contraposição à ditadura militar, tendo como marco os anos 70, foram retomadas as propostas pedagógicas de Paulo Freire. Esse movimento deu início às críticas das práticas educativas autoritárias e normalizadoras apontando, ao mesmo tempo, para uma ruptura. Os profissionais de saúde revisaram suas práticas a partir da interlocução com as teorias das ciências humanas por um novo projeto em saúde e passaram a valorizar as trocas interpessoais, as iniciativas da população e as dos usuários e, pelo diálogo, buscaram-se a explicitação e a compreensão do saber popular. Essa metodologia se contrapõe à passividade usual das práticas educativas tradicionais. O usuário é reconhecido como sujeito portador de um saber sobre o processo saúde-doença-cuidado, capaz de estabelecer uma interlocução dialógica com o serviço de saúde e de desenvolver uma análise crítica sobre a realidade e o aperfeiçoamento das estratégias de luta e enfrentamento. É esse novo paradigma que o movimento da educação popular em saúde instala: priorizar a relação educativa com a população, rompendo com a verticalidade da relação profissional-usuário. Desde a década de 1970, a despeito do amadurecimento da metodologia, as experiências em educação popular não deixaram de ser pontuais, alternativas e transitórias. Apesar de não ter ainda a hegemonia nas políticas públicas, pela potencialidade das experiências da educação popular em saúde, Vasconcelos (1999; 2001) vislumbra como sendo essa metodologia a forma de superação do fosso cultural entre os serviços de saúde e a população assistida. Da convivência entre as práticas emergentes e hegemônicas, é possível delinear dois modelos de práticas de educação em saúde, que podem ser referidos como Modelo Tradicional (aprendizagem mecânica) e Modelo Dialógico (aprendizagem dialógica). O modelo tradicional trata o usuário como indivíduo carente de informação em saúde. Dessa maneira, a relação estabelecida entre profissionais e usuários é unilateral, a equipe é vista como uma estrutura de poder diante da comunidade e promove um discurso prescritivo (o que fazer, como fazer), com status de

etc. sexualidade-pensamento. e a comunidade. É fundamental valorizar o saber próprio da comunidade. . pois é mediante esse saber que o desenvolvimento da compreensão da situação de saúde-doença-cuidado e as condições concretas de vida dessa mesma comunidade podem se dar. de maneira emancipadora. para que seja. sociológicas. bom-mau. cuidar de si. visa ao desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade dos indivíduos no cuidado com a saúde. segundo o modelo dialógico. mas apontamos possíveis mapas e trilhas. afeto-linguagem. éticas e estéticas. humanas. para sabermos o que pode fazer ou não sentido para uma comunidade. cuidar-educar. a inter/transdisciplinar. A equipe de educação e saúde se transforma em produtora de mensagens. nessa perspectiva. higiene-saúde. por onde podemos caminhar. corpo-mundo. antes de tudo. e que possa a educação se traduzir em saúde. que essas práticas educativas sejam emancipatórias. que importam na tradução de uma prática disciplinar para outra prática.Educação e saúde 21 verdade incontestável. A estratégia valorizada por esse modelo é a comunicação dialógica. e a saúde se traduzir em educação. Não pretendemos ter percorrido todas as sendas possíveis desse território da educação e saúde que vasculhamos. afinal. O campo “educação e saúde” é a tentativa de colocar as questões filosóficas. A prática educativa. mas de transformar saberes existentes. saúde-doença. O objetivo da educação dialógica não é o de informar para saúde. A interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade propostas pela Educação e Saúde oscilam entre outros polos: educação-saúde. porque é científico. econômicas. Por outro lado. pois até mesmo o silêncio é portador de significados. a partir da etapa inicial da educação da criança em instituições públicas ou privadas. possam operar nesses polos. maneiras de resolver problemas (inclusive de saúde) antes da chegada dos profissionais-técnicos-especialistas. bem-mal. antropológicas. nutrição-saúde. cuidar do outro. também. de autonomia. Esperamos que as novas subjetividades. e. é necessário. manter e recuperar sua saúde. que visa à construção de um saber sobre o processo saúde-doença-cuidado que capacite os indivíduos a decidirem quais as estratégias mais apropriadas para promover. tudo uma questão de arte. auscultá-la. como receptora. Objetiva-se. de cuja chegada a infância está nos avisando concretamente. Uma comunidade tem variáveis culturais complexas e experiências de vida acumuladas. ainda. A ausculta é uma escuta ainda mais sensível e cuidadosa. sociais.

uma divindade. é importante o pensamento de Erasmo de Rotterdam (1466-1536). se lhe deres assistência. São expressivas. diria eu. . e a escola vai se constituindo como instituição importante para a formação do enfant. 2004. p. quando a criança é tomada como objeto de análise. porque assim modelam um tipo de arrogante. em A civilidade pueril. elas ficam a desejar em pessoas honestas e eruditas. o referido autor assinala que. afirma que: A natureza. 126). duas obras que suscitam. A literatura pedagógica do século XVI. cabem à criança e ao jovem várias observações que escrutinam e inscrevem comportamentos desejáveis. Sobre As sobrancelhas. A ti cabe o dever de moldar até a perfeição. na sua proposição. Ao contrário. p. as boas maneiras de civilidade. quando te dá o filho. Erasmo de Rotterdam (2004. nem mesmo caídas sobre os olhos porque pressagiariam pensamentos malévolos (ROTTERDAM. de cuidado.Educação e saúde 22 2 ESCOLA ABERTA. numa “índole boa”. Não empurradas para cima. No manual De Pueris (Dos Meninos). constatamos: As sobrancelhas devem ficar naturalmente distendidas e não franzidas porque então projetam um aspecto ameaçador. Seção 24 – O direito à educação nasce no berço. como ele mesmo aponta. aquela matéria flexível e maleável. ela não te outorga nada além de uma massa uniforme. na medida em que todo o conhecimento deveria estar voltado para o próprio homem. não raro ocorre constatar que. Sobre a educação das crianças. Sobre as boas maneiras. ao propor. 33). no comportamento pueril. no bojo do Renascimento cultural. no Capítulo I – Nunca é cedo demais para iniciar o processo educacional. Se não levares a cabo a tarefa. uma educação privilegiadora de aquisição de hábitos e atitudes aceitáveis aos olhos da sociedade. embora sejam corretas as atitudes espontâneas do corpo. a partir desse alinhamento cultural. por ausência de disciplina. aponta para um humanismo que colocava o homem como um ser singular. em todos os detalhes. terás uma fera. Em relação a atitudes corretas e incorretas. terás. PLURAL E ANTROPOLÓGICA Apresentaremos a partir desse ponto um olhar sobre um período histórico da Europa.

permitindo perceber e marcar as diferenças entre os comportamentos das crianças e dos adultos. inclusive. A infância foi conhecida de forma tardia. . em que as novas instituições fechadas ao acolhimento e à instrução da juventude. que tomava para si o cuidado e a proteção das crianças. A ideia de fase da vida vai se fazendo presente. mas pelo conjunto de mecanismos de poder que a controlaria. nos laços sociais que se fundavam na família e na escola. por exemplo. Tomava para si a atenção e o cuidado porque.] a essência do homem (a criança) – o modelo do que é o homem – e. na perspectiva geracional. Nesse campo do essencialismo. que emergem a partir do século XVI. com a delimitação de um novo tipo de individuação da subjetividade. A teoria do espelho se refere à noção de encontrarmos “[. porquanto ela lhe determina como um ser “curioso”. Erasmo nos aponta uma essência da infância. com o surgimento de um novo tipo de força coletiva de trabalho. também. na estrutura social. o homem. ao manipular o mundo. vale por si e em si. na perspectiva burguesa. porque eles viverão e trabalharão mais. fazer o homem espelhar tal modelo” (GHIRALDELLI JUNIOR. cujo acompanhamento se daria de perto. então. colocou-se a questão de inventar novas coordenadas de produção da subjetividade. 2002. reformaria. têm em comum uma funcionalidade ordeira e moralizante. caracteriza-se como um ser humano. tornando os investimentos nas crianças importantes para a sociedade. enfim. “ser ativo” que. por meio da educação.. através da “pedagogização do seu sexo”. para cristalizar a noção de que ela está por “constituir-se”. Destaca-se uma época em que a criança começava a ter impacto na vida doméstica. a lógica pedagógica pensada por Erasmo é de uma educação baseada na teoria do espelho. por adquirir a sua condição de etapa de vida. Tal fato se deve ao auge da vida urbana e ao crescimento da classe burguesa. contribuindo-se. a burguesia não se interessava pela criança. Uma singularidade que remete à ideia de produzir essa subjetividade para uma vida que vai sendo estabelecida. ao se reconhecer que ela necessitava de um tratamento socioeducativo diferenciado do adulto. planta-se a ideia da família com poucos filhos. dessa forma.. segundo Foucault (1990). 34). Com o longo passar dos tempos e a melhora na qualidade de vida. p. Segundo o próprio Erasmo. puniria. Para Guattari e Rolnik (2000).Educação e saúde 23 Aqui temos o adulto começando a ver a criança como um ser singular.

demarcadas por mecanismos disciplinares século XVII. Ela funciona como um espaço de residência. num local comum – essa formação ainda subsistia na Inglaterra na segunda metade do Século XIX. em sua tese sobre a invenção moderna do sentimento da infância. desse modo. baseada no campo. num único local – a Itália. por exemplo. essas instituições são estabelecimentos fechados.Educação e saúde 24 Philippe Ariès (1981). que parte do princípio de que é mais rentável vigiar do que castigar. por exemplo. em que se fazem circular pessoas e objetos.. educativas e correcionais. Mais tarde. e em relação a uma sociedade agrária.. p. de adestrá-las. durante muito tempo... a escola passa a produzir as necessidades de hábitos considerados civilizados. na Idade Média. especificamente. a escola e o colégio que. ao longo do Século XV. p. mas elaborada em seus princípios fundamentais durante o Século XVIII” (FOUCAULT. ao se produzirem práticas nos diferentes aspectos da vida social. foi “[. pouco desenvolvido. da família. do trabalho e da escola: é a invenção das instituições totais. Foucault (1979) considera esse período como a época das sociedades dos comportamentos em instituições totais. sugerindo algo como atrasado. graças a uma disciplina mais autoritária.] pelo menos. Na educação escolar.. afirma Ariès (1981. começou-se a dividir a população escolar em grupos de mesma capacidade que eram colocados sob a direção de um mesmo mestre. que continuaram a ser mantidos. na Europa.] se tornaram. porém. [. eram reservados a um pequeno espírito de liberdade de costumes. conforme evidenciamos em Erasmo de Rotterdam. nos fins do século XVII e início do XVIII. Com a época moderna. 1990.] (ARIÈS. A técnica disciplinar. um meio de isolar cada vez mais as crianças durante um período de formação tanto moral como intelectual. defende que.. Nessa produção de imagens sociais da infância e. em atividades terapêuticas. de trabalho e de lugar para a produção de sujeitos. p. 1981. e. passou-se a designar um professor especial para cada um desses grupos. 105). no início dos tempos modernos. uma forma de exercício de poder. de [.. que convivem em tempo integral. separá-las da sociedade dos adultos [. 172).] não inteiramente inventada. os .. 165). Desde o início do século XV. que funcionam em regime de internação. Portanto. notadamente. Segundo Goffman (2001). a partir do chamadas burguesas. havia uma preocupação com certa ordem moral que começava a se delinear no campo da religião. permaneceu fiel a essa fórmula de transição. seu confinamento e circunscrição.

2003. como em um jogo de palitos. desde o advento da época moderna. contribuindo para valorizar a criança. 2002. esse conceito “poder-saber” é fundamental ao se analisarem as relações de poder na sociedade.. a vontade de verdade tivesse sua própria história [. pois não há [. uma vontade de saber que impunha ao sujeito cognoscente (e. Nessa produção de “saber-poder”. os médicos elaborando para as . sobretudo). de certa forma. apareceu uma vontade de saber que. o que restaria seria o vazio (GHIRALDELLI JÚNIOR. Temos. pedagogia.] (FOUCAULT. a medicina.. os processos e as lutas que o atravessam e que o constituem. em vez de comentar). capaz-incapaz. Voltemos um pouco: por volta do Século XVI e do Século XVII (na Inglaterra. útil ou arredio ao poder. notadamente. observáveis. nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder. não é a atividade do sujeito de conhecimento que produziria um saber. uma vontade de saber que prescrevia (e de um modo mais geral do que qualquer instrumento determinado) o nível técnico do qual deveriam investir-se os conhecimentos para serem verificáveis e úteis.. mas o poder-saber. certo olhar e certa função (ver.. p. Com base em Foucault (1990). teria sido um feixe de técnicas e normas que revela apenas o exercício de poder. Para Donzelot (1980). às mães. de um modo geral. em especial. p.] Resumindo. desenhava planos de objetos possíveis. se tirarmos cada uma das técnicas (psicologia. Foucault vai identificar uma forma de “vontade de saber”. quando Foucault mostra como o tempo e o espaço vão se reorganizando. religião – judaico-cristã – ou psicanálise) do feixe. inclusive. aliada ao Estado. quando dela se começa a falar. [. de modo que. que inclui para excluir. que a vida foi transformada em um objeto de “podersaber”. mensuráveis. instâncias de controle individual e funcional. classificáveis. em vez de ler. que determinam as formas e os campos possíveis de conhecimento (FOUCAULT. 27). verificar..] as últimas décadas do Século XVIII e o fim do Século XIX.. Quando pensamos nos modos de educação que irão se configurar a partir do século XVI. entre “[. Tudo se passa como se. vai intervir e aliar-se às famílias. portanto.] relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber. a partir da grande divisão platônica.Educação e saúde 25 processos de inclusão e exclusão dos indivíduos apresentam.. o núcleo conjugal e o espaço privado do lar. produtora de um discurso verdadeiro sobre os “sujeitos”. mostrando. o conceito de infância. bom-mal. medicina. 2002). antes de qualquer experiência) certa posição.. 16). antecipando-se a seus conteúdos atuais. atendendo a um duplo jogo de divisão binária e de marcação: normal-anormal.

. mas o domínio das ciências humanas. [. quartéis. a educação e a medicação das crianças [. referir-se-ão a um horizonte teórico que não pode ser.é algo que se constitui relacionado ao surgimento de um novo sentimento dos adultos em relação às crianças e que está na base de uma infância produzida com a emergência da época moderna. seja escola.]” (DONZELOT. dos corpos. Tal espaço escolar. a disciplina produz indivíduos. [. enquanto sujeito individualizado. Portanto. pode ser entendida como decorrência da expansão do sistema fabril na Europa e da progressiva especialização do trabalho que ele demandava. a escola de Educação Infantil. além de distingui-lo. quer dizer. prisões que. Na história do discurso pedagógico moderno. que o autor denominará de biopoder..] os poderes se exercem através e a partir do próprio jogo da heterogeneidade entre um direito público da soberania e o mecanismo polimorfo das disciplinas. faz funcionar um controle total da vida da população. ao mesmo tempo. dominante na Idade Média. que se inscreve num regime de produção em que o indivíduo passa a ser confinado a espaços de extração de energias produtivas e de reprodução. não que ele tivesse que se tornar mais obediente.. em especial e mais ainda. 1980. Certo tipo de poder. da norma. divisão por série a partir da faixa etária . família.. o edifício do direito. 22).. nas sociedades modernas. a sua jurisprudência será a de um saber clínico. fábrica. Nesse cenário. mas o da normalização. não da regra jurídica derivada da soberania. Assim.com disciplina. Como salienta Michel Foucault (1990. em um jogo permanente de embates. como objetos e como instrumentos de seu exercício. no final do século XVII e a partir do século XVIII. p. a ideia de escola como pensamos hoje . regras. 2002) nos ajuda a entender a emergência de certo tipo de poder disciplinar. que surge devido à necessidade do capitalismo de produzir novos controles sociais. A superação histórica da forma de poder soberano. pela emergência da disciplinarização. dos mortos. ajustado e um melhor aproveitamento do tempo para as atividades produtivas (FOUCAULT. de . 2002). 189).Educação e saúde 26 famílias burguesas uma série de livros sobre a criação. o poder disciplinar se centrava no adestramento do corpo. definirão um código que não será o da lei. mas o da regra ‘natural’.. Ela passa a ser a técnica de um poder que toma os sujeitos.] As disciplinas veicularão um discurso que será o da regra. é uma multiplicidade de relações de forças. Foucault (1990. orfanato. conteúdos programáticos. dos vivos. de maneira alguma. p.

e como a entendemos no mundo contemporâneo . que consiste em preparar essa mesma criança para os papéis sociais que desempenhará na sociedade. é fundamental para pensarmos a escola pela dimensão da diferença. que consiste na produção de certo tipo de sociedade – a criança no mundo romano. resulta de . temporais. não poderia deixar de produzir conexões com as transformações levantadas nesta discussão. p. pretendemos dialogar com o pensador e educador Paulo Freire (1967). A importância do conceito de existir. no que diz respeito às suas ideias orientadoras e ao cotidiano escolar. ao seu contexto. E é essa capacidade ou possibilidade de ligação comunicativa do existente com o seu mundo objetivo.. somos todas pessoas inacabadas. É importante destacar que a educação. duas dimensões importantes: a psicológica. Como ponto de partida para pensar essas questões. em que o corpo das mulheres e dos homens vira puro objeto de espoliação e de descaso?”. verifica-se que o encontro entre uma escola dialógica e a formação docente se constitui de maneira promissora. do múltiplo. produz relações também de resistência. em que o poder. não importa qual seja ela. em especial. Para Freire (1967). contida na própria etimologia da palavra.e a social. que atravessa uma prática educativa. existir significa estar no mundo. em que medida a perspectiva de uma escola aberta e plural pode se colocar como um contraponto na formação. criativas e. veladas ou não. da Educação Infantil? Afinal. O existir propicia a integração que. A partir do exposto. sobretudo a dos enfans. para Paulo Freire (1967).. nas relações que produzimos com o mundo. como diria Freire. “[. por exemplo. que concebe o sujeito como um ser de relações que guarda em si conotações plurais. Segundo Paulo Freire (1998. consequentemente. 126). em seu aspecto difuso. Ultrapassando o conceito de viver. Se a escola tradicional trabalha com uma perspectiva homogênea do sujeito. É estar nele e com ele. A influência dessas transformações impacta no modo de produção da infância e nas estratégias de inclusão e exclusão.] Como posso ser neutro diante da situação. que incorpora ao existir o sentido da criatividade que não há no simples viver.Educação e saúde 27 lutas incessantes. E mesmo que o existir seja da ordem do indivíduo. O processo educativo perfila. embora não neutra ou isenta de contradições. portanto. há uma ideia de múltiplo na própria singularidade. com conteúdos prontos e acabados. ele só se concretiza em relação com os outros existires.

que não existem na realidade. separa. hierarquiza. o professor percebe que seus estudantes não são um “corpo homogêneo”. ora por parâmetros estatísticos. como o lugar da infância. até o uso dos banheiros? Quando pensamos na Educação Infantil. entendemos também que não há. que valida uns e empurra outros para o desvio. Entendemos que o professor pode se perceber implicado com uma perspectiva de trabalho em que ele acredita e que vai contribuir para o crescimento e o desenvolvimento. os incapazes. também. Onde a . segrega. p. A afirmação acima. em que a descoberta atravessa também o processo de ensino-aprendizagem. ou sintoma de sua desumanização. levando-a a julgar o seu mundo algo sobre que apenas se acha. apoiando-se em processos comparativos do aluno que difere com um aluno ‘tipo ideal’. e não a simples adaptação. desqualificados para participar de decisões na vida pública.] estar não apenas nele. interpretar e manter-se no comando. Ao iniciar a sua aula.] instituem a diferença. 42). binarismos que são produzidos pelo discurso da escola tradicional. ora critérios que tomam as peculiaridades da forma ou a função de certas estruturas físicas das pessoas e.. acomodação ou ajustamento. os detentores do saber. A escola deve ser pensada. tanto a visão de si mesmo quanto a do mundo.. o uso dos materiais didáticos. as cadeiras. a escola proposta por Paulo Freire não representa aquela em que os professores são preparados para trabalhar com estudantes abstratos. [.. da criança. dos brinquedos. em quase todos os casos. Nesse sentido. das brincadeiras. 1967. mas com ele. implica que. p. mas apresentam diferenças entre si. como a média ou a moda. em especial. nos conduz para o campo das partilhas do educador com a condução da escola. Daí que a massificação implique o desenraizamento do homem (FREIRE. Não há passividade nas relações. normatiza. De outro. ordena. hegemônica. ideal que emerge e se estabelece a partir da ideologia dominante. em um tipo de escola onde aparecem critérios e conceitos que. e suas descobertas se traduzem em novas maneiras de fazer pedagógico. de executar atividades.. Uma escola em que o lúdico e a experimentação fazem parte do trabalho docente cotidiano. que são reconhecidos como competentes para decidir. distingue.Educação e saúde 28 [. idealizados. diagnostica. 38). estereotipa. A sua integração o enraíza. desde a organização das filas. por exemplo. comportamento próprio da esfera dos contatos. segundo Ferreira e Ferreira (2004. de um lado. É a ideia da multiplicidade na “turma homogênea”. Quanto se terá ainda de uma escola infantil que classifica.

É aqui que reafirmamos a importância de pensarmos o desafio de uma escola. é também reconhecida como ser de diálogo. em suas múltiplas linguagens. e que não se furta de recorrer à repressão e ao autoritarismo quando se sente ameaçada. na superação de fatores que o fazem “acomodados” ou “ajustados” frente a uma visão de mundo produzida pelas elites. . A participação dialogada do professor e da professora pode contribuir para aspectos que consideramos importantes para a formação da criança. plural e múltipla. apresentando uma linguagem que as crianças não entendem. Devem proporcionar um conhecimento da realidade que elas entendam. representa. através da educação. de opressão pelo adulto. conectados com a sua própria história. Lembremse: escola dialogada = escola aberta. A luta reside na luta de todos os que pensam e fazem a escola. por fim. ameaçada. sobre suas responsabilidades. uma construção coletiva.Educação e saúde 29 criança. Quem são essas crianças? Em que medida podemos situá-las em outra temporalidade e outro espaço? b) O pensamento por desafio ao propor questões problematizadoras que produzam falas imaginárias a partir de coisas reais. de esperança. é o lugar dos sujeitos ativos. de forma constante. Os conteúdos produzidos e reproduzidos em sala de aula não podem estar desconectados. entre outros. da Educação Infantil. pelas verdades produzidas pelo que Paulo Freire conceitua de “sociedade fechada”. pois existe um compromisso do homem com a sua própria existência. sobre seu tempo. de autonomia. A luta. embora as próprias crianças tenham sempre a potência de poder ressignificar na cultura esses desejos. sobre a sua cultura. que se caracteriza por políticas assistencialistas. de indignação e. A escola. se considerarmos que eles fazem das crianças réplicas em miniatura de seus objetos de desejos. vinculados à contribuição do papel do professor na relação com a criança: a) Foco na historicidade da criança. Ressaltamos que a ideia do método de Paulo Freire é a adequação do processo educativo às características do meio. em sua dimensão dialógica. Vejamos alguns aspectos. distantes. construir formas de organização que proporcionem ao sujeito um canal de reflexão sobre si mesmo. especificamente. enquanto processo. Paulo Freire (1967) entende que é possível. possam falar dela e a partir dela. a partir da educação. devido à sua busca pela humanização.

Enfatizamos que essa arte [. MOVIMENTOS SOCIAIS E POLÍTICAS PÚBLICAS Hoje. crença e culto religioso. tanto em sua extensão concreta como nas intensidades que a atravessam (TADEU. III. é. em movimentos incessantes e conectados à realidade dos que fazem e pensam a Educação Infantil.. 16 compreende. trabalho precoce. e V. Aprender é ensinar o já ensinado? É aprender o já aprendido? Os conteúdos escolares. exploração . IV. A escola aberta e plural busca a superação da dicotomia. Educar para uma existência artista implica o sacrifício dos posicionamentos autocentrados em prol da paisagem. É nessa mesma direção que reafirmamos o que preconiza o discurso do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 2004. Título II – Dos Direitos Fundamentais – Capítulo II – Do direito à liberdade. e que aqui chamamos a atenção apenas para os incisos II. entre sete proposições. Os conteúdos precisam ser entendidos como ativos. impessoal. frases. praticar esportes e divertir-se. os referenciais curriculares para a Educação Infantil. em especial. muito pelo contrário. d) Ampliação de suas linguagens. devem estar pautados em conteúdos ativos. p. ZORDAN. mímicas. que atravessa a realidade da educação brasileira.Educação e saúde 30 c) Tencionar o que entendemos por APRENDER. participar da vida familiar e comunitária. saídas – cores. antes de tudo. 80-81). sem discriminação. e no Art. com todas as distinções sexuais e de gênero aí implicadas (e que precisam ser questionadas) por essa ordem ainda patriarcal na nossa sociedade.069/1990. favorecendo a aceitação de todos. 3 DIREITO E CIDADANIA. Lei 8.. situação de rua. que compreende a liberdade de opinião e expressão. de modo que tem a ver com a qualidade dos instantes e a singularidade de cada perspectiva. ao produzir a dualidade dos que são educados para o trabalho intelectual e dos que são educados para o trabalho manual. ao respeito e à dignidade. fazendo com que as crianças busquem alternativas. cantos. visualizamos a realidade da infância no Brasil com uma série de dificuldades – falta de escola. CORAZZA. por exemplo – para que elas possam expressar criações e a arte de pensar. brincar.] não tem nada a ver com aprimoramento e anseios individuais ou realizações subjetivas.

violência física. além de introduzir novas formas de sociabilidade e de vida a dois. discriminação étnico-racial –. nos partidos políticos e assim por diante. intelectuais e políticos chegados do exílio questionavam o papel do Estado e reivindicavam democracia. atenção à saúde integral e aos direitos humanos fundamentais. às condições do ar. particularmente. à qualidade de vida. com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que foi conquistado o direito à creche e à pré-escola. no caso. Nesse período. como um direito básico para todas as mulheres e. alimentação. em 1996. as feministas organizadas começaram a lutar pelas creches. a serem garantidas pelo Estado de Direito em discussão. O movimento ecológico diferencia sua abordagem e centra seu discurso na defesa das liberdades individuais. nesta perspectiva. também. mais tarde. às águas. socialmente construído e referendado. aliado ao movimento de mulheres na defesa das liberdades individuais. contracepção e aborto. e muitos são os atores sociais que buscam organizar. entretanto. mobilizar as instituições e articular as forças progressistas para superar esses indicadores negativos. denunciando as desigualdades sociais entre os sexos no trabalho. O movimento de mulheres questionava as falsas dicotomias entre as esferas pública e privada. para a crescente massa de trabalhadoras urbanas. a cidadania em nosso país era ainda um bebê recémnascido. a incipiente democracia brasileira gestava nossos direitos sociais que ainda careciam de um arcabouço legal. uma prática relativamente nova na organização política e social do Brasil. educação. à qualidade da vida. mas. É neste contexto de construção de um Estado Democrático de Direito – e de “invenção” de novos direitos – que emerge uma forma de articular a construção de políticas . À época. no cenário de abertura política no Brasil. incentivando as mulheres para o conhecimento do próprio corpo. trabalho. acesso à moradia. Há recentes 30 anos. ou melhor. Essa estratégia de união dos movimentos sociais para garantia de políticas públicas que promovam a inclusão é. entre pessoas do mesmo sexo. criticava a sociedade patriarcal e o modelo de família existente. O movimento gay. Em meados dos anos 80.Educação e saúde 31 sexual. É com a Constituição de 1988 e. liberdade de expressão. Meio ambiente diz respeito à Mata Atlântica.

pelas chamadas Organizações Não Governamentais. pré-escolas e creches. Como a escola vem acolhendo as crianças nessas/dessas novas configurações de cultura e de família? Os sistemas de hierarquia e dominação baseados em relações de classe e de gênero. que transformaram seu diagnóstico clínico em uma identidade . o Privado (Empresariado). é corporificado (estimulado ou assessorado). Essas mudanças e avanços legais. em grande parte. Sociedades mais igualitárias têm melhor saúde porque são socialmente coesas. Fenômenos de dimensões globais também contribuem para reconceitualizar os discursos sobre a sexualidade e sobre as identidades sexuais: os divórcios. consequentemente. questões como identidade de gênero. em um contexto em que o Primeiro Setor é representado pelo Público (Governo) e o Segundo Setor. solidariedade e dignidade humana. E não há cidadania sem garantia de respeito. Assim. da economia e do direito. nos âmbitos da política. divisões sexuais. diversidade sexual e promoção de direitos sexuais e reprodutivos ganham nova força e destaque na agenda de ação política dos diferentes movimentos sociais que emergiram ou se reforçaram nas últimas décadas. assistimos a uma forte acentuação da urbanização e do crescimento gigantesco de metrópoles. a expectativa mútua. Este movimento começa a ganhar corpo em nosso país e ganha um status de Terceiro Setor. que promovem impacto na família e na educação infantil. Nas três últimas décadas. desde as macroestruturais. muitas crianças originadas dos novos arranjos familiares e das novas culturas sexuais recém-engendradas. separações e o direito à diversidade sexual e. em diversos continentes. O Terceiro Setor é o movimento social organizado que. suas comunidades encorajam a cooperação. a solidariedade. como a política. O advento da Aids é um exemplo da criação de novas identidades políticas e sociais. até aquelas que se dão no microcotidiano das relações adulto-criança e que foram forjadas. ou pessoas vivendo com HIV/Aids. o que continua a exigir mobilização coletiva e intervenções estruturais. étnicas e raciais continuam mantendo e reforçando as diferenças sociais. às uniões homossexuais. também se aproximaram das escolas. assistimos à emergência de diversas sexualidades. como os soropositivos. as ONGs. Nessas grandes cidades. e produzindo estigmas. da cultura.Educação e saúde 32 públicas comprometidas com a cidadania. que formaram novas culturas sexuais. no contexto histórico de eclosão dos movimentos sociais referidos.

Para tanto. que se pretendiam ser representativos da totalidade social legítima. Uma agenda atual de impacto passa pela necessidade de se estancarem outras crises que se anunciam: as crises do silêncio. São pequenas e privadas. e dos partidos marxistas. . do comodismo e da desesperança. com direitos iguais e indistintos de participação na vida política. de maneira curiosa. contudo. principalmente. tendo em vista os grandes processos e as largas escalas. conscientes da coisa pública.Educação e saúde 33 política e vêm conseguindo se organizar. Não têm valor representativo (diferindo. surgiu um tipo novo de organização que combina. famílias. justamente como um “particular universal”. e deles usufruir. Trata-se de uma prática de educação e saúde. que inclua o entendimento de como as relações de gênero. e reivindicar seus interesses políticos e sociais próprios. Herdaram essa capacidade. ao crescimento da capacidade de cidadãos. Um plano que programe ações que considerem tanto as dimensões individuais de exclusão social quanto as coletivas. Portanto. Cultivam. Com as ONGs. Destaca-se que a ação dos movimentos sociais organizados e a educação popular interferem plenamente na dinâmica de democratização da sociedade. A recomposição da integralidade nas práticas de educação e saúde. com certeza. de outros tipos de instituições como os sindicatos. é necessário promover a construção de um plano de ação. ou entre o público e o privado. diz respeito. coletivamente. uma visão totalizante da ação social que as estimula a agir. segundo suas necessidades e realidades concretas. no âmbito dos movimentos sociais e das políticas públicas. os partidos ou as associações de moradores). seres particulares. assim. abandonando o hábito da cidadania passiva e do individualismo. que se pensa. a tensão entre o grande e o pequeno. de classe social e das divisões étnicas e sexuais se entrecruzam e afetam a vida das pessoas. São como cidadãos. culturais e econômicas do sofrimento humano. ocupar os espaços sociais é exercer a democracia. Seus reflexos se fazem sentir nas políticas públicas e na interdisciplinaridade de educação e saúde em uma sociedade mais democrática e plural. integrada a uma ação coletiva e solidária. Cada ONG só pode falar em seu próprio nome. movimentos sociais e outros setores da sociedade civil para articular e reorientar os diversos serviços e saberes disponíveis. voltada a superar as raízes políticas. mas se comportam como se fossem grandes e públicas. de suas origens: a Igreja Católica. socialmente compartilhado.

que vão até os garimpos e às aldeias. travestis. “pelas bases”. nas escolas. demasiado. Como se articulassem o todo não por cima. somam-se os fóruns de ONGs. e todos esses sujeitos precisam ser tomados como “sujeitos de direitos”. Não é o número. jovens. aos usuários de drogas. entretanto. simplesmente. que atuam na defesa dos direitos humanos e civis. imaginar as ONGs como solução substitutiva para qualquer uma das redes institucionais com as quais se comunicam – não farão as vezes das universidades. são também ativistas políticos. Cada uma se quer catalisadora e multiplicadora de múltiplas relações e diversos movimentos. nas entidades da sociedade civil. dos clubes recreativos. Nesse contexto. Dessa origem. próximos daqueles que estão sujeitos a toda forma de opressão e exploração. homens. mas por baixo. prostitutas. dos moradores das periferias esquecidas dos grandes centros. dos partidos. portanto. gays. mulheres.Educação e saúde 34 O Partido e a Igreja são grandes veículos que perpassam institucionalmente a sociedade por inteiro. são pessoas que dão as caras contra o preconceito e lutam pelo seu próprio destino. os estados nacionais estão cada vez menos presentes nas questões sociais. as ONGs guardaram os fins e modificaram radicalmente os meios. Há neles. tecida com rostos e histórias pessoais de engajamento de muitos. local e situacionalmente. associações comunitárias e religiosas. dos sindicatos e associações. são aqueles que entram em presídios e cadeias. Quem dá vida a essa colcha são cidadãos. uma correspondência de escala entre meios e fins. os governos podem buscar. São como anõezinhos assediando Gulliver por todos os lados. uma forma de resolver esses impasses. movimentos de minorias. que sobem morros e favelas. uma grande colcha de retalhos heterogênea. as ONGs podem ser consideradas grandes aliadas do Governo por estarem próximas das . como o Estado ou a Igreja. que lhes dá a força. Por conta de ajustes estruturais nas economias dos países. Seria. como saúde e educação. Por causa desses ajustes e cortes nas verbas para gastos sociais. As ONGs nasceram como um movimento genuinamente comunitário. das igrejas – e não são uma alternativas para as grandes estruturas tradicionais. que estão perto das mulheres violentadas. Um dos efeitos da reestruturação do sistema político-econômico-global é o enfraquecimento dos estados nacionais no desempenho do papel de reguladores e redistribuidores de riquezas e benefícios. são agentes de prevenção que chegam aos adolescentes. aos meninos de rua. são os que ocupam espaços formais de representação.

aliados aos dados epidemiológicos existentes. Os profissionais de saúde aprendiam a se relacionar com os grupos populares. funcionando como empresas para a prestação de serviços terceirizados. A sociedade civil vem se questionando se quer ser apenas executora das políticas governamentais. Tal relação pode levar a ONG a se afastar de sua agenda de mobilização política. deixar de exercer o papel de agente transformador da realidade e enfraquecer o movimento coletivo. também trazem importantes informações de uma realidade “desconhecida” pelos órgãos governamentais. além de colaborar com o fortalecimento dos movimentos sociais para o exercício do que chamamos de controle social. na fiscalização e na intervenção nas políticas públicas e instituições estatais. mais particularmente. Assim. a partir da referida década. Nos anos 70. Corre. Tal controle se definiria. de resistência coletiva e de intervenção. o que não está sendo bem conduzido (controle social). Essas organizações. Nesse sentido. deveriam continuar sendo executados pelo Estado. o risco de perder a identidade. e a se voltar para a agenda dos governos e dos setores governamentais que repassam financiamentos. Mediante financiamentos transferidos para ONGs. os governos acabam “contratando” as organizações para realizarem serviços que. trouxe para esse setor uma cultura de relação com as classes . como a participação da sociedade organizada na elaboração.Educação e saúde 35 populações mais vulneráveis. então. muitas organizações podem se tornar somente executoras de políticas governamentais. podem direcionar as políticas públicas. junto aos movimentos sociais emergentes. O movimento de educação popular merece uma abordagem especial no contexto do processo brasileiro de ampliação de direitos. nos âmbitos municipal. estadual e federal. na avaliação. com a finalidade de torná-las mais eficazes. ou se quer o papel de propor políticas e diretrizes. começaram a surgir experiências de serviços comunitários de saúde desvinculados do Estado. que ainda encontram dificuldades para acessar os serviços públicos de saúde e de educação. em muitos casos. apontar o que não está sendo realizado e criticar. a participação desses profissionais nas experiências de Educação Popular. fiscalizar o emprego do dinheiro público. de forma construtiva. nos contextos da Educação e da Saúde. começando a esboçar tentativas de organização de ações de saúde integradas à dinâmica social local. cujos fatos. aqui. no acompanhamento.

Também é possível menção ao termo prevenir-se. p. acautelar-se. com a criança-criança. 4 A CULTURA DO CUIDAR.Educação e saúde 36 populares. 7º. conjuntamente. no contexto da Educação Infantil. o que entendemos sobre a “cultura do cuidar”. mencionado o Art. Do ponto de vista do discurso jurídico. 1990. estabelece que: A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde. emancipadora e libertária. E o que seria o “cuidar”? Como seria a relação entre o cuidar e o discurso jurídico? E com relação ao discurso pedagógico. olhar. um instrumento de construção da ação de saúde mais integral e mais adequada à vida da população. as práticas de educação popular e de saúde se integram na perspectiva de uma ação dialógica. em condições dignas de existência (BRASIL. A CULTURA DO EDUCAR E VIOLÊNCIAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL O convite para esta discussão reside na possibilidade de pensarmos. que representou uma ruptura com a tradição autoritária e normatizadora da educação em saúde. assim. tratar. empoderadora. do autoritarismo científico. É. administrar. um aspecto específico do Estatuto da Criança e do Adolescente. mas uma ação que reorienta a globalidade das práticas ali executadas. por exemplo. muita coisa mudou. mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso. Passados 40 anos do início desse movimento no Brasil. A educação popular tem significado não uma atividade a mais que se realiza nos serviços de saúde. Isso contribui para a superação do biologicismo.069/1990. no seu Título II – Dos Direitos Fundamentais – Capítulo I – Do direito à vida e à saúde. É preciso promover o debate sobre a questão da Educação Infantil na sua relação com o adulto. pedagógicas. transformadora. Nesse sentido.2). do desprezo pelas iniciativas do doente e de seus familiares e da imposição de soluções técnicas restritas para problemas sociais globais que dominam a medicina atual. Lei 8. são relações . criança-professor. o que seria o “cuidar”? Podemos definir o “cuidar” como o ato de se responsabilizar por (algo). Como também é possível depreender das nossas leituras que as práticas educativas. criançaprofessora.

valores éticos e sociais. olhadas. apresentam amparo legal de quem precisa. que se produzem na esfera do cultural. em universidades ou institutos superiores de educação. o cuidar pode ser compreendido como uma atitude que envolve tanto a dimensão afetiva e efetiva quanto a cognitiva. destacamos alguns aspectos que se interligam no processo de ensino-aprendizagem. em especial. complementando a ação da família e da comunidade (BRASIL. que contempla as prescrições morais e éticas que constituem a sociedade.Educação e saúde 37 sociais. atravessadas por diferentes linguagens. estabelece como prazo o ano de 2007 . da autonomia da criança. p. na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). percepções. do saber-fazer das práticas educativas. princípios. o papel do professor e da professora é fundamental no processo de ensino-aprendizagem com as crianças. O Título VI Dos Profissionais da Educação – Art. É claro que o ideal e desejável é que a formação docente seja em nível superior. legal. Tal legislação. Do ponto de vista pedagógico. o “cuidar” torna-se objeto também do discurso jurídico. 8). nas relações sociais e. p. humanas. As crianças. na Seção II – Da Educação Infantil. a seguinte explicação: A educação infantil. como sujeitos de direitos e de deveres. em curso de licenciatura. em curso de licenciatura. desejos. normas morais. admitida. em seus aspectos físico.394/1996.12). intelectual e social. nesse sentido. a oferecida em nível médio. 1996. o planejar. primeira etapa da educação básica. 29. o refletir. Dentre esses diferentes atravessamentos. A partir dessas considerações iniciais. como o pensar. 9. respeitando-se o que é específico ao seu desenvolvimento psicossocial. afetos. a saber: determinadas prescrições de linguagens. necessitam ser cuidadas. Lei n. quando se compreende essa atitude. na escola-espaço de socialização. educadas.394/1996. tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade. 62 – assinala: A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior. psicológico. A ideia é de que. Lei n. e. o “cuidar” caminha na direção do respeito. como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental (grifo nosso). é possível. a nossa. Art. de graduação plena. na modalidade normal (BRASIL. em universidades e institutos superiores de educação. Nessa cultura do cuidar. fundamentalmente. também. 1996. identificar. 9.

entre outros). de que às vezes não nos damos conta. p.].. colocamos algumas questões que merecem destaque: como propor uma pedagogia que potencialize os processos de desenvolvimento psicossocial da criança? Como trabalhar a partir da realidade concreta das crianças. dos anos iniciais? Como integrar esses discursos jurídicos à cultura do cuidar. domesticar. com a família. esse prazo – que seria o final da Década da Educação iniciada um ano após a publicação da Lei – foi revogado posteriormente pela impossibilidade de cumprimento em virtude da realidade. 73). Verbo transitivo direto (fazer o animal obedecer. as duas dimensões: cuidar e educar. . com diferentes profissionais que fazem-pensam também a escola? E em relação aos cuidados básicos – entendidos como aqueles direcionados à higienização do corpo. que dispõe sobre a formação em nível superior de professores para atuarem na educação básica. dar ensino a.Educação e saúde 38 para que os “professores sejam habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço” (Art. domesticar. esse entendimento no processo de ensino-aprendizagem.. a saber: 1. à nutrição. quando afirma que A responsabilidade do professor. Portanto. os professores destinados ao magistério da educação infantil devem ter também nível superior. IV). instruir). educar pode apresentar algumas acepções. 3. aqui. à saúde bucal. inc. A natureza mesma de sua prática eminentemente formadora sublinha a maneira como a realiza. § 4. Verbo transitivo direto (transmitir saber a. a educação infantil foi incluída como uma das etapas da educação básica. Nosso entendimento caminha na direção proposta por Paulo Freire (1998. Verbo transitivo direto (dar a alguém todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento de sua personalidade). o item 3 remete a obedecer. É certo que não proclamamos. A partir do Decreto 3. em qualquer modalidade de educação. em especial. Uma pedagogia para a infância abarca. é sempre grande. A partir dessas considerações. necessariamente. buscando dialogar com os movimentos sociais. Sua presença na sala é de tal maneira exemplar que nenhum professor ou professora escapa ao juízo que dele ou dela fazem os alunos [. domar. 2. Entre as acepções citadas no parágrafo acima.276. 87. como entendê-los e incorporá-los nas práticas pedagógicas? No uso comum. de 06 de dezembro de 1999. Porém.

Educação e saúde 39 O desafio para nós é o de pensar no “educar” quando estamos trabalhando ou nos propomos a trabalhar com a Educação Infantil. o brincar. a Nutrição. ressalta Freire (1998.. os afetos. reafirmamos. a Odontologia. Outro aspecto para o qual também chamamos atenção é o diálogo possível com a questão da interdisciplinaridade/transdisciplinaridade. a sexualidade. com a professora são fundamentais para entendermos o específico do que se processa no mundo da criança. por parte de quem pensa e faz a escola. E nessa trajetória bem desafiadora.. p. à realização de suas motivações. em que a diversidade. destacamos as diferenças que se processam nas relações. Nesse encontro com a Educação Infantil. em específico. com o professor. Trata-se de diálogos que buscam outras formas de compreensão sobre o que fazemos e o que podemos fazer como professores e professoras. outro modo de operar pedagogicamente. a subversão do modo de ser criança suscitam.. dá-se quando temos clareza sobre esse “objeto” da atenção. percepções. de criar um ambiente propício ao desenvolvimento psicossocial da criança.] Daí. a expressão. na sua relação com o processo de ensino-aprendizagem. sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de ser. a Antropologia. ao desenvolvimento da sua criatividade. a nutrição. dos anos iniciais. entre o que pareço ser e o que realmente estou sendo. E a ideia do item 2 . a Sociologia. da prática pedagógica: a criança. Enfatizamos a importância de diversos componentes curriculares que contribuem para a construção do conhecimento na Pedagogia: a Psicologia. da educação. a produção de conhecimento. em especial. de pensar politicamente [. cujas relações são produzidas em espaços coletivos. dentre outras. ao tomar .Verbo transitivo direto (transmitir saber a.] Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos. Portanto. Há uma preocupação. E nessa direção. o olhar. no professor ou na professora. então. o modo como ela se socializa e interage com as outras crianças. que uma das minhas preocupações centrais deva ser a de procurar a aproximação cada vez maior entre o que digo e o que faço. instruir) se pauta no desafio de quem pensa a Educação Infantil. dar ensino a. 108). a ideia do corpo saudável. Assis (1982) assinala que o desenvolvimento socioemocional da criança é propiciado pela convivência direcionada com as outras crianças e com os adultos que trabalham na escola. representam suportes para o que entendemos sobre um modo de fazer uma pedagogia para a infância. [..

os conhecimentos acima destacados são privilegiados. tendo crianças como assistência interessada. as crianças tenham o direito a uma educação de qualidade. A cultura do educar se materializa na Educação Infantil. inserindo nele a ordem do novo. O novo que a criança traz é expor a nossa sociedade às suas contradições mais brutais: crianças abandonadas.eixo de qualquer proposta pedagógica para a Educação Infantil. Ela aceita o mundo que está aí como tal. Se em jogos que . Por isso. Para ela. ao longo de seu desenvolvimento e por toda a vida. também. no cotidiano. Vemos. também. isso não significa que esse novo seja idealmente bom. para se fazer representar. Qual a natureza dessa atração pelo mal nas crianças? A primeira tentativa de resposta para essa pergunta é que o mal não está na consciência da criança.Educação e saúde 40 também como foco o cultural. o biológico. especificamente. Se esse é o mundo em que todos nós vivemos. se destaca o papel da responsabilidade dos adultos. não existe o grotesco. cada vez mais. cenas cruéis. vítimas de agressões. crianças brutalmente assassinadas. A profissionalização docente vai acarretar uma melhoria educacional para as crianças . é que vai mostrando o que é bom e o que é ruim na formação moral da criança. A partir da discussão sobre a cultura do educar e do cuidar. em sua própria expansão. crianças não amadas. E a educação infantil se difundirá pela cultura. para trabalhar com as crianças. crianças com fome. da produção de conhecimentos e de saberes e do trabalho docente voltado para esse público. na infância. Como exemplo concreto disso. Começa a se destacar a importância da ética na educação infantil. para que. Porém. custa a não passar de papel. Para a criança. o histórico. como participantes ativas. Outras formas de materialização ocorrem. o político e o econômico. o social. Nessa materialização histórica contínua. através da formação das professoras e dos professores que são habilitados. podemos examinar mais de perto a relação da criança com os programas e os jogos que mostram violência. às vezes. não existe o grotesco. ou. a socialização. como etapa crucial para o desenvolvimento infantil. principalmente. para além do texto da lei que. é pertinente abordarmos a questão das violências na escola infantil e o papel da Educação e Saúde diante desse contexto. por meio das edificações de unidades adaptadas às crianças. às vezes.

Portanto. Uma delas envolveu dois meninos. A criminalização desse ato é uma forma que as pessoas encontraram para resolver o problema que elas mesmas não sabem resolver. Nós nos revoltamos. É impossível a sociedade não se assustar. o objetivo é destruir. nós nos indignamos. desvelar essas causas. numa teia de iniciativas educacionais que valorizem a infância e o que ela tem de melhor. como se pode afirmar que os programas e jogos de violência não as influenciam mal? Podemos dizer que a relação da criança com esses recursos tecnológicos é uma relação “passiva”? No jogo real. . é matar. repetindo a cena vista num programa de TV destinado a elas. um com cinco anos e outro com treze. na nossa sociedade. que buscou o apagamento dos vestígios desse fato por significar a perda da coesão comunitária. caso fosse revelado. aqui. a violência sexual. é preciso alertar para a necessidade de se compreender esse lastimável fenômeno. nem pela lei nem pela moral. em Minas Gerais. a fantasia e a imaginação da criança. que invadiu as nossas praias nordestinas de tal maneira que nos sentimos envergonhados e. impotentes. em cheio. no confronto que pode acontecer nas brincadeiras que são violentas. A exploração sexual de meninas e de meninos por homens e mulheres que não têm limites. há “outro” que me barra. Outro exemplo que podemos examinar é o uso das crianças como objetos sexuais do desejo do ser humano pela eternidade. Já no jogo tecnológico. Não há condições de. que é engendrar um novo tipo humano. quando acontecem fatos como o que houve com as crianças. combater a exploração sexual infantil pressupõe que se tente compreender por que ela ocorre. que espancaram um amigo por debaixo de tatames. No entanto. numa escola em João Pessoa/PB. Essa mesma estratégia “cerebral” atinge. por que tem. ao mesmo tempo. sobretudo. as crianças sofrem os efeitos de sua influência. A televisão exerce esse hipnotismo necessário para vender os produtos na sociedade de consumo. no Rio de Janeiro e em João Pessoa. somos os responsáveis. em um contexto rural. esse lugar de atrativo. Nas nossas pesquisas sobre a sexualidade infantil. de prazer. Somos todos televisionados. defronta-nos com um mal maior na nossa sociedade.Educação e saúde 41 têm o sexual como sentido. já nos deparamos com situações bastante difíceis de violência. numa sociedade atualmente glamourizada pelos comerciais e pelos programas de TV. Por isso a sociedade precisa se esforçar para oferecer às crianças espaços de convivência e de diálogo reais e concretos. O mais velho molestou sexualmente o mais novo. porém.

AFETO. de outro modo. das formas culturais com que a sexualidade foi se constituindo nelas mesmas: ligação do sexo com a religião. do pensamento com a razão. biológico. também. . O desenvolvimento infantil teve avanços com a teoria psicogenética do epistemólogo suíço Jean Piaget. ora iniciando outro ciclo. além dos aspectos que já destacados anteriormente. e o desenvolvimento da aprendizagem são faces da mesma moeda: o ser integral da criança. nesse quadro geral. É por isso que precisamos tanto da paz. como um processo circular. que pode ir e vir tantas vezes quantas são as oportunidades abertas para a sua plena existência nesse mundo? Vamos ficar com a segunda opção e olhar para a criança de maneira integral. trouxeram contribuições fundamentais para se compreender o processo de aprendizagem da criança e o seu desenvolvimento. Mas o psicólogo francês Henry Wallon. eu – nesse mesmo mundo. sem pretender esgotar o assunto. Uma educação para a saúde também contempla e conduz a esse objetivo. como uma sequência linear ou. quase nada. perceber os efeitos nos professores e nas professoras. A experiência que emerge dessas interações é fundamental para a compreensão desses processos. tanto cognitivo quanto afetivo. com a linguagem. Pouco espaço. entre sexo e violência.Educação e saúde 42 Pudemos. entre outros. e que situam a criança como ser sócio-histórico. situada cultural. psicológico ou social. O ser humano se diferencia pelo aprendizado ao longo da vida. sobretudo nas mulheres. Devemos voltar o nosso olhar para a criança e o seu desenvolvimento. Bem. fisiológico. com os objetos. no seu contexto sócio-histórico. e o psicólogo russo Lev Vygotsky. com o meio. 5 DESENVOLVIMENTO. em ciclos que se desenvolvem. CONHECIMENTO E APRENDIZAGEM DA CRIANÇA O desenvolvimento físico. para o prazer que advém de uma sexualidade bem informada. A criança se desenvolve pelas interações que estabelece: com os outros. a criança no mundo da violência nada mais é do que nós – você. social e historicamente. da concepção com a virilidade. de retomada ou de desafios novos. da educação com a repressão. E uma das interações cruciais para a criança é a experiência do brincar. ligação do corpo com a higiene. ora complementando ou desestabilizando aprendizagens anteriores.

A periodização pelas idades é a mais comum para demarcar o desenvolvimento infantil na escola. operações sobre operações. Isto porque. como a situação dos cegos visuais. tanto Wallon quanto Vygotsky vão ser críticos dessa visão rígida da periodização por idades.Educação e saúde 43 É importante destacar essa compreensão da criança como ser sóciohistórico. construídos pela cultura. em decorrência da invenção da linguagem Braile. trazendo novas abordagens.do nascimento ao aparecimento da linguagem. préoperatório (dois a seis e sete anos) . tais como: sensório-motor (zero a dois anos) . a interação com o meio denota mais do que a interação com o outro (a alteridade). Portanto. são. abstrações. a teoria piagetiana destaca a interatividade sujeito-objeto e sujeito-sujeito. na prática. a organização conceitual da perspectiva dessa teoria tem se mostrado profícua na compreensão do desenvolvimento cognitivo da criança. operações concretas (seis e sete a onze e doze anos) – operações são ações interiorizadas. embora esse seja um ponto controverso. Wallon e Vygotsky. hoje tornada parte do currículo obrigatório para a formação do pedagogo.proposições hipotéticodedutivas. também. operações simples. reversíveis. operações formais ( onze e doze anos) . através da invenção da Língua Brasileira de Sinais. Todavia. A teoria piagetiana defende que a periodização do desenvolvimento ocorre por estágios. as contribuições desses autores e fazemos um convite para que reflitamos como essas teorias podem ser úteis à educação infantil. num sentido largo. No entanto. ela parte da valorização de fenômenos aparentes e deixa de lado a investigação sobre os processos internos de mudanças operadas na criança. não reduzindo o desenvolvimento da criança a critérios meramente biológicos. egocentrismo. esquemas de ação. e dos surdos. na medida em que a ciência avança em descobertas e vai alterando o sentido de teorias antes consideradas válidas. em que pesem as diferenças de importância dos aspectos emocionais e relacionais nesse desenvolvimento entre Piaget.rápidas aquisições no domínio da linguagem. Um exemplo é a consideração acerca de algumas deficiências físicas que excluíam e que hoje são plenamente inseridas num contexto de aprendizagem. permanência do objeto. pois ela compreende a assunção de uma perspectiva mais avançada e abrangente. simbolização. Dessa forma. Esses fatores biológicos. para o primeiro. combinatória. e quais são as suas limitações e como podemos superá-las. trazemos agora. operações complexas. Assim. .

tendo a imaginação para essa mediação. por exemplo. Sem dúvida. sujeitando-se às regras. Nos seus termos. que suas próprias investigações chegam a revelar no plano do que concerne à consciência. os seis primeiros anos de vida são significativos para a criança e o porvir adulto. pela imitação de comportamentos e regras do universo adulto. em seus estudos sobre os processos de aquisição da fala e desenvolvimento da linguagem. pelo seu controle. inclusive a da personalidade e da . 16) afirma que o brincar da criança é esse se envolver “num mundo ilusório e imaginário. fantasia corresponde à imaginação. E essa faculdade. A imaginação é um instrumento mental de mediação e de adaptação da criança ao meio com o qual interage. Vygotsky (1991. Mas. ao brincar. é consciente. ditada por motivações que têm origem nos atos de comportamento e suas regras. no brincar infantil. no máximo. não constitui fundamento nessas suas atividades.Educação e saúde 44 Lev Vygotsky (1991). em suas divergências e aproximações. O prazer que a criança experimenta. Essas considerações sugerem maiores aprofundamentos: como as concepções. No entanto. exercendo função no pensamento e na linguagem. característica do brincar da criança e dependente das suas necessidades (aspecto materialista). Por meio da representação de condutas em contextos sociais. Em suma. A hipótese de processos mentais inconscientes. impulsividade do desejo e renúncia a ele. p. essa separação entre imaginação (fantasia) e realidade pode acontecer como ponto de chegada do desenvolvimento dos processos mentais. essa dissociação seria um distúrbio. dos autores que se debruçaram sobre o estudo do desenvolvimento da criança. aludindo a uma categoria de oculto ou de subconsciente nesses processos mentais. um prazer da cognição. Vygotsky se atém ao nível dos processos conscientes. em etapas primordiais. Vygotsky parece pressupor que o prazer engendrado. Vygotsky (1991) admite que. a partir de seus experimentos e observações com crianças. traz contribuições que têm sido significativas para a psicologia cognitiva. vem dessa realização: satisfação de fazer aquilo de que mais gosta. nas reflexões teóricas. se mutuariam. sobre infância. onde os desejos não realizáveis podem ser realizados”. no adulto. pelos aspectos da sexualidade da criança. A brincadeira é a realização de desejos que correspondem às necessidades e às etapas do desenvolvimento mental da criança. e tem a imitação do real como base para sua internalização. está afastada para ele. nas várias dimensões.

O aspecto da socialização. como o desenvolvimento se torna qualitativo e.]. de maneira afetiva e interativa. seu processo de ensino-aprendizagem. entendemos a prática docente como ação política e como ação afetiva e efetiva. E nessa direção. em especial. bem como outros fatores são importantes para pensarmos na relação entre professor-estudante. os conteúdos programáticos que perpassam o cotidiano escolar? Em que medida podemos pensar a dimensão do afeto no processo de ensino-aprendizagem? Nesse sentido. p. na perspectiva da melhoria da qualidade da saúde da criança e dos processos de aprendizagem? Quando falamos sobre a escola. como é possível pensar. Contudo... o de quem não cumpre o seu dever. ou como ela se desenvolve. alguns autores dão pistas para refletirmos sobre o papel da escola no processo de ensino-aprendizagem. Além da . seu cotidiano. como essa qualidade influencia na evolução do desenvolvimento. referido anteriormente. somente pode ser oferecido para o educador infantil como uma espécie de mapa provisório sujeito a intervenções e não como algo estanque e imutável. é atravessado e mediado pelos afetos que se materializam no cotidiano escolar... o de quem não luta por seus direitos e não protesta contra as injustiças? [. o de quem não se prepara ou se organiza para a prática.] Como posso continuar falando em meu respeito ao educando se o testemunho que a ele dou é o da irresponsabilidade. como o trabalho interdisciplinar em educação e saúde pode contribuir para lançar luz à relação entre desenvolvimento e aprendizagem? E como esses princípios teóricos podem fundamentar esta prática interdisciplinar. O aspecto afetivo do desenvolvimento da criança se produz e reproduz na relação que ela estabelece com o outro. relacionando-o ao desenvolvimento psicossocial da criança e à sua dimensão afetiva e cognitiva.Educação e saúde 45 moralidade. Paulo Freire (1998. no tocante à Educação Infantil. a organização de uma série de indicadores para cada idade. considerando os aspectos fisiológicos e biológicos. 73) faz a seguinte análise para pensar a relação entre professor e estudante: [. dialeticamente. Muitas problemáticas científicas são pesquisadas a partir do interesse por descobrir como a criança aprende e como ela avança nesse aprendizado. A questão que se coloca aqui é: como pensar estratégias pedagógicas no processo de ensino-aprendizagem? Enquanto espaço de socialização em que há papéis definidos no discurso burocrático e institucional da escola. Ao trazermos Paulo Freire. Em face das questões apresentadas.

no sentido de que. reinsistir em que não se pense que a prática educativa vivida com afetividade e alegria prescinda da formação científica séria e da clareza política dos educadores ou .. um processo de produção de subjetividade na relação que se estabelece com o outro. é importante situar as relações de outra ordem que as crianças vão produzindo entre e com elas.. como observamos.] por outro lado. culturalmente reconstituídos e desenvolvidos para formar uma nova entidade psicológica. 34). Aqui o processo de internalização. também. São incorporados nesse sistema de comportamento. é poder pensar no desafio de uma interação afetiva e efetiva. ao pensar o processo de internalização das formas culturalmente dadas ao funcionamento psicológico. E. é preciso [. aproximam-se dialeticamente. superar desafios. como é possível estimular todos os afetos e todas as aprendizagens possíveis? Como pensar na formação de professores. na relação com o outro. certamente. se devemos observar também o ritmo e a temporalidade de cada estudante no processo de ensinoaprendizagem? Uma pessoa pode ser expressivamente “afetiva” nesta ou naquela relação e produzir interações potentes no sentido de solucionar problemas. indagamos: “Por que não estabelecer uma necessária ‘intimidade’ entre os saberes curriculares fundamentais aos estudantes e a experiência social que eles têm como indivíduos?” (FREIRE. constitui-se. em uma sala de aula. p. E sobre o papel do professor. Fundamentados nessa dinâmica. Então. nessa direção. Para esse autor. apontamos para a construção de espaços de socialização entre as crianças. à própria formação da consciência. que também se dá pelos afetos? Como afirma Paulo Freire (1998. Vygotsky (2003) enfatiza a abordagem histórico-social que orienta as suas análises para pensar a construção do conhecimento ou do pensamento na criança como uma unidade dinâmica. apresentar resultados que correspondam aos métodos tradicionais do saber e do fazer pedagógicos. necessariamente. 1998. que corresponde. Pensar na complexidade que esses conceitos atravessam. 161). Essa questão tem conexões com o que enfatiza Vygotsky (2003). identificados nos animais. como já mencionado. os processos psicológicos. elas vão aprendendo umas com as outras. Afeto e aprendizagem constituem conceitos que. p. em que são produzidos novos conhecimentos e onde se produz uma cultura. como o professor pode produzir metodologicamente ferramentas outras dentro de um mesmo grupo de estudantes? Como produzir conexões. E. mas não.Educação e saúde 46 sua relação e interação com o adulto. decerto deixam de existir.

Educação e saúde

47

educadoras. A prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço da mudança ou, lamentavelmente, da permanência do hoje.

A escola deve ser entendida, também, pela dimensão cultural que se expressa e se faz na alegria, no amor, no respeito, nos afetos. “[...] A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo de busca. [...]” (FREIRE, 1998, p. 160). Nesse caso, é importante observar alguns aspectos quando pensamos na relação do afeto com a aprendizagem. Primeiro, devemos conceber o estudante como sujeito participante do processo educativo, porquanto é conduzido à curiosidade, à descoberta. Ter consciência de que o educando é um sujeito de direitos e deveres, é ponto fechado. Tomar esse dado como aspecto relevante para pensar a questão da autonomia que atravessa a sala de aula, é pensar nos movimentos de autonomia que o professor pode proporcionar aos seus educandos. Movimentos de autonomia, no sentido de desenvolvermos a capacidade que eles têm de autogovernar-se pela e a partir da interiorização das regras e das prescrições sociais. Segundo Dantas (1992), para Henri Wallon (1984) , a afetividade é componente permanente da ação e, sendo conectada a situações diversas e desafiadoras, soluções inteligentes serão mais facilmente detectadas. Por exemplo, quando o professor interage com seus estudantes afetivamente, certamente o processo de ensino-aprendizagem ganha relevo porque traz resultados significativos que irão caracterizar a aprendizagem. Para Wallon, a dimensão afetiva é o “dorso estrutural” na construção da pessoa e do conhecimento. Afetividade e inteligência, mesmo apresentando funções diferenciadas e determinadas, são inseparáveis no processo de desenvolvimento psicossocial da criança. Entre o aspecto cognitivo e o afetivo, existe oposição e complementaridade. Dependendo da atividade, o afetivo ou o cognitivo prepondera. Não se trata da exclusão de um em relação ao outro, mas sim, de alternâncias em que um submerge para que o outro possa fluir. Nesse sentido, a escola é um espaço fértil, onde essas relações se produzem o tempo todo, na polissemia de diferentes sujeitos. Falar dos afetos e da aprendizagem é falar da dimensão ontológica que constitui o homem que, a partir da sua natureza social, produz-se na relação consigo mesmo e com o outro. E, nesse sentido, é pertinente o que enfatiza Wallon (DANTAS, 1992) quando diz para pensar as emoções como uma questão também ontológica. Sobre a formação do pensamento e da linguagem, na criança,

Educação e saúde

48

ele afirma que o psiquismo é a síntese entre o orgânico e o social. Na educação infantil, entendemos que o comportamento da criança, isto é, a sua atitude se dá no embate de diferentes situações que demandam da criança um modo de operar também pela curiosidade, pela dúvida, pelo desafio. Freire (1998, p. 159), ao situar a sua reflexão sobre ensinar que exige querer bem aos educandos, assinala:
[...] Na verdade, preciso descartar como falsa a separação radical entre seriedade docente e afetividade. Não é certo, sobretudo do ponto de vista democrático, que serei tão melhor professor quanto mais severo, mais frio, mais distante e ‘cinzento’ me ponha nas minhas relações com os alunos, no trato dos objetos cognoscíveis que devo ensinar. A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade.

Ela pertence ao território das emoções, das paixões e dos sentimentos, na complexa e possível relação com a aprendizagem, que se faz e se produz no campo da descoberta, do desafio, da criatividade, ou seja, a aprendizagem, como campo de produção do conhecimento. São processos que se organizam em fenômenos complexos e multifacetados, em que a produção da subjetividade se faz e se refaz na singularidade de cada criança.
[...] O desrespeito à educação, aos educandos, aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em nós, de um lado, a sensibilidade ou a abertura ao bem-querer da própria prática educativa de outro, a alegria necessária ao que-fazer docente (FREIRE, 1998, p. 160-161).

Buscaremos,

a

partir

deste

momento,

abordar

a

relação

entre

o

conhecimento de corpo e o de mundo, vivenciada pelas crianças, e sua relação com a educação infantil em uma perspectiva de reflexão sobre as especificidades da criança, sobretudo, na sua relação com a educação formal. Quando afirmamos que a educação formal começa a partir dos seis anos, estamos nos referindo à Lei 11.274, de 6 de fevereiro de 2006, que altera a redação dos arts. 29, 30 e 32 e 87 da segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), n0. 9394, sancionada e promulgada em 20 de dezembro de 1996, e que dispõe sobre a duração de nove anos para o ensino fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos seis anos de idade. O que seria, então, o conhecimento sobre o corpo? E, em especial, sobre o corpo da criança? E o conhecimento que ela produz sobre o mundo? Como a criança elabora a sua noção de corpo e a que noção de corpo estamos nos referindo?

Educação e saúde

49

Esta discussão está centrada em torno de uma questão que entendemos como chave nessa fase de desenvolvimento psicossocial da criança, e parece estar sendo pouco enfatizada nos debates dos referenciais curriculares que articulam educação e saúde e, expressivamente, nos projetos pedagógicos que contemplam a formação do professor, da professora, em uma abordagem interdisciplinar. E aqui questionamos: quais seriam os eixos centrais para entendermos a educação infantil na sua relação com a Educação e a Saúde, campos importantes para a educação formal? O processo de simbolização do corpo infantil, componente importante na formação do seu psiquismo, atua como instrumento primeiro no desenvolvimento do pensamento e da linguagem da criança no seu diálogo com o mundo. Entendemos que o corpo não se produz apenas fisicamente, ele estabelece conexões a partir de certa ordem moral e simbólica, que constitui essa mesma criança, e que é pertinente a um tipo de sociedade na qual ela está inserida. Segundo Michel Foucault (2002), o corpo é o lugar das inscrições, é a superfície onde são produzidas verdades inscritas pelas práticas históricas e sociais. Resumindo, podemos dizer que, para Foucault, o corpo é um ente, composto por carne, ossos, órgãos e membros, ou seja, matéria, lócus físico e concreto. O corpo é o objeto da expiação, da produção de saber e de poder, que sofre a ação das relações de poder que compõem tecnologias políticas específicas e históricas. Para a teoria psicogenética de Henri Wallon (1975b), o afeto ocupa centralidade tanto do ponto de vista da construção do sujeito quanto do conhecimento. Para o próprio Wallon, o ser humano é geneticamente social, e a sua constituição humana se dá no processo de interação interpessoal e intercultural, cabendo ao corpo papel principal. Em seu ponto de partida, afirma que o longo desenvolvimento que conduz ao pensamento categorial e à personalidade diferenciada são os movimentos reflexos (como é universalmente reconhecido) e os impulsivos. De acordo com Dantas (1992), ter atribuído ênfase a estes últimos é a contribuição original de Wallon. Assim é que a psicogênese da motricidade se confunde com a psicogênese do sujeito. O ato mental da criança se desenvolve a partir do ato motor que se expressa, num primeiro momento, muito mais na sua função cinética – o movimento físico propriamente dito – como mecanismo de ação e expressão, em especial, da criança no mundo. O pensamento como movimento é observado no

Educação e saúde

50

período sensório-motor e se prolonga durante toda a primeira infância, justificando a afirmação de que a criança pensa na ação. No decorrer do desenvolvimento da criança, o ato motor vai cedendo lugar ao movimento tônico, concentrado na postura, pois, com o crescente domínio dos signos culturais, a motricidade, em sua dimensão cinética, tende a se reduzir e se virtualizar em ato mental. Para Dantas (1992), Wallon acredita que a criança pensa com o corpo em seu sentido duplo: com o cérebro e com os músculos. A motricidade do sujeito se inicia pela atuação sobre o meio social para, depois, poder modificar o meio físico. É pela função tônica do movimento, principalmente no seu aspecto de motricidade expressiva da mímica, inteiramente ineficaz, do ponto de vista instrumental – porque não produz modificações diretas no ambiente físico, mas é relevante sobre o meio social – que a criança atua sobre o outro. Essa característica é que lhe permite produzir movimentos de autonomia durante o prolongado período de dependência. A inclusão da etapa impulso-expressivo-emocional (zero a um ano), que antecede a sensório-motora (um a dois anos), elaborada por Henri Wallon, amplia e esclarece a compreensão do caminho do ato em pensamento, indicando que, desde o nascimento, o corpo da criança não é neutro: ele se produz e reproduz nas relações pessoais e culturais, constituindo-se o principal instrumento da criança, em seu diálogo com o mundo social, proporcionando-lhe as trocas simbólicas que produzem culturas e formas de entendimento do seu mundo, em especial, do mundo infantil. Como assinalam La Taille, Oliveira e Dantas (1992, p. 92).
A mediação social está, pois, na base do desenvolvimento: ela é a característica de um ser que Wallon descreve como sendo ‘geneticamente social’, radicalmente dependente dos outros seres para subsistir e se constituir enquanto ser da mesma espécie.

A questão da erotização do corpo infantil também é importante para entendermos o seu desenvolvimento psicossocial. Produzida pelas relações afetivas interpessoais, iniciadas no primeiro ano de vida e enriquecidas pelas novas possibilidades de ação no mundo que o psicossocial traz - de andar, de correr, de ajustar os movimentos e a percepção do conhecimento do mundo – permite que a criança apresente uma postura ativa frente ao mundo, abrindo caminhos para a sua autonomia, a partir da noção de confiança que ela vai estabelecendo exemplo. com o adulto/família, adulto/professor, criança/criança, por

Educação e saúde

51

É através da imaginação em ação que a imaginação se expressa diretamente pelo corpo, na forma de jogo simbólico que a criança, a partir do seu segundo ano de vida, conquista a dimensão simbólica de uma forma de pensamento que lhe proporcionará uma percepção de si, do outro, da cultura. E nessa direção, Soifer (1991) faz uma análise interessante, em uma visão psicanalítica, para pensarmos a dimensão da imaginação, dos afetos, da estética, na formação do psiquismo na criança.
A comunicação forma a essência dos vínculos humanos. O pranto e o esperneio do recém-nascido representam a primeira forma de comunicação e a fonte de todos os motivos morais, já que reclama ajuda de quem pode ajudá-lo, ou seja, de sua mãe (SOIFER, 1991, p. 23).

À medida que a criança aprende – a comer, a caminhar, a falar, a mover objetos, por exemplo – vai diminuindo a sua onipotência. Seu psiquismo organizase, e o seu ego se fortalece. A imaginação surge, na criança, em forma de jogo, instrumento primeiro de pensamento nos desafios do cotidiano que a atravessam. Jogo sensório-motor, que se transforma em jogo simbólico, ampliando as possibilidades de ação e de compreensão do mundo. O conhecimento deixa de estar atado ao aqui e agora, aos limites da mão, da boca e do olho, e o mundo inteiro pode estar presente dentro do pensamento, uma vez que é possível “imaginá-lo”, representá-lo através do simbólico. O brincar, o brinquedo, aparece dentro da tendência à aprendizagem como intermediária entre a fantasia e a realidade. Segundo Soifer (1991), o brinquedo constitui uma atividade que a criança sabe que corresponde à fantasia, mas a ele vai assimilando elementos da realidade, enquanto exercita suas aptidões psicomotoras e sua destreza física. E nesse processo de desenvolvimento da ordem do cognitivo, do afetivo, do estético de um sujeito, a atenção, a percepção, a criatividade, a concentração, a memória não tem referência com a “boa escola”. Antunes (2003), por exemplo, ao analisar a importância dos jogos na sua relação com o processo de ensino-aprendizagem, afirma que não há uma “boa escola”, pois uma aprendizagem significativa não traduz necessariamente aquela escola que possui uma quantidade expressiva de brinquedos caros, e enfatiza, ou mesmo os ditos brinquedos escolares, educativos.
[...] Uma caixa de fósforos, uma lupa e uma fita métrica em mãos de uma verdadeira educadora infantil valem bem mais que uma coleção fantástica de brinquedos eletrônicos que

vão nomeando. 2003. vai. histórico e cultural. do simbólico. 31). na sociedade de consumo. Nesse mundo da imaginação. ao mesmo tempo. e que poderá. p. 86). Atravessa os sete mares em busca do grande tesouro.] (ANTUNES. apropriando-se desse mesmo mundo e. entre tantas infantis: O Pirata O menino brinca de pirata: sua espada é de ouro e sua roupa de prata. E vira outra vez menino. construindo instrumentos de pensamento e de ação sobre e nesse mesmo mundo. instrumento sensível de compreensão do mundo. ainda criança. Nessas reflexões. enfatiza a importância do brincar de faz de conta e a noção da realidade que qualquer criança tem. que possibilitará as pessoas à construção da pertinência do grupo. Essa educação tem seu início nos primeiros anos de vida.Educação e saúde 52 emitem sons e luzes e que. cabendo ao professor um . no seu sentido mais amplo. da identidade pessoal e coletiva e da cidadania. o novo mundo que ele passa a conhecer. aos poucos. de construção de vínculo com outros corpos sensíveis e simbólicos e com o corpo político. entendemos que o processo de escolarização. sendo produzido como um sujeito histórico-social. Para ilustrar essa representação dos símbolos.. roubam espaço à imaginação [. Destacamos que os primeiros dias são fundamentais para a recepção desse novo organismo. cultural. paulatinamente. nos modos de produção do capitalismo. Roseana Murray. em sua obra No mundo da lua.. O menino do poema. Seu navio tem setecentas velas de pano e é o terror do oceano. em qualquer nível de ensino. aos poucos. frente a uma cultura carregada de significados. conhece e estabelece em seu jogo. ser traduzido como a educação do corpo. de produção de sujeitos. ser apreendida pelo novo ser. desde os primeiros anos de vida do recém-nascido. pode. E os adultos favorecem esse processo quando estão presentes e. Mas o tempo passa e ele se cansa de ser pirata. apresentamos a seguinte história. p. por se apresentarem perfeitos demais. segundo Abramovich (1997.

por extensão. e o profissional da Educação Infantil que. O tempo de convivência cotidiana na escola e o tempo que a criança passa durante o período da educação infantil são uma chance para que se estabeleçam formas de alimentação saudável ou maneiras de agir para uma educação alimentar autônoma. principalmente. dos pais/mães/responsáveis. 6 A ESCOLA COMO PROMOTORA DA SAÚDE NUTRICIONAL E BUCAL É com prazer que abordamos uma temática tão instigante e atual. na escola de educação infantil. Na interlocução com as famílias. sobre os cuidados com a educação da criança – o que é específico ao seu desenvolvimento psicossocial – em que a informação assume a sua relevância para educadores e profissionais que lidam direta ou indiretamente com a Educação Infantil. Podem-se perceber. os que são relacionados à nutrição das crianças ou. dizem uma coisa. até mesmo. nas conversas informais. em especial. a instituição de educação infantil estabelece um canal importantíssimo para as questões sociais que fazem parte do contexto da criança. Buscaremos refletir sobre uma compreensão mais ampla do papel da educação alimentar e saúde bucal. inclusive. por sua vez. Ao lidar com a comunidade escolar. por parte da criança e. uma vez que pode adquirir saberes práticos sobre essas famílias. A escola é favorecida por essa interlocução. às vezes. Essa interlocução também propicia o conhecimento profundo sobre os seres humanos que. as condições socioeconômicas dessas famílias. que se incorporam pela e na cultura. e o porte .Educação e saúde 53 olhar mais atento sobre como a criança elabora a noção de corpo e a sua percepção de mundo. pode perceber essas contradições. embora sua expressão não traduza o que dizem. Dois desses aspectos são a nutrição e a educação alimentar. em sua casa ou na escola. Os problemas da comunidade são percebidos por quem trabalha na escola infantil. visto que uma troca verdadeira de saberes se constitui no relacionamento cotidiano da escola com as famílias. promover a educação alimentar entre os adultos que cuidam dela. para que possamos desenvolver um trabalho articulado entre a escola e as famílias para a melhoria da qualidade de vida das crianças e de seu aprendizado. o conhecimento sobre a vida das pessoas se amplia.

arroz. Em relação aos adultos que participam da instituição de Educação Infantil. advindos de dificuldades materiais ou má alimentação nutricional. A partir daí. recorre-se ao/à nutricionista (ou ela/ele mesma/o percebe e entra em contato com o setor competente para essa interlocução) e. uma cultura de que comer somente uma fruta. além de refrigerantes. porém tem sido cada vez mais difícil corrigir essas práticas. uma banana ou uma manga no lanche. com orientações e funções complementares que possam contribuir para os cuidados e a educação que se devem dispensar a ela. em relação à sua educação alimentar e. como bebidas a base de conservantes. biscoitos sem valor nutritivo. Em famílias pobres. viabiliza-se um trabalho de assistência para a melhoria do estado nutricional da criança. Claro que os aspectos econômicos se sobressaem nessa primeira impressão sobre as condições alimentares. é considerado vergonhoso. Mas é preciso saber se a instituição de educação infantil também teria condições de obter informações adicionais: como se dão os hábitos alimentares das famílias? Como as pessoas se alimentam? Quais são os alimentos mais consumidos? Onde as pessoas adquirem alimentos? Essas questões podem parecer fora do contexto da Educação Infantil. por exemplo. pois são alimentos baratos e considerados saborosos pelas crianças. o que podem ou o que não podem comer e. Há. da sua família. com as informações sobre que tipos de alimento a criança e a família vêm consumindo. porém entendemos que não é possível atuar nesse campo sem que tenhamos noções básicas sobre essas distintas realidades das famílias das crianças. principalmente. socialmente. como salgadinhos. podem-se detectar. Apesar de a nutrição não fazer parte diretamente do conteúdo selecionado para a formação de professores para a instituição infantil. também. a alimentação é basicamente feijão.Educação e saúde 54 físico das crianças . problemas de alimentação. As educadoras e educadores tentam evitar esses alimentos. que são os itens mais enviados para o lanche das crianças na creche/escola. pois . estabilizantes. em virtude do apelo econômico. biscoitos recheados e alimentos à base de fritura. por extensão. há possibilidades de se detectarem situações em que a alimentação vem à tona. chocolate. A mídia também é responsável pelo estímulo à alimentação pouco saudável. poucas frutas.acima ou abaixo do peso – denota suas condições de saúde. adoçantes. constatada a situação financeira da família. quando estimula o consumo de itens. alimentos industrializados de baixo valor nutricional. corantes.

a instituição Educação Infantil. Em um determinado patamar. como o saber sobre nutrição. em uma dimensão coletiva. outros saberes passam a fazer parte do seu repertório. estágios em nutrição. é . que conhece bem as crianças. Por outro lado. alimentação saudável. lanches. orientação sobre gêneros alimentícios adequados às necessidades nutricionais e econômicas. pela reflexão teórica que. São costumes que precisam ser invertidos através de uma Educação Infantil preocupada em oferecer uma melhor qualidade no cuidado com a criança. entre outros. A partir da interação entre o nutricionista e os demais professores. sobrepeso e obesidade. ambos aprendem juntos: a professora. elaboração de cardápios.Educação e saúde 55 esse tipo de lanche é comparado com o dos que levam para a escola um iogurte industrializado. o saber do especialista em nutrição colabora com o desenvolvimento do saber da professora ou do professor. delineamento de ações pertinentes à melhoria da qualidade nutricional. Entretanto. orientação e participação junto às famílias. aí. nos momentos de rotina de alimentação. por exemplo. também. refrigerante ou salgadinho. Tais saberes se constituem no diálogo permanente na prática da Educação Infantil. O professor também colabora com o saber da nutricionista. segurança alimentar e nutricional. quais sejam: anamnese alimentar. é preciso destacar a importância dos saberes docentes para a prática pedagógica adequada na Educação Infantil. se produz na e com a prática e em interação constante com os outros. À medida que o profissional da educação infantil se qualifica para atuar na dimensão do educar e do cuidar. pela subjetividade do convívio cotidiano. Eles são construídos pela ação. que trabalhará atividades de estimulação e criação de hábitos para uma boa alimentação. deve promover intervenção educativa para inverter esses valores alimentares em busca de uma alimentação saudável. Elencamos. incluindo-se. cultura culinária. pois dispõe para ele informações acerca dos hábitos da criança. os hábitos alimentares. e a/o nutricionista que conhece bem a criança nos aspectos especializados de suas necessidades nutricionais e sua cultura alimentar. no espaço da escola. algumas atitudes do nutricionista e que consideramos importantes para uma qualidade melhor de vida das crianças em idade escolar. na relação família-escola-comunidade e nas discussões acerca do conhecimento dessas áreas específicas. aqui. com embalagem colorida e sabor diferente. com avaliação nutricional permanente. E nesse sentido. supervisão dos lanches diários. atendimento dietoterápico. avaliação de peso.

O professor atua melhor ainda quando incorpora os conhecimentos do nutricionista nas suas atividades com as crianças. para a saúde e para o crescimento pode e deve ser um assunto a ser tratado com as crianças. .. 2005. Diante disso. Além disso. Isso pode acontecer através de jogos. do nutricionista. atividades em grupo e individuais ou para tecer uma teia de comunicação entre aspectos sociais. do técnico. ambos os saberes colaboram para a atenção integral à criança na creche e na pré-escola. os maus hábitos alimentares e a dieta se coadunam com aspectos da saúde bucal: sociais. atuando como parceiros dos profissionais da saúde. Nenhum desses dois profissionais pode desqualificar o saber do outro. promover a construção de uma discussão reflexiva sobre parâmetros relacionados às condições de saúde bucal. a partir de um entendimento mais ampliado de conceitos e causas das enfermidades que acometem a boca. econômicos. E nessa relação possível. entre outros.. BRASIL. 1990). propiciando a prática da intersetorialidade. é imprescindível que professores e estudantes do magistério possam colaborar com as práticas de saúde. como hábitos de higiene bucal e dieta. culturais e históricos que estão presentes na maneira de nos alimentarmos e de nos relacionarmos com a produção dos alimentos. o Sistema Único de Saúde (SUS) (FERREIRA et al. Esse tema é pertinente ao se considerar que o ambiente escolar se constitui importante cenário para práticas que visem à construção de atores ativos e responsáveis pela aquisição e a busca de práticas saudáveis. Alguns autores retratam que a escola é um ambiente propício para o desenvolvimento de programas de saúde. conhecer os alimentos. pelo fato de seu constante convívio com escolares contribuir para o desenvolvimento tanto de orientação quanto aos cuidados com a saúde bucal. Assim. regionais. que resultem em melhor qualidade de vida. saber sua importância para a vida. quando o saber do especialista em nutrição passa à centralidade da prática docente. quase que havendo uma substituição do saber docente pelo saber do especialista. também. que são formados na infância (ALMAS et al. de forma lúdica e prazerosa. Afinal. é necessário. já que agrupa crianças em idades que favorecem a assimilação de medidas preventivas.Educação e saúde 56 preciso refletir sobre o lugar de poder dessas práticas na educação infantil. brincadeiras. como preconizam as diretrizes do sistema de saúde vigentes em nosso país. 2003).

de sobrevivência dos indivíduos.Educação e saúde 57 Não pretendemos. sem incorporação de um sistema de planejamento e avaliação das ações. entre outros. Podemos ainda. resultado de uma falta de investimento nas políticas públicas voltadas para o setor. A boca é uma região do corpo que compõe o aparelho estomatognático. fornecer um “guia” para boas práticas de saúde bucal no espaço escolar. percebe-se que a boca é imprescindível para o processo de nutrição e. Essa política não rendeu bons resultados na medida em que tinha um caráter excludente (exclusivo para escolares) e assistemático. o país conviveu com uma política de assistência odontológica para os escolares. Para se ter uma ideia. porque . O levantamento realizado revelou que quase 27% das crianças de 18 a 36 meses apresentam. Considerando o grave problema de saúde bucal encontrado no país e ainda a perspectiva de atuação de educadores infantis. já que não existem bons programas de promoção de saúde que considerem as características particulares de cada região/local. no ano de 2003. sendo os piores resultados encontrados nas Regiões Norte e Nordeste do país. no Brasil. destacar que a boca é um importante veículo de comunicação entre os indivíduos. que preconizavam atendimento dentro do ambiente escolar. consequentemente. Esse dado corrobora com as informações obtidas a partir da realização do último levantamento epidemiológico no país. sociais e econômicos devem ser considerados quando da elaboração de propostas que visem contribuir para a promoção de práticas saudáveis. um dente decíduo (dente de leite) com experiência de cárie dentária. periodonto e osso alveolar). ainda podemos observar alarmantes valores para os índices de saúde bucal. a partir dos esforços mastigatórios exercidos pelos dentes e seu tecido de sustentação (gengivas. Atualmente. baseada em concepções norteamericanas. fatores culturais. podemos iniciar a reflexão acerca do assunto. para avaliar as condições de saúde bucal. Assim. convivemos com políticas excludentes e desconectadas da realidade brasileira. aqui. sendo que a proporção chega a quase 60% das crianças de cinco anos de idade. Por muito tempo. ação de enzimas digestivas presentes na saliva. pelo menos. conhecida pela implantação das Clínicas Dentárias Escolares. tomando como ponto de partida a importância que a boca exerce no organismo e na vida das pessoas. ação sensorial envolvida com a percepção do sabor dos alimentos. Assim. responsável pelos processos de digestão dos alimentos.

incluindo essa prática no seu cotidiano. recomenda a realização de movimentos circulares nas superfícies vestibulares (parte da frente) dos dentes. é imprescindível a prática da limpeza dos dentes. para a manutenção da saúde bucal. crianças menores de cinco anos de idade exigem a presença de um supervisor ou uma supervisora. Nesse contexto. Uma técnica de escovação indicada para crianças. hábitos de higiene insatisfatórios e dieta rica em açúcares (carboidratos). para prevenir a ingestão de flúor e garantir uma correta técnica de escovação. Para a escovação diária. Botazzo (2006). recorre ao termo bucalidade para expressar um arranjo teórico-metodológico que contempla os trabalhos bucais identificados como manducação. A escola pode e deve responsabilizar-se pela disseminação das técnicas corretas de escovação dentária. vai e vem nas superfícies oclusais . linguagem e erotismo. É sabido que. pode causar problemas indesejáveis. A cárie dentária e a doença periodontal (afecção que acomete a gengiva e os tecidos de sustentação dos dentes) são os principais problemas de saúde bucal da população brasileira. conhecida como técnica de Fones. autor contemporâneo. Porém. Esse conceito ampliado coloca em xeque as práticas clínicas tradicionais pautadas em ideias reducionistas e voltadas para o interesse mercadológico.Educação e saúde 58 participa dos processos de construção das palavras (fonação) e das relações interpessoais. considerando-se o sorriso como forma de expressão de sentimentos. de afeto. São doenças que têm etiologia multifatorial. a partir da utilização da escova e de cremes dentais. percebe-se a necessidade de se reunirem saberes e práticas voltadas para a construção de atos e percepções acerca da saúde bucal por todos os atores envolvidos nessa busca incessante pela valorização da qualidade de vida das pessoas. com a presença de microrganismos. Esses fatores são modulados pelas condições socioeconômicas e culturais. Assim. de higiene. definidos. como consumo do mundo para sobrevivência no plano natural. é importante a utilização de uma escova dentária e uma pequena quantidade de creme dental. como manchas nos dentes permanentes ainda em formação. é fundamental que se utilize a técnica correta de escovação para que haja efetiva limpeza. de linguagem. já que este contém flúor e. respectivamente. quando ingerido em grande quantidade por crianças. como produção e consumo de palavras e como relação amorosa e produção de atos bucais sexuais.

é preciso partilhar novos saberes e práticas saudáveis que atravessam o fazer e o saber pedagógico. como as “raspas de juá”. considerando aspectos relacionados à alimentação saudável e saúde bucal. hipertensão e diabetes. Outros fatores estão relacionados à manutenção da saúde bucal: a) Estimular a amamentação natural (no peito) favorece um bom desenvolvimento das arcadas e da face. e nas voltadas para a língua. b) Trabalhar na perspectiva da prevenção do uso do tabaco e do álcool. prevenindo futuros problemas oclusais (desalinhamento dos dentes na arcada). Diante do que foi exposto neste texto. além de causarem problemas de obesidade. 7 SEXUALIDADES NA EDUCAÇÃO INFANTIL E O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO E DA LINGUAGEM . Assim. que têm eficácia comprovada na remoção do biofilme dentário (placa bacteriana). como já abordamos. são utilizados outros recursos para a higienização da cavidade bucal.Educação e saúde 59 (responsáveis pela mastigação e trituração dos alimentos) e movimentos da gengiva para a ponta do dente nas superfícies voltadas para o palato (céu da boca). fatores culturais devem ser considerados durante o processo de planejamento e execução de atividades voltadas para prevenção em saúde bucal. Devemos considerar que. onde educador e estudante interagem. A dieta. Os açúcares consumidos em grande quantidade e com frequência. em algumas áreas rurais. já que esses são fatores de risco para o desenvolvimento de câncer bucal na vida adulta. promover políticas que visem práticas de alimentação saudáveis é fundamental para a conquista de uma condição de saúde bucal satisfatória. ocorrem no ambiente escolar em decorrência das brincadeiras agressivas praticadas geralmente por meninos. Nesse campo de atuação potente. verificam-se várias possibilidades de estar mais preparado para atuar na educação infantil. responsável direto pelo aparecimento das principais doenças da boca. c) Estar atento às possíveis ocorrências de fraturas dentárias que. podem servir como fonte de energia para os microrganismos envolvidos com os processos de cárie dentária. nos dentes superiores. Como já relatado. comumente. também tem importante participação no processo de iniciação e desenvolvimento das principais doenças bucais. nos dentes inferiores.

Educação e saúde 60 Em que medida da podemos na situar de a discussão Educação da sexualidade na aprendizagem criança. de que ela é natural. quando esses temas são tratados na escola? Refletir sobre a sexualidade infantil. pela repetição (retorno e reprodução simbólica) e pelo complexo de castração. sobretudo. Foucault. esta última sem representação. a sexualidade não acontece no registro do biológico. Benjamin. são representações abstratas da ordem do afeto e do excesso e se classificam como pulsão de vida e pulsão de morte. através da qual se penetra no mundo da linguagem e do pensamento. escola Infantil? Sentimo-nos preparados para lidar com essa dimensão humana presente nas atitudes. que consideramos mais pertinente para a produção de um conhecimento acerca da sexualidade infantil. Autores e autoras. uma frase notória de Freud). Essa afirmação lacaniana (o ensaio de Lacan é A significação do falo) traz três sintagmas. e. sobre a sexualidade infantil. exige-nos uma mudança de perspectiva. nos comportamentos e na linguagem das crianças? Como dialogamos com as famílias sobre sexualidade e. como Freud. objeto e destino das pulsões. instaurada pelo poder paterno. e que faz do sexo biológico uma marca objetiva e subjetiva na criança (menino ou menina). Kristeva e Buttler são referências fundamentais para pensarmos a sexualidade nesse recorte. por conseguinte. adotando o binarismo sexual como lógica de existência. cujos significados precisamos nos deter para desenvolver aqui uma brevíssima reflexão sobre as raízes teóricas da sexualidade na Psicanálise. Lacan. O segundo passo é considerar a emergência do gênero social binário e da sexualidade polimorfa como categorias de análise das condições concretas das crianças. retirar a sexualidade do registro do biológico para o da cultura. seus percursos e processos. que retira do sexo o domínio predominante da sexualidade e a coloca na perspectiva do entrelaçamento entre pensamento e linguagem. mas no registro corporal somático e simbólico de um corpo. Klein. por sua vez. elaborar uma problematização da falsa ideia. a sexualidade se constitui pela fantasia (“não acredito mais em minha histeria”. Para a Psicanálise. Originariamente perverso-polimorfa. Vygotsky. Pelo complexo de castração. a criança passa a se identificar com o seu próprio sexo. O primeiro passo para essa reflexão é reconhecer o caráter de fabricação presente na ideia de castração da criança. As pulsões. Por fim. com o . na cultura. no contexto de creche. como imagem e linguagem.

por meio da educação. O plano de investigação proposto e que trazemos para a discussão compreende os eixos da sexualidade. p. a teoria queer. que faz sentido para quem incorpora. fez a virada da sexualidade para o político e para o campo do poder. os indícios dos seguintes processos: fantasia. como hipótese. Esse processo é mediado pela linguagem. sempre analisando a cultura face às tradições e modernidades que dialogam entre si. a criança fálica do final do século XIX. O próprio sexo é a construção de uma imagem corporal física e objetiva. a nosso ver. pelos símbolos e pelo real. o debate ideológico sobre a sexualidade humana. A identificação é um processo de incorporação de significados. que se transforma em esquema mental subjetivo/objetivo de estar no mundo. que pergunta: como ficam os corpos e as subjetividades que não se enquadrariam nesse esquema binário do sexo/gênero? Como autora que tematiza essa questão. na infância. ou seja. 135) faz. por sua vez. na nossa discussão. o ponto de . Vai. A criança não é qualquer criança. de: criança. E é na infância onde estão as origens. como a ruptura (ex)cêntrica com o discurso normativo que a constitui como norma educada e. no mesmo lance. repetição/imitação e redundância. Foucault. 1981). A partir do que foi dito aqui. então. buscar. de seu gênero homem ou mulher (unidade sintética). Portanto. instaura na cultura. identificação e sexo. Freud (1996. nos vários âmbitos sociais em que as crianças e os adultos circulam. que perdura até hoje se aperfeiçoando teórica e empiricamente (ARIÈS. Muitos outros estudiosos tomaram a sexualidade como objeto de pensamento e sobre ela fizeram filosofia.Educação e saúde 61 aporte da linguística para compreensão. Assim. do pensamento e da linguagem. a pergunta: “De onde os escritores criativos retiram o material de sua escrita e como esses materiais conseguem nos provocar emoções?”. enquanto aprendizagem da sexualidade. no ponto em que estamos. importa-nos considerar a sexualidade como um objeto de investigação contínua em nossas práticas cotidianas na escola de Educação Infantil. mas a criança nascida com a psicanálise. articulados e identificados no contexto da relação família-escola e na relação criança-criança e adulto-criança. inicialmente. Guacira Louro (1997) traz para a Pedagogia a noção de pedagogia queer. encontramos. os fundamentos e as predisposições do edifício da teoria psicanalítica. introduzimos. como o Marquês de Sade ou Simone de Beauvoir.

o medo. a antítese do brincar é o real. Em relação à redundância.. a brincadeira da fala. A criança faz uma demonstração da sua brincadeira. [. a graça. p. pois são eivadas de desejos infantis e proibidos. As brincadeiras são marcadas pelas experiências e pelo confronto com as gerações anteriores (os adultos). já que ele escolhe e dá. igualmente. também. em primeiro lugar. na brincadeira.. esclarecendo que. nos enunciados que se revelam quando redundantes. No seu texto dedicado ao brinquedo e à brincadeira da criança.Educação e saúde 62 partida para a investigação dessa atividade imaginativa que é comum a todos. reminiscentes. 508). os chistes e os jogos de palavra. nessa relação. nos adultos. as restrições impostas na escolha das unidades e de suas combinações. se expressa formalmente em outro nível – o da escrita. É baseada na sua descrição que acentuamos a ocorrência da redundância na expressão da sexualidade na linguagem da criança e do adulto. o obsceno. a garantia de felicidade. de Dubois (1993. 1996). a poesia. traz o verbete redundância. o brinquedo é uma confrontação. a inibição. e o melhor exemplo desse tipo de linguagem são os sonhos. a brincadeira é a verdadeira experiência infantil. o brinquedo à criança (BENJAMIN. são a busca da verdade e do prazer. os “jogos de fala”. Os adultos se impõem uma censura e uma vergonha em revelá-los.] em todos os níveis. na medida em que liga “seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real” (FREUD. Walter Benjamin (1996) comenta a relação da criança com o brincar e observa que. Segundo Freud. No final da história. Os desejos dos adultos são irreveláveis porque infantis. Além de ser. mas que. o Dicionário de Linguística. a relação com a família. . principalmente do adulto com a criança. sua causa essencial. A linguagem do desejo se assemelha a uma linguagem livre da necessidade de comunicar algo. suas relações – em uma palavra. as fantasias são ocultadas. Os símbolos podem ser combinados em plena liberdade. a ausência de dor. conforme o desejo único de ser adulto. 135) pela representação. A criança cria com a realidade uma conexão por meio da tangibilidade. na atividade da criança. mesmo. nos escritores criativos. Por exemplo. p. 1996. a organização da língua em estrutura – constituem uma causa da redundância e representam.

O primeiro se destina ao ensino fundamental. ainda). de hierarquias e de desigualdades a partir e no interior da instituição e das posições de seus agentes sociais. com repercussões. na reflexão sobre a prática educativa. Os processos acima indicados são sugestões de caminhos possíveis para a compreensão do fenômeno da sexualidade infantil no contexto de creche. indicam a complexidade na qual está inserida a sexualidade no contexto de creche ou pré-escola. para o bem e sua perpétua continuidade. na proteção aos direitos humanos à infância. As relações de gênero ou roteiros de gênero que também são construídos nesse espaço de convivência são bastante importantes para a socialização da criança pequena e encontram. Além disso. as próprias representações e práticas no cotidiano da escola infantil. Porém. uma possibilidade de transformação das formas de silenciamento.Educação e saúde 63 ausência do mal. necessariamente. desde as séries iniciais. é importante ressaltar que. Muitas outras leituras são necessárias para que possamos estabelecer uma formação consistente nessa temática. Dois documentos do Ministério da Educação trazem para o currículo as dimensões de sexualidade e de gênero: os Parâmetros Curriculares Nacionais e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Não pretendemos esgotar o assunto. mas demos algumas pistas. Através do rapto do simbólico pelo laço da redundância. Nas escolas de educação infantil. pode-se aduzir uma “interpretação” do que está sendo dito: a própria sexualidade infantil que parece “falar” no verso do enunciado. por se tratar de um aspecto que envolve. os professores observam as manifestações da sexualidade das crianças e tomam contato com as várias formas de pensamento presentes nas famílias acerca do assunto. e o segundo está voltado para os estabelecimentos que caracterizam a educação infantil como atendimento às . esse é um assunto que se destaca no cenário da Educação Infantil. Ainda hoje é presente entre adultos educadores o discurso do tabu para se referir às questões da sexualidade infantil e da sexualidade de maneira geral no comportamento sexual e social. cada vez mais. desde a presença e da atuação dos professores até as interações estabelecidas entre adultos e crianças e crianças-crianças. inclusive. O silenciamento é o paradoxo de uma voz que precisa ser pronunciada e ouvida pelos agentes escolares: a das crianças ou infans (aquele que não fala. a nossa cultura contemporânea e a relação família-escola.

Permanece incipiente essa produção. especificamente. e tanto as investigações sobre a infância em contexto de creche quanto sobre a pedagogia da infância têm aumentado no Brasil progressivamente. transformase em campo de pesquisa. Dentre eles. em contextos escolares nos quais as crianças passam muitas horas diárias. destaca-se o trabalho de Müller (2005). Esse aumento está atrelado à maior oferta de serviço de creche oferecido pelo estado brasileiro. ao enfoque da criança pequena. Precisam de um lugar onde deixar seus filhos e filhas enquanto estão no trabalho. de fato. para atender a qualquer criança. após o final dos anos 90. além de ser campo de atuação profissional. As propostas dos PCNs e do RCNEI têm causado impacto na educação infantil? Elas articulam. mais recentemente. com a dificuldade que muitas ainda têm para refletir e compreender criticamente a construção de sua própria sexualidade e gênero. investigações sobre a realidade concreta. de qualquer modelo social de família. porém tende a crescer. em diálogo com a família e com os contextos culturais e sociais onde suas atuações estão inseridas. trazem novas contribuições para as reflexões teóricas e metodológicas em relação aos estudos sobre a infância. que perpassa todo o currículo? Como a sexualidade se articula com a educação e a saúde? A educação infantil. como se evidencia pela própria evolução da quantidade de trabalhos de pesquisa nesse campo e pelos problemas advindos da falta de preparo das professoras e dos professores para lidarem com a questão. sobre a temática das relações de gênero e infância. pois esse tem se tornado um tema relevante para a educação. especialmente sobre a temática de sexualidade e de gênero no cotidiano escolar e na interação escolafamília. que frequenta instituições de educação infantil. com maior intensidade e regularidade. os quais se debruçam sobre a temática da sexualidade e. inclusive. por direito fundamental à educação. uma nova maneira de tratar dessas questões no espaço escolar e educativo? O que trazem como proposta esses documentos curriculares? Qual a transversalidade esperada nesses assuntos. Ou seja. Levantamentos têm sido feitos para visibilizar e acompanhar essa produção. a partir de reivindicações de mulheres das classes trabalhadoras.Educação e saúde 64 crianças entre zero e seis anos. . que necessitam de um espaço alternativo para a família e a casa parental. também. mas. Buscamos acompanhar a produção de trabalhos que se dedicam.

possivelmente vivida pela criança. muito se tem avançado em termos teóricos e no campo da ação social. conduzindo a interpretações de condutas infantis para o campo da perversão. conectadas com o desenvolvimento da . pode se tornar um empecilho para educadores e educadoras superarem as visões estreitas de sexualidade. de meia parede. próprias das casas de conjuntos habitacionais populares. No entanto. da sensualidade. amplamente divulgados na nossa sociedade. anal e fálica. seja através da visão igualmente interessada dos mesmos atos na televisão ou em revistas ou filmes de pornografia ou eróticos. na formação de educadoras/es para crianças de zero a seis anos. a operacionalização de uma conduta preconceituosa classificatória desse tipo de situação. Deixemos de lado os falsos pudores e moralismos burgueses que mais oprimem as classes populares do que nos ajudam a compreender o fenômeno do prazer.Educação e saúde 65 Na abordagem científica e cultural sobre a sexualidade humana. seja por meio de experiências concretas. haja vista o entendimento de que a criança não pode nem deve ter contato com essa carnalidade do ato sexual. as repetições. Uma das consequências dessa visão distorcida do erotismo é a construção da ideia de que os pais que transam sob a proximidade física de seus filhos estão prejudicando a sua construção sexual. também favorecem o mesmo tipo de situação. da visão ou da audição do ato constituído pelos adultos/pai/mãe. da carnalidade e do erotismo à luz das nossas pretensões políticas contemporâneas de igualdade. apesar da separação dos cômodos em “quartos”. ainda paira sobre as nossas cabeças uma versão da teoria freudiana – a psicanálise – extremamente basal: as noções de fases de desenvolvimento da sexualidade em: oral. As construções sem forro. por exemplo: mamar no seio ou usar chupeta “além da fase oral”. muitas famílias de classes populares têm que dividir apenas um cômodo para a moradia de um casal com a sua prole. podemos verificar que. Esse pensamento preconceituoso induz a uma avaliação das condutas parentais e da situação peculiar nas quais as crianças vivem e ignoram outras faces dos processos de construção da sexualidade: as fantasias. Ora. as redundâncias. em prol mesmo de uma constituição sexual e as significações. No espaço da educação infantil. se houver indícios para enquadramento em qualquer uma dessas fases em idade inadequada. as imitações. as simbolizações linguagem.

que também é uma forma de sedução praticada com vistas a se construírem representações de mundo no infans (aquele que não fala) e que se desdobra em condutas de aconchego e substituição do seio materno. Há. um estado de vulnerabilidade. porém. Temor idêntico não se passa às mulheres. derivando para a pedofilia. tocar. a maternagem e o erotismo. Somos todos televisionados nessa nossa . pode também representar. A televisão é. ou. na vida cotidiana. na ingenuidade infantil e na ausência de experiências. induzidas a um comportamento maternal. às vezes. damos destaque à ética da responsabilidade dos adultos que trabalham na Educação Infantil. eventualmente. um equipamento de comunicação que está presente nas casas das pessoas de forma massiva. Percebemos que elas interagem com essas cenas e perguntamos: qual a natureza da “atração pelo mal” nas crianças? A resposta é que ela não percebe o mal da mesma maneira que o adulto. A proximidade de corpos e mentes plurietárias na escola infantil. Isso põe também em xeque as consequências para o projeto de uma educação que não traga temores ao ofício de exercer. podemos sentir revolta e indignação. como participantes ativas. pois há de se pensar o que fará o homem ao conduzir uma menina ao banheiro para fazer xixi e. nesse contexto. Não é apenas coincidência que recai sobre os homens a pecha de perigosos nesse cenário da educação infantil. Devemos indagar se nossa formação de educadores não está longe de ascender a uma ética do cuidado que pode promover a junção de corpos de maneira mais saudável e menos comprometida com visões da cultura dominante. e do apelo extremamente estimulante do contato lúdico entre esses corpos. tendo crianças como assistência interessada. conjuntamente. de obscurantismo e de atavismos nessa ótica. educadoras e educadores. vemos. e quando mostra cenas de violência.Educação e saúde 66 mais plural e socialmente mais libertária. por exemplo. Nesse sentido. nós somos os responsáveis por isso. e não de ser servida eroticamente. a adulta. a porta aberta para a promiscuidade ou para a prática de perversões. Há muito de ignorância. provavelmente por nós termos nos acostumado apenas à ideia de servir. as suas partes sexuais. para higienizar. o que inclui a sua própria sexualidade. com crianças. e precisamos descartá-la. sentem-se duplamente implicadas no amor materno e no amor pedagógico. as mulheres. Por outro lado. cenas cruéis. para pais/mães desinformados. Por outro lado.

nas creches e pré-escolas. privado é do domínio feminino. objetivamente as taxas de mortalidade materna. no ano 2000. a sociedade se organiza tal e qual: o espaço doméstico. Usualmente se concebem homem e mulher como polos opostos. É interessante pensar nisso na perspectiva da própria socialização da criança. necessárias à constituição da própria identidade da mulher e à sua plena realização como sujeito: para ser uma mulher completa. nas regiões do mundo em desenvolvimento . podem ser identificadas a manutenção e a perpetuação da representação da gravidez e da maternidade como algo inerente à natureza feminina. as tarefas de cuidar (do marido. neste trecho. Ela exerce esse hipnotismo necessário para vender os produtos nessa mesma sociedade. que se relacionam dentro de uma lógica invariável de dominação-submissão. patriarcal e de classe e se aprofundam as desigualdades sociais e de gênero. inclusive do consumo. que as mulheres se autopunem. Por extensão. em que a televisão é um fetiche. de outro. Seguindo a discussão sobre sexualidade humana. Ao longo da história. Ao homem. a contracepção. num infinito sentimento de culpa. fundada na lei natural de que a conjugalidade prevê a união para a procriação. de um lado. as mulheres não têm o acesso universal aos cuidados médicos. do lar). seria necessário ser mãe. pois esse também é mais ou menos facilitado conforme a inserção social dos indivíduos. a exterioridade. os papéis do homem e da mulher são nosso tema em relevo. o marido provedor. quando fracassam nos papéis positivados socialmente de esposa e de mãe. a gravidez e a amamentação como responsabilidades femininas (por exemplo. no cotidiano da vida. é uma tarefa destinada às mulheres). muitas vezes ouvimos: isto é papel de homem? Aqui.Educação e saúde 67 cultura. Refletiremos e desvelaremos as razões que levam a sociedade a pautar o que compete ao gênero masculino e ao feminino. Há uma visão hegemônica cristalizada que naturaliza o matrimônio como uma instituição divina. dos filhos. cuidar. As diferenças entre classes e raças/etnias expressam claramente os processos de exclusão (e eugenia). Assim se mantém a hegemonia masculina. Apesar de todas as profundas marcas subjetivas que esse código social dominante pode provocar em mulheres e homens. o social e o público. interno. Mesmo tendo o corpo e a sexualidade profundamente medicalizados. Assim. Esse é o código social referendado e já tão introjetado nos sujeitos como “natural”.

A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento. a saúde. Ampliar o acesso aos meios para a regulação da fecundidade e as informações sobre os métodos disponíveis de planejamento familiar seria o caminho para assegurar um dos elementos fundamentais do conceito de saúde reprodutiva: que as pessoas possam. inclusive. ao contrário. é ainda minoritária a compreensão que essa democratização da informação cria . ou persegue. As mulheres negras são as mais afetadas. que a socialização das informações sobre métodos contraceptivos entre adolescentes e jovens é estímulo a uma prática sexual precoce e. a reprodução e a sexualidade. naturalizado como fim da vida reprodutiva. A mortalidade materna é um indicador do grau de desenvolvimento de uma sociedade e pode revelar dificuldades de acesso a serviços de saúde de boa qualidade. são os marcos históricos que pautam o debate contemporâneo sobre a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos. em todo o mundo. negativamente. de 1995. alicerçado nos princípios da integralidade da vida e da saúde.000 nascidos vivos). formando sujeitos numa estrutura sexista binária rígida dicotomizada. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que apenas 5% das mulheres. na equidade de gênero e no entendimento da reprodução e da sexualidade como processos relacionais. que morreram vítimas de complicações ligadas à maternidade. viviam em países desenvolvidos. por um processo de esterilização cirúrgica.Educação e saúde 68 (440/100. além de precárias condições socioeconômicas. A escola está inserida nesse processo. supondo dois universos opostos: o masculino e o feminino? A ação educativa em saúde reprodutiva volta-se para ambos os sexos. baixo grau de informação e escolaridade e violência na família. e a IV Conferência Internacional sobre a Mulher. foram 20 vezes maiores que nas regiões desenvolvidas (20/100. decidir sobre quando e quantos filhos tenham e regular sua fecundidade por meio de métodos anticoncepcionais em vez de esterilização. promovendo esses valores. de 1994. promovendo a apreensão do planejamento familiar como responsabilidade de homens e de mulheres (ninguém engravida sozinha!) ou visa somente às mulheres? Ainda é frequente ouvirmos. Essa “agenda internacional” promove a participação da sociedade em práticas de controle social e participação criativa e comprometida com a efetivação das políticas sociais. de fato. Essas políticas devem ser favoráveis à superação das desigualdades. a vida. entre educadores (e pais/mães).000 nascidos vivos). das discriminações e dos preconceitos que afetam.

mas. considerando que pais. Por isso é importante que este consulte um profissional de saúde. ambos devem procurar tratamento. só um deles apresentou sinais. excesso de umidade ou mesmo falta de cuidado com as roupas ou com a higiene pessoal. Isso é normal. intestinos e órgãos sexuais também). observa-se que o espaço escolar infantil deve priorizar o debate em torno dessa problemática. porém. às vezes. à cooperação e ao multiculturalismo. Portanto. Portanto. boca. antes de tudo. Muitas DSTs são assintomáticas. estômago. alguns fatores fazem com que essas bactérias e fungos se multipliquem e causem doenças. toquemos o nosso corpo e descubramos cada pedacinho dele. nesses casos. Para começar. talvez. à tolerância. Esses fatores podem decorrer de dificuldades de defesa do organismo. Amar seu corpo. o casal está com uma DST. Na discussão da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. . o sujeito pode estar com a doença e não saber. surge logo o medo de traição. anal ou vaginal) sem uso de preservativo. por exemplo: através de transfusão com sangue contaminado ou na amamentação. Como seria operar na educação e na saúde a partir de uma ética que poderia permitir que crianças e jovens discursassem sobre a multiplicidade de gêneros e de sexualidades? Caminhar em direção ao bem-estar social. Todos nós temos bactérias e fungos espalhados pelo corpo (pele. Nesse caso. em que a noção de equidade se refira à inclusão e vislumbre a dimensão transversal de gêneros. estudantes e profissionais da educação podem conviver com esse tipo de doença. As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) também são conhecidas como doenças venéreas ou doenças do mundo. não apresentam sinais de que a pessoa possa estar com elas. Isso é válido para homens e mulheres. pelo menos uma vez por ano. é preciso conhecermos melhor nosso corpo e cuidarmos dele para evitar essas doenças. Às vezes. Elas também podem ser transmitidas por outras vias. seja um dos caminhos possíveis para a instalação de um direito reprodutivo real. Isso nem sempre é verdade. pois quem está sem sintoma pode pensar que não tem a doença e que o/a parceiro/a ficou doente porque a/o traiu com outra pessoa. nem sempre através da relação sexual.Educação e saúde 69 oportunidades para uma prática sexual protegida e responsável. é necessário que nos olhemos no espelho. Dizemos que é uma DST porque a forma mais comum de transmissão dessas doenças é através do sexo (oral. ou seja. e fazer todos os exames.

mas podem . tentamos fugir desse tema por medo de abordar assuntos correlatos como a morte e a sexualidade com as crianças. institucional e social. são relativamente recentes e estão relacionadas ao esforço de superação das práticas preventivas apoiadas no conceito de risco. cerca de 12 milhões de casos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) ocorrem no Brasil. no qual saúde e doença ganham sentido. dado o conjunto formado por certas características individuais e sociais do seu cotidiano. 70% procurarão tratamento apenas nas farmácias. adultos. Das pessoas enfermas. A aplicação desse conceito não visa distinguir aqueles que têm alguma chance de se expor à Aids.Educação e saúde 70 Desde muito pequenas. Muitas vezes. Outro dado preocupante é o crescimento da Aids entre as adolescentes na faixa de 13 a 19 anos – e da gravidez precoce – e o aumento do consumo de drogas entre os jovens. devemos buscar o diálogo e a conversa com outras pessoas sobre o assunto: as doenças sexualmente transmissíveis e. entretanto. As pessoas não são. foge das pessoas com Aids. mas fornecer elementos para avaliar objetivamente as diferentes chances que todo e qualquer indivíduo tem de se infectar. são objetos de pena. para o mundo dos “sujeitos em relação”. vulneráveis. crianças soropositivas se dão conta de que vivem numa sociedade que. em si. Assim. A subnotificação é um problema. A construção e a aplicação do conceito de vulnerabilidade. em particular. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). julgadas relevantes para a maior exposição ou menor chance de proteção diante do problema. tentando se esquivar da Aids. Visando ampliar horizontes para construir ações preventivas que possam trazer a saúde – assim como a possibilidade de adoecer – para o campo da vida real. Quando não são vítimas de preconceito. Provavelmente é essa a área onde o desafio da intersetorialidade Educação e Saúde se coloca de forma mais pungente (e urgente!). A pandemia. por ano. embora a média de casos notificados (procedimento não compulsório) fique muito abaixo dessa marca (algo em torno de 200 mil notificações). considerando-se a gravidade que essas doenças podem assumir e a vulnerabilidade que seus portadores passam a ter em relação a outras DSTs (inclusive a Aids). que têm curiosidade de compreender a Aids. a Aids. também envolve crianças soronegativas. nós. no campo da saúde. a vulnerabilidade às DST/HIV/Aids é analisada a partir de três eixos interligados: pessoal.

em diferentes momentos de suas vidas. culturais. Quando se fala de Aids. de cifras. pelo menos. ou não admitem ao trabalho pessoas portadoras do vírus. como os profissionais do sexo. São cerca de 33 mil casos novos por ano. e 85% dos municípios apresentam. Para enfrentar essa discussão. Nossa taxa de mortalidade é de 6%. a epidemia tem maior concentração. de cifras. da voz e da luz de um sentimento. Ainda se expulsam crianças soropositivas de escolas. Em algumas populações mais vulneráveis.Educação e saúde 71 estar vulneráveis a alguns agravos. ainda se restringem muito os horizontes e as possibilidades de ser feliz das pessoas com HIV. os homens ainda são maioria. políticas. ainda. em que temos mais mulheres infectadas do que homens: são 13 meninas infectadas para cada dez meninos. e não. de estatísticas. que são mais fortes ainda do que as pessoas imaginam no senso comum. Há uma tendência clara de feminização. ainda temos de falar de epidemia. fala-se de epidemia. Essa é a única fase. de infecções. de luta pelos direitos. afetivas e de poder e nas relações de cada um/a com seu próprio corpo e suas opções existenciais. comparável aos índices dos países desenvolvidos. Depois de 28 anos da descoberta da enfermidade. é preciso haver disposição para se aceitarem a instabilidade e a perturbação que temas como a sexualidade e as diversas identidades de gênero ainda provocam nas escolas. No Brasil. sexuais. de dor e de morte – e não podemos esquecer que são mortes de pessoas que têm nome e rosto! Ainda podemos falar de trabalho. Há. de dor e de morte. de solidariedade. Também. em que o culto ao . uma tendência de crescimento entre as pessoas que estão na faixa etária de 40 a 59 anos. familiares. homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis. de tomada de consciência. uma população que começou a vida sexual num mundo sem Aids. no Brasil. mesmo se tendo passado de um tempo em que a tônica era a repressão e o pudor religioso. a estimativa de infectados continua em torno de 600 mil casos e há cerca de 400 mil oficialmente notificados e acumulados desde 1980 até finais de 2007. jurídicas. mais mulheres sendo atingidas. não podemos deixar de refletir sobre o impacto provocado pela epidemia de Aids no campo da saúde pública. um caso da doença. Outro destaque é a grande e fundamental necessidade da batalha contra a discriminação e o preconceito. ainda se demitem. Outro alerta reside na faixa etária de 13 a 19 anos. econômicas. sob determinadas condições. nas relações sociais. a outros. contudo.

A maioria das iniciativas de programas de prevenção às DST/Aids e ao abuso de drogas no Brasil teve origem no setor público de Saúde. quando se confina a sexualidade à perspectiva biologizante. nas insinuações. Talvez isso se explique pelo fato de a responsabilidade pela assistência e pelo tratamento caber ao poder público. discutir a concepção e a anticoncepção. senão no conteúdo escolar. junto com a vertente que analisa a categoria gênero na perspectiva culturalista. discutir mitos. que rompe a bipolaridade da oposição binária entre o masculino e o feminino. entender o que significa relação sexual protegida. na heterossexualidade. crendices e tabus sexuais. desconstruir-se e se reconstruir na bissexualidade. discutir como se dão em nossa sociedade as relações entre o “feminino” e o “masculino”. na homossexualidade. Os sujeitos nos mostram que sua sexualidade é plural – tanto quanto os sujeitos o são! – e suas identidades sexuais podem se construir. que se traduz por enfrentar o silenciamento dessas temáticas. nos palavrões. Nossas crianças e jovens nos interrogam e nos obrigam a refletir sobre os desejos que cada um carrega em sua vida e insistem em nos dizer que a sexualidade frequenta a sociedade e a escola. nas piadas. Temas como sexualidade e gênero colocam para a educação e a saúde um grande desafio. ou o tratamento restrito. Ampliar o conceito de sexualidade. nos desenhos obscenos. a prevenção não pode ser vista como um “problema exclusivo desse setor”. que parece remeter à fase essencialista do que é ser homem e ser mulher. identificar e analisar diferentes formas de violência sexual. permitindo que as ações de prevenção sejam amplamente assimiladas por toda a população. É necessário refletir. mas nas paredes dos banheiros. pois se fixa apenas na função reprodutiva e na prevenção da gravidez precoce e das DST/Aids. conhecer a realidade das pessoas que vivem com HIV/Aids e desenvolver trabalho continuado na escola quem sabe se o enfrentamento desses temas tão “desconcertantes” não implicariam outra posição do sujeito perante seu corpo e os cuidados que o . As articulações devem ser intersetoriais. Vamos compreender a sexualidade para além da anatomia dos sexos. Entretanto. compreender a sexualidade da criança e do adolescente.Educação e saúde 72 corpo e a liberação sexual têm destaque exponencial como valores de uma suposta modernidade. conhecer os direitos humanos relativos à sexualidade.

que. historiador italiano. como a orelha dos retratos pintados. uma vez interpretados. em detrimento do estilo da obra. nas cópias. tanto na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. e não. não está suficientemente estudado. Para Ginzburg (1990). O modelo teve início a partir de um estudo publicado por Giovanni Morelli (sob pseudônimo). quanto em relação à gravidez e a tantos outros dilemas atuais? 8 PARADIGMA INDICIÁRIO NA EDUCAÇÃO INFANTIL Esta parte é inspirada em Carlo Ginzburg . as formas dos dedos das mãos e dos pés. como a psicanálise.Educação e saúde 73 cercam. a clínica médica. as unhas. sintomas. muitas interpretações e avaliações são feitas com base em sinais. ele podia indicar. tampouco compreendido. com convicção. Uma delas atribuía a Morelli uma excessiva ordem filológica. Para isso. Assim. O método desenvolvido por Morelli (1816-1891) pretendia distinguir os originais da cópia. de quem era a autoria da obra e corrigir vários erros de atribuição de autoria. tinha executado a obra. que tratava de um novo método para atribuir autoria a pinturas antigas. num quadro interpretativo que trazia outros indícios da autoria. que se traduz em vários campos teóricos. para determinar quem. de fato. mas se tornou um dos fundamentos do método das ciências humanas e da saúde. É evidente que um método tão simples e supostamente tão eficiente provocou reservas e reação de críticos. que pode alterar a dicotomia entre “racionalismo” e “irracionalismo”. pistas. ou os dedos das mãos eram suficientes. É um modelo epistemológico e é um paradigma. como o lóbulo da orelha. Esse modelo se configura de imaginação epistemológica. de indícios quase sempre pequenos e sugestivos. mas os mais inexpressivos. Esse modelo surgiu por volta do século XIX e foi se instalando sem muita pretensão de universalidade. observava não os sinais mais evidentes. são trazidos para um sentido e colocados à luz de outras lógicas. que eram detalhes que apareciam nos originais. O registro minucioso . Na atuação das educadoras e dos educadores. entretanto. para quem o paradigma indiciário tem uma importância fundamental nas ciências humanas e na semiologia médica e suas práticas de decifração. Pequenos detalhes. as investigações empíricas da Antropologia e da sociologia e as Artes.

Para Freud (1996). Voltando a Ginzburg (1990. Tudo remete aos signos e como eles são significados. encobertas por coisas pouco notadas ou despercebidas – o insignificante – os detritos da nossa observação. baseado em indícios imperceptíveis para a maioria [. muitas delas têm situações de conflito em casa. nas coisas concretas e ocultas. assédios. [.. esse método também nos auxilia a perceber as variações e as permanências de desenhos. no campo da saúde e das ciências humanas. a psicanálise e o conhecimento dos detetives ou dos conhecedores de quadros. letras. nos ocultamentos. Dessa maneira. Qual a razão de ser de trazermos uma preocupação com o método de interpretação de indícios? Uma delas é que trabalhamos com crianças e. a psicanálise médica teria como escopo penetrar nos particulares profundos. pelos avanços e retrocessos em seus processos de aquisição da escrita ou de outras performances. palavras. assim como os nossos pequenos gestos inconscientes revelam o nosso caráter mais do que qualquer atitude formal.. Em relação à aprendizagem. 145-146).Educação e saúde 74 de partes das mãos e dos pés conferia aos seus estudos um aspecto quase detetivesco. cuidadosamente preparada por nós. Freud (1996) citou nominalmente a influência de Morelli nos seus escritos psicológicos em seu texto sobre “O Moisés de Michelangelo”. É aqui que começamos a aproximar o método de Morelli do método da investigação criminal e.. instauradas no trabalho cotidiano da educação infantil. aproximam-se aqui a ciência psicológica.] o conhecedor de arte é comparável ao detetive que descobre o autor do crime (do quadro). abusos e outros problemas. nas elisões. p. com agressões. Uma verdade que se . do método de investigação. cores. Não que nos tornemos paranóicos na nossa prática docente. paulatinamente. e nos convida a fazer valerem as observações coletadas para nortear uma avaliação da aprendizagem da criança. nos dados marginais. nas atividades das crianças. nas falhas. aquilo que resta a trazer à interpretação a partir dos sinais. trata-se apenas de ter uma maneira de perceber esses indícios para poder atuar melhor. A psicanálise vai reelaborar a proposta de Morelli.. transformando-se num método de interpretação centrado nos resíduos. por extensão.]. O professor precisa estar atento e preparado para identificar sinais dessas situações para poder ajudar a criar uma rede de proteção às crianças. considerados reveladores. que vão sendo.

de outra forma inatingível: sintomas. os autores. a fim de tirar a totalidade . na prática. é com fragmentos que trabalhamos. elucidativo. percebendo-se algo que era inacessível ao leigo. torna-se necessário um salto para a conexão dos fatos. mas deve ser capaz de revelar. eram todos formados em medicina. Esse modelo vai ter. efetivamente. A distância existente entre o fazer e o escrever (descrevendo o que foi feito) é o que causa a morte do pesquisador. portanto. o que foi descoberto através do investimento investigativo. era no momento em que se descolava da sua “escola” que. ou. a partir da análise do texto original (em um momento anterior. no sentido de um julgamento. A semiótica médica que ensina a observar. nesse trecho. Essa análise não deve ser judiciosa. delinear-se uma analogia entre os métodos de Morelli. tentar conferir unicidade interpretativa apenas ao final do processo. na frouxidão das palavras.Educação e saúde 75 constrói com o que é residual ou marginal(izado). fazia o gesto que era sua própria autoria: e esse gesto não era nem um pouco percebido pelo próprio artista. Vimos. com a emergência das ciências humanas. ainda. partindo do recorte feito já na capacidade de percepção de quem observa e escuta. em seus limites. para dar lugar ao analista dos dados empíricos. ou seja. até certo ponto. a sua influência maior. E por que se dá essa analogia entre eles? Eles. Sherlock Holmes. indícios e signos. A partir da atividade de pesquisa (a cotidiana. Durante as observações. que exemplifica. não fosse a existência de “faros” treinados para o que nos atrai). precisamente. Vamos expor. por mais que o nosso esforço seja contextualizá-los numa retomada de sua totalidade possível (para nós). ao produzir a obra. um extrato do relato de uma experiência de pesquisa com crianças em creche. aleatória coleta de dados. e Freud. a partir dos dados. paciente e. personagem de Conan Doyle. ou. a registrar. a utilização do paradigma indiciário para a observação e a interpretação. Nos três casos. deixado de lado. isso pode ocorrer – como de fato ocorreu – em forma de insights na reescrita das notas de campo anotadas rapidamente enquanto observava). a diagnosticar as doenças pela percepção mais aguda dos sintomas. não fosse a existência de premissas teóricas como fundamentos. pistas infinitesimais permitem captar uma realidade mais profunda. portanto. requerendo o necessário afastamento emocional para a sua avaliação objetiva. dito de outro modo. assim como o artista. no final do século XIX.

os sons e os mistérios luminosos dos objetos. .Educação e saúde 76 imprescindível para a explicação do que podemos. os pedaços. as proporções. embora com dúvidas e bastante humildade. o corte. Finalmente. os cheiros. a fumaça. afirmar: isso existe. acredite-me. destacamos as nuances de “caçadores” para o paradigma indiciário: aquele que trabalha com os rastros. as cinzas.

Brasília. O. v. 5 ed. v. 1990. ______. ASSIS. 2. Sobre a bucalidade: notas para a pesquisa e contribuição ao debate. Brasília. 1981. 1. R. B. 7-17. mar. v. n. 2003. Epidemiologia social. Z. Diário Oficial da União. O normal e o patológico. ed. de 13 de julho de 1990. v. 1996. Rio de Janeiro. K. São Paulo: Editora Scipione. Literatura infantil. 8. ed. Lei nº 8. Gostosuras e bobices. BRASIL. São Paulo.069. ARIÈS. Rio de Janeiro: Zahar. Uma nova metodologia de educação pré-escolar. arte e política. 2003. . W. 10. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e da outras providências. C.Educação e saúde 77 REFERÊNCIAS ABRAMOVICH. 11. G. Dispõe sobre Orgânica da Saúde. p. ______. ed. C. J. Obras escolhidas: magia e técnica. p. n. 20 dez. 2006. Revista Brasileira de Epidemiologia. Lei nº 8.394. ALMAS. 1996. São Paulo: Pioneira. 1997. Saudi Arabia. Dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. ANTUNES. 2002. Petrópolis: Editora Vozes. 1. 1. Saudi. 7-17. 1990. BENJAMIN. 2. CANGUILHEM. de 20 de dezembro de 1996. 24. Ciência & Saúde Coletiva. Diário Oficial da União.080. et al. F. 5. BOTAZZO. História social da criança e da família. p. Barreto Leite. São Paulo: Brasiliense. Falar e dizer/olhar e ver/escutar e ouvir. M. Brasília. 19 set. 1982. n. Diário Oficial da União. Med. Rio de Janeiro: Forense. 13 jul.. P. The knowledge and practices of oral hygiene methods and attendance pattern among school teachers. 1087-1091. de 19 de setembro de 1990. BARATA. Tradução de Maria Thereza Regid de Carvalho Barrocas e Luiz Otávio F. 2005. Lei nº 9. O jogo e a educação infantil.

Petrópolis: Vozes. ed. A vontade de saber. H. de. São Paulo: Edições Loyola. F. A polícia das famílias.). M. C. FERREIRA. 2002. M. Botucatu. In: LA TAILLE. Sobre inclusão. Interface.una estrategia para cambiar los estilos de vida. cap. Rio de Janeiro: Edições Graal. 26.. ed. ______. ed. P. n. ______. 1980. São Paulo: Cultrix.. A. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Edições Graal. C. M. L. F. S. J. ed. FORTE. Rio de Janeiro: Edições Graal. 1998.Educação e saúde 78 COSTA. LÓPEZ. SAMPAIO. . VIII. S. FREIRE. A educação como prática da liberdade.. A. 9. 117-231. 9. 1979. 2003. Rio de Janeiro: Imago. História da sexualidade I. Conhecimentos de alunos concluintes de pedagogia sobre saúde bucal. 1967.. LAPLANE. 381-88. ______. ______. In: ______. M. FERREIRA. In: GÓES. p. D. Microfísica do poder. Saberes necessários à prática educativa. Madrid: Pirámide. F. E. C. v. J. Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. 2005. 1992. R. C. FREUD. 2. Políticas e práticas de educação inclusiva. Um caso de histeria. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos. 9. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1. Piaget. 2004. M. políticas públicas e práticas pedagógicas. DANTAS. 7. DUBOIS. FERREIRA. p. Dicionário de lingüística. DONZELOT. MASSONI. (Org. 17. 1996. Campinas: Autores Associados. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. R. C. 1990. São Paulo: Summus. L. de. A afetividade e a construção do sujeito na psicogenética de Wallon. A ordem do discurso.. et al. FOUCAULT. Educación para la salud . J. J. v. 1996. S. 1993. Y. ed. T. Vigiar e punir: história da violência das prisões. Vygotsky.

ROLNIK. São Paulo: Summus.. P. E. C. 2. et al. Gênero. GUATTARI. R. L. S. 2005. p. 1976.) A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da rede educação popular e saúde. Petrópolis: Vozes. GOFFMAN. Piaget. In: GROSSI. educação e neoliberalismo. G.Educação e saúde 79 GHIRALDELLI JÙNIOR. E. ed. (Org. 6 ed. L. 2004. P. ORGANIZATION PANAMERICANA DE LA SALUD. A criança e a TV. M. Uma visão psicanalítica. emblemas. 15... 2001. K. 2001. R. STRUCHINER.. Infância. M. Gênero e sexualidade nos Cadernos de Pesquisa (FCC): de 1971 a 2004. Rio de Janeiro.. v. educação e sexualidades. F. 1999. LOURO. H. In: VASCONCELOS. GINZBURG. C. In: ______./dez. São Paulo: Cortez. 1990. . Enseñanza de la medicina preventiva y social – 20 años de experiencia latinoamericana. São Paulo: Companhia das Letras. M. (Orgs. Porto Alegre: Artes Médicas. Cadernos de Saúde Pública. SMEKE. E. S. M. Educação em saúde: novas perspectivas. (Org.). ROTTERDAM. Rio de Janeiro: Garamond. T. Y. Petrópolis: Vozes. São Paulo: Hucitec. n. 1991. sinais: morfologia e história. 7. Vygotsky.. Educação em saúde e concepções de sujeito.C. In: MITOS. sexualidade e educação. D. 115-136. MÜLLER. prisões e conventos. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. Micropolítica: cartografias do desejo. 4-6. 2002. OLIVEIRA. N. SCHALL. p. LA TAILLE. 2000. 1997. (Dos Meninos): a civilidade pueril. ed.. São Paulo: Escala.). nov. Washington. 1992. DANTAS. Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. Manicômios. M. Pedagogia e infância em tempos neoliberais. F.. V. SOIFER. OLIVEIRA. Movimentos sociais. 3. E. São Paulo: Perspectiva.

Belo Horizonte: Autêntica. 2001. São Paulo: Hucitec. H. São Paulo: Martins Fontes. p.) Psicologia e educação da infância. Educação popular e a atenção à saúde da família. L´enfant turbulent. ______. Recueil d´observations. (Org. São Paulo: Martins Fontes. L. VASCONCELOS. H. Paris: PUF..Educação e saúde 80 TADEU. (Org. p. 1984. E. Lisboa: Editorial Estampa. ______. P. 1999. M. . CORAZZA. 2004. 51-69. WALLON. E. São Paulo: Hucitec. Linhas de escrita. VYGOTSKY. T. A psicologia genética. ______. Redefinindo as práticas de saúde a partir da educação popular nos serviços de saúde.) A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da rede de educação popular e saúde. 1975b. Pensamento e linguagem. 2003. IN: WALLON. 1991. ZORDAN. In: VASCONCELOS.. S.11-19. A formação social da mente. M.

Educação e saúde 81 .

em que se situa a atuação docente na história da educação brasileira. Professor do Departamento de Psicologia. séculos XVI a XVIII. está conectada com as questões da história. Centro de Ciências Humanas. Universidade Federal da Paraíba. que vai falar de um tipo de sociedade e de trabalho presente na nossa formação de sociedade vinculada aos ideários liberais e às transformações do modelo de produção capitalista (ROMANELLI. da política. é importante levar em considerações tais conteúdos para entendermos a nossa formação docente e suas implicações para a prática educativa. nos idos de 1549 a 1759. em específico. quando as articulamos para pensar a organização e a estrutura da escola. identifica-se a pedagogia dos padres jesuítas. no período do Brasil Colônia. notadamente. a nossa atividade em sala de aula é permeada por conteúdos da história. A nossa atuação docente. como uma primeira tentativa de ação e de prática educativa. Professor do Departamento de Metodologia da Educação. apresenta percursos desafiantes e complexos. um tipo de “sacerdócio” que nos atravessa e nos constitui. Doutor em Psicologia Social. E. 6 .2 SAÚDE E TRABALHO DOCENTE Eduardo Antônio de Pontes Costa5 Paulo Cesar Zambrony de Souza6 1 O MAGISTÉRIO E A PROFISSIONALIZAÇÃO DOCENTE NO BRASIL O papel do professor e da professora. Desafiantes porque se detecta uma formação docente constitutiva de uma identidade situada no campo da idealização: elementos da religiosidade e da institucionalização. do social e do cultural. desse modo. sua prática pedagógica. Letras e Artes. Universidade Federal da Paraíba. a escola pública. A história da educação brasileira aponta para as contradições que constituem a formação docente. Do ponto de vista complexo. em que a Doutrina Cristã é identificada e 5 Doutor em Educação. Centro de Educação. Numa retrospectiva. da economia. 2001). mesmo para falarmos em tempos contemporâneos. na história da educação brasileira.

que incumbiu ao Marquês de Pombal – o déspota esclarecido – a responsabilidade pela administração das colônias. entendida como “educação pública estatal”. a partir de 1759. em termos educacionais.Saúde e trabalho docente 83 confirmada. Pombal não coloca outro modelo educacional. nesse cenário. como pensar a questão do “todos” forjada no texto constitucional? Reafirma-se. o professor passa a ser percebido como funcionário do Estado. Há. do sal e do vinagre (SAVIANI. traz o seguinte enunciado: “a instrução primária é gratuita a todos”. A nossa primeira Constituição do Estado Imperial. não honra com o pagamento dos professores. da Biblioteca Nacional e do Jardim Botânico (Rio de Janeiro). Ainda no Brasil Colônia. E aqui cabe a pergunta: sendo o trabalho escravo. Ao destituir a prática pedagógica dos jesuítas. No Brasil Império. 2004). observa-se. mesmo diante da criação do Subsídio Literário – imposto retirado da carne salgada. CARVALHO. as aulas e os cursos vinculados aos interesses de D. José I. a partir de 1808. da criação da Academia Militar da Marinha. reafirma a intenção de privilegiar o ensino superior em detrimento do primário. vilas e vilarejos. pela instrução secundária e superior. que: a política imperial mantém a lógica do período pombalino com a descentralização das incumbências – as províncias responsáveis pelo ensino primário e o Império. especificamente. e quando propõe uma educação laica. A incumbência de Pombal era de. determinando a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades. Nesse contexto. 1959 apud SAVIANI. Houve uma tentativa de normatizar o exercício do Magistério. 2004). da Academia Militar. característica de uma “educação pública religiosa” (LUZURIAGA. . ainda no período em tela. entre outras criações. de vocação. 2001). caracterizado como a chegada da família real. transformar a educação como ação de Estado. entre alguns aspectos. elemento da nossa sociedade. nesse período. que poderia exercer a sua função mediante exames de habilitação e de idoneidade comprovada pela Diretoria Geral de Estudos (CUNHA apud SIMÕES. a expulsão dos jesuítas da Metrópole e das colônias por D. João VI objetivavam a formação profissional a partir da criação dos cursos superiores de Direito (São Paulo e Recife) e de Medicina (Rio de Janeiro e Salvador). para formar uma base de professores leigos. uma identificação do Magistério com a concepção de sacerdócio. a de 1824. O olhar nesse período.

Eram improvisadas. em 1889. Nota-se que os estudos normais abarcavam. Tais ações apresentaram resultados pífios. A expansão da educação básica – primário e secundário – é objeto de diversas reformas educacionais. O funcionamento era noturno. e a duração do curso. uma para cada sexo. mesmo sendo criadas por decreto. 2003): Nas escolas normais. p. transformadas mais à frente. Na escola mantida pelo poder central do Município da Capital.d] apud PILETTI. e os estudos podiam ser parcelados. segundo Chagas ([S. a partir do período republicano. algumas disciplinas vinculadas à formação de professores. Em 1875. 2004. Ginástica e Prática Manual (para os alunos). Trabalhos de Costura (para as alunas). Um dado importante nos chama a atenção: era necessário que se admitissem mulheres para lecionar nas turmas femininas. exigindo-se exame de admissão ao nível da escola primária elementar.] Considerando que as províncias não estavam equipadas nem financeira nem tecnicamente para promover a difusão do ensino. depois. agricultura e pedagogia (PILETTI. tais disciplinas pertenciam às áreas de economia doméstica. período característico do desenvolvimento das escolas normais no Brasil. na capital do Império – Rio de Janeiro – foram instituídas duas escolas normais. Desenho. passou a quatro em 1881 e a três em 1888. o resultado foi que atravessamos o Século XIX sem que a educação pública fosse incrementada (SAVIANI. nesse período.. p. É importante registrar que as escolas normais. abrangendo seis séries anuais em 1880. além do ensino literário que caracterizava o curso secundário. Como uma das primeiras tentativas de . em escola única. deparavam-se com a falta de condições estruturais que poderiam lhes conferir o status de centros de referência de formação de professores. 180). 5). pois. de 1891.. Por outro lado. e com a segunda Constituição. guardada a ordem das séries. 1991). reabertas (BRZEZINSKI. 2008. direito. a falta de estrutura nas escolas normais estava posta. com frequência nominalmente obrigatória. A idade mínima era de 16 anos. PILETTI. em 1880. Prescreviam-se também Caligrafia.Saúde e trabalho docente 84 [. extintas e. além de numerosas. o que propiciou a criação das primeiras vagas para o Magistério feminino (DEMARTINI. não havia Prática de Ensino nem atividades práticas da disciplina Agricultura (pelo fato de que o curso era noturno) e faltavam professores qualificados para as disciplinas de formação e prática docente. As primeiras Escolas Normais foram criadas nas províncias da Bahia e do Rio de Janeiro em 1830. PILETTI. Música Vocal. 2008).

em especial. com a criação das chamadas Escolas Normais. republicano e constituído por estados federados e não de províncias. e não mais províncias dos períodos colonial e imperial. não se concretizou uma estrutura de currículo de base nacional nem um sistema de ensino – buscou-se educar o homem livre a partir de uma determinada ordem moral e simbólica de sociedade liberal. representa a produção da futura educadora. tais espaços passaram a ser ocupados por moças não mais pobres. o Brasil. responsável pela educação da nação. pautada nas ideias positivistas. A institucionalização do Magistério para o ensino primário apresenta aspectos curiosos. Tais reformas produziram uma série de mudanças no ensino. A necessidade em educar as mulheres estava ligada à modernização da sociedade e ao processo de higienização da família. p. interessadas em estender o seu processo de escolarização. por seu turno. refletindo sobre as posturas femininas que foram construídas historicamente sendo que a escola representa uma das instâncias ideológicas. por meio da institucionalização da liberdade do culto. em que a escola representa o meio para a formação dessa mesma ordem. era destinada à preparação para o Magistério das professoras que iriam atuar nas escolas frequentadas por mulheres. . deparava-se com intensas campanhas pela democratização e laicização do ensino. pela formação do Magistério. responsáveis.Saúde e trabalho docente 85 organização da escola pública. E. 2007. democrática. poderia ser uma variável explicativa para justificar a má qualidade do ensino. SCHELBAUER. objetivando a constituição de um sistema nacional de instrução. Em fins do século XIX. favoreceu a expansão da rede privada. Ainda nesse período. 79). o público-alvo que frequentava o curso era formado por moças pobres o que. – atravessadas pela coexistência entre as vertentes religiosa e leiga da pedagogia tradicional – tem-se a implantação progressiva das escolas primárias graduadas nos Estados. por último. no Primário e no Normal. identificam-se reformas educacionais em que a laicização do ensino público. Convém destacar as condições e circunstâncias que levaram as mulheres a ocuparem as salas de aula. segundo aponta Eliana Novaes (1984): primeiro. Segundo. e a educação. especificamente da mulher. juntamente com a ideia da criação de um sentimento nacional vinculando a ordem ao progresso. portanto. ajudando a reforçar ou transformar os papéis a elas estabelecidos socialmente (NOGUEIRA. Entre 1891 e 1930. em que a ideia permaneceu apenas na retórica. Nesse contexto histórico. que irá contribuir quanto à postura em que a mulher preenche no mundo do trabalho.

Aluízio de Azevedo. 2004. dentre outros. no período da ditadura civilmilitar. Como uma das consequências da Constituição Federal de 1946. Com a República. cujos representantes. Preconizava. privilegia-se a formação do técnico. para a seguinte realidade: seria impossível produzir reforma no ensino primário descolada da formação de professores (SIMÕES. e o conhecimento científico fica sendo conteúdo neutro. a criação de uma escola pública. O debate apontava. Cecília Meireles e Lourenço Filho. Vincula-se à escola a lógica da fábrica. ao mesmo tempo em que a influência das ideias renovadas provoca o surgimento de movimentos organizados que levantam também questões relativas à qualidade da educação [.692/71. e uma educação que não expressasse o tradicionalismo fundante na formação do Magistério. também. preconizava como uma das ideias. 2003). que acelera o processo de industrialização e urbanização. eram Anísio Teixeira.Saúde e trabalho docente 86 a Escola Normal surge como foco de questionamentos sobre o seu caráter ornamental. o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova. em que se institui a Lei 5. que devia ser erradicada. universal. que todos os professores. 2001). Em 1932. um caráter atribuído também ao Magistério de segundo grau.. p. para a formação docente (SAVIANI.. obrigatória e universal. BRZEZINSKI. literário e abstrato na formação dos futuros docentes (SIMÕES. e o secundário não passava de uma rede de cursos preparatórios (herança das aulas régias na administração pombalina). o ensino superior também estava a cargo do “sistema” federal. 6). reformas do ensino em diversos Estados da Federação tendo em vista a expansão da oferta pública. deveriam ter formação superior. p. A escola pública. . passa por uma reforma. constitui um legado do pensamento liberal que foi a expressão ideológica dos movimentos revolucionários dos Séculos XVIII e XIX.024/1961 que. CARVALHO. a nossa primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) é a Lei 4. 1982. ao longo da década de 20 deste Século. mesmo os do ensino primário. as pressões em torno da questão da instrução pública se intensificam. Nesse contexto formulam-se. difundindo-se o entendimento do analfabetismo como uma doença. inclusive. do especialista. gratuita e de direito de todos. e o ensino médio passa a ser profissionalizante.] (SAVIANI. É a partir daí que a educação ganha importância como promotora da igualdade social e se articula com o projeto político de uma sociedade mais justa e igualitária (MELLO. 2001). em 1971. também. Com o desenvolvimento da sociedade brasileira. CARVALHO. 2004. uma vergonha nacional. 49).

a carreira do profissional da educação. 2004). Trata-se. no Título VIII – “Das Disposições Gerais” – Artigos 80 e 81. em que a virtualidade tende a se conectar com a realidade experimentada entre todos. No Art. ainda.394/96. inclusive em serviço.Saúde e trabalho docente 87 Em 1996. como o piso salarial profissional e os incentivos à titulação e à produtividade devem ser garantidos aos profissionais. na carga horária de trabalho. e as redes públicas deverão oferecer. As diretrizes traçadas com a atual LDBEN. 67 do mesmo Título em tela. como formação mínima para o exercício do Magistério nos anos iniciais e na educação infantil. também. por exemplo. por concurso público de provas e títulos. além de proporcionar a sua formação conjugada a nossa produção de conhecimento. horas de estudo. buscando universalizar o acesso de todos à educação (SAVIANI. em específico. em instituições de ensino e outras atividades”. reafirma a descentralização como contida no texto da Constituição Federal de 1988. planejamento e avaliação. de uma nova modalidade de ensino-aprendizagem que. no Título VI. nesse momento – como a web. em seu Art. que devem ser incluídos. . para a formação do Magistério. a videoconferência e as redes de alta velocidade. condições adequadas de trabalho. A concepção de formação para o Magistério. Nessa modalidade de formação de professores. em nível superior de licenciatura. 62. traz contribuições importantes sobre a modalidade de educação a distância na formação docente. as tecnologias interativas vêm evidenciando a interação e a interlocução entre os que estão envolvidos direta ou indiretamente nesse processo. Diz que a formação docente terá como fundamentos “a íntima associação entre teorias e práticas. propõe que os sistemas de ensino deverão promover a valorização dos professores como profissionais. De caráter abrangente. exclusivamente. inclusive mediante a capacitação em serviço” e o “aproveitamento da formação e das experiências anteriores. ainda admite. aponta para questões substantivas e até mesmo de princípios. O ingresso no Magistério público deve-se dar. o ensino médio. com estatutos e planos de carreira definidos. e benefícios como o aperfeiçoamento profissional continuado. Fica estipulado. na modalidade Normal. Ainda sobre a LDBEN. em graduação plena. Tais dispositivos e seus desdobramentos contidos na referida lei são percebidos na sua concepção de formação docente. É nítido o avanço das tecnologias de comunicação virtual – as que nos conectam. é promulgada e sancionada a nossa segunda LDBEN – Lei 9. certamente. adotada pela reforma educacional a partir da LDBEN de 1996.

p. percebe-se uma banalização da formação docente pelo aligeiramento de conteúdos. Europa Ocidental e Japão). Lembramos que os profissionais do Magistério são os que desempenham. planejamento. juntamente com a capacidade de comunicação e controle em tempo real que as inovações tecnológicas permitem [. Nesse contexto. 2000.152). [.Saúde e trabalho docente 88 permite que se fale de novos modos de relação entre professor-estudante. produzindo novas implicações para o papel do professor e da professora.. mas.. dentre outras. 19). organicamente. “[. Assim como enunciado no início deste capítulo.] A origem das visões mais apologéticas a que o termo ‘globalização’ dá lugar vincula-se. situando o que entendemos por desafiante e complexo para pensar o Magistério e a educação no Brasil. Segundo Linhares (2001. ora de uma compulsão por . p. inspeção. também. são notórias as transformações por que a escola vem passando.] É por isso que a instituição escolar vem sendo ora refém de um passado centralizador e massificante. Nelas afirma-se que a constituição de uma economia mundial sem fronteiras. supervisão. as transformações no modo de produção capitalista solicitam um novo perfil de trabalhador e chegam à porta das nossas escolas. nas políticas de formação e de valorização do Magistério. a aptidão e a prontidão para tomar decisões diante de desafios cada vez mais complexos que atravessam a sua formação docente e a sua afetiva e efetiva prática pedagógica. E a questão de um ensino de “boa qualidade”? Diante do exposto.direção. além dessas competências.] (GÓMEZ.. orientação e coordenação educacionais exercidas nas unidades escolares de educação básica e em suas diversas etapas e modalidades de ensino. nessa nova configuração de mercados globalizados. administração. solicita-se aos profissionais da educação. Paradoxalmente. ao conferir apenas as responsabilidades.. as atividades de docência ou de suporte pedagógico . às grandes corporações multinacionais originárias dos três centros do capitalismo mundial (Estados Unidos. e algumas competências. estudante-estudante. nas escolas públicas. certamente. dentre outros. e para as quais receberam habilitação profissional legal.. buscaremos discutir os desafios da profissionalização docente que se fazem presentes não apenas no cotidiano da escola.. da inovação técnica e científica. como: a capacidade de distinguir novos processos pedagógicos forjados pela sociedade do conhecimento e da informação.

E o profissionalismo. Ónis. com o objetivo de desenvolver. substantivo masculino. ao treinamento. 2001. ação de professar. A profissionalização remete à capacitação profissional. lutando por sua dignidade numa sociedade onde caibam todos”. mister. Com a emergência da Lei no 9. a devida conexão com a política dessa reforma educativa que corresponda à comunhão entre os aspectos quantitativos e os qualitativos. o termo profissão vem do latim professio. exercício. trata-se de um substantivo feminino que designa. Na sua acepção. Nesta perspectiva. também. mas vinculada às experiências de aprendizagem que. Em que medida é possível produzir outras ressonâncias diante da realidade do ensino noturno? E as crianças com “necessidades educacionais especiais”? E a questão dos negros? Um dos aspectos que se identifica a partir da legislação atual – formação inicial e continuada – é que os docentes adquirem habilidades. que atravessam e chegam ao chão da escola. diz respeito ao que é ser profissional.] façam com que os seres humanos possam andar de cabeça erguida. profissão. p. Software e hardware passam a ser linguagens da microeletrônica.. conhecimentos. entre outros aspectos. No que diz . necessariamente. o avanço na educação. Esse aspecto – modernizar-se – está contido na legislação vigente. a partir de uma determinada concepção de homem e de mundo. de ensinar. apresenta dificuldades na qualidade de ensino e no atendimento de parcelas específicas da população. publicação. “[.76). identifica-se a procura por uma formação para o Magistério que passe pelo ensino superior. E o que significa a expressão profissionalização? Etimologicamente. Entendemos que a profissionalização do Magistério requer. ocupação. sobre a “qualidade da educação” não situada na lógica do mercado. Tal expansão não representa.Saúde e trabalho docente 89 ‘modernizar-se’ e acessar um futuro milagroso”.394/96. segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. anúncio. emprego”. manifestação. uma relação de transmissão-assimilação de “qualidade” na sua prática educativa. em que se vincula a formação do Magistério à competência e à habilidade que torna possível que alguém se torne empregável e tecnicamente aderente às exigências do mundo do trabalho.. declaração. “ação de declarar. e o resultado dessa expansão. Amplia-se o número de matrículas na educação básica. estado. atividade para a qual um indivíduo se preparou e que a exerce ou não. também. no processo de ensino-aprendizagem. competências e atitudes. promessa. segundo Libâneo (1988a apud Libâneo. que se promovam reflexões nas universidades e nos Institutos de Educação. propomos que se pense.

Em 16 de julho de 2008. tia não. segundo Veiga (2006). o debate sobre a construção de um projeto ético-profissional para o Magistério surge em um período de desprestígio social da profissão. e sempre imbricado com o primeiro aspecto. qual o papel do professor na escola pública e diante das novas atribuições do trabalho docente? Um desses equívocos é apontado por Paulo Freire. é constituído por aspectos teórico-metodológicos no saber-fazer pedagógico. apresentamos algumas ações de políticas de valorização do Magistério para uma afetiva e efetiva profissionalização docente. Distrito Federal e . a formação do Magistério assume contornos e perfis diversos frente aos elementos socioculturais da formação social brasileira. Então. Entretanto. inclusive. o reconhecimento da profissão docente.738. que deve ser atualizada devido aos novos desafios e avanços pedagógicos postos na relação entre o processo de ensino-aprendizagem e a transmissão-assimilação de conteúdos escolares. o que ele denomina de a “virtude da coerência”. fixado em R$ 950. de equívocos que preocupam a todos e que precisam ser esclarecidos. Cartas a quem ousar ensinar. cercada. com jornada de 40 horas semanais. Primeiro. em que o chão da escola (Célia Linhares) é entendido como lugar que envolve militância. Segundo. o piso salarial do professor. Paulo Freire. não há um valor fixo para a remuneração de nível superior. Detalhe: piso para os profissionais com formação de nível médio na modalidade Normal. Além desse aspecto. a critério de cada sistema de ensino – Estados. que instituía o piso salarial nacional para os profissionais do Magistério público da educação básica.00 (novecentos reais). cujo patamar de remuneração deve corresponder às necessidades pessoais e profissionais do docente. De acordo com a referida Lei. na nossa prática docente. O valor do piso fixado para profissionais com formação em nível médio deve servir de ponto de partida para a fixação dos vencimentos dos profissionais de nível superior ou outros graus de formação. foi sancionada a Lei 11. que constituem a sua formação e a necessidade de criar. contido e regido por princípios éticos. situa a sua responsabilidade profissional e o seu ato político. ao valorizar a professora. em específico. a ideia de formação continuada remete à capacitação docente.Saúde e trabalho docente 90 respeito à realidade brasileira. E aqui indagamos: como pensar a formação docente frente às novas tecnologias? Qual o papel da universidade pública no reconhecimento e na legitimação da profissionalização docente? Como formar diante das condições precárias de trabalho? E o papel da escola? Aqui. em sua obra Professora sim.

inventiva e criadora. a partir da lógica do dever. hierarquias. quando pensamos o professor e a professora constituídos por uma formação docente que problematize os lugares fixos da pedagogia tradicional. 1999 apud VEIGA. que potencializa seus profissionais. em que estão imbricados e implicados atores diversos. Nessa perspectiva. pelo reconhecimento dos direitos. elencam-se algumas problematizações: como fica a formação para o Magistério. às vezes. 2006). em que a afirmação e o respeito devem . nas novas formas de organizar o trabalho na escola. Inventiva. em especial. Exige situar historicamente esses preconceitos e predisposições na rede de relações. 49). A afirmação e o respeito requeridos na profissionalização passam. A formação inicial. pelo seu caráter propedêutico. do treinamento. p. da oferta da escola pública. tanto na perspectiva inicial quanto na continuada? Além dos aspectos técnicos. inclusive. posições sociais e conflitos da sociedade mais ampla e compreendê-los a partir de especificidades de classe social. Envolve alternativas que possibilitem condições materiais de atuação do docente. criadora. do lucro. respeitando-se as práticas pedagógicas produzidas no percurso da experiência do profissional. antagônicas.Saúde e trabalho docente 91 Municípios. necessariamente. não encerra em si o modo de ser e de estar professor (HYPOLITO. que buscam defender visões. da sociedade da competição e do consumo? Considerar os professores como intelectuais exige também que se analise com clareza por que determinados preconceitos e predisposições vêm persistindo ao longo dos tempos. 2004. tornar-se objeto de compromisso em regime de colaboração para as políticas de profissionalização. a participação ativa das entidades sindicais. gênero e raça (MOREIRA. e de seus estudantes. faixa etária. Para Veiga (2006). em que se garantam. é possível articular a profissionalização à formação do professor-pesquisador? E a questão da valorização e do reconhecimento do Magistério? Como contribuir para que a profissionalização do Magistério seja potencializada como prática social que se produza para além da lógica empresarial. o acesso e a permanência na escola democrática. A profissionalização vai além da capacitação profissional. das associações científicas e estudantis no movimento de resistência à proposta neoliberal de formação de professores assenta-se em uma dupla lógica: a centralização do controle pedagógico e a descentralização dos mecanismos de financiamento e de gestão do sistema. Entendemos que a profissionalização do Magistério é um processo complexo de mudança social.

que precede a inscrição ao Magistério e fala da luta pelas garantias de direitos à profissionalização e ao reconhecimento do trabalho docente. 108).. crítica. 1998.] as questões implícitas na formação de professores requerem que transitemos em um espaço complexo de uma cultura em crise. criticamente. Entre alguns aspectos mencionados.. 61. chama a atenção o que diz respeito à articulação entre teoria e prática. p.394/96. Como impossível seria sairmos na chuva expostos totalmente a ela. e não nos molhar. inclusive mediante a capacitação em serviço. em busca de validação de significados coletivos e pessoais. potente. Segundo Hypolito (1999 apud VEIGA. como versa o Art. . Linhares (2004. na própria produção histórica de sua existência. Nesse sentido. onde se confrontam o extravio ético com uma procura audaz de construção de sujeitos coletivos e pessoais que se reconheçam. sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de ser. entendemos que ensinar suscita o comprometimento docente no seu saber-fazer pedagógico: Outro saber que devo trazer comigo e que tem que ver com quase todos os de que tenho falado é o de que não é possível exercer a atividade do Magistério como se nada ocorresse conosco. A profissionalização percorre outros caminhos que não são garantidos somente pela formação inicial.Saúde e trabalho docente 92 ser articulados a uma pedagogia inventiva.. e com base nos valores da cooperação entre os que pensam e fazem o saber pedagógico. I. Além desse aspecto. p. no Título VI – “Dos Profissionais da Educação”. A justaposição da teoria e da prática remete a uma questão importante e pouco desenvolvida na formação docente. pois envolve alternativas que garantam melhores condições objetivas de trabalho e de atuação e respeitem as práticas pedagógicas construídas ao longo da experiência profissional.12) assinala: [. sem defesas.. a profissionalização não se resume em uma formação profissional. Não posso escapar à apreciação dos alunos. 2006). e a maneira como eles me percebem tem importância capital para o meu desempenho [. Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos. a sala de aula e o trabalho docente apresentam recortes de leitura férteis para a pesquisa. onde não há lugares fixos na relação entre professor e estudante: a profissionalização deve ser entendida e construída no bojo de um conceito de profissão questionadora.] (FREIRE. de pensar politicamente. Art. Os desafios da profissionalização docente podem ser observados no discurso normativo da Lei 9. Trata-se do caráter do professor-pesquisador da sua própria prática: a escola.

. o livro didático tem seu notório relevo. 2004. Outro aspecto que merece destaque e que é. A relação entre intensificação e proletarização do trabalho do professor é claramente perceptível. mais se fragiliza a profissionalização do Magistério levando-a à proletarização. na proletarização do trabalho docente. Nesse caso. . E. reflexão. p. 2006. A burocratização assume efeitos perversos para o processo de profissionalização do Magistério. p. é a carga horária docente. Enguita afirma que a “proletarização é o processo pelo qual um grupo de trabalhadores perde.. necessariamente. expressivamente. Nesse sentido. desafiante para uma efetivação da justaposição entre teoria e prática. Enguita (1991) refere que. 1991.o saber-fazer da educação é constituído por professores.] a intensificação está ligada ao aumento da carga horária de trabalho dos professores. 46). pela autonomia e pelo reconhecimento do Magistério.] (VEIGA. Dessa forma os professores estão sempre sobrecarregados de atividades impostas.Saúde e trabalho docente 93 [. 4-5). mais ou menos sucessivamente. certamente não possibilita tempo para uma atividade de tamanha envergadura. é oportuno afirmar que a construção de um projeto educativo que se proponha a afirmar a profissionalização docente passa. É expressiva uma prática docente em que o livro didático se propõe como único dispositivo do professor. que não podem ser esquecidas ou minimizadas [.] Isso significa facilitar ao futuro professor a aquisição de uma visão lúcida tanto do potencial transformador de seu trabalho. análise. essa perda de autonomia pode ser considerada como um processo de desqualificação do trabalho do professor. Entretanto.] (MOREIRA. diante de mais um desafio... A sobrecarga... a atuação docente suscita reflexão. por todos os atores envolvidos no chão da escola (LINHARES. 2004) . 49). para quem trabalha sobrecarregado de diversas atividades (ALGEBAILE. a profissionalização se depara com alguns limites que passam. da profissionalização à proletarização do Magistério. o controle de seu trabalho e a organização de sua atividade” (ENGUITA. Quanto mais o controle do tempo e a intensificação de tarefas se produzem. a falta de autonomia e a burocratização significam que [. Como instrumento pedagógico. estudantes.. pesquisa.394/96 -. p. A autonomia tão necessária à profissionalização desaparece e se produz numa espécie de colonização [. Conciliar teoria e prática. pesquisa.. A partir do reconhecimento social e legal contido no texto da legislação educacional . como das restrições que o perpassam. o trabalhador ou um grupo de trabalhadores perde o controle de seu trabalho e a capacidade de organizar sua atividade. 2004) e em mais de uma escola – pública e privada –. ao mesmo tempo.Lei 9.

Algo como uma engrenagem. antenados à lógica da produtividade. Organização – no sentido muito específico e particular que interessa aqui. O papel do docente. por exemplo. para responder aos novos e complexos desafios. vai além da relação produzida entre ensino. interesse ou trabalho comum. pode-se definir genericamente – organização – como a constituição de um grupo de pessoas que se unem para um objetivo. políticas e sociais e as novas formas de organização ocorridas no mundo do trabalho repercutem na formação do trabalhador. a partir da profissionalização. habilidosos. aqueles que atravessam o cotidiano da escola e a luta pela valorização do Magistério. Oportuno porque o paradigma que se tem no cenário atual é o da reafirmação do modelo tecnocrático e burocrático da educação. A reforma da educação implementada . em especial. professores e professoras competentes. decorrentes dos avanços tecnológicos e científicos. Sabe-se que as transformações econômicas.394/96. ocorridos nas últimas décadas. produzem implicações na forma como elaboramos e pensamos estratégias diferenciadas. examinar alguns caminhos percorridos e atravessados por um modo de operar a docência – a sua efetiva profissionalização – diante das reformas educacionais em que o discurso gerencial da gestão participativa e democrática vai permitir falar de outro modo de ser e estar docente. dentre outros. da eficácia e da eficiência. entre outros fatores. neste texto. que transforma. Tais transformações. de acordo com o discurso legislativo da LDBEN. suscitam de todos nós que. pensadores e estudiosos da educação. em que a tecnologia e a busca pela qualidade. articulado para a realização de metas e objetivos. além de adquirir conhecimentos – a partir da chamada SOCIEDADE DO CONHECIMENTO – estejamos preparados. Lei 9.aprendizagem e da transmissão-assimilação em sala de aula. inventivas e criativas para a organização da escola. O que se tem de comum é a previsão da pedagogia dos resultados. que se produz nos espaços institucionais como a escola.Saúde e trabalho docente 94 comunidade. E a questão da diversidade cultural tão presente em nossas escolas? Como afirmar uma política de formação para o Magistério em que outra ética seja possível? O que dizer da condição feminina no Magistério? 2 GÊNERO E RELAÇÕES DE PODER NO TRABALHO DOCENTE Propomos. de forma dinâmica.

dos fins.] tentará organizar o próprio interior da educação. em que a docência passa a ser objeto imprescindível nas reformas educacionais. em especial.. [. O comportamento administrativo manifesta seu alcance pedagógico de várias maneiras. tendo como foco o trabalho em equipe. A lógica do planejamento implica uma mudança de postura gerencial e uma nova forma para os atores inscritos – todos os que pensam e fazem a escola: mudanças de atitudes e de comportamento.. p.. as escolas e as salas de aula.. na defesa dos . 93-94). em 1994. em específico. A partir das reformas no Estado brasileiro (MONTAÑO. no estabelecimento de prioridades. dos meios.. A chamada Gestão da Qualidade Total (GQT) em educação representa uma opção de reorientação gerencial das organizações. na sua dimensão coletiva..] (SILVA. de acordo com esquemas de organização do processo de trabalho. na destinação e na alocação de recursos. cujo ministro da Educação era Paulo Renato Souza.. O que propomos aqui é acentuar o debate sobre o entendimento de uma nova administração de produção que chega ao chão da escola – gestão – um conceito que. que atravessa toda a organização. para a escola: a gerência de trabalho para ser partilhada requer a coletivização das responsabilidades para quem pensa e faz a escola. O trabalho. produzem-se “[. objetivando a solução dos problemas e da diminuição de erros. antes de intervir. 2008. Por exemplo: no estabelecimento das políticas.Saúde e trabalho docente 95 no Brasil. a partir do governo de Fernando Henrique Cardoso. requer dos trabalhadores o reconhecimento para a resolução de problemas no local e no momento em que ocorrem.. no respeito à liberdade e às individualidades. A GQT em educação [. em 2005. 1994. no setor educacional. traz mudanças importantes para a formação do Magistério. 2002). recomendando a adoção de critérios de racionalidade administrativa como meio de resolução dos problemas” (OLIVEIRA. pensado nas reformas do Estado brasileiro. no planejamento e na avaliação. p. 20). passa a configurar um novo tipo de trabalhador para a sociedade e. buscando constantemente rever seus processos de atuação. Trata-se de uma nova forma de pensar.] é uma demonstração de que a estratégia neoliberal [. isto é. para tomar decisões com base em fatos e dados.] mudanças nos aspectos gerenciais das políticas públicas. segundo afirma a UNESCO. de localizar os problemas. na articulação com e entre a comunidade escolar. Nesse contexto. são debatidas diferentes propostas.

Segundo Lück (2000). A ideia é propor a melhoria da qualidade de ensino das escolas. o PNE surge como referência importante para as ações de trabalho desenvolvidas no interior da escola. a partir da lógica da eficácia. especificamente. sob o argumento da organização sistêmica. tais reformas serão marcadas pela padronização e massificação de certos processos administrativos e pedagógicos. da educação está ligada às ações do governo federal a partir do Plano de Desenvolvimento da Educação (PNE). com o objetivo de racionalizar gastos/custos. p. A equidade far-se-ia presente. em seus aspectos físico e organizacional. a partir da definição de custos mínimos para todos (OLIVEIRA. A definição do conceito de gestão. a gestão escolar representa uma dimensão e uma intervenção que objetivam promover a organização. na estrutura e na gestão das redes públicas de ensino. da garantia da suposta universalidade. em sua passagem pela escola (BUSSMANN. da eficiência e dos critérios de produção. Tais estratégias possibilitam arranjos locais como a complementação orçamentária com recursos da própria comunidade assistida e de parcerias. a mobilização e a articulação de todas as condições materiais e humanas implicadas com os avanços dos processos de ensino-aprendizagem. 2004. sobretudo. a pública. promover nos estudantes habilidades e competências significa torná-los capazes de enfrentar os desafios cada vez mais complexos da sociedade globalizada em que estão inseridos. 2006). sobretudo. associado à descentralização administrativa na implementação dessas políticas. plugada na ideia do Estado Mínimo. pela globalização dos mercados. A lógica empresarial. através da redefinição de sua própria organização. Desse modo. em que o corolário da competência e da habilidade permitirá falar das novas incumbências postas pelo mundo do trabalho. Esse novo contexto vai repercutir na composição.Saúde e trabalho docente 96 interesses do coletivo escolar e na defesa das necessidades das crianças e dos jovens. Essas reformas padronizam os processos administrativos e pedagógicos. O modelo de gestão escolar adotado será baseado na combinação de formas de planejamento e controle central na formulação de políticas. Assim. As reformas educacionais vão configurar mudanças nas redes de ensino. bem como na profissão e na identidade docentes. propõe introduzir nas práticas educativas – discurso tecnocrático e burocrático da educação – o controle total sobre os modos de produção da escola. possibilitando baixar custos ou redefinir gastos e permitir o controle central das políticas implementadas. Nesse sentido. nas políticas de financiamento. 1131). dentre outras. .

e se busca abranger. como um todo. A gestão escolar constitui uma dimensão importantíssima da educação.] refere-se primordialmente à qualidade do processo. transmissiva. funcionam de modo interdependente (LÜCK. [. o plano de aula. essa mesma qualidade. que se aproxima da racionalidade taylorista. uma vez que. na maioria das vezes. A dualidade da ação pedagógica – entre quem concebe e quem executa – depara-se com outra lógica de administração e de organização de trabalho. novas questões são colocadas. em que o lugar e o papel docente estão previamente definidos. do trabalho pedagógico e da participação dos atores escolares e para a integração entre escola e comunidade. democrática. 8). e a articulação para quem pensa e faz a escola depende de como sua gestão é entendida não apenas pelo gestor. pelo planejamento escolar e. na última ponta. novos esforços são dirigidos para além de uma formação docente antenada à ideia de transmissão (a)ssimilação de conteúdos. bem como pelas ações interligadas. e ao introduzir o discurso da qualidade. Nesse aspecto. autoritária. Com e a partir da lógica da gestão partilhada. tal como uma rede. Sabemos que o trabalho docente. A sala de aula corresponde apenas a um meio para a formação dos estudantes. como centro do processo educacional. um dado histórico chama a atenção e podemos observá-lo em nossas práticas educativas: cabe ao professor executar a atividade pedagógica em sala de aula. p.. Entretanto. “Hoje”. segundo Bruno (2008. sem passar pela elaboração do trabalho docente. não do produto. mas por decisões que passam por todos. O debate sobre a melhoria da qualidade do ensino das escolas é tema recorrente em trabalhos acadêmicos. 2000. dentro de seu contexto e buscando romper com essa dualidade pedagógica. com relação a este. já que.. A partir da LDBEN. como já indicado para aspectos que não só chegam ao nível da escola. por meio dela. cada escola. Lei nº 9.Saúde e trabalho docente 97 Um olhar retrospectivo da história da educação brasileira aponta para uma formação docente ancorada na pedagogia tradicional. p. traduz um modo de fazer pedagógico que não foi concebido pelo professor ou pela professora. a qualidade é sempre . de fato. pela visão estratégica e de conjunto. passa a dar relevância ao eixo pedagógico. observa-se a escola e os problemas educacionais globalmente. cuja lógica propõe separar quem decide de quem executa. 41). por exemplo. os problemas que. sua gestão democrática passa a estabelecer orientações para a organização do espaço físico. como também ao modo como devemos pensar e produzir a organização do trabalho docente.394/96.

de força de trabalho. expresso no Artigo 15 da referida Lei. na história. de tempo de trabalho. A questão que se coloca é a assimilação por parte dos profissionais da educação. nessa direção. E. No título IV – “Da Organização da Educação Nacional” –. Ainda sobre esse aspecto.] a implementação de projeto político-pedagógico próprio é condição para que se afirme (ou se construa simultaneamente) a identidade da escola. todos os que fazem e pensam o chão da escola são os responsáveis pela elaboração do PPP. os Artigos 12 e 13 referem-se às incumbências dos estabelecimentos de ensino e dos professores. assessorar e acompanhar as escolas de sua rede. 306): [. redefinição no mundo do trabalho. Participar da elaboração de um projeto não é uma questão culturalmente presente nas práticas docentes. menciona: “participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino”. claramente. cabe aos órgãos municipais e estaduais de Educação orientar. que significa. a injunção de responsabilidades e ações que buscam dar respostas importantes às demandas requeridas.. No Artigo 13.. Lembrem-se: sociedade globalizada. Quem participa . de custos. O caráter de descentralização e de autonomia está posto! O primeiro afirma. atravessam a nossa formação docente. antecipar uma intervenção pedagógica exige da escola o planejamento. entre outros aspectos. como já assinalado. Desse modo. [. Para a construção do PPP. 49). uma demanda claramente vinculada ao princípio constitucional de gestão democrática. a diversidade cultural e as relações que são produzidas no interior da nossa escola constitui o foco de ação do PPP.Saúde e trabalho docente 98 referida ao segmento de mercado ao qual se destina. Objetivamente. E o que significa tal projeto? Quem o elabora? É a primeira vez.. Qualidade do processo produtivo diz respeito à redução de desperdícios. em relação aos estabelecimentos: “elaborar e executar sua proposta pedagógica”. mas também pela realização dos princípios fundamentais de igualdade de oportunidades educativas e de qualidade do ensino. assinala Fonseca (2003. inovação técnica e científica. a elaboração e a execução de um Projeto Político-pedagógico (PPP). p. que autonomia escolar e proposta pedagógica aparecem no texto legal. a qual deve responsabilizar-se não apenas pelo funcionamento do sistema escolar. p. Segundo Bussmann (2006. entender coletivamente a realidade social. referente aos docentes.. como espaço pedagógico necessário à construção do conhecimento e da cidadania.] o que mais se destaca nos textos legais é que atribuem papéis cada vez mais complexos à gestão escolar.

2008. em 2007. não se discute o impacto dos números para garantir o acesso e a universalização da Educação básica. 2004). em que a ideia da autonomia. Por outro lado. na sua redefinição. necessariamente. p. Nesse sentido. combinada com diferentes fatores presentes na gestão e na organização do trabalho escolar. o próprio governo mostra que a qualidade do ensino – entenda acesso e permanência na escola – ainda não corresponde ao quantitativo das matrículas. Além desses aspectos. A redefinição da atividade pedagógica. efetivamente. suscita do professor uma ação ativa e inventiva diante do seu papel na escola. inclusive. A lógica da expansão tem produzido impacto importante para a atividade docente. Paulo. E. como já indicado. 1140).. possa. chegou a 12. métodos – estão recheados de implicações sociais. da participação política. Em termos de acesso. aponta para uma maior e intensa responsabilização docente (OLIVEIRA.. O que temos observado em nossas pesquisas é que os trabalhadores docentes se sentem obrigados a responder às novas exigências pedagógicas e administrativas.Saúde e trabalho docente 99 das decisões e dos planos da escola? Não vivemos e não temos uma cultura da elaboração. Um desses problemas identificados pode ser apontado pelas estatísticas do próprio governo federal.] A escola. qualidade de ensino. . capitaneada a partir da lógica das incumbências. tudo o que acontece no meio escolar está atravessado por influências econômicas. em que a construção coletiva. conteúdos. de alguma forma. 2004). políticas e culturais que caracterizam a sociedade de classes. concretizar-se na elaboração de um PPP. p. tem sobrecarregado em grande medida os trabalhadores docentes (ALGEBAILE. plugada aos interesses do gestor escolar. no país.7%. [. segundo apontam os dados do Ministério da Educação (Folha de S. 2004. 10/06/2009). e o mesmo se depara com desafios consequentes de um tipo de escola estruturante que temos: quantidade não significa. Isso significa que os elementos do planejamento escolar – objetivos. têm um significado genuinamente político (LIBÂNEO. 222). contudo expressam sensação de insegurança e desamparo tanto do ponto de vista objetivo – faltam-lhes condições de trabalho adequadas – quanto do ponto de vista subjetivo (OLIVEIRA. que indicam que a proporção de estudantes do ensino médio que repete o ano. o dobro do que em 1998. Um olhar mais atento sobre a Educação básica vai falar de uma expansão que. os professores e os alunos são integrantes da dinâmica das relações sociais.

Ainda na perspectiva da gestão do trabalho docente. exerce várias funções dentro da família para manter a educação e a sobrevivência de todos. aos homossexuais. Como produzir ações de política de gestão democrática. com o cantar da natureza e o brilho infinito do sol. aos negros. é objeto de discussão de trabalhos analíticos sobre os impactos para a saúde do trabalhador. aos portadores de necessidades educacionais especiais e outros. Desde a infância. frente também a essa realidade? E o aspecto quali-quantitativo da Educação básica diante das novas atribuições do trabalho docente? Que tipo de profissional queremos e desejamos para as nossas escolas? A gestão escolar. saúde e processos de subjetivação nas escolas”. Joana. em que os autores buscam discutir questões referentes ao conceito de subjetividade no campo das articulações entre o processo de trabalho docente e a saúde. em que os professores e as professoras são considerados os gestores da educação e da escola. o respeito ao direito à diferença em relação à questão indígena. fazemos um convite à fabulação. é importante o trabalho analítico de Minayo-Gómez e Barros (2002). intitulado “Gestão do trabalho. como preconizada. Irene acredita que a educação de seus filhos deve seguir os mesmos comportamentos.Saúde e trabalho docente 100 nesses modos de gestão. e um modo de ser da mulher. do campo. e os processos de subjetivação atualizados nas escolas por diferentes políticas educacionais e seus modos de gestão. cujos papéis são construções históricas. buscaremos suscitar os conceitos de gênero e de poder que atravessam e constituem um modo de ser homem. temos alguns personagens fictícios e vamos situá-los na história de D. sobretudo ao buscar atender à melhoria da qualidade do ensino nas escolas. Na . Moradores do campo. suas vidas dependem da terra e do trabalho coletivo de todos. inventiva. Como jovem. Acordam cedo. Nessa fabulação. cuja família é constituída por Seu Pedro e os filhos Gabriel e Anita. uma mulher trabalhadora. às mulheres. D. socialmente produzidas. Desse modo e em um primeiro momento. desafiadora. Lidar com a universalização do acesso à escola é lidar com a diversidade cultural que constitui a nossa sociedade: jovens e adultos das camadas populares. a escola passa a ser o lugar da gestão administrativa e financeira responsabilizada pelo sucesso ou pelo fracasso dessa política. condutas e atitudes que aprendera com seus pais. que se sentem excluídos do processo social. Nesse sentido.

atitudes. em que se busca compreender. 1997.] (LOURO. 17). bem como a ocultação do rotineiro trabalho doméstico... gênero musical. afetos.. Há muito para fazer. passavam a ser observadas [. As diferenças sexuais são baseadas nas diferenças biológicas. Sem dúvida. com o corpo-e-a-consciência.. o conceito de gênero é uma construção social e histórica. quatro janelas. 1988.. D..Saúde e trabalho docente 101 verdade. E. criando as mesmas raízes. quase que lendo as mesmas trajetórias de sua história.. E qual a nossa perspectiva de gênero? Por que. Irene tem a certeza de que Anita deve seguir os mesmos passos. desde muito tempo. o vegetal e o mineral. [.] (BRANDÃO.] As características dessas ocupações. ela e Anita retornam à pequena casa. por três reinos: o animal. com a consciência. o homem e a mulher. olhares. divididas entre quem é o macho e a fêmea. na parte interna. e pequenos jardins nas cercanias. às plantações. desejos. Irene ao Seu Pedro. No reino animal. Logo cedo. essas vidas.. os seres sexuados estão divididos em machos e fêmeas. A palavra “gênero” costuma aparecer em contextos diferentes. Essa diferença natural irá marcar o desenvolvimento da espécie humana e produzir a sociedade humana. aos poucos. as funções sociais que cada um assume na sociedade e as relações de poder que se estabelecem entre eles. e o saber flui [. levando consigo os filhos de oito anos (Gabriel) e de nove (Anita). durante a nossa formação na Educação básica. de cor branca. nas oficinas e nas lavouras [. As pessoas convivem umas com as outras. eles costumam acordar antes do raiar do dia. segundo os naturalistas. e azul.. fala-se de diferença entre os gêneros? Para Louro (1997). vão demarcando territórios. 18). junto com o marido. é adquirido pelas muitas e diferentes situações de trocas entre pessoas. . que o mundo em que habitamos é constituído. na externa. Na rota da vida doméstica. as mulheres das classes trabalhadoras e camponesas exerciam atividades fora do lar. afirma D. nas fábricas. cujo desenho permite falar de duas portas. p. com o corpo. comportamentos. assim. falas. Aprendemos.] Tudo o que se sabe. O organismo do macho é diferente do da fêmea. as relações produzidas entre os homens e as mulheres.. a partir desse conceito. referindo-se às atividades domésticas que ela tenta desenvolver ao longo do dia em parceria com todos. vai. dentre outros. como gênero textual. em vez de se falar de diferença entre os sexos. p. Depois de algum tempo na lavoura.

são instruídos com o exemplo. treinados. Nas comunidades comunais. Por sermos socialmente e historicamente produzidos nas diferentes e complexas formas de organização social. definidos e levando-se em consideração que o homem só existe em sociedade. 1988. a forma dessa mesma sociedade será definida pelo modo como é produzida a sua existência em seu conjunto. serão fundadas na lógica do poder do homem. Para existir e diante de uma formação em que os papéis irão ser determinados. devido a sua força física e poder de mando. é possível identificar uma divisão sexual do trabalho. O mundo do trabalho e o mundo doméstico eram coincidentes. cuja constituição se deu a partir do instante em que determinada espécie natural de seres vivos se destacou da natureza e. p. 2004). A função reprodutora da espécie.Saúde e trabalho docente 102 Na espécie humana. em que o conhecimento se dava em forma de oitiva – modo de produção comunal –. adaptando-se a ela.. na vida que há no cotidiano. incentivados. de intenções. [. que cabia à mulher.] (BRANDÃO. punem e premiam. As sociedades denominadas de patriarcais. Ela se instala dentro de um domínio propriamente humano de trocas: de símbolos. A cultura do cuidar e do educar a criança foi sendo percebida como uma tarefa da mulher. corrigem.] os que sabem: fazem. . em lugar de sobreviver. Assim. ensinam. vêem fazer e imitam. premiados e. favoreceu a sua subordinação ao homem que. passou a assumir o controle e o poder dentro da sociedade. demonstram. 20). emergidas nessa lógica de produção e de reprodução.. punidos. associado à ideia de autoridade. Bruschini (1997. para marcar a sua mesma existência. Os que não sabem espiam. marcada pela capacidade reprodutora da mulher. 1988. p. a educação não continua apenas o trabalho da vida. p. Os homens se apropriam coletivamente dos meios de produção da existência e. corrigidos. incentivam. do chefe de família. com o próprio exercício vivo do fazer (BRANDÃO. procurou. 57) assevera que. de padrões de cultura e de relações de poder [. mesmo que ela também já participasse do trabalho do cultivo e da criação de animais. enfim. desde que o homem começou a produzir seus alimentos.. aos poucos aceitos entre os que sabem fazer e ensinar. o saber que ali existe. o fato de gerar o filho e de amamentá-lo. educam-se e educam as novas gerações (SAVIANI. adaptar a natureza a si. nesse processo. a educação é inerente à sociedade humana. começaram a se definir papéis para os homens e as mulheres. vigiam.. 18).

. na esfera privada do lar. A ideia de posse de bens e a garantia da herança para as futuras gerações conduziram o homem à lógica da paternidade e produziram. a mulher passou a ser como uma “propriedade” do homem.. À medida que as riquezas iam aumentando. ao homem cabia procurar alimentos e instrumentos de trabalho. tanto no que se refere aos repasses dos bens materiais. como sua forma de se perpetuar por meio da descendência. A partir dessa perspectiva. Na sociedade moderna. Surge a lógica da família nuclear – pai. Aqui a lógica do poder patriarcal prevalece. 1997. de seu grau de parentesco.] com a evolução da sociedade. a unidade de produção. intenso e com ampla jornada de trabalho. mãe e filhos. à realização de tarefas relativas à reprodução da força de trabalho. pelo qual passou a receber uma remuneração (BRUSCHINI. segundo Engels. a ordem da herança estabelecida. portanto. e o marido trabalha fora [. 1997. nos interesses do homem. por direito. e de outro. As sociedades patriarcais permaneceram ao longo dos tempos. a revolução industrial. [. Na Inglaterra. ele era proprietário desses instrumentos. quanto na reprodução. é submetida ao trabalho fabril. .. segundo afirma Saviani (2004). mesmo com o advento do modelo de produção capitalista. o homem desfrutava de uma posição mais importante do que a mulher na família e ele passou a modificar.. o excedente de riqueza acumulado foi convertido em propriedade particular das famílias. através da herança. A mulher foi incorporada à lógica da fábrica. p. Com esse advento. “O isolamento da família nuclear moderna acentua o peso do papel da mãe. na mulher. enquanto ao homem coube o trabalho produtivo extra lar. O papel da mulher ficou restrito. assiste-se à ruptura do mundo do trabalho com o mundo doméstico. uma relação pautada na submissão. a unidade doméstica.. e a agricultura. p. o campo é subordinado à cidade. na medida em que esta não conta com parentes para ajudar.Saúde e trabalho docente 103 [. A essa fragmentação correspondeu uma divisão sexual do trabalho mais rígida do que a que predominava antes. 55). principalmente. a classe dominante (burguesia) detém a propriedade privada dos meios de produção. a partir do século XVIII. vai incorporar na família o aparecimento de duas esferas distintas: de um lado. em proveito dos filhos. e a mulher.] À mulher coube principalmente a realização de tarefas relativas à reprodução da força de trabalho na esfera privada do lar e sem remuneração.. à indústria.]” (BRUSCHINI. não nobre nem burguesa. 64-65). De acordo com a divisão de trabalho predominante. Nesse processo.

Saúde e trabalho docente 104 As lutas entre homens e mulheres trabalhadoras estão presentes em todo o processo de revolução industrial. entre outros). A ela cabia o cuidado e a educação da prole. cuja leveza e delicadeza dos atos eram imprescindíveis.. 65). no período compreendido como de manufatura.] (BRUSCHINI. como já referimos.. ela teria de ter então o aspecto doentio idealizado pelo romantismo. passar. p. A mulher precisou se transformar.. Segundo Bruschini (1997). Com a ruptura entre local de produção e local de reprodução trazida pelo capitalismo. As relações se estreitavam à medida que o espaço entre uma edificação e outra aumentava. p. desde que o isolamento não fosse completo. cozinhar. [. via o seu lar como recanto. bailes. Criou-se a necessidade dos bons modos. feia e de gestos rudes. dos afazeres domésticos e do trabalho remunerado. Essa mesma sociedade capitalista passa a argumentar a diferença biológica para a desigualdade entre homens e mulheres. própria à biologia de cada sexo. antes pesada. dos filhos e da aparência física e social do marido era tarefa árdua.. a mulher passou a ter uma dupla jornada de trabalho. apesar de. através do trabalho doméstico [. e b) a produção de novos trabalhadores ou formação das novas gerações. jantares e saraus eram oferecidos à alta sociedade. a ideologia se encarregou do restante. na verdade.. e à mulher eram . do feminino – realiza-se em dois planos: a) incluindo todas as atividades domésticas necessárias para a reprodução das pessoas. Ao ser incorporada ao mundo do trabalho capitalista. não o serem [. primava por sua intimidade. 65). 1997.] A mitificação do papel de esposa e de mãe concretizou-se mais facilmente na medida em que casa e família passaram a significar a mesma coisa. a função econômica da família reduzse à produção de valores de uso ou prestação de serviços domésticos. Festas.] (BRUSCHINI. com a consequente revolução nos modos de produção: passa a transformar essa rígida divisão sexual do trabalho em uma divisão “natural”. 1997. A incumbência feminina de cuidar da casa. por meio da transformação das mercadorias compradas no mercado em produtos consumíveis individualmente pelos membros do grupo (lavar. O trabalho doméstico – entendido como atribuição da mulher. O burguês vivia só.. A luta contra essa lógica do capital – em que se reafirma a lógica do biológico para pensar as relações sociais – surge permeada pela questão de gênero.

20-21). ou melhor. assim.Saúde e trabalho docente 105 dadas as possibilidades de educação. E a formação do pedagogo (homem) na Educação infantil? Por que a hegemonia desse “lugar da mulher” pretende se eternizar na sociedade? [.. ao passo que falar em sexo reflete uma condição biológica e. 2007. para reforçar seu uso nas análises sobre as diferenças entre homens e mulheres em que são social e culturalmente produzidas. . enquanto que a de sexo é puramente biológica. 1997. Pode-se afirmar que a noção de gênero é cultural. o trabalho doméstico é uma atribuição feminina. algumas verdades são naturalizadas e se reafirmam: o “lugar da mulher”.] O conceito serve. p. A referida autora define gênero. como o aprendizado de literatura e música (ACORDI. seja revestido por uma linguagem “científica”. Para Louro (1997. b) gênero procura dar significado às relações de poder. Assim como as predisposições biológicas. p. Seja no âmbito do senso comum. 834). P. em que o social e o cultural são aspectos estruturantes nas relações sociais. serve para compreender – e justificar a desigualdade social (LOURO. dona de casa. da mulher. “[. tais naturalizações são produzidas no interior da prática pedagógica: a professora é ideal para trabalhar.] O argumento de que homens e mulheres são biologicamente distintos e que a relação entre ambos decorre dessa distinção. como uma ferramenta analítica que é.. inclusive. Na escola. É possível afirmar que as diferenças entre homens e mulheres têm sido naturalizadas pelo uso do termo “sexo”. Por exemplo. baseando-se em duas assertivas: a) gênero é elemento constitutivo das relações sociais fundamentadas nas diferenças percebidas entre os sexos. tanto quanto se queira. Tais diferenças são social e culturalmente construídas. com as crianças. e segundo Scott (1995 apud LOURO. e a execução dessa atividade não suscita nenhuma qualificação prévia. porquanto contribui. Nessa perspectiva.. esposa e mãe. uma ferramenta política”. que são reafirmadas pelo social e pelo cultural. a distinção biológica. a cultura do cuidar e a do educar. ao mesmo tempo. portanto. 21). imutável e eterna. 1997). que se produz nos espaços domésticos – uma tarefa eminentemente da mulher –.. a categoria gênero representa uma ferramenta importante para a história e para as ciências sociais. a distinção sexual. acaba por ter o caráter de argumento final. na Educação infantil. o “lugar da menina” e o “lugar do menino” na sociedade. irrecorrível. Nesse campo. educativa e pedagogicamente. é reproduzida na Educação infantil. que é complementar e na qual cada um deve desempenhar um papel determinado secularmente.

como já apontado. relações de poder. notadamente a partir do século XVII. considera esse período como a época das sociedades chamadas burguesas.] (FOUCAULT. 16) vai identificar uma forma de “vontade de saber”. Tudo se passa como se. 2002) nos ajuda a entender a emergência de certo tipo de poder disciplinar.] não inteiramente inventada. em vez de ler. classificáveis. 1990. Foucault (1990. uma vontade de saber que prescrevia (e de um modo mais geral do que qualquer instrumento determinado) o nível técnico do qual deveriam investir-se os conhecimentos para serem verificáveis e úteis. apareceu uma vontade de saber que. p. A técnica disciplinar.. Foucault (2002). que atendem a um duplo jogo de divisão binária e de marcação e mostra que a vida foi transformada em um objeto de “poder-saber”.. Trata-se de um tipo de poder que se inscreve num regime de produção em que o indivíduo passa a ser confinado a espaços de extração de energias produtivas e de reprodução .. pois não há “[. ao mesmo tempo. a partir do século XVI. Nessa produção de “saber-poder”.seja escola. demarcadas por mecanismos disciplinares dos comportamentos. p. Nessa lógica.. quando se analisam as relações de poder na sociedade. uma vontade de saber que impunha ao sujeito cognoscente (e de certa forma antes de qualquer experiência) certa posição. antecipando-se a seus conteúdos atuais. família. notadamente. observáveis. instâncias de controle individual e funcional. de um modo geral. a vontade de verdade tivesse sua própria história [. orfanato. certo olhar e certa função (ver. 2003. os processos de inclusão e exclusão dos indivíduos apresentam. sobretudo). mas elaborada em seus princípios fundamentais durante o Século XVIII” (FOUCAULT..] relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber. verificar. além de distingui-lo como sujeito .. p. quartéis.. 27) Nesse cenário. esse conceito “poder-saber” é fundamental. 105).. p. Portanto. [. mensuráveis. quando Foucault mostra como o tempo e o espaço vão se reorganizando. foi “[. em vez de comentar).]” (FOUCAULT. Foucault (2003. que parte do princípio de que é mais rentável vigiar do que castigar. segue a seguinte lógica: homem e mulher. prisões . a partir da grande divisão platônica. desenhava planos de objetos possíveis. uma forma de exercício de poder. fábrica. Quando pensamos nos modos de educação que irão se configurar. 2002. 16). que surge a partir da necessidade de o capitalismo produzir novos controles sociais.Saúde e trabalho docente 106 O binarismo na construção social e cultural. nem saber que não suponha e não constitua. produtora de um discurso verdadeiro sobre os “sujeitos”: Voltemos um pouco atrás (sic): por volta do Século XVI e do Século XVII (na Inglaterra. há um poder que nos atravessa e nos constitui nas relações sociais.que.

a escola. 1997. especificamente. professora de uma creche. Bela resposta pensou. [. Algumas passavam batom. entre outras.. dos mortos. que Faria (2006) nos apresenta: Josefina.Saúde e trabalho docente 107 individualizado. quem sabe ele muda de ideia. e eu. 3 ESTUDOS FEMINISTAS NA EDUCAÇÃO E SAÚDE Para começar nossa discussão.. distinguindo o menino da menina. A escola. assim. o rico. da menina. — De que cor você quer pintar? E decidido. Nossa professora ficou confusa. que o autor denominará de biopoder.. a partir da emergência de instituições sociais. outras colocavam chapéu. o menino. do pobre. capas. 61). preocupada com o que as mães e os pais pudessem achar disto e para ganhar tempo enquanto pensava como proceder perguntou para ele: — Você já pintou as unhas antes? Seu pai pinta as unhas? E ele respondeu prontamente: — Ah. estava entretida com um grupinho de crianças (a maioria delas com três anos de idade) que se travestiam das mais diferentes personagens. o que faço? Pergunto mais alguma coisa. eu nunca pintei antes. E agora? Lá se foi meu emprego. Bom. — Mas por que vermelho? E Toninho responde todo feliz: — É a cor do Schumacher! . e quem sabe tudo se resolve. que ‘passará pelos bancos escolares’ [. Toninho responde. Era a primeira vez que. cintos. como a família. outras. — VER-ME-LHO. Meu pai não pinta também.] O modo de sentar e andar. A produção das relações de poder permite falar sobre o legado que se herda da modernidade. p.. vamos nos imaginar vivendo a situação da professora Josefina.] (LOURO.. acontecia. mais uma pergunta. salto alto e algumas meninas pediram para Josefina pintarlhes as unhas da mão. pés e mãos acabariam por produzir um corpo escolarizado. as formas de colocar cadernos e canetas.. dos vivos. dos corpos. De repente vem o Toninho e pede que ela pinte também as suas. é que vai propor que se separe o adulto da criança. faz funcionar um controle total da vida da população.

soltava papagaio/ Até meus quatorze anos/ Era esse o meu mal/ Com a mania de garota folgazã/ Em toda parte que eu passava/ Encontrava um fã/ Quando havia festa na capela do lugar/ Era a primeira a ser chamada para ir cantar/ Assim vivendo eu vi meu nome ser falado/ Em todo canto em todo lado/ Até por quem nunca me viu/ E hoje a minha grande alegria/ É cantar com cortesia/ Para o povo do Brasil. para uma participação tímida nas escolas públicas mistas do século XIX. série do ensino fundamental. Segue a letra: Teco. interpretada nas belas vozes de Ademilde Fonseca ou de Gal Costa. extraordinária: de uma educação no lar e para o lar. teco. Embora os homens sejam maioria na população até os 20 anos de idade. caro leitor. respeitando as diferenças. 1950). quando a música foi feita. como se sentiria nessa situação? Seguindo nessa linha. é inegável que o acesso das mulheres está mais igualitário. não é difícil admitir que essa situação fosse ainda mais complicada nas décadas anteriores. como lidaria com essas maneiras tão “moleques”? Conseguiria lidar sem preconceitos com esses comportamentos. sem preconceito. Mais complicado ainda. como afirma Ristoff (2006). as mulheres são maioria na escola já a partir da 5 a. teco/ Teco na bola de gude/ Era o meu viver/ Quando criança no meio da garotada/ Com a sacola do lado/ Só jogava pra valer/ Não fazia roupas de boneca/ Nem tão pouco convivia/ Com as garotas do meu bairro/ Que era natural/ Subia em postes. a trajetória da mulher brasileira nos últimos séculos é. veremos a música “Teco teco”. sem julgar que aqueles atos são aceitáveis apenas para meninos? Imaginemos agora que você. no período colonial. por mais que ainda haja muito a fazer. Novamente. para dizer pouco. depois para uma presença significativa na docência do ensino primário. . teco. fosse professor ou professora daquele menino. se você fosse professor ou professora dessa menina. não? Se reconhecermos a dificuldade de tratar as questões de gênero – categoria importante para entendermos como são produzidos o masculino e o feminino –. mas em 1950. fosse docente. de Pereira da Costa e Milton Villela (FONSECA.Saúde e trabalho docente 108 Se você. caro leitor. abordando aquela situação não atualmente. bem como de uma expressiva participação na docência da educação superior. Precisamos reconhecer: avançamos! Mesmo no quadro geral da educação brasileira. seguida de uma presença hoje majoritária em todos os níveis de escolaridade.

Ristoff (2006) expressa sobre essa questão destacando que os cursos mais procurados pelos homens são os relacionados a engenharia. de modo que.. quando afirma: Cabe ressaltar que. as mulheres têm sido qualificadas para o trabalho remunerado e superqualificadas para o trabalho doméstico. nos percursos educativos e profissionais femininos. on-line). as atividades de cuidados e responsabilidades relativas à casa. 2006) e que. características do doméstico. reflete sua superqualificação para atividades de cuidado às outras pessoas. contrariando a língua portuguesa.. Por outro lado. em geral. aos filhos. as profissões constituídas. as mulheres buscam os ligados a educação e saúde. não é? Se for assim. como fica a saúde neste quadro? Para tratar da questão da saúde. concordamos com Brito (2000. dentre as opções para fugir do confinamento doméstico. graduação e pós-graduação. por outro. mesmo a busca por profissão. por exemplo. em salários mais baixos que aquelas profissões de maioria masculina. por mulheres recebem menos reconhecimento social. Pensando na profissão de professora (deixamos aqui no feminino. Isso porque a inserção dessas mulheres se deu em profissões que têm (ou passaram a ter) características similares às da esfera doméstica. assim. da educação e do gênero. 2007. expresso. como dissemos anteriormente. Há hoje cerca de meio milhão de mulheres a mais do que homens nos campi do Brasil. Não é por acaso que. p. SELIGMANN-SILVA. nos últimos anos. desde o século XIX. encontravam-se frequentemente as profissões ligadas ao domicílio. 67). por um lado. mas. direcionar-se para certa profissão é. à área de enfermagem e ao magistério. típico do trabalho doméstico. uma escolha da mulher que a faz. por se constituir de maioria de mulheres). 1120). As inserções profissionais das mulheres reproduzem. 2006. sabemos que a escola se coloca como um espaço de trabalho majoritariamente feminino (ARAÚJO et al. no âmbito de estudos específicos da relação saúde/trabalho. indústria e computando.Saúde e trabalho docente 109 passando pelo ensino médio. no caso. ao esposo (NEVES. Portanto. é colocar em prática comportamentos e experiências aprendidas e desenvolvidas em sua formação no âmbito doméstico (ARAÚJO et al. No entanto. É preciso ainda avançar muito nesse campo. a emergência. tecnologia. do olhar sobre a mulher trabalhadora tem evidenciado a . em sua maioria. p.

a morte. correndo riscos até de adoecer e tentar levantar-se. somente foram possíveis porque as pessoas..] os problemas de saúde têm relação com exigências de dois âmbitos: o do trabalho doméstico e o do trabalho assalariado” (BRITO et al. inclusive as que ocorrem entre os muros das escolas. mais do que dos homens. Estar saudável supõe não se restringir ao que o meio coloca como tentativa de imposição e tentar viver e exercer diversas atividades em diferentes situações. o trabalho e o descanso. O fato de manter e desenvolver a saúde ou. p. 48). talvez. Se o que é socialmente considerado trabalho de mulher. Apesar de todos os problemas que encontramos ainda hoje. permitiu transformar a vida (e a saúde) de todos. mas nunca estando passivo frente ao que o meio coloca. Como estamos lidando com questões ligadas à saúde. é necessário reconhecer que já melhoramos. pois ela somente consegue tolerar as normas que o ambiente tenta impor. tornando a vida em sociedade mais saudável!). 164). em especial as mulheres. que torna imprevisível o que conseguiremos construir de saudável ou de deletério. p. na maioria dos setores.Saúde e trabalho docente 110 impossibilidade de separar. em seu dia a dia. hegemônicos. 2003. que nos interessam aqui. Em qualquer situação na vida. 2003. é diferente do que é considerado trabalho de homem. analítica e concretamente. o trabalho remunerado e o não remunerado. que nunca é neutro em relação a ela. como mostra Schwartz (2000). especificamente no caso da mulher. Toda atividade é fonte de reservas de alternativas. 2001). ainda. adoecer é fruto de uma série de elementos que se tornam presentes em nossa vidas. tentaram impor (CANGUILHEM. Defendemos que os avanços que temos. os espaços de trabalho e de consumo. cabe agora interrogar seu significado. “[. seja em casa. construir a própria saúde passa por tornar seu o meio onde a pessoa está. Se o meio agride de tal maneira que não é possível a homens e mulheres tomarem suas decisões. no que concerne às relações de gênero (que beneficiam mulheres e homens. Assim. mesmo com todas as suas contradições. e favorece tanto a doença quanto a saúde” (DEJOURS. “Sabemos que a saúde é sempre afetada pelo trabalho. A atividade dessas mulheres.. homens e mulheres adoecerão também de maneiras distintas. se essas normas são conciliáveis com os valores daquela pessoa. a consequência será o adoecimento e. . não se submeteram ao que os valores machistas. na escola ou em qualquer outro lugar..

como nos lembra Faria (2006. A divisão sexual do trabalho. ainda se atribuam principalmente o trabalho doméstico e atividades remuneradas que a ele se assemelham. dentro e fora dos muros da escola. Nessa linha. p. pois. Ao contrário. as mulheres continuam sendo vítimas das mais variadas formas de violência. representa esforço excessivo. Sabemos. uma sobrecarga no trabalho doméstico e uma sobrecarga no trabalho remunerado (BRITO. às mulheres. que movimentos permitiram e permitem que vivamos de maneira mais igualitária. vale lembrar que. . ultrapassando os limites que sempre se reerguem frente aos movimentos emancipatórios. não podemos esquecer que houve avanços.Saúde e trabalho docente 111 Não alimentamos aqui uma visão ingenuamente otimista do quadro que se apresenta. Por outro lado. Castel (1978). ainda há muito que fazer! Na saúde e na doença. mas há algo que parece permanecer invariável: a maior valorização da tarefa atribuída aos homens. amando-te e respeitando-te. de subservientes ao homem? O movimento feminista teve e tem um papel fundamental nesses avanços. em diversas épocas e lugares. Acreditamos que os avanços nos estudos feministas.]. produzida pela organização do trabalho. temos sempre que perguntar: que mecanismos estão ainda presentes que mantêm as mulheres frequentemente em uma posição de subjugadas. ao mesmo tempo.. assim como está presente. uma valência diferencial dos sexos. juntamente com autores. que o poder/saber está constantemente atravessado por mecanismos de controle do humano. a qual.. As relações sociais de sexo implicam. no que tange à saúde e à educação. Mesmo que... trazem reservas de alternativas para se pensar e construir novas formas de convivialidade. Mesmo os avanços no campo da saúde e do trabalho devem ser relativizados. 202). associada ao trabalho familiar e aos menores recursos de que dispõem. a tarefa que se considera como masculina ou feminina muda enormemente. impõe-lhes jornada ilimitada. 2000. dentre outros. produto de relações sociais de sexo. podendo contribuir para a deterioração progressiva da saúde dessas mulheres [. ao falar da luta pelo direito à creche: Justamente é o ingresso em massa das mulheres no mercado de trabalho e o movimento feminista que vão exigir creches para dividir com a sociedade a educação de seus filhos e filhas. a luta para o desenvolvimento de cada pessoa e das coletividades. Nesse campo. no movimento da vida. como Foucault (2003). on-line).

de seu bairro. entre pessoas do mesmo sexo ou de sexos distintos. seu local de lazer. namorar e ser mãe. exatamente porque estão presentes em nossas vidas desde a infância. c) O social: os grupos sociais mais amplos. Para esse autor. . A importância dos sentimentos positivos e negativos em relação a essas pessoas. seu país. Voltemos aos exemplos da música “Teco teco” e do caso da professora Josefina. entre amigos e outros tem a ver com essa dominação? Que relações isso tem com a maneira como nos conduzimos com nossos estudantes e com nossa vida e saúde? Para seguir essa discussão. estamos tratando de um nível social macro. Num primeiro momento nos anos 70 a luta é por uma creche para nós. até aqui. O que ocorre é o oposto.Saúde e trabalho docente 112 articulado aos movimentos sindicais e das esquerdas. comecei a observar a questão da identidade na esfera do trabalho produtivo. ou seja. entre genitores e prole. com tudo o que os humanos. podemos intervir. b) O psicofamiliar: sua singularidade em relação aos mais próximos. Ela nunca está totalmente completa. 318-319) que diz: Convencido pelas pesquisas de Danièle Kergoat e Helena Hirata. sua cidade. as mulheres: "tenho direito de trabalhar. sempre guarda características já presentes anteriormente em cada um de nós. sua escola. estudar. A cultura de onde vive. que parece (sem ser!) grande demais para intervir. fazem de si e de sua imagem. mas também sempre está em transformação. Sem creche não poderei curtir todos eles". em que sabemos que há conflitos entre dominação dos homens pelas mulheres e movimentos de emancipação feminina. Ora. contado por Faria (2006). Quando falamos isso. presentes no início do nosso texto: o que a infância tem a ver com gênero. de que as relações sociais de sexo são indissociáveis das relações sociais de trabalho e de que as relações sociais de trabalho são sempre simultaneamente. temos feito uma análise do ponto de vista social. p. diferente dos animais. Ela é elemento fundamental para a manutenção da saúde física e mental. relações sociais de sexo. A constante construção dessa identidade passa pela necessidade de a pessoa lidar com elementos fortes e contraditórios: a) O biológico: seu próprio corpo. saúde e educação? O que o amor. nelas. a identidade é a maneira como nos vemos e nos definimos em cada momento da nossa vida. em desenvolvimento. vamos contar com a ajuda de Dejours (2004.

nas crises que opõem os parceiros de uma relação amorosa. 328). Lembre-se do medo da professora Josefina: “E agora? Lá se foi meu emprego. por estarem em frequente conflito. quando fala da dependência: Os homens frequentemente a negam. CIAVATTA.. as mulheres são mais aptas a reconhecê-la. ninguém conhece nem conhecerá integralmente as condições iniciais de seu objeto de estudo. De sorte que. como também ninguém conhece as suas próprias condições. marcada em nossos corpos. mais uma vez. p. tendo que negociar com a dominação entre gêneros. a pergunta que melhor nos orienta é: como se produzem. É por isso que a história sempre nos reserva surpresas (SCHWARTZ. 64). Assim. assim como relações de gênero mais igualitárias. recorrer a Dejours (2004. três dimensões: a individual (nossa individualidade). ao fazerem uma breve análise histórica e antropológica do trabalho. p. no limite da prova de força. que. Para compreender a concepção de trabalho na perspectiva do gênero. enquanto o amor é uma relação ante o outro. ao menos. é geralmente a mulher que se submete e o homem que insiste na posição de dominação. sempre exigindo que a pessoa tome decisões tensas. a natural (a natureza que desenvolvemos) e a social (a produção de individualidade e a natureza da relação com os outros da mesma espécie) (FRIGOTTO. os seres humanos? Uma compreensão breve e histórica nos dá pistas. 322).] as relações de dominação na esfera privada se sustentam e se alimentam da dependência afetiva que une entre si dois parceiros de uma relação amorosa. Vamos. 2002). 1992. As relações entre amor e identidade nem sempre são concordantes. por isso ela muda. socialmente. A identidade é essencialmente uma relação do sujeito consigo mesmo.. A dominação está presente na vida de cada um. Mais complicado ainda.] no que diz respeito aos sujeitos humanos. Saúde e educação estão sempre a se conquistar individual e coletivamente. no sentido de que esse processo envolve. Para Dejours (2004.. Sabemos que as relações de dominação estão presentes na família e que a escola é alimentada e pode alimentar essa dominação. nunca permitem que a identidade do sujeito esteja completa. Schwartz e Durrive (2007). [. p. [... Não é algo externo a cada pessoa.Saúde e trabalho docente 113 Construir a identidade significa procurar ou inventar modos de lidar com esses elementos.. a identidade se constrói e se mantém. podemos pensar em trabalho na confecção de . deixam claro que ele se insere nas condições de uma época. de modo que.”.

isto é. há circulação entre o que é ou não reconhecido socialmente como tal. pensar o trabalho sem levar em conta suas condições históricas e sociais é argumentar no abstrato. política e cultural – do mundo social isolado como tal no espírito como na ação dos homens. já as meninas ganham panelinhas e bonecas (mulheres cuidam da casa). Assim. na história da humanidade... b) Características do grupo social e profissional a que pertence. Daí a “autorização” que os homens têm. há uma distância. algo “[. podem se locomover. que faça aquilo contrariada. em uma determinada época (afinal. nem sempre. hoje. no trabalho. há sempre atividade. Como afirma Dewerpe (2001.”. algo bastante diferente do que se esperava. ou nas organizações sociais no neolítico. autônomo. o que é ou não trabalho – o que pode ou não ser considerado como tal – sem deixá-lo circunscrito em uma definição submetida a .Saúde e trabalho docente 114 ferramentas pelo homo habilis. 2001) mostra que. mesmo que essas escolhas tenham um componente de pressão social. Além dessas diferenças. É impossível definir. Desse modo.] distinto. ou. Como o trabalho envolve sempre atividade. por exemplo. p. 7). c) Pressões e autorizações sociais. desde garotos. jurídica.. em cada um desses momentos – e mesmo nas diferentes formações sociais. mais recentemente. na instituição do salariato com a emergência do capitalismo. pode-se considerar o que aqui chamamos trabalho de maneiras diferentes. espera-se de professores e professoras. na década de 1950). por exemplo). sempre escolhas feitas pela pessoa que as realiza. A Ergonomia (GUÉRIN et al. existiu a modalidade de trabalho como encontramos hoje. decisões que são atravessadas pelos seguintes aspectos: a) Características pessoais: formação pessoal. relacionadas com a produção agrícola. ao longo da história. precisamente. assim como o estado em que a pessoa se encontra naquele momento. nas diferentes conjunturas –. escolar e profissional (o que justifica nossa luta por escola de alto nível para todos!). Os meninos ganham carrinhos de presente (homens saem de casa. há dois ou cinco milhões de anos. separado de outras dimensões – simbólica e religiosa. entre o que o empregador demanda que alguém faça (a tarefa) e o que essa pessoa efetivamente realiza (a atividade). para fazer coisas que “não são coisas de meninas”.

que sintetiza. etc. que se coloca como guia para a vida das pessoas. sabemos que os lugares atribuídos a homens e mulheres são desiguais. Nessa situação. a mercantil – há sempre indefinição. individual. teoricamente falso. realiza o trabalho doméstico. Tomemos..] faz parte da ‘ordem natural’” (DI RUZZA. é um reducionismo tipicamente economicista e que se reflete em reducionismo jurídico-político nos marcos dessa sociedade. p. sem limite predefinido. parcialmente diferentes de trabalho – entre elas. 36). socialmente perverso e politicamente perigoso” (op. Da mesma forma. profissional. e que “os efeitos da globalização. HALEVI. complexos e contraditórios. em relação à outra mulher que trabalhe em uma escola. p. mas que guardam semelhanças entre si.. privado. como exemplo. ainda que o aspecto familiar. utiliza competências nos dois meios de trabalho. espírito. 2002. esta é marcada por um modelo econômico que. como professora e. o caso de uma mulher que trabalhe em uma cozinha industrial e em sua própria casa trabalhe também com os cuidados da família. valores. Tomar o trabalho como prestação remunerada. o chamado trabalho doméstico. desejado. coletivo. DURRIVE. Dentre as várias formas históricas e sociais. em casa. pontos de semelhança e de diferenciação.] um élan de vida e saúde. isto é.. fazer. imposto. pois é um consenso logicamente inconsistente. 2007. para quem é necessário se bater contra esse pretenso consenso “[.Saúde e trabalho docente 115 uma determinada época e circunstância econômico-social e sem excluir as pessoas que não se adequam àquele modelo. concordamos com os autores. até mesmo o trabalho que se realiza nos cuidados de uma casa e das pessoas que nela circulam.. reavivou a ideia do mercado como sendo algo que “[. on-line). cit.). em uma sociedade mercantil e de direito. 2003. 1). Podemos tomar a atividade como: [. íntimo. pode-se dizer que essa pessoa trabalha apenas na cozinha industrial? O trabalho doméstico que ela realiza não pode ser considerado como tal? Ela. desde os anos 1980.) (SCHWARTZ. esteja mais evidente. Nesse próprio mercado.. cruza e liga tudo o que se representa separadamente (corpo. Quanto à lógica atual do mercado de trabalho.. no que diz respeito às questões de gênero e de trabalho. tem sempre finalidades a ser perseguidas e uma função social. Vale ressaltar que. privado. afetaram desigualmente o emprego masculino e feminino” (HIRATA. certamente. é justo dizer que ela trabalha apenas na escola? .]. que não são iguais. Em relação a isso.

via de regra. em ambos os casos. Ela se vale também de competências nos dois meios (que não são iguais. em que. marcando aí as questões de gênero. dentre outros efeitos. inclui-se a valorização do lugar da mulher na sociedade (e do tipo de trabalho que. Tomemos como exemplo. desqualificado. Até hoje. e às mulheres. a tendência é que. “[.). o que representa um “descompasso entre a situação de homens e mulheres no sistema educacional brasileiro” (ROSEMBERG. inviabilizadas nos mundos do trabalho. nunca é igual ao que foi prescrito. esta sexualização está em estreita relação com a dominação masculina e os conflitos que ela acarreta” (DEWERPE. seu trabalho foi invisibilizado. 13). a própria Ergonomia reconhece – e toma esse reconhecimento como base para sua intervenção – que a empresa. pelo menos. o trabalho doméstico.Saúde e trabalho docente 116 Pensamos que não. às relações de gênero. mas que o trabalho. Entendemos que é preciso ampliar nossa concepção acerca do trabalho (como experiência humana particular) e considerar outras realidades para ampliar a visão do que é o trabalho e de sua função na vida de homens e mulheres. as mulheres recebam um terço a menos que os homens. Segundo .. já nas primeiras organizações humanas de caçacolheita. ela desenvolve. via de regra. tenta determinar aos trabalhadores e às trabalhadoras qual deve ser sua atividade através das prescrições de sua tarefa.] a especialização de tarefas é sexual.. coloca algo de seu. efetivamente realizado. estamos trazendo à tona questões ligadas à divisão sexual e social do trabalho. b) Algumas formas de atividade podem ser consideradas como trabalho. para o mesmo trabalho realizado. para atingir a finalidade organizacional estratégica. De fato. 2001. É útil. em geral. 2001). havia uma divisão sexual do trabalho. cit. o trabalho de colheita (op. neste momento. em que cabia aos homens a caça aos grandes animais. Ao falar do trabalho doméstico. ou. Isto é. Mesmo no quadro mercantil. reconhece que cada pessoa. Pode-se supor que. Assim. recebeu menos valorização e visibilidade que o realizado por homens. como os de cuidado). pois sempre há gestão da situação e gestão de si. mas que guardam semelhanças entre si). p. apesar de as mulheres terem sempre trabalhado. uma vez que. ao realizar a atividade. se o pensamos além de um quadro social e econômico restrito. resumir o que estamos propondo como noção de trabalho: a) No trabalho há sempre atividade. a atividade é realizada com finalidade.

geralmente. os recursos sociais que lhe são permitidos. conforme defende a abordagem antroponômica.. sobre as relações que as trabalhadoras mantiveram não somente com os homens. Assim. 15). a tarefa que se considera como masculina ou feminina muda enormemente. a dominação das mulheres pelos homens. Este termo é utilizável a partir do momento em que se coloca uma separação espaço-temporal entre um lugar e um tempo para produzir e ganhar seu salário. aquelas menos valorizadas. à qual cabiam. e um outro lugar e tempo para se reproduzir (reproduzir sua força de trabalho e reproduzir sua família) (KERGOAT. p. há indissociabilidade entre produção de bens e serviços (em geral atribuída aos homens) e reprodução/ cuidados dos seres humanos (em geral atribuída às mulheres): [. o surgimento da separação entre trabalho assalariado e trabalho doméstico é correlativo ao surgimento do capitalismo. que não recobre apenas a limpeza e o passar roupas.. p. para além daquelas ligadas aos cuidados da casa e da família. valendo-se de estudos históricos. havia também divisão de tarefas de acordo com o que se entendia como trabalho de homem ou de mulher. Uma das pesquisadoras que tem um papel decisivo para entender a divisão social e sexual do trabalho. mesmo que elas tenham outras atividades de trabalho. uma valência diferencial dos sexos. mas há algo que parece permanecer invariável: a maior valorização da tarefa atribuída aos homens. historicamente. No dizer de Chabaud et al. cit.] a noção de ‘trabalho doméstico’ não é a-histórica: é a forma concreta que toma o trabalho reprodutivo assegurado ao grupo de mulheres em uma sociedade salarial. a divisão sexual do trabalho demonstrou. Segundo a autora. no trabalho ou não. medievais e pré-industriais. nas sociedades gregas. em diversas épocas e lugares. (op. (apud KERGOAT. no campo das Ciências Sociais –Kergoat (1998) –. p. 1998. como aqueles que ele procura. mas também com o conjunto da estrutura social no seio da qual este trabalho se efetua. antropológicos. 1998. o que mostra a indissociabilidade entre relações de classe e relações de sexo. produto de relações sociais de sexo. ou seja. sociológicos e etnológicos. 324-325).. Dessa forma.Saúde e trabalho docente 117 Dewerpe.. [. afirma que.. 320). Desse modo. às mulheres são atribuídos os trabalhos domésticos. como nos diz o autor: A distribuição sexual do trabalho repousa assim sobre o estado das posições sociais femininas. .] há uma imputação coletiva do trabalho doméstico às mulheres. nas sociedades ocidentais contemporâneas.

o faz em apoio a outra pessoa (a mulher). afirmar que. Por outro lado. então. o que garante uma relação de subordinação ou submissão das mulheres aos homens. assim. tudo o que é socialização familiar. Sabe-se o quanto aquela dupla ou tripla jornada (como é comum entre docentes) gera. da unidade de produção de bens e de reprodução de seres humanos (COMBES. o dinheiro que daí obtém é. aos homens têm sido reservadas. base das relações sociais entre os sexos. ele apenas ajuda. as ligadas aos cuidados relativos à chamada reprodução (aos cuidados com a família).] para nós. dessa forma. por vezes. a criação das crianças e. via de regra. na extensão das lutas que o processo de exploração provoca (COMBES.Saúde e trabalho docente 118 mas também a gestão da casa. este é visto como uma maneira de auxiliar a mulher. não assume o trabalho. Pode-se. elas mesmas dizem: “meu companheiro me ajuda muito em casa”. que mostra a inseparabilidade das relações de sexo (opressão) e relações de classe (exploração) e seu reforço mútuo em espiral. quem ajuda. não raras vezes. que é encarregada daquele trabalho. HAICAULT. extremamente nociva para sua saúde. quando as mulheres realizam trabalho remunerado. uma sinergia de desgastes. 1986). Quando os homens realizam trabalho doméstico (incluindo o cuidado com a cria). 37). mais amplamente. que se sustenta na divisão sexual do trabalho: trata-se. De fato. considerado algo para ajudar o homem nas despesas da casa. o capitalismo se sustenta na divisão social entre os sexos: [.. 1986. . atualmente. como. HAICAULT. uma designação prioritária da produção de bens aos homens e de produção de seres humanos às mulheres. a especificidade do modo de produção capitalista está nas formas de subordinação de reprodução à produção: na extensão das práticas de dominação de uma classe sobre o conjunto do campo social. na coerência e na imbricação das relações sociais entre sexos e de classes. visto que a mulher é detentora das responsabilidades domésticas. Ora.. Segundo a concepção presente na abordagem antroponômica. p. tarefas ligadas à chamada produção. predominantemente. as mulheres são qualificadas para o trabalho remunerado e superqualificadas para o trabalho doméstico (através de uma formação contínua e sistemática nos trabalhos ligados aos cuidados da casa e da família). Há. como uma função absolutamente secundária na divisão das responsabilidades domésticas. enquanto que às mulheres.

tem tanto o que fazer / Além de cuidar de neném / Além de fazer denguim / Filhinho tem que entender / Mama África vai e vem. p. cuidando do filho. compartilha pouco ou nada desse cuidado com o pai da criança: Mama África (a minha mãe). ao mesmo tempo em que há opressão de mulheres pelos homens” (KERGOAT.. // Mama África. explorado. 83).. é mãe solteira / E tem que fazer mamadeira / Todo o dia / Além de trabalhar / Como empacotadeira nas Casas Bahia. sobretudo pela Sociologia . exploração das classes dominantes sobre as dominadas. frequentemente. podemos imaginar que Amélia fica em casa. em seguida.] estão dispersos em uma série de dispositivos físicos. mama precisa de paz. OLIVEIRA. 1996). embora a letra da canção não diga. como descritos pela música popular brasileira: a) Amélia. totalmente submissa ao que o homem estabelece. no entanto. E. Assim. 1986. empregada para designar pessoa. que tudo aceita. elas ficam.. circulando entre dois lugares. // Mama não quer brincar mais / Filhinho dá um tempo / É tanto contratempo / No ritmo de vida de mama (CHICO CÉSAR. 256). Ressalte-se. // Quando Mama sai de casa. aguardando que o homem chegue: [. que trabalha como comerciária e em casa. inicialmente agenciado pelo movimento feminista. seus filhos de oloduzam / Rola o maior jazz / Mama tem calo nos pés. Essa opressão se mantém com diversas interdições para a mulher. b) Mama África. Nesse caso. o que se há de fazer / Amélia não tinha a menor vaidade / Amélia é que era mulher de verdade (ATAUFO ALVES.] aquilo sim é que era mulher / Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / Quando me via contrariado / Dizia: meu filho. p.. incapaz de demonstrar insatisfação. é descrita como ‘aquilo’. que as mulheres têm lutado para que o que realizam tenha reconhecimento social e que seu trabalho seja socialmente reconhecido como fruto das conquistas. portanto. no campo científico. respeito ao trabalho doméstico. e não. palavra usada para designar animal não humano ou objeto. a interdição é operacionalizada pelo sinergismo de barreiras espaciais e simbólicas” (BRITO.Saúde e trabalho docente 119 “No seio do capitalismo há. mas não se afasta de você. realizando o trabalho doméstico. como ‘aquela’. 2001. 1941). impedida por mecanismos disciplinares que “[.

algo a ser ainda explorado no campo das Ciências Humanas e Sociais. Sabemos que diversas formas de atividade não foram consideradas como trabalho. Helena Hirata. em outro. e que trabalha em casa. em um determinado momento histórico. dentre outros) não pode e deve ser considerado como tal? Ela. razão por que defendemos que é impossível propor uma definição estrita para o trabalho sem deixar de fora formas de atividade e a valorização que daí advém e que também são importantes. Há que se ressaltar que existem diferenças importantes. Em casa. a remuneração da mulher ainda é mais baixa que a dos homens. validadas pelas Ciências Sociais. o que propiciou a . em uma cozinha industrial. algumas iguais e outras diferentes das que utiliza em seu emprego. No entanto. não há passagem direta e mecânica de um (doméstico) para outro espaço (escolar ou industrial). Enfim. em todas aquelas situações. cuidando dos familiares -. e. Como dito anteriormente. quase ninguém admitia (ao menos não era assim considerado) que a mulher trabalhava quando estava em casa. o trabalho doméstico é pouquíssimo valorizado e muito mal compreendido em sua complexidade. ou como professora. Aprendemos que os investimentos já efetuados nesse campo – como o da investigação acerca do trabalho doméstico – têm exigido inovações teórico-metodológicas e técnicas. guardam semelhanças. mas que. portanto. ao realizar a atividade de trabalho na escola ou na cozinha industrial. a mulher mobiliza certas competências para dar conta do que lhe é prescrito pela direção em relação ao seu trabalho. utiliza competências que têm similaridades nos dois meios de trabalho – que não são iguais. um dado importante nos chama a atenção: era necessário que se admitissem mulheres para lecionar nas turmas femininas.Saúde e trabalho docente 120 das relações sociais de sexo. podemos dizer que. ela também mobiliza competências. Joan Scott. antes das conquistas do movimento feminista.de uma mulher que trabalha como cozinheira. passaram a ter esse valor. dentre outras. podemos afirmar que essa mulher trabalha e em dupla ou tripla jornada. mas à mulher. Nas empresas. Ainda hoje. já que aos homens não é atribuída a função de cuidar das pessoas da casa. Retomando o caso a que nos referimos no início dessa discussão . ainda assim. certamente. podemos dizer que ela trabalha apenas na cozinha industrial ou na escola? O trabalho doméstico que ela realiza (na cozinha. pois o trabalho na cozinha industrial deve contemplar uma formação específica e competências pertinentes. com as pesquisadoras como Danièlle Kergoat. o que é fruto do preconceito. Mas.

tinha que contribuir forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. 1991).] Mas a mão não era algo com existência própria e independente... a anatomia das nossas mãos.Saúde e trabalho docente 121 criação das primeiras vagas para o Magistério feminino (DEMARTINI. 9-10) . e onde não existem portas. 7-8). e o beneficiava em dois aspectos (ENGELS. vamos abri-las. assim. p. que não foi possível para outras espécies. o que permitiu a evolução humana. (ENGELS. ao multiplicar os casos de ajuda mútua e de atividade conjunta. pois. e forçou o desenvolvimento do cérebro. mas que todas são o resultado de um processo evolutivo. com a presença do polegar opositor. A busca por espaço e reconhecimento do lugar da mulher na sociedade é uma conquista de cada dia. Era unicamente um membro de um organismo íntegro e sumamente complexo. apesar de as portas ainda estarem fechadas. Essa possibilidade de trabalhar permitiu maior cooperação entre aqueles seres vivos. as vantagens dessa atividade conjunta para cada indivíduo. defende que o trabalho foi elemento fundamental para que certa espécie de macaco tenha se transformado em humano. em comparação com ele. o que acabou por forçar também. e ao mostrar. o grande companheiro intelectual de Karl Marx. o desenvolvimento da linguagem e dos órgãos dos sentidos. pois o desenvolvimento do trabalho. Vemos. Em resumo. que a mão não é apenas o órgão do trabalho. e essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em geração. Mas já havia sido dado o passo decisivo: a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade. o período histórico por nós conhecido torna-se insignificante. é também produto dele [. permitiu uma relação de transformação do meio. sabemos que a espécie humana. E o que beneficiava à mão beneficiava também a todo o corpo servido por ela. 1999. segundo ele. Friederich Engels. p. não surgiu de uma hora para a outra na natureza. os homens em formação chegaram a um ponto em que tiveram necessidade de dizer algo uns aos outros. deve ter sido transcorrido um período de tempo tão largo que. Sobre isso. quebremos as paredes. assim como os outros seres vivos. SAÚDE E TRABALHO NA EXPERIÊNCIA DOCENTE Desde Charles Darwin. 4 PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE. em um texto escrito em 1876 e publicado originalmente em 1896. ele afirma: Antes de a primeira lasca de sílex ter sido transformada em machado pela mão do homem. Para ele. E. 1999.

humanos. defendemos que ambos são fundamentais para nos permitir chegar ao ponto em que estamos. deixa sua filha. essa evolução não foi fruto da dominação do meio: Parece-me mais factível que a destreza e a sensibilidade manual que nos caracterizam tenham surgido na arte de descascar as pequenas sementes de gramíneas da savana. “[.. mas na linguagem e no seu entrelaçamento com o emocionar (MATURANA. como o que Maturana acabou de . 2002. é tida como normal. com tanta poluição e tantas armas. mesmo o ato de descascar as pequenas sementes seria uma forma de alimentar as crias. época em que já estariam evoluídas. sabemos que. se não destruirmos a vida neste planeta. nos desenvolvêssemos como espécie. cabe perguntar: em relação a cada pessoa. evoluindo. que o amor permitiu que nós. Para ele. Sem a aceitação do outro na convivência. o investimento nos afetos.. 23-24). é fonte de conflito para cada pessoa.. Ao contrário. 19). mesmo sem saber se é mais correto atribuir ao trabalho ou às emoções maior papel na evolução humana. 2002. é uma invenção recente da humanidade. atualmente. Para ele. não há fenômeno social” (MATURANA. na vida de cada pessoa. Defende. VERDEN-ZÖLLER. De nossa parte. que vive muitos conflitos.. Percebe-se que. Essa mãe vive uma contradição emocional contínua: quando ela está com sua menina deixa de lado sua realização profissional. Portanto. como espécie. pois “o amor é a emoção que funda o social. mais do que instrumentos de manipulação. e da participação da mão na carícia. como afirma o próprio Maturana (2007. no trabalho ou fora dele. eu defendo que a história do cérebro humano está relacionada principalmente com a linguagem. e quando está em seu trabalho pensa que deveria estar com sua filha. a competição que. [. 64). e quando está se realizando com o desempenho de suas tarefas profissionais. sabe-se que a humanidade veio de outras espécies e. ela continuará se transformando. Além disso.] O peculiar do humano não está na manipulação. assim. por sua capacidade de moldarse a qualquer superfície do corpo de maneira suave e sensual. p. Agora que já falamos dos humanos como espécie. mesmo que não haja consenso entre o que levou a espécie humana a se desenvolver como tal.5 milhões de anos atrás. são órgãos de carícias” (MATURANA.] as mãos humanas. 1993. p. pensa que deveria estar em seu trabalho. Assim. p. p. 254): Quando uma mãe está com sua filhinha.Saúde e trabalho docente 122 Já Humberto Maturana discorda de que o trabalho tenha ocupado toda essa função na evolução humana e defende que as mãos teriam a função anatômica que tem hoje desde 3.

Esse seu “clone” seria uma pessoa realmente parecida com você. por um milagre da ciência ou da natureza. Suponha. também. dificilmente teria conseguido desenvolver sua enorme habilidade com a bola nos pés. Se ela tivesse nascido trinta anos antes. que cada época e lugar oferece uma gama de possibilidades para cada indivíduo se constituir e desenvolver certas habilidades que. não seriam possíveis. em outra época e lugar. em uma determinada época (se ele tivesse nascido na Suécia ou em Bangladesh. caro leitor. ela também se transforma ao longo da vida ou já nasce pronta? O trabalho transforma as pessoas e sua saúde? Defendemos que as pessoas evoluem em sociedade. em termos de pensamento. Para tanto. século XVI. digamos que ela tivesse exatamente a mesma carga genética que a sua. pensamentos e crenças que tinha naquele século: você acha que essa pessoa teria uma visão de mundo bastante diferente da sua? Para complicar um pouco mais. como afirma Mancebo (2002). jamais seria nem sobra da espetacular jogadora que ela é! Imaginemos outra situação: suponha que. no lugar onde hoje fica a cidade em que você. lançamos luz. Por exemplo: Pelé conseguiu se tornar o genial jogador de futebol porque nasceu no Brasil. não seriam também muito “diferentes”? De fato. que ela viesse com os mesmos valores. mesmo treinando o dobro do que ela treina. uma pessoa que tivesse vivido no ano de 1510. especialmente. mora. provavelmente cada um de nós. Aqui. para a questão dessa produção de subjetividades em sua relação com o trabalho e a saúde. propomos a pergunta: O trabalho e a maneira como o vivemos interferem em nossa maneira de ser e em nossa saúde? . só agora podemos ter a grande jogadora Martha (eleita mais de uma vez a melhor jogadora de futebol do mundo) porque já conseguimos derrubar uma série de preconceitos machistas. crenças? Ou ela teria uma visão de mundo muito diferente da sua? Apesar de vocês serem pessoas “idênticas”. dificilmente teria se tornado o Rei do Futebol). ganhasse vida novamente.Saúde e trabalho docente 123 nos apresentar. Da mesma maneira. o mesmo DNA. É claro que a genialidade dentro de campo de futebol é algo que é dela. sentimentos. ao retratar que os estudos acerca da construção social dos sujeitos e das diferentes modalidades pelas quais as sociedades elaboram as formas e os sentidos dos homens são objetos de interesse das ciências humanas e sociais.

] Em outros termos. elas não são sempre simbolizadas. conforme suas orientações próprias. é necessário que se posicione frente ao que lhe é pedido. Ao entrar em um meio de trabalho. não será também para situações em que a vida não nos mostra tão claramente seus limites? Defendemos que qualquer trabalho transforma quem o realiza. que transforma o sujeito.já que. os autores dirigem essencialmente suas investigações para as tacit skils (habilidades tácitas). Ou. Sabemos quanto sofrimento e quantas patologias se apresentam em nossas vidas em função das situações que se colocam como tentativa de imposição em situações de trabalho. p. já que é dessa maneira que nos desenvolvemos como seres humanos Como o ser humano nunca é passivo (mesmo que. você pensa que alguns de seus valores. 43-44) assim se expressa: A partir de dados empíricos. p. depois daqueles mesmos cinco anos dos mórbidos exemplos anteriores. às vezes. e a respeito da qual Dejours (1999. [. positiva ou negativamente. conforme nos mostra Canguilhem (2001. pessoas baleadas ou vítimas de acidentes de automóvel. ao menos em parte? Penso que a maioria de nós responderá que sim. Uma reação imposta é uma reação patológica”. que você comece a trabalhar como auxiliar de necropsia. ainda que . Assim.. a consequência seria o adoecimento. Dizemos mais: tomara que seja assim. é de se esperar que você seja uma pessoa parcialmente distinta da que é hoje. o indivíduo precisa fazer um movimento .. compatíveis com as suas . pareça). sua maneira de ver o mundo. de outra maneira.tornar as regras daquele meio. segundo Chritsophe Dejours. frequentemente. nunca deixa de ter seus desejos e pensamentos. em um Instituto Médico Legal! Perguntamos: depois de cinco anos trabalhando nesses lugares. 115): “O meio só pode impor algum movimento a um organismo quando esse organismo se propõe primeiro ao meio. presuma que você comece a trabalhar amanhã em um Pronto Socorro que recebe. onde a vida se apresenta em seus extremos de fragilidade. Então perguntamos: se isso é verdade para esses trabalhos em situações extremas.Saúde e trabalho docente 124 Para continuar nosso exercício imaginativo. sua forma e os requisitos psicossensoriais necessários a seu refinamento e sua eficácia em situação real de trabalho. que podem estar ou não de acordo com o que cada situação de vida (e de trabalho) apresenta. por outro lado. desenvolvida por Böhle e Milkau. Ao trabalhar em uma escola. podemos dizer que o trabalho é “atividade subjetivante”. uma noção. sua relação com seu próprio corpo tenderão a se transformar.

tal qual a conhecemos “hoje”. p. quando aprendemos alguma coisa em nosso trabalho. assim como um professor muda seus modos de encarar o saber e o limite de seus estudantes e das pessoas com quem convive. cit. uma provação que a transforma. porque é um saber que não é apenas mental..] Essa dimensão de transformação do sujeito pela atividade do trabalho. é. tem saberes muito complexos. Trabalhar não é somente produzir. 46). é uma inteligência corpórea. herdeira da tradição cartesiana (DESCARTES. pelos ruídos da turma e pelos modos de os estudantes se expressarem a cada dia. a situações móveis e cambiantes. É inventiva e criativa” (op. como duas coisas separadas. transformar a si mesmo e. ficar mais de pé ou sentado. é. De fato.] é mobilizada frente a situações inéditas. em suas diversas faces. ele dificilmente terá facilidade para falar disso. 2004. também. esperta. ao imprevisto.. conhece a alquimia dos alimentos. até mesmo para se realizar (DEJOURS. leva os autores a definir um conceito de ‘atividade subjetivante’. desde Platão (1956). quando a pessoa mudou sua maneira de ver os alimentos e a fome dos outros. Por isso. mais do que uma informação mental (mas é também mental!). neste caso). quando alguém é ótimo na cozinha.. A inteligência do corpo e do pensamento engajada nessas atividades muitas vezes antecipa-se à consciência e à simbolização desses atos práticos. 30).. o calor e o frio. esse aprendizado nos transforma. p. se solicitado a explicar como sabia. De fato. por exemplo. sem a qual nenhuma eficiência seria possível. 1969). de forma a lidar com os ingredientes de maneira inteligente. Esses saberes foram desenvolvidos no próprio ato de trabalhar (cozinhar.Saúde e trabalho docente 125 reguladas. [. que tinha de falar mais alto ou mais baixo. mesmo que isso ocorra de uma maneira tão sutil que não sejamos capazes de perceber disso. [. Mas.. Todos sabemos que.. para a subjetividade. como estão os ânimos da turma. [. em grande parte. aprendemos. Nas sociedades ocidentais. Quem aprende algo fica mais esperto para lidar com as situações do trabalho e as situações de vida ligadas àquele trabalho. [.. Assim. Isso porque essa inteligência da prática “[.] Sua competência é a astúcia.. que ensina que o corpo é fonte de enganos e que somente podemos chegar ao conhecimento .] Preocupase em poupar esforços e privilegia a habilidade em detrimento da força.. que as pessoas são compostas de corpo e mente. a ciência.. um professor com mais experiência é capaz de supor.] trabalhar constitui. é uma ocasião oferecida à subjetividade para se testar.. já que se trata de uma inteligência do corpo registrada nele. no melhor dos casos.

os cursos que fizeram). cada vivência pessoal. 2001. positiva ou negativamente. assim como na construção de sua saúde e identidade (DEJOURS. procura dar novos passos em direção ao núcleo do coletivo profissional e observar os mais experientes para copiar o que eles fazem. incluindo a do trabalho. GUÉRIN et al. que tal estratégia é ainda . Assim..] nós trabalhamos nosso corpo. 199) propõem que empreguemos a expressão “corpo-si”. apesar de se inscrever em cada um. CLOT. mas percebe que são insuficientes. a maneira pela qual formamos nosso corpo não é de forma alguma algo de ‘puramente biológico’. o coletivo de trabalho tem uma função primordial na manutenção e no desenvolvimento de um ofício (como o dos professores e das professoras) e da saúde de seus membros. que é sempre afetada pelo trabalho. o ingressante circula em esferas mais externas do coletivo de trabalho. Defendemos. LEPLAT. ao tratar do tema da subjetividade. isso não ocorre de uma maneira solitária. Ao perceber aquela insuficiência. Toda uma linhagem das abordagens que procuram compreender para transformar positivamente o trabalho considera que o coletivo de trabalho é fundamental para o desenvolvimento das competências de quem trabalha. Por isso. incorporando e sendo incorporado pelo coletivo. que o trabalho transforma. 1996. Schwartz e Durrive (2007.Saúde e trabalho docente 126 verdadeiro através da razão. seus sentimentos e pensamentos –.. mas do histórico funcionando em alquimias que vão além de nós: e que vão além. mas percebe. nós o trabalhamos permanentemente pela nossa experiência de vida – e portanto. podendo-se extrair prazer ou sofrimento daquela situação. novamente. 2006). a pessoa e sua saúde. por nossas paixões. quanto de quem está diante dele. não somos algo que pode ser comparado a uma alma penada (sem corpo. No entanto. Para Clot (2008). ao se iniciar em um novo ofício. por nossos desejos. o ingressante procura realizar o trabalho a partir de seus conhecimentos adquiridos durante os treinamentos formais (para professores. nos referimos a alguém que é inteiro. Essa é uma condição para que alguém consiga realizar bem seu trabalho e aperfeiçoar seu estilo pessoal. Nesse momento. 1994. ATHAYDE. por inteiro – seu corpo. quando falamos de ser humano. inscreve-se no corpo de cada um de nós. p. 1993. portanto) ou a uma “mula sem cabeça” (sem “psiquismo”). Trata-se do histórico. Assim. tanto de mim quanto de quem lhe mostra o espelho. Ora. Em consequência. mas sempre em um coletivo de pessoas que trabalham. já que [.. juntamente com Dejours et al (1993). por nossas experiências.

Quando esse coletivo deixa de ser-lhe algo externo. entendemos a saúde como um exercício da vida. certamente interferem na vida e na saúde de quem trabalha. portanto. de um gênero profissional (CLOT. que ele precisa. Finalmente. assim. a organização do trabalho. porquanto passam a fazer parte de seu corpo.Saúde e trabalho docente 127 insuficiente. de seus pensamentos . de aglutinação. tanto no seu sentido propedêutico quanto da sua formação continuada. a partir das trocas mais eficientes com os outros. desse modo. Na história da educação brasileira. a compreender as regras próprias daquele meio profissional e as incorpora a seu modo. algumas universidades públicas tentaram privilegiar uma formação plugada à ideia da reflexão em que teoria e prática não significassem posições estanques para a formação do professor e da professora. Na diversidade de . Pode. seguindo e. 2008). Assim. mas esse ainda se situa como algo que lhe é externo. 164). Nos anos de 1980 e 1990. A ideia da justaposição representa um desafio para a formação dos professores. ele passa a se sentir e a ser reconhecido como membro do coletivo. mais do que mera ausência de doença. de sua memória. Como dissemos anteriormente. 2006. como uma ação que se produz na justaposição entre teoria e prática. p. e isso chega mesmo a modificá-la corporeamente. tentar copiar. verdadeiramente incorporadas. 5 VALORIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA DOCENTE Nesta discussão. “Na vida. modificando as regras daquele coletivo. no interior de um coletivo. traçaremos linhas de reflexões que nos permitam compreender e reafirmar a importância da formação docente. já que as regras coletivas de ofício estão também nele. em que teoria e prática representam campos de confluência. a incorporar aquele coletivo. a divisão de tarefas e a distribuição das pessoas para cumprirem os objetivos estabelecidos por uma organização. de seus afetos. trabalhar de sua própria maneira. com o próprio estilo. de diferentes saberes produzidos no cotidiano escolar. 2003. Começa. o trabalho é fundamental. o iniciante começa. utilizando-se dos meios técnicos e organizacionais. eventualmente.essa pessoa deixou-se transformar por esse coletivo! Ela passa a fazer parte daquele corpo. nunca é neutro em relação à saúde e favorece tanto para a doença quanto para a saúde” (DEJOURS. é possível identificar essa proposta pedagógica de ação e de formação a partir da década de 1930.

impingidas pela lógica da burocracia. A ação se esgota no momento de sua realização. a vivência não consegue ir além do tempo. a experiência é coletiva. DIAS. quando a pensamos no sentido de valorizar a experiência docente. narrada. uma formação que não se produza de forma em que as decisões não sejam alheias. p. Ela não esquece o passado. sendo. A noção de experiência referida aqui utilizada é a concebida por Benjamin (1994). Sendo histórica. à memória que cada um produz na sua história. coletivizada no social. BAUMAN. narrada.. 2004. da sua experiência.. é posta em desafio. E como fica a questão da formação docente em tempos de “incerteza”. A formação docente. que buscam uma formação meramente técnica e instrumental? Segundo Carlos Luckesi (1983).Saúde e trabalho docente 128 teorias e práticas pedagógicas que atravessam tal formação. Como romper com paradigmas ainda hegemônicos.] (LUCKESI. 2005. a experiência só pode ser produzida e entendida pelo seu conteúdo histórico.. 2008). científica. Para ele. pensada e compartilhada para e com os outros sujeitos. como produzir movimentos de formação em que a palavra FORMAÇÃO é potencializada como invenção de si e dos outros? (KASTRUP. do cotidiano das práticas escolares. 1998). Então. Por outro lado. 1983. pois ele representa o fio condutor para a construção de outro futuro. finita. Portanto. em relação ao emprego formal? (RIFKIN. que a entende como histórica. 28-29). é a que produz condições para que o professor se prepare [. Para tanto. mas – especialmente – o desenvolvimento de uma atitude. Nos anos 1930.. dialeticamente crítica. serão necessárias não só aprendizagens cognitivas sobre os diversos campos de conhecimento que o auxiliem no desempenho do seu papel. Benjamin formulou a noção de vivência (Erlebnis) em oposição à noção de experiência (Erfahrung). expressivamente produzida pela lógica de um saber instrumentalista e tecnológico. ela remete ao coletivo. portanto. do mercado de trabalho frente às “certificações que aferem a qualidade do ensino do professor”. técnica e afetivamente para o tipo de ação que vai exercer.] filosófica. E aqui indagamos: como valorizar a história do professor e da professora em formação? Outra questão se coloca: como valorizamos as experiências dos nossos estudantes da Educação Básica? É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de . temos o sujeito da formação na centralidade de questões que vão falar também de si. sobre o mundo e sua prática educacional [.

na que se assemelha às práticas educativas e pedagogicamente institucionalizadas. que uma de minhas preocupações centrais deva ser a de procurar a aproximação cada vez maior entre o que digo e o que faço. 1992). entre outros. em que uma concepção ético-política deve partir das polemizações das problematizações. de sociedade capitalista. entre o que pareço ser e o que realmente estou sendo (FREIRE. são verbos no infinitivo de que nos apropriamos para compreender o que podemos afirmar. dobrar o pensamento. ensinar. Walter Benjamin associa a figura do pedagogo à figura do Filisteu dos Evangelhos e ao adulto sisudo. p. de pensar politicamente. Ambos apostam. em outra prática educativa. como nos querem fazer pensar.. sorrir.. conteúdos de diversas ordens direcionados à produção de uma visão de ser humano e de mundo atravessados pela lógica do conhecimento científicopedagógico entendido como neutro. em Walter Benjamin. encontram-se . 1996. E a maneira como eles me percebem tem importância capital para o meu desempenho. À noção de experiência..] (FREIRE. p. produzem e atualizam um tipo de trabalhador. cantar. em especial. Nesse sentido. da fantasia. dizer. 108). então. Nessa esteira. aparentemente “neutros”. Tais discursos. Educar é substancialmente formar [. Se se respeita a natureza do ser humano. da vida como potência. cuja experiência não o faz perceber o mundo da criança. enfim. de trabalhadora. assim como na de Benjamin.. 37). da criatividade. da imaginação. Afirmar sobre os nossos direitos e deveres. Falar. A ideia é tomar a valorização do Magistério docente como um ato consciente da vontade. Na perspectiva dialógica de Paulo Freire.] Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos. como afirma Nietzsche (2005).Saúde e trabalho docente 129 fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. 1996. aproximamo-nos da formulação do conceito de diálogo na pedagogia potente de Paulo Freire. cada um com suas contribuições teórico-metodológicas. o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de ser. É nessa linha a indicação de Paulo Freire. não há espaços para as ambiguidades sobre as quais possam falar. que declara: [. Daí. identificamos na educação brasileira. ligar a pontos sempre novos e incessantes que possam gerar novas questões (DELEUZE. Não posso escapar à apreciação dos alunos. Problematizar significa reinventar o pensar.

que formar é muito mais do que treinar. Entender as questões de saber-poder (FOUCAULT. enigmática. às políticas neoliberais. no sentido de se admitir que a ação docente – sua prática pedagógica – se produz na tensão das próprias condições de trabalho e de saúde referidos à profissão. e que estão nos conteúdos de formação de professores. tanto a escola quanto os docentes foram e são afetados por tais mudanças.. Esse trabalho é uma atividade que se troca por dinheiro. mas é uma forma específica de algo mais geral. como já afirmado. que interfere positiva ou negativamente na vida – e na saúde – daquele ou daquela que trabalha. à dimensão da valorização da experiência docente. 1990) que atravessam a formação docente remete também. como uma atividade humana essencial.] trabalho tal como falamos hoje. p. a formação docente sem um olhar crítico de quem está formando e de quem é formado. pelo trabalho como um tipo específico de atividade própria. nas situações mercantis. concordando com Freire (1996). segundo Goméz e Lacaz (2005. expressivamente ideologizantes (LUCKESI. As pesquisas e intervenções sobre saúde e trabalho estiveram inicialmente longe das escolas. constituíram-se. tradicionalmente. Ao lado disso. muito importante. a atividade humana. os paradigmas . para nós. Portanto. p. nesse campo. e entendendo que. é possível afirmar que a questão dos saberes dos professores se apresenta “hoje” como movimentos de ruptura. tomando como referência os processos ocorridos. É uma forma de atividade. O humano transforma-se na experiência do aprender. da ética e da estética. Produzir trabalho é. no trabalho. 799). pois.. certamente. entre outras produções. os autores afirmam que. O trabalho está presente desde a pré-história da humanidade e se coloca como elemento fundamental para o viver. a investigação sobre a saúde e o adoecimento. Considerando as transformações no mundo do trabalho frente à globalização. 1983). em que a compreensão. produzir saúde. que irá produzir um modo de ser professor. Igualmente. o ser humano transforma-se. sobretudo dentro do ambiente industrial. também. sobretudo se considerarmos.Saúde e trabalho docente 130 dimensões da moral. por exemplo. Entendemos que a educação e a saúde são campos férteis para problematizarmos a formação docente e a sua consequente ação pedagógica na escola. 30). diante de certo tipo de componente intelectual. Ter e produzir saúde é problematizar saberes e práticas existentes. também. singular e complexa. como indicam Schwartz e Durrive (2007. mas. [. não só em seu aspecto econômico.

. para valorizar a [. é necessário investigar situações de trabalho em ambientes específicos. 2004. 2006. aquelas colocadas nos setores de serviço ou fora do trabalho formal.] o campo de saúde do trabalhador visa [.] o perfil de morbimortalidade dos trabalhadores no Brasil.. relacionado ao trabalho nas escolas. deve considerar a ótica de quem melhor conhece o trabalho docente: o professor. conhecimentos e vivências. [. Assim. 92-93). como as escolas.. [. com suas crenças. na tentativa de quebrar barreiras constituídas na medicina do trabalho e na saúde ocupacional.] estudar e intervir nas relações entre o trabalho e a saúde.. Essa ideia está em coerência com o conhecimento que vem sendo construído pelo campo da Saúde do Trabalhador.Saúde e trabalho docente 131 tradicionais são insuficientes para compreender os efeitos nefastos que as transformações recentes nos sistemas produtivos vêm trazendo para a vida e a saúde das pessoas.. que devem ser considerados quando se quer compreendê-lo em sua relação com o meio de trabalho. Nesse sentido. (BRASIL. p. o processo de conservação e de incremento da saúde.] doenças comuns ao conjunto da população. mas incorporando a experiência/subjetividade do trabalhador. 2007. Sabemos que esse trabalhador nas escolas – o professor e os demais trabalhadores em educação – não é um ser isolado. agora visto não apenas como mero consumidor de serviços de saúde. valores.. caracteriza-se pela coexistência de: agravos que têm relação com condições de trabalho específicas.] percepção do trabalhador como dono de um saber e como sujeito coletivo inserido em um processo produtivo. 59). de prescrições[.] doenças que têm sua frequência. em especial. E ainda acrescentamos. assim como de adoecimento.. surgimento e/ou gravidade modificadas pelo trabalho.15).. p. mas inserido em uma coletividade. 761). por meio de sua participação nas pesquisas e ações (BRITO. na atualidade. a partir do processo de trabalho.] (LACAZ. De acordo com o Manual de Gestão e Gerenciamento da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST). pois “os ambientes de convivência e de trabalho podem ter efeitos mais ou menos lesivos à saúde das pessoas” (CAMPOS. mas que também impactam a saúde dos trabalhadores. percepções. os .. de condutas. que não guardam relação de causa com o trabalho. p.. que [. Consideramos.. p... portanto. [. 2006..

p. como os da Psicologia. (re) criando o trabalhador e o próprio processo de trabalho. sob influência do Modelo Operário Italiano (MOI) (ODDONE.] o trabalhador não é mera vítima que sucumbe às sistemáticas tentativas de desqualificação/expropriação. parecem incomunicáveis? Aqui seguimos a indicação . Pedagogia. percepções. particularmente a adoção de novas tecnologias. Consideramos que o trabalho. um ressingularizar na atividade. há. na medida em que. é necessário tomá-las como participantes fundamentais desse processo. 1991. Considerando que as pessoas são produtoras de saberes. Medicina.. teria como uma de suas características. têm seus limites e equívocos. (re) existe. assim como para o próprio agente. DIAS. nessa perspectiva. BRIANTI. com Schwartz e Durrive (2007). mas. Dessa maneira. exercitam o direito à informação e a recusa ao trabalho perigoso ou arriscado à saúde (MENDES. a incorporação do saber. A questão que aqui se coloca é como articular esses dois aspectos que. que entendem que [. de conhecimentos e de inovações. supõe sempre alguém que se mobiliza para realizá-lo de forma que produz resultados para a produção de um bem ou serviço. neste caso. que poderia ter como consequência sua vitimização.. p. dentre outros. sendo invenção. 347). 1981). conhecimentos e vivências. não a partir de um pressuposto simplista e ingênuo. entendemos que é necessária uma aproximação à própria atividade. A saúde do trabalhador. Entendemos. conhecimentos produzidos na história da humanidade que podem servir para compreender aquela tarefa. questionam as alterações nos processos de trabalho.. mas numa perspectiva aliada àquela proposta por Barros e Barros (2007. uma postura epistemológica madura deve ser capaz de reconhecer que os saberes formalmente reconhecidos. a cada vez que alguém trabalha. Linguística. como já referimos como pertencente a uma coletividade. como apontam Lacaz (2007) e Oddone e Brianti (1981). a fim de compreender como elas se colocam nela e o que isso traz para suas vidas. para entender as consequências do trabalho para a vida e a saúde das pessoas. Ao lado disso. o trabalho docente. 67). valores.. por vezes. com suas crenças.] trabalhadores buscam ser reconhecidos em seu saber. também.Saúde e trabalho docente 132 [. Nesse contexto. que há sempre inovação. mas que é um equívoco ainda maior tentar compreender os humanos e sua atividade sem valer-se daquele saberes formalmente constituídos. ele deve ser entendido. O trabalho desempenha função importante na luta contra o adoecimento. Trata-se de compreendê-lo como um ator social.

chamadas mão de obra. de trabalho industrial clássico. três características principais. já que é impossível para homens e mulheres. ou seja. Marcamos aqui a presença constante. preconceitos. Partindo dessa suspensão de seus próprios valores. em toda atividade humana. após as crises da década de 1970. apenas repetirem algo que lhes é colocado como tentativa de imposição. historicamente. repetitivas. para eventual tratamento. p. a partir de seus próprios valores e saberes. Acreditamos que o respeito a essa condição humana é um caminho que permite conjugar o respeito aos saberes dos professores e dos educandos (FREIRE.Saúde e trabalho docente 133 de Schwartz (2000. olhando o homem ou a mulher no trabalho como herdeiros da história e agentes de (micro)renormatizações dessa história. de seguir o [. com uma aproximação a situações concretas de vida. a saber : a) Cisão entre trabalho e trabalhador: de um lado. b) Fluxo: a produtividade é medida pela quantidade de produtos saídos da fábrica.. o trabalhador tem que trabalhar rápido. Estamos nos referindo ao modelo da competência. . Para dar conta do trabalho acelerado. parcelizadas.] a atividade... 6 NOVAS COMPETÊNCIAS DO TRABALHO Alguns autores identificam.] na qual os observados sentem no pesquisador uma suspensão de seus próprios saberes e de seus próprios valores. na década de 1980. a emergência de novas formas de produção no seio do capitalismo. para compreender o ponto de vista do outro. de renormatizações. o trabalho é tido como um conjunto de operações elementares. sem conjugar o que lhe é solicitado com suas próprias regras. todos podem se interrogar sobre “[. o trabalhador é um conjunto de capacidades a serem vendidas. 1996). 40) denomina de trabalho industrial assalariado. olhando-os como ‘seus semelhantes’” (SCHWARTZ. 735) de suspender críticas.. e que apresenta. definido no século XVIII. que podemos chamar. 720).] princípio metodológico maior do estabelecimento de uma ‘relação de confiança’ entre os pares [. de refazer as regras estabelecidas em um meio. também. 2000... julgamentos. p. De outro. Ele veio se contrapor ao que Zarifian (2001a. Essa relação de confiança é ponto de partida para a possibilidade de uma abordagem capaz de conjugar saberes formalmente estabelecidos. p.

baseando-se em: a) Tarefas parcelizadas: um conjunto de movimentos (cada um deles o menor possível) que visa evitar supostos desperdícios de energia do operador. p. ficam próximos à máquina e uns aos outros. Essa anatomia do detalhe serviu para organizar os processos de produção nas fábricas. 130). nos Estados Unidos. Nas palavras de Foucault. para controle e utilização dos homens [. Foucault (1983. chega a ser impedida.. que é definida por ele como [.. os humanos são . em alguns casos. com o taylorismo e o fordismo.] observação minuciosa do detalhe.Saúde e trabalho docente 134 c)Imobilização e copresença: os trabalhadores são imobilizados no espaço (não podem se deslocar. Cabe ao trabalhador executar a prescrição (o que deve ser feito) exatamente daquela maneira (aprendemos com a ergonomia que isso é humanamente impossível. mas a comunicação entre as pessoas não é estimulada.. b) Controle de tempo e movimentos: o que cada pessoa faz é observado por um cronometrista supervisor. Busca aumentar a produtividade. trata-se da "[. Essa ideia já estava presente em Adam Smith e teve seu auge no século XX. estabelecido por Frederick Winslow Taylor (1856-1915). como capacidade de produção. que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade.. onde os operários passaram a ter seu tempo. ou administração científica (TAYLOR. ao mesmo tempo um enfoque político dessas pequenas coisas.]" (FOUCAULT. são o que podemos chamar de ‘disciplinas’. 126) lembra que aquele modelo fabril insere-se em um amplo movimento social de valorização da disciplina. e a diminuição. dessa mesma força como poder político de transformação. pois. sua distribuição espacial e seus gestos controlados. ficam em frente às máquinas) e no tempo (devem seguir rigorosamente os horários de trabalho). através da obediência. O taylorismo. Com a disciplina. p. c)Preparo heterônomo do trabalho: um escritório de métodos estabelece o que eles chamaram de a melhor maneira possível de realizar a tarefa (the best one way).. 1983.] métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo. 1990). visa-se ao máximo de utilização da força de um corpo dócil. Para seguir o fluxo.. é um modelo de administrar a produção industrial.

e. gerando a acumulação flexível de capital. através do estabelecimento da linha de montagem. c) Como “modo de regulação social”. poupadores (valoriza o trabalhador “responsável”. ZARIFIAN. EUA (Vale do Silício). b) Como “regime de acumulação capitalista”. individual e coletivamente. no Japão. para trabalhar.Saúde e trabalho docente 135 sempre normativos! Por esse motivo. desperdício zero (Muda) (HIRATA. 1991) . isso trouxe muito desgaste e adoecimento!). Ganharam experiências realizadas em diversos países: Itália (na chamada Terceira Itália). kanban). o trabalhador é visto também como sujeito consumidor. a mais importante delas. que essa iniciativa deve ser socializada e passar por avaliação. qualidade total (Kaisen). oferece melhores salários complementados por gratificações. deslocando-se para ir pegar mais parafusos). com o desemprego residual sob controle. seduzidos pelo consumo. A fim de conquistar novos clientes e manter os antigos. Assume-se. Com a crise que o capitalismo atravessou nas décadas de 1970 e 1980. competente. a rigidez do fordismo passou a ser substituída por formas mais flexíveis de produção. potencializando a saúde mental. ou princípio geral de organização do trabalho: utiliza trabalho “taylorizado”. . igualmente. o modelo fordista de grandes indústrias entrou em crise. como parar de apertar parafusos. ”cidadão”). gera ganhos de produtividade que permitem maior investimento. que tem como princípios: just in time (JIT. mas elimina poros (trabalho mortos que o trabalhador faz e não redunda diretamente em produção. com o toyotismo. com ganhos de produtividade e qualidade. via dispositivo salário-desemprego. o que permitiu que novos modelos de organização da produção passassem a ser valorizados. No novo sistema sociotécnico complexo “pósfordismo”. solicita-se um trabalhador implicado. ou sistema de regras do jogo: estimula política social de pleno emprego. por julgamentos. ou estrutura macroeconômica: estimula a sociedade de massas de consumidores. paga salários mais altos que o mercado para homens moral e globalmente mais adaptados. inteligente e passase a reconhecer a exigência de que os humanos podem e devem mobilizar suas forças subjetivas. Já o fordismo pode ser compreendido a partir de três possibilidades: a) Como “paradigma industrial”. Suécia (na região de Kalmar).

onde o contato face a face com o usuário é constante. que “[. o trabalhador realiza suas atividades levando em conta as necessidades e os benefícios dos destinatários. uma abertura e uma transformação interna dos ofícios já existentes” (ZARIFIAN. continuam com a exigência de diplomas e certificados. o quanto oferece de seu poder produtivo (novamente. Há também cuidado com a qualidade do resultado do seu trabalho. Já os novos processos de produção. 2001b. p. a pessoa coloca-se junto com as outras em uma situação de trabalho. Zarifian propõe a seguinte definição de competência: [.. 2001a.. Se antes não havia uma preocupação com as nuances do cliente. a questão central relativa aos saberes de quem trabalhava não valorizava a competência.] é a faculdade de mobilizar rede de atores em torno das mesmas situações. em que há preocupações legítimas relativas à necessidade de cooperar e. às vezes. 2001b).. No que tange à implicação. diz respeito aos usos que ela faz de suas capacidades (técnicas e outras).] é. o quanto e como ela investe de si naquele trabalho. que superam aquele modelo de trabalho assalariado industrial clássico.. Assim mesmo. Quanto a esta. p. o modelo industrial aproxima-se do modo de funcionamento do setor de serviços. . isto é. fica evidente a necessidade de o trabalhador se comprometer tanto com o processo de trabalho. ela é da própria pessoa. o tempo todo. que será oferecido ao destinatário. até de procurar impedir que a outra se coloque em uma situação de risco (e quantas vezes vimos isso na escola. o que remete ao elemento da corresponsabilidade. é a faculdade de fazer com que esses atores compartilhem as implicações de suas ações. pois os novos processos requisitam a competência. sobretudo para postos de mais alto nível na hierarquia da empresa. para operários de trabalho repetitivo (MANFREDI. e de um treinamento mínimo. é fazê-los assumir áreas de responsabilidades (ZARIFIAN. não?). isto é. técnicos e outros) para trabalhar em grupo. destacamos três elementos: a mobilização. o que diz respeito às implicações daquele trabalho. porque eram relativas à exigência de qualificação: demanda de diplomas ou certificados. nas recentes formas de organizar a produção. a produção industrial passa a ser “produção industrial de serviço” (ZARIFIAN. Quanto à mobilização.Saúde e trabalho docente 136 Nos modelos anteriores de organização da produção. mas estes passam a ser considerados insuficientes. 1999). 74). 89). a corresponsabilidade e a preocupação com as implicações. É também a maneira com que se coloca naquela rede de atores. Nela. rápido. sobretudo. Dessa definição.

isso torna as pessoas descartáveis. 2001a. É igualar os humanos a mercadorias. uma dimensão do indivíduo que é inelutável” (ZARIFIAN. p. 203). Solicita-se dela. pois.] em outras palavras. na lógica da competência. como lembra Robert Castel (2001. já que. quando deve preparar os estudantes para “o mercado”. 9). 6. p.. [. da produção de um trabalhadorflexível.. novas competências. por exemplo. as pessoas passam a ser consideradas inúteis. capazes de dar conta da flexibilidade em voga. o significado de um saber de base. podemos perguntar: De que saberes se trata? De que modo podem ser definidos e ensinados? Qual é.. e a necessidade de esse trabalhador desenvolver suas competências torna-se evidente.1 DENTRO E FORA DOS MUROS DA ESCOLA Também à escola se requisitam novos modelos. seguindo Philippe Zarifian (1995. 121). Trata-se de uma mão-de-obra . ao mudar as regras do mercado. “[. Desde as décadas de 1970 e 1980. algo que é próprio do humano..] o que mais se assemelha a um mercado de trabalho para a época são as praças preparadas na cidade e às quais os operários sem trabalho devem se apresentar de madrugada à procura de um empregador. p. evitando as disfunções e o desperdício. Essas competências desenvolvem-se e são utilizadas com a automobilização. que nenhuma máquina sabe fazer. já que. cada vez mais aspectos do trabalho industrial clássico e a visão que se tinha do lugar do trabalhador perdem terreno.Saúde e trabalho docente 137 quanto com seu funcionamento. mas que pode trazer enormes fragilidades. a escola ali se coloca em um lugar ao mesmo tempo de grande poder. tendo em vista que deverão ser utilizados por um destinatário. existe. Trata-se também do compromisso com os companheiros de trabalho e com a qualidade do produto ou do serviço. Ora. Embora essa seja uma ideia que consideramos louvável. relativamente a um comportamento de autonomia e de responsabilidade? b) Que ela seja colocada em uma posição de subserviência ao capitalismo. por vezes: a) Que ofereça aos aprendentes os saberes de base para que possam ter fundamentos para desenvolver seus conhecimentos na prática do dia a dia.

mas que se desenvolve em situação de trabalho..] o real como ‘aquilo que no mundo se faz conhecer por sua resistência ao domínio técnico e ao conhecimento científico’” (DEJOURS. já que trabalhar supõe enfrentar “[. ao lado de outras funções que ela deve ter. comunicar-se. estamos de acordo com o fato de que a questão que se coloca é. por definição além dos muros da escola. direção. que condições têm sido oferecidas aos seus trabalhadores e trabalhadoras (docentes. a mão-de-obra em pessoa é exposta na praça de contratação. c)Que ofereça saberes teóricos e práticos. 2001a). através dessa instituição. p. d) Realizar formação contínua. como as outras mercadorias . para realizar seu trabalho? Não parece que a “lógica de mercado”. Mas Geremek observa igualmente que. levando as conjunturas em conta. Segundo Schwartz (1998). embora seja impossível conceituar exatamente o que seria competência em cada situação concreta. já não são esses os objetivos que a formação profissional de hoje deve colocar? No que diz respeito à escola.. para arbitrar. e) Desenvolver competência coletiva: trabalhar em equipes. b) Tomar decisões. apropriar-se de um saber teórico. na prática.são expostos no mercado. porém lidar com eles supõe o desenvolvimento de uma inteligência da prática que toma como base a formação integral na vida do sujeito. 1999. c)Estabelecer uma dialética ou uma consonância entre os dois primeiros. isto é. que . tanto os iniciantes quanto os antigos na profissão e na empresa e ajudar a criar um patrimônio de saberes a ser utilizado pelos trabalhadores atuais e futuros.produtos agrícolas ou produtos artesanais . em seu papel de participar da formação profissional de seus aprendentes. podem-se encontrar alguns ingredientes que estão sempre presentes em cada caso. capazes de dar conta da complexidade que os futuros profissionais encontrarão em seu dia a dia. Ora. Trata-se da capacidade de: a) Compreender a lógica de uma determinada situação. 40). Ora. interagir com os diversos clientes.Saúde e trabalho docente 138 subqualificada e instável que escapa ao sistema dos ofícios regulados. apoio). como a escola pode preparar seus estudantes para antecipar o inesperado com os quais todos se depararão em suas situações de trabalho? Lidar com eventos imprevistos faz parte do exercício da competência de cada um (ZARIFIAN.

isto é. solicita-se algo que é próprio do humano. 1995. aquelas novas formas de organização do trabalho coincidiram com um enfraquecimento das funções sociais do Estado e dos movimentos sociais. p. sociabilidades demasiado inconsistentes”. no sentido em que fala Robert Castel (2001. contudo. não tem valorizado a escola à altura do lugar que deve ter na vida social? Ao mesmo tempo. a pessoa mobiliza-se para dar conta daquela situação de acordo com suas próprias capacidades. dos coletivos de trabalhadores. preocupação com as implicações. desempregadas ou não. Sabemos que as novas formas de organização do trabalho vieram acompanhadas de novas formas de abandono e fragilidade das pessoas. aumento do desemprego. “[. dentre outras desgraças. experimentação que é. desenvolvendo habilidades que antes .Saúde e trabalho docente 139 exige de todos capacidades sobre-humanas para viver nos momentos atuais. Nesse contexto. Esse quadro é fonte de muito sofrimento das pessoas.. O modelo de competência é desenvolvido no seio do próprio capitalismo.. a aquisição de um tal entendimento supõe a estabilização dos quadros de ação que garantam uma real acumulação dos conhecimentos e que se assemelham mais a um dispositivo de experimentação do que à experiência. de desfiliação.] ausência de inscrição do sujeito em estruturas portadoras de um sentido.. como modelo da competência. 1997). Diante de uma tarefa. O que nomeamos aqui. corresponsabilidade. não parece que têm sido cobrados dela resultados cada vez mais altos? 6.. se não trabalharem com precarização e requisitarem a competência.2 QUERO ME LIVRAR DESSA SITUAÇÃO PRECÁRIA. precarização dos vínculos de trabalho. [.. com as próprias normas. Não é nossa proposta adotar uma postura ingênua. p.. já que. Pensamos que há aspectos positivos nessas novas organizações do trabalho. de exaltar as glórias das novas formas de organização do trabalho e esquecer os danos que as acompanham.] por um lado. 9). construída a partir de situações de produção reais (ZARIFIAN. da saúde dessas pessoas. é totalmente oposto a essas formas de precarização. inseridas na complexidade dos problemas suscitados pela sua evolução. a competência pode ser definida como o entendimento individual e coletivo das situações de produção. de quem se exigem esforços e capacidades sobre-humanos (SELIGMANNSILVA. Pedem-se mobilização. Por outro lado. 536).

Entendemos que esse modelo de trabalho e de trabalhador. como ilustra o próprio Taylor (1990. por vezes. o sobretudo quando do confundidas e misturadas era com a precarização. já que isso seria impossível de ser vivido para o ser humano –. p. na medida em que solicitava um sujeito mecanizado. É fato que tem havido pressões terríveis com a instabilidade crescente ligada à organização do trabalho. quando fala a propósito do posto de trabalho: [. é fonte de grande desgaste humano. é ótimo e desejável! As pessoas devem ter sempre os direitos respeitados.Saúde e trabalho docente 140 ignorava que tinha. capaz de. Por outro lado.. o que. na medida em que o trabalho tem uma dimensão coletiva e supõe sempre um cliente direta ou indiretamente implicado. São capacidades relativas tanto à tarefa propriamente dita quanto ao convívio com os outros. fazendo aparecerem diversas formas de sofrimento. . pelo menos com um dia de antecedência e cada homem recebe.] o trabalho de cada operário é completamente planejado pela direção. havia mais chances de se conseguir um emprego estável com direitos trabalhistas.. instruções escritas completas que minudenciam a tarefa de que é encarregado e também os meios usados para realizá-la. claro. todos esses infortúnios parecem. destrutivo e tendia a excluir muitas pessoas. nos fazer esquecer que o trabalho taylorizado pede um modelo desumano do humano. taylorismo-fordismo. adequar-se totalmente a uma tarefa prescrita. Nas décadas anteriores. ou que ainda não haviam surgido. modelo anterior. 42). teoricamente – e apenas teoricamente. desumano. Se as novas formas de organizar o trabalho podem trazer sofrimento. na maioria dos casos.

1 Disco Sonoro 78 RPM.). Ijuí: Ed. Obras escolhidas I. 262 f. (Org. 11. Gestão de coletivos de trabalho e modernidade: questões para a engenharia de produção. 91-114. v. 4. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Rio de Janeiro. 1994. E. In: FIGUEIREDO. 834836. Ai. Da dor ao prazer no trabalho. 2004. 22. C. C. BAUMAN.Saúde e trabalho docente 141 REFERÊNCIAS ACORDI. M. Estudos Femeministas. p. p. R. ATHAYDE. BRITO. BARROS.1117-1129. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção)-COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro. M. In: TRABALHADOR da saúde: muito prazer! Protagonismos dos trabalhadores na gestão do trabalho em saúde. 1996. de. W. O Mal-estar da pós-modernidade. BARROS. Rev. p. Diferenciais de gênero no trabalho docente e repercussões sobre a saúde. 1988. Rio de Janeiro: Odeon. arte e política. et al. T. 16. 2007. Ciência & Saúde Coletiva. São Paulo: Brasiliense. n. que saudades da Amélia. Unijuí. S.. R. 15. Rio de Janeiro. São Paulo: Brasiliense. M. 285 p. ALGEBAILE. v. n. ALVES. ed.Universidade Federal Fluminense. 1998. 7. Enfoque de gênero e relação saúde/trabalho no contexto de reestruturação produtiva e precarização do trabalho. O que é educação. magia e técnica. Labirintos do trabalho: interrogações e olhares sobre o trabalho vivo. 195-204. B. 1. B. Niterói: UFF. Rio de Janeiro: DP&A. BENJAMIN. v. Cad. 3. p. BRITO. D. BRANDÃO. ARAÚJO. R. A. Saúde Pública. Florianópolis. et al. . Escola pública e pobreza: expansão escolar e a formação dos pobres no Brasil. 2007. n. ed. 2004. J. E. Rio de Janeiro. 1942. 2000. Tese (Doutorado em Educação) . A. J. Saúde do trabalhador: reflexões a partir da abordagem ergológica. Da chibata ao Magistério: a trajetória da educação feminina no Brasil patriarcal. 2006. Lado A.

O fator humano. ed. 2006. C. São Paulo: Cortez.. W.). Relações sociais de sexo e de classes. gênero e trabalho nas escolas: cadernos de textos. Fiocruz. C. 2003.). 12. 2006. G. Política de formação de professores: a formação do professor “primário” na Lei nº 9. C.Saúde e trabalho docente 142 ______. GUERRA. BRZEZINSKI. C. Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. BUSSMANN. I. Y. Rio de Janeiro: Te Corá/IPUB. et al. LDB interpretada. Clínica e saúde coletiva compartilhadas: teoria Paideia e reformulação ampliada do trabalho em saúde. In: KARTCHEVSKY-BULPORT. In: OLIVEIRA. G. V. A. BRUSCHINI. 1999. P. M. ed. O projeto político-pedagógico e a gestão da escola. A função psicológica do trabalho. F. 1996. CAMPOS. M. N. 2008. JARDIM. In: CAMPOS. São Paulo.394/96 e seus desdobramentos. DEJOURS. In: AZEVEDO. 1997. 2003. Meio e normas do homem no trabalho. CANGUILHEM. 109-121. (Org. In: SILVA FILHO. Tratado de saúde coletiva.). São Paulo: Cortez. A. p. S. S. CLOT. D. César [Compositor]. A danação do trabalho: organização do trabalho e sofrimento psíquico. A. .). J. Paris: PUF. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Rio de Janeiro: Editora FGV. 2/3. In: VEIGA. 8. In: BRZEZINSKI. Faixa 7 (3 min 45 seg. Petrópolis: Vozes. ______. G.. 2008. (Org. 2. O sexo do trabalho. In: _____. Cuscuz clã. Programa de formação em saúde. ed. M. v. Pro-posições. COMBES. ______. A. (Org.. OLIVEIRA. ed. 2001. 2006. BRUNO. n. (Org. Mama África. HAICAULT. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: Hucitec. NEVES. Divisão sexual do trabalho e desigualdade nos espaços de trabalho. ATHAYDE. 2001. João Pessoa: EdUFPB. I. W. I. de A. L. Produção e reprodução. M.). Poder e administração n capitalismo contemporâneo. 26. CHICO CÉSAR. A. Campinas: Papirus. et al. 1CD (52 min 19 seg. 1986.. 8. Teoria crítica da família. Travail et pouvoir d’agir. Diversos olhares se entrecruzam.). São Paulo: MZA Music. Gestão democrática da Educação. D.

(Org. Tese (Doutorado em Psicologia). Revista Produção. DEWERPE. DIAS. 1992. p. 2008. Rio de Janeiro: UFRJ. n. In: SCHAFFRATH.samizdat. HALEVI. Paralelo 15. 2003. B. Acesso em: 14 maio 2009. L. . trabalho e ação. DI RUZZA. 1993.. ______. R. Subjetividade. DESSORS. Conversações. 2001. 1993. Profissionalização do magistério feminino: uma história de emancipação e preconceitos. 98-104. Deslocamentos na formação de professores: aprendizagem de adultos. Silva. As relações domésticas: entre amor e dominação. 1991. ______. M. set. 1969. Rio de Janeiro: Ed. São Paulo: Fundação Carlos Chagas/CERU. In: LANCMAN. Por um trabalho. G./dez. v. Christophe Dejours: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. DELEUZE.biblioteca. F. Z. F. 3. Paris: Harmattan/Innoval. DESCARTES.ar>. Coopération et contruction de l’identité en situation de travail. O discurso do método.clacso.). A. ______. São Paulo. Red de Bibliotecas Virtuales de Ciencias Sociales de América Latina y el Caribe de la red CLACSO. J. (Relatório de Pesquisa). v. Magistério primário no contexto da 1ª República. Disponível em: <http://www.net/Cooperation-etconstruction-de-l>.. 34. Rio de Janeiro: Fiocruz. S. p.Saúde e trabalho docente 143 ______. 2734. DESRIAUX. Disponível em de <http://multitudes. Acesso em: 14 abr. R. Histoire du travail. ______. 2009. A loucura do trabalho: estudos de psicopatologia do trabalho. Oboré. O.. De l’économie politique à l’ergologie: lettre aux amis. 14. 224 f. 2003. DEMARTINI. n. Revista de Administração de Empresas.edu. R. 2004. SZNELWAR. Paris: PUF. C. 2004. fator de equilíbrio. Rio de Janeiro: Ediouro. 3. dos A. São Paulo: Cortez. 33.. experiência e políticas cognitivas. D.

Pagu. p. 26. 109-139. G. 1950. Vigiar e punir: história da violência das prisões. CIAVATTA. 23. Apresentação. F. P. Rio de Janeiro: DP&A. 61. (Org. 2002. 2003.... Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. ed. 279-287. São Paulo: Edições Loyola. FRIGOTTO. Campinas. Pedagogia da autonomia./jun. São Paulo: Paz e Terra. 1998. 8. 1990. A. Vigiar e punir. ENGUITA. 1996. CIAVATTA. In: FRIGOTTO. Petrópolis: Vozes. Pequena infância. jan. L. ed. Microfísica do poder. A. Rio de Janeiro: Odeons. M. de. Campinas. 2002. n. A. 1999. ed. 2006. 1 Disco Sonoro. ______.org/adobeebook/ macaco. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2003. Petrópolis: Vozes. Teoria & Educação. ______. 9. v. educação e gênero: subsídios para um estado da arte. 302-318.). Acesso em: 09 set. p.pdf>. . FREIRE. ed. ______. A ordem do discurso. Rio de Janeiro: Edições Graal. 9. F. 1991. M. Pereira da Costa/Milton Villela [compositores]. 1983. FARIA. M. A experiência do trabalho e a educação básica. ______. São Paulo: Perspectiva. dez. n.ebooksbrasil. Disponível em: <http://www. p.Saúde e trabalho docente 144 ENGELS. ______. G. M. 8. G. FONSECA. 2003. 4. ed. FONSECA. Cadernos CEDES. Cad. 2009. Saberes necessários à prática educativa. Teco teco. História da Loucura. O projeto político-pedagógico e o plano de desenvolvimento da escola: duas concepções antagônicas de gestão escolar. M. FOUCAULT. 26. n.. Pedagogia da autonomia. A ambigüidade da docência: entre o profissionalismo e a proletarização.

. Cad. ago. 12. 5. F. LEPLAT. Buenos Aires: CLASCO.). abr. ed. n. et al. M. p. LACAZ. n. Compreender o trabalho para transformá-lo: a prática da Ergonomia. 2005. J. Globalização e divisão sexual do trabalho. Cad. GUÉRIN. n. São Paulo: Edgard Blücher. ______. TRINDADE. (Dir.. ______. Some ways of research. 23. In: KERGOAT. n. 4. 2000.Saúde e trabalho docente 145 GÓMEZ. O sexo do trabalho. Rio de Janeiro. 2001/2002. Campo Grande: Ed.. p. A. FAZENDA. F. v. 3. Rio de Janeiro. F. Colletive activity in work. D. 2007. et al. Paris: La Découverte. I. Campinas. . v. H. V. n. In: KARTCHEVSKY-BULPORT. Sociedade. 797-807. p. 139-156. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Os lugares dos sujeitos na pesquisa educacional. 4. v. 57. (Org. Da análise crítica das categorias dominantes à elaboração de uma nova conceituação. KASTRUP. São Paulo. LIBÂNEO. Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas. Campinas. J. 93. C. V. Ciência & Saúde Coletiva. Le monde du travail. out. UFMS. Le Travail Humain. HIRATA. 209-226. Políticas cognitivas na formação do professor e o problema do devirmestre. A. Saúde do trabalhador: novas-velhas questões. 1273-1288. set. C. D. p. Estudos Avançados. Política e democracia em tempos de globalização. 1991. La division du travail entre les sexes. KERGOAT. C. C. P. ZARIFIAN. 2001.). Em defesa de uma sociologia das relações sociais. et al. 2. v.. 2001. Saúde Pública. Pagu. 10. v./dez. p. Força e fragilidade do modelo japonês./dez. In: LINHARES. 1986. HIRATA. 26. 757-766. 1998.. O campo saúde do trabalhador: resgatando conhecimentos e práticas sobre as relações trabalho-saúde. LACAZ. Por uma pedagogia crítica que nos ajude na formação de sujeitos pensantes e críticos. 2005. 1994. Educação &. 17-18. H. n.

Trajetória. Petrópolis: Vozes. Gênero. 4. Brasília. Brasília. São Paulo: Cortez. MANCEBO. n.das dimensões conceituais e políticas. Gestão escolar e formação de gestores. S. D. ed.Saúde e trabalho docente 146 ______. 52. Professores entre reformas escolares e reinvenções educacionais. São Paulo: Cortez. p. Amor y juego: fundamentos olvidados del humano. ed. 1993. p. qualificação e competência profissional . El sentido de lo humano. (Org. 1959. G. v. . LUCKESI. MATURANA. (Org.). MATURANA. VERDEN-ZÖLLEN. Pensar e fazer. 1. 2004. In: CANDAU. LDB.. Belo Horizonte: EdUFMG. G. 13-49 . H. Trabalho. ed. 1999. 4. ed. In: SAVIANI. Brasil e Espanha. LINHARES. H.). Campinas: Autores Associados. 19. 26. D. 2. 2008. História da educação pública. Em Aberto. A nova lei da educação. (Org. C. Os professores e a reinvenção da escola. V. Didática. El amor y el origen de la humanidad. n. Petrópolis: Vozes. L. 2002. 1997.). Campinas. Santiago: Instituto de Terapia Cognitiva. La origen de lo humano. ______. 2004. MANFREDI. 2007. Educação & Sociedade. Psicologia: ciência e profissão. H. 7-8. L. sexualidade e educação. mar. C. LOURO. v. 1983. Trabalhadores sem trabalho e seus professores: um desafio para a formação docente. H. 22. 100-111. O papel da didática na formação do educador. 8. ed. LUZURIAGA. n. Santiago: Cominicaciones Noreste. Emoções e linguagem na educação e na política. In: MATURANA. In: MATURANA. 2002. Modernidade e produção de subjetividades: breve percurso histórico. A didática em questão. M.. N. C. 2000. 2001. VERDEN-ZÖLLEN. In: LINHARES. Formação de professores. v. ______. C. H. 17. p. In: ALVES. set. 3. 64. ed. LÜCK. São Paulo: Cortez. G. M. limites e perspectivas.

São Paulo: Cortez. E. R. E. SCHELBAUER. NOGUEIRA. v. São Paulo: Cortez. 1984. Terceiro setor e questão social.). out. NOVAES. SELIGMANN SILVA. N. F. (Org. N. M.. Gestão democrática da educação. In: ALVES. 25... A. 2002. Rio de Janeiro. 1981. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. 78-94. (Org..). v./dez. n. E. In: OLIVEIRA. Psicologia: Reflexão e Crítica. p. de. n. Crítica ao padrão emergente de intervenção social. M. 1991. São Paulo: Companhia das Letras. I. Educação e planejamento: a escola como núcleo da gestão. MENDES. R. São Paulo. 2006. ODDONE. J. n. MOREIRA. Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador. NIETZSCHE. São Paulo: Cortez. Revista HISTEDBR. Campinas. 3. 341-349. 2005. Saúde Pública. OLIVEIRA. ed. RE. n. 27. Petrópolis: Vozes. K. A. 12. Campinas. C. 649-663. ed. BRIANTI. C. A. 1127-1144. Pensar e fazer. 1. A. NEVES. DIAS. 25. M. Paris: Messidor. Rev. Saúde. trabalho e processo de subjetivação nas escolas. ano 6. E. A.. G. C. ed. Tradução. Redécouvrir l’expérience ouvrière. Cortez. 2004. 5. Porto Alegre. MONTAÑO. Professora primária: mestra ou tia. B. set. p. F. v. 63-75. 2008. Educação e Sociedade. 2007. 1982. 8. p. set. p. G. n. Magistério de 1° Grau: da competência técnica ao compromisso. Humano./dez. MINAYO-GÓMEZ. de. p. ______. D. 2004.. 8. notas e posfácio Paulo César de Souza. 15. Formação de professores. D. São Paulo: Autores Associados. demasiado humano.Saúde e trabalho docente 147 MELLO. set. B. 89. Estudos e Pesquisas em Psicologia. A formação de professores e o aluno das camadas populares: subsídio para o debate. 2002. A dor e a delícia de ser (estar) professora: trabalho docente e saúde mental. . Feminização do Magistério no Brasil: o que relatam os pareceres do primeiro congresso da instrução do Rio de Janeiro. BARROS.

Rio de Janeiro: Te Corá. O. J./dez. Gênero. ed. Os ingredientes da competência: Um exercício necessário para uma questão insolúvel. n. . mulher e gênero no Brasil contemporâneo. In: JARDIM.htm>. F. v. Trajetória. Toulouse: Octarès. Fem. 25. ed. 2007. 515-540. LDB. 2008. ed. Y. O contínuo crescimento do desemprego em todo o mundo. 1997. DURRIVE. Petrópolis: Vozes. Filosofia e história da educação. J. A nova lei da educação. Le paradigme ergologique ou un métier de philosophe.Saúde e trabalho docente 148 PILETTI. p. São Paulo: Ática. 2. Books. 43-66. PILETTI. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. A interface desemprego prolongado e saúde psicossocial. SAVIANI. 2001. L. Trabalho e ergologia: conversas sobre a atividade humana. 1998. D. 2004. limites e perspectivas. p. RIFKIN. 3 ed.. SILVA FILHO. In: INEP. In: ______. Petrópolis: Vozes. 15. PLATÃO. dez. ______. ROSEMBERG. 1997. (Orgs. O fim dos empregos. 2011. F. Rio de Janeiro: Athena. n. A república.. Disponível em <http://www. ______. sexualidade e educação. ago. L. 2000. Acesso em: 11 set. São Paulo: M. 2001. S. 6. D. 1956. 1995. RISTOFF.inep. ROMANELLI. Toulouse. Octarès.br/imprensa/entrevistas/ trajetoria_mulher. Sala de imprensa.gov.). Educação e Sociedade. SELIGMANN-SILVA. Florianópolis. História da educação no Brasil (1930/1973). 9. ______. Rev. N. A trajetória da mulher na educação brasileira. 65. 2006. Campinas. SCOTT. Niterói: EdUFF. 2004. In: LOURO. Travail et usage de soi. A danação do trabalho: organização do trabalho e sofrimento psíquico. C. J. 1992. de O. Travail et philisophie: convocations mutuelles. Educação formal. ed. E. v 9. Estud. 19. SCHWARTZ. G. Campinas: Autores Associados.

Saúde e trabalho docente

149

SILVA, T. T. A “nova” direita e as transformações na pedagogia da política e na política da pedagogia. In: GENTILI, P. A. A.; SILVA, T. T. da. (Orgs.). Neoliberalismo, qualidade total e educação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. SIMÕES, R. H. S.; CARVALHO, J. M. Construção da identidade do professor no Brasil. In: LINHARES, C.; FAZENDA, I.; TRINDADE, V. (Orgs.). Os lugares dos sujeitos na pesquisa educacional. 2 ed. Campo Grande: Ed. UFMS, 2001. TAYLOR, F. W. Princípios de administração científica. São Paulo: Atlas, 1990. VEIGA, I. P. A. Profissionalização docente. In: COLÓQUIO FORMAÇÃO DE EDUCADORES, 2., 2006, Savador. Anais eletrônicos... Salvador: UNEB, 2006. Disponível em: <http://www.didateca.org/coloquio.htm>. Acesso em: 20 jun. 2009. ZARIFIAN, P. Organização qualificante e modelos da competência: que razões? que aprendizagens? Revista Européia de Formação Profissional. n. 5, p. 10, jan./abr. 1995. ______. Objetivo competência: por uma nova lógica. São Paulo: Atlas, 2001a. ______. Mutação dos sistemas produtivos e competências profissionais: a produção industrial de serviço. In: SALERMO, M. (Org.). Relação de serviço: produção e avaliação. São Paulo: SENAC São Paulo, 2001b.

Saúde e trabalho docente

150

3
CORPOREIDADE E EDUCAÇÃO
Iraquitan de Oliveira Caminha7

1 CORPOREIDADE E CONSTRUÇÃO DE UMA PEDAGOGIA DO CORPO
Nunca se falou tanto do corpo. O corpo está em evidência. É tema de inúmeras conversas sobre hábitos alimentares, cirurgias estéticas, uso de próteses, preocupações higiênicas, uso de adornos e cosméticos, bem como práticas regulares de exercícios físicos. Clínicas, academias, clubes, Spas cuidam dos corpos. Inúmeros profissionais se dedicam a formar corpos saudáveis e belos. No contexto social contemporâneo em que o corpo está em destaque, o que os educadores e educadoras, em especial os pedagogos e pedagogas, têm a dizer sobre o corpo? É no cenário da modernidade, tomando como referência o Iluminismo8 que a educação escolar ganha uma nova perspectiva de formação. O século XVIII é marcado por um movimento de educação obrigatória para todos e sob a responsabilidade do Estado. Na Europa, a escola não poderia ser reduzida a um espaço de formação para seminaristas que deveriam servir aos interesses da Igreja Católica. O foco da educação passa a ser a cidadania. Em escolas, marcadamente laicas, esperavam-se formar cidadãos submissos à constituição, e não mais, súditos de reis tiranos. A educação, visando formar o sujeito livre ou autônomo, passa a ser a meta dos países que conquistaram a condição de estados nacionais. A perspectiva de educação, que nasce dessa nova forma de organização política, exige a construção de uma identidade nacional vivida corporalmente. Corpos fortes e saudáveis representam sinais de desenvolvimento de uma nação. A escola precisa ensinar uma língua nacional, os legados científicos e culturais, mas também necessita transmitir
7

Doutor em Filosofia. Professor do Departamento de Educação Física do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba. Iluminismo, também denominado Século das Luzes, compreende o período do século XVII ao XVIII, na Europa.

8

Corporeidade e Educação

152

conhecimentos sobre os cuidados com o corpo. Nesse sentido, foi criada a noção de educação física para mostrar que a educação moderna não poderia se restringir a uma educação intelectual. Podemos encontrar as raízes de uma educação física em Platão, filósofo clássico grego. Em A República, o filósofo defendia que a educação deve começar com a ginástica. Para poder adquirir a sofisticada arte de pensar dialeticamente, era preciso, inicialmente, praticar a arte de fortificar o corpo, que exige força, flexibilidade e coordenação motora. A palavra ginástica vem do grego gymnastiké, que consiste na arte de fortificar o corpo e dar-lhe agilidade. Para que a educação seja completa, é preciso que os estudantes realizem um conjunto de exercícios corporais sistematizados, com a finalidade de tornar o corpo vigoroso. A busca de uma vida virtuosa não é apenas um exercício da alma. O homem moderno precisava se inspirar na antiga civilização grega para conquistar, por meio do exercício físico, uma completa vida virtuosa. Os educadores modernos precisam inventar uma pedagogia do corpo. Essa pedagogia tem como meta definir uma perspectiva de formação que contemple a aquisição de comportamentos de cuidar do corpo. A vida, nos grandes centros urbanos, exige do homem moderno uma série de cuidados para que seu corpo tenha uma vida saudável. A educação deve propor uma perspectiva pedagógica que considere cuidados com a alimentação e com a atividade física regular. Nenhum educador pode instaurar uma prática educativa desprovida de uma pedagogia do corpo. Portanto, para propor uma pedagogia do corpo, ele precisa definir uma concepção de corpo. Mas, afinal, o que é o corpo humano?

1.1 CORPOREIDADE: o corpo como forma de vida
Pelo viés da Biologia, podemos definir o corpo do ser humano como um conjunto de ossos, músculos e órgãos. Desse modo, ele é visto como uma realidade objetiva, estudada nos laboratórios de anatomia, fisiologia e bioquímica. O corpo é concebido como um ser vivo, entre outros seres vivos. Em outras palavras, ele é um organismo regido por mecanismos físico-químicos. Todavia, não pode ser reduzido a um objeto positivo de investigação experimental. Além de ser um conjunto de matéria sujeita a uma série de relações causais, ele é, como diz Merleau-Ponty (1994), na Fenomenologia da Percepção, nosso ponto de

Corporeidade e Educação

153

vista sobre o mundo. Nosso corpo, enquanto vivido, é a nossa experiência de nos situarmos intencionalmente no mundo e não está apenas localizado no espaço como uma coisa no meio de outras; ele se situa em relação ao mundo, conferindo-lhe sentido. Nosso corpo não vê o mundo como se o olho fosse apenas um receptáculo de estímulos físicos. Nós temos o poder de lançar nosso olhar para o mundo, estabelecendo, com ele, uma relação intencional e não apenas de causa e efeito. Os movimentos do corpo até podem ser vistos como comportamentos motores, que respondem mecanicamente aos estímulos do meio ambiente, todavia, também podemos compreender o corpo humano como um sistema de comunicação que expressa diferentes formas de viver. É com base na perspectiva de compreender o corpo como forma de vida, que propomos pensar uma pedagogia do corpo a partir da noção de corporeidade. Essa noção consiste em considerar o corpo como uma construção sociocultural e não apenas como um conjunto de elementos físico-químicos. Não queremos negar que somos dotados de uma herança biológica, que nos define como organismo vivo. Mas também construímos um modo de ser cultural que nos define como inventores de formas de vida. É a nossa condição de artesãos de formas de vida que faz de nosso corpo: corporeidade. Pela noção de corporeidade, nosso corpo não é considerado apenas como objeto investigado à distância, mas como sujeito de uma forma de vida. Nesse sentido, qual seria a perspectiva de educação que o educador deveria adotar, considerando o corpo como corporeidade ou forma de vida? Para responder a tal questão, é indispensável compreendermos a corporeidade no cenário das expressões socioculturais de nosso mundo contemporâneo.

1.2 CORPOREIDADE NO CENÁRIO CONTEMPORÂNEO
Como foi dito acima, vimos os desafios de se construir uma pedagogia do corpo. Neste ponto, a proposta é pensar a corporeidade no cenário de nosso mundo contemporâneo. Foucault (2004) nos diz, em Vigiar e Punir, que o século XVIII não apelava mais para a ideia de que um soldado precisava de características naturais para se tornar um bom combatente. Os estados nacionais poderiam usar técnicas corporais para fabricar um soldado defensor da pátria. A natureza corporal,

soldados defensores das nações e instrumentos de produção. A necessidade de tais cuidados tem como referência as reflexões sobre a educação dos sentidos. poderia ser moldada pela ciência do treinamento. a ideia de que o desenvolvimento de uma nação estava associado à força física de seus cidadãos. precisava de educação física. A ciência e a técnica se juntaram para disciplinar e punir o corpo. que deviam ter aptidões. a ser extremamente útil para defender a pátria. é preciso reconhecer que Foucault (2006). Os corpos dos cidadãos eram. marcado pela criação de métodos de treinamento para melhorar a performance do corpo. os trabalhadores para as longas jornadas de trabalho nas fábricas. com o objetivo de produzir corpos disciplinados ou submissos. em comum. que podem perverter ou . bem como qualificar. por meio de exercícios padronizados. Esses educadores tinham. nesse mesmo cenário. então. propagado pelos iluministas. que passa a incorporar o currículo escolar como conteúdo de formação do homem moderno. Podemos destacar. Ele também é revelador de práticas subversivas de poder. a criação das Escolas de Ginástica que. Podemos ainda citar como exemplo. no início do século XIX. em História da sexualidade III: o cuidado de si reconhece que o corpo não é reduzido a uma coisa submetida a um sistema de controle social. Nesse sentido. tornandoo útil e obediente. Ela era vivenciada nas escolas por meio de exercícios físicos fundamentados nos conceitos biomédicos. O vigor físico passa. A determinação de procedimentos quantitativos de comparação de desempenhos corporais é um valor típico das organizações sociais que se constituíram com base na produção industrial racionalizada. Basedow e Pestallozzi. Rousseau. Ela colaborava para transformar corpos em máquinas. Todavia. ao mesmo tempo.Corporeidade e Educação 154 herdada pelas características biológicas. o surgimento do esporte moderno. com a finalidade de se alcançar uma vida saudável nos grandes centros urbanos. fisicamente. minuciosamente controladas e integradas a um sistema de controle eficaz e econômico. A escola disciplinadora exaltava corpos performáticos e excluía corpos ineficientes ou improdutivos. A educação moderna é marcada pela inclusão da ginástica nas escolas. a educação física passou a ser um instrumento de saúde pública para implementar políticas higienistas e sanitaristas. propagada por Locke. A escola transformou-se em espaço institucionalizado para se promoverem cuidados com o corpo. O “homem novo”. passaram a propagar e efetivar. a defesa da necessidade de uma prática regular de educação física para o homem moderno.

surgiram. pode ser entendida como marcada por muita rebeldia: protestos feministas queimaram sutiãs em praça pública. comandada pelo general Charles de Gaulle. com piercing ou submetidos aos espetáculos de suspensão por meio de grampos cravados na pele. marcados pela pluralidade de modos de vida. construirmos nossos destinos. naquela década. No cenário contemporâneo. marcado por muita repressão. o movimento de contracultura hippie pregava o slogan Flower Power (Força das Flores) para expressar o uso da não violência em nome da paz e do amor. como o Tropicalismo. Podemos citar. Corpos tatuados.3 EDUCAÇÃO E CUIDADO COM O CORPO . visando ao corpo perfeito. 1. mas também somos marcados por um indeterminação livres para. Elas são capazes de usar anabolizantes. são representantes de tempos marcados pela espetacularização. que. que foi num contexto de regime militar. submeter-se a inúmeras cirurgias plásticas. Devemos nos adequar aos estereótipos criados e impostos pela sociedade de consumo? Qual o papel do educador num cenário em que as pessoas esquecem os limites do corpo para exibi-los como belos a qualquer preço? Qual a posição dos educadores e educadoras sobre os valores vividos pelo corpo no mundo contemporâneo? Para refletir sobre essas questões. A década de 1960. podemos dizer que o corpo é marcado pela extrema preocupação com a aparência. ainda. movimentos de protestos. ainda. dentre outros. na França. também. que mobilizaram estudantes e trabalhadores franceses para protestar contra uma sociedade conservadora e fechada. no Brasil. como símbolo da luta contra a repressão. Lembramos. modelados em academias. Esses princípio de fatos servem para que ilustrar nos que faz somos determinados pelas organizações sociais de que fazemos parte. fazer exercícios físicos ou regimes de forma exagerada ou. A satisfação pessoal tornou-se escrava do olhar do outro. Logo. proponho que discutamos sobre o tema educação e cuidado com o corpo. não podemos pensar a corporeidade apenas como propagadora de valores dominantes. Atualmente. podemos ver vários modos de viver expressos pelo corpo.Corporeidade e Educação 155 alterar uma ordem social instaurada. dramaticamente. por exemplo. Pessoas são capazes de fazer qualquer coisa para alcançar os padrões estéticos vigentes. os movimentos de maio de 1968.

mas evitar que o nosso corpo seja atacado por microorganismos que possam prejudicar nossa saúde. até estarem completamente curados. será que eles devem reduzir seus ensinamentos sobre a corporeidade a uma mera transmissão de hábitos higiênicos? Tal questão não visa desconsiderar a importância da aquisição de hábitos higiênicos. as escolas iniciaram várias campanhas que recomendavam uma série de orientações para os estudantes. copos. Ele deve situar seus educandos em contextos de reflexões sobre a convivência com o outro. uma doença respiratória causada pelo vírus A. os conhecimentos e as técnicas devam ser ensinados nas escolas como um meio de conservar e fortificar a saúde. Não faz sentido cuidarmos do corpo se não for para sermos felizes. o uso de vacinas. evitar tocar olhos. sobre as responsabilidades que devemos ter pelos cuidados com o nosso corpo e o corpo do outro. Aids. entre outras medidas. O educador precisa criar uma rede de comunicação para refletir. instalações de redes de água e esgoto são indispensáveis para o cuidado com o corpo. espirro ou de secreções respiratórias de pessoas infectadas. hepatite. uma situação de alerta sobre os riscos de uma possível epidemia global da Influenza A (H1N1). nariz ou boca. Todavia. Não temos dúvidas de que. Não podemos negar que as orientações higiênicas são indispensáveis para proteger a vida das pessoas que vivem nos grandes centros urbanos. Em relação aos cuidados com o corpo. em 2010.Corporeidade e Educação 156 Vivemos. Nesse sentido. tétano são males que podem ser evitados por meio de hábitos higiênicos. evitar locais com aglomeração de pessoas. em sala de aula. escabiose. A definição de normas sanitárias. com água e sabão. estimulando engajamentos para a . Devido a mutações no vírus e à transmissão de pessoa para pessoa. principalmente por meio de tosse. especialmente depois de tossir ou espirrar. a boa higiene é indispensável para se prevenir contra situações de pandemias. para se evitarem doenças infectocontagiosas. os educadores e educadoras têm um papel significativo na conscientização da necessidade de se adquirirem hábitos saudáveis para se preservar a vida. Cuidar do corpo exige encontrarmos meios para que convivamos melhor com o nosso semelhante. não compartilhar alimentos. pediculose. Os cuidados com o corpo precisam ser compreendidos numa perspectiva que contemple não somente técnicas de cuidados. os estudantes com sintomas de gripe não devem retornar às aulas. mas também uma reflexão sobre a convivência entre os corpos. toalhas e objetos de uso pessoal. a saber: lavar as mãos frequentemente.

. precisamos alargar nosso olhar para o outro. Portanto. Como considerar a convivência entre os seres humanos em tempos de excessivos cuidados com a aparência do corpo? Qual o sentido de se pensar o saber conviver num mundo em que a satisfação imediata. urgentemente. Todavia. construir formas de familiarizar-se com o outro. A escola é considerada como o lugar da produção de conhecimento por excelência. Saber conviver é. é lugar em que se deve aprender a conviver. “não somos meras máquinas que manifestam reações físico-químicas. Nossa intenção é mostrar que a prática de uma pedagogia do corpo não deve ser reduzida à definição de procedimentos de vigilância e controle dos corpos. 30). Por meio da corporeidade. de forma ativa e passiva. tal saber não se reduz à mera aquisição de regras de convivência. Agora trataremos sobre a corporeidade e nossas relações de convivência. o ser humano faz do outro um mediador de sua existência. Precisamos. o gozo a qualquer preço e o consumo como chave da felicidade são modelos de formas de vida? É com base nessas questões que nossa proposta agora é refletir sobre o tema da corporeidade e da convivência. o corpo insere o ser humano. sobretudo. os processos de natureza intelectual. Ela valoriza. desconsiderando os apelos de hospitalidade e tolerância do olhar do outro. Segundo Caminha (2009. no espaço social. 2 CORPOREIDADE E CONVIVÊNCIA NO CENÁRIO CONTEMPORÂNEO Compreendemos o corpo na contemporaneidade. Logo. repensar o sentido de cuidar do corpo na perspectiva do acolhimento da alteridade. respeitando a sua dignidade. Qual o sentido de aplicar flúor em todos os estudantes da escola? Campanhas de higienização não podem estar desacompanhadas de uma reflexão sobre a convivência com o outro. assumir o compromisso de instaurar discussões sobre a diversidade de formas de se promover a vida em sociedade. Entretanto. não podemos deixar de destacar que a escola é um espaço de convivência. Seja na condição de emissor ou de receptor de formas expressivas. p.Corporeidade e Educação 157 formação de uma responsabilidade social. e os cuidados com o corpo podem nos conduzir para uma cultura narcísica centrada numa moral higienista que fixa hábitos em defesa da saúde. antes de tudo. Somos corpos que carecem do outro”. mas.

ainda. o corpo é uma forma de vida moldada pelas interações. eles contemplam a dimensão vivida e pulsional da corporeidade. Tais dimensões estabelecem relações com o mundo fundadas em intenções e desejos. é preciso compreender a convivência num cenário heterogêneo que exige respeito às diferenças. 18-19). Em suas reflexões sobre o corpo. Alguns aprendem a dormir em . Assim. à impotência e ao sofrimento. ou. A visão moderna a seu respeito é apenas uma forma de representação fundada nos discursos biomédicos. habitamos e fazemos exercícios físicos é apreendida culturalmente por meio de ensinamentos de natureza técnica. pois ele é o “meu corpo” que expressa uma forma de viver. 2007. num único prato. mas uma instância desejante sujeita à frustração. dormimos. dividindo coletivamente os alimentos. a comer com hashis. Nesse sentido. Considerando que o corpo não pode ser refém de nenhuma representação unânime. As técnicas corporais são difundidas pela educação. produz ele mesmo as qualidades do corpo na interação com os outros e na imersão do campo simbólico” (LE BRETON. uns “pauzinhos” usados para pegar os alimentos. socialmente construído pelo ser humano. “O homem não é produto do corpo. por meio da qual aprendemos a lavar as mãos antes das refeições. Merleau-Ponty (1994) concebe-o como vivido. A caracterização do corpo não pode ser vista de forma unânime. A maneira como comemos. a ciência transforma o corpo em objeto geral examinado à distância. Contrário à ideia do corpo como um objeto examinado por um olhar que não o habita. Do ponto de vista positivista. usar garfo e faca e nos alimentar em pratos individuais. Portanto. p. Numa perspectiva semelhante. Freud não concebe o corpo como um pedaço de coisa extensa. Freud e Merleau-Ponty deram importantes contribuições para libertar a corporeidade humana das amarras dos conhecimentos com base nesses discursos. amparados pela perspectiva anatomofisiológica. a corporeidade é socialmente construída. pensar uma pedagogia do corpo exige que consideremos a variabilidade das culturas corporais.Corporeidade e Educação 158 A vulnerabilidade. O corpo vivido é aquele que resiste a toda forma de objetivação. permitindo a formação de uma estrutura simbólica que reúne os mais variados estilos de vida. As técnicas do corpo ou o uso que fazemos dele para atingir determinados fins são culturalmente diversificados. à insatisfação. Podemos aprender a comer com as mãos. a carência e o desamparo são marcas de nossa existência corporal.

A diversidade cultural deve ser reconhecida como um patrimônio das diferentes formações sociais do planeta. Não estamos querendo aqui classificar essas atitudes como vícios ou virtudes.Corporeidade e Educação 159 colchões. Hábitos alimentares são adotados em todos os cantos do planeta. Mas a interação entre os povos pode servir para instaurar um modelo de convivência marcado pelo domínio de interesses mercadológicos que conduzem o homem a homogeneizar modos de convivência. castelos. como educadores. Nesse sentido. Ela pode ser um princípio de orientação para a convivência entre os seres humanos e servir para mostrar que os modos de convivência são criados. fundada em padrões e códigos de comportamentos ligados ao corpo. Que desejo é esse que mobiliza pessoas a se tornarem escravas de dietas. preservados e mudados historicamente. se hoje vivemos em tempos em que a convivência entre os humanos é marcada pelos cuidados excessivos com a aparência do corpo. MacDonald’s e CocaCola são símbolos desse modo de se alimentar. A globalização. política e sociocultural de todos os povos do planeta. pela satisfação imediata. A diversidade cultural de formas de vidas indica o pertencimento sociocultural dos corpos. espécie de piso feito com palha de arroz. seguindo o modelo fast-food. pelo gozo a qualquer preço ou pelo consumo como chave da felicidade. se tomarmos como referência os modos de convivência dos grandes agrupamentos humanos marcados pela globalização. precisamos adotar. veremos que há uma tendência a se homogeneizarem os corpos. redes ou em tatames. capaz de mobilizar as pessoas para se posicionarem sobre a convivência humana. bem como os modos de convivência entre eles. Existem aqueles que aprendem a morar em barcos. Todavia. ocas. processo de integração econômica. As atitudes em relação aos cuidados excessivos com a aparência do corpo precisam ser compreendidas e questionadas. exercícios físicos e cirurgias plásticas? Não se trata apenas de reconhecer o culto excessivo à imagem do corpo como . casas. uma postura crítica. O que está em questão é a compulsão pela busca de um corpo perfeito. Calças jeans e tênis vestem homens e mulheres do mundo inteiro. musculação ou Tai Chi Chuan. Todos esses exemplos servem para mostrar a diversidade cultural de usos do corpo que nos impedem de homogeneizar a corporeidade humana. palafitas. Há quem aprenda a fazer exercícios de yoga. apartamentos ou iglus. pode ser vista como uma forma de aproximar as pessoas. ginástica.

. depilações. O corpo a serviço do prazer. esconde nossa condição de seres inacabados. depressão ou impotência sexual. A indústria farmacêutica pode acabar com dores. Anabolizantes podem acelerar o lento processo de condicionamentos físicos nas academias. as bonecas. massagens. gorduras. Cremes. a qualquer preço. encontramos o homem angustiado pelo desamparo de uma sociedade que não consegue cumprir com as promessas de preencher suas faltas. As vitrines dos shoppings centers seduzem consumidores ávidos por novidades. que pode ser aprovada ou reprovada pelo olhar do outro. azia. cirurgias bariátricas ou plásticas podem ajudar a modelar o corpo perfeito. definidos pela mídia comercial. em especial. que precisam ser compartilhadas e discutidas à luz de um distanciamento crítico. A busca da felicidade. que continua sendo uma aspiração dos seres humanos. uma escravidão à imagem do corpo. desse culto. Soluções mágicas para os grandes questionamentos da vida podem ser encontradas nos livros de autoajuda. conduz-nos a formulações de ideais diversificados. tornou-se um verdadeiro estilo de vida. A desesperada busca da felicidade por meio do consumo precisa ser discutida e criticada. ainda. Nossos sistemas de crenças e de representações precisam ser questionados. Apesar de todas essas ofertas do mercado. A sociedade de consumo propaga a ideia de uma possível conquista de satisfação instantânea de nossos desejos. e o ponto de partida dessa análise deve ser as próprias experiências corporais de educadores e educandos. O crivo da crítica precisa ganhar espaço nas escolas. As tensões entre satisfação imediata e a incompletude devem ser questionadas. servem como modelos estereotipados para os nossos corpos? Ou. A convivência humana é marcada por corpos que buscam gozar desconsiderando limites. como os brinquedos infantis. Já observamos que os padrões de beleza. a sociedade contemporânea está marcada pela busca de satisfação imediata dos desejos. criada pelo império do gozo.Corporeidade e Educação 160 traço cultural de nossa forma de conviver na atualidade. influenciam nossa percepção do corpo? Além da cultura da imagem do corpo. A construção de uma pedagogia da corporeidade exige uma análise crítica. e a ilusória sensação de completude. sejam adultos ou crianças. mas de questionar as possibilidades de fazer. O corpo experimenta os excessos do consumo oferecidos pelo capitalismo.

. capaz de integrar as regras de condutas da sociedade com a realização de projetos de vida. examinando o tema corporeidade. Nessa perspectiva. ele deve ser submetido às leis da cidade em que vive. interagindo socialmente com outros corpos. LEI E DESEJO A proposição de uma pedagogia da corporeidade. lei e regras de vida. sobretudo. O corpo é submetido a uma série de limites exigidos pelas instituições sociais. O corpo não deve apenas ser disciplinado para seguir as leis. exige uma reflexão sobre o corpo humano. 3 CORPOREIDADE E DIGNIDADE HUMANA 3. exposto ao olhar apreciativo ou depreciativo do outro.1 CORPOREIDADE. Nesse sentido. fundada na compreensão do corpo como forma de vida. A escola não pode valorizar apenas processos de natureza intelectual. os processos de interação social que são determinantes na aquisição de normas sociais. Sabemos que ela é o lugar da produção de conhecimento por excelência. considerando o corpo num contexto de convivência social. mas estimulado a criar modos de vida.Corporeidade e Educação 161 O debate sobre nosso corpo. propomos que continuemos nossas reflexões sobre a construção de uma pedagogia do corpo como forma de vida. é fazer da escola um lugar de convivência. a escola também é um espaço de convivência. mas não apenas cumpre regras ou leis. como educadores. onde aprendemos. os educadores devem fazer com que a estrutura normativa de uma sociedade seja assimilada pedagogicamente por meio dos projetos de vida de cada criança. desejo. Nosso desafio. Nosso corpo não pode ser reduzido à realização de atividades mecânicas. Todavia. no cenário da escola. Todavia. Nosso interesse é considerar. são determinantes nas relações de convivência. porquanto definem os limites de como o corpo deve agir em relação aos outros corpos. constituídas sob a forma de normas positivas ou de princípios morais. Aprendemos também manifestações da cultura do corpo e da cultura artística. As leis. Ele realiza ações intencionais movidas por desejos e prazeres. é fundamental para compreendermos nossa convivência com ele. a nossa língua pátria e os saberes científicos produzidos por nossa cultura.

está instaurada aqui uma luta entre indivíduo e sociedade. precisamos considerar o modo como cada pessoa se insere na sua comunidade. Essa luta é intrínseca à natureza humana. o homem ou a mulher que deseja e a civilização que reprime têm interesses conflitantes. Portanto. que somos educadores. obriga-nos a respeitar a dignidade do outro. Porém. os educandos e educandas são pessoas que desejam. Ele não é outra coisa além do desejo de ser. o corpo ser integrado às estruturas normativas da sociedade. simplesmente. É impossível se conceber a constituição de uma sociedade sem a contenção da dimensão pulsional presente em todos os seres humanos pelos seus corpos. Reconhecemos que as leis são absolutamente necessárias para reprimir desejos incompatíveis com a ordem social. As leis cumprem um papel indispensável e estruturante na formação do ser humano. Antes de serem cidadãos submissos às leis. exige o exercício da capacidade de agir como sujeito de ações sociais. desse modo. A lei não pode ser considerada apenas como ameaçadora à liberdade do sujeito. A convivência. a lei pode ser considerada como alternativa de acordo entre desejos conflitantes que exige.Corporeidade e Educação 162 A convivência é um saber a ser apreendido. o ser humano precisa renunciar ou sublimar muitos de seus instintos. e. Aprender a conviver não significa. Elas contribuem para transformar um conjunto de desejos desordenados em um sujeito organizado. nós. de um lado. A Lei impõe uma restrição aos desejos do corpo. acima de tudo. A . Esse saber não significa apenas a simples aquisição de um conjunto de regras assimiladas no espaço escolar. Para viver em uma sociedade civilizada. fundados na fraternidade. adquirir regras de convivência e. fundados na liberdade. de outro. necessariamente. Ela é. como um saber que nos permite construir uma familiaridade com o outro. Nesse sentido. As leis não podem ser alheias ou totalmente estranhas aos sujeitos que constroem modos de vida por meio de suas corporeidades. Um espaço sem lei é extremamente nocivo à corporeidade. renúncia de desejos. Nesse sentido. de tornar-se idêntico a si mesmo ou de constituir uma singularidade aceita socialmente. Desejar é a característica essencial de todo e qualquer sujeito humano. indispensável para a vida em comunidade. afirmação de desejos. que. responsáveis pela formação cidadã na escola. Desconsiderar os processos subjetivos de adesão das pessoas às leis da sociedade significa pôr em risco toda forma de organização social.

Diante desse quadro social. A lei impõe ordem. contribuir para a sublimação dos impulsos primários do ser humano e deve colaborar para transformar pulsões sexuais contrárias ao processo civilizador da humanidade em atividades humanas reconhecidas. o bem-estar não deve ser compreendido como busca desenfreada pelo prazer do corpo. Uns têm muito. . É chocante essa situação. pois roubar é algo proibido. também. socialmente. Somos cientes de que tais compreensões são fundadas em valores. Assim. Precisamos direcionar nossa indignação. democrático e justo. O ato de roubar fere a lei e a moral dos bons costumes. antes de ser repressora. é provável que ela diga que ele está correto. às prescrições. quando não se está com fome. Em se tratando de aprender a viver em sociedade.Corporeidade e Educação 163 educação. enquanto outros passam fome. às exortações ou às leis. a frustração e o desprazer dos indivíduos são necessários para preservar a sociedade. Considerando o corpo como modo de vida. É provável. é indispensável pensá-lo no contexto de uma cidade. É por essa razão que dizemos que o conceito de saúde está associado ao de bem-estar. Ela tem por tarefa. comete um crime ao roubar alimentos. boas conversas e carinhos. a lei precisa ser formadora da responsabilidade social. Nossos corpos saboreiam comidas. mais civilizado. Talvez seja fácil recorrer aos valores. a escola é um lugar privilegiado para se ensinar o valor da lei fundado na justiça. mas precisa ser justa. Quando perguntamos a uma criança de dez anos sobre o que ela pensa. podemos dizer que as nossas organizações sociais são injustas. que deve fazer parte do universo escolar como instância para que aceitemos que não podemos fazer tudo o que desejamos sem consequências. pois não suportaria ver seu filho faminto. não podemos instituir uma organização social fundados na satisfação das necessidades do corpo sem uma orientação que promova interdições sociais. que a referida criança diga que aquele pai está errado. Todavia. como processo civilizador. passeios. transformando-a em luta por um mundo melhor. quando um homem passa a roubar para dar comida ao seu filho que está com fome. bebidas. em situação de privação material ou de fome. Todavia. Qualquer pessoa. Às vezes. que são construções históricas. os instintos humanos devem ser subjugados à ordem da lei. a insatisfação. como indispensáveis para o convívio social. Para que haja civilização. é inevitável e irreversível.

Respeitar às leis como ordem estabelecida é indispensável para gerar. Entendendo a educação como formação. Esses valores precisam ser objetos de desejos. não podemos esquecer que as leis são criações sociais. não podemos pensar em cidadania. respeitando as leis. Evidentemente. . O que não podemos é pensar uma organização social desprovida de leis. para formar cada indivíduo no sentido de buscar sua dignidade humana. indispensáveis para preservar aquilo que temos de mais precioso nas relações humanas: considerar o outro como semelhante e. que compreende as dimensões físicas. Mas não existe lei sem um sujeito que possa criála. precisamos desejar e produzir regras de vida que promovam a dignidade humana. É preciso doar um sentido aos valores de convivência como princípios-guia para as nossas inter-relações sociais. esses valores não devem ser ensinados como algo abstrato e distante do cotidiano dos estudantes. modificadas. Toda lei pode ser questionada. que exerce sua liberdade. também. fundamentalmente. hospitalidade. A educação cidadã deve ser conduzida no sentido de fazer com que todos possam respeitar a lei. Gostaríamos de reforçar que o conceito de semelhante não significa idêntico. justiça. ao mesmo tempo. mas. no sentido amplo do termo. Saber conviver exige a aquisição de valores universais. Aprender a acolher o outro como outro é imprescindível para. caso contrário. nas crianças. tolerância. mas um espaço de formação de caráter. que é. 178). p. efetivamente. diálogo. de personalidade. até mesmo. diferente. elas podem ser instituídas e. teríamos que considerar o outro destituído de sua condição de alteridade ou singularidade. sabermos conviver. solidariedade. como respeito mútuo. “Antes de ser repressora. violá-la. Todavia. Não apelamos para os corpos que se submetam às leis cegamente. 2007. A escola não é apenas um lugar para nos ensinar a condição social de sermos submissos às leis. Educar o cidadão é exigir que o educando passe a obedecer às obrigações formalizadas pelas leis. ela deve ser concebida não apenas para constituir o homem-cidadão/mulher-cidadã. o hábito de obedecer. o homem só pode ser feliz na cidade. uma edificação coletiva. Sem a formação de valores.Corporeidade e Educação 164 Como disse Aristóteles. cumpri-la. intelectuais e morais de todo ser humano. fiscalizá-la e. a lei precisa ser formadora da responsabilidade social” (CAMINHA. Muito mais que aprender valores. É na vida em comum que ele constrói sua felicidade. Logo. em seguida.

reconhecemos que. como diz Le Breton (2007). precisamente. Diferente da máquina. Tais alterações parecem indicar que nosso corpo está obsoleto. que convive com os seus semelhantes numa organização social. que interage com o meio ambiente. cada vez mais.2 CORPOREIDADE E DIGNIDADE HUMANA O corpo humano. portanto. Nosso corpo não está apenas localizado no espaço como uma coisa que podemos identificar. mas subjetividade ou consciência encarnada. Nosso corpo se movimenta. que nos possibilita situarmos dinamicamente no espaço. nesse sentido. dietas e regras estéticas. prescrições alimentares e estéticas.Corporeidade e Educação 165 3. vigiado e controlado com o objetivo de se tornar mais saudável e belo. O corpo é. Nesse sentido. estruturado por ossos. A intencionalidade. ele é. O corpo. Somos artesãos de nós mesmos a partir de uma condição já dada. e vida cultural. Todavia. mas somos o nosso próprio corpo. É modelado por meio de exercícios. É bem verdade que essa construção está amparada em um organismo biologicamente constituído. Propomos que o corpo humano seja compreendido como um fenômeno biocultural porque. . precária e vulnerável. submetido a treinamentos. é um objeto manipulado para se alcançar uma forma desejada. o tempo todo. músculos e órgãos. qual a posição que ocupa. fazemos usos de biotecnologias para alterar o corpo. ao mesmo tempo. Nesse sentido. Ele não é simplesmente matéria extensa sujeita a um conjunto de relações exteriores e mecânicas. Sua visão mecanicista nos impede de considerá-lo como sujeito. que realiza movimentos intencionais. vivida pelos movimentos de nosso corpo. A liberdade é radicalmente situada numa sociedade e numa cultura. mas pode ser compreendido como subjetividade que cria formas de ser. buscando situar-se intencionalmente no espaço. nosso corpo é livre e constrói formas de vida. tendo em vista que também somos vidas determinadas biologicamente. exige que repensemos a perspectiva reducionista de considerá-lo apenas como um organismo vivo e complexo. O corpo. concebido como nosso ponto de vista sobre o mundo. que conduzimos daqui para ali. vida orgânica. Não há liberdade absoluta. não temos um corpo. é a nossa abertura dinâmica ao ser do mundo. os movimentos do corpo não podem ser reduzidos a um processo mecânico de estímulos e respostas. projeta-se no mundo para percebê-lo.

mas não ficou convencido de que houvesse provas suficientes de possíveis vantagens a favor do atleta. Ele não se contentou em participar dos Jogos Paraolímpicos. cabe-nos perguntar: em que medida o corpo. decidiu correr com suas próteses de fibra de carbono nos Jogos Olímpicos de Pequim. por meio dos recursos das tecnociências. A Federação Internacional de Atletismo (IAAF) não autorizou a participação de Pistorius. argumentando que ele consegue vantagens sobre os outros atletas. auxiliado pelo uso das tecnociências. Em que medida. graças às próteses mais flexíveis e potentes que a perna humana. Contrário à posição da Federação Internacional de Atletismo. alegando que havia outros mais velozes na equipe olímpica. que teve as pernas amputadas. submetido a uma série de transformações. Seu desejo de se tornar o primeiro corredor amputado a competir nos Jogos Olímpicos deve ser submetido a uma série de reflexões éticas sobre os limites do uso das tecnociências no esporte. Todavia. Nesse contexto. estaria ameaçando a dignidade humana? O que vem a ser dignidade humana? Quando Oscar Pistorius.Corporeidade e Educação 166 As descobertas científicas e as invenções tecnológicas estão transformando nossos corpos. a Federação Sul-africana de atletismo não convocou o atleta. Uma tensão institucional se instaura entre o valor da superação humana pelo direito de competir e o valor do jogo honesto. e interditou sua participação não apenas em Pequim 2008. Tal decisão permitiu que Pistorius tentasse garantir o tempo mínimo de qualificação exigido para participar da prova dos 400 metros nos Jogos de Pequim. mas deseja ser incluído nos Jogos Olímpicos como um atleta olímpico. constatamos um exemplo de superação humana. Ressaltamos que Pistorius assegurou que lutará para participar dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. as pernas protéticas de Pistorius são usadas para superar sua deficiência ou para proporcionar uma vantagem desleal em relação aos outros competidores? . o Tribunal Arbitral de Desportos (TAS) pronunciou-se a favor de Pistorius. Suas tentativas não foram suficientes para obter o índice olímpico. As decisões tomadas sobre essa tensão podem exaltar a dignidade humana ou comprometê-la. então. Ele poderia ter participado dos Jogos na equipe de revezamento 4x400 metros. atleta sul-africano. parece que as tecnociências permitiram um atleta sem pernas ter vantagens injustas sobre os atletas considerados normais. mas em qualquer competição que ela organizasse. Nesse sentido.

sim. visando maiores performances. Podemos citar o exemplo de atletas que jogam basquetebol em cadeira de rodas e que podem ter acesso a equipamentos mais sofisticados que vão interferir no rendimento. a ignorância e o obscurantismo. exigir que o conhecimento seja . 2004. é marcada pela responsabilidade a priori. caracterizando o dopping tecnológico. p. 59). existe a questão de acessibilidade aos avanços tecnológicos. Devemos temer. que respondem pelo que somos. sim. que exige um compromisso ético fundado na dignidade humana. Encarregar-se da preparação de atletas ou ocupar-se da missão de ser um atleta pressupõe responsabilidades. estamos falando de uma “responsabilidade a priori”. é porque estamos situando o problema no contexto ético. Antes de qualquer coisa. Devemos. É no contexto de uma prática esportiva. O acesso à tecnologia de ponta passa a ser determinante nos resultados esportivos. Tal responsabilidade significa: “sou responsável porque assumo o encargo de alguma coisa” (ATLAN. Não precisamos apenas de limites éticos que nos orientem para construir um discernimento sobre dilemas morais oriundos do uso das tecnociências no esporte. Não temos apenas responsabilidades ulteriores ou contingentes. marcada pelo uso das tecnociências. O corpo do atleta é um sujeito que expressa uma forma de existir. que apelamos para uma ética fundada no compromisso da responsabilidade pela vida. O que nos faz dignos de sermos humanos é a nossa condição de responsáveis. O problema é saber em que medida o suporte tecnológico melhora a performance dos atletas. que desejam fazer um passeio no parque. precisamos ter plena consciência de que poderemos ser chamados a responder por aquilo que fazemos ou deixarmos de fazer. Quando falamos de absurdo. Tal forma. fundadas na culpa de ter cometido um delito. As competições esportivas podem ser tão exacerbadas que atletas podem chegar ao ponto de substituir seus membros naturais saudáveis por membros artificiais. Além desse problema. Seria um absurdo detectarmos automutilações nos corpos dos atletas para se obterem membros mais performáticos. Inspirados em Henri Atlan. não podem ser pensados da mesma forma de corpos cyborgs que desejam participar de competições esportivas. Devemos sempre responder pelas nossas ações.Corporeidade e Educação 167 Corpos cyborgs de pessoas com deficiência. Não devemos temer os novos conhecimentos. Ela é o fundamento de nossa condição humana. construída socialmente.

por meio das tecnociências.Corporeidade e Educação 168 obtido de forma adequadamente ética e que tal conhecimento seja empregado em benefício do ser humano (HOSSNE. Mas o que cabe ao educador? Será que sua função se restringe a . como seres humanos. É por essa razão que Rousseau (1992) fala de um duplo nascimento quando vai tratar da educação. tratar-se o corpo do atleta como coisa ou máquina desprovida de subjetividade. Atualmente. Nesse sentido. Poderíamos identificar esse duplo nascimento como sendo. Levando em consideração o esporte. mas é preciso transcender esse saber. o ser humano é concebido como detentor de uma espécie de liberdade natural indiferente ao bem e ao mal. sobretudo. A segunda diz respeito ao corpo aberto a uma história ou a uma existência em primeira pessoa. que não posso escolher. considerando o esporte como uma prática ética. a natureza está definitivamente humanizada. usando as ferramentas das tecnociências. que se relaciona com outros corpos. Mas. ele passa a conviver com os seus semelhantes. que nos define como artesãos de nós mesmos e. Tal ofensa se dá. de um lado. Temos uma existência pessoal. pertencer a uma sociedade como indivíduo regulado por leis. também. é o de aprender a fazer a nós mesmos. quando. no segundo. pois o agir do ser humano depende dos valores morais adotados por uma determinada sociedade. a partir daquilo que já somos. tendo em vista que somos. A ofensa à dignidade humana não está apenas na possibilidade de. p. Ao contrário. em especial ao corpo do atleta. Quando nos referimos ao corpo humano. não assumimos a atitude de nos responsabilizarmos eticamente pela produção de corpos atléticos. já somos situados no mundo.189). Não faz sentido educar se não for para aperfeiçoar a nossa condição de existência humana. como ser existente e. No primeiro caso. que humanidade desejamos? 3. vir ao mundo naturalmente. não podemos considerá-lo como desprovido de cultura. A primeira se refere ao corpo.3 CORPOREIDADE E HUMANIDADE Nosso grande desafio. Toda liberdade é radicalmente situada. uma existência pessoal e anônima. como refém de um mundo já dado. de outro. A vida humana não é regida apenas por normas e leis positivas. simultaneamente. 2004. não se é atleta de alto rendimento sem o auxílio das tecnociências. somos favoráveis ao uso do saber técnico para treinar atletas.

igualdade. É por esse motivo que tanto Rousseau quanto Kant consideram que a educação do ser humano não deve ser voltada apenas para a formação do cidadão que obedece às leis da constituição de um Estado. a universalidade do ser humano? Será que essa Declaração não é apenas fruto de ideais iluministas que representam valores eurocêntricos? Apelar para o caráter multiétnico da cultura não significa abandonar o debate em torno da questão do humano. esta. sem levar em consideração o sujeito consciente de suas ações morais. que compõe a vida humana na Terra. fraternidade. felicidade. para compreender os atributos próprios do ser humano. como tempo e espaço vivido. não nos impede de pensar peculiaridades comuns aos seres humanos. Não podemos tratar e defender temas humanistas como liberdade. o educador estaria apenas zelando pela preservação da sociedade. como formação do cidadão.Corporeidade e Educação 169 disciplinar e reprimir seus educandos para se integrarem à sociedade? Agindo assim. O dever que expressa o caráter de obrigatoriedade de nossas ações morais não pode eliminar a autonomia do sujeito moral que reconhece a universalidade de uma norma ou de uma lei. precisamos estar atentos à dimensão biocultural de sua existência. Não queremos dizer que estamos simplesmente dando menor importância à educação. Pensamos que. respeito e tolerância sem considerar que somos seres corporais situados na história. A valorização das múltiplas manifestações culturais não implica a perda da noção de uma identidade humana entre diferentes culturas. O mosaico de culturas. O humano não . que é concebida em função de questões peculiares. das ocupações e do terrorismo. Quando educamos alguém para ser um cidadão que respeita as leis de sua nação. com base em diferentes comunidades culturais. esperamos que ele seja merecedor da designação “ser humano”. nosso tempo. Não associamos o respeito à alteridade cultural com a morte do homem. Mas o problema é que cada nação tem sua Constituição. solidariedade. é permitido que falemos de ser humano num sentido universal? E a Declaração Universal dos Direitos Humanos expressa. Não podemos pensar o humano como se fôssemos intelectuais que ignoram a violência da guerra. e priorizando-a como formação do humano. marcado pela diversidade de culturas. Sabemos que uma e outra podem ser consideradas interligadas. Mas será que podemos ainda pensar numa educação do humano? Será que. mas para a formação do homem que dignifica sua condição de humano pelas suas ações morais. realmente.

A possibilidade de reconhecermos a dignidade humana. que têm direitos iguais e inalienáveis. mas podemos evitar cair nela cegamente. no entanto. O pleno gozo dos direitos depende das garantias de condições materiais que exigem uma ordem social regida por uma justiça distributiva. conseguem ampará-los com direitos sociais. . está ameaçado pela violência que. como ser humano. A educação deve ter o papel de formar cidadãos livres para discutirem sobre as alternativas de normatividade institucionalizadas socialmente. Educar para aperfeiçoar incessantemente o ser humano.Corporeidade e Educação 170 apenas está em crise conceitual. Não defendemos o pacifismo radical. que nos impõem tomadas de decisões que devem ser assumidas. Todavia. sem compromisso com a dignidade humana. a educação ganha uma perspectiva política de luta pela diminuição das desigualdades sociais. é uma construção histórica. mas que também é usada para instituí-lo. No conjunto das experiências pedagógicas oferecidas aos estudantes no cenário da escola. mas. pode destruí-lo. Nada mais perigoso para a vida humana que a banalização da violência. sobretudo. justa e solidária sem. A Declaração Universal dos Direitos Humanos pode ser um documento que nos ajude a reconhecer todos os humanos como membros de uma mesma família. pode ser a referência educativa que anima a proposição de uma pedagogia do corpo. Reconhecemos que existem muitos desafios para termos uma humanidade em que todos os seres humanos possam gozar de liberdade de expressão e de crença. eis o lema de todo educador comprometido com a vocação de realizar o projeto de construção de uma sociedade democrática. aceitar o uso de qualquer ação que seja moralmente condenável. Os seres humanos. Nosso desafio é educar para aperfeiçoar o ser humano. protegidos pelos Estados de Direitos que visam livrá-los da tirania e da opressão. Nesse sentido. não podemos eliminar a possibilidade da violência. muitas vezes. nem sempre. Somos condenados a viver cercados por dilemas morais. A identidade do estudante. Nossos corpos precisam de liberdade para expressar nossas opiniões e convicções. curiosamente. o grande desafio é fazer com que todos possam viver a salvo das necessidades fundamentais. mas somos radicalmente contra a violência gratuita. Tanto os princípios morais quanto as leis de uma comunidade política só têm sentido quando são reconhecidos ou internalizados por aqueles que agem dentro de contextos sociais estruturados. na responsabilidade com a vida do semelhante. No cenário da luta política.

a intercorporeidade é a comunicação de um corpo que percebe outro corpo. Ela é a ciência dos costumes que regulam o agir do homem segundo valores concernentes ao permitido e ao proibido. ele é um ser essencialmente ético. que me situa no campo sexual. Logo. dizemos que estamos no âmbito restrito dos costumes ou da moral.Corporeidade e Educação 171 consideramos que é necessário contemplar vivências que dignifiquem o corpo humano como forma de vida singular que interage com outros corpos. É somente no cenário de uma reflexão sobre o comportamento moral do homem. mas reflete sobre seus atos. Não podemos conceber uma pedagogia do corpo sem considerar que toda corporeidade é. Em ambos. O outro é expressividade que me situa num campo perceptivo ampliado. No entanto. está de acordo com determinados valores estabelecidos socialmente. 4 CORPOREIDADE E VALORIZAÇÃO DA VIDA 4. as reflexões sobre as regras de conduta consideradas válidas por determinados grupos sociais não alcançam necessariamente uma apreciação que ganhe um sentido universal. regulado pelo princípio do prazer/desprazer. A ética não é apenas a indicação de uma série de comportamentos considerados moralmente corretos e que devem ser seguidos por certas pessoas. Quando essa reflexão diz respeito a um indivíduo ou um grupo que examina se suas ações. que se orienta por certos valores guiados por princípios éticos. reconhecendo-o como percipiente estrangeiro. Segundo Merleau-Ponty (1994). que situamos o problema da ética. A ética implica uma reflexão sobre o . Nesse sentido. porque não apenas age. Talvez estejamos abrindo caminhos para refletir sobre a necessidade de contemplar o tema da ética. Nossa situação antropológica original é ser-com. o corpo é o lugar de abertura para o outro. podemos falar de uma espécie de circuito intercorpóreo. é uma instância de sedução.1 ÉTICA E CORPOREIDADE Todo homem é um ser que age e submete seu agir a um julgamento moral. numa perspectiva universal. quando pensamos numa pedagogia do corpo. familiar porque compartilha com ele de um mesmo mundo sensível. ao mesmo tempo. que é a relação de mediação entre um corpo que necessita de outro corpo para poder constituir-se como humano. possibilitando percepções compartilhadas. intercorpórea. mas. antes de tudo.

p. em muitas ocasiões. É por esse motivo que Kant afirma que. Se não for associada ao aperfeiçoamento moral da humanidade. Vivendo num cenário antiuniversalista. “não há possibilidade de fundamentar o julgamento moral à luz da razão” (ROUANET. que a ética. De modo evidente. no cenário da modernidade. 12). não basta formular juízos morais como algo inevitável à vida humana. A ética está sempre se deparando com uma série de práticas morais. Definir a ética como teoria da conduta humana diante de seus semelhantes. Portanto. A utopia iluminista de uma ética fundada na razão é posta em crise e .Corporeidade e Educação 172 significado dos valores morais. No entanto. Os homens estão sempre recorrendo a uma diversidade de práticas morais e. ela não passa de um culto fundado em relações supersticiosas com uma determinada divindade objeto de culto. dominada pelo particularismo e pelo historicismo. 154). É. ainda que consideremos o comportamento moral dos homens. opostas. A ética só é possível quando refletimos sobre a validade universal das normas morais. permanece ineficaz” (2002. A questão que se evidencia é saber quais são os princípios éticos que devem servir para orientar as ações do homem no sentido universal do termo. como sendo sujeito a variações de uma época para outra e de uma sociedade para outra. como doutrina da conduta humana. na medida em que os problemas éticos estão diretamente ligados à vida cotidiana das pessoas. Portanto. frutos da multiplicidade de experiências humanas. não pode ser tratada como um fenômeno isolado de um contexto histórico e geográfico. 100). significa considerá-la em seu sentido amplo. 1992. quando se fala em ética. pode ser vista como uma época contrária a toda tentativa de se conceber uma moralidade universal. precisamente. que determinam se certo tipo de agir é bom ou mau. numa perspectiva universalista e livre de pressupostos religiosos. É nessa perspectiva que Vázquez define a ética como “a teoria ou a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade” (1977. “se a religião não vem acompanhada pela consciência moral. a validade universal das normas morais. estaremos sempre fazendo referência ao ser humano como ser social. É bem verdade que podemos evocar aqui nossa realidade atual que. p. p. não podemos admitir princípios morais intemporais e universais na medida em que os valores morais são validados pelas culturas. atinge o seu ápice como ciência fundada no homem universalmente considerado. e não pela razão.

para isso. o que significa bem-estar? Para mim. diz ela. o mais importante é que eu me sinta bem. ainda estamos pensando a ética num sentido amplo. Vamos supor também que. mas podemos também. independente do caminho iluminista ou anti-iluminista aqui considerado. cumprir com as promessas. solidário e tolerante. os anabolizantes só podem ser vendidos sob receita médica em duas vias e. ser justo. com finalidades terapêuticas.Corporeidade e Educação 173 rejeitada. uma lei positiva escrita num código. por exemplo.965/2000. Por exemplo: dizer a verdade. Imaginemos que uma pessoa dessa sociedade faça a seguinte pergunta: mas. O uso de qualquer substância que possa comprometer esse bem-estar do corpo deve ser determinadamente proibido. nessa sociedade. se alguém descumprir essa norma. mesmo que. Somente o médico seria habilitado para identificar esses casos e medicá-los. o mais rápido possível. nosso desafio é examiná-lo numa perspectiva ética. Nesse caso. Vamos supor que nossa sociedade não admite o uso de anabolizantes porque considera que eles trazem prejuízos à saúde. Um valor moral não significa. Mas não queremos apenas tratar a questão do uso de anabolizantes como um problema médico-farmacológico e legal. proibido. quero ser simplesmente musculoso. Agir eticamente significa viver em conformidade com valores sociais considerados bons. por exemplo. podemos pensar a ética com a intenção de examinar o problema dos fundamentos que determinam a conduta humana de maneira geral. Em nossa sociedade. Assim. tenha de usar anabolizantes. conduzir nossos questionamentos éticos no sentido de tratar dos sistemas de normas que regulamentam os cuidados com o corpo. conforme a Lei 9. sarado. Vamos supor que vivemos numa sociedade que considera o uso de anabolizantes. É bem verdade que eu não tenho deficiência hormonal de testosterona nem retardo pubertário. Nosso corpo deve ser preservado em permanente bemestar. Todavia. exclusivamente. A questão do uso ou não de anabolizantes só se torna um problema ético se perguntarmos qual é o valor moral que fundamenta tal questão. O que me interessa é ter. Ele é um modo de agir fundamentado num princípio ético. um corpo musculoso. Ele é até tolerado se for usado em casos especiais e sob recomendação médica. é considerado um fora da lei. nem . necessariamente. a proibição do uso de anabolizantes seja devidamente regulamentada sob a forma de uma lei. Não tenho medo de morrer. Eu não me importo nem mesmo se minha vida será abreviada em função disso.

mas o que sai dela. e pessoas desejam consumi-los. Uma coisa é certa: um homem só pode ser ético se for livre. Posso até me matar e ninguém pode me impedir. Isso não passa de um modismo. pensando no bem-estar de seu cliente. Penso que tenho liberdade para decidir se devo ou não usar anabolizantes. dizendo que existe uma indústria que produz tal produto e que a pessoa que está solicitando os seus serviços é maior de idade. O meu desejo é aumentar o tamanho da minha força muscular e pronto. essa sociedade não precisa ser . eu não me adéquo aos padrões morais de uma sociedade castradora. ele vai aplicar uma dosagem certa. o seu corpo lhes pertence. Tem pessoas a favor e contra. Sou eu quem deve decidir sobre isso. Definitivamente. Imaginemos também que outro membro dessa sociedade se disponha a prescrever e a administrar doses de anabolizante à pessoa que descrevemos acima. Quantos só consomem produtos dietéticos e são mentirosos. O sentir-se bem é relativo. poderíamos dizer que as duas pessoas que imaginamos fazem uso de sua liberdade para dizer como é que elas querem viver as suas vidas. o meu corpo me pertence. tampouco de ter uma doença grave. O mal do homem não é o que entra pela boca ou pela seringa. Nesse caso. o indivíduo pode até criticar os valores da sociedade e propor mudá-los pelo caminho legítimo do diálogo. Eu sou apto a discernir entre o bem e o mal. E agora. Ele argumenta. Quando Deus disse a Adão e a Eva que eles poderiam comer de todos os frutos do paraíso. ele não vê qualquer mal em fazer isso. quem está certo? O indivíduo ou a sociedade? No campo da ética. E não venham com esse papo de ética. acima de tudo. salafrários e patifes? Essas são verdadeiras doenças.Corporeidade e Educação 174 de ficar estéril. Ele desejava que ambos obedecessem a seu mandamento. mas é a sociedade que deve predominar sobre o indivíduo. porquanto eles eram livres para decidir sobre como deveriam agir. Quem está com a razão? O uso e não uso de anabolizantes é uma questão relativa. fazendo uso apenas da minha consciência. Afinal de contas. Cada indivíduo deve ser livre para decidir sobre isso. é porque isso ainda não foi um problema resolvido pela sociedade. não poderia deixar de considerar que tal desejo poderia ser frustrado. Não é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária que vai me impedir de comprar e aplicar anabolizantes. se existem anabolizantes. Já tenho mais de dezoito anos e. Todavia. Nesse sentido. Sou eu quem decide sobre o meu corpo. Além disso. com exceção da árvore do conhecimento do bem e do mal. Assim. Evidentemente.

devem ser considerados universalmente válidos para toda a humanidade? . estamos admitindo. Se nossa sociedade defende o não uso de anabolizantes. traçados por certos filósofos. devemos aceitá-lo. Onde poderíamos então situar a ética num sentido universal em tempos pós-modernos? Os princípios morais. estaríamos privilegiando a satisfação dos desejos em prejuízo da realização de ações morais guiadas por princípios éticos. Toda sociedade necessita de um conjunto de normas e valores morais que orientem o agir dos indivíduos. o ser humano não deve governar o seu agir. Evidentemente. tradicional ou alienada. exclusivamente. Todavia. Para ser éticos. religiosos. mas. nem necessita impor valores sem argumentação. 4. É bem verdade que um valor moral é construído historicamente. Aliás. compreendemos a ética como uma reflexão sobre a validade universal das normas morais. para orientar o agir humano em relação aos seus semelhantes. O interesse aqui é o bem comum. Nesse sentido. o ser humano só é livre porque pode não fazer aquilo que quer fazer. amanhã. de forma inconteste. pelos seus desejos. E. temos de respeitar o lugar em que vivemos. sem discussão. Ela precisa de princípios éticos que possibilitem uma convivência entre grupos. No seio da sociedade. pode não ser mais. Pensar assim não significa curvar-se diante do poder ou aderir a tudo o que a sociedade define como correto sem crítica ou questionamentos. Isso significa que ele é hoje. que é preservar a saúde. que os anabolizantes fazem mal à saúde. tanto o usuário quanto aquele que recomenda e aplica anabolizantes estão sendo antiéticos porque estão ferindo um princípio fundamental de nossa sociedade. mesmo que seja possível criticá-lo. é porque profissionais de saúde. Dessa maneira.Corporeidade e Educação 175 autoritária. juristas e deputados querem primar pela saúde dos cidadãos. os princípios éticos universais definem como todos os seres humanos devem agir em relação aos seus semelhantes. se hoje ele é válido. esses princípios estão sempre em conflito com uma multiplicidade de práticas morais fruto da diversidade de culturas humanas. Nesse sentido. Tal postura não precisa ser conservadora.2 PÓS-MODERNIDADE E CORPOREIDADE Antes de tudo.

Portanto.Corporeidade e Educação 176 Contrariando a perspectiva judaico-cristã. segundo uma racionalidade. Eles confiam na sua razão. Contrapondo-se à perspectiva ética da modernidade. que fundamenta normas de condutas morais na crença em Deus. como pensavam os adeptos do Iluminismo. A modernidade instaura a perspectiva de considerar a vida humana pelo viés da autodeterminação. não podemos pensar que os sujeitos morais são apenas consciências desprovidas de corpo. considerando que o processo educativo deve contemplar uma pedagogia da corporeidade. ou seja. ele é o centro de sua conduta. pode ser visto como uma época contrária a toda tentativa de se conceber a ética como valor universal. A utopia iluminista de uma ética fundada na razão é posta em crise e rejeitada pela pósmodernidade. A racionalidade moderna se contrapõe ao dogmatismo judaico-cristão. decidir e agir a partir de sua própria razão. nosso mundo contemporâneo. Como sujeito moral. é impossível fundamentar o julgamento moral à luz da razão. que anuncia a impossibilidade de se substituir a diversidade pela . na sua capacidade de discernir por si mesmo o que significa agir de maneira justa e correta. não porque sofrerá castigos de Deus. independente de toda e qualquer autoridade que não seja a própria razão. ponderar. A contingência histórica. A modernidade expressa uma vontade de organizar o real. e não pela soberania da razão. A ética torna-se secular e perde seu fundamento eminentemente religioso. O homem ou a mulher se sente responsável pelos seus atos e tem consciência do seu dever moral. dominado pelo historicismo e pelo particularismo. marcada pela diversidade cultural de modos de ser humano. O homem prescreve para si mesmo normas que deverão ser seguidas segundo sua razão. Pensar princípios éticos fundados em princípios leigos ou seculares não deve ser um mero exercício formal. Desse modo. a modernidade considera a ética como uma ciência fundada no homem universalmente considerado. dificulta a fundamentação universal de uma ética. É com base nesse princípio que os educadores propõem uma educação para a autonomia. Eles buscam agir corretamente. cujo princípio moral torna-se o fundamento do comportamento ético adulto. não se podem admitir princípios morais intemporais e universais posto que os valores morais são validados pelas diferentes culturas. Adotando uma perspectiva antiuniversalista. de deuses ou de qualquer outra entidade sobrenatural. O homem se coloca na condição de observar. julgar.

Toda pretensa verdade absoluta é radicalmente criticada e contestada. assim. É no cenário de um mundo marcado pelo fim da centralidade da razão que Lyotard (1989) aponta para o fim das metanarrativas. Então. radicalmente. por entender que ainda não concretizamos os ideais da modernidade em sua plenitude.Corporeidade e Educação 177 uniformidade. marcados pela exacerbação do individualismo. do consumismo e do culto aos excessos. põe em risco os valores de uma . marcada pelo fim de princípios sólidos que sirvam de referência para o agir humano. a perspectiva pós-moderna já existe como contestação de toda forma de discurso universal ancorado num fundamento único. vivemos em tempos de uma modernidade líquida. A ontologia pósmoderna considera. Fazer do corpo a cópia fiel de um modelo de beleza. Um mundo efetivamente pluralista não se deixa interpretar por um pensamento que deseja unificá-lo em nome de uma verdade definitiva. a existência de um tempo pósmoderno. segundo estruturas rígidas e imutáveis. As marcas dessa perspectiva podem ser visualizadas nos corpos. que substitua cronologicamente a modernidade. Não há lugar para totalitarismos no mundo pós-moderno. Eis o seu desígnio: libertar o homem dos últimos vestígios de opressivos deveres infinitos. Técnicas de modificação corporal são usadas para se ter um corpo perfeito. Como diz Bauman (1997). As formas originais do corpo são constantemente modificadas para se alcançar uma espécie de aperfeiçoamento estético. Todavia. a ética universal não passa de uma ilusão. Buscar uma imagem corporal que seja agradável aos olhos tornou-se uma obsessão. O hedonismo corporal exacerbado domina nossos tempos. Vivemos em tempos marcados por corpos que buscam a satisfação imediata. Para a pós-modernidade. A experiência da pluralidade das culturas e da historicidade contingente inviabiliza toda forma de fundamento definitivo. só é possível pensar uma ética fundada em princípios flexíveis e mutáveis. torna-se inviável concebê-lo. o ser como evento histórico e. As grandes narrativas de valor universal são questionadas como sustentáculos das ações morais. Ou ainda podemos falar que vivemos em tempos hipermodernos. mandamentos e obrigações absolutas. conforme pensam Lypovetsky e Charles (2004). mesmo sem uma suposta efetivação histórica de um tempo pós-moderno. Corpos de proporções perfeitas são compulsivamente procurados. Talvez não possamos afirmar. podemos sugerir que. que será objeto de apreciação e satisfação estética. adotado socialmente. com precisão.

no cenário da pós-modernidade. saúde e beleza. estamos vivendo os perigos da banalização da vida. Nesse sentido. o corpo pode até ficar nu. Precisamos refletir sobre o sentido da vida em tempos em que ser magro e musculoso pode ser uma busca sem o devido respeito à vida. desde que seja magro. Como diz Foucault (1999). Modificar-se constantemente e rapidamente parece ocupar um lugar central na vida das pessoas.3 CORPO. A confiança na técnica é o caminho para o bem-estar. pondo em risco a própria vida. Mesmo que os padrões de beleza sejam diversificados. O corpo adquire tão somente a função de busca pelo prazer imediato. Há uma ditadura da beleza que exige os padrões do magro e do musculoso. Parece que estamos encantados pelas possibilidades técnicas de modelarmos nossos corpos. alcançados pelo sacrifício do corpo. todos desejam um aperfeiçoamento estético do corpo. Tal situação social nos exige uma investigação sobre o fenômeno da compulsão pela modelação do corpo. SAÚDE E BELEZA: os perigos da banalização da vida Mesmo que aceitemos que a prática regular da atividade física seja recomendada por razões de saúde. parece que tudo é permitido. É verdade que.Corporeidade e Educação 178 vida saudável. parece indispensável pensarmos uma pedagogia do corpo. considerando uma reflexão sobre corpo. Estamos vivendo em tempos de estetização da saúde. o fato é que muitas pessoas recorrem às academias com fins meramente estéticos. O hedonismo consumista impera para o homem realizar os sonhos de mercado de um corpo que busca ser belo a qualquer preço. Ser belo e estar bem consigo mesmo são estados que parecem estar intimamente associados. bonito e bronzeado. não temos um padrão único de beleza. Muitas pessoas procuram fazer atividades físicas regulares que visam a uma melhor qualidade de vida. Assim. todos os corpos buscam o gozo de um corpo belo. Todavia. A maioria das pessoas não realiza mais uma dieta visando à saúde. Somente corpos modificados podem ser belos. Desprovido de parâmetro sólido de beleza. A busca de um corpo ideal faz da existência corpórea um mero artefato de aparências estéticas. mas ao corpo belo. Isso é extremamente comum nos grandes centros . 4.

A lógica da cultura do consumo colocou ao alcance das pessoas inúmeras práticas que se ocupam de cuidar da aparência. que nos define como inventores de formas de vida. empregada num sentido radical. “Portanto. 2007. Todavia. segundo as leis da biomecânica. Estamos diante de uma mudança de paradigma em relação às motivações para a prática regular de atividade física. o corpo humano não pode ser reduzido a um objeto de investigação experimental. Somos dotados de uma herança biológica. Além de ser um conjunto de matérias sujeitas a uma série de relações exteriores e mecânicas. p. também. mas. A formação universitária. exige a articulação entre diferentes pontos de vista. O bem-estar não está apenas em se ter um bom condicionamento físico.Corporeidade e Educação 179 urbanos. de fazer desse culto uma escravidão” (QUEIROZ. A preocupação com a aparência pode ser manifestada pelo uso de cosméticos e pela disciplina alimentar. “O corpo é um dado material. que nos define como organismo vivo. Concordamos que precisamos compreender os movimentos do corpo humano. numa perspectiva socioculturais. mas também em se atingir a perfeição corporal. Por essa razão. à luz de uma descrição biomecânica. O corpo belo se constitui num valor estético da cultura dos excessos e numa mercadoria da cultura do consumo. o corpo humano pode ser compreendido como um veículo de expressão sociocultural. atualmente. não se trata apenas de cultivar o corpo. essa preocupação está muito associada à prática de atividade física. definindo suas leis causais. cultural. 133). que expressa formas de vidas por meio de manifestações culturais. mas também temos uma herança cultural. buscando seus significados . mas também podem ser compreendidos como um sistema de comunicação. Nesse sentido. Todavia. indesmentível da nossa matriz físico-material. No entanto. o corpo humano tem uma dimensão biológica e outra. Mas características somáticas estão culturalmente determinadas” (GARCIA. conforme os registros de protocolos produzidos nos laboratórios. e sim. tal formação deve também considerar os estudos sobre as ações dos músculos através da observação dos movimentos ou dos ossos como alavancas. devemos estudar o corpo numa perspectiva epistemológica experimental. Os movimentos do corpo humano podem ser vistos como comportamentos motores. Reconhecemos a necessidade de estudar o corpo como um sistema mecânico de alterações metabólicas que visam à autorregulação e à reprodução. 2009). epistemológica interpretativa.

não podemos. não podemos deixar de admitir que a angústia é vivida somaticamente como um “afeto”. nossas emoções estão dominadas por “manifestações viscerais. Entendemos a estetização da saúde como uma perspectiva de bem-estar que associa o corpo saudável àquele que é reconhecido na sociedade como belo. uso de vestuários e adornos. Não temos um corpo. precisamos refletir sobre os perigos de se conceber a beleza da imagem corporal como um sinal de saúde. Não podemos negar que. Como educadores e educadoras. Tal perspectiva exige uma compreensão do corpo que não o reduza a uma mera explicação biológica. que consiste em perder de vista a vida como valor primeiro. veicula-se a recomendação de que as pessoas devem buscar um estilo de vida saudável por meio de cuidados com o corpo. que considera a realidade somática como exclusivamente orgânica. merece todo o nosso respeito. que são identificados como saudáveis. em estado de angústia. ou seja. Então. pensamos que essa associação está sendo elaborada com base em certa identificação entre saúde e beleza. portanto. cuidados com a pele. endócrinas e metabólicas” (DEJOURS. 1988. Pensamos que a identificação entre saúde e beleza pode conduzir o ser humano ao processo de banalização da vida. Nas sociedades contemporâneas. em nome de um sentido construído. Nesse contexto. um estado emocional ligado à história subjetiva de cada indivíduo. E mesmo que admitamos que a vida precisa de um sentido a ser construído. p. O corpo é nosso ponto de vista sobre o mundo. A liberdade de transformar nossos corpos deve ser limitada pelo respeito à vida. regimes alimentares. Podemos ilustrar o processo de estetização da saúde por meio da conquista da aparência de um corpo belo. as unhas e os dentes. somos nosso próprio corpo. identificamos vários profissionais da área de saúde que se especializam para atender às demandas sociais de clientes que desejam possuir corpos belos. como fazer com que nossos educandos e educandas possam considerar a vida como nosso bem mais precioso? Precisamos repensar o sentido da vida. com os cabelos. Cuidar de si é cuidar do corpo. Não podemos ignorar os avanços da biologia em suas descobertas sobre o corpo humano. 25). banalizá-la. Chamamos essa identidade de estetização da saúde. através de cirurgias plásticas. Particularmente. Por outro lado. .Corporeidade e Educação 180 Não queremos assumir uma posição teórica que rejeita radicalmente as explicações da biologia moderna sobre o corpo.

Corporeidade e Educação 181 O corpo humano não é apenas um objeto manipulável pelas tecnociências. . Como dimensão constitutiva e expressiva do ser humano. nosso corpo é a sede de nossas experiências. O corpo valorizado não pode significar uma obsessão pela beleza que conduza a uma banalização da vida. Que valor nós damos as nossas vidas? Uma pedagogia do corpo não deve deixar de refletir sobre essa questão. ele é sujeito. Em outras palavras. como pensa Vaz (1991). o corpo simboliza os nossos valores.

2007. D. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB. saúde e biotecnologia. 1999. Tradução Sonia M. H. A ciência é inumana? Ensaio sobre a livre necessidade. G. In: BARROS.Corporeidade e Educação 182 REFERÊNCIAS ATLAN. Tradução Maria Tereza da Costa Albuquerque. W. Rio de Janeiro: Shape. HOSSNE. Corpo vivido e corpo pulsional: um diálogo entre Merleau-Ponty e Freud.. de. P. Ponde Vassalo. LE BRETON. 2004. . cuidado de si. 2007. Porto Alegre: Artes Médicas. de O. O. J. O corpo entre a biologia e a psicanálise. São Paulo: Unimep.. A condição pós-moderna. 2006. São Paulo: Cortez. P. 1988. Tradução Ligia M. N. In: MIRANDA. 2004. D. KANT. R. S. CAMINHA. 3. São Paulo: Paulus. CAMINHA. 2004. LYOTARD. CAMINHA. Tradução Francisco Cock Fontanella. M. Ética. Petrópolis: Vozes. 1997. Microfísica do poder. I. 2009. C. M de. ed. ______. Sobre a pedagogia. Rio de Janeiro: Graal. BAUMAN. R. ______. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. I. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB. São Paulo: Perspectiva. A história da sexualidade III. 2. Desejo e lei: a escola como espaço de convivência.. S. A sociologia do corpo. GARCIA. Petrópolis: Vozes. Narrativas do corpo: textos de psicopatologia fundamental. 2002.S. Fuhrmann. 1989. Ética e cultura. Rio de Janeiro: Graal. I. DEJOURS. Ética pós-moderna. de O. ______. ALMEIDA.. Antropologia do esporte. Lisboa: Gradiva. 2007. N. ed. Aprender a conviver: um enigma para a educação. FOUCAULT. Z. In: DA SILVA. I.

de L. H. 17. de O. Fenomenologia da percepção. VÁZQUEZ. ROUSSEAU. Textos de psicopatologia fundamental. São Paulo: Martins Fontes. A compulsão por modelar o corpo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Narrativas do corpo. Ética. MERLEAU-PONTY.. Dilemas da moral iluminista. 2009.. Tradução Sérgio Millet. Antropologia filosófica I. I. . CAMINHA. S.Corporeidade e Educação 183 LYPOVETSKY. 1992. 1977. S. E. In: BARROS. C. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB. Tradução João Dell’anna. J. In: NOVAES. G. de.. São Paulo: Companhia das Letras. 1991. N. São Paulo: Loyola. Emílio ou da educação. ed. R. A. F. São Paulo: Barcarolla. QUEIROZ. Os tempos hipermodernos. Ética. S. A. VAZ. 2004. ROUANET. M. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1992. CHARLES. ALMEIDA. 1994.

.

vamos refletir sobre os conceitos de conforto e organização na nossa vida diária. Com esses locais em mente. o clube ou área de lazer que frequentamos. documentário. iremos analisar o que consideramos ambiente confortável e ambiente organizado. do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba. biografia etc.) nos deixa mais positivos diante da vida. modalidade a distância. a casa de um parente ou amigo. o local de trabalho. ou seja. nos estimula a fazer coisas boas ou nos faz sentir bem? g) Como são as salas de cinema cadeiras que frequentamos: som apresentam agradável. Imaginemos. confortáveis ou que combinam mais com nosso jeito ou com nossa cor de pele? f) Que tipo de filme (romance. temperatura agradável. um ambiente com o qual temos contato mais frequentemente: pode ser a própria casa. vamos refletir sobre: a) O que faz com que nos sintamos mais confortáveis num ambiente? b) Quais os contextos de nossa vida em que nos sentimos confortáveis? c)Que tipos de estímulos visuais e auditivos nos fazem sentir bem internamente e relaxados? d) Que tipo de música nos transporta para momentos agradáveis ou nos deixa tranquilos e relaxados? e) Quais cores nos deixam melhor. Professora-Mediadora do Curso de Pedagogia. primeiramente.Organização e conforto ambiental 185 4 ORGANIZAÇÃO E CONFORTO AMBIENTAL Glorismar Gomes da Silva9 1 CONFORTO AMBIENTAL Inicialmente. confortáveis. drama. . aventura. luminosidade adequada? 9 Mestre em Educação. do namorado.

a sala dos professores. sair à noite (baladas). Da mesma forma. como. conceitual e fisicamente. na qual são valorizadas. Precisamos. a área externa. conforto e harmonia entre os ambientes. as grandes construções. de amigos. a secretaria. TVs. as salas de aula. o estacionamento. fazendo com que o produto arquitetônico corresponda. As escolas brasileiras hoje. Nesse sentido. Vivemos numa economia baseada no lucro de capital. o pátio. por exemplo. direcionaremos nossa atenção agora para o conhecimento. cultural e econômico de cada sociedade (NUNES et al.Organização e conforto ambiental 186 h) Quais as coisas que consideramos mais interessantes para fazer e que nos fazem felizes: casa de parentes. às necessidades e condicionantes do meio ambiente natural. para que o prédio de uma escola de educação infantil acolha as crianças em condições ideais. processos e serviços. entre outros. viajar. portanto. de alguns conceitos de conforto e organização ambiental. DVDs e adquirir produtos existentes no mercado. equipar-se com computadores. os acessos à escola e dentro dela. o conceito de conforto ambiental está ligado à questão básica de se proporcionar ao ser humano condições necessárias à habitabilidade e ao uso racional dos recursos. as exigências do mercado são cada vez maiores. social. urgentemente. precisam. o que implica que os docentes devem ser capacitados para atuar nesse novo ambiente. apresentaremos os conceitos de conforto e organização numa perspectiva de espaço físico. a aquisição de novas tecnologias gera a demanda de novos processos de ensino-aprendizagem. para que a escola ofereça as condições necessárias e de qualidade para o processo de desenvolvimento e de aprendizagem das crianças. 2009).. Exige-se das empresas e das instituições que elas aumentem a capacidade de adquirir novas tecnologias de produtos. o refeitório. segundo a literatura. é preciso construir ambientes com uma estrutura adequada. estudar? Depois dessas reflexões sobre o que consideramos ambientes agradáveis e confortáveis. por exemplo. jogos educativos entre outros). . os banheiros. Em Arquitetura e Urbanismo. Levando-se em conta esses elementos fundamentais de estrutura física. a cozinha. com organização. Nesse contexto de competitividade. que são criados para favorecer o processo ensino-aprendizagem (tais como: softwares. conhecer alguns conceitos sobre os elementos que compõem os vários ambientes de uma escola. dentro da ótica da construção civil. praticar esportes. dentre outros aspectos. a sala da direção. ir ao cinema.

fornecendo a base necessária ao desenvolvimento tecnológico brasileiro. escolas.º 07 do CONMETRO. . temperatura. sem fins lucrativos. ruídos. serviços e condições ambientais aplicáveis à realidade da vida moderna. que serão considerados referências imprescindíveis para a elaboração de projetos ou planejamentos. nos ambientes. que é o órgão responsável pela normalização técnica no país. os diversos estímulos que nos rodeiam poderão alterar nosso comportamento e o nosso rendimento. A ABNT fixa padrões de conduta ou ação. a performance e o conforto pessoais. Na vida cotidiana e em qualquer lugar de trabalho ou estudo. a diversificação de produtos e serviços foi tão significativa que foi necessário elaborar um documento que normatizasse a fabricação. prédios públicos ou particulares). No Brasil. através de normas relativas à saúde. a ABNT estabelece regras que determinam características ambientais compatíveis com a atividade que se desenvolve nesse ou naquele ambiente. Dentre os fatores ambientais que podem alterar nosso comportamento e nosso desempenho.Organização e conforto ambiental 187 Nos últimos trinta anos. associações. de 24. Quando se trata de ambientes (clubes. Portanto. uma vez que esses fatores são mais representativos nos estudos encontrados sobre o tema. o órgão responsável pela normalização dos produtos e serviços é a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). reflexo. vento.08.1992. da COPANT (Comissão PanAmericana de Normas Técnicas) e da AMN (Associação Mercosul de Normalização). aderência do piso. A referida norma serve como modelo para determinadas edificações. dos serviços e da segurança das pessoas. deve haver condições adequadas de luminosidade. na transferência de tecnologia e na melhoria da qualidade de vida. constantemente. à segurança e à preservação do meio ambiente. bombardeados com informações advindas do meio ambiente. com fins de garantir: a qualidade dos produtos. É uma entidade privada. como somos. reconhecida como Fórum Nacional de Normalização – ÚNICO – através da Resolução n. a utilização de produtos e processos e a qualificação dos serviços. da iluminação e do barulho sobre a saúde. É membro fundador da ISO (International Organization for Standardization). será priorizada a influência da temperatura. em geral. A normatização está presente na fabricação dos produtos. das construções. vibração.

2005. por isso. Todavia. Vamos. sem que haja riscos de comprometimento da capacidade física e mental (COUTINHO. em qualquer ambiente em que tenha ar condicionado. a escola. Essa interação (térmica) acontece em função da capacidade homeotérmica do homem. refletir sobre como nosso corpo reage termicamente quando presente em um ambiente sob determinada temperatura. Nosso corpo recebe calor e tende a aumentar a sua temperatura interna ou cede calor. aproximadamente.Organização e conforto ambiental 188 para que se produza uma boa e harmoniosa interação entre o ser humano e o ambiente. a iluminação e os ruídos. que mantém sua temperatura interna em. por curtos períodos. é uma pessoa que sente muito calor e. a variação da temperatura interna não pode ultrapassar 4ºC. agora. o corpo humano pode se expor à temperatura de 50 a 100ºC. Para esclarecer melhor essa relação. faz com que nos sintamos confortáveis. Nessa perspectiva. por isso. 113). tendendo diminuí-la. em condições favoráveis e de acordo com as normas da ABNT –. os fatores ambientais que aqui iremos enfatizar – a temperatura. façamos uma avaliação das condições de temperatura dos ambientes que nos deixam mais confortáveis e que nos dão condições de desempenhar nossas atividades sem muito desgaste ou esforço físico e mental. são: Condições térmicas Reflete sobre como a temperatura adequada nos proporciona sensação de bem-estar e. Em . mais alta. caro leitor. o local de trabalho. nosso quarto. respondendo às seguintes perguntas: − Quais são os ambientes que frequentamos que nos deixam mais confortáveis em termos de temperatura (a própria casa. 37ºC. a casa da vizinha. precisa estar vestida de mangas longas ou casaco? Enfim. independentemente das condições de meio ambiente. Devidamente protegido. descreveremos os estudos de Coutinho (2005) sobre a interação térmica entre o ser humano e o meio ambiente. p. intermediária). consequentemente. − Você. do amigo)? − Esses ambientes têm ventilação própria ou precisam ter recursos como ventilador ou ar condicionado para se tornarem mais agradáveis? − Qual a temperatura que nos traz mais conforto? (mais baixa. precisa se vestir com roupas leves? − É uma pessoa muito friorenta e.

como seres humanos. de maneira intuitiva. 2005. indiferença. que é o aumento da metabolização e Hipotálamo é uma pequena região do cérebro responsável pelo ajustamento do organismo às variações externas e que controla a temperatura corporal. A temperatura interna se refere à temperatura do sangue que vai do sistema nervoso central ao sistema termorregulador situado no hipotálamo10 do cérebro humano (COUTINHO. para nos sentirmos mais confortáveis e capazes de melhorar nosso desempenho nas atividades que estejamos realizando.] manifestações fisiológicas. 175). 2). Essa ideia levou os pesquisadores a definir conforto térmico como sendo “um estado de espírito que reflete satisfação com as condições térmicas do ambiente no qual a pessoa se encontra” (COUTINHO. 2). Alguns estudos têm mostrado a direta influência das variáveis ambientais no rendimento das pessoas no trabalho e na escola.Organização e conforto ambiental 189 vista disso. sonoras e energéticas nos ambientes onde vivemos. . o apetite e o balanço de água no corpo. os efeitos da temperatura sobre a saúde do ser humano terão como determinantes o calor e o frio. depressão intelectual. p. como dor de cabeça. mesmo que a climatização do ambiente seja eficiente. Refrigeration and Ar Conditioning Engineers (ASHRAE). além de ser o principal centro da expressão emocional e do comportamento sexual. 2009.. Alguns cientistas têm comprovado que o ambiente térmico influencia no aprendizado e que [. buscamos nosso bem-estar físico e emocional.. especialmente entre atividades cognitivas e físicas. o que dá a ideia de que o conforto térmico se traduz numa sensação subjetiva. fadiga. sono. p. 2005 p.. Nesse sentido. incoordenação motora e perda de memória têm surgido cada vez mais frequentemente (BATIZ et al. p. Assim. Portanto. alteração sensorial. conforto térmico é definido como “a condição da mente na qual o indivíduo expressa satisfação com o ambiente térmico” (BATIZ et al. luminosas. Nós. 113). De acordo com a American Society of Heating. Alterações comportamentais e fisiológicas variam de acordo com as condições térmicas ambientais. podemos responder de várias formas às variações térmicas. calor e frio produzem desempenhos diferentes no corpo.. 2009. haverá pessoas que estarão sentindo calor ou frio. mecanismos autônomos agem no sentido de evitar qualquer variação dessa temperatura.O aumento da incidência externa de calor no corpo humano pode resultar em dois possíveis danos à saúde: queimadura da pele (quando é sujeita a temperaturas acima de 45ºC por período prolongado de tempo) 10 ou hipertermia. a) Calor . Para Coutinho (2005).

enge. agora sob o aspecto da iluminação. resultante do aumento da temperatura interna (acima de 42°C). passaremos. que nos proporcione bem-estar para o trabalho. Neutralidade térmica Estado físico em que a densidade do fluxo de calor entre o corpo humano e o ambiente é igual à taxa metabólica do corpo. a ter alucinações.As baixas temperaturas afetam sensivelmente o corpo humano. Quadro 1 .html> Continuando nosso estudo. a refletir sobre as influências da iluminação dos ambientes no nosso bem-estar pessoal e no desempenho de nossas atividades. segundo o Comitê Brasileiro de Construção Civil e a Comissão de Estudo de Desempenho Térmico de Edificações.com. Segundo Coutinho (2005).Organização e conforto ambiental 190 consequente sobrecarga do corpo. doenças de pele. que ocorre quando a temperatura interna fica abaixo de 35°C. o corpo começa a tremer (até alcançar 30 a 33°C) e realiza a vasoconstrição. as principais doenças causadas por altas temperaturas são: tontura e/ou desfalecimento. agora. Desconforto térmico Aquecimento ou resfriamento de uma parte do corpo. e sua temperatura é mantida constante. Continuando a análise das interferências térmicas no nosso dia a dia.br/conforto_ambiental. Na tentativa de aumentar a temperatura interna. refletindo sobre o que nos faz sentir confortáveis. apresentaremos algumas definições (Quadro 1) sobre as temperaturas ambientais e as condições térmicas compatíveis com os seres humanos. Conforto térmico Satisfação psicofisiológica de um indivíduo com as condições térmicas do ambiente. desidratação. distúrbios psiconeuróticos e catarata. a) Frio . b) Condições de iluminação Iniciaremos. como a luz e a claridade podem proporcionar um ambiente favorável. momento em que a pessoa começa a ficar desorientada. Fonte: <http://www. a perder a consciência e ter arritmia cardíaca.Conceitos de interferências térmicas segundo o Comitê Brasileiro de Construção Civil e a Comissão de Estudo de Desempenho Térmico de Edificações. ou seja. que gera insatisfação no indivíduo. O efeito mais conhecido é a hipotermia. para os .

Iluminação é um fenômeno físico resultante da exposição de uma fonte de luz num ambiente que pode absorver ou refletir a luz tornando-se visível. fadiga. luz é a “parte das vibrações eletromagnéticas a que o olho humano é sensível. escrever. o conforto visual [. para o lazer. De acordo com Laville (1977. Passaremos. vamos refletir sobre: a) Minha casa tem iluminação natural? Ela é suficiente para desempenhar quaisquer atividades dentro dela? b) Na minha casa. coloridas etc. luz e visão.] está relacionado com o conjunto de condições. usar o computador. que nos permitem explorar ou trafegar por eles. 1). Tais vibrações são definidas por sua frequência (410 Hz a 8-10 Hz) ou seu comprimento (7. costurar. para o exercício de qualquer atividade que requeira mais esforço da nossa visão. num determinado ambiente. como luz artificial potente ou lanternas? Depois dessa reflexão.). Isto porque a iluminação. ler. pois a inadequada iluminação pode causar acidentes e erros de trabalho. pintar. Portanto.500 a 3. seguiremos com alguns conceitos sobre iluminação. enfim.. jogar cartas etc. desenhar. Segundo Silva et al (2005. assim como o ruído e a temperatura. no qual o ser humano pode desenvolver suas tarefas visuais com o máximo de acuidade e precisão visual. .. então.750 Aº)”. meu local de estudo tem iluminação suficiente para que eu possa estudar sem grande esforço visual? c)Meu local de trabalho tem boa iluminação. Enfim. para entendermos a relevância dessas condições. com menor risco de prejuízos à vista e com reduzidos riscos de acidentes. 2005). sem precisar de mais recursos. 72). estamos inseridos em ambientes bem iluminados naturalmente. compõe uma das variáveis do conforto ambiental interno. com grande importância nos projetos arquitetônicos. uma vez que quase todas as tarefas produtivas são visuais e requerem qualidade e quantidade de iluminação (SILVA et al.. a refletir sobre como a iluminação dos ambientes com os quais convivemos está atendendo às nossas necessidades e favorecendo o desempenho de nossas funções ou ocupações. por exemplo. o piso e o teto dos ambientes? (cores claras. escuras.Organização e conforto ambiental 191 estudos. para que eu possa exercer minha função adequadamente? d) Quais as cores que considero mais agradáveis para compor as paredes. na otimização das relações dos indivíduos com o ambiente que o cerca. p. com o menor esforço. p.

Organização e conforto ambiental

192

cefaleia e irritabilidade ocular, os quais traduzirão em uma diminuição da atividade produtiva.

Em função do exposto, os ambientes de trabalho e as escolas devem estar adequados às necessidades de conforto visual das pessoas que fazem uso do seu espaço, a fim de evitar acidentes e danos à visão e, consequentemente, prejuízo em seu desempenho pessoal. Isto pode acontecer, uma vez que o funcionamento do sistema visual é muito complexo e depende do aparelho ótico, que é formado de várias estruturas transparentes (córnea, humor aquoso, cristalino e humor vítreo). Laville (1977, p. 73) refere que,
[...] a partir de estímulos físicos identificáveis o aparelho visual permite a detecção e a integração de um número considerável de informações extremamente variáveis: detecção e identificação de um objeto, de sua forma, de suas dimensões, de sua cor, de seu lugar no ambiente, de seu movimento no espaço.

Nos últimos anos, tem renascido o interesse na promoção das boas práticas de projeto de iluminação natural, por razões de eficiência energética e conforto visual. O uso otimizado da luz natural, em edificações usadas, principalmente, durante o dia, pode, pela substituição da luz artificial, produzir uma contribuição significativa para a redução do consumo de energia elétrica, melhoria do conforto visual e bem-estar dos ocupantes. A luz natural tem uma variabilidade e qualidades mais agradáveis e apreciadas que o ambiente proporcionado pela iluminação artificial. Aberturas, em geral, proporcionam aos ocupantes o contato visual com o mundo exterior e permitem, também, o relaxamento do sistema visual pela mudança das distâncias focais. A presença da luz natural pode garantir uma sensação de bem-estar e um relacionamento com o ambiente maior no qual estamos inseridos. A boa iluminação é fator primordial em qualquer ambiente e, seguindo algumas normas, pode-se prover um espaço de conforto e de bem-estar. Para isso, é fundamental que, em seus espaços, haja iluminação natural, utilizando-se recursos e providências que podem ser simples. É possível melhorar o aproveitamento da luz e reduzir o consumo de energia, sem perder a qualidade e o conforto do ambiente. As cores têm sido amplamente estudadas e vêm mostrando significativas influências no conforto ambiental. As cores claras têm a propriedade de refletir a luz e permitir que o ambiente retenha mais a luz que incide sobre elas. O site

Organização e conforto ambiental

193

Engenharia & Projetos11 dá várias dicas da relação das cores com o conforto ambiental e menciona: cor e textura de superfície têm, por assim dizer, uma existência própria e emitem energias físicas, que são até mensuráveis. O efeito pode ser quente ou frio, aproximativo ou retrocessivo em relação a nós, de tensão ou de repouso, ou mesmo repulsivo ou atraente. O Quadro 2 mostra a relação das cores e sua influência sobre o estado de ânimo nas pessoas, em ambientes que apresentam pinturas com determinadas cores. Amarelo Azul Branco Laranja Lilás Rosa Verde Vermelho Estimula a mente; ajuda na concentração; incentiva a conversação. Tem efeito tranquilizante e refrescante. Evita a insônia. O excesso de claridade pode levar a um cansaço mental. Estimula; dá um ar social ao ambiente. É sedante; pode causar sensação de frustração. Aconchega; dá calor sem excitação. Recompõe, equilibra. Tem efeito regenerador. É excitante; pode deixar as pessoas agitadas e irritadiças.

Quadro 2 - As cores e a sua influência sobre o estado de ânimo das pessoas. Fonte: <http://www.enge.com.br/conforto_ambiental.html>.

Vimos, até aqui, os conceitos sobre temperatura e iluminação, bem como suas influências no ambiente que nos circunda. Passaremos, agora, a conhecer o ruído, ou acústica ambiental, e suas interferências na organização de um ambiente confortável e agradável. c) Acústica e ruído Continuando nossa reflexão acerca dos fatores ambientais que nos promovem conforto, trataremos, agora, dos barulhos e dos ruídos que ouvimos nos locais que frequentamos e, principalmente, quando precisamos de maior atenção e tranquilidade, como, por exemplo, no ambiente de trabalho, de estudo, no cinema, quando ouvimos a música que apreciamos. Portanto, vamos analisar essa condição ambiental que faz parte de nosso dia a dia, a partir das seguintes reflexões:

• Com que tipo de estímulo auditivo nos sentimos bem internamente e
relaxados (música suave, os sons dos pássaros no campo, o som de uma cachoeira, o som de um instrumento)?

11

<http://www.enge.com.br>

Organização e conforto ambiental

194

• Quais os ambientes que nos tranquilizam e nos promovem sentimento de
paz (Igreja, cinema, praia deserta, nossa casa, nosso quarto, entre outros)?

• Que tipo de música, caro leitor, você gosta de ouvir – as barulhentas, as
mais lentas? Em som mais alto ou mais baixo? Enfim, passaremos ao conceito de acústica que, segundo a física, trata-se das “oscilações e ondas ocorrentes em meios elásticos, e cujas frequências estão compreendidas entre 20 e 20.000 Hz. Essas oscilações e ondas são percebidas pelo ouvido como onda sonora”, ou seja, a acústica é o estudo das ondas sonoras, que são ondas mecânicas longitudinais e tridimensionais. As fontes sonoras são os instrumentos que geram as ondas sonoras. Muitos corpos podem servir como fontes sonoras, que precisam ser capazes de vibrar. Deter-nos-emos em algumas sensações sonoras mais relevantes para nosso estudo, quais sejam: Oscilações mecânicas audíveis

a) Som É qualquer oscilação mecânica que se propague em um meio elástico, desde que as frequências que a componham se encontrem dentro da faixa de audiofrequências. b) Tom É qualquer oscilação mecânica audível, composta por uma única frequência. O tom corresponde ao fenômeno periódico de oscilação cuja forma de onda é representada por uma senoide. Na natureza, não se encontram tons puros. c) Ruído É o fenômeno audível, cujas frequências não podem ser discriminadas, porque diferem entre si por valores inferiores aos detectáveis pelo aparelho auditivo. Aparece em um analisador espectral como um espectro largo, quase contínuo em frequências. Como exemplos, temos: o ruído da chuva, o amassar do papel celofane. d) Barulho Reserva-se o nome de barulho, em geral, a todo som indesejável. Difere-se do ruído por apresentar um espectro de frequência, passível de

Organização e conforto ambiental

195

ser analisado, o que permite os tratamentos acústicos adequados a cada caso.

Decibéis A intensidade ou volume dos sons é medida em unidades chamadas decibéis, abreviadas para dB. Sessenta dB é a intensidade do som de uma conversa, e 120 dB, a de um avião a jato. Dependendo da intensidade do som a que uma pessoa fica exposta, sua audição pode sofrer sérios danos. Os ruídos, por exemplo, podem provocar lesões irreversíveis no aparelho auditivo, como surdez ou alterações reversíveis e fadiga auditiva (LAVILLE, 1977, p. 67).

Avaliação do som Quando nos referimos ao som, o método de avaliação envolve medições do nível de pressão sonora equivalente em decibel, ponderados em “A”, comumente chamado dB(A), que é a unidade de medida que corresponde à menor diferença de intensidade captada pelo ouvido humano. Essa norma fixa as condições exigíveis para avaliação da aceitabilidade do ruído ambiente num determinado recinto de uma edificação. O ruído caracteriza-se pelo barulho, estrondo, rumor contínuo e prolongado; é o som construído por grande número de vibrações acústicas.

Interferência do ruído O ruído pode ser considerado um som não necessário e, portanto, indesejável para o cumprimento de uma determinada tarefa que requisite maior atenção auditiva. A interferência do ruído é maior em atividades mais complexas do que nas simples. Atividades repetitivas, sem pausas, também são afetadas. Para a saúde, o efeito mais importante e previsível é a surdez. A definição de qual ruído é responsável pela perda da capacidade auditiva é muito difícil, pois o ser humano está, diariamente, exposto a ruídos no trânsito, no trabalho, em casa, enfim, em todos os lugares. A seguir, ilustraremos os tipos de ruídos (Quadro 3) e níveis de decibéis

(Quadro 4) que poderão causar danos à saúde da audição e que podem provocar sua perda leve, moderada, severa e profunda:

Organização e conforto ambiental

196

Qualidade do som Muito baixo Baixo Moderado Alto Muito alto Ensurdecedor

Decibéis 0-20 20-40 40-60 60-80 80-100 100-120

Tipo de ruído Farfalhar das folhas Conversação silenciosa Conversação normal Ruído médio de fábrica ou trânsito Apito de guarda e ruído de caminhão Ruído de discoteca e de avião decolando

Quadro 3 - Tipos de ruídos e decibéis correspondentes Fonte: <http://www.ines.gov.br/ines_livros/4/4_005.HTM>.

Grau de deficiência Normal Leve Moderado Moderado severa Severa Profunda

Perda em Db 0-15 16-40 41-55 56-70 71-90 + 90

Quadro 4 - Classificação das perdas auditivas de Davis - para crianças Fonte: <http://www.ines.gov.br/ines_livros/4/4_005.HTM>.

De acordo com o que foi visto sobre conforto ambiental, tivemos uma ideia dos elementos fundamentais que devem constituir um ambiente agradável e prazeroso. Percebemos que existem fatores naturais e/ou artificiais de iluminação, temperatura e som que, bem empregados e aliados à boa organização dos espaços físicos, favorecem o nosso bem-estar e nosso desempenho para o estudo e para o trabalho.

2 ORGANIZAÇÃO E AMBIENTE ESCOLAR NOS PARÂMETROS DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Apresentaremos e analisaremos agora algumas características da

organização dos espaços físicos da escola, de acordo com os parâmetros da educação infantil. Vamos, inicialmente, refletir sobre como deve ser esse ambiente e de que forma cada espaço da escola deve ser distribuído e organizado para que as crianças se desenvolvam e aprendam num ambiente agradável e de qualidade. Para isso, reportemo-nos a nossa infância, para lembrar onde morávamos, onde estudávamos e imaginar como era nossa escola e cada um dos seus

equânime e feliz. cuidados. que proporcionam uma qualidade de vida mais justa. que propicie experiências e situações planejadas intencionalmente. com estacionamento e segurança. diretores e funcionários em geral. que reforçam a organização de ambientes planejados de fácil acesso. pequena. nesse espaço escolar. perto de casa? b) Como era organizada minha sala? c)Que recursos e materiais havia na minha sala? d) Em que lugar da sala eu me sentava? Mais na frente.Organização e conforto ambiental 197 ambientes. devemos lembrar: a) Como era minha escola? Grande. bem iluminada? h) Localizava-se numa rua tranquila. como esses espaços eram distribuídos e onde se localizavam. As instalações de creches e escolas de educação infantil precisam ser adequadas às exigências da Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). do espaço físico. com recursos que permitam a prestação de serviços de qualidade aos estudantes. agradáveis. equipamentos e materiais didáticos adequados à realidade da escola. além de boas condições de trabalho para professores. arejada. do horário e do . em clima de cooperação. aos pais e à comunidade. com flores e árvores. atrás? e) Algum detalhe faz-me lembrar de minha escola até hoje? f) Minha escola tinha bons espaços para brincadeiras? g) Era uma escola limpa. As instituições de Educação Infantil devem se preocupar em oferecer um ambiente escolar provido de estruturas adequadas. no meio. um ambiente físico e humano. arejados. móveis. de forma a contribuir para o desenvolvimento das crianças. de modo a democratizar o acesso de todos aos bens culturais e educacionais. por meio de suas propostas pedagógicas e de seus regimentos. com boa estrutura. limpos. para que as crianças pequenas e suas famílias encontrem. proporcionar condições de funcionamento das estratégias educacionais. sem barulho? i) Existe até hoje? Foi reformada ou ampliada? j) Eu me sentia bem na minha escola? Ambientes físicos escolares de qualidade são espaços educativos organizados. As Instituições de Educação Infantil devem. destaca-se a criação de um ambiente que concilie didática com atividades lúdicas. Dentre as diretrizes da escola infantil. Então.

Nesse sentido. as condições geográficas e climáticas e se ofereçam condições às prefeituras para que criem uma rede de qualidade. Sabemos que todas as crianças. nas unidades públicas de Educação Infantil. ao apoio. bem como a participação dos diversos atores da sociedade envolvidos com a educação infantil na formulação das políticas públicas voltadas para as crianças de zero a seis anos (BRASIL. Para que haja qualidade nos ambientes de instituição da educação infantil. à segurança. a criatividade. os recursos socioeconômicos. profissionais educação administradores representantes da comunidade). para que eles possam compartilhar os diferentes saberes e objetivos. é fundamental que. saúde. ao iniciar sua trajetória de vida. 12 e 14). e engenheiros. os desafios e as aprendizagens e que facilitem a interação criança-criança. as administrações municipais). as necessidades da comunidade e a proposta pedagógica. A elaboração do projeto de uma escola infantil deve envolver a participação da comunidade educacional (crianças. O documento preliminar referente às orientações de construção dos espaços que podem fazer parte de uma instituição de Educação Infantil para crianças de zero a seis anos de idade tem como objetivo. vivo. no processo de elaboração do projeto. que possibilitem a adoção.Organização e conforto ambiental 198 calendário. propiciar o cumprimento do preceito constitucional de descentralização administrativa. que têm de envolver planejamento. ao amor. sejam considerados a diversidade geográfica da região. à aceitação. adaptando esses critérios de acordo às suas especificações. 2006a). têm direito à saúde. explorável. é necessário formar uma equipe da multiprofissional e da (professores. “brincável”. a execução. as descobertas. a avaliação e o aperfeiçoamento das demais diretrizes (LDBEN. familiares e. à confiança . detalhamento técnico. levando-se em conta as características ambientais. art. à estimulação. transformável e acessível para todos. professores. também. arquitetos. No espaço físico destinado à educação infantil. as construções escolares devem seguir um programa de orientação das Secretarias de Educação. O espaço lúdico infantil deve ser dinâmico. elaboração de projeto arquitetônico. o contexto cultural. criança-adulto e deles com o meio ambiente. os ambientes devem ser construídos de forma que promovam as aventuras. Para isso. especificações de materiais e acabamento.

equipamentos. água potável. respeitando as diversidades regionais. assegurem o atendimento das características das distintas faixas etárias e das necessidades do processo educativo. a expressão livre. permanentemente. o movimento e o brinquedo. que atendam aos requisitos de infraestrutura. e que os prédios de Educação Infantil sejam adaptados conforme os padrões de infraestrutura estabelecidos. Em relação à infraestrutura das escolas. • Instalações para preparo e/ou serviço de alimentação. brinquedos e materiais adequados nas instituições de Educação Infantil. Desde suas origens. para os filhos das classes média e alta (BRASIL. • Ambiente interno e externo para o desenvolvimento das atividades. 2006a). insolação. esgotamento sanitário.Organização e conforto ambiental 199 de sentir-se parte de uma família e de um ambiente de cuidados e de uma educação adequada e de qualidade. públicas ou privadas. principalmente. conforme as diretrizes curriculares e a metodologia da Educação Infantil. observando os seguintes aspectos: • Espaço interno. padrões mínimos de infraestrutura para o funcionamento adequado das instituições de Educação Infantil públicas e privadas (creches e pré-escolas) que. tal política estabelece como: a) Objetivos Garantir espaços físicos. considerando as necessidades educacionais especiais e a diversidade cultural. visão para o espaço externo. a Política Nacional de Educação Infantil (BRASIL. Assim. as modalidades de educação das crianças eram criadas e organizadas para atender a objetivos e a camadas sociais diferenciadas: as creches concentravam-se predominantemente na educação da população de baixo poder econômico. 2006a) recomenda que só se autorizem a construção e o funcionamento de instituições de Educação Infantil. b) Metas Divulgar. enquanto as pré-escolas eram organizadas. • Instalações sanitárias e para a higiene pessoal das crianças. rede elétrica e segurança. ventilação. incluindo o repouso. . com iluminação.

e) Instalações sanitárias completas. de área livre para movimentação das crianças. cores estimulantes e adequadas. b) Salas para professores e para os serviços administrativo-pedagógicos e de apoio. g) Área coberta para atividades externas. pois. devem estar presentes. o que tornará o ambiente escolar agradável e propício ao bom desenvolvimento do processo educacional das mesmas. equipamentos e materiais pedagógicos. Trata-se. com balcão e pia. Portanto. descreveremos como devem ser distribuídos os espaços físicos das instituições educacionais para crianças de zero a seis anos de idade. com boa ventilação. os espaços devem ser planejados de acordo com o projeto pedagógico da instituição. numa escola infantil. de cuidar para que a escola tenha um visual bem cuidado e adequado às necessidades das crianças. da instituição. Além da estrutura física. fluxo de operação. ambientes que contemplem: a) Espaço para recepção. com mobiliário e equipamentos adequados. também. também pode ser questão de economia. por turno. como a ergonometria. levando-se em conta. A seguir. e em pleno funcionamento. iluminação. c)Salas para atividades das crianças. entre outros. • Adequação às características das crianças com necessidades educacionais especiais. os critérios relacionados anteriormente. Em termos de estrutura. Consultar arquiteto e decorador. f) Berçário provido de berços individuais. Isso significa que. Esses profissionais irão ajudar na fase de obras e na orientação de fatores importantes. a escola de educação infantil deve ter. visão para o ambiente externo. em sua estrutura. de locais para amamentação e para higienização. e de espaço para o banho de sol das crianças. os seguintes equipamentos básicos: . instalações e equipamentos para o preparo de alimentos que atendam às exigências sanitárias.Organização e conforto ambiental 200 • Mobiliário. d) Refeitório. outros materiais contribuem para que a escola esteja de acordo com os requisitos básicos de funcionamento. compatível com a capacidade de atendimento.

i) Brinquedos pedagógicos. d) Ar condicionado. jogar bola. em seus aspectos físico. bem iluminados e arejados. dentre outras atividades. h) Móveis. Os ambientes físicos da instituição de educação infantil devem refletir uma concepção de educação e de cuidado. que apontam para a construção de ambientes conforme descrição a seguir: I Espaço físico: Os espaços internos devem ser limpos. espaços externos bem cuidados. Os espaços devem. proporcionar o registro e a divulgação dos projetos educativos desenvolvidos e das produções infantis. afetivo. Para tanto. objetos em três dimensões. o zoológico. o circo. revelando a importância conferida às múltiplas necessidades das crianças e dos adultos que com elas trabalham. seguros e aconchegantes. posto que enriquecem e potencializam a aprendizagem. materiais escritos e imagens de manifestações da expressão infantil estimulam as trocas e novas iniciativas. ainda. A pracinha. . em que se respeitem as necessidades de desenvolvimento das crianças. indicam a atenção ao contato com a natureza e à necessidade que as crianças têm de correr. a padaria são mais do que locais para simples passeio. b) Fogões. A aprendizagem transcende o espaço da sala. com visão ampla do exterior. cognitivo e criativo. e) Equipamentos de som. brincar com areia e água. a feira. o prédio da escola deve ser estruturado com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais (2006). toma conta da área externa e de outros espaços da instituição e fora dela. c) Geladeira. demonstram resultados do trabalho realizado e constituem um acervo precioso da instituição. fotos.Organização e conforto ambiental 201 a) Freezers. com jardim e áreas para brincadeiras e jogos. a biblioteca. f)Televisão. o supermercado. Desenhos. pular. g) Computadores.

brinquedos adequados à sua idade. ao seu alcance. É preciso atentar não só para a existência desses materiais na instituição.Organização e conforto ambiental 202 II Mobiliário: O mobiliário deve ser planejado para o tamanho de bebês e de crianças pequenas: é preciso que os adultos reflitam sobre a altura da visão das crianças. tesouras. arrumando os espaços de forma a incentivar a autonomia infantil. roupas e panos para brincar. Para propor atividades interessantes e diversificadas às crianças. tintas. para cada trabalho realizado com as crianças. sempre que estiverem acordadas. blocos para construções. massa de modelar. entre outros – devem ser obrigatórios nas instituições de educação infantil. Isso implica que. argila. os professores precisam ter à disposição materiais. lápis. brincar no chão. para o fato de eles estarem acessíveis às crianças e seu uso previsto nas atividades diárias. cola. A organização dos espaços e dos materiais se constitui um instrumento fundamental para a prática educativa com crianças pequenas. espelhos. brinquedos e livros infantis em quantidade suficiente. III Materiais: Os recursos materiais – mobiliário. engatinhar. sobre sua capacidade de alcançar e usar os diversos materiais. como são guardados e conservados. A segurança e a higiene são muito importantes. ensaiar os primeiros passos e explorar o ambiente. Elas também precisam contar com estímulos visuais de cores e formas variadas. deve-se planejar a forma mais adequada de organizar o mobiliário dentro da sala e introduzir materiais específicos para a montagem de ambientes novos. principalmente. papel. As crianças devem ter. se podem ser substituídos quando danificados são aspectos relevantes para demonstrar a qualidade do trabalho de cuidar e educar. jogos os mais diversos. material de sucata. renovados periodicamente. Além disso. livros. desenvolvido na instituição. brinquedos. Os bebês e crianças pequenas precisam ter espaços adequados para se mover. mas a preocupação com esses itens não deve impedir as explorações e iniciativas infantis. a forma de apresentá-los às crianças. . ligados aos projetos em curso. pincéis. de forma cuidadosamente planejada. mas.

explorar materiais diversos. tocar o outro. é importante considerar que o acesso das crianças às salas. É importante que as instituições ou creches estejam organizadas com espaços específicos para cada atividade ou serviço. brincar. permitindo a ventilação e a iluminação naturais. e as crianças possam dormir com conforto e segurança. Além disso. Portanto. para facilitar a circulação dos adultos entre eles. Recomenda-se que sua área permita o espaçamento de. no mínimo. É recomendável que a sala de atividades esteja localizada de maneira que facilite o acesso dos pais. as crianças apresentam ritmos próprios.Organização e conforto ambiental 203 Vimos. O piso deve ser liso. observar. e as portas devem ter visores e ser largas. cuja atenção deve estar voltada para o cuidado e estimulação do pleno desenvolvimento da criança. muitas vezes. para facilitar o cuidado com as crianças. Nessa faixa de idade. alimentar-se. 50 cm entre os berços. a) Sala de repouso: é um espaço destinado ao repouso. não é recomendável a . é feito no colo ou por meio de carrinhos de bebê. b) Sala para atividades: espaço destinado a atividades diversas. ensaiar os primeiros passos. Depois. confortável. tomar banho. que deve ser organizado de forma estimulante. • Espaço para crianças de zero a um ano de idade Recomenda-se que o espaço destinado às crianças dessa faixa etária esteja situado em local silencioso. para satisfazer às suas necessidades essenciais. até aqui. as janelas devem assegurar abertura mínima de 1/5 da área do piso. Veremos agora a descrição para os ambientes em instituições destinados às crianças de zero a um ano de idade. onde há berços ou similares. porém não escorregadio. para promover a integração entre as salas de repouso e de atividades. as orientações para a organização dos espaços nas instituições de educação infantil para crianças de zero a seis anos de idade. e de fácil limpeza. nesse percurso. preservado das áreas de grande movimentação e proporcione conforto térmico e acústico. necessitam de espaços para engatinhar. rolar. uma vez que existem algumas particularidades inerentes a essa faixa etária. descreveremos os ambientes educacionais destinados às crianças de um a seis anos de idade. repousar e dormir. aconchegante e assegurar às crianças a realização de explorações e brincadeiras.

• Salas de atividades para crianças de um a seis anos de idade O espaço físico para a criança de um a seis anos de idade deve ser visto como um suporte que possibilite e contribua para a vivência e a expressão das culturas infantis – jogos. brincadeiras. deverá prever: • • o maior afastamento possível das áreas de lavanderia e banheiros. É importante organizar um local para o aleitamento materno. para facilitar o transporte de utensílios. evitando-se desníveis que possam dificultar essa circulação. Caso a instituição não possa contar com um solário específico para as crianças de zero a um ano. A escolha da localização do lactário. troca e guarda de fraldas e demais materiais de higiene. visando estimular a amamentação. O espaço deve comportar colchonetes amplos para as crianças engatinharem. c) Fraldário: local para higienização das crianças.50 m² por criança. provido de cadeiras ou poltronas com encosto. elas devem ser levadas para o banho de sol nas áreas externas. Recomendam-se 1. histórias que expressam a . e cadeiras com bandeja ou carrinhos de bebê quando as crianças forem alimentadas pelos professores. e) Solário: (área livre e descoberta para banho de sol): deve ter dimensões compatíveis com o número de crianças atendidas. proximidade da sala de atividades.Organização e conforto ambiental 204 existência de degraus ou outros obstáculos. se possível. pré-lavagem de fraldas de pano e eliminação de fezes. de uso exclusivo para essa faixa etária. quando implantado separadamente. almofadas e brinquedos de porte médio e grande. sem risco de contaminação. O acesso a esse ambiente deverá permitir o trânsito de carrinhos de bebê. A opção pela utilização de fraldas de pano ou fraldas descartáveis deve ser feita pelas famílias em parceria com a comunidade escolar. de forma que se ofereça às crianças uma dieta saudável. confortáveis. orientação solar adequada e que esteja contíguo à sala de atividades. ao preparo e à distribuição das mamadeiras. d) Lactário: local destinado à higienização. Esse local poderá ser implantado separadamente ou junto da cozinha da instituição. onde se empregam técnicas de higiene alimentar. músicas.

planejamento individual e coletivo. cadeiras. Deve contar. cenários. cadeira. se possível. reflexão. as instituições devem prever ambientes para a guarda de brinquedos maiores. Deve contar. armário individualizado e bancada para pequenos lanches. Assim. troca de experiências. colchonetes. b) Área administrativa: essa área está organizada em subdivisões. aconchegante. promovendo oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento. prevendo-se a organização de cantos de leitura. garantindo-lhe identidade. sala de televisão. como alternativa para biblioteca. telefone. para lhes garantir segurança. • Secretaria: espaço de fluxo e de arquivo de documentos. ornamentos. quais sejam: • Recepção: espaço destinado a acolher os familiares e a comunidade. interações socioeducativas e privacidade.Organização e conforto ambiental 205 especificidade do olhar infantil. quadro de chaves. planejadas de acordo com a proposta pedagógica da instituição. deve-se organizar um ambiente adequado à proposta pedagógica da instituição. momentos de privacidade para o professor. com: computador com impressora. jogos. arquivos. Deve ser planejado como um ambiente agradável. . segurança. mesa. bem como de recepção dos que chegam à instituição. É recomendável que tenha capacidade mínima para atendimento à maior turma da instituição. que possibilite à criança a realização de explorações e brincadeiras. dentre outros. • Almoxarifado: espaço para a guarda de material pedagógico e administrativo. a) Sala multiuso: embora as salas de atividades sejam concebidas como espaços multiuso. confiança. se possível. formação. com equipamentos e mobiliários como: computador e impressora. em que haja cadeiras e quadro de informes. espaço para entrada e saída das crianças. mesa para reunião. dentre outros. brincadeiras. ressaltamos a importância de se organizar um espaço destinado a atividades diferenciadas. • Sala de professores: espaço de encontro. vídeo ou DVD e som. Além desse espaço.

1 chuveiro para cada 20 crianças. d) Pátio coberto: deve ser condizente com a capacidade máxima de atendimento da instituição e dispor de bebedouros compatíveis com a altura das crianças. para realizar reuniões com pais e professores e outras atividades. Recomenda-se que seja articulado com a cozinha e tenha um móvel que viabilize diferentes organizações do ambiente. a função de vestiário e ficar próximos às áreas Devem ser previstos banheiros de uso exclusivo dos adultos. de serviços e pátio coberto. o refeitório deve. ainda. o desenvolvimento de atividades educativas para crianças e adultos. igualmente. festas e reuniões de pais. ainda. A área de serviço de alimentação deve prever. Além de se constituir como um espaço para alimentação. os dirigentes da instituição precisam. áreas de recebimento e pesagem de alimentos e cômodo de gás. Esse espaço deve ser planejado para utilização múltipla. tais como: despensa geral. Quando possível. Aquele que engloba todas as atividades relacionadas ao preparo e à distribuição das refeições. Esse espaço possibilita. por exemplo. de um espaço mais privado para seu trabalho. uma . 1 lavatório para cada 20 crianças. refeitório. c) Banheiros: os banheiros infantis devem ser implantados próximos às salas de atividades e não devem ter comunicação direta com a cozinha e com o refeitório. que podem acumular administrativas. limpeza de utensílios e registro de dados. estocagem de alimentos. e) Áreas necessárias ao serviço de alimentação: define-se como um serviço de alimentação. incluindo atividades de recepção. contemplar no projeto a construção de palco e quadros azulejados. Deve seguir o dimensionamento de 1 m² por usuário e capacidade mínima de 1/3 do maior turno. possibilitar a socialização e a autonomia das crianças. Sugerimos a seguinte relação do número de crianças por equipamento sanitário: • • • 1 vaso sanitário para cada 20 crianças.Organização e conforto ambiental 206 • Sala de direção e coordenação: na mesma linha de discussão sobre a sala dos professores. cozinha e áreas de apoio. sempre que possível. despensa fria.

terra e cimento. despensa. grama. o desenvolvimento da edificação em um único pavimento. armário para guarda de vassouras. isolado de áreas de maior circulação. quadros azulejados com torneira para atividades com tinta lavável. f) Lavanderia: a lavanderia deve ter acesso independente da cozinha e ter tanque. Contemplar. os parâmetros básicos de infraestrutura fazem. por exemplo. varal. também. como escorregador. . salas de atividades. quando necessário e possível. algumas recomendações: • Que a capacidade máxima das instituições de Educação Infantil seja referenciada no atendimento a 150 crianças. realização de eventos e festas da escola e da comunidade. local para máquina de lavar. com local para pomar. g) Área de serviços gerais: deve contemplar tanque. bancos. rodos e similares e depósito de material de limpeza. essa área deve contemplar. no mínimo. casa em miniatura. prateleiras e armários fechados. depósito de lixo. balanços. Além das orientações de construção e organização do espaço infantil. externa ou interna. brinquedos de parque. h) Área externa: recomenda-se que corresponda a. tais como cozinha. secadora. em alvenaria. deve contemplar anfiteatro. pátio coberto e refeitório. considerando-se as especificidades do atendimento. brinquedos. preferencialmente. 20% do total da área construída e seja adequada para atividades de lazer e físicas. de fácil acesso à coleta. duchas com torneiras acessíveis às crianças. Sempre que a geração de resíduos sólidos da escola exceder 100 litros diários. para secagem de roupas. horta e jardim. sem ligação direta com as dependências. • Que o terreno propicie. Deve ser ensolarada e sombreada e ter área verde. trepa-trepa. situado em local desimpedido. bancada para passar roupas. Suas dimensões devem ser compatíveis com o número de crianças atendidas pela instituição. Se possível.Organização e conforto ambiental 207 vez que não é necessário nem recomendável que todas as crianças façam as refeições ao mesmo tempo. pisos variados. Deve ser prevista uma área. sempre que possível. túneis etc. ainda. em regime de horário integral ou por turno.

com peitoril de acordo com a altura das crianças. logo imaginamos nos ambientes (prédios públicos e privados.Organização e conforto ambiental 208 • Que a área mínima de todas as salas. saboneteiras. de acordo com as condições climáticas regionais. entre outros mecanismos. para permitir a ventilação e a iluminação naturais. para crianças de zero a seis anos. passa também por transformações pessoais e atitudinais e de adaptações curriculares. de nossas escolas. porta-toalhas e cabides . os acessórios e os equipamentos . em todos os espaços utilizados pelas crianças. avisos luminosos para os surdos. escritórios. entre outros espaços) com acessos adaptados para as pessoas com deficiência – rampas para pessoas que usam cadeira de rodas.sejam colocados ao alcance delas para sua maior autonomia. confortável termicamente. garantindo visibilidade para o ambiente externo. • Que os interruptores tenham protetores contra descarga elétrica. 3 AMBIENTE ESCOLAR ACESSÍVEL E O PRINCÍPIO DA INCLUSÃO Quando se fala em acessibilidade.como maçanetas. de cores claras e alegres. • Que as janelas tenham abertura mínima de 1/5 da área do piso. • Que o berçário e as salas de atividades sejam voltados para o nascente. escolas. shoppings. de fácil conservação. bancos. • Que as paredes sejam revestidas com material de fácil limpeza e manutenção. lojas. Basta nos lembrarmos da arquitetura das cidades brasileiras e. a acessibilidade não se resume à questão arquitetônica.50 m² por criança atendida. Porém. torneiras. pias. Vivemos numa sociedade onde quase nada está acessível às pessoas com deficiência. . contemple 1. manutenção e limpeza. para garantir-lhes a segurança. universidades. • Que. considerando-se a importância da organização dos ambientes educativos e a qualidade do trabalho. principalmente. piso sinalizador para cegos. • que o piso seja liso (mas não escorregadio). quadros.

às características das pessoas. mas a acessibilidade é muito mais que isso. seriam as construções de rampas ao lado das escadas ou no lugar delas. de enxergar. recomenda-se que os produtos. necessariamente. na prática. e não. altas. sem que haja. gordas. os equipamentos e os meios de comunicação sejam projetados sob o ponto de vista da acessibilidade. mas a todas as pessoas que devem ser incluídas na sociedade da informação e do conhecimento. . e que beneficiem pessoas de todas as idades e capacidades. com dificuldades de se locomover.f. processo de conseguir a igualdade de oportunidades em todas as esferas da sociedade. significa oferecer oportunidades em igualdades para todas as esferas da vida. vemos que nenhum ser humano é igual ao outro. Significa possibilidade de acesso (ONU). considerando que as condições estão relacionadas ao ambiente. os ambientes. accessibilitate. Portanto. Ao caminhar pela rua. as áreas de lazer estão adequados e planejados para que todas as pessoas transitem e usufruam desses locais com autonomia e segurança? Quando nos referíamos à questão de acessibilidade das pessoas com deficiência. nos perguntamos: as ruas. porquanto há pessoas baixas. adaptações. os meios de transporte. idosas. tenham ou não alguma deficiência. 12 O termo acessibilidade vem do Lat. sejam elas deficientes ou não. qualidade de ser acessível que. o que. os prédios públicos e privados. que fica ao alcance”.Organização e conforto ambiental 209 • Discutindo acessibilidade Entendemos que a acessibilidade12 deve ser considerada em todos os níveis. dentre outras características. A Figura 1 mostra como as rampas podem ser utilizadas por qualquer pessoa. Para Gil (2006). Portanto. s. A construção de rampas é fundamental. comumente nos deparávamos com o termo “eliminação de barreiras arquitetônicas”. o que significa dizer que a possibilidade de acesso não deve se restringir a quem tenha alguma necessidade especial. significa “a que se pode chegar facilmente. uma vez que as necessidades humanas independem de suas limitações. por sua vez.

também. os deficientes).com>.Organização e conforto ambiental 210 Figura 1. arquitetônicos e pedagógicos necessários para que estejam adequadamente equipados. quando surgirem esses estudantes diferentes. Fonte: <http://www. A última revisão da norma que regulamenta todos os aspectos de acessibilidade no Brasil ocorreu em 2004. a inclusão social vem sendo amplamente discutida. Porém. para se considerar uma escola inclusiva. posto que. Nesse sentido. • Relembrando algumas questões sobre inclusão Desde 1990.Acessibilidade com a utilização de rampas. visto que não se refere a um grupo isolado ou à margem da sociedade (por exemplo. além de sua edificação. Deve-se priorizar. A defesa da acessibilidade vem.bengalalegal. é preciso que a política de acessibilidade entre os diversos setores governamentais seja estruturada. A partir de então. o sentido de acesso é muito mais abrangente. o trabalho de conscientização dos professores – principalmente aqueles que não têm estudantes com necessidades especiais em sala de aula – sobre as adaptações e os recursos físicos. também o entorno deverá estar adequado para que todos os estudantes tenham acesso à escola. aos . e uma das grandes metas a ser atingida é sensibilizar a sociedade para o direito de ir e vir das pessoas portadoras de necessidades especiais. algumas leis foram promulgadas. no sentido de garantir o acesso e a utilização dos espaços pelas pessoas com deficiência.

crianças. habilidades diferentes. também. a fim de que se sintam incluídas e adaptadas.. no qual projetos de produtos e ambientes contemplem toda a diversidade humana . o que. A independência é a capacidade de usufruir dos ambientes. Nesse sentido. manipulado e usado. 10). mas um [. independente de suas características pessoais. contemplando o conceito de Desenho Universal que. peso. pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida -. Em função disso. gestantes. um caminho para uma sociedade mais acessível. Para se chegar a uma sociedade inclusiva e atingir uma acessibilidade plena. Os produtos universais acomodam uma escala larga de preferências e de habilidades individuais ou sensoriais dos usuários.. A meta é que qualquer ambiente ou produto poderá ser alcançado. grosso modo. é imprescindível que qualquer objeto. desenho universal não é um desenho especial criado para pessoas com deficiência. principalmente nas construções de imóveis. enfim. responder às necessidades de cada um e oportunizar a participação e a aprendizagem das crianças.296. 2003). obesos. segundo sua vontade. 2011. anões.] processo de criar os produtos que são acessíveis para todas as pessoas. foi publicado o Decreto Federal nº 5. Um ambiente com acessibilidade atende. é fundamental. contenha o conceito de desenho universal. Autonomia é a capacidade do indivíduo de desfrutar dos espaços e dos elementos espontaneamente. idade. sem precisar de ajuda (PRADO. iguais para todos. • Apresentando uma escola acessível . que o ambiente escolar esteja adequado para receber as crianças com suas características físicas de tamanho. Uma escola acessível para todos deve assegurar o acolhimento dos aprendentes. certamente. em direção a um mundo acessível para todos. Portanto. naquele mesmo ano. o que os torna autônomos e independentes. significa “traços ou riscados que criam acessos para o universo”. quando os processos produtivos eram massificados. ou habilidades. independentemente do tamanho do corpo do indivíduo. a uma variedade de necessidades dos usuários. adultos altos e baixos. p. idosos. diferentemente. sua postura ou sua mobilidade (GABRILLI. haverá de melhorar a qualidade de aprendizagem e a qualidade de vida. Essa ideia de desenho apareceu depois da revolução industrial. ou espaço desenvolvido.Organização e conforto ambiental 211 poucos. mais humana e cidadã.

confortável e seguro. seja em relação ao aumento do número de matrículas. paulatinamente.Sala inclusiva Fonte: Alexandre Jubran e Luiz Iria. Revista Nova Escola. descrever os elementos mais importantes que compõem a sala de aula inclusiva: a) Materiais: os materiais que não podem faltar numa sala de aula devem estar distribuídos de forma que favoreçam a uma livre movimentação e estimulem as crianças a participarem efetivamente das atividades e da aprendizagem. seja em relação aos espaços e às instalações apropriadas. o que colabora para o aprendizado das crianças.Organização e conforto ambiental 212 É visto que. os materiais. à estante e ao mural. . e os professores. o piso. 2005. os gestores de escolas e o poder o público têm se esforçado para promover a aprendizagem dos aprendentes e construir (fazer) escolas cada vez mais acessíveis. a inclusão escolar tem sido discutida no meio educacional. Figura 2 . a parede. p. então. 56-57. a porta e as janelas de acordo com um ambiente acolhedor. Uma sala de aula com ambiente de características inclusivas (Figura 2) apresenta o mobiliário. o telhado. • Posição das mesas: as mesas bem posicionadas garantem a todos o acesso à mesa do professor. à lousa. Vamos. dez.

• Estante baixa: facilita o acesso das crianças e de pessoas com deficiência física aos materiais. b) Estrutura e acabamentos: o prédio da escola deve primar por instalações apropriadas e adequadas às crianças e a sua faixa etária. com acionamento independente para iluminar onde há menos luz. Fileiras de luminárias: devem ficar paralelas às janelas. Para quem tem baixa visão. a mesa preta ajuda na localização. Forro: reduz a passagem das ondas de calor em coberturas de laje ou de telha. Piso: antiderrapante. recados etc. Outra opção é a sombra das árvores.Organização e conforto ambiental 213 • Mesas e cadeiras: devem ser claras. claro e opaco. deixa a coluna reta ao se observar a classe. Paredes de madeira: essa opção pede uma placa intermediária. evitando acidentes de pessoas com deficiência visual. Aberturas: servem de escape para o ar que entra pela janela da parede oposta. . Deve ficar a 60cm do chão para que todos a utilizem. Persianas: evitam a luz direta e regulam a luminosidade do ambiente. • Mural: deve ficar onde as crianças possam vê-lo e utilizá-lo para expor fotos. Pintura: feita com cores claras nas paredes internas e externas. Toldo: ameniza o calor e a incidência de luz. revestida de alumínio para refletir o calor. bem como às suas necessidades e/ou limitações físicas e intelectuais. esquenta e sobe. • Lousa branca: dispensa o giz e evita alergias. devido à cerâmica e ao ar retido no seu interior. • • • • • • • • • • Paredes de tijolo: com isolamento térmico adequado. relaxa os olhos e reflete o calor. opacas e com quinas arredondadas. pois superfícies brilhantes causam ofuscamento. • Cadeira regulável (professor): giratória e com rodinhas. Faixa escura (rodapé): mostra os limites entre chão e parede.

1. Com base no que já vimos até aqui. Altura da mesa: é igual à do cotovelo. Porém. já tivemos interesse em observar se: • O piso escolhido evita acidentes? • Os móveis têm cantos arredondados? • As crianças com dificuldades de locomoção ou com deficiência física se locomovem com facilidade? A escola inclusiva e acessível a todos favorece o processo de ensino e aprendizagem dos educandos. e os joelhos devem ter angulação de 90º. precisamos de alguns recursos materiais para tornar as salas de aula cada vez mais inclusivas. diminui o nível de ruído e facilita a compreensão do que é dito. • • • • Encosto da cadeira: mantém a coluna da criança reta. Com lousa. Apoio dos pés: as pernas da criança não podem ficar suspensas. Assento: não pode ser muito comprido. para evitar que a criança encurve a coluna ao se apoiar no encosto. elementos básicos que não devem faltar numa sala de aula de educação infantil adequada e com empenho. mesas e cadeiras. poderemos transformar qualquer sala de aula num ambiente seguro. materiais didáticos. Afinal. Mesas baixas ou altas causam vícios de postura. professor e estudantes. . em angulação de 90º em relação às pernas. Postura correta: a imagem do canto superior esquerdo da Figura 3 mostra a postura correta de uma aprendente sentada numa cadeira em sala de aula e as posições e as dimensões adequadas da mesa e da cadeira.Organização e conforto ambiental 214 • Espuma (parede): absorve o som. Organizar uma sala de aula não é tão difícil. confortável e acessível para todas as crianças. para dar apoio aos braços. vamos refletir sobre como são as salas de aula das escolas públicas de nossas cidades.

Revista Nova Escola. em círculo ou em grupos. presos ao chão. Em qualquer das três formas de distribuição de mesas e cadeiras. dez. as crianças trabalham bem em duplas. • • • A Figura 2 mostra duas mesas juntas. conforme a situação. autonomia e cooperação e permitem a circulação dos que têm deficiência física. 58-59. ou duplas. p. Os três modelos propiciam interação. Organização das mesas: o desenho das formas de organizar ou distribuir as mesas em salas mostra como cada disposição favorece as atividades em sala. 2. A terceira maneira de organizar as mesas está distribuída em forma de X. A segunda maneira de distribuir as mesas é em círculo. pontos ou círculo). 3. cada um sinalizando uma situação específica. • Piso sinalizador: bloco emborrachado com um círculo: indica pontos em que a pessoa deve tomar a decisão sobre mudar ou não de direção. . Sinalização especial: essa sinalização é feita utilizando-se blocos de borracha ou cimento. distribuídas em fileiras de forma retangular. conforme a atividade.Organização e conforto ambiental 215 Figura 3 – Detalhes que favorecem o processo de ensino-aprendizagem Fonte: Alexandre Jubran e Luiz Iria. com desenhos diferentes (retas. 2005.

indicam a presença de obstáculos. Assim. pretas e sem serifa. sinalizam porta à frente. as empresas e o comércio cada vez mais admitem pessoas . É fato que as escolas. os índios e os ciganos. estamos vivendo um momento de conscientização e de sensibilização da sociedade frente às pessoas com deficiência. Apesar das diferenças que caracterizam os seres humanos. Piso alerta: blocos com vários pontinhos. O som se amplifica e fica incompreensível. com letras grandes.Organização e conforto ambiental 216 • • Piso guia: blocos com retas. que seja acessível a todos. Portas: as portas devem ser largas o suficiente para a passagem de cadeiras de rodas. Suas ranhuras orientam pessoas com deficiência visual. às idosas e a outros grupos considerados minoritários. é próprio da natureza humana. para se ter uma boa acústica. que retornam com pouca intensidade. A Figura 3 mostra duas formas de construção de paredes que podem favorecer ou não a passagem dos sons para o interior das salas: • Parede lisa: sem materiais de absorção. cor da pele e dos olhos. momentâneas ou permanentes. as ondas sonoras batem e voltam quase com a mesma intensidade. Boa acústica: sabemos que. 5. usando também braile e símbolos. Afinal. vivemos numa sociedade “construída” e planejada para a pessoal “normal” ou perfeita. • Parede com espuma: o material absorve as ondas sonoras. independentemente de suas necessidades especiais. é conveniente que as paredes das salas sejam reforçadas com material apropriado. na parte superior. deve haver uma pequena janela de vidro e placas de sinalização. como rampas e escadas. tivemos uma vasta noção de como deve ser planejada uma escola inclusiva. quando invertidos. além de apresentar uma diversificada forma de cultura e costumes. Embora ainda existam essas concepções de pessoa ideal. para evitar ruídos externos que possam interferir na boa comunicação dentro da sala. que devem ser brancas. evitando acidentes graves. assumir múltiplas características. Até aqui. para identificar o lugar (sala). os aprendentes compreendem a voz em tom ameno. 4. por exemplo. como altura. perfeita.

das empresas. por sua vez. São inúmeros os autores de relevância histórica. além das mudanças motoras. à educação. caro leitor. dos teatros. Ela usa seu corpo e seu movimento para interagir e se comunicar com o meio. das igrejas. essencialmente. priorizaremos o seu desenvolvimento neuromotor e sua relação com o meio ambiente.1 DESENVOLVIMENTO NEUROMOTOR DA CRIANÇA E CARACTERÍSTICAS DE APRENDIZAGEM Continuaremos a nos deter sobre a relação entre a organização do ambiente infantil e o desenvolvimento e a aprendizagem da criança. adequado e acessível a todos. sociais e emocionais. tenha adquirido os conhecimentos básicos fundamentais para utilizá-los no seu dia a dia.”. isto é. mostrando que esse segmento da sociedade. do mundo do trabalho.Organização e conforto ambiental 217 com deficiência. da informática. com suas características próprias. dos shoppings. Finalizando aqui. quer apresentem necessidades especiais ou não. dos cinemas. não só para quebrar preconceitos atitudinais. é necessário que os espaços das escolas. esperamos que você. entre outros. Envolve. é influenciada por todas as outras. para que tenhamos uma sociedade inclusiva. também. cujas teorias são reconhecidas. ou seja. Devemos ter em mente que o desenvolvimento humano é multifacetado. que estão em constante interação. à tecnologia. “o acesso aos bens sociais. também. APRENDIZAGEM E AMBIENTE 4. para sugerir e promover um ambiente planejado. ocorrem. ao trabalho. Porém. Aprenderemos que a motricidade da criança acontece em conformidade com o meio. sem distinção. O Quadro 5 . 4 AS RELAÇÕES ENTRE DESENVOLVIMENTO. A literatura sobre o desenvolvimento infantil é muito extensa. como professor. à saúde.. garantindo qualidade de vida para todos. também participa ativamente da sociedade de consumo. Um processo em que cada mudança influencia todas as outras e. durante a infância. numa relação de dependência um do outro. mas. O conceito de acessibilidade abrange muito mais que espaços físicos planejados e escolas acessíveis para os aprendentes com deficiência. Porém. sejam acessíveis. mudanças intelectuais. na sua prática. culturais e econômicos..

Para compreendermos o desenvolvimento motor. salienta a importância do outro . procurando mostrar quais são. que é influenciado pelo desenvolvimento motor. Piaget 1896 – 1980 Interacionismo Burrhus Skinner 1904 – 1990 Ambientalismo Quadro 5 . apenas aperfeiçoará o que já traz consigo”. na perspectiva da Psicologia. é que vão formando suas características. sobre aprendizagem e o desenvolvimento humano. mais que isso. sobre aprendizagem e o desenvolvimento humano. precisamos entender que o comportamento humano compreende os domínios: cognitivo. cognitivo e motor. na perspectiva da Psicologia. “A aprendizagem está subordinada ao desenvolvimento” “A criança nasce como um papel em branco. A aprendizagem passa a ter. “A interação entre o indivíduo e o meio (físico.e. Vygotsky Sociointeracionismo 1896 – 1934 Henri Wallon 1879 – 1962 Interacionismo Jean W. portanto. os vínculos entre cada um e suas implicações com o todo representado pela personalidade. que estão interagindo constantemente. é necessário que conheçamos esses domínios. e através de sua vivência e experiência no ambiente. o aprendizado não trará mudanças significativas. histórico e cultural) é que constrói as características do sujeito. Fonte: Bee (1986) Para compreendermos o desenvolvimento motor. mas. em seus domínios afetivo. nos diferentes momentos do desenvolvimento. pois eles afetam profundamente o comportamento motor e vice-versa. papel fundamental. então. “Interação dos dois fatores (indivíduo e meio) na construção do indivíduo. pois a criança desenvolvese à medida que aprende”.Pensamento de alguns estudiosos. As conexões entre todos esses domínios aprimoram o domínio motor e resultam diretamente no aprimoramento do desenvolvimento . afetivo. Estuda. Durante sua vida.Organização e conforto ambiental 218 mostra um resumo do pensamento de alguns estudiosos. do aprendizado nesse processo de apropriação dos conhecimentos e do mundo”. Jean Rousseau 1712 – 1778 Inatista Lev S. Aprendizagem X Desenvolvimento “A pessoa já nasce (é criada) com as características que a fazem única. aspectos esses fundamentais para a compreensão do desenvolvimento humano”. motor e físico. social.

o desenvolvimento motor da criança. significativa durante o curso que fez. 2007. mas não significa exatamente a mesma coisa.1. (motor). LARRY. então. quando um estudante diz: “eu realmente cresci durante o curso do último semestre”. educadores físicos e profissionais da educação infantil conheçam o desenvolvimento motor da criança. pode usar esses mesmos termos para justificar que houve uma mudança positiva. levando-se em conta a fase de desenvolvimento em que elas se encontram? Vamos. sendo por isso chamado de desenvolvimento neuropsicomotor (PUPO. Portanto. dessa forma. fisioterapeutas. ele pode estar querendo dizer que se ‘desenvolveu’ ou ‘amadureceu’. Desenvolvimento motor é definido como as mudanças que ocorrem em nossa capacidade de nos movimentarmos. mais especificamente. Os seres humanos passam por dois processos. Em relação ao seu desenvolvimento. do potencial genético e das interações dos três fatores em qualquer momento específico. 2002). 6). assim como em nosso movimento em . Com base nisso. que os acompanham pela vida: o crescimento e o desenvolvimento. é sobremaneira importante que os especialistas – pediatras. 4.Organização e conforto ambiental 219 intelectual e social. Abrange as dimensões psicológica. neurológica e motora. conhecer alguns conceitos de desenvolvimento humano e. São mudanças que todos os seres humanos enfrentam durante as várias fases de suas vidas. começaremos crescimento diferenciar fundamentais. Essas mudanças resultam do aumento da idade assim como das experiências dos indivíduos em suas vidas. Esse termo – maturação – é frequentemente empregado como sinônimo de crescimento. pois servem como base a partir da qual podemos elaborar adequadamente os programas educacionais para crianças. Por exemplo. que Tais envolvem o que definições o seja são desenvolvimento desenvolvimento humano. é importante compreender o sentido do termo maturação (amadurecimento). pode-se perguntar: por que devemos estudar o desenvolvimento motor? Como esse conhecimento nos ajudará a lidar com as crianças em sala de aula ou a conhecer melhor suas necessidades de aprender. por essas razões. o desenvolvimento é um processo interacional que resulta em mudanças no comportamento no transcorrer das várias fases da vida (PAYNE.1 Desenvolvimento É a capacidade de adquirir novas habilidades e de desenvolver tarefas cada vez mais complexas. Para melhor compreender as características por e maturação. Portanto. p.

O processo sequencial. 2). para o ajuste das habilidades que acompanham o envelhecimento (PAYNE. LARRY.Organização e conforto ambiental 220 geral. de acordo com a idade da criança. As Figuras 4 e 5 mostram sequências de aquisições motoras. desorganizado e desajeitado para a execução de habilidades motoras complexas e altamente organizadas e. finalmente. à medida que prosseguimos pelas diferentes fases da vida. 2007. . Trata-se de uma mudança de comportamento motor que reflete a interação do organismo que está amadurecendo com seu meio ambiente. contínuo e relacionado à idade pelo qual um indivíduo progride do movimento simples. p.

a fase em que fica de pé e anda com apoio e a em que anda sem ajuda. Figura 5 . como pegar objeto no chão. mostrando as habilidades mais complexas.2 Crescimento Pupo (2002) afirma que crescimento é o aumento do corpo físico por aumento das células.Etapas do desenvolvimento da criança de um ano e meio a cinco anos de idade. que mostram seu reflexo de marcha. em tamanho ou número. a firmeza da cabeça. O crescimento varia conforme o órgão ou tecido do organismo em estrutura.Etapas do desenvolvimento da criança de zero a um ano de idade.1. 4. Fonte: Bee (1986).Organização e conforto ambiental 221 Figura 4 . descer escadas e saltar com os pés. apoiar-se nas pontas dos pés. Começa com a fecundação e vai até o . Fonte: Bee (1986). equilibrar-se numa perna só.

Portanto..1.Organização e conforto ambiental 222 final da adolescência.3 Maturação São as alterações funcionais qualitativas que ocorrem com a idade.Crescimento e maturação como processos correlatos do desenvolvimento humano. que também ocorre. A Figura 7 mostra o processo de maturação do recémnascido. O comportamento do indivíduo é modificado subsequentemente como resultado dessas mudanças qualitativas. Fonte: A autora.” 4. Praticamente todas as partes anatômicas estão presentes desde o começo da segunda infância. à medida que o corpo cresce.. uma vez que o crescimento é um aspecto estrutural. em média. p. e a maturação lida com as modificações funcionais do desenvolvimento. paralelamente.. O peso de nascimento é de 3 kg. 6). Figura 6 . porém uma mudança qualitativa na função cerebral continua ocorrendo. LARRY. Um exemplo de maturação é a organização neurológica do cérebro durante a segunda infância. vamos entender como acontece a maturação do sistema nervoso e conhecer algumas características do desenvolvimento motor.. que esses aspectos estão entrelaçados porque. as funções são aprimoradas. mediante os conceitos de crescimento e de maturação. referem-se às mudanças organizacionais na função dos órgãos e tecidos. 2007. no sistema nervoso central: . A altura média de um recém-nascido de ‘tempo certo’ é de cerca de 50 cm. permitindo que as crianças alcancem níveis mais altos de capacidade cognitiva (PAYNE. Antes de descrever as etapas motoras da criança. podemos deduzir que o crescimento e a maturação são aspectos correlatos do processo de desenvolvimento humano. Percebe-se.

• Próximo-distal Dos pontos próximos do centro do corpo aos pontos próximos da periferia. é mais significativo nos membros superiores. observa-se. cotovelos. ou mais afastados do centro do corpo. começando pelos ombros. Gradualmente.Processo de maturação do sistema nervoso do recém-nascido Fonte: A autora. punho e dedos. ou seja. o quadril. do topo da cabeça para as extremidades. a marcha (anda). ou de cima para baixo. o braço do lactente é controlado pelos músculos responsáveis pela movimentação do ombro. O desenvolvimento. os membros superiores (braços). o . inicialmente. depois. os membros inferiores (pernas e pés) e. Exemplo: no bebê. em termos de movimento. Explicando: • Céfalo-caudal Trata-se do sentido do desenvolvimento que começa do ponto mais alto do corpo (cabeça) para sua parte inferior (os pés). por fim. também. em seguida. desenvolve primeiro o sustento cefálico (segura a cabeça). Exemplo: na preensão ou segurar (agarrar) objetos com as mãos. o tronco.Organização e conforto ambiental 223 Sentidos do desenvolvimento Figura 7 .

b) É contínuo. Sentido ventral para dorsal: ventral significa a parte anterior ou da frente do corpo. Além do sentido do amadurecimento do ser humano. ganha. amadurecendo uma etapa para. encerrando a progressão da função de preensão. cognitivos e afetivos ocorrem simultaneamente. Vimos. sobrevir outra. sobre os dedos. primeiro. desenhar. como os dos antebraços. das mãos e dos dedos. comer com colher. o controle muscular inicia-se pelo quadril (sentar). Por exemplo. Movimentos globais para movimentos finos: os movimentos globais ou amplos são os que se utilizam de grandes grupos musculares e de grandes articulações. a criança só é capaz de ficar sentada depois de segurar (equilibrar) a cabeça. f) Cada criança tem seu ritmo próprio de desenvolvimento. como mover objetos com a mão. os aspectos físicos. que. Nos membros inferiores. Os movimentos finos ou refinados são os governados pelos pequenos grupos musculares. tornozelos e pés (ficar de pé ou andar).Organização e conforto ambiental 224 domínio sobre o cotovelo. depois. para trás. pois todos os bebês passarão pela mesma sequência normal. e as diferenças individuais vão depender das influências ou dos estímulos que recebe. e não há acumulação de experiências. não existe demarcação entre um estágio e outro. então. os joelhos (ficar de joelho ou na posição de quatro) e. sim. para os lados e. permitindo maior exatidão dos movimentos. d) Cada etapa é pré-requisito para a seguinte. os músculos da coxa. costurar. Exemplo: quando a criança começa a se sentar. como percebemos. ele apresenta outras características também importantes. por último. que são essenciais para a produção de movimentos. e) Toda aquisição (de um movimento ou postura) implica reorganização. Vamos conhecer alguns delas: a) O desenvolvimento acontece de forma global. por fim. mas. que produzem um conjunto de movimentos como rastejar. depois. ou seja. por exemplo. o controle sobre punho e. a seguir. algumas peculiaridades que envolvem o processo do desenvolvimento humano. engatinhar e caminhar. equilíbrio para frente. dorsal é a parte de trás. depois. sentar. modificações para evoluir. gradativo. recebe influências da . Finalmente. c)É ordenado. datilografar ou tocar um instrumento musical.

O Quadro 6 mostra as principais evoluções motoras da criança de zero a seis anos de idade. desde o nascimento até a adolescência. Além disso. em desenvolvimento. Desenvolvimento motor nos primeiros anos de vida MESES PRINCIPAIS ATIVIDADES ATIVIDADES MOTORAS . para os pais e os professores. que são inerentes ao comportamento motor delas. É bom lembrar que as faixas de idade e as correspondentes aquisições motoras são estimativas. essa é a parte mais visível do desenvolvimento físico. com o objetivo de que a criança. passaremos a descrever os estágios ou fases mais importantes do desenvolvimento das crianças. no transcorrer de suas vidas. e identifiquemos problemas nas crianças cujas etapas de desenvolvimento não seguem normalmente – por exemplo. considerando as características de desenvolvimento de cada uma. o que trará muitos benefícios para a nossa saúde. em fase de escolarização. são etapas motoras esperadas para cada faixa etária. pois. do meio ambiente e da hereditariedade. quer dizer. quando não apresentam determinada habilidade motora compatível ou esperada para sua idade. para o trabalho e a vida social. com o meio ambiente que a cerca. sociais e emocionais nos permite compreender melhor a nós mesmos e ao mundo onde vivemos. Assim. o professor pode informar à família e buscar ajuda e orientação de outros profissionais. nos ajudará a aprimorar nosso desempenho em relação aos movimentos e às atitudes corporais. Para um entendimento mais detalhado de como isso ocorre. cognitivas e afetivas.Organização e conforto ambiental 225 maturação do sistema nervoso. compreender as mudanças motoras que experimentamos com a idade e as inerentes mudanças intelectuais. o que promove uma harmoniosa interação (e aprendizagem) da criança. a organização dos espaços e a distribuição de material nos ambientes de sala de aula e na escola. suas experiências. Não precisamos ser especialistas para perceber o desenvolvimento motor das crianças. Isso também nos dá subsídios para planejar e programar atividades motoras. Conhecer o desenvolvimento motor permite também que compreendamos a maneira como as pessoas desenvolvem normalmente suas habilidades motoras. Percebe-se que o desenvolvimento motor segue etapas ou estágios bem definidos desde o nascimento até a primeira infância. De posse desse conhecimento. desempenhe melhor suas habilidades físicas. do crescimento do organismo. educacionais de acordo com as fases das crianças.

Maturidade do esquema corporal e orientação espacial. Brinca com ursinho. alternando os pés. Rabisca com lápis. Membros em flexão. Come bolacha sozinha. Resposta anterior apropriada. Bom controle da cabeça. Tem reflexos primitivos menos proeminentes. Dá os primeiros passos. Aperta como uma “pinça”. da linguagem (códigos linguísticos). Alfabetização -->Escolaridade. levanta o queixo quando de bruços. Participa das AVDs. sozinha. Bebe no copo. Desenha mal a figura humana. Marcha seguramente. Senta-se com apoio. Levanta o tórax da cama. Rola sobre a barriga para as costas. Levanta-se sozinha. Engatinha. apoiando-se nos cotovelos. da sociabilidade. Pula quando está em pé.Organização e conforto ambiental 226 MOTORAS 1-2 Controle parcial da cabeça. Chuta bola. Maturação neurológica – “Prontidão” (a criança é considerada pronta para a aprendizagem). Controle vesical noturno. Abre porta. Parafuseia com as mãos. Entende o que se pede. 3-4 5-6 7-8 9-10 11-12 15-18 2-3 anos 4-5 anos 6 anos Quadro 6 . Alcança objetos. Mantém a cabeça ereta. Aperta as palmas das mãos. Caminha com pés separados para maior equilíbrio. Fica de pé. apoiando-se.Principais evoluções motoras da criança de zero a seis anos de idade Fonte: Bee (1986) Concluindo. A visão se desenvolve. Segura a mamadeira. Refinamento da motricidade global/fina: da fala (articulação). Abre as mãos. Come com colher. Transfere objetos de uma mão para a outra. vejamos ainda alguns conceitos que facilitam a compreensão desse assunto: . Mãos vão para a linha média do corpo. Reconhece números. Senta-se sem apoio. Persegue os brinquedos ao seu redor. Salta num pé. empurra a coberta. Salta com os dois pés. Atira e encaixa objetos. Sobe escadas. Sobe e desce escadas. Fica sobre um pé. Pula corda. Lateralidade definida. Bata palmas. Explora intencionalmente os objetos. REFINADAS Mãos fechadas. Agarra bola com uma mão. Faz figura humana.

atuando como processos prioritários e fundamentais para a aprendizagem.Organização e conforto ambiental 227 • • • • • • Reflexos: são reações automáticas desencadeadas por estímulos que provocam respostas motoras imaturas. considera que: O desenvolvimento ou a maturação são vistos como uma precondição do aprendizado. etnia e alimentação como fatores determinantes para o desenvolvimento da aprendizagem. O desenvolvimento motor caminha junto com o desenvolvimento das outras áreas (psicológica. Esse autor apresenta aspectos importantes de sua hipótese quando propõe que . agarrar ou apanhar. mas nunca como resultado dele. constrói e finaliza estímulos dos sentidos e inicia ações de um ser humano (ou outro animal). AVD: atividade de vida diária. 14). pois isso nos dá clareza da sua posição e entendimento sobre as concepções de desenvolvimento e aprendizado. • Hereditariedade: transmissão dos caracteres físicos ou morais de uma pessoa aos seus descendentes. Consideramos importante levantar as teorias de Vygotsky sobre aprendizagem. em termos de desenvolvimento neurológico. tendo como resposta os dedos em garra. Preensão: ato de segurar. p. Reflexo plantar: resposta ao toque na base dos dedos do pé. O aprendizado forma uma superestrutura sobre o desenvolvimento. afetiva. a teoria de Vygotsky (ENUMO et al. 4. cognitiva e emocional).2 INFLUÊNCIAS DO AMBIENTE ESCOLAR NA APRENDIZAGEM DAS CRIANÇAS São muitas as pesquisas sobre os efeitos das influências ambientais na aprendizagem das crianças. neurológica. Reflexos primitivos: são os reflexos mais imaturos. deixando este último essencialmente inalterado. 2003. Nesse sentido.. família. Por exemplo: alguns estudos abordam a questão da pobreza ou classe social. Sistema nervoso: responsável por monitorar e coordenar a atividade dos músculos e a movimentação dos órgãos.

sejam definidas e incorporadas metas para se alcançar uma “qualidade ambiental” do futuro edifício. conforto visual. E a criança. conforto térmico. com o ambiente (casa. 17). Uma vez internalizados. às condições do terreno.. utilização de materiais construtivos não poluentes e característicos da região. irmãos.. Dentre essas metas estão incluídos fatores como saúde e qualidade do ar interior. Até aqui procuramos levantar algumas questões que norteiam as condições do ambiente escolar e suas implicações na aprendizagem da criança. de outra forma.Organização e conforto ambiental 228 [. 2003. proteção ao meio ambiente. 2006c. às . [. referente aos Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil. Tais fatores evidenciam as várias características inerentes a cada um de nós. que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas (ENUMO et al. especificamente. 18). segurança. Desse ponto de vista. seriam impossíveis de acontecer. 17). escola) e com a sociedade em que vivem. eficiência energética. professores). aprendizado não é desenvolvimento. Considerando o que foi estudado até agora e tomando como base as teorias de Vygotsky. dependendo dos estímulos e das oportunidades que lhe são oferecidos. Assim. O conforto ambiental envolve aspectos relacionados à harmonia do espaço físico.. no que se refere à inter-relação entre aprendizado e desenvolvimento e sua afirmativa de que “o desenvolvimento se segue ao aprendizado” (idem.] o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento. esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança. o documento do MEC. podemos dizer que todo o processo que as crianças vivenciam decorre das relações conjuntas e sequenciadas dos estágios de desenvolvimento com elas próprias. com as pessoas que as cercam (pais. sua edificação. traz consigo infinitas possibilidades de desenvolvimento.. além da consideração do edifício como uma ferramenta de desenvolvimento das múltiplas dimensões humanas (BRASIL. o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que. eficiência dos recursos hídricos.] já na etapa de programação. às características do local. de interação com o meio e de aprendizagem. p. conforto acústico. Com o que vimos sobre os ambientes escolares infantis e levando-se em consideração as recomendações de órgãos governamentais sobre as construções dos edifícios destinados a Unidades de Educação Infantil.. determina que. entretanto. p.

“A vivência e a experiência nestes ambientes estarão impregnando a criança com impressões. pode não ser para uma pessoa especificamente. os recursos materiais. cada pessoa (ou criança) “percebe” o ambiente diferentemente. Apesar de os frequentes estudos na área de educação infantil abordarem os efeitos ambientais. conforto. reconhecimento e orientação. a sensibilidade da pele e a audição. 17). 2006c. 17). à ventilação e à insolação adequadas. o conforto ambiental [. pedagógicos e humanos sobre a aprendizagem das crianças e da existência de políticas educacionais. Assim. utilizando-se dos seus próprios sentidos: [. ou seja. p. segundo o referido documento do MEC.] passa pela valorização desse ambiente pela criança pequena. sentimentos e transformações determinantes de seu presente e futuro”. as condições de conforto podem ser particularizadas a cada ser humano. silêncio ou barulho. No âmbito da educação infantil. aconchego. em função de uma iluminação baixa ou um ar ambiente muito refrigerado. por exemplo. bem-estar. que os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para as Instituições de Educação Infantil (BRASIL. O mesmo ambiente pode ser confortável para um grupo de pessoas. atrelados à percepção cinestésica (movimento e direção) da visão e do tato. que.. os quais contêm concepções. visualmente feio ou bonito. . enriquecem a apreensão do caráter espacial e geométrico do mundo (BRASIL. 2006c.] o paladar. grande parte dos espaços destinados às creches e às escolas que atendem às crianças de zero a seis anos de idade não estão preparados para essa finalidade. ar puro ou ar poluído. entre outras) poderão interferir diretamente no processo educativo da criança. na medida em que a vivência na creche ou pré-escola traduza sentimentos como: segurança. No entanto. ao mesmo tempo. mas.Organização e conforto ambiental 229 instalações de iluminação. dando um caráter modificador do ambiente em seu desenvolvimento (BRASIL. reforma e adaptação dos espaços onde se realiza a Educação Infantil... cada indivíduo responde ou reage diferentemente às ações diversas do meio ambiente.. As sensações de conforto vivenciadas no ambiente de Educação Infantil (calor ou frio. o olfato. 2006c) apresentam. p.

jpg> A Figura 8 mostra uma edificação visivelmente sem planejamento ou estruturas que atendam às necessidades básicas para o pleno desenvolvimento das crianças. nas quais se exige atenção e que afetam a produtividade. provocando desequilíbrio hemodinâmico por causa da perda de água e de sal. Porém.br/imgNoticias /2009/Jun/19/GABPIZA_gd. A partir de então. Nas tarefas mais intelectuais.com. se não forem cumpridas as normas que preconizam o documento dos Parâmetros Básicos de Infraestrutura para as Instituições de Educação Infantil (BRASIL. Temperaturas elevadas trazem prejuízos para o homem e afetam sua saúde. desfavoravelmente. Fator térmico De acordo com Leucz (2001). que não atende às exigências da política educacional sobre a infraestrutura para instituições de educação infantil.Organização e conforto ambiental 230 Figura 8 . convulsões e até cãibras.Exemplo de edificação sem planejamento ou estruturas necessárias para atender às necessidade do desenvolvimento das crianças Fonte: <http://www. vamos levantar alguns aspectos do (não) conforto ambiental que podem contribuir. para o processo de educação das crianças. Também fazem aumentar a possibilidade de acidentes em tarefas. Podemos perceber que é um prédio “aproveitado”. 2006c).jornalspnorte. a influência é menos evidente. . pode-se constatar uma perda significativa da atenção quando o indivíduo se encontra submetido a uma temperatura acima do conforto térmico. distúrbios no sistema circulatório. as temperaturas do ambiente variam de acordo com a atividade desempenhada nele.

devemos observar os ruídos internos e externos que estão intimamente ligados à localização. Esses eventos ruidosos.] um equilíbrio hemodinâmico corporal bastante sensível. no trabalho ou nas atividades de entretenimento. Devemos levar em conta os efeitos dos ruídos dentro da própria escola e destacar o barulho emitido pelas crianças nessa fase escolar. a criança sofre os efeitos das variações de temperatura com muita intensidade. conseguem interferir na atividade humana. Elemento acústico Estudos comprovam as possíveis interferências dos ruídos e da poluição sonora na saúde física e psicológica dos seres humanos. quando das atividades de recreação. a poluição sonora externa pode ser uma constante. são elementos que poderão interferir na percepção e na compreensão adequadas dos sons e da fala e que vão influenciar na . Nas escolas infantis. O ruído intenso e ininterrupto causa tensão nervosa e reduz as resistências físicas do homem.. aos materiais de acabamento dos ambientes e suas organizações espaciais. há [. a irritabilidade exagerada (LOPES. dos professores em atividades. aliados à eventual disposição espacial do prédio e aos materiais de acabamento utilizados. Isto é. provocados por fatores internos e/ou externos à escola infantil. p. na escola. das indústrias ou de aglomerações de edifícios do entorno..d. AZEVEDO. inibindo a concentração mental. 3). s. Os autores acrescentam que os efeitos nocivos do ruído. uma vez que seu corpo pequeno perde a quantidade ideal de líquido com bastante facilidade. à organização espacial da edificação. pois há os ruídos do trânsito. 2006.. dentre outras fontes. pode-se dizer que essas variações bruscas em seu equilíbrio podem vir a provocar sensações de desagrado. Aliado a esse fato e. porquanto. p. Como fator físico de dano causado pelos ruídos está a perda da audição e. Portanto.Organização e conforto ambiental 231 Vivemos num país de clima tropical. são comuns temperatura e umidade elevadas na maior parte do ano. Em grande parte do território brasileiro. FREGONESI. seja em casa. dentre os efeitos psicológicos. do pátio. considerando que a maioria do público que frequenta as instituições de educação infantil é composta de crianças providas de grandes atividades físicas e pelo fato de serem ainda pequenas. insegurança e desafeto em relação ao ambiente vivenciado (BLOWER. e do ginásio de esportes. ruídos esporádicos de obras próximas. 5). provocam dificuldades de atenção e concentração e podem causar estresse nervoso e alteração do sono. A depender da localização da Instituição Infantil. à orientação do prédio.

refletimos sobre a relação da luminosidade ou quantidade de luz no desempenho de determinadas tarefas. a construção de um ambiente adequado ao desenvolvimento e ao aprendizado das crianças.. Sobre os aspectos do conforto ambiental na Educação Infantil e de acordo com Blower e Azevedo ([S. enfeites e gravuras penduradas nas paredes ou cores berrantes promovem uma estimulação visual excessiva.] estímulos com os quais o ouvido humano nunca se acostumará.. causar poluição visual. subsídios indispensáveis ao desenvolvimento intelectual da criança pequena. Porém as salas de atividades com excessos de ilustrações. A esse respeito.. os efeitos da temperatura sobre a saúde do ser humano provocam diferenças no desempenho das atividades físicas e cognitivas. como sirenes. do trânsito e de atividades públicas. 6). Blower e Azevedo (idem. p. [. constantes e frequentes. uma vez que permite a renovação do mesmo. menor ou maior. ao longo do seu desenvolvimento. 7-8) comentam o seguinte: Assim como no conforto térmico. s. Tais aspectos poderão favorecer. podendo levar a criança à distração. 7-8). a boa iluminação como aspecto fundamental para a promoção do bem-estar e do conforto ambiental. Alguns ruídos considerados poluição sonora são aqueles intensos. equipamentos de obras e atividades recreativas com aglomerações humanas (BLOWER. que possamos empreender na realização das atividades. além de reduzir os gastos energéticos. A ventilação pode estar presente de forma natural ou artificial (através de aparelhos de ventilação. exaustão ou refrigeração). ininterruptos.Organização e conforto ambiental 232 formação da criança. além de outros ruídos esporádicos. impedindo a apropriação do ambiente e consequente construção de apego ou de desprezo ao “lugar”. Portanto.d. e a importância das cores para o conforto do ambiente. p. o processo de ensino e aprendizagem. é a ventilação que vai contribuir para a melhoria da qualidade do ar.. consequentemente. AZEVEDO. Aspecto visual Na primeira seção deste capítulo.] é clara a importância do sentido da visão para a concentração nas atividades e na interatividade. Qualidade do ar O conforto e/ou desconforto térmico estão diretamente relacionados ao desgaste físico e mental. viu que a iluminação natural produz maior conforto visual. dificultando a identificação dos valores estéticos pessoais. ou não. como por exemplo: ruídos industriais. dificultar a criação de laços afetivos e.. [. Considerando a natureza .d] p.

a crianças em fase de desenvolvimento e de crescimento e que ainda trazem. criatividade. Os aspectos aqui discutidos levam a entender que o processo interativo entre o ambiente e o indivíduo é determinante para o processo educacional. subir e descer? . onde a criança se sinta segura para desenvolver suas habilidades nos aspectos psicomotor. correr. por ser mais leve que o ar frio e por não ter alternativa de escape. razão por que é importante uma abordagem multiprofissional na construção do conhecimento. cognitivo. Tomando por base os Parâmetros de Infraestrutura dos espaços infantis. com o qual a criança se identifique e que lhe garanta segurança.Organização e conforto ambiental 233 da edificação abordada. não renovado. afetivo e social. especificamente em relação à criança pequena. o de promover um ambiente adequado. que contribuam para o desenvolvimento da criança. lugar de interação. As crianças são mais vulneráveis e. desagradável e desaconselhado para a saúde. não só pela estatura. A falta de ventilação natural. sentarem no chão e caírem mais que os mais velhos (p. façamos uma reflexão sobre as seguintes indagações: a) Como uma criança desenvolverá sua coordenação motora ampla se não há espaços onde ela tenha a oportunidade de estar ao ar livre. pode-se dizer que os malefícios causados pelo ar viciado ou poluído são grandes e importantes. Considerando os aspectos estruturais e naturais aqui abordados. diferenças socioculturais e históricas que interferem na forma como a criança percebe o ambiente. pular. onde os aspectos emocionais. equilíbrio. principalmente nos espaços de educação infantil. aventuras e aprendizagem. Na fase de 0 a 6 anos. inevitavelmente. 8-9). Forma-se. são expostas a diferentes agentes poluidores. quase sempre. orientação e bem-estar. a ventilação natural é mais apropriada e benéfica ao conforto e à saúde da criança pequena. como também pelo fato de se arrastarem. o ar aquecido sobe. uma camada de ar quente. não só em relação à sua saúde física quanto à mental. são mais susceptíveis à poeira ao nível do solo. veremos que o espaço adequado é aquele que promove descobertas. como espaço físico coletivo. então. Nesse sentido. e que seja um espaço de aprendizado. é importante ressaltar que um ambiente de Educação Infantil tem características próprias. cognitivos. A partir do que já foi exposto. o papel da Educação Infantil é. Detendo-se nos aspectos da qualidade do ar. ou seja. com elas. durante o seu desenvolvimento. onde não há a circulação de ar por aberturas. que atende. afetivos e motores sejam vivenciados de forma desejável. viciado.

16). p. lugar de lazer). a forma como os materiais estão dispostos e organizados influenciam os processos de ensino e de aprendizagem e auxiliam a construção da autonomia. e os espaços a ela oferecidos (creche. além das relações com os pais. que estão diretamente relacionados com as aquisições e a evolução dos estágios de desenvolvimento global da criança. com características próprias e peculiares de desenvolvimento. conhecido e acolhedor. porquanto influenciam diretamente no .Organização e conforto ambiental 234 b) Como aprenderá sobre o meio ambiente. Vimos que os espaços deverão ser organizados de acordo com a faixa etária da criança. Portanto. Para bem desenvolver sua identidade. em todos os aspectos. Os espaços são concebidos como componentes ativos do processo educacional e neles estão refletidas as concepções de educação assumidas pelo educador e pela escola. A importância do espaço físico e da organização da escola é considerada no trabalho de Frison (2008. é fundamental que ela sinta-se protegida e esteja inserida em um universo estável. dentro de um ambiente acolhedor e prazeroso. estímulos recebidos (família. professores. para lhe proporcionar estímulos cognitivos e motores. simultaneamente. o meio físico onde a criança se encontra cresce e se desenvolve. conforto e bem-estar? 4.3 IDENTIFICANDO ESPAÇOS E RECURSOS HUMANOS QUE FAVORECEM A APRENDIZAGEM DAS CRIANÇAS Nas seções anteriores deste capítulo. parentes. são fundamentais. de forma dinâmica e com a participação de fatores como o meio ambiente (espaço físico). Porém. Vimos que a criança é um ser único. o que torna o espaço físico indispensável ao estabelecimento das relações das crianças com elas próprias. escola. da estabilidade e da segurança emocional da criança. com o outro e com o mundo. se sua visão de mundo está restrita a sua sala de aula? c)Como fará descobertas se não há espaço para investigar? d) Como entenderá o diferente/as diversidades se tudo o que vê é igual todos os dias? e) Como aprenderá se o ambiente em que está inserida não lhe oferece segurança. refletimos sobre desenvolvimento (especificamente o motor) da criança e a construção do espaço educacional favorável ao aprendizado. que afirma: A estruturação do espaço físico. hereditariedade. esse desenvolvimento acontece. escola).

social e motor. o espaço físico e o professor devem estar estruturados e organizados de forma a promover uma educação que atenda aos anseios e às necessidades das crianças. para que as crianças se sintam desafiadas e estimuladas a aprender nos aspectos cognitivo. interação com os pares e que se divirta. o Referencial Curricular para a Educação Infantil (1998. e à organização dos . O educador deve. pois respeita sua cultura.. saltar. correr. como alguém mais experiente. afetivas. a educação poderá auxiliar o desenvolvimento das capacidades de apropriação e conhecimento das potencialidades corporais. estar ciente de seu papel.] as crianças constroem o conhecimento a partir das interações que estabelecem com as outras pessoas e com o meio em que vivem. o calor do sol. conforme descrito nos Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL. p. brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal. 23) deixa claro que [. mas sim. de forma que possam andar. segundo. 39-40). ou seja. ainda.. o Referencial Curricular (idem. O conhecimento não se constitui em cópia da realidade. se os espaços da escola forem. aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. que também aprende e contribui para que o educando aprenda de forma mais lúdica. no entanto. o barulho da chuva. 1. significação e ressignificação. p. pelas crianças.Organização e conforto ambiental 235 seu desenvolvimento e aprendizagem. p. sua liberdade. subir e descer. emocionais. aprendendo.. Portanto. A esse respeito. a brisa do vento. portanto. respeito e confiança. organizados. 1998. um ambiente rico e variado onde também se estimulam os sentidos. desempenhar atividades que promovam o conhecimento e o controle do próprio corpo. no processo de ensino e aprendizagem. pois. enfim.] educar significa. certamente sua aprendizagem e seu desenvolvimento serão significativos. 2006a). dos cantos dos pássaros. e o acesso. estéticas e éticas. 21-22) comenta que [. Neste processo. identificando o cheiro das flores. na perspectiva de contribuir para a formação de crianças felizes e saudáveis. podemos dizer que a qualidade da aprendizagem e do desenvolvimento da criança de zero a seis anos fica condicionada à estruturação dos espaços físicos. É importante ressaltar que.. Sobre esse aspecto. o conhecimento do ambiente externo. de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação. fruto de um intenso trabalho de criação. o documento do Referencial Curricular para a Educação Infantil (BRASIL. individualidade. devidamente. vol. propiciar situações de cuidados. de alimentos sendo preparados.

o papel do educador é fundamental na distribuição e na seleção desses recursos. 171). estamparia. o colchão ou colchonete permite que elas possam ficar deitadas e engatinhar para deslocar-se livremente. jogos e brinquedos. Dependendo da idade das crianças. adornos). do supermercado (carrinhos. a tomada de decisões e a interação entre elas. cédulas de dinheiro). dobraduras. dispor de variados espaços com diversidade de materiais. p. A organização dos “cantinhos” na sala de aula influencia a qualidade pedagógica do trabalho. os recursos. emocionais. tecelagem. máquina de escrever. ainda. estimulam as crianças a optarem por espaços de sua preferência. as crianças e a aprendizagem. matemática. biblioteca. organizados por temas. realizado pela professora Lourdes Frison (2008. pois a convivência em grupo propicia o aprendizado de participação e cooperação decorrentes dessa interação. facilita encontros. imprensa. É também responsável por garantir um ambiente rico e prazeroso. calculadora). guaritas e placas de trânsito). No que diz respeito à organização dos materiais e dos objetos lúdicos e pedagógicos. de música e dança (diversos instrumentos se percussão e sopro). garante-lhes a possibilidade de pensar e demonstrar suas próprias convicções. mercadorias.Organização e conforto ambiental 236 recursos materiais. e isso aumenta sua capacidade criativa e imaginativa. Nesse sentido. É possível. de forma a propiciar situações de aprendizagem que articulem os recursos às capacidades afetivas. sociais e cognitivas de cada criança. quando bem organizado e estruturado. que cada espaço. perucas. Os cantos. pois. estimula trocas entre as crianças. do cabeleireiro (espelho. brinquedos e instrumentos. “As atividades podem ser concretizadas através de oficinas de integração. de . Constatou-se também que as atividades coletivas são igualmente importantes para o desenvolvimento relacional. do escritório de trabalho (com telefone. e isso promove a autonomia. experiências. fantasia. o trabalho de pesquisa sobre organização de tempo e de espaço na Educação Infantil. deve ampliar as descobertas e as ações de cada criança. dos objetos variados e acessíveis e de profissionais qualificados e experientes que atuam como mediadores dessa relação que envolve o ambiente. instiga a criança a explorar e a manipular os objetos disponíveis. A pesquisa identificou. considerando essas atividades como um meio de organizar o processo de conhecimento e de trocas de saberes. pinturas. revelou: A organização do espaço através de temas caracterizadores tem sido uma prática bem sucedida em algumas escolas. Para isso. Pode-se constituir o canto da garagem (com carrinhos. Tendo-se plena consciência de que se trata de uma lista com muitas escolhas. pode-se pensar em organizar “cantos”: casa de bonecas.

na Educação Infantil. assim como a diversidade de hábitos. 4. por meio de intervenção direta do professor. valores.. O professor. que o papel do professor. costumes. como estratégia do professor.] o professor deve conhecer e considerar as singularidades das crianças de diferentes idades. etnias etc. tem a função de mediador da aprendizagem das crianças. 2008.. Portanto é imprescindível que haja riqueza e diversidade nas brincadeiras e nas estratégias de aprendizagem oferecidas pelas instituições. o Referencial Curricular para a Educação Infantil (BRASIL. crenças. A proposta pedagógica. deve.Organização e conforto ambiental 237 brincadeiras livres ou dirigidas. é peça essencial para a parceria da construção do processo de ensino e aprendizagem das crianças em situações de interação social ou atividades individuais. como adulto e profissional qualificado. precisa ser pensada em parceria com as crianças.4 O EDUCADOR COMO ELEMENTO FAVORÁVEL DA APRENDIZAGEM O educador. p. p. em conjunto com a equipe de educação infantil. emocionais. das crianças com as quais trabalha respeitando suas diferenças e ampliando suas pautas de socialização. escutar as crianças na elaboração das atividades. ainda. de unidades didáticas ou de atividades para reforçar a aprendizagem concreta” (FRISON. Em sua pesquisa. levando-se sempre em consideração que o meio físico é um fator determinante para estimular e motivar a aprendizagem. com o objetivo de construir o conhecimento. dizer do que gostam ou o que não querem fazer. Sua organização. 30) recomenda que [. 172). passa a constituir-se como recurso. sociais e cognitivas de cada criança aos seus conhecimentos prévios e aos conteúdos referentes aos diferentes campos de conhecimento humano. organizando e propiciando espaços e situações de aprendizagens que articulem os recursos e capacidades afetivas. Para isso. na Instituição Infantil. Utilizando-se de brincadeiras organizadas e dirigidas. p. permitindo que elas aprendam a refletir. também. 1998. . ao tornar-se parte integrante do planejamento. Frison (2008. tomar decisões. o professor é mediador entre as crianças e os objetos de conhecimento. O documento do MEC estabelece. 172) evidencia que: O espaço físico é um elemento importante: quando estruturado oportuniza aprendizagens e interações entre as crianças. Nessa perspectiva. tem função primordial no planejamento das atividades.

pois trabalham – de forma lúdica – conceitos. cuja função é propiciar e garantir um ambiente rico.Organização e conforto ambiental 238 Na instituição de educação infantil o professor constitui-se. vocabulário. Enfim. Atividades gráficas. dramatizações. para que os objetivos sejam alcançados. colagem. 1998. da criatividade. apresentamos algumas atividades e seus respectivos objetivos: Artes-plásticas. prazeroso. educador e professor devem conhecer e considerar as singularidades das crianças de diferentes idades. já que aprendem por meio de uma construção interna. que as crianças já detenham sobre o assunto. p. p. ao relacionar suas ideias com as novas informações de que dispõem e com as interações que estabelecem. 30). d) O grau de desafio que as atividades apresentam e o fato de que devam ser significativas e apresentadas de maneira integrada para as crianças e o mais próximo possível das práticas sociais reais. Tais aspectos da aprendizagem. histórias infantis. tendo em vista os seguintes aspectos: a) A interação com crianças da mesma idade e de idades diferentes em situações diversas como fator de promoção da aprendizagem e do desenvolvimento e da capacidade de relacionar-se. No Quadro 7. c)A individualidade e a diversidade. em que podem ser estimulados desenhos. valores. no parceiro mais experiente. 1998. saudável e não discriminatório de experiências educativas e sociais variadas (BRASIL. por excelência. assim como a diversidade de hábitos. aliados às atividades planejadas para a sala de aula e o espaço físico externo a ela. que auxiliam o desenvolvimento da linguagem. devem ser explorados ao máximo. 30). e) A resolução de problemas como forma de aprendizagem. Nesse sentido. crenças e etnias. é imprescindível que o professor considere o Referencial Curricular para a Educação Infantil (BRASIL. costumes. . portanto. b) Os conhecimentos prévios de qualquer natureza.

escorregadores. seguros. sem elementos que provoquem risco. confortáveis. pneus. como misturar. garrafas. dentro de um ambiente que favoreça o bem-estar. pedrinhas. na perspectiva de aprender com diversão e alegria. com o objetivo de desenvolver integralmente a criança. areia. areia e água estimulam para a realização de um trabalho mais espontâneo e deixam a criança mais tranquila. gangorras.Organização e conforto ambiental 239 pinturas. conforto. a criança compreende conceitos de quantidade. Ao lidar com água. terra. No espaço externo. alimentação e o sono da criança. cognitivo e afetivo. realiza atividades que exigem motricidade fina. Quadro 7. cama elástica. agradáveis. Os espaços em que a criança habita precisam ser cuidadosamente limpos. remover. Atividades livres e espontâneas estimulam a criança a desenvolver habilidades e competências. é preciso haver balanços. buscando construir conhecimentos com autonomia. 5 CONDIÇÕES AMBIENTAIS E PEDAGÓGICAS DO PROFESSOR DE CRECHE E DE PRÉ-ESCOLA . temperatura. conhece as propriedades de flutuação e de resistência. volume. por isso. piscina de bolinhas. O professor tem um papel fundamental nesse processo.Atividades planejadas para a sala de aula e o espaço físico externo a ela Fonte: Payne. limpeza. deixá-la atuar livremente é de suma importância. pois é ele quem planeja e organiza as atividades e os espaços. tampinhas e copinhos. que estimule a criança a interagir com o outro e com o ambiente. encher e esvaziar. Ambientes com flores. que promovem o desenvolvimento cognitivo. uma vez que desenvolvem as potencialidades e promovem novas habilidades nos aspectos motor. motor e social. Larry (2007) Sabemos quão importantes são a organização do espaço e o planejamento pedagógico das atividades em Educação Infantil para o desenvolvimento global da criança. A criança necessita fazer investidas pessoais sobre o ambiente físico. É essencial adequar e organizar o espaço de forma a atender às necessidades de higiene. peso.

o que torna o ambiente fator determinante para o ideal de aprendizagem e desempenho escolar das crianças. intelectual. O reconhecimento e a importância dados à Educação Infantil. 11). percebemos que a trajetória do professor de educação infantil vem.Organização e conforto ambiental 240 Nesta última parte. admitindo-se. como formação mínima. seja ele professor de creche ou de pré-escola. deverá ser realizada em “nível superior. experimentando mudanças pedagógicas. numa perspectiva do cuidar e educar. Abordaremos os recursos humanos e materiais que o professor de Educação Infantil tem disponível no ambiente escolar para poder realizar. de forma satisfatória. cognitivo. na modalidade Normal” (BRASIL. em função das transformações sociais e das mudanças de concepções acerca de criança/infância e de educação infantil que vêm ocorrendo ao longo do tempo. recursos materiais e humanos voltados para o trabalho de cuidar e educar. está inserido nas atuais concepções de Educação Infantil. Historicamente. vem se exigindo muito do profissional de educação infantil. segundo o art. que passa a exigir do professor [. a partir da LDB em vigor. cuja proposta procura atender às necessidades de desenvolvimento das crianças nessa faixa etária. as instituições de Educação Infantil têm função importante no sentido de oferecer condições físicas. compromissados com o desenvolvimento integral da criança nos aspectos afetivo.] um patamar de habilitação derivado das responsabilidades sociais e educativas que se espera dele. Assim. em relação à sua formação e atuação. Nesse sentido. Nessa perspectiva. evidenciaram a valorização do papel do profissional que atua com crianças de zero a seis anos de idade. cujo trabalho pedagógico adquire reconhecimento no âmbito do sistema educacional. cada vez mais. no Brasil. a formação de docentes para atuar na Educação Infantil. o ambiente educacional. como um todo.. a forma como crianças e professores se sentem e se dispõem a realizar .. Portanto. direcionaremos nosso ponto de vista para a formação do educador como professor de creche e pré-escola. a sua função de educador de crianças. 1998. motor e social. Dessa maneira. p. visando atender às propostas de Política de Formação do Profissional de Educação Infantil exigidas pelas novas tendências pedagógicas que caracterizam o atendimento à Educação Infantil. 62 da LDB. a oferecida em nível médio.

bp. proporcionando pouco estímulo ou desprazer para o trabalho. cria uma imagem de desconforto ambiental.blogspot. interior do Pará Fonte: <http://2. também. se o ambiente de trabalho como a creche. móveis estragados. tanto quanto os estudantes. precária iluminação e ventilação.Escola do município de Senador José Porfírio. qual será o nível de aprendizagem dos estudantes e de satisfação do professor ao trabalhar num ambiente desprovido de qualquer infraestrutura e sem recursos materiais e humanos? Existe alguma dúvida de que o ambiente escolar é determinante para o bom desempenho de crianças e professores? O que dizer de uma “escola infantil” que nem nome tem? Figura 9. Entretanto. que deve ser planejado de forma a atender às necessidades físicas e cognitivas desses indivíduos.JPG>. problemas de instalações elétricas. precisam de ambientes acolhedores e adequados para desempenhar suas atividades didático-pedagógicas e para dar o melhor de si. Os professores. por exemplo.Organização e conforto ambiental 241 as tarefas é determinada pelo ambiente. um clima amistoso e favorável. janelas e portas que mal abrem (ou fecham). tem uma estrutura física que apresenta paredes sujas e arrebentadas. nele deve haver.com/_Sm1BW7uDHWQ/SS_YmnQKLjI/ AAAAAAAAACo/9OP7ENoMCOw/s400/escola+sem+nome+2. para que as relações de trabalho aconteçam de maneira que as pessoas envolvidas . Se imaginarmos uma escola nas condições da “construção” mostrada na Figura 9 – o que não é difícil de encontrar –. Se o ambiente de trabalho é determinante para o bom desempenho profissional.

a educação infantil vem se configurando como um espaço destinado ao acolhimento e ao desenvolvimento de atividades próprias dessa faixa etária.Organização e conforto ambiental 242 (crianças. Como vimos. 2010. as instituições infantis e o profissional que vai lidar diretamente com as crianças deverão conhecer suas necessidades. o que resulta em reações psicomotoras e sociais favoráveis. Todos têm de saber que só se cuida educando e só se educa cuidando” (MIGUEL. à higiene e à alimentação. porquanto é nessa fase da vida. 5) resume assim as necessidades das crianças de zero a três anos: De zero a um ano: precisam de: . em relação a esse aspecto. que elas mais precisam de estímulos sensoriais e motores. com atendimento de qualidade e respeitando os seus direitos fundamentais. com adultos. mediante transformações sociais. e de interagir com o meio. gestores etc. 6). Portanto. Assim. de acordo com a faixa de idade correspondente. com outras crianças e com objetos. no que diz respeito à saúde. com características educacionais. Miguel (2010. Isso só será possível mediante a existência de condições e recursos materiais e humanos voltados para o cuidado e a educação desse público. 2006b). A proposta das creches de cuidarem de crianças e educá-las deverá oferecer um cenário educacional de forma a atender às necessidades das crianças de zero a três anos. além desses cuidados. sugere o atendimento baseado no predomínio dos cuidados. Assim. “Cuidar e educar são ações intrínsecas e de responsabilidade da família. e profissionais qualificados para o desempenho das funções de educar e cuidar. p. os estudiosos caracterizaram alguns aspectos do desenvolvimento infantil. tendo como referência a Política Nacional de Educação Infantil (BRASIL. p. ao longo da história educacional. considerando a faixa etária em que se encontram.) se sintam bem e não haja relações desgastantes e sentimentos ruins. dos professores e dos médicos. que. professores. inerentes ao seu pleno desenvolvimento. demonstrando a importância da função de pais e educadores nessa etapa decisiva da vida das crianças. o papel das instituições infantis (creches e pré-escolas) é de educar e cuidar das crianças. Para isso. o compromisso das instituições é de promover o desenvolvimento integral dessas crianças.

no entanto. ainda percebemos certa fragmentação das ações do cuidar/educar. pois. cheirar e provar. • Oportunidades diárias para brincar com uma variedade de objetos. Portanto. o direito e a capacidade da criança se desenvolver em sua plenitude. para que se tenha uma educação infantil de qualidade. deve ser visto muito mais além do simples aspecto do cuidar. é preciso formar as pessoas envolvidas na área. 2006a) que. • Adultos com os quais desenvolvam apego. • Oportunidades para começar a aprender a cuidar de si própria. • Ajuda para aprender a controlar seu próprio comportamento. E isso é preocupante. têm papel fundamental no desempenho das atividades de crianças e professores. das questões relativas à infraestrutura. • Coisas para olhar. . na prática. • Oportunidades para explorar o mundo. de linguagem e pensamento. escutar. como vimos. De um a três anos: precisam de todas as condições acima e de: • Apoio na aquisição de novas habilidades motoras. de mudanças internas. como as descritas nos Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL.Organização e conforto ambiental 243 • Proteção para perigos físicos. Ao poder público compete a articulação de políticas públicas de atendimento à infância que respeite os direitos fundamentais das crianças e encaminhe os profissionais para a formação adequada. também. • Estimulação adequada para o desenvolvimento da linguagem. No entanto. sobretudo. tocar. o atendimento assistencialista desempenhado nas creches. alimentação e sono. que se mostram dinâmicas e estão em constante evolução. É imprescindível conhecer o processo histórico das instituições educacionais infantis. em que se priorizam os cuidados básicos de higiene. Devemos nos lembrar. • Oportunidade para desenvolver alguma independência. também. • Cuidados de saúde adequados. • Adultos que entendam e respondam aos seus sinais. Ressalta-se. que não bastam as mudanças formais para se unificar o atendimento educacional em nível de creche e pré-escola. por meio das quais se valorizem a formação profissional e. mas. e passar a ser fundamentado. de concepção de atendimento e de políticas de atendimento.

peso etc. que deve enriquecer o desenvolvimento infantil por meio de brincadeiras. As crianças passam por etapas/evoluções psicomotoras que são fundamentais para seu desenvolvimento. Portanto. altura. criatividade e está em constante desenvolvimento. no aspecto de educar. 5. espaços. o ambiente e suas diversas características.Organização e conforto ambiental 244 também.1 CONDIÇÕES AMBIENTAIS E PEDAGÓGICAS DO PROFESSOR DE PRÉESCOLA Continuando o percurso pelos espaços e recursos que cercam os ambientes de creches e pré-escolas. cores. está intimamente relacionado ao ambiente em que vive e aos estímulos necessários oferecidos a ela. É. amor de todos os responsáveis pelo processo. onde ela aprenderá a manter relações com outras pessoas. para seu pleno desenvolvimento. interesses e aprendizagens. No entanto. no sentido de motivar e despertar. dedicação. também. texturas. Portanto. cumplicidade e. O “percurso motor” que a criança de zero a seis anos precisa percorrer. a fim de que eles possam se expressar e interagir com o meio e com seus pares. cooperação. tamanhos. capacidades. antes. o que constitui o principio básico da educação infantil para crianças de zero a seis anos de idade. nas crianças. Mas. É na interação com o meio que a criança irá aprender e conhecer a si própria. principalmente. dentre elas: formas. vamos refletir um pouco sobre as diferenças ambientais e pedagógicas entre a creche e a pré-escola. Vimos que o trabalho nas creches se caracterizava pelo modelo assistencialista de cuidar da higiene e da saúde das crianças. pois a criança é um ser rico em conhecimento. conforme mostra a trajetória histórica da educação infantil. jogos e atividades dirigidas. veremos as condições dos ambientes de pré-escola e os recursos adequados para o bom desempenho do professor. dimensões. as creches e as pré-escolas devem estar devidamente estruturadas e organizadas. de modo que possam favorecer adequada exploração física aos pequenos. um educador comprometido com a pedagogia da infância é fundamental nesse processo. cujo processo envolve estudo. cultura. crescimento e aprendizagem. . a função das instituições de educação infantil nada mais é do que realizar uma prática em que as duas ações (cuidar e educar) estejam interligadas e associadas.

aprimorar e ampliar suas habilidades motoras. da pré-escola. ambientes adequados e acessíveis para atender às diversas características de desenvolvimento individual e de aprendizagem de cada criança. o pensar. então. 5): • oportunidades para desenvolver habilidades motoras finas. a partir de três a quatro anos de idade. compartilhar. a ser o agente indispensável no contexto da educação infantil. a partir dos três anos de idade. O professor passa. a educação infantil. da leitura e do canto. Isso significa que a criança. ampla e fina. a escola precisa estar equipada com recursos e materiais pedagógicos.Organização e conforto ambiental 245 Assim. as crianças necessitam de condições de desenvolvimento que requerem uma gama de experiências. onde ocorram as práticas de preparação da criança para a aprendizagem formal. dando a ela a possibilidade de desenvolver a criatividade. ou seja. . a autonomia e a segurança para. ajudar. através da fala. Isso contribui para a formação de um indivíduo pleno. seu futuro ingresso no ensino fundamental. a continuação do resumo das necessidades das crianças. vem assumindo o papel de construir um espaço educacional apropriado. além de outras necessidades já indicadas. ao longo do tempo. A seguir. • oportunidades para aprender a cooperar. cabendo à pré-escola desenvolver essa função. Tendo em vista as necessidades das crianças de três a seis anos de idade. por meio. • • encorajamento para exercitar a linguagem. sejam elas motoras. físicas ou pessoais. seria preparada para o ensino fundamental. principalmente. além de profissional qualificado. também. agora na faixa de três a seis anos. segundo Miguel (2010. compromissado com a sua prática. e suas relações humanas. atividades que desenvolvam um senso de competência positivo. • experimentação com habilidades de escrita e de leitura. dentro do espaço da pré-escola. espaços e recursos que lhes deem a oportunidade de aprender. p. Portanto. saudável e inserido em seu meio social. porquanto sua formação e suas competências são condições básicas para contribuir com o processo de aquisição do desenvolvimento individual da criança.

). por exemplo. pular. à jornada de trabalho. saltar. ou seja. os jogos e as atividades ao ar livre. subir. sejam mantidas para que a criança aprimore e consolide suas habilidades motoras e suas interações corpo/meio/pessoas. no parque. que aponta as diferenças de funções dos “profissionais” que atuam em creches e pré-escolas. O Quadro 8 mostra o que ainda se constata na realidade. CRECHE Período integral PRÉ-ESCOLA Período parcial Seleciona a demanda (renda familiar e Não há seleção (priorizam-se os mais mãe trabalhar fora) velhos) Funciona entre 11 a 12 meses ao ano Acompanha o calendário escolar escolar Fazem-se atividades de cuidado (ligadas As atividades são de cunho ao corpo) (geralmente em sala de aula) Promove mais interação com a família MONITOR Leigo Jornada de até 40h semanais Não tem plano de carreira Salário menor Menor status Trabalha 11 meses/ano Habilitado Jornada de 20h semanais Em geral. Trata-se de uma síntese das diferenças institucionais e dos profissionais que atuam em creches e pré-escolas. desenhar etc. à remuneração. em relação às atividades desenvolvidas. tem plano de carreira Salário maior Maior status Segue o calendário escolar Interage menos com a família PROFESSOR Trabalho ligado ao corpo (cuida-se dos Trabalho ligado à mente (escolariza os pequenos) maiores) Quadro 8 . rabiscar. à .Diferenças institucionais e dos profissionais que atuam em creches e préescolas Fonte: Machado (2007) Partindo dessa realidade. pegar. à formação profissional. a criança já tem passado por algumas etapas motoras básicas (andar. correr. revelando que muito caminho ainda se tem a percorrer para que haja a consolidação e a integração das ações de cuidar e educar no sistema de ensino infantil. por isso é importante que as brincadeiras. descer.Organização e conforto ambiental 246 Na pré-escola. já conhece mais o seu corpo e suas possibilidades de movimento e apresenta desenvoltura para se comunicar.

enfim. os investimentos e o compromisso do governo com essa população infantil são imprescindíveis. no entanto. como será que o professor do ensino infantil se sente diante dessa situação? O seu desempenho nas atividades como educador fica ameaçado? Seguindo nessa direção.planetaeducacao. que estejam em bom estado de conservação física. ele precisa conhecê-las e ter as condições básicas de trabalho para desempenhar sua função de educador. é necessário que elas sejam limpas. As pré-escolas e creches não precisam ser sofisticadas. que tenham os recursos necessários para o trabalho dos educadores e funcionários e que sejam de fácil acesso (MACHADO. Figura 10 . em que de pouco se precisa para realizar o trabalho de educar e cuidar de crianças sem precisar de grandes e sofisticadas construções. em muitos casos. algum investimento bastaria para construir uma estrutura adequada para atender às necessidades das crianças.com.br/portal/imagens/artigos/ editorial/05-05-23_03. planejar e construir ambientes organizados e acessíveis em creches e pré-escolas são ações essenciais que contribuem para o desenvolvimento profissional e favorecem para que haja uma prática em que não basta o educador gostar de crianças. ao ambiente de trabalho.Edificação de escola infantil Fonte: <http://www. . 2007). a todos os parâmetros que regem a educação infantil.Organização e conforto ambiental 247 habilitação para função. porém. A Figura 10 representa um bom exemplo de uma realidade de pré-escola brasileira.jpg>. artigo 1. promover maiores investimentos na formação do educador. Para tanto. à interação com as famílias.

onde as relações humanas sejam baseadas no profissionalismo. no coleguismo e na ética. na exploração e na ampliação das habilidades físicas/motoras das crianças com as quais trabalha. com base nesse conhecimento sobre o desenvolvimento humano e nas necessidades motoras inerentes às crianças de zero a seis anos de idade. para que possam ocorrer a exploração. de acordo com a idade em que a criança se encontra. a fim de promover contatos com pessoas e objetos. Assim. aprender a organizar seu material.Organização e conforto ambiental 248 As atividades realizadas pelas crianças da pré-escola requerem do educador conhecimentos e competências para organizar os espaços físicos e materiais. pensamentos e frustrações. as crianças também devem se sentir confortáveis e estimuladas. . Os professores deverão ter condições satisfatórias e tempo para discutir e planejar suas atividades. Nos ambientes da pré-escola. de forma a prepará-las para o futuro aprender (alfabetização). Os professores devem ter sua sala ou ambiente de trabalho. oferecendo-lhe apoio e orientação pedagógica sempre que necessário. onde possam elaborar suas atividades pedagógicas com entusiasmo e conforto. aconchegante e organizado. o aprendizado e as trocas de saberes e afetos entre adultos e crianças. assim como os professores. O ambiente do professor deve ser um lugar de trabalho agradável. também. terão maiores condições de fazer com que os profissionais se sintam satisfeitos e realizados profissional e pessoalmente. Portanto. onde os espaços sejam apropriados para que crianças e educadores realizem suas atividades com tranquilidade e conforto. trocar ideias com os colegas. Os espaços das escolas deverão ser organizados de maneira que crianças e educadores possam ter fácil acesso a eles. as creches e as pré-escolas. Nesse sentido. a política de trabalho da pré-escola deve contemplar uma prática baseada na humanização e no respeito ao profissional. com os materiais necessários e suficientes para realizar as atividades que planejam. Como já visto. e precisam de espaços onde possam aprender brincando. sejam estes amplos e/ou mais finos (refinados). as escolas infantis terão de oferecer espaços adequados para que o educador possa desenvolver seu plano pedagógico baseado. compartilhar experiências. num ambiente harmonioso e acolhedor. o conhecimento na área de desenvolvimento motor servirá de base para a elaboração das atividades que trabalham os movimentos corporais globais.

atividadesdatiaangelica. e de coordenação.com>. reflitamos: Como a criança adquire essa habilidade? Vamos entender como isso acontece: A fase do engatinhar (mãos e joelhos no chão). para um simples movimento de levantar um braço (ou os dois) para alcançar o cabide. por exemplo. para realizar uma atividade simples de lavar as mãos e enxugá-las (Figura 12). que. perna esquerda e vice-versa) de braços e pernas para movimentar-se engatinhando. pegar objetos do chão. quando se desloca e precisa fazer movimentos amplos e coordenados (movimentos cruzados: braço direito. desenhar etc. quais habilidades motoras imaginamos que uma criança precisa ter? Por quais etapas ou fases do desenvolvimento motor ela precisa passar (experimentar) para atingir um nível de comportamento motor que lhe . como: pendurar uma mochila. Vejamos.blogspot. agora. pois ela precisa dessas forças para sustentar o peso de seu corpo. lhe dá a base de força e coordenação de que precisa para realizar movimentos mais elaborados e voluntários. por muitos anos. Agora. proporciona-lhe força nos braços e nas pernas. Observemos a Figura 11.Organização e conforto ambiental 249 Figura 11 . Esse movimento ou exercício que a criança aprende e repete. que a criança adquire na faixa dos sete aos dez meses de idade.Cabides de organização para objetos individuais Fonte: <http://www. é necessário que a criança tenha força e coordenação suficientes. Poderíamos identificar quais habilidades motoras ou movimentos físicos as crianças estão desenvolvendo para pendurar suas mochilas e casacos nos cabides? Imaginemos.

que lhe dão a possibilidade de dobrar e esticar os braços e mantê-los numa determinada posição e permita realizar essa e outras atividades. quando segura a mamadeira para se alimentar.buscasulfluminense. mas também. saberemos que a criança precisa passar por todas as etapas de seu desenvolvimento motor. Na aquisição ou treino do engatinhar. como é o caso de lavar as mãos.Higienização das mãos Fonte: <http://www.Organização e conforto ambiental 250 permita realizar tal atividade? Já pensamos nisso? Então. certamente. por exemplo. ela está adquirindo (treinando) comportamentos motores que servirão de base para os movimentos que requeiram a centralização das mãos.cantinhodosaber. pedagógica para a evolução das aquisições motoras e de aprendizagens das crianças? . Desde bebê. quando a criança segura objetos na mão e centraliza-os na linha média do seu corpo. por exemplo. ela também adquire força e mobilidade nos braços. enxugá-las etc. façamos as seguintes reflexões: • Conseguimos perceber quão importante e fundamental é para a criança vivenciar e experimentar todas as fases do seu desenvolvimento motor? • Que é nessa faixa de idade (zero a seis anos de idade) em que precisa adquirir e aprimorar suas habilidades motoras? • Que o ambiente da pré-escola precisa estar preparado e organizado para que a criança explore e vivencie sua motricidade? • Que o educador precisar estar habilitado e capacitado para contribuir de maneira lúdica.com>. Considerando o que foi visto até aqui. Figura 12 .

de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (Lei nº. quando dizem que “as escolas devem se ajustar a todas as crianças independentemente das suas condições físicas. neste capítulo.2 CONDIÇÕES AMBIENTAIS E PEDAGÓGICAS DO PROFESSOR QUE TEM NA ESCOLA CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA Agora. . p. direcionemos nossa perspectiva para uma situação em que. Foi destacado. Essas limitações podem decorrer de problemas visuais. mentais ou motores. com ou sem deficiência. termos em mente que também estão incluídas. haja crianças com deficiência. apud Raymundo et al. do sucesso escolar? 5. que os ambientes escolares devem estar planejados e organizados de forma a possibilitar o acesso de todas as crianças. nas atividades pedagógicas e nas construções dos espaços educacionais destinados às crianças e cumprir com o que estabelecem os documentos oficiais. no entanto. o de inclusão.Organização e conforto ambiental 251 • Que o desenvolvimento motor infantil é fundamental para o pleno desenvolvimento da aprendizagem e. as crianças sem deficiência.394/96. a fim de que possam atingir seu potencial máximo. Isso implica dizer que as escolas devem considerar os princípios da inclusão e da acessibilidade. auditivos. bem como de condições ambientais desfavoráveis. respeitar as diferenças e garantir seus direitos. na escola. por alguma espécie de limitação. linguísticas ou outras” (UNESCO.]): São aquelas que. reconhecer e apoiar as diferenças individuais e promover o respeito e a valorização da aprendizagem de cada um. dentre eles. Vimos também neste capítulo que o atual perfil do docente que atua na área infantil requer dele novas competências e sensibilidade para penetrar no universo educacional infantil. 9. requerem certas modificações ou adaptações no programa educacional.d. Neste ponto. [s. É preciso. 1994. consequentemente. sociais. Nesse sentido. já devemos ter apreendido alguns conceitos ligados à área da educação infantil. Porém vamos relembrar o conceito de crianças com necessidades especiais (NEE). 6). para as quais a escola precisa ter condições ambientais e humanas de acolher. nesse contexto.

também. tivéssemos apenas rampas? Se a comunicação se efetivasse apenas por meio da linguagem de • às Se quase todas as vagas dos estacionamentos fossem destinadas pessoas com deficiência? O que faríamos diante de situações como essas? Teríamos respaldo e incentivos do poder público para adquirir novos conhecimentos e aprender novas práticas? Estaríamos dispostos a aprender e a conviver com novas situações? Continuando esse raciocínio. tem um ou dois degraus. muitas vezes. há pedagogia ineficiente. ficam a desejar ambientes mais planejados e organizados para atender às crianças. ou em salas com precária iluminação e ventilação. Então: • • • sinais? O que aconteceria se todos os livros fossem em braile? Se. agora. para a qual não estivéssemos preparados. quase ao ar livre. em suas necessidades de cuidado e de educação. o quintal serve como área de lazer etc. quase sempre. Então. Os ajustes são feitos. . casas adaptadas ou reformadas para essa finalidade. reflitamos mais um pouco sobre as seguintes questões: • Já pensamos de que maneira poderíamos. Imaginemos uma realidade totalmente diferente. por exemplo. pensar num mundo com mais harmonia e justiça social. ao invés de escada. sem pensar no mínimo de conforto e de organização. Pensar numa escola inclusiva e numa pedagogia acessível a todas as crianças é. Convido-o. o acesso às salas.Organização e conforto ambiental 252 vale aqui lembrar do educador português José Pacheco para quem não há crianças deficientes. contribuir para a efetivação de uma escola acessível e democrática? • Já pensamos em uma escola que ofereça condições básicas de acesso e recursos materiais para atender à demanda e às dificuldades individuais das crianças? Não é difícil constatar que muitos espaços destinados às escolas infantis são. a refletir sobre uma proposta de inversão de situações em relação à “normalidade”. na nossa prática pessoal e profissional. às vezes. Portanto. onde todos sejam respeitados e acolhidos num espaço de democracia e de liberdade. caro leitor. podemos encontrar escolas onde o berçário funciona no terraço.

para atender às necessidades da escola de educação infantil e as pessoas – adultos e crianças – que nela convivem. se divertem. trabalham. no presente futuro. especificamente. crescem. trocar ideias com colegas ou descansar um pouco? Muitas indagações devem continuar a ser feitas para que possamos ter. ..Organização e conforto ambiental 253 E o que dizer dos espaços destinados aos professores nas escolas infantis? Há uma preocupação em se construir e planejar um ambiente ou sala destinada para eles? Em seu ambiente de trabalho. estudam. enfim.. eles dispõem de uma sala onde possam planejar suas atividades. aprendem. vivem. uma organização e um conforto ambiental pensados.

2011. S. v. 2006b. 2006c. 477-488. C. Brasília: MEC/SEF. 2009. v. A. et al. Disponível em: <http://www. GARCIA. Acesso em: 16 nov.usp. C. AZEVEDO. G. N. ______. 16-180 GABRILLI. João Pessoa: Editora UFPB. 1986.. São Paulo: Harbra. 2003. DESENVOLVIMENTO HUMANO E APRENDIZAGEM: algumas análises e pesquisas. ______. FRISON. BLOWER. S. p. O ESPAÇO E O TEMPO NA EDUCAÇÃO INFANTIL.rinam. Porto Alegre. S. CONFORTO E INSALUBRIDADE TÉRMICA EM AMBIENTES DE TRABALHO. 3. F. M. ______. ENUMO. set. QUEIROZ.com. R. S. Secretaria de Educação Básica. 2006. Desenho universal: um conceito para todos./dez. 19. v. 2008. E. M. 2009. 2. L. BRASIL. PARÂMETROS NACIONAIS DE QUALIDADE PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL. ed. p.Organização e conforto ambiental 254 REFERÊNCIAS BATIZ.br/files/REFERENCIAS_DesenhoUniversalumconceitopara todos. 2005. Acesso em: 23 out. H.. 3. H. n.. A INFLUÊNCIA DO CONFORTO AMBIENTAL NA CONCEPÇÃO DA UNIDADE DE EDUCAÇÃO INFANTIL: uma visão multidisciplinar. 1998. 32 p.. Brasília. B. S. São Paulo. 1. ed. A. São Paulo: Casa do Psicólogo. Brasília. Ministério da Educação. A. Brasília. A CRIANÇA EM DESENVOLVIMENTO. BEE. REFERENCIAL CURRICULAR NACIONAL PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL. Disponível em: <http://www. 1 COUTINHO. . AVALIAÇÃO DO CONFORTO TÉRMICO NO APRENDIZADO: estudo de caso sobre influência na atenção e memória.pdf>. POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO INFANTIL: pelo direito das crianças de zero a seis anos à educação. Produção.br/nutau/cd/137. PARÂMETROS BÁSICOS DE INFRA-ESTRUTURA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL: Encarte 1.pdf>.

A..br/portal/artigo. 2003. Arquitetura Revista. LOPES. 2009. PAYNE. Disponível em: <http://www. Acesso em: 11 jul. Cuidar e educar: um novo olhar para a educação infantil. M. R. p.bengalalegal. A ARQUITETURA SUSTENTÁVEL NAS EDIFICAÇÕES URBANAS: uma análise econômico ambiental.Organização e conforto ambiental 255 GIL. Disponível em: <http://direitodoidoso. B. Acesso em: 01 fev. 2006. PUPO... M. MACHADO. H. 2007. MANUAL DO BEBÊ: cuidados e carinhos que valem para vida inteira. R. I. L.unifacef. R. . Disponível em: <http://www. %20marina. A./jun. RAYMUNDO. J. LARRY. Universidade Federal de Santa Catarina. RODRIGUES. M.planeta educacao. Anais eletrônicos. a precariedade das creches e pré-escolas no Brasil. C./daniela.. S. FREGONESI. A.com. ACESSIBILIDADE E DESENHO UNIVERSAL. São Paulo: Alegro. 25-37.pdf>.pdf>.. Acesso em: 11 set. LAVILLE.asp?artigo=380>. v. L. 2002. de A.com/martagil. São Paulo: Editora USP. W. J. %20wagner%20e%20adriana. I. O RUÍDO COMO FATOR DE INTERFERÊNCIA NA COMUNICAÇÃO UM ESTUDO DE CASO EM INSTITUIÇÃO DE ENSINO. ERGONOMIA. 2010. 2007. D. A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR. do A. DESENVOLVIMENTO MOTOR HUMANO: uma abordagem vitalícia. L.. AMBIENTE DE TRABALHO DAS SALAS DE AULA NO ENSINO BÁSICO NAS ESCOLAS DE CURITIBA..br/. jan. NUNES. n. CARREIRA. 2009. R. LEUCZ. A..%20marilia. 2001. J. 3. et al. G. ACESSIBILIDADE.com.com/pdf/ acessibilidade. In: Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia – GERP. 2001.braslink. São Leopoldo. Florianópolis. 2010. Dissertação (Mestrado) Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.. São Paulo: Editora USP. Revista Fafibe on line. A. UNIFACEF. Disponível em: <http://www. 5. INCLUSÃO SOCIAL E DESENHO UNIVERSAL: tudo a ver. 1977. 2011. Acesso em: 30 jan. 1.php>. A FORMAÇÃO DO PROFISSIONAL DA EDUCAÇÃO NA ATUALIDADE E O CASO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO BRASIL. O. 2006. 2010. MIGUEL. PRADO.

PEREIRA.. . B. T.sebrae. 1994..Organização e conforto ambiental 256 SILVA.biblioteca. Disponível em: <http://www.com. M. C. F. BONATES. L.nsf/dowcontador?>. B. UNESCO. 2010. Salamanca.br/bds/ bds. 2005. Acesso em: 15 dez. ANÁLISE DO PROJETO ARQUITETÔNICO NO CONFORTO LUMÍNICO: caso dos ambientes de trabalho de uma imobiliária. Declaração de Salamanca e enquadramento da ação na área das necessidades educativas especiais.

certificado pela UFPB e credenciado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Como Professor Adjunto. atualmente desenvolve pesquisa.SOBRE OS AUTORES Ana Elvira Steinbach Silva Raposo anaelviraraposo@uol.br Doutora em Saúde Coletiva/Ciências Humanas e Saúde. as que buscam problematizar as políticas públicas de Educação. vice-chefe do Departamento de Mídias Integradas na Educação (DEMIE) e líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Transdisciplinares de Educação e Saúde (GETES). e os movimentos inventivos de produzir educação. Atualmente. Professora de pesquisa em educação e planejamento educacional no Departamento de Habilitações Pedagógicas (DHP) do Centro de Educação (CE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). pensamento e linguagem na educação infantil.com. Eduardo Antônio de Pontes Costa eduapcosta@bol.com. Mestre em Ciências da Saúde pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (2001) e Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2007). . com ênfase em Juventude. na família e na escola. Nível 2.br Licenciado em Psicologia (1998) e em Formação Clínica em Psicologia (1999) pela Universidade Federal da Paraíba. especificamente. as práticas de territorialização e desterritorialização. a partir de questões relacionadas à formação docente. do Departamento de Metodologia da Educação do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba. O seu campo de estudos enfoca as relações entre sexualidade. no campo da Psicologia e da Educação. e com experiência na área de Psicologia e Educação. Políticas Públicas e Formação Profissional. Trabalho. sua proposta de pesquisa para pós-doutorado trata das políticas de sexualidade na relação escola-família com núcleos familiares gays e lésbicos: um estudo de educação comparada Brasil e EUA.

1990) e em Filosofia (Universidade Federal da Paraíba. É membro do Laboratório de Psicopatologia do EPSI e do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicanálise e Educação NEPPE do EPSI. como educadora atuou em universidades e em Grupo de Pesquisa. 1995). Licenciada em Educação Física (1987) e Graduada em Fisioterapia (1993). Iraquitan de Oliveira Caminha iraqui@uol. do Programa Associado de Pós-graduação em Educação Física da Universidade Estadual de Pernambuco/Universidade Federal da Paraíba e do Programa de Pós-graduação em Filosofia .Universidade Federal da Paraíba. É Mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (1996) e Doutor em Filosofia pela Université Catholique de Louvain (2001). filosofia. educação e psicanálise.com.com Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2002) e Especialista em Desenvolvimento Infantil e seus Desvios pela Universidade Federal da Paraíba (1995).260 258 Glorismar Gomes da Silva gglorismar@hotmail.CREF10/PB-RN no período 2006/2007. é fisioterapeuta da Fundação Centro Integrado de Apoio ao Portador de Deficiência e professora/mediadora de educação a distância. em Psicologia (Institutos Paraibanos de Educação. Coordenou o Curso de Fisioterapia da Associação Paraibana de Ensino Renovado de 2005 a 2009. educação física.br Graduado em Educação Física (Universidade Federal da Paraíba. no âmbito da UFPB-Virtual. Líder dos grupos de pesquisa: Laboratório de Estudos sobre Lazer. esporte. atuou em instituições. Atualmente. Autor do livro O distante-próximo e o próximo-distante: corpo e percepção na filosofia de Merleau-Ponty e de vários artigos e capítulos de livros sobre corpo. Atualmente. Foi professor-pesquisador do Programa de Pósgraduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba de 2002 a 2008. ambas pela Universidade Federal da Paraíba. Defendeu tese sobre o problema da percepção na filosofia de MerleauPonty. é professor do Departamento de Educação Física. Como fisioterapeuta. Esporte. Corpo e Sociedade LAECOS e Filosofia da Percepção. ética. clínicas e hospitais. atuando junto a pessoas com deficiências variadas e suas famílias tanto no âmbito da reabilitação como no da educação. Foi presidente do Conselho Regional de Educação Física . 1988). . em cuja instituição foi docente de ensino superior.

com. do Centro de Ensino Superior e Desenvolvimento (CESED). atuando principalmente com os seguintes temas: trabalho. Atualmente. . competência. Ranulfo Cardoso Júnior Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Campina Grande (1981). é Professor das disciplinas História da Medicina e Saúde Comunitária II. Coordenador da Área de Saúde Coletiva do Internato do Curso Médico da FCM-CG e Membro do Conselho Técnico Administrativo da Faculdade de Ciências Médicas de Campina Grande. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997) e Doutor em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2006).UFPB. Atualmente. III e IV na Faculdade de Ciências Médicas de Campina Grande (FCM-CG). nos âmbitos do curso de graduação em Psicologia e do Mestrado em Psicologia Social. com ênfase em Psicologia do Trabalho e Organizacional e em Saúde Mental. tendo realizado Estágio de Doutorado no Département dErgologie . clínica do trabalho. Especialista "Lato Sensu" em Metodologia do Ensino pela Fundação Universidade Regional do Nordeste (1983) e Especialista em Gestão Descentralizada de Programas com Ênfase em DST e AIDS pela Universidade Federal do Maranhão (2005). é Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba .Analyse Pluridisciplinaire de Situations de Travail da Université de Provence.br Graduado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992). França (2005).259 Paulo César Zambroni de Souza paulozamsouza@yahoo. Tem experiência na área de Psicologia. gestão de pessoas.

Doutor em Farmacologia de Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos pela UFPB e Mestre em Odontologia Preventiva e Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). e desenvolve uma investigação sobre a concepção de saúde nos projetos político-pedagógicos das escolas públicas de ensino infantil.com.br Professor do Departamento de Clínica e Odontologia Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Atua nas áreas de Educação e Saúde e de Farmacologia antimicrobiana de produtos naturais aplicados à odontologia. Desenvolve atividades no Grupo de Pesquisa em Odontopediatria e Clínica Integrada (GPOCI/UFPB/ CNPq) e Grupo de Estudos Transdiciplinares em Educação e Saúde (GETES/UFPB/CNPq). . do qual também é vice-líder.262 260 Ricardo Dias de Castro ricardodiasdecastro@yahoo. Seu campo de estudos compreende o conhecimento popular sobre o uso de plantas medicinais e o cuidado em saúde.