Lua, não se sabe como ela nasceu

Há água no manto da Lua ! Totalmente surpreendente, esta descoberta obriga a rever a tese do “impacto gigante” que deu origem ao nosso satélite. De facto, este cenário, a priori, não previa a água lunar. De uma vez só, os especialistas se inflamam

No Universo, os astrofísicos são capazes de reconstruir a história, recuando no tempo até uma fracção de segundo depois do Big Bang. Das estrelas e das galáxias, conhecem o respectivo ciclo de vida com a precisão de um relojoeiro; da formação de planetas sabem quase todos os segredos… Poder-se-ia ainda acreditar que a Lua, mesmo por cima das nossas cabeças, visível a vista desarmada e sobre a qual o homem colocou os pés não oferece qualquer mistério aos especialistas do céu. Mas todavia, é exactamente o contrário ! Porque o satélite do nosso pequeno planeta azul encerra na realidade um enigma, que hoje obriga os peritos “em Lua” reconsiderarem os seus dados, visto que foram rasgados entre eles. Qual enigma ? A presença completamente surpreendentemente de água lunar. De facto, até agora a lua era considerada como completamente seca. Erik Hauri, no Instituto Carnegie de Washington e Alberto Saal da Universidade Brown em Providence (ambos nos EUA), vêm mostrar o contrário a estudar rochas provenientes do seu interior. Segundo algumas análises, o nosso satélite oculta moléculas aprisionadas no seu manto, em concentrações próximas às do manto superior da Terra. Ora, esta descoberta coloca sérios problemas aos teóricos do astro seleno. Porque uma Lua assim, húmida não pode ser compatível com o cenário mais solidamente admitido hoje em dia…

Revemos tudo de início da história, tal como os planetólogos contaram até aqui. O Sol se acendeu há 4,56 biliões de anos. A volta dele, um disco de gás e de poeiras, matéria-prima dos futuros planetas que cresceriam em algumas dezenas de milhões de anos por colisão de corpos cada vez maiores. A Lua teria aparecido entre 30 a 70 milhões de anos depois do início desta história depois de uma colisão entre um corpo do tamanho de Marte e a jovem Terra ainda quente. Os detritos pulverizados do corpo que colidiu com a Terra e uma parte do manto terrestre formaram um disco de poeiras que se fundiram para formarem a Lua.

Água lunar: a descoberta que mudou tudo O estudo do magma lunar, aprisiona minerais no seu interior, revelou, na Primavera de 2011, concentrações de água semelhantes às do manto terrestre

Logo que os pesquisadores de Harvard propuseram este cenário do “impacto gigante”, em 1946, passou relativamente imperceptível, era preciso observar no local. Mas em 1975, na loucura do sucesso das missões Apollo, os astrónomos norte-americanos William Hartmann e Donald Davis fizeram notar que se tinha que contar com várias observações. Nomeadamente a observação de uma Lua completamente desidratada, como indicavam as amostras que os astronautas recolheram. De facto, como precisa François Robert, do Museu do História Natural de Paris, “no cenário de impacto gigante, a temperatura de formação da Lua era bem mais elevada que a da Terra. Em primeira abordagem, seria impossível incorporar água.” Então o que se poderia fazer com o cenário de impacto gigante “o cenário” oficial de formação do satélite natural da Terra. Salvo que em 2008, Alberto Saal mudou o que era dado. Graças a uma técnica espectroscópica ultra-precisa, ele analisou de novo amostras de rochas vulcânicas lunares. Eram minerais formados a três biliões de anos formados logo depois de uma erupção vulcânica sobre a superfície lunar. Conclusão: ao contrário do que mostravam estudos anteriores, menos precisos, estas rochas contêm na realidade água por volta das 5 partes por milhão (ppm). É vinte vezes menos do que no manto terrestre, mas não é zero. E o golpe de misericórdia surgiu na Primavera de 2011. Desta vez os geólogos passaram pelo crivo do seu espectrómetro minúsculas amostras de magma primitivo, camuflando olivina, (um mineral do grupo dos silicatos), antes da sua observação do astro. Com esta olivina, eles tiveram um acesso directo a composição do interior da Lua, nomeadamente as quantidades de elementos voláteis que ele esconde que a rocha não teve hipótese de libertar antes que ela arrefecesse. As quantidades de água se ficaram entre as 60 e as 140 ppm, são proporções comparáveis às do manto superior do nosso planeta ! “Em relação ao nada, é uma quantidade enorme de água” se diverte Alberto Saal, eufórico com a sua descoberta. E a equipa também encontrou outros elementos ocultos na olivina como fluor, cloro e enxofre. “Não é coerente com a imagem que nós temos de uma Lua que perdeu os seus elementos voláteis com o desgaseamento que acompanhou o impacto gigante.” Então, fora com este último cenário ? Depois de tudo, ainda existem outras maneiras de prever o nascimento da Lua… Porque não se pode imaginar que ela se formou longe do nosso planeta, antes de ser “capturada” gravticamente pelo planeta Terra, quando a Lua passava pela Terra.

Factos e números A lua se situa à 384.400 km da Terra e se afasta 3,8 cms por ano. A sua massa é de 73 biliões de biliões de toneladas. Com um núcleo ferroso com 1500ºC de temperatura e 700 km de raio, um manto com 1000 km de espessura e chega aos 100 km na sua face oculta e aos 60 km na sua face visível, o satélite tem uma diâmetro médio de 3476 km. O seu ponto mais elevado chega aos 8200 m.

Água na fornalha Salvo que ela, por exemplo, se tivesse aproximado do nosso planeta, depois que a sua velocidade tivesse sido antes sido reduzida pelo choque com outro corpo… é o que parece uma hipótese demasiadamente Ad-Hoc. E este último levaria a uma órbita terrestre mais bem alongada que não é na realidade. Outra possibilidade: a Lua se poder-se-ia ter formado ao mesmo tempo que a Terra e na mesma zona do sistema solar. Mas se esta hipótese fosse a certa, então a densidade da Lua deveria de ser quase igual a densidade terrestre; o que está longe de ser o caso. Existe ainda outro cenário dito “da fissão”, proposto em 1878 por George Howard Darwin (o filho Charles Darwin), segundo o qual o astro lunar poder tudo simplesmente ser um pedaço do manto da jovem Terra que ainda em estado de fusão, foi arrancado devido a uma rotação rápida da jovem Terra sobre si mesma. “Isto seria perfeito para explicar as similitudes entre a composição lunar e a composição do manto terrestre,” admite Alessandro Morbibelli, do Observatório da Côte d’Azur, em Nice (França). “No entanto, um tal cenário implica uma Terra a rodar sobre si mesma muito rapidamente. Ora o momento cinético seria de uma grandeza que se conservaria fisicamente que se deveria de encontrar no sistema Terra – Lua que não é o caso”.

E Willy Benz, da universidade de Berna, na Suíça ainda acrescenta: “O cenário de Darwin foi desqualificado devido ao facto das suas próprias insuficiências. O impacto gigante é o único cenário de formação que permite ter em conta o conjunto das variáveis dinâmicas do sistema Terra-Lua.” Alessandro Morbidelli também pensa o mesmo “Não há alternativa.” Os cientistas ainda estão desconcertados diante um verdadeiro quebra-cabeças: explica como a Lua, nasceu de um impacto gigante que a mergulhou verdadeiramente numa fornalha, poderia mesmo assim guardar água no seu manto.

Francis Albarède, da Escola Normal Superior de Lyon, França: ‘A Terra e a Lua nasceram totalmente secas; a sua água provém de asteróides’

Bernard Marty, do Centro de Pesquisas Petrográficas e Geoquímicas de Nancy, França: ‘As novas análises testemunham que havia água na Lua e na Terra no início’

“O impacto gigante revela uma física de não-equilíbrio, difícil de modelizar, e na qual ainda se mal pode colocar variáveis sobre a cinética”, sublinha Bernard Marty, do Centro de Pesquisas Petrográficas e Geoquímicas de Nancy. É todavia difícil afirmar precisamente de onde serão provenientes a água e outros elementos voláteis presentes na altura do cataclismo. Mas se seguir Alberto Saal e Erik Hauri, é preciso explicar o porquê das concentrações em elementos voláteis no manto terrestre superior e o interior da Terra serem quase idênticas. Segundo as simulações digitais do impacto gigante realizadas em 2004 por Robin Canup na Universidade de Boulder (EUA) – as mais precisas até hoje -, a Lua seria composta por 80% do material do corpo colisor e 20% de materiais terrestres. E para os especialistas, é difícil imaginar que os dois corpos que entraram em colisão possuírem a mesma quantidade de elementos voláteis (todos os planetas telúricos apresentam concentrações diferentes). Para explicar a estranha coincidência, os planetólogos dispõem nomeadamente de uma pista. O modelo proposto em 2007 por David Stevenson, no Caltech (EUA), em complemento do impacto gigante, uma troca de matéria. Segundo o teórico norte-americano, não é impossível que depois da colisão, uma grande atmosfera aquecida a 2000ºC e agitada por movimentos convectivos se desenvolveu entre a Terra e o disco lunar em formação. Isto faria com as trocas de matéria pudessem ter lugar entre os dois planetas que equilibraram a sua composição. O físico se mantém mesmo assim prudente: “Não se pode dizer que o meu modelo seja directamente confirmado pelas medidas de Alberto Saal, mas pode explicar uma certa retenção de água na Lua.” Isto serve como panaceia para este problema ? As declarações divergem. Para Willy Benz, “o modelo de Stevenson não é fundado sobre complexas simulações digitais multidimensionais, mas sobre ordens de grandeza. Assim se poderia discutir as condições iniciais de pressão e temperatura envolvidas. Mas é a melhor solução do problema”. Isto está nomeadamente longe da declaração de Francis Albarède da Escola Normal Superior de Lyon; para este geoquímico: “num tal cenário, não é apenas a matéria que é trocada, mas igualmente energia de rotação. E este fenómeno de equilíbrio acabaria por conduzir por fim que a Lua caísse sobre a Terra” Conclusão imediatamente desmentida pelos factos

Hipótese do impacto gigante  Neste cenário, que ainda é o favorito, um corpo do tamanho de Marte percute a Terra. Os detritos deste colisor e do manto terrestre, formando um disco de poeiras em órbita, que se fundiria sobre ele mesmo, por acção da gravidade, para dar origem a Lua  O problema A forte concentração de água descoberta no manto lunar é dificilmente com este cenário: logo no choque; a água, como todos os elementos voláteis se teriam evaporado sob o calor

Hipótese da captura  A Lua, que se formou numa outra região do sistema solar, passa na proximidade da Terra. Ela foi capturada pelo seu campo gravitacional e orbita a volta da Terra. Foi o que aconteceu a Tritão, o maior satélite de Neptuno  O problema: Uma velocidade e uma trajectória excepcionais seriam necessárias para uma tal captura. A órbita lunar deveria de ser também mais alongada do que é. Mas não explica porque as composições da Terra e da Lua são semelhantes

Hipótese do nascimento comum  Logo que a Terra em formação chegou aos 2/3 do seu tamanho nacional, a nuvem de poeiras que gravita a sua volta se aglomera sob o efeito do seu próprio peso. Pouco a pouco, em órbita a volta da Terra, a Lua toma forma.  O problema: Certo que foi assim que a maioria dos satélites dos planetas gasosos se formaram. Mas se a Lua e a Terra foram formados dos mesmos materiais, as suas densidades deveriam de ser semelhantes… O que não é o caso

Hipótese da Fissão  A força centrífuga criada pela rotação da Terra expulsa uma parte do seu manto, que se coloca em órbita para formar a Lua. Isto explicaria perfeitamente as composições idênticas da Terra e da Lua  O problema: Um tal fenómeno de expulsão implica uma velocidade excepcionalmente elevada, que ainda se deveria ainda observar hoje…. O que não é o caso.

Hipótese da troca de matéria depois do impacto  Este cenário começa como o do impacto gigante. Mas depois da colisão, uma vasta nuvem atmosférica que envolveu a Terra e a Lua recém-nascida. Estas trocas de matéria explicam em parte as similitudes de composição e a presença de água lunar  O problema: A Lua deveria de se encontrar consideravelmente travada na sua escapatória por estas trocas de matéria. Este aqui, por fim faria por cair a Lua sobre a Terra

O Quebra-cabeças do oxigénio Desde 1992, os especialistas admitiram a sua impotência para explicar a igualdade das composições isotópicas de oxigénio (16O, 17 O, e 18O) da Terra e da Lua. De facto, todos os planetas do sistema solar têm composições isotópicas diferentes. Então como explicar que a Lua, que a priori, resulta de uma mistura de detritos de um colisor e duma fracção do manto terrestre, seja igual como a imagem de um espelho da Terra dos isótopos de oxigénio ? Várias hipóteses foram avançadas. Por exemplo, a Terra e o colisor foram formados na mesma região. Salvo que neste caso as suas órbitas respectivas semelhantes seriam pouco compatíveis com uma colisão. Até a actualidade, o modelo de David Stevenson, do Caltech (EUA), segundo o qual a Terra e a Lua trocaram matéria via uma atmosfera convectiva comum depois do impacto, parece ser a mais plausível

O Impacto dos Asteróides Verdade seja dita, o pesquisador francês prefere uma oura solução que de uma certa forma se torna obsoleta mesmo a questão de saber como tornar compatível o impacto gigante e a Lua “amolecida”. Isto levou todo o século XX, os geólogos afirmaram que a água se encontra no manto da Terra desde da origem, que é uma conclusão contrária da qual se baseia Francis Albarède sobre os indícios geológicos prevista em 2009 (Ver Science & Vie, nº 1109, página 82). Assim como ele afirma, “A Terra e a Lua nasceram completamente secas. E a sua água provém de asteróides originários da região entre Marte e Júpiter, que atingiram a Terra, e da qual a Lua, durante uma cinquentena de anos, até cerca 100 milhões de anos depois da formação da Terra.” Cenário que se mantém praticamente compatível, quase à tabela, com as simulações digitais feitas pela equipa de Alessandro Morbidelli, sobre a formação dos planetas do sistema solar (Ver S&V nº 1128. Salvo que há um soluço entre elas; porque se as águas lunares e terrestes provêm de um intenso bombardeamento meteórico posterior a sua formação, o fraco campo gravítico da Lua em relação ao da Terra se traduziria por uma concentração de água mais importante sobre a Terra do que sobre a Lua. Tudo simplesmente porque o “planeta azul” deveria de ter recebido, mesmo relativamente ao seu tamanho, mais meteoritos do que a Lua, o que não é coerente com as medidas efectuadas por Alberto Saal… Francis Albarède não vai por 4 caminhos: “As rochas mais ricas em água analisadas por Alberto Saal e Erik Hauri, o famoso solo laranja notado pelos astronautas da Apollo17, são muito especiais e bem pouco representativas da Lua no seu conjunto. Se bem que os números que avança, me parece constituir uma generalização um pouco prematura.” Ao contrário de Bernard Marty, para que estes números, que os toma a sério, “testemunham que havia água no início e que esta sobreviveu ao impacto gigante”. Em qualquer caso se deve ressalvar o impacto gigante, é necessário encontrar uma explicação para este fenómeno, bem como a concentração de água igual tanto na Terra como na Lua.

Willy Benz avança com uma última ideia para tentar decifrar o enigma: “Com um colisor mais rápido, se pode imaginar uma Lua que cuja matéria vem quase na totalidade do material provém do manto da Terra. Ora neste caso, é necessário que o colisor venha de mais longe do que o sistema solar e não é de excluir que pudesse conter água suficiente que pudesse ser integrada no sistema Terra-Lua” Como indica Alberto Saal: “A bola está doravante no campo dos simuladores. Tanto que como geoquímico, não tenho problema com o cenário do impacto gigante. Mas para que ele sobreviva é necessário ter em conta os resultados das análises químicas.” Francis Alabarède coincide: “As novas observações reclamam ainda mais cogitações e discuções. Não há clãs mas as ideias têm que evoluir.” E Willy Benz conclui: “Falta ainda explorar um vasto domínio de parâmetros ao que concerne as condições da colisão.” Sinal que o cosmos, mesmo às portas da Terra ainda oculta mistérios.

O Enigma da face oculta da Lua já resolvido ? Porque a face oculta da Lua é mais montanhoso que a face visível que é plano ? Segundo simulações digitais de Martin Jutzi, planetólogo da Universidade de Berna, Suíça, cerca de 70 milhões de anos depois da formação da Lua por um suposto “impacto gigante”, o nosso satélite sofreu outro impacto, por um corpo, cerca de 1/3 do tamanho da Lua, e composto pelo mesmo material que a Lua (ambos teriam nascido no mesmo disco de detritos que orbitava a Terra). Esta segunda colisão, quatro vezes menos rápida do que a primeira, não criou uma cratera, mas sim um aglomerado de matéria que se elevou em relação ao nível do solo lunar. “É nestas condições que as simulações reproduzem melhor o relevo da face oculta da Lua”, precisa Martin Jutzi. Sem amostras de rochas deste hemisfério que se esconde da vista, é preciso dar atenção aos dados sobre o campo gravitacional do nosso satélite que deverão chegar a partir de Março de 2012, da missão GRAIL (Gravity Recovery and Interior Laboratory) da NASA

Simulações sugerem que uma colisão entre a Lua e outro satélite três vezes menor, deformou a sua face oculta

(Tradução do artigo “Lune, on ne sait plus comment elle est née” da autoria de Mathieu Grousson, publicado revista Science & Vie nº 1129, do mês de Outubro de 2011

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