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ALEXANDRE MAGNO DE MELO FARIA

A EXPANSÃO DA COTONICULTURA EM MATO GROSSO NA DÉCADA DE 1990: UM

CASO PARADIGMÁTICO DE DESENVOLVIMENTO ENDÓGENO

Belém - Pará

2003

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO DE ALTOS ESTUDOS AMAZÔNICOS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO DE ALTOS ESTUDOS AMAZÔNICOS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO TRÓPICO ÚMIDO MESTRADO INTERNACIONAL EM PLANEJAMENTO DO DESENVOLVIMENTO

A EXPANSÃO DA COTONICULTURA EM MATO GROSSO NA DÉCADA DE 1990:

UM CASO PARADIGMÁTICO DE DESENVOLVIMENTO ENDÓGENO

Dissertação apresentada ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará como requisito para obtenção do título de "Mestre" em Planejamento do Desenvolvimento.

Discente: Alexandre Magno de Melo Faria

Orientador: Prof. Dr. Índio Campos

Belém - Pará

2003

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO DE ALTOS ESTUDOS AMAZÔNICOS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO DE ALTOS ESTUDOS AMAZÔNICOS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO TRÓPICO ÚMIDO MESTRADO INTERNACIONAL EM PLANEJAMENTO DO DESENVOLVIMENTO

FOLHA DE APROVAÇÃO

A EXPANSÃO DA COTONICULTURA EM MATO GROSSO NA DÉCADA DE 1990:

UM CASO PARADIGMÁTICO DE DESENVOLVIMENTO ENDÓGENO

Discente: Alexandre Magno de Melo Faria

Orientador: Prof. Dr. Índio Campos

Banca Examinadora:

Prof. Dr. Índio Campos - NAEA-UFPA (Orientador)

Prof. Dr. Francisco de Assis Costa - NAEA-UFPA (Examinador Interno)

Prof. Dr. Mário M. Amin - UNAMA (Examinador Externo)

Data da Defesa: 13 / Fevereiro / 2003

Resultado: Aprovado

Dedico esta obra a:

DEDICATÓRIA

Meus pais, Lúcio Nunes de Faria e Julia Maria de Melo Faria;

A Julio César de Melo Faria e Nájisla Souza Bucair;

A Cláudia Puerari Faria;

À memória do inesquecível Marco Antônio de Melo Faria.

AGRADECIM ENTOS

A Dissertação de Mestrado não é um trabalho isolado de uma única pessoa. Consome horas de trabalho exaustivo que são devidamente socializadas com colegas, amigos próximos e familiares. Muitas vezes, uma conversa despretensiosa lança novas luzes e geram

interessantes insights, que estavam ali, na sua frente, mas que não estavam aparecendo em sua análise. Por isto, tenho a obrigação de agradecer a muitas pessoas pela conclusão desta obra. Claro, algumas contribuíram de forma direta, outras indiretamente. Porém, todas tem o seu valor e merecem a minha gratidão pela conquista de tão nobre título acadêmico. Especialmente, agradeço às seguintes pessoas:

- professores Francisco de Assis Costa, Tereza Ximenes Ponte, Fábio Carlos da Silva, Lígia Terezinha Lopes Simonian, Rosa Acevedo Marin, David Carvalho e Índio Campos, que durante as disciplinas, me transmitiram um elemento capaz de transformar vidas - o conhecimento;

- aos funcionários do NAEA, em especial, à secretária do PLADES, Tereza.de Jesus Brito de Moraes;

- ao meu orientador professor Índio Campos;

- aos irmãos e meus credores da xerox, Adilson e Afonso;

- ao professor Benedito Dias Pereira, que sem o seu incentivo e orientação, jamais teria realizado o concurso da ANPEC;

- aos amigos Naeanos Aldo Fernandes Souza, Dilamar Dallemole, Sandro Luís Bedin, Beatriz Ribeiro, Josiane Semblano e Gilson Costa;

- ao nobre amigo boliviano José Antônio Rada Pérez, o "bolita", que me transmitiu experiência internacional;

- a Vera Tânia, que sempre me recebeu com muito carinho em sua pensão na Cidade Velha;

- aos meus pais e meu irmão Julio Cesar, que me ajudaram a concretizar um sonho;

- a Cláudia Puerari Faria, pela sua paciência, amor e motivação; e

- principalmente, a Marco Antônio de Melo Faria, que mesmo sem estar fisicamente entre nós, foi o principal protagonista desta minha história. Muito obrigado meu irmão.

EPÍGRAFE

"Uma jornada de milhares de quilômetros deve começar com um único passo." (Lao-tzu)

"Duas estradas divergiram na floresta e eu tomei a menos percorrida e isso que foi importante." (Robert Frost)

"Nada no mundo pode tomar o lugar da persistência." (Calvin Coolidge)

RESUMO

O processo singular da retomada da produção cotonícola no Brasil durante a segunda metade

da década de 1990 se deu em uma nova configuração técnica e espacial. Mais de setenta por cento da produção brasileira de fibras têxteis de algodão herbáceo passaram a ser produzidas na região Centro-Oeste e, mais da metade da produção passou a ser realizada em uma única unidade federativa desta região, o estado de Mato Grosso. O objetivo deste trabalho, portanto,

foi identificar as variáveis que agiram sobre o espaço mato-grossense e determinaram a concentração da produção cotonícola naquele estado. Assim, foram utilizadas categorias de análise oriundas da Teoria do Desenvolvimento Endógeno para explicar as possíveis fontes das vantagens competitivas do algodão mato-grossense e a convergência da produção em um

espaço delimitado. Os resultados apontam para a geração de tecnologia local no ano de 1990,

a partir da cooperação entre a iniciativa privada e instituições de P&D, como o primeiro

elemento no elo de desenvolvimento do complexo produtivo do algodão. Outras variáveis também foram de fundamental importância, como o aprendizado dinâmico sobre a atividade por parte dos agentes produtivos locais, a difusão dos conhecimentos técnicos por todo o espaço regional, a criação de incentivos fiscais por parte do Governo Regional e a cooperação entre os agentes privados na busca da eficiência coletiva. Desta forma, a ação da iniciativa privada, do Governo Regional e das instituições de P&D formataram um arranjo produtivo do algodão pautado em ações endógenas, que garantiram uma acumulação de capital elevada e, consequentemente, a convergência produtiva do algodão em Mato Grosso. Contudo, a cotonicultura em Mato Grosso se apresenta como uma atividade altamente instável, em função da competição internacional e do surgimento de problemas técnicos de produção. A manutenção desta cultura naquele estado depende da ação dos três agentes supracitados, principalmente no que se refere à busca de inovações tecnológicas, no fornecimento de infra- estrutura, na abertura de novos mercados e na cooperação entre os agentes.

Palavras-chave: Cotonicultura; Centro-Oeste; Mato Grosso; Desenvolvimento Endógeno.

ABSTRACT

The singular process of the restart of cotton production in Brazil during the second half 1990s decade happened inside a new technical and spatial configuration. More than seventy percent of the Brazilian production of textile fibres of herbaceous cotton passed to be produced at the Center-West region and, more of half the production passed to be accomplished in an only unit federative from this region, Mato Grosso state. The goal of this work, therefore, was identify the variable which acted over the Mato Grosso´s space and determined the concentration of the cotton production in that state. Thereby, were utilised analysis categories from Endogenous Development Theory toward to explain the possible sources of the competitive advantages of the Mato Grosso´s cotton and the convergence of the production in a delimited space. The results indicate for the generation of local technology in the year of 1990, start from the co-operation between the private enterprise and R&D institutions, as the first element in the link of development of the cotton productive complex. Other variables also were fundamental importance, as the dynamic learning about the activity by local productive agents, the diffusion of the technical information by whole regional space, the creation of fiscal incentives by Regional Government and the co-operation between private agents on the rummage of collective efficiency. Thus the procedure of private enterprise, Regional Government and R&D institutions originated a cotton productive arrangement connected in endogenous movement, that guaranteed a raised capital accumulation and, consequently, convergence of the cotton production inside Mato Grosso. However, the cotton production in Mato Grosso if presents as an activity highly unstable, in function of the international competition and emerging of technical problems of production. The maintenance of this cultivation in that state depends on the action among three agents cited, mainly researches of technological innovations, supply of infrastructure, opening of new markets and co-operation between the agents.

Key Words: Cotton Production; Center-West; Mato Grosso; Endogenous Development.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

13

CAPÍTULO 1

A PRODUÇÃO DE ALGODÃO NO MUNDO E NO BRASIL

1.1

Características da Produção de Algodão no mundo

16

1.2

O

Complexo Produtivo do Algodão no Brasil

20

1.3

Características Edafoclimáticas do Cerrado Brasileiro e a Expansão da Cotonicultura

28

1.4

As Condições de Comercialização do Algodão Produzido no Centro-Oeste

33

1.5

Rediscutindo a Expansão Cotonícola em Mato Grosso

35

CAPÍTULO 2 UM NOVO PARADIGMA PARA O DESENVOLVIMENTO REGIONAL

2.1

O Planejamento do Desenvolvimento no Brasil

38

2.2

A

Teoria do Desenvolvimento Endógeno

43

2.2.1 O Novo Papel do Estado Federado

50

2.2.2 Investimentos em Infra-estrutura e Formação de Complexos Produtivos

52

2.2.3 Valorização dos Novos Fatores de Produção

54

2.2.3.1 A Criação de Inovações e a Difusão do Conhecimento

56

2.2.3.2 A Organização Flexível da Produção

60

2.2.3.3 As Economias de Aglomeração

62

2.2.3.4 A Densidade do Tecido Institucional

64

2.3

O Efeito H do Desenvolvimento Endógeno

66

CAPÍTULO 3 ABRINDO O FARDO DE ALGODÃO

3.1 O Ponto de Start Endógeno

69

3.2 Incentivo Fiscal do Governo do Estado e a Viabilidade Econômica

O

72

3.3 Geração e a Difusão de Tecnologia Endógenas

A

80

3.4 A Organização Institucional dos Cotonicultores

86

3.5 As Cinco Variáveis Endógenas Determinantes na Concentração da Cotonicultura

 

e

o Efeito H

90

CAPÍTULO 4

AÇÕES DE AGENTES ENDÓGENOS E OS DESAFIOS FUTUROS DA COTONICULTURA EM MATO GROSSO

4.1 A Ação Conjunta do Governo, da Iniciativa Privada e das Instituições de Pesquisa 93

4.2 As Ações do Governo do Estado de Mato Grosso e da Iniciativa Privada 94 4.2.1 A Ação de Marketing Regional 105

4.3 As Ações das Instituições de P&D e o Risco Ambiental

4.4 Principais Desafios à Cotonicultura de Mato Grosso 119

110

CONCLUSÃO

126

ANEXO I Os Dez Principais Municípios Produtores de Algodão no Estado Mato Grosso

130

ANEXO II Logística de Transportes de Integração Sul-Americano

131

BIBLIOGRAFIA

132

LISTA DE TABELAS

Tabela 1.

Produção Mundial de Fibras Têxteis e Respectivas Percentagens de Participação Total - Anos Selecionados

18

Tabela 2.

Produção

Mundial

de

Algodão

em

Pluma

(Dez

Principais

Países)

-

1992

a

2001

 

19

Tabela 3.

Produtividade

Mundial

de

Algodão

em

Pluma

(Principais

Países)

-

1992

a

2001

 

20

Tabela 4.

Importações Brasileiras de Máquinas Têxteis - 1989 a 2000

 

23

Tabela 5.

Idade Média dos Equipamentos Têxteis no Brasil 1990/1996/1997

23

Tabela 6.

Evolução do Suprimento de Algodão em Pluma no Brasil - 1980 a 2001

24

Tabela 7.

Balança Comercial Têxtil do Brasil - 1990 a 2001

 

27

Tabela 8.

Produção

de

Algodão

Herbáceo

nos

Principais

Estados

Brasileiros

-

1991

a

2001

 

28

Tabela 9.

Custo de Produção de Algodão - Safra 1999/2000

 

32

Tabela 10.

Qualidade da fibra de algodão produzido nos estado de São Paulo, Paraná e Mato Grosso - Safra 2000

36

Tabela 11.

Custo Operacional Total (COT) por Arroba de Algodão Produzida nos Estados de Goiás,

Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

- Safra 2000

 

74

Tabela 12.

Receita Bruta (RB) por Arroba de Algodão Produzida nos Estados de Goiás, Mato Grosso

e

Mato Grosso do Sul - Safra 2000

 

75

Tabela 13.

Margem Bruta (MB) por Arroba de Algodão Produzida nos Estados de Goiás, Mato Grosso

e

Mato Grosso do Sul - Safra 2000

 

75

Tabela 14.

Margem Bruta (MB) por Arroba de Algodão Produzida nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, considerando a incidência de ICMS - Safra

2000

 

78

Tabela 15.

Lavouras Cadastradas no PROALMAT - 1998 a 2001

 

78

Tabela 16.

Impacto do PROALMAT nos Lucros dos Cotonicultores - Safra 2000

 

79

Tabela 17.

Produção de Algodão, Preços Médios e Valor da Produção da Cotonicultura de Mato Grosso - 1994 a 2000

79

Tabela 18.

Ações de Difusão e Transferência de Tecnologia Cotonícola em Mato Grosso - Dias de Campo - 1995 a 2002

81

Tabela 19.

Ações de Difusão e Transferência de Tecnologia Cotonícola em Mato Grosso - Reuniões Técnicas - 1995 a 2001

82

Tabela 20.

Ações de Difusão e Transferência de Tecnologia Cotonícola em Mato Grosso - Palestras Técnicas - 1995 a 2001

82

Tabela 21.

Ações de Difusão e Transferência de Tecnologia Cotonícola em Mato Grosso - Outras Formas de Difusão de Informação - 1995 a 2001

83

Tabela 22.

Classificação da Fibra de Algodão de Alta Qualidade Produzida em Mato Grosso - 1997 a

 

2001

85

Tabela 23.

Volume Exportado e Receita

de Exportação de

Algodão de Mato Grosso 1998

a

2001

85

Tabela 24.

Fornecimento de Infra-estrutura de Energia Elétrica Para o Setor Produtivo Investimentos Públicos e Privados - 1998 a 2002

96

Tabela 25.

N.° de Consumidores de Energia por Atividade no Estado de Mato Grosso 1995 a

2001

97

Tabela 26.

Unidades de Beneficiamento de Algodão Herbáceo em Mato Grosso

 

97

Tabela 27.

Estimativa

do

Custo

de

Transporte

Multimodal

Verificado

na

Região

Centro-

Oeste

98

Tabela 28.

Fornecimento de Infra-estrutura de Transportes para o Setor Produtivo Investimentos Públicos e Privados - 1998 a 2002

101

Tabela 29.

Expansão

do

Conjunto

Agrícola

de

Mato

Grosso

-

Área

Cultivada

(ha)

1996

a

2000

102

Tabela 30.

Situação Fiscal de Mato Grosso em % da Receita Corrente Líquida (RCL) -

1995 a

2000

103

Tabela 31.

Ações de Marketing Institucional - Programa "Mato Grosso: É Hora de Investir" - 1999 a

2000

106

Tabela 32.

Performance das Exportações de Mato Grosso (em US$) - 1997 a 2001

 

107

Tabela 33.

Investimentos Privados Em Realização em Mato Grosso (em R$) - 2001 a 2003

 

108

Tabela 34.

Ações de Marketing Institucional da Cotonicultura Realizadas pela AMPA e Governo do Estado de Mato Grosso - 2001 a 2002

110

Tabela 35.

Recursos Oriundos do PROALMAT e Depositados no FACUAL para Investimentos em P&D - 1998 a 2001

111

Tabela 36.

Recursos do FACUAL Investidos - 1998 a 2001

 

112

Tabela 37.

Variedades de Plantas Utilizadas por Cotonicultores de Mato Grosso

 

113

Tabela 38.

Elevação dos Gastos com Agrotóxicos na Cotonicultura de Mato Grosso

 

113

Tabela 39.

Geração de Novas Cultivares pelas Instituições de P&D de Mato Grosso

115

Tabela 40.

Programas de Incentivo à Cultura do Algodão em Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e Bahia

121

Figura 1.

LISTA DE FIGURAS

Índice Pluviométrico em Mato Grosso e Ciclo Produtivo do Algodão

31

INTRODUÇÃO

Diversos estudos tem discutido amplamente a crise da cotonicultura brasileira no início da década de 1990 e a sua posterior reestruturação produtiva e espacial a partir de 1998. Uma das grandes questões refere-se à repulsão da cultura cotonícola das regiões produtoras tradicionais, que incluem diversos estados nordestinos, além de São Paulo e Paraná, e a atração do cultivo desta cultura para a sua mais nova fronteira, a região de Cerrado no Planalto Central Brasileiro. O argumento desta reestruturação espacial reside principalmente na busca de se elevar as economias de escala, reduzir os custos unitários e melhorar a qualidade das fibras têxteis, com base na utilização de um pacote tecnológico de difícil aplicação nas regiões tradicionais. Muitas variáveis agiram sobrepostas para que a cotonicultura pudesse ingressar em um novo ciclo de crescimento. Mudanças ocorridas nas políticas agrícola, fiscal e cambial, de cunho macroeconômico adotadas pelo Governo Federal, engendraram um ambiente propício para a alocação de recursos na produção cotonícola em todas as unidades federativas do Brasil. Porém, o deslocamento da produção para a região Centro-Oeste foi estimulado também, além das políticas públicas, por fatores técnicos de produção, que garantiram vantagens competitivas do algodão produzido na nova fronteira se comparado ao algodão produzido nas regiões tradicionais. Na safra de 2001, aproximadamente 71% da produção nacional estava localizada nos três estados de Centro-Oeste - Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. As condições naturais de clima, solo e relevo somadas à concentração fundiária podem explicar, a priori, porque deste efeito-substituição entre as antigas regiões produtoras e a região central do Brasil. Contudo, ainda pouco se tem discutido o porquê do estado de Mato Grosso concentrar mais de 50% da safra nacional de algodão herbáceo. Alguns pesquisadores sugerem que o sucesso da concentração cotonícola em solo mato-grossense estaria relacionado a incentivos de ordem puramente fiscal. O programa de redução de ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) criado pelo Governo do Estado de Mato Grosso seria o único fator explicativo da convergência da produção de algodão naquele estado. A hipótese de que somente incentivos fiscais poderiam fomentar a afluência de uma produção específica em um espaço delimitado é demasiado simplista e se apóia nas clássicas abordagens de crescimento regional do tipo causa-efeito. Visando fugir destes modelos explicativos geralmente baseados na econometria - com relações bem comportadas e parâmetros ex ante definidos, modelos que comumente são utilizados pela ortodoxia

econômica -, buscou-se neste trabalho utilizar um referencial histórico, não determinista e holístico para analisar o processo de desenvolvimento dos diversos espaços econômicos, num processo dinâmico, baseado em fontes internas e externas e em ações complexas dos agentes envolvidos. Este referencial teórico surgiu a partir das constatações de que os modelos neoclássicos tradicionais não logravam êxito em elucidar as assimetrias de crescimento e desenvolvimento econômico entre os diversos espaços do globo. A metodologia fundamentada em axiomas e relações rígidas entre as variáveis impossibilitava uma explicação fidedigna dos fenômenos. Assim, neste trabalho se faz uso da Teoria do Desenvolvimento Endógeno que, apesar de não possuir a elegância formal dos modelos neoclássicos, procura encontrar as relações verídicas dos fatos socialmente construídos na explicação do desenvolvimento regional. Aqui, a ação de grupos endógenos ganha papel de destaque na determinação das políticas públicas e da formação dos arranjos produtivos

regionais. São, a rigor, os agentes locais que definem quais serão as suas trajetórias produtivas

e sociais. A partir do exposto, a análise das variáveis que agiram de forma direta sobre a concentração da produção cotonícola em Mato Grosso expressa o objetivo geral deste trabalho. Os objetivos específicos são representados pelo estudo das posições da iniciativa privada, do Governo do Estado e das instituições de P&D no processo de convergência da produção cotonícola em Mato Grosso durante a década de 1990. A metodologia utilizada para responder aos objetivos se dividiram em pesquisa direta

e indireta. A pesquisa indireta incluiu a consulta a diversas publicações de pesquisadores brasileiros e instituições de pesquisa sediadas em Mato Grosso, tais como Fundação MT (Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso), IPA-PARECIS (Instituto de Pesquisa Agroambiental do Parecis), Fundação Rio Verde (Fundação de Apoio a Pesquisa e Desenvolvimento Integrado Rio Verde), FUNDAPER (Fundação de Apoio a Pesquisa e Extensão Rural), Fundação Centro-Oeste (Fundação Centro-Oeste de Pesquisa) e EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Além destas, publicações de instituições de representação empresarial como a AMPA (Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão) também foram utilizadas. Relatórios de instituições públicas também foram alvo de pesquisa indireta, principalmente da SAAF- MT (Secretaria de Estado de Agricultura e Assuntos Fundiários de Mato Grosso), SICM-MT (Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Mineração de Mato Grosso) e SEPLAN-MT (Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação Geral de Mato Grosso). Por fim, foi

consultado o acervo da biblioteca pública do FACUAL (Fundo de Apoio a Cultura do

Algodão), um organismo de fomento à pesquisa e desenvolvimento da cotonicultura mato- grossense.

A pesquisa direta foi realizada em cinco instituições de Mato Grosso que se

apresentaram como estratégicas na coleta de informações relevantes: i) EMBRAPA; ii) Fundação MT; iii) SAAF-MT; iv) AMPA; e v) FACUAL. A EMBRAPA e a Fundação MT disponibilizaram dados relativos ao histórico do desenvolvimento tecnológico da cotonicultura em Mato Grosso durante a década de 1990. A SAAF-MT disponibilizou as informações relativas ao incentivo fiscal e ao papel de indutor do crescimento adotado pelo Governo do Estado. Na AMPA, pôde-se captar as formas de organização e cooperação em prol da eficiência coletiva dos cotonicultores. Mas, foi no FACUAL que foram coletadas as principais informações acerca do fenômeno. Por ser administrado por agentes públicos e privados e ser o seu objetivo financiar projetos de pesquisa tecnológica, foi nesta instituição

que pôde-se perceber um ambiente propício à formação de um arranjo produtivo regional, baseado na cooperação institucional pública e privada em busca de soluções conjuntas.

O trabalho foi divido em quatro capítulos. O capítulo 1 versa sobre a produção de

algodão no mundo e no Brasil, bem como discute a crise do setor durante a década de 1990 e

os

fatores atualmente aceitos da migração da cotonicultura para a região de Cerrado no Brasil.

O

capítulo 2 procura demonstrar a falência do modelo de desenvolvimento do "topo para a

base". Neste capítulo a Teoria do Desenvolvimento Endógeno será amplamente discutida, apresentando um novo paradigma para o desenvolvimento regional, pautado agora em um movimento de "baixo para cima", onde os agentes locais passam a decidir quais serão os

arranjos produtivos e as estratégias para superar os desafios da competição global.

O capítulo 3 destaca os principais fatos que permitiram a gênese, a expansão e a

concentração da cotonicultura brasileira em Mato Grosso, evidenciando o papel relevante da geração de tecnologia local, do acúmulo e difusão do conhecimento técnico no espaço regional, o papel do Governo Regional como indutor do desenvolvimento e também a cooperação entre os cotonicultores em busca da eficiência coletiva. No capítulo 4 procura-se debater sobre a instabilidade desta atividade produtiva e a atitude dos grupos endógenos em manter suas posições relativas de mercado. Imersa na globalização produtiva, somente as políticas públicas não poderão proteger a cotonicultura regional da competição internacional. Nesta nova ordem mundial, somente inversões em tecnologia e a elevação da cooperação entre as instituições poderão manter as vantagens competitivas do algodão mato-grossense em um futuro próximo.

CAPÍTULO 1

A PRODUÇÃO DE ALGODÃO NO MUNDO E NO BRASIL

1.1 Características da Produção de Algodão no Mundo

O algodoeiro é uma planta da família das malváceas, do gênero Gossipium. O homem se utiliza de dois produtos principais derivados desta planta, a semente e a fibra. A semente representa aproximadamente 64% e a fibra 36% do peso total do capulho. A fibra se apresenta como o principal produto econômico, cabendo à semente um interesse secundário. A fibra derivada do algodão pode ser empregada em confecção de fios, tecidos, algodão hidrófilo, feltro, cobertores, estofamentos, celulose, películas fotográficas e chapas para radiografias entre outros. Da semente utiliza-se o óleo para alimentação humana e sabão e o bagaço para alimentação de animais ruminantes [(CARVALHO, 1996); (RICHETTI & MELO FILHO,

2001)].

Dentre as fibras vegetais, a do algodão é a mais cultivada e utilizada pelo homem. Para Carvalho (CARVALHO, 1996), a razão de sua importância reside em algumas notáveis características de sua fibra: i) por ser celulose na sua forma quase pura, suporta aquecimento a altas temperaturas, o que não ocorre com as fibras sintéticas; ii) é resistente aos esforços de lavagem manual e mecânica; iii) é 25% mais resistente quando está molhada do que quando seca; iv) tem particularidade de agasalhar e aquecer o corpo humano no inverno; e v) é fresca no verão, sendo apropriada para o uso em climas quentes. Ainda segundo Barbosa (BARBOSA et al., 1997), a fibra de algodão apresenta múltiplas e variadas aplicações, proporcionando aos tecidos características dificilmente imitáveis pelos fios sintéticos, como maciez, leveza, absorvência e frescor.

Devido à sua pouca exigência em solo e clima, o algodoeiro pode ser produzido em praticamente todos os continentes do mundo. Historicamente, a utilização do algodão pelo homem é conhecida desde a antigüidade. Fragmentos de tecidos feitos com a fibra do algodão foram encontrados na Índia e no Norte do Peru, sendo que as idades dos fragmentos foram estimadas em 4000 a.C. e 2500 a.C. respectivamente. Já no ano 1500 a.C. na Índia, o cultivo do algodão já estava organizado especificamente para a fabricação de tecidos [(CARVALHO, 1996); (ABA, 2001)].

As principais hipóteses indicam que a origem da utilização da fibra do algodoeiro pelo homem se deu na Índia, de onde se expandiu para Paquistão, Tailândia, China, Irã, Síria, Turquia e Grécia. Nos séculos IX e X, os árabes disseminaram o cultivo do algodão pelas regiões mediterrâneas. Dentre as principais regiões produtoras, a Sicília e a Espanha se destacavam. A Espanha utilizou largamente velas fabricadas de algodão em seus navios, quando do período das navegações e descobertas durante os séculos XV e XVI (CARVALHO, 1996). Na América, as hipóteses atuais indicam que as regiões que abrangem México, Guatemala e Peru foram os pioneiros na utilização desta fibra natural. Sua utilização se

expandiu para as atuais regiões de El Salvador, Nicarágua, Colômbia, Brasil e Argentina. Os

povos Incas e Maias do Peru, os Astecas do México e as diversas tribos indígenas do Brasil

cultivavam o algodoeiro, fiavam sua fibra, teciam roupas, mantas, tapeçarias, bordados e cordas, antes mesmo da chegada dos europeus à América (CARVALHO, 1996).

Porém, o grande impulso da cotonicultura a nível mundial se deu a partir da invenção

da máquina de fiar por Arkwright e do tear mecânico por Cartwright, na segunda metade do

século XVIII - na Inglaterra - bem como do descaroçador mecânico por Eli Whitney em 1793,

nos EUA. Esta ruptura tecnológica criou a possibilidade de utilização mais efetiva do algodão

pela nascente indústria têxtil. Gerou também uma competição entre a fibra de algodão e a lã,

visto que até aquele momento, a lã representava a principal fonte de fibras naturais na Europa.

Desde então, o consumo de algodão cresceu no mercado internacional e os Estados Unidos da

América se tornaram os maiores produtores e fornecedores desta fibra durante os séculos

XVIII e XIX [(CARVALHO, 1996); (ABA, 2001)].

Ainda durante o século XIX, o algodão já havia se tornado a principal fibra utilizada pelo homem. No início do século XX, a participação do algodão já havia chegado a 85% e a lã reduzida a 15% do total de fibras utilizadas pela indústria têxtil global. Contudo, no decorrer deste último século, surge uma importante concorrente para a fibra de algodão, a fibra química derivada do petróleo. A partir de 1940 as fibras químicas passam a ocupar gradativamente o espaço do algodão. Como pode ser visto na Tabela 1, as fibras de origem química representavam apenas 0,2% da produção total em 1920, saltando para 46% em 1990 e alcançando 56% em 1998. A participação do algodão, por sua vez, recuou de 85% em 1920

para 49% em 1990 e 40% em 1998. Em 1998, a lã representava apenas 4% do consumo total de fibras pelo setor industrial 1 [(FREIRE et. al., 1997); (ABA, 2001)].

1 No caso específico do Brasil, as fibras de algodão representam entre 75 e 80% do total de consumo da indústria têxtil [(ROLIM, 1997); (RICHETTI & MELO FILHO, 2001)].

Tabela 1. Produção Mundial de Fibras Têxteis e Respectivas Percentagens de Participação Total

Anos Selecionados (em milhões de toneladas)

Ano

%

Algodão

%

Químicas

%

1920

0,8

14,8

4,6

85

0,015

0,2

1940

1,1

12

6,9

76

1,1

12

1950

1,1

12

6,6

70

1,7

18

1960

1,5

10

10,3

68

3,3

22

1970

1,6

7

11,8

55

8,1

38

1980

1,6

5

14,0

48

13,7

47

1990

2,0

5

18,7

49

17,7

46

1998

2,0

4

20,2

40

28,5

56

FONTE: Fundação MT/ Textile Organon, citado em Freire et al., 1997.

Apesar da perda de importância relativa da fibra do algodão utilizada pelas indústrias têxteis e da estabilização da produção durante a década de 1990 em um intervalo entre 17 e 20 milhões toneladas, os países que possuem uma indústria têxtil competitiva - China, Estados Unidos e Índia - mantêm, estrategicamente grandes produções de algodão, garantindo a oferta de matéria-prima relativamente desatreladas do comércio internacional (BESEN et. al., 1997). Em adição, pode-se mencionar ainda que as culturas agrícolas das fibras naturais possuem a característica de serem geridas de forma sustentável, garantindo-se como recursos naturais renováveis. As fibras sintéticas, por serem derivadas do petróleo, constituem recursos naturais finitos. Na Tabela 2 pode-se visualizar os dez principais produtores e a produção agregada mundial de algodão. Pode-se perceber que China, EUA, Índia e Paquistão são os grandes produtores mundiais, com uma larga vantagem sobre Uzbequistão, Turquia, Brasil, Austrália e todos os demais produtores. Contudo, a análise da Tabela 2 torna-se mais interessante se conjugada com a Tabela 3, que apresenta a produtividade dos principais países produtores de algodão. Nota-se que países como Israel, Espanha e México, que sequer figuram entre os dez maiores produtores, mantêm elevados níveis de produtividade, muito acima da média mundial, com destaque para Israel. Outro fato interessante é a expressiva elevação da produtividade brasileira, que se apresentava abaixo da média mundial no período 1992-98, mas que a partir de 1999 se eleva substancialmente acima da média, alcançando a 6.ª (sexta) melhor produtividade mundial no ano de 2001. Não se observa em nenhum outro país tamanha elevação de produtividade em um período tão curto de tempo.

Tabela 2. Produção Mundial de Algodão em Pluma* (Dez Principais Países) - 1992 a 2001 (em ton.)

 

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

China

5.672

4.510

3.739

4.342

4.768

4.203

4.602

4.501

3.829

4.420

EUA

3.835

3.531

3.513

4.281

3.897

4.124

4.092

3.030

3.694

3.742

Índia

2.053

2.380

2.095

2.355

2.885

3.024

2.686

2.805

2.652

2.384

Paquistão

2.180

1.539

1.367

1.478

1.801

1.594

1.561

1.480

1.700

1.750

Uzbequistão

1.443

1.306

1.358

1.248

1.254

1.062

1.139

1.000

1.128

963

Turquia

561

574

602

628

851

784

383

871

791

880

Brasil

667

420

484

537

410

306

412

521

700

861

Austrália

502

373

329

335

429

613

689

726

741

704

Grécia

207

243

316

389

443

301

348

390

428

425

Síria

189

230

212

205

213

270

345

335

306

362

Outros

3.473

2.833

2.848

2.983

3.406

3.332

3.787

3.048

2.900

2.760

Total

20.712

17.939

16.863

18.781

20.357

19.613

20.044

18.707

18.869

19.251

FONTE: ICAC, 2001a. *Observação: o algodão em pluma representa aproximadamente 36% do peso total da produção de algodão, sendo que os 64% restantes representam o peso das sementes.

Ademais, dos quatro principais países produtores, somente a China mantêm níveis de produtividade muito acima da média mundial. Tanto EUA, quanto Uzbequistão e Paquistão estão estacionados em um nível de produtividade pouco acima da média. O grande destaque negativo fica por conta da Índia, mesmo com a terceira maior produção mundial, este país mantêm uma produtividade muito abaixo da média global. Se se considera que a produtividade agrícola está relacionada com a qualidade do solo

e com o nível tecnológico utilizado na atividade produtiva, Síria, Austrália, Turquia, China,

Brasil e Grécia - dentre os dez maiores produtores - são os países que estão conseguindo êxito em combinar terra e tecnologia, alcançando níveis de produtividade bastante acima da média. Contudo, EUA, Uzbequistão e Paquistão não estão conseguindo uma boa combinação de terra

e tecnologia que lhes garanta uma produtividade em níveis elevados. A Índia, por sua vez,

apresenta um quadro de baixa eficiência na combinação dos insumos de produção, provavelmente produzindo com baixa utilização de tecnologia. Visualizando as Tabelas 2 e 3, percebe-se que a produção mundial de algodão cresceu em 0,54 milhão de toneladas no triênio 1999-2001, bem como a produtividade se elevou de 568 kg./ha. para 611 Kg/ha., no mesmo triênio. Este movimento parece incompatível com a queda dos preços registrada durante a segunda metade dos anos 1990. O Índice Cotlook A 2

2 Índice internacional que se refere ao preço do algodão em pluma posto no Norte da Europa, CIF. É calculado por uma média das cinco menores cotações entre uma seleção de algodões de 15 procedências diferentes, do tipo Middling 1-3/32" (FERREIRA FILHO, 2001).

atingiu a média de 80 centavos de dólar por libra-peso no período 1993-97 3 , caindo para 53 centavos por libra na safra 1999/2000, recuperando-se na safra 2000/2001 para 57 centavos por libra e recuando novamente para 50 centavos de dólar por libra em 2001/2002. A previsão de preços para a safra 2002/2003 é de uma média de 51 centavos por libra. Quatro fatores parecem estar promovendo os aumentos na produção mundial, apesar da tendência de queda dos preços: i) geração e incorporação de novas tecnologias, elevando a produtividade; ii) fortalecimento do dólar norte-americano em relação às moedas de outros países; iii) desenvolvimento de uma nova superfície dedicada ao cultivo de algodão; e iv) políticas de incentivo adotadas por governos (BECERRA, 2001).

Tabela 3. Produtividade Mundial de Algodão em Pluma (Principais Países) - 1992 a 2001 (em kg/ha.)

 

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

Israel

1.720

1.667

1.723

1.476

1.779

1.810

1.845

1.701

1.618

1.658

Síria

1.086

1.150

1.087

1.079

1.044

1.233

1.377

1.558

1.259

1.414

Austrália

1.781

1.424

1.317

1.603

1.411

1.580

1.611

1.316

1.684

1.407

Turquia

938

900

1.061

1.080

1.148

1.055

1.165

1.153

1.100

1.319

China

867

660

750

785

879

890

1.016

1.059

1.028

1.096

Brasil

338

329

391

437

430

465

470

750

850

1.049

Espanha

1.058

927

1.001

1.169

1.056

1.165

1.078

1.034

1.222

1.039

Grécia

890

729

888

1.016

997

704

890

958

995

1.037

México

713

697

719

638

667

954

1.042

924

893

1.008

Egito

815

1.012

1.119

841

810

894

948

693

858

926

EUA

731

783

679

794

602

792

762

702

680

708

Uzbequistão

839

783

810

816

837

714

768

647

752

668

Paquistão

769

543

487

557

601

506

528

489

583

601

Índia

267

316

286

300

318

330

304

302

310

293

Mundial

598

555

554

584

568

575

594

568

593

611

FONTE: ICAC, 2001a.

1.2 O Complexo Produtivo do Algodão no Brasil

A agricultura brasileira experimentou durante a década de 1990 diversas transformações estruturais, em função direta de um mosaico de variáveis que agiram sobrepostas, tanto favorável quanto desfavoravelmente. Para Homem de Melo (HOMEM DE

3 A média de preços do período 1975-2000 foi de 72 centavos de dólar por libra (BECERRA, 2001).

MELO, 1999), as elevadas taxas de juros reais 4 , seguidas pela forte valorização da taxa de câmbio real 5 , as excessivas reduções das tarifas de importação de produtos agrícolas 6 - sobretudo em relação a algodão e leite -, a importação financiada de produtos agrícolas e as baixas taxas de crescimento da demanda interna agiram negativamente sobre a alocação de recursos na agricultura brasileira. Além destas, Suzuki Junior (SUZUKI JUNIOR, 2000) menciona como variável negativa à expansão da agricultura no Brasil a redução dos recursos para financiamento agrícola do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), que declinaram de R$32,4 bilhões/ano na década de 1980 para R$12,6 bilhões/ano no período 1990-98. Porém, um outro grupo de variáveis agiram de forma positiva sobre a agricultura, como a melhoria das cotações internacionais de produtos agrícolas, as reduções dos preços reais de insumos agrícolas, o aumento expressivo do índice de produtividade da terra e as modificações de políticas econômica e agrícola. Dentro do contexto maior da agricultura brasileira, está inserida o Complexo Produtivo do Algodão 7 , que, seguindo a trajetória descrita anteriormente, tem passado durante a década de 1990 por profundas transformações de ordem tecnológica, gerencial e logística. Tal fato se deve pelo reconhecimento da defasagem tecnológica da indústria têxtil - o principal vetor de crescimento do Complexo Produtivo do Algodão -, considerado um dos parques industriais mais atrasados do mundo. Esta inferioridade tecnológica ficou latente durante a década de 1980, quando as empresas têxteis brasileiras conseguiam competir, no máximo, com seus vizinhos sul-americanos. Visando mudar este panorama e melhorar a competitividade da indústria têxtil, o Governo Federal, ao final da década de 1980, tomou uma série de medidas na busca da modernização das máquinas daquele setor, por reconhecer

4 A taxa de juro real (r) é a diferença entre a taxa de juro nominal (i) e a inflação ( ), sendo dada por: r = i - (GÓES, 2000).

5 A política cambial adotada por um país pode determinar diretamente o resultado de suas transações correntes com o exterior. Denomina-se regime cambial o processo pelo qual é determinada a taxa de câmbio de um país. A taxa de câmbio nominal pode ser conceituada como sendo o preço em moeda nacional de uma unidade monetária estrangeira tomada como referência. Já a taxa de câmbio real incorpora o deflator de preços, ou seja, considera a variação de preços entre os países [(DORNBUSCH & FISCHER, 1991); (ALMEIDA & BACHA, 1999); (BLANCHARD, 1999)]. Contudo, mais importante do que uma simples relação de preços é a produtividade e a capacidade de concorrência, que estão intimamente ligados a fatores institucionais, tais como sistema tributário, tecnologia, mão-de-obra, infra-estrutura, entre outros (SILVA, 2001).

6 O processo de reforma tarifária no Brasil se iniciou em 1988, depois de trinta anos de vigência da Lei de Tarifas de 1957. A política de abertura comercial do Governo Federal definiu uma trajetória decrescente para as taxas sobre produtos importados, trajetória esta que se intensificou muito a partir de 1990. A política de fechamento comercial, apesar de garantir a sobrevivência das empresas nacionais, não criou incentivos à modernização do parque produtivo, da elevação da produtividade e da difusão do progresso técnico. Além da superação do atraso tecnológico, a abertura da economia brasileira visava também o controle de uma inflação crônica observada desde a década de 1970 [(BAER, 1996); (BAUMANN et al., 1998); (SILVA, 2001)].

7 Compreende a cotonicultura, indústria beneficiadora, fiadora, têxtil, vestuário, calçados e artefatos de pano.

que a adoção de novas tecnologias seriam fundamentais para a sobrevivência do Complexo Produtivo do Algodão [(FREIRE et. al., 1997); (FERREIRA FILHO, 2001)] . Desta forma, o governo brasileiro reduziu a alíquota de impostos sobre a importação de máquinas para estimular a adoção de uma nova tecnologia têxtil, o que gerou uma expansão das importações de máquinas pelas indústrias brasileiras [(GORINI & MARTINS, 1998), (Tabela 4)]. Na Tabela 5 pode-se perceber os resultados diretos da redução de impostos sobre a importação de maquinário, onde a idade média dos equipamentos se reduziu, principalmente nos primeiros elos do complexo, o beneficiamento da pluma e a sua posterior fiação.

Como o governo esperava um crescimento substancial da produção de vestuários e calçados e as novas máquinas exigiam como matéria-prima um algodão de qualidade superior ao produzido no Brasil 8 , o imposto sobre importação de algodão em pluma foi reduzido de 55% em 1988 para 10% em 1989 e 0% de 1990 em diante. Tal medida visava garantir um farto abastecimento de algodão de qualidade e a preços competitivos para uma renovada e pujante indústria beneficiadora de fibras naturais [(ROLIM, 1997); (BACCARIN, 2001)]. Entretanto, somada à redução das tarifas de importação sobre o algodão em pluma, pelo menos três variáveis agiram direta e simultaneamente sobre o Complexo Produtivo do Algodão: i) fortes subsídios praticados pelo Governo dos Estados Unidos da América (EUA) sobre o algodão, alterando os mecanismos de formação de preços daquele país, garantindo a

competitividade do algodão norte-americano no mercado internacional; ii) a entrada no Brasil,

a partir de 1990, de grandes trading companies - principalmente norte-americanas e européias

- financiando as indústrias têxteis brasileiras na aquisição de algodão em pluma no mercado

internacional, com taxas de juros inferiores às praticadas internamente, aliado a longos prazos de pagamento (270 a 360 dias); e iii) a sobre valorização cambial da moeda brasileira frente ao dólar norte-americano a partir de 1988 [(GONÇALVES, 1997); (ALMEIDA & BACHA,

1999)].

8 Um dos pontos mais críticos para garantir a qualidade do algodão refere-se ao ato da colheita. Nas pequenas e médias propriedades na Região Meridional, que nasceram após a crise de 1929, se observava a colheita no sistema de "panha maçã a maçã", realizada exclusivamente pela mão-de-obra familiar, que garantia uma alta qualidade à fibra do algodão. Contudo, as modificações ocorridas no agro brasileiro, principalmente após a década de 1960, com a forte urbanização, a concentração fundiária e o desmantelamento das colônias agrícolas, a colheita do algodão passou a depender da contratação sazonal dos bóias-frias. Nesta nova realidade, com mão-de-obra mais escassa e de custo cada vez mais elevado, o sistema de "panha maçã a maçã" foi substituído pelo sistema de "rapa", em que a produtividade por trabalhador cresce, porém a qualidade da fibra do algodão torna-se muito inferior ao antigo sistema de colheita. Na década de 1980, o sistema de "rapa" estava amplamente disseminado na cotonicultura brasileira, onde a fibra produzida era de qualidade inferior (GONÇALVES, 1997).

Tabela 4. Importações Brasileiras de Máquinas Têxteis - 1989-2000 (em US$1.000,00)

Máquinas

1989

1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

Máq. Para extrudar, estirar, cortar materiais têxteis sintéticos ou artificiais

2.748

24.869

16.092

27.141

20.576

25.369

27.428

46.239

32.669

15.916

Máquinas para fiação

58.251

80.606

55.748

34.080

43.140

80.369

109.227

95.954

125.991

83.937

Teares para tecidos

43.920

55.313

30.519

33.911

30.729

79.785

99.623

51.515

72.504

47.513

Teares para fabricar malhas

43.060

69.111

61.250

34.230

56.005

99.520

152.874

76.886

93.445

86.189

Máquinas e equip. auxiliares

67.384

78.593

68.343

50.407

63.981

157.374

85.926

66.946

60.217

56.685

Máquinas para fab. de feltro

2.560

5.236

4.684

2.734

4.225

11.546

24.371

9.255

3.218

20.192

Máquinas de lavar roupas

1.912

234

278

893

1.182

4.285

11.314

22.748

23.665

11.574

Máquinas para lavar, limpar, espremer, passar, tingir, etc.

11.236

13.256

22.242

24.282

36.560

50.832

77.453

55.265

77.191

72.131

Máquinas de costura

38.660

49.822

83.299

42.913

80.955

101.914

150.391

92.885

98.126

73.682

Total

269.731

377.040

342.455

250.591

337.353

611.021

738.606

517.694

587.027

467.879

FONTE: SECEX - MDIC, elaborada por ABIT, 2002a.

Tabela 5. Idade Média dos Equipamentos Têxteis no Brasil 1990/1996/1997

Segmentos/anos

1990

1996

1997

Beneficiamento

12,11

4,50

5,07

Fiação

12,43

7,94

8,23

Tecelagem

12,77

11,63

10,98

Malharia

11,20

10,52

11,03

Fonte: ABIT/Sinditêxtil, citado em Massuda, 2002.

Desta forma, a facilidade de importação de algodão em pluma a preços inferiores aos produzidos no Brasil - em função das quatro variáveis mencionadas -, a estratégia de acumulação de capital pelas indústrias têxteis engendrou a elevação das importações de algodão a partir de 1989. Além do preço, a qualidade superior do algodão importado, condizente com o padrão internacional relativo a tipo, comprimento, finura, resistência e uniformidade das fibras, levou as indústrias do complexo produtivo a preferir adquirir o algodão no mercado internacional [(BARBOSA et al., 1997); (ROLIM, 1997)]. A crescente evolução das importações de algodão em pluma pode ser vista na Tabela 6. Segue-se neste movimento que o Brasil se transformaria durante a década de 1990 de grande país exportador a maior importador mundial de algodão em pluma [(GONÇALVES, 1997); (ICAC, 2001b)].

O reflexo deste fenômeno foi imediatamente sentido pelos cotonicultores brasileiros, obrigados a reduzir a área plantada e conseqüentemente a produção total de algodão dada a redução da demanda pelo algodão nacional. Nota-se que a produção de algodão após atingir o pico em 1985, reduz-se nos anos seguintes. Em 1993 a produção foi aproximadamente 50%

menor do que em 1988. As importações cresceram e alcançaram seu pico em 1993 [(ROLIM, 1997); (BACCARIN, 2001)].

Tabela 6. Evolução do Suprimento de Algodão em Pluma no Brasil - 1980-2001 (em 1000 toneladas)

Algodão em Pluma no Brasil - 1980-2001 (em 1000 toneladas) Safra Produção Importação Exportação Consumo 1980

Safra

Produção

Importação

Exportação

Consumo

1980 577,0

0,0

9,0

572,0

1981 594,4

2,0

30,8

561,0

1982 680,5

0,0

56,5

580,6

1983 586,3

2,4

180,2

556,7

1984 674,5

7,8

32,3

555,2

1985 968,8

20,5

86,6

631,4

1986 793,4

67,4

36,6

736,6

1987 633,4

30,0

174,0

774,7

1988 863,6

81,0

35,0

838,0

1989 709,3

132,1

160,0

810,0

1990 665,7

86,0

110,5

730,0

1991 717,0

105,9

124,3

700,0

1992 667,1

167,8

33,8

748,0

1993 420,2

508,5

8,3

829,5

1994 483,1

330,0

8,0

850,0

1995 594,1

320,0

13,0

900,0

1996 410,1

472,0

1,6

829,1

1997 305,7

438,5

0,3

798,7

1998 411,0

334,4

3,1

782,9

1999 520,1

280,3

3,9

849,5

2000 700,3

300,0

30,0

910,0

2001 861,8

190,0

120,0

930,0

FONTE: CONAB, 2002.

A partir de julho de 1994, com a implantação do Plano Real, se verificou uma tímida

recuperação da cotonicultura. Apesar do câmbio valorizado da moeda nacional em relação às moedas estrangeiras, fato que poderia estimular importações mais baratas, as compras no exterior de algodão em pluma em 1994 e 1995 decrescem em relação a 1993. A produção interna inicialmente se recupera no biênio 1994/95 em função do boom inicial gerado pelo Plano Real. Porém, com o principio de recessão da economia a partir de 1996, a produção de algodão sofreu uma considerável queda no biênio 1996/97, sendo que as importações voltaram a se elevar neste último período (RICHETTI & MELO FILHO, 2001).

O momento era extremamente complexo para a cotonicultura brasileira. A produção

de algodão estava desorganizada, as importações cresciam e o saldo da Balança Comercial do

setor têxtil se apresentou deficitário em mais de US$1 bilhão no período 1996-97. O

reconhecimento de que a cotonicultura no Brasil não estava acompanhando o movimento de expansão registrado nos demais países produtores sugeria que as forças de mercado não estavam afetando a produção interna. Assim, as políticas públicas estariam por trás do fraco desempenho do setor verificado a partir de 1993, bem como das políticas públicas dependia a expansão futura da cotonicultura (IEL et al., 2000). O Governo Federal tomou algumas medidas para garantir ao setor sua sobrevivência, pois admitiu-se que a manutenção de uma cotonicultura forte, dinâmica e inovadora representaria uma importante estratégia para garantir competitividade da indústria têxtil em um mercado globalizado, reduzindo - como China, EUA e Índia - a dependência da importação de insumos básicos (FREIRE et al., 1997). Assim, a partir de 1998 há um importante ponto de inflexão na cotonicultura brasileira, onde a produção total volta a se elevar. O impulso à elevação da produção interna e a redução das importações de algodão podem estar diretamente relacionados a algumas mudanças ocorridas nas políticas públicas no biênio 1996-97:

i) Promulgação da Lei Complementar n.º 87, de 13/09/1996, conhecida como Lei Kandir, que isentou do Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) os produtos primários e semi-elaborados com destino à exportação. Em média, os produtos agrícolas brasileiros alcançaram uma desvalorização fiscal em torno de 10%, ganhando competitividade no mercado internacional (KUME & PIANI, 1997); ii) Promulgação da Lei n.º 9.456/97, a chamada Lei de Proteção de Cultivares, que integrou o Brasil ao grupo de países da União Internacional para a Proteção de Obtenções Cultivares (UPOV). O objetivo principal da UPOV é fomentar o desenvolvimento continuado de novas variedades para os agricultores. Antes desta lei, a quase totalidade dos investimentos em melhoramento genético do algodoeiro era praticada por instituições estatais (IAC, Iapar, Epamig, Embrapa, UFV, UFCE). Após a lei, várias empresas privadas nacionais e internacionais passaram a desenvolver ou adaptar cultivares próprias ou linhagens promissoras no Centro-Oeste brasileiro. Desta forma, esta lei potencializou as empresas estrangeiras a trazerem para o Brasil seus programas de pesquisa em genética e melhoramento

do algodão [(CARRARO, 2001); (FREIRE & FARIAS, 2001)];

iii) Edição da Medida Provisória n.º 1.569 de 25/03/1997, que, sem proibir as importações a

prazo, determinou o pagamento à vista das aquisições externas com prazos inferiores a 360

dias, prazo então predominante nas importações de algodão no Brasil. Esta Medida Provisória visava reduzir o financiamento externo das importações, dentre os quais, o algodão em pluma.

O resultado imediato desta MP foi a queda das importações financiadas pelas trading

companies já a partir de 1998. A importância desta medida residia no elevado nível de financiamentos externos, pois no ano de 1995, 83% do algodão importado foi financiado pelas trading companies [(BESEN et al. 1997); (GONÇALVES, 1997); (REZENDE et al., 1997); (REZENDE & NONNENBERG, 1998); (MELO FILHO et al., 2001)]; iv) Alteração das alíquotas de importação de algodão em pluma, que permaneceram ao nível de 0% no período 1989-1994, sendo alteradas para 1% em 1995, 3% no biênio 1996-97, 6% em 1998, 8% no biênio 1999-2000 e retornando para 6% em 2001 (IEL et al., 2000); e v) Incentivos à expansão da cotonicultura por parte de Governos Estaduais. Alguns estados criaram programas específicos para a produção cotonícola, com redução de impostos e incentivo ao desenvolvimento tecnológico. Em Mato Grosso foi instituído o Programa de Incentivo à Cultura do Algodão de Mato Grosso - PROALMAT. Em Goiás, foi instituído o Programa de Incentivo ao Produtor de Algodão - PROALGO. Em Mato Grosso do Sul, foi criado o Programa de Desenvolvimento da Produção Agropecuária - PDAGRO [(MATO GROSSO, 1997); (GOIÁS, 1999); (MATO GROSSO DO SUL, 1999); (IEL et al., 2000); (SUZUKI JUNIOR, 2001)]. Além disso, a desvalorização cambial ocorrida em março de 1999 - tornando as importações relativamente mais caras - veio a reforçar a expansão da produção interna para cobrir a redução das importações de algodão em pluma, que no período de 1998-2001 se retraíram em 144,4 mil toneladas. Além disso, a desvalorização cambial facilitou as exportações de produtos das indústrias de vestuário, calçados e artefatos de pano, que passaram a demandar um volume maior de algodão em pluma. Claro está que das seis variáveis mencionadas que agiram de forma positiva sobre a cotonicultura, cinco delas - Lei Kandir, Lei de Proteção de Cultivares, MP n.º 1.569, elevação das tarifas de importação e desvalorização cambial - geraram impactos iguais em todas as unidades da federação brasileira, sendo portanto, de caráter macroeconômico. Nenhuma unidade da federação recebeu destas variáveis um incentivo consideravelmente maior do que as demais unidades federativas. Elas, em conjunto, podem explicar a retomada do crescimento da produção agregada de algodão no Brasil. Contudo, provavelmente tem menor poder de explicação em fenômenos localizados em alguma unidade federativa específica. Fenômenos específicos devem estar relacionados a outras variáveis, como recursos naturais ou incentivos de Governos Regionais e Locais. Assim, refletindo o efeito das variáveis mencionadas, a partir de 1998 a produção interna de algodão se eleva e no ano de 1999 o consumo interno de algodão alcança os níveis do início do Plano Real. No ano de 2001 a produção interna alcança o nível de 1988 e ocorre

o maior consumo de algodão em pluma registrado no Brasil. As exportações foram as maiores

desde 1991. Porém, a principal demanda de algodão se deu pelas indústrias nacionais a jusante da cotonicultura, dado a maior facilidade para exportação de produtos industriais com base em fibras naturais (AQUINO, 2001).

A elevação da produção interna de algodão representou uma redução da dependência do mercado externo, com uma importante queda das importações, amortecendo possíveis oscilações do mercado internacional em relação a preço e oferta de matéria-prima de qualidade. Além disso, reconduziu o Brasil ao grupo dos países exportadores de algodão (ICAC, 2001b).

Este novo quadro da cotonicultura brasileira garantiu às indústrias têxteis um fornecimento de algodão em pluma a preços competitivos e de qualidade internacional. Esta configuração, aliada a desvalorização da moeda nacional em relação às moedas estrangeiras e

a modernização do parque produtivo têxtil iniciada na década de 1990 criaram um ambiente

de competitividade, onde os produtos industriais brasileiros passaram a ser consumidos no mercado internacional. Dada esta situação, as exportações de produtos têxteis se elevaram e as importações de produtos primários foram reduzidas ao final de década de 1990, gerando uma queda no déficit da Balança Comercial do Setor Têxtil do Brasil entre 1998 e 2000 e um resultado positivo já no ano de 2001, após seis anos consecutivos de déficit comercial (vide Tabelas 6 e 7).

Tabela 7. Balança Comercial Têxtil do Brasil - 1990-2001 (em US$ 1.000.000)

Ano

Exportação

Importação

Saldo

1990

1.248

463

785

1991

1.382

569

813

1992

1.491

535

956

1993

1.382

1.175

207

1994

1.403

1.323

80

1995

1.441

2.286

(845)

1996

1.292

2.310

(1.018)

1997

1.267

2.416

(1.149)

1998

1.113

1.923

(810)

1999

1.010

1.443

(433)

2000

1.222

1.606

(384)

2001

1.306

1.233

73

Esta recuperação da cotonicultura brasileira, se olhada de forma mais crítica, apresenta uma dinâmica diferente da ocorrida no passado. Em primeiro lugar, verifica-se uma elevação substancial da produtividade a partir de 1998, alcançando níveis internacionais - o que pode estar ligado à utilização de novas tecnologias e formas de gestão - (Tabela 3). O segundo aspecto se deve à nova configuração espacial. Analisando-se a Tabela 8, percebe-se uma forte tendência de concentração da produção de algodão no Centro-Oeste. Interessante notar que regiões outrora líderes na produção de algodão, como os estados de São Paulo, Paraná e o Nordeste perdem importância relativa.

Segundo Suzuki Júnior (SUZUKI JUNIOR, 2001), os prováveis motivos que induziram o deslocamento da cotonicultura em direção ao Centro-Oeste estão relacionados às condições climáticas, topográficas e fundiárias extremamente favoráveis no Cerrado Brasileiro.

Tabela 8. Produção de Algodão Herbáceo nos Principais Estados Brasileiros - 1991-2001 (toneladas)

Estados

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

MT

73.458

67.862

85.641

91.828

87.458

73.553

78.376

283.812

566.802

908.854

1.250.277

GO

83.650

83.710

94.560

101.368

157.031

173.307

189.744

260.062

278.363

254.476

264.444

MS

90.561

85.119

64.735

77.409

105.791

87.952

56.027

93.229

114.521

127.839

162.778

BA

137.033

103.860

102.359

128.329

76.090

51.740

82.445

41.532

50.085

132.679

155.833

PR

1.024.111

972.804

448.081

422.541

529.977

287.061

113.000

175.490

107.000

124.469

146.389

SP

438.700

397.625

225.000

254.700

311.400

181.200

155.430

217.000

156.585

148.230

145.556

MG

107.000

78.416

70.446

78.398

49.924

55.369

91.863

122.255

81.531

99.743

83.888

CE

35.522

29.414

4.771

62.068

30.531

8.202

15.697

8.594

38.757

65.754

74.167

Outros

51.088

44.267

31.771

134.173

93.324

33.629

38.689

29.957

83.386

145.058

73.335

Total

2.041.123

1.863.077

1.127.364

1.350.814

1.441.526

952.013

821.271

1.231.931

1.477.030

2.007.102

2.356.667

FONTE: IBGE - Produção Agrícola Municipal, 2002.

1.3

Características

Edafoclimáticas

do

Cerrado

Brasileiro

e

a

Expansão

da

Cotonicultura

O Cerrado Brasileiro - que apresenta uma vegetação semelhante à savana - ocupa uma área de 2 milhões de quilômetros quadrados na região central do Brasil, abrangendo principalmente os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. Contudo, o Cerrado avança até os estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Pernambuco, Pará, Amazonas, Tocantins, Amapá, Rondônia, além do Paraguai [(WALTER, 1986); (RIZZINI, 1997)].

A topografia do Centro-Oeste é variável, porém predominam áreas com relevo plano

ou suavemente ondulado (PRADO, 1996). Especialmente nos chapadões, o ambiente se apresenta extremamente plano (SÁNCHEZ, 1992). Tal configuração garante a utilização intensiva de máquinas e implementos na agricultura, de forma muito mais eficiente do que na região Meridional do Brasil (SECOM, 1999). Os solos do Cerrado são, em geral, profundos e bem drenados, resultantes da decomposição de granitos e arenitos do Planalto Central Brasileiro [(WALTER, 1986); (DIAS et al., 1996)]. Em grande parte, os solos são caracterizados como Latossolos Vermelhos a Amarelos, submetidos a profundo intemperismo, porém são ácidos e muito pobres em bases trocáveis, principalmente fósforo, potássio, zinco e boro [(GOODLAND & FERRI, 1979); (WALTER, 1986)]. Contudo, a capa freática - localizada entre 15 e 18 metros de profundidade - garante uma constante umidade do solo, que sofre ressecamento de no máximo 2 metros em épocas de forte estiagem (RIZZINI, 1997). Assim, apesar dos solos apresentarem

estoques relativamente baixos de nutrientes, eles possuem uma oferta adequada de umidade para o crescimento das plantas durante 7-10 meses do ano. Ao longo do Planalto Central, a maioria dos solos apresentam características muito semelhantes ao exposto (GOODLAND & FERRI, 1979).

O clima característico do Centro-Oeste é o Tropical (Köppen AW, mas Cwa na região

Sul). A precipitação anual média varia de 1.100 a 1.600 milímetros (MIRANDA et al., 1996). A distribuição unimodal das chuvas ocorre por uma alternância de maio-outubro com oferta pluvial extremamente baixa, com 10% do volume total, e uma concentração substancial das chuvas no período novembro-abril, com 90% do volume total de chuvas [(WALTER, 1986);

(SÁNCHEZ, 1992); (MIRANDA et al., 1996); (RIZZINI, 1997)]. Como o substrato é muito permeável, grande parte desta água é drenada pelo solo (RIZZINI, 1997). As temperaturas médias são da ordem de 23-26°C, contudo em regiões de depressão, podem ocorrer médias ligeiramente superiores a 26°C. As temperaturas máximas ocorrem no período outubro-março e as temperaturas mínimas no período abril-setembro. Em geral, nos meses de maio e junho a região apresenta céu limpo. A nebulosidade aumenta progressivamente, alcançando condições máximas de novembro a fevereiro. Pode-se dizer que há uma certa regularidade no comportamento climático da região (SÁNCHEZ, 1992).

A radiação solar, fonte de energia utilizada em processos vitais como a fotossíntese, é

sempre superior a 300 cal.cm -2 .dia -1 no Centro-Oeste, alcançando valores máximos no final da primavera e principio do verão (dezembro-janeiro), e caindo ligeiramente no inverno. A interação do regime de umidade do solo com o processo de captação de energia determina que

os solos possuem condições ecológicas para trabalhar eficientemente e produzir uma alta quantidade de biomassa durante o período úmido (SÁNCHEZ, 1992). A estrutura fundiária do Centro-Oeste se apresenta fortemente concentrada, onde os estratos de área acima de 100 hectares ocupam mais de 90% da área total (PEREIRA, 1995). Esse fenômeno reflete o processo de ocupação produtiva da região Centro-Oeste iniciada na década de 1930, especialmente em Goiás e no atual Mato Grosso do Sul, com base em grandes projetos de colonização. Entre as décadas de 1940 e 1950, o processo de ocupação se consolidou efetivamente. Contudo, a partir da década de 1960 o ritmo de ocupação se acelerou, com base na política de expansão da fronteira agrícola, através de programas governamentais baseados, em sua maioria, em grandes projetos de desenvolvimento regional (BRASIL, 1997a). Porém, a forte concentração fundiária resultante da política de colonização garante aos empresário rurais do Centro-Oeste produzirem em uma escala muito superior aos seus congêneres da região Sul-Sudeste do Brasil. Considerando as condições edafoclimáticas descritas do Cerrado Brasileiro, este bioma se apresenta como um excelente locus natural para o cultivo do algodoeiro. São várias as vantagens em relação à região Sul-Sudeste. Primeiro, a topografia plana e a concentração fundiária garantem ampla mecanização de todas a fases do processo produtivo, desde o preparo do solo até a colheita, reduzindo a dependência da mão-de-obra 9 [(BELTRÃO & SOUZA, 2001); (VIEIRA et al., 2001)]. Segundo, apesar dos solos do Cerrado serem pobres em matéria orgânica, eles reagem de forma satisfatória à correção por adubos e fertilizantes. Além disso, o solo se mantém úmido no período novembro-maio, em função da concentração de chuvas neste período. Em função de suas características, o algodoeiro necessita de elevado consumo de água para a produção de fitomassa em suas fases iniciais de cultivo, coincidindo com o regime hídrico do Centro-Oeste, pois nesta região o plantio se concentra no período dezembro-janeiro (BELTRÃO & SOUZA, 2001). Terceiro, no período da colheita, torna-se necessária a redução da umidade do ar, porque a umidade excessiva pode comprometer a qualidade da fibra. A colheita no Centro-Oeste ocorre nos meses de junho, julho e agosto, época em que chuva torna-se muito escassa na região. Esse fenômeno favorece amplamente a região de Cerrado, pois garante as qualidades intrínsecas do algodão herbáceo 10 (VIEIRA et

9 Este fato não é observado na região Sul-Sudeste, devido a menor concentração fundiária e a topografia muito irregular. A dependência da mão-de-obra para colher o algodão gera dois problemas: i) se forem contratados muitos trabalhadores no sistema de "panha maçã a maçã" o custo de produção se eleva geometricamente; ou ii) se forem contratados poucos trabalhadores no sistema de "rapa", a qualidade do algodão cai vertiginosamente (GONÇALVES, 1997). 10 Na região Sul-Sudeste, as precipitações são mais distribuídas, ocorrendo chuvas e geadas na época de colheita, comprometendo a qualidade do produto final (VIEIRA et al., 2001).

al., 2001). Na Figura 1, pode-se claramente perceber como as condições climáticas são vantagens naturais
al., 2001). Na Figura 1, pode-se claramente perceber como as condições climáticas são
vantagens naturais do Centro-Oeste que garantem uma superioridade do algodão produzido
naquela região.
350
P lantio
P lantio e desenvolvim ento
300
D esenvolvim ento e florescim ento
250
Florescim ento
200
A bertura das m açãs
150
Colheita
100
50
0
D ez
Jan
Fev
M ar
A br
M aio
Jun
Jul
A go
S et
O ut
N ov
Fev M ar A br M aio Jun Jul A go S et O ut N

Figura 1 - Índice Pluviométrico (em milímetros) em Mato Grosso e Ciclo Produtivo do Algodão. Fonte: AMPA, 2002.

Desta forma, as condições edafoclimáticas e fundiárias expostas fomentaram uma ampla vantagem absoluta do algodão produzido na região Centro-Oeste em relação ao produzido na região Sul-Sudeste do Brasil (MELO FILHO et al., 2001). O reflexo da combinação de melhores recursos naturais e utilização de tecnologia é observado nos custos de produção de algodão no Centro-Oeste, comparáveis com o nível de custo vigente nos principais países produtores 11 . Os custos de produção de algodão podem ser visualizados na Tabela 9 a seguir. Neste ponto, considera-se importante caracterizar o que se entende por vantagem absoluta de custo, pois este é o principal vetor da expansão cotonícola no Cerrado brasileiro. Para as firmas decidirem o que, quanto e como produzir, elas se orientam pela dinâmica do mercado, observando as tendências de consumo e das demais firmas concorrentes. Uma vez determinado o produto e a técnica de produção, a firma estabelecerá o quantum de mercadoria a ser produzida. Se os fatores de produção forem limitados, o empresário envidará esforços para produzir o máximo possível dado os fatores fixos. Por outro lado, se a produção for estabelecida em um nível fixo, o empresário buscará utilizar o mínimo possível de fatores, racionalizando sua função custo (GARÓFALO & CARVALHO, 1995).

11 A título de exemplo, o custo da colheita no sistema de "rapa" nas safras 1995/96 e 1996/97 no Brasil foi de R$ 1,89 por arroba, enquanto que o custo da colheita mecanizada foi de R$ 0,87 por arroba. Além de garantir uma maior competitividade de custo, a colheita mecanizada - amplamente utilizado no Centro-Oeste - possibilita o manejo de grandes áreas em um curto espaço de tempo e obtendo um produto final de melhor qualidade (FREIRE et al., 2001a).

Tabela 9. Custo de Produção de Algodão em Pluma* - Safra 1999/2000

 

Custo Total

Produtividade

Custo Total

País/Região

US$/hectare

@/hectare

US$/@

(1)

(2)

(1/2)

Israel

3.161,00

108

29,26

EUA**

1.185,38

45

26,34

China

1.245,00

68

24,90

Turquia

1.805,00

73

24,72

Síria

1.930,00

84

22,97

Austrália

2.295,00

112

20,49

Goiás

1.581,05

66

23,95

Mato G. do Sul

1.483,93

67

22,14

Mato Grosso

1.984,55

98

20,25

FONTE: elaborada pelo autor, com base nos trabalhos de: Chaudhry (1999), IEL et al. (2000), Beltrão et al. (2001), Beltrão & Souza (2001), Chaudhry (2001) e Fundação MT (2001). *descontado o peso das sementes. **sem considerar os subsídios governamentais.

Pode-se, com o auxílio de Simonsen, conceituar o custo de produção concernente a determinada quantidade de um produto qualquer:

como o total das despesas incorridas na combinação mais econômica dos fatores através do qual se pode obter a quantidade estipulada do produto (SIMONSEN, 1968: 48).

(

)

Essas despesas são genericamente classificadas como custos fixos e variáveis. Os primeiros correspondem à parcela dos custos totais de produção que independe da quantidade produzida pela empresa; constituem, em outras palavras, os dispêndios com os fatores de produção fixos. Quanto aos custos variáveis, representam a parcela dos custos totais de produção que oscila com o volume da mesma: à medida que a produção se elevar, os custos variáveis igualmente sofrerão acréscimos. Os custos variáveis dizem, então, respeito aos dispêndios com os fatores de produção variáveis. Por outro lado, tendo em vista que no longo prazo todos os fatores de produção são utilizados no processo produtivo serão variáveis, infere-se que os custos fixos de produção, neste período, se igualarão a zero, isto é, no longo prazo subsistirão apenas os custos variáveis [(PINDICK & RUBINFELD, 1994); (ALBUQUERQUE, 1986)]. Claro está que as firmas que melhor alocarem seus fatores de produção - tendo em vista a redução do custo por unidade produzida - poderão usufruir de vantagens absolutas de custo em um mercado competitivo. Segundo Sandroni, o conceito de Vantagem Absoluta pode ser entendida como:

Condição em que determinado produto ou serviço pode ser oferecido com preços de custo inferiores aos dos concorrentes. Em geral, essa situação é criada pela especialização, mas no caso de produtos agrícolas, a condição climática favorável é fundamental (SANDRONI, 1996:436).

Para Possas (1987: p. 95), as vantagens absolutas de custo podem ser atribuídas a:

i) controle de métodos de produção (com ou sem patentes); ii) acesso a insumos mais baratos; iii) qualificação do trabalho; iv) capacidade empresarial; v) vantagens monetárias - em preços favorecidos ou crédito mais barato e/ou acessível; e vi) outros. Porém, as vantagens absolutas de custo geralmente sofrem de certa instabilidade, pois podem ser eliminadas por imitação ou novas técnicas das empresas concorrentes. Assim, em função apenas do tempo necessário ao aprendizado pelas firmas concorrentes, as vantagens absolutas de custo de um empresa podem ser extintas (POSSAS, 1987). Desta forma, as vantagens absolutas de custo observadas no Centro-Oeste, relacionadas às condições edafoclimáticas e fundiárias extremamente favoráveis, podem ser superadas pela adoção de novas tecnologias ou pela imitação por outras regiões que detenham características naturais semelhantes ao Centro-Oeste. Além disso, como os principais centros consumidores de algodão estão localizados a uma considerável distância do Centro-Oeste, os custos de transporte podem anular as vantagens absolutas se espaços localizados em menores distâncias dos centros consumidores se tornarem competitivos, podendo reduzir ou até mesmo retirar a região Centro-Oeste do mercado cotonícola.

1.4 As Condições de Comercialização do Algodão Produzido no Centro-Oeste

Na região Centro-Oeste ainda não se verifica um pólo têxtil capaz de consumir todo o algodão produzido naquele espaço. Os quatro principais pólos têxteis do Brasil estão localizados nos estados de São Paulo (nas cidades de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara d'Oeste e Sumaré), Ceará (Fortaleza), Minas Gerais (em um polígono que se estende do norte ao sul do estado, com destaque para Belo Horizonte, Contagem e Divinópolis) e Santa Catarina (no Médio Vale do Itajaí, com destaque para Blumenau e Brusque). Somente a indústria de São Paulo demanda 30% do total de consumo de algodão no Brasil. O Ceará consome 18%, Minas Gerais 14% e Santa Catarina 11,5%. Os quatro juntos, consomem aproximadamente 73,5% do total no Brasil. Assim, o algodão produzido na região Centro- Oeste precisa ser transportado para as indústrias nacionais localizadas nos quatro principais pólos têxteis ou ser exportado para fora do país. [(GONÇALVES, 1997); (IEL et al., 2000); (LINS, 2001)].

O transporte é indispensável à maioria dos atos de comércio, representando o

deslocamento de mercadorias que se permutam. Constitui-se em um fato econômico de grande relevância, podendo ser estratégico para a competitividade de uma nação, região ou unidade produtiva. Os meios de transporte são classificados em: terrestres - que compreende rodovias e ferrovias -, marítimos, fluviais, lacustres e aéreos. Em geral, os meios de transporte marítimo, fluvial e lacustre são os que apresentam o menor custo unitário de deslocamento, seguido pelo modal ferroviário, rodoviário e aéreo (GASTALDI, 1990).

O Brasil ainda utiliza amplamente o transporte rodoviário, sendo este modal o

principal meio de deslocamento interno de cargas e passageiros. A região Centro-Oeste reproduz esta situação, onde os demais meios de transporte ainda são pouco expressivos dentro da logística multimodal (IEL et al., 2000) Para escoar sua produção, o estado de Goiás conta com duas rodovias principais. A BR-153 liga Goiânia e o Sul de Goiás com Minas Gerais e São Paulo. A partir de São Paulo, a

BR-101 liga o Sudeste a Santa Catarina. A BR-020 liga o Distrito Federal ao Nordeste,

alcançando o Ceará. Partindo de Goiânia, as distância rodoviárias são: a Belo Horizonte 828 km., a Americana 803 km., a Blumenau 1.384 km. e a Fortaleza 2.252 km. (BRASIL, 1997a).

O estado de Mato Grosso do Sul conta com duas rodovias, duas ferrovias e uma

hidrovia para escoar sua produção. A BR-263/167 interliga Campo Grande a São Paulo. A BR-262 se comunica com diversas rodovias, que dão acesso a São Paulo, Minas Gerais e Goiás. A distância rodoviária de Campo Grande aos principais estados consumidores de algodão são: 909 km. a Americana, 1.266 km. a Belo Horizonte, 1.148 km. a Blumenau e 3.108 km. a Fortaleza. As duas ferrovias existentes interligam Mato Grosso do Sul ao estado de São Paulo. São elas: Ferroeste, que se estende de Bauru - SP até Corumbá - MS, no sentido leste-oeste e a Ferronorte, que se estende de Aparecida do Taboado - MS até Santa Fé do Sul - SP, no sentido noroeste-sudeste. A Hidrovia do Rio Paraguai interliga os portos de Corumbá - MS com Nueva Palmira no Uruguai.(BRASIL, 1997a). O estado de Mato Grosso conta com duas rodovias, uma ferrovia e uma hidrovia para escoar sua produção aos centros consumidores. A BR-364 liga Mato Grosso a Goiás, de onde pode-se acessar outras rodovias, se o destino for Minas Gerais, Ceará ou São Paulo. Pela BR- 163 pode-se acessar Campo Grande - MS, de onde partem as BR´s 263 e 167, que dão acesso

a São Paulo e Santa Catarina. As distâncias rodoviárias, partindo de Cuiabá são: 1.482 km. a Americana, 1.622 km. a Belo Horizonte, 1.872 km. a Blumenau e 3.193 km. a Fortaleza. Um ramal da Ferronorte interliga Aparecida do em Taboado - MS a Alto Taquari - MT desde o ano de 1999, que permite acessar a malha ferroviária do estado de São Paulo. A Hidrovia do

Paraguai está praticamente sem utilização, devido aos movimentos ambientalistas contrários à utilização do Pantanal como rota de transporte fluvial [(BRASIL, 1997a); (COSTA et al., 2001); (MELO FILHO et al., 2001)]. Considerando que o principal meio de transporte de algodão herbáceo no Brasil é realizado por meio do modal rodoviário, o estado de Goiás se apresenta como o mais favorecido, dado a sua maior proximidade com São Paulo, Minas Gerais e Ceará. O estado de Mato Grosso do Sul, apesar de estar localizado a uma maior distância dos centros consumidores, conta com duas ferrovias interligadas a São Paulo, o maior centro demandante. Porém Mato Grosso, além de estar localizado a uma distância considerável de seus principais consumidores, e até mesmo dos portos marítimos, não contava em 1997 - o momento histórico da concentração da produção cotonícola no Centro-Oeste - com hidrovias e ferrovias para rebaixar seus custos de transporte. Além disso, mesmo com a construção de infra- estrutura logística para o escoamento da produção de Mato Grosso, a ligação deste estado com o eixo dinâmico da economia brasileira necessariamente passa pelos estados de Goiás e Mato Grosso do Sul, que, a priori, sempre apresentarão maior proximidade ao centro econômico brasileiro e, portanto, menores custos de transporte que Mato Grosso.

5.1 Rediscutindo a Expansão Cotonícola em Mato Grosso

Como já apresentado, a partir de 1998 a produção brasileira de algodão se eleva consideravelmente. Na Tabela 8 pode-se verificar que é exatamente neste ano que a produção de Mato Grosso se expande de forma vigorosa. A produção que nos anos anteriores jamais havia passado de 100 mil toneladas, alcança 283 mil em 1998 e 1,25 milhão em 2001. Claro está que a produção foi estimulada em todos os estados da federação, em função direta da desvalorização cambial, da Lei Kandir, da MP n.º 1.569, da Lei de Proteção de Cultivares e da elevação das tarifas de importação de algodão em meados da década de 1990. O reflexo da alteração nas políticas públicas geraram, em conjunto, um efeito-substituição entre o algodão importado e o nacional, interrompendo uma situação de déficit da produção nacional em relação ao consumo interno de fibra têxtil. Porém, no estado de Mato Grosso o fenômeno de expansão da cotonicultura se apresentou de forma mais acentuada e abrupta. O que se torna intrigante em tal dinâmica é que, a grosso modo, seria de se esperar que em Mato Grosso do Sul e em Goiás a produção de algodão fosse superior a Mato Grosso, em função de maior proximidade com o eixo dinâmico

da economia brasileira, mesmo porque em 1997 ainda não se observava um modal de transporte ferroviário ou hidroviário interligando Mato Grosso ao Sudeste que representasse redução substancial de custo. Considera-se, desta forma, que Mato Grosso apresentava desvantagens de custo de transporte em relação à Goiás e Mato Grosso do Sul pela sua posição geográfica natural. Outro fator que merece atenção diz respeito tanto à produtividade da cotonicultura em Mato Grosso quanto ao seu padrão de qualidade da fibra produzida (FREIRE & FARIAS, 2001). Enquanto a produtividade média nacional em 2001 foi de 164 @/ha (peso bruto, sem descontar o peso das sementes), em Mato Grosso a produtividade média foi de 220 @/ha. Em relação à qualidade da fibra, na safra do ano 2000, 27,0% da produção no estado de São Paulo foi classificada como pior do que o tipo 6 12 . No Paraná, 93,3% da safra foi classificada como tipo 6 para pior. Em Mato Grosso, na mesma safra, 89% do total do algodão em pluma produzido foi classificado como do tipo 6 para melhor, sendo que apenas 18,07% se encontrava acima do tipo 6 (Tabela 10) . Estas duas evidências - maior produtividade e melhor qualidade da fibra - geram um forte indício que a produção cotonícola em Mato Grosso pode ser gerida de forma diferente das demais unidades federativas do Brasil

[(BARBOSA & NOGUEIRA JUNIOR, 2000); (AQUINO, 2001); (FERREIRA FILHO, 2001)].

Tabela 10.Qualidade da fibra de algodão produzido nos estado de São Paulo, Paraná e Mato Grosso

Safra 2000 (em percentuais)

Classificação/Estado

São Paulo

Paraná

Mato Grosso

Abaixo de 6 (alta qualidade)

29,2

6,69

17,24

Tipo 6 (padrão internacional)

43,8

33,94

64,69

Acima de 6 (baixa qualidade)

27,0

59,37

18,07

FONTE: BM&F, 2000 apud FERREIRA FILHO, 2001.

Assim, considerando o recente panorama da produção de algodão no Brasil, principalmente as variáveis descritas que agiram diretamente sobre este complexo durante a década de 1990, o problema principal desta pesquisa será identificar e explanar as principais variáveis que determinaram a concentração da cotonicultura brasileira no estado de Mato Grosso no período pós-1998, bem como determinar os fatores que geraram sua excelente produtividade e qualidade da fibra de algodão herbáceo. Como resposta preliminar ao problema ora discutido, apresenta-se a hipótese de que ações de agentes econômicos endógenos a Mato Grosso configuraram um ambiente

12 O algodão em caroço é classificado por tipos, em uma escala que tem por base o tipo 6 padrão e que varia de meio em meio tipo. Assim, um algodão do tipo 5,5 é um produto de melhor qualidade do que o tipo 6 padrão. Da mesma forma, um algodão do tipo 6,5 é um algodão de pior qualidade (FERREIRA FILHO, 2001).

institucional propício à formação de um arranjo produtivo regional capaz de desenvolver a produção de algodão em condições de competir no mercado internacional. Dentre estes agentes, pode-se identificar a iniciativa privada, o Governo Estadual e as instituições de P&D. A iniciativa privada buscando alternativas culturais para rotação com a cultura da soja, se associou com instituições de P&D em busca de um novo paradigma tecnológico na cotonicultura. Após alcançado uma ruptura tecnológica, as instituições de P&D tiveram papel estratégico na difusão do conhecimento e das inovações por todo o espaço produtivo mato- grossense. A difusão do conhecimento acerca do manejo correto da cotonicultura no Cerrado propiciou a geração de elevados níveis de produtividade e qualidade da fibra têxtil produzida em Mato Grosso. Por outro lado, o Governo do Estado de Mato Grosso, visando a diversificação da base produtiva de sua unidade federativa e se aproveitando de uma conjuntura nacional favorável, se utilizou de uma política de redução de impostos para a cotonicultura a partir de 1997, garantindo uma acumulação de capital elevada para os cotonicultores para potencializar a expansão da cultura do algodão herbáceo em Mato Grosso. Há um conjugação dos objetivos destes três agentes endógenos àquele estado. A iniciativa privada focando suas ações em direção à acumulação de capital, arrastou consigo a elevação da produção e da renda regional e gerou recursos para o incremento dos programas de pesquisa agrícola. O resultado é a formação de um ambiente institucional próspero à cotonicultura, onde os problemas são discutidos e resolvidos pelos três agentes supracitados, pois a manutenção daquela cultura é de interesse de todos os agentes. Esta estrutura de criação e crescimento da cotonicultura de Mato Grosso se deu de forma endógena, selecionada e decidida pelos agentes regionais, em um novo paradigma de desenvolvimento de "baixo para cima", onde o Governo Central passa a ter papel apenas marginal no processo. Não se pretende afirmar que outros fatores condicionantes como a Lei Kandir, a abertura comercial, a desvalorização cambial, a Medida provisória 1.569, a Lei de Proteção de Cultivares e a elevação das tarifas de importação de algodão não tenham influenciado a reestruturação da cotonicultura no Brasil. Estas variáveis, em conjunto, possuem uma provável relação de causa-efeito sobre a retomada da produção a nível nacional a partir de 1998. Outras variáveis podem explicar porque a região Centro-Oeste se tornou a maior produtora nacional, como características de clima, solo, topografia e estrutura fundiária regionais. Contudo, mesmo todos estes fatores conjugados não conseguem explicar porque Mato Grosso produz algodão em quantidade e qualidade muito superior aos seus estados vizinhos: Goiás e Mato Grosso do Sul.

CAPITULO 2

UM NOVO PARADIGMA PARA O DESENVOLVIMENTO REGIONAL

2.1 O Planejamento do Desenvolvimento no Brasil

Desde a colonização até 1930, o Estado no Brasil tinha um caráter não intervencionista na economia. O governo preocupava-se em obter receita por meio de tarifas e, em raras ocasiões, por motivos protecionistas. Nas áreas de indústria e infra-estrutura, o governo

intervinha apenas como concessor da atividade e garantidor das taxas de retorno para empresas estrangeiras. Neste período, desta forma, o estado brasileiro pode ser caracterizado como um estado patrimonialista liberal clássico, devido à sua pequena participação na economia e na ordem social do país. Mesmo com a ruptura do Império e a proclamação da República em 1889, onde o poder político tornou-se mais descentralizado, o perfil das ações do Estado não mudou significativamente [(BAER, 1996); (PIMENTA, 1998)].

A origem do planejamento formal estatal no Brasil ocorreu na década de 1930, no

âmbito do Governo Federal. Considerando o planejamento em seu sentido lato como o modo de regulação da economia a partir de instituições governamentais, houve uma tentativa de sua implantação pela primeira vez em 1934, no primeiro governo Vargas (1930-45). Nesta fase, o

Estado passa por uma transformação profunda, surgindo como um Estado Intervencionista, que passa a induzir o crescimento econômico. É neste período que surgem também as primeiras características do Estado brasileiro como Estado do Bem Estar, com a criação de novas áreas de atuação, novas políticas e novos órgãos, tais como o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e o Ministério da Educação e Saúde Pública [(TEIXEIRA, 1998); (PIMENTA, 1998), (MOISÉS, 1999)].

A ampla presença do Estado na economia brasileira foi encarada como necessária para

se atingir um rápido desenvolvimento econômico por meio da industrialização com vistas à substituição de importações (ISI) entre as décadas de 1930 e 1960. Durante este período, o setor de empresas estatais - predominando nos serviços públicos, indústria pesada, exportação

de recursos naturais e no setor financeiro - complementou os serviços privados nacionais e multinacionais. Esta divisão de trabalho entre os setores tornava-se gradativamente institucionalizada e ficou conhecida como modelo "tripé" da estrutura do modelo de desenvolvimento brasileiro [(BRUM, 1993); (BAER, 1996)].

Porém, somente a partir do governo Juscelino (1956-61) é que se pode dizer que foi

adotado o planejamento do desenvolvimento no Brasil, de forma intencional e sistematizada. Pela primeira vez é elaborado um programa de desenvolvimento setorial - indústria de base, energia, transportes, alimentação e educação - de modo sistematizado, com objetivos definidos e baseados em estudos realizados por missões técnicas 13 . O Programa de Metas do governo JK foi, especialmente no campo econômico, executado até o fim, onde a maioria dos objetivos foi alcançada (TEIXEIRA, 1998). Em 1964, o regime democrático brasileiro sofre um novo golpe, onde os militares centralizam o poder suspendendo os direitos civis e as eleições diretas para Presidente da República. Foram 21 anos de hegemonia política militar, com ideais desenvolvimentistas, período em que o Estado brasileiro assume uma postura extremamente intervencionista, com

o objetivo de alavancar o desenvolvimento capitalista no país. Foram elaborados nove planos, para criar um ambiente politicamente estável em uma economia de mercado moderna e integrada ao conjunto do sistema capitalista. Os principais planos foram o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG - 1964), o primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND - 1972-74), e o segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND - 1975-79) [(TEIXEIRA, 1998); (PIMENTA, 1998)]. O PAEG tinha o objetivo construir as bases para o "modelo brasileiro de

desenvolvimento", via reforma fiscal, monetária, financeira, de capitais, cambial e salarial. O

I PND visava consolidar um modelo de desenvolvimento econômico de mercado, que deveria

criar uma economia moderna e competitiva. O II PND afirmava a necessidade da presença ativa do Estado para implementar ações visando cobrir a fronteira entre o subdesenvolvimento

e o desenvolvimento. O II PND representou mais uma etapa no processo de substituição de

importações, através dos investimentos orientados principalmente para os setores de bens de capital, de eletrônica pesada e de insumos básicos 14 (BRUM, 1993). O apogeu da estratégia do desenvolvimento brasileiro durante a década de 1970 coincidiu com seu ponto de inflexão na economia mundial. A crise financeira, os choques do petróleo e a elevação das taxas de juros internacionais forçaram a reestruturação das economias centrais. O padrão de financiamento do milagre brasileiro esgotou-se ao final da década de 1970 devido às fragilidades concentradas na debilidade fiscal de um Estado

13 TAUBE (1942), Missão Cooke (1943), ABBINK (1948), Comissão Mista Brasil-EUA (1951) e Comissão BNDE-CEPAL (TEIXEIRA, 1998). 14 Uma discussão interessante sobre a dificuldade de se criar uma economia capitalista industrial moderna e competitiva a partir do "nada", com forte atuação de capitais estatais, ver Brüseke (1993).

gigantesco e dependente de fluxos monetários internacionais [(TAVARES & FIORI, 1993); (BAER, 1996); (MOISÉS, 1999)]. A grande crise da América Latina e do Brasil na década de 1980 foi a maior de toda a sua história. Foi antes de tudo uma crise do Estado e não uma crise do mercado, como a grande depressão da década de 1930. Caracterizou-se como uma crise fiscal, uma crise do modo de intervenção e uma crise da forma burocrática de administrar o Estado. Foi, portanto, uma crise estrutural do paradigma de desenvolvimento anterior [(SOUZA, 1991); (PEREIRA,

1998)].

O Fundo Monetário Internacional (FMI), declarou, em 1982, que aquela instituição mantinha uma visão otimista em relação à superação da crise econômica internacional e seu impacto favorável na resolução do problema da dívida pública através da redinamização do comércio e a conseqüente elevação dos preços das commodities dos países em desenvolvimento e também a redução das taxas de juros internacionais. Combinação esta que, somada à correta aplicação do tradicional programa de estabilização do próprio FMI, poderia dar conta do financiamento dos desequilíbrios das contas correntes dos países endividados. Contudo, como se sabe, a continuação daquele padrão de financiamento do desenvolvimento não ocorreu (TAVARES & FIORI, 1993). Dada a não superação da crise, iniciou-se a nível mundial um processo de questionamento sobre o papel do planejamento estatal - em meio a uma crescente onda neoliberal - com vistas a encontrar uma nova proposta de gerir o desenvolvimento das nações (MOISÉS, 1999). As novas proposições assumiram a forma de uma análise claramente policy-oriented nos documentos do Banco Mundial, e, sobretudo na segunda metade da década de 1980, passa a discutir a necessidade de acompanhar as políticas de estabilização, com reformas estruturais enfocadas na: i) desregulamentação dos mercados; ii) na privatização do setor público; e iii) na redução do Estado. Este conjunto de políticas e reformas recebeu o nome de Consenso de Washington [(TAVARES & FIORI, 1993); (PEREIRA, 1998)]. As medidas orientadas pelo Banco Mundial indicavam o caráter indispensável da estabilização e do ajuste fiscal como condições prévias a todas as demais reformas liberalizantes já então preconizadas pela comunidade financeira 15 . A reorientação do papel do Estado na economia reduziu e quase eliminou a capacidade de exercer políticas de

15 Pode-se perceber a adoção das policy-oriented do Banco Mundial pelo Governo Federal do Brasil durante a década de 1990 ao verificar as Premissas de Planejamento do Ministério do Planejamento e Orçamento do Brasil (BRASIL, 1997b).

desenvolvimento econômico e social por parte do setor público, dada a preocupação com o curto prazo, vinculada à elevação da capacidade de pagamento da dívida interna e externa quanto a sucessivas experiências de estabilização. A quase eliminação do planejamento do desenvolvimento por parte do Governo Federal impossibilitou a continuação da política de redução das desigualdades entre os espaços desenvolvidos e os economicamente atrasados do Brasil [(TAVARES & FIORI, 1993); (GUIMARÃES NETO, 1997)]. O que se percebe é que, enquanto o Governo Federal motivou a transferência de capitais das regiões mais desenvolvidas para as mais atrasadas - via incentivos fiscais, financeiros ou investimento direto - houve uma redistribuição da produção e da renda para as regiões periféricas brasileiras 16 . Notadamente no período 1975-85, a política de desconcentração econômica foi relativamente eficiente, apesar da crise fiscal no início da década de 1980. Quando da reorientação de políticas estruturais para as de cunho conjunturais - ao final da década de 1980 - ocorreu um ponto de inflexão no período de 1985-95, onde a produção relativa de cada região se manteve estável, ocasionando o fim do processo de desconcentração econômica [(CANO, 1985); (CANO, 1997); (GUIMARÃES NETO, 1997); (CARVALHO, 1999)]. Ademais, há suposições de que durante a década de 1990 estaria ocorrendo um movimento de reconcentração econômica em direção a São Paulo, porém ainda não totalmente comprovado (PRADO, 1999). Todavia, para evitar uma possível reconcentração das atividades industriais, agroindustriais, comerciais e financeiras em um conhecido polígono dinâmico no eixo Sul- Sudeste (CAMPOLINA DINIZ, 1994), em função de fortes fatores locacionais já existentes e da atração exercida pelo Mercosul, havia a necessidade de se criar um movimento de resistência por parte das regiões menos desenvolvidas do Brasil [(AMARAL FILHO, 1996); (ARAÚJO, 1999)]. A progressiva fragilização da capacidade de regulação das relações federativas e a ausência do planejamento do governo central na coordenação de políticas de desenvolvimento regional enseja a competitividade não somente no mercado, mas também entre os Estados e os Municípios federados. Surge, neste contexto um novo papel dos governos estaduais como elemento importante na definição das vocações de sua região. Investimentos em infra- estrutura, transportes, energia e telecomunicações, além do avanço tecnológico permitem que

16 Para exemplificar tal afirmação, o trabalho de Monteiro Neto e Gomes (1999) ilustra que entre as décadas de 1960 e 1980, a participação do Governo na economia da região Centro-Oeste ultrapassou 50% do PIB regional, com papel fundamental na elevação da renda per capita daquela região, com forte transferência de recursos da regiões Sul-Sudeste.

sejam criados vocações e potencializados fatores naturais favoráveis em regiões escolhidas [(RODRIGUES, 1998); (ARAÚJO, 1999)].

As reformas de cunho liberal que marcaram as décadas de 1980 e 1990 no âmbito do governo federal reduziram a importância das questões regionais e, portanto, rejeitaram um papel mais ativo do governo central em conduzir políticas de desenvolvimento regional [(PRADO, 1999); (COSTA et al., 2002)]. Assim, nos últimos anos, o Brasil têm assistido ao nascimento de formas alternativas de incentivo ao desenvolvimento regional, praticadas em nível estadual e municipal com recursos próprios, utilizando principalmente políticas de renúncia fiscal e fornecimento de infra-estrutura. Este é o caso de Estados como Minas Gerais, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo e as Prefeituras de Porto Alegre e Salvador [(BRITO & BONELLI, 1997); (RODRIGUES, 1998); (FARAH, 1999); (LIMA et. al., 2000)]. A iniciativa destes governos regionais e locais se pautam tão somente na busca deliberada da aceleração do crescimento econômico e na redução das desigualdades regionais existentes.

Contudo, altera-se o modo de intervenção estatal, onde o estado federado - sem grandes recursos para aplicar - abandona a lógica anterior do governo produtor, onde os agentes eram tecnoburocracias públicas, sediadas nas empresas estatais e que arrastavam consigo setores privados complementares. O que se percebe agora são estados federados que atuam de modo complementar aos investimentos privados, induzindo tais investimentos com redução da carga tributária (PRADO, 1999).

Na busca de se entender este novo fenômeno, onde os governos subnacionais passam a desempenhar uma posição estratégica no desenvolvimento regional, conjuntamente com novas propostas de organização produtiva, onde variáveis como geração e difusão de tecnologia e cooperação institucional passam a constituir elementos centrais do planejamento regional, utilizar-se-á um referencial teórico conhecido como Desenvolvimento Endógeno, discutido por Amaral Filho [(AMARAL FILHO, 1995); (AMARAL FILHO, 1996)] e por Vázquez-Barquero [(VÁZQUEZ-BARQUERO, 2000); (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002)]. Estes autores procuram identificar e discutir padrões de comportamento de agentes que possam conferir a determinados espaços vantagens competitivas, permitindo a inserção da região na competição global e o seu crescimento econômico sustentado e equilibrado. Diversos outros autores que discutem as novas formas de organização produtiva, que complementam a discussão do desenvolvimento endógeno serão também abordados.

Entretanto, antes de iniciar a discussão do desenvolvimento endógeno, torna-se oportuna a introdução da clássica abordagem de Michael Porter sobre as vantagens competitivas, porque a teoria endogenista do desenvolvimento procura lançar luzes sobre a problemática das desigualdades regionais e os melhores instrumentos políticos para sua correção. O objetivo final é alcançar uma melhor posição relativa da região no mercado, via criação ou incremento de vantagens competitivas regionais em relação a custo baixo de produção ou produto superior em qualidade. Como o termo vantagens competitivas será amplamente citado neste trabalho, e ele possui caráter estratégico para o entendimento do desenvolvimento regional contemporâneo, a sua definição com o apoio de Michael Porter torna-se fundamental. Nas suas palavras:

"A longo prazo, as empresas obtêm êxito em relação aos seus competidores se dispuserem de vantagem competitiva sustentável. Há dois tipos básicos de vantagem competitiva: menor custo e diferenciação. O menor custo é a capacidade de uma empresa projetar, produzir e comercializar um produto comparável com mais eficiência do que seus competidores. A preço dos ou próximo dos competidores, os custos

A diferenciação é a capacidade de proporcionar

ao comprador um valor excepcional e superior, em termos de qualidade de produto, características

especiais ou serviços de assistência. [

]. A

vantagem competitiva de qualquer dos dois tipos se traduz em produtividade superior à dos

concorrentes. A empresa de baixos custos produz determinada mercadoria usando menos insumos do que os competidores. A firma diferenciada obtém rendimentos superiores por unidade, dos

concorrentes. [

(PORTER, 1993, p. 48)

A vantagem competitiva está diretamente ligada ao sustentáculo da renda nacional"

A diferenciação permite a uma firma obter um preço melhor,

que leva a uma lucratividade superior, desde que os custos sejam comparáveis aos concorrentes. [

menores traduzem-se em rendimentos superiores. [

].

].

].

Estas vantagens competitivas são criadas e mantidas através de um processo altamente localizado. Segundo Porter, diferenças existentes nas estruturas econômicas, valores, culturas, instituições e histórias nacionais contribuem profundamente para o sucesso competitivo (PORTER, 1993). O que deve ficar claro na exposição teórica é que todos os esforços das instituições públicas e privadas visando o desenvolvimento regional não podem prescindir da construção e manutenção de vantagens competitivas regionais, pois somente elas podem garantir a sustentabilidade dos arranjos produtivos em um mercado altamente competitivo e globalizado.

2.2 A Teoria do Desenvolvimento Endógeno

O desenvolvimento endógeno tem suas origens na década de 1970, quando as propostas de desenvolvimento da base para o topo emergiram com maior notoriedade. A partir deste momento, a corrente endogenista evoluiu com a colaboração de novos enfoques ao problema do crescimento desequilibrado (SOUZA FILHO, 2002). Durante a década de

1980 observou-se a convergência entre duas linhas de pesquisa. Uma delas, de caráter teórico, emergiu dentro da discussão das ações públicas no desenvolvimento das regiões atrasadas. A outra, de caráter empírico, partia da interpretação dos determinantes do desenvolvimento industrial dos países do Sul da Europa (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002). Na década de 1990, a noção de desenvolvimento endógeno passou a permear as abordagens do desenvolvimento regional, com a sua criação das novas teorias do crescimento econômico, que floresceram durante o final da década de 1980, como respostas às tradicionais teorias neoclássicas, inconsistentes em explicar as assimetrias de crescimento entre regiões e nações que dispunham dos clássicos fatores de produção [(SOUZA FILHO, 2002); (VÁZQUEZ- BARQUERO, 2000)]. Na década de 1950, Robert Solow [(SOLOW, 1956); (SOLOW,1957)] e Swan (SWAN, 1956) propõem uma função de produção como o elemento central do modelo de crescimento econômico, onde o volume de produção (Y) estaria em função direta e basicamente de dois fatores, capital (K) e trabalho (L): Y= f (K,L). Esta função de produção seria válida tanto para a firma quanto para o conjunto da economia, ou seja, ela mantinha tanto um caráter microeconômico quanto macroeconômico. O aumento da renda per capita e da produtividade estariam relacionados ao progresso técnico, que neste modelo ocorreria de forma exógena, além do aumento da relação capital/trabalho (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2000). Além disso, estaria implícito no modelo a questão dos rendimentos decrescentes que conduziriam ao estado estacionário, em virtude de dois movimentos inexoráveis neste modelo: i) a convergência tecnológica entre as nações [(SOLOW, 1956); (SOLOW, 1957); (BARRO & SALA-i-MARTIN, 1995). Porém, ao final da década de 1980, a partir do trabalho seminal de Paul Romer, os economistas neoclássicos finalmente aceitaram a hipótese dos rendimentos crescentes e da mudança técnica endógena como determinante fundamental do crescimento econômico. Outros fatores, que eram considerados exógenos pela ortodoxia na determinação do crescimento passaram a ser encarados como endógenos, o que levou variáveis como capital humano, conhecimento, informação, pesquisa e desenvolvimento, difusão de inovações e outras a dividirem com os tradicionais capital e trabalho a composição da função de produção agregada. Além disso, passaram a admitir que o crescimento poderia ocorrer em condições de concorrência imperfeita. [(ROMER, 1986); (ROMER, 1994); (AMARAL FILHO, 1996); (HIGACHI et al., 1999)]. O trabalho de Robert Lucas também seguiu a lógica de Paul Romer, onde os investimentos tanto em capital humano - tornando a força de trabalho qualificada - quanto em

capital físico geram efeitos spillovers que melhoram o nível da tecnologia pela difusão das habilidades técnicas. Seguindo as formulações de Paul Romer e Robert Lucas, observou-se durante a década de 1990 um renascimento das discussões sobre o crescimento econômico de longo prazo, onde a evolução tecnológica e as externalidades geradas pelos efeitos spillovers estavam no centro da análise [(ROMER, 1987); (LUCAS, 1988); (ROMER, 1990); (GROSSMAN & HELPMAN, 1994); (ROMER, 1994); (AGHION & HOWITT, 1998)].

O resultado desta nova teoria do crescimento proposta dentro da própria ortodoxia é uma resposta a pelo menos dois grandes movimentos: i) a forte pressão exercida pelos dados empíricos relacionados à assimetria do desenvolvimento das nações e a incapacidade da teoria neoclássica em explicar tais diferenças; e ii) renascimento de pensamentos, idéias e preocupações antigas, já discutidas por clássicos e neoclássicos e também pelos heterodoxos - neo-marxistas, neo-schumpeterianos, regulacionistas, evolucionistas e institucionalistas (AMARAL FILHO, 1996) - no intuito de incluir novos elementos explicativos da realidade. Assim, fatores antes considerados exógenos pela ortodoxia foram conduzidos para dentro do modelo e que permitiram que as novas abordagens passassem a ser denominadas de Teoria do Crescimento Endógeno.

Para forjar um conceito mais amplo e agregado, que incluísse também a questão espacial, Amaral Filho procura aproximar a abordagem regional amplamente discutida por Perroux (PERROUX, 1955) sobre pólos de crescimento e Hirschmann (HIRSCHMAN,1958), sobre firmas que produzem concatenações para frente e para trás, à macroeconomia do crescimento endógeno, para definir o que se entende por Desenvolvimento Regional Endógeno. Assim, segundo o próprio Amaral Filho:

"Do ponto de vista espacial ou regional, o conceito de desenvolvimento endógeno pode ser entendido como um processo interno de ampliação contínua da capacidade de geração de valor sobre a produção, bem como da capacidade de absorção da região, cujo desdobramento é a retenção do excedente econômico gerado na economia local e/ou a atração de excedentes provenientes de outras regiões. Esse processo tem como resultado a ampliação do emprego, do produto e da renda do local ou da região, em um modelo de desenvolvimento regional definido. Entretanto, o aspecto novo do processo, que traz à luz um novo paradigma de desenvolvimento regional endógeno, está no fato de que a definição do referido modelo de desenvolvimento passa a ser estruturada a partir dos próprios atores locais, e não mais pelo planejamento centralizado" (AMARAL FILHO, 1996, p. 37-38).

Antonio

Vázquez-Barquero

também

define

desenvolvimento

endógeno,

onde

a

sociedade local passa a compor o núcleo estratégico do desenvolvimento regional:

"A capacidade da sociedade liderar e conduzir o seu próprio desenvolvimento regional, condicionando- o à mobilização dos fatores produtivos disponíveis em sua área e ao seu potencial endógeno, traduz a forma de desenvolvimento denominado endógeno. Pode-se identificar duas dimensões no desenvolvimento regional endógeno. A primeira econômica, na qual a sociedade empresarial local utiliza sua capacidade para organizar, da forma mais producente possível, os fatores produtivos da

região. A segunda, sociocultural, onde os valores e as instituições locais servem de base para o desenvolvimento da região" (VÁZQUEZ-BARQUERO, 1988 apud SOUZA FILHO, 2002).

Em um trabalho mais recente, Vázquez-Barquero discute o desenvolvimento endógeno como um processo ligado à acumulação de capital e ao progresso tecnológico:

"La teoría del desarollo endógeno considera que la acumulación de capital y el progreso tecnológico son, sin duda, factores claves en el crecimiento económico. Pero, además, identifica una senda de desarrollo autosostenido de carácter endógeno, al argumentar que los factores que con-tribuyen al proceso de acumulación de capital, generan economías, externas e internas, de escala, reducen los costos generales y los costos de transacción y favorecen las economías de diversidad. La teoría del desarrollo endógeno reconoce, por lo tanto, la existencia de rendimientos crecientes de los factores acumulables y el papel de los actores económicos, privados y públicos, en las decisiones de inversión y localización" (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2000, p. 53).

Antes de tudo, o conceito amplo de desenvolvimento endógeno deve ser entendido

como um processo de mudança, fortalecimento e qualificação das estruturas internas de um

espaço específico. O objetivo maior é criar um ambiente atrativo ao capital, para consolidar

um desenvolvimento originalmente local e permitir a atração de novas atividades econômicas

numa perspectiva de economia globalizada. Porém, esta estratégia deve gerar, na região em

foco, fatores locacionais econômicos capazes de criar um polo de crescimento, com variados

efeitos multiplicadores que se propagam de maneira cumulativa e transformem a região em

um aglutinador de fatores e novas atividades econômicas.

A abordagem heterodoxa do desenvolvimento endógeno, como apresentado nas

definição de Amaral Filho e Vázquez-Barquero, inclui elementos que aceitam a dinamização

da análise - em contrapartida aos modelos de análise estática e estática-comparativa de cunho

ortodoxo -, bem como procuram abordar os fenômenos regionais de forma mais holística e

complexa, utilizando um referencial histórico, não determinístico e evolucionista dos arranjos

produtivos regionais. Para ambos autores, o que se coloca é um novo paradigma de

desenvolvimento regional, em função de diversas pressões do sistema produtivo, como a

falência do planejamento centralizado, a elevação da competição internacional via

globalização, o desmonte do modelo de financiamento público e a aceleração da geração de

novas tecnologias. Assim, em um sistema econômico em mutação constante, a permanência

de uma região integrada ao sistema produtivo global impõem novas abordagens e ações tanto

do poder público quanto da iniciativa privada regionais.

As discussões de Amaral Filho e Vázquez-Barquero sobre estas novas atitudes dos

agentes regionais foram dividas em três seções, criando uma estrutura analítica que contempla

as ações isoladas ou em conjunto dos agentes produtivos regionais e locais, a saber: i) novo

papel do estado federado; ii) investimento em infra-estrutura e formação de complexos

produtivos; e iii) valorização dos novos fatores de produção.

As abordagens são complementares, onde Amaral Filho propõe uma reestruturação da ação estatal regional como uma nova estratégica do desenvolvimento; propõe também a elevação dos investimentos em infra-estrutura como gerador de externalidades positivas 17 e a valorização de "novos" fatores de produção - capital humano, P&D. Por outro lado, Vázquez- Barquero se concentra principalmente no terceiro ponto, apresentando a inclusão de novas variáveis para o desenvolvimento regional dentro da estrutura da teoria do crescimento endógeno, onde a geração de tecnologia ganha um papel central, mas também reconhece a importância do tecido institucional regional, a organização flexível da produção e os ganhos advindos da geração de economias de aglomeração. Apesar de Vázquez-Barquero não discutir a questão da reestruturação estatal e da elevação dos investimentos em infra-estrutura e Amaral Filho não se aprofundar nas relações institucionais regionais, ambas abordagens se completam e abordam a questão mais importante, que foi negligenciada por décadas pela ortodoxia: a inclusão da geração e difusão da tecnologia endógena à região, bem como a decisão da formação dos arranjos produtivos de forma espontânea, calcada nas decisões dos agentes locais. Neste novo caso paradigmático do desenvolvimento, os atores locais jogam papel central na definição, execução e controle da política de desenvolvimento regional, em um movimento de baixo para cima. Em formas mais avançadas, os agentes locais se organizam em redes que servem como instrumento para a geração do conhecimento, a aprendizagem da dinâmica do arranjo produtivo, a melhoria das relações inter institucionais, o acordo de iniciativas coletivas e a execução das ações que integram a estratégia de desenvolvimento regional (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002). Neste ponto uma breve discussão sobre as convergências e divergências entre crescimento e desenvolvimento endógeno torna-se fundamental para o entendimento das categorias de análise que serão utilizadas neste trabalho. A Teoria do Crescimento Endógeno compartilha algumas características com a Teoria do Desenvolvimento Endógeno. Primeiro, ambas mantêm a visão de que os espaços e as regiões reúnem recursos materiais e imateriais que permitem decidir os seus próprios caminhos do desenvolvimento, evitando a convergência necessária imposta pelas abordagens do tipo Solow-Swan. Esta característica abre amplos espaços para as políticas regionais, além da participação criativa das sociedades regionais. (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002).

17 Externalidade é o efeito secundário gerado em uma atividade produtiva qualquer; pode ser positiva, quando desejada ou negativa, quando não intencionada (HUMPHREY & SCHIMITZ, 1996, p. 1861).

Segundo, concordam que o crescimento econômico é resultado direto da elevação da produtividade dos fatores, induzida pelas inovações endógenas. Terceiro, as assimétricas taxas de crescimento entre as regiões são explicadas pelas diferenças existentes não apenas na relação capital/trabalho, mas também nos níveis de educação, capacidade de geração de P&D e atuação da administração pública. Quarto, a difusão do conhecimento tecnológico - spillovers effects - pelo sistema produtivo gera economias de externas que potencializam os rendimentos crescentes (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002).

Contudo, há claros traços diferenciais entre as duas matrizes teóricas. A Teoria do Desenvolvimento Endógeno discute variadas questões que proporcionam diversas respostas às indagações não respondidas pelos modelos de crescimento endógeno. São pelo menos cinco visões excludentes entre as duas abordagens. Primeiro, o desenvolvimento endógeno discute o crescimento econômico como resultado do acaso e da incerteza, dentro da linha do pensamento evolutivo, onde as mutações do mercado e as decisões dos agentes condicionam o processo de desenvolvimento. Já os modelos neoclássicos de crescimento endógeno são modelos de equilíbrio móvel, onde os agentes isolados tomam suas decisões em um contexto de concorrência (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002).

Um segundo ponto de afastamento reside na discussão do papel do espaço. No modelo

de crescimento endógeno, o espaço tem característica apenas funcional, não interagindo com

o processo produtivo. O desenvolvimento endógeno, mesmo com limitações, procura inserir o

espaço como variável ativa, explorando o caráter espacial das economias externas. Procura relacionar a geografia aos processos tecnológicos e organizacionais, afirmando que a região se desenvolve, em última instância, em função da trajetória tecnológica e produtiva adotada no espaço em questão. A especificidade dos recursos, conhecimentos técnicos acumulados, a qualidade e a densidade das instituições e as formas de organização da produção tornam o território uma variável ativa no desenvolvimento regional (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002).

A organização produtiva regional e, portanto, os processos de acumulação de capital são outro ponto de discordância. Indo em direção oposta às interpretações que propõem uma economia administrada por grandes organizações, onde o crescimento da produtividade somente ocorre em entornos estáveis, o desenvolvimento endógeno salienta que as novas formas de organização flexível - redes de empresas, arranjos locais e novos sistemas de organização das grandes empresas - constituem formas mais interessantes para o crescimento

e a mudança estrutural. A explicação para esta flexibilidade reside na maior facilidade para a geração e aplicação de novas tecnologias, em função do menor capital físico empregado e que

pode ser remunerado em um lapso menor de tempo e também pela maior competição imposta pela globalização (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002). Uma quarta diferença pode ser mencionada. Os modelos de crescimento endógeno não discutem os resultados advindos da ligação do arranjo produtivo com a sociedade local. Por outro lado, a teoria do desenvolvimento endógeno considera que existe uma forte simbiose entre a economia e a sociedade, onde os arranjos produtivos estão estreitamente vinculados às instituições e à sociedade local. As flexibilizações do mercado de trabalho e a difusão do conhecimento são expressões nítidas deste imbricamento entre o setor produtivo e o seu entorno institucional (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002). Por fim, são ambíguas as definições de inovação entre as teorias. A teoria do crescimento endógeno ainda mantém um ponto de vista linear e hierarquizado dos processos inovativos. Para estes teóricos, o processo inovativo segue uma trajetória pré-determinada, desde o descobrimento científico até a inovação há uma clara divisão do trabalho entre as organizações e as instituições ligadas aos processos de geração de P&D. Contudo, o desenvolvimento endógeno não aceita a visão linear e hierarquizada, pois acredita-se que há uma flexibilização da participação de todos os agentes envolvidos no processo produtivo. Há, na verdade, um complexo sistema interativo entre empresas, mercado e instituições de P&D, onde o aprendizado dinâmico é uma variável chave na geração de inovações. Além disso, as inovações não se apresentam de forma linear no tempo e no espaço, onde as rupturas tecnológicas podem ocorrer de forma assimétrica (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002). Desta forma, o desenvolvimento endógeno mantém uma visão mais holística e complexa sobre os mecanismos que geram os processo de acumulação de capital, elevação da produtividade e competitividade regional do que a teoria do crescimento endógeno. Para o desenvolvimento endógeno, a dinâmica econômica de um espaço regional é constituído por processos aleatórios e incertos, condicionados pelas decisões dos agentes regionais e pelos mecanismos determinantes do desenvolvimento regional endógeno. Acredita-se, portanto, que o referencial teórico do desenvolvimento endógeno poderá oferecer um entendimento mais detalhado dos processos regionais e locais de desenvolvimento do que a teoria do crescimento endógeno.

2.2.1 O Novo Papel do Estado Federado

Como já discutido, após um período de forte intervenção estatal, com vistas a expandir o produto e tornar a economia brasileira competitiva no cenário internacional, o endividamento público aliado à quase eliminação das fontes de financiamento colocaram o Governo Central do Brasil e também os estados federados em uma profunda crise fiscal e financeira durante a década de 1980 e início da década de 1990. A capacidade de investimento do Estado se reduziu drasticamente ante à inexistência de uma poupança pública. O resultado foi uma perda na capacidade de planejamento de longo prazo, bem como o esvaziamento das políticas industrial e regional.

Para romper com esta situação e ingressar em uma nova fase de crescimento duradouro e sustentado, é indispensável a reforma do Estado, em todos os níveis, com a reformulação do seu papel e um ajuste fiscal estrutural. Os estados regionais devem adotar um novo padrão de gestão da máquina pública, aumentando o grau de eficiência, eficácia e efetividade na utilização dos recursos, para que sejam condizentes com o aumento da autonomia decisória obtida pelos estados federados com a descentralização fiscal e financeira criada pela Constituição do Brasil, promulgada em 1988. Esta é uma das premissas básicas do desenvolvimento endógeno, onde o estado federado é autônomo e independente, tanto do ponto de vista da escolha de seus arranjos produtivos locais quanto da origem e aplicação dos recursos [(AMARAL FILHO, 1995); (AMARAL FILHO, 1996)].

Para que possa se tornar elemento estratégico no desenvolvimento de suas regiões, os estados federados devem buscar alguns resultados-chave que possibilitem maior dinamização de suas ações:

a) geração de poupança pública local e recuperação da capacidade de investimento: os estado federados devem envidar esforços para construir um novo modo de financiamento para o setor público e a acumulação de capital, a partir de uma nova racionalidade fiscal, onde o investimento não pode continuar sendo autônomo em relação à poupança, como determinava o receituário keynesiano. Esta é uma novidade que tem o objetivo de evitar o endividamento público sem a contrapartida da receita fiscal. Após alcançado o equilíbrio econômico e financeiro, o Estado deverá utilizar a poupança pública a fim de criar ou recuperar a infra-estrutura, a despeito das externalidades positivas advindas deste tipo de investimento, gerando efeitos multiplicadores sobre o emprego, produto, renda e investimentos privados (AMARAL FILHO, 1996);

b) modernização do aparelho estatal: o paradigma da gestão pública deve ser alterado, onde o Estado deve ser estruturado para se consolidar para ser um instrumento de mediação em direção ao encontro das alternativas para o desenvolvimento, com base em três ações:

i) recuperação do sistema de informações e planejamento regional; ii) melhoria da relação entre o Estado, a iniciativa privada e a sociedade local, visando facilitar a efetivação interlocução entre estes agentes e a eficiência do mercado; e iii) melhoria da capacidade de gerência dos recursos humanos, materiais e financeiros do domínio do setor público local (AMARAL FILHO, 1995);

c) criação e promoção de incentivos: o desenvolvimento regional e local dependem da ação

do governo, contudo com um novo papel, agora de ordem muito mais qualitativo, que é o de liderar e facilitar os processos de mudança, de criar, apoiar e fortalecer organizações engajadas na promoção do crescimento econômico e social; e de liderar, coordenar, facilitar e implementar programas de desenvolvimento regional. Contudo, a experiência internacional revela que a criação de novos arranjos produtivos com pouca representatividade em um determinado local ou região não tem propiciado resultados muito eficazes e que, portanto, o apoio e suporte aos já existentes, tem se constituído na melhor política de desenvolvimento regional [(AMARAL FILHO, 1995); (GALVÃO,

2001)].

Nesta abordagem, Sérgio Prado (PRADO, 1999), afirma que a concessão de incentivos fiscais por parte dos estados federados tem resultado positivo sobre o produto, a renda e o emprego, ao menos na economia e na sociedade local específica contemplada com os incentivos. Além disso, dependendo da evolução dos projetos envolvidos, o governo estadual pode se encontrar em uma posição relativa melhor do que se eles não tivessem existido, ainda que o custo fiscal para o país como um todo seja muito alto. Portanto, programas de redução de impostos podem alcançar resultados positivos localmente, em detrimento de outras regiões. Por outro lado, há um generalizado consenso de que as políticas de incentivo fiscais do passado - recentemente chamadas de guerra fiscal no Brasil -, não estão mais em sintonia com as modernas estratégias de desenvolvimento regional. Os governos de todo o mundo estão reconhecendo que, ao invés do tradicional enfoque dos subsídios e redução de impostos, a melhor política regional é criar um ambiente favorável nas regiões, para que estas possam enfrentar os desafios da competitividade e dos constantes avanços na esfera tecnológica (GALVÃO, 1998). Em um novo quadro institucional e produtivo, as formas de intervenção e promoção das políticas públicas alteram-se, onde o controle, o planejamento, a regulação, e a

intervenção do Estado, existentes no passado, são substituídos pelo monitoramento, orientação, desregulamentação, nova regulação, promoção de ações interativas, enfim, atividades distintas das existentes no padrão produtivo anterior (CARIO et al., 2001). Considerando um ambiente de debilidade fiscal dos Estados federados do Brasil e o baixo nível de confiança no setor público, por parte dos agentes privados, o equilíbrio orçamentário, a modernização do Estado, a abertura de canais de comunicação e o incentivo à produção regional são ações que não beneficiam apenas a retomada da autonomia da decisão do poder público local, mas passam a constituir uma importante vantagem comparativa para a economia estadual ao visar à fixação e a atração de novos investimentos (AMARAL FILHO,

1996).

A rigor, o desenvolvimento endógeno passa obrigatoriamente por um papel ativo dos

governos regionais, porém com outro enfoque, agora como estado indutor do desenvolvimento. Os governos devem se ajustar a um novo paradigma, onde a iniciativa privada seleciona os arranjos produtivos e cabe ao estado esforços conjuntos com diversos agentes para garantir a competitividade de tais sistemas produtivos em um ambiente de elevada competição global.

2.2.2 Investimentos em Infra-estrutura e Formação de Complexos Produtivos

O forte declínio do investimento público e privado durante a década de 1980 na

América Latina e no Brasil - a chamada década perdida pela CEPAL - elevou os custos de produção pelo desgaste da infra-estrutura pesada - energia, transporte, telecomunicações, etc. -. A retomada do crescimento econômico sustentado para a economia brasileira e suas regiões não pode prescindir de maciços investimentos em infra-estrutura pesada, onde o Estado ainda representa o principal agente sinalizador de tais inversões. Contudo, o capital privado nacional e internacional também tem plenas condições de participar deste processo (AMARAL FILHO,1995).

A criação de externalidades positivas para o capital privado - redução dos custos de

transação, de produção e de transporte, acesso a mercados, rápida difusão da informação - são alguns dos resultados diretos advindos da elevação dos investimentos em infra-estrutura física (AMARAL FILHO, 1996). Além disso, a criação de sistemas articulados de infra-estrutura econômica ainda mantêm papel estratégico na manutenção de condições sistêmicas de competitividade regional nos mercados interno e externo (CARVALHO, 1998).

Contudo, apenas a criação e melhoria da infra-estrutura física não garante a uma determinada região um processo dinâmico de endogenização do excedente econômico local, a atração do excedente de outras regiões e o crescimento econômico sustentado. Dentro da estratégia do crescimento da região, deve-se evitar a formação de enclaves ou a aglomeração de indústrias sem coerência interna nas suas interconexões. O ideal seria instalar na região em foco, projetos econômicos capazes de criar um pólo de crescimento, com efeitos multiplicadores que se propagam de maneira cumulativa e transformam a região em um aglutinador de fatores e de novas atividades econômicas (AMARAL FILHO, 1996). Tais projetos deveriam criar aglomerações de empresas como Complexos Produtivos, que segundo Joseph Ramos, devem ter as seguintes características:

"Se entiende comúnmente por Complejo Productivo una concentración sectorial y/o geográfica de empresas que desempeñan en las mismas actividades o en actividades estrechamente relacionadas, com importantes y cumulativas economías externas, de aglomeración y de especialización (por la presencia de productores, proveedores y mano de obra especializados y de servicios anexos específicos al sector) y com la posibilidad de llevar a cabo una acción conjunta en búsqueda de eficiencia colectiva" (RAMOS, 1998, p. 108).

Segundo Garofoli (1992, apud AMARAL FILHO, 1995), dentre os modelos de desenvolvimento endógeno, os casos mais interessantes são aqueles que apresentam pequenas empresas circunscritas a um território delimitado. Trata-se de sistemas que produzem verdadeiras intensificações localizadas de economias externas, que determinam fortes aglomerações de empresas fabricando o mesmo produto ou gravitando em torno de uma produção típica. Uma importante característica desses espaços produtivos é o fato de que as firmas neles localizados se organizam em redes e desenvolvem sistemas complexos de integração - cooperação, solidariedade, coesão e valorização do esforço coletivo. Tais aglomerações de empresas, setorialmente especializadas e espacialmente concentradas, criam grandes efeitos linkages para frente e para trás, baseados no intercâmbio de insumos, produtos, informações e mão-de-obra, e operando numa atmosfera cultural e social baseada na cooperação e colaboração entre os agentes econômicos e não econômicos da região, formando o Complexo de Produção já descrito [(HUMPHREY, 1995); (GALVÃO, 2001)]. Desta forma, a melhoria da infra-estrutura deve ser acompanhada de uma política de formação de cadeias produtivas interligadas ou complexos de produção, onde os projetos possam aproveitar as vantagens competitivas da região, que podem ser: i) a disponibilidade de recursos naturais específicos; ii) a existência de atividades típicas; iii) alguma atividade econômica já criada pelo planejamento regional; ou iv) uma cadeia produtiva que já esteja se estruturando endogenamente (AMARAL FILHO, 1996).

Tanto o investimento em infra-estrutura quanto a formação de complexos produtivos regionais podem, ao mesmo tempo, manter a reprodução ampliada do arranjo produtivo local

e provocar um processo endógeno de contaminação dinâmica sobre os diversos agentes dentro da região - concorrentes, parceiros, fornecedores, governo regional e local, instituições de

O sucesso desta forma de desenvolver a região depende diretamente da ação

conjunta entre o governo regional e a iniciativa privada para alcançarem a criação e a manutenção dos fatores locacionais competitivos e o crescimento econômico sustentado. Quanto mais fortes e convergentes forem as ações do governo e da iniciativa privada na busca das vantagens competitivas regionais, maiores serão as oportunidades de desenvolvimento regional [(AMARAL FILHO, 1995); (AMARAL FILHO, 1996)].

Ademais, a aglomeração e a interconexão das atividades em um espaço delimitado deve ser acompanhado da formação de um arranjo produtivo em que muitas empresas desse sistema se coloquem como líderes em seus setores, tanto em nível nacional quanto internacional, pois as empresas competem nos mercados juntamente com seu entorno produtivo e institucional de que fazem parte, ou seja, a competitividade da empresa líder engloba ou contém a competitividade de todo o entorno produtivo e institucional de que está inserida [(AMARAL FILHO, 1996); (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002)]. Portanto, pode-se dizer que a competição passa a existir entre as regiões e não apenas entre empresas, onde os espaços que alcançarem elevada integração horizontal e conquistarem competitividade sistêmica poderão sustentar um crescimento econômico de longo prazo que poderão alterar substancialmente as estruturas internas da região, podendo promover o desenvolvimento econômico e social.

pesquisa, etc

2.2.3 Valorização dos Novos Fatores de Produção

A história econômica mundial pós-1945 demonstrou a fragilidade e a incapacidade de sustentação do crescimento econômico e da competitividade dos modelos de desenvolvimento que continuaram se baseando apenas nos fatores de produção tradicionais - capital e trabalho. Esta dificuldade ficou ainda mais latente com o avanço do processo de globalização produtiva, onde os diversos e assimétricos sistemas produtivos passaram a competir em um mesmo espaço econômico e nas mesmas condições de concorrência [(AMARAL FILHO, 1996) (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002)]. Além disso, a simples estratégia de desenvolvimento regional baseada na concentração geográfica não leva, necessariamente, e

apenas em função do mercado, ao crescimento e desenvolvimento de um determinado espaço (GALVÃO, 2001). Levando em consideração estes pressupostos, Verschoore Filho sustenta que qualquer estratégia política de desenvolvimento regional não pode se ater somente em ações de cunho ortodoxo, como linhas de crédito, incentivos fiscais ou de investimento em Formação Bruta de Capital Fixo (VERSCHOORE FILHO, 2001). Torna-se necessário ativar, incorporar e valorizar outros fatores de produção para permitir o crescimento econômico no curto e longo prazos, elevando a produtividade e a competitividade da região. Estes novos fatores estão diretamente relacionados ao capital humano, pesquisa e desenvolvimento, conhecimento e informação e às instituições. Conforme Michael Porter, ao contrário dos fatores tradicionais, geradores de vantagens comparativas estáticas, os novos fatores são responsáveis pela criação e desenvolvimento de vantagens competitivas dinâmicas de uma região, ou seja, vantagens que incorporam características de permanente mutação em direção à manutenção da competitividade de longo prazo (PORTER,

1993).

Segundo Vázquez-Barquero, o desenvolvimento econômico se produz como conseqüência da utilização do potencial e do excedente gerado localmente e a atração de recursos externos, assim como a incorporação das economias externas nos processos produtivos. Para neutralizar as tendências do estado estacionário, torna-se necessário ativar os fatores determinantes dos processos de acumulação de capital, que para ele, são basicamente quatro: i) criação e difusão de inovações dentro do arranjo produtivo local; ii) organização flexível da produção; iii) geração de economias de aglomeração; e iv) desenvolvimento das instituições regionais e locais (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002). Tanto Amaral Filho quanto Vázquez-Barquero colocam como elemento central no processo de desenvolvimento endógeno a criação, acúmulo e difusão do conhecimento dentro do arranjo produtivo, acionando o núcleo criador da sociedade e da economia regional, fazendo com que o espaço experimente inovações e saltos em suas bases. Como complemento à dinâmica inovativa, ambos autores reconhecem a importância do fortalecimento das instituições públicas e privadas locais, criando e fortalecendo os canais de informação, que reduzirão os riscos e as incertezas, elevando a capacidade de cooperação entre os agentes e flexibilizando a adoção de novos paradigmas de desenvolvimento [(AMARAL FILHO, 1995); (AMARAL FILHO, 1996); (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002)].

2.2.3.1 A Criação de Inovações e a Difusão do Conhecimento

A base de sustentação da atividade inovativa é o capital humano, que se apresenta como o único fator de produção inteligente dentro de qualquer função de produção. Todo o arranjo produtivo se dinamiza quando coloca o capital humano e a sua capacidade de criar e recriar como o fator estratégico na conquista e manutenção da competitividade (AMARAL FILHO, 1996). Um importante trabalho de inclusão do capital humano na função de produção foi realizado por Robert Lucas, com rebatimentos positivos sobre a produtividade e o crescimento econômico (LUCAS, 1988).

Dentro da concepção schumpeteriana, o desenvolvimento econômico do sistema capitalista - e qualquer fração dos seus espaços - está estritamente relacionado às novas combinações ou inovações tecnológicas, oriundas do movimento temporal das forças produtivas sociais que geram mudanças estruturais no sistema. Neste sentido, a produção de novos produtos ou dos mesmos produtos pautados em novos processos técnicos significa combinar de forma diferente os meios de produção. Como os elementos impulsionadores da mudança estão inseridos no seio do próprio sistema, o processo de desenvolvimento na ótica de Schumpeter é essencialmente endógeno (SCHUMPETER, 1997). Seguindo esta mesma lógica, Vázquez-Barquero explicita que o desenvolvimento econômico e a dinâmica produtiva dependem da introdução e difusão de inovações e do conhecimento, elementos que impulsionam a transformação e a renovação do arranjo produtivo, já que, em última análise, a acumulação de capital é resultado direto da acumulação do conhecimento e da detenção de tecnologia (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002).

Com o advento da globalização, os mercados tem se tornado cada vez mais competitivos, onde a inovação constitui um dos mecanismos estratégicos de um Complexo Produtivo para manter ou ampliar sua presença no mercado e aumentar a rentabilidade sobre seus investimentos (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2000). A possibilidade de uma empresa ou Complexo Produtivo de desfrutar posições temporárias monopolistas ou oligopolistas representam um poderoso incentivo à atividade inovativa, em função dos lucros de monopólio que possam ser apropriados antes da imitação da tecnologia pelos concorrentes [(NELSON & WINTER, 1982); (ROMER, 1990); (GROSSMAN & HELPMAN, 1994); (ROMER, 1994); (AGHION & HOWITT, 1998)].

Contudo, a atividade inovativa comporta um procedimento de busca e não de escolha, sobre um conjunto de possibilidades, cujas características e cujos resultados no mercado

seriam conhecidos ex ante. Não se pode saber, antecipadamente, se uma tecnologia a ser adotada ou desenvolvida encontrará, automaticamente, uma resposta positiva no mercado. Desta forma, a inovação é realizada sob condições de incerteza. Por mais que se conheçam os atributos tecnológicos e econômicos de uma inovação, suas inter-relações não são totalmente dedutíveis, especialmente no que diz respeito às implicações que os atributos técnicos podem ter para a dimensão econômica da atividade (NELSON & WINTER, 1982). Considera-se, portanto, que o processo inovativo somente pode ser completado após uma instância seletiva que, grosso modo, pode ser identificada como o mercado para onde a inovação é dirigida. Assim, uma condição necessária para o sucesso de uma inovação é a sua aceitação ex post pelos usuários (NELSON & WINTER, 1982). A seleção de uma trajetória pelo mercado pode configurar em um novo paradigma tecnológico, que pode ser definido "como um modelo e um padrão de solução para problemas tecnológicos específicos, baseado em determinados princípios, que serão derivados das ciências naturais e em determinadas tecnologias materiais" (DOSI, 1984, p. 14). Ou seja, o paradigma tecnológico representa a visão predominante para se formular e encaminhar soluções a determinados conjuntos de problemas. Ainda segundo Dosi, quanto mais uma trajetória tecnológica se estabelece, mais os mecanismos de geração de inovações e de avanços tecnológicos se tornam endógenos ao arranjo produtivo. Mas, para se alcançar o êxito de uma trajetória diversas etapas devem ser superadas. Isto ocorre porque a tecnologia não é um bem de uso comum. Ela possui um vetor de aprendizagem e investigação muito significativo. Assim, há um processo que se deve cumprir para que se produza tecnologia. Neste protocolo, a dimensão econômica das inovações técnicas possuem três características básicas fundamentais: i) a oportunidade; ii) a apropiabilidade; e iii) a cumulatividade (CIMOLI & DOSI, 1992). A oportunidade pode ser vista como as possibilidades de um paradigma seguir uma trajetória específica onde alguns paradigmas possuem grandes trajetórias - como o motor a combustão - e outros possuem trajetórias muito limitadas. A oportunidade representa, a rigor, a possibilidade de incorporação de inovações relevantes e rentáveis para o capital (CIMOLI & DOSI, 1992). A apropriabilidade, por seu turno, pode ser entendida como a capacidade do agente inovador de se apropriar dos conhecimentos e retornos que o paradigma produz. A base é o fator tempo, onde as curvas de apropriabilidade podem ser curtas ou longas. Quanto mais curta, mais fácil será a imitação do conhecimento por outras firmas, o que facilita a dispersão pelo mercado e a não formação de monopólios (CIMOLI & DOSI, 1992).

A cumulatividade está muito relacionada com a apropriabilidade. O progresso técnico tem uma natureza acumulativa. O constante acréscimo de conhecimento gera a possibilidade da trajetória de um novo paradigma. A acumulatividade incorpora tanto o conhecimento formal quanto o tácito. O conhecimento formal é transmissível pela linguagem escrita, codificada, sendo fácil sua aquisição ou imitação. Já o conhecimento tácito é a idiossincrasia do trabalho, sendo adquirido na execução específica da atividade, pela experiência profissional. Sua apropriação é difícil, pois não está à venda no mercado (CIMOLI & DOSI,

1992).

Uma fonte relevante de criação e difusão do conhecimento advém de atividades rotineiras que tomam forma em diferentes processos de aprendizagem interna e interativa entre empresas e instituições. A experiência própria nos processos de produção - learning by doing -; a utilização do produto - learning by using -; a busca de solução técnica nas unidades de P&D - learning by searching -; a exclusão de processos que falharam - learning by failing -; a interação com fornecedores de máquinas, equipamentos, insumos, consultores, universidades, etc. - learning by interacting -; e outros, constituem processos para o desenvolvimento do conhecimento e, por conseqüência, parâmetros para a inovação. Estes processos de aprendizagem resultam na acumulação do conhecimento, que, por sua vez, sustentam os avanços científicos, técnicos e organizacionais que traduzirão em inovações modificadoras do ambiente econômico. Para o aprendizado exercer esta função, é essencial ter capacidade para adquirir novos conhecimentos - learning to learn -, pois somente a capacidade de aprender e de transformar torna o aprendizado fator competitivo em um ambiente cada vez mais mutante (PASSOS, 1999).

As empresas investem em tecnologia para usufruírem de posições de monopólio temporário com o objetivo de elevar a acumulação de capital, mas suas ações e rotinas estão condicionadas pelo contexto institucional em que realizam sua atividade produtiva. O êxito de sua estratégia depende, além de suas habilidades em desenvolver novos processos ou produtos, da atitude dos competidores, das relações de cooperação ou luta com seu entorno institucional e, principalmente, com o ambiente propício ou limitador dos processos inovativos (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002).

A introdução e difusão das inovações e do conhecimento geram uma elevação do estoque de conhecimentos tecnológicos em um espaço econômico, que produzem economias externas no espaço compreendido pelo Complexo Produtivo, beneficiando todos os segmentos do setor e reforçando as vantagens competitivas dinâmicas, principalmente quando as

inovações são resultado coletivo da cooperação entre os diversos agentes envolvidos (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002). Neste sentido, as condições locais ou regionais passam a ter importância fundamental como mecanismo de estímulo às atividades produtivas e inovativas, no que concerne a aspectos como a proximidade entre os agentes, a existência de linkages forwards e backwards, o clima de maior confiança entre os agentes e a capacidade de cooperação. Quando se constata ações socialmente construídas que refletem em um ambiente regional propício à geração de inovações e conhecimento, pode-se dizer que neste ambiente está florescendo e se desenvolvendo um Sistema Local de Inovações (VARGAS & CAMPOS, 2002). O Sistema Local de Inovações é uma variação do conceito de Sistemas Nacionais de Inovação 18 . Os sistemas locais se referem a um ambiente delimitado por espaços específicos do território de uma nação e caracterizado por uma maior proximidade e homogeneidade dos agentes, podendo por isso proporcionar maior intensidade nas interações, devido à existência de aspectos como a origem histórico-cultural e o objetivo comum dos agentes (CASSIOLATO & SZAPIRO, 2002).

A construção de sistemas inovativos locais passam a ser estratégicos para uma

determinada região manter ou ampliar suas vantagens competitivas ante à aceleração da competição internacional, pois eles podem configurar a criação de trajetórias tecnológicas de sucesso de forma endógena. Diversos autores tem destacado a importância do conhecimento e do aprendizado como as alternativas promissoras para as empresas e regiões atingirem um nível superior de desenvolvimento econômico. Michael Porter sustenta que, em função de uma maior dispersão dos fatores clássicos de produção devido à globalização, a construção de vantagens competitivas dos países e regiões passa a ser determinada pelo conhecimento diferenciado, habilitações e ritmo de inovações que estão materializados em pessoal habilitado e rotinas de organização (PORTER, 1993). Lundvall e Borrás, por seu turno, afirmam com veemência que:

a habilidade para aprender é crucial para o sucesso econômico de indivíduos, empresas, regiões e

economias nacionais. O aprender refere-se a construir competências novas e estabelecer habilidades novas e não somente ter o acesso à informação" (LUNDVALL & BORRÁS, 1998, p. 35).

"(

)

A rigor, a detenção das tecnologias da informação são insuficientes na economia

contemporânea para garantir vantagens competitivas. Torna-se necessário construir

18 O Sistema Nacional de Inovações é constituído por elementos e relacionamentos que interagem na produção, difusão e uso do novo conhecimento economicamente útil, e um sistema nacional abrange elementos e relacionamentos, localizados dentro ou enraizados dentro das fronteiras de um Estado Nação (LUNDVALL, 1992, p. 2).

tecnologias do conhecimento, ou seja, gerar conhecimento próprio para permitir o monopólio temporário pela diferenciação de custo ou produto. As tecnologias da informação são importantes para difundir o conhecimento, contudo, as inovações e o conhecimento devem, cada vez mais, serem produtos endógenos aos arranjos produtivos regionais para que estes suportem as pressões e os desafios da competição global. As tecnologias da informação podem sintonizar um Complexo Produtivo com o paradigma tecnológico dominante. Um sistema inovativo local pode gerar e ditar qual será o paradigma tecnológico reinante e, com isso, permitir ao menos temporariamente, uma diferenciação de produto e uma acumulação de capital superior.

Desta forma, somente com a formação de um Sistema Local de Inovações baseado na cooperação dos agentes locais e a difusão do conhecimento gerado por todo o Complexo Produtivo é que poderá ocorrer um desenvolvimento originalmente endógeno de uma região, transformando as estruturas internas de um espaço econômico e elevando o nível de bem estar da população local.

2.2.3.2 A Organização Flexível da Produção

As últimas décadas tem apresentado variações na dinâmica econômica, onde ao invés

da concentração industrial em alguns locais, observado durante a chamada fase fordista- taylorista do sistema de produção verticalizada, uma grande e crescente parcela da produção está se realizando em vários locais e em grande número de firmas, de tamanhos menores, que produzem bens para serem vendidos em múltiplos mercados. Novos padrões de competitividade estão sendo definidos pelo que tem sido chamado de capitalismo coletivo, capitalismo de alianças ou capitalismo organizado [(TAUILE, 1994); (GALVÃO, 2001)].

O desenvolvimento de redes explícitas entre empresas, como são os sistemas

produtivos locais, são alianças com o objetivo de realizar projetos específicos, que afetam os

processos de produção, os produtos ou a estrutura do mercado, que melhoram a competitividade das empresas e resulta em rendimentos crescentes, dentro do arranjo produtivo local. A evidência é que o elemento chave que responde por esse plus em termos de eficiência econômica pode ser buscado nas formas de cooperação entre os agentes econômicos em diversos níveis de organização social de produção [(TAUILE, 1994); (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002)].

O ambiente em que as firmas médias e pequenas operam é de grande competitividade e envolve uma enorme gama de incertezas e dificuldades, tais como problemas de gestão, insuficiência de crédito, elevadas inversões em marketing e comercialização, menor capacidade de obtenção de informações sobre novas tecnologias e comportamento da demanda entre diversos outros problemas. Assim, estas firmas necessitam desenvolver estratégias de sobrevivência, que estão diretamente relacionadas à inovação e incorporação de tecnologia, novas formas de gestão e abertura de mercados. Desta forma, elas passam a desenvolver fortes relações de complementaridade, interdependência, cooperação e troca de informações, gerando firmas flexíveis em redes - networks (GALVÃO, 2001). Em uma analogia com a física, os agentes econômicos estão sendo cada vez mais capazes de direcionar suas forças em direção a um mesmo quadrante e, com isso, obtendo vetores resultantes maiores do que os obtidos em regimes de acumulação capitalista anteriores. Nos padrões conflitivos das relações econômicas, os agentes podem ser entendidos como forças opostas de vetores existentes em hemisférios diferentes, que reduzem o efeito total de acumulação de capital pela concorrência entre os vetores - agentes econômicos. No capitalismo de alianças, os vetores se unem e alcançam um somatório agregado maior do que se competissem isoladamente (TAUILE, 1994). A materialização de uma eficiência coletiva, decorrente das externalidades geradas pela ação conjunta, garante uma maior competitividade das empresas, em comparação com firmas que atuam isoladamente (TAUILE, 1994). A ação conjunta, além disso, conduz o sistema local a criar processos de treinamento de mão-de-obra que propiciam a acumulação e a disseminação de conhecimento e know-how. Também acarreta uma redução dos custos de transação, pela maior facilidade de comunicação entre os agentes. Gera sinergias coletivas, que contribuem para a aceleração das taxas de inovação e introdução de novos processos e novas tecnologias. Por fim, obtém também economias externas de escala na produção [(VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002); (GALVÃO, 2001)]. Em recente trabalho sobre os determinantes da competitividade regional, Cário e outros argumentam que a organização da produção em forma de redes de empresas pode desenvolver um interessante binário de especialização e complementaridade entre as atividades econômicas de um determinado arranjo produtivo. Segundo os autores, dentro do sistema capitalista de produção, nenhuma empresa de forma individual tem condições de operar um conjunto de atividades sem enfrentar as contingências de um ambiente econômico cada vez mais mutante, sem reduzir o seu grau de autonomia decisória. Assim, a presença de um forte movimento de especialização produtiva e um elevado grau de complementaridade

entre os integrantes de uma rede de empresas regionais pode criar e desenvolver condições para ações estratégicas coerentes e competentes em direção à conquista de vantagens competitivas no mercado globalizado (CÁRIO et al., 2001).

Em outro trabalho, Humphrey e Schimitz concluem que a configuração flexível de redes de empresas podem gerar uma forte simbiose entre as firmas e a comunidade local, pela cooperação competitiva entre as firmas. O resultado pode ser a criação de externalidades positivas, advindas de ações coletivas - promoção conjunta de P&D, marketing, novos canais de comercialização, obtenção de crédito, entre outros (HUMPHREY & SCHIMITZ, 1996).

Em resumo, as novas formas de organização propiciam que as empresas realizem economias externas que garantem performances mais eficientes do arranjo produtivo regional, que pressupõem ambientes cooperativos intra e inter firmas, rompendo radicalmente com os padrões anteriores de relações conflitivas típicas do capitalismo moderno [(TAUILE, 1994); (VÁZQUEZ-BARQUERO, 2002)].

2.2.3.3 As Economias de Aglomeração

Diversas empresas e Complexos Produtivos inteiros de sucesso internacional freqüentemente se localizam em uma única cidade ou região dentro de um país. Os casos de concentração geográfica da produção são inúmeros, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento (PORTER, 1993).

Contudo, somente economias de especialização não garantem o sucesso dos Complexos Produtivos e o dinamismo dos novos espaços econômicos. Torna-se indispensável um conjunto de iniciativas - tanto pelo lado das empresas, quanto pelo lado dos Governos - para a garantia do desenvolvimento constante de novas vantagens competitivas nessas áreas, através de investimento em diferenciação de produtos, de programas de marketing, da formação e qualificação de mão-de-obra e da criação de novos canais ou redes de comercialização, de atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), além dos tradicionais investimentos em infra-estrutura física e social (GALVÃO, 2001).