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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESErsTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confisca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
m. x¡. o. - r. <*.«. ANO V>
BIBLIOTECA
CKNTKAL
tota)
49
4,4 4

J A N E I R

1 9 * 6 ;,'>.
ÍNDICE

Pág.
I. CIENCIA E ItELIGIAO

1) "0 famoso caso de Bridey Murphy constituí um dos indi


cios mais verossímeis de que há reencarnwc&o : em transe a pa
ciente terá narrado os fatos ocorridos em sua vida anterior, fatos
devidamente comprovados por urna comissáo de peritos.
Que dizer a propósito ?" S

II. SAGRADA ESCRITURA

2) "Diz-se que a poligamia e o divorcio sao contrarios á lei


.natural (que é a lei de Deus) e que a lei natural se impóe a todos
os homens.

Acontece, porévi, que na Sagrada Escritura a poligamia e


o divorcio sao reconhecidos pela lei de Deus (cf. Dt 24,1-4 ; 2 Sam
S,2-5). Dal parece concluirse que, na verdade, poligamia e divorcio
nao sao contrarios á lei natural; poderiam entáo ser concedidos
aos cicladnos nao-católicos" 11

ni. MORAL

S) "Qual a atitude da Igreja em relacao ao Rotary Club ?" .. 14

TV. SOCIOLOGÍA

4) "Que quer dizer a socializac.5o da qual fala o Papa


Joño XXIII na sua encíclica 'Mater et Magistra' ? Nao equivale a
um passo da Igreja em diregáo do socialismo ?

Como a encíclica concehe as relacdes entre individuo e soeie-


dade?... entre propriedade particular e propriedade pública?...
entre patroes e operarios ?" 22

5) "Os sindicatos sao organizacóes assaz suspeitas, pois déles


procedem nao poneos dos moviwentos subversivos e grevistas que
prejudicam o bem comum cm noxttos días.

Será que urna visño crista do mundo pode dar lugar aos sindi
catos e ao sindicalismo ?" 30

V. DIREITO CANÓNICO

G) "Na inaneira de contar a consangüinidade, qual a diferenca


vigente entre o Direito Romano antigo e o Direito Eclesiástico ?" 30

VI. HISTORIA DO CRISTIANISMO

7) "O chamado ius primae noctis, direito da primeira noite,


constituí escándalo dentro dos costumes matrimoniáis da Idade
Media. Nao será mais urna expressáo da barbarie favorecida pelo
Cristianismo medieval ?" 42

COM APROVAC&O ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano V — NM9 — Janeiro de 1962

I. CIENCIA E RELIGIÁO

RAIMUNDO (Teresina) e F. CH. (Promissáo, SP) :

1) «O famoso caso de Bridey Alurphy constituí um dos


indicios mais verossímeis de que ha reencarnacáo : em transe a
paciente terá narrado os fatos ocorridos em sua vida anterior,
fatos devidamento comprovados por urna comissao de peritos.
Que dizer a propósito ?»

O caso de Bridey Murphy tornou-se famoso no mundo inteiro,


sendo que no Brasil um livro ao mesmo nome se encarregou de o divul
gar. Foi, durante aigum tempo, tido como urna das provas mais retum
bantes do íiaio» da reencarnacáo. Acontece, porém, que os dentistas,
estudando o episodio após a sua divulgagáo, se viram obrigados a dar
ao relato um sentido bem diverso do que se lhe atribuía... Ora ésse
ulterior pronunciamento da ciencia nao é- devidamente conhecido,
ficando cm conseqüéncia muitas pessoas mal informadas sobre o as-
sunto. É o que torna oportuno um esciarecimento sobre o caso.
Procuraremos primeramente reconstituir a trama do episodio; de-
pois, passaremos & sua auténtica interpretacüo.

1. O relato do caso

Aos 29 de novembro de 1952, Morey Bernstein, honrado


homem de negocios de Pueblo (Colorado) nos Estados Unidos,
deu inicio a urna serie de experiencias de hipnotismo que o ha-
viam de levar a resultados totalmente imprevistos. Serviu-lhe de
paciente a Sra. Virginia Tighe (que no livro citado recebeu o
pseudónimo de «Ruth Simmons»), pessoa muito sensível as in
fluencias do hipnotismo.
Que se terá dado própriamente ?
Depois de haver colocado a Sra. Ruth Simmons em estado
de profundo sonó hipnótico, Bernstein ligou o seu gravador a
fim de fixar fielmente a trama do diálogo que ele esteva para
empreender com a paciente. A seguir, comecou a sugerir-lhe re-
gressáo no tempo, levando-a a descrever episodios ocorridos aos
seus sete anos de idade, aos cinco, aos tres... Depois de haver
feito Ruth atingir a idade de um ano, pediu-lhe retrocedesse
para tempos ainda mais remotos, desse «o grande salto».e s"e es-
forgasse por descrever os locáis e as cenas correspondentes a
urna vida anteriormente passada aqui na térra (destarte Bern-

— 3 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962, qu. 1

stein quería tentar urna experiencia que ele mesmo nunca fizera,
mas que ele sabia já ter sido realizada por médicos, psiquiatras,
engenheiros e outros técnicos do hipnotismo).
Ruth, de fato, rendeu-se á intimacáo e pós-se a contar urna
historia nova, que ela foi desenvolvendo em sucessivas sessóes de
hipnotismo, até completá-la; entrementes, Bernstein e os de~
mais observadores se admiravam grandemente : Bridey Murphy
(assim se teria ela chamado nessa vida anterior) haveria nas-
cido em Cork, na Irlanda, aos 20 de dezembro de 1798, como
filha do casal Duncan Murphy, advogado, e Kathleen Murphy.
Habitavam em urna casa de madeira. Aos 17 anos de idade,
conheceu o filho do advogado John MacCarthy, o jovem Brian
MacCarthy, com o qual se casou mais tarde, indo ambos residir
em Belfast; moravam perto de Dooley Road, numa pequeña
mansáo freqüentemente visitada pelo Pe. John Goran. da igreja
de Santa Teresa. Bridey comprazia-se entáo em tocar lira, dan-
car o bailado irlandés chamado «jiga matinal» e jogar cartas (o
jógo dito «da fantasía»). Seu marido lecionava Direito na
«Queen's University» de Belfast e escrevia para o periódico
«News-Letter» dessa cidade; Bridey lembrava-se muito bem de
que comprava sua roupa na loja «Cadenns House». Enquanto
falava, a paciente tomava sotaque genuinamcnte irlandés, usava
de expressóes raras e típicas da Irlanda, de modo a nao deixar
dúvida de que realmente estava revivendo episodios históricos.
Finalmente narrou a sua morte, ocasionada por um tombo; des-
creveu outrossim os seus funerais e a sua existencia subseqüente
no «astral», após a qual se teria de novo encarnado no ano de
1923 nos Estados Unidos da América.

A guisa de ilustragáo, transcrevemos aqui um dos trechos fináis do


diálogo de Bernstein com Bridey Murphy :

«Prossigamos até o tempo de sua morte... Vocé disse que assistiu


aos seus próprios luncrais. Viu como a enterravam. Nao 6 ?
— É.
Bem. Se se lembrava disso, deve )embrar-sc também do ano em
aue morreu Talvez o tivessem marcado na cova ou numa lapide ou
onde se costuma íazér. Provávelmente presenciou isso. Em que
ano loi ?
— Foi... em mil oitocentos... uhmmm... mil... um-oito-seis...
quatro.
— Um-oito-seis-quatro ?
Estava na lapide... um-oito... creio... Vi um-oito-seis-quatro
(1864).
— Está vendo a lapide agora ?
— Estou.
Que diz ela ? Leia tudo o que está escrito, além dos números.
Que está escrito ?
A «REENCARNACAO» DE BRIDEY MURPHY

— Ah... Bridget... Kathleen.. uhmmm... M... MacCar thy...


Talvez os primeiros números lhe possam dizer quando nasceu.
— Um... sete... nove... oito. ' «
— Bem. Agora, que dizem os outros números ?
(Nesse ponto ela fez um movlmento com a máo, ao dizer «Há. um'
trago»).
— Um... Há um trago... um trago e depois... um-oito-seis e
quatro.
— Está certo. Esquegamos isso. Descanse e relaxe o carpo.

Táo minuciosas e verossímeis eram as informagóes forneci-


das por Bridey Murphy a respeito da sua «pré-vida» que os
observadores se impressionaram. Resolveram entáo enviar á
Irlanda urna comissáo de repórteres e peritos encarregados de
examinar até que ponto tais noticias podiam corresponder á rea-
lidade; os resultados do inquérito deram a ver que, ao lado de
elementos imprecisos qu incoerentes, Bridey havia referido mui-
tos dados que, de fato," eram fiéis á realidade.

A guisa de espécimes, citamos aqui os seguintes tópicos :

Bridey : Teria nascido em Cork no dia 20 de dezembro de 1798, e


morrido em Belfast num domingo do ano de 1864.
Rraliriailc: Os registros irlandeses de nascimentos nao sao ante
riores ao ano de 1864; nenhum déles refere nascimento ou morto de
Bridey Murphy. Também nao se encontrou diretório da cidade de Cork
que mencionasse a sua familia. Poder-se-ia supor que. como esposa
do um advogado, tivesse deixado um testamento, coisa da qual nao foi
encontrado vestigio. Nem a imprensa de Belfast noticiou a morte de
Mrs. Bridey MacCarthy em 1864.
Bridey: <sRaspei toda a pintura de minha cama... de metal»,
quando tirina 4 anos [1802].
Realidade: Antes de 1850 nao se usavam camas de metal na
Irlanda.

Bridey: Como crianga, teria feito urna excursáo a Antrim. «Ai há


alean tis. A agua corre, as aguas'dos riachos correm rápidas e íormam
redemoínhos... quando chegam ao mar... Os alcantis sao realmente
brancos».
Rcalidndc : Descrigáo notávelmentc exata.

Bridey: Ter-se-ia casado com Sean Brian MacCarthy.


Realidade: Brian é o segundo nome do esposo atual de Virginia
Tighe (ou «Ruth Simmons»).
Bridey: Brian teria sido professor de Direito na «Queen's Uni-
versity» de Belfast e haveria escrito alguns artigos para o «News-Let-
ter» dessa cidade.
Realidade: A «Queen's University» so foi fundada em 1908; desde
1849 havia, sim. um «Queen's College» em Belfast, mas nenhuma Fa-
culdade de Direito. — Quanto ao «News-Letter» de Belfast, existiu,
mas em seus arquivos nao se encont.ra artigo algum de Brian.
Bridey: Muitas vézes preparava para Brian «um bom prato
irlandés» : um cosido de carne de vaca e cebólas.

— 5 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962, qu. 1

Realidade: Tal prato só nos últimos cinqüenta anos é comum na


Manda; anteriormente, a alimentacáo típica se preparava com tou-
cinho e couve. •

Bridey: Teria morado perto de Dooley Road. «Eu freqüentava a


igreja de Santa Teresa... na rúa principal... quase na esquina de
Dooley Road».
Realidade: Segundo John Bebbington, biblotecário de Belfast,
nunca existiu nessa cidade urna dita «Dooley Road»; quanto á igreja
de Santa Teresa, data de 1911.

Bridey: Haveria comprado sua roupa no «Caddens House»; re-


cordava-se até de ter pago certa vez urna libra e seis pences por urna
camisola.
Realidade: Nao se descobriu vestigio do «Caddens House»; na
época pressuposta seria acontecimento muito estranho vender-se urna
camisola por prego táo elevado.

Bridey: Referindo-se aos seus conhecimentos musicais, declarou


que tocava a lira.
Realidade: Richard Hayward, conceituado harpista irlandés, as-
segura que a lira nunca foi conhecida na Irlanda.

Bridey: Interrogada acerca dos nomes de algumas companhias


de Belfast, declarou : «Havia urna grande companhia de tecelagem.
Sim, urna tabacaria ...».'
Realidade: Com efeito. Urna das mais importantes fábricas de
cigarros de Belíast, Murray Sons and Company, foi fundada em 1805; a
«Belfast Ropework Company», constituida em 1876, formou-se de pe-
quenas empresas que já tinham muitos anos de existencia.

Depois de feitas as pesquisas na Irlanda, Bernstein houve


por bem publicar o relato de suas experiencias com o enredo
completo narrado por Bridey Murphy. Para o operador e para
a grande maioria de seus leitores, o caso parecía constituir um
dos mais lúcidos argumentos em favor da doütrina da reencar-
nagáo. O livro de Bernstein («The Search for Bridey Murphy»
— Ém busca de Bridey Murphy) propagou-se extraordinaria
mente : 170.500 exemplares foram vendidos em poucas semanas,
dando ampia margem a comentarios ém jomáis, revistas, radio
e televisáo.

Em bom número de cidadSos norte-americanos acendeu-se entáo o


desejo febril de devassar os limites do tempo presente e tomar conhe-
cünento da respectiva vida anterior. A revista «Lite», em sua edicao
espanhola de 9 de abril de 1956, noticiava que eram cada vez mais fre-
qüentes e populares as sessóes de hipnotismo destinadas a revelar as
encarnacóes anteriores dos pacientes. Os hipnotizadores, em anuncios de.
jomáis, prometiam a cada cliente manifestar as respectivas existencias
anteriores á atual, mediante o pagamento de 25 dólares por cada en-
carnacáo desvendada.

Consta que por essa época em Slvreveport (Luisiánia) um rapaz de


17 anos hipnotizou urna jovem, a qual conseguiu regressar dez mil anos
de sua existencia!
A «REENCARNACAO» DE BRIDEY MURPHY

Em Shawnee (Oklahoma) um mancebo de 19 anos, Richard


Swiiik, resolveu suicidar-se com um tiro, deixando a seguinte justi
ficativa : «Sinto muita curiosidade acerca do relato Bridey Murphy;
por conseguinte quero ir investigá-lo pessoalmente».
(Noticias colhidas na obra de B. Kloppenburg, O Reencarnacio-
nismo no Brasil. Petrópolis 1961, 152s).

Todavía, ao lado de táo entusiastas adeptos, havia também


observadores e dentistas que mantinham suas reservas em
torno do caso «Bridey Murphy». Sabiam que o hipnotismo, no
decorrer da historia, já apresentara semelhantes fenómenos de
regresso á «encarnacáo anterior», fenómenos que podiam, sem
dúvida álguma, ser explicados por impressóes colhidas pelo pa
ciente dentro dos trámites mesmos da vida corrente. Sendo as-
sim, puseram-se a pesquisar atentamente o currículo de vida
juvenil de Virginia Tighe e chegaram finalmente a urna explica-
gáo do caso bem diferente da preconizada (veja-se a respeito o
pronunciamento de abalizada comissáo de médicos e psicólogos
que estudaram o caso na obra «A scientific Report on The
Search for Bridey Murphy'», edited by Milton V. Kline — The
Julián Press, Inc. New York, N. Y. 1956).

Mais precisamente, pergunta-se, que descobriram os estu


diosos ?

2. A gcnuína interpretagao

Em Chicago o Rev. Wally White, pastor de um templo que


Virginia Tighe outrora freqüentava, aplicou-se á análise cuida
dosa das circunstancias da juventude dessa paciente, conse-
guindo finalmente atingir as fontes de suas «revelacóes»...

Verifícou, sim, que Virginia, por muito tempo a partir dos


seus sete anos de idade, habitara em Chicago, do outro lado da
mesma rúa em que residia urna senhora irlandesa denominada
Bridie (nao Bridey) Murphy Corkell; a jovem freqüentava assi-
duamente a casa dessa pessoa, que oferecia ambiente típica
mente irlandés, onde Virginia dangava a-«jiga» e declamava poe
sías regionais da Irlanda, reproduzindo até mesmo a pronuncia
e as expressóes lingüísticas dos habitantes désse país; Virginia
aos poucos tornou-se mais e mais interessada por quanto via e
ouvia nesse meio irlandés, já que entrou em namóro com o filho
de Bridie Murphy Corkell, chamado Joáo (Sean, em irlandés
regional); no seu pretenso enredo de encarnacáo anterior, «Bri
dey Murphy» chegava a dizer que se casara com Sean Mac-
Carthy!... Flcou outrossim averiguado que aos sete anos de
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 1

idade Virginia raspara realmente a pintura de sua cama, e em


conseqüéncia fóra severamente punida (o que lhe causara, por
certo, profunda impressáo). Os peritos reconheceram igual
mente que muitos nomes de pessoas e lugares da Irlanda, assim
como certos episodios da vida na Irlanda descritos por Bridey
Murphy no seu enredo, haviam sido manifestados a Virginia
pelo contato assíduo que a jovem tinha com a colonia irlandesa
freqüentadora da casa de Bridie Murphy Corkell. Assim pude-
ram os estudiosos chegar a conclusáo de que os pormenores, por
vézes táo vivos e realistas, da «pré-vida» de Virginia Tighe nada
•mais eram do que nogóes adquiridas pela paciente no decorrer
mesmo da vida atual, tornando-se entáo inútil e arbitraria a ex-
plicagáo reencarnacionista.

A revista «Life» (edicáo inglesa) de 6/VIII/56 encarregou-se da


divulgacáo dos resultados dessas novas pesquisas sobre o caso de
«Bridey Murphy», esclarecendo assim a opiniáo pública; o mesmo íoi
feito pelas «Seleg5es» no Brasil. •

Em conseqüéncia, a comissáo de médicos e psicólogos norte-


-americanos mencionados atrás exortava seriamente o público a
nao empreender nem tolerar a prática da hipnose a mero titulo
de divertimento. Os hipnotizadores autodidatas ou amadores,
ignorando o alcance da sua técnica, assim como a responsabili-
dade moral que sobre éles pesa, podem fácilmente deformar a
personalidade de alguém, incutindo-lhe atitudes mais ou menos
permanentes de dupla personalidade, de devassidáo moral, de
desequilibrio mental, etc.
Assim se desfez osensacionalismo em torno do caso de Bri
dey Murphy. Resta agora acrescentar algumas palavras acerca
dos

3. Efeitos psicológicos da hipnose

É oportuno lembrar que habitualmente a pessoa humana só


utiliza urna oitava parte (1/8) dos conhecimentos que ela adqui-
riu desde os seus primeiros anos de vida, ficando sete oitavas
partes (7/8) das nogóes que ela de fato possui, latentes na sub
consciencia.
Ora a hipnose, tcndo por efeito ligar as faculdades supeT
riores (principalmente as regióes do cerebro) responsáveis pelo
controle habitual da pessoa sobre si mesma, possibilita e provoca
mesmo o emprégo de conceitos habitualmente encerrados na sub
consciencia do paciente; tais conceitos, por- nao serem ordinaria
mente utilizados, urna vez trazidos á tona da consciéncia, fazem
que o paciente se comporte de maneira nova, imprevista, dando

_ 8 —
A «REENCARNACAO» DE BRIDEY MURPHY

por vézes a impressáo de-ser outra personalidade a desempenhar


enredo dependente de épocas históricas e circunstancias geográ
ficas bem diferentes das habituáis.

Acontece que todo individuo era estado,hipnótico se torna parti


cularmente dócil ás sugestdes explícitas ou implícitas do operador.
Comporta-se como crianca hiper-sugestionável, restaurando em si o
íuncionamento psicológico que lhe era normal em sua primeira in
fancia. Em conseqüéncia, o paciente tende a associar entre si as figu
ras e representac.óes (colhidas nesta vida mesma e guardada» na sub
consciencia) que correspondam ás insinuagóes do hipnotizador, desde
que tais insinuacóes nao contrariem as conviccoes profundas da pes-
soa hipnotizada (em caso de contrariedade ou choque, ela seria de tal
modo abalada que sairia do seu estado hipnótico). Em urna palavra,
o paciente passa a aplicar todas as suas aptidóes naturais ao desem-
penho do rol que o operador lhe proponha : a memoria evoca recor-
dacóes do passado, e a fantasía supre aquilo que a memoria já nao
recorda.
Tal pessoa poderá entáo íalar alguma língua estrangeira, língua
que ela nunca aprendeu nem falou, mas que ela ouviu em.seus anos
de infancia ou juventude (embora disto nem se lembre); subir-lhe-áo
assim á consciéncia as impressOes auditivas recebidas em remota
época e encerradas na subconsciencia até tal momento. Da mesma
forma, a pessoa, caso seja pelo hipnotizador persuadida de ser poeta,
poderá declamar poesías, apesar de nao ter veía poética própria (es
tará reproduzlndo ou combinando entre si versos percebidos anos
atrás). Poderá out.rossim fazer.o papel de crianca, eom sua voz e seu
comportamento característicos;... as vézes de anciáo, a falar com
pigarro, voz cansada e ritmo pausado, como se antecipasse sua pró
pria velhice.
Dada a atitude de docilidade infantil em que a pessoa hipnotizada
■2 acha, é assaz comum o retrocesso na idade : o paciente tende a
identificar o hipnotizador com alguém que ele haja conhecido em sua
infancia;... descreve alguma festa de aniversario seu, mencionando
pormenorizadamente as criancas que tenham comparecido, as brin-
cadeiras e os jogos efetuados, os presentes recebidos, tudo como se o
paciente estivesse vendo o que descreve e sentindo as respectivas
emocóes...
Sabe-se outrossim que os hipnotizados fácilmente caem em esta
dos de calalopsia (imobilidade) e insensibilidadc. Ora estas duas pro-
priedades caracterizan! igualmente o bebé nos seus primeiros tempos;
a crianza recém-nascida, por exemplo, dorme espontáneamente com
os punhos cerrados e os bracos estendidos por- cima da cabega durante
longo espaco de tempo. Essa imobilidade parece ser conseqüéncia re
mota da catalepsia em que o feto se encontra quando encerrado no
seio materno. É a escassa senstbilidade do feto que lhe permite tole
rar as comprcssSes, leves contusóes e operacóes cirúrgicas ocasionadas
pelo parto e realizadas sem anestesia.

Note-se outrossim que, no caso de Bridey Murphy, o


Sr. Bernstein, após cada sessáo, descrevia a Virginia a maneira
como ela reagira ás sugestóes hipnóticas e dava-lhe a ouvir suas
respostas gravadas na respectiva fita. Isto só fazia excitar a

— 9 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 1

fantasía da paciente, que naturalmente'se via estimulada a asso-


ciar as suas reminiscencias, a fim de continuar de maneira inte-
ressante o enredo iniciado. Bernstein, por vias diversas, náodei-
xava de sugerir a Virginia o que ele esperava; assim logo no
inicio das experiencias, tendo-a feito regredir até a primeira
infancia, intimou-lhe : «Quero que sua mente retroceda mais e
mais... Há em sua memoria outras cenas, de térras distantes e
lugares longínquos. Vocé poderá falar-me délas e responder as
minhas perguntas».

A provocacáo de tal rebordosa no íntimo da personalidade nao


pode deixar de ser perigosa, como notávamos atrás. Eis, a propósito, o
depoimento do Dr. Walter C. Alvarez, da Clínica Mayo Rochester,
Minn., dos Estados Unidos :

«O hipnotismo, sobretudo quando praticado a titulo de diversáo,


no palco ou na televisáo, pode ter efeitos desastrosos.
Já citei o caso de urna jovem que, completamente «embeigada»
pelo homem que a hipnotizara, comecou a segui-lo por todo o país,
dando-lhe quanto dinhei.ro conseguía apanhar. A familia íicou deses
perada, mas nao conseguiu chamá-la á razáo.
Em outro caso semelhante, a familia de urna jovém hipnotizada
niim «show» de televisáo informa-me quo. cinco meses depois, ela
continua andando como que em transe. Esta completamente mudada.
Era alegre, normal, com personalidade maravilhosa, grande vitalidade
e muita afeicáo pela familia. Agora parece ter-se voltado contra esta:
mostra-se «encrenqucira» e difícil; age como se estivosse sempre
temerosa de algo, sem saber de que .
Por sua vez, um jovem, altamente inteligente e dotado, mas sem
pre um tanto excéntrico, diz-me que, desde que íoi hipnotizado — de
brincadeira — por um leigo alguns anos atrás, nunca mais se sentiu
o mesmo. O hipnotizador meteu-lhe na cabeca urnas idéias que desde
entáo o perturbam, forcando-o a proceder de maneira desagradável
para si mesmo. Tem passado estes anos em máos de psiquiatras, que
em váo tentaram vencer tais compulsóes».

A Moral crista nao ignora os efejtos benéficos ou terapéuti


cos que a hipnose pode exerccr sobre certos pacientes. Por isto
reconhece a legitimidade de sua aplicagáo desde que

haja evidente indicácáo médica.


seja o operador idóneo na sua técnica e dotado de consciéncia
moral integra,
esteja presente urna ou outra testemunha que garanta a hones-
tidade do tratamento e possa dissipar qualquer dúvida a respeito do
mesmo.

— 10
POLIGAMIA E DIVORCIO PARA NAO-CATÓLICOS ?

II. SAGRADA ESCRITURA

DIVORCISTA (Rio de Janeiro) :

2) «Diz-se que a poligamia e o divorcio sao contrarios á


leí natural (que é a leí de Deus,) e que a leí natural se impoe
a todos os homens.
Acontece, porém, que na Sagrada Escritura a poligamia e o
divorcio sao reconhecidos pela lei de Deus (cf. Dt 24,1-4; 2 Sam
3,2-5). Daí parece concluir-se que, na verdade, poligamia e
divorcio nao sao contrarios a lci natural; poderiam entáo ser
concedidos aos cidadaos nao-católicos».

Para resolver devidamente a dificuldade, consideraremos


em primeiro lugar as exigencias da lei natural no tocante ao
matrimonio; a seguir, confrontaremos com essas normas as dis-
posicóes promulgadas por Moisés no Antigo Testamento.

1. As finalidades naturais do matrimonio

1. Auscultando a ordem natural das criaturas, verificamos que o


matrimonio (doac&o recíproca e total de varíio e mullier) visa, por si
mesmo, duas finalidades :

a) o objetivo primario do casamento é a geragáo e a procriagáo


da prole, pois o matrimonio é essencialmente urna instituicño a ser-
viso da vida; sua razáo de ser primordial é a propagacáo da especie
humana. Esposo e esposa se unem numa terceira pessoa, que é a
prole; unem-se, portanto, ultrapassando-se a si mesmos, libe.rtando-se
de todo hedonismo o,u de toda cobica egoísta. — A fim de facilitar
o cumprimento desta tarefa, o Criador houve por bem anexar-lhe um
atrativo natural... Em conseqüéncia;

b) o objetivo secundario do casamento é o auxilio múluo, a


complemenfacao que esposo e esposa prestam um ao outro na vida
conjugal. Tal complementacáo só será sadia se fór tida como verda-
deiro servico, servico que tenda a se concretizar num fruto preciso
ou na prole; é esta que preserva o amor conjugal de se desvirtuar
em paixáo egoista ou libertina.

2. Para que as finalidades do matrimonio, principalmente a pri-


meira, sejam devidamente alcancadas, a ordem natural das coisas re-
quer a colaborado estável (unJño indissolúvel) de um varáo com urna
mulher (iiniüo monog&mica). De fato, o amor total só se pode dar
urna vez a_ um consorte ou urna consorte; tal amor nao recua diante
do sacrificio, pois sabe que éste é inerente a qualquer obra grandiosa;
sabe mesmo que é só pela renuncia a seus interésses egocéntricos
que a criatura humana se nobilita. Do seu lado, a educacáo da prole
exige a permanente conjugado de esforcos dos genitores, conjugacáo

— 11 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»- 49/1962, qu. 2

sem a qual nao há lar, nao há ambiente nem exemplo. mas apenas
(na melhor das hipóteses) ensinamentos teóricos e vazios.
Éste assunto já tendo sido explanado em «P..R.» 7/1957, nao mais
nos deteremos néle. Apenas interessa irisar a conclusáo decorrente:
monogamia e indissolubilidade do matrimonio sao requisitos da pró-
pria Lei natural.
Eis, porém, que urna distincáo se impóe:

2. Primario e secundario na lei natural

Prosseguindo na observacáo da reta ordem das coisas, os


moralistas costumam distinguir entre preceitos primarios e pre-
ceitos secundarios da lei natural.

1) Preceitos primarios sao aqueles sem os quais a ordem


moral ou a ética se torna totalmente vá ou impossível:
tenham-se em vista, por exemplo, a obrigagáo de nao matar um
inocente, a de nao levantar falso testemunho, a de nao blasfe
mar contra Deus, a de nao adorar falsos deuses. Tais normas da
natureza sao absolutamente imutáveis, nao admitindo dispansa
alguma (pois jamáis urna dispensa nesses casos concorreria para
o bem do individuo ou da sociodade).

2) Preceitos secundarios sao normas muito úteis, a tal


ponto que a ordem moral nao poderia subsistir, ou ao menos
ficaria seriamente comprometida, caso fóssem violados de ma-
neira geral e estável. Admitem, porém, dispensas transitorias e
raras, as quais tém inconvenientes para a observancia da mora-
lidade, mas nao a tornam de todo impossível. — Pois bem; entre
os preceitos secundarios da lei natural enumeram-se o da mono
gamia e o da indissolubilidade conjugal. Com efeito, a geracáo
e a procriagáo da prole, assim como o auxHio mutuo de varáo
e mulher, se podem obter, embora em termos precarios, mesmo
sob urna legislarlo poligñmica c divorcista.

Falando mais exatamentc. devemos distinguir duas modalidades


de poligamia <ou de uniáo em que varios cónjuges sao envolvidos).
Existe a

poliginia, uniáo de um varáo com mais de urna mulher. Embora


seja nociva ás finalidades do matrimonio, nao as extingue por com
pleto; por conseguinte, nao é de todo contraria á lei natural, mas
constituí um regime matrimonial assaz imperfeito. — Existe tam-
bém a

poliandria, pluralidade de maridos para urna só mulher. Éste


regime sempre foi tido por filósofos e teólogos como absolutamente
contrario á lei natural, pois : a) acarreta a incerteza da paterni-
dade. incerteza radicalmente oposta á educagáo da prole; b) geral-
mente diminuí e em breve extingue a fecundidade da única mulher,

— 12 —
POLIGAMIA E DIVORCIO PARA NAO-CATÓLICOS ?

obligada a relacñes variadas e demais freqüentes. — Alias, a polian


dria, caso jamáis se tenha dado na historia (os autores discutem), fica
sendo algo de todo excecional.

É á luz destas consideracóes que se deve avaliar a permissáo '


de poligamia e divorcio no Antigo Testamento. — O Senhor
Jesús, em Mt 19,8, lembrava que tais licengas nao estavam em
vigor no inicio dos tempos, mas que, em vista da dureza de cora-
gáo do antigo povo de. Israel, haviam sido outorgadas por Deus.
Em verdade, o povo de Israel, oriundo no séc. XVIII a. C. em
meio a nagóes moralmente rudes, compartílhava até certo grau
os costumes do mundo oriental antigo; o Senhor Deus proibia
terminantemente qualquer vestigio de politeísmo ou superstigáo
em Israel, mas nao julgou necessário remover logo as práticas
imperfeitas que Abraáo herdara de seus antepassados caldeus
(desde que estas nao implicassem perversáo da verdadeira fé).
É o que explica que a poligamia (no sentido de poliginia, nao no
de poliandria) e o divorcio tenham sido tolerados pela lei de
Moisés... Tolerados, nao, porém, introduzidos nem recomenda
dos, pois se verifica que as cláusulas de Moisés visavam até res
tringir tais instituicóes (cf. Dt 24,1-4; Jer 3,1; Dt 17,17).

Alias, os judeus eram inclinados a adotar a poligamia nao só-


mente por influencia do seu ámbito de vida. Julgavam encontrar em
sua propria ideología religiosa um estimulo possante para nao se
aíastar do uso geral; os descendentes de Abraáo estimavam, sim. que
prole numerosa era sinal de béncao divina (pois, próxima ou remo
tamente, agregava o pai de familia á linhagem do Messias), ao passo
que esterilidade equivalía a maldicáo (cf. Is 63,9 e Os 9,14; Le 1,25)..
Entende-se entáo que, no caso de ser infecunda a esposa, o varáo
hebreu procurasse unir-se a outra, a urna mulher livre ou á escrava
da sua consorte (a prole da escrava era considerada pertencente a
patroa; cf. Gen 30, 3s. 6. 9s).

Quando a Escritura do Antigo Testamento descreve o ma


trimonio ideal, apresenta-o sempre monogámico; tenham-se em
vista o Cántico dos Cánticos e o livro de Tobías, além dos textos
de Os 1,2; 2,21s; 3,3; Is 50,1; 54,5s; 62,5; Jer 2,2; 3,1-4. Ora foi
ésse regime matrimonial perfeito — monogámico e indissolúvel
— que o Senhor Jesús véio anunciar ao mundo.
Em conseqüéncia, qualquer tentativa de restaurar a poliga
mia e o divorcio do mundo antigo, após a promulgagáo da Lei
perfeita ou do Evangelho, significa decadencia moral, ou seja,
algo que de modo nenhum se poderia justificar, nem mesmo
entre náo-católicos.

Cf. E. Betténcourt, Para entender o Antigo Testamento. Rio 1959,


134-138.

— 13 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 3

DI. MORAL

SÉNIOR (Sao Paulo) :

3) «Qwal a atitudc da Igrcja em relagáaao Rotary Club?»

A questáo já íoi abordada em «P.R.» 7/1957, qu. 16. Contudo, em


vista das freqüentes dúvidas propostas sobre o assunto, conside-
ramo-lo de novo aquí, a íim de o ilustrar mediante dados e documen
tos nao citados no referido artigo.
Examinaremos algo das origens e da finalidade do Rotary Club,
para depois averiguar como a Igreja se tem pronunciado a seu res-
peito.

1. Origens e finalidade do Rotary

1. No inicio do século XX, o advogado americano Paúl P.


(Harris, de Chicago, verificava com pesar a divisáo de interésses
ou, ao menos, a indiferenca mutua em que viviam os cidadáos de
sua nacáo : os expoentes dos diversos grupos sociais ou das di
versas profissóes e até muitos membros de um mesmo grupo só
se encontravam raramente, e em público, limitando-se entáo a
urna saudacáo meramente formal. Concebeu, conseqüentemente,
a idéia de remediar a ésse mal, fazendo que se conhecessem e
estimassem mais os homens que mais responsáveis sao pelo pro-
gresso da sociedade : seu plano era organizar um clube que reu-
nisse amigávelmente os representantes dos diversos ramos de
negocios e profissóes, clube onde os socios pudessem reavivar a
amizade, o companheirismo e a mutua compreensáo que, quando
jovens, tinham experimentado na vida de cidades pequeñas,
donde a maioria provinha.
Assim animado, aos 23 de fevereiro de 1905 convocou no
seu escritorio tres amigos, aos quais comunicou o intento. En
contrando imediata acolhida, Paúl Harris fundou entáo com éles
o primeiro núcleo de urna nova sociedade, cujo rápido desenvol-
vimento ele de modo nenhum conjeturava. No período subse-
qüente ficou estipulado que os membros do clube deveriam ser
proprietários de empresas ou diretores e socios de firmas (isto
é, deveriam pertencer á carnada orientadora da vida civil). As
reunióes se realizariam nos estabelecimentos comerciáis dos as-
sociados rotativamente, para que cada qual pudesse obter me-
lhor conhecimento dos outros; era ésse caráter rotário das reu
nióes que dava ensejo ao nome de «Rotary Club».
A iniciativa encontrou táo grande aceitagáo que se tornou
necessáário efetuar os encontros em hoteis e restaurantes, nao

— 14 —
A IGREJA E O ROTARY CLUB

mais nos estabelecimentos comerciáis dos socios. Até mesmo em


restaurantes, em torno de urna mesa de almógo... sim, a fim
de poupar tempo e evitar que alguém se eximisse de compare
cer alegando falta de oportunidade (as reunióes assim só ocupa-
riam os momentos necessáriamente subtraídos ao trabalho
para almógo); os rotarianos bem percebiam que só a convivencia
mutua possibilitaria a confraternizagáo, despertando confianga,
estima e respeito entre os interessados ou, numa palavra...
despertando o companheirismo («fellowship») que, como já
disse alguém, constituí «o próprio eixo da roda dentada», sím
bolo universal do Rotary (aínda atualmente os estatutos do Ro-
tary inculcam e facilitam ao máximo a presenga dos socios as
reunióes do clube).

O movimento rotariano se foi difundindo aceleradamente : em 1937,


contava 4.416 clubes, congregando mais de 180.000 socios em cérea de
80 países ou regióes; em abril de 1954, já havia 8.169 clubes com
387.000 socios.
Cada clube é governado por urna junta estabelecida pelos socios.
O conjunto dos clubes de determinado pais ou distrito é regido por
um Governador. Todos os clubes rotários unidos constituem o «Ro
tary Internacional», cuja sede social está em Chicago, contando com
Secretariados em Londres, Zurique e Bombaím.

2. Pergunta-se agora : quais os objetivos precisos do Ro


tary Club ?

O íolheto «Breves dados acerca do Rotary» (Chicago 1953), pág. 2,


assim propóe a resposta em termos que podem ser tidos como ofi
ciáis :

O programa do Rotary consiste em «estimular e fomentar o ideal


de servir como base de todo empreendimento digno, promovendo e
apoiando :
O desenvolvimento do companheirismo («fellowship»), como ele
mento capaz de proporcionar oportunidades de servir;
o reconhecimento do mérito de toda ocupaqüo útil e a difusáo
das normas da ética profissional;
a melhoria da comunidade pela conduta exemplar de cada um na
sua vida pública e privada; e
a aproximacSo dos profissionais de todo o mundo, visando a con-
solidacüo das boas relagóes, da cooperagüo o da paz entre as nac6es».

Brevemente, diriam os rotarianos, ésse programa se resume


na palavra SERVIR, entendida como «ser útil sem visar emolu
mento material ou qualquer recompensa imediata».

«Servir significa, -sm linguagem rotária, ser desinteressadamente


útil a seus sem'elhanttís e á comunidade; sacrificar-se no cumpri-

— 15 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 3

mentó dos deveres cívicos, prestando sua cooperacáo ao municipio,


á Provincia, ao Estado; ser equitativo e generoso para com seus em-
pregados e subalternos, com seus clientes e associados; antepor o bem
alheio ao próprio; proceder com os outros como quiséramos que; pro-
cedessem conosco» (Enciclopedia ESPASA, v. «Rotary»).

Mais explícitamente ainda, o Rotary tem, entre os seus


lemas prediletos, o seguinte adagio : SERVICE ABOVE SELF,
isto é, «dar de si antes de pensar em si». Esta norma foi conce
bida em oposicáo á corrente encabezada pelo Diretor da Escola
de Comercio de Chicago, Artur Frederico Sheldon, o qual, no
inicio do séc. XX, preconizaya : «He profits most who serves
best», isto é, «mais se beneficia quem melhor serve». Tal fór
mula, apregoando um altruismo que, em última análise, era
egoísmo, provocou a réplica do Rotary: «Service above self».

Ainda a título de ilustragáo, vai aqui transcrito um comentario


rotariano do lema «SERVIR» :
«Servir consiste... em ser honesto, mesmo que a desonestidade
nao possa ser percebida ou castigada,... em agir com justica e boa
fe,... dar de si sem pensar em si,... fazer as coisas comuns (da ro-
tina profissional) de maneira ácima do comum.

Servir consiste cm que cada um se dedique á sua labuta com


amor e carinho, procure todas as íontes de aperfeicoamento para o
seu trabalho; a fim de que o possa executar com mais exatidáo, cuide
de que os clientes íagam a melhor aquisicao possivel mediante o prego
estabelecido, quer se trate de simples mercadoria. quer se trate de
trabalho físico ou intelectual» (Tese apresentada á IV Conferencia Dis
trital do Distrito 124?, realizada em Livramento, RS, de 24 a 27 de
abril de 1952).

Arvorando tal programa, Rotary costuma frisar que nao


constituí urna instituigáo de auxilio mutuo financeiro ou comer
cial nem urna corporacáo de beneficencia,, de promogáo da saúde
pública ou da cultura, nem tampouco urna agremiagáo de classe
que vise defender interésses comuns; é, antes, urna sociedade que
estimula cada um dos seus membros a viver de maneira mais
consentánea com a dignidade humana ou com as normas da
ética, seja individual, seja profissional (o que naturalmente re
dunda em beneficio de toda a humanidade).
Rotary afirma outrossim que nao interfere no programa de
alguma entidade religiosa, pois suas proposigóes estáo em har-
monia com as de qualquer credo; também nao interyém ñas con*-
viecóes políticas de seus adeptos; sao mesmq proibidas ñas reu-
nióes rotarianas discussóes sobre religiáo óu política. Rotary
espera de seus membros lealdade para com a religiáo e a patria
de cada um; interessa-se por tudo quanto promova a aproxima-
gáo dos homens entre si e a paz internacional.

— 16 —
A IGREJA E O ROTARY CLUB

Rotary nao quer ser sociedade secreta; nao impóe a seus


membros a obrigac.áo de silenciar o que véem ou ouvem nos clu
bes (nisto certamente difere da Magonaria).

3. E como se recrutam os membros do Rotary Club?


Já que éste se propóe táo elevado ideal, é severo na ace'.tacáo de
seus socios. Nao toca aos individuos candidatar-se ao Rotary, mas é
o clube quem. após atentas sindic&ncias, convida tal ou tal cidadao
a fazer parte de seu quadro social. O Estatuto-padrao do Rotary Club
(c. III, art. 2) estabelece os seguintes requisitos para que alguém
possa ser admitido :
«Seja pessoa adulta, do sexo masculino, de bom caráter e boa re-
putagáo comercial. ■
Dedique-se, como proprietário, socio diretor ou gerente, a alguma
empresa digna e reconhecida,

ou ocupe posicao de destaque, na qualidade de direíor com auto-


ridade discrícionária, em alguma firma digna e reconhecida,
ou trabalhe como agente local ou gerente de filial de alguma
firma digna e reconhecida, com a inteira responsabilidade de tal agen
cia ou filial.
Podem ser admitidas outrossim pessoas do sexo masculino; de-bom
caráter é boa reputacáo profissional, que se dediquem a alguma pro-
fissáo digna c reconhecida».
Como se ve, a condicáo básica para a admissáo é que o candidato
seja um comerciante ou proíissional mais ou menos independente, de
caráter ¡libado e de boa reputacáo em seu meio.
A fim de proceder ao recrutamento, o Rotary faz, antes do mais,
um levantamento exato das atividades profissionais existentes na ci-
dade em que o clube se estabelece. A seguir, investiga dentro de cada
profissao quais os homens mais representativos e mais-capazes de
assimilar as aspiracOes do Rotary; a ésses sao entáo dirigidos os convi
tes, de modo que haja no clube rotariano os elementos mais desta
cados de cada um dos ramos do comercio, da industria e das profis-
soes liberáis representadas na cidade; isto permitirá que os principios
e as sugestoes do Rotary se propaguem por todos os circuios influen
tes da populagáo. Os Estatutos nao permitem que determinada pro
fissao predomine no clube, causando dificuldade á confraternizacáo;
por isto estipulam que nenhuma atividade tenha representacáo mais
numerosa do que o correspondente a 107r da totalidade dos socios.

Eis em rápidas linhas como se apresenta ao público o Ro


tary Club. Vejamos agora

2. A atitude geral da Igreja perante o Rotary

A hierarquia da Igreja aos poucos teve que tomar posicao


frente ao Rotary Club.
Aos 4 de fevereiro de 1929, a S. Congregagáo Consistorial
(órgáo oficial da Santa Sé), respondendo a urna consulta, decla-
rava nao ser conveniente («non expedit») que os bispos permi-
tissem aos clérigos tornar-se membros do Rotary ou tomar

— 17 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 3

mentó dos deveres cívicos, prestando sua cooperacáo ao municipio,


á Provincia, ao Estado; ser equitativo e generoso para com seus em-
pregados e subalternos, com seus clientes e associados; antepor o bem
alheio ao próprio; proceder com os outros como quiséramos que pro-
cedessem conosco» (Enciclopedia ESPASA, v. «Rotary»).

Mais explícitamente aínda, o Rotary tem, entre os seus


lemas prediletos, o seguinte adagio : SERVICE ABOVE SELF,
isto é, «dar de si antes de pensar em si». Esta norma foi conce
bida em oposigáo á corrente encabecada pelo Diretor da Escola
de Comercio de Chicago, Artur Frederico Sheldon, o qual, no
inicio do séc. XX, preconizaya : «He profits most who serves
best», isto é, «mais se beneficia quem melhor serve». Tal fór
mula, apregoando um altruismo que, em última análise, era
egoísmo, provocou a réplica do Rotary : «Service above self».

Aínda a titulo de ilustragSo, vai aquí transcrito um comentario


rotariano do lema «SERVIR» :
«Servir consiste... em ser honesto, mesmo que a desonestidade
nao possa ser percebida ou castigada,... em agir com justiea e boa
íé,... dar de si sem pensar em si,... fazer as coisas comuns (da ro-
tina profissional) de maneira ácima do comum.

Servir consiste em que cada um se dedique á sua labuta com


amor e carinho, procure todas as fontes de aperfeicoamcnto para o
seu trabalho; a íim de que o possa executar com mais exatidáo, cuide
de que os clientes facam a melhor aquisicáo possível mediante o prego
estabelecido, quer se trate de simples mercadoria. quer se trate de
trabalho físico ou intelectual» (Tese apresentada á IV Conferencia Dis
trital do Distrito 124?, realizada em Livramento, RS, de 24 a 27 de
abril de 1952).

Arvorando tal programa, Rotary costuma frisar que nao


constituí urna instituigáo de auxilio mutuo financeiro ou comer
cial nem urna corporacáo de beneficencia,, de promocáo da saúde
pública ou da cultura, nem tampouco urna agremiacáo de classe
que vise defender interésses comuns; é, antes, urna sociedade que
estimula cada um dos seus membros a viver de maneira mais
consentánea com a dignidade humana ou com as normas da
ética, seja individual, seja profissional (o que naturalmente re
dunda em beneficio de toda a humanidade).
Rotary afirma outrossim que nao interfere no programa de
alguma entidade religiosa, pois suas proposigoes estáo em har
monía com as de qualquer credo; também nao intervém ñas con-
viccóes políticas de seus adeptos; sao mesmq proibidas ñas reu-
nióes rotarianas discussóes sobre religiáo óu política. Rotary
espera de seus membros lealdade para com a religiáo e a patria
de cada um; interessa-se por tudo quanto promova a aproxima-
gáo dos homens entre si e a paz internacional.

— 16 —
A IGRE.TA E O ROTARY CLUB

Rotary nao quer ser sociedade secreta; nao impóe a seus


membros a obrigagáo de silenciar o que véem ou ouvem nos clu
bes (nisto certamente difere da Maconaria).

3. E como se recrutam os membros do Rotary Club ?


Já que éste se propóe táo elevado ideal, é severo na ace'.tacáo de
seus socios. Nao toca aos individuos candidatar-se ao Rotary, mas é
o clube qucm, após atentas sindicáncias, convida tal ou tal cidadao
a íazer parte de seu quadro social. O Estatuto-padráo do Rotary Club
(c. III, art. 2) estabelece os seguintes requisitos para que alguém
possa ser admitido :
«Seja pessoa adulta, do sexo masculino, de bom earáter e boa re
putacáo comercial. ■
Dedique-se, como proprietário, socio diretor ou gerente, a alguma
empresa digna e reconhecida,

ou ocupe posicáo de destaque, na qualidade de diretor com auto-


ridade discricionária, era alguma firma digna e reconhecida.
ou trabalhe como agente local ou gerente de filial de alguma
firma digna e reconhecida, com a inteira responsabilidade de tal agen
cia ou filial.
Podem ser admitidas outrossim pessoas do sexo masculino, de bom
caráter e boa reputacáo profissional. que se dediquem a alguma pro-
fissáo digna e reconhecida».
Como se vé, a condicáo básica para a admissiio é que o candidato
seja um comerciante ou profissional mais ou menos independente, de
caráter ¡libado e de boa reputacáo em seu meio.
A fim de proceder ao recrutamento, o Rotary fnz. antes do mais,
um levantamento exato das atividades profissionais existentes na ci-
dade em que o clube se estabelece. A seguir, investiga dentro de cada
profissáo quais os homens mais representativos e mais.capazes de
assimilar as aspiracSes do Rotary; a ésses sao entáo dirigidos os convi
tes, de modo que haja no clube rotariano os elementos mais desta
cados de cada um dos ramos do comercio, da industria e das profis-
s5es liberáis representadas na cidade; isto permitirá que os principios
e as sugestoes do Rotary se propaguem por todos os círculos influen
tes da populacho. Os Estatutos nao permitem que determinada pro-
fissáo predomine no clube, causando dificuldade á confraternizacáo;
por isto estipulam que nenhuma atividade tenha representacáo mais
numerosa do que o correspondente a 1095- da totalidade dos socios.

Eis em rápidas linhas como se apresenta ao público o Ro


tary Club. Vejamos agora

2. A atitudc geral da Igreja perante o Rotary

A hierarquia da Igreja aos poucos teve que tomar posicáo


frente ao Rotary Club.
Aos 4 de fevereiro de 1929, a S. Congregagáo Consistorial
(órgáo oficial da Santa Sé), respondendo a urna consulta, decla-
rava nao ser conveniente («non expedit») que os bispos permi-
tissem aos clérigos tornar-se membros do Rotary ou tomar

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962, qu. 3

parte ñas reunióes déste («Acta Apostolicae Sedis» XXI [1929]


42). Os motivos da decisáo nao eram indicados. Como quer que
seja, a medida visava apenas os eclesiásticos, limitando-se a
tachar de inconveniente a sua matrícula no Rotary ou a sua pre-
senga em assembléias rotarianas. Daí nada se seguía com rela-
gáo aos fiéis leigos.
Por ser assaz lacónico, ésse pronunciamento foi diversa
mente entendido pelos bispos do orbe católico; aos 12 de julho
de 1930, o episcopado holandés houve por bem proibir mesmo
aos leigos a adesáo ao Rotary; doutro lado, a «Quinzaine Reli-
gieuse de Savoie» a autorizava expressamente (cf. «Semaine Re-
ligieuse» n» 29, novembro de 1929).
Em conseqüéncia, a Santa Sé, de novo interrogada, voltou
ao assunto, publicando em 1951 o seguinte decreto do Santo
Oficio :

«Esta Suprema e Sagrada Congregacjio íoi interpelada sóhre a


questáo : será licito que os católicos se iiliem á Associacáo que se
chama Rotary Club ? Os Eminentíssimos e Reverendissimos Senho-
res Cardeais encarregados da protegáo da íé e da moral, após ter
ouvido os pareceres dos Reverendíssimos Senhores Consultores, de-
cretaram na sessáo plenária de quarta-feira 20 de abril de 1950 o
seguinte:
Aos clérigos nao é permitido associar-se ao Rotary Club nem
assistir as suas reunióes.
Os leigos sejam advertidos de que devem observar as prescrigóes
do canon 684 do Código de Direito Canónico.
E no día 26 de dezembro Sua Santidade Nosso Senhor Pió XII,
pela Divina Providencia Papa, em audiencia concedida ao Exmo. Sr.
Assessor do Santo Oficio, aprovou e mandou publicar a resolucáo dos
Eminentíssimos Padres.
Dado em Roma, na sede do Santo Oficio, aos 11 de Janeiro de
1951.
(a) Marinus Marani, Notario da Suprema e Sagrada Congre-
gacáo do Santo Oficio».

Eis o citado canon 684, que o decreto corrobora :

«Os fiéis sao dignos de louvores quando se agregam. a associagoes


fundadas ou, pelo menos, recomendadas pela Igreja. Evitem, porém,
associacóes secretas, condenadas, sediciosas, suspeitas ou que tentam
subtrair-se á legitima vigilancia da Igreja».
Lembrando aos fiéis éste canon 684, o Santo Oficio nao entende
classificar o Rotary entre as sociedades secretas nem entre as conde
nadas, mas, sim, entre «as suspeitas e as que tentam subtrair-se á
legítima vigilancia da Igreja».

A determinagáo do Santo Oficio ainda foi ulteriormente elu


cidada por um comentario publicado em «L'Osservatore Ro
mano» de 27 de Janeiro de 1951 («Chiarimenti a proposito del
Decreto del S. Ufficio»). Eis os seus dizeres :

— 18 —
A IGREJA E O ROTARY CLUB

«De diversas partes foi pedido um esclarecimento com respeito


ao valor do recente decreto do S. Oficio referente ao Rotary Club. Isto
parecería exigido pelo fato de que déste mesmo decreto foram feitas
interpretagSes diferentes e, por vézes, opostas, de urna parte minimi-
zando-o, de outra parte aumentando-lhe o valor e as conseqüéncias.
Convém ter presente antes do mais que, no tocante aos sacerdo
tes, já existia urna diretiva da S. Congregado Consistorial, datada de
4 de fevereiro de 1929, que á dúvida «se os Ordinarios poderiam per
mitir aos eclesiásticos inscricáo no Rotary ou participacáo em suas
reunides» respondeu : «non expediré». O S. Oficio com cr recente de
creto esclarece que se trata de iliceidade.
Naturalmente, a proibicáo dada aos sacerdotes... (proibicáo que
foi muito bem compreendida pelos próprios leigos, em consideragáo
da nalureza c dos fins de tal associagáo, estranhos aos fins da missáo
sacerdotal) deve ser entendida em sentido limitado as reunióes exclu
sivas dos membros do Rotary e enquanto tratam de seus negocios
económicos e profissionais. Nao se estende, portanto, as reunióes
que, conquanto organizadas pelo Rotary, sao franqueadas também
aos estranhos para fins relacionados com a atividade sacerdotal como,
por exemplo, promover iniciativas de beneficencia ou de caridade.
Quanto aos leigos, o decreto do S. Oficio nao contém urna proi
bicáo, como a tem para os eclesiásticos, mas se limita a exortá-los a se
regerem pelo dispositivo do canon 684 do Direito Canónico, o qual em
sua parte positiva louva os fiéis que dáo seus nomes e seu apoio as
associacóes constituidas pela Igreja ou recomendadas por esta, e na
sua parte negativa póe de sobreaviso no tocante as associacóes as
quais so possa aplicar urna das qualificagóes enunciadas no mesmo
canon.

É erróneo crer que, citando tal canon, se queira atribuir ao Rotary


cada urna das qualificacóes néle enumeradas, como fizoram alguns
jomáis, com evidente desconhecimento do Direito Canónico. Para se
desaconselhar aos fiéis que pertengam a urna associacáo, basta que
a esta possa ser aplicada urna daquelas qualificacóes ou, de modo par
ticular, que essa associacáo, do ponto de vista católico, deva ser con
siderada suspeita.
No nosso caso, a diretiva dada pelo S. Oficio parece justificada
em linha geral pelo espirito leigo e arreligioso que caracteriza b Ro
tary, mesmo no que concerne aos problemas para os quais os cató
licos nao podem prescindir dos ensinamentos da Igreja Católica, como
sao, por exemplo, os problemas de ordem moral e de justiga social.
Ésse espirito leigo e o indiferentismo que fácilmente déle se de
riva, prestam-sc a que se iníiltrem no Rotary elementos macónicos e
anticlericais, como de fato aconteceu em alguns países, nos quais, em
virtude de predominante influencia magónica, a agáo dos clubes foi
desenvolvida contra a atividade e os objetivos da Igreja. É preciso,
porém, acrescentar que tais circunstancias nao se registraram em
outras nagóes, onde, pela influencia de dirigentes ou de membros bem
dispostos para com a Igreja, a atitude do Rotary foi, na prática, de
tolerancia e de benevolencia para com os interésses da Religiáo. Assim
se explica porque, enquanto o episcopado espanhol, o holandés e o
de algumas nagóes da América Latina publicaram diretivas severas
concernentes ao Rotary, em outras nagóes os bispos toleraram que
os fiéis a ele pertencessem.
Cabe á clarividencia daqueles que tém o encargo de dirigir espi-
ritualmente os fiéis, isto é, aos bispos, determinar se, no caso con
creto, na própria diocese, o Rotary deva ser considerado como asso-

— 19 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 49/1962. qu. 3

ciacáo suspeita. É claro que onde a suspeita exista, os bispos deverSo


exortar os católicos a nao pertencer ao Rotary. Onde, pelo contrario,
nao exista tal suspeita, seja por motivo de provas dadas no passado,
seja por razao de serias garantías que os dirigentes do Rotary ten-
cionem dar, os bispos podem ábster-se da exortacao em palavras, urna
vez que para esta faltaría o motivo».

O laicismo do Rotary e suas nocivas conseqüéncias já ioram ex


planados em «P.R. 7/1957. qu. 16.

As conclusóes práticas de todos ésses comentarios foram


finalmente formuladas em quatro itens pelo Pe. G. B. Guzzetti
no artigo «Rotary» da «Enciclopedia Cattolica». Cittá del Vati
cano X (fevereiro de 1953) 1398 :

«Atualmente deve-se, pois. concluir :

1. Os clérigos e os religiosos nao se podem inscrever no Rotary.


Ainda que nao inscritos, nao podem tomar parte ñas reuniCes espe
cificas do Rotary, em que tratam dos problemas económicos e profis-
sionais da associacao.
2. Os leigos ficam advertidos de que lhes pode advir algum pe-
rigo espiritual pelo fato de pertencerem ao Rotary. A neutralidade
que o Rotary proclama, pode fácilmente tornar-se autonomía face aos
ensinamentos da Igreja, mesmo no setor da fé e dos costumes; isto,
sem dúvida, favorece a infiltragao de elementos macónicos e anticle-
ricais. Dado que tal perigo nao se verifique, nao há dificuldade contra
a inscricáo dos católicos no Rotary.
3. O juízo concreto sotare o assunto nao fica a criterio de cada
um dos fiéis, mas é entregue aos Srs. bispos. Por conseguinte.
4. Nos lugares onde os bispos nao declararam expressamente que
o Rotary deva ser considerado como associacao suspeita, os leigos
poderáo permanecer néle com a consciéncia tranquila.»

Como se vé, atualmente a Santa Sé entrega ao julgamento


dos Srs. bispos de cada país a questáo de saber se é lícito aos
fiéis leigos pertencer ao Rotary ou nao. Surge entáo a dúvida :

3. Qual a atitudc do episcopado no Brasil ?

No Concilio plenário brasileiro realizado em 1939, o Epis


copado nacional houve por bem enumerar o Rotary entre as
atividades suspeitas, a propósito das quais os fiéis se devem
acautelar: '

«Conforme o teor do canon 684. os sacerdotes e especialmente os


párocos exortem os fiéis a darem seus nomes as. associacSes eretas
pela Igreja ou ao menos recomendadas por ela, a se acautelarem con
tra as associacoes condenadas ou suspeitas, como, por exemplo, sao
a Associacao Crista de Mocos, protestante, e a outra associacao cha
mada «Rotary Club» ou «dos Rotarianos»».

— 20 —
A IGREJA E O ROTARY CLUB

Destas palavras se segué que no Brasil um fiel católico


nao pode, de consciéncia tranquila, pertencer ao Rotary (a
menos que, para isto, tenha recebido explícita autorizagáo) .Con-
tudo faz-se mister lembrar que o- decreto' do Concilio plenário
nao é irreformável; ao contrario, ele versa mesmo sobre urna
materia capaz de apresentar novas e novas modalidades no de-
correr dos anos. Desde que nao naja mais razáo para que o Ro
tary continué a ser tido como associacáo suspeita, os bispos do
Brasil podem suspender ou revogar a reserva ácima enunciada.
E, para que realmente nao naja mais motivo de suspeita, basta
que o Rotary demonstre de maneira estável respeitar, tanto na
teoría como na prática, os principios da fé e da moral católicas.

O Episcopado do Rio Grande do Sul declarava, alias, em sua


«Advertencia» publicada em «Unitas», revista oficial da Provincia
Eclesiástica do Rio Grande (junho de 1951) : «A Igreja nao condena
como intrínsecamente mau o movimento do Rotary Club e as asso-
ciacóes que "o compoem».

A esta afirmacáo faz eco a frase do Rev. Frei Martinho Gillet


O.P., Mestre Geral dos RR. PP. Dominicanos, que em carta ao Rev.
Pe. Osear de Oliveira (hoje DD. Arcebispo de Mariana) escrevia no
ano de 1941:
«Les Rotary valent pratiquement ce que valent leurs membres.
— Os clubes rotarianos valem práticamente o que valem os seus
membros».

É de crer mesmo que, com a entrada de membros católicos


(devidamente autorizados pelo prelado diocesano) nos Rotary
Clubes, estas entidades tomem orientacáo cada vez mais cons-
trutivá e benemérita tanto para os interésses civis como para os
interésses religiosos do Brasil.

O Concilio plenário brasileiro nao tinha ante os olhos, para


julgar o Rotary. senáo certos fatbs em que a atitude rotariana bem
sugeria ser o Rotary urna sociedade suspeita.
Assim sabe-so, por exemplo, que a Primeira Convengáo Rotária,
de 8 a 10 de dezemhro de 1927, propós teses públicas íavoráveis ao
divorcio. O Rotary apoiou o malthusianismo (cf. Revista Rotariana
Brasileira m 17, ano II, 1927. pág. 3-7), o racismo (conferencia do
Sr. Otto Rothe aos 17 de Janeiro de 1934 em Belo Horizonte), assim
como a cremacáo de cadáveres (cf. P. Ruffier, Rotary e a Igreja, em
«Estudos». dezembro 1954, pág. 73).
Possa a recordacáo de tais fatos ser cancelada pelo registro de
numerosos outros acontecimentos (dos quais varios já podem ser
apontados) em que se evidencie a harmonía dos principios rotarianos
com os da Santa Igreja de Cristo!

— 21 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962, qu. 4

IV. SOCIOLOGÍA

LUNA (Campiña Grande,) :

4) «Que quer dizer a socializacáo da qual fala o Papa


Joao XXIII na sua encíclica 'Mater et Magi&tra' ? Nao equivale
a um passo da Igreja em direcáo do socialismo ?
Como a encíclica concebe as relacóes entre individuo e so-
ciedade ?... entre propriedade particular e propriedade pú
blica ?... entre patróes e operarios ?»

A enciclica «Mater et Magistra» (Máe e Mestra), comemorativa


do 70? aniversario da «Rerum Novarum» (as encíclicas papáis cos-
tumam ser designadas pelas suas duas palavras iniciáis), exprime o
pensamento da Igreja a respeito da questáo social tal como ela hoje
se póe. É um documento extraordinariamente ampio e significativo
(com as suas 25.000 palavras, constitui a mais longa enciclica papal
da historia); a sua publicagáo foi precedida de varios meses de tra-
balho (durante os quais colaboraram especialistas no assunto) e
viu-se mais de urna vez protelada por causa de retoques de última
hora. Tem despertado a atengáo do mundo inteiro, que ás vézes se
equivoca sobre o sentido da certos dizeres pontificios; dentre estes, o
mais controvertido 6 a «socializacfio» afirmada por Sua Santidade.
A éste tema, portanto, volt.aremos a nossa atenc.áo, considerando-o
em si mesmo e em seus aspectos correlativos.

1. «Socializacáo» e Socialismo

Tem-se dito que o Papa Joáo XXIII, na segunda parte da


encíclica (n. 56-64), falando de «socializacáo», ensina o socia-
lismo,- de acordó com tendencias esquerdistas contemporáneas...
O mal-entendido se desfaz imediatamente, desde que se
levem em conta as correspondentes expressóes do texto origi
nal : «rationes sociales, rationum socialium progressio». Estas
locucóes, ao pé da letra, querem significar o «modo comunitario
ou social» de viver e de trabalhar; opóem-se a «modo individua
lista, particularista» e designam «a grande variedade de grupos,
movimentos, associagóes e instituigóes, com finalidades económi
cas, culturáis, sociais, esportivas, recreativas, profissionais e po
líticas», que a vida moderna tem suscitado entre os homens (cf.
n' 57).

Em outras palavras : «socializacáo» consiste «na multiplicagáo pro-


gressiva das relac6es dentro da convivencia social, com diversas for
mas de vida e de atividade associadas entre si» (n* 56).

Ora nao resta dúvida de que tal conceito de socializacáo fica


bem longe do que apregoa o socialismo esquerdista. Éste deseja

— 22 —
sSOCIALIZACAO» NA ENC. «MATER ET MAGISTRA»

a supressáo da propriedade particular, especialmente dos meios


de produgáo, a fim de transferir tudo ao Estado (representante
da sociedade), o qual se torna entáo o único e grande proprietá-
rio; a pessoa humana no Estado socialista perde seus direitos
de afirmagáo livre e individual, ficando totalmente a servigo dos
programas do govérno. Ademáis o socialismo é essencialmente
materialista, desconhecendo os objetivos transcendentes do ho-
mem, só levando em conta o aspecto material e terrestre da vida
(éste ponto de vista é essencial no socialismo, de modo que,
apesar de tentativas feitas por correntes modernas, é impossivel
a alianca de socialismo e Cristianismo; cf. «P.R.» 31/1960, qu.l).
É mesmo obvia a oposigáo da encíclica a qualquer tendencia
que vise transferir os direitos próprios e característicos da per-
sonalidade humana para o Estado; a éste compete apenas suprir
e completar, nunca, porém, extinguir as livres iniciativas dos
cidadáos :

«A agáo dos poderes públicos, que deve ter caráter de orientagáo,


de estímulo, de coordenagáo, de suplencia e de integragao, há de se
inspirar no principio de subsidiariedade íormulado por Pió XI na en
cíclica 'Quaclragesimo anno': 'Deve conludo manter-se íirme o princi
pio importantíssimo em filosofía social: do mesmo modo que nao
é licito tirar aos individuos, a fim de o transferir para a comuni-
dade, aquilo que éles podem realizar com as forgas e a industria que
possuem, é também injusto entregar a urna sociedade maior e mais
alta o que pode ser íeito por comunidades menores e inferiores. Isto
seria, ao mesmo tempo, grave daño e perturbagáo da justa ordem
da sociedade, porque o objeto natural de qualquer intervengáo da
mesma sociedade é ajudar de maneira supletiva os membros do corpo
social, e nao destrui-los e absorvé-los'» (ene. «Mater et Magistra»
no 50).

O antagonismo radical que separa Cristianismo e socialismo, é


proclamado nao sdmente pela Igreja Católica, mas também pelos
próprios mentores do socialismo. Eis. por cxempló, como se exprimía
Engcls, mestre de Karl Marx, cm 1843:
«Chama-nos a atencao o íato de que, no momento em que os
socialistas ingleses sao geralmente opostos ao Cristianismo,... os
comunistas franceses... se dizem cristáos. Urna de suas máximas pre-
diletas soa : 'O Cristianismo é o comunismo'; e com o auxilio da
Biblia esforcam-se por prová-lo, referindo-se ao regime de comunismo
em que teriam vivido os prímeiros cristáos, etc. Isso, porém, só prova
urna coisa : essa boa gente nao pertence ao rol dos melhores cristáos,
se bem que pretendam ser tais; se fóssem dos melhores cristáos,
conheceriam melhor a Biblia e saberiam que, ao lado de algumas pas-
sagens favoráveis ao comunismo, o espirito geral da doutrina que ela
propSe, é totalmente oposto ao comunismo» (Progress of social
Reíorm).
Diría, porém, alguém : «Sejamos aliados dos comunistas na ag&o
social, embora nao compartilhemos as suas teorías». — A isto revi-
daria Lenine mesmo: «Sem teoría revolucionaria, nao há movimento

— 23 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 4

revolucionario» (Que faire ? 89). — Nesta írase, «revolucionario»


equivale a «marxista».
Desenvolvendo o conceito de socializagáo, o Sumo Pontífice, ex
plica aínda mais claramente como a entende:
«A social izacao... torna sempre mais minuciosa a regulamenta-
cao jurídica das relacdes entre os homens em todos os dominios. Déste
modo restringe o campo da liberdade de acao dos individuos... Segué
métodos... que tornam difícil a cada um pensar independentemente
dos influxos externos e agir por inÍGiativa própria... Sendo assim,
dever-se-á concluir que a socializacáo... chegará a reduzir necessária-
mente os homens a autómatas ?»
A esta pergunta o Santo Padre responde negativamente:
«Nao se deve considerar a socializacáo como resultado de fdrcas
naturais impelidas pelo determinismo; ao contrario, como já observa
mos, é obra dos homens, seres conscientes e livres, levados por natu-
reza a agir como responsáveis, ainda que eni suas acóes sejam obri-
gados a reconhecer e respeitar as leis do progresso económico e social
e nao se possam subtrair de todo á pressáo do ambiente.
Por isso concluímos que a socializacao se pode e deve realizar de
maneira que se obtenham as vantagens que ela traz consigo e se
evitem ou reprimam conseqüéncias negativas» (w> 59-61).

Em urna palavra : o Santo Padre preconiza a uniáo dos ho


mens em sociedades tais que, de um lado, nao sufoquem a livre
iniciativa dos mombros, obrigando-os a pensar e agir segundo
padrees comuns e impessoais, mas que, de outro lado, nao dei-
xem de prestar aos individuos o necessário apoio ou comple
mento a finí de que consigam realizar sua personalidade e as
sim contribuir para o bem comum.
Em particular, éste principio se aplica á determinagáo das

2. Relagoes entre individuo e Estado

As correntes sociológicas modernas (sejam as da extrema


direita, sejam as da extrema esquerda) tendem a atribuir pode
res cada vez mais ampios ao Estado, com detrimento para a
livre iniciativa dos cidadños; estes se véem mais e mais envol
vidos ou sufocados por programas de acáo governamentais...
Distanciando-se de tais correntes, a visáo social crista assi-
nala á personalidade humana direitos que nao é lícito ao Estado
devassar ou subordinar. O Estado se origina por livre iniciativa
dos individuos, para suprir ao que estes nao podem obter por si,
para supervisionar os empreendimentos de cada qual e assim en-
caminhar a todos para o verdadeiro bem comum. É o que a en
cíclica afirma, tendo em vista de maneira especial o setor da
economía:

«O mundo da economía é criacao da iniciativa pessoal dos cida-


dáos... Mas néle devem intervir também os poderes públicos com o
fim de promover devidamente o acréscimo de producá»... em bene-

— 24 —
«SOCIALIZACAO» NA ENC. «MATER ET MAGISTRA»

ficio de todos os cidadáos... Os poderes públicos... nao podem deixar


de se sentir obrigados a exercer no campo económico urna acSo muí-
tiforme, mais vasta e mais orgánica...
Contudo será preciso insistir sempre no principio de que a pre-
senca do Estado no setor da economía, por mais ampia e penetrante
que seja, nao pode ter como meta reduzir- cada vez mais a esfera da
liberdade na iniciativa pessoal dos cidadáos, mas deve, pelo.contrario,
garantir a essa esfera a sua amplidáo possível, protegendo efetiva-
mente, em favor de todos e de cada um, os direitos essenciais da pes-
soa humana. Entre estes, é preciso enumerar o direito que todos tém,
de ser e permanecer normalmnete os primeiros responsáveis pelí.
manutengo própria e da familia; ora isso implica que, nos sistemas
económicos, se permita e facilite o livre exercício das atividades pro-
dutivas...
A experiencia ensina que, onde falta a iniciativa pessoal dos in
dividuos, domina a tiranía política; há ao mesmo tempo estagnacao
nos setores económicos, destinados a produzir sobretudo a gama in
definida dos bens de consumo; há, finalmente, estagnacao nos servicos
de utilidade geral que provéem nao só ás necessidades materiais, mas
também ás exigencias do espirito : bens e servicos que exigem, de
modo especial, o genio criador dos individuos.
Onde, por outro lado, falta ou é defeituosa a necessária atuacáo
do Estado, há desordem insanável; e os fráeos sao explorados pelos
fortes menos escrupulosos, que medrara por toda a parte e em todo
tempo, como o joio no meio do trigo» (no 48. 52. 54s).

Á luz de tais principios, percebe-se que nao é licito ao Es


tado despersonalizar o cidadáo e constituir-se em fim absoluto
da atividade déste. Ao contrario, toda e qualquer intervencáo do
Estado deve tender a conservar e incrementar as atividades
pessoais. .

Assim se verifica quáo acertada é a afirmativa de alguns sociólo


gos contemporáneos, segundo os quais «a idéia mestra e o principio
fundamental da doutrina social católica... é o respeito da pessoa hu
mana. A pessoa, porém, só se pode realizar plenamente supera.ido-se
a si própria, saindo do próprio egoísmo para devotar-se á comunidade.
Nossa concepeáo personalista nao é individualista. Proclamar a digni-
dade da pessoa humana, seu destino imortal e seus direitos impres-
critiveis, nao 6 individualismo. Éste erro pernicioso (o individua
lismo) pretende que o caráter social do homem é puramente aciden tal,
quando na realidade é essencial e penetra por inteiro a natureza
humana» (C. van Gestel, A Igreja e a Questáo Social. Rio de Janeiro
1956, 148s).
«Proclamando o valor transcendente da pessoa humana, nao con
testamos de forma alguma a primaza do bem comum. Admitimos que
os maiores sacrificios na ordem temporal, até mesmo o sacrificio da
vida, possam ser exigidos em nome do bem comum. Mas ésses sacrifi
cios, longe de destruir ou diminuir o valor da pessoa humana, a con-
sagram e elevam a perfeicáo (ib. 148).

— 25 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 4

Estas idéias encontram aplicacáo outrossim no setor de

3. Propriedade particular e propriedade pública

1. O direito da natureza humana k propriedade particular já foi


provado em «P.R.» 23/1959. qu. 5. Os Papas, desde Leáo XIII, o tém
afirmado insistentemente.

Eis, porém, que a vida contemporánea parece permitir ou


mesmo exigir remodelagáo dessa tese. Com efeito, o Estado hoje
em día costuma estabelecer ampios sistemas de aposentadorias
e pensóes, encarregando-se assim de prover áquilo que o indivi
duo visa mediante a propriedade particular ou o peculio; nao
haveria entáo motivo para se pleitear a abolicáo déste ?
Eis como S. Santidade o Papa Joáo XXIII expóe a questáo :

«Em nossos dias há bom número de cidadáos que, confiando em


entidades asseguradoras ou de previdencia social, olham com sereni-
dade para o futuro, serenidade que, noutros tempos. se fundava s6bre
a posse de patrimonios, fóssem embora modestos.
Nos nossos días, o homem aspira mais a conseguir habilitagóes
profissionais do que a tornar-se proprietário de bens...
Tais aspectos do mundo da economía tém contribuido para se por
em dúvida... o direito natural á propriedade particular, mesmo em
se tratando de bens produtivos» (n11 102. 103. 105).

Nao há motivo, porém, para tal, prossegue o Santo Padre :

«Tal dúvida nao tem razáo de ser. O direito de propriedade parti


cular. .. possui valor permanente pela simples razáo de ser um direito
natural fundado sobre a primazia ontológica e final de cada ser hu
mano em relagáo á sociedade ... Além disto, a historia e a experien
cia provam que, nos regimes políticos que nao reconhecem o direito
á propriedade particular..., sao oprimidas ou sufocadas as expressóes
fundamentáis da liberdade; é legitimo, portanto, concluir que estas
encontram naquele direito garantia e incentivo» (n* 106).

Em outros termos : sao dignas de todo encomio as iniciati


vas do Estado moderno que tém em mira garantir a cada cida-
dáo os meios de vida necessários em casos de doenca, acídente,
desemprégo ou velhice. Contudo daí nao se segué, possa ou deva
ser extinto o direito ao peculio, pois, sem éste, o homem fica
sendo em tudo dependente da sociedade e do Estado; verá limi
tadas ou mesmo tolhidas as suas livres iniciativas. Ao contrario,
é indispensável que todo individuo humano possa subsistir em si
mesmo...; o símbolo dessa subsistencia será o seu aposento
particular ou a sua mansáo, aposento no qual ele se possa livre-
mente encontrar consigo mesmo e com seu Criador, a fim de se
restaurar para as tarefas da vida pública.

— 26 —
«SOCIALIZACAOx. NA ENC. «MATER ET MAGISTRA»

No dizer do Sto. Padre Pío XII, o domicilio, por mais simples e


pobre que seja, deve ser. pelo motivo ácima, algo de sagrado para todo
homem e toda mulher, de modo que estes se sintam íelizes todas
as vézes que voltam para o lar:
«Essa morada, na qual cada um deseja encontrar-se á noitinha,
após os trabamos, as fadigas. as ocupacoes da vida cotidiana, os ho-
mens a amam e a guardam com cuidado, como se guarda um santuario;
cada um, segundo as suas aptidóes próprias e as suas capacidades
pessoais, esmera-se por embelezá-la e ai fazer reinar a ordem e a ale
gría» («Directives de S.S. Pie XII» 2738).

2. Todavía, ao reafirmar em tais circunstancias o inviolá-


vel direito á propriedade particular, a Santa Igreja nao deixa de
acrescentar que esta possui urna funesto social assaz imperiosa;
o que quer dizer: nao é licito ao proprietário acumular bens e
rendimentos sem se preocupar com as indigencias do próximo;
tendo urna vez conseguido o equilibrio financeiro necessário para
viver conforme a dignidade humana, o proprietário está obri-
gado a aplicar seus rendimentos em beneficio dos indigentes.

É o que o Sto. Padre Pió XI lembrava nos seguintes termos :


«Nao ficam de todo ao arbitrio do homem suas rendas disponíveis,
isto é, aquelas que nao sao indispensáveis para sustentar sua vida
convenientemente e com decoro. Ao contrario, um preceito muito
grave intima aos ricos que déem esmola e pratiquem a caridade e a
liberalidade conforme o testemunho constante e explícito da Sagrada
Escritura e dos Padres da Igreja» (ene. «QuadraResimo anno»).

Por sua vez, a encíclica «Mater et Magistra» inculca:


«O direito á propriedade particular...' tem inerente a si urna fun-
Cáo social... como ensina sabiamente o Nosso Predecessor na encí
clica 'Rerum Novarum': 'Quem recebeu da liberalidade divina maior
abundancia de bens, ou externos e corporais ou espirituais, recebeu-os
para os fazer servir ao aperfeicoamento próprio e. simultáneamente,
como ministro da Divina Providencia, á utilidade dos outros: quem
tiver talento, trate de o nao esconder; quem tlver abundancia de ri
quezas, nao seja avaro no exercício da misericordia; quem souber um
oficio para viver, faga participar o seu próximo da utilidade e do
proveito do mesmo' (Acta Leonis XIII, XI 114).
Hoje tanto o Estado'como as entidades de direito público váo es-
tendendo continuamente o campo da sua presenga e iniciativa. Mas
nem por isso desapareceu. como alguns erróneamente tendem a pen
sar, a fungao social da propriedade particular; esta se deriva da na-
tureza mesma do direito de propriedade. Há sempre numerosas situa-
góes aflitivas e indigencias delicadas e agudas, que a assisténcia pú
blica nao pode contemplar nem remediar. Por isso continua sempre
aberto um vasto campo á sensibilidade humana e á caridade crista dos
individuos. Observe-sé por último que, para desenvolver os valores
espirituais, sao muitas vézes mais fecundas as múltiplas iniciativas
dos particulares ou dos grupos do que a acjio dos poderes públicos»
(n? 116)

Para se desempenhar dessa sua funcáo social, o proprietá


rio poderá praticar a esmola individual e ocasional. A experién-

— 27 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 4

cia, porém, ensina que esta nao constitui a forma mais eficaz de
beneficiar o próximo. A assisténcia aos indigentes está hoje or
ganizada por instituigóes particulares e públicas que dé maneira
mais sistemática e sabia procuram combater a miseria. Auxiliar
a tais instituigóes constitui por vézes o melhor meio de prever
ao próximo realmente necessitado. •

O Papa Pió XI insinuava o seguinte : com os seus rendimentos


supérfluos, estará beneficiando a sociedade, o proprietário que os uti
lizar para proporcionar ao próximo novas fontes de trabalho vanta-
joso. como seriam tal vez o cultivo de térras nao aproveitadas e a cria-
cao de novas empresas:
«Quem aplica largos recursos disponiveis ao desenvolvimento de
urna industria, fonte abundante de frabalho remuneradar, contanto
que éste trabalho seja empregado na producáo de bens realmente
úteis, praticá, de modo notável, particularmente apropriado as neces-
sidades do nosso tempo, o exercicio da virtude de magnificencia»
(ene. «Quadragesimo anno»).

3. Contudo nao se poderia deixar de relevar que, con


forme a consciéncia crista, em certos casos é lícito ao Estado
atribuir exclusivamente a si a posse e a administragáo de bens
mais raros e custosos, dos quais os particulares poderiam abusar
para explorar os seus concidadáos (dá-se entáo o monopolio es
tatal do fumo, por exemplo, do sal, do petróleo, etc.); é o bem
comum que impóe tal restricáo á propriedade particular. Tam-
bém em determinadas circunstancias podem ser recomendaveis
a nacionalizagáo de urna oü outra industria, a imposigáo de um
estatuto jurídico especial a certas empresas...; ao govémo pode
outrossim incumbir o direito de promover reforma agraria, re
forma bancária, desapropriacáo (mediante justa compensagáo)
de certos bens, etc.

Sobre Reforma Agraria, veja «P.R.» 44/1961, qu. 3.

Por último, lancemos um olhar sobre as relagóes de «traba


lho e salario» ou de «operarios e pairees», tais como sao expla
nadas pela encíclica.

4. Trabalho e remunera$áo

1. Neste setor, o Sumo Pontífice inculca, antes do mais, que «a


retribuicao do trabalho, assim como nao pode ser inteiramente aban
donada ás leis do mercado deis da oferta e da procura), também nao
pode ser estipulada arbitrariamente; há de estabelecer-se, antes, se
gundo a justica e a eqüidade. É necessário que aos trabalhadores se
dé um salario que lhes proporcione um nivel de vida verdadeira-
mente humana e lhes permita enfrentar com dignidade as responsa
bilidades familiares» (ene. «Mater et Magistra» n? 68).

— 28 —
«SOCIALIZACAO» NA ENC. «MATER ET MAGISTRA»

2. Afirmando a necessidade de salario justo familiar, a


Igreja nao é contraria as novas formas de compensacáo do tra-
balho que consistem em participará© nos lucros e co-gestáo.

a) Participado nos lucros :

«Hoje... as medias e grandes empresas conseguem com íreqüén-


cia aumentar rápida e considerávelmente a sua capacidade produtiva
por meio do autoíinanciamento. Nesses casos, eremos poder afirmar
que aos trabalhadores se deve reconhecer um título de crédito ñas
empresas em que trabalham, especialmente se ainda lhes toca urna
retribuic&o nao superior ao salario mínimo.
A tal propósito convém recordar o principio exposto pelo Nosso
Predécessor Pió XI na encíclica 'Quadragesimo anno': 'É completa
mente falso atribuir só ao capital ou só ao trabalho aquilo que se
obtém com a acáo conjunta de um e outro; é também de todo injusto
que um déles, negando a eficacia da contribuicáo do outro, se arrogue
sonriente a si tudo o que se realiza'.
A essa exigencia de justica pode-se satisfazer de diversas ma-
neiras que a experiencia sugere. Urna délas, e das mais desejáveis,
consiste em fazer que os trabalhadores possam chegar a participar na
propriedade das empresas, da forma e no grau mais convenientes.
Pois nos nossos días, mais ainda que nos tempos do Nosso Predécessor,
é necessário procurar com todo o empenho que, para o futuro, os capi-
tais ganhos nao se acumulem ñas máos dos ricos senáo na justa me
dida, e se distribuam com certa abundancia entre os operarios» Cene.
«Mater et Magistra» n? 72-74).

Á Igreja níio compete prohunciar-se sobro fórmulas concretas


de participacao nos lucros, contanto que realizem adequadamente a
justica social.

b) Co-gestáo. Consiste em que os trabalhadores sejam


chamados a participar da orientado geral da empresa, ao lado
dos representantes do capital e da direeáo. Éste chamado equi
vale a reconhecer o valor e a dignidade do trabalho do operario,
assim conio a parte que a éste toca na produgáo dos bens. Con-
tudo a co-gestáo só será viável se o operario possuir a formac.áo
técnica e os dados de cultura geral que o habilitem a proferir
voz ativa na orientacáo de urna firma; sem isto, o operario esta
ría desambientado e a sua voz se poderia tornar nociva em vez
de beneficiar a empresa.

«Seguíndo a direcáo indicada pelos Nossos Predecessores, também


Nos consideramos que é legitima nos trabalhadores a aspiracáo a par-
ticiparem ativamente na vida das empresas em que estáo inscritos e
trabalham. Nao é possivel determinar antecipadamente o modo e o
grau dessa participacao, dependendo éles do estado concreto que apo
senta cada empresa. Esta situagao pode variar de empresa para em
presa e, dentro de cada empresa, está sujeita a alteracóes muitas
vézes rápidas e fundamentáis. Julgamos contudo útil chamar a aten-
cao para a continuidade da presenca ativa dos trabalhadores, tanto na

— 29 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962, qu. 5

empresa particular como na pública; deve-se tender sempre para


que a empresa se torne urna comunidade de pessoas. ñas relacSes, ñas
funcSes e ha situacáo de todo o seu pessoal.
Ora isto exige que as relagóes entre empresarios e dirigentes/por
um lado, e trabaltiadores, por outro, sejam caracterizadas pelo res-
peito, pela estima e compreensáo, pela colaborado leal e ativa, e pelo
amor da obra comum; e que o trabalho seja considerado e vivido por
todos os membros da empresa, nao só como fonte de lucros, mas tam-
bém como cumprimento de um dever e prestacáo de um servico»
(n? 88s).

É, sem dúvida, ideal a perspectiva que o Santo Padre assim


aponta a todos aqueles que trabalham e que até época recente
tém considerado o trabalho preponderantemente como algo de
penoso ou punitivo a que a natureza humana se deve submeter.
O trabalho, na perspectiva crista, vem a ser, antes, dignificacáo
do homem, colaboragáo da criatura com o Criador na constru-
cáo déste mundo.
Eis, assim realgados, alguns dos principáis tópicos da encí
clica «Mater et Magistra» ou da doutrina social da Igreja na
hora presente.

ASSISTENTE SOCIAL (Natal) :

5) «Os sindicatos sao organizagoes assaz suspeitas, pois


déles proccdcm nao pouqos dos movimentos subversivos e gre-
vistas que prejudicam o bem comum em nossos días.
Será que urna visao crista do mundo pode dar lugar aos sin
dicatos e ao sindicalismo ?»

A quanto parece, a palavra «sindicato» vem do grego syndikos,


defensor, advogado, procurador. Foi forjada na Franca do século pas-
sado, quando os operarios do mesmo ramo ou os «compagnons» se
agrupavam sob a chefia do seu syndic ou secretario para defender os
interésses próprios.

Os sindicatos, portanto, vém a ser associac.5es que congre-


gam os membros de determinada profissáo ou determinado ofi
cio a fim de proteger os interésses da classe. Em geral, congre-
gam separadamente patróes e operarios; as associagóes mistas
de uns e outros nao tém conseguido o almejado éxito.

Caso os sindicatos se insplrem em alguma doutrina religiosa, sao


chamados «confessionais»; isto se dá na Bélgica, por exemplo, onde
existe mesmo a Confederac'áo dos Sindicatos Cristáos, báseada na dou
trina social católica. Há também sindicatos «interconfessionais>, os
quais reunem membros de confissSes cristas diferentes (católicos e
protestantes), dando origem á «Internacional dos Sindicatos Cristáos»
(I.S.C.), com sede em Utrecht (Holanda).

— 30 —
SINDICATOS E CRISTIANISMO

Examinaremos abaixo a legitimidade e a conveniencia .dos -,


Sindicatos; a seguir, apresentaremos algumas normas--d^ra>éj8 m v
referentes ao regime sindical. ^—„„.--

1. Legitimidade e necessidade dos Sindicatos

1. É muito antiga na historia da civilizacSo a tendencia dos ho-


mens a se associar entre si a fim de propugnar interésses comuns de
suas artes ou oficios; na. Idade Media, tal tendencia deu origem as
famosas «corporacoes».
A partir do século XVI, rápidas transformacdes sobrevieram ao
regime económico comercial e industrial da Europa, em virtude das
descobertas de novos países na América e no Oriente; formaram-se
entáo grandes imperios coloniais e poderosas empresas capitalistas.
As mudancas se tornaram mais acentuadas ainda quando se introdu- "';
ziram ñas fábricas as máquinas e outras invencdes da técnica. Em
tais condicfies, as corporac5es ainda regidas por seus estatutos medie- ■
vals vieram a ser grupos anacrónicos, que nao acompanhavam mais
o ritmo da vida pública. Os governos civis se puseram entáo a ré-
formá-Ias ou mesmo a suprimi-las. O movimento contrario ás corpo- *
racdes culminou na Franca, onde a Revolucao aos 15 de junho de "
1791 promulgou a famosa lei «Le Chapelier», que proibia peremptd- '
idamente qualquer associagáo profissional. A legislacao francesa ins-
pirou a de outros países da Europa, acarretando imprevisto e lamen- . -••:
tável resultado: os poderes capitalistas no século XIX passaram a :
gozar de plena liber.dade de agáo, ao passo que os operarios, destituí-
dos de qualquer meio de apoio mutuo ou de defesa da classe, caiam
em triste dependencia.

Para remediar a ésse estado de coisas, foram-se formando


associagóes clandestinas de operarios, dirigidas geralmente por .
chefes impregnados de idéias marxistas, ou seja, anticristas e -[
atéias. Eram tais organizagóes ocultas que defendiam os interés
ses da classe trabalhadora; contudo acontecía que quem a elas
aderia, era talvez beneficiado no setor profissional, mas dava
apoio a entidades contrarias ao Cristianismo e á subsistencia das
nagóes.

As tendencias subversivas que animavam tais agremiacóes de ope- i


rários (ou sindicatos) no século passado, se manifestaran! com toda
a clareza no plano do engenheiro francés Jorge Sorel ((1847-1922),
esquerdista ao extremo. Éste concebía os sindicatos como células de
urna sociedade renovada; os sindicatos, conforme ele, se deveriam unir '
em urna vasta federacáo; provocariam entáo a greve geral; em con-
seqüéncia, tomariam conta do govémo de cada pais, substituindó o .'■-
poder do Estado. A greve seria a «cruzada da democracia».

As injustigas sociais que. a situagáo ácima delineada impli- '


cava, afloraram, aos poucos, á consciéncia dos governantes euro-
peus, os quais foram revogando as leis dpostas ás organizagóés

— 31 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 5

de trabalhadores (a Inglaterra tomou a dianteira désse movi-


mento abolicionista em 1824). A essa altura, porém, as idéias
subversivas e anticristás já haviam penetrado no ámago das as-
sociagóes clandestinas de operarios, de tal modo que por fórc.a
das circunstancias tocava aos trabalhadores cristáos a tarefa de
reconstituir as agremiacóes operarías ou os sindicatos sobre ba
ses inteiramente cristas. É o que o Papa Leáo xm observava
em 1891 na sua encíclica «Rerum Novarum» :

«Neste estado de coisas, os operarios cristáos nao tém outro re


medio senáo escolher entre duas solugóes : ou darem seu nome a so
ciedades de que a religiáo tem tudo a temer; ou organizarem-se éles
próprios e unirem as suas fórgas para poderem sacudir denodada
mente um jugo táo injusto e táo intolerável. Haverá homens, verda-
deiramente empenhados em preservar de perigo iminente os supremos
interéssea da humanidade. que possam ter a menor dúvida de que é
necessário optar por essa última solugáo ?»

2. Destarte se vé que o sindicalismo, longe de ser institui-


cáo condenada pela consciéncia católica, é, antes, desejada por
ela; constituí mesmo um direito natural, já que a tendencia á
sociedade ou á vida em sociedade é inerente á natureza hu
mana :

«É da própria natureza que dimana, para as associagóes opera


rías, o direito á existencia. A sociedade civil foi instituida para prote
ger o direito natural, nao para o destruir» (Leáo XIII, ene. «Rerum
novarum»).

Alias, a própria Organizacáo das Nagóes Unidas (ONU), em sua


«Declaracao Universal dos Direitos do Homem» promulgada aos 10
de dezembro de 1948, reconhece explícitamente o sindicalismo :
«Todo homem tem direito a organizar sindicatos e a néles ingres-
sar para a protegió de seus interésses» (art. XXIII, tv> 4).

Tal Declaragáo foi corroborada e explicitada pelo Conselho Eu-


ropeu da ONU reunido aos 25 de agosto de 1950. Esta assembléia afir-
mou que o direito de formar associacóes nao pode ser limitado senáo
por motivos de seguranga nacional, seguranga pública, defesa da or-
dem, preservagáo contra delitos, protegáo da saúde e da moral, direi
tos e liberdades do próximo. Poderáo também sofrer legítimas res-
tricóes do seu direito de associagáo os membros das fdreas armadas e
da policía ou os servidores do Estado (art. 13).

Nao resta dúvida, portanto, sobre a legitimidade do regime


de sindicatos. Em nossos tempos, a Igreja tem repetidamente in-
cutido aos seus filhos nao só a possibilidade de entrarem em sin
dicatos, mas até mesmo o dever que lhes incumbe de se sindica-
lizarem, pois sómente assim poderáo contribuir eficazmente para
o bem comum; furtar-se ao sindicato significa, para o membro
de determinada classe, limitar suas iniciativas e seu raio de acáo.

— 32 —
SINDICATOS E CRISTIANISMO

A fim de ilustrar esta afirmagáo, váo aqui transcritos dizeres de


um dos mais recentes documentos católicos sobre a necessidade de
sindicalizacáo. Trata-se de urna declaracáo de Assistentes eclesiásti
cos dirigida aos agricultores da Franca aos 24 de junho de 1961 (as
aíirmacOes do documento se aplicam a todos os trabalhadores, mesmo
náo-agrícolas) :

«Quando é que um agricultor mais eficazmente auxilia seus vizi-


nhos em dificuldade?... Nao será quando... ele se engaja no seio do
sindicalismo, para organizar a sua profissáo e trabalhar para o bem
e a promogáo da classe agrícola inteira ?
A legitimidade do agrupamerito em sindicatos é cada vez menos
contestada. Pió XII em 1939 escrevia o que se segué : 'Já que por
natureza os homens sao levados a viver em sociedade e já que é
lícito, mediante a uniáo das fórcas, aumentar os valores honestamente
úteis, nao se pode sem injustica recusar ou restringir, tanto frente a
patróes como frente a operarios e camponeses, a livrve faculdade de
constituirem associacóes ou sociedades mediante as quais éles defen-
deráo seus direitos e obteráo de maneira mais completa as vantagens
referentes aos bens da alma e do corpo e ao legítimo conforto da vida'
(carta «Sertum laetitiae», de 1? de novembro de 1939).
Qual a íuncáo do sindicalismo, táo indispensável em nossos dias ?
O sindicalismo agrícola, como os outros tipos de sindicalimo...,
tem como finalidade a promocáo dos profissionais que ele congrega.
Essa promocáo exige primariamente um esfórco da parte de cada
agricultor e da parte das próprias instituicoes profissionais.
Ésse esfórco deve visar, por exemplo, o aumento das rendas, o
«encaminhamento dos produtos, a formacáo profissional, o recruta-
mcnto, as renlizagóes comunitarias, as atividades de cooperativa, etc.»
•(«Documontation Catholique» LVIII, de 16 de1 julho do 1961. col. 912s).

3. Ao inculcar os sindicatos, as autoridades da Igreja nao


fazem questáo de que sejam confessionais; basta que haja, para
■os membros católicos de cada sindicato, a liberdade de praticar
livremente a sua religiáo. Assim já o Sto. Padre Pió X permitía
aos católicos que se inscrevessem em sindicatos neutros, como
sao as «Trade-Unions» na Inglaterra, ou em sindicatos únicos
nos países em que a inscricáo é imposta por lei (cf. ene. «Sin-
gulari Quadam», de 24 de setembro de 1912).

A Uniáo de Malines, no seu famoso Código Social <n" 124», assim


resumía o pensamento da Igreja a tal propósito :
«Há casos em que o católico tem liberdade de filiar-se a urna as-
sociacáo sindical que nao impóe suas crencas, respeita a justica e a
eqüidade. e deixa aos membros a liberdade de obedecer á sua cons-
ciénda e á'voz da Igreja. Para católicos, membros dessas associagoes
sindicáis, sao previstas organizac5es de Ácao Católica ou de Centros
Classistas, ñas quais recebam formacáo social crista que Ihes permita
defender e difundir seus principios entre os colegas».

Naturalmente, fazendo parte de um sindicato aconfessional


ou neutro, o operario cristáo tomará cuidado para nao se envol-

— 33 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 5

ver em campanhas que redundem, direta ou indiretamente, em


desonra da Religiáo; colaborará com seus companheiros náo-
-cristáos em tudo aquilo — e sómente naquilo — que nao acar-
retar detrimento para a manifestaeáo de Cristo ao mundo. Esta
norma é demasiado evidente para que se lhe acrescente alguma
explicagáo.

Note-se outrossim que, para pleitear seus justos interésses, é licito


aos sindicatos recorrer nao sómente aos tramites serenos das leis
e dos processos judiciários, mas também ás greves (desde que nao
haja outro meio. menos violento, para reivindicar a justica). Nao nos
demoramos aqui sobre o direito de greve, pois o assunto já íoi abor
dado em «P. R.» 7/1958, qu. 7.

Resta agora considerar rápidamente um documento oficial


da Igreja, que se tornou, por assim dizer,

2. A Magna Carta do Sindicalismo Cristáo *

1. Em 1929 urna greve de operarios textis no norte da


Franca tornou solidarios entre si os sindicatos cristáos o os sin
dicatos socialistas. Entáo apelaram os patróes para a Santa' Sé,
pedindo esclarecimentos a respeito de tal atitude dos cristáos.
A Sagrada Congregagáo do Concilio, aos 5 de junho de 1929, res-
pondeu mediante famosa carta dirigida a Mons. Liénart, bispo
de Lille, carta que solucionava o conflito e definía com toda a
clareza a posigáo da Igreja perante o sindicalismo. Eis as gran
des normas désse documento:

1) A Igreja nao sómente reconhece a legítimidade dos sindicatos,


sejam de patróes, sejam de operarios, sejam mistos, mas exorta os-
interessados a fundarem tais associagóes.

2) A Igreja quer que os sindicatos sojam estabelecimentos re


gidos segundo os principios tía íó e da moral cristas.

3) A Igreja quer que os sindicatos sejam instrumentos de con


cordia e paz; em vista disso, sugere a instituigao de comissoes com
postas de membros dos diversos sindicatos a fim de estabelccerem
um trago de uniáo entre estes.
A guisa de comentario de tal proposicao. o texto da carta cita as
seguintes declaragóes anteriormente emanadas da Santa Sé mcsma :
«As associaeóes católicas devem nao sómente evitar, mas também
combater a luta de classes como algo de essencialmente contrario aos
principios do Cristianismo» (Carta do Cardeal Gasparri á Uniáo Eco
nómica Social, de 25 de levereiro de 1915).
«Os escritores católicos, tomando a defesa da causa dos proleta
rios e dos pobres, abstenham-so de usar urna linguagem que possa
inspirar ao povo aversao para com as demais classes da sociedade.
Lembrem-se de que Jesús Cristo quis unir todos os homens pelos vín-

— 34 —
SINDICATOS E CRISTIANISMO

culos de um amor reciproco, que é a perfeigáo da justiga e que acar-


reta a obrigagáo de colaborarem uns e outros em prol do bem comum»-
(Instrucáo da S. Congregagáo dos Negocios Eclesiásticos Extraordi
narios, de 27 de Janeiro de 1902).
4) A Igreja quer que as associagSes sindicáis, criadas por cató
licos para católicos, recrutem seus membros entre católicos, sem des-
conhecer entretanto que neccssidades particulares possam ohrigar a
agir de forma diferente.
5) A Igreja recomenda a uniáo de todos os católicos para um
trabalho comum, nos vínculos da caridade crista.
Voltando-se em particular para os chefes dos Sindicatos Cristáosr
o mesmo doqumento lhes prop5e algumas normas diretivas :
a) Esforcem-se a fim de que os operarios sindicaJizados adqui-
ram íormacáo cada vez mais esmerada tanto do ponto de vista reli
gioso, e moral como do ponto de vista técnico e profissional;
b) Os acardos ou cartéis entre sindicatos cristáos e sindicatos
neutros ou socialistas (nao, porém, comunistas) podem ser tidos como
lícitos desde que se observem as seguintes condigoes : 1) só se
facam em casos especiáis; 2) em vista da defesa de legítimos inte
résses comuns; 3) sejam acordos temporarios, isto é, de duragao
limitada, 4) sejam tomadas as precaugoes necessárias para evitar
os perigos que possam decorrer de tal aproximacáo.
O documento assim concebido é hoje tido como básico para a
orgnnizagáo crista do um Sindicato.

2. No decorrer dos tempos, os sindicatos tém sido visados


como órgáos da política de certos partidos; foram assim mais de
urna vez infiltrados por pelegos e envolvidos em campanhas es-
tranhas, ou até mesmo nocivas aos interésses profissionais dos
operarios e as exigencias do bem comum. Tanto os sociólogos
como as autoridades da Igreja tém chamado a atencáo para o
detrimento que as infiltracóes na política acarretam para os Sin
dicatos.

Assim, por exemplo, se pronunciava o Papa Pió XII, dirigindo-se a


associacóes de trabalhadores italianos :
A alta íinalidaúe para a qual dovc tender o Sindicato cristáo é
«a formagao de trabalhadores verdadeiramente cristáos que, impondo-
-se tanto por suas capacidades técnicas como pela firmeza de sua
consciéncia religiosa, saibam harmonizar a decidida protegao de seus
interésses económicos com o sentimento da mais estrita justiga e a
sincera vontade de colaborar com as outras classes sociais na renova-
gáo crista da vida social... (cf. ene. «Quadragesimo anno»). Nao vos
deixeis, pois, desviar dessa finalidade, mais importante do que qual-
quer outra forma transitoria da organizagáo sindical. Da fidelidade á
realizagáo désse objetivo depende o futuro dos sindicatos. Na verdade,
se visassem exercer urna influencia preponderante e exclusiva sotare
o Estado ou a sociedade, se desejassem absorver totalmente o opera
rio, se postergassem o sentimento de justiga e o desejo de cooperar
com as outras classes sociais, frustrariam as esperangas que néles
deposita o trabalhador honesto e consciencioso...» (Discurso de 11 de
marco de 1945).

— 35 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 6

3. Para encerrar as consideragóes até aqui propostas, vai


abaixo transcrita a palavra do Papa Joáo XXIII, que na encí
clica «Mater et Magistra» representa o último pronunciamento
da Santa Sé a respeito de Sindicatos : :

«Na época moderna, aumentou considerávelmente o movimento


associativo dos trabalhadores; e íoi reeonhecido em geral ñas dispo-
sigóes jurídicas dos Estados e até no plano internacional, especial
mente como instrumento de colaboracáo prestada sobretudo por meio
do contrato coletivo...
Nosso pensamento afetuoso e Nosso paternal estímulo dirigem-se
para as associacóes proíissionais e os movimentos sindicáis de ins-
piracao crista, presentes e ativos em varios continentes. Apesar de
militas diíiculdades, por vézes bem serias, éles tém sabido trabalhar,
e continuam a fazé-lo, a favor dos interésses dos trabalhadores e da
sua elevacáo material e moral, tanto no interior de cada país como no
plano mundial» (n? 94 e 97).

Como se vé, a Santa Igreja nao poderia proferir mais


franco estímulo aos Sindicatos cristáos.

V. DIREITO CANÓNICO

IUS (Guanabara) :

6) «Na maneira de contar a consangüinidade, qual a di-


ferenca vigente entre o Direito Romano antigo e o Direito Ecle
siástico ?»

Consangüinidade é o vínculo que une pessoas procedentes


do mesmo tronco por via de geracáo ou, em outros termos, é a
relacáo biológica existente entre pessoas ás quais foi transmitido
(total ou parcialmente) o mesmo patrimonio genético.

Para se avaliar a consangüinidade, é preciso distinguir tronco,


linha e graus.
Tronco é a pessoa da qual procedem todos os consanguíneos.
Linha é a serie de pessoas unidad por consangüinidade. Pode ser
reta ou vertical e oblíqua ou colateral. É reta, se as pessoas da mes-
ma serie descendem urna da outra por via de geracáo. É oblíqua ou
colateral, se as pessoas descendem do mesmo tronco, nao, porém, urna
da outra; a linha colateral é dita Igual, quando as pessoas de que se
trata, distam igualmente do tronco eomum; é desigual, em caso con
trario. • '
■ Grau é a distancia que medeia entre duas pessoas da mesma linha
óu o número de geraeñes que se interpóem entre elas.

Veremos abaixo como se conta a consangüinidade nos dois


principáis sistemas de Direito reconhecidos respectivamente no

— 36 —
CONSANGÜINIDADE E MATRIMONIO

mundo greco-romano e na Igreja. A seguir, abordaremos rápi


damente a razáo de ser e o histórico do impedimento matrimo
nial de consangüinidade.

1. Gomo avaliar a consangüinidade ?

Distinga-se entre contagem em linha reta e contagem em


linha obliqua.

T.ratando-se de linha reta, nao há dissonáncia entre os juristas :


contam-se as geragóes ou as pessoas vinculadas entre si, excetuando
apenas o tronco ou a pessoa donde as demais proccdem : assim pai e
lilho vém a ser consanguíneos em primeiro grau; avó e neto, em se
gundo grau; bisavd e bisneto, em terceiro grau...

Quanto ao parentesco em linha obliqua, registram-se dois


sistemas de avaliagáo :

a) O sistema romano conta os graus somando as distan


cias de cada um dos dois consanguíneos em relacáo ao tronco
comum. Em conseqüéncia, os irmáos vém a ser consanguíneos
em segundo grau, pois cada um déles em relacáo a seu pai dista
de um grau (1 + 1 = 2); tío e sobrinho vém a ser consanguí
neos em terceiro grau, pois o tío dista de um grau, e o sobrinho
dista de dois graus do tronco comum, que é o pai do tio e o avó
do sobrinho (1 + 2 = 3); dois primos irmáos vém a ser.paren-
tes ou consanguíneos em quarto grau, pois cada um déles, frente
ao avó, dista de dois graus (2 + 2 = 4). O gráfico abaixo ilus
tra bem o sistema concebido segundo a praxe romana :

B e C sao consanguíneos de
A em primeiro grau; entre si, B
e C sao consanguíneos de se
gundo grau;

D e E sao consanguíneos de A
em segundo grau; entre si, con
sanguíneos em quarto grau;

B e E sao entre si consanguí


neos em terceiro grau; da mes-
ma forma, C e D entre si.

— 37 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 6

Éste método de contagem passou do Direito Romano para


as legislagóes civis contemporáneas, assim como para o atual
Direito Canónico Oriental (dos fiéis cristáos unidos a Roma).

b) Outro é o sistema; germánico, que a Igreja adotou no


Ocidente a partir dos séculos VUL/IX (a quanto parece): em
vez de subir até o tronco comum e daí descer até o párente colo
cado em linha lateral, somando as geragóes assim percorridas
(ou as pessoas envolvidas no percurso, menos urna), o Direito
germánico só levava em conta um percurso : o ascensional; e,
caso se tratasse de linha obliqua desigual,... o percurso ascen
sional mais longo; somava as etapas incluidas em tal percurso,
sem considerar a linha de descida até o párente lateral. Segundo
ésse sistema, dois irmáos vém a ser entre si consanguíneos em
primeiro grau, pois cada um dista do genitor comum apenas um
grau ou urna geracáo; primos irmáos sao parentes em segundo
grau (cada qual dista do avó, que é o genitor ou o tronco
comum, mediante o intervalo de dois graus ou duas geraeóes);
tío e sobrinho sao consanguíneos em segundo grau, pois se leva
em conta apenas a distancia mais longa (que é a do sobrinho ao
genitor comum : o avó). Voltando ao gráfico proposto, dir-se-á
entáo :

B e C süo consanguíneos de A, suu genitor, cm primeiro grau;

D e E sao consanguíneos de A, seu avó, em segundo grau;

B e C (irmáos) sao entre si consanguíneos em primeiro grau;


D e E (primos) sao entre si consanguíneos em segundo grau;

B e E sao entre si consanguíneos em segundo grau (só se conta


a linha mais longa, a qual compreende duas geragóes);

C e D, igualmente.

A linha obliqua desigual ó também chamada «mista», pois supóe


um trago mais longo e outro mais breve. O estilo da Curia Romana,
embora só leve em conta o mais longo, costuma exprimir o trago
mais breve, mediante a fórmula «tangente primum, secundum, ter-
tium...», tocando o primeiro, o segundo, o terceiro...; assim sobri
nho é consanguíneo de seu tio «in secundo gradu tangente primum».

A diferenga vigente entre a manelra de contar romana e a ger


mánica é meramente formal ou técnica. Váo seria querer estabelecer
primazia de perfeigáo ou excelencia de urna sobre a outra.

O esquema seguinte reproduz os graus de consangüinidade avalia-


dos segundo o Direito Romano (números romanos) e o Direito Canó
nico (números árabes).

— 38 —
CONSANGÜINIDADE E MATRIMONIO

Consanguinidad^ direta

Dciccndentcs Aiccndcnles

— 39 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962, qu. 6

Analisemos agora sumariamente

2. Os motivos' do impedimento de consangüinidade


1. A natureza humana mesma, anteriormente a qualquer,
proposigáo de fé, veda o matrimonio entre consanguíneos, ao
menos até certo grau (justamente á leí positiva, seja civil, seja
eclesiástica, compete determinar o grau de consangüinidade a
partir do qual já se torna lícito o casamento).
Dois sao os principáis motivos da proibicáo natural:
1 Razáo social. O matrimonio entre consanguíneos difi
culta ou mesmo impede o congrassamento das familias entre si;
favorece o espirito de casta, as categorías de pessoas privilegia
das, o acumulo de bens materiais em uma ou poucas famíl'as da
sociedade. Isto tudo sao males que a dignidade natural do ser
humano repudia. — Prefira-se, portanto. o matrimonio «exogá-
mico» (entre individuos de clás ou familias diferentes) ao matri
monio «endogámico» (entre pessoas da mesma familia ou tribo).
2) Razáo fisiológica. O casamento entré consanguíneos
favorece o acumulo, na prole, de genes responsáveis por anoma
lías fisiológicas, defeituosidades e taras diversas. Ésses genes
pertencentes ao patrimonio biológico de determinada familia,
talvez nunca se manifestassem, caso fóssem unidos ao patrimo
nio biológico de outra familia mais sadia. Fazendo-se, porém, a
cópula sexual entre individuos da mesma familia, há o perigo de
que tais genes, em vez de ser neutralizados ou mantidos em es
tado latente, se tornem, antes, manifestos e nocivos: daí a rela
tiva freoüéncia de individuos anormais entre os filhos de pais
consanguíneos. "3
Um dos exemplos mais frisantes de defeitos herdados pela cópula
de consanguíneos é o chamado «albinismo universal» (carencia rte pig
mentos na< pele, no pelo ). Segundo inquérito feito ém 1938 por
Sandérs na Holanda, o albinismo é auinze vézes mais freqüente na
prole de consangüineos do que em outro tino de prole; outra estatls-
tica dá a ver que. dentre os que padecem de tal molestia, um porcen
tual variável de 30 a 50% é prole de consangüineos. —> Algo de aná
logo se dá com a anomalía chamada «retinite pigmentosa» ou «distro
fia retinica pigmentosa» (presenca de coróos pigmentosos na retina,
aue diminuem a capacidade visual), a qual é por vézes acpmpanhada
de surdez e mudez.
2. Sem retratacao do que ácima foi dito, devem-se contudo re
gistrar casos famosos em que o matrimonio entre consangüineos nao
deú resultados funestos que chamassem necessariamente a atenea o
do biólogo.' Tenham-se em vista, por exemplo, os seguintes parti
culares:
Rondoni («Le malattie ereditarie». Milano 1947) cita o famoso bió
logo' italiano Golgi. o aual desfrutou de p'ena saúde fisica e mental
até idade multo provecta, embora fósse filho de primos.

— 40 —
CONSANGÜINIDADE E MATRIMONIO

D. P. Murphy («Marriages of First Cousins in direct Une of descent


through four generauons», em «Journal Am. Medical Ass.» 83 [1940]
29s) oescreveu o caso de urna familia que da Aiemanha emigrou para
a Pensiivania em 1731. O pai deixou 24 íilhos... Km quatro geracoes
da posteridade désse emigrante, registraram-se sete matrimonios entre
primos irmáos,- dos quais nao resuuou prole físicamente anormal; um
só dos descendentes se assinaiou por ter inteligencia um tanto defi
ciente; contudo elevada mortaiidade infantil ilageiou tal linhagehi.
Franc Biaír Hanson menciona também a historia de urna familia
do Estado de Saint-Louis (U. S. A.) em cuja posteridade, durante
varias geracoes, os casamentos se deram entre consanguíneos, sem
que houvesse detrimento para a saúde ou a integridade da prole
respectiva.
Os estudiosos recordam outrossim a historia das dinastías dos
Ptolemeus (iilgito) e dos Seleucidas (Siria) na época entre Alexan-
dre Magno e jesús Cristo: nessas familias o casamento entre paren-
tes tornou-se como que habitual através de algumas geracoes, conser-
vando-se a descendencia sadia e integra.

Ésses casos, longe de invalidar a condenagáo do casamento entre


consangüineos, apenas significam que as leis de hereditariedade bio
lógica admitem suas excegoes, excecóes que de reato sao bem explicá-
veis, dada a complexidade dos fatores (combinagóes de genes) que
regem a formagao da prole.

Acrescentem-se agora algumas

3. Notas históricas sobre o impedimento de consangüiitidade

1. Em muitos povos da antigüidade pré-cristá, a consangüinldade


constituiu impedimento matrimonial, variando apenas o grau assina-
lado como empecilho. . . •
Assim algumas populagóes primitivas consideravam o matrimd-,
nio entre consangüineos como tabú (objeto interditado). Para oevitar,
a respectiva populagSo era dividida em duas secgóes, cada urna das
quais trazia o titulo de «classe matrimonial». Esta era náó raro' sub-
dividida em grupos ditos «fratrías», os quais se distinguiam ulterior
mente em cías; no interior de cada, clá, os individuos se consideravam
irmaos, nao podendo por conseguinte casar-se entre si. Na Babilonia,
o Código de Hamurapi proibia o 'casamento de pai com filha ou de
máe com filho.
Nao se podo, porém, deixar de referir que entre certos povos
antigos o matrimonio entre consangüineos era nao sómente permi
tido, mas até obrigatório — o que se explica por motivos de decaden
cia moral. Tal é o caso, por exemplo, dos antigos habitantes do Perú,
que reconheciam o casamento de um varao com sua máe, sua irmá ou
sua filha, chegando mesmo a impor aos reis a obrigagáo de esposar
suas irmás, a f im de conservar puro o pangue de sua dinastía !
Entre os judeus do Antigo Testamento, vedado era o casamento
entre consangüineos do primeiro e do segundo grau em linha reta:
da mesma forma, na linha colateral em primeiro grau (casamento
entre irmáo e irmá); cf. Lev 17,7-10. Era outxossim proibido o matri
monio entre tio e sobrinha; cí. Lev 20,19s.
No Direito Romano, a uniao entre consanguíneos em linha reta
era estritamente condenada; em linha colateral, parece também ter
sido rejeitada, em favor da exogamia.

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 49/1962. qu. 7

Quanto aos povos germánicos, nao admitiam casamento entre as


cendentes e descendentes, nem erttre irmao e irma.

2. Por sua vez, a Igreja, desde os primordios da era crista, impós


restrigóes ao casamento de consanguíneos. A principio, porém, nSo
tinha legislacáo fixa, rigorosamente válida para todas as regióes;
tocava geralmente aos bispos julgar caso por caso, aplicando-lhe as
normas do Direito Romano ou do Direito de Moisés (Antigo Tes
tamento).
No séc. VI, o impedimento de consangüinidade foi estendido até
o sexto grau do Direito Romano, ou seja, até o terceiro grau do Di
reito Canónico atual. Mais tarde, chegou a ser prolongado até o
quarto grau canónico, e por íim até o sétimo grau (ño sec. IX). Al-
guns canonistas ilustravam esta regra (segundo um proceder, alias,
que nada tem de dogmático), apelando para a Índole mística do nú
mero sete, número do repouso ou da perfeigáo que, conforme o Gé
nesis, se seguiu á criacao do mundo.
Está claro, porém. que tño ampia proibicáo nao se podía manter,
mormente nos territorios e ñas épocas em que os habitantes rurais
estavam fixos á gleba, quase impossibilitados de se locomover para
procurar uniáo matrimonial. As dispensas de consangüinidade após
o quarto grau foram-se multiplicando. Em conseqüéncia, o IV Con
cilio do Latráo em 1215 restringíu o impedimento ao quarto grau ca
nónico inclusive... Do séc. XVI em diante, faram-se concedendo nu
merosas dispensas em favor dos consanguíneos do quarto e do ter
ceiro grau residentes ñas Indias Ocldentais (América Central e Me
ridional). Por ocasiáo do Concilio do Vaticano (1870), alguns Padres
conciliares chegaram a pedir, para todos os fiéis, redugüo ao segundo
grau apenas; a peticáo, porém, foi denegada.
Finalmente, o Código de Direito Canónico (can. 1076) atualmente
em vigor estipulou que o impedimento matrimonial se estende até o
terceiro grau de consangüinidade inclusive, isto é, até o parentesco
entre primos oriundos de primos irmaos (primos segundos). Cf.
«P.R.^1V1958, qu. 6.

VI. HISTORIA DO CRISTIANISMO

JURISTA (Sao Paulo) :

7) «O chamado ius primae noctis, direito da primeira


noite, constituí escándalo dentro dos costumes matrimoniáis da
Idade Media. Nao será mais urna cxpressáo da barbarie favore
cida pelo Cristianismo medieval ?»
1. O ius primae noctis, como se conjetura, atribuía aos senhores
feudais, na Idade Media, a licenca de passarem a primeira noite com
as esposas de seus súditos após o casamento dos mesmos.

Essa presumida praxe recebeu varios nomes. Assim

na Franca: droit du seigneur. braconnage, culage, couchet, des-


chaussage, jambage,' gerson;
na Italia : cazzagio, fodero;
na Flándria : bednood, burmede;
na Inglaterra: amobr, amachy, gobr, merch, marchetum;
na Alemanha : veit-schoss, lecher-wite, legergeldum.

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O «DIRECTO DA PRIMEIRA NOITE»

A existencia de tal direito na Hade Media é assaz controvertida


entre os estudiosos. Foi o historiador escocés Heitor Noece quem em
1526 pela primeira vez a afirmou. Como se compreende, escritores
posteriores, nao sómente juristas, mas também romancistas tenden
ciosos, exploraram o tema em obras e escritos de valor decadente.
Sendo assim, nossa resposta procederá distinguindo o que há de
certo e o que fica nebuloso em torno da questáo.

2. Tenha-se por certo que entre os pagaos nao. era raro,


mandasse um esposo deflorar a sua esposa por um personagem
de autoridade, da sua própria ítribo ou da sua familia mesma;
■yilgavam muitos que desta. forma obteriam urna prole mais sadia
ou mais heroica. Dutros motivos pagaos podem ter inspirado
ésse abuso.

Na civilizacáo medieval, construida sobre as ruinas da antiga


cultura romana paga e sobre as dos pwos bárbaros que haviam
ocupado o cenário europeu, era, humanamente falando, inevitável
que se prolongassem costumes recebidos dos séculos anteriores. Fo-
ram principalmente os senhores feudais que os sustentaram. Assim,
por exemplo, pretenderán! atribuir a si direitos sobre as esposas de
seus súditos, já que estes eram tidos como servos da gleba: nao lhes
era estranho exigir dos servos que se casassem, urna taxa a ser paga
urna vez por todas ou parceladamente (todos os anos, todas as se
manas...). Acontecía também exigirem que os súditos Ihes pedissem
licenca para usar do matrimonio após o casamento ou pagassem de
terminada quantia em vista de tal lim; ainda em outros casos (e isto
parece menos certo, advertem alguns historiadores) os senhofes íeu-
dais arrogavam a si o direito de passar com. a esposa dos respectivos
súditos a primeira noite após as nupcias.

Em qualquer caso, nao resta dúvida de que esta última


praxe (se realmente estéve em vigor) nunca foi reconhecida por
lei oficial da Igreja, nunca se tornou objeto de um direito legal
cristáo; ter-se-á transmitido de época em época á guisa de abuso.
Nao se poderia portante responsabilizar a Igreja ou a civilizagáo
crista de haver sugerido ou ao menos reconhecido como licito
táo indigno procedimento; éste sempre contrariou frontalmente
os principios da Moral crista. É, alias, o que bem atesta a Enci
clopedia Larousse (obra notoriamente anticlerical) :

«É mister reconhecer que o direito do senhor nao se originou por


inteiro ñas populacdes européias dos primeiros séculos da nossa era.
' A Idade Módia, aposar de toda a sua barbarie, nem sequer era capaz
de gerar tal monstruosidade. Os costumes anteriores e os exemplos
dos antepassados necessáriamente contribuiram para a eclosáo dessa
praxe. Par mais que os historiadores pretendam abstrair, as nacóes
. nao podem abstrair urnas das outras; entre elas existe, como entre os
homens. urna especie de solidariedade, que a historia antiga e a his
toria contemporánea apontam a cada página. Ora pode-se alirmar,
sem receio de errar, que as tradicoes antigás devem ter exercido
grande influencia sobre a jurisprudencia que os povos bárbaros impu-

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» '.49/1962,, qu. 7 '

seram aos vencidos» (Pierre Larousse, -Di-bit? em «Grand Dictionnalre


Universel du XII siécle», t. VI, pág. 1269).

4. Aínda com referencia álegisiacáo eclesiástica, sabe-se


que, conforme antiga tradigáo, esta em alguns lugares pedia dos
nubentes a abstengáo da cópula sexual durante a primeira ou as
tres primeiras noites após o casamento; os cónjúges deveriam
assim seguir o exemplo de Tobías e Sara...

Com efeito. Assim preceituava o anjo Raíael ao jovem Tobías, que


estava para se casar com Sara: •
«Quando a tiveres esposado, após ter entrado no aposento, vive
com ela em abstinencia durante tres dias, pensando apenas em orar
a Deus com ela» (Tob 6, 18).*

Caso, porém, os cónjúges cristáos'nao quisessem observar


tal reserva, déla podiam ser dispensados, ficando entáo süjeitos
a entregar certa espórtula ou esmola á igreja (nao seria consen-
táneo com a realidade equiparar tal esmola a um resgate do hi
potético ios primae nocías nem a «compra da esposa» praticada
, pelos germanos).

5. Ñas questóes referentes ao «direito da primeira noite», pode-se


dizer que o apologeta cristSo só tem um interésse própriamente dito:
nao o de demonstrar que tao hediondo costume jamáis foi praticado
: entre os cristáos (estes nunca foram isentos dos assaltos da fraqueza
humana), mas o de comprovar que, caso tenha estado em vigor, ele
nunca logrou foros de liceidade perante o direito eclesiástico; só abu
sivamente pode ser chamado ius ou «direito». Quanto & hipótese de
.que os cristáos medievais o tenham praticado, nao deve surpreender
ó observador sincero, pois os cristáos teráo cometido tal abuso nao
por inspiracSo da Igreja, mas justamente á revelia desta.

D. ESTÉVAO BETTENCOUBT O.S.B.

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