REVISTA

Ano 5 - Edição Nº 7 Julho 2009 - R$ 15,00

Antônio de Pádua Bosi Carlos Mignon Demian Melo Diorge Alceno Konrad Dulce Portilho Maciel Edmundo Fernandes Dias Erika Batista Fernando Gaudereto Lamas Gilson Dantas Glaucia Ramos Konrad Hélio Rodrigues José Carlos Mendonça Luís Eduardo de Oliveira Michel Willian de Almeida Ramiro dos Reis Sonia Regina de Mendonça Waldir José Rampinelli

Estado e Poder

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História & Luta de Classes Nº 7 – Julho de 2009
SUMÁRIO APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 ARTIGOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Sonia Regina de Mendonça

Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Luís Eduardo de Oliveira; Fernando Gaudereto Lamas

Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora, o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
Diorge Alceno Konrad

“Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Glaucia Vieira Ramos Konrad

La lectura de Marx en clave clasista: el Si.tra.p. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins, 1973-1975 - una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
Carlos Mignon

Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
José Carlos Mendonça

O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Dulce Portilho Maciel

Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 Anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
Ramiro José dos Reis

1986 - A Repressão Fordista no ABC Paulista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
Michel Willian Zimermann de Almeida

Estado, Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
Gilson Dantas

O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
Erika Batista

Estado Democrático e Social de Direito, Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Hélio de Souza Rodrigues Júnior

RESENHAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
Waldir José Rampinelli

1848: O Ano do Mouro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
Antônio de Pádua Bosi; Edmundo Fernandes Dias Demian Melo

A leitura genética dos Cadernos de Gramsci . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87

NORMAS PARA OS AUTORES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Organizadores gerais deste número: Gilberto Calil (Unioeste); Demian Melo (UFF) e Lorene Figueiredo de Oliveira (UFJF) Comissão Editorial: Enrique Serra Padros (RS), Eurelino Coelho (BA), Francisco Dominguez (Inglaterra), Gilberto Calil (PR), Lorene Figueiredo (MG), Marcelo Badaró (RJ), Maria José Acedo del Olmo (SP), Mario Maestri (RS), Virgínia Fontes (RJ) Conselho Editorial: Adalberto Paranhos (UFU), Adelmir Fiabani (UNT), Afonso Alencastro (UFSJ), Alessandra Gasparotto (CAVG/UFPEL); Antonio de Pádua Bosi (UNIOESTE), Armando Boito (UNICAMP), Beatriz Loner (UFPEL), Carla Luciana Silva (UNIOESTE), Carlos Zacarias de Sena Júnior (UNEB), Cláudia Trindade (FIOCRUZ), Claudira Cardoso (UFRGS), Danilo Martuscelli (UNICAMP), Demian Melo (UFF), Diorge Konrad (UFSM), Dulce Portilho (UEG), Edílson José Gracioli (UFU), Enrique Serra Padrós (UFRGS), Érika Arantes (UFF), Eurelino Coelho (UEFS), Fabiano Faria (RJ). Felipe Demier (UFF), Francisco Dominguez (Middlesex Universitty), Gabriela Rodrigues (RS), Gelson Rosentino (UERJ), Gilberto Calil (UNIOESTE), Gilson Dantas (UEG), Gláucia Konrad (UFSM), Helen Ortiz (RS), Hélio Rodrigues (CEUB); Hélvio Mariano (UNICENTRO), Isabel Gritti (URI), Joana El-Jaick Andrade (USP), Jairo Santiago; João Raimundo Araújo (FFSD), Jorge Magasish (Bélgica), José Pedro Cabrera (UNT), José Rodrigues (UFF); Kátia Paranhos (UFU), Kênia Miranda (UFF); Lorene Figueiredo de Oliveira (UFJF), Lucelno Lacerda de Brito (PUC-SP), Luciana Lombardo Costa Pereira (UFF), Lúcio Flávio de Almeida (PUC-SP), Luis Fernando Guimarães Zen (UNIOESTE) Marcelo Badaró (UFF), Maria José Acedo Del´Olmo (UNIVAP), Mario Jorge Bastos (UFF), Mário José Maestri Filho (UPF), Michel Silva (UDESC), Nara Machado (PUCRS), Olgário Vogt (UNISC), Paulo Zarth (UNIJUÍ), Pedro Leão da Costa Neto (TUIUTI); Pedro Marinho (MAST), Renata Gonçalves (UEL), Renato Lemos (UFRJ), Ricardo Gama da Costa (FFSD), Rodrigo Jurucê Gonçalves (PR); Romualdo Oliveira (USP), Ronaldo Rosas Reis (UFF); Sarah Iurkiv Ribeiro (UNIOESTE), Sean Purdy (USP), Selma Martins Duarte (UNIOESTE), Sérgio Lessa (UFAL), Sirlei Gedoz (UNISINOS), Sônia Regina Mendonça (UFF), Tarcísio Carvalho (UFF), Teones Pimenta de França (FSSSL) Theo Piñeiro (UFF), Valério Arcary (CEFET-SP), Vera Barroso (FAPA), Virgínia Fontes (UFF/FIOCRUZ), Wanderson Fábio de Melo (USP), Zilda Alves de Moura (UFMS); Zuleide Simas da Silveira (CEFET-RJ) Próximos Números: Dossiê Questão Agrária. Prazo para envio de contribuições encerrado. Dossiê Teoria da História. Envio de contribuições até 31.9.2009. Distribuição: historiaelutadeclasses@uol.com.br. Página Eletrônica: http://historiaelutadeclasses.wordpress.com/ Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Cristiane Carla Johann. Imagem da Capa: 1. Manifestação contra a ditadura; 2. Bombardeio do Palácio La Moneda durante golpe de Estado de 1973, Chile; 3. Repressão policial na ditadura; 4. Lênin; 5. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – Foto Sebastião Salgado. Revisão e Edição: Gilberto Calil. Impressão: Gráfica Líder, Av. Maripá, 796 – Telefax (45)-3254-1892 – 85960-000 – Mal. Cândido Rondon - PR Foram impressos 1.000 exemplares em Julho de 2009

APRESENTAÇÃO

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om o Dossiê Estado e Poder, História & Luta de Classes chega a seu sétimo número, ao mesmo tempo em que completa quatro anos de circulação. Em nosso primeiro número já manifestávamos nossa pretensão em “servir de canal para reflexão teórica, particularmente para aquela orientada pelos ventos constantemente renovados do marxismo”, com a intenção de “servir como ferramenta de intervenção daqueles historiadores e produtores de conhecimento que se recusam a aderir”. Distinguindo-se pela perspectiva de intervenção e por assumir claramente uma posição político-teórica, e sem abdicar do rigor acadêmico, História e Luta de Classes viabilizou nestes quatro anos a publicação de 77 artigos e 18 resenhas. O primeiro número, publicado em abril de 2005, teve como temática “1964 – Golpe de Estado” e trouxe diversos artigos que claramente respondiam à onda conservadora, revisionista e relativista de reinterpretação do sentido do Golpe de 1964. A segunda edição trouxe o dossiê “Comunicação, Linguagem e Cultura”, com textos sobre imprensa, intelectuais, discursos e ideologias. A edição seguinte concentrouse em “Escravidão, Trabalho e Resistência”, com forte ênfase nas resistências empreendidas pelo trabalhador escravizado e na crítica às visões apologéticas e relativistas da escravidão. O número 4 trouxe o dossiê América Latina Contemporânea, com a discussão de processos históricos decisivos do século XX como populismo, revoluções e ditaduras e dos embates em curso no continente, em países como Cuba, Venezuela, Bolívia, Colômbia e Argentina. O quinto número, com o tema “Trabalhadores e suas organizações” colocou em foco e propiciou a análise crítica de algumas das diversas organizações constituídas pela classe trabalhadora brasileira nas últimas sete décadas, tais como partidos, sindicatos, jornais e centrais sindicais. O dossiê “Imperialismo: teoria, experiência histórica e características contemporâneas”, trazido na sexta edição da revista tornou possível aprofundar a análise teórica e empírica do imperialismo, em suas diferentes dimensões e formas de manifestação. O desafio em produzir, sustentar, manter e fazer circular uma revista com um perfil marcadamente situado no campo do marxismo, sem vínculos institucionais, empresariais ou partidários, é constante. História & Luta de Classes é mantida pelo esforço militante do coletivo de associados que assumiu o desafio de manter acesa a chama do debate crítico no campo da história e da historiografia, livre das amarras institucionais e burocráticas, sem qualquer vínculo com as imposições editoriais ou os modismos impostos a partir da mídia. Igualmente é um periódico que não demanda nem necessita o aval das agências de “classificação”, “qualificação” e ranqueamento, muitas vezes com práticas, critérios e procedimentos uniformizadores, pausteurizadores e esterilizadores do pensamento crítico e do debate e reflexão abertos. Atingir sete edições publicadas, com expressiva tiragem e circulação é certamente um êxito a ser comemorado e uma comprovação das potencialidades da produção coletiva, nos marcos do esforço pela produção de uma nova hegemonia, que corresponda aos interesses históricos da classe trabalhadora. Vivemos hoje fase aguda de uma grande crise capitalista, com conseqüências sociais crescentemente devastadoras. Ao mesmo tempo, as grandes certezas e os discursos ideológicos triunfalistas estão mais desvalorizados do que as ações dos grandes bancos e montadoras estadunidenses. É certo que os capitalistas, seus intelectuais e seus gestores movem-se rapidamente para construir novas certezas, novos discursos ideológicos e medidas que permitam a retomada da acumulação capitalista. Ainda assim, no atual contexto de descrédito das certezas neoliberais, alarga-se o espaço para a reflexão marxista, para a crítica sistemática e radical da ordem do capital e para a análise histórica totalizante dos processos sociais. História & Luta de Classes pretende manter-se alinhada neste campo de reflexão e análise crítica e sistemática da ordem do capital. A temática do dossiê aqui apresentado – Estado e Poder -, é certamente oportuna e se relaciona de forma direta com os impasses do presente. A reflexão e compreensão em torno das formas intervenção do Estado (seja através da produção do consenso, seja através da repressão aberta), dos projetos hegemônicos e dos embates produzidos na luta de classes, nos diferentes contextos históricos do Brasil republicano, mantêm-se como desafio inadiável para as forças sociais do mundo do trabalho. É importante destacar que a dominação burguesa no Brasil jamais abdicou de forte componente coercitivo – como destacam diversos artigos deste dossiê -, mas ao mesmo tempo sustenta-se também na organização classista dos setores dominantes, nas elaborações de seus intelectuais orgânicos, na construção de instrumentos de intervenção política e disseminação ideológica, na construção de consenso em torno de seu projeto. Esta perspectiva é expressa de forma particularmente clara no artigo que abre o dossiê – Estado e Educação Rural: política pública e hegemonia norte-americana, da historiadora Sonia Regina de Mendonça. Servindo-se do referencial teórico gramsciano, a autora analisa as formas de produção de hegemonia que permearam as relações pedagógicas nas décadas de 10940 e 1950, com ênfase nas formas de intervenção que permitiram que agências imperialistas determinassem os rumos do Ensino Rural no Brasil no período. O artigo Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria, de Luis Eduardo de Oliveira e Fernando Lamas, aborda as experiências em comum entre trabalhadores livres

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Estado e Poder

através de três eixos temático-expositivos (Estado e economia. avançando nas formas pelas quais frações da classe trabalhadora assumem a racionalidade burguesa para o gerenciamento do capital. o reforço do Poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional. O movimento sindical é discutido também por Gilson Dantas. O artigo de Dulce Maciel. no contexto da Operação Condor. a repressão contra seus membros e a aplicação da Lei de Segurança Nacional. Waldir Rampinelli analisa criticamente recente livro de Moniz Bandeira sobre o golpe de Estado no Chile. para o que contribuíram inúmeros intelectuais. de Gláucia Ramos Konrad. de Córdoba. Os dois artigos seguintes discutem distintos aspectos do processo de centralização política e as iniciativas coercitivas e ideológicas contra os trabalhadores na década de 1930. Poder e Movimento Sindical na América Latina: o diálogo necessário com as teorias de Trotski. busca relacionar a implementação do Plano Cruzado com uma política repressora dos trabalhadores por parte dos empresários e do Estado. num contexto de implantação de um plano econômico que era aplicado em nome do pacto social. O artigo de Carlos Mignon. avaliando tal iniciativa como relevante para a afirmação da nova ordem e considerando que o controle sobre a classe trabalhadora. em Estado. O poder gerencial no Capitalismo Contemporâneo: nova classe ou novas relações entre as classes? apresenta uma discussão crítica das explicações ideológicas produzidas pela chamada “teoria gerencial”. vinculadas ao “obreirismo” italiano dos anos 1950.tra. no qual o autor recupera a reflexão de Trotski sobre o bonapartismo para refletir sobre os desafios colocados ao movimento sindical pelos governos nacionalistas burgueses contemporâneos da América Latina. Este número de História & Luta de Classes complementa-se com três resenhas. coloca em destaque a atuação de diversos intelectuais sul-riograndenses voltada à legitimação ideológica estadonivista. destacando-se o superdimensionamento das ações dos grupos guerrilheiros como forma de justificação interna do aparato de espionagem. Julho de 2009 Gilberto Calil e Demian Melo . Antonio Bosi e Edmundo Fernandes Dias discutem o impacto das lutas de classe de 1848 para o amadurecimento da reflexão de Marx e avaliam sua interpretação sobre aquelas lutas. Demian Melo ressalta a leitura genética dos Cadernos do Cárcere realizada por Álvaro Bianchi em O Laboratório de Gramsci. discutindo a ação de empresários e do Estado brasileiro e a utilização de mão-de-obra escrava em tal empreendimento. Argentina) e as revistas Quaderno Rossi e Classe Operaia. O texto 1986 – a repressão fordista no ABC paulista. com destaque para a proibição da ANL. de Michel William de Almeida. Mística e Modo de Produção Capitalista: uma leitura que refuta o rótulo economicista analisa as características do Estado de direito. no artigo Estado Democrático e Social de Direito. mesmo sob a ditadura estadonovista. no artigo Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. Hélio Rogrigues. Estado e ditadura militar e Estado e socialismo). como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins.6 e escravizados na construção de uma estrada de ferro de ligação entre Juiz de Fora e Petrópolis.p. em Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do seqüestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre coloca em destaque a colaboração entre os regimes ditatoriais a partir da reconstituição do seqüestro de Lílian e Universindo Díaz. Diorge Konrad discute a relação entre o crescimento da ANL e a escalada repressiva. 1973-1975 . avaliando a repercussão regional dos eventos que marcaram o ano de 1935. O artigo “Segurança para o Trabalho e as realizações de interesse geral”: a busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul. não era absoluto nem se dava exclusivamente pela coerção aberta.p (sindicato de trabalhadores da fábrica de motores Perkins. mas implicava igualmente em esforços de legitimação. no texto Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini aborda o papel ocupado pelo “Estado” na produção bibliográfica do intelectual dependentista e militante socialista Rui Mauro Marini. José Carlos Mendonça. O quadro da subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: a visão dos órgãos de segurança e informações analisa um vasto corpo documental produzido pelos órgãos repressivos para avaliar a visão por eles produzida sobre as organizações armadas de contestação à ditadura. Ramiro José dos Reis.Una breve comparación con el obrerismo italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia. Utilizando-se de vasta documentação e concentrando-se no caso sul-riograndense. A ditadura civil-militar é objeto dos dois artigos seguintes.tra. O artigo de Érika Batista. bem como sobre o contexto repressivo que se seguiu a sua derrota. bem como as condições semelhantes de exploração do trabalho a qual imigrantes alemães e lusos foram submetidos. La lectura de Marx en clave clasista: el Si. desenvolve uma instigante comparação entre as formas de leitura e interpretação das categorias de Marx presentes na imprensa dos anos 1970 do Si. considerado como modalidade do Estado capitalista. a partir da repressão à greve dos trabalhadores da Ford.

não prescinde da função educativa do Estado uma vez que. de forma até então inédita. baseada. Os responsáveis pela organização da cultura na sociedade civil. Poder e Práticas Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. destinadas a concretizar seu papel na reprodução ou transformação da sociedade. é que os intelectuais não “pairam” acima da sociedade sem raízes de classe evidentes. difundem-se concepções de mundo responsáveis pela estruturação de formas de manifestação cultural que favorecem a emergência de certo tipo de cidadão. Sonia. preparando-a para manter ou subverter a ordem estabelecida.História & Luta de Classes. . faz com que entre Estado e indivíduos atomizados no mundo da produção emirja outra esfera. Logo. orgânico. no campo educacional. um renovador do marxismo que a ele incorporou. em luta ou em aliança entre si. Estado e Educação O referencial das ponderações aqui iniciadas bebe do arsenal teórico de um dos mais importantes pensadores do século XX: Antonio Gramsci. que guardam em comum o fato de produzirem cultura . A presentação As atuais políticas estatais destinadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA) caracterizam-se. seria a cultura nacionalpopular ou socialista.valores e visões de mundo.7 Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Sonia Regina de Mendonça * Estado e Educação Rural no Brasil: preferencialmente. esta sim. A peculiaridade da sociedade civil reside em ser integrada por vários aparelhos de hegemonia de adesão voluntária. responsável pela negação dos direitos básicos da classe trabalhadora. Gramsci. os articuladores dos grupos em torno a seus respectivos projetos. produtores/difusores da cultura/hegemonia o que. ser apreendido a partir de uma perspectiva histórica acerca das relações entre Educação. É deste ponto de vista que se inicia a reflexão ora proposta sobre as políticas públicas voltadas para a Educação Rural no Brasil. a sociedade civil. complexificaram um novo âmbito social. as pressões do desenvolvimento capitalista. O que Gramsci demonstra. justamente por isso.espaço de relações sociais que não estritamente as de produção . que influirá decididamente quer para a formação do “homem-massa”. são os intelectuais. Julho 2009 (7-12) . Segundo Gramsci.que se gestam e desenvolvem as funções de direção política e ideológica completares à dominação estatal. em suma. Para compreendermos este último conceito. 2007. além do Estado restrito. portadora de agências distintas daquelas do âmbito econômico e da sociedade política. pouco tem de novo. para o filósofo. É nesta esfera . bem como a hegemonia de um deles. no período compreendido entre o imediato pós-II Guerra Mundial e a aprovação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação brasileira. de modo a evidenciarem-se muito mais continuidades do que rupturas. ela conta com função social própria: a de garantir/contestar a legitimidade da dominação de uma classe e seu Estado. Pesquisadora Visitante do Programa de Pós-Graduação em História. Gramsci. 57. ao promoverem a maior divisão social do trabalho e a proliferação de novas classes e suas frações. seus valores e idéias. em nome de um projeto cultural de novo tipo o qual. entretanto. responsável pela construção de sujeitos políticos coletivos. em 1961. numa reapropriação da Teoria do Capital Humano. Ademais. sua grande inovação foi desmistificar uma visão equivocada acerca da cultura e dos intelectuais. na coerção. resultante da trama complexa de múltiplas relações entre os aparelhos que a compõem. tornando-o consciente de seu lugar social. com seu peculiar conceito de cultura. De um lado. Estado e grupos dominantes no país. todavia. em muito distantes de livres pensadores diletantes. por sua vez gestada nas décadas de 1960 e 701. a “iluminar” os “incultos” com seu conhecimento: o intelectual é aquele que organiza um grupo. Semelhante processo. Tudo isso significa afirmar que a organização da cultura implica na interação de um conjunto de agentes e agências da sociedade civil. Dessa forma. por seu intermédio. quer para a de atores participativos e conscientes. segundo alguns autores. segundo Gramsci. decorrente da ação de intelectuais das frações de classes dominadas. Professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. É na sociedade civil que se organizam os projetos dos grupos ou frações de classe. deitando profundas raízes na formação social brasileira e merecendo. De outro. por duas ordens de questões. Nº 7. Lisboa: Educa. dotado de materialidade distinta daquele: a sociedade civil. as dimensões da política e da cultura. permanentemente disputando a direção sobre a sociedade como um todo. remeto à construção de seu pensamento. 1 RUMMERT. pelas repercussões internas do processo histórico recente de reestruturação produtiva que resultou. resgatando um outro igualmente significativo: o de sociedade civil. Trabalho e Educação: Jovens e Adultos Pouco Escolarizados no Brasil Actual. *Pesquisadora do CNPq. pela distribuição desigual de bens materiais e simbólicos. p.

Cadernos do Cárcere. já que a proliferação de escolas pode ampliar ainda mais o raio de difusão dos padrões de excelência. cultura e outros componentes da concepção de mundo dominante em dada sociedade podendo. valores. Os intelectuais. Por meio da direção cultural que imprime à sociedade em seu conjunto. quando as “lideranças” políticas falam de Educação e Escola para todos não apontam para um projeto de democratização do saber. o futuro daqueles 4 GRAMSCI. unifica uma maior ou menor quantidade de indivíduos em estratos mais ou menos numerosos.uma relação pedagógica. Tal objetivo. pp. as relações pedagógicas assumem caráter eminentemente político e não devem ser limitadas à escola. torna-se a “escola do emprego”. este último definido como "subalterno". perpetuarse-á a visão das classes dominantes que tanto separa. gostos. Jornalismo. quanto hierarquiza o trabalho intelectual e o trabalho manual. Antonio. Da mesma forma. assim como elementos da ideologia dominante e do próprio saber científico que. Antonio. Introdução ao estudo da filosofia. a escola não deve ser apenas pensada como instância direta da legitimação dos dominantes. 3 GRAMSCI. lhe chegam2. que se entendem entre si em diversos graus”. de modo a situá-las num quadro de relativa homogeneidade.certamente não integra a agenda dos estadistas. construir – ou não . elementos da solidariedade das classes subalternizadas. não é difícil entender porque muitos daqueles que Gramsci denomina de “simples” compartem de muitos dos mesmos códigos dos dominantes. Na verdade. de todas as formas possíveis. No entanto. impedindo aos indivíduos o acesso ao mais elementar instrumento de apropriação do mundo social. além de escritos dispersos junto a textos anteriores ao cárcere. Logo. v. é um claro demonstrativo da atualidade do pensamento de Gramsci. porém como espaço do embate entre projetos distintos de transformação ou conservação da ordem social vigente. 2 Segundo Gramsci. busca exercer uma função unificadora das manifestações da sociedade. jamais pode ser fecundo se imposto “de fora”. destinado a encobrir o que a própria política estatal perpetua . Ademais. cultura enfim. Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a historia dos intelectuais4. Todos eles têm o comum a preocupação expressa para com o fato de que um processo de transformação estrutural da realidade confira aos trabalhadores o direito de acesso irrestrito às bases do patrimônio científico.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana É partindo da sociedade civil que os grupos dominantes levam adiante uma guerra sem trincheiras aparentes já que. enquanto a segunda.a divisão da sociedade. o filósofo enfatiza o papel do principal instrumento de disseminação da hegemonia da classe dirigente: a Educação. 1999. p. Dessa forma. potencializadora das mudanças estruturais e necessariamente comprometida com os interesses das classes trabalhadoras.8 . que se verifica não apenas no interior de uma nação. seu projeto. uma cultura verdadeiramente nacional-popular estará fora de questão.2. em seus vários níveis. autoritariamente. dentre eles o Caderno 12.mais do que eliminam . ou seja. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Tal direção propicia ao Estado capitalista. Cadernos do Cárcere. no entanto.condições para superá-la. . são menos visíveis que a coerção inerente ao Estado restrito. Todos os conceitos até aqui apresentados visam explicitar o sentido da expressão gramsciana “relações pedagógicas”. a Escola e a cultura constroem . v. em toda sociedade capitalista. dos valores dominantes. Uma escola voltada para os valores populares e capaz de enfatizá-los enquanto cultura própria . GRAMSCI. p. no capitalismo contemporâneo. deveria ter como tarefa precípua contribuir para a elaboração de uma nova cultura. Tal preocupação emerge em diversos textos do autor. Antonio. subordinada aos requisitos imediatos do mercado de trabalho. em contato mais ou menos expressivo.e não como cultura “inferior” que necessite ser “iluminada” por intelectuais orgânicos dos grupos dominantes . entre conjuntos de civilização nacionais e continentais”3. 1980. Dessa forma. para Gramsci. Vale lembrar que por desinteressada entendia o filósofo aquela centrada em seu caráter formativo mais amplo. “inorgânicos” no tocante à organização de seus próprios aparelhos de hegemonia. A despeito disso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.as desigualdades sociais. na formação integral para todos. a formação integral. por intermédio de distintas mediações. na medida em que os subalternos. entre as diversas forças que a compõem. cujos intelectuais orgânicos atuam junto às sociedades civil e política divulgando. desordenadamente. a partir dela. “a cultura. 399. O princípio educativo. o Estado estabelece vínculos “sentimentais” e ideológicos com as grandes massas. especialmente. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. o Estado. Maquiavel. costumes. a formação do “homem-massa” que se torna. Enquanto o analfabetismo grassar pelo país. marcante na História do Brasil. ou seja. assistematicamente. A filosofia de Benedetto Croce. Assim. prédeterminando de modo instrumental. necessariamente.1253. O desprezo pela Educação. o sistema educacional e a escola são. a escola. deixam de produzir os intelectuais necessários à transformação. 36. Enquanto perpetuar-se a segmentação entre escola “desinteressada” e escola “formativa”. o conjunto de relações inerentes às práticas sociais por cujo intermédio o homem apreende valores.1. destaca-se em Gramsci o fato dos vários estágios dos processos produtivos – e o ordenamento sócio-político a eles correspondente – gerarem mudanças no sistema escolar com vistas a atender às demandas da produção e da permanente construção/manutenção da hegemonia dos dominantes. 2000. exercendo sobre elas a ação educativa. Segundo Gramsci “toda relação de ´hegemonia' é. a política e o Estado Moderno. os núcleos fundantes da hegemonia dos dominantes. “produto e produtor” de uma cultura subalterna onde convivem. no decorrer da historia. das normas cultas e. mas em todo o campo internacional e mundial. tecnológico e artístico produzido pela humanidade. Logo.

O grupo encabeçado pelo ministro Gustavo Capanema.E. n. sobretudo após o término da Segunda Guerra Mundial.destinado ao grosso da população . incluindo tanto “educadores profissionais” . mantinha-se o fosso existente entre o ensino primário de cunho alfabetizante e “popular” . ARQUIVO GUSTAVO CAPANEMA. dirigente ou instrumental”6 . destinado a perpetuar nestes estratos uma determinada função tradicional. ora subordinados ao Ministério da Agricultura”. Rolo 28. 8 Optei pela grafia em itálico de toda e qualquer expressão extraída da documentação de época pesquisada. Os intelectuais. de modo a assegurar relativo equilíbrio à correlação de forças que assomara ao poder estatal em 1930. op. p. encontramo-nos muito mais diante de continuidades. Por tal razão é fundamental reter que. contrariamente ao que aponta a historiografia especializada. mistos de reformatórios e escolas práticas. Se.até atores como Austregésilo de Athayde. o ministro Capanema apontaria o que considerava o mais grave problema a ser enfrentado por sua Pasta: a necessidade de “transferir para o M. grifos no original. em nome do "equívoco pedagógico" de sobrecarregarem-se as crianças com a preparação para o trabalho. 5 Agricultura. É neste processo que se multiplicariam os diversos tipos de escola voltados à manutenção das classes subalternas na condição heterônoma de dirigidos. as questões educacionais encontravam-se sob a égide de dois Ministérios – o dos Negócios Interiores e o da Agricultura. Carlos Drummond de Andrade. o campo educacional brasileiro esteve marcado. 9 Em evento reunindo Secretários de Educação estaduais. Cadernos do Cárcere. 7 A este respeito ver MENDONÇA. a saber. quando a influência norte-americana aqui se presentificou. 1944. cit. Nº 7. como Anísio Teixeira.5. por exemplo . Julho 2009 (7-12) . a principal característica das reformas educacionais promovidas na gestão do ministro Capanema. estigmatizado pela “marca de Caim” do trabalho manual8 . no âmbito da sociedade civil. até então. desde 1909 monopolizada pelo Ministério da 5 NOSELLA. Em sua disputa com os dirigentes do MA pelo monopólio das atribuições sobre a Educação Rural. entretanto. que é fornecida “pelo fato de que cada grupo social tem um tipo de escola próprio. Rio de Janeiro: CPDOC. este último responsável pela Educação Rural . do Ministério da Educação e Saúde (MES). mais graves ainda seriam seus desdobramentos no âmbito do ensino profissional. os intelectuais orgânicos da SNA aferravam-se à defesa das instituições até então encarregadas do Ensino Rural. 1997. Outra continuidade flagrante residiu na preservação da dualidade vigente junto ao sistema de ensino no país. A modernização da produção e a escola no Brasil – o estigma da relação escravocrata.aos egressos do movimento Escolanovista .História & Luta de Classes. antagonista à grande burguesia cafeeira paulista7 . Antonio. 17.após a fundação do MES tais conflitos se acentuariam sobremaneira. contaria com portavozes de distintos grupos de interesse. fotograma 565.organizados junto à Sociedade Brasileira de Educação (1924) . Se tal dualidade continuou a marcar a Educação brasileira após 1930. neste âmbito específico. Cardeal Leme. Dos educadores católicos – agremiados na Associação de Educadores Católicos . agência dominada por grupos agrários organizados junto à Sociedade Nacional de Agricultura (SNA). dentre outros. os nove Aprendizados Agrícolas e a Escola Agrícola de Barbacena.auto-representados como capazes de gerir “cientifica e pedagogicamente” a matéria. o ensino técnico rural nem se constituiu em “invenção” dos novos grupos no poder. Eles igualmente enfrentariam as diversas tentativas empreendidas pelos quadros dirigentes do MES em chamar para si o “ensino prático agrícola”9. em 1931. no ano de 1940. Bem ao contrário. localizados sempre próximos a grandes propriedades em todos os estados da federação e funcionando como “viveiros” de mão-de-obra gratuita devidamente adestrada. A política de ensino agrícola praticada pela Pasta da Agricultura guardou fortes continuidades após 1930..e passando pelos projetos educacionais militares. Paolo. 1993. alegando tratar-se de “de providência administrativa racionalizadora. 6 GRAMSCI.voltados à formação de setores médios e grupos dominantes.S. mediante acordos de "cooperação técnica" firmados entre os governos de ambos os países. reclamada pelo principio da unidade de direção”. O Ruralismo Brasileiro. Hegemônicos junto à Pasta da Agricultura. Sonia Regina de. os Aprendizados e Patronatos Agrícolas. a rigor. que atribuía o nível primário à responsabilidade de estados e municípios e os ramos secundário e superior à da União. não devem ser tomadas tão somente enquanto elementos abstratos. evidenciando a “marca social da escola”. Porto Alegre: Cadernos ANPED.e o ensino secundário e superior . destinados a crianças/ jovens do campo. defensoras de projetos os mais diversos.9 oriundos das classes trabalhadoras aos quais atende . as disputas foram incontáveis. de modo a incluí-lo em seu projeto de nacionalização e centralização de todos os tipos e níveis de ensino no país. Todas essas considerações. 49 . parti de Gramsci para introduzir um dos mais evidentes exemplos do processo até aqui considerado: as transformações sofridas pela Educação Rural brasileira. pela presença de inúmeras agências. atravessando a própria ossatura do Estado restrito. p. Entretanto. consistiu em ratificar o ensino secundário enquanto formador das “elites condutoras do país” e o profissional como preparador do “povo conduzido”. os especialistas do Ministério da Educação argumentavam que as escolas do campo deveriam afastar-se do ensino vocacional. mormente após a institucionalização da problemática mediante a criação. nem sequer 1930 deve figurar como “marco canônico” na redefinição dos rumos da Educação brasileira. E um dos “pomos da discórdia” era o controle sobre a Educação Rural. do que de rupturas. Com isso. São Paulo: Hucitec. nem tampouco limitar-se apenas à História presente do país. a despeito de toda uma retórica em contrário. Educação Rural: Rumos e Metamorfoses Conflitos Intra-estatais e Educação para o Campo Até os anos 1930. Por isso.

por Capanema. junto ao Ministério da Agricultura.Até então. 1941.I. Revista da CNER. tendo por meta “instalar 10. 1943. Ademais. 23. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura/Ministério da Agricultura. originando a “Comissão Brasileiro-Americana de Educação das Populações Rurais” (CBAR). o decreto-lei n. posto visar basicamente a operários e trabalhadores urbanos.o funcionamento de três tipos de cursos: a) o Ensino Agrícola Básico – com três anos de duração e destinado a formar capatazes a partir de clientela composta por jovens a partir de 14 anos.A. p. do qual resultou a assinatura do primeiro tratado firmado entre governantes daquele o país e a Pasta da Produção. a partir de 1942. Os novos estabelecimentos de Educação Rural perdiam. Rio de Janeiro: INEP. uma inovação com relação ao período anterior. sequer seriam bafejados pelas insistentes campanhas de desanalfabetização promovidas pela Pasta da Educação. o segundo acordo de “cooperação técnica” no âmbito da Educação Rural. Tal brecha para a redefinição do Ensino Agrícola no rumo prioritário da capacitação do trabalhador rural adulto provocaria a reação dos “educadores profissionais” aparelhados junto ao MES que. Apolônio. 314. produzida pelos discursos/práticas desenvolvimentistas. em todo o país. destinadas a adolescentes e adultos 14 analfabetos” . estados. preparando “trabalhadores rurais” selecionados a partir de um público integrado por crianças com mais de 12 anos e c) os Cursos de Adaptação – esses. por certo. financiada com recursos da União.32. de Nelson Rockfeller – pelos “problemas” do então recém-construído “Terceiro Mundo”. originando o Serviço de Assistência ao Menor (SAM). todavia. seria limitado. 12 Idem.a serem especializados nos Estados Unidos – e de “líderes rurais”. era a de que se estaria “procurando corrigir o erro de se supor que só devem ser objeto da obra educativa os que se encontram ainda em idade propriamente escolar. cujos primeiros elaboradores enfatizavam não apenas o crescimento econômico. Muitos dos antigos Patronatos haviam sido transferidos para a alçada do Ministério da Justiça. em detrimento de uma suposta “profissionalização”. fixando-os a seu “próprio meio”16.. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do Ministério. distribui pequeníssimos auxílios para algumas escolas de agricultura”15 A disputa Ministério da Agricultura versus Ministério da Educação adquiriria novos e mais conflitivos contornos a partir do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Grande Guerra. Justamente por isso. 11 SALLES. II.979. as práticas educacionais do Ministério da Agricultura ainda se destinavam. 13 Tal inflexão não pode ser desatrelada da atuação no país da primeira de uma série de Comissões Brasileiro-Americanas. além da formação continuada de técnicos . Ministério da Agricultura As Atividades do Ministério da Agricultura em 1942. 16 A formação dessas lideranças se faria por intermédio dos Centros de Treinamento de Líderes Rurais. a Campanha de Educação de Adultos. p. Os intelectuais da SNA. assim. 1945. Já os Aprendizados seriam reclassificados segundo nova tipologia que previa .Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Antes disso. p. o Brasil. sim.10 . Em contrapartida. Grifos na fonte. Ta l e x p e r i ê n c i a f o i . desenvolver a “capacidade de liderança das moças das zonas rurais” e “desenvolver a personalidade das moças rurais melhorando seus conhecimentos básicos”. formada em 1942. predominantemente. BRASIL. originando à já citada Comissão Brasileiro-Americana para a Produção de Gêneros Alimentícios. com vistas a maximizar a produção e exportação dos gêneros alimentícios brasileiros. BRASIL. nele incluindo-se.até a aprovação da Lei Orgânica do Ensino Agrícola10 . mantendo-se seu caráter de “escola de trabalho”11 . 132. à formação de jovens e crianças. posto não mais direcionarem-se a crianças e jovens. por sua vez reclamariam da escassa colaboração do MES que “através do Conselho Nacional de Serviço Social. ainda que o titular da Pasta insistisse em reivindicar para ela o 10 A LOEA foi promulgada pelo Ministério da Educação e Saúde. vol. contaria ainda com 25% das verbas provenientes do Fundo Nacional de Ensino Primário.para infância e juventude. já havia redefinido as instituições encarregadas do Ensino Agrícola. 1947. porém. Desde inícios da década de 1940 observa-se a intensificação do interesse de instituições privadas estadunidenses – como a Inter-American Affairs Association. O alcance da Campanha. a mentalidade e hábitos das populações rurais”. por sua vez hegemonizada pela emergência de um novo construto: o “desenvolvimento”. 1953. criado em 1942. Atividades do Ministério da Agricultura entre 1936-1940.concebidos no mesmo espírito dos Cursos de Adaptação e destinados exclusivamente a adultos13.000 classes de ensino supletivo. 33. os novos cursos organizavam-se a qualquer época do ano12. em contrapartida. 328. através da ação de seus líderes naturais. p. mas sim ao chamado “trabalhador em geral”. Rio de Janeiro: S. via de regra adulto e “sem qualquer diploma ou qualificação profissional prévia”. o Ministério da Agricultura implantaria. O Ministério da Agricultura no Governo Getulio Vargas (1930-1944). p. outro tipo de cursos – os Supletivos . sobredeterminada pela conjuntura internacional inaugurada com o fim da II Guerra e inícios da Guerra Fria. no entanto.e de Clubes Agrícolas Escolares. de 1933. Ministério da Agricultura. mas também a distribuição dos supostos Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. desprezando-se todos aqueles que não tiveram oportunidade de freqüentar escolas ou a elas não podem voltar para cursos regulares”. No entanto. 327. em inícios de 1945. seu cunho semi-prisional. no caso a de “Produção de Gêneros de Primeira Necessidade”. p. para enfrentar a concorrência movida por esta. Estado e Educação. territórios e Distrito Federal. no ano de 1946. de cujas finalidades constava contribuir para “modificar. A justificativa oficial. 15 14 . Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do Ministério. s e m d ú v i d a . b) o Ensino Rural – com duração de dois anos e totalmente baseado em aulas práticas. lançariam uma espécie de resposta. Dentre suas atribuições figuravam a implantação de Centros de Treinamento (CTs) – destinados a “qualificar” somente trabalhadores rurais adultos . Junto a ele gestava-se a noção de Terceiro Mundo. controle sobre todas as instituições de ensino do país. a partir de um programa educativo teoricamente capaz de incutir nos trabalhadores do campo o “amor a terra e ao trabalho”. Em 1945 é firmado entre o Ministério da Agricultura e uma agência privada norteamericana. Imperialismo.

em paralelo às instituições escolares agrícolas do MA. era central para a rivalidade entre as superpotências e a possível confrontação nuclear”19.4. em larga escala. resultando em novas estratégias para lidar com o “novo” problema. O discurso do desenvolvimento. J. 1976. todo um novo domínio de conhecimentos e experiências estava em gestação.A. Saber e Poder. New Jersey: Princeton University Press. já que a necessidade de expansão/aprofundamento de mercados externos para seus produtos e a busca de novas áreas para investimento de seus capitais excedentes fazia-se premente. no Brasil. p. etc. Semelhantes novidades. Inter-American Beginnings of U. celeremente.História & Luta de Classes. – garantidoras da necessidade permanente de reformas. BRASIL. pontas-de-lança do Crédito Rural Supervisionado distinguir-se-iam do crédito comercial por sua “extrema Id. bem como de uma representação infantilizada da América Latina. mormente aqueles relativos ao papel dos intelectuais. Encountering Development – the Making and Unmaking of the Third World. 1995. pela atuação dos Extensionistas Rurais. a partir de fins da II Guerra. encontrando-se. este ramo educacional da rede primária regular. Os objetos com que o desenvolvimento começou a lidar eram numerosos e variados. longe de ser periférico. p. falar do desenvolvimento enquanto experiência histórica singular remete à criação de todo um novo domínio de pensamento e de ação. elaboravam teorias. economistas. Manuel. calcadas na proliferação das “ciências do desenvolvimento” e suas “sub-disciplinas”.: US Department of State. até as práticas ESPINOSA.I.. transformando os pobres em objetos de Conhecimento e Gestão. sobremodo. educadores. parcerias de assistência técnico-financeira com órgãos públicos e privados de Crédito Rural. mantendo-o sob a tutela da Pasta da Agricultura. regiões e países visitados. denominados de “novos especialistas”. nutricionistas. ademais. para onde quer que se olhasse. agrônomos. pelo Ministério da Educação. uma espécie de “álibi” tanto para a elaboração de “teorias da salvação”. estruturado em torno a três eixos: a) as formas de conhecimento a ele referidas e pelas quais adquiriria existência através de projetos. desde fins da década de 1940. Bureau of Educational and Cultural Affairs. O Ministério da Agricultura a Serviço do Desenvolvimento. parecia impossível aos intelectuais estadunidenses conceituar a realidade social em outros termos.o “analfabeto”. Arturo. alijaria. essas estratégias se tornaram uma poderosa força junto ao Terceiro Mundo. se respaldaria num aparato institucional extremamente eficiente. p. 20 19 . alguns argumentos de autoridade foram operados. geógrafos. Afinal. da Lei Orgânica do Ensino Agrícola. multiplicando seu corpo de especialistas e consolidando o que convencionou denominar de “ação educativa de novo tipo”.C. todavia. 145. entre 1945 e 1955. Segundo Escobar. a insuficiência de tecnologia e de capitais. fruto de um conjunto de afirmações sobre o desenvolvimento e seu contrário – o subdesenvolvimento – que autorizavam visões plurais. etc. Dentre essas novas práticas destacaram-se as Semanas Ruralistas (com forte apoio da Igreja). 18 ESCOBAR. etc. muito embora coubesse ao MES a prerrogativa exclusiva de estipular suas diretrizes nacionais. O ano de 1946 foi decisivo para a consagração. a hegemonia internacional estadunidense faria com que a guerra contra a pobreza – igualmente “recém-descoberta” . aparato este integrado pelas mais distintas agências e agentes que. bem como atitudes culturais associadas ao “atraso”. Para que os agentes pudessem identificar seus novos objetos de estudo. todo um conjunto de agências e práticas de Extensão Rural visando difundir. Nº 7. destinado à produção de conhecimentos e ao exercício de poder sobre o “Terceiro Mundo”. o que impõe concordar com afirmativas segundo as quais “o Terceiro Mundo. antes de tudo para que o país possa ser mais coeso e solidário”20. Dessa feita. mas transformar as sociedades. Os anos 1950 assistiriam à consolidação da hegemonia estadunidense junto a todo o Ocidente. com vistas a “combater o marginalismo e educar os adultos. À época. o crescimento da economia norteamericana ainda dependia de matérias-primas baratas enquanto suportes para a crescente capacidade de suas indústrias. 37.. sobretudo. Cultural Diplomacy (1936 – 1948). O aparato do desenvolvimento hipertrofiava-se. A partir daí consagrouse a possibilidade de inflexão categórica nas práticas da Educação Rural destinadas à qualificação da força de trabalho no campo.. Em verdade. da Educação Rural enquanto ramo “especial” e hieraquizante de Ensino – escola para o trabalho – marcado pela subalternidade daqueles por ele formados. incluindo desde a pobreza. O discurso do desenvolvimento. 1959. Rapidamente. Julho 2009 (7-12) .adquirisse relevo visando. Sempre sob a assessoria e treinamento de técnicos norte-americanos implementou-se. definitivamente. segundo o discurso oficial . 17 agrícolas “arcaicas”. a realidade onipresente do 17 desenvolvimento . No. tipos de sementes. não cessaram de produzir novos arranjos entre Estado. 123. o “subdesenvolvido”. 2. quanto para intervenções pragmáticas dos intelectuais-especialistas. não apenas criar novos consumidores. juntamente com dossiês completos sobre as cidades.Washington D. a realidade histórica mundial seria “colonizada” pelo discurso do desenvolvimento. bem mais amplo do que a escola. as Missões Rurais e os já citados Clubes Agrícolas Escolares proliferando. Partindo dos EEUU e da Europa. Com isso. conhecimentos sobre técnicas de cultivo.e marcadas. S. Ministério da Agricultura. A aprovação. procederia através da criação de “anomalias” . grifos no original. sob a capa “missionária” da “difusão do princípio de desenvolvimento comunitário”. Rio de Janeiro: S. fazendo com que “as representações tornadas dominantes não apenas moldassem os caminhos nos quais a própria realidade era imaginada. descrevendo-o e prescrevendo-o.11 benefícios por ele gerados. igualmente. o “pequeno lavrador”. Centros de Treinamento e. como também atuassem junto a ela”18. p. b) o sistema de poder que regulava suas práticas e c) as formas de subjetividade por ele forjadas e através das quais os indivíduos se reconheceriam como “desenvolvidos” ou “subdesenvolvidos”.

O Extensionismo Rural praticado pelas agências de desenvolvimento – dentre as quais algumas ligadas ao próprio Ministério da Agricultura21 . percebe-se que noções como “desenvolvimento”. 160. através da vulgarização dos códigos e visões de mundo transmitidos por intelectuais estadunidenses e consagrar a Assistência Técnica e Financeira enquanto “modalidade de ação educativa” por excelência. já que o crédito agrícola convencional não fora capaz de dotar seus usuários dos novos saberes e tecnologias necessários ao desenvolvimento do campo.brasileiros. resultando no fortalecimento de inúmeras agências produtoras de novos intelectuais-especialistas e novas exigências econômicas impostas sob a pecha da modernidade. de seus conhecimentos e de sua própria identidade. tornava-se aceita pelos grupos dominantes latinos e brasileiros. de 1953. eles não devem ser percebidos como depositórios de “tradições”. além de expropriar os trabalhadores rurais de seus saberes próprios. por exemplo. Impossível não relacionar semelhante redefinição ao contexto marcado pela germinação. reproduziram-se no país paradigmas importados que. destinada a maximizar a produtividade do trabalho agrícola.agrários e industriais . 22 CARNOY. As considerações aqui tecidas visaram apenas “levantar o véu” da desnaturalização necessária e. parte da explicação do êxito desses novos conceitos e ações prende-se ao fato de ser a Educação um importante instrumento da expansão do Imperialismo que. submetiam-se os trabalhadores do campo a inúmeras intervenções “pedagógicas”. de inúmeros movimentos sociais rurais. Somente o aprofundamento de pesquisas sobre todo o conjunto de agências imbricadas a tal processo poderá contribuir para desconstruir semelhantes conceitos. 1974. New York: Longman. defendendo uma política “educacional” destinada à qualificação de mão-de-obra adulta e totalmente desvinculada da instituição escolar. como também tratou de adestrar esses trabalhadores triplamente expropriados: de sua terra. para o âmbito de uma reeditada dicotomia entre “arcaicos” versus “modernos”. ainda em voga em nossos dias. Entretanto. então. não somente ressignificou a noção de Educação Agrícola. Neste sentido. Com tal pano de fundo. Martin. 21 Dentre essas novas agências destacaram-se o Serviço Social Rural. Em verdade. como as Ligas Camponesas. presidido pelo Saber e a Técnica norte-americana. quanto para inflacionar as importações brasileiras de máquinas e insumos agrícolas estadunidenses. A redefinição pautada pelas então chamadas “novas modalidades educativas” adequou-se aos interesses dos grupos dominantes . os grupos no poder canalizaram esforços para preservar a subalternidade do trabalhador rural . Não somente o trabalho do homem adulto e analfabeto. À guisa de conclusão O discurso e as práticas do desenvolvimento instituíram-se em operadores centrais das políticas de representação e identidade na maior parte do Terceiro Mundo no Pós-II Guerra. nos moldes pregados pelos intelectuais e técnicos brasileiros e estadunidenses. a Extensão Rural e seus correlatos visavam a um duplo objetivo: promover o disciplinamento coletivo. a Economia Doméstica – e das crianças. haja vista o processo em curso de substituir a Escola pelo Extensionismo. por seu intermédio.12 . coparticipes do deslocamento dos conflitos de classe da cena real.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana preocupação com a integração dos agricultores à economia moderna”. Education as Cultural Imperialism. Para legitimar a ressignificação em curso no próprio conceito de Educação Rural. preservando a estrutura fundiária e minimizando potenciais conflitos de classe no campo22. p. por certo não se está diante do trabalho enquanto princípio educativo integral – tal como o defendia Gramsci – mas sim da Educação como instrumento da maximização da produtividade do trabalhador rural e da segmentação cultural. . “cooperação técnica” ou “elevação do nível de vida das massas”. Através do fornecimento de conhecimento “especializado”. tornaram-nos alvos fáceis da disciplinarização pelo capital. efetivamente educativas. política pública de âmbito nacional. mantendo-os atrelados a uma agricultura “atrasada” e “arcaica”. muito distantes das práticas. Entretanto. posto que muitas delas eram recentes. no país. o Extensionismo Rural. dirigido à vulgarização de um dado padrão de consumo. mas também das mulheres – daí o surgimento de nova “disciplina do desenvolvimento”. dentre outras. alocando sua funcionalidade na noção de “racionalidade”. criado em 1955 e o próprio Escritório Técnico de Agricultura Brasileiro-Americano. tornaram-se instrumentais tanto para construir alteridades inferiores e “carentes”.passaria então a conotar todos os produtores dotados de alguma qualificação para o trabalho. destinado a trabalhadores adultos. Sob tal concepção instrumental das práticas educacionais. A influencia estadunidense tornava-se.

PIRES. sua obra. autor de uma obra de cunho laudatório sobre Mariano Procópio. 1976. pp. que em janeiro de 1869 nomeou-o pra diretor da Estrada de Ferro D. 28-35 e 46-47. por outro lado. pp. assim como a ação do Estado imperial em relação à CUI pareceram-nos bastante distintas dos conselhos dado à princesa. D. em seguida. de intensa circulação de mercadorias e acumulação de capitais3. no perdão da dívida de 200:000$000 que a empresa tinha com a Repartição Geral de Terras Públicas e a transferência para o governo de compromissos financeiros. com destaque. **Mestre em História Social pela UFF. com banqueiros ingleses e companhias nacionais. 2007. 1991. Nº 7. Mauá 2 STEHLING. Industrialização de Juiz de Fora (1850-1930). Isto porque. em Juiz de Fora. capitaneada pela Estrada de Ferro Leopoldina. outros quatro ramais (Posse-Aparecida. FUNALFA. A constituição de um sistema viário tecnologicamente avançado para a época e que possibilitou uma interligação eficaz entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro. As relações entre o monarca e Mariano Procópio. foi construída entre 1855 e 1861 pela CUI. aguardam ainda um estudo mais criterioso e aprofundado. D. p.266:342$660. ou seja. que não podem ser reduzidas apenas aos fortes vínculos de seu presidente com o monarca. como um dos mais importantes entrepostos comerciais do estado. cargo que ocupará até a sua morte. pp. Juiz de Fora. o processo de sua encampação pelo Estado. nos últimos três decênios do século XIX. Mariano Procópio continuou sendo prestigiado pelo imperador. inúmeras atividades manufatureiras. detentor de uma concessão imperial para manter e explorar a estrada durante meio século – o que não ocorreu de fato. Dentre os eventos da breve trajetória da CUI que exigem uma adequada investigação histórica figura. pelos 14. durante quase todo esse período. Ainda assim. com 264 quilômetros de caminhos vicinais interligando aquela estrada-tronco às mais importantes áreas cafeeiras do Vale do Paraíba Fluminense e da Zona da Mata mineira. a CUI construiu também. Op.5 Km de trilhos da E. Wilson de L. tal centro urbano passou a aglutinar grandes interesses. pp. 1987. 6 BASTOS.. que implicou. 60-62. F. com seus vários ramais. p. 121-145. Em suas instruções à princesa Isabel. Maria C. desde meados da década de 1860. 5 CARVALHO. José M. A construção da rodovia. pois por volta de 1879 a CUI entrou em processo de falência. 89. Dissertação de Mestrado. criada em 1853 pelo cafeicultor Mariano Procópio. cit. entre outras coisas.24.110-113 e GIROLETTI. genealogia. a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Dom Pedro II e o estabelecimento de uma malha ferroviária na Zona da Mata mineira. pp. Juiz de Fora. 133137. até 1868. Belo Horizonte. Pedro II não se encontra excessivamente contagiada de anacronismo. 1979. Cabe perguntar se o entendimento histórico acerca da forma de governo de D. Oeste. três anos depois4.História & Luta de Classes. ligando Juiz de Fora à Petrópolis1. Pedro II. parte significativa dos produtos exportados e importados por diversas regiões de Minas Gerais (Centro. a Companhia União e Indústria e os alemães. contribuíram também para que Juiz de Fora se configurasse. Julho 2009 (13-18) . São Paulo: Companhia das Letras. A Luís Eduardo de Oliveira* Fernando Gaudereto Lamas* As relações mantidas entre a CUI e altas autoridades imperiais. permitindo que nela se desenvolvesse um vigoroso comércio varejista e atacadista e. Tais fatos entram em choque com a visão propalada a respeito do monarca. Como consequência. *Doutorando em História Social na UFF e Professor no Instituto Superior de Educação Carlos Chagas. Além dos 144 quilômetros macadamizados e carroçáveis da Rodovia. Cit. Op. D. em 1864. Mariano Procópio Ferreira Lage: sua vida. Juiz de Fora: Paraibuna. Pedro II aconselha “não indicar pessoas para cargos ou graças aos ministros exceto em circunstâncias muito especiais de maior proveito público”5. Juiz de Fora. EDUFJF. O papel da mão-de-obra escrava na construção da União & Indústria De acordo com Wilson de Lima Bastos. Pedro II. Serraria-Mar de Espanha. a de que ele sempre manteve uma respeitosa distância entre seus amigos e os negócios do Estado. As Vicissitudes da Industrialização Periférica: o caso de Juiz de Fora (1930-1970). constitui um marco fundamental para o incremento e diversificação da população e das atividades urbanas daquele município nas décadas 1860 e 70. ao mesmo tempo. Paraibuna-Flores e Juiz de Fora-Ubá). a construção da rodovia iniciou-se em 18566 e só tomou impulso no ano de 1858 com a chegada dos imigrantes 3 PAULA. da ordem de 8. UFMG. sua descendência. 4 BASTOS. parte do Sul e da Zona da Mata) e de Goiás tinha que passar pela cidade. 1 Desse ponto para os portos do Rio de Janeiro a viagem continuava pela antiga estrada da serra da Estrela e. tornando-se a partir de então palco de vultosos negócios.13 Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria rodovia União & Indústria e seu impacto para a economia regional A Rodovia União e Indústria. levando a um relativo abandono daquela primeira via e seus diversos ramais2. Luiz José. ..

Viagem ao Brasil (1865-1866).wp/wp12. a companhia empregava 2. cativa e livre. paga “por terceiros”. sem. Dissertação de Mestrado. em benefício do escravo Jorge Carneiro dos Santos. A partir de 1860. de acordo 11 com Birchal. 10 Com base nos relatórios das assembléias gerais de acionistas da CUI dos anos de 1856 e 1857.br. 144-145. Brasília.. sírios. 1998. (. tal regra foi ignorada.14 . p. O mercado de trabalho mineiro no século XIX. (. pp. pp. cit. marceneiro.pdf. com o término das obras da Rodovia. 96 eram empregados como pedreiros.) permaneceu atual através das comemorações de efemérides locais como a festa dos 150 anos da cidade. 29-31. Francisco Foot e LEONARDI... etc. 2000. 800 eram escravos. entre elas. houve uma sensível diminuição do número de operários a serviço da CUI. cit. num total de cerca de dois mil escravos... . em geral. do P. Na verdade. 1985. A 7 OBERACKER JÚNIOR. 2º ed. Birchal produziu uma descrição ainda mais abrangente do conjunto da força de trabalho. Rio de Janeiro: Presença. Segundo Lacerda: “Este cativo. Como atestam os relatos coevos e os dados reunidos por diferentes pesquisadores. de fazendeiros da região e de alguns dos principais acionistas da CUI. 10. contudo precisar a quantidade7. A esse respeito. In: Tribuna de Minas. neste caso em associação com artífices e operários livres. Luiz A. Ver STEHLING. cozinheiros etc. cit. pp. (. 91-92 e AGASSIZ. Capturado on-line: 12 jan. em seus empreendimentos rodoviários a CUI não utilizou apenas mão-de-obra livre. Disponível em: http://www. 48 eram empregados na produção de carvão.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria alemães. 2000. pois constataram que “nos trabalhos de certo gênero não se achou meio de substituir essa pobre gente”9. pp. essas datas corroboravam a errônea idéia de que teriam sido estes imigrantes germânicos os únicos responsáveis pela construção da afamada rodovia. tornou-se devedor da quantia de 1:500$000 (um conto e quinhentos mil réis) que lhe fora emprestado para a compra de sua alforria. Giroletti e Birchal. ao menos no tocante aos serviços mais brutos. A dívida seria paga em 30 meses. Op. partir de informações que encontrou nos relatórios das assembléias gerais de acionistas da CUI. Jorge Carneiro iria receber 75$000 (setenta e cinco mil réis) mensais.) Em 1857. Nesta festa foi lançado por um jornal local um pequeno caderno onde se contou a história dos imigrantes e excluiu a fundamental participação da mão-de-obra escrava8. 900 escravos que constituíam quase 82% da força de trabalho total. Juiz de Fora. Dissertação de Mestrado. pp. pp. parte significativa destes cativos atuou na construção dos trechos daquela estrada que não apenas cortaram como também redefiniram importantes áreas do núcleo central e dos arrabaldes de Juiz de Fora. Em 1855.ibmecmg. Deste número. porém. pp. Nossa pesquisa mostrou que a partir do final do 12 Entre 1857 e 1859 o número total de trabalhadores livres e escravos empregados pela CUI saltou de cerca de 1. Dos 900 escravos. alugados de seus acionistas ou das companhias inglesas de mineração de Cocais e de Congo Soco e de fazendeiros das regiões cortadas por aquela via10. Op. 72-74 e 111. 14 LACERDA. In História Econômica & História da Empresa. o mito de que a história de Juiz de Fora se fez exclusivamente através da contribuição de imigrantes (alemães. com trabalhos de marcenaria efetuados nas oficinas da Companhia União & Indústria. Elizabeth Agassiz. É possível inferir que mesmo na operação das grandes oficinas que instalou nas imediações da Estação Rio Novo. 70%. Victor. 1982. 19-21. antigas senzalas. como obrigava o contrato que firmou com o governo imperial e sugerem ainda hoje certos estudiosos da história local. Hucitec.).. ano em que se iniciaram os trabalhos de abertura da Rodovia. primeiro complexo manufator a ser estruturado naquele município mineiro.. 2.636 trabalhadores: 1. Birchal concluiu que os escravos empregados pela empresa provinham de outras companhias. A preservação do patrimônio histórico de Juiz de Fora. 2006. já que em seu estudo Bastos não mencionou a utilização de escravos no período 1856-58. libaneses. 2002. cit. ceaee.. Ver BIRCHAL. Senado Federal. Luís e AGASSIZ. pp.) Em 1858. Niterói. o naturalista Louis Agassiz e sua esposa. A contribuição teuta à formação da nação brasileira Vol. 63-65 e BIRCHAL. Para uma crítica desta visão cf. a CUI empregou entre 515 e 818 escravos . 80-83. como enfatizam Stheling. São Paulo. como demonstra também uma outra evidência concreta sobre o uso de trabalhadores escravizados. Carlos Oberacker Júnior afirmou que houve participação de escravos na construção da rodovia.. GIROLETTI.. um município cafeeiro em expansão (Zona da Mata de Minas Gerais. no entanto. D. apesar de enfatizarem no seu livro Viagem ao Brasil (1865-1866) que normas contratuais proibiam expressamente o emprego de escravos na construção da rodovia que ligava Juiz de Fora a Petrópolis. cit. pp. os 756 restantes trabalhavam na construção e manutenção da rodovia. Juiz de Fora: Esdeva. Carlos H.102 pessoas. Op. Porém. PJF / IPLAN. mas não há informação acerca do total de trabalhadores empregados. Op. 9 HARDMAN. Possivelmente. passada no Cartório do 1º Ofício de Notas da cidade em 18 de janeiro de 1869.500 indivíduos. 08-12.) Os outros 1. é razoável supor que a mão-de-obra escrava representava uma grande parcela”12. Um correr de casas. 11 BIRCHAL. podendo retirar 25$000 (vinte e cinco mil réis) mensais para suas despesas e utilizando o restante para amortizar o débito”14.000 para 3. 1844-88. Luiz F. SARAIVA. e como seus assistentes e aprendizes. italianos. UFF. em especial.º01. Niterói: UFF. que essa empresa recrutou no período de maior intensidade de suas atividades. Segundo Birchal: “A companhia empregava 1.136 eram empregados na seção da rodovia entre Juiz de Fora e Paraíba (do Sul). Os padrões das alforrias em Juiz de Fora. portugueses.. nas várias oficinas e seções da estrada. p. A evidência em questão refere-se à compra de uma carta de alforria.500 eram empregados na seção entre Petrópolis e Paraíba do Sul. Elizabeth Cary.. Antonio H. havia 804 escravos trabalhando para a companhia.13 a CUI não prescindiu do braço servil. realizadas entre 1856 e 1866.. na prática. 297. 8 Imigrantes: 150 anos Juiz de Fora. Op. 10-11. n. nas atividades manufatureiras desenvolvidas localmente na década de 1860. Logo. isto é. entre 70% e 80% da força de trabalho dos serviços de abertura da principal rodovia construída pela CUI compunha-se de cativos. Sérgio de Oliveira. indicaram também que. mas não há informação acerca do status destes trabalhadores (. 13 PASSAGLIA. 2001..

um relatório de Presidente de Província16. o escravo doente não se recuperasse ou o escravo fugido não fosse encontrado. Gorender. particularmente da economia juizforana. J. incluindo seus distritos e Barbacena. A utilização de escravos em obras públicas era vetada por lei. Mariano Procópio iniciou a prática ilegal de alugar escravos para a obra em questão. 17 AHCJF. 08 e 30. ao analisarmos a documentação cartorária sob custódia do Arquivo Histórico do Município de Juiz de Fora. 1855. Mariano Procópio alugou uma quantidade considerável de escravos pertencentes a proprietários de Juiz de Fora. 19 18 GIROLETTI. não conseguiu encontrar a origem dos escravos locais alugados por Mariano Procópio. O pagamento pelo aluguel realizava-se a cada 03 meses e a CUI poderia. p. D. cit. deveria avisar com 30 dias de antecedência ao prazo de reengajamento. 484. Apesar da grandeza dos números acima apresentados.. O escravismo colonial. uma obra pertencente à historiografia tradicional e que citou uma fonte oficial. Nas escrituras de aluguel de escravos realizadas por Mariano Procópio encontramos escravos especializados em serviços como carpintaria e mesmo cozinheiras. A princípio o engajamento deveria ser de apenas 06 meses. Contudo. encontramos nos livros de compra e venda da Comarca de Barbacena dos anos de 1853 a 1855. Op. que Mariano Procópio alugou 119 escravos para a realização das obras. a saber. Julho 2009 (13-18) .1º Ofício de Notas. GIROLETTI. . uma vez que como já foi anteriormente afirmado. 1º Ofício de Notas. A tabela 01 abaixo indica o número de escravos alugados por Mariano Procópio ao longo dos anos de 1855 e 1856. contudo. Belo Horizonte: Itatiaia. 63. porém esta foi claramente burlada por Mariano Procópio. fugisse ou se ferisse a Companhia se responsabilizaria com os gastos. a CUI alugando escravos para trabalhar na construção da dita rodovia. pois reafirma o caráter escravista/exportador da economia matense. podendo ou não ser renovado indefinidamente. Este ponto é de extrema importância. 1984. Livro 2. 1855.22 fato que corrobora a visão de Soares e desmistifica a idéia de que os escravos eram utilizados apenas em serviços brutos. Queremos chamar a atenção para o importante papel exercido pela mão-de-obra escrava para a construção desta rodovia. ao analisar a participação de escravos em atividades tipicamente fabris. Este mesmo autor afirmou que no trecho que liga Juiz de Fora a Paraíba do Sul cerca de 70% dos 1136 trabalhadores eram escravos15. O caso que mais se aproxima do que pretendemos analisar é o emprego de escravos em atividades de caráter industrial. p. cit. A forte presença alemã totalizando 1. se não a única responsável pela construção da rodovia. cit. Esta observação é relevante uma vez que os escravos alugados por Mariano Procópio foram utilizados para a construção de uma rodovia que visava facilitar o escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira para o porto do Rio de Janeiro. 22 AHCJF.História & Luta de Classes. subalocar o escravo para outras pessoas17. As citações foram extraídas do “Álbum do Município de Juiz de Fora” de autoria de Albino Esteves. Os contratos estabelecidos entre a CUI e os proprietários/locatários locais dos escravos baseavam-se essencialmente nos seguintes critérios. 21 GORENDER. 08-09. A quantidade de escravos alugados na região indica que a força de trabalho escrava exerceu um papel fundamental na construção da Rodovia ao longo de todo o Arquivo (. Se após 15 dias. Fls. o uso de escravos em construções de obras públicas foi ainda muito pouco abordado. incluindo mulheres e crianças.. Giroletti. Se a empresa de Mariano Procópio julgasse que o escravo alugado era inválido para o tipo de trabalho a ser exercido. Caixa 1. como locatárias de escravos para a CUI. avisaria ao locatário para tomar as devidas providências e substituir o referido escravo por outro mais apropriado18. continuou a ser apontada como a principal. p.19 tanto especializados quanto sem especialização.193 pessoas. Caso durante o 15 16 contrato o escravo adoecesse. os incluiu no caso mais geral de escravidão urbana. 5º ed. e defendeu que “a escravidão urbana representou. São Paulo: Ática. 92. GORENDER. este era o principal aspecto desta economia no período abordado. apesar de mencionar que este alugou escravos de outras fontes que não as duas empresas inglesas mencionadas. um complemento da escravidão rural”21.Op. em contrapartida. ou seja. contrariando desta forma o consenso entre a historiografia local acerca da não utilização de escravos na construção da rodovia. no livro de escrituras públicas de compra e venda da Comarca do Paraibuna e no livro de escrituras públicas de compra e venda do cartório do Primeiro Ofício de Notas. sempre pelo mesmo prazo. a mãode-obra escrava era vista como perfeitamente adaptada ao trabalho. Caixa 01. a Cocais e a Gongo Seco. Caso o locador optasse por romper o contrato. havia um grande preconceito em relação à mão-de-obra livre nacional. se lhe conviesse. p. Cabe ainda destacar que a utilização de escravos em atividades que não se encaixavam diretamente na produção ou extração de produtos vendáveis no mercado externo se devia basicamente em função da estreiteza do mercado de trabalhadores livres. A utilização de mão-de-obra escrava em atividades díspares da agrário/mineradora de caráter exportador já foi analisada por outros historiadores. fls. Domingos Giroletti localizou duas empresas de mineração inglesas.15 ano de 1854 e ao longo do ano de 1855. Op. Livro 2. 1988. percebida como preguiçosa e inapta ao exercício regular do trabalho. Giroletti afirmou. em todas as formações escravistas. ou proto-industrial. pioneiramente. Nº 7. Além desse fato deve ser ressaltado o aspecto racista. inclusive o industrial20. a historiografia local continuou a aceitar o mito da mão-de-obra livre imigrante. ficando ao encargo deste o tratamento ou recuperação do escravo. 64. Contudo.) Fls. 08-09. Trabalho escravo e capital estrangeiro no Brasil. o locatário seria responsabilizado. 482. 20 LIBBY. p. pois como destacou Libby. ambos referentes aos anos de 1854 a 1856.

ferreiros. mantinha com o monarca brasileiro. Presidente da Mesma Província. ferradores. pedreiros. p.. folheiros. 200 contos de réis antecipados para importação e assentamento de dois mil alemães. arrabaldes dessa cidade. pedreiros. Imigrantes. com salários médios de 2$000 por dia. Conselheiro: Herculano Ferreira Penna. Tais trabalhadores provinham. É possível que além dos fortes vínculos que o presidente da CUI. Livro 2. 26 Juiz de Fora – 150 anos. Pedro II. deve-se levar em conta também o tempo de engajamento dos escravos já que 03 das 10 escrituras alugavam seus escravos pelo tempo de 2 anos enquanto as outras três pelo tempo de 4 anos. com suas respectivas famílias. e conservação da estrada actual do Parahybuna tem exigido constante emprego de não diminuto pessoal (. carpinteiros de carros. relativo ao ano de 1856 confirma que o número de operários especializados alemães contratados inicialmente pela empresa não excedia duas dezenas. Holstein e Baden e pertenciam a distintos segmentos profissionais (agricultores.. fundamentalmente. carroceiros. duas pelo tempo de 5 anos. pp. um valor considerado alto para a época23. cit. esses imigrantes se fixaram no município sob condições bastante diversas daquelas oferecidas. fazia parte ainda um grupo de aproximadamente vinte oficiais de ofício germânicos. não somente aceita como referendada. dos 1. carpinteiros. marceneiros. primeiramente. uma vez que o período – mínimo de 02 e máximo de 05 anos – cobre boa parte do período de construção da Rodovia. além de transporte. em janeiro do ano seguinte29. Ouro Preto. compreendendo a primeira a reparação. Mais adiante. pintores. p. em resumo. contratados em Hamburgo no segundo semestre de 1855 e que chegaram a Juiz de Fora. O aluguel de 25 escravos pertencentes á Jorge Afonso de Golveias.. e por mim examinados em grande parte quando vim da Corte para esta Capital [Ouro Preto]”27. ferreiros. 12. p. Em outros termos.102 homens de que dispunha a CUI em 1856. Mariano Procópio. como explicam Stheling e Giroletti. serralheiros. Op. onde a empresa instalou suas 28 principais oficinas e a sede de sua administração . entre janeiro e agosto de 1858. pelo menos em termos contratuais.).. L. como também para povoarem a colônia agrícola D. 27 Relatório (. Op.. Em duas escrituras. alguns qualificados e possivelmente recrutados nos AHCJF. Mão-de-obra livre nos empreendimentos da CUI: germânicos. mas alguns brasileiros e até mesmo portugueses chegaram a integrar postos-chaves na estrutura hierárquica da CUI. cit.16 . Tais dados permitemnos concluir que o papel da mão-de-obra escrava foi muito relevante. 31 Mais do que garantir a mão-de-obra qualificada e barata que os seus empreendimentos exigiam.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria processo. da Prússia. STEHLING. moradia e alimentação durante todo esse período30. Além do aspecto quantitativo. uma vez que. em sua maioria brasileiros. portugueses e brasileiros.26 logo. Op. 10-12.. alfaiates. fundidores. Cf. 11 e ESPESCHIT. Isto.. Desse contingente de operários não-escravos. p. Op. Relatório que a Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais apresentou na abertura da sessão ordinária de 1856. uma realizada em 21 de janeiro de 1855 e outra realizada em 06 de maio do mesmo ano Mariano Procópio desembolsou 17 contos e 352 mil Réis pelo tempo de 4 anos. Caixa 1. cit. Tratava-se. Daí a necessidade de alugar escravos de um proprietário que residisse próximo às obras. 24 23 .. lhes garantia trabalho durante dois anos. 149-207.). 2. 1995. 12. 6-8 e 19-20. a entrada da CUI no ramo de imigração e colonização visou. ferreiros. funileiros. “o dinheiro existente nos cofres da Repartição Geral de Terras Públicas”. seleiros. carpinteiros.que dispunham de um contrato com a CUI que. pp. 29 O Relatório da Assembléia Geral dos Acionistas da Companhia União e Indústria. 1º Ofício de Notas. Op. entre outros)32. novas levas de imigrantes germânicos foram trazidas a Juiz de Fora. parteiras. relojoeiros. 149-152. cit. além da construção do trecho ligando Juiz de Fora à Petrópolis a reforma do percurso BarbacenaJuiz de Fora. pagos ao final de cada mês. estações e estradas que a CUI construía na região. padeiros. Pelos caminhos do Brasil o que encontrei. 28 No corpo técnico e administrativo da CUI era marcante a presença de estrangeiros. a existência de uma cláusula que vedava (mas que não impediu de fato) o emprego de cativos nas obras contratadas com o Estado tenha contribuído para que a direção daquela companhia conseguisse a rápida liberação de uma considerável soma de dinheiro público para a importação desses colonos alemães31. em sua maioria. 12. sapateiros.. 30 STEHLING. incluindo a fase em que os imigrantes alemães estiveram trabalhando. pintores e oleiros . pp. a utilização de escravos em uma obra pública foi. Cerca de dois anos depois. fls. Como é de notório saber.cit.)”25. pp. 415 e 429-432. os imigrantes alemães chegaram Juiz de Fora apenas no ano de 1858. 32 Idem. organizada com vultosos recursos obtidos por essa empresa junto ao governo imperial. p. 1856.. segeiros. Segundo Birchal. 153-160. encontramos a seguinte constatação: “A reparação. barbeiros. de artífices experientes e de ramos manufatureiros variados mecânicos. residente na vila de Barbacena em maio de 1855 é esclarecido pelo Relatório do Presidente da Província de Minas. Os valores pagos por Mariano Procópio também eram consideráveis. Ver BIRCHAL. aos artífices germânicos que desde janeiro de 1856 viviam e trabalhavam em Juiz de Fora. e conservação da estrada atual desde a ponte do Parahybuna até a Cidade de Barbacena (. desta vez não apenas para trabalharem nas oficinas. Belo Horizonte: Mazza. 25 Relatório (. no caso. pelas autoridades oficiais da Província. do grão-ducado de Hessen. ainda no mesmo relatório lê-se que: “os trabalhos desta companhia executados no anno que decorreo do 1º de fevereiro de 1855. pp. 149-150. Na verdade.)”24. Ver BIRCHAL. quando neste se afirmou o seguinte: “Dividem-se os trabalhos em duas categorias. marceneiros. no mesmo relatório. podemos concluir que o “não diminuto pessoal” referia-se à mão-de-obra escrava alugada aos proprietários locais por Mariano Procópio. pontoneiros. As obras realizadas pela CUI incluíam. 18% ou 202 indivíduos eram artífices e jornaleiros livres. do Tirol.

Embora sejam ainda bastante restritos e fragmentados as dados disponíveis sobre os trabalhadores lusos e brasileiros empregados pela CUI. pp. desde então muitos colonos se recusaram a pagar a dívida que lhe era atribuída pela empresa. Contexto após 1865: uso mais intenso de mãode-obra livre No que se refere especificamente à composição da força de trabalho. mais grave. na cidade ou fora dela33.) Já há muito tempo porém estávamos esperando o pagamento e como ouvimos falar este poderá demorar ainda três meses36. cit. aconselhados pelo diplomata prussiano. Embora se mostrasse otimista em relação à exploração de seu prazo na Colônia D. Pedro II apta ao trabalho. 206-207. Por contrastar em tudo com o que havia sido anteriormente prometido pelos representantes da CUI em Hamburgo. a situação parece ter se invertido por completo. Op. mantinha grande parte dos colonos atada aos ditames da empresa: “De um montante de 73. como evidenciam as jornadas de mais de dez horas diárias que tinham que cumprir os salários baixíssimos que recebiam geralmente com atrasos de até onze meses e com descontos que chegavam à metade do seu valor nominal e a repressão e punição daqueles que ousassem se contrapor a esse quadro de injustiças. Dos salários recebidos por esses operários. Op. como notou o autor. víveres. que trabalhavam então cerca de dez horas por dia em uma pedreira da CUI. crimes e resistência..se constituiu na principal causa de uma tentativa de sublevação na Colônia D. entre as décadas de 1850 e 1860.3 contos em 1870. Pedro II. Deivy F. STEHLING. o colono João Ziegler informou a seus parentes. predominavam os germânicos e lusitanos. grande parte dos imigrantes portugueses e alemães. entretanto. enquanto alguns preferiram ainda se mudar para outras áreas. Esse endividamento.. 06. seriam necessários mais de trinta anos para integralizá-la”. p. ombro-a-ombro. na maior parte do terceiro quartel dos oitocentos. pp.. contra “os maus tratos e as explorações que constatara pessoalmente nas visitas” que realizou. 10-12. 183-208 e FERRÃO. quando estes se empregavam como operários nas oficinas e canteiros de obra da CUI.) não havendo acréscimo de juros por mora. ferramentas. . nos anos posteriores à inauguração da referida malha viária. à citada colônia agrícola. com cativos de todos os tipos35. dando a elas um aspecto ainda 33 STEHLING. ao percorrer pela primeira vez a ligação macadamizada entre Petrópolis e Juiz de Fora. deviam saldar também o valor dos seus respectivos prazos na Colônia D. 34 Entre os artífices e trabalhadores braçais estrangeiros engajados pela CUI. Op. Por outro lado. permeado pelas brutalidades do sistema escravista. segundo cálculos de Giroletti. PPGHIS. e também de seus vários ramais. (. cit. estações e oficinas aproximadamente 70% da população masculina da Colônia D. os artífices não-escravos configuraram-se enquanto maioria apenas em certos serviços especializados. 206-207. há fortes razões para se acreditar que esses operários recebiam os mesmos salários baixos e aviltantes pagos aos colonos germânicos34. Julho 2009 (13-18) . a título de amortização de dívidas. portugueses e brasileiros nos empreendimentos e domínios da CUI.História & Luta de Classes. No regime de trabalho em que esses indivíduos juridicamente livres encontravam-se inseridos.” Esse cotidiano de exploração e miséria. tinham que se submeter a ordenados bem menores. barão de Meusebach. Pedro II. que durante a construção da rodovia que ligava Juiz de Fora a Petrópolis. eram obrigados a labutar. de 1855 a 1861. a exemplo do que ocorria com muitos jornaleiros nacionais livres. neste sentido. 2004. UFRJ. em especial. 306-310. Segundo Stheling. Numa carta de abril de 1862. pp. admitiu estar passando por grandes dificuldades: “Pois estamos agora construindo uma nova casa e há oito meses a Companhia não faz pagamento porque ela está ruim. ou seja.. Pedro II em fins de 1858. cit.8 contos em 1867.17 porque os colonos chegados em 1858. de meados dos anos 1850 até fins da década de 1870. que encarcerou por alguns dias os seus supostos líderes. (. Op. como a edificação de pontes e a operação das estações de muda e carga distribuídas ao longo dessas estradas. muitas práticas características do mundo senhorial se faziam presentes. Conflitos. cerca de um quarto era destinado compulsoriamente à amortização de suas respectivas dívidas com tal firma.. o fato de que nas cidades e fazendas das províncias cafeeiras. não estava muito distante da realidade enfrentada. as péssimas condições de habitação e a escassez de gêneros alimentícios . relatava que metade de seu ordenado era retida mensalmente pela empresa. Rio de Janeiro. em particular. Apesar dessa ameaça de levante ter sido prontamente reprimida pelo destacamento policial local. Em cartas enviadas à Alemanha. além de serem obrigados a reembolsar as despesas com as viagens marítima e terrestre e pagar por outras “antecipações” eventualmente recebidas (moradia. essa realidade degradante – que se tornava mais grave com os constantes atrasos de salários. Mas os brasileiros livres da região eram também uma importante fonte de mão-de-obra qualificada e não qualificada: Ver BIRCHAL. a CUI empregava em suas obras. pp. por conseguinte.. a dívida foi reduzida para 67. sobretudo em função da demanda cada vez maior dos cafeicultores da região por cativos. o clima de tensão não diminuiu. pp.. dentre outras coisas. cit. Cabe lembrar. Op. cit. Em dezembro de 1860. nessa época. de 1$000 em média. pelos operários germânicos. motivando inclusive o protesto formal do representante diplomático do Reino da Prússia no Brasil. pequenos animais de criação)..1 contos de réis.. Nº 7. 35 36 STEHLING. se mantida a média de sua redução anual em 2. Soma-se à estas precárias condições de existência. Com efeito. CARNEIRO.

1956. p. em maior ou menor grau. cit. só se admitem trabalhadores livres (principalmente alemães e portugueses). Op. após ter sido amplamente empregado nas obras de implantação da rede de estradas da CUI.. o trabalho e a produção permaneceram intensos nessas oficinas. op.. além das carroças e diligências que trafegavam 39 pela malha rodoviária sob sua administração . Op. 56. 240-243 e 311-313.. Op.. Deste modo. Pedro II eram franqueados ao tráfego. Esse cuidado em excluir os escravos dos trabalhos públicos (. 63-65 e BIRCHAL Op. etc.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria acompanhando seu marido e outros membros da expedição científica liderada por ele.. que a CUI produzia boa parte do material empregado na edificação e manutenção de suas estações. AGASSIZ & AGASSIZ. pp. sobretudo. seguramente o mais importante da região até o início da década de 1870. pp. Era justamente nesse complexo manufator. Mariano Procópio: trabalhos originais. a escritora norteamericana Elizabeth Agassiz notou que desde 1865. tanto os cativos quanto os indivíduos livres pobres desempenharam. cit. Como sugere o conjunto de informações apresentado até aqui. após períodos de chuvas intensas e entre os meses de maio e outubro. situação que contribuiu decisivamente para a própria falência daquela Companhia.. a direção da CUI procurava se adequar à política imperial de restringir o uso de mancípios em obras e serviços públicos: “Para a conservação das estradas. Op. 144-145. que exigem grande quantidade de trabalhadores constantemente em ação. 38 37 41 BASTOS. papéis fundamentais nesse processo de consolidação e expansão da produção cafeeira na região. . como conseqüência direta da gradativa diminuição do fluxo geral pela Rodovia. jan / mar. (. cit.. o braço servil foi fortemente confinado na lavoura. 80-83 e 93-96. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. pp. Durante toda a década de 1860. Nessa mesma época. Ao que tudo indica. pp.. Op. 42-45 e STEHLING. cabendo quase que exclusivamente a assalariados germânicos. pp.. A presença massiva e diligente desses homens se fazia indispensável. ocorrida por volta de 1879. pp. portugueses e brasileiros a realização dos serviços rotineiros de manutenção da referida malha viária. tendo Cf. PIRES. aquelas antigas instalações manufatureiras foram alienadas para um consórcio integrado por industriais e negociantes radicados no Rio de Janeiro. vinte e poucos anos após terem sido percorridas pelo imperador e por destacados membros das elites locais.18 . 40 ESTEVES. retificando os taludes. 39 STEHLING.. da olaria e da telheira que a CUI mantinha nos arredores de Juiz de Fora.. a CUI necessitou manter numerosas turmas de operários ao longo da extensa malha viária sob sua concessão38. explorando as pedreiras. 244-264. pelo menos. Albino.” em vista o crescimento contínuo verificado no volume de cargas e passageiros transportados pela CUI na sua principal estrada e em seus diversos ramais na região. 10-12. houve a extinção oficial da Colônia D. cobrindo o sulco deixado pelas rodas. entre as décadas de 1850 e 1870. que perdia a sua importância à medida que novos trechos da ferrovia D. que 40 requeriam e recebiam manutenção constante . afastando os escravos das 37 grandes cidades e suas vizinhanças . pp. cit. cit. esses trabalhadores livres foram majoritários também na operação das grandes oficinas. quebrando pedras para o macadame. por exemplo. Pedro II 41. De fato.) para as reparações. cit. quando se processava o escoamento do grosso da produção cafeeira da Zona da Mata mineira para o seu principal porto exportador. Cit. Com efeito. GIROLETTI.) inspira-se na idéia de limitar pouco a pouco o trabalho servil às ocupações agrícolas. a julgar pelo volume total de mercadorias transportadas por essa via durante os seus dez anos iniciais de operação até meados da década de 1870. Rio de Janeiro. Tal complexo manufator só arrefeceu o ritmo de sua movimentação em meados do decênio seguinte.

Ao ser convidado para assumir a Presidência de Honra da ANL. no Rio de Janeiro. O PCB.)”. edição original do jornal do Fundo DOPS. 3. o chefe de polícia do Distrito Federal. que se encontrava fechada desde as greves surgidas entre os têxteis. todos acusados de comunistas. por ideologias avançadas e antagônicas. como o presente. Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora.. então abrigado essencialmente na ANL. APERJ. de 12/02/1935. organizadas pro diversas concepções políticas. sobretudo procurando atingir os movimentos sociais progressistas.. de apreensões e de incertezas. no seu prontuário no Fundo DESPS. Notação 454-1.. em 21 de maio. a organização política e social organizada em todo o país e criada em março de 1935. Setor Prontuários. presos no Rio. e a esquerda. Esta seria uma das últimas medidas do Chefe de Polícia do Rio Grande do Sul. visando também os militares antivarguistas. MCSJHC/RS. Ernani de Oliveira. Porto Alegre.19 o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Diorge Alceno Konrad* m 1935. por continuar na ilegalidade. Porto Alegre. 17/04/1935. Meu desejo sincero é que. MCSJHC/RS. um maior fechamento do regime. C re s c i m e n t o d a A N L e re s t r i ç ã o democrática A restrição das liberdades civil e política. cabe à polícia missão demarcada e notória. proferiu um discurso centrado na manutenção da ordem: “Num momento. Diário de Notícias. chefe de polícia rio-grandense. Na ocasião. 1 Flores da Cunha deu sua principal opinião sobre a LSN em 11/02/1935: “(. Quanto mais procurava se organizar o PCB. Cf. A repressão também decorria do sucesso do comício da ANL que reuniu no Rio de Janeiro mais de seis mil pessoas. 185. No estado. APERJ. Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP. n. Setor Comunismo. aumentava as suas ações visando maior visibilidade política. o temor do PCB de expor os seus principais líderes aumentou. Vargas e seus aliados estavam em luta pela aprovação da Lei de Segurança Nacional (LSN) e. Sua marca nacional era a posição antilatifundiária e antiimperialista. portando material de propaganda. (. 22/05/1935. mas horrorizava-se com qualquer perspectiva de radicalização à esquerda. prevenindo os delitos e assegurando a estabilidade social. demonstrando a continuidade da política policial desenvolvida no estado e de acordo com as medidas repressivas nacionais em curso. . Porto Alegre. Era uma resposta concreta ao crescimento da ANL. expunha-se a riscos maiores diante da repressão policial. Entretanto. 1. ou para a direita na Ação Integralista Brasileira (AIB). mais a repressão recaía sobre os seus militantes. Pasta 4. O fechamento da Federação Operária. ganhava no Rio Grande do Sul o apoio de Flores da Cunha1. metalúrgicos e operários em fábricas de mosaicos. essa lei presida um alto espírito liberal (. Julho 2009 (19-24) . as diretorias dos sindicatos da capital tratavam da reorganização da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS). O novo chefe de polícia do estado. 2 Cf. tendo a frente o Partido Comunista do Brasil (PCB) passara a organizar-se em frente popular propondo reformas radicais no desenvolvimento capitalista no Brasil. dentro da qual seja possível o convívio sereno e tranqüilo da grei humana..) Nunca esteve em meu pensamento dotar o governo de um instrumento de compressão. p. Cinco dias depois foi empossado no cargo Poty Medeiros. Com a LSN. na expansão sadia de toda atividade honesta”3. 5 Cf. na edição de 20/06. órgão do Comitê Central do PCB. dirigindo-se para a esquerda na Aliança Nacional Libertadora (ANL). através da LSN. em janeiro de 1935. A Federação. como se estivesse em Barcelona e não no Rio de Janeiro4. via ANL. 3 Dario Crespo assumiu na Câmara dos Deputados. Cf. 16. pedindo a intervenção de Dario Crespo2. Cf. 4 A carta foi publicada posteriormente em A Classe Operária. MCSJHC/RS. em devassa a casas suspeitas. p. A ANL era a expressão brasileira das frentes populares. resolveu impedir a *Professor Adjunto do Departamento de História e do Mestrado de Integração Latino-Americana da UFSM. No dia 22 de maio. Muitos militares que haviam apoiado o Governo Vargas passaram a chamar o Movimento de 1930 de “revolução traída”. Ao mesmo tempo. a polícia prendeu em torno de vinte pessoas. Comunistas. levando-os à DOPS5..) Sou inteiramente favorável à LSN. a oposição liberal-democrata temia a diminuição das liberdades públicas. 10/04/1935. suas declarações no Diário Carioca. Era um subterfúgio para fugir à ação da polícia comandada por Filinto Muller. em ação. Nº 7. Prestes respondeu em carta para Hercolino Cascardo. em 13 de maio. sacudido por extremismos de toda sorte. resolveu mandar fechar a Federação. p. em que o mundo se contorce. E reabertura da entidade.História & Luta de Classes. ao contrário. Diário de Notícias. visando contrapor-se ao avanço do nazifascismo. o Brasil atravessava uma conjuntura política de radicalização das posições ideológicas. conseqüentemente. quando Dario Crespo. da Inspetoria Regional do Ministério do Trabalho..

a polícia passou a invadir. Em São Paulo. no Teatro São Pedro. 63 – Agildo da Gama Barata Ribeiro. medida que repercutiu com simpatia nos meios políticos rio-grandenses. Correio do Povo. 10 Neste dia. a lista dos seguintes nomes: o capitão Francisco Moésia Rolim. escrito por Renato Lemos. 14/07/1935. Pouco depois a polícia acatou o decreto governamental que também ordenava fechar. Arquivo Nacional (AN). Logo após a divulgação do fechamento da ANL. AN. através de decreto n. Barata fora denunciado em outubro de 1935 por distribuir e assinar o panfleto “Ao Povo de São Leopoldo”. no Rio Grande do Sul. Israel. pois a campanha da “pacificação política rio-grandense” vinha sendo acompanhada de outra “para neutralizar e impedir a expansão das idéias extremistas” e o “perigo comunista”.) ficou restrito ao Rio de Janeiro. defendia a luta direta ou velada contra o comunismo. na primeira página. como tentativa da ANL do Rio Grande do Sul.20 . Processo n. Cf. Vol. hoje. À população ordeira da capital. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Repressão e maior mobilização era o duplo da conjuntura. No dia 25. quando o Diretório Estadual Provisório da ANL do Rio Grande do Sul chamava para o lançamento da entidade. sete meses e quinze dias de prisão. Porto Alegre. indo da palavra a ação”. 2001. p.221. 74. seu presidente Hercolino Cascardo declarou para o jornal A Manhã que desconhecia a medida oficial. ver minha dissertação de mestrado 1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul. 201 – Cícero Carneiro Neiva e outros. 6 . Porto Alegre. em novembro de 1935. a frente de mulheres do PCB. acusando Filinto Müller de “difamar a reputação de milhões de brasileiros dedicados de corpo e alma à libertação de sua pátria”. fechar e lacrar as sedes da entidade. Fundo Tribunal de Segurança Nacional. Sobre a organização. Processo n. todas das sedes da UFB. exercendo também severa vigilância sobre suspeitos de serem comunistas ou anarquistas. visto como a força armada para ali destacada tem ordem de carregar à menor provocação ou grito sedicioso dos comunistas”. conclamava a população de Porto Alegre a não se aproximar do local: “O Jornal da Manhã sente de seu dever avisar a população pacata e ordeira de Porto Alegre que evite. 12 Cf. Alzira de. 528.. BELOCH. fez circular constantes boatos e notícias na imprensa de que o governo tomaria novas providências em relação a medidas repressivas. Uma Frente Parlamentar da Maioria e Minoria para combater os extremismos. p. 1. 1º vol. por falta de provas. no caso em que os extremistas. no dia 21. 1935. Pela atuação específica na ANL do Rio Grande do Sul. sua presença nas proximidades do Teatro São Pedro. MCSJHC/RS. cujo programa próximo ao integralismo. na capital federal. sob o comando de Dom João Becker. 9 Cf. jornal conservador do Rio de Janeiro. principalmente entre republicanos. Enquanto isso. eram listados os militares José de Andrade Leão (de São Leopoldo)7. crescimento. onde se realizará um comício da ANL. Em todo o país. além de maior atuação pública do PCB. As atividades extremistas.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. especialmente p. na Coleção de Leis e Decretos do Estado de São Paulo 1935. Cf. 2ª ed. Negava as acusações de que a ANL era comunista e ameaçava o chefe de polícia de levá-los aos tribunais por aquelas acusações13. Agildo Barata foi processado e condenado em um ano. em maio de 1938 pelo TSN. dizia que Vargas não tomava “nenhuma providência radical contra as idéias subversivas. em 24/06/1937. Rio Grande do Norte e Pernambuco. 11 Ainda em julho. ex-dirigente do núcleo da ANL de Uruguaiana foi denunciado ao TSN. atuação e fechamento da ANL no Rio Grande do Sul. acusados de tentar aliciar as praças do 7º Batalhão de Caçadores do Porto Alegre. No dia 24. a íntegra desse decreto. após terem sido expulsos do Exército. jornal dirigido pelos interesses de Flores da Cunha. com o objetivo de articulação comunista no estado para “secundar o movimento extremista que (. se preciso. no Rio de Janeiro. a 3ª Delegacia Auxiliar de Porto Alegre enviou para a DESPS. 8 O tenente Hugo Silveira. subordinando-a a Secretaria de Superintendência de Ordem Política e Social. por sugestão de Góis Monteiro. juntamente com os tenentes Cícero Carneiro Neiva e Carlindo Gonçalves Lopes. tanto que no dia 25. indicando todo o poder à ANL10. os primeiros-tenentes Felipe Vianna e Prudente de Castro. o capitão Agildo da Gama Barata Ribeiro (VicePresidente da Comissão Provisória da ANL estadual e integrante do 8º Batalhão de Caçadores de São Leopoldo) e. de 5 de julho de 1935. a polícia gaúcha. tratou de intervir nos núcleos aliancistas do Rio Grande do Sul. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. MCSJHC/RS. em ABREU. o governo do estado criou a Polícia Especial. Um dia após o fechamento da Aliança. O alvo era os movimentos sociais e políticos de oposição.). A justificativa foi de que a polícia do estado necessitava de “um aparelhamento de repressão capaz de atuar com presteza e eficácia nos casos de grave perturbação da ordem pública”6. 1199. 1994. 140-317. somente por não ter uma lei onde se basear”9. o Fundo Tribunal de Segurança Nacional. Porto Alegre. marcados pelo anticomunismo11. já se divulgava que Filinto Müller entregara a Vargas um relatório sobre as atividades oposicionistas na capital e nos estados. 1. Jornal da Manhã. Todos eram apontados como integrantes da lista dos oficiais aliancistas do Rio Grande do Sul que lideravam a agremiação. 655. pelo procurador Honorato Himalaia Virgolino. republicanos-liberais e libertadores. Para os integrantes da minoria. 13 Cf. com sete volumes. Dicionário históricobibliográfico brasileiro pós-1930. a Aliança recém estava lançando oficialmente a entidade estadual. Fernando e LAMARÃO. 26/06/1935. 7. Os três oficiais foram absolvidos pelo TSN em outubro de 1938. O manifesto de Prestes foi a justificativa para Vargas determinar o fechamento da ANL. as mulheres aliancistas e antifascistas fundaram a União Feminina do Brasil (UFB). O crescimento aliancista verificado até então fez com que os setores conservadores reagissem a ela. organização que não chegou a completar dois meses de existência. reuniões da maioria com a minoria um entendimento unificava diferentes partidos das classes dominantes brasileiras.. nos finais de junho de 1935. Além destes. Sérgio Tadeu de Niemeyer (Coord. Apelação n. 05/07/1935. 1. Cf. essas declarações no verbete sobre Cascardo. Sílvio Porto Dias (tenente do 7º RCI de Livramento) e Hugo de Souza Silveira (de Uruguaiana)8. Tomo XLV. através do decreto n. Na Câmara dos Deputados. Cf. foi qualificado pelo TSN. onde morava.. a decisão só seria de “combater abertamente o extremismo e apoiar-se na maioria. 1. Esse processo. sob n. O mesmo acontecia nacionalmente. Barata foi acusado de pregar a subversão da ordem social conforme a LSN e diretamente incitar o ódio contra as classes sociais. Porto Alegre: PUC-RS. foi fundada a Ação Social Brasileira (ASB). 246. Apelação n. procurassem “derrubar o regime por meios violentos”12. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV. 7 Ele se filiara ao PCB em fevereiro desse ano. p. Jornal da Manhã. p. Pelo panfleto. 229 de 11 de julho. 1º Semestre. o Correio da Manhã. p. MCSJHC/RS. No mesmo dia. LATTMAN-WELTMAN. A ampliação da organização da ANL e a maior mobilização dos trabalhadores. Mas o motivo esperado por Vargas viria com o Manifesto de Luiz Carlos Prestes.

Combate ao extremismo. chamado pela imprensa de “chefe comunista no estado”. A família de Aparício contratou os advogados Alberto Pasqualini. acusando o PCB de esconder-se através de sua sigla e de estar a serviço de Moscou. distribuiu diversas turmas de investigadores por todos os pontos da Capital Federal. pois as polícias. Apesar de ser uma das principais lideranças antifascistas do estado. 18 Ver Medidas extremistas? e A prisão de dois elementos indesejáveis. a polícia prendeu em flagrante o gráfico Bernardino Garcia nas oficinas da Livraria do Globo. também integrante da direção da ANL17. declarando saber que “desordeiros” pregavam a greve geral entre o operariado “visando perturbar a marcha do trabalho brasileiro”15. que passou a ser 14 Enquanto era fechada no Brasil. Mesmo assim. João Antônio Mesplé. em entrevista coletiva. No dia 17 de julho. Coleção Internacional Comunista. quando distribuía panfletos sobre o fechamento da ANL.. A matéria do Jornal da Manhã esclarece essa posição: “(. Porto Alegre. prendendo vários. os operários do Lanifício Eilet – Armênio e da Estofaria Matarazzo declararam-se em greve parcial. a polícia deteve o médico e escritor. A polícia de Flores da Cunha. convocando manifestações para reforçar a Aliança. porém. 19/07/1935. as circunstâncias da morte de Almeida em BARATA. o PCB programou um mês de protestos por todo o país. criminosa desses elementos que agem a soldo da URSS (. o Boletim de Agitação e Propaganda.História & Luta de Classes. Em seguida. mas nada conseguiram provar. efetiva e eficazmente a ação anarquista. Rio de Janeiro. negando para a polícia “empenho em criar uma situação de embaraço para a coletividade trabalhista do estado. quando se tentava organizar a juventude a favor da ANL. devido à censura comandada pelo governo estadual. especialmente pela seção de Segurança Política e Social. respectivamente. porque a polícia não permitiu o piquete. Pátria. No entanto. essas duas prisões. Dyonélio Machado. Estudantil e Popular. Julho 2009 (19-24) . o intuito era “reforçar o próprio Partido”16. sendo já esperadas pela polícia. ampliava-se em todo o Brasil o discurso contra a ANL. Em 14/10/1935. que tomou as providências para impedir diversos comícios na “Jornada Vermelha Internacional Contra a Guerra Imperialista”. MCSJHC/RS.. prendendoos preventivamente e enviando o caso para a Justiça Federal. 17/07/1935. Liberdade e Família (. a morte de Almeida teve pouca repercussão na imprensa. Em agosto de 1935. depois de ser inquirido pelo delegado Argemiro Cidade. em uma reunião no Sindicato dos Empregados no Comércio. os comunistas mascarados incitam o operariado à greve geral e Pregando a greve geral entre o operariado paulista. ocorrido em Moscou entre a última semana de julho e a primeira de agosto. qualquer tentativa de organizar resistência legal ao fechamento da Aliança. se estendia por todo o Brasil. 12. Visava desencadear greves nas cidades e luta nos campos. suspeita de cometer o crime.. da Comissão de Agitação e Propaganda Nacional. 2ª ed. a referência sobre o Rio Grande do Sul era de que estavam sendo realizados trabalhos de massa. p 3-5.. chamando movimentos para 1º e 23 de agosto. foi encontrado morto em um bar do centro de Porto Alegre com um tiro na cabeça. MCSJHC/RS. Cf. apesar da reação. 1. conclamando os operários a parar o trabalho em protesto. O PCB também procurou reagir. comemorando o primeiro aniversário do Congresso Nacional contra a Guerra e o Fascismo e preparando o Congresso da Juventude Operária. São Paulo: Alfa-Ômega.21 Depois da ilegalidade. visando principalmente às “atividades extremistas”. o anticomunismo se ampliava no Rio Grande do Sul. conclamando os trabalhadores a fazer greve contra o ato arbitrário de Vargas14. O advogado Aparício Córa de Almeida. por motivo do fechamento da ANL. a Chefia de Polícia enquadrou Dyonélio e Bernardino no artigo 19 da LSN. idem. chefe da seção de repressão social e política. No Rio de Janeiro. No dia seguinte ao da prisão de Machado. Estudantil e Proletária. No dia 16.) Chegamos a uma situação em que não é mais possível ter-se a menor contemplação com essa gente”18. principalmente nas minas de carvão e outras. com a tática da ANL ser a “dirigente geral e coordenadora de todas essas lutas” naquela etapa da revolução. 15 Cf. apesar de presidente da ANL no Rio Grande do Sul. Serafim Braga. p. Dyonélio assumiu a responsabilidade. Julho de 1935. Houve pequeno conflito entre os operários que deixaram o trabalho e os que nele permaneceram. Jornal da Manhã. Nesse documento. p. passaram a elaborar planos de ação conjunta. então responsável pela DOPS. aparecia para os setores conservadores como movimentação dos “extremistas”. p. No Rio Grande do Sul não seria diferente. em Porto Alegre. Assim. impetrou hábeas corpus em favor dos detidos. Augusto Moreira Lima e Lúcio Soares Neto para acompanhar o inquérito. tendo conhecimento prévio dos locais escolhidos pelo PCB. Jornal da Manhã. 19/07/1935. através do Órgão da Juventude Popular. A Secretaria de Segurança Pública distribuiu um comunicado à imprensa. Agildo. pois ela seria “o organismo” que iria “ocupar o poder com Prestes à frente. 244-5. Nº 7. Porto Alegre. sociais e econômicos do Rio Grande”. dissolvente. a ANL passou a servir de exemplo das frentes antifascistas. A promessa repressiva de Flores da Cunha. p. as atividades começaram no primeiro dia do mês. levando-a a uma parede prejudicial aos interesses políticos.. advogado criminalista. Ao mesmo tempo. 16 Cf.) Não bastam. a ANL chama a mobilização e o governo aumenta a repressão A ANL tentou resistir ao seu fechamento. tanto do Distrito Federal como dos estados. 17 Aparício Córa de Almeida. decididas como forma de organização prioritárias pelo VII Congresso da IC. sofreriam “guerra sem tréguas do governo”. . no Governo Popular Nacional revolucionário”. constatou que ele havia cometido suicídio brincando com o revólver. no dia 15. Vida de um revolucionário (memórias). a fim de impedir que eles realizassem comícios clandestinos.) para o esmagamento completo dos conceitos de Religião. (. 4 e 6. PCB (Seção da IC). Arquivo Edgard Leuenroth (AEL/UNICAMP). aos 29 anos de idade. era o primeiro secretário da ANL gaúcha e integrante do PCB no Rio Grande do Sul. Flores da Cunha considerou que todos aqueles que no Rio Grande do Sul agissem como Dyonélio. Porém. Cf. colocada em prática no Rio Grande do Sul.... 1978.) somente o fechamento desses núcleos não bastaria para reprimir. Bernardino identificou Dyonélio Machado como o autor dos boletins. Em São Paulo. Em todo o Brasil. ainda não era filiado ao PCB. a polícia invadiu o local. MCSJHC/RS.

A prisão de Garbelotti se deu após o delegado Argemiro Cidade. era feito com os movimentos sociais. Mensagem enviada à Assembléia Legislativa pelo Dr. a polícia do Rio de Janeiro conseguiu impedir a deflagração de uma greve de motoristas. considerando que agiam “atividade subversiva da ordem política e social”. AHRS. mandou prender o capitão Antônio Rollemberg. que centrava os ataques na ANL. por ter elaborado um panfleto contra a LSN. Com a participação na Insurreição de 1935. incurso no artigo 19 da LSN. de 10/12/1935.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. numerosas cartilhas e livros elementares. 309. Cf. Apelação n. primeiro secretário da ANL do Rio Grande do Sul. foram dadas várias batidas depois de denúncias recebidas sobre “atividades extremistas” no local. oito horas de trabalho. Em 14 de outubro. será a força capaz de dirigir o povo e todos os brasileiros serão obrigados a tomar posição clara nos próximos dias a favor ou contra ela. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Em Porto Alegre. Calinik Demianchisk e Alexandre Slinko. além de grande quantidade de material de propaganda. determinou o fechamento por seis meses dos núcleos da “União e Luz Operária Russo-Branca-Ucraniana. Darci Azambuja. Foram apreendidos também um mimeógrafo. a respeito do que será o Governo 21 Dario Garbelotti. descanso semanal e modificação do regime de multas. Biblioteca Nacional (BN/RJ). Durante o inquérito ficou apurado ser Dario Garberlotti “cabeça do movimento que se esboçava”. por este ter assumido a distribuição de panfletos na capital federal. Distribuíam boletins subversivos. MCSJHC/RS. 42 – Antônio Rollemberg e Outros. Setor Prontuários. de 23/12/1935. Cada vez mais a polícia apertava o cerco sobre integrantes do PCB e da ANL. . receber uma denúncia do município de São Jerônimo. em 01/07/1936. quando foi preso tinha apenas 17 anos. retirada de ônibus da Avenida Rio Branco. 15/10/1935. a polícia apreendeu “documentos suspeitos vazados em língua russa”. que “repetidamente era distribuído em ruas daquele distrito entre a classe proletária” e que expressavam a teoria marxista. 19 O anúncio do chefe de polícia foi cumprido. chamava a atenção de Filinto Müller e do Ministro da Justiça Vicente Ráo sobre o capitão e aliancista Trifino Corrêa. Correio do Povo. Porto Alegre: Imprensa Oficial. O Estado de Guerra e a LSN. Enfatizava suas influências sobre investigadores e delegados de polícia. foi recolhido à Casa de Correção21. revelando assim. Durante a batida forem encontrados cerca de sessenta homens e dez mulheres durante uma reunião. chefe de polícia. contraditoriamente dominada pela censura.. a fim de obterem. tendo cassada a sua patente militar em abril de 1936. o jornal A Batalha. P-318. general João Gomes. Justamente com esta receberá as últimas instruções do Diretório Nacional. Fundo Polícia.. onde estavam situadas as minas do “Arroio dos Ratos”. Processo n. o Fundo TSN.. os operários mineiros estavam distribuindo. lhe dando informações sobre a movimentação ilegal da ANL nos estados do Sul. Teobaldo José. A íntegra do decreto pode ser vista em JORGE. 13. Pelo ofício n. mineiro e natural de Santa Catarina. praças da Brigada Militar e agentes da Guarda Civil. 85. Depois de decretada prisão preventiva. AHRS. Resulta da análise aprofundada da situação econômica e política em que nos encontramos. entre outras coisas. o ministro da Guerra. 20 Rollemberg já havia sido peso em março. 1935-1936. em atitude policialesca. p. 1842. Secretário dos Negócios do Interior no exercício do cargo de Governador do Estado. APERJ. que teriam como objetivo “desenvolver idéias comunistas no Rio Grande do Sul”. Marchamos a grandes passos para uma crise durante a qual ninguém poderá ficar neutro. a polícia do Rio Grande do Sul considerou a “Sociedade Luz de Russos Brancos e Ucranianos” como uma entidade que desenvolvia “intensa atividade na propaganda bolchevique” o que justificava o pedido de expulsão do território nacional dos membros da diretoria. os quais reivindicavam abolição das comissões sobre a féria diária. anunciou que os “agitadores estrangeiros que foram detidos” deveriam ser expulsos do país. Cumpriu pena na Casa de Correção até 08/04/1936. Luiz Carlos Prestes escreveu para o major Carlos Costa Leite. a polícia priorizou a atuação no 4º Distrito. a reabertura das sedes da ANL”. com base nos termos do artigo 29 da LSN. livro de matrículas n. Em 26/07. Foi julgado como comunista e condenado a 6 meses de prisão celular em 07/03/1936.172. O mesmo procedimento de vigilância policial. Rio de Janeiro: Borsos e Cia. Ao mesmo tempo. p. apesar de lançada na ilegalidade. Ao tomar conhecimento da delação. a polícia divulgava a prisão de Dario Gaberlotti e Alberto Lukinskas. operários que distribuíam panfletos. ainda no dia primeiro de agosto. A ANL. conduzidas à Chefatura de Polícia. Sub-Série Entrada de Presos. Cf.22 . 90-1. foram expulsos do país Daniel Rapcki. Poty Medeiros. a fim de serem identificadas e prestar declarações. Esta funcionava clandestinamente e quase que exclusivamente com militantes comunistas. encarregado da Ordem Política e Social. por decretos do Ministério da Justiça. foi preso.. em outubro. o delegado imediatamente mandou um investigador a São Jerônimo para apurar as denúncias e efetuar a prisão dos indicados22.. salário mínimo. 22 Cf. que passaram a ser traduzidos pela polícia. A DOPS havia recebido denúncia de que a Sociedade Luz de Russos Brancos e Ucranianos vinha realizando reuniões secretas.) incitando a uma greve geral. Porto Alegre. “os verdadeiros fins daquelas assembléias”. Foi efetuada a prisão de muitas pessoas. Ver Fundo DPS. Série Casa de Correção. assinado por Getúlio Vargas e Vicente Ráo. no dia da morte misteriosa de Aparício Córa de Almeida. Nesse episódio. Assim. chamadas na época de canoas e realizadas com grande aparato. foram chefiadas por vários delegados e pelo comandante interino da Guarda Civil. boletins (. afirmando: Estamos incontestavelmente nas vésperas de grandes acontecimentos em todo o país. 9 (este foi aberto e fechado por Poty Medeiros). No Rio Grande do Sul. principal localização operária da cidade. Teodoro Jasyk.20 integrante aliancista. 1937. para a polícia. Ali. dela participando numerosos investigadores. As diligências efetuadas. Cf. então dirigida por Júlio Barata. 5. p. “entre seus companheiros de trabalho. Notação 1. Ali. Rollemberg foi denunciado no TSN em processo conjunto em 12/07/1937 e julgado em 22/03/1938. André Ckoviescivice. AN. a fim de evitar as manifestações. de acordo com as leis vigentes na época19. No início de agosto. No dia 13 de agosto. o decreto n. 1936. sempre apoiado por boa parte da imprensa carioca. Isto não é simplesmente uma frase como tantas outras que se repetem vagamente.

Porto Alegre. Rio de Janeiro. onde moravam Prestes e Olga Benário. os patrões negavam-se a atender as reivindicações. após a ilegalidade da Aliança. conclamando-o a prosseguir a luta até a vitória da ANL. 118-9. Ver o conteúdo da carta para Costa Leite e o comunicado para Barata em recortes do jornal carioca Diário da Noite de 10 e 11/01/1952. que não fazia apenas reivindicações políticas. publicado o r i g i n a l m e n t e n o P o r t a l Ve r m e l h o . em uma de suas reuniões. Ver a relação de todos os documentos no Fundo DPS. no dia 21. 12. mais breve do que seria de desejar”. 17. Dizia que Komintern estaria “dirigindo a todos os núcleos do mundo uma circular secreta sobre a orientação da campanha vermelha. Manifestaram-se em greve os operários metalúrgicos no Rio. mesmo que essencialmente de caráter econômico. onde respondia ação criminal como incurso na LSN24. MCSJHC/RS. devido a monopolização e concentração de atividades fabris e de outras tecnologias em alguns nichos regionais. era uma obviedade. Nesse mesmo mês. traria a justificativa final e esperada para o governo Vargas. 1. 28 O “representante de Pernambuco”. afirmava para a imprensa acreditar “piamente na vitória do integralismo e. Camisas Verdes. p. prefeito do Distrito Federal. Os integralistas trouxeram para Porto Alegre Gustavo Barroso. curiosamente incluía Getúlio Vargas e Góes Monteiro. provavelmente é uma referência a Silo Meirelles. Por sua vez. não se acomodava tão facilmente.vermelho. Cf. Custódio de. os três membros representantes do Komintern eram Luiz Carlos Prestes. Pela libertação de Dyonélio Machado. e com total liberdade de ação. pela grande desigualdade econômica e social. citava o discurso de Dimitrov e a saudação “quente e vibrante” para Luiz Carlos Prestes para a “elucidação das atividades comunistas no país”.23 Popular Revolucionário. no início de 1935. Nº 7. visando a libertação imediata de Dyonélio Machado. o movimento ainda não tivera “tempo de preparar a mocidade para dirigir o Brasil Novo”26. por um lado. 31. Jornal da Manhã. Ao mesmo tempo. esta lógica de desenvolvimento capitalista expulsou um grande contingente populacional do campo. Por outro lado. então diretor geral do Museu Histórico Nacional e filiado a AIB desde 1933. A agitação comunista no país.org. 2009. O proletariado citadino. O jornal carioca dizia que no Brasil. Notação 451. D i s p o n í v e l e m http://www. A herança colonialista e imperialista mpossibilitou a necessária ampliação do mercado interno e restringiu a possibilidade de amplos empregos. Enumerando os meios de infiltração comunista nas classes armadas e diz que anulada a ANL logo seria substituída por uma “União Brasileira Libertadora”. onde se afirmou: “Nossa vitória é fatal. através de intermediação de Costa Leite. Acesso em 27 mar. respectivamente como o primeiro integralista nacional e um dos próceres políticos que semearam a nacionalidade. do dia 20 de novembro. 8/11/1935. 22/10/1935. APERJ. além de uma significativa reserva de força de trabalho barata. instruções às quais estou de pleno acordo23. abordava a os planos do Komintern para a América do Sul e a “agitação comunista” especialmente para o Brasil. apelando para a liberdade do líder da ANL gaúcha25. . dando a palavra de ordem de combate ao fascismo”. Viveiros. Dimitrov estaria confirmando os esforços conspiradores de Prestes. as greves convocadas pelos líderes da ANL e que não aconteceram em julho. no Fundo DPS. em 2 de agosto. pela dependência às potências estrangeiras e. Pedro Ernesto.asp?texto=3415. Série Dossiês – Revolução de 1935. opinião esta que naquele momento. integrante da Coluna Prestes e o braço direito de Prestes na organização da ANL no Nordeste. MCSJHC/RS. mas talvez custe muito sangue. informandolhe sobre a situação política do Rio Grande do Sul. e um representante de Pernambuco. AEL/UNICAMP. 24 Cf. por outro. a AIB gaúcha organizou seu Congresso Provincial. Julho 2009 (19-24) . enquanto que outras categorias eram convidadas para aderirem ao movimento27. Abordando o VII Congresso da IC. Esta carta caiu sobre o domínio policial quando a casa de Ipanema. César. 27 Cf. José Olympio: 1935. formando uma massa de subassalariados. no Fundo DESPS. como que se previsse ou soubesse de algo para acontecer. pois para ele. a campanha anticomunista continuava em todo o país. Notação 451. Setor Dossiês – Revolução de 1935. No Rio de Janeiro. em 2/08. O sentido histórico da ANL29 Fatores estruturais incidiram sobre a formação do conjunto dos movimentos sócio-políticos brasileiros contemporâneos. Cf. Correio do Povo.História & Luta de Classes. detido desde julho no quartel do 3o Batalhão de Infantaria da Brigada Militar. 21/11/1935. Porto Alegre. chegou a telegrafar para Flores da Cunha. Jornal da Manhã. No início de novembro. p. Focalizando a ANL como núcleo comunista. porém sendo tratadas pelo governo como greves políticas. Prestes escrevera também para Agildo Barata. acabando com os poucos resquícios de liberdades civis que haviam sido conquistados na Constituição de 1934. MCSJHC/RS. APERJ. em colaboração com o Centro de Cultura Moderna. Porto Alegre. enquanto participava do Congresso. 23 O rascunho desse bilhete foi encontrado no cofre “programado” para explodir. anunciava-se a campanha iniciada no Rio de Janeiro pelo Sindicato Médico Brasileiro. 26 Essa certeza de vitória era compartilhada pela maioria dos integralistas da época. Dyonélio Machado escreveu para Prestes. voltaram à cena social. foi descoberta. 25 Essa informação se encontra no seu prontuário. 29 Este item contém extratos ligeiramente modificados do artigo Movimentos sociais e políticos no Brasil Contemporâneo e a eleição de 2006. a decisão da aplicação tática do PCB. marcados. atingindo quase trinta mil trabalhadores. p. VIVEIROS. O. p. infelizmente. com o aumento da miséria. p. O jornalista e integrante da direção nacional da Ação Integralista. Fechava-se o regime de vez. muitas lágrimas e muito luto”. favorecidos pela situação da Itália e da Alemanha. Em relação ao caso. Se os avanços das greves e a criação da ANL serviram de justificativas para o estabelecimento da LSN. quando este estava em Porto Alegre. uma reportagem de A Batalha. Os operários metalúrgicos do Rio de Janeiro declararam-se em parede por motivos salariais.br/base. APERJ. Durante a sua prisão. o periódico alegava que o governo de Getúlio Vargas era fraco e “pouco enérgico na repressão ao comunismo28. Exemplo disso foi um livro publicado na época. Ver idem. Notação 264. Como de praxe. representante dos comunistas de São Paulo. Setor Prontuários.

Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. o que resultou em diversos problemas sociais e precárias condições de alimentação. Mas este processo histórico precisaria outro artigo para ser explicado. havia um reforço da idéia de possibilidade de tomada do poder. 1991. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional marcada pelo desemprego estrutural. diante da crise econômica e social vigente. Muitos segmentos sociais defenderam-se e resistiram. Estado de Sítio. das críticas que Vargas vinha sofrendo da oposição na Câmara Federal e das greves que aparentavam uma determinação crítica do operariado. sob as quais uma conservadora e reacionária classe dominante impediu. como identifica Edgard Carone. a história da luta social tem se contraposto às teses sobre a “índole pacífica” da sociedade brasileira.24 . etc. Ela foi concretizada em novembro. contra a exploração de classe e a opressão semicolonial. sobretudo pela LSN. inclusive pela repressão e pelas ditaduras. visando manter o poder de Estado pelas classes dominantes brasileiras. O resultado desse processo de repressão pelo alto ganhou seu ápice com o Estado Novo. Dentro deste processo de nossa formação econômico-social. Não foi diferente quando a ANL foi organizada e. desde os primeiros momentos foi atacada. seja através de guerras camponesas. . especialmente pelo primeiro30. Muitas das lutas de resistência e por transformação social. moradia. é de se ressaltar que. aprofundamento da LSN. p. São Paulo: Ática. por diversas vezes. criação do Tribunal de Segurança Nacional e da Comissão de Repressão ao Comunismo seriam as formas como o Estado reforçaria suas instituições. Estado de Guerra. 30 Ver Brasil: anos de crise 1930-1944. Entretanto. liderada pelo PCB e pela ANL. educação. muitas vezes de armas na mão. criando um forte processo de migração interna entre as cidades. colocaram em oposição sociedade civil diante de um Estado dominado pelos interesses privados do latifúndio e do imperialismo e a serviço da dominação externa. saúde. através da Insurreição Comunista. 217. seja em lutas e greves da classe operária e nas diversas formas de organização dos movimentos sociais e políticos. reformistas ou revolucionárias. Muitas destas lutas se deram em torno de um novo poder de classe e/ou por transformações políticas e sociais com bases estruturais. qualquer mudança progressista para as parcelas maiores e mais pobres de brasileiros.

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A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul
Glaucia Vieira Ramos Konrad*
stamos podendo alargar a história do período do Estado Novo Rio Grande do Sul, entre 1937 e 1945. Desde a sua implantação, o novo governo ressentiu-se de uma base de apoio político e ideológico suficiente que desse respaldo necessário à sua existência. A construção da auto-imagem foi buscada, mas para isso foi preciso o apoio da intelectualidade e dos trabalhadores, através da construção de uma identificação com a ditadura. Talvez a historiografia e as ciências sociais tivessem a ganhar, deixando de lado termos como autonomia e heteronomia lidos como opostos inconciliáveis. Conclusões opostas como a existência absoluta de autonomia dos trabalhadores e do sindicalismo (como exemplos pinçados na Primeira República) ou total heteronomia (no caso do Estado Novo) não nos tem ajudado muito para compreender a diversidade e a heterogeneidade da classe trabalhadora brasileira, independente do período de análise. As novas fontes abertas ao público, sobretudo pela abertura ao público das fontes policiais, ou a releitura de velhas fontes, bem têm demonstrado esta insuficiência, mesmo que o discurso do Estado da época não reconhecesse o direito dos indivíduos, muito menos a luta de classes. Não se trata aqui, de ignorar a repressão violenta ou subestimar o controle do Estado sobre os trabalhadores. Mas considerar totalmente perdida a autonomia dos trabalhadores e seus sindicatos (mesmo os oficiais) não corresponde com as novas fontes que temos encontrado sobre aquele momento da formação social brasileira. A resistência e a autonomia, que, por sua vez, também não podem ser absolutizadas, fazem parte da trajetória de lutas por direitos. O discurso governista do fim da luta de classes não encontrava correspondência na disposição de confronto de muitas lideranças clandestinas, bem como de reivindicações de trabalhadores comuns. Por isso, o Estado Novo precisava e necessitava consolidar o seu poder.

Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”:

E

benefícios que o Estado forte e autoritário poderia fornecer a ela. Essa tarefa não se deu de maneira tranqüila, havendo necessidade da elaboração de uma intensa campanha para mascarar e impedir, até onde fosse possível, a oposição à ditadura. No Rio Grande do Sul não foi diferente do resto do Brasil. Para isso, foi preciso também manter presente o fantasma do comunismo. Em editorial intitulado “Mobilização Necessária”, publicado no Jornal do Estado, vê-se estampada a preocupação com o mesmo: “assumindo uma atitude definitiva contra a ideologia falsa do marxismo, coordenando todas as forças honestas e dignas da Nação para a defesa do Brasil, o governo federal veio ao encontro das aspirações máximas da coletividade”1. Esta situação era considerada preocupante, visto que no Exército praças do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre haviam sido expulsos por serem “extremistas”2. Além do mais, a oposição a Vargas, vinda também dos partidários de Flores da Cunha, exgovernador do estado, estava criando problemas nas cidades do interior, obrigando a que o governo estadual substituísse vários prefeitos. As exonerações ocorriam quase que diariamente: tanto exonerações a pedido quanto aquelas exigidas. As duas formas mostravam que a situação não estava fácil de ser controlada. Exemplo disso foi o afastamento do prefeito de Farroupilha, Armando Antonelo, em vista das agitações produzidas por sua atuação política na cidade, considerada como “em detrimento do interesse público”3. O prefeito de Uruguaiana, Flodoardo Martins da Silva, solicitou demissão do cargo, em razão de não concordar com a pouca “autonomia dos municípios gaúchos” e da diminuição da “autoridade dos prefeitos”4. É claro que muitos prefeitos continuaram em seus cargos, uma vez que foram apoiadores de Vargas desde antes do início da ditadura de 1937. Porém, isso não foi a regra, em vista do número de exonerações registradas na imprensa oficial do período inicial do novo governo.

A busca pelo apoio político Após o Golpe de 10 de novembro de 1937, o Estado Novo passou por um período de estruturação política e de convencimento social. Não bastava impor um novo regime à sociedade: era preciso convencê-la dos
*Doutora em História Social do Trabalho pela UNICAMP, Historiadora e Arquivista, Professora Adjunta do Departamento de Documentação da UFSM.
1 Jornal do Estado, 25 de novembro de 1937. p. 3. Os exemplares se encontram na Biblioteca Solar dos Câmara da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. 2 Jornal do Estado, 19 de novembro de 1937. p. 2. 3 Jornal do Estado, 26 de novembro de 1937. p. 3. 4 Arquivo Nacional - RJ/Fundo Gabinete Civil da Presidência da República (ANRJ/FGCPR), Rio Grande do Sul, Lata 185. Telegrama de Uruguaiana, 7de março de 1938.

26 - “Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul

A centralização administrativa pouco a pouco colaborava para o fechamento das vias de reação. Exemplo foi o decreto extinguindo os partidos políticos. No Rio Grande do Sul, em decorrência da medida, criouse um impasse envolvendo secretários do governo riograndense, os quais solicitavam as suas exonerações ao interventor federal, como demonstra o seguinte telegrama de Maurício Cardoso, Walter Jobim e Oscar Fontoura: “Porto Alegre, 4 de dezembro de 1937. Exmo Sr. Gal. Manoel de Cerqueira Daltro Filho. d.d. Interventor Federal. Tendo sido publicado, com data de ontem, um decreto do Governo da República, dissolvendo todas as agremiações políticas existentes no país, vimos depôr nas mãos de V. Ex. os cargos que ocupamos no Secretariado Rio-grandense, por indicação dos partidos a que pertencíamos e que haviam deliberado colaborar com V. Ex. no Governo do Estado. Representantes que éramos do Partido Republicano Rio-Grandense e Libertador, nossa presença no Secretariado não mais se justifica, uma vez que esses Partidos são declarados extintos (...) (Assinados) J. Maurício Cardoso, Walter Jobim, Oscar C. Fontoura5. As exonerações não foram aceitas e os secretários continuaram em seus cargos. Para o governo do Rio Grande do Sul, essas considerações não deveriam interferir nos interesses do estado, que precisava da colaboração desses membros dos partidos extintos. Não era momento de se criar querelas em torno de questões partidárias e ideológicas, já que o Estado Novo veio para se sobrepor a elas, como o único capaz de entender e resolver os problemas da sociedade, “acima dos partidos”, das “ideologias” e dos “interesses de classes”. Os partidos de âmbito regional e nacional acabaram mesmo sendo extintos. A Ação Integralista Brasileira (AIB) passou a chamar-se Associação Brasileira Cultural. No Rio Grande do Sul, principalmente em Porto Alegre, houve repressão aos integralistas. Quanto aos comunistas, além da perseguição física (prisões, julgamentos pelo Tribunal de Segurança Nacional, etc.), continuou uma acirrada propaganda anticomunista. Mostrar um governo fiel aos propósitos do Estado Novo não se constituía em tarefa fácil. A preocupação principal era a de que, no momento de se fazer a distribuição dos cargos, eles não caíssem nas mãos dos grupos que pudessem ter um controle maior em relação aos interesses do governo federal e, a partir daí, formar-se alguma oposição ao Estado Novo. Essa inquietação ficou transparente numa correspondência de Viriato Vargas, irmão de Getúlio, naquele momento Presidente do Tribunal de Contas, a qual tratava da reorganização desse órgão nos municípios:

“Os dissidentes são muito partidários. É colocar dois juntos e já se congregam para ação partidista. Ora, já pus no Tribunal o Moysés Vellinho e não convém lá outro dissidente, pois sendo quatro os ministros, eles ficariam com a metade dos votos. Na primeira vaga quero pôr lá um frente-unista, com todas as qualidades intelectuais, morais e completamente integrado na nova ordem de coisas. Um getulista enfim”6.

Outro fato veio trazer problemas nos meses iniciais da ditadura estado-novista no Rio Grande do Sul. Em abril de 1938 ocorreu um incidente político que novamente preocupou Viriato Vargas. Tratava-se do pedido de demissão do prefeito de São Leopoldo, Theodomiro Fonseca, em decorrência de um desentendimento com Cordeiro Farias, recém empossado no cargo de interventor. A renúncia do prefeito deu espaço às forças oposicionistas ligadas a Flores da Cunha de articularem-se e buscar um nome comprometido com elas. Em carta a Getúlio Vargas, Viriato esclarecia a situação: “Há pouco deu-se uma desinteligência entre Cordeiro de Farias e Theodomiro Fonseca, prefeito de São Leopoldo. (..) Era uma necessidade que ele continuasse, é a única forma organizada que tem o novo regime aqui, afora São Borja. E o Cordeiro via bem isto. Aliás, o Cordeiro não teve culpa alguma”7. Como era politicamente importante manter o prefeito, ele acabou ficando no cargo. Esse episódio mostra que o Estado Novo não possuía no Rio Grande do Sul lideranças políticas suficientes para colocar à frente das administrações municipais e até do estado, necessitando angariar apoios de integrantes de partidos opositores a Vargas antes de 1937. Não havia getulistas suficientes para administrar a grande máquina pública criada ao longo do tempo pela experiência dos republicanos rio-grandenses. Assim, era preciso confiar em getulistas “de última hora” e conter as oposições mais recalcitrantes. Por outro lado, uma das preocupações era com a imagem da ditadura frente à sociedade. As questões internas eram resolvidas com os conchavos, com benevolência, enfim, os problemas deviam sempre ser solucionados através de reajustamentos. Mas e a população? Como fazê-la aceitar e acreditar que o Estado Novo veio para reparar o mal que os governos liberais até então existentes fizeram e ao mesmo tempo combater os ideais comunistas, tão propícios a resgatar um movimento pela construção de uma “grande nação”? Mesmo que o decreto de extinção dos partidos políticos já tivesse sido assinado, a idéia da criação de um partido único não fora descartada por Vargas e seus aliados. Antes do golpe, em 29 de maio de 1937, no Rio de Janeiro, era distribuído pelo autodenominado Partido Nacional Getulista, um “Manifesto ao Povo”. O
6 Fundação Getúlio Vargas/CPDOC (FGV/CPDOC), Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.03.31. 7 FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.04.20/2.

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Jornal do Estado, 4 de dezembro de 1937. p. 1.

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documento, dirigido ao povo brasileiro, conclamava o reconhecimento dos “inestimáveis benefícios” prestados pelo governo Vargas. O manifesto pedia a reforma do estatuto constitucional para a reeleição de Getúlio ou a prorrogação do seu mandato8. Em dezembro de 1937, o Correio do Povo especulava que “discretamente, nos altos comandos partidários” do Rio Grande do Sul, estava sendo realizado “um delicado trabalho de sondagem junto aos próceres de maior autoridade”. Para o periódico, a intenção era saber como estes encaravam a possibilidade de se fundar no estado, “um partido único, destinado a prestigiar, de acordo com um programa adaptado à atualidade, o novo regime instituído a 10 de novembro”. A matéria dizia que o partido único seria apenas “uma secção do partido nacional” a ser criado, e que “arregimentaria, por sob sua bandeira”, no estado, as forças solidárias com o novo regime9. Em junho de 1938, a possibilidade de um partido único já era mais concreta. Miguel Tostes remeteu para Benjamin Vargas, outro irmão de Getúlio, um estudo que estava sendo realizado no Rio de Janeiro. Dizia que aquilo que fosse decidido, ele se comprometeria “fazer adotar no Rio Grande”. Pedia que Benjamin fizesse com que o “chefe” lesse o documento com atenção. O estudo em questão consistia na criação de uma organização que poderia chamar-se “'União Nacionalista Brasileira” ou “União Nacionalista do Brasil'”. Quanto à organização, Tostes entendia que era “mais acertado começar pelos estados”, onde cada um estabeleceria a sua “Federação”, sem que o centro se comprometesse “ostensivamente”, bastando que, de forma “reservada”, fossem expedidas “as suas instruções aos interventores”. Informava também, que não se deveria fazer referências ao regime, “pois qualquer declaração nesse sentido, importaria em assumir uma atitude política”. Entretanto, como o “veneno vem na cauda, a alma da União Nacionalista” estaria no último item das finalidades. O projeto da criação da União buscava dar eficiência à sua organização, a qual só poderia ser possível “com organizações do tipo militar”, entendidas através de unidades maiores, formadas pela reunião ou agrupamento de unidades menores10.

O estudo destacava dois pontos que deveriam constar do programa da organização: o primeiro referiase ao “engrandecimento do país”; o segundo a defesa da Nação, contra as ideologias políticas estranhas; contra os abusos do “capitalismo internacional” e contra as pretensões territoriais ou tutelares dos países estrangeiros. Fazia uma ressalva quanto “ao movimento de idéias referentes ao tema internacional”, que deveria ser feito com “a necessária prudência”. Outro ponto destacado no projeto era a necessidade de “distrair a atenção popular das questões políticas internas para os problemas que a situação internacional” oferecia para a reflexão do “patriotismo”. Das finalidades da União Nacionalista constava ser esta uma “agremiação de fins patrióticos e culturais”, sendo que seu programa fundamental consistia em, entre outros: (...) incentivar o amor à Pátria e a formação da consciência nacional; (...) cooperar ativamente com os Poderes Públicos na manutenção da ordem, da paz e da disciplina, e com eles colaborar na obra de restauração nacional”11. O Comitê de Propaganda do Estado Novo e os Intelectuais Mas, enquanto o partido único não saía do papel, era preciso a busca dessa aceitação no estado. Assim, foi instalado o Comitê de Propaganda do Estado Novo, em 19 de abril de 1938. Esse comitê tinha como objetivo fazer propaganda do texto da Constituição de 10 de novembro e contava com o apoio de intelectuais de destaque no estado. A Rádio Difusora Porto-Alegrense foi escolhida para irradiar os discursos propagandísticos. Dentre os intelectuais, destacaram-se Moysés Vellinho, Dante de Laytano, Telmo Vergara, Érico Veríssimo e Limeira Tejo, além de advogados, secretários de estado etc. Como presidente do comitê, foi escolhido o coronel Viriato Vargas. A respeito disso, Viriato se justificava a Getúlio Vargas:
“Organizei aqui a mocidade intelectual, para fazer conferências todos os sábados às 10 horas pela Difusora, divulgando as virtudes da Constituição de 10 de novembro. Inaugurei ontem essas conferências com a que foi publicada e aí te mando, para me dizeres se estou certo (...). No próximo sábado vai falar o Secretário do Interior, e ficarei com o direito de convidar outros secretários que não poderão negar-se sem ficarem mal colocados. Dos municípios estou recebendo telegramas de adesão. Fazia-se necessário esse movimento, pois aqui vai ficando cada vez mais frio e confuso”12.

8 Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), Fundo DOPS, Série Panfletos, Pan 667. O Manifesto era assinado por: Pela Comissão Executiva: Presidente – João C. Raja Gabaglia, Médico e Professor.1º.Vice-presidente – José Pereira da Silva, advogado. 2º. Vice-presidente Reynaldo Bastos, professor. Secretário – Paulo Ferreira, contabilista. Pelo Conselho Deliberativo e Fiscal Presidente – Hélio de Brito, editor.Vice-presidente – Bartholomeu Fernandes, comerciante. Secretário – Alencar de Almeida Meireles, operário. Pelo Departamento Jurídico: Dr. A. Nunes Pereira. Na Sede Provisória do Partido Nacional Getulista à Rua Alcindo Guanabara, n°. 17, 6º. Andar, sala nº. 610, encontram-se as listas de Adesões para os que desejam filiar-se ao mesmo. Rio, 29de maio de1937. 9 Políticas e Políticos, Correio do Povo, 3 de dezembro de 1937. p. 5. Os exemplares do jornal se encontram no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre – RS. 10 ANRJ/FGCPR, Rio Grande do Sul, Lata 512. Carta de Miguel Tostes para Benjamim Vargas, em 21de junho de1938.

O posicionamento dos intelectuais era indispensável para dar respaldo ao Estado Novo. Nem todos concordavam totalmente com o apoio que prestavam publicamente, mas estavam envolvidos e não
11 ANRJ/FGCPR, Rio Grande do Sul, Lata 512. Esboço do programa da União Nacionalista do Brasil ou União Nacionalista Brasileira. 12 FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.04.20.02.

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comprometer-se seria um risco para suas imagens e profissões. A este respeito Angel Rama se manifesta da seguinte forma: “não somente servem a um poder, como também são donos de um poder”. Este inclusive pode embriagá-los até fazê-los perder de vista que sua eficiência, sua realização só se alcança se o centro do poder real da sociedade o apóia, lhe dá força e o impõe13. Érico Veríssimo representou um caso típico, uma vez que suas posições, até então, sempre haviam sido liberais. Mesmo assim, prestou seu apoio à ditadura nos primeiros momentos. Seu discurso, em um dos programas de rádio do Comitê de Defesa do Estado Novo, foi ilustrativo nesse sentido: “Quem fala a vocês neste momento já foi, e creio que ainda é, apontado como comunista por causa de um punhado de idéias que hoje estão sendo postas em prática pelo governo da República. Sempre achei - e muito escrevi nesse sentido - (...) Senti sempre a necessidade da nacionalização do ensino: aí está. Permitam-me ainda uma confissão. No dia 10 de novembro de 1937, recebi a proclamação do Estado Novo com sérias desconfianças e num grande abatimento. Os horizontes ainda estavam escuros. Tive a impressão de que era a ditadura integralista que se anunciava. Pensei: assim não se pode mais escrever no Brasil. (...) Virão as perseguições e a violência, a intolerância e o ódio.(...) Mas os fatos, meus amigos - tomem bem nota: os fatos se encarregaram de provar que felizmente eu me enganava. Nem esquerda nem direita, mas sim o centro, que é o equilíbrio e o bom senso. Nenhum homem de boa vontade pode negar o seu apoio ao Estado Novo”14. A evidência que se aí coloca é de que Érico Veríssimo se pôs numa posição defensiva, desculpandose pelas posições anteriores, e alguns anos mais tarde “exilou-se” nos Estados Unidos. A importância dos intelectuais para a realização desta mobilização, posta em prática pelo Comitê de Defesa era colocada abertamente, tanto que em editorial do Jornal do Estado se dizia que era necessário o “esforço dos intelectuais, dos homens de letra, daqueles que podem escrever e falar ao povo brasileiro com elegância, agilidade (...) ainda constitui um dos meios mais eficazes para a realização dessa cruzada necessária”15. Segundo o raciocínio apresentado no editorial, os intelectuais tinham uma missão: a de servir uma “boa causa”, a causa da pátria, e para colocá-la em prática deveriam “esclarecer” a população menos informada e não intelectualizada a respeito da doutrina e das realizações do Estado Novo. Paralelamente ao Comitê, organizaram-se nas cidades do interior, núcleos de propaganda como o
RAMA, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 48. Jornal do Estado, 25 de Abril de l938. p. 4. 15 Jornal do Estado, 5 de maio de 1938. p. 1.
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Centro Cívico de Propaganda da Carta de 10 de Novembro, cujos presidente e patrono eram, respectivamente, o interventor federal Cordeiro de Farias e Walter Jobim, secretário de obras. Organizou-se também o Movimento Intelectual pró-Estado Novo, em Porto Alegre, com pretensão de formar núcleos em todo o interior do estado. A seguinte passagem mostra as finalidades do movimento: “Essa nova entidade cultural de caráter cívico-literário representará efetivamente o pensamento e a ação dos intelectuais rio-grandenses e desenvolverá, por meio de publicações na imprensa, conferências, sessões cívicas e excursões pelo interior do estado, uma enérgica e decidida campanha anti-extremista”16. Tais entidades, no entanto, tiveram duração efêmera, à medida que o Estado Novo se fechava e a censura aumentava. Mesmo que concordassem com a ditadura, era melhor, mantê-las fechadas, sem correr riscos de que posteriormente se posicionassem contra o governo. Ainda assim, foram formas eficazes de convencimento, auxiliando o governo estado-novista em sua consolidação no Rio Grande do Sul. Posteriormente, em outro momento de questionamento da ditadura, em 1941, fundaram-se no estado, seções do Instituto Nacional de Ciência Política, organizadas em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, tendo Pedro Vergara como responsável pela fundação dos núcleos. O escritor demonstrava preocupação com a situação de popularidade do Estado Novo na seguinte passagem: “Senti, sem dúvida, que o presidente é amado no Rio grande, mas não senti a mesma coisa em relação ao regime que ele instituiu e que tem o seu maior título de glória. Por tudo isso, apresso-me, como amigo que está disposto a todos os sacrifícios para servir ao Presidente, em afirmar, é mister agir com urgência, no Rio Grande, para criar uma corrente de opinião que ainda que não existe, a favor do novo regime”17. A consolidação do apoio entre os trabalhadores Os estudos recentes de história social do trabalho no Brasil muito têm contribuído para sabermos mais sobre como as relações entre os sindicatos e o Estado não foram das mais pacíficas, como se poderia supor, e como supõe parte da historiografia sobre o período estado-novista. Segundo parte desta, o Estado Novo no Brasil realizou a completa subordinação dos sindicatos de classes, aos mecanismos de controle do Estado. Análises como de Sérgio Amad Costa, restringem o “Estado como agente do controle social” e propõem a norma jurídica o seu “instrumento mais eficaz” do seu exercício18 . No entender de Costa, se as formas de atuação
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Jornal do Estado, 21 de maio de 1938. p. 1. FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.41.07.00 XXXV-89.

COSTA, Sérgio Amad. O Estado e controle sindical no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz, 1986. p. 1.

a noção de cidadania passou a ser definida pelo trabalho. a lei prometia devolver aos sindicatos “a consciência dos seus novos deveres” profissionais diante da sua comunidade e do Estado. Deodato Maia. Sobre uma discussão em torno do corporativismo de Estado. 1977. nela entrando quem quer e dela sai quando quer”. estava explícito o caráter anticomunista e controlador da lei que visava “preservar a vida interna dos sindicatos da contaminação dos maus elementos sociais”. São Paulo: Contexto. os trabalhadores ficaram sem meios legais de reivindicar e de fazer valer os seus direitos./d. Fora disso. 149. No Relatório da Comissão elaboradora do anteprojeto de lei. principalmente entre 1937-1945. Em consonância com esta estratégia. FREITAS. Oscar Saraiva. O universo do trabalho. sendo o anticomunismo o quarto pilar dessa construção discursiva. A historiografia da classe operária: trajetória e tendências. Setembro. pela ocupação. Azis Simão. sem dúvida. na ampliação das causas de inelegibilidade.). Mesmo com a expulsão dos comunistas e outras correntes dos sindicatos. O controle se daria através do registro obrigatório das associações profissionais. s. na sua importante obra Sindicato e Estado.História & Luta de Classes. constituía-se no espaço de luta possível. p 393-4. mesmo para os que nunca tivessem ouvido falar de tais idéias. atribuindo-lhes um estatuto natural que o vinculou ao corporativismo22. Tudo isto representando um “sistema de meios” que permitiria ao Ministério do Trabalho “realizar com plena eficiência a revelação e a seleção dos elementos dos sindicatos e a formação de uma verdadeira elite profissional”. na ótica dos que construíram esse discurso. Julho 2009 (25-31) . razão precípua para fortalecer o apoio ao Estado Novo entre os trabalhadores. 103-116. era necessário “um controle mais estreito do Estado” na constituição dos sindicatos. para que se tornassem “entidades realmente representativas da profissão”. anarquistas e comunistas e como estes se posicionaram diante do “controle estatal” nas entidades sindicais. n.29 dos trabalhadores fora do aparato estatal eram quase inexistentes. p. Para isso. Ano V. para a “prática de atos de autoridade pública”. apresenta um quadro da “posição oferecida pelas antigas vanguardas do movimento operário”19. p. durante aquele período. Cláudio Batalha considera a obra de Azis Simão com o “único dos trabalhos (. 22 Cf. o Estado Novo procurou de todas as formas fazer propaganda dos avanços nos direitos sociais dos trabalhadores. 215. que antes do Estado Novo foram palco privilegiado de suas táticas e lutas operárias. Reconheço a estrutura de controle dos trabalhadores montada pelo Estado. Em contraponto. Uma vez que a obrigação da sindicalização se impunha. Faziam parte da Comissão que elaborou o Relatório. na inscrição prévia dos 19 Ver SIMÃO. o trabalho apresentou-se como questão central na configuração do regime. Rio de Janeiro. mas não posso concordar com a análise de Costa. ela se constitui quando quer e como quer. em referência ao período anterior ao golpe de 1937. O que se fez foi a despolitização das relações de trabalho. In. restava ainda a atuação partidária e sindical clandestina ou a ação não-institucional cotidiana. Vargas e seus aliados. ERICKSON. Indústri e Comércio (MTIC). Berkeley/Los Angeles/London: University of Califórnia Press. Luiz Augusto de Rego Monteiro. O relatório dizia que “livre é a associação profissional. O discurso estado-novista assentou-se no trabalho. ed. Dentro dos limites legais. The Brazilian Corporative State and Working-Class Politics. . da ordem e do trabalho. 20 Boletim do MTIC. a resignação para a construção do “progresso da nação”. Assim. Através deste conteúdo. São Paulo: Ática. O caminho para justificar o Estado Novo foi construído a partir de um vigoroso discurso da pátria. ver tb. porque ela absolutiza este controle. não comportou meios termos: ou se era trabalhador. a este caberia impor as condições que entendesse “mais úteis ou necessárias para o cabal desempenho da função”20. outras mais subordinadas.. ou com a prisão dos mesmos. Rio de Janeiro: Mundo Livre. Sindicato e Estado. da USF. Edgar. 2. Novos Rumos. tiveram ampla opção institucional de ação fora do sindicato oficial. geralmente reservada. Sem o reconhecimento oficial de seus órgãos de representação sindical. como explica Adriano Duarte. Nº 7. denúncias. Historiografia brasileira em perspectiva. Aos trabalhadores. ou se era “vagabundo”. referindose aos trotskistas. W. se fizeram sentir desde o início do Estado Novo. na exigência da aprovação da eleição. a exigência de tudo aquilo que o Estado fazia questão de incutir como “doação”: a aplicação das leis trabalhistas.. Mas se esta associação vier ao Estado pedir que lhe outorgue competência. desejosos de continuar no poder. Oliveira Vianna. Como explica Edgar Rodrigues. das suas “intervenções estranhas e corruptoras” e das infiltrações de ideologias perturbadoras”. O Relatório é datado de 23 de novembro de 1938. p. principalmente. 1937-1945. Certas categorias foram mais combativas. concatenado com a construção de uma nova moral cujo fim foi a defesa da pátria. a principal base social de apoio político ao regime. a fim de explicar o continuísmo tão cobiçado21. s/p. no Estado Novo. 1999. Azis.) em que a análise histórica está fundamentada numa pesquisa empírica de fôlego. 1939. nos sindicatos oficiais a ação era restrita ao permitido pela legislação sindical. Bragança Paulista: Ed. onde o centro foi a retórica do fim da luta de classes. p. greves e. Niemeyer. 53. Kenneth Paul. 1981. 1998. Helvécio Xavier Lopes. Arthur Flores Filho. com profissão regulamentada e carteira assinada. restava. a respeito da tentativa de controle do Ministério do Trabalho. Geraldo Faria Batista. elaboraram a “fabricação” de “subversivos” e “revolucionários”. que passaria a dispor sobre os sindicatos profissionais. 15-26. mesmo que atrelado. da UFSC. buscando. Essas divergências no seio do próprio movimento sindical e dos trabalhadores. sendo este um dever social. DUARTE. a partir de 1937. Florianópolis: Ed. ainda que restrita a São Paulo”. Cidadania & exclusão: Brasil. Cf. Moreira de Azevedo. assim. surgiam brechas para o questionamento. História do movimento operário e das lutas sociais no Brasil (1922-1946). na possibilidade da presidência das mesas eleitorais ser confiada ao delegados do Ministério do Trabalho. Não quero dizer com isso que os trabalhadores. por ele “doado”. o sindicato. candidatos. Adriano L. 21 RODRIGUES. nem todo o sindicalizado poderia ser considerado “pelego”. Marcos Cezar de (Org.

antes afirma. Quando novos personagens entraram em cena: experiências. 23 Ver DINIZ.. estes não estavam se apossando de um território sem história. um postulado fundamental: o da segurança para o trabalho e as realizações de interesse geral”. onde justamente o discurso oriundo do poder de Estado se dá no sentido de criar uma “identidade coletiva”. Rio de Janeiro: Ed. In. foi possível a modernização do Estado. 24 DUARTE. A política social do Estado capitalista.) expressando uma incapacidade de universalização de seus objetivos”. FONSECA. p. 22. dos conflitos entre patrões e empregados”. pois. Isso fez com que a passividade não fosse a única marca desses anos. o refazer historiográfico só é possível quando se procura ir além das aparências empíricas iniciais. idem. Cortez. aumento salarial. Esta. Capital e trabalho unem-se na cooperação e no congraçamento”23. Adriano. Em análises desta natureza não há espaço para entender como os trabalhadores criaram sua identidade de classe ou. LPH . em 31 de dezembro de 1937 e 1º de maio de 1938. em parte. 183. Em busca da terra da promissão: a história de dois líderes socialistas. ao remeter-nos aos anos 1930. Muito menos se trata de desconsiderar que. cit. desde Oliveira Vianna. Revista Brasileira de História. 7. p. Dulce (Org.). 1991-92. 120-1. falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). não foi absoluta. os trabalhadores não ficaram quietos24. Dulce (Org. como o faz também José Nilo Tavares. a dispersão e um comportamento atomizado. 27 Ver AZEVEDO. Exemplo disso foram as afirmações de Vargas. Identidade da classe operária no Brasil (18801920): atipicidade ou legitimidade?. aponta para uma representação dos trabalhadores caracterizada pela “heterogeneidade interna. ed. Engenharia institucional e políticas públicas: dos conselhos técnicos às câmaras setoriais. intelectuais e políticos inspirados no corporativismo. senão. Aspásia. 25 Cf. 1988. o trabalho exerce um peso fundamental na formação da identidade de classe”33.... A hegemonia estado-novista sobre os trabalhadores e os cidadãos.“Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul Desta forma. p. p. PANDOLFI.. pois mesmo ameaçados pela repressão política. 1999. 26 SADER. Eli. Cultura popular e imaginário popular no Segundo Governo Vargas (1951-54). como também na administração do conflito redistributivo. As funções da previdência e da assistência sociais. Pedro Dutra Cézar. “o governo. p. Repensando o Estado Novo..) e a mediação do Estado. 431.ao sistema político”30. os quais “seriam determinados pelas próprias características da formação histórica da sociedade brasileira. Política & cultura. São Paulo: ANPUH/Marco Zero. p. do seu Estado e sua industrialização” resultando na cristalização de “uma imagem da classe incapaz de ação autônoma”26. de que o período de 1937 a 1945 consolidou um modelo que atribuiu ao Estado papel primordial não só nas decisões relativas às principais políticas públicas. sem criar essa identidade. 28 . 30 Cf. no caso do Estado Novo. In. 31 Ver CAMARGO. situações de miséria e de fome e outras condições de vida dos trabalhadores desarticularam. o que resta é apenas a “incorporação dos atores emergentes . PANDOLFI. a partir da manutenção do “postulado comteano fundamental que persistiu e até mesmo cresceu (. de. Dulce (Org. resistiram às imposições verticais e hierarquizadas que a ideologia corporativista procurou lhes impor. cit. Do federalismo oligárquico ao federalismo democrático. 23/24. p. In. Eli. técnicos. p.30 . 264 e 294.. etc. 32 FALEIROS. p. bem como na representação dos interesses patronais e sindicais28. DINIZ. Ver SCHMIDT. da FGV. torna-se insuficiente para entender como se constrói uma identidade de classe dos trabalhadores. simplesmente. 1999. visando à manutenção da ordem social32. PANDOLFI. A opinião construída por Eli Diniz. Este tipo de interpretação sociológica. Eder. Vicente de Paula.). apenas transformando-os em vítimas passivas. Mesmo que se reconheça que o Estado Novo buscou fundamentalmente destruir a resistência operária. 1989. como explica Antonio Luigi Negro. assim. n. “se o mapa do movimento sindical brasileiro ia sendo redesenhado com base em uma arquitetura projetada por bacharéis. Cidadania. na definição de identidades coletivas de setores sociais em processo de incorporação. até porque o movimento da sociedade não pode ser visto “apenas como a 'urdidura do poder'.trabalhadores e empresários industriais . “para algumas categorias de trabalhadores. op. n. assim. Luiz Vítor T. (. fazendo com que se chegue a conclusões simplistas que afirmam que “apesar da repressão. 2004. p. São Paulo. 33 BATALHA. São Paulo: Brasiliense.Revista de História. São Paulo: Boitempo. 1991-2. como certa análise pode dar a entender. quando se analisa um período como o Estado Novo. 29 Essa visão consolidada no Estado Novo era oriunda de certa interpretação do positivismo e da “política social dos governantes estaduais” do Rio Grande do Sul pré-1930. 59. 32. op. 1995. Rio de Janeiro.. Linhas de montagem: industrialismo nacionaldesenvolvimentista e a sindicalização dos trabalhadores (1945-1978). de modo que se abole a necessidade de lutas e discórdias. incluindo o próprio Getúlio Vargas.) o da incorporação do proletariado à sociedade moderna”.. Porto Alegre: Palmarinca. In. Paz e Terra. respectivamente: “a multiplicidade de setores em que age o Estado não exclui. 28. através do apoio de algumas reivindicações do movimento operário e da harmonia entre trabalhadores e empresários. a partir do querer desse próprio Estado e daqueles que exercem a sua hegemonia. que procurou articular as pressões e os movimentos sociais com as formas pretendidas pela valorização do capital. 2004. Não se trata aqui de ignorar que a política social. Pois. Cláudio. No entanto. ao conceder as leis sociais eliminava a predominância de umas classes sobre outras. 27. In. o projeto modelar e normativo do Estado Novo e a realidade experimentada pelos trabalhadores. 184. NEGRO. 1995. a qual “pautou-se por dois princípios complementares: o apoio do executivo a certas reivindicações do movimento operário (redução da jornada de trabalho. foi uma tentativa de gestão estatal da força de trabalho. v. 24. Antonio Luigi. Vargas: o capitalismo em construção. Repensando. despovoado e desprotegido”25. resultado da ação exclusiva de protagonistas e elites dominantes”27. política ou historiográfica torna homogêneas as ações sociais a partir do Estado. p. Ouro Preto: Ed. da UFOP. da sociedade e da economia brasileira”31. Sobretudo.. 5. Benito Bisso. dentro da velha tradição positivista29.). 40. “o discurso ideológico parecia querer provar o improvável: a neutralidade da intervenção governamental”.

34 GOMES. a do poder. História e historiadores. a partir do estudo dos historiadores do período estado-novista. a favor dos trabalhadores no discurso: essencialmente. Julho 2009 (25-31) . o discurso estadonovista consolidava o seu apoio. antes de tudo. o Estado Novo foi se consolidando no estado. Na outra. cumprindo o seu dever para o interesse geral da nação. A política cultural do Estado Novo no Rio Grande do Sul: imposição e resistência. Nessa ponta. Porto Alegre: PUC-RS. p. No caso do Rio Grande do Sul. Contraditoriamente. Se intelectuais e trabalhadores rio-grandenses se considerassem. o gaúcho deveria estar apto a instaurar a disciplina social e a ordem econômica para a reconstrução do país.31 Também não se trata de negligenciar um dos objetivos centrais dos que dirigiram o Estado Novo no Brasil. 130. 35 KONRAD. na prática. poderiam sentir-se seguros. Nº 7. afirma que a formulação de uma identidade nacional pelo Estado exigiu que se pensasse o país historicamente e conduzisse à proposição de uma “cultura histórica” como elemento fundamental de comunicação e coesão da sociedade34. um regionalismo integrado ao nacional não apresentava maiores riscos35. sendo peça da engrenagem nacional. Rio de Janeiro: Ed. p. contra os mesmos.História & Luta de Classes. da FGV. 1996. Glaucia Vieira Ramos. Dissertação (Mestrado). . 1994. 208. Nessa ótica. como nacionais. Angela de Castro Gomes. Ângela de Castro. o qual foi a consolidação de uma discursividade que buscava afirmar a construção da identidade nacional como única identidade possível.

La lectura de Marx en clave clasista: el Si. y no es una coincidencia nace de pura conciencia de simples trabajadores que dedican sus mejores horas de vida luchando. 1973-1975 . 1973.. p.32 . I. y MARTÍ. y Quaderni Rossi-Classe Operaia respectivamente. JAMES. GRAU.. es necesario señalar que cuando nos referimos a la dinámica de recepción. Éditions Seuil.. D. surgió una nueva generación de jóvenes inmigrantes que serían protagonistas de importantes movimientos de protesta2. año I. con la difusión de la cadena de montaje. las lecturas de las obras de K. 1997. Córdoba.tra.P.. estos factores deberíamos encuadrarlos dentro del proceso de desarrollo. porque piensan que bregando por nuestra clase explotada florecerán sus anhelos ver la Patria Liberada. 5) capitalismo. Paris.F. A. Véase a modo general: AGLIETTA. caracterizado por el éxodo del campo.tra. Editorial Madres de Plaza de Mayo.una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia La lectura de Marx en clave clasista: el Si.. 1 . y BRENDER. las que se refieren al conflicto y organización tanto en el plano sindical. Sin duda alguna. Este desarrollo podemos enmarcarlo brevemente dentro de un contexto dado tanto en Argentina como en Italia –que comienza en la posguerra y se cristaliza en las décadas del '60 y '70-. Facultad de Filosofía y Humanidades. L'orda d'oro.tra.p. Aunque no es objetivo de este trabajo -dada la brevedad del mismo-. 1946-1876. tanto Si. como Carlos Mignon* Así nace el SI. Desde nuestro punto de vista. como Quaderni Rossi-Classe Operaia enarbolaron sus críticas a las visiones de época que centraban al progreso como manifestación del desarrollo de las fuerzas productivas. H. N. sino en el análisis relacional que podemos realizar mediante la detección de un factor común a ambas publicaciones. Editorial Nuestro Tiempo.. la influencia de éste reflejada en sus editoriales y artículos. La clase revolucionaria. M. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. crisis y etapas de acumulación del *Licenciado y Doctorando en Historia. I. Marx realizadas propiamente por los colaboradores de estas revistas y por consiguiente. Paris. Tomando elementos de la mejor tradición marxista. 1973. Mediante la postura de impedir cualquier actitud favorable al capitalismo. El peronismo y la clase trabajadora argentina. 1990. unque numerosos han sido los estudios que analizaron el “clasismo” cordobés de finales de los años sesenta y principios de los setenta. como los que se refieren a los ámbitos de sociabilidad en la educación y los ateneos culturales.tra. N. BRAVERMAN. poco se conoce de un gremio tan importante como el Sindicato por Empresa de Motores Livianos Diesel Perkins.. Resistencia e Integración. 1973-1975 órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. 1975.tra.. 2 BALLESTRINI. ideológico y político. los análisis de la relación entre capital y fuerza de trabajo. Aunque siempre existieron estratos de obreros no calificados.que van desde sus condiciones materiales de existencia. que encuadra diversas experiencias –en este caso de la clase obrera. Trabajo y Capital Monopolista.. estos elementos modificaron profundamente la estructura social de ambos países1. ésta se encuentra vinculada a una dimensión muy compleja.p. la trayectoria de sus obreros y la contribución de éstos al desarrollo de la radicalización en el ambiente obrero cordobés. P.TRA. 1968-1977. las industrias empezaron a requerir cantidades crecientes de mano de obra barata para impulsar el desarrollo de los sectores automotriz y petroquímico. y MORONI.p. procesamiento y divulgación de ideas. Buenos Aires. Sudamericana. 1986. A 1 (Si. tuvieron la finalidad de encontrar un sujeto potencialmente subversivo: el “obrero masa”. El intento de este trabajo es relacionar las similitudes y diferencias entre el “clasismo” de los trabajadores organizados en el Sindicato de Perkins en Córdoba y el “obrerismo” italiano a través de sus respectivos órganos de prensa: el Si. M. y la difusión del consumo en masa.p. Giangacomo Feltrinelli Editore. y el reconocimiento de las grietas del sistema. esto es.. N. 2006. La fundamentación de este objetivo no está dado en la búsqueda de una relación directa entre los teóricos del “obrerismo” y los “clasistas” del Si. CARRERA. Argentina. Nous Voulons Tout. BALLESTRINI.p.p.. Agustín Tosco. México D. las contradicciones entre tecnología y poder en el proceso de trabajo.. Ciudad Autónoma de Buenos Aires. La producción se fragmentó y. del cual era necesario hacer despertar su conciencia. Milan.tra. Les métamorphoses de la societé salariale. cierto despegue industrial y por lo tanto un aumento del sector terciario. Universidad Nacional de Córdoba y Centro de Estudios Avanzados-Unidad Ejecutora del CONICET. A. Calmann-Lévy.

La FIAT aux mains des ouvriers. En Motores Livianos Diesel Perkins trabajaban 900 obreros en el año de 1973.tra. Año I. fundaron en 1964 Classe Operaia. la Unione Italiana dei Lavoro (UIL). Michellin. traducido a nuestra lengua castellana. F. Avanguardia Operaia y Comita Unitario di Base (CUB)5. contra la patronal.M (Sindicato de Trabajadores de Máterfer) se constituyeron como sindicatos “por empresa”.000 y en Potere Operaio había 10. 7 Estos datos han sido extraídos de la revista que editó la empresa con motivo de su décimo aniversario. Los principales fundadores de esta corriente fueron: Rainero Panzieri. Massimo Cacciari. 1973. radio. Romano Alquati.. Potere Operaio. En Córdoba se había conformado desde 1969 una fuerza social en la que se alineaban las fracciones obreras organizadas en los gremios independientes.C y el Si. en Revista Nuevo Hombre. Vittorio Rieser. p. Mario Tronti. 1999. Uno de los principios fundamentales del “clasismo” fue la reivindicación de la democracia sindical desde las bases obreras: “El Si. así como fracciones de la pequeña burguesía: estudiantes. el Partido Socialista y de las organizaciones sindicales más importantes como la Confederazione Generale Italiana dei Lavoro (CGIL). Dictionnaire critique du marxisme. sino que fue retroalimentada en su desarrollo con la participación de organizaciones políticas y comités obreros. y por ende la cuestión del poder. Nº 7. Esta fuerza se proponía la superación del orden social capitalista imperante. que representaban a los trabajadores de una misma actividad sin importar a que empresa pertenecen.p. y el capital está constreñido a reaccionar reestructurando continuamente el proceso de trabajo. Lotta Continua contaba con 30. 5 En la etapa más alta del desarrollo de estas organizaciones.000 militantes. Siguiendo este análisis la clase obrera “no se satisface con reaccionar contra la dominación del capital. Entre algunos de ellos estaban: Lotta Continua. etc. “Operaïsme”. de sus sindicatos más combativos.. 1973.” 4 Esta corriente se originó en el entorno de la revista Quaderni Rossi (Cuaderno Rojo) que se constituyó en septiembre de 1961. Vidrio y Calzado entre otros) de la cual surgieron direcciones clasistas y combativas que continuaron luchando por un lugar dentro del sindicato.tra. D. L'automne chaud de 1969 à Turin. M..000 motores para ese mismo año7. 9 Íbid. Paris. solidaridad de clase. en LABICA. Montedison. Les Nuits Rouges. sacando al mercado aproximadamente 22. En el contexto desarrollado de manera muy breve más arriba. el “obrerismo” se constituyó en una alternativa crítica frente a la estrategia reformista del Partido Comunista Italiano. 15-16. Adriano Sofri. sino a que todos los medios de comunicación masiva. Estas organizaciones participaron en las luchas desarrolladas dentro de las grandes concentraciones industriales como: FIAT. y tuvo su efecto en las fábricas vecinas a FIAT (Perkins.. Pirelli. y la Confederazione Italiana dei Sindicati Liberi (CISL). p. en 1962. principalmente en la ciudad de Córdoba. 8 “La aparición del Si.tra. noviembre de 1971. 4 MATHERON. bajo la iniciativa de la Sub-comisión de Prensa de la nueva Comisión Directiva. proponiendo un programa anti-burocrático y combativo bajo los postulados de: “(…)democracia sindical. X Aniversario de Perkins. G. Piaggio. Enzo Grillo. como órgano de difusión del Sindicato. Lancia. En su presentación. G. Éd. en Italia se comienza a percibir una crisis del movimiento obrero y de sus organizaciones (partidos y sindicatos).C (Sindicato de Trabajadores de Cóncord) y el Si. Saint-Gobain. Quadrige. es el lugar atribuido a la clase obrera en cuanto a la dinámica y las modificaciones del capitalismo.tra. El Si. Luciano della Mea. et BENSUSSAN. Alfa Romeo.p. Julho 2009 (32-37) .tra. comienza a poner en cuestionamiento elementos fundamentales del análisis y estrategias de dichas organizaciones. que Panzieri valora negativamente a diferencia de los demás redactores. organizaciones armadas marxistas y peronistas.”6 Esta prédica antiburocrática ensalzaba al proletariado en término democráticos de organización sindical. Siemens. 3 Es en idioma italiano lo que en este trabajo denominaremos “obrerismo”. véase. En la fábrica se producían distintos tipos de motores. 49-56. la primera editorial del periódico fijaba su posición y explicitaba el porqué de su aparición: “La necesidad de la aparición de nuestro periódico gremial.33 2 A finales de los años'50.”9 6 CURUCHET.000 militantes.História & Luta de Classes. . nº 17. A. En Argentina. Para un análisis más profundo véase: GIACHETTI. casi en su totalidad.tra.”8 En ese mismo momento comenzó la historia de Si. (detenido en la cárcel de Villa Devoto). ella está continuamente en recomposición política. televisión y diarios. Luciano Ferrari-Bravo. Sergio Bologna. Si. Éd. y eso no se debe a una casualidad.M fueron una genuina expresión de las bases que rompió con los moldes del sindicalismo tradicional y burocrático. El “obrerismo” no se mantuvo solamente como corriente teórica. Paris. Estas críticas dieron vida a una nueva corriente política y teórica dentro del movimiento obrero y del marxismo: el “operaismo”3. Córdoba. después del cierre de Quaderni Rossi. de una corriente que cuestionó desde las bases a toda la estructura gremial reconocida por el Estado conocida generalmente como “clasismo”. Uno de los elementos fundamentales del análisis “obrerista”. pp. 1. Año I. Dario Lanzaro. las corrientes y organizaciones político-sindicales clasistas y los sindicatos combativos peronistas. contra la burocracia sindical. Una minoría proveniente esencialmente de estas organizaciones. son más escasos. etc. el movimiento de base de Perkins (Obreros Combativos de Perkins) logra en abril de 1973 ganar la Comisión Directiva del Sindicato. Olivetti. En Avanguardia Operaia militaban 18. Toni Negri. a finales de los años '60 asistimos al surgimiento. 2005. están en manos de las clases dominantes. IKA-Renault. la vimos en que cada día los espacios periodísticos destinados a informar sobre las luchas y comunicados de la clase obrera.”. Retomando las categorías de Marx y confrontándolas al capitalismo de posguerra. La unidad de la redacción se rompe después de los enfrentamientos de la piazza Statuto de Turín. diferenciándose en su estructura organizativa de los sindicatos “por rama industrial”. Estos últimos.p.tra. y SCAVINO.

). por lo tanto. los capitalistas (. “El trabajo como No-Capital”. p. Partiendo de que el hallazgo fundamental de la obra de Marx11 es el trabajo en cuanto mercancía que expresa un valor. con una clara amenaza de represalia. en Quaderni Rossi. 1973-1975 3 A partir de una alusión a las fuentes de Marx. es preciso recordarles con ejemplos que en la fábrica existe una fuerza mayor. a la fuerza del Estado. en el caso de los párrafos que aquí tomamos de los autores pertenecientes al obrerismo encontramos alusiones a la Sección Cuarta de El Capital.34 . un espacio de dominación pero también de construcción del antagonismo: “Recordad: <(. Nº 2. la fábrica se convertía en el espacio central del conflicto. quiere decir capital condicionado por la fuerza de trabajo. Nº 2. Nº 1. Esta visión se bifurcaba en una lectura de los procesos concretos.. Marx.. N º 3 0 . 14 ALQUATI. (.. Nº 3. M. la clase obrera ya formada: “Y el objeto. Trabajo asalariado y capital y Salario. 1964. movido por la fuerza de trabajo. la mayoría de los párrafos aquí citados hacen referencia a la obra de K. en Quaderni Rossi. ante sí. el desarrollo tecnológico y los modelos de producción fordistas-tayloristas. 12 TRONTI.tra.. 3.. Antes de que vuelvan a comenzar a mirar. de organizadores: organizadores de los obreros con el medio de la industria. desde la perspectiva de la lucha. Hay que invertir el problema.herramienta. “Teoría y Praxis.. obligándolo a cambiar13. Es un error. M. “El capital social”. en la subjetividad obrera y en su expresión más inmediata: el conflicto en la fábrica. U R L http:/www. como remedio milagroso. 13 MODONESI.p. el desarrollo del capitalismo podía ser leído como un proceso de ajuste permanente dirigido a contener el trabajo. De hacerse esto. (. el acento estaba firmemente puesto en la dimensión subjetiva. p. Por la otra. desafiando al capital. Procesos objetivos. 1962. Nº 1. sino con la clase misma de los capitalistas: en esta última relación es la clase obrera. M. TRONTI. Antes de que lleguen a congelar los convenios ya firmados es preciso denunciar alguno de ellos con acciones de fábrica en puntos estratégicos. M. “La fábrica y la Sociedad”. primero la fuerza de trabajo y después el capital.. con la industria. H e r r a m i e n t a ..”14 10 Como se puede intuir.”12 Invertir los componentes del análisis.”16 15 16 TRONTI. sino que esta composición impacta directamente en el capital. Antes de que ataquen los niveles de ocupación es preciso golpear la productividad del trabajo. 3.. es <el paso del trabajo real al trabajo que crea valores de cambio. p. desde la lucha social hacia la lucha política... Tiene la necesidad de ver primero. 1965. es la organización en clase de los obreros industriales la que provoca la constitución en clase de los capitalistas en general. sobre este terreno. p. “Lenin en Inglaterra”. En esta lógica.. es la producción capitalista la que <organiza>.. y cuyo principal componente es la fuerza de trabajo. como correlato de la “composición del capital”. La experiencia del obrerismo italiano”.).ar/modules. en Classe Operaia. El capital. 2. no se halla sólo en relación con el capital. TRONTI. R. 1964. a los trabajadores que caminaban siempre un paso adelante. el obrerismo ponía el énfasis en los portadores de esta fuerza de trabajo. se desencadenaría la condición de dominio obrero sobre el proceso de producción capitalista.La lectura de Marx en clave clasista: el Si. Y para ello era necesario anticipar los movimientos del capital de modo consciente a escala de masa social y. 3..) Antes de que logren estabilizar el bloqueo de hecho de los salarios. la dinámica salarial. hay que exasperar.”15 Con base en estos postulados. en Classe Operaia. editorial de Classe Operaia. también articulándola. “1905 en Italia”. es decir. 1963. En el caso de que éste sea citado textualmente se utilizarán los símbolos “<” y “>”.) Valor-trabajo quiere decir. se destacaba la centralidad política de la clase obrera. como una clase social de productores: productores industriales del capital. El trabajo es medida del valor porque la clase obrera es condición del capital.. por lo tanto.tra. 4. El trabajo productivo. por lo tanto. la contribución a la crítica de la economía política y el Manifiesto Comunista. cambiar su sesgo. no solamente las transformaciones del capitalismo determinan la conformación de la clase en sí y para sí.10 de sus primeras intuiciones y del respaldo empírico que ofrecían los acontecimientos. precio y ganancia. Los obreros se presentan entonces. no se constituye en clase social. en este sentido valor medido por el trabajo.com. En este sentido. M. . lo que debería constituir la premisa inmediata de su caída: “Un programa de verdadera y propia agresión a la coyuntura es todavía actual.php?op=modload&name=News&fil e=article&sid=347. sino la relación política de la producción capitalista. En cuanto a las obras de Marx referenciadas. esto significaba que el capital aparecía como la variable dependiente. En lo que respecta a los escritos de la revista de Si. El cambio es probablemente histórico: es el trabajo productivo el que produce capital. que abría una perspectiva teórica novedosa. el objeto no es el mundo económico de las mercancías. permitió formular una lectura articulada de los procesos de transformación técnico-productiva en paralelo a la dimensión político-subjetiva. de modo organizado como intervención política.) la existencia de una clase de capitalistas se basa en la productividad del trabajo>. en Marx –aquí lo sencillo es difícil de entender-. por sí mismo. que llevaban a estudiar a las transformaciones del capitalismo en la segunda posguerra –los treinta años gloriosos-. como una clase social más que de empresarios. (. p. a la clase obrera. como forma y como relación de poder. Antes y después de la clase de los capitalistas existe el capital. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. quienes habían sido desposeídos de cualquier bien material salvo la venta de dicha fuerza: “Hemos visto también nosotros antes el desarrollo del capitalismo y después las luchas obreras. encontramos referencias al Manifiesto Comunista. liberándose en los márgenes dejados descubiertos por el sistema de dominación. La idea obrerista de “composición de clase”. al trabajo burgués en su forma fundamental>. 11 “El descubrimiento de Marx. la revolución pasaba por la radicalización. el obrerismo sentó las bases para una propuesta de inversión metodológica. volver a partir del principio: y el principio es la lucha de la clase obrera. por una parte.p.

se pasó a otro tipo de producción en común. en Quaderni Rossi. Estos conceptos son los que defiende la clase PANZIERI.” 20 19 . recae en un análisis sobre la cooperación. sobre un elemento particular de la sociedad. y por supuesto. la fábrica era considerada como una maquinaria de la cual el obrero era una pieza más. Nº 2. R. 18 17 En segundo lugar. Lo fundamental era llegar a.”19 Aquí podemos detectar la influencia del pensamiento de K. 10. Incluso. la producción debía ser y es del patrón. etc. Íbid. Ahora bien. porque no nos interesa ocultar nada. abril de 1974.000 motores son PURA GANANCIA”20 4 A diferencia de los obreristas. los obreristas entendían que el capital está constituido de tal forma que precisa de una sociedad para la producción.p. Y no es casualidad.p. Dentro de la fábrica. aproximadamente 22. el mismo que era sujeto a la alienación de la “legislación fabril”. de una vez por todas. Marx. intercambiable cuando se rompe o se gasta. como retribución por su fuerza de trabajo en la forma de SALARIO.História & Luta de Classes.000 motores producidos al año. Si.tra. y como consecuencia lógica de lo establecido anteriormente. 2. Para ello. 1962. Entonces de lo que se trata. Sistema injusto que comienza a decaer”. “De la producción manual. ni tampoco dice nada de: el lugar que cada persona tiene en la producción de las riquezas. en la fábrica de Perkins. Dentro del mundo fabril. “Pero este análisis no explica el por qué unos tienen más y otros menos. un distanciamiento absoluto del obrero con respecto a los medios de producción que se traducía en el sabotaje. donde varios obreros trabajaban juntos en una misma especialidad. ¿qué hace el capitalista en todo esto? SE LLEVA LA RIQUEZA QUE HAN PRODUCIDO LOS TRABAJADORES. es de dar vuelta la tortilla. ¿quién saca la producción con sus manos? EL OBRERO. En el mismo.p. la lucha contra los regímenes de producción. determinan el modo y la proporción en que cada clase social percibe la riqueza social. sobre la necesidad de lograr la unidad de clase y a través de ésta remarcar la importancia de la militancia política.tra. p. el local donde funcionaba esa fábrica y los instrumentos (máquinas. la forma “Sindicalismo Clasista”.tra.. la revista contenía numerosas editoriales y artículos que se ocupaban de un análisis más profundo. y esa legislación fabril era traducida como “la ley del patrón”: “Es increíble que los grandes avances de la ciencia y la técnica. por lo que el dominio obrero es un dominio posible sobre la producción. el escritor del mismo luego de hacer una breve reseña sobre las etapas de los modos de producción. En este artículo se pone énfasis nuevamente en la centralidad del obrero en cuanto productor: “Y. la cual mantiene al régimen del capital. En esta lógica.p era la de concientizar al obrero sobre su condición de explotado. Año II. se enfatiza nuevamente la figura del obrero y sus aspectos subjetivos en esta relación. en Si.. mayo de 1974. p. Además de los artículos en los que se informaba al operario de los logros en las mejoras de las condiciones de trabajo alcanzadas por la nueva Comisión Directiva. y cede al trabajador sólo una parte. p. en Si. artesanal. por lo que “(.. p. TERMINAR CON LA EXPLOTACIÓN. es decir. el tema clásico de las reivindicaciones salariales era concebido como un terreno de ruptura y no de negociación: los aumentos salariales debían desligarse de los aumentos de productividad para romper la lógica del capital. la democratización del espacio de trabajo y su enfrentamiento contra la denominada burocracia sindical. SOCIALIZAR LOS MEDIOS DE PRODUCCIÓN. que es una deformación conciente de la realidad. los redactores de Si. porqué la relación entre las clases dominantes y el proletariado es una relación de explotación y por ende. Año II. se analizó el balance general de la empresa.. para los redactores de Si.. hace SU CAPITAL. el ausentismo y otras formas de lucha que buscaban dar a la alineación una salida política.. así como los rendimientos de los trabajadores y los motores que sacaba Perkins al mercado. por ejemplo sobre 24. Y.tra. debido a la capacidad del segundo para extraerle plusvalía al primero: “Estas relaciones sociales.) no dejar que se introduzca en la fábrica el interés capitalista significa bloquear el funcionamiento de la sociedad. la misión de Si. la condición del “obrero masa” implicaba una ruptura ulterior en relación al trabajo. herramientas. es decir. p. Por último. El patrón acumula todo el producto del trabajo.tra. las reivindicaciones por la igualdad de los salarios. El otro artículo al que se hace referencia es “La explotación patronal en números concretos”. y esta interpretación es SU IDEOLOGÍA. En primer lugar. Pero el dominio capitalista es el dominio real sobre la sociedad en general. setiembre de 1974.p no pretendieron construir un corpus teórico ni tampoco establecer ninguna innovación metodológica. el aporte fundamental de Marx fue el de haber establecido que la relación social entre trabajador y patrón es una relación de explotación. no se usen y ni siquiera se hagan pensando en el hombre que está detrás de la máquina. subrayando las diferencias existentes con el comunismo primitivo.. dominante. “La estrategia del rechazo”. Julho 2009 (32-37) . debemos ver la realidad tal cual es. Sistema injusto que comienza a decaer”. LA IDEOLOGÍA BURGUESA. es decir científicamente. ESTO ES LA EXPLOTACIÓN DEL HOMBRE POR EL HOMBRE. Como hemos visto en otro artículo.” “El capitalismo. pero también algunas coincidencias con los obreristas italianos. En un artículo muy sugestivo que se llamó “El capitalismo. 5. los medios de producción. enmarcaban una cotidianeidad que para los trabajadores de Perkins se reflejaba en una total alienación.p. qué significaba el sindicalismo clasista18. y tener en cuenta la situación del trabajador de la planta. como trabajadores. Año II. Nº 7. buscando impulsar un igualitarismo salarial que rompiera con las jerarquías y las divisiones al interior de la fábrica. sentar las bases para derribar y destruir el poder del propio capital. 4.tra.35 En esta secuencia. al igual que el obrerismo. era necesario explicar en qué consistía el capitalismo.) eran y son propiedad del patrón. (…) En cambio nosotros. 6. en una misma rama.”17 En consecuencia. las máquinas y artefactos fabulosos que se han inventado.

23 Ìbid. El Capital debe juzgarse de acuerdo al capitalismo actual. para producir NO NECESITA PATRÓN”26.p como para Quaderni RossiClasse Operaia el pensamiento de Marx no podía continuar liquidando sus cuentas con la vieja conciencia filosófica. agosto de 1973.”22 Esto implicaba denunciar ciertas metodologías que solamente beneficiaban al capitalista y perjudicaban al obrero.”. que a la corta o a la larga afectan la salud del trabajador. la revista intentaba develar “(. p. Refiriéndose al sindicalismo tradicional el autor del artículo sostiene: “El sindicato. éste contiene las herramientas y elementos suficientes como para romper la lógica del capitalismo. Desde este punto de vista. “Sindicalismo Clasista”. se logra mantener al personal que la fábrica ya tiene. Yo agregaría que debería confrontarse además con el tiempo de los actores que nosotros estudiamos. coadyuvaba a la reproducción del capital y no a romper su lógica28. 12. se encuentra la doble y mala intención que en muchos casos logran sobre ciertos compañeros: trabajarles la moral.tra. en Si. Éste no llegará antes de que la obra de Marx haya dado todos sus frutos históricos. En el mismo sentido que Marx sostuvo que la “religión es el opio de los pueblos”. De esta manera. Tanto para Si. Si. “Moral y conciencia de la clase obrera”. veremos que detrás de las promesas y <soluciones> que ellos nos ofrecen. 15. ES COLECTIVA.” Citando a Rudolf Schlesinger. ES SOCIALIZADA. Año I. a todos los compañeros que luego se ven obligados a aumentar la producción.) esas trampas. los ambientes. 10. como “expresión de la clase obrera en la lucha de CLASE CONTRA CLASE.) vemos que con las horas extras que valen un poco más que las horas comunes.. o. p.tra. podríamos desechar la banal idea de que la obra de Marx es producto y explicación de una sociedad de pequeños productores de mercancías. como portador de una lógica y de valores distintos a los del capitalista: “Insalubridad”.. que en la mayoría de los casos no las detecta. Una de ellas era la “No queremos morirnos en un socavón!”. sirviendo como distracción de cosas que nada tiene que ver con la explotación en el trabajo25. 22 21 . los ritmos de producción. 16. las líneas. directamente en agente de la patronal. y sin embargo.”27 Similar al obrerismo. Pero no un obrero aislado. Así pues. están hechos de tal forma. Uno de ellos era el de disminuir el costo de mano de obra ya que “(. 4. p.. en que trabajamos. cit.p. Año I. no con su tiempo. el beneficio de lo producido es INIDIVIDUAL. op.. y así se ven en la obligación de sacar más producción. Pero como organización de la clase obrera que es. 7.. debe confrontar a Marx. se ha transformado en mediador entre los obreros y los patrones. 24 Íbid. la crítica a la fábrica y la organización del trabajo significaba no solamente subvertir la autoridad inmediata de la gerencia.tra. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. es decir. p.tra. p. en Si.. 3. cit. p.tra. Aquí aparece nuevamente la centralidad del trabajador como sujeto.p. tal cual era concebido institucionalmente. por el contrario.. agosto de 1974. como organización gremial. op. sino con el nuestro30. Mario Tronti parte de una premisa: para una investigación que quiera retomar el discurso sobre la validez actual de algunas de las afirmaciones marxistas fundamentales.p. el pensamiento de Marx.. el principal método de explotación eran las horas extras: con éstas la patronal lograba varios objetivos además del aumento de la producción. con la enorme diferencia de que en el campo de la sociología tendrán todavía que pasar varias generaciones antes de que pueda aparecer un Einstein. ponerse a prueba mediante un encuentro activo con la realidad más moderna del capitalismo contemporáneo: para comprenderlo y para destruirlo.. sea llevado a cabo por el sindicato. en Mondo nuovo. M.p. 1962.”29 A modo de cierre “Nosotros no podemos hoy dejar de aceptar las afirmaciones marxistas fundamentales más de lo que un físico serio puede ser no-newtoniano. sino poner en cuestión la orientación y los valores mismos de la producción hacia el mercado. se componía de dos partes. o bien las pasa desapercibidas. al brindarle centralidad al obrero en cuanto productor. se lo lleva el capitalista. Por eso el sindicato debía ser clasista. perjudicando esos pocos. Primero..p. Año 1. p. “Marx. p. 25 Íbid. diciembre de 1973. Año I.tra.”24 “Esta es la razón por la cual planteamos LA SOCIALIZACIÓN DE LAS FÁBRICAS Y LOS CAMPOS.”21 La crítica a la “organización científica del trabajo” estaba orientada a descubrir las trampas implícitas en los métodos aplicados en el lugar de trabajo. 28 27 Finalmente.” Por ende. El sindicato burocratizado. La clase obrera en cuanto sujeto central de la producción en la fábrica debía tomar conciencia de que “(…) una fábrica. p. sostenía que la penetración del fútbol en la clase obrera era un engaño que ocupaba los ratos libres de los compañeros. sino que la centralidad que cobra fuerza es la de los aspectos subjetivos del trabajador en cuanto clase. en Si.”23 Otro de los métodos denunciados es el fomento del divisionismo entre los compañeros de trabajo: “Si nos ponemos a observar atentamente y analizamos la forma de actuar de nuestros jefes. 6. noviembre de 1973. Porque la forma en que producimos.36 . Mediante el análisis de la gestión del trabajo. “Nuestro Sindicato.. debía.. 26 “Insalubridad”. no representa ningún partidismo. 30 TRONTI. 29 “Socialismo”. 1973-1975 misma en que está organizado el trabajo. en Si.p.La lectura de Marx en clave clasista: el Si. que el enfrentamiento económico y social entre explotadores y explotados. 11. ayer y hoy”. se denunciaba el fomento del juego y el fútbol. Año II. defiende los intereses de la clase trabajadora y lucha contra la injusta explotación capitalista. un mayor tiempo en la planta.tra. que están bien disimuladas y permiten de esta forma engañar al trabajador.

tra. Nº 7. una vez adquirido el punto de llegada de la obra de Marx –El Capital-. por lo cual era necesario descubrir las necesidades del desarrollo del capital y trastocarlas en posibilidades subversivas de la clase obrera. el valor en el capitalismo oligopolístico) debe constituir el punto de partido para llegar de nuevo al “conjunto viviente”: el pueblo. la otra es análisis científico del capitalismo.37 “crítica despiadada de todo lo que existe”: en Marx se ha expresado como el descubrimiento del procedimiento mistificado del pensamiento burgués y. para estas publicaciones. estos dos momentos se pueden captar lógicamente divididos y cronológicamente sucesivos: de la Crítica de la filosofía hegeliana del derecho público a El Capital. los artículos escritos en estas publicaciones intentaron la búsqueda de un sujeto: el “obrero masa” poseedor de un poder de decisión sobre los movimientos del capital. . Julho 2009 (32-37) . la lucha de clases internacional. las modificaciones producidas en la composición orgánica del capital. Análogamente. el Estado político. como desmitificación teórica de las ideologías capitalistas.p. por lo tanto. La otra es el “análisis positivo del presente”. tal vez la máxima de “nunca arrojarse a combatir en la práctica sin armas teóricas” resuma la finalidad última de Quaderni Rossi-Classe Operaia y Si. la investigación sobre algunas abstracciones determinadas (el trabajo alienado. la democracia. En la obra de Marx. Para terminar. Entonces. A través de Marx. Una es crítica de la ideología burguesa. que del máximo nivel de la comprensión científica hace surgir la alternativa futura al mismo.História & Luta de Classes. es preciso tomar éste como punto de partida. una vez llegados al análisis del capitalismo. hay que partir de nuevo de este análisis.

ultrapassando as próprias iniciativas pessoais motivadas pelo interesse acadêmico ou político. além de uma vida marcada por três exílios. o papel das novas tecnologias em seus efeitos sobre as condições de trabalho. Ruy Mauro. Por razões de espaço. até a passagem por temas tratados pontualmente como a questão da educação superior no Brasil.).htm#4. 2005. Disponível em: http://www. nos limitaremos a abordar três destas relações: com a economia.. . frente aos regimes políticos do capitalismo na região da AL e na sua relação com o socialismo.htm. 3 MARINI. Marini demonstrava as umbilicais ligações entre Estado e economia. Memória . Disponível em: http://www.”2 Com toda esta horizontalidade de reflexões e posicionamentos. bem como às suas causas econômicas profundas e às suas conseqüências. São Paulo: Expressão Popular.mx/001_memoria_port. O Mineiro de Barbacena Ruy Mauro Marini (1932-1997) tornou-se conhecido nos meios acadêmicos e militantes do Brasil e do exterior por suas contribuições enquanto intelectual de esquerda e marxista engajado. não sem antes alertar para o fato de que a exatidão 2 MARINI. y sin perder de vista la acción de la economía internacional.] de igual modo.unam.38 . [. os rumos do socialismo mundial face à crise da esquerda européia em meados da década de 1970. Marini . As preocupações que foram objeto de sua reflexão sistematizada vão desde a análise do processo de luta de classes que resultara no golpe militar no Brasil em 1964.4 Marini. esta entendida como o lugar das classes sociais e da economia – apresentará em termos mais estritamente políticos esta relação. em agosto de 1977. a relação entre concentração de renda e movimentos sociais.. presenciou o auge da teoria desenvolvimentista na América Latina (AL) e no Brasil.”3 Dezessete anos mais tarde.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini José Carlos Mendonça* I ntrodução desenvolvimento capitalista latino-americano e o modo como era percebido e influído pelo processo teórico. Ruy Mauro. Roberta & STEDILE. en una amplia medida. juntamente com André Gunder Frank e Theotônio dos Santos. No entanto. múltiplos temas de política internacional. indústria automobilística e déficit público.discutindo a relação Estado/sociedade civil.mx/108_latinoamerica_es. encontraria “la clave de la superación de la crisis cíclica esté. as características da crise econômica mundial e suas implicações para a AL.. por excelência. mais no sentido da apreensão do Estado nas suas diversificadas interconexões com outros campos da vida social. Estado e Economia Ao escrever para o jornal mexicano El Universal. en un país como Brasil. por exemplo. conviene preguntar hacia donde apunta el Estado. a questão do subimperialismo. o que fez o seu pensamento transitar. Acesso em 23 jul 2008.. 1 Para conhecimento deste percurso. Ruy Mauro Marini – vida e obra. Acesso em 22 jul 2008. o exame de categorias e teses marxistas aplicados ao estudo da AL. Seu leque de investigações pode ser vasto. El Estado en la Economía. en las manos del Estado. o debruçar-se sobre a passagem do sistema mundial de poder da 'bipolaridade' à 'multipolaridade'. menos na tentativa de procurar extrair um conceito a ser aplicado a estas mesmas relações.mariniescritos. muito em função do contexto em que sua trajetória individual esteve inserida e pode partilhar. contribuições para caracterizar o poder em Cuba.unam. em especial na AL. sobre a crise latinoamericana de meados daquela década.marini-escritos. para modificar as condições que a mantinham em crise..) o centro. a tomada de posição no debate sobre as causas da queda do governo Allende no Chile em 1973. da adesão à crítica em relação às elaborações da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) das Nações Unidas1. lo mismo pudiendo decirse de México o Argentina.] tanto para la creación de mercado como para la formación de la inversión” e a segunda. si se quiere investigar las posibles modificaciones que sufrirá la economía nacional en el curso de la presente crisis y precisar las características que podrá tener en la eventualidad de una nueva fase expansiva. que lugar ocupa o Estado. Basta citar que. O primeiro ao desempenhar um “papel clave en la dinámica económica de nuestros países [. tornou-se um dos principais expoentes da chamada "teoria da dependência" que marcou a maioridade do pensamento social latino-americano na sua relação com o pensamento social produzido nos grandes centros capitalistas. consultar TRASPADINI. Partindo da definição de Gonzalez Casanova de que o Estado é “el poder de disponer de la economia”. as relações entre democracia e ditadura no capitalismo. João Pedro (orgs. como foi ele entendido e em que dimensões por Marini? É o que estas breves notas pretendem apontar. num texto de 1994. Some-se o fato de que Marini. como o próprio Marini afirmou “(. de minhas pesquisas continuou sendo o *Mestrando em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC..

.. in: Economía y democracia en América Latina. sustentou que a concepção Hobbesiana. [. determinando sua estrutura e funcionamento. segundo Marini. sem a realização prévia de uma revolução social anticapitalista e apresentam como alternativa a chamada Democracia Participativa – confundem a autonomia do Estado frente aos burgueses.História & Luta de Classes. com variações no calendário dos paises. que delega in totum a soberania popular para o Estado e com isso retira dos cidadãos a possibilidade de estabelecer limites ao poder estatal. ou seja. p. Formulações deste cariz . tem de impor medidas de interesse geral para a 4 GONZÁLEZ CASANOVA. pois já havia sido observado por Marx quando escreveu na Neue Rheinische Zeitung em abril de 1850: “O Estado dos burgueses não é mais do que um seguro colectivo da classe burguesa contra os seus membros individuais e contra a classe explorada”9 .. e tentar organizar o consenso social. Lisboa: Dinossauro. Ibid. mas de identificar em sua formulação aspectos que possibilitam uma justificação teórica para um “Estado de transição”. em contraposição ao modelo de democracia representativa. Citado por THOMAS.] Uma vez que se compreenda que. para fazer frente ao avanço do pólo sob hegemonia da então URSS que consistiu em abandonar uma postura de relativa contemplação para passar a uma postura que Marini 8 9 Cf. sofreu alterações a partir de meados da década de 1980. Isto significa que o pensamento de Marini parte da análise da situação concreta para construir os conceitos com os quais integrará o edifício de suas teorizações também neste âmbito relacional. sabemos que de nada serve. recorrer ao Estado 'para mudar a vida'”8 . Articulando as categorias de análise. 2008.] Porque insistimos nesta autonomia e nesta função geral do Estado? Porque [.mariniescritos. obra citada. Nº 7.. p. a qual resulta como contra-revolucionária abrangendo um período que vai aproximadamente de 1960 a 1990.. THOMAS. entre outros fatores. [. 37-39. O ponto de partida adotado por Marini foi proceder a uma caracterização da situação política latinoamericana à luz das lutas sociais e de classe na região. La socialisation de l'impot. De resto. Como bem afirmou Thomas (2003): “O Estado Burguês [. O Estado e o Capital. que afirme la dirección y el control de las masas sobre el Estado de manera directa y permanente. Id.”6 Embora tenha o mérito inquestionável de apontar a insuficiência do modelo representativo da democracia liberal. Karl. Relação esta que. senão para enganar o povo. ocorrida em fins dos anos 1950/60 durante o governo Kennedy. aos quais. foi a que mais se aproximou da adotada pelas classes dominantes na AL durante as ditaduras militares instaladas na região a partir de meados da década de 1960: uma relação de subordinação da economia à política. Três são as vertentes que contribuem para conformar as ditaduras militares segundo Marini: a mudança de estratégia dos EUA. 2003. MARX.. com a autonomia frente ao “interesse geral da propriedade privada e de seu desenvolvimento enquanto propriedade capitalista”7 e induzem a ilusões.que abrem a possibilidade para que as instituições do Estado Capitalista possam ser dirigidas e controladas pelas classes exploradas sem a inversão da correlação de forças entre capitalistas e proletários. esta concepção de Marini padece também de insuficiências ao projetar a concepção de um Estado que pode vir a deixar de servir ao conjunto dos capitalistas enquanto classe. vale lembrar que tal fenômeno se encontrava nitidamente delineado pelo menos desde a primeira metade do século XIX. La Crisis del Estado y la lucha por la democracia en América Latina. de uma acertada sensibilidade face às contradições expressas teoricamente no interior do campo dominante.. passemos à próxima relação. ao contrário das aparências e da ideologia. evoluindo para uma relação de autonomia do Estado na gestão econômica.mx/022_economia_democracia_es. Estado e Ditadura Militar O pensamento político de Marini se deteve ricamente nesta relação que. fazer a defesa “de una verdadera democracia participativa. que nosso autor localiza o ponto de concentração para exercer seu rigor analítico neste tema.] é a forma política que organiza a sociedade burguesa [.. 37. Julho 2009 (38-44) .39 desta definição sofre variações consideráveis de acordo com a vertente teórica burguesa que se adote. Ruy Mauro. permanecendo imune às influências que os processos de redemocratização que se processavam desde então porventura fizessem incidir5. Feitas estas ressalvas. O exemplo francês.unam.. Não se trata aqui de atribuir diretamente a Marini a defesa de um Estado “neutro” ou algo do tipo. MARINI. perpassa a maior parte de sua existência dado que se trata de um perseguido por duas Ditaduras (primeiramente pela brasileira que se instaura em 1964 e posteriormente pela chilena em 1973).] mas também um aparelho autônomo em relação aos seus membros particulares.htm.. Marini chega assim à concepção de que o regime político-estatal denominado Democracia se define como “una forma de organización política que atribuye a la ciudadanía el derecho fundamental de disponer de la economía” para. Citado por MARINI. e até mesmo em relação à burguesia em momentos excepcionais. por vezes. Pablo. que se opõem aos interesses pessoais imediatos destes ou daqueles. . Tom. em sua inexorável materialidade. fruto. Disponível em: http://www. promover alianças entre classes e não apenas entre as diferentes fracções da grande burguesia. Ibid. 6 7 5 Id. 'o Estado político é apenas a expressão oficial da sociedade civil'.] veremos o Estado desenvolver-se. ou seja. obra citada. 164. p. reprodução desta sociedade. É da incidência da contra-revolução sobre o Estado. Acesso em 20 jul. Economia y democracia en América Latina .

Outra distinção importante destacada por Marini é a impossibilidade da burguesia monopolista nativa de atrair para o seu campo parcelas expressivas dos setores populares.21-29.marini-escritos. Acesso em 23 jul 2008. No plano ideológico. independientemente del régimen político vigente. Dicho Estado presenta similitudes formales con el Estado fascista. Cuadernos Políticos. que apresenta igualmente a outras formas de Estado capitalista um poder executivo hipertrofiado. radicam na existência de dois centros de decisão no interior do executivo. Este conceito explica a necessidade de aplicar à luta política um enquadramento militar tanto pelas burguesias dependentes para conseguirem sua integração no sistema capitalista em condições menos desfavoráveis frente às burguesias centrais. inclusive para delimitar as especificidades de tais formas na AL quando comparadas às formas assumidas pelo fascismo europeu dos anos 1920-45. In: “Correo de la Resistencia”. sendo capaz inclusive de obter vitórias eleitorais a exemplo do ocorrido na Alemanha de Weimar. independiente de la forma que asuma eses Estado. diferentemente do fascismo europeu que conseguiu influencia real na pequena burguesia e em parte do proletariado. Marini aponta que enquanto o fascismo europeu desenvolveu um discurso de negação da democracia burguesa.mx/016_contrainsurgencia_es. Marini demonstra que a base sobre a qual se assenta o Estado Militar difere da do fascismo europeu.unam. MARINI.mx/052_estado_militar_es. D i s p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w. As características específicas desse Estado. pero su especificidad está en su peculiar esencia corporativa y en la estructura y funcionamiento que de allí se generan. 11 Para a enumeração que se segue.unam. Para tentar solucionar as contradições não resolvidas no terreno da política. así como con otros tipos de Estado Capitalista. Tarefa que a forma estatal ditatorial apresentava melhores condições de realização comparativamente às formas democráticas. Acesso em 23 jul 2008. serviços de inteligência). Llamarlo fascista no nos hace avanzar un paso en la comprensión de su significado. ( E d i t o r i a l ) . El carácter del Estado Militar y sus implicaciones para la izquierda. El Estado de Contrainsurgencia. por fim Marini aponta o ascenso do movimento de massas durante os anos 1960 e até antes.”12 12 10 MARINI. Cumpre enumerá-las11. O primeiro constituído pelos órgãos militares 'puros' (Estado Maior das Forças Armadas. mas também que tal processo afetou Estados que não assumiram esta forma política. m a r i n i escritos. produziu uma burguesia monopolista integrada à burguesia dos países imperialistas centrais resultando na quebra do Estado Populista que favorecia a acumulação de todas as frações burguesas para fazer brotar um Estado voltado para o favorecimento da acumulação das frações monopolistas. Em segundo lugar.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini denominou de resposta flexível. A transformação estrutural das burguesias nativas que além de gerar alterações na composição do bloco de poder dominante. órgão fundamental do Estado de Contra-insurgência. Isto se explica devido ao critério de Marini em situá-las no arcabouço mais amplo das “formas particulares de la contrarrevolución burguesa”10 . . subordinando as demais e a pequena burguesia. empresas estatais) e ambos se entrelaçando no Conselho de Segurança Nacional. 18. México: Ediciones Era. num. o da sua defesa. octubre-diciembre. número 13. de onde ditam as condições ao conjunto da burguesia. 1978. obra citada. além do texto acima. quanto pelas burguesias imperialistas para lograrem a reestruturação da economia internacional naquele momento. Tal foi explicado pela busca de recomposição da unidade entre as diversas frações burguesas dado o limite de não conseguir reunir força social própria para enfrentar o movimento popular. Marini destaca que tal caracterização não se resume à instalação de ditaduras militares. órgano del Movimiento de Izquierda Revolucionaria de Chile en el exterior. Disponível em: http://www. Marini apontou que a contra-revolução latinoamericana dispensa a subordinação do exército à mediação de um partido político. um militar e outro econômico. In: “La cuestión del fascismo en América Latina”. es decir. pp.htm. Marini sintetiza assim sua concepção: “El Estado de contrainsurgencia es el Estado corporativo de la burguesía monopólica y las fuerzas armadas. Ao debruçar-se sobre o caso chileno três anos após o triunfo do golpe pinochetista. Primeiramente por não se tratar de uma debilidade conjuntural da burguesia e do imperialismo como ocorreu na primeira metade do século XX e sim de uma debilidade estrutural da burguesia dos países dependentes fruto da perda de vigência do modelo de acumulação que vigorou até então. passou-se então para o terreno da guerra. Ruy Mauro. pois ambas as necessidades requerem a submissão do proletariado pela força. a contra-revolução na AL desenvolveu o discurso inverso. conferir também em MARINI. gerando a necessidade de redefinição do lugar de tais burguesias na economia mundial. o qual incide sobre as contradições no campo burguês no sentido de agravá-las e que exigia uma reação violenta dos capitalistas.40 . em que pese a adoção dos recursos fascistas pelas ditaduras militares ser similar. El Estado de Contrainsurgencia. quanto o relacionamento direto com as instituições corporativas dos capitalistas. o segundo pelos órgãos civis ocupados por tecnocratas e militares (ministérios econômicos. Sendo assim. Marini elabora então o conceito de 'Estado de Contra-insurgência'. exercendo os militares tanto a ocupação direta dos postos governamentais. diferentemente do fascismo europeu.htm. Ruy Mauro. aos capitalistas latino-americanos o recurso possível é o exercício da força direta para fazer valer seus interesses. agosto-octubre de 1 9 7 6 .

) Na realidade. ao mesmo tempo. p. muito mais do que um conjunto de instituições a serviço dos capitalistas. por outro lado. 2003. Julho 2009 (38-44) .41 Posteriormente. se recordarmos que nessa ocasião as formas sociais inovadoras criadas pelo movimento operário haviam já sido derrotadas e tinham degenerado. Nº 7.”13 Diferentemente do local onde Marini situou sua análise. e pela forma como detectou a estratégia de assegurar a continuidade dos traços dessa forma estatal por meio da sua institucionalização em situações de democracia burguesa.) A manutenção de alguns mitos e. (. p. Do mesmo modo. analisados na perspectiva do marxismo da luta de classes são. Porto: Afrontamento. onde Marini enxergou 'ascenso' do movimento de massas como um inimigo a ser vencido na AL. p. portanto. Em sentido inverso. e desde que. No profundo e abrangente estudo dedicado ao fascismo que realizou. em suma. no qual este foi definido como sendo uma “revolta na ordem”. Ambos os casos. mas somente após essas movimentações terem sido desarticuladas pelas suas contradições internas. Com o abandono da esperança revolucionária a hostilidade de classe assumia a forma degenerada do ressentimento. pois como concluiu Bernardo “O triunfo do fascismo só começa a entender-se.. 14 15 Id. esta última por meio da edição das chamadas 'leis de segurança nacional'.. ibid.”14 Ora. é em outro lugar que se deve procurar o surgimento do fenômeno do fascismo. Id. eles jamais conseguiram ascender em confronto directo com as movimentações revolucionárias dos trabalhadores.ainda que por certo prazo. (. porém. persistissem entre os trabalhadores todos os motivos de insatisfação. foram antecedidos por uma derrota profunda das lutas dos trabalhadores. sua percepção de que o Estado de contra-insurgência se funda num momento de debilidade estrutural das burguesias locais enquanto o fascismo foi um momento de debilidade conjuntural das burguesias européias não se sustenta. suas formulações também possibilitam um outro campo de compromissos que. ibid. Entretanto. indicadores de influências herdadas dos quadros analíticos do bolchevismo16. Sempre que se confrontou com o movimento operário organizado. 33-34. o fascismo só alcançou a hegemonia depois de haver desaparecido do horizonte a alternativa social incorporada pelas manifestações de luta colectivas e activas. para se apoderar em seguida da governação. 13 BERNARDO. revela a preocupação política clara de evitar compromissos entre o proletariado e a burguesia. Tanto o Estado fascista quanto as ditaduras militares não deixaram de atender a este objetivo com determinação . pode-se perceber lutas ainda incipientes que expressavam a elementar implantação do capitalismo industrializado. ao relacionar o Estado de Contra-insurgência com o processo de redemocratização. Esta foi uma regra sem excepções. Percebe-se então que o pensamento de Marini. podem-se identificar os méritos do pensamento de Marini pelo fato de descortinar as atenções para os fatores internos na explicação. seja a forma estatal fascista na Europa ou o Estado de ditadura militar na AL. por exemplo. quando os fascistas conquistaram as ruas e os campos. João. consideradas no seu conjunto. se o fascismo foi uma revolta na ordem que procurou recuperar para o capital a revolução dos trabalhadores e o Estado em geral. . dos golpes militares. no mínimo. já apresentavam uma debilidade estrutural (das lutas e não das burguesias) o que as tornava incapazes de fazerem frente aos golpes civil-militares que abriram caminho para a implantação das ditaduras. 26. Formula então a concepção de 'Estado de quatro poderes' acrescendo as Forças Armadas ao tripé clássico do Estado representativo moderno (executivo/legislativo/judiciário) que cumpriria a função de tutelar o conjunto do aparelho estatal e a sociedade. 35.. pela acuidade na percepção das peculiaridades regionais para evitar que a caracterização da contra-revolução na AL desembocasse numa justificativa para a formação de frentes policlassistas. por esgotamento (caso da Europa) ou por incipiência (caso da AL).... ao tratar da relação do Estado com as ditaduras. visto desta perspectiva. deve ser entendido como “um princípio de organização geral das instituições [. Neste âmbito de relações. Bernardo presta-nos o seguinte esclarecimento: “A crer numa versão corrente ainda hoje muito divulgada.História & Luta de Classes. Labirintos do Fascismo..] que dita a organização interna da classe dominada”15 sem margens para teorizações que abrem fendas por onde podem passar possibilidades de ocupação e controle desse mesmo Estado pelo proletariado. evidenciando que a fragilidade estava nos trabalhadores e não na burguesia .. em vez de desvendarem os mecanismos que levaram a dissolução de um a gerar a ascensão do outro. o apego a certas indecisões fatais dependem de se apresentar o fascismo e o movimento operário como dois mundos distintos e separados. e encontra uma perfeita ilustração no primeiro de todos os fascismos. nas quais a burguesia tendia a assumir papel hegemônico. É o que veremos ao tratar do modo como o seu pensamento articulou a relação do Estado com o socialismo. Tais lutas. Marini identificou a tentativa de institucionalizá-lo após a abertura política por meio da preservação do fundamental de seu caráter. Neste caso.salvo se estivermos tratando de lutas no interior da classe burguesa. a análise da relação entre as classes em luta consideraria a presença das classes exploradas como elemento subordinado. sem autonomia. o fascismo teria constituído o último recurso do grande capital ameaçado pelas acções vitoriosas do proletariado.

habrá que reseñar de manera menos emocional algunos aspectos que ella reviste”. encarou tal supressão como ponto de partida para o proletariado vitorioso revolucionariamente. S obre o socialismo . Disponível em: http://www. quando polemizou contra Lélio Basso .htm#_ednref3. Marini apresentou em termos teóricos sua concepção de socialismo19. sin incurrir en el reemplazo de la realidad por planteamientos ideales o un dulce pero ingenuo 16 Para conhecer a história do bolchevismo. Neste escrito de 198218. Ora buscou construir um diálogo entre forças de esquerda.]” Posteriormente em 1991-93. como no seu envolvimento e colaboração regular com a revista Chile Hoy até o golpe militar naquele país. 'construção socialista com base no mercado capitalista mundial') bem como pela forma cabal com que conclui o texto: “La lección que hay que sacar de allí […] no es en suma la de negar que haya socialismo en Polonia: es más bien la de reconocer que el socialismo se realiza históricamente de forma imperfecta y contradictoria y que sus contradicciones pueden engendrar efectos tan terribles como el golpe polaco del 13 de diciembre. Marini desenvolveu elementos de sua concepção de socialismo enquanto processo histórico e procurou situá-lo na perspectiva das lutas de classes nacionais e internacionais. 18 As citações que se seguem foram extraídas de MARINI. Ruy Mauro.unam. Ibid. In: CIDAMO Internacional.mariniescritos. Polonia: el socialismo como problema. Inserindo as tentativas de superação do capitalismo ocorridas nos chamados 'países socialistas' no contexto da crítica do capitalismo enquanto modo de organização das relações humanas e afirmando que a falência do 'socialismo real' não invalida a busca por formas superiores de organização social. pp. en su desarrollo histórico. Conseqüentemente. entende que o socialismo se inspira na busca pela “recuperação em um nível superior da propriedade individual”20 e em Lênin que “partindo da noção de socialismo como processo histórico. 17 MARINI. enero de 1982. Acesso em 26 jul 2008.marini-escritos. que eles haviam herdado da Terceira Internacional.htm. nosso autor. Ruy Mauro. apesar de reconhecer que tal medida seria insuficiente para promover a transformação de tais relações sociais num sentido anticapitalista.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini Estado e socialismo Neste âmbito. Também esteve inserindo no debate sobre a transição ao socialismo tanto para polemizar com concepções que subordinavam o socialismo à dinâmica própria do Estado Capitalista. que no comprometía de por sí. já na fase final de sua vida. el traspaso del poder a la oposición. embora reconhecesse que “el movimiento obrero polaco había generado una notable capacidad de iniciativa y organización por la base.42 . Artur.mx/076_polonia_es. vide RODRIGUES. sempre movido por preocupações concretas. Percebe-se nesta passagem que seu pensamento opera a partir da disjuntiva revolução/contra-revolução aplicada ao caso concreto polonês como sendo governo/oposição sem distinguir o grau de identidade entre a massa proletária de opositores ao governo e sua liderança. 1985.htm. ora dedicou-se a combater a ideologia dos partidos comunistas de “revolução democráticoburguesa. Quando analisou o desfecho da acirrada luta de classes na Polônia que resultou numa ditadura militar parida de um bem sucedido golpe de Estado desfechado em dezembro de 1981. O pensamento de nosso autor neste ponto toma por idênticos os distintos conceitos de 'classe' e 'representação de classe'. In: VVAA. consultar o excelente trabalho de ROSENBERG. 21 Id. Acerca de la transición al socialismo. Marini. Francisco Martins. Reforma y Revolución: una crítica a Lelio Basso. Acesso em 23 jul 2008. Belo Horizonte: Oficina de Livros. do autor. hubiera significado abrir camino a la contrarrevolución”. sino más bien afirmaba. História do Bolchevismo. Ibid. apoiando-se em Marx.que sustentava que não se poderia abolir o ordenamento jurídico burguês durante a transição – Marini afirmou a necessidade da supressão das instituições jurídicas que consagram as relações de produção capitalistas. como para forjar conceitos que auxiliassem na caracterização das experiências de poder que se reivindicavam do socialismo. ele considerou o caráter das concepções programáticas apresentadas pela direção do movimento de oposição ao Estado Polonês como base para prever que “la dirigencia que cristalizará en el curso de éste y sus concepciones programáticas hacían probable que. Em escrito de 197417. antiimperialista e antifeudal”. m a r i n i escritos. D i s p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w . el curso socialista del proceso” Marini considerou que “Para situarse ante la dictadura militar polaca. Tal se deduz das expressões utilizadas ('comunidade socialista'. Acesso em 26 jul 2008. porém. 20 Id. 1974. número 4. Disponível em: http://www.unam. neste texto Marini se alinha com os que concebem a natureza social dos extintos regimes do Leste Europeu e da exURSS como socialista. obrerismo (que se expresa en ideas de hay que estar con los obreros. Marini pode desenvolver seu pensamento e apresentar suas concepções em distintos momentos de sua vida. caracterizada pela superação da propriedade 19 MARINI. 61-64. como un proceso que se critica y se rehace todos los días [.. Es la de alertarnos sobre la necesidad de considerar a la revolución proletaria. o assumia como uma das características centrais da nova etapa em que entrara a humanidade e que ele definia como sendo a era do imperialismo e das revoluções proletárias triunfantes”21. Ruy Mauro. deve-se inicialmente localizar como nosso autor se situou na célebre tensão entre Reforma versus Revolução e sua concepção de socialismo. Para conhecer as origens da compreensão bolchevique do fascismo no âmbito da III Internacional e a sua crítica. Buenos Aires: Periferia. 1989. aunque no tengan razón). Anti-Dimitrov. Sem operar tal distinção.mx/012_reforma_es.mx/040_sobre_socialismo_port.. Lisboa: Ed.unam. México. Marini chega assim à formulação do seu próprio conceito de socialismo: “Período de transição de uma nova era histórica. . Para chegarmos ao papel do Estado no socialismo no pensamento de Marini.

organismos para coordenar a produção enquanto totalidade. Esta meta no se alcanza y no puede alcanzarse mediante una nueva clase dirigente y gobernante que sustituya a la burguesía. i. Democracia socialista e ditadura do proletariado são.História & Luta de Classes. a classe dos trabalhadores assalariados. levando inclusive à adoção do pluralismo sob certas condições. escrevendo em 1947. teoricamente e em fatos. formando una burocracia bien organizada. recepcionado pelo pensamento de Marini. se sentía impotente. ele se alinha com uma concepção de socialismo já ultrapassada. Reafirma o papel do partido enquanto “condutor e educador” embora critique a estratégia de depositar na vanguarda partidária a produção de novos valores que poderiam realizar o socialismo. no plano político. es el amo directo del proceso de producción. científicos. Marini acresce aqui a possibilidade de que o Estado promova o que ele denominou de concessões à burguesia por meio de compromissos. e é dessa interdependência que extraímos a relação do Estado com o socialismo. mas não se confunde com uma concepção anarquista de 'abolição' do Estado. cujo modo de apropriação da riqueza corresponde à ausência de propriedade privada dos meios de produção. apropriando-se do conceito de “cidadania” que no entender de Marini caberia à democracia socialista “dar-lhe foro efetivamente universal”: uma cidadania socialista que estabeleça a plena igualdade política.. extrair com profundidade as conseqüências das experiências das revoluções russa e alemã para o socialismo do futuro e aclarar o (não) lugar que o Estado nele deveria ocupar: “El socialismo. necessidade de realizar a revolução cultural. Ibid. que se supone o se pretende que la acompañen. Na concepção de Marini. pueden escoger a sus amos. Em que pesem as observações e os alertas 22 23 O 'Estado de transição' se configura assim num espaço por onde se legitima (na teoria) a reconstrução (na prática) da diferenciação de tipo classista. e – na medida em que qualquer dominação estatal supõe o uso da força. Observa-se que a relação Estado/socialismo em Marini reconhece vigência nas suas principais linhas aos parâmetros em que foi pensada por Lênin para o contexto russo. en su primer alzamiento. Anton. jefes. Tesis sobre la lucha de la clase obrera contra el capitalismo. Coube a Anton Pannekoek (1873-1960). um Estado aliancista e democrático para dirimir as divergências entre as classes sociais integrantes da aliança socialista por meio da adoção de métodos persuasivos e. entre outros. bajo la democracia. Para além da centralização econômica dos meios de produção. 1979. y buscaba en el Estado protección contra la clase capitalista por medio de reformas sociales. 1947.. um Estado coercitivo para com as antigas classes exploradoras. para subordinar as demais classes e se manifesta em relação a estas como ditadura – uma nova forma de ditadura. incapaz de conquistar por sí misma el poder sobre las fábricas. por outro. erigido como la meta de la lucha de los obreros. pois visa estabelecer outro conteúdo para o conceito marxiano da 'ditadura do proletariado' distinto daquele. Pannekoek sustenta que os proletários devem constituir 'Conselhos Operários'.e. pero no son ellos mismos amos de su trabajo. Las formas democráticas. e pela substituição da burguesia como classe dominante pelo proletariado. ao fundir no aparelho do 'Estado de transição' democracia e socialismo. com relativizações e flexibilizações. reciben sólo parte de lo producido.com/cica_web/consejistas/pannekoek/pannekoek_tesis. A essa dominação de classe corresponde. . es la organización de la producción por el Gobierno. Melbourne. neste sentido. In: Abogación Sureña por los Consejos Obreros. entendidas como exercício da condução do Estado socialista. el mando de los funcionarios del Estado sobre la producción y el mando de los gerentes. porém inseparáveis. El socialismo fue proclamado la meta de la clase obrera cuando. se é preciso. luta ideológica por outra moral e visão de mundo.”25 Destaque-se por fim que a concepção de Pannekoek demarca claramente do entendimento bolchevique. […] Los obreros. no alteran la estructura fundamental de este sistema económico. Disponível em: http://www. baseada na socialização dos meios de produção. apenas dois lados da mesma moeda. pelo menos desde fins da segunda guerra mundial. Ibid.geocities. n. correlativa ao fato de que a nova classe constitui a imensa maioria da sociedade. democracia e socialismo são conceitos distintos. Significa el socialismo de Estado. uma forma de democracia ampliada. A revolução proletária e o Renegado Kautsky. Marini concebe o papel político do Estado em termos muito próximos com os quais Lênin concebeu a aliança operário-camponesa no processo da Revolução Russa23: por um lado.”24 Adiante no texto Marini afirma que o socialismo pressupõe a conquista do poder político. asignado a ellos por otros. LÊNIN. zip Acesso em: 28 jul 2008. No lugar do 'Estado de transição' leniniano. En la economía socialista. tarefa que deve se dar pela própria experiência de vida das massas como condição para o desenvolvimento de suas capacidades revolucionárias. Sólo puede ser realizada por los obreros mismos siendo dueños de la producción.43 privada em favor de uma nova forma de propriedade individual. encetar a luta PANNEKOEK. este cuerpo. 25 Id. Lisboa: Avante. en la fábrica. tendo em vista que “La meta de la clase obrera es su liberación de la explotación. Para conhecimento dos exatos termos da concepção leniniana vide. son aún explotados y tienen que obedecer a la nueva clase dominante.”22 feitos por Marini à luz das experiências revolucionárias do século XX sobre o protagonismo insubstituível das massas no processo da revolução. 33. 24 Id. Julho 2009 (38-44) . Nº 7.

não significa romper com as influências que sofreu. Ao que se saiba.44 .Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini contra o poder do Estado antes e assegurar o poder proletário após a derrubada da classe dominante26. diante dos impasses teóricos e práticos insolúveis do Estado bolchevique (insolúveis do ponto de vista do proletariado). O Estado esteve subjacente ao longo de sua obra e mereceu tratamento constante nos seus escritos. como um pensamento que procurou renová-la ao invés de substituí-la. . duas observações. Afirmar a originalidade de seu pensamento em muitos aspectos. não conceber a substituição deste modelo de Estado político é sua maior fragilidade. para que suas elaborações não servissem para fins políticos reformistas no sentido de que estas pudessem substituir a necessidade da revolução socialista (embora Marini a conceba nas formas pacífica e violenta). situando-se neste particular em relação à teoria que o bolchevismo produziu. Considerações Finais Este trabalho pretendeu analisar o lugar ocupado pelo Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini. E. consultar: PANNEKOEK. Anton. 1977. Se a pesquisa se concentrasse no pensamento econômico deste autor. Los Consejos Obreros. Permitem. esta obra permanece inédita no Brasil. Madrid: ZYX. E aqui reside o aspecto mais problemático da concepção de Marini sobre o Estado. 26 Para conhecimento na integralidade da concepção dos Conselhos Operários. por exemplo. Em não poucas vezes. no entanto. As três dimensões analisadas nestas breves notas são insuficientes para afirmações terminativas. Ela não foi capaz de ultrapassar o referente bolchevista da questão enquanto alternativa radical de teoria do Estado para o movimento socialista. forçosamente outras seriam as obras consultadas e se desenvolveria por outros caminhos. tratamento dado com originalidade e que contribuiu.

o sentido dado ao termo “subversão” relaciona-se. que o Partido Comunista Brasileiro (PCB).br 1 ARRUDA. dez produzidos em 1971 e nove em 1972. esta conjuntura era vista como preâmbulo do fenômeno da “guerra total”. como cenário. este mais abrangente que o outro. em razão do limite de extensão permitido aos artigos publicados nesta Revista. permite. transmutou-se no conceito (depois tornado doutrina) de Segurança Nacional. intitulavam-se. vamos examinar apenas as partes desses documentos referentes à atuação de organizações de esquerda e ao combate que sofreram pelos órgãos de segurança. com a formulação do conceito de Segurança Nacional. seguia orientação 2 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA/SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES. desenvolvido principalmente na Escola Superior de Guerra (ESG)1. alcançava-se o controle progressivo da Nação.3 distribuídos pela Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério do Interior (MINTER). a principal estratégia de expansão do comunismo era a fomentação da chamada “guerra revolucionária”. “Síntese das Atividades Subversivas no Brasil”. a conjuntura mundial da “guerra fria”. Explica-se aí. o antigo conceito de “inimigo” desdobrou-se. Os originais destes documentos fazem parte do acervo da extinta (em 1990) Superintendência do Desenvolvimento da Região Centro-Oeste (SUDECO). Volume .História & Luta de Classes. ocorridos na sua fase mais cruenta. deste último derivados. Oriente versus Ocidente. oferecendo às autoridades e aos órgãos de repressão do país. da República e a dos subsistemas setoriais. A Escola Superior de Guerra: história de sua doutrina. Deste modo. o subversivo. pelo SNI. 1983.com. mas também o nacional: o agente comunista infiltrado. Assim. etc. produzidos durante o ano de 1971. provavelmente. “conhecimentos” obtidos mediante a atuação de seus agentes especializados. Conforme os formuladores dos princípios doutrinários da ESG. mais particularmente. Organizações subversivas versus órgãos de segurança e informações O primeiro documento do conjunto a ser examinado neste trabalho data-se de 31 de maio de 1971 e inicia-se pelo item “Antecedentes”. O SISNI compreendia duas modalidades de subsistemas: a do Serviço Nacional de Informações (SNI). . estreitamente. depois. O presente trabalho consiste no exame de um conjunto de dez documentos. que se conheçam certas características marcantes da mentalidade militar brasileira e. 1986. Brasília: INL. o primeiro representado pelo comunismo internacional. visto que incluía o princípio da “segurança interna”. do modo como foram tratados nesses documentos. o tradicional conceito de defesa nacional. no principal celeiro de idéias do meio militar brasileiro. dportilho@uol. estes. de 1969 a 1974. -. o segundo formado pelas nações integrantes da civilização ocidental-cristã. de um para o outro. A SUDECO era instituição de natureza autárquica e vinculava-se ao MINTER. em razão do uso de insidiosos expedientes – destruição dos valores morais. atualmente sob a custódia do Arquivo Nacional. Antônio de. Na ESG. O exame de tais assuntos. Ali se gestaram conceitos e princípios concernentes ao papel do Brasil no contexto internacional. inicialmente. todos carimbados com a palavra CONFIDENCIAL. São Paulo: GRD. com suas agências regionais. Criada em 1949. em relação a possíveis agressões externas. assim como de outros. lotados nas diversas unidades que o compunham. Julho 2009 (45-51) . compreendendo não apenas o elemento estrangeiro. instituído no Brasil já nos albores do regime militar. das instituições. Brasília: SNI. desde 1922 (ano em que foi fundado). Neste trabalho. 1º. Vamos tratar aqui apenas dos primeiros. que se tragam a lume numerosos acontecimentos relacionados com a repressão às diferentes organizações de oposição ao regime ditatorial-militar.Fundamentos Doutrinários. A estrutura de redação destes documentos e a natureza de seus conteúdos variam. subordinados aos respectivos ministros de Estado2. O Sistema Nacional de Informações (SISNI). os chamados “anos de chumbo” – governo do general Emílio Garrastazu Médici. Os mencionados documentos. em 1964. de começo. esta instituição constituiu-se. inseridos nas estruturas dos ministérios civis e militares. o “inimigo interno”. por outro. isto é. “O Quadro da Subversão no Brasil – Síntese”. mediante a qual.45 O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações Dulce Portilho Maciel* I ntrodução No Brasil. de um lado. vinculado diretamente ao Presidente *Professora da Unidade Universitária de Ciências Sócio-Econômicas e Humanas da Universidade Estadual de Goiás – UnCSEH/UEG. Manual de Informações. do segmento desta corporação ocupado com atividades de Segurança e Informações. desde cedo. tomando-se. Tais conceitos resultaram de um longo processo de elaboração. teve como finalidade a vigilância e o controle sobre este novo inimigo. (Reservado) 3 O conjunto compõe-se de dezenove documentos. Nº 7.

provavelmente. sob orientação estrangeira. este partido cindira-se. em seus quadros. “típicas de guerrilha urbana”... na época. Ao longo de 1969. vinham de Cuba. Jacob. CORRENTE (sem menção ao nome por extenso. -. mas tratando-se. Depois disto. de orientação chinesa. era intenção do novo líder da ALN. a cúpula das forças subversivas havia sofrido graves perdas. Jaime. “comunizar” o país. do principal líder da ALN. MRT – Movimento Revolucionário Tiradentes. Ainda conforme o documento. vigente daquele ano até 1985) teria representado um duro golpe para as organizações comunistas no Brasil. PC do B – Partido Comunista do Brasil. REDE – Resistência Nacional Democrática Popular. os “grupos subversivos” haviam iniciado o ano de 1970 executando ações de vulto. segundo aquele documento. cit. Combate nas trevas. entre aquele ano e o início de 1969. 6 SAUTCHUK. Ala Vermelha. foi constituída a Ação de Libertação Nacional – ALN –. VAR-Palmares – Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. sendo que as que seguiam a orientação russa atuavam no sentido de arregimentar as massas. PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. haviam surgido após a Revolução de 1964. originando o Partido Comunista do Brasil (PC do B). Elaborado pelo próprio Marighella. as organizações comunistas (não se mencionam outras. Ala Marighella. Uma dessas inspirações era a luta pela libertação da Argélia. da organização Corrente Revolucionária). 7 Id. MOLINA – Movimento de Libertação Nacional. p. em novembro daquele ano. além das duas acima) teriam reiniciado suas atividades. 55. Luta armada: no Brasil dos anos 60 e 70. contrária à orientação “pacifista” do PCB. achavam-se identificadas pelos órgãos brasileiros de segurança e informações: PCB – Partido Comunista Brasileiro. PRP – Partido Revolucionário do Proletariado. Outra vinha do vizinho Uruguai. .. sob a liderança de Carlos Lamarca.. isto é. ou seja: a revolução “começa com um pequeno foco de guerrilheiros. tais organizações teriam sofrido sucessivos reveses.. um ex-oficial do Exército.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações soviética. POP – Partido Operário Comunista. AP – Ação Popular. A expulsão decorrera da opção de Marighella. contrários ao regime ditatorial-militar então vigente. ALN – Aliança de Libertação Nacional. COLINA – Comando de Libertação Nacional.. VPR – Vanguarda Popular Revolucionária.. p. 1995. em atividades de guerrilha urbana: “Suas opiniões e ensinamentos sobre como deveria ser o combatente. para levantamento de recursos financeiros.. No segundo semestre de 1970. atuavam no Brasil diversas organizações “subversivas”. passara a coordenar as ações de diferentes grupos clandestinos. e seu principal mentor intelectual. em atuação no país. Algumas dessas organizações possuíam. entre Câmara Ferreira e Carlos Lamarca (este. Quando da elaboração do documento.. devido à disputa então em curso pelo antigo posto de Marighella. Marighella fora o mais influente líder dos movimentos rebeldes clandestinos. do Movimento de Libertação Nacional (MLN). depois denominado Tupamaros. Joaquim Câmara Ferreira – o “Toledo”. cuja atividade de guerrilha urbana foi tão bem retratada no filme A batalha de Argel. de constituição de uma “Frente Única das Esquerdas”. conforme aquele documento.” GORENDER. naquele momento. o que culminara com a morte. Conforme esse documento. “pela luta armada e pelo terrorismo revolucionário”4. 55-56. ao passo que as de orientação chinesa ocupavam-se com ações violentas. PORT – Partido Operário Revolucionário Trotskista. assim. p. etc. foram sistematizados no Pequeno Manual do Guerrilheiro Urbano. Recuperadas da derrota a elas impingida pela Revolução. pertencente aos quadros deste partido desde os anos 1930 e. em 1967. com exceção do PCB e do PC do B. a morte de Marighela teria representado um rude golpe nos planos antes existentes.. MR-8 . este. a VPR era a organização mais atuante e. São Paulo: Editora Anita.Movimento Revolucionário 8 de Outubro. 5 Segundo Jacob Gorender. Assim. em novembro de 1969. estabelecimentos comerciais. continuar buscando alcançar aquele objetivo. mediante as quais buscavam formar uma base de apoio para o desencadeamento da guerrilha rural. 57. desejosas que eram de conquistar o governo e.assaltos a agências bancárias. indivíduos formados em cursos de subversão em países comunistas.”6 Até ser abatido pelas forças de repressão. Em 1962. entretanto. Op. quanto aos métodos e estratégias de ação. líder da VPR). Carlos Marighella. com a morte de Joaquim Câmara 4 SAUTCHUK. p. de preferência montanhosa. ibid. tinha outra inspiração. o manual era impresso onde e como desse. Naquela época. Tratava-se de um ex-militante do PCB.. MR-26 – Movimento Revolucionário 26 de Março. numa região camponesa. No início de 1969. em especial a criação do que passou a ser chamado de 'foquismo urbano'5. organização em que: “. sob sua liderança. dele expulso. os conceitos gerais sobre guerra revolucionária. segundo o documento. chefiadas por “elementos nacionais”... em atuação no Brasil. Frieza e eficiência nas operações eram sua marca pessoal. e amplamente difundido. Jaime. ou o “Velho” -. São Paulo: Ática.. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. com vistas a aglutinar todas as organizações guerrilheiras. 1987.46 .e “expropriações” . mesmo passando por uma crise de liderança.de pessoas e aeronaves . 79. o “foquismo” era a teoria oficial da Revolução Cubana. desde o seu recrutamento até o procedimento nas ações de rua. MAR – Movimento Armado Revolucionário. Mas as adaptações. as seguintes organizações. tais como seqüestros .. estas numerosas organizações. a Revolução de 1964 (que instaurou o regime ditatorialmilitar no Brasil.”7 Segundo o documento acima em referência. Pelo que se pode depreender da leitura do documento.

No PCB. durante uma “ação dos elementos de segurança” no “aparelho subversivo” em que ela se encontrava. Na época.. Havendo este compreendido que a “sobrevivência das hostes subversivas” dependia da “soma de esforços e. sua companheira Iara Iavelberg e diversos outros indivíduos foram eliminados pelos órgãos de segurança. em razão do “valor qualitativo de seus militantes”. os órgãos de segurança haviam cercado um 8 SAUTCHUK. Julho 2009 (45-51) . Inicia-se pelo item “Atuação dos subversivos”. deixara a organização. o que se refletia numa atuação mais coordenada e eficiente de seus militantes. vinham se interessando pela obtenção de jóias. Temos que reconhecer. MRT E PCBR. Op. isto é.” Quando da elaboração deste texto. de um texto elaborado em junho de 1971. cit. o PCB vinha aprimorando sua capacidade “dirigente”. MRT e VPR. Entre as organizações voltadas para a arregimentação de massa. líder da ALN. Somos apenas indivíduos unidos para a sobrevivência. representamos o outro extremo: a derrota'. ocorrida em outubro. ocorridas em dezembro daquele ano. O documento em referência narra as condições pelas quais Carlos Lamarca. o fim individual poderá chegar durante a espera. ultimamente. Jaime. que optara pela “fidelidade ao pensamento de Mao Tsé-Tung”. por membros da ALN. atuava por meios pacíficos. A Ação Popular Marxista Leninista do Brasil. podendo tal interesse decorrer do elevado valor que elas adquiriam nos mercados norteamericano e europeu e sua fácil conversibilidade em moeda estrangeira. avaliando-se aí que o grande número de assaltos que na época ocorriam na cidade do Rio de Janeiro indicava estarem os subversivos novamente se organizando. no interior do estado da Bahia8. integrando-se ao MR-8. era. os quadros da organização ficaram reduzidos a uns poucos indivíduos. o “justiçamento” de um industrial de São Paulo. por integrantes das organizações VPR. realizadas por diferentes organizações. admitia-se a realização de ações guerrilheiras. por Herbert Eustáquio de Carvalho “importante elemento da esquerda radical no Brasil”. que o introduz assim: “Pintando o quadro com palavras desanimadoras.. Uma segunda parte do documento em referência recebe o título “Situação atual dos grupos terroristas – ano 1971”. segundo o documento.47 Ferreira. por integrar em seus quadros “elementos” treinados na China.História & Luta de Classes.” O narrador transcreve diversos trechos deste texto.. entre eles o que vem abaixo. após a prisão de diversos militantes da VPR e a morte de seu novo líder. realização de ações conjuntas” determinara que as ações fossem executadas pelo que chamou de “frente”. ALN. quanto em razão do tom. Consta neste documento que Iara Iavelberg suicidara-se. a fim de que fossem usadas no momento oportuno. na ocasião. a organização de esquerda com maior potencial de sucesso. Embora este documento não seja datado.. o documento inicia afirmando: 'A realidade está sangrando. na época. Carlos Lamarca. Entre os documentos da série em exame neste trabalho. por ele apresentado assim: “Após analisar em detalhe a origem da derrota. As ações executadas pela “Frente” haviam incluído: o seqüestro do Embaixador da Suíça no Brasil. . em 28 desse mesmo mês. Não temos nenhum poder mágico de pronunciar fiat lux e a luz se fazer. Segundo se informa ali. destacavam-se o Partido Comunista Brasileiro – PCB – e a Ação Popular – AP. de certo modo. desde que tivessem caráter de massa. de sua leitura depreende-se que tenha sido elaborado entre o final de setembro e o começo de outubro de 1971. MR-8. É mais fácil. em 6 de agosto de1971. que a VPR acabou e o que sobrou de outras organizações são espectros dos quais já traçamos o caminho. 66-67. diversas ações de “desapropriação”. O texto intitula-se “E haverá perspectivas?”.. mas não desistimos. desenvolvia trabalho de arregimentação de massas. O segundo documento da série aqui examinada data-se de agosto de 1971. sabemos disto e continuamos esperando. segundo o narrador. serão exterminadas mais dia. em Salvador (Bahia). e. p. agora. mas de importância qualitativa é porque representávamos a esquerda. O medo da responsabilidade nos faz esperar o fim. a maioria dos grupos subversivos ocupados em ações de guerrilha achava-se. conclui: 'Tentar remontar a VPR e partir de suas forças exauridas é trabalho inútil. de Yoshitami Fujimori. José Raimundo da Costa. elaborados no decorrer de 1971. enquanto os outros possuem entre três e nove páginas -. entremeada de comentários. as duas últimas. sob a liderança de Carlos Lamarca. tido como o “braço direito” de Lamarca na VPR e do também ex-militar Eduardo Leite – o “Bacuri” -. assim como na AP. Se fomos a maior organização do país. A AP. Uma terceira parte do documento em pauta intitula-se “Situação Atual dos Grupos de Arregimentação de Massas”. O PCB. que lhe havia oferecido o comando de um foco de guerrilha rural. Conforme o documento “confidencial” ora em foco. identificados com o pensamento de Mao TseTung. tanto urbanas como rurais. conforme o documento em foco. tanto devido a sua extensão – dezoito páginas datilografadas. ora enveredava-se pelos caminhos do terrorismo. o principal líder da VPR. O documento inicia-se pela transcrição. em dezembro de 1969. Consta também que. menos dia'. segundo fazia crer. líder da REDE. enquanto que a AP. Estes. Nº 7. um distinguese dos demais. por seu lado. acerca das condições em que se achava a organização clandestina VPR. em abril de 1971. agora. ora seguia os métodos adotados pelo PCB. “dramático” da narrativa. não em termos numéricos.

Consta. haviam logrado atrair um grupo de terroristas intencionados de assaltá-la. .e Ana Maria Nacionovich Correia – “Bety” conseguiram fugir. denominada Inspiração Comunista Cubana – ICC. foi o do embaixador da Alemanha Ocidental. freqüentemente. em 1970). cerca de 400 mil cruzeiros em jóias e relógios. em troca da vida do seqüestrado. como os assaltos a caminhões de bebidas e a pequenos estabelecimentos comerciais. que após a morte de Lamarca. de que o cadáver apresentava um grande hematoma no olho esquerdo e ferimentos a faca. contra 6. Minas Gerais (1). realizado por organizações de esquerda. ainda. foram roubados.. O documento em foco traz dados estatísticos das “ações subversivas”: “Durante o mês de outubro. aproveitando notícias inverídicas.48 . no segundo semestre de 1971. Comenta-se aí. os assaltos a estabelecimentos bancários. iria ocorrer um seqüestro e que seu nome seria incluído na lista de presos políticos a serem libertados. provavelmente.. um prisioneiro “subversivo” declarara “ter certeza absoluta” de que. as organizações clandestinas “pretextando vingar a morte do líder subversivo”. op. divulgadas pela imprensa brasileira. levaram. Dois outros documentos integrantes do conjunto aqui em exame não estão datados. antes mencionado. que totalizou 954 mil cruzeiros. 35 no estado do Rio de Janeiro e os demais nos estados do Rio Grande do Sul (3). em seu interior. Nesta operação. totalizando 471 mil cruzeiros. os “agentes da lei” eliminaram Antônio Sérgio Matos – “Moreno”-. apenas 60 tinham resultado em roubo de dinheiro. na cidade de Juiz de Fora (Minas Gerais).” Por outro lado.. e outras atividades guerrilheiras eram. os subversivos que antes agiam. “da intensa ação dos órgãos de Informações e Segurança. 16 e 20 indivíduos. um de sexo feminino. É o primeiro. para iguais períodos – jan a out – o quantitativo roubado em 1971 é superior ao do ano de 1970 (8. sendo 36 em São Paulo. em dezembro de 19709. agora vinham realizando atividades em que empregavam agrupamentos de 8. Pernambuco (1). geralmente. cit.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações “aparelho rural” no município de Brotas de Macaúbas (Bahia).. foram mortos” Carlos Lamarca e José Campos Barreto. cogita a possibilidade de que: “. o aparecimento de uma nova organização subversiva. desde “a morte de Carlos Lamarca e o frustrado assalto a um caminhão do Exército. O documento contém uma sintética análise de dados sobre a subversão em 1971.983 mil cruzeiros. 28 na Guanabara [atual município do Rio de Janeiro] e os demais nos Estados do Rio de Janeiro (7). Manoel Mendes Nunes – português – e Alexandre José Ibsen – “Bigode”. Destaca-se que. Carlos Sarmento Coelho – “Clemente”. No período. “onde foram mortos Luiz Antônio Santa Bárbara e Otoniel Campos Barreto. queima de veículos e lançamento de bomba em uma residência e num estabelecimento industrial. Goiás (1) e no Distrito Federal (3).. quando capturados por órgãos de segurança e informações. Na ocasião. os elementos de segurança àquele local. por outro lado. A redução do número de ações subversivas era resultado. Conforme o documento em pauta. da série aqui em exame. aqui.800 mil cruzeiros em jóias. entre eles. os subversivos. ademais. Observe-se. O último seqüestro. Bahia (2).939 mil cruzeiros. cercada de absoluto sucesso no período anterior. O documento em referência conta que os órgãos de segurança de São Paulo. Jacob. Na época da elaboração do documento em referência. Eles foram produzidos. O primeiro deles registra. além de deixarem abandonados dois veículos contendo. que esta ação não se efetivaria. nos últimos tempos. e ferido Aldemar Campos Barreto”. que os grupos subversivos. esta. ademais. todavia. pareciam “estar retraídos”. este. que em 17 de setembro. ao resistirem à prisão. os assaltos haviam rendido cerca de 1. foram realizados 55 assaltos. acompanhadas de ações de “panfletagem e pichamento”. apesar de ferida a bala. vinham praticando diversas ações terroristas. p. os grupos armados haviam deixado de praticar ações de reduzida importância. O documento registra. Darão sua versão de que ele morreu 'sob as mais atrozes torturas'. 196. em 1971.” Durante o mês de setembro de 1971. Goiás (2) e Distrito Federal (1). usando como armadilha uma viatura do Exército carregada de armas e munições. aproveitem a morte de Carlos Lamarca para intensificar a campanha contra o Brasil. Em vez disto. etc. 42 tiveram como resultado o roubo de dinheiro. Desses. os subversivos haviam também praticado “ataques a viaturas policiais. haviam sido realizados 79 assaltos.. haviam concentrado atuação sobre “estabelecimentos bancários. entre o final de outubro e princípios de novembro de 1971. carros transportadores de valores e grandes estabelecimentos comerciais e industriais. além desse total. ”informações de um lavrador de que dois elementos se encontravam em Pintada [interior da Bahia]. comerciais. sendo 13 em São Paulo. onde. ex-operário e exmilitante da VPR. O documento. Minas Gerais (1).” Nos últimos tempos. conforme o documento em foco. no mesmo período – jan a out – o número de assaltos 9 GORENDER. finalmente.. em breve. conforme esse documento. em comparação com dados relativos a 1970: “. em grupos de quatro “elementos”.” a tratar de revelações obtidas mediante interrogatórios (sob torturas brutais) a que eram submetidos os integrantes de organizações clandestinas. Conforme esse documento. no mês. bombas armadas com dispositivos de detonação. Destes. de começo. no exterior. quando foram mortos três terroristas”. entretanto.” O outro documento sem data foi produzido.

ocorrido na noite de 30 de novembro. a 15 de dezembro de 1971 e contém relato de um episódio de “Ação Terrorista de propaganda armada”. segundo o referido relato. cedera suas instalações para a realização de um Simpósio sobre Segurança Nacional. Somos muitos Marighellas. “que haviam sido banidos para a Argélia. a essas ações somou-se o assalto a uma pedreira. Entre as informações obtidas do prisioneiro. Tratava-se de uma moça. da propaganda e da intimidação pareciam indicar a presença. as ações terroristas haviam ocorrido com uma “freqüência incomum”. Pelo seu conteúdo. testemunhas da execução tinham podido identificar. Na visão do autor do documento. as seguintes: a) 28 brasileiros haviam feito “Curso de Guerrilha” em Cuba. é bastante superior ao total do ano passado. Fora a direção nazista desta Universidade. Em São Paulo. em troca do Embaixador da Alemanha. Após o assalto. organizações subversivas haviam praticado 37 assaltos: 28 no estado do Rio de Janeiro. as diligências efetuadas a partir das revelações feitas pelo prisioneiro. supermercados e indústrias. no documento.. Conforme o texto em foco. por membros da ALN. em São Paulo. Um novo documento da série aqui examinada não foi datado. mereceram menção. em 1970). em São Paulo. cujos nomes aí se menciona... . os terroristas teriam distribuído um panfleto. 1 em Pernambuco. “permitiram que três desses terroristas. através da obtenção de numerários.. os quais revelaram a existência de uma nova dissidência na ALN. Julho 2009 (45-51) . “subversiva que se encontrava em Cuba fazendo curso de guerrilha”. A análise comparativa de dados referentes a 1970 e 1971. com os quais deveriam estabelecer contacto quando chegassem ao Brasil. bem como de roubo de automóveis.. O primeiro registro nele contido refere-se a informações obtidas de um terrorista. pela fabricação de bombas. denominada “Grupo da Ilha”. c) em Cuba... na época. 6 em São Paulo. formada por militantes treinados em Cuba. seis praticadas contra propriedades de cidadãos norte-americanos. o que confirmava declaração tomada de um subversivo então preso. permanganato de potássio. existente nas Faculdades Metropolitanas Reunidas. apesar do decréscimo. ao procurarem seus contatos. instituição freqüentada por policiais e que. naquele período.. Em seu “aparelho” tinham sido apreendidos: 3 bombas prontas. . procedida no texto em foco. 14 em confecção. os terroristas treinados tinham recebido endereços de militantes da ALN. revela que neste último ano. Fora os da ditadura. colaboração ideológica e financeira desta Escola. veículos e explosivos”. sobre atividades da ALN. e dois rapazes. 8 haviam regressado ao Brasil. o período que antecedeu sua elaboração teria se caracterizado pela ocorrência de roubos de vultosas quantias. contra 220. entre fins de 1969 e início de 1970. o total de mortos e feridos. Viva José Roberto Arantes. entretanto. da violência desencadeada. de militantes treinados em Cuba. O documento que vamos examinar. No Rio de Janeiro. atentados a bomba. quanto às quantias roubadas. as atividades subversivas realizadas em São Paulo.. e. 1 em Goiás e 1 no Distrito Federal. Nº 7. preso em 4 de novembro último. pavios. espoletas e cordéis detonantes.. em outubro. o período ao qual ele se refere havia sido relativamente calmo. Neste período. b) destes. diz respeito ao período de 16 a 31 de dezembro de 1971.História & Luta de Classes. O documento “confidencial” que vamos examinar. ações psicológicas. a expropriação de fundos. diferentemente.” Conforme o documento em referência. durante o mês de novembro de 1971. resultando disto a apreensão de passaportes falsos e outros documentos. Somos muitos Lamarcas. Entre os dias 1º.. os números foram superiores aos do ano anterior. treze ações – ataques a veículos da polícia. Avisamos a esses cães de guarda dos imperialistas. Este documento contém o relato de um episódio de “justiçamento” (execução sumária). Conforme o relato. em São Paulo. espoletas. depreendese que tenha sido elaborado no final de novembro de 1971. em que se lia: “Esta ação revolucionária de hoje. No mencionado período. Conforme esse documento. 3 grandes e 2 pequenos em São Paulo. enquanto que reservaram a área do Rio de Janeiro para o apoio logístico. responsável. em 1970.” A documentação apreendida com os militantes mortos possibilitara a ampliação das investigações. o grau de violência dessas ações e o emprego de explosivos. seus três autores. Conforme se informa nele. prosseguiram as ações de assalto a agências bancárias.. Tratou-se de assalto a um posto do Banco de Minas Gerais. de onde foram levadas grandes quantidades de dinamite. refere-se ao período de 1º. de um militante daquela organização. aluno de Física da USP e do ITA. nesta organização.. Conforme ele. neste ano. com segurança.. fossem identificados e mortos. a partir de agora. entre elas. um jovem pertencente a ALN.. visando a criar a intimidação e o pânico. a partir de agora.49 realizados em 1971 também é superior (563 assaltos em 1971. apresentavam características diferentes das que se levavam a efeito na região do Rio de Janeiro. ao número de assaltos e ao total de mortos e feridos. e 15 daquele mês. etc. incêndio de automóveis. fora preso. quanto ao número de ações subversivas: 48 pequenos assaltos no estado do Rio de Janeiro.tinham sido registradas. que é chegada a hora da justiça revolucionária. “os subversivos utilizaram a área paulista como campo para. no decorrer de 1971. foi executada pelo Comando José Roberto Arantes. etc. assassinado em 2/11/71 pela ditadura que recebe.” Um novo documento da série aqui examinada data-se de novembro de 1971.” Segundo o documento ora em pauta..

durante o mês de dezembro de 1971. a destruição dos documentos “Sigilosos” e “Secretos” provenientes do SNI. em que seu autor renegava a subversão e demonstrava “revolta ante as calúnias de documento denunciando torturas. as ações subversivas vinham-se caracterizando pelo elevado grau de violência. esta última. Tais procedimentos não foram executados. d) “No mês de dezembro. um documento sem qualquer menção ao período de tempo a que se refere. lavrando termo conforme o modelo para isto existente. orientado e conduzido segundo técnicas cientificamente elaboradas. à Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Brasil e à Auditoria da 4ª. de Cigarros Souza Cruz e a firma Sidney Ross Co. juntamente com ele. neste ano. pelos diversos órgãos de comunicação de massa. Essas organizações. Já os assaltos a supermercados. visto que a documentação sigilosa constante do acervo da SUDECO no Arquivo Nacional alcança volume considerável. o Ofício Circular No. Informa-se aí que.. oito a . originária da Ação Popular – AP. entretanto.” b) “No mesmo período – Jan a Dez – o número de assaltos realizados em 1971 também é superior – (725 assaltos em 1971. Circunscrição de Justiça Militar de Juiz de Fora. escrito por terrorista aí nomeado. havia praticado doze assaltos. os assaltos a bancos caíram de doze em 1970 para sete em 1971. Ltda. a partir de agora. de duas “organizações terroristas”. b) “doutrinar e aliciar. organização não incluída entre as cinco referidas acima.” (Grifo nosso) Conforme o documento em referência.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações A segunda parte do documento ora em foco recebe o título “Subversivo renega o terror e repele calúnias contra o País”. revela as mazelas existentes no submundo da subversão. sob sua custódia. o diretor da Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério do Interior encaminhou ao chefe da Assessoria de Segurança e Informações (ASI) da SUDECO. no biênio 1970/1971. Vamos examinar. pelo qual solicitava que este procedesse. No Rio de Janeiro. encaminhados à DSI/MINTER. Ambos estes termos deveriam ser.” Segundo o documento em foco. fundada em vasta pesquisa em fontes primárias. tinham com relação a eles os mesmos objetivos: a) “assegurar refúgio para elementos identificados e perseguidos nas grandes cidades. a VAR-Palmares e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores – PRT -. assim como o ofício acima. também sob sua guarda. chegando ao seguinte resultado: “. nos últimos tempos. a VAR-Palmares. ali.. fazendo deste constar. um grupo armado tinha invadido um colégio. em 21 de dezembro de 1971. A análise dos dados estatísticos da subversão permitiu verificar-se que: a) “Para iguais períodos – Jan a Dez – o quantitativo roubado em 1971 é superior ao de 1970. autor de volumosa obra sobre os governos militares. sobem para 16 no ano seguinte. as populações locais. forneceu uma boa gama de subsídios para meditação daqueles que não acreditam ou duvidam da existência de um quadro subversivo em desenvolvimento no Brasil. carecem de fidedignidade. elaborando também um termo de destruição. deixando ali três mortos e um ferido. desencadear a guerrilha rural.” Nestes dois anos.. tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. Em São Paulo. 10/89. conforme o documento ora em pauta. “visando a criar um clima de animosidade contra as autoridades”. uma operação realizada por órgão de segurança na região de Imperatriz (Maranhão). em São Paulo.. que tenha sido elaborado no final de 1971. nela incluídos os documentos “confidenciais” examinados no corpo deste trabalho. Eiras. O jornalista Elio Gaspari. onde queimou várias bandeiras do Brasil e cartazes de convocação para o Exército. sendo 102 no estado do Rio de Janeiro e 28 em São Paulo. embora tenha havido um sensível decréscimo no número de assaltos. c) “quando oportuno. Nesta mesma cidade. fora encaminhado à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos das Nações Unidas. bem provavelmente.. um grupo remanescente da ALN havia assaltado a Casa de Saúde Dr. O documento “contendo denúncias sobre falsas torturas”. ademais. apenas a quantidade de documentos destruídos.. carimbado com a palavra “SECRETO”. Os dados numéricos contidos nos documentos examinados neste trabalho. foram registrados os maiores índices de assaltos e de quantias roubadas de todo o ano”. contra 248 em 1970)”. Este procedimento da parte de terroristas presos obedecia a orientação emanada da cúpula subversiva. os órgãos de comunicação de massa “de todo o País” haviam divulgado um documento de 13 laudas. resultara na prisão de vários indivíduos subversivos.” Conforme comentário contido no documento em foco: “A ampla divulgação dada ao documento elaborado pelo terrorista. assinado por sete terroristas” que se achavam. levantou dados sobre ações praticadas por cinco organizações guerrilheiras em São Paulo. acerca de ações de guerrilha urbana levadas a cabo no Brasil. Notas Finais Em 4 de dezembro de 1989.. Após descrever a técnica utilizada pelos subversivos para 'conduzir o jovem militante a um comprometimento cada vez maior'.. na presença de duas testemunhas. contra a Cia. para cada ano civil. conforme Gaspari. dez em 1970. Conforme ele. ou o foram apenas parcialmente. presos na cidade Juiz de Fora. este. embora empregassem métodos diferentes para a implantação de núcleos subversivos naquela área. começa “contando a sua iniciação políticoideológica.50 . deixando 10 pessoas feridas. c) “o total de mortos e feridos. um grupo praticara ataque a bomba contra o consulado da Bolívia. por organizações de esquerda.. é bastante superior ao total do ano passado”. para a subversão. em seguida. realizaram-se 130 assaltos. Solicitava. O texto redigido pelo militante preso. que o chefe dessa ASI destruísse os documentos. confirmando-se a atuação. Seu conteúdo parece indicar. produzidos pelo SNI ou a este “referenciados”. com graus de sigilo “Confidencial” e “Reservado”. Este mesmo grupo praticara ataques a bomba.

Um balanço das atividades repressivas no Brasil durante os governos militares informa-nos que. p. de dados estatísticos muito elevados sobre ações “subversivas”. 2002. destas. a brutalidade dos métodos utilizados por esses órgãos. Com base em levantamentos realizados por diferentes instituições da sociedade civil brasileira. São Paulo: Companhia das Letras. 11 CHIAVENATO. . no período. no início de 1972. seis delas contra bancos10. no semestre anterior. pelo menos vinte mil sofreram torturas11. embora. Conforme este autor. Julho 2009 (45-51) . 1994. Júlio José. informava que. bem assim. perante estas. Nº 7. a pertinácia com que perseguiram e eliminaram os militantes destas organizações. provavelmente. pelos órgãos de segurança e informações. tenham também sido mortos. A produção. 131.História & Luta de Classes. 386. Tais dados podiam justificar. uma relação “autocongratulatória” divulgada em Roma. dados estes informados às principais autoridades governamentais brasileiras. por outro lado.51 supermercados e os demais a estabelecimentos fabris ou comerciais. a existência e funcionamento do enorme aparato de que se constituía o Sistema Nacional de Segurança e Informações. as organizações armadas haviam praticado trinta e três ações. tinha em vista justificar. p. no período. O golpe de 1964 e a ditadura militar. 10 GASPARI. Elio. estima-se hoje que. em todo o Brasil. provavelmente. no combate às organizações de esquerda e. 320 militantes de esquerda foram mortos pelas forças de repressão. São Paulo: Moderna. A ditadura escancarada. cerca de cinqüenta mil pessoas foram presas e. além de 144 outros que. são dados como “desaparecidos”.

Este artigo visa resgatar o papel ativo do Brasil na Operação Condor que torturou e seqüestrou “requeridos” que estavam exilados ou de passagem por aqui aos seus países de origem.15 . João da Rosa (“Irno”). trinta anos depois da militância obstinada de Lilián e Universindo. assim. Lohlé-Lumen. explorador e dependente. Eduardo Ferro. de 25 de novembro a 01 de dezembro de 1975.52 . através da disseminação da cultura do medo que de certa forma prevalece até os dias de hoje. dois agentes públicos responsáveis pelo seqüestro do lado brasileiro. com o intuito de perseguir e executar seus “inimigos internos” que estavam refugiados em outros países em nome da Segurança Nacional da região. garantia-se o controle da sociedade civil pela aplicação seletiva do poder coercitivo”3. O significado histórico deste fato. O seqüestro foi uma ação binacional entre militares uruguaios da Companhia de Contra-Informações1 e policiais gaúchos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS2) configurando-se numa clássica operação de cooperação e coordenação entre as comunidades de informações dos dois países. chefe da Direção de Inteligência Nacional (DINA).) Simultaneamente. articulou a perseguição de brasileiros em outros países. Eduardo Ramos. p. que. polícias políticas e militares nos países do Cone Sul em meados da década de 1970. ao menos. organização e sorte. 1998.p. Pedro Seelig. pretende lembrar. Lilián Celiberti Casariego e seus filhos. 3 ALVES. insp. o método do terrorismo estatal foi utilizado em larga escala de maneira coordenada para desarticular grupos de exilados que se organizavam de diferentes maneiras para fazer oposição aos regimes autoritários de seus países de origem. polícia secreta chilena e braço direito do ditador Augusto Pinochet. afetado pelo agravamento da crise econômica. seqüestrou e desapareceu com centenas de latino-americanos em nome da manutenção de um modo de produção injusto. que. Finalmente. Para tanto. (. Janito Kepler. Terrorismo de Estado en Cono Sur. evidenciando a participação brasileira na Operação Condor. Camilo e Francesca. entre os serviços de inteligência. utilizavam o Terrorismo de Estado para garantir a exploração de classe e assegurar a hegemonia do capital monopolista internacional e do empresariado nacional.RS Cap. sob iniciativa do general Manuel Contreras.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Ramiro José dos Reis* I ntrodução Há trinta anos ocorreu em Porto Alegre o seqüestro político internacional dos cidadãos uruguaios. as ditaduras.. como as demais nações do Cone Sul. foi o julgamento e a condenação de. Isso só foi possível porque a ditadura cívico-militar brasileira passava por uma fase de “distensão” política no governo Geisel (1974-1978). (1964-1984) Petrpóilis: Vozes. porém clandestina. Esse fato significou. de ampla repercussão internacional na época. por astúcia. pelo menos. que ficou conhecido como o “seqüestro dos uruguaios”. Glauco Yannone. Estado e Oposição no Brasil. o reconhecimento do Estado sobre a participação brasileira na Operação Condor que atuava à sombra da total impunidade no Cone Sul da Segurança Nacional. major José Bassani. O trabalho *Professor de História da rede pública municipal de Gravataí . Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil A Operação Condor foi a internacionalização do Terrorismo de Estado (TDE) através da cooperação oficial. 186 1 também pretende esmiuçar o seqüestro político dos uruguaios em Porto Alegre. desde o fim do “milagre”. Operación Cóndor. bem como verificar suas conseqüências para o Estado de segurança nacional brasileiro que. Maria Helena Moreira. Foi nessa conjuntura do Estado de segurança nacional brasileiro que ocorreu o seqüestro dos uruguaios e o posterior julgamento e condenação de dois policiais do DOPS. buscava diminuir a tensão sócio-política: “A meta global da política de 'distensão' era concluir a institucionalização do Estado de Segurança Nacional e criar uma representação política mais flexível. Para consolidar seus regimes de força. Nesta reunião se propôs uma 4 MARIANO. 2 Del. empilhando cadáveres para dominar populações através do amedrontamento coletivo4. de modo a baixar os níveis de dissensão e tensão que havia tornado muito fortes as 'pressões'. em 12 de novembro de 1978. insp. 1984. bem como. Nilson Cezar. sobreviveram à rapinagem inter estatal do Condor que torturou.. A conexão repressiva foi “oficializada” na Primeira Reunião de Trabalho de Inteligência Nacional realizada em Santiago do Chile. não vacilaram em vulnerar a soberania dos países e matar milhares de oponentes. em 1978. Universindo Rodriguez Díaz. Buenos Aires: Ed. inspetor Orandir Portassi Lucas (“Didi Pedalada”).

operou com eficiência dentro e fora da América Latina. Ramóm Trabal. Conforme Alves (1984) a DSN era “um instrumento utilizado pelas classes dominantes. p. Embora a JCR não tivesse conseguido criar condições concretas para a ação ela serviu para justificar a coordenação terrorista inter estatal da Operação Condor que. Nº 7. Primeiramente. Exército de Libertação Nacional da Bolívia (ELN) e Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) do Chile. a memória militar sobre a Operação Condor é incômoda. 9 Posteriormente se somariam a Bolívia. na fase dois. Maria Helena Moreira. “O imperialismo norte-americano desenvolve uma estratégia internacional para deter a revolução socialista na América Latina. Michel. Enrique Serra. A abrangência da DSN não se limitava aos territórios nacionais na aplicação do TDE. que nada mais era que reproduzir o que era feito dentro dos territórios nacionais. protagonista e não mero coadjuvante como querem nos passar hoje os militares aposentados. em 1972. buscavam refúgio nas nações limítrofes. novembro. Aliás. ao contrário da Junta. Para desarticular os grupos de contestação que tentavam se reorganizar no exílio. para justificar e legitimar a perpetuação por meios não-democráticos de um modelo altamente explorador de desenvolvimento dependente”5. Doutorado em História – UFRGS. a DSN tinha o intuito de preparar os oficiais latino-americanos para a guerra total e permanente contra o comunismo internacional onde ele estivesse. em 1964. Além deste. O golpe de Estado no Brasil.História & Luta de Classes. eram as “fronteiras ideológicas”. n. pois. p. perpetuados em nome da DSN. o assassinato e a desaparição forçada dos exilados políticos adquiriram uma proporção muito maior que a sofrida nos países de origem (com exceção da Argentina6)”.369. Como el Uruguay no hay. dentre outras. inaugurou a sucessão de golpes cívicomilitares. 2006. os “inimigos internos” de cada país. Essa doutrina foi o sustentáculo ideológico das ditaduras cívico-militares que se proliferaram no Cone Sul para conter o eminente avanço da classe trabalhadora organizada no processo de acirramento da luta de classes nos países da região. Argentina. Desses. como na recente ordem internacional de captura feita pela justiça italiana. o nosso país desempenhou um importante papel no operativo sendo. 1974. além das fronteiras de cada Estado. O marxismo na América Latina. Porto Alegre. porém. Terror de Estado e segurança Nacional. no primeiro momento. Não é casual a imposição de regimes fascistas nos países em que o movimento das massas em ascensão ameaça a estabilidade do poder das oligarquias. da detenção clandestina e da tortura das vítimas nos procedimentos dos comandos repressivos reproduziu o que já ocorria no interior das ditaduras da região. que foi criada pela iniciativa de Miguel Enríquez. de maneira seletiva e clandestina. as ditaduras de Segurança Nacional utilizaram o TDE de maneira sistemática e coordenada. torturar e transladar ilegalmente os presos políticos para suas nações de origem para depois executá-los e.705 Revolucionária (JCR) que era uma organização internacionalista composta pelos grupos armados marxistas: Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) do Uruguai. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). portanto pela guerra suja. No Brasil os militares agora temem ser alvos de processos judiciais internacionais. Criada após a II Guerra Mundial (1945) no Pentágono. ela suscita um temor pela punição dos responsáveis que estavam acostumados a agirem.1. perseguidos em seus países de origem. Che Guevara. Entretanto. Tese. na guerra psicológica. Uruguai (1969-1984): Do pachecato à Ditadura Civil Militar. Entretanto. na mais pura impunidade e protegidos pela lei de anistia. Julho 2009 (52-57) . São Paulo: Fundação Perseu Abramo. em Paris. O Brasil aderiu efetivamente no ano seguinte. o Peru e o Equador. Uruguai e Paraguai9. porém se negando a participar da terceira fase. violando os direitos humanos. 1984. Outra justificativa para a criação do Plano Condor foi o surgimento da Junta de Coordenação 5 ALVES. pelo menos três deles estiveram envolvidos 7 DECLARACIÓN constitutiva de la JCR. 8 O assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letellier em Washington (21/09/1976). apoiado pelos EUA.23 6 PADRÓS. órgão da JCR. estes golpes que foram tomando o sul da América Latina. realmente. na luta contra a chamada “guerra revolucionária”. Petrópolis: Vozes. em termos de repressão. por vezes. Para entendermos esta articulação subterrânea entre as ditaduras do Cone Sul devemos compreender a Doutrina de Segurança Nacional (DSN). através de intensa espionagem das comunidades exiladas para constituição de um banco de dados comum aos países membros. A segunda fase. Exército Revolucionário do Povo (ERP) da Argentina. visava deter. e disseminada nas escolas americanas no Panamá. a operação teve a adesão do Chile.53 ampliação da atuação do Terror de Estado em nome da Segurança Nacional. bem mais que qualquer peso na consciência. . através da Operação Condor. abrangia territórios além do Cone Sul8. já que o que valia. treze são brasileiros. A los Pueblos de América Latina. para combater. O Plano Condor estava dividido em três fases de execução: a primeira visava uma troca sistemática de informações sobre cidadãos requeridos pelos serviços secretos de cada Estado. À estratégia internacional do imperialismo c o r re s p o n d e a e s t r a t é g i a c o n t i n e n t a l d o s revolucionários”7. forçavam o exílio de centenas de militantes que. em 1976. in LOWI. que exige a extradição de 146 militares latino-americanos responsáveis por seqüestros de pessoas de cidadania italiana nas décadas de 1970 e 1980. total e permanente. Segundo Padrós (2005): “O uso do seqüestro. e. também houve o atentado contra o dirigente chileno Bernardo Leigthton e sua esposa em Roma (06/10/1975) e o assassinato do militar uruguaio. A terceira fase seguia a mesma lógica da segunda. Entretanto. associadas ao capital estrangeiro. EUA. ocultarem seus cadáveres. p. Porto Alegre: UFRGS. na maioria das vezes. A doutrina buscava justificar o combate aos “inimigos internos” por todos os meios. 2005. restrita à América Latina. 2005.

2006. que esperaram ir ao futebol com Yano (Universindo) enquanto ela. em que. O partido foi duramente reprimido e quase aniquilado após o golpe civil-militar na Argentina. porém. os generais Geisel e Golbery desejavam livrar-se do estigma de terror dos anos anteriores13. Hugo Cores. O PVP era um partido socialista independente fundado em Buenos Aires.p.Condor. praticamente. Ex-integrante da organização de bases Resistência Operária Estudantil (ROE) foi presa em 1972. Universindo com os filhos dela. . Além dos brasileiros desaparecidos ou mortos no exterior. 12 Desaparecido em Buenos Aires em 1976 na Operação Invasão que era um desmembramento da O. Assunção: Expolibro/Servilibro. enquanto as crianças ficaram aos cuidados da escrivã policial. por exilados uruguaios oriundos de grupos libertários como a Organização Popular Revolucionária 33 Orientais (OPR33). Cores estava escondido em São Paulo. Desde o escândalo do assassinato de Vladimir Herzog. Lilián e Universindo estavam elaborando um dossiê denunciando as violações dos direitos humanos em seu país além de manterem contatos com setores da imprensa independente e líderes sindicais. sendo dois anos depois deportada para a Itália com o marido e seu filho Camilo que em 1978 tinha sete anos. Em Milão. um comando binacional seqüestrou Lilián na rodoviária de Porto Alegre e depois. Além de desarticular o partido. Mônica Susana Pinus de Binstock. dentre esses.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre diretamente no seqüestro dos uruguaios. O fim do “milagre econômico”. ao exemplo de Celiberti. Mesmo sofrendo todas estas atrocidades o PVP continuou sua militância no exílio com quadros atuando na Europa e no Brasil. que também detém cidadania italiana é uma das principais testemunhas do processo. Ex-delegado Marco Aurélio Silva Reis (ex-diretor do DOPS) e Coronel Àtila Rohrsetzer (ex-diretor da Divisão Central de Informações-DCI) 11 Enrique N. ela teve sua segunda filha. seis guerrilheiros montoneros11 argentinos foram seqüestrados e desaparecidos em território brasileiro. braço armado da Federação Anarquista Uruguaia (FAU). Porto Alegre. dentre os quais podemos destacar a suspeita morte do ex-presidente João Goulart. especialmente seu Secretário-Geral. nua e com arame nos ouvidos e nas mãos. confirmando assim a participação do Brasil no Mercosul do Terror. Lilián Celiberti e Universindo Rodriguez. ligado ao movimento estudantil que. talvez.54 . Dissertação de Mestrado. Tal síntese só pode ser explicada naquele contexto da luta de classes. Los documentos ocultos del Operativo Condor. Ver: MARIANO. PPGHistória/PUCRS. acelerado pela crise do petróleo (1973) e a estagnação econômica geraram descontentamentos sociais que forçaram o ditador Ernesto Geisel anunciar a “distensão” política. teve de sair de seu país exilando-se na Suécia até retornar da Europa para o sul do Brasil. En los Sótanos de los Generales. Nilson Cezar. na fundação do PVP. em 1975. como os chamados “vôos da morte” e o seqüestro de crianças pequenas ou nascidas na prisão. O dirigente sindical Gerardo Gatti12 propôs. a Operação visava resgatar parte de U$10 milhões provenientes do seqüestro de um industrial. Universindo era um estudante de medicina no Uruguai. Os seqüestrados foram levados ao DOPS onde. o seqüestro dos uruguaios ocorrido em novembro de 1978.214 13 Operação Sapatos Velhos A chamada Operación Zapatos Viejos. tanto antes. que culminou com o seqüestro dos uruguaios em Porto Alegre. era o nome codificado de uma operação da Companhia de Contra-Informações do Exército uruguaio sob comando do coronel Calixto de Armas que tinha por objetivo prender os membros do Partido pela Vitória do Povo (PVP). atuando na propaganda clandestina contra a ditadura uruguaia e no auxílio aos perseguidos políticos em busca de refúgio. A relativa liberdade de imprensa favoreceu uma rede de contatos dos uruguaios que depois seria fundamental na denúncia do seqüestro. como depois do caso LiliánUniversindo. A leitura que os uruguaios do PVP fizeram da conjuntura brasileira naquela época não estava equivocada. 2002. Francesca que na época do seqüestro tinha apenas três anos. Montoneros no Brasil. Jorge Oscar Adur e Lorenzo Ismael Viñas: (1980). quando estava indo para um jogo do Internacional no estádio Beira Rio. uma síntese revolucionária entre o anarquismo e marxismo. O nosso país participou efetivamente da Operação Condor e o estado do Rio Grande do Sul teve um importante papel geopolítico para a rapinagem da repressão transnacional. Na capital gaúcha. A própria Celiberti. A onda de repressão que se instaurou contra seus membros em Buenos Aires foi tão violenta que seus militantes experimentaram o que tinha de mais cruel e sofisticado em termos de TDE cooperado entre Argentina e Uruguai. A cidade de Porto Alegre era o exílio mais próximo do Uruguai e de lá era distribuído o periódico clandestino Compañero do PVP. Alfredo Boccia (et. que tinha o hábito de fazer seus contatos a pé em longas caminhadas com seus sapatos gastos. recebe as descargas elétricas e a PAZ. Terrorismo de estado no seqüestro-desaparecimento de seis guerrilheiros argentinos . Mas a guerra suja continuava vigente. em Porto Alegre10. em março de 1976. 10 João Osvaldo Leiva Jobs (ex-secretário de segurança do RS). Ruggia (1974) e Norberto Armando Habegger – (08/ 1978). Lilián era professora do primário no Uruguai e líder sindical do magistério. os adultos foram torturados. porém mais seletiva e clandestina como na Operação Sapatos Velhos. all). O caso mais emblemático foi. “Camilo e Francesca. no auge do TDE no Uruguai. já que o sindicalismo estava totalmente enquadrado e a luta armada desmantelada. A situação política no Brasil não era mais a mesma. No dia 12 de novembro de 1978. já que a correlação de forças havia mudado em favor da luta contra a ditadura no final da década de 1970. a única estratégia era a militância pela denúncia das violações dos direitos humanos a partir do exílio. Horácio Domingo Campiglia. na Delegacia.

972. veio até o Brasil e clamou publicamente: “Entreguem-me. O momento mais dramático do seqüestro que reflete bem o grau de TDE articulado no Plano Condor foi quando dona Lilia Celiberti. Depois em comunicado oficial emitido pelo Escritório de Imprensa das Forças Conjuntas de nº1401. as descargas e a água. Marco Aurélio da Silva Reis. In: Arquivo Pessoal de Omar Ferri A. inclusive. o papel da imprensa e da Ordem dos Advogados do Brasil (Seção RS) foi fundamental na denúncia e. Sérgio P. Porto Alegre: L&PM. O advogado Omar Ferri foi contatado por Jan Rocha do Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os países do Cone Sul (CLAMOR) e assumiu o caso em defesa dos uruguaios travando uma verdadeira batalha judicial contra a polícia federal e contra o DOPS que não reconhecia sua participação no seqüestro. eu era chefe da sucursal da revista Veja em Porto Alegre e recebi um telefonema de alguém falando em espanhol. um casal e duas crianças uruguaias permaneciam detidodesaparecidos. Memorial do Rio Grande do Sul. no Brasil e na Europa. os detidos-desaparecidos foram novamente torturados com uma simulação de fuzilamento. 14 principal “requerido” da Operação Sapatos Velhos. Fleury. proteger os envolvidos e obstruir as investigações. naquele momento. Esse apelo que reflete a dura realidade das ditaduras terroristas comoveu a sociedade no RS e a comunidade internacional voltou suas atenções para o seqüestro dos uruguaios. O “Fleury dos Pampas”15.p. No dia 17 de novembro. Nº 7. eram reféns e ela temia que eles tivessem o mesmo destino de Simón Riquelo e Mariana Zafarone. tentavam de todos os meios. Meu quarto. Toda esta repercussão fez com que as Forças Conjuntas uruguaias entregassem os filhos de Celiberti ao seu avô no dia 25 de novembro. 23/11/1978. Na fronteira (Chuy). Lilián disse que aguardava um contato em seu apartamento. seus filhos e Universindo haviam sido detidos na fronteira ao tentar entrar no Uruguai com armamentos e materiais sediciosos. mas também pelo Organismo de Coordenação de Operações Anti-subversivas (OCOA) do Uruguai. quanto a Polícia Federal e Estadual brasileira.O. p. Contudo. ela anotou uma mensagem que para seus seqüestradores parecesse normal. pelo menos os meus netos”17.História & Luta de Classes. inclusive as crianças que tiveram que deitar no chão. Camilo e Francesca . era um exímio falsificador de dinheiro. ficaram de campana no apartamento da rua Botafogo até que chegassem novos contatos. No Uruguai. GARRIDO. Do lado brasileiro o comandante era o delegado Pedro Seelig. Depois. que tinham um organizado sistema de comunicações. quando Universindo mal pode se reconhecer no espelho desfigurado de tanto apanhar do capitão Glauco Yannone. Os seqüestros de crianças foram efetuados majoritariamente pelos grupos de tarefas argentinos. me dizendo que um casal e duas crianças tinham desaparecido do seu apartamento na rua Botafogo. as descargas e a água. além de negar a própria ocorrência deste crime. as crianças e os demais presos ficaram no Forte São Miguel a menos de 5 km da fronteira. Nº3. Neste sentido. que me acompanhasse e fomos até lá. que foram seqüestrados na Argentina através da Operação Condor. A chamada foi feita da sala do diretor do DOPS. Segundo Cunha: “Em 17 de novembro de 1978. Minha cela. pedi a Scalco. pensando no filho de Sara. capa.P. o que interessou ao capitão Eduardo Ferro que era o comandante operacional do lado uruguaio. Lucy. no jargão militar. que eram companheiras dela no PVP. naquela que ficou conhecida como a “farsa de Bagé”. 1989. A conjuntura de “distensão” favorecia e o fim da censura nos jornais contribuía para o 16 CELIBERTI. Então. às 17 horas. notório torturador. enquanto Lílian foi levada a POA para preparar o que. Lílian. Julho 2009 (52-57) . que haviam sido contatados por um telefonema anônimo que mais tarde se saberia ser do próprio Hugo Cores. Para tanto. foi noticiado que Lilián. A este comunicado agregava-se a versão da polícia brasileira que dizia que os uruguaios haviam sido presos ao tentar ingressar de ônibus no Uruguai portando documentação falsa pela localidade de Aceguá-Melo.55 água. mãe de Lilián. O fato é que tanto as Forças Conjuntas uruguaias. que. na filha de Emilia. os membros do PVP. Depois de serem brutalmente torturados. fotógrafo da revista Placar (que trabalhava na mesma sucursal). mas para seu companheiro fosse estranha e desconexa. em vez de uruguaios. sobretudo. Meu quarto. ajudou a torturar Lílian e Universindo no apartamento e no DOPS. que tinha no seu currículo o assassinato do seu filho de criação. Scalco. como era conhecido.”16 A operação teve que ser abortada. nas investigações. sob tortura. chegaram ao apartamento de Lílian. após permanecerem por treze dias na situação de detidasdesaparecidas. e enviaram-lhe um telegrama para que ligasse imediatamente para Paris. filhos de Sara Mendez e Emilia Zafarone. foram levados para o Uruguai. Lílian. Lucy. desconfiaram da falta do contato de Celiberti. GARRIDO. ou seja. Universindo.26 17 Jornal da Tarde. os jornalistas Luís Cláudio Cunha e João B. mas sob custódia e com seus filhos reféns teve que ligar. o CELIBERTI. . Porto Alegre: L&PM. Minha cela. era amigo de Seelig.” 14 A maior preocupação de Lilián era com seus filhos que. Acervo de luta contra a ditadura. Eu perguntei o que queriam dizer com 'desaparecido' e me respondeu 'detenido'. em Camilo e Francesca. 1989. Vários repórteres engajaram-se na investigação em busca do esclarecimento e da verdade. A designação de uma palavra cifrada que significava “imprensa” foi o bastante para que o PVP ativasse seus mecanismos de segurança. pois no dia 21 a notícia do seqüestro era capa em todos os jornais. liderado pelo major José “Nino” Gavazo que além de notório torturador. era conhecido como “ratoeira”.12 15 Em alusão ao famigerado delegado da OBAN. Por um momento Lílian temeu pelo pior. No entanto.F (caixa I).

1981. uma delas é cortada pelo arroio Dilúvio. havia descrito aos advogados e jornalistas o prédio da Secretaria de Segurança Pública do estado que fica na esquina de duas largas e movimentadas avenidas de Porto Alegre. o diretor do DOPS. os condenados eram inexperientes policiais do DOPS que certamente não efetuariam o seqüestro sem a autorização ou. vulgo “Didi Pedalada”. chefe da seção de operações. O fato mais obscuro do caso do seqüestro dos uruguaios foi a morte repentina da escrivã do DOPS. estava submetida ao Estado de Segurança Nacional. fora envolvida num lamentável crime em que o maior culpado. Os demais réus foram absolvidos e a justiça não aceitou reabrir o processo. pela eliminação do silêncio”18. Lucas. segundo laudo médico. (documento fornecido pelo conselheiro do MJDH. substituindo por “remoção coerciva”. general Luís Henrique Domingues. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). mesmo com a política de “distensão”.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre “rompimento da cultura do medo. esse era o limite da punição da justiça que. Porto Alegre: Mercado Aberto. e também. o major Carlos Rossel que veio ao RS no inicio de novembro acertar os últimos detalhes e.p. à revelia da comissão. um “idôneo conhecido” seu. e João Augusto da Rosa. para persuadir dona Lilia a dispensar os serviços do Dr. o asilo para Rivas foi negado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) já que. como executores do operativo. O exfotógrafo revelou que antes mesmo de sair do Uruguai já sabia que teriam a ajuda do DOPS gaúcho citando nominalmente o delegado Seelig e o inspetor “Didi Pedalada” que foi reconhecido por todos pelo seu passado futebolístico. depois daquele dia ficariam cinco anos sem revê-la. Camilo de apenas sete anos. Enquanto os parlamentares do MDB queriam esclarecer os fatos. 1981. para Ferri para alertar sobre o risco que corriam Camilo e Francesca já que Lilián tinha conseguido falar com ela sobre as crianças seqüestradas na Argentina. o “Irno”. confirmou que a operação havia sido comandada pelo coronel Calixto de Armas que tinha combinado com um oficial brasileiro de mesma hierarquia que lhe dera sinal verde para a operação. p. Amaral de Souza. em troca de asilo político. foi fundamental para a posterior condenação dos envolvidos no lado brasileiro e para o esclarecimento do seqüestro. Em abril de 1981 o juiz Moacir Danilo Rodrigues leu a sentença do processo que condenava os policiais Orandir P. a propor que não se utilizasse o termo “seqüestro” no inquérito. delegado Marco Aurélio Silva Reis e o governador do estado. sua mulher e sua filha. O caso Lílian-Universindo. em se tratando de uma funcionária do quinto escalão da hierarquia policial. . dos filhos de Celiberti sendo inclusive reconhecida por Camilo. O menino reconheceu por fotografia o delegado Seelig e o inspetor “Didi Pedalada”.”19 A OAB chegou a enviar uma comitiva a Montevidéu acompanhada de jornalistas. inclusive. juntamente com o capitão Eduardo Ramos. Omar. no mínimo. via Cruz Vermelha. e sua mãe que. O desfecho do seqüestro foi que Lilián e Universindo permaneceram cinco anos presos 21 FERRI.127 22 Termo de declarações de Hugo Walter Garcia Rivas prestado em 03/ 05/1980 ao MJDH. Jair Krishke). Segundo Jair Krischke. general Antônio Bandeira. indubitavelmente era o próprio sistema. exímios torturadores. 1984. o chefe de Estado Maior do III Exército. Foi uma cerimônia totalmente inédita. Já “a legitimidade e a independência da OAB permitiram-lhe questionar as pretensões de legitimação do Estado de Segurança Nacional. O depoimento do ex-soldado Hugo Walter Garcia Rivas prestado ao Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH22) em 1980. Em realidade. Até uma CPI foi instaurada em 1979 para apurar o “seqüestro dos uruguaios”. Do lado uruguaio.21” Faustina Elenira Severino havia tomado conta 18 ALVES. já que o agente era ex-jogador de futebol do Inter. a bancada da ARENA liderada pelo deputado Cícero Vianna insistia na tese de que não havia ocorrido nenhum seqüestro e que tudo não passava de “invenção do comunista Omar Ferri”. Seqüestro no Cone Sul: o caso Lílian –Universindo. Essa visita teve a inequívoca intenção de intimidar a mãe de Lilián já que o emissário brasileiro foi acompanhado de um oficial das Forças Conjuntas uruguaias. Rivas foi um dos primeiros. a desertarem das Forças Conjuntas uruguaias por não concordarem com os seus métodos terroristas. Na justiça estadual as investigações continuavam. para acertar o esquema. p. A policial e ex-freira.Porto Alegre: Mercado Aberto. o asilo político na Noruega para o ex-soldado. 212 20 Camilo Casariego Celiberti. por abuso de poder. conforme seus membros lhe disseram. Os dois inspetores foram condenados a seis meses de detenção e tiveram suas funções policiais cassadas em Porto Alegre por dois anos. os capitães Eduardo Ferro e Glauco Yannone. presidente do MJDH. O deputado da situação chegou a enviar a Montevidéu. chegando. entre outros. uma de cada lado”20. finalmente.56 . In. p. “O aparato oficial tinha apenas um significado: o sistema emprestava sua presença para o enterro de uma funcionária que. sem qualquer culpa. Este impasse só foi resolvido quando Krischke conseguiu. Maria Helena Moreira. conivência de seu superior. Omar. a participação do major José Bassani que veio ao Brasil na condição de chefe da Companhia de Contra Informação do Exército uruguaio. No terceiro andar ficava o DOPS onde Camilo esteve detido com sua irmã de três anos. Seqüestro no Cone Sul. de tantos outros. FERRI. mas autoridades policiais não deram credibilidade ao testemunho de uma criança justamente porque ela estava dizendo a verdade. O mais curioso foi que em seu enterro compareceram os mais altos nomes da hierarquia militar como o Comandante do III Exército. havia telefonado duas vezes. sem se identificar. além de descrever o local que esteve preso como “um prédio grande que ficava na frente de um riozinho com duas ruas.217 19 idem. para coletar a versão de Camilo. Petrópolis: Vozes. Entretanto. Ferri. o ACNUR havia sido criado para proteger as vítimas e não os torturadores. De seu lado citou ainda. de um “acidente cardiovascular”. Faustina Elenira Severino que falecera cinco dias após depor na CPI.54. onde vivem até hoje.

” Jornal Zero Hora. Ano 3. configurando mais um ciclo de liberalização do que uma efetiva transição para a democracia. a consolidação de um regime democrático enquanto não for desmontado todo o aparato jurídico-repressivo criado em todos esses anos”27. se estas demissões foram um “recado” à chamada “linhadura”. por um lado. Lembro de Geisel tendo uma crise de raiva quando sabia das barbaridades. ao RS para tratar em reunião secreta no Estado-Maior (EM) do III Exército. históricas rivalidades nacionais no intuito de assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe. descobrese que o general Octávio Aguiar de Medeiros que substituiu o general João Batista Figueiredo como chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) foi pessoalmente. As coisas só chegavam ao governo central quando aconteciam grandes rolos. Julho 2009 (52-57) . 1984 p. 24 “Uma farsa para resguardar o regime”. apurada a responsabilidade e posto tudo a conhecimento de toda a população. é inaceitável a declaração de Cruz quando diz que os opositores do regime agiam “igualzinho” ao Estado terrorista. provando que a luta dos povos oprimidos não tem pátria. Carlos Alberto Ponzi (chefe da agência do SNI no RS) e a inesperada presença do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (chefe da 16º Grupamento de Artilharia de Campanha de São Leopoldo). sobretudo. Celiberti chegou a ficar um ano e meio numa solitária. o coronel Brilhante Ustra estava envolvido na tentativa de despistar a opinião pública. nesses “tempos cinzentos”28 de hegemonia neoliberal. em entrevista ao jornal Zero Hora. inclusive. Contudo. Em 1993.Caderno Especial Zero Hora.”25 Recentemente. é. pois almejava ser o sucessor de Geisel em uma das maiores crises internas do Estado de Segurança Nacional. Lá no quartel general do III Exército ele se reuniu com o chefe do EM. Maria Helena Moreira.49 . já que é no mínimo surreal imaginar o Wladmir Herzog eletrocutando seus opositores. o general aposentado Newton Cruz que durante a ditadura esteve ligado ao SNI e foi Comandante do Exército do Planalto concedeu uma declaração contraditória quando questionado a respeito do seqüestro dos uruguaios em 1978. além de ser amigo particular de Seelig. gozando sua aposentadoria em uma chácara na grande Porto Alegre. O fim dos Segredos 22/11/1993. Tanto para Omar Ferri como para Jair Krischke. pois. investigados.5 seqüestro em Porto Alegre ocorreu em 1978. 15 anos após o seqüestro. 27 Em depoimento no filme Cone Sul (1984) de Enio Staub e João Guilherme dos Reis. fomentar a memória sobre Lilián e Universindo significa resgatar a história desses aguerridos militantes do PVP que. Ele retomou o controle da situação quando demitiu o comandante do II Exército. Lílian Celiberti vive no Uruguai trabalhando na Organização Internacional do Trabalho (OIT). idem 25 ALVES.57 nos terríveis cárceres de Punta Rieles e Libertad. In Revista História & Luta de Classes: América Latina Contemporânea. “O período de 'distensão' permaneceu nos limites da Doutrina de Segurança Nacional. esse não foi muito bem compreendido pelos participantes brasileiros da Operação Sapatos Velhos. mudou os rumos do caso Lilián-Universindo. Segundo o ex-preso político: “Os crimes cometidos pela ditadura nestes anos devem ser denunciados. Nº4. julho. Universindo Díaz trabalha na biblioteca nacional de Montevidéu. depois da prisão abandonou a medicina para se formar em história. 2007. ousaram derrubar a ditadura uruguaia rumo a implementação do socialismo. 28 PADRÓS. 27/07/2008. faz parte do governo da Frente Ampla. Nº 7.p. e o segundo. sobretudo na América Latina. América Latina: Ditaduras. A luta deles continua cada vez mais vigente. A demissão mostrou à linha dura quem mandava”26. A demissão do comandante do II Exército foi em 1976. Hoje. Neste sentido. Cremos que não haverá no Uruguai. Além disto. Além disso. na chamada “farsa de Bagé”24. Entretanto. trinta anos após o seqüestro. Confidências de um General. Ednardo D'Avila Melo. Em 1977 foi a vez do general da “linha-dura”. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). Petrópolis: Vozes. a visita dos generais Samuel Alves Correia (chefe do II Exército) e Paulo Campos Paiva (chefe do Estado Maior) ao governador do estado Sinval Guazzeli. por mais que aquela conjuntura de “distensão” permitisse algumas contestações a última palavra era do comando militar. a classe trabalhadora nos países do Cone Sul latino-americano. segurança Nacional e Terror de Estado. Enrique Serra. “Houve muitos excessos. sem que nunca tivessem sido molestados por qualquer tipo de punição. pagando pelo crime de lutar pela liberdade e justiça social. Enquanto isto os torturadores Eduardo Ferro e Pedro Seelig vivem tranqüilamente. já que organizações de resistência e combate às ditaduras de Segurança Nacional estavam se (re) articulando no exílio.História & Luta de Classes. pelo menos duas vezes. qual a estratégia do governo federal em relação ao caso do seqüestro dos uruguaios23. lembrar da Operação Condor no Brasil. já que. Considerações Finais A Operação Condor unificou o Terrorismo de Estado de maneira coordenada superando. o primeiro no seu próspero negócio hoteleiro em Punta del Este. Silvio Frota perder seu cargo. Portanto. Tanto ele como Celiberti se desvincularam do PVP que hoje. porque agiram igualzinho àqueles a quem perseguiam. ou ainda. p. especialmente do seqüestro dos uruguaios em Porto Alegre. 15 Anos do Seqüestro dos Uruguaios. o 23 “A farsa desvendada” In.223 26 “O arquivo de Newton Cruz. o casal Lilián e Universindo seqüestrando filhos de generais. general Paulo de Campos Paiva. sem esmorecer na luta de classes. ou o Manoel Fiel Filho ocultando cadáveres de militares. sobretudo. sobre. Ustra era torturador nato que havia sido chefe do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) na fase mais dura da guerra suja. constatar que a ditadura de Segurança Nacional brasileira devidamente coordenada e cooperada com a uruguaia e os demais Estados terroristas do operativo contribuiu para consolidação da hegemonia do capital internacional em conluio com a classe dominante. com os coronéis Luis Mackesn Rodrigues (superintendente da PF no RS).

inclusive os de esquerda. forte endividamento externo. entre as maiores economias industriais do mundo. a estratégia mostrou-se falha para o combate a inflação.327.41. adotou-se a estratégia de contenção salarial.In: ABREU.00 da época. p. o Brasil sentia-se da escassez de financiamento externo. para tanto. O comercial registrou em 1981 um superávit de 1. todavia. o que dificultava cobrir o desequilíbrio da balança de pagamentos. DINIZ (1997). 5 Ibidem. não permitem uma visão ampla de causas e conseqüências. Assim para o setor econômico. p. fez com que se afrouxassem os mecanismos de controles sobre a população. Dionísio Dias. FURTADO. Em 1985. trabalhadores e patronato. não basta apenas reforma fiscal. Para tanto. 4 3 . p. representados pela ameaça de hiperinflação. p. pretendia-se ampliar as exportações através do controle e reajustes. Para Furtado. legalização dos partidos políticos. o artigo chama a atenção para três fatores. como a liberdade de expressão e organização. Marcelo de Paiva Abreu. “à visibilidade de seus aspectos econômicos. Celso Furtado4 chama a atenção para o fato de que o problema do combate a inflação brasileira estava na irracionalidade do sistema de decisões. O novo Presidente. Eli. situadas nos incentivos à iniciativa privada e nos sobregastos do setor público. 2 ed. que pudessem reparar as desigualdades na distribuição da riqueza do País. gradual e segura.69. Rio de Janeiro: 1997. elevação das taxas internas de juros e a contração da liquidez real. possuía uma renda mensal próxima a um salário mínimo e próximo dos 60% possuíam uma renda de até dois salários7. reforma do Estado e governabilidade: Brasil.A Repressão Fordista no ABC Paulista 1986 . que analisados de forma isolada. Tancredo Neves. p. controle dos gastos governamentais. Determinou também a restauração das atribuições do Legislativo e convocou as eleições gerais para 1988. op cit. 1990. a solução encontrada foi à desvalorização do Cruzeiro.323.45-54. o desafio situava-se em vencer a inflação e retomar o crescimento. Ajuste externo e desequilíbrio interno: 1980-1984. Assim. em especial aos movimentos populares. Conforme Carneiro2. 6 DINIZ. também é necessário que os setores com poder de decisão do governo cheguem a um consenso quanto ao “âmbito de ação do governo e às prioridades a que deve obedecer a ação do Estado”5. Disto. a eliminação dos focos de pressões inflacionárias. que na incapacidade de distinguir os focos geradores de pressões inflacionárias. cerca de 42% da população economicamente ativa. diante de tal situação. políticas e econômicas. além chamar a elaboração de uma nova Constituição Federal. sem reduzir a produtividade e sem gerar tensões sociais. Porto Alegre: Campus. a Nova República nasce sob grandes expectativas. o que não condizia com o salário mínimo de US$ 40. disparando as desigualdades sociais e a concentração da renda.2 bilhão”3.8 bilhões em 1980. Celso. 2 CARNEIRO. p. Assim. ocupada pelo Brasil em 1980. passariam por mudanças nos preços relativos. no inicio dos anos de 1980. porem quando analisados de forma conjunta. somou-se o reconhecimento da gravidade de seus componentes sociais e políticos”1. Crise. possuindo bolsa de estudos da CAPES. A riqueza produzida pelo Brasil contrastava com a pobreza de sua população. Ibidem. A nova dependência. à população aguardava por reformas administrativas. Diniz6 chama a atenção para a posição de 8° lugar. 1 DINIZ. onde “após um déficit de 2. e concessão do voto aos analfabetos. o que permitiria manter os níveis desejados das exportações. 1985 – 95.45. procurou-se ao longo do texto caracterizar a realidade econômica pela qual passava o Brasil e que motivaram a criação de tal Plano. A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana 1889-1989. se apelava para o arrocho salarial. Assim.68-69. governo. MODIANO.A Repressão Fordista no ABC Paulista Michel Willian Zimermann de Almeida* presente artigo procura chamar a atenção para a classe trabalhadora brasileira no processo de consolidação da Nova República. ano em se implanta a Nova república. destacando as relações entre patrões e trabalhares no contexto do Plano Cruzado.1986 . Eduardo. recessão e desemprego. Rio de Janeiro: 1982. anunciava medidas que vinham ao encontro desses anseios. a balança *Mestrando em História pela Pontífice Universidade Católica do Rio Grande do Sul. nos permite a percepção da diversidade de interesses que estão em jogo em um plano de estabilização monetária e combate à inflação. ver. Tal estratégia obteve efeito na reversão da balança comercial. a possibilidade da Nova República trazia à população esperanças de um futuro melhor.58 . p. pois. A estratégia militar de fazer uma transição para um governo civil de forma lenta. disto afloram apelo País grupos de representatividades sociais motivados pelos problemas socioeconômicos que adquiriam naquele momento proporções alarmantes. 7 Para uma melhor compreensão a quanto das disparidades sociais do Brasil nos anos 1980.

Entretanto.00. mercadorias desaparecem das prateleiras. das mensalidades escolares. medida pelo IPC. p. Em média não deverão superar a marca de 1% ao mês. é que não demorou para que setores do empresariado reclamassem dos congelamentos. consistia nas principais medidas: a) Congelamento de todos os salários. conforme o IPC.114-115. configurando uma hiperinflação de mais de 15% ao mês. In: SCHNEIDER. Elizabeth Silva chama a atenção para a denúncia de que a Ford possuía de seis a sete mil veículos estocados para o mercado nacional. que possuía pouco carisma popular.a. op cit.História & Luta de Classes. dos aluguéis. logo se colocaram contrários ao Cruzado. g)A fiscalização dos preços será exercida pela população e a punição dos infratores ficará a cargo da SUNAB e polícia federal8.59 Entretanto. d)Reforma Monetária. o empresariado acusa os trabalhadores e estes amargam o arrocho salarial e a falta de produtos básicos. assume a Presidência gerando um clima de desconfiança a respeito do novo Presidente e suas posições. respectivamente. entre fevereiro de 1985 e 1986 a inflação acumulada ultrapassa os 255% a. Rio de Janeiro: 1986. Disto. Eduardo. calculado mensalmente. vigentes em 28/02/86 (congelado no pico). o país mergulha novamente em um caos econômico. calculadas as médias dos últimos seis meses. Porto Alegre: Sulina. Julho 2009 (58-63) . com os salários congelados e diante da falta de produtos básicos no varejo. FGTS e PIS/PASEP. em especial aos aumentos dos impostos. Diniz11 chama a atenção à rejeição das Associações Comerciais do Rio de Janeiro. correção monetária trimestral. passados os primeiros meses de euforia com o término da hiperinflação.112-113 . enquanto o normal era cerca de 750 unidades. 9 MODIANO. No campo da indústria de bens duráveis. manifestaram o seu apoio ao plano. e. Pois. dessa forma os consumidores tinham que esperar até 120 dias para receberem os seus automóveis. Tampouco deve-se temer a continuidade da inflação na nova moeda (mesmo num patamar muito baixo) pois a realimentação inflacionária em cruzados é mínima9. p. al Realidade Brasileira. A GM afirmou o mesmo. Desta forma. os trabalhadores tinham de pagar mais caro por produtos oriundos do mercado paralelo que se criara. Após o envio de auditores para a verificação na Volkswagen. e congelamento da taxa de câmbio do dólar americano. Entretanto. comerciantes que tentavam aumentar os seus preços passam a ser denunciados pelos “fiscais do Sarney”. Ford. General Motors. Mercedes Benz e Saab Scania as denúncias foram confirmadas: “A Ford alegou estar estocando os carros devido à falta de componentes. a inflação na data-base. 11 10 As esperanças de vitória sobre a inflação depositadas no plano eram muitas. A Volkswagen alegou que o alto nível de seus estoques era em parte devido a problemas relacionados ao controle de qualidade e em parte por serem Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços. pelo IBGE. a não entrega de 60% dos automóveis à rede de concessionárias até que fosse autorizado o reajuste dos preços. Nº 7. por entenderam que prejudicaria aos interesses dos trabalhadores. b)Congelamento de todos os preços à vista. c)Congelamento das prestações do BNH. p. passando a ser a medida oficial da inflação. diante do tabelamento. com a extinção do cruzeiro (Cr$) e a criação do cruzado (Cz$) correspondente a mil cruzeiro. DINIZ. aplicável às cadernetas de poupança. Da inflação ao cruzado: A política econômica no primeiro ano da Nova República. reajustados em 1°/03/86 pela média dos últimos 6 meses. São Paulo e Rio Grande do Sul. confirme Modiano: Apagada a memória do processo inflacionário com a desindexação. e era oriundo das alas conservadoras que haviam dado sustentabilidade ao Regime Militar. com o falecimento do Presidente Tancredo Neves. com reajustes automático toda vez que a taxa de inflação acumulada. 8 PETRY. ou porque foram escondidos por grupos econômicos que passavam a cobrar ágio. definidos em tabelas de preços oficiais. tanto a FIESP quanto a FIRJAN. No campo econômico. 12 Central Única dos Trabalhadores e Coordenação Nacional das Classes Trabalhadoras. atacadistas e comerciantes começam a forçar o aumento dos preços. porem a CUT e a CONCLAT12. quanto aos atos do governo. et. até que é deflagrada uma série de greves. setores do governo passam a acusar camadas do empresariado de sabotarem o plano. que. e a fixação do salário mínimo em Cz$ 804. com valor fixado até março de 1987. quanto ao Plano Cruzado. José Odelso. acrescentando que a produção ainda não havia voltado ao normal devido as recentes paralisações. Almiro. 1988. a substituição da ORTN pela OTN. tendo seus comércios fechados temporariamente pela SUNAB10.55. f) Criação do Índice de Preços ao Consumidor – IPC. O certo. mais um abono de 8%. atingir 20%. Realidade econômica II: Problemas. e passassem a exercerem pressões sob o Presidente para o seu fim. as taxas mensais de inflação da nova moeda não manterão qualquer relação com as taxas mensais de inflação do combalido cruzeiro. as grandes montadoras de automóveis adotam como estratégia contra o tabelamento dos preços. extinção da correção monetária. e)Criação da escala móvel de salários. descontadas as antecipações. o que leva o governo federal a decretar em 28 de fevereiro de 1986 o plano cruzado. devido a insuficiência de capacidade produtiva da indústria. Diante do surto de consumo. segundo PETRY. José Sarney.

indicando as seguintes táticas: a) Não pagar. na primeira greve em conjunto nas empresas automobilísticas e em indústrias de autopeças. 249. c) Suspender por um ou dois dias (disciplinarmente) aqueles que entrarem na Fábrica. A Mercedes Benz recusou-se a receber 150 caminhões carregados de autopeças e decidiu dispensar 4. . o patronato chamou o sindicato dos trabalhadores a cada uma das fábricas para negociar em nome dos trabalhadores. as relações industriais começam a se transformar. publica em sua manchete de capa as intenções do governo federal.] o mercado externo merece absoluta prioridade. isso se deve principalmente a intervenção do Estado nas SILVA.. em nenhuma hipótese.500 funcionários por dez dias.. Revista Veja. 16 SILVA. a FIESP passou a recomendar que seus membros adotassem estratégias contras as greves. com o agravamento da crise econômica. pneus e têxteis: [.].. podiam alegar que as demissões se davam por conta da recessão econômica em que o País se encontrava. p. Assim. Aphud: SILVA. 14 13 As reivindicações por salários e melhores condições de trabalho se seguiam até 1982. após [. como a Argentina. B. 213. questões trabalhistas através da legislação do trabalho e as medidas repressivas adotadas pelos governos militares. sendo que na Ford.. por maior que seja a procura interna [. (A negativa caracterizará um ato de insubordinação)19. colocar os grevistas na via pública[. 19 RAINHO. São Paulo: Hucitec. 1991. apesar 17 18 Ibidem. a greve persistiu por um tempo maior18. Em fins da década de 70. foram perdidas apenas oito dias e nove horas com disputas judiciais”16..]15 Além da noticia sobre a possibilidade de importação de produtos do exterior. Segundo SILVA17. o que fez com que os carros usados se tornassem mais caros do que os novos gerando assim desestabilidades na indústria de autopeças com os cancelamentos de pedidos por parte das montadoras. Por conta disto. op cit. os trabalhadores simplesmente pararam ao lado de suas máquinas e permaneceram em silêncio.] [e] exercer uma pressão psicológica sobre o Sindicato do Empregados [. mas as empresas foram obrigadas a vender os automóveis estocados pelo preço anterior ao aumento”13. No entanto. pois. dispensar um certo número de pessoas por justa causa. No entanto. por exemplo. 01/7/1986. 1991. desta forma passaram a reduzir o ritmo de produção criando listas de esperas para a aquisição de carros novos. os trabalhadores passam a desenvolver técnicas alternativas de greve. que é de suma importância por si só. Apesar de a Ford ter começado suas atividades no Brasil em 1919.. apenas em 1957 se registrou a primeira disputa judicial. 1983.] poderia ser autorizada a importação pela iniciativa privada diretamente dos paises da América Latina.280. 243. Assim. Somente após cinco dias de paralisação é que a Ford aceitou negociar com os trabalhadores. o Ministério do Trabalho interviu forçando a Mercedes Benz a cancelar as dispensas.60 . ao se referirem à indústria automobilística: “mexe com uma área muito delicada”. p. 11/6/1986. chama a atenção à frase dos técnicos da SEAP. pois “mexe com uma área muito delicada” adiantam [. horas paradas e não estabelecer quaisquer acordos de indenização. 249-250. Em última instância. p. as empresas passaram a demitir prioritariamente os operários envolvidos no sindicalismo.] pedir aos trabalhadores que executem uma certa tarefa. p. já que o ato ainda era proibido por lei. 118.1986 . em conseqüência ao desabastecimento o governo passa a estudar a possibilidade de importar produtos que julgue necessário.... p. Governo estuda importação de carros. por sua vez a montadora conseguiu baixar os preços de seus fornecedores. p. pois não existindo no Brasil fundo de greve.A Repressão Fordista no ABC Paulista esses automóveis destinados ao mercado externo. ao mesmo tempo em que a produção de automóveis recuperava o seu crescimento entre 1982 e 1986. p. sem saber quem eram os lideres. no entanto que a importação de automóveis depende de uma decisão política.. 1957 – 1977... No dia 01 de julho de 1986 o jornal Zero Hora de Porto Alegre... Refazendo a fábrica fordista. o aumento não foi exatamente o que as montadoras esperavam.. e com base na lei de segurança nacional as greves eram sufocadas com violências físicas e demissão por justa causa. Os técnicos da SEAP reconhecem. 25. sob condição de trabalharem e não cumprirem o prometido. enfraquecendo o poder de reação dos sindicatos.] não hesitaremos em retirar os automóveis necessários do mercado interno para vendê-los a preços melhores”14.. as empresas passaram a realizar demissões em massa. 15 Jornal Zero Hora. esse será um excelente recurso para as empresas. essas medidas intimidavam e disciplinavam os trabalhadores. sendo que “nos vinte anos seguintes. Desta forma tornava-se necessário um novo método de greves. b) Tentar de todas as formas. Em entrevista. A partir desta observação. Aproveitando-se desta realidade. entraremos em nosso objeto de estudo propriamente dito.] [para] envolver o poder público [. E. Um aumento de preços foi finalmente autorizado. o diretor de marketing da Ford afirmou que “[.

Ao se investigar o ocorrido não se encontrou provas de tal agressão.152 585. que são tratados por parte da mídia como atentados contra o plano econômico: Diante da importância em se manter a viabilidade do plano cruzado. (2007). que passava agora as mãos dos civis. Fingindo desconhecer este fato. mostrando que nem mesmo funcionários que possuíssem estabilidade por exercerem cargos sindicais estavam livres das demissões. as reivindicações trabalhistas passam a encontrar grandes dificuldades para atingir a opinião pública. conforme o quadro abaixo: Produção de veículos na década de 1980 20 Ano 1980 1981 1982 1983 1984 Veículos 933. a população de modo geral deixou para segundo plano as lutas nas questões trabalhistas e sociais.. estagnação econômica e desemprego superado a largas custas22.61 de uma pequena baixa na produção em 1984. mas agora como atores. reconhecimento do direito de greve e aumentos reais do salário mínimo. que passou a pressionar individualmente os trabalhadores.386 Ano 1985 1986 1987 1988 1989 Veículos 759. Tal ato serviu de pretexto para que a Ford alegasse que teria ocorrido no momento uma agressão física e suspendeu o funcionário membro da comissão por 30 dias.].992 Greves contra o Cruzado [. o PT e o então Governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola. neste contexto de pacto pelo plano Cruzado. a comissão de fábrica aceitou o pedido. desrespeitando a sua estabilidade de mandato. Acrescenta-se a isso um plano econômico que prometia recolocar o Brasil nos “trilhos do desenvolvimento”.02.História & Luta de Classes. o aumento dos preços por causa do ágio e a multiplicação das greves. “Não são os sindicatos que são chamados a fiscalizar os preços. porem não como a de 1981. 284. acusando-os de inimigos da nação. O mesmo acontece com os movimentos reivindicatórios. pela montadora de automóveis Ford. trouxe grande prestigio ao Presidente José Sarney.834 672. no entanto poucos trabalhadores compareceram. Julho 2009 (58-63) . A nova composição do governo federal. e do empenho exercido pelas classes populares em atender ao chamado do Presidente da República para fiscalizarem o tabelamento dos preços. como fiscais. Não há dúvida de que os maiores beneficiados pelo plano cruzado foram os assalariados. superando suas entidades representativas. absorvendo um discurso nacionalista que beirava ao populismo. que no dia 14/7/1986 organiza um protesto na tentativa de convencer aos demais colegas trabalhadores a não cederem as intimidações da empresa.] o açodado e irresponsável surto de greves que começa a se espalhar no país [. passaram por desapercebidos pela população. as dificuldades econômicas do país eram visíveis. Assim o pacto social proposto pelo governo federal com relação ao plano cruzado. o congelamento dos preços e o chamamento da população para atuarem não mais como tele-espectadores. impossíveis de ser concedidos sem que se comprometa toda a estratégia antiinflacionária. assim como a falta de produtos no mercado. defendendo ainda maiores aumentos salariais. SILVA. houve a paralisação Jornal Folha de São Paulo.371 679..411 730. numa clara tentativa de intimidação. mas os indivíduos”21. 1987. Nº 7. estimulo para as negociações entre trabalhadores e empregadores. a promessa do fim do intervencionismo federal no sindicalismo. lideranças sindicais tão precipitadas quanto irracionais podem trazer de volta o panorama de alta desenfreada de preços. No entanto. Todavia. anistia dos sindicalistas cassados. Desta forma a retirada de direitos importantes dos trabalhadores como: “o direito de beber água na fábrica. 21 BRAVA. um trabalhador foi impedido por um dos membros da comissão. acima da inflação. provocando perdas para a empresa. combinando esperanças e expectativas com um sentimento de união nacional. Entretanto.53. p. o Presidente da República.380 782. que conheceram uma expressiva melhora em seu poder aquisitivo.. 20 . A escolha de Almir Pazzianotto para o Ministério do Trabalho. ou melhor. In: LUA NOVA. p. A Ford passou também a impedir os trabalhos da comissão de fábrica. ao tentar atravessar a linha de piquete. 17/7/1986. a devolução dos sindicatos que estavam sob intervenção para as suas categorias. iniciou o seu mandato dando sinais de que se atravessava para uma nova fase nas relações entre trabalhadores e patronato. porem a empresa encaminhou o processo de afastamento seguido de demissão por justa causa. 24 Ibidem. enchiam os trabalhadores de sonhos e esperanças para a nova fase política que se iniciava com um governo federal civil. a coleta direta das contribuições sindicais dos holerites dos trabalhadores e um decrécimo no pagamento de horas extras de duas vezes para uma e meia”23. op cit. que dirigia um discurso diretamente às classes populares.141 815.589 748. se aproveitando da sua popularidade passa a atacar a CUT. p.152 683. Passados alguns dias a direção da Ford solicitou que os trabalhadores realizassem horas extras.. “A gerência lembrou-os de que poderiam perder seus empregos se não concordassem com as exigências da empresa”24. em protesto. 23 22 ANFAVEA.

Segundo Diogo Clemente. ALVES. sendo que os 4 restantes estavam em férias. Lua Nova. conseguiu ampliar a sua produção em 20 carros por dia. 3. Um dos pontos chaves do programa era justamente o de transferir para o trabalhador a responsabilidade e a oportunidade de optar sobre alguns aspectos da empresa. Decidida em não negociar com os operários. conforme ALVES26. que é o interesse da Companhia na implantação do programa de Trabalho Participativo. alegando que a sabotagem pretendia prejudicar as boas relações de trabalho na fábrica. Sem a legitima representatividade da Comissão de Fábrica. e transferindo a produção para países emergentes. p. 1987. No entanto. M. No dia 16/7/1986. SILVA. Um total de 204 trabalhadores foram demitidos por justa causa. 16/7/1986. as reivindicações contrariam a política econômica do governo. A empresa aproveitou-se de um momento onde as grandes montadoras norteamericanas estavam fechando suas unidades nos EUA. Procurava-se assim substituir o poder das Comissões de Fábrica e do Sindicato. os onze mil funcionários da fábrica entraram em greve reivindicando além da readmissão do funcionário e o direito de funcionamento da comissão. inclusive membros das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (CIPAs) que possuíam estabilidade garantida pela própria legislação do trabalho. um total de 12. Os dez minutos de descanso. Somente após diversas pressões exercidas pelo sindicado a montadora aceitou pagar os direitos trabalhistas de alguns dos funcionários demitidos. em entrevista a Folha de São Paulo. por pequenos grupos de trabalhadores que passavam a disputar entre si cotas de produção. os trabalhadores foram obrigados e entrarem na fábrica por um corredor polonês de policiais militares. cuja velocidade foi aumentada de 1 minuto e 15 segundos para apenas 48 segundos. Jarí Meneguetti. 3. São Paulo.. um aumento de 20% nos salários. Na filial brasileira. o jornal Folha de São Paulo noticiava a greve: Trabalhadores da Ford do ABC param o trabalho Os 11. Um importante aspecto deve ser ressaltado. 105 carros foram danificados no interior da fábrica ou montados com peças erradas. ocorriam 23 greves por aumentos de salários. ocorreram 61 greves envolvendo 45. . “A velocidade das linhas foi aumentada no período da manhã para que a produção não fosse prejudicada por possíveis interrupções ao final do dia [. já vinha sendo implantado desde 1984.360 trabalhadores e neste dia. jan/mar. pioraram de forma significativa: Jornal Folha de São Paulo. H. que agora estava dissolvida. criando desta forma novas relações entre trabalhadores e empregadores sem a interferência do sindicalismo.62 . funcionava desde 1981. a volta dos velhos tempos. A Comissão de Fábrica foi dissolvida com a suspensão de 24 dos seus 28 membros. 26 25 27 SILVA. op cit. M. proporcionando que os segundos pudessem participar de decisões relacionadas ao trabalho no interior da fábrica. fábricas poderiam ser fechadas e diante do medo do desemprego. representante da CUT. da. não houve grande resistências à implantação do programa.000 trabalhadores pedem um aumento de 20% nos salários e mudanças na política interna. Aproveitando-se da crise de empregos na indústria automobilística norte-americana a Ford argumentou aos trabalhadores que se o programa não fosse aceito. Nas fábricas. as condições de trabalho na Ford. sendo que a comissão de fábrica da Ford. através de uma profunda pesquisa da Ford sobre o universo de seus próprios funcionários e a implantação de cursos de treinamento. Desta forma a Ford. 48-50. R.286. n. declarou que esta era a segunda violência da Ford contra os trabalhadores. exigindo a sua readmissão. sem obterem sucessos devido às resistências da Comissão de Fábrica.A Repressão Fordista no ABC Paulista dos funcionários do setor onde trabalhava o membro da comissão. a CUT e o Partido dos Trabalhadores pelo ato. e buscava amenizar os conflitos entre empresa e trabalhadores.. após 10 dias de greve a direção da fábrica chamou um batalhão da Policia Militar. Possuíam estatutos e estabilidade de emprego reconhecida por contratos registrados em tribunais do trabalho. Tal programa já vinha sendo adotado pela Matriz da Ford nos Estados Unidos. v. que reprimiu os grevistas com violência. Apesar do amplo apoio do empresariado no que diz respeito à implantação da Nova Esta edição da Folha de São Paulo chama ainda a atenção de que na primeira quinzena de julho. p.1986 . diretor assistente de relações industriais da Ford. antes do almoço e ao final do turno foram eliminados. onde o custo da mão de obra é significativamente mais barata. e os atestados assinados pelos médicos do sindicato passaram a não ser mais aceitos pela empresa”27. Em outubro de 1986. o fim das intimidações por parte da gerência e a ampliação dos direitos da Comissão de Fábrica. A. As tentativas de retirada dos direitos dos trabalhadores não eram novas. Cabe ressaltar aqui que as comissões de fábrica representavam uma importante conquista dos trabalhadores. A direção da Ford acusou a extinta Comissão.890 estão em greve em São Bernardo e Diadema25. o Programa de Trabalho Participativo. para se lavar. sendo eleita através de voto direto e secreto. idéias e sugestões em troca de prêmios mensais. mesmo com uma baixa de 204 trabalhadores. No dia seguinte.] a linha respot.

em um contexto onde a greve passava a ser considerada uma traição a pátria. Ibidem. trabalhistas e tributarias. como ficou evidente na falta de apoio a greve e na facilidade com que a montadora Ford pode impor a sua vontade perante aos trabalhadores. Este contexto social tornou-se favorável para que o empresariado pudesse agir livremente nas relações trabalhistas. (1997). os empresários passaram a concentrar forças a fim de enviarem o maior número possível de representantes para as discussões da Assembléia Nacional. nas questões trabalhistas se esperava pela manutenção dos recursos autoritários. enquanto que a representatividade do empresariado girava em torno dos 30%. de posse de uma série de sugestões que incluíam alterações nas áreas sindicais. por romperem com o pacto social. Neste contexto de redemocratização da política brasileira. como foi exposto no caso da Ford. Ao mesmo tempo em que a população ansiosa por um “novo milagre econômico” abria mão do seu papel reivindicatório se dissolvendo no corpo fiscalizador do Estado. onde o papel do trabalhador era o de fiscalizar os preços congelados. informa que se considerarmos os deputados que possuíam claros vínculos com os grupos empresariais. . Assim. os trabalhadores tiveram pouca representatividade na elaboração da Nova Constituição. Nesse sentido surge no campo político a questão da Nova Constituição. Assim. tais grupos chegam a ocupar 45. e a existência de um grupo organizado e detentor de grande poder econômico. onde os trabalhadores sofreram perdas de direitos que já pareciam estabilizados. Julho 2009 (58-63) . como: direito de sindicalização no interior da fábrica e estabilidade. Isso devido à redução da capacidade de influência popular. transformaram-se profundamente. A esse respeito. Diniz30 chamou a atenção para a aliança entre o empresariado na luta contra os movimentos grevistas e o fortalecimento da economia de mercado. as atuações sindicais buscavam não somente os resultados imediatos como. boicotar o plano econômico que guardava as esperanças do controle inflacionário. deixou o sindicalismo em frágil condição reivindicatória para as discussões que se sucederiam. A greve desencadeada na fábrica da Ford de São Bernardo do Campo em julho de 1986 revela um Estado dilacerado por problemas socioeconômicos. aproveitando-se de um contexto favorável. Pois a partir disto. demonstrando que o sindicalismo havia perdido grande parte do seu poder de barganha. marginalizando o sindicalismo no interior da fábrica. Nº 7. como no caso da Ford. que pudesse exercer pressões sobre o Estado e ao grande empresariado. a disputa de forças pela hegemonia nas decisões. disputas políticas e de relações de poder entre empresas e sindicados. solicitavam também a “intervenção governamental nas atividades sindicais e proibição da formação de comissões de fábrica”29. já que as representações dos trabalhadores ficaram próximas dos 10%. Diante de um quadro onde as reivindicações trabalhistas e sociais passavam a serem criminalizadas. 29 30 28 federal a ponto de quando lhes convém. Desta forma. a derrota dos sindicatos nas lutas por aumentos de salários. op cit.49. ou seja. pode instaurar um sistema interno que privilegiava o individualismo e competição entre os trabalhadores. mudanças no campo econômico.63 República. onde apesar do debate já não ser novo. DINIZ. onde as grandes empresas conseguem se sobrepor ao poder Confederação Nacional da Indústria. a Ford pode fazer uso de mecanismos repressivos a fim de dissolver a comissão de fábrica que se colocava como um entrave à implantação do Programa Participativo. 31 Diniz. mas sim algo maior e que pudesse garantir melhores condições de trabalho por lei. por exemplo. p. assim. já que era transmitida para a população a idéia de pacto nacional pelo plano Cruzado. Evidenciamos assim que o estudo de um fato histórico requer uma analise mais ampla do que o estudo do fato por si só. a declaração de ilegalidade das greves caracterizou-se como uma das bandeiras defendidas pelos empresários através da CNI28.História & Luta de Classes. algo em torno de 1:331. Diante da falta de um apoio popular. o movimento sindicalista ficou com pouco poder de atuação. aumentos de salários.26% das cadeiras constituintes. e na incapacidade de dar uma resposta ao empresariado.

Ceip-Leon Trotski. ascenso do movimento de massas sem hegemonia política do proletariado. assim pensamos. embora este continue respondendo ao conjunto dos interesses da classe dominante. Este artigo pretende incluir-se no debate dentro do terreno de uma questão que permeia processos tipo Chávez.13. em que o imperialismo norteamericano entrou em um processo de relativo declínio e se instala o lento desencadear de uma profunda crise econômica. Este foco tomará como recurso teórico um a u t o r.à devastação econômica de perfil neoliberal. também é um fato que os governos que se colocaram de um ponto de vista de resistência anti-neoliberal e que fizeram campanha eleitoral nesta perspectiva. Le Monde Diplomatique-Brasil. n. ao mesmo tempo. Populismo ou revolução? Le Monde Diplomatique-Brasil. se converteram em aplicadores diretos das políticas pró-imperialistas e do Banco Mundial. ao mesmo tempo em será focalizada a questão de um determinado tipo de poder político. a formação de um aparelho de Estado centralizado. n. p. 59. de resenhar e. Argentina ou até Brasil. de resistência – sem rupturas profundas. ao mesmo tempo em que os laços econômicos do imperialismo sobre essas burguesias locais que se comportaram de forma vassala se estreitaram. a respeito. através de um processo transformista. Por outro lado. por ele qualificado como bonapartista3. p. Venezuela: who could have imagined?. may 2007. tomado em suas linhas gerais. Hugo Chávez. outubro 2007. Plínio de Arruda SAMPAIO. o objetivo específico deste artigo é o de trazer ao plano do debate sobre o problema levantado. Ignácio RAMONET. o material publicado no livro de Leon TROTSKI. n. no seu O 18 brumário de Luiz Bonaparte. por um lado criou. Le Monde DiplomatiqueBrasil. n.1. O surgimento de governos como Hugo Chávez gera uma série de esperanças e ilusões nos meios de esquerda1. . certas dificuldades para o movimento revolucionário. a respeito. o Estado burguês semi-colonial ou dependente latino-americano tipo Venezuela.13. em seguida. o poder de governos que procuram amparar-se nas massas para pressionar por relações mais vantajosas com os países centrais.3. A tese de Leon Trotski Trotski levanta uma determinada tese a respeito do poder político em Estados como o México dos 2 Veja-se. Claro-escuros bolivarianos. e da sua análise desprende-se uma perspectiva que. 3. um autor que costuma ser deixado de lado. Naturalmente estará sendo enfocado nessa análise. 3 Foi Marx quem definiu pela primeira vez a forma de dominação burguesa por ele chamada de bonapartismo. Tr o t s k i . um tipo de Estado. Há uma série de debates na América Latina todos eles referenciados pelas novas perspectivas desencadeadas pela experiência venezuelana.Estado. contribui ao debate atual sobre Estado e poder na América Latina e que aqui será submetida à crítica. ou seja. Ver. dentre outros. vol. Ana Maria SANJUAN. burocrático. apareceram processos do tipo Venezuela de Chávez. problematizar a defendida por aquele autor. um Bonaparte com ares de eqüidistância. procurando focalizar.desenvolver mudanças sociais profundas? A partir destes marcos. Nessas últimas décadas. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski problema Gilson Dantas* O Nas últimas décadas. em todo caso . na América Latina. Doug DOWD. trata-se. recolhe um apoio operário e popular majoritário ao se colocar dentro de uma perspectiva declaradamente socialista ou de socialismo do século XXI como é o discurso de Chávez. Trotski aplica essa definição para processos como os do nacionalismo burguês na América Latina. portanto de um governo que desenvolve uma postura anti-Estados Unidos e. Buenos Aires. ao mesmo tempo.10. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Estado. capitaneando um Estado que além de débil continua tratando de preservar o essencial da relação econômica com o imperialismo pode – nestas bases. preservando as relações semi-coloniais e *Doutor em Sociologia pela UnB. Este processo. não sem prejuízo – na ótica da investigação e também teórica aqui adotada – para quem pretenda alcançar o mais profundo exame da totalidade do processo. 1 apoiando-se em burocracias sindicais .monthlyreview. e que pode ser posta nos seguintes termos: um governo ou poder político como Chávez ou outros antes dele (Perón. Trotski formulou um diagnóstico ou uma avaliação teórico-histórica desse tipo de processo. personalizado na figura de um árbitro. q u e l e v o u a d i a n t e e s t u d o s metodologicamente relevantes sobre o problema2.org. Em primeiro lugar. de uma maneira geral. a perspectiva do movimento sindical e operário. surgimento de alguma classe social de apoio ao governo. tem havido um reforço de caráter contraditório da dominação dos Estados Unidos sobre governos e burguesias locais. 1999. Escritos Latinoamericanos. outubro 2007. Ver farto material a respeito no livro citado na nota de rodapé anterior. Monthly Review. p. outubro 2007.64 . disponível em www. por exemplo). então. O Estado bonapartista supõe certo equilíbrio entre as várias forças sociais incapazes de exercer uma dominação hegemônica. dentro deles.3.

(o governo mexicano) trata de dar às organizações operárias uma considerável parte da responsabilidade na marcha da produção dos ramos nacionalizados na indústria”5. próprias ou aceitando a condição de sócio menor do imperialismo. ou manobrando com o proletariado.se levantam e lutam por seu espaço e suas conquistas. No entanto. desenvolve uma classe operária moderna. A atual política (do governo mexicano. Os movimentos essenciais desses núcleos burgueses locais terminam confluindo no sentido de adotar certo enfrentamento buscando tirar vantagens 4 Atílio BORON. Perón ou Getúlio cada um em seu momento e em suas circunstâncias. Julho 2009 (64-69) . os despoja de sua soberania”. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica. É isso o que explica porque. Isto dá ao governo o caráter bonapartista sui generis. termina recuando. A presença mais forte. Isto cria condições especiais de poder estatal. 2000. apoiando-se em um imperialismo contra outro. Sua base política e social abarca toda uma massa local de trabalhadores que obviamente inclui os das grandes corporações imperialistas. no limite. sobretudo na área industrial. Escritos Latinoamericanos. genética. portanto. Eleva-se. vale reiterar que esta realidade é completamente atual. Aliás. no argumento de Boron. eis que aparece a burguesia como ela realmente é. ganhando desse modo a possibilidade de dispor de certa liberdade em relação aos capitalistas estrangeiros. o capitalismo de Estado encontra-se sob a grande pressão do capital privado estrangeiro e de seus governos. grandes empresas e grandes bancos. na prática. sem conseguir alcançar nenhuma perspectiva econômica autônoma.163. embora não exclusivo. e que. sob semelhante estrutura de poder político ou de relação com o imperialismo. É da natureza da dinâmica de penetração do capital imperialista. precocemente.4 “nossos Estados são hoje muito mais dependentes que antes. em torno de núcleos industriais concentrados. do ponto de vista dos setores chaves da economia vem a ser a do capital estrangeiro que. Aqui temos uma contradição seminal. entre a relativamente débil burguesia nacional e o relativamente poderoso proletariado. Nº 7. NT) se situa na segunda alternativa. localizou nos trabalhadores urbanos – e também no campesinato. sem deixar que o poder real escape de suas mãos. Atílio. Daí a relativa debilidade da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. O governo oscila entre o capital estrangeiro e nacional. Essas medidas enquadram-se inteiramente nos marcos do capitalismo de Estado.seu único ponto de apoio político efetivo na tentativa política de defender seus interesses frente às pressões externas. quase como regra. No caso de lançar-se a conflitos de interesses abertos frente a um ou outro setor do grande capital financeiro ou da ´comunidade imperialista internacional ´ esses grupos locais cedo ou tarde se dão conta de que não podem ignorar ao proletariado: Cárdenas. sufocados por uma dívida externa que não cessa de crescer e por uma 'comunidade financeira internacional' que. no entanto. cedendo e/ou dando passagem aos 5 Leon TROTSKI. na condição de burguesias vassalas. movimenta-se uma burguesia nativa que do ponto de vista econômico desenvolve-se à sombra e em conflito de interesses com o capital externo. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. Só que. mão-de-obra barata.a outros Estados na mesma condição. . num país semi-colonial.História & Luta de Classes. pode governar ou transformando-se num instrumento do capital estrangeiro e submetendo ao proletariado com as cadeias de uma ditadura policial. suas maiores conquistas são as desapropriações das linhas de ferro e das companhias petrolíferas. não se trata mais de qualquer processo de revolução burguesa até o fim. a depender do país . o bonapartismo tipo Cárdenas. da América Latina. de forma subalterna. passa a controlar setores dinâmicos dessas economias. débil. que esta classe operária rapidamente fique submetida ao capital estrangeiro. Trotski chama a atenção para a característica debilidade histórica da burguesia de países semicoloniais (caso da América Latina) dominadas pelo capital imperialista. p. em qualquer dos casos. Diagnostica o desenvolvimento de um fenômeno político peculiar. por assim dizer. ou enfrentar-se com ele em alguma medida. configurando-se desta forma um determinado processo onde o país apresenta uma estrutura atrasada em relação aos países metropolitanos e imperialistas. que explica muito do caráter do Estado e do poder político na América Latina: uma classe dominante cujo desenvolvimento se vê conflitado com o imperialismo e que tende a associar-se a este. e não pode manter-se sem o apoio ativo dos trabalhadores. como aqueles que se deram no alvorecer desta classe. jovem. p. por exemplo. aplicáveis – segundo sua perspectiva teórica . mais dinâmica. na mesma medida em que as massas – como parte do mesmo processo .125. De passagem. O capital internacional é dominante nessas economias. 1999. de índole particular. chegando inclusive a fazer-lhe concessões. Como contraponto. por cima das classes. Este capital recruta uma classe operária local. Na realidade. no momento seguinte de qualquer influxo ou pressão nacionalista. Historicamente. classes nativas sem a chance de conquistar a hegemonia industrial e financeira nos seus respectivos países.65 anos 30 e ali propõe elementos mais gerais. Trás el búho de Minerva: mercado contra democracia en el capitalismo de fin de siglo. É o que a história tem demonstrado sucessivas vezes e a cada tentativa. Segundo o argumento de Trotski: “Nos países industrialmente atrasados o capital estrangeiro joga um papel decisivo.

a quem busca controlar sob seu comando político. Pressão limitada por sua própria condição de “burguesia atrasada sul-americana. A história moderna da América Latina desenvolveu-se nestes marcos. como se estabelece uma operação de risco político para a própria classe dominante em seu conjunto. embora mais débil. lhe impede alcançar um nível mais alto de desenvolvimento para além de servir a um senhor imperialista contra outro. não apenas irrompe uma dinâmica de resistência por parte da patronal imperialista. Perón ou. uma dinâmica de controle e atrelamento. Disponível no site: www. Mas sua debilidade geral e sua aparição histórica retardatária. esgrimindo outro discurso e em diferentes circunstâncias mundiais. ao contrário de Cárdenas. Com Chávez o processo é semelhante. Esta é a base social mais importante do caráter bonapartista e semibonapartista dos governos das colônias e dos países atrasados em geral. apóia-se na classe operária. antes como hoje. 1940. apóia-se na burguesia procura construir um “projeto nacional” de pressão sobre o imperialismo. E uma razão de fundo. histórica e social. O sentido é. para os quais faz concessões. 93. Concessões estas sempre subordinadas ao controle do governo sobre os movimentos sociais e sobre o movimento sindical. os Estados Unidos. Por outro lado. A idéia básica. . desde o momento em que esses setores nacionalistas dão passagem a concessões de qualquer ordem à classe trabalhadora – política ou econômica –. é a de submeter e controlar de forma (caudilhista) os movimentos sociais.Estado. invariavelmente. que surgem formas de poder político como Cárdenas. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. Chávez. Cárdenas nos anos 30 procurou articular e incluir as organizações operárias. semicoloniais. a ascendente burguesia nacional. em seu seio. O poder ou o regime político que faz este papel bonapartista é assim chamado por ganhar certa autonomia: de um lado apoiar-se na classe operária. no essencial. a partir do Estado. surgem em situações políticas onde a classe dominante mergulha na crise e a classe trabalhadora e camadas populares em movimento não contam com suficiente força política própria. A criação do partido único do Chávez (PSUV). para além da época dos textos de Trotski aqui mencionados. procurando angariar força para suas fricções externas. os movimentos do nacionalismo chavista muito mais submetidos ao imperialismo. ameaçaria sua própria existência social”6. ou seja. através dos quais setores da burocracia de Estado – em geral do exército – se lançam a formas de governo instáveis que em algum momento recorrem ao apoio político operário ou camponês para pressionar o capital externo. e procura organizar seu apoio urbano.insrolux. afloram situações onde o proletariado vai necessitar de sua independência política de ação. Não podem lançar uma luta séria contra toda dominação imperialista e por uma autêntica independência nacional por receio a desencadear um movimento de massas dos trabalhadores do país. especialmente em torno dos movimentos populares mais pobres.org/textosmarxistas/ 8 Leon TROTSKI. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski seus setores mais reacionários e à oligarquia agrária associada ao imperialismo. por sua vez. O que aqui se pretende destacar. A integração das organizações sindicais ao poder do Estado. apesar de toda sua fraseologia e das 7 Leon TROTSKI. Na síntese de Trotski: “Em muitos dos países latino-americanos. A burguesia trata de agir para que a esfera do movimento operário seja controlada. buscando uma maior participação no espólio e mesmo esforçando-se em aumentar a medida de sua independência – isto é. e a partir do grupo político de poder. que se desenvolveu na época de Trotski no México. estes necessitam o apoio dos governos coloniais e 6 Idem. pressionando a Inglaterra. do imperialismo (sem marchar para qualquer ruptura profunda de classe). e por outro. que. Trotski qualificava tais processos como bonapartistas ou semi-bonapartistas. “unindo” patrões e empregados. por exemplo. na administração da produção dos setores nacionalizados ou as mobilizava em favor da nacionalização de determinadas esferas da economia. é apenas um exemplo neste sentido. de patrocinadores e ás vezes de árbitros. Escritos Latinoamericanos. como dizia Trotski8. Chávez estatiza e nacionaliza setores econômicos pagando a preço de ouro. Essa é também a base da dependência dos sindicatos reformistas em relação ao Estado”7. em outras condições. que desempenhem o papel de protetores. p. para esse desdobramento está no fato de que. em busca de vantagens no funcionamento econômico e no mercado para sua classe dominante: “À medida em que o capitalismo imperialista cria nas colônias e semicolônias um estrato de aristocratas e burocratas operários. deslocando-se entre as contradições inter-imperialistas. 1999. tende a desenvolver. pelo Estado e pelo governo. Irrompem as massas. é nesta conjuntura. por conquistar a posição dominante na exploração de seu próprio país – é certo que trata de utilizar as rivalidades e conflitos dos imperialistas estrangeiros com esta finalidade. o de não romper os limites de classe. p. é que este. também apoiar-se em setores da burguesia.66 . processo.193. Recorrentes processos nacionalistas se desenvolveram dentro desses limites e riscos. sucursal do imperialismo estrangeiro”. ao mesmo tempo. Esse Estado ou poder político. dos sindicatos e das movimentações e ações operárias.

A perspectiva que Trotski fórmula para tais processos é a de que... chamava ao apoio às medidas de estatizações frente a qualquer ação do imperialismo e via como necessário ir construindo.História & Luta de Classes. No argumento de Trotski – citado por Coggiola . simplesmente. Explicava o limite histórico de classe deste tipo de poder político. p. impedir seu desenvolvimento classista. estrategicamente. p. abortam a evolução política do proletariado ou. para consegui-lo. isto é.95. Retomemos um aspecto – decorrente desta abordagem teórica de Trotski sobre certo tipo de poder político em tais tipos de Estados – e aqui tomado como foco de análise: a esfera sindical em tais processos. referindo-se aos países atrasados que: “A tarefas centrais dos países coloniais e semicoloniais são: a revolução agrária. Somente eles serão capazes de levar até o fim a revolução democrática e abrir assim a etapa da revolução socialista”9. o crescimento mais ou menos rápido do proletariado. a liquidação da herança feudal e a independência nacional. Foi o que ocorreu na Argentina em 75. Julho 2009 (64-69) . Esta é a perspectiva desse tipo de poder político burguês-bonapartista semi-colonial. neste item fica aquém do primeiro governo de Perón).) Com base no programa democrático revolucionário é necessário opor os operários à burguesia ´nacional´. jovem e concentrado que tende a desequilibrar toda tentativa burguesa de apoiar-se nele para pressionar por vantagens econômicas para si. História del trotskismo en Argentina y América Latina. devem ceder em vários aspectos menores. dão passagem ao golpe. na medida em que a classe operária dê passos adiante e esboce ou avance em sua independência política. Tais governos necessitam incluir a classe trabalhadora através da burocracia sindical – inimiga de classe do proletariado – no aparelho de Estado. O primeiro e óbvio problema dessa estrutura de poder político em governos de perfil bonapartista é a natureza de sua relação com o movimento sindical. o Programa de Transição da IV Internacional. burguesa. 2006. (. Trotski afirma. os sovietes podem e devem surgir. revoluções e guerras impõe a necessária presença de uma eficiente burocracia reformista. 9 . tais análises foram desenvolvidas por Trotski referindo-se ao processo de Cárdenas no México dos anos 30. O paternalismo do Estado está ditado pelas duas exigências se contradizem: a necessidade do Estado de aproximar-se da classe operária como um todo e ganhar desta forma um apoio para resistir às pretensões excessivas do imperialismo e disciplinar aos trabalhadores colocando-os sob o controle de uma burocracia”10.referindo-se à América Latina: “A debilidade da burguesia nacional. Buenos Aires. 10 Osvaldo COGGIOLA. com seus limites. Estas duas tarefas estão estreitamente vinculadas entre si. As frações chamadas nacionalistas se associam ao imperialismo e promovem um banho de sangue. Buenos Aires: Ediciones Razón y Revolución. no controle do movimento operário. pela presença de um proletariado moderno. do que na experiência do governo cardenista. sempre dentro da contradição em que precisam mobilizar a classe trabalhadora em seu favor e. CEIP Leon Trotski.67 declarações socialistas dele. ao mesmo tempo em que não promove qualquer mudança agrária substancial e sequer no perfil das importações (ou mesmo na fatia apropriada pela classe trabalhadora da renda nacional. Em uma certa etapa da mobilização das massas sob as consignas da democracia revolucionária. O reflexo desta dinâmica no movimento sindical (na classe operária). (. economicista.. Nesta perspectiva. 423. cedo ou tarde. El programa de transición y la fundación de la IV Internacional (compilación). Como já foi mencionado. Não é por outra razão que terminam copiando. 2008. o modelo sindical corporativo. a corrente operária que. o rompimento com o jugo imperialista. Nº 7. mas antes de mais nada. Isto determina igualmente o destino dos sindicatos. em especial. fogem. Leon Trotski. dentro da cultura proletária cardenista.) Cedo ou tarde os sovietes devem derrubar a democracia burguesa. enquanto outros instauram uma forma de ditadura militar e policial. Necessitam apoiar-se nele. a etapa de crises. isto é.. precisam tê-lo sob controle. Sua impotência como burguesia e.. Os governos dos países atrasados assumem um caráter bonapartista ou semibonapartista e diferem uns dos outros pelo fato de que alguns tratam de orientar-se em uma direção mais democrática. É a marca registrada desses processos.. No entanto. A análise teórica de Trotski localiza e examina a impotência histórica dessas burguesias frente à hegemonia do capital imperialista e. Ele partia do real apoio que o proletariado oferecia a Cárdenas. tende a encerrar-se toda veleidade nacional-burguesa. tentando buscar apoio entre os trabalhadores e os camponeses. de uma ou de outra forma. do final dos anos 30. ao mesmo tempo. a falta de tradições de governo local. E que o proletariado só tinha futuro desenvolvendo sua corrente independente de classe. teria que desenvolver-se e afirmar-se contra Cárdenas e não a seu favor. Chavéz tem comprado algumas empresas ao imperialismo a preço de mercado. no Chile em 73 e também por essa via se pode compreender o golpe de 1964 no Brasil. ameaçam os fundamentos de todo regime democrático estável. é possível localizar o chavismo no campo de processos semi-bonapartistas como os analisados por Trotski.

de uma doença geral: a degeneração burguesa dos aparatos sindicais na época do imperialismo. Os marcos estão dados: o do desenvolvimento do movimento operário da sua independência em relação ao Estado – o que implica em um desenvolvimento político que começa apoiando medidas de democracia operária ou contra o imperialismo e. historicamente. No pensamento de Trotski. Essa é a sua dialética histórica nesta fase de decadência capitalista. de um reformismo pela via do bonapartismo ´populista´. agentes políticos da burguesia. ao mesmo tempo em que é parte de um sistema em decadência histórica. tem-se desenvolvido recorrentemente. dentro do qual o governo procura funcionar como árbitro. ganhar tempo e vantagens apoiando-se aqui e ali no movimento de massas. a perspectiva analítica formulada por Trotski. mesmo quando buscam apoiar-se. tal forma de poder político dura. sem ferramenta política própria. Aliás.de uma estratégia de luta coerente com o correto diagnóstico da natureza daquele poder político.68 . como 11 Leon TROTSKI. na ótica deste artigo. na ótica de Trotski. p. No caso do nacionalismo mais recente. sejam capazes de lutar por uma política de classe de composição revolucionária dos organismos diretivos”11. tais formas de poder político são completamente impotentes frente ao imperialismo. não apenas nos velhos centros metropolitanos. não existe outra alternativa a não ser lutar pela independência no movimento operário em geral.Estado. em sua esmagadora maioria dos casos. sua busca – a todo custo – de bloquear o desenvolvimento político independente dos trabalhadores e sua aliança revolucionária com os camponeses trava a dinâmica efetivamente emancipatória. A dinâmica política desse tipo de poder por ele analisado para a América Latina. deixa em aberto uma saída para o movimento sindical e para os revolucionários. como o Bonaparte de um poder político sem condições de estabilizar-se. o que pode ser compreendido a partir daquelas considerações teóricas de Trotski. poder e como classe. e. terá que lidar. do seu Estado. Getulio. Considerações finais. Foi o caso de Chávez. repetem-se de tempos em tempos.166. com a busca de apoio popular. Foi o caso de Cárdenas. E promover concessões para os mais pobres. Perón. de assistencialismo. o tempo em que a parte mais ativa do movimento de massa. mais adiante. no curso da qual crises econômicas sérias e processos revolucionários são inevitáveis. de democracia de base. Mas sua marcha inexorável. Aqui estamos no cerne da argumentação de Trotski: mesmo com tais manobras. ao mesmo tempo em que defende a unidade do movimento sindical. Este quadro. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Para o proletariado. Do ponto de vista das experiências históricas do pós-II Guerra. ao mesmo tempo. da dinâmica de classe do Trotski propõe essa perspectiva considerando a natureza daquele poder de Estado: ambivalente. Escritos Latinoamericanos. é associada ao imperialismo. na massa ao mesmo tempo em que lideram Estados cuja fraqueza é transformada a partir da esfera de poder político burguês em impotência política frente ao imperialismo. como parte da mesma dialética. Mas por maior que possa ser esse perigo. Procuram arbitrar. em especial de uma massa camponesa ou das periferias urbanas que o próprio sistema lançou na ruína. com o desfecho da dura repressão das alas direitas que estão dentro ou fora do governo e que não têm como se acomodar na instável perspectiva nacionalista burguesa. os ministérios. “o risco reside na conexão dos dirigentes sindicais com o aparato do capitalismo de Estado. só constitui uma parte do perigo geral. para construir-se como alternativa deve desenvolver-se em oposição àquele poder político bonapartista. o primeiro movimento do governo dá-se no sentido de atrair para o Estado. todos eles. Ou. o sentido geral desse movimento é o de impedir que a classe operária desenvolva sua independência política. Os líderes sindicais são. mas também nos países coloniais. Por essa razão. sobretudo do proletariado. foi e tem sido rumo ao desastre. no sentido de reunir apoio dos mais pobres. o poder político trata de custear todo tipo de bolsa-esmola. desviar. parece mais do que acertada. De um lado tal tipo de poder encontra-se frente à sua impotência histórica de ir adiante como movimento burguês independente. na transformação dos representantes do proletariado em reféns do Estado burguês. já estão se tornando. tais governos bonapartistas ou semibonapartistas costumam aflorar justamente em etapas de ascenso ou ameaça revolucionária de massa. seus agentes administrativos diretos. Na indústria nacionalizada podem tornar-se. a falta – que têm recorrentemente revelado . daquela forma bonapartista. em particular pela formação nos sindicatos de firmes núcleos revolucionários nos quais. . de burguesias débeis que tendem a uma relação de poder político vassalo frente ao imperialismo. naquela perspectiva. mais exatamente. que conduzam ao desvinculamento sindicatos-Estado e. Ainda na reflexão de Trotski. a de impor formas de democracia operária. após uma fase de tentativa de cooptação do proletariado. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. a burguesia local é impotente. como regime. tenda a ir dissipando suas ilusões de uma revolução por cima. 1999. A dificuldade das direções sindicais que conseguem desenvolver certa independência política ou pelo menos combatividade de classe tem sido sucessivamente. Contra isso. contraditório. o movimento sindical. caso contrário.

da mesma forma que não pôde haver um acúmulo cardenista de forças (a etapa cardenista foi sucedida por um ciclo que dura até hoje. subalterno e associado pelo poder político ao imperialismo. Não se trata de etapas. n. as ilusões ´populistas´. 13 Matias MAIELLO.daquele diagnóstico proposto por Trotski. a construção da independência operária já deve fazer parte. p. a uma revolução social sem que se desenvolva uma luta na perspectiva estratégica de ruptura com tais governos. através de organismos de luta operários pluripartidários independentes. Não se trata de uma etapa ou semi-etapa à qual a outra se sucede. Chávez. 12 Juan DAL MASO. quando impera. na experiência de massa. da imperiosa necessidade da construção da sua independência política através de partidos operários de massa. que eram cardenistas . Para o movimento sindical – já foi mencionado . p 107.69 processo e.7. In: Lucha de Clases (Revista Marxista de Teoria y Política). mas não apresentava (essa dinâmica. GD) como uma ´etapa necessária´(no sentido de um lento e gradual passo adiante) a da hegemonia cardenista sobre o movimento operário. a plena independência da classe operária. de governos neoliberais e próimperialistas). n. O “socialismo – como argumentava Trotski – não se constrói pelas mãos da burguesia”. La ilusion gradualista: a propósito del nacionalismo. In: Lucha de Clases (Revista Marxista de Teoria y Política). mas dialeticamente. y el ´socialismo del siglo XXI´: los derroteros del ´nacionalismo burguês´ en la decadencia capitalista y sus apologistas ´de izquierda´ de ayer y de hoy. não tem como dar a passagem a mudanças sociais profundas. Se considerarmos que a história do século XX esteve tomada por experiências de nacionalistas burgueses que custou duras derrotas ao movimento de massas13. mais que um debate teórico.História & Luta de Classes. Perón. de acúmulo chavista de forças. por exemplo.7. a ruptura não está no começo do processo. Inexiste uma via evolutiva. junho 2007. Por isso mesmo considerava como uma condição indispensável para que a experiência da classe operária se orientasse em um sentido revolucionário. é desde este mesmo começo que a separação. mas de um processo cuja dinâmica é determinada – para o bem ou para o mal – pela construção da independência política do proletariado. Nº 7. junho 2007. de suas organizações de massas e do partido revolucionário. podemos afirmar que “Trotski considerava necessário que as massas operárias e populares mexicanas. Seguindo o argumento de Dal Maso. . pode-se afirmar que estamos diante de uma das mais cruciais discussões estratégicas e políticas que se apresenta para o movimento operário e popular da América Latina. fizessem uma experiência com sua direção. desprende-se a avaliação de que um Estado fraco. la retórica ´socialista´y el marxismo en América Latina. em relação ao governo”12. portanto.como agora na Venezuela são chavistas -. 127. Julho 2009 (64-69) .

Historicamente. assalariada e capitalista. Também é especialista (2004) em Psicologia Organizacional pela UMESP/ São Paulo e licenciada (2008) em Ciências Sociais pela UEL/ PR. Neste cenário ganhou importância um novo grupo: os administradores ou gestores do capital. ou. a necessidade de comprometimento do trabalhador com a “missão” da empresa se tornou peça chave para a recomposição da acumulação capitalista. primeiro porque visam contribuir para a construção desta nova forma de sociabilidade superior a capitalista. Os gestores da força de trabalho seriam legítimos representantes do poder do capital ao mesmo tempo em que também seriam controlados por este mesmo poder. quando o capital declarou sua crise estrutural por meio do retrocesso do que ficou conhecido como Welfare State. cujos aspectos econômicos.O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? Erika Batista* I ntrodução empresa japonesa Toyota. e.70 . Partindo-se desta perspectiva. Acirrou-se o movimento de desafecção sindical e de fragmentação da . Atualmente atua como professora de Sociologia na UEM/ PR e é membro do Núcleo de Estudos de Ontologia Marxiana da UNESP/ Marília. quanto no interior da própria esquerda. ideológicos e culturais estão inseridos. o ajustamento do trabalhador ao processo produtivo partindo de uma combinação da Organização Científica do Trabalho (OCT) com estudos psicossociais. tendências e análises são realizadas com o objetivo de apontar qual a melhor opção para se construir uma via alternativa ao esgotamento e degenerescência do capitalismo. o poder conferido ao grupo dos administradores do capital através da exploração do trabalho alienado. ou melhor. e mais agudamente no fim da década de 1970. daí as formas de controle e produção da subjetividade ter sido examinadas e pesquisadas por diversos campos científicos com o objetivo de formular uma teoria gerencial na qual o trabalhador se “identifique com a empresa”. responsável por controlar e disciplinar a força de trabalho por meio da aplicação de uma teoria capaz de produzir uma subjetividade a serviço do capital. mestre (2007) e bacharel (2001) em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília. Também a “cientifização” do processo de trabalho com Taylor foi além de uma mera inovação no campo administrativo para a melhoria da organização do trabalho. políticos. Teoria ou Ideologia Gerencial? A partir da década de 1950. de novas relações entre as classes fundamentais? O modelo de organização do trabalho proposto por Ford caracterizou um momento da luta entre as classes assalariada e capitalista. formulando técnicas de suavização e ocultamento da natureza real do trabalho alienado. tanto pela esquerda e direita. A necessidade de comprometimento do trabalhador com a “missão” da empresa se tornou peça chave para a recomposição da acumulação capitalista. teria criado novos limites para as relações sociais entre as classes assalariada e capitalista. Este artigo não pretende formular veredictos acerca de questões relativas ao mundo do trabalho. do estímulo à acumulação predominantemente financeira e da difusão das técnicas de gerenciamento do trabalho utilizadas pela *Bacharel em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília. A teoria gerencial na versão da chamada Escola de Relações Humanas (ERH) focou o “lado humano” da empresa. Os discursos gerenciais tentam mascarar o antagonismo entre as classes incorporando os conhecimentos da administração científica às correntes comportamentais da Psicossociologia. As análises sobre as formas de organização do trabalho e as novas relações daí decorrentes se fazem relevantes para este debate. porque é um terreno teórico em permanente disputa. Os limites das técnicas fordistas e tayloristas alteraram a organização do trabalho a partir dos anos 1950. e os trabalhadores começaram a ser remunerados variavelmente por cumprimento de metas ou a receberem bonificações pelo “zelo” da maquinaria. Atualmente atua junto à rede privada de ensino superior do Paraná e cursa a habilitação de licenciatura plena em Ciências Sociais na UEL/ Londrina. principalmente durante a reestruturação produtiva dos anos 1970. Estaríamos diante da formação de uma nova classe formada pelos administradores do capital. especialista em Gestão de RH e Psicologia Organizacional pela UMESP/ SP e mestre em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília. Doutoranda (2009). segundo. ou. seria correto afirmar que tais transformações teriam determinado uma terceira classe composta por este grupo? As transformações impostas ao chamado “mundo do trabalho” contemporâneo trazem inquietações e dúvidas sobre os caminhos que conduzirão a uma forma de sociabilidade diferente da capitalista. e sim participar do debate por meio de reflexões que tragam à tona mais elementos para pensar a relação entre a chamada teoria gerencial e a relação entre as classes fundamentais.

coordenação. Taylor e Ford7. bem como formas de resistência a tais inovações gerenciais foram desenvolvidas pelos trabalhadores.Oboré. TAYLOR. M. nº 3. como Chester Barnard.. G. H. num universo administrado burocraticamente pelos financiamentos das grandes foundations com o white-collar às suas ordens”. a qual então. C. organização. O surgimento da teoria gerencial se deu neste escopo. produzidas pela vida material cotidiana e objetiva. comando. Lukács e o caminho marxista ao conceito de “pessoa”. p. É o próprio processo histórico. controle. 2001. F. 4 GRAMSCI. trata-se do que Maurício Tragtenberg chamou de ideologia gerencial: “A Teoria da Administração. Administração industrial e geral: previsão. 1995. mas se o torna na medida em que se eleva para além do seu egoísmo particularista.P.. Princípios de administração científica. A Escola Behaviorista também nasce da 5 TRAGTENBERG. que desenvolveram pesquisas empíricas em contraposição aos pressupostos da Escola de Administração Científica6. Harold J. FORD. [. classes a uma “ficção” da esquerda. a precursora autêntica da ERH foi Mary Parker Follet. São Paulo: Cortez. Teoria geral da administração: uma introdução. Sociologia e Administração de Empresas. São Paulo: Livraria Freitas Bastos. Harvard University. Os princípios da prosperidade.História & Luta de Classes. 6 MOTTA. onde a objetividade é a “propriedade material primária – inderivável. 2 1 No final da década de 1920 e no bojo desta ideologia gerencial surgiu a Escola das Relações Humanas. The social problems of industrial civilization. Leavit. 1967. A. concomitante a competitividade e rivalização dos trabalhadores na busca por “reconhecimento e valorização”. 1990. 219. sabotagens. A subjetividade seria produzida a partir da objetividade numa perspectiva histórico-ontológica de objetivação do homem em sua totalidade social: “O homem não é imediatamente personalidade. Boston: Division of Research Graduate School of Business Administration.W. objetivando-se e exteriorizando-se ao mesmo tempo”3. Monteiro Lobato. existem outros teóricos classificados na corrente comportamental. 117. formas de controle e produção da subjetividade foram examinadas e pesquisadas por diversos campos científicos. Segundo Motta. Ainda de acordo com Motta. 112. indivíduo por natureza. de educação da classe operária para além da fábrica. 216. Americanismo e Fordismo. conforme ao novo tipo de trabalho e de produção”4 . G. MAYO. esta inaugurada com os princípios de administração do trabalho formulados por Fayol. independente da consciência – de todos os seres e de todas as relações entre o que existe”2. 1965.. que torna possível “o modo ontológico da individualidade”. juntamente às chamadas “greves selvagens”.] dissimula a historicidade de suas categorias [. absenteísmo. A mais reconhecida das pesquisas promovida pela ERH foi realizada por Mayo.. o chamado “Inquérito Hawthorne” na indústria Western Eletric. Apresenta seus enunciados parciais (restritos a um momento dado do processo capitalista de produção) tornando absolutas as formas hierárquicas de burocracia da empresa capitalista [. É importante salientar que subjetividade e individualidade são tratadas aqui como categorias correlatas da consciência e personalidade. Revista Práxis. Na mesma trilha de Ford e Taylor.C. até hoje. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. BH. 1945.. boicotes. São Paulo: Pioneira Thomson Learning. como a Psicologia. o desenvolvimento social..] cultiva a neutralidade científica como o ethos ideológico da Ciência. faz parte da estrutura global da realidade como uma derivação última de um longo e complicado processo de mediação. Conforme Gramsci.. 8 . No desenvolvimento desta fase do gerenciamento da força de trabalho. seguida do psicólogo industrial George Elton Mayo. cuja tese afirmava a existência de grupos informais inter-relacionados e chamava atenção para os incentivos psicossociais no lugar dos econômicos8. longe de preceder. Julho 2009 (70-74) .71 solidariedade de classe. também conhecidos como behavioristas. OLDRINI. 4. 7 FAYOL. Trad. tendo por objetivo transformar a mente do trabalhador e produzir uma subjetividade conveniente à sua exploração. de modo que a teoria gerencial transcendeu o espaço fabril e alcançou a totalidade das relações.E. Vol. H. “ a racionalização determinou a necessidade de elaborar um novo tipo humano. também os discursos gerenciais tentam mascarar e subverter a luta de DEJOURS. 1980. 1992.] constitui-se na mais sofisticada representação ideológica produzida pela pequena burguesia intelectual : a ideologia do fim das ideologias por quem não possui ideologia alguma [. São Paulo: Ática. p. 382. transformando o homem em suas relações sociais. São Paulo: Atlas. Incorporando os conhecimentos da chamada Administração Científica às correntes comportamentais da Psicossociologia.. seu discurso muda em função das determinações sociais. Burocracia e Ideologia. Irving Knickerbocker e Alex Bavelas. São Paulo: Editora Atlas. A loucura do trabalho. os já conhecidos turnover. (grifos nossos) 5. p. F. 2002. especialmente da marxista. 3 Idem. como estratégias de defesa psíquicas1.p. In: Cadernos do Cárcere. como um resultado de transformações objetivas. Nº 7.] A sociedade é consubstancial à natureza dos indivíduos que agem sempre dentro de um conjunto de condições concretas. reproduz as condições de opressão do homem pelo homem. Mais do que uma teoria gerencial. produzem uma subjetividade alienada que internaliza na “alma” do trabalhador a suposta relação de cooperação e interesses comuns entre “patrão e empregado”.

Este controle invisível seria o que o autor chama de “Estado Amplo”. dezembro/1992. Esta falsa noção contribuiu para que no desenvolvimento da ideologia gerencial até os dias atuais. Trabalho e capital monopolista. do ideológico.como diretores. de fato. sendo este último o autor da chamada Teoria Y. administradores. das quais podemos apontar a gestão do empowerment12 como uma das versões atuais. Nathanael C. quando o foco dos administradores era o aumento da produtividade e redução de custos. do tempo da produção. São Paulo: Martins Fontes. típica do capital monopolista. especuladores. Entretanto. o trabalhador. e que já havia sido apontada em um trabalho pioneiro. não é visível materialmente. Nesta nova composição. embora ele não produza artigo algum que não seja a operação e coordenação da empresa”13. 11 BRAVERMAN. o dilúvio? Revista Educação e Sociedade. independentemente de serem proprietários dos meios de produção (capitalistas tradicionais). mas não menos responsáveis pela fatia do poder da classe dominante. Marília: 2007. Dissertação (Programa de Pósgraduação em Ciências Sociais).. procedente dos novos grupos ligados ao setor de serviços . sobretudo. Rensis Likert e Douglas McGregor. trata-se do que ele denomina de “gestores do capitalismo”. em que a imposição de comportamentos disciplinares escamoteia os objetivos econômicos. 1980. op. 83. e as tarefas de controle e da administração do capital foram transferidos para um corpo técnico gerencial. Os gestores seriam mais que meros superiores hierárquicos. na medida em que o objetivo era garantir a produtividade a partir da negação do antagonismo entre capital e trabalho e do envolvimento do trabalhador com a tarefa realizada10. Existe uma interpretação equivocada de que a ERH tenha rompido ou superado os métodos e princípios tayloristas-fordistas. gerentes. e. em que a gerência do capital assume papel determinante. 10 BATISTA. A fantástica fábrica de dinheiro na trilha do empowerment: o discurso gerencial do Banco do Brasil. mesmo a parte “administrativa” é absorvida por “processo de trabalho rigorosamente análogo ao processo da produção. 228. que além de gerirem o processo produtivo. 14 BERNARDO. controlam o ambiente de trabalho empresarial. de Harry Braverman. – com funções instáveis e posições de alta rotatividade. fundamentais na estrutura de dominação capitalista. que apesar de sentido em todas as dimensões sociais.trabalho.] ou que está “fora de moda”. cit. A noção popular de que o taylorismo foi “superado” por escolas posteriores de psicologia industrial ou “relações humanas”. Rio de Janeiro: Zahar Editores. nº 43. sobretudo. “É impossível superestimar a importância do movimento da gerência científica no modelamento da empresa moderna. p. daí representarem uma nova perspectiva não só do ponto de vista econômico. Os corpos biológicos são disciplinados e articulados para absorver e disseminar os comportamentos sociais requeridos para a manutenção da dominação14. Chris Argyris. A síntese da “obediência taylorista” aliada à “iniciativa toyotista”. 9 . Universidade Estadual Paulista. João. 1977. Caixeiro. A formulação de McGregor se deu no intuito de contrapor o enfoque dado pela Escola Clássica (Teoria X) e trazer à tona a responsabilidade da organização em criar as condições necessárias para que o trabalhador aflorasse suas melhores capacidades e fosse possível um clima de motivação mútuo9. BATISTA. Também destacaram-se no interior da perspectiva behaviorista da administração Elliot Jaques. Trad. Outro ponto fundamental que Braverman ressalta é o de que a administração moderna. Dessa forma vem à tona a questão do poder gerencial.p. o autor ressalta que enquanto processo de trabalho. em que os gestores são representantes híbridos tanto das classes assalariada como capitalista. e daí terem libertado McGREGOR. como chefia funcional ou seus esquemas de prêmio incentivo. de todas as instituições da sociedade capitalista que executam processos de trabalho. e por isso.O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? oposição à Escola Clássica e embora partilhasse de quase todos os pressupostos da ERH. seriam. 12 A gestão do Empowerment seria a nova roupagem da administração americana para a ideologia gerencial. as vertentes híbridas ou compostas pela OCT e técnicas toyotistas de gerenciamento de trabalho se apresentem como novas ou revolucionárias por enfatizarem o “lado humano” da empresa e supostamente terem abandonado o “lado selvagem” do antagonismo inerente à relação capital . mas. porque certas categorias tayloristas. controladora do tempo dos trabalhadores. de uma teoria que integra regras e padrões de produção para as relações humanas no trabalho. que propaga a ética do que caracterizo como obedecer com iniciativa. D. O lado humano da empresa. rompeu com a idéia de que a satisfação do trabalhador por si só era geradora de maior produtividade. uma nova classe efetiva. H. Depois do marxismo. apropriando-se tecnicamente dos padrões fordistas-tayloristas de gestão e produção e combinando-os estrategicamente com os padrões de flexibilidade elaborados pela ERH e pelo toyotismo. A degradação do trabalho no século XX. cit. ou ainda. que ele “fracassou” [. Daí as formas de organização do trabalho ultrapassarem as fronteiras da fábrica e da administração científica e tomarem formas sociais. separou o vínculo direto entre o capital e seu proprietário individual. As teses iniciais da ERH tiveram divulgação a partir dos anos 1930.. op. este poder gerencial teria resultado em uma nova classe social. E. foram descartadas por métodos mais requintados: tudo isso representa lamentável má interpretação da verdadeira dinâmica do desenvolvimento da gerência “11 . 13 BRAVERMAN.72 . ou somente teria delineado novos limites e complexidades entre estas duas classes fundamentais? O Poder Gerencial: nova classe ou novas relações entre as classes? Para o autor português João Bernardo.

. este também não representa o poder pessoal de fato. formando uma camada mais ou menos unificada dos white-collars. e assim sucessivamente até o topo do organograma. Recuperando-se o paralelo entre João Bernardo e Mills. p. Adeus ao proletariado. o corporativo (grandes Companhias) e o militar16. no capitalismo de tipo ocidental a concentração econômica. Ainda que em determinadas unidades empresariais esta hierarquia pessoal ainda exista. para o sociólogo americano Wright Mills o poder se dá em três níveis. executores dominados e não chefes [. O autor analisa diferentes enfoques do que denomina ser a natureza desta “elite do poder” através da historicidade das contradições e jogos de interesses que permeiam a sociedade norte-americana. Julho 2009 (70-74) . principal estrato da nova classe média americana. (grifos nossos)19. e a superioridade de “ser chefe” se demonstrava daí. onde cada cargo está prescrito por regras institucionais que regem o processo de trabalho. o burocrata é o instrumento de um poder sem sujeito: no aparelho de Estado. Rio de Janeiro: Zahar Editores. e aqueles que têm por função perpetuá-la serão. 19 18 . C. e sim uma reorganização administrativa das classes proprietárias. que se apropria coletivamente do capital mediante o controle exercido sobre certas instituições é assim apagada e confundida com os trabalhadores. dos administradores do capitalismo. 398-399. tendo poder sobre o volume e fluxo dos bens de consumo. White. previamente determinada pela posição que o sujeito ocupa no organograma da empresa18. “O controle operacional recai cada vez mais sobre um funcionalismo gerencial para cada empresa.. Antes. GORZ. hoje é uma questão de “atribuição da função”. juntamente à partilha do poder sobre ele. Rio de Janeiro: ForenseUniversitária. O poder era pessoal. que foi inventado por homens para garantir com uma quaseautomaticidade a submissão hierárquica de outros homens”. Para Mills. Nº 7. p.] Engrenagem de um mecanismo montado. A. 72-73.... Trad.. chamando a atenção para o aspecto institucional da ideologia gerencial: “A dominação nunca será exercida por pessoas nem dependerá de sua autoridade pessoal. segundo um procedimento definido de antemão. em que se fundamentou a hegemonia alcançada pela classe dos gestores. No bojo deste novo grupo. que justamente por serem diretos podiam ser também diretamente questionados. Gorz trabalhou oportunamente esta faceta das relações de poder e da burocracia empresarial como ideologia de dominação em seu polêmico livro “Adeus ao proletariado”. o poder é o organograma. Há casos em que o próprio presidente de uma unidade de um grupo multinacional não é sequer acionista da companhia.. pode dizer que BATISTA. importante mecanismo do poder já que os diretores e principais executivos administram uma das principais fontes de riqueza do capital produtivo. 1975. oportunisticamente dividido de acordo com as alianças do momento. acarretou a sua fragmentação e dispersão”15. que responde a um superior imediato. o poder pessoal era conquistado pelo “saber”. através do controle exercido sobre toda a sua atividade. que por sua vez é subordinado hierarquicamente a outro. o “conhecer” do negócio. Ângela Ramalho Vianna e Sérgio Góes de Paula. Será exercida pela via institucional. Assim. a elite do poder moderna estaria concentrada na empresa.] reduz os capitalistas à burguesia. os chamados whitecollars17.W. O controle e a dominação anteriores. MILLS. C. 16 15 Supondo que as informações e os processos se encadeiam a partir do simples funcionário. W. a tendência da organização moderna é a do processo gerido Idem. 1982. Uma vez que tanto o capital como o gerenciamento profissional – em seus níveis mais altos – são retirados. são as funções de poder que possuem os homens [. Por outro lado. Mills classifica a participação da fração corporativa da elite do poder como o principal estrato que compõe a nova classe média americana. impessoalmente através do poder funcional. pelo contrário.. diluiu-se o poder pessoal no poder funcional.História & Luta de Classes.] são conjuntos de administradores quem efetivamente detém cada empresa. este não defende a formação de um grupo independente das frações hegemônicas dos proprietários pertencentes à classe burguesa. 2002. cit. A elite do poder. A classe dos gestores. é mais uma alegoria simbólica que vende sua imagem e não se responsabiliza pelo processo de trabalho em si. O poder pessoal do chefe ou do “dono” se transferiu para a função que determinado gestor ocupa no processo. expunha o chefe para o bem e para o mal de forma que o poder podia ser aceito ou repudiado diretamente na figura do chefe. na abstração do Povo [. Paralelamente. eles próprios. a única proprietária formal dos meios de produção. sendo o político (Estado). em geral. Nestas três esferas estão os grupos que tomariam as decisões sobre os rumos do mundo.73 Para Bernardo: “A confusão entre concentração do capital e centralização política é um dos aspectos da confusão entre relações sociais de produção e sistemas jurídicos de propriedade [. como na grande empresa. 17 MILLS. 50ª Ed. passando a ser funcional.] não são mais os homens que possuem o poder. quando se chega a um diretor-geral ou no presidente da organização. New York: Oxford University Press. Para além do socialismo. da mesma classe. em vez de levar à concentração das formas tradicionais de propriedade. Braverman converge sua análise para a idéia de uma caracterização por aspecto das classes capitalista e assalariada.Collar: the american middle classes. op.

a única potencialmente revolucionária. K. os apontamentos de Braverman são mais adequados na medida em que o autor trabalha com uma caracterização dos administradores que utiliza aspectos das classes fundamentais. estas classes fundamentais são a burguesia e o proletariado. [et. como relacionamento determinado de poder. agora tornam-se aspectos da classe”20. Conforme Marx e Engels. Rio de Janeiro: Contraponto. reacionária em sua natureza por agir no limite do oportunismo para ascender ou conservar sua posição21.p. Neste caso. e enquanto “chefe” imponha o poder funcional.O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? os dois lados do capitalista. já foram cooptados ideologicamente pela doutrina administrativa gerencial. 1998. permitindo que enquanto “homem” o gestor se aproxime dos subordinados pelo poder pessoal. 21 20 22 MÉSZÁROS..descensão suficiente entre as classes fundamentais para a criação de uma terceira classe composta pelos administradores do capital. pelo qual a desigualdade estruturalmente reforçada seja conciliada com a mitologia de “igualdade e liberdade” 22. sem deixar de pertencer economicamente à classe trabalhadora. entendidas em sua oposição e relação permanentes. 99. gerente. É também forçoso que ela seja apresentada como justificativa ideológica absolutamente inquestionável e pilar de reforço da ordem estabelecida. não basta que se imponha a divisão social hierárquica do trabalho. que se estende para além do espaço de trabalho. senão obstrui. Esta transformação nas relações de poder no trabalho possibilitou uma mobilidade de tal segmento gerencial. Dessa forma. O estranhamento no interior desta fração da classe assalariada permite que a figura pessoal do BRAVERMAN. sobre os aspectos funcionais/técnicos do processo de trabalho. as duas categorias claramente diferentes da “divisão do trabalho” devem ser fundidas. F. . o que dificulta. MARX.74 . composta pelos pequenos produtores rurais e industriais. Também admitem a classe média. 2002. talvez seja mais apropriado interpretar a formação de uma nova relação entre as classes fundamentais. 221. Entretanto. dificultando a contestação direta porque dilui o poder gerencial e a figura do opressor acaba por oscilar entre o chefe. cit. portanto. que. o poder pessoal e o poder funcional são manipulados na ideologia gerencial. se esconda atrás do poder funcional. os interesses dos que detém a propriedade privada. Campinas: Editora da Unicamp. Em outras palavras. C. antigamente unidos numa mesma pessoa. daí a composição dos aspectos da classe dominante com a assalariada. Considerações Finais A partir das proposições trazidas neste artigo. N. juntamente aos comerciantes. O grupo dos white-collars ou dos gestores já adquiriram os valores da classe capitalista. e pelos trabalhadores assalariados vendedores de força de trabalho. os administradores do capital seriam uma fração da classe assalariada que detém maior parcela do poder por estar diretamente vinculado à estrutura de dominação do topo para baixo. por outro lado. as normas. também dependem do poder pessoal na medida em que em alguns casos é o carisma individual que motiva o funcionário a “vestir a camisa”. proprietário e administrador. Utilizando esta formulação como critério para divisão fundamental entre as classes. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Tal fração da classe proletária parece dotada de uma subjetividade alienada num nível mais complexo na medida em que ideologicamente representa a classe dominante. a contraditoriedade da ideologia gerencial é conveniente à sua manutenção neste aspecto. de hierarquia e subordinação como inalterável ditame da “própria natureza”. In: COUTINHO.al. São Paulo: Boitempo Editorial. ENGELS. o que facilita a aplicação das técnicas gerenciais de controle. de modo que possam caracterizar a condição. representando. o regulamento. atingindo dimensão social e convertendo-se num processo de “educação capitalista” para a classe proletária que serve ao ocultamento da luta de classes e à manutenção do processo de exploração da força de trabalho e da reprodutibilidade do capitalismo. a Teoria Geral da Administração e as práticas gerenciais cumprem um papel ideológico. a solidariedade de classe necessária para a tomada de uma consciência emancipada. Para esta finalidade. p. Para além do capital.] O Manifesto Comunista 150 anos depois. mas que parece não significar uma mobilidade de ascensão . representados respectivamente pelo capitalista proprietário dos meios de produção. historicamente contingente e imposta pela força. op. Manifesto do Partido Comunista. independente da posição que ocupe. Tem-se a impressão de que o gestor é dividido entre o homem e o chefe. os manuais.. Para participar como administrador do capital o gestor não precisa possuir a riqueza ou a propriedade dos meios de produção do capitalista. o pessoal e o profissional. I. sem convertê-los em uma terceira classe. Segundo Meszáros: “Como necessidade igualmente inevitável sob o sistema do capital.

E. Pierre. Teoria marxista do Estado. João José. SARLET. Ernest. Todavia. Rio de Janeiro: Editora Renovar. essa tese pressupõe que o Estado democrático e social de direito atenderia aos fins econômicos do capital. 3). 1977. para desnudar essa concepção mística que envolve o Estado democrático e social de direito.Direitos fundamentais sociais: estudos de direito constitucional. VALIER. p. Professor de Direito da Universidade Católica de Brasília. pois se presume que tal modelo de Estado possibilita que todos os interessados sejam ouvidos e. Não obstante. 3 MANDEL. há uma mística apologia ao chamado Estado democrático e social de direito. o que evitaria perder de vista o grande avanço que se supõe para o desenvolvimento da humanidade a emancipação política que esse modelo de Estado garante. Tomo II. contrapontos ao puro e desenfreado liberalismo praticado após as revoluções burguesa e industrial. Tratado de economia marxista. sociais e culturais – servindo como resposta para evitar uma convulsão social. o que significa que: um modelo de Estado capitalista não reflete as diferenças entre os indivíduos existentes na sociedade. que ela não leva em conta o simbolismo de uma dimensão prospectiva de conquistas. seja porque este pode ser caracterizado pelo binômio desmanche dos mecanismos de bem-estar social e precarização da classe trabalhadora1. se fazem abstrações dessas diferenças para que possa ser declarado que todos os indivíduos são iguais. Trad. cap. México: Ediciones Era. isto é. o consenso seja alcançado. de predomínio neoliberal. pelo outro lado. Ele funciona como controle social. 1 NEGRÃO. v. Ingo Wolfgang. a dicotomia sociedade civil e Estado. É bastante comum a concepção de que só existe o caminho de organização política propugnado por esse modelo de Estado. 1972. visto que ele compõe e brotou do modo de produção capitalista. muito pelo contrário. como se o palco da política fosse exclusividade da esfera estatal. Nº 7. 112-128. Politizando a questão sobre o Estado democrático e social de direito Nos dias de hoje. 301-394. mantendo presente. a maneira escolhida para submeter à crítica o Estado democrático e social de direito foi politizá-lo. se esse modelo de Estado ampliou os beneficiários dos direitos individuais e criou os direitos econômicos. O costumeiro argumento para contrapor essa tese diz. Assim. . especialista em Filosofia Política pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e especialista em Direito Constitucional pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza). Assessor Técnico do Senado Federal. internacional e comparado. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Hélio de Souza Rodrigues Júnior* I ntrodução O presente texto tem como ponto de partida que o Estado democrático e social de direito exerce a função de salvaguardar e legitimar o modo de produção capitalista. ou como conseqüência daquela compreensão de que o alargamento dos titulares dos clássicos direitos individuais e o surgimento dos direitos sociais foram *Mestre em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). pobrezas y desigualdades en el Tercer Mundo. por um lado. 2003. É o que se verá a seguir. 4. No seu núcleo estrutural estão às relações sociais do modo de produção capitalista3. 1999. Julho 2009 (75-81) .). Por sua vez. p. Buenos Aires: Minõ y Davila editores. isto é. o olhar crítico sobre o Estado democrático e social de direito focalizaria a perspectiva de um modelo de Estado que diretamente contribuiu para o processo de acumulação e reprodução em momentos de crise capitalista4. Jacques. por um lado. Neoliberalismo. Lisboa: Antídodo (Coleção Argumentos. é bom lembrar que esse modelo de Estado é apenas rótulo de um Estado capitalista. Para conhecer o neoliberalismo. Ernest. tanto que.75 Estado Democrático e Social de Direito. In: ___ (Org. sem se dirigir à causa dessa convulsão –. pelo outro lado. a concepção de que os indivíduos que são membros da comunidade política são seres abstratos. Reforma constitucional e proibição de retrocesso. Também é corriqueiro o pensamento de que o Estado democrático e social de direito se opõe ao neoliberalismo. São Paulo: Publisher Brasil. 4 MANDEL. a partir daí. M Reis. como se o Estado democrático e social de direito fosse readaptado para os padrões atuais e se transformasse em uma resposta às políticas neoliberais2. contextualizá-lo e refutar o argumento que busca colar nos críticos ao Estado democrático e social de direito a pecha de economicistas. 3º edicíon. supostamente. 1998 2 SALAMA. uma vez que o Estado democrático e social de direito é considerado como a única forma de organização política da sociedade capaz de garantir os clássicos direitos individuais e promover as ações de bem-estar social. e. não é possível qualquer tipo de reivindicação e disputa por fora das regras estabelecidas.História & Luta de Classes.

por um lado. In: __. uma vez que a crítica formulada já parte do patamar de que o Estado democrático e social de direito exerce a função de salvaguardar e legitimar o modo de produção capitalista. 34-35. exclusivamente. As políticas sociais brasileiras: diagnóstico e perspectivas. se está dizendo por meio indireto que não há outro caminho a seguir. Por outro lado. o Texto Constitucional cria restrições às ações de expropriação por meio de proteção especial àquelas propriedades que cumprem a função social. contribuiu para o processo de acumulação e reprodução capitalista e. 1-66. pois naquela época as influências classistas sobre as leis podiam ser facilmente percebidas no caráter da legislação. Rio de Janeiro: Editora Zahar. De qualquer modo. ao estabelecer que a propriedade privada deva cumprir com sua função social. argumentar-se-ia que no século XIX o Estado moderno podia ser estudado como reflexo do poder de uma classe dominante. Nota introdutória sobre o direito. 3. a ampliação do direito de voto. isto é. do capitalismo. as abstrações se tornam o fundamento da realidade ou a explicação da história social. p. O direito posto e o direito pressuposto. este aborda o Estado democrático e social de direito como reflexo do modo de produção capitalista e não. v. mas o Estado e o direito condicionam a economia. “o crescimento do movimento trabalhista. tende a fazer desaparecer certos costumes e atitudes e a difundir outros. Eros Roberto. o debate sobre a questão do uso de algemas ou de interceptações telefônicas. exclusivamente. Interessante lembrar sobre este último exemplo que o Texto Constitucional brasileiro garante o direito de propriedade privada dos meios de produção. enquanto que as idéias sobre o que é. a tentativa de criminalizar os movimentos sociais. e na natureza das decisões judiciais referente às penalidades impostas aos crimes contra a propriedade. 7 GRAU. a difusão da reforma social e as doutrinas igualitárias. 1975. indicaria a necessidade de serem definidas as noções.1990. p. funciona como controle social. de tal modo que a história social perde-se. um argumento para se contrapor a esse ponto de partida é minar o seu pressuposto: de que o Estado democrático e social de direito decorreria do interesse e da necessidade do próprio capital em preservar uma dada estrutura social que com ele fosse adequada. a influência e a repercussão das estruturas sociais. das ações estatais. Aliás. O exemplo concreto sobre o antagonismo da luta dos movimentos sociais e o Estado democrático e social de direito dos dias de hoje é paradigmático. elementos e compreensão sobre se isso é tática ou estratégia política de enfrentamento ao modo de produção capitalista. Não é que os teóricos e defensores do Estado democrático e social de direito neguem a existência. ed. De qualquer modo. poderia ser novamente invocado o argumento de que o Estado é produzido pela estrutura econômica. Por conseguinte. A concepção do direito deverá ser 5 DRAIBE. Paginação irregular. cap. a objeção à crítica ocorreria no sentido de que o seu embasamento está em que esse modelo de Estado é exclusivamente reflexo da economia. o direito será o instrumento para essa finalidade (.Estado Democrático e Social de Direito. Ou seja. 6. Sônia M. o Estado democrático e social de direito como reflexo da economia. tudo isso provocou modificações na legislação. um modelo de Estado que. com reflexos em um particular Estado social brasileiro que foi construído ao longo do século XX5. pelo outro lado. Controle social.. mar.. porque simboliza que a concepção que cria uma apologia ao Estado democrático e social de direito – e seus respectivos direitos fundamentais de proteção individual e social – restringe o campo da atuação política ao modelo liberal-capitalista. 2000. In:__.). mas interagindo em relação a ela. tal Texto está dizendo para os socialistas de fé no misticismo do Estado democrático e social de direito que lutar contra a apropriação dos meios de produção é medida inconstitucional. p.76 . E sem que a luta de classe represente ruptura social. tais como. ocultando o elemento significativo de que o Estado e seus respectivos direitos foram estabelecidos para realizar e reproduzir certo modo de funcionamento social. ou ainda. a não ser o rumo do modelo de organização política da sociedade dado pelo modo de produção capitalista. daí que as relações concretas da sociedade condicionam o Estado e o direito positivo7. mas ao modo de produção que é capitalista. A economia condiciona o Estado e o direito. Thomas Burton.). a ascensão no início do século XX do Estado de bem-estar social em alguns países europeus afastaria tal situação. Brasília. mas subordinam a concepção desse Estado ao seu sistema de pensamento. isto é. são vários os exemplos atuais da mística que envolve o Estado democrático e social de direito. das regras emanadas de um Estado democrático e social de direito. Introdução à Sociologia. ou alternativa. 4. como é e o porquê do Estado democrático e social de direito prevalecem sobre a história social. 238. inclusive. na atmosfera social que influencia as decisões judiciais e a própria estrutura social”6. pois estes não agiriam dentro dos parâmetros da lei. Contextualizando o Estado democrático e social de direito: Economicismo e Ambiguidades Note-se que. . Assim é que “se todo Estado tende a criar e a manter um certo tipo de civilização e de cidadão (. E isso significa: transformar esse modelo de Estado em processo de evolução natural. 6 BOTTOMORE. nela produz alterações. Não obstante tais hipotéticas refutações ao ponto de partida da crítica desenvolvida neste texto.. Mas. Para a Década de 90 Prioridades e Perspectivas de Políticas Públicas. 4.ed.. São Paulo: Editora Malheiros. não se trata de relacionar. fazendo com que a luta de classe fique descaracterizada de qualquer ruptura com a ordem posta. Como isso. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Ora. Por conseguinte.

ou mesmo como puro reflexo causal do capitalismo. consolidar e manter uma dada estrutural social que com ele fosse adequada. Aqui não se faz mais do que levantar a questão. 2º edição. ele é reflexo do modo de produção capitalista. é preciso ter sempre presente dois aspectos: Primeiro. ele é partes desse 8 GRAMSCI. Contudo. Antonio. no que diz respeito à questão da instância neutra. Ao contrário. Notas sobre o Estado e a Política Vol 3. significa que esse todo dá ao Estado democrático e social de direito uma concepção. Michel. 28. do modo de produção capitalista. de modo que sob tal prisma o Estado democrático e social de direito decorre do interesse e da necessidade da base social capitalista em constituir. . cuja função primeira seja ordenar a desordem. o Estado democrático e social de direito é parte de um todo social complexo e específico. ou melhor. Segundo. Definitivamente. sistema. Caderno 13. 79. de que existe uma instância neutra e técnica onde esse consenso é possível de ser realizado. também. as formas nas quais tal Estado se acha organicamente ligado à reprodução dos interesses desse modo de produção. 49. Cumpre acrescer que afirmar que esse modelo de Estado é reflexo. A conclusão da crítica de que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista compreende o sentido de que ele vai ao encontro desse modo de produção. repita-se. Uma introdução crítica ao direito. Quando se sustenta que o Estado democrático e social de direito é reflexo do modo de produção capitalista e. bem como. daí o porquê do valor desta (aparente) função de apaziguamento e de regulamentação pacífica dos conflitos. de maneira inequívoca e concreta – ou que permite uma leitura coerente e sustentável –. reconciliar aparentemente indivíduos. isto é. E tal. no caso. No que toca a idéia do consenso. 1972. Em suma. p. garante a prevalência daqueles direitos.Lisboa:Moraes Editores. Ed. de maneira que se pode sustentar que detém preponderância a classe ou a fração cujos interesses são prioritariamente contemplados pela política econômica e social do Estado12. 124-128. salvaguarda e legitima esse modo de produção. atribuindo-lhe características próprias. Michel.História & Luta de Classes. Ob. porquanto ele não é compreensível senão em função deste todo10. Ob. políticas. cultura que viabilizam. Cit. o modo de produção enseja a existência de uma estrutura política. de que existe um consenso. não aqueles mais genuínos. onde é possível conciliar interesse antagônico das forças políticas. p. estruturas econômicas. ele é a representação dessa classe. p. O desdobramento da crítica em relação ao prisma do modo de produção indica a noção de que os tipos de Estados não são imagens de um fenômeno social natural e eterno que atravessaria as épocas e as sociedades sempre iguais a si próprias9. 1979. de modo que o 12 13 GRAU. velar pela salvação pública denominada de bem comum. o ponto inicial da crítica adotada neste texto ao Estado democrático e social de direito não o coloca como reflexo da economia. uma classe ou fração prepondera politicamente sobre as demais. Ralph. O Estado na sociedade capitalista. esse ir ao encontro tem o significado de uma representação harmônica. o pressuposto é que ele foi obtido pelo combate político travado. não ferindo de morte os seus interesses mais genuínos. Cit. p. e deve ser esclarecido para evitar a ambigüidade de concebê-lo como instância apartada da sociedade e/ou técnica-neutra. consolidam. Civilização Brasileira. Ob. por isso. Nº 7. o Estado democrático e social de direito não é instrumento da classe burguesa. 9 MIAILLE. o Estado democrático e social de direito não é instrumento a serviço de um sistema sociopolítico. MIAILLE. uma função. 45. p. ou representação. Com isto. e mantêm a formação da base social capitalista. os modelos de Estados funcionariam de maneira diferente. praticamente de todo fanatismo moralista”8. Cit. Resignificando Mialle11. Rio de Janeiro: Zahar Editores. na medida em que os interesses econômicos são satisfeitos em caráter prioritário. Entretanto. segundo o modo de produção predominante. Pode-se apenas dizer que no bojo das classes dominantes. é preciso apreciar o Estado democrático e social de direito para evitar fazer dele um quadro investido pela classe burguesa. Julho 2009 (75-81) . via a estrutura estatal distinta e superior aos interesses travados na sociedade13. Eros Roberto. é perfeitamente razoável pressupor que os interesses do modo de produção dominante contrariados pelo Estado democrático e social de direito sejam pontuais e temporários. Mas. O esclarecimento é notório: como o Estado democrático e social de direito está assentado em uma base social capitalista. Por sua vez. Cadernos do Cárcere. eles são a representação dessa classe. Portanto. do modo de produção capitalista significa que existem indicadores observáveis que mostram. instituições sociais. tal parece ser objeto de decisões políticas que se harmonizaram. um espaço. na medida em que não se quer extrapolar o objeto delimitado neste texto. 11 MIAILLE. O Estado não é instrumento mais ou menos dócil e eficaz entre as mãos da classe burguesa: ele é uma das formas sociopolítica dentro da qual esta classe exerce o seu poder. eles não são instrumentos da classe burguesa. 10 MILIBAND. 2002.77 libertada de todo resíduo de transcendência e de absoluto. surge um problema: como caracterizar de um modo preciso a preponderância política de uma classe ou fração? O indicador mais seguro dessa preponderância é a repercussão objetiva da ação estatal no sistema de posições relativas de que participam as classes dominantes e as frações de classe dominante. valores. p 139-140. quiçá instrumento político manipulável. Maquiavel. é perfeitamente razoável pressupor que esse modelo de Estado possa contrariar interesses do modo de produção dominante.

Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. Isto indica uma das respostas. não pode deixar de ser também econômica. necessita do apoio político das camadas subalternas. p. cap. p. na medida em que a concretização dependeria da luta de classes. como por exemplo. elas são resultantes extremamente complexas de um complicado jogo em que protagonistas e demandas estão atravessados por contradições. 33. Com efeito. Cit. abaixo. dado que. In:______. SALAMA. que se forme um certo equilíbrio de compromisso. em última instância. Vale acrescentar. Pierre. E. vez que os direitos sociais. 15 NETTO. os seus interesses e as suas estratégias”17. 14 . 1. Veja-se. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. 33. denota-se que a funcionalidade do Estado democrático e social de direito para o modo de produção capitalista não equivaleria a verificá-los como decorrência natural. cap. decorre que. p. a oferta de políticas sociais em vista da demanda das classes subalternas pode ser oferecida na medida exata em que elas podem ser refuncionalizadas. das políticas sociais processos que estão muito distanciados de uma pura conexão causal entre os seus protagonistas. tomado em seu conjunto. José Paulo. correspondendo àquelas disputas dentro do espaço político estatal. não se trata de ceder. ela implica na eliminação de uma parte da burguesia. e que não será capazes de ferir de morte tais interesses.78 . São Paulo: Cortez Editora. como a dominação política da burguesia funda-se.9. levam alguns de seus atores profissionais a uma relação muito mediatizada com as classes sociais) tornam a formulação GRAMSCI. Jacques. responde com antecipações estratégicas”16. perfeitamente compreendida na dimensão de que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista. Antonio. e. 18 17 É importante esclarecer que quando a crítica formulou e sustentou que o Estado democrático e social de direito é reflexo do modo de produção capitalista. ed. três outros pontos que permitem a leitura de que não se trata de cessão. o modo de produção capitalista permite compreender o Estado democrático e social de direito. e por isso atende aos seus interesses mais genuínos com prioridade. por meio de composições. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Estado não irá ferir de morte o modo de produção que lhe seja mais característico. ou das leituras possíveis. As condições histórico-sociais da emergência do serviço social. ao fato de que existem conquistas sociais no modo de produção capitalista. cada uma delas. VALIER. não pode deixar de ter fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica”14. como a classe burguesa recebe sua legitimidade política das eleições. Desentendimentos na classe burguesa Salama e Valier18 dizem que o Estado. essas ambigüidades do modo de produção capitalista podem ser compreendidas da seguinte maneira: resignificando Netto15. onde poderão ocorrer os conflitos entre a própria classe dominante20. se a hegemonia é ético-política. Aliás. De fato. tal como a sincronia entre previdência Idem. mas de atendimento aos interesses do próprio modo de produção para eliminar parte da própria burguesia e assegurar os monopólios. mas de atendimento aos próprios interesses do modo de produção capitalista: primeiro.Estado Democrático e Social de Direito. algumas vezes. capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora e as fissuras da instituição do Estado. apenas a título de reforço da argumentação e sem maiores desdobramentos. p. 33. os cortes no conjunto dos trabalhadores e as próprias fissuras no aparelho do Estado (que. 176 19 Idem. 177. isto é. 2001. São exceções que confirmam a regra geral. Por outro lado. ou puro nexo causal. que ela criou. E esse autor desfecha: “Entretanto. diz Gramsci: “O fato da hegemonia pressupõe. com autonomização da atividade política. 16 Idem. A existência deste Estado apenas coloca a sua possibilidade. inclusive enquanto complexificação da análise. Ele cedeu para assegurar o seu modo de produção. que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa. mas também é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem envolver o essencial. confrontos e conflitos. p. p. indubitavelmente. ela não desconsidera a existência de ambigüidades sociais. In:___. Portanto. 3. 177. As intervenções do Estado. portanto. Disto. A diferenciação no seio da burguesia. esses autores19 ainda dizem que. com ambigüidades de três facetas: desentendimentos na classe burguesa. pois o capital cedeu para manter os negócios do capital. p 48. pode resolver provisoriamente essa contradição. o Estado. pode assim ser levado a impor a uma parte da classe determinadas soluções adequadas ao interesse político da classe em seu conjunto. Ob. decorrem fundamentalmente da capacidade de mobilização e organização da classe trabalhadora “a que o Estado. do Estado como instrumento ou capturado pela burguesia. que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida. por vezes. por exemplo. e os exemplos são inesgotáveis.Uma Introdução à Economia Política. a dinâmica das políticas sociais está longe de esgotar-se numa tensão bipolar – segmentos da sociedade demandante/Estado burguês no capitalismo monopolista. é o local onde se armam os conflitos entre as diferentes camadas da burguesia. sobre a acumulação progressiva do capital. 1975. 20 Idem.

consubstancia faceta das ambigüidades do modo de produção capitalista. 15. Assim. 29 Idem. Maria das Graças. O Estudo da Política: Tópicos Selecionados. In:___. Brasília: Paralelo 15. p. continua o autor. que os três pontos levantados são imperiosas fontes de análise para a compreensão do modo de produção capitalista. Nº 7. Revista crítica Marxista. Idem. mas também a massa consumidora tão vital para o ciclo normal da reprodução capitalista22. A taxa de utilização decrescente no Estado Capitalista. Com uma pequena política social já se evita. É nessas circunstâncias que se abrem melhores oportunidades para as lutas populares. embora não contraditório”24. essa capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora. bem como a dos segmentos burocráticos que as representam”27 sempre empenhadas “em reduzir os direitos vigentes na sociedade capitalista àquele mínimo indispensável à reprodução do próprio capitalismo”28. Análise de política públicas: conceitos básicos. 634-674. de que pode resultar. eles foram conjugados com o que se chamou de desentendimento entre as classes dominantes. aquilo que a instauração de direitos civis prometeu e não cumpriu: a realização da igualdade entre os homens. e pelo outro lado. A nova corporificação da forma-sujeito de direito. p. seria ponderável buscar atribuir à crítica defendida a pecha de puro nexo causal da economia. 2002. p. cap. p. Cit. 27 Idem.). porque a política pública compreenderia um conjunto de procedimentos destinados à resolução pacífica de conflitos em torno da alocação de bens e recursos públicos. 29. em seu aspecto de força de trabalho.79 pública e privada e as empresas privadas no setor da saúde – serviços. p 28. como por exemplo. proclama a legitimidade e a possibilidade de realização do princípio da igualdade sócioeconômica. inclusive. na linguagem econômica. na forma jurídica. Julho 2009 (75-81) . repita-se. Segundo. 21 As fissuras da instituição do Estado No que tange as fissuras da instituição do Estado. organização da classe trabalhadora que. e. subestimando a assinalada capacidade de mobilização e organização da classe trabalhadora. Efetivamente. vez que do ponto de vista do capital. atendendo ao imperativo abstrato da realização do capital. (Org. como por exemplo.Cidadania e capitalismo: uma crítica à concepção liberal de cidadania. acomodando-se. n. pois muito embora esta autora esteja situada na restrita e despolitizada ótica de que as políticas sociais são relações entre a sociedade civil demandante e o Estado. Mas é importante perceber. para os fins deste texto. linear. 12. Ele cita Göran Therborn como quem melhor conceituou essa dinâmica. Ob. Assim. p. Décio Azevedo Marques. medicamentos 21 . resta demonstrada a compreensão de que existem ambigüidades sociais no modo de produção capitalista que abrem espaço para os direitos sociais. 16. e terceiro. as obras e serviços não lucrativos são custeados ou subvencionados pelo Estado. delas podendo resultar a criação de novos direitos”29. via o consumo. na implantação de certos direitos sociais. o trabalho não é somente fator de produção. na medida em que as lutas populares seriam. por meio da conquista de novos direitos. 23 SAES.História & Luta de Classes. 231-260. acolhe os interesses do próprio modo de produção capitalista. p. p. “ela só garante um padrão material mínimo a todos. Portanto. certas limitações imediatas da demanda flutuante do mercado. 24 Idem. se a concepção da crítica ao Estado democrático e social de direito fosse restrita aos três pontos acima levantados. p. apagando os limites impostos pelo modo de produção capitalista e ocultando as tensões e dificuldades inerentes ao processo de conquista dos direitos. sem nenhuma perspectiva de evolução histórica natural. 29. e acentuar. p. 30 RUA. como faz crer os teóricos da formação do Estado democrático e social de direito. Idem. 22 MÉSZÁROS. levanta-se “a vontade política das classes dominantes. 28-29. a defasagem entre aquilo que é proclamado e aquilo que é cumprido pelo Estado na aplicação da lei leva os trabalhadores à ação reivindicatória. É que contra a operação dessa dialética. perfazendo com que o Estado democrático e social de direito possa ser melhor compreendido como reflexo inteligível desse modo de produção. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. pode-se resenhar Rua30 para entendê-las. 1998. esse autor diz que “o processo de criação de direitos numa sociedade capitalista é necessariamente um processo conflituoso. 2003. São Paulo: Editora da Unicamp e Boitempo editorial. a melhoria na qualidade de vida do trabalhador. a processos capitalistas de concentração econômica que só fazem crescer a disparidade social”26. 28. resume-se no seguinte sentido: a coexistência. István. (coleção relações internacionais e política) 26 25 . no caso. Capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora Saes23 nos diz que os teóricos do Estado democrático e social de direito caracterizam este modelo de Estado como processo evolutivo natural. o fator determinante no processo global de criação de direitos na sociedade capitalista. desde que potenciadas pelas dissensões internas das classes dominantes nos planos nacional e internacional. instrumental. por um lado. além do que não são desprezíveis as demandas e gastos do Estado. de uma prerrogativa real (a liberdade de movimentos) e uma declaração ilusória (a declaração de igualdade) provocam com que as classes trabalhadoras procurem obter. 28 Idem. 28. Essa vontade política só se enfraquece “quando surgem dissensões políticas importantes no seio das classes dominantes. Saes25 constrói uma dialética da forma-sujeito de direito para demonstrar o papel da mobilização e NETTO. Todavia. In: Maria Carvalho. gradativa e seqüencial. portanto. 12.

de modo que estas fissuras são elementos que afugentam a pretensão idílica de um Estado neutro. 243. Daí se forma as arenas políticas. Assim. a saber: empresários. Idem. todos tendo “algo a ganhar ou a perder com as decisões relativas a uma política”. ela enumera como espécies de atores políticos. em um determinado problema político. 38 Idem. do outro lado. compreender que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista. p. de apoio e até mesmo de benefícios. p.80 . E pode-se finalizar: “Nada disso garante que a decisão se transforme em ação e que a demanda que deu origem ao processo seja efetivamente atendida. à guisa de conclusão. Como essa solução é realmente difícil de ser obtida. médio ou longo alcance”37. as ameaças. tais como a persuasão. e as negociações e os compromissos. 33 Idem. O jogo político que é travado na formalização do Estado democrático e social de direito demonstra que esse Estado e respectivos direitos. e tal se dá em função das suas preferências e expectativas de resultados. agências internacionais. outros governos. usam de todas as estratégias e de todos os recursos disponíveis. para obter vantagens individuais. os chamados atores privados. manifestação pela imprensa ou greves de fome. p. além de refutar a pecha de economicista. p. desmistificando a sua relação com o modo de produção capitalista. Finalmente. O que moveria o jogo do poder não é a lógica de um curso de ação. nesse jogo. pode-se dizer que o foco do texto foi submeter à crítica o Estado democrático e social de direito. desnudando o seu caráter de salvaguarda e de legitimação do modo de produção capitalista. Ademais. p. os chamados atores públicos. quando Rua trata do comportamento dos atores nas formulações das políticas públicas. como se todos acreditassem que ganharam alguma coisa”36. 34 Idem. Ou seja. 35 Idem. p.. 243. Todos esses complexos e freqüentes conflitos ventilados por Rua reforçam a compreensão de que o Estado democrático e social de direito – e seus respectivos direitos econômicos.. E também não existe relação ou vínculo entre o conteúdo da decisão e o resultado da implementação. ou entidades de direitos internacionais. (. não existe vínculo ou relação direta entre o fato de uma decisão ter sido tomada e a sua implementação. expressas pela imposição de danos ou prejuízos ou pela suspensão de favores ou de benefícios. que seriam os agentes políticos e os burocratas e. o exercício da autoridade. cargos. isso não significará neutralidade ou tecnicidade da instituição estatal. 234. os atores fazem todas as alianças possíveis. ou contraponto. mas o poder efetivo e as habilidades políticas dos proponentes e dos adversários de uma alternativa para negociar. 32 31 Idem. 250-251. advêm das fissuras da instituição estatal.) Essa efetiva resolução não significa nada tecnicamente perfeito. p. Assim. na razão em que nada garante que a decisão se transforme em ação. ao neoliberalismo. 238. Rua31 reconhece a influência da sociedade internacional. . coletivas. de maneira que. 241. como dinheiro. Significa o que politicamente se considera uma 'boa decisão': uma decisão em relação à qual todos os atores relevantes acreditem que saíram ganhando algo e nenhum deles acredita que saiu completamente prejudicado. técnico. atores transnacionalizados e a mídia32. então. trabalhadores.Estado Democrático e Social de Direito. sociais e culturais. Todavia. Ou ainda. organizacionais. Rua35 nos afirma que no jogo do poder são diversos os procedimentos ou táticas utilizados pelos atores. barganhar até obter uma solução que lhes seja satisfatória. entre outros. nem as rotinas. 251. Conclusão Portanto. considera-se também uma boa decisão aquela que foi a melhor possível naquele momento específico”38. ela diz que “tudo é permeado por cálculos políticos. com a imposição de obediência. não nega o predomínio marcante desse modo de produção para a constituição daquele modelo de Estado. mas apenas uma decisão política que foi uma boa decisão porque foi a melhor possível naquele momento específico. 37 Idem. demandando a criação de políticas públicas e/ou direitos sociais. Nesse diapasão. E mais. apesar de todas as possibilidades de negociação. de curto. e que nesse modo de produção existem ambigüidades que envolvem complexidades e contradições. 36 Idem. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista como exemplo maior para o Estado democrático e social de direito. Neste contexto é que surgem as decisões. a autora diz34 que para entender o processo de formulação e implementação de uma política pública é preciso saber que os atores fazem alianças ou entram em disputas. muitas vezes. além das políticas públicas – pode muito bem representar não uma resposta. o intercâmbio ou a troca de favores. de um lado. numa tentativa de encontrar soluções negociadas nas quais “todas as partes sintam-se mais ou menos satisfeitas. tornou-se necessário politizar e contextualizar o Estado democrático e social de direito. além de manifestações coletivas. bens.p 236-238. que não representaria os conflitos travados na sociedade.

a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora e as fissuras da instituição do Estado como aberturas que viabilizam os direitos econômicos. decisivamente. Julho 2009 (75-81) . Por sua vez. Logo. muito pelo contrário. que corporifica o desentendimento da classe burguesa. que supostamente consagram conquistas de todas as sociedades ou da humanidade e poderá caminhar ao rumo do socialismo. Nº 7. tal consideração afasta a concepção do Estado democrático e social de direito do conjunto de concepções míticas. indicando que esse modelo estatal está assentado no modo de produção capitalista.História & Luta de Classes.que se opõe ao neoliberalismo. adotando um ponto de vista que complexifica a questão para a totalidade. sociais e culturais. visto que a argumentação exposta refuta. além das políticas públicas. e será incapaz de ferir de morte os interesses basilares desse modo de produção. técnico e neutro. a tese de um predomínio dos motivos econômicos na crítica ao Estado democrático e social de direito. funções. espaços e características. o texto sustentou que esse modelo de Estado não é instrumento. pois dificilmente a classe dominante iria usar o poder contra si mesma. É importante perceber que a compreensão do Estado democrático e social de direito como reflexo do modo de produção capitalista significa que esse modo de produção atribui ao Estado concepções.81 Por conseguinte. a crítica ao Estado democrático e social de direito não têm sustentação no monocausalismo economicista. ele é uma das formas sócio-políticos dentro da qual a classe dominante do capital exerce o seu poder. . uma vez que a crítica ampliou o leque do debate para as ambigüidades desse modelo de Estado.

a transição ao socialismo chegou a ser uma possibilidade nos anos 1970. “para lançar as classes médias na oposição. isentando a figura de Allende e defendendo a tese da aliança nacional. objetivamente. reduzir mais e mais as bases sociais de sustentação do governo. em 1970. Ele parte do pressuposto de que seria impossível se chegar à implantação do modo de produção socialista pela via democrática como queria Allende. Luiz Alberto Moniz Bandeira. uma facção da esquerda do Partido Socialista (PS) e uma parte da esquerda cristã do Partido da Democracia Cristã (PDC).000 pessoas marchava pelas ruas de Santiago em apoio ao presidente. Pretendiam avançar gradualmente no que chamavam de construção do socialismo” (p. já que os primeiros defendiam a implantação gradual do socialismo. 346). mas que efetivamente o representavam orgânica e ideologicamente. Isso marcava a ambigüidade política da Unidade Popular e impedia a execução conseqüente de seu programa de governo. Quanto ao MIR. 640 p.com F dos gradualistas e dos rupturistas. podendo qualquer um dos lados sair vencedor. No dia 4 de setembro de 1973 quando o governo de Allende completava três anos desde que fora eleito. o Movimento de Ação Popular (MAPU). mas foi a culminação de um prolongado esforço de formação de consciências. uma multidão calculada em 800. Recorre à história das guerras de independência e da formação do Estado nacional na América Latina para explicar o surgimento do militarismo.) El golpe de Estado em Chile. c) a resistência armada de grupos revolucionários próAllende e o conseqüente receio de uma guerra civil.O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile Waldir José Rampinelli* Resenha do livro: MONIZ BANDEIRA. Por isso. Dialéctica del proceso chileno: 1970-1973. como conseqüência do apressamento e da radicalização do processo revolucionário. Por outro lado. que o golpe de Estado acontecido em 11 de setembro de 1973 fora sucessivamente postergado por três razões: a) a defesa intransigente do legalismo do general Carlos Prats. é o nome que o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira dá para o seu livro sobre a derrubada de Salvador Allende. palavras tiradas de um telegrama da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. que gerou o caudilhismo e que por sua vez criou a cultura do golpe de Estado contra projetos nacional-populares. No entanto. apenas sete dias antes do golpe. Luiz Alberto. na condição de comandante-emchefe do Exército. pela via pacífica. o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). regional e internacional era totalmente desfavorável. 338). México: Fundo de Cultura Econômica. não se deu apenas por conta de uma divisão interna na classe dominante. ao longo do livro. ao passo que os segundos buscavam a ruptura da legalidade e o desmantelamento do Estado existente. In: VUSKOVIC. 132). Isso nos diz que a sociedade chilena estava profundamente dividida em uma crescente luta de classes. (CUEVA. Coordenador do Núcleo de Estudos de História da América Latina (NEHAL) da Universidade Federal de Santa Catarina. rampinelli@globo. Fórmula para o caos: A derrubada de Salvador Allene 1970-1973. no Chile. Agustín. órmula para o caos. diz que sua radicalização estava servindo. pois não se tratava de um projeto de um grupo de intelectuais ou de uma ação limitada de alguma vanguarda desvinculada das massas. Moniz Bandeira responsabiliza os movimentos e partidos radicais de esquerda como também os movimentos e partidos radicais de direita pelo caos no Chile (1970-1973). e menos ainda pelo caminho das armas como defendiam alguns movimentos revolucionários. 1975. p. Aponta contradições nas forças de esquerda entre as perspectivas *Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina com doutorado em Ciências Sociais-Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pedro (Org. tinham consciência da ameaça do golpe de Estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Era exatamente esta conjuntura que dava à esquerda da Unidade Popular as razões para avançar na radicalização do processo rumo ao socialismo. o PC e os setores moderados do PS compreendiam que a .82 . que cada vez mais se configurava. o autor mostra. não se pode esquecer que o triunfo da Unidade Popular. já que a conjuntura local. mas sim de algo surgido destas mesmas massas e das organizações que não falavam em nome do proletariado. mais realistas. Moniz Bandeira atribui a fórmula para o caos exatamente aos movimentos e partidos de esquerda. e. Isso. entre eles. b) a incerteza da unidade das Forças Armadas na derrubada de um presidente constitucional. 2008. no Chile. Ele afirma que “Allende e os comunistas. desestabilizá-lo e justificar o golpe de Estado” (p. de organização popular e de lutas comunitárias cujas origens se remontam ao início do século XX. Enquanto isso “Allende.

não seria recomendável uma citação do jornal Clarín. em seu livro. a visão de um golpista secundário. Dos años de política económica del gobierno popular. Na verdade. com o apoio explícito dos Estados Unidos. portanto. Nestes escritos está. mas pelos PCs de toda a região. tendo-se em conta que este mesmo periódico apoiou enfaticamente o golpe de Estado no Chile. Augusto Pinochet. ao fim do controle do monopólio privado da indústria siderúrgica. intelectuais de universidades chilenas e estrangeiras. Embora tais deficiências não comprometam a leitura. do carvão e de outros recursos básicos do país. Nº 7. preparando o caminho para o golpe de Estado. no entanto. Moniz Bandeira analisa os acontecimentos chilenos manuseando preponderantemente documentos brasileiros. dentro da moldura constitucional. Julho 2009 (82-83) . reservou um espaço enorme aquele país. no 35° aniversário da queda de Allende. Chega a fazer um agradecimento especial ao ministro Hélio Vitor Ramos Filho. pelo seu aprofundamento. não se dando conta de que esta mesma burguesia não permitiria tocar na economia de mercado e tampouco realizar as pretendidas reformas. além de ceder o prefácio ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Por outro lado. já que as mesmas deveriam estar à disposição de todos os pesquisadores. depois que integrantes de movimentos revolucionários e partidos políticos.História & Luta de Classes. xv) a analisar e descrever a ditadura uruguaia. P. do ferro. quando não de traduções do espanhol e do latim equivocadas (p. sem mostrar as relações profundas com o golpe de Estado chileno. secretário-geral. O livro Fórmula para o caos foi lançado concomitantemente no Brasil e no Chile. às profundas transformações econômicas que abriram caminho para um desenvolvimento nacional independente em favor das grandes maiorias. de Agustín Cueva et alii. dedica muito tempo a elas.) sobre a derrubada de Salvador Allende. o autor se vale demasiadamente de fontes não primárias – como as memórias de Carlos Altamirano. por outro lado esquecendo-se de alguns livros muito significativos como Una sola lucha. assessorada pela CIA. Mais proveitoso seria se tivesse apresentado a política internacional do pluralismo ideológico de Salvador Allende que se opôs de forma contundente a de fronteiras ideológicas das ditaduras de segurança nacional. 40-41). ao mesmo tempo. (Org.. tal estratégia não deixa de ser uma capitulação. a estatização do sistema bancário. diretor do Departamento de Comunicação e Documentação (DCD). inclusive porque a oposição era predominante no Congresso” (339). Pedro. possivelmente pressionada pela data. (p.83 Unidade Popular não tinha condições de avançar mais rapidamente o processo revolucionário. a abertura de canais de participação por meio dos quais os próprios trabalhadores vão tomando o controle destas atividades. A Editora Civilização Brasileira. p. com muitas informações. Moniz Bandeira apresenta um longo trabalho (640 p. As medidas do Programa do Governo Popular não só enfraqueceram a burguesia como lhe tiraram a sustentação de seu poder econômico. Por isso. economistas e sociólogos já tivessem feito suas avaliações sobre a via chilena para o socialismo. mostram. por fim. defendida não apenas pelo Partido Comunista chileno (PCch). de Pedro Vuskovic e El golpe de Estado em Chile. . 444) ou de datas alteradas (p. Carlos Prats e Toríbio Merino – empobrecendo as informações e argumentações e. ausências de preposições e de conjunções. Moniz Bandeira. já que apresenta estes governos impostos pelas Forças Armadas. elogiando o autor do trabalho. Passa a nítida impressão de ter encontrado uma caixa ou pasta com documentos inéditos sobre aquele regime e querendo aproveitá-los para tornálos público. (VUSKOVIC. enviados de Santiago para Brasília pelo embaixador do Brasil Antônio Cândido da Câmara Canto que servia aos interesses das forças conservadoras. Por fim. precedido de ampla divulgação. ao analisar as ditaduras militares que rodeiam o Chile. 124). fazendo com que ela perdesse parte da dominação de classe. Na verdade. passando a idéia de um determinismo histórico. ela trabalhou diuturnamente. tais como a nacionalização do cobre. por ter autorizado a desclassificação de documentos que proporcionaram todas as facilidades para a realização da pesquisa. a redução drástica do latifúndio. Em outro momento do trabalho. cit. do salitre. Chega a defender a tese de uma aliança nacional com a burguesia para restaurar a democracia representativa. como inevitáveis. o autor dedica um capítulo inteiro (cap. 9-10). In: VUSKOVIC. assim como ao término da grande distribuição atacadista. concessão inaceitável.) op. O autor não dá a devida atenção. O que levou o historiador brasileiro a escrever sua versão dos fatos e sua análise deste golpe de Estado parece ser o acesso privilegiado que teve às fontes primárias do Itamaraty. Além desta limitação. contra a resolução dos problemas e. do cimento e de outros setores industriais. não teve o tempo necessário para rever os escritos que apresentam erros de idioma. em destaque na capa do livro. esta posição reformista vai permitir a organização e o avanço da contra-revolução. uma falta de rigor na impressão.

no debate sobre o roubo de lenha dos bosques. Seu primeiro contato com a Liga dos Comunistas. nas conversas com Proudhon e outros socialistas. Karl Marx. Lisboa:Edições 70. p. MARX. K. 1991. F. **Professor Aposentado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNICAMP. que iria abandonar mais tarde. As lutas de classes na França. Nasceu desse contexto sua recusa à concepção hegeliana da burocracia vista como classe universal. Henri. 2 ENGELS. p. London:Penguin Books with New Left Review. Lisboa:Edições Avante. The Revolutions of 1848. foi marcado pela oposição à ultra-esquerda e pela rejeição à militância exercida distante das aspirações dos trabalhadores. LEFEBVRE. deixando pouco. utilizamos três biografias sobre Marx. informações que ultrapassavam os limites do cotidiano e avançavam sobre a explicação da realidade econômica inglesa2. A Era do Capital. isto é. 1977. FEDOSSEIEV.1848: O Ano do Mouro 1848: O Ano do Mouro Resenha do livro: MAX. No que se refere aos movimentos franceses Marx os conhecera in loco. onde ele e Engels apresentaram um Programa Democráticoburguês sob o título de “As Demandas do Partido comunista na Alemanha”.43) “A revolução está morta! Viva a revolução!” (Karl Marx. MARX. exceto mito e promessa. Tal plataforma democráticoburguesa concluía com um apelo para uma aliança entre trabalhadores e pequena burguesia: “Para consolidar os interesses do proletariado. e depois redator deste jornal. num comunicado de março de 1848 da Liga dos Comunistas dirigido aos trabalhadores alemães. era pensada por ele como uma etapa de transição. Sua experiência com os movimentos sociais até então se fizera basicamente a partir de uma atenta observação sobre o cartismo. Àquela época Marx tinha 30 anos. Esta concepção. Pode-se dizer que quando foi colunista. Isaiah. Karl Marx. grande parte de seu esforço intelectual estivera voltado para uma empreitada contra o Absolutismo da Confederação Germânica. no contexto de uma formação social capitalista politicamente organizada e dirigida pela burguesia. o socialismo francês. da pequena burguesia e do campesinato alemães é preciso trabalhar energicamente para implementar as medidas acima [explicitadas no documento]”4. K. em especial.” (Eric Hobsbawm. os dilemas enfrentados pelos trabalhadores dos Estados germânicos e a organização da Liga dos Comunistas. 1956. p. etc.84 . Karl. Para Compreender o Pensamento de Karl Marx. C Neste mesmo período.54) ento e sessenta anos atrás o continente Europeu foi varrido por uma onda revolucionária. Essa ligação com os liberais.. 1985. sobre a liberdade de imprensa. A liberdade de Imprensa.. P. 1 Além de textos escritos por Marx e Engels. Marx mostrou-se um democrata. BERLIN. particularmente um árduo defensor da liberdade de imprensa e um crítico do Absolutismo3. 1980. Na época em que foi jornalista da Gazeta Renana Marx travou contato com as questões sociais como é fácil de perceber no acompanhamento dos trabalhos da Dieta e.103. 1850. 1973. depois de ver frustradas suas expectativas de se tornar professor na Universidade de Bonn1. *Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UNIOESTE. São Paulo: Global. Rio de Janeiro: Editorial Vitória Limitada. 1966. expressou-se. Influenciado pela situação política na Confederação Germânica.N. Foi nesse contexto também que nasceu a amizade e o trabalho comum com Engels. entre 1842 e 1848. por exemplo. Alimentava-se também das informações que seu amigo Engels lhe fornecia. que o “introduziu” no estudo das questões econômicas. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. concebera a revolução proletária como tarefa a ser pensada e realizada em condições determinadas historicamente. 1983. et all. liquidada pelo recuo da burguesia. Antônio de Pádua Bosi* Edmundo Fernandes Dias** .. Porto Alegre:L&PM. e seus primeiros trabalhos sobre a questão do Estado e do direito a partir de Hegel. Seu observatório estava fixado na cidade de Colônia. onde sobrevivia como jornalista na Gazeta Renana. as revoluções de 1848 surgiram e quebraram-se como uma grande onda. As Lutas de Classes na França (1848-1850). São Paulo:Edições Siciliano. 2ª ed. Suas atividades de jornalista na Gazeta Renana foram exercidas à custa do financiamento de setores da burguesia descontentes com o governo de Frederico Guilherme IV. 4 3 . à época batizada de “Liga dos Justos”.

1986. Este ponto recebera um tratamento lapidar na confecção das “Lutas de Classes na França”. p. em seguida. Moscou:Editorial Progreso. Foi nesses escritos que. “Prefácio”. 5 levou Marx a reconhecer também os limites de seu próprio entendimento acerca da realidade. México:Ediciones Roca. A Gazeta Renana.164-172. comercial e manufatureira. Respuesta a la 'Filosofia de la Miseria' del señor Proudhon. A noção de que toda a História era a História da Luta de Classes.org>. Primeiros Manuscritos Econômicos e Filosóficos. conforme ele mesmo indicou no Prefácio de 1859: “Em 1842-1843. Karl. São Paulo:Martins Fontes. Miseria de la Filosofia. É neste período que surge a preocupação com os “interesses das classes” na História. Disponível em: <http://www. Não se tratava mais de escrever crônicas políticas em tom ácido. na qualidade de redator da Gazeta Renana. falando sobre o contexto de uma revolução burguesa em que os donos de fábricas e seus ENGELS. localizada na cidade de Colônia. resultante da abolição da propriedade privada (Manifesto do Partido Comunista). Proudhon foi duramente questionado pela suposta ingenuidade de pensar uma organização social baseada no cooperativismo como forma de superação do capital5. K.. 8 . fecharia as portas e. embora tenha esboçado importantes reflexões acerca do processo de alienação do trabalho6. In Select Works. “Marx and the 'Neue Rheinische Zeitung' (1848-1849). Foi ele próprio quem esvaiu qualquer ilusão a esse respeito. Assim. havia crivado na literatura de esquerda o significado mais popularizado do movimento histórico. In Contribuição à Crítica da Economia Política. dos ministérios às lojas de tabaco” (Marx. oferecendo uma interpretação materialista da História. uma das experiências mais importantes vivida por ele foi a curta aliança com setores da burguesia. ditava as leis nas Câmaras e distribuía os cargos públicos. MARX. Sua abordagem passou a cortar mais fundo o tecido social. 9 MARX. até 1848.marxist. muito provavelmente. os proprietários de minas de carvão e de explorações florestais e uma parte da propriedade territorial aliada a ela – a chamada aristocracia financeira . Suas análises partiam de um desenho inicial da divisão da sociedade para. [o povo] tem resistido à burguesia e ao exército unidos”7. 6 MARX. alcançando os interesses de classe e das frações de classe que cada personagem buscava ensaiar: “Quem dominou sob Luís Filipe não foi a burguesia francesa. A organização capitalista do trabalho e a questão do processo de trabalho ainda não ocupavam um lugar central em seu pensamento. Marx. mas uma fração dela – os banqueiros. Rio de Janeiro:Editorial Vitória Limitada.História & Luta de Classes.23. as classes passaram a ser vistas e analisadas a partir de seus interesses materiais e das relações de forças resultantes entre elas. Karl. perderiam força as expectativas de Marx acerca do papel revolucionário da burguesia. Embora bastante informado sobre os acontecimentos em todo continente. 11 MARX. Rio de Janeiro:Paz e Terra.85 Sua crítica também avançara sobre a esquerda. O 18 Brumário. quando iniciou sua primeira avaliação de fôlego sobre os levantes populares de 1848 e 1849: “Nenhuma celebridade republicana tem estado com o povo! Sem outra direção [política]. K. e criar uma solução de passagem para uma Monarquia Constitucional onde haveria lugar para a composição dos interesses das classes dominantes. já com a colaboração de Engels. Nº 7. o próprio Marx só havia pensado que a nova sociedade seria escorada num tipo de propriedade coletiva. 5ª ed. p. Isto foi suficiente para fazer cessar a oposição ao Antigo Regime e à concepção de propriedade ancestral. Certamente este episódio marcou para ele os limites da ação revolucionária da burguesia. O início da década de 1840 foi desastroso para os trabalhadores da Confederação Germânica. mas também a burguesia financeira. F. que seria revista à luz das revoluções de 1848. Biblioteca Virtual Revolucionária. No calor de 1848. As Lutas de Classes na França (1848-1850). 1956. à frente da “Nova Gazeta Renana”. “Prefácio”. os reis da Bolsa. Oprimidos por privilégios feudais que encareciam a produção agrícola. Periodismo Revolucionário. A Nova Gazeta Renana. 1983. Pode-se dizer que “Lutas de Classes na França” foi a ante-sala do “18 Brumário”11. p. simplificou as possibilidades de conflito a uma contradição bipolar. enredadas nas ações e pensamentos de imperadores. a ação prática de Marx como dirigente político se desenvolveu muito mais em território germânico. e é provável que tenha sido de lá que saíram muitas das reflexões que deram forma à “Lutas de Classes na França”10. 1956. 10 ENGELS. 7 ENGELS. Marx soldou sua compreensão sobre a impossibilidade de uma aliança dos trabalhadores com setores da burguesia para a realização da própria revolução burguesa. principalmente porque era fortemente reivindicada pelos povos da Confederação Germânica8. particularmente estudadas em “Lutas de Classes na França (1848-50)”. sufocados pela organização manufatureira do put out system que necessariamente intermediava todo o resultado do trabalho de tecelagem. O reconhecimento de que a luta pela democracia política não seria conduzida à frente pela própria burguesia. p. A pena de Marx ficara sem apoio. de maneira mais sistematizada. os trabalhadores começaram diversas rebeliões que amedrontaram não somente a aristocracia germânica – os junkers -. sem outro meio senão sua ira. No Manifesto do Partido Comunista. Na prática. Julho 2009 (84-86) . à época em que dirigiu a Gazeta Renana. Esta ocupava o trono. os reis das estradas de ferro. In MARX. ministros e líderes políticos de direita e de esquerda. F. 1983. 1985. além do breve período em que participou da organização dos trabalhadores emigrados no debate com as teses de tipo blanquista.20. K.31-32). com isso. K. Contudo. encontrei-me pela primeira vez na obrigação embaraçosa de dar minha opinião sobre o que é costume chamar-se os interesses materiais”9. 1975. MARX. Moscow:Progress Publishers. F.. serem alicerçadas nos interesses materiais das classes e de suas posições.

1973. 1985. já havia elaborado uma reflexão talvez mais rica – sobre o sentido histórico das transformações sociais.. Relativamente ao parâmetro Victor Grandin foi um industrial francês (1797-1849). Mas antes disso. O quadro a partir do qual ele desenvolveu os estudos que se consagraram em “O Capital” foi o pior possível. Em meio à reação que tomou conta da Europa. K. membro da câmara dos deputados no período de 1839-1848. p. Nesse ponto. 1986. Ainda não chegara à célebre formulação de que os homens fazem sua própria história. Bakunin e Blanc. Grandin. Aprendera no ano de 1849. K. Encontrava-se premido pelo isolamento político (que em regra estendera-se sobre toda a esquerda revolucionária). ministro do Interior (12/1848 a 5/1849). Marx reconheceu sua própria imperícia quando prognosticou para o ano de 1850 o agravamento da crise econômica na Europa. Frédéric Bastiat (1801-1850). legadas e transmitidas pelo passado”13. numa crítica feita à Proudhon. 5ª ed. desde junho.265-277. se demonstrara uma habilidade inigualável ao seu tempo para analisar. Rio de Janeiro:Editorial Vitória Limitada.. Marx concebia “revolução” já nos termos sintetizados na metáfora contida no “Prefácio”. “Marx a P.17. Annenkov”. enfrentou os anos mais difíceis de sua vida. Porém. K. Mil oitocentos e quarenta e oito foi o ano do Mouro! E isto pode ser conferido em “As Lutas de Classes na França”. Na comparação direta entre fevereiro de 1848 e junho de 1849. que a ordem social dominante poderia resultar de composições políticas esdrúxulas e inimagináveis. Karl. escrito em 1859. Respuesta a la 'Filosofia de la Miseria' del señor Proudhon. Marx. sua pena ficaria marcada para sempre pela experiência de 1848-50. Durante a Segunda República foi deputado das Assembléias Constituinte e Legislativa. Para Compreender o Pensamento de Karl Marx. In Miseria de la Filosofia. economista liberal. sem ignorar os condicionantes ideológicos. em março de 1848 na França. mas a base histórica para tal reflexão certamente foi o período revolucionário de 1848-50. London:Penguin Books in association with New Left Review. revolução significava: subversão da sociedade burguesa. O 18 Brumário. Marx expressara com muita clareza sua visão de que uma revolução não podia ser fabricada. 13 MARX. exceto mito e promessa”. Este último artefato teórico foi-lhe fundamental para observar e analisar prováveis trajetos que traçavam o campo de forças político onde a História era decidida. havia significado: subversão da forma de governo”14. compreender e explicar os acontecimentos a partir das lutas de classes. MARX. deixando pouco. foi membro da Câmara dos deputados durante as Assembléias Constituinte e Legislativa. As Lutas de Classes na França (1848-1850). Leon Faucher ou Bastiat12 só foram lembrados por ele porque expressavam os interesses de seus pares contra um governo dominado pela aristocracia financeira. a bússola que lhe orientava. colocando em plano de exame a Revolução Inglesa de 1640-88: “. 12 histórico retirado de 1789. (Marxism Internet Archive). Tal prognóstico indicava ainda que a crise de natureza financeira seria responsável por fortes repercussões políticas. e o processo histórico tornava-se mais difícil de ser decifrado. p. Marx conferiu o maior peso das mudanças ao processo histórico.205-208. Por esse motivo. em 1846. Rio de Janeiro:Paz e Terra. E.54. Leon Faucher (18031854) foi economista malthusiano. a Europa viveu quase 10 anos de ininterrupto crescimento econômico. divergiu radicalmente de militantes alemães emigrados que criaram uma “Legião Revolucionária” com o objetivo de “importar” a revolução francesa para a Confederação Germânica15. cada vez mais buscava explicações vinculadas aos interesses materiais das classes e de suas frações. consomem e trocam. a exemplo de outras lideranças da esquerda como Louis Blanqui. são transitórias e históricas”16. quando os setores das classes dominantes na França que atentaram contra o governo da aristocracia financeira agiram para conter as mudanças pretendidas pelos trabalhadores mobilizados. 15 LEFEBVRE.V. Debeladas as revoluções de 184849. p. 17 MARX. e ministro bonapartista (1851). Contra as evidências da tendência revolucionária.86 .. A luta de classes ganhava tonalidades mais variadas. arruinado financeiramente e absolutamente convicto de que o funcionamento do capitalismo era mais complexo do que pensara até então.147-159. p. 1966. A interpretação dos acontecimentos apontava os pesos e contrapesos do processo revolucionário na França. Marx definiu a diferença entre Regime Político e Ordem Social. Junto com Engels explicitou tal compreensão quando. havendo um descompasso entre as relações sociais de produção e as formas legais que lhes conferem significado abre-se uma época de “revolução social”. Lisboa:Edições 70. 14 MARX. Moscou:Editorial Progreso. não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente. Ali. não podia resultar do desejo e da vontade de qualquer vanguarda que fosse. Hobsbawm não teve razão quando avaliou que “as revoluções de 1848 surgiram e quebraram-se como uma grande onda.1848: O Ano do Mouro representantes buscavam submeter o capitalismo a sua vida industrial. enquanto o 25 de Junho lhe impôs a Revolução. ao passo que. Henri. as formas da economia sob as quais os homens produzem. revelando seus ritmos e reveses: “O 25 de Fevereiro de 1848 deu à França a República. 16 . e o horizonte revolucionário experimentado no final da década de 1840 desapareceu. Não foi isso que ocorreu. De qualquer modo. pp. Para as classes trabalhadoras tais revoluções ensinaram e armaram definitivamente o mais perspicaz dos combatentes comunistas. a ação dos governos e a debilidade das frações burguesas deram um resultado distinto do esperado. 1956. mas “não a fazem como querem. antes de fevereiro. reascendendo os movimentos sociais e a possibilidade revolucionária17. The Revolutions of 1848.

começaram a fazer parte de um “senso comum teórico”. “sociedade civil” etc. especialmente a partir da década de setenta do século passado. Nº 7. Por fim. O Laboratório de Gramsci: Filosofia. Retoma a importante polêmica em torno do conceito de “sociedade civil”. Neste belíssimo trabalho. é comum verificar sua combinação eclética com conceitos estranhos ao materialismo.9). p. afastando-se das interpretações consagradas de um teórico da cultura ou da superestrutura. Vincenzo Giobert. observando o caráter fragmentário com que os temas aparecem nos mesmos. que. Vincenzo Cuoco. Utiliza o material crítico disponível. este último. seja da tradição originada em Marx e Engels. Não é exagero. 2008. Pode-se dizer mesmo que. “sociedade civil”. e aqueles de redação única (B). Nesse ínterim é importante a crítica que o autor também faz às leituras de Carlos Nelson Coutinho e Juan Carlos Portantiero. e atualiza a importante polêmica que Edmundo Fernandes Dias (que Bianchi considera seu “importante interlocutor”. para um estudo rigoroso. ao tornar parte deste senso comum. ma leitura sistemática dos cadernos carcerários de Antonio Gramsci. Discute ainda como tal edição togliattiana. Lênin. Para cumprir a tarefa de recuperar o sentido original das categorias gramscianas. Em primeiro lugar. onde o mesmo *Mestre e Doutorando em História (UFF). afeito à tese da “conquista de espaços” na democracia. o estudo é justificado a partir da constatação de que. Trotsky. São Paulo: Alameda. suspendem o problema da mobilização políticoinsurrecional da análise da correlação de forças e apresentam Gramsci como um teórico da “longa marcha pelas instituições da sociedade civil”. Localiza a forma como Togliatti apresenta Gramsci como um teórico da cultura. e não apenas na latino-americana” (p. Como bem pontuou Dora Kanoussi no prefácio ao livro. U reorganizou as notas dos três tipos de cadernos dando um aspecto de obra acabada e apagando a distinção metodológica marxiana entre a pesquisa e a exposição do conhecimento. como ironicamente anota) ao lado de MarxEngels-Lenin-Stalin. como é o caso patente da idéia tocquevilliana de sociedade civil. mais grave. foi a base para as edições feitas na Argentina e no Brasil. já comentada acima e feita no ano de 1975.. certamente um marco na literatura especializada. onde é possível distinguir três tipos de cadernos: aqueles compostos de notas (A) que são retomados em outros cadernos (C). Labriola. Álvaro. um dos pioneiros e principais responsáveis pela difusão do trabalho do marxista sardo em terras brasileiras e autor de uma leitura canônica sobre Gramsci. cada um ao seu modo. como a edição dos Quaderni feita por Valentino Guerratana e o estado da arte sobre a datação dos mais de trinta cadernos escritos. até o seu missivista Piero Sraffa. como é bem conhecido. recuperando as idéias dos seus principais interlocutores. a partir do que diz ser uma “leitura genética” dos Quaderni.18) fez com a narrativa de Carlos Nelson Coutinho sobre a publicação dos cadernos no Brasil. no contexto da luta contra as ditaduras latino-americanas em compasso com a crise e a decadência das organizações tradicionais da esquerda.História & Luta de Classes. Categorias como “bloco-histórico”. “bloco-histórico”. a partir da primeira edição feita pelo dirigente comunista italiano Palmiro Togliatti. localiza a importância da edição crítica de Gerratana. como Maquiavel. que envolveu a interpretação feita por Bobbio. “Estado integral”. Julho 2009 (87-88) . Giovanni Gentile. Benedetto Croce. fazendo-o aparecer (e perecer. esclarecendo alguns nexos importantes e desfazendo algumas confusões comuns. O autor acompanha a fortuna crítica dos cadernos. seja daqueles oriundos da cultura italiana. a partir de autores como Gianni Francioni e o próprio Gerratana. . “intelectual orgânico”. que envolvia Plekhanov. nem sempre com o sentido original que estas categorias possuem na formulação original do autor dos Quaderni del carcere. Bianchi resgata o processo de elaboração dos cadernos.87 A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Demian Melo* Resenha do livro: BIANCHI. por iniciativa de intelectuais ligados aos PCs dos distintos países. tais categorias afastaram-se e muito do sentido original e. Para dar cabo de recuperar o sentido original das categorias gramscianas. “hegemonia” e outras são passadas em revista. os conceitos de “hegemonia”. Contra tal leitura. cotejada com um estudo criterioso das fontes utilizadas pelo marxista sardo é o que possibilita ser O Laboratório de Gramsci um trabalho de grande envergadura. ancorada na visão de Gramsci como um “teórico das superestruturas”. Álvaro Bianchi insere Gramsci no debate cultural coetâneo. o trabalho que temos em mãos ocupa um “importante lugar na literatura gramsciana em geral. Álvaro Bianchi nos apresenta uma leitura pouco usual do sentido das categorias gramscianas. História e Política. Rosa Luxemburgo.

em contraste com as leituras reformistas que tomaram (e tomam) o conceito como programa político. pensando a partir do campo da história. O autor localiza as posições de Gramsci em relação ao debate no interior do Partido Comunista russo. portanto o momento da insurreição.253-296). na verdade. denunciando as interpretações que colocavam o mesmo ao lado da corrente stalinista. mais do que nunca. Trata-se.171). Melhor que tal uso seja feito com uma utilização rigorosa de tais conceitos. têm recorrido ao instrumental teórico de Antônio Gramsci para organizar e conceber as hipóteses de suas pesquisas. tanto Gramsci quanto Trotsky defenderam a mesma tática de frente única. Discute como na fase mais sectária da Internacional Comunista. No mesmo sentido. Isto não impede que Bianchi discuta as diferenças entre os dois autores.88 . que Gramsci utilizou para entender tanto o processo do Risorgimento italiano. quando da política do “terceiro período” e da teoria de que a social-democracia não passaria de uma ala do fascismo (VI Congresso. é o “imediatamente decisivo” (p. recolocando seu conteúdo negativo. . onde é afirmado que o nível de forças militares. o trabalho de Bianchi é de fundamental importância aos historiadores críticos que. Por fim. De particular importância é o capítulo dedicado a estudar os conceitos de guerra de posição e guerra de movimento. e nesse sentido O Laboratório de Gramsci torna-se uma leitura incontornável.199-251). de um critério de interpretação histórico. o que reafirma Gramsci como teórico da revolução socialista no Ocidente. que envolve a polêmica de Gramsci com Trotsky (p. 1928). quanto os fenômenos do fascismo e do americanismo.A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Bianchi lembra o § 17 do Quaderno 13. um dos pontos altos do livro é o capítulo dedicado à discussão do conceito de “revolução passiva” (p. fugindo do estabelecimento de uma “falsa identidade” entre ambos.

1.000 caracteres. em geral. . Prazo para encaminhamento de contribuições: 30 de setembro de 2009. mês e ano de publicação. todos os artigos serão submetidos a parecer. Ex. 2. Sem concessões de conteúdo. São Paulo: Xamã/FFLCH-USP. e não excedendo os 35. Título do livro em itálico. 4. 1995. os autores procurarão que seus artigos alcancem o mais vasto público leitor. com destaque para a área da História e das Ciências Sociais.com. com um máximo de 15.br ou para os organizadores de cada número. n. Os objetivos da revista História & Luta de Classes estão expressos na "Apresentação" do seu primeiro número. Segunda Guerra Mundial: um balanço histórico. 2000. Ex.: BARRETO. 149. SAMOILOVICH. In: Sobrenome.: CAPITANI. Pierre. Ex: BROUÉ. Porto Alegre: Artes e Ofícios. em especial. Próximos Dossiês: Número 8 – Questão Agrária. nome do autor e filiação institucional (universidade.br] nasce em tempos de domínio social da barbárie neoliberal e de hegemonia conservadora no pensamento acadêmico. Cidade: Editora. Capítulo de livros: Sobrenome. Avelino Biden. Título em itálico. Resenhas. As citações de outros textos deverão estar entre aspas duplas no corpo principal do texto e a referência bibliográfica correspondente deve ser colocada em nota de rodapé. Cidade: Editora. GIANERA. 6. Referências bibliográficas completas deverão constar em nota de rodapé (e não ao final do texto).3. Os artigos poderão ser enviados através de e-mail em arquivo anexado em formato Word para o endereço historiaelutadeclasses@uol. página citada. Ela procura servir como ferramenta de intervenção de historiadores e produtores de conhecimento que se recusam a aderir e se opõem ativamente a essa dominação. Revista USP. Nome. out. obedecendo à seguinte formatação: 7. Osvaldo (org. v.2. 7. Título do capítulo. seguirão as mesmas regras. (volume). Eles definem os marcos referenciais para os interessados em colaborar com a revista ou propor sua integração ao coletivo da revista. no relativo à publicação impressa. VIRGILIO. 7. reservando-se o direito de exame dos textos enviados espontaneamente à redação.89 Normas para Autores 1. 22. p. n.000 caracteres. (número). Os textos enviados deverão ser inéditos. Pablo.). e ao grande público interessado. 7.). Cronologia. sindicato.História & Luta de Classes. contando notas de rodapé e os espaços em branco. Julho 2009 . Nº 7. A revista História & Luta de Classes dirige-se aos estudantes e professores de história e ciências sociais. Artigo de periódico: Sobrenome. 5. 1997. nome. ano de publicação. página citada. O fim da Segunda Guerra e a contenção da revolução. Nome da revista em itálico. A rebelião dos marinheiros. Teresa Cristófani. Os originais deverão conter título. A revista História & Luta de Classes [historiaelutadeclasses@uol.com. 8. ano de publicação. p. p. 45. na forma e na linguagem. Título do artigo. A revista está aberta a propostas de colaborações. In: COGGIOLA. Prazo para encaminhamento de contribuições: Encerrado. 3. Piñera. 123. Daniel. nome (org.). Sem exceção. etc. página citada. Livros: Nome Sobrenome. Número 9 – Teoria da História. escola.

A Repressão Fordista no ABC Paulista Michel Willian Zimermann de Almeida Estado. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Hélio de Souza Rodrigues Júnior O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile Waldir José Rampinelli 1848: O Ano do Mouro Antônio de Pádua Bosi.Estado e Poder ISSN 1808-09X 9 771808 091002 NESTA EDIÇÃO Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Sonia Regina de Mendonça Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria Luís Eduardo de Oliveira.p. 1973-1975 . Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Gilson Dantas O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? Erika Batista Estado Democrático e Social de Direito. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. Fernando Gaudereto Lamas Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. Edmundo Fernandes Dias A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Demian Melo . o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Diorge Alceno Konrad “Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul Glaucia Vieira Ramos Konrad La lectura de Marx en clave clasista: el Si.tra.una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia Carlos Mignon Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini José Carlos Mendonça O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações Dulce Portilho Maciel Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 Anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Ramiro José dos Reis 1986 .

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