REVISTA

Ano 5 - Edição Nº 7 Julho 2009 - R$ 15,00

Antônio de Pádua Bosi Carlos Mignon Demian Melo Diorge Alceno Konrad Dulce Portilho Maciel Edmundo Fernandes Dias Erika Batista Fernando Gaudereto Lamas Gilson Dantas Glaucia Ramos Konrad Hélio Rodrigues José Carlos Mendonça Luís Eduardo de Oliveira Michel Willian de Almeida Ramiro dos Reis Sonia Regina de Mendonça Waldir José Rampinelli

Estado e Poder

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História & Luta de Classes Nº 7 – Julho de 2009
SUMÁRIO APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 ARTIGOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Sonia Regina de Mendonça

Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Luís Eduardo de Oliveira; Fernando Gaudereto Lamas

Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora, o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
Diorge Alceno Konrad

“Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Glaucia Vieira Ramos Konrad

La lectura de Marx en clave clasista: el Si.tra.p. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins, 1973-1975 - una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
Carlos Mignon

Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
José Carlos Mendonça

O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Dulce Portilho Maciel

Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 Anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
Ramiro José dos Reis

1986 - A Repressão Fordista no ABC Paulista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
Michel Willian Zimermann de Almeida

Estado, Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
Gilson Dantas

O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
Erika Batista

Estado Democrático e Social de Direito, Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Hélio de Souza Rodrigues Júnior

RESENHAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
Waldir José Rampinelli

1848: O Ano do Mouro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
Antônio de Pádua Bosi; Edmundo Fernandes Dias Demian Melo

A leitura genética dos Cadernos de Gramsci . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87

NORMAS PARA OS AUTORES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Organizadores gerais deste número: Gilberto Calil (Unioeste); Demian Melo (UFF) e Lorene Figueiredo de Oliveira (UFJF) Comissão Editorial: Enrique Serra Padros (RS), Eurelino Coelho (BA), Francisco Dominguez (Inglaterra), Gilberto Calil (PR), Lorene Figueiredo (MG), Marcelo Badaró (RJ), Maria José Acedo del Olmo (SP), Mario Maestri (RS), Virgínia Fontes (RJ) Conselho Editorial: Adalberto Paranhos (UFU), Adelmir Fiabani (UNT), Afonso Alencastro (UFSJ), Alessandra Gasparotto (CAVG/UFPEL); Antonio de Pádua Bosi (UNIOESTE), Armando Boito (UNICAMP), Beatriz Loner (UFPEL), Carla Luciana Silva (UNIOESTE), Carlos Zacarias de Sena Júnior (UNEB), Cláudia Trindade (FIOCRUZ), Claudira Cardoso (UFRGS), Danilo Martuscelli (UNICAMP), Demian Melo (UFF), Diorge Konrad (UFSM), Dulce Portilho (UEG), Edílson José Gracioli (UFU), Enrique Serra Padrós (UFRGS), Érika Arantes (UFF), Eurelino Coelho (UEFS), Fabiano Faria (RJ). Felipe Demier (UFF), Francisco Dominguez (Middlesex Universitty), Gabriela Rodrigues (RS), Gelson Rosentino (UERJ), Gilberto Calil (UNIOESTE), Gilson Dantas (UEG), Gláucia Konrad (UFSM), Helen Ortiz (RS), Hélio Rodrigues (CEUB); Hélvio Mariano (UNICENTRO), Isabel Gritti (URI), Joana El-Jaick Andrade (USP), Jairo Santiago; João Raimundo Araújo (FFSD), Jorge Magasish (Bélgica), José Pedro Cabrera (UNT), José Rodrigues (UFF); Kátia Paranhos (UFU), Kênia Miranda (UFF); Lorene Figueiredo de Oliveira (UFJF), Lucelno Lacerda de Brito (PUC-SP), Luciana Lombardo Costa Pereira (UFF), Lúcio Flávio de Almeida (PUC-SP), Luis Fernando Guimarães Zen (UNIOESTE) Marcelo Badaró (UFF), Maria José Acedo Del´Olmo (UNIVAP), Mario Jorge Bastos (UFF), Mário José Maestri Filho (UPF), Michel Silva (UDESC), Nara Machado (PUCRS), Olgário Vogt (UNISC), Paulo Zarth (UNIJUÍ), Pedro Leão da Costa Neto (TUIUTI); Pedro Marinho (MAST), Renata Gonçalves (UEL), Renato Lemos (UFRJ), Ricardo Gama da Costa (FFSD), Rodrigo Jurucê Gonçalves (PR); Romualdo Oliveira (USP), Ronaldo Rosas Reis (UFF); Sarah Iurkiv Ribeiro (UNIOESTE), Sean Purdy (USP), Selma Martins Duarte (UNIOESTE), Sérgio Lessa (UFAL), Sirlei Gedoz (UNISINOS), Sônia Regina Mendonça (UFF), Tarcísio Carvalho (UFF), Teones Pimenta de França (FSSSL) Theo Piñeiro (UFF), Valério Arcary (CEFET-SP), Vera Barroso (FAPA), Virgínia Fontes (UFF/FIOCRUZ), Wanderson Fábio de Melo (USP), Zilda Alves de Moura (UFMS); Zuleide Simas da Silveira (CEFET-RJ) Próximos Números: Dossiê Questão Agrária. Prazo para envio de contribuições encerrado. Dossiê Teoria da História. Envio de contribuições até 31.9.2009. Distribuição: historiaelutadeclasses@uol.com.br. Página Eletrônica: http://historiaelutadeclasses.wordpress.com/ Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Cristiane Carla Johann. Imagem da Capa: 1. Manifestação contra a ditadura; 2. Bombardeio do Palácio La Moneda durante golpe de Estado de 1973, Chile; 3. Repressão policial na ditadura; 4. Lênin; 5. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – Foto Sebastião Salgado. Revisão e Edição: Gilberto Calil. Impressão: Gráfica Líder, Av. Maripá, 796 – Telefax (45)-3254-1892 – 85960-000 – Mal. Cândido Rondon - PR Foram impressos 1.000 exemplares em Julho de 2009

APRESENTAÇÃO

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om o Dossiê Estado e Poder, História & Luta de Classes chega a seu sétimo número, ao mesmo tempo em que completa quatro anos de circulação. Em nosso primeiro número já manifestávamos nossa pretensão em “servir de canal para reflexão teórica, particularmente para aquela orientada pelos ventos constantemente renovados do marxismo”, com a intenção de “servir como ferramenta de intervenção daqueles historiadores e produtores de conhecimento que se recusam a aderir”. Distinguindo-se pela perspectiva de intervenção e por assumir claramente uma posição político-teórica, e sem abdicar do rigor acadêmico, História e Luta de Classes viabilizou nestes quatro anos a publicação de 77 artigos e 18 resenhas. O primeiro número, publicado em abril de 2005, teve como temática “1964 – Golpe de Estado” e trouxe diversos artigos que claramente respondiam à onda conservadora, revisionista e relativista de reinterpretação do sentido do Golpe de 1964. A segunda edição trouxe o dossiê “Comunicação, Linguagem e Cultura”, com textos sobre imprensa, intelectuais, discursos e ideologias. A edição seguinte concentrouse em “Escravidão, Trabalho e Resistência”, com forte ênfase nas resistências empreendidas pelo trabalhador escravizado e na crítica às visões apologéticas e relativistas da escravidão. O número 4 trouxe o dossiê América Latina Contemporânea, com a discussão de processos históricos decisivos do século XX como populismo, revoluções e ditaduras e dos embates em curso no continente, em países como Cuba, Venezuela, Bolívia, Colômbia e Argentina. O quinto número, com o tema “Trabalhadores e suas organizações” colocou em foco e propiciou a análise crítica de algumas das diversas organizações constituídas pela classe trabalhadora brasileira nas últimas sete décadas, tais como partidos, sindicatos, jornais e centrais sindicais. O dossiê “Imperialismo: teoria, experiência histórica e características contemporâneas”, trazido na sexta edição da revista tornou possível aprofundar a análise teórica e empírica do imperialismo, em suas diferentes dimensões e formas de manifestação. O desafio em produzir, sustentar, manter e fazer circular uma revista com um perfil marcadamente situado no campo do marxismo, sem vínculos institucionais, empresariais ou partidários, é constante. História & Luta de Classes é mantida pelo esforço militante do coletivo de associados que assumiu o desafio de manter acesa a chama do debate crítico no campo da história e da historiografia, livre das amarras institucionais e burocráticas, sem qualquer vínculo com as imposições editoriais ou os modismos impostos a partir da mídia. Igualmente é um periódico que não demanda nem necessita o aval das agências de “classificação”, “qualificação” e ranqueamento, muitas vezes com práticas, critérios e procedimentos uniformizadores, pausteurizadores e esterilizadores do pensamento crítico e do debate e reflexão abertos. Atingir sete edições publicadas, com expressiva tiragem e circulação é certamente um êxito a ser comemorado e uma comprovação das potencialidades da produção coletiva, nos marcos do esforço pela produção de uma nova hegemonia, que corresponda aos interesses históricos da classe trabalhadora. Vivemos hoje fase aguda de uma grande crise capitalista, com conseqüências sociais crescentemente devastadoras. Ao mesmo tempo, as grandes certezas e os discursos ideológicos triunfalistas estão mais desvalorizados do que as ações dos grandes bancos e montadoras estadunidenses. É certo que os capitalistas, seus intelectuais e seus gestores movem-se rapidamente para construir novas certezas, novos discursos ideológicos e medidas que permitam a retomada da acumulação capitalista. Ainda assim, no atual contexto de descrédito das certezas neoliberais, alarga-se o espaço para a reflexão marxista, para a crítica sistemática e radical da ordem do capital e para a análise histórica totalizante dos processos sociais. História & Luta de Classes pretende manter-se alinhada neste campo de reflexão e análise crítica e sistemática da ordem do capital. A temática do dossiê aqui apresentado – Estado e Poder -, é certamente oportuna e se relaciona de forma direta com os impasses do presente. A reflexão e compreensão em torno das formas intervenção do Estado (seja através da produção do consenso, seja através da repressão aberta), dos projetos hegemônicos e dos embates produzidos na luta de classes, nos diferentes contextos históricos do Brasil republicano, mantêm-se como desafio inadiável para as forças sociais do mundo do trabalho. É importante destacar que a dominação burguesa no Brasil jamais abdicou de forte componente coercitivo – como destacam diversos artigos deste dossiê -, mas ao mesmo tempo sustenta-se também na organização classista dos setores dominantes, nas elaborações de seus intelectuais orgânicos, na construção de instrumentos de intervenção política e disseminação ideológica, na construção de consenso em torno de seu projeto. Esta perspectiva é expressa de forma particularmente clara no artigo que abre o dossiê – Estado e Educação Rural: política pública e hegemonia norte-americana, da historiadora Sonia Regina de Mendonça. Servindo-se do referencial teórico gramsciano, a autora analisa as formas de produção de hegemonia que permearam as relações pedagógicas nas décadas de 10940 e 1950, com ênfase nas formas de intervenção que permitiram que agências imperialistas determinassem os rumos do Ensino Rural no Brasil no período. O artigo Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria, de Luis Eduardo de Oliveira e Fernando Lamas, aborda as experiências em comum entre trabalhadores livres

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Estado e Poder

O artigo de Dulce Maciel. mas implicava igualmente em esforços de legitimação. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. de Gláucia Ramos Konrad.6 e escravizados na construção de uma estrada de ferro de ligação entre Juiz de Fora e Petrópolis. A ditadura civil-militar é objeto dos dois artigos seguintes. Julho de 2009 Gilberto Calil e Demian Melo . O artigo de Érika Batista. O quadro da subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: a visão dos órgãos de segurança e informações analisa um vasto corpo documental produzido pelos órgãos repressivos para avaliar a visão por eles produzida sobre as organizações armadas de contestação à ditadura. 1973-1975 . bem como sobre o contexto repressivo que se seguiu a sua derrota. o reforço do Poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional. avaliando tal iniciativa como relevante para a afirmação da nova ordem e considerando que o controle sobre a classe trabalhadora. no qual o autor recupera a reflexão de Trotski sobre o bonapartismo para refletir sobre os desafios colocados ao movimento sindical pelos governos nacionalistas burgueses contemporâneos da América Latina. para o que contribuíram inúmeros intelectuais.tra. mesmo sob a ditadura estadonovista. Utilizando-se de vasta documentação e concentrando-se no caso sul-riograndense. O texto 1986 – a repressão fordista no ABC paulista. avançando nas formas pelas quais frações da classe trabalhadora assumem a racionalidade burguesa para o gerenciamento do capital. busca relacionar a implementação do Plano Cruzado com uma política repressora dos trabalhadores por parte dos empresários e do Estado. José Carlos Mendonça. vinculadas ao “obreirismo” italiano dos anos 1950. desenvolve uma instigante comparação entre as formas de leitura e interpretação das categorias de Marx presentes na imprensa dos anos 1970 do Si. discutindo a ação de empresários e do Estado brasileiro e a utilização de mão-de-obra escrava em tal empreendimento. Hélio Rogrigues.p (sindicato de trabalhadores da fábrica de motores Perkins. a partir da repressão à greve dos trabalhadores da Ford. La lectura de Marx en clave clasista: el Si. Argentina) e as revistas Quaderno Rossi e Classe Operaia. no artigo Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. em Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do seqüestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre coloca em destaque a colaboração entre os regimes ditatoriais a partir da reconstituição do seqüestro de Lílian e Universindo Díaz. Poder e Movimento Sindical na América Latina: o diálogo necessário com as teorias de Trotski. O artigo de Carlos Mignon.p. Waldir Rampinelli analisa criticamente recente livro de Moniz Bandeira sobre o golpe de Estado no Chile. Este número de História & Luta de Classes complementa-se com três resenhas. de Córdoba. a repressão contra seus membros e a aplicação da Lei de Segurança Nacional. coloca em destaque a atuação de diversos intelectuais sul-riograndenses voltada à legitimação ideológica estadonivista. O artigo “Segurança para o Trabalho e as realizações de interesse geral”: a busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul. Diorge Konrad discute a relação entre o crescimento da ANL e a escalada repressiva. em Estado. através de três eixos temático-expositivos (Estado e economia.Una breve comparación con el obrerismo italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia. Os dois artigos seguintes discutem distintos aspectos do processo de centralização política e as iniciativas coercitivas e ideológicas contra os trabalhadores na década de 1930. Ramiro José dos Reis. com destaque para a proibição da ANL. O movimento sindical é discutido também por Gilson Dantas.tra. Estado e ditadura militar e Estado e socialismo). num contexto de implantação de um plano econômico que era aplicado em nome do pacto social. destacando-se o superdimensionamento das ações dos grupos guerrilheiros como forma de justificação interna do aparato de espionagem. considerado como modalidade do Estado capitalista. avaliando a repercussão regional dos eventos que marcaram o ano de 1935. no artigo Estado Democrático e Social de Direito. de Michel William de Almeida. Demian Melo ressalta a leitura genética dos Cadernos do Cárcere realizada por Álvaro Bianchi em O Laboratório de Gramsci. Antonio Bosi e Edmundo Fernandes Dias discutem o impacto das lutas de classe de 1848 para o amadurecimento da reflexão de Marx e avaliam sua interpretação sobre aquelas lutas. O poder gerencial no Capitalismo Contemporâneo: nova classe ou novas relações entre as classes? apresenta uma discussão crítica das explicações ideológicas produzidas pela chamada “teoria gerencial”. no contexto da Operação Condor. bem como as condições semelhantes de exploração do trabalho a qual imigrantes alemães e lusos foram submetidos. Mística e Modo de Produção Capitalista: uma leitura que refuta o rótulo economicista analisa as características do Estado de direito. não era absoluto nem se dava exclusivamente pela coerção aberta. no texto Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini aborda o papel ocupado pelo “Estado” na produção bibliográfica do intelectual dependentista e militante socialista Rui Mauro Marini.

portadora de agências distintas daquelas do âmbito econômico e da sociedade política. produtores/difusores da cultura/hegemonia o que. resultante da trama complexa de múltiplas relações entre os aparelhos que a compõem. com seu peculiar conceito de cultura. preparando-a para manter ou subverter a ordem estabelecida. Poder e Práticas Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. É na sociedade civil que se organizam os projetos dos grupos ou frações de classe. por seu intermédio. Nº 7. orgânico. A peculiaridade da sociedade civil reside em ser integrada por vários aparelhos de hegemonia de adesão voluntária. as pressões do desenvolvimento capitalista. todavia. Logo. De outro. responsável pela construção de sujeitos políticos coletivos. Lisboa: Educa. em nome de um projeto cultural de novo tipo o qual. Estado e grupos dominantes no país. deitando profundas raízes na formação social brasileira e merecendo. . no campo educacional. sua grande inovação foi desmistificar uma visão equivocada acerca da cultura e dos intelectuais. Gramsci. numa reapropriação da Teoria do Capital Humano. pela distribuição desigual de bens materiais e simbólicos. Dessa forma.espaço de relações sociais que não estritamente as de produção . Semelhante processo. no período compreendido entre o imediato pós-II Guerra Mundial e a aprovação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação brasileira. em suma. p. pelas repercussões internas do processo histórico recente de reestruturação produtiva que resultou. na coerção. em luta ou em aliança entre si. dotado de materialidade distinta daquele: a sociedade civil. de modo a evidenciarem-se muito mais continuidades do que rupturas. faz com que entre Estado e indivíduos atomizados no mundo da produção emirja outra esfera. Pesquisadora Visitante do Programa de Pós-Graduação em História. a sociedade civil. entretanto. remeto à construção de seu pensamento. responsável pela negação dos direitos básicos da classe trabalhadora. Estado e Educação O referencial das ponderações aqui iniciadas bebe do arsenal teórico de um dos mais importantes pensadores do século XX: Antonio Gramsci. são os intelectuais. Julho 2009 (7-12) . um renovador do marxismo que a ele incorporou. ela conta com função social própria: a de garantir/contestar a legitimidade da dominação de uma classe e seu Estado. de forma até então inédita. esta sim. difundem-se concepções de mundo responsáveis pela estruturação de formas de manifestação cultural que favorecem a emergência de certo tipo de cidadão. *Pesquisadora do CNPq. em 1961. 2007. segundo Gramsci. resgatando um outro igualmente significativo: o de sociedade civil. 57.7 Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Sonia Regina de Mendonça * Estado e Educação Rural no Brasil: preferencialmente.valores e visões de mundo. decorrente da ação de intelectuais das frações de classes dominadas. para o filósofo. os articuladores dos grupos em torno a seus respectivos projetos. que influirá decididamente quer para a formação do “homem-massa”. quer para a de atores participativos e conscientes. as dimensões da política e da cultura. A presentação As atuais políticas estatais destinadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA) caracterizam-se. Tudo isso significa afirmar que a organização da cultura implica na interação de um conjunto de agentes e agências da sociedade civil. segundo alguns autores. além do Estado restrito. De um lado. Professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. por sua vez gestada nas décadas de 1960 e 701. Ademais. Os responsáveis pela organização da cultura na sociedade civil. não prescinde da função educativa do Estado uma vez que. permanentemente disputando a direção sobre a sociedade como um todo. seus valores e idéias. Para compreendermos este último conceito. O que Gramsci demonstra. complexificaram um novo âmbito social.que se gestam e desenvolvem as funções de direção política e ideológica completares à dominação estatal. baseada. ser apreendido a partir de uma perspectiva histórica acerca das relações entre Educação. seria a cultura nacionalpopular ou socialista. a “iluminar” os “incultos” com seu conhecimento: o intelectual é aquele que organiza um grupo. em muito distantes de livres pensadores diletantes. é que os intelectuais não “pairam” acima da sociedade sem raízes de classe evidentes. destinadas a concretizar seu papel na reprodução ou transformação da sociedade. Segundo Gramsci. 1 RUMMERT. Gramsci. Trabalho e Educação: Jovens e Adultos Pouco Escolarizados no Brasil Actual. que guardam em comum o fato de produzirem cultura . pouco tem de novo. Sonia. por duas ordens de questões. ao promoverem a maior divisão social do trabalho e a proliferação de novas classes e suas frações.História & Luta de Classes. bem como a hegemonia de um deles. É deste ponto de vista que se inicia a reflexão ora proposta sobre as políticas públicas voltadas para a Educação Rural no Brasil. tornando-o consciente de seu lugar social. justamente por isso. É nesta esfera .

Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a historia dos intelectuais4. costumes.uma relação pedagógica. “a cultura. 399. . tecnológico e artístico produzido pela humanidade. não é difícil entender porque muitos daqueles que Gramsci denomina de “simples” compartem de muitos dos mesmos códigos dos dominantes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. em contato mais ou menos expressivo. Logo. 1999. no capitalismo contemporâneo. pp. potencializadora das mudanças estruturais e necessariamente comprometida com os interesses das classes trabalhadoras. este último definido como "subalterno". na formação integral para todos. cujos intelectuais orgânicos atuam junto às sociedades civil e política divulgando. Introdução ao estudo da filosofia. 2 Segundo Gramsci. Tal preocupação emerge em diversos textos do autor. de todas as formas possíveis. prédeterminando de modo instrumental. porém como espaço do embate entre projetos distintos de transformação ou conservação da ordem social vigente. elementos da solidariedade das classes subalternizadas. a escola não deve ser apenas pensada como instância direta da legitimação dos dominantes.as desigualdades sociais. Dessa forma. mas em todo o campo internacional e mundial. Todos eles têm o comum a preocupação expressa para com o fato de que um processo de transformação estrutural da realidade confira aos trabalhadores o direito de acesso irrestrito às bases do patrimônio científico. ou seja. que se entendem entre si em diversos graus”. são menos visíveis que a coerção inerente ao Estado restrito. Vale lembrar que por desinteressada entendia o filósofo aquela centrada em seu caráter formativo mais amplo. deixam de produzir os intelectuais necessários à transformação. marcante na História do Brasil. A filosofia de Benedetto Croce. busca exercer uma função unificadora das manifestações da sociedade. Cadernos do Cárcere.1253. No entanto. Antonio. dentre eles o Caderno 12. Da mesma forma. Antonio. Na verdade. em toda sociedade capitalista. jamais pode ser fecundo se imposto “de fora”. construir – ou não . Dessa forma. O princípio educativo. em seus vários níveis.2. 1980. os núcleos fundantes da hegemonia dos dominantes. entre conjuntos de civilização nacionais e continentais”3. “produto e produtor” de uma cultura subalterna onde convivem. lhe chegam2. 2000. gostos. A despeito disso. a escola. uma cultura verdadeiramente nacional-popular estará fora de questão. desordenadamente. na medida em que os subalternos. O desprezo pela Educação. a partir dela. Uma escola voltada para os valores populares e capaz de enfatizá-los enquanto cultura própria . especialmente. o conjunto de relações inerentes às práticas sociais por cujo intermédio o homem apreende valores. de modo a situá-las num quadro de relativa homogeneidade. exercendo sobre elas a ação educativa. autoritariamente. necessariamente. a formação integral. unifica uma maior ou menor quantidade de indivíduos em estratos mais ou menos numerosos. no entanto. que se verifica não apenas no interior de uma nação. no decorrer da historia. “inorgânicos” no tocante à organização de seus próprios aparelhos de hegemonia. cultura e outros componentes da concepção de mundo dominante em dada sociedade podendo. impedindo aos indivíduos o acesso ao mais elementar instrumento de apropriação do mundo social. 3 GRAMSCI.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana É partindo da sociedade civil que os grupos dominantes levam adiante uma guerra sem trincheiras aparentes já que. dos valores dominantes. o Estado estabelece vínculos “sentimentais” e ideológicos com as grandes massas. o sistema educacional e a escola são. as relações pedagógicas assumem caráter eminentemente político e não devem ser limitadas à escola. o filósofo enfatiza o papel do principal instrumento de disseminação da hegemonia da classe dirigente: a Educação. Ademais. v. a política e o Estado Moderno. o futuro daqueles 4 GRAMSCI. Segundo Gramsci “toda relação de ´hegemonia' é. v. Tal direção propicia ao Estado capitalista. Por meio da direção cultural que imprime à sociedade em seu conjunto. além de escritos dispersos junto a textos anteriores ao cárcere.1. seu projeto. assistematicamente. p. enquanto a segunda. Maquiavel. 36.condições para superá-la. o Estado. Todos os conceitos até aqui apresentados visam explicitar o sentido da expressão gramsciana “relações pedagógicas”. destinado a encobrir o que a própria política estatal perpetua . subordinada aos requisitos imediatos do mercado de trabalho. a formação do “homem-massa” que se torna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.e não como cultura “inferior” que necessite ser “iluminada” por intelectuais orgânicos dos grupos dominantes . das normas cultas e. Antonio. quanto hierarquiza o trabalho intelectual e o trabalho manual. Enquanto perpetuar-se a segmentação entre escola “desinteressada” e escola “formativa”. GRAMSCI. destaca-se em Gramsci o fato dos vários estágios dos processos produtivos – e o ordenamento sócio-político a eles correspondente – gerarem mudanças no sistema escolar com vistas a atender às demandas da produção e da permanente construção/manutenção da hegemonia dos dominantes. para Gramsci. quando as “lideranças” políticas falam de Educação e Escola para todos não apontam para um projeto de democratização do saber. Os intelectuais. Logo. Assim. deveria ter como tarefa precípua contribuir para a elaboração de uma nova cultura. valores. torna-se a “escola do emprego”. a Escola e a cultura constroem . p. ou seja. perpetuarse-á a visão das classes dominantes que tanto separa. Tal objetivo. Jornalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. entre as diversas forças que a compõem. cultura enfim. assim como elementos da ideologia dominante e do próprio saber científico que. Cadernos do Cárcere.a divisão da sociedade. já que a proliferação de escolas pode ampliar ainda mais o raio de difusão dos padrões de excelência.certamente não integra a agenda dos estadistas. Enquanto o analfabetismo grassar pelo país. é um claro demonstrativo da atualidade do pensamento de Gramsci.mais do que eliminam . por intermédio de distintas mediações.8 .

neste âmbito específico. Antonio.S. o ensino técnico rural nem se constituiu em “invenção” dos novos grupos no poder. evidenciando a “marca social da escola”. os intelectuais orgânicos da SNA aferravam-se à defesa das instituições até então encarregadas do Ensino Rural. de modo a assegurar relativo equilíbrio à correlação de forças que assomara ao poder estatal em 1930. alegando tratar-se de “de providência administrativa racionalizadora. Se tal dualidade continuou a marcar a Educação brasileira após 1930. encontramo-nos muito mais diante de continuidades. Eles igualmente enfrentariam as diversas tentativas empreendidas pelos quadros dirigentes do MES em chamar para si o “ensino prático agrícola”9. pela presença de inúmeras agências.e passando pelos projetos educacionais militares.destinado ao grosso da população . estigmatizado pela “marca de Caim” do trabalho manual8 . fotograma 565.até atores como Austregésilo de Athayde. reclamada pelo principio da unidade de direção”. mais graves ainda seriam seus desdobramentos no âmbito do ensino profissional. a rigor.após a fundação do MES tais conflitos se acentuariam sobremaneira.E. 8 Optei pela grafia em itálico de toda e qualquer expressão extraída da documentação de época pesquisada. em nome do "equívoco pedagógico" de sobrecarregarem-se as crianças com a preparação para o trabalho. localizados sempre próximos a grandes propriedades em todos os estados da federação e funcionando como “viveiros” de mão-de-obra gratuita devidamente adestrada. 1993. contaria com portavozes de distintos grupos de interesse.. p. São Paulo: Hucitec. Paolo. 7 A este respeito ver MENDONÇA. 1944. destinado a perpetuar nestes estratos uma determinada função tradicional. as disputas foram incontáveis. Sonia Regina de. 17. desde 1909 monopolizada pelo Ministério da 5 NOSELLA. Educação Rural: Rumos e Metamorfoses Conflitos Intra-estatais e Educação para o Campo Até os anos 1930. Carlos Drummond de Andrade. defensoras de projetos os mais diversos. mantinha-se o fosso existente entre o ensino primário de cunho alfabetizante e “popular” . quando a influência norte-americana aqui se presentificou. por exemplo .aos egressos do movimento Escolanovista . 49 . 1997. do que de rupturas. Em sua disputa com os dirigentes do MA pelo monopólio das atribuições sobre a Educação Rural. 9 Em evento reunindo Secretários de Educação estaduais. Com isso. os nove Aprendizados Agrícolas e a Escola Agrícola de Barbacena. a principal característica das reformas educacionais promovidas na gestão do ministro Capanema. até então. dentre outros. O Ruralismo Brasileiro.auto-representados como capazes de gerir “cientifica e pedagogicamente” a matéria. Se. grifos no original. as questões educacionais encontravam-se sob a égide de dois Ministérios – o dos Negócios Interiores e o da Agricultura. 5 Agricultura. O grupo encabeçado pelo ministro Gustavo Capanema. entretanto. mormente após a institucionalização da problemática mediante a criação. como Anísio Teixeira. Julho 2009 (7-12) . este último responsável pela Educação Rural . que é fornecida “pelo fato de que cada grupo social tem um tipo de escola próprio. ARQUIVO GUSTAVO CAPANEMA. Dos educadores católicos – agremiados na Associação de Educadores Católicos . cit. destinados a crianças/ jovens do campo.5. Rolo 28. p. do Ministério da Educação e Saúde (MES). mediante acordos de "cooperação técnica" firmados entre os governos de ambos os países. 6 GRAMSCI. em 1931. Todas essas considerações. os especialistas do Ministério da Educação argumentavam que as escolas do campo deveriam afastar-se do ensino vocacional. nem sequer 1930 deve figurar como “marco canônico” na redefinição dos rumos da Educação brasileira. no ano de 1940. mistos de reformatórios e escolas práticas.História & Luta de Classes. consistiu em ratificar o ensino secundário enquanto formador das “elites condutoras do país” e o profissional como preparador do “povo conduzido”. Por isso. a despeito de toda uma retórica em contrário. contrariamente ao que aponta a historiografia especializada. Cadernos do Cárcere. Porto Alegre: Cadernos ANPED. É neste processo que se multiplicariam os diversos tipos de escola voltados à manutenção das classes subalternas na condição heterônoma de dirigidos. Os intelectuais. os Aprendizados e Patronatos Agrícolas. que atribuía o nível primário à responsabilidade de estados e municípios e os ramos secundário e superior à da União. Por tal razão é fundamental reter que. a saber.organizados junto à Sociedade Brasileira de Educação (1924) . E um dos “pomos da discórdia” era o controle sobre a Educação Rural.9 oriundos das classes trabalhadoras aos quais atende . antagonista à grande burguesia cafeeira paulista7 . atravessando a própria ossatura do Estado restrito. parti de Gramsci para introduzir um dos mais evidentes exemplos do processo até aqui considerado: as transformações sofridas pela Educação Rural brasileira.voltados à formação de setores médios e grupos dominantes. Hegemônicos junto à Pasta da Agricultura. não devem ser tomadas tão somente enquanto elementos abstratos. n. Rio de Janeiro: CPDOC. Outra continuidade flagrante residiu na preservação da dualidade vigente junto ao sistema de ensino no país. A política de ensino agrícola praticada pela Pasta da Agricultura guardou fortes continuidades após 1930. Entretanto. o ministro Capanema apontaria o que considerava o mais grave problema a ser enfrentado por sua Pasta: a necessidade de “transferir para o M. Nº 7.e o ensino secundário e superior . no âmbito da sociedade civil. Cardeal Leme. incluindo tanto “educadores profissionais” . ora subordinados ao Ministério da Agricultura”. de modo a incluí-lo em seu projeto de nacionalização e centralização de todos os tipos e níveis de ensino no país. nem tampouco limitar-se apenas à História presente do país. agência dominada por grupos agrários organizados junto à Sociedade Nacional de Agricultura (SNA). o campo educacional brasileiro esteve marcado. dirigente ou instrumental”6 . sobretudo após o término da Segunda Guerra Mundial. op. Bem ao contrário. A modernização da produção e a escola no Brasil – o estigma da relação escravocrata.

nele incluindo-se. em contrapartida. para enfrentar a concorrência movida por esta. o segundo acordo de “cooperação técnica” no âmbito da Educação Rural. BRASIL.979.. 1947. em inícios de 1945. sobredeterminada pela conjuntura internacional inaugurada com o fim da II Guerra e inícios da Guerra Fria. 33. Já os Aprendizados seriam reclassificados segundo nova tipologia que previa . no entanto. A justificativa oficial. Ta l e x p e r i ê n c i a f o i . com vistas a maximizar a produção e exportação dos gêneros alimentícios brasileiros. Apolônio. 23. Em 1945 é firmado entre o Ministério da Agricultura e uma agência privada norteamericana. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do Ministério. 132. assim. desenvolver a “capacidade de liderança das moças das zonas rurais” e “desenvolver a personalidade das moças rurais melhorando seus conhecimentos básicos”. era a de que se estaria “procurando corrigir o erro de se supor que só devem ser objeto da obra educativa os que se encontram ainda em idade propriamente escolar. já havia redefinido as instituições encarregadas do Ensino Agrícola.concebidos no mesmo espírito dos Cursos de Adaptação e destinados exclusivamente a adultos13. p.a serem especializados nos Estados Unidos – e de “líderes rurais”.Até então. do qual resultou a assinatura do primeiro tratado firmado entre governantes daquele o país e a Pasta da Produção. o Ministério da Agricultura implantaria. a mentalidade e hábitos das populações rurais”. mas sim ao chamado “trabalhador em geral”. através da ação de seus líderes naturais.o funcionamento de três tipos de cursos: a) o Ensino Agrícola Básico – com três anos de duração e destinado a formar capatazes a partir de clientela composta por jovens a partir de 14 anos. no caso a de “Produção de Gêneros de Primeira Necessidade”. Desde inícios da década de 1940 observa-se a intensificação do interesse de instituições privadas estadunidenses – como a Inter-American Affairs Association. p. as práticas educacionais do Ministério da Agricultura ainda se destinavam. por Capanema. preparando “trabalhadores rurais” selecionados a partir de um público integrado por crianças com mais de 12 anos e c) os Cursos de Adaptação – esses. O alcance da Campanha.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Antes disso. em detrimento de uma suposta “profissionalização”. formada em 1942. desprezando-se todos aqueles que não tiveram oportunidade de freqüentar escolas ou a elas não podem voltar para cursos regulares”. sim. 1953. 11 SALLES. junto ao Ministério da Agricultura. No entanto.10 . originando à já citada Comissão Brasileiro-Americana para a Produção de Gêneros Alimentícios. originando o Serviço de Assistência ao Menor (SAM). Muitos dos antigos Patronatos haviam sido transferidos para a alçada do Ministério da Justiça. 1941. além da formação continuada de técnicos .A. tendo por meta “instalar 10. Em contrapartida. Imperialismo. Estado e Educação. posto não mais direcionarem-se a crianças e jovens. via de regra adulto e “sem qualquer diploma ou qualificação profissional prévia”. 15 14 . a partir de 1942. BRASIL. 314. Tal brecha para a redefinição do Ensino Agrícola no rumo prioritário da capacitação do trabalhador rural adulto provocaria a reação dos “educadores profissionais” aparelhados junto ao MES que. no ano de 1946. mas também a distribuição dos supostos Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. p. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura/Ministério da Agricultura. outro tipo de cursos – os Supletivos . uma inovação com relação ao período anterior. produzida pelos discursos/práticas desenvolvimentistas. b) o Ensino Rural – com duração de dois anos e totalmente baseado em aulas práticas. financiada com recursos da União. cujos primeiros elaboradores enfatizavam não apenas o crescimento econômico.32. p. os novos cursos organizavam-se a qualquer época do ano12. seu cunho semi-prisional. criado em 1942. originando a “Comissão Brasileiro-Americana de Educação das Populações Rurais” (CBAR). lançariam uma espécie de resposta. 13 Tal inflexão não pode ser desatrelada da atuação no país da primeira de uma série de Comissões Brasileiro-Americanas. a partir de um programa educativo teoricamente capaz de incutir nos trabalhadores do campo o “amor a terra e ao trabalho”. de 1933. Revista da CNER. todavia. p. Rio de Janeiro: S. Ministério da Agricultura. à formação de jovens e crianças. Grifos na fonte. destinadas a adolescentes e adultos 14 analfabetos” .I. o decreto-lei n. em todo o país. distribui pequeníssimos auxílios para algumas escolas de agricultura”15 A disputa Ministério da Agricultura versus Ministério da Educação adquiriria novos e mais conflitivos contornos a partir do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Grande Guerra. territórios e Distrito Federal. s e m d ú v i d a . ainda que o titular da Pasta insistisse em reivindicar para ela o 10 A LOEA foi promulgada pelo Ministério da Educação e Saúde. 16 A formação dessas lideranças se faria por intermédio dos Centros de Treinamento de Líderes Rurais. posto visar basicamente a operários e trabalhadores urbanos.000 classes de ensino supletivo. p. Justamente por isso. Ademais. vol. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do Ministério. 12 Idem.para infância e juventude. Dentre suas atribuições figuravam a implantação de Centros de Treinamento (CTs) – destinados a “qualificar” somente trabalhadores rurais adultos . Atividades do Ministério da Agricultura entre 1936-1940. a Campanha de Educação de Adultos. 1943. de cujas finalidades constava contribuir para “modificar. O Ministério da Agricultura no Governo Getulio Vargas (1930-1944). seria limitado. 327.até a aprovação da Lei Orgânica do Ensino Agrícola10 . sequer seriam bafejados pelas insistentes campanhas de desanalfabetização promovidas pela Pasta da Educação. controle sobre todas as instituições de ensino do país. Os novos estabelecimentos de Educação Rural perdiam. estados. fixando-os a seu “próprio meio”16. II. porém. predominantemente. 328. Rio de Janeiro: INEP. por sua vez reclamariam da escassa colaboração do MES que “através do Conselho Nacional de Serviço Social. o Brasil. mantendo-se seu caráter de “escola de trabalho”11 . Os intelectuais da SNA. por sua vez hegemonizada pela emergência de um novo construto: o “desenvolvimento”.e de Clubes Agrícolas Escolares. contaria ainda com 25% das verbas provenientes do Fundo Nacional de Ensino Primário. Ministério da Agricultura As Atividades do Ministério da Agricultura em 1942. de Nelson Rockfeller – pelos “problemas” do então recém-construído “Terceiro Mundo”. Junto a ele gestava-se a noção de Terceiro Mundo. por certo. 1945.

História & Luta de Classes. Com isso. sobremodo. celeremente. antes de tudo para que o país possa ser mais coeso e solidário”20. 2. geógrafos. Arturo. não cessaram de produzir novos arranjos entre Estado.4. o “subdesenvolvido”. multiplicando seu corpo de especialistas e consolidando o que convencionou denominar de “ação educativa de novo tipo”. todavia. tipos de sementes. BRASIL. parcerias de assistência técnico-financeira com órgãos públicos e privados de Crédito Rural. muito embora coubesse ao MES a prerrogativa exclusiva de estipular suas diretrizes nacionais. educadores. p. 123.. este ramo educacional da rede primária regular. O aparato do desenvolvimento hipertrofiava-se. p. 17 agrícolas “arcaicas”. essas estratégias se tornaram uma poderosa força junto ao Terceiro Mundo. Manuel. p. o crescimento da economia norteamericana ainda dependia de matérias-primas baratas enquanto suportes para a crescente capacidade de suas indústrias. pontas-de-lança do Crédito Rural Supervisionado distinguir-se-iam do crédito comercial por sua “extrema Id. juntamente com dossiês completos sobre as cidades. todo um conjunto de agências e práticas de Extensão Rural visando difundir.adquirisse relevo visando.Washington D. em larga escala. Dessa feita. Os anos 1950 assistiriam à consolidação da hegemonia estadunidense junto a todo o Ocidente. procederia através da criação de “anomalias” . segundo o discurso oficial .: US Department of State. 1959. Segundo Escobar. No. encontrando-se. ademais. New Jersey: Princeton University Press. parecia impossível aos intelectuais estadunidenses conceituar a realidade social em outros termos. 18 ESCOBAR.. aparato este integrado pelas mais distintas agências e agentes que. a realidade onipresente do 17 desenvolvimento . Ministério da Agricultura. pelo Ministério da Educação. 1976. J.A. Afinal. a realidade histórica mundial seria “colonizada” pelo discurso do desenvolvimento. igualmente. regiões e países visitados. resultando em novas estratégias para lidar com o “novo” problema. bem mais amplo do que a escola. A partir daí consagrouse a possibilidade de inflexão categórica nas práticas da Educação Rural destinadas à qualificação da força de trabalho no campo. Cultural Diplomacy (1936 – 1948). 37.C.11 benefícios por ele gerados. Dentre essas novas práticas destacaram-se as Semanas Ruralistas (com forte apoio da Igreja). incluindo desde a pobreza. Rio de Janeiro: S. longe de ser periférico. Semelhantes novidades. Rapidamente. Em verdade. como também atuassem junto a ela”18. etc. etc.o “analfabeto”. o que impõe concordar com afirmativas segundo as quais “o Terceiro Mundo. Para que os agentes pudessem identificar seus novos objetos de estudo. etc. Partindo dos EEUU e da Europa. era central para a rivalidade entre as superpotências e a possível confrontação nuclear”19. definitivamente. Centros de Treinamento e. 1995. já que a necessidade de expansão/aprofundamento de mercados externos para seus produtos e a busca de novas áreas para investimento de seus capitais excedentes fazia-se premente. agrônomos. p. O ano de 1946 foi decisivo para a consagração. a hegemonia internacional estadunidense faria com que a guerra contra a pobreza – igualmente “recém-descoberta” . conhecimentos sobre técnicas de cultivo. Encountering Development – the Making and Unmaking of the Third World. transformando os pobres em objetos de Conhecimento e Gestão. estruturado em torno a três eixos: a) as formas de conhecimento a ele referidas e pelas quais adquiriria existência através de projetos. A aprovação. alijaria. desde fins da década de 1940. com vistas a “combater o marginalismo e educar os adultos. descrevendo-o e prescrevendo-o. – garantidoras da necessidade permanente de reformas. fazendo com que “as representações tornadas dominantes não apenas moldassem os caminhos nos quais a própria realidade era imaginada. Inter-American Beginnings of U. Bureau of Educational and Cultural Affairs. até as práticas ESPINOSA.I. entre 1945 e 1955. a insuficiência de tecnologia e de capitais. se respaldaria num aparato institucional extremamente eficiente. não apenas criar novos consumidores. no Brasil. pela atuação dos Extensionistas Rurais. todo um novo domínio de conhecimentos e experiências estava em gestação. uma espécie de “álibi” tanto para a elaboração de “teorias da salvação”. b) o sistema de poder que regulava suas práticas e c) as formas de subjetividade por ele forjadas e através das quais os indivíduos se reconheceriam como “desenvolvidos” ou “subdesenvolvidos”. Os objetos com que o desenvolvimento começou a lidar eram numerosos e variados. O discurso do desenvolvimento. O discurso do desenvolvimento. as Missões Rurais e os já citados Clubes Agrícolas Escolares proliferando. denominados de “novos especialistas”. Saber e Poder. sob a capa “missionária” da “difusão do princípio de desenvolvimento comunitário”. mantendo-o sob a tutela da Pasta da Agricultura. mormente aqueles relativos ao papel dos intelectuais. bem como atitudes culturais associadas ao “atraso”. da Lei Orgânica do Ensino Agrícola. da Educação Rural enquanto ramo “especial” e hieraquizante de Ensino – escola para o trabalho – marcado pela subalternidade daqueles por ele formados. mas transformar as sociedades. calcadas na proliferação das “ciências do desenvolvimento” e suas “sub-disciplinas”. À época. Julho 2009 (7-12) . a partir de fins da II Guerra. elaboravam teorias. em paralelo às instituições escolares agrícolas do MA. S. o “pequeno lavrador”. sobretudo. Nº 7. para onde quer que se olhasse. fruto de um conjunto de afirmações sobre o desenvolvimento e seu contrário – o subdesenvolvimento – que autorizavam visões plurais.. economistas. quanto para intervenções pragmáticas dos intelectuais-especialistas. falar do desenvolvimento enquanto experiência histórica singular remete à criação de todo um novo domínio de pensamento e de ação. nutricionistas. Sempre sob a assessoria e treinamento de técnicos norte-americanos implementou-se. 145. bem como de uma representação infantilizada da América Latina. alguns argumentos de autoridade foram operados. 20 19 . grifos no original. O Ministério da Agricultura a Serviço do Desenvolvimento.e marcadas. destinado à produção de conhecimentos e ao exercício de poder sobre o “Terceiro Mundo”.

Neste sentido. New York: Longman. por certo não se está diante do trabalho enquanto princípio educativo integral – tal como o defendia Gramsci – mas sim da Educação como instrumento da maximização da produtividade do trabalhador rural e da segmentação cultural. através da vulgarização dos códigos e visões de mundo transmitidos por intelectuais estadunidenses e consagrar a Assistência Técnica e Financeira enquanto “modalidade de ação educativa” por excelência. nos moldes pregados pelos intelectuais e técnicos brasileiros e estadunidenses. mantendo-os atrelados a uma agricultura “atrasada” e “arcaica”. os grupos no poder canalizaram esforços para preservar a subalternidade do trabalhador rural . mas também das mulheres – daí o surgimento de nova “disciplina do desenvolvimento”. muito distantes das práticas. parte da explicação do êxito desses novos conceitos e ações prende-se ao fato de ser a Educação um importante instrumento da expansão do Imperialismo que. “cooperação técnica” ou “elevação do nível de vida das massas”. p. presidido pelo Saber e a Técnica norte-americana. a Extensão Rural e seus correlatos visavam a um duplo objetivo: promover o disciplinamento coletivo. reproduziram-se no país paradigmas importados que. o Extensionismo Rural. Com tal pano de fundo. Martin. resultando no fortalecimento de inúmeras agências produtoras de novos intelectuais-especialistas e novas exigências econômicas impostas sob a pecha da modernidade. Não somente o trabalho do homem adulto e analfabeto. a Economia Doméstica – e das crianças. criado em 1955 e o próprio Escritório Técnico de Agricultura Brasileiro-Americano. dentre outras.passaria então a conotar todos os produtores dotados de alguma qualificação para o trabalho. À guisa de conclusão O discurso e as práticas do desenvolvimento instituíram-se em operadores centrais das políticas de representação e identidade na maior parte do Terceiro Mundo no Pós-II Guerra. Entretanto. alocando sua funcionalidade na noção de “racionalidade”. política pública de âmbito nacional. já que o crédito agrícola convencional não fora capaz de dotar seus usuários dos novos saberes e tecnologias necessários ao desenvolvimento do campo. coparticipes do deslocamento dos conflitos de classe da cena real. 22 CARNOY. efetivamente educativas.12 . submetiam-se os trabalhadores do campo a inúmeras intervenções “pedagógicas”. 1974. haja vista o processo em curso de substituir a Escola pelo Extensionismo. destinado a trabalhadores adultos. A redefinição pautada pelas então chamadas “novas modalidades educativas” adequou-se aos interesses dos grupos dominantes . 160. preservando a estrutura fundiária e minimizando potenciais conflitos de classe no campo22. por exemplo. tornava-se aceita pelos grupos dominantes latinos e brasileiros. além de expropriar os trabalhadores rurais de seus saberes próprios. tornaram-nos alvos fáceis da disciplinarização pelo capital. Impossível não relacionar semelhante redefinição ao contexto marcado pela germinação. no país. ainda em voga em nossos dias. defendendo uma política “educacional” destinada à qualificação de mão-de-obra adulta e totalmente desvinculada da instituição escolar. Através do fornecimento de conhecimento “especializado”. de seus conhecimentos e de sua própria identidade. como as Ligas Camponesas. Education as Cultural Imperialism. 21 Dentre essas novas agências destacaram-se o Serviço Social Rural. As considerações aqui tecidas visaram apenas “levantar o véu” da desnaturalização necessária e. por seu intermédio.agrários e industriais . . posto que muitas delas eram recentes. destinada a maximizar a produtividade do trabalho agrícola.brasileiros. eles não devem ser percebidos como depositórios de “tradições”. então. como também tratou de adestrar esses trabalhadores triplamente expropriados: de sua terra. quanto para inflacionar as importações brasileiras de máquinas e insumos agrícolas estadunidenses.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana preocupação com a integração dos agricultores à economia moderna”. Para legitimar a ressignificação em curso no próprio conceito de Educação Rural. dirigido à vulgarização de um dado padrão de consumo. para o âmbito de uma reeditada dicotomia entre “arcaicos” versus “modernos”. de 1953. Em verdade. O Extensionismo Rural praticado pelas agências de desenvolvimento – dentre as quais algumas ligadas ao próprio Ministério da Agricultura21 . Entretanto. Sob tal concepção instrumental das práticas educacionais. de inúmeros movimentos sociais rurais. A influencia estadunidense tornava-se. percebe-se que noções como “desenvolvimento”. não somente ressignificou a noção de Educação Agrícola. Somente o aprofundamento de pesquisas sobre todo o conjunto de agências imbricadas a tal processo poderá contribuir para desconstruir semelhantes conceitos. tornaram-se instrumentais tanto para construir alteridades inferiores e “carentes”.

Juiz de Fora. Juiz de Fora: Paraibuna. José M.. Paraibuna-Flores e Juiz de Fora-Ubá). inúmeras atividades manufatureiras. com destaque. Industrialização de Juiz de Fora (1850-1930). pois por volta de 1879 a CUI entrou em processo de falência. Luiz José. Mariano Procópio continuou sendo prestigiado pelo imperador. 5 CARVALHO. Cabe perguntar se o entendimento histórico acerca da forma de governo de D. EDUFJF. parte do Sul e da Zona da Mata) e de Goiás tinha que passar pela cidade. durante quase todo esse período. Belo Horizonte.. Serraria-Mar de Espanha. Ainda assim. Dissertação de Mestrado. em 1864. ao mesmo tempo. 1 Desse ponto para os portos do Rio de Janeiro a viagem continuava pela antiga estrada da serra da Estrela e. até 1868. tornando-se a partir de então palco de vultosos negócios. Dentre os eventos da breve trajetória da CUI que exigem uma adequada investigação histórica figura.13 Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria rodovia União & Indústria e seu impacto para a economia regional A Rodovia União e Indústria. a construção da rodovia iniciou-se em 18566 e só tomou impulso no ano de 1858 com a chegada dos imigrantes 3 PAULA. O papel da mão-de-obra escrava na construção da União & Indústria De acordo com Wilson de Lima Bastos.24. nos últimos três decênios do século XIX. F. 60-62. Juiz de Fora. Tais fatos entram em choque com a visão propalada a respeito do monarca. sua obra. que em janeiro de 1869 nomeou-o pra diretor da Estrada de Ferro D. pp. *Doutorando em História Social na UFF e Professor no Instituto Superior de Educação Carlos Chagas. pp. Maria C. genealogia. pelos 14. PIRES. Op.110-113 e GIROLETTI. a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Dom Pedro II e o estabelecimento de uma malha ferroviária na Zona da Mata mineira. p. pp. Julho 2009 (13-18) . A constituição de um sistema viário tecnologicamente avançado para a época e que possibilitou uma interligação eficaz entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro. . constitui um marco fundamental para o incremento e diversificação da população e das atividades urbanas daquele município nas décadas 1860 e 70. **Mestre em História Social pela UFF. 1976. 121-145. de intensa circulação de mercadorias e acumulação de capitais3.266:342$660. São Paulo: Companhia das Letras. Pedro II não se encontra excessivamente contagiada de anacronismo. parte significativa dos produtos exportados e importados por diversas regiões de Minas Gerais (Centro. com seus vários ramais.História & Luta de Classes. a de que ele sempre manteve uma respeitosa distância entre seus amigos e os negócios do Estado. a CUI construiu também. 4 BASTOS. cit. As Vicissitudes da Industrialização Periférica: o caso de Juiz de Fora (1930-1970). Mauá 2 STEHLING. o processo de sua encampação pelo Estado. Mariano Procópio Ferreira Lage: sua vida. FUNALFA. 133137. Pedro II. D. com 264 quilômetros de caminhos vicinais interligando aquela estrada-tronco às mais importantes áreas cafeeiras do Vale do Paraíba Fluminense e da Zona da Mata mineira. capitaneada pela Estrada de Ferro Leopoldina. Cit. levando a um relativo abandono daquela primeira via e seus diversos ramais2. Oeste. D. 28-35 e 46-47. com banqueiros ingleses e companhias nacionais. desde meados da década de 1860.5 Km de trilhos da E. Wilson de L. aguardam ainda um estudo mais criterioso e aprofundado. detentor de uma concessão imperial para manter e explorar a estrada durante meio século – o que não ocorreu de fato. tal centro urbano passou a aglutinar grandes interesses. 2007. por outro lado. A Luís Eduardo de Oliveira* Fernando Gaudereto Lamas* As relações mantidas entre a CUI e altas autoridades imperiais. como um dos mais importantes entrepostos comerciais do estado. Pedro II. criada em 1853 pelo cafeicultor Mariano Procópio. Op. pp. D. autor de uma obra de cunho laudatório sobre Mariano Procópio. 89. 1979. ligando Juiz de Fora à Petrópolis1. três anos depois4. entre outras coisas. Isto porque. a Companhia União e Indústria e os alemães. UFMG. Além dos 144 quilômetros macadamizados e carroçáveis da Rodovia. que não podem ser reduzidas apenas aos fortes vínculos de seu presidente com o monarca. Juiz de Fora. Em suas instruções à princesa Isabel. sua descendência. outros quatro ramais (Posse-Aparecida. da ordem de 8. Como consequência. 1991. assim como a ação do Estado imperial em relação à CUI pareceram-nos bastante distintas dos conselhos dado à princesa. Pedro II aconselha “não indicar pessoas para cargos ou graças aos ministros exceto em circunstâncias muito especiais de maior proveito público”5. que implicou. cargo que ocupará até a sua morte. foi construída entre 1855 e 1861 pela CUI. no perdão da dívida de 200:000$000 que a empresa tinha com a Repartição Geral de Terras Públicas e a transferência para o governo de compromissos financeiros. ou seja. contribuíram também para que Juiz de Fora se configurasse. As relações entre o monarca e Mariano Procópio. pp. p. em Juiz de Fora. Nº 7. A construção da rodovia. 1987. permitindo que nela se desenvolvesse um vigoroso comércio varejista e atacadista e. em seguida. 6 BASTOS.

pp. 800 eram escravos. entre 70% e 80% da força de trabalho dos serviços de abertura da principal rodovia construída pela CUI compunha-se de cativos. parte significativa destes cativos atuou na construção dos trechos daquela estrada que não apenas cortaram como também redefiniram importantes áreas do núcleo central e dos arrabaldes de Juiz de Fora. primeiro complexo manufator a ser estruturado naquele município mineiro. portugueses. pp. 2002. havia 804 escravos trabalhando para a companhia. cit. com o término das obras da Rodovia. realizadas entre 1856 e 1866. Juiz de Fora.. sem. Luiz A. tal regra foi ignorada. 1985. pp. Viagem ao Brasil (1865-1866). italianos.500 eram empregados na seção entre Petrópolis e Paraíba do Sul. A 7 OBERACKER JÚNIOR. Elizabeth Agassiz. 91-92 e AGASSIZ. São Paulo. o naturalista Louis Agassiz e sua esposa.13 a CUI não prescindiu do braço servil. em seus empreendimentos rodoviários a CUI não utilizou apenas mão-de-obra livre. Op. mas não há informação acerca do status destes trabalhadores (. D.500 indivíduos. a CUI empregou entre 515 e 818 escravos . 13 PASSAGLIA. passada no Cartório do 1º Ofício de Notas da cidade em 18 de janeiro de 1869. Ver BIRCHAL. Nesta festa foi lançado por um jornal local um pequeno caderno onde se contou a história dos imigrantes e excluiu a fundamental participação da mão-de-obra escrava8. Francisco Foot e LEONARDI. Um correr de casas. de acordo 11 com Birchal. É possível inferir que mesmo na operação das grandes oficinas que instalou nas imediações da Estação Rio Novo. (. Na verdade. Os padrões das alforrias em Juiz de Fora. 08-12. como obrigava o contrato que firmou com o governo imperial e sugerem ainda hoje certos estudiosos da história local. O mercado de trabalho mineiro no século XIX. 2000.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria alemães. Carlos Oberacker Júnior afirmou que houve participação de escravos na construção da rodovia. 11 BIRCHAL. 1998. sírios. 297. como enfatizam Stheling. cativa e livre. Birchal concluiu que os escravos empregados pela empresa provinham de outras companhias. pp. 2001. na prática. é razoável supor que a mão-de-obra escrava representava uma grande parcela”12. Rio de Janeiro: Presença.ibmecmg. Carlos H. Ver STEHLING. A preservação do patrimônio histórico de Juiz de Fora. Brasília. Senado Federal. Segundo Lacerda: “Este cativo. p. Para uma crítica desta visão cf. Dissertação de Mestrado. In: Tribuna de Minas. ao menos no tocante aos serviços mais brutos. cit. 70%. já que em seu estudo Bastos não mencionou a utilização de escravos no período 1856-58.. Capturado on-line: 12 jan. do P.. 9 HARDMAN. alugados de seus acionistas ou das companhias inglesas de mineração de Cocais e de Congo Soco e de fazendeiros das regiões cortadas por aquela via10. Op. ceaee. o mito de que a história de Juiz de Fora se fez exclusivamente através da contribuição de imigrantes (alemães. In História Econômica & História da Empresa. como demonstra também uma outra evidência concreta sobre o uso de trabalhadores escravizados. num total de cerca de dois mil escravos.102 pessoas. 2006.) permaneceu atual através das comemorações de efemérides locais como a festa dos 150 anos da cidade. Porém. os 756 restantes trabalhavam na construção e manutenção da rodovia. mas não há informação acerca do total de trabalhadores empregados.wp/wp12. 900 escravos que constituíam quase 82% da força de trabalho total... pois constataram que “nos trabalhos de certo gênero não se achou meio de substituir essa pobre gente”9. 72-74 e 111. A dívida seria paga em 30 meses. em benefício do escravo Jorge Carneiro dos Santos. pp.pdf.. Disponível em: http://www. 10. um município cafeeiro em expansão (Zona da Mata de Minas Gerais. etc.) Os outros 1. 1982. indicaram também que. UFF. Giroletti e Birchal. SARAIVA.. no entanto.636 trabalhadores: 1. (.) Em 1857. 2000. pp. Dissertação de Mestrado.) Em 1858. isto é. Antonio H. Luiz F. Birchal produziu uma descrição ainda mais abrangente do conjunto da força de trabalho. A partir de 1860. libaneses. Niterói: UFF. tornou-se devedor da quantia de 1:500$000 (um conto e quinhentos mil réis) que lhe fora emprestado para a compra de sua alforria. 96 eram empregados como pedreiros. 48 eram empregados na produção de carvão. A contribuição teuta à formação da nação brasileira Vol. Elizabeth Cary. de fazendeiros da região e de alguns dos principais acionistas da CUI. marceneiro. 63-65 e BIRCHAL. 10-11. partir de informações que encontrou nos relatórios das assembléias gerais de acionistas da CUI.. Nossa pesquisa mostrou que a partir do final do 12 Entre 1857 e 1859 o número total de trabalhadores livres e escravos empregados pela CUI saltou de cerca de 1. A evidência em questão refere-se à compra de uma carta de alforria.. (. n. p. Juiz de Fora: Esdeva. pp. nas várias oficinas e seções da estrada. Em 1855. Niterói. podendo retirar 25$000 (vinte e cinco mil réis) mensais para suas despesas e utilizando o restante para amortizar o débito”14. cit. em especial. GIROLETTI.000 para 3. em geral. Segundo Birchal: “A companhia empregava 1. Possivelmente. 8 Imigrantes: 150 anos Juiz de Fora. antigas senzalas. paga “por terceiros”. Luís e AGASSIZ. houve uma sensível diminuição do número de operários a serviço da CUI. nas atividades manufatureiras desenvolvidas localmente na década de 1860. cit. a companhia empregava 2. Op. Logo. Deste número. e como seus assistentes e aprendizes. Op. 1844-88. 144-145. entre elas.14 . apesar de enfatizarem no seu livro Viagem ao Brasil (1865-1866) que normas contratuais proibiam expressamente o emprego de escravos na construção da rodovia que ligava Juiz de Fora a Petrópolis. 2º ed. neste caso em associação com artífices e operários livres. ano em que se iniciaram os trabalhos de abertura da Rodovia.. Como atestam os relatos coevos e os dados reunidos por diferentes pesquisadores. Victor.. 19-21. Hucitec. essas datas corroboravam a errônea idéia de que teriam sido estes imigrantes germânicos os únicos responsáveis pela construção da afamada rodovia. cozinheiros etc. cit. que essa empresa recrutou no período de maior intensidade de suas atividades. 80-83. Op. Sérgio de Oliveira. porém.br. PJF / IPLAN. contudo precisar a quantidade7.).º01. 14 LACERDA. A esse respeito. Dos 900 escravos. 29-31.. com trabalhos de marcenaria efetuados nas oficinas da Companhia União & Indústria. Jorge Carneiro iria receber 75$000 (setenta e cinco mil réis) mensais. pp. pp. 2.. 10 Com base nos relatórios das assembléias gerais de acionistas da CUI dos anos de 1856 e 1857.136 eram empregados na seção da rodovia entre Juiz de Fora e Paraíba (do Sul).. .

inclusive o industrial20. incluindo seus distritos e Barbacena. 92.. avisaria ao locatário para tomar as devidas providências e substituir o referido escravo por outro mais apropriado18. A princípio o engajamento deveria ser de apenas 06 meses. 21 GORENDER. O caso que mais se aproxima do que pretendemos analisar é o emprego de escravos em atividades de caráter industrial. no livro de escrituras públicas de compra e venda da Comarca do Paraibuna e no livro de escrituras públicas de compra e venda do cartório do Primeiro Ofício de Notas.1º Ofício de Notas.Op. 64. Os contratos estabelecidos entre a CUI e os proprietários/locatários locais dos escravos baseavam-se essencialmente nos seguintes critérios. que Mariano Procópio alugou 119 escravos para a realização das obras. ficando ao encargo deste o tratamento ou recuperação do escravo. pois como destacou Libby. sempre pelo mesmo prazo. havia um grande preconceito em relação à mão-de-obra livre nacional. a CUI alugando escravos para trabalhar na construção da dita rodovia. Este mesmo autor afirmou que no trecho que liga Juiz de Fora a Paraíba do Sul cerca de 70% dos 1136 trabalhadores eram escravos15. ao analisar a participação de escravos em atividades tipicamente fabris.) Fls. 484. em todas as formações escravistas. um relatório de Presidente de Província16. 19 18 GIROLETTI. Livro 2. fls. Domingos Giroletti localizou duas empresas de mineração inglesas. percebida como preguiçosa e inapta ao exercício regular do trabalho. Apesar da grandeza dos números acima apresentados. A utilização de escravos em obras públicas era vetada por lei. Op. Mariano Procópio alugou uma quantidade considerável de escravos pertencentes a proprietários de Juiz de Fora. 482. ao analisarmos a documentação cartorária sob custódia do Arquivo Histórico do Município de Juiz de Fora. cit. A tabela 01 abaixo indica o número de escravos alugados por Mariano Procópio ao longo dos anos de 1855 e 1856. 1855. p. o uso de escravos em construções de obras públicas foi ainda muito pouco abordado. a historiografia local continuou a aceitar o mito da mão-de-obra livre imigrante.15 ano de 1854 e ao longo do ano de 1855. Este ponto é de extrema importância. Caixa 01. 08 e 30. 08-09. Giroletti afirmou. Mariano Procópio iniciou a prática ilegal de alugar escravos para a obra em questão. ambos referentes aos anos de 1854 a 1856. os incluiu no caso mais geral de escravidão urbana. Caixa 1. Julho 2009 (13-18) . cit. este era o principal aspecto desta economia no período abordado. Queremos chamar a atenção para o importante papel exercido pela mão-de-obra escrava para a construção desta rodovia. Se a empresa de Mariano Procópio julgasse que o escravo alugado era inválido para o tipo de trabalho a ser exercido. Livro 2. podendo ou não ser renovado indefinidamente. 1855.. 20 LIBBY. não conseguiu encontrar a origem dos escravos locais alugados por Mariano Procópio. . Se após 15 dias. porém esta foi claramente burlada por Mariano Procópio. 5º ed. em contrapartida. ou seja. 1984. p. apesar de mencionar que este alugou escravos de outras fontes que não as duas empresas inglesas mencionadas. A forte presença alemã totalizando 1. o escravo doente não se recuperasse ou o escravo fugido não fosse encontrado. Além desse fato deve ser ressaltado o aspecto racista. se lhe conviesse. 22 AHCJF. O pagamento pelo aluguel realizava-se a cada 03 meses e a CUI poderia. deveria avisar com 30 dias de antecedência ao prazo de reengajamento. subalocar o escravo para outras pessoas17. como locatárias de escravos para a CUI. 63. Contudo. uma obra pertencente à historiografia tradicional e que citou uma fonte oficial.História & Luta de Classes. A quantidade de escravos alugados na região indica que a força de trabalho escrava exerceu um papel fundamental na construção da Rodovia ao longo de todo o Arquivo (. contrariando desta forma o consenso entre a historiografia local acerca da não utilização de escravos na construção da rodovia. continuou a ser apontada como a principal. Op. um complemento da escravidão rural”21. Nas escrituras de aluguel de escravos realizadas por Mariano Procópio encontramos escravos especializados em serviços como carpintaria e mesmo cozinheiras. e defendeu que “a escravidão urbana representou. Esta observação é relevante uma vez que os escravos alugados por Mariano Procópio foram utilizados para a construção de uma rodovia que visava facilitar o escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira para o porto do Rio de Janeiro. a saber. o locatário seria responsabilizado. uma vez que como já foi anteriormente afirmado. p. p. fugisse ou se ferisse a Companhia se responsabilizaria com os gastos. O escravismo colonial. Trabalho escravo e capital estrangeiro no Brasil. pioneiramente. 1º Ofício de Notas.193 pessoas. Belo Horizonte: Itatiaia. GORENDER. Caso durante o 15 16 contrato o escravo adoecesse. Caso o locador optasse por romper o contrato. 17 AHCJF. 1988. D. pois reafirma o caráter escravista/exportador da economia matense. 08-09. Cabe ainda destacar que a utilização de escravos em atividades que não se encaixavam diretamente na produção ou extração de produtos vendáveis no mercado externo se devia basicamente em função da estreiteza do mercado de trabalhadores livres. A utilização de mão-de-obra escrava em atividades díspares da agrário/mineradora de caráter exportador já foi analisada por outros historiadores. a mãode-obra escrava era vista como perfeitamente adaptada ao trabalho. contudo. particularmente da economia juizforana. Giroletti. Contudo. J. a Cocais e a Gongo Seco. se não a única responsável pela construção da rodovia. ou proto-industrial.22 fato que corrobora a visão de Soares e desmistifica a idéia de que os escravos eram utilizados apenas em serviços brutos. As citações foram extraídas do “Álbum do Município de Juiz de Fora” de autoria de Albino Esteves. cit. encontramos nos livros de compra e venda da Comarca de Barbacena dos anos de 1853 a 1855. São Paulo: Ática. Fls. GIROLETTI. incluindo mulheres e crianças. Gorender.19 tanto especializados quanto sem especialização. Nº 7. p.

Como é de notório saber. do Tirol. Imigrantes. Em duas escrituras. a existência de uma cláusula que vedava (mas que não impediu de fato) o emprego de cativos nas obras contratadas com o Estado tenha contribuído para que a direção daquela companhia conseguisse a rápida liberação de uma considerável soma de dinheiro público para a importação desses colonos alemães31. com salários médios de 2$000 por dia. em resumo. com suas respectivas famílias. esses imigrantes se fixaram no município sob condições bastante diversas daquelas oferecidas. serralheiros. Tratava-se. Conselheiro: Herculano Ferreira Penna. 1995. relojoeiros.. Ouro Preto. STEHLING. 149-150. pontoneiros. Holstein e Baden e pertenciam a distintos segmentos profissionais (agricultores. novas levas de imigrantes germânicos foram trazidas a Juiz de Fora. incluindo a fase em que os imigrantes alemães estiveram trabalhando. os imigrantes alemães chegaram Juiz de Fora apenas no ano de 1858. segeiros. Op. 1º Ofício de Notas. no caso. 12.. 26 Juiz de Fora – 150 anos.26 logo. contratados em Hamburgo no segundo semestre de 1855 e que chegaram a Juiz de Fora.16 . Op. cit. duas pelo tempo de 5 anos. deve-se levar em conta também o tempo de engajamento dos escravos já que 03 das 10 escrituras alugavam seus escravos pelo tempo de 2 anos enquanto as outras três pelo tempo de 4 anos. Segundo Birchal. não somente aceita como referendada. cit. 12. funileiros. O aluguel de 25 escravos pertencentes á Jorge Afonso de Golveias. além da construção do trecho ligando Juiz de Fora à Petrópolis a reforma do percurso BarbacenaJuiz de Fora. em janeiro do ano seguinte29.)”24. Belo Horizonte: Mazza. como também para povoarem a colônia agrícola D. uma vez que. pelas autoridades oficiais da Província. Tais trabalhadores provinham. p. 31 Mais do que garantir a mão-de-obra qualificada e barata que os seus empreendimentos exigiam. uma realizada em 21 de janeiro de 1855 e outra realizada em 06 de maio do mesmo ano Mariano Procópio desembolsou 17 contos e 352 mil Réis pelo tempo de 4 anos. de artífices experientes e de ramos manufatureiros variados mecânicos. 30 STEHLING. 6-8 e 19-20. pelo menos em termos contratuais. em sua maioria. pp. carpinteiros. pp. 149-152. seleiros. p. pp. É possível que além dos fortes vínculos que o presidente da CUI. fls. desta vez não apenas para trabalharem nas oficinas.102 homens de que dispunha a CUI em 1856. Op. parteiras. moradia e alimentação durante todo esse período30. Ver BIRCHAL. 10-12. pintores. fundidores.. a entrada da CUI no ramo de imigração e colonização visou. Mariano Procópio. 29 O Relatório da Assembléia Geral dos Acionistas da Companhia União e Indústria. Cf. pedreiros. ferreiros. carpinteiros de carros. pagos ao final de cada mês. 153-160. barbeiros. e conservação da estrada atual desde a ponte do Parahybuna até a Cidade de Barbacena (. estações e estradas que a CUI construía na região. marceneiros.. sapateiros. pp. arrabaldes dessa cidade. 32 Idem. Daí a necessidade de alugar escravos de um proprietário que residisse próximo às obras.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria processo. Livro 2. uma vez que o período – mínimo de 02 e máximo de 05 anos – cobre boa parte do período de construção da Rodovia.)”25. lhes garantia trabalho durante dois anos. 200 contos de réis antecipados para importação e assentamento de dois mil alemães. 24 23 . As obras realizadas pela CUI incluíam. Em outros termos. aos artífices germânicos que desde janeiro de 1856 viviam e trabalhavam em Juiz de Fora. p. além de transporte. Caixa 1. compreendendo a primeira a reparação. dos 1. em sua maioria brasileiros. primeiramente.. Pelos caminhos do Brasil o que encontrei. entre janeiro e agosto de 1858. Na verdade.. 149-207. organizada com vultosos recursos obtidos por essa empresa junto ao governo imperial. Op. 415 e 429-432. 18% ou 202 indivíduos eram artífices e jornaleiros livres.cit. 25 Relatório (.). a utilização de escravos em uma obra pública foi. 12. alfaiates. marceneiros.que dispunham de um contrato com a CUI que. Op. p. 1856. mas alguns brasileiros e até mesmo portugueses chegaram a integrar postos-chaves na estrutura hierárquica da CUI. cit. como explicam Stheling e Giroletti.. folheiros. padeiros.. Presidente da Mesma Província. Tais dados permitemnos concluir que o papel da mão-de-obra escrava foi muito relevante. Relatório que a Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais apresentou na abertura da sessão ordinária de 1856. 27 Relatório (. carpinteiros. 2. ferradores. Pedro II. entre outros)32. onde a empresa instalou suas 28 principais oficinas e a sede de sua administração . fazia parte ainda um grupo de aproximadamente vinte oficiais de ofício germânicos. ferreiros. ainda no mesmo relatório lê-se que: “os trabalhos desta companhia executados no anno que decorreo do 1º de fevereiro de 1855. alguns qualificados e possivelmente recrutados nos AHCJF. Os valores pagos por Mariano Procópio também eram consideráveis. e por mim examinados em grande parte quando vim da Corte para esta Capital [Ouro Preto]”27. Cerca de dois anos depois. Desse contingente de operários não-escravos. relativo ao ano de 1856 confirma que o número de operários especializados alemães contratados inicialmente pela empresa não excedia duas dezenas. p. podemos concluir que o “não diminuto pessoal” referia-se à mão-de-obra escrava alugada aos proprietários locais por Mariano Procópio. Mão-de-obra livre nos empreendimentos da CUI: germânicos. um valor considerado alto para a época23. carroceiros. mantinha com o monarca brasileiro. fundamentalmente. do grão-ducado de Hessen. pp. Isto. Ver BIRCHAL. quando neste se afirmou o seguinte: “Dividem-se os trabalhos em duas categorias.. e conservação da estrada actual do Parahybuna tem exigido constante emprego de não diminuto pessoal (. cit. encontramos a seguinte constatação: “A reparação. no mesmo relatório. ferreiros. pedreiros. residente na vila de Barbacena em maio de 1855 é esclarecido pelo Relatório do Presidente da Província de Minas. 11 e ESPESCHIT.. “o dinheiro existente nos cofres da Repartição Geral de Terras Públicas”. pintores e oleiros .). 28 No corpo técnico e administrativo da CUI era marcante a presença de estrangeiros. Mais adiante. L. da Prússia. Além do aspecto quantitativo. portugueses e brasileiros.

(. enquanto alguns preferiram ainda se mudar para outras áreas. estações e oficinas aproximadamente 70% da população masculina da Colônia D. há fortes razões para se acreditar que esses operários recebiam os mesmos salários baixos e aviltantes pagos aos colonos germânicos34. cit. 183-208 e FERRÃO. 206-207. Cabe lembrar. 10-12. predominavam os germânicos e lusitanos. como notou o autor. Deivy F. Conflitos. pp. nessa época. barão de Meusebach.. o clima de tensão não diminuiu. No regime de trabalho em que esses indivíduos juridicamente livres encontravam-se inseridos. que durante a construção da rodovia que ligava Juiz de Fora a Petrópolis. admitiu estar passando por grandes dificuldades: “Pois estamos agora construindo uma nova casa e há oito meses a Companhia não faz pagamento porque ela está ruim.17 porque os colonos chegados em 1858. segundo cálculos de Giroletti. Julho 2009 (13-18) . Por outro lado. Mas os brasileiros livres da região eram também uma importante fonte de mão-de-obra qualificada e não qualificada: Ver BIRCHAL.se constituiu na principal causa de uma tentativa de sublevação na Colônia D. sobretudo em função da demanda cada vez maior dos cafeicultores da região por cativos. entretanto. 2004.3 contos em 1870. eram obrigados a labutar. ferramentas. Contexto após 1865: uso mais intenso de mãode-obra livre No que se refere especificamente à composição da força de trabalho. e também de seus vários ramais. pp. a título de amortização de dívidas. aconselhados pelo diplomata prussiano. Pedro II. Com efeito. 306-310. na cidade ou fora dela33. que encarcerou por alguns dias os seus supostos líderes. a dívida foi reduzida para 67. PPGHIS. mantinha grande parte dos colonos atada aos ditames da empresa: “De um montante de 73. STEHLING. cit. (. cit. a CUI empregava em suas obras.) não havendo acréscimo de juros por mora. além de serem obrigados a reembolsar as despesas com as viagens marítima e terrestre e pagar por outras “antecipações” eventualmente recebidas (moradia. por conseguinte. Op. grande parte dos imigrantes portugueses e alemães. neste sentido. contra “os maus tratos e as explorações que constatara pessoalmente nas visitas” que realizou. quando estes se empregavam como operários nas oficinas e canteiros de obra da CUI. pp. dentre outras coisas. ao percorrer pela primeira vez a ligação macadamizada entre Petrópolis e Juiz de Fora. na maior parte do terceiro quartel dos oitocentos. o fato de que nas cidades e fazendas das províncias cafeeiras. os artífices não-escravos configuraram-se enquanto maioria apenas em certos serviços especializados. o colono João Ziegler informou a seus parentes. UFRJ. Apesar dessa ameaça de levante ter sido prontamente reprimida pelo destacamento policial local.. Segundo Stheling. pp. Op. cit. Pedro II apta ao trabalho.. ou seja. Em dezembro de 1860.1 contos de réis. Em cartas enviadas à Alemanha. Pedro II. 35 36 STEHLING. em particular.. entre as décadas de 1850 e 1860.8 contos em 1867. a situação parece ter se invertido por completo. desde então muitos colonos se recusaram a pagar a dívida que lhe era atribuída pela empresa. . 206-207. mais grave. Esse endividamento. cerca de um quarto era destinado compulsoriamente à amortização de suas respectivas dívidas com tal firma. como a edificação de pontes e a operação das estações de muda e carga distribuídas ao longo dessas estradas. essa realidade degradante – que se tornava mais grave com os constantes atrasos de salários. motivando inclusive o protesto formal do representante diplomático do Reino da Prússia no Brasil. cit.. à citada colônia agrícola.. 34 Entre os artífices e trabalhadores braçais estrangeiros engajados pela CUI. em especial. muitas práticas características do mundo senhorial se faziam presentes. pelos operários germânicos. dando a elas um aspecto ainda 33 STEHLING. Embora se mostrasse otimista em relação à exploração de seu prazo na Colônia D. Soma-se à estas precárias condições de existência. de 1855 a 1861. as péssimas condições de habitação e a escassez de gêneros alimentícios . pp. não estava muito distante da realidade enfrentada. Numa carta de abril de 1862. pequenos animais de criação). permeado pelas brutalidades do sistema escravista. portugueses e brasileiros nos empreendimentos e domínios da CUI. se mantida a média de sua redução anual em 2. com cativos de todos os tipos35. Op. tinham que se submeter a ordenados bem menores.. nos anos posteriores à inauguração da referida malha viária. de 1$000 em média. Por contrastar em tudo com o que havia sido anteriormente prometido pelos representantes da CUI em Hamburgo. p. que trabalhavam então cerca de dez horas por dia em uma pedreira da CUI. seriam necessários mais de trinta anos para integralizá-la”. Op. crimes e resistência. a exemplo do que ocorria com muitos jornaleiros nacionais livres. Dos salários recebidos por esses operários.) Já há muito tempo porém estávamos esperando o pagamento e como ouvimos falar este poderá demorar ainda três meses36. relatava que metade de seu ordenado era retida mensalmente pela empresa. víveres. ombro-a-ombro. Nº 7. Op. de meados dos anos 1850 até fins da década de 1870.” Esse cotidiano de exploração e miséria. deviam saldar também o valor dos seus respectivos prazos na Colônia D.. 06. Pedro II em fins de 1858. Embora sejam ainda bastante restritos e fragmentados as dados disponíveis sobre os trabalhadores lusos e brasileiros empregados pela CUI. Rio de Janeiro.. CARNEIRO.História & Luta de Classes. como evidenciam as jornadas de mais de dez horas diárias que tinham que cumprir os salários baixíssimos que recebiam geralmente com atrasos de até onze meses e com descontos que chegavam à metade do seu valor nominal e a repressão e punição daqueles que ousassem se contrapor a esse quadro de injustiças.

144-145. quando se processava o escoamento do grosso da produção cafeeira da Zona da Mata mineira para o seu principal porto exportador. cit. a direção da CUI procurava se adequar à política imperial de restringir o uso de mancípios em obras e serviços públicos: “Para a conservação das estradas. que a CUI produzia boa parte do material empregado na edificação e manutenção de suas estações. explorando as pedreiras. A presença massiva e diligente desses homens se fazia indispensável. pp.18 . além das carroças e diligências que trafegavam 39 pela malha rodoviária sob sua administração . a escritora norteamericana Elizabeth Agassiz notou que desde 1865. cit. pp. 39 STEHLING. cabendo quase que exclusivamente a assalariados germânicos. entre as décadas de 1850 e 1870. De fato. Albino.. aquelas antigas instalações manufatureiras foram alienadas para um consórcio integrado por industriais e negociantes radicados no Rio de Janeiro. Ao que tudo indica. Como sugere o conjunto de informações apresentado até aqui. pp. 1956.. vinte e poucos anos após terem sido percorridas pelo imperador e por destacados membros das elites locais. op. cit. tanto os cativos quanto os indivíduos livres pobres desempenharam.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria acompanhando seu marido e outros membros da expedição científica liderada por ele. 42-45 e STEHLING. 244-264. AGASSIZ & AGASSIZ. Nessa mesma época. quebrando pedras para o macadame. que perdia a sua importância à medida que novos trechos da ferrovia D. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. cit. 240-243 e 311-313. Op. por exemplo. que 40 requeriam e recebiam manutenção constante . Esse cuidado em excluir os escravos dos trabalhos públicos (. retificando os taludes. da olaria e da telheira que a CUI mantinha nos arredores de Juiz de Fora. só se admitem trabalhadores livres (principalmente alemães e portugueses). . Pedro II 41. Pedro II eram franqueados ao tráfego. 38 37 41 BASTOS. PIRES. o trabalho e a produção permaneceram intensos nessas oficinas... 56. etc. a julgar pelo volume total de mercadorias transportadas por essa via durante os seus dez anos iniciais de operação até meados da década de 1870.. cit. 40 ESTEVES. pp.. portugueses e brasileiros a realização dos serviços rotineiros de manutenção da referida malha viária. Op. pp. Cit. pelo menos.. Era justamente nesse complexo manufator. tendo Cf. sobretudo. que exigem grande quantidade de trabalhadores constantemente em ação.. Durante toda a década de 1860. o braço servil foi fortemente confinado na lavoura. a CUI necessitou manter numerosas turmas de operários ao longo da extensa malha viária sob sua concessão38. houve a extinção oficial da Colônia D. 10-12.. situação que contribuiu decisivamente para a própria falência daquela Companhia. papéis fundamentais nesse processo de consolidação e expansão da produção cafeeira na região. como conseqüência direta da gradativa diminuição do fluxo geral pela Rodovia. jan / mar. Mariano Procópio: trabalhos originais. Op. (. após períodos de chuvas intensas e entre os meses de maio e outubro. cobrindo o sulco deixado pelas rodas. esses trabalhadores livres foram majoritários também na operação das grandes oficinas. Com efeito. pp. ocorrida por volta de 1879. em maior ou menor grau.. 63-65 e BIRCHAL Op. 80-83 e 93-96. Rio de Janeiro. pp.) para as reparações. cit..) inspira-se na idéia de limitar pouco a pouco o trabalho servil às ocupações agrícolas. seguramente o mais importante da região até o início da década de 1870. Tal complexo manufator só arrefeceu o ritmo de sua movimentação em meados do decênio seguinte.” em vista o crescimento contínuo verificado no volume de cargas e passageiros transportados pela CUI na sua principal estrada e em seus diversos ramais na região. Op. Op. afastando os escravos das 37 grandes cidades e suas vizinhanças . Deste modo. após ter sido amplamente empregado nas obras de implantação da rede de estradas da CUI. p. GIROLETTI.

3 Dario Crespo assumiu na Câmara dos Deputados. a polícia prendeu em torno de vinte pessoas. todos acusados de comunistas. pedindo a intervenção de Dario Crespo2. o Brasil atravessava uma conjuntura política de radicalização das posições ideológicas. Esta seria uma das últimas medidas do Chefe de Polícia do Rio Grande do Sul. (. quando Dario Crespo. p. MCSJHC/RS. Quanto mais procurava se organizar o PCB. por continuar na ilegalidade.. Ernani de Oliveira. O fechamento da Federação Operária. Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. Diário de Notícias. órgão do Comitê Central do PCB. 10/04/1935. Cf. . em 21 de maio. em que o mundo se contorce. Notação 454-1. sacudido por extremismos de toda sorte. via ANL. Porto Alegre. metalúrgicos e operários em fábricas de mosaicos. aumentava as suas ações visando maior visibilidade política. Julho 2009 (19-24) . na expansão sadia de toda atividade honesta”3. No estado. conseqüentemente. O PCB. A ANL era a expressão brasileira das frentes populares. p. em 13 de maio. Era uma resposta concreta ao crescimento da ANL. ganhava no Rio Grande do Sul o apoio de Flores da Cunha1. ou para a direita na Ação Integralista Brasileira (AIB). 1 Flores da Cunha deu sua principal opinião sobre a LSN em 11/02/1935: “(. Diário de Notícias. Setor Prontuários. 1. proferiu um discurso centrado na manutenção da ordem: “Num momento. C re s c i m e n t o d a A N L e re s t r i ç ã o democrática A restrição das liberdades civil e política. tendo a frente o Partido Comunista do Brasil (PCB) passara a organizar-se em frente popular propondo reformas radicais no desenvolvimento capitalista no Brasil. Porto Alegre. no Rio de Janeiro. como se estivesse em Barcelona e não no Rio de Janeiro4. APERJ. resolveu impedir a *Professor Adjunto do Departamento de História e do Mestrado de Integração Latino-Americana da UFSM. Prestes respondeu em carta para Hercolino Cascardo. essa lei presida um alto espírito liberal (. na edição de 20/06. Com a LSN. um maior fechamento do regime.)”. por ideologias avançadas e antagônicas. Cf. visando contrapor-se ao avanço do nazifascismo. Na ocasião.19 o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Diorge Alceno Konrad* m 1935. No dia 22 de maio. então abrigado essencialmente na ANL. 16. Setor Comunismo. da Inspetoria Regional do Ministério do Trabalho. Cinco dias depois foi empossado no cargo Poty Medeiros. expunha-se a riscos maiores diante da repressão policial. chefe de polícia rio-grandense.. através da LSN. 17/04/1935. 4 A carta foi publicada posteriormente em A Classe Operária. MCSJHC/RS. de apreensões e de incertezas. dentro da qual seja possível o convívio sereno e tranqüilo da grei humana. e a esquerda. Cf. Vargas e seus aliados estavam em luta pela aprovação da Lei de Segurança Nacional (LSN) e. em ação. 2 Cf. ao contrário... de 12/02/1935. edição original do jornal do Fundo DOPS. resolveu mandar fechar a Federação. a oposição liberal-democrata temia a diminuição das liberdades públicas. A Federação. O novo chefe de polícia do estado. dirigindo-se para a esquerda na Aliança Nacional Libertadora (ANL).) Sou inteiramente favorável à LSN. Meu desejo sincero é que. mas horrorizava-se com qualquer perspectiva de radicalização à esquerda. Comunistas. MCSJHC/RS. 3. Pasta 4. mais a repressão recaía sobre os seus militantes. Porto Alegre. Sua marca nacional era a posição antilatifundiária e antiimperialista. em janeiro de 1935. cabe à polícia missão demarcada e notória. visando também os militares antivarguistas. 22/05/1935. A repressão também decorria do sucesso do comício da ANL que reuniu no Rio de Janeiro mais de seis mil pessoas. prevenindo os delitos e assegurando a estabilidade social. 185. Era um subterfúgio para fugir à ação da polícia comandada por Filinto Muller. organizadas pro diversas concepções políticas. como o presente. Ao ser convidado para assumir a Presidência de Honra da ANL. demonstrando a continuidade da política policial desenvolvida no estado e de acordo com as medidas repressivas nacionais em curso.História & Luta de Classes. Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP. as diretorias dos sindicatos da capital tratavam da reorganização da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS).. Muitos militares que haviam apoiado o Governo Vargas passaram a chamar o Movimento de 1930 de “revolução traída”. Ao mesmo tempo. que se encontrava fechada desde as greves surgidas entre os têxteis. a organização política e social organizada em todo o país e criada em março de 1935. E reabertura da entidade.. sobretudo procurando atingir os movimentos sociais progressistas. APERJ. p. n. em devassa a casas suspeitas. levando-os à DOPS5. 5 Cf. presos no Rio. portando material de propaganda. Nº 7. o temor do PCB de expor os seus principais líderes aumentou. no seu prontuário no Fundo DESPS. Entretanto.) Nunca esteve em meu pensamento dotar o governo de um instrumento de compressão. suas declarações no Diário Carioca. o chefe de polícia do Distrito Federal.

jornal dirigido pelos interesses de Flores da Cunha. em novembro de 1935.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV. indo da palavra a ação”. Em todo o país. Processo n. no Teatro São Pedro. Barata fora denunciado em outubro de 1935 por distribuir e assinar o panfleto “Ao Povo de São Leopoldo”. Dicionário históricobibliográfico brasileiro pós-1930. através de decreto n. Mas o motivo esperado por Vargas viria com o Manifesto de Luiz Carlos Prestes. Pelo panfleto. com o objetivo de articulação comunista no estado para “secundar o movimento extremista que (. Jornal da Manhã. Em São Paulo. O mesmo acontecia nacionalmente. nos finais de junho de 1935. No dia 24. por falta de provas. Cf. o Fundo Tribunal de Segurança Nacional. dizia que Vargas não tomava “nenhuma providência radical contra as idéias subversivas. Jornal da Manhã. ex-dirigente do núcleo da ANL de Uruguaiana foi denunciado ao TSN. p.. p. Tomo XLV. Alzira de. Porto Alegre. Na Câmara dos Deputados. pelo procurador Honorato Himalaia Virgolino. hoje. em maio de 1938 pelo TSN.. seu presidente Hercolino Cascardo declarou para o jornal A Manhã que desconhecia a medida oficial. Israel. juntamente com os tenentes Cícero Carneiro Neiva e Carlindo Gonçalves Lopes. em ABREU. No dia 25. p. Porto Alegre: PUC-RS. sete meses e quinze dias de prisão. indicando todo o poder à ANL10. Além destes. atuação e fechamento da ANL no Rio Grande do Sul. pois a campanha da “pacificação política rio-grandense” vinha sendo acompanhada de outra “para neutralizar e impedir a expansão das idéias extremistas” e o “perigo comunista”. 201 – Cícero Carneiro Neiva e outros. 9 Cf. subordinando-a a Secretaria de Superintendência de Ordem Política e Social. os primeiros-tenentes Felipe Vianna e Prudente de Castro. 1. 528. de 5 de julho de 1935. conclamava a população de Porto Alegre a não se aproximar do local: “O Jornal da Manhã sente de seu dever avisar a população pacata e ordeira de Porto Alegre que evite. reuniões da maioria com a minoria um entendimento unificava diferentes partidos das classes dominantes brasileiras. através do decreto n. a polícia passou a invadir. após terem sido expulsos do Exército.. 63 – Agildo da Gama Barata Ribeiro. a polícia gaúcha.) ficou restrito ao Rio de Janeiro. 8 O tenente Hugo Silveira. 1. Apelação n. Cf. a decisão só seria de “combater abertamente o extremismo e apoiar-se na maioria. 2001. a Aliança recém estava lançando oficialmente a entidade estadual.221. marcados pelo anticomunismo11. no dia 21. republicanos-liberais e libertadores. além de maior atuação pública do PCB. 10 Neste dia. procurassem “derrubar o regime por meios violentos”12. todas das sedes da UFB. O crescimento aliancista verificado até então fez com que os setores conservadores reagissem a ela. se preciso. 26/06/1935. onde se realizará um comício da ANL. 1º Semestre. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Repressão e maior mobilização era o duplo da conjuntura. fez circular constantes boatos e notícias na imprensa de que o governo tomaria novas providências em relação a medidas repressivas. 1199. 229 de 11 de julho. as mulheres aliancistas e antifascistas fundaram a União Feminina do Brasil (UFB). MCSJHC/RS. Pouco depois a polícia acatou o decreto governamental que também ordenava fechar. Barata foi acusado de pregar a subversão da ordem social conforme a LSN e diretamente incitar o ódio contra as classes sociais. foi qualificado pelo TSN. Sobre a organização. o capitão Agildo da Gama Barata Ribeiro (VicePresidente da Comissão Provisória da ANL estadual e integrante do 8º Batalhão de Caçadores de São Leopoldo) e. 14/07/1935. 6 . exercendo também severa vigilância sobre suspeitos de serem comunistas ou anarquistas. Fundo Tribunal de Segurança Nacional. Apelação n. Cf. 05/07/1935. O alvo era os movimentos sociais e políticos de oposição. Vol. eram listados os militares José de Andrade Leão (de São Leopoldo)7. crescimento. essas declarações no verbete sobre Cascardo. Agildo Barata foi processado e condenado em um ano. visto como a força armada para ali destacada tem ordem de carregar à menor provocação ou grito sedicioso dos comunistas”. a 3ª Delegacia Auxiliar de Porto Alegre enviou para a DESPS. na Coleção de Leis e Decretos do Estado de São Paulo 1935. Rio Grande do Norte e Pernambuco. Correio do Povo. Logo após a divulgação do fechamento da ANL. Os três oficiais foram absolvidos pelo TSN em outubro de 1938. a frente de mulheres do PCB. sob n. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. A justificativa foi de que a polícia do estado necessitava de “um aparelhamento de repressão capaz de atuar com presteza e eficácia nos casos de grave perturbação da ordem pública”6. Para os integrantes da minoria. no Rio Grande do Sul. principalmente entre republicanos. organização que não chegou a completar dois meses de existência. no caso em que os extremistas. Negava as acusações de que a ANL era comunista e ameaçava o chefe de polícia de levá-los aos tribunais por aquelas acusações13. tanto que no dia 25. Enquanto isso. no Rio de Janeiro. MCSJHC/RS. especialmente p. 1935. com sete volumes. Cf. tratou de intervir nos núcleos aliancistas do Rio Grande do Sul. Todos eram apontados como integrantes da lista dos oficiais aliancistas do Rio Grande do Sul que lideravam a agremiação. Porto Alegre. na primeira página. 7 Ele se filiara ao PCB em fevereiro desse ano. MCSJHC/RS. 140-317. As atividades extremistas. 12 Cf. em 24/06/1937. jornal conservador do Rio de Janeiro. já se divulgava que Filinto Müller entregara a Vargas um relatório sobre as atividades oposicionistas na capital e nos estados. sob o comando de Dom João Becker. 13 Cf. 1. por sugestão de Góis Monteiro. Arquivo Nacional (AN). a íntegra desse decreto. 1. 655. o Correio da Manhã. o governo do estado criou a Polícia Especial. 74. Uma Frente Parlamentar da Maioria e Minoria para combater os extremismos. Porto Alegre.20 . ver minha dissertação de mestrado 1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul. Sílvio Porto Dias (tenente do 7º RCI de Livramento) e Hugo de Souza Silveira (de Uruguaiana)8. BELOCH. Pela atuação específica na ANL do Rio Grande do Sul. quando o Diretório Estadual Provisório da ANL do Rio Grande do Sul chamava para o lançamento da entidade.). 7. 2ª ed. 1994. na capital federal. fechar e lacrar as sedes da entidade. LATTMAN-WELTMAN. onde morava. Sérgio Tadeu de Niemeyer (Coord. O manifesto de Prestes foi a justificativa para Vargas determinar o fechamento da ANL. cujo programa próximo ao integralismo. como tentativa da ANL do Rio Grande do Sul. foi fundada a Ação Social Brasileira (ASB). 246. acusados de tentar aliciar as praças do 7º Batalhão de Caçadores do Porto Alegre. escrito por Renato Lemos. Processo n. AN. 1º vol. 11 Ainda em julho. Fernando e LAMARÃO. À população ordeira da capital. acusando Filinto Müller de “difamar a reputação de milhões de brasileiros dedicados de corpo e alma à libertação de sua pátria”. somente por não ter uma lei onde se basear”9. Esse processo. p. defendia a luta direta ou velada contra o comunismo. Um dia após o fechamento da Aliança. A ampliação da organização da ANL e a maior mobilização dos trabalhadores. medida que repercutiu com simpatia nos meios políticos rio-grandenses. a lista dos seguintes nomes: o capitão Francisco Moésia Rolim. No mesmo dia. sua presença nas proximidades do Teatro São Pedro. p.

o Boletim de Agitação e Propaganda. através do Órgão da Juventude Popular. em entrevista coletiva. com a tática da ANL ser a “dirigente geral e coordenadora de todas essas lutas” naquela etapa da revolução. sofreriam “guerra sem tréguas do governo”. porque a polícia não permitiu o piquete. p. 17 Aparício Córa de Almeida. . 2ª ed.) para o esmagamento completo dos conceitos de Religião.. 12. chamado pela imprensa de “chefe comunista no estado”. Houve pequeno conflito entre os operários que deixaram o trabalho e os que nele permaneceram. efetiva e eficazmente a ação anarquista. a ANL chama a mobilização e o governo aumenta a repressão A ANL tentou resistir ao seu fechamento.21 Depois da ilegalidade. a polícia prendeu em flagrante o gráfico Bernardino Garcia nas oficinas da Livraria do Globo. então responsável pela DOPS. 18 Ver Medidas extremistas? e A prisão de dois elementos indesejáveis. o intuito era “reforçar o próprio Partido”16. Julho 2009 (19-24) .) somente o fechamento desses núcleos não bastaria para reprimir. em uma reunião no Sindicato dos Empregados no Comércio. constatou que ele havia cometido suicídio brincando com o revólver. impetrou hábeas corpus em favor dos detidos. Jornal da Manhã. tanto do Distrito Federal como dos estados. conclamando os operários a parar o trabalho em protesto. Porém. os operários do Lanifício Eilet – Armênio e da Estofaria Matarazzo declararam-se em greve parcial. aparecia para os setores conservadores como movimentação dos “extremistas”. depois de ser inquirido pelo delegado Argemiro Cidade. p. era o primeiro secretário da ANL gaúcha e integrante do PCB no Rio Grande do Sul. advogado criminalista. aos 29 anos de idade. apesar da reação. 16 Cf. pois as polícias.. visando principalmente às “atividades extremistas”. Em todo o Brasil. a Chefia de Polícia enquadrou Dyonélio e Bernardino no artigo 19 da LSN. principalmente nas minas de carvão e outras. Ao mesmo tempo. Julho de 1935. sendo já esperadas pela polícia. foi encontrado morto em um bar do centro de Porto Alegre com um tiro na cabeça. a referência sobre o Rio Grande do Sul era de que estavam sendo realizados trabalhos de massa. a ANL passou a servir de exemplo das frentes antifascistas. São Paulo: Alfa-Ômega. Porto Alegre. conclamando os trabalhadores a fazer greve contra o ato arbitrário de Vargas14. Apesar de ser uma das principais lideranças antifascistas do estado. Arquivo Edgard Leuenroth (AEL/UNICAMP). comemorando o primeiro aniversário do Congresso Nacional contra a Guerra e o Fascismo e preparando o Congresso da Juventude Operária. ocorrido em Moscou entre a última semana de julho e a primeira de agosto. MCSJHC/RS. MCSJHC/RS. idem. quando distribuía panfletos sobre o fechamento da ANL. No dia seguinte ao da prisão de Machado. suspeita de cometer o crime. Jornal da Manhã. que passou a ser 14 Enquanto era fechada no Brasil. também integrante da direção da ANL17. apesar de presidente da ANL no Rio Grande do Sul. respectivamente. Rio de Janeiro. 1978. Pátria. João Antônio Mesplé. especialmente pela seção de Segurança Política e Social. Agildo. p 3-5. Liberdade e Família (. 17/07/1935. A matéria do Jornal da Manhã esclarece essa posição: “(. acusando o PCB de esconder-se através de sua sigla e de estar a serviço de Moscou. sociais e econômicos do Rio Grande”. 15 Cf. A Secretaria de Segurança Pública distribuiu um comunicado à imprensa. distribuiu diversas turmas de investigadores por todos os pontos da Capital Federal. A família de Aparício contratou os advogados Alberto Pasqualini.. PCB (Seção da IC). a fim de impedir que eles realizassem comícios clandestinos. Augusto Moreira Lima e Lúcio Soares Neto para acompanhar o inquérito. Visava desencadear greves nas cidades e luta nos campos. (. No Rio Grande do Sul não seria diferente. que tomou as providências para impedir diversos comícios na “Jornada Vermelha Internacional Contra a Guerra Imperialista”.História & Luta de Classes. Porto Alegre. Dyonélio Machado. O advogado Aparício Córa de Almeida. o anticomunismo se ampliava no Rio Grande do Sul. A polícia de Flores da Cunha. Combate ao extremismo.. Em agosto de 1935.. 19/07/1935.. Mesmo assim. 19/07/1935. a polícia invadiu o local. o PCB programou um mês de protestos por todo o país. Flores da Cunha considerou que todos aqueles que no Rio Grande do Sul agissem como Dyonélio. convocando manifestações para reforçar a Aliança. Vida de um revolucionário (memórias). a morte de Almeida teve pouca repercussão na imprensa. Bernardino identificou Dyonélio Machado como o autor dos boletins. colocada em prática no Rio Grande do Sul. porém. devido à censura comandada pelo governo estadual. Estudantil e Popular. prendendo vários. No entanto. no dia 15. p. as circunstâncias da morte de Almeida em BARATA. chamando movimentos para 1º e 23 de agosto. 244-5. as atividades começaram no primeiro dia do mês. MCSJHC/RS. No dia 17 de julho. se estendia por todo o Brasil. em Porto Alegre. no Governo Popular Nacional revolucionário”. declarando saber que “desordeiros” pregavam a greve geral entre o operariado “visando perturbar a marcha do trabalho brasileiro”15. Cf. prendendoos preventivamente e enviando o caso para a Justiça Federal.) Não bastam. chefe da seção de repressão social e política. Estudantil e Proletária. Em São Paulo. Cf. dissolvente. criminosa desses elementos que agem a soldo da URSS (. Dyonélio assumiu a responsabilidade. 4 e 6. A promessa repressiva de Flores da Cunha.) Chegamos a uma situação em que não é mais possível ter-se a menor contemplação com essa gente”18. da Comissão de Agitação e Propaganda Nacional. ampliava-se em todo o Brasil o discurso contra a ANL. pois ela seria “o organismo” que iria “ocupar o poder com Prestes à frente. Em 14/10/1935. quando se tentava organizar a juventude a favor da ANL. Assim. ainda não era filiado ao PCB. levando-a a uma parede prejudicial aos interesses políticos. Em seguida. passaram a elaborar planos de ação conjunta. os comunistas mascarados incitam o operariado à greve geral e Pregando a greve geral entre o operariado paulista. No Rio de Janeiro. Nº 7. mas nada conseguiram provar.. tendo conhecimento prévio dos locais escolhidos pelo PCB. 1. Coleção Internacional Comunista. qualquer tentativa de organizar resistência legal ao fechamento da Aliança. por motivo do fechamento da ANL. O PCB também procurou reagir. decididas como forma de organização prioritárias pelo VII Congresso da IC.. p. negando para a polícia “empenho em criar uma situação de embaraço para a coletividade trabalhista do estado. a polícia deteve o médico e escritor. Nesse documento. No dia 16. essas duas prisões. Serafim Braga.

conduzidas à Chefatura de Polícia. mandou prender o capitão Antônio Rollemberg. Enfatizava suas influências sobre investigadores e delegados de polícia. Foram apreendidos também um mimeógrafo. No dia 13 de agosto. foi recolhido à Casa de Correção21. assinado por Getúlio Vargas e Vicente Ráo. afirmando: Estamos incontestavelmente nas vésperas de grandes acontecimentos em todo o país. No início de agosto. Calinik Demianchisk e Alexandre Slinko. Luiz Carlos Prestes escreveu para o major Carlos Costa Leite. 19 O anúncio do chefe de polícia foi cumprido. Cf. Processo n. 15/10/1935. retirada de ônibus da Avenida Rio Branco. o ministro da Guerra. Correio do Povo. Com a participação na Insurreição de 1935. em outubro. Rio de Janeiro: Borsos e Cia. Em 14 de outubro. Sub-Série Entrada de Presos. chefe de polícia. As diligências efetuadas. Depois de decretada prisão preventiva. que “repetidamente era distribuído em ruas daquele distrito entre a classe proletária” e que expressavam a teoria marxista. foram expulsos do país Daniel Rapcki. era feito com os movimentos sociais. a fim de obterem. Foi efetuada a prisão de muitas pessoas. Em 26/07. determinou o fechamento por seis meses dos núcleos da “União e Luz Operária Russo-Branca-Ucraniana. 13. oito horas de trabalho. a reabertura das sedes da ANL”. em atitude policialesca. Cumpriu pena na Casa de Correção até 08/04/1936. Teobaldo José. MCSJHC/RS. Ali. descanso semanal e modificação do regime de multas. Foi julgado como comunista e condenado a 6 meses de prisão celular em 07/03/1936. numerosas cartilhas e livros elementares. Nesse episódio. além de grande quantidade de material de propaganda. boletins (. os operários mineiros estavam distribuindo. que passaram a ser traduzidos pela polícia. receber uma denúncia do município de São Jerônimo. 309. Resulta da análise aprofundada da situação econômica e política em que nos encontramos. p. 9 (este foi aberto e fechado por Poty Medeiros). de 23/12/1935. entre outras coisas. A prisão de Garbelotti se deu após o delegado Argemiro Cidade. 22 Cf. por ter elaborado um panfleto contra a LSN. Justamente com esta receberá as últimas instruções do Diretório Nacional. Cf. Teodoro Jasyk. de acordo com as leis vigentes na época19. no dia da morte misteriosa de Aparício Córa de Almeida. então dirigida por Júlio Barata.. a polícia priorizou a atuação no 4º Distrito. Distribuíam boletins subversivos. a polícia do Rio Grande do Sul considerou a “Sociedade Luz de Russos Brancos e Ucranianos” como uma entidade que desenvolvia “intensa atividade na propaganda bolchevique” o que justificava o pedido de expulsão do território nacional dos membros da diretoria. No Rio Grande do Sul. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Em Porto Alegre. lhe dando informações sobre a movimentação ilegal da ANL nos estados do Sul. em 01/07/1936. livro de matrículas n. apesar de lançada na ilegalidade. Setor Prontuários. a polícia do Rio de Janeiro conseguiu impedir a deflagração de uma greve de motoristas.) incitando a uma greve geral. por decretos do Ministério da Justiça. 42 – Antônio Rollemberg e Outros. Notação 1. foram chefiadas por vários delegados e pelo comandante interino da Guarda Civil. p. Pelo ofício n. 90-1. a fim de serem identificadas e prestar declarações. Assim. P-318. os quais reivindicavam abolição das comissões sobre a féria diária. foi preso. O Estado de Guerra e a LSN. com base nos termos do artigo 29 da LSN. salário mínimo. Ver Fundo DPS. praças da Brigada Militar e agentes da Guarda Civil. revelando assim. Secretário dos Negócios do Interior no exercício do cargo de Governador do Estado. AHRS. a polícia divulgava a prisão de Dario Gaberlotti e Alberto Lukinskas. considerando que agiam “atividade subversiva da ordem política e social”. a respeito do que será o Governo 21 Dario Garbelotti. A ANL. que centrava os ataques na ANL. chamava a atenção de Filinto Müller e do Ministro da Justiça Vicente Ráo sobre o capitão e aliancista Trifino Corrêa. 5. p. Ali. primeiro secretário da ANL do Rio Grande do Sul. para a polícia. Marchamos a grandes passos para uma crise durante a qual ninguém poderá ficar neutro. por este ter assumido a distribuição de panfletos na capital federal..22 . Durante o inquérito ficou apurado ser Dario Garberlotti “cabeça do movimento que se esboçava”. quando foi preso tinha apenas 17 anos. André Ckoviescivice. será a força capaz de dirigir o povo e todos os brasileiros serão obrigados a tomar posição clara nos próximos dias a favor ou contra ela. Ao tomar conhecimento da delação.. chamadas na época de canoas e realizadas com grande aparato. 1937. anunciou que os “agitadores estrangeiros que foram detidos” deveriam ser expulsos do país. principal localização operária da cidade. Ao mesmo tempo. Série Casa de Correção. o jornal A Batalha. Isto não é simplesmente uma frase como tantas outras que se repetem vagamente. Darci Azambuja.. de 10/12/1935. O mesmo procedimento de vigilância policial. “entre seus companheiros de trabalho. tendo cassada a sua patente militar em abril de 1936. Biblioteca Nacional (BN/RJ). Apelação n. foram dadas várias batidas depois de denúncias recebidas sobre “atividades extremistas” no local.20 integrante aliancista. mineiro e natural de Santa Catarina. o decreto n. contraditoriamente dominada pela censura. 1842. Mensagem enviada à Assembléia Legislativa pelo Dr. ainda no dia primeiro de agosto. operários que distribuíam panfletos. Rollemberg foi denunciado no TSN em processo conjunto em 12/07/1937 e julgado em 22/03/1938. Fundo Polícia. sempre apoiado por boa parte da imprensa carioca. “os verdadeiros fins daquelas assembléias”. a polícia apreendeu “documentos suspeitos vazados em língua russa”. 85. A íntegra do decreto pode ser vista em JORGE. general João Gomes. Poty Medeiros. Durante a batida forem encontrados cerca de sessenta homens e dez mulheres durante uma reunião. Porto Alegre: Imprensa Oficial. 1936. Esta funcionava clandestinamente e quase que exclusivamente com militantes comunistas. Porto Alegre.172. dela participando numerosos investigadores. Cf. a fim de evitar as manifestações. incurso no artigo 19 da LSN.. o delegado imediatamente mandou um investigador a São Jerônimo para apurar as denúncias e efetuar a prisão dos indicados22. o Fundo TSN. 20 Rollemberg já havia sido peso em março. 1935-1936. . onde estavam situadas as minas do “Arroio dos Ratos”. encarregado da Ordem Política e Social. AN. AHRS. A DOPS havia recebido denúncia de que a Sociedade Luz de Russos Brancos e Ucranianos vinha realizando reuniões secretas. APERJ. que teriam como objetivo “desenvolver idéias comunistas no Rio Grande do Sul”. Cada vez mais a polícia apertava o cerco sobre integrantes do PCB e da ANL.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora.

Dyonélio Machado escreveu para Prestes. p. p. Fechava-se o regime de vez. MCSJHC/RS. por outro. os três membros representantes do Komintern eram Luiz Carlos Prestes. 1. visando a libertação imediata de Dyonélio Machado. publicado o r i g i n a l m e n t e n o P o r t a l Ve r m e l h o . provavelmente é uma referência a Silo Meirelles. citava o discurso de Dimitrov e a saudação “quente e vibrante” para Luiz Carlos Prestes para a “elucidação das atividades comunistas no país”. Exemplo disso foi um livro publicado na época. Pela libertação de Dyonélio Machado. enquanto que outras categorias eram convidadas para aderirem ao movimento27. Porto Alegre. Notação 451. 23 O rascunho desse bilhete foi encontrado no cofre “programado” para explodir. do dia 20 de novembro. porém sendo tratadas pelo governo como greves políticas. onde respondia ação criminal como incurso na LSN24. Os integralistas trouxeram para Porto Alegre Gustavo Barroso. chegou a telegrafar para Flores da Cunha. O. atingindo quase trinta mil trabalhadores. 12. enquanto participava do Congresso. abordava a os planos do Komintern para a América do Sul e a “agitação comunista” especialmente para o Brasil. Viveiros.23 Popular Revolucionário. como que se previsse ou soubesse de algo para acontecer. APERJ. traria a justificativa final e esperada para o governo Vargas. 31. muitas lágrimas e muito luto”. 21/11/1935. Como de praxe. através de intermediação de Costa Leite. 2009.org. esta lógica de desenvolvimento capitalista expulsou um grande contingente populacional do campo. voltaram à cena social. formando uma massa de subassalariados. no início de 1935. p. César. Por sua vez. A agitação comunista no país. José Olympio: 1935. o movimento ainda não tivera “tempo de preparar a mocidade para dirigir o Brasil Novo”26. O proletariado citadino. Acesso em 27 mar. dando a palavra de ordem de combate ao fascismo”. uma reportagem de A Batalha. apelando para a liberdade do líder da ANL gaúcha25. era uma obviedade. Rio de Janeiro. curiosamente incluía Getúlio Vargas e Góes Monteiro. que não fazia apenas reivindicações políticas. Dimitrov estaria confirmando os esforços conspiradores de Prestes. Custódio de. favorecidos pela situação da Itália e da Alemanha. 28 O “representante de Pernambuco”.História & Luta de Classes. em 2 de agosto. p. e um representante de Pernambuco. Porto Alegre. foi descoberta. conclamando-o a prosseguir a luta até a vitória da ANL. D i s p o n í v e l e m http://www. 29 Este item contém extratos ligeiramente modificados do artigo Movimentos sociais e políticos no Brasil Contemporâneo e a eleição de 2006. 26 Essa certeza de vitória era compartilhada pela maioria dos integralistas da época. respectivamente como o primeiro integralista nacional e um dos próceres políticos que semearam a nacionalidade. Esta carta caiu sobre o domínio policial quando a casa de Ipanema. a decisão da aplicação tática do PCB. Notação 451. a AIB gaúcha organizou seu Congresso Provincial. Jornal da Manhã. Notação 264. Enumerando os meios de infiltração comunista nas classes armadas e diz que anulada a ANL logo seria substituída por uma “União Brasileira Libertadora”. no Fundo DESPS. representante dos comunistas de São Paulo. instruções às quais estou de pleno acordo23. com o aumento da miséria. onde moravam Prestes e Olga Benário. mais breve do que seria de desejar”. O jornalista e integrante da direção nacional da Ação Integralista. as greves convocadas pelos líderes da ANL e que não aconteceram em julho. quando este estava em Porto Alegre. APERJ. então diretor geral do Museu Histórico Nacional e filiado a AIB desde 1933. pois para ele. Série Dossiês – Revolução de 1935. 22/10/1935. em 2/08. Setor Prontuários. . por um lado. Dizia que Komintern estaria “dirigindo a todos os núcleos do mundo uma circular secreta sobre a orientação da campanha vermelha. Se os avanços das greves e a criação da ANL serviram de justificativas para o estabelecimento da LSN. prefeito do Distrito Federal. 8/11/1935. Correio do Povo. detido desde julho no quartel do 3o Batalhão de Infantaria da Brigada Militar. os patrões negavam-se a atender as reivindicações. 17. VIVEIROS. não se acomodava tão facilmente. Ver a relação de todos os documentos no Fundo DPS. Por outro lado. Prestes escrevera também para Agildo Barata. Nº 7. O sentido histórico da ANL29 Fatores estruturais incidiram sobre a formação do conjunto dos movimentos sócio-políticos brasileiros contemporâneos. O jornal carioca dizia que no Brasil. no Fundo DPS. em colaboração com o Centro de Cultura Moderna. informandolhe sobre a situação política do Rio Grande do Sul.br/base. 27 Cf. a campanha anticomunista continuava em todo o país. integrante da Coluna Prestes e o braço direito de Prestes na organização da ANL no Nordeste. afirmava para a imprensa acreditar “piamente na vitória do integralismo e. opinião esta que naquele momento. Abordando o VII Congresso da IC. acabando com os poucos resquícios de liberdades civis que haviam sido conquistados na Constituição de 1934. pela grande desigualdade econômica e social. APERJ.vermelho. No Rio de Janeiro.asp?texto=3415. Camisas Verdes. Cf. além de uma significativa reserva de força de trabalho barata. Em relação ao caso. no dia 21. pela dependência às potências estrangeiras e. Ao mesmo tempo. Focalizando a ANL como núcleo comunista. Cf. o periódico alegava que o governo de Getúlio Vargas era fraco e “pouco enérgico na repressão ao comunismo28. 24 Cf. Ver idem. Setor Dossiês – Revolução de 1935. MCSJHC/RS. Durante a sua prisão. No início de novembro. Pedro Ernesto. Ver o conteúdo da carta para Costa Leite e o comunicado para Barata em recortes do jornal carioca Diário da Noite de 10 e 11/01/1952. devido a monopolização e concentração de atividades fabris e de outras tecnologias em alguns nichos regionais. A herança colonialista e imperialista mpossibilitou a necessária ampliação do mercado interno e restringiu a possibilidade de amplos empregos. Julho 2009 (19-24) . em uma de suas reuniões. AEL/UNICAMP. onde se afirmou: “Nossa vitória é fatal. e com total liberdade de ação. após a ilegalidade da Aliança. Os operários metalúrgicos do Rio de Janeiro declararam-se em parede por motivos salariais. Manifestaram-se em greve os operários metalúrgicos no Rio. Porto Alegre. anunciava-se a campanha iniciada no Rio de Janeiro pelo Sindicato Médico Brasileiro. p. Jornal da Manhã. mesmo que essencialmente de caráter econômico. Nesse mesmo mês. infelizmente. 25 Essa informação se encontra no seu prontuário. marcados. MCSJHC/RS. 118-9. mas talvez custe muito sangue.

como identifica Edgard Carone. sobretudo pela LSN. moradia. especialmente pelo primeiro30. colocaram em oposição sociedade civil diante de um Estado dominado pelos interesses privados do latifúndio e do imperialismo e a serviço da dominação externa. p. o que resultou em diversos problemas sociais e precárias condições de alimentação. qualquer mudança progressista para as parcelas maiores e mais pobres de brasileiros. visando manter o poder de Estado pelas classes dominantes brasileiras. diante da crise econômica e social vigente. havia um reforço da idéia de possibilidade de tomada do poder. reformistas ou revolucionárias. O resultado desse processo de repressão pelo alto ganhou seu ápice com o Estado Novo. inclusive pela repressão e pelas ditaduras. contra a exploração de classe e a opressão semicolonial. desde os primeiros momentos foi atacada. etc. Estado de Sítio. a história da luta social tem se contraposto às teses sobre a “índole pacífica” da sociedade brasileira. Muitas destas lutas se deram em torno de um novo poder de classe e/ou por transformações políticas e sociais com bases estruturais. seja através de guerras camponesas. sob as quais uma conservadora e reacionária classe dominante impediu. Estado de Guerra. seja em lutas e greves da classe operária e nas diversas formas de organização dos movimentos sociais e políticos. aprofundamento da LSN. educação. São Paulo: Ática.24 . Muitas das lutas de resistência e por transformação social. criação do Tribunal de Segurança Nacional e da Comissão de Repressão ao Comunismo seriam as formas como o Estado reforçaria suas instituições. . das críticas que Vargas vinha sofrendo da oposição na Câmara Federal e das greves que aparentavam uma determinação crítica do operariado. Entretanto. Ela foi concretizada em novembro. liderada pelo PCB e pela ANL. 1991. através da Insurreição Comunista. saúde. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional marcada pelo desemprego estrutural. Dentro deste processo de nossa formação econômico-social. Muitos segmentos sociais defenderam-se e resistiram.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. Não foi diferente quando a ANL foi organizada e. por diversas vezes. 217. é de se ressaltar que. criando um forte processo de migração interna entre as cidades. 30 Ver Brasil: anos de crise 1930-1944. muitas vezes de armas na mão. Mas este processo histórico precisaria outro artigo para ser explicado.

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A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul
Glaucia Vieira Ramos Konrad*
stamos podendo alargar a história do período do Estado Novo Rio Grande do Sul, entre 1937 e 1945. Desde a sua implantação, o novo governo ressentiu-se de uma base de apoio político e ideológico suficiente que desse respaldo necessário à sua existência. A construção da auto-imagem foi buscada, mas para isso foi preciso o apoio da intelectualidade e dos trabalhadores, através da construção de uma identificação com a ditadura. Talvez a historiografia e as ciências sociais tivessem a ganhar, deixando de lado termos como autonomia e heteronomia lidos como opostos inconciliáveis. Conclusões opostas como a existência absoluta de autonomia dos trabalhadores e do sindicalismo (como exemplos pinçados na Primeira República) ou total heteronomia (no caso do Estado Novo) não nos tem ajudado muito para compreender a diversidade e a heterogeneidade da classe trabalhadora brasileira, independente do período de análise. As novas fontes abertas ao público, sobretudo pela abertura ao público das fontes policiais, ou a releitura de velhas fontes, bem têm demonstrado esta insuficiência, mesmo que o discurso do Estado da época não reconhecesse o direito dos indivíduos, muito menos a luta de classes. Não se trata aqui, de ignorar a repressão violenta ou subestimar o controle do Estado sobre os trabalhadores. Mas considerar totalmente perdida a autonomia dos trabalhadores e seus sindicatos (mesmo os oficiais) não corresponde com as novas fontes que temos encontrado sobre aquele momento da formação social brasileira. A resistência e a autonomia, que, por sua vez, também não podem ser absolutizadas, fazem parte da trajetória de lutas por direitos. O discurso governista do fim da luta de classes não encontrava correspondência na disposição de confronto de muitas lideranças clandestinas, bem como de reivindicações de trabalhadores comuns. Por isso, o Estado Novo precisava e necessitava consolidar o seu poder.

Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”:

E

benefícios que o Estado forte e autoritário poderia fornecer a ela. Essa tarefa não se deu de maneira tranqüila, havendo necessidade da elaboração de uma intensa campanha para mascarar e impedir, até onde fosse possível, a oposição à ditadura. No Rio Grande do Sul não foi diferente do resto do Brasil. Para isso, foi preciso também manter presente o fantasma do comunismo. Em editorial intitulado “Mobilização Necessária”, publicado no Jornal do Estado, vê-se estampada a preocupação com o mesmo: “assumindo uma atitude definitiva contra a ideologia falsa do marxismo, coordenando todas as forças honestas e dignas da Nação para a defesa do Brasil, o governo federal veio ao encontro das aspirações máximas da coletividade”1. Esta situação era considerada preocupante, visto que no Exército praças do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre haviam sido expulsos por serem “extremistas”2. Além do mais, a oposição a Vargas, vinda também dos partidários de Flores da Cunha, exgovernador do estado, estava criando problemas nas cidades do interior, obrigando a que o governo estadual substituísse vários prefeitos. As exonerações ocorriam quase que diariamente: tanto exonerações a pedido quanto aquelas exigidas. As duas formas mostravam que a situação não estava fácil de ser controlada. Exemplo disso foi o afastamento do prefeito de Farroupilha, Armando Antonelo, em vista das agitações produzidas por sua atuação política na cidade, considerada como “em detrimento do interesse público”3. O prefeito de Uruguaiana, Flodoardo Martins da Silva, solicitou demissão do cargo, em razão de não concordar com a pouca “autonomia dos municípios gaúchos” e da diminuição da “autoridade dos prefeitos”4. É claro que muitos prefeitos continuaram em seus cargos, uma vez que foram apoiadores de Vargas desde antes do início da ditadura de 1937. Porém, isso não foi a regra, em vista do número de exonerações registradas na imprensa oficial do período inicial do novo governo.

A busca pelo apoio político Após o Golpe de 10 de novembro de 1937, o Estado Novo passou por um período de estruturação política e de convencimento social. Não bastava impor um novo regime à sociedade: era preciso convencê-la dos
*Doutora em História Social do Trabalho pela UNICAMP, Historiadora e Arquivista, Professora Adjunta do Departamento de Documentação da UFSM.
1 Jornal do Estado, 25 de novembro de 1937. p. 3. Os exemplares se encontram na Biblioteca Solar dos Câmara da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. 2 Jornal do Estado, 19 de novembro de 1937. p. 2. 3 Jornal do Estado, 26 de novembro de 1937. p. 3. 4 Arquivo Nacional - RJ/Fundo Gabinete Civil da Presidência da República (ANRJ/FGCPR), Rio Grande do Sul, Lata 185. Telegrama de Uruguaiana, 7de março de 1938.

26 - “Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul

A centralização administrativa pouco a pouco colaborava para o fechamento das vias de reação. Exemplo foi o decreto extinguindo os partidos políticos. No Rio Grande do Sul, em decorrência da medida, criouse um impasse envolvendo secretários do governo riograndense, os quais solicitavam as suas exonerações ao interventor federal, como demonstra o seguinte telegrama de Maurício Cardoso, Walter Jobim e Oscar Fontoura: “Porto Alegre, 4 de dezembro de 1937. Exmo Sr. Gal. Manoel de Cerqueira Daltro Filho. d.d. Interventor Federal. Tendo sido publicado, com data de ontem, um decreto do Governo da República, dissolvendo todas as agremiações políticas existentes no país, vimos depôr nas mãos de V. Ex. os cargos que ocupamos no Secretariado Rio-grandense, por indicação dos partidos a que pertencíamos e que haviam deliberado colaborar com V. Ex. no Governo do Estado. Representantes que éramos do Partido Republicano Rio-Grandense e Libertador, nossa presença no Secretariado não mais se justifica, uma vez que esses Partidos são declarados extintos (...) (Assinados) J. Maurício Cardoso, Walter Jobim, Oscar C. Fontoura5. As exonerações não foram aceitas e os secretários continuaram em seus cargos. Para o governo do Rio Grande do Sul, essas considerações não deveriam interferir nos interesses do estado, que precisava da colaboração desses membros dos partidos extintos. Não era momento de se criar querelas em torno de questões partidárias e ideológicas, já que o Estado Novo veio para se sobrepor a elas, como o único capaz de entender e resolver os problemas da sociedade, “acima dos partidos”, das “ideologias” e dos “interesses de classes”. Os partidos de âmbito regional e nacional acabaram mesmo sendo extintos. A Ação Integralista Brasileira (AIB) passou a chamar-se Associação Brasileira Cultural. No Rio Grande do Sul, principalmente em Porto Alegre, houve repressão aos integralistas. Quanto aos comunistas, além da perseguição física (prisões, julgamentos pelo Tribunal de Segurança Nacional, etc.), continuou uma acirrada propaganda anticomunista. Mostrar um governo fiel aos propósitos do Estado Novo não se constituía em tarefa fácil. A preocupação principal era a de que, no momento de se fazer a distribuição dos cargos, eles não caíssem nas mãos dos grupos que pudessem ter um controle maior em relação aos interesses do governo federal e, a partir daí, formar-se alguma oposição ao Estado Novo. Essa inquietação ficou transparente numa correspondência de Viriato Vargas, irmão de Getúlio, naquele momento Presidente do Tribunal de Contas, a qual tratava da reorganização desse órgão nos municípios:

“Os dissidentes são muito partidários. É colocar dois juntos e já se congregam para ação partidista. Ora, já pus no Tribunal o Moysés Vellinho e não convém lá outro dissidente, pois sendo quatro os ministros, eles ficariam com a metade dos votos. Na primeira vaga quero pôr lá um frente-unista, com todas as qualidades intelectuais, morais e completamente integrado na nova ordem de coisas. Um getulista enfim”6.

Outro fato veio trazer problemas nos meses iniciais da ditadura estado-novista no Rio Grande do Sul. Em abril de 1938 ocorreu um incidente político que novamente preocupou Viriato Vargas. Tratava-se do pedido de demissão do prefeito de São Leopoldo, Theodomiro Fonseca, em decorrência de um desentendimento com Cordeiro Farias, recém empossado no cargo de interventor. A renúncia do prefeito deu espaço às forças oposicionistas ligadas a Flores da Cunha de articularem-se e buscar um nome comprometido com elas. Em carta a Getúlio Vargas, Viriato esclarecia a situação: “Há pouco deu-se uma desinteligência entre Cordeiro de Farias e Theodomiro Fonseca, prefeito de São Leopoldo. (..) Era uma necessidade que ele continuasse, é a única forma organizada que tem o novo regime aqui, afora São Borja. E o Cordeiro via bem isto. Aliás, o Cordeiro não teve culpa alguma”7. Como era politicamente importante manter o prefeito, ele acabou ficando no cargo. Esse episódio mostra que o Estado Novo não possuía no Rio Grande do Sul lideranças políticas suficientes para colocar à frente das administrações municipais e até do estado, necessitando angariar apoios de integrantes de partidos opositores a Vargas antes de 1937. Não havia getulistas suficientes para administrar a grande máquina pública criada ao longo do tempo pela experiência dos republicanos rio-grandenses. Assim, era preciso confiar em getulistas “de última hora” e conter as oposições mais recalcitrantes. Por outro lado, uma das preocupações era com a imagem da ditadura frente à sociedade. As questões internas eram resolvidas com os conchavos, com benevolência, enfim, os problemas deviam sempre ser solucionados através de reajustamentos. Mas e a população? Como fazê-la aceitar e acreditar que o Estado Novo veio para reparar o mal que os governos liberais até então existentes fizeram e ao mesmo tempo combater os ideais comunistas, tão propícios a resgatar um movimento pela construção de uma “grande nação”? Mesmo que o decreto de extinção dos partidos políticos já tivesse sido assinado, a idéia da criação de um partido único não fora descartada por Vargas e seus aliados. Antes do golpe, em 29 de maio de 1937, no Rio de Janeiro, era distribuído pelo autodenominado Partido Nacional Getulista, um “Manifesto ao Povo”. O
6 Fundação Getúlio Vargas/CPDOC (FGV/CPDOC), Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.03.31. 7 FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.04.20/2.

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Jornal do Estado, 4 de dezembro de 1937. p. 1.

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documento, dirigido ao povo brasileiro, conclamava o reconhecimento dos “inestimáveis benefícios” prestados pelo governo Vargas. O manifesto pedia a reforma do estatuto constitucional para a reeleição de Getúlio ou a prorrogação do seu mandato8. Em dezembro de 1937, o Correio do Povo especulava que “discretamente, nos altos comandos partidários” do Rio Grande do Sul, estava sendo realizado “um delicado trabalho de sondagem junto aos próceres de maior autoridade”. Para o periódico, a intenção era saber como estes encaravam a possibilidade de se fundar no estado, “um partido único, destinado a prestigiar, de acordo com um programa adaptado à atualidade, o novo regime instituído a 10 de novembro”. A matéria dizia que o partido único seria apenas “uma secção do partido nacional” a ser criado, e que “arregimentaria, por sob sua bandeira”, no estado, as forças solidárias com o novo regime9. Em junho de 1938, a possibilidade de um partido único já era mais concreta. Miguel Tostes remeteu para Benjamin Vargas, outro irmão de Getúlio, um estudo que estava sendo realizado no Rio de Janeiro. Dizia que aquilo que fosse decidido, ele se comprometeria “fazer adotar no Rio Grande”. Pedia que Benjamin fizesse com que o “chefe” lesse o documento com atenção. O estudo em questão consistia na criação de uma organização que poderia chamar-se “'União Nacionalista Brasileira” ou “União Nacionalista do Brasil'”. Quanto à organização, Tostes entendia que era “mais acertado começar pelos estados”, onde cada um estabeleceria a sua “Federação”, sem que o centro se comprometesse “ostensivamente”, bastando que, de forma “reservada”, fossem expedidas “as suas instruções aos interventores”. Informava também, que não se deveria fazer referências ao regime, “pois qualquer declaração nesse sentido, importaria em assumir uma atitude política”. Entretanto, como o “veneno vem na cauda, a alma da União Nacionalista” estaria no último item das finalidades. O projeto da criação da União buscava dar eficiência à sua organização, a qual só poderia ser possível “com organizações do tipo militar”, entendidas através de unidades maiores, formadas pela reunião ou agrupamento de unidades menores10.

O estudo destacava dois pontos que deveriam constar do programa da organização: o primeiro referiase ao “engrandecimento do país”; o segundo a defesa da Nação, contra as ideologias políticas estranhas; contra os abusos do “capitalismo internacional” e contra as pretensões territoriais ou tutelares dos países estrangeiros. Fazia uma ressalva quanto “ao movimento de idéias referentes ao tema internacional”, que deveria ser feito com “a necessária prudência”. Outro ponto destacado no projeto era a necessidade de “distrair a atenção popular das questões políticas internas para os problemas que a situação internacional” oferecia para a reflexão do “patriotismo”. Das finalidades da União Nacionalista constava ser esta uma “agremiação de fins patrióticos e culturais”, sendo que seu programa fundamental consistia em, entre outros: (...) incentivar o amor à Pátria e a formação da consciência nacional; (...) cooperar ativamente com os Poderes Públicos na manutenção da ordem, da paz e da disciplina, e com eles colaborar na obra de restauração nacional”11. O Comitê de Propaganda do Estado Novo e os Intelectuais Mas, enquanto o partido único não saía do papel, era preciso a busca dessa aceitação no estado. Assim, foi instalado o Comitê de Propaganda do Estado Novo, em 19 de abril de 1938. Esse comitê tinha como objetivo fazer propaganda do texto da Constituição de 10 de novembro e contava com o apoio de intelectuais de destaque no estado. A Rádio Difusora Porto-Alegrense foi escolhida para irradiar os discursos propagandísticos. Dentre os intelectuais, destacaram-se Moysés Vellinho, Dante de Laytano, Telmo Vergara, Érico Veríssimo e Limeira Tejo, além de advogados, secretários de estado etc. Como presidente do comitê, foi escolhido o coronel Viriato Vargas. A respeito disso, Viriato se justificava a Getúlio Vargas:
“Organizei aqui a mocidade intelectual, para fazer conferências todos os sábados às 10 horas pela Difusora, divulgando as virtudes da Constituição de 10 de novembro. Inaugurei ontem essas conferências com a que foi publicada e aí te mando, para me dizeres se estou certo (...). No próximo sábado vai falar o Secretário do Interior, e ficarei com o direito de convidar outros secretários que não poderão negar-se sem ficarem mal colocados. Dos municípios estou recebendo telegramas de adesão. Fazia-se necessário esse movimento, pois aqui vai ficando cada vez mais frio e confuso”12.

8 Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), Fundo DOPS, Série Panfletos, Pan 667. O Manifesto era assinado por: Pela Comissão Executiva: Presidente – João C. Raja Gabaglia, Médico e Professor.1º.Vice-presidente – José Pereira da Silva, advogado. 2º. Vice-presidente Reynaldo Bastos, professor. Secretário – Paulo Ferreira, contabilista. Pelo Conselho Deliberativo e Fiscal Presidente – Hélio de Brito, editor.Vice-presidente – Bartholomeu Fernandes, comerciante. Secretário – Alencar de Almeida Meireles, operário. Pelo Departamento Jurídico: Dr. A. Nunes Pereira. Na Sede Provisória do Partido Nacional Getulista à Rua Alcindo Guanabara, n°. 17, 6º. Andar, sala nº. 610, encontram-se as listas de Adesões para os que desejam filiar-se ao mesmo. Rio, 29de maio de1937. 9 Políticas e Políticos, Correio do Povo, 3 de dezembro de 1937. p. 5. Os exemplares do jornal se encontram no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre – RS. 10 ANRJ/FGCPR, Rio Grande do Sul, Lata 512. Carta de Miguel Tostes para Benjamim Vargas, em 21de junho de1938.

O posicionamento dos intelectuais era indispensável para dar respaldo ao Estado Novo. Nem todos concordavam totalmente com o apoio que prestavam publicamente, mas estavam envolvidos e não
11 ANRJ/FGCPR, Rio Grande do Sul, Lata 512. Esboço do programa da União Nacionalista do Brasil ou União Nacionalista Brasileira. 12 FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.04.20.02.

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comprometer-se seria um risco para suas imagens e profissões. A este respeito Angel Rama se manifesta da seguinte forma: “não somente servem a um poder, como também são donos de um poder”. Este inclusive pode embriagá-los até fazê-los perder de vista que sua eficiência, sua realização só se alcança se o centro do poder real da sociedade o apóia, lhe dá força e o impõe13. Érico Veríssimo representou um caso típico, uma vez que suas posições, até então, sempre haviam sido liberais. Mesmo assim, prestou seu apoio à ditadura nos primeiros momentos. Seu discurso, em um dos programas de rádio do Comitê de Defesa do Estado Novo, foi ilustrativo nesse sentido: “Quem fala a vocês neste momento já foi, e creio que ainda é, apontado como comunista por causa de um punhado de idéias que hoje estão sendo postas em prática pelo governo da República. Sempre achei - e muito escrevi nesse sentido - (...) Senti sempre a necessidade da nacionalização do ensino: aí está. Permitam-me ainda uma confissão. No dia 10 de novembro de 1937, recebi a proclamação do Estado Novo com sérias desconfianças e num grande abatimento. Os horizontes ainda estavam escuros. Tive a impressão de que era a ditadura integralista que se anunciava. Pensei: assim não se pode mais escrever no Brasil. (...) Virão as perseguições e a violência, a intolerância e o ódio.(...) Mas os fatos, meus amigos - tomem bem nota: os fatos se encarregaram de provar que felizmente eu me enganava. Nem esquerda nem direita, mas sim o centro, que é o equilíbrio e o bom senso. Nenhum homem de boa vontade pode negar o seu apoio ao Estado Novo”14. A evidência que se aí coloca é de que Érico Veríssimo se pôs numa posição defensiva, desculpandose pelas posições anteriores, e alguns anos mais tarde “exilou-se” nos Estados Unidos. A importância dos intelectuais para a realização desta mobilização, posta em prática pelo Comitê de Defesa era colocada abertamente, tanto que em editorial do Jornal do Estado se dizia que era necessário o “esforço dos intelectuais, dos homens de letra, daqueles que podem escrever e falar ao povo brasileiro com elegância, agilidade (...) ainda constitui um dos meios mais eficazes para a realização dessa cruzada necessária”15. Segundo o raciocínio apresentado no editorial, os intelectuais tinham uma missão: a de servir uma “boa causa”, a causa da pátria, e para colocá-la em prática deveriam “esclarecer” a população menos informada e não intelectualizada a respeito da doutrina e das realizações do Estado Novo. Paralelamente ao Comitê, organizaram-se nas cidades do interior, núcleos de propaganda como o
RAMA, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 48. Jornal do Estado, 25 de Abril de l938. p. 4. 15 Jornal do Estado, 5 de maio de 1938. p. 1.
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Centro Cívico de Propaganda da Carta de 10 de Novembro, cujos presidente e patrono eram, respectivamente, o interventor federal Cordeiro de Farias e Walter Jobim, secretário de obras. Organizou-se também o Movimento Intelectual pró-Estado Novo, em Porto Alegre, com pretensão de formar núcleos em todo o interior do estado. A seguinte passagem mostra as finalidades do movimento: “Essa nova entidade cultural de caráter cívico-literário representará efetivamente o pensamento e a ação dos intelectuais rio-grandenses e desenvolverá, por meio de publicações na imprensa, conferências, sessões cívicas e excursões pelo interior do estado, uma enérgica e decidida campanha anti-extremista”16. Tais entidades, no entanto, tiveram duração efêmera, à medida que o Estado Novo se fechava e a censura aumentava. Mesmo que concordassem com a ditadura, era melhor, mantê-las fechadas, sem correr riscos de que posteriormente se posicionassem contra o governo. Ainda assim, foram formas eficazes de convencimento, auxiliando o governo estado-novista em sua consolidação no Rio Grande do Sul. Posteriormente, em outro momento de questionamento da ditadura, em 1941, fundaram-se no estado, seções do Instituto Nacional de Ciência Política, organizadas em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, tendo Pedro Vergara como responsável pela fundação dos núcleos. O escritor demonstrava preocupação com a situação de popularidade do Estado Novo na seguinte passagem: “Senti, sem dúvida, que o presidente é amado no Rio grande, mas não senti a mesma coisa em relação ao regime que ele instituiu e que tem o seu maior título de glória. Por tudo isso, apresso-me, como amigo que está disposto a todos os sacrifícios para servir ao Presidente, em afirmar, é mister agir com urgência, no Rio Grande, para criar uma corrente de opinião que ainda que não existe, a favor do novo regime”17. A consolidação do apoio entre os trabalhadores Os estudos recentes de história social do trabalho no Brasil muito têm contribuído para sabermos mais sobre como as relações entre os sindicatos e o Estado não foram das mais pacíficas, como se poderia supor, e como supõe parte da historiografia sobre o período estado-novista. Segundo parte desta, o Estado Novo no Brasil realizou a completa subordinação dos sindicatos de classes, aos mecanismos de controle do Estado. Análises como de Sérgio Amad Costa, restringem o “Estado como agente do controle social” e propõem a norma jurídica o seu “instrumento mais eficaz” do seu exercício18 . No entender de Costa, se as formas de atuação
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Jornal do Estado, 21 de maio de 1938. p. 1. FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.41.07.00 XXXV-89.

COSTA, Sérgio Amad. O Estado e controle sindical no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz, 1986. p. 1.

geralmente reservada. FREITAS. elaboraram a “fabricação” de “subversivos” e “revolucionários”. Vargas e seus aliados. ainda que restrita a São Paulo”. O relatório dizia que “livre é a associação profissional. Sem o reconhecimento oficial de seus órgãos de representação sindical. Assim. The Brazilian Corporative State and Working-Class Politics. Moreira de Azevedo. 149. Niemeyer. Oliveira Vianna. Rio de Janeiro: Mundo Livre. ela se constitui quando quer e como quer. na possibilidade da presidência das mesas eleitorais ser confiada ao delegados do Ministério do Trabalho. sendo este um dever social. 1999. como explica Adriano Duarte. 1939. Fora disso./d. na exigência da aprovação da eleição. p. Helvécio Xavier Lopes. Berkeley/Los Angeles/London: University of Califórnia Press.. Bragança Paulista: Ed. O caminho para justificar o Estado Novo foi construído a partir de um vigoroso discurso da pátria. O discurso estado-novista assentou-se no trabalho. nela entrando quem quer e dela sai quando quer”.História & Luta de Classes. surgiam brechas para o questionamento. Através deste conteúdo. a respeito da tentativa de controle do Ministério do Trabalho. ou com a prisão dos mesmos. p. ver tb. Edgar. Rio de Janeiro. Faziam parte da Comissão que elaborou o Relatório. Para isso. p. na sua importante obra Sindicato e Estado. assim. restava ainda a atuação partidária e sindical clandestina ou a ação não-institucional cotidiana. Geraldo Faria Batista. que antes do Estado Novo foram palco privilegiado de suas táticas e lutas operárias. o sindicato. O Relatório é datado de 23 de novembro de 1938. Oscar Saraiva. Historiografia brasileira em perspectiva. Marcos Cezar de (Org. Julho 2009 (25-31) . Florianópolis: Ed. desejosos de continuar no poder. O controle se daria através do registro obrigatório das associações profissionais. na ótica dos que construíram esse discurso. Uma vez que a obrigação da sindicalização se impunha. da UFSC. 53. 22 Cf. pela ocupação. a principal base social de apoio político ao regime. Cláudio Batalha considera a obra de Azis Simão com o “único dos trabalhos (. Certas categorias foram mais combativas. constituía-se no espaço de luta possível. nem todo o sindicalizado poderia ser considerado “pelego”. mas não posso concordar com a análise de Costa. 1981. No Relatório da Comissão elaboradora do anteprojeto de lei. onde o centro foi a retórica do fim da luta de classes. referindose aos trotskistas. 1998. o trabalho apresentou-se como questão central na configuração do regime. Tudo isto representando um “sistema de meios” que permitiria ao Ministério do Trabalho “realizar com plena eficiência a revelação e a seleção dos elementos dos sindicatos e a formação de uma verdadeira elite profissional”. Não quero dizer com isso que os trabalhadores. . 20 Boletim do MTIC. em referência ao período anterior ao golpe de 1937. 2. Como explica Edgar Rodrigues. com profissão regulamentada e carteira assinada. Indústri e Comércio (MTIC). Sindicato e Estado. a partir de 1937. Setembro. principalmente. DUARTE. por ele “doado”. Deodato Maia. Novos Rumos. Em contraponto. nos sindicatos oficiais a ação era restrita ao permitido pela legislação sindical. Mesmo com a expulsão dos comunistas e outras correntes dos sindicatos. principalmente entre 1937-1945. a exigência de tudo aquilo que o Estado fazia questão de incutir como “doação”: a aplicação das leis trabalhistas. a este caberia impor as condições que entendesse “mais úteis ou necessárias para o cabal desempenho da função”20. Arthur Flores Filho. In. 1977. a lei prometia devolver aos sindicatos “a consciência dos seus novos deveres” profissionais diante da sua comunidade e do Estado. Aos trabalhadores. concatenado com a construção de uma nova moral cujo fim foi a defesa da pátria. Adriano L. s/p. Azis. atribuindo-lhes um estatuto natural que o vinculou ao corporativismo22. no Estado Novo. a resignação para a construção do “progresso da nação”. Kenneth Paul. mesmo que atrelado. Luiz Augusto de Rego Monteiro. O que se fez foi a despolitização das relações de trabalho. O universo do trabalho. outras mais subordinadas.) em que a análise histórica está fundamentada numa pesquisa empírica de fôlego. na ampliação das causas de inelegibilidade. restava. ERICKSON. 103-116. ou se era “vagabundo”. na inscrição prévia dos 19 Ver SIMÃO. p 393-4. a noção de cidadania passou a ser definida pelo trabalho. Dentro dos limites legais. s. A historiografia da classe operária: trajetória e tendências. Nº 7. anarquistas e comunistas e como estes se posicionaram diante do “controle estatal” nas entidades sindicais. se fizeram sentir desde o início do Estado Novo. da ordem e do trabalho. 215. greves e. sendo o anticomunismo o quarto pilar dessa construção discursiva. História do movimento operário e das lutas sociais no Brasil (1922-1946). não comportou meios termos: ou se era trabalhador. denúncias. para que se tornassem “entidades realmente representativas da profissão”.). apresenta um quadro da “posição oferecida pelas antigas vanguardas do movimento operário”19. São Paulo: Ática. que passaria a dispor sobre os sindicatos profissionais. os trabalhadores ficaram sem meios legais de reivindicar e de fazer valer os seus direitos. tiveram ampla opção institucional de ação fora do sindicato oficial. sem dúvida. São Paulo: Contexto. Em consonância com esta estratégia. Sobre uma discussão em torno do corporativismo de Estado. durante aquele período. candidatos. mesmo para os que nunca tivessem ouvido falar de tais idéias. da USF. estava explícito o caráter anticomunista e controlador da lei que visava “preservar a vida interna dos sindicatos da contaminação dos maus elementos sociais”. para a “prática de atos de autoridade pública”. era necessário “um controle mais estreito do Estado” na constituição dos sindicatos. Reconheço a estrutura de controle dos trabalhadores montada pelo Estado. razão precípua para fortalecer o apoio ao Estado Novo entre os trabalhadores. 15-26. 1937-1945. Ano V. o Estado Novo procurou de todas as formas fazer propaganda dos avanços nos direitos sociais dos trabalhadores. das suas “intervenções estranhas e corruptoras” e das infiltrações de ideologias perturbadoras”. Cf. Cidadania & exclusão: Brasil. Mas se esta associação vier ao Estado pedir que lhe outorgue competência. W. 21 RODRIGUES. buscando. Essas divergências no seio do próprio movimento sindical e dos trabalhadores. porque ela absolutiza este controle. a fim de explicar o continuísmo tão cobiçado21..29 dos trabalhadores fora do aparato estatal eram quase inexistentes. Azis Simão. ed. n. p.

Benito Bisso. Vargas: o capitalismo em construção. aumento salarial. p. na definição de identidades coletivas de setores sociais em processo de incorporação. Sobretudo. 28. n. 1991-2. In. resultado da ação exclusiva de protagonistas e elites dominantes”27. 29 Essa visão consolidada no Estado Novo era oriunda de certa interpretação do positivismo e da “política social dos governantes estaduais” do Rio Grande do Sul pré-1930. pois.Revista de História. A política social do Estado capitalista. p. São Paulo: ANPUH/Marco Zero. 1999. foi possível a modernização do Estado. não foi absoluta. 1999.. intelectuais e políticos inspirados no corporativismo. 40. Rio de Janeiro: Ed. 1991-92. o refazer historiográfico só é possível quando se procura ir além das aparências empíricas iniciais. o trabalho exerce um peso fundamental na formação da identidade de classe”33. sem criar essa identidade. 5. “o discurso ideológico parecia querer provar o improvável: a neutralidade da intervenção governamental”. p. “para algumas categorias de trabalhadores. In. A opinião construída por Eli Diniz. São Paulo: Brasiliense. 27 Ver AZEVEDO. Vicente de Paula. op. 23 Ver DINIZ. In. 183. 7. São Paulo. p. apenas transformando-os em vítimas passivas. Eder. de. Política & cultura. técnicos. 26 SADER. a partir do querer desse próprio Estado e daqueles que exercem a sua hegemonia. 22. A hegemonia estado-novista sobre os trabalhadores e os cidadãos. falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). Ver SCHMIDT. os quais “seriam determinados pelas próprias características da formação histórica da sociedade brasileira. 24. n. In. 1989. 32. p. Quando novos personagens entraram em cena: experiências. no caso do Estado Novo. Cidadania. “se o mapa do movimento sindical brasileiro ia sendo redesenhado com base em uma arquitetura projetada por bacharéis.).. Antonio Luigi. desde Oliveira Vianna.. do seu Estado e sua industrialização” resultando na cristalização de “uma imagem da classe incapaz de ação autônoma”26. As funções da previdência e da assistência sociais. 27. Identidade da classe operária no Brasil (18801920): atipicidade ou legitimidade?.ao sistema político”30. Não se trata aqui de ignorar que a política social. Muito menos se trata de desconsiderar que. Exemplo disso foram as afirmações de Vargas. Adriano.) expressando uma incapacidade de universalização de seus objetivos”. de que o período de 1937 a 1945 consolidou um modelo que atribuiu ao Estado papel primordial não só nas decisões relativas às principais políticas públicas. a dispersão e um comportamento atomizado. um postulado fundamental: o da segurança para o trabalho e as realizações de interesse geral”. 31 Ver CAMARGO. da sociedade e da economia brasileira”31.. pois mesmo ameaçados pela repressão política.) o da incorporação do proletariado à sociedade moderna”. ao conceder as leis sociais eliminava a predominância de umas classes sobre outras.. o que resta é apenas a “incorporação dos atores emergentes . p. 431. quando se analisa um período como o Estado Novo. Porto Alegre: Palmarinca. incluindo o próprio Getúlio Vargas. FONSECA. da UFOP. 24 DUARTE. 59.. dos conflitos entre patrões e empregados”. fazendo com que se chegue a conclusões simplistas que afirmam que “apesar da repressão. Aspásia. resistiram às imposições verticais e hierarquizadas que a ideologia corporativista procurou lhes impor. 2004.. o projeto modelar e normativo do Estado Novo e a realidade experimentada pelos trabalhadores. 1995. assim. Em análises desta natureza não há espaço para entender como os trabalhadores criaram sua identidade de classe ou. despovoado e desprotegido”25.30 . Repensando. Dulce (Org.. Linhas de montagem: industrialismo nacionaldesenvolvimentista e a sindicalização dos trabalhadores (1945-1978). em 31 de dezembro de 1937 e 1º de maio de 1938. Engenharia institucional e políticas públicas: dos conselhos técnicos às câmaras setoriais. p. 1988. cit. os trabalhadores não ficaram quietos24. 184. 264 e 294. p. através do apoio de algumas reivindicações do movimento operário e da harmonia entre trabalhadores e empresários. DINIZ. “o governo. Paz e Terra. p. que procurou articular as pressões e os movimentos sociais com as formas pretendidas pela valorização do capital. aponta para uma representação dos trabalhadores caracterizada pela “heterogeneidade interna. Este tipo de interpretação sociológica. Rio de Janeiro. a partir da manutenção do “postulado comteano fundamental que persistiu e até mesmo cresceu (. 1995. Pois. 25 Cf. 30 Cf. estes não estavam se apossando de um território sem história. Em busca da terra da promissão: a história de dois líderes socialistas. Luiz Vítor T. como o faz também José Nilo Tavares.). Ouro Preto: Ed.. como certa análise pode dar a entender. torna-se insuficiente para entender como se constrói uma identidade de classe dos trabalhadores. Eli. PANDOLFI. simplesmente.“Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul Desta forma. como explica Antonio Luigi Negro. In.) e a mediação do Estado. idem. 33 BATALHA. bem como na representação dos interesses patronais e sindicais28. Pedro Dutra Cézar. PANDOLFI. respectivamente: “a multiplicidade de setores em que age o Estado não exclui. p. NEGRO. 2004. Cortez. Revista Brasileira de História. assim. cit. visando à manutenção da ordem social32. Eli. LPH . 120-1. da FGV. como também na administração do conflito redistributivo. etc. Dulce (Org. Dulce (Org. Cláudio. Do federalismo oligárquico ao federalismo democrático. Isso fez com que a passividade não fosse a única marca desses anos. v.. de modo que se abole a necessidade de lutas e discórdias.). São Paulo: Boitempo. dentro da velha tradição positivista29. 23/24. antes afirma. 28 . PANDOLFI. a qual “pautou-se por dois princípios complementares: o apoio do executivo a certas reivindicações do movimento operário (redução da jornada de trabalho. política ou historiográfica torna homogêneas as ações sociais a partir do Estado. até porque o movimento da sociedade não pode ser visto “apenas como a 'urdidura do poder'. Esta. onde justamente o discurso oriundo do poder de Estado se dá no sentido de criar uma “identidade coletiva”. em parte. No entanto. 32 FALEIROS. ed. situações de miséria e de fome e outras condições de vida dos trabalhadores desarticularam. Cultura popular e imaginário popular no Segundo Governo Vargas (1951-54). Mesmo que se reconheça que o Estado Novo buscou fundamentalmente destruir a resistência operária. Repensando o Estado Novo. ao remeter-nos aos anos 1930. foi uma tentativa de gestão estatal da força de trabalho.trabalhadores e empresários industriais . p. op. senão. Capital e trabalho unem-se na cooperação e no congraçamento”23. (.

o gaúcho deveria estar apto a instaurar a disciplina social e a ordem econômica para a reconstrução do país. cumprindo o seu dever para o interesse geral da nação. sendo peça da engrenagem nacional. Angela de Castro Gomes. Dissertação (Mestrado). 1996. o Estado Novo foi se consolidando no estado. Nessa ótica. Julho 2009 (25-31) . p. Contraditoriamente. afirma que a formulação de uma identidade nacional pelo Estado exigiu que se pensasse o país historicamente e conduzisse à proposição de uma “cultura histórica” como elemento fundamental de comunicação e coesão da sociedade34. . a partir do estudo dos historiadores do período estado-novista. da FGV. Nº 7. 35 KONRAD. a favor dos trabalhadores no discurso: essencialmente. a do poder. Na outra. Se intelectuais e trabalhadores rio-grandenses se considerassem. Glaucia Vieira Ramos. p. 34 GOMES. Porto Alegre: PUC-RS. o discurso estadonovista consolidava o seu apoio. Ângela de Castro. na prática. No caso do Rio Grande do Sul. um regionalismo integrado ao nacional não apresentava maiores riscos35. 208. Nessa ponta. poderiam sentir-se seguros. o qual foi a consolidação de uma discursividade que buscava afirmar a construção da identidade nacional como única identidade possível. 1994. como nacionais. História e historiadores. A política cultural do Estado Novo no Rio Grande do Sul: imposição e resistência. antes de tudo.História & Luta de Classes. contra os mesmos. 130.31 Também não se trata de negligenciar um dos objetivos centrais dos que dirigiram o Estado Novo no Brasil. Rio de Janeiro: Ed.

Sin duda alguna.tra. 1 . Aunque siempre existieron estratos de obreros no calificados. N.P. Marx realizadas propiamente por los colaboradores de estas revistas y por consiguiente.. las contradicciones entre tecnología y poder en el proceso de trabajo. Trabajo y Capital Monopolista.tra. cierto despegue industrial y por lo tanto un aumento del sector terciario. 1997. Mediante la postura de impedir cualquier actitud favorable al capitalismo. A. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. y la difusión del consumo en masa.TRA. sino en el análisis relacional que podemos realizar mediante la detección de un factor común a ambas publicaciones.tra. A. M.p. surgió una nueva generación de jóvenes inmigrantes que serían protagonistas de importantes movimientos de protesta2. Paris.. tuvieron la finalidad de encontrar un sujeto potencialmente subversivo: el “obrero masa”. Tomando elementos de la mejor tradición marxista. y no es una coincidencia nace de pura conciencia de simples trabajadores que dedican sus mejores horas de vida luchando. La fundamentación de este objetivo no está dado en la búsqueda de una relación directa entre los teóricos del “obrerismo” y los “clasistas” del Si. GRAU. Les métamorphoses de la societé salariale. Paris. y MORONI. procesamiento y divulgación de ideas. es necesario señalar que cuando nos referimos a la dinámica de recepción. del cual era necesario hacer despertar su conciencia. Resistencia e Integración. México D. y MARTÍ. Facultad de Filosofía y Humanidades. ésta se encuentra vinculada a una dimensión muy compleja. Milan. p. Argentina. estos factores deberíamos encuadrarlos dentro del proceso de desarrollo. Universidad Nacional de Córdoba y Centro de Estudios Avanzados-Unidad Ejecutora del CONICET. como Quaderni Rossi-Classe Operaia enarbolaron sus críticas a las visiones de época que centraban al progreso como manifestación del desarrollo de las fuerzas productivas. como Carlos Mignon* Así nace el SI.una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia La lectura de Marx en clave clasista: el Si.32 . 1968-1977. 1990. que encuadra diversas experiencias –en este caso de la clase obrera. El intento de este trabajo es relacionar las similitudes y diferencias entre el “clasismo” de los trabajadores organizados en el Sindicato de Perkins en Córdoba y el “obrerismo” italiano a través de sus respectivos órganos de prensa: el Si. H.tra. L'orda d'oro. P. La producción se fragmentó y. y BRENDER. Giangacomo Feltrinelli Editore. y el reconocimiento de las grietas del sistema. Buenos Aires. Córdoba.. BRAVERMAN. las que se refieren al conflicto y organización tanto en el plano sindical. poco se conoce de un gremio tan importante como el Sindicato por Empresa de Motores Livianos Diesel Perkins. Desde nuestro punto de vista. las industrias empezaron a requerir cantidades crecientes de mano de obra barata para impulsar el desarrollo de los sectores automotriz y petroquímico. estos elementos modificaron profundamente la estructura social de ambos países1.p. como los que se refieren a los ámbitos de sociabilidad en la educación y los ateneos culturales.La lectura de Marx en clave clasista: el Si. N. tanto Si. 1946-1876. los análisis de la relación entre capital y fuerza de trabajo. BALLESTRINI. con la difusión de la cadena de montaje.. A 1 (Si... CARRERA. 1973.que van desde sus condiciones materiales de existencia.. 1973-1975 .p. Editorial Nuestro Tiempo.. las lecturas de las obras de K. I. año I. Nous Voulons Tout. esto es. Agustín Tosco. 5) capitalismo. ideológico y político. crisis y etapas de acumulación del *Licenciado y Doctorando en Historia. Calmann-Lévy.. N. 2006.p. Editorial Madres de Plaza de Mayo. Sudamericana.F. la trayectoria de sus obreros y la contribución de éstos al desarrollo de la radicalización en el ambiente obrero cordobés. Aunque no es objetivo de este trabajo -dada la brevedad del mismo-. unque numerosos han sido los estudios que analizaron el “clasismo” cordobés de finales de los años sesenta y principios de los setenta. porque piensan que bregando por nuestra clase explotada florecerán sus anhelos ver la Patria Liberada. 1975. la influencia de éste reflejada en sus editoriales y artículos. Ciudad Autónoma de Buenos Aires. M. caracterizado por el éxodo del campo..p.tra.p. Véase a modo general: AGLIETTA. Este desarrollo podemos enmarcarlo brevemente dentro de un contexto dado tanto en Argentina como en Italia –que comienza en la posguerra y se cristaliza en las décadas del '60 y '70-. I.. 2 BALLESTRINI. Éditions Seuil. La clase revolucionaria. 1973. 1973-1975 órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. 1986. El peronismo y la clase trabajadora argentina..tra. JAMES. D. y Quaderni Rossi-Classe Operaia respectivamente.

G. Montedison. En Argentina. y SCAVINO.”9 6 CURUCHET. después del cierre de Quaderni Rossi.” 4 Esta corriente se originó en el entorno de la revista Quaderni Rossi (Cuaderno Rojo) que se constituyó en septiembre de 1961. sino que fue retroalimentada en su desarrollo con la participación de organizaciones políticas y comités obreros. en Italia se comienza a percibir una crisis del movimiento obrero y de sus organizaciones (partidos y sindicatos). a finales de los años '60 asistimos al surgimiento. y por ende la cuestión del poder. en 1962. es el lugar atribuido a la clase obrera en cuanto a la dinámica y las modificaciones del capitalismo. En Avanguardia Operaia militaban 18. En la fábrica se producían distintos tipos de motores. traducido a nuestra lengua castellana. En Córdoba se había conformado desde 1969 una fuerza social en la que se alineaban las fracciones obreras organizadas en los gremios independientes. etc. Romano Alquati.”. Luciano della Mea. Dario Lanzaro.. proponiendo un programa anti-burocrático y combativo bajo los postulados de: “(…)democracia sindical. Uno de los principios fundamentales del “clasismo” fue la reivindicación de la democracia sindical desde las bases obreras: “El Si. la Unione Italiana dei Lavoro (UIL). 3 Es en idioma italiano lo que en este trabajo denominaremos “obrerismo”. de una corriente que cuestionó desde las bases a toda la estructura gremial reconocida por el Estado conocida generalmente como “clasismo”. La FIAT aux mains des ouvriers. Lotta Continua contaba con 30. 1973. Quadrige. radio. en LABICA. Para un análisis más profundo véase: GIACHETTI. Nº 7. Saint-Gobain.. D.C (Sindicato de Trabajadores de Cóncord) y el Si. que representaban a los trabajadores de una misma actividad sin importar a que empresa pertenecen. Massimo Cacciari. 1. como órgano de difusión del Sindicato. La unidad de la redacción se rompe después de los enfrentamientos de la piazza Statuto de Turín. ella está continuamente en recomposición política. las corrientes y organizaciones político-sindicales clasistas y los sindicatos combativos peronistas.. Los principales fundadores de esta corriente fueron: Rainero Panzieri. Éd. 2005. Adriano Sofri. Estas organizaciones participaron en las luchas desarrolladas dentro de las grandes concentraciones industriales como: FIAT. L'automne chaud de 1969 à Turin. el “obrerismo” se constituyó en una alternativa crítica frente a la estrategia reformista del Partido Comunista Italiano. noviembre de 1971. En el contexto desarrollado de manera muy breve más arriba. 4 MATHERON.tra. Potere Operaio. Alfa Romeo.p.tra. 1973.M fueron una genuina expresión de las bases que rompió con los moldes del sindicalismo tradicional y burocrático. 15-16. etc. Julho 2009 (32-37) . nº 17. Siemens. Córdoba.C y el Si. contra la burocracia sindical. Dictionnaire critique du marxisme. X Aniversario de Perkins. p. Mario Tronti. Piaggio. 5 En la etapa más alta del desarrollo de estas organizaciones. casi en su totalidad. Toni Negri.tra. solidaridad de clase. en Revista Nuevo Hombre. que Panzieri valora negativamente a diferencia de los demás redactores. diferenciándose en su estructura organizativa de los sindicatos “por rama industrial”. Luciano Ferrari-Bravo. Lancia. 49-56.33 2 A finales de los años'50. organizaciones armadas marxistas y peronistas. Avanguardia Operaia y Comita Unitario di Base (CUB)5. Vidrio y Calzado entre otros) de la cual surgieron direcciones clasistas y combativas que continuaron luchando por un lugar dentro del sindicato.tra. p. Paris. de sus sindicatos más combativos. Una minoría proveniente esencialmente de estas organizaciones.”8 En ese mismo momento comenzó la historia de Si.. Sergio Bologna. sino a que todos los medios de comunicación masiva. Esta fuerza se proponía la superación del orden social capitalista imperante.tra. 8 “La aparición del Si. fundaron en 1964 Classe Operaia. Estos últimos. y eso no se debe a una casualidad. En su presentación. son más escasos. . la primera editorial del periódico fijaba su posición y explicitaba el porqué de su aparición: “La necesidad de la aparición de nuestro periódico gremial. televisión y diarios. principalmente en la ciudad de Córdoba. Michellin. el movimiento de base de Perkins (Obreros Combativos de Perkins) logra en abril de 1973 ganar la Comisión Directiva del Sindicato. Vittorio Rieser. bajo la iniciativa de la Sub-comisión de Prensa de la nueva Comisión Directiva. el Partido Socialista y de las organizaciones sindicales más importantes como la Confederazione Generale Italiana dei Lavoro (CGIL). contra la patronal. G. El Si. M. Retomando las categorías de Marx y confrontándolas al capitalismo de posguerra.000 y en Potere Operaio había 10. 1999.000 motores para ese mismo año7. F.000 militantes.”6 Esta prédica antiburocrática ensalzaba al proletariado en término democráticos de organización sindical. (detenido en la cárcel de Villa Devoto).000 militantes. Pirelli. 7 Estos datos han sido extraídos de la revista que editó la empresa con motivo de su décimo aniversario. Estas críticas dieron vida a una nueva corriente política y teórica dentro del movimiento obrero y del marxismo: el “operaismo”3. Año I. 9 Íbid. En Motores Livianos Diesel Perkins trabajaban 900 obreros en el año de 1973. la vimos en que cada día los espacios periodísticos destinados a informar sobre las luchas y comunicados de la clase obrera. Éd. Siguiendo este análisis la clase obrera “no se satisface con reaccionar contra la dominación del capital. Paris. “Operaïsme”. sacando al mercado aproximadamente 22. y tuvo su efecto en las fábricas vecinas a FIAT (Perkins. pp.História & Luta de Classes. Enzo Grillo. están en manos de las clases dominantes. A.tra.tra. comienza a poner en cuestionamiento elementos fundamentales del análisis y estrategias de dichas organizaciones. et BENSUSSAN. véase.M (Sindicato de Trabajadores de Máterfer) se constituyeron como sindicatos “por empresa”. así como fracciones de la pequeña burguesía: estudiantes. y la Confederazione Italiana dei Sindicati Liberi (CISL).p. El “obrerismo” no se mantuvo solamente como corriente teórica. Año I. IKA-Renault. y el capital está constreñido a reaccionar reestructurando continuamente el proceso de trabajo. Entre algunos de ellos estaban: Lotta Continua. Olivetti.p. Si. Uno de los elementos fundamentales del análisis “obrerista”. Les Nuits Rouges.

. con una clara amenaza de represalia.. N º 3 0 .. En lo que respecta a los escritos de la revista de Si. lo que debería constituir la premisa inmediata de su caída: “Un programa de verdadera y propia agresión a la coyuntura es todavía actual. la contribución a la crítica de la economía política y el Manifiesto Comunista.php?op=modload&name=News&fil e=article&sid=347. De hacerse esto. El trabajo productivo. por lo tanto. 14 ALQUATI. 12 TRONTI. M. quiere decir capital condicionado por la fuerza de trabajo. no se constituye en clase social.. desafiando al capital. en Quaderni Rossi. 1965..tra. la fábrica se convertía en el espacio central del conflicto. Por la otra. TRONTI. M. “1905 en Italia”. no solamente las transformaciones del capitalismo determinan la conformación de la clase en sí y para sí. el acento estaba firmemente puesto en la dimensión subjetiva. Hay que invertir el problema.com. es decir. (. sino que esta composición impacta directamente en el capital. encontramos referencias al Manifiesto Comunista. R. 3. El trabajo es medida del valor porque la clase obrera es condición del capital. p. “Lenin en Inglaterra”. Los obreros se presentan entonces. El capital. es <el paso del trabajo real al trabajo que crea valores de cambio. en Marx –aquí lo sencillo es difícil de entender-. con la industria. de organizadores: organizadores de los obreros con el medio de la industria. desde la perspectiva de la lucha. Antes de que lleguen a congelar los convenios ya firmados es preciso denunciar alguno de ellos con acciones de fábrica en puntos estratégicos. que abría una perspectiva teórica novedosa. cambiar su sesgo.).34 . p. los capitalistas (. 13 MODONESI. permitió formular una lectura articulada de los procesos de transformación técnico-productiva en paralelo a la dimensión político-subjetiva.. la dinámica salarial. el objeto no es el mundo económico de las mercancías. es la organización en clase de los obreros industriales la que provoca la constitución en clase de los capitalistas en general. 3. M. esto significaba que el capital aparecía como la variable dependiente.. ante sí. H e r r a m i e n t a . Nº 1. 11 “El descubrimiento de Marx. sobre este terreno. en la subjetividad obrera y en su expresión más inmediata: el conflicto en la fábrica. Nº 3. Trabajo asalariado y capital y Salario. 1973-1975 3 A partir de una alusión a las fuentes de Marx.) Antes de que logren estabilizar el bloqueo de hecho de los salarios. es la producción capitalista la que <organiza>. el desarrollo tecnológico y los modelos de producción fordistas-tayloristas. obligándolo a cambiar13. la mayoría de los párrafos aquí citados hacen referencia a la obra de K.La lectura de Marx en clave clasista: el Si. 1963. a los trabajadores que caminaban siempre un paso adelante.10 de sus primeras intuiciones y del respaldo empírico que ofrecían los acontecimientos.) Valor-trabajo quiere decir. precio y ganancia.. En el caso de que éste sea citado textualmente se utilizarán los símbolos “<” y “>”. M. es preciso recordarles con ejemplos que en la fábrica existe una fuerza mayor.ar/modules. TRONTI. En cuanto a las obras de Marx referenciadas.tra.. el obrerismo sentó las bases para una propuesta de inversión metodológica. 1962. sino la relación política de la producción capitalista. por lo tanto. sino con la clase misma de los capitalistas: en esta última relación es la clase obrera. . Marx. Nº 2. volver a partir del principio: y el principio es la lucha de la clase obrera. como una clase social de productores: productores industriales del capital..herramienta. Procesos objetivos. hay que exasperar. Nº 2. El cambio es probablemente histórico: es el trabajo productivo el que produce capital. en Classe Operaia. liberándose en los márgenes dejados descubiertos por el sistema de dominación. Antes y después de la clase de los capitalistas existe el capital. movido por la fuerza de trabajo. como correlato de la “composición del capital”. 1964. “Teoría y Praxis.”15 Con base en estos postulados. (. Tiene la necesidad de ver primero. “El trabajo como No-Capital”. la revolución pasaba por la radicalización. p. al trabajo burgués en su forma fundamental>.”14 10 Como se puede intuir. 4. Antes de que ataquen los niveles de ocupación es preciso golpear la productividad del trabajo. p. que llevaban a estudiar a las transformaciones del capitalismo en la segunda posguerra –los treinta años gloriosos-. “La fábrica y la Sociedad”. como forma y como relación de poder. en el caso de los párrafos que aquí tomamos de los autores pertenecientes al obrerismo encontramos alusiones a la Sección Cuarta de El Capital.) la existencia de una clase de capitalistas se basa en la productividad del trabajo>. también articulándola. “El capital social”.p. 1964. por sí mismo. Partiendo de que el hallazgo fundamental de la obra de Marx11 es el trabajo en cuanto mercancía que expresa un valor. En esta lógica. M. p.. en Classe Operaia. en este sentido valor medido por el trabajo. 3. como remedio milagroso. el obrerismo ponía el énfasis en los portadores de esta fuerza de trabajo. primero la fuerza de trabajo y después el capital.. no se halla sólo en relación con el capital. 2.. Esta visión se bifurcaba en una lectura de los procesos concretos.. U R L http:/www. Es un error. editorial de Classe Operaia. La experiencia del obrerismo italiano”. un espacio de dominación pero también de construcción del antagonismo: “Recordad: <(. Y para ello era necesario anticipar los movimientos del capital de modo consciente a escala de masa social y. a la fuerza del Estado. se destacaba la centralidad política de la clase obrera. por una parte. en Quaderni Rossi. Nº 1. el desarrollo del capitalismo podía ser leído como un proceso de ajuste permanente dirigido a contener el trabajo.p. (. se desencadenaría la condición de dominio obrero sobre el proceso de producción capitalista. a la clase obrera. quienes habían sido desposeídos de cualquier bien material salvo la venta de dicha fuerza: “Hemos visto también nosotros antes el desarrollo del capitalismo y después las luchas obreras. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins.. de modo organizado como intervención política. La idea obrerista de “composición de clase”.”16 15 16 TRONTI. por lo tanto.). Antes de que vuelvan a comenzar a mirar. y cuyo principal componente es la fuerza de trabajo. En este sentido.”12 Invertir los componentes del análisis. desde la lucha social hacia la lucha política. la clase obrera ya formada: “Y el objeto. como una clase social más que de empresarios.

sentar las bases para derribar y destruir el poder del propio capital.35 En esta secuencia. Como hemos visto en otro artículo. y esa legislación fabril era traducida como “la ley del patrón”: “Es increíble que los grandes avances de la ciencia y la técnica. debemos ver la realidad tal cual es. así como los rendimientos de los trabajadores y los motores que sacaba Perkins al mercado.) eran y son propiedad del patrón. no se usen y ni siquiera se hagan pensando en el hombre que está detrás de la máquina.” 20 19 . y esta interpretación es SU IDEOLOGÍA.) no dejar que se introduzca en la fábrica el interés capitalista significa bloquear el funcionamiento de la sociedad.p era la de concientizar al obrero sobre su condición de explotado. “La estrategia del rechazo”. recae en un análisis sobre la cooperación. Para ello. dominante. Y.. un distanciamiento absoluto del obrero con respecto a los medios de producción que se traducía en el sabotaje. la forma “Sindicalismo Clasista”.p. ni tampoco dice nada de: el lugar que cada persona tiene en la producción de las riquezas. el ausentismo y otras formas de lucha que buscaban dar a la alineación una salida política. en Si. es de dar vuelta la tortilla. 10. y como consecuencia lógica de lo establecido anteriormente. es decir científicamente. Y no es casualidad. Estos conceptos son los que defiende la clase PANZIERI. ESTO ES LA EXPLOTACIÓN DEL HOMBRE POR EL HOMBRE. TERMINAR CON LA EXPLOTACIÓN. el mismo que era sujeto a la alienación de la “legislación fabril”. en Quaderni Rossi. por lo que el dominio obrero es un dominio posible sobre la producción.tra. el aporte fundamental de Marx fue el de haber establecido que la relación social entre trabajador y patrón es una relación de explotación. Íbid.História & Luta de Classes. como trabajadores. la fábrica era considerada como una maquinaria de la cual el obrero era una pieza más. Si. era necesario explicar en qué consistía el capitalismo.”19 Aquí podemos detectar la influencia del pensamiento de K. y por supuesto. los obreristas entendían que el capital está constituido de tal forma que precisa de una sociedad para la producción. 2. Año II. abril de 1974. al igual que el obrerismo.tra.tra. mayo de 1974. se enfatiza nuevamente la figura del obrero y sus aspectos subjetivos en esta relación. de una vez por todas. en una misma rama. y tener en cuenta la situación del trabajador de la planta. Año II. el escritor del mismo luego de hacer una breve reseña sobre las etapas de los modos de producción. porqué la relación entre las clases dominantes y el proletariado es una relación de explotación y por ende.”17 En consecuencia. subrayando las diferencias existentes con el comunismo primitivo. la misión de Si.tra. 6. ¿qué hace el capitalista en todo esto? SE LLEVA LA RIQUEZA QUE HAN PRODUCIDO LOS TRABAJADORES.. “De la producción manual.. En un artículo muy sugestivo que se llamó “El capitalismo. debido a la capacidad del segundo para extraerle plusvalía al primero: “Estas relaciones sociales. 4. Año II.p no pretendieron construir un corpus teórico ni tampoco establecer ninguna innovación metodológica. la condición del “obrero masa” implicaba una ruptura ulterior en relación al trabajo. donde varios obreros trabajaban juntos en una misma especialidad. etc.. buscando impulsar un igualitarismo salarial que rompiera con las jerarquías y las divisiones al interior de la fábrica. Julho 2009 (32-37) . 5. Nº 7. Pero el dominio capitalista es el dominio real sobre la sociedad en general. Además de los artículos en los que se informaba al operario de los logros en las mejoras de las condiciones de trabajo alcanzadas por la nueva Comisión Directiva. Marx.. la revista contenía numerosas editoriales y artículos que se ocupaban de un análisis más profundo. es decir. 1962. Lo fundamental era llegar a. para los redactores de Si.. por ejemplo sobre 24. Entonces de lo que se trata. Dentro del mundo fabril. En el mismo.. En este artículo se pone énfasis nuevamente en la centralidad del obrero en cuanto productor: “Y. en la fábrica de Perkins. las máquinas y artefactos fabulosos que se han inventado. El otro artículo al que se hace referencia es “La explotación patronal en números concretos”. LA IDEOLOGÍA BURGUESA.tra.000 motores producidos al año. como retribución por su fuerza de trabajo en la forma de SALARIO. Sistema injusto que comienza a decaer”. R. Incluso. es decir. intercambiable cuando se rompe o se gasta. sobre un elemento particular de la sociedad. Ahora bien. sobre la necesidad de lograr la unidad de clase y a través de ésta remarcar la importancia de la militancia política. se pasó a otro tipo de producción en común.p. p. aproximadamente 22. p. En esta lógica. Sistema injusto que comienza a decaer”. Dentro de la fábrica. los medios de producción. SOCIALIZAR LOS MEDIOS DE PRODUCCIÓN. herramientas. por lo que “(. el tema clásico de las reivindicaciones salariales era concebido como un terreno de ruptura y no de negociación: los aumentos salariales debían desligarse de los aumentos de productividad para romper la lógica del capital. Nº 2. que es una deformación conciente de la realidad. las reivindicaciones por la igualdad de los salarios.” “El capitalismo. la producción debía ser y es del patrón. p. hace SU CAPITAL. El patrón acumula todo el producto del trabajo. la lucha contra los regímenes de producción. y cede al trabajador sólo una parte.p.tra. la democratización del espacio de trabajo y su enfrentamiento contra la denominada burocracia sindical. setiembre de 1974. se analizó el balance general de la empresa. los redactores de Si. (…) En cambio nosotros. 18 17 En segundo lugar. el local donde funcionaba esa fábrica y los instrumentos (máquinas.p. qué significaba el sindicalismo clasista18. ¿quién saca la producción con sus manos? EL OBRERO. p. enmarcaban una cotidianeidad que para los trabajadores de Perkins se reflejaba en una total alienación. en Si. “Pero este análisis no explica el por qué unos tienen más y otros menos. Por último. porque no nos interesa ocultar nada.000 motores son PURA GANANCIA”20 4 A diferencia de los obreristas. pero también algunas coincidencias con los obreristas italianos. p. la cual mantiene al régimen del capital. artesanal. determinan el modo y la proporción en que cada clase social percibe la riqueza social. En primer lugar.

que en la mayoría de los casos no las detecta.”. éste contiene las herramientas y elementos suficientes como para romper la lógica del capitalismo.tra.p. sirviendo como distracción de cosas que nada tiene que ver con la explotación en el trabajo25. p. como portador de una lógica y de valores distintos a los del capitalista: “Insalubridad”.tra.tra. Pero no un obrero aislado. Año II. y así se ven en la obligación de sacar más producción. como “expresión de la clase obrera en la lucha de CLASE CONTRA CLASE. que a la corta o a la larga afectan la salud del trabajador. Aquí aparece nuevamente la centralidad del trabajador como sujeto. Éste no llegará antes de que la obra de Marx haya dado todos sus frutos históricos. 3. se denunciaba el fomento del juego y el fútbol. la crítica a la fábrica y la organización del trabajo significaba no solamente subvertir la autoridad inmediata de la gerencia. defiende los intereses de la clase trabajadora y lucha contra la injusta explotación capitalista.. 4. 10.” Por ende. 22 21 . se lo lleva el capitalista..p. sea llevado a cabo por el sindicato. en que trabajamos.. los ritmos de producción. se componía de dos partes. Yo agregaría que debería confrontarse además con el tiempo de los actores que nosotros estudiamos. El Capital debe juzgarse de acuerdo al capitalismo actual.tra. se ha transformado en mediador entre los obreros y los patrones. en Si. Mediante el análisis de la gestión del trabajo. p. como organización gremial. Tanto para Si. 26 “Insalubridad”.tra.p. o bien las pasa desapercibidas. en Mondo nuovo. en Si. veremos que detrás de las promesas y <soluciones> que ellos nos ofrecen. cit. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins.tra. Uno de ellos era el de disminuir el costo de mano de obra ya que “(. con la enorme diferencia de que en el campo de la sociología tendrán todavía que pasar varias generaciones antes de que pueda aparecer un Einstein. “Nuestro Sindicato. En el mismo sentido que Marx sostuvo que la “religión es el opio de los pueblos”. M.p como para Quaderni RossiClasse Operaia el pensamiento de Marx no podía continuar liquidando sus cuentas con la vieja conciencia filosófica.p. agosto de 1973. ayer y hoy”. “Marx. Año I. los ambientes. Año I. ponerse a prueba mediante un encuentro activo con la realidad más moderna del capitalismo contemporáneo: para comprenderlo y para destruirlo. Primero. 11. Por eso el sindicato debía ser clasista. ES COLECTIVA. a todos los compañeros que luego se ven obligados a aumentar la producción.”24 “Esta es la razón por la cual planteamos LA SOCIALIZACIÓN DE LAS FÁBRICAS Y LOS CAMPOS. no representa ningún partidismo.p. al brindarle centralidad al obrero en cuanto productor.. no con su tiempo.. sino que la centralidad que cobra fuerza es la de los aspectos subjetivos del trabajador en cuanto clase. para producir NO NECESITA PATRÓN”26. perjudicando esos pocos. el pensamiento de Marx.”21 La crítica a la “organización científica del trabajo” estaba orientada a descubrir las trampas implícitas en los métodos aplicados en el lugar de trabajo. en Si.. noviembre de 1973.) vemos que con las horas extras que valen un poco más que las horas comunes. 29 “Socialismo”. Así pues. el principal método de explotación eran las horas extras: con éstas la patronal lograba varios objetivos además del aumento de la producción. p. 1962. op. De esta manera. debe confrontar a Marx.) esas trampas. Porque la forma en que producimos. “Moral y conciencia de la clase obrera”..”29 A modo de cierre “Nosotros no podemos hoy dejar de aceptar las afirmaciones marxistas fundamentales más de lo que un físico serio puede ser no-newtoniano.. p. Mario Tronti parte de una premisa: para una investigación que quiera retomar el discurso sobre la validez actual de algunas de las afirmaciones marxistas fundamentales. sino poner en cuestión la orientación y los valores mismos de la producción hacia el mercado. la revista intentaba develar “(. en Si.” Citando a Rudolf Schlesinger. es decir.. 1973-1975 misma en que está organizado el trabajo. coadyuvaba a la reproducción del capital y no a romper su lógica28. 7. p. 30 TRONTI. por el contrario. podríamos desechar la banal idea de que la obra de Marx es producto y explicación de una sociedad de pequeños productores de mercancías. p. cit. La clase obrera en cuanto sujeto central de la producción en la fábrica debía tomar conciencia de que “(…) una fábrica. Una de ellas era la “No queremos morirnos en un socavón!”. p. que están bien disimuladas y permiten de esta forma engañar al trabajador. se encuentra la doble y mala intención que en muchos casos logran sobre ciertos compañeros: trabajarles la moral. debía. “Sindicalismo Clasista”.La lectura de Marx en clave clasista: el Si.”22 Esto implicaba denunciar ciertas metodologías que solamente beneficiaban al capitalista y perjudicaban al obrero. 16. 25 Íbid. agosto de 1974. ES SOCIALIZADA. sino con el nuestro30.”27 Similar al obrerismo. el beneficio de lo producido es INIDIVIDUAL. op. Año 1. Pero como organización de la clase obrera que es.”23 Otro de los métodos denunciados es el fomento del divisionismo entre los compañeros de trabajo: “Si nos ponemos a observar atentamente y analizamos la forma de actuar de nuestros jefes.36 . sostenía que la penetración del fútbol en la clase obrera era un engaño que ocupaba los ratos libres de los compañeros.p. y sin embargo. tal cual era concebido institucionalmente. Año I. 15. un mayor tiempo en la planta. p. Si. Desde este punto de vista. están hechos de tal forma.. 6.. Refiriéndose al sindicalismo tradicional el autor del artículo sostiene: “El sindicato.tra. diciembre de 1973. p. que el enfrentamiento económico y social entre explotadores y explotados. 23 Ìbid. 28 27 Finalmente.. El sindicato burocratizado. 12. 24 Íbid. las líneas. directamente en agente de la patronal. o. se logra mantener al personal que la fábrica ya tiene.

una vez adquirido el punto de llegada de la obra de Marx –El Capital-. es preciso tomar éste como punto de partida.p. como desmitificación teórica de las ideologías capitalistas. tal vez la máxima de “nunca arrojarse a combatir en la práctica sin armas teóricas” resuma la finalidad última de Quaderni Rossi-Classe Operaia y Si.37 “crítica despiadada de todo lo que existe”: en Marx se ha expresado como el descubrimiento del procedimiento mistificado del pensamiento burgués y. estos dos momentos se pueden captar lógicamente divididos y cronológicamente sucesivos: de la Crítica de la filosofía hegeliana del derecho público a El Capital. Entonces.História & Luta de Classes. Para terminar. Julho 2009 (32-37) . que del máximo nivel de la comprensión científica hace surgir la alternativa futura al mismo. Nº 7. para estas publicaciones. la otra es análisis científico del capitalismo. por lo tanto. por lo cual era necesario descubrir las necesidades del desarrollo del capital y trastocarlas en posibilidades subversivas de la clase obrera. En la obra de Marx. la investigación sobre algunas abstracciones determinadas (el trabajo alienado. La otra es el “análisis positivo del presente”. el Estado político. Una es crítica de la ideología burguesa. . la lucha de clases internacional. la democracia. una vez llegados al análisis del capitalismo. A través de Marx. Análogamente.tra. hay que partir de nuevo de este análisis. las modificaciones producidas en la composición orgánica del capital. el valor en el capitalismo oligopolístico) debe constituir el punto de partido para llegar de nuevo al “conjunto viviente”: el pueblo. los artículos escritos en estas publicaciones intentaron la búsqueda de un sujeto: el “obrero masa” poseedor de un poder de decisión sobre los movimientos del capital.

a relação entre concentração de renda e movimentos sociais. Ruy Mauro Marini – vida e obra. além de uma vida marcada por três exílios. de minhas pesquisas continuou sendo o *Mestrando em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC. El Estado en la Economía.. O Mineiro de Barbacena Ruy Mauro Marini (1932-1997) tornou-se conhecido nos meios acadêmicos e militantes do Brasil e do exterior por suas contribuições enquanto intelectual de esquerda e marxista engajado. as relações entre democracia e ditadura no capitalismo.. até a passagem por temas tratados pontualmente como a questão da educação superior no Brasil. o exame de categorias e teses marxistas aplicados ao estudo da AL.htm#4. Por razões de espaço. São Paulo: Expressão Popular. conviene preguntar hacia donde apunta el Estado.. por exemplo. o que fez o seu pensamento transitar. 1 Para conhecimento deste percurso. tornou-se um dos principais expoentes da chamada "teoria da dependência" que marcou a maioridade do pensamento social latino-americano na sua relação com o pensamento social produzido nos grandes centros capitalistas. esta entendida como o lugar das classes sociais e da economia – apresentará em termos mais estritamente políticos esta relação. ultrapassando as próprias iniciativas pessoais motivadas pelo interesse acadêmico ou político. menos na tentativa de procurar extrair um conceito a ser aplicado a estas mesmas relações.] de igual modo. No entanto. o papel das novas tecnologias em seus efeitos sobre as condições de trabalho. 3 MARINI.marini-escritos. Basta citar que. Seu leque de investigações pode ser vasto. nos limitaremos a abordar três destas relações: com a economia.”3 Dezessete anos mais tarde. em agosto de 1977.discutindo a relação Estado/sociedade civil.mariniescritos. lo mismo pudiendo decirse de México o Argentina. como o próprio Marini afirmou “(..). como foi ele entendido e em que dimensões por Marini? É o que estas breves notas pretendem apontar.mx/001_memoria_port. a tomada de posição no debate sobre as causas da queda do governo Allende no Chile em 1973. contribuições para caracterizar o poder em Cuba.htm. bem como às suas causas econômicas profundas e às suas conseqüências. frente aos regimes políticos do capitalismo na região da AL e na sua relação com o socialismo. presenciou o auge da teoria desenvolvimentista na América Latina (AL) e no Brasil. Ruy Mauro. muito em função do contexto em que sua trajetória individual esteve inserida e pode partilhar. en una amplia medida. en las manos del Estado. Roberta & STEDILE.) o centro. . Acesso em 22 jul 2008. João Pedro (orgs. [. em especial na AL..38 . Memória . Ruy Mauro. sobre a crise latinoamericana de meados daquela década.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini José Carlos Mendonça* I ntrodução desenvolvimento capitalista latino-americano e o modo como era percebido e influído pelo processo teórico. Acesso em 23 jul 2008.4 Marini. a questão do subimperialismo. y sin perder de vista la acción de la economía internacional. para modificar as condições que a mantinham em crise. Some-se o fato de que Marini. Marini .unam. indústria automobilística e déficit público. o debruçar-se sobre a passagem do sistema mundial de poder da 'bipolaridade' à 'multipolaridade'. Disponível em: http://www. Partindo da definição de Gonzalez Casanova de que o Estado é “el poder de disponer de la economia”.] tanto para la creación de mercado como para la formación de la inversión” e a segunda.. mais no sentido da apreensão do Estado nas suas diversificadas interconexões com outros campos da vida social. en un país como Brasil. juntamente com André Gunder Frank e Theotônio dos Santos. não sem antes alertar para o fato de que a exatidão 2 MARINI.mx/108_latinoamerica_es. as características da crise econômica mundial e suas implicações para a AL.unam. encontraria “la clave de la superación de la crisis cíclica esté. múltiplos temas de política internacional. 2005. os rumos do socialismo mundial face à crise da esquerda européia em meados da década de 1970. que lugar ocupa o Estado. num texto de 1994. As preocupações que foram objeto de sua reflexão sistematizada vão desde a análise do processo de luta de classes que resultara no golpe militar no Brasil em 1964. si se quiere investigar las posibles modificaciones que sufrirá la economía nacional en el curso de la presente crisis y precisar las características que podrá tener en la eventualidad de una nueva fase expansiva. Marini demonstrava as umbilicais ligações entre Estado e economia. Disponível em: http://www. por excelência. consultar TRASPADINI. O primeiro ao desempenhar um “papel clave en la dinámica económica de nuestros países [. Estado e Economia Ao escrever para o jornal mexicano El Universal. da adesão à crítica em relação às elaborações da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) das Nações Unidas1.”2 Com toda esta horizontalidade de reflexões e posicionamentos.

Lisboa: Dinossauro. que se opõem aos interesses pessoais imediatos destes ou daqueles. Feitas estas ressalvas. ao contrário das aparências e da ideologia. a qual resulta como contra-revolucionária abrangendo um período que vai aproximadamente de 1960 a 1990. mas de identificar em sua formulação aspectos que possibilitam uma justificação teórica para um “Estado de transição”. 2008. Citado por MARINI..História & Luta de Classes. Isto significa que o pensamento de Marini parte da análise da situação concreta para construir os conceitos com os quais integrará o edifício de suas teorizações também neste âmbito relacional. tem de impor medidas de interesse geral para a 4 GONZÁLEZ CASANOVA. determinando sua estrutura e funcionamento.] Uma vez que se compreenda que. Id. in: Economía y democracia en América Latina. [.. Disponível em: http://www.] é a forma política que organiza a sociedade burguesa [. p.39 desta definição sofre variações consideráveis de acordo com a vertente teórica burguesa que se adote. evoluindo para uma relação de autonomia do Estado na gestão econômica. foi a que mais se aproximou da adotada pelas classes dominantes na AL durante as ditaduras militares instaladas na região a partir de meados da década de 1960: uma relação de subordinação da economia à política. fazer a defesa “de una verdadera democracia participativa. Karl..unam. Economia y democracia en América Latina . perpassa a maior parte de sua existência dado que se trata de um perseguido por duas Ditaduras (primeiramente pela brasileira que se instaura em 1964 e posteriormente pela chilena em 1973). obra citada. Ruy Mauro. 37-39. ocorrida em fins dos anos 1950/60 durante o governo Kennedy. Tom. sofreu alterações a partir de meados da década de 1980. permanecendo imune às influências que os processos de redemocratização que se processavam desde então porventura fizessem incidir5. [. 'o Estado político é apenas a expressão oficial da sociedade civil'. MARX. 6 7 5 Id. pois já havia sido observado por Marx quando escreveu na Neue Rheinische Zeitung em abril de 1850: “O Estado dos burgueses não é mais do que um seguro colectivo da classe burguesa contra os seus membros individuais e contra a classe explorada”9 . recorrer ao Estado 'para mudar a vida'”8 . MARINI.que abrem a possibilidade para que as instituições do Estado Capitalista possam ser dirigidas e controladas pelas classes exploradas sem a inversão da correlação de forças entre capitalistas e proletários.. Julho 2009 (38-44) . p.] mas também um aparelho autônomo em relação aos seus membros particulares. Marini chega assim à concepção de que o regime político-estatal denominado Democracia se define como “una forma de organización política que atribuye a la ciudadanía el derecho fundamental de disponer de la economía” para. passemos à próxima relação. que afirme la dirección y el control de las masas sobre el Estado de manera directa y permanente.. obra citada. Estado e Ditadura Militar O pensamento político de Marini se deteve ricamente nesta relação que. com a autonomia frente ao “interesse geral da propriedade privada e de seu desenvolvimento enquanto propriedade capitalista”7 e induzem a ilusões. entre outros fatores.. reprodução desta sociedade. para fazer frente ao avanço do pólo sob hegemonia da então URSS que consistiu em abandonar uma postura de relativa contemplação para passar a uma postura que Marini 8 9 Cf. em sua inexorável materialidade. Relação esta que. O Estado e o Capital. O exemplo francês. em contraposição ao modelo de democracia representativa. sustentou que a concepção Hobbesiana. La socialisation de l'impot. senão para enganar o povo. Articulando as categorias de análise.. Nº 7. 37. e até mesmo em relação à burguesia em momentos excepcionais. 164. por vezes. Formulações deste cariz . ou seja. Ibid. segundo Marini. vale lembrar que tal fenômeno se encontrava nitidamente delineado pelo menos desde a primeira metade do século XIX.] Porque insistimos nesta autonomia e nesta função geral do Estado? Porque [. sem a realização prévia de uma revolução social anticapitalista e apresentam como alternativa a chamada Democracia Participativa – confundem a autonomia do Estado frente aos burgueses. É da incidência da contra-revolução sobre o Estado.mariniescritos. e tentar organizar o consenso social. La Crisis del Estado y la lucha por la democracia en América Latina.] veremos o Estado desenvolver-se. THOMAS.. que delega in totum a soberania popular para o Estado e com isso retira dos cidadãos a possibilidade de estabelecer limites ao poder estatal. fruto. promover alianças entre classes e não apenas entre as diferentes fracções da grande burguesia. .”6 Embora tenha o mérito inquestionável de apontar a insuficiência do modelo representativo da democracia liberal. De resto. Não se trata aqui de atribuir diretamente a Marini a defesa de um Estado “neutro” ou algo do tipo. Pablo. Citado por THOMAS. p. de uma acertada sensibilidade face às contradições expressas teoricamente no interior do campo dominante. Ibid.htm. Acesso em 20 jul. Três são as vertentes que contribuem para conformar as ditaduras militares segundo Marini: a mudança de estratégia dos EUA.. Como bem afirmou Thomas (2003): “O Estado Burguês [. aos quais. O ponto de partida adotado por Marini foi proceder a uma caracterização da situação política latinoamericana à luz das lutas sociais e de classe na região. 2003.mx/022_economia_democracia_es. esta concepção de Marini padece também de insuficiências ao projetar a concepção de um Estado que pode vir a deixar de servir ao conjunto dos capitalistas enquanto classe. ou seja. sabemos que de nada serve. com variações no calendário dos paises. que nosso autor localiza o ponto de concentração para exercer seu rigor analítico neste tema..

18. In: “Correo de la Resistencia”. que apresenta igualmente a outras formas de Estado capitalista um poder executivo hipertrofiado. gerando a necessidade de redefinição do lugar de tais burguesias na economia mundial. El Estado de Contrainsurgencia. o da sua defesa. Este conceito explica a necessidade de aplicar à luta política um enquadramento militar tanto pelas burguesias dependentes para conseguirem sua integração no sistema capitalista em condições menos desfavoráveis frente às burguesias centrais. pois ambas as necessidades requerem a submissão do proletariado pela força.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini denominou de resposta flexível. produziu uma burguesia monopolista integrada à burguesia dos países imperialistas centrais resultando na quebra do Estado Populista que favorecia a acumulação de todas as frações burguesas para fazer brotar um Estado voltado para o favorecimento da acumulação das frações monopolistas. Ruy Mauro. subordinando as demais e a pequena burguesia. num. um militar e outro econômico. Marini elabora então o conceito de 'Estado de Contra-insurgência'. Acesso em 23 jul 2008. pero su especificidad está en su peculiar esencia corporativa y en la estructura y funcionamiento que de allí se generan. Em segundo lugar. órgão fundamental do Estado de Contra-insurgência. por fim Marini aponta o ascenso do movimento de massas durante os anos 1960 e até antes. In: “La cuestión del fascismo en América Latina”. es decir.unam. aos capitalistas latino-americanos o recurso possível é o exercício da força direta para fazer valer seus interesses. .”12 12 10 MARINI.21-29. El Estado de Contrainsurgencia. Marini aponta que enquanto o fascismo europeu desenvolveu um discurso de negação da democracia burguesa. número 13. Sendo assim. empresas estatais) e ambos se entrelaçando no Conselho de Segurança Nacional. diferentemente do fascismo europeu. Tarefa que a forma estatal ditatorial apresentava melhores condições de realização comparativamente às formas democráticas. agosto-octubre de 1 9 7 6 . pp.htm. passou-se então para o terreno da guerra. em que pese a adoção dos recursos fascistas pelas ditaduras militares ser similar. O primeiro constituído pelos órgãos militares 'puros' (Estado Maior das Forças Armadas. Isto se explica devido ao critério de Marini em situá-las no arcabouço mais amplo das “formas particulares de la contrarrevolución burguesa”10 . As características específicas desse Estado. 1978. órgano del Movimiento de Izquierda Revolucionaria de Chile en el exterior. radicam na existência de dois centros de decisão no interior do executivo. Llamarlo fascista no nos hace avanzar un paso en la comprensión de su significado. m a r i n i escritos. mas também que tal processo afetou Estados que não assumiram esta forma política. Cuadernos Políticos. independiente de la forma que asuma eses Estado.40 . diferentemente do fascismo europeu que conseguiu influencia real na pequena burguesia e em parte do proletariado. Dicho Estado presenta similitudes formales con el Estado fascista. a contra-revolução na AL desenvolveu o discurso inverso. Marini apontou que a contra-revolução latinoamericana dispensa a subordinação do exército à mediação de um partido político. além do texto acima. quanto pelas burguesias imperialistas para lograrem a reestruturação da economia internacional naquele momento. Marini demonstra que a base sobre a qual se assenta o Estado Militar difere da do fascismo europeu. o qual incide sobre as contradições no campo burguês no sentido de agravá-las e que exigia uma reação violenta dos capitalistas.mx/052_estado_militar_es. conferir também em MARINI. Marini sintetiza assim sua concepção: “El Estado de contrainsurgencia es el Estado corporativo de la burguesía monopólica y las fuerzas armadas. ( E d i t o r i a l ) . Ao debruçar-se sobre o caso chileno três anos após o triunfo do golpe pinochetista. 11 Para a enumeração que se segue. quanto o relacionamento direto com as instituições corporativas dos capitalistas. Cumpre enumerá-las11. así como con otros tipos de Estado Capitalista. Tal foi explicado pela busca de recomposição da unidade entre as diversas frações burguesas dado o limite de não conseguir reunir força social própria para enfrentar o movimento popular. Acesso em 23 jul 2008. sendo capaz inclusive de obter vitórias eleitorais a exemplo do ocorrido na Alemanha de Weimar. Ruy Mauro. MARINI. obra citada. D i s p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w. México: Ediciones Era. independientemente del régimen político vigente. A transformação estrutural das burguesias nativas que além de gerar alterações na composição do bloco de poder dominante. inclusive para delimitar as especificidades de tais formas na AL quando comparadas às formas assumidas pelo fascismo europeu dos anos 1920-45. Para tentar solucionar as contradições não resolvidas no terreno da política. Outra distinção importante destacada por Marini é a impossibilidade da burguesia monopolista nativa de atrair para o seu campo parcelas expressivas dos setores populares. exercendo os militares tanto a ocupação direta dos postos governamentais. o segundo pelos órgãos civis ocupados por tecnocratas e militares (ministérios econômicos. serviços de inteligência). Primeiramente por não se tratar de uma debilidade conjuntural da burguesia e do imperialismo como ocorreu na primeira metade do século XX e sim de uma debilidade estrutural da burguesia dos países dependentes fruto da perda de vigência do modelo de acumulação que vigorou até então.unam. de onde ditam as condições ao conjunto da burguesia. Disponível em: http://www. octubre-diciembre. Marini destaca que tal caracterização não se resume à instalação de ditaduras militares. El carácter del Estado Militar y sus implicaciones para la izquierda.htm.marini-escritos. No plano ideológico.mx/016_contrainsurgencia_es.

salvo se estivermos tratando de lutas no interior da classe burguesa. No profundo e abrangente estudo dedicado ao fascismo que realizou. mas somente após essas movimentações terem sido desarticuladas pelas suas contradições internas. Julho 2009 (38-44) . Em sentido inverso. eles jamais conseguiram ascender em confronto directo com as movimentações revolucionárias dos trabalhadores.. consideradas no seu conjunto. 35. 33-34. pode-se perceber lutas ainda incipientes que expressavam a elementar implantação do capitalismo industrializado. . Esta foi uma regra sem excepções. por esgotamento (caso da Europa) ou por incipiência (caso da AL).. nas quais a burguesia tendia a assumir papel hegemônico. ao relacionar o Estado de Contra-insurgência com o processo de redemocratização. é em outro lugar que se deve procurar o surgimento do fenômeno do fascismo. p. Com o abandono da esperança revolucionária a hostilidade de classe assumia a forma degenerada do ressentimento.41 Posteriormente. É o que veremos ao tratar do modo como o seu pensamento articulou a relação do Estado com o socialismo.História & Luta de Classes. 14 15 Id. Id. analisados na perspectiva do marxismo da luta de classes são. no qual este foi definido como sendo uma “revolta na ordem”. em suma. em vez de desvendarem os mecanismos que levaram a dissolução de um a gerar a ascensão do outro.. quando os fascistas conquistaram as ruas e os campos. Bernardo presta-nos o seguinte esclarecimento: “A crer numa versão corrente ainda hoje muito divulgada. se o fascismo foi uma revolta na ordem que procurou recuperar para o capital a revolução dos trabalhadores e o Estado em geral. Neste caso. p.. dos golpes militares. Tais lutas. por exemplo. p. sua percepção de que o Estado de contra-insurgência se funda num momento de debilidade estrutural das burguesias locais enquanto o fascismo foi um momento de debilidade conjuntural das burguesias européias não se sustenta. pois como concluiu Bernardo “O triunfo do fascismo só começa a entender-se. Labirintos do Fascismo. evidenciando que a fragilidade estava nos trabalhadores e não na burguesia . Do mesmo modo. Marini identificou a tentativa de institucionalizá-lo após a abertura política por meio da preservação do fundamental de seu caráter. (.] que dita a organização interna da classe dominada”15 sem margens para teorizações que abrem fendas por onde podem passar possibilidades de ocupação e controle desse mesmo Estado pelo proletariado. por outro lado. no mínimo. pela acuidade na percepção das peculiaridades regionais para evitar que a caracterização da contra-revolução na AL desembocasse numa justificativa para a formação de frentes policlassistas.. 2003. Entretanto. e encontra uma perfeita ilustração no primeiro de todos os fascismos..”13 Diferentemente do local onde Marini situou sua análise. muito mais do que um conjunto de instituições a serviço dos capitalistas. 26. podem-se identificar os méritos do pensamento de Marini pelo fato de descortinar as atenções para os fatores internos na explicação. Ambos os casos. (. onde Marini enxergou 'ascenso' do movimento de massas como um inimigo a ser vencido na AL.. Neste âmbito de relações. revela a preocupação política clara de evitar compromissos entre o proletariado e a burguesia. visto desta perspectiva. 13 BERNARDO. porém. esta última por meio da edição das chamadas 'leis de segurança nacional'. indicadores de influências herdadas dos quadros analíticos do bolchevismo16. já apresentavam uma debilidade estrutural (das lutas e não das burguesias) o que as tornava incapazes de fazerem frente aos golpes civil-militares que abriram caminho para a implantação das ditaduras. sem autonomia.. ao tratar da relação do Estado com as ditaduras. ibid. foram antecedidos por uma derrota profunda das lutas dos trabalhadores. o fascismo só alcançou a hegemonia depois de haver desaparecido do horizonte a alternativa social incorporada pelas manifestações de luta colectivas e activas. deve ser entendido como “um princípio de organização geral das instituições [. suas formulações também possibilitam um outro campo de compromissos que. o apego a certas indecisões fatais dependem de se apresentar o fascismo e o movimento operário como dois mundos distintos e separados. Formula então a concepção de 'Estado de quatro poderes' acrescendo as Forças Armadas ao tripé clássico do Estado representativo moderno (executivo/legislativo/judiciário) que cumpriria a função de tutelar o conjunto do aparelho estatal e a sociedade. se recordarmos que nessa ocasião as formas sociais inovadoras criadas pelo movimento operário haviam já sido derrotadas e tinham degenerado. para se apoderar em seguida da governação.) Na realidade. seja a forma estatal fascista na Europa ou o Estado de ditadura militar na AL. portanto.”14 Ora. Nº 7. e desde que. ibid. Sempre que se confrontou com o movimento operário organizado. Percebe-se então que o pensamento de Marini. persistissem entre os trabalhadores todos os motivos de insatisfação. a análise da relação entre as classes em luta consideraria a presença das classes exploradas como elemento subordinado.ainda que por certo prazo. o fascismo teria constituído o último recurso do grande capital ameaçado pelas acções vitoriosas do proletariado. e pela forma como detectou a estratégia de assegurar a continuidade dos traços dessa forma estatal por meio da sua institucionalização em situações de democracia burguesa. João.) A manutenção de alguns mitos e. Tanto o Estado fascista quanto as ditaduras militares não deixaram de atender a este objetivo com determinação . Porto: Afrontamento. ao mesmo tempo.

mx/076_polonia_es. Marini pode desenvolver seu pensamento e apresentar suas concepções em distintos momentos de sua vida. apoiando-se em Marx. en su desarrollo histórico. Acerca de la transición al socialismo. 1974. Anti-Dimitrov. 'construção socialista com base no mercado capitalista mundial') bem como pela forma cabal com que conclui o texto: “La lección que hay que sacar de allí […] no es en suma la de negar que haya socialismo en Polonia: es más bien la de reconocer que el socialismo se realiza históricamente de forma imperfecta y contradictoria y que sus contradicciones pueden engendrar efectos tan terribles como el golpe polaco del 13 de diciembre.42 . México. pp. Inserindo as tentativas de superação do capitalismo ocorridas nos chamados 'países socialistas' no contexto da crítica do capitalismo enquanto modo de organização das relações humanas e afirmando que a falência do 'socialismo real' não invalida a busca por formas superiores de organização social. Acesso em 23 jul 2008. 20 Id. Quando analisou o desfecho da acirrada luta de classes na Polônia que resultou numa ditadura militar parida de um bem sucedido golpe de Estado desfechado em dezembro de 1981. Marini chega assim à formulação do seu próprio conceito de socialismo: “Período de transição de uma nova era histórica. Conseqüentemente. Ibid. neste texto Marini se alinha com os que concebem a natureza social dos extintos regimes do Leste Europeu e da exURSS como socialista.htm. Ruy Mauro. D i s p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w . enero de 1982. encarou tal supressão como ponto de partida para o proletariado vitorioso revolucionariamente. S obre o socialismo . Ibid. como para forjar conceitos que auxiliassem na caracterização das experiências de poder que se reivindicavam do socialismo. ele considerou o caráter das concepções programáticas apresentadas pela direção do movimento de oposição ao Estado Polonês como base para prever que “la dirigencia que cristalizará en el curso de éste y sus concepciones programáticas hacían probable que. antiimperialista e antifeudal”. habrá que reseñar de manera menos emocional algunos aspectos que ella reviste”. caracterizada pela superação da propriedade 19 MARINI. sin incurrir en el reemplazo de la realidad por planteamientos ideales o un dulce pero ingenuo 16 Para conhecer a história do bolchevismo. deve-se inicialmente localizar como nosso autor se situou na célebre tensão entre Reforma versus Revolução e sua concepção de socialismo. Disponível em: http://www. Marini. Buenos Aires: Periferia. Acesso em 26 jul 2008. vide RODRIGUES. 18 As citações que se seguem foram extraídas de MARINI. como un proceso que se critica y se rehace todos los días [.]” Posteriormente em 1991-93. embora reconhecesse que “el movimiento obrero polaco había generado una notable capacidad de iniciativa y organización por la base. obrerismo (que se expresa en ideas de hay que estar con los obreros. Es la de alertarnos sobre la necesidad de considerar a la revolución proletaria. Para conhecer as origens da compreensão bolchevique do fascismo no âmbito da III Internacional e a sua crítica. 1985.unam. quando polemizou contra Lélio Basso . Ruy Mauro.htm#_ednref3. aunque no tengan razón). que eles haviam herdado da Terceira Internacional. Marini apresentou em termos teóricos sua concepção de socialismo19. In: VVAA. como no seu envolvimento e colaboração regular com a revista Chile Hoy até o golpe militar naquele país. hubiera significado abrir camino a la contrarrevolución”. 21 Id. In: CIDAMO Internacional. que no comprometía de por sí. m a r i n i escritos. Disponível em: http://www.mx/040_sobre_socialismo_port. Lisboa: Ed.. O pensamento de nosso autor neste ponto toma por idênticos os distintos conceitos de 'classe' e 'representação de classe'.. Percebe-se nesta passagem que seu pensamento opera a partir da disjuntiva revolução/contra-revolução aplicada ao caso concreto polonês como sendo governo/oposição sem distinguir o grau de identidade entre a massa proletária de opositores ao governo e sua liderança. Ora buscou construir um diálogo entre forças de esquerda. Sem operar tal distinção. Belo Horizonte: Oficina de Livros. ora dedicou-se a combater a ideologia dos partidos comunistas de “revolução democráticoburguesa.htm.unam.marini-escritos. el curso socialista del proceso” Marini considerou que “Para situarse ante la dictadura militar polaca. sino más bien afirmaba. Francisco Martins. Para chegarmos ao papel do Estado no socialismo no pensamento de Marini. Acesso em 26 jul 2008. entende que o socialismo se inspira na busca pela “recuperação em um nível superior da propriedade individual”20 e em Lênin que “partindo da noção de socialismo como processo histórico.mx/012_reforma_es.que sustentava que não se poderia abolir o ordenamento jurídico burguês durante a transição – Marini afirmou a necessidade da supressão das instituições jurídicas que consagram as relações de produção capitalistas. Marini desenvolveu elementos de sua concepção de socialismo enquanto processo histórico e procurou situá-lo na perspectiva das lutas de classes nacionais e internacionais. Tal se deduz das expressões utilizadas ('comunidade socialista'. História do Bolchevismo.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini Estado e socialismo Neste âmbito. 17 MARINI. Em escrito de 197417. el traspaso del poder a la oposición. o assumia como uma das características centrais da nova etapa em que entrara a humanidade e que ele definia como sendo a era do imperialismo e das revoluções proletárias triunfantes”21. do autor. nosso autor. porém.mariniescritos. consultar o excelente trabalho de ROSENBERG. 1989. sempre movido por preocupações concretas. . Polonia: el socialismo como problema. Ruy Mauro. Também esteve inserindo no debate sobre a transição ao socialismo tanto para polemizar com concepções que subordinavam o socialismo à dinâmica própria do Estado Capitalista. Reforma y Revolución: una crítica a Lelio Basso. 61-64.unam. apesar de reconhecer que tal medida seria insuficiente para promover a transformação de tais relações sociais num sentido anticapitalista. número 4. Neste escrito de 198218. já na fase final de sua vida. Artur.

luta ideológica por outra moral e visão de mundo. com relativizações e flexibilizações. 24 Id. para subordinar as demais classes e se manifesta em relação a estas como ditadura – uma nova forma de ditadura. mas não se confunde com uma concepção anarquista de 'abolição' do Estado.”24 Adiante no texto Marini afirma que o socialismo pressupõe a conquista do poder político. asignado a ellos por otros. organismos para coordenar a produção enquanto totalidade. Disponível em: http://www. Marini concebe o papel político do Estado em termos muito próximos com os quais Lênin concebeu a aliança operário-camponesa no processo da Revolução Russa23: por um lado. n. levando inclusive à adoção do pluralismo sob certas condições. baseada na socialização dos meios de produção. 25 Id. apropriando-se do conceito de “cidadania” que no entender de Marini caberia à democracia socialista “dar-lhe foro efetivamente universal”: uma cidadania socialista que estabeleça a plena igualdade política. neste sentido. entre outros. um Estado aliancista e democrático para dirimir as divergências entre as classes sociais integrantes da aliança socialista por meio da adoção de métodos persuasivos e. jefes. tendo em vista que “La meta de la clase obrera es su liberación de la explotación. En la economía socialista. Coube a Anton Pannekoek (1873-1960). e – na medida em que qualquer dominação estatal supõe o uso da força. pueden escoger a sus amos. en la fábrica. el mando de los funcionarios del Estado sobre la producción y el mando de los gerentes. Significa el socialismo de Estado. Nº 7. 33.. El socialismo fue proclamado la meta de la clase obrera cuando. extrair com profundidade as conseqüências das experiências das revoluções russa e alemã para o socialismo do futuro e aclarar o (não) lugar que o Estado nele deveria ocupar: “El socialismo. Para conhecimento dos exatos termos da concepção leniniana vide. cujo modo de apropriação da riqueza corresponde à ausência de propriedade privada dos meios de produção. Melbourne. son aún explotados y tienen que obedecer a la nueva clase dominante. Esta meta no se alcanza y no puede alcanzarse mediante una nueva clase dirigente y gobernante que sustituya a la burguesía. incapaz de conquistar por sí misma el poder sobre las fábricas. a classe dos trabalhadores assalariados. e é dessa interdependência que extraímos a relação do Estado com o socialismo. científicos. bajo la democracia. zip Acesso em: 28 jul 2008. i. A revolução proletária e o Renegado Kautsky. encetar a luta PANNEKOEK. ao fundir no aparelho do 'Estado de transição' democracia e socialismo. Em que pesem as observações e os alertas 22 23 O 'Estado de transição' se configura assim num espaço por onde se legitima (na teoria) a reconstrução (na prática) da diferenciação de tipo classista. por outro. In: Abogación Sureña por los Consejos Obreros. 1947. e pela substituição da burguesia como classe dominante pelo proletariado. Democracia socialista e ditadura do proletariado são. […] Los obreros. pelo menos desde fins da segunda guerra mundial. 1979. necessidade de realizar a revolução cultural. escrevendo em 1947. erigido como la meta de la lucha de los obreros. porém inseparáveis.”22 feitos por Marini à luz das experiências revolucionárias do século XX sobre o protagonismo insubstituível das massas no processo da revolução. pero no son ellos mismos amos de su trabajo. LÊNIN. en su primer alzamiento. democracia e socialismo são conceitos distintos.geocities. no plano político. tarefa que deve se dar pela própria experiência de vida das massas como condição para o desenvolvimento de suas capacidades revolucionárias. y buscaba en el Estado protección contra la clase capitalista por medio de reformas sociales.43 privada em favor de uma nova forma de propriedade individual. Lisboa: Avante. recepcionado pelo pensamento de Marini.História & Luta de Classes. A essa dominação de classe corresponde. que se supone o se pretende que la acompañen. apenas dois lados da mesma moeda. Marini acresce aqui a possibilidade de que o Estado promova o que ele denominou de concessões à burguesia por meio de compromissos. No lugar do 'Estado de transição' leniniano. pois visa estabelecer outro conteúdo para o conceito marxiano da 'ditadura do proletariado' distinto daquele.”25 Destaque-se por fim que a concepção de Pannekoek demarca claramente do entendimento bolchevique. ele se alinha com uma concepção de socialismo já ultrapassada. se é preciso.com/cica_web/consejistas/pannekoek/pannekoek_tesis.. es la organización de la producción por el Gobierno. Julho 2009 (38-44) . uma forma de democracia ampliada. formando una burocracia bien organizada. Ibid. no alteran la estructura fundamental de este sistema económico. Na concepção de Marini. teoricamente e em fatos. se sentía impotente. um Estado coercitivo para com as antigas classes exploradoras.e. entendidas como exercício da condução do Estado socialista. reciben sólo parte de lo producido. Pannekoek sustenta que os proletários devem constituir 'Conselhos Operários'. es el amo directo del proceso de producción. . Ibid. Sólo puede ser realizada por los obreros mismos siendo dueños de la producción. Las formas democráticas. este cuerpo. Para além da centralização econômica dos meios de produção. Tesis sobre la lucha de la clase obrera contra el capitalismo. Anton. correlativa ao fato de que a nova classe constitui a imensa maioria da sociedade. Observa-se que a relação Estado/socialismo em Marini reconhece vigência nas suas principais linhas aos parâmetros em que foi pensada por Lênin para o contexto russo. Reafirma o papel do partido enquanto “condutor e educador” embora critique a estratégia de depositar na vanguarda partidária a produção de novos valores que poderiam realizar o socialismo.

Se a pesquisa se concentrasse no pensamento econômico deste autor. consultar: PANNEKOEK.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini contra o poder do Estado antes e assegurar o poder proletário após a derrubada da classe dominante26. forçosamente outras seriam as obras consultadas e se desenvolveria por outros caminhos. Afirmar a originalidade de seu pensamento em muitos aspectos. não significa romper com as influências que sofreu. Considerações Finais Este trabalho pretendeu analisar o lugar ocupado pelo Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini. As três dimensões analisadas nestas breves notas são insuficientes para afirmações terminativas. como um pensamento que procurou renová-la ao invés de substituí-la. situando-se neste particular em relação à teoria que o bolchevismo produziu. Los Consejos Obreros. . Ela não foi capaz de ultrapassar o referente bolchevista da questão enquanto alternativa radical de teoria do Estado para o movimento socialista. Permitem. Madrid: ZYX. não conceber a substituição deste modelo de Estado político é sua maior fragilidade. 1977. tratamento dado com originalidade e que contribuiu. Ao que se saiba. no entanto. E aqui reside o aspecto mais problemático da concepção de Marini sobre o Estado. esta obra permanece inédita no Brasil. O Estado esteve subjacente ao longo de sua obra e mereceu tratamento constante nos seus escritos. 26 Para conhecimento na integralidade da concepção dos Conselhos Operários. duas observações. para que suas elaborações não servissem para fins políticos reformistas no sentido de que estas pudessem substituir a necessidade da revolução socialista (embora Marini a conceba nas formas pacífica e violenta). por exemplo. Em não poucas vezes.44 . Anton. diante dos impasses teóricos e práticos insolúveis do Estado bolchevique (insolúveis do ponto de vista do proletariado). E.

com a formulação do conceito de Segurança Nacional. Volume . Os mencionados documentos.com. Antônio de. desde cedo.45 O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações Dulce Portilho Maciel* I ntrodução No Brasil. por outro. esta instituição constituiu-se. São Paulo: GRD. “conhecimentos” obtidos mediante a atuação de seus agentes especializados. O exame de tais assuntos. Criada em 1949. a conjuntura mundial da “guerra fria”. em relação a possíveis agressões externas. subordinados aos respectivos ministros de Estado2. o primeiro representado pelo comunismo internacional. os chamados “anos de chumbo” – governo do general Emílio Garrastazu Médici. estreitamente. Julho 2009 (45-51) . transmutou-se no conceito (depois tornado doutrina) de Segurança Nacional. A estrutura de redação destes documentos e a natureza de seus conteúdos variam. instituído no Brasil já nos albores do regime militar.3 distribuídos pela Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério do Interior (MINTER). 1983. . intitulavam-se. Organizações subversivas versus órgãos de segurança e informações O primeiro documento do conjunto a ser examinado neste trabalho data-se de 31 de maio de 1971 e inicia-se pelo item “Antecedentes”. lotados nas diversas unidades que o compunham. alcançava-se o controle progressivo da Nação. inseridos nas estruturas dos ministérios civis e militares. (Reservado) 3 O conjunto compõe-se de dezenove documentos. no principal celeiro de idéias do meio militar brasileiro. dez produzidos em 1971 e nove em 1972. do segmento desta corporação ocupado com atividades de Segurança e Informações. mas também o nacional: o agente comunista infiltrado. permite. vamos examinar apenas as partes desses documentos referentes à atuação de organizações de esquerda e ao combate que sofreram pelos órgãos de segurança. O presente trabalho consiste no exame de um conjunto de dez documentos. desde 1922 (ano em que foi fundado). da República e a dos subsistemas setoriais. provavelmente. assim como de outros. O Sistema Nacional de Informações (SISNI). Conforme os formuladores dos princípios doutrinários da ESG. Assim. o sentido dado ao termo “subversão” relaciona-se. com suas agências regionais. este mais abrangente que o outro. atualmente sob a custódia do Arquivo Nacional. depois. inicialmente. 1986. o tradicional conceito de defesa nacional. que o Partido Comunista Brasileiro (PCB). em razão do limite de extensão permitido aos artigos publicados nesta Revista. Vamos tratar aqui apenas dos primeiros. oferecendo às autoridades e aos órgãos de repressão do país. Tais conceitos resultaram de um longo processo de elaboração. vinculado diretamente ao Presidente *Professora da Unidade Universitária de Ciências Sócio-Econômicas e Humanas da Universidade Estadual de Goiás – UnCSEH/UEG. o segundo formado pelas nações integrantes da civilização ocidental-cristã. teve como finalidade a vigilância e o controle sobre este novo inimigo. em razão do uso de insidiosos expedientes – destruição dos valores morais. Manual de Informações. desenvolvido principalmente na Escola Superior de Guerra (ESG)1. do modo como foram tratados nesses documentos. “O Quadro da Subversão no Brasil – Síntese”. de um lado. Neste trabalho. A SUDECO era instituição de natureza autárquica e vinculava-se ao MINTER. Brasília: INL. que se tragam a lume numerosos acontecimentos relacionados com a repressão às diferentes organizações de oposição ao regime ditatorial-militar. -. esta conjuntura era vista como preâmbulo do fenômeno da “guerra total”. dportilho@uol. o “inimigo interno”. Na ESG. estes. mediante a qual. em 1964. ocorridos na sua fase mais cruenta. de 1969 a 1974. das instituições. como cenário. produzidos durante o ano de 1971. tomando-se. A Escola Superior de Guerra: história de sua doutrina. Oriente versus Ocidente. seguia orientação 2 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA/SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES. visto que incluía o princípio da “segurança interna”.br 1 ARRUDA. O SISNI compreendia duas modalidades de subsistemas: a do Serviço Nacional de Informações (SNI). pelo SNI. Os originais destes documentos fazem parte do acervo da extinta (em 1990) Superintendência do Desenvolvimento da Região Centro-Oeste (SUDECO). isto é. de começo. deste último derivados. etc. Explica-se aí.Fundamentos Doutrinários. Nº 7. todos carimbados com a palavra CONFIDENCIAL. que se conheçam certas características marcantes da mentalidade militar brasileira e. Brasília: SNI.História & Luta de Classes. o subversivo. compreendendo não apenas o elemento estrangeiro. 1º. “Síntese das Atividades Subversivas no Brasil”. Deste modo. Ali se gestaram conceitos e princípios concernentes ao papel do Brasil no contexto internacional. mais particularmente. a principal estratégia de expansão do comunismo era a fomentação da chamada “guerra revolucionária”. o antigo conceito de “inimigo” desdobrou-se. de um para o outro.

a morte de Marighela teria representado um rude golpe nos planos antes existentes. desejosas que eram de conquistar o governo e. ibid. MAR – Movimento Armado Revolucionário. vigente daquele ano até 1985) teria representado um duro golpe para as organizações comunistas no Brasil. ou seja: a revolução “começa com um pequeno foco de guerrilheiros. em atuação no país.. sob a liderança de Carlos Lamarca. de orientação chinesa. Elaborado pelo próprio Marighella. POP – Partido Operário Comunista. passara a coordenar as ações de diferentes grupos clandestinos. foi constituída a Ação de Libertação Nacional – ALN –. do Movimento de Libertação Nacional (MLN).O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações soviética. entretanto. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Editora Anita. 79. achavam-se identificadas pelos órgãos brasileiros de segurança e informações: PCB – Partido Comunista Brasileiro. entre aquele ano e o início de 1969. Recuperadas da derrota a elas impingida pela Revolução.assaltos a agências bancárias. isto é. numa região camponesa. Uma dessas inspirações era a luta pela libertação da Argélia. segundo o documento. a Revolução de 1964 (que instaurou o regime ditatorialmilitar no Brasil. Combate nas trevas. REDE – Resistência Nacional Democrática Popular. chefiadas por “elementos nacionais”. mas tratando-se.. a cúpula das forças subversivas havia sofrido graves perdas. Algumas dessas organizações possuíam. estas numerosas organizações.de pessoas e aeronaves . na época. “comunizar” o país. Ainda conforme o documento. PRP – Partido Revolucionário do Proletariado. era intenção do novo líder da ALN. 55. Em 1962. tais como seqüestros . em 1967. VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Mas as adaptações. com vistas a aglutinar todas as organizações guerrilheiras.”6 Até ser abatido pelas forças de repressão. “pela luta armada e pelo terrorismo revolucionário”4....Movimento Revolucionário 8 de Outubro. São Paulo: Ática. conforme aquele documento. PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Luta armada: no Brasil dos anos 60 e 70. um ex-oficial do Exército. Joaquim Câmara Ferreira – o “Toledo”. ao passo que as de orientação chinesa ocupavam-se com ações violentas. em especial a criação do que passou a ser chamado de 'foquismo urbano'5.”7 Segundo o documento acima em referência.. o manual era impresso onde e como desse. sob orientação estrangeira. com exceção do PCB e do PC do B. 7 Id. tais organizações teriam sofrido sucessivos reveses. Ala Vermelha. sob sua liderança. -. sendo que as que seguiam a orientação russa atuavam no sentido de arregimentar as massas. os “grupos subversivos” haviam iniciado o ano de 1970 executando ações de vulto. mesmo passando por uma crise de liderança. AP – Ação Popular. etc. organização em que: “. contrários ao regime ditatorial-militar então vigente. de constituição de uma “Frente Única das Esquerdas”. os conceitos gerais sobre guerra revolucionária. provavelmente. em seus quadros. ou o “Velho” -. Marighella fora o mais influente líder dos movimentos rebeldes clandestinos. No segundo semestre de 1970. A expulsão decorrera da opção de Marighella.46 . 57. “típicas de guerrilha urbana”. vinham de Cuba. COLINA – Comando de Libertação Nacional. Jaime. quanto aos métodos e estratégias de ação. além das duas acima) teriam reiniciado suas atividades. 1995. e amplamente difundido. as organizações comunistas (não se mencionam outras. Jaime. Carlos Marighella. contrária à orientação “pacifista” do PCB. indivíduos formados em cursos de subversão em países comunistas. este partido cindira-se.. 6 SAUTCHUK.. entre Câmara Ferreira e Carlos Lamarca (este.” GORENDER. Conforme esse documento. ALN – Aliança de Libertação Nacional. Jacob.. de preferência montanhosa.. mediante as quais buscavam formar uma base de apoio para o desencadeamento da guerrilha rural.. tinha outra inspiração. em novembro de 1969. Ao longo de 1969. . para levantamento de recursos financeiros. MR-26 – Movimento Revolucionário 26 de Março. Depois disto. Quando da elaboração do documento. originando o Partido Comunista do Brasil (PC do B). estabelecimentos comerciais. p. p. Ala Marighella.. em novembro daquele ano. 1987. 55-56. naquele momento. pertencente aos quadros deste partido desde os anos 1930 e. MRT – Movimento Revolucionário Tiradentes. VAR-Palmares – Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. o que culminara com a morte. CORRENTE (sem menção ao nome por extenso.. o “foquismo” era a teoria oficial da Revolução Cubana. assim. Frieza e eficiência nas operações eram sua marca pessoal... a VPR era a organização mais atuante e. e seu principal mentor intelectual. foram sistematizados no Pequeno Manual do Guerrilheiro Urbano. PORT – Partido Operário Revolucionário Trotskista. p. haviam surgido após a Revolução de 1964. p. dele expulso. líder da VPR). Assim. No início de 1969. as seguintes organizações. em atividades de guerrilha urbana: “Suas opiniões e ensinamentos sobre como deveria ser o combatente. da organização Corrente Revolucionária). MR-8 . PC do B – Partido Comunista do Brasil.e “expropriações” . do principal líder da ALN. atuavam no Brasil diversas organizações “subversivas”. MOLINA – Movimento de Libertação Nacional. devido à disputa então em curso pelo antigo posto de Marighella. 5 Segundo Jacob Gorender. com a morte de Joaquim Câmara 4 SAUTCHUK. desde o seu recrutamento até o procedimento nas ações de rua. cit. em atuação no Brasil. continuar buscando alcançar aquele objetivo. Tratava-se de um ex-militante do PCB. Pelo que se pode depreender da leitura do documento. este. segundo aquele documento. Op. depois denominado Tupamaros. Naquela época. cuja atividade de guerrilha urbana foi tão bem retratada no filme A batalha de Argel. Outra vinha do vizinho Uruguai.

de certo modo. os órgãos de segurança haviam cercado um 8 SAUTCHUK. O PCB. ALN. na ocasião. Na época. mas não desistimos. tanto devido a sua extensão – dezoito páginas datilografadas. identificados com o pensamento de Mao TseTung. por membros da ALN. mas de importância qualitativa é porque representávamos a esquerda. o PCB vinha aprimorando sua capacidade “dirigente”. ocorridas em dezembro daquele ano. O texto intitula-se “E haverá perspectivas?”. sua companheira Iara Iavelberg e diversos outros indivíduos foram eliminados pelos órgãos de segurança. MR-8. desde que tivessem caráter de massa. Conforme o documento “confidencial” ora em foco. não em termos numéricos. a maioria dos grupos subversivos ocupados em ações de guerrilha achava-se. durante uma “ação dos elementos de segurança” no “aparelho subversivo” em que ela se encontrava. acerca das condições em que se achava a organização clandestina VPR.” O narrador transcreve diversos trechos deste texto. a organização de esquerda com maior potencial de sucesso. A AP. . em 6 de agosto de1971. 66-67. por integrantes das organizações VPR. o principal líder da VPR. Carlos Lamarca. elaborados no decorrer de 1971. era. Consta também que. que o introduz assim: “Pintando o quadro com palavras desanimadoras. p. que lhe havia oferecido o comando de um foco de guerrilha rural. Estes. serão exterminadas mais dia. conforme o documento em foco. O medo da responsabilidade nos faz esperar o fim. o fim individual poderá chegar durante a espera. “dramático” da narrativa. em abril de 1971. Havendo este compreendido que a “sobrevivência das hostes subversivas” dependia da “soma de esforços e. isto é. A Ação Popular Marxista Leninista do Brasil. desenvolvia trabalho de arregimentação de massas. de um texto elaborado em junho de 1971. de Yoshitami Fujimori. menos dia'. Op. Inicia-se pelo item “Atuação dos subversivos”. um distinguese dos demais. É mais fácil.. após a prisão de diversos militantes da VPR e a morte de seu novo líder. que optara pela “fidelidade ao pensamento de Mao Tsé-Tung”.47 Ferreira. deixara a organização. enquanto que a AP. tido como o “braço direito” de Lamarca na VPR e do também ex-militar Eduardo Leite – o “Bacuri” -. Se fomos a maior organização do país. a fim de que fossem usadas no momento oportuno. Consta neste documento que Iara Iavelberg suicidara-se. por integrar em seus quadros “elementos” treinados na China. por seu lado. as duas últimas. ora enveredava-se pelos caminhos do terrorismo. líder da REDE. sabemos disto e continuamos esperando. diversas ações de “desapropriação”. Jaime. O segundo documento da série aqui examinada data-se de agosto de 1971. assim como na AP. Entre as organizações voltadas para a arregimentação de massa. realização de ações conjuntas” determinara que as ações fossem executadas pelo que chamou de “frente”. admitia-se a realização de ações guerrilheiras. segundo o narrador.” Quando da elaboração deste texto. segundo fazia crer.. líder da ALN. o documento inicia afirmando: 'A realidade está sangrando. quanto em razão do tom. enquanto os outros possuem entre três e nove páginas -. destacavam-se o Partido Comunista Brasileiro – PCB – e a Ação Popular – AP. por Herbert Eustáquio de Carvalho “importante elemento da esquerda radical no Brasil”. ora seguia os métodos adotados pelo PCB. o “justiçamento” de um industrial de São Paulo. O documento em referência narra as condições pelas quais Carlos Lamarca. Temos que reconhecer. realizadas por diferentes organizações. atuava por meios pacíficos. podendo tal interesse decorrer do elevado valor que elas adquiriam nos mercados norteamericano e europeu e sua fácil conversibilidade em moeda estrangeira. ocorrida em outubro. os quadros da organização ficaram reduzidos a uns poucos indivíduos. que a VPR acabou e o que sobrou de outras organizações são espectros dos quais já traçamos o caminho. na época. conclui: 'Tentar remontar a VPR e partir de suas forças exauridas é trabalho inútil. agora. em Salvador (Bahia). tanto urbanas como rurais. Julho 2009 (45-51) . MRT E PCBR. Entre os documentos da série em exame neste trabalho. o que se refletia numa atuação mais coordenada e eficiente de seus militantes. e. No PCB. As ações executadas pela “Frente” haviam incluído: o seqüestro do Embaixador da Suíça no Brasil. em 28 desse mesmo mês. Não temos nenhum poder mágico de pronunciar fiat lux e a luz se fazer. ultimamente. José Raimundo da Costa. MRT e VPR. Uma terceira parte do documento em pauta intitula-se “Situação Atual dos Grupos de Arregimentação de Massas”. no interior do estado da Bahia8. integrando-se ao MR-8.. Uma segunda parte do documento em referência recebe o título “Situação atual dos grupos terroristas – ano 1971”. vinham se interessando pela obtenção de jóias. cit. representamos o outro extremo: a derrota'. segundo o documento. avaliando-se aí que o grande número de assaltos que na época ocorriam na cidade do Rio de Janeiro indicava estarem os subversivos novamente se organizando. em razão do “valor qualitativo de seus militantes”. sob a liderança de Carlos Lamarca. agora. em dezembro de 1969. Embora este documento não seja datado.. de sua leitura depreende-se que tenha sido elaborado entre o final de setembro e o começo de outubro de 1971. Segundo se informa ali. Somos apenas indivíduos unidos para a sobrevivência.. entre eles o que vem abaixo. por ele apresentado assim: “Após analisar em detalhe a origem da derrota.História & Luta de Classes. entremeada de comentários. O documento inicia-se pela transcrição. Nº 7.

em 1971.. “da intensa ação dos órgãos de Informações e Segurança. em seu interior. O documento em foco traz dados estatísticos das “ações subversivas”: “Durante o mês de outubro. divulgadas pela imprensa brasileira. em grupos de quatro “elementos”. usando como armadilha uma viatura do Exército carregada de armas e munições. ex-operário e exmilitante da VPR. iria ocorrer um seqüestro e que seu nome seria incluído na lista de presos políticos a serem libertados. os subversivos haviam também praticado “ataques a viaturas policiais. A redução do número de ações subversivas era resultado. O documento contém uma sintética análise de dados sobre a subversão em 1971. como os assaltos a caminhões de bebidas e a pequenos estabelecimentos comerciais. que os grupos subversivos. esta.” Por outro lado..” Durante o mês de setembro de 1971.” Nos últimos tempos. entre eles. cogita a possibilidade de que: “. quando capturados por órgãos de segurança e informações. em comparação com dados relativos a 1970: “.. “onde foram mortos Luiz Antônio Santa Bárbara e Otoniel Campos Barreto. queima de veículos e lançamento de bomba em uma residência e num estabelecimento industrial. em troca da vida do seqüestrado. o aparecimento de uma nova organização subversiva. em breve. além desse total. em 1970). Na época da elaboração do documento em referência. os elementos de segurança àquele local. 196. Darão sua versão de que ele morreu 'sob as mais atrozes torturas'.. todavia. Dois outros documentos integrantes do conjunto aqui em exame não estão datados. Conforme o documento em pauta. Carlos Sarmento Coelho – “Clemente”. sendo 13 em São Paulo. acompanhadas de ações de “panfletagem e pichamento”. cit.983 mil cruzeiros. conforme esse documento. que após a morte de Lamarca. antes mencionado. levaram. por outro lado. cerca de 400 mil cruzeiros em jóias e relógios. vinham praticando diversas ações terroristas. O documento em referência conta que os órgãos de segurança de São Paulo. Minas Gerais (1).e Ana Maria Nacionovich Correia – “Bety” conseguiram fugir. Desses.800 mil cruzeiros em jóias. Conforme esse documento.. na cidade de Juiz de Fora (Minas Gerais). Observe-se.48 . Minas Gerais (1). para iguais períodos – jan a out – o quantitativo roubado em 1971 é superior ao do ano de 1970 (8.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações “aparelho rural” no município de Brotas de Macaúbas (Bahia). realizado por organizações de esquerda. aproveitando notícias inverídicas. totalizando 471 mil cruzeiros. que em 17 de setembro. Consta. pareciam “estar retraídos”. um prisioneiro “subversivo” declarara “ter certeza absoluta” de que. no mês. os subversivos. O documento registra. Em vez disto. que esta ação não se efetivaria. bombas armadas com dispositivos de detonação. apenas 60 tinham resultado em roubo de dinheiro. No período. ademais. Destes. agora vinham realizando atividades em que empregavam agrupamentos de 8. comerciais. entretanto. foi o do embaixador da Alemanha Ocidental.. no exterior. p. Goiás (2) e Distrito Federal (1). foram roubados. ademais. Goiás (1) e no Distrito Federal (3). Nesta operação. um de sexo feminino. este. ”informações de um lavrador de que dois elementos se encontravam em Pintada [interior da Bahia]. os grupos armados haviam deixado de praticar ações de reduzida importância. as organizações clandestinas “pretextando vingar a morte do líder subversivo”. denominada Inspiração Comunista Cubana – ICC. ainda. Pernambuco (1). desde “a morte de Carlos Lamarca e o frustrado assalto a um caminhão do Exército.” a tratar de revelações obtidas mediante interrogatórios (sob torturas brutais) a que eram submetidos os integrantes de organizações clandestinas. É o primeiro. 16 e 20 indivíduos. da série aqui em exame. os assaltos a estabelecimentos bancários. haviam logrado atrair um grupo de terroristas intencionados de assaltá-la. cercada de absoluto sucesso no período anterior. aproveitem a morte de Carlos Lamarca para intensificar a campanha contra o Brasil. 28 na Guanabara [atual município do Rio de Janeiro] e os demais nos Estados do Rio de Janeiro (7). sendo 36 em São Paulo. haviam concentrado atuação sobre “estabelecimentos bancários. no segundo semestre de 1971. geralmente. conforme o documento em foco. e ferido Aldemar Campos Barreto”. Jacob. 42 tiveram como resultado o roubo de dinheiro. O primeiro deles registra. finalmente. e outras atividades guerrilheiras eram. Eles foram produzidos. entre o final de outubro e princípios de novembro de 1971.” O outro documento sem data foi produzido. O documento. aqui. Comenta-se aí. O último seqüestro. quando foram mortos três terroristas”. foram mortos” Carlos Lamarca e José Campos Barreto. . onde. haviam sido realizados 79 assaltos. além de deixarem abandonados dois veículos contendo. freqüentemente. os subversivos que antes agiam. apesar de ferida a bala. op. os “agentes da lei” eliminaram Antônio Sérgio Matos – “Moreno”-. foram realizados 55 assaltos. etc. 35 no estado do Rio de Janeiro e os demais nos estados do Rio Grande do Sul (3). que totalizou 954 mil cruzeiros. de que o cadáver apresentava um grande hematoma no olho esquerdo e ferimentos a faca. Manoel Mendes Nunes – português – e Alexandre José Ibsen – “Bigode”. ao resistirem à prisão. Bahia (2).. carros transportadores de valores e grandes estabelecimentos comerciais e industriais. em dezembro de 19709. Destaca-se que. de começo. nos últimos tempos. os assaltos haviam rendido cerca de 1. provavelmente.939 mil cruzeiros. no mesmo período – jan a out – o número de assaltos 9 GORENDER. contra 6. Na ocasião.

incêndio de automóveis. e dois rapazes. os terroristas teriam distribuído um panfleto. “subversiva que se encontrava em Cuba fazendo curso de guerrilha”. na época. c) em Cuba.” Um novo documento da série aqui examinada data-se de novembro de 1971. “permitiram que três desses terroristas. etc. A análise comparativa de dados referentes a 1970 e 1971. entretanto. seis praticadas contra propriedades de cidadãos norte-americanos. as seguintes: a) 28 brasileiros haviam feito “Curso de Guerrilha” em Cuba. o período ao qual ele se refere havia sido relativamente calmo. Um novo documento da série aqui examinada não foi datado. Entre as informações obtidas do prisioneiro. No Rio de Janeiro. Avisamos a esses cães de guarda dos imperialistas.. em São Paulo. atentados a bomba. resultando disto a apreensão de passaportes falsos e outros documentos. pavios. No mencionado período. a essas ações somou-se o assalto a uma pedreira. visando a criar a intimidação e o pânico.49 realizados em 1971 também é superior (563 assaltos em 1971. . durante o mês de novembro de 1971.. veículos e explosivos”. apresentavam características diferentes das que se levavam a efeito na região do Rio de Janeiro. Somos muitos Marighellas. “os subversivos utilizaram a área paulista como campo para. um jovem pertencente a ALN. da violência desencadeada. ações psicológicas.. cedera suas instalações para a realização de um Simpósio sobre Segurança Nacional. por membros da ALN. prosseguiram as ações de assalto a agências bancárias..” A documentação apreendida com os militantes mortos possibilitara a ampliação das investigações. a 15 de dezembro de 1971 e contém relato de um episódio de “Ação Terrorista de propaganda armada”. colaboração ideológica e financeira desta Escola. assassinado em 2/11/71 pela ditadura que recebe.. testemunhas da execução tinham podido identificar. quanto às quantias roubadas... fossem identificados e mortos. as atividades subversivas realizadas em São Paulo. pela fabricação de bombas.. 1 em Goiás e 1 no Distrito Federal. em 1970. em troca do Embaixador da Alemanha. Conforme se informa nele. diz respeito ao período de 16 a 31 de dezembro de 1971. organizações subversivas haviam praticado 37 assaltos: 28 no estado do Rio de Janeiro. as ações terroristas haviam ocorrido com uma “freqüência incomum”.” Conforme o documento em referência. em que se lia: “Esta ação revolucionária de hoje. “que haviam sido banidos para a Argélia. o que confirmava declaração tomada de um subversivo então preso. seus três autores. nesta organização. espoletas e cordéis detonantes. no documento.. espoletas. foi executada pelo Comando José Roberto Arantes. Somos muitos Lamarcas. de militantes treinados em Cuba. neste ano. e 15 daquele mês. 14 em confecção.. ocorrido na noite de 30 de novembro. sobre atividades da ALN. de onde foram levadas grandes quantidades de dinamite. O documento que vamos examinar. Em São Paulo. e. mereceram menção. Após o assalto. os quais revelaram a existência de uma nova dissidência na ALN. Tratou-se de assalto a um posto do Banco de Minas Gerais. ao número de assaltos e ao total de mortos e feridos. O primeiro registro nele contido refere-se a informações obtidas de um terrorista.História & Luta de Classes. Julho 2009 (45-51) . através da obtenção de numerários. os números foram superiores aos do ano anterior. fora preso. a partir de agora. preso em 4 de novembro último. ao procurarem seus contatos. Neste período. o total de mortos e feridos. de um militante daquela organização. Este documento contém o relato de um episódio de “justiçamento” (execução sumária). Conforme o texto em foco. a partir de agora. Tratava-se de uma moça. segundo o referido relato. responsável. 3 grandes e 2 pequenos em São Paulo..tinham sido registradas. os terroristas treinados tinham recebido endereços de militantes da ALN. b) destes. naquele período. O documento “confidencial” que vamos examinar. procedida no texto em foco. contra 220.. Na visão do autor do documento. Fora a direção nazista desta Universidade. treze ações – ataques a veículos da polícia. 1 em Pernambuco. Conforme ele. Entre os dias 1º. Viva José Roberto Arantes.. em São Paulo. 6 em São Paulo.. com segurança. aluno de Física da USP e do ITA. depreendese que tenha sido elaborado no final de novembro de 1971. bem como de roubo de automóveis. o período que antecedeu sua elaboração teria se caracterizado pela ocorrência de roubos de vultosas quantias. a expropriação de fundos. permanganato de potássio. Conforme esse documento. formada por militantes treinados em Cuba.” Segundo o documento ora em pauta. no decorrer de 1971. . com os quais deveriam estabelecer contacto quando chegassem ao Brasil. entre fins de 1969 e início de 1970. etc. quanto ao número de ações subversivas: 48 pequenos assaltos no estado do Rio de Janeiro. em São Paulo. Pelo seu conteúdo.. Fora os da ditadura. Conforme o relato. diferentemente. da propaganda e da intimidação pareciam indicar a presença. Em seu “aparelho” tinham sido apreendidos: 3 bombas prontas. que é chegada a hora da justiça revolucionária. supermercados e indústrias. existente nas Faculdades Metropolitanas Reunidas.. as diligências efetuadas a partir das revelações feitas pelo prisioneiro. em outubro. 8 haviam regressado ao Brasil. enquanto que reservaram a área do Rio de Janeiro para o apoio logístico. instituição freqüentada por policiais e que. é bastante superior ao total do ano passado. denominada “Grupo da Ilha”. entre elas. o grau de violência dessas ações e o emprego de explosivos. Nº 7. em 1970). cujos nomes aí se menciona. apesar do decréscimo. revela que neste último ano. refere-se ao período de 1º.

” (Grifo nosso) Conforme o documento em referência. carecem de fidedignidade. com graus de sigilo “Confidencial” e “Reservado”. a destruição dos documentos “Sigilosos” e “Secretos” provenientes do SNI. as ações subversivas vinham-se caracterizando pelo elevado grau de violência. Já os assaltos a supermercados.” Nestes dois anos. lavrando termo conforme o modelo para isto existente.. assim como o ofício acima. “visando a criar um clima de animosidade contra as autoridades”. juntamente com ele. de duas “organizações terroristas”. b) “doutrinar e aliciar. Ambos estes termos deveriam ser. ademais. que o chefe dessa ASI destruísse os documentos. Essas organizações. fazendo deste constar. uma operação realizada por órgão de segurança na região de Imperatriz (Maranhão). o diretor da Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério do Interior encaminhou ao chefe da Assessoria de Segurança e Informações (ASI) da SUDECO. embora tenha havido um sensível decréscimo no número de assaltos. orientado e conduzido segundo técnicas cientificamente elaboradas. O jornalista Elio Gaspari. levantou dados sobre ações praticadas por cinco organizações guerrilheiras em São Paulo. produzidos pelo SNI ou a este “referenciados”.. presos na cidade Juiz de Fora. 10/89. a VAR-Palmares. elaborando também um termo de destruição.” b) “No mesmo período – Jan a Dez – o número de assaltos realizados em 1971 também é superior – (725 assaltos em 1971. o Ofício Circular No. de Cigarros Souza Cruz e a firma Sidney Ross Co. um documento sem qualquer menção ao período de tempo a que se refere. na presença de duas testemunhas. bem provavelmente. carimbado com a palavra “SECRETO”. realizaram-se 130 assaltos. fora encaminhado à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos das Nações Unidas.50 . tinham com relação a eles os mesmos objetivos: a) “assegurar refúgio para elementos identificados e perseguidos nas grandes cidades. a VAR-Palmares e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores – PRT -. Nesta mesma cidade. resultara na prisão de vários indivíduos subversivos. esta última.. tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo.. Circunscrição de Justiça Militar de Juiz de Fora. em que seu autor renegava a subversão e demonstrava “revolta ante as calúnias de documento denunciando torturas. para cada ano civil. pelos diversos órgãos de comunicação de massa. havia praticado doze assaltos. sob sua custódia. nela incluídos os documentos “confidenciais” examinados no corpo deste trabalho. durante o mês de dezembro de 1971. Conforme ele. este. no biênio 1970/1971.. forneceu uma boa gama de subsídios para meditação daqueles que não acreditam ou duvidam da existência de um quadro subversivo em desenvolvimento no Brasil. deixando ali três mortos e um ferido. Em São Paulo. organização não incluída entre as cinco referidas acima. desencadear a guerrilha rural.. Informa-se aí que. em seguida. Seu conteúdo parece indicar. Este mesmo grupo praticara ataques a bomba..” Segundo o documento em foco. um grupo remanescente da ALN havia assaltado a Casa de Saúde Dr. O documento “contendo denúncias sobre falsas torturas”. pelo qual solicitava que este procedesse. chegando ao seguinte resultado: “. que tenha sido elaborado no final de 1971. Solicitava.. entretanto. começa “contando a sua iniciação políticoideológica.” Conforme comentário contido no documento em foco: “A ampla divulgação dada ao documento elaborado pelo terrorista. à Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Brasil e à Auditoria da 4ª. No Rio de Janeiro. deixando 10 pessoas feridas.. c) “quando oportuno. visto que a documentação sigilosa constante do acervo da SUDECO no Arquivo Nacional alcança volume considerável. embora empregassem métodos diferentes para a implantação de núcleos subversivos naquela área. Este procedimento da parte de terroristas presos obedecia a orientação emanada da cúpula subversiva. Tais procedimentos não foram executados. apenas a quantidade de documentos destruídos. um grupo praticara ataque a bomba contra o consulado da Bolívia. nos últimos tempos. O texto redigido pelo militante preso. encaminhados à DSI/MINTER. sobem para 16 no ano seguinte. confirmando-se a atuação. d) “No mês de dezembro. foram registrados os maiores índices de assaltos e de quantias roubadas de todo o ano”. Ltda. onde queimou várias bandeiras do Brasil e cartazes de convocação para o Exército. oito a . c) “o total de mortos e feridos. neste ano. ou o foram apenas parcialmente. originária da Ação Popular – AP. Vamos examinar. fundada em vasta pesquisa em fontes primárias. conforme o documento ora em pauta. por organizações de esquerda. acerca de ações de guerrilha urbana levadas a cabo no Brasil. sendo 102 no estado do Rio de Janeiro e 28 em São Paulo. assinado por sete terroristas” que se achavam. Eiras. Os dados numéricos contidos nos documentos examinados neste trabalho. ali. contra 248 em 1970)”. em São Paulo. as populações locais. contra a Cia. escrito por terrorista aí nomeado.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações A segunda parte do documento ora em foco recebe o título “Subversivo renega o terror e repele calúnias contra o País”. A análise dos dados estatísticos da subversão permitiu verificar-se que: a) “Para iguais períodos – Jan a Dez – o quantitativo roubado em 1971 é superior ao de 1970. para a subversão. os assaltos a bancos caíram de doze em 1970 para sete em 1971. os órgãos de comunicação de massa “de todo o País” haviam divulgado um documento de 13 laudas. um grupo armado tinha invadido um colégio. em 21 de dezembro de 1971. revela as mazelas existentes no submundo da subversão. conforme Gaspari. Após descrever a técnica utilizada pelos subversivos para 'conduzir o jovem militante a um comprometimento cada vez maior'. Notas Finais Em 4 de dezembro de 1989. dez em 1970. é bastante superior ao total do ano passado”. também sob sua guarda. autor de volumosa obra sobre os governos militares. a partir de agora.

Conforme este autor. Nº 7. cerca de cinqüenta mil pessoas foram presas e. A produção. pelo menos vinte mil sofreram torturas11. em todo o Brasil.História & Luta de Classes. 131. no início de 1972. Elio. tinha em vista justificar. no período.51 supermercados e os demais a estabelecimentos fabris ou comerciais. A ditadura escancarada. de dados estatísticos muito elevados sobre ações “subversivas”. a brutalidade dos métodos utilizados por esses órgãos. Julho 2009 (45-51) . 10 GASPARI. p. Com base em levantamentos realizados por diferentes instituições da sociedade civil brasileira. bem assim. 320 militantes de esquerda foram mortos pelas forças de repressão. seis delas contra bancos10. São Paulo: Moderna. São Paulo: Companhia das Letras. 386. pelos órgãos de segurança e informações. no combate às organizações de esquerda e. no período. Tais dados podiam justificar. no semestre anterior. dados estes informados às principais autoridades governamentais brasileiras. são dados como “desaparecidos”. embora. provavelmente. além de 144 outros que. estima-se hoje que. tenham também sido mortos. Um balanço das atividades repressivas no Brasil durante os governos militares informa-nos que. provavelmente. perante estas. O golpe de 1964 e a ditadura militar. informava que. p. Júlio José. . uma relação “autocongratulatória” divulgada em Roma. 2002. por outro lado. 1994. a existência e funcionamento do enorme aparato de que se constituía o Sistema Nacional de Segurança e Informações. as organizações armadas haviam praticado trinta e três ações. a pertinácia com que perseguiram e eliminaram os militantes destas organizações. destas. 11 CHIAVENATO.

Foi nessa conjuntura do Estado de segurança nacional brasileiro que ocorreu o seqüestro dos uruguaios e o posterior julgamento e condenação de dois policiais do DOPS. de ampla repercussão internacional na época. Operación Cóndor. Lohlé-Lumen. Esse fato significou. Para tanto. foi o julgamento e a condenação de.15 . sobreviveram à rapinagem inter estatal do Condor que torturou. (1964-1984) Petrpóilis: Vozes. com o intuito de perseguir e executar seus “inimigos internos” que estavam refugiados em outros países em nome da Segurança Nacional da região. Nesta reunião se propôs uma 4 MARIANO. insp.. Isso só foi possível porque a ditadura cívico-militar brasileira passava por uma fase de “distensão” política no governo Geisel (1974-1978). Terrorismo de Estado en Cono Sur. chefe da Direção de Inteligência Nacional (DINA). (. não vacilaram em vulnerar a soberania dos países e matar milhares de oponentes. que. insp. por astúcia. 3 ALVES. evidenciando a participação brasileira na Operação Condor.. garantia-se o controle da sociedade civil pela aplicação seletiva do poder coercitivo”3. Estado e Oposição no Brasil.RS Cap. desde o fim do “milagre”. o método do terrorismo estatal foi utilizado em larga escala de maneira coordenada para desarticular grupos de exilados que se organizavam de diferentes maneiras para fazer oposição aos regimes autoritários de seus países de origem. Universindo Rodriguez Díaz. que ficou conhecido como o “seqüestro dos uruguaios”. de modo a baixar os níveis de dissensão e tensão que havia tornado muito fortes as 'pressões'. Eduardo Ramos. que.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Ramiro José dos Reis* I ntrodução Há trinta anos ocorreu em Porto Alegre o seqüestro político internacional dos cidadãos uruguaios. major José Bassani. O significado histórico deste fato. bem como. sob iniciativa do general Manuel Contreras. entre os serviços de inteligência. pelo menos. polícias políticas e militares nos países do Cone Sul em meados da década de 1970. as ditaduras. Pedro Seelig. Finalmente. seqüestrou e desapareceu com centenas de latino-americanos em nome da manutenção de um modo de produção injusto. em 12 de novembro de 1978.p. assim. Maria Helena Moreira. porém clandestina. Glauco Yannone. afetado pelo agravamento da crise econômica. trinta anos depois da militância obstinada de Lilián e Universindo.52 . polícia secreta chilena e braço direito do ditador Augusto Pinochet. Camilo e Francesca. através da disseminação da cultura do medo que de certa forma prevalece até os dias de hoje. Nilson Cezar. utilizavam o Terrorismo de Estado para garantir a exploração de classe e assegurar a hegemonia do capital monopolista internacional e do empresariado nacional. inspetor Orandir Portassi Lucas (“Didi Pedalada”). como as demais nações do Cone Sul. bem como verificar suas conseqüências para o Estado de segurança nacional brasileiro que. Lilián Celiberti Casariego e seus filhos. Para consolidar seus regimes de força. João da Rosa (“Irno”). o reconhecimento do Estado sobre a participação brasileira na Operação Condor que atuava à sombra da total impunidade no Cone Sul da Segurança Nacional. empilhando cadáveres para dominar populações através do amedrontamento coletivo4. O trabalho *Professor de História da rede pública municipal de Gravataí .) Simultaneamente. organização e sorte. Este artigo visa resgatar o papel ativo do Brasil na Operação Condor que torturou e seqüestrou “requeridos” que estavam exilados ou de passagem por aqui aos seus países de origem. dois agentes públicos responsáveis pelo seqüestro do lado brasileiro. 186 1 também pretende esmiuçar o seqüestro político dos uruguaios em Porto Alegre. Eduardo Ferro. buscava diminuir a tensão sócio-política: “A meta global da política de 'distensão' era concluir a institucionalização do Estado de Segurança Nacional e criar uma representação política mais flexível. Buenos Aires: Ed. Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil A Operação Condor foi a internacionalização do Terrorismo de Estado (TDE) através da cooperação oficial. de 25 de novembro a 01 de dezembro de 1975. 1998. A conexão repressiva foi “oficializada” na Primeira Reunião de Trabalho de Inteligência Nacional realizada em Santiago do Chile. Janito Kepler. pretende lembrar. p. em 1978. 1984. O seqüestro foi uma ação binacional entre militares uruguaios da Companhia de Contra-Informações1 e policiais gaúchos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS2) configurando-se numa clássica operação de cooperação e coordenação entre as comunidades de informações dos dois países. articulou a perseguição de brasileiros em outros países. 2 Del. explorador e dependente. ao menos.

. em Paris. através da Operação Condor. na maioria das vezes. também houve o atentado contra o dirigente chileno Bernardo Leigthton e sua esposa em Roma (06/10/1975) e o assassinato do militar uruguaio. por vezes. perseguidos em seus países de origem. em termos de repressão. Não é casual a imposição de regimes fascistas nos países em que o movimento das massas em ascensão ameaça a estabilidade do poder das oligarquias. no primeiro momento. pois. Aliás. Primeiramente. Maria Helena Moreira. inaugurou a sucessão de golpes cívicomilitares. Como el Uruguay no hay. À estratégia internacional do imperialismo c o r re s p o n d e a e s t r a t é g i a c o n t i n e n t a l d o s revolucionários”7. A terceira fase seguia a mesma lógica da segunda. o assassinato e a desaparição forçada dos exilados políticos adquiriram uma proporção muito maior que a sofrida nos países de origem (com exceção da Argentina6)”. ao contrário da Junta. além das fronteiras de cada Estado. Criada após a II Guerra Mundial (1945) no Pentágono. 2006. 1984. 8 O assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letellier em Washington (21/09/1976). Para entendermos esta articulação subterrânea entre as ditaduras do Cone Sul devemos compreender a Doutrina de Segurança Nacional (DSN). já que o que valia. p. Tese. novembro. Embora a JCR não tivesse conseguido criar condições concretas para a ação ela serviu para justificar a coordenação terrorista inter estatal da Operação Condor que. portanto pela guerra suja. na guerra psicológica. associadas ao capital estrangeiro.23 6 PADRÓS. treze são brasileiros. para combater.369. O golpe de Estado no Brasil. visava deter. 2005. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. em 1972. porém. p. porém se negando a participar da terceira fase. forçavam o exílio de centenas de militantes que. Enrique Serra. Exército de Libertação Nacional da Bolívia (ELN) e Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) do Chile. Petrópolis: Vozes. eram as “fronteiras ideológicas”. No Brasil os militares agora temem ser alvos de processos judiciais internacionais. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). Conforme Alves (1984) a DSN era “um instrumento utilizado pelas classes dominantes. de maneira seletiva e clandestina. em 1964. Outra justificativa para a criação do Plano Condor foi o surgimento da Junta de Coordenação 5 ALVES. restrita à América Latina. Julho 2009 (52-57) . bem mais que qualquer peso na consciência. Argentina. Entretanto. pelo menos três deles estiveram envolvidos 7 DECLARACIÓN constitutiva de la JCR. torturar e transladar ilegalmente os presos políticos para suas nações de origem para depois executá-los e. Essa doutrina foi o sustentáculo ideológico das ditaduras cívico-militares que se proliferaram no Cone Sul para conter o eminente avanço da classe trabalhadora organizada no processo de acirramento da luta de classes nos países da região. na fase dois. Entretanto. os “inimigos internos” de cada país. o Peru e o Equador. Exército Revolucionário do Povo (ERP) da Argentina.53 ampliação da atuação do Terror de Estado em nome da Segurança Nacional. total e permanente. A abrangência da DSN não se limitava aos territórios nacionais na aplicação do TDE. 9 Posteriormente se somariam a Bolívia. Nº 7. dentre outras. A segunda fase. que foi criada pela iniciativa de Miguel Enríquez.1. protagonista e não mero coadjuvante como querem nos passar hoje os militares aposentados. e disseminada nas escolas americanas no Panamá.705 Revolucionária (JCR) que era uma organização internacionalista composta pelos grupos armados marxistas: Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) do Uruguai. Porto Alegre. na mais pura impunidade e protegidos pela lei de anistia. A los Pueblos de América Latina. p.História & Luta de Classes. através de intensa espionagem das comunidades exiladas para constituição de um banco de dados comum aos países membros. A doutrina buscava justificar o combate aos “inimigos internos” por todos os meios. que exige a extradição de 146 militares latino-americanos responsáveis por seqüestros de pessoas de cidadania italiana nas décadas de 1970 e 1980. e. O Plano Condor estava dividido em três fases de execução: a primeira visava uma troca sistemática de informações sobre cidadãos requeridos pelos serviços secretos de cada Estado. Doutorado em História – UFRGS. estes golpes que foram tomando o sul da América Latina. como na recente ordem internacional de captura feita pela justiça italiana. Michel. O marxismo na América Latina. apoiado pelos EUA. O Brasil aderiu efetivamente no ano seguinte. em 1976. Segundo Padrós (2005): “O uso do seqüestro. Ramóm Trabal. Uruguai e Paraguai9. Para desarticular os grupos de contestação que tentavam se reorganizar no exílio. na luta contra a chamada “guerra revolucionária”. Terror de Estado e segurança Nacional. buscavam refúgio nas nações limítrofes. órgão da JCR. para justificar e legitimar a perpetuação por meios não-democráticos de um modelo altamente explorador de desenvolvimento dependente”5. abrangia territórios além do Cone Sul8. n. que nada mais era que reproduzir o que era feito dentro dos territórios nacionais. Entretanto. operou com eficiência dentro e fora da América Latina. ela suscita um temor pela punição dos responsáveis que estavam acostumados a agirem. perpetuados em nome da DSN. violando os direitos humanos. Além deste. Che Guevara. EUA. o nosso país desempenhou um importante papel no operativo sendo. as ditaduras de Segurança Nacional utilizaram o TDE de maneira sistemática e coordenada. a DSN tinha o intuito de preparar os oficiais latino-americanos para a guerra total e permanente contra o comunismo internacional onde ele estivesse. 1974. Uruguai (1969-1984): Do pachecato à Ditadura Civil Militar. in LOWI. da detenção clandestina e da tortura das vítimas nos procedimentos dos comandos repressivos reproduziu o que já ocorria no interior das ditaduras da região. a memória militar sobre a Operação Condor é incômoda. “O imperialismo norte-americano desenvolve uma estratégia internacional para deter a revolução socialista na América Latina. 2005. Desses. Porto Alegre: UFRGS. ocultarem seus cadáveres. realmente. a operação teve a adesão do Chile.

os adultos foram torturados. Desde o escândalo do assassinato de Vladimir Herzog. A própria Celiberti. praticamente. Mas a guerra suja continuava vigente. O nosso país participou efetivamente da Operação Condor e o estado do Rio Grande do Sul teve um importante papel geopolítico para a rapinagem da repressão transnacional. em 1975. porém mais seletiva e clandestina como na Operação Sapatos Velhos. ela teve sua segunda filha. 2006. En los Sótanos de los Generales. Universindo era um estudante de medicina no Uruguai. confirmando assim a participação do Brasil no Mercosul do Terror. a única estratégia era a militância pela denúncia das violações dos direitos humanos a partir do exílio. No dia 12 de novembro de 1978. Ex-integrante da organização de bases Resistência Operária Estudantil (ROE) foi presa em 1972. Jorge Oscar Adur e Lorenzo Ismael Viñas: (1980). Hugo Cores. 10 João Osvaldo Leiva Jobs (ex-secretário de segurança do RS). atuando na propaganda clandestina contra a ditadura uruguaia e no auxílio aos perseguidos políticos em busca de refúgio. recebe as descargas elétricas e a PAZ. Tal síntese só pode ser explicada naquele contexto da luta de classes. A situação política no Brasil não era mais a mesma. dentre os quais podemos destacar a suspeita morte do ex-presidente João Goulart. Dissertação de Mestrado. A onda de repressão que se instaurou contra seus membros em Buenos Aires foi tão violenta que seus militantes experimentaram o que tinha de mais cruel e sofisticado em termos de TDE cooperado entre Argentina e Uruguai. os generais Geisel e Golbery desejavam livrar-se do estigma de terror dos anos anteriores13. seis guerrilheiros montoneros11 argentinos foram seqüestrados e desaparecidos em território brasileiro. Lilián Celiberti e Universindo Rodriguez. O partido foi duramente reprimido e quase aniquilado após o golpe civil-militar na Argentina.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre diretamente no seqüestro dos uruguaios. Na capital gaúcha. que tinha o hábito de fazer seus contatos a pé em longas caminhadas com seus sapatos gastos. O PVP era um partido socialista independente fundado em Buenos Aires. a Operação visava resgatar parte de U$10 milhões provenientes do seqüestro de um industrial. em março de 1976. . O dirigente sindical Gerardo Gatti12 propôs. Assunção: Expolibro/Servilibro. Além dos brasileiros desaparecidos ou mortos no exterior. quando estava indo para um jogo do Internacional no estádio Beira Rio.214 13 Operação Sapatos Velhos A chamada Operación Zapatos Viejos. Terrorismo de estado no seqüestro-desaparecimento de seis guerrilheiros argentinos .p. Alfredo Boccia (et. Ruggia (1974) e Norberto Armando Habegger – (08/ 1978). PPGHistória/PUCRS. especialmente seu Secretário-Geral. Lilián era professora do primário no Uruguai e líder sindical do magistério. Ver: MARIANO. Horácio Domingo Campiglia. porém. Los documentos ocultos del Operativo Condor. Ex-delegado Marco Aurélio Silva Reis (ex-diretor do DOPS) e Coronel Àtila Rohrsetzer (ex-diretor da Divisão Central de Informações-DCI) 11 Enrique N.Condor. enquanto as crianças ficaram aos cuidados da escrivã policial. por exilados uruguaios oriundos de grupos libertários como a Organização Popular Revolucionária 33 Orientais (OPR33). Além de desarticular o partido. all). acelerado pela crise do petróleo (1973) e a estagnação econômica geraram descontentamentos sociais que forçaram o ditador Ernesto Geisel anunciar a “distensão” política. era o nome codificado de uma operação da Companhia de Contra-Informações do Exército uruguaio sob comando do coronel Calixto de Armas que tinha por objetivo prender os membros do Partido pela Vitória do Povo (PVP).54 . uma síntese revolucionária entre o anarquismo e marxismo. já que o sindicalismo estava totalmente enquadrado e a luta armada desmantelada. no auge do TDE no Uruguai. “Camilo e Francesca. O fim do “milagre econômico”. Lilián e Universindo estavam elaborando um dossiê denunciando as violações dos direitos humanos em seu país além de manterem contatos com setores da imprensa independente e líderes sindicais. Mônica Susana Pinus de Binstock. nua e com arame nos ouvidos e nas mãos. na fundação do PVP. como depois do caso LiliánUniversindo. Os seqüestrados foram levados ao DOPS onde. Nilson Cezar. tanto antes. que esperaram ir ao futebol com Yano (Universindo) enquanto ela. como os chamados “vôos da morte” e o seqüestro de crianças pequenas ou nascidas na prisão. o seqüestro dos uruguaios ocorrido em novembro de 1978. Montoneros no Brasil. 12 Desaparecido em Buenos Aires em 1976 na Operação Invasão que era um desmembramento da O. talvez. Francesca que na época do seqüestro tinha apenas três anos. ligado ao movimento estudantil que. Em Milão. Universindo com os filhos dela. A leitura que os uruguaios do PVP fizeram da conjuntura brasileira naquela época não estava equivocada. Porto Alegre. A cidade de Porto Alegre era o exílio mais próximo do Uruguai e de lá era distribuído o periódico clandestino Compañero do PVP. dentre esses. 2002. Mesmo sofrendo todas estas atrocidades o PVP continuou sua militância no exílio com quadros atuando na Europa e no Brasil. em Porto Alegre10. O caso mais emblemático foi. na Delegacia. que culminou com o seqüestro dos uruguaios em Porto Alegre. braço armado da Federação Anarquista Uruguaia (FAU). sendo dois anos depois deportada para a Itália com o marido e seu filho Camilo que em 1978 tinha sete anos. A relativa liberdade de imprensa favoreceu uma rede de contatos dos uruguaios que depois seria fundamental na denúncia do seqüestro. que também detém cidadania italiana é uma das principais testemunhas do processo. teve de sair de seu país exilando-se na Suécia até retornar da Europa para o sul do Brasil. um comando binacional seqüestrou Lilián na rodoviária de Porto Alegre e depois. ao exemplo de Celiberti. já que a correlação de forças havia mudado em favor da luta contra a ditadura no final da década de 1970. em que. Cores estava escondido em São Paulo.

Porto Alegre: L&PM. Lucy. In: Arquivo Pessoal de Omar Ferri A. O advogado Omar Ferri foi contatado por Jan Rocha do Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os países do Cone Sul (CLAMOR) e assumiu o caso em defesa dos uruguaios travando uma verdadeira batalha judicial contra a polícia federal e contra o DOPS que não reconhecia sua participação no seqüestro. o papel da imprensa e da Ordem dos Advogados do Brasil (Seção RS) foi fundamental na denúncia e. que eram companheiras dela no PVP. foram levados para o Uruguai. que. sobretudo. . Neste sentido. sob tortura. quanto a Polícia Federal e Estadual brasileira. Eu perguntei o que queriam dizer com 'desaparecido' e me respondeu 'detenido'. além de negar a própria ocorrência deste crime. que haviam sido contatados por um telefonema anônimo que mais tarde se saberia ser do próprio Hugo Cores. me dizendo que um casal e duas crianças tinham desaparecido do seu apartamento na rua Botafogo. Camilo e Francesca . liderado pelo major José “Nino” Gavazo que além de notório torturador. Nº3.F (caixa I). as descargas e a água. às 17 horas.P. ou seja. enquanto Lílian foi levada a POA para preparar o que. mãe de Lilián. Fleury. pensando no filho de Sara. fotógrafo da revista Placar (que trabalhava na mesma sucursal). Para tanto.12 15 Em alusão ao famigerado delegado da OBAN. em Camilo e Francesca. ela anotou uma mensagem que para seus seqüestradores parecesse normal. 23/11/1978. como era conhecido. Lílian. capa.”16 A operação teve que ser abortada.O. tentavam de todos os meios. as crianças e os demais presos ficaram no Forte São Miguel a menos de 5 km da fronteira. o CELIBERTI. pelo menos os meus netos”17.26 17 Jornal da Tarde. O momento mais dramático do seqüestro que reflete bem o grau de TDE articulado no Plano Condor foi quando dona Lilia Celiberti. Segundo Cunha: “Em 17 de novembro de 1978. No Uruguai. era amigo de Seelig. Meu quarto. Vários repórteres engajaram-se na investigação em busca do esclarecimento e da verdade. no Brasil e na Europa. Porto Alegre: L&PM. Por um momento Lílian temeu pelo pior. 14 principal “requerido” da Operação Sapatos Velhos. Na fronteira (Chuy). era conhecido como “ratoeira”. 1989. mas sob custódia e com seus filhos reféns teve que ligar. O “Fleury dos Pampas”15. quando Universindo mal pode se reconhecer no espelho desfigurado de tanto apanhar do capitão Glauco Yannone. Do lado brasileiro o comandante era o delegado Pedro Seelig. ajudou a torturar Lílian e Universindo no apartamento e no DOPS. Esse apelo que reflete a dura realidade das ditaduras terroristas comoveu a sociedade no RS e a comunidade internacional voltou suas atenções para o seqüestro dos uruguaios.” 14 A maior preocupação de Lilián era com seus filhos que. Acervo de luta contra a ditadura. o que interessou ao capitão Eduardo Ferro que era o comandante operacional do lado uruguaio.972.História & Luta de Classes. as descargas e a água. mas para seu companheiro fosse estranha e desconexa. naquela que ficou conhecida como a “farsa de Bagé”. p. os jornalistas Luís Cláudio Cunha e João B. Memorial do Rio Grande do Sul. na filha de Emilia. seus filhos e Universindo haviam sido detidos na fronteira ao tentar entrar no Uruguai com armamentos e materiais sediciosos. Toda esta repercussão fez com que as Forças Conjuntas uruguaias entregassem os filhos de Celiberti ao seu avô no dia 25 de novembro. 1989. filhos de Sara Mendez e Emilia Zafarone. Julho 2009 (52-57) . Lucy. ficaram de campana no apartamento da rua Botafogo até que chegassem novos contatos. Depois. Depois em comunicado oficial emitido pelo Escritório de Imprensa das Forças Conjuntas de nº1401. um casal e duas crianças uruguaias permaneciam detidodesaparecidos. Universindo. GARRIDO. inclusive. A este comunicado agregava-se a versão da polícia brasileira que dizia que os uruguaios haviam sido presos ao tentar ingressar de ônibus no Uruguai portando documentação falsa pela localidade de Aceguá-Melo. Minha cela. Contudo. nas investigações. Nº 7. proteger os envolvidos e obstruir as investigações. A chamada foi feita da sala do diretor do DOPS. No entanto. que tinha no seu currículo o assassinato do seu filho de criação. veio até o Brasil e clamou publicamente: “Entreguem-me. Depois de serem brutalmente torturados. eram reféns e ela temia que eles tivessem o mesmo destino de Simón Riquelo e Mariana Zafarone. Minha cela. Meu quarto. que foram seqüestrados na Argentina através da Operação Condor. O fato é que tanto as Forças Conjuntas uruguaias. GARRIDO. pois no dia 21 a notícia do seqüestro era capa em todos os jornais. A designação de uma palavra cifrada que significava “imprensa” foi o bastante para que o PVP ativasse seus mecanismos de segurança. que me acompanhasse e fomos até lá. desconfiaram da falta do contato de Celiberti. eu era chefe da sucursal da revista Veja em Porto Alegre e recebi um telefonema de alguém falando em espanhol. Scalco. foi noticiado que Lilián.p. Os seqüestros de crianças foram efetuados majoritariamente pelos grupos de tarefas argentinos. os membros do PVP. que tinham um organizado sistema de comunicações. pedi a Scalco. notório torturador. Lilián disse que aguardava um contato em seu apartamento. naquele momento. os detidos-desaparecidos foram novamente torturados com uma simulação de fuzilamento. após permanecerem por treze dias na situação de detidasdesaparecidas. Lílian. era um exímio falsificador de dinheiro. Marco Aurélio da Silva Reis. No dia 17 de novembro. Então. A conjuntura de “distensão” favorecia e o fim da censura nos jornais contribuía para o 16 CELIBERTI. Sérgio P. mas também pelo Organismo de Coordenação de Operações Anti-subversivas (OCOA) do Uruguai. inclusive as crianças que tiveram que deitar no chão. e enviaram-lhe um telegrama para que ligasse imediatamente para Paris. em vez de uruguaios.55 água. chegaram ao apartamento de Lílian. no jargão militar.

Segundo Jair Krischke. delegado Marco Aurélio Silva Reis e o governador do estado. 1981. Já “a legitimidade e a independência da OAB permitiram-lhe questionar as pretensões de legitimação do Estado de Segurança Nacional. finalmente. Faustina Elenira Severino que falecera cinco dias após depor na CPI. a bancada da ARENA liderada pelo deputado Cícero Vianna insistia na tese de que não havia ocorrido nenhum seqüestro e que tudo não passava de “invenção do comunista Omar Ferri”. p. p. a desertarem das Forças Conjuntas uruguaias por não concordarem com os seus métodos terroristas. chegando. Jair Krishke). a propor que não se utilizasse o termo “seqüestro” no inquérito. em se tratando de uma funcionária do quinto escalão da hierarquia policial. chefe da seção de operações. no mínimo.Porto Alegre: Mercado Aberto. Camilo de apenas sete anos. Em realidade. indubitavelmente era o próprio sistema. conivência de seu superior.54. dos filhos de Celiberti sendo inclusive reconhecida por Camilo. general Antônio Bandeira. Entretanto.”19 A OAB chegou a enviar uma comitiva a Montevidéu acompanhada de jornalistas. de um “acidente cardiovascular”. já que o agente era ex-jogador de futebol do Inter. à revelia da comissão. Enquanto os parlamentares do MDB queriam esclarecer os fatos. o asilo político na Noruega para o ex-soldado. estava submetida ao Estado de Segurança Nacional. via Cruz Vermelha. juntamente com o capitão Eduardo Ramos. a participação do major José Bassani que veio ao Brasil na condição de chefe da Companhia de Contra Informação do Exército uruguaio. havia telefonado duas vezes. o ACNUR havia sido criado para proteger as vítimas e não os torturadores.p. para coletar a versão de Camilo. fora envolvida num lamentável crime em que o maior culpado. pela eliminação do silêncio”18. o major Carlos Rossel que veio ao RS no inicio de novembro acertar os últimos detalhes e. O fato mais obscuro do caso do seqüestro dos uruguaios foi a morte repentina da escrivã do DOPS. “O aparato oficial tinha apenas um significado: o sistema emprestava sua presença para o enterro de uma funcionária que.56 . por abuso de poder. inclusive. como executores do operativo. Na justiça estadual as investigações continuavam. O deputado da situação chegou a enviar a Montevidéu. uma de cada lado”20. Do lado uruguaio.127 22 Termo de declarações de Hugo Walter Garcia Rivas prestado em 03/ 05/1980 ao MJDH. e sua mãe que. (documento fornecido pelo conselheiro do MJDH. para acertar o esquema. Seqüestro no Cone Sul: o caso Lílian –Universindo. sua mulher e sua filha. substituindo por “remoção coerciva”. Ferri. Lucas. O menino reconheceu por fotografia o delegado Seelig e o inspetor “Didi Pedalada”. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). 1984. A policial e ex-freira. O desfecho do seqüestro foi que Lilián e Universindo permaneceram cinco anos presos 21 FERRI. presidente do MJDH. O exfotógrafo revelou que antes mesmo de sair do Uruguai já sabia que teriam a ajuda do DOPS gaúcho citando nominalmente o delegado Seelig e o inspetor “Didi Pedalada” que foi reconhecido por todos pelo seu passado futebolístico. conforme seus membros lhe disseram. mas autoridades policiais não deram credibilidade ao testemunho de uma criança justamente porque ela estava dizendo a verdade. p. O caso Lílian-Universindo. 1981. e também. Até uma CPI foi instaurada em 1979 para apurar o “seqüestro dos uruguaios”. Os dois inspetores foram condenados a seis meses de detenção e tiveram suas funções policiais cassadas em Porto Alegre por dois anos. No terceiro andar ficava o DOPS onde Camilo esteve detido com sua irmã de três anos. os capitães Eduardo Ferro e Glauco Yannone. O mais curioso foi que em seu enterro compareceram os mais altos nomes da hierarquia militar como o Comandante do III Exército. Omar. Omar. confirmou que a operação havia sido comandada pelo coronel Calixto de Armas que tinha combinado com um oficial brasileiro de mesma hierarquia que lhe dera sinal verde para a operação. foi fundamental para a posterior condenação dos envolvidos no lado brasileiro e para o esclarecimento do seqüestro. o “Irno”. em troca de asilo político.21” Faustina Elenira Severino havia tomado conta 18 ALVES. Porto Alegre: Mercado Aberto. o chefe de Estado Maior do III Exército. . Os demais réus foram absolvidos e a justiça não aceitou reabrir o processo. segundo laudo médico. o diretor do DOPS. onde vivem até hoje. Amaral de Souza. um “idôneo conhecido” seu. o asilo para Rivas foi negado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) já que. havia descrito aos advogados e jornalistas o prédio da Secretaria de Segurança Pública do estado que fica na esquina de duas largas e movimentadas avenidas de Porto Alegre. entre outros. FERRI. uma delas é cortada pelo arroio Dilúvio. O depoimento do ex-soldado Hugo Walter Garcia Rivas prestado ao Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH22) em 1980. Seqüestro no Cone Sul. esse era o limite da punição da justiça que. Foi uma cerimônia totalmente inédita. Este impasse só foi resolvido quando Krischke conseguiu. sem se identificar. Maria Helena Moreira. mesmo com a política de “distensão”. depois daquele dia ficariam cinco anos sem revê-la. para Ferri para alertar sobre o risco que corriam Camilo e Francesca já que Lilián tinha conseguido falar com ela sobre as crianças seqüestradas na Argentina.217 19 idem. vulgo “Didi Pedalada”. general Luís Henrique Domingues. além de descrever o local que esteve preso como “um prédio grande que ficava na frente de um riozinho com duas ruas. exímios torturadores. Rivas foi um dos primeiros. para persuadir dona Lilia a dispensar os serviços do Dr. os condenados eram inexperientes policiais do DOPS que certamente não efetuariam o seqüestro sem a autorização ou. Petrópolis: Vozes. Em abril de 1981 o juiz Moacir Danilo Rodrigues leu a sentença do processo que condenava os policiais Orandir P.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre “rompimento da cultura do medo. sem qualquer culpa. De seu lado citou ainda. In. 212 20 Camilo Casariego Celiberti. Essa visita teve a inequívoca intenção de intimidar a mãe de Lilián já que o emissário brasileiro foi acompanhado de um oficial das Forças Conjuntas uruguaias. de tantos outros. e João Augusto da Rosa.

qual a estratégia do governo federal em relação ao caso do seqüestro dos uruguaios23. 15 Anos do Seqüestro dos Uruguaios. Além disso. inclusive. constatar que a ditadura de Segurança Nacional brasileira devidamente coordenada e cooperada com a uruguaia e os demais Estados terroristas do operativo contribuiu para consolidação da hegemonia do capital internacional em conluio com a classe dominante. já que é no mínimo surreal imaginar o Wladmir Herzog eletrocutando seus opositores. A demissão do comandante do II Exército foi em 1976. 2007. históricas rivalidades nacionais no intuito de assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe. In Revista História & Luta de Classes: América Latina Contemporânea. sobre. 1984 p. sem esmorecer na luta de classes. pelo menos duas vezes. esse não foi muito bem compreendido pelos participantes brasileiros da Operação Sapatos Velhos. descobrese que o general Octávio Aguiar de Medeiros que substituiu o general João Batista Figueiredo como chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) foi pessoalmente. além de ser amigo particular de Seelig. Considerações Finais A Operação Condor unificou o Terrorismo de Estado de maneira coordenada superando. com os coronéis Luis Mackesn Rodrigues (superintendente da PF no RS). ou o Manoel Fiel Filho ocultando cadáveres de militares. o general aposentado Newton Cruz que durante a ditadura esteve ligado ao SNI e foi Comandante do Exército do Planalto concedeu uma declaração contraditória quando questionado a respeito do seqüestro dos uruguaios em 1978. p. Lembro de Geisel tendo uma crise de raiva quando sabia das barbaridades. provando que a luta dos povos oprimidos não tem pátria. depois da prisão abandonou a medicina para se formar em história. Carlos Alberto Ponzi (chefe da agência do SNI no RS) e a inesperada presença do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (chefe da 16º Grupamento de Artilharia de Campanha de São Leopoldo). Entretanto. ousaram derrubar a ditadura uruguaia rumo a implementação do socialismo. A demissão mostrou à linha dura quem mandava”26. lembrar da Operação Condor no Brasil. trinta anos após o seqüestro.p. Em 1977 foi a vez do general da “linha-dura”.”25 Recentemente. Petrópolis: Vozes. 27/07/2008. Nº4. Em 1993. o primeiro no seu próspero negócio hoteleiro em Punta del Este. pois. Ednardo D'Avila Melo. “Houve muitos excessos. Contudo. Julho 2009 (52-57) . Segundo o ex-preso político: “Os crimes cometidos pela ditadura nestes anos devem ser denunciados. por mais que aquela conjuntura de “distensão” permitisse algumas contestações a última palavra era do comando militar. gozando sua aposentadoria em uma chácara na grande Porto Alegre. porque agiram igualzinho àqueles a quem perseguiam. já que organizações de resistência e combate às ditaduras de Segurança Nacional estavam se (re) articulando no exílio. Nº 7. investigados. O fim dos Segredos 22/11/1993. Além disto. pois almejava ser o sucessor de Geisel em uma das maiores crises internas do Estado de Segurança Nacional. segurança Nacional e Terror de Estado. faz parte do governo da Frente Ampla. o casal Lilián e Universindo seqüestrando filhos de generais.57 nos terríveis cárceres de Punta Rieles e Libertad. Ano 3. Silvio Frota perder seu cargo. 24 “Uma farsa para resguardar o regime”. Tanto para Omar Ferri como para Jair Krischke. Lílian Celiberti vive no Uruguai trabalhando na Organização Internacional do Trabalho (OIT). o coronel Brilhante Ustra estava envolvido na tentativa de despistar a opinião pública. Portanto. fomentar a memória sobre Lilián e Universindo significa resgatar a história desses aguerridos militantes do PVP que. sobretudo na América Latina. pagando pelo crime de lutar pela liberdade e justiça social. Ele retomou o controle da situação quando demitiu o comandante do II Exército. Enrique Serra. é inaceitável a declaração de Cruz quando diz que os opositores do regime agiam “igualzinho” ao Estado terrorista. já que. 15 anos após o seqüestro. a classe trabalhadora nos países do Cone Sul latino-americano. se estas demissões foram um “recado” à chamada “linhadura”. em entrevista ao jornal Zero Hora. a consolidação de um regime democrático enquanto não for desmontado todo o aparato jurídico-repressivo criado em todos esses anos”27. Neste sentido. é. Lá no quartel general do III Exército ele se reuniu com o chefe do EM. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). idem 25 ALVES.História & Luta de Classes. A luta deles continua cada vez mais vigente. Cremos que não haverá no Uruguai.5 seqüestro em Porto Alegre ocorreu em 1978. sem que nunca tivessem sido molestados por qualquer tipo de punição. Enquanto isto os torturadores Eduardo Ferro e Pedro Seelig vivem tranqüilamente. general Paulo de Campos Paiva. Hoje. apurada a responsabilidade e posto tudo a conhecimento de toda a população. sobretudo. mudou os rumos do caso Lilián-Universindo. Ustra era torturador nato que havia sido chefe do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) na fase mais dura da guerra suja. sobretudo. Confidências de um General.223 26 “O arquivo de Newton Cruz. Universindo Díaz trabalha na biblioteca nacional de Montevidéu. As coisas só chegavam ao governo central quando aconteciam grandes rolos. e o segundo. nesses “tempos cinzentos”28 de hegemonia neoliberal. América Latina: Ditaduras. o 23 “A farsa desvendada” In. ou ainda. 27 Em depoimento no filme Cone Sul (1984) de Enio Staub e João Guilherme dos Reis. Maria Helena Moreira. especialmente do seqüestro dos uruguaios em Porto Alegre. Tanto ele como Celiberti se desvincularam do PVP que hoje. julho. configurando mais um ciclo de liberalização do que uma efetiva transição para a democracia. “O período de 'distensão' permaneceu nos limites da Doutrina de Segurança Nacional.” Jornal Zero Hora. na chamada “farsa de Bagé”24.49 . Celiberti chegou a ficar um ano e meio numa solitária. 28 PADRÓS.Caderno Especial Zero Hora. ao RS para tratar em reunião secreta no Estado-Maior (EM) do III Exército. por um lado. a visita dos generais Samuel Alves Correia (chefe do II Exército) e Paulo Campos Paiva (chefe do Estado Maior) ao governador do estado Sinval Guazzeli.

A Repressão Fordista no ABC Paulista Michel Willian Zimermann de Almeida* presente artigo procura chamar a atenção para a classe trabalhadora brasileira no processo de consolidação da Nova República. possuía uma renda mensal próxima a um salário mínimo e próximo dos 60% possuíam uma renda de até dois salários7. 2 CARNEIRO. O novo Presidente. 6 DINIZ.00 da época. p. Tancredo Neves. 1 DINIZ. como a liberdade de expressão e organização. 1990. adotou-se a estratégia de contenção salarial. a Nova República nasce sob grandes expectativas. Celso Furtado4 chama a atenção para o fato de que o problema do combate a inflação brasileira estava na irracionalidade do sistema de decisões.8 bilhões em 1980. p. o artigo chama a atenção para três fatores. e concessão do voto aos analfabetos. p. o Brasil sentia-se da escassez de financiamento externo. A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana 1889-1989. reforma do Estado e governabilidade: Brasil. disparando as desigualdades sociais e a concentração da renda. no inicio dos anos de 1980. 5 Ibidem. ocupada pelo Brasil em 1980. “à visibilidade de seus aspectos econômicos.45-54. Assim. legalização dos partidos políticos. que analisados de forma isolada. Assim para o setor econômico. a balança *Mestrando em História pela Pontífice Universidade Católica do Rio Grande do Sul. nos permite a percepção da diversidade de interesses que estão em jogo em um plano de estabilização monetária e combate à inflação. Dionísio Dias. 1985 – 95. Determinou também a restauração das atribuições do Legislativo e convocou as eleições gerais para 1988. entre as maiores economias industriais do mundo. Assim. Rio de Janeiro: 1997. políticas e econômicas. disto afloram apelo País grupos de representatividades sociais motivados pelos problemas socioeconômicos que adquiriam naquele momento proporções alarmantes. 4 3 .45. não permitem uma visão ampla de causas e conseqüências. gradual e segura.A Repressão Fordista no ABC Paulista 1986 . não basta apenas reforma fiscal. Marcelo de Paiva Abreu. Em 1985. a eliminação dos focos de pressões inflacionárias. destacando as relações entre patrões e trabalhares no contexto do Plano Cruzado. que na incapacidade de distinguir os focos geradores de pressões inflacionárias. op cit. porem quando analisados de forma conjunta. Crise. controle dos gastos governamentais. O comercial registrou em 1981 um superávit de 1. sem reduzir a produtividade e sem gerar tensões sociais. anunciava medidas que vinham ao encontro desses anseios. somou-se o reconhecimento da gravidade de seus componentes sociais e políticos”1. o que dificultava cobrir o desequilíbrio da balança de pagamentos. a estratégia mostrou-se falha para o combate a inflação.1986 . representados pela ameaça de hiperinflação. também é necessário que os setores com poder de decisão do governo cheguem a um consenso quanto ao “âmbito de ação do governo e às prioridades a que deve obedecer a ação do Estado”5. Tal estratégia obteve efeito na reversão da balança comercial. fez com que se afrouxassem os mecanismos de controles sobre a população. onde “após um déficit de 2. todavia. Rio de Janeiro: 1982. diante de tal situação. Porto Alegre: Campus. p. se apelava para o arrocho salarial. A nova dependência. o desafio situava-se em vencer a inflação e retomar o crescimento. Ibidem. procurou-se ao longo do texto caracterizar a realidade econômica pela qual passava o Brasil e que motivaram a criação de tal Plano.323. A riqueza produzida pelo Brasil contrastava com a pobreza de sua população. que pudessem reparar as desigualdades na distribuição da riqueza do País. além chamar a elaboração de uma nova Constituição Federal. ver. Conforme Carneiro2.327. FURTADO. para tanto. Disto. recessão e desemprego. a solução encontrada foi à desvalorização do Cruzeiro. Celso. à população aguardava por reformas administrativas. Eduardo. possuindo bolsa de estudos da CAPES.In: ABREU. situadas nos incentivos à iniciativa privada e nos sobregastos do setor público. elevação das taxas internas de juros e a contração da liquidez real. 2 ed. p. MODIANO. Diniz6 chama a atenção para a posição de 8° lugar. Para tanto. A estratégia militar de fazer uma transição para um governo civil de forma lenta. a possibilidade da Nova República trazia à população esperanças de um futuro melhor. trabalhadores e patronato. pretendia-se ampliar as exportações através do controle e reajustes. p. 7 Para uma melhor compreensão a quanto das disparidades sociais do Brasil nos anos 1980. governo. Ajuste externo e desequilíbrio interno: 1980-1984.2 bilhão”3. pois.41. cerca de 42% da população economicamente ativa. o que permitiria manter os níveis desejados das exportações. p. em especial aos movimentos populares. Eli. Para Furtado.69.68-69. inclusive os de esquerda. Assim. forte endividamento externo. o que não condizia com o salário mínimo de US$ 40.58 . DINIZ (1997). ano em se implanta a Nova república. passariam por mudanças nos preços relativos.

descontadas as antecipações. 9 MODIANO. com o falecimento do Presidente Tancredo Neves. e)Criação da escala móvel de salários. é que não demorou para que setores do empresariado reclamassem dos congelamentos. calculadas as médias dos últimos seis meses. entre fevereiro de 1985 e 1986 a inflação acumulada ultrapassa os 255% a. e passassem a exercerem pressões sob o Presidente para o seu fim. as grandes montadoras de automóveis adotam como estratégia contra o tabelamento dos preços. 11 10 As esperanças de vitória sobre a inflação depositadas no plano eram muitas. São Paulo e Rio Grande do Sul. o que leva o governo federal a decretar em 28 de fevereiro de 1986 o plano cruzado. Diniz11 chama a atenção à rejeição das Associações Comerciais do Rio de Janeiro.História & Luta de Classes. mais um abono de 8%. enquanto o normal era cerca de 750 unidades. e a fixação do salário mínimo em Cz$ 804. que. Entretanto. o país mergulha novamente em um caos econômico. a inflação na data-base. 12 Central Única dos Trabalhadores e Coordenação Nacional das Classes Trabalhadoras. p. c)Congelamento das prestações do BNH. segundo PETRY.55. DINIZ. em especial aos aumentos dos impostos. das mensalidades escolares. correção monetária trimestral. quanto ao Plano Cruzado. 8 PETRY. Realidade econômica II: Problemas. com reajustes automático toda vez que a taxa de inflação acumulada. Em média não deverão superar a marca de 1% ao mês. Entretanto. Julho 2009 (58-63) . com a extinção do cruzeiro (Cr$) e a criação do cruzado (Cz$) correspondente a mil cruzeiro. e congelamento da taxa de câmbio do dólar americano. passados os primeiros meses de euforia com o término da hiperinflação. al Realidade Brasileira. devido a insuficiência de capacidade produtiva da indústria. Almiro. 1988. acrescentando que a produção ainda não havia voltado ao normal devido as recentes paralisações. porem a CUT e a CONCLAT12. reajustados em 1°/03/86 pela média dos últimos 6 meses. Disto. e. José Sarney. d)Reforma Monetária. dos aluguéis. A Volkswagen alegou que o alto nível de seus estoques era em parte devido a problemas relacionados ao controle de qualidade e em parte por serem Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços. Diante do surto de consumo. p. consistia nas principais medidas: a) Congelamento de todos os salários. f) Criação do Índice de Preços ao Consumidor – IPC. Rio de Janeiro: 1986. No campo econômico. g)A fiscalização dos preços será exercida pela população e a punição dos infratores ficará a cargo da SUNAB e polícia federal8. vigentes em 28/02/86 (congelado no pico). Porto Alegre: Sulina.114-115.59 Entretanto. A GM afirmou o mesmo. logo se colocaram contrários ao Cruzado. et. Tampouco deve-se temer a continuidade da inflação na nova moeda (mesmo num patamar muito baixo) pois a realimentação inflacionária em cruzados é mínima9. até que é deflagrada uma série de greves. calculado mensalmente. configurando uma hiperinflação de mais de 15% ao mês. a substituição da ORTN pela OTN. atingir 20%. Mercedes Benz e Saab Scania as denúncias foram confirmadas: “A Ford alegou estar estocando os carros devido à falta de componentes. Nº 7. definidos em tabelas de preços oficiais. tendo seus comércios fechados temporariamente pela SUNAB10. Da inflação ao cruzado: A política econômica no primeiro ano da Nova República.a. b)Congelamento de todos os preços à vista. respectivamente. setores do governo passam a acusar camadas do empresariado de sabotarem o plano. Após o envio de auditores para a verificação na Volkswagen.112-113 . No campo da indústria de bens duráveis. manifestaram o seu apoio ao plano. José Odelso. quanto aos atos do governo. ou porque foram escondidos por grupos econômicos que passavam a cobrar ágio. FGTS e PIS/PASEP. Pois. comerciantes que tentavam aumentar os seus preços passam a ser denunciados pelos “fiscais do Sarney”. as taxas mensais de inflação da nova moeda não manterão qualquer relação com as taxas mensais de inflação do combalido cruzeiro. diante do tabelamento. extinção da correção monetária. In: SCHNEIDER. com valor fixado até março de 1987. e era oriundo das alas conservadoras que haviam dado sustentabilidade ao Regime Militar. atacadistas e comerciantes começam a forçar o aumento dos preços. Ford. conforme o IPC. por entenderam que prejudicaria aos interesses dos trabalhadores. confirme Modiano: Apagada a memória do processo inflacionário com a desindexação. Desta forma. o empresariado acusa os trabalhadores e estes amargam o arrocho salarial e a falta de produtos básicos. Eduardo. com os salários congelados e diante da falta de produtos básicos no varejo. assume a Presidência gerando um clima de desconfiança a respeito do novo Presidente e suas posições. op cit. p. dessa forma os consumidores tinham que esperar até 120 dias para receberem os seus automóveis. tanto a FIESP quanto a FIRJAN. Elizabeth Silva chama a atenção para a denúncia de que a Ford possuía de seis a sete mil veículos estocados para o mercado nacional. medida pelo IPC. O certo. os trabalhadores tinham de pagar mais caro por produtos oriundos do mercado paralelo que se criara.00. General Motors. passando a ser a medida oficial da inflação. pelo IBGE. mercadorias desaparecem das prateleiras. a não entrega de 60% dos automóveis à rede de concessionárias até que fosse autorizado o reajuste dos preços. que possuía pouco carisma popular. aplicável às cadernetas de poupança.

entraremos em nosso objeto de estudo propriamente dito.. esse será um excelente recurso para as empresas.] pedir aos trabalhadores que executem uma certa tarefa. apenas em 1957 se registrou a primeira disputa judicial. 1957 – 1977. A partir desta observação. b) Tentar de todas as formas. como a Argentina.. Desta forma tornava-se necessário um novo método de greves. Em última instância. 249. .. Refazendo a fábrica fordista. após [. Assim. por exemplo. 16 SILVA. E. ao se referirem à indústria automobilística: “mexe com uma área muito delicada”. c) Suspender por um ou dois dias (disciplinarmente) aqueles que entrarem na Fábrica.1986 . p. horas paradas e não estabelecer quaisquer acordos de indenização. Em entrevista. p. Revista Veja. p. questões trabalhistas através da legislação do trabalho e as medidas repressivas adotadas pelos governos militares. A Mercedes Benz recusou-se a receber 150 caminhões carregados de autopeças e decidiu dispensar 4. os trabalhadores simplesmente pararam ao lado de suas máquinas e permaneceram em silêncio. No dia 01 de julho de 1986 o jornal Zero Hora de Porto Alegre. No entanto. 1983. com o agravamento da crise econômica. podiam alegar que as demissões se davam por conta da recessão econômica em que o País se encontrava. sob condição de trabalharem e não cumprirem o prometido.. o diretor de marketing da Ford afirmou que “[. dispensar um certo número de pessoas por justa causa..]15 Além da noticia sobre a possibilidade de importação de produtos do exterior.] o mercado externo merece absoluta prioridade. 1991.500 funcionários por dez dias. ao mesmo tempo em que a produção de automóveis recuperava o seu crescimento entre 1982 e 1986. 11/6/1986. 243.]. na primeira greve em conjunto nas empresas automobilísticas e em indústrias de autopeças.. sem saber quem eram os lideres..] [e] exercer uma pressão psicológica sobre o Sindicato do Empregados [. Um aumento de preços foi finalmente autorizado.. sendo que na Ford. as relações industriais começam a se transformar. Apesar de a Ford ter começado suas atividades no Brasil em 1919. p. 14 13 As reivindicações por salários e melhores condições de trabalho se seguiam até 1982. o aumento não foi exatamente o que as montadoras esperavam. em nenhuma hipótese. apesar 17 18 Ibidem. pois não existindo no Brasil fundo de greve. 19 RAINHO. 15 Jornal Zero Hora. Em fins da década de 70. as empresas passaram a demitir prioritariamente os operários envolvidos no sindicalismo. No entanto. Segundo SILVA17. o patronato chamou o sindicato dos trabalhadores a cada uma das fábricas para negociar em nome dos trabalhadores. foram perdidas apenas oito dias e nove horas com disputas judiciais”16. sendo que “nos vinte anos seguintes. isso se deve principalmente a intervenção do Estado nas SILVA. p. mas as empresas foram obrigadas a vender os automóveis estocados pelo preço anterior ao aumento”13. op cit.. já que o ato ainda era proibido por lei. Governo estuda importação de carros.. as empresas passaram a realizar demissões em massa. desta forma passaram a reduzir o ritmo de produção criando listas de esperas para a aquisição de carros novos. e com base na lei de segurança nacional as greves eram sufocadas com violências físicas e demissão por justa causa. os trabalhadores passam a desenvolver técnicas alternativas de greve. no entanto que a importação de automóveis depende de uma decisão política. B. o que fez com que os carros usados se tornassem mais caros do que os novos gerando assim desestabilidades na indústria de autopeças com os cancelamentos de pedidos por parte das montadoras. o Ministério do Trabalho interviu forçando a Mercedes Benz a cancelar as dispensas. essas medidas intimidavam e disciplinavam os trabalhadores. por sua vez a montadora conseguiu baixar os preços de seus fornecedores.. São Paulo: Hucitec. indicando as seguintes táticas: a) Não pagar. 118. Aphud: SILVA. a FIESP passou a recomendar que seus membros adotassem estratégias contras as greves. p. 25. colocar os grevistas na via pública[. enfraquecendo o poder de reação dos sindicatos.] não hesitaremos em retirar os automóveis necessários do mercado interno para vendê-los a preços melhores”14. Por conta disto. 01/7/1986. chama a atenção à frase dos técnicos da SEAP. 249-250..60 . a greve persistiu por um tempo maior18..] [para] envolver o poder público [. Somente após cinco dias de paralisação é que a Ford aceitou negociar com os trabalhadores. em conseqüência ao desabastecimento o governo passa a estudar a possibilidade de importar produtos que julgue necessário.] poderia ser autorizada a importação pela iniciativa privada diretamente dos paises da América Latina. que é de suma importância por si só. pois “mexe com uma área muito delicada” adiantam [... p.. por maior que seja a procura interna [. Assim. 1991. 213.A Repressão Fordista no ABC Paulista esses automóveis destinados ao mercado externo. pois. (A negativa caracterizará um ato de insubordinação)19. pneus e têxteis: [. publica em sua manchete de capa as intenções do governo federal. Aproveitando-se desta realidade. Os técnicos da SEAP reconhecem.280.

992 Greves contra o Cruzado [. um trabalhador foi impedido por um dos membros da comissão. a promessa do fim do intervencionismo federal no sindicalismo. Nº 7. estagnação econômica e desemprego superado a largas custas22. combinando esperanças e expectativas com um sentimento de união nacional. op cit. p. como fiscais.53. Assim o pacto social proposto pelo governo federal com relação ao plano cruzado. a comissão de fábrica aceitou o pedido. o aumento dos preços por causa do ágio e a multiplicação das greves. provocando perdas para a empresa.História & Luta de Classes. Entretanto. superando suas entidades representativas. o congelamento dos preços e o chamamento da população para atuarem não mais como tele-espectadores. Passados alguns dias a direção da Ford solicitou que os trabalhadores realizassem horas extras. que passava agora as mãos dos civis. e do empenho exercido pelas classes populares em atender ao chamado do Presidente da República para fiscalizarem o tabelamento dos preços. Acrescenta-se a isso um plano econômico que prometia recolocar o Brasil nos “trilhos do desenvolvimento”. A Ford passou também a impedir os trabalhos da comissão de fábrica. SILVA. ao tentar atravessar a linha de piquete. 1987.589 748. p. houve a paralisação Jornal Folha de São Paulo. p. Não há dúvida de que os maiores beneficiados pelo plano cruzado foram os assalariados. A nova composição do governo federal. 284. No entanto. 21 BRAVA. reconhecimento do direito de greve e aumentos reais do salário mínimo.411 730. neste contexto de pacto pelo plano Cruzado. que passou a pressionar individualmente os trabalhadores. porem a empresa encaminhou o processo de afastamento seguido de demissão por justa causa. a devolução dos sindicatos que estavam sob intervenção para as suas categorias.152 683. Tal ato serviu de pretexto para que a Ford alegasse que teria ocorrido no momento uma agressão física e suspendeu o funcionário membro da comissão por 30 dias. Julho 2009 (58-63) . absorvendo um discurso nacionalista que beirava ao populismo. Ao se investigar o ocorrido não se encontrou provas de tal agressão. conforme o quadro abaixo: Produção de veículos na década de 1980 20 Ano 1980 1981 1982 1983 1984 Veículos 933. Fingindo desconhecer este fato. a coleta direta das contribuições sindicais dos holerites dos trabalhadores e um decrécimo no pagamento de horas extras de duas vezes para uma e meia”23. que conheceram uma expressiva melhora em seu poder aquisitivo. em protesto.]. que dirigia um discurso diretamente às classes populares. “A gerência lembrou-os de que poderiam perder seus empregos se não concordassem com as exigências da empresa”24. assim como a falta de produtos no mercado.371 679. pela montadora de automóveis Ford.61 de uma pequena baixa na produção em 1984.152 585.] o açodado e irresponsável surto de greves que começa a se espalhar no país [. “Não são os sindicatos que são chamados a fiscalizar os preços. 23 22 ANFAVEA.. trouxe grande prestigio ao Presidente José Sarney. as dificuldades econômicas do país eram visíveis. estimulo para as negociações entre trabalhadores e empregadores. as reivindicações trabalhistas passam a encontrar grandes dificuldades para atingir a opinião pública.834 672. mas agora como atores. 20 . desrespeitando a sua estabilidade de mandato. passaram por desapercebidos pela população.141 815.. lideranças sindicais tão precipitadas quanto irracionais podem trazer de volta o panorama de alta desenfreada de preços. acusando-os de inimigos da nação. 24 Ibidem. O mesmo acontece com os movimentos reivindicatórios. acima da inflação. iniciou o seu mandato dando sinais de que se atravessava para uma nova fase nas relações entre trabalhadores e patronato. impossíveis de ser concedidos sem que se comprometa toda a estratégia antiinflacionária. o PT e o então Governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola. que são tratados por parte da mídia como atentados contra o plano econômico: Diante da importância em se manter a viabilidade do plano cruzado. no entanto poucos trabalhadores compareceram. defendendo ainda maiores aumentos salariais.. a população de modo geral deixou para segundo plano as lutas nas questões trabalhistas e sociais. mostrando que nem mesmo funcionários que possuíssem estabilidade por exercerem cargos sindicais estavam livres das demissões. (2007). In: LUA NOVA.380 782.386 Ano 1985 1986 1987 1988 1989 Veículos 759. A escolha de Almir Pazzianotto para o Ministério do Trabalho.02. Todavia. que no dia 14/7/1986 organiza um protesto na tentativa de convencer aos demais colegas trabalhadores a não cederem as intimidações da empresa. 17/7/1986. enchiam os trabalhadores de sonhos e esperanças para a nova fase política que se iniciava com um governo federal civil. Desta forma a retirada de direitos importantes dos trabalhadores como: “o direito de beber água na fábrica. porem não como a de 1981.. ou melhor. numa clara tentativa de intimidação. anistia dos sindicalistas cassados. mas os indivíduos”21. o Presidente da República. se aproveitando da sua popularidade passa a atacar a CUT.

R. os onze mil funcionários da fábrica entraram em greve reivindicando além da readmissão do funcionário e o direito de funcionamento da comissão.62 . ocorreram 61 greves envolvendo 45. n. p.. não houve grande resistências à implantação do programa. o jornal Folha de São Paulo noticiava a greve: Trabalhadores da Ford do ABC param o trabalho Os 11. a CUT e o Partido dos Trabalhadores pelo ato. o fim das intimidações por parte da gerência e a ampliação dos direitos da Comissão de Fábrica. por pequenos grupos de trabalhadores que passavam a disputar entre si cotas de produção. 3. através de uma profunda pesquisa da Ford sobre o universo de seus próprios funcionários e a implantação de cursos de treinamento. Sem a legitima representatividade da Comissão de Fábrica. o Programa de Trabalho Participativo. que reprimiu os grevistas com violência. 26 25 27 SILVA. 48-50. conseguiu ampliar a sua produção em 20 carros por dia. . Cabe ressaltar aqui que as comissões de fábrica representavam uma importante conquista dos trabalhadores.A Repressão Fordista no ABC Paulista dos funcionários do setor onde trabalhava o membro da comissão. e buscava amenizar os conflitos entre empresa e trabalhadores. a volta dos velhos tempos. v. Lua Nova. pioraram de forma significativa: Jornal Folha de São Paulo. mesmo com uma baixa de 204 trabalhadores. p. da. sem obterem sucessos devido às resistências da Comissão de Fábrica. H. as reivindicações contrariam a política econômica do governo. São Paulo. Decidida em não negociar com os operários. funcionava desde 1981. antes do almoço e ao final do turno foram eliminados. M. A empresa aproveitou-se de um momento onde as grandes montadoras norteamericanas estavam fechando suas unidades nos EUA. Tal programa já vinha sendo adotado pela Matriz da Ford nos Estados Unidos. representante da CUT. No dia 16/7/1986. As tentativas de retirada dos direitos dos trabalhadores não eram novas. após 10 dias de greve a direção da fábrica chamou um batalhão da Policia Militar. 16/7/1986. proporcionando que os segundos pudessem participar de decisões relacionadas ao trabalho no interior da fábrica. inclusive membros das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (CIPAs) que possuíam estabilidade garantida pela própria legislação do trabalho. Aproveitando-se da crise de empregos na indústria automobilística norte-americana a Ford argumentou aos trabalhadores que se o programa não fosse aceito. M. Somente após diversas pressões exercidas pelo sindicado a montadora aceitou pagar os direitos trabalhistas de alguns dos funcionários demitidos.] a linha respot. Os dez minutos de descanso.286. jan/mar. alegando que a sabotagem pretendia prejudicar as boas relações de trabalho na fábrica. exigindo a sua readmissão. sendo eleita através de voto direto e secreto. declarou que esta era a segunda violência da Ford contra os trabalhadores. 3. A Comissão de Fábrica foi dissolvida com a suspensão de 24 dos seus 28 membros. conforme ALVES26. os trabalhadores foram obrigados e entrarem na fábrica por um corredor polonês de policiais militares. A direção da Ford acusou a extinta Comissão. as condições de trabalho na Ford. Apesar do amplo apoio do empresariado no que diz respeito à implantação da Nova Esta edição da Folha de São Paulo chama ainda a atenção de que na primeira quinzena de julho. Segundo Diogo Clemente. e transferindo a produção para países emergentes. que agora estava dissolvida. Na filial brasileira.1986 . SILVA. Um importante aspecto deve ser ressaltado. para se lavar. Jarí Meneguetti. diretor assistente de relações industriais da Ford. No dia seguinte. em entrevista a Folha de São Paulo. um total de 12. e os atestados assinados pelos médicos do sindicato passaram a não ser mais aceitos pela empresa”27. op cit. No entanto. Procurava-se assim substituir o poder das Comissões de Fábrica e do Sindicato.. que é o interesse da Companhia na implantação do programa de Trabalho Participativo. ocorriam 23 greves por aumentos de salários. “A velocidade das linhas foi aumentada no período da manhã para que a produção não fosse prejudicada por possíveis interrupções ao final do dia [. Um dos pontos chaves do programa era justamente o de transferir para o trabalhador a responsabilidade e a oportunidade de optar sobre alguns aspectos da empresa. Desta forma a Ford. Em outubro de 1986. Um total de 204 trabalhadores foram demitidos por justa causa.000 trabalhadores pedem um aumento de 20% nos salários e mudanças na política interna. Nas fábricas. cuja velocidade foi aumentada de 1 minuto e 15 segundos para apenas 48 segundos. 1987. sendo que a comissão de fábrica da Ford.890 estão em greve em São Bernardo e Diadema25. A. já vinha sendo implantado desde 1984. idéias e sugestões em troca de prêmios mensais. criando desta forma novas relações entre trabalhadores e empregadores sem a interferência do sindicalismo. fábricas poderiam ser fechadas e diante do medo do desemprego. Possuíam estatutos e estabilidade de emprego reconhecida por contratos registrados em tribunais do trabalho. onde o custo da mão de obra é significativamente mais barata. ALVES.360 trabalhadores e neste dia. 105 carros foram danificados no interior da fábrica ou montados com peças erradas. um aumento de 20% nos salários. sendo que os 4 restantes estavam em férias.

op cit. e na incapacidade de dar uma resposta ao empresariado. a declaração de ilegalidade das greves caracterizou-se como uma das bandeiras defendidas pelos empresários através da CNI28. aproveitando-se de um contexto favorável. como: direito de sindicalização no interior da fábrica e estabilidade. informa que se considerarmos os deputados que possuíam claros vínculos com os grupos empresariais. Diniz30 chamou a atenção para a aliança entre o empresariado na luta contra os movimentos grevistas e o fortalecimento da economia de mercado.26% das cadeiras constituintes. o movimento sindicalista ficou com pouco poder de atuação. Neste contexto de redemocratização da política brasileira. DINIZ. mas sim algo maior e que pudesse garantir melhores condições de trabalho por lei. assim. pode instaurar um sistema interno que privilegiava o individualismo e competição entre os trabalhadores. A greve desencadeada na fábrica da Ford de São Bernardo do Campo em julho de 1986 revela um Estado dilacerado por problemas socioeconômicos. ou seja. em um contexto onde a greve passava a ser considerada uma traição a pátria. como ficou evidente na falta de apoio a greve e na facilidade com que a montadora Ford pode impor a sua vontade perante aos trabalhadores. Assim. como no caso da Ford. Isso devido à redução da capacidade de influência popular. os empresários passaram a concentrar forças a fim de enviarem o maior número possível de representantes para as discussões da Assembléia Nacional. p.63 República. marginalizando o sindicalismo no interior da fábrica. os trabalhadores tiveram pouca representatividade na elaboração da Nova Constituição. que pudesse exercer pressões sobre o Estado e ao grande empresariado. a derrota dos sindicatos nas lutas por aumentos de salários. Ibidem.49. por exemplo. (1997). as atuações sindicais buscavam não somente os resultados imediatos como. boicotar o plano econômico que guardava as esperanças do controle inflacionário. Nº 7. onde apesar do debate já não ser novo. como foi exposto no caso da Ford. trabalhistas e tributarias. Diante da falta de um apoio popular. já que as representações dos trabalhadores ficaram próximas dos 10%. deixou o sindicalismo em frágil condição reivindicatória para as discussões que se sucederiam. onde os trabalhadores sofreram perdas de direitos que já pareciam estabilizados.História & Luta de Classes. Nesse sentido surge no campo político a questão da Nova Constituição. Assim. enquanto que a representatividade do empresariado girava em torno dos 30%. Ao mesmo tempo em que a população ansiosa por um “novo milagre econômico” abria mão do seu papel reivindicatório se dissolvendo no corpo fiscalizador do Estado. onde as grandes empresas conseguem se sobrepor ao poder Confederação Nacional da Indústria. transformaram-se profundamente. Desta forma. disputas políticas e de relações de poder entre empresas e sindicados. solicitavam também a “intervenção governamental nas atividades sindicais e proibição da formação de comissões de fábrica”29. aumentos de salários. Diante de um quadro onde as reivindicações trabalhistas e sociais passavam a serem criminalizadas. por romperem com o pacto social. e a existência de um grupo organizado e detentor de grande poder econômico. . a Ford pode fazer uso de mecanismos repressivos a fim de dissolver a comissão de fábrica que se colocava como um entrave à implantação do Programa Participativo. 29 30 28 federal a ponto de quando lhes convém. a disputa de forças pela hegemonia nas decisões. A esse respeito. onde o papel do trabalhador era o de fiscalizar os preços congelados. nas questões trabalhistas se esperava pela manutenção dos recursos autoritários. 31 Diniz. algo em torno de 1:331. mudanças no campo econômico. Julho 2009 (58-63) . Evidenciamos assim que o estudo de um fato histórico requer uma analise mais ampla do que o estudo do fato por si só. Pois a partir disto. Este contexto social tornou-se favorável para que o empresariado pudesse agir livremente nas relações trabalhistas. já que era transmitida para a população a idéia de pacto nacional pelo plano Cruzado. demonstrando que o sindicalismo havia perdido grande parte do seu poder de barganha. tais grupos chegam a ocupar 45. de posse de uma série de sugestões que incluíam alterações nas áreas sindicais.

1 apoiando-se em burocracias sindicais . o Estado burguês semi-colonial ou dependente latino-americano tipo Venezuela. Este foco tomará como recurso teórico um a u t o r. A tese de Leon Trotski Trotski levanta uma determinada tese a respeito do poder político em Estados como o México dos 2 Veja-se. 3 Foi Marx quem definiu pela primeira vez a forma de dominação burguesa por ele chamada de bonapartismo. Le Monde DiplomatiqueBrasil. apareceram processos do tipo Venezuela de Chávez. n. ou seja. Le Monde Diplomatique-Brasil. dentro deles. n. então. outubro 2007. Há uma série de debates na América Latina todos eles referenciados pelas novas perspectivas desencadeadas pela experiência venezuelana. Tr o t s k i . problematizar a defendida por aquele autor. embora este continue respondendo ao conjunto dos interesses da classe dominante. na América Latina. trata-se. 3. Naturalmente estará sendo enfocado nessa análise. n. de resistência – sem rupturas profundas.desenvolver mudanças sociais profundas? A partir destes marcos. outubro 2007. Em primeiro lugar. Argentina ou até Brasil. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski problema Gilson Dantas* O Nas últimas décadas. ao mesmo tempo em que os laços econômicos do imperialismo sobre essas burguesias locais que se comportaram de forma vassala se estreitaram. burocrático. vol. ao mesmo tempo. em seguida. 59. Por outro lado. no seu O 18 brumário de Luiz Bonaparte. recolhe um apoio operário e popular majoritário ao se colocar dentro de uma perspectiva declaradamente socialista ou de socialismo do século XXI como é o discurso de Chávez.13. um tipo de Estado. o poder de governos que procuram amparar-se nas massas para pressionar por relações mais vantajosas com os países centrais. preservando as relações semi-coloniais e *Doutor em Sociologia pela UnB. ao mesmo tempo. surgimento de alguma classe social de apoio ao governo. por exemplo). Escritos Latinoamericanos. em todo caso . Hugo Chávez.10. a perspectiva do movimento sindical e operário. Ver farto material a respeito no livro citado na nota de rodapé anterior. 1999. a formação de um aparelho de Estado centralizado. ascenso do movimento de massas sem hegemonia política do proletariado.à devastação econômica de perfil neoliberal. . por ele qualificado como bonapartista3. Venezuela: who could have imagined?. p. e da sua análise desprende-se uma perspectiva que.Estado. tem havido um reforço de caráter contraditório da dominação dos Estados Unidos sobre governos e burguesias locais. um autor que costuma ser deixado de lado.64 . e que pode ser posta nos seguintes termos: um governo ou poder político como Chávez ou outros antes dele (Perón. capitaneando um Estado que além de débil continua tratando de preservar o essencial da relação econômica com o imperialismo pode – nestas bases. a respeito. Ver. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Estado.3. através de um processo transformista. Monthly Review. Ignácio RAMONET. um Bonaparte com ares de eqüidistância. Este processo. disponível em www. contribui ao debate atual sobre Estado e poder na América Latina e que aqui será submetida à crítica. may 2007. q u e l e v o u a d i a n t e e s t u d o s metodologicamente relevantes sobre o problema2. de uma maneira geral. assim pensamos. Trotski aplica essa definição para processos como os do nacionalismo burguês na América Latina. o material publicado no livro de Leon TROTSKI. Este artigo pretende incluir-se no debate dentro do terreno de uma questão que permeia processos tipo Chávez. de resenhar e. Nessas últimas décadas. dentre outros.monthlyreview. O surgimento de governos como Hugo Chávez gera uma série de esperanças e ilusões nos meios de esquerda1. tomado em suas linhas gerais. Buenos Aires. se converteram em aplicadores diretos das políticas pró-imperialistas e do Banco Mundial. outubro 2007. ao mesmo tempo em será focalizada a questão de um determinado tipo de poder político. n. por um lado criou. Plínio de Arruda SAMPAIO. procurando focalizar. Trotski formulou um diagnóstico ou uma avaliação teórico-histórica desse tipo de processo.3. p. Ceip-Leon Trotski. O Estado bonapartista supõe certo equilíbrio entre as várias forças sociais incapazes de exercer uma dominação hegemônica. portanto de um governo que desenvolve uma postura anti-Estados Unidos e. Populismo ou revolução? Le Monde Diplomatique-Brasil. Claro-escuros bolivarianos. também é um fato que os governos que se colocaram de um ponto de vista de resistência anti-neoliberal e que fizeram campanha eleitoral nesta perspectiva. personalizado na figura de um árbitro. certas dificuldades para o movimento revolucionário.1. Ana Maria SANJUAN. o objetivo específico deste artigo é o de trazer ao plano do debate sobre o problema levantado.13. p. não sem prejuízo – na ótica da investigação e também teórica aqui adotada – para quem pretenda alcançar o mais profundo exame da totalidade do processo. a respeito. Doug DOWD. em que o imperialismo norteamericano entrou em um processo de relativo declínio e se instala o lento desencadear de uma profunda crise econômica.org.

e que. genética. 1999. No entanto. Os movimentos essenciais desses núcleos burgueses locais terminam confluindo no sentido de adotar certo enfrentamento buscando tirar vantagens 4 Atílio BORON. em qualquer dos casos. vale reiterar que esta realidade é completamente atual. sufocados por uma dívida externa que não cessa de crescer e por uma 'comunidade financeira internacional' que. quase como regra. sem conseguir alcançar nenhuma perspectiva econômica autônoma. aplicáveis – segundo sua perspectiva teórica . p. Eleva-se. portanto. na prática. Atílio. em torno de núcleos industriais concentrados. apoiando-se em um imperialismo contra outro. jovem. De passagem. sobretudo na área industrial. movimenta-se uma burguesia nativa que do ponto de vista econômico desenvolve-se à sombra e em conflito de interesses com o capital externo. a depender do país . precocemente. O governo oscila entre o capital estrangeiro e nacional. passa a controlar setores dinâmicos dessas economias. localizou nos trabalhadores urbanos – e também no campesinato. Diagnostica o desenvolvimento de um fenômeno político peculiar. Perón ou Getúlio cada um em seu momento e em suas circunstâncias. Nº 7. configurando-se desta forma um determinado processo onde o país apresenta uma estrutura atrasada em relação aos países metropolitanos e imperialistas. Daí a relativa debilidade da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. É isso o que explica porque. na condição de burguesias vassalas. no limite. Aqui temos uma contradição seminal. que explica muito do caráter do Estado e do poder político na América Latina: uma classe dominante cujo desenvolvimento se vê conflitado com o imperialismo e que tende a associar-se a este. Trotski chama a atenção para a característica debilidade histórica da burguesia de países semicoloniais (caso da América Latina) dominadas pelo capital imperialista.seu único ponto de apoio político efetivo na tentativa política de defender seus interesses frente às pressões externas. da América Latina. de índole particular. ou manobrando com o proletariado. Essas medidas enquadram-se inteiramente nos marcos do capitalismo de Estado.se levantam e lutam por seu espaço e suas conquistas. É da natureza da dinâmica de penetração do capital imperialista. Isto cria condições especiais de poder estatal. sob semelhante estrutura de poder político ou de relação com o imperialismo. entre a relativamente débil burguesia nacional e o relativamente poderoso proletariado. o bonapartismo tipo Cárdenas. No caso de lançar-se a conflitos de interesses abertos frente a um ou outro setor do grande capital financeiro ou da ´comunidade imperialista internacional ´ esses grupos locais cedo ou tarde se dão conta de que não podem ignorar ao proletariado: Cárdenas. Este capital recruta uma classe operária local. A atual política (do governo mexicano. Aliás. 2000. débil. num país semi-colonial.125. e não pode manter-se sem o apoio ativo dos trabalhadores. no argumento de Boron. no momento seguinte de qualquer influxo ou pressão nacionalista. Trás el búho de Minerva: mercado contra democracia en el capitalismo de fin de siglo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica. Escritos Latinoamericanos. chegando inclusive a fazer-lhe concessões. desenvolve uma classe operária moderna.65 anos 30 e ali propõe elementos mais gerais. por exemplo. p. Na realidade.História & Luta de Classes. do ponto de vista dos setores chaves da economia vem a ser a do capital estrangeiro que. no entanto. Historicamente. como aqueles que se deram no alvorecer desta classe. ganhando desse modo a possibilidade de dispor de certa liberdade em relação aos capitalistas estrangeiros. Julho 2009 (64-69) . os despoja de sua soberania”. termina recuando. na mesma medida em que as massas – como parte do mesmo processo .163. ou enfrentar-se com ele em alguma medida. que esta classe operária rapidamente fique submetida ao capital estrangeiro. por assim dizer. classes nativas sem a chance de conquistar a hegemonia industrial e financeira nos seus respectivos países. embora não exclusivo. próprias ou aceitando a condição de sócio menor do imperialismo. o capitalismo de Estado encontra-se sob a grande pressão do capital privado estrangeiro e de seus governos. Sua base política e social abarca toda uma massa local de trabalhadores que obviamente inclui os das grandes corporações imperialistas. O capital internacional é dominante nessas economias. sem deixar que o poder real escape de suas mãos. NT) se situa na segunda alternativa. Segundo o argumento de Trotski: “Nos países industrialmente atrasados o capital estrangeiro joga um papel decisivo. mais dinâmica. suas maiores conquistas são as desapropriações das linhas de ferro e das companhias petrolíferas. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. cedendo e/ou dando passagem aos 5 Leon TROTSKI. É o que a história tem demonstrado sucessivas vezes e a cada tentativa. por cima das classes. pode governar ou transformando-se num instrumento do capital estrangeiro e submetendo ao proletariado com as cadeias de uma ditadura policial. (o governo mexicano) trata de dar às organizações operárias uma considerável parte da responsabilidade na marcha da produção dos ramos nacionalizados na indústria”5. Só que. de forma subalterna. grandes empresas e grandes bancos. . Como contraponto. eis que aparece a burguesia como ela realmente é. A presença mais forte. não se trata mais de qualquer processo de revolução burguesa até o fim.a outros Estados na mesma condição.4 “nossos Estados são hoje muito mais dependentes que antes. mão-de-obra barata. Isto dá ao governo o caráter bonapartista sui generis.

em outras condições. Perón ou. ao contrário de Cárdenas. a ascendente burguesia nacional. p. sucursal do imperialismo estrangeiro”. surgem em situações políticas onde a classe dominante mergulha na crise e a classe trabalhadora e camadas populares em movimento não contam com suficiente força política própria. por sua vez.66 . Esta é a base social mais importante do caráter bonapartista e semibonapartista dos governos das colônias e dos países atrasados em geral. pressionando a Inglaterra. Por outro lado. desde o momento em que esses setores nacionalistas dão passagem a concessões de qualquer ordem à classe trabalhadora – política ou econômica –. em seu seio. especialmente em torno dos movimentos populares mais pobres. A integração das organizações sindicais ao poder do Estado. como se estabelece uma operação de risco político para a própria classe dominante em seu conjunto. de patrocinadores e ás vezes de árbitros. que surgem formas de poder político como Cárdenas. ou seja. para esse desdobramento está no fato de que. Essa é também a base da dependência dos sindicatos reformistas em relação ao Estado”7. A história moderna da América Latina desenvolveu-se nestes marcos. Chávez. os Estados Unidos. Irrompem as massas. E uma razão de fundo. na administração da produção dos setores nacionalizados ou as mobilizava em favor da nacionalização de determinadas esferas da economia. histórica e social. Recorrentes processos nacionalistas se desenvolveram dentro desses limites e riscos. Escritos Latinoamericanos. Cárdenas nos anos 30 procurou articular e incluir as organizações operárias. Esse Estado ou poder político. Na síntese de Trotski: “Em muitos dos países latino-americanos. Concessões estas sempre subordinadas ao controle do governo sobre os movimentos sociais e sobre o movimento sindical. é nesta conjuntura. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. Não podem lançar uma luta séria contra toda dominação imperialista e por uma autêntica independência nacional por receio a desencadear um movimento de massas dos trabalhadores do país. deslocando-se entre as contradições inter-imperialistas. tende a desenvolver. Chávez estatiza e nacionaliza setores econômicos pagando a preço de ouro. buscando uma maior participação no espólio e mesmo esforçando-se em aumentar a medida de sua independência – isto é. embora mais débil. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski seus setores mais reacionários e à oligarquia agrária associada ao imperialismo. através dos quais setores da burocracia de Estado – em geral do exército – se lançam a formas de governo instáveis que em algum momento recorrem ao apoio político operário ou camponês para pressionar o capital externo. O sentido é. para além da época dos textos de Trotski aqui mencionados. no essencial. é a de submeter e controlar de forma (caudilhista) os movimentos sociais. os movimentos do nacionalismo chavista muito mais submetidos ao imperialismo. Mas sua debilidade geral e sua aparição histórica retardatária. por exemplo. A idéia básica. antes como hoje. procurando angariar força para suas fricções externas. 1940. Pressão limitada por sua própria condição de “burguesia atrasada sul-americana. ao mesmo tempo. também apoiar-se em setores da burguesia. a partir do Estado. é apenas um exemplo neste sentido. e por outro. ameaçaria sua própria existência social”6. pelo Estado e pelo governo. p. do imperialismo (sem marchar para qualquer ruptura profunda de classe). Trotski qualificava tais processos como bonapartistas ou semi-bonapartistas. processo. que desempenhem o papel de protetores. e a partir do grupo político de poder. afloram situações onde o proletariado vai necessitar de sua independência política de ação. o de não romper os limites de classe. como dizia Trotski8.org/textosmarxistas/ 8 Leon TROTSKI. invariavelmente. O que aqui se pretende destacar. semicoloniais. não apenas irrompe uma dinâmica de resistência por parte da patronal imperialista. A criação do partido único do Chávez (PSUV). para os quais faz concessões. a quem busca controlar sob seu comando político. .193. apesar de toda sua fraseologia e das 7 Leon TROTSKI. uma dinâmica de controle e atrelamento. estes necessitam o apoio dos governos coloniais e 6 Idem. esgrimindo outro discurso e em diferentes circunstâncias mundiais. dos sindicatos e das movimentações e ações operárias. O poder ou o regime político que faz este papel bonapartista é assim chamado por ganhar certa autonomia: de um lado apoiar-se na classe operária. em busca de vantagens no funcionamento econômico e no mercado para sua classe dominante: “À medida em que o capitalismo imperialista cria nas colônias e semicolônias um estrato de aristocratas e burocratas operários. que se desenvolveu na época de Trotski no México. Com Chávez o processo é semelhante. apóia-se na burguesia procura construir um “projeto nacional” de pressão sobre o imperialismo. apóia-se na classe operária. A burguesia trata de agir para que a esfera do movimento operário seja controlada. que. “unindo” patrões e empregados. lhe impede alcançar um nível mais alto de desenvolvimento para além de servir a um senhor imperialista contra outro. Disponível no site: www. 1999. 93. por conquistar a posição dominante na exploração de seu próprio país – é certo que trata de utilizar as rivalidades e conflitos dos imperialistas estrangeiros com esta finalidade.Estado. e procura organizar seu apoio urbano. é que este.insrolux.

. enquanto outros instauram uma forma de ditadura militar e policial. Isto determina igualmente o destino dos sindicatos. referindo-se aos países atrasados que: “A tarefas centrais dos países coloniais e semicoloniais são: a revolução agrária. (. CEIP Leon Trotski.67 declarações socialistas dele. (. abortam a evolução política do proletariado ou. do final dos anos 30.) Cedo ou tarde os sovietes devem derrubar a democracia burguesa. tende a encerrar-se toda veleidade nacional-burguesa. Ele partia do real apoio que o proletariado oferecia a Cárdenas. jovem e concentrado que tende a desequilibrar toda tentativa burguesa de apoiar-se nele para pressionar por vantagens econômicas para si. p. Nesta perspectiva. sempre dentro da contradição em que precisam mobilizar a classe trabalhadora em seu favor e. Explicava o limite histórico de classe deste tipo de poder político. E que o proletariado só tinha futuro desenvolvendo sua corrente independente de classe.. ao mesmo tempo em que não promove qualquer mudança agrária substancial e sequer no perfil das importações (ou mesmo na fatia apropriada pela classe trabalhadora da renda nacional. fogem. na medida em que a classe operária dê passos adiante e esboce ou avance em sua independência política. dentro da cultura proletária cardenista. Trotski afirma. p.) Com base no programa democrático revolucionário é necessário opor os operários à burguesia ´nacional´. O reflexo desta dinâmica no movimento sindical (na classe operária). Somente eles serão capazes de levar até o fim a revolução democrática e abrir assim a etapa da revolução socialista”9. tentando buscar apoio entre os trabalhadores e os camponeses. a corrente operária que. El programa de transición y la fundación de la IV Internacional (compilación).. 2008. Retomemos um aspecto – decorrente desta abordagem teórica de Trotski sobre certo tipo de poder político em tais tipos de Estados – e aqui tomado como foco de análise: a esfera sindical em tais processos. Estas duas tarefas estão estreitamente vinculadas entre si. de uma ou de outra forma. isto é. Foi o que ocorreu na Argentina em 75. Chavéz tem comprado algumas empresas ao imperialismo a preço de mercado. do que na experiência do governo cardenista. mas antes de mais nada.. Não é por outra razão que terminam copiando. 9 . isto é. economicista. ameaçam os fundamentos de todo regime democrático estável.História & Luta de Classes. História del trotskismo en Argentina y América Latina. No argumento de Trotski – citado por Coggiola . O paternalismo do Estado está ditado pelas duas exigências se contradizem: a necessidade do Estado de aproximar-se da classe operária como um todo e ganhar desta forma um apoio para resistir às pretensões excessivas do imperialismo e disciplinar aos trabalhadores colocando-os sob o controle de uma burocracia”10. teria que desenvolver-se e afirmar-se contra Cárdenas e não a seu favor. o modelo sindical corporativo. Necessitam apoiar-se nele. Leon Trotski. pela presença de um proletariado moderno. o crescimento mais ou menos rápido do proletariado. devem ceder em vários aspectos menores. a falta de tradições de governo local. com seus limites. para consegui-lo. em especial. dão passagem ao golpe. precisam tê-lo sob controle. impedir seu desenvolvimento classista. revoluções e guerras impõe a necessária presença de uma eficiente burocracia reformista. Julho 2009 (64-69) . Buenos Aires: Ediciones Razón y Revolución. 423. neste item fica aquém do primeiro governo de Perón). os sovietes podem e devem surgir. a liquidação da herança feudal e a independência nacional. No entanto. no Chile em 73 e também por essa via se pode compreender o golpe de 1964 no Brasil. 2006. Buenos Aires. é possível localizar o chavismo no campo de processos semi-bonapartistas como os analisados por Trotski. chamava ao apoio às medidas de estatizações frente a qualquer ação do imperialismo e via como necessário ir construindo. As frações chamadas nacionalistas se associam ao imperialismo e promovem um banho de sangue. A análise teórica de Trotski localiza e examina a impotência histórica dessas burguesias frente à hegemonia do capital imperialista e.referindo-se à América Latina: “A debilidade da burguesia nacional. Os governos dos países atrasados assumem um caráter bonapartista ou semibonapartista e diferem uns dos outros pelo fato de que alguns tratam de orientar-se em uma direção mais democrática. É a marca registrada desses processos. Sua impotência como burguesia e. cedo ou tarde. estrategicamente. ao mesmo tempo. o rompimento com o jugo imperialista. Como já foi mencionado.95. tais análises foram desenvolvidas por Trotski referindo-se ao processo de Cárdenas no México dos anos 30. a etapa de crises. Nº 7. 10 Osvaldo COGGIOLA. Tais governos necessitam incluir a classe trabalhadora através da burocracia sindical – inimiga de classe do proletariado – no aparelho de Estado. A perspectiva que Trotski fórmula para tais processos é a de que. O primeiro e óbvio problema dessa estrutura de poder político em governos de perfil bonapartista é a natureza de sua relação com o movimento sindical. o Programa de Transição da IV Internacional. Em uma certa etapa da mobilização das massas sob as consignas da democracia revolucionária.. Esta é a perspectiva desse tipo de poder político burguês-bonapartista semi-colonial. no controle do movimento operário.. burguesa. simplesmente.

seus agentes administrativos diretos. Este quadro. como 11 Leon TROTSKI. sejam capazes de lutar por uma política de classe de composição revolucionária dos organismos diretivos”11. já estão se tornando. No caso do nacionalismo mais recente. com a busca de apoio popular. tem-se desenvolvido recorrentemente. contraditório. tais governos bonapartistas ou semibonapartistas costumam aflorar justamente em etapas de ascenso ou ameaça revolucionária de massa. Na indústria nacionalizada podem tornar-se. Perón. na ótica deste artigo. Getulio. desviar. Os líderes sindicais são. de democracia de base. ao mesmo tempo em que defende a unidade do movimento sindical. no sentido de reunir apoio dos mais pobres. No pensamento de Trotski. não existe outra alternativa a não ser lutar pela independência no movimento operário em geral. em especial de uma massa camponesa ou das periferias urbanas que o próprio sistema lançou na ruína. Aliás. na massa ao mesmo tempo em que lideram Estados cuja fraqueza é transformada a partir da esfera de poder político burguês em impotência política frente ao imperialismo. na transformação dos representantes do proletariado em reféns do Estado burguês. como parte da mesma dialética. mais exatamente. do seu Estado. a falta – que têm recorrentemente revelado . tais formas de poder político são completamente impotentes frente ao imperialismo.68 . 1999. não apenas nos velhos centros metropolitanos. a burguesia local é impotente. Contra isso. Mas por maior que possa ser esse perigo. todos eles. sua busca – a todo custo – de bloquear o desenvolvimento político independente dos trabalhadores e sua aliança revolucionária com os camponeses trava a dinâmica efetivamente emancipatória. como o Bonaparte de um poder político sem condições de estabilizar-se. a perspectiva analítica formulada por Trotski. A dificuldade das direções sindicais que conseguem desenvolver certa independência política ou pelo menos combatividade de classe tem sido sucessivamente. De um lado tal tipo de poder encontra-se frente à sua impotência histórica de ir adiante como movimento burguês independente. p. Ou. repetem-se de tempos em tempos. caso contrário. E promover concessões para os mais pobres. daquela forma bonapartista. sobretudo do proletariado. . tal forma de poder político dura. mesmo quando buscam apoiar-se. para construir-se como alternativa deve desenvolver-se em oposição àquele poder político bonapartista. historicamente. naquela perspectiva. os ministérios. agentes políticos da burguesia. Essa é a sua dialética histórica nesta fase de decadência capitalista. o tempo em que a parte mais ativa do movimento de massa. dentro do qual o governo procura funcionar como árbitro. Por essa razão. da dinâmica de classe do Trotski propõe essa perspectiva considerando a natureza daquele poder de Estado: ambivalente. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. em particular pela formação nos sindicatos de firmes núcleos revolucionários nos quais. Foi o caso de Chávez. a de impor formas de democracia operária. Foi o caso de Cárdenas. Os marcos estão dados: o do desenvolvimento do movimento operário da sua independência em relação ao Estado – o que implica em um desenvolvimento político que começa apoiando medidas de democracia operária ou contra o imperialismo e. só constitui uma parte do perigo geral. de um reformismo pela via do bonapartismo ´populista´. “o risco reside na conexão dos dirigentes sindicais com o aparato do capitalismo de Estado. após uma fase de tentativa de cooptação do proletariado. Escritos Latinoamericanos. com o desfecho da dura repressão das alas direitas que estão dentro ou fora do governo e que não têm como se acomodar na instável perspectiva nacionalista burguesa. mais adiante. de assistencialismo. Procuram arbitrar. o poder político trata de custear todo tipo de bolsa-esmola. ao mesmo tempo em que é parte de um sistema em decadência histórica. poder e como classe. é associada ao imperialismo.de uma estratégia de luta coerente com o correto diagnóstico da natureza daquele poder político. Ainda na reflexão de Trotski. Mas sua marcha inexorável. no curso da qual crises econômicas sérias e processos revolucionários são inevitáveis. parece mais do que acertada. o primeiro movimento do governo dá-se no sentido de atrair para o Estado.Estado. de uma doença geral: a degeneração burguesa dos aparatos sindicais na época do imperialismo. na ótica de Trotski. A dinâmica política desse tipo de poder por ele analisado para a América Latina. terá que lidar. que conduzam ao desvinculamento sindicatos-Estado e. como regime. de burguesias débeis que tendem a uma relação de poder político vassalo frente ao imperialismo. tenda a ir dissipando suas ilusões de uma revolução por cima. ao mesmo tempo. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Para o proletariado. mas também nos países coloniais. Do ponto de vista das experiências históricas do pós-II Guerra. deixa em aberto uma saída para o movimento sindical e para os revolucionários. em sua esmagadora maioria dos casos. e. foi e tem sido rumo ao desastre. sem ferramenta política própria. Aqui estamos no cerne da argumentação de Trotski: mesmo com tais manobras.166. Considerações finais. o que pode ser compreendido a partir daquelas considerações teóricas de Trotski. o movimento sindical. o sentido geral desse movimento é o de impedir que a classe operária desenvolva sua independência política. ganhar tempo e vantagens apoiando-se aqui e ali no movimento de massas.

junho 2007. em relação ao governo”12.daquele diagnóstico proposto por Trotski. a uma revolução social sem que se desenvolva uma luta na perspectiva estratégica de ruptura com tais governos. Seguindo o argumento de Dal Maso. mas dialeticamente. Inexiste uma via evolutiva. 13 Matias MAIELLO. la retórica ´socialista´y el marxismo en América Latina. Não se trata de uma etapa ou semi-etapa à qual a outra se sucede. fizessem uma experiência com sua direção. GD) como uma ´etapa necessária´(no sentido de um lento e gradual passo adiante) a da hegemonia cardenista sobre o movimento operário. mas não apresentava (essa dinâmica. as ilusões ´populistas´. é desde este mesmo começo que a separação. In: Lucha de Clases (Revista Marxista de Teoria y Política). a plena independência da classe operária. p. que eram cardenistas . Chávez. Não se trata de etapas. . da mesma forma que não pôde haver um acúmulo cardenista de forças (a etapa cardenista foi sucedida por um ciclo que dura até hoje. na experiência de massa. a construção da independência operária já deve fazer parte. mas de um processo cuja dinâmica é determinada – para o bem ou para o mal – pela construção da independência política do proletariado. podemos afirmar que “Trotski considerava necessário que as massas operárias e populares mexicanas. Nº 7. mais que um debate teórico. La ilusion gradualista: a propósito del nacionalismo. n. quando impera. desprende-se a avaliação de que um Estado fraco. através de organismos de luta operários pluripartidários independentes.História & Luta de Classes. 12 Juan DAL MASO. subalterno e associado pelo poder político ao imperialismo. Se considerarmos que a história do século XX esteve tomada por experiências de nacionalistas burgueses que custou duras derrotas ao movimento de massas13. p 107. O “socialismo – como argumentava Trotski – não se constrói pelas mãos da burguesia”. Julho 2009 (64-69) .7. de suas organizações de massas e do partido revolucionário. de acúmulo chavista de forças. da imperiosa necessidade da construção da sua independência política através de partidos operários de massa. In: Lucha de Clases (Revista Marxista de Teoria y Política). Perón. não tem como dar a passagem a mudanças sociais profundas. junho 2007.como agora na Venezuela são chavistas -. a ruptura não está no começo do processo. pode-se afirmar que estamos diante de uma das mais cruciais discussões estratégicas e políticas que se apresenta para o movimento operário e popular da América Latina. portanto. n.7. Por isso mesmo considerava como uma condição indispensável para que a experiência da classe operária se orientasse em um sentido revolucionário. Para o movimento sindical – já foi mencionado . 127.69 processo e. y el ´socialismo del siglo XXI´: los derroteros del ´nacionalismo burguês´ en la decadencia capitalista y sus apologistas ´de izquierda´ de ayer y de hoy. de governos neoliberais e próimperialistas). por exemplo.

Historicamente. quando o capital declarou sua crise estrutural por meio do retrocesso do que ficou conhecido como Welfare State. Neste cenário ganhou importância um novo grupo: os administradores ou gestores do capital. Os gestores da força de trabalho seriam legítimos representantes do poder do capital ao mesmo tempo em que também seriam controlados por este mesmo poder. ideológicos e culturais estão inseridos. especialista em Gestão de RH e Psicologia Organizacional pela UMESP/ SP e mestre em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília. principalmente durante a reestruturação produtiva dos anos 1970. As análises sobre as formas de organização do trabalho e as novas relações daí decorrentes se fazem relevantes para este debate.70 . teria criado novos limites para as relações sociais entre as classes assalariada e capitalista. Também a “cientifização” do processo de trabalho com Taylor foi além de uma mera inovação no campo administrativo para a melhoria da organização do trabalho. ou. seria correto afirmar que tais transformações teriam determinado uma terceira classe composta por este grupo? As transformações impostas ao chamado “mundo do trabalho” contemporâneo trazem inquietações e dúvidas sobre os caminhos que conduzirão a uma forma de sociabilidade diferente da capitalista. daí as formas de controle e produção da subjetividade ter sido examinadas e pesquisadas por diversos campos científicos com o objetivo de formular uma teoria gerencial na qual o trabalhador se “identifique com a empresa”. a necessidade de comprometimento do trabalhador com a “missão” da empresa se tornou peça chave para a recomposição da acumulação capitalista. e sim participar do debate por meio de reflexões que tragam à tona mais elementos para pensar a relação entre a chamada teoria gerencial e a relação entre as classes fundamentais. responsável por controlar e disciplinar a força de trabalho por meio da aplicação de uma teoria capaz de produzir uma subjetividade a serviço do capital. mestre (2007) e bacharel (2001) em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília.O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? Erika Batista* I ntrodução empresa japonesa Toyota. formulando técnicas de suavização e ocultamento da natureza real do trabalho alienado. e mais agudamente no fim da década de 1970. do estímulo à acumulação predominantemente financeira e da difusão das técnicas de gerenciamento do trabalho utilizadas pela *Bacharel em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília. Os limites das técnicas fordistas e tayloristas alteraram a organização do trabalho a partir dos anos 1950. A teoria gerencial na versão da chamada Escola de Relações Humanas (ERH) focou o “lado humano” da empresa. e. cujos aspectos econômicos. assalariada e capitalista. Este artigo não pretende formular veredictos acerca de questões relativas ao mundo do trabalho. Doutoranda (2009). Atualmente atua junto à rede privada de ensino superior do Paraná e cursa a habilitação de licenciatura plena em Ciências Sociais na UEL/ Londrina. primeiro porque visam contribuir para a construção desta nova forma de sociabilidade superior a capitalista. Também é especialista (2004) em Psicologia Organizacional pela UMESP/ São Paulo e licenciada (2008) em Ciências Sociais pela UEL/ PR. ou melhor. o ajustamento do trabalhador ao processo produtivo partindo de uma combinação da Organização Científica do Trabalho (OCT) com estudos psicossociais. Os discursos gerenciais tentam mascarar o antagonismo entre as classes incorporando os conhecimentos da administração científica às correntes comportamentais da Psicossociologia. tendências e análises são realizadas com o objetivo de apontar qual a melhor opção para se construir uma via alternativa ao esgotamento e degenerescência do capitalismo. A necessidade de comprometimento do trabalhador com a “missão” da empresa se tornou peça chave para a recomposição da acumulação capitalista. de novas relações entre as classes fundamentais? O modelo de organização do trabalho proposto por Ford caracterizou um momento da luta entre as classes assalariada e capitalista. Atualmente atua como professora de Sociologia na UEM/ PR e é membro do Núcleo de Estudos de Ontologia Marxiana da UNESP/ Marília. Estaríamos diante da formação de uma nova classe formada pelos administradores do capital. segundo. ou. o poder conferido ao grupo dos administradores do capital através da exploração do trabalho alienado. quanto no interior da própria esquerda. Teoria ou Ideologia Gerencial? A partir da década de 1950. tanto pela esquerda e direita. Partindo-se desta perspectiva. Acirrou-se o movimento de desafecção sindical e de fragmentação da . e os trabalhadores começaram a ser remunerados variavelmente por cumprimento de metas ou a receberem bonificações pelo “zelo” da maquinaria. políticos. porque é um terreno teórico em permanente disputa.

controle. p. sabotagens. Boston: Division of Research Graduate School of Business Administration. 112. Nº 7. A mais reconhecida das pesquisas promovida pela ERH foi realizada por Mayo. onde a objetividade é a “propriedade material primária – inderivável. Mais do que uma teoria gerencial. especialmente da marxista. seu discurso muda em função das determinações sociais. boicotes.] cultiva a neutralidade científica como o ethos ideológico da Ciência. BH. como um resultado de transformações objetivas.. p. objetivando-se e exteriorizando-se ao mesmo tempo”3. 1980. TAYLOR. que torna possível “o modo ontológico da individualidade”. Teoria geral da administração: uma introdução. comando. É o próprio processo histórico.. Taylor e Ford7. C.W. Ainda de acordo com Motta. produzem uma subjetividade alienada que internaliza na “alma” do trabalhador a suposta relação de cooperação e interesses comuns entre “patrão e empregado”. 1992. H. “ a racionalização determinou a necessidade de elaborar um novo tipo humano. Lukács e o caminho marxista ao conceito de “pessoa”. independente da consciência – de todos os seres e de todas as relações entre o que existe”2. Harold J. A loucura do trabalho. Segundo Motta. 1945. longe de preceder. existem outros teóricos classificados na corrente comportamental...C. coordenação. In: Cadernos do Cárcere.] constitui-se na mais sofisticada representação ideológica produzida pela pequena burguesia intelectual : a ideologia do fim das ideologias por quem não possui ideologia alguma [. Leavit. Burocracia e Ideologia. H. bem como formas de resistência a tais inovações gerenciais foram desenvolvidas pelos trabalhadores. como Chester Barnard. Princípios de administração científica. O surgimento da teoria gerencial se deu neste escopo. Na mesma trilha de Ford e Taylor. F.. também conhecidos como behavioristas. reproduz as condições de opressão do homem pelo homem. 2002. The social problems of industrial civilization. indivíduo por natureza. São Paulo: Livraria Freitas Bastos. 1965. 8 . de modo que a teoria gerencial transcendeu o espaço fabril e alcançou a totalidade das relações. de educação da classe operária para além da fábrica.] dissimula a historicidade de suas categorias [. No desenvolvimento desta fase do gerenciamento da força de trabalho. juntamente às chamadas “greves selvagens”. Harvard University. produzidas pela vida material cotidiana e objetiva. MAYO. (grifos nossos) 5.p. como estratégias de defesa psíquicas1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. a precursora autêntica da ERH foi Mary Parker Follet. 2 1 No final da década de 1920 e no bojo desta ideologia gerencial surgiu a Escola das Relações Humanas. 4 GRAMSCI. 1995. p.História & Luta de Classes. num universo administrado burocraticamente pelos financiamentos das grandes foundations com o white-collar às suas ordens”. Conforme Gramsci. tendo por objetivo transformar a mente do trabalhador e produzir uma subjetividade conveniente à sua exploração. 219. Vol. também os discursos gerenciais tentam mascarar e subverter a luta de DEJOURS. G. seguida do psicólogo industrial George Elton Mayo. É importante salientar que subjetividade e individualidade são tratadas aqui como categorias correlatas da consciência e personalidade. 382.] A sociedade é consubstancial à natureza dos indivíduos que agem sempre dentro de um conjunto de condições concretas. Americanismo e Fordismo. o desenvolvimento social. Monteiro Lobato.. Os princípios da prosperidade. [. conforme ao novo tipo de trabalho e de produção”4 . Administração industrial e geral: previsão. faz parte da estrutura global da realidade como uma derivação última de um longo e complicado processo de mediação. o chamado “Inquérito Hawthorne” na indústria Western Eletric. A Escola Behaviorista também nasce da 5 TRAGTENBERG. 6 MOTTA. São Paulo: Pioneira Thomson Learning.Oboré. cuja tese afirmava a existência de grupos informais inter-relacionados e chamava atenção para os incentivos psicossociais no lugar dos econômicos8. que desenvolveram pesquisas empíricas em contraposição aos pressupostos da Escola de Administração Científica6. Apresenta seus enunciados parciais (restritos a um momento dado do processo capitalista de produção) tornando absolutas as formas hierárquicas de burocracia da empresa capitalista [. trata-se do que Maurício Tragtenberg chamou de ideologia gerencial: “A Teoria da Administração. como a Psicologia. Julho 2009 (70-74) . A subjetividade seria produzida a partir da objetividade numa perspectiva histórico-ontológica de objetivação do homem em sua totalidade social: “O homem não é imediatamente personalidade. 4. esta inaugurada com os princípios de administração do trabalho formulados por Fayol.P. classes a uma “ficção” da esquerda. absenteísmo. os já conhecidos turnover. São Paulo: Atlas. M. Irving Knickerbocker e Alex Bavelas. São Paulo: Editora Atlas. 2001.71 solidariedade de classe. 1967. São Paulo: Cortez. formas de controle e produção da subjetividade foram examinadas e pesquisadas por diversos campos científicos. G. organização. Trad. F. até hoje. transformando o homem em suas relações sociais. FORD.. 1990. 3 Idem.. 216. São Paulo: Ática. concomitante a competitividade e rivalização dos trabalhadores na busca por “reconhecimento e valorização”. A. nº 3. a qual então. Sociologia e Administração de Empresas.E. 117. Incorporando os conhecimentos da chamada Administração Científica às correntes comportamentais da Psicossociologia. Revista Práxis. 7 FAYOL. OLDRINI. mas se o torna na medida em que se eleva para além do seu egoísmo particularista.

o autor ressalta que enquanto processo de trabalho. mas. trata-se do que ele denomina de “gestores do capitalismo”. Dissertação (Programa de Pósgraduação em Ciências Sociais). como chefia funcional ou seus esquemas de prêmio incentivo. das quais podemos apontar a gestão do empowerment12 como uma das versões atuais. foram descartadas por métodos mais requintados: tudo isso representa lamentável má interpretação da verdadeira dinâmica do desenvolvimento da gerência “11 .p. Chris Argyris. 11 BRAVERMAN. e daí terem libertado McGREGOR. A degradação do trabalho no século XX. Entretanto. nº 43. não é visível materialmente. ou somente teria delineado novos limites e complexidades entre estas duas classes fundamentais? O Poder Gerencial: nova classe ou novas relações entre as classes? Para o autor português João Bernardo. Trad. Rensis Likert e Douglas McGregor. cit. em que a imposição de comportamentos disciplinares escamoteia os objetivos econômicos. 13 BRAVERMAN.como diretores. sobretudo..72 .O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? oposição à Escola Clássica e embora partilhasse de quase todos os pressupostos da ERH. São Paulo: Martins Fontes. Caixeiro. mesmo a parte “administrativa” é absorvida por “processo de trabalho rigorosamente análogo ao processo da produção. e que já havia sido apontada em um trabalho pioneiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores. mas não menos responsáveis pela fatia do poder da classe dominante. e por isso. de uma teoria que integra regras e padrões de produção para as relações humanas no trabalho. embora ele não produza artigo algum que não seja a operação e coordenação da empresa”13. 1977. controlam o ambiente de trabalho empresarial. D. Daí as formas de organização do trabalho ultrapassarem as fronteiras da fábrica e da administração científica e tomarem formas sociais. e. dezembro/1992. BATISTA. p. João. de todas as instituições da sociedade capitalista que executam processos de trabalho. 9 . típica do capital monopolista. o dilúvio? Revista Educação e Sociedade. Existe uma interpretação equivocada de que a ERH tenha rompido ou superado os métodos e princípios tayloristas-fordistas. 1980. Os gestores seriam mais que meros superiores hierárquicos. Nathanael C. especuladores. – com funções instáveis e posições de alta rotatividade. “É impossível superestimar a importância do movimento da gerência científica no modelamento da empresa moderna. Trabalho e capital monopolista. apropriando-se tecnicamente dos padrões fordistas-tayloristas de gestão e produção e combinando-os estrategicamente com os padrões de flexibilidade elaborados pela ERH e pelo toyotismo. em que a gerência do capital assume papel determinante. op. o trabalhador. Depois do marxismo. sendo este último o autor da chamada Teoria Y. 12 A gestão do Empowerment seria a nova roupagem da administração americana para a ideologia gerencial. cit. 83. as vertentes híbridas ou compostas pela OCT e técnicas toyotistas de gerenciamento de trabalho se apresentem como novas ou revolucionárias por enfatizarem o “lado humano” da empresa e supostamente terem abandonado o “lado selvagem” do antagonismo inerente à relação capital . seriam. em que os gestores são representantes híbridos tanto das classes assalariada como capitalista. Também destacaram-se no interior da perspectiva behaviorista da administração Elliot Jaques. Marília: 2007. rompeu com a idéia de que a satisfação do trabalhador por si só era geradora de maior produtividade. fundamentais na estrutura de dominação capitalista.trabalho. de fato. que propaga a ética do que caracterizo como obedecer com iniciativa. Outro ponto fundamental que Braverman ressalta é o de que a administração moderna. procedente dos novos grupos ligados ao setor de serviços . que além de gerirem o processo produtivo. Este controle invisível seria o que o autor chama de “Estado Amplo”. que apesar de sentido em todas as dimensões sociais. H. ou ainda. 14 BERNARDO. 10 BATISTA. daí representarem uma nova perspectiva não só do ponto de vista econômico. quando o foco dos administradores era o aumento da produtividade e redução de custos. E. op. independentemente de serem proprietários dos meios de produção (capitalistas tradicionais). A noção popular de que o taylorismo foi “superado” por escolas posteriores de psicologia industrial ou “relações humanas”. separou o vínculo direto entre o capital e seu proprietário individual. e as tarefas de controle e da administração do capital foram transferidos para um corpo técnico gerencial. O lado humano da empresa. na medida em que o objetivo era garantir a produtividade a partir da negação do antagonismo entre capital e trabalho e do envolvimento do trabalhador com a tarefa realizada10. As teses iniciais da ERH tiveram divulgação a partir dos anos 1930. Nesta nova composição. A síntese da “obediência taylorista” aliada à “iniciativa toyotista”. do tempo da produção. 228. A fantástica fábrica de dinheiro na trilha do empowerment: o discurso gerencial do Banco do Brasil. controladora do tempo dos trabalhadores. que ele “fracassou” [. sobretudo. de Harry Braverman. este poder gerencial teria resultado em uma nova classe social. gerentes. Universidade Estadual Paulista. porque certas categorias tayloristas. A formulação de McGregor se deu no intuito de contrapor o enfoque dado pela Escola Clássica (Teoria X) e trazer à tona a responsabilidade da organização em criar as condições necessárias para que o trabalhador aflorasse suas melhores capacidades e fosse possível um clima de motivação mútuo9. Esta falsa noção contribuiu para que no desenvolvimento da ideologia gerencial até os dias atuais.] ou que está “fora de moda”. uma nova classe efetiva.. Dessa forma vem à tona a questão do poder gerencial. Os corpos biológicos são disciplinados e articulados para absorver e disseminar os comportamentos sociais requeridos para a manutenção da dominação14. administradores. do ideológico.

. 2002.] Engrenagem de um mecanismo montado. Para além do socialismo. passando a ser funcional. Braverman converge sua análise para a idéia de uma caracterização por aspecto das classes capitalista e assalariada. a única proprietária formal dos meios de produção. Para Mills. MILLS. 17 MILLS. e sim uma reorganização administrativa das classes proprietárias. A classe dos gestores. em geral. que se apropria coletivamente do capital mediante o controle exercido sobre certas instituições é assim apagada e confundida com os trabalhadores. e a superioridade de “ser chefe” se demonstrava daí. que justamente por serem diretos podiam ser também diretamente questionados. que responde a um superior imediato.. chamando a atenção para o aspecto institucional da ideologia gerencial: “A dominação nunca será exercida por pessoas nem dependerá de sua autoridade pessoal. Rio de Janeiro: Zahar Editores.. Mills classifica a participação da fração corporativa da elite do poder como o principal estrato que compõe a nova classe média americana. 398-399. o burocrata é o instrumento de um poder sem sujeito: no aparelho de Estado. Paralelamente. a elite do poder moderna estaria concentrada na empresa. é mais uma alegoria simbólica que vende sua imagem e não se responsabiliza pelo processo de trabalho em si. dos administradores do capitalismo.] são conjuntos de administradores quem efetivamente detém cada empresa. W.] reduz os capitalistas à burguesia. quando se chega a um diretor-geral ou no presidente da organização. Por outro lado. como na grande empresa. o “conhecer” do negócio. executores dominados e não chefes [.Collar: the american middle classes. na abstração do Povo [. Recuperando-se o paralelo entre João Bernardo e Mills. Nº 7. pode dizer que BATISTA. p. A elite do poder. para o sociólogo americano Wright Mills o poder se dá em três níveis.W. Gorz trabalhou oportunamente esta faceta das relações de poder e da burocracia empresarial como ideologia de dominação em seu polêmico livro “Adeus ao proletariado”. Uma vez que tanto o capital como o gerenciamento profissional – em seus níveis mais altos – são retirados. e aqueles que têm por função perpetuá-la serão. op. Rio de Janeiro: ForenseUniversitária.] não são mais os homens que possuem o poder. (grifos nossos)19. 72-73. Antes. importante mecanismo do poder já que os diretores e principais executivos administram uma das principais fontes de riqueza do capital produtivo. os chamados whitecollars17. são as funções de poder que possuem os homens [. Julho 2009 (70-74) . 19 18 . este também não representa o poder pessoal de fato. Ainda que em determinadas unidades empresariais esta hierarquia pessoal ainda exista. Nestas três esferas estão os grupos que tomariam as decisões sobre os rumos do mundo. “O controle operacional recai cada vez mais sobre um funcionalismo gerencial para cada empresa.. O poder pessoal do chefe ou do “dono” se transferiu para a função que determinado gestor ocupa no processo. previamente determinada pela posição que o sujeito ocupa no organograma da empresa18. o poder pessoal era conquistado pelo “saber”.. Adeus ao proletariado. GORZ. Será exercida pela via institucional. pelo contrário. eles próprios. No bojo deste novo grupo. C. oportunisticamente dividido de acordo com as alianças do momento. segundo um procedimento definido de antemão. que por sua vez é subordinado hierarquicamente a outro. p. White. O poder era pessoal.. O autor analisa diferentes enfoques do que denomina ser a natureza desta “elite do poder” através da historicidade das contradições e jogos de interesses que permeiam a sociedade norte-americana. C. Trad. tendo poder sobre o volume e fluxo dos bens de consumo. através do controle exercido sobre toda a sua atividade. 1975.. que foi inventado por homens para garantir com uma quaseautomaticidade a submissão hierárquica de outros homens”. New York: Oxford University Press. acarretou a sua fragmentação e dispersão”15.73 Para Bernardo: “A confusão entre concentração do capital e centralização política é um dos aspectos da confusão entre relações sociais de produção e sistemas jurídicos de propriedade [.. em que se fundamentou a hegemonia alcançada pela classe dos gestores. o poder é o organograma. impessoalmente através do poder funcional. diluiu-se o poder pessoal no poder funcional. onde cada cargo está prescrito por regras institucionais que regem o processo de trabalho. formando uma camada mais ou menos unificada dos white-collars. a tendência da organização moderna é a do processo gerido Idem. em vez de levar à concentração das formas tradicionais de propriedade. este não defende a formação de um grupo independente das frações hegemônicas dos proprietários pertencentes à classe burguesa. juntamente à partilha do poder sobre ele. hoje é uma questão de “atribuição da função”. O controle e a dominação anteriores.História & Luta de Classes. cit. o corporativo (grandes Companhias) e o militar16. 50ª Ed. A. Assim. da mesma classe. Ângela Ramalho Vianna e Sérgio Góes de Paula. 1982. Há casos em que o próprio presidente de uma unidade de um grupo multinacional não é sequer acionista da companhia. sendo o político (Estado). 16 15 Supondo que as informações e os processos se encadeiam a partir do simples funcionário. principal estrato da nova classe média americana. expunha o chefe para o bem e para o mal de forma que o poder podia ser aceito ou repudiado diretamente na figura do chefe. e assim sucessivamente até o topo do organograma. no capitalismo de tipo ocidental a concentração econômica.

K. entendidas em sua oposição e relação permanentes. F. os administradores do capital seriam uma fração da classe assalariada que detém maior parcela do poder por estar diretamente vinculado à estrutura de dominação do topo para baixo. Utilizando esta formulação como critério para divisão fundamental entre as classes. proprietário e administrador. sem convertê-los em uma terceira classe. que se estende para além do espaço de trabalho. estas classes fundamentais são a burguesia e o proletariado. a Teoria Geral da Administração e as práticas gerenciais cumprem um papel ideológico. Para além do capital. In: COUTINHO. MARX. 221.74 . como relacionamento determinado de poder. os manuais.descensão suficiente entre as classes fundamentais para a criação de uma terceira classe composta pelos administradores do capital. se esconda atrás do poder funcional. permitindo que enquanto “homem” o gestor se aproxime dos subordinados pelo poder pessoal. Manifesto do Partido Comunista. a solidariedade de classe necessária para a tomada de uma consciência emancipada. atingindo dimensão social e convertendo-se num processo de “educação capitalista” para a classe proletária que serve ao ocultamento da luta de classes e à manutenção do processo de exploração da força de trabalho e da reprodutibilidade do capitalismo. mas que parece não significar uma mobilidade de ascensão . reacionária em sua natureza por agir no limite do oportunismo para ascender ou conservar sua posição21. o que facilita a aplicação das técnicas gerenciais de controle. também dependem do poder pessoal na medida em que em alguns casos é o carisma individual que motiva o funcionário a “vestir a camisa”. 21 20 22 MÉSZÁROS.al. agora tornam-se aspectos da classe”20. portanto. N. composta pelos pequenos produtores rurais e industriais. o que dificulta. o poder pessoal e o poder funcional são manipulados na ideologia gerencial. as duas categorias claramente diferentes da “divisão do trabalho” devem ser fundidas. Segundo Meszáros: “Como necessidade igualmente inevitável sob o sistema do capital. Para esta finalidade. sem deixar de pertencer economicamente à classe trabalhadora. O grupo dos white-collars ou dos gestores já adquiriram os valores da classe capitalista. C. talvez seja mais apropriado interpretar a formação de uma nova relação entre as classes fundamentais. a única potencialmente revolucionária. independente da posição que ocupe. Em outras palavras. que. p.] O Manifesto Comunista 150 anos depois. sobre os aspectos funcionais/técnicos do processo de trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial. Esta transformação nas relações de poder no trabalho possibilitou uma mobilidade de tal segmento gerencial. representados respectivamente pelo capitalista proprietário dos meios de produção. ENGELS. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Entretanto. É também forçoso que ela seja apresentada como justificativa ideológica absolutamente inquestionável e pilar de reforço da ordem estabelecida. a contraditoriedade da ideologia gerencial é conveniente à sua manutenção neste aspecto. e enquanto “chefe” imponha o poder funcional. de hierarquia e subordinação como inalterável ditame da “própria natureza”. Tal fração da classe proletária parece dotada de uma subjetividade alienada num nível mais complexo na medida em que ideologicamente representa a classe dominante. Dessa forma. as normas. pelo qual a desigualdade estruturalmente reforçada seja conciliada com a mitologia de “igualdade e liberdade” 22. Campinas: Editora da Unicamp. senão obstrui. 99.O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? os dois lados do capitalista. o pessoal e o profissional. os apontamentos de Braverman são mais adequados na medida em que o autor trabalha com uma caracterização dos administradores que utiliza aspectos das classes fundamentais. por outro lado.. cit. Neste caso. daí a composição dos aspectos da classe dominante com a assalariada..p. O estranhamento no interior desta fração da classe assalariada permite que a figura pessoal do BRAVERMAN. Tem-se a impressão de que o gestor é dividido entre o homem e o chefe. Também admitem a classe média. gerente. 1998. op. antigamente unidos numa mesma pessoa. não basta que se imponha a divisão social hierárquica do trabalho. historicamente contingente e imposta pela força. juntamente aos comerciantes. Rio de Janeiro: Contraponto. 2002. dificultando a contestação direta porque dilui o poder gerencial e a figura do opressor acaba por oscilar entre o chefe. Para participar como administrador do capital o gestor não precisa possuir a riqueza ou a propriedade dos meios de produção do capitalista. representando. [et. I. já foram cooptados ideologicamente pela doutrina administrativa gerencial. de modo que possam caracterizar a condição. e pelos trabalhadores assalariados vendedores de força de trabalho. os interesses dos que detém a propriedade privada. . o regulamento. Considerações Finais A partir das proposições trazidas neste artigo. Conforme Marx e Engels.

se fazem abstrações dessas diferenças para que possa ser declarado que todos os indivíduos são iguais. No seu núcleo estrutural estão às relações sociais do modo de produção capitalista3. Ernest. cap. Não obstante. por um lado. especialista em Filosofia Política pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e especialista em Direito Constitucional pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza). 112-128. Julho 2009 (75-81) . Tomo II. a concepção de que os indivíduos que são membros da comunidade política são seres abstratos. Por sua vez. o que evitaria perder de vista o grande avanço que se supõe para o desenvolvimento da humanidade a emancipação política que esse modelo de Estado garante. Assim. isto é. contrapontos ao puro e desenfreado liberalismo praticado após as revoluções burguesa e industrial. não é possível qualquer tipo de reivindicação e disputa por fora das regras estabelecidas. de predomínio neoliberal. é bom lembrar que esse modelo de Estado é apenas rótulo de um Estado capitalista. 1999. v. É bastante comum a concepção de que só existe o caminho de organização política propugnado por esse modelo de Estado. Trad. Neoliberalismo. mantendo presente. supostamente. Nº 7. João José. Reforma constitucional e proibição de retrocesso. São Paulo: Publisher Brasil. o olhar crítico sobre o Estado democrático e social de direito focalizaria a perspectiva de um modelo de Estado que diretamente contribuiu para o processo de acumulação e reprodução em momentos de crise capitalista4. pelo outro lado. se esse modelo de Estado ampliou os beneficiários dos direitos individuais e criou os direitos econômicos. ou como conseqüência daquela compreensão de que o alargamento dos titulares dos clássicos direitos individuais e o surgimento dos direitos sociais foram *Mestre em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). muito pelo contrário. In: ___ (Org. essa tese pressupõe que o Estado democrático e social de direito atenderia aos fins econômicos do capital. a maneira escolhida para submeter à crítica o Estado democrático e social de direito foi politizá-lo. visto que ele compõe e brotou do modo de produção capitalista. É o que se verá a seguir. 1 NEGRÃO. . p. o consenso seja alcançado.75 Estado Democrático e Social de Direito. 3). 3º edicíon. Para conhecer o neoliberalismo. VALIER.Direitos fundamentais sociais: estudos de direito constitucional. para desnudar essa concepção mística que envolve o Estado democrático e social de direito. pobrezas y desigualdades en el Tercer Mundo. 4. seja porque este pode ser caracterizado pelo binômio desmanche dos mecanismos de bem-estar social e precarização da classe trabalhadora1. SARLET. 4 MANDEL. tanto que. Lisboa: Antídodo (Coleção Argumentos. sociais e culturais – servindo como resposta para evitar uma convulsão social. Jacques. Professor de Direito da Universidade Católica de Brasília. Ele funciona como controle social. há uma mística apologia ao chamado Estado democrático e social de direito. p. Ernest. sem se dirigir à causa dessa convulsão –. pois se presume que tal modelo de Estado possibilita que todos os interessados sejam ouvidos e. 2003. isto é. Também é corriqueiro o pensamento de que o Estado democrático e social de direito se opõe ao neoliberalismo. Teoria marxista do Estado. Politizando a questão sobre o Estado democrático e social de direito Nos dias de hoje. Tratado de economia marxista. 1998 2 SALAMA. México: Ediciones Era. internacional e comparado. Assessor Técnico do Senado Federal. e. como se o Estado democrático e social de direito fosse readaptado para os padrões atuais e se transformasse em uma resposta às políticas neoliberais2.História & Luta de Classes. 3 MANDEL. pelo outro lado. 301-394. a partir daí. o que significa que: um modelo de Estado capitalista não reflete as diferenças entre os indivíduos existentes na sociedade. uma vez que o Estado democrático e social de direito é considerado como a única forma de organização política da sociedade capaz de garantir os clássicos direitos individuais e promover as ações de bem-estar social. M Reis. Pierre. Ingo Wolfgang. Rio de Janeiro: Editora Renovar. como se o palco da política fosse exclusividade da esfera estatal. contextualizá-lo e refutar o argumento que busca colar nos críticos ao Estado democrático e social de direito a pecha de economicistas. por um lado.). Todavia. a dicotomia sociedade civil e Estado. 1977. O costumeiro argumento para contrapor essa tese diz. Buenos Aires: Minõ y Davila editores. E. que ela não leva em conta o simbolismo de uma dimensão prospectiva de conquistas. 1972. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Hélio de Souza Rodrigues Júnior* I ntrodução O presente texto tem como ponto de partida que o Estado democrático e social de direito exerce a função de salvaguardar e legitimar o modo de produção capitalista.

são vários os exemplos atuais da mística que envolve o Estado democrático e social de direito. 6. porque simboliza que a concepção que cria uma apologia ao Estado democrático e social de direito – e seus respectivos direitos fundamentais de proteção individual e social – restringe o campo da atuação política ao modelo liberal-capitalista. contribuiu para o processo de acumulação e reprodução capitalista e. Por conseguinte. se está dizendo por meio indireto que não há outro caminho a seguir. a não ser o rumo do modelo de organização política da sociedade dado pelo modo de produção capitalista. isto é. a ascensão no início do século XX do Estado de bem-estar social em alguns países europeus afastaria tal situação. Não é que os teóricos e defensores do Estado democrático e social de direito neguem a existência. Mas.1990.). pois naquela época as influências classistas sobre as leis podiam ser facilmente percebidas no caráter da legislação. pois estes não agiriam dentro dos parâmetros da lei. nela produz alterações. De qualquer modo. mar. este aborda o Estado democrático e social de direito como reflexo do modo de produção capitalista e não. e na natureza das decisões judiciais referente às penalidades impostas aos crimes contra a propriedade. São Paulo: Editora Malheiros. elementos e compreensão sobre se isso é tática ou estratégia política de enfrentamento ao modo de produção capitalista. ou ainda. a tentativa de criminalizar os movimentos sociais. das ações estatais. inclusive. O direito posto e o direito pressuposto. a ampliação do direito de voto. 1975. um argumento para se contrapor a esse ponto de partida é minar o seu pressuposto: de que o Estado democrático e social de direito decorreria do interesse e da necessidade do próprio capital em preservar uma dada estrutura social que com ele fosse adequada. indicaria a necessidade de serem definidas as noções.Estado Democrático e Social de Direito. Eros Roberto. 1-66. por um lado. exclusivamente. um modelo de Estado que. funciona como controle social. do capitalismo. Aliás. com reflexos em um particular Estado social brasileiro que foi construído ao longo do século XX5. A concepção do direito deverá ser 5 DRAIBE. mas subordinam a concepção desse Estado ao seu sistema de pensamento. E isso significa: transformar esse modelo de Estado em processo de evolução natural. 34-35. De qualquer modo. 4. de tal modo que a história social perde-se. Controle social. Rio de Janeiro: Editora Zahar. as abstrações se tornam o fundamento da realidade ou a explicação da história social... Thomas Burton. Ou seja. A economia condiciona o Estado e o direito. cap. ed. Brasília. fazendo com que a luta de classe fique descaracterizada de qualquer ruptura com a ordem posta. p. Não obstante tais hipotéticas refutações ao ponto de partida da crítica desenvolvida neste texto. Por outro lado. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Ora. Introdução à Sociologia. o Texto Constitucional cria restrições às ações de expropriação por meio de proteção especial àquelas propriedades que cumprem a função social. daí que as relações concretas da sociedade condicionam o Estado e o direito positivo7. argumentar-se-ia que no século XIX o Estado moderno podia ser estudado como reflexo do poder de uma classe dominante. . ao estabelecer que a propriedade privada deva cumprir com sua função social. 6 BOTTOMORE. As políticas sociais brasileiras: diagnóstico e perspectivas. 238.76 . o Estado democrático e social de direito como reflexo da economia. p. 3. Sônia M. ou alternativa.. Paginação irregular. tudo isso provocou modificações na legislação. mas o Estado e o direito condicionam a economia. 7 GRAU. In: __.ed. a difusão da reforma social e as doutrinas igualitárias. p. Interessante lembrar sobre este último exemplo que o Texto Constitucional brasileiro garante o direito de propriedade privada dos meios de produção. das regras emanadas de um Estado democrático e social de direito. como é e o porquê do Estado democrático e social de direito prevalecem sobre a história social. Nota introdutória sobre o direito.). enquanto que as idéias sobre o que é. 4. tal Texto está dizendo para os socialistas de fé no misticismo do Estado democrático e social de direito que lutar contra a apropriação dos meios de produção é medida inconstitucional. Assim é que “se todo Estado tende a criar e a manter um certo tipo de civilização e de cidadão (. uma vez que a crítica formulada já parte do patamar de que o Estado democrático e social de direito exerce a função de salvaguardar e legitimar o modo de produção capitalista. mas interagindo em relação a ela. exclusivamente. a objeção à crítica ocorreria no sentido de que o seu embasamento está em que esse modelo de Estado é exclusivamente reflexo da economia. pelo outro lado. O exemplo concreto sobre o antagonismo da luta dos movimentos sociais e o Estado democrático e social de direito dos dias de hoje é paradigmático. poderia ser novamente invocado o argumento de que o Estado é produzido pela estrutura econômica. tais como. isto é. Por conseguinte. Para a Década de 90 Prioridades e Perspectivas de Políticas Públicas. E sem que a luta de classe represente ruptura social. o debate sobre a questão do uso de algemas ou de interceptações telefônicas. a influência e a repercussão das estruturas sociais. mas ao modo de produção que é capitalista. o direito será o instrumento para essa finalidade (. In:__. 2000. Como isso. v. Contextualizando o Estado democrático e social de direito: Economicismo e Ambiguidades Note-se que. tende a fazer desaparecer certos costumes e atitudes e a difundir outros. na atmosfera social que influencia as decisões judiciais e a própria estrutura social”6. ocultando o elemento significativo de que o Estado e seus respectivos direitos foram estabelecidos para realizar e reproduzir certo modo de funcionamento social.. “o crescimento do movimento trabalhista. não se trata de relacionar.

cultura que viabilizam. por isso. Ao contrário. Quando se sustenta que o Estado democrático e social de direito é reflexo do modo de produção capitalista e. reconciliar aparentemente indivíduos. Maquiavel. cuja função primeira seja ordenar a desordem. do modo de produção capitalista. Segundo. 1972. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Uma introdução crítica ao direito. p. 11 MIAILLE. No que toca a idéia do consenso. 28.História & Luta de Classes. o ponto inicial da crítica adotada neste texto ao Estado democrático e social de direito não o coloca como reflexo da economia. E tal. Pode-se apenas dizer que no bojo das classes dominantes. p 139-140. velar pela salvação pública denominada de bem comum. os modelos de Estados funcionariam de maneira diferente. uma função. surge um problema: como caracterizar de um modo preciso a preponderância política de uma classe ou fração? O indicador mais seguro dessa preponderância é a repercussão objetiva da ação estatal no sistema de posições relativas de que participam as classes dominantes e as frações de classe dominante. no que diz respeito à questão da instância neutra.Lisboa:Moraes Editores. 79. 2002. Cadernos do Cárcere. na medida em que os interesses econômicos são satisfeitos em caráter prioritário. valores. ele é a representação dessa classe. segundo o modo de produção predominante. ou mesmo como puro reflexo causal do capitalismo. um espaço. MIAILLE. eles não são instrumentos da classe burguesa. o pressuposto é que ele foi obtido pelo combate político travado. Civilização Brasileira. o Estado democrático e social de direito não é instrumento da classe burguesa. Ob. Nº 7. p. 9 MIAILLE. bem como. p. significa que esse todo dá ao Estado democrático e social de direito uma concepção. sistema. e mantêm a formação da base social capitalista. Portanto. porquanto ele não é compreensível senão em função deste todo10. é perfeitamente razoável pressupor que esse modelo de Estado possa contrariar interesses do modo de produção dominante. Ob. do modo de produção capitalista significa que existem indicadores observáveis que mostram. de modo que o 12 13 GRAU. Mas. Caderno 13. Em suma. repita-se. não ferindo de morte os seus interesses mais genuínos. ele é reflexo do modo de produção capitalista. consolidar e manter uma dada estrutural social que com ele fosse adequada. consolidam. não aqueles mais genuínos. uma classe ou fração prepondera politicamente sobre as demais. O Estado na sociedade capitalista. Michel. ele é partes desse 8 GRAMSCI. quiçá instrumento político manipulável. Ralph. Cit. eles são a representação dessa classe. Notas sobre o Estado e a Política Vol 3. 2º edição. praticamente de todo fanatismo moralista”8. as formas nas quais tal Estado se acha organicamente ligado à reprodução dos interesses desse modo de produção. 1979. 45. de que existe um consenso. p. o modo de produção enseja a existência de uma estrutura política. salvaguarda e legitima esse modo de produção. atribuindo-lhe características próprias. Definitivamente.77 libertada de todo resíduo de transcendência e de absoluto. é preciso ter sempre presente dois aspectos: Primeiro. Resignificando Mialle11. Cit. políticas. de maneira inequívoca e concreta – ou que permite uma leitura coerente e sustentável –. Aqui não se faz mais do que levantar a questão. 49. O desdobramento da crítica em relação ao prisma do modo de produção indica a noção de que os tipos de Estados não são imagens de um fenômeno social natural e eterno que atravessaria as épocas e as sociedades sempre iguais a si próprias9. onde é possível conciliar interesse antagônico das forças políticas. Julho 2009 (75-81) . o Estado democrático e social de direito não é instrumento a serviço de um sistema sociopolítico. é perfeitamente razoável pressupor que os interesses do modo de produção dominante contrariados pelo Estado democrático e social de direito sejam pontuais e temporários. ou representação. o Estado democrático e social de direito é parte de um todo social complexo e específico. O Estado não é instrumento mais ou menos dócil e eficaz entre as mãos da classe burguesa: ele é uma das formas sociopolítica dentro da qual esta classe exerce o seu poder. é preciso apreciar o Estado democrático e social de direito para evitar fazer dele um quadro investido pela classe burguesa. de modo que sob tal prisma o Estado democrático e social de direito decorre do interesse e da necessidade da base social capitalista em constituir. ou melhor. 124-128. isto é. de maneira que se pode sustentar que detém preponderância a classe ou a fração cujos interesses são prioritariamente contemplados pela política econômica e social do Estado12. Com isto. . Contudo. daí o porquê do valor desta (aparente) função de apaziguamento e de regulamentação pacífica dos conflitos. garante a prevalência daqueles direitos. O esclarecimento é notório: como o Estado democrático e social de direito está assentado em uma base social capitalista. p. na medida em que não se quer extrapolar o objeto delimitado neste texto. Eros Roberto. de que existe uma instância neutra e técnica onde esse consenso é possível de ser realizado. A conclusão da crítica de que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista compreende o sentido de que ele vai ao encontro desse modo de produção. Cit. estruturas econômicas. no caso. 10 MILIBAND. esse ir ao encontro tem o significado de uma representação harmônica. Michel. instituições sociais. Por sua vez. Entretanto. tal parece ser objeto de decisões políticas que se harmonizaram. via a estrutura estatal distinta e superior aos interesses travados na sociedade13. Ob. e deve ser esclarecido para evitar a ambigüidade de concebê-lo como instância apartada da sociedade e/ou técnica-neutra. Ed. Cumpre acrescer que afirmar que esse modelo de Estado é reflexo. também. Antonio.

3. 15 NETTO. ela não desconsidera a existência de ambigüidades sociais. perfeitamente compreendida na dimensão de que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista. por exemplo. 177. o Estado. onde poderão ocorrer os conflitos entre a própria classe dominante20. 1. que se forme um certo equilíbrio de compromisso. mas de atendimento aos próprios interesses do modo de produção capitalista: primeiro. 20 Idem. 176 19 Idem. correspondendo àquelas disputas dentro do espaço político estatal. dado que. não pode deixar de ter fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica”14. que ela criou. com ambigüidades de três facetas: desentendimentos na classe burguesa.Estado Democrático e Social de Direito. decorre que. como a classe burguesa recebe sua legitimidade política das eleições. pode resolver provisoriamente essa contradição. decorrem fundamentalmente da capacidade de mobilização e organização da classe trabalhadora “a que o Estado. sobre a acumulação progressiva do capital. e por isso atende aos seus interesses mais genuínos com prioridade. ed. Pierre. diz Gramsci: “O fato da hegemonia pressupõe. ou puro nexo causal. Vale acrescentar. inclusive enquanto complexificação da análise. São exceções que confirmam a regra geral.9. responde com antecipações estratégicas”16. São Paulo: Cortez Editora. vez que os direitos sociais. A existência deste Estado apenas coloca a sua possibilidade. Veja-se. por meio de composições. capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora e as fissuras da instituição do Estado. Ob. Disto. Antonio. p. SALAMA. Isto indica uma das respostas. denota-se que a funcionalidade do Estado democrático e social de direito para o modo de produção capitalista não equivaleria a verificá-los como decorrência natural. In:______. três outros pontos que permitem a leitura de que não se trata de cessão. 14 . com autonomização da atividade política. mas de atendimento aos interesses do próprio modo de produção para eliminar parte da própria burguesia e assegurar os monopólios. mas também é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem envolver o essencial. que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida. cap. essas ambigüidades do modo de produção capitalista podem ser compreendidas da seguinte maneira: resignificando Netto15. é o local onde se armam os conflitos entre as diferentes camadas da burguesia. p. p. E. p. a dinâmica das políticas sociais está longe de esgotar-se numa tensão bipolar – segmentos da sociedade demandante/Estado burguês no capitalismo monopolista. em última instância. indubitavelmente. Ele cedeu para assegurar o seu modo de produção. 16 Idem. e que não será capazes de ferir de morte tais interesses. do Estado como instrumento ou capturado pela burguesia. As intervenções do Estado. como a dominação política da burguesia funda-se. os seus interesses e as suas estratégias”17. 2001. 18 17 É importante esclarecer que quando a crítica formulou e sustentou que o Estado democrático e social de direito é reflexo do modo de produção capitalista. tomado em seu conjunto. 1975. na medida em que a concretização dependeria da luta de classes. Aliás. por vezes. José Paulo. que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa. isto é. Desentendimentos na classe burguesa Salama e Valier18 dizem que o Estado. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. Jacques. pode assim ser levado a impor a uma parte da classe determinadas soluções adequadas ao interesse político da classe em seu conjunto. Por outro lado. As condições histórico-sociais da emergência do serviço social. abaixo. se a hegemonia é ético-política. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. os cortes no conjunto dos trabalhadores e as próprias fissuras no aparelho do Estado (que. 33. o modo de produção capitalista permite compreender o Estado democrático e social de direito. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Estado não irá ferir de morte o modo de produção que lhe seja mais característico. elas são resultantes extremamente complexas de um complicado jogo em que protagonistas e demandas estão atravessados por contradições. confrontos e conflitos. e os exemplos são inesgotáveis. cap. como por exemplo. De fato. Portanto. apenas a título de reforço da argumentação e sem maiores desdobramentos. p 48. 33. ou das leituras possíveis. a oferta de políticas sociais em vista da demanda das classes subalternas pode ser oferecida na medida exata em que elas podem ser refuncionalizadas. tal como a sincronia entre previdência Idem. VALIER. E esse autor desfecha: “Entretanto. 33. cada uma delas. Com efeito. levam alguns de seus atores profissionais a uma relação muito mediatizada com as classes sociais) tornam a formulação GRAMSCI. não se trata de ceder. 177.Uma Introdução à Economia Política. portanto. A diferenciação no seio da burguesia. ela implica na eliminação de uma parte da burguesia. e.78 . p. não pode deixar de ser também econômica. das políticas sociais processos que estão muito distanciados de uma pura conexão causal entre os seus protagonistas. necessita do apoio político das camadas subalternas. ao fato de que existem conquistas sociais no modo de produção capitalista. p. pois o capital cedeu para manter os negócios do capital. Cit. esses autores19 ainda dizem que. algumas vezes. In:___.

inclusive. Efetivamente. e pelo outro lado. subestimando a assinalada capacidade de mobilização e organização da classe trabalhadora. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. como faz crer os teóricos da formação do Estado democrático e social de direito. a melhoria na qualidade de vida do trabalhador. e acentuar. p. p. 24 Idem. Capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora Saes23 nos diz que os teóricos do Estado democrático e social de direito caracterizam este modelo de Estado como processo evolutivo natural.História & Luta de Classes. 30 RUA. p. que os três pontos levantados são imperiosas fontes de análise para a compreensão do modo de produção capitalista. O Estudo da Política: Tópicos Selecionados. embora não contraditório”24. 29. como por exemplo. p. acolhe os interesses do próprio modo de produção capitalista.79 pública e privada e as empresas privadas no setor da saúde – serviços. p 28. atendendo ao imperativo abstrato da realização do capital. Julho 2009 (75-81) . Brasília: Paralelo 15. São Paulo: Editora da Unicamp e Boitempo editorial. e. sem nenhuma perspectiva de evolução histórica natural. 1998. consubstancia faceta das ambigüidades do modo de produção capitalista. acomodando-se. n. 2002. Segundo. Cit. In:___. Nº 7. 23 SAES. É que contra a operação dessa dialética. 29 Idem. Assim. Idem. In: Maria Carvalho. pode-se resenhar Rua30 para entendê-las. Ele cita Göran Therborn como quem melhor conceituou essa dinâmica. via o consumo. resume-se no seguinte sentido: a coexistência. 634-674. continua o autor. Análise de política públicas: conceitos básicos. medicamentos 21 . repita-se. apagando os limites impostos pelo modo de produção capitalista e ocultando as tensões e dificuldades inerentes ao processo de conquista dos direitos. Todavia. bem como a dos segmentos burocráticos que as representam”27 sempre empenhadas “em reduzir os direitos vigentes na sociedade capitalista àquele mínimo indispensável à reprodução do próprio capitalismo”28. essa capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora. aquilo que a instauração de direitos civis prometeu e não cumpriu: a realização da igualdade entre os homens. se a concepção da crítica ao Estado democrático e social de direito fosse restrita aos três pontos acima levantados. portanto. Essa vontade política só se enfraquece “quando surgem dissensões políticas importantes no seio das classes dominantes. p. na linguagem econômica. 12. organização da classe trabalhadora que. as obras e serviços não lucrativos são custeados ou subvencionados pelo Estado. Assim. vez que do ponto de vista do capital. certas limitações imediatas da demanda flutuante do mercado. 231-260. além do que não são desprezíveis as demandas e gastos do Estado. É nessas circunstâncias que se abrem melhores oportunidades para as lutas populares. Ob. 28. Revista crítica Marxista. a processos capitalistas de concentração econômica que só fazem crescer a disparidade social”26. eles foram conjugados com o que se chamou de desentendimento entre as classes dominantes. seria ponderável buscar atribuir à crítica defendida a pecha de puro nexo causal da economia. o fator determinante no processo global de criação de direitos na sociedade capitalista. o trabalho não é somente fator de produção. p. 29.Cidadania e capitalismo: uma crítica à concepção liberal de cidadania. delas podendo resultar a criação de novos direitos”29. linear. 15. 28. 27 Idem. como por exemplo. por um lado. em seu aspecto de força de trabalho. para os fins deste texto. esse autor diz que “o processo de criação de direitos numa sociedade capitalista é necessariamente um processo conflituoso. porque a política pública compreenderia um conjunto de procedimentos destinados à resolução pacífica de conflitos em torno da alocação de bens e recursos públicos. desde que potenciadas pelas dissensões internas das classes dominantes nos planos nacional e internacional. e terceiro. Mas é importante perceber. Portanto. perfazendo com que o Estado democrático e social de direito possa ser melhor compreendido como reflexo inteligível desse modo de produção. A taxa de utilização decrescente no Estado Capitalista. de uma prerrogativa real (a liberdade de movimentos) e uma declaração ilusória (a declaração de igualdade) provocam com que as classes trabalhadoras procurem obter. 12. 28-29. 22 MÉSZÁROS. p.). a defasagem entre aquilo que é proclamado e aquilo que é cumprido pelo Estado na aplicação da lei leva os trabalhadores à ação reivindicatória. Maria das Graças. resta demonstrada a compreensão de que existem ambigüidades sociais no modo de produção capitalista que abrem espaço para os direitos sociais. 28 Idem. (Org. 21 As fissuras da instituição do Estado No que tange as fissuras da instituição do Estado. Décio Azevedo Marques. Com uma pequena política social já se evita. Saes25 constrói uma dialética da forma-sujeito de direito para demonstrar o papel da mobilização e NETTO. p. 16. na medida em que as lutas populares seriam. p. cap. 2003. “ela só garante um padrão material mínimo a todos. mas também a massa consumidora tão vital para o ciclo normal da reprodução capitalista22. István. por meio da conquista de novos direitos. proclama a legitimidade e a possibilidade de realização do princípio da igualdade sócioeconômica. gradativa e seqüencial. na forma jurídica. instrumental. levanta-se “a vontade política das classes dominantes. na implantação de certos direitos sociais. Idem. no caso. (coleção relações internacionais e política) 26 25 . pois muito embora esta autora esteja situada na restrita e despolitizada ótica de que as políticas sociais são relações entre a sociedade civil demandante e o Estado. de que pode resultar. A nova corporificação da forma-sujeito de direito.

O jogo político que é travado na formalização do Estado democrático e social de direito demonstra que esse Estado e respectivos direitos. pode-se dizer que o foco do texto foi submeter à crítica o Estado democrático e social de direito. 33 Idem. as ameaças. além das políticas públicas – pode muito bem representar não uma resposta. p. E também não existe relação ou vínculo entre o conteúdo da decisão e o resultado da implementação. organizacionais. cargos. de apoio e até mesmo de benefícios. em um determinado problema político. 35 Idem. os atores fazem todas as alianças possíveis. p. 243. todos tendo “algo a ganhar ou a perder com as decisões relativas a uma política”. p. de modo que estas fissuras são elementos que afugentam a pretensão idílica de um Estado neutro. numa tentativa de encontrar soluções negociadas nas quais “todas as partes sintam-se mais ou menos satisfeitas. quando Rua trata do comportamento dos atores nas formulações das políticas públicas. de maneira que. nesse jogo. Daí se forma as arenas políticas. p. 38 Idem. Finalmente. E mais. Como essa solução é realmente difícil de ser obtida. tais como a persuasão. ou entidades de direitos internacionais. ela enumera como espécies de atores políticos. 36 Idem. mas o poder efetivo e as habilidades políticas dos proponentes e dos adversários de uma alternativa para negociar. 238. O que moveria o jogo do poder não é a lógica de um curso de ação. médio ou longo alcance”37. 32 31 Idem. como se todos acreditassem que ganharam alguma coisa”36.. além de refutar a pecha de economicista. de um lado. Ou ainda.. 241. considera-se também uma boa decisão aquela que foi a melhor possível naquele momento específico”38. outros governos. técnico. não existe vínculo ou relação direta entre o fato de uma decisão ter sido tomada e a sua implementação. . compreender que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista. sociais e culturais. Rua35 nos afirma que no jogo do poder são diversos os procedimentos ou táticas utilizados pelos atores. (. o exercício da autoridade. p. Ademais. mas apenas uma decisão política que foi uma boa decisão porque foi a melhor possível naquele momento específico. barganhar até obter uma solução que lhes seja satisfatória. 243. advêm das fissuras da instituição estatal. os chamados atores públicos. 234. Ou seja. de curto. E pode-se finalizar: “Nada disso garante que a decisão se transforme em ação e que a demanda que deu origem ao processo seja efetivamente atendida. Nesse diapasão. 251.) Essa efetiva resolução não significa nada tecnicamente perfeito. nem as rotinas. desnudando o seu caráter de salvaguarda e de legitimação do modo de produção capitalista. os chamados atores privados. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista como exemplo maior para o Estado democrático e social de direito. desmistificando a sua relação com o modo de produção capitalista. com a imposição de obediência. Todavia. então. como dinheiro. muitas vezes. 37 Idem. Assim. 34 Idem. Neste contexto é que surgem as decisões. Conclusão Portanto. tornou-se necessário politizar e contextualizar o Estado democrático e social de direito. ou contraponto. demandando a criação de políticas públicas e/ou direitos sociais. Idem. usam de todas as estratégias e de todos os recursos disponíveis. que seriam os agentes políticos e os burocratas e. a saber: empresários. p. e tal se dá em função das suas preferências e expectativas de resultados. Todos esses complexos e freqüentes conflitos ventilados por Rua reforçam a compreensão de que o Estado democrático e social de direito – e seus respectivos direitos econômicos. agências internacionais. na razão em que nada garante que a decisão se transforme em ação.p 236-238. expressas pela imposição de danos ou prejuízos ou pela suspensão de favores ou de benefícios. Assim. atores transnacionalizados e a mídia32. bens. ela diz que “tudo é permeado por cálculos políticos. p. à guisa de conclusão. do outro lado. ao neoliberalismo. coletivas. manifestação pela imprensa ou greves de fome. isso não significará neutralidade ou tecnicidade da instituição estatal.80 . trabalhadores. apesar de todas as possibilidades de negociação. entre outros.Estado Democrático e Social de Direito. e que nesse modo de produção existem ambigüidades que envolvem complexidades e contradições. que não representaria os conflitos travados na sociedade. não nega o predomínio marcante desse modo de produção para a constituição daquele modelo de Estado. a autora diz34 que para entender o processo de formulação e implementação de uma política pública é preciso saber que os atores fazem alianças ou entram em disputas. e as negociações e os compromissos. Rua31 reconhece a influência da sociedade internacional. Significa o que politicamente se considera uma 'boa decisão': uma decisão em relação à qual todos os atores relevantes acreditem que saíram ganhando algo e nenhum deles acredita que saiu completamente prejudicado. o intercâmbio ou a troca de favores. além de manifestações coletivas. para obter vantagens individuais. 250-251.

que se opõe ao neoliberalismo. a crítica ao Estado democrático e social de direito não têm sustentação no monocausalismo economicista.História & Luta de Classes. Nº 7. adotando um ponto de vista que complexifica a questão para a totalidade. técnico e neutro. muito pelo contrário. pois dificilmente a classe dominante iria usar o poder contra si mesma. indicando que esse modelo estatal está assentado no modo de produção capitalista. uma vez que a crítica ampliou o leque do debate para as ambigüidades desse modelo de Estado. que corporifica o desentendimento da classe burguesa. funções. que supostamente consagram conquistas de todas as sociedades ou da humanidade e poderá caminhar ao rumo do socialismo. a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora e as fissuras da instituição do Estado como aberturas que viabilizam os direitos econômicos. ele é uma das formas sócio-políticos dentro da qual a classe dominante do capital exerce o seu poder. decisivamente. tal consideração afasta a concepção do Estado democrático e social de direito do conjunto de concepções míticas. e será incapaz de ferir de morte os interesses basilares desse modo de produção. Julho 2009 (75-81) . espaços e características. o texto sustentou que esse modelo de Estado não é instrumento. sociais e culturais. Por sua vez. a tese de um predomínio dos motivos econômicos na crítica ao Estado democrático e social de direito. É importante perceber que a compreensão do Estado democrático e social de direito como reflexo do modo de produção capitalista significa que esse modo de produção atribui ao Estado concepções.81 Por conseguinte. Logo. além das políticas públicas. . visto que a argumentação exposta refuta.

que o golpe de Estado acontecido em 11 de setembro de 1973 fora sucessivamente postergado por três razões: a) a defesa intransigente do legalismo do general Carlos Prats. desestabilizá-lo e justificar o golpe de Estado” (p. mais realistas. 640 p.O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile Waldir José Rampinelli* Resenha do livro: MONIZ BANDEIRA. Por outro lado. Pretendiam avançar gradualmente no que chamavam de construção do socialismo” (p. 1975. e.000 pessoas marchava pelas ruas de Santiago em apoio ao presidente. 346). Ele afirma que “Allende e os comunistas. rampinelli@globo. Moniz Bandeira responsabiliza os movimentos e partidos radicais de esquerda como também os movimentos e partidos radicais de direita pelo caos no Chile (1970-1973).com F dos gradualistas e dos rupturistas. pela via pacífica. reduzir mais e mais as bases sociais de sustentação do governo. Enquanto isso “Allende. p. é o nome que o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira dá para o seu livro sobre a derrubada de Salvador Allende. o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). o autor mostra. 338). o PC e os setores moderados do PS compreendiam que a . (CUEVA. tinham consciência da ameaça do golpe de Estado. e menos ainda pelo caminho das armas como defendiam alguns movimentos revolucionários. mas que efetivamente o representavam orgânica e ideologicamente. na condição de comandante-emchefe do Exército. Por isso.) El golpe de Estado em Chile. não se deu apenas por conta de uma divisão interna na classe dominante. Agustín. no Chile. apenas sete dias antes do golpe. 2008. In: VUSKOVIC. Moniz Bandeira atribui a fórmula para o caos exatamente aos movimentos e partidos de esquerda. pois não se tratava de um projeto de um grupo de intelectuais ou de uma ação limitada de alguma vanguarda desvinculada das massas. Recorre à história das guerras de independência e da formação do Estado nacional na América Latina para explicar o surgimento do militarismo. No entanto. o Movimento de Ação Popular (MAPU). Quanto ao MIR. Aponta contradições nas forças de esquerda entre as perspectivas *Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina com doutorado em Ciências Sociais-Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. mas sim de algo surgido destas mesmas massas e das organizações que não falavam em nome do proletariado. México: Fundo de Cultura Econômica. Pedro (Org. uma facção da esquerda do Partido Socialista (PS) e uma parte da esquerda cristã do Partido da Democracia Cristã (PDC). Coordenador do Núcleo de Estudos de História da América Latina (NEHAL) da Universidade Federal de Santa Catarina. podendo qualquer um dos lados sair vencedor. Dialéctica del proceso chileno: 1970-1973. que cada vez mais se configurava. isentando a figura de Allende e defendendo a tese da aliança nacional. Luiz Alberto. entre eles. Isso marcava a ambigüidade política da Unidade Popular e impedia a execução conseqüente de seu programa de governo. órmula para o caos. b) a incerteza da unidade das Forças Armadas na derrubada de um presidente constitucional. No dia 4 de setembro de 1973 quando o governo de Allende completava três anos desde que fora eleito. diz que sua radicalização estava servindo. uma multidão calculada em 800. Isso nos diz que a sociedade chilena estava profundamente dividida em uma crescente luta de classes. como conseqüência do apressamento e da radicalização do processo revolucionário. no Chile. de organização popular e de lutas comunitárias cujas origens se remontam ao início do século XX. a transição ao socialismo chegou a ser uma possibilidade nos anos 1970. Ele parte do pressuposto de que seria impossível se chegar à implantação do modo de produção socialista pela via democrática como queria Allende. objetivamente. palavras tiradas de um telegrama da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. ao passo que os segundos buscavam a ruptura da legalidade e o desmantelamento do Estado existente. em 1970. já que os primeiros defendiam a implantação gradual do socialismo. c) a resistência armada de grupos revolucionários próAllende e o conseqüente receio de uma guerra civil. “para lançar as classes médias na oposição. mas foi a culminação de um prolongado esforço de formação de consciências. regional e internacional era totalmente desfavorável. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Isso.82 . que gerou o caudilhismo e que por sua vez criou a cultura do golpe de Estado contra projetos nacional-populares. não se pode esquecer que o triunfo da Unidade Popular. Luiz Alberto Moniz Bandeira. Era exatamente esta conjuntura que dava à esquerda da Unidade Popular as razões para avançar na radicalização do processo rumo ao socialismo. já que a conjuntura local. ao longo do livro. Fórmula para o caos: A derrubada de Salvador Allene 1970-1973. 132).

O livro Fórmula para o caos foi lançado concomitantemente no Brasil e no Chile. esta posição reformista vai permitir a organização e o avanço da contra-revolução. Carlos Prats e Toríbio Merino – empobrecendo as informações e argumentações e. em seu livro. tal estratégia não deixa de ser uma capitulação. 124). Nº 7. precedido de ampla divulgação. Chega a fazer um agradecimento especial ao ministro Hélio Vitor Ramos Filho. (Org. diretor do Departamento de Comunicação e Documentação (DCD). p. mostram. O que levou o historiador brasileiro a escrever sua versão dos fatos e sua análise deste golpe de Estado parece ser o acesso privilegiado que teve às fontes primárias do Itamaraty. já que apresenta estes governos impostos pelas Forças Armadas. . Na verdade. com o apoio explícito dos Estados Unidos. como inevitáveis. ao fim do controle do monopólio privado da indústria siderúrgica. Na verdade. por fim. Moniz Bandeira apresenta um longo trabalho (640 p.83 Unidade Popular não tinha condições de avançar mais rapidamente o processo revolucionário. do carvão e de outros recursos básicos do país. inclusive porque a oposição era predominante no Congresso” (339). Por isso. Mais proveitoso seria se tivesse apresentado a política internacional do pluralismo ideológico de Salvador Allende que se opôs de forma contundente a de fronteiras ideológicas das ditaduras de segurança nacional.) op. (VUSKOVIC. 40-41). reservou um espaço enorme aquele país. Julho 2009 (82-83) . uma falta de rigor na impressão. preparando o caminho para o golpe de Estado. passando a idéia de um determinismo histórico. defendida não apenas pelo Partido Comunista chileno (PCch). ao analisar as ditaduras militares que rodeiam o Chile. depois que integrantes de movimentos revolucionários e partidos políticos. a visão de um golpista secundário. de Pedro Vuskovic e El golpe de Estado em Chile. Em outro momento do trabalho. dedica muito tempo a elas. não se dando conta de que esta mesma burguesia não permitiria tocar na economia de mercado e tampouco realizar as pretendidas reformas. O autor não dá a devida atenção. In: VUSKOVIC. possivelmente pressionada pela data. além de ceder o prefácio ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Augusto Pinochet. de Agustín Cueva et alii. elogiando o autor do trabalho. mas pelos PCs de toda a região. Dos años de política económica del gobierno popular. sem mostrar as relações profundas com o golpe de Estado chileno. xv) a analisar e descrever a ditadura uruguaia. Passa a nítida impressão de ter encontrado uma caixa ou pasta com documentos inéditos sobre aquele regime e querendo aproveitá-los para tornálos público. com muitas informações. ausências de preposições e de conjunções. assessorada pela CIA. concessão inaceitável. Pedro. As medidas do Programa do Governo Popular não só enfraqueceram a burguesia como lhe tiraram a sustentação de seu poder econômico. quando não de traduções do espanhol e do latim equivocadas (p. P. às profundas transformações econômicas que abriram caminho para um desenvolvimento nacional independente em favor das grandes maiorias. contra a resolução dos problemas e. em destaque na capa do livro. ao mesmo tempo. por outro lado esquecendo-se de alguns livros muito significativos como Una sola lucha. por ter autorizado a desclassificação de documentos que proporcionaram todas as facilidades para a realização da pesquisa. pelo seu aprofundamento.) sobre a derrubada de Salvador Allende. Moniz Bandeira. ela trabalhou diuturnamente. cit. já que as mesmas deveriam estar à disposição de todos os pesquisadores. Embora tais deficiências não comprometam a leitura. no 35° aniversário da queda de Allende. a abertura de canais de participação por meio dos quais os próprios trabalhadores vão tomando o controle destas atividades. 9-10). Nestes escritos está. fazendo com que ela perdesse parte da dominação de classe.História & Luta de Classes. Por outro lado. enviados de Santiago para Brasília pelo embaixador do Brasil Antônio Cândido da Câmara Canto que servia aos interesses das forças conservadoras. assim como ao término da grande distribuição atacadista. do salitre. a redução drástica do latifúndio. Chega a defender a tese de uma aliança nacional com a burguesia para restaurar a democracia representativa. A Editora Civilização Brasileira. portanto. dentro da moldura constitucional. tais como a nacionalização do cobre.. (p. Além desta limitação. o autor dedica um capítulo inteiro (cap. a estatização do sistema bancário. Moniz Bandeira analisa os acontecimentos chilenos manuseando preponderantemente documentos brasileiros. 444) ou de datas alteradas (p. economistas e sociólogos já tivessem feito suas avaliações sobre a via chilena para o socialismo. o autor se vale demasiadamente de fontes não primárias – como as memórias de Carlos Altamirano. tendo-se em conta que este mesmo periódico apoiou enfaticamente o golpe de Estado no Chile. do ferro. intelectuais de universidades chilenas e estrangeiras. no entanto. não seria recomendável uma citação do jornal Clarín. não teve o tempo necessário para rever os escritos que apresentam erros de idioma. do cimento e de outros setores industriais. Por fim. secretário-geral.

Karl. 1977. Seu primeiro contato com a Liga dos Comunistas. P. foi marcado pela oposição à ultra-esquerda e pela rejeição à militância exercida distante das aspirações dos trabalhadores. K. **Professor Aposentado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNICAMP. utilizamos três biografias sobre Marx. Sua experiência com os movimentos sociais até então se fizera basicamente a partir de uma atenta observação sobre o cartismo. isto é. 1956.54) ento e sessenta anos atrás o continente Europeu foi varrido por uma onda revolucionária. The Revolutions of 1848. A Era do Capital. Pode-se dizer que quando foi colunista. Na época em que foi jornalista da Gazeta Renana Marx travou contato com as questões sociais como é fácil de perceber no acompanhamento dos trabalhos da Dieta e.. Lisboa:Edições 70. LEFEBVRE. F. Henri. onde sobrevivia como jornalista na Gazeta Renana. et all.1848: O Ano do Mouro 1848: O Ano do Mouro Resenha do livro: MAX. 1966. As lutas de classes na França.” (Eric Hobsbawm. etc. Lisboa:Edições Avante. *Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UNIOESTE. 1985. as revoluções de 1848 surgiram e quebraram-se como uma grande onda. MARX. sobre a liberdade de imprensa.N.103. concebera a revolução proletária como tarefa a ser pensada e realizada em condições determinadas historicamente. Marx mostrou-se um democrata. K. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. São Paulo:Edições Siciliano.84 . era pensada por ele como uma etapa de transição. em especial. p. 1973. Nasceu desse contexto sua recusa à concepção hegeliana da burocracia vista como classe universal. Essa ligação com os liberais. FEDOSSEIEV. Tal plataforma democráticoburguesa concluía com um apelo para uma aliança entre trabalhadores e pequena burguesia: “Para consolidar os interesses do proletariado.. por exemplo. e seus primeiros trabalhos sobre a questão do Estado e do direito a partir de Hegel. 4 3 . London:Penguin Books with New Left Review. Isaiah. Antônio de Pádua Bosi* Edmundo Fernandes Dias** . 1991. Porto Alegre:L&PM. no contexto de uma formação social capitalista politicamente organizada e dirigida pela burguesia. depois de ver frustradas suas expectativas de se tornar professor na Universidade de Bonn1.. expressou-se. Rio de Janeiro: Editorial Vitória Limitada. exceto mito e promessa. p. 1 Além de textos escritos por Marx e Engels. nas conversas com Proudhon e outros socialistas. no debate sobre o roubo de lenha dos bosques. Esta concepção. onde ele e Engels apresentaram um Programa Democráticoburguês sob o título de “As Demandas do Partido comunista na Alemanha”. liquidada pelo recuo da burguesia. num comunicado de março de 1848 da Liga dos Comunistas dirigido aos trabalhadores alemães. o socialismo francês. da pequena burguesia e do campesinato alemães é preciso trabalhar energicamente para implementar as medidas acima [explicitadas no documento]”4. Suas atividades de jornalista na Gazeta Renana foram exercidas à custa do financiamento de setores da burguesia descontentes com o governo de Frederico Guilherme IV. os dilemas enfrentados pelos trabalhadores dos Estados germânicos e a organização da Liga dos Comunistas. 1850. São Paulo: Global. Influenciado pela situação política na Confederação Germânica. A liberdade de Imprensa. Seu observatório estava fixado na cidade de Colônia. As Lutas de Classes na França (1848-1850). grande parte de seu esforço intelectual estivera voltado para uma empreitada contra o Absolutismo da Confederação Germânica. MARX. 2 ENGELS.43) “A revolução está morta! Viva a revolução!” (Karl Marx. deixando pouco. Karl Marx. particularmente um árduo defensor da liberdade de imprensa e um crítico do Absolutismo3. que iria abandonar mais tarde. Alimentava-se também das informações que seu amigo Engels lhe fornecia. que o “introduziu” no estudo das questões econômicas. Foi nesse contexto também que nasceu a amizade e o trabalho comum com Engels. informações que ultrapassavam os limites do cotidiano e avançavam sobre a explicação da realidade econômica inglesa2. Karl Marx. p. No que se refere aos movimentos franceses Marx os conhecera in loco. BERLIN. 1980. entre 1842 e 1848. à época batizada de “Liga dos Justos”. e depois redator deste jornal. C Neste mesmo período. 2ª ed. 1983. Àquela época Marx tinha 30 anos. Para Compreender o Pensamento de Karl Marx.

A Gazeta Renana. 9 MARX. Proudhon foi duramente questionado pela suposta ingenuidade de pensar uma organização social baseada no cooperativismo como forma de superação do capital5.org>. de maneira mais sistematizada.. 8 . Na prática. embora tenha esboçado importantes reflexões acerca do processo de alienação do trabalho6. Certamente este episódio marcou para ele os limites da ação revolucionária da burguesia. muito provavelmente. além do breve período em que participou da organização dos trabalhadores emigrados no debate com as teses de tipo blanquista. A noção de que toda a História era a História da Luta de Classes. os reis das estradas de ferro. Oprimidos por privilégios feudais que encareciam a produção agrícola. A pena de Marx ficara sem apoio. F. São Paulo:Martins Fontes. 10 ENGELS. 11 MARX. “Marx and the 'Neue Rheinische Zeitung' (1848-1849). Karl. os reis da Bolsa. p. havia crivado na literatura de esquerda o significado mais popularizado do movimento histórico. uma das experiências mais importantes vivida por ele foi a curta aliança com setores da burguesia.História & Luta de Classes. “Prefácio”.85 Sua crítica também avançara sobre a esquerda. comercial e manufatureira. à frente da “Nova Gazeta Renana”. No Manifesto do Partido Comunista. ministros e líderes políticos de direita e de esquerda.31-32). p. encontrei-me pela primeira vez na obrigação embaraçosa de dar minha opinião sobre o que é costume chamar-se os interesses materiais”9. 1975. fecharia as portas e. as classes passaram a ser vistas e analisadas a partir de seus interesses materiais e das relações de forças resultantes entre elas. quando iniciou sua primeira avaliação de fôlego sobre os levantes populares de 1848 e 1849: “Nenhuma celebridade republicana tem estado com o povo! Sem outra direção [política]. F. que seria revista à luz das revoluções de 1848. MARX. até 1848. Suas análises partiam de um desenho inicial da divisão da sociedade para. Miseria de la Filosofia. Moscou:Editorial Progreso. In Contribuição à Crítica da Economia Política. principalmente porque era fortemente reivindicada pelos povos da Confederação Germânica8. K. Rio de Janeiro:Paz e Terra. “Prefácio”. [o povo] tem resistido à burguesia e ao exército unidos”7. 1956. México:Ediciones Roca. In Select Works. os trabalhadores começaram diversas rebeliões que amedrontaram não somente a aristocracia germânica – os junkers -. mas também a burguesia financeira. F. 1983. 6 MARX. ditava as leis nas Câmaras e distribuía os cargos públicos. os proprietários de minas de carvão e de explorações florestais e uma parte da propriedade territorial aliada a ela – a chamada aristocracia financeira . Contudo. na qualidade de redator da Gazeta Renana. O 18 Brumário. Embora bastante informado sobre os acontecimentos em todo continente. enredadas nas ações e pensamentos de imperadores. Rio de Janeiro:Editorial Vitória Limitada. 7 ENGELS. o próprio Marx só havia pensado que a nova sociedade seria escorada num tipo de propriedade coletiva. simplificou as possibilidades de conflito a uma contradição bipolar.164-172. In MARX. No calor de 1848. Disponível em: <http://www. 5ª ed. 1986. Marx soldou sua compreensão sobre a impossibilidade de uma aliança dos trabalhadores com setores da burguesia para a realização da própria revolução burguesa. Sua abordagem passou a cortar mais fundo o tecido social. Moscow:Progress Publishers. particularmente estudadas em “Lutas de Classes na França (1848-50)”. Não se tratava mais de escrever crônicas políticas em tom ácido. Foi ele próprio quem esvaiu qualquer ilusão a esse respeito. já com a colaboração de Engels. e criar uma solução de passagem para uma Monarquia Constitucional onde haveria lugar para a composição dos interesses das classes dominantes. e é provável que tenha sido de lá que saíram muitas das reflexões que deram forma à “Lutas de Classes na França”10. Biblioteca Virtual Revolucionária. Julho 2009 (84-86) . 1983. conforme ele mesmo indicou no Prefácio de 1859: “Em 1842-1843. O reconhecimento de que a luta pela democracia política não seria conduzida à frente pela própria burguesia. Nº 7.23. resultante da abolição da propriedade privada (Manifesto do Partido Comunista). 5 levou Marx a reconhecer também os limites de seu próprio entendimento acerca da realidade. É neste período que surge a preocupação com os “interesses das classes” na História.20. Periodismo Revolucionário. Este ponto recebera um tratamento lapidar na confecção das “Lutas de Classes na França”.. A Nova Gazeta Renana. Karl. 1956. p. falando sobre o contexto de uma revolução burguesa em que os donos de fábricas e seus ENGELS. oferecendo uma interpretação materialista da História. Esta ocupava o trono. Assim. Primeiros Manuscritos Econômicos e Filosóficos. K. em seguida. 1985. Marx. sem outro meio senão sua ira. dos ministérios às lojas de tabaco” (Marx. Foi nesses escritos que. localizada na cidade de Colônia. alcançando os interesses de classe e das frações de classe que cada personagem buscava ensaiar: “Quem dominou sob Luís Filipe não foi a burguesia francesa. Respuesta a la 'Filosofia de la Miseria' del señor Proudhon. O início da década de 1840 foi desastroso para os trabalhadores da Confederação Germânica. perderiam força as expectativas de Marx acerca do papel revolucionário da burguesia. sufocados pela organização manufatureira do put out system que necessariamente intermediava todo o resultado do trabalho de tecelagem. p. a ação prática de Marx como dirigente político se desenvolveu muito mais em território germânico. mas uma fração dela – os banqueiros. A organização capitalista do trabalho e a questão do processo de trabalho ainda não ocupavam um lugar central em seu pensamento. serem alicerçadas nos interesses materiais das classes e de suas posições. Isto foi suficiente para fazer cessar a oposição ao Antigo Regime e à concepção de propriedade ancestral. MARX. K.marxist. com isso. As Lutas de Classes na França (1848-1850). à época em que dirigiu a Gazeta Renana. Pode-se dizer que “Lutas de Classes na França” foi a ante-sala do “18 Brumário”11. K.

Marx expressara com muita clareza sua visão de que uma revolução não podia ser fabricada. havendo um descompasso entre as relações sociais de produção e as formas legais que lhes conferem significado abre-se uma época de “revolução social”. Tal prognóstico indicava ainda que a crise de natureza financeira seria responsável por fortes repercussões políticas. A interpretação dos acontecimentos apontava os pesos e contrapesos do processo revolucionário na França. Na comparação direta entre fevereiro de 1848 e junho de 1849. a bússola que lhe orientava. sua pena ficaria marcada para sempre pela experiência de 1848-50. já havia elaborado uma reflexão talvez mais rica – sobre o sentido histórico das transformações sociais. Não foi isso que ocorreu. Encontrava-se premido pelo isolamento político (que em regra estendera-se sobre toda a esquerda revolucionária). 16 . economista liberal. deixando pouco. a exemplo de outras lideranças da esquerda como Louis Blanqui. K. cada vez mais buscava explicações vinculadas aos interesses materiais das classes e de suas frações. numa crítica feita à Proudhon. “Marx a P. As Lutas de Classes na França (1848-1850). consomem e trocam. mas “não a fazem como querem. Relativamente ao parâmetro Victor Grandin foi um industrial francês (1797-1849).V. Respuesta a la 'Filosofia de la Miseria' del señor Proudhon. Marx reconheceu sua própria imperícia quando prognosticou para o ano de 1850 o agravamento da crise econômica na Europa. Marx conferiu o maior peso das mudanças ao processo histórico. a ação dos governos e a debilidade das frações burguesas deram um resultado distinto do esperado. p. 14 MARX. Junto com Engels explicitou tal compreensão quando. foi membro da Câmara dos deputados durante as Assembléias Constituinte e Legislativa. Para Compreender o Pensamento de Karl Marx. divergiu radicalmente de militantes alemães emigrados que criaram uma “Legião Revolucionária” com o objetivo de “importar” a revolução francesa para a Confederação Germânica15. reascendendo os movimentos sociais e a possibilidade revolucionária17. Grandin. a Europa viveu quase 10 anos de ininterrupto crescimento econômico. Rio de Janeiro:Editorial Vitória Limitada. revelando seus ritmos e reveses: “O 25 de Fevereiro de 1848 deu à França a República. em março de 1848 na França. que a ordem social dominante poderia resultar de composições políticas esdrúxulas e inimagináveis. antes de fevereiro. quando os setores das classes dominantes na França que atentaram contra o governo da aristocracia financeira agiram para conter as mudanças pretendidas pelos trabalhadores mobilizados. Contra as evidências da tendência revolucionária.. sem ignorar os condicionantes ideológicos.54. London:Penguin Books in association with New Left Review. p. ministro do Interior (12/1848 a 5/1849). Ainda não chegara à célebre formulação de que os homens fazem sua própria história. Karl. 1966.1848: O Ano do Mouro representantes buscavam submeter o capitalismo a sua vida industrial. K. Hobsbawm não teve razão quando avaliou que “as revoluções de 1848 surgiram e quebraram-se como uma grande onda. enquanto o 25 de Junho lhe impôs a Revolução.265-277. 1985. 15 LEFEBVRE. ao passo que. Ali.147-159. legadas e transmitidas pelo passado”13. 1973. compreender e explicar os acontecimentos a partir das lutas de classes. Durante a Segunda República foi deputado das Assembléias Constituinte e Legislativa. 12 histórico retirado de 1789. Aprendera no ano de 1849. 1986. Henri. MARX. Para as classes trabalhadoras tais revoluções ensinaram e armaram definitivamente o mais perspicaz dos combatentes comunistas. Marx concebia “revolução” já nos termos sintetizados na metáfora contida no “Prefácio”. em 1846. e ministro bonapartista (1851). havia significado: subversão da forma de governo”14. Leon Faucher ou Bastiat12 só foram lembrados por ele porque expressavam os interesses de seus pares contra um governo dominado pela aristocracia financeira. Mas antes disso. The Revolutions of 1848. membro da câmara dos deputados no período de 1839-1848. Marx definiu a diferença entre Regime Político e Ordem Social. Moscou:Editorial Progreso. 17 MARX. Por esse motivo.. Rio de Janeiro:Paz e Terra. mas a base histórica para tal reflexão certamente foi o período revolucionário de 1848-50. e o processo histórico tornava-se mais difícil de ser decifrado. p. p. não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente. pp. Bakunin e Blanc. O quadro a partir do qual ele desenvolveu os estudos que se consagraram em “O Capital” foi o pior possível. desde junho. Lisboa:Edições 70. exceto mito e promessa”. 1956. enfrentou os anos mais difíceis de sua vida. Annenkov”. Frédéric Bastiat (1801-1850). De qualquer modo. revolução significava: subversão da sociedade burguesa. Leon Faucher (18031854) foi economista malthusiano.205-208. colocando em plano de exame a Revolução Inglesa de 1640-88: “. Debeladas as revoluções de 184849. 13 MARX. Em meio à reação que tomou conta da Europa. e o horizonte revolucionário experimentado no final da década de 1840 desapareceu. Este último artefato teórico foi-lhe fundamental para observar e analisar prováveis trajetos que traçavam o campo de forças político onde a História era decidida. Marx. E. Nesse ponto. as formas da economia sob as quais os homens produzem. K. Porém. não podia resultar do desejo e da vontade de qualquer vanguarda que fosse. In Miseria de la Filosofia. O 18 Brumário. são transitórias e históricas”16.17. Mil oitocentos e quarenta e oito foi o ano do Mouro! E isto pode ser conferido em “As Lutas de Classes na França”. arruinado financeiramente e absolutamente convicto de que o funcionamento do capitalismo era mais complexo do que pensara até então.86 . (Marxism Internet Archive). se demonstrara uma habilidade inigualável ao seu tempo para analisar. escrito em 1859. A luta de classes ganhava tonalidades mais variadas. 5ª ed..

U reorganizou as notas dos três tipos de cadernos dando um aspecto de obra acabada e apagando a distinção metodológica marxiana entre a pesquisa e a exposição do conhecimento. certamente um marco na literatura especializada. Trotsky. onde é possível distinguir três tipos de cadernos: aqueles compostos de notas (A) que são retomados em outros cadernos (C). por iniciativa de intelectuais ligados aos PCs dos distintos países. observando o caráter fragmentário com que os temas aparecem nos mesmos. é comum verificar sua combinação eclética com conceitos estranhos ao materialismo. um dos pioneiros e principais responsáveis pela difusão do trabalho do marxista sardo em terras brasileiras e autor de uma leitura canônica sobre Gramsci. mais grave. p. afastando-se das interpretações consagradas de um teórico da cultura ou da superestrutura. que. Álvaro Bianchi insere Gramsci no debate cultural coetâneo. Categorias como “bloco-histórico”. até o seu missivista Piero Sraffa. Giovanni Gentile. onde o mesmo *Mestre e Doutorando em História (UFF). foi a base para as edições feitas na Argentina e no Brasil. no contexto da luta contra as ditaduras latino-americanas em compasso com a crise e a decadência das organizações tradicionais da esquerda. Em primeiro lugar. Labriola.História & Luta de Classes. especialmente a partir da década de setenta do século passado. ma leitura sistemática dos cadernos carcerários de Antonio Gramsci. já comentada acima e feita no ano de 1975. Benedetto Croce. São Paulo: Alameda. o estudo é justificado a partir da constatação de que. Por fim. Lênin.18) fez com a narrativa de Carlos Nelson Coutinho sobre a publicação dos cadernos no Brasil. Nº 7. os conceitos de “hegemonia”. Para dar cabo de recuperar o sentido original das categorias gramscianas. e aqueles de redação única (B). Localiza a forma como Togliatti apresenta Gramsci como um teórico da cultura. “sociedade civil” etc. este último. fazendo-o aparecer (e perecer. . Utiliza o material crítico disponível. nem sempre com o sentido original que estas categorias possuem na formulação original do autor dos Quaderni del carcere. cotejada com um estudo criterioso das fontes utilizadas pelo marxista sardo é o que possibilita ser O Laboratório de Gramsci um trabalho de grande envergadura. tais categorias afastaram-se e muito do sentido original e. ancorada na visão de Gramsci como um “teórico das superestruturas”. o trabalho que temos em mãos ocupa um “importante lugar na literatura gramsciana em geral. e não apenas na latino-americana” (p. Contra tal leitura.. seja da tradição originada em Marx e Engels. como ironicamente anota) ao lado de MarxEngels-Lenin-Stalin. Como bem pontuou Dora Kanoussi no prefácio ao livro. afeito à tese da “conquista de espaços” na democracia. começaram a fazer parte de um “senso comum teórico”. Retoma a importante polêmica em torno do conceito de “sociedade civil”. Discute ainda como tal edição togliattiana. como é o caso patente da idéia tocquevilliana de sociedade civil. como é bem conhecido. a partir da primeira edição feita pelo dirigente comunista italiano Palmiro Togliatti. recuperando as idéias dos seus principais interlocutores. a partir de autores como Gianni Francioni e o próprio Gerratana. que envolvia Plekhanov. Vincenzo Giobert. Julho 2009 (87-88) . O autor acompanha a fortuna crítica dos cadernos.87 A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Demian Melo* Resenha do livro: BIANCHI. que envolveu a interpretação feita por Bobbio. “sociedade civil”. “bloco-histórico”. “Estado integral”. Rosa Luxemburgo. Bianchi resgata o processo de elaboração dos cadernos. O Laboratório de Gramsci: Filosofia.9). Álvaro. localiza a importância da edição crítica de Gerratana. Nesse ínterim é importante a crítica que o autor também faz às leituras de Carlos Nelson Coutinho e Juan Carlos Portantiero. “intelectual orgânico”. como a edição dos Quaderni feita por Valentino Guerratana e o estado da arte sobre a datação dos mais de trinta cadernos escritos. ao tornar parte deste senso comum. História e Política. cada um ao seu modo. suspendem o problema da mobilização políticoinsurrecional da análise da correlação de forças e apresentam Gramsci como um teórico da “longa marcha pelas instituições da sociedade civil”. como Maquiavel. a partir do que diz ser uma “leitura genética” dos Quaderni. Vincenzo Cuoco. Álvaro Bianchi nos apresenta uma leitura pouco usual do sentido das categorias gramscianas. seja daqueles oriundos da cultura italiana. Neste belíssimo trabalho. 2008. “hegemonia” e outras são passadas em revista. Pode-se dizer mesmo que. Para cumprir a tarefa de recuperar o sentido original das categorias gramscianas. esclarecendo alguns nexos importantes e desfazendo algumas confusões comuns. para um estudo rigoroso. e atualiza a importante polêmica que Edmundo Fernandes Dias (que Bianchi considera seu “importante interlocutor”. Não é exagero.

. e nesse sentido O Laboratório de Gramsci torna-se uma leitura incontornável. 1928). mais do que nunca.199-251). o trabalho de Bianchi é de fundamental importância aos historiadores críticos que.253-296). em contraste com as leituras reformistas que tomaram (e tomam) o conceito como programa político. quanto os fenômenos do fascismo e do americanismo. No mesmo sentido. na verdade. que Gramsci utilizou para entender tanto o processo do Risorgimento italiano. que envolve a polêmica de Gramsci com Trotsky (p. Trata-se. tanto Gramsci quanto Trotsky defenderam a mesma tática de frente única.A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Bianchi lembra o § 17 do Quaderno 13. um dos pontos altos do livro é o capítulo dedicado à discussão do conceito de “revolução passiva” (p. têm recorrido ao instrumental teórico de Antônio Gramsci para organizar e conceber as hipóteses de suas pesquisas. O autor localiza as posições de Gramsci em relação ao debate no interior do Partido Comunista russo. quando da política do “terceiro período” e da teoria de que a social-democracia não passaria de uma ala do fascismo (VI Congresso. Melhor que tal uso seja feito com uma utilização rigorosa de tais conceitos. Isto não impede que Bianchi discuta as diferenças entre os dois autores. portanto o momento da insurreição. Por fim. fugindo do estabelecimento de uma “falsa identidade” entre ambos. De particular importância é o capítulo dedicado a estudar os conceitos de guerra de posição e guerra de movimento. Discute como na fase mais sectária da Internacional Comunista. de um critério de interpretação histórico. recolocando seu conteúdo negativo.171).88 . o que reafirma Gramsci como teórico da revolução socialista no Ocidente. denunciando as interpretações que colocavam o mesmo ao lado da corrente stalinista. pensando a partir do campo da história. onde é afirmado que o nível de forças militares. é o “imediatamente decisivo” (p.

com. Cidade: Editora. A revista História & Luta de Classes dirige-se aos estudantes e professores de história e ciências sociais. em especial. nome do autor e filiação institucional (universidade. nome (org. Os artigos poderão ser enviados através de e-mail em arquivo anexado em formato Word para o endereço historiaelutadeclasses@uol. p. página citada. Ex. p. os autores procurarão que seus artigos alcancem o mais vasto público leitor. (volume). Os originais deverão conter título. com destaque para a área da História e das Ciências Sociais. Resenhas. Revista USP. na forma e na linguagem. todos os artigos serão submetidos a parecer. 7. In: Sobrenome. obedecendo à seguinte formatação: 7. Daniel. mês e ano de publicação. 3. Título do livro em itálico. Sem exceção.). 2. In: COGGIOLA. VIRGILIO. escola. As citações de outros textos deverão estar entre aspas duplas no corpo principal do texto e a referência bibliográfica correspondente deve ser colocada em nota de rodapé. 5. Número 9 – Teoria da História. e não excedendo os 35. A revista está aberta a propostas de colaborações. em geral. Ex.br ou para os organizadores de cada número.3. Pierre. Próximos Dossiês: Número 8 – Questão Agrária. 7. Referências bibliográficas completas deverão constar em nota de rodapé (e não ao final do texto).000 caracteres. (número). SAMOILOVICH. Ela procura servir como ferramenta de intervenção de historiadores e produtores de conhecimento que se recusam a aderir e se opõem ativamente a essa dominação. Nome. 45. Nome da revista em itálico. GIANERA. Título do capítulo. página citada. v. Prazo para encaminhamento de contribuições: 30 de setembro de 2009. Cronologia. O fim da Segunda Guerra e a contenção da revolução. Capítulo de livros: Sobrenome. Osvaldo (org. Piñera. com um máximo de 15. seguirão as mesmas regras. Avelino Biden. 1995. A rebelião dos marinheiros. nome. p. página citada. sindicato. 7.com. Sem concessões de conteúdo. Ex: BROUÉ. Eles definem os marcos referenciais para os interessados em colaborar com a revista ou propor sua integração ao coletivo da revista. Teresa Cristófani. out. n. Segunda Guerra Mundial: um balanço histórico. 2000. reservando-se o direito de exame dos textos enviados espontaneamente à redação. Título em itálico. São Paulo: Xamã/FFLCH-USP.). 4. ano de publicação. Artigo de periódico: Sobrenome. 1997. Título do artigo. Livros: Nome Sobrenome. Porto Alegre: Artes e Ofícios. Os textos enviados deverão ser inéditos. Nº 7. 6.br] nasce em tempos de domínio social da barbárie neoliberal e de hegemonia conservadora no pensamento acadêmico. contando notas de rodapé e os espaços em branco.1. Julho 2009 .000 caracteres.2.: CAPITANI. 22.História & Luta de Classes. Cidade: Editora.: BARRETO. Prazo para encaminhamento de contribuições: Encerrado. 123. Pablo. 149. Os objetivos da revista História & Luta de Classes estão expressos na "Apresentação" do seu primeiro número. . ano de publicação. A revista História & Luta de Classes [historiaelutadeclasses@uol.89 Normas para Autores 1. 8. e ao grande público interessado. no relativo à publicação impressa. etc. n.).

A Repressão Fordista no ABC Paulista Michel Willian Zimermann de Almeida Estado. Edmundo Fernandes Dias A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Demian Melo . Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Hélio de Souza Rodrigues Júnior O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile Waldir José Rampinelli 1848: O Ano do Mouro Antônio de Pádua Bosi. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins.tra. 1973-1975 .p. Fernando Gaudereto Lamas Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Diorge Alceno Konrad “Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul Glaucia Vieira Ramos Konrad La lectura de Marx en clave clasista: el Si.Estado e Poder ISSN 1808-09X 9 771808 091002 NESTA EDIÇÃO Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Sonia Regina de Mendonça Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria Luís Eduardo de Oliveira.una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia Carlos Mignon Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini José Carlos Mendonça O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações Dulce Portilho Maciel Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 Anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Ramiro José dos Reis 1986 . Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Gilson Dantas O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? Erika Batista Estado Democrático e Social de Direito.

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