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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSSICAS E VERNÁCULAS INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA LÍNGUA

PORTUGUESA I

A linguagem peculiar da gíria

Amelina Pedrali de Aquino nº USP: Gustavo Santoro de Camargo nº USP: Igor Oliveira Pimenta nº USP: Joelma Veríssimo da Silva nº USP: Karen Ogino Sartório nº USP: 5380369 Mariana Amarante Ribeiro nº USP:

São Paulo 2012

Sumário

1. Introdução .......................................................................................................... 3 1.1. Histórico do autor ................................................................................... 4 1.1. Objetivos ................................................................................................. 4 1.2. Metodologia ............................................................................................ 5 1.3. Fundamentação teórica ........................................................................... 6

2. Análise do corpus .............................................................................................. 9

3. Considerações finais ........................................................................................ 13

4. Referências bibliográficas ............................................................................... 14

5. Anexos ............................................................................................................... 16 5.1. Anexo A ................................................................................................. 16

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o Rio de Janeiro. limitado a alguns grupos sociais. pouco poder econômico e que é marginalizado. a peça. O que se pode dizer historicamente é que a gíria no Brasil é um fenômeno de natureza urbana. Esse fenômeno pode ser visto sob dois diferentes prismas: o primeiro seria o da gíria de grupo. a variante social. O segundo prisma seria o da gíria comum. restrita a um grupo específico inserido na sociedade. a linguagem que antes era restrita a um determinado grupo. do escritor Plínio Marcos. a gíria. Essa forma de expressão oral que não é exclusiva do Brasil está presente nas diversas línguas de diferentes povos. distanciando-se do vocabulário usado pelas outras pessoas. Desse modo. e portanto em pleno vigor do Ato Institucional nº 5. 73). vai muito além de uma simples alegoria da situação política do Brasil naquela época. que é o modo de falar sigiloso. a obra analisada retrata um grupo social essencialmente urbano do final da década de 1960 que possui baixa escolaridade. a linguagem empregada na época em que a obra foi escrita. a variante histórica. que foi censurada e só pôde ser encenada anos mais tarde. A expansão desse tipo de vocabulário se deve. que começou a fazer parte da linguagem dos grupos sociais a partir dos fins do século XIX. esse trabalho visa apresentar um modo de linguagem próprio dos diferentes núcleos de falantes da língua portuguesa. Nota-se no texto a presença de dois tipos de variantes linguísticas: a primeira. 1974) Através do livro “O Abajur Lilás”. p. “são bastante nebulosas as origens da gíria brasileira”. com o crescimento das grandes cidades brasileiras. a segunda. Segundo Dino Preti (2004. sobretudo ao fortalecimento dos regimes democráticos no mundo. possui um caráter secreto. Ela é o retrato do submundo da prostituição e de como se dão as 3 . pois somente o grupo entende o que é dito.Introdução “Os limites de minha língua indicam os limites de meu mundo. populariza-se e passa a ser entendida por todos. sobretudo da capital.” (Wittgenstein. Escrita em 1969. o que veio a diminuir a discriminação com essa maneira mais informal de utilização da língua.

Escrevi em forma de diálogo. filho de um bancário e uma dona de casa. Através da coleta e da apreciação criteriosa desses vocábulos e com a preocupação em não fazer juízo de valor. Objetivos O objetivo geral do trabalho é traçar o perfil sociolinguístico do grupo de prostitutas presente na peça “O abajur lilás”. o qual levou quase dez anos para terminar. através da identificação de marcas textuais. tendo abandonado os estudos após o ensino primário. não apenas identificar. coisas que eu conhecia bem de tanto escutar histórias na boca da malandragem. O vocabulário gírio é rico e o uso de palavras de baixo calão e obscenas é frequente. em linguagem de desconhecida violência. Alcançou popularidade apresentando programas de TV local e entrou para grupos de teatro. em forma de espetáculo de teatro. Imaginei o que se passara no xadrez antes. Começou a sua vida profissional como palhaço de circo aos 16 anos. Teve muitas dificuldades na escola. mas compreender o significado das gírias utilizadas 4 . escreveu Barrela. mas não me preocupei com os erros de português. durante e depois de o garoto entrar. Procuramos. impressionado com o caso verídico de um garoto currado na cadeia. Histórico do autor O autor Plínio Marcos. que foi proibida após a primeira apresentação pela linguagem apresentava. sua primeira peça. o presente trabalho buscou a máxima exatidão e fidelidade no concernente ao real sentido que cada palavra e expressão mencionadas no texto possui dentro do universo analisado.relações humanas nesse contexto inóspito. Aos 23 anos. especificamente. que era o que eu mais conhecia. nasceu em Santos em 1935. passando a se apresentar como ator. A contribuição especial de Plínio Marcos à dramaturgia brasileira foi a de incorporar o tema da marginalidade. nem com as palavras.

Após uma seleção minuciosa. partimos para uma delimitação mais especifica do corpus. Em seguida. como os marcadores conversacionais. então. ou seja. a obra O Abajur Lilás. detivemo-nos à identificação. Metodologia Uma vez escolhido o corpus do trabalho. e os elementos que reproduzem o coloquialismo na modalidade escrita. uma vez que a incidência de palavrões e termos de baixo calão era bastante alta. Além de reproduzir e explicar os termos específicos de época. O texto aqui citado foi escrito por Dino Preti. sobretudo. no caso dos palavrões. O critério baseou-se na distinção de gírias (vocabulário criptográfico relevante) em detrimento dos palavrões e termos chulos. Para tanto. denominado “Estudos de Língua Oral e Escrita” (2004).por esse grupo social e traçar um paralelo entre a variação presente naquele grupo social específico e a linguagem comum utilizada pelos falantes do português na atualidade. procuramos listar dentre esses os vocábulos aqueles utilizados até os dias de hoje na fala popular. como as constatações as quais chegou o grupo após o estudo. A análise enfoca. de Plínio Marcos. coleta e análise das escolhas lexicais específicas do grupo social estudado (as prostitutas). a análise dos elementos lexicais que marcam a linguagem popular. nos conceitos de 5 . se houve – ou não – mudança no aspecto semântico da palavra quando utilizada na obra. Detivemo-nos. Vale salientar que a análise focou na resignificação das gírias. Apresentamos tanto as semelhanças e diferenças observadas a partir de exemplos. pesquisamos na mídia corrente o aparecimento dos termos que encontramos na obra há mais de duas décadas atrás. selecionamos uma bibliografia de apoio que abarcasse reflexões que fundamentassem a perspectiva pela qual analisamos os termos e que validasse as discussões e reflexões propostas. portanto. Logo. tendo como base o contexto em que os termos foram utilizados. notamos que era necessário realizar uma filtragem dos termos. explicitando o vocabulário gírio desse estrato. no uso popular e no dicionário. a problematizar e exemplificar os vocábulos antigos no contexto atual de uso. no qual concentramos as devidas reflexões nos capítulos “A gíria da cidade grande” e “Dicionários de gíria”. em contraposição à definição dicionarizada. Fica em segundo plano.

As escolhas lexicais estabelecidas por estes grupos fechados culminam na aproximação e no reconhecimento entre os ouvintes. Esta. Também fazem parte desse grupo os estratos sociais marginalizados que criam uma escolha lexical bem peculiar. A relativa tensão entre sociedade e o estrato das prostitutas faz com que este utilize escolhas lexicais secretas e discerníveis somente aos iniciados. Por fim. sendo impossível dissociá-los. A partir dos textos do autor Dino Preti. Outras variantes sociais como as de cunho sociocultural. no decorrer do trabalho. servindo. Fundamentação teórica Para que se compreenda a utilização da gíria. Em relação às variações linguísticas é imprescindível salientar que o cerne das mudanças se faz pela dinâmica das interações dos falantes. de gênero. seja por meio de sentidos 6 . entre outros revelam e explicam as escolhas linguísticas feitas pelo falante. etário. como ferramenta de aceitação (ou exclusão). intercalando e relacionando os conceitos de forma concatenada e fundamentada. os interlocutores se utilizam de novas formas lexicais e semânticas para exprimir aquilo que desejam. cujo comportamento se afasta da maioria. seja pelo inusitado. notadamente a gíria. bem como a sua função social. o que torna o texto imprescindível por trazer suporte teórico ao desenvolvimento analítico. notamos que muitos dos termos utilizados pelo grupo das prostitutas eram provavelmente desconhecidos à sociedade da época. ao estudarmos as variações da língua. para satisfazer suas necessidades de uso.gíria. segundo Dino Preti (2004). faz-se necessário tecer algumas considerações primárias acerca dos fatores linguísticos e extralinguísticos nela inclusos. designada como gíria de grupo. Isto é. Notamos principalmente que tais escolhas visam uma identificação de grupo. estado psicológico. pois. excluindo aqueles – a sociedade em geral – que não as compreendem. causando relativa estranheza por parte dela. caracteriza-se por “um vocabulário de grupos sociais restritos. histórico e social. explicita a relação da língua com seu contexto interacional. Isto é. seja pelo conflito que estabelecem com a sociedade.”. desenvolvemos nossa conclusão após a intensiva averiguação que. é possível corroborar que os fatores linguísticos estão diretamente ligados ao contexto social do falante.

como risos. com fortes características de animalização. CÉLIA: Que puta bicha bidu. seis. uma barreira linguística responsável pela exclusão do interlocutor que se encontra à margem da conversa. E tu. seja na modalidade falada ou escrita. então. Já em “biela larga” é ratificado um uso restrito ao grupo para caracterizar o órgão genital feminino. 7 . comumente designados como numerais. em seu âmbito social. Esse fenômeno é caracterizado por Dino Preti como gíria de grupo.também podem presidir um novo significado às palavras. o caráter criptológico da gíria se torna o fator que dificulta – e muitas vezes impede – a interação entre os falantes. recursos linguísticos amplamente utilizados pelo grupo das prostitutas.. retirado da página 20: CÉLIA: Veadão. depois não aguenta o repuxo. Ações . A Dilma fez oito. Concluímos que a língua. O termo “bidu”. Posto isso. é perceptível uma marca de elipse do termo “michê” (relação sexual) que é transposto para os numerais em um processo semântico de resignificação. por sua vez. (Célia ri e tem ataque de tosse. CÉLIA: Ela é ela. veadão. configurando uma posição de superioridade àqueles.) Os chamamentos destacados em itálico como em “veadão” e “vaca” evocam o sentido pejorativo e depreciativo. preconiza uma hierarquização entre os capazes e incapazes de compreender determinado registro. gestos. [. empregado no contexto evidencia o uso da ironia pela personagem Célia. Em “oito” e “seis”. como observado no trecho abaixo. o que reforça ainda mais a relação de desprezo entre as duas.. olhares e o contexto de enunciação .intencionalmente pejorativos (muitas vezes aproximando-se da agressividade) ou por expressões características do grupo.] GIRO: Bebe como uma vaca. veadão! GIRO: Vamos acertar as contas. GIRO: E tu é tu. que tem a biela larga. Configura-se.

bem como a sua utilização popular atualmente. Nada que faça barulho. Dito isso. Depois os tiras vêm encher o saco. o que Dino Preti reconhece como gíria comum. conforme mostraremos adiante. bem como a escolha lexical específica do grupo pesquisado (as prostitutas). A dinâmica social atrelada aos estudos linguísticos é capaz de dar-nos um panorama da constante transformação aos quais os grupos sociais e a língua são submetidos. a análise do corpus se deterá ao estudo do significado do vocabulário gírio das prostitutas. Embora haja a tentativa dos grupos fechados em renovar e criar novos vocábulos mantendo a originalidade e a inteligibilidade. eles estão fortemente submetidos à dinâmica social. Tal conclusão demonstra que a sociolinguística é um campo em potencial para novas pesquisas e descobertas. “E se a Célia chega com o freguês? Que ia acontecer? Iam fazer um bacanal? Aqui não quero batota. Contudo. então.Observe o excerto do corpus por nós pesquisado. 8 . Ou seja.” (p. muito dos vocábulos permanecem intactos ou são resignificados durante o tempo. indicando a ascensão social dessa classe. não gozava de muitos recursos financeiros. conforme o tempo. Outras análises permitem concluir que embora muitas gírias fossem exclusivas do grupo. O fenômeno da popularização descrita demonstra que as relações sociolinguísticas são primordiais para o estudo das gírias e reforça ainda mais o caráter efêmero e mutatório dessas. Ao passo que esse termo atualmente foi substituído por “cliente”. a dinâmica das cidades possibilitou a dispersão e a vulgarização da linguagem outrora restrita a um único grupo. em que são ressaltadas as peculiaridades semânticas dos termos em itálico. a franca expansão da mídia que esquadrinha as camadas sociais atrelada às interações de diferentes falantes culmina na constante transformação e vulgarização dos vocábulos. Caracteriza-se. vale ressaltar que o termo “freguês” aqui utilizado reforça a esco lha lexical oriunda de uma classe social de economia mediana. Notamos que a realização desse tipo de gíria possui um caráter fortemente efêmero. que na época. 12) As devidas análises em relação aos termos destacados serão feitas em seus pormenores mais adiante. Por outro lado. podendo perdurar popularmente até os dias atuais.

ela precisa ser renovada constantemente pelos seus usuários. hoje é usado de forma corriqueira. ainda hoje são comuns no nosso vocabulário e como as usamos frequentemente no nosso dia a dia. zanga). A grande maioria das palavras e dos termos encontrados na peça atualmente possui sua significação nos dicionários mais respeitados da língua portuguesa. para outro grupo. a gíria portanto possui um caráter efêmero. mas sim mostrar como gírias usadas em 1969. tornando-se uma palavra conhecida dos falantes em geral. O fato é que para se manter o caráter secreto da gíria. pois no momento em que aumenta a sua popularidade. a gíria representa uma forma de codificação em que a ausência de entendimento dos outros ouvintes pode significar a defesa e preservação daquelas pessoas diante de uma facção criminosa inimiga. Os mais experientes e dedicados dicionaristas do ramo encontraram e encontram grandes obstáculos na busca das origens dos termos gírios. Portanto não é intenção desse trabalho apontar tais origens nos termos analisados no livro O Abajur Lilás. irritação. mas ainda assim usados e reconhecidos pelos falantes e ouvintes contemporâneos. É o que aconteceu com o Lunfardo. O que antes era aparentemente um vocabulário mais restrito e até mesmo marginalizado. As mesmas podem ser encontradas neste artigo da Folha de São Paulo.Análise do corpus A necessidade de criar novas gírias é a de se distinguir dos demais falantes de uma língua. ela perde o caráter criptográfico. implicância. notadamente nos portos do Rio de Janeiro e de Santos. azucrinar) e “bronca” (birra. Um bom exemplo desse tipo de vocabulário secreto é o Lunfardo que é uma gíria Argentina e Uruguaia cuja origem vem de uma variação de dialetos. publicado em 2012: 9 . importunar. por exemplo. como o de presos. para os jovens essa mudança no vocabulário pode simbolizar apenas uma forma de abandonar o que é considerado velho ou ultrapassado trazendo uma sensação de originalidade em relação aos falantes comuns. Outras são termos considerados chulos. descaracterizando-se desse modo sua condição de gíria de grupo. De fato é muito difícil delimitar o surgimento de uma gíria. identificamos as gírias “pega no pé” (insistir. Na página 18 do livro de Plínio Marcos. sendo amplamente usado nas letras dos tangos argentinos e tendo influência até mesmo na gíria brasileira. Ela era considerada uma gíria de prisioneiros que a usavam para não serem entendidos pelos carcereiros. que saiu de um grupo fechado de presos e ganhou a linguagem popular. sobretudo italianos que se fixaram nas classes mais baixas de Buenos Ayres.

Passada a euforia pela classificação. que fez tanto escarcéu contra o abrigo concedido ao italiano Cesare Battisti. contou Tite.Vou repetir o que disse o Alessandro: 'Quero agradecer ao Cássio e ao Paulinho. Segundo Kakay. com a autoridade de sua palavra. falou ao repórter sobre os beneficios que advirão dessas medidas. Mesmo assim o lance foi a gota d´água para a torcida que. é tentado á batota. os "tiras hermeneutas" 10 . Jaime Câmara. agora faz o papel de advogado de defesa do direitista do país vizinho. Também se fizeram ouvir expoentes do espiritismo e do protestantismo.edição de 27 de maio de 2012 – grifo nosso) Na página 28. já deu uns “catos” o PMDB. tiras e encher o saco. porque ia cair o mundo na minha cabeça'". Nada que faça barulho. (Uol – publicado em 26 de abril de 2012 – grifo nosso) A defesa critica "interpretações" feitas por policiais federais a respeito dos diálogos interceptados na operação. é possível destacar as expressões bacanal. não é de hoje. Depois os tiras vêm encher o saco. (Jornal da Tarde – edição de 14 de fevereiro de 2012 – grifo nosso) O cardeal D. (Folha de São Paulo. presentes nas citações seguintes: Kassab está promovendo o maior bacanal partidário. (Correio do Brasil – edição de 15 de junho de 2012 – grifo nosso) Na frase “E se a Célia chega com o freguês? Que ia acontecer? Iam fazer um bacanal? Aqui não quero batota. a personagem Dilma diz “Vai ter um puta escarcéu.”. presente na página 12 do livro. o produto de trinta dias de árduo labor. igualmente o homem do povo que moureja. batota.”. O jornal Correio do Brasil se utiliza deste mesmo vocábulo no seguinte excerto: Na semana passada. mais facilmente. que quer dizer bagunça. deixando ali. e agora a sua obsessão é um tal de PDB. não raro. e que. o governo Dilma decidiu conceder asilo político ao senador boliviano Roger Pinto Molina. Não foi esquecido. A mídia colonizada. no PSB. Já deu em cima do PT. ficou a bronca com Alessandro. pega no pé do jogador.

O Globo Esporte faz uso da mesma expressão.Dinheiro apreendido em investigações fica em nome dos réus em conta bancária até o fim do processo” (Gazeta do Povo – Jornal de Londrina – edição de 29 de abril de 2012 – grifo nosso). a gente vira a mesa. autor de três gols na vitória de 4 a 3 dos Hermanos: “Lio de Janeiro”. Lionel Messi. diz ”A tua cara de bicha velha é um sarro”. digno de zombaria”. [. (Globo Esporte – edição de 10 de junho de 2012 – grifo nosso) Na página 26. (Globo.com – publicado em 26 de abril de 2012 – grifo nosso) “Parem de encher o saco do Galvão Bueno.”.. não podia deixar de tirar um sarro com a seleção verde e amarela. A Gazeta do Povo de Londrina faz uso dessa mesma palavra em uma matéria: “Os donos da grana .. Hulk e Oscar anotaram para o Brasil.interpretam e divulgam "resumos distorcidos" de diálogos sem contexto. alguns objetos preciosos na posse de seus novos donos. Na capa.”. Rômulo. desde a noite de ontem. em uma citação de Joel Santana: 11 . E. pô!” (Jornal do Brasil – edição de 17 de junho de 2010 – grifo nosso) A personagem Célia. “algo divertido. a "bicha louca" do inconsciente coletivo do Brasil.] Daí. na página 20. (Folha de São Paulo – edição de 13 de abril de 2012 – grifo nosso) Depois de uma vitória como a do último sábado sobre o Brasil. como de costume. o diário argentino “Olé”. a expressão usada para denotar “receber uma regalia ou vantagem” é “oferecer uma colher de chá”. a mesma personagem usa o vocábulo “grana” para se referir a dinheiro em: “Tu me empresta a grana. aqui. Na página 30. Fernández fez o outro gol da Argentina. “Bicha”. Essas mesmas expressões são utilizadas nos excertos mencionados a seguir: De Clodovil vai sobrar a lembrança do gay perpetuamente indignado. uma palavra do vocabulário vulgar que quer dizer “homossexual do sexo masculino” e “sarro”. presente na frase “O puto fica contente e te dá colher de chá.

mas também com sentido distinto do anteriormente falado. igualmente o homem do povo que moureja. como é o caso de palavras como “bagunça” e “folgado”. os termos usados pelo escritor Plinio Marcos no livro “O Abajur Lilás” há quarenta e três anos. Esse sentido é corroborado pelo “Jornal A Manhã” em sua edição de 1º de maio de 1946 “Não foi esquecido. No entanto. Já outras de tão populares e calcadas no uso diário não serão mais lembradas sequer como gírias. o produto de trinta dias de árduo labor”. com o proposito de 12 . (Globo Esporte – edição de 9 de junho de 2012 – grifo nosso) Como vimos nos exemplos mostrados anteriormente. já que estes refletem a maneira de falar da população de uma forma mais geral.Joel Santana pede um tempo nas críticas: „Dá uma colher de chá‟ Técnico diz que cobranças são exageradas e aprova o desempenho do Flamengo contra o Coritiba. Mas podemos dizer que em algum momento. uma gíria que tem seu inicio em uma novela. no texto de Plinio Marcos “Aqui não quero batota. nos nossos dias é de domínio público. ele começa com um caráter oculto. É possível na atualidade ouvir de pessoas mais velhas o sinônimo patota. é tentado á batota. No dicionário Aulete ela aparece da seguinte maneira: “Trapaça em jogo. ainda hoje são encontrados no nosso vocabulário. As gírias antes aparentemente usadas por um grupo restrito. A palavra apesar de ainda hoje estar presente nos dicionários. Um bom exemplo do caminho que uma gíria pode percorrer é a palavra “batota”. Não se sabe se o autor foi o pioneiro no uso dessa palavra de forma diversa da original. podemos dizer que elas começaram em um pequeno grupo e em algum momento tornaram-se gírias comuns. o vocábulo “batota” sofreu uma mudança semântica para se adequar a necessidade oral de um determinado conjunto de pessoas. Nada que faça barulho”. é pouco usada em seu sentido inicial de trapaça. Apesar de não sabermos precisar quando ou onde essas palavras e expressões surgiram. dando ao termo um sentido diferente do que ele possui a priori. Todos os exemplos citados foram tirados dos mais variados veículos de imprensa. encontrada na peça O Abajur Lilás. manobra ou jogada cujo propósito é enganar”. não raro. A palavra não é dicionarizada com sendo uma gíria. concluímos que o tramite de uma gíria é incerto. A durabilidade que esses termos terão é relativa: por exemplo. e que. e cujo intuito é o de ser entendido pelo maior número de leitores possíveis. Desse modo. “patota” é comumente usada com o significado de grupo de amigos. Ao invés de trapaça. a palavra aparece vinte e três anos mais tarde com outro significado. deixando ali. mais facilmente. provavelmente desaparecerá algum tempo depois que a mesma acabar.

que como dito anteriormente acaba por abandonar a sua marca secreta. então. portanto enriquece a língua e assim como o modo de vestir. as músicas escutadas traduz a identidade de um povo. os gestos usados. Considerações finais Ao concluir este trabalho (mas não o tema. podemos dizer que a gíria primeiramente reflete a filosofia dos mais variados grupos. Muitas expressões e termos considerados baixos contidos na peça. tornando-se gíria comum. através da sua linguagem. observar o comportamento de um conjunto de pessoas. A segunda consideração a ser feita é a do caráter efêmero da gíria de grupo. Por último é importante salientar que essas palavras e expressões podem ser usadas ao longo de vários anos como pudemos observar no livro “O Abajur Lilás”. por não conseguir conter por muito tempo a popularização dos termos gírios.distinção de seus interlocutores e acaba em algum momento perdendo essa conotação de signo de grupo ao ser reconhecido pelos demais indivíduos da sociedade. 13 . A gíria. ainda hoje persistem no nosso vocabulário. evidentemente). É possível. suas peculiaridades e seus preciosos timbres.

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dar atenção. azucrinar. 6) ”Vem de fogo pra variar” Estar bêbado.desconfiar. sem coragem.” Ficar atento.” Insistir com alguém seguidamente. 5) ”E tu que abra o olho. mas não sou bunda mole”. importunar.. 3) ” Sou veado.pega no pé da gente.” Covarde. embriagado. 4) ”Nem dou bola.. 2) ”. “ Tu é bunda mole.” Trair a esposa.Anexos Anexo A: Termos gírios coletados do texto “O abajur lilás” e seus respectivos significados. 1) “Graças a Deus que os homens dão os pulinhos deles. 7) ” A tua cara de bicha velha é um sarro” 16 .” Dar confiança.

11) ”Amanhã ela fica de cabeça fresca. Vulg. Tirar sarro com a cara de alguém. abusado.. espancar. 12) ”Livra a minha cara!” Tirar de uma situação difícil. Homossexual masculino Sarro: gír. 14) ”Só pra pagar tua língua” 17 .” Pancada.” Com de ar de descansado ou de jovial. zombar. 10) ”Essa Célia é muito folgada” Que é atrevido. surrar. debochar.Bicha: Bras. mais calma.” Agredir fisicamente. 13) ”Não me meto em fuxico. 8) ”Vou mandar te dar umas porradas.” Intriga. soco ou tapa violentos 9) ”Vou mandar descer o cacete nela. Pessoa ou coisa divertida.. engraçada.

18) ”A gente ganha ele no papo” Convence “Elas não quiseram levar papo. fofocar. a gente já conhece os macetes dele. embromação.” Bota a boca no trombone: denunciar Entralha: Embaraçar.. Encarando branco. Bras. esquecer. que na verdade não se tem a intenção de cumprir ou de levar adiante. amarelo. 15) ”Dia e noite no batente. a que se referiu como sendo de outra(s) pessoa(s) (ao falar mal dela(s). conversa mole. bebão.) ou que não considerou em suas previsões. proposta etc. preto.Passar por dissabores. truque Chuveirar: Se limpar. É mais mole chuveirar..” Macetes: Artimanha. enredar 17) ”É melhor aturar essa bichona.tarado. Conversa fiada. brocha. projeto. 18 . fazer previsões gratuitas etc. Promessa. Gír.” Bebão: Bêbado Brocha: Diz-se de homem que não consegue ter ereção 16) ”A bichona bota a boca no trombone e tu se entralha.” . . constrangimentos etc. palavreado de engodo.

] – Dinheiro. desvairado. 23) “Mando o puto pro beleléu.” s. variante histórica.” Não assumir a responsabilidade pelos atos cometidos 20) ”Tu tá de bobeira” À toa. Pop. regras. sem ter o que fazer. Que não apresenta dificuldades. pop. 22) “Daí. fácil.” Bras. como tanto fez. [Br. a gente vira a mesa. 24) “Tu tá doida de pedra.” Bras. infor. 21) “Tu me empresta a grana. Pop. Morrer.19) ”Então tira o cu da reta. E fica tudo no saco.” Expr. Completamente enlouquecido.. 27) “Tanto faz. regulamentos etc. falecer (junção do verbo “ir”).” [Pop. para mudar uma situação em outra mais favorável. que não requer esforço.f. pode crer.] – Desrespeitar convenções. 25) “É mole.” 19 .

” Expressão. Resistir com paciência a uma situação difícil. Pop. divertido etc.” “Me dano. Bras.” Pop. 28) “A bicha tem que segurar as pontas. refere-se também a masculinidade (fator positivo) 31) “Tu vai poder dar o bem-bom pra sua cria. ele se dana. Cadeia (ir em). 29) “Sem mim. 32) “Tu pensa que tudo é no ´toma lá. E me ajuda. grã-fina. bonito.” “É aí que é bacana. pouco importa. 30) “Ele tem que ser bacana. 33) “E a cana?” Gíria. perverter. Desfrutar de situação de conforto. Daí ele ocupa um lugar. fartura. dá cá´” Expr. facilidade. ação e reação. Pessoa rica. 20 . comodidade. / Associado a coisas: bom.Marcador conversacional: Não faz diferença. bem-estar. degeneração. manter e controlar tal situação até que se possa lhe dar solução. corromper. Exp. No contexto. legal. Diz-se em relação à causa e consequência. Pop. Causar ou passar por depravação. Social. sustentar.

” Variante histórica. Bagunça. 41) “Se não pegar nada. Por em prática um plano ou projeto de forma veemente.” Pop. Só por ele. 35) “Vai ter um puta escarcéu. dificuldades. ter a iniciativa de iniciá-lo. ir para o lado de... bem como todas as consequências oriundas dela. Caso não haja problemas. mudar de partido. 39) “Por ele. fingir que nada ocorreu e esquecer facilmente um impasse sem que haja qualquer tipo de conflito ou desavença posteriormente. para negar enfaticamente.” Enfrentar uma situação com ímpeto. 37) “Se a gente fica em cima. eles se bandeiam para o nosso lado. uma ova!” Pop. 21 . Pegar= Atrapalhar. dificultar.” Processo sintático e lexical. 40) “Eu. No contexto. Unir-se a. 36) “Então manda a ver!” Pop.34) “Tu acha que todo mundo vai se fechar em copas? Que vão largar um pesqueiro desses assim no mole?” Gíria espec. Us. Mete a cara.

22 . de súbito. finda em problema. Híbr. 44) “O puto fica contente e te dá colher de chá. calado. desmaiar.” Expr. Situação que dá errado. desfalecer. 47) “Porém um dia a casa cai. encaminha-se para o equívoco. 48) “É só me pegaram de ovo virado. cadela esporrenta!” Fig. Variação Soc. 46) “As duas não fazem o que querem? O que der na telha?” Expr.42) “Dobra a língua.” Expr. Retirar ou corrigir o que se disse (geralmente algo desrespeitoso. 45) “Eu estava com boca de siri. Pop. Pop. inesperado. Destruir totalmente. Pop. regalia. oferecer oportunidade (a algo ou alguém). Pop. Pop. Pego de surpresa.” Expr. Fazer aquilo que bem se entende. por solicitação do interlocutor). oferecer vantagem. 43) “Tu não queria apagar o Giro?” Pop. sem dizer nada. Facilitar. Mudo. sem pensar ou refletir. matar.” Gíria de grupo.

” Expr. Próximo da morte. do destino final do ser vivo.” Termo pejorativo.” Expr. 55) “Papo furado.” Fig. Híbr. Que é mal concebido.” Pej. Separar-se. 56) “As duas piranhas querendo puxar o ronco e eu aí. que se entrega facilmente. 54) “Não tenho nada com isso.” Expr. querendo ler. Híbri. medroso. Inf. Pop. totalmente antiquada. sem valor algum. Atitude ridícula. 53) “Já estão no bagaço. Sujeito covarde. Pop. que não pode dar certo. muito alto. disvincular-se de forma direta com o que é deferido. Dormir de forma ruidosa (com roncos). P.ext. 52) “Não sou cagueta.49) “A vida tá custando os olhos da cara. Prostituta velha. acima do esperado. Pop. do fim da existência. 23 .” Pop.” Gíria especif. esse seu. 51) “E eu não tenho nada com as suas presepadas. Preço exorbitante. em má condições. 50) “É sozinha e tá com um pé na cova.

Exprime admiração. 62) “ Tu é bunda mole” Covarde.” Bras. espanto. 58) “Não foi mole. Porra . surpresa.” trouxa. 63) “ Uma ideia de jerico” 24 . isso machuca! 61) “ Ela que teve peito de me encarar um dia” Teve coragem.Bras.ousadia. Algo feito com esforço.” Não foi fácil.57) “No apaga a luz. 59) “ Não sou trouxa. POÇA. ] 60) “ Não adiantou porra nenhuma” Não adiantou nada. PÔ. sem coragem.: Antôn. Pop. POXA: Porra.Gír. raiva. porra. perdi mais 100 reais!: Ai. no acende a luz.: esperto. chateação. Que é fácil de enganar [ antôn. o caldo entorna. Piorar muito ou sair do controle uma situação que já era difícil. impaciência etc. que golaço!: Porra. audácia.

jerico é o mesmo que mula. queriam que ele dedasse. O mesmo que dedurar [td. : Durante o interrogatório. 25 . : Ele disse que não gosta de dedar ninguém] [int. 66) “ Cala essa matraca. seria o mesmo que ideia de burro. : Todos fiamos que o rapaz não volte ao vício. colega. sou tua chapa. Ter fé ou confiança em. Na região Nordeste do Brasil. com voz que lembra uma matraca: É uma matraca. de mula. Pessoa que fala demais e depressa.Bras. CONFIAR [td.] 68)”Osvaldo ela vai acabar me dobrando.” Entregar. 64) “ Mesmo que soubesse eu não dava o serviço. delatar uma pessoa. + em : Fiava em tudo o que o marido dizia: fiar -se em Deus.” Dedasse.Má ideia. que dissesse o nome dos envolvidos] Fiar. Pop.” Convencendo. Matraca.” Cala essa boca. não para de falar um minuto! 67) “ Só quis que ela te dedasse pra todas ficarem sabendo que não podem se fiar umas nas outras. Ou seja. ideia tola. Pop.dedar: Bras.” Amiga.contar com alguém ou alguma coisa.] [tr. 65) “ Giro.