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SENTIMENTO DO MUNDO

FUVEST / UNICAMP / 2012

Valdir Ferreira

AUTOR

: Carlos Drummond de Andrade

ÉPOCA

: Modernismo no Brasil: 2ª Fase (1930 – 1945)

GÊNERO

: Lírico

FORMA

: Verso

1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

A obra poética de Carlos Drummond de Andrade apresenta quatro

fases:

— a primeira inicia-se em 1930; — a segunda, em 1940; — a terceira, em 1948; — a quarta, em 1962

SENTIMENTO DO MUNDO, publicado em 1940, insere-se na segunda fase, juntamente com os livros JOSÉ e A ROSA DO POVO. Nessa fase, estão presentes o questionamento existencial, o engajamento político, a poesia do impasse, a metapoesia e as formas livres e tradicionais. SENTIMENTO DO MUNDO é o terceiro livro de Carlos Drummond de Andrade. É constituído por 28 poemas, escritos entre 1935 e 1940, época em que as consequências das duas guerras mundiais e da Ditadura Vargas atormentavam o poeta. O pessimismo de seus dois primeiros livros da primeira fase (ALGUMA POESIA e BREJO DAS ALMAS) atenua-se em SENTIMENTO DO MUNDO e o poeta passa a aceitar a vida como uma imposição, uma ordem, portanto deve ser vivida. Nessa obra, Carlos Drummond de Andrade explora principalmente o sentimento de estar no mundo e inquietações sociais.

2. LOCALIZAÇÃO DO POETA NA LITERATURA BRASILEIRA

Carlos Drummond de Andrade é um poeta da segunda fase de nosso Modernismo (1930 - 1945). Essa fase caracterizou-se pela estabilização das conquistas da pri- meira (1922 – 1930), por uma prosa regionalista e por uma poesia que extra- polou a temática do cotidiano, revelando uma preocupação social, filosófica e religiosa em busca do universal. Quanto ao aspecto formal, os poetas dessa fase, além da forma livre, retomaram a métrica e a forma tradicionais, ambas desprezadas pelos poetas da primeira fase.

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3. ASPECTOS TEMÁTICOS

Os poemas de SENTIMENTO DO MUNDO apresentam uma tema- tica diversificada. Para efeito didático, poderíamos agrupá-la da seguinte for- ma:

  • a) Poesia de caráter social: poemas “Tristeza do Império”,

“O Operário no Mar” (prosa poética), “Morro da Babilônia”, “Privilégio do Mar”,

“Inocentes do Leblon”, “Madrigal Lúgubre”, “Lembrança do Mundo Antigo”.’

  • b) Visão negativa do mundo: poemas “Sentimento do Mundo”,

“Mundo Grande”.

  • c) O medo: poema “Congresso Internacional do Medo”

  • d) A solidariedade: poema “Mãos Dadas”

  • e) A guerra: poema “A Noite Dissolve os Homens”

  • f) A vida como uma imposição: poema “Os Ombros Suportam o

Mundo”

  • g) O cotidiano:

er”, “Revelação do Subúrbio”

poemas “Morro da Babilônia”, “Indecisão do Mei-

  • h) A ternura: poema “Menino Chorando na Noite”

  • i) A saudade da terra natal: poema “Confidência do Itabirano”

  • j) Ironia e Humor: poemas “Dentaduras Duplas”, “La Possession

du Monde”

  • l) Metapoesia: poema “Brinde no Juízo Final”

4. COMENTÁRIOS SOBRE ALGUNS POEMAS

TEXTO 1: “Sentimento do mundo”

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado,

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eu mesmo estarei morto, morto o meu desejo, morto o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis.

Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer

esse amanhecer mais noite que a noite.

Comentário

Primeiro poema do livro. Revela uma visão negativa do mundo, marcada por uma realidade dura que nos assusta. Na primeira estrofe, o poeta reconhece suas limitações (“Tenho apenas duas mãos”) para ver o mundo. O pessimismo toma conta do poeta que anuncia a morte do céu e a sua própria morte. As duas últimas estrofes expressam uma visão negativa do futuro, com mortos, lembranças de pessoas que desapareceram, vítimas da guerra. Os dois versos finais, de forma metafórica, enfatizam a visão negativa do futuro.

TEXTO 2: “Confidência do Itabirano”

Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,

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vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:

este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa ...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! ___________

Comentário

O tema desse texto poético é a saudade da terra natal. Na primeira estrofe, o poeta nos revela que sua tristeza e seu orgulho decorrem do fato de ele ter nascido em Itabira. De forma paradoxal, confessa que “a vontade de amar e o hábito de sofrer” (estrofe 2) são heranças itabiranas. Na última estrofe, ele nos revela o que foi no passado e o que é no presente e ressalta que, apesar de Itabira agora ser apenas uma fotografia na parede, a saudade que sente causa-lhe muita dor.

TEXTO 3: “Menino chorando na noite”

Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora. O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas. E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio na colher.

Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua, longe um menino chora, em outra cidade talvez, talvez em outro mundo.

E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino, escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas). E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.

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Comentário

É um poema que expressa o sentimento de ternura do poeta.

Nele avulta a força da criança simbolizando a vida.

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Evidenciam-se no texto o sofrimento da criança, expresso pelo choro, e os cuidados de alguém que lhe presta socorro. O poeta sofre com o sofrimento dessa criança. Na última estrofe, por meio da metáfora “fio oleoso que escorre pelo queixo do menino (= lágrimas que escorrem pela face do menino) e escorre pela cidade”, o sofrimento dessa criança é universalizado.

TEXTO 4: “Mãos dadas”

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

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Comentário

Nesse poema, Carlos Drummond de Andrade valoriza o momento presente ao dizer nos dois primeiros versos: “Não serei o poeta de um mundo caduco. / Também não cantarei o mundo futuro.” Já na primeira estrofe, ele revela estar preso à vida e ter consciência de que pessoas (= seus companheiros), apesar de tristonhas, estão esperançosas. Os dois últimos versos dessa estrofe pregam a união, a solidariedade humana, ao exortar os companheiros para que se fixem no presente e caminhem de “mãos dadas”. Na segunda estrofe, intensifica-se a importância do tempo presente. Além disso, revela a renúncia do poeta a uma postura contemplativa e escapista própria Romantismo. Para ele, a realidade e o momento presente impõem-se a qualquer outra matéria.

TEXTO 5: “Os ombros suportam o mundo”

Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor.

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Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.

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Comentário

Trata-se de um poema reflexivo em segunda pessoa sobre a vida que passa. O poeta ignora desejos e inquietações que poderão levá-lo à solidão. Nada lhe importa, principalmente o tempo que passa e a velhice. Para ele, esse tempo é de “depuração” (purificação). Independentemente de problemas como as guerras, as fomes e as discussões, a vida prossegue e impõe-se como uma ordem. Ela deve continuar para que ele possa enfrentar a realidade de um mundo que imagina suportar nos ombros. Para ele, esse mundo “não pesa mais que a mão de uma criança”.

TEXTO 6: “A noite dissolve os homens”

A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A Noite caiu. Tremenda,

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Os suspiros

... acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. E o amor não abre caminho na noite. A noite é mortal, completa, sem reticências, a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes ! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo ... O mundo não tem remédio ... Os suicidas tinham razão.

sem esperança

Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais acender e dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos, teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, minha carne estremece na certeza de tua vinda. O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam, os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio ... Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.

Comentário

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Esse poema foi dedicado a Cândido Portinari, pintor brasileiro. Apresenta caráter sociológico e político. Apresenta duas partes bem definidas, que apresentam dois elementos que se contrastam: a noite e a aurora. A primeira metaforiza a guerra com todos os seus horrores “dissolvendo” os homens; a segunda, a paz em que o poeta firmemente acredita, o que pode ser comprovado com os quatro primeiros versos da segunda estrofe.

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TEXTO 7: “Congresso internacional do medo”

Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas. _____________

Comentário

Nesse poema, Carlos Drummond de Andrade desenvolve o tema do medo, sentimento dominante na humanidade. Para o poeta, os sentimentos de amor e ódio não serão cantados por ele. O primeiro, porque “se refugiou mais abaixo dos subterrâneos”; o segundo “porque não existe”. Importa-lhe cantar apenas o medo. Para enfatizar esse tema, Carlos Drummond de Andrade emprega no texto a palavra “medo” onze vezes com o intuito de expressar sua abrangência, superando qualquer sentimento humano.

TEXTO 8: “Dentaduras duplas”

Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos ... Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca romântica?

...

)

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Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras, engenhos modernos, práticos, higiênicos, a vida habitável:

a boca mordendo, ( ) ... Dentaduras duplas:

dai-me enfim a calma que Bilac não teve para envelhecer. Desfibrarei convosco doces alimentos, serei casto, sóbrio, não vos aplicando na deleitação convulsa de uma carne triste em que tantas vezes me perdi. ____________

Comentário

Esse poema foi dedicado ao poeta carioca Onestaldo de Pennafort. Nele o poeta desenvolve o tema da velhice. De forma bem-humorada e por meio das dentaduras duplas, Carlos Drummond de Andrade focaliza a efemeridade da vida que se vai aos poucos.

-9- Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras, engenhos modernos, práticos, higiênicos, a vida
-9- Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras, engenhos modernos, práticos, higiênicos, a vida

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-10- Casa em Itabira Estátua em Copacabana

Casa em Itabira

-10- Casa em Itabira Estátua em Copacabana

Estátua em Copacabana

-10- Casa em Itabira Estátua em Copacabana

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-11- A Noite dissolve os homens Mãos Dadas

A Noite dissolve os homens

-11- A Noite dissolve os homens Mãos Dadas

Mãos Dadas

-11- A Noite dissolve os homens Mãos Dadas

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