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Faculdades Integradas do Vale do Ribeira – FIVR CURSO DE DIREITO História do Direito – AULA

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CURSO DE DIREITO História do Direito – AULA 2 Prof. Msc. Cristiano J. Martins de Oliveira – cristiano@scelisul.com.br

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AULA 2
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DIREITO E SOCIEDADE NO ORIENTE ANTIGO: MESOPOTÂMIA E EGITO

1. ELEMENTOS DE TRANSIÇÃO NA SOCIEDADE E NO DIREITO

1.1 GRUPOS DE MANIFESTAÇÕES DO DIREITO

Não é possível separar, em qualquer momento histórico que se procure enfocar, a modificação da sociedade e a evolução do direito.

Numa obra já tomada clássica nos contextos brasileiro e europeu, Niklas Luhmann

classifica três grandes grupos de manifestações do direito - que ele denomina “estilos” - ao longo da história:

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(1) o direito arcaico, característico dos povos sem escrita; (2) o direito antigo, que surge com as primeiras civilizações urbanas e (3) o direito moderno, próprio das sociedades posteriores às Revoluções Francesa e Americana.

Os dois primeiros modelos de direito antigo (ou seja, o segundo “estilo” de direito identificado por Luhmann) são aqueles verificados na Mesopotâmia e no Egito.

Assim, a exposição terá de abordar, num primeiro momento, os fatores que marcaram a transição do direito arcaico para o novo “estilo” de direito.

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1.2 FATORES PARA A TRANSIÇÃO DA SOCIEDADE ARCAICA PARA AS CIVILIZAÇÕES DA ANTIGUIDADE

Pode-se ilustrar a transição das formas arcaicas de sociedade para as primeiras civilizações da Antigüidade mediante três fatores históricos:

(1) o surgimento das cidades; (2) a invenção e domínio da escrita e (3) o advento do comércio e, numa etapa posterior, da moeda metálica.

Numa perspectiva histórica expandida, é possível identificar as origens da cidade no período paleolítico.

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1.2.1 O surgimento das cidades

Lewis Murnford assinala que a idéia de cidade - compreendida como um lugar cívico, de satisfação do homem no plano coletivo, desvinculada de aspectos como sobrevivência, alimentação e proteção contra um ambiente hostil - já aparece nos primeiros locais em que eram celebrados ritos, normalmente fúnebres.

Com isso, fica superada qualquer concepção estritamente utilitária da origem das cidades; passa-se a considerar o agrupamento humano organizado como uma primeira manifestação da identidade do próprio homem, de sua temporalidade e de sua diferença em relação a outros seres vivos.

Com a organização do homem em aldeias, resultante de sua sedentarização no território, que passa a ser cultivado - fenômeno típico da Era Neolítica -, a idéia moderna de cidade vai-se tomando mais próxima.

O passo seguinte seria a fundação das primeiras cidades.

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  • - PRIMEIRA CIDADE: MESOPOTÂMIA

A fundação das primeiras cidades ocorreu, como é consenso entre os historiadores, na Mesopotâmia.

A formação da cidade na Mesopotâmia foi o termo final de um processo lento de destribalização que se estendeu pela maior parte do quarto milênio da era pré-cristã.

Na Baixa Mesopotâmia - região normalmente designada como Suméria, nas margens do Rio Eufrates, mais próxima ao Golfo Pérsico -, já se contabilizavam cinco cidades nos anos 3100-2900 a.C.: Eridu, Badtibira, Sippar, Larak e Shuruppak.

No período histórico imediatamente subseqüente, chamado dinástico primitivo ou présargônico (2900-2334 a.C.), são registradas, além daquelas já mencionadas, as seguintes cidades: Kish, Akshak, Nippur, Adab, Umma, Lagash, Uruk, Larsa e Ur.

  • - ESTRUTURA DAS CIDADES

A estrutura desses primeiros agrupamentos urbanos era tripartite:

(i) a cidade propriamente dita, cercada por muralhas, em que ficavam os principais locais de culto e as células dos futuros palácios reais; (ii) uma espécie de subúrbio, extramuros, local em que se misturavam residências e instalações para plantio e criação de animais e (iii) o porto fluvial, em que se praticava o comércio e que era utilizado como local de instalação dos estrangeiros, cuja admissão, em regra, era vedada nos muros da cidade.

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1.2.2 A escrita

Ainda que não seja recomendável lançar qualquer assertiva postulando uma relação entre causa e efeito.

É possível afirmar, pelas evidências hoje existentes, que o processo de invenção e

É possível afirmar, pelas evidências hoje existentes, que o processo de invenção e
É possível afirmar, pelas evidências hoje existentes, que o processo de invenção e

consolidação da escrita possui estreita ligação com o surgimento das cidades (e das modificações que a revolução urbana acabou por trazer).

Isso porque, se forem desconsideradas formas muito pouco evoluídas de inscrição como, por exemplo, puras representações pictográficas ou fichas de argila com

indicações de mera quantidade -, é também na Mesopotâmia que se manifesta a primeira escrita mais complexa, com um maior número de sinais e com aspectos ideográficos e fonéticos: a escrita cuneiforme. Assim designada pela forma de “cunha” - construção geométrica em que os caracteres são dispostos -, a escrita cuneiforme surge na região da Baixa Mesopotâmia, por volta de 3.100 a.C.

- CRIAÇÃO DA ESCRITA: MAIOR COMPLEXIDADE DAS CIDADES

As razões dessa inovação decorrem da maior complexidade que as recém- fundadas cidades passaram a apresentar.

- SIMPLES TRANSMISSÃO ORAL DA CULTURA INSUFICIENTE

A simples transmissão oral da cultura começa a se tomar insuficiente para preservação da memória e identidade dos primeiros povos urbanos, que já

possuem uma estrutura religiosa, política e econômica mais diferenciada. É nesse momento, portanto, que se consolida a passagem da verba volant para a scripta manent.

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1.2.3 O comércio

Uma última palavra merece

ser enunciada, agora

em relação

ao

advento do

comércio.

Não obstante ser extremamente difícil, em termos exatos, definir a data em que

surge a modalidade de agregação de valor e posterior comercialização de bens, é bastante plausível citar o incremento e sistematização das trocas de mercadorias (por intermédio da venda em mercados ou da navegação) como um aspecto preponderante da passagem das sociedades arcaicas para o mundo antigo.

De fato, como será observado a seguir, o comércio é um elemento fundamental na consolidação das civilizações da Mesopotâmia e Egito.

Segundo a já clássica contribuição de Engels, a origem do comércio localiza-se na divisão do trabalho gerada pela apropriação individual dos produtos antes distribuídos no seio da comunidade; com a retenção do excedente, a criação de urna camada de comerciantes e a atribuição de valor a determinados bens, o homem deixa de ser senhor do processo de produção.

Inaugura-se, então, segundo Engels, uma assimetria no interior da comunidade, com a introdução da distinção rico-pobre.

1.3 DERROCADA DA SOCIEDADE DE TRIBOS E CLÃS: SÍNTESE DA CIDADE, ESCRITA E COMÉRCIO

A síntese desses três elementos - cidades, escrita, comércio representa a derrocada de uma sociedade fechada, organizada em tribos ou clãs, com pouca diferenciação de papéis sociais e fortemente influenciada, no plano das mentalidades, por aspectos místicos ou religiosos.

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Há, nessas sociedades arcaicas, um direito ainda incipiente, bastante concreto, cognoscível apenas pelo costume e que se confunde com a própria religião.

Mas, aos poucos, vai se construindo uma nova sociedade - urbana, aberta a trocas materiais e intercâmbio de experiências políticas, mais dinâmica e complexa -, que demandará um novo direito. As primeiras manifestações desse novo tipo de sociedade - e, por conseqüência, desse novo estilo de direito - ocorrem na Mesopotâmia e no Egito.

2.

MESOPOTÂMIA

E

ECONÔMICOS

EGITO:

ASPECTOS

GEOGRÁFICOS,

POLÍTICOS

E

- SIMULTANEIDADE DO PROCESSO

As civilizações ora estudadas fornecem um raro exemplo de simultaneidade

do tempo histórico: elas são construídas de forma lenta, mas a finalização do processo de mudança dá-se no mesmo período.

Com efeito, existem indícios de existência de vida humana na Mesopotâmia e Egito já na Era Neolítica (ano 7000 a.C. na região da Mesopotâmia e 5500 a.C. no Egito).

Mas é no quarto milênio a.C. que a proximidade de datas fica mais evidente.

Ambas as civilizações urbanizam-se e adotam a escrita em períodos muito próximos.

Como

dito,

as

primeiras

inscrições

em

cuneiforme aparecem na

Mesopotâmia em 3100 a.C.; os primeiros textos em hieróglifos surgem no

Egito no período compreendido entre 3100 e 3000 a.C.

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Quanto às cidades, elas já existem na Mesopotâmia no lapso de tempo situado entre 3100 e 2900 a.C.; no Egito, a urbanização dá-se de forma gradual, concomitante à unificação dos povos do Sul e Norte (Baixo e Alto Egito), o que resulta na formação das cidades entre 3100 e 2890 a.C.

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Segundo as pesquisas mais recentes, não há uma relação de causalidade

entre as duas evoluções aqui descritas; ainda que existam indícios de contato entre os povos da Mesopotâmia e do Egito, possivelmente em virtude da navegação, hoje encontra-se superada a tese que atribui forte influência mesopotâmica na unificação do reino egípcio.

As

fontes

disponíveis

indicam,

ao

contrário,

a

existência

de

processos

autônomos.

 

É hora de ressaltar as características gerais de constituição dessas civilizações, enfatizando semelhanças e diferenças.

3.1 Geografia

- PROXIMIDADE COM BACIAS HIDROGRÁFICAS

A proximidade das datas de consolidação das civilizações mesopotâmica e egípcia

não pode, por óbvio, ser tratada como mera coincidência histórica.

Na verdade, a conformação do espaço é um elemento vital para a compreensão da durabilidade e êxito dessas civilizações.

Isso porque as duas regiões, situadas no Oriente Próximo, 1 contavam com um elemento que lhes atribuía substancial vantagem em relação às demais localidades adjacentes: a proximidade de bacias hidrográficas.

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1 A Mesopotâmia antiga corresponde, de modo geral, ao atual Iraque, com algumas regiões localizadas em partes das nações hoje designadas Turquia (antiga Ásia Menor), Irã e Arábia Saudita, enquanto o antigo Egito compreendia o Estado moderno egípcio e, em alguns períodos, boa parte do atual Sudão, antiga região da Núbia.

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Ao contrário de povos que precisavam manter-se em território litorâneo, desértico ou montanhoso - como os habitantes das regiões da Fenícia, Síria, Palestina ou Pérsia -, os mesopotâmicos e egípcios formaram suas civilizações em torno dos rios Tigre, Eufrates e Nilo.

  • - AGRICULTURA E NAVEGAÇÃO FLUVIAL

Tal circunstância permite, por

óbvio,

a

existência

de

solo

propício

à

agricultura, bem corno a navegação fluvial, essencial para o transporte de mercadorias e sofisticação do comércio.

E todos esses fatores contribuem para um crescimento mais acelerado da população dessas sociedades, bem como um maior desenvolvimento político e econômico.

  • - DIFERENÇA: AS CHEIAS DOS RIOS

Uma diferença, contudo, merece ser notada, em face da repercussão que refletir-se- á nas crenças e mentalidades manifestadas pelos povos aqui estudados.

No que se refere ao antigo Egito, os períodos de cheia, o recuo das águas do Nilo são previsíveis e estáveis; em se tratando de povos de credo politeísta, é comum a associação entre as divindades (fenômenos da natureza).

Assim, a regularidade do ciclo das águas do Nilo trazia, aos habitantes do Egito antigo, urna sensação de continuidade, de evasão da passagem do

tempo, que acabou por Osíris.

ser associada a um rito de imortalidade:

o culto

a

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Tal crença - na possibilidade de um ciclo natural de vida, morte e renascimento

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- não poderia surgir nas cidades da Mesopotâmia, já que a cheia e recuo das águas do Tigre e do Eufrates possui um caráter pouco regular e previsível: ao contrário do fenômeno verificado no Egito, os rios da Mesopotâmia “têm comportamento muito menos uniforme que o Nilo.

Os habitantes da antiga Mesopotâmia eram obrigados a enfrentar variações climáticas, ventos cortantes, chuvas torrenciais e enchentes devastadoras, que escapavam a seu controle”.

Disso decorria a impossibilidade de credo em um ritual de fundo cíclico quanto à vida e à morte na Mesopotâmia.

Enquanto no Egito “o faraó simbolizava o triunfo de uma ordem divina inabalável sobre as forças do caos, na Mesopotâmia a monarquia representava a luta de uma ordem humana, com todas as suas ansiedades e fragilidades, para se integrar ao Universo”.

Essa variação no sistema de crenças terá reflexos na política e na economia desses povos do Oriente próximo.

2.2 POLÍTICA

2.2.1 Monarquia em ambas como forma de poder

A principal característica comum da organização política das civilizações aqui

analisadas consiste no fato de que ambas desenvolveram a monarquia como forma de governo.

As diferenças, entretanto, neste terreno, são muito mais evidentes.

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2.2.2 Diferença: Fragmentação Do Poder

A) EGITO

Egito: poder do faraó de 3100 a.C até 30 a.C

A primeira dessas distinções diz respeito à dicotomia fragmentação/unidade do poder político.

No Egito, desde a consolidação da unificação dos reinos do Sul e do Norte (c. 3100 a.C.) até o final dos períodos de predomínio persa (525-404 e 343-332 a.C.) e início da dominação romana (30 a.C.), consolidou-se uma monarquia unificada, com um poder central bastante definido, titularizado pelo faraó, e com uma capital instalada em determinada cidade do reino (que podia ser Mênfis, Tebas, Sais, entre outras).

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Ainda que alguns períodos de instabilidade interna ou invasão externa possam ter abalado a vida política do reino, é notável a durabilidade da estrutura centralizada do antigo Egito.

Num período de aproximadamente 3000 anos - observa José das Candeias Sales -, é extraordinário “o fato de, durante todo esse tempo, a tendência de concentração política ter sempre conseguido sobrepor-se à tendência de fragmentação favorecida pela própria configuração longitudinal do país”. 2

Conclui, então, o mesmo autor: “mais extraordinário ainda é o fato de, durante os mais de três milênios, a realeza egípcia nunca ter sido verdadeiramente posta em questão”.

2 Havia, convém notar, uma divisão administrativa no reino egípcio. O território era dividido em “nomos”, expressão que pode ser traduzida como “distrito”, ou “circunscrição administrativa”. Cada nomo preservava ritos e divindades próprias, sua extensão territorial variava em razão das fronteiras externas do reino e havia um governador (nomarca) designado pelo poder central. Mesmo quando o nomarca possuía, eventualmente, certa liderança política e autonomia administrativa, a regra, no Egito antigo, era a centralização do poder. Não havia, ao menos de forma duradoura, questionamento e desafio do poder do faraó pelos representantes dos nomos. Cf.:

ARAÚJO, Emanuel. Escrito para a eternidade - a literatura no Egito faraônico. Op. cit., p. 408.

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B) Mesopotâmia: cidades-estado

Evidentemente, a experiência política na Mesopotâmia era diversa; desde seus primórdios, essa civilização optou pela fundação de cidades - comumente designadas cidades-estado - com alto grau de independência.

Cada cidade tinha seu governante, seus órgãos políticos, e, muitas vezes, seu próprio exército.

Logo, na região da Suméria havia as cidades de Ur, Uruk, Lagash e Larsa, entre outras; na Babilônia, além da cidade do mesmo nome, podem ser mencionadas Kutha, Kish, Borsipa; na região da Acádia, além da capital homônima, as cidades de Esnunna e Sippar.

E, por fim, na Assíria, as cidades de Nínive, Assur e Nuzi tinham algum destaque.

Todas essas cidades possuíam soberanos e divindades próprios.

É nítido, então, o contraste entre unidade do exercício do poder político, no antigo Egito, e a fragmentação desse poder entre as várias cidades da Mesopotâmia.

2.2.3 Diferença: papel conferido aos soberanos

Uma segunda distinção soberanos.

deve

ser

citada, e

diz respeito ao papel conferido aos

  • a) Egito: Faraó era o próprio Deus

Talvez por influência da regularidade

nas manifestações da natureza -

 

especialmente das águas do Nilo -, e a criação de um rito de imortalidade a ser

 

cumprido

pelo

faraó

(imitando

o

deus

Osíris),

consagrou-se,

no

Egito,

a

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concepção de que o monarca não era um simples representante divino na Terra. Ele era o próprio deus.

Trata-se do fenômeno intitulado teofania.

Como descrito por Ciro Flamarion Cardoso, “O rei, chamado faraó (per-aa: a „grande casaou „palácio), rei-deus, encarnação do deus Hórus e - sistematicamente a partir da V dinastia, embora o título apareça antes - filho do deus solar Ra, entre muitos outros títulos, era o mais absoluto dos monarcas”. 3

b) Mesopotâmia: monarquia humana

De modo absolutamente contrário - e cabe recordar, aqui, as diferenças no comportamento das águas dos rios que ocupam papel central nas duas civilizações,

na Mesopotâmia, com a instabilidade natural já descrita e a fragmentação do poder político entre vários monarcas (os quais, freqüentemente, guerreavam entre si), era simplesmente impos-sível fundar a dominação do rei com base na assunção de uma divindade.

Na verdade, a monarquia, nas cidades do Tigre e do Eufrates, assumiu um caráter mais humano.

O rei era, tão-somente, um representante de deus (a divindade escolhida pela cidade) na terra.

E, nesse contexto, estava também submetido a limitações e contingências típicas de qualquer ser-humano.

3 Vale transcrever, ainda, um excerto de uma das obras mais antigas da literatura, uma ode fúnebre intitulada “Textos das pirâmides”: “O rei dá ordens, o rei concede dignidades, o rei distribui as funções, o rei dá oferendas, o rei dirige as oblações - pois tal é, de fato, o rei: o rei é o único do céu, um poderoso à frente dos céus!”. In:

CARDOSO, Ciro Flamarion. Antigüidade oriental - política e religião. Op. cit., p. 43.

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2.3 Economia

No plano da economia, há dois aspectos comuns que são essenciais, até mesmo

como

elementos

distintivos

entre

a

evolução

dos

povos

que

habitavam

a

Mesopotâmia e o Egito e daqueles que estavam além de suas fronteiras: a utilização do solo para plantio e o crescente emprego da navegação como meio de transporte de mercadorias.

  • a) Egito: rico em produtos de origem mineral e pobre em madeira

No entanto, é fundamental ressaltar que o Egito era rico em vários produtos de origem mineral - ouro, cobre, sílex, ametista e granito para construção -, mas pobre em madeira, que era importada da região da Fenícia, por meio do porto de Biblos.

Além disso, as condições de irrigação e drenagem do solo eram bastante favoráveis na extensão do Rio Nilo.

  • b) Mesopotâmia: ausência de minerais e problemas com drenagem

Na Mesopotâmia havia carência, em regra, de minerais (com exceção do cobre) e o solo, ainda que bastante fértil, apresentava problemas quanto à dificuldade de drenagem e de contenção do avanço da vegetação desértica.

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Não é difícil concluir, portanto, que as cidades da Mesopotâmia dependiam do comércio em grau sensivelmente superior ao Egito, o que terá reflexos, como poder-se-á observar, no desenvolvimento do direito privado nessas duas civilizações.