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McMurder

Capitulo 1
“Carma”

Já fazia algum tempo que eu observava-o na biblioteca.
Ele aparentava ter quase que a mesma idade que eu, por volta de uns
dezessete anos. Seus cabelos eram tão negros, que poderia jurar, que
chegava a um tom azulado. Os olhos dele eram escuros, assim como os
cabelos. Mas o que mais me impressionava, era a extrema palidez de
sua pele, aquela que nenhum dia se mantinha, nem um pouco corada.
Ele estava lendo algum livro de capa preta, o qual eu nunca conseguia
ler as inscrições.
Hoje a biblioteca estava mais vazia do que nunca, não que ela fosse
altamente cheia, mas era que hoje só havia ele e eu.
Perdi-me em seu olhar por um longo momento, só voltei em mim
quando percebi que ele me observava.
Ele se levantou da outra mesa, com um singelo sorriso no rosto, aquele
sorriso que fazia meu corpo tremer dos pés a cabeça. Suas mãos
fecharam o livro de capa preta, segurando-o e se distanciando da
cadeira que havia sentado. Ele estava vindo em minha direção, e eu
custava acreditar nisso.
Talvez fosse algum delírio de minha mente, talvez ele já houvesse ido
embora e eu ainda estivesse sonhando com ele.
Despertei de meu transe quando o barulho do livro pousando sobre a
madeira me alertou.
Ele estava sentado a minha frente, uma das mãos apoiando o rosto e a
outra sobre o livro.
O dia estava um tanto nublado, mas eu poderia jurar que o sol irradiava
em volta de mim e fazia meu corpo aquecer rapidamente. Suspirei,
tentando fazer meus batimentos cardíacos e meu sangue pararem de se
desesperar com a presença dele.
Afinal, ele ainda era um completo estranho, não? Um estranho bonito
demais para estar realmente sentado em minha frente.
- Você gosta de contos sobre vampiros?! – perguntou ele, fazendo
referência ao livro que eu tinha em mãos.
Eu estremeci novamente, meus dedos do pé começaram a formigar no
mesmo momento. Sua voz era tão suave, que mais parecia ser cantada.
- S -sim, eu... gosto bastante! – disse sorrindo.
Amaldiçoei-me por gaguejar e ser tão idiota, aposto que não demoraria
segundos e ele sairia correndo.
Mas, ele sorriu daquele jeito que me deixava louca e aquilo me acalmou
momentaneamente.
- É estranho encontrar alguém com um gosto tão diferente!
Eu sorri desconcertada, meus gostos sempre foram um tanto estranhos.
Eu não conseguia, de modo algum me apegar a outros livros aos quais
não fossem de terror, bruxaria, assassinatos em série e vampiros. E em
minha complicada e curiosa classificação, os de vampiros estavam em
primeiro lugar. Talvez fosse o fato de eu admirá-los tanto.
- Você acredita em vampiros?! – perguntou ele curioso.
Percebi que balancei a cabeça positivamente, sorrindo como uma
desvairada. Ele gargalhou a minha frente.
- Qual é o seu nome?! – eu finalmente achara uma brecha para tal
pergunta.
- Jonathan... – ele me respondera. – Jonathan McMurder!
Meu corpo voltou a estremecer, aquele nome não era nem um pouco
comum, daquele que nós só encontramos em romances de seriais killers
ingleses, de mil novecentos e poucos.
- Eu sou Sophia Rhys Meyers, mas pode me chamar somente de
Sophy...
Eu estendi a minha mão em cumprimento a ele, mas ele apenas sorriu
recusando meu pedido.
- Se você realmente acredita em vampiros, está a fim de ver algo
relacionado a eles sobre a cidade?!
Minha mente parou de funcionar no mesmo momento, não pelo fato de
ele ter se inclinado tanto acima de mim a ponto de eu poder sentir sua
respiração, mas sim pelo mistério que ele pusera em sua voz.
- Claro! – respondi sem hesitação.
Ele retribuiu com mais um daqueles sorrisos, e eu desmoronei.
- Me encontre aqui, à noite... Lá para as duas da madrugada! – ele disse
quase que num sussurro.
Eu estava tão entorpecida com nossa proximidade, que apenas balancei
a cabeça. Se eu me visse em tão momento, poderia jurar que estava
com uma expressão um tanto pasmada.
Mal percebi quando ele se distanciou e saiu da biblioteca.

***

E lá estava eu, exatamente as duas da madrugada em frente à
biblioteca. Eu já estava me amaldiçoando por ser tão idiota, era óbvio
que ele só estava brincado com a minha cara, ou algo parecido. Já havia
desistido de esperar, quando uma mão agarrou meu braço.
Virei-me para gritar, assustada, mas uma mão tapou a minha boca
pedindo silêncio.
Percebi que era Jonathan, ele sorria radiante para mim.
Meu corpo se anestesiou em mesmo momento, ele tirou a mão de
minha boca e me largou rapidamente.
- Vamos até a igreja! – ele disse divertido.
Eu a acompanhei por todo o caminho daquela cidade. Eu nunca havia
andado tanto desde que me mudara para lá, morava com meu avô, meu
único parente vivo até agora, ta que o velho não estava nas melhores
condições, mas fora o único que ainda existia para cuidar de mim.
Parei quando ele olhou de soslaio para mim e apontou a entrada.
Nós estávamos atrás da igreja, havia uma pequena grade de ferro e
logo após dela uma porta de madeira.
- Não está fechada?! – perguntei baixo.
Ele se precipitara, e de alguma fora a qual e não conseguia explicar,
abrira a portinhola de ferro, e em seguida com um pequeno empurrão,
abrira a porta de madeira.
Eu ainda estava pasma, me perguntando, que tipo de chave mágica ou
força extrema ele usara.
- Você é Merlin ou o quê? – perguntei incrédula.
Ele sorriu baixo me acompanhando para dento do recinto. A igreja
apesar de ser um lugar sagrado, era um tanto macabro à noite. Aquela
série de vitrais e candelabros em cada canto, deixavam-na com um
cenário de livro de terror.
- Venha!- ele me chamou.
Eu o acompanhei sem relutância, segui-o para o que parecia uma porta
ao fim da igreja, aquela pelo qual o padre vai embora após a missa.
Nos chegamos a uma pequena sala, a qual havia mais três portas ao
fundo.
- Tem certeza que é seguro fazermos isso?!
- Absoluta!
Eu realmente não tinha noção do que estava fazendo, estava agindo por
completo impulso, acompanhando um estranho do qual somente o nome
eu sabia.
E se alguém nos pegasse, com certeza seriamos chacota da cidade.
Bufei, e tentei me acalmar.
- Vamos, não tenha medo! – disse ele manhoso.
Mesmo com a pouca luz, eu podia perceber que ele estava mais pálido
do que no dia anterior.
- Você é sempre assim tão pálido?!
Ele sorriu debochando de mim. Minha cara se fechou e ele percebeu.
- Eu só, fiquei assim depois que... Há! Não importa, vamos!
Eu acompanhei e nós entramos na terceira porta da direita, após
entrarmos, havia mais uma pequena saleta e mais uma porta ao fundo,
entramos, essa que deu de encontro a uma longa escadaria.
- Como você descobriu esse labirinto?! – eu estava mais curiosa que
nunca, meus pensamentos estavam a mil.
- Você faz perguntas demais! – exclamou ele enquanto descia as
escadas correndo.
Descemos um enorme jogo de escadas, até que paramos em meio a
esta, ele se virou ao lado e empurrou o que parecia uma tapeçaria para
o lado, encontrando mais uma porta.
O sorriso convidativo dele me guiou para dentro da porta. Lá
encontramos um pequeno acervo de livros, objetos e estátuas. Não
havia luz, o que dificultava demais ver algo ali.
- Aqui!
Eu só vi onde ele estava quando a luz de um lampião se acendeu, ele
ainda mantinha os objetos em sua mão.
- Isso é realmente incrível! – disse extasiada. – Mas, o que tem a ver
em relação a vampiros...
- É aí que a coisa fica boa, esses são alguns dos livros que a igreja ainda
esconde do mundo, e muitos deles falam sobre a existência de bruxas e
vampiros...
Virei-me para ele, poderia jurar que faíscas de excitação saiam de meus
olhos.
Puxei um dos livros na prateleira, com o maior cuidado possível, pois
pareciam muito frágeis. Folheie-o, as séries de caricaturas e bruxas e
seres noturnos invadiram meus olhos, e eu entrei em estado de êxtase.
Eu senti os frios dedos dele tocarem a pele de meu pescoço, e como
reação já conhecida eu estremeci de cima a baixo. Por algum motivo, eu
me sentia bem ao toque daquele estranho.
- Esse é o menos interessante, venha que tenho algo para lhe mostrar!
Ele deixou o meu pescoço e agarrou minha mão, fazendo com que eu
deixasse o livro em seu devido lugar. Eu o acompanhei até o findar da
prateleira, onde havia uma pequena cômoda.
O móvel estava completamente empoeirado, um tanto consumido por
cupins, mas ainda se mantinha em pé.
Jonathan puxou uma das portinholas, tirando uma caixa de dentro dela.
- Não entendo como você descobriu tudo isso...
- Eu costumava vir aqui quando era pequeno! – respondeu ele.
Abriu a caixa de tom acinzentado, e retirou um livro de capa de couro de
dentro deste.
As escritas douradas estavam um tanto apagado, mas eu ainda podia ler
com dificuldade “McMurder”.
Olhei intrigada a ele, mas ele fez menção de eu que abrisse o livro.
Eu o abri, as três primeiras páginas estavam em branco, mas logo uma
página, com uma escrita extremamente delineada apareceu.

“Joseph McMurder, 1485...”

Eu o olhei rapidamente, procurando em seus negros olhos alguma
resposta para aquela data extremamente antiga.
- A sua família existe há tanto tempo assim? – perguntei a ele. – Quem
era Joseph?
- Meu pai!- ele exclamou.
Abri minha boca para falar, mas minha voz travou na garganta, não era
possível, não havia possibilidade alguma de aquele livro, ou diário,
pertencer ao pai de Jonathan. Senão hoje Jonathan não estaria vivo,
ninguém sobreviveria desde o fim da guerra dos Cem anos até hoje.
- Mas, i-isso não tem cabimento, isso é impossível!
Ele gargalhou a minha resposta. Eu fechei o livro com força pedindo com
que ele parasse e ao mesmo tempo uma explicação plausível.
- Após a guerra dos cem anos, minha mãe foi morta, pelos franceses!
Então... meu pai se entregou a desgraça da vida, bebida, jogatina e
acabou se metendo onde não deveria. Ele ficou doente rápido, e... – ele
se calou por um momento. – Bem, foi aí que ele conheceu os tais
“hereges” e acabou, bem...
Minha cabeça trabalhava rapidamente com todas aquela dicas “Hereges”
“Guerra dos Cem anos” “doença” “Morte”. Foi aí que eu comecei a
analisar as características de Jonathan, o livro de seu pai e todo o meu
conhecimento adquiridos em livros sobrenaturais.
- Então, seu pai foi mordido?! – perguntei, mas aquilo soou mais como
um deboche.
Jonathan ficou em silencio e deu um pequeno sorriso.
- Bem, ele não se tornou boa coisa, a jogatina e a bebida... Bem, a
bebida de outra coisa foi à ruína dele. Você sabe que os vampiros
chegam a sugar completamente o sangue de um humano quando estão
fora de controle?
Eu balancei a cabeça, ainda calada, estava completamente confusa. Eu
disse que acreditava em vampiros, mas não na existência tão “aberta”
deles, ou seja, nunca que eu me imaginaria estar conversando com um
vampiro, tão diretamente, discutindo sobre o passado dele, isso parecia
até cômico demais para ser verdade.
Eu deixei que ele continuasse a falar, na certeza de que aquilo seria
apenas uma brincadeira dele, querendo me assustar, o que
respectivamente, não aconteceria.
- Ele me atacou, na verdade eu fui à primeira vítima dele... Mas,
aconteceu algo que ele não esperava! Quando eu estava quase para
morrer, invadiram nossa casa, e o mataram, ao meu lado...
- Mas, não dizem que os vampiros não podem ser mortos?!
- Bem, estacas no peito não funcionam, mas quando você corta a
cabeça deles o que resta? Uma cabeça assassina?! – ele soltou uma
pequena gargalhada. – Os próprio vampiros dos arredores o mataram,
ele trazia muito problemas para a eles. Bem, o sangue dele, eu não me
lembro como, se misturou ao meu... foi aí que ocorreu a transição... –
ele se calou novamente. – Me enterraram, a transição levou três dias
completos, e digamos que eu ressuscitei...
- Você tinha a mesma idade que tem hoje?
Ele balançou a cabeça positivamente.
Eu não agüentei, e ri, gargalhei alto, aquela história já havia estourado
a minha paciência.
- Essa foi boa Jonathan, se eu fosse mais idiota, até acreditaria em
você! Mas por Deus, vampiro?
Eu me joguei no chão ainda gargalhando gostosamente, mas logo parei
quando percebi que ele continuava sério.
Meus cabelos estavam espalhados pelo chão de madeira, eu vi ele se
aproximar a segurá-los.
- São tão belos. Vermelhos como fogo! – disse ele se referindo as
minhas madeixas.
Virei o rosto na direção dele, vendo-o contemplar meus cabelos, o que
tinha demais eles serem ruivos?
- Você lembra-me minha mãe! – disse ele sereno.
Eu ainda estava deitada no chão, o que ele pretendia com aquilo?
Os frios dedos dele tocaram a pele da minha bochecha, chegando a
maçã do rosto.
- Até os olhos são iguais, tão verdes...
O vi inclinar-se em cima de mim, senti meu coração dá um solavanco,
mesmo ele sendo um completo estranho, alguém que fizera uma
pegadinha com a minha cara, eu ainda ansiava pelo próximo movimento
dele.
Os dedos dele desceram até a extensão do meu pescoço.
- Você não acredita no que eu posso ser? – ele disse, seus olhos
estavam serenos, um tanto baixos os quais os deixavam mais bonito.
- Eu não acredito em você, você é um completo estranho para mim,
como posso confiar em você!?
- Não fale assim Sophy... Você não sabe há quanto tempo venho lhe
observando...
Eu senti meu coração dar outro solavanco.
- Eu pensei que você seria a pessoa perfeita para mim, a única que não
teria medo de quem eu realmente sou...
Eu me ergui um tanto, ficando com meus cotovelos de apoio.
- Se você é o que diz ser, me prove...
- Não me faça fazer isso Sophy...
- Prove-me Jonathan, só assim eu acreditarei em você!
Ele suspirou vencido, voltou ao seu lugar sentando-se ao meu lado. Eu
me sentei adequadamente.
- Talvez isso vá doer um pouco... – ele disse ainda sereno.
Eu afastei os fios ruivos de meu pescoço.
- Não, não levarei essa brincadeira a um estágio tão alto... – agora ele
havia ficado sério.
Assustei-me um tanto quando nos olhos dele invadiu um tom
predominantemente vinho, o qual eu só pude perceber com a fraca luz
do lampião.
Eu observei cada segundo a qual ele puxava a minha mão em direção a
sua boca, primeiramente ele afastou a manga do meu casaco, e voltou o
percurso a sua boca.
Os lábios frios dele tocaram minha pele que estava mais quente do que
de costume, pelo fato dele estar cometendo tal ato. Senti a língua dele
percorrer delicadamente a extensão de meu pulso, o que fez meu corpo
arrepiar-se. A saliva dele era como se fosse um tipo de anestésico, pois
meu pulso começou a ficar insensível.
Mordi meus lábios quando os caninos dele cravaram a minha pele com
força e rapidez, senti o sangue ser sugado como um vácuo por aquelas
duas pequenas aberturas. Segurei-me para não empurrá-lo e sair
correndo, pois, querendo ou não, aquilo me assustara. Eu ainda estava
pasma quando percebi que minha mão estava agarrada ao casaco dele,
e ele parara.
Jonathan estava certo, ele era realmente um vampiro.
Meu coração estava acelerado, se eu possuísse algum histórico de
problemas cardíacos na família, eu com certeza teria enfartado.
Ele estava ofegante, parecia cansado, talvez estivesse lutando para não
continuar o que estava fazendo.
Eu observei atentamente as pontas dos caninos salientes, e a coloração
avermelhada que eles tinham pelo fato de meu sangue estarem
empreguinados neles.
- Me desculpa... – ele disse tentando estancar o sangue que saía de
meu pulso.
Eu estava assustada e ao mesmo tempo impressionada, eu havia
realmente encontrado com um vampiro, e aquilo não era um sonho em
noite de domingo.
Ele limpou o meu pulso, enrolando um pedaço de pano neste.
- Vai demorar um pouco para coagular... – ele disse.
Ele começara a pigarrear, virara-se de costas e mim e se manterá o
mais longe possível tapando o nariz.

***

- Você está assustada? – ele perguntou.
Dessa vez, eu não mentiria, não tinha como não mentir.
- Um pouco! – respondi. – Mas estou é mesmo impressionada!
Ele sorrira, finalmente virando-se em minha direção. Eu retribuí a ele
com um dos meus melhores sorrisos.
- Então, agora acredita em mim?!
- Claro, ainda mais porquê você revelou um segredo desses, imagina!
Você não tem noção da felicidade que está me dando!
Ele gargalhou alto.
- Felicidade, ein?!
- Você não sabe o que é descobrir que um vampiro não é só um mito,
ainda mais para uma pessoa fissurada como eu!
- Mas você disse que já acreditava!
- Claro, mas não que eles ainda existiam! De todas as histórias que li,
era fácil ver que sua existência apesar de ser longa, não era fácil!
Ele se levantara e estendera, receoso, a mão para me ajudar a levantar.
Eu dei-lhe a mão que não estava envolta ao pano e me levantei.
- Posso fazer algumas perguntas?
- Claro! – ele respondeu. – Temos o resto da noite...

***

Eu estava eufórica, ainda extasiada pela noite anterior, eu não via a hora
de chegar em casa e ver se encontrava Jonathan na biblioteca.
Meu avô estava dirigindo, nós estávamos voltando e uma cidade vizinha
onde fomos fazer algumas compras. Fiquei até receosa pelo fato do meu
avô estar dirigindo, mas acabei por ceder, pois ele insistira demais. Ele
parecia até disposto nesse dia.
A chuva que se abatera em nós a meio do caminho estava torrencial.
Estava tão forte que nem o limpador de pára-brisa estava dando conta.
- Você não quer parar vô? A gente pode esperar a chuva diminuir!
- Não se preocupe Sophy, estou velho, mas não estou morto!
Eu suspirei, um sentimento de preocupação invadira meu corpo e eu
sabia que isso não era um bom sinal.
O céu já havia escurecido, e um dos faróis do carro estava fraco demais,
o que dificultava mais ainda o caminho. Insisti novamente para que ele
parasse, mas ele era uma velha cabeça dura.
Haviam muitos carros do outro lado, eu os via passar como foguetes ao
meu lado.
- Vô vamos...
Minha voz sumiu quando a enorme luz de um farol invadiu nossa pista,
o barulho ensurdecedor e a pressão que veio depois fizeram com que eu
perdesse a consciência.
O que havia acontecido?

***
Abri os meus olhos, fora a única coisa que eu conseguira fazer. Percebi
que a chuva ainda caía, mas... nós não estamos dentro do carro? Como
eu poderia estar me molhando tanto?
Foi aí que a dor invadiu meu corpo por completo, eu não sentia uma das
pernas, mas sabia que minha barriga estava perfurada pela tamanha
dor e ardência que havia no lugar. Eu tentei virar a cabeça, procurar por
meu avô, ver se ele estava bem, se estava a salvo. Mas a única coisa
que eu encontrei foi uma mão inerte em meio às ferragens.
As lágrimas e o desespero me invadiram, eu comecei a entrar em
prantos, tal quando meus pais morreram, num acidente de carro.
Parecia que eu tinha algum tipo de carma com acidentes de carro!
Eu ainda estava chorando, tentando de uma forma inútil sair dali para
salvar meu avô, talvez ele ainda estivesse vivo e só estivesse precisando
de um pouco de ajuda.
O som da ambulância invadiu meus ouvidos, e eu encontrei naquele som
alguma esperança, foi aí que o grito saiu.
- SOCORRO!SOCORRO!! – eu gritei repetidas vezes.
O barulho se intensificou e ouvi barulho dos pneus deslizarem na água e
pararem.
Os “tock tock” dos sapatos dos enfermeiros vindo nos socorrer.
- POR FAVOR, O MEU AVÔ! – eu gritei, era a única coisa que importava
para mim.
Eu não os via, mas ouvi barulhos do lado em que o corpo de meu avô
estava no carro, logo eu vi, muito turvamente, uns dois homens
vestidos de branco.
Eu respirei fundo tentando me manter acordada, o que foi um erro, pois
o ar pareceu mais escasso. O ardor em minha barriga aumentou e eu
finalmente senti minha perna, que até então estava dormente, voltar a
sensibilidade.
Eu urrei de dor, por Cristo, aquilo era uma tortura!
- ME TIREM DAQUI!- eu gritava desesperada, parecia que estavam
arrancando minha perna fora.
A intensa sonolência invadiu meu corpo e eu apaguei em mesmo
momento. Minha ultima curiosidade era saber se meu avô ficara a salvo.
Será que morri?

***

Minha vista estava completamente turva quando eu acordei, mas logo
me dei conta da extrema quantidade de fio que rodeavam o meu corpo.
Creio que seu eu não estivesse completamente sedada, estaria urrando
de dor. Olhei o quarto a minha volta, percebi que já era noite.
- Acordou?
Eu procurei o dono da voz, e logo constatei que era Jonathan, ele que
estava atrás da porta coberto pela sombra.
- O que está fazendo aqui?!
- O cheiro do seu sangue me trouxer até aqui!
Eu tentei sorrir, mas não consegui, me contentei em apenas observá-lo.
A imagem de meu avô tomou a minha mente.
- Onde está meu avô?! – perguntei desesperada.
Não houve resposta da parte de Jonathan, e esse silêncio era o que eu
mais temia.
As lágrimas correram involuntariamente, quando tudo estava dando
certo, a minha vida voltava a desmoronar. Mordi meus lábios em raiva,
praguejei tudo e todos a minha volta. Eu sentia raiva ao invés de
tristeza. Por que a vida de alguns tem que ser desse modo?
- Jonathan... por favor...
Ele se aproximou de mim, tocando a pele de minha bochecha limpando
uma das lágrimas que escorrera.
- Você tem certeza de que quer isso?! – ele perguntou sério.
- Contando que você esteja ao meu lado, para mim não importa mais
nada...
Ele sorriu radiante, eu tentei expressar alguma felicidade, mas no
momento era um tanto crítico. Jonathan beijou a minha testa, e voltou-
se ao seu pulso, ele cravou os caninos afiados, recém adquiridos neste
que começaram a sangrar.
- Você tem certeza que consegue agüentar?
Eu apenas balancei a cabeça em resposta, virando esta para que eu
pescoço ficasse exposto a ele.
Ele o mordera do mesmo modo, só que agora com mais força e
profundidade, apertei uns dos tubos de soro que havia perto tentando
me esquecer da dor. Eu sentia meu sangue ser sugado, mas logo isto
parou e o calor começara a invadir o lugar. A única coisa que percebi era
que, de alguma forma, ele estava misturando nossos sangues, injetando
o seu na cavidade recém feita.
Logo o meu corpo tornara-se frio, seu sentia minha vista turvar e tudo
ficar escuro, sentia o suor tomando conta do meu rosto.
Tentei olhar atenta pra Jonathan, mas eu não conseguia ver nada,
apenas vários borrões negros a minha frente. O único som que eu
conseguia identificar era o “pi, pi” do eletrocardiograma, percebia que
ele acelerava a cada momento que meu corpo era exposto a mais um
efeito.
Agora ele queimava e parecia que meu coração saltaria as órbitas, a dor
invadia meu corpo de hora em hora, parecia que o fogo tomava conta
dele e que ele explodiria em segundos.
O calor abrandou mais ainda, como se magma tivesse se espalhado por
todos os meus órgãos internamente, eu me contorcia tentado evitar
aquilo.
Puxei o ar fundo, mas ele não veio, o barulho do eletrocardiograma
ficara contínuo, o “piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii” invadira a minha mente, e eu
apagara depois daquilo.
A indecisão se abatera sobre mim, eu havia padecido, ou me tornado
um ser da noite?

Fim do capitulo um.