Você está na página 1de 2

PLANEJAMENTO E SUPRIMENTO

A maravilha de um bom planejamento reside justamente na capacidade que ele

tem de integrar todas as áreas da obra e toda a equipe da obra em torno de um cronograma racional, lógico, exequível e de consenso. Ele serve de referência para a Engenharia emitir a programação semanal de serviços, ajuda

a Produção a pensar na distribuição de seus homens nas frentes da obra, indica ao Suprimento as prioridades de compras, aponta ao Financeiro os custos que serão incorridos no período e orienta o setor de Pessoal para a tarefa de recrutamento e admissão de operários.

Entretanto, ainda persiste nas construtoras o mito do tocador de obra, aquela crença supostamente inabalável em que a experiência é mais importante do que o planejamento. Temos visto que não é bem assim.

A maneira correta de proceder ao se montar o planejamento de uma obra é

estudar o projeto, dispor dos quantitativos e das produtividades do orçamento,

determinar a duração das atividades, definir o plano de ataque e, finalmente, obter o cronograma da obra. Porém essa trabalheira todo só levará a um resultado útil se todas as áreas se envolverem na determinação das premissas e “abençoarem” o cronograma como a meta a ser batida. Engana-se quem acha que o planejamento é mero exercício de puxar barras e imprimir gráficos coloridos que ninguém usa e nem sequer lê.

Pensando pelo lado da área de suprimento antigamente chamada de departamento de compras e agora já começando a ser chamada pelo dispensável termo inglês procurement , é o planejamento da obra que vai nortear a ação de seus profissionais. Quando o comprador lê no cronograma que o assentamento de azulejo do edifício se iniciará em 15 de setembro de 2011, sua tarefa é garantir que o material esteja disponível no canteiro de obras até o máximo dia 14, devidamente conferido, testado e liberado para uso. De nada adianta fazer uma negociação vantajosa sob o ponto de vista de custos se o insumo não estiver disponível na data que o cronograma indica como início da atividade.

Um processo de compra típico geralmente envolve várias etapas: (a) cotação de preços solicitação e recebimento de propostas de fornecedores; (b) equalização das propostas comparação dos diversos preços numa mesma base; (c) negociação das condições contratuais prazo de pagamento, critério de reajustes de preço, etc; (d) assinatura do contrato; (e) emissão do pedido; (f) recebimento na obra conferência de quantidade e especificação; (g) armazenamento no almoxarifado. Como cada uma dessas etapas tem uma duração específica para cada insumo a ser comprado, o pessoal do setor de suprimento precisa fazer uma conta “de trás para frente” a fim de saber

quando deverá disparar o processo de compra. Supondo, por exemplo, que a aquisição do azulejo para o edifício requeira 10 dias para cotação e fechamento do contrato, 5 dias para tramitação do pedido de compra e 30 dias para que o fornecedor entregue o azulejo na obra, o prazo total é de 45 dias, o que significa que o processo de aquisição de azulejo deverá ser iniciado em 1º de agosto.

O trabalho do pessoal de suprimento precisa, então, estar plenamente casado

com o planejamento. Na verdade, a partir do cronograma executivo da obra obtém-se o cronograma de compras subtraindo-se do início de cada atividade o prazo total requerido no processo. Logicamente, há insumos que demandam longos prazos elevador, pele de vidro para fachada, turbina de usina hidroelétrica e outros que são mais imediatos e de fornecimento praticamente contínuo prego, concreto.

A interação constante das equipes de planejamento e de suprimento é algo que

interessa a todos na obra. Aliás, como o cronograma é dinâmico por natureza,

atualizá-lo periodicamente, de preferência semanal ou quinzenalmente é uma prática importante para que tudo corra bem e que deve ser enfatizada e cobrada pela equipe gestora do contrato.

Um erro que notamos com certa frequência em cronogramas de obras é a previsão de serviços muito cedo, sem haver compatibilidade com o prazo que o fornecimento demanda. Execução de estacas-hélice e cimbramento de viadutos, por exemplo, que são atividades que ocorrem nas primeiras semanas da obra precisam estar casadas com os prazos mínimos para mobilização do equipamento e entrega do material, informação que o setor de suprimento detém.

Diante desses argumentos, a sensação que dá é que fazer obra por sentimento ajuda muito na solução de problemas, mas não substitui um bom planejamento

e, mais do que tudo, o trabalho integrado da equipe da obra.

Aldo Dórea Mattos, engenheiro civil e advogado, é presidente da seção brasileira da Associação para o Desenvolvimento da Engenharia de Custos (AACE) e autor dos livros “Como Preparar Orçamentos de Obras”, “Planejamento e Controle de Obras” “Patrimônio de Afetação na Incorporação Imobiliária”. aldo@aldomattos.com