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Originalmente publicado em

http://www.aids.gov.br/prevencao/indios/mbya/indios.htm

Coordenação: Ivori José Garlet, Marinez Garlet e os representantes Mbyá-Guarani


Felipe Oscar Brissuela, Santiago Franco, Félix Karaí Brissuela, Augustin Duarte, Horácio Lopes, Mário
Lopez e Roberto Gonçalves.

Tradução: Ivori José Garleet e representantes Mbyá-Guarani


Texto e revisão final: Ivori José Garlet, Marinez Garlet e representantes Mbyá-Guarani
Projeto Gráfico/Diagramação: Jorge Aresi
Tratamento de imagens: Andres Vince
Impressão: Ética Impressora Ltda

Apoio: OMG - Organização Mbyá-Guarani


COMIM - Conselho de Missão Entre Índios
PMG - Projeto Mbyá-Guarani
MINISTÉRIO DA SAÚDE - Coordenação Nacional de DST e Aids

Correspondências: COMIM - Conselho de Missão Entre Índios


Rua Amadeo Rossi, 467 - Caixa Postal 14
93.001-970 - São Leopoldo - RS
Fone: (051) 590.1455 - Fax: (051) 590.1603

ROJOGUEROAYVU MBA'E ACHY REKÓPE OREKUA I VA'E RIO GRANDE


PYGUA MBYA-GUARANIKUÉRY

Discussões sobre a situação de saúde entre os Mbyá-Guarani no Rio


Grande do Sul

Os Mbyá nos surpreendem e nos brindam com esta decisão de "plantar" no


papel algumas Belas Palavras que revelam, entre outros aspectos, a força de
sua tradição oral. Quem teve o privilégio de acompanhar o processo de
elaboração da presente cartilha tem clareza de que a frase estampada na sua
capa, e repetida no início desta apresentação, não deve ser tomada e avaliada
apenas na sua condição e extensão de título. Também não é somente o
conteúdo explícito nesta cartilha que vai revelar a sua verdadeira dimensão.

Onde, então, buscar elementos para avaliá-la?


Antes, porém, de responder a esta questão, gostaríamos de informar ao leitor
que esta cartilha foi produzida com a intenção primeira de ser um instrumento
que auxilie as comunidades Mbyá no RS no processo de identificação e
tratamento das doenças que sobre elas incidem com maior freqüência. Visa
atender, portanto, uma exigência prática do seu cotidiano. Este aspecto está
circunscrito à Segunda Parte desta cartilha.

Por outro lado, entendemos que há, sobretudo na Primeira Parte, um núcleo
destinado aos "brancos". A reflexão dos Mbyá nela contida foi produzida com
este objetivo explícito. Deve ser analisada e considerada pelas instituições que
intervêm junto a este grupo étnico, quando da definição de suas políticas de
atendimento, e como subsídio para repensarem sua prática. Também do ponto
de vista acadêmico entendemos ser de inestimável valor esta Primeira Parte.
Ainda que possa ser criticado como sendo lacônico, o texto possui grande
densidade. Merece ser avaliado e apreciado por seu aspecto lingüístico e teor
etnográfico; principalmente pelo segmento desta última disciplina que, nos
últimos anos, tem se preocupado com os enfoques denominados de
"antropologia médica". Esta apresentação, portanto, dirige-se basicamente aos
"brancos", buscando antes suscitar questionamentos do que oferecer chaves
para a leitura do texto Mbyá.

Voltamos, agora, a recolocar a questão acima proposta, a partir da qual se


pretende relacionar alguns elementos implicados na elaboração e finalidade
desta cartilha.

Se a preocupação é estabelecer um ponto de partida, podemos focalizar a


palavra ayvu (falar, conversa, linguagem) como gênese, como fundamento,
não apenas desta ação específica, mas da própria humanidade (Guarani).
Assim, rojogueroayvu pode ser literalmente traduzida por "nós nos dizemos
mutuamente". Temos, portanto, no centro da ação a importância da palavra, já
amplamente detectada e tratada por estudiosos da cultura Guarani, como Léon
Cadogan e Bartomeu Melià, por exemplo. Também podemos referir que a
expressão em evidência permite ser entendida como uma ação de consenso,
em que as "palavras foram emparelhadas", isto é, as idéias e opiniões dos
participantes das assembléias foram sendo equiparadas, afinadas. Ao se ler
"discussões", portanto, deve-se subentender esta dimensão mais dilatada que
nela está implícita.

Assim que as palavras "plantadas" nesta cartilha podem ser avaliadas em uma
dupla dimensão. Plantadas no seu sentido estático, mortas nesta espécie de
ataúde que nos lembram os livros - conforme analogia de Melià1 -, uma vez
que o papel não nos possibilita vê-Ias na sua real condição de alma (anima)
percebível nos discursos, quando são dotadas de vida, de movimento, quando
circulam, inflamam... Mas plantadas também na condição de sementes, a
serem deitadas nas consciências e nelas rebentarem e multiplicarem-se.
Cremos que foi com a intenção de cultivadores que os Mbyá se lançaram ao
desafio de escrever esta cartilha.

É a partir desta colocação explicativa que podemos apresentar esta cartilha em


sua dupla dimensão: de um lado como uma camisa de força e, de outro, como
um desafio. Uma camisa de força porque, ao elaborá-la, os Mbyá se
depararam com as limitações impostas pelo papel e pela escrita em detrimento
à densidade e à riqueza da palavra proferida. O desafio pode ser visto
enquanto esta intenção da palavra encontrar - na sociedade envolvente - um
espaço, um chão, onde se estabelecer e se desenvolver. Tal qual os Mbyá,
que continuam a proferir "Palavras Sem-Males", estão em busca de espaços
que lhes permitam viver com um mínimo de dignidade.
Mas - não nos equivoquemos! - proferir Belas Palavras não implica dizer
apenas palavras conformistas: elas devem também gerar inquietação, pois
tratam de desnudar a verdade.

Falar da situação da saúde dos Mbyá no Rio Grande do Sul - e o mesmo pode
ser dito a respeito das comunidades deste grupo étnico que se encontram em
toda a extensão de seu território - implica numa análise ampla, abarcando o
contexto em que os mesmos se encontram inseridos. A saúde não é um
aspecto que pode ser desmembrado dos demais e que pode ser "tratada" com
soluções burocráticas setorizadas. Como tão bem definem os próprios Mbyá
nos textos a seguir, a sociedade está doente porque o mundo está doente.

Falar da doença, portanto, é colocar no centro das discussões a qualidade das


relações que estamos produzindo hoje, envolvendo as pessoas, a natureza e o
sobrenatural. Em todas estas esferas observa-se um progressivo
deterioramento, um crescente desequilíbrio. De acordo com a interpretação
dos Mbyá, são indicativos da intensificação da presença do mal sobre o
mundo. Estamos falando, portanto, de uma grande doença.

Seus sintomas são por demais evidentes.

Sugerimos ao leitor desta cartilha que, tomando o texto produzido pelos Mbyá
como referência, procure evidenciar alguns. Sugerimos, também, um exercício
de relativização - isto é, uma tentativa de colocar-se no lugar do outro, no caso
dos Mbyá - relacionando saúde com os seguintes aspectos: espaço e
condições ecológicas, sistema econômico, organização social... Se isto parecer
muito difícil, imagine as seguintes situações: suponha que você não possua
mais uma referência de moradia fixa; que as fontes em que você normalmente
abastece sua cozinha (supermercados, armazéns...) entrem em colapso; o
mesmo acontecendo em relação aos hospitais e às farmácias; todo seu
sistema de crenças e valores toma-se constantemente questionado como
infundado...

Portanto, é com muita perspicácia e não sem razão que os Mbyá avaliam:
"hoje nos sentimos duplamente ameaçados: pelos brancos e por nossos
Deuses".

A quem recorrer, a quem clamar face a tais circunstâncias? Os Mbyá não


querem faltar aos compromissos com seus antepassados, com sua tradição,
com seus Deuses. Pedem que os "brancos" entendam que seu papel neste
mundo é diverso, justamente porque têm um compromisso que querem
continuar honrando. Por outro lado, se o mundo atual já não é mais o mesmo
de seus antepassados e percebem ser necessária uma interação maior com os
"brancos" - no caso aceitar uma maior intervenção da nossa medicina - querem
que também isso fique bem evidente: estão fazendo uma pequena concessão
à medicina ocidental. A qual, obviamente, não deve ser entendida por sujeição,
ou substituição sumária de seus princípios e valores.

Nós, seres humanos, fomos dotados de linguagem (consciência). E, segundo a


reflexão dos Mbyá, justamente por isso temos uma grande responsabilidade
durante nossa passagem pela terra. Em que medida as nossas ações são
dignas e correspondern à nossa condição?

Talvez fosse oportuno - às vésperas de "comemoramos" (sic) os 500 anos de


conquista do Brasil - repensarmos os pressupostos de nossa futura conduta. E
considerarmos a possibilidade de que as sementes que, até agora,
sistematicamente procuramos erradicar, possam se constituir em suportes do
equili`brio e da saúde do mundo e das sociedades.
Ivori Garlet
Maringá, agosto de 1998

ÑOMBOATY TETARÃ RETA JOGUEROYAVUPÁMA OPA MBA'E REKÓRE


...

Reunimo-nos poro tratar de diversos assuntos ...


1
MELIÀ, Bartolomeu. El Paraguay Inventado. Asunción: CEPAG. 1997.

Hoje nos encontramos doentes porque


o mundo está doente ÃNGY MBYA KUEÍRY HACHYPÁMA, OPA
MBA'E ACHY AVEI
Antes [da chegada dos estrangeiros] nós
dispúnhamos da terra totalmente livre, YMA ORE ROGUREKO YVY JAEA'EA,
ninguém nos importunava. Dispúnhamos, MAVA'EVE OPENAE' Ÿ A. A'ÉVY ROGUREKO
então, de muitos bens, de matas virgens, KA'AGUY PORÃ, OPA MBA'E OGUREKO. ÑE'Ë
de cujas riquezas gozávamos. A Boa PORÃ ÑANGAREKO'A. KA'AGUY A'ÉPY OPA
Palavra [Espírito Sagrado] pairava e zelava MBA'E OGUREKO: POÃ, MBA'E REI REI
sobre todas as coisas. A mata supria KA'AGUY, YVA'A, JAPE'A, YVU ETE, PIRA'Y
integralmente as nossas necessidades de PORÃ, MBA'E MOËNO I PORÃ I TEKO'A
remédios, de animais, de frutas, lenha, RENDARÃ PORÃ I, OPY RENDARÃ MBA'E
nascentes, bons arroios para a pesca, NEMBOVY'A.
reservas naturais de sementes, espaços
adequados para a implantação de nossos
teko'a [aldeia] e das opy [casa ritual], que
serviam para nos tomar plenos de alegria.

A'ÉRAMI VY ROGUREKO TEKO VY'A


"Assim é quando possuímos uma vida alegre"
(Opy, Casa de Reza, desenho de Mário Lopes, curso Multiplicadores de Saúde, maio/1998 )

Em tais circunstâncias, não carecíamos de


nada. Portanto, não nos faltavam Homens
Inspirados [Sacerdotes], que dominavam o A'ÉRAMI INDOATÁI VA'EKUE MBA'EVE I MBYA
conhecimento dos remédios e com ânimo KUEíRYPE. A'ÉRAMIRAMO KARAI KUÉRY
para trabalharem em prol da nossa saúde. NDOATÁI POÃ KUAA ETAVE OMOKYRE'Ÿ
Tais Homens Inspirados eram fortalecidos TESÃI REKO OMBA'EAPO ANGUÃ. A'ÉGUI
e acompanhados pelas Mulheres OMOIRÜ VA'E KUÑA KARAI KUÉRY OMOIRÜ
Inspiradas [Sacerdotisas]. VA'E KARAI KUÉRY REVE.

De forma, então, que os Mbyá possuíam A'ÉRAMI VY MBYA KUEÍRY OGUREKO TEKO
uma vida plena de alegria. VY'A.

Depois, porém, chegaram os habitantes de A'ERIRÉMA YVYPO KUÉRY OÑEMOMBA'ÉPA.


outras terras [estrangeiros, brancos], e ÑEMOMBA'E YVÝRE, KA`AGURE, PIRA'ÝRE,
acabaram com tudo; destruíram a terra, a MBA'E REI REI KA'AGUÝRE. MBYA POÃ
mata, os rios e todas as riquezas naturais. OMOKAÑYMBA. OÑEMOMBA'E TEKO VY'ÁRE.
Destruíram as fontes de recursos para a AÉRAMI RAMO ROJEECHA VAI. ORE REKORÃ
nossa medicina. Deixaram-nos sem MAÑETËNGUA I VA'E OKAÑÝTAMA ANGUÃ
condições para cultivarmos nossos MYMA ORE REKO GUAË YVYPO KUÉRY. A'E
plantios. Destruíram, portanto, nossa VA'E ROMBOAVAETE.
felicidade. E, em sendo assim, nos
deixaram desprovidos de recursos.

ROIKOTEVË TEKO'A PORÃ ÑANDE REKORÃ ROIKO ANGUÃ...

Necessitamos de espaços adequados para vivermos de acordo com nossas normas...


(Área indígena PachecaIRS Camaquil, fev/96)

As normas sagradas de nossa futura IJAVAETE MOKÖI ENDÁGUI: YVYPO


conduta passaram a estar ameaçadas pela KUERYGUI,ÑANDE RU KUÉRYGUIGUA AVE.
presença dos estrangeiros/brancos. E isso ROECHA ROVY VA'E YVYPO KUÉRYGUI VA'É.
se nos apresenta como uma abominável OO ETÉ TEI NDOGUREKOVÉI. NI YVYTÚGUI
desgraça. NOROIKOPORÃVÉI PETÉÏGUIGUA'EŸ MBA'E
ACHY ROJOPY ROVY, YY VAIKUÉGUI, ORE
De duas formas nos sentimos ameaçados: REMBI'U ETE I NDORO'UVÉI VY. TEKO'A
pelos brancos e também por parte de RENDA PORÃVE'Ÿ MYMA ÃNGY ROIKO. A'E
nossos Deuses. Isso é o que percebemos VA'E EGUI ÑEPORANDU REKORÃ
como resultado da ação dos brancos. Já OJEPYTACHO.
não possuímos nossas casas tradicionais.
Nem os ventos nos são favoráveis e já não ÃNGY OJEPYTACHO RIRÉMA TETARÃ RETA
é apenas uma enfermidade que nos vitima: JOGUEROAYVUPÁMA OPA MB'AE REKÓRE
as águas encontram-se contaminadas, nem OECHA KUAÁMA TEKO ÃNGYGUA VA'E PETEÏ
nossos próprios alimentos podemos ENDAGUIVE'ŸMA A'ÉVYMA. AYVU OJAPO
consumir e, onde hoje nos encontramos, os VA'ERÃ YVYPO KUÉRY MEME OJAPO VA'ERÃ
locais são inadequados para a implantação OÏ AVI MBYA KUEÍRY MEME OJAPO VAERÃ OÏ
de nossos teko'a. Todos estes aspectos AVI. MBYA KUEÍRY PEGUARÃ VA'EKUE I
constituem-se em grandes obstáculos para ÑANDE RU VOI OA'ANGA VA'EKUE VOI, OJAPO
vivermos de acordo com as normas VA'ERÃ OÏME I TERI PETEÏ TEÏ'I.
deixadas [pelos Deuses] para a nossa
conduta.

ÑANDE AVATI RA'YI ETE

Sementes de nossos milhos tradicionais

ÑANDE KYRÏNGUEÍPE NDOJOU RACHYIVE MBA'E ACHY

Nossas crianças são as mais vulneráveis às doenças

Diante destes obstáculos, temos nos A'E VA'E KYRÏNGUEVE KUÉRY NOMOKAÑYSÉI
reunido entre muitos parentes - para OKUAPY. A'E VA'E RIMA JURUA OECHA
tratarmos de vários assuntos. Percebemos KUAÁMA ÑO VA'ERÃ OMBOJEROVIA UKA
que o modo de ser de agora já não é mais TAMORA'E JURUA KUÉRY PAVËPE.
o mesmo [como era o de antes]. Portanto,
entendemos que os brancos têm o dever A'E VA'ÉPY RIMA KARAI KUÉRY, KUÑA KARAI
de informar-nos/esclarecer-nos sobre KUÉRY OÑEPYTYVÕ UKA JEVY VA'ERÃ
nossos direitos. Também entendemos que GUETARÃ I KUÉRY PEGUARÃ. POÃ I
os brancos possuem tarefas específicas, OITYKUA'I ANGUÃ TATACHINA REKO ACHY I
assim como nós, Mbyá, possuímos tarefas OIPORU ANGUÃ. MBA'E ACHY ETA ENDÁGUI
específicas [que competem a cada uma OREJOPY: YVYTU REAKUÃGUI, YY KY'ÁGUI,
das partes realizar]. A forma como TEMBI'U VA'IKUÉGUI JURUA REMBI'U IVAIKUE
devemos agir, como devemos proceder, foi VÁ'E. A'E VA'E MBA'E ACHY OJOPY KATUVE
estabelecida por nosso Deus; para cumprir VA'E KYRÏNGUE I OÑEVANGÁTA RAMO I
com isto, as gerações atuais devem se VA'ÉPE. A'E VA'E RIMA ÃNGY ROECHA
esforçar para que o legado [de nosso Deus] IJAVAETE VA'E OREVÝPE. A'ÉVY RIMA
não se perca completamente. E isso é o ÃNGYGUI A'E VA'E ROMOMBE'U UKA ORE RU
que os brancos devem procurar saber e YVATEGUÁPE.
respeitar nos Mbyá. Os brancos [aqui]
presentes têm a responsabilidade de A'ÉRAMO RIMA OÏ CHA'Ã UKA OREVÝPE
sensibilizar as autoridades para que nos KA'AGUY RUPA PETEÏ ENDA ENDAÍPY JEPE
deêm crédito e, dessa forma, sensibilizá-las ITU I IVA'E RERA'ÉMA ROJATAPYI ROKE
a reconhecer nossas necessidades e a ANGUÃ, ROJAPYCHAKA AGUÃ, ORE REKO
respeitar nossos direitos. A partir disso os ACHY ROMOMBE'U ANGUÃ OREMBOU ARÉPE.
Homens Inspirados [Sacerdotes] e as
Mulheres Inspiradas [Sacerdotisas]
A'E VA'E RIMA ORE REKO RAÏ VA'E. A'É VA'E
novamente merecerão os favores dos RIMA ÑANDE RU OMBOJEROVIA KO YVÝPY.
Deuses para continuar intercedendo em A'E VA'E RIMA YVYPO RUVICHA KUÉRY
benefício dos Mbyá, utilizando a nossa
OMBOJEROVIA VA'ERÃ OREVYPE GUARÃ.
medicina e à também empregando a
neblina vivificante [fumaça] dos cachimbos
rituais no tratamento dos males que nos
acometem. De diversas formas somos
atacados por doenças: pela poluição do ar,
pela água contaminada, pelos alimentos
que não são os dos Mbyá. As crianças é
que são as que mais sofrem em
conseqüência das doenças, e isso temos
como uma grande preocupação. Por elas é
que imploramos ao nosso Deus que está
no céu.

TAPE RUPI RAMO, RONDOGUREKOVÉIMA TEKO VY'A

"Quando estamos em beira de estradas, não possuímos uma vida decente"


Sr. Alberto Brissuela e Dna. Maria, crianças Luiz e Graciela.
Acampamento Passo da Estância (BR 116 - Barra do Ribeiro/RS) março/98

POÃ I OITYKUÁI ANGUÃ TATACHINA REKO ACHY I OIPORU ANGUÃ


Faz parte do nossa Medicina a utilização da neblina vivificante
dos cachimbos rituais no tratamento das doenças

Nosso Deus, em razão de nossa


preocupação e de nosso clamor, nos revela
A'E VA'ÉPY MAË RIMA MBA'EAPO JURUA
onde ainda é possível encontrarmos algum
KUÉRY PEGUARÃ VA'EKUÉRE JEPE
lugar no que restou da extensão do leito
NOROPENÁI VA'ERÃ. ROPENA TEÏMA JURUA
das selvas [das belas matas]. Onde ainda
REKO RUPI A'E VA'E NOÏPORÃÏ'A
poderemos reconstituir nosso teko'a e
ROIKUAAPÁMA.
termos tranqüilidade para podermos
escutar e implorar Àquele que aqui [a esta
terra] nos enviou, aprimorando a nossa YVY O'UVEI AJAVÉRE OJAPO VA'ERÃ ORE
conduta imperfeita. MBYA KUE'ÍRY A'E VA'ÉMA MITÃ ÑEMBO'ÉRY
MBA'E KARAI OKÁRE JEVY'A PORÃ. ORE RU
TUPÃ OMONGARAI YVA'A PYAU, AVACHI
Essa é que deve ser a conduta correta aqui
PYAU... A'E VA'ÉRE RIMA ÃNGY MBYA KUEÍRY
na terra para aquele que acredita em
OÑEMBOACHY ORE RAMÕI, ORE JARÝI,
Ñanderu. E é isso que as autoridades dos
KYRYÏNGUEVE AVE OÑEMBOACHY AVI.
brancos devem entender e respeitar em
nós, Mbyá.

TATU RA'ANGA

Tatu entalhado em madeira

A pessoa que já ficou doente sabe muito TETE REKO ACHY OGUEROAYVU KOVA'E,
bem o que também a terra poderá sofrer se A'ÉVYMA OECHA OIKUAÁMA AVI YVÝPY
a natureza não for respeitada. Entretanto, OÑEMBOJERA VA'EKUE ÑAICHA'ÃE'Ÿ VA'EKUE
quase ninguém se apercebe de que é JEPE RIMA IJAYVU OÃMÝMA. A'E VA'ÉMA
necessário render respeito também às JAECHA VA'E RIMA KA'AGUY, YVYRA
matas, às árvores... As árvores, que são ÑEMBOJEROVIA PYRÃ VA'EKUE RIMA IJAYVU
seres dotados de alma, estão nos O'ÃMY AVI. ÑE'Ë PORÃ AVI RIMA A'E
alertando, através de seus murmúrios de OÑEMBOACHY AVI, OGUEROJAE'O AVI,
tristeza, que não devem continuar sendo OJEJAYA, OMONDORO PA'I, NDAI'A PORÃVE
cortadas. Conseqüentemente já não NDAIPOTY PORÃVÉI.
produzem mais frutos perfeitos, já não mais
florescem formosamente.

TAPE REMBE RUPI, YAPU ÑENDU VA'E... RYAPU RIVÉMA OÑENDU OINY ÃNGY

Na beira da estrada, barulho é o que se ouve ...


somente barulho [dos automóveis] é o que ouvimos agora"
(Acampamento na BR 116, Barra do Ribeiro/RS, desenho de Santiago Franco,
curso Multiplicadores de Saúde, maio 1998)

Aquele que zela pelo leito das selvas


também está falando que dessa forma já
não é mais possível prosseguir, tudo já A'E VA'E RIMA KA'AGUY RUPARE
está se extinguindo; se existissem somente OÑANGAREKO VA'E JEPE OGUEROAYVU
os Mbyá não haveria destruição. O Criador NDA'EVEVÉIMA OMOMBÁMA CHEREMIMOÑE'Ë
da Terra zela por quem anda no interior PORÃ KUE ÍRY, AÑO RIRE KO VA'EPYE'Ÿ
das matas, por quem ouve o murmúrio das ARANGUE OECHA IJYVY RUPA VA'E KA'AGUY
suas criaturas [os Mbyá]. Então nos GUY RUPI OIKO VA'E, OÑENDU VA'E MBA'E
sentimos felizes quando vemos o porco-do- REI REI. A'E VA'EPÝMA OEJA AVI TEKO
mato sagrado, o quati, o tatu, a cutia, a VY'ARÃ MYMBA KOCHI, CHI'Y, TATU, AKUTI,
paca, o veado, a anta, a capivara, o peixe, JAICHA, GUACHU, TAPI'I, KAPI'YVA, PIRA,
os pássaros ... Isso é o que toma a nossa GUYRA KYRÏ... A'E VA'E RIMA JECHAKA RUPA
existência plena, alegre. Isso é que traz MOÑENDU'A OGUERU VA'E VY'A. A'E VA'E
alegria para nossas crianças e faz com que RIMA KYRÏNGUE I OVY'A OÑENDU PORÃ I AVI.
elas se sintam bem.
ÃNGÝMA YAPU ÑENDU VA'E, YVYPO KUÉRY
Mas agora ouve-se somente o barulho REMIMBOJERA RYAPU RIVÉMA OÑENDU
gerado pelos brancos; e é somente ruídos OINY ÃNGY. A'E VA'E RIMA
o que se escuta. Conseqüentemente, já NDOROGUEROVY'AVÉI. A'EVYRIMA
não nos encontramos mais felizes. Por esta ROJERURE KA'AGUY OÏME I ME I VA'ÉRE
razão é que continuamos a implorar pelas ROJERURE. ROIKUAA I RIATEÏMA YVY ÑONO
matas que ainda restam. Bem sabemos AREE'ŸPE RIVE ROJERURE. YVY ÑONO
que o branco não é o dono da terra, mas AREÍMA ORE RU PAPA TENONDE ROIKUAA
continuamos a implorar. Quem criou o ROÃMY.
mundo e é seu dono é Papa Tenonde
[Deus Primeiro], Ele o sabe perfeitamente.

CHI'Y RA'ANGA
Quati entalhado em madeira

Mas agora já estamos trabalhando junto


com os brancos sobre a situação da
saúde. Assim procedemos para
ÃNGÝMA TEMBIAPO REKO YVYPO KUÉRY
podermos conseguir amenizar os
REVE, MBA'E ACHY REKO REGUÁMA.
nossos males, para podermos contar
A'ÉVYMA ÑEPYTYVÕ ANGUÃ VA'ERÃ,
com remédios e um melhor atendimento
A'ÉVYMA POÃ OJOUVE ANGUÃ OÑANGAREKO
médico. Porque as doenças estão
PORÃVE I ANGUÃ. MBA'E ACHY KUAA, MBA'E
aumentando cada vez mais, e são
ACHÝMA OREJOPÝMA JORAMINGUAE'ŸE'Ÿ:
várias, como: pneumonia, dor de
JUKUA VAIKUE, AKÃ RACHY VAI, TYE VAI, AI
cabeça, diarréia, feridas, febres, sarna,
VAI, PIRE RAKU VAI, TEMO, TÃI RACHY
dor de dente, perda da consciência,
AKAÑY, PYTUË RACHY, TACHO ÑEMOÑA,
bronquite, vermes, doenças dos olhos,
NEVŸÏ AI, TECHA RACHY, APYCHA RACHY,
doenças dos ouvidos, furúnculo,
ACHI'I GUACHU, T RUGUY MBOJEVY MBA'E
diarréia com sangue, vômito,
ACHY PO'I, TUGUY VAIKUE ...
tuberculose, AIDS...
KO VA'ÉMA JURUA MBA'E ACHY A'ÉRAMOMA
Estas são doenças do branco. Para
JURUA RA'ÉMA OREPOANO. A'ÉVYMA POÃ
tratá-Ias se faz necessário aceitar o
NOMBOATÁI ARÃ PAVËPE.
tratamento oferecido por sua medicina,
para o qual não podem faltar os
medicamentos.

Agora vamos falar um pouco ÃNGY ROMOMBE'ÚTA ÑANDE


sobre as doenças que são MBYA PAVËPE MBA'E ACHY
mais perigosas para os Mbyá ÑANDE JOUVE VA'E
Doenças respiratórias PYTUË RACHY

Estas doenças pegam muito para os Mbyá KO VA'E MBA'E ACHY ÑANDE JOUVE VA'ÉMA
porque agora já quase não podemos mais PEICHA JAIKO RAMO OO'EŸRE. JAIKO I PY
fazer as casas tradicionais. O lugar onde NDAIPOVÉI KA'AGUÝRE ÑANEKYRE'Y AGUÃ
moramos já não é bom, já não NDAIPOVEI, PIRAY PORÃ NDAIPOVÉI, NI YVY
encontramos o que caçar, não tem peixe, PORÃ I ÑAMAETY AGUÃ.
não tem terra boa para plantar.
JAIKO AJÁRE TAPE RUPI, JAIKO JAVÉRE
Quando moramos em casas ruins, na beira ÑANDE KARUAÍGUI ÑANDE RETE KANGY
das estradas e nos alimentamos mal, RAMO MBA'E ACHY IPOAKA.
nosso corpo fica com pouca proteção.
Então aparecem as doenças. OJECHA VAIVE VA'ÉMA KYRÏNGUE I. OACHA
YRO'Y, KARUE'Ÿ, ÑANDE TUUKUÉRY NOIVÉI
As crianças são as que mais sofrem; JAJAPO ANGUÃ ÑANDE REKÓPY. HA UPEI
passam frio, fome e os pais não têm as NDAJAIKUÁI MBA'EICHA VY PA JURUA
condições para tratar de acordo com o ÑANEPYTYVÖ VA'ERÃ.
sistema dos Mbyá e também, nem sempre
sabem como encontrar ajuda no sistema do MBA'E ACHY ÑANDE JOU VA'E ÑANE YVŸRE
branco. VA'ÉMA JUKUA, A'E ÑANDE KUTU'A, MBA'E
ACHY PO'I.
Das doenças respiratórias, as que são mais
pesadas para nós Mbyá são a gripe, a
pneumonia e a tuberculose.

Gripe
Como pega: JUKUA

Quando a pessoa está se alimentando mal, ÑANDE JOU ANGUÃMA:


o corpo fica fraco e deixa entrar o bichinho
da doença. Também um doente pode
YVYTÜ YRO'YSÃGUI, ÑANDE PIRUKUEI RAMO.
passar para a pessoa sadia.
JUKUAJA IPOAKA A'E PAVËRE.
Como fica o doente:
ÑANDE JUKUAMA VY ÑANEÑANDU:
A pessoa com gripe sente febre, dor de
ÑANDE YRO'Y AI, ÑANDE AKÃ RACHY, ÑANDE
cabeça, dor no corpo e corre água do nariz.
PIRE RAKU, ÑANDE RETE RACHYPA, ÑANDE
APŸÏNJY.
Como cuidar:
MBA'ÉICHA ÑAÑEÑANGAREKO:
Esta doença pode ser tratada em casa. É
preciso, todavia, tomar muito cuidado com
ÑAÑEÑANGAREKO ÑANDE RÓPY.
a umidade e o frio. O melhor é o doente
ÑAÑEÑANGAREKO VA'ERÃ YRO'YSÃGUI.
ficar um dia ou dois na cama.
NAÑAPUÃI RANGË VA'ERÃ PETEÏ, MOKÖl ÁRA.
A'ÉRAMI ÑANEÑANGAREKO RAMO A'EVE
Nós Mbyá sabemos muitos remédios do VA'ERÃ. ÑANDE MBYA KUÉRY JAIKUAA ETA
mato que podem ajudar a melhorar da POÃ JAI ROGUEGUIGUA ÑANE MOPUÃ
gripe. E muito importante pedir ajuda para PORÃVEÍJU VA'ERÃ JUKUÁGUI, A'EVE VA'ERÃ
aquele que sabe o remédio. Tomar JAJAPO UKA POÃ KUAAÍPE.
bastante chá e água ajuda muito na
recuperação do doente.
Pneumonia
Como pega:
ÑANDE KUTU'A
Quando o corpo está sem proteção e a
pessoa fica muito exposta ao frio e à ÑANDE JOU ANGUÃMA:
umidade.
ÑANDE RETE KANGUY RAMO, ÑANDE JOUVE
As crianças são as que mais facilmente são YRO'Y RUPI, YVYAKY RUPI.
atacadas por esta doença.
KYRÏNGUEÍPE NDOJOU RACHYIVE KO VA'E
Como fica o doente: MBA'E ACHY.

Esta doença deixa a pessoa com febre, ÑANDE KUTU'AMA VY ÑAÑEÑANDU:


chiado no peito, dor muito forte no pulmão,
com catarro e também respiração curta e
KO VA'E MBA'E ACHÝMA ÑANDE MBOPIRE
rápida.
RAKU, IPY'A JOPY, IPY'A JOPY RACHY ÑANE
YVŸIRE, JUKUA PÉU A'E ÑANDE PYTUË JOKO
Quando a pessoa respira sente uma RAMO ÑANDE KUTU'A ÑAENDU.
"pontada" muito forte dentro do peito.
ÑANDE KUTU'A RACHY A'ÉRAMINGUA MBA'E
Como cuidar: ACHY PO'ÝIMA RIMA ÑADEVÝPE.
NDAJAJEPY'A PÝI RAMO A'E INDAJAIKUAA
A Pneumonia é uma doença muito POTA I RAMO NDA'EVÉI VA'ERÃ. A'ÉRAMI VY
perigosa. Se não procurar ajuda, a pessoa IPO'YIE'ŸRE ÑAÑANGAREKO VA'ERÃ.
doente pode morrer. Mesmo antes de ficar
muito pesada a doença, deve-se procurar A'ÉVYMA NDAJAJEPEJU UKÁI VA'ERÃ YVYTÜ
ajuda. RO'YSÃPE, OKÝPE, YVY AKY RUPI.
TEKOTEVË ÑEÑANGAREKO KUAA ÑANDE
O doente deve tomar cuidado para não MBA'E ACHY VA'E. KYRÏNGUEÍPE KATUVÉMA
pegar vento frio, chuva e umidade. É JAREKO KUAA VA'ERÃ.
importante agasalhar bem o doente. Se é
criança, precisa ter mais cuidado ainda. MBYA POÃ NDAIPOAKAPÁI KO VA'E JURUA
MBA'E AHÝRE. NDAIPO'ÝI ETE I RAMO
Os remédios dos Mbyá não são suficientes ÑANDERO RUPI JEPE A'ÉVE ÑAÑANGAREKO
para curar completamente esta doença. Se ANGUÃ. A'ÉVE JAIPORU ANGUÃ JURUA POÃ
não se deixar a doença avançar muito, o A'E ÑANEPOÃ AVE.
tratamento pode ser feito em casa. O
tratamento pode ser feito com o remédio do
branco, mas também pode usar junto os
remédios conhecidos pelos Mbyá.
Tuberculose
Como fica a pessoa: MBA'E ACHY PO'I

A Tuberculose é outra doença muito ÑANDE JOU ANGUÃMA:


perigosa. A pessoa com esta doença tem
muita tosse, tem catarro com sangue, fica MBA'E ACHY PO'I IJAVAETEVE AVI ÑANDE
muito magra e de noite, quando está JOU RAMO. MBA'E ACHY PO'I JAREKO RAMO
dormindo, pode ter suadores. ÑANDE MBOJUKUA RÁI, JUKUA PÉU RUGUY,
ÑANEMOMBIRU, PYARE ÑANEMBOY'ÁI.
Como pega:
ÑANDE MBA'E ACHY PO'I MA VY ÑAÑEÑANDU:
O bichinho desta doença passa de uma
pessoa para outra pela saliva. Também MBA'E ACHY PO'IJÁMA OVA TENDYRY RUPI,
pode passar quando uma pessoa ocupa o A'E TEMBIPORU RUPI.
mesmo prato ou colher que um doente
usou.
NDOKARU PORÃ I VA'E, NDACHÝIVE ÑANDE
JOU ANGUÃ MBA'E ACHY PO'I JÁ.
Aquele que se alimenta mal, pega mais
fácil tuberculose. Quando o corpo está
MBA'ÉICHA ÑAÑEÑANGAREKO:
fraco, o bichinho entra mais fácil.

KO VA'E MBA'E ACHYMA JURUA POÃ


Como cuidar:
MYGUARÃ. JAIKUAA VOI RAMO, ÑANDE RÓPE
TEÏ A'ÉVE ÑAÑEÑANGAREKO ANGUÃ ÑANDE
Esta doença só pode ser tratada com o RÓPE. ÑAÑEMOKANGUY ETE JEPE I RAMO
remédio do branco. Se a pessoa descobrir NAÑATEKOTEVÉI JAPYTA OPITALPY.
logo que está doente, o tratamento pode
ser feito em casa. Se não estiver muito
NAÑANEKANGUY ETE I RAMO ÑAÑEPOANO
grave, o doente não precisa ficar no
VA'ERÃ 6 MESES PEVE VA'ERÃ. IPO'ÝI JEPE
hospital.
RAMO ÑAÑEPOANO VA'ERÃ 1 ANO PEVE
VA'ERÃ.
Agora o tratamento é, na maioria dos
casos, de seis meses. Se a doença for
KO VA'E MBA'E ACHY OGUREKOVA
muito pesada, então pode demorar até um
OÑEPOANÕ VA'ERÃ OKUERA PORÃ PEVE.
ano.
NAÑAÑEPOANÕ VEI RAMO MBA'E ACHYJA
OÑEMOÑÃ VETA, HA'E RAMI RAMÕ
Mas aquele que está doente deve seguir o HACHYVETA JAKUERA ANGUÃ.
tratamento até o fim. Se parar, o bichinho
da doença fica mais forte e o tratamento
fica mais difícil.
Doenças de pele
É difícil as doenças de pele matarem a
pessoa [contaminada]. Mas incomodam MBA'E ACHY PIRE REGUA
muito. Se é a criança que pega, é certo que
o sofrimento será ainda mais pesado. MBA'E ACHY PIRE REGUA ÑANDEJUKÁI
RIATEÏ, PERO ÑAÑANGA REMA. KYRÏNGUEÍPE
Têm muitos tipos de doenças de pele. As KATUVÉMA OMOANGEKOVE.
que mais pegam os Mbyá são: sarna,
empetigo, fogo de santo antônio, JORAMINGUAE'Ÿ OSË ÑANDE PIRÉRE. OSËVE
abcesso, furúnculo. ÑANDE JOUVE TEMO, AÍPA, KAITA, ACHI'I
RATÃ, ACHI'I GUACHU.
Nós sabemos muitos remédios do mato
que servem para curar estas doenças. Só JEIKUAA RIATEÏ IPOÃ. OPA TEKO'A RUPI'EŸ OÏ
que nem todos os lugares onde estamos KO VA'E PEGUA.
vivendo existem as ervas que usamos.
NAÑAAARÕI RAMO OKUERA REVE I.
Se não deixarmos ficar muito grave, é ÑAMBOJAU RIA'E RAMO NAÑAIKOTEVË POÃ
possível tratar com facilidade estas KATU ETE.
doenças. Se usarmos bastante a água e o
sabão já nem vamos precisar ocupar o
remédio do branco.

Mãe Mbyá amamentando sua criança

Doenças do sistema digestivo ÑANDE PY'A JURU RACHY

OÑEMOÏNGOVÉMA ANGÝGUI ÑANDEVÝPE


Estas doenças aparecem principalmente ÑANEREMBI'U VA'ERÃ VAEKUE'Ÿ JÁ'U RUPI.
porque nós Mbyá trocamos quase toda NDA'EVÉI A'ÉMA JÁ'UTAÉMA JURUA REMBI'U.
nossa alimentação. Agora comemos quase JURUA REMBI'ÚMA ETA REGUA OÏ
exclusivamente a comida do branco. A A'ERAMINGUA ÑANDEVÝPE IPO'ÝI. A'ÉVYMA
comida do branco é muito forte e pesada. OGUERU ETA MBA'E ACHY MBYÁPE.
Então causam-nos uma série de doenças.
A'ÉGUI YY JAIPURU IKY'A Y AKÃ, YVU JURUA
Também a água que hoje usamos [para REMITŸ OIPOANOMBA REMÁMA.
cozinhar e beber] encontra-se muito A'ÉRAMINGUARE OCHYRY YY RUPI JAY'U
poluída. Os arroios e as fontes estão JAJEPOYUE'ŸRE.
cheios de veneno das plantações dos
brancos. Nós tomamos a água e corremos AÉVYMA 'ÑAENDÚMA ÑANDE PY'A JURU RUPI
muitos perigos. ACHY VA'E, TYE RACHY, TYE, TYE RUGUY,
MBOJEVYSE, PY'A TÁI.
Por isso é que sentimos dor de estômago,
dor de barriga, diarréia, diarréia com AÉGÝMA JAREKO REMA TACHO ÑEMOÑA.
sangue, vômitos, gastrite. YMA RAMO MBYA KUÉRI ETA POÃ TACHO
PEGUARÃ. ANGY REVE JAIKUAA POÃ, ANGY
Também temos muitos problemas RUPI ACHÝMA JAJOÚTEMA ANGUÃ.
relacionados com vermes. Antigamente os
Mbyá tinham muitos remédios para eliminar MBA'ÉICHA JAJOÚVETA TAPÉPY RIVE, TEKO'A
os vermes. Até hoje ainda conhecemos os RENDA KYRYÏ, YY PORÃ NDAIPÓI?
remédios, só que agora é muito difícil
encontrá-los. TEKO ACHY JAJOPY VA'E AVAKUE
KUÑANGUE REVE
Como podemos resolver esta situação se
estamos morando na beira da estrada, ou
ANGÝMA JAIKÓMA ÑAPENA SENHORÁRE,
em lugares muito pequenos e nem fonte JURUÁRE GUIVE. AMONGUE MBYA
boa encontramos para ter água potável? NAIMANDUAVÉI ÑANDE RU MBA'E E'I
AGUÉRE. A'E VA'E REKO ÑANDEVÝPE
Doenças do sexo IJAVAETE.

ETA REMA MBA'E ACHY JOE ÑAPENA


AGUÉGUI. ÑA'ENÕI JAJOPÝMA VY MBA'E
ACHY OGUREKO. REPENA RAMO A'EKUE
KUE'ÝRE JAROVA ROVA JOE.

OÏ MBA'E ACHY ÑA'ENÓI VA'E KUÑA MBA'E


ACHY. AMBOAÉMA GONORRÉIA...

AVAKUE, KUÃNGUE JAKUARU RACHY, IJAI


RAMO, OË RAMO IPÉU TAKUÃI RUPI, KUÑA
AVAKUÉGUI AVE, A'ÉVYMA JAJECHA UKA ARA
POÃ KUAÁPE.

KO VA'E MBA'E ACHY NOMONGUERA RACHÝI


Vacinação em criança Cinta Larga, JURUA POÃ. JOE ÑAPENA RIRE JAJAU PORÃ
aldeia Rooselt/RO, agosto 1996 KAVÕ MY A'E ÑAPENA ANGUÃ AVE, A'ÉRAMI
VY JAJOKO MBA'E ACHY.

TUGUY VAIKUE

PETEÏ REGUA A'ÉMA IVAIKUE VA'E NAIPOÃ I


As doenças deste tipo também aparecem VA'E. A'E VA'ÉMA TUGUY VAIKUE. KO VA'ÉMA
para nós Mbyá porque estamos vivendo no IJAVAETE. TUGUY VAIKUEJA OKARU
meio do branco. Alguns Mbyá esquecem as TUGUÝRE O'UPA MA VY ÑANDE JUKA VA'ERÃ.
leis de Ñanderu [ao procurar relações fora OGUREKO VA'E OPENA RAMO KUÑÁRE
do grupo]. Para nós este assunto é muito AVÁRE OVA.
grave. De um lado porque não estamos
seguindo as nossas leis antigas. Por outro ANGÝGUI OIKUAA POTÁMA VA'ERÃ MBYA
porque podemos pegar doenças muito KUÉRY OJOKOVE ANGUÃ KO VA'E MBA'E
graves. ACHY. A'ÉVYMA JURUA SENHORA KUÉRY
ÑAÑAPENÁI ETE VA'ERÃ MBYA MEME TEÏ
Existem muitas doenças do sexo. São ÑAÑANGAREKO VA'ERÃ JOE ÑAPENA ANGUÁ.
chamadas assim porque a gente pega a
doença quando namora com alguém que já AMBOAE ENDA RAMIMA OÏ PONO JAROVA
está doente. Quando namora com outro, aí TUGUY VAIKUE JAIPORU VA'ERÃ JURUA
já pode passar adiante a doença. REMBIPORU TAKUÃI RYRU. KO VA'E JAJAPO
RAMO JAJOKOVE TUGUY VAIKUE.
Tem doença que se chama sífilis. Outra
chamada gonorréia. Se o homem ou a TÃI RACHY
mulher sentem dor para urinar, se têm
feridas ou se está saindo pus do pênis ou ÑANDE MBOJEECHA VAI VA'ÉMA TÃI RACHY
da vagina, precisam procurar quem sabe AVE. ANGY TEMBI'U JÁ'U VA'E ÑANDE RÃI
curar.
OMBOVAIPA VA'ERÃ RIVÉMA. E'Ë JÁ'U REMA
RAMO ASUKA, BOLACHINHA, BALA,
Todas estas doenças curam fácil com o GUARANA... OPYTA TÃIRE. A'E RAMI VY
remédio do branco. Lavar os genitais com OMBOKUAPA.
água e sabão antes e após o contato
sexual ajuda a prevenir o contágio.
A'ÉRAMINGUARE OÑATENDE VA'ERÃ,
ÑANEPOÃNO VA'ERÃ NDAJAREKÓI ÃNGY
AIDS REVE.

Existe só um MBA'E ACHY JOKO'A


tipo de
doença YMANGUA MBYA KUÉRY NDOIPORÚI MBA'E
relacionada ACHY JOKO'A ÑANDE RU ETA MBA'E OEJA
ao sexo que VÝPE JAIPORU VA'ERÃ ARAKA'E TESÃÏVE
ainda não REKORÁ.
tem remédio
para curar. ANGY NDA'EVÉI A'ÉRAMI JAIKO ANGUÁ.
Esta é a
AIDS. Esta
ANGÝGUI JAIPORÚMA MBA'E ACHY JOKO'A
doença é
KYRÏNGUEÍPE KATUVÉMA OIKOTEVËVE OIKO
muito
PORÃ I TEÏ TUU KUÉRY, ISY KUÉRY
perigosa.
OÑANGAREKOVE MBA'E ACHY OJOKO'A
ANGUÃRE. A'ÉRAMI VY OIKUAA POTA POSTO
Por isso que DE SAÚDEPY. A'ÉVE AVI JAJERURE
nós Mbyá ÑANEPYTYVÖ ANGUÃ PETEÏi VA'E JURUA
hoje, temos RIVEÍRE TEÏ.
que pensar muito para descobrirmos como
vamos atacar [impedir, prevenir] esta
MBA'E ACHY JOKO'A MBOVEVÚI VA'E
doença. Em primeiro lugar, não podemos
SARAPIÖ, DIFTERIA, JUKUA PUKU, TÉTANO ...
namorar com o branco. Também entre os
próprios Mbyá já temos que ter muito
cuidado, porque algum já morreu MBA'E ACHY JOKO'A ÑAMOÏ RAMO ÑANDE
contaminado por esta doença. RETE ÑENDU PORÃVE MBA'E ACHYJÁGUI.
OEJA ÑANDE RETE IMUNE. IMUNE A'E VA'ÉMA
ÑANDE RETE OMOÑENDU PORÃVE.
Outro jeito que existe é usar camisinha.
Esta é uma forma segura para evitarmos a
AIDS. AÉVYMA A'ÉVETE ÑANDEVÝPE MBA'E ACHY
JOKO'A MBA'E ACHY JOKO'A OJOKO MBA'E
ACHY ÑANDE JUKÁTEMAVE I.
AIDS não tem cura, mas a camisinha pode
evitar.
Problemas relacionados aos OPAMBA'E MBA'E ACHY OÏ, RAMO JEPE
OJOKO'A ETA AVI. MBA'E ACHY JOKO'À I ÁRA
dentes OGUAË RAMO ÑAMOÏ VA'ERÃ MBA'E ACHY
JOKO'A A'ÉRAMO JAECHA UKA KUATIA MBA'E
Enfrentamos muitos problemas ACHY JOKO'A REGUA.
relacionados à dor de dentes. O alimento
que utilizamos hoje é muito diferente do
dos nossos antepassados. Se comemos
muito açúcar, bolachinha, bala, guaraná, o
doce ficará (grudado) nos dentes,
deixando-os todos furados.

Até hoje nunca contamos com nenhum tipo


de atendimento para tratarmos dos nossos
problemas de dentes.

Vacinação
Antigamente os Mbyá não ocupavam
vacina. Nosso pai/deus (Ñanderu) e tudo o
que ele criou aqui na terra é que davam
proteção para nós.

Agora, entretanto, já não é mais possível


seguirmos da mesma forma que
antigamente.

Hoje já temos que contar com a vacina


para proteger-nos um pouco mais das
doenças. As crianças são as que mais
necessitam de cuidado. Mesmo que a
criança esteja (aparentemente) bem, o pai
e a mãe devem se preocupar em vaciná-la.
Para isso podem procurar o responsável no
posto de saúde. Também podem pedir
ajuda de algum amigo branco.

As vacinas ajudam a atacar o sarampo, a


difteria, a coqueluche, o tétano, a
poliomielite, a tuberculose.

As vacinas ajudam a aumentar a defesa do


nosso corpo contra os bichinhos que
causam as doenças. Deixam nosso corpo
imune. Imune quer dizer que o corpo está
com proteção.

Para nós, agora, é muito importante a


vacina. Ela ataca e impede muitas doenças
e muitas mortes.

Como existem muitas doenças, também


têm muitas vacinas. Também tem o tempo
certo para fazer a vacinação. Por isso
vamos mostrar o calendário com os tempos
certos das vacinas.

Calendário de Vacinação
IDADE VACINAS
Ao nascer BCG + Hepatite "B"

02 meses Tríplice (DPT) + Poliomielite

04 meses Tríplice (DPT) + Poliomielite

06 meses Tríplice (DPT) + Poliomielite + Febre Amarela*

09 meses Sarampo

15 meses Tríplice (DPT) + Poliomielite

15 meses Triviral (Sarampo, rubéola, caxumba)

06 anos BCG

10/11 anos Vacina Dupla tipo adulto (DT)*


(*) Reforço de 10 em 10 anos durante toda a vida
" A [forma de atendimento de saúde para os povos indígenas] seria ainda melhor se
fosse uma abordagem intercultural, na qual a biomedicina fosse relativizada e os
saberes da medicina indígena fossem tratados como ciência, para redifinir os conceitos
de eficácia e cura.
Para isto ser uma realidade, os profissionais de saúde tem que reconhecer as limitações
de sua medicina, relativizando-a e admitindo que existem outros sistemas de medicina
com saberes sobre saúde que, por suas diferenças epistemológicas, não só devem ser
respeitados, mas também compreendidos como possíveis de fazer uma contribuição ao
conhecimento. "
Jean Langdon, Revista de Divulgação Cultural, p. 79/1998

OMG - Organização Mbyá-Guarani


COMIN - Conselho de Missão Entre Índios
PMG - Projeto Mbyá-Guarani
MINISTÉRIO DA SAÚDE - Coordenação Nacional DST e AIDS