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Capítulo 1 - Um novo despertar
Um irritante som agudo invade minha cabeça, é como se ele perfurasse meu crânio e tocasse dentro de meu cérebro, tampo inutilmente os ouvidos. Tento descobrir a origem deste incomodo e percebo uma intensa luz que cintila suavemente, acompanhando o som que agora acaricia meus tímpanos, o ruído irritante cessara, em seu lugar uma música bem agradável e animada faz meu corpo paulatinamente liberar adrenalina. A luz já não cintila mais, é forte e intensa… o que é isso ? Estou tremendo! Percebo que estou deitado e me dou conta que a minha programação de despertar estava em execução, o tremor era do meu colchão. Sentei na cama e esfreguei os olhos, e olhei pela janela e vislumbrei o mundo do lado de fora, ele ainda esta lá. Nuvens rosadas formavam imagens interessantes, iluminadas pela vermelhidão do sol nascente, diversos tons de rosa, vermelho, laranja, azul e verde pintam a paisagem, um verdadeiro caleidoscópio da natureza. Há alguns anos imaginávamos que não veríamos mais este espetáculo, hoje ele é praticamente um ritual, todos o veneram, olhar pela janela e contemplar a natureza nos tempos atuais é quase uma religião. O sistema de som da casa anuncia suavemente que meu banho esta pronto, e que dentro de quinze minutos o café estará servido, bela voz esta que escolhi para meu perfil, uma voz feminina suave e envolvente. Mesmo com todo conforto proporcionado por esta modernidade, sinto saudades daquele tempo em que saia de casa bem cedo para comprar pão, e
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sentia o cheiro do café sendo preparado ao passar pela cozinha, nostalgia de um passado hoje inviável. Um pouco mais de dez anos foram suficientes para mudar o mundo, afinal se não fosse assim a humanidade estaria encrencada. Antes de levantar vejo minha esposa ainda deitada, fico a admirando por alguns minutos, o lençol esta displicentemente mostrando suas belas, lisas e macias pernas, como ela é linda, hoje mais bonita que há 20 anos, fico a admirando por uns minutos, em seguida puxo o lençol para cobri-la, Giro sentado e coloco as pernas para fora da cama, tateio o chão com os pés em busca de minha sandália, sinto o piso frio na ponta dos dedos, logo em seguida encontro minhas sandálias, sinto o toque da borracha reciclada. Levanto calmamente e me estico ao máximo, fazendo a saudação do sol, sinto as costelas frontais estalarem, como que abrindo caminho para encher meus pulmões do frescor da manhã, como se meu peito tivesse expandido com o asana1 que acabara de fazer. Prossigo na minha Yoga matinal. Yoga é uma das recomendações para a longevidade, uma prática milenar de meditação e intronização corporal, uma caricia matinal em todo meu corpo e aos meus sete chakras 2. Me dirijo ao banheiro em zigue-zague, me divertindo com a luz não pontual, literalmente espalhada pelo teto, que me acompanha como se eu fosse um astro no palco, tal como fazem as crianças aqui de casa, como é bom ser criança de vez em quando!

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Asana - posição de Yoga

Chakras são, segundo a filosofia ioga, canais dentro do corpo humano(nadis) por onde circula a energia vital (prana) que nutre órgãos e sistemas. Este texto é um rascunho para avaliação e não foi revisado

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Ao entrar no banheiro vejo que o sensor esta projetado no espelho, indicando que meu banho está pronto. Nada daqueles velhos aquecedores à gás ou a elétricos, verdadeiros mostrengos anti-ecológicos e perigosos. Hoje em dia a tecnologia nos permite um bom banho com 10 litros d’água, mais ou menos a quantidade de um balde, temos de economizar, o Pacto Verde Global (PVG), fez o preço da água disparar no mundo todo, realmente não havia outra alternativa. O aquecedor de microondas é eficiente, esquenta a água na medida exata, na temperatura programada e por um sofisticado sistema controla a água do chuveiro. A água que entra no ralo é filtrada e reaproveitada para dar descarga na privada. Não existem mais os registros nos banheiros, sensores ligam e desligam a água de acordo com nosso movimento, detecta até quando estamos ensaboados. Shampoo, sabonete e creme para cabelo são os únicos elos do passado, mas os de hoje são todos biodegradáveis e diluem mais rapidamente, gastando menos água. Como era bom ensaboar-se preguiçosamente sob o chuveiro, quantas vezes quando jovem eu não cochilei ou cantei sob o chuveiro, prazer que meus netos só conhecem pelas minhas histórias, eles não entendem como podiamos brincar com a água, tinha tanta água assim há vinte anos? Eles só conhecem as piscinas de água reciclada. Com o controle das águas, tomar banho de rio, mar ou lagoa é proibido, são áreas de segurança nacional, fortemente vigiadas. Onde chegou a humanidade! Onde nos levou o consumismo desenfreado, e principalmente o descaso com a natureza. O banho estava ótimo, dentro dos padrões atuais, abri os braços e aguardei o soprador do chuveiro me secar com um vento morno e perfumado, toalhas não existem mais, só mesmo para uso em piscinas. Dei uma olhada no espelho e sensor indicou que minha barba estava com 0,3 mm e sugeriu que devia apara-la, normalmente espero ela chegar à 0,6 mm para
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aparar, mas como hoje eu teria de sair de casa aceitei a sugestão. Olhei fixamente para a guia projetada no espelho e toquei no sensor. Imediatamente um conjunto de feixes de laser envolveu minha face, e em poucos segundos meu rosto parecia “bundinha de neném”. Hora da higiene bucal, nada de escova e pasta dental, muito menos água, a escovação é feita por uma escova de ultra-som que limpa a fundo os dentes em conjunto com um antisséptico engulivel, para dar um “gostinho de limpeza” na boca. Já no closet, ouvi um bip, e uma mensagem foi projetada na porta do armário: “Hoje às 10h tem reunião na central de interação corporativa. Confirma o compromisso?” Toquei a projeção que representava o botão sim, e automaticamente minha presença foi re-confirmada, assim como meu lugar no transporte que foi confirmado para as 9:15 na minha porta. Vivemos conectados, é como se cada parte de sua casa fosse uma parte do computador que existia há 20 anos, ubiqüidade é nome desta coisa. Ainda bem que tomamos de volta o controle de nossa privacidade, podemos nos desligar a hora que desejar e pelo tempo que desejar. Curioso falar isto, me remete à “teletela” da obra distópica 1984 de George Orwell, há alguns anos chegamos a pensar que ela se transformara numa profecia, pavoroso. Decidi me vestir despojadamente como sempre foi meu estilo, uma boa calça jeans, uma camiseta de algodão transgênico e meu mocassim de couro sintético, as roupas agora são mais duráveis e absorvem menos odores e sujeira, em geral lavamos roupas poucas vezes por ano, elas não precisam ser lavadas com frequência. Não cansava de me olhar no espelho, e ver o que a tecnologia havia feito por mim, cara bonito este.
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Um bip novamente, e no espelho do armário a mensagem de que o café da manhã estava pronto, nem precisava do espelho, o sistema de som já havia avisado, com aquele doce voz feminina, estava cansado daquela voz masculina empostada, muito aristocrática para meu gosto, parecia um “mordomo Inglês resfriado”. Penso no delicioso pãozinho francês crocante e quentinho, com manteiga derretida e uma fatia de mortadela, acompanhado de um café com leite bem quentinho e farto, de quebra um bolo de milho ou fubá. Apenas penso, pois a realidade é um pouco diferente, não é ruim, mas diferente, algo como você desejar um refrigerante gelado e tomar um copo de mate, bom, mas diferente. Uma xícara de café com leite, duas torradas de pão integral com manteiga sem colesterol e presunto com zero de gordura, e para finalizar uma maçã, eu olhava decepcionado para meu café da manhã, mas era o que estava prescrito na minha dieta para hoje. Saco! Tem hora que sinto vontade de desligar a egovernanta e fazer minhas traquinagens gastronômicas, volta e meia a gente faz isto aqui em casa, principalmente aos domingos quando nos acabamos literalmente em pizza. Tomei meu café ouvindo as noticias do dia no sistema de som da cozinha, o conceito de mídia e veículo estava bem mudado, você pode ver, ler e ouvir noticias da mesma fonte, depende do seu interesse, você escolhe o que quer saber. Volta e meia comandava ao sistema para projetar, mas gostava de tomar café ouvindo apenas, ouvir, assim como ler, exercita a imaginação, ver e ouvir ao mesmo tempo nos “idiotiza”, sempre acreditei nisto.

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Terminei meu café e peguei meu e-paper que já havia recebido as notícias das editorias selecionadas: Tecnologia, economia, política, ecologia, esportes e lazer. Procurava uma peça de teatro para levar minha esposa à noite. Sentei-me confortavelmente no banco jardim, debaixo de uma frondosa mangueira, afinal ainda faltavam duas horas para o transporte coletivo passar, e este era meu momento de ficar só, de reflexão e interação com a natureza. Desde criança sempre tive uma sinergia muito grande com a natureza, ela sempre foi meu templo, sempre foi na natureza que tomei as decisões mais importantes, e onde renovo minhas energias, até hoje, é mágico. O prático desta conectividade é que você não precisa receber as informações diversas vezes, como no passado, que liamos na internet, ouvíamos na TV ou no radio, e liamos novamente no jornal, geralmente no dia seguinte. As noticias que ouvi na cozinha não foram transferidas para o e-paper. Passei o dedo no índice e escolhi logo a seção de lazer, e fiz uma busca pelas palavras chaves teatro e drama, apareceram três opções, observei as resenhas e comentários de cada uma, inclusive tinha um post bem interessante sobre uma delas, justamente a que escolhi depois de assistir um breve vídeo. Comprei os dois ingressos, automaticamente o transporte coletivo foi agendado, uma integração prática, e ainda ganhei um botão de rosas que me seria entregue discretamente no teatro, para “impressionar a patroa”. Quando poderia imaginar há 20 anos, que faria isto tudo sentado debaixo da mangueira interagindo com pedaço de plástico flexível e dobrável. Vi que o Antônio, meu vizinho, estava online e resolvi brincar com ele, um Botafoguense fanático, cliquei do último gol do Flamengo, coloquei um texto debochado e enviei para ele. O cara ficou uma fera, e interagindo mostrou no meu e-paper que
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o gol não valeu, ele circundava o jogadores e apontava que o Flamengo estava impedido, e o juiz não poderia ter deixado passar aquele gol. Me fez assistir o video por três vezes, quem mandou mexer com um torcedor fanático. A minha sorte foi o Luiz Carlos que interagindo na seção de economia me mostrou que as ações da Aguabrás aumentaram quatro pontos percentuais. Luiz é um grande investidor, já ganhou muito dinheiro com ações, perdeu muito, mas ganhou muito mais. Ele me sugeriu que ficasse atento, e que na primeira oportunidade eu deveria comprar algumas. Cliquei na noticia e agendei um alerta caso elas tivessem em um bom momento de compra. Como se pode ficar sozinho debaixo da mangueira? Eu esqueci de deixar meu perfil offline. Mas nada melhor do que ler as noticias assim, em grupo, é uma diversão e pretexto para um chope mais tarde. O tempo voa, já eram quase 9h, fui avisado disto, e antes de sair fui dar um beijo no José, meu neto, mas me lembrei que à esta hora ele já estaria na aula. Arrisquei assim mesmo, entrei no quarto e dei um beijo nele, era hora do intervalo e a professora estava corrigindo os exercícios, e ele falou apontando para a tela de interação: - Olha Vô, acertei tudo. A professora do outro lado endossou: - O José é muito bom aluno, esperamos ele aqui na sexta que é dia de interação pessoal e sociabilização. Acenei positivamente com um sorriso e me despedi, já estava de saída. Estava com saudades do Gabriel meu filho, já faziam quase dois meses que ele a a esposa estavam viajando pela Ásia, apresentando suas últimas pesquisas em nano-medicina. João conheceu sua esposa, a Karen ainda na faculdade, ambos se tornaram pesquisadores e foram contratados pelo mesmo laboratório, não sei com agüentam se ver 24 horas por dia,
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talvez por ficarem tão compenetrados em suas pesquisas horas a fio. Ops! Quase esqueci de me despedir da minha esposa, um beijinho pelo menos, relações pessoais e demonstração de afeto são muito importantes no nosso micro-ambiente social, no nosso lar. Foi uma conseqüência da migração do trabalho e estudo dos seus lugares coletivos para nossas casas, tudo para salvar o mundo. Ao chegar na porta do home office, percebi que ela já estava em uma teleconferência com os clientes de Portugal. Joguei um beijo no ar, fui correspondido e sai satisfeito. Fico em frente de casa esperando o transporte coletivo que irá me levar à central de interação, o transporte individual é praticamente proibitivo. Com as rígidas regras ambientais do PGV, o preço do combustível fóssil, o mais poluente, foi parar na estratosfera por conta dos ditos tributos verdes. Fica mais barato encher o tanque de Champanhe. Mesmo no meu carro que faz facilmente 80 km por litro, o custo seria muito alto, isto sem contar com a cota semanal de quilometragem para estes combustíveis. Não vejo a hora de comprar um carro à hidrogênio e gozar da liberdade de locomoção. Com a necessidade urgente de reduzir substancialmente a emissão de CO2, os governos do mundo inteiro priorizaram soluções para minimizar a necessidade de deslocamento e o combustível fóssil foi praticamente banido do mundo. O transporte coletivo foi otimizado ao máximo, você traça seu roteiro e envia para uma central, que automaticamente aloca veículos que passarão na sua rota, você é pego em casa e com vaga garantida. Não existem mais as linhas de ônibus, somente de trem e metrô. A capacidade do veiculo coletivo é proporcional ao fluxo, é otimizado ao máximo, com isto a
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lucratividade das transportadoras compensou todo investimento em adaptação para seus veículos à hidrogênio. Etanol e biodiesel não eram a solução, reduziam a emissão de gases, mas não na proporção que se fez necessária e foram banidos, foi tudo muito rápido. Um comportamento curioso, é que como passamos a maior parte de nosso tempo nos nossos ambientes familiares, quando encontramos estranhos sentimo-nos motivados a conversar, conta-se histórias e piadas e o tempo passa voando. Com menos veículos nas ruas, e as paradas dos coletivos programadas, as vias que antes viviam engarrafadas, agora mais desertas, se tornaram vias de trafego rápido. Há 20 anos isto seria encarado como uma piada de mau gosto, uma utopia. Estou quase chegando ao centro da cidade, quem conheceu o centro há 20 anos, hoje deve estranhar, esta tão vazio que parece um sábado a tarde. Algumas empresas mudaram suas centrais de interação para o subúrbio, mas a minha preferiu manter o velho escritório no centro. O bom é que o centro não é mais tão cinzento, hoje temos arvores e alguns prédios ficaram abandonados e foram transformados em florestas verticais, parece uma montanha verde esculpida, só vendo para entender. Aquele ar quente e seco e que entrava rasgando nossas narinas foi substituído por um ar leve e fresco que carrega com sigo o clima da floresta, respira-se com prazer. Desço do transporte e ando em direção à central de interação da minha empresa, cruzo o saguão, deserto mas imponente, uma forte luz varre minha vista por uma fração de segundos e uma gravação me informa para aguardar alguns minutos, pois outras pessoas estão chegando para o mesmo andar. São as novas normas verdes, até o transporte vertical, vulgo elevador, fora otimizado, o consumo de energia é racionalizado ao
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extremo. Coletores fotovoltaicos armazenam a energia solar em baterias, a iluminação quando não natural é LED , que possui um consumo muito baixo e uma iluminação eficiente. Curioso mesmo são as soluções de iluminação decorativa com fibras óticas, coletores na fachada capturam a luz que é transmitida pela fibra ótica e brotam do chão, do teto, de jardineiras, de todos os lugares possíveis e imaginários, formando um show visual que não deixa nenhum ônus com a natureza, simplesmente não gasta energia, captura a luz solar e a utiliza para iluminar interiores, genial. Pedro esta chegando, vejo que ele, um sexagenário como eu esta em forma, lembro que há 20 anos eu era um gordo e hoje sou um esbelto jovem de 60, pilulas, tecnologias alimentares e os avanços da medicina simplesmente varreram a obesidade do planeta. Cumprimento Pedro com um caloroso abraço, e o sistema de som anuncia que já podemos subir, as portas do elevador se abrem e entramos.

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