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2030 - Por João Carlos Caribé - http://entropia.blog.

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Capítulo 1 - Um novo
despertar
Um irritante som agudo invade minha cabeça, é como se ele
perfurasse meu crânio e tocasse dentro de meu cérebro, tampo
inutilmente os ouvidos. Tento descobrir a origem deste
incomodo e percebo uma intensa luz que cintila suavemente,
acompanhando o som que agora acaricia meus tímpanos, o
ruído irritante cessara, em seu lugar uma música bem
agradável e animada faz meu corpo paulatinamente liberar
adrenalina. A luz já não cintila mais, é forte e intensa… o que é
isso ? Estou tremendo! Percebo que estou deitado e me dou
conta que a minha programação de despertar estava em
execução, o tremor era do meu colchão.

Sentei na cama e esfreguei os olhos, e olhei pela janela e


vislumbrei o mundo do lado de fora, ele ainda esta lá. Nuvens
rosadas formavam imagens interessantes, iluminadas pela
vermelhidão do sol nascente, diversos tons de rosa, vermelho,
laranja, azul e verde pintam a paisagem, um verdadeiro
caleidoscópio da natureza. Há alguns anos imaginávamos que
não veríamos mais este espetáculo, hoje ele é praticamente um
ritual, todos o veneram, olhar pela janela e contemplar a
natureza nos tempos atuais é quase uma religião.

O sistema de som da casa anuncia suavemente que meu banho


esta pronto, e que dentro de quinze minutos o café estará
servido, bela voz esta que escolhi para meu perfil, uma voz
feminina suave e envolvente. Mesmo com todo conforto
proporcionado por esta modernidade, sinto saudades daquele
tempo em que saia de casa bem cedo para comprar pão, e
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sentia o cheiro do café sendo preparado ao passar pela cozinha,


nostalgia de um passado hoje inviável. Um pouco mais de dez
anos foram suficientes para mudar o mundo, afinal se não fosse
assim a humanidade estaria encrencada.

Antes de levantar vejo minha esposa ainda deitada, fico a


admirando por alguns minutos, o lençol esta displicentemente
mostrando suas belas, lisas e macias pernas, como ela é linda,
hoje mais bonita que há 20 anos, fico a admirando por uns
minutos, em seguida puxo o lençol para cobri-la, Giro sentado
e coloco as pernas para fora da cama, tateio o chão com os pés
em busca de minha sandália, sinto o piso frio na ponta dos
dedos, logo em seguida encontro minhas sandálias, sinto o
toque da borracha reciclada. Levanto calmamente e me estico
ao máximo, fazendo a saudação do sol, sinto as costelas frontais
estalarem, como que abrindo caminho para encher meus
pulmões do frescor da manhã, como se meu peito tivesse
expandido com o asana1 que acabara de fazer. Prossigo na
minha Yoga matinal. Yoga é uma das recomendações para a
longevidade, uma prática milenar de meditação e intronização
corporal, uma caricia matinal em todo meu corpo e aos meus
sete chakras 2.

Me dirijo ao banheiro em zigue-zague, me divertindo com a luz


não pontual, literalmente espalhada pelo teto, que me
acompanha como se eu fosse um astro no palco, tal como
fazem as crianças aqui de casa, como é bom ser criança de vez
em quando!

1 Asana - posição de Yoga


2Chakras são, segundo a filosofia ioga, canais dentro do corpo
humano(nadis) por onde circula a energia vital (prana) que nutre
órgãos e sistemas.
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Ao entrar no banheiro vejo que o sensor esta projetado no


espelho, indicando que meu banho está pronto. Nada daqueles
velhos aquecedores à gás ou a elétricos, verdadeiros mostrengos
anti-ecológicos e perigosos. Hoje em dia a tecnologia nos
permite um bom banho com 10 litros d’água, mais ou menos a
quantidade de um balde, temos de economizar, o Pacto Verde
Global (PVG), fez o preço da água disparar no mundo todo,
realmente não havia outra alternativa. O aquecedor de
microondas é eficiente, esquenta a água na medida exata, na
temperatura programada e por um sofisticado sistema controla
a água do chuveiro. A água que entra no ralo é filtrada e
reaproveitada para dar descarga na privada. Não existem mais
os registros nos banheiros, sensores ligam e desligam a água de
acordo com nosso movimento, detecta até quando estamos
ensaboados. Shampoo, sabonete e creme para cabelo são os
únicos elos do passado, mas os de hoje são todos bio-
degradáveis e diluem mais rapidamente, gastando menos água.
Como era bom ensaboar-se preguiçosamente sob o chuveiro,
quantas vezes quando jovem eu não cochilei ou cantei sob o
chuveiro, prazer que meus netos só conhecem pelas minhas
histórias, eles não entendem como podiamos brincar com a
água, tinha tanta água assim há vinte anos? Eles só conhecem
as piscinas de água reciclada. Com o controle das águas, tomar
banho de rio, mar ou lagoa é proibido, são áreas de segurança
nacional, fortemente vigiadas. Onde chegou a humanidade!
Onde nos levou o consumismo desenfreado, e principalmente o
descaso com a natureza.

O banho estava ótimo, dentro dos padrões atuais, abri os


braços e aguardei o soprador do chuveiro me secar com um
vento morno e perfumado, toalhas não existem mais, só mesmo
para uso em piscinas. Dei uma olhada no espelho e sensor
indicou que minha barba estava com 0,3 mm e sugeriu que
devia apara-la, normalmente espero ela chegar à 0,6 mm para
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aparar, mas como hoje eu teria de sair de casa aceitei a


sugestão. Olhei fixamente para a guia projetada no espelho e
toquei no sensor. Imediatamente um conjunto de feixes de laser
envolveu minha face, e em poucos segundos meu rosto parecia
“bundinha de neném”. Hora da higiene bucal, nada de escova
e pasta dental, muito menos água, a escovação é feita por uma
escova de ultra-som que limpa a fundo os dentes em conjunto
com um antisséptico engulivel, para dar um “gostinho de
limpeza” na boca.

Já no closet, ouvi um bip, e uma mensagem foi projetada na


porta do armário: “Hoje às 10h tem reunião na central de
interação corporativa. Confirma o compromisso?” Toquei a
projeção que representava o botão sim, e automaticamente
minha presença foi re-confirmada, assim como meu lugar no
transporte que foi confirmado para as 9:15 na minha porta.

Vivemos conectados, é como se cada parte de sua casa fosse


uma parte do computador que existia há 20 anos, ubiqüidade é
nome desta coisa. Ainda bem que tomamos de volta o controle
de nossa privacidade, podemos nos desligar a hora que desejar
e pelo tempo que desejar. Curioso falar isto, me remete à
“teletela” da obra distópica 1984 de George Orwell, há alguns
anos chegamos a pensar que ela se transformara numa
profecia, pavoroso.

Decidi me vestir despojadamente como sempre foi meu estilo,


uma boa calça jeans, uma camiseta de algodão transgênico e
meu mocassim de couro sintético, as roupas agora são mais
duráveis e absorvem menos odores e sujeira, em geral lavamos
roupas poucas vezes por ano, elas não precisam ser lavadas com
frequência. Não cansava de me olhar no espelho, e ver o que a
tecnologia havia feito por mim, cara bonito este.

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Um bip novamente, e no espelho do armário a mensagem de


que o café da manhã estava pronto, nem precisava do espelho,
o sistema de som já havia avisado, com aquele doce voz
feminina, estava cansado daquela voz masculina empostada,
muito aristocrática para meu gosto, parecia um “mordomo
Inglês resfriado”.

Penso no delicioso pãozinho francês crocante e quentinho, com


manteiga derretida e uma fatia de mortadela, acompanhado de
um café com leite bem quentinho e farto, de quebra um bolo
de milho ou fubá. Apenas penso, pois a realidade é um pouco
diferente, não é ruim, mas diferente, algo como você desejar
um refrigerante gelado e tomar um copo de mate, bom, mas
diferente.

Uma xícara de café com leite, duas torradas de pão integral


com manteiga sem colesterol e presunto com zero de gordura, e
para finalizar uma maçã, eu olhava decepcionado para meu
café da manhã, mas era o que estava prescrito na minha dieta
para hoje. Saco! Tem hora que sinto vontade de desligar a e-
governanta e fazer minhas traquinagens gastronômicas, volta e
meia a gente faz isto aqui em casa, principalmente aos
domingos quando nos acabamos literalmente em pizza.

Tomei meu café ouvindo as noticias do dia no sistema de som


da cozinha, o conceito de mídia e veículo estava bem mudado,
você pode ver, ler e ouvir noticias da mesma fonte, depende do
seu interesse, você escolhe o que quer saber. Volta e meia
comandava ao sistema para projetar, mas gostava de tomar café
ouvindo apenas, ouvir, assim como ler, exercita a imaginação,
ver e ouvir ao mesmo tempo nos “idiotiza”, sempre acreditei
nisto.

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Terminei meu café e peguei meu e-paper que já havia recebido


as notícias das editorias selecionadas: Tecnologia, economia,
política, ecologia, esportes e lazer. Procurava uma peça de
teatro para levar minha esposa à noite. Sentei-me
confortavelmente no banco jardim, debaixo de uma frondosa
mangueira, afinal ainda faltavam duas horas para o transporte
coletivo passar, e este era meu momento de ficar só, de reflexão
e interação com a natureza. Desde criança sempre tive uma
sinergia muito grande com a natureza, ela sempre foi meu
templo, sempre foi na natureza que tomei as decisões mais
importantes, e onde renovo minhas energias, até hoje, é
mágico.

O prático desta conectividade é que você não precisa receber as


informações diversas vezes, como no passado, que liamos na
internet, ouvíamos na TV ou no radio, e liamos novamente no
jornal, geralmente no dia seguinte. As noticias que ouvi na
cozinha não foram transferidas para o e-paper. Passei o dedo
no índice e escolhi logo a seção de lazer, e fiz uma busca pelas
palavras chaves teatro e drama, apareceram três opções,
observei as resenhas e comentários de cada uma, inclusive tinha
um post bem interessante sobre uma delas, justamente a que
escolhi depois de assistir um breve vídeo. Comprei os dois
ingressos, automaticamente o transporte coletivo foi agendado,
uma integração prática, e ainda ganhei um botão de rosas que
me seria entregue discretamente no teatro, para “impressionar
a patroa”. Quando poderia imaginar há 20 anos, que faria isto
tudo sentado debaixo da mangueira interagindo com pedaço
de plástico flexível e dobrável.

Vi que o Antônio, meu vizinho, estava online e resolvi brincar


com ele, um Botafoguense fanático, cliquei do último gol do
Flamengo, coloquei um texto debochado e enviei para ele. O
cara ficou uma fera, e interagindo mostrou no meu e-paper que
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o gol não valeu, ele circundava o jogadores e apontava que o


Flamengo estava impedido, e o juiz não poderia ter deixado
passar aquele gol. Me fez assistir o video por três vezes, quem
mandou mexer com um torcedor fanático. A minha sorte foi o
Luiz Carlos que interagindo na seção de economia me mostrou
que as ações da Aguabrás aumentaram quatro pontos
percentuais. Luiz é um grande investidor, já ganhou muito
dinheiro com ações, perdeu muito, mas ganhou muito mais. Ele
me sugeriu que ficasse atento, e que na primeira oportunidade
eu deveria comprar algumas. Cliquei na noticia e agendei um
alerta caso elas tivessem em um bom momento de compra.
Como se pode ficar sozinho debaixo da mangueira? Eu esqueci
de deixar meu perfil offline. Mas nada melhor do que ler as
noticias assim, em grupo, é uma diversão e pretexto para um
chope mais tarde.

O tempo voa, já eram quase 9h, fui avisado disto, e antes de


sair fui dar um beijo no José, meu neto, mas me lembrei que à
esta hora ele já estaria na aula. Arrisquei assim mesmo, entrei
no quarto e dei um beijo nele, era hora do intervalo e a
professora estava corrigindo os exercícios, e ele falou apontando
para a tela de interação:
- Olha Vô, acertei tudo.
A professora do outro lado endossou:
- O José é muito bom aluno, esperamos ele aqui na
sexta que é dia de interação pessoal e sociabilização.

Acenei positivamente com um sorriso e me despedi, já estava


de saída. Estava com saudades do Gabriel meu filho, já faziam
quase dois meses que ele a a esposa estavam viajando pela Ásia,
apresentando suas últimas pesquisas em nano-medicina. João
conheceu sua esposa, a Karen ainda na faculdade, ambos se
tornaram pesquisadores e foram contratados pelo mesmo
laboratório, não sei com agüentam se ver 24 horas por dia,
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talvez por ficarem tão compenetrados em suas pesquisas horas


a fio.

Ops! Quase esqueci de me despedir da minha esposa, um


beijinho pelo menos, relações pessoais e demonstração de afeto
são muito importantes no nosso micro-ambiente social, no
nosso lar. Foi uma conseqüência da migração do trabalho e
estudo dos seus lugares coletivos para nossas casas, tudo para
salvar o mundo. Ao chegar na porta do home office, percebi
que ela já estava em uma teleconferência com os clientes de
Portugal. Joguei um beijo no ar, fui correspondido e sai
satisfeito.

Fico em frente de casa esperando o transporte coletivo que irá


me levar à central de interação, o transporte individual é
praticamente proibitivo. Com as rígidas regras ambientais do
PGV, o preço do combustível fóssil, o mais poluente, foi parar
na estratosfera por conta dos ditos tributos verdes. Fica mais
barato encher o tanque de Champanhe. Mesmo no meu carro
que faz facilmente 80 km por litro, o custo seria muito alto, isto
sem contar com a cota semanal de quilometragem para estes
combustíveis. Não vejo a hora de comprar um carro à
hidrogênio e gozar da liberdade de locomoção.

Com a necessidade urgente de reduzir substancialmente a


emissão de CO2, os governos do mundo inteiro priorizaram
soluções para minimizar a necessidade de deslocamento e o
combustível fóssil foi praticamente banido do mundo. O
transporte coletivo foi otimizado ao máximo, você traça seu
roteiro e envia para uma central, que automaticamente aloca
veículos que passarão na sua rota, você é pego em casa e com
vaga garantida. Não existem mais as linhas de ônibus, somente
de trem e metrô. A capacidade do veiculo coletivo é
proporcional ao fluxo, é otimizado ao máximo, com isto a
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lucratividade das transportadoras compensou todo


investimento em adaptação para seus veículos à hidrogênio.
Etanol e biodiesel não eram a solução, reduziam a emissão de
gases, mas não na proporção que se fez necessária e foram
banidos, foi tudo muito rápido.

Um comportamento curioso, é que como passamos a maior


parte de nosso tempo nos nossos ambientes familiares, quando
encontramos estranhos sentimo-nos motivados a conversar,
conta-se histórias e piadas e o tempo passa voando. Com
menos veículos nas ruas, e as paradas dos coletivos
programadas, as vias que antes viviam engarrafadas, agora
mais desertas, se tornaram vias de trafego rápido. Há 20 anos
isto seria encarado como uma piada de mau gosto, uma utopia.

Estou quase chegando ao centro da cidade, quem conheceu o


centro há 20 anos, hoje deve estranhar, esta tão vazio que
parece um sábado a tarde. Algumas empresas mudaram suas
centrais de interação para o subúrbio, mas a minha preferiu
manter o velho escritório no centro. O bom é que o centro não
é mais tão cinzento, hoje temos arvores e alguns prédios
ficaram abandonados e foram transformados em florestas
verticais, parece uma montanha verde esculpida, só vendo para
entender. Aquele ar quente e seco e que entrava rasgando
nossas narinas foi substituído por um ar leve e fresco que
carrega com sigo o clima da floresta, respira-se com prazer.

Desço do transporte e ando em direção à central de interação


da minha empresa, cruzo o saguão, deserto mas imponente,
uma forte luz varre minha vista por uma fração de segundos e
uma gravação me informa para aguardar alguns minutos, pois
outras pessoas estão chegando para o mesmo andar. São as
novas normas verdes, até o transporte vertical, vulgo elevador,
fora otimizado, o consumo de energia é racionalizado ao
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extremo. Coletores fotovoltaicos armazenam a energia solar em


baterias, a iluminação quando não natural é LED , que possui
um consumo muito baixo e uma iluminação eficiente. Curioso
mesmo são as soluções de iluminação decorativa com fibras
óticas, coletores na fachada capturam a luz que é transmitida
pela fibra ótica e brotam do chão, do teto, de jardineiras, de
todos os lugares possíveis e imaginários, formando um show
visual que não deixa nenhum ônus com a natureza,
simplesmente não gasta energia, captura a luz solar e a utiliza
para iluminar interiores, genial. Pedro esta chegando, vejo que
ele, um sexagenário como eu esta em forma, lembro que há 20
anos eu era um gordo e hoje sou um esbelto jovem de 60,
pilulas, tecnologias alimentares e os avanços da medicina
simplesmente varreram a obesidade do planeta. Cumprimento
Pedro com um caloroso abraço, e o sistema de som anuncia que
já podemos subir, as portas do elevador se abrem e entramos.

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