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TV DESTINO

20/01/2009
Central Destino de Produção Cap. 12

FOGO SOBRE TERRA


Novela de
Walter de Azevedo

Inspirada no original de
Janete Clair
Colaboração de
Eduardo Secco

Direção
Claudio Boeckel e Marco Rodrigo

Direção Geral
Luiz Fernando Carvalho

Núcleo
Luiz Fernando Carvalho
Personagens deste capítulo

BÁRBARA CHICA VERA


HEITOR PEDRO BRUNO
DIOGO TONHO EDUARDA
CELESTE ZÉ MARTINS
TALITA BRISA
ANDRÉ CAMILA
LEONOR BRENO
VINÍCIUS CHRISTIANE
NARA VIVI

Atenção
“ Este texto é de propriedade intelectual exclusiva da TV DESTINO LTDA e por conter informações confidenciais, não
poderá ser copiado, cedido, vendido ou divulgado de qualquer forma e por qualquer meio, sem o prévio e expresso
consentimento da mesma.No caso de violação do sigilo, a parte infratora estará sujeita às penalidades previstas em
lei e/ou contrato.”
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 2

CENA 01. APARTAMENTO DE HEITOR. SALA. INTERIOR. NOITE

CONTINUAÇÃO. HEITOR, DIOGO E CELESTE ESTÃO SURPRESOS COM A PRESENÇA


DE BÁRBARA.

BÁRBARA — E aí? Eu sei que a minha beleza é estonteante e costuma deixar as


pessoas sem fala, mas... Vocês não vão dizer nada?

HEITOR — Minha filha!

HEITOR VAI ATÉ BÁRBARA E ABRAÇA A FILHA.

HEITOR — Que saudade que eu tava de você!

BÁRBARA — Eu também tava, papai.

HEITOR — Mas não parece. Ficar tanto tempo assim fora.

BÁRBARA — O senhor sabe como eu sou. Quando tô me divertindo perco a noção


do tempo.

BÁRBARA PASSA A MÃO CARINHOSAMENTE PELO ROSTO DO PAI.

BÁRBARA — Mas eu nunca esqueço do senhor, pai.

OS DOIS VOLTAM A SE ABRAÇAR. BÁRBARA OLHA PARA DIOGO.

BÁRBARA — Mas não é que até o meu irmão mais gato tá aqui pra me receber?

BÁRBARA VAI ATÉ DIOGO E O ABRAÇA.

DIOGO — Continua a mesma doidinha de sempre.

BÁRBARA — Se eu deixasse de ser ia perder a graça. Como é que você tá?

DIOGO — Tô bem.

BÁRBARA OLHA PARA CELESTE.

BÁRBARA — Você também tá aí.

CELESTE — Estou.

BÁRBARA — Nem tudo é perfeito, não é? (p) Ficou muito irritada com a minha
volta?

CELESTE — Não. Você não têm esse dom, minha querida.

BÁRBARA FAZ UMA CARA DE CHATEADA.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 3

BÁRBARA — Pôxa. Treinei tanto pra isso. Mas não faz mal! Juro que vou me
dedicar mais e da próxima vez eu consigo.

BÁRBARA SORRI CINICAMENTE PARA CELESTE, QUE RETRIBUI.

HEITOR — Minha filha, você acabou de chegar, não vai começar a implicar com
a Celeste, não é?

BÁRBARA SE DEITA NO SOFÁ.

BÁRBARA — Imagina, papai. E por acaso eu sou de implicar com alguém?

CELESTE — Nem precisa se preocupar, Heitor. Eu já tô acostumada.

BÁRBARA — Tá vendo. Eu até trouxe um presente pra ela.

CELESTE OLHA PARA BÁRBARA, ESTRANHANDO.

BÁRBARA — Um anti-rugas novo. Dizem que é maravilhoso. Achei que o seu não
tava fazendo muito efeito.

HEITOR — Minha filha....

BÁRBARA — Tá bom. Parei. Foi brincadeira.

BÁRBARA SE SENTA E DÁ UM TAPINHO NO SOFÁ AO SEU LADO.

BÁRBARA — Senta aqui, Diogo.

O RAPAZ SE SENTA AO LADO DA IRMÃ. HEITOR E CELESTE TAMBÉM SE


ACOMODAM.

BÁRBARA — Não sabia que o senhor estava aqui no Brasil. Desistiu da vida no
Canadá?

DIOGO — Não. Tô só passando uns dias.

HEITOR — Eu chamei o Diogo. Queria que ele me ajudasse com um projeto da


construtora.

BÁRBARA — Business.

CELESTE — Alguém precisa ganhar dinheiro pra você poder gastar.

BÁRBARA — Para nós podermos gastar, honey.

HEITOR — Mas será que vocês duas não podem parar com essas provocações?
Coisa mais desagradável.

CELESTE — Sua filha é quem começa.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 4

BÁRBARA — Diogo, a Christiane não veio com você?

DIOGO — Não. Eu vim sozinho.

BÁRBARA — Que bom pra você. (p) Pra mim também.

DIOGO SORRI.

BÁRBARA — Você me desculpa, mas essa sua mulherzinha, vou te contar.


Criaturinha mais chata. Não sei como você agüenta. Ela continua
pegando muito no seu pé?

DIOGO — Um pouco.

BÁRBARA — Eu não agüentaria nem metade do que você agüenta.

DIOGO — Eu sei. Mas eu preciso pensar na Vivi também.

BÁRBARA — E como tá a minha princesinha?

DIOGO — Tá linda. Inteligente, carinhosa.

BÁRBARA — Tô morrendo de saudades dela.

HEITOR — Quem sabe o Diogo não resolve voltar a morar no Brasil? Assim você
pode matar essas saudades.

BÁRBARA — É verdade, Di? Você tá pensando mesmo nisso?

DIOGO — Calma. Eu tô pensando na proposta que o tio me fez.

HEITOR — Ele tá fazendo jogo duro comigo.

BÁRBARA — Tá certo. Pede um salário bem alto. Seu Heitor anda muito muquirana
ultimamente.

HEITOR RI.

HEITOR — Muquirana?

CELESTE — Se ele fosse tão muquirana assim, você não teria passado tanto tempo
viajando.

BÁRBARA — Flor do meu jardim, quantidade não é qualidade. Com a sua idade
você já deveria saber disso. Eu fui mesmo pra muitos lugares, mas
poderia ter aproveitado muito mais se o papai tivesse me dado um pouco
mais de verba.

HEITOR — Bárbara gasta por dia o que uma família gasta no mês.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 5

BÁRBARA — E eu tenho culpa se eles gastam pouco?

HEITOR — Minha filha, já está na hora de criar juízo. Você não é mais nenhuma
menina.

BÁRBARA — Pronto. Me chamou de velha.

DIOGO E HEITOR RIEM.

HEITOR — Não é nada disso. Eu só acho que você deveria dar um rumo na sua
vida. Não dá pra ficar nesse oba-oba indefinidamente.

BÁRBARA — Sei muito bem que rumo é esse que o senhor ta me sugerindo. Diogo,
meu pai ta louco pra me casar. Quer se ver livre de mim.

DIOGO RI.

BÁRBARA — Você ri? Eu to falando sério. Eu to parecendo aquelas mocinhas de


interior encalhadas que o pai ta louco pra arranjar um pretendente. Tipo
A Megera Domada.

DIOGO — Mas casar é bom, Bárbara.

BÁRBARA — É? Então pode ficar com a minha parte. Imagina que eu vou ter que
me matar lavando cueca e cuidando de criança.

CELESTE — Do jeito que ela fala até parece que vai se casar com um peão de
obras.

BÁRBARA — Pra que eu vou mudar de vida se gosto tanto dessa que eu levo?

HEITOR — Porque eu não sou eterno. Uma hora vou morrer. E aí? Como é que
você vai fazer?

BÁRBARA — Papo baixo astral. Principalmente pra quem acabou de chegar de


viagem.

BÁRBARA SE LEVANTA.

BÁRBARA — Meus amores, adorei ver todos vocês, mas agora eu vou passar horas
no meu banho de espuma. Celeste, depois pede pra Luzia levar minhas
malas lá pro quarto. Beijinhos.

BÁRBARA SAI.

CELESTE — Sua filha não muda. Continua a mesma irresponsável de sempre.

DIOGO — Desde que nós éramos pequenos, a Bárbara já fazia essas coisas.
Sempre doidinha.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 6

CELESTE — Claro! Seu tio sempre fez as vontades dela. Por isso que a Bárbara
ficou assim. Falta de limite.

HEITOR — Sobrou pra mim.

CELESTE — Sobrou mesmo. Você sabe que o que eu estou dizendo é a mais
absoluta verdade.

CELESTE SE LEVANTA.

CELESTE — Vou mandar a Luzia pegar essas malas e depois vou dormir. Boa
noite, Diogo.

DIOGO — Boa noite.

CELESTE SAI.

HEITOR — Ta vendo? Você achou que só a Christiane era implicante?

OS DOIS SORRIEM.

HEITOR — Com a Bárbara de volta, essa casa vai ficar bem movimentada. Quero
ver se levo a Celeste comigo pra Divinéia, assim as duas não ficam se
engalfinhando.

DIOGO — O senhor já sabe quando vai?

HEITOR — Ainda não, mas não deve demorar muito.

DIOGO — Eu queria dar um pulo lá. (p) Faz muito tempo que eu não vejo o
Pedro.

HEITOR — Você não costuma falar com o seu irmão?

DIOGO — Não. Muito raramente. Nós acabamos nos afastando. (p) Eu acho que
o Pedro nunca me perdoou por eu ter ido embora e deixado ele lá.

HEITOR — Ele ficou porque quis, Diogo. Foi uma escolha dele, assim como você
teve a sua. Não seria justo você abrir mão de tudo só porque ele não quis
sair de Divinéia.

DIOGO — Eu sei, mas eu sinto falta dele. Sinto falta de estar com ele, de
conversar. De falar das nossas lembranças.

HEITOR — Eu entendo. (p) Diogo, eu acho que o Pedro não deve ter guardado
nenhuma mágoa. Ou pelo menos nenhuma muito forte. Nada que uma
boa conversa não resolva. Tenho certeza de que quando vocês se
encontrarem, não vão nem lembrar do que aconteceu.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 7

DIOGO — Tomara tio.

CORTA PARA:

CENA 02. APARTAMENTO DE HEITOR. QUARTO DE BÁRBARA. INT. NOITE

A CAM FOCALIZA O CHÃO DO QUARTO, AO SOM DA MÚSICA “SÓ PRA VARIAR” DO


BARÃO VERMELHO. VÁRIAS ROUPAS ESTÃO JOGADAS E VÃO SENDO MOSTRADAS
ENQUANTO A TOMADA SEGUE DO QUARTO ATÉ O BANHEIRO. LÁ DENTRO,
BÁRBARA ESTÁ EM UMA BANHEIRA CHEIA DE ESPUMAS. A MOÇA BRINCA COM A
ESPUMA, ASSOPRANDO E JOGANDO PRA CIMA.

BÁRBARA — Minha casinha, minha banheirinha, minha espuminha. Não é que eu


tava sentindo falta?

O CELULAR TOCA.

BÁRBARA — Hora mais chata pra alguém telefonar.

BÁRBARA PEGA O CELULAR, CONFERE QUEM ESTÁ FALANDO E ATENDE.

BÁRBARA — Talita, você não me dá sossego? Eu acabei de te deixar em casa. (p)


Quem? (p) Claro que eu não atendi os telefonemas do Gustavo. (p)
Porque ele é chato! (p) Como é? Ele te ligou? (p) E você atendeu? (p)
Talita, você é uma acéfala. Agora agüenta o cara. (p) Sei lá o que você
fala pra ele. Diz que eu morri. Que eu me casei com um sheik e to
morando num harém. Inventa qualquer coisa. (p) Não. Não é que eu não
goste dele. Eu só não tenho paciência.

CORTA PARA:

CENA 03. APARTAMENTO DE TALITA. QUARTO. INTERIOR. NOITE

TALITA FALA AO TELEFONE ENQUANTO TIRA AS ROUPAS DA MALA E AS GUARDA.

TALITA — Mas Bárbara, se você não quer nada com o menino, por que não
dispensa logo? (p) Sei. Porque você acha engraçado ver ele correndo
atrás de você. Isso não se faz. (p) Por que não.

TALITA SE SENTA.

TALIA — Bárbara, o Gustavo é um cara legal e gosta de você de verdade. O que


você faz com ele é maldade. (p) Não. Eu não sou a madre Teresa de
Calcutá. (p) Não. Eu também não quero ele pra mim. (p) Ta bem! Eu não
falo mais nada. Você pode fazer o coitado de bobo o quanto quiser, mas
vê se pelo menos atende os telefonemas dele, porque se não é pra mim
que ele vai ficar ligando! (p) Ta, amanhã a gente se vê. Doida.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 8

TALITA DESLIGA O TELEFONE.

TALITA — Essa não têm juízo mesmo.

TOCA A CAMPAINHA.

TALITA — Ah Meu Deus!

TALITA SE LEVANTA.

TALITA — Ele já chegou e ainda ta essa bagunça aqui!

TALITA JOGA AS ROUPAS QUE ESTÃO PELO CHÃO PARA BAIXO DA CAMA E
COLOCA AS MALAS NO ARMÁRIO. OLHA O ESPELHO PARA CONFERIR SEU VISUAL E
DEPOIS SAI.

CORTA PARA:

CENA 03. APARTAMENTO DE TALITA. SALA. INTERIOR. NOITE

TALITA ENTRA CORRENDO, VINDA DO QUARTO. SE ARRUMA NOVAMENTE E ABRE


A PORTA. É ANDRÉ. OS DOIS SORRIEM UM PARA O OUTRO.

ANDRÉ — Oi.

TALITA — Oi.

ANDRÉ ENTRA E TALITA FECHA A PORTA.

ANDRÉ — Demorei?

TALIA — Não. Já eu, acho que não posso dizer a mesma coisa.

ANDRÉ SORRI, SE APROXIMA DE TALITA E A ABRAÇA.

ANDRÉ — Viagem mais demorada, essa.

TALITA PASSA OS BRAÇOS EM TORNO DO PESCOÇO DE ANDRÉ.

TALITA — Sentiu a minha falta?

ANDRÉ — Demais.

ANDRÉ E TALITA SE BEIJAM.

TALITA — Bárbara não queria voltar, aí eu ia ficando com ela.

ANDRÉ — Não pode mais me deixar assim sozinho tanto tempo.

TALITA — Arranjou outra?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 9

ANDRÉ — Claro que não. Você é a única.

TALITA RI E VAI ATÉ O BAR PREPARAR DOIS DRINQUES.

TALITA — Vou fingir que acredito.

ANDRÉ SE SENTA.

ANDRÉ — Ta duvidando de mim?

TALITA — Tô. Mas você sabe que eu não me importo.

ANDRÉ — Não mesmo?

TALITA — Claro que não.

TALITA ENTREGA UM COPO PARA ANDRÉ E SENTA-SE AO SEU LADO SEGURANDO


OUTRO.

TALITA — A gente não combinou desde o início que o nosso relacionamento ia


ser aberto?

ANDRÉ — Combinou.

TALITA — Então pronto. (p) André, você sabe tanto quanto eu que o que
acontece com a gente é tesão puro. É pele. Não têm porque ficar com
essa história de cobrança, de romance, de preocupação. Assim é bem
melhor. Não é?

ANDRÉ BEIJA TALITA.

ANDRÉ — Eu adoro.

TALITA — Eu também.

ANDRÉ DEITA SOBRE TALITA NO SOFÁ E OS DOIS SE BEIJAM.

CORTA PARA:

CENA 04. CUIABÁ. EXTERIOR. NOITE

TOMADAS MOSTRANDO A CIDADE DE CUIABÁ À NOITE.

CORTA PARA:

CENA 05. APARTAMENTO DE LEONOR. SALA. INTERIOR. NOITE

LEONOR ESTÁ DE PÉ, OLHANDO OS LIVROS DE VINÍCIUS QUE, AO SEU LADO,


PARECE UM POUCO NERVOSO.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 10

LEONOR — Então quer dizer que esses livros aqui são do seu amigo?

VINÍCIUS — É. São.

LEONOR — Você pegou emprestado pra estudar?

VINÍCIUS — Claro né, mãe! Tenho que me virar. A gente não têm dinheiro pra
comprar, eu peço emprestado.

LEONOR SE APROXIMA E ABRAÇA O FILHO.

LEONOR — Filho, você sabe que a gente vive com dificuldade. Eu queria ter
dinheiro pra você comprar todos os livros que precisa, mas eu não tenho

VINÍCIUS — Não têm porque não quer.

LEONOR OLHA SÉRIA PARA VINÍCIUS.

LEONOR — Você não vai começar com essa história de novo, vai?

VINÍCIUS — E adianta? A senhora é empacada.

LEONOR — Sou empacada! Sou e tenho os meus motivos!

VINÍCIUS — Que motivos? Por que eu não posso aceitar nenhuma ajuda do meu
pai?

LEONOR — Porque não! Porque eu não quero!

VINÍCIUS — Só que a vida não é só sua! É minha também! E porque a senhora é


teimosa eu é que acabo ficando sem as coisas que preciso!

LEONOR OLHA MAGOADA PARA O FILHO.

LEONOR — Não fala uma coisa dessas, Vinícius. Eu sempre me matei de trabalhar
pra nunca faltar nada pra você. Não seja injusto comigo.

VINÍCIUS FICA SEM GRAÇA.

VINÍCIUS — A senhora sabe que não foi isso que eu quis dizer. (p) Eu sei que a
senhora sempre se sacrificou por mim. Eu reconheço isso. Só que eu
acho que a gente não precisava passar por nem metade das dificuldades
que a gente passa.

LEONOR — Vinícius, eu trabalhei o dia inteiro, eu tô cansada. Não quero ficar


falando sobre esse assunto agora.

VINÍCIUS — A senhora nunca quer falar sobre esse assunto! Nunca!

LEONOR — Vinícius...
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 11

VINÍCIUS — Se a senhora não quer falar, eu também não quero!

VINÍCIUS PEGA SUA MOCHILA E SAI BATENDO A PORTA.

LEONOR — Vinícius!

LEONOR FAZ UM MOVIMENTO DE IR ATRÁS DO FILHO, MAS PÁRA, SE SENTA NO


SOFÁ E COLOCA AS MÃOS NA CABEÇA.

LEONOR — Será que eu nunca vou ter paz? Será que esse fantasma do Arthur
nunca vai sair da minha vida?

CENA 06. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

A TOMADA MOSTRA A CASA DA FAZENDA, AO SOM DA MÚSICA “TOCANDO EM


FRENTE” DE MARIA BETHÂNIA.

CORTA PARA:

CENA 07. FAZENDA DE JOÃO. COZINHA. INTERIOR. NOITE

NARA E CHICA ESTÃO SENTADAS CONVERSANDO.

NARA — Virose?

CHICA — Virose.

NARA — Mas que raio de doença é essa?

CHICA — O médico falou, falou, mas eu num entendi foi é nada. To aqui
achando que nem ele sabe o que é. Mas ele disse que é normal.

NARA — Normal porque o filho num é dele. Pra menina precisa fica no hospital
num deve de sê coisa poca.

CHICA — Pois é. Ele perguntou se ela tava comendo direito. Disse que a pobre
tava fraquinha.

NARA — O que num farta nessa cidade é criança fraquinha. Esse povo vive
numa miséria desgraçada, Chica.

CHICA — E ocê acha que eu num sei disso? Ainda mais dispois da sêca.

NARA — É, mas Ivone e Quebra-Galho são colono da fazenda de Arthur Braga.


Lá num farta nada não. Só em casa de pobre.

CHICA — É. Eu só sei é que a pobre ta lá no hospital.

NARA — Cruz credo. E como é que tá Ivone?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 12

CHICA — Dá pena de vê. Ainda mais depois que o médico falô isso. Ia passá a
noite com Rodoviária lá no hospital. O Doutor disse que parece que ela
vai fica boa logo.

NARA — Menos mal.

CHICA — Pois é.

CHICA OLHA O RELÓJIO NA PAREDE.

CHICA — Pedro tá demorando.

NARA — Tá mesmo.

CHICA — Eu queria conversa com ele.

NARA — Pedro anda muito quieto pro meu gosto. Vive pelos canto, pensando
na vida. Ele deve de tá com arguma coisa na cabeça.

CHICA — É. E o pior é que eu acho que a curpa é minha.

NARA — Sua? Uai. O que foi que ocê fez pra ele ficá amuado desse jeito?

CHICA — Eu disse que...

PEDRO E TONHO ENTRAM.

PEDRO — Cheguei.

CHICA — Ocê demorô, Pedro.

PEDRO — Tinha muita coisa pra fazê. Gente, quero apresentá pra vocês o
Tonho. Ele começou a trabalhá hoje na fazenda.

TONHO — Noite.

NARA — Noite.

PEDRO — Tonho, essa aqui é Nara, que é como se fosse a minha mãe.

NARA — Ocê seja bem vindo.

TONHO — Muito obrigado.

PEDRO — E essa belezura aqui é minha noiva, Chica Martins.

CHICA SORRI UM POUCO ENVERGONHADA.

CHICA — Como vai, Tonho?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 13

TONHO — Vou bem, sim senhora.

PEDRO — Trouxe Tonho porque, como ele chegou hoje, não têm nada em casa.
Têm janta pra gente?

NARA — E por acaso algum dia fartô comida aqui? Ocês sente aí que eu já vô
coloca na mesa.

PEDRO — Fica à vontade, Tonho. Senta aí.

TONHO — Dá licença.

TONHO E PEDRO SE SENTAM.

CORTA PARA:

CENA 08. SÍTIO DE ZÉ MARTINS. COZINHA. INTERIOR. NOITE

BRISA ESTÁ LAVANDO A LOUÇA DO JANTAR ENQUANTO ZÉ MARTINS, NA JANELA,


FUMA SEU CIGARRO DE PALHA.

BRISA — Num intendi, pai. O senhor tá me dizendo que acha que Beato Juliano
sabe quem foi que robô os boi do Pedro?

ZÉ MARTINS — Se ele sabe, eu num sei, mas que ele tá escondendo arguma coisa, isso
eu boto minha mão na fogo.

BRISA — Mas por quê que ele haverá de fazê isso?

ZÉ MARTINS — Num sei. Brisa, eu conheço Juliano há mais de trinta ano. Quando
nóis conversamo eu vi no olho dele que num tava me falando a verdade.

BRISA PÁRA DE LAVAR A LOUÇA E OLHA PARA O PAI.

BRISA — Eu acho que o senhor tá é veno demais. Beato Juliano é incapaz de


num falá a verdade.

ZÉ MARTINS — É. Só que às veiz, a vida surpreende a gente. Nóis acaba fazeno o que
num gosta de fazê.

BRISA — Conversa mais sem pé nem cabeça.

ZÉ MARTINS — Pode sê, mas eu tenho cá as minha dúvida.

BRISA — Então o senhor fica aí com as suas dúvida que eu vô é vê minha


novela.

BRISA SAI
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 14

ZÉ MARTINS — Se Juliano tivé escondeno arguma coisa, eu vô descobri o que é. Ô


então num me chamo Zé Martins.

CORTA PARA:

CENA 09. CASA DE BRENO. SALA DE JANTAR. INTERIOR. NOITE

CAMILA ESTÁ JANTANDO SOZINHA. BRENO CHEGA.

BRENO — Oi minha filha.

CAMILA — Oi pai.

BRENO BEIJA A TESTA DA FILHA E COMEÇA A FAZER SEU PRATO.

BRENO — Tô morrendo de fome. Tive um dia duro hoje lá na prefeitura. Um


bando de gente querendo ser atendida, pedir coisa. Acho que eles pensam
que prefeito é Papai Noel.

CAMILA — Eles pedem porque precisam, pai.

BRENO — Nada. Pedem por pedi. Esse povo adora pedir. Não pode passar
ninguém melhorzinho que eles já estendem a mão.

BRENO SE SENTA E VAI COMEÇAR A COMER.

BRENO — Cadê sua mãe?

CAMILA — Ih! Essa aí passou o dia inteiro enfiada no quarto.

BRENO — Por quê? Tá doente?

CAMILA — Não. Foi na reunião da quermesse e voltou assim. Já cansei de bater


na porta, mas ela não abre de jeito nenhum. Tá lá que não pára de chorar.
Vai acabar desidratando.

BRENO — Não me faltava mais nada.

BRENO PENSA UM POUCO E DEPOIS SE LEVANTA.

BRENO — Eu vou lá falar com a sua mãe. Se não for ela vai ficar falando que
ninguém liga pra ela, que ninguém se importa.

CAMILA — Vai mesmo.

BRENO — Cristo, dai-me paciência. Vou comer tudo frio depois.

BRENO SAI.

CORTA PARA:
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 15

CENA 10. CASA DE BRENO. QUARTO DO CASAL. INTERIOR. NOITE

LOURDES ESTÁ DRAMATICAMENTE DEITADA NA CAMA. A CENA TÊM UM TÔM


COMICO. ELA PARECE TER CHORADO BASTANTE. BATEM NA PORTA.

LOURDES — Já falei que não vou comer! Nem vou sair daqui! Me deixem em paz!

BRENO (OFF) — Lourdinha, minha flor, o que foi que aconteceu?

LOURDES FAZ UMA CARA DE RAIVA E JOGA A ALMOFADA NA PORTA.

LOURDES — Lourdinha? Lourdinha é uma pinóia! Sai daqui, Breno! Eu não quero
nem ouvir a sua voz!

BRENO (OFF) — Mas o que foi que eu fiz?

LOURDES — Você não sabe?

BRENO (OFF) — Não.

LOURDES — O desgraçado ainda por cima é cínico!

BRENO (OFF) — Abre aqui, meu amor. Vamos conversar.

LOURDES — Não abro! Não abro! (p) Pensando bem, eu abro sim!

LOURDES ABRE A PORTA, FURIOSA. BRENO SORRI SEM GRAÇA.

BRENO — Oi... Meu bem. Aconteceu alguma coisa?

LOURDES — Aconteceu. Aconteceu que eu percebi que você têm a mesma


serventia que dois pés esquerdos num sapato!

BRENO — Mas o que foi que eu fiz?!

LOURDES — O que foi que você não fez! Como sempre, você não fez nada!

LOURDES VOLTA A SE DEITAR NA CAMA. BRENO FECHA A PORTA E SE APROXIMA


UM POUCO CAUTELOSO.

BRENO — Então... O que foi que eu... Não fiz?

LOURDES — Você nem sabe, não é, Breno Athayde?!

BRENO — Pra dizer a verdade... Não.

LOURDES — Por acaso você não tá lembrado de onde eu pedi pra você ir comigo?

BRENO PENSA UM POUCO.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 16

BRENO — No mercado?

LOURDES ATIRA O TRAVESSEIRO EM BRENO.

LOURDES — E eu lá sou mulher de ir em mercado?! Breno, a vontade que eu tenho


é de esganar você!

BRENO — Mas aonde eu esqueci de ir? Me fala de uma vez!

LOURDES — Na reunião da quermesse!

BRENO FAZ UMA EXPRESSÃO DE QUEM ENTENDEU TUDO.

BRENO — Ah, então é isso.

LOURDES — É! É isso! Eu pedi o seu apoio pra cumprir as minhas funções de


primeira dama, e o que você faz? Me vira as costas!

BRENO — Também não foi assim.

LOURDES — Foi! Claro que foi!

BRENO — Tá bom. Então foi.

LOURDES — Eu tive de ir até lá sozinha! E você sabe o que aconteceu?

BRENO — O que?

LOURDES — Eu fui expulsa!

BRENO — Como é?

LOURDES — Expulsa! Eu fui expulsa da Igreja que nem uma cachorro sarnento!

BRENO — Mas por quê?

LOURDES — Por que o padre não gosta de mim! Por que dona Hilda não gosta de
mim! Por que as beatas não gostam de mim!

BRENO — Você não podia se política. Ninguém gosta de você.

LOURDES — Sai daqui, Breno.

BRENO — Mas...

LOURDES — Sai daqui!!

BRENO — Tô indo! Tô indo!

BRENO SAI E LOURDES BATE A PORTA.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 17

LOURDES — Eu ainda acabo com a raça desse pateta!

CORTA PARA:

CENA 11. CASA DE BRENO. SALA DE JANTAR. INTERIOR. NOITE

CAMILA ESTÁ TERMINANDO DE JANTAR. BRENO ENTRA COM UMA CARA


ASSUSTADA.

BRENO — Sua mãe tá louca.

CAMILA — Faz tempo.

BRENO — Eu tô falando sério, minha filha. Ela acabou de me dizer que o Padre
expulsou ela da Igreja.

CAMILA — Como é?

BRENO — É isso mesmo.

BRENO SE SENTA E COMEÇA A JANTAR.

BRENO — Você acredita mesmo que o Padre Luís ia botar a sua mãe pra fora da
Igreja?

CAMILA — Claro que não!

BRENO — Pois é. Eu também tenho certeza que não, mas não é o que ela diz.

CAMILA — O senhor sabe que ela exagera.

BRENO — Sei. (p) Em todo caso, amanhã eu vou falar com o Padre. Vou tirar
essa história à limpo. Pelo menos ela vai parar de dizer que eu não ligo
pra ela, que não escuto o que ela fala. Quero ver qual é a história que
Padre Luís vai me contar. (p) Passa o bolinho.

CAMILA PASSA A TRAVESSA DE BOLINHOS PARA O PAI.

CORTA PARA:

CENA 12. FAZENDA DE JOÃO. SALA. INTERIOR. NOITE

PEDRO ESTÁ NA PORTA E CHICA SENTADA NO BRAÇO DA POLTRONA.

PEDRO — Até amanhã, Tonho.

PEDRO FECHA A PORTA.

PEDRO — Parece ser bom sujeito.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 18

CHICA — Parece sim. Gostei dele.

PEDRO — Eu também.

PEDRO SE SENTA NO SOFÁ E CHICA LOGO DEPOIS SE JUNTA A ELE.

CHICA — Tonho é muito bonzinho, mas eu tava louca pra ele ir embora.

PEDRO — Por quê?

CHICA — Porque eu quero tê uma prosa cocê.

PEDRO — Ultimamente eu tenho é medo das suas prosa.

CHICA — Pedro, ocê tá bravo comigo?

PEDRO — Bravo? Tá doida? Porque eu ia ficá bravo com ocê, Chica?

CHICA — Por causa daquele monte de coisa que eu lhe falei. Fiquei pensano em
casa e acho que eu fui longe demais. Num quero que ocê fique pensando
que eu lhe acho um fracassado.

PEDRO — Eu sei, Chica. Eu entendi o que ocê quis dizer.

CHICA — Entendeu mesmo?

PEDRO — Claro que sim. Vem cá.

CHICA SE RECOSTA AO PEITO DE PEDRO, QUE PASSA O BRAÇO EM TORNO DE SEU


OMBRO.

PEDRO — Tanto eu entendi, que tenho pensado.

CHICA — Nara disse que ocê anda acabrunhado.

PEDRO — Nara sempre acha que eu tô acabrunhado, ou preocupado. Ocê


esquece que ela me qué como se fosse filho? Mãe têm essas coisa. (p)
Ocê fez bem em me dizê as coisa que disse. Eu acho que... Eu acho que
ocê têm razão.

CHICA OLHA SURPRESA PARA PEDRO.

CHICA — Ocê acha?

PEDRO — Acho.

CHICA — Então...

PEDRO — Não tô dizendo que vô fazê o que ocê me sugeriu. (p) Também não tô
dizendo que não vou. Mudar pra outra cidade, começar uma vida nova.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 19

Tudo isso é uma mudança muito grande. É esquecer tudo o que eu vivi
até agora e começar do nada.

CHICA — Mas é isso mesmo, Pedro. É um recomeço. É esquecê essa vida besta.

PEDRO OLHA PARA CHICA E SORRI.

PEDRO — Às vezes ocê parece uma criança falando.

CHICA — Tá zombando de mim?

PEDRO — Não. Claro que não. (p) É que pra você parece que as coisas são tão
fáceis.

CHICA — E não são?

PEDRO — Não sei. (p) Mas olhando pra você e lhe ouvindo falar, parece que
são.

PEDRO SORRI PARA CHICA, QUE RETRIBUI. ELA VOLTA A SE ACONCHEGAR AO


PEITO DELE.

CHICA — Já pensô que vida boa que a gente podia de tê numa cidade grande?

PEDRO — O que ocê qué tanto fazê na cidade grande? Me fala.

CHICA — Um monte de coisa! A primeira é andá de ônibus.

PEDRO COMEÇA A RIR.

PEDRO — Andar de ônibus?

CHICA — É! Andá de ônibus! Qual é o pobrema? Tenho curpa se num têm ônibus
aqui? Acho tão chique. A gente entra, dá o dinheiro praquele hóme que
fica lá sentadinho, aí vai pro seu lugar e fica lá na janelinha, vendo as
coisa passá.

PEDRO — O que mais?

CHICA — Queria comê pizza. Sempre vejo as pessoa comendo pizza na televisão.
Deve de sê uma coisa muito fina. (p) Ocê acha que eu ia precisá de umas
aula?

PEDRO — Aula? Aula de quê?

CHICA — Aula pra aprendê como é que se comporta. Eu sou uma chucra, né
Pedro!

PEDRO — Deixe de bestêra.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 20

CHICA — Sabe o que eu ia fazê também? Muda meu nome.

PEDRO — Mudar de nome?

CHICA — É.

PEDRO — Mas mudar de nome por quê?

CHICA — Porque ele é feio. É nome de caipira. Chica. Olha só que coisa mais
feia. É nome de rocêra mesmo.

PEDRO — E por acaso ocê acha que é fácil assim mudar de nome?

CHICA — Se é fácil eu não sei, mas que eu vou mudar, vou! Vou colocar um
nome chique. (p) Débora.

PEDRO — Como é?

CHICA — Vou me chamar Débora. Acho esse nome lindo.

PEDRO — Débora? Tá bom. Só ocê mesmo, Chica Martins.

PEDRO E CHICA SE ABRAÇAM RINDO E DEPOIS SE BEIJAM.

CORTA PARA:

CENA 13. SÃO PAULO. EXTERIOR. NOITE

TOMADAS DE SÃO PAULO À NOITE, AO SOM DA MÚSICA “NEVER SURRENDER” DE


COREY HART.

CORTA PARA:

CENA 14. APARTAMENTO DE HEITOR. QUARTO DE DIOGO. INT. NOITE

DIOGO, DEITADO NA CAMA, APANHA O TELEFONE E FAZ UMA LIGAÇÃO.

DIOGO — Chris, sou eu.

CORTA PARA:

CENA 15. VANCOUVER. EXTERIOR. NOITE

TOMADA DO PRÉDIO DE DIOGO À NOITE.

CORTA PARA:

CENA 16. APARTAMENTO DE DIOGO. QUARTO. INTERIOR. NOITE

CHRISTIANE ESTÁ SENTADA NA CAMA, COM UM LIVRO ABERTO NO COLO E


FALANDO AO TELEFONE.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 21

CHRISTIANE — Você ainda não sabe quando volta, Diogo?

DIOGO (OFF) — Preciso ficar mais uns dias.

CHRISTIANE — Eu conheço você, Diogo. Você tá se deixando envolver pelo seu tio.
Aposto que ele está tentando convencer você a trabalhar com ele aí no
Brasil.

DIOGO (OFF) — Não é nada disso, Christiane.

CHRISTIANE — Tá. Tá bom. O Heitor lhe chamou aí na maior inocência. Só queria


saber a sua opinião. Eu não sou nenhuma idiota. O seu tio é uma raposa.

DIOGO (OFF) — Chris, por favor, não começa.

CHRISTIANE — Tá certo. Eu resolvi que não vou falar mais nada sobre esse assunto.
Não quero que você fique dizendo que eu sou chata, que tô atrapalhando
a sua carreira. Você é quem sabe, Diogo.

DIOGO (OFF) — Cadê a Vivi? Eu quero falar com ela.

CHRISTIANE — Tá dormindo.

DIOGO (OFF) — Já? Mas é cedo ainda.

CHRISTIANE — Ela brincou muito na escola. Chegou exausta. Eu falo pra ela que
você ligou.

DIOGO (OFF) — Não esquece. Tô morrendo de saudades dela. (p) É melhor eu desligar
agora. Um beijo.

CHRISTIANE — Outro.

CHRISTIANE DESLIGA O TELEFONE.

CHRISTIANE — Foi incapaz de dizer que tava com saudades de mim. Só da Vivi.

VIVI ENTRA.

VIVI — Mamãe, quem era no telefone?

CHRISTIANE — O seu pai.

VIVI — Por que a senhora não me chamou? Eu disse que queria falar com ele!

CHRISTIANE — Seu pai tava com pressa.

VIVI — Ele perguntou de mim?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 22

CHRISTIANE — Já disse que ele tava com pressa! Ele... Ele perguntou se tava tudo
bem por aqui.

VIVI FICA TRISTE.

CHRISTIANE — Meu amor, vá pra sala assistir um pouco de tv que eu já vou preparar
o jantar.

VIVI — Tá bem.

VIVI SAI.

CHRISTIANE — Se você quer tanto ficar aí pelo Brasil, que fique, mas só vai falar com
a Vivi quando voltar pra cá.

CORTA PARA:

CENA 17. SÃO PAULO. EXTERIOR. NOITE

VÁRIAS TOMADAS MOSTRANDO O AMANHECER EM SÃO PAULO E DEPOIS ALGUNS


DE SEUS PONTOS MAIS CONHECIDOS, TERMINANDO COM A FACHADA DO PRÉDIO
DA CONSTRUTORA GONZAGA. DURANTE A CENA TOCA A MÚSICA “AMARGO” DE
ZECA BALEIRO.

CORTA PARA:

CENA 18. CONSTRUTORA. ANTE-SALA. INTERIOR. MANHÃ

VÁRIAS PESSOAS CIRCULAM PELO CENÁRIO, ENVOLVIDAS COM SEU TRABALHO.


HEITOR E DIOGO SAEM DO ELEVADOR E ANDAM ATÉ A MESA DE VERA.

HEITOR — Bom dia, dona Vera.

VERA — Bom dia, Doutor Heitor.

HEITOR — Você tá lembrada do meu sobrinho, Diogo?

VERA — Claro. Como vai?

DIOGO — Bem, obrigado.

HEITOR — Bruno já chegou?

VERA — Já.

HEITOR — Peça pra ele vir até a minha sala.

VERA — Sim senhor.

HEITOR E DIOGO ENTRAM NA SALA.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 23

CORTA PARA:

CENA 19. CONSTRUTORA. SALA DE HEITOR. INTERIOR. MANHÃ

HEITOR, DIOGO E BRUNO ESTÃO SENTADOS NO SOFÁ CONVERSANDO.

BRUNO — E aí, Diogo? Tá preparado pra abandonar o Canadá e voltar pra terras
Tupiniquins?

DIOGO — Ainda não sei.

HEITOR — O Diogo tá em dúvida se deve ou não trabalhar com a gente.

DIOGO — Não é isso, tio. O senhor sabe que eu teria o maior prazer em poder
trabalhar com o senhor. As minhas dúvidas são outras.

HEITOR — O Diogo viu todo o projeto. Ele está reticente por causa da história...
Por causa da história da inundação.

BRUNO — Sei.

DIOGO — É um pouco complicado pra mim imaginar que a cidade aonde eu


nasci e que meus pais viveram vai acabar.

BRUNO — Acabar é um pouco forte.

DIOGO — Eu sei. Meu tio já me explicou tudo. Teoricamente eu concordo, mas


preciso elaborar isso direito na minha cabeça. Não to falando que eu não
vou aceitar, mas eu preciso de um tempo.

HEITOR — Eu entendo isso, meu filho. O seu envolvimento é mais do que


profissional. É pessoal. Têm a ver com as suas raízes.

BRUNO — Exatamente.

HEITOR — Mas eu também não quero ficar martelando em cima desse assunto.
Diogo vai pensar que eu trouxe ele até aqui pra fazer pressão e não foi
nada disso. Quero que ele veja como a construtora está.

DIOGO — Pelo que já deu pra notar, tá bem diferente da última vez que eu vi.

SEM QUE DIOGO PERCEBA, BRUNO FAZ UM MOVIMENTO PARA HEITOR, DANDO A
ENTENDER QUE PRECISA FALAR COM ELE.

HEITOR — Diogo, eu faço questão de andar com você por aí, mas antes eu... Eu
preciso resolver uns assuntos pendentes aqui com o Bruno. Por que você
não aproveita pra rever o André?

DIOGO — Tudo bem, tio.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 24

DIOGO SE LEVANTA.

HEITOR — Você pede pra Vera lhe mostrar onde fica a sala de projetos. Num
instante eu lhe alcanço.

DIOGO — Tá certo. Até depois.

DIOGO SAI.

HEITOR — O que foi, Bruno? O que você não podia falar na frente do Diogo.

BRUNO — Na dúvida achei melhor conversar primeiro só com você. (p) Saiu o
relatório de impacto ambiental sobre a construção da barragem.

HEITOR FICA SURPRESO.

HEITOR — Saiu? Mas quando?

BRUNO — Hoje mesmo. Oficialmente, amanhã, mas eu já recebi o e-mail com a


cópia e lhe passei.

HEITOR SE LEVANTA E VAI ATÉ SEU COMPUTADOR, CONFERIR O E-MAIL.

HEITOR — E o que ele diz? É a favor ou contra a construção da barragem?

BRUNO FICA OLHANDO PARA HEITOR.

CORTA PARA:

CENA 20. CONSTRUTORA. SALA DE PROJETOS. INTERIOR. MANHÃ

DIOGO E ANDRÉ SE ABRAÇAM.

ANDRÉ — Rapaz, há quanto tempo a gente não se vê.

DIOGO — Acho que uns seis ou sete anos.

ANDRÉ — Senta aí que eu vou pegar um café pra gente.

DIOGO SE SENTA E ANDRÉ SERVE DUAS XÍCARAS DE CAFÉ.

ANDRÉ — Como é que tão as coisas lá no Canadá?

DIOGO — Tão bem. A empresa que eu trabalho é bem legal. A cidade é boa.

ANDRÉ ENTREGA UMA XÍCARA PARA DIOGO.

ANDRÉ — Você não sente saudades do Brasil?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 25

DIOGO — Sinto. Sinto muita. Só que foi lá que eu fiz a minha vida. Não adianta
ficar sofrendo à toa. Eu vivo lá, tenho que ser feliz lá.

ANDRÉ — Se eu tivesse uma oportunidade faria a mesma coisa que você fez.

DIOGO — Ir com a cara e a coragem é meio complicado. Eu fui porque me


chamaram. Tinha emprego certo. Mas também não fica pensando que lá
eu faço alguma coisa diferente do que faria aqui. Trabalho é o mesmo.
Se você quer saber, profissionalmente, hoje em dia a Gonzaga é muito
mais interessante do que a firma em que eu trabalho.

ANDRÉ — Tá falando da barragem, né?

DIOGO — Você tá sabendo?

ANDRÉ — Todo mundo tá sabendo. Claro que não oficialmente.

OS DOIS RIEM.

ANDRÉ — Eu já soube, não me pergunte as fontes, que seu tio tá pensando no


meu nome pra participar do projeto.

DIOGO — Isso é ótimo pra você, André. Um rapaz novo ainda e já numa obra
tão importante.

ANDRÉ — É. (p) E você?

DIOGO — O que tem eu?

ANDRÉ — Também não é segredo que o Doutor Heitor sonha em ter você
encabeçando a construção da hidrelétrica. (p) Você largaria tudo lá no
Canadá pra fazer isso.

QUANDO DIOGO VAI RESPONDER, EDUARDA ENTRA. ELA FICA ENCANTADA COM O
RAPAZ.

EDUARDA — Me desculpem. André, eu não sabia que você estava em reunião.

ANDRÉ — Não têm problema, Eduarda. Não é nenhuma reunião.

ANDRÉ E DIOGO SE LEVANTAM.

ANDRÉ — Eu acho que vocês não se conhecem. Essa moça linda é a Eduarda,
uma das nossas melhores profissionais.

EDUARDA SORRI.

EDUARDA — Isso é bondade dele.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 26

ANDRÉ — Não é não. Eduarda, esse é Diogo.

EDUARDA — Diogo? O Diogo que é...

DIOGO — Diogo sobrinho do Doutor Heitor? Esse mesmo.

DIOGO SORRI E ESTENDE A MÃO PARA EDUARDA, QUE SORRI INTERESSADA E


RETRIBUI.

CORTA PARA:

CENA 21. APARTAMENTO DE LEONOR. SALA. INTERIOR. MANHÃ

LEONOR E VINÍCIUS ESTÃO TERMINANDO DE TOMAR CAFÉ.

LEONOR — Filho, é melhor você ir. Daqui a pouco começa a sua aula.

VINÍCIUS — É verdade.

VINÍCIUS LEVANTA, APANHA SUA MOCHILA E COMEÇA A ANDAR NA DIREÇÃO DA


PORTA.

LEONOR — Não vai me dar um beijo, não?

CONTRARIADO, VINÍCIUS VOLTA E DÁ UM BEIJO EM LEONOR.

LEONOR — Não fica bravo comigo por causa daquela nossa conversa de ontem.

VINÍCIUS — Fico... Fico, mas depois passa.

VINÍCIUS SORRI PARA A MÃE.

VINÍCIUS — Até parece que eu consigo ficar muito tempo sem falar com a
senhora.

LEONOR SE LEVANTA E ABRAÇA O FILHO.

LEONOR — Ô, meu filhote querido. Te amo muito, sabia?

VINÍCIUS — Também te amo. Mesmo a senhora sendo cabeça dura desse jeito.

OS DOIS RIEM.

VINÍCIUS — Deixa eu ir. Até de noite.

LEONOR — Até.

VINÍCIUS SAI.

CORTA PARA:
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 12 Pag.: 27

CENA 22. PRÉDIO DE LEONOR. FACHADA. EXTERIOR. MANHÃ

VINÍCIUS SAI DO PRÉDIO E VAI ATÉ O PONTO DO ÔNIBUS, ONDE APANHA SUA
CONDUÇÃO. ALGUNS SEGUNDOS DEPOIS, UM TÁXI PÁRA NA ENTRADA DO
EDIFÍCIO. ARTHUR SAI DELE. CONFERE O ENDEREÇO NUM PEDAÇO DE PAPEL E
ENTRA.

CORTA PARA:

CENA 23. APARTAMENTO DE LEONOR. SALA. INTERIOR. MANHÃ

LEONOR ESTÁ TERMINANDO DE ARRUMAR A BOLSA PARA IR TRABALHAR,


QUANDO A CAMPAINHA TOCA.

LEONOR — Ué. Será que o Vinícius esqueceu alguma coisa? Já vai!

LEONOR ABRE A PORTA E FICA CHOCADA AO VER ARTHUR. ELE APARENTA ESTAR
UM POUCO SEM GRAÇA.

ARTHUR — Oi, Leonor.

LEONOR FICA OLHANDO PARA ARTHUR SEM REAÇÃO. A IMAGEM CONGELA E UMA
BARRAGEM DE HIDRELÉTRICA SE FECHA SOBRE ELA. A BARRAGEM SE ROMPE E
UMA INUNDAÇÃO TOMA CONTA DA TELA.

FIM DO CAPÍTULO

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