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Conpozissões imfãtis

Millôr Fernandes

A Vaca

A vaca é um bicho de quatro patas que dá carne de vaca. Tem um rabo pra
espantar as moscas e uma cara muito séria de quem está fazendo sempre essa
coisa importante que é o leite.

O marido da vaca é intitulado boi. A vaca tem dois estômagos e por isso fica
sempre com a comida indo e vindo na boca que, quando a gente faz, a mamãe diz
que porcaria! Já vi ordenhar vaca, que é quando ela faz aquela cara fingindo que
não está gostando nada.

Vaca dizem que já custa muito cara viva, agora no açougue custa muito mais e em
bife então nem se fala. A vaca a professora ensina que ela dá leite mas nas horas
de tirar é que a gente vê que ela dá mas custa. Vaca só se alimenta de grama e
daí eu não sei porque o leite não é verde.

Se a gente fica perto ela fica olhando com olhar de que a gente fez alguma coisa
com ela e ela está muito magoada. Eu acho que todas as vacas vieram dos
Estados Unidos porque ainda não perderam o jeitão de quem masca chiclete.
Colombo

Colombo era um homem de cabelo comprido que tinha três navios: Santa Maria,
Pinta e Nina. Um dia resolveu descobrir a América, para o que resolveu pedir
dinheiro emprestado à Rainha Isabel, que lhe emprestou. Aí ele partiu no meio de
muita gente que não acreditava que a América existia, exceto Américo Vespúcio.

Viajaram tanto tempo que, afinal, quando Colombo já estava também meio
desanimado, os marinheiros chegaram perto dele e disseram que ou ele descobria
a América dentro de três dias ou voltavam todos pra Europa. Aí Colombo não teve
outro remédio; pôs um ovo em pé e descobriu a América.

A Banana

A banana é uma coisa muito parecida com uma salsicha só que da salsicha se
come a casca mas a mamãe não deixa a gente fazer o mesmo com a casca da
banana. As salsichas a gente come elas deitadas mas as bananas se come é em
pé. As salsichas o professor diz que dependem do engenho humano e as
bananas nascem nos cachos mas ninguém conhece a máquina de colocar elas
lá dentro das cascas.

As bananas pertencem ao reino vegetal, agora as salsichas nunca se sabe de


onde é que vêm. Tem muita gente que não gosta de salsicha mas não tem
pessoa nenhuma que não aprecie banana, exceto a que escorrega na casca de
uma.

A Água

A água é uma substância fria e mole. Não tão fria quanto o


gelo nem tão mole quanto gema de ovo porque a gema de
ovo arrebenta quando a gente molha o pão e a água não. A
água é fria mas só quando a gente está dentro. Quando a
gente está fora nunca se sabe a não ser a da chaleira, que
sai fumaça. A água do mar mexe muito mas se a gente põe
numa bacia ela pára logo. Água serve pra beber mas eu
prefiro leite e papai gosta de cerveja.

Serve também pra tomar banho e esse é o lado mais ruim


da água. Água é doce e é salgada quando está no rio ou no
mar. A água doce se chama assim mas não é doce, agora a
água salgada é bastante. A água de beber sai da bica mas
nunca vi como ela entra lá. Também no chuveiro a água sai
fininha mas não entendo como ela cai fininha quando chove
pois o céu não tem furo. A água ainda serve também pra
gente pegar resfriado que é quando ela escorre do nariz.
Fora isso não sei mais nada da água.
O Telefone

"O telefone é um aparelho preto que quando a gente erra o número outra pessoa
atende. Isso do outro lado. Deste, o número nunca é errado porque a gente é
quem liga. Quando não tem ninguém no outro lado pra atender então tem uma
pessoa que fica fazendo tã-tã-tã o tempo todo e não adianta a gente gritar que
ela não sai disso. O telefone serve para muitas coisas mas eu não sei quais são,
isso é coisa que ouvi dizer. Lá em casa papai não gosta do telefone, mamãe não
gosta e minha irmã não gosta, mas quando toca saem todos correndo. O melhor
do telefone é a linha cruzada e é nessa ocasião que a gente ouve o que não
deve."
O Relógio
"O relógio é o que anda mas não tem pernas. Isto é, tem duas pernas, como a
gente, mas coladas na barriga, lá dele. Serve pra gente ver que está atrasado
pro colégio de manhã, e pra saber quanto tempo falta pra acabar a aula. O
relógio inda é muito bom pra gente rir quando é o do papai, que a gente adianta
meia hora e então o papai salta da cama e faz tudo correndo, pra não perder o
trabalho, mas de noite quando ele chega vem com aquela cara e logo
perguntando qual foi de vocês que fez aquela gracinha, de novo hoje de manhã?
Fora disso o relógio só é bom quando quebra e a gente vê que lá dentro ele está
cheio de carrapeta."

Uma bola é o que rola.

Branco é o sem cor nenhuma nele.

Colo é o que a gente quer de noite,


mas de dia o quintal é melhor.
Galinha é pra gente correr atrás
a não ser as que estão no choco.

Comida tem sempre demais no prato


mas sobremesa nunca tem bastante.

Crescido é o que se fica ao deixar de ser pequeno.

Lagartixa é pra gente arrancar o rabo


e ver ele mexendo sozinho.

Cachorro é onde a gente bota a culpa


duma porção de coisas que foi a gente que fez.

Machucado é quando não se presta


atenção nenhuma no que a mamãe diz.
Sonho é o que dá um medo danado, mas quando a gente
acorda a mãezinha está bem quentinha ali junto.

Irmão é pra gente ter muita raiva


e depois fazer as pazes.

Buraco é o que sobra quando


se tira terra de dentro dele.

Quente é o que a gente procura quando está frio, frio.

Resfriado é o que escorre do nariz.

Pai é com quem a gente tem conversas


de homem pra homem.

Mosca é pra se matar com o jornal dobrado.


Botão é pra gente andar sempre desabotoado.

Cachorro é pra gente chatear ele,


a não ser os que avançam.

O Pif-Paf/O Cruzeiro 1946

A Montanha

"Montanha é uma coisa que a gente chega muito cansado lá em cima. Agora pra
baixo parece até que tem alguém empurrando. A montanha quem fica lá em cima
fica pequenininho mas isso só se a gente está cá embaixo porque lá em cima a
gente acha pequenininho o que não subiu. No mapa a montanha tem nome
todos eles difíceis de decorar mas agora quando a gente chega lá em cima dela
nunca vê nome nenhum. Na montanha vem um vento na cara da gente e faz um
frio como se a capota do automóvel estivesse aberta e isso é muito engraçado
porque montanha não corre. Papai diz sempre pra gente tomar cuidado e não
cair lá em baixo mas isso eu só vi no cinema."

O Leão
"O leão é um animal que há muito tempo não vai ao barbeiro. Senão teria cortado o cabelo e ficaria muito
igual à mulher dele. O leão tem a cabeça muito grande que é para não poder fugir da jaula. Agora na jaula
quem põe ele lá é o guarda e aí está por que é o rei dos animais. O leão dizem que é feroz mas deve ser
quando a gente não está olhando porque quando a gente está olhando ele fica o tempo todo dormindo e
não há jeito de enferocizá-lo e quem fica furioso com isso é o guarda. O leão também papai gosta muito de
jogar nele mas isso só quando sonha com elefante. E aí é que dá cobra."

A Vitrola

"A vitrola não é uma televisão. Na televisão a gente tem as pessoas cantando como elas são, mas na
vitrola não. Na vitrola o fabricante tem que ter um trabalho danado para não aparecer a cara do cantor que
eu acho que muita gente não gosta. A vitrola também não é um rádio, é sim um aparelho sem estação de
rádio com uma agulha muito inteligente, que a gente coloca em cima de um disco e ela vai lendo todas as
palavras que estão escritas."

O Escuro
"O escuro é onde a gente vê o que não está lá. Vem quando a mamãe diz: "Boa noite, dorme direitinho,
meu filhinho" e apaga a luz. Aí a gente só sente os barulhos e fica pensando noutras coisas
completamente diferentes daquelas que tem no quarto quando o quarto está claro. Aí dá muito medo e a
gente chora até que a mãe da gente volta e acende a luz e o escuro sai pro corredor."

A Vitrine

"A vitrine é uma caixa de vidro que a gente fica do lado de fora. Do lado de dentro tem muitas coisas como
manequins, roupas, sapatos, sobretudo brinquedos e, sobretudo mesmo, doces. Os doces eles põem lá
dentro que é pras moscas não pousar e a gente não lamber. Na vitrine a única coisa que pode botar a
boca no doce é o nosso reflexo. É nas vitrines que a gente se vicia em chuchar o dedo."

O Doutor
O Sexo

"O sexo é uma coisa que todo mundo tem, só com a diferença que nas mulheres é feminino
e nos homens é masculino. É uma coisa que quando a gente quer saber mais sobre, a
mamãe manda perguntar ao papai e o papai diz que depois explica. Eu já sei também que o
sexo é uma forma de energia para fazer funcionar a telefônica, porque noutro dia minha tia
disse que se não existisse ele (sexo) os telefones do mundo não funcionavam nem a
metade."

O Guarda-Chuva

"O guarda-chuva foi uma coisa que começou como guarda-sol, mas aí choveu. É
feito de um cabo, um pedaço de pano e uma porção de varetas que entram nos
olhos das outras pessoas que passam e, se elas não se desviam e dizem um
palavrão, vão ficando cegas. O pano é preto no de papai e colorido no da mamãe
e serve para deixar a chuva escorrer toda pra dentro do sapato. O principal do
guarda-chuva da mamãe, que é novo, é que ele não abre nunca, e o do papai,
que é velho, é que não fecha nunca."

A Eletricidade

"A eletricidade é o que dá choque. No fio lá de casa é só o susto. Agora nos da rua muita
gente morre a não ser os passarinhos que nem ligam. A eletricidade é também o que dá a
luz elétrica que papai sempre diz que se esqueceu de pagar ela quando o homem vem
cortar. A luz elétrica não é como a luz do sol pois precisa de lâmpada pra acender e pra
queimar. Fora isso eu não sei mais nada de eletricidade a não ser a televisão mas essa até
mesmo o papai diz que ninguém entende."

Os Adultos

"Os adultos são gente crescida que vive sempre dizendo pra gente fazer isso e
não fazer aquilo. Interrompem sempre o que a gente está fazendo pra mandar
fazer outra coisa que a gente não quer, mas quando a gente interrompe eles por
qualquer motivinho o menos que apanha é uma espinafração na frente dos de
fora. Adulto promete muita coisa, agora fazer mesmo que é bom eu nunca vi.
Quando a gente cobra, eles dizem que menino chato ou então falam esqueceram
e vão fazer no domingo que vem. Eles sempre dizem que no seu tempo não era
assim mas nunca fazem o que obrigam a gente a fazer, como apanhar tudo o
que caiu no chão, andar sempre limpo e dizer somente a verdade. Os adultos
também obrigam a gente a vestir muito limpinho pra ir nas festas mas eles
mesmos vão de qualquer maneira que às vezes, até dá vergonha, como aquela
calça toda apertadinha da mamãe e aquela toda largona do papai. Eu quando
crescer vou ser adulto só porque sou obrigado senão eu ia ser sempre
pequenininho."

A Criança

"A criança é uma coisa assim bem depressa, assim bem macia, cheia de muitas
palavras erradas que todo mundo ri. Elas gostam bastante só de brincar e têm
medo de apanhar porque estão sempre fazendo aquilo que não devem. Elas
querem tudo que vêem e pedem com a mão e com o olho. É muito difícil obrigar
uma criança a se lavar, agora a se sujar não é não. Criança é muito teimosa e
nunca faz o que os mais velhos mandam de modo que tem muita que ninguém
quer. É por isso que eu nunca vi pai e mãe sem filho mas tem muito filho sem pai
nem mãe."
AUTO-RETRATO
Eu sou um menino maior que muitos e menor que outros. Na cabeça tenho cabelo que
mamãe manda cortar muito mais do que eu gosto e, na boca, muitos dentes, que doem.
Estou sempre maior que a roupa, por mais que a roupa do mês passado fosse muito
grande. Só gosto de comer o que a mãe não me quer dar e ela só gosta de me dar o que
eu detesto. Em matéria de brincadeiras as que eu gosto mais são as perversas, mas essa
minha irmãzinha grita muito.
Fernandes, Millôr. Conpozissõis imfãtis.
Rio de Janeiro: Nórdica, 1975, p. 11

A CIDADE
“ A cidade é um montão de gente tentando fugir dos automóveis .A gente que consegue
entra nas lojas, nos cinemas e nos cafés, tudo muito depressa como se fosse último dia de
tudo.Quando a gente vai entrando na cidade vai perdendo a educação e quando vai saindo
vai virando educada de novo. Nas ruas tem sempre uma porção de gente querendo vender
uma porção de coisas que a gente não quer de modo nenhum, mas nas lojas é difícil
encontrar o caixeiro para vender o que a gente quer. Agora a ocasião em que a cidade fica
mais bonita é de noite, quando todas as lojas acendem as luzes de nylon .
Minha cidade é tão grande que nem do alto do morro a gente vê ela toda. Faz calor
no verão, às vezes, um pouquinho de frio no inverno. A gente brinca muito na praia, que
tem uma areia que dá muito apetite depois que a gente brinca nela, de modo que a gente
come tanto que parece, às vezes,que a comida é maior do que a gente. Agora, de automóvel
a cidade acaba logo e papai disse que um dia nós vamos no Rio de Janeiro. Mas o melhor
mesmo da minha cidade são as férias que é quando a gente vai passar uns tempos noutro
lugar.”