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24º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental

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III-156 - COMPÓSITOS DE MATRIZ DE POLIETILENO DA BAIXA DENSIDADE RECICLADO REFORÇADO COM RESÍDUO DE EMBALAGENS CARTONADAS

Lidiane Radtke (1) Acadêmica do curso de Engenheira Ambiental, Bolsista de Iniciação Científica, Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Cláudia Mendes Mählmann (2) Professora do Departamento de Química e Física da Universidade de Santa Cruz do Sul, UNISC; Doutoranda em Engenharia de Minas, Metalúrgica e de Materiais pela Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – PPGEM/UFRGS; Mestre em Física pela Universidade Federal de Santa Catarina; Graduada em Física pela Universidade de Santa Cruz do Sul. Adriane Lawisch Rodríguez (3) Professora do Departamento de Engenharia, Arquitetura e Ciências Agrárias da Universidade de Santa Cruz do Sul, UNISC; Doutora em Engenharia pela Universidade Tecnológica de Berlim, Alemanha; Mestre em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela Escola de Engenharia da UFRGS; Engenheira Química pela Escola de Engenharia da PUCRS. Liane Mählmann Kipper (4) Professora do Departamento de Química e Física da Universidade de Santa Cruz do Sul, UNISC; Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina, Mestre em Física pela Universidade Federal de Santa Catarina, Física pela Universidade de Santa Cruz do Sul.

Endereço (1) :

Fax: (51) 37177515, e-mail: lidianeradtke@mx2.unisc.br.

Av. Independência, 2293, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil - CEP: 96815-900, Fone: (51) 37177390,

RESUMO

Os materiais compósitos a cada dia estão mais presentes em nossas vidas, variando suas aplicações na arquitetura, na engenharia, na indústria automotiva, embalagens e até construção civil. No presente trabalho foram investigadas as propriedades que os compósitos obtidos apresentaram através de ensaios físico- químicos e mecânicos. Como matriz foram utilizados os termoplásticos virgens: PEBD Braskem – EB 861. O plástico pós-consumo, oriundo de filmes plásticos (sacos e sacolas), foi moído em moinho de facas e aglutinado na Planta Piloto de Reciclagem de Plásticos da UNISC. A fase dispersa (reforço) foi obtido através da trituração de embalagens cartonadas pós-consumo, secagem em estufa (80º) e de nova trituração em liquidificador industrial, para uma melhor desagregação do material. Para a obtenção do compósito utilizou-se resina e reforço em forma de camadas, formando uma placa homogênea, foi utilizada a fração mássica (% Wr) 40%. Para a produção da placa foi utilizado o processo de compressão a quente em molde de aço. As formulações processadas foram PEBD virgem e pós-consumo (puros), e compósitos com matriz de PEBD virgem e pós-consumo. As amostras foram analisadas utilizando os ensaios de dureza superficial, densidade e tração. Os resultados indicaram a possibilidade de utilização deste tipo de fase dispersa em compósitos de matriz termoplástica, viabilizando a utilização das embalagens longa vida pós-consumo, visando possíveis aplicações destes compósitos em diversas áreas.

PALAVRAS-CHAVE: Reciclagem, materiais compósitos, termoplásticos, embalagens cartonadas.

INTRODUÇÃO

Atualmente está sendo dada muita ênfase à preservação e conservação do meio ambiente como forma de garantir um desenvolvimento sustentável. Entre os diversos danos causados ao meio ambiente, um está relacionado com os resíduos plásticos. Esses resíduos, em geral, levam muito tempo para sofrerem degradação espontânea e, quando queimados, produzem gases tóxicos.

A presença desses resíduos plásticos e também embalagens cartonadas no meio ambiente tem representado uma preocupação crescente da sociedade em função de seu alto volume e lenta degradação. Quando o lixo é depositado em lixões, os problemas principais relacionados ao material plástico provêm da queima indevida e sem controle. Quando a disposição é feita em aterros, os plásticos dificultam sua compactação e prejudicam a

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decomposição dos materiais biologicamente degradáveis, pois criam camadas impermeáveis que afetam as trocas de líquidos e gases gerados no processo de biodegradação da matéria orgânica.

Os polímeros são considerados um dos maiores vilões ambientais, pois podem demorar séculos para se degradar e ocupam grande parte do volume dos aterros sanitários. A reciclagem é uma das soluções mais viáveis para minimizar o impacto causado pelos resíduos plásticos ao meio ambiente. Os termoplásticos, mais largamente utilizados, são materiais que podem ser reprocessados várias vezes pelo mesmo ou por outro processo de transformação. Quando submetidos ao aquecimento a temperaturas adequadas, esses plásticos amolecem, fundem e podem ser novamente moldados. Vários aspectos motivam a reciclagem dos resíduos poliméricos contidos nos resíduos sólidos urbanos, por exemplo, a economia de energia, a preservação de fontes esgotáveis de matéria-prima, a redução de custos com disposição final do resíduo, a economia com a recuperação de áreas impactadas pelo mau acondicionamento dos resíduos, o aumento da vida útil dos aterros sanitários, a redução de gastos com a limpeza e a saúde pública e a geração de emprego e renda.

O grande interesse no reaproveitamento desses resíduos tem feito surgirem novas técnicas de reciclagem,

como seu emprego para obtenção de materiais compósitos. Um compósito consiste em um material compostos por duas fases distintas; a matriz, que é contínua e envolve a outra fase, chamada de fase dispersa ou reforço. Nas últimas décadas tem sido observado um relevante crescimento na aplicação dos materiais compósitos em geral, em substituição aos materiais convencionais. Essa evolução, em grande parte, se deve às propriedades superiores e/ou específicas desses materiais.

No caso dos compósitos poliméricos, a sua aplicação em estruturas leves, onde a resistência e rigidez específicas são fundamentais em seu desempenho como um todo, a busca pelo aprimoramento desses materiais se torna intensa. O enfoque dessa linha de pesquisa tem sido dado aos estudos do comportamento mecânico desses materiais. Os estudos têm sido desenvolvidos para fibras sintéticas e naturais. A inclusão de reforços naturais visa à obtenção de novos materiais de forma que possam vir a somar em termos de inovação tecnológica. O estudo da reutilização de embalagens cartonadas se enquadra em uma nova linha de pesquisa que tem como objetivo um melhor reaproveitamento das matérias primas existentes e uma preocupação com o meio ambiente, visto que os resíduos são jogados sem nenhum tratamento em rios, lixões, encostas, etc.

O presente trabalho versa sobre a utilização de polietileno de baixa densidade pós-uso e de embalagens longa

vida para obtenção de um material compósito, utilizando-se a reciclagem mecânica.

MATERIAIS E MÉTODOS

Preparação da fase dispersa A preparação da fase dispersa consistiu na obtenção das embalagens longa vida com coleta seletiva domiciliar, limpeza e corte das mesmas em pedaços menores com uma tesoura. Então, elas foram imersas em água por 4 horas e trituradas em meio aquoso, durante dez minutos. O excesso de água foi retirado do material com o auxílio de uma peneira. Secou-se o material obtido em estufa a 80 ºC durante 12 horas.

O material seco apresentou-se em forma de pedaços grandes e muito compactados, sendo difícil de

desagregar. Visando posterior processamento os grânulos foram novamente triturados a seco. Para a segunda

trituração manteve-se o mesmo tempo de 10 minutos. Observou-se uma total desagregação do material, formando flocos leves, os quais foram utilizados na preparação das amostras dos compósitos na forma de reforço.

Preparação da matriz termoplástica Como matriz foi utilizado o termoplástico virgem PEBD Braskem – EB 861. A matriz pós-consumo de PEBD oriunda de filmes plásticos (sacos e sacolas) foi moída em moinho de facas e aglutinada na Planta Piloto de Reciclagem de Plásticos da UNISC.

Obtenção dos compósitos Para a obtenção dos compósitos realizou-se a composição de placas, na forma de sanduíche, com a fração mássica do reforço (% Wr) de 40%. Utilizou-se para a produção da placa do compósito o processo de compressão a quente, com um molde de aço. Nas figuras 1 e2 são apresentados, respectivamente a prensa e o molde utilizados. No processo utilizou-se temperatura de 130 ºC,15 minutos para pré-aquecimento do molde,

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5 minutos para a prensagem da amostra com uma carga constante de 4 toneladas. As formulações processadas foram, PEBD virgem e pós-consumo puros, PEBD virgem e pós-consumo com fase dispersa.

puros, PEBD virgem e pós-consumo com fase dispersa. Figura 1 – Prensa hidráulica para compressão a

Figura 1 – Prensa hidráulica para compressão a quente.

Figura 1 – Prensa hidráulica para compressão a quente. Figura 2 – Molde de aço com

Figura 2 – Molde de aço com uma camada de resina de PEBD.

Avaliação das propriedades do material Realizou-se a avaliação das propriedades das amostras obtidas, através de ensaios e procedimentos descritos em normas técnicas:

٠ Ensaio de tração: realizou-se este ensaio conforme norma ASTM-D638, velocidade do ensaio de 500 mm/min, na Máquina Universal de Ensaios Mecânicos EMIC DL 10000.

٠ Densidade: a medida de densidade foi realizada através da norma ASTM D618-96 em uma balança

analítica para ensaio de densidade da marca Import Denver Instrument Company.

٠ Dureza: a análise de dureza foi realizada conforme a norma ASTM D 2240, no equipamento Durômetro Shore GSD – 702 Teclock Politest.

RESULTADOS

As placas de material compósito obtidas apresentaram boa distribuição da fase dispersa, uma vez que foi utilizada para o processamento a formação de um sanduíche polímero/reforço/polímero, antes da prensagem do material. Na figura 3 e 4 são apresentadas as amostras processadas, sendo que as placas da figura 3 são compósito de matriz polietileno de baixa densidade pós-consumo (C PEBD PC), placa de polietileno de baixa densidade pós-consumo ( PEBD PC), e da figura 4 são compósito de matriz polietileno virgem (C PEBD V) e placa de polietileno de baixa densidade virgem (PEBD V).

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Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental Figura 3 : C PEBD PC e PEBD PC

Figura 3 : C PEBD PC e PEBD PC

Sanitária e Ambiental Figura 3 : C PEBD PC e PEBD PC Figura 4: C PEBD

Figura 4: C PEBD V e PEBD V

Nas figuras 4 e 5 são apresentados, respectivamente, os resultados dos ensaios de tração, módulo de elasticidade e tensão máxima do ensaio de tração. Foi verificada pequena variação no módulo de elasticidade entre as formulações puras e o compósito, bem como para o polímero virgem e pós-consumo, indicando o aumento da rigidez do material com a inclusão da fase dispersa. E para a tensão na força máxima observou-se a diminuição desta propriedade quando da inclusão do reforço.

300 200 100 0 E (MPa)
300
200
100
0
E (MPa)

Amostras

PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

PEBD V

PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

C PEBD V

PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

PEBD PC

PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

C PEBD PC

Figura 4: resultados do ensaio de tração – módulo de elasticidade

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Tensão na Força Máxima (MPa)

Tensão na Força Máxima (MPa) 20 15 10 5 0 Amostras PEBD V C PEBD V
20 15 10 5 0 Amostras
20
15
10
5
0
Amostras
PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

PEBD V

PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

C PEBD V

PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

PEBD PC

PEBD V C PEBD V PEBD PC C PEBD PC

C PEBD PC

Tensão na Força Máxima (MPa) 20 15 10 5 0 Amostras PEBD V C PEBD V

Figura 5 : resultados do ensaio de tração – tensão na força máxima.

Nas figuras 6 e 7 são apresentados respectivamente os resultados dos ensaios de dureza shore D e de densidade. Verificou-se diminuição significativa da dureza e pequena diminuição da densidade com a inclusão da fase dispersa.

85 80 75 70 65 60 Amostras PEBD V C PEBD V PEBD PC C
85
80
75
70
65
60
Amostras
PEBD V
C
PEBD V
PEBD PC
C PEBD PC
Dureza (Shore D)

Figura 6: resultados do ensaio de dureza superficial.

1 0.8 0.6 0.4 0.2 0 Densidade (g/cm³)
1
0.8
0.6
0.4
0.2
0
Densidade (g/cm³)
Amostras PEBD PC
Amostras
PEBD PC

PEBD VC PEBD V C PEBD PC

PEBD V C PEBD V C PEBD PC

C PEBD V

PEBD V C PEBD V C PEBD PC

C PEBD PC

Figura 7: resultados do ensaio de densidade

CONCLUSÕES

Os resultados obtidos através dos ensaios estudados indicaram a diminuição da resistência mecânica do material com a incorporação da fase dispersa de embalagens longa vida pós-consumo em matriz de polietileno de baixa densidade, virgem ou pós-consumo. Estes resultados podem estar indicando problema de adesão interfacial fase dispersa/matriz, que poderia ser controlada ou minimizada pelo uso de um compatibilizante, ou pela diminuição de fração mássica da fase dispersa usada na composição da amostra. Ou até dificuldade da matriz molhar a fase dispersa, pela alta quantidade utilizada para a formulação deste último em consideração à matriz utilizada.

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A distribuição da fase dispersa na matriz foi homogênea gerando um material visualmente interessante que

pode ser aplicado para fins de decoração e revestimento.

A tensão mecânica máxima à tração dos compósitos estudados diminuiu em relação às amostras de polímero

puro, contudo sua rigidez sofreu aumento, indicando que este tipo de reforço pode ser utilizado para casos onde não ocorrem solicitações mecânicas significativas. Com o conhecimento das propriedades dos compósitos processados podem-se prever aplicações para este tipo de material, considerando as limitações das matrizes termoplásticas em relação à temperatura e degradação ambiental.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem o apoio recebido da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio Grande do Sul, da FAPERGS, do Pólo de Modernização Tecnológica do Vale do Rio Pardo e do Programa de Iniciação Científica da UNISC.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. JAVIERRE, C.; CLAVERÍA, I.; PONZ, L.; AÍSA, J.; FERNÁNDEZ, A. Influence of the recycled material percentage on the rheological behaviour of HDPE for injection moulding process. Waste Management. Article in press, 2006.

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5. NEVES, F. Reciclagem de alumínio e polietileno presente nas embalagens cartonadas TETRA PAK.

Disponível em: Artigos Técnicos -http://www.cempre.org.br/artigos.php, acesso em julho de 2006.

6. BONELLI; C. M. C and MANO, E. B. – Revista Gerenciamento Ambiental, São Paulo, SP, 3, p. 48,

2001.