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Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos

Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural. Textos Completos. Realização Curso de História ISSN 2178-1281

TAYLORISMO E/OU PSICOTÉCNICA? DEBATE ACERCA DOS FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO GESTOR EDUCACIONAL ROBERTO MANGE

Rodrigo Oliveira de Araújo 1

RESUMO Roberto Mange (1885-1955) foi engenheiro franco-suíço radicado no Brasil desde 1913, quando ocupou a Cátedra de Mecânica Aplicada às Máquinas na Escola Politécnica de São Paulo. Desde então se envolveu também em trabalhos educacionais especialmente voltados para a educação operária. Neste escopo se destacam os trabalhos de: superintendente do Curso de Mecânica Prática (1923);diretor na Escola Profissional Mecânica do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (1924); organizador do Serviço de Seleção Profissional da Estrada de Ferro Sorocabana (1930); organizador e diretor do Centro Ferroviário de Ensino e Seleção Profissional (CFESP) (1934) e idealizador do Serviço de Aprendizagem Industrial (SENAI) (1942).Viajou diversas vezes à Europa a fim de tomar contato com modernas técnicas de ensino, onde conheceu os métodos da Psicotécnica. Alguns autores destacam o Taylorismo como base teórica de Mange, outros entendem que Psicotécnica e Taylorismo não poderiam ser associados por comportarem dimensões conflitivas, já que o ensino seria prática alheia à obra de Taylor. Neste sentido, se torna imprescindível a comparação com a obra de Münsterberg (1913), a quem Mange (1934) considera como quem deu a definição que “desde então serviu de corpo de doutrina” à Psicotécnica. PALAVRAS-CHAVE: Roberto Mange; Educação; Psicotécnica; Taylorismo; Classe dos Gestores.

INTRODUÇÃO

São Paulo entre os anos de 1910 a 1930 passou por um momento sui generis em seu

desenvolvimento. Ao mesmo tempo em que via o crescimento acelerado de seu parque

industrial, especialmente após a primeira guerra mundial, viu também o ápice das práticas de

resistência operária à submissão no processo de trabalho. Isso colocava os industriais paulistas

diante de uma situação peculiar e especialmente contraditória, pois ao mesmo tempo em que

viam suas empresas prosperarem - local da onde emergia seu poder -, também viram que

internamente a este espaço a contestação e a insubordinaçãocresciam a olhos vistos. Em

resposta a esta situação, dialeticamente também crescia a repressão, que passou a visar

lideranças, operários e pobres de forma geral, aumentando ainda mais o clima explosivo com

relação à ordem instituída.Foidentro desta situação que os industriais passaram a se organizar

através das instituições corporativistas, cujo expoente mais bem sucedido é o da FIESP 2 .

1 Mestrando em História pelo PPGH-UFG e bolsista Capes/REUNI. 2 Inicialmente o CIESP (Centro da Indústria do Estado de São Paulo) desempenhava as funções da FIESP (Federal das Indústrias do Estado de São Paulo). Porém, devido a transformações na legislação acerca da sindicalização patronal durante o governo Vargas, para os industriais manterem suas prerrogativas quanto a

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Nos anos 1920, a identificação de alguns desses empresários com o fascismo foi notória. Enquanto Pupo Nogueira traduzia uma obra que o encantara, sobre o corporativismo, os empresários davam loas aos sucessos políticos de Mussolini e Salazar. Matarazzo e Crespi, durante as décadas de 20 e 30, jamais esconderam suas simpatias pela ditadura do Duce: chegaram a se organizar politicamente no fascismo, contribuindo para este, financeiramente, com parte dos lucros que obtinham. Na verdade, essa “inclinação pela ideologia fascista era sintoma de profunda crise no desenvolvimento do capitalismo industrial brasileiro.” (HARDMAN & LEONARDI, 1991, p. 165).

Um corporativista traduzido pela CIESP - local onde Pupo Nogueira foi secretário desde a fundação em 1929 - foi o economista e político fascista romeno MihailManoilescu (1891-1950). Manoilescu ficou conhecido na ciência econômica pelo chamado “argumento Manoilescu”. Foi amplamente lido e citado no Brasil, merecendo destaque no pensamento de homens como Roberto Simonsenmais destacado líder industrial do período, à cabeça da CIESP/FIESP também desde a fundação. O romeno também produziu a obra O século do Corporativismo: Doutrina do Corporativismo Integral e Puro, onde, criticará as posições liberais. Ele as considerava totalitárias por não comportarem a pluralidade de elementos em disputa, pois quando um grupo era eleito passava a dominar toda a máquina estatal. Assim, preconizará a organização corporativista como solução, pois devido à independência das corporações com relação ao Estado, elas teriam condições de se organizarem de acordo com

seus próprios desígnios, se baseando em “[

corporação, isto é, direitos intimamente ligados ao exercício de cada função de interesse geral” (MANOILESCU, 1938: 54).Nesta situação ganha relevo o papel do Técnico, com saber especializado e sólido preparo, cuja formação garantiria uma pretensa objetividade ante os conflitos de interesses, assumindo assim a organização da disposição geral das tarefas, determinando cientificamente as condições de execução e remuneração do trabalho (ANTONACCI, 1993, p. 38). O objetivo deste tipo de controle sobre o processo de trabalho era a instauração de um clima de paz social. Porém, as influências sobre os técnicosnão se restringirãoàs influências ideologias gestadas no interior dos Estados na órbita do fascismo. No início do século XX haverá um movimento no interior da engenharia que paulatinamente os irá afastar dos modelos franceses e alemães, considerados “bacharelescos” e haverá uma aproximação com o Scientific Managementde origem estadunidense, que terão nas obras de Frederick W. Taylor (1856-

necessidades puramente técnicas de cada

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1915); o casal Frank (1868-1924) e Lilian (1878-1972) Gilbreth; Henry Gantt (1861-1919); eHarrington Emerson (1864-1945), seus principais expoentes (CESAROLI, 1998, p. 170). Ao invés de se tratar de uma ideologia de termos gerais, tal como o corporativismo, o taylorismo desenvolverámétodos mais precisos no que concerne ao processo de organização do espaço de trabalho. Mesmo assim guardarão forte semelhança com relação ao método administração dos interesses em conflito, pois ambas se valiam dos critérios tecnocientíficos para esta função. Assim, a principal questão do corporativismo é a organização social de forma ampla, enquanto no taylorismo sua principal aplicação se dá na grande indústria com o objetivo de retirar o controle do trabalhador sobre o processo de trabalho.

Por meio da separação entre as dimensões rotineiras e criativas do trabalho, a fragmentação das operações e a definição dos gestos operatórios por parte da gerência, o trabalhador taylorizado deixa de ser um profissional para se tornar um executor de tarefas rotineiras pré-determinadas. (AUGUSTO, 2011, p. 12).

Neste quadro emerge a produção de Roberto Mange (1885-1955), engenheiro franco- suíço,residente no Brasil desde 1913, quando passou a ocupar a Cátedra de Mecânica Aplicada às Máquinas na Escola Politécnica de São Paulo por convite do diretor da escola Antônio Francisco de Paula Souza (1843-1917). Desde então se envolveutambém em trabalhos educacionais especialmente voltados para instrução profissional. Neste escopo se destacam os trabalhos de: superintendente do “Curso de Mecânica Prática” (1923);diretor na Escola Profissional Mecânica anexa ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (1924); organizador do Serviço de Seleção Profissional da Estrada de Ferro Sorocabana (1930); organizador e diretor do Centro Ferroviário de Ensino e Seleção Profissional (CFESP) (1934) e idealizador do Serviço de Aprendizagem Industrial (SENAI) (1942). Sobre as técnicas empregadas por Roberto Mange, existe um debate na historiografia que vale a pena ser aprofundado.

DEBATE SOBRE AS TÉCNICAS USADAS POR ROBERTO MANGE

Para Antonacci (1993), o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT), significou uma vitória burguesia paulista frente ao objetivo de submissão da classe trabalhadora aos princípios tayloristas. Assim, teria havido uma reorganização da estrutura de dominação fundamentada sobre estes princípios, onde Roberto Mange como diretor técnico

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da 2ª Divisão do IDORT teria desempenhado papel destacado. Inicialmente restrita ao ambiente fabril, o taylorismo se expandiu posteriormente, extrapolado os limites das fábricas, se insinuando sobre a organização do Estado, notadamente a partir da RAGE (Reorganização Administrativa do Estado), plano implementado pelo IDORT a partir de 1934 no interior do executivo paulista. Porém de acordo com Zanetti (2001 e 2007) as coisas não seriam bem assim.

Para este autor, a principal contribuição de Roberto Mange estaria relacionada à problemática do ensino profissionalizante industrial e que por sua vez teria como fundamento teórico os métodos psicotécnicos e não o taylorismo, como descrito por Antonacci. Para Zanetti, o fato de Roberto Mange ter dedicado boa parte de sua vida à idealização e gestão de escolas para industriais obstava qualquer vinculação com o taylorismo.Chega a dizer que a verdadeira confusão entre o que Mange pretendia e o taylorismo é tributária de uma “visão predominantemente mítica do universo taylorista” (ZANETTI, 2001, p. 30).

É sabido, porém, que tal proposição não refletia a definição usualmente atribuída ao taylorismo, pois este constituiria uma estratégia do capital visando a expropriação do saber operário e por conseguinte promovendo sua desqualificação. (ZANETTI, 2001, p. 24).

Pois:

Ao contrário das comprovadas aplicações do sistema Taylor pelo menos em relação aos EUA, a aprendizagem da série multifacetada de peças e máquinas instituída no Brasil invertia a estratégia de desqualificação do trabalho justamente através da qualificação ou seja, da requalificação do trabalhador. (ZANETTI, 2001, p. 29).

Em princípio, cabe uma observação acerca das opções teóricas de Zanetti, pois

entendemos que seu trabalho está circunscrito ao universo do relativismo. Em sua defesa, ele comenta que não poderia ser qualificado como relativista cultural, pois não pretenderia arbitrar sobre o que seria ou não possível em um dado sistema cultura ou nacional. (ZANETTI, 2001, p. 43). Porém, a percepção do relativismo aqui evocado diz respeito à sua forma cognitiva ou epistêmica “quando se trata de uma asserção factual (isto é, em torno do

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consequência é tecerem narrativas ambíguas, que podem ser interpretados de pelo menos duas maneias:

uma leitura “moderada” que conduz a afirmações que são ou válidas para

discussão, ou então verdadeiras, porém triviais; e uma leitura “radical” que leva a asserções surpreendentes, mas falsas. (SOKAL & BRICMONT, 2010, p. 60).

] [

É desta maneira que parece ser possível interpretar a obra de Zanetti, pois a preocupação principal em suas duas obras é o da“desmontagem do fato”, tendo como referências teóricas centrais as assertivas de Jules Deleuze e Michel Foucault. É assim que destaca que os estudos precedentes não passaram de apologia ao “recurso discursivo” de propaganda que “serviu para idealizar uma biografia, nesse caso a de Roberto Mange” (ZANETTI, 2001, p. 238), tanto no que concerne a aplicação da psicotécnica quanto do taylorismo.É verdade que também existem afirmações moderadas e perfeitamente plausíveis como a “Psicotécnica e taylorismo são esferas conflitivas dentro do universo das propostas de racionalização do trabalho” [grifo meu] (ZANETTI,2007, p. 40), ou que o método adotado por Mange “invertia a estratégia” do sistema taylorista (ZANETTI,2007, p. 30), ou ainda que o processo de adaptação dos aprendizes idealizado por Mange “não contemplava o sistema taylorin totum” [grifo meu] (ZANETTI,2001, p. 131).Porém também encontramos afirmações duvidosas e não fundamentadas, como as que dizem que o próprio Mange era quem forçava “as pistas falsas” com o objetivo de vincular a psicotécnica à legitimidade alcançada pelo taylorismo (ZANETTI,2007, p. 41). Ou ainda outras francamente falsas, como quando passa a considerar as capacidades plásticas do taylorismoe salienta que “mesmo considerando tal atributo, a concepção e prática de Mange estiveram separadas das de Taylor por um verdadeiro abismo.” (ZANETTI,2007, p. 25).

ILUMINANDOAS PONTES ENTRE PSICOTÉCNICA E TAYLORISMO

Para orientar esta análise nos valeremos dos conceitos desenvolvidos por Bernardo (2009), que ajudarão a compreender a posição deRoberto Mange e sua produção.O primeiro deles seria de Classe dos Gestores, ou simplesmente gestores, que ocuparia juntamente com Classe Burguesa, ou burguesia, o espectro das classes capitalistas, responsáveis pela disseminação das práticas de exploração. Os gestores se diferenciam da definição consagrada de burguesia na medida em que não precisam necessariamente ser proprietários dos meios de

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produção para exercerem sua dominação. Através de sua organização como classe, promovem a extração de mais-valia por meio da organização coletiva de métodos de controle dos processos de produção.No Brasil da década de 1930 se oporão ao liberalismo, tendo no corporativismo asua ideologia norteadora. É o próprio Zanetti quem salienta a existência de um ideal organo-mecanicista na obra de Mange, concebendo a sociedade à imagem e semelhança do corpo, construindo uma ideologia de “unidade corpórea da organização fabril e social” (ZANETTI, 2001, p. 74).Exatamente a mesma concepção de Manoilescu com relação às corporações.

A organização de cada ramo de produção, com o fim de chegar à harmonia integral da economia antecipando nossos raciocínios, podemos dizer que é o corporativismo que constitui o meio de nacional, pelo livre entendimento entre as diferentes

Na nossa concepção, não é o Estado que deve conquistar a vida

corporações. [

econômica, mas os fatores econômicos devem adquirir uma grande parte das funções do Estado atual. (MANOILESCU, 1938, p. 25).

]

Nesta mesma linha, irá argumentar sobre a parceria do governo com as empresas ferroviárias, onde a função do primeiro seria a de “cooperar, prestando auxílio material e concorrendo com suas instituições de ensino” enquanto à segunda cabia “mais facilmente [ ] assumir um compromisso quanto à formação obrigatória de seu pessoal”, pois seus encargos ficariam“limitados à manutenção da parte technica [sic] especializada”. Desta maneira a

empresa tiraria desta relação o “proveito technico [sic] e economico [sic], interessando ao

governo [

(CFESP, 1936, p. 8). De acordo ainda com a mesma fonte, o modelo adotado de parceria entre iniciativa privada e pública teria origem com na Reichsbahn, colossal complexo ferroviário alemão, cujos resultados econômicos alcançados pela utilização dos critérios de seleção psicotécnica fez notaro amplo prestígio que gozavam junto aos trabalhadores. “É interessante

consideram indispensável o

processo psychotechnico [sic] para admissão de elementos que futuramente virão a fazer parte da classe.” (CFESP, 1936, p. 13-14). Quanto à aplicação, estes mesmos critérios de utilização da psicotécnica, além do recurso do estado provedor e da iniciativa privada gerenciadora, Mange dá notícias que este modelo administrativo vem se desenvolvendo no Brasil desde o “Curso de Mecânica Prática” da Escola Profissional Mecânica anexa ao Lyceu de Artes e Ofícios, onde se estabeleceu o acordo entre várias estradas de ferro e esta instituição pública, até o “Curso de Ferroviários de

notar ainda que, por seu lado, as corporações de classe [

um mais elevado nível de cultura na grande classe da população ferroviária”

]

]

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Sorocaba”, onde “A administração da Estrada entrou em entendimento com a Escola Profissional de Sorocaba, para, de colaboração, manter um curso destinado ao preparo dos operários da officina.” (CFESP, 1936, p. 24).Se referindo à criação da CFESP – onde houve junção das Estradas de Ferro paulista em torno do objetivo de qualificação profissional -, destaca que a experiência de Sorocaba “veio fornecer as bases concretas e a experiência para a organização de maior amplitude que hoje existe” (CFESP, 1936, p. 24). Ainda é destacável a aplicação aprimorada desta estrutura sobre a constituição do SENAI, que contou com a orquestração política de Roberto Simonsen (WEINSTEIN, 2000, p. 106-120), bem como nos próprios projetos do IDORT com a RAGE, que posteriormente serviu de modelo para a criação junto ao executivo Federal do DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) em 1938 e a posterior irradiação dos mesmos pelo território nacional através da criação dos Departamentos Administrativos Estaduais, que ficaram conhecidos como “daspinhos” (FERREIRA, 2008, p. 202). Neste sentido, torna-se evidente a forma coletiva de atuação da classe dos gestores, posto que para a aplicação das técnicas estudadas e desenvolvidas por Mange foi necessário um amplo movimento de indivíduos e instituições em torno deste objetivo. Algo distinto da forma de dominação sustentada pela burguesia, que locuciona seu poder e ideologia a partir da propriedade e controle dos meios de produção, enquanto aos gestores competem, entre outras coisas, os critérios de organização do processo de produção. Por outro lado, considerando também este amplo movimento teórico-prático, parece complicado sustentar assertivas que asseveram o caráter meramente discursivo das aplicações das técnicas da elite paulista, em especial as de Roberto Mange. Acerca dos fundamentos teóricos da produção de Roberto Mange, na segunda aula do seu Curso de Psicotécnica (1934) salienta que é Hugo Münsterberg (1863-1916)o pioneiro da psicotécnica e que apesar de termo ser de uso anterior, foi ele quem delimitou seu campo de atuação. Citavários nomes que seriam os percursores dos estudos que culminam na psicotécnica, dentre eles se destaca o nome de Taylor quanto os estudos sobre o torno mecânico, além do desenvolvimento dos princípios da Administração Científica. “Porém a primeira applicação [sic] realmente concreta e effectiva [sic] da Psychotechnica [sic] foi a de Musterberg [sic] em 1910, referente á [sic] selecção [sic] profissional de motorneiros, telephonistas [sic] e officiaes [sic] de marinha.” (MANGE, 1934). Segundo Mange, a psicotécnica consistia em verificar quais asimplicações psicológicas dos métodos de trabalho, transformando os últimos de forma a atingirem um optimumpsicoenergético, isto é, o maior

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rendimento com o menor esforço do trabalhador (1934). A isto chamava de Psicotécnica Objetiva ou Tecnopsicologia.Inversamente diziam - tanto Mange quanto Münsterberg - que o principal objetivo da seleção e orientação profissional era encontrar o homem certo para a função certa (MÜNSTERBERG, 2005, p. 12). Ou seja, encontrar o trabalhador mais capacitado psicofisicamente para determinada função e a partir daí oferecer-lhe uma formação condizente com a melhor maneira de consumar a exploração do fator humano. A este outro aspecto chamava de Psicotécnica Subjetiva ou simplesmente Psicotécnica. Quando utilizava tais recursos, seus resultados passavam a funcionar de forma a integrar vários ramos produtivos. Do ponto de vista do trabalhador isto ocorria na medida em que o padronizavam por meio da uniformização da formação oferecida pelos seus métodos, ou da seleção prévia do trabalhador mais adaptado a determinada função. Do ponto de vista dos métodos de trabalho, isto se dava na medida em que os processos de trabalho eram uniformizadosde acordo com a média das funções psicofisologicasdos indivíduos. Deste modo, podemos classificar as instituições selecionadoras e formativas enquanto CGP (Condições Gerais de Produção), mais especificamente sob o epíteto de Condição Geral de Produção e Reprodução da Força de Trabalho. Igualmente integradoras eram as instituições onde aplicava a Tecnopsicologia, mais próxima do taylorismo, que atuavam de modo a criar os mecanismos necessários para que o processo de exploração possa ocorrer materialmente, requalificando o ambiente e os métodos de trabalho, se enquadrando sob a definição de Condições gerais da operatividade do processo de trabalho(BERNARDO, 2009, p. 213-214). Quanto às condições de utilização da psicotécnica, Mange destaca:

só é applicável [sic] com vantagens numa organização

de trabalho que obedeça à systematisação [sic] racional, onde haja methodos[sic] e processos estabelecidos e praticados. Não é a Psychotechinica [sic] que viria salvar da ruina um empreendimento desorganisado [sic]. Ahi [sic] a therapeytica [sic] seria outra: applicar, [sic] preliminarmente, princípios de racionalização e de organisaçãoscientifica[sic] do trabalho (MANGE, 1934 grifos nossos).

A psychotechinica [sic] [

]

Aproximando a lente sobre o taylorismo, verificável que eletinha um passo-a-passo que iniciava com o fracionamentodas tarefas em movimentos elementares;o descartedos movimentos inúteis; o estudoda execução dos movimentos elementares por parte de trabalhadores qualificados, cronometrando-os e selecionando o mais rápido;o registro de cada movimento elementar e sua duração;o estudodos possíveis empecilhos e sua conversão em tempo extra para a execução das tarefas; o estudodo percentual que deve ser acrescido de

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tempo para dar conta da inexperiência em uma nova tarefa nas primeiras vezes que a executa; e o estudodo percentual que deve ser admitido para descanso, com o intuito de compensar a fadiga. Estes procedimentos tinham como objetivo cuidar do problema “da resistência dos trabalhadores a trabalhar no ritmo máximo” (GABOR, 2001, p. 37), eliminando, para tanto, a natureza arbitrária da autoridade de até então, instituindo critérios tecnocientíficos de verificação.Porém, vários foram os observadores com Taylor ainda vivo que salientaram falhas no seu método, principalmente no que diz respeito às considerações sobre as médias de produção dos indivíduos e as dificuldades de mensurar estas diferenças (GABOR, 2001, p.

33).

Neste ponto há um encaixe perfeito com a perspectiva de Münsterberg sobre o uso da psicotécnica quando diz “A administração científica tem feito amplo uso deste princípio, mas resultados uniformes para várias indústrias sópodem ser alcançadosa partir de métodos novamente apurados pelo experimento psicológico. 3 ” (MÜNSTERBERG, 1913, p. 74). Neste sentido, vemos a estreita ligação dos métodos de racionalização do trabalho, tendo em vista a atuação complementar de diferentes técnicas administrativas. A não ser que se parta de uma perspectiva solipsista, própria de concepções próximas ao relativismo epistêmico,onde não é possível verificar as associações entre ideologias, compreendendo as suas expansões para além de seus criadores restando o idealismo da crença das aplicações totaisdedeterminadas técnicas ou ainda se apoiando sobre certo mito das origens, sem considerar as condições, contexto e desenvolvimento das técnicas. Em sentindo divergente, é esperado que com as associações e comparações acima tenha ficado evidente as ligaçõesentre os diferentes métodos de controle da gestão do processo de trabalho. Aperspectiva da atuação coletiva, evidente pelo aspecto de complementaridade das diferentes técnicas,aclara ainda a própria forma de desenvolvimento concreto da Classe dos Gestores, que exercem sua atividade de modo a desorganizar as outras classes enquanto se auto-organiza, manipulando para isto os conhecimentos técnocientíficos necessários ao aumento de rendimento na produção. No caso de Roberto Mange, enquanto gestor ligadoao processo educacional,sua perspectiva era a de selecionar e formar o fator humano mais adequado aos processos de trabalho, além de pensar na própria organização do espaço laboral.Para tanto, se valia dos procedimentos mais adequados para cada tarefa,

3 Originaleminglês: “Scientific management has made far-reaching use of this principle, but whether constant results for the various industries can be hoped for from methods must again be ascertained by the psychological experiment

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utilizando no momento oportuno tanto as técnicas tayloristas, quanto as da psicotécnica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CNPQ-Marco Zero, 1993.

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nas décadas de 1930 e 1940 .(Tese de Doutoramento em Administração), FGV, São Paulo,

2008.

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Formação e Selecção do Pessoal Ferroviário. (Separata de comunicação sob apresentada ao Congresso de Engenharia e Legislação Ferroviária em Campinas) Campinas, 1935. São Paulo: CFESP: 1936.

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Roberto Mange e a formação de mão-de-obra industrial. Cap. 1 In. ZANETTI, A. e VARGAS, T. Taylorismo e fordismo na indústria paulista: o empresariado e os projetos de organização racional do trabalho, 1920-1940. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2007, pp. 15-64.