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O

Despertar do Mal

-

CRÔNICAS DE PINDORAMA

Por Rafael Buarque Montenegro

Capítulo Um

O galeão português Santa Edwiges balança calmamente entre as ondas, ancorado a cerca de uma milha 1 da costa brasileira. É, sem dúvidas, um grande e imponente navio, um dos maiores da frota portuguesa. Com seus quase cem pés 2 de comprimento e setecentas toneladas 3 de peso, quatro mastros, o maior deles com mais de trinta pés de altura, quarenta canhões espalhados pelo barco e os grandes porões de carga capazes de transportar o seu próprio peso em mercadoria, o Santa Edwiges é realmente um espetáculo

da engenharia humana. Quando Annabel o viu pela primeira vez, em Lisboa, trinta e oito dias atrás, ficou fascinada. Nunca tinha visto um barco tão grande. Quando criança (na casa dos sete anos), viajara em um lúgar, uma espécie de barco de pesca com velas e um casco de madeira pesada que não ultrapassa os quinze pés de comprimento. O galeão, comparado ao pequeno barco, parecia um enorme monstro de madeira. Apoiada na amurada de proa, Annabel Dias, uma menina francesa de pais portugueses, observa os últimos raios do sol de primavera, enquanto o astro-rei se esconde por trás das palmeiras e da mata virgem ao longe, na praia. Do barco, ela já consegue avistar a costa do Brasil, erguendo-se majestosa, em vários tons diferentes. O verde das árvores, o branco da areia e o amarelo ouro alaranjado do pôr-do-sol. Seu pai, Gaspar Dias, lhe dissera que aportariam na manhã seguinte em Filipeia de Nossa Senhora das Neves, a capital da capitania da Paraíba. Se havia uma parte sua que estava empolgada com a viagem, deveria se tratar de uma parte bem pequena, a qual ela tratou de esconder muito bem.

O

medo era o único sentimento que ela deixava transparecer em suas atitudes

e

palavras. Medo e um pouco de insatisfação. O Brasil era uma terra

desconhecida, intocada, cheia de mistérios e, muito provavelmente, monstros.

1 Quando o termo milha for utilizado para distâncias no mar, ele faz referência a milha marítima, que equivale a 1852 metros.

2 Pé – medida linear inglesa, equivale a aprox. 30,5 cm.

3 Tonelada – antiga medida de peso, equivalente a 793 kg. Não confundir com a tonelada atual, que equivale a mil quilogramas.

Grandes e pavorosos monstros, avisou sua tia Lusimar, dias antes de partirem de Lisboa, quando veio visitá-los pela última vez. A velha senhora falou sobre monstros e assombrações com um ar meio louco, gesticulando nervosamente enquanto a sobrinha lhe contava a novidade da mudança da família para o Brasil. Desde então Annabel ficara temerosa, e apesar das diversas tentativas que o pai fez durante a viagem para lhe diminuir os medos, a perspectiva de encontrar monstros em sua nova casa apenas lhe aumentou a ansiedade. Preferia mil vezes ter ficado em Lisboa, com seus amigos, sua escola, sua igreja, e a agitação de uma grande cidade. Lisboa era a cidade que conhecia melhor, na verdade era a única cidade que podia dizer que conhecia. Já viajara algumas vezes até Coimbra, ou Porto, mas foram viagens curtas. E embora tivesse nascido em Lille, no norte da França, seus pais voltaram a Lisboa pouco depois de ela completar um ano de idade. Agora ela tinha doze anos, e nenhuma lembrança da França, apesar de ter ido a Paris em uma curta viagem de férias quando tinha oito anos. Nem sequer o idioma da terra onde nascera ela sabia falar. Se considerava mais portuguesa do que francesa. E se considerava ainda mais pertencente a Lisboa. Lá estava toda a vida que ela conhecia. Ela tinha tentado dizer isso ao pai, ainda em Lisboa, mas não houveram argumentos que fossem suficientes. Seu pai atualmente era um alto funcionário da Coroa portuguesa, responsável pelo tesouro do rei, e o rei o enviara ao Brasil. Bem, ao menos foi isso que ele tinha falado. Não é possível dizer não ao rei, ela o ouviu dizer, no jantar daquela noite de quinta-feira, dois meses antes. Sua mãe, Amélia, ficou tão irritada que fez um escândalo daqueles, mas ela estava acostumada aos escândalos da mãe. A discussão começou no jantar e se estendeu noite adentro. Annabel dormiu antes do fim da briga, e quando amanheceu a decisão estava tomada. Amélia também não podia dizer não a Gaspar, afinal ele era seu marido e eles iriam para o Brasil. Começaram os preparativos e para insatisfação de Annabel, em dez dias tudo estava pronto, e eles embarcaram no Santa Edwiges com destino a capitania da Paraíba. Saíram de Lisboa na manhã do dia 4 de agosto do ano de 1590. - Você vai adorar o Brasil. – seu pai dizia na tentativa de entusiasmá-la, à medida que o barco singrava as águas do grande oceano Atlântico. – É um país muito grande, cheio de belezas naturais. Nós vamos para a capitania da

Paraíba, que fica mais ao nordeste do Brasil. Dizem que lá faz sol o ano inteiro,

e é sempre quente por lá. Há lindas praias, lindas matas. Há bichos de todos os tipos. E há índios! Criaturas interessantes para se ver e estudar. Annabel escutava apenas porque tinha ouvidos e fora dotada com o dom da audição, mas não demonstrava nenhum tipo de entusiasmo. Ela podia ser bem teimosa quando queria, e não tinha nenhum interesse em dar razão ao

seu pai e dizer que estava empolgada para conhecer os índios. Afinal, esta era

a única coisa que havia lhe deixado um pouco animada com a viagem para o Brasil.

A notícia da descoberta de terras além do Atlântico causara uma grande comoção em Portugal, e a novidade fora recebida com entusiasmo, principalmente por aqueles de espírito mais aventureiro. Falavam sobre um

país de delícias, onde o sol brilhava forte o ano inteiro, com praias de areias muito brancas e águas quentes, de uma terra muito fértil, e riquezas incontáveis. E ainda havia os índios, que eram na verdade os povos nativos do Brasil. Os nativos das Américas foram primeiramente chamados de índios por um navegador espanhol, Cristovão Colombo, que ao chegar no continente americano, julgou ter encontrado a Índia. Colombo passou então a chamar os nativos de índios, sendo seguido nessa prática pelos navegadores portugueses, e se algo verdadeiramente animou Annabel para essa viagem foi

a perspectiva de encontrar os índios. Nossa, como ela havia ficado empolgada

ao ouvir as histórias! Seres humanos de pele cor de cobre, meio vermelha, meio negra, com ligeiros tons de marrom. Que andavam nus e pintavam o corpo com estranhas tintas retiradas das árvores, dormiam em cabanas de palha, e mantinham uma relação muito estreita com a natureza. Diversas noites ela sonhara com os índios. Alguns sonhos eram bons, outros nem tanto. Certa noite, por exemplo, sonhou que era capturada por um grupo de índios canibais. Por mais que gritasse, ninguém a ouvia, e os índios a colocaram em uma imensa panela de barro. Por sorte ela acordou antes que a cozinhassem. Apesar desses sonhos ruins, a maioria deles eram bons. Sonhava que encontraria um jovem garoto índio, com a pele parecida com a sua, de cabelos claros, e que viveria uma grande aventura na selva. Caçariam com arco e flecha, nadariam em um rio cheio de peixes carnívoros, e enfrentariam os monstros da floresta. E em nenhum momento ela teria medo. De tudo isso, não

ter medo era o que ela mais desejava. E mesmo sentindo medo por todo o resto, estava verdadeiramente ansiosa para conhecer os índios. São como crianças, dissera o padre Pedro, o sacerdote católico que ministrava aulas de religião às crianças na pequena capela anexa à Igreja de Lourdes, em Lisboa, todos os domingos de manhã. Ela se lembrou de quando o padre foi questionado por uma das crianças do grupo sobre os nativos brasileiros. Ele tinha respondido que os índios eram como crianças, com almas puras e intocadas, prontas para serem ensinadas. Suas almas são como as almas dos pequeninos, assim que vem ao mundo. São puras, e intocadas. Assim como vocês eram antes de chegar aqui, eles não sabem das coisas de Deus. Precisam ser ensinados. Por isso nossos irmãos jesuítas tem a missão de ensiná-los no caminho do Senhor. No fundo, Annabel não acreditava em muita coisa do que dizia o padre Pedro, mas não protestava para não contrariá-lo. O sacerdote costumava ficar muito irritado quando sua vontade era contrariada, o que era normal de toda autoridade eclesiástica. Viviam em uma época em que a liberdade religiosa era um conceito vago e distante, e o sacerdote poderia facilmente queixar-se ao seu pai ou, pior, julgá-la e obrigá-la a pagar alguma penitência, e ela não estava nem um pouco interessada em subir a escadaria de alguma igreja de joelhos, recitando dezenas de orações diferentes. Então, com um sorriso no rosto e muitas dúvidas no coração, ela ouvia as histórias dos índios que eram como crianças, e deveriam ser catequizados e convertidos ao modo civilizado dos portugueses. Annabel não era uma criança muito religiosa. Se os índios eram como crianças não importava, ela queria conhecê-los. Desejava, acima de tudo, a alegria de uma nova amizade. Ela era uma criança extrovertida, que gostava de brincar, de fazer novas amizades. Alguns dos índios, ela sabia, já falavam bem o português. Esperava conhecer uma indiazinha da sua idade, ou quem sabe um jovem índio que falasse bem seu idioma. Não precisava ser católico, nem usar roupas como os europeus. Bastava que pudessem se comunicar. Assim poderiam ser amigos. Foi essa ideia que aos poucos foi enchendo sua mente de alegria durante a viagem e ela começou a pensar que talvez morar no Brasil não fosse tão ruim como pensara que seria. Afinal, o que ela mais lamentava era a perda dos amigos que moravam em Portugal. Crescera com a maioria das crianças que

brincavam com ela na Rua das Ladeiras, em Lisboa. Conhecia as manias e gostos de cada uma delas, sabia dos seus pontos fracos em todos os jogos. Podia se lembrar de cada uma das brincadeiras que fizeram ao longo dos anos. Agora estava se mudando para um lugar desconhecido onde, segundo ouvira, não havia muitas crianças portuguesas com quem brincar. Então, lhe restava a esperança de conhecer os índios, e com eles travar novas amizades. Não havia mais volta, teria que se acostumar com o que quer que acontecesse pois, na manhã seguinte, colocaria os pés em terras brasileiras. - É lindo, não é? – uma voz de homem a interrompeu em seus pensamentos. Ela se virou e deu de cara com a figura do seu pai. Gaspar tinha quarenta anos e podia ser considerado um homem alto, com quase oito palmos 4 de altura. Era também forte, com ombros largos e braços musculosos, porém as feições do seu rosto eram gentis. Sua pele morena, cujo tom Annabel herdara, o destacava dos demais, revelando as marcas orientais em sua linhagem familiar. Não era um homem bonito, mas tinha um rosto agradável de se olhar. A barba, que ele mantinha sempre bem aparada, lhe dava um ar solene, sério, que ele conseguia manter apenas quando evitava sorrir. Quando

sorria, parecia um garoto. Sempre. No fundo, Annabel sabia, ele era um grande

sonhador. Um gigante sonhador, papai, é o que o senhor é

sonhador e gentil, dizia, quando ele a pegava nos braços e a rodopiava, fazendo seu vestido levantar e ela se sentir como um pássaro em seu mais alto voo. Era uma sensação muito boa, ela se lembrava. Observou o pai e lhe sorriu de volta. - Sim, papai. – respondeu com um tipo de sorriso forçado, mas a hesitação e o medo que sentia eram visíveis. – É realmente muito lindo. – E era, na verdade, isso ela não poderia negar. O pôr-do-sol nesse litoral se mostrava espetacular. A luz do sol que se escondia milhares de milhas a oeste, no oceano Pacífico, deixava rastros de dourado e laranja nas águas quentes do Atlântico e fazia variar os tons de verde da mata virgem ao longe, na praia. Parecia ser realmente um paraíso, diferente de qualquer outro lugar que ela vira, ou mesmo imaginara.

Um gigante

4 Palmo – antiga medida de comprimento, equivale a 22 cm. Será usado no livro principalmente para medidas de altura, e comprimento de objetos.

– Gaspar continuou. – Dizem que

aqui, na capitania da Paraíba, em alguma parte destas praias, está o lugar

onde o sol brilha primeiro, todas as manhãs. Aqui está o ponto mais oriental do Novo Mundo. Já imaginou? Dentre todas as terras do Novo Mundo, viemos mesmo para o lugar mais ao leste, onde o sol brilha primeiro. Não é incrível?

- Sim, papai. – ela lhe deu a mesma resposta hesitante. Procurou se

esforçar para não transparecer, mas deixou escapar uma pequena ponta de apreensão.

- Você precisa ver o nascer do sol

- Filha, eu sei que você não queria vir

- Todos os meus amigos ficaram em Lisboa, papai. Minhas primas

também. Não conheço ninguém aqui, neste navio, e também não conheço

ninguém nesse lugar. Nossa casa ficou em Portugal. E o que vamos ter aqui? Onde vamos morar? Pode ser perigoso.

- Não é verdade. Você me conhece, e também a sua mãe e seu

irmãozinho

– Annabel disse, e fez uma

careta amuada. Gaspar sorriu e passou as mãos sobre os longos e escuros cabelos da filha. Annabel era uma menina bonita, com um rosto anguloso e feições suaves, e possuía longos cabelos pretos, ondulados, que lhe chegavam quase

à cintura. O tom de sua pele fora herdado do pai, uma cor meio amorenada, cor de oliva, quase tão escura quanto a de Gaspar, e que era um reflexo da influência moura na árvore genealógica da família Dias, os antepassados do seu pai.

– Gaspar sempre procurava tirá-la de tempo nessas horas.

- Não é a mesma coisa, o senhor sabe

- Filha

- Tudo bem, papai. Eu vou sobreviver.

- Claro que vai. Você é uma Dias, não é? – Gaspar realmente se

orgulhava da linhagem de sua família.

- Sou. – Annabel não estava interessada em discutir a importância de sua árvore genealógica naquele momento.

Seu pai lhe sorriu mais uma vez.

- Minha pequena

– disse, com carinho na voz. – Você vai ver, cedo ou

tarde, que este lugar é mágico. E eu sei que você irá gostar daqui.

- Tudo bem, papai. Eu espero que o senhor esteja certo. – suspirou

resignada, afinal, iriam aportar na manhã seguinte. O que quer que estivesse sentindo, o medo que ainda restava, teria que guardar só para si. Quem sabe dessa forma não pudesse se surpreender com aquele novo lugar.

- Venha pequena

– seu pai a chamou. – Venha comer.

Os últimos raios de sol já tinham desaparecido no horizonte quando Annabel e Gaspar entraram na pequena cabine da família. O azeite ardia nas lâmpadas, e a comida estava posta sobre a mesa. O galeão Santa Edwiges era em essência um navio de transporte. Tinha grandes porões para transporte de carga, e eram nesses mesmos porões que os marinheiros dormiam quando não estavam escalados para o trabalho. Só haviam no navio duas cabines capazes de receber uma família de origem burguesa, e uma delas era a do

capitão. A família Dias foi colocada na outra, logo abaixo da cabine do capitão, e a um lance de escadas do convés. Não era uma cabine muito espaçosa, mas servia. Havia uma cama grande com um colchão de feno. Nela, Amélia, a mãe de Annabel, dormia com as suas duas crianças. Gaspar dormia em uma rede, que ele armava todas as noites, antes de deitar. Além da cama, uma mesa de ferro e quatro cadeiras de madeira formavam a mobília do quarto. Em um canto, próximo a uma janela que vivia quase sempre fechada, estavam empilhados três grandes baús de carvalho-português, com roupas e outros objetos que a família possuía, que eram preciosos demais para viajar nos porões.

- Anni! Anni! Anni! – seu irmão gritou ao vê-la entrar no quarto. Ele a

chamava assim desde que aprendera a falar. Seu nome era Alfonso, tinha quatro anos de idade e era totalmente diferente de Annabel. A cor de sua pele

ele herdara da mãe, sendo diferente de Annabel, com uma pele branca e cabelos claros e lisos. Como toda criança, ele possuía animação e energia de sobra, e ter que ficar na cabine quase todo o tempo da viagem o deixava muito irritado. O garoto correu para abraçá-la e Annabel retribuiu o abraço, pegou-o nos braços e beijou sua bochecha.

- Alfonsinho! Você tem se comportado?

- Tenho, tenho sim. – ele respondeu, olhando para os próprios pés.

Annabel devolveu ao irmão um olhar meio censurador, meio brincalhão, e depois o levou para a mesa.

- Ele tem insistido em passar mais tempo no convés. Ele me pergunta

constantemente porque você pode, e ele não

parecia ser de censura, mas Annabel não saberia dizer. Magra, com seios fartos, cabelos claros, quase loiros, rosto anguloso e olhos verdes, Amélia mantinha sua beleza mesmo após o seu trigésimo aniversário e suas duas gestações. Ela era uma linda mulher, porém Annabel sabia que por baixo de

– o tom de voz de Amélia

toda aquela beleza se escondia um gênio terrível. Nunca conseguira entender direito as emoções da mãe, exceto quando ela estava com raiva. Quando Amélia ficava irada, era impossível não perceber.

Gaspar respondeu, aliviando a tensão de Annabel por ter que enfrentar a mãe.

- Ora, pois. Annabel já é crescida o suficiente para cuidar dele, você não

acha?

- Amélia, não vamos começar. Você também sabe que Alfonso não se

comporta muito bem, não é? Ele se solta e começa a correr, brinca em lugares

indevidos e mexe nas armas do navio. E se ele cair no mar? O que você acha disso?

- Falando assim, Gaspar, você faz seu filho parecer um menino sem – ela bufou de indignação. Estava irredutível.

modos

- Faço ele parecer uma criança normal, Amélia. E crianças normais

gostam de correr por aí

- Porque ele é muito pequeno para ficar sozinho no convés, Amélia

- Gaspar, você sempre defende Annabel

- Eu me comporto

- Amélia, por favor

– Amélia retrucou.

– Alfonso começou a choramingar. – Gaspar estava perdendo a paciência.

- Parem! – Annabel interrompeu. O pai, a mãe e o irmão olharam para

ela ao mesmo tempo, surpresos com seu tom de voz. Ela própria se

surpreendeu com a altura do seu grito. – Me desculpem por isso corrigir. – Mas não precisam brigar, por favor.

– tentou se

- Oh, querida, não estávamos brigando

mais brando.

– Gaspar respondeu, em tom

- Gaspar! – a impaciência de Amélia era visível.

- Mamãe, por favor, não precisam brigar. – ela repetiu. – Eu levo o

Alfonso para o convés após o jantar e fico de olho nele. Assim ele pode brincar um pouco. Afinal, é nossa última noite no mar.

O pequeno Alfonso deu um grito de alegria. Amélia, apesar da irritação, balançou a cabeça em sinal de consentimento e Gaspar lhe dirigiu um sorriso. Não houveram mais brigas e discussões no jantar. Na verdade, ninguém falou quase nada durante todo o tempo em que estiveram na mesa, exceto Alfonso, que descrevia com a típica animação de uma criança de quatro anos todos os detalhes possíveis da aventura viveria no convés do navio. Era noite de lua cheia, Annabel percebeu, assim que saiu para o convés com Alfonso, que pulava de tanta animação, e estava disposto a percorrer cada canto do enorme convés do navio, assim como tinha feito nas outras vezes em que saíra da cabine. Com ele, Annabel não podia se descuidar um segundo sequer, senão corria o risco de encontrá-lo nas águas do Atlântico, ou mexendo em algum canhão. Mexer nas armas do galeão era uma das aventuras preferidas do seu irmão mais novo. Ela sorriu, e seguiu o menino enquanto ele corria para lá e para cá, brincando com alguns marinheiros aqui, derrubando um balde vazio ali, e lutando com piratas e monstros imaginários. Quando Alfonso finalmente se cansou, ela o levou para a proa, onde se deitaram no chão de madeira fria, tendo um rolo de cordas como travesseiro. Passaram então a observar as estrelas. Se havia algo que realmente impressionara Annabel durante a viagem foi a quantidade de estrelas no céu. Em Lisboa, ela até conseguia ver muitas estrelas no céu, mas nada podia ser comparado a quantidade de pontos luminosos que enxergou no céu negro durante a primeira noite da viagem. A medida que seguiam rumo a oeste, em

direção ao Brasil, a quantidade de estrelas parecia aumentar. Naquela noite, as estrelas não estavam tão visíveis, devido à lua cheia, mas ainda assim centenas, talvez milhares de estrelas saltavam aos olhos dos dois irmãos observadores, deitados no convés do imenso navio. A lua cheia só aumentava

a magia.

– ela

sussurrou.

- É, parece que esse lugar possui algum tipo de mágica, afinal

- O que, Anni? - Alfonso sentou-se, e olhou para a irmã, curioso.

- Nada, meu pequeno. Apenas estava comentando como o céu está

lindo esta noite. Olhe, não é lindo? A lua não está bonita? Alfonso olhou para o céu. Mesmo uma criança de quatro anos sabia ver

e entender que o céu daquelas terras era um espetáculo muito bonito.

- É sim, Anni! – ele vibrou com sua animação infantil, que parecia não

acabar – É muito, muito bonito! Annabel abraçou o irmão carinhosamente. Alfonso era um menino amável e gentil, mas meio genioso, como a mãe. Porém, ele era apaixonado

pela irmã. Não havia ninguém que duvidasse do amor de Alfonso por Annabel. Ela sorriu e acariciou os cabelos do irmão, bagunçando-os. Os cabelos claros e ligeiramente compridos do menino caíam sobre seu rosto, formando uma franja engraçada. - Anni, vai ser bom morar aqui, não vai?

– ela respondeu com um sorriso, esquecendo

momentaneamente as suas próprias dúvidas. – Vai ser uma grande Annabel parou de falar antes que pudesse dizer a palavra aventura. Sentou-se com a coluna ereta e um arrepio fez todo o seu corpo estremecer. Parou e escutou, aguçando os ouvidos. Ouviu novamente. Bem ao longe, na praia, ouviu um ruído estranho, como o uivo de um lobo misturado a um terrível

gemido de dor. Ficou de pé de um salto e olhou para a escuridão. A lua cheia facilitava a visão, e entre as oscilações das ondas ela podia enxergar a praia vazia, uma milha a frente. Alfonso estava em pé ao seu lado, assustado, talvez mais pela atitude da irmã do que pelo barulho misterioso.

- Vai sim, irmãozinho

- É um cachorro, Anni? – ele perguntou, ansioso.

– ela respondeu, forçando o olhar em direção à praia,

tentando enxergar algo. Ouviram o barulho novamente, mais distante dessa

vez. – Deve ser um cachorro. – ela disse a si mesma, em voz alta, para que o irmão também se tranquilizasse.

- Acho que sim

- Mas não é qualquer cachorro, criança.

A voz lhes pareceu tão assustadora que Annabel e Alfonso gritaram ao

mesmo tempo. Os irmãos se viraram, com medo, e deram de cara com um dos marujos do navio. Um dos mais velhos, por sinal.

- Não precisam ter medo. – disse o velho, que vestia um macacão de lã

muito sujo, e um camisão de couro preto curtido. Sua pele era branca, mas as rugas em sua face aliadas a sujeira de quem não tomava banho a um bom tempo demonstravam uma idade que ele talvez não tivesse. Sobre a cabeça ele trazia um chapéu de couro, que parecia ser tão velho como ele. O velho sorriu com o canto da boca, de uma maneira que só fez assustar ainda mais as

duas crianças. Vendo o medo nos olhos das crianças, ele soltou uma nova gargalhada.

- Ha! Não precisam ter medo do Perna-que-falta! Sou só um velho

marujo, crianças

Annabel também esboçou um sorriso, e se sentiu um pouquinho mais calma. Procurou tranquilizar o irmão, que ainda estava agarrado a sua cintura. Aos poucos, Alfonso também se acalmou, mas sua calma durou o tanto de tempo que levou para que ele percebesse a perna postiça do velho marinheiro.

– disse ele, sorrindo, desta vez de forma mais amistosa.

- Anni! Anni! Ele não tem a perna! A perna dele é de madeira!

- Ha! – o velho riu novamente. – Ora pois, menino! Porque você acha

que meu nome é Perna-que-falta? Ora, vamos, não precisa ter medo. Eu não

vou lhe morder. Não seja covarde

- Não sou covarde! – Alfonso gritou, sentindo o orgulho ferido.

- Tudo bem, tudo bem

– retrucou o velho. – Então se acalme.

Tendo o medo passado ou não, Alfonso se acalmou. - Como o senhor perdeu a perna? – Annabel perguntou, misturando a curiosidade natural das crianças com um pouco de apreensão. - Ha! – a risada do velho assustou novamente as crianças. Dependendo do jeito que sorria e mexia os músculos da face, Perna-que-falta podia parecer por um lado, um simpático velhinho, e por outro, um homem terrivelmente

assustador. A última das opções parecia ser a que ele mais utilizava. – A garota

– ele

quer saber como eu perdi a minha perna

continuou, diminuindo o tom de voz e se aproximando das duas crianças. Por um momento, pareceu a Annabel que eles eram as únicas presentes em todo o convés do navio.

– ela começou, mas foi interrompida pelo mesmo

uivo distante, que a assustou mais uma vez.

- Acalme-se criança. O que quer que tenha feito esse barulho, ele não pode lhe fazer mal.

É uma longa história

- Você poderia contar

- Como você sabe? – ela perguntou, assustada.

- Estamos no mar, não estamos? – o velho respondeu, cheio de si,

coçando a longa barba branca que lhe chegava a altura do peito, e ajeitando a perna postiça, enquanto se escorava na amurada do navio. – Estamos seguros, garota

- É

- Que barulho foi esse? – perguntou Alfonso.

- Quer mesmo saber?

Acho que sim. – respondeu Annabel, sem muita convicção.

O menino ficou em silêncio alguns instantes, visivelmente indeciso. Annabel respondeu primeiro.

- Quero.

- Ha! – riu o velho. – Temos uma menina corajosa aqui. Princesa Xerazade, você é corajosa!

- Meu nome é Annabel Dias! – ela não fez questão de esconder sua irritação.

- Claro, claro. Eu sei qual é o seu nome, mas estou te chamando de

Princesa Xerazade! Ha! Todo pirata tem o seu nome de guerra. Ha!

- Eu por acaso me pareço com um pirata? Você vai me contar o que foi esse barulho ou não?

– Perna-que-falta piscou para

ela e fez uma reverência desajeitada. – Xerazade foi uma princesa do Médio Oriente, que viveu há muito tempo e foi muito importante na história das Mil e Uma Noites. Você é moura, não é? Tem sangue do oriente na sua linhagem,

– ela já fora

chamada de moura antes, pelos seus amigos de Lisboa durante as

brincadeiras, sempre com o intuito de aborrecê-la, mas o tom de voz do velho era de questionamento, e não de zombaria.

- Sou descendente, por parte do meu pai. – ela admitiu. – Mas nunca

ouvi essa história. – Os mouros eram povos de origem oriental que invadiram a península ibérica no século VIII, e mantiveram-se por lá até meados do século XVI, quando os remanescentes foram finalmente expulsos pelos reis de Castela e Aragão. Gaspar tinha sangue mouro em sua linhagem, e Annabel herdara do pai a cor da pele e o tom dos cabelos. E embora possuísse sangue mouro, Annabel nunca tinha ouvido falar daquela história. O velho parecia conhecer a história dos seus antepassados.

– o velho resmungou,

não tem? Me surpreende que nunca ouviu falar dessa história

- Não precisa se aborrecer, minha jovem

- As pessoas não dão mais valor as tradições

ao ouvir a resposta da menina. Mas tudo bem. Deixe eu lhe contar. Vou lhe contar, claro que vou. Xerazade, minha criança, foi uma princesa. Uma princesa corajosa, como você.

- Sou corajosa. – ela confirmou, mesmo que o medo que sentia naquele momento fosse bem maior do que sua coragem.

- Quer mesmo saber o que foi aquele barulho? – o marujo perguntou

mais uma vez, com ar ainda mais misterioso.

- Quero.

- Eu também. – o pequeno Alfonso fez coro a voz da irmã.

- Ha! O que será que nós temos aqui? Uma dupla de irmãos corajosos. – ele fez uma pausa de alguns momentos, encarando-os com um olhar

assustador, depois sorriu e falou com ar misterioso: Talvez, e apenas talvez, futuramente, você irá desejar que eu não tenho contado

- Não vou desejar nada. E quer saber? – o medo finalmente passou e

tinha se transformado em raiva. O velho falante a tinha deixado realmente irritada. – Acho que você não sabe de nada Annabel falou e saiu, puxando o irmão pela mão e atravessando o convés em direção a cabine. - Hoje é noite de lua cheia, não é? – o velho gritou, enquanto se esforçava para acompanhar o passo das duas crianças com sua perna de madeira. Ela virou-se e o encarou.

- E o que isso tem a ver?

- Ha! A menina perguntou o que tem a ver? Ha! – o velho sorriu

novamente de maneira assustadora. - Tem a ver que

– Gaspar se aproximou de

repente, e as crianças não tinham percebido. Ele não deixou o velho terminar. – Já está tarde, amanhã levantaremos cedo e vocês não precisam das histórias desse velho.

- É hora das crianças irem para a cama

- Mas papai, ele ia dizer o que era o barulho

– Annabel protestou.

- Sim, papai. Ouvimos um barulho assustador! – Alfonso fez uma careta

e abriu as mãos, tentando exemplificar o tamanho do barulho e o seu poder de susto.

- Oh sim, eu imagino. Deve ter sido muito assustador. Agora já para a

cabine, os dois. Está na hora de dormir. – Gaspar estava irredutível. – E você – ele disse apontando para o velho – nada de histórias de terror para meus filhos, entendeu?

Annabel olhou para o velho enquanto ele se curvou respeitosamente para o seu pai, desculpando-se. Quando Gaspar se virou, Perna-que-falta deu- lhe um sorriso tão assustador que ela sentiu o mesmo arrepio na espinha que

tivera ao ouvir o uivo. Depois, o velho piscou para ela e falou algo, como que em um sussurro, mas que Annabel compreendeu perfeitamente.

- Lobisomem! – ela gritou, virando-se para o pai.

- O quê? – Gaspar a encarou sem entender o que a filha queria dizer.

- Um lobisomem, papai. – ela repetiu, pois havia compreendido muito

bem o que o velho falara. – Era isso o que o marinheiro ia dizer! Esse barulho foi de um lobisomem. Gaspar se virou para onde Perna-que-falta estivera momentos antes, mas o velho marujo não estava mais lá. Não havia mais sinal do marinheiro no convés, ou de qualquer outra pessoa.

- Lobisomem, Annabel? – Gaspar procurava segurar o riso a todo custo.

Está parecendo com as histórias de

duendes e fadas que sua tia insistia em contar para você, quando eras apenas uma criancinha. Não vais me dizer que você também acredita nessas histórias?

– ela tentou protestar, embora soubesse que seu pai tinha

razão. Todos diziam que a tia Lusimar era meio maluca, e Annabel sabia que havia um pouco de verdade nessa afirmação. Por mais que gostasse da tia, e

gostava bastante, as histórias que ela contava pareciam um pouco sem pé nem cabeça.

- As histórias da sua tia são lendas, minha querida. – Gaspar completou.

– Fábulas que pais contam para os filhos para ensinar alguma lição de moral,

ou simplesmente amedrontar. Assim como a história desse lobisomem. Agora venha, vamos entrar e dormir. Sem protestar, ela seguiu o pai e o irmão para dentro, até a cabine. Demorou a dormir, e os pensamentos corriam de um lado para o outro em sua mente, até voltarem para o misterioso uivo que ouvira no convés do navio. Ela se mexia na cama, olhando para a janela de vidro da cabine, que deixava entrar a luz da lua e iluminava o quarto. Quando estava no convés do navio, ela olhou o máximo que pôde para a praia, mas não conseguiu enxergar nada, apesar da lua cheia. Será que era um lobisomem? Um lobisomem de verdade? Seu pai mesmo dizia que o Brasil era um lugar mágico. Talvez existisse algum

– Lobisomens não existem, minha filha

- Mas papai

lobisomem vagando por aí. Talvez as lendas possuíssem algum ponto de verdade.

– ela disse a si mesma, baixinho, na tentativa de

acalmar a mente antes de dormir. – São só histórias

Lusimar. – Aos poucos, seus pensamentos foram se desvanecendo e o sono tomou conta de sua mente, até que adormeceu, sonhando com praias de areias brancas e quentes, de um lugar mágico chamado Brasil. Enquanto Annabel dormia tranquilamente em sua cabine no Santa Edwiges, algo observava, por entre os arbustos e árvores da mata virgem na praia, as luzes do navio distante. Seu pelo cinza escuro brilhava sob a luz da lua cheia, suas garras afiadas arranhavam a árvore mais próxima. Seus olhos ardiam de raiva e cintilavam uma luz amarela tão forte, que pareciam a visão do próprio inferno e demonstravam querer saltar de suas órbitas. A criatura observou o navio durante um longo tempo, depois, ficou em pé nas patas traseiras e soltou um longo uivo, capaz de fazer estremecer o mais corajoso dos homens. - Aaaaaaoooooouuuuuu! – ela uivou, e desapareceu na floresta.

Histórias como as da tia

- Não, sua boba