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A burqa, o nikab e a santíssima paciência

Por Helena Matos

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/28-01-2010/a-burqa-o-nikab-e-a-santissima-paciencia-18667997.htm

O paternalismo folclórico da fase multicultural vai agora dar lugar ao


paternalismo jacobino da fase nacional

Com tanto santo e santa existente no calendário católico ou, na versão laica desse calendário,
dia disto e daquilo, não percebo como nunca se dedicou um dia à santíssima paciência.
A santíssima paciência tornou-se uma virtude essencial para sobrevivermos mais ou menos
sãos de espírito num mundo onde começa por não se fazer o que se deve para se acabar a
fazer o que não se pode. Veja-se a actual discussão em França sobre a proibição da burqa e
do nikab, ou seja, daqueles véus e mantos que cobrem integralmente o rosto das mulheres, e
percebe-se ao vivo e em directo este paradoxo.
Durante anos, no Ocidente, achou-se normal que mulheres com o rosto velado votassem
(Canadá) ou tratassem dos mais diversos assuntos oficiais veladas, sendo que a sua
identidade não era realmente confirmada. Por receio de que alguém pronunciasse a palavra
racismo, aceitou-se que médicos e enfermeiros se tornassem em sacos de boxe de maridos
exaltados com o facto de as suas mulheres serem assistidas por homens que insistiam em,
pelo menos, ver-lhes a cara e as entidades empregadoras enfrentaram as mais bizarras
situações quando algumas das suas trabalhadoras entenderam que iam passar a usar véu.
E foi assim que, após anos e anos em que não se fez o que se devia - fazer respeitar por todos
o que fora aprovado para todos mas na verdade se aceitou por medo e inércia que alguns não
cumprissem -, nos estamos a preparar para fazer o que não se pode, ou seja, multar as
mulheres que usem burqa ou nikab, como agora se pretende em França e também em
algumas zonas de Itália.
Como era previsível, o paternalismo folclórico da fase multicultural vai agora dar lugar ao
paternalismo jacobino da fase nacional. Pois só por paternalismo (o que é o politicamente
correcto senão uma forma de paternalismo?) se entende o estatuto que as comunidades
muçulmanas estabeleceram em países como Itália, França, Holanda, Grã-Bretanha ou
Canadá. Para os demais habitantes desses países, e pese as suas variadíssimas origens,
gostos e manias, existe uma espécie de mínimo denominador comum sobre o que se pode ou
não vestir. Por isso, as mulheres africanas emigradas por esse mundo fora não se pintam, nem
penteiam, como era hábito entre os seus povos de origem, e arriscariam ir parar a uma
esquadra caso se apresentassem de peito nu como fizeram muitas das suas mães e avós. E,
numa versão mais europeia do exotismo, não consta que os homens gregos andem com
aqueles saiotes plissados e pantufos com pompons pelas praças financeiras do planeta Terra,
mesmo agora que a dívida do seu país ameaça dar-lhes mais alguns momentos não da
imortalidade que conseguiram na Antiguidade, mas sim duma vida contemporânea bem difícil.
Parece inquestionável que um país que respeita e exige respeito pelas suas instituições não
pode mascarar nas estatísticas os crimes de honra de modo a que não se perceba que
a sharia se vai aplicando ou tentando aplicar, pelo menos às mulheres, na Suécia, em França e
em Espanha. Tal como não pode aceitar que as mulheres deponham comburqa nos tribunais
ou que não se identifiquem nos mesmos termos que se impõem aos outros cidadãos numa
repartição pública ou na celebração de um contrato. Para um ocidental é tão chocante ter de
falar, atender ou receber uma mulher com a cara toda tapada quanto para um muçulmano será
ver uma mulher calçada e de cabeça descoberta dentro duma mesquita. Mas, depois de
décadas cheios de culpas por tudo aquilo que aconteceu no mundo, por sermos brancos, por
nos acharmos ricos (fantástica ilusão!), por nos responsabilizarmos por tudo o que os nossos
antepassados fizeram ou não fizeram ao longo dos séculos - nem nos ocorrendo que os
nossos antepassados não eram nem podiam ser iguais a nós - acabámos a não saber aquilo
que somos e a confundir respeito pelo outro com permissividade.
Ou seja, criámos o terreno ideal para as franjas dos radicalismos, nomeadamente dos
fundamentalistas islâmicos a quem não basta tentarem controlar a vida do que entendem ser
as suas comunidades, e sobretudo das mulheres, como também criar constantes situações de
conflito com aqueles que definem como infiéis.
Quando em alguns bairros de França ou de Itália se começaram a ver mais mulheres cobertas
de mantos negros do que em muitas zonas de países muçulmanos, o mal-estar foi crescendo.
Agora há quem defenda proibições e proponha multas para aquelas que usem tais vestes. Mas
a mesma razão que me leva a não concordar que nos serviços públicos se atendam mulheres
cujo rosto não se vê, a mesma razão pela qual não a aceitaria que os meus filhos
frequentassem uma escola onde trabalhassem mulheres que usassem burqa ou nikab, leva-me
a ser também contra a criminalização dessas peças de roupa.

Ensaísta