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"Nem animais, nem estrangeiros": o racismo banaliza-se na

Itália de Silvio Berlusconi

Por Anne-Sophie Legge/AFP

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/08-01-2010/nem-animais-nem-estrangeiros-o-racismo-banalizase-
na-italia-de-silvio-berlusconi-18543492.htm

Livro do jornalista Gian Antonio Stella denuncia um crescente ambiente xenófobo e


homofóbico

Um futebolista italiano tratado por "preto de merda", anúncios de imobiliário que


estabelecem "nem animais, nem estrangeiros", imigrantes agredidos na noite de
Ano Novo: os comportamentos xenófobos têm-se banalizado em Itália, e alguns
evocam mesmo um "racismo institucional".
"A situação tem-se degradado. Todos os dias um negro é desancado. Isto não pode
continuar assim", disse à AFP o jornalista Gian Antonio Stella, jornalista
especializado nos movimentos de Direita e autor do livro Negros, gays, judeus e
companhia. A eterna guerra contra o outro, lançado no início de Dezembro.
Entre os últimos exemplos relevantes, a noite de São Silvestre: um etíope foi
espancado no centro de Florença e um egípcio foi agredido aos gritos de "maricas
de merda", segundo a organização Arcigay. Alguns dias antes, foi o "Natal Branco"
organizado por um autarca da Liga Norte, partido anti-imigrantes e membro da
coligação de Direita no poder. A operação visava recensear os estrangeiros de
Coccaglio (3000 habitantes) e denunciar os clandestinos à autarquia.
A Liga Norte propôs igualmente reservar carruagens de comboios ou apoios sociais
aos italianos. "A Liga decidiu explorar o sentimento de insegurança através da
imigração", adiantou Sergio Romano, editorialista do Corriere della Sera. "Como o
primeiro-ministro Silvio Berlusconi tem necessidade do apoio da Liga, ela pode dizer
o que quiser."
O chefe da Liga, Umberto Bossi, "qualificou os negros de "Bingo Bongo" várias
vezes", adiantou Stella, referindo-se a um filme de 1982 em que Adriano Celentano
interpretava um homem-macaco. "No estrangeiro, seria uma coisa impensável.
Nenhum ministro francês, inglês ou alemão se permitiria falar assim porque esses
países reflectiram sobre o seu passado, o que os italianos ainda não fizeram",
adiantou ele, numa alusão às leis raciais de Benito Mussolini.
A Liga, por outro lado, defende-se de qualquer acusação de racismo: "Não somos
racistas, de todo. Estamos de tal forma à margem desta problemática que não
temos necessidade de falar dela", disse à AFP Nicoletta Maggi, porta-voz de Bossi.
Bernardino de Rubeis, autarca de Lampedusa, a pequena ilha perto da costa do
Norte de África onde desembarcam regularmente imigrantes clandestinos, está
também a ser julgado por declarações publicadas em 2008 no La Repubblica: "Eu
não quero ser racista, mas a cadeira dos pretos cheira mal mesmo se for lavada."
Para Piero Soldini, responsável pela área de imigração no Cgil, o maior sindicato
italiano, tudo isto está relacionado com "o racismo institucional e a banalização dos
propósitos racistas" que, adiantou, "produzem um racismo popular e tolerado no
seio da sociedade".
Nos estádios de futebol, depois de gritos de macaco dirigidos aos jogadores negros,
os apoiantes da Juventus chamaram "preto de merda" ao atacante do Inter de
Milão Mário Balotelli, italiano de origem ganesa. Há também dezenas de ofertas de
casa com carácter xenófobo que são todos os dias publicadas na imprensa: "Nem
animais, nem estrangeiros" ou "Só italianos, chineses não". Um primeiro processo
contra o jornal de pequenos anúncios Porta Portese, que publicou avisos em que
eram excluídas as "pessoas de cor", foi já instaurado pelo comité nacional contra a
discriminação.