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Possibilidades e limites do estágio em música aos ouvidos da orientadora

Gislene Natera UDESC Gislenenatera@yahoo.com.br

Resumo: O presente trabalho aborda alguns desafios enfrentados pela professora orientadora de estágio supervisionado em música, analisando suas possibilidades e seus limites. Tem como objetivo estimular um debate sobre a formação de professores, aqui chamados de estagiários, através do ponto de vista da orientadora. Primeiramente apresentamos um pequeno diagrama que demonstra as diferentes relações existentes entre os participantes da Universidade (professores em formação permanente) e os da Escola (formação em construção). Ao professor universitário cabe o ensinamento teórico que fundamentará o estagiário em sua carreira e à orientadora, a ligação entre a teoria e a prática que ocorrerá em sala de aula. Destaca-se então a relação do estagiário com os alunos da escola pelo fato de ser imprevista frente ao comportamento natural da fase da vida destes últimos, que pode mudar abruptamente por motivos nem sempre lógicos ou explicáveis. Conclui-se que observar para poder prever o imprevisto nem sempre é um paradoxo. Do ponto de vista da orientadora, o estágio é um dos poucos espaços privilegiados dentro da Universidade para que essa reflexão aconteça.

Palavras chave: professor, estágio, escola.

1.

Introdução

Era sobre eras se somem. No tempo que em eras vem. Ser descontente é ser homem. Que as forças cegas se domem. Pela visão que a alma tem! Fernando Pessoa

Uma boa maneira de se compreender as possibilidades e os limites da formação de

professores de música é atuar como professora orientadora nos estágios supervisionados. Ali

nos defrontamos com alunos de diferentes perfis: jovens e adultos de média ou mais idade

com uma boa variedade de formação: professores atuantes ou sem nenhuma experiência,

músicos profissionais ou não, cada qual com seu objetivo.

Partimos então do pressuposto de que a Universidade é um lugar privilegiado para a

formação inicial de professores e para a pesquisa. Através dos estágios supervisionados a

Universidade pode aprender com a escola, mas pode também contribuir para a ampliação de

repertório cultural e reflexão sobre a qualidade de aprendizagens ali desenvolvidas.

O Estágio Universitário, constituído por uma disciplina coletiva e um encontro

individual por semana é demasiadamente breve e rápido frente ao desafio imposto. Nele,

breve e rápido frente ao desafio imposto. Nele, XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira de

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buscamos orientar os alunos em “como” observar, registrar, planejar e, por vezes, como atuar. Cabe-nos, orientadores, no desempenho deste trabalho, provocar os alunos com questões que não temos respostas, com postura de ‘estranhamento’, além de com eles compartilhar nossas experiências - sem receitas - e orientá-los a sempre enfrentar o conflito entre o planejado e o acontecido, assim como refletir sobre as condições adequadas, necessárias e reais no contexto sociocultural do espaço que habita (realiza o trabalho). Nessa perspectiva, entendemos que a escola é um campo privilegiado da pesquisa educacional que tem suas características próprias, suas regras, suas culturas e seus imaginários. Aliada à Universidade e à Escola, é preciso sempre refletir sobre nossas ações e contribuições na formação de professores e por isso pergunto: Como transformar um conhecimento técnico em prática pedagógica? Quais os processos nessas relações que necessitam um olhar mais atento, delicado e emocional? Quais são as possibilidades e os limites de intervenção? Para tentar responder algumas das questões acima, busco clarear e observar as pessoas envolvidas e que permeiam o trabalho entre professora orientadora e estagiário. Assim, busco compartilhar reflexões, indagações, sugestões e ações que podem e/ou devem ser modificadas na formação de professores. Segue abaixo, um pequeno diagrama com relações que me inquietam e que me obrigam um olhar mais cuidadoso. Proponho considerarmos os professores das disciplinas, a professora orientadora e os professores das diferentes escolas como profissionais em formação permanente, acreditando que os mesmos estão sempre envolvidos com a pesquisa, reciclagem (cursos) e que se colocam abertos para aprender ao ensinar. Considero também que a formação tanto dos alunos da escola como a dos estagiários está em construção, porém, os estagiários são os únicos que vivenciam com intencionalidade, carinho e medo o difícil diálogo entre a Universidade e a Escola, entre a teoria e a prática.

a Universidade e a Escola, entre a teoria e a prática. XXI Congresso Nacional da Associação

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Figura 1- Diagrama das relações existentes entre Universidade e Escola.

UNIVERSIDADE ESCOLA C Professores/disciplinas Professora-Orientadora Professor de Música FORMAÇÃO A D
UNIVERSIDADE
ESCOLA
C
Professores/disciplinas
Professora-Orientadora
Professor de Música
FORMAÇÃO
A
D
Permanente
B
Construção
E
Aluno/Estagiário
Aluno

Fonte- Próprio autor.

A partir do olhar da professora orientadora, apresentaremos a seguir como observo essas relações, como me inquieto, reflito, ajo e percebo minhas possibilidades e meus limites.

2. Professores das Disciplinas e Aluno Estagiário (relação A).

São muitos os professores e disciplinas que atuam e que ajudam a construção músico-cultural dos alunos de licenciatura em música. Durante dois anos, em nossa Universidade, esses alunos frequentam disciplinas que buscam introduzi-los no contexto de espaços educativos, refletindo com os mesmos a escola nas suas dimensões histórica, social, política e cultural. Buscam também apresentar as funções sociais da música, assim como a função político-pedagógica do educador musical. Algumas disciplinas contribuem na formação dos alunos com a percepção ritmica, melódica e harmônica, assim como no domínio mínimo vocal e/ou de algum instrumento. Apesar de todas essas disciplinas serem necessárias para a formação teórica dos alunos universitários, a possibilidade de cada professor abordar como que tais conhecimentos podem e devem ser ressignificados na prática escolar, é baixa, já que o conteúdo teórico mínimo a ser trabalhado é bastante extenso. Por outro lado, os alunos, pensando em sua formação e na prática profissional que este curso lhes oferece, devem o tempo todo questionar e buscar conhecimento junto aos seus professores de como isso se insere na escola ou ainda como esse conteúdo pode ser

se insere na escola ou ainda como esse conteúdo pode ser XXI Congresso Nacional da Associação

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ressignificado, buscando exemplos de quando ele deve ser oferecido às crianças pequenas e/ou às grandes (Ensino Fundamental). A intervenção, neste caso, se traduz na ajuda ao aluno em relembrar o que já foi estudado e debatido, trazendo a consciência e valorizando o que eles trazem consigo de bagagem músico-cultural. Dessa maneira, cultivamos a prática de fazer de seus materiais um conjunto pedagógico de pesquisa, para que possam relembrar atividades, condutas sugeridas, funções e regras já conhecidas, porém não vivenciadas. Os limites se dão ao encontrar alunos que dizem que nunca estudaram o que está sendo abordado ou que nunca lhes foram passadas determinadas informações ou pontos de vistas, conforme já relatado por Mateiro; Cardoso (2005, p.5). Neste momento, concordo com Larossa (2002) que, discutindo o conceito de experiência, nos afirma que primeiramente precisamos separar experiência de informação. Segundo o autor, experiência “é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca” (2002, p. 21). Em outras palavras, um grupo de pessoas pode estar presente na mesma aula, oficina, concerto etc., porém, a experiência ali vivenciada é particular, é de cada um. Ainda nessa perspectiva, Larossa nos afirma que o sujeito da experiência é aquele que se define por sua receptividade, por sua abertura. É um sujeito que se expõe. É um sujeito que perde seus poderes precisamente porque aquilo de que faz experiência dele se apodera. É também um sujeito que tem capacidade de se formar e se transformar. Assim sendo, em meu olhar, cabe à professora orientadora a simples função de indagar e provocar os alunos por meio das lembranças de suas experiências.

3. Professora Orientadora e Aluno Estagiário (relação B).

Um dos papéis centrais dos cursos de licenciatura realizados na Universidade pública e gratuita é proporcionar à sociedade benefícios e retornos através de suas reflexões e atividades realizadas junto à comunidade. Frente à estes papéis de contribuir e ampliar, cabe à professora orientadora ajudar os alunos estagiários a interpretarem a realidade que vêem, criticá-la de forma reflexiva, propor vivências diferenciadas e, por fim, realizá-las. Na prática, percebo que faltam aos alunos exemplos práticos. A partir de minhas experiências como orientadora, proponho a reflexão sobre dois pontos que mais trazem

proponho a reflexão sobre dois pontos que mais trazem XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira de

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conflito nas orientações: trabalhar a partir de Projetos de Trabalho e não a partir dos conteúdos e trabalhar quase que única e exclusivamente o conceito de Parâmetros Sonoros nos Anos Iniciais. Em relação aos projetos de trabalho, entendidos aqui como “uma maneira de reformular as relações pedagógicas; questionar o currículo por matérias e a relação entre informação, conhecimento e saber” (ANGUITA, HERNÁNDEZ e VENTURA, 2010, p. 80, tradução minha), percebo que os alunos possuem dificuldade em retirar dos diferentes temas sugeridos pela prefeitura, escola e professor de música os conteúdos a se trabalhar. Percebo que o movimento oposto, ou seja, sair do conteúdo para a escolha do repertório é mais fácil para os alunos devido à grande quantidade de livros didáticos que já trazem sugestões prontas. Porém, quando temos um tema de projeto a desenvolver, abrimos um leque de possibilidades onde os alunos da escola devem participar da pesquisa, direcionar seus focos de interesses e fazer conexões. Cabe então ao professor estagiário se possibilitar a experiência de algo que é novo, daquilo que não é seguro e de olhar os processos individuais de aprendizagem. Em poucas palavras, o trabalho-pesquisa é mais denso e a interação dos alunos interfere drasticamente na escolha do repertório e nas possibilidades em se trabalhar este ou aquele conteúdo musical. Trazendo para o foco então o conteúdo musical, posso afirmar que os alunos conhecem e dominam com precisão tanto os parâmetros do som (altura, intensidade, duração e timbre) como muitos outros conceitos bem mais elaborados e complexos, como harmonia, contraponto e arranjo. Em relação aos parâmetros é bastante comum os alunos estagiários se referirem ao conceito com menosprezo e dizerem que se cansam ou que não gostam de trabalhá-los, pois os consideram muito fáceis. A partir dessa problemática sinto necessidade de induzir os alunos a refletirem e responderem algumas perguntas como: Quem você irá ensinar? Quantos anos têm essas crianças? Será que elas já realizaram e têm domínio sobre os parâmetros do som? Em quê o estudo mais aprofundado e vivenciado em relação aos parâmetros do som contribuiria na formação dessa criança? O que pretende: formar músicos ou ouvintes? Percebo que os alunos insistem em registrar e ensinar os conceitos, o que é bastante normal para esta fase de formação. Querem escrever na lousa, passar horas explicando e se possível, tocando instrumentos para os alunos na escola. Não colocaremos aqui em questão tal

os alunos na escola. Não colocaremos aqui em questão tal XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira

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realidade. É importante o registro. É importante a aula expositiva. É importante aprender a ouvir e observar com atenção. Porém, ainda problematizo junto ao estagiário: Crianças nos Anos Iniciais querem saber o que é pulso ou querem brincar de roda cantada e marcar o pulso? Querem saber o conceito de um ostinato ritmico ou querem brincar com jogos de copos ou de mãos? As crianças maiores (Fundamental II) querem ficar ouvindo instrumento por instrumento para estudarem o timbre, ou preferem trazer diferentes música com diferentes formações musicais? Querem saber como se constrói a linguagem musical ou querem realizar, vivenciar conjuntos musicais? Teoria ou prática para trazê-los ao universo musical? Enfim, minha função é convencer o estagiário de que ele é capaz e que, antes do aluno da escola, deve estar completamente apaixonado e envolvido com o tema. Devo oferecer materiais de apoio, dar exemplos e mais que isso, incentivá-lo a criar a sua história, o seu jeito, a sua pesquisa, o seu caminho e a se colocar como aprendiz o tempo todo. Seriam essas minhas possibilidades. Conforme debatido em Mateiro; Cardoso (2005, p.7) a música é defendida para todos há muito tempo. Cabe somente ao estagiário realizar essa reflexão e administrar interiormente seus conhecimentos técnicos e pedagógicos dentro da proposta pedagógico-musical da escola. Esses são meus limites.

4. Professora Orientadora e Professor de Música (relação C).

Entendo que essa relação é de fundamental importância para o desenvolvimento do trabalho realizado pelo estagiário no espaço escolar. Realizo aqui, de maneira rápida, o que chamamos de parceira ou trabalho colaborativo 1 . Os dois lados procuram ajudar os estagiários para que esses desenvolvam um bom trabalho, aprendendo e ensinando através de atividades às vezes simples, outras complexas, mas ricas em criatividade. As possibilidades dessa parceria acontecem muito rapidamente com um encontro presencial, onde o professor de Música apresenta seu projeto de trabalho e onde refletimos (professor de música, orientadora e estagiário) as possibilidades e os limites do estagiário dar

1 Segundo Damiami; Porto; Schlemmer (2009, p. 10-13) na literatura brasileira e de outros países o termo é empregado para denominar o processo quando algumas pessoas trabalham juntas. O verbo colaborar é derivado de laborare (trabalhar, produzir) e é quando as pessoas se apoiam, visando atingir objetivos comuns.

as pessoas se apoiam, visando atingir objetivos comuns. XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira de

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continuidade ao projeto já em desenvolvimento. A partir daí nos encontramos presencialmente nos dias em que a orientadora visita o estagiário na escola (2 ou 3 vezes no semestre) e por e-mail ou telefone, trocando informações sobre a assiduidade, comprometimento, envolvimento e desenvolvimento do estagiário junto com os alunos da escola.

Nossos limites esbarram no tempo que ambos profissionais possuem nas suas instituições para que este trabalho aconteça de forma mais segura e mais cuidadosa.

5. Aluno estagiário e Professor de Música (relação D).

Esta relação também é bastante importante, porém ela é marcada principalmente pelo interesse do estagiário em se aproximar e se comprometer com o trabalho. Estagiários que se comunicam com os professores, trocam informações, materiais, aparecem antecipadamente ao horário das aulas, enviam planejamento com antecedência, normalmente são muito bem recebidos e apoiados pelo professor de música. Por outro lado, observamos que a aproximação do estagiário se dá a partir das observações feitas pelos mesmos. Ou seja, é pelas aulas criativas, bem elaboradas e dinâmicas durante o período de observação, que o estagiário vai respeitando e admirando o professor de música. É através da relação estabelecida entre professor de música e alunos, que também se cria confiança fundamental para ali se desenvolver trabalhos bem elaborados, conforme já relatado em Mateiro; Cardoso (2005, p.4). Minhas possibilidades nessa relação são ora ajudar os estagiários a entenderem que o que viram é apenas um recorte de um texto muito mais extenso, ora provocá-los a refletir se consideram tal assunto ou atitude apropriada, exigindo assim que os mesmos concordem ou discordem, mas saibam argumentar ou sugerir novas propostas. Meus limites ficam claros. São eles, apenas eles que compartilham a mesma sala, as mesmas crianças e os mesmos projetos.

6. Aluno estagiário e Aluno da Escola. (relação E).

Do meu ponto de vista, essa é a relação mais importante de todas. Podemos afirmar que é bastante interessante quando acontece um acolhimento das crianças em relação aos

acontece um acolhimento das crianças em relação aos XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira de

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estagiários, assim que esses iniciam seus períodos de observação. Parece-me que os estagiários passam a se sentir confiantes e acabam se envolvendo nos projetos com mais afinco.

Por outro lado, quando não há uma boa recepção dos alunos à presença dos estagiários, esses automaticamente se sentem incapazes de reverter o quadro e já iniciam seus trabalhos acreditando que os mesmos dificilmente darão certo. Com essas diferentes experiências penso, então, que o primeiro a fazer é repensar nossos conceitos sobre criança, infância e cultura. É entender e aguçar as capacidades dos estagiários para o momento mais precioso do trabalho: o convite! O convite é tudo em uma sala de aula, principalmente quando estamos trabalhando com crianças pequenas (Anos Iniciais). Eles não gostam de explicações, gostam de ações, emoções e desafios. Possuem uma sensibilidade bastante aguçada e, apenas pelo tom de nossas vozes ou por nossa comunicação corporal, afirmam se estamos cansados, tristes, animados, felizes ou envolvidos. Parece-me que fica um pouco difícil os estagiários entenderem que a proposta (planejamento de aula) pode ser maravilhosa, mas se o convite não for bem feito, a aula não irá funcionar. Ou seja, é preciso aprender a convidar, é preciso aprender a planejar, mas é também preciso dar voz ao aluno para que esse se sinta também responsável pelo desenvolvimento da aula. Os alunos nessa fase são imprevisíveis. Um dia realizam a atividade com bastante envolvimento e prazer, em outro reclamam que irão fazer novamente aquela atividade. Ora se calam e prestam muita atenção, ora não conseguem parar no lugar e parar de falar. Ora se apresentam educados e respeitosos, ora se apresentam sem limites e sem nenhum medo das consequências de seus atos. Uns se mostram infantis e se escondem de tudo e de todos, outros maduros, sofridos e adoram chamar a atenção o tempo todo. Lentamente os estagiários trazem esses conflitos de dentro deles e querem respostas. Não tenho respostas. Tenho experiências, não se esquecendo de que, segundo Larossa (2002), ela é única, singular. Minhas possibilidades são compartilhar diferentes experiências, contar ações que deram certo, ações que deram errado, sugerir algo para aquele momento específico, e além disso, alimentar o prazer no estagiário em buscar respostas dentro de si, de se permitir o direito de tentar, arriscar, errar, provocar situações e reações dos alunos com intencionalidade

situações e reações dos alunos com intencionalidade XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira de

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e organização. É assim que se cria parceria e cumplicidade. Trocando. Confidenciando. Demonstrando domínio do conteúdo e se mostrando um ser humano que tem suas forças, seus limites e seus desafios. Nem mais, nem menos. Meu limite é que não estou lá. Não posso fazer por eles. Apenas me angustio por eles. Mesmo indo à escola e mediando algumas atitudes inadequadas dos alunos frente aos estagiários, sou consciente de que o aluno é muito mais esperto e que me responde com mais prontidão e precisão, pois já sabe das diferenças de papéis e infelizmente sabe driblar comportamentos com muita maestria.

7. Considerações Finais

Conhecer a natureza das relações existentes entre a Universidade e a Escola permite

repensar a estratégia de ensino, a fim de possibilitar ao estudante em formação, uma maior coerência entre teoria e prática, compreensão dos comportamentos e reações dos alunos em sala de aula, identificação de problemas e possíveis soluções (MATEIRO, 2009, p. 13)

É certo que o desafio do estágio é grande, visto que temos apenas um ano para introduzir o estagiário na escola. Essa reflexão permite afirmar que seria bastante interessante se os estagiários permanecessem como observadores durante um semestre, atuassem em parceria (como auxiliar) em outro semestre ajudando na construção e na elaboração do projeto, assim como na realização do mesmo e aí sim, pudessem atuar como professor de sala com auxílios esporádicos do professor de música durante o próximo ano. Percebo que o estágio em espaços informais é bem mais tranquilo para nossos estagiários, visto que sempre estão em locais onde é necessária e valorizada sua habilidade técnica, não desprezando também a pedagógica. Porém, o mundo escolar ainda é um grande desafio.

Na escola, vivemos o conflito que nem todos que estão ali gostam ou querem fazer aula de música. Na escola, a decisão sobre projetos de trabalhos e, especificamente em música, o que tocamos, ouvimos ou damos maior empenho também se torna mais conflituoso

ou damos maior empenho também se torna mais conflituoso XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira de

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devido às diferentes culturas individuais e familiares. Ali somos convidados a viver com

diferentes opiniões, crenças, estilos e gostos.

Considero a formação de professores uma das atividades mais complexas, por

assumir o compromisso de participar da formação de pessoas para atuar na sociedade. Ela

caminha entre o velho e o novo, entre a teoria e a prática, entre o desejável e o real, entre

indagações, reflexões, resignificações e redimensionamentos. Ela se faz através de diferentes

relações estabelecidas entre Universidade e Escola e tem o estagiário como principal ponte

para este diálogo. Cabe então aos professores envolvidos reflexões, indagações e sugestões

em como melhorar esse espaço, considerado hoje bastante pequeno.

Conclui-se que observar para poder prever o imprevisto nem sempre é um

paradoxo. Do meu ponto de vista, o estágio é um dos únicos espaços privilegiados dentro da

Universidade para que essa reflexão aconteça.

Referências

ANGUITA, Marisol; HERNÁNDEZ, Fernando; VENTURA, Montse. Los proyectos, tejido de relaciones y saberes. In: Cuadernos de Pedagogía. Abril, 2010, nº 400, p. 77- 80.

DAMIAMI,Magda F.; PORTO, Tânia M. E.; SCHLEMMER, Eliane.Trabalho colaborativo/cooperativo em educação: uma possibilidade para ensinar e aprender. Organizadoras Magda Damiami,Tânia Porto, Eliane Schlemmer. São Leopoldo: Oikos; Brasília: Liber Livro, 2009.

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LAROSSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação. Jan/Fev/ Mar/ Abr, 2002, nº 19, p. 20-28.

MATEIRO, Teresa. Observar, registrar e refletir durante o estágio supervisionado em música. UAB/UnB- Estágio Supervisionado em Música 2, 2009.

MATEIRO, Teresa; CARDOSO, Méri C. S. O estágio, o registro e a reflexão dos estudantes de música. Revista DAPesquisa- Revista de Investigação em Artes, v.1, n.2, AGO/2004- JUL/2005. Disponível em http:// www.ceart.udesc.br/revista _dapesquisa. ISSN: 1808-3129.

www.ceart.udesc.br/revista _dapesquisa. ISSN: 1808-3129. XXI Congresso Nacional da Associação Brasileira de

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