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15º Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia e Ambiental

AVALIAÇÃO DOS DADOS OBTIDOS NAS SETORIZAÇÕES DE RISCO REALIZADAS NO ESPÍRITO SANTO

Pinho, D. 1 ; Lazaretti, A.F. 2 ; Silveira, M.C.M. 3 ; Antonelli, T. 4 ; dos Santos, L.F. 5 ;

Resumo – O mapeamento de riscos geológicos realizados pelo SGB/CPRM, até janeiro de 2015, setorizou 59 municípios, o que representa cerca de 76% do território do ES. Tem-se, em números, mais de 310 mil pessoas em risco em aproximadamente 66 mil moradias e, até o momento, nas áreas densamente povoadas (urbana ou rural), um total de 757 setores de risco identificados. Com base nas tipologias dos processos adversos avaliados, nas áreas de risco de grau Alto, os deslizamentos (planares, rotacionais e em taludes de corte e aterro) representam 42,81%, as quedas e rolamentos de blocos 16,34%, os processos erosivos (sulcos, ravinas entre outros) 10,46%, as inundações (associadas às planícies das principais bacias de drenagem) e enchentes (canal dos rios) 29,41%, e os solapamentos de margens 0,98%. Para as áreas de grau Muito Alto os deslizamentos participam com 69,34%, quedas e rolamentos de blocos 15,57%, processos erosivos 7,78%, inundação e processos associados 7,08%, e solapamento de margens 0,24%. As inundações e enchentes predominam nas áreas de risco de grau Alto, geralmente em áreas de relevo pouco acidentado associado a form ações sedimentares. Os processos de deslizamentos estão intrinsicamente ligados à compartimentação geológica e também à geomorfologia, sendo maioria nas áreas de risco classificado como Muito Alto. Os fatores naturais predisponentes somados à ação antrópica e falta de intervenções estruturais são os principais condicionantes deflagradores de processos geradores de risco geológico.

Abstract – The geological risks mapping undertaken by the Geological Survey of Brazil/CPRM, until February 2014, reached 59 municipalities, representing about 76% of the Espírito Santo territory. There is, in numbers, more than 310,000 people at risk in approximately 66,000 houses and, so far, in densely populated areas (urban or rural), a total of 757 identified risk sectors. Based on the types of adverse processes evaluated, it was verified that for High degree risk areas landslides (planar, rotational and cut and fill slopes) represents 42.81% and rock falls 16,34 %, erosive processes (grooves, ravines and others) 10.46%, floods (associated to the plains of the main drainage basins and river channel) 29.41%, river banks failure 0.98%. For Very High degree areas: landslides 69.34%, rock falls 15.57%, erosive processes 7.78%, flooding and associated processes with 7.08%, and 0.24% for river banks failure. Floods predominate in High degree risk areas, usually in flattened relief areas associated with sedimentary formations. Landslides processes are intrinsically linked to the geological framework and also the geomorphology, with most of the areas being of Very High risk ones. The natural predisposing factors added to the human action and lack of structural measures are the main triggers constraints of geological risk generating processes.

Palavras-Chave – riscos geológicos, processos geológicos, desastres naturais, Espírito Santo.

  • 1 Geól., MSc, Serviço Geológico do Brasil - CPRM, (11) 3775-5100, deyna.pinho@cprm.gov.br

  • 2 Geólª., Serviço Geológico do Brasil - CPRM, (11) 3775-5100, andrea.lazaretti@cprm.gov.br

  • 3 Geólª., Serviço Geológico do Brasil - CPRM, (11) 3775-5100, maria.silveira@cprm.gov.br

  • 4 Geól., Serviço Geológico do Brasil - CPRM, (11) 3775-5100, tiago.antonelli@cprm.gov.br

  • 5 Geól., Serviço Geológico do Brasil - CPRM, (11) 3775-5100, luiz.fernando@cprm.gov.br

1. INTRODUÇÃO

Desde novembro de 2011 o Serviço Geológico do Brasil – CPRM vem atuando no Estado do Espírito Santo, realizando mapeamento de riscos geológicos considerando os graus Alto a Muito Alto para processos de movimentos de massa, inundações e enchentes, em metodologia própria (Sampaio et al. 2013), adaptada de Carvalho, C.S; Macedo, E.S.; Ogura, A.T; 2007 . Este trabalho faz parte do Programa Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais , intitulado Ação Emergencial para Delimitação de Áreas em Alto e Muito Alto Risco a Enchentes e Movimentos de Massa, que tem como objetivo principal auxiliar na redução dos efeitos destes eventos do ponto de vista social e econômico.

Em interação multissetorial com outros órgãos federais, como uma das partes executoras do Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais, no eixo Mapeamento, o SGB/CPRM provê dados básicos e essenciais, como a setorização de riscos e cartas de suscetibilidade, para o Centro Nacional de Gerenciamento de Risco de Desastres Naturais – CENAD, para o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais – CEMADEN, Defesas Civis locais e outros setores federais integrados no Plano Nacional e coordenados pela Casa Civil da Presidência da República (Bertone & Marinho 2013).

Até janeiro de 2015, o SGB/CPRM mapeou em todo o Brasil 860 municípios (Figura 1), sendo que o objetivo inicial era a Setorização de Riscos Geológicos em 821 municipalidades até 2014. O Espírito Santo conta com 59 destes municípios, representando 76% do estado.

1. INTRODUÇÃO Desde novembro de 2011 o Serviço Geológico do Brasil – CPRM vem atuando no

Figura 1. Total dos municípios mapeados pela CPRM entre 2011 e abril de 2015 para todo o Brasil.

2.

SETORIZAÇÕES E GEOLOGIA

2.1. Municípios Setorizados

A Figura 2, abaixo, apresenta os municípios setorizados entre 2011 e abril de 2015, incluindo a previsão para o ano de 2015 (atual). Estes 59 municípios, representam cerca de 9,16% da população brasileira em áreas de risco ( 310.350 mil pessoas), em 65.906 moradias (8,16% do total nacional), para um total de 757 setores de risco Alto e Muito Alto.

2. SETORIZAÇÕES E GEOLOGIA 2.1. Municípios Setorizados A Figura 2, abaixo, apresenta os municípios setorizados entre

Figura 2. Total dos municípios mapeados entre 2011 e 2014 e previsão para 2015.

2.2. Caracterização Geológica do Estado

O Estado do Espírito Santo está, em termos de compartimentação tectônica inserido na Província Mantiqueira (Almeida 1977), sendo que a maior porção do Estado (setentrional) está situada sobre o Orógeno Araçuaí o qual se estende do limite leste do Cráton do São Francisco até a margem atlântica, aproximadamente entre os paralelos 15º e 21º (Pedrosa-Soares et al. 2001, 2008). Este orógeno inclui a faixa de Dobramentos Araçuaí (Almeida 1977) e a região a leste dela rica em rochas graníticas e metassedimentares de alto grau (Pedrosa e Soares et al. 2007) (Figura 3).

2.2. Caracterização Geológica do Estado O Estado do Espírito Santo está, em termos de compartimentação tectônica

Figura 3. Mapa tectônico do Orógeno Araçuaí (Retirado de CPRM 2012).

De forma geral, o Estado do Espírito Santo em termos litológicos, possui terrenos Pré Cambrianos que vão de rochas metamórficas de alto grau dos Complexos Paraíba do Sul e Nova Venécia de idades arqueanas a paleoproterozóicas (2100 – 1500 Ma) representantes do embasamento cristalino com protólitos para e ortoderivados (Noce et al. 2007) a granitoides cristalizados durante a granitogênese brasiliana (620- 480 Ma) em seus vários estágios evolutivos bem como os terrenos sedimentares Quaternários (Holocênico e Pleistocênico) e Terciário (Figura

4).

Figura 4. Mapa geológico simplificado do Estado do Espírito Santo, com indicações de ocorrências de rochas

Figura 4. Mapa geológico simplificado do Estado do Espírito Santo, com indicações de ocorrências de rochas ornamentais (Retirado de CPRM 2013).

Verificando a relação com a geologia, tem-se que estes processos ocorrem em três grandes grupos: nos gnaisses-migmatitos, nos granitoides e nas coberturas mesozoicas e cenozoicas.

Onde ocorre o predomínio dos gnaisses-migmatitos, em geral rochas muito descontínuas e de grande anisotropia mecânica, ocorre mais facilmente o desplacamento das rochas em grandes blocos ou lascas bem como queda destes, além da formação de solos com suscetibilidade média a alta a movimentos de massa. Já nas regiões de granitoides, com de predominância de charnokitos, também há a geração blocos e solo de grande potencial erosivo e nas áreas de coberturas mesozoicas e cenozoicas há o predomínio de formações sedimentares, por vezes bastante friáveis, com avançada ação de intemperismo físico e químico.

Sendo assim estudos, planejamento urbano, além de intervenções são fatores de extrema urgência para que estes números de setores de risco não aumentem já que é fato que sem a intervenção antrópica o ambiente é favorável a estes processos (Figura 5).

A B
A
B

Figura 5. Exemplo da Formação Barreiras em corte de estrada, com alto grau de intemperismo (A) e dos granitoides sustentando os relevos mais altos, com feições de escorregamentos (B) , na região de Aracruz – ES (Fonte: Tiago Antonelli / CPRM, 2014).

  • 3. TIPOS DE PROCESSOS

Os dados disponibilizados no banco de dados do SGB/ CPRM, e fornecidos ao Cemaden são obtidos em campo nas diversas campanhas mencionadas. Para trabalhar de forma adequada com estas informações, foi necessária uma unificação das descrições e tipologias, sendo descritos a seguir:

  • 1. Deslizamentos: taludes de corte, planares e rotacionais;

  • 2. Processos erosivos: ravinamentos, voçorocas e sulcos;

  • 3. Inundações: incluindo solapamento e assoreamento e

  • 4. Quedas, rolamentos de blocos e lascas.

A tabela abaixo representa os processos e as porcentagens para os municípios setorizados considerando apenas os graus de risco alto e muito alto.

Tabela 1. Processos classificados de acordo com os graus de risco.

Processo Alto % Alto Muito Alto % Muito Alto Total
Processo
Alto
% Alto
Muito Alto
% Muito Alto
Total

Inundação

90

75

30

25

120

Queda e rolamento de blocos

50

43

66

57

116

Erosão

30

51

29

49

59

Deslizamentos em taludes

78

53

68

47

146

Deslizamentos planares

50

19

209

81

259

Deslizamentos rotacionais

0

0

5

100

5

Rastejo

3

20

12

80

14

Ravinamentos

2

40

3

60

5

Sulcos

0

0

1

100

1

Solapamento de margens

3

75

1

25

4

Analisando separadamente os tipos de processo temos que na Figura 6, dentre todos os processos dominantes, destaca-se os deslizamentos planares com 259 ocorrências, estes sem intervenção antrópica, que no caso é o segundo processo mais registrado, 146 ocorrências (em taludes de corte).

Ao cruzar

os

processos

com

os graus

de risco

alto

e

muito alto,

como na Figura

7,

novamente os deslizamentos planares lideram para risco muito alto, enquanto para risco alto, os maiores valores estão para inundação, seguidos pelos deslizamentos em taludes de corte.

Tabela 1. Processos classificados de acordo com os graus de risco. Processo Alto % Alto Muito

Figura 6. Gráfico do total dos tipos de processos adversos nas áreas setorizadas do estado do ES.

Tabela 1. Processos classificados de acordo com os graus de risco. Processo Alto % Alto Muito

Figura 7. Gráfico de processos adversos comparados pelos graus de risco geológico do estado do ES.

Ao analisar separadamente os processos por graus de risco, inicialmente para risco alto, é possível verificar que um novo processo se destaca, o solapamento de margem, alinhado junto das inundações (Figura 8).

Figura 8. Gráfico de processos adversos existentes para grau de risco Alto do estado do ES.

Figura 8. Gráfico de processos adversos existentes para grau de risco Alto do estado do ES.

Figura 8. Gráfico de processos adversos existentes para grau de risco Alto do estado do ES.

Figura 9. Gráfico de processos adversos existentes para grau de risco Muito Alto do estado do ES.

Fazendo a mesma comparação, para grau de risco muito alto, temos como destaque os processos de deslizamentos planares (naturais), e em taludes de corte, seguido por sulcos erosivos (Figura 9).

Após estas análises isoladas e cruzando estes dados por município, temos o seguinte mapa de situação como mostra a Figura 10.

A predominância no estado é por processos do tipo deslizamentos, em 50 municípios, seguido pela inundação em 05 municípios, principalmente nas regiões das bacias dos rios Doce (ao norte) e Cachoeiro (ao sul). A queda de blocos é dominante em 03 municípios, coincidentemente na porção sul do estado, que contem a maior quantidade de áreas de lavra de rochas ornamentais, e para erosão temos apenas 01 município ao norte, que corrobora com os grandes períodos de seca da região, esta conhecida como “Polígono da Seca”, em função do solo exposto por conta de desmatamentos e atividades pecuárias.

Figura 10. Predominância dos processos geológicos adversos por município. 4. CONCLUSÕES Comparando-se todos os dados quantitativos

Figura 10. Predominância dos processos geológicos adversos por município.

4. CONCLUSÕES

Comparando-se todos os dados quantitativos das ocorrências geológicas aqui expostas, com a geologia do estado do Espírito Santo pode-se notar que a tipologia dos processos de movimento de massa está intrinsicamente ligado à formação geológica local e, por consequência, com o tipo de solo presente. Como pôde ser observada na Figura 4 grande parte do ES está em rochas oriundas da granitogênese do Orógeno Araçuaí, além de rochas do embasamento Proterozóico. Essas rochas sustentam, em muitas regiões, um relevo bastante acidentado que, somado a fatores como solo exposto, ocorrência de chuvas intensas e ocupações sem o devido planejamento, configuram áreas de risco geológico de graus Alto e/ou Muito Alto a movimentos de massa (deslizamentos, rolamento, tombamento de blocos, etc).

Como pode ser observada na Figura 10, apesar da maioria das cidades do ES terem o deslizamento como principal processo causador de risco (50 cidades), em algumas outras cidades como Linhares e Aracruz, por exemplo, outras tipologias surgem como mais frequentes

(inundação, erosão). Isso se dá, dentre outros fatores, principalmente devido à geomorfologia da região que é fortemente condicionada pela geologia, que no caso dos municípios citados é por estarem sobre coberturas sedimentares cenozoicas, por vezes pouco consolidadas, altamente friáveis suscetíveis à erosão, sustentando relevo de tabuleiros e colinas amplas e suaves.

Diante disto, podemos concluir que, naturalmente, a tipologia dos processos descritos está ligada a compartimentação geológico-geotécnica de toda região. Entretanto a ação antrópica, quer seja por construções irregulares edificadas sem os devidos cuidados geotécnicos, quer seja pelo rápido avanço do desmatamento, é um fator que aumenta e potencializa a probabilidade de deflagração de processos adversos e consequentemente o grau de risco geológico.

Sendo assim, é de extrema importância à divulgação destes dados para os gestores em todas as escalas, bem como estudos detalhados de mapeamento (cartas geotécnicas, de aptidão e outras) em escalas adequadas ao planejamento urbano para o correto dimensionamento das intervenções estruturais onde necessário, e auxílio nos planos de expansão dos municípios, evitando novos desastres e para que a Defesa Civil execute seu trabalho de monitoramento e prevenção, como parte das ações não estruturais.

REFERÊNCIAS

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BERTONE, P. & MARINHO, C. 2013. “Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais: a visão do planejamento.” In: Congr. do Cons. Nac. de Secret. de Estado da Adm. – CONSAD de Gestão Pública, VI, Brasília, DF.

CPRM 2012. Geologia e Recursos Minerais da Folha Nova Venécia *SE-24-Y-B-IV escala 1:100.000, Ministério de Minas e Energia, Brasília.

CPRM 2013. Atlas de Rochas Ornamentais do Estado do Espírito Santo, Projeto Geologia e Recursos Minerais de Estado do Espírito Santo, Ministério de Minas e Energia, Brasília.

PEDROSA-SOARES A.C., NOCE C.M., WIEDEMANN C., PINTO C.P. 2001 The Araçuaí- WestCongo Orogen in Brazil: An overview of a confined orogen formed during Gondwanaland Assembly. Precambrian Research, 110 (1-4): 307-323 p.

PEDROSA-SOARES, A. C., NOCE, C. M., ALKMIM, F. F., SILVA, L. C., BABINSKI, M., CORDANI, U., CASTAÑEDA, C 2007. Orógeno Araçuaí: Síntese do Conhecimento 30 anos após Almeida 1977. Geonomos 15(1): 1 - 16 p.

PEDROSA-SOARES A.C., ALKMIM F. F., TACK L., NOCE C.M., BABINSKI M., SILVA L.C., MARTINS-NETO M.A. 2008 Similarities and diferences between the Brazilian and African counterparts of Neoproterozoic Araçuaí-West Congo orogen. In: Pankhrust R., Trouw R., Brito-

Neves B B., Wit M. de. 2007 . The Gondwana Peleocontinent in the South Atlantic Region . Special Publication; Geological Society of London, 294 p.

NOCE, C.M.; PEDROSA-SOARES, A.C.; DA SILVA, L.C.; ALKMIM, F.F 2007. O embasamento arqueano e paleoproterozóico do Orógeno Araçuaí . Geonomos, v.15, No. 1, p. 17-23.

SAMPAIO, T. Q., PIMENTEL, J., SILVA, C. R., MOREIRA, H. F. 2013. “A Atuação do Serviço Geológico do Brasil – CPRM na Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais.” In: Congr. do Conselho Nac. de Secretários de Estado da Adm. – CONSAD de Gestão Púb., VI, Brasília, DF.