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Filipa Albuquerque

BREVE
REFLEXÃO


Performance poético-musical

Criadores Artísticos/Actores

Grupo de alunos do 1º ano

do Curso de Mestrado em Teatro e Comunidade

Público
Turma do 3º ano C da Escola Básica do 1º Ciclo n.º 54 de Lisboa (Zona J de Chelas)

(professora, alunos, familiares e auxiliares de acção educativa)


Data do Atelier

7 de Maio de 2009

Avaliação
de
actividade
apresentado
à
Escola
Superior
de
Teatro
e
Cinem a


no
âm bito
do
Sem inário
Laboratório
I
do
M estrado
em 
Teatro
e
Com unidade



m inistrado
pela
M estre
Rita
W engorovius


2009


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Contextualização desta Avaliação:

Na sequência do trabalho de laboratório, no âmbito do estudo do Actor I, foi proposto realizar-se uma
performance para uma turma de crianças do 1º Ciclo.

Porque na minha actividade profissional trabalho com um grupo de alunos do 3º ano de escolaridade
propus que se realizasse a performance com os elementos desse grupo de trabalho escolar.

Para além de a faixa etária dos meninos se adequar ao trabalho de laboratório pretendido, esta turma
trazia já consigo uma ligação mediada a este mestrado.

Enquanto professora, trabalho com os meus alunos numa perspectiva de troca de saberes. Levamos
connosco, para a sala de aula, a nossa construção, as pessoas com quem nos cruzámos, as experiencias
que fomos traçando ao longo da vida, os nossos fracassos e as nossas conquistas, Desta forma, e ao
longo do ano lectivo foi frequente levar das aulas de Laboratório I algumas sugestões de trabalho,
metodologias e propostas de actividades que fui, após cuidada reflexão e planificação, experimentando
e experienciando com os meus alunos. Assim, por ocasião do dia das Bibliotecas escolares, propus que
fizéssemos com a comunidade escolar e com a comunidade da Zona J, um estendal poético que
celebrasse a leitura enquanto fonte de prazer. O estendal foi realizado, vivido e saboreado com
resultados muito positivos.

Uma vez que a turma tinha realizado um estendal poético na escola, sugeriu-se os alunos do mestrado
oferecessem aos alunos do 3º C, uma performance poética que enquadrasse o estendal poético, numa
óptica de criação artística e de construção colectiva de saberes.

A avaliação que aqui faço está, pela própria natureza do objecto, inquinada de subjectividade, o que
resulta do facto de me encontrar nos dois lados do espelho. Assumirei, assim, dois papeis ao longo
deste processo de avaliação. Um primeiro de observadora (ligeiramente participante) na fase a que
chamo desenho da performance e um segundo papel de público na fase de recepção da acção
performativa e do atelier criativo.

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Desenho da Performance, sessão preparatória:

Dadas as circunstâncias do contexto acima exposto, pareceu-me que o meu papel nesta actividade de
laboratório deveria manter-se numa perspectiva de observadora e que apenas deveria participar
pontualmente, sempre que me parecesse pertinente, ou que fosse interpolada pelo grupo de mestrado.

Fiquei, portanto, na linha ténue que divide o actor e o público. Em pleno espaço suspenso. Pensei, na
altura, que ia ser uma experiencia pessoal muito interessante. O que não poderia ser mais verdade.

O facto de ter decidido filmar esta sessão preparatória ajudou-me a manter esta postura mais
observadora. Para mim o acto performativo tinha começado. Filmei o trabalho dos meus colegas como
se visse, ali mesmo, uma performance. O processo de criação artística estava diante de mim como se
de uma acção performativa se tratasse. Penso que o facto de ter começado muito recentemente filmar
e, portanto, a ver a realidade enquadrada num ecrã minúsculo, reforçou, ainda mais, esta minha
sensação outsider, de público intrometido num momento que não lhe pertence. Apesar destas sesações,
o momento era contraditório na medida em que sentia, como um elemento muto presente, o calor do
empenho dos meus colegas na realização de um momento especial para miúdos especiais.

Foi estranho, foi bom. criar

Foram formados dois grupos para construir duas cenas inspiradas na ideia de estendal poético.

Em relação à preparação exponho aqui alguns elementos positivos a destacar:

Capacidade de organização e trabalho de equipa dos colegas de mestrado.


O bom ambiente de trabalho conseguido.
Existência de propostas de actividades muito interessantes.
A capacidade de aceitação e enquadramento das opiniões de cada um dos elementos do grupo.
A criação de duas propostas distintas, ambas, com muita qualidade.
O registo escrito das duas propostas de acção performativa e de algumas propostas de
actividades a realizar no dia do estendal poético.

Refiro, também, três aspectos a melhorar que me pareceram estar presentes nesta sessão de trabalho.

Escassez de tempo para se desenhar as duas propostas.


O facto dos dois grupos estarem a experimentar as suas propostas em simultâneo na mesma
sala criou alguns momentos de grande confusão.

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O grupo dois (grupo dos alguidares) não teve espaço/tempo para expor o seu trabalho criativo
até ao fim, como aconteceu com o primeiro grupo.

Encontros preparatórios e de planificação:


Uma vez que não estive presente em nenhuma destas sessões de trabalho não vou avaliar esta fase do
trabalho.

Farei, aqui, apenas uma breve exposição da preparação da viagem poética dos meus alunos à Escola
Superior de Teatro e Cinema.

Os alunos, seguindo um roteiro de pesquisa que lhes propus, pesquisaram na Internet vários
elementos para a preparação da aula-passeio.: - O que é a Escola Superior de Teatro e Cinema?
Onde fica? Como se consegue lá chegar de transportes? (ver guião de pesquisa em anexo)
Recordámos o estendal realizado no mês anterior, através da criação de um pequeno filme
construído com algumas fotografias da acção e com uma música africana que os alunos
aprenderam, através de um encarregado de educação, no dia do estendal.
Recebemos na nossa sala de Aula um Mestre em Filosofia para percebermos melhor o que é
um Mestrado. Nessa sessão de esclarecimento expliquei como é o trabalho de um aluno de
mestrado em Teatro e Comunidade. O que fazemos? O que estudamos?
Desenhámos o nosso roteiro de viagem, verificámos os transportes a apanhar e vimos o
percurso através do programa Google Earth.
Preenchemos a lista de material necessário para a aula-passeio.
Fizemos os convites para os encarregados de educação e familiares.
Pontos positivos:
Toda a preparação correu como esperado, tendo-se realizado, na sala de aula, sessões
muito interessantes e proveitosas.
A melhorar …
Esqueci-me que tinha ficado de informar os colegas do mestrado sobre o nome dos
meninos da turma
Uma vez que a prática habitual que tenho, em saídas da escola, com os familiares
implica que apenas confirmem a sua presença no dia da aula passeio (aparece quem
quiser!); não foi possível avisar os colegas de mestrado sobre o número de encarregados
de educação que nos iam acompanhar.

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Performance Poético-musical:

1. Recepção da Escola Superior de Teatro e Cinema à turma 3º C


A chegada dos alunos à escola foi um pouco confusa!
Uma vez que chegámos um pouco mais cedo do que esperávamos fizemos um piquenique no jardim
em frente da Escola Superior de Teatro e Cinema. O piquenique correu bastante bem. Os meninos
tiveram tempo suficiente para comer e correr e brincar.
Após arrumarmos as sobras do piquenique e verificarmos se o espaço estava limpo como o
encontrámos, partimos para a recta final que nos conduziria a um anunciado espaço mágico.
Quando chegámos à escola dirigimo-nos à recepção e anunciámos a nossa chegada. Uma vez que
ninguém sabia que era suposto estarmos ali, pediram-nos que esperássemos na entrada. Estas
esperas são muito agitadoras para os meninos, que não se sentem confortáveis numa situação de
espera, de pé. Houve queixas da parte dos pais e dos meninos.
Após 10 minutos de espera, ouvi um violino na sala de alunos. Entrei e perguntei a um colega da
licenciatura que estava a tocar se se importava que os meninos se sentassem por ali a ouvi-lo.
Acedeu, (também ficou sem grandes hipóteses) e tocou para eles. Os meninos acalmaram-se e,
apesar de continuarem com as orelhas em pé a tentar perceber quando é que se ia para o tal sítio
mágico, aproveitaram o momento sentados de pernas cruzadas em volta dos sofás!
Passados mais 10 minutos, chegaram duas pessoas ligadas á direcção da escola a quem expliquei,
pela segunda vez, o que se estava a passar.
Finalmente, após 20 minutos de perfeita loucura, lá conseguimos descer a escadas em direcção ao
nosso tão esperado estendal mágico.
Infelizmente, parece que mesmo com 20 minutos de espera ainda era cedo de mais. A culpa é dos
transportes públicos que andam a ficar cada vez mais rápidos!
Vimos o professor Domingos que nos recebeu com um largo sorriso e nos encaminhou para o pátio,
onde fomos espontaneamente acolhidos por estudantes da escola que faziam o seu intervalo. Fez-se
magia, cantou-se, lançou-se o iô-iô e como era um espaço ao ar livre cheio de gente divertida os
meninos ficaram bem e ambientaram-se rapidamente. Aquele pátio já era deles!
Os familiares foram povoando o local, lentamente, entre conversas musicais com o professor
Domingos e a observação atenta dos seus rebentos.

Resumo das situações a melhorar…


Falta de coordenação entre a organização da sessão e a recepção e direcção da ESTC.
Excessivo tempo usado pela recepção/seguranças da escola e da direcção para
solucionar aquele imprevisto.

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Resumo dos pontos positivos:


Bom ambiente da ESTC.
Simpatia e disponibilidade do colega violinista e dos colegas que animaram, no pátio,
pequenas actividades lúdicas para os meninos.
Capacidade de animação dos meninos num ambiente de improvisação da parte dos
colegas que faziam o seu intervalo
Enquadramento dos familiares pelo professor Domingos.

2. Recepção dos alunos pelo Grupo de mestrado
(Neste e nos próximos itens da avaliação, serei menos descritiva uma vez que a partir deste ponto todos os
elementos do grupo de mestrado estiveram presentes.)
Fomos recebidos pela Célia e Elsa que organizaram o grupo num pequeno círculo
apertado e nos propuseram jogos de quebra-gelo.
Pontos Positivos
Criação de um momento de recepção no exterior.
A Célia e a Elsa foram extremamente eficazes na recepção dos alunos e na criação de
um ambiente que se diferenciasse do que até aí tinha acontecido.
Boa capacidade de escuta entre as duas actrizes.
Utilização de estratégias de construção de espírito de grupo, como foi o caso da criação
de um nome para o grupo e de um “grito unificador”.
Utilização de um objecto relacionado com o estendal e a sua inscrição escrita com o
nome de cada aluno. Penso que foi positivo o momento de escrita do nome nas molas.
Cada aluno teve oportunidade de se apresentar e de deixar a sua marca na mola.
A caminhada em fila até ao local do espaço cénico interior foi interessante e engraçada
fazendo lembrar o caminho dos anões da Branca de Neve de regresso ao acolhimento da
sua casa na floresta.
A melhorar …
A hora de início da sessão não foi cumprida, tendo deixado alguma margem para os
meninos se dispersarem.
O grito de grupo era demasiadamente extenso para meninos daquela faixa etária e para
o pouco tempo que tínhamos para memorizar. “ somos leões jona jota, jona jota, jona
jota” – alguns elementos não conseguirão memorizar o nome.
Os familiares podiam ter sido enquadrados no momento de quebra-gelo como
participantes e não, apenas, como observadores ( mesmo que incluídos no grupo dos
meninos).

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3. Momento performativo

Pontos positivos:
O espaço era acolhedor e criava uma sensação de entrada num local poético, de
comunicação e celebração com os deuses.
Habitar o espaço cénico através da colocação das molas no estendal.
A recepção dos meninos através do confronto da musicalidade dos seus nomes.
As passagens/Transições entre os vários momentos da performance foram bem
conseguidos.
Introdução de momentos de participação dos meninos na performance (dizer / cantar as
partituras)
Uma enorme e visível capacidade de escuta entre os actores.
Dedicação e profissionalismo de todos os elementos do grupo de mestrado.
Colaboração do professor Domingos em todas as fases do processo.
Equilíbrio entre todos os momentos da apresentação.
Apesar das apresentações terem características diferentes, os dois grupos conseguiram
um trabalho equilibrado de qualidade
A música em presença foi uma forma muito interessante de solucionar a transição para
o segundo grupo.
Existência de musicas que se iam repetindo. (conta-me um conto … conta-me um conto
… conta… conta… conta… conta).
Pessoalmente, não achei que se sentisse, enquanto espectadora, qualquer diferença de
qualidade ou segurança entre um grupo e outro.
Fantástica capacidade de escuta dos actores. É absolutamente espantoso a forma como,
sem ensaios, se conseguiu a qualidade que apresentaram na acção performativa.
A melhorar …
Do ponto de vista do público não se fizeram notar qualquer tipo de fragilidades nesta fase
da performance poética.
Numa observação mais cuidada e mesmo minuciosa poderemos dizer que a coordenação
do som instrumental com a acção da segunda performance mostrou algumas fragilidades
e poderia melhorar com alguns ensaios.



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4. Momento de Oficina: Dois Exercícios


1º Exercício – “Escravos de Jó”
Pontos positivos
Exercício extremamente divertido e estimulador de diversas competências
Todos os actores conheciam o exercício com segurança.
Material disponível atempadamente.
Actores em número suficiente para dar apoio aos alunos
Ambiente descontraído dos participantes.
Alguns grupos mostraram um muito bom trabalho no pequeno grupo – ambiente amigável e
calmo.
O trabalho no pequeno grupo, de uma forma geral, foi muito positivo tendo havido um muito
bom trabalho de entrosamento dos meninos com os actores.
Verificação de um verdadeiro trabalho de equipa nos trabalhos de pequeno grupo.
Presença do suporte musical do professor Domingos.
A melhorar…

Não existência de uma pessoa responsável por gerir o exercício, fazendo com que as directrizes
viessem de uma forma difusa.
O período de exposição e explicação do exercício foi muito curto para meninos daquela faixa
etária.
A explicação deveria ter sido feita por partes.
Dispersão dos meninos nalgumas situações, durante o trabalho do grande grupo.
A escolha dos pequenos grupos não deveria ter sido aleatória. Os grupos eram muito díspares.
Grupos apenas com meninos com grandes dificuldades educativas e grupos com meninos com
mais competência cognitiva. É melhor criar grupos onde se misturem os meninos.
Passagem abrupta do trabalho do grande grupo para o pequeno grupo.
Falta de tempo de alguns grupos para maturarem o trabalho com os alunos. Os meninos têm
tempos e ritmos diferentes de aprendizagem. Teria sido útil verificar se já todos os grupos
tinham conseguido atingir os seus objectivos. Um dos grupos quando, finalmente, começou a
ganhar confiança e a sentir-se bem sucedido com um movimento fluído, não teve a
oportunidade de fazer mais uma ou duas vezes o seu exercício. Por vezes é preferível fazer
menos coisas para conseguir respeitar o tempo de todas as crianças.
Alguma confusão e stress no momento da mudança do trabalho de grande grupo para os
pequenos grupos. Alguns meninos ficaram sem saber para onde ir, com quem, fazer o quê!

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2º Exercício – “partituras sonoras”

Pontos positivos

Construção das partituras em equipa, com a participação dos meninos e dos actores a
desenvolver um trabalho conjunto
Materiais diversificados
Momento de explicação do exercício realizado dentro do pequeno grupo, com mais calma
e serenidade
Bom trabalho de estímulo à criatividade, apesar da condicionante tempo.
Apresentação dos trabalhos fluida e bem coordenada

A melhorar …

Passagem brusca para o exercício.


Momento de confusão durante o momento de passagem.
Verificação de gritos na comunicação com os meninos para se fazerem ouvir. É
preferível parar e esperar do que gritar com meninos que vêm de ambientes muito
poluídos do ponto de vista sonoro. Estão habituados ao grito e, por isso, não reagem a
este tipo de estratégias.
Manifesta falta de tempo para a conclusão do exercício com a calma desejável. Com mais
tempo para maturar as partituras e acomodar as sonoridades tetr-se-iam conseguidos
resultados melhores
O Tomás não ficou até ao final do exercício. Talvez por excessiva dependência do Sr.
Carlos. Como queria estar com o auxiliar abandonou as tarefas. Talvez fosse necessário
pensar melhor os exercícios e a forma dos expor aos meninos com necessidades
educativas especiais.
Alguma dispersão dos meninos no final da acção. Houve meninos a passear, sozinhos,
pela escola, sem o conhecimento da professora.

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Conclusão:

De uma forma global a oficina poético-performativa foi um momento bastante positivo. Apenas
uma observação mais minuciosa e exploratória fazem notar algumas fragilidades, que na
globalidade se diluem.
Apesar dos elementos a melhorar estarem mais explicados e, por isso, pareçam mais
significativos, a acção, no seu todo, foi muito positiva e resultou como um passeio poético-
musical que maravilhou os mais pequenos.
Na avaliação de final de ano a ida à ESCT foi dos mais referidas como melhor momento fora da
escola (mesmo em comparação com o planetário, o CCB, o Jardim Zoológico (com golfinhos e
tudo), as oficinas musicais da Gulbenkian, o cinema, os desportos radicais em Monsanto, etc).
Encarregados de educação e crianças saíram plenamente satisfeitos com o programa apresentado.
Foi com este Estendal que me apercebi da necessidade e urgência de implicar a restante
comunidade de Chelas em projectos culturais de qualidade, capazes de transformar.
Pessoalmente, para além da aprendizagem e experiencia que daqui retirei, o estendal funcionou
como um momento extremamente interessante de partilha e de comunhão de duas dimensões da
minha vida. O lanche veio celebrar esse momento de uma forma natural, despreocupada e
divertida. Agradeço a todos os que trabalharam arduamente para que tudo parecesse simples!
Obrigado a todos pelo empenho, pelo trabalho, pelo profissionalismo e pela amizade.