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“Religiões, Materialidades, Espaços Públicos”

NER- PPGAS/UFRGS
Porto Alegre, 10 e 11 de junho de 2015

O santo, a face e o outro: uma reflexão sobre o Cristo em Ouro Preto
Edilson Pereira (UERJ)
edilperei@yahoo.com.br

O santo, a face e o outro: uma reflexão sobre o Cristo em Ouro Preto
Edilson Pereira
Nesta comunicação, gostaria de abordar alguns dados de pesquisa que começo a
analisar agora, após a conclusão da minha tese de doutorado, na qual discorri sobre as
dinâmicas sociais e transformações rituais que caracterizam a celebração da Semana Santa na
cidade mineira de Ouro Preto, Minas Gerais (PEREIRA, 2014). Conhecida pelo seu patrimônio
histórico e arquitetônico, Ouro Preto tem em festas como a Semana Santa um momento
importante de sua vida social. Junto à atração de turistas para a cidade, interessados na
chamada “Paixão de Cristo à moda mineira”1 – que seria herdeira de uma estética barroca e de
“tradições” mantidas na sua forma de festejar a páscoa cristã –, esse período coloca em
evidência tensões e delimitações sociais operativas na divisão de bairros e paróquias locais. Em
minha pesquisa, eu observei os principais personagens que permitem entrever e compreender
as redes que se estabelecem por conta da festa e, igualmente, os símbolos – religiosos,
históricos, sociais – acionados nesse contexto. Entre os personagens abordados estava
evidentemente o Cristo, protagonista de todo o drama reencenado no curso de cerimônias
religiosas e procissões que ocupam praças do centro da cidade e atravessam seus bairros de um
lado a outro. E é sobre ele que falarei aqui.
Ao desenvolver este exercício de análise em caráter experimental, quero partir de
alguns dados da minha pesquisa para avançar rumo a outros cenários que se ligam às
representações cristãs da dor, da morte e do sacrifício e que se conectam a certos modos de
sacralização. Igualmente, interessa-me observar a dinâmica associada à decomposição e
separação dos corpos considerados “santos” (bem como de suas partes constitutivas) do
domínio da vida comum, ordinária – sendo alvo de “proteção” de certos museus. De modo
sintético, posso dizer que a ideia global deste texto parte do intento de observar como a história
do Cristo, observada a partir de uma situação emblemática que envolve uma de suas
representações materiais, isto é, um de seus ícones utilizados nos rituais da Semana Santa, pode
nos conectar também com a materialidade (mesmo que ausente) do corpo de outra figura sacra.
Esta última, ainda que exceda ao universo da toponímia do ‘religioso’, também se destaca na
história e nos rituais públicos que continuam vivos em Ouro Preto e nos mostra,
complementarmente, como os sentidos associados à violência da paixão cristã e aos seus ícones
1

Título da matéria no jornal O Globo, no caderno Boa Viagem, publicado em 25 de fevereiro de 2010. Disponível
em: http://oglobo.globo.com/boa-viagem/semana-santa-paixao-de-cristo-moda-mineira-3048979. Consultado em
março de 2013.

1

Na sequência. Nessa expressão está impressa a força que é observada nos atos blasfematórios (intencionais ou não) que. contaminando as coisas e pessoas que se aproximem do seu entorno. Tenho por objetivo. revisito parte da teoria de autores como Bataille. A diferença entre esses dois tipos de atores rituais. realizar um movimento gradual que nos leve da figura do Cristo e de sua face sagrada. um “outro” tipo de santo cujas correspondências com aquele nos permitem observar alguns modos de sua mútua-afetação. Assim. de reflexões que buscam compreender de modo positivo com o caráter de fenômenos ambivalentes. todavia. ao invés de efetivamente aniquilarem o mistério de algo sagrado. aproveito as reflexões sobre o Cristo para pensar um personagem que após ser sacrificado também assumiu a máscara daquela persona sagrada. para pensar o chamado “poder do negativo”. em seguida. daquele que é tomado como a “cabeça” da Igreja. De um modo geral. refletir sobre uma forma contraditória – senão blasfema – de utilização ritual dessa imagem. então. acabariam por reforçá-lo. e de alguns de seus atualizadores como Michael Taussig. Imagens da Paixão ouro-pretana De modo comum a diversos outros locais. voltarei finalmente à Semana Santa para encontrar esse “outro” dentro de seus rituais. vai além do caráter esculpido ou não de seus corpos. Deixo ao/à leitor/a a missão de descobrir as correspondências entre Cristo e ele no transcorrer do próprio texto. Revisito brevemente o histórico do herói político nacional Tiradentes para mostrar como a sua sacralização remete a momentos e interesses diversos e chega até o tempo presente (incluindo aí o da minha própria incursão de pesquisa de campo em Ouro Preto). portanto. ainda que obrigando-o a se reconfigurar de algum modo. apresentarei primeiramente o contexto ouro-pretano no qual as imagens sacras estão inseridas e destacarei as formas de relação que tendem ao reconhecimento de atributos humanos às mesmas. Depois de refletir sobre ele e os corpos dos demais inconfidentes. rumo a uma alteridade.podem também exceder a esfera do religioso. A partir desse ponto. os Cristos encenados por pessoas fazem parte de apresentações que percorrem áreas mais 2 . as representações materiais do Cristo em Ouro Preto se constituem tanto de ícones tridimensionais quanto de alguns rapazes vinculados a grupos religiosos que encenam o Auto da Paixão. A história contada sobre ele e o local onde ele é exposto nos permitirá. Valendo-me. como parte de uma dinâmica de reconhecimento (por algumas pessoas) de sua subjetividade. tais como aqueles que se associam à noção de sagrado. passo a abordar um ícone tridimensional em particular.

para quem o problema da representação de uma “scène sacrée en chair et on os” geralmente se associa ao fato de que ela se utiliza homens comuns para fazêlos “jouer le rôle d’un être divin”. de outro. permitindo que ele seja apresentado às pessoas que participam dos rituais públicos. essas coisas. das imagens do século XVIII. Uma das justificativas que ouvi em campo a respeito dessa segmentação espacial das formas de representar o Cristo veio do diretor do Museu de Arte Sacra do Pilar.periféricas da cidade. se a gente olhar em outros lugares no Brasil. tanto um modo de mobilizar a aura que se associa a determinadas imagens religiosas para reforçar o caráter “histórico” associado à Semana Santa em sua versão ouropretana. recupero a observação de Jean Duvignaud (1973:86).” Diferentemente dos locais que apostam em releituras ‘atualizadas’ do drama cristão – como em Congonhas do Campo. 3 . mas porque eles reforçam – através de sua condição de bens artísticos patrimonializados. que apontei acima. né. arte sacra e objetos de devoção popular – uma imagem que parte da cidade sobre si mesma. de Cristo pregado na cruz com o relógio no braço. em adotar figuração [viva] em encenações bíblicas.. Ouro Preto nunca fez isso de colocar um Cristo vivo lá pregado na cruz. Como se observa na continuação da fala de Carlos: “Ouro Preto tem uma Semana Santa diferenciada. onde já fizeram uma peça com o Cristo sendo representado por um ator negro –.. de um lado. assim. A utilização de imagens barrocas seria. Há evidentemente outras razões que entram em cena na contraposição que se delineia entre as imagens. e os atores humanos.. sempre foi uma imagem de madeira e sempre foi uma. Você tem toda uma ambientação. em Ouro Preto os organizadores da Semana Santa preferem reforçar o caráter “tradicional da festa”. É a própria atmosfera. por exemplo. 2 mas gostaria de destacar aqui o fato de que os ícones do Cristo ganham importância não só porque eles dão um corpo material para ele. Apenas para sinalizar um dos pontos de maior tensão nesse tipo de dinâmica.. por exemplo. enquanto no centro – área mais valorizada. né? Há casos. que compreende o perímetro urbano tombado pelo antigo SPHAN e onde concentra-se a maior parte das igrejas setecentistas – a preponderância é das imagens tridimensionais. que engloba a igreja de Nossa Senhora do Pilar. Segundo Carlos: “[Certas] cidades vizinhas não foram muito felizes em adotar. O 2 O rol de “questões” que podem ser desdobradas sobre os problemas envolvendo a representação de personagens sagrados é vasto e excede o caso que discuto aqui. o lugar. esse conjunto. né. situada na região mais próxima ao centro da cidade. essas ruas tortas. quanto serviria para evitar ‘deslizes’ por parte dos atores vivos ou ‘anacronismos’ como o de um Cristo com relógio de pulso. Abordei isso em maior detalhe minha tese. não. Então.

desde suas origens. As imagens barrocas do século XVIII. no qual ele descreve as qualidades expressivas da madeira da seguinte forma: “in the tree one encounters [sculpted] imagery.. em contraste com a pedra. [é] articulado. englobando não só as relações mantidas com os santos dentro de sua atuação em determinados rituais. a historiadora de arte Susan Webster (1998:104-105) afirma que a madeira era considerada pelos artesãos espanhóis do setecentos como uma “matéria quente”.. imagens religiosas poderiam ter reconhecidas certas características que lhes aproximariam de um ser vivo e expressivo. no sentido que Kopytoff (2008) dá à expressão. a valorização dos ícones como atores rituais se acentua pelas características formais desses artefatos. 1995). e a gente percebe que isso era tão importante que. ele movimenta. Falas como essa são frequentes em Ouro Preto e em outras cidades que lidam com esse tipo e imagem religiosa (QUITES. ele é articulado.. esses bens passam. pois o material orgânico carregaria suas propriedades mesmo depois de ter sido cortado ou arrancado do solo. ALBERT-LLORCA. a ser exibidos também fora das igrejas-museus. tão chorando. né?” Nessa cidade-cenário. 1998. a autora cita também o livro Discurso de las cofradías de Sevilla. ele tem. pude constatar que as imagens que participam das celebrações da Semana Santa são manipuladas e abordadas pelos moradores de um modo que faz com que elas ultrapassem sua condição de 3 As expressões citadas foram ditas por Carlos. que devem ser conservados e “protegidos” em museus como aquele no qual Carlos trabalha. Em seu estudo. o mármore e outros materiais geológicos que seriam vistos como inertes e passivos. do poeta espanhol Rafael Laffón (1895-1978). tal como uma pessoa.. De um modo geral. em seu duplo registro artístico e religioso. 2006). WEBSTER. ajudam pois reforçar a sacralidade que já estaria contida na representação material de um personagem divino como o Cristo. A madeira manteria suas qualidades latentes como algo vivo. In the tree – the expressive wood – the sculptors fundamentally encounter the precisely appropriate material for their work” (apud WEBSTER. têm olho de vidro. O Cristo. por exemplo. mas sua biografia cultural de modo mais amplo. né? Parece que elas são reais. 4 4 . considerada propícia para abrigar as dramatizações da Semana Santa. Têm cabelo.. organism of emotion and communication. não obstante. 3 Quando chega a época de celebrar a páscoa cristã. elas apontam para várias analogias entre o corpo humano vivo e o corpo das imagens dos santos. vibration of muscle and tension of blood. Além disso. 1998:105). Assim. elas são vivas. Tem roupa”. ela faz parte dessa religiosidade do povo. Em seu estudo sobre as imagens barrocas utilizadas nas festas sevilhanas do século XVIII. Alguns deles datam da época de fundação da antiga Vila Rica e seriam portanto “bens culturais” valiosos. Durante minha pesquisa e a partir da bibliografia que analisa esse tipo de artefato artístico-religioso (conf. como me dizia Carlos: “as imagens aqui. os ícones tridimensionais desempenham um papel de reforço do ideário de sua antiguidade e autenticidade. a gente percebe que essa atmosfera. 4 As imagens têm identificadas pelas pessoas do seu entorno uma série de atributos que as definem como semelhantes a um ser humano – como se elas tivessem sido produzidas à sua imagem e semelhança.barroco trabalhava todos os sentidos humanos.. né.

perfumá-las) para sua atuação na Semana Santa. ela é responsável pelo “passo” que fica contíguo à sua residência. o percurso das procissões – cortejos estes que sempre têm. como o de uma pessoa. além disso. por exemplo. Considerando a centralidade desses ícones para dramatizar o martírio até à crucifixão. destina-se a reproduzir o encadeamento de cenas que constituem a via-crúcis. os episódios que narram a paixão e morte de Cristo. No caso de Rita Cota. evidentemente. o trabalho de várias pessoas – em sua maioria mulheres – chamadas de “zeladoras” ganha maior visibilidade. e conhecendo as intensas relações de afeto e de devoção que podem ser estabelecidas por algumas zeladoras com ‘suas’ imagens. por qualquer razão. limpá-las e. Cada “passo” – do latim passus. durante a Semana Santa. o seu trabalho como zeladora é herança de sua mãe. tais como marcos geográficos. Todas elas fazem parte do acervo arquitetônico patrimonializado da cidade e definem. foi com bastante surpresa que. um corpo (fabricado) que. outras pessoas para além dos técnicos em restauração de arte sacra e dos funcionários do museu onde Carlos trabalha. também demandaria certos cuidados – incluindo. As imagens dos santos têm. Quando se aproximam os momentos festivos em que as imagens religiosas serão retiradas de seus altares ou vitrines e serão exibidos em áreas públicas da cidade. São elas as responsáveis em preparar as imagens (trocar suas roupas. O reflexo de uma cena “chocante” O cuidado com as imagens engloba. uma senhora que cuida de um dos Cristos que participa das cerimônias públicas da Semana Santa. isto é. às vezes.mero “objeto”. Nascida em Ouro Preto. na mesma casa onde ainda mora. o de evitar que suas ‘intimidades’ fossem exibidas a olhares curiosos. em seu conjunto. outra imagem do Cristo. amizade e vizinhança. carregada sobre um andor. ou que um amigo indique o filho de outro para dar continuidade ao trabalho quando aquele. Em Ouro Preto existem atualmente cinco dessas pequenas capelas destinadas a exibição de uma imagem particular do Cristo. sendo progressivamente singularizadas e pessoalizadas. localizada na rua Getúlio Vargas. o que faz com que pais sejam substituídos por seus filhos nessa tarefa de cuidar do santo (mesmo aqueles que durante o ano ficam resguardados dentro de uma igreja-museu). precisar se afastar desse posto. que significa sofrimento – é uma capelinha que. A atribuição do papel das zeladoras está frequentemente associada às relações de parentesco. em 2011 (já no terceiro 5 .

Conversávamos a respeito da imagem que fica naquele passo quando ela me interrompeu e disse “essa cabeça aí não é dela.ano da pesquisa). ouvi de Rita uma história que eu desconhecia. e Rita me respondeu: Não. pode nos remeter a uma dinâmica mais ampla que envolve a identificação. justamente num momento de profundo luto religioso que aciona símbolos rituais para atualizar a paixão Cristã. se comunica de alguma forma com as pessoas que o tocam. Sabendo que existiam outras imagens do Cristo nas igrejas e museus da cidade me pergunto por que. “Eis o Homem” conclamava a efígie com cerca de 1. não”. como que enforcando-o. ainda mais com um “santo supremo” de quem os demais santos do cristianismo seriam diferentes formas de emulação (JOLLES. mas mesmo depois de tanto tempo. uma coroa de espinhos. Foi “uma coisa chocante!”. [e] roubaram apenas a cabeça. tal evento ocorreu nos anos 1970. assim como as demais utilizadas na Semana Santa. roubaram! (. para além dessa dinâmica. com as costas cobertas por uma capa vermelha. ela pode ser interpretada – e frequentemente o é – como um tipo de mediador desse mesmo protótipo divino que. através de uma conjuntura ritual. Segundo Rita. uma forma de blasfêmia. a cabeça era encaixada. eu perguntei se haviam trocado a cabeça do santo – pois trata-se de uma imagem de madeira. essa cena ainda permanece gravada na sua memória. O choque citado ocorreu porque durante uma Semana Santa.) a cabeça foi roubada à noite. patrimonialização e comercialização (inclusive ilegal) de obras que são classificadas como “bens culturais”.5m de altura posta sobre um 6 . a imagem em questão não apenas representa um protótipo distante de sua materialidade. fotografam. ao se aproximar desse passo o público de moradores e turistas que acompanhavam uma procissão se espantou ao se deparar com um Cristo decapitado.” O roubo de parte fundamental do corpo do santo. 1976:41)? Ora. de anos passados. emocionam-se e rezam diante e para ele.. Sem entender direito. considero que mais interessante do que a situação do roubo em si seja a continuidade da utilização daquele santo para representar a pessoa de Jesus.. no meio da Semana Santa. o corpo marcado por várias feridas e as mãos atadas por uma corda que está amarrada também ao seu pescoço. então desapareceram com ela. que é também um objeto de arte sacra. Arrombaram a porta [do passo]. uma transgressão ao respeito que se deduz no contato com as imagens dos santos.. Ecce Homo. ela me disse referindo-se à imagem que ficava na capela ao lado de sua casa.. cujos ‘membros’ podem ser conectados para formar a integridade do corpo –. permitiram que se exibisse publicamente o protagonista da festa sem cabeça? Não seria essa uma atitude contraditória? Não se produziria. Tratava-se de uma representação do protagonista de festa sob a iconografia de um Ecce Homo: Jesus com o torso desnudo. Mas.

pequeno altar erigido dentro daquele passo. a imagem exibida era na verdade a de uma ausência radical. a diferentes artefatos. Apesar das variações existentes entre suas análises. efígies. máscaras etc. até mesmo o caráter indubitável de sua identidade. braços e pernas. ninguém menos que padre Simões. – ou ao seu reconhecimento como algo ‘atuante’.6 5 A existência ou a possibilidade de inferência de algo parecido com “olhos” em diferentes suportes materiais – sejam eles mais ou menos semelhantes com um uma cabeça humana ou animal – aparece em vários estudos como sendo um elemento fundamental na atribuição de subjetividade. Seria mesmo o filho de Deus. pois elas (as emoções) não devem servir simplesmente para fazer com que o público se projete 7 . instituições como o Museu do Pilar ainda não tinham se consolidado e muitas peças estavam sendo furtadas por ladrões de arte sacra. mas também Hans Belting. tentando fazer com que os moradores da cidade não ficassem indiferentes ao roubo de parte do acervo de bens culturais que fazia parte do patrimônio local. obs-cena e contraditória que colocava em questão (e em hipótese). de uma parte. o padre decidiu exibir aquele corpo sem cabeça justamente para gerar espanto. esculturas. pode-se afirmar que. essa foi a maneira que o sacerdote encontrou para realizar uma forma de protesto. mas também com as mentes dos espectadores da festa. o religioso que naquela época era o responsável pela coordenação das atividades da festa. de se produzir um vínculo de reciprocidade entre aqueles que o olhavam e que esperavam serem vistos de volta. aquela imagem contraditória – de um Cristo que não se vê por inteiro – deveria mexer não só com os corações. Para Rita. 6 Segundo Brecht (1967:109) o choque auxilia na produção de distanciamento que “intervém. revelando-a aos seus interlocutores. para usar uma expressão que Simmel (1986:679) utilizava para diferenciar o rosto do resto do corpo – cujos membros. e não de qualquer outro corpo santo ou de mártir que pudesse estar imitando-o? Qual rosto ocuparia aquele corpo decapitado? A ausência desse rosto sagrado implica. ou Carlo Severi. “fazem” algo ou participam da sua sustentação. os atos do olhar frequentemente são tomados como parte da inferência da capacidade agentiva atribuída aos artefatos – sejam eles quadros. a referência “aos atos do olhar” poderia ser feita a partir do trabalho de diferentes autores. Mas quem então exibiria a imagem de um Cristo decapitado a centenas de pessoas que acompanhavam a procissão em plena Semana Santa? E por que? De acordo com Rita. De modo parecido com o que propunha Bertolt Brecht (1967) em sua contraposição ao teatro dramático. de algum grau de humanidade. não na forma da ausência da emoção.5 Um hiato se produz. mas que apesar da posição de destaque não oferecia a possibilidade de interlocução. fato que o deixou profundamente consternado. de gerar algum tipo de espanto que poderia levar à reflexão. a perda do “órgão expressivo” por excelência. Naquela ocasião. aristotélico. A respeito tópico. como mãos. mas na forma de emoções que não precisam corresponder à do personagem representado” no drama teatral. Na época. Ao saber que a cabeça daquele Jesus tinha sido roubada. de um modo geral. como David Freedberg e Alfred Gell. isto é. especialmente quando eles estão associados a contextos rituais. O rosto é o órgão que daria a ver a singularidade de uma pessoa.

O rosto de Cristo. a figura de Deus teria um única face – a de Cristo –. mas observando-os desde o momento presente. da política (no qual o titular do poder é chamado de capo [em português: cabeça. que se manifesta dos modos mais variados.) corresponde um primado da cabeça. aquela que seria a similitudo legítima e verdadeira (SMICHTT. Era como se ausência daquela cabeça. um tipo de violência diferente da que se esperava ser representada com a procissão que reencenava o sacrifício de Cristo. daquele rosto sagrado fizesse penetrar no tempo de luto religioso.A boa intenção do padre. como bem imaginava o sacerdote sobre a cena e tenha algum conflito pessoal (simbolicamente) resolvido no palco. da arte (na qual se pode representar a cabeça sem corpo – o retrato –. É como se ele já tivesse sofrido demais para redimir os pecados humanos. mas também na sacralidade que seria inerente a sua dimensão divina. com elas. que (.” (AGAMBEM. na qual o rosto é por excelência o lugar da expressão. a relação rosto/corpo é marcada por uma assimetria fundamental. Inversamente. seria portanto sempre aquele que se revela. e arrancarlhe a cabeça – ou a cabeça de sua imagem – fosse um excesso. entretanto. afinal tratava-se de um padre respeitado na cidade – e. não evitou que o susto sentido por diversos moradores se convertesse numa série de reclamações – mais ou menos explícitas.. Abordando problemas teológicos complementares a esse. No contexto medieval. mobilizar a capacidade crítica e reflexiva dos espectadores frente àquilo que era encenado. a ocultação dos rostos através de máscaras foi intensamente condenada pela Igreja porque elas poderiam ser utilizadas pelo Demônio. 2014:126) A exibição ritual de Cristo sem cabeça coloca em evidência um tipo de excesso – de ausência – que as pessoas não estavam preparadas para ver. ao contrário. Giorgio Agambem nos lembra que: “Na nossa cultura. o vazio de seu rosto coloca em relevo a negatividade que se vislumbra pela sua ausência desse mesmo teor divino – como se infere a partir da própria história do cristianismo. O peso da cabeça e sua desfiguração A cabeça tem um peso fundamental na constituição da humanidade que se reconhece no Cristo. na tradição cristã. chefe]) à religião (a metáfora cefálica de Cristo em Paulo). segundo conta a tradição cristã. 2011:217). que se deixa ver como é. Por outro lado. o mestre dos disfarces e da enganação. que sua decisão fosse abandonada para as Semanas Santas seguintes. mas que permanece mais ou menos constante em todos os âmbitos. 8 . por exemplo.. Ele buscava. mas não – como é evidente no ‘nu’ – o corpo sem cabeça) à vida cotidiana.

por outro o choque era provocado porque. ainda que na figura do “homem sem cabeça” deve ser reconhecida “a imagem do ‘ser inacabado’ que remete (. A pessoa é vista. assim..” (MORAES.. A produção revista Acéphale ilustra de modo bastante claro a valorização dessa desfiguração transgressora. Falando sobre esse conjunto de ideias. como um ser uno – tal como a própria Igreja e Deus o seriam. 9 . para quem as relações entre sagrado e profano não eram necessariamente opositivas e de auto-exclusão. Eliane Robert de Moraes aponta. aprisionado na concepção unitária cristã que toma a natureza terrena de Jesus como modelo referencial aos homens. o espanto diante da inumanidade/monstruosidade de um corpo sem cabeça – ainda mais se ele estiver sobre um 7 Em sua apresentação sobre “a noção de pessoa”. ao mesmo tempo em que traçavam outras aproximações com o domínio do não-humano. que comanda o respeito fascinado” (1993:63-64). que intimida. a imagem de um homem sem cabeça expressa.) o terror.. Através de suas obras literárias e visuais. (. transgressor. eles pensavam o caráter ambivalente do sagrado.. quase como num trauma – como me mostrava Rita ao falar desse episódio com detalhes –. como resposta. considero úteis observações de autores como Michel Leiris e Georges Bataille. Pois. aquela exposição estava sendo passível de ser compreendida como um ato blasfemo.) a uma das mais frequentes definições de monstro.) Sem dúvida. que está baseada na ideia de singularidade e unidade do ‘eu’. presente tanto em textos da Antiguidade quanto no Renascimento. por excelência. eles também se colocaram a repensar as relações mantidas (na arte e fora dela) com o corpo humano que estaria. 7 Na contramão disso. Para pensar essa situação eminentemente ambígua. esses intelectuais se apoiavam na ideia de fragmentação e decomposição da figura humana. ainda. inevitavelmente. 2012:184-5) A profanação do corpo criado à imagem e semelhança de Deus produz um tipo de deslocamento simbólico que produz.. e a atração.. eles faziam intervir no corpo humano forças e objetos improváveis. do bestial. como sintetizou Bataille: “o sagrado designa ao mesmo tempo duas coisas opostas. a ideia do ser privado ou desprovido de alguma capacidade ou órgão indispensáveis na qualificação do humano e.ouro-pretano. se por um lado a iniciativa foi ‘bem sucedida’ no sentido de que pelo choque produziu-se memória. constitui-se de uma das principais matrizes dos ‘desvios da natureza’. Como autores relacionados – ainda que de modos variados – com certo conjunto de ideias que marcou o surrealismo europeu. enquanto tal. Ao invés disso. também Mauss (2003:392) apontava que “nossa própria noção de pessoa humana é ainda fundamentalmente a noção cristã”. (. mas que por isso mesmo fez com que tal ato contivesse um caráter fundamentalmente ambivalente.

“Death and dismemberment return us to the human body as a privileged theatre of sacred activity in a way that makes it hard to avoid the topics of automutilation. para o autor. Como vemos. o próprio ato transgressor produziu. um reforço da validade e da demanda pelo ‘respeito’ àquele corpo de Cristo.” (Moraes. mas antes o seu próprio veículo de realização. como afirma Moraes ainda a respeito das ideias de Bataille: “Contudo essa mutilação não é apenas negativa (. aquele que proíbe a manipulação considerada desrespeitosa com os santos e suas imagens. Segundo Taussig. onde o filho de Deus tornado homem é sacrificado por seu próprio Pai. como uma característica dos atos transgressores – sejam eles intencionais ou não. a história que acompanhamos em Ouro Preto pode ser entendida como uma transgressão movida por um religioso que rompe com certo interdito. as formas de transgressão que ocorrem dentro do cristianismo. imagem inesquecível para aqueles que enxergavam a subjetividade que poderia ser inferida da imagem de um santo. pode nos indicar assim não só aquilo que falta. simplesmente. A “ausência sagrada do rosto”. A ausência de cabeça não significa portanto ausência de vida. Taussig afirma que a relação mantida entre sagrado e profano opera numa lógica de interação contínua que se aproxima mais da ideia de um circuito – que pode entrar em curto-circuito. Lidamos. pois. como na situação de choque dos devotos diante de um santo sem cabeça no meio da procissão – do que de uma oposição radical entre os termos. Além disso. Ademais. of the killing of the god.altar. o resto do homem. aparecem como particularmente úteis para pensarmos os (curto) circuitos entre sagrado e profano. objeto de repulsa e alvo de interesse. o corpo e a imagem não seriam apenas símbolos ou sintomas da transgressão no domínio religioso. Ao transgredir essa fronteira.. Ou. como efeito.). para parafrasear outro comentador de Bataille (DIDI-HUBERMAN. 2012:187) O caráter ambivalente de um corpo santo decapitado se expressa aí também.. Ao meu ver. Mas isso não é tudo. 1998). Inspirado em autores como Walter Benjamin e Bataille. com uma atitude que colocou em ação aquilo que Michael Taussig (1997) chama de chamado “poder do negativo”. entretanto. and of de god killing himself” (1997:360). dentro de uma capela aberta à vista de todos os que passam diante dela. ainda mais no momento em que eles estão em destaque. o corpo vivo e potente do decapitado atesta que a cabeça é apenas um de seus limites orgânicos. Restam as outras extremidades. quando se realiza uma festa para eles. e a ferida da decapitação abre novas possibilidades de sentido para a existência humana. 10 . aliás. mas também algo que se revela no interior mesmo dessa (suposta) ausência.

né? Pra ver se sensibilizava quem roubou. que se espantavam ao olhar para ele pois viam que qualquer possibilidade de ‘mistério’ por trás dele havia sido reduzido a um objeto despedaçado. o então prefeito fez uma busca de cabeças dentro daquele repertório de máscaras possíveis. Se voltarmos nossa atenção à situação ouro-pretana. isto é. era revelar o segredo público de que aquele Cristo era uma imagem de madeira. E ele viu uma cabeça de apóstolo [e]... como “bem material” fabricado por mãos humanas. depois. segredos que não são necessariamente desconhecidos. Aí. no reforço de seu mistério e na produção do make-believe de que pode haver. de um 11 . é a cabeça de um apóstolo. servindo para que ele fosse destacado de todo o entorno. quando ele era prefeito da outra vez. [mas] encaixou maravilhosamente. Não é bonita como a de antigamente. Aquele ato profanador – não só do objeto em si. nem vivo. Conforme disse Rita. algum outro segredo guardado. Ao contrário: a própria intenção de desvelamento poderia colaborar na sua sacralização. Trouxe pra cá. né. ainda. tem um malão lá com algumas peças. histórica e esteticamente localizáveis. que ele gostava de causar impacto mesmo. reunidas indiferentemente entre si. no mesmo ato de ‘protestar’ contra o roubo de arte sacra e tentar mobilizar a população para aquele problema (ou seja. ao mesmo tempo. veremos que o que o padre Simões fazia. finalizando a história que me contava: “Você sabe que ele [o padre] era polêmico. portanto. demasiadamente humanas para um momento liminar como a Semana Santa. nem morto colocava em primeiro plano – e acima da atuação ritual prevista. mas da relação mantida entre os ícones religiosos e o corpo dos fiéis. não se anulariam.Exemplo privilegiado de retroalimentação mantida entre tais polos estaria nos chamados “segredos públicos”. a exposição daquele corpo decapitado. que poderia imitá-lo tão bem a ponto de se fazer passar pelo próprio Cristo? Curiosamente. Angelo Oswaldo. Dentro da materialidade da capela que serve de frame para o Ecce Homo (indicando a sacralidade que lhe deve ser imputada e. como mais uma imagem que colabora no fluxo de imagens que recontam a via-crúcis – a condição de artefato artístico. Mas qual seria aquela que poderia se ‘encaixar maravilhosamente’.” Dentro de um acervo de peças de arte sacra. ele conhece todas as peças de arte aqui de Ouro Preto. ele falou assim ‘eu acho que essa cabeça serve lá no passo’. Mãos profanas. como se infere do abandono da estratégia de choque mantida pelo sacerdote na busca de uma nova cabeça para Jesus. de defender aquele artefato). que está fora daquele passo). Mas não apareceu. como ele conhece tudo. ele indo à igreja de São Francisco de Assis. o prefeito atual. uma cabeça roubada – produziu como resposta uma intensificação da sacralidade do Ecce Homo. mas que ao serem alvo de uma ‘revelação’ transgressora não perderiam a sua força.

ao ser recomposta a “face” em questão. isto é. as mãos atadas e o pescoço envolvo por uma corda à figura de Tiradentes. Joaquim José da Silva Xavier foi um dos sujeitos envolvidos num movimento relativamente organizado que ficou conhecido como a Inconfidência Mineira. Para cada cabeça perdida. pode ser relacionado ao tipo de movimentação simbólica que acompanhamos até aqui. considerados abusivos. Diante desse quadro.seguidor. um tipo de borramento nas margens do jogo que definia o que era explícito/oculto até o momento do ato transgressor. mas não se realiza como uma mera subtração. um último exemplo que. observamos de modo análogo ao que descreve Taussig (1999). fechando o circuito que realiza o vínculo entre uma imagem e o que ela representa” (GIUMBELLI. proponho pensar ainda. Na verdade. Nessa substituição de cabeças. sob certas condições. O apóstolo que mimetizava se torna agora a imagem mesma que ele copiava. de suas identidades públicas. com seu corpo flagelado. a sua pessoa. e que será reorientado depois da sua intervenção. a desfiguração atua mais como uma obliteração. que o defacement opera a partir de uma negação. outra poderia ser encontrada para lhe tomar o lugar e tonar presente. No cenário de um Brasil Colônia. nas versões da história que recontam a vida de Tiradentes. Como é amplamente sabido. era continuamente conflituosa – e lida. Assim. como num jogo de máscaras e de suas personas. O outro (do) Cristo Ao refletir sobre essa dinâmica de trocas da cabeça dos santos. Trata-se da relação entre a face de Cristo e a de outra figura que conta com um culto público no centro patrimonializado de Ouro Preto. o defacement “ativa a sacralidade que é atribuída a essas coisas [materiais]. ao meu ver. não fossem pagos. responsáveis pela cobrança de impostos como o “quinto”. de especulações que envolvem as ideias de martírio. o alferes e tantos outros que tinham certas posses se posicionavam de modo a defender que os impostos. 2014:146). famoso cidadão ouro-pretano associado à história nacional – sobretudo em sua versão republicana. cuja extração de minerais (tal como aquele que dá nome a Ouro Preto) constituía-se ainda como principal atividade econômica. Passemos então da materialidade da imagem do Ecce Homo. que assume o corpo daquele que era o seu mestre. sacrifício e sacralização. Sua existência histórica coincide com o tempo de origem das imagens sacras do século XVIII e sua biografia é alvo. como profundamente injusta. que as riquezas extraídas do solo das Gerais 12 . as relações entre mineradores e funcionários da coroa portuguesa. igualmente.

a autora refere-se a essa máquina de decapitação ritual como a primeira máquina de tirar retratos – que focam apenas uma parte da pessoa. os demais presos políticos foram. Ao falar da guilhotina usada no contexto revolucionário francês. Entre aqueles que foram alvo da repressão portuguesa. a louca. por causa mesmo de sua decomposição física realizada com extrema violência. Tiradentes pode ganhar nova vida através de uma outra feição que ele passou a assumir após seu sacrifício. os membros salgados para que durassem mais e pudessem ser exibidos por mais tempo. culminando o espetáculo com a apresentação do ‘verdadeiro retrato do monstro’”. distinguindo-a de todas as outras. conforme nos avisava Bataille (1990:39). todavia a cabeça que. essas ideias foram recebidas como uma conspiração. que separava o corpo da cabeça. Uma cabeça que deveria servir como imagem (sacra) da força colonial e da fraqueza daquele que ameaçou tal poder. E assim como vimos que o defacement do Ecce Homo se completava pela substituição da ausência através da colocação de nova cabeça no santo. Como sublinha Moraes (2012:17): “Gesto último do ritual da execução. servindo assim de exemplos do perigo de se desafiar a coroa portuguesa. o Tiradentes foi reavivado através de diferentes histórias que serviam para que grupos variados se apropriassem da sua figura e a 13 . em sua maioria condenados ao degredo na África. ou melhor. nos cabe questionar qual seria a imagem que pôde assumir o rosto desse sujeito que foi enforcado e depois teve o seu corpo esquartejado. e seguindo as ordens D. dizia Bataille. na verdade. fato que ocorreu em 21 de abril de 1792. um plano de deposição política. uma blasfêmia ao poder colonial. Apesar. segundo reza a lenda histórica. justamente aquela quer permitiria (graças ao valor dado ao rosto) identificá-la. Quanto maior a violência do sacrifício. e não fossem enviadas ao reino do outro lado do Atlântico. nem sempre tem significado literal”. no Rio de Janeiro. apenas Tiradentes – visto como o cabeça do grupo – foi condenado à morte em praça pública. para fazer apagar a identidade daquela linhagem – restou. os “inconfidentes” foram alvo de um processo chamado “devassa” que cuidava de investigar todos os detalhes e os envolvidos na difusão de ideias de (suposta) independência e que tratava de definir as respectivas punições aos acusados. Maria. Em resposta a isso. maior o sentimento de sacralidade que ele envolve. a exibição do rosto do decapitado pelo carrasco anunciava o triunfo do corpo político sobre seus traidores.permanecessem no poder daqueles que viviam ali. Se nos lembrarmos que “matar. Desse corpo – cujos descendentes e parentes mais próximos foram obrigados a abandonar o sobrenome. Por parte da coroa portuguesa. foi enviada de volta a Ouro Preto para ser exibida aos seus conterrâneos.

Nessa procura revelase o caráter ritual de recuperação e exibição de algo que se havia perdido. de tentativa de supressão de um (recém-criado) vazio. uma espécie de mártir. aquele espaço serve como uma “caixa-forte”. que tanto protege quanto permite que as 14 . Formava-se. passou pela instauração do Estado Novo e atravessou o último século até chegar aos dias atuais.envolvessem com máscaras particulares. Depois de proclamada a República.:60).:67). o então presidente Getúlio Vargas cede aos apelos de intelectuais e políticos mineiros e assina um decreto que autorizava a repatriação dos restos mortais dos inconfidentes falecidos no degredo. e se nos lembrarmos das palavras do diretor do museu de arte sacra citado anteriormente. As analogias apareceram já no primeiro desfile realizado em 1890 [no Rio de Janeiro]” (ibid. reparar?”. Já no contexto dos anos 1930. Ao falar sobre o primeiro desses momentos. Para recebê-los. como se quiséssemos de repente parar de destruir e estivéssemos começando o culto indefinido de conservar. Os antimonarquistas tomavam Tiradentes como um “herói que se sacrificava por uma ideia” (ibid. a imagem de um “Cristo cívico” (ibid. Num processo se iniciou ainda no contexto final da monarquia no Brasil. o historiador José Murilo de Carvalho (1990) comenta a contraposição que se formou no século XIX entre monarquistas e republicanos – estes últimos rebatendo a imagem de Tiradentes à de D. na mesma época em que Ouro Preto seria elevada à categoria de “Cidade Patrimônio Nacional” (uma passagem fundamental para sua posterior configuração como destino turístico). como aponta Carvalho: “O desfile que passou a fazer parte das comemorações do 21 de abril [dia da morte de Tiradentes] lembrava a procissão do enterro de sexta-feira santa. o culto a Tiradentes intensificou-se de tal modo que as celebrações cívicas em homenagem ao líder político se confundiam com um culto religioso. o estadista ordena que seja feita uma reforma na antiga Casa da Câmara e cadeia para que se tornem o Museu da Inconfidência – um prédio grande que fica bem no centro de Ouro Preto. Pedro I. Carlos. A instituição do Museu da Inconfidência pode ser vista como uma forma de continuação do movimento que tenta redimir os excessos implicados àqueles corpos – cada vez mais sacralizados. justamente diante do local onde teria sido exposta a cabeça de Tiradentes nos idos do século XVIII. Além disso. um dos responsáveis pelo acionamento da busca pela materialidade dos restos corporais daqueles que haveriam sido injustamente punidos no passado. Ou ainda. O mesmo presidente que dá nome à rua onde fica a capela do Ecce Homo ouro-pretano foi. o Tiradentes acabou se tornando uma mímesis do Cristo. dessa forma. assim. dando-lhe feições que refletiam seus próprios valores. como bem aponta a indagação de Bruno Latour (2008:115): “Não são os museus os templos nos quais sacrifícios são feitos para se pedir desculpas por tanta destruição. proteger.:64).

peças de seu acervo continuem presentes. o amor. que visaria preencher de alguma forma o ‘espaço vazio’ criado naquele corpo completamente aniquilado e – na mesma medida – santificado. o índice corporal que permitiria remeter à sua existência histórica concreta. Digo isso porque o defacement de Tiradentes parece estar em curso ainda. uma dramatização tal como o é como uma tragédia teatral. quando celebra-se a Sexta-feira da Paixão e o Dia de Tiradentes (. a história só se repete como tragédia ou como farsa.). conforme expresso nessa nota..) É intrigante. Um na cruz. (. 15 .. mas como uma criação. também teve um destino obscuro como a do Ecce Homo. isto é. Junto ao sentimento reavivado por ocasião dos feriados coincidentes. aparece apenas como ausência que tenta ser suprimida pela reposição de outras faces – dentre as quais a de Cristo parece ser a mais potente. explorado e massacrado pela Coroa portuguesa. Uma pergunta cuja resposta nunca convence. a paz. a historiadora Thaís de Lima e Fonseca (2002) nos mostra como aquela cristianização da figura destacada por Murilo de Carvalho segue atualizada nos períodos históricos seguintes. Se. de sua parte. Digo isso porque. sendo expostas – ao contrário do que ocorreu com aquela cabeça do Cristo. como dizia Marx. onde a aproximação entre Cristo e Tiradentes ganha destaque pela coincidência das datas de celebração de seus sacrifícios: “Hoje o coração do povo brasileiro vivencia a emoção de dupla cerimônia: uma religiosa e outra cívica. por pregar e lutar pela tão sonhada liberdade do povo brasileiro. outro na forca. Tiradentes. mas a dar vazão a uma atividade contrária. nos dois casos parece-me que as aproximações entre o Cristo e Tiradentes difundem-se de modo a reforçar a criatividade envolvida na crucificção (política ou religiosa). na tentativa de libertar o homem do pecado. honestas e dedicadas às causas alheias pagam tão alto por seus nobres gestos?” (apud Fonseca. visando o bem estar do homem. aproximando-se inclusive de nossos dias. Na cidade que tem no culto à história e ao passado um importante valor compartilhado entre seus habitantes. Em seu estudo sobre as representações de Tiradentes na imprensa brasileira no século XX. Já no ano de 2011.. Cristo e Tiradentes morreram por causas nobres. Sua imagem continua sendo manipulada de modo a não apenas constatar a sua desfiguração passada. a materialidade que permitiria identificar esse santo político em sua singularidade. Coincidentemente. por exemplo. uma nota publicada no jornal O Estado de Minas. e por querer fazer deste País uma verdadeira nação. a igualdade. entendida aqui não como uma mentira. a cabeça de Tiradentes levada à Vila Rica e exposta em seu pátio central de modo um análogo aos rituais que Foucault analisa no início de Vigiar e Punir. Cristo por pregar a verdade.. chama a atenção também a continuidade daquela prática de remissão do pecado colonial contra os inconfidentes. sob o governo de Dilma Rousseff. Ela recupera. que desapareceu. 2002). Ela desapareceu. Por que as pessoas de bem. em 2000.

além do discurso da presidente –. véspera do dia em que se celebra a morte de Cristo. remontando mais uma vez as figuras políticas às expressões comuns do domínio religioso: “Depois de uma peregrinação por instituições públicas. após décadas. todos eles misturados. Ângelo Oswaldo.. Os dois martírios se somavam mais uma vez no calendário festivo da cidade.htm?sequence=2 9 Disponível em: http://politica. 8 O percurso temporal entre o momento de retorno das ossadas ao Brasil e. onde permaneceram os últimos 17 anos e foram submetidos a um processo de identificação (.). de outros restos corporais dos santos.br/noticias/geral. e condecorou com a Medalha da Inconfidência certas figuras públicas que teriam se destacado ao longo do último ano. a data do 21 de abril caía numa quinta-feira santa.minas-homenageia-tres-inconfidentes. porém. ou melhor.senado. no Rio de Janeiro. um momento particular de destaque: quando se fez menção às novas urnas com os restos mortais dos inconfidentes que finalmente estavam sendo recebidas na cidade. nos arquivos do Itamaraty. que a 8 Para mais detalhes a respeito da cerimônia.estadao. O prefeito de Ouro Preto. lembra que as três ossadas chegaram ao Brasil ‘misturadas’ (. conf. em Piracicaba. mas que não tinham sido identificados até então – tarefa possível graças a novas tecnologias de pesquisa... naquele mesmo 2011. é o mesmo que aparecera na fala de Rita anteriormente a respeito do encontro de uma nova cabeça para o Ecce Homo.a presidente seguiu o ritual estabelecido nos anos 1950. para completar as aproximações não planejadas de que fui me dando conta entre certos eventos somente durante o processo de escrita deste texto. A cerimônia naquele ano teve.. foi ele que encontrou dentro de uma grande mala cheia de outras peças de arte sacra.br/bdsf/bitstream/handle/id/49469/complemento_1. em que referências simbólicas se cruzavam inclusive de modo material – pois a praça Tiradentes também é um lugar onde se passam atividades decisivas das procissões da Semana Santa. aconteceu na mesma época em que as ossadas citadas acima eram levadas para Ouro Preto. quando o então governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek passou a transferir simbolicamente a capital mineira de Belo Horizonte para Ouro Preto.706914 16 .): ‘Eles ficaram durante anos durante uma urna. Tratavamse dos restos de três outros degredados que haviam sido recuperados ainda no governo de Getúlio. como ilustra um jornalista do Estado de S. Paulo. Foi então no mesmo contexto ritual. a que identificava com o Cristo. Ângelo Oswaldo. a sua identificação e transporte para o Museu da Inconfidência chegou a ser tratado como um tipo de peregrinação. E. como resultado de um roubo. http://www2. a própria conversa que tive com Rita a respeito da decapitação daquela imagem.com.leg.”9 Lembro que o prefeito citado. Além disso. os restos mortais foram encaminhados em 1994 para a unidade da Unicamp.

de presente) são vistas como possíveis substitutas do cabeça ausente de Tiradentes. mas também de transfiguração. de suas personas (MAUSS. Nas margens das procissões dessa época. que busco ler sob a inspiração do exercício que focaliza as potencialidades do pensamento analógico – fundamental para os autores e artistas vinculados ao surrealismo. que “só se deixa fixar. entre eles. eis que ouço aqui e acolá alguns sussurros sobre Tiradentes. 2003) trágicas e heroicas. sendo não só objeto de desfiguração. sacrificial. Através deste exercício busco. Por intermédio do ritual e da dramatização que ele coloca em evidência. interessa-me pensar o que há no espaço comum que foi sendo constituído entre elas. pois. algumas pessoas se perguntavam de modo jocoso se uma determinada cabeça levada em meio ao cortejo da Semana Santa seria. Fazendo-o passar de Cristo político a personagem improvável das escrituras bíblicas. trazendo diferentes representações sociais à tona e as destacando daquelas que regem a vida do dia-a-dia. a cabeça que era vista nas mãos de figuras bíblicas como Judite (figura do Antigo Testamento que decapita um militar que queria invadir a terra dos israelitas) ou da escrava de Herodes (rei que satisfez o desejo de Salomé. permanece sem nome. no momento em que é reconhecido”. interessa menos aquilo que elas já teriam em si 17 . Ela marca a ausência daqueles que não foram recuperados. de similitudes e destruições fabricadas e revertidas ao longo do tempo de sua existência. Outra vez assistimos a associação entre a perda da unidade do corpo provocada por um ato violento. No exercício de observação dessas imagens. como imagem que lampeja irreversivelmente. contaminam e se reforçam mutuamente dentro do cenário de uma cidade encantada pelos efeitos do passado. cogitar um entendimento desses personagens numa dinâmica de produção contínua de mímesis e de alteridade entre eles. que queria ter a cabeça de João Batista numa bandeja. e a sua recomposição sob uma forma outra. Mas ocorre que nessa mesma conjuntura – e para voltarmos às procissões que nos serviram de ponto de partida –. enfim. Entre as cabeças de Cristo e de Tiradentes observa-se um jogo de máscaras. para observar o que elas isoladamente teriam de semelhante entre si. a ausência dos desaparecidos incluindo. Tiradentes. vazia.chegada de outras ossadas deixava em destaque a 14a lápide dos inconfidentes que. da memória e de suas histórias. como nos alertava Benjamin (1987:224). a aparição de uma centena de personagens bíblicos representados por moradores da cidade como parte da encenação que revisita várias passagens até culminar nos eventos que marcam a paixão e morte de Cristo. diferentemente das outras 13 ocupadas. aquela desaparecida séculos atrás. Um passado. Mais que uma comparação entre aquelas duas figuras míticas. filha de sua esposa. como atenta Moraes (2012:41). Observo-os como protagonistas de histórias que se encontram.

mesmas. a priori. e mais aquilo de novo que conseguimos – ou que elas nos permitem – enxergar. 18 .

New York. O Corpo Impossível: A decomposição da figura humana de Lautréamont a Bataille. DUVIGNAUD. O rosto e a terra – onde começa o retrato. Teatro Dialético: Ensaios. Maria Regina Emery. TAUSSIG. Niterói: EdUFF. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. vol. Paris: Gallimard. In: A. 2014. há um mundo além das guerras de imagem? Horizontes Antropológicos. Paris: Presses Universitaires de France. Unicamp. a de ‘Eu’. Stanford: Stanford University Press. Michael. vol. 2006. 2012. L’hallucination sacrée. In: Le corps. Marlène.Bibliografia de Referência: AGAMBEM. O Teatro da Religião: A Semana Santa em Ouro Preto vista através de seus personagens. 2014. n. 1990. I: Magia e técnica. Igor. Tiradentes: Um herói para a República. LATOUR. Alianza. Digresión sobre sociología de los sentidos. Porto Arte. Símbolos Religiosos em Controvérsias Públicas. Critical Terms for Religious Studies. Teoria da Religião. pp. A Inconfidência Mineira e Tiradentes vistos pela imprensa: a vitalização dos mitos (1930-1960). pp. Imagem de Vestir: Revisão de conceitos através do estudo comparativo entre as Ordens Terceiras Franciscanas no Brasil. 439-462. 1993. BATAILLE. São Paulo: Cosac & Naify. Thais Nívia de Lima e. Porto Alegre. CARVALHO. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 1967. GIUMBELLI. São Paulo: Ática. Rio de Janeiro: PPGAS/Museu Nacional/UFRJ. DIDI-HUBERMAN. In: M. Les masques. Jean. n. JOLLES. In: Sociología. 30-59. pp. femmes et sociétés. SIMMEL. 2014. In: A Formação das Almas: O imaginário da República no Brasil. Tese de doutorado em Antropologia Social. José Murilo. p. les rêves. la société dans le théâtre. 2. 2003. 19 . Chicago: The University of Chicago Press.). São Paulo: Terceiro Nome.22. pp. Taylor (org. FONSECA. arte e política. 16. 9. Emerson. pp. 1976. In: Sociologia e Antropologia. 61-82. SCHMITT. CLIO. 1995. APPADURAI. Defacement. Georg. 1999. Nudez. Georges. 1987. BRECHT. pp. KOPYTOFF. PEREIRA. Tomo 2.44. 2001. 211-237. Estudio sobre las formas de socialización Madrid. 2002. ______. 349-364. IFCH. O que é iconoclash? Ou. 2008. Walter. les rites. QUITES. Eliane Robert. Marcel. Transgression. MAUSS. Mimesis and Alterity: A particular history of the senses. Edilson. São Paulo: Companhia das Letras. 1973. Revista Brasileira de História [online]. 1997. A Biografia Cultural das Coisas: A mercantilização como processo. São Paulo: Brasiliense. Jean Claude. MORAES. André. 89-121. le temps: Essais d’Anthropologie Médiévale. In: Formas Simples. 1986. ALBERT-LLORCA. Bertold. les morts. le diable. São Paulo: Cultrix. London: Routledge. 2008. Obras Escolhidas. Le théâtre dans la société.676-695. maio de 1998. 1993. BENJAMIN. v. Giorgio. ______. A Vida Social das Coisas. Tese de Doutorado em História. pp. In: Les Ombres Collectives : Sociologie du théâtre. Bruno. São Paulo: Iluminuras. Histoire. n° 29. La Vierge mise à nu par ses chambrières. Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa. A Legenda. 111-150. onde se ausenta o rosto.

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