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SÁBADO, 17 DE ABRIL DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

Ensaio

DIVULGAÇÃO
Realidade
e ficção.
Soulages (acima)
desafia o leitor a
buscar entender
a construção da
imagem em
trabalhos como
La Famille des
Hybrides (à esq.)
de JM Lalier

REPRODUÇÃO

O QUE É FOTOGRÁFICO
NA FOTOGRAFIA?
Estudo de François Soulages lança mão da filosofia e
da psicanálise para responder a essa pergunta estética

Considerando que a fotografia é seu foco as operações químicas necessárias para sua Famille des Hybrides (1984), reproduzida
RUBENS FERNANDES JUNIOR de preocupação, Soulages defende que fotos obtenção; e o inacabável como a possibilida- acima. Um olhar apressado sugere o retrato
são objetos enigmáticos, pois habitam nossa de de se conseguir diferentes (e numerosas) de duas pessoas, mas, ao mergulhar na ima-
esmo que imaginação e nosso imaginário. Se a fotogra- cópias a partir deste negativo, também con- gem, o leitor descobrirá procedimentos leva-
tardia, a fia for assumida como um “vestígio” para siderando a sequência química de diferentes dos a cabo na construção da foto que não es-

M
publica- percepção, então cabe ao receptor elaborar etapas em sua produção”. tão explícitos no resultado apresentado.
ção do li- as conexões entre o passado e o presente, o Soulages insiste que devemos enfrentar o
vro Estéti- antes e o depois, o efêmero e o permanente. O tempo. É nesse sentido que a foto, para desafio e buscar entender o que caracteriza
ca da Foto- O ensaísta enfatiza a relação entre o obje- Soulages, pode ser definida como a articula- a fotografia. No caso da foto de Lalier, sua
grafia – to fotografado e o real, pois nem sempre a ção entre a perda e a permanência. O que pesquisa é conceitual, pois cria uma ficção
Perda e foto promove esse tipo de aproximação. Im- se perde tem a ver com as circunstâncias em foto – e depois fotografa a fabricação des-
Permanên- bricados, real, objeto e foto suscitam os pro- que envolvem o ato fotográfico, pois o fotó- sa proposta ficcional. Olhar para essa ima-
cia (1998), blemas essenciais para uma estética fotográ- grafo enquadra e registra uma possibilida- gem convida a tentar entender o que é o ob-
de François Soulages (Senac, 384 págs., R$ fica e revelam que a arte da fotografia é mais de entre muitas, interrompe um fluxo de jeto, o que é o real fotografado e sua repre-
75, tradução de Iraci D. Poleti e Regina Salga- ampla e menos conhecida do que se pensa. tempo entre muitos, e assim sucessivamen- sentação. Olhá-la é, também, perceber que a
do Campos), é contribuição extraordinária A discussão em torno da ideia de que a fo- te. O que permanece é foto não tem mais rela-
para aqueles que se dedicam à pesquisa e à tografia seja vestígio, traço, nasce das análi- o que fica gravado na ção imediata com a rea-
reflexão da fotografia no Brasil. O principal ses de Soulages a respeito do trabalho da crí- matriz e na cópia. Ape- **
Entre os teóricos de lidade, já que resulta da
objetivo do autor foi, independentemente tica de arte Rosalind Krauss, desdobradas sar de o livro ser do relação de várias reali-
do gênero – retrato, paisagem, fotografia de nas obras dos teóricos Roland Barthes, fim dos anos 90 (o que prestígio cujos conceitos dades. Ainda assim, a
reportagem, nu, entre outros –, dar relevân- Phillipe Dubois e Jean-Marie Schaeffer. Pro- quer dizer que, ao es- são debatidos estão obra fotográfica remete
cia tanto ao processo de construção da ima- vocado sobre esse tema em entrevista conce- crever, Soulages se re- Roland Barthes sempre ao ato fotográfi-
gem fotográfica quanto à sua recepção. dida ao Estado, Soulages comentou: “O tra- feria à fotografia foto- co e tudo que o cerca,
François Soulages é professor da Universi- balho de Rosalind Krauss é interessante; re- química), ele crê ainda e Rosalind Krauss mas nessa obra específi-
dade Paris VIII e do Instituto Nacional de novou a análise da fotografia. Mas hoje não ser possível compreen- ** ca, os efeitos visíveis,
História da Arte, em Paris, e autor de vários devemos reduzir toda a teoria da fotografia dê-la do mesmo modo nem sempre apreensí-
livros sobre arte contemporânea e, claro, fo- à teoria do traço e do vestígio.” contemporaneamente. “Quando penso em veis, nos oferecem a possibilidade de com-
tografia. Neste trabalho, ele elabora uma sur- A melhor contribuição da abordagem teó- fotografia, independentemente de ser quí- preender a obra em seu processo de constru-
preendente análise crítica, cuja intenção fi- rica de Soulages talvez seja o conceito de fo- mica ou digital, estou refletindo sobre o ção. No livro, Soulages busca a reflexão não
nal é concretizar uma leitura da fotografia a tograficidade, que designa “a propriedade tempo; não o tempo fotográfico, mas o tem- só no processo criativo de construção da
partir de vestígios encontrados na imagem. abstrata que faz a singularidade do fato foto- po filosófico e psicanalítico. Não é o fotó- imagem, mas também em sua conexão com
Isto lhe dá a oportunidade de trazer para o gráfico”. Traduzindo: aquilo que indica o grafo que é marcado pela perda e pela per- o real, questionando essa conexão e valori-
seu campo de reflexão conceitos e aproxima- que é fotográfico na fotografia. Além disso, a manência; é a fotografia que permite você zando os processos de recepção. Como se
ções centrados não somente na estética, fotograficidade, explica ele, se caracteriza viver essa relação.” Para o ensaísta, a capaci- nos lembrasse que o sentido da fotografia es-
mas principalmente, na semiologia, na filo- por ser “a surpreendente articulação do irre- dade da foto de atiçar o inconsciente acaba tá, em todos os sentidos, no olhar.
sofia e na psicanálise. A associação entre di- versível e do inacabável; entendemos o irre- por transformá-la em obra aberta.
ferentes fotógrafos, filósofos e psicanalistas versível como o negativo obtido a partir do As fotos que precedem cada capítulo exi- ✽
lhe permite estabelecer novas relações en- ato fotográfico, que pressupões interativida- gem atenção especial. Por exemplo, o capítu- RUBENS FERNANDES JUNIOR, PESQUISADOR E CRÍ-
tre fazer e pensar o espaço, o tempo e o real. de entre o fotógrafo e o objeto e em seguida lo 4 traz uma foto de Jean-Marc Lalier, La TICO DE FOTOGRAFIA, É DIRETOR DA FACOM- FAAP