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O SATÉLITE VIROU PINCEL - GPS DRAWING

Marilei Fiorelli
Professora da FIB, Centro Universitário da Bahia e
IBES – Instituto Baiano de Ensino Superior

Resumo: De ferramenta militar, o GPS - Sistema de Posicionamento Global, passa assim


como outros aparatos tecnológicos, a ser utilizado pela comunidade artística como mais
uma possibilidade do criar. Desenhos criados com sua utilização podem ser visualizados
na rede internet, através de mapas interativos. Este artigo busca mostrar alguns exemplos
e contruir reflexões sobre esse tipo de arte com mídia locativa.

Abstract: From military tool, the GPS - Global Positioning System, like other technological
devices, can be used by the artistic community as another means of artistic creation.
Drawings created with its use can be viewed on the Internet, through interactive maps. This
article aims to show some examples and build on ideas of art with such this locative media
art.

Palavras-chave: arte, tecnologia, internet, GPS drawing

Introdução

O GPS - Sistema de Posicionamento Global teve sua origem em um programa


militar americano. É um sistema constituído por uma rede de satélites, colocados
em órbita ao redor da Terra em posições estratégicas e por receptores no solo
(aparelhos que recebem o sinal e calculam a distância entre o receptor e o
satélite). Através desse cálculo de distâncias entre os satélites e o receptor, é
possível determinar uma posição no globo terrestre (latitude/longitude). Estes
dados são captados a todo o instante e analisados pelo aparelho receptor, que
através de uma relação de tempo-distância-deslocamento, devolve informações
como coordenadas, velocidade e altitude. É comum vermos sua utilização como
ferramenta de localização, acopladas a carros, para guiar e traçar os caminhos
para se chegar a determinado local. Através de satélites, as informações das ruas
e locais chegam ao aparelho que fornece a direção e melhor maneira de percorrer
a distancia, desde o ponto de partida ao de chegada. Alguns modelos de aparelhos
celulares mais modernos já vêm com essa ferramenta acoplada, o que tem
popularizado seu uso.

Elizabeth Coulter-Smith e Graham Coulter-Smith no artigo chamado “Mapping the


Frame: Locative Media and Interactive Art Environments” fazem uma análise de
trabalhos interativos que utilizam o GPS e outras mídias digitais como ferramenta
artistica. e citam diversos trabalhos artísticos que o utilizam, principalmente
esculturas GPS (GPS Sculptures) e os chamados desenhos GPS (GPS Drawings).

GPS drawing são desenhos virtuais criados a partir dos traçados/rastros gravados
através de GPS. A partir dos pontos definidos pela coordenadas latitude/longitude
alinha-se um desenho, ponto a ponto, de grandes dimensões. Como uma grande
tela de bordado, os pontos são percorridos, criando formas. Porém, ao invés de
tela, temos a paisagem como suporte. A visualiação do desenho é feita graças aos
satélites de telecomunicação e a dispositivos de leitura digitais ou o meio web.

Este tipo de criação acontece desde o começo dos anos 2000, quando os artistas
ingleses Jeremy Wood e Hugh Pryor cunharam o termo de “GPS drawing” para
designar estas linhas “gravadas” como traços digitais a partir dos satélites de
comunicação, que podem ser visualizadas em mapas (como o Google maps, por
exemplo) na rede internet. No site dos artistas há vários exemplos desses projetos.
http://www.gpsdrawing.com/
Mowing the Lawn – 2005 –
http://www.gpsdrawing.com/gallery/experiments/lawn/lawn05.htm

Com a popularização dos aparelhos GPS (sobretudo em celulares que já possuem


este dispositivo) esta prática artística vem acontecendo com mais freqüência. Em
várias cidades do mundo este tipo de intervencao começa a acontecer, resultando
em percepções diferentes - Flanar em uma de nossas conturbadas e populosas
cidades pós-modernas ainda pode resultar em percepções artísticas
absolutamente novas, gerando assim uma nova forma de pensarmos as relações
das paisagens urbanas/espaços com os meios digitais.

O uso do GPS drawing

Podemos relacionar a prática do GPS drawing com os movimentos dos


situacionistas, que buscavam e propunham o andar como forma de arte, para uma
diferente apreensão e percepção dos espaços.

Outra relação pode ser traçada com a Land arte. Na Land arte, as obras de
grandes dimensões, só podem ser observadas, visualizadas como um todo a
distancia ou por meio de fotografias e filmes. Há a possibilidade de “experimentá-
las”, para isso é preciso que nos coloquemos dentro delas, percorrendo seus
caminhos passagens e paisagens. Na Land art as obras acompanham os passos e
o olhar do sujeito apreciador da obra, assim, através da experimentação,
interagindo com a obra. Da mesma forma, o GPS drawing, só pode ser visualizado
como um todo (seu traçado) a partir de um ponto de vista que perpassa as
interfaces gráficas – a visualização dos dados via um mapa na rede internet (e não
no local físico onde ocorre). No espaço físico, como na land art, o apreciador pode
percorrer e experimentar parte da obra.

Mas é dentro das chamadas Arte com mídias locativas (locative media art) que o
GPS drawing melhor se enquadra. Definida por Lemos como “processos artísticos
que usam tecnologias e serviços baseados em localização. O objetivo é criar
autoria no espaço público questionando e tensionando questões como mobilidade,
lugar, espaço, público, vigilância, controle e monitoramento.”(LEMOS, 2009)

Ainda segundo Lemos, as mídias locativas “indicam uma nova relação entre mídia,
espaço urbano e ciberespaço”. Este tipo de arte não acontece só no espaço, e
nem só no ciberespaço. As propostas de artes com mídias locativas englobam
ambos.

Os desenhos

O traçado do GPS pode ser visualizado em mapas na rede internet. Esses


traçados podem formar desenhos, palavras ou formas abstratas. Tudo vai
depender da proposta artística desenvolvida. Há dois caminhos para um projeto de
GPS drawing: pode desenhar, primeiro, a forma (figura, desenho, letras) em um
mapa (virtual ou de papel mesmo). Nesse caso o desenho precisa respeitar os
limites de ruas, avenidas acessos do espaço urbano, caso contrario, percorrer este
percurso físico se tornaria inviável. No caso de ações em espaços menores, como
um parque ou outra área com menor numero de obstáculos que impossibilitem o
livre deslocamento, a liberdade de criação do desenho/forma é mais ampla já que
as restrições de acesso do espaço são bem menores.

Essa forma/desenho é parte fundamental do conceito e da poética proposta para a


obra. A partir dessa definição diferentes prpostas podem servelaboradas: 1.letras
formando palavras que funcionem como uma mensagem a ser dita; 2.desenhos
identificados através da visualização desses mapas através da percepção do
artista (formados pelas próprias linhas urbanas de avenidas, ruas e relevo das
cidades); 3. desenhos e conceito criados anteriormente, e partir destes, procurar
através dos mapas das cidades, locais onde possa ser executado.

Os percursos para esse traçado podem ser feitos a pé, como a caminhada
situacionista, ou via algum meio de transporte – carro, trem, ônibus, bicicleta etc.a
depender da dimensão e escala que se deseja criar o projeto. Pode se usar um
espaço de uma quadra, de varias quadras, um bairro, de uma cidade inteira ou até
em escalas maiores (via continentes, de avião ou navio). Nestas escalas grandes,
há a necessidade de um planejamento mais detalhado e minucioso – o grau de
complexidade para a execução da obra requer uma logística maior.

A partir da etapa das definições da obra, inicia-se a gravação dos dados do


percurso. Pecorre-se o caminho pré-definido, com um aparelho GPS ligado e
conectado aos satélites (é possível ocorrer pontos com perda desse sinal, o que
causa uma falha no traçado).

Apos finalizado o caminho, estes dados gravados em um arquivo no dispositivo


são baixados e visualizados no computador em um mapa digital, como o Google
maps e outros. Uma vez disponibilizados na rede, esses mapas desenhados
podem ser assessiveis a todos os usuários da rede. O artista tb pode optar por
criar apenas uma imagem desse desenho criado e finalizar a obra com este
conteúdo visual – o desenho traçado finalizado.

Alem dessa possibilidade, pode-se criar também outro tipo de conteúdo visual. Ha
projetos onde o artista gera, alem do traçado, uma documentação visual do
percurso a partir do percurso – gravacao de vídeos da paisagem urbana, com
detalhes do espaço – arquitetura, ambiente, clima, vegetação, pessoas; dos sons,
provenientes de cada local ou gerados pelo artista para a composição da obra ou
de fotografias.

Nesse caso, o acesso via internet ao mapa trás toda essa experiência sensorial do
artista ao fruidor, já que esse material todo pode ser acessado. Normalmente, a
partir do traçado são criados pontos visuais que linkam à estes materiais (abrindo
novas janelas, como pop-ups) ou direcionando para links de sites que hospedam
essas fotos e vídeos.

A visualizacao desses dados captados pelo GPS, são divididos, então, em dois
tipos de conteúdo visual. Segundo BRUNET, no artigo Mídia locativa, práticas
artísticas de intervenção urbana e colaboração, “Bowman (2008) divide a
visualização de dados de localização em dois tipos de conteúdo visual:

primeiramente, os dados do GPS e segundo, dados contextuais coletados


pelo caminho (fotos, anotações pessoais, sons, etc.). O primeiro é uma
transcrição literal – uma representação estática, unidimensional renderizada
em um formato gráfico simples como coordenadas XY e Z e/ou um
mapeamento ponto-a-ponto que rastreia a jornada. O último, sendo
conteúdo interpretativo, é representativo do local e do viaj ante, e por
extensão, dos aspectos socioculturais da comunidade ou ambiente’.
(BOWMAN, 2008, p. 70)”.

Alguns projetos com desenhos GPS publicitários/promocionais foram criados. No


Brasil, em 2008, uma agência criou uma ação publicitária que viralizou na internet
com o uso dos desenhos em GPS. Contrataram duas patinadoras, amarraram uma
espécie de alegoria em formato de caneta, e as muniram com celulares com GPS.
Os percursos foram registrados em um blog. Escreveram, na cidade de Porto
Alegre, a palavra “inércia”.

A empresa Nokia criou o http://www.theworldismycanvas.com/ - o mundo é minha


tela. Criaram uma personagem que seria o artista criando a “maior obra de arte do
mundo de todos os tempos”. Em um site há dezenas de GPS drawings atribuídos a
este artista. Mas é apenas uma ação promocional bem humorada.

Também em 2008, o designer sueco Erik Nordenankar divulgou na internet seu


auto-retrato como o maior desenho do mundo, supostamente feito com o GPS. O
GPS teria viajado dentro de uma mala passando por 62 países em seis continentes
e os registros gravados por ele formariam o desenho gigante. A repercussão foi
tanta, que o artista resolveu admitir que era apenas um projeto fictício feito para
seu projeto final de graduação e publicou em seu site um esclarecimento sobre o
assunto.

Projetos artísticos com GPS Drawing

São vários os projetos de desenhos criados com o GPS. Não cabe aqui fazer um
apanhado geral ou uma classificação dos mesmos. Apenas citarei alguns
exemplos ilustrativos. Um dos projetos feitos recentemente na cidade de São e o
projeto que participei, realizado no Canadá em 2008.

Kandinsky by perdizes
http://marcusbastos.net/lat-23/
O trabalho 4nós4 de Marcus Bastus e Nacho Durán, realizado em 2008, pinta um
quadro de Kandinsky nas ruas do bairro de Perdizes com um GPS.
"um quadro de kandinsky, dois gps, dois tracksticks, câmeras e celulares. ao
contrário da maioria dos trabalhos em que textos ou desenhos são construídos a
partir de percursos pela cidade, em kandinsky by perdizes, o quadro abstrato serve
como ponto-de-partida para o percurso.” (memorial da obra).

Survivall
http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/survivall/

Projeto que escreveu com GPS sobre a cidade de Edmonton, no Canadá, a


palavra “Survivall”. Autores: Mari Fiorelli, André Lemos e Rob Shields.

No percurso dos caminhos para a escrita de Survivall foram gravados vídeos, e


capturadas fotos. Realizado em pleno inverno canadense, as paisagens captadas
são cobertas de neve, e são imagens representativas da cidade.

A área percorrida foi de aproximadamente 45 km, e a primeira letra, o “S” foi


desenhado a partir das curvas do rio que corta a cidade. Depois desta letra,
escolheu-se a direção de maneira a complementar a palavra. Todas as etapas da
realização foram documentadas no site do projeto.

Sur-viv-all - 2008

Conclusão

Exemplo de arte com mídias locativas, como os GPS drawings nos trazem uma
nova percepção das paisagens urbanas. Como no caso da land art, o planeta e
suas paisagens são tratados como grandes telas de desenho. E mesclam mais
uma vez o espaço e o ciberespaço, já que o desenho em si só pode ser visualizado
via rede internet. E é na internet também que são visualizados os vídeos, fotos e
outras percepções que os criadores colheram no processo sensível, enquanto
percorreram os caminhos, passo a passo, ponto a ponto.

Assim, que tipo de arte é o GPS drawing? É intervenção urbana, web arte, land
arte? Ou a hibridização desses processos todos? Não cabe e não há necessidade
de fazermos essa classificação. O interessante, para nós, artistas, é mais uma
possibilidade – utilizar os satélites como pincel. Para a criação.
1- O GPS teve sua origem num programa militar americano. É um Sistema constituído por
uma rede de satélites, colocados em órbita ao redor da Terra em posições estratégicas e
por Receptores no solo (aparelhos que recebem o sinal e calculam a distância entre o
receptor e o satélite). Através desse cálculo de triangulação de distâncias entre vários
satélites e o receptor, é possível determinar uma posição no globo terrestre (Latitude e
Longitude). Estes dados são captados a todo o instante e posteriormente são analisados
pelo processador do receptor, que através de uma relação de tempo-distância-
deslocamento, poderá devolver muitas informações tais como: velocidade, altitude, etc.

Referências:

COULTER-SMITH, E. e COULTER-SMITH, G. Mapping the Frame: Locative


Media and Interactive Art Environments. iDMAa. Acessado 2008. Disponível em
www.units.muohio.edu/codeconference/papers/papers/Locative5a.pdf 2006.

BRUNET, K. FIORELLI, M. MÍDIA LOCATIVA E NARRATIVA AUDIOVISUAL


Um estudo de caso do filme GPS “Nine Lives”

BRUNET, K. Mídia locativa, práticas artísticas de intervenção urbana e


colaboração. Disponível em: arte.unb.br/7art/textos/karlabrunet.pdf

Enciclopédia de Artes Visuais Itaú Cultural


LEMOS, A., FIORELLI. M., SHIELDS, R. Survivall Locative Art. Disponível em:
http://wi.hexagram.ca/?p=47

LEMOS, A. Arte Com Mídias Locativas (Locative Media Art). Enciclopédia Itaú
Cultural Arte e Tecnologia. Disponível em: http://www.cibercultura.org.br/
tikiwiki/tiki-index.php? page=locative+media+art&highlight=andre%20lemos

FIORELLI, M. Espaço (ciber) espaço: novas tecnologias de comunicação


colando arte nos espaços urbanos. In: Revistas Artes Visuais UFPB.

SANTAELLA. L. A estética política das mídias locativas. Revista Nómadas.


Disponível em: www.ucentral.edu.co/NOMADAS/nunme-ante/26-30/28/12-
A%20ESTETICA%20LUCIA.pdf

Marilei Fiorelli
Mestre em Artes Visuais (UFBA), Especialista (UNEB) e graduada (UFSM) em
Design. Professora da FIB, Centro Universitário da Bahia e da IBES – Instituto
Baiano de Ensino Superior. E-mail: marifiorelli@gmail.com