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Florianópolis, abril de 2010 Entrevista 3

No início de março, Florianópolis


sediou o 1º Encontro Nacional dos José Francisco Bernardes
Conselhos de Medicina. No evento ERO: Quais fatores determinaram a ela- até atraente, mas a infraestrutura existente geralmente
boração de um projeto de lei que prevê é ruim, e a falta de perspectiva do crescimento profis-
foram debatidos temas relevantes o plano de carreira na Medicina? sional é desestimulante. Nada se resolve se colocarmos
A necessidade de que o médico atue em um postos de saúde em cada esquina. Muitas vezes, há a
para o futuro da profissão, como a único local, o que antigamente era chamado tempo in- necessidade da internação do paciente que acabou de
tegral geográfico. Isso faz com que o profissional tenha ser atendido, não havendo nenhuma estrutura hospi-
criação de um plano de carreira para função pública e local de trabalho estabelecido, salá- talar que garanta a continuidade do tratamento após o
rio compatível com a dedicação exclusiva a um único atendimento prestado no posto de saúde. O paciente é
médicos e a melhoraria da qualidade vínculo público. Acrescente-se a isto a dificuldade de atendido em postos próximos a sua residência e depois
manter o médico nos municípios mais longínquos. A não há mais o que fazer por ele. Não há vagas garanti-
dos cursos universitários. O plano, que maior queixa dos jovens médicos não é a remuneração, das para a internação de quem necessita. Faltam leitos
e sim o “abandono científico” a que ficam sujeitos, a hospitalares, mesmo nos hospitais ditos de referência e
está para ser aprovado pela Câmara falta de perspectiva de um dia poderem se mudar para
um local com melhores recursos tecnológicos.
inclusive em Florianópolis.

dos Deputados, garante progressão na A Federação Nacional dos Médicos (Fenam) tenta
O Secretário de Saúde Suplementar da Fenam,
Márcio Bichara, acredita que a carreira acabaria
carreira e melhores salários. O ZERO há anos que o plano de carreira seja aprovado na
Câmara dos Deputados. Por que até hoje não foi
com contratações precárias em época eleitoral.
Você concorda?
entrevistou José Francisco Bernardes, aceito?
O que a Fenam sempre defendeu, e continua a defen-
Não há dúvida quanto a isso. Em São José, o Hospital
Regional não consegue completar o número de mé-
presidente do Conselho Regional de der é a existência de um piso salarial único para mé-
dicos, hoje em torno dos R$ 7.000,00. Presentemente,
dicos necessários para o seu perfeito funcionamento,
porque só oferece contratos de vinte horas, com salário
Medicina de Santa Catarina (Cremesc), a Federação tem dado mostras que encampou a ideia
da Carreira de Estado para médicos juntamente com as
irrisório. Há anos faz concursos e não consegue preen-
cher as vagas. Haja vista o problema recente com a fal-
que discute as mudanças na profissão outras entidades médicas nacionais, como o Conselho
Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Bra-
ta de anestesistas. Se já houvesse um plano de cargos
e salários, isso certamente não ocorreria. As contrata-
e a situação médica no estado. sileira (AMB). ções precárias geralmente realizadas por prefeituras,
principalmente em anos eleitorais, com empresas ter-
Como ficará na prática se o projeto de lei for ceirizadas e ou mesmo cooperativas de médicos, não
aprovado? garante que a população continue a ser assistida se
A partir da aprovação, haverá a necessidade da edição esses contratos não forem honrados ou renovados pe-
de uma lei pelo Congresso Nacional que regulamente las partes contratantes.
Divulgação
o novo dispositivo constitu-


cional. Certamente concur- Uma das questões deba-
sos públicos serão realizados tidas no 1º Encontro Na-
determinando os locais de
trabalho, funções específicas
Santa Catarina é um dos cional dos Conselhos de
Medicina foi a qualidade
e salário único para desem-
penhar as mesmas atividades
estados mais homogêneos dos cursos de Medicina. O
plano de carreira pode de
em qualquer dos municípios
brasileiros. Isso fará com que
do país na distribuição de alguma maneira motivar
os cursos a melhorarem o
o médico esteja à disposição
da população pelo intervalo
médicos. Em praticamente ensino?
Não acredito que o plano
de tempo que a lei determinar,
quando então será substituído
todos os municípios de carreira tenha influência
marcante nas Escolas Médi-
e progredirá na carreira, sen-
do transferido para um centro
há profissionais com cas. A qualidade dos cursos
está diretamente relacionada
maior, com mais recursos. especialização” à contratação de professores
suficientemente qualifica-
Você acredita que o plano dos, que queiram se dedicar
de carreira de algum modo à prática da medicina e ao
possa melhorar o atendimento público? ensino. Muitos cursos pagam de forma ridícula seus
Sim, o médico é um ser humano como qualquer pes- docentes, enquanto cobram mensalidades astronômi-
soa, que estimulado por remuneração digna - sem a cas de seus alunos. A maioria das universidades pú-
necessidade de ter outras atividades profissionais pa- blicas já tem seus currículos direcionados para a for-
ralelas - e perspectiva futura de ascender na carreira, mação de médicos visando o sistema público de saúde.
certamente terá mais tempo e tranquilidade para pres- Nestas, também, os salários estão bastante defasados,
tar um atendimento de melhor qualidade. como de todo o funcionalismo público ligado ao poder
executivo.
Estima-se que 500 cidades não tenham um médico
sequer. O plano de carreira ajudaria a distribuir Fora o plano de carreira, quais são os projetos de
melhor os médicos pelo país? Qual a situação ca- lei de maior interesse da classe médica?
tarinense? Tivemos a imensa satisfação de conseguir aprovar na
A carreira de estado para médicos ajudaria sim a dis- Câmara dos Deputados, no ano passado, o PL 7703/06,
tribuição dos profissionais pelo Brasil. Santa Catarina que trata de regulamentação do exercício da Medicina,
é um dos estados mais homogêneos do país. Em pra- sendo a única profissão da área de saúde que ainda não
ticamente todos os municípios existem médicos com tem suas atribuições estabelecidas em lei. Esperamos
especialização, ou seja, residência médica. As cidades sua aprovação também no Senado ainda no primeiro
que não dispõem de médico, geralmente é por falta semestre deste ano. Além disso, temos um projeto de
absoluta de estrutura, pois se houver uma verificação lei parado no Senado que estabelece a Classificação
Formado em Medicina pela UFSC em 1978, José Francisco Bernardes é presidente in loco, essas cidades também não comportam um su- Brasileira de Honorários para Procedimentos Médicos
do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (Cremesc) desde dezembro permercado, pela pequena população ou pela pobreza (CBHPM), como o único parâmetro de pagamento para
de 2009. Nascido no Rio de Janeiro, veio para Florianópolis em 1965. Aos que lá existe. o serviço dos médicos, seja no atendimento por planos
57 anos, é professor adjunto do Departamento de Clínica Cirúrgica da UFSC, de saúde, bem como para o Sistema Único de Saúde
Quais os principais problemas que o profissional (SUS). O que certamente trará benefícios aos médicos
além de instrutor do Programa de Residência Médica em Ortopedia do Hospital de medicina enfrenta no país e como o plano de e à população atendida, independente de serem deten-
Governador Celso Ramos. É mestre em medicina pela USP na área de Ortopedia carreira pode melhorar este quadro? tores de plano de saúde ou usuários do SUS.
e Traumatologia e tem trabalhos publicados na área de cirurgia de ombro. O O que vejo como principal é a falta de estrutura dos
médico ortopedista do Ministério da Saúde já presidiu a Sociedade Catarinense de gestores públicos para proporcionar o atendimento
Ortopedia em dois mandatos. médico nos municípios mais longínquos e menos fa-
vorecidos. Como dito, a remuneração de forma geral é Fernanda Burigo