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MANA2(2):115­144,1996

OSPRONOMESCOSMOLÓGICOSEOPERSPECTIVISMO

AMERÍNDIO

EduardoViveirosdeCastro

Elserhumanoseveasímismocomotal.LaLuna,laserpiente,eljaguarylamadredelaviruelaloven,sinembargo,comoun

tapirounpecarí,queellosmatan(Baer1994:224).

Lepointdevueestdanslecorps,ditLeibniz(Deleuze1988:16).

Introdução

O tema deste ensaio é aqueleaspectodopensamentoameríndioquemanifestasua“qualidadeperspectiva”(Århem1993):

trata­sedacon­cepção,comumamuitospovosdocontinente,segundoaqualomundoéhabitadopordiferentesespéciesde sujeitos ou pessoas, humanas e não­ humanas, que o apreendem segundo pontos de vista distintos1. Ospres­supostose

conseqüênciasdessaidéiasãoirredutíveis(comomostrouLima1995:425­438)aonossoconceitocorrentederelativismo,queà

primeiravistaparecemevocar.Elessedispõem,abemdizer,demodoperfeita­menteortogonalàoposiçãoentrerelativismoe universalismo.Talresis­tênciadoperspectivismoameríndioaostermosdenossosdebatesepiste­mológicospõesobsuspeitaa robustez e a conseqüente transportabilida­ de das partições cosmológicas que os alimentam. Em particular, como muitos antropólogosjáconcluíram(emboraporoutrosmotivos),adistin­çãoclássicaentreNaturezaeCulturanãopodeserutilizada para descre­verdimensõesoudomíniosinternosacosmologiasnão­ocidentaissempassarantesporumacríticaetnológica rigorosa.

Tal crítica, no caso presente, impõe a dissociação e redistribuição dos predicados subsumidos nas duas séries paradigmáticasquetradicio­nalmenteseopõemsobosrótulosde“Natureza”e“Cultura”:universaleparticular,objetivoe subjetivo,físicoemoral,fatoevalor,dadoeinsti­

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tuído,necessidadeeespontaneidade,imanênciaetranscendência,corpoeespírito,animalidadeehumanidade,eoutrostantos.

Essereembara­lhamentoetnograficamentemotivadodascartasconceituaisleva­measugeriraexpressão“multinaturalismo”

paradesignarumdostraçoscon­trastivosdopensamentoameríndioemrelaçãoàscosmologias“multicul­turalistas”modernas:

enquantoestasseapóiamnaimplicaçãomútuaentreunicidadedanaturezaemultiplicidadedasculturas—aprimeiragarantida pelauniversalidadeobjetivadoscorposedasubstância,asegundageradapelaparticularidadesubjetivadosespíritosedos signifi­ cados —, a concepção ameríndia suporia, ao contrário,umaunidadedoespíritoeumadiversidadedoscorpos.A “cultura”ouosujeitoseriamaquiaformadouniversal,a“natureza”ouoobjetoaformadoparticular.

Essa inversão, talvez demasiado simétrica para ser maisqueespe­culativa,devesedesdobraremumainterpretação fenomenológicaplau­síveldascategoriascosmológicasameríndias,quedetermineascondi­çõesdeconstituiçãodoscontextos relacionaisdesignáveiscomo“nature­za”e“cultura”.Recombinar,portanto,masparaemseguidadessubstan­cializar,poisas categoriasdeNaturezaeCultura,nopensamentoame­ríndio,nãosónãosubsumemosmesmosconteúdos,comonãopossuemo mesmo estatuto de seus análogos ocidentais — elas não designam pro­ víncias ontológicas, mas apontam paracontextos relacionais,perspecti­vasmóveis,emsuma,pontosdevista.

Comoestáclaro,pensoqueadistinçãonatureza/culturadevesercriticada,masnãoparaconcluirquetalcoisanãoexiste(já há coisas demais que não existem). O “valor sobretudo metodológico” que Lévi­ Strausslheatribuiu(1962b:327)éaqui entendidocomovalorsobretudocomparativo.Aflorescenteindústriadacríticaaocaráterocidentalizantedetododualismotem advogadooabandonodenossaherançaconceitualdicotômica,masasalternativasatéagoraseresumemadesideratospós­ binários um tanto vagos; prefiro, assim, perspectivizar nossos contrastes contrastando­os com as distinções efetivamente operantesnascosmolo­giasameríndias.

Perspectivismo

Oestímuloinicialparaestareflexãosãoasnumerosasreferências,naetnografiaamazônica,aumateoriaindígenasegundoaqual o modo como os humanos vêem os animais e outras subjetividades que povoamouniverso—deuses,espíritos,mortos, habitantesdeoutrosníveiscósmi­

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cos,fenômenosmeteorológicos,vegetais,àsvezesmesmoobjetosearte­fatos—,éprofundamentediferentedomodocomo

essesseresosvêemesevêem.

Tipicamente, os humanos, em condições normais, vêem os humanos como humanos,osanimaiscomoanimaiseos espíritos(seosvêem)comoespíritos;jáosanimais(predadores)eosespíritosvêemoshumanoscomoanimais(depresa),ao passoqueosanimais(depresa)vêemoshumanoscomoespíritosoucomoanimais(predadores).Emtroca,osanimaiseespí­ ritossevêemcomohumanos:apreendem­secomo(ousetornam)antro­pomorfosquandoestãoemsuasprópriascasasou aldeias,eexperimen­tamseuspróprioshábitosecaracterísticassobaespéciedacultura—vêemseualimentocomoalimento humano(osjaguaresvêemosanguecomocauim,osmortosvêemosgriloscomopeixes,osurubusvêemosvermesdacarne podrecomopeixeassadoetc.),seusatributoscorporais(pelagem,plumas,garras,bicosetc.)comoadornosouinstrumentoscul­ turais,seusistemasocialcomoorganizadodomesmomodoqueasinsti­tuiçõeshumanas(comchefes,xamãs,festas,ritosetc.). Esse“vercomo”serefereliteralmenteaperceptos,enãoanalogicamenteaconceitos,ain­daque,emalgunscasos,aênfaseseja maisnoaspectocategorialquesensorialdofenômeno;detodomodo,osxamãs,mestresdoesquematis­mocósmico(Taussig

1987:462­463),dedicadosacomunicareadministraressasperspectivascruzadas,estãosempreaíparatornarsensíveisoscon­

ceitosoutornarinteligíveisasintuições.

Emsuma,osanimaissãogente,ousevêemcomopessoas.Talcon­cepçãoestáquasesempreassociadaàidéiadequea formamanifestadecadaespécieéummeroenvelope(uma“roupa”)aesconderumaformainternahumana,normalmentevisível apenasaosolhosdaprópriaespé­cieoudecertosserestransespecíficos,comoosxamãs.Essaformainter­naéoespíritodo animal:umaintencionalidadeousubjetividadeformal­menteidênticaàconsciênciahumana,materializável,digamosassim,em umesquemacorporalhumanoocultosobamáscaraanimal.Teríamosentão,àprimeiravista,umadistinçãoentreumaessência antropomorfadetipoespiritual,comumaosseresanimados,eumaaparênciacorporalvariável,característicadecadaespécie, mas que não seria um atributo fixo, e sim umaroupatrocáveledescartável.Anoçãode“roupa”2éumadasexpressões privilegiadas da metamorfose — espíritos, mortos examãsqueassumemformasanimais,bichosqueviramoutrosbichos, humanosquesãoinadvertidamentemudadosemanimais—,umprocessoonipre­senteno“mundoaltamentetransformacional”

(Rivière1995:201)propos­topelasontologiasamazônicas.

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Esseperspectivismoetransformismocosmológicopodeserdivisadoemváriasetnografiassul­americanas,masemgeralé

objetodecomen­táriosconcisos3,eparecesermuitodesigualmenteelaborado.Eleseachatambém,ealicomumvalortalvez

aindamaispregnante,nasculturasdasregiõesboreaisdaAméricadoNorteedaÁsia,eentrecaçadores­coletorestropicaisde

outroscontinentes4.NaAméricadoSul,ascosmo­logiasdonoroesteamazônicomostramosdesenvolvimentosmaiscom­

pletos (ver Århem 1993; e no prelo,emquemadescriçãoqueprecedefoilargamenteinspirada;Reichel­Dolmatoff1985;

Hugh­Jones1996).MassãoasetnografiasdeVilaça(1992)sobreocanibalismowari’edeLima(1995)sobreaepistemologia

juruna que trazem as contribuições direta­ mente afins ao presente trabalho, por ligarem a questão dos pontos de vista não­humanosedanaturezaposicionaldascategoriascosmológicasaoconjuntomaisamplodemanifestaçõesdeumaeconomia

simbólicadaalteridade(ViveirosdeCastro1993)5.

Algumas observações gerais são necessárias. O perspectivismonãoengloba,viaderegra,todososanimais(alémde englobaroutrosseres);aênfaseparecesernaquelasespéciesquedesempenhamumpapelsim­bólicoepráticodedestaque,como osgrandespredadores,rivaisdoshumanos,easpresasprincipaisdoshumanos—umadasdimensõescen­trais,talvezmesmoa dimensãofundamental,dasinversõesperspectivasdizrespeitoaosestatutosrelativoserelacionaisdepredadorepresa(Vila­ça

1992:49­51;Århem1993:11­12).Deoutrolado,nemsempreéclaroqueseatribuamalmasousubjetividadesacadaindivíduo

animal,eháexemplosdecosmologiasquenegamaosanimaispós­míticosacapaci­dadedeconsciência(Overing1985:249e

ss.;1986:245­246),oualgumaoutradistinçãoespiritual(ViveirosdeCastro1992a:73­74;Baer1994:89).Entretanto,anoçãode

espíritos“senhores”dosanimais(“mãesdacaça”,“mestresdosqueixadas”etc.)é,comosesabe,deenormedifusãonocon­ tinente.Essesespíritos­mestres,claramentedotadosdeumaintencionali­dadeanálogaàhumana,funcionamcomohipóstasesdas espécies ani­ mais a que estão associados, criando um campo intersubjetivo humano­ animal mesmoaliondeosanimais empíricosnãosãoespiritualizados.

Recordemossobretudoque,seháumanoçãovirtualmenteuniversalnopensamentoameríndio,éaqueladeumestado

originaldeindiferen­ciaçãoentreoshumanoseosanimais,descritopelamitologia6.Osmitossãopovoadosdeserescujaforma,

nome e comportamento misturam inex­ tricavelmente atributos humanos e animais, em um contexto comum de intercomunicabilidadeidênticoaoquedefineomundointra­humanoatual.Adiferenciaçãoentre“cultura”e“natureza”,que Lévi­Strauss

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mostrouserotemamaiordamitologiaameríndia,nãoéumprocessodediferenciaçãodohumanoapartirdoanimal,comoem nossacosmologiaevolucionista.Acondiçãooriginalcomumaoshumanoseanimaisnãoéaanimalidade,masahumanidade.A grandedivisãomíticamostramenosaculturasedistinguindodanaturezaqueanaturezaseafastandodacul­tura:osmitos contamcomoosanimaisperderamosatributosherdadosoumantidospeloshumanos.Oshumanossãoaquelesquecontinuaram

iguaisasimesmos:osanimaissãoex­humanos,enãooshumanosex­animais7.Emsuma,“oreferencialcomumatodosos

seresdanaturezanãoéohomemenquantoespécie,masahumanidadeenquantocondi­ção”(Descola1986:120).

Estaéumadistinção—entreaespéciehumanaeacondiçãohuma­na—quesedeveguardar.Elatemumaconexão evidentecomaidéiadasroupasanimaisaesconderuma“essência”espiritualcomum,ecomoproblemadosentidogeraldo perspectivismo.Porora,registremosape­nasumadesuasincidênciasetnográficasmaisimportantes:ahumanida­depassada dosanimaissesomaàsuaatualespiritualidadeocultapelaformavisívelparaproduzirumdifundidocomplexoderestriçõesou pre­cauçõesalimentares,queoradeclaraincomestíveiscertosanimaismiti­camenteconsubstanciaisaoshumanos,oraexigea dessubjetivaçãoxa­manísticadoanimalantesqueseoconsuma(neutralizandoseuespírito,transubstanciandosuacarneem vegetal, reduzindo­o semanticamente a outros animais menospróximosdohumano)8,sobpenaderetaliaçãoemformade doença,concebidacomocontrapredaçãocaniballevadaaefei­topeloespíritodapresatornadapredador,emumainversão mortaldeperspectivasquetransformaohumanoemanimal.

Convémdestacarqueoperspectivismoameríndiotemumarelaçãoessencialcomoxamanismo,dequeéaomesmotempo ofundamentoteó­ricoeocampodeoperação,ecomavalorizaçãosimbólicadacaça.Aassociaçãoentreoxamanismoeoque poderíamos chamar de “ideologia venatória” é uma questão clássica (ver Chaumeil 1983:231­232; Crocker 1985:17­25). Sublinhoquesetratadeimportânciasimbólica,nãodede­pendênciaecológica:horticultoresaplicadoscomoosTukanoouos Juru­na(quealémdissopraticammaisapescaqueacaça)nãodiferemmuitodoscaçadoresdoCanadáeAlasca,noquediz respeitoaopesocosmoló­gicoconferidoàpredaçãocinegética,àsubjetivaçãoespiritualdosani­maiseàteoriadequeo

universoépovoadodeintencionalidadesextra­humanasdotadasdeperspectivaspróprias9.Nessesentido,aespirituali­zação

dasplantas,meteorosouartefatosmeparecesecundáriaouderi­vadadiantedaespiritualizaçãodosanimais:oanimaléo

protótipoextra­

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humanodoOutro,mantendoumarelaçãoprivilegiadacomoutrasfigu­rasprototípicasdaalteridade,comoosafins(Erikson

1984:110­112;Des­cola1986:317­330;Århemnoprelo)10.Ideologiadecaçadores,estaétam­bémesobretudoumaideologia

de xamãs, na medida em que são os xamãs que administram as relações dos humanoscomocomponenteespiritualdos extra­humanos,capazescomosãodeassumiropontodevistadessesserese,principalmente,devoltarparacontarahistória.Seo multicultu­ralismoocidentaléorelativismocomopolíticapública,oxamanismoperspectivistaameríndioéomultinaturalismo comopolíticacósmica.

Animismo

Oleitorteráadvertidoquemeu“perspectivismo”evocaanoçãode“ani­mismo”,recentementerecuperadaporDescola(1992;

no prelo), para designar um mododearticulaçãodassériesnaturalesocialqueseriaosimétricoeinversodototemismo. Afirmandoquetodaconceitualizaçãodosnão­humanosésemprereferidaaodomíniosocial,oautordistinguetrêsmodosde objetivaçãodanatureza:ototemismo,ondeasdiferençasentreasespéciesnaturaissãoutilizadasparaorganizarlogicamentea ordeminternaàsociedade,istoé,ondearelaçãoentrenaturezaecultu­raédetipometafóricoemarcadapeladescontinuidade (intraeintersé­ries);oanimismo,ondeas“categoriaselementaresdavidasocial”orga­nizamasrelaçõesentreoshumanoseas espéciesnaturais,definindoassimumacontinuidadedetiposociomórficoentrenaturezaecultura,fundadanaatribuiçãode

“disposiçõeshumanasecaracterísticassociaisaosseresnaturais”(Descolanoprelo:99);eonaturalismo,típicodascos­mologias

ocidentais,quesupõeumadualidadeontológicaentrenature­za,domíniodanecessidade,ecultura,domíniodaespontaneidade, regiõesseparadasporumadescontinuidademetonímica.O“modoaní­mico”seriacaracterísticodassociedadesondeoanimalé

“focoestraté­gicodeobjetivaçãodanaturezaedesuasocialização”(Descola1992:115),comonaAméricaindígena,reinando

soberano naquelas mor­ fologias sociais desprovidas de segmentação interna elaborada. Mas ele pode se apresentar em coexistênciaoucombinaçãocomototemismo,aliondetaissegmentaçõesexistem,comonocasodosBororoeseudualis­mo

aroe/bope(Descolanoprelo:99)11.

Essasidéiasseinserememummodelode“ecologiasimbólica”ain­daemelaboração,quenãopossoaquidiscutircomo

elemereceria12.Comentareiapenas,mastomando­oemumsentidoalgodiferentedoori­

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ginal,ocontrasteentreanimismoenaturalismo.(Ototemismomepareceumfenômenoheterogêneo,antesclassificatórioque cosmológico: ele não é um sistema de relações entre natureza e cultura,comoosoutrosdoismodos,masdecorrelações puramentelógicasediferenciais.)

Oanimismopodeserdefinidocomoumaontologiaquepostulaocarátersocialdasrelaçõesentreassérieshumanae

não­humana:ointer­valoentrenaturezaesociedadeéeleprópriosocial.Onaturalismoestáfundadonoaxiomainverso:as

relaçõesentresociedadeenaturezasãoelasprópriasnaturais.Comefeito,senomodoanímicoadistinção“natu­reza/cultura”é

internaaomundosocial,humanoseanimaisestandoimersosnomesmomeiosociocósmico(enestesentidoa“natureza”épar­te

deumasocialidadeenglobante),naontologianaturalistaadistinção“natureza/cultura”éinternaànatureza(enestesentidoa

sociedadehumanaéumfenômenonaturalentreoutros).Oanimismotema“socie­dade”comopólonão­marcado,onaturalismo,

a“natureza”:essespólosfuncionam,respectivaecontrastivamente,comoadimensãodouniversaldecadamodo.Animismoe

naturalismosão,portanto,estruturashierár­quicasemetonímicas(oqueosdistinguedototemismo,estruturameta­fóricae

eqüipolente).

Emnossaontologianaturalista,ainterfacesociedade/naturezaénatural:oshumanossãoaquiorganismoscomoosoutros, corpos­objetoseminteração“ecológica”comoutroscorposeforças,todosreguladospelasleisnecessáriasdabiologiaeda física; as “forças produtivas” apli­camasforçasnaturais.Relaçõessociais,istoé,relaçõescontratuaisouinstituídasentre sujeitos,sópodemexistirnointeriordasociedadehuma­na.Masquão“não­naturais”—esteseriaoproblemadonaturalismo— sãoessasrelações?Dadaauniversalidadedanatureza,oestatutodomundohumanoesocialéinstável,e,comomostraahistória dopensa­mentoocidental,perpetuamenteoscilanteentreomonismonaturalista(dequea“sociobiologia”éumdosavatares atuais)eodualismoontoló­giconatureza/cultura(dequeo“culturalismo”éaexpressãocontempo­rânea).Aafirmaçãodeste últimodualismoeseuscorrelatos(corpo/men­te,razãopura/razãopráticaetc.),porém,sófazreforçarocaráterderefe­rencial últimodanoçãodenatureza,aoserevelardescendenteemlinhadiretadaoposiçãoentrenaturezaesobrenatureza.ACulturaéo nomemodernodoEspírito—recorde­seadistinçãoentreasNaturwissenschaf­teneasGeistwissenschaften—,oupelomenoso nomedocompromisso,elepróprioinstável,entreaNaturezaeaGraça.Doladodoanimismo,seríamostentadosadizerquea instabilidadeestánopólooposto:opro­blemaaliéadministraramisturadehumanidadeeanimalidadedosani­

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mais, enão,comoentrenós,acombinaçãodeculturaenaturezaquecaracterizaoshumanos;aquestãoédiferenciaruma “natureza”apartirdosociomorfismouniversal.

Masédefatopossíveldefiniroanimismocomoumaprojeçãodediferençasequalidadesinternasaomundohumanosobre omundonão­humano,comoummodelo“sociocêntrico”ondecategoriaserelaçõessociaissãousadasparamapearouniverso

(Descolanoprelo:97)?Estainterpretaçãoanalógicaéexplícitaemalgumasglosasdateoria:“iftotemicsystemsmodelsociety

afternature,thenanimicsystemsmodelnatureaftersociety”(Århemnoprelo:211).Oproblemaaqui,obviamen­te,éodeevitar

umaindesejávelproximidadecomaacepçãotradicionalde“animismo”,oucomareduçãodas“classificaçõesprimitivas”aema­

naçõesdamorfologiasocial(Descolanoprelo:97);masétambémodeiralémdeoutrascaracterizaçõesclássicasdarelação

sociedade/natureza,comoadeRadcliffe­Brown13.

Ingold(1991;1992;noprelo)mostroucomoosesquemasdeproje­çãoanalógicaoudemodelizaçãosocialdanatureza

escapamdoreducio­nismonaturalistaapenasparacaírememumdualismonatureza/culturaque,aodistinguirentreumanatureza

“realmentenatural”eumanatu­reza“culturalmenteconstruída”,revela­secomoumatípicaantinomiacosmológicaviciadapela

regressãoaoinfinito.Anoçãodemodelooumetáforasupõeadistinçãopréviaentreumdomínioondeasrelaçõessociaissão

constitutivaseliteraiseoutroondeelassãorepresentativasemetafóricas.Emoutraspalavras,aidéiadequehumanoseanimais

estãoligadosporumasocialidadecomumdependecontraditoriamentedeumadescontinuidadeontológicaprimeira.Oanimismo,

interpretadocomoprojeçãodasocialidadehumanasobreomundonão­humano,nãopassa­riadametáforadeumametonímia,

permanecendocativodeumaleitura“totêmica”ouclassificatória.

Entreasquestõesquerestamaresolver,portanto,estáadesaberseoanimismopodeserdescritocomoumusofiguradode categorias do domínio humano­socialparaconceitualizarodomíniodosnão­humanosesuasrelaçõescomoprimeiro.Isto redundaemindagaratéquepontoo“perspectivismo”,queéumcomocorolárioetno­epistemológicodo“ani­mismo”,exprime realmenteumantropomorfismoanalógico,istoé,umantropocentrismo.Oquesignificadizerqueosanimaissãopessoas?

Outraquestão:seoanimismodependedaatribuiçãoaosanimaisdasmesmasfaculdadessensíveisdoshomens,edeuma

mesmaformadesubjetividade,istoé,seosanimaissão“essencialmente”humanos,qualafinaladiferençaentreoshumanoseos

animais?Seosanimaissãogen­

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te,porquenãonosvêemcomogente?Porque,justamente,operspecti­vismo?Cabetambémperguntarseanoçãodeformas corporaiscontin­gentes(as“roupas”)podeserdefatodescritaemtermosdeumaoposi­çãoentreaparênciaeessência(Descola

1986:120;Århem1993:122;Riviè­re1995;Hugh­Jones1996).

Porfim,seoanimismoéummododeobjetivaçãodanaturezaondeodualismonatureza/culturanãovigora,oquefazer comasabundantesindicaçõesarespeitodacentralidadedessaoposiçãonascosmologiassul­americanas?Tratar­se­iaapenasde maisuma“ilusãototêmica”,senãodeumaprojeçãoingênuadenossodualismoocidental?Épossívelfazerumusomaisque

sinópticodosconceitosdenaturezaecultura,ouelesseriamapenas“rótulosgenéricos”(Descolanoprelo:95)aqueLévi­Strauss

recorreu para organizar os múltiplos contrastes semânticos das mitologias americanas, contrastes estes irredutíveis a uma dicotomiaúni­caemassiva?

Etnocentrismo

Emumtextomuitoconhecido,Lévi­Straussobservavaque,paraossel­vagens,ahumanidadecessanasfronteirasdogrupo,

concepçãoqueseexprimiriaexemplarmentenagrandedifusãodeauto­etnônimoscujosig­nificadoé“oshumanosverdadeiros”,

equeimplicamassimumadefini­çãodosestrangeiroscomopertencentesaodomíniodoextra­humano.Oetnocentrismonão

seriaprivilégiodosocidentais,portanto,masumaati­tudeideológicanatural,inerenteaoscoletivoshumanos.Oautorilustraa

reciprocidadeuniversaldetalatitudecomumaanedota:

“NasGrandesAntilhas,algunsanosapósadescobertadaAmérica,enquan­toosespanhóisenviavamcomissõesdeinquérito parainvestigarseosindí­genastinhamounãoumaalma,estessededicavamaafogarosbrancosqueaprisionavam,afimde

verificar,porumademoradaobservação,seseuscadávereseramounãosujeitosàputrefação”(Lévi­Strauss1973a:384,tra­

duçãominha).

Lévi­Straussextraidessaparábolaacélebremoral:“Obárbaroé,an­tesdemaisnada,ohomemquecrênaexistênciada

barbárie”.Algunsanosdepois,eleiriarecontarocasodasAntilhas,masdessavezsubli­nhandoaassimetriadasperspectivas:

emsuasinvestigaçõessobreahumanidadedoOutro,osbrancosapelavamparaasciênciassociais,os

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índios, paraasciênciasnaturais;eseosprimeirosconcluíamqueosíndioseramanimais,ossegundossecontentavamem

desconfiarqueosbran­cosfossemdivindades(Lévi­Strauss1955:82­83).“Àignoranceégale”,dizoautor,aúltimaatitudeera

maisdignadesereshumanos.

A anedota revela algo mais, como veremos. Porora,observe­sequenadapermiteconcluirqueosíndiosestivessem imputandoumapoten­cialdivindadeaosbrancos:podiamapenasestarquerendosaberseeramespíritosmalignos,nãodeuses. Dequalquermodo,opontogeralésim­ples:osíndios,comoosinvasoreseuropeus,consideramqueapenasogrupoaque pertencemencarnaahumanidade;osestrangeirosestãodooutroladodafronteiraqueseparaoshumanosdosanimaiseespíritos, aculturadanaturezaedasobrenatureza.Matrizecondiçãodepossibili­dadedoetnocentrismo,aoposiçãonatureza/cultura aparececomoumuniversaldaapercepçãosocial.

NotempoemqueLévi­Straussescreviaessaslinhas,aestratégiaparasevindicaraplenahumanidadedosselvagenseraa demostrarqueelesfaziamasmesmasdistinçõesquenós:aprovadequeeleseramver­dadeiroshumanoséqueconsideravam que somente eles eram humanos verdadeiros.Comonós,elesdistinguiamaculturadanatureza,etam­bémachavamque Naturvölkersãoosoutros.Auniversalidadedadistin­çãoculturalentreNaturezaeCulturaatestavaauniversalidadedacultu­ra comonaturezadohumano.Emsuma,arespostaàquestãodosinvesti­gadoresquinhentistaserapositiva:osselvagenstêmalma.

Agora,tudomudou.Osselvagensnãosãomaisetnocêntricos,mascosmocêntricos;emlugardeprecisarmosprovarque elessãohumanosporquesedistinguemdoanimal,trata­seagorademostrarquãopoucohumanossomosnós,queopomos humanos e animais de um modo que eles nunca fizeram: para eles, natureza e cultura são parte de um mesmo campo sociocósmico. Os ameríndios não somente passariamaolargodoGrandeDivisorcartesianoqueseparouahumanidadeda animalidade,comosuaconcepçãosocialdocosmos(ecósmicadasociedade)antecipaasliçõesfundamentaisdaecologia,que

apenasagoraestamosemcondi­çõesdeassimilar(Reichel­Dolmatoff1976).Antesseobservavaarecusa,porpartedosíndios,

deconcederospredicadosdahumanidadeaoutroshomens;agorasesublinhaqueelesestendemtaispredicadosmuitoalémdas fronteiras da espécie, em uma demonstração de sabedoria “ecosófi­ ca” (Århem1993)quedevemosemular,tantoquanto

permitamoslimitesdenossoobjetivismo14.Antes,eraprecisocontestaraassimilaçãodopen­samentoselvagemaoanimismo

narcísico,estágioinfantildonaturalis­mo,mostrandoqueototemismoafirmavaadistinçãocognitivaentreo