A Era do Folhetim

Wanju Duli
2016
Baseado no romance de Hermann Hesse
“O Jogo das Contas de Vidro”

Sumário
Capítulo 1: O Sonho_______________________________________5
Capítulo 2: A Iniciação_____________________________________99
Capítulo 3: O Diabo______________________________________170

do amadurecimento da razão.A Era do Folhetim Capítulo 1: O Sonho "– Devemos dar importância aos sonhos? – perguntou Josef. Era criação totalmente nossa. mais do que em nenhuma outra época. Um mundo de papel e plástico. por Hermann Hesse Vivemos na Era do Folhetim. Tal como descreveu o historiador Plinius Ziegenhalß. que não era mais uma força da alma. porque tudo pode ser decifrado" O Jogo das Contas de Vidro. A busca da legitimidade da liberdade. mas uma espécie de fricção entre a alma e o mundo. Admitimos que não era desprovida de espírito. os folhetins também tiveram seu Voltaire. e não da Igreja ou do Estado. assim como a Igreja também conheceu uma ironia ácida. a Idade Folhetinesca é um elemento onipresente em nossas vidas tanto quanto o ar que respiramos. da doença e da guerra. Porém. – Podemos decifrar seu significado? O Mestre fitou-o nos olhos e disse concisamente: – Devemos dar importância a tudo. uma espécie de saber apaixonado. eis um nome bonito. De certa forma. Aterrorizados perante a realidade da morte. Hoje. seu Erasmo de Rotterdam. Não eram poucos os que levavam essa atividade formalmente a sério. mas perigoso. 5 . Era mais do que um jogo de quebra-cabeça. havia uma necessidade desesperada de resgatar uma suposta cultura. O peso de uma palavra pode ser sedutor. Os folhetins eram o panem et circenses do trabalhador contemporâneo. Estávamos tão orgulhosos de nossa intelectualidade! A leitura de um folhetim exigiria que o leitor desvendasse a chave do arcano. nos sentimos muito à vontade nesse mundo.

em que tudo se encaixa harmonicamente. Uma sociedade progressista e conservadora. tendo em vista o materialismo: ensine apenas o necessário para que seja possível exercer as profissões liberais. em que somente poderiam entrar os escolhidos e os iniciados. base da pedagogia moderna. fama e 6 . Coisas como dinheiro. e que somente eram completamente aprendidos a custa de muito sacrifício. produzir um produto. mas era místico demais para ser plenamente penetrado por um cultista gigolô. independente de o conhecimento ter uma utilidade. fundamentada no pensamento idealista. Afinal. Estes. o sentido máximo do ensino era educar o cidadão. É claro que nenhum deles possuía a intenção real de ler um James Joyce. Lá eram introduzidos uma série de aprendizados que poderiam ser tidos como inúteis às pessoas do mundo. sendo o termo “liberal” particularmente sedutor. O lendário sentido estava lá. Os ouvintes assistiam passivamente a uma palestra sobre temas elevados ou tidos como importantes pelos especialistas. Uma busca do resgate da pureza da aritmética. o relativismo e a anarquia.Wanju Duli As conferências também eram populares. esse prazer quase obsceno da Idade Folhetinesca era a oportunidade de mergulhar num universo fragmentário e desprovido de sentido. Em Castália. Um movimento de resistência a essa aparente superficialidade e inautenticidade não tardaria a surgir: os chamados guardiões da “verdadeira cultura” e da “verdadeira arte”. de uma gramática baseada na lógica e na metafísica. A intenção de Comenius era que a educação chegasse a todos de forma rápida e fácil. Defendiam uma organização hierárquica e o anonimato como ideal. Era requerido que os estudantes dedicassem integralmente suas vidas para o domínio de certas áreas. desprezavam o individualismo. tidos como heróis e ascetas do espírito. como uma reação às reformas realizadas no Renascimento por Jean Amos Comenius. para não gerar preguiça e aborrecimento. Eis o berço de Castália e das escolas de elite. Serviam a Verdade e a Ciência. o que quer que isso seja. tratava-se de uma comunidade espiritual. Um ensino fundamentado nas Sete Artes Liberais. Afinal. O objetivo dos colégios e das universidades contemporâneas era pragmático. um Guimarães Rosa. sem que fosse dada nenhuma espécie de recompensa pelo esforço.

7 . belíssimo e inacessível. Os jogadores de Avelórios buscam tocar o cosmo. A ambição do Jogo é abarcar o universo espiritual em sistemas concêntricos. sendo o que há de maior em Castália. O Jogo das Contas de Vidro possui suas origens em Pitágoras e Leibniz e é provido de uma linguagem e de uma gramática própria: são hieróglifos. Não são poucos que sentem uma emoção e êxtase intenso somente ao escutar as partidas. pelo respeito ao sagrado. Hoje em dia. Os rumores correm como fogo. As clássicas festas públicas anuais se tornaram cada vez mais restritas. Atualmente as regras mudaram. O Jogo é tido como a reação máxima à cultura de pedaços surgida na Era do Folhetim. já que Castália abomina o culto à personalidade.A Era do Folhetim poder eram fortemente desprezadas. Ainda é possível baixar na internet um arquivo com uma das velhas transmissões de rádio de alguns séculos atrás. Contudo. somente uns poucos iniciados são capazes de apreender o microcosmo do Jogo. são pouquíssimas pessoas que realmente o entendem. É como contemplar um animal exótico. a identidade dos Mestres do Jogo são mantidas no anonimato. Antigamente os Jogos duravam longas semanas e eram transmitidos pelo rádio. Evidentemente. Era uma sociedade fechada em si mesma. Alcança um sentido de universalidade. tendo como meta servir a uma causa superior aos indivíduos que lá se encontravam. cujas origens são especialmente a Matemática e a Musicologia. somente convidados especiais e uns poucos representantes do governo podem comparecer ao Jogo. mesmo sem entender a maior parte do que se passa. que surgiu no coração de Castália. uma língua secreta extremamente aperfeiçoada. Esse animal está num esconderijo precioso e perigoso e ninguém ousa se aproximar. As partidas mais elevadas se tornaram lendas e até hoje são referenciadas e comentadas em diferentes países. Porém. Os virtuoses do Jogo de Avelórios são famosos até mesmo fora dessa comunidade espiritual. Essa entrega fanática e fervorosa pelas coisas do espírito deu origem ao Jogo de Avelórios. cujo canto delicado faz verter lágrimas. Especialmente a identidade do Magister Ludi.

Caso o aluno não se adaptasse à vida em Castália. era somente a elite da elite. apesar de lá haver muitos relatos de gente que foi selecionada e depois retornou. Se já era difícil saber o que se passava dentro dos muros de Castália. uma coisa não mudou: dizem que tornar-se um dia membro da Comissão do Jogo ou ser um Magister Ludi ainda é o sonho de quase todos os adolecentes de 15 anos das escolas de elite. geralmente quando a criança tem em torno de 12 ou 13 anos. sua capacidade de disciplina e seu caráter. São simplesmente pessoas competentes. entrar numa escola de elite não é tarefa fácil. que ouviam falar de um estudante de outra escola que foi chamado. Não possui uma teologia própria. Aparentemente eles passavam por juramentos rigorosos e os levavam muito a sério. Ele é qualquer outra coisa desprovida de definição: uma mistura disso tudo. Apenas escutava alguns rumores esparsos dos meus colegas de classe. Contudo. Se esse rumor era verdade ou não.Wanju Duli O Jogo não é ciência. era instruído a ficar de boca fechada sobre o que acontecia lá dentro. eu não saberia dizer. Um dia. eu nunca tinha conhecido ninguém que foi escolhido para estudar numa escola de elite. filosofia e nem mesmo arte. não adianta ser um prodígio da matemática ou da música se o aluno não se adapta a uma vida em comunidade e de privações ou tem mau comportamento. mas sem ser ele mesmo nenhuma dessas coisas. a nata de Castália. a Comissão do Jogo se envolvia numa espécie de conclave. Sendo assim. que era um cargo vitalício. Não existe nenhum tipo de exame que se faça para receber permissão de admissão. Honestamente. que sabem seguir regras e que são capazes de se comportar de forma ética. um Magister surge para realizar uma entrevista. Eu já tinha lido uma vez que para a escolha do novo Magister Ludi. Provavelmente não são nem mesmo os melhores do mundo em suas áreas de atuação. Alunos de diferentes escolas são escolhidos por professores e recomendados às autoridades de Castália. Afinal. Isso significa que os estudantes das escolas de elite não são gênios. já que até mesmo na internet ninguém divulgava nada. quase como se estivessem para eleger o novo papa. que leva em conta principalmente a habilidade do estudante. No entanto. Mas aparentemente havia algum envolvimento de Castália com os monges 8 . que se envolvia com ele. muito mais difícil seria escutar qualquer coisa sobre o Jogo de Avelórios.

Twitter. Mas não era o fim da história. Sempre fui uma aluna medíocre no colégio e sabia que não teria chance nenhuma de ser chamada. num mundo material em que o corpo é a entidade máxima. de viver. A primeira vez que eu ouvi sobre alguém próximo a mim que foi entrevistado por um Magister. algo maior do que eu mesma. está contaminado. Quem sabe eu desejasse a aniquilação do meu ser. Era lamentável. tudo era feito com pressa. e especialmente do Jogo. o anonimato completo e a partida desse mundo com uma passagem só de ida. com postagens curtas e pouco informativas. Eu não 9 . num mundo de informações fast food. Blogs na internet. que era o que Castália oferecia. desconectadas. Uma parte de mim não podia conceber que existia algo tão fantástico e que eu não poderia participar desse universo. E o objetivo da vida é o máximo de conforto.A Era do Folhetim beneditinos e dominicanos. Eu sentia como se me afogasse cada vez mais na Idade Folhetinesca: ao meu redor só havia pedaços. de lazer. as disciplinas estavam desconectadas umas das outras. porque precisa viver. Também parecia haver influência de religiões orientais na espiritualidade deles. Eu desejava algo maior do que o mero prazer do meu corpo. Havia momentos em que eu queria crer que até mesmo a existência das escolas de elite. O ser humano se considerava tão esperto e esse foi o ponto máximo a que conseguiu chegar. Não havia tempo de respirar. Cada vez menor. Quando se une os pedaços fragmentados da história. O corpo precisa comer qualquer coisa e muito rápido. Pois o fim do corpo está chegando e o sentido de viver é apenas morrer. E diziam que nossas universidades não eram diferentes: que as informações nunca se encontravam. Eu não fazia a menor ideia do motivo disso. eu não quis acreditar que fosse real. Notícias fragmentadas em jornais e na televisão. as coisas começam a se encaixar. era uma lenda. Respire rápido. Facebook. a morte está chegando. cada vez mais despedaçado. o ar está terminando. já que na transmissão de rádio de um dos Jogos havia momentos de meditação. como cadávers em decomposição após serem explodidos por uma mina na guerra diária da vida. Mas seria um pouco infantil da minha parte desejar qualquer coisa que não fosse o meu mundo. Até meu colégio parecia conter informações em pedaços.

com um tutor particular para cada estudante. privação. com um calendário rigoroso. Era uma liberdade aparente. É claro: eles obrigavam seus alunos a estudar como burros de carga. Diziam que em Castália se experimentava coisas como a “ verdadeira vida”. Para eles. achamos que a vida faz mais sentido que a morte. pois estava me afogando. alma. esforço e dor.Wanju Duli queria fugir do mundo ou de mim mesma. Não era exatamente isso o que gerava a felicidade: a alternância entre a tristeza e a alegria? Eu quase conseguia sentir os poemas de Gregório de Matos pululando nos meus ouvidos. numa castração completa. Eles exigiriam tudo de mim: sacrifício. já não possuía todo esse fascínio em mim. para o meu corpo. Eu não teria mais escolhas. essencial para a fundamentação da lógica. Ou quem sabe até 10 . Eles passavam a finalmente entender o que realmente eram coisas como aritmética e gramática: a ontologia da gramática. Minha ambição não era tão grande: queria apenas respirar um pouco. lazer. Férias. espírito. a sua utilidade para a retórica. estranhamente. seria apenas um número num exército de macacos adestrados. Ficaria realmente saciada? Talvez eu fosse masoquista e desejasse muita dor para sentir os momentos de prazer com a cessação da dor. Não ofereceriam nada em troca. como se todo o resto fosse falso. E havia a cópula entre o sujeito e o predicado. Não era uma religião. Tirariam tudo de mim: conforto. tudo teria vida. Profissões liberais. As escolas de elite não ofereciam uma salvação. Poder fazer o que quiser era assim tão maravilhoso? Mas o que eu queria realmente? Um pouco de prazer para os sentidos. um despertar. que seriam as ideias criadas na mente dos gramáticos da Idade Média. uma vida tranquila. Era como um acordar. Ensinavam a criar fantasmas. E depois eu desejaria mais. Arrancariam até mesmo meus sonhos. essa palavra mágica. O insight que se sente quando todas as coisas se encaixam. Talvez seja mais fácil entender coisas vivas do que coisas mortas já que. Seria uma existência vazia e apagada. Então por que tanta gente desejava esse inferno? Por que até mesmo eu? Porque a liberdade. Quanto mais melhor.

. Para ser capaz de jogar. Ninguém mais sabia jogar aquilo nos dias de hoje. Até que alguém derrubou na minha mesa bolinhas transparentes e multicoloridas que se pareciam vagamente com bolinhas de gude. Eu te mostro. um experimento científico ou uma reflexão artística. senão é perda de tempo. E para ser convidado até mesmo para um curso de verão. Era como tentar tocar 11 . Isso só poderia me sugerir que pensar sobre o “sentido” significava se afastar cada vez mais de onde eu queria chegar.A Era do Folhetim mesmo essa visão fosse um erro: poderia haver tanto sentido na morte quanto na vida. sem prestar atenção nenhuma na aula de história. no meio disso tudo. Havia mais que mente humana naquele meio. E a música está fundamentada na matemática. Era uma afirmação muito profunda e incômoda. Mas aquilo não era meramente um jogo de lógica. com duas pessoas ou muitas. Eu ri. – Sabe como jogar o Jogo das Contas de Vidro? Essas contas marcam as notas musicais. você só poderia ser um membro importante do governo ou pertencer a alguma família de peso que possuísse pelo menos um brasão reconhecido nos Arquivos de Castália. Seria somente através daquela disciplina elevada que se encontrava Deus? Ou quem sabe um novo Deus tenha sido criado naquele instante? O que era a Verdade? Ela estava mesmo escondida por trás dos muros de Castália? Havia algum tipo de sabedoria antiga e esquecida que foi mantida intacta sob a proteção dos guardiões do Jogo das Contas de Vidro? Eu já tinha ouvido falar que aquele que compreendesse o pleno sentido do Jogo deixaria de ser um jogador. Ela só poderia estar blefando. É preciso haver um mestre realmente competente para coordenar aquilo. não devia ser grande coisa para produzir um jogo relevante. você precisa ter um conhecimento profundo de certas disciplinas. E. Eu conheço alguém que fez um curso de verão em Castália que pode te ensinar.. Não adiantava nada ter as bolinhas. Eu estava completamente perdida em pensamentos. quando todos os conhecimentos humanos se unem. Pelo menos ninguém de fora das escolas de elite. Por causa da cópula do sujeito e do predicado. Pode-se jogar sozinho. havia o arcano máximo: o Jogo de Avelórios. E mesmo que fosse verdade que ela soubesse algo mais.

12 . É só um monte de fragmentos conectados artificialmente que geram uma aparente harmonia. Era como se tivessem roubado meu sonho secreto. – Esse jogo é uma grande bobagem – eu disse – é tão trivial quanto qualquer outro jogo. quem sabe tornarse um político importante e ser convidado de honra para assistir anualmente ao Jogo. Esse jogo é como uma colcha de retalhos mal feita. E eles não possuem a Verdade. ficar rico.Wanju Duli violino sem nunca ter segurado um deles antes. Eles são ignorantes políticos. Os jogadores disso se acham superiores só porque para jogar é preciso entender gramática a fundo e uma linguagem secreta restrita ao clubinho. Eles sangram como todos nós. eles são sustentados pelos nossos impostos para viverem numa nuvem.. pois vários colegas meus olharam na minha direção. Mas não me intimidei. Acho que fiquei momentaneamente furiosa. – Mais do que você. com suas existências imaculadas e elevadas. Igor era um fanático por Castália e pelo Jogo. enquanto nós realizamos o verdadeiro trabalho. de uns tempos para cá. Seu sonho era ter uma profissão que desse muito dinheiro. Quando alguém quer ver sentido em qualquer coisa. cria-se um. então cala a boca.. A realidade não é um quebra-cabeça perfeito. senão impossível. mesmo que o sentido não exista. Antes meu amor pelo Jogo era meu segredo particular. Duvido que saiba alguma coisa sobre política. Eu diria que o Jogo de Avelórios é um retorno à Era do Folhetim! Eu provavelmente elevei a voz demais e me exaltei dizendo isso. – Não há espiritualidade alguma nesse jogo – prossegui – não mais do que num jogo de pôquer. Tinha até uma tatuagem nas costas com a insígna do Jogo de Avelórios. A Verdade não está à venda para ser patenteada e escondida num buraco! Além disso. Porém. – Você é só uma estudante e provavelmente nunca trabalhou na vida. Os alunos de Castália não são especiais. então eu fingia desinteresse quando falavam comigo sobre isso. E tentar aprender sozinho e descobrir as regras seria particularmente complicado. Eles misturam as suítes de Bach com trechos de Fausto do Goethe. vários colegas meus se tornaram interessados nas escolas de elite e ficavam tagarelando sobre isso nos intervalos das aulas.

Se quiser jogar no futuro. Eu iria mendigar migalhas de qualquer fofoca sobre o Jogo que o amigo dela revelasse. Só gostavam de lá porque era um local cercado de mistérios. Celina. já que ao meu redor eu só via frustrados. pois ela evidentemente estava falando a verdade. minha outra colega. Não essa matemática comum dos colégios. – Vamos jogar sem você – disse Celina – esse meu amigo que fez o curso de verão será nosso Magister Ludi. pare com o teatro e nos ensine a verdadeira matemática. choramingando por fazer parte de uma escola comum. Mas meu orgulho tinha estragado tudo. Provavelmente eles mesmos não nos revelavam tudo porque não sabiam.A Era do Folhetim Eu não o culpava por ter esse sonho. Eu começava a odiar as escolas de elite com mais força a cada dia. ninguém daria a mínima. Cada vez mais fitávamos nossos professores como se nos contassem apenas uma parte da história e estivessem escondendo alguma coisa importante. Por que aquele lugar exercia um fascínio tão grande sobre todos nós? Estávamos convencidos de que vivíamos numa espécie de mundo platônico de sombras e que as escolas de elite possuíam a luz. Eu provavelmente odiava ainda mais o meu próprio colégio. Eu tinha vontade de dizer: “Professor. Eu quase explodi ao escutar isso. Vocês só estão se fingindo de especialistas. aquela que tem um espírito. ensinada pelas 13 . arrume seu próprio Mestre de Jogo. O mundo em que vivemos raramente permite sonhos muito diferentes desse. Tudo o que eu queria na vida era me sentar com meus colegas imbecis e jogar aquele lixo. Tenho vontade de espiar esse jogo só para rir depois. – Você é surda? Não tenho o menor interesse nesse joguinho fútil. recolheu as contas que colocou na minha mesa. Se Castália fosse um internato qualquer. O cara tinha pisado em Castália! Eu teria vontade de estrangulá-lo se o visse. Todos lá queriam ser especiais e saber os grandes segredos. É claro que eu estava morrendo de inveja do idiota do amigo dela que tinha feito o maldito curso de verão. Aposto que vai ser uma porcaria. – Eu só estava tentando ser simpática – retrucou Celina – você está com inveja. mas a Verdadeira Matemática.

O nosso orfanato não era miserável. Talvez eu até tivesse mais conforto por lá do que em minha vida atual. Na verdade. antes de o ensino se tornar uma mercadoria”. Ainda éramos muito novas para saber algo sobre o amor. aprendi que não teria mais jeito. que deveria se chamar “Jogo do Folhetim”. Quanta besteira! – Estou entediada – disse Sônia – vamos no fliperama? – É claro – eu respondi. Não que eu amasse aquele lugar. Eu diria que aquele jogo que eles jogavam estava mais distante do Jogo de Castália do que a Terra do Sol. Eu não era 14 . Já tinha feito vastas pesquisas na internet e em bibliotecas. Aquela que ensinavam no passado. já que alguns colegas meus estavam começando a estudar mais apenas para adquirir uma habilidade superior no Jogo de Avelórios. mas pelo menos tinha um teto e comida. Mas depois que atingi uma certa idade. Desde pequena eu aprendi a sorrir e a ser dócil. morar em Castália seria fácil. os professores ultimamente comentavam que a nota geral da turma havia subido. Só fingiam que jogavam para se sentirem superiores e elevados. Eu morava no mesmo orfanato que ela. mas era simples. que não era real. Sempre havia muitos afazeres domésticos. e portanto jamais existiria a Verdadeira Matemática? Ou que de fato existiam matemáticas verdadeiras e falsas? E existiriam diferentes graus de falsidade e de verdade? Eu estava cansada de tentar adivinhar as coisas. Essa era uma clara desvantagem. Para mim. Ou digamos que ela era um pouco mais que isso: era minha namorada. O que ele diria? Que a matemática era somente uma invenção humana. E eu obviamente não poderia dar uma escapada para o fliperama. Eu já estava acostumada com uma vida em comunidade. Mas eu tinha amigas de verdade lá. Não iam adotar nenhuma de nós e quando completássemos dezoito anos seríamos chutadas para fora da droga do orfanato. para que algum dos casais que visitavam o orfanato me adotasse. Sônia era minha melhor amiga. tirando o fato de que nas escolas de elite eu teria que me matar de tanto estudar. mas eu sentia que nossa paixão era sincera. Era somente uma cópia mal feita e incompleta.Wanju Duli escolas de elite. de imediato – pelo menos lá não tem esse bando de pedantes.

que curtíamos pra caramba jogar Pump embora não fôssemos muito boas. Tá tendo algum evento? – Eu não acredito. Apenas fitava impressionada aquele demônio dançante que fazia com que o Pump parecesse tão fácil quanto respirar. Dancer Demon. Ela era linda como nas fotos e vídeos. Eu e Sônia reunimos nossas moedinhas e contamos. Eu não fazia a menor ideia que ela frequentava o fliperama perto do nosso colégio. Muitos estavam filmando no celular enquanto ela jogava. 15 . E ainda sobraria moedas para um crepe. Devia ser a primeira vez e ela só estava de passagem. muita gente a reconheceu e chamou outras pessoas. mas isso não diminuiu em nada nossa admiração. Eu e Sônia.. Era a primeira vez que eu a via ao vivo. D².! Eu também fiquei boquiaberta. já tinha vencido o campeonato nacional e até viajou para a Coreia para participar do mundial. Tênis esportivos sem meias. acompanhávamos os campeonatos pela internet. Eu estava espantada demais para pegar meu celular. pois já que teríamos que sair do orfanato com dezoito.. as perspectivas não eram muito animadoras para mim e para Sônia. Daria para jogarmos Pump três vezes. era melhor já começar a juntar grana para alugarmos um lugar para morarmos juntas. Vestia trajes de verão: um short jeans curtíssimo e uma regata branca. A D. – Mas que diabos? – perguntou Sônia – por que tem tanta gente no fliperama hoje? – E logo no Pump – observei – tem uma galera reunida lá. Quem estava no Pump era ninguém menos que a D. ou qualquer outro de seus apelidos.D. Assim que completássemos quatorze anos. mas relaxava nas raras vezes em que sobrava grana para ir lá. Dia de sorte.D. Ainda assim. Mesmo assim. Seus longos cabelos negros e ondulados estavam presos num rabo de cavalo alto. Era tão natural para ela que seu corpo se movia sem nenhum esforço. Eu gostava de ser otimista e acreditar que um dia tudo ia se resolver sozinho. Lá ela perdeu. Ela estava tão concentrada que parecia hipnotizada.. eu e ela tínhamos planos de largar o colégio e começar a trabalhar.A Era do Folhetim uma jogadora compulsiva. Não íamos fazer o ensino médio.

D. e um black power. com coxas grossas. ela foi jogar um jogo de tiro junto com a amiga. – Qual sabor de crepe a menina de rabo de cavalo pediu? – perguntei para a moça do crepe – eu quero o mesmo! Ela tinha pedido o de doce de leite. Eu não a invejava nem um pouco..Wanju Duli Quando terminou a música houve uma salva de palmas e gritos. bem escura. especialmente entre os rapazes. Com a roupa que usava. cada uma com um crepe na mão. Ela usava trancinhas cheias de contas coloridas. Eu era fã. Eu nunca passava despercebida por onde eu ia. mas a pele dela não era tão escura quanto a minha. Sorte que naquele dia a minha roupa até que estava arrumadinha. mas aproveitei a chance. Apenas a admirava totalmente. Olhos negros e profundos. A seguir. admirada – por que não pediu um autógrafo? – Sei lá – respondi – ela é meio assustadora. Eu tinha a pele negra. Eu sabia que ela também gostava de andar de skate e levava isso bastante a sério. Mas elas jogaram apenas uma vez e depois saíram de lá. – Você é fã mesmo. alguns pegaram papel e caneta para pedir autógrafo. Ela saiu de lá suada e uma amiga sua entregou a ela uma toalha para que enxugasse o rosto. Pensar nisso me deixou um pouquinho feliz. – Ela realmente intimida – concordou Sônia – mas parece ser simpática. Mesmo que eu não tivesse conversado diretamente com D. muito sérios. Eu era inesquecível. Eu queria poder sentir o que ela sentiu. dava para ver com clareza os contornos de seu corpo. é claro que ela não poderia ter deixado de reparar em mim. Eu raramente pedia esse. Ela não era exatamente magra. Esse jogo eu não conhecia. Uma garota bonita que era skatista e jogava Pump. Era cheia de curvas. Sônia também era negra. 16 . Depois disso. E não é que ela era mesmo uma celebridade? Mas eu fiquei um pouco embaraçada para pedir um autógrafo também e me contentei em continuar a observá-la de longe. hein? – comentou Sônia. Não era à toa que era famosa. Ela tinha a pele naturalmente bronzeada.

mas ela não está partindo para o além. 17 . vocês lembram da D. Tinham um ano a mais que nós. – Pessoas morrem em qualquer idade – justificou Mel. uma tábua sem peito e nem bunda. Quando voltamos para o orfanato. – Não tirei foto porque sou uma imbecil – confessei. À noite resolvi espiar a fanpage dela no Facebook para ver se havia alguma informação sobre a passagem dela pelo nosso fliper. As duas eram negras. Já Melissa era bem gorda. Ficamos satisfeitas apenas com os crepes e por ter presenciado aquela cena única. limpar o chão. lavar o banheiro. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ela estava partindo. mas fiquei orgulhosa quando terminei. Deu um trabalhão. quase num black power. Luana era muito magrela. – Eu sei. por isso preferimos deixar para jogar outro dia. e sim para Castália. – É claro que não. – Pelo menos é o que os fãs dela dizem – expliquei – ela vai viajar amanhã de manhã. horrorizada. as roupas. Para sempre! – Ela vai morrer?! – berrou Mel. ainda com sua voz alta e escandalosa. ela só tem 14 ou 15 anos! – respondi. com peitos relativamente grandes. Mel e Lua eram outras grandes amigas nossas. tendo os cabelos com penteados também opostos: enquanto Lua tinha cabelos grandes e revoltos.? – contei. Provavelmente só está de passagem. – Não sou uma stalker! – retruquei – que eu saiba ela nem mora nessa cidade. – Mel. A aparência delas era praticamente oposta. Sônia me fitou de forma peculiar. animada – a gente viu ela hoje no fliper. – Por que não a perseguiu e descobriu onde ela mora? – perguntou Melissa. havia muitos serviços domésticos para fazer e dividimos as tarefas: lavar os pratos. – É mais fácil ir para o além do que para Castália – observou Sônia.A Era do Folhetim O Pump ainda estava cheio depois daquele acontecimento. – Tá de brincadeira! – exclamou Melissa. com um grito. Lua.D. – Não tiraram foto? – perguntou Luana. Mel tinha os cabelos bem curtinhos como os de um menino.

. as notas dela eram normais. fosse retornar como os outros. fosse famosa como uma cantora ou atriz. mas eu desconfiava que o Magister da escola de biologia havia visto algo mais em D. largasse tudo apenas para viver lá? Será que ela havia pensado bem sobre isso? Não tinha ficado em dúvida? Provavelmente foi um dilema para D.Wanju Duli – Esperem – disse Luana – pelo que eu saiba. Vai estudar biologia.. E Castália ganhou ainda mais notoriedade. já que geralmente as crianças são chamadas para estudar lá com 12 ou 13 anos. Ela nunca mais vai poder jogar Pump ou andar de skate. os motivos. Para mim era prova suficiente de que ela seria capaz de aguentar a disciplina rigorosa de Castália. mas não deixava de ser uma espécie de conhecida. séria no Pump.. Essa foi a primeira vez que ouvi falar de alguém que foi estudar nas escolas de elite. Porém. mas já que Castália estava no meio daquilo. Aqui diz que ela foi escolhida pelas notas altas em ciências. os caras não deviam ver apenas as notas. Não que eu soubesse muito sobre a vida pessoal dela. chamou a atenção deles. Eu nunca tinha ouvido falar que ela se destacava na biologia. Só que não havia muito mais a ser dito. E por lá os rumores rolavam soltos. Não que D. 18 . Ela era uma pessoa séria em tudo que fazia: era séria no skate. Ela havia sido uma exceção. Eu também quis saber mais. Eu achava improvável que D. Foi concedido a ela tempo extra para refletir. meus colegas não falavam de outra coisa durante a aula. pois mostravam que o aluno possuía o mínimo de disciplina para cumprir metas.D. o principal era ver o caráter. – Sim – concordei – ela vai sacrificar o futuro brilhante dela apenas para estudar em Castália.D. os valores. Aquela entrevista. No dia seguinte. muita gente que não ligava para as escolas de elite passou a pesquisar mais sobre isso. mas ela era uma lenda no submundo da internet. que lhe tomou mais de um ano.D. Por causa dessa história.D. Ela iria partir e o resto seria silêncio. A maior parte deles nunca tinha ouvido falar na tal skatista. além dos seis meses habituais. Não era exatamente uma pessoa próxima a mim. Até onde eu sabia. é tudo proibido nas escolas de elite. Claro que as notas eram importantes. Aquele lugar era tão importante assim para que uma estrela como D.D.

Contudo. Até que seria bom se me permitissem viver no orfanato para sempre. No fundo. Era como olhar a mim mesma no espelho e constatar: “veja só como você é um ser humano desagradável”. Só lia para dizer que li. Não seria fácil conseguir emprego com aquela idade. Eu apenas concluiria aquele ano no colégio e o seguinte. Mas isso não era o bastante para ser escolhida para as escolas de elite. A única coisa que eu realmente gostava de fazer no colégio era ler livros de ficção. Eu já estava com 13 anos. Em qualquer coisa. Elevar as notas. e depois começaria a trabalhar. eu já sabia 19 . Liberdade.D. Devia ser por isso que eu sentia raiva dos meus colegas que fingiam jogar o Jogo das Contas de Vidro: porque eu fazia algo parecido. ter comportamento exemplar. eu não tinha grandes sonhos ou ambições. Gostava de me sentir como Machado de Assis. Enganava até a mim mesma. embora não os entendesse. Eu tirava só o necessário para passar de ano. que foi muito pobre quando criança e obteve todo seu conhecimento com seu próprio esforço de ler muitos livros. Eu não me importava. E eu não gostava de ver nos outros as coisas que eu detestava em mim mesma. mesmo que estudássemos disciplinas diferentes. Isso me dava nos nervos. com uma promessa de felicidade. Só pelo prazer de passear por aí com um livro aberto do Dostoiévski. mas quando eu morasse junto com ela teríamos mais liberdade. Eu era apenas trapaceira. Ao mesmo tempo. Eu já lia livros difíceis. Só que as vagas eram limitadas. Confesso que eu era um pouco metida e sempre retirava livros direcionados a leitores mais velhos que eu. O primeiro passo para ter uma chance era estudar muito. então serviria qualquer um. Minhas notas eram apenas regulares. Ela me comprava completamente. Não que esse teste servisse para medir o meu caráter. fingia que lia e compreendia livros áridos. Chamar a atenção dos professores de uma forma positiva. Eu retirava livros na biblioteca sempre que podia. Estava no limite de tempo.A Era do Folhetim O quão legal seria estudar no mesmo lugar que D.? Era mais um motivo para desejar estar lá. Não bastava desejar ir. como eu queria sair de lá! Seria mais difícil me sustentar. A velha palavra sedutora outra vez. Só queria continuar a morar com Sônia.

e ultimamente ela estava tão popular quanto a sede alemã. Prossegui a minha leitura de “O Ateneu” de Raul Pompéia. cada vez mais gente desejou um retorno à espiritualidade. porque eu tinha pão todo dia. Eu não tinha do que reclamar. Em certo momento. Em compensação. por influência dos carmelitas. Eu queria ser feliz e livre. também houve o retorno da Era do Folhetim. Com os cérebros de nosso país direcionados para as forças armadas. A grande questão era se essas tais vantagens seriam assim tão sublimes. Havia momentos em que eu desconfiava que nem mesmo ter dinheiro faria com que eu me sentisse livre. O internato descrito naquele livro era realmente um lixo. numa busca de resgatar os valores perdidos. De certa forma eu tinha sorte: os livros de papel ainda não tinham sumido. com um aspecto fortemente místico. Era possível que ter dinheiro me aprisionasse ainda mais. já que ele me daria uma falsa sensação de segurança e liberdade. 20 . Por isso. Era de 1888. Essas coisas vão e voltam. tanto que até os dias de hoje nossos colégios e universidades de maior destaque eram militares. Depois de uma participação mais ativa do Brasil em guerras mundiais. era comum que estrangeiros desejassem estudar na nossa Castália. Estávamos em 2288. Mas eu já não era todas essas coisas? Minha vida estava boa. de usá-lo de forma errada. Eu teria medo de perdê-lo. Eles passavam por dificuldades pelas quais eu não passava. A Castália brasileira. tinham certas vantagens que eu não possuía. chegou um momento em nossa história que passamos a nos destacar nas guerras que estouraram posteriormente. houve um retorno às antigas e uma tentativa de restauração das bibliotecas que foram destruídas após as grandes guerras. Sentiria insegurança caso não o tivesse de novo. chamada de Nova Castália. E ainda reclamávamos das mesmas coisas. O Brasil sempre se destacou pela sua força militar. onde tudo começou. Não era o suficiente? Era irreal fantasiar que os alunos das escolas de elite eram mais felizes que eu. Em compensação. Era incrível constatar que 400 anos já tinham se passado.Wanju Duli que naquele mundo materialista possuíamos apenas uma liberdade aparente. tornou-se uma instituição de peso.

Eles não gostavam de deixar claro a própria localização. Só não fui mais porque custa caro. 21 . Eu apenas a fitei curiosamente. aguardando que ela falasse. mas não consegui pensar em nenhum. Eles apenas ocultavam discretamente essa informação. Infelizmente não havia tanta coisa disponível ao grande público.. – Deixando isso de lado. embora aquele não fosse exatamente um segredo. Nunca vi prisão mais cobiçada que essa. – Já leu “Em Busca do Tempo Perdido”? – Já. então eu me contentava em ler tudo o que encontrava. – Você realmente gosta de ler – ela comentou – eu nunca vejo nenhum dos outros alunos com um livro na mão. mas eu não tinha certeza se era na capital. Um particularmente empoeirado que ninguém retira há anos. Ou bungee jump. – Bungee jump? – perguntou ela. Estivera lendo distraidamente “O Ateneu” num dos bancos do colégio e não vi quando a professora de português se aproximou. qual o seu autor favorito? Ela sentou-se ao meu lado. – Então por que continua lendo? Eu dei de ombros. Pensei em algum nome bem difícil para pronunciar. simplesmente – como escolher o livro mais chato da biblioteca para ler. – Está meio fora de moda hoje em dia – respondi – mas já fui duas vezes. – Gosto de fazer coisas que ninguém faz – respondi. – Gosto de Proust. já que se os portões principais não fossem abertos ninguém entrava e ninguém saía de lá. – Já faz alguns séculos que temos outras diversões mais interessantes que livros. como uma prisão.A Era do Folhetim Eu lia muito e me interessava por tudo que tivesse relação com as escolas de elite. não faria tanta diferença saber onde era. estranhando.. para impressioná-la. – Senhorita Santa? Eu levantei os olhos. Como se dizia que eles possuíam muros altos como uma fortaleza. e Hemingway. Eu tinha ouvido falar que nossa Castália localizava-se em algum lugar do Piauí.

para estragar tudo. retirei um livro do José de Alencar. Enquanto eu passeava pelo pátio. – Perdão! – exclamei. deixando claro que estava sendo insolente – o livro estava tão interessante que tive que desocupar as mãos para limpar as lágrimas dos olhos. Propositalmente. – Claro que não – respondi. de imediato – não sou tão estúpida. – Fiz um curso de verão em Castália. Até que era pouco. impressionada. “Por que essa conversa ainda não terminou?” pensei. Patético. mas com moderação. – Por quê? – ele perguntou. Passei ali perto de propósito. mas segurei a língua. Incrível. para mostrar como eu me encontrava num patamar acima deles. 22 . incomodada. Aquele já estava há cinco anos sem ser retirado. – Qual foi o livro mais divertido que você já leu? Aquilo era um interrogatório? – Nenhum. – Porque eu quis – respondi. sacudindo meu livro do José de Alencar.Wanju Duli – Todo? – ela perguntou. Eles nem mesmo sabiam como se portar para jogar um autêntico Jogo de Avelórios. vi meus colegas debruçados no chão no intervalo como se jogassem bolinhas de gude. simplesmente – as pessoas devem fazer o que seu coração manda. Eu era um pouco masoquista. Significava que cinco anos atrás alguém se interessou em ler aquele livro. Quando devolvi o Raul Pompéia para a biblioteca. – E eu assassinei uma tartaruga no verão. são todos chatos – respondi – na verdade. – Que livro é esse? – perguntou um garoto que eu não conhecia – “Til”? Nem sabia que o José de Alencar tinha um livro com esse nome. Eu quase disse que discutir os livros depois de ler era como fazer sexo e debater sobre a transa logo após. Não precisam de um motivo superior para isso. gosto mais de ler do que de falar sobre os livros. – Você não sabe uma coisa simples como essa e ainda pensa que pode jogar o Jogo de Avelórios? – desafiei-o. derrubei o livro em cima das bolinhas que formavam círculos concêntricos.

23 . Aposto que se eu jogar contra você agora.A Era do Folhetim – Você já leu Kant? – ele perguntou – está familiarizada com o Imperativo Categórico? – Você já leu “Mein Kampf”? – retruquei – eu já li. – Pode me bater de volta – provoquei – assim nós dois levamos advertência. vencerei de olhos vendados. – Quem é seu pai? – perguntei – é o papa? – Ele é deputado. Ele realmente parecia sentir muito. repleto de compaixão. Eu não tenho pai. Me senti idiota. Especialmente pelo uso do termo “orquestrado”. Mesmo assim. Você já alimentou ratos? – O quê?! – Eu vou te esmagar como um rato se você continuar aqui fingindo que está jogando o Jogo. – No ano passado fui com meu pai para Berlin e assisti a um jogo oficial orquestrado pelo próprio Magister Ludi. Passei os dois dias no fliperama. Fiquei surpresa ao constatar que ele não disse aquilo com ironia. – Bom para você. – Isso é o que você acha! – gritei – você não sabe de nada! O garoto deu um sorriso cínico. relembrando do período em que passou fome. Gastei todas as moedas do meu cofrinho no Pump. – Sinto muito ouvir isso. E dei. Ele estudava num colégio particular. Fiquei realmente comovida quando Hitler relata como chorou em seu travesseiro quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra. levada na diretoria e fui suspensa da aula por dois dias. Achei ótimo. eu queria uma desculpa para dar um soco na cara dele. Fui imediatamente delatada. – Eu nem mesmo estudo aqui. É claro. Picotei o livro do José de Alencar com uma tesoura e quando o devolvi para a biblioteca na segunda-feira seguinte. – Esse jogo não é sobre ganhar ou perder. Eu fiquei sem fala por alguns segundos. Dessa vez ele se enfezou. – Que merda é essa? – gritou ele. E ele também alimentou os ratos quando estava na prisão.

– Como se joga? – A mecânica do jogo é possuir temas restritos de conteúdo: normalmente um. Nunca ficou em recuperação. – Sempre enxerguei o Jogo como uma arte. Também tive que pagar por ele. Quanta bobagem. parecendo interessada.Wanju Duli expliquei que meu cachorro comeu o livro. Estava um pouco atrasada para a minha idade. deseja-se abarcar o universo. eu leio muito. Você sempre se comportou em aula. Eu nem havia tido minha primeira menstruação ainda. O que eles estão fazendo é um sacrilégio. dois ou três – expliquei – os jogadores devem primeiro meditar sobre os símbolos escolhidos. – Por que isso te aborrece? – perguntou minha professora. E ele falou mal do meu pai! Eu nem tinha pai. Ele nem estuda aqui. mas isso era apenas um detalhe. – Ele finge que sabe jogar o Jogo de Avelórios – acrescentei – isso me aborrece. mas eu não me importava. Uma síntese é feita a partir da tese e da antítese. Ou talvez eu tivesse e ele estivesse passeando por aí. – Como sabe de tudo isso? – Como eu disse. 24 . De que adiantava se minhas notas não se destacavam? – Estou de TPM – resolvi dizer – então tive vontade de socar um homem. Com ele. Eu já li sobre isso. – Nunca fui uma boa aluna – respondi – e nunca tive nada a perder. – O que está acontecendo. O Jogo é um organismo complexo. – Isso obviamente não justifica suas ações. Minha professora de português me chamou para conversar após a aula. Maria? Você sempre foi uma boa aluna. – Porque não é assim que se joga. – Confesso que estou desapontada. O que realmente aconteceu? – Aquele menino não tinha autorização para estar dentro do nosso colégio. embora eu nem tivesse cachorro. Para isso é preciso alargar seus domínios.

– A guerra dentro de mim. A matemática é um tipo de instrumento e é mais útil numa partida formal e não num embate psicológico. mártir. a sonhar amores monstruosos e universos fantásticos. se é possível chamá-lo assim. Minha professora autorizou-a a entrar. – sacerdote! Sobre meu leito de hospital. Como uma guerra. Parecia ter em torno de quarenta anos. artista. Ele expressa o velho conflito entre o estético e o ético. – Quase isso. – Um embate. Ele possui problemáticas que devem ser resolvidas. – Meu nome é Lorena Flores. como Olavo Bilac." – Rimbaud – pronunciei. – Vou deixá-las conversar. O cabelo estava caprichosamente preso num coque bonito. – Como problemas de matemática. 25 . saltimbanco.. – Prefere prosa? – Não prefiro nada. Mas em geral não prefiro poesia. – Prefere poemas mais equilibrados? – É. confessor. Não gosto de ler. guardião dos perfumes sagrados. Ela sentou-se ao lado de minha professora. Eu estava encrencada. Minha professora saiu pela porta. "E existiremos enquanto nos divertirmos. de imediato – é de sua magnum opus. Nele havia um tipo de poema. Era uma mulher vestindo trajes bem arrumados. ou escrita poética. Alguém bateu na porta. bandido. mendigo. mas acho que na minha idade e na dele isso é inevitável.. – Mas você reconheceu imediatamente que era Rimbaud. Muito prazer. Eu não gosto dos exageros dos poetas românticos. Ela me entregou um pedaço de papel. – É ela? – perguntou a mulher. enquanto nos lamentarmos e disputarmos sobre as aparências do mundo. – Você é Maria Santa? Concordei.A Era do Folhetim – Uma arte sui generis. É algo maior. o cheiro do incenso me faz tão poderoso.

– O que acha de religiões? – São fortes. – Não gosta do conhecimento? – De que conhecimento estamos falando? – perguntei – posso passar a conhecer mais as nuvens se olhar para elas. mas as palavras possuem uma espécie de sedução. quando não o conhecia – respondi – quanto mais li sobre ele. – Nós atribuímos os valores para as coisas. não é mesmo? – Na maior parte do tempo – concordei – mas pode ser que algumas coisas possuam valor intrínseco. 26 . eu realmente pensei que fosse algo de valor. – Suas notas não são muito boas. por sua força. É só me dar um bom motivo. mas não leio porque gosto. – Sou naturalmente curiosa. – Eu gostava antes. passar no vestibular e no futuro ganhar dinheiro.Wanju Duli – Qualquer um reconheceria. apenas para o que me interessa. preferi ter continuado a falar do assunto anterior. É conhecimento desse tipo? – Qualquer um. Ela não perguntou porque eu lia. Por quê? De repente. Não sei muito bem dessas coisas. Por um momento. Mas por que estamos falando de religião? – Você é ateísta? – Não achei que Castália fosse uma espécie de Maçonaria – respondi – preciso acreditar em algum tipo de Deus para entrar? Eu sabia quem ela era. Eu me pergunto se é esse tal espírito que as mantém de pé. Achei ótimo. sobrevivem às guerras e às mudanças dos tempos. Como um espírito. Não precisa ser uma competição como aquela besteira de Jogo das Contas de Vidro. mais me pareceu trivial. poderosas. Foi uma constatação. uma Verdade ou Deus. Outras coisas costumam perecer. Não foi uma pergunta. – Curioso. Eu leio muito. – O colégio é chato – respondi – não temos nenhum incentivo para estudar além de passar de ano. – Não gosta do Jogo.

– É um pensamento ousado. só faço o mínimo necessário e estou naquela idade difícil de desafiar a autoridade e questionar o que me ensinaram. sou como todos os outros! – exclamei. Pensei que em Castália a capacidade de desaparecer e se manter anônimo fosse uma virtude. Aquela mulher aparentemente simpática conseguia ser amarga quando queria. – Agradeço pela lição – eu disse – você é. – Obrigada pela sinceridade. “O amor procura o amor assim como os meninos fogem dos livros escolares. ou você é diferente? O tom com que ela perguntou aquilo me gerou uma sensação desagradável. – Então existem coisas certas e erradas? – Vejo que aprendeu algo novo hoje. como todos os outros. mas errado. 27 . qualquer outro mataria por essa oportunidade única – completei. tem medo de responsabilidades.A Era do Folhetim – Não precisa acreditar em nada. fica como os meninos dirigindo-se à escola: de ar sombrio”. Agora ela assumia um tom nietzscheano. a não ser em sua capacidade de obedecer. Aquela ironia cortante era como uma faca de mel. Não sou esforçada. um ser superior das escolas de elite. como se dissesse: “você faz parte do gado?” – Ah. – Afinal. com orgulho – não sou diferente ou especial. – Isso é totalmente natural. Então quanto mais ordinária eu for como ser humano. – Confesso que estou muito curiosa para conhecer a sua razão de não desejar estudar lá. Apreciei a brincadeira. sem dúvida. Eu suspirei. mas eu não sou boa nisso – deixei claro – nunca fui. mais facilmente irei me fundir à multidão. Masoquismo extremo. mas quando o amor do amor se separa. Ela me passou outra folha com o trecho de um livro. sim. Ela me cortava e eu gostava cada vez mais. Você.

– Isso me parece Shakespeare. O desejo é algo passageiro. – Não sei o que dizer – eu respondi. – Posso te colocar lá se eu quiser. O maior desafio será o que enfrentará lá dentro. – Amanhã você fará sua viagem. mas você não é apropriada para as escolas de elite. – Saiba que fui entrevistada na semana passada e recusei. Ao mesmo tempo. mas não me recordo do livro – eu disse – se é amor. Era como se eu fosse enviada para outro mundo.Wanju Duli Tive que ler mais duas vezes para me lembrar. então. Ela não gostou de mim. ela ficou chocada. – Moro num orfanato e faço todos os afazeres domésticos – expliquei – acordo todo dia às quatro da manhã. – Você acertou. finalmente – não faço escolhas somente por querer ou não querer. Quando contei a notícia para Sônia. mas não celebre – ela avisou – a maior parte dos cadidatos desiste. – Sei que não sou apropriada. – Sinto muito. Eu diria que me odiou. É apropriado. faríamos um exame para selecionar os candidatos. A mulher saiu sem se despedir. – Não deveria? – perguntei. – Não são desafios desse tipo. confusa – se não é Shakespeare... ficou com uma curiosidade mórbida ao meu respeito. Você quer? Novamente. aposto que foi o patife do Romeu quem disse. Aquela mulher sabia bem como fazer isso. Nem sei porque essa entrevista aconteceu. Se houver alguma unidade em Castália. pouco a pouco.. como se desejasse me despedaçar com as próprias mãos. Sempre tive horário para tudo. – Você aceitou – ela disse. posso perder uma parte ou outra para me encaixar.. talvez. Mas se somente nos ocupássemos com acertos desse tipo. – Sente que vai perder uma parte de você se tentar? – Pode ser que eu perca. ela me deixou sem palavras. mas não me importo. 28 . Vivo num mundo de pedaços. Fiquei sem fala por um instante. Serão coisas bem diferentes do que você conhece. – Eu errei? – perguntei. com voz fraca.

Agora não vou voltar a ficar junto contigo nem que implore. Não contei para meus colegas para onde estava indo. Vai tomar no cu. – Vai fazer algo com que não se importa só por causa do título? – Estou de saco cheio – esclareci – preciso saber o que é Castália. Afinal. peguei um ônibus até Teresina. – Mas não me importo em ler. Posso me tornar Magister de literatura. se eu ficasse lá tempo demais e depois desistisse. Eu não tinha muita coisa para levar. Estávamos falando das escolas de elite! No dia seguinte.A Era do Folhetim Subitamente. Sônia nem queria ver a minha cara. – Você vai viver lá para sempre. Pensei que ela fosse entender. Pelo visto. seria um pouco vergonhoso. As pessoas não falavam sobre isso. Ainda mais depois de eu ter criticado tanto Castália. – Você disse que não gostava de ler. Coloquei o básico numa mochila e me despedi de Lua e Mel. – Ainda faço.. era melhor eu me gabar somente depois de ser aceita na escola.. ficava mesmo na capital. especialmente porque muitas eram recusadas logo no processo de entrevista. Havia apenas uma regra não dita sobre discrição. – Vai me largar porque está de saco cheio. – Recusei por você – ela disse – além do mais. Maria. De qualquer forma.D. Mas aquela brincadeira podia me fazer perder o ano. não tenho interesse em Castália. Vá lá e namore a D. com desprezo – até ontem você fazia troça disso. 29 . Nova Castália me chamava muito mais a atenção. Era uma situação complicada. eu não estava indo para a Castália alemã e tinha pouco interesse nela. E ela se retirou. – O Jogo? – perguntou Sônia. O Jogo não é a única possibilidade. – Eu amo – afirmei – com todas as minhas forças. eu estava descobrindo que as entrevistas não eram tão raras como eu pensava. Se eu me gabasse cedo demais e depois não aguentasse. Se ela não tivesse feito voto de castidade também. – Eu tenho. fazer voto de castidade e abdicar das posses materiais – disse Sônia – como se não me amasse. Mas existe algo maior que eu.

– Você é minha mentora? – perguntei. O recém-chegado terá a orientação de um veterano ao longo de sua preparação. para entender. Fui escolhida para te instruir. 30 . Somente dali uns oito anos iríamos para lá. Eu não deveria brincar assim. – Eu não sou boa – eu disse – a Magister pretende me insultar. ser obediente e ter disciplina. Fui recebida logo no portão de entrada por uma garota com elegantes trajes azuis. li um livro do Manuel Bandeira. Minha vida estava em jogo. com muros imensos. só para depois dizer: “Está vendo tudo isso aqui? Não será seu”. Peguei outro ônibus até o local. A Nova Castália deveria ter outra localização. Se eu aguentasse o primeiro mês. comecei a sentir um frio na espinha. esse é o sistema daqui. Quer me levar lá para depois ter o prazer de me expulsar. Minha paciência tinha limite. Enquanto estava na rodoviária esperando o ônibus.Wanju Duli especialmente porque era lá que estava D. Ela vai me mostrar o quanto eles são bons.D. eu estava com vontade de provar que eu era capaz de ser uma boa aluna. – Não sabia que era tão boa no colégio – comentou Lua – até entendo o caso de Sônia. já que as notas dela eram melhores que as suas. Fiquei sabendo que aquele lugar enorme era apenas um tipo de seminário para os novatos. Dividiremos quarto. Durante a viagem. Por outro lado. Se houvesse um motivo maior. mas quando desci do ônibus voltei a ficar tensa. Sabia que era capaz disso. eu poderia me esforçar. me dedicar aos estudos. mas era sério. provavelmente poucos anos mais velha que eu. Afinal. – Você deve ser Maria – ela cumprimentou-me – sou Mariel Aquino. Ela claramente não era brasileira. Não foi tão difícil assim achar. Serei sua mentora. Além disso. – Ah. Eu não pretendia tomar cuidado lá dentro. Tentei relaxar e deu certo por um tempo.. Digamos que era uma localidade bastante chamativa. ter que me comunicar num idioma que eu não conhecia seria particularmente aborrecedor. mas o bastante para ser aceita por lá. Não tanto quanto D. Deve ter se espalhado a notícia de que eu estava fazendo bullying com meus colegas adoradores de escolas de elite. eu só não me dedicava no colégio porque não me interessava. Aquilo tudo parecia uma piada.D.

Fiquei satisfeita com isso. Eu teria alguém responsável por mim que eu poderia prejudicar se pisasse na bola. assim como você. Nosso quarto também era aconchegante. Mas vá se acostumando. Somente mais tarde. – Sou Agatha Cruz.A Era do Folhetim Claro. Aquela recepção calorosa me dava a falsa sensação de que minha vida lá seria fácil. Era tudo muito simples. Era um local bonito e espaçoso. Era engraçado ver todas aquelas adolescentes se apresentando como se já fossem estudantes universitárias. apesar de não ser muito grande. ainda por cima. Fiquei contente. Fui conduzida ao interior da construção. olhos puxados. Então era melhor eu não dar bandeira. – Horrível. Como uma irmã mais velha. Mariel caminhou comigo pelos arredores para me mostrar o local. – De onde você é? – resolvi perguntar. vestida naqueles trajes azuis não se parecia com uma. Agatha era uma mulata alta de cabelos crespos. cabelos negros e lisos. Por isso fui escolhida para ser sua mentora. 31 . Fiquei na parte de baixo do beliche de Mariel. escolheríamos formalmente a qual escola iríamos fazer parte. dali quase dez anos. Minhas amigas do orfanato eram como irmãs para mim. – Quem é? – Meu nome é Maria – apresentei-me. Não há muitas regalias por aqui. E naquele calor não seria muito agradável. prontamente – e. havia outro beliche. Simpatizei com ela imediatamente. Estudante de história. – Isso é um uniforme? – perguntei. Se bem que. também estudo literatura. Mas era assim que funcionava nas escolas de elite: já escolhíamos nossa área de estudo assim que entrávamos. Tinha a pele morena. hã? – disse Agatha – com tecido de má qualidade. Outra garota entrou no quarto naquele instante. você terá uma professora. Tão alta que parecia quase uma modelo. fazendo uma careta. mas eu poderei te ajudar no que precisar. Ao lado. Era como vestir um lençol velho. Mariel tinha um sorriso tímido e parecia boazinha. Mas era a norma. Então eu ganharia uma nova família. ali seria diferente. – Filipinas – ela me respondeu. Porém.

mas eu gostava 32 .Wanju Duli – Esse é o dormitório feminino. – Sugiro que você mude seus pensamentos. Honestamente. a cozinha e os outros poucos lugares que eu precisava conhecer. Se a intenção da Magister era me impressionar. – Até que é bastante para a sua idade. Ela também me mostrou o banheiro. mas eu não era tão fã assim de leitura. – Quantos livros você já leu? – Certamente mais de cem – respondi – talvez duzentos. Até a do meu colégio público era maior. Não é o número que mais importa e sim o quanto se dedicou na leitura. O masculino fica lá no outro prédio. Da maioria eu sequer me lembrava bem. bem longe. Nessa escola preparatória eu tinha mais afazeres domésticos do que em casa. Disse isso a ela. Já li uns trezentos. É claro que eu relia meus favoritos. incluindo uma modesta biblioteca. – Coisa estranha de dizer para quem está estudando literatura – riu Mariel. – Tenho quinze. – Algumas centenas? É tão pouco que não serve nem como leitura de cabeceira – observei. não estava funcionando. Somente os que me marcaram mais. Logo eu descobri o que ela queria dizer com isso. Claro que eu não havia lido com atenção todos os livros que já li. – Onde estão os livros? – Aqui nós temos apenas algumas centenas – explicou Mariel – as bibliotecas principais com os livros raros estão nas Grandes Escolas de Elite. eu me desapontei muito com a biblioteca deles. ou terá problemas aqui dentro. Frequentemente vale mais estudar a fundo umas poucas obras e lê-las mais de uma vez para realmente compreendê-las. mas não se preocupe. Cozinhar e lavar pratos era um processo longo. Você tem doze? – Treze – corrigi. – Não que eu realmente queira estudar literatura – eu corrigi – eu sequer tinha planos de frequentar a faculdade se eu ficasse lá fora. para evitar problemas. assim como os laboratórios e departamentos dos cursos. Ler é apenas um hobby para mim.

já que eu tinha um número de livros para concluir a leitura por semana e apresentar relatório. E não podia simplesmente fazer pausas quando queria. Eu me surpreendi ao perceber o quanto eu estava me adaptando bem a tudo. A única coisa com a qual eu realmente teria dificuldade de me adaptar seriam os estudos. Castália não é uma sociedade materialista. Por que vocês não são mais pragmáticos? – Você continua a olhar as coisas com sua mente do mundo – observou a Magister. Eu tinha pouquíssimos horários livres. Não importa o quão quente ele seja. sentada numa cadeira dura e com aquele lençol azul escaldante em cima de mim. – Lógico. – As garotas me disseram que os iniciantes na Alemanha usam uniformes de linho. Você continua com sua mente do século. Apenas fique grata com o que lhe é dado em vez de tentar ser a melhor de todas. Você não é um indivíduo isolado. mas não aqui dentro. Eles não estavam mentindo. Era desconfortável ficar lendo livros chatos por horas a fio. é a única que tenho! – Lá fora. 33 . use isso como uma lembrança do peso do seu sacrifício. – Por que precisamos vestir esse uniforme feio? – perguntei – ele é muito quente e fico suando embaixo dele. Era um estudo rigoroso. Não tinha permissão para ler deitada na cama ou embaixo de uma árvore. – Não me importa que o papa use uniforme de linho – retrucou a Magister – pare de se comparar com os outros. O uniforme a identifica como membro do grupo. A sua vontade de entrar para as Grandes Escolas de Elite será maior que seu calor. sua meta é o conforto e o lazer. Assim que tive oportunidade de conversar com a Magister. mas faz parte de um grupo. E lavar pratos já era algo tão comum que até mesmo isso eu considerava relaxante. Lembre-se que o foco é o espírito. Todas as minhas roupas ficam suadas e fedorentas e vou precisar lavá-las mais vezes do que seria necessário só por causa desse lençol que fica em cima. Sempre gostei. mas somente na biblioteca.A Era do Folhetim de cozinhar. Tenha um pouco de humildade. Se há dor. iniciei minhas reclamações.

Sempre vivi num orfanato simples. bastou que alguns dias se passasem para que eu começasse a ver defeito em tudo. No primeiro dia. Mas eu tinha a liberdade de comer um chiclete ou um bombom fora de 34 . com dinheiro limitado. Apenas ao mencionar a questão da roupa ela já ficou aborrecida. Somente dificultaria as coisas. Se eu também reclamasse sobre a comida seria demais. Apenas pela falta do café.Wanju Duli Foi então que eu entendi qual seria meu maior desafio: vencer o meu orgulho. pois ali não era permitido. Era muito mais difícil permanecer acordada sem minha cafeína diária. Lá dentro. você entra no ritmo. Até que eu descobri. Mas eu não reclamei disso com a Magister. Era tudo novo e interessante. O colchão da cama era duro. eu já me sentia um zumbi. surpresa. junto com ovo e alface. Aos poucos. – Acostuma – ela respondeu – no começo é difícil para todos. aquilo teria pouco valor. Porém. eu já não sentia prazer algum em comer. Todos eram simpáticos. que nas escolas de elite eu sentia falta de coisas triviais como arroz e feijão. só pelo prazer de vencer. Em poucos dias. A cadeira da biblioteca era tão desconfortável que bastava eu ficar sentada cinco minutos nela para desejar trocar de posição. Nunca tive problemas em acordar quatro ou cinco horas da manhã. leituras e relatórios. em leve tom de desespero. No orfanato eu também comia quase a mesma coisa todos os dias. E era sempre a mesma coisa: bife ou frango. Os produtos de limpeza tinham um cheiro muito forte. Mas ultimamente eu estava indo dormir muito tarde para conseguir dar conta de todos aqueles estudos. Depois do primeiro dia. Somente aquela parte que queria retrucar e ganhar. Dormi duas vezes em cima dos livros. – Mariel. o local me pareceu maravilhoso. Tudo tinha o mesmo gosto. Não que eu precisasse me livrar completamente dele. como você aguenta comer a mesma coisa todo santo dia? – perguntei. Senti falta até de beber café. Simples e aconchegante. Nunca me considerei uma pessoa exigente em relação à comida. Eu também tinha algumas reclamações sobre a comida.

Aprendíamos partes. Mesmo assim. Eu estava passando por uma sessão de tortura diária. Notei que a professora estava me mandando ler exatamente os chatos. Viva as escolas de elite! Realmente. seria uma ilusão acreditar que aquelas escolas eram perfeitas. mesmo com todas as tarefas domésticas que eu fazia e os relatórios das leituras. Não bastava que eu lesse apenas resenhas dos livros. No colégio e provavelmente na universidade aprendíamos as coisas de forma fragmentada. enquanto outros me tomaram mais de um dia. um clássico é um livro que as pessoas elogiam. Segundo o meu perfil. Eu devia me transformar numa Southern Belle. Era uma mulher de poucas palavras. 35 . Achei que eu fosse morrer. Em apenas um mês eu concluí a leitura de trinta livros. eu me sentia orgulhosa. tanto a brasileira quanto a estrangeira. eu ainda precisava conhecer muita coisa sobre literatura. Não havia perfeição em lugar algum.A Era do Folhetim hora. Era verdade que alguns livros foram bem curtos e me consumiram poucas horas. Nas escolas de elite seguíamos uma rotina monástica. Qualquer coisa assim. Como diria Mark Twain. mandava eu escrever um relatório e se mandava. Então era isso que realmente significava estudar fora da Era do Folhetim. Ela apenas me passava a lista de leituras. Isso somava uma marca de um livro por dia. E sem Deus ou Buda para confortar o espírito. Lendo a obra completa. Mas eu não era uma Southern Belle! Só me restava acreditar que as escolas de elite entendessem aquilo. Raramente tínhamos aulas. Estava mais para um estudo orientado. Muitos deles. como se já estivéssemos na pós-graduação. não havia um padrão a seguir. É claro que era proposital. eu começava a entender. tendo que ficar horas a fio lendo os clássicos mais chatos já escritos. Minha professora se chamava Esther Bonfim. Eu estava tendo que ler até mesmo os sermões do Padre Antônio Vieira. Eu tive que ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Bela orientação. Mas aquilo não foi o mais insuportável. mas não leem. Nosso ritual diário eram os deveres de casa. Ou seja. A professora nos passava tarefas com base no que ela achava que cada uma precisava. mas nunca o todo. Eu estava pelo menos me esforçando. incluindo outros livros do mesmo período. incluindo dentro de mim.

A realmente me sentir em casa. Isso é bom. Mas aquilo que eu estava começando a estudar não era assim. Nunca pensei dessa forma sobre as religiões. já que eu não tinha coragem de me queixar diretamente com a Magister. Era mágico. 36 . Eu finalmente estava começando a gostar do lugar. o que era um feito notável. É claro que uma gramática espiritual tinha sua base na teologia e tornava-se muito mais profunda. Portanto. Era ela que geralmente aguentava as minhas reclamações sobre a comida e sobre o cheiro dos produtos de limpeza. Alguns dos livros de gramática foram escritos pelos nossos próprios Magisters. mas. pelo medo de ser chutada de lá. A Igreja Católica dominou o ensino ocidental por muito tempo e deixou marcas profundas. Minha mente estava se abrindo. o ser humano. eu não queria mais voltar atrás. até mesmo um espírito. Eles faziam pesquisas. Eu aprendi coisas que nunca vi no colégio. Após o Renascimento. Depois daquele mês. uma ontologia por trás. me sinto tão bem! – Você está se adaptando – ela disse – está começando a entender. recebi novas tarefas.Wanju Duli – Mariel. Que eu nem imaginava que existia. quis se livrar completamente da religião e do espírito. embora aquela biblioteca fosse pequena continha alguns livros preciosos e especialmente selecionados que eu provavelmente não encontraria em nenhum outro lugar do mundo. descobriam coisas novas e encontravam soluções surpreendentes para problemas antigos da gramática. E após perder um mês de aula no meu antigo colégio eu iria seguramente repetir de ano. tô tão cansada – confessei a ela – mas ao mesmo tempo. Havia uma lógica. Antes eu pensava que gramática era apenas decorar regras. um estudo rigoroso de gramática. com orgulho de sua razão. mas não percebeu que ao fazer isso estava deixando para trás uma parte de si mesmo. aquela gramática encontrava sua base no Trivium medieval. Não apenas a leitura de mais livros. somando-se a isso. Desde o princípio. Aos poucos eu entendia que. Afinal. Já estava feito.

para saber a gramática eu precisava da lógica. incluindo muitos filósofos e escritores. Então era assim que as coisas se conectavam? Será que estava realmente tudo ligado? Eu respirei fundo. Era melhor eu não me exaltar e imaginar muito longe. compreendendo tudo – eu também chorei quando descobri pela primeira vez.. E para compreender literatura eu precisava conhecer a forma que as palavras são formadas e a elasticidade com que os escritores as usam. Mas eu sentia! Aquela emoção. Até mesmo os romances. especialmente o Trivium.A Era do Folhetim Estava tudo conectado. prestando atenção nos detalhes: na formação das frases. É lindo. Não somente os poemas. Pode ser doloroso. Para compreender música erudita é preciso estudar teoria musical a fundo. eu precisava conhecer gramática e retórica a fundo.. – Calma – ela sorriu. 37 . A partir daí. Entende por que somente os iniciados podem jogar o Jogo de Avelórios? – Entendo completamente. Era alguma coisa que eu não sabia explicar em palavras. Na gramática. não é? – Belíssimo – falei. Eu não sabia bem o que eu havia descoberto. com voz fraca. O Jogo das Contas de Vidro. Eu ainda não sabia de nada. Calma. Eu precisava conter o êxtase do meu coração. Meu coração bateu forte. – Muitos dos autores clássicos que lemos estudaram as Sete Artes Liberais – explicou Mariel – eles foram educados nelas. Para entender literatura. a ordem escolhida pelas palavras. uma música. E para entender a lógica eu tinha que saber matemática. – Cuidado para não se maravilhar demais – alertou Mariel – a sua mente ainda não está preparada. Era como. eu comecei a ler livros de forma diferente. Porém. Aquilo era a Verdade? Era aquele êxtase que eu sentia ao desvendá-la pouco a pouco? Segurei a mão de Mariel e comecei a chorar. Shakespeare foi educado nelas e só é possível compreendê-lo estudando essas disciplinas. Fortemente baseado na música e na matemática.

Senti que eu precisava daquela inspiração. Havia muitas guerras no século XXIII e se gastava muito dinheiro com elas. Contudo. Isso não é cômodo? Mas esse casulo pode ser derrubado a qualquer momento por uma guerra. Olhase com desprezo a história geral. Tentei imaginar. – A história é um ponto delicado em Castália – explicou Agatha – especialmente no que se refere à política.. Ele havia sido simplesmente o maior dentre os mais sublimes que já pisaram numa escola de elite. Precisaríamos nos envolver na política. – Quem é seu filósofo preferido? 38 . até que faz sentido. contrariada – mas um estudo da história e do espírito. – Quem é esse homem? – O maior Magister Ludi de todos os tempos. da matemática. na economia e em todas essas coisas “mundanas” que os alunos e professores de Castália tentam evitar a todo custo. – Castália não pode se tornar um Estado autônomo? – Para isso precisaríamos abdicar da nossa vida e viver no mundo. por favor. Hegel! – exclamei. Agora estava na hora de conversar com Agatha sobre história. como se fosse uma mera luta por poder e guerras de bárbaros. da filosofia. Estava bastante óbvio que o espírito não era prioridade num mundo em que as pessoas ainda lutavam para resistir à fome e à miséria. O Jogo das Contas de Vidro era o que havia de maior em Castália. só se presta atenção na história da ciência. Castália somente existe porque esses bárbaros lhes dão dinheiro para que possam se manter. no século. mas sou da opinião de que também é preciso respirar ar e comer pão”. – Ah. Em geral. Mas só te digo uma coisa: o filósofo favorito de Josef Knecht era Hegel. história da arte. – Ainda é cedo – respondeu Agatha.Wanju Duli Eu já havia tido longas conversas com Mariel sobre literatura. E o posto de Magister Ludi era o mais elevado. – Há uma frase famosa do Magister Ludi Josephus III a esse respeito: “As abstrações são encantadoras.. simplesmente – quem sabe um dia. cheia de esperança. – Há textos dele para eu ler? – perguntei. Nós desejamos viver num casulo protegido das coisas de fora.

E pode chamar a Agatha de Cruz e a Mariel de Aquino. não é mesmo? – A famosa que sabe tudo sobre tudo? – perguntei. quando consegui pronunciar uma palavra. que exagero – ela riu. Afinal. Ela sentou-se sobre a nossa mesa sem cerimônia e cruzou as pernas. – Você é da filosofia. é como todos me chamam aqui. sem muito embaraço – sei apenas 90% do que há para saber. Fazemos agora uma questão de decência de não querer ver tudo nu. Indicação para todos os filósofos! Devia honrar-se ainda mais o pudor quando é certo que a natureza se empenha em se esconder atrás do enigma e da incerteza. dentre os que conheço. para me certificar. quando as moças queriam ser mais ousadas. „É verdade que Deus Nosso Senhor está em toda a parte? Perguntava uma rapariguinha à mãe. – Ai. – Confesso que não li muitos filósofos. Você é a Santa. em vez de ficar checando no Google qualquer coisa que esquece. de cabelos chanel. porque eu mesma sabia de cor longos trechos dos meus livros favoritos. – Permita-me apresentá-la – disse Agatha – essa é a famosa Giovana Magalhães. nas escolas de elite era assim mesmo que funcionava: confie em seu cérebro como os antigos. é claro! Todo mundo ama Leibniz e é completamente apaixonado por Descartes. Uma lenda por aqui. Quem exclamou isso ao entrar na biblioteca com estardalhaço foi uma menina muito baixinha e pequena. certo? – perguntei.A Era do Folhetim Nas escolas de elite em vez de perguntarem coisas como “Qual seu filme preferido?” ou “Qual sua sobremesa favorita?”. Vejam 39 . Os outros 10% eu deixo no mistério. Não adiantava perguntar a ela “Você decorou tudo isso?”. poderia ser algo como: “Qual verso de Lord Byron te deixa mais molhadinha?”. Talvez a verdade seja uma mulher que tem as suas razões para não deixar ver as suas razões”. – Os racionalistas. vivemos demais para isso. No máximo uns vinte. Mas. o que me atraiu mais até agora foi Espinosa. como diria Nietzsche em Gaia Ciência: “Já não acreditamos que a verdade continue a ser a verdade sem os seus véus. – Pode me chamar de Gio. Além do mais. de não assistir a tudo. de não procurar compreender tudo e tudo „saber‟. Isso faz mal à memória. Acho isso muito indecente. as perguntas costumavam ser mais na linha de “Qual seu período literário favorito?" ou. Já ouviu falar dela.

– Você quer a resposta verdadeira ou a que eu uso para impressionar? – perguntei. sabe? – Sei como é. doentes. embora isso seja parecido com um. – Interessante – ela disse. mais livros com personagens velhos. Jogou uma bala de goma na direção de Agatha e outra na minha. que escritor você curte de verdade? A expressão divertida de Gio me indicou que ela entendia exatamente o que eu queria dizer. Ou fazendo coisas triviais como tomar um copo d‟água. Diziam que ela era um gênio. – Mário de Andrade – confessei. quase mortos. – Qual o seu escritor preferido? – perguntou Gio. temos uma Aquino. – No duro. uma Cruz e uma Santa! Daqui a pouco já podemos fundar um convento. no meio da merda. A pergunta de praxe. Mereceria no mínimo um Nobel. Eu não sabia até que ponto os rumores eram verdadeiros ou meros exageros. Gosto de lê-lo de verdade e não de mentira. Não seria fácil fazer isso com primor. mas acho que nosso gosto apenas vai ficando cada vez pior com o tempo – explicou Gio – cada vez mais a gente busca menos fantasia. 40 . surpresa. Eu realmente admiraria um escritor que escrevesse um livro de quinhentas páginas descrevendo alguém tomando um copo d‟água. – Quanto tempo exatamente? Ela não parecia ser tão mais velha que eu. embora prodígios fossem raros em Castália. Ela tirou alguma coisa do bolso. – Pensei que eu estava me tornando mais inteligente. – Por isso eu gosto do parnasianismo. fascinada – eu tenho vergonha de dizer que admiro o Charles Dickens. – Estou aqui há muito tempo – ela explicou – tenho meus meios. – Shhh! – ela fez – isso é segredo! Sou uma estudante especial. Seria meu livro de cabeceira. Um dia a gente acaba gostando de alguns livros chatos e é surpreendente quando o processo acontece.Wanju Duli só. Eu geralmente tinha uma resposta pronta para ela. – Onde conseguiu isso? – perguntei.

então não vai acontecer facilmente – Gio garantiu – certamente sou a melhor candidata para Magister de filosofia. Cruz. – Meu cérebro é muito amado por aqui. usar celulares escondida. distribuir balas. – Pior você que estuda a história das guerras. Gio franziu a testa. – Muito comovente – comentou Gio – você é muito nobre. derrotados. pois Agatha era muito alta e Gio bem baixinha. é a isso que você se refere – disse Gio – o Jogo é muito popular lá fora. Se eu me dedicasse ao Jogo precisaria abrir mão da filosofia. Sentar na mesa. – Não quer ser Magister Ludi? – perguntei. não é mesmo? Mas aqui dentro precisamos passar por uma tentação maior: a de dedicar a vida a nos aprofundarmos em nossa área de maior interesse. despreocupadamente. Não entendi o gesto dela. feliz da vida – o Rodrigo conseguiu um celular. com um sorriso. – Ah. Fazia apenas um mês e meio desde que eu havia partido. Eu não o farei. Formavam uma ótima dupla. Era engraçado ver aquelas duas juntas. 41 . mas é certo que ocorrerá. – Meu princípio é de que os esquecidos devem ser lembrados – respondeu Agatha. A primeira delas era abrir mão da vida secular. – Eu ouvi falar que o sonho de todo adolescente das escolas de elite é tornar-se Magister Ludi – expliquei. Gio era uma autêntica transgressora de regras e não parecia preocupada. como Lua e Mel. Então havia muitas tentações a vencer até chegar ao Jogo das Contas de Vidro. meninas – comentou Gio. O século era apaixonante demais. – Você não tem medo de ser expulsa? – perguntei. pode ser possível. Será que ela estava bem? – Vamos usar internet hoje à noite. dos despedaçados.A Era do Folhetim – Vocês duas são estranhas – comentou Agatha. A segunda seria uma provação ainda mais poderosa: a tentação do conhecimento. mas quem estava nas escolas de elite já havia vencido a primeira tentação. Só vai acontecer daqui algumas décadas. Isso seria doloroso. mas era incrível como eu já sentia falta delas. Especialmente de Sônia. esquecidos e mutilados – retrucou Gio. curiosa – se você é tão boa assim.

não será mais capaz de deixá-la. – Não. Caso um dia eu quisesse sair de Castália poderia dar aulas de literatura numa escola 42 . estudar literatura era muito mais seguro. é claro que não – esclareci. Os estudantes de Castália desejavam mergulhar de corpo e alma em sua área de maior interesse.Wanju Duli Quem entrava nas escolas de elite desejava abdicar o encanto da Idade do Folhetim: a de saber superficialmetne sobre muitas coisas. Eu tinha uma nova vida e queria viver para mim mesma. Seria uma pena perder o interesse pelo Jogo de Avelórios no futuro. mas para mim é quase impossível. Até porque as pessoas que eu conhecia lá fora continuavam lá fora. Você ambiciosa o posto de Magister Ludi? Eu ri. Mas eu não iria jogar apenas para me exibir para os outros. o espírito – eu disse – está abrindo mão de tudo isso por uma vaidade? – O Jogo das Contas de Vidro também não deixa de ser uma espécie de vaidade – explicou Gio – afinal. já que a maioria se apaixona por matemática ou música. com a ajuda dos Magisters de cada disciplina. No final. Estou lutando para conseguir ler meus livros. – Dizem que o Jogo abarca o universo. Santa. o Jogo de Avelórios encaixa e costura as diferentes áreas. Eu não sabia bem se eu desejava que aquilo acontecesse. por devoção. Não tenho toda essa disciplina. Além do mais. Porém. acostume-se. – Eu vou me dedicar à história – Agatha comentou – são pouquíssimos em Castália que se dedicam a ela. – Linda! – Gio lançou-lhe um beijo no ar – é sempre assim. por amor a vocês. mas logo verá que quanto mais a fundo estudá-la. Você pode ainda não gostar tanto assim de literatura. Abrir mão desse prazer pelo Jogo seria quase como um retorno à Era Folhetinesca: mesmo sendo muito nobre e profundo. Vanitas vanitatum et omnia vanitas. a Verdade. Então eu preciso fazer esse serviço. No começo todos entram aqui empolgados com os mistérios do Jogo. ele não é uma religião e não contém uma teologia. com rapidez – não seria difícil para alguém como você. o Magister Ludi é aquele que desejou se aprofundar apenas no Jogo. mas não saber profundamente sobre nada. cada um se apaixona demais por um senhor menos poderoso e não é capaz de abandoná-lo.

Já é difícil surgir candidatos fortes aqui. Quem gostava do Jogo geralmente eram os adolescentes. – Vocês vão para um bordel no Ano Novo? – perguntei. confusa. mas somos adolescentes e queremos um pouco de sexo. – Tolinha ingênua – prosseguiu Gio – você ainda não sabe até onde vai nosso atrevimento. Jogos são úteis para quando ainda se está encantado com as diversões da infância. Estamos pensando se esse ano faremos no Natal ou no Ano Novo. – Ninguém nunca foi expulso por causa disso? 43 . Era apenas uma brincadeira. – É claro que não! – Gio riu – seria muito arriscado. Ser uma especialista em Jogo das Contas de Vidro não me levaria a nada. Seria muito mais difícil ter que estudar todos os hieróglifos do Jogo. eles fazem vista grossa a essas escapadas porque quando vamos para Castália isso não é mais permitido. A explicação não me convenceu. então eles não querem nos perder por causa de um pouco de sexo. estudar o Jogo não fazia sentido nenhum. Será que eu tinha ouvido bem? – Do que estão falando? – perguntei. certo? Não vai matar ninguém fazer isso só uma vez ao ano. Nós transamos com os rapazes do dormitório masculino. Aquilo não servia para nada. pois é novata por aqui. – Como não são pegas? – Os professores fingem que não sabem – explicou Gio – na prática. Será mesmo? Mas mesmo se isso fosse verdade.A Era do Folhetim local. Um dia é preciso crescer e deixar de brincar. enquanto estudar história ou literatura era muito mais sério. Eu já estava resistindo a ter que aprender algum outro idioma além de português para poder estudar obras estrangeiras. uma brincadeira espiritual não seria muito mais nobre? – Nós estamos combinando com os rapazes a Noite de Núpcias. Será que aquilo era mesmo para mim? Eu buscava o caminho mais fácil e mais seguro? Ou aquilo que meu coração desejava? Pensando bem. Nós fazemos voto de castidade. Então queremos apenas aproveitar os últimos anos de sexo enquanto somos jovens e saudáveis. pois esse era um capricho vazio que só existia em Castália e só tinha significado lá dentro.

A não ser que fosse para fazer sexo com D. – Você devia aproveitar que ela ainda não veio – sugeriu Gio – nem vai precisar usar camisinha. não acham? – Pode ser – respondeu Agatha. acho que a maioria aprenderia a se sentir atraído pelos dois sexos. – Quem? – Dancer Demon. Mesmo assim. Acredito que o sexo tem um elemento cultural muito forte. – Por acaso não há uma estudante por aqui chamada D. Se fosse culturalmente incentivado que no fundo todos são bissexuais. já que gosto de todos. Ela fez uma expressão de espanto. Agatha pareceu ligeiramente surpresa. que acha de abrir as pernas para algum gostosinho do dormitório ao lado? Alguns deles são quentes. preferia mulheres. com exceção de um. Bem. – Talvez no ano que vem – eu disse – queria esperar pela minha primeira menstruação. – É uma teoria simpática – concordou Gio – então.Wanju Duli – Já – disse Gio – mas eu sei que não vou ser. Gio morreu de rir. – Você é lésbica? – perguntou Gio – não uma falsa que quer aparecer. mas uma genuína? – Acho ridículo essa história de falsa e genuína – respondi – eu apenas me sinto mais atraída pelo sexo feminino desde criança.D. então não me importo. Sinceramente. – Você tá falando da Dani? 44 . – Então você é bi? – Não sei o que sou e não me importo. senti uma pulsação no baixo ventre. Resolvi dizer isso a elas. Só tinha trocado uns beijos e amassos com Sônia.D. eu não estava muito a fim.? – perguntei. embora ainda não tivesse experimentado. eu sou suspeita para dizer. Eu não fazia muita questão de transar com homens. estou aberta à exploração. Em geral. mas a reação de Gio foi muito melhor. Só de pensar nisso. como se amasse tudo aquilo. Acho simplesmente natural e me sinto à vontade com mulheres. já que está aberta à exploração.

Diferente de mim. Sem escolha. dependendo de nossa habilidade. Ninguém vai escolher com quem vai trepar. Também não achei legal. né? O olhar malicioso que ela me lançou foi cruel. Eu tentaria me lembrar disso. – Assim como eu. Queria poder pelo menos escolher. – Pensei que não tínhamos permissão para isso antes do nosso treinamento de oito anos aqui. – Isso não me cheira bem – disse Agatha. certo? – perguntei. Gio me deixou usar um pouco o celular que ela conseguiu com o tal Rodrigo. a Dani também é a queridinha dos professores. a super gata skatista. não falavam de outra coisa. À noite. Esse ano será um encontro às cegas. então sair para aquela tal “Noite de Núpcias” não parecia ser um bom negócio. 45 . – Sou uma fã. – Falem mais baixo na biblioteca! Quem disse isso foi minha professora que passava por ali. Fiquei surpresa ao constatar que eu não tinha praticamente nada para fazer na internet. comportamento e carisma. Estava tudo na minha cara. No ano passado cada um escolheu um parceiro. Onde ela está? – Foi para Nova Castália resolver uma questão. recebíamos certos privilégios. Alguns meninos e meninas ficaram sem parceiro. é claro. o que aumenta ainda mais seus pontos. retomei minhas leituras. Apenas enviei alguns e-mails para as meninas do orfanato e fiquei satisfeita. mas logo ela já estará de volta – respondeu Gio. só para me certificar. – Daniela Dantas.A Era do Folhetim – É esse o nome dela? – perguntei. É claro que ela sabia que só estávamos batendo papo e deixando de lado nossos afazeres. Minha situação já não estava boa. – Está falando das Núpcias? – perguntou Gio – é claro que não. maravilhada. – Não é um bacanal. Tiraremos na sorte. Eu não sabia se adiantava muito negar. mas isso deu confusão. Você curte ela. por mais divertido que soasse. Quando ela chegou aqui. Então. já que alguns sempre são mais disputados. ela é muito mais comportada.

Até que eu não aguentei mais. – Ela sabe ser vingativa e cruel quando quer – eu disse. não sei como. me ignorando. fiquei sabendo que uma garota nova estava para chegar no dormitório. Apenas a amava de uma forma diferente. com longos cabelos de contas coloridas. impressionada – a personalidade dela é incrível. Ela ficaria com a cama de cima do beliche de Agatha. E ela me ignorou durante o dia inteiro. Não insisti mais. Não demorei muito para entender o que ela estava tramando. Ela já pulou o portão duas vezes para comprar cachorroquente. – Ela vai estudar matemática – Agatha suspirou – para variar. me desculpa – eu disse – não queria te magoar. 46 . mas Sônia não quis ouvir. mas não havia mais nada a ser feito. então não vai ter uma segunda chance. – Sônia Leão – ela apresentou-se a todas.Wanju Duli No dia seguinte. Na raça! Muito foda! Pelo visto. Não é que eu a amasse menos. Já me cansei disso. porque ainda está curtindo a dor de cotovelo. Tentei explicar. – Sônia. Eu já tinha terminado o namoro com ela uma vez. Quem chegou foi uma garota bonita da minha idade. Gio ficou sabendo da história. – Poderíamos ter vindo juntas para cá. negra e vaidosa. É a segunda vez que você me dá bolo. Nunca vou receber uma nova companheira para debater história! – Vou pedir ajuda a ela para estudar lógica. Ela estava achando emocionante saber que Sônia era minha ex e que estava completamente puta comigo. – A tua ex é muito bala! – exclamou Gio. Logo. Achei que ela estivesse sendo muito dura. – Já é tarde. Eu jamais poderia suspeitar que a novata não tinha intenção de me dar ajuda nenhuma. Sônia havia se cansado de sofrer por mim. por causa de uma bobagem. Nem eu tenho coragem de fazer essa merda e ela faz assim que chega. – Ela devia te amar mesmo. mas você estragou tudo – disse Sônia – você se precipitou e esse é o preço a pagar. Sônia havia ganhado uma fã.

A Era do Folhetim Sônia não se importava com Castália. de todo pequeno defeito. provavelmente acima de todas nós: não ligava para coisas como fama ou conhecimento. assustando a todas nós – eu me sinto profundamente ofendida! Não esperava tamanho deslize em uma escola de elite que preza pela harmonia absoluta do cosmo! E o pior era que ela falava isso num tom mortalmente sério. pois sempre topava ajudar alguém com alguma transgressão a regras. Também queria me provar que zombava de toda Castália e suas regras. estava adorando tudo. Sentiu-se traída e agora queria se vingar do mundo apenas para me mostrar um espetáculo. Sônia não reclamava do local discretamente. que eu nem mesmo havia notado. Ela se tornou particularmente famosa em conseguir comidas. A maioria a considerava uma pesssoa completamente desagradável. Ela apenas me amava. como sair para o pátio depois que as luzes já tinham se apagado. um amor puro que não conhece outras coisas. A cada dia ela admirava mais a bagunça que Sônia estava criando. ela estava irritada de verdade e se ofendia até com um espirro. Aos poucos Sônia foi conquistando a simpatia de alguns. Voltava com sacolas carregadas. Ela fazia questão de ressaltar problemas ridículos. Gio. Mesmo sendo zombaria. Era uma pessoa muito acima do meu entendimento. mas não tinha intenção de seguir carreira nisso. Eu não sabia de onde elas 47 . em alto e bom som. obviamente. – A cor do metal da torneira do banheiro é diferente em cima e embaixo! – Sônia exclamou de repente no refeitório silencioso. Antes. mas ninguém ousava se aproximar ou criticá-la diretamente. Ela queria me mostrar como era fácil entrar para uma escola de elite e como havia feito isso sem nenhum esforço. como eu fazia. mas comparando com Sônia ela agia com extrema discrição. Ela era boa em matemática. anotava os pedidos de todas. pois a achavam assustadora. Em toda oportunidade que surgia se queixava. Não demorou muito tempo para que ela adquirisse muitas inimigas. Nem queria estar nas escolas de elite. Gio era tida como uma grande criadora de casos. Até de uma mancha na parede. Sempre que ela pulava o muro para sair e comprar comida.

Era possível que Sônia tivesse trazido suas economias para as escolas de elite. – É só questão de tempo até que ela saia um dia por aquele portão e não volte mais – explicou-me Lorena. dizendo o quanto aquela porcaria era fácil e uma perda de tempo. parece que a maioria a admirou e inclusive alguns fizeram seus pedidos de lanches. Porém. mesmo isso sendo proibido. Preferi não saber o que eles consideravam tão grave a ponto de expulsar. depois de eu ver tantos acontecimentos incríveis que passaram batido. por não aguentarem mais. Mas elas eram mais espertas. ela provavelmente sairia das escolas de elite sem pestanejar. ela desprezava totalmente a matemática. enquanto rumávamos para 48 . Eu soube que até os rapazes ouviram falar da novata destemida – ou burra – que pulava o muro quase todo dia para comprar lanchinhos em barracas de rua. É preciso uma grande determinação e vontade. Fazia sentido. – Que palhaçada – comentei. Um ambiente seguro e familiar. em vez de se ofenderem. Ela o jogava com som alto em qualquer lugar. Sabiam que ela estava colocando a mão no fogo para ser chutada de lá. para a cultura que conhecíamos. Agora Sônia era a estrela. Resolvia os problemas com facilidade e passava o resto do tempo jogando um jogo de Tetris que trouxera na bolsa. encontrará todos para sair. Mas aquele dinheiro não duraria para sempre. Mas será que eles estavam realmente errados? Talvez fossem os mais espertos. Voltavam para o mundo. No momento. Geralmente os próprios estudantes expulsavam a si mesmos. a punição maior seria mantê-la lá para testá-la. E havia se tornado lendária sem esforço nenhum! Para completar. mas não é fácil permanecer. Conheciam o jogo dos alunos. Eu soube que um aluno só era realmente expulso se cometia uma transgressão grave.Wanju Duli tiravam o dinheiro. Ver até que ponto ela aguentaria brincar de aluna entediada da escola de elite. levemente aborrecida com aquilo tudo. E como ela ainda não havia sido expulsa? É claro que as professoras viam o que ela fazia. Se não possui nenhum motivo para ficar. E não iriam dar a ela justamente o que ela queria. Quando Sônia não tivesse mais dinheiro para comer porcaria. a Magister de literatura – não é tão difícil entrar nesse lugar.

Não conversava com ninguém. Caso D. cada vez mais descontente com suas expressões de felicidade.D. 49 . já que Sônia amou somente a mim. Dantas ignorou Sônia quase que completamente. Não que eu não goste de você. Para a minha alegria. também admirasse as tansgressões de Sônia como todos os outros e passasse a amá-la. torcia para que Dani e Sônia se tornassem um casal. ficassem juntas. – Desde que Leão chegou. Talvez nós das escolas de elite fôssemos os tolos descuidados ao permanecer.D. A maioria a chamava de Leão. Ela não era somente admirada. Eu soube que muitos rapazes ficaram realmente desapontados ao saber que Sônia não tinha a menor intenção de participar da famosa Noite de Núpcias.D. Para ela aquilo não significava nada. descobri o que ela tramava. Era um sobrenome apropriado para a situação. finalmente retornou. Afinal. Permanecia lendo seus livros de biologia o dia inteiro. Atualmente.D. Assustada. esse lugar se tornou um arraso – comentou Gio – então é claro que estou torcendo por ela. Mas eu merecia. Se Sônia e D. Sônia pareceu muito contente com a chegada de D. E parecia se sentir muito à vontade com sua própria solidão. No fundo. eu me sentiria totalmente destruída e derrotada. Nem levantava os olhos quando ela fazia seus pronunciamentos ridículos sobre a sujeira na parede. de longe. completamente imersa. o que a tornava ainda mais poderosa. parecia ser um tipo de Buda iluminado que não era afetado por nada. D. se importar tanto com uma pessoa a ponto de possuir um sentimento forte por ela significava que ainda estávamos conectadas. Gio. Santa. D. a vingança de Sônia estaria completa. mas desejada. Sônia era sábia ao testar os próprios limites e sua sorte e por isso era admirada. que não deixava de ser uma espécie de amor invertido. ela vivia pelo seu ódio a mim. Muitos estavam curiosos em saber como seria o sexo feito por uma garota tão ousada e mordaz. – O que você tem contra mim? – perguntei a Gio um dia.D. Duas semanas após a chegada de Sônia.A Era do Folhetim o desconhecido.

D. Eu ainda estava encantada demais com os acontecimentos recentes do dormitório feminino para me importar. – Esse é dos meus – falei. Um tipo calado como D. – O Barata está criando caso outra vez – contou Gio. mas ele provava uns negócios e ficava malucão. Uns outros rapazes fumavam um cigarrinho ou um baseado vez ou outra. – Por que ela não fala com ninguém? – perguntei para Gio um dia. mas não é permitido – explicou Gio – aqui no dormitório feminino não há restrições em relação a comprimento de cabelo ou penteados.D. Havia esse cara chamado Boaventura. Foi uma resposta adequada. Eles costumavam chamar a si mesmos pelo sobrenome. Fica dizendo que as moças das escolas de elite são favorecidas. pois todo mundo aqui tem suas esquisitices. Eu não parava de ouvir o nome dele. Então havia uma pessoa ali que estava acima até mesmo da ironia ácida de Sônia. Aquilo era realmente uma prisão se eles chegavam a esse ponto do tédio. enquanto D. A nossa Província certamente ficaria com péssima reputação. – Não sei. mas aquilo ainda me incomodava um pouco. então era assim que eu os reconhecia quando vazava algum acontecimento.Wanju Duli Nem eu e nem Sônia havíamos tido coragem de dirigir-lhe a palavra. mas que vivia se entupindo de drogas. então ele está insatisfeito. que era quem geralmente ouvia as fofocas através do Rodrigo. ainda. Eu sequer havia escutado a voz de D. mas aos poucos eu começava a escutar as histórias. parecia ser somente espírito. Pois aquela ironia ainda era uma paixão da velha fricção do espírito com o mundo. – Dessa vez ele quer deixar o cabelo crescer. mas esse sujeito em particular usava umas coisas mais pesadas. Seria fantástico se começasse a vazar lá fora o boato de que traficavam drogas para as escolas de elite. Outro aluno bastante conhecido era o tal de Barata.D. que por alguma razão ela chamava pelo primeiro nome – ele está insatisfeito com os códigos de vestimenta. Não chegava a ser uma parada sinistra como heroína ou cocaína. Também havia algumas lendas entre os garotos. Por isso só ficava quieto num canto. 50 .. mas ninguém se importa.

Por isso Barata sempre recebia permissão especial para adquirir materiais de arte. mas alguns alunos gostavam de celebrar a ocasião discretamente. Suas obras são muito realistas. Assim como Boaventura. só poderia ser outro dos protegidos. – Ele é chamado o tempo todo para lá – disse Mariel – para pintar os murais. Já estava chegando perto do Natal. Enquanto Boaventura preenchia seu vazio usando drogas. Eu não achava que a esse ponto ela desejasse ser mandada para fora. seja por tradição ou por alguns terem raiz católica. comecei a desconfiar que ele podia ser um aluno perigoso. Não vejo nada de errado nisso. Sônia prontificou-se a pular o muro para conseguir comida boa para o Natal. Tomei a nota mental de não me envolver com ele no futuro. ela tinha a intenção de comprar comida um pouco melhor e foi mais longe. Outro dia Mariel me contou. até mesmo os Magisters. Dava a eles uma série de tarefas para cumprir e se não o obedecessem eram punidos. Eu desconfiava que ela se divertia fazendo isso. Quando retornou. cheia de alegria. – Na próxima ocorrência serei expulsa – Sônia contou para as meninas. Inicialmente achei aquilo tudo muito infantil e sem sentido. mas aparentemente a música não era o suficiente para ele. Sempre recebia os iniciantes com desafios. que Barata iria passar uma semana em Nova Castália. Ele é um pintor e escultor formidável. Aos poucos. Mas eu não acreditei muito nessa alegria dela.A Era do Folhetim – Ele tem razão – opinou Agatha – deviam permitir cabelos longos para os garotos. Não era fácil ter apenas o pátio das escolas para dar uma caminhada e não era sempre que tínhamos permissão de passear por lá. uma das professoras a flagrou e a chamou para conversar em sua sala. Navarro descontava seu estresse espancando novatos. Não havia uma comemoração formal nessa data nas escolas de elite. Nesse dia ela baixou a guarda. Também havia o Navarro. Todos ficam fascinados. por ser excepcional. numa noite em que ela estava me orientando na biblioteca. Esse era meio esquentadinho. Já tinha se adaptado até à 51 . Por ser Natal. Ele era como um bully profissional. ele era da música. Se ele ainda não tinha sido expulso depois de tudo isso. mesmo que fossem um pouco caros.

Até o meu período rebelde já tinha se esgotado. nós sentíamos essa necessidade desses breves meses de revolta. tinha o orfanato para me proteger até os dezoito anos. a maioria não se atrevia a continuar a provocá-los. Não estávamos mais sob a proteção de nossa família. Mas ninguém estava nas escolas de elite para escapar da sociedade e suas regras. Lá éramos submetidos a regras muito mais rigorosas. Principalmente pela idade que tínhamos. Não pulou mais o muro. E parou de fazer seus comentários habituais sobre o gosto da comida e as manchas nas paredes. Cada um expressava sua fúria juvenil de forma diferente: com as reclamações de costume. de certa forma. Até mesmo Sônia percebeu quando estava prestes a cruzar essa linha tênue e começava a recuar. os professores sabiam que era só uma fase. essa proteção era delicada como vidro. não deixava de ser um aprendizado. Mas poderia ser 52 . que era órfã. Seja como for. provavelmente todos os adolescentes eram insolentes. Só escapava porque tinha se acostumado com esse ritual. fugas.Wanju Duli comida dos refeitórios. Eu já estava habituada a suar embaixo das roupas e não ligava mais para outros pequenos detalhes que me incomodaram muito no começo. Na Ordem. Notei que nos dias seguintes Sônia começou a ficar mais comportada. Estava tão empolgada com os estudos que esse motor propulsor era mais forte para me impelir a continuar. Para ela. tínhamos poucos direitos e muitos deveres. Para alguns esse período durava alguns anos. – Que decepção – Gio disse para mim – ela vai virar uma garota comportada como todas nós. Ela não se importou tanto com minha insolência. brigas ou drogas ilícitas. Mesmo eu. Eu mesma passei a entender porque fui aceita como estudante na Província. convenções sociais e muitas outras coisas. Era comum que rejeitassem o colégio. O resto parecia irrelevante. Por isso. Isso. Claro que a paciência deles tinha limites e quando se atingia essa fronteira. Eu não seria expulsa do orfanato se chegasse em casa mais tarde algum dia. toleravam muitas de nossas bobagens. em busca de expressar a própria voz e encontrar seu lugar no mundo. A Magister conseguiu enxergar através de mim.

eu aprendi a fazer aquilo. Por isso viver na Idade Folhetinesca é bem mais simples. mas a beleza da estrutura das frases e dos parágrafos. de alguns séculos atrás. Fazer qualquer coisa a fundo é cansativo. É como optar por não fazer exercícios físicos intensos para não se cansar. Eu poderia ser feliz apenas dando umas caminhadas curtas e leves. antes de entrarmos para as escolas de elite. dava um tipo diferente de prazer. pois era como resolver um difícil problema de matemática. Eu captava o estilo da época. O amor e o ódio estão intimamente conectados e eu entendi isso com as reações de Sônia. Mas a vida resultante dessas duas escolhas pode ser bem diferente. Não é que uma felicidade fosse 53 . Eu apreciava não somente a história e os personagens. – Não é que matemática seja fácil – ela dissera na ocasião – da mesma forma que ler também não é fácil. havia aqueles que não liam quase nunca.A Era do Folhetim facilmente expulsa da Ordem se cometesse certas infrações que no meu velho mundo seriam vistas como banais. Nem tinha mais graça dizer que eu não gostava de ler. Tudo tem seu grau de difículdade. Não é preciso forçar o cérebro além do limite. as referências a outras obras nas entrelinhas. Não iria suar. Não é que não possamos viver sem eles. especialmente pela antiga. ou mesmo no presente. houve o movimento de resistência contra a Era do Folhetim. Por um lado. ou só liam coisas pequenas porque havia outras diversões mais simples e acessíveis. começaram a surgir os aficcionados pela literatura. Essas pessoas geralmente preferiam as obras grandes e complexas. Mesmo que isso fosse verdade no passado. Mas isso não era nem de longe o que havia de mais extraordinário. Por outro lado. especialmente para pessoas diferentes. ser um maratonista profissional. Eu lembrava que já havia conversado sobre isso com Sônia uma vez. Foi essa a experiência que tive com livros. Pois saber ler não é somente reconhecer palavras num papel. Mas especializar-se nisso. Eu aprendi que minhas preferências não se dividiam somente em gostar e não gostar. Em 2288 a prática da leitura se tornava cada vez mais rara. Por isso. Aprendi a ler e a tomar pelo menos um pouco de gosto pela coisa.

com base nas minhas leituras. Meu coração bateu forte e senti uma estranha paz. redação não é o seu forte. Fechei o “Palmeiras Selvagens” por um momento. “Entre a escolha da experiência da dor e do nada. minha professora trouxe minhas notas. você não tem o costume de escrever. 54 . a partir de agora iremos diminuir suas leituras para aprofundar seu estudo de gramática e redação. Não é como se não tivéssemos um boletim. Mesmo assim. para sabermos em que quesitos eu precisava melhorar. para ir mais longe. Então eu não precisava ter lido todos? Ela poderia ter dito isso antes de eu ter perdido horas de sono por semanas seguidas. não escrevia nada. Como é esse o caso. Apesar de ler muito. Eu apenas lia. Era exatamente isso. Mas a dor maior não poderia gerar um prazer maior? – Nem sempre – disse Gio – mas não seria apaixonante pensar assim? Esse poderia ser meu incentivo para continuar. – Você leu muito – comentou Esther – muito mais do que eu esperava. eu senti que tinha valido a pena. Tirei nota máxima nas leituras. Aquilo ainda era uma escola e através de uma avaliação um pouco mais objetiva seria mais fácil averiguar meu desempenho geral. dormi por alguns minutos em cima de um livro do William Faulkner. Como uma mortificação que me faria entender uma realidade importante demais para mim. Numa tarde. que pegou nos meus olhos e no livro.Wanju Duli verdadeira e outra falsa. relatórios e outros exercícios. Mas não fui tão bem assim nos relatórios. foi incrível. – Pelo jeito. Superou minhas expectativas. – Precisaremos melhorar isso. Nós tínhamos. Após um trimestre nas escolas de elite. Acordei com um raio de Sol que penetrava pela fresta da janela da biblioteca. Eu te mandei ler todos aqueles livros sem achar que você fosse conseguir terminá-los. eu escolho a dor” Eis o que o raio de Sol no livro me disse. Apesar de tudo.

quando tínhamos tarefas demais era preciso entregá-las a tempo. Quando as coisas se encaixam e o estudo não ocorre de forma fragmentária. para iniciarmos. Será que Sônia concordaria em me ensinar? Seria isso que faria com que voltássemos a ser amigas? Ou quem sabe um pouco mais que isso? Eu ainda tinha esperanças de ser perdoada. Você irá preparar textos sobre assuntos diversos. Trinta temas. Mas em geral isso não acontecia. O tempo passava devagar nas escolas de elite. irei te indicar um tutor – disse Esther – há um excelente aluno que poderá te orientar. pois ao realmente entendermos os fundamentos das disciplinas que estudávamos. Irei lhe dar uma série de temas. mesmo não sendo seu mentor oficial. E para saber lógica eu precisaria de um tutor de matemática. Eu sabia que num futuro próximo eu precisaria ter lições de lógica e retórica. Apenas uma vez ao ano tínhamos férias: uma semana após o ano novo. para impedir que o aluno postergasse e começasse a ficar lento e preguiçoso. para se certificar de que eu prepararia pelo menos uma por dia. Eu não sabia quem era o estudante de gramática que ia me ajudar. ela estava me passando as tarefas para o mês inteiro. a não ser em casos como esse em que o estudante se destacasse muito numa área e fosse beneficiar outro mais novo. mas também sabia que Sônia não era uma pessoa fácil. se acreditasse que eu ainda merecia ser punida um pouco mais.A Era do Folhetim – Vou ter que criar histórias? – Não – disse Esther – serão apenas textos dissertativos e não narrativos. o interesse por saber mais surgia de forma natural. Não era tão comum assim que misturassem os alunos dos dois dormitórios. Claro. Era possível que ela nem mesmo concordasse em me dar as lições. 55 . Então eu teria somente três semanas para preparar tudo. queremos continuar a ver a beleza das peças que se unem no quebracabeça da vida. Mas dessa vez seria diferente. Trinta? Bem. Após as férias. Eu gostaria que você tivesse lições com ele uma vez por semana a partir do dia 8 de janeiro. Isso porque nosso estudo nunca era uma correria. então ela geralmente calculava minhas atividades de trinta em trinta. – Sobre a gramática.

Mas é apenas uma impressão. jogar futebol ou ouvir música.Wanju Duli O fato de termos um professor para nos fornecer orientação individualmente também nos ajudava. 56 . somente pessoas do círculo íntimo do Magister Ludi conheciam sua identidade. Não se tratava de uma educação de massas. Mas nas escolas de elite isso era expressamente proibido. sentia pouca falta das outras coisas. Para outros era coisas diversas como vontade de ir para a praia.. Não é bem assim. Isso era tudo o que eu precisava. Gio passou por mim e colocou um chiclete na minha mão. Nosso objetivo não era adquirir conhecimento para obter fama e dinheiro. – Hoje é dia 30 – ela me informou. em compensação. não deixava de ser uma educação elitista: para os escolhidos. Somente livros. Nada de filmes. as nossas escolas de elite não possuíam uma meta materialista relevante. Na minha velha escola. Nunca fui uma pessoa musical ou esportista. Embora eu sentisse um pouco de falta de comer uma pizza ou um sorvete. um pouco de reconhecimento somente dentro de Castália. uma educação folhetinesca. Achamos que as coisas caras são as mais legais. Sem essas distrações. Isso quando eu não lia. mas dava para viver sem isso. eu jogava no fliperama ou assistia a filmes quando não estava estudando. Mas aos poucos eu descobria que cada um de nós sentia falta de coisas diferentes. qualquer um. – Sei disso. Termos abdicado de nossas posses materiais nos ajudava muito a manter a concentração e o foco. Eu honestamente não sentia falta de nenhuma dessas coisas. assim como seu tempo e forma de estudo. Mais disciplinas poderiam ser acrescentadas ou retiradas. os iniciados. eu lia facilmente dois livros inteiros em um dia. Eu não sentia tanta falta disso. E de vez em quando dava para escutar o pessoal da música ensaiando nos quartos.. O nosso plano de estudos era elaborado de forma personalizada. Contanto que eu tivesse livros. Claro que as coisas caras também são ótimas. um costume. jogos ou outras diversões do tipo. Para alguns era a família ou os amigos. Por isso. Por outro lado. O ser humano não precisa de muitas coisas para viver. visando as necessidades de cada um. mas até isso era abafado visando conservar o anonimato. ficava em paz. No máximo.

A disposição devia ser mútua. Nós. A entrada do prédio era um dos únicos lugares realmente bonitos e decorados.A Era do Folhetim – Vai vir na reunião hoje à noite? Com os rapazes. Decidimos que iremos escolher os casais. mesmo que ele fosse bonito. nos sentamos nos sofás da esquerda e aguardamos.. eu não ia me animar. preocupada – se os professores nos encontrarem aqui em bando irão desconfiar. realmente. então tenha paciência – disse Gio. flores e quadros. Eu e outras garotas nos reunimos na entrada. 57 . Eu sabia que se eu não fosse na tal reunião ela permaneceria a me incomodar sobre isso pelo resto do dia. E. Não queria que nenhum deles me fizesse um favor. embora não com muita frequência. Compreendi que Agatha queria ficar com o mesmo menino com quem teve relação no Ano Novo anterior. então eu não precisava ter vindo – disse Agatha.. encontros como esse raramente aconteciam. Eu não ia querer ficar com um cara estúpido para ter uma péssima transa. Por isso eu iria ficar ligada no clima geral da reunião. Qualquer coisa. – Mesmo assim. Mariel era como eu. – Pode ser que ele escolha outra pessoa esse ano. meninas. Ali era permitido que as moças e os rapazes se encontrassem. para combinar sobre as Núpcias. você está convidada para a reunião. Se estivesse um clima meio ruim e os garotos estivessem de má vontade para fazer aquilo. – Ainda não tenho certeza se vou participar – Mariel comentou – só quero dar uma olhada. – Eles estão atrasados – Gio checou o relógio. Havia sofás. porque ninguém gostou muito da ideia de encontro às cegas. era só sair de fininho. Achei isso um pouco romântico. Mas não era só a aparência que íamos olhar. – Já disse que não vou participar – eu disse. até porque vivíamos ocupados com os estudos na maior parte do dia para pensarmos em outras coisas. Então eu fui. Queria primeiro dar uma checada nos rapazes. – Sei mais ou menos quem vou escolher.

ao contrário de você. Sua pele era morena. ela não era curiosa para experimentar homens. pois ele fez algo incrível. mas nós seremos. Eu já tinha ouvido falar sobre um aluno famoso das escolas de elite que era particularmente baixo. – E então. eu logo notei um fato bem evidente: como ele era baixinho! Aquilo me trouxe uma lembrança estranha. A atmosfera claramente não estava legal. Eu me senti um pouco incomodada com aquela segregação evidente: meninas de um lado. Não gostei desse sujeito logo de cara. Disseram que aquele amigo deles que fez um curso do Jogo ficou impressionado com a jogada desse cara baixinho. somos muito ocupados – respondeu um deles. um prodígio ou qualquer coisa parecida. Ao vê-lo ao lado dos outros rapazes. ele devia ser um gênio. Ele não era normal. Meus colegas da velha escola já tinham falado dele. quando eles entraram no recinto – por que demoraram? – Porque. Será que era a mesma pessoa? Mesmo com essa incerteza. – Finalmente chegaram! – exclamou Gio. meninos de outro. 58 . eu não me lembrava do que ele tinha feito. Igor e Celina comentaram um dia.Wanju Duli É claro que Sônia não estava presente. com desgosto – você não será chutada para fora se essa brincadeira amarelar. ao lado dos rapazes altos. Cada um com uma cara de quem estava de saco cheio. ele impunha respeito. para acabar logo com aquilo – transar agora ou amanhã? Por mim faria agora para deixar de enrolação. eu olhei para ele de forma diferente no segundo seguinte. Então tivemos que sair de forma discreta. Tinha cabelos negros ondulados e olhos escuros e profundos. o que vocês querem? – prosseguiu o baixinho. Já chegou se queixando e elevando a voz. Ao contrário de mim. De pé. Assim como Gio. ele parecia ainda mais baixinho. Que não conseguia tirar os olhos dele. Alguém que tinha revolucionado a notação musical do Jogo de Avelórios. Eles se sentaram nos sofás da direita. principalmente o cara baixinho. quase da cor da pele de Sônia. Porém. Porém. Senti vontade de não estar lá. pois meu calendário está lotado. para não gerar suspeitas.

Davi? – perguntou Navarro. mas pelo jeito você já arranjou isso. – Não precisava mencionar isso em público. Navarro – disse Gio. Não foi muito difícil imaginá-lo fazendo isso. prontamente. – Você concorda. Gio era como se fosse a líder das moças da escola de elite e Navarro era o líder dos rapazes. um rapaz levantou o lápis. – A maior parte dos professores comemora a virada do ano em Castália. apesar de não mostrar muito entusiasmo com o pedido. – Não fale comigo nesse tom. – Eu gostaria de ficar com o mesmo par – informou Agatha. horário e local. beberrão e usuário assíduo de diversas drogas recreativas. Nas escolas de elite conquistamos nossos títulos por habilidade e não pelo sangue. Escolham logo seus pares. irritada – mas não estamos aqui para falar disso.A Era do Folhetim – Amanhã. Um cara negro que parecia estar quase dormindo num canto deu de ombros. O bully que batia nos colegas. de imediato – na virada do ano. Continuei achando tudo muito romântico. Eu não entendi o que ele quis dizer com “ser filha de Castália”. Eis o príncipe encantado de Agatha que. Compraram as camisinhas? – Está tudo preparado – ele confirmou – só falta marcar dia. Ele não gostou muito de ser xingado. idiota – retrucou Gio. o aceitou. Só podia ser o famoso Boaventura. como a indicar que era sua vez. porque estou morto de sono. Ou pelo menos era assim que eles se portavam. então vamos fazer da mesma forma. você não é superior apenas por ser filha de Castália. fumante compulsivo. Então aquele era Navarro. Ao contrário do que pensa. – Que coisa mais supersticiosa. – Então está decidido – disse Navarro – quem é o próximo? Sem levantar os olhos de uma caderneta na qual desenhava. Ele não parecia ter medo de nada. 59 . com maus modos – então será bem mais seguro. Funcionou bem antes. Ele tinha olheiras fundas e uma cara de drogado. Magalhães. como da outra vez. pois por enquanto a conversa só ocorria entre os dois. é claro – respondeu Gio.

quase nos ombros. – Ainda não sei se vou participar – eu disse. Todos voltaram os olhos na minha direção. ele apontou para mim. O exímio escultor que era chamado para decorar os murais de Castália. Pele bronzeada. – Pode pensar à vontade – ele disse – quer que eu fique peladão pra te ajudar a pensar? Aquele sorriso de canto que ele me deu foi ainda mais malicioso que suas palavras. impaciente – quem é o próximo? – Arthur. Miguel! – exclamou Gio. como se fosse um Michelangelo: Barata. posso substituí-la? – perguntou Gio. Barata deu um sorrisinho divertido. – É. Era o cara que estava lutando pelo direito de deixá-los crescer mais. – Isso não é necessário – respondi. Notei que os cabelos eram ligeiramente longos. – Sinto muito. furiosa – eu nunca concordei com isso! Você não tem o direito de permitir e decidir nada! 60 . atropelando minhas próprias palavras – estou pensando. Acho que fui realmente pega de surpresa. se a Maria te der o bolo. – Por quê? – perguntou Barata. Ele se divertia muito com a situação. inexpressivo. – Qual é. ainda sem levantar os olhos do desenho. – Porque já está decidido que eu e Gio faremos par – explicou Navarro. Barata fingiu pensar. voltando a desenhar. – Vamos mais rápido com isso – disse Navarro.Wanju Duli Ele tinha cabelos castanhos escuros e olhos castanhos. mas sou contra essa união – disse Navarro – não irei permitir. como se estivesse no controle – só preciso de mais alguns minutos. achando graça. Fez uma careta como se estivesse fazendo um incrível esforço no cérebro. – Como quiser – disse Barata. Surpreendentemente. – Curti aquela moça ali – ele apontou com o lápis. despreocupadamente. Digamos que eu não esperava. acho que serve – Barata respondeu.

Não estou nem aí se foi ele que bolou a nova notação musical da Província. Navarro provavelmente se sentia como um gênio incompreendido. – Ainda não entendi qual é o problema de fazer sexo com uma mulher mais alta – disse Gio. – Não sabia que você era tão inseguro assim – disse Gio. O Miguel vem de família rica e é filho único. – Vamos fingir que nada disso aconteceu e prosseguir – decidiu Gio – tem mais algum casal além do nosso triângulo amoroso? Ela certamente se referia a mim. – Então vai te foder – ele disse. Não vou chupar ele por causa disso. Ela apenas confundiu as palavras. – Que criancinha mimada – disse Gio.55? Ninguém falou nada. – Eu vou – disse Gio – mas não com você. eu não tenho nenhuma objeção – fiz questão de dizer. Sempre teve tudo que quis. E depois vem falar de mim. – Que mentirosa! – gritou Navarro – não fui um cavalo e sim um cavalheiro. Navarro levantou-se. se você realmente quiser ficar com Barata. Ou tem alguma outra menina aqui com menos de 1. Você topa ou não? – Não. nessa sala só resta você.A Era do Folhetim – Estou apenas sendo lógico – disse Navarro – eu só faço sexo com meninas da minha altura ou mais baixas que eu. Então era ele mesmo. 61 . – Eu não me sinto bem – disse Navarro. Sempre fez cursos de Jogo de Avelórios quando criança. Portanto. Estou apenas mostrando a ele que o mundo não é bem assim. A família dele tem um dos brasões aceitos por Castália. – Gio. – Por que não quer? – perguntou Agatha. Navarro saiu de lá e bateu a porta com estrondo por trás de si. – Nem preciso dizer – disse Gio – viram só que estúpido? Eu sei como é. que foi meu par no ano passado e tinha um metro e meio. – A Gabi disse que você foi um cavalo e a tratou super mal – comentou Gio. – Não importam minhas razões. E a Gabriela. foi expulsa.

D. 62 . Nem tinha reparado nele na sala. D. – Pelo menos não use drogas amanhã para seu instrumento funcionar – sugeriu Barata. – Me conta mais. mas acho que eu só aguento até três. este pareceu um anão.D.Wanju Duli – Ora. por favor – disse Gio – eu só queria me garantir se não conseguisse outro. pô! – exclamou outro cara – Dani. O sujeito era bem grande. – Eu não aguento três – disse Boaventura – só duas. enquanto desenhava – posso ficar com as duas. – Viram só? – disse Gio – vocês a assustaram. Podem formar fila. ela assusta mais a gente do que nós a ela – disse Barata – esses dias ela passou por mim pelo pátio tão silenciosamente que parecia um fantasma. O outro que falou com D. Com direito a quinze minutos de descanso entre uma e outra. Naquele momento.D. – Oi Dani – cumprimentou Gio – vai participar? Ela confirmou com um aceno de cabeça. Às vezes eu acho que ela tem poderes sobrenaturais. Lembro que quando o vi perto de Navarro. Pode ficar com ele. – Até tu. – Eu adoro como vocês falam de mim como se eu não estivesse aqui – disse Barata com um sorriso. se for do agrado. Estragaram tudo! – Sinceramente. Rodrigo? – perguntou Gio. – Você já tem duas. Não ao mesmo tempo. por último. Prestei atenção no Rodrigo. se quiser. o que falou com D.D. Tinha cabelos pretos e parecia absolutamente normal em todos os aspectos. – Calem a boca – disse Gio – se nos pegarem trepando podem até entender que temos certas necessidades. Era D. de tão comum que era sua aparência. pode me dar uma chance? – Também quero – disse mais um sujeito. era um negro alto e gordo. outra garota entrou na sala. posso ser seu parceiro? – ele perguntou. Barata não perdeu tempo. deu meia volta e saiu da sala. – Algumas até ajudam. mas se nos pegarem com drogas a gente tá fodido. – Dani. Todos ficaram surpresos. imediatamente. Levei o maior susto.

por mais que eu perguntasse. Navarro sorriu. – Quero você – disse Dani. – Já – respondi – eu aceito. lá estava ele de novo. – Não acredito que irei me humilhar dessa forma. E você. esqueça sobre nós – eu disse a Barata – quero aquele. – Nesse caso. contente. Mas se Rodrigo me recusasse. com uma voz que era perdidamente melodiosa e sensual. eu ficaria com a cara no chão. D. pouco depois de D. Ela apontou para Barata quando entrou. triunfante – mas as mulheres são assim mesmo. deixar a sala. entrou na sala novamente. saiu da sala. tinha feito. Era quase como se ela e Navarro tivessem combinado e propositalmente não desejassem permanecer na sala ao mesmo tempo. – OK. – Ótimo! – disse Barata. Apontei para Rodrigo.D. Dani fazia isso porque ela sabia que podia. – E você me terá – garantiu Barata. Miguel! – exclamou Gio – eu transo contigo. da mesma forma que D.D. – De boa – me respondeu Rodrigo. Gio. mas vou perguntar uma última vez.A Era do Folhetim Falando em Navarro. – Confesso que estou um pouco curiosa para saber o tamanho do pau de um cara baixinho como ele – Gio sorriu – a Gabi não quis me contar. – Então você estava interessada desde o começo e se fez de difícil! – exclamou Barata. – Pensei melhor – disse Navarro – e peço desculpas pela minha má educação. 63 . – Obrigado. Simplesmente porque achei o gesto poderoso. Fiquei aliviada. Eu revirei os olhos. meu doce? Já acabou o seu charminho? Notei que ele se referia a mim.D. – Tudo bem. E ao dizer isso. precisam fazer charminho. Era a primeira vez que eu ouvia. está desculpado – disse Gio.

ela também era pequena. sem rodeios – odeio livros de qualquer tipo. É claro que ela devia se sentir ainda mais ofendida ao saber que eu ia transar com outra pessoa naquela noite. – Só espero que esses imbecis não bebam até cair antes da hora – comentou Gio. – Nem livros de história da matemática? – perguntou Agatha. – Odeio ler – ela disse. de uma forma inexplicável. nós garotas fizemos sozinhas nossa festinha de fim de ano enquanto provavelmente os rapazes faziam a deles em seus próprios alojamentos. – Perdão. – Odeio história – disse Sônia. posso ser seu par? – Pode sim – ela sorriu – como é seu nome mesmo? – Otávio Carneiro. Na noite do dia 31. Aquela escolha de casais foi um pouco confusa. – Só se você me perguntar apropriadamente. aquilo era sexy. mas me ignorou o tempo inteiro. Dani não apareceu na festa. Mariel. como se fosse um evento literário. Sônia participou. como se deve. Meu nome é Mariel. Eu não sabia por quanto tempo mais eu teria que aguentar isso. Até aquele momento ela somente havia assistido em silêncio. lemos trechos de autores famosos. suspeitando que era exatamente o que ia acontecer. Aparentemente. Carneiro! Uma vez Gio me disse que havia esse rapaz chamado Carneiro que sabia muito a fundo sobre Heidegger. O filósofo dissera que o ser humano é um ser-para-a-morte. Ele apontou para Mariel. Ela pareceu um pouco intimidada com o sujeito enorme. Sônia ficou profundamente aborrecida com isso. Durante a festa. – Ela não quer saber de amizade – comentou Gio – só vai aparecer para trepar. 64 . Ainda mais sendo um cara.Wanju Duli – Posso ficar com aquela? – perguntou o sujeito grande. Embora não fosse tão baixinha quanto Gio. antes do encontro dos casais. mas no final deu certo. Nem olhou na minha direção.

Mesmo assim. fui logo avisando que ele não precisaria usar camisinha. eu não vou fazer isso. diferente de mim.A Era do Folhetim Agatha não pareceu muito ofendida. assustado – se for nova demais. Quando Rodrigo entrou comigo num dormitório vazio que reservei somente para nós. A única coisa de diferente que tivemos para a festa foi champanhe.. – Você acha que Navarro irá entrar para Waldzell? – perguntei – Sabe. – O seu ficante vai participar? – perguntei.. é uma grande honra. o som dos incessantes fogos de artifício ao longe abafariam os ruídos. pois eu ainda não tinha menstruado. Bebemos com moderação. Somente dali uns sete aos e meio eu teria que escolher a minha escola em Castália. Mas ele ficou de ajudar com uma parte da elaboração. somente assistir. de forma misteriosa – eu imagino que sim. – “Mas Waldzell é a mãe da industriosa tribo dos Jogadores das Contas de Vidro” – pronunciou Gio. O de Nova Castália é no auge do verão. E como a maior parte dos que estavam lá eram pelo menos alguns anos mais velhos que eu. por isso era melhor fazer silêncio. – Navarro foi convidado – explicou Gio – ele não vai participar esse ano. – O Jogo público das Contas de Vidro? – perguntei – achei que fosse na primavera. Apenas pronunciar aquela palavra me dava um arrepio. 65 . Ele ama a música. Já devia estar acostumada às críticas de Castália em relação ao estudo da história universal. Para a nossa sorte. então uma crítica à história da matemática não era nada. Aguardamos a chegada deles na entrada e os conduzimos até lá. Então era isso o que o estava ocupando tanto. Não queríamos perturbar as outras garotas que não tinham nenhuma intenção de quebrar regras. – Amanhã começa o ludus anniversarius – comentou Gio. – O Jogo de Castália é na primavera. mas. desconfiei que o tempo passaria voando. – Qual a sua idade? – ele perguntou. eles partiriam antes de mim. Cela Silvestre. talvez seja capaz de resistir à tentação. Combinamos que o encontro ocorreria nos dormitórios femininos. Mesmo assim.

. pois teremos mais lubrificação. ficou mais brabo ainda e colocou a culpa em mim. Eu ainda poderia acabar aquela noite com uma tranquila masturbação. Ele já foi metendo.. sem beijo. Mas era dificil me concentrar. Até mesmo eu comeria a mim mesma. então eu o xinguei. Por fim. Eu não falei nada. Muito sexo selvagem da Roma Antiga para acalmar os ânimos. bochechas redondas. ele ficou por cima. mas ele provavelmente ficou nervoso consigo mesmo e descontou em mim. em silêncio. se desconcentrou. Assenti.Wanju Duli – Fica tranquilo – eu disse – tenho quase catorze. Vai ser diferente. Fui até a biblioteca ler um livro para tentar apagar da minha mente aquela cena patética. Ele provavelmente havia voltado para o dormitório masculino e eu não tinha nenhuma intenção de procurá-lo mais. sem nada. Ele também começou a se irritar. Entrei no banheiro para lavar as mãos. Fitei meu rosto no espelho. Pelo menos a leitura me deixou ligeiramente mais calma: Satyricon. saí da biblioteca e apaguei as luzes. ele saiu do quarto. Aquele black power me deixava mesmo com uma aparência irresistível. irritado. Ele não tinha que se sentir tão incomodado por ter broxado. Broxou umas três vezes. mas acho que vai facilitar. Não que eu esperasse vasta experiência sexual de um adolescente de uma escola de elite. – Nunca fiz sem camisinha. Me deixou lá. Fiquei braba porque doeu. sem ter terminado o serviço. Fiquei uma fera. Era meio irritante. Cada um tirou a própria roupa. Ele fazia muita força e já estava suado. de Petrônio. então era natural que Barata e Rodrigo tivessem me desejado. Recoloquei minhas roupas. porque nunca tinha transado com uma virgem antes e não sabia o que fazer para romper o hímen. Parei de ler. Depois de um tempo. Lábios grossos. Simplesmente não me sentia no clima. 66 . Mas Rodrigo não precisava ter sido tão impaciente. Achei-o muito rude e inexperiente por agir assim. sem toque. Como eu não sabia direito o que fazer.

A Era do Folhetim
De repente, uma garota saiu de uma das portas do banheiro, onde
ficava o chuveiro. Ela havia acabado de tomar uma ducha, estava toda
molhada e completamente nua. Não havia toalha alguma por perto.
Era D.D. Eu não conseguia tirar os olhos do corpo dela. Eu a fitava
através do espelho. Fiquei hipnotizada com o que vi.
Sua pele era morena e brilhante, muito bem cuidada. As formas de
seu corpo eram perfeitas. Tinha bastante carne nos lugares certos: não
somente as coxas eram grossas, mas seus quadris eram largos. Ela
também tinha uma bunda maravilhosa e os peitos bem redondos. Eram
peitos de tamanho médio, que se harmonizavam muito bem com o resto
do corpo.
Ela não ficou nem um pouco preocupada com minha presença. Nem
pareceu ter me visto. Passou reto por mim, abriu um dos armários do
banheiro e começou a procurar por uma toalha.
Quando ela se abaixou ligeiramente para abrir os armários, eu olhei
discretamente para ela e vi, por suas costas, um parte de sua vagina.
Quase tive um treco. Minha vagina pulsou forte e começou a pegar fogo.
Rodrigo não me dava tesão, mas a Dani... ah, meu Jesus Cristo! Aquilo
sim que era um pedaço de mau caminho. Se ela topasse, eu teria me
deitado com ela no chão ali mesmo. Enfiaria a língua em sua boca e a
língua na sua boceta molhada.
Porém, meus pensamentos foram completamente interrompidos
quando outra pessoa entrou no banheiro. Ele abriu a porta com
estrondo.
– Alguém viu a Gio? Vocês viram para onde ela foi?
Era Navarro, que estava de jeans e sem camisa, com cara de idiota.
Ele estava com os pés descalços e a própria cueca na mão, como se
tivesse vestido o jeans rapidamente sem ela.
– Saia daqui imediatamente! – gritou Dani, fora de si.
Sem se desculpar e sem fechar a porta, Navarro insistiu:
– Apenas respondam a minha pergunta: vocês a viram por aí?
– Fecha essa porta, seu filho da puta! – berrou Dani.
Ela foi até a porta e a empurrou em cima de Navarro. Porém, ele
empurrou a porta mais forte. Não sei se Dani se abaixou naquele
momento, mas o trinco atingiu fortemente seu rosto, ela caiu e escorreu
um filete de sangue por sua testa.
67

Wanju Duli
– Nossa, me desculpa, Dani! – exclamou Navarro, abaixando-se para
ajudá-la – eu te machuquei? Você tá bem?
Dani começou a dar tapas, socos e chutes em Navarro. Ele protegeuse com as mãos.
– Vai tomar no cu! Seu corno, filho da mãe! – Dani prosseguiu
berrando, com voz rouca – Sai daqui, caralho!
Navarro entendeu o recado e se mandou. Pelo jeito aquela noite não
estava sendo boa para ninguém. Mas Navarro devia ter lido um pouco
mais a situação e ter se mandado de lá já na primeira vez que Dani o
mandou sair.
Achei uma toalha em outro armário e entreguei para Dani. Ela se
enrolou nela.
– Precisa de ajuda? – perguntei.
Ela fez que não. Ela não me agradeceu e abriu a porta para sair do
banheiro. Porém, quem estava na porta agora era Barata.
– O que aconteceu? – ele perguntou, preocupado, ao ver o sangue.
– Não é da sua conta – respondeu Dani, rispidamente.
E foi embora.
– Você sabe o que houve? – perguntou Barata.
– Foi apenas um acidente – respondi.
Achei melhor não dizer que o acidente havia sido causado pela
idiotice de Navarro. Podia ser que Barata fosse atrás de Navarro para
tirar satisfações. Eu não sabia se Barata era do tipo de pessoa que bateria
em Navarro para defender a Dani. Achei melhor não descobrir, para
aquela noite não terminar com todos nós sendo expulsos.
Eu suspirei.
– Eu devia ter transado contigo – eu disse – meu encontro com
Rodrigo foi um lixo.
– É mesmo? – perguntou Barata, curioso.
Mas não perguntou mais detalhes. Ainda bem, porque eu não ia dizer.
– Como foi o seu?
– Foi ótimo – respondeu Barata – mas ainda aguento mais uma. Você
quer?
Aquilo foi um pouco inesperado. Mas eu não estava mais a fim de
fazer charminho.
– Quero, mas só se for agora.
68

A Era do Folhetim
– Imediatamente, querida – respondeu Barata, com um sorriso.
Ele me levou até o quarto em que provavelmente ele e Dani tinham
transado. De certa forma, poder estar na mesma cama em que Dani
estivera me daria até mais emoção do que trepar com esse garoto.
Barata parecia ser mais experiente que Rodrigo, então fiquei mais
tranquila. Pelo menos ele me passava confiança, como se soubesse
exatamente o que fazia.
Quando já estávamos os dois despidos, ele me deitou gentilmente na
cama e me beijou de um jeito muito bom. Lento e carinhoso, um beijo
profundo. Nossas línguas se encontraram. Fechei os olhos e voltei a
imaginar o corpo nu de Dani. Fiquei com muito tesão.
Ele passou a mão nos meus peitos, foi descendo para a barriga e de
uma forma muito natural acariciou minha vagina. Quando colocou seu
dedo dentro de mim, eu já estava bem lubrificada.
Ele desceu pelo meu corpo, me beijando pelo pescoço, nos peitos, na
barriga. Colocou a língua na minha boceta. Eu gemi e suspirei forte.
Quando ele foi colocar a camisinha, eu disse que não precisava.
Expliquei o motivo.
– Nossa, que legal – disse Barata – adoro fazer sem camisinha. Mas
você não tem medo que eu te passe alguma doença?
Eu fiz que não. E se fosse uma doença da Dani, eu não me
importava.
– Quer que eu te masturbe? – perguntei – ou que eu te chupe?
Eu me sentia meio boba ao perguntar. Podia simplesmente ter feito,
como ele fez, chegando aos pouquinhos.
Estranhamente, eu entendi a expressão e seus sinais corporais de
resposta à minha pergunta. Ele meio que deu de ombros, como se
dissesse que não precisava, mas que se eu quisesse fazer ele ia curtir.
Antes que eu decidisse, ele resolveu que não precisaria e, aos poucos,
colocou o pênis em mim.
Até ali, tudo tinha sido perfeito demais para ser real. Barata era um
mestre na cama. Mas quando chegou a hora de tentar romper o hímen,
que ainda não estava completamente rompido, ele enfrentou alguma
dificuldade. Teve um momento em que Barata broxou também, mas ele
apenas deu um riso divertido.
– Me empresta suas mãos, querida?
69

Wanju Duli
Eu ri junto e o masturbei. A situação se resolveu a seguir e logo ele já
estava dentro de mim.
Enquanto fazíamos amor, eu imaginei o corpo de Dani diversas
vezes. Quando eu estava perto de gozar, lembrei do formato da vagina
dela, pelo menos do pouco que vi.
Barata gozou um pouco depois de mim. Senti o líquido quente. Foi
bom.
Depois da transa, ele me abraçou, respirando rápido. Seu coração
batia muito forte. Havia sido simplesmente maravilhoso. E eu sabia que
tinha sido bom para nós dois. O corpo e a expressão dele me mostravam
isso.
Eu sentia por Barata algo parecido com amizade. Tínhamos dividido
aquele momento juntos. Claro, eu tinha sentido prazer e ele foi
excelente, embora eu precisasse confessar que a lembrança das curvas de
Dani tivesse sido muito mais eficaz para me fazer gozar.
Eu admirei Barata. Ele era muito maduro. E eu o admirei ainda mais
no momento em que ele agiu de forma tranquila quando as coisas deram
errado do que em seus muitos acertos. Não era tão importante que o
cara fosse um Deus na cama, mas que se sentisse à vontade o suficiente
comigo para compartilharmos aquele momento juntos e para que
resolvêssemos os problemas juntos.
Rodrigo poderia ter broxado mil vezes que eu o aguardaria e o
ajudaria. Só fiquei chateada por ele ter ficado aborrecido e colocado a
culpa em mim. Mas talvez eu também tivesse errado por tê-lo xingado
logo no começo por não saber o que fazer.
– Você ainda tá pensando nele, né? – perguntou Barata, adivinhando
– esquece isso por enquanto.
A voz de Barata foi como música. Ele falou baixinho, de forma
suave, perto do meu ouvido. E acariciou os meus cabelos.
– Maria... posso te fazer uma pergunta pessoal?
– Acho que pode...
– Você gosta da Dani?
Fiz que sim.
– Ouvi falar que você terminou com a Sônia. Mas você também gosta
da Dani – disse Barata – parece difícil.
– E você, gosta de alguém?
70

mas é um pensamento encantador. vocês vão fazer parte dele no futuro. A Verdade. mas a dor tornava tudo mais real. – Engraçado você ter pensado nisso agora. – Será que um dia poderemos jogar o Jogo de Avelórios juntos? Barata parecia se divertir cada vez mais com as minhas perguntas. Mas seria impossível nesse lugar. 71 . E seguir para o próximo sonho. Então acho que vou esquecer. todos eles. com naturalidade – queria que a gente namorasse. Éramos estudantes das escolas de elite. Ouvindo os fogos ao longe. Barata levantou-se devagar e sentou na cama. E isso era muito mais importante que sexo ou mesmo amor. Barata foi muito gentil. O da Dani e o nosso. – Estou meio melancólico e sentimental hoje – ele riu – deve ser por causa do Ano Novo. no fundo eu não me importava que ela fosse dele. Todos nós sabíamos que aqueles encontros eram só diversões temporárias. futuros habitantes de Castália. Um dia. um perfeito cavalheiro. Aqueles eram apenas os rituais de despedida de nossa velha vida. Era um pouco doloroso. – As coisas só são bonitas porque terminam – disse Barata – vou guardar os momentos de hoje.A Era do Folhetim – Gosto da Dani também – respondeu Barata. eu me sentia no céu. Não sei se ela quer. Uma existência espiritual. Quando nos despedimos. Ele se despediu de mim com um abraço e um beijo bem leve nos lábios. Mas eu precisava ser realista: ela não seria de ninguém. Não sei se irei para Cela Silvestre. essa atmosfera mágica. Parece quase um sonho. Fiquei lembrando de sua voz doce muito depois de ele ter saído. Paixão boba de adolescente. Castália era algo maior do que nós mesmos. Mas para ela será bem mais fácil esquecer do que para mim. De certa forma. Nenhum de nós seria de ninguém. iríamos para Castália. Se a Dani não fosse minha. – Queria que durasse para sempre? Ele fez que não. Se não for em corpo será em espírito. dali alguns anos.

mas o que ele disse – respondeu Gio. Era como um conto de fadas. pois não queriam expulsar meus pais da Província. Navarro tinha feito duas grandes bobagens na mesma noite. A gente brincava juntos enquanto os adultos estavam ocupados com as coisas grandes. Simplesmente me criaram em segredo. – Há quanto tempo vocês estão aqui? – Eu nasci em Castália – ela respondeu – fruto de uma união ilícita entre dois habitantes de lá.. Mas eu nunca liguei para isso. preocupada – foi alguma coisa que o Navarro fez? Puta que pariu. – É algo que possa contar? – perguntei. Quando terminei. encontrei Mariel e Agatha tentando consolar Gio. – Ficamos relembrando os podres um do outro e jogando na cara. Foi horrível. Foi uma droga. Discutimos aos gritos. No meio do sexo. – eu pronunciei. Eu e ele já estamos aqui há muito tempo. Como se ela fosse uma princesa! – Conheço o Miguel desde que éramos bem pequenos – ela explicou – já que a família dele o trazia para assistir aos Jogos. Nunca tínhamos ficado juntos dessa forma.Wanju Duli Resolvi tomar um banho também. Ele sempre teve inveja de mim porque morei em Castália e sabia mais que ele sobre o Jogo e sobre todas as outras coisas. vesti meu pijama e retornei para nosso dormitório. Depois de ter desenvolvido a notação musical aceita até mesmo em Cela Silvestre.. – Gio. Ele queria me vencer e por isso estudou muito. já que eles são nomes de peso. – Não vou contar por respeito a ele – ela disse – mas tem a ver com a insegurança dele. Ela fez que não. mas sei lá. entre soluços. Lá dentro. Ele via seu feito como se tivesse me derrotado. Brigamos feio. A gente se conhece bem. Nunca achei que nossa amizade fosse uma competição e nem tenho intenção de 72 . Tava tudo dando certo e depois deu essa merda. Não sabiam o que fazer comigo. Vocês não ouviram? Eu respondi que não. – Não foi tanto o que ele fez. ele se sentiu o rei do universo. Eu cresci jogando o Jogo de Avelórios. que estava chorando. A gente discutiu por causa disso.

Agora quero me dedicar mais a fundo à filosofia. Recordei-me que já havia passado de meia-noite. Agora estávamos em 2289. Jogamos jogos da velha. é claro. Como lá não havia muita coisa além de livros. É claro que eu não os mantive e enquanto estive no orfanato realizei todas as diversões mundanas possíveis. Essa conversa pareceu ter deixado Gio mais calma. Ela parou de chorar. talvez dedicar a sua vida a isso. Sônia optou por visitar o orfanato em dias diferentes dos meus. famílias ricas e alguns dos maiores especialistas no Jogo de Avelórios.A Era do Folhetim ser jogadora de Contas de Vidro! Joguei tanto quando criança que cansei. – A amizade não deixa de ser um tipo de amor – disse Mariel.. Eu fiquei sabendo que Gio não iria simplesmente porque “não estava a fim”. tínhamos um mundo. junto com membros do governo. nos agradeceu e retornou para seu quarto. relembrando a infância. só para provar para mim que é capaz. Ainda teria alguns dias para fazer o que queria. – Todos nós sabemos que isso é irrelevante – disse Gio – aqui dentro. – Acho que ele gosta de você – opinei. Ele não precisa ir para Cela Silvestre só para se exibir. reuni as meninas para inventarmos alguma coisa. Navarro viajaria no dia seguinte para a Província e permaneceria por lá uma semana assistindo às festividades do Jogo. embora eu devesse manter meus votos durante a visita. Com algumas folhas de papel. A ideia era: “O que é possível fazer com o que temos aqui?” 73 .. Comi todas as porcarias que consegui engolir. jogo da forca e até brincamos de pega-pega e esconde-esconde no pátio. Só amizade. Miguel não está satisfeito. Eu não o considerarei melhor ou pior se ele se dedicar à música ou ao Jogo. Eu recebi permissão de ir visitar minha família por um fim de semana. Aquelas férias foram estranhas. Já devia ter assistido àquilo incontáveis vezes. enquanto tudo o que eu queria era poder estar lá um dia. Retornei para as escolas de elite renovada. Ele quer ir a fundo na problemática do Jogo. virei a madrugada assistindo filmes e fui jogar Pump no fliperama junto com Mel e Lua. Fizemos todas as coisas tolas que conseguimos pensar. essas coisas não têm valor.

do jeito que eu gostava. sério. Nós nos sentamos juntos e ele abriu os livros. reunia pessoas muito esforçadas e interessadas no que faziam. a maior parte devia ter sido recomendada para as escolas de elite pelas altas notas e por se destacar em alguma área do conhecimento. com naturalidade – tem uns livros aqui que vamos usar. Resolvi escrever meu ensaio logo de manhã. acordei bem cedo e retomei minhas atividades. para me livrar dele. De tarde eu seria instruída pelo tutor de gramática. Eu não devia me surpreender mais ao encontrar vários alunos modelo por lá. Extremamente maduro. Não mencionou o nosso encontro no Ano Novo. Após o nosso desentendimento. vi Rodrigo entrando na biblioteca. em meu último dia de férias eu já tinha voltado a ler. mas um que achei na biblioteca e estava a fim de dar uma olhada. confusa. Depois disso. Ele alcançou dois livros numa estante mais alta. iniciei uma leitura do cronograma. inteligente. Não um livro que me mandaram ler. Fui orientada a aguardá-lo na biblioteca do alojamento dos garotos. imaturo e inexperiente. Quando cheguei. – Você é meu tutor de gramática? – perguntei – o cara que sabe muito? O aluno modelo? – Isso – respondeu Rodrigo. 74 . Apenas se ateve a me explicar gramática. Parecia ter se transformado. Porém. Eu precisava perguntar se eu tinha permissão de retirá-los para ler em meu pouco tempo livre. – Vamos começar? – ele perguntou. ele veio diretamente na minha direção.Wanju Duli Para minha supresa. com exceção de mim e mais uns poucos. fiquei maravilhada com os livros. E como era férias. de forma muito clara e profissional. eu li na cama. Era melhor assim. Afinal. Mesmo que aquele lugar não reunisse gênios. Achei alguns que eu realmente desejava ler. Passei a olhá-lo de forma diferente. No dia seguinte. Eu o fitei. Mas quando se tratava de gramática ele se tornava outra pessoa. eu o considerei infantil. Enquanto folheava os livros. Eu nunca tinha estado lá. responsável. Resolvi fingir que não tinha visto.

Eu ainda não tinha penetrado na essência. Sincero.. só é possível entender o encadeamento lógico das premissas ao conhecermos as relações das palavras no interior de uma frase. nem notei o tempo passar. Para saber química a fundo. – Uma se fundamenta na outra. é bom saber filosofia – disse Rodrigo – eu acredito que a lógica seja um bom ponto de ligação entre as ciências exatas e as humanas. Ele me passou deveres de casa que me tomariam a semana inteira. pois mistura filosofia e matemática. ele era como um feiticeiro das letras. – Nesse caso.A Era do Folhetim Honestamente. Caralho. é bom saber química. Para penetrar na física é boa coisa estudar matemática. – Estou vendo a gramática de uma maneira totalmente diferente – confessei – parece que tudo o que estudei no colégio até hoje foi apenas a forma. Humilde. Faço o que posso. específica de outras línguas. pela primeira vez. tem mais a ver com psicologia. Porém. porque. Se pensarmos na lógica. Aquele adolescente que nem sabia beijar uma mulher. O amor que ele sentia por aquele conhecimento me contagiou. Formal. Havíamos ficado lá por duas horas seguidas e o tempo voou como um sonho. Você sabe muito! – De nada. Para eu ter o que fazer até o encontro da semana seguinte. é desejável saber física. arte e filosofia. Fico feliz de poder ajudar. ele parecia um professor calejado. Quando Rodrigo declarou que a lição do dia havia terminado. como conversamos. – E o que devemos saber para estudar filosofia? 75 . eu começava a entendê-las. Ainda estou aprendendo. E para estudar matemática. Ele estava me fazendo amá-las. – Muito obrigada pela ajuda – foi tudo o que consegui dizer – nem sei como agradecer. não é mesmo? – perguntei – para entender biologia a fundo.. pois isso lhe ajudará a compreender melhor a gramática geral – disse Rodrigo – a geral. – Eu aconselho que você também estude a gramática especial. Ele sabia tudo! Todos aqueles nomes difíceis de gramática. a lógica começou nas humanas. Aquelas merdas que eu odiava e queria destruir. Somente depois que a matemática se apropriou dela.

Eu só tive uma relação sexual antes dessa.Wanju Duli – A linguagem – disse Rodrigo – embora a matemática e a música. Talvez não houvesse um início e as coisas nascessem e se transformassem juntas. É claro que para Rodrigo tudo começava na gramática. assim como na evolução. – Sobre o que aconteceu naquela noite. jamais teria coragem de aparecer na frente dela de novo. mas me atrapalhei e não soube lidar com a situação. – Não se preocupe – eu disse – eu também errei. – Me desculpe – ele me interrompeu – eu queria te mostrar que sabia o que estava fazendo. O tom com que ele disse isso me sugeriu que ele tinha ficado um pouco chateado. Como eles eram fofoqueiros. que fundamentava todas as outras coisas. Eu tentei fingir uma experiência que eu não tinha. a filosofia era o início de tudo. E vê-la furiosa daquele jeito no dia em que ela gritou com Navarro me deixou ainda mais intimidada. Espero que tenha compensado. eu já tinha ouvido de tudo. Outros poderiam dizer que a teologia vem antes. por exemplo. É claro que eu não tinha coragem de falar com a Dani! Ninguém tinha.. pois antes de aprendermos a ler e a contar. em que as diferentes espécies passam por um proesso de coevolução. Para Gio. não deixem de ser um tipo de linguagem. Se eu fosse Navarro.. 76 .. Rodrigo disse: – Se o assunto é biologia. Quando mencionei sobre isso. Aquilo já tinha se espalhado! – Desculpa. Bem. a metafísica de Aristóteles. A “senhorita Dantas” parecia viver num mundo diferente do nosso. – comecei. Coloquei a responsabilidade pela transa toda em cima de você e nem fiz nada. no Ano Novo anterior.. E para aprender uma língua é preciso conhecer tanto a gramática especial quanto a geral. Já para Agatha. – Eu soube que você ficou com o Barata depois. Para os escolásticos a teologia era a mãe da filosofia. talvez a história fosse o começo. com o fascínio perante o sublime e o mistério. Eu baixei os olhos. Somente um olhar dela provavelmente seria capaz de fuzilá-lo. já existia história. recomendo que converse com a Dani. Eu já tinha percebido que cada um puxava a brasa para a sua sardinha.

Por isso ele se apaixonou por gramática: para entender os hieróglifos do Jogo.A Era do Folhetim – Por que está pedindo desculpas? – ele perguntou – isso não é necessário. – Todo mundo diz isso – falou Gio – mas se colocar nós dois lado a lado. E outras coisas. – Sabe. – Lembro que ele te emprestou um celular quando cheguei aqui – comentei – vocês parecem ser bem próximos. era mesmo. mas pode gerar uma sensação desconfortável – respondeu Gio – em geral. E foi embora. Nosso tipo de cabelo é bem parecido. – Exato. – Rodrigo também sabe jogar o Jogo de Avelórios? – perguntei. – Ele foi criado em Castália com você? – Sim. Você não tem que me dar satisfação. – Sim. por exemplo. É porque é parente. Parando para pensar. Ele e Miguel nunca se deram bem. – Ele pretende estudar em Cela Silvestre? – Você faz essa pergunta pra todo mundo? – É uma pergunta ruim? – Não é que seja ruim. Cor do cabelo. Quando voltei para o alojamento feminino encontrei a Gio no caminho. Eu já imaginava o motivo. os alunos das escolas de elite evitam 77 . vai notar algumas semelhanças. desde o útero – ela respondeu – ele é meu irmão gêmeo. Ele levantou-se. Que viagem! – Uma vez você disse que ficaria com qualquer garoto do alojamento masculino. O formato do nariz. seria estranho. mas não porque ele seja feio. – Aquele imbecil sabe ser orgulhoso – disse Gio – mas ele é uma boa pessoa. Meu queixo caiu.. Sei lá.. Ela notou que eu estava um pouco cabisbaixa. menos um – lembrei – você obviamente estava se referindo ao seu irmão. – Vocês não se parecem! – foi a primeira coisa que consegui dizer. Contei a ela que também tive problemas no Ano Novo com Rodrigo. cor da pele. – Até a semana que vem.

Acredito que a maior parte dos que estavam ali tinham decidido entrar nas escolas de elite pela paixão pelo mistério que o Jogo suscitava. Também recordei da seguinte frase: “Respeita o sentido. o funcionamento das ciências e das artes. Era bastante lógico. na química. O Jogo parecia ser um tipo de tabu. Lembrei daquela reflexão: quanto mais se compreende o sentido do Jogo. então por que ser um jogador? Que motivo restaria? O que era aquela estranha atração que o Jogo ainda emanava e que parecia estar cada vez mais distante? Eu também sentia esse processo acontecendo dentro de mim. elas também não existiam em muitas coisas? Talvez até mais na própria teologia. mas já me senti. mais se afasta dele. desculpe. Eu provavelmente estou exagerando. Muitos de nós vivemos esse dilema entre dedicar nossa vida ao Jogo das Contas de Vidro ou à nossa área de interesse. um pensamento cortou meu coração ao notar isso. Ninguém estava lá me ensinando o sentido das coisas. mais aquele mistério perdia sua atração. Aquele que compreende inteiramente o sentido do Jogo. Por isso sugiro que você não saia falando sobre Cela Silvestre tão facilmente. Há outras coisas sublimes no mundo. Eles me mostravam as regras. muito mais do que imaginamos. – Não esquenta. Sobre a espiritualidade e a Verdade presentes no Jogo. ao estudar literatura eu via as coisas se encaixando e entendia cada vez mais o sentido do Jogo. na gramática. Uma paixão de infância. não pode mais ser um jogador de Avelórios. Aos poucos e de forma gentil 78 . Eu não me sinto mais desse jeito. Até na matemática. um jogo é um jogo. Porém. Eu era estudante das escolas de elite há pouco mais de três meses. – Nossa. mas não pense que o sentido se ensina”. Eu não tinha pensado dessa forma.Wanju Duli mencionar sobre o Jogo. era o centro de tudo. mesmo que seja sublime. Então imagino que outras pessoas por aqui também sintam algo parecido. É mais como uma paixão secreta e proibida que todos guardam dentro de si. Mas quanto mais amadurecíamos... Então é como relembrar da faca cravada em nosso coração e enfiá-la mais fundo. Ou melhor. Ao mesmo tempo. mas a cada dia eu sentia que penetrava mais fundo na literatura e ficava mais longe do Jogo. Afinal.

Fiquei contente que Gio tivesse sido sincera comigo sobre essa questão. Para disfarçar o embaraço que sentiam toda vez que o Jogo era mencionado. Éramos cada vez mais diferentes. Já não tinha vontade de matar a saudade. Dois anos e meio depois. recebemos um aluno ouvinte em nossas escolas. Havia um tipo de respeito pairando no ar que não precisava ser dito. 79 . Por isso eu nunca via ninguém nas escolas de elite jogando o Jogo das Contas de Vidro. quando eu já estava com 16 anos. Eu tinha mais vontade de conversar com minhas amigas do dormitório. por serem muito rigorosas. não visitei mais o orfanato nas férias. Ninguém iria encaixar as coisas por mim. Por isso. Pensando bem. só faltava descobrir meu lugar em Castália: na Cela Silvestre ou nas escolas de literatura. Até o fliperama já me parecia sem graça. Sua joia mais preciosa e mais frágil. Eu já havia encontrado meu lugar no mundo: era ali. mas até isso estava se tornando raro. A diferença dessa vez foi que eu o conhecia. Eu já não tinha medo de um dia desistir de permanecer nas escolas de elite. Apenas trocava umas poucas mensagens com minhas amigas antigas pela internet. Apenas mostrariam as portas e eu entraria nelas por mim mesma. essa joia precisava de guardiões poderosos. Eles levavam aquele assunto muito a sério e só o mencionavam quando necessário. Eu sabia que havia grandes conhecedores do Jogo lá dentro. eu agia da mesma forma no meu antigo colégio. Depois de alguns anos. alguns fingiam que já não se importavam mais com esse assunto. Cada vez eu me identificava menos com o mundo lá fora. Mas eu duvidava que um dia eles nos convidassem para que jogássemos de forma descontraída e para nos divertirmos. Não era a primeira vez que aquilo aconteceu ao longo desses anos. mas pelos motivos errados. Que era uma velha paixão de infância.A Era do Folhetim elas se encaxariam dentro de mim. como os irmãos gêmeos e Navarro. Era o mais próximo que Castália tinha de uma religião. Por outro lado. Agora. a partir dali eu me sentiria intimidada a fazer quaisquer perguntas envolvendo esse assunto no futuro. que impediriam que o Jogo se degenerasse em mero ornamento estético e perdesse seu espírito.

assistir a algumas aulas e seminários. como todos os outros. Não tem ninguém aqui que possa me dar um breve curso do Jogo? – A Província oferece esses cursos periodicamente – eu informei – você deveria contatá-los. Foram dois os visitantes: uma moça e um rapaz. Não me diga que você não sabe jogar? Eu suspirei. Nos tornamos um pouco distantes. mas ela não parava de reclamar. – Qual é a graça de vir para as escolas de elite e não jogar o Jogo de Avelórios? – ela perguntou – vocês são estranhos. 80 . Ela só tinha ido para lá porque estava interessada no Jogo das Contas de Vidro. Era um ano mais velha que eu. – Onde estão todas essas coisas interessantes? – ela perguntou – não achei a biblioteca de vocês muito impressionante. e ficou desapontada ao descobrir que não ensinaríamos isso para ela. Nós a recebemos com a cortesia requerida. Era quase insuportável. E até a amizade dela eu senti que havia perdido um pouco. Conheci primeiro a moça. que veio para nosso dormitório. O nome daquela garota era Linda. Eu esperava que esse fosse um problema que pudesse ser solucionado quando mais alguns anos se passassem. mas eu sentia que nunca teríamos a mesma relação de antes. Sônia tinha voltado a falar comigo. mas nesse caso era uma visita mais modesta: para acompanhar o dia a dia dos alunos. Normalmente para aprender o Jogo das Contas de Vidro. Nós fizemos as pazes. – Como vocês aguentam comer a mesma comida todos os dias? Ouvi-la era como ouvir o eco de mim mesma no meu primeiro mês por lá. mas que desejavam passar um período nas férias conosco. Foi somente ao ouvi-la que me dei conta do quanto eu devia ter soado desagradável. Não se tratava mais de um namoro. – Esses cursos nem sempre caem no período das minhas férias.Wanju Duli Os alunos ouvintes eram normalmente aqueles vindos de famílias ricas que não tinham intenção de estudar nas escolas de elite. – Não somos exigentes com comida – disse Sônia – porque há tantas coisas mais interessantes aqui que o cérebro nem pensa mais nesses detalhes.

Era a paisagem da janela do alojamento masculino. – Pensei que você quisesse saber sobre o Jogo de Avelórios – comentei. – Você! Barata ficou meio sem graça. – Oi. e o seu? – Linda. arranjo-lhe uma cadeira para sentar-se enquanto aprecia a vista. Então. não acha? 81 .A Era do Folhetim – Não sei. mas conheço quem saiba – eu disse. Eu nunca o tinha visto assim antes. – Vamos para o alojamento masculino – convidei Linda. extremamente realista. Porém. Ela genuinamente nem queria saber. bonitão? – Arthur. E ela simplesmente sentou-se atrás dele e continuou a olhá-lo. – Não precisa. Um nome ideal. sem saber como reagir. Eu também tinha ficado sabendo que todos aqueles quadros lindos das salas principais do prédio tinham sido feitos por ele. obrigado – ele consertou a situação – estou lisonjeado. – Obrigado – Barata sorriu – ainda preciso dar uns retoques. Posso sentar aqui atrás e ficar olhando pra ela? Eu segurei meu riso com a mão. Maria – ele cumprimentou-me – o que a traz aqui? – Nossa. nos mínimos detalhes. – Uau. – Tem que estar mesmo – disse Linda – gostei da sua bunda. – Onde? – perguntou Barata. E a mandei para a Gio. Linda era mais atrevida do que eu tinha imaginado. – Por favor. Digamos que estava fanática com isso ultimamente e nem queria ouvir falar no Jogo. Ela não estava apenas tentando escapar das tentações dessa paixão. – Ora. Ela estava ocupadíssima com seus estudos de filosofia. Gio não parecia muito disposta a ensiná-la. Deu um sorriso meio forçado. encontrei Barata usando um avental e pintando um quadro. fique à vontade – disse Barata – se quiser. ao ver o que ele pintara. – Não enche – disse Linda – depois eu penso nisso. Chegando lá. que gato! – exclamou Linda. qual é o seu nome. que lindo! – exclamei. olhando para seu quadro. eu sento no chão mesmo. Ele ficava engraçado com aquele avental.

Mas o sorrisinho que ele deu quando disse isso me deixou claro que ele estava louco para contar. Arthur – eu falei – e entrega logo o jogo. – Eu tenho o dia todo – disse Linda – que tal fazermos amor depois de terminarmos? Como Diego Rivera que transava com suas modelos. tinha pelo menos diminuído. – Deixa disso. Para mim aquilo era novidade. Linda também estava curiosíssima. Foi só então que reparei que Boaventura estava com ele. Encontrei-o sozinho na sala de música. O drogado. pois não tinha mais suas olheiras profundas. Fomos as duas juntas procurar por Navarro. – Isso é segredo – disse Barata. Estava sorrindo de orelha a orelha. Ele estava tocando uma música que parecia ser de difícil execução. Então ele era um pouco como eu. certo? – eu ri – Seu maldito! Eu quase caí nessa! – É sério – insistiu Barata – vá lá perguntar para ele se não acredita. Até mesmo esse cara tinha tomado jeito. – Está bem – Barata desistiu – foi com o Miguel. como Michelangelo? – Eu jogo nos dois times – respondeu Barata. mas aquilo parecia ser quase impossível de tocar. Eu não entendia muito de música. tocando seu contrabaixo. Eu soltei uma exclamação em alto e bom som e tapei a boca com as mãos. – Você está brincando. Senti que se eu o interrompesse seria morta. Ele estava tocando oboé. – Agora fiquei curiosa – falei – com que cara você já transou? Só pode ter sido alguém aqui do alojamento. Ou você é do tipo que joga para o outro time. 82 . – Pode me desenhar? Ele pensou um pouco antes de responder. Ele ficava ainda menor perto daquele instrumento gigantesco.Wanju Duli – De fato. Se não havia parado com as drogas. posso pintá-la assim que eu terminar esse – informou Barata – só preciso de mais meia hora para finalizá-lo. – Se você se dispor a permanecer algumas horas parada na mesma posição.

– Se você se sente incomodada com isso. com um largo sorriso – ele comeu seu cu? – Ele comeu meu rabo e eu comi o dele!!! – exclamou Navarro em alto e bom som. Invadi. Isso é verdade? Navarro ficou sem fala. estou sangrando pelo cu depois de ouvir as bobagens de vocês! – Navarro continuou a berrar. sem paciência – me insultar? – Só viemos perguntar uma coisa – eu disse – o Arthur me disse que vocês dois já fizeram sexo. Então resolvi entrar mesmo assim.A Era do Folhetim Esperamos por cinco minutos lá fora. – Sim. – Foi apenas uma vez – disse Navarro – e faz muito tempo. – Você é o único aqui que está falando bobagens – observei. mas a droga da música não terminava nunca. – Quantos anos você tem? – ela insistiu – doze? – Dezoito! – Não perguntei por causa da sua altura e sim pela sua infantilidade – ela justificou-se. seus semivirgens castrados de Castália! – Você está de TPM? – perguntou Linda. em tom divertido. – Afinal. Apenas me fitava fixamente. – Fora daqui – disse Navarro. – Que sujeito mais ridículo – disse Linda. Sempre preferi mulheres. atire-se da janela e morra. vão se foder. 83 . o que vocês querem aqui? – ele perguntou. – Isso é sério? – perguntou Boaventura. sem nem pedir licença. rapazes – cumprimentei-os. Não sinto nada por ele. sentindo antipatia por ele no mesmo instante – por que você é tão baixinho? Linda tinha tocado no ponto fraco de Navarro. para que o alojamento inteiro ouvisse – se alguém se sente ofendido com isso. nada demais. – Boa tarde. – Pela reação dele é verdade – disse Linda. Eu estava apenas curioso. sentando-me num banco – já conhece a Linda? – Não conheço e nem quero conhecer. – Educado como sempre – eu disse. Ele não disfarçou a raiva que sentiu.

– Quem é você mesmo? – Linda. esse é um instrumento caríssimo para manter. – Ah. – Você deve ficar tocando isso 24 horas por dia. – Então só pode ter entrado por causa do Jogo de Avelórios – constatou Linda. Navarro lambeu os lábios. como papagaios repetindo a mesma nota dissonante – disse Navarro – pois eu já me cansei de falar disso. Mais alguma questão? – As escolas de elite são um lugar bem apropriado para se tocar contrabaixo – disse Linda – afinal. – O motivo de eu ter entrado não lhe diz respeito – disse Navarro. Seja mais direta. mais uma idiota – Navarro rasgou as notas – sinto muito. – Então eu acertei – disse Linda – você é incapaz de mentir. uma aluna ouvinte. maravilhada. e eu o fiz. Castália paga todos os seus custos. mas tive uma ideia melhor – observou Linda – eu pago para ver vocês dois se comendo. sou pobre e casto. – Muito casto – observou Linda – nem por isso precisava rasgar meu dinheiro! – Você o deu a mim para que eu fizesse com ele o que queria. – Que bom – disse Navarro – pode sair agora? Está atrapalhando meu ensaio. Como pode ver. mas eu fiz voto de pobreza e de castidade. Ela só sabia entrar nos temas delicados. – Já perdi bem mais que isso nessa conversa infeliz. então é claro que não se importa em perder cinco minutos comigo. Você quer que eu te fale sobre o Jogo? – Como sabe? – perguntou Linda. Ele fitou-a. não é mesmo? Navarro estreitou os olhos. – É só sobre isso que os estúpidos alunos ouvintes sabem falar. – Minha família é tão podre de rica que poderia fazer a sua de escrava – disse Navarro – não entrei aqui pelo dinheiro.Wanju Duli – Eu estava pensando em transar com Arthur. Linda tirou algumas notas de cem reais da carteira e entregou para Navarro. 84 . Suas reações te denunciam. Arrume outro idiota para lhe dar palestras. sim. pensando no que dizer para aquela peste. confuso.

– Sim. – A gente tava ensaiando junto. Você tem nome? – Sou a garota do Hitler – respondi – aquela que te socou na cara. certo? Eu assisto as cerimônias de Nova Castália todos os anos. – De todos os lugares do mundo. o que você faz aqui? – ele perguntou. mas você o superou – disse Navarro – parabéns. mas parece que terei mais contato com ele do que você. – Pensei que o seu irmão era o maior trouxa que eu já tinha visto. E já assisti duas vezes na Alemanha. caramba! – Quer trepar? – perguntou Linda. – Hã? A gente se conhece? – ele perguntou – meu nome é Carlos.A Era do Folhetim – Posso assistir você tocar? – perguntou Linda – é chato assistir somente pelo vidro do lado de fora. – Você vivia criticando o Jogo de Avelórios. Até mesmo eu não aguentava mais escutar a voz de Linda. ele também não quis saber. – Nenhuma. contrariado. não acha? – Ser aluna das escolas não te torna automaticamente uma jogadora – ele observou – quantas vezes você já jogou ou assistiu a uma partida oficial? – Não importa. – Eu não tinha mais nada para fazer. então vim passear nas escolas de elite – respondi. Boaventura ficou indignado. Eu só queria que ela calasse a boca. Não achei que fosse possível. O mundo dá voltas. – Não! – exclamou Boaventura – fiz voto de castidade! – Vocês usam essa desculpa toda vez que não querem comer alguém. Quando o irmão dela a encontrou no corredor. Devia ser difícil aguentá-la todos os dias. – Você! – eu apontei para o irmão dela. Parece que está tendo um orgasmo. – Então por que não volta para lá e para de encher o meu saco? 85 . Na prática. Não caio mais nessa. E Navarro colocou todos para fora da sala e trancou-a. Eu gosto da expressão que você faz quando toca. Ele não quis acreditar. Incluindo o cara do oboé. vivem comendo uns aos outros.

esse tipo de sessão jornalística poderia ser capaz de ditar normas sociais. Não querem entender as coisas. – O que são folhetins para você? – perguntou Carlos – você deve ter uma ideia bem distorcida a esse respeito. crítica de arte. o termo “folhetim” se refere principalmente a romances publicados no passado em jornais com continuações. Isso foi particularmente efetivo na Alemanha nazista. São somente um rebanho sem vontade própria que segue ordens. e se livra dessa árdua tarefa. Eram suplementos adicionados à sessão sobre política dos jornais franceses. Mas eu queria mostrar a ele que eu não estava de brincadeira. – A verdadeira vida é na Era dos Folhetins? – perguntei. A “verdadeira vida”.Wanju Duli – Você está com inveja. Muitos clássicos literários começaram nos folhetins. os “especialistas”. Essa história estava realmente começando a me aborrecer. literatura. – O quê? Acho que essa não era a resposta que ele esperava. O que foi que te ensinaram sobre isso aqui nas escolas de elite? – No Brasil. – Pelo menos eu enxergo minhas correntes e sei até onde posso caminhar. Por que raios eu teria inveja de alguém do século? – Está toda cheia de si. a custa de nosso dinheiro. apenas aprender o suficiente para ganhar dinheiro e 86 . pode ser mais facilmente controlado. com seus brinquedos. Vocês possuem uma mera ilusão de liberdade. Mas em Castália nós utilizamos o significado francês do termo. – São vocês em Castália que sofrem lavagem cerebral e não nós. como se nós que vivemos a verdadeira vida fôssemos seres inferiores – retrucou Carlos – enquanto vocês vivem uma vida falsa. Na época da Segunda Guerra Mundial. hã? Quando estávamos lá fora nos diziam que a verdadeira vida era aqui dentro. estabelecendo gostos em busca de uma identidade social. E quando íamos para as escolas de elite. tínhamos que escutar que a verdadeira vida ficava lá fora. – Você não entendeu ainda? – perguntei – no momento em que você delega a tarefa de pensar para outras pessoas. como nossas atuais novelas na TV. sobre fofocas. – Eu sou aluna das escolas de elite. debates sobre a moda e charadas.

mas principalmente eles. Eu era toda ouvidos. A Província não é uma bolha que te impede de conhecer os valores do lado exterior. – Nenhum. Então por que de repente foi me procurar? Ele me chamou de volta para a sala de música. Navarro ia falar sério. – O que realmente importa não são coisas ou pessoas – respondi – mas algo muito diferente disso. Continuamos conectados a ele e dependemos dele. vivemos numa sociedade materialista e capitalista – explicou Navarro – mesmo que Castália seja diferente. – Estava de saída e por acaso ouvi sua conversa com o aluno ouvinte. – Nós. – Com licença. fomos educados lá no começo de nossa vida e nossa cabeça está cheia dos valores do mundo. Não queria conversar com mais ninguém. sem xingar? Aquilo era meio raro. – Quais são as coisas realmente importantes? – perguntou Carlos. Está acompanhando? 87 . que somente afasta o pensamento de vocês das coisas realmente importantes. que ainda estava vazia. – Não dê sua opinião sobre dinheiro para esse tipo de gente. mas caso se foque demais nesse objetivo. Santa – disse alguém que chegou. poderá ter a falsa sensação de que somente ele te tornará livre. Aquilo foi inesperado. quase todos nós nascemos no século. Seu instrumento musical já estava guardado. – Que tipo de gente? – perguntei – ricos? – Qualquer um que não seja de Castália – respondeu Navarro – sabe por quê? Fiz que não.A Era do Folhetim depois gastá-lo nessa suposta diversão. – Qual é o problema em querer ganhar dinheiro? – perguntou Carlos. me interrompendo – podemos conversar por um minuto? Era Navarro. E resolvi te dar um conselho. – O conhecimento? – O conhecimento é apenas uma ponte e não o fim do caminho – respondi. Navarro só queria saber de tocar seu contrabaixo o dia inteiro. em tom de zombaria – o Jogo de Avelórios? Eu sorri.

Ainda assim. Isso porque na Província nosso valor máximo não é o corpo e sim a mente. Ganhar dinheiro é a vida delas. Ou.. com a diferença de que nós subimos em nossa hierarquia quando adquirimos mais conhecimento. você estará ofendendo praticamente o mundo inteiro se disser que dinheiro é inútil! É como se você dissesse: “você é um imbecil. sofre no trabalho. sofreu na faculdade. Quanto mais ganham. só por causa da bosta do dinheiro. – Pois bem. a hierarquia não deixa de existir. desde o colégio. que é a meta. Porém.Wanju Duli – Já sei o que você vai dizer – tentei adivinhar – são eles que sustentam Castália e por isso temos que calar a boca e puxar o saco das pessoas do século. Veja só o seu caso. Estudou merdas no colégio a vida inteira. ter um emprego e ganhar dinheiro. Para nós. Coisas como estudar literatura ou engenharia são apenas o caminho para chegar no pote de ouro. É como aqui nas escolas de elite. o espírito. mas as duas não deixam de ser um tipo de jogo. O que diria se alguém te dissesse que literatura é um lixo e não vale nada? – Eu responderia que a literatura pode até não ser muito valorizada na Era do Folhetim. – Vejo que ainda não entendeu onde quero chegar – ele prosseguiu – lá fora a meta das pessoas é o dinheiro. Desde crianças. indo mais longe.. para mim é a música. um acordo feito entre pessoas. mais sobem na hierarquia da sociedade materialista. A única coisa que você conhece é literatura. E isso não vale nada”. Entende a diferença? – Acho que entendo. Ou pelo menos é a coisa de valor que conhece mais a fundo. – Não importa se a nossa hierarquia é superior a deles – disse Navarro – talvez até seja. É por isso que você tem que segurar a 88 . – Certo. Pode ser que você até ofenda os historiadores se disser que o estudo de história é inútil. A única coisa que peço é: tente se colocar no lugar dessa gente. nos colocam na cabeça que a coisa mais importante da vida é estudar para depois trabalhar. mas que em Castália ela tem tanto valor quanto a matemática que permite construir prédios ou a medicina que permite curar pessoas. o estudo é a própria meta! Para você é a literatura. É esse o objetivo máximo da existência de quase todas as pessoas. É isso? – Eu não ia dizer nada do tipo.

Ou que nos dão uma esperança vazia. Então não tente posar de superior. mas agora que estou aqui dentro eu consigo enxergar como minha vida era vazia antes – expliquei – estudar e trabalhar apenas para ter fins de semana para ver filmes que nos mostram o quão sem sentido é nossas vidas.A Era do Folhetim língua quando fala com as pessoas do século. – A música pode ser seu caminho – expliquei – mas você não toca para sentir uma sensação de êxtase? – Eu acho o reducionismo uma escolha muito perigosa – disse Navarro – por que você precisa de somente um valor máximo? É essa uma das problemáticas que o Jogo tenta evitar. – A conversa que eu tive com ela não foi séria. Mas você estava falando a sério com o Carlos. Mas lembre-se que poucos anos atrás você era como elas. no tempo livre. Eu achei esse discurso absurdo. Que elas trabalham porque são estúpidas. Navarro franziu as sobrancelhas. Você vive num paradigma diferente agora. – Lembro do que você disse por último – observou Navarro – que o conhecimento era apenas um caminho e não a meta. Como se a vida fosse só isso. – Como você vê a vida agora? – Agora eu me sinto livre – respondi – não porque eu esteja fisicamente livre. – Você já conhece esse segredo – eu disse a ele – porque você já jogou o Jogo das Contas de Vidro. após colá-los. ter lazer. Maria? Eu não podia acreditar que eu estava levando sermão de alguém como Navarro. Se você estiver falando com qualquer pessoa lá de fora. 89 . que tal falarmos de Abelardo? – O pai do conceitualismo? – perguntei. O sentido da minha vida é conectar os pedaços de folhetins que foram passados a mim ao longo da minha existência. – Você rasgou o dinheiro da Linda – comentei. Meu objetivo não é apenas sobreviver e. Não sou apenas minha própria existência. e. Em vez de falarmos de Ockham. uma das piores ofensas será dizer que dinheiro não vale nada. mas porque sinto que faço parte de algo maior. É como dizer que a vida delas não tem sentido. É isso que você acha. descobrir um segredo. – Eu não acho.

– Provavelmente já li mais livros que você. Se elas não te derem uma solução. – Quantos livros você já leu? Ele não gostou da minha pergunta. – Qual é o problema de sair de mãos vazias? – perguntei – é o niilismo? – Na música o silêncio é muito importante – ele respondeu – as pausas são fundamentais. – Não sabia que você conhecia tanto sobre filosofia. Você pode aprender com elas. A única coisa que eu queria dizer no momento é que você não precisa seguir o caminho mais curto e mais simples. te presentearão com uma singular beleza. Não aceite as soluções mais curtas. para lidar com o velho problema dos universais. Vá ler a respeito e outra hora conversamos.Wanju Duli – Ele criou uma posição intermediária entre o idealismo e o materialismo. Isso não me interessa. Para mim. porque meus pais sempre frequentaram Castália. Você costuma reduzir as questões da sua mente de forma grosseira apenas para se livrar delas. Não vou entrar a fundo nessa questão agora. parecia que eu e ele estávamos a anos-luz de distância. Tente amar a complexidade. – Eu já tive muitas conversas sobre isso com Gio e com o Carneiro. Não preciso de ambições tão grandes. a música é o bastante. – Você não respondeu a minha pergunta. porque eu não quero saber todas as coisas. Aquelas eram realmente palavras vindas de um estudante de música. pois também contém harmonia e sentido. – Se envergonha por quê? – perguntei. Ao mesmo tempo. Especialmente por eu ter interrompido sua reflexão sobre a música. Há momentos em que vale a pena optar pelas mais elegantes. Não faça isso. – Porque a minha educação excelente seria ideal para me tornar um exímio jogador de Contas de Vidro e me sinto tentado – ele respondeu – 90 . do qual falam também o realismo e o nominalismo. – Eu não sou uma enciclopédia ambulante como a Gio – disse Navarro – provavelmente até a Dani sabe mais que eu. me faziam ler desde criança e tive uma educação tão excelente que até me envergonho. Aos poucos eu entendia onde ele queria chegar. Você nunca sai de mãos vazias.

suas duas maiores especialidades. isso encerrava o assunto. Se eu conhecesse apenas a música. Os Lusores. Além de sua “excelente educação”. sobre as artes visuais que o Barata estudava. Não sabia muito. – Não foi nada. cada vez mais eu aprendia sobre literatura. Aparentemente. Nem metade do que haveria para saber. eu ainda cogitava ir para Cela Silvestre. tocar o cosmo e o espírito de tudo que já existiu.A Era do Folhetim algumas vezes me arrependo. Pensando bem. por exemplo. Voltei para o alojamento feminino. Por isso. eu não sabia quase nada sobre ele. Competi com Gio a vida inteira. não importando se estivesse vivo ou morto. Porém. Eu estava cercada de pessoas fodas. Fitei Navarro por um momento. iria me maravilhar. a música e o Jogo das Contas de Vidro. Sempre achei isso chato. eu não costumava ter conversas longas com os rapazes. cada qual. Cada pessoa é um universo. – Não quero competir com você – disse Navarro – estou cansado de competição. Eu o admirava pra caramba. os seus conhecimentos no grande quebra-cabeça que era o Jogo. Eu já havia tido longas conversas com Gio. dois anos atrás? – Não quero falar sobre isso. 91 . – Lembrei que até hoje não te agradeci direito por você ter me ajudado tanto nos estudos de lógica ao longo desses anos – comentei. Fui falar com Sônia. Senti um frio na espinha só de pensar que eu um dia seria como elas e estava me encaminhando para isso. Mesmo assim. existe e existirá. jogadores de Contas de Vidro. deviam ser poderosos necromantes. Eu só conhecia a literatura e ainda teria muito a aprender. Eu disse isso a ele. Era quase como uma arte de necromancia: o de resgatar o espírito das coisas mortas. – Por que vocês brigaram daquela vez. Para assim com ele formarem um universo. seja num mundo materialista ou num idealista. eram grandes mistérios para mim. não teria dúvidas. Mariel e Agatha. Eu a invejei. O Jogo das Contas de Vidro parecia proporcionar uma ocasião solene em que todos esses sábios se encontravam para encaixar. história e filosofia. Provavelmente se eu tivesse uma longa conversa com ele um dia.

. – Dependendo com que matemático você conversar. – Será que podemos conversar um pouco sobre filosofia da matemática? – perguntei. Acho muito mais divertido fazer cálculos. Aprendi somente o básico para ter mais proveito em meus estudos de literatura. Cada vez mais 92 . Talvez ainda mais poderosa na atualidade do que na Idade Média. Então pode ser que a matemática e os números tenham existências objetivas. resolver problemas. Que coisa mais chata! – Mas você acha que a matemática é real? – perguntei – Platão baseou o seu mundo das ideias na geometria. a Igreja estava mais poderosa do que nunca. O que você vai fazer se descobrir que os números são imaginários? Vai até um cemitério e chamar um espírito para colocar vida nos números e criar zumbis? – Não é isso que eles fazem no Jogo das Contas de Vidro? – Eu espero que não. Não se envolva com esses filósofos. – Amiga. No século XXIII.. ou a Igreja vai queimar todos os jogadores de Cela Silvestre na fogueira. aborrecida – me mandou ler Abelardo. – Qual a sua posição? – Cá entre nós? – perguntou Sônia – leia Popper e Husserl.. As pessoas só me mandam ler. – Navarro me disse a mesma coisa – comentei. como numa sinestesia? Mas aí entramos de novo no problema dos universais. os racionalistas. Será que o número “um” tem um espírito? Será que o número dois tem um cheiro e uma cor. relaxa. Volte para a literatura. vai ter respostas diferentes – disse Sônia – não é a mesma coisa com a filosofia? Há os empiristas.Wanju Duli Eu não entendia lógica a fundo.. E depois conversamos. – O que você quer saber? – Sempre tive curiosidade de saber se a matemática é inventada – observei – e se os números são reais ou imaginários. sua tolinha – disse Sônia – é claro que não li esses livros. Odeio ler. mas essa já é uma coisa que faço sem parar! – Eu estava brincando. Eu não fico filosofando se os números são reais ou imaginários. E lá existem as entidades chamadas círculos e quadrados perfeitos.

que se voltavam para a religião. – Você acabou de responder sua própria pergunta – ela disse – para Castália os números não são nem somente nomes e nem uma existência real objetiva. Resolvi deixá-la em paz. mas conceitos que derivam das coisas. ela suspirou. Eis uma das bases do Jogo de Avelórios. O que pensa sobre a matemática do caos? – Até na desordem existe um pouco de ordem. que por sua vez. Afinal. O sentido da vida. Mas Castália e o Jogo eram conceitualistas. – Você gosta das coisas ordenadas. para onde vão? – perguntei – eles têm pernas mais fortes? São bons corredores? – Eles pelo menos sabem onde querem chegar – disse Sônia – não ficam apenas passeando sem rumo por aí. Mas como ele poderia conter espírito sem ter uma teologia? Se ele buscava tocar o cosmo. vá conversar com Gio! – exclamou Sônia. impaciente – eu não vejo essa conversa indo para lugar nenhum. – E os números. eles existem em algum espaço e tempo. Por que será que Dantas se interessava tanto pelo estudo da vida? Será que a resposta estava lá? E por que eu precisava de uma resposta? Eu queria acreditar que o Jogo continha um segredo. etc. a música era uma das melhores formas de meter a matemática numa baita complicação. Tentei espiar qual era. A desordem te incomoda. Mas aquilo não estava exatamente na biologia? Que se baseava na química. Ela estava lá lendo um livro de biologia. Quando comentei isso com Sônia. então eles existem mais ou menos como os sonhos? – Maria. – Dani. o que você pensa sobre o método científico? 93 . Lembrei do que Navarro falou sobre o valor dos sistemas complexos e das soluções elegantes. etc. mas não consegui. topei com a Dani. A religião era idealista.A Era do Folhetim a visão materialista do mundo desencantava as pessoas. então ele solucionava o problema dos universais? Quando fui até a biblioteca procurar um livro de Abelardo. mas espírito. – Então é tudo inventado – concluí – mas se existem na mente. E o Jogo não continha só lógica ou beleza. A beleza estava acima da simplicidade lógica dos números.

Wanju Duli Sentei-me na frente dela e. poderia vir de aliens vivos. Miguel é queimado pelas fogueiras da Inquisição. Mas talvez tudo aquilo fosse uma grande enganação. Eu acordei suando. era um embate entre o conceitualismo e o realismo. 94 . Era um livro sobre exobiologia. Foi um sonho assustadoramente real. Ela foi bem sucedida em seu intento. que separava mente e corpo. tomada de coragem. os bichinhos das escolas de elite. Até porque o próprio Descartes. era fortemente dualista. completamente inexpressiva. empirismo e racionalismo. Por fim. Dormi em cima do livro e tive um sonho sombrio. desesperado pela morte de Giovana. Ela apenas me observava em silêncio. corpo e espírito. Era produto da minha mente ou realmente existia? Eu estava exausta. fundador do método científico. – Eu sabia que ela gostava de aliens! Barata comentou um dia que Dani parecia ter poderes psíquicos. – Quem te contou que eu já tentei cometer suicídio? – ela me perguntou. começamos a ver teorias da conspiração em tudo. Deixei a filosofia e a biologia de lado e fui ler Erich von Däniken. Como nós. Somente era real o que os sentidos físicos e aparelhos pudessem captar. Mas depois o método deixou a razão como base para se fundamentar na experiência. Mas será que se encaixava mesmo? Nesse caso. Se esse poder não vinha de espíritos de mortos. Quando se estuda demais. Pois se ela gostava tanto assim da vida. Parece que tudo se encaixa. já que ela ficou quieta. Por fim. fiz essa pergunta. Escolhi a própria Gio para ser minha ouvinte. culpa Castália e cria uma sociedade secreta de resistência. O método científico estava um pouco fora de moda no século XXIII. Resolvi compartilhá-lo com alguém para me livrar dele. só poderia gostar de tipos exóticos de existência. ela me entregou o livro que estava lendo e saiu da biblioteca. Castália produzia um tipo bastante exótico de ser humano. E eu comecei a tagarelar todas essas coisas para Dani. devido aos pensamentos de Bacon. Ele se baseava muito numa visão dualista do mundo. Sonhei que Giovana pulava do alto de um prédio numa tentativa de suicídio. Muitos achavam que era só questão de tempo até ser derrubado. Miguel.

Fiquei obcecada. Não estava mentalmente preparada para ir tão longe. Mais dois anos se passaram. Gio. Gio não foi para Cela Silvestre.A Era do Folhetim – Eu não sabia sobre isso. esse assunto entrou em pauta? – perguntei. De certa forma. Para meu espanto. aquilo me incomodava. Eles receberam permissão para estudar formalmente em Castália. E você não entenderia. Mas foi assim para mim porque eu era só uma criança. – Por quê? Você sempre viveu em Castália. mas Miguel pensa em fundar uma sociedade secreta. Ele só está esperando entrar para Castália. O Jogo das Contas de Vidro gera um êxtase difícil de explicar. 95 . Como havia nos dito. E não fique assustada se eu te disser. Você vai descobrindo cada vez mais coisas. Aqueles dois tinham muitos segredos. Tinha 12 anos quando fiz isso. – Hoje em dia. – Só que eu não pulei do alto de um prédio – ela explicou – eu só me enchi de remédios. penso que eu teria maturidade suficiente para me envolver com o Jogo sem me deixar levar por esse tipo de emoção. Mas já não sei se isso tem significado na minha vida. Arthur e outros estudantes das escolas de elite já estavam com vinte anos. – É verdade. – Eu queria penetrar cada vez mais fundo – ela explicou – descobrir todas as coisas. É como uma droga. Parece que está chegando num tipo de Iluminação. Mas eu fiz isso por causa do Jogo. Ela iria se formar nas escolas de filosofia. – É claro. Miguel também não foi estudar na escola dos jogadores de Avelórios. – É por isso que você não quer mais se envolver com o Jogo de Avelórios – observei – porque tem medo que isso te aconteça outra vez. Sua vida não era vazia. Foi para o instituto de música. – Que tipo de sociedade secreta? – Isso eu não posso te contar. – Naquele dia no Ano Novo em que você e Navarro discutiram. como se ele fosse amaldiçoado e estivesse sob uma má estrela. mas nunca chega. Era inacreditável! Era exatamente como diziam: no último instante. Miguel. porque tem a ver com as dinâmicas do Jogo. todos desistiam do Jogo. Eu não gostei de ouvir aquilo.

Pelo menos eu poderia ser colega de Mariel para estudar literatura. aos meus olhos. dentre todas as Grandes Escolas de Elite de Castália. Até mesmo o destino do maior Magister Ludi já existente havia sido trágico. No ano seguinte. – Você nunca vai me perdoar? 96 . Seria divertido. Mas não me tornei uma amiga tão próxima dela. meu coração se acalmou quando eu soube da extraordinária notícia: Arthur foi para Cela Silvestre. isso ele já era. A meu ver. E agora? Estava chegando cada vez mais perto da minha vez. Agora haveria mais um motivo para eu ir até Cela Silvestre: estudar junto com Barata.Wanju Duli Devia haver algo muito assustador naquela escola para que isso estivesse acontecendo. Não recebia notícias dos meus velhos amigos. Havia apenas uns novatos nas escolas de elite. que também estava estudando literatura. Carneiro para a filosofia. até porque a nossa diferença de idade era maior do que a minha e a de Mariel. Rodrigo foi para a escola de gramática. Cela Silvestre era a escola com o menor número de estudantes. Contudo. Mais um ano depois. exatamente por conta do tal Jogo. Se bem que. Tudo aquilo estava me dando nos nervos. Já havia dois conhecidos meus lá. Então poderia dedicar o resto da sua vida ao Jogo. eu estava completamente no escuro. Deixou para trás sua ambição de tornar-se um dos maiores pintores ou escultores. Porém. Mariel foi para a escola de literatura e Agatha para a de história. – Vem comigo. Então estava feito. Ou transformar os Jogos numa de suas grandes obras. Dani foi para Castália. optou pela escola de biologia. Ele ainda poderia fazer suas obras de arte no tempo livre. foi o destino de Boaventura que me fez tomar a minha decisão: ele foi para Cela Silvestre. Até me tornei a tutora de uma garota chamada Ângela. – Eu iria – ela respondeu – se você tivesse me esperado lá atrás. com os quais eu não conversava. Será que ninguém mais iria para Cela Silvestre além de Arthur? Até então. E ela também não foi para Waldzell! Em vez disso. Sônia? – perguntei a ela.

Estava cercada por natureza. A vestimenta de Cela Silvestre era branca. por mim mesma. Uma cidade só deles. Nova Castália não estava localizada no Piauí. E eu decidi que não tenho interesse no Jogo das Contas de Vidro. Não era na capital. cada escola tinha vestimentas de cores diferentes. Mas aquela cidade não constava nos mapas oficiais. Era quase numa cidade à parte. adotar uma menina e ter uma vida normal. mas posso ter minha individualidade. chamada Nova Castália. Eu não preciso ser individualista. – Porque eu quero casar com alguma moça. Mas eu resisti. fazer qualquer outra coisa”. E eu não sabia se aquela minha resistência havia sido uma fraqueza ou uma força. Compreende? Eu não sabia que seria tão doloroso ouvir essas palavras. E eu obviamente ainda não era permitida na célebre sala destinada aos jogos solenes. eu retornarei para o século. Mas havia uma biblioteca especial restrita especificamente na nossa 97 . Ou vamos trabalhar. Mais bonitas e mais formais. Eu não me sentia mais numa prisão. mas no Espírito Santo. Quase quis desistir de tudo e voltar com ela. Eu finalmente teria acesso às maravilhosas bibliotecas de Castália. E não direcionar toda a minha vida tendo em vista meu amor por outra pessoa. para não ser identificado.A Era do Folhetim – Já perdoei. mas só agora entendi qual é o meu caminho: longe de você. – Por quê? – perguntei. Eu não precisaria mais vestir os uniformes azuis das escolas de elite. mas ele não iria utilizar essas vestes fora das cerimônias. Continuei até hoje perto de você. A identidade do mestre máximo de Castália era secreta. Era um tesouro deslumbrante no meio do nada. E eu fui aceita em Cela Silvestre. desapontada. Irei para a matemática. Vamos para uma faculdade normal. Mas você me ensinou uma lição preciosa. Em Castália. Eu devo fazer o que desejo. Mas depois de me formar em Castália. Desnecessário dizer que era muito maior do que o nosso velho prédio cercado por muros. representando o espírito. Eu ouvi dizer que o Magister Ludi se vestia de branco e ouro. Sofri um pouco. Sônia foi para a escola de matemática. “Vamos esquecer Castália e o Jogo.

eu estaria formada no Jogo das Contas de Vidro. Eu estava muito ansiosa para conhecer os nossos professores. E o que eu faria depois disso também dependeria da escolha dos meus dois amigos. Não iria segui-los cegamente. Eu não teria como saber. tínhamos um pouco mais de liberdade. por estarmos mais velhos e mais maduros. Eu iria me mirar neles para decidir o meu caminho. Depois disso.Wanju Duli escola. Barata e Boaventura prepararam uma festa de boas-vindas para mim. Fui recebida por Barata e Boaventura com alegria. Na noite da minha chegada. Foram essas as minhas impressões ao chegar na majestosa cidade de cor ocre. Essa era a reputação de Cela Silvestre. As regras de lá eram um pouco parecidas com as das escolas de elite preparatórias. Boaventura seria meu tutor. Quando eu me preparava para dormir no meu dormitório simples que eu dividia com outra moça mais velha que eu. A diferença é que. destinada somente aos Arquivos dos Jogos. mas somente se eu sentisse ser o certo. Era um convite formal para uma sociedade secreta de Castália. Será que eu deveria mesmo dar importância aos sonhos? 98 . Eu estava com 21 anos. A elite restrita entre as elites. vi um envelope amarelo por baixo da porta. Eu o abri. As tais regras que não precisavam ser ditas. Minha nova missão seria estudar em Cela Silvestre por quatro anos. Qualquer um deles poderia ser o Magister Ludi em pessoa. Pelo menos não no meu primeiro ano lá. Essa biblioteca ficava trancada e eu não tinha a chave.

Estava em Cela Silvestre. uma santa e divina linguagem". E lá estava na minha mão um envelope que poderia me fazer ser expulsa e colocar tudo a perder. Afinal qualquer problema de matemática bem resolvido podia ser uma fonte de prazer espiritual. uma combinação engenhosa. e devo a eles muitos momentos de sublime elevação. pois 99 . podia elevar a alma.A Era do Folhetim Capítulo 2: A Iniciação "É verdade que já naquele tempo eu assistira a muitos jogos bem estruturados e bem dirigidos. por Hermann Hesse O Jogo dos jogos. Era assim que todos lá se sentiam. e nesse caso seria preferível não jogá-lo mas ocupar-se com a matemática pura e a boa música. qualquer espécie de boa música. mas até então eu me inclinara a duvidar sempre da elevação e do valor do Jogo em si mesmo. não passava de uma arte formal. Isso era uma prova de que o Jogo de Avelórios. O Jogo das Contas de Vidro. e toda meditação feita com devoção podia acalmar o coração e fazê-lo vibrar em concordância com o universo. onde ficavam os Mestres eminentes. uma prática inteligente. Mas agora pela primeira vez eu ouvia a própria voz interior do Jogo. Caminhar entre os semideuses. ampliando-a ao infinito. e de ideias felizes. por extensão. Eu havia iniciado meu último ciclo de estudos. Em Castália ocorriam expulsões reais para quem quebrava as regras. A nata de uma aristocracia dotada de um espírito exclusivo. E. Castália e as Grandes Escolas de Elite não eram como as escolas de elite preparatórias nas quais eu estudei pelos últimos oito anos. de acordo com minhas dúvidas. Lá também se localizava o controle da Direção Suprema do Jogo. que levavam uma vida de abstinência enquanto os Jogos aconteciam. seu sentido me havia atingido e compenetrado. era assim que eu me sentia. ao ser ouvida e mais ainda ao ser tocada. Eu era uma castaliana e não queria deixar de sê-lo. e desse momento em diante eu fiquei crendo firmemente que esse jogo régio é uma 'língua sacra'. onde ficava a colônia dos jogadores de contas de vidro: Vicus Lusorum.

Era uma clara alusão à Sombra. era “Amor Fati”. ficava impossibilitada de ter a chance de se tornar Mestre dos Jogos no futuro. Magister Umbra Mais do que suspeito. Ser expulso não parecia o fim do mundo. Nossa intenção é realizar uma versão não oficial do Jogo das Contas de Vidro. os professores não ficavam mais no seu pé apontando tudo de errado que você fazia. mas ser excomungado soava como uma verdadeira ameaça! Por outro lado. Cordialmente. senhorita Santa Seja bem-vinda a Nova Castália. Por favor. Dessa forma. Também identifiquei a origem do codinome do mestre do grupo. É de nosso conhecimento que a senhorita optou por realizar seu último ciclo de estudos em Cela Silvestre. uma vez escolhida. que era uma pessoa escolhida como auxiliar do Magister Ludi. que significava “amor ao destino”. Achamos que a forma com que o Jogo é celebrado oficialmente possui certas limitações devido às cláusulas de segurança. Era possível formar clubes nas escolas preparatórias. não demore a nos procurar. Algumas regras serão alteradas. mas que. Eu reli a mensagem do envelope para me certificar: Saudações.Wanju Duli nenhum de nós era mais um adolescente. que constava no envelope. O nome da sociedade. As expulsões de Castália até tinham um nome diferente para mostrar o quão sérios eles eram: excomunhão. Agora éramos adultos. 100 . achamos que terá alto valor como membro de nosso círculo. mas essas intrigas secretas entre os estudantes de Castália eram vistas pelos professores como suspeitas. Sociedades secretas não eram permitidas em Castália.

Simplesmente não haveria tempo! O Jogo era difícil. 101 . Foram oito longos anos de estudo. Em compensação. Nas primeiras semanas senti como se jamais tivesse tempo para ler um livro outra vez. pelo menos por um tempo. E iria desejar que o mundo inteiro me escutasse. eu teria que cozinhar mais. Foi então que eu entendi porque aquela decisão de ir para Cela Silvestre era tão importante. O lado bom da comida é que continha mais variedade que a antiga. era nós que devíamos cuidar das flores. Não foi nada fácil. Pensei em comentar sobre a carta com Barata e Boaventura. Como aquele era um lugar maior. porque precisaria comparecer a aulas. Eu tinha vontade de gritar: “Estou em Castália. Pensando bem. Pelo menos a vista da natureza compensava tudo e me deixava em paz. O lado ruim era que estávamos no meio do nada e não havia mais jeito de fugir para comprar uma bala ou um hambúrguer. eu estava mais interessada na identidade do Magister Ludi. dar um salto e elevar os braços. Eu diria que era interessantíssimo. mas resolvi não dizer nada. O problema das roupas brancas é que era mais difícil de lavar. Sem contar que eu tinha menos tempo livre ainda. porra!”. – É mais divertido você descobrir sozinha – disse Barata – não acha? Talvez.A Era do Folhetim Interessante que não havia nenhuma informação sobre como localizar a tal sociedade. Mas naquele ponto. Havia até singelos jardins para se dar um passeio. as minhas roupas eram minha menor preocupação. Eu já estava tão acostumada com os afazeres domésticos das escolas de elite preparatórias que ainda tinha dificuldade para me acostumar à nova rotina intensa. Esse era o tipo de alegria que eu sentia. Em vez disso. Era uma ilusão acreditar que eu poderia me dedicar ao mesmo tempo ao Jogo de Avelórios e à literatura. Cada vez mais as minhas responsabilidades aumentavam. a palavra “difícil” nem de longe expressa a realidade. cuidar da jardinagem e vários novos serviços que me tomavam um tempo precioso. Eu tinha minhas desconfianças. limpar mais cômodos.

Virei a madrugada estudando os livros. No meu primeiro dia de aula fui inocentemente assistir às palestras programadas. As explicações do quadro foram incompreensíveis. Havia centenas ou milhares de livros apenas sobre os hieróglifos. Em primeiro lugar. do tipo: “Lições básicas sobre hieróglifos para jumentos”. Absolutamente nada! Meu primeiro mês em Castália foi uma corrida contra o tempo. enquanto as anotasse. iria prestar atenção nos professores para tentar descobrir se um deles tinha um ar de Magister. Não entendi uma palavra do que foi dito. Minhas expectativas foram totalmente frustradas. No final da primeira semana de aula. Achei que minha primeira semana em Cela Silvestre seria repleta de descobertas: aprenderia as regras do jogo e. Lá também não havia café. E eu não sabia nada a respeito dela. para ver se eu conseguiria captar pelo menos uma frase ou duas. Ao contrário das escolas preparatórias. no fundo eu não sabia praticamente nada sobre o Jogo. então eu dormi em algumas aulas do segundo dia.Wanju Duli Eu me sentia uma completa imbecil. Levei os livros comigo para assistir às aulas. essa biblioteca era tão grande que eu ficava perdida lá dentro. Um mais impossível de ler que o outro. eu me sentia mais desesperada do que um estudante de engenharia que pensava que era bom em matemática e de repente descobre que não sabe porra nenhuma e precisa começar a estudar tudo desde o princípio para fortalecer seus fundamentos. Eu não fazia a menor ideia de que teria que passar por uma provação tão forte. Passei umas duas horas lá apenas procurando livros. tamanho o meu desespero. Retirei apenas os livros para iniciantes. Só que eu nem consegui prestar atenção nos professores. 102 . Mesmo tendo lido tanto a respeito. corri para a biblioteca. achando que eu receberia revelações fantásticas. mas no final do dia eu estava prestes a cair no choro: não me aguentava em pé e também me sentia a pessoa mais burra da face da Terra. Eu estava ansiosa e animada. Meu único pensamento durante as aulas foi: “Preciso retirar uns dez livros na biblioteca para estudar os hieróglifos do Jogo!” No final do primeiro dia. o Jogo era ensinado em outra língua.

Eu tentaria aguentar por mais uma semana. Minha meta era encontrar uma Pedra de Roseta. É claro que o estudo do Jogo não era fácil. Eu estava até sonhando com os hieróglifos. Devia ter alguma forma de aprender aquela linguagem complexa. lendo diversos trechos. pesquisando livros. Meu cérebro não era capaz de encaixar os pedaços.. aceitei o desafio. Eu não saía mais das bibliotecas. Não era essa a lógica? Ao lembrar disso. visitar o Diretório e dizer: “Por favor. não soubesse falar nem “Bom dia” no novo idioma e já tivesse que escrever uma tese sobre um tema complexo. A missão deles era se virar para acompanhar as aulas. eu provavelmente não teria enfrentado um período tão longo de adaptação. me mandem para as escolas de literatura! Eu mudei de ideia. Queria sair correndo de lá.A Era do Folhetim Eu realmente acreditei que eu já sabia algo sobre o Jogo de Avelórios! Eu já tinha lido livros sobre a história do Jogo. 103 . Eu teria que atravessar todo esse fogo se quisesse chegar no sublime paraíso espiritual que o Jogo proporcionava. Devo ter folheado mais de duzentos deles. Se a dor não fosse tão intensa. Dormi somente o suficiente para me manter relativamente acordada.. Era como se eu estivesse em outro país. Eu estava passando por isso. a recompensa não seria alta. gramática do Jogo. Os estudantes novos podiam chegar em qualquer época do ano. Mas nenhum deles parecia ser compreensível! Eu me sentia na Era do Folhetim: captava somente fragmentos e nunca o todo. então por que raios aquilo tudo parecia grego para mim? Não havia um início de ano letivo em Castália. E estava me consumindo com suas chamas demoníacas. filosofia do Jogo. Senti vontade de desistir de tudo. me salvem desse inferno!!” Lembrei da frase de Rimbaud: “Acredito-me no inferno. Nessa segunda semana eu não fiz outra coisa a não ser estudar em todo o meu tempo livre. Eu precisava desvendar aquele arcano. se eu tivesse ido para as escolas de literatura. que normalmente já pegavam do meio. logo estou nele”. Porém.

Nas escolas preparatórias havia avaliações trimestrais. eu não sabia a quem mais recorrer. Nem mesmo em meu primeiro mês nas escolas preparatórias. como se alguém tivesse morrido. Eu estava desesperada. eu estava perdida. Fui até o dormitório deles às nove e meia da noite. em Castália todo mês deveríamos fazer exames. E mais vergonha ainda caso ela descobrisse que eu não conhecia nem mesmo as regras de gramática geral necesárias para iniciar meu aprendizado dessa linguagem. Barata me deu um copo d‟água e arrastou uma cadeira até onde eu estava. Se ao menos eu tivesse seguido o conselho de Rodrigo! Ele me sugeriu estudar a gramática especial. ainda entre soluços. para que eu me sentasse. Nem mesmo a gramática geral eu sabia tão bem assim. As luzes se apagavam às dez.Wanju Duli Ao mesmo tempo em que me sentia sem energias. Sentei-me e tomei a água. No último dia da segunda semana. Mas apenas me matar de estudar não adiantaria. Eu teria vergonha de confessar que não sabia nada sobre a linguagem do Jogo. Eu sentia que me faltava a base para entender como os hieróglifos funcionavam. com urgência. Eu não me sentia digna daqueles trajes. Eu sabia que estava atrapalhando ao visitá-los num horário tão inconveniente. Eu nunca tinha estudado tanto na vida. Eles já deviam estar se preparando para dormir. Não tinha mais graça desfilar por aí com meu trajes brancos. No entanto. provando que eu era uma orgulhosa aluna de Cela Silvestre. caí no choro outra vez. Fui até o dormitório dos rapazes. mas eu fui teimosa. 104 . Queria abrir um buraco no chão e sumir. Barata e Boaventura se assustaram ao me ver me acabando de chorar. Se eu não aprendesse o básico sobre o Jogo nas duas semanas seguintes. um êxtase ia surgindo dentro de mim. Caí no choro. eu não tinha coragem de conversar com a professora responsável pelo meu estudo. Deveria desvendar algum método. me ajudem! – supliquei. Orgulhosa pelo meu esforço. – O que aconteceu? – perguntou Barata. – Eu não consigo entender nada! Vou tirar zero nas provas! Ao dizer isso. Eu precisa aprender como estudar. – Por favor. Para completar.

Pelo menos em Castália não havia aquelas regras sobre penteados. Não consegui deixar de sorrir também. Eu me acalmei na mesma hora. – Em duas semanas? – perguntei – impossível! – Em uma semana – disse Barata. Descrevi qual era meu grau de conhecimento atual sobre tudo o que dizia respeito ao Jogo. Vai dar tudo certo. Sentado ao meu lado. – A primeira coisa que você precisa fazer é ficar calma – disse Barata. tornando-se ligeiramente cacheados conforme cresciam. abanando a mão. 105 . como se lhe requisitasse que não piorasse ainda mais a situação. me disfarçar de Maria e ir fazer as provas no seu lugar. – Prometo que vou resolver esse problema – ele disse – você não se sairá mal nas suas primeiras provas. voltando meus olhos para o chão. agora é um pouco tarde para dizer isso – eu falei. Nem que eu precise colocar suas roupas. mais sentia pena de mim mesma e mais forte eu chorava. Barata segurou a minha mão gentilmente entre as suas.A Era do Folhetim Expliquei-lhes detalhadamente a situação. contrariada. Barata fez um gesto para Boaventura. Quando terminei. – Bem. – Mas deixemos essa alternativa como último recurso – sugeriu Barata – primeiro vou tentar te ajudar no seu estudo. Finalmente Barata estava deixando seu cabelo crescer. – Tem certeza que você conseguiria imitar meu black power? – perguntei. Boaventura disse: – Você devia ter vindo nos pedir ajuda desde o primeiro dia. Já estavam um pouco abaixo dos ombros. Contei todos os sacrifícios que eu tinha feito nas últimas duas semanas. Tudo em vão. naturalmente – porque você vai precisar usar a outra para revisar matemática e música. – Se fosse assim tão fácil! – exclamei. E quanto mais eu falava. Não pude deixar de rir. passando a mão no próprio cabelo – eu daria um jeito. Está bem? Ele me deu um sorriso bondoso. – Meu cabelo já está um pouco mais longo – disse Barata. A primeira coisa que você precisa é aprender latim.

Como resolvi rápido. – Barata. Na próxima folha. Sua base é forte e isso é o mais importante. – informou Boaventura. – Não sabe? – ele tentou disfarçar a própria surpresa – era clave de dó. falando em lógica. Ficamos nisso por uns quinze minutos. Tente dizer qualquer coisa que lhe vem à mente. E eu disse. – O seu conhecimento de matemática é bom – ele informou – você não vai precisar revisar. 106 . já são dez horas. mais fácil fica aprender os seguintes – ele explicou – porque você começa a entender a lógica da coisa.. ele foi aumentando gradativamente o nível de dificuldade. Pelo menos não os jogos para principiantes. Eu já ri antes de começar. – Não foi tão difícil assim. – Mais ou menos – respondi.. – Não adianta – eu disse – nem sei dizer qual é esta clave. – Você não precisa saber cálculo para jogar o Jogo de Avelórios. foi? – ele perguntou.Wanju Duli Cobri o rosto com as mãos e gemi. traçou algumas pautas e posicionou as notas musicais. E. – Me dê mais cinco minutos – disse Barata. Nesse caso. ele desenhou uma clave.. Não sabia mais resolver as próximas questões. – Quanto mais idiomas você aprende. Ele abriu uma gaveta. use essa primeira semana apenas para estudar latim e teoria musical. – Vamos fazer o seguinte – disse Barata – vou medir o seu nível e preparar um plano de estudos para que você cumpra ao longo dessa semana. Na segunda semana vou te passar alguns problemas do Jogo para que resolva. Barata pareceu satisfeito. concordei. pegou um pedaço de papel e lápis. – Não adianta – eu disse – não sei absolutamente nada. Escreveu algumas frases em latim e pediu para que eu traduzisse. então não se preocupe.. Ele me deu alguns problemas fáceis de matemática para resolver. – O seu problema não é não saber nada – disse Barata – é que você desiste antes mesmo de tentar. – Você não pode estar falando sério – eu disse. Até que eu cheguei no meu limite. Tem algumas palavras semelhantes ao português. Pode ser? Sem escolha. Esqueça a matemática.

Persista. eu tenho certeza. Não está adiantando nada! – Isso é o que você pensa. – Retire esses na biblioteca – ele disse – estude-os a fundo amanhã. mesmo que leve tempo. Se eu tivesse tempo. – Não é um incômodo. Se eles dessem aulas muito fáceis. eu também estou maluco estudando para meus próprios exames. iria estudar junto com você e te ensinar tudo o que precisa saber para essa primeira prova. com alegria. Retirei os livros na biblioteca e estudei-os em todos os intervalos das aulas. Mas eu confiei no que Barata disse. A segurança que Barata me passou me deixou tranquila. Fiz o que ele disse. Um dia. devo faltar? – Não falte – recomendou Barata – o tempo que você tem será mais do que suficiente. Eu sinceramente não entendia a relação entre o latim e a música com aquele monte de hieróglifos incompreensíveis que os professores explicavam nas aulas. À noite. Também tinha sido assim naquele dia que fizemos sexo. Infelizmente. Meus professores sabiam demais. Barata me encontrou e mostrei a ele os resultados. – Tem certeza que sabendo isso eu vou me sair bem? – Sim. e assim saberemos como prosseguir para a próxima etapa. – Desculpa te incomodar. Finalmente tive uma noite de sono tranquila. Eu te encontro na biblioteca às oito da noite para avaliar o seu progresso. Ele iria colar os picotes de folhetim e tornar a compreensão do texto possível. Você nunca sai igual de uma aula. estávamos falando das Grandes Escolas de Elite e não de aulas quaisquer. mesmo que pense que não adiantou nada. Aquele cara não existia. – Se eu faltar algumas aulas terei mais tempo disponível para estudar – eu disse – então. Confie em si mesma. Além do mais. – Muito obrigada! – eu disse. o máximo que puder.A Era do Folhetim Ele escreveu num pedaço de papel os títulos de alguns livros. eu acreditava. – Mas eu não entendo nada nas aulas. Então os mais 107 . isso iria prejudicar os estudantes mais adiantados. Se ele dizia. – Imagina. você vai começar a entender.

pois isso exigiria dedicação. Porém. Isso era feito provavelmente para que o exclusivismo fosse mantido e o ganha-pão estivesse garantido. Pagar por um curso do Jogo tornou-se símbolo de status e poder. Ou melhor. Alguns diziam que essa escola estava corrompida. A maioria que pagava por cursos como esses eram os ricos que obviamente não tinham tempo livre para entender o Jogo a fundo. porque seu conhecimento tornou-se uma mercadoria requintada para a burguesia. Os únicos alunos ouvintes que deviam entendê-lo eram os aposentados ricos ou os filhos dos ricos que tinham muito tempo disponível. Somente Castália tinha autorização para ensinar o Jogo. Cela Silvestre era uma escola diferente de todas as outras. Os outros provavelmente tinham receio de fazer uma pergunta tola demais. deviam procurar os tutores para resolver as dúvidas e alcançar os outros. Raramente os alunos ouvintes faziam perguntas. Mas se o Jogo era tão sagrado assim. por que exigir um preço por ele? Cela Silvestre era a escola que mais era cercada de boatos sombrios e mistérios. Isso não significava que me formar em Cela Silvestre me garantiria um emprego caso eu desejasse voltar para minha velha vida. Eu já tinha reparado isso nas minhas aulas.Wanju Duli atrasados. cursos e Jogos oficiais de Contas de Vidro. como eu. mas quando faziam geralmente eram os idosos ou os adolescentes. ensinar exigindo um preço por ele. A lógica das escolas de elite era ter um professor exclusivo para te orientar e te passar tarefas do seu nível. Eu estava inclusa nesse grupo e por isso sempre ficava de boca fechada nas 108 . livrandoos da concorrência. As aulas dadas em Cela Silvestre eram as que recebiam o maior número de alunos ouvintes. No entanto. pois qualquer um poderia dar dicas sobre isso de maneira informal. Por isso as aulas expositivas não eram o padrão. Digamos que Castália era praticamente sustentada pelas conferências. pois nós alunos usávamos trajes brancos enquanto os alunos ouvintes vestiam roupas comuns. Era fácil distinguir quem era estudante oficial de Cela Silvestre e aluno ouvinte. Os professores especialistas no Jogo eram como estrelas. Eram aulas caríssimas para os alunos de fora e precisavam ser de alto nível. eles diziam que era devido ao caráter sagrado do Jogo.

Pareciam realmente não desejar que ninguém mais entendesse as regras do Jogo a fundo além deles. as regras dessa versão só poderiam ser desenvolvidas por alguém que estudou o Jogo a fundo. Porém. acho que isso era inevitável. Na verdade. Não que eu fosse contra a existência de uma versão simplificada do Jogo para leigos. 109 . Era triste que o ensino de Cela Silvestre estivesse seguindo o estilo da Era do Folhetim. eles agiam como Carlos: posicionavam bolinhas de gude no chão em círculos concêntricos. tratando de temas dificílimos. recitavam uns poemas enquanto trocavam as bolinhas de lugar. o tesouro de Castália. De qualquer forma. contando que assistiram a uma aula maravilhosa. certo? Mas ali a coisa se invertia: Cela Silvestre mudava seu estilo de ensino propositalmente para agradar as visitas. faça como os romanos. E a maneira ideal de protegê-lo era enchê-lo de hieróglifos gradativamente mais complexos. E o que agradava as visitas? Preparar aulas em linguagem hermética. E na hora de explicar o funcionamento do Jogo para os outros.A Era do Folhetim aulas. As pessoas enxergavam o Jogo dessa forma porque viviam na Idade Folhetinesca e isso era tudo o que essa época lhes permitia enxergar. inflados pelo seu conhecimento e pelo seu falar difícil. Os professores de Cela Silvestre pareciam cheios de si. Mas tendo tantos alunos ouvintes. Em Roma. e deixavam todos impressionados. Aquela era uma visão extremamente superficial e incompleta do funcionamento do Jogo. seria legal se essa versão existisse. Queríamos que nosso brinquedo fosse só nosso. fingindo que entenderam tudo. A aparência era mais importante do que a essência e a didática era sacrificada. Éramos a elite da elite. eu não acreditava que seria do interesse de algum dos senhores de Castália que tal versão fosse criada. Então os alunos ouvintes voltavam para suas casas orgulhosos. fazendo gestos complicados. e aquelas aulas não eram mais do que um teatro para a maioria dos que os ouviam. Eu saía da maioria delas sem nem mesmo saber qual havia sido o assunto tratado. para que cada vez mais o entendimento do Jogo se tornasse privilégio de uma casta sacerdotal restrita de iniciados.

110 . Ela abarcou um maior número de problemas. era minha professora quem devia estar me dando aquela ajuda. Não foi assim com você? Exato. como se dissesse “Até parece que ele tem tempo de respirar agora que deixou este mundo para ser uma existência exclusiva do universo da música”. Barata deu um risinho. Mas eu sabia que meu caminho era outro. Muitos inclusive ficaram aborrecidos com essa mudança. – Cacete – eu disse. Desde essa reforma. Teria sido muito mais fácil ir para as escolas de literatura.Wanju Duli Eu estava muito curiosa para saber se a notação musical desenvolvida por Navarro havia sido criada com o objetivo de facilitar ou complicar. eu comecei a notar que o plano de estudo que Barata me passou estava funcionando. independente do que seja. a nova notação realmente deixou o entendimento do Jogo mais difícil. Em compensação. pois teriam que começar a estudar a nova notação a partir do zero. – É uma pergunta difícil de responder – disse Barata – o objetivo da nova notação foi resolver algumas problemáticas que não eram possíveis de solucionar com a notação anterior. Toda noite a gente se encontrava na biblioteca e ele fazia ligeiras alterações nos meus estudos para o dia seguinte. Já consta a nova notação. perdemos alguns jogadores assíduos. Por que ele escolheu o caminho mais difícil? – Porque as pessoas não escolhem um caminho por ser mais fácil ou mais difícil – disse Barata – elas fazem o que acham que deve ser feito. Barata apontou uma seção do livro que segurava: – Essa é a nova edição. impressionada – preciso ter aulas com ele. Ele também me mostrou que constava o nome “Miguel Navarro” entre os colaboradores do livro. Perguntei isso a Barata. – Ele devia ter vindo para nossa escola – prossegui – ele já sabe tudo! Passaria em todas as disciplinas sem dificuldade. Uma semana depois. mas ele estava me quebrando esse galho porque eu era covarde e não tinha coragem de admitir para minha professora que havia entrado para Cela Silvestre completamente despreparada. Teoricamente. mas os especialistas acham que esse preço a pagar foi pequeno: que a nova notação é de fato mais eficaz.

A Era do Folhetim Um estudante do Jogo poderia ter qualquer tipo de background e seria inviável construir um plano de estudos padrão que funcionava para todos os casos. E ele saiu. mas daqui a pouco vai te receber. – Ele está ocupado agora. Boaventura abriu a porta para mim. após estudar um pouco sozinha fui visitá-lo no dormitório dele às nove da noite. 111 . Mesmo assim. mas profundamente sobre nenhuma delas. Barata não foi me encontrar na biblioteca naquela noite. Eu nunca tinha conversado direito com o Boaventura. Teria sido um processo um pouco doloroso se eu já não estivesse acostumada. Falando nisso. Também aproveitei aquele sábado para lavar minha roupa acumulada. eu ainda não conhecia meus veteranos. Era exatamente isso que o Jogo tentava evitar. o que me dava mais tempo livre para estudar. Eu não me lembrava se nossa combinação de encontros incluía os fins de semana. Era por isso que todos pensavam mil vezes antes de optar por estudar lá. para enriquecer as possibilidades da construção dos Jogos depois. E eram poucos os que aguentavam até o final. Além do mais. porque eu sempre via o Boaventura se matando de estudar uns negócios tenebrosos. porque não usávamos máquinas de lavar. mas menos. era do interesse de Cela Silvestre que cada jogador tivesse estudado uma área diferente na escola preparatória. Reparei que nas minhas aulas havia alguns estrangeiros. Tudo à mão. No fim de semana eu também tinha aulas. Teoricamente. Aí sim eu passaria a prestar atenção nos meus colegas e professores. Eu deixaria para me entreter com isso depois que meu período de sufoco com as provas passasse. Por isso. deu para cansar. A única coisa que eu já sabia era que havia pessoas de todos os tipos: desde os insuportáveis até aqueles que eu pagaria para bater um papo. Eles não queriam um especialista em folhetins. Todas essas questões tornavam o processo de aprendizado do Jogo difícil. Eu nem queria pensar que um dia eu também teria que chegar naquele ponto dos estudos. como reação máxima à Era Folhetinesca. porque ele era um cara de poucas palavras. ele era meu mentor em Cela Silvestre. mas ele andava ocupado demais com os estudos de astronomia. que soubesse o básico de cada uma das áreas requeridas.

pois a gente já tinha transado uma vez. então qual era o problema? Se bem que ele estava de pau duro.. Você não tem medo de ser excomungado? Ou vocês estão namorando? – Será que a gente pode ir direto ao assunto? – Barata me interrompeu – você tem alguma dúvida nos seus estudos ou só quer que eu prepare seu plano de leituras para amanhã? 112 . Era a Dani. então não podia perder tempo esperando por ele sentada numa cadeira. Ela estava mais linda do que nunca. Quando bati pela segunda vez. um minuto depois alguém atendeu. Como ela conseguia ser tão perdidamente incrível? E não era somente sua beleza. – Não sabia que vocês ainda. com aqueles longos cabelos revoltos e embaraçados de quem tinha acabado de sair de uma foda selvagem. Aproveitei a oportunidade para entrar no quarto e falar com meu novo mentor. Quando me aproximei. Fui até o quarto dele e bati na porta. mas sua atitude. Mas não era Barata. ela saiu do quarto e entrou no banheiro. eu me cansei de esperar por Barata. então uma conversa assim poderia gerar distrações para ambos. Barata cobriu-se com o lençol. Porém. Achei que o pessoal só fazia essas coisas nas escolas preparatórias.Wanju Duli Vinte minutos depois. Conhecíamos o corpo um do outro. Eu sempre me sentia nervosa na frente da Dani. o tom de voz dela me indicou que ela não gostou muito de ser incomodada. Não adiantava. – Preciso falar com Barata – eu gaguejei – vai ser bem rápido. se viam. – Desculpa não aparecer hoje – ele disse – a Dani arranjou um tempo para nos vermos e nos encontramos de última hora. Ele deu um sorriso amarelo. Achei o gesto um pouco súbito. Não houve resposta. – O que você quer? O mesmo rosto inexpressivo de sempre. Eu precisa usar todo meu tempo disponível para estudar. Se bem que às vezes essa sua suposta maravilhosa atitude beirava à má educação. Com uma expressão de quem estava de saco cheio.. Ela estava enrolada num lençol.

Então até ele. – Deixa pra lá – ele disse – eu também fui um pouquinho rude com você ontem.. – Obrigada. me sentindo uma completa imbecil. Barata apareceu na biblioteca. ele respondeu: 113 . E não era para menos. Eu tinha uma pequena dúvida de latim. Quando eu disse isso para Barata. Após mais um minuto ele fez algumas anotações no meu caderno indicando quais seriam minhas atividades do dia seguinte. Ele apenas passou os olhos no que eu tinha feito no sábado e devolveu meu material. De qualquer forma. – Eu tinha ouvido falar que os estudos nas escolas de elite respeitavam o ritmo de cada aluno. No domingo à noite. É melhor que passem a tornar o processo de seleção dos estudantes mais rigoroso em vez de massificarem o sistema de ensino outra vez.A Era do Folhetim Era uma das primeiras vezes que eu via Barata levemente aborrecido. Barata era tão gentil comigo e eu estava abusando. tinha seus momentos de estresse com os estudos. Eu me desculpei mil vezes. Principalmente por ser com a Dani. Ando muito ocupado e estressado. eu devia ter pedido desculpas e me mandado de lá. que era tão ridícula que ele me esclareceu em meio minuto. Normalmente ele teria respondido cada uma de minhas perguntas com a maior sinceridade e paciência do mundo. Cacete. Mas acho que até ele tinha seus limites. Saí do quarto de fininho. Quando eu vi Dani abrindo a porta. Ele não devia ter gostado muito de ter sido interrompido no meio do sexo. – De nada. Ele devia estar realmente puto comigo. não existia sistema de ensino perfeito e nunca iria existir. Ele não sorriu. Era óbvio que Castália não era nenhum paraíso de sistema pedagógico. que parecia a pessoa mais relaxada do mundo. – Ultimamente há muitos alunos e poucos professores – explicou Barata – e só aceitam professores em Castália que tenham se formado nas escolas de elite. Ainda continha muitas injustiças e distorções. mas agora vejo que não é bem assim – observei..

Eu não guardei as minhas. pois qualquer coisa que não muda mais apodrece e está fadada à destruição. O que funciona em Cela Silvestre pode não funcionar. Minha intenção não era que você entendesse muito sobre essas duas áreas em uma semana. o que seria uma meta irreal. para que ele possa comentá-los e te dar dicas. a escola de matemática. Entregou-me.Wanju Duli – Não há uma única solução certa que irá funcionar em todas as instituições. Então eles estavam mesmo namorando. – Resolva esses e depois mostre para Boaventura. – Ela deixou bem claro que eu devia escolher entre você ou ela. Ele pegou o livro outra vez. em Planvaste. – Você não disse a ela que era uma ajuda temporária? – perguntei. E eu fiz minha escolha. Ela não está gostando muito dessas nossas combinações diárias regulares. Se ele estiver com preguiça de preparar uma boa prova. – Voltando ao seu plano de estudos. Dei uma folheada. – Como exercícios de matemática ou física? – perguntei. Parecia divertido. Para os jogos formais é mais importante a objetividade. Mas eu sei que o professor Junqueira prefere os jogos psicológicos. Aquilo soou quase como uma profecia. – Por que Boaventura? – Porque infelizmente a partir de amanhã não poderei mais ser seu tutor. Só não podemos nos estagnar com a ilusão de que encontramos a solução ideal. Você já sabe que existem dois tipos de jogos possíveis. É suficiente que você tenha essas noções gerais por enquanto. Castália nunca pode perder sua capacidade de transformar-se. Até sei qual autor ele gosta. deu uma olhada e marcou os exercícios mais importantes. pode ser que até pegue exercícios prontos desse livro. Ele já fez isso uma vez. 114 . Barata levantou-se e retirou um livro de uma prateleira. Nessa segunda semana você irá resolver alguns problemas do Jogo. Eu disse para a Dani que esse seria nosso último encontro. então vou te indicar alguns livros com exercícios. Você também pode conseguir as provas antigas com os veteranos. – As soluções são mais amplas e subjetivas – explicou Barata – a não ser nos casos em que é especificado o contrário. vamos parar por aqui essa sessão de estudo de latim e música. por exemplo.

A Era do Folhetim – Mesmo que ela seja sua namorada agora. Eu o via com olheiras desde a escola preparatória. – É como compor uma música ou um poema – ele explicou – é possível escrever um poema belíssimo com muitos erros de gramática. mas são coisas pequenas – ele disse – em geral. O espírito não se ensina. captar a proposta geral. Se bem que vê-lo com sono não era novidade. você também peca na estrutura frasal e em tantas pequenas minúcias que se fôssemos analisar individualmente uma de suas jogadas para eu apontar todas as correções possíveis. Ele parecia estar com muito sono. Se um cara inteligente como Boaventura estava curioso sobre meu Jogo. No seu caso. Estou muito curioso para saber como serão suas jogadas no futuro. então eu não vou discutir com ela. Então minha resolução do problema não era simples e pragmática. bela? Senti-me orgulhosa. mas acho que consegui. mas elegante. era Boaventura quem me aguardava na biblioteca. fiquei bem satisfeito com o resultado. Parecia sincero. eu aceitava o elogio. quando você dominar o básico necessário. Mas digamos que seja. Quer dizer que você nunca jogou? – Eu já escutei muitas velhas transmissões de rádio de Jogos antigos na internet – expliquei – e antes mesmo de entrar para as escolas de elite eu já tinha lido tudo sobre o Jogo que encontrei por aí. Após analisar minhas resoluções. – Eu gosto do seu raciocínio – elogiou Boaventura – eu diria que sua solução para esse problema não é muito prática. Mas 115 . Aquele foi o maior elogio que ele poderia me dar.. Eu nunca soube exatamente como se jogava. – Há alguns erros. é o de menos. Mas que você tem o que mais importa: o espírito. ela não tem o direito de controlar a sua vida desse jeito – argumentei. No dia seguinte. inconscientemente. Ela dá voltas desnecessárias. mas por outras razões. levaríamos o dia todo. – Técnica se resolve com o tempo.. – Um especialista diria que há incontáveis problemas técnicos. do jeito que Navarro havia me recomendado. – É um bom argumento. – Ela tem peitos maravilhosos. Ele analisou minhas respostas uma por uma. ele iniciou seus comentários.

Wanju Duli
eu não acho que fazermos algo assim seja necessário, pois aprimorando
sua base você mesma vai se corrigir com o tempo.
Ele me deu um alerta. Os professores de Cela Silvestre eram
extremamente conservadores. Muitos deles iriam me criticar duramente.
– Há professores tão obcecados com a primazia da técnica que não
olharão para mais nada. É melhor você se preparar: eles vão te atacar de
forma tão feroz que poderão tentar destruir o seu espírito; talvez até um
pouco por inveja, mas principalmente pelo orgulho que sentem de sua
autoridade e seu estudo. Não permita que façam isso.
Como o mais importante para aquela prova seria a técnica e não
tínhamos muito tempo, ele disse que ao longo daquela semana nos
ateríamos a esse aspecto. Mas que, passado o período das primeiras
provas, ele poderia jogar comigo para fazer meu espírito voar. Se não
estivesse muito ocupado. Eu desconfiava que ele ia acabar amarelando.
Então ao longo dos meus estudos em Cela Silvestre eu seria como
um pássaro engaiolado.
– Você ainda terá que permanecer um longo tempo dentro da gaiola,
mas não deixe que isso te faça esquecer que você tem asas.
Fiquei totalmente sonhadora com aquelas palavras de Boaventura.
Por um momento achei que ficaria desapontada porque perdi Barata
como tutor. No entanto, Boaventura explicava de um jeito tão bacana
que eu já estava aguardando ansiosamente para nossa lição do dia
seguinte.
Nunca imaginei que eu iria me divertir tanto resolvendo aqueles
exercícios. Antes eu achava que fazê-los seria a parte mais chata, mas eu
finalmente começava a entender um pouco a alegria de Sônia ao resolver
problemas de matemática e seu aborrecimento em ler livros. Ler as
análises das jogadas dos outros nunca era tão emocionante quanto ser a
protagonista da história e jogar.
Até o dia das minhas provas, eu estudei com afinco. Cheguei a perder
algumas horas de sono para tentar bolar uma solução original para um
problema do Jogo particularmente complexo. Ou melhor, complexo para
meu nível, já que estudantes mais avançados certamente teriam chegado
a uma solução melhor que eu num tempo muito menor.
Após passadas minhas primeiras provas, eu me sentia mais tranquila.
Finalmente eu começava a adquirir confiança no meu potencial para ser
116

A Era do Folhetim
uma jogadora de Avelórios. Por um momento, pensei que não tivesse
jeito para isso e que não seria capaz de aprender. Era incrível a
transformação pela qual eu havia passado em apenas duas semanas.
Agradeci muito aos meus dois instrutores.
– Viu só? – Barata sorriu – não era tão impossível quanto você
pensava. E a maior parte disso foi mérito seu. A gente só deu um
empurrãozinho.
Para a minha surpresa, até mesmo meu estudo nas duas primeiras
semanas não tinha sido uma total perda de tempo. Por um lado, foi
melhor que eu tivesse tentado me virar sozinha no começo, pois eu nem
sempre teria um ajudante para resolver todos os meus problemas. Eu
também precisava aprender sozinha como estudar e pesquisar.
No entanto, eu fiquei muito chateada quando recebi as notas. Achei
que eu tivesse me saído bem, mas os professores foram extremamente
rigorosos nas correções. Era como Boaventura havia alertado: os
comentários beiravam a crueldade.
Não havia sequer um elogio sobre as minhas resoluções. Só foram
apontados os defeitos, de forma bastante fria e objetiva.
Resolvi conversar com o professor Nicolas Junqueira no final da aula.
Estávamos somente nós dois na sala, pois aguardei que todos saíssem.
– Senhorita Santa – disse Junqueira, no seu tom sério habitual – a
senhorita não está mais no jardim de infância. Não espere que nós
elogiemos os rabiscos dos seus desenhos. Pois é exatamente isso que a
sua prova é: como uma criança que segurou um lápis pela primeira vez e
ainda nem sabe escrever seu próprio nome. Acho bonito que os
professores incentivem as crianças para que tenham fé em si mesmas,
mas isso você já devia ter resolvido lá atrás.
Eu tinha mais coisas a dizer, mas esse pronunciamento dele me
deixou sem fala. Eu apenas agradeci em voz baixa e saí da sala
imediatamente.
Normalmente, eu teria ficado irritadíssima. Mas eu tinha apenas um
sentimento de vazio, que não era nem tristeza e nem fúria.
Por um instante pensei que Boaventura estivesse apenas exagerando
quando me alertou sobre os professores. Eles se esforçariam para me
destruir. De todas as formas. Eles queriam que restassem somente os
fortes, capazes de aguentar críticas mordazes.
117

Wanju Duli
Barata e Boaventura compreenderam completamente quando relatei a
situação.
– Eu não ligo mais para o que o Junqueira diz – falou Barata – ele faz
isso com todo mundo. Não leve para o pessoal.
– É impossível não levar para o pessoal! – exclamei, indignada – ele
me tratou como um verme. Ele me deu nota 3 na prova!
Barata sorriu gentilmente.
– Eu sou um pintor e Boaventura é um músico. Estamos
acostumados a receber críticas o tempo todo. Se fôssemos desabar cada
vez que alguém critica nosso trabalho, já teríamos desistido de tudo há
muito tempo. Lembre-se: a sua habilidade de jogadora não te define
como pessoa. E nem seu conhecimento de literatura. Isso é apenas uma
pequena parte do que você é. E você é muito mais do que seus
conhecimentos.
– Sou apenas um verme... – eu repeti, debilmente.
Barata me deu tapinhas na cabeça, como se eu fosse um cachorrinho.
– Sempre que precisar que alguém te trate como uma criancinha do
jardim de infância, lembre-se que nós dois estamos aqui – disse Barata.
– Ei! – exclamei – isso não foi muito legal de dizer.
Mas nós três rimos juntos depois disso.
Em breve, eu me sentiria muito contente com minha nota 3, pois
descobriria que seria minha nota mais alta do primeiro ciclo de provas.
Eu fiz três provas ao todo. A do Junqueira foi a que me saí melhor.
Tirei 2,5 na prova do professor Fábio Peixoto. E 1 na prova da
professora Rebeca Fragoso.
– Um! – eu exclamei, sem fôlego – eu tirei um!!
Nem mesmo no colégio eu já havia tirado 1 numa prova.
– Veja pelo lado bom – disse Barata – pelo menos não tirou zero.
– Espero não precisar chegar nesse grau de otimismo – observei – eu
não sou uma Pollyanna!
– É como diria Shakespeare – lembrou Barata – o lado bom de
morrer hoje é que você não precisará morrer amanhã.
– Que merda, cara! – eu disse – esse tipo de pensamento é como
chegar ao fundo do poço.
– Espere para ter aulas com o Alvim e você descobrirá o que
realmente é o fundo do poço – sorriu Boaventura.
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A Era do Folhetim
– Eu tirei zero na minha primeira prova do Alvim – informou Barata,
orgulhoso – então, se você conseguir tirar meio ponto na primeira prova
dele, prepare-se para subir num carro alegórico e ser ovacionada por
toda Castália.
Meu queixo caiu. Eu nunca imaginei Barata tirando zero numa prova.
Ele era inteligente demais para isso.
– Pensei que você fosse um gênio no Jogo – observei – você sabe
tanto!
– Não existem gênios no Jogo de Avelórios – opinou Barata – todo
mundo apanha. Até os professores.
Eu realmente não fazia a menor ideia onde tinha me metido.
Mas agora já era tarde. E agora que a coisa tinha chegado a esse
ponto, eu não permitiria que os professores me fizessem de palhaça. Eles
deviam ficar rindo depois de dar aquelas notas.
– Tirar esses lixos de notas faz parte do ritual de tornar-se um
jogador de Contas de Vidro – sugeriu Boaventura – no futuro você
também vai rir disso e se recordar com saudades.
– Esse futuro ainda está meio longe – observei – primeiro preciso
sobreviver aqui dentro para que o futuro chegue.
Então era esse o jogo dos professores. Era como uma guerra. Eu não
iria baixar a cabeça.
O professor Junqueira era extremamente aterrorizante: alto, com sua
barba repleta de fios brancos. Parecia um sábio, um eremita. Eu não
pretendia discutir de novo com ele tão cedo. Eu iria permitir que ele
ganhasse essa batalha, mas na próxima prova dele eu me mataria de tanto
fazer exercícios de jogadas nos livros da biblioteca. Preencheria uns
cinco livros de exercícios. Meu objetivo no próximo exame seria tirar
pelo menos um 4. Sim, minhas expectativas já estavam bem baixas.
Velhos tempos em que eu tirava nota máxima nas minhas leituras nas
escolas preparatórias. Senti que aqueles tempos jamais voltariam.
No caso da aula de Peixoto era algo meio subjetivo: interpretação de
símbolos. Enquanto os problemas das provas de Junqueira continham
descrições escritas e, vez por outra, diagramas para análise, as provas de
Peixoto continham um monte de desenhos. E tínhamos que descrever o
que simbolizava um leão verde perto de um Sol ou qualquer coisa assim.

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Ele me segurou na sala por duas horas para responder a merda da minha pergunta. Até me deu um sorriso e disse que ele tinha que seguir o regulamento e não poderia subir demais a nota dos alunos. entre risos. senão os que não comiam e dormiam mais para estudar ficariam brabos. 120 . Mas ele não calava a boca! Ele amava tanto seus malditos símbolos que não conseguia deixar de compartilhar esse amor com todos ao seu redor. Apenas me mandou ler uns vinte livros e. fui perguntar. ele definitivamente não era o Magister Ludi. Deu um discurso dos infernos! E provavelmente teria continuado a falar pelo resto do dia se eu não tivesse conseguido dar uma desculpa e sumir de lá antes disso. O Peixoto era relativamente jovem para um professor de Castália. Porém. Não era fácil conseguir um cargo poderoso como aquele.Wanju Duli Parecia mais um exame sobre a interpretação de símbolos alquímicos. Ele não foi tão cruel assim com seus comentários sobre minha prova. especialmente em Cela Silvestre. não se tratava de apenas sentar-se na posição de lótus e permanecer nela o maior tempo possível. Aos poucos vai descobrir que é comum povos que não possuem contato nenhum atribuir significados parecidos aos símbolos. – Não é subjetivo – disse Boaventura – você precisa estudar o simbolismo dessas imagens em diferentes povos. Descobri que ele tinha apenas 35 anos. E eu. Eu bem que merecia mais um ponto na minha prova por tê-lo escutado por tanto tempo! Até que o professor Peixoto era legal. – Que tal perguntar isso para o professor Peixoto? – sugeriu Barata. Mas aos poucos as abstrações eram reduzidas praticamente à geometria. os Magisters obtiveram seu cargo com não menos de 45 anos. Sendo assim. ele “tinha certeza” de que minha nota melhoraria no próximo exame. – Isso significa que os símbolos possuem significados intrínsecos ou que a mente humana atribui valores às coisas mais ou menos da mesma forma? – perguntei. Em toda a história. Com exceção de apenas um. A disciplina em que tirei nota 1 era um pouco perigosa: meditação. idiota. depois de lê-los.

adquirindo profissões importantes como a de professor ou pesquisador. ninguém estava com pressa para se formar logo para trabalhar. Em geral. Só que em Castália era o contrário: ser jogador de Avelórios. Por exemplo. Costumava ser o conteúdo de um livro que tínhamos que ler para a aula seguinte. devíamos pesquisar as diferentes soluções já propostas. éramos proibidos de usar internet para a pesquisa. nem mesmo para arquivar os livros da biblioteca. as profissões de maior status eram geralmente as que geravam um produto. formar uma carreira. que não gerava produto nenhum.A Era do Folhetim A professora normalmente nos dava um tema para meditar. não havia internet ou computadores em Castália. Se fosse um famoso problema de matemática. teoricamente a profissão mais inútil possível. um problema de matemática. O raciocínio era que devíamos pesquisar em livros o máximo que conseguíssemos sobre o tema selecionado. ganhar dinheiro. Contudo. Digamos que podia ser qualquer coisa: uma música. enormes e resistentes. No mundo lá fora. devíamos ler bastante sobre ela em diferentes livros de história da arte e escrever um longo ensaio para entregar. Muito antigos. E eventualmente sempre havia os alunos regulares desistentes. Ninguém se importava se esse processo demorasse mais. Era tudo feito à moda antiga. Foram feitos com excelente material no passado e precisavam de poucas reformas. comprar uma casa. Embora estívessemos passando por um período com muitos estudantes. não precisávamos de mais prédios em Castália: nossos prédios eram práticos. Afinal. O nosso medo era outro: que um 121 . Se fosse uma pintura. uma pintura. um carro e ter filhos. A população de Castália não costumava aumentar muito. Ou apenas um poema que devíamos analisar profundamente e ler os comentários. especialmente as que davam mais conforto ou praticidade. Aliás. os axiomas de Euclides ou os teoremas de Fermat. Digamos que nossa pressa em concluir os estudos era principalmente porque queríamos subir na hierarquia de Castália. era exatamente aquela que possuía o status máximo. que lá possuíam um enorme status. muitos eram alunos ouvintes que logo se cansavam. Estabilidade financeira estava longe de ser uma questão preocupante para nós. como curar pessoas ou construir prédios.

nosso sistema imune ficava forte e doenças só nos alcançavam raramente. se ela não parasse com suas provas exigentes. – Se a senhora não pretende diminuir a exigência. é a minha exigência que gera em vocês mais conhecimento. Eu disse isso a ela. Porém. Tínhamos médicos. nenhum de vocês está aqui para ganhar dinheiro. serão ainda mais ocupados – ela disse – e terão que realizar múltiplas tarefas. As doenças crônicas eram particularmente raras. em que os médicos eram como sacerdotes dos templos de Asclépio e em geral só recomendavam repouso e algumas ervas. Belas palavras. mas doenças não eram algo recorrente em Castália. Tínhamos nossas próprias plantações e não comíamos as porcarias lá de fora. Estava claro que nossa alimentação e nosso estilo de vida eram a resposta. Mas na prática não era bem assim que funcionava. Por isso costumávamos dizer que nossos habitantes não morriam de doença. – A exigência que peço de vocês não devia ser fonte de estresse e sim de alegria – ela disse – afinal. – Quando vocês se tornarem professores ou pesquisadores. o que chamavam de “desmaterialização progressiva”. Também havia quem dissesse que a existência da espiritualidade forte de Castália era outro fator relevante. mas de velhice quando já estavam em idade bem avançada. meu nível de estresse passaria do limite e minha saúde seria prejudicada. tínhamos uma vida cercada pela natureza e de pouco estresse.Wanju Duli dia o número de alunos que saísse fosse muito maior do que aquele que entrasse. ajudaria se estendesse um pouco mais os prazos – sugeri. Como nos alimentávamos bem. Era bastante comum que os castalianos chegassem aos cem anos. Basta se organizar. envelhecendo com saúde e com suas faculdades mentais quase intactas. A prática da meditação era tão forte e feita por tantos em Castália que a professora Fragoso também não parava de apontar seus incontáveis benefícios para a saúde. mas pelo puro amor ao saber. Dá tempo de fazer tudo num dia. Até onde sei. Era incrível como a expectativa de vida dos habitantes de Nova Castália era muito superior ao resto do Brasil. 122 . Quase como no tempo de Galeno. É bom que aprendam desde cedo a montar um calendário de estudos.

eu apenas digitaria no Google. abrir cada exemplar e checar os capítulos até encontrar. outros tipos de meditação são possíveis. tínhamos que copiar todos os trechos à mão. – Há quem prefira meditar por 7 horas seguidas no domingo – disse a professora – mas você naturalmente ainda não chegou nesse nível. – Então você não está se esforçando – disse a professora – eu disse claramente para que não meditassem nem de manhã cedo e nem tarde da noite. Você tem problemas médicos? Eu fiz que não. Caso o aluno tenha problemas médicos. copiaria e colaria uns textos. pois isso evita que durmam. Às vezes eu só medito meia hora ou fico com muito sono para fazer isso. Não era tão simples achar o que procurávamos nos livros.. Era realmente trabalhoso. Depois. – Só quando posso. pois não havia nenhum sistema de busca por títulos e palavras. Precisávamos percorrer as prateleiras. acrescentaria as referências no final e acabou.. – Eu só não entendi porque eu tirei 1 na prova – observei – eu me esforcei tanto. pois não tenho tempo de meditar todos os dias. Você também pode dividir o tempo e meditar meia hora antes do almoço e meia hora antes da janta. Mas a nossa pesquisa nas bibliotecas tornava tudo mais longo. já que não para de se mexer nem mesmo numa meditação de 1 hora. – E caso eu fosse hiperativa ou tivesse outro problema que me impedisse de permanecer sentada por muito tempo. – Mas fora desses horários eu estou em aula! – Há os horários das refeições. como a meditação em pé. Meditar com a barriga roncando não era meu estilo preferido de meditação. deitada ou andando.A Era do Folhetim Particularmente a disciplina dela me tomava muito tempo. ou eu só conseguiria visualizar comida. – Você está treinando uma hora de meditação diária. como eu pedi? – ela perguntou. seja ele físico ou psicológico? – perguntei. Se fosse no colégio. Pelo menos não enquanto estão recém aprendendo. 123 . – Eu só troquei a posição das pernas porque estava com cãibra – argumentei – vou perder nota simplesmente por não ter resistência suficiente para manter a mesma posição? – Isso é algo que se adquire com treino.

Ela conseguia ler meu corpo muito melhor que eu mesma. não deixava de ser um instrumento de auxílio. Eu sou professora de meditação há muito tempo e vejo o progresso dos meus estudantes. Se eu não treinasse. – Então o seu problema é meramente falta de treino. Era cansaço e falta de tempo. Diziam que ela era capaz de meditar por dias a fio. Se bem que meu problema não era apenas preguiça. É algo que a maior parte das pessoas pode adquirir com treino diário constante e disciplina. praticamente sem se mover. fiquei sem argumentos. de certa forma. mas. meu corpo ia mostrar isso. Ela não era boba.. Nas suas aulas intermediárias de meditação ela usava outras técnicas. Eu tinha muita coisa para estudar e muitos afazeres 124 . Portanto. Ela nos dava temas para meditar porque dizia ser mais fácil para os iniciantes. Mas isso também. Eu mal podia esperar que essas aulas chegassem. Mas elas só iam chegar se eu deixasse de ser preguiçosa e treinasse uma hora diariamente. Porém. Muitos dos que tinham mais experiência em meditação não usavam a lógica e o lado esquerdo do cérebro para auxiliar na alteração de estado de consciência. Ela ocorria espontaneamente. Era servir de auxílio para o Jogo das Contas de Vidro. Era uma mulher magra e bastante atlética. Costumava dizer que a função mais elevada da Yoga era dar resistência ao corpo para que ele aguentasse as longas meditações. A resistência física e psicológica para meditar não é um dom divino para poucos escolhidos. pois o cérebro aprendia naturalmente os caminhos e já sabia para onde ir sem precisar desses truques. o objetivo de nossa meditação não era o êxtase meditativo e nem mesmo algum tipo de iluminação. Ela conseguia ver através de mim.Wanju Duli – É esse o seu caso? – Não. E pelo seu pouquíssimo progresso nas últimas semanas eu pude ver com clareza que você simplesmente não está treinando o bastante. Ela também era professora de Yoga. até o nosso jeito de meditar era único. Sendo assim. como instruir que o aluno prestasse atenção num ponto fixo diante dos olhos ou na respiração.. Fragoso tinha uns 50 anos. as aulas de meditação avançadas nos preparavam para o Jogo de Avelórios. Por um momento.

. Mostrei para Rodrigo minhas três provas com notas horríveis.A Era do Folhetim domésticos. Com aqueles mantos brancos e aqueles chapéus de palha pontudos e de abas largas parecíamos poderosos feiticeiros.. Não era fácil cuidar da plantação. eram marrons. Alguns que olhavam torto podia ser por inveja. Nós comíamos comidas saudáveis. Ainda tinha esperanças de que alguma parte dele ainda estivesse no meu mundo. mas perdíamos um tempo absurdo por semana cuidando da terra. Assim eu ficava bem protegida. – Ô Magalhães! – um cara o chamou – tem uma mina aqui que quer falar com você! Os trajes desse estudante. Rodrigo e Navarro. Eu suava com aquele Sol forte. E eu pensando que teria um período de descanso após as provas. assim como os trajes de Rodrigo. Estavam mais atarefados do que eu. O problema era que nem Barata e nem Boaventura teriam tempo para me ajudar dessa vez. enquanto outros realmente achavam que o Jogo de Avelórios era um entretenimento tolo para o qual se dirigia atenção além do conveniente. já teria que começar a estudar para as recuperações. As pessoas olhavam. Descobri que ele era famoso por lá. Tive que dar uma boa caminhada debaixo do Sol. 125 . Usávamos grandes chapéus nessa ocasião para nos protegermos. Só que eu possivelmente havia perdido Gio e Navarro para sempre. Teria sido relaxante se eu não estivesse derretendo de calor. plantando. – Sugiro que você curta esse início de aulas enquanto ainda está fácil – disse Boaventura. fosse em tom de respeito ou em tom de desprezo. Um estudante de Cela Silvestre nunca passava despercebido. colhendo. para o mundo da filosofia e da música. – Muito engraçado – eu disse. Ele analisou uma por uma. Por causa do Sol. Eu conhecia três especialistas no Jogo das Contas de Vidro: Gio. Minha roupa branca ganhava ainda mais destaque em meio a todos aqueles estudantes de marrom. Não demorei muito para encontrá-lo. o instituto de filologia das línguas antigas. Então só me restava visitar Rodrigo em Keuperheim. resolvi ir com o chapéu de palha de abas largas.

não há nenhuma dessas coisas aqui para competir com sua nova potencial paixão. logo não restará mais nada em sua mente. mesmo que um Aldous Huxley ou uma Jane Austen. Sem filmes ou bolos. Ele conhecia meu nível. é claro. – Se você tentar decorar tudo rapidamente. também vai esquecer rapidamente – disse Rodrigo – é assim que funciona na Era Folhetinesca. perder-me na história e relaxar. Eu estava ansiosamente esperando que passassem minhas provas para que eu pudesse retirar um livro de literatura da biblioteca. Fiquei contente por isso. Mesmo que você não consiga um 6. eu poderia direcionar meus olhos para o Jogo. Isso não significa que você tem que baixar a guarda. Isso tornava a vontade ainda mais poderosa. – Não tem nenhuma fórmula mágica para que eu aprenda essas coisas rapidamente? – perguntei. um filme ou um amante. e conseguiu ver meu progresso em apenas um mês. 126 . os professores veem diferença entre um zero e um 5. E para ter energias para estudar tanto. constante e aprofundado. – Apenas faça o que você vem fazendo – ele disse – exercícios de Jogos e estudos de símbolos. Só que havia uma tentação muito mais poderosa: a literatura. – Dessa vez só vou ter uma semana para estudar – eu disse – será que ainda tenho salvação? – As recuperações geralmente são mais fáceis. você terá que aprender a amar o Jogo de Avelórios tanto quanto já amou um bolo de chocolate. O pior era que havia bibliotecas com muitos livros de literatura em Castália. Para a sua sorte. mesmo que fosse lentamente.Wanju Duli – Até que você se esforçou – foi seu comentário. tente aumentar ao máximo sua nota. Eu estava ansiosa para ler um pouco de qualquer coisa. A “fórmula mágica” é estudo diário. Embora não pareça. pelo menos na área da gramática. Eu tentaria separar pelo menos umas 2 horas por dia para meditar ao longo daquela semana. O importante era que eu estava avançando. Se apenas decorar sem entender e o fizer só quando tiver provas. Mas estava meio perdida sobre o que fazer para as outras duas disciplinas.

Eu teria confiança para bolar jogadas inteligentes na frente de todos? Às vezes parecia que eu era a única que não entendia as aulas. até ali os estudos sobre o Jogo pareciam meio sem sentido. fitavam o professor com atenção. Mesmo os livros de literatura de autores chatos eram mais divertidos do que ficar sentada de pernas cruzadas sem fazer nada. Mas por que a literatura continuava me chamando e confundindo meu coração? Se minha paixão pelo Jogo das Contas de Vidro não aumentasse. E talvez fosse sofrer ainda mais se eu realmente quisesse me tornar uma jogadora. Pois eu lia com naturalidade. Se eu fosse uma jogadora de Contas de Vidro. Eu estava duvidando novamente da minha vocação para o Jogo. Mesmo sendo tão bons no Jogo. prestar o mínimo de atenção e entender de que raios eles estavam falando naquele dia. Eu sabia que iria sofrer pelos próximos anos até aprender tudo o que precisava. mas depois broxava completamente com as notas. faziam anotações. Eu não gostava de meditar e não queria estudar símbolos.A Era do Folhetim Só que eu teria que postergar esse desejo por mais uma semana. mas é preciso ter vocação para dedicar-se a ela. Enquanto eu lutava para me manter acordada. Meus colegas faziam perguntas. depois de mais três semanas. quando eu poderia ler de novo? Finalmente eu entendia Gio e Navarro. as dificuldades inerentes ao Jogo eram um obstáculo. eu desistiria dele na primeira oportunidade. Aguentava ler muito. Porém. Vocação significa uma espécie de chamado: mesmo não sendo tão bom naquilo. Eu não iria resistir. por muito tempo. perdia-me nos livros por horas 127 . E. Achei que eu tivesse sentido esse chamado para o Jogo. seu coração sente que é o que deve ser feito. se eu me dedicasse à literatura. provavelmente seria apenas uma jogadora medíocre. Eu queria poder voltar a ler meus livros de ficção. eu tinha chance de ser uma das melhores. Além do mais. assim que a literatura subisse o vestido e me mostrasse sua coxa sensual. Eu até que me divertia resolvendo os exercícios. Afinal. Não é preciso ser super inteligente para aprender uma área do conhecimento. eles não queriam perder tempo com ele. haveria novas provas! Então.

E Barata e Boaventura. Rodrigo me indicou alguns livros de estudo. Confessei que duvidava da minha capacidade de ser jogadora. Sentei-me na sala dela. Disse que estava tendo tantas dificuldades que me sentia mais atrasada do que todos os meus colegas. Mas meditar era custoso. Ela se chamava Clara Correia. que optaram. Será que já não estava na hora de eu ter uma conversa sincera com a professora responsável por mim? Eu finalmente cedi. Disse que amava mais os livros de ficção. Até ficar lá por meia hora era chato. Estudar o Jogo era chatíssimo! Eu só estava fazendo aquilo pelo status que o Jogo representava! Será que já não estava na hora de eu parar com a farsa e ser sincera comigo mesma? Minhas notas não mostravam com clareza que eu não tinha nem a habilidade e nem a vontade de aprender? Meus amigos foram maduros em não optar pelo Jogo. não era o meu caso. Parecia ter disponibilidade para me ver e marcamos um horário para aquele mesmo dia. só o fizeram porque possuíam uma vocação genuína. é comum termos a constante sensação de que nunca temos tempo suficiente para tudo que queremos fazer – explicou a professora – desde a época de colégio sentimos como se nosso tempo fosse roubado pelos estudos e nos agarramos 128 . Seria muito dramático. além da habilidade. – Você parece com pressa – ela observou – diz coisas como “nunca mais vou poder ler na vida” e outras coisas do tipo. “Mas gostaria de ter para morrer logo e acabar com essa dúvida e essa dor!” pensei. mas é claro que eu não expressei meus pensamentos em voz alta. Não sei quanto.Wanju Duli seguidas sem nem ver o tempo passar. Pelo visto. ela deu um leve sorriso. Ele também não teria tempo de ficar me ajudando diariamente. além de um desrespeito com as pessoas que estavam realmente doentes. Tinha uns quarenta e poucos anos. Tinha cabelos negros e ondulados na altura dos ombros e olhos castanhos escuros. Você tem alguma doença grave? Só terá mais dois ou três anos de vida? – Que eu saiba não tenho nenhuma doença – respondi – pelo menos nenhuma que seja letal. E isso foi tudo. Falei por muito tempo. Quando terminei de falar. – Quando somos jovens. E comecei a falar de todas as minhas preocupações e inseguranças.

Eu só o persegui por teimosia. Mas por que precisamos de tanto tempo livre assim? Para aprender? Para criar? Para lazer? Não podemos buscar esses desejos em outras coisas? Com o Jogo de Avelórios você também não sente que está aprendendo.A Era do Folhetim desesperadamente às férias. mesmo que partes dela sejam complexas e quase impenetráveis para apreender usando a lógica. mas parece que você se sentiu atraída para Cela Silvestre e ainda não entendeu bem o motivo. Pretende desistir antes de desvendá-lo? – Não acho que seja assim – baixei os olhos – o Jogo nunca teve nada a ver comigo. Pensei que ele fosse outra coisa completamente diferente do que ele é na realidade. acha que estaria aqui? Refleti por um momento. que podem nos desapontar. Eu não havia entrado nas escolas de elite por causa da literatura. essas dificuldades somente nos incomodam no momento inicial de choque. Você está passando por ele agora. Mas ele é como uma onda: também passa. Eu tinha estudado aqueles oito anos pelo meu amor ao Jogo. Ou meu amor pela sombra do Jogo. pela minha experiência. – Talento não é algo com que se nasce. – Se você não tivesse o menor interesse no Jogo de Avelórios. eu tenho o sentimento de que somos parecidas. – Você enxerga uma parte sua na literatura. – As coisas na realidade sempre são diferentes do que esperamos – disse Clara – frequentemente nos deparamos com dificuldades inesperadas. Mas. Vejo todos os outros aprendendo o Jogo com tanta naturalidade e facilidade que só posso concluir que simplesmente não tenho talento. Essa parte você já encontrou. Sequer tinha planos de cursar faculdade se tivesse continuado a viver no mundo. minhas ideias do que ele era. Então que tal agora tentar encontrar a parte de você que está escondida no Jogo? Temos partes nossas em muitos lugares. mas algo que se conquista com esforço – disse a professora. criando e se divertindo? – Eu nem mesmo sei ainda o que é o Jogo – confessei – então como posso amar algo que não compreendo? Eu amo a literatura porque. Eu disse tudo isso para Clara. – Mas para haver esforço tem que haver interesse. 129 . Talvez eu o tenha fantasiado demais.

Sentindo uma falta desesperada de tudo que fazia antes em sua velha vida e perdeu. acredite. alguns são muito piores que os seus. menos desespero e mais amizade. – Principalmente. A vida em Castália não era fácil. Precisávamos de uma motivação muito forte para seguir a rigorosa rotina diária. E. eu irei acabar com ela – disse Clara – os estudantes me procuram o tempo todo. – Se você por acaso possui a ilusão de que a vida dos seus colegas é maravilhosa. Atrasada em relação a quê? Por que está com tanta pressa? Tem algum compromisso no mundo lá fora? – Estou atrasada em relação aos meus colegas – expliquei – a maior parte deles já entra em Cela Silvestre tendo uma boa base sobre o Jogo. Sou uma das únicas que nunca joguei uma partida. tendo que ser cruelmente separado de tudo para agradar os outros. Eu precisava amadurecer aquela paixão e transformá-la num amor sincero: com menos fantasias. Mas senti uma grande dor só de pensar. – E mais uma coisa – acrescentou Clara – pare de se comparar com os outros. Seria mil vezes mais difícil se a pessoa estivesse lá contra a vontade. Eu sequer assisti uma! E eu tirei a nota mais baixa da turma na aula de meditação. já que estava lá porque queria. Eu teria saído correndo de lá apenas pela chance de morder um crepe de novo. Algumas com as quais você certamente não tem que lidar. querendo seguir outra carreira e com outros planos de vida. 130 . – São problemas nos estudos? – perguntei. Alguns estão aqui porque a família os obrigou a vir. curiosa.. Tiram boas notas. Ninguém é iluminado aqui. Hoje em dia. não é mesmo? Mas alguns colegas seus vêm de famílias rigorosas e enfrentam a pressão e expectativa dos pais. Eu não me sentia assim. aquilo não fazia diferença nenhuma na minha vida. Mas aparecem questões de todos os tipos. com todo tipo de problema. Você não para de dizer que está atrasada.Wanju Duli Recordei-me do meu primeiro mês nas escolas de elite. Será que aquilo se chamava amadurecimento? O meu apreço pelo Jogo ainda era uma paixão quase adolescente. Eu sentia falta de comer crepe. E eu me sinto para trás. As pessoas têm dificuldades diferentes. Você morava num orfanato antes. Você imagina como eles se sentem? Tentei imaginar um aluno com namorado lá fora..

8. – E isso é particularmente verdadeiro para os jogadores de Avelórios. E saí da sala dela com um sorriso no rosto.5 se minhas respostas somam 5. Veja só como minha resposta é semelhante à do livro. Grandes amigos são capazes de combinar jogadas incríveis. Que ideia brilhante! Logo no final da primeira aula da manhã. – Pois eu acho que eu merecia nota mais alta nessas duas questões que mostrei ao senhor. A garota deu um risinho cínico. Costumo ver isso com frequência: como a vida dos alunos se torna mais leve quando fazem amigos. Eu a agradeci de coração.A Era do Folhetim – Pelo que me contou. – Eu acho que sofri uma grande injustiça! – ela exclamou – por que fiquei com 5. 131 . participando com eles de um Jogo oficial. sabe harmonizar sua jogada com a dela. Pela minha expressão calma. Quando você conhece bem uma pessoa. Já vi jogos extraordinários nascendo daí.75? – Nós arredondamos para baixo – ele explicou – só subiria para 6 se você tivesse tirado 5. A amizade é algo realmente poderoso. vi uma garota falando com o professor Junqueira sobre a recuperação. repleta de esperanças. dali uns 20 anos. Em trechos do Jogo haveria memórias de nossos tempos de estudo em Cela Silvestre. Nós juntos criando um Jogo sublime que relembraríamos para sempre. a professora entendeu que eu já estava me sentindo bem melhor. Concordei. Quem sabe eu pudesse começar conversando com os que pegaram recuperação. você fica sozinha na maior parte do tempo – disse Clara – só tem um pouco de contato com seus velhos amigos das escolas preparatórias. Que sorte! Ali estava minha primeira potencial amiga. Que tal tentar fazer amizade com seus colegas? Vai descobrir que eles enfrentam dificuldades parecidas. Poderão ajudar uns aos outros. – Eu não concordo com esse autor – disse Junqueira. Decidi que no dia seguinte eu conversaria com alguns colegas meus para conhecê-los. para que pudéssemos estudar juntos. Fiquei maravilhada com essas palavras. Imaginei-me com um grupo de amigos e.

Era melhor eu me mandar. Em vez de você se pintar de vermelho. sem sombra de dúvida. Além dos dois. você terá que se ajoelhar na minha frente. eu era a única que ainda estava na sala. Afinal.. Eu fiquei paralisada. Quase falei: “Não tenho nenhuma questão. completamente puta da cara. Terá que passar pelas doze escolas de Castália vestido de branco e ouro! Meu coração bateu mais forte. Venerável”. Eu não devia estar ali parada escutando aquela discussão. – Se você gabaritar a minha maravilhosa prova. “Vossa Grandeza” ou “Domine”. Agora. e na frente de toda a turma. sem nem notar minha presença. Mas parece que você não é capaz disso com seu próprio conhecimento e precisa ficar mendigando nota. rasgar o livro do Paulo Almeida e descrever em detalhes o quanto sou superior a ele. eu virei para a aula na próxima segunda-feira com a cara pintada de vermelho – disse Junqueira – mas se você tirar um décimo a menos que a nota máxima. que só era permitido dirigir-se ao Magister Ludi por títulos. – Eu vou gabaritar essa merda de prova de recuperação! – gritou a garota. – Tem alguma questão a tratar comigo. despreocupadamente – de qualquer forma. – Feito! – ela rosnou – com uma pequena alteração.. Santa? – perguntou Junqueira. como “Venerável Mestre”. Caralho. Nicolas Junqueira. era o Magister Ludi? – Que seja – ele disse. A garota. mais inteligente que o senhor! – É mesmo? – perguntou Junqueira. será impossível para você gabaritar minha prova. aguardando na porta. fora de si. a não ser que você desejasse cometer uma terrível gafe e assassinar as normas da boa etiqueta. ninguém conseguiu. Até hoje. se eu vencer a aposta você irá desfilar por toda a Castália vestido nos trajes de Magister Ludi. 132 . pode se retirar. por todos os livros que já lera. sorrindo também – eu levaria sua opinião em consideração se você tivesse tirado pelo menos um 6 na minha prova.Wanju Duli – O Paulo Almeida é um dos melhores autores de livros com problemáticas para Jogos! – ela exclamou – ele é inclusive. eu sabia. retirou-se da sala passando reto por mim.

Muito prazer. Apesar da selvageria de sua voz antes. Você está entendendo alguma coisa das aulas? – Nada – confessei – eu ainda não consigo ler hieróglifos. mas ao conversar sozinha com ele. Mas por que aquela garota não os usava? Ela era assim tão insolente? Por fim. A maioria já sai correndo na primeira semana. ainda consegui localizar a garota. “Foda-se. ainda não entendo metade do que falam nas aulas. – Ninguém consegue ler direito essa merda – ela disse – a maioria só finge que sabe. mas eu entreouvi sua conversa com o Domine. No outro corredor. Que ótimo! Fiquei super animada. – Pretende mesmo gabaritar a prova? – Não – ela disse – vou pedir para minha irmã fazer a prova no meu lugar. aterrorizados. Eu mesma. Como é seu nome? – Maria Santa. Senti-me mais à vontade. mesmo depois de sair de lá. vou falar com ela”. – Ele não é o Domine – ela me olhou de forma curiosa – você é nova aqui? Era um olhar afetuoso. ou eu estaria sendo extremamente mal educada. Pensei em chamá-la para conversar. decidi. – Com licença – eu disse – me desculpe.. era meu dever usá-los. fiz uma breve reverência e saí da sala. ela pareceu gostar de mim. – Parabéns por sobreviver até aqui. – Também peguei recuperação na prova do Junqueira – confessei – que tal estudarmos juntas hoje na biblioteca? – É claro. 133 . Ela morreu de rir quando eu disse isso. eu apenas fiz que não com a cabeça. mas ainda estava muito intimidada pela discussão.A Era do Folhetim Em público não usávamos os títulos para que os outros não o identificassem. Não é todo mundo que aguenta um mês. curiosa. Meu coração ainda estava disparado.. – Uma irmã gêmea? – perguntei. – Acabo de completar um mês de aula. E o seu? – Sabrina Gonzaga.

isso não seria um problema. Elas eram parecidas mesmo! As duas com cabelos negros volumosos. Temos somente um ano de diferença. Senti que. eu ainda tinha uma chance real de tirar 6 na recuperação.Wanju Duli – Irmã mais velha. mas nós somos praticamente iguais. ou que pelo menos as dicas de Bruna compensassem. 134 . Por isso mesmo ficava ainda mais difícil verificar quem era quem. Além do mais. mas mesmo que Junqueira tivesse dito aquilo apenas para irritar Sabrina. foi absurdo. Ela seria totalmente capaz de gabaritar a prova. O professor nem vai reparar. com franja espessa que cobria o rosto. O Junqueira costuma basear os problemas do Jogo fortemente na música. nem reparei que foi Bruna quem entrou. mas também é uma exímia jogadora de Contas de Vidro. O problema era que aquela não era uma prova de múltipla escolha e não seria tão fácil assim copiar qualquer coisa. que trouxa! Isso lá era coisa para um professor dizer? Eu sabia que os professores de Cela Silvestre tinha o ego inflado. Sabrina resolveu nos apresentar. já que ela não é da nossa escola e nunca participou dos eventos oficiais. Eu torcia para que Bruna conseguisse seu intento. Vai ter um monte de gente fazendo prova de recuperação na sala. O Junqueira não a conhece. Mesmo assim. Com a ajuda de Bruna. consegui avançar bastante nos estudos naquela tarde. vi Bruna entrar na sala em vez de Sabrina. eu consegui ver um detalhe ou outro que me ajudou. Eu já tinha antipatizado com Junqueira desde aquela primeira conversa que tivemos. Eu só torcia para que essa aposta deles não me prejudicasse. – Ela é muito inteligente? – Sim! Ela estuda nas escolas de música. ele tinha dito coisas muito ridículas. Inicialmente. A irmã dela se chamava Bruna. Isso se Junqueira não resolvesse fazer uma prova impossível só para impedir Sabrina de gabaritá-la! Mas se a irmã dela era tão boa assim. já que o rosto praticamente desaparecia no meio dos cabelos. No dia da prova. Eu me sentei atrás de Bruna e ela colocou a prova para o lado em alguns momentos para eu tentar copiar algumas respostas. “Você vai se ajoelhar e dizer o quanto sou superior”. se ela continuasse a me auxiliar pelos próximos dias.

As restantes se espalharam pelo chão. Enquanto isso. Graças a Bruna! Como não teríamos aula. Junqueira abriu uma pasta com as provas. Aproveitei e procurei a minha prova dentre as que estavam caídas no chão. Meus olhos brilharam quando vi um belo “6” escrito em vermelho. É claro que eu e Sabrina também não perdemos a oportunidade. Segunda-feira era o dia de recebermos as notas de recuperação. Quando Junqueira entrou pela porta. deixou todos os alunos boquiabertos: ele vestia os trajes com tons de branco e ouro de um Magister Ludi. – Parabéns. com força. mas eu vou descobrir! Ele agitou o saco de provas. podem vir pegar suas provas. Sabrina relatou a eles o que aconteceu. por que eu deveria jogar limpo na aula daquele cara imbecil? Ainda bem que ele não era realmente o Magister Ludi. Enquanto todos os outros estavam tomados de espanto com a atitude inexplicável do professor. “Quer saber? Eles vão ter que matar aula para ver isso!” 135 . Quase chorei de felicidade.A Era do Folhetim Era a primeira vez que eu colava numa prova em toda minha vida. A maioria olhou-o com respeito e temor. Agora eu não terei tempo de entregá-las e nem de dar aula para vocês porque precisarei dar um passeio por Castália. ou isso seria o fim do mundo. Pena que eu não poderia chamar Barata e Boaventura. E não me senti nem um pouco culpada. Afinal. mas alguns ficaram perplexos. ele saiu da sala e bateu a porta com estrondo. todos saíram da sala para seguir Junqueira. Após este pronunciamento. menina gênio – ele rosnou – eu não sei qual bruxaria você fez. alguns alunos conheciam a identidade do Magister Ludi. Eu e Sabrina caímos na risada. certos alunos ouvintes pareciam que iam ter um orgasmo. Afinal. – Aos demais ignorantes que ficaram de recuperação. Jogou a prova de Sabrina em cima da mesa dela. Deviam estar tirando fotos escondidos com seus celulares que não eram permitidos em Castália. já que eles estavam em aula. Eu tinha tirado exatamente a nota que eu precisava.

No entanto. caramba! Nenhum outro Magister era tratado com tamanha pompa. Mas foi só um cara caminhar por Castália com os trajes em branco e ouro para todo mundo se mijar de êxtase.Wanju Duli Corri até a sala dos dois. gente tapando a boca com as mãos. Sinceramente. É claro que aquilo deu o que falar. não adiantava dizer que tinha sido apenas uma brincadeira. Para esses.. Aquele foi um dia histórico. Alguns colegas deles também saíram. a situação nunca ficou completamente esclarecida e as teorias da conspiração logo começaram a surgir. Pelo menos por uma coisa eu respeitava Junqueira: ele realmente cumpria suas promessas! – Essa foi a coisa mais genial que já vi desde que vim para Castália – Barata confessou para mim. – O que o verdadeiro Magister Ludi achou de tudo isso? Barata deu de ombros. Por muito tempo. Mas. “eles jamais esqueceriam o que viram”. fazendo reverência quando ele passava. – Nossa. eu não sabia que isso ia gerar toda essa comoção! – Sabrina disse para mim depois – muita gente finge que não está nem aí pro Jogo ou pra Cela Silvestre. E eu presenciei isso ao vivo. sob o olhar de espanto de todos os que o viram. Junqueira levou mais ou menos uma hora caminhando entre as diferentes escolas de Castália. Eu disse em poucas palavras o que havia acontecido e eles correram para fora da sala. Pessoas chamando os amigos. 136 . Até um conhecido meu que detesta o Jogo de Avelórios não conseguiu tirar os olhos dele.. muitos alunos de Castália ainda apontavam para Junqueira quando ele passava e o fitavam em tom de um respeito quase reverente. Eles achavam que a desculpa da brincadeira era apenas para que eles esquecessem da identidade do verdadeiro Magister Ludi. acho que não faziam tanta reverência nem mesmo para o papa. Posteriormente o pessoal ficou sabendo que tinha se tratado de uma espécie de trote e que aquele não era o verdadeiro Magister Ludi. segundo os estudantes. até que se cansou e retornou para Cela Silvestre. ainda sem saber exatamente o que se passava.

eu soube que Bruna contou a ele. – Navarro está puto por ter perdido o espetáculo – contou-me Barata – ele não para de dizer: “Por que diabos ninguém me chamou?” Infelizmente aquilo não foi filmado. já que eles eram da mesma escola. isso tudo deve ter servido para esconder ainda mais a identidade dele – observei – você não vai mesmo me contar quem é? – Espere mais um pouco. A professora ficou impressionada com minha história. – Não – respondi. acharia engraçado – disse Barata – duvido que tenha se importado. pois se ele descobrisse ela teria sido expulsa. aquilo tudo serviu para despertar ainda mais o interesse das pessoas no Jogo. Descrevi com detalhes. Apesar de eu ter conquistado um belíssimo 7 na recuperação de meditação. Ainda bem. – Pensando bem. Enquanto imaginei minha vida passada ao longo da meditação. – Você está familiarizada com a biografia de Josef Knecht? – ela me perguntou. vai cair pra trás. E a conversa terminou por aí.A Era do Folhetim – Se eu fosse o Magister Ludi. Quando você descobrir. A professora nos requisitou uma tarefa curiosa para aquela meditação. se conheciam. mas eu duvidava que ele fosse ser seriamente prejudicado. Que pena. Então era alguém que eu conhecia? Ou será que o Magister Ludi não tinha cara de Magister? Navarro também ficou sabendo da história. Devíamos criar a história de uma possível reencarnação nossa. já que ninguém tinha celular. perplexa. líder de uma aldeia repleta de mulheres fortes. então não reclamei. como se nada de anormal tivesse acontecido. Mas o mundo não era apenas flores. Mas eu tirei um 7. tirei um 5 na disciplina de símbolos. não era possível ver o rosto. devido aos meus árduos esforços ao longo daquela semana. Embora não tenha presenciado. Junqueira deu sua próxima aula no dia seguinte com muita naturalidade. Pelo visto. Pelo jeito. Felizmente. Junqueira provavelmente foi repreendido pelo que fez. ele não havia descoberto o truque de Sabrina. 137 . Eu inventei que fui uma poderosíssima xamã. No mínimo. Mas algum aluno ouvinte tirou uma foto que vazou na internet. Era uma espécie de exercício.

Mas após os dois primeiros meses de aula. Nesse caso.Wanju Duli concentrei-me tanto que devo ter parecido uma estátua. Sabrina não parecia se importar muito com coisas proibidas. mas não me importo. Tinha sido uma das raras vezes que eu realmente curti uma meditação. eu já estava vacinada: já conhecia o estilo de prova dos professores. posso falar mais livremente sobre isso. Consegui contatá-los apenas recentemente através da minha irmã. – Esse é exatamente o tesão de fazer parte de uma sociedade secreta – disse Sabrina – eu queria ter entrado em contato com eles antes. Você já ouviu falar na “Amor Fati”? Fiquei intrigada quando ela mencionou. Você já entrou em contato com eles? – Por que eu deveria? – continuei falando baixo – sociedades secretas são proibidas em Castália. mas não sabia como. – Recebi o mesmo envelope – respondi. – Ótimo. Como me foquei demais no treino de meditação e nos estudos de problemas do Jogo ao longo da semana. Sabia mais ou menos o que esperar e como estudar. Comecei a estudar sozinha. – Eu não devia estar falando disso com você – comentou Sabrina – mas eu recebi um envelope estranho algumas semanas atrás. embora às vezes eu combinasse de estudar com Sabrina. Ele deve ter se divertido corrigindo. Parei de sair por aí como uma desesperada pedindo ajuda. – E o que vocês fazem nessas reuniões é jogar o Jogo de Avelórios? 138 . Devo ter escrito um bando de bobagens sobre os significados dos desenhos. Você só faz coisas limpas? Pensando bem. Pena que criatividade não contava muito ali. – Já os viu pessoalmente? – perguntei – é coisa limpa ou barra pesada? – Não sei ao certo. E logo para quem eu estava dizendo aquilo. – Não conheço a identidade de todos os membros porque comparecemos nas reuniões encapuzados – ela informou. Comecei a inventar um monte de coisas na prova. Peixoto me deu um 5. Eu e ela aos poucos nos tornávamos amigas próximas. Até que foi uma nota alta. pois não estudei tanto assim para a prova dele. não sei porque perguntei isso. baixando a voz.

– Eu já ouvi falar.A Era do Folhetim – Exato. – Ué. Senti um frio na espinha. mas em diferentes linguagens: a da matemática. – Não quer nem dar uma olhada? Posso conseguir permissão para que você participe de apenas um encontro. Eu não era católica e nem tinha medo da Igreja. pois também trata de um grupo de amigos que. Senti uma sensação desconfortável. Afinal de contas.. Sabe 139 . tiveram que entrar num acordo. – Como assim? – perguntei. Relembrei do meu sonho. nervosa – por que a Igreja proíbe jogadas? – Você já deve ter ouvido falar das relações de Castália com o Vaticano. Da última vez começamos com uma passagem do Decameron. sem compromisso. mas achei que fossem relações amistosas. Eu definitivamente não podia arriscar ser mandada para fora de Castália. da música. mas sou louca para saber. eu estava me esforçando demais nos meus estudos para simplesmente ser excomungada. – O que esse Jogo tem de diferente em relação ao oficial? Ela se aproximou um pouco e sussurrou no meu ouvido: – Nós fazemos jogadas proibidas pela Igreja. Aquilo não estava me cheirando bem. Digamos que nos Jogos contamos histórias. surpresa – eu não sei a identidade dele. como você sabe? – perguntou Sabrina. Eu diria que a obra de Boccaccio é ideal para esses encontros. contam uma história. O cara é muito foda. Você sabe que a Igreja é uma das instituições mais poderosas do mundo. Apenas tive uma intuição de que me meter naquilo resultaria numa grande encrenca. – Por acaso o mestre desse negócio é bem baixinho? – perguntei. – Está correto – falou Sabrina – mas para que Castália tivesse o apoio do Vaticano. inocentemente. O tom decisivo com que eu disse isso fez com que Sabrina parasse de insistir. a cada noite.. – Não. Para onde eu iria depois disso? Minha vida ficaria completamente sem rumo. especialmente nos dias de hoje. – Não quero ser parte disso – afirmei.

porque eu estou lotado de coisas. Sabe quem ele é? – Sua irmã certamente sabe. Vou conversar com ele antes. – Alemão. tinham altas qualificações para tal. No outro dia. mas foram tentados pela música. principalmente agora que você inventou uma sociedade secreta. Só podia ser.Wanju Duli muito e tem uma personalidade impressionante. Isso importa? Melhor ir direto ao seu assunto. sabiam até onde ele mijava. então você leu minha correspondência. todos sabiam onde ele estudava. Especialmente ali dentro. Ele havia apenas entrado para a história e era uma lenda eterna de Castália. Deve estar bem ocupado. onde dormia. Bem que Gio me avisou. – Ah. ele havia “apenas” criado a nova notação musical para o Jogo de Avelórios. Nunca vi igual. – Não que hoje seja um dia excepcional – corrigi – é sempre impossível falar contigo. Todo mundo lá sabia quem era Navarro. – Há quanto tempo. O que a traz à minha escola? – Podemos conversar em particular? Ele disse alguma coisa em outro idioma pra outro cara e se afastou. recebi vários olhares de reprovação. Mais uma vez. Você pode me contar? – Não tenho certeza. Meu black power estava ainda maior e era sempre inconfundível. Foi o Barata quem te mandou pra cá? – Nem sabia que ele também estava envolvido nisso. É claro. mas eu devia ter imaginado. eu me destacava de branco.. Difícil acreditar que ele ainda era estudante. Aquele lugar devia estar cheio de frustrados que queriam ter se tornado jogadores de Contas de Vidro.. Olhar para mim devia gerar neles um tipo de dor. fui até as escolas de música. Ora. – Ela não quer me dizer. Lá eles vestiam roupas em tom vermelho escuro. Quando perguntei por ele. – Que língua estava falando? – perguntei. meio bordô. Mas dali um ano ele completaria 24 anos e estaria formado. Navarro me reconheceu de imediato. se duvidasse. Santa. 140 .

Não optou pelo Jogo por ser divertido? Não me diga que está buscando uma elevação espiritual. – Obrigado pela permissão. – Diversão. pois você não é membro. – Eu não vim até aqui porque quero participar – expliquei – e sim porque quero te dissuadir dessa ideia.. – Ah bom. – Cuidado. Ele também devia estar estressado com os estudos.. – Você é a minha mãe? – Não. Há alguma razão maior por trás disso. Se meus planos realmente envolvem coisas grandes. então espero que você não insista. Ele estava sendo mais sarcástico do que o habitual. Obrigada por seu tempo. – Não estou te criticando – eu disse – pode fazer o que quiser. – Estou me divertindo – ele respondeu – então não vou parar agora. pois eu não acredito. porque minha mãe veio me visitar anteontem aqui. – Eu só queria entender – eu disse – por que passar por todo esse risco? É tão emocionante assim desafiar a Igreja? Nem achei que você ligasse para a Igreja. curiosidade – repeti – você não é disso. – Você se tornou um ser tão elevado assim que agora acha que qualquer tipo de diversão é trivial? – perguntou Navarro – estranho isso vir de uma aluna de Cela Silvestre. – E quem disse que eu ligo? Estou apenas curioso para experimentar algumas possibilidades de Jogo que nunca pude tentar por causa dessas proibições sem sentido. – Entendi – eu disse – isso é tudo. Ele não respondeu. Apenas vista um manto negro e cubra o rosto. Apenas desviou os olhos.A Era do Folhetim – Vamos nos reunir amanhã às nove da noite na entrada leste. Sabe que corre perigo. é evidente que não vou lhe dizer. E eu me retirei. Miguel. – Razão maior – ele repetiu – vocês e suas razões maiores. Pode aparecer. Foi um grande aborrecimento. 141 . Ele apenas me fitou por um momento. – Estranho você fazer alguma coisa apenas pela diversão – observei – não achei que fosse esse tipo de pessoa. Eu não ando muito receptivo a conselhos.

– Vocês dois conversam sobre muitas coisas? – perguntei. – Nova Castália é assim tão linda porque está cheia dos seus desenhos – eu disse – já tinha visto outros murais. Navarro havia voltado a conversar com os amigos. Voltei para Cela Silvestre.Wanju Duli Enquanto estava indo embora.. Sentei-me na grama ao seu lado e também bebi um pouco. – Não – ele disse – ela nunca fala nada. Navarro não parecia ser do tipo que tinha amigos. A gente só fica junto. Apenas seguidores. Barata riu. É óbvio que não vai me ver. irritada – ela nem estuda na nossa escola. Ele estava usando um chapéu de palha enquanto desenhava. mas sua simplicidade era adorável. bebendo golinhos d‟água. – Conversei com Navarro hoje. Devia ser assim mesmo que ele queria.. como diria John Milton. – Não fica incomodado com isso? – Na verdade não. Eu trazia um cantil de água na mochila. olhei para trás. mas só agora que me dei conta que foi você que os fez.. Depois de beber longos goles. Optou por formar seu próprio Jogo em vez de ser um mero participante do Jogo oficial. – Melhor não ficar aqui – ele sugeriu – se a Dani te ver. Me sinto em paz. Fiquei em silêncio por um momento observando a paisagem. Eu nunca conseguia conversar com ela direito. Quase como um Lúcifer que. Entreguei a ele. Não sabia que você estava envolvido com a Amor Fati. preferia reinar no inferno a servir no céu. só ia ficar desenhando sem parar e me esqueceria para sempre do Jogo das Contas de Vidro. Bem que eu queria ver a Dani outra vez. Eu juro que se eu tivesse essa sua habilidade de desenhar. por causa do Sol forte. ele me devolveu.. Talvez fossem alguns dos membros da sociedade secreta ou apenas admiradores. – Ela que se foda – resolvi dizer. 142 . – Obrigado. Estava rodeado de amigos e se portava como um líder. Vi Barata pintando um mural enorme lá fora. Castália era simples.

.A Era do Folhetim – Só estou envolvido porque Miguel me chamou – confessou Barata – pois não estou assim tão interessado. Tinha uma beleza madura. O olhar dela se parecia um pouco com o olhar da Dani: fuzilava qualquer um que a fitava. como se estivesse achando ótimo o que tinha acontecido. Seus longos cabelos negros tinham fios brancos. Eu já tinha ouvido muitas histórias sobre ela. Ela já devia ter mais de cinquenta anos. comecei a ter novas aulas. Ninguém se atrevia a chegar um minuto atrasado na aula dela ou sair um minuto mais cedo. ela apontava para um aluno aleatoriamente e o mandava falar. – Hoje vamos falar sobre Bengel – disse a professora – quem gostaria de começar? Se ninguém levantava o dedo.. Eu só queria ficar quieta no meu canto. Um colega meu levantou a mão. né? – Alguma vez nós brincamos com outra coisa? Será que era só eu que tinha um mau pressentimento sobre a sociedade? Alguns meses depois. Ela era elegante.. – Cale a boca – disse a professora – não permiti que falasse. Tinha uma voz grave e penetrante. a enciclopédia humana. caralho. – Mas. – Eles estão brincando com fogo. Sabrina olhou na minha direção e vibrou. Havia essa professora impressionante. Sua expressão era de meter medo. – Johann Albrecht Bengel foi um teólogo luterano nascido em 1687. E saiu da sala. – Odeio gênios na minha aula – ela prosseguiu – então pode se levantar e se mandar daqui.. Ainda bem que Pedro não foi burro de discutir com ela. O nome dela era Cláudia Garcia. Eu odeio professores que fazem isso. Ninguém gostava de Pedro. Pedro ficou da cor de um tomate. tendo sido também um educador que deixou profundas influências morais em. Pedro Mendes. Eu tive que repetir a disciplina sobre o estudo do significado dos símbolos. 143 . Ainda bem que eu gostava do professor Peixoto.

Wanju Duli Quando a aula da professora Garcia terminou e a maior parte dos alunos já tinha saído. Giovana? – perguntou a professora. O problem é o tipo de gente que pisa lá. Tem até rumores sobre orgias e evocações de demônios. empolgada. – São os puxa-sacos dele? – perguntei. E nós duas nos abraçamos. Mas o Miguel convidou um monte de panacas. – Pior que esse grupo anda atraindo muita gente – prosseguiu Gio – quanto mais os boatos se espalham. Ele anda saindo com uns babacas. porque o Miguel me obrigou – explicou Gio – mas achei tudo muito chato. Nós saímos do prédio. como se eu fosse uma patricinha. Nos sentamos no chão. – Vamos conversar lá fora – disse Gio. abraçando a cintura da professora – essa é minha mamãe! Cruz-credo! Ela era filha da bruxa. perto da entrada. mamys – disse Gio. Ele é um bom líder e é inteligente o suficiente para coordenar um Jogo elevado e manter a ordem. Tudo bobagem. – Onde tem andado? – perguntei – aquela tal de filosofia é tão quente assim? – É uma vadia – disse Gio – mais puto que ela só o teu Jogo. vi Gio entrar na sala. me puxando pela mão. Miguel sabe o que faz. – Mamys? – perguntei. mais gente se aproxima. – Amiga! – exclamei. 144 . Uma droga. – Só passei para te dar um oi. Definitivamente eu não queria pisar lá. O Miguel só permite porque no fundo ele curte que eles o adorem como um Deus. – Por aí – disse Gio – fazem tudo o que ele manda! E se acham os malvados fodões porque estão quebrando regras. – Deixa eu te apresentar – disse Gio. – O que está fazendo aqui. – O Jogo não foi emocionante? – Foi sim. que fornica com todas as áreas do conhecimento. confusa. Eles estão estragando tudo. – Só fui num único encontro da Amor Fati. Sussurrei no ouvido dela: – Você é membro da Amor Fati? – Deus me livre! – disse Gio – e que o Diabo também me livre.

podem fazer o favor de sair? – Se pede com jeitinho. Eles só fingem que não sabem pra manter a atmosfera de mistério. – Como foi ser Magister Ludi por um dia? – perguntou-lhe Gio.. Todos os outros vão desaparecer quando o circo pegar fogo. 145 . Agora ele vivia com um monte de gente ao seu redor. Gio gritou. pai! Foi bom te ver! Junqueira fez uma careta e seguiu pelo corredor. aí sim que o pessoal enlouquece. ou eu também teria me desesperado. Na segunda-feira seguinte. apenas para apavorá-los. Eu e Gio levantamos. Essa era outra coisa que eu tinha presenciado. – Você estão no caminho. – Por que o Barata também dá corda? – perguntei. eu finalmente conheci o lendário Gustavo Alvim: o professor conhecido como o mais terrível. E ele já é famoso sem o capuz. Já sua segunda prova era ligeiramente mais acessível. em alto e bom som: – Tchau. que havia chegado naquele exato instante.A Era do Folhetim – O “Magister Umbra” – lembrei. Estão bloqueando a entrada! Quem disse isso foi o Junqueira. Levantem daí. É raro um cara ser da altura do Miguel. Mas no fundo todo mundo sabe quem ele é. E agora. – Porque o Arthur é um dos únicos amigos de verdade que o Miguel tem – disse Gio – e escreve o que te digo: o Arthur vai ser o único a defender o Miguel se der alguma merda. rindo. – Eu não sei muita coisa ainda – conformei-me. – Uau – eu disse. sem levantar. – Sim. ele está posando de Magister Ludi – confirmou Gio – e como ele não mostra o rosto e está sempre de capuz. – Horrível – respondeu Junqueira – estou aliviado por ter me livrado desse fardo. Durante o dia o Miguel caminha em bando com seus seguidores.. Ainda bem que já fui para a aula sabendo disso. – Também não sabia que ele era meu pai? – perguntou Gio. Ele sempre fazia uma primeira prova em que todos os alunos tiravam zero. Quando Junqueira passou.

Quando fomos liberados da sala. Alvim não falou mais em português. Mas ele não parecia o Papai Noel. efe-cofe-fifofó! OFOFÓ!!! – Nós já entendemos. ajeitando os óculos pequenos na face. Parecia estar louca que aquela aula terminasse. Sua barba branca era bem crespa. Devia ter mais de 90 anos. com um brilho meio vermelho. – O que foi isso? – perguntou Sabrina – esse cara é mesmo professor daqui? Ou será que é um trote? – Ele é – garanti – mas deve ter dado a primeira aula inteira no idioma do Jogo só para assustar os novatos. com sobrancelhas longas e brancas. parecia que tínhamos chegado ao paraíso. dessa vez parecendo aliviado. – Para quem não me conhece. Ninguém nunca tinha se interessado em se aproximar o suficiente para conferir. careca. 146 . enchendo Pedro de cuspe – mas eu realmente detesto gênios. era uma tarefa homérica.Wanju Duli Alvim era um sujeito muito gordo e baixinho. Depois disso. Aposto que a segunda aula será diferente. – Que menino mais inteligente!! – ele berrou. Sem escolha. mas não era negro: era albino. sou o professor de hieróglifos do Jogo das Cofefe-cofe-cofe! Ele fez um som estranho que se parecia vagamente com uma tosse. Os olhos eram cinzentos. E da vida de todos ali. para ajudar – o senhor está falando do Jogo das Contas de Vidro! Alvim aproximou-se de Pedro e o olhou bem de perto. De fato. Ele tinha belos traços de origem africana na face. Parecia um demônio de olhos vermelhos. professor – disse Pedro. Sabrina me lançou um olhar nervoso. com uma voz rouca misturada com acessos de tosses a cada dois minutos. Eu já tinha uma enorme dificuldade em entender qualquer frase naquele idioma. deve ter sido a aula mais longa da minha vida. uma cor indefinida. com uma barba extremamente branca. Ele prosseguiu falando no idioma do Jogo. Pedro levantou-se e saiu. – Efe-efe-cofe – ele prosseguiu – contas. Com aquelas tosses. Então saia da minha sala.

pois era como se ela estivesse nos ensinando a somar dois mais dois.A Era do Folhetim Mas não foi. Ouvi dizer que ela tinha mais de quarenta anos. Ela era magrinha. baixinha e negra. Muito interessante. com sua voz suave. Mas ela tinha voltado um pouquinho demais nos fundamentos. isso é um círculo”. Aquela mulher era tão lenta que tudo que ela fazia me dava vontade de pegar no sono. Quase não tinha peitos. E tinha longos cabelos negros em trancinhas. até onde eu sabia. pois sabia que tiraria zero na primeira prova como o resto da turma. Não se tratava de nehuma brincadeira. – Astronomia pode parecer difícil. mas vocês verão que ter uma boa base de aritmética e geometria tornará tudo bem simples – ela disse. como os de Sônia. Ela tinha um sorriso muito bonito. Nunca entendi absolutamente nada da aula de Alvim. Estava sempre de bom humor e tinha um ar jovial. Todas as aulas dele eram daquele jeito. Era um completo mistério para mim se ele realmente estava dando uma aula ou apenas falando “Grawlrrgrrgblasrarrg”. a única coisa que Cavalcante ensinou por duas semanas inteiras foi que 1+1 era igual a 2. A voz dela era tão meiga e calma que eu senti que dormiria. Provavelmente a proposta dela era explicar a geometria euclidiana para alunos de jardim de infância. 147 . isso é uma linha. Aquela primeira aula dela deixou todos boquiabertos. Então eu deixaria para começar a estudar a partir da segunda prova. E. “Vejam. Ela começou a rabiscar no quadro. Ou seja. Eu nem me estressei. ela ainda não tinha saído da mesma explicação de antes. Foi tão fácil que eu literalmente dormi. Outra professora nova que tivemos foi Liliane Cavalcante. mas antes de ensinar isso resolveu revisar aritmética e geometria. ela era nossa professora de astronomia. Quando acordei meia hora depois. isso é um número. Só comparecia para contar presenças. Eu não sei direito o que ela estava fazendo. E assim foram minhas próximas semanas: Peixoto dava aulas exatamente iguais às que eu já tinha assistido e eu me sentia num déjà vu. mas ela aparentava bem menos.

E eu me localizava em algum lugar lá no meio. também chamado de pedagógico. Barata e Boaventura estavam ansiosíssimos para saber as minhas impressões sobre Alvim e Cavalcante. como se estivesse nos tratando como babacas. Eu finalmente teria permissão de assistir a uma cerimônia pública dos grandes jogos. através de uma sessão de meditação ao sinal dado pelos sinos. Navarro. – Sua definição foi perfeita – assentiu Boaventura. Não era apenas para isso que eu havia vivido até aquele dia? Feito tantos sacrifícios? Eu tinha um pouco de medo de me desapontar. que no Brasil era na véspera de Ano Novo. Mas antes disso. o Jogo era exatamente uma tentativa de não estar no controle: sentir o espírito das contas. seu sorriso era tão sincero que ela realmente devia achar que nós não sabíamos nada daquilo e que sua aula estava ajudando muito a fortalecer nossas bases. Quase como um Tao. E aceitar as que não se encaixassem. eu não deixava de achá-la um pouco irônica. harmonizar-se com o universo exatamente do jeito que ele era e não do jeito que eu gostaria que fosse. Contemplar a beleza das peças do cosmo se encaixando em vez de encaixá-las à força. Gio e Barata já iam se formar. Sim. entre os dois extremos. o Jogo não era como eu imaginava. Também há beleza naquilo que não se encaixa. Eu não precisava estar sempre no controle de tudo. tendo menos como objetivo a forma e 148 . Foi então que eu lembrei da conversa que tive com minha professora. Aquele ano passou muito depressa. haveria a cerimônia do Jogo de Avelórios.Wanju Duli No fundo. Porém. Aquele seria um jogo do tipo psicológico. Eu não devia ter tanto terror assim perante o desconhecido. – Eles são como dois extremos de uma linha que nunca se encontram – falei. As cerimônias se iniciavam na noite da véspera do Jogo. Podia ser que o Jogo não fosse assim tão grandioso quanto eu fantasiava. fosse para o bem ou para o mal. Por isso meu cérebro não era capaz de processar nem uma aula e nem a outra. Na verdade. Em breve. mas isso não era uma coisa terrível.

Seria a manifestação da arte e do creator spiritus. Era minha primeira vez. que seriam dois: trechos do “Três Diálogos entre Hylas e Philonous” de George Berkeley e a composição “Fandango” de Domenico Scarlatti. Realizaríamos alguns jejuns prolongados. faríamos um voto de silêncio e meditaríamos por longos períodos. mas eu mal conseguia pensar nele. que entraria numa profunda meditação sobre as representações polidimensionais do Jogo das Contas de Vidro. comendo pouco e somente alimentos simples e permitidos. todo o recinto ficou em silêncio. Um Jogo jamais era igual ao outro. 149 . Todos mergulharam numa profunda meditação no interior da célebre sala oficial dos Jogos. No dia seguinte pela manhã ocorreria a primeira fase do Jogo: aquela das representações musicais.A Era do Folhetim mais a emoção da perfeição e do divino. mesmo que se iniciassem a partir dos mesmos temas e tivessem os mesmos jogadores. A Sombra da Venerável correu a cortina em volta da Mestre. A obra de Scarlatti continuava a tocar ao fundo pelos mais elevados jogadores conhecedores da música. A Venerável Mestre traçou no quadro o código cifrado do Jogo com seu estilete de ouro faiscante. Viveríamos uma vida de rigorosa abstinência ao longo dos próximos dias. Finalmente. tamanha era minha ansiedade. Era a primeira vez que eu pisava lá. aqueles em que somente havia a música. mas eu havia preparado meu corpo e minha mente. somente recitações ou uma combinação de música e recitação. a ocasião sublime: a entrada do Magister Ludi vestido de branco e ouro no tabuleiro solene dos símbolos. Este seria o ponto de partida e daí seria direcionado para a evocação das ideias próximas. Sabia que estava cercada de algumas das pessoas mais importantes desse mundo e do outro. eu também conseguiria. Foram anunciados os temas em detalhes. Havia os trechos de silêncio. Se os ouvintes do mundo secular conseguiam suportar. Após o som dos sinos. No fim do primeiro ato evocou no quadro a fórmula repleta das leis intangíveis do Jogo. Quase não consegui dormir naquela noite. Havíamos meditado sobre o tema do Jogo.

Tornou-se um coro e ele era cantado pelos mestres eminentes. O mais importante era ter ganchos que conectassem uma obra e outra. seguido da recitação subsequente do poema de Tartaglia. a recitação passou a ser entoada e transformou-se em outra coisa. Nesse caso. O início do Jogo era previamente programado. que começava assim: Quando o cubo e coisas juntas São iguais a um número discreto. Num momento ideal de “La Galatea”. mas agora David Hume era cantado mais alto: “Diálogos Sobre a Religião Natural”: somente trechos selecionados que se harmonizassem com a música. localizavam-se mais ou menos no período Barroco. mas ora andavam para frente. Berkeley continuou a ser recitado baixinho no fundo. houve a recitação da troca de cartas entre Tartaglia e Cardano. A música agora era “Arcangelo Corelli”: “Vivace-Grave e Allegro do Concerto Grosso em sol menor Op. ora para trás. 150 . num barítono. Após as demonstrações. você vai manter isso como um hábito Que o seu produto deve sempre ser igual Precisamente para o cubo de um terço das coisas. tanto as musicais quanto as filosóficas e literárias. Em seguida. Nº8”. mas a atuação do poema “La Galatea” de Miguel de Cervantes. como se o sabor do tempo não corresse de forma retilínia: não somente um presente eterno. mas não havia problema algum em se retroceder alguns séculos ou se avançar. Em certo momento houve não somente a recitação. Os atores vestiam trajes ao estilo da época.Wanju Duli De repente. 6. a Magister Ludi dirigiu-se ao quadro negro e passou a dar explicações matemáticas sobre a obra de Tartaglia. havia se partido do período Barroco. matemático e plano. ao menos o começo do primeiro dia. As obras. Encontre outros dois números diferentes em um presente. Contudo. que rumo o Jogo tomaria ninguém nunca sabia ao certo. contanto que a harmonia fosse mantida.

Os jogadores não sabiam de antemão o que o outro ia fazer. mudavam harmoniosamente o tom da música para que se encaixasse. Nessa ocasião. cujas características mais importantes não deviam ser apenas ter um profundo conhecimento sobre diversas áreas do saber. Inclusive. filosofia. de repente. mas principalmente ser 151 . Aquilo era totalmente permitido. os mestres eminentes previamente estudaram a fundo nos meses anteriores várias obras relacionadas ao período. no teatro ou em muitas outras áreas possíveis. história. já que o Jogo era produto da atuação de cada um dos jogadores. Aquele estudo era preciso. Não era como ensaiar uma peça de teatro ou um concerto sinfônico. pois nunca se sabia para onde o Jogo os direcionaria. sua emoção e principalmente seu espírito. mas. uma cadência bem pensada. com muita graça. pois a qualquer momento um deles poderia ter uma proposta ousada que os outros teriam que seguir. o outro teria que pegar um gancho e seguir com um segundo elemento semelhante. Era comum que alguns fizessem brincadeiras para se aproveitar disso. para que o Jogo mantivesse sua lógica. Porém. Eu vi a expressão dos outros jogadores quando Peixoto fez aquilo. Se. alterando também a recitação. Eu sabia que o professor Fábio Peixoto era um grande fã de pregar uma dessas peças e pude presenciar ao vivo o momento em que aconteceu. um dos jogadores começasse a recitar um poema de Gregório de Matos. pois o Jogo não podia parar por muito tempo. Em compensação. a dança. Devia-se sempre manter um ritmo.A Era do Folhetim Uma vez decididos os dois temas iniciais. quanto mais jogadores mais instável o Jogo se tornava. havia oito jogadores além da Magister Ludi e sua Sombra. O mais parecido com isso era aquela brincadeira de pensar numa palavra com a última letra da palavra que a outra pessoa falou. precisava ser coordenado por um Magister Ludi muito competente. O fato de haver muitos auxiliava que o Jogo se estendesse por um longo período. sem falar na música. Ele introduziu um simbolismo no meio do Jogo que tinha relação com o Barroco. mas que provavelmente era de um artista de mais de 500 anos depois. “Seu filho da puta” era o que deviam estar pensando. decoraram trechos longos e inteiros de livros de literatura. ou mesmo estudaram explicações de matemática ou física.

que éramos apenas plateia. Tudo faz sentido: nossa vida se encaixa com o cosmo. E ali estavam pessoas que dedicavam a integridade de suas vidas para encaixar as coisas e nos proporcionar aquele espetáculo divino. Uma das maiores emoções de assistir a uma partida do Jogo das Contas de Vidro era presenciar o momento em que as coisas se encaixavam: mais especificamente. Depois 152 . pois nosso corpo estava alterado. As religiões sabem disso muito bem. pelo menos era requisitada a presença do Venerável Mestre. Era tudo muito bem pensado para nos gerar um êxtase maior do que qualquer coisa que conhecíamos. Jejuns longos já nos deixa alterados. Por isso Castália valorizava o ideal do anonimato: porque o Jogo de Avelórios era jogado por um grupo e não por uma única pessoa.Wanju Duli justo com todos os jogadores e valorizar mais a harmonia do grupo do que o destaque de apenas um. Embora nós. era possível jogá-lo sozinho. Esse Jogo em particular durou seis dias. da Sombra e de mais um mestre eminente. as transições de uma música para um poema ou de uma explicação matemática para uma demonstração de química. Os jogos públicos de Castália normalmente eram realizados por no mínimo três jogadores. Some-se a isso uma série de demonstrações da cultura clássica. A carne eram as diversas áreas do conhecimento e a pele que as cobria os hieróglifos do Jogo. mas isso raramente era feito. a duração era em torno de uma semana. assim como nossa mente e. mas isso se deveu principalmente ao meu desconhecimento dos hieróglifos. não participássemos diretamente nas escolhas de temas e passagens. Meditar também tem forte apelo emocional. Sim. Ou seja. nosso espírito. nós vivíamos o Jogo. que possuíam uma gramática própria. Confesso que eu perdi muitos dos encaixes e explanações. A matemática e a música eram como o esqueleto que sustentavam todo o resto. consequentemente. Depois passaram a durar 10 ou 15 dias. Eu não estava acostumada a comer de maneira tão frugal e a realizar meditações tão longas. Antigamente os Jogos duravam longas semanas. Elas se encaixam. Atualmente. geralmente tidas por um grande número de pessoas como inegavelmente sublimes e belas.

Confesso que derramei lágrimas de êxtase em diferentes ocasiões ao longo das celebrações. Quaisquer traços de desconfiança tinham se apagado. Tratava-se de um caminho só de ida. Estava consciente de cada pequeno pedaço do meu corpo. quase caída no chão. me dando aquele calafrio. Se ao menos eu não tivesse conhecido aquele prazer. Minha mente fervilhava ao contemplar a inteligência daqueles gênios bastardos que eram os meus professores. Eu não seria mais capaz de retornar.. se eu não soubesse que fosse possível. como se minha alma vazasse pelos olhos. sentindo meu corpo inteiro formigando. Eu ainda estava num estado de quase desmaio. Dessa vez elas vieram como um mar.. Com a finalização das celebrações. Eu estava com uma expressão vazia. – Que está fazendo aqui. fadiga da mente. Mais do que assistir a meu primeiro Jogo.A Era do Folhetim de passar seis dias naquela reclusão ascética. em todas as suas dimensões. Ela estava chorando também. O que era aquele sentimento inexplicável? Cansaço extremo do corpo. nem se desejasse.? – perguntei. O corpo pode esquecer de uma dor. Mas agora não tinha mais volta. Vamos começar a percorrer seu ser inteiro para levá-la ao outro mundo”. Aquelas criaturas que eu via no dia a dia fazendo piadas escrotas em aula agora me pareciam Deuses. 153 . eu me sentia tão cansada que achei que poderia morrer. Pensei que fosse Sabrina. eu poderia retornar à minha velha vida ou mesmo à minha bela literatura. sem mal conseguir caminhar. Ao mesmo tempo. quem me abraçou foi Sônia. Não havia mais a mínima dúvida dentro de mim. Foi quando senti alguém tocar minha mão. E aquele êxtase que eu sentia era minha alma penetrando em cada átomo do meu corpo. Nem mesmo a emoção que eu sentia ao ler livros se comparava àquele balanço da alma que envolvia meu ser inteiro. Era como se minha alma percebesse que meu corpo e minha mente estavam falhando. “Ela está perto da morte. aquela tinha sido minha iniciação: eu havia rompido a barreira e penetrado em outro mundo. Mas o espírito nunca mais esquece após ser tocado. Porém. E ali. A mente pode esquecer de uma sensação. eu senti mais lágrimas. com voz fraca. eu me sentia mais viva do que nunca. como não sentir o espírito? Nós o sentíamos mais forte do que nunca.

Eu me sentia como alguém que nunca praticou esportes e de repente decide correr uma maratona por horas seguidas: cada parte do meu corpo parecia quebrada. apenas as sete horas habituais já fizeram o serviço. consegui me levantar.. – Castália será nosso túmulo – eu disse. É tudo que posso dizer. Porém. Pensei que eu fosse precisar de umas 15 horas de sono para me recuperar daquela experiência de quase morte. Isso era forte. Finalmente. – Consegui um ingresso especial para assistir ao Jogo. Tomei um café da manhã reforçado no refeitório e já me sentia muito bem. Nos levantamos juntas. Maria. pois fui a melhor de minha classe – contou Sônia. Morarei aqui para sempre. Mas quem fazia isso era quem já jogava há muito tempo. 154 . que estavam muito animados enquanto comiam seus ovos com bacon. Eu ri. Nem mesmo eu havia planejado minha vida tão longe.. já as teria abandonado há muito tempo. Foi estranho ouvir a mim mesma outra vez. – foi tudo que consegui dizer. – Maldita. Em apenas dois meses Barata iria se formar. – Eu disse que pretendia sair de Castália depois que me formasse aqui – disse Sônia – mas agora decidi que não vou mais. ainda sem ter certeza se eu me recordava como se ria. Eu precisava de comida de verdade e de uma longa noite de sono. Morrerei aqui. Ela riu comigo. Pronunciar isso me dava uma inexplicável alegria. Não teria nem mesmo pisado nas escolas preparatórias. Ou mesmo se tivesse pisado. Era normal que muita gente fosse discutir o Jogo e debater as jogadas logo depois que ele terminava. eu jamais teria chegado tão longe. então ele queria aproveitar cada momento como aluno em Cela Silvestre. orgulhosa. ainda com voz rouca. Se não fosse você. – Obrigada. “Morrerei aqui”. Sentei-me com Barata e Boaventura. Ter a Sônia ao meu lado no momento mais importante da minha vida era muito mais do que sonhei.Wanju Duli Fazia seis dias que eu não usava minha voz.

porque ele relaciona o Infinito Absoluto com Deus. 155 . – Digamos que essa intervenção gerou uma interferência. que se perguntaram: “Quem diabos é esse pintor?” e ninguém queria admitir que não sabia. colocou a própria pasta na mesa. Ele fez uma obra bastante realista inspirada no Renascimento. Agora eu entendia melhor as expressões de horror dos outros jogadores quando a viram. Aquilo continuaria a ser comentado por pelo menos mais uma semana. Essa querela de forma! Eu teria mais uma aula com Liliane Cavalcante em janeiro.A Era do Folhetim – Vocês viram a cara do Junqueira quando Peixoto fez aquela troça no segundo dia? – perguntou Barata – e repararam que o Junqueira contra-atacou para se vingar? – Eu reparei – disse Boaventura – ele meteu o Georg Cantor no meio. sorrindo. obviamente. Domine – eu disse. Quando a vi entrando pela porta. Dessa vez. A Domine deixou bem claro que este era um Jogo psicológico. já que o Cantor é do século XIX – disse Barata – e as crianças queriam ficar pulando corda apenas no Barroco e nos arredores. Posteriormente descobrimos que aquela pintura havia sido feita pelo próprio Peixoto. A pintura deve ter gerado um nó no cérebro de todos os participantes. – Não tenho a menor ideia – eu disse – não há internet aqui e a maior parte das informações dos livros são dos célebres nomes do século XXI para baixo. E. – Peixoto detesta Deus? – perguntei. Mas. essas coisas são mais relevantes na versão formal do Jogo. então disfarçaram. – Quem era aquele pintor que o Peixoto enfiou no Jogo? – perguntou-me Sabrina. Ela estava. sinceramente. – É pior – disse Boaventura – ele detesta o Infinito Absoluto. sobre problemáticas de nível intermediário do Jogo. na qual se busca uma utópica harmonia densa perfeita. Eu não sabia que ele era assim tão bom. fiz uma breve reverência. se referindo a Peixoto. O Peixoto detesta o Cantor. – Magnífico Jogo. – Eu juro que vou acertar aquele peixe com uma vassoura – ela falou graciosamente.

que quando criança foi pessoalmente instruído pelo lendário Magister Ludi Josephus III. Eu tiraria meu chapéu para ele. Fazer isso numa cerimônia oficial pública do Jogo era extremamente ousado. Mas até parece que ele ligava para isso. sinceramente. Eu preferi não me meter na discussão. – Não sei porque o Miguel ainda não o expulsou da Amor Fati – comentou Boaventura. Boaventura fez uma careta. Quando fitei Alvim no corredor. vai se dar muito mal. – Eu sei porque você está zangado – Barata sorriu – é por causa daquele amigo do Navarro: Tito Designori. enquanto na Inglaterra o foco está na analítica. num tom de voz ligeiramente mais baixo – esses alemães chegam no Brasil pensando que aqui é tudo festa e não precisam cumprir regras. cala a boca – disse Barata – não julgue um país por causa de uma única pessoa. – Eu acho que a Nova Castália brasileira é muito influenciada pela sede alemã – comentou Boaventura naqueles dias – o Jogo teve origem na Alemanha e na Inglaterra e os dois países seguiram estilos diferents. ele se encaixava perfeitamente como Sombra. Basta olhar para a filosofia: na Alemanha e na França predomina até hoje a filosofia continental.. – Eu acho que essa divisão entre filosofia continental e analítica gera uma segregação desnecessária – comentou Barata – e essa separação também se reflete no Jogo de Avelóros.. Se você continuar falando isso em voz alta por aí. Só por causa da lenda do Josef Knecht.Wanju Duli Realmente. estou de saco cheio. Mas não sei se entendi seu comentário. Por isso até hoje o Brasil foca nas versões psicológicas do Jogo. – Cara.. Você considera negativa a influência alemã? – Não é que eu considere negativa – explicou Boaventura – mas por aqui só se fala na Alemanha: os Jogos alemães. também fiz uma breve reverência. enquanto na Inglaterra o formalismo é preferido. É quase como uma guerra entre razão e emoção. Eu estava olhando para ele de forma diferente agora. Pensando bem. 156 .. o professor Peixoto era um gênio. tinha abdicado de sua vontade de tornar-se Magister Ludi um dia. Para isso. o Magister Ludi alemão.

As pessoas só têm olhos para as diversões caras e brilhantes. mas ainda não havia tido aula com ela. já que as notícias chegam de forma lenta aqui em Castália. retornou com alguma força alguns anos atrás. Não sei se você está sabendo. – É tão mais legal assim jogar o Jogo das Contas de Vidro incluindo jogadas proibidas? – perguntei. O islamismo é a religião que mais cresce no mundo hoje. É costume que livrarias e bibliotecas sejam rigorosamente vigiadas pelas autoridades em muitos países. mas o papa recentemente promulgou uma nova versão do Índice dos Livros Proibidos. – Você sabe como as pessoas são – disse Barata – se existerem cem coisas para se fazer no mundo. mofando. eu sabia que existia uma xenofobia velada em Castália. 99 delas forem permitidas e apenas 1 proibida. a maior parte da população de Nova Castália ainda era de brasileiros. – Tenho uma ideia – eu disse – vamos proibir as pessoas de lerem livros! Os livros sempre estão lá de graça nas bibliotecas. Embora eu pessoalmente não tivesse feito amizade com nenhum estrangeiro com exceção da Mariel. 157 . a minha antiga tutora das escolas preparatórias que era das Filipinas. Preferem até os livros bonitos e cheirosos das livrarias mesmo que tenham que pagar por eles do que retirar um livro amarelo e feio de uma velha biblioteca esquecida. – Do que está falando? – perguntei. Ainda assim. Nem vou falar de certos países islâmicos em que isso já é rotina há alguns séculos. Éramos estudantes das escolas preparatórias quando aconteceu e por isso a notícia não chegou aos nossos ouvidos. Eu lembrava que tínhamos uma professora austríaca chamada Lisa Bauer. – Index Librorum Prohibitorum – pronunciou Barata – embora formalmente abolido em 1966. Só porque é grátis e acessível ninguém quer saber. Barata respirou fundo.A Era do Folhetim Havia muitos estrangeiros na nossa Castália. A Sônia me contou que tinha uma professora da Colômbia e outra de Cabo Verde. – Cuidado com o que deseja – ele disse – você sabe que livros já foram proibidos e ainda o são até hoje. mas o cristianismo não está muito atrás. elas não vão tirar os olhos dessa única coisa.

Digamos que os dominicanos representam o lado intelectual da Igreja Católica: eles amam os livros. um ano atrás foi feita uma exigência para que nas cerimônias formais dos Jogos da Província seja mostrado um número mínimo de obras com influência católica. O Martelo das Bruxas renasceu das cinzas. você sabe que os dominicanos estão por trás disso. – Você está sendo romântica – comentou Boaventura – a Igreja não está interessada em romance. os inquisidores que compilaram o Malleus Maleficarum eram dois alemães membros da Ordem dos Pregadores: Heinrich Kramer e Jacob Sprenger.Wanju Duli – O que isso significa para Castália? – perguntei – vão proibir obras em nossas bibliotecas? E o que vai acontecer aos nossos Jogos? – Isso ainda está sendo negociado – disse Barata – o Vaticano está tentando ser razoável. Não quer que seja promovido o amor baseado na intelectualidade dos seres humanos e sim que se fortaleça o amor entre nós e o divino. a Inquisição? – perguntei. Não sei porque colocar números nesse amor.. Muitas obras clássicas do passado possuem forte influência religiosa e nós as amamos naturalmente. muitos deles apreciam a beleza do nosso Jogo. – Teoricamente. a Inquisição ainda persiste até hoje. – O Jogo já promove isso – eu disse.. – De uma forma bastante heterodoxa e indireta. eles diriam – falou Barata – mas isso não é o pior. Ele pretende formar uma força de resistência? 158 . Por essa razão. sem muito esforço. – eu disse. – Essa exigência fere nossa liberdade – argumentei – além do mais. são apaixonados pelo estudo. Inclusive. – Calma – disse Barata – é exatamente por causa dos dominicanos que o Vaticano e Castália possuem uma relação tão boa. – Você quer dizer. – Entendi porque Navarro fundou essa sociedade secreta – falei – foi como uma reação ao Tribunal do Santo Ofício. – Sempre os dominicanos. mas por outro nome: “Congregação para a Doutrina da Fé” – disse Barata – sobre ela e o Malleus Maleficarum. Pode ser que não toquem em nossos acervos ou nos Arquivos do Jogo. isso já é feito normalmente. não é? Eu suspirei. Porém.

Normalmente durava alguns meses.A Era do Folhetim – Se as autoridades de Castália descobrirem o que Miguel está tramando. “por algum tempo”. mas poucos. Em Castália não éramos apenas uma existência independente: éramos um grupo. Caso Navarro fosse excomungado. acima de tudo. eu diria que essa seria a coisa mais segura que pode acontecer. Barata. mas isso não significava que não pudesse ter sua individualidade. como se fôssemos o único ser no mundo e somente meu prazer momentâneo importasse. as novas diretrizes impostas pela Igreja estavam ameaçando tanto nossa liberdade individual quanto a nossa liberdade como grupo. poucos meses depois. No entanto. Afinal. já que esse período não poderia se estender além da conta. Porém. isso deveria ser discutido com o Magister de cada escola. ele apenas retornaria para a segurança de sua abastada família. Os jovens. ela poderia evitar ser individualista. Navarro e Gio se formaram. cá entre nós. estão sempre ardentemente desejando as férias e a liberdade. mas em casos especiais podia ser estendido por alguns anos. de fato. 159 . “Vou fazer o que quero”. ele permanecera pelos últimos 12 anos estudando música nas escolas de elite preparatórias e nas Grandes Escolas de Elite. os estudantes. Contudo. Josef requisitou um período maior de estudos livres. Seria uma estrela lá fora e teria uma carreira de sucesso. ele será imediatamente excomungado – disse Barata – mas. Havia um trecho que relatava uma conversa que Josef teve com o Magister Ludi da época. porque o termo “liberdade” é incrivelmente sedutor. seria aceito como professor de música em qualquer universidade brasileira. Eu estava lendo a biografia do Magister Ludi Josephus III. mas não soube dizer o quanto. Era preciso harmonizar os dois: o eu e o outro. normalmente dois ou três. Após finalizar seus estudos em Castália. Agora eles teriam direito a um período de estudos livres. “Algum tempo? Quanto tempo? Ainda falas a linguagem dos estudantes. como me disse Sônia uma vez. E. Josef” Agora eu já podia retirar livros de certas bibliotecas restritas de Vicus Lusorum. Thomas von der Trave. Com o diploma de Castália que ele estava prestes a receber.

mais do que pintor agora sou jogador de Contas de Vidro. Por conta disso. Porém. – Isso é uma ameaça. tanto Barata quanto Navarro decidiram continuar em Nova Castália.Wanju Duli Gio decidiu que permaneceria na Castália da Grécia por um ano e depois retornaria para o Brasil. Ela retornou nos contando como eram os Jogos na Grécia. Mas não adiantava mais argumentar. que seriam o equivalente a um tipo de pós-graduação na visão secular. E Barata quis continuar também para apoiá-lo. Ela havia se tornado papisa há pouquíssimo tempo. Eu sabia porque Navarro iria permanecer: por causa da Amor Fati. Seria a terceira cerimônia de Jogos que eu assistiria. mas Navarro ficou puto. Mais um ano se passou.. Eu já havia completado metade dos meus estudos e Gio estava de volta. – Ah. – Não se preocupe. que havia sido educada na Ordem dos Pregadores. eu quase esqueci que “viajar” é considerado um ato muito mundano pelos Deuses de Cela Silvestre – zombou Navarro – é mais divertido continuar escondido na casinha e ser um cachorrinho adestrado da Igreja. mas bem que eu gostaria – eu disse – me preocupo com a sua segurança. No entanto. Maria? Pretende me delatar? – Não. pois eu não me preocupo – disse Navarro – comecei isso porque quero e pretendo lidar com as consequências. “Não é bem assim. Mais um ano se passou. – Você devia ter ido para a Itália – disse Navarro – para averiguar como anda o processo de castração por lá. nesse ano teríamos uma convidada especial: a papisa Catherine I. – disse Barata – além do mais. pensei. Você está envolvendo outras pessoas nisso”. Todos os três recusaram o período de estudos livres e iriam prosseguir em seus estudos. Que tal viajar como informante. – Não quero ir para a Itália. A teimosia dele não tinha limites. cuidado para não ser pisado pelo pé de Maria – provoquei. – Se você quer ser uma cobra. Navarro me fitou com o canto do olho.. Arthur? Você é pintor e pode dar a desculpa que deseja estudar a arte renascentista. o 160 .

Quando as cerimônias do Jogo foram oficialmente finalizadas. É claro que sempre tinham aqueles que ainda preferiam optar pelo celibato. eu havia me acostumado a meditar. O Index e o Martelo das Feiticeiras estavam de volta a todo vapor. A presença da papisa na nossa cerimônia me enchia de suspeitas. As referências eram quase que integralmente católicas. Antigamente eu me queixava tanto disso e atualmente a prática havia se tornado uma necessidade diária. apesar de todas essas conquistas. na prática. Estava evidente que o maior interesse daquilo era agradar a nossa singular visita de honra. Só mudaram a denominação e tradução para “Martelo dos Malfeitores” ou “Martelo dos Hereges”. Quando ele me disse isso. 161 . As mulheres e homossexuais já tinham conquistado muitos direitos no século XXIII aos olhos do Vaticano. Catherine era a segunda mulher a conquistar esse posto. Sim. resolvi meditar sozinha no meu quarto para sentir o espírito daquilo que fora mostrado. Inclusive havia alguns padres gays e freiras lésbicas que podiam se casar pela Igreja. Afinal. São Domingos de Gusmão. Foram nove dias de fervoroso catolicismo no Jogo das Contas de Vidro. Boaventura foi me procurar no refeitório. Na manhã do dia seguinte. Já fazia mais de dois séculos que a Igreja estava aceitando mulheres como pregadoras nos púlpitos das igrejas e mais de um século que mulheres podiam se tornar papisas. como era o caso dos papas e dos monges que compunham o clero regular. No entanto.A Era do Folhetim Jogo daquele ano pretendia homenagear figuras como São Tomás de Aquino. alguns preconceitos ainda persistiam. Ela também era a terceira pessoa negra a assumir tal posição. Ele estava com suas velhas olheiras. já que tanto homens como mulheres podiam ser condenados. já fazia dois séculos que uma porção do clero conquistou o direito de se casar: era uma nova divisão do clero secular. Além disso. Não parecia ter dormido nada e me fitava com olhar apavorado. Catarina de Siena e Rosa de Lima. senti uma sensação horrível no peito. embora ainda houvesse muita luta pela frente. – A papisa chamou o Miguel para conversar. Ela assistia ao nosso Jogo com muita atenção. Os homossexuais também já podiam se casar na Igreja Católica.

com desânimo – tudo que sei é que os dois tiveram uma longa conversa ontem à noite. isso estava acontecendo no coração de Castália. Mesmo se uma criança desobedece seus pais para ajudar um amigo. Maria – disse Boaventura. tem um conteúdo e um propósito maior. – Então. – Ele perdoa. ela faz parte de uma instituição maior do que ela mesma. – Não é assim que o mundo funciona. história. ela não pode. Miguel é uma pessoa muito razoável quando se propõe a conversar a sério.. os pais não podem deixar isso passar assim. mexendo as mãos nervosamente – mesmo que a papisa quisesse deixar passar. Tem mais de 80 anos.. Embora não pareça.Wanju Duli – Quem foi o traidor que o delatou para a Igreja? – perguntei. – O Deus deles não perdoa? – perguntei. conhece áreas a fundo: teologia. E esta Igreja tem leis que estão acima da vontade individual da papisa de perdoá-lo. a papisa só precisou pronunciar um único nome: Immanuel Kant. ele não será punido? Perguntei isso por perguntar. filosofia. mas também é justo – respondeu Boaventura – mas o que é a justiça? Para explicar isso a Miguel. Sabe das coisas. Devem educar a criança e mostrar que regras são regras e que não se pode agir livremente baseando-se apenas nas exceções. Ela é uma mulher respeitável. É a representante máxima dessa instituição poderosa que é a Igreja. Não creio que ele tenha falado o que não devia na frente da papisa. Não importava o quão inteligente Miguel fosse e o quão nobres fossem suas intenções. 162 . – Ninguém sabe – respondeu Boaventura. Isso encerrou o assunto. ele havia quebrado leis sagradas. Assim como nós em Castália. muito conhecimento e experiência de vida. Ela é uma doutora da Igreja. Uma coisa era delatá-lo para Castália. Miguel foi derrotado. Para piorar. É óbvio que ela entende o ponto de vista de Miguel a respeito das proibições: o motivo de ele fazer o que fez. Uma mulher inteligente como ela entende que isso não é mero vandalismo e provocação. Outra coisa bem diferente era contatar o Vaticano e contar a respeito do líder de uma sociedade secreta que andava fazendo jogadas proibidas pelo Santo Ofício. Isso só iria gerar uma excomunhão.

A Era do Folhetim
Eu ainda me lembrava do eco do que Carlos me disse quando eu
tinha 13 anos e inventei uma bobagem sobre uma tartaruga: “Está
familiarizada com o Imperativo Categórico?”.
– Os mandamentos são absolutos e não permitem exceções – disse
Boaventura – porque são máximas morais. Tanto a religião como Kant
se baseiam no idealismo. O cumprimento de uma lei não tem como
objetivo estender uma vida humana ou gerar mais lazer e conforto para
uma única vida e sim tornar os homens morais. A papisa quer usar
Miguel como exemplo para mostrar o poder de Deus.
– A papisa vai matar o Miguel? – perguntei, assustada.
– Ela não vai matar ninguém. Eu vou repetir: a papisa não faz nada
por amor a ela mesma ou por emoções passageiras como raiva ou
vingança. Ela é a representante de uma instituição. A Igreja coloca-se
apenas como porta-voz da vontade de Deus: “Seja feita a Tua vontade e
não a minha”, não é isso o que dizem? Em Lucas, se não me engano.
Eu nunca tinha lido a Bíblia, então não sabia. Pelo menos não inteira.
Como estudante de literatura, eu tinha a obrigação de conhecer pelo
menos um pouco do que havia no livro mais lido do mundo.
– Então Deus pode matar? – perguntei – Ele pode ir contra os seus
próprios mandamentos divinos?
– Os mandamentos foram feitos para os seres humanos imperfeitos.
O Deus da Igreja coloca-se acima do conceito de bem e mal humanos.
Deus e seus mensageiros podem exercer a justiça divina porque eles não
adoram o materialismo. A Igreja não enxerga o corpo como mais
sagrado que a alma. A carne pode morrer para salvar o espírito e
purificá-lo.
– Miguel é um herege e precisa ser purificado – eu disse, sem
acreditar – apenas porque ele realizou as jogadas proibidas. Afinal de
contas, que jogadas foram essas?
– Maria, você não compreende a visão da Igreja porque foi educada
no paradigma de sua época – explicou Boaventura – nós vivemos numa
sociedade ocidental que inventou os direitos humanos para proteger o
corpo e a mente das pessoas. Os tais direitos humanos são baseados
numa visão materialista da realidade que não considera o espírito.
– Então você concorda com essa merda?! – gritei, fora de mim – vai
permitir que matem o Navarro sem mover um dedo?!
163

Wanju Duli
– Eu não disse que concordo – falou Boaventura – estou apenas
tentando compreender o ponto de vista do Vaticano. É claro que não
vou tentar compreender a visão de Deus, pois é algo acima de mim
mesmo.
– Você acredita em Deus?
– Eu acredito. Você não?
– Não sei – respondi – o Vaticano já foi corrompido por interesses
políticos antes. São seres humanos imperfeitos tentando interpretar um
Deus perfeito. É claro que podem se enganar.
– Qualquer um pode se enganar: um médico, um engenheiro, um
bombeiro. Isso pode gerar muitas mortes que poderiam ter sido evitadas
se fôssemos perfeitos. Mas não somos. Nem por isso a profissão dos
advogados e juízes será extinta. Eles fazem o melhor que podem para
defender e julgar as pessoas com justiça. Os sacerdotes estudam muito
para interpretar as leis de Deus. Sim, cometem erros. Mas os acertos
compensam, pois eles guiam as pessoas para que possam ter uma vida
mais ética.
– Seus valores estão invertidos – eu disse – a vida humana sempre
vem em primeiro lugar. Nada justifica uma morte!
– Nem mesmo morrer para salvar alguém? Engraçado, pois esse ato
geralmente é aplaudido. Inclusive atos mais absurdos que esse são
aplaudidos pela sociedade ocidental, como os heróis de guerra que
matam milhares. Você acha mesmo que os direitos inventados pela
sociedade em que vivemos são assim tão puros? Até hoje há pena de
morte, que é aceita por muitos quando envolve um atentado ao corpo,
como estupro, tortura ou assassinato. Exatamente porque o corpo é tido
como a entidade máxima na sociedade materialista! Então eles matam
aqueles que destroem o corpo, mas aceitam os destruidores de espírito.
– Miguel é um destruidor de espírito, o que o torna pior que um
assassino, torturador ou estuprador – repeti, tentando acompanhar o
raciocínio absurdo.
– Eu não estou defendendo a porra da Igreja! – berrou Boaventura,
completamente alterado – só estou tentando te fazer aceitar essa horrível
realidade que não pode ser mudada. Eu quero te fazer entender, para te
impedir de fazer uma besteira como a que Barata fez.
Eu fiquei sem fala.
164

A Era do Folhetim
– Alguma coisa aconteceu e você está enrolando para me dizer –
concluí – porque estamos filosofando sobre moral agora? Diga logo o
que aconteceu ontem!
– É exatamente o que você pensa – disse Boaventura – Miguel foi
condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Sua pena é a morte pela
fogueira da Inquisição.
– Ele morreu?! – perguntei, chocada.
– Ainda não – respondeu Boaventura – será uma cerimônia pública.
Miguel assumiu sozinho toda a culpa pela sociedade secreta. Nenhum de
seus membros foram incriminados. Porém, Miguel pediu por
misericórdia.
– Ele tem esse direito? – perguntei.
– Ele não sabia se tinha ou não. Apenas colocou a testa no chão e
clamou, aos prantos, para que a papisa poupasse sua vida.
– Essa bruxa não cedeu nem depois de ele se humilhar? – perguntei,
escandalizada.
– Ela disse que o perdoava, mas que ele precisava passar pela
purificação do Espírito Santo, que é pelo fogo.
– Os católicos perdoam as prostitutas, os assassinos, mas não
perdoam os jogadores hereges de Contas de Vidro – concluí.
– Isso porque, na visão da Igreja, existe algo chamado pecado venial e
pecado mortal. O venial é aquele que mesmo que se acumule não se
transforma em pecado mortal. O pecado mortal é aquele que tira a graça
divina da alma humana, rompendo o contato com Deus. Pode-se pecar
contra o Pai ou contra o Filho, mas não contra o Espírito Santo.
– Então, na visão da Igreja, Miguel perdeu sua possibilidade de
salvação – concluí – e se ele se confessar?
– Ele poderia confessar e fazer penitência, mas ele se negou a isso.
OK, agora Navarro estava sendo burro.
– Ele prefere ser queimado do que admitir que fez algo errado? –
perguntei, impressionada.
A teimosia dele estava ultrapassando os limites. Ia morrer por mero
orgulho?
– Como eu disse, ele meteu a cara no chão e chorou, pedindo perdão
– explicou Boaventura – mas mesmo pedindo desculpas, continuou
insistindo que não tinha feito nada que seria digno de repreensão. Além
165

Wanju Duli
do mais, ele não reconheceu a doutrina de Deus ou da Igreja diante da
papisa.
– Na prática, ninguém precisa ser queimado, pois basta confessar –
eu falei.
– Não é bem assim. Você não sabe como o ser humano pensa,
Maria? É muito difícil admitirmos que estamos errados. Muitos já
aceitaram a morte por seus ideais. Incluindo Giordano Bruno. O
julgamento dele foi muito longo, durou oito anos. Ainda assim, ele não
cedeu.
– E qual foi a besteira que você disse que Barata fez?
– Defendeu Miguel.
– Não é natural para um amigo fazer isso? – perguntei.
– Sim, mas Barata não precisava ter chegado a esse grau tão trágico
de amizade – disse Boaventura – foi uma idiotice. Antes era só Miguel
que estava condenado. Agora o Arthur também colocou os olhos da
Igreja sobre ele. Eu vou ficar calado e te alerto para que não se envolva
nisso.
Era impressionante. Todos em Castália ficaram mudos. Fossem
membros da sociedade secreta ou outros habitantes de Castália.
Ninguém queria se envolver.
Fui conversar com a Magister Ludi. Cavalcante me recebeu em sua
sala. Ela também parecia um pouco tensa.
– Aquele menino... ele sempre soube da consequência de seus atos.
– Mas, Domine... – eu disse – Vossa Grandeza não tem o poder para
impedir?
– Castália não está acima do Vaticano. É apenas sua irmã mais nova.
– Isso é o que eles dizem. Nós seguimos leis e regras próprias.
Navarro é responsabilidade nossa.
– Castália não é uma Província isolada. Se o Brasil entrar em guerra,
por exemplo, seremos envolvidos. Se não houver dinheiro entrando na
Província, nós não comemos. Se o Brasil entrar numa profunda crise,
Castália pode não sobreviver.
Realmente, não nos encontrávamos numa bolha protegida, longe da
história e da política. A morte de Navarro seria uma coisa pequena
comparada à perspectiva de Castália atravessar uma enorme crise
financeira e passarmos fome.
166

Eu diria até mesmo que eles vivem num mundo ainda mais atemporal do que 167 . Infelizmente. mesmo que saibam que ele é uma pessoa incrível e famosa. apoiando as costas num muro. Às vezes fumando.A Era do Folhetim Quando conversei com Sabrina. ele negou-se terminantemente a conversar comigo. Até porque. Eu precisava falar com Navarro. ela voltou a falar de repente: – Tenho um serviço pra você. Eu soube que a Gio ficou profundamente deprimida com tudo que estava acontecendo e também se negava a conversar com qualquer pessoa a respeito. Ela tirou um cigarro do bolso e começou a fumar. Ela ficou em silêncio por mais de cinco minutos depois disso. mas eu fiz que não. ela está num estado que impossibilita a conversa. Lá o tempo se arrasta. Eles participariam de um longo julgamento que duraria meses e teriam que cumprir penitência enquanto isso. todos sabem que o máximo que seríamos capazes de fazer seria morrer com ele. às vezes só parada olhando o nada. Porém. Para a minha surpresa. não acho que o julgamento vai durar tanto tempo. ela também estava chocada. quem veio falar comigo foi a Dani. nos sentamos sobre a grama num local afastado. – Por que não vai você mesma? – perguntei – além do mais. dê uma desculpa qualquer e vá até Roma. Acabei nem conseguindo falar com Barata também. Até achei que ela tivesse se esquecido da minha presença ou tivesse desistido de conversar. já que Castália ficava longe de tudo. Eu não fazia a menor ideia onde ela tinha conseguido aqueles cigarros. mas com a Giovana. Só podia ter sido com um aluno ouvinte. Provavelmente seria a primeira vez que teríamos uma conversa que realmente poderia ser chamada de conversa. Primeiramente. Os dois foram enviados para a Itália. Depois de se formar. – Não queria estar falando contigo. ninguém está disposto a morrer por ele. embora não fosse com essa intenção que eu queria vê-lo. No entanto. – Você não conhece o Vaticano. Dani me ofereceu um. Acho que ele não queria que eu lhe jogasse na cara todos os meus alertas. – Agora todos conhecem a identidade do líder – ela disse – e.

Após me formar. Você pode fazer mais que isso. eu não queria me envolver com aquilo. – Por que não vai lá você mesma e salva a vida do seu namorado? – Tenho que fazer outras coisas. – Por que eu? – Porque todos os outros estão ocupados com coisas grandes e você é uma baita desocupada. Eu já sabia o que ela pretendia. caso não tivesse outros planos. É rotina. Não. – E que lugar é esse? – Arquipélago de Cólon. – Não dou a mínima para os seus insultos – eu disse – vou pensar na sua proposta. eu expressei meu desejo de visitar um convento dominicano em Milão. Eu não era uma pessoa tão nobre quanto Barata para aceitar ser queimada com Navarro. mas admiro o que ele começou lá. Não fui membro da Amor Fati. Depois de me formar. em outro lugar. mas não garanto nada. eu não fazia a menor ideia do que ia fazer. – Não entendo de teologia – expliquei – e meus conhecimentos de literatura e do Jogo das Contas de Vidro serão inúteis para argumentar qualquer coisa. Como espera que eu os ajude? – Mostre a eles como o Jogo é magnífico – ela disse – e que Navarro estava certo em fazer o que fez. Como espera que meus conhecimentos façam alguma diferença depois disso? – Aquele Jogo foi mera formalidade para agradar a visita. Está certo. Mas eu não gostava da ideia de já estar direcionada a um destino que eu nem mesmo sabia se queria. – Eu tenho outros planos. se fosse apenas uma visita que garantisse minha segurança. Alguns anos de julgamento não significa nada para eles. Contudo. eu não tinha. – Não quer salvar aqueles dois? – ela perguntou. – A papisa assistiu a um Jogo oficial jogado pelos maiores especialistas. eu podia pensar a respeito. Sinceramente. Eu daria um curso de Jogo de Avelórios para as 168 .Wanju Duli Castália.

Eles ainda não tinham retornado. Normalmente. – Isso é bastante positivo para melhorarmos o relacionamento de Castália com a Igreja. Não basta pedir permissão para viajar e partir. Eu me formei com 25 anos. essas permissões demoram anos para que se consiga autorização. eu finalmente precisaria realizar minha transformação completa numa Southern Belle para cumprir o meu papel de lady de Castália. sempre mostrando a elas meu amor pelo divino e o sagrado. Teria que preparar tudo de forma sutil e respeitosa. Principalmente porque envolve dinheiro. Com meu período no convento eu iria perceber que as diferenças entre Castália e a Igreja eram muito mais profundas do que eu imaginava. Mas eu não poderia simplesmente incluir as jogadas proibidas nos Jogos. 169 . Enquanto isso. Eu sentia que estava preparada. eu teria que tomar medidas drásticas.A Era do Folhetim freiras durante alguns meses. Porém. Consegui a permissão da viagem dois anos depois. Um abismo ainda maior a transpor do que passar do conceitualismo ao idealismo. que não anda dos melhores desde o caso da sociedade secreta. o processo de julgamento deles continuava. Nesse momento. em Castália as coisas não funcionam rapidamente. Se eu realmente tinha intenção de mostrar a elas o poder e o alcance espiritual do Jogo das Contas de Vidro. Meu pedido foi recebido pelo Diretório de Cela Silvestre com entusiasmo. Até que foi rápido.

da investigação com o ascetismo. Felizmente. não para trocar a vida ativa do nosso espírito pela existência vegetativa e sonhadora da nossa alma. no qual eu atuei como Magister Ludi. Não que meu espanhol fosse maravilhoso. incluindo Sabrina. Mas eram sempre jogos curtos e informais. à aquisição de poder sobre os outros e. ao narcisismo das vaidades artísticas. No máximo. o Jogo das Contas de Vidro tem também o seu diabo que o persegue. ao abuso desse poder. Aqui é através da meditação. de alguma forma. Barata e Boaventura. 170 . por Hermann Hesse Segundo Kant. ao arrivismo. Uma escolha peculiar. este Jogo pode conduzir a um virtuosismo oco. Não por acaso. Eu arranhava um portunhol e. as freiras optaram como um dos temas o livro “A religião nos limites da simples razão”. inglês ou mandarim. O Jogo das Contas de Vidro. além da do espírito. eu já havia jogado com mais duas ou três pessoas. a filosofia teológica seria a lanterna mágica das aranhas do cérebro. É por isso que temos também necessidade de outra educação. íamos utilizar “Temor e Tremor” de Søren Kierkegaard. conseguíamos nos entender. Seria minha primeira vez coordenando um Jogo para tantos jogadores: eu e mais cinco irmãs. nessa medida. pela prática dos múltiplos graus de yoga que procuramos exorcisar o animal em nós e o diabo que se esconde em cada ciência. em nosso primeiro Jogo de Avelórios. sabei-lo tão bem como eu. mesmo que vez ou outra perdêssemos algumas palavras.Wanju Duli Capítulo 3: O Diabo “Outros séculos refugiaram-se na união do espírito com a religião. algumas das freiras do convento de Milão sabiam falar espanhol e era através dele que a comunicação ocorria. e que nos submetemos à moral da Ordem. Além dele. mas para pelo contrário sermos capazes dos maiores feitos intelectuais”. na sua Universitas Litterarum a teologia era senhora. Eu não sabia nada de italiano. Ora.

mas simplesmente porque é belo amá-lÔ. Nunca fui boa em música. – Fala-se muito que o Jogo das Contas de Vidro é provido de espírito. sejam essas experiências de fato espirituais ou não. Milagres são uma genuína manifestação do Senhor. Se pensarmos dessa forma. Esta sensação que se sente ao jogá-lo. tal como nos aponta São João da Cruz. eu me pergunto se. ou mesmo gula ou luxúria espiritual – disse Giuseppina – queremos beber cada vez mais desse prazer e erroneamente o confundimos com a experiência do divino. O que quero dizer é que os milagres não devem ser vistos como essenciais para que se desenvolva a fé. que ele denomina de “efeitos da graça”. acho que me saí bem. pode gerar embriaguez espiritual que levaria ao fanatismo. pois eles acreditam no Filho de Deus mesmo sem que Ele esteja presente entre nós. é exatamente como diz Kant: os milagres levam à superstição – concordei. por exemplo. As irmãs pareceram gostar do Jogo e acharam muito curioso o fato de eu selecionar frases específicas dos livros escolhidos. contar suas letras e encaixar essa contagem com explicações de aritmética. Quem disse isso foi a irmã Maria Giuseppina. sendo o primeiro deles exatamente este. – Kant também comenta sobre isso no livro que utilizamos para o Jogo – observei – ele aponta os quatro erros transcendentes das religiões. Nós. cristãos.A Era do Folhetim Mesmo assim. então eu preferia optar pela matemática e a gramática como base. – Não me entenda mal – disse Giuseppina – não estou dizendo que milagres são falsos. Muitas delas escolhiam “Maria” como seu primeiro novo nome religioso. – São João da Cruz os chama de pecado do orgulho espiritual. achamos muito mais belo aquele que crê sem ver. é ainda mais bonita a fé dos cristãos de hoje do que daqueles que viveram na época de Jesus. Devemos amar Deus não devido a experiências de êxtase dos sentidos ou mesmo devido a milagres. – Sim. Porém. não estão a confundi-lo com o que seria na verdade um êxtase dos sentidos. Impressionar-se demais com as experiências de êxtase espiritual advindas da prática da oração e dos jejuns. 171 . chamam-na de êxtase espiritual.

somente Deus conhece essas coisas: sentido. Sobre a existência real de milagres como a manifestação de Deus. Porém. encontrei: "Não é essencial. perfeição. Ambicionam tocar o cosmo através dele. E não paravam de dar discursos apaixonados para partilhar esse amor. elas queriam compartilhar com os outros o tempo todo a enorme paixão que sentiam pela sua área. mas creio para compreender. eu não iria me dispor a discutir esse ponto. não se entende Deus pela razão. que o meu coração crê e ama. E o mesmo raciocínio valeria para a existência de Deus. pelo estudo da teologia. aí sim que nossa fé é belíssima. mas antes saber o que ele próprio deve fazer para tornar-se digno desse auxílio". nem por conseguinte necessário a quem quer que seja. Nós dominicanos compreendemos o valor de estudar a religião e aprender mais sobre ela através da razão. dignos de um verdadeiro cristão!”. Pois também creio nisto: „se não acreditar. pois era puramente questão de fé. a religião. não procuro antes compreender para crer. numa busca de perfeição. saber o que Deus faz ou fez por sua salvação. pois nós acreditamos nele mesmo sem que Ele exista! Isso sim que são fé e amor puros. não compreenderei‟”. – Você fala muito sobre a beleza – observei – e o que acha sobre a beleza de nosso Jogo? – Considero uma beleza meio desesperada – confessou Giuseppina – porque os castalianos insistem em tentar extrair um sentido e um segredo do Jogo de Avelórios. pelo rumo que aquela conversa estava tomando. Na verdade. – Exato. no caso. A fé vem antes.Wanju Duli Conversar com aquelas freiras me lembrava um pouco das minhas conversas com o professor Peixoto: assim como ele. Porém. Querem desvendar como tudo se encaixa. No entanto. – Tenho certeza de que há um trecho sobre isso no livro – eu o folhei – ah. sim. E se Jesus existiu de fato. também seria uma questão discutível. segredos. É como diz Santo Anselmo no Proslogion: "Desejo reconhecer um pouco a tua Verdade. ou qualquer coisa assim. Não se deve penetrar nos mistérios insondáveis do Senhor. eu não duvidava que em certo ponto a freira dissesse: “Se Jesus realmente não existiu. – Quem tenta penetrar nos mistérios de Deus cometeu um pecado mortal? – perguntei – foi isso o que meu amigo fez? 172 .

Confesso que eu não me sentia tão à vontade para me aproximar de Navarro porque ele tinha uma personalidade difícil. a Dani deve estar observando tranquilamente os tentilhões de Galápagos”. o senhor Miguel Navarro tinha plena consciência do que estava fazendo. – Não se comete um pecado quando não há consciência de que aquele ato é um mal – ela explicou – porém. Acho que não adiantava muito perguntar para a irmã o que era o inferno.. Provavelmente o único que o aguentava era Barata. pois ela provavelmente diria que era outro dos mistérios de Deus. o único que afasta o ser humano de Deus e o leva para o inferno. eu tinha tomado a barca do Anjo de Gregório de Matos.A Era do Folhetim Giuseppina respirou fundo. encaminhando-se para o inferno. E. já que ele era sempre legal com todo mundo. Pelo visto.. E lá estavam os dois juntos em uma cidade não muito longe dali. não se arrependeu. No fundo. um Samyaza. quem sabe estivesse mais para Prometeu. somente admiradores. Navarro! Você me meteu numa fria. Por isso mesmo ele não tinha amigos. contrariada. Ou pelo menos um Fausto. Ele queria ser um Lúcifer. que aceitava até morrer com ele. Eu não tinha conversado assim tantas vezes com ele. para ver se ainda dava tempo de puxá-los da barca do Diabo e salvá-los. Isso configura num pecado contra o Espírito Santo. O único pecado que não podia ser perdoado. mas repetiu muitas vezes. Não o considerava um amigo próximo. Enquanto isso. pensei. “Que merda. Ele não somente o fez. E que não importava muito saber o que era o inferno e sim agir de forma ética para manter-se longe dele. Navarro não estava muito a fim de fazer algo “pequeno” como se tornar Magister Ludi ou Magister Musicae. eu não sabia o que Navarro pensava. – A vida humana é muito preciosa – eu disse – Deus não nos ama? 173 . Era uma personalidade que ao mesmo tempo fascinava e afastava. Bem. mesmo depois de tudo. Acho que Navarro só teria coragem de deixar o orgulho de lado e se aproximar de alguém tão simpático quanto Barata. A maior parte do que eu sabia sobre ele era o que Barata me contava.

achava que não tinham realizado um mal e que não precisavam se arrepender? Talvez eles desejassem ser mártires. – Deus é amor. Mas se Barata ainda não tinha conseguido isso depois de tantos anos.Wanju Duli – Ele ama. concordava com Navarro. A morte deles poderia enfurecer os castalianos e os incitar a se revoltar contra a supremacia da Igreja. mas nós precisamos abrir nosso coração e aceitar esse amor – ela explicou – o pastor deixará todo o seu rebanho apenas para resgatar a única ovelha que se perdeu. Mas se ela continuar eternamente fugindo e escondida. aos nosso olhos parece contraditório. – Então como Ele pode matar? – O amor que o ser humano conhece é apenas uma porção pequena do Amor onibenevolente do Senhor. A única salvação para Navarro era que eu fosse capaz de convencê-lo a se arrepender. “Vocês não vão salvar o espírito dele com uma morte sob tortura na fogueira! Você acabou de dizer que ele cometeu um pecado mortal e está indo direto para o inferno!” pensei. 174 . Por que ele ainda estava lá? Iria continuar ao lado de Navarro até o dia da aplicação da pena capital? E se Barata pretendesse morrer com ele? Faria isso por amizade ou porque. no fundo. mesmo que aos olhos humanos eles porventura possam parecer injustos e maus. realmente. Os atos de Deus são sempre justos e bons. como eu iria conseguir? Eu não sabia o que Barata estava fazendo. Kant estava certo quando falou sobre as lanternas. se confessar e fazer penitência. como o pastor poderá salvá-la? Era uma situação sem solução. Deus quer o melhor para nós e a morte do corpo algumas vezes é a única alternativa para salvar o espírito. indignada. Começava a me dar nos nervos quando os argumentos teológicos passavam a ficar circulares. mas para Deus esse ato é justo e bom de uma forma que não compreendemos” eu ia ficar puta. Nós só enxergamos uma pequena parte do todo. Já estaria tudo planejado desde o princípio? – Deus é mais importante que o amor? – perguntei. mas estava complicando ainda mais e acrescentando elementos desnecessários na discussão. Dava apenas a impressão de que ela estava esclarecendo alguma coisa. E se ela me dissesse algo como: “Sim.

Os dominicanos eram demônios na argumentação teológica. como a Santíssima Trindade e a virgindade de Maria. eu estava falando com uma dominicana. Não estava falando com uma franciscana. Sendo assim. é óbvio que o Deus cristão só poderia ter existência real na doutrina cristã. Lembre-se do primeiro mandamento. a exemplo dos sofistas. Era como Kant. Por isso a Teologia da Libertação distorceu alguns ensinamentos quando colocou o corpo acima do espírito. pelo seu domínio da dialética. que defendia que seguir o ideal da moralidade era superior a qualquer ação. senhorita. Só a lógica de Deus era perfeita. já que eles dominaram todo o conhecimento ocidental por séculos.A Era do Folhetim Não adiantaria muito eu rebater com algum argumento lógico bem construído. o que é mais importante? – Ter fé em Deus. o cristianismo era fortemente baseado em Platão. mas eles estudavam tão a fundo a doutrina da Igreja que. Afinal. Eu sempre acreditei que um mestre de retórica é capaz de convencer qualquer um de qualquer coisa. OK. Ou seja: era mais importante as suas intenções por trás do ato do que o ato em si. Os argumentos do cristianismo vencem pelo cansaço” concluí. Fazia sentido. que considerava a pregação como o ato mais supremo. A Igreja teve esses mestres a seu dispor por mais de dois milênios. seriam capazes de defender o catolicismo fazendo o argumento mais absurdo parecer sublime. esse não era o termo perfeito. você ganhou a discussão. “Está bem. que considerava que os seus Deuses números eram entidades reais e não apenas inventadas para resolver problemas práticos. baseada no realismo e no idealismo. Eles não viam a religião como uma metáfora para que se realizasse boas ações no mundo. tomando conta das bibliotecas e das universidades. Eram argumentos perfeitos para justificar qualquer coisa. Eu só queria fazer uma última pergunta. Além do mais. – Entre ajudar os outros e ter fé em Deus. Bastava ela usar o seu coringa e dizer que a lógica humana é imperfeita e ineficaz para entender qualquer coisa. 175 .

Da mesma forma. sacudi-lo. em primeiro lugar eu precisava conversar com Barata. dar-lhe tapas na cara e dizer: “Acorda. que não eram mais trajes de estudante. eu não iria fazer isso. para realmente compreender o Jogo de Contas de Vidro era preciso estudá-lo muito a fundo. OK. Ser obrigado a assistir às longas missas também já poderia ser considerado penitência o suficiente. Eu já estava desistindo antes de começar. animal! Você vai morrer! Faça como a mamãe ensinou e diga „Me desculpe. É tão difícil?!”. Afinal. Pensando bem. Então era hora de visitar o Vaticano. Eu passei por aquele processo iniciático e sabia como era custoso e doloroso. embora a felicidade proporcionada por ela para os católicos devesse ter um efeito neles superior ao de nosso Jogo. Recebi permissão para conversar com Barata. “Eis o mistério da fé”. em que as religiões tinham tamanha força. Até mesmo no século XXIV. Pensei que eu iria encontrá-lo fazendo algum tipo de penitência leve nos arredores. para entender 176 . tia‟. Também eram poucos aqueles que amavam as sutilezas de nosso Jogo. para ter uma dimensão da gravidade da situação. Experimentar um sentimento sublime ao ouvir uma bela música erudita ou contemplar uma pintura renascentista tratava-se de uma experiência mais universal. Só que ele também era inteligente pra caralho. Minha única esperança era dobrar Navarro. como uma oração. Eu obviamente não tinha intenção nenhuma de convencer a papisa. Meus trajes de jogadora das Contas de Vidro. E agora? Não adiantava mostrar o Jogo das Contas de Vidro para os dominicanos. o ato de apreciar uma missa ainda era restrito a uns poucos iniciados e escolhidos. Estava apenas há uma semana no convento e aquelas mulheres já tinham me colocado no chinelo. foram identificados prontamente pelos membros do clero. Fui bem recebida no Vaticano.Wanju Duli Isso só significava uma coisa: eu não seria capaz de dobrar os doutores da Igreja através da argumentação. diriam eles. Então eu iria segurar Navarro pela camisa. que era como uma rainha da Ordem dos Pregadores. Eu ainda não sabia os detalhes. E eles também não eram franciscanos para terem compaixão pelo pobre diabo que havia feito jogadas proibidas. Eles não eram carmelitas para se maravilhar com êxtases místicos.

Pisar no Vaticano me proporcionou um sentimento pesado. Muita gente buscava inconscientemente a espiritualidade em profissões como. Não era apenas o êxtase fugaz da era folhetinesca. pois nem todas as peças se encaixavam. mas também cultural. nenhuma construção e combinação. medicina e engenharia: contato com o sentido da vida através da biologia. E. como numa jogada espetacular de xadrez. Curar o corpo de uma pessoa podia proporcionar um sentimento sublime. porque ele conheceria uma espécie bem diversa de prazer e de alegria". “É apenas superstição ou diversão tola”. mas a realidade da morte estranhamente deixava as pessoas perdidas. Porém. como se colocassem letrinhas em palavras cruzadas apenas para passar o tempo e fugir da realidade esmagadora da morte. que foi o caminho de Dani. elas compravam os folhetins e resolviam suas charadas. "Quem chegasse a ter a vivência completa do sentido do Jogo não seria mais jogador.A Era do Folhetim uma religião como a católica. Quanto à engenharia. maior o prazer gerado ao encontrar a solução. Era algo maior. como uma jogada complexa do Jogo de Avelórios. As pessoas se sentiam oprimidas com suas vidas. Vivíamos numa época em que a espiritualidade estava esquecida. não estaria mais dentro da multiplicidade. O sentido do Jogo ou a fé de uma religião é algo que jamais pode ser ensinado. e quanto mais difícil. Contudo. os folhetins eram o ópio do povo. e não lhe seria possível sentir prazer em nenhuma descoberta. a vida era só isso? Salvar a carne e proporcionar à mente um êxtase dos sentidos. Quem via a missa apenas de fora. 177 . E naquele instante da história. para preencher esse vazio. conforto e manutenção da carne. Só que não era bem assim. era necessário estudar muita teologia. havia a alegria proporcionada pela resolução de problemas desafiadores de matemática e física: resolver problemáticas reais no mundo. muitos a buscavam ardentemente ao experimentar o vazio proporcionado pelo dinheiro e por uma vida voltada apenas aos prazeres. tinha uma impressão muito superficial. É uma experiência totalmente individual. por exemplo. diziam. e não a religião. assim como os leigos que ouviam uma transmissão de rádio de nosso Jogo.

incluindo os próprios papas. mas me lançava apenas um olhar frio. discreta e sem dor? Não. Só queria sair logo daquele lugar. Essa mãe estava muito zangada. os jogadores de Contas de Vidro e a Igreja Romana dependiam demasiadamente um do outro” Eu lembrava de ter lido isso nos Arquivos. Se os dois tinham cometido alguma falta grave e rompido algum velho acordo entre a Igreja e Castália. Eram prisões num estilo muito antigo. Eu lembrava que Boaventura havia mencionado que eles serviriam “de exemplo”. Aquela situação poderia ser a desculpa perfeita para um rompimento. Se fosse eu. A relação de Castália e do Vaticano já havia passado por altos e baixos. eles não queriam isso. fui direcionada a uma espécie de calabouço. Era como uma espécie de terrorismo: os meses e anos se arrastavam e o julgamento deles não terminava. mas era um mistério que só podia ser apreciado por quem possuía aquela coisa mágica chamada fé. por que apenas não os matavam logo de forma silenciosa.Wanju Duli naquele exato instante. Já tinham existido exímos jogadores entre os mais altos membros do clero. “Na luta pela existência num mundo de potências alheias ao espiritual. se este fosse desejado por uma razão qualquer muito mais importante: política ou econômica. Se era assim que a Igreja tratava os castalianos. Lá havia um tipo de mistério. Eu esperava que a relação entre essa irmã mais nova e sua irmã mais velha não resultasse num claro divórcio devido à confusão gerada por aqueles dois. eu não era nenhuma mestra em fantasmagorias e me sentia como uma intrusa no clubinho restrito. esse sentimento me sufocou. não suportaria tamanho 178 . provavelmente. No entanto. não me surpreenderia se em breve estourasse uma revolta. Eu estava me sentindo como se tivesse voltado no tempo pelo menos uns mil anos. Eu sentia como se pisasse na casa de uma mãe rigorosa que eu não via há muito tempo. o Jogo já havia sido quase proibido na Igreja. Quando fui visitar Barata. provavelmente para que nenhum outro jogador de Contas de Vidro ousasse realizar novamente as jogadas proibidas. pois meu coração estava sombrio. Em outras épocas.

Ficou bem claro que aquelas celas não eram confortáveis. eu desconhecia. Eu nunca pensei que algo tão bonito fosse possível de ser feito com apenas um giz. Observei o interior da cela. Dani disse que está com saudades das. Eu sabia que no Brasil e em diversos outros países do mundo havia prisões muito piores. – Ela também me mandou um recado. – Eu não sabia que você estava preso – observei – isso é terrível! – Eles nos deixam sair todos os dias – ele informou – para rezar nas igrejas. Vestia roupas limpas.. Ou melhor.A Era do Folhetim terror psicológico e provavelmente teria cometido suicídio muito tempo atrás. Inicialmente notei apenas seu rosto profundamente abatido. Agora só releio os meus capítulos favoritos. Barata riu. cavalgadas. 179 . – Não se preocupe com isso. Lá fora é muito bonito. é você mesma? Barata ficou contente em me ver. de tecido comum.. já que não temos acesso às bibliotecas e não posso desenhar. Mas eu estava enganada se pensava que se tratava de apenas terror psicológico. Mas ele parecia exausto. feitos com um giz branco comum. dar umas caminhadas nos jardins.. mas pelo menos tínhamos o mínimo de conforto. Se Navarro tinha uma meta maior para fazer o que fazia e era aquilo que o impelia a continuar. E havia um propósito para aquilo tudo. As paredes estavam completamente preenchidas de desenhos incrivelmente lindos. Se tem qualquer coisa que eu possa fazer por você. superlotadas. mas só quando estou muito entediado. com uma cama simples e um vaso sanitário. Fiquei feliz de poder fazê-lo rir. – Maria. diga. sujas e perigosas. Era verdade que em Castália vivíamos uma vida simples e regrada. – Foi a Dani quem me pediu para vir aqui te ajudar – eu disse – embora eu não saiba direito o que eu posso fazer. mesmo naquela situação.. Já fiquei contente apenas com sua visita. eu já preenchi todos os espaços. – Só me deixam ler a Bíblia – ele sacudiu o livro – já finalizei a leitura do livro inteiro três vezes e depois me cansei. mas não há muito o que se fazer. por favor. Pelo menos ali cada um tinha seu lugar para ficar. com calças e mangas longas. Ele me mostrou um livro grosso que tinha consigo.

mas foi um sonho bom enquanto durou. Mas. antes de ir para as escolas de elite. As pontas dos dedos estavam machucadas de 180 . Quando ele segurou as grades da cela. Pergunto a Ele todos os dias: “Por que eu? Por que aqui e agora? Qual o significado disso?”. O fato de haver Deus ali no meio sempre tornou tudo muito mais medonho. Mas Deus? Por que Deus estava me punindo porque defendi meu amigo? Eu fiquei sem fala. Você sabe como os seres humanos podem ser estúpidos. mero mortal. exatamente porque eles envolviam razões divinas. o que aconteceu com seus dentes? Eu só havia reparado isso naquele momento. Ao prestar atenção a seguir.. – Eu queria entender..Wanju Duli – Diga a ela que é sempre um prazer ser um cavalo para minha dama – ele respondeu – ou uma cela. ele é grandioso demais para que eu. – Você já me disse uma vez que as coisas são bonitas porque terminam. notei que havia alguma coisa errada. quando eu estudava o feudalismo no colégio. Nem as descrições dos métodos de tortura dos nazistas me assustavam tanto quanto as torturas da Igreja. jamais poderemos cavalgar juntos outra vez. Fiquei assustada. reparei que faltava-lhe um ou dois dentes. sentia um gelo por dentro e pensava: “Pobres desgraçados que nasceram na época errada e tiveram essas horríveis mortes sob tortura”. apoiando-se nelas enquanto conversávamos. digamos que virei o protagonista de uma história antiga – ele informou. Não era um homem que estava fazendo aquela merda. Quando ele riu discretamente. Era Deus. notei que as unhas dele estavam quase que completamente cortadas. o compreenda. – Sobre isso. lembro de ter lido sobre os métodos de tortura medievais nos livros de história. Estava chocada demais para pronunciar qualquer coisa. naturalmente – sabe. Eu me recordo que na época fiquei tão fascinado e impressionado com isso que por um tempo foi meu hobby procurar na internet descrições minuciosas de diferentes métodos de tortura usados naquela época. não sei bem. Mas é claro que se tudo isso possui de fato um sentido. Infelizmente. Quando eu lia as descrições.

sei que estamos passando por isso juntos.. eu me sentiria aterrorizado e solitário. então vou aguentar mais um pouco. – Por que está fazendo tudo isso por Miguel? – eu perguntei. Esqueça o que viu aqui. – Você merecia ser canonizado pela Igreja pela sua demonstração impressionante de amizade e não ser morto como gado esperando o abate – eu disse – até mesmo o gado não tem um destino tão terrível. é somente esse: converse até com a papisa. Um choro quase imperceptível que tentei esconder. Barata era como aqueles heróis trágicos das lendas.. Entende o que quero dizer? – Merda. não se preocupe. Viva sua vida. agora sem esconder as lágrimas.A Era do Folhetim uma forma que me deu uma agonia tão profunda que tive que desviar o olhar. com voz fraca. Disse que era um adorador do Diabo. mas a situação é outra aos olhos da Igreja – disse Barata – e o pior é que já não sei dizer se 181 . Maria – ele disse – volte para a Província. Eu estava maluco. – Não fique assim. Estava fora de mim. se possível. – Fico lisonjeado que você veja dessa forma. – pronunciei. Mas eu provavelmente fui possuído por ele. Mas se não conseguir falar com ela. É a única explicação. se for preciso. Eu nem sei o que é esse tal Diabo de que tanto falam. Amanhã ou até mesmo hoje. – Eu disse a eles tudo o que queriam ouvir – contou Barata – eu pronunciei coisas que jamais pensei que fosse pronunciar na vida. – Nunca mais poderei cavalgar com Dani de novo – ele repetiu – porque estou para sempre fisicamente impossibilitado de fazer isso. Eu quero ser queimado o quanto antes. Então pelo menos eu consigo ver um mínimo de sentido para isso tudo. Mesmo que eu somente o veja raramente. Se puder fazer um favor para mim. Eu já aguentei até agora. Mas não seria terrível se ele tivesse que passar sozinho por tudo isso? Se fosse comigo. Não sei porque disse isso. Não há mais esperanças para mim e para Miguel. – Não sei ao certo. Que o evocava todas as noites e oferecia a ele bebês despedaçados em sacrifício. Eu só quero que tudo isso termine logo. Comecei a chorar baixinho. Nunca pensei que eu fosse conhecer uma pessoa assim.

Sou um pobre pecador. por favor. – Vá embora – ele disse. Eu não fazia a menor ideia do que tinha acontecido com a mente dele após aqueles anos de tortura.Wanju Duli estou certo ou errado. que assim seja. impressionada – te admiro profundamente. Abraçava o corpo e estava meio encolhido. Como dizem os cristãos. imaginei que estivesse recebendo os castigos mais severos. – Você é tão forte – comentei. mas ele escutou meus movimentos e se virou. Que ele precisava do fogo para ser salvo. Para sempre. Arthur. Ele conheceu a fúria e o poder de Deus e passou a genuinamente temê-lO. Retornou na direção da cama. – Sou eu – pronunciei – Maria Santa. de Castália. Ele parou no meio do caminho. Navarro estava deitado na cama. Ainda perguntei a ele se queria que eu trouxesse um veneno escondido numa próxima visita. voltado para a parede. É claro que não. Mas ele disse que não. como se tivesse dificuldade de caminhar. – Espere – falei. que Deus tenha piedade de mim. com urgência – converse um pouco comigo. – Eu tenho comida – tentei – você quer? 182 . Era hora de conversar com Navarro. que isso não seria bom aos olhos de Deus. Eu não o culpava por dizer aquelas coisas. Inicialmente pensei em deixá-lo descansar e retornar uma outra hora. Ele parecia cada vez mais convencido disso. sendo o líder da Amor Fati. E queria ser salvo. – Quem é? – ele perguntou. Se já não tinha jeito de salvar seu corpo. queria salvar pelo menos seu espírito. Andava em passos lentos. Eu suspeitava que essa segunda visita seria ainda mais difícil. Como ele era considerado o maior culpado. – Não tenho vontade. Ele levantou-se devagar. Talvez tenhamos mesmo cometido um pecado mortal. Aquelas torturas e aquela espera tinham produzido uma ferida profunda na mente dele que jamais seria completamente curada. E se meu espírito precisa ser purificado pelo fogo do Espírito Santo. Resolvi deixá-lo em paz. com voz rouca.

Mas Navarro deu passos apressados na minha direção. com grandes dentadas. abaixou-se e tateou as grades. – Que tal uma gaita? – propus. O primeiro deles é que me consiga um contrabaixo. Pode ser qualquer um. mas duvido que eles permitam. Mas eu já tinha desistido de tentar entender o raciocínio de Navarro. eu calei a boca quando vi os olhos de Navarro. O cara ia morrer e estava preocupado que sua habilidade ia diminuir. pois disse que não tinha apetite. Eu não queria fazê-lo se sentir pior. Felizmente. Ainda bem que estou cego e não surdo. agora ele já se sentia mais disposto a conversar comigo. Não acredito que fiquei tantos anos sem ensaiar. – É um pedido meio difícil – eu falei – posso até tentar. Eu coloquei a mão na boca e usei todas as minhas forças para não derramar patéticas lágrimas outra vez. – Que pena. Estou quase enlouquecendo sem poder tocar. Só fiz esse pedido para me certificar se não era mesmo impossível. ele lambeu os dedos.A Era do Folhetim Não achei que fosse funcionar. Foi quase como uma necessidade. Ainda consigo cantar e batucar na madeira. – Pode olhar para o outro lado? – ele disse – preciso mijar. Ainda bem que Navarro não podia contemplar minha expressão de terror. Depois que Navarro terminou de devorar o pão simples que eu lhe trouxe. Fiz como ele pediu. certo? Então eu tenho dois favores a pedir. Fitei o vaso sanitário no fundo da cela.. Quando sentiu o pão que lhe dei. Ele estava cego. Ele não havia acertado o vaso e o chão ficou um pouco molhado nos arredores. Quando escutei que ele havia terminado. Não é como se eu pudesse esconder um instrumento tão grande no meu bolso e trazê-lo aqui escondido. Barata não tinha aceitado minha oferta. 183 . Vou levar tempo para recuperá-la. segurou-o e devorou-o na mesma hora. Minha habilidade com certeza diminuiu. Seus dois olhos estavam completamente queimados. – Pensei que pelo menos alimentassem vocês bem – eu disse – Barata disse que vocês recebem refeições duas vezes ao dia. – Você veio até aqui para nos ajudar. voltei meus olhos para ele de novo. como se tivessem sido consumidos pelo fogo. Porém..

Todos só me criticam. – Por que você não se arrepende. Agora vamos ao meu segundo pedido: me mate. Se era para dizer isso. Preferi não continuar a falar sobre os pais dele. fora daqui. se confessa e acaba com isso? Por que precisa ser tão idiota e passar por tanto sofrimento? E. o que é pior. Quando me assistirem queimando. Até porque eu não me considerava em posição para julgar. – O quê? Como? – De qualquer forma. Por que fez tudo isso? Por que criou a Amor Fati? E por que não se confessa? – Eu já expliquei mil vezes porque criei a sociedade secreta. Foi como uma necessidade maior do que eu. sentindo a mesma dor? 184 . – O que acha de Barata ter lhe defendido? O que você sente ao saber que ele está ao seu lado. Nada do que faço é aceitável. A começar pelos meus pais. É parecido com o desejo desesperado que sinto agora de tocar meu contrabaixo: eu simplesmente precisava dessa sensação. fazer seu amigo sofrer contigo. Perderam a viagem. Se não quiser. infelizmente. Eu só queria entender. Estou cansado de toda essa merda. Fica a seu critério. Não quero mais conversar. Eu entendi. Só espero que venham para assistir ao espetáculo da minha execução. – Seus pais vieram aqui te visitar? – Sim. eles não precisavam ter vindo. eu acreditei que somente aquilo fosse me fazer respirar de novo. Para me chamar de imbecil e dizer que eu tinha feito uma grande bobagem. Como se estivesse me afogando e somente aquilo pudesse me libertar. A aparente tranquilidade dele me incomodava. Nunca sou bom o bastante. Quando desejei entrar para as escolas de elite. de camarote. – Eu sabia que você ia vir para me criticar. Eu precisava dizer tudo o que estava trancado na garganta. Agora era a minha vez de falar. Eu queria experimentar aquelas jogadas. Já tinha me sentido assim. Apenas me mate. tomara que sintam muito remorso e arrependimento pelo resto de suas vidas pela forma com que me trataram. – Desculpe – eu disse – minha intenção não era criticá-lo.Wanju Duli – Deixa pra lá.

Eu senti as mãos invisíveis. Eu não achei. somos obcecados por essa tal coisa maior. ou por qualquer coisa maior que ele. para que uma guerra desnecessária não seja gerada. porque eu jogava o Jogo de Avelórios. Gostaria de ter impedido. Talvez ele precisasse disso. – Por que política? – Porque havia algum desgraçado em algum lugar. Esmagavam meu coração. para realizar um desejo pessoal de se sacrificar por mim.A Era do Folhetim – Eu obviamente não pedi que ele fizesse tudo isso. 185 . Quem sabe Arthur tenha finalmente achado essa coisa maior aqui na Igreja. O Jogo também me proporcionava algo parecido: era um tipo de conexão com os outros jogadores e. Que bem faria eu me confessar agora? Se eles “misericordiosamente” me soltarem. – Não sabia que você era assim tão nobre. – Você poderia salvar a si mesmo e ao Arthur. Essas minhas férias na Igreja estão servindo como um poderoso processo de autoconhecimento. é melhor que eu morra. Já não sentia alegria no Jogo. Não podia ignorar. Eu me sentia completo. – Também não pensei que eu fosse. castalianos. mostrar o que eu sentia. tentando exercer poder sobre mim. mas nós jamais a chamaremos de Deus. Mas também não quero soar mal agradecido. – Você queria ser um criador. vou acabar fazendo uma besteira. para o bem de todos. Não agora que vivi essa injustiça. – Eu me humilhei e chorei na frente da papisa quando fui condenado – explicou Navarro – mas eles não se comoveram. Sabe que nós. mais que isso. Ele poderia estar seguro. Mas por que eu não estava satisfeito? Porque eu buscava outro tipo de conexão. Eu não podia mais respirar. Foi o que busquei com a criação da Amor Fati: digamos que eu estava mostrando minha insatisfação política. Então. Acho que eu estava tentando me comunicar com os outros: conversar através da música. Não me enxergo mais voltando para minha velha vida e me dedicando à música tranquilamente. Mas acho que essa é a forma dele de me mostrar o quanto se importa comigo. como voltar aqui para queimar tudo e causar o caos. Basta se confessar. com o universo. Nunca pensei muito sobre o que eu fazia: porque eu tocava. Eu queria poder criar meu próprio Jogo das Contas de Vidro. um tipo de Mestre dos Fantoches. Acho um desperdício.

termo que Navarro também havia usado para referir a si mesmo como mestre da Amor Fati. os livros de história atuais chamavam a Idade Contemporânea de “Idade das Sombras”. Tememos a mudança. A tecnologia estava avançando demais e tivemos um grande terror dessa mudança. Assim como os livros de história chamaram a Idade Média de “Idade das Trevas”. Afinal. surpresa. cujas mudanças acontecem de forma lenta e cuidadosa. Você já escreveu um poema? – Nunca escrevi – confessei. embora fosse um termo totalmente pejorativo e não refletisse plenamente a realidade. É o bastante que possamos estudá-las e tocá-las com o máximo de perfeição a que podemos chegar.Wanju Duli – Castália não tem o costume de criar coisas – explicou Navarro – por tradição. – A Igreja é um dos símbolos máximos de conservadorismo e tradição – explicou Navarro – não é à toa que Castália nasceu por uma forte influência dessa instituição. A Era do Folhetim representava tudo o que para nós era destruidor. Normalmente pensaríamos que o século XXIV estaria repleto dos computadores mais modernos e de tecnologia de última geração. Admirava os maiores romancistas e poetas. mas não era bem assim que havia acontecido. Nós paramos no tempo. Quando o professor Peixoto utilizou uma pintura feita por ele mesmo no Jogo. Embora não seja exatamente proibido. como se vivêssemos eternamente estagnados num tempo que parou de se mexer. por que eu nunca tinha feito isso? Eu gostava tanto de ler. Eu presenciei o desconforto com que os jogadores de Contas de Vidro encaravam a criação. Havia rumores de que o termo “Sombra” se referisse à Sombra do Magister Ludi. não somos incentivados a inventar nosso próprio jeito de fazer as coisas. apenas celebramos a beleza de todas as músicas ilustres criadas no passado. todos se mostraram perturbados e até embaraçados. como humanos. – Castália apenas canta o passado e não o futuro. Mas raramente tentava descobrir a minha própria voz. O mundo estava muito rápido. Apenas de forma muito sutil. Até mesmo um cara como Arthur sempre foi orientado a usar estilos de pintura que imitassem os grandes nomes do passado. Nós temos muito medo da vida que anda rápido e 186 .

mas obrigada por existirem. Sempre estou cercado de puxa-sacos. Desculpe desapontá-la. o que será de nós? Onde vai se encaixar a nossa criação em nosso mundo perfeito e geométrico onde tudo sempre tem seu devido lugar? Muitos criadores reunidos podem gerar o caos. E nem morrer. Foi algo assim que tentei construir na Amor Fati. 187 . Ou eles podem optar por feitos pequenos. Não sei se esses meus olhos queimados ainda são capazes de chorar.A Era do Folhetim acaba depressa. Agora só desejo a morte. Estou saindo. Se criarmos algo novo. mas eu me tornei uma pessoa assim. A Idade Folhetinesca é fonte de medo e fascínio para nós. minhas asas foram queimadas pelo Sol. Não importa mais. – De uma forma estranha. Sinto-me tão cansado que apenas queria dormir para sempre. você e Barata são meus heróis – confessei – não sei se minhas palavras fazem diferença. Mas. – Está certo. seja em paz ou sem ela. – Então morrerei para agradar a mim mesmo. Um dia julguei-me forte. Não sei como um dia me julguei pequeno. Vocês me inspiram e vão continuar a inspirar mesmo depois de desaparecer. voltarei para informá-los. mas não quero que você se lembre de mim dessa forma. Isso não faz mais diferença. – Eu me sinto fraco agora para carregar qualquer peso. Segurei a mão dele com cuidado. Agora pareço tão grande e monstruoso. – Não estou desapontada. Mas parece que cheguei ao meu limite. Deixarei que os que virão depois de mim prossigam com os tais feitos grandes. só quero morrer depressa. – Então você simplesmente aceitará o peso de seu destino. faz diferença? Você não devia viver para agradar os outros. Agora. – Estou cansado de ser herói. como um Ícaro. pois nesse instante até mesmo meu próprio corpo parece grande demais para que eu posssa carregá-lo. E mesmo se estivesse. pois lhes nasceram asas e eles levantaram voo para fora do tabuleiro perfeito dos símbolos. – Será que você pode sair agora? – ele pediu – fiquei meio sentimental depois dessa conversa e não quero chorar na sua frente. Se eu conseguir adiantar a execução de vocês. – Não era isso o que você queria? – Antes era. Ficamos em silêncio por meio minuto.

A Amor Fati e tudo que envolvesse aqueles dois virou tabu em Castália. Em menos de um ano a sentença final será anunciada. como se me faltasse um pedaço. – Ouço o seu pedido e entendo sua aflição. foram executados pelo fogo e purificados pelo Espírito Santo na manhã do dia 1º de maio do ano de 2303. peço humildemente que adiante a data da execução da Sentença do Tribunal do Santo Ofício. Não havia mais nada para eu fazer lá. – Não estou estendendo o tempo deles para que sofram mais – explicou a papisa – e sim para que repensem os seus atos e confessem. Farei como me pede. Por isso. Um ano. Aquela mulher era magnífica. Expliquei que não havia chance nenhuma que essa confissão ocorresse.Wanju Duli – Obrigado. – Vossa Santidade. a papisa ficou em silêncio. Barata e Navarro. Fizemos sexo juntas pela primeira vez. Requisitei uma audiência com a papisa. no dia 2 de maio resolvi deitar-me com Sônia. aos 30 anos. Era isso que significava adiantar a data de execução para o Vaticano. Então retornei para o Brasil: para Nova Castália. 188 . Impunha um respeito tremendo. Inicialmente pensei que uma guerra estouraria depois disso. Aquela merda foi difícil de conseguir. Foi muito natural para mim deitar-me no chão diante dela. pelo menos os estudantes ou os conhecidos próximos dos dois. Isso porque eu me sentia tão sozinha que não me saciaria apenas com um abraço amigo. Falei do grande sofrimento pelo qual os meus amigos estavam passando e pedi por misericórdia. poderão ser salvos. uma união de carne e espírito. Eu queria algo mais profundo. todos mantiveram um profundo silêncio. Que os habitantes de Castália fossem iniciar uma revolta. No entanto. Depois da minha longa explicação. Eu já havia feito a minha parte. Tive que aguardar alguns dias. fui direto ao ponto. Eu me senti vazia. Se o fizerem. Um ano depois. Quando me levantei. Senti-me solitária.

Afinal. No entanto. sempre vamos ambicionar a única coisa proibida. lembrei do que Barata tinha dito: se 99 coisas forem permitidas e somente 1 proibida. eu já não tinha tanto tempo para ler livros de literatura. Ele havia desenhado uma paisagem bonita. Então tentei começar a realizar minhas pesquisas em outros livros que anteriormente não tinham recebido minha devida atenção. Então eu só poderia fingir que acreditava. mas achei melhor não reclamar. há um anjo na terra Não sou anjo.A Era do Folhetim Depois desse momento de amor. 189 . que Arthur Barata jamais terminaria de pintar. Seria meu pequeno segredo. Escrevi meu pequeno poema nos hieróglifos do Jogo das Contas de Vidro embaixo de uma parte em branco de um mural inacabado de Castália. Ele ficou assim: Há um anjo no céu. devido à nova lista de livros que foram acrescentados ao Index. aprendi coisas novas e levei o Jogo para um rumo bastante interessante. Eu queria acreditar que agora ele estava num mundo assim. Não importava onde eu estivesse: em Castália ou lá fora. Contudo. Isso até que foi positivo para mim. num mundo repleto de paz. Porém. eu poderia chamá-lo de meu. Pelo meu envolvimento com o Jogo das Contas de Vidro. A verdade era que o mundo nunca seria exatamente como eu queria que ele fosse. Nos anos seguintes. O meu primeiro poema. então inicialmente isso não me incomodou muito. essas proibições começaram a atrapalhar minhas pesquisas sobre o Jogo. Eu e os outros jogadores passávamos longos períodos nas bibliotecas fazendo pesquisas para bolar jogadas e projetos de Jogo. nem terra e nem céu Sou um sonho que se perdeu Um poema curto e singelo. alguns livros começaram a ser proibidos em Castália. pois passei a ler coisas que eu não leria normalmente. uma parte de mim sabia que não era verdade. Confesso que me inspirei um pouquinho no poema “Ismália” de Alphonsus de Guimaraens. escrevi um poema. depois de certo tempo. Eu me sentia um pouco frustrada por não possuir mais livre acesso ao material que queria.

mas a sua vida não parou. então por que se importar? Provavelmente ele se importou não pelas jogadas proibidas em si. Eu começava a desconfiar que ela havia decidido permanecer definitivamente por lá. qual é a diferença? Meus Deuses eram Castália. Um feito notável. Ela tornou-se uma importante professora das escolas de filosofia de Castália com apenas 32 anos. a entidade Cela Silvestre. Cela Silvestre e o Jogo de Avelórios. Eu sequer sabia se ela havia recebido. Precisávamos aprender a não nos portarmos como uma criança mimada que deseja saciar todos os seus desejos imediatamente. Havia muitas outras possibilidades quase infinitas. Algumas vezes eu pensava que Navarro havia agido exatamente dessa forma: como uma criança emburrada que perdeu seu brinquedo. 190 . por mero capricho. No fundo. A Gio ainda continuava profundamente deprimida. mas ela não me respondeu de volta. E daí que havia meia dúzia de jogadas proibidas? Não importava o motivo. há longos anos. mas pelo que representava essa proibição: um atentado contra sua liberdade. Castália era famosa por sua ignorância política: enquanto pudéssemos manter a nossa vida como sempre mantivemos. Eu havia enviado a ela o último recado de Barata numa carta. Enquanto isso. não fazia diferença se a Igreja estava queimando pessoas. a Dani continuava em sua viagem. Eles eram apenas outros Deuses.Wanju Duli Eu não era a única pessoa viva e sempre haveria conflitos de interesses entre as vontades das pessoas. Eu mesma. Porém. Devia ser por isso que se colocou contra a Igreja: porque a existência dessa entidade maior que ele lhe incomodava. como o Dinheiro. enquanto pudesse continuar a jogar o Jogo das Contas de Vidro e permanecer a viver no meu universo sublime e elevado. com outros nomes. ele não havia usado o termo “liberdade” e sim “poder”. ditem suas vidas. pois eu não recebia mais notícias dela. não me importaria tanto com as outras coisas. Disse que se aborreceu que uma entidade maior tivesse poder sobre ele. Muita gente parece bastante incomodada com a palavra “Deus” mas permitem que outros Deuses. Mas várias outras entidades também lhe incomodavam: a entidade dinheiro. a entidade “pais”.

o interesse dos sacerdotes católicos pelo Jogo estivesse crescendo de novo. era melhor eu fazer minhas malas e voltar para minha velha vida. Nessa ocasião. Ela. Dessa vez pude oferecer-lhes um Jogo digno. mas deixeime envolver pela paixão da minha amiga. eu não era mais uma iniciante. Considerei o encontro particularmente incômodo. mesmo que 191 . pessoalmente. mas o que eu poderia fazer? Eu poderia me negar a pisar na Itália de novo. mas ela parecia bastante à vontade. Tive que estudar por longos anos até adquirir o nível técnico mínimo necessário para exercer uma posição desse porte. Afinal. Eu quase me sentia culpada em considerar como amiga uma das pessoas que havia sido a favor da condenção de Barata e Navarro. Então. não vou discutir com Leibniz – eu disse – já que as ideias dele formam algumas das bases mais poderosas do Jogo de Avelórios.A Era do Folhetim Dez anos depois daquele acontecimento fatídico. Eu estava sendo requisitada como professora em vários lugares diferentes. – Bem. após dez anos. Não deixa de ser um pensamento apaixonante. – Vivemos no melhor dos mundos. havia sido a maior responsável pela morte dos meus amigos. fui visitá-las. – Curioso você ter escolhido uma autora carmelita dessa vez – observou a irmã Giuseppina – mas confesso que considero a ideia de Leibniz de que Deus seja uma mônada um tanto excêntrica. Eu particularmente aprecio suas teorias sobre os mundos possíveis. por pedido delas: as irmãs queriam um novo curso do Jogo das Contas de Vidro. fui convidada novamente para o convento de Milão. Podia recusar as ordens de Castália. eu o obtive a muito custo. Curioso que. então ele só poderia ser o melhor. Porém. aos meus 38 anos. Não era exatamente essa parte da teoria que eu gostava. Mas se eu começasse a me rebelar demais. Até a papisa quis me ver de novo para que eu lhe desse uma tarde de orientações sobre o Jogo. Dessa vez. pois é o mundo que Deus quis. partimos de dois temas iniciais para o Jogo: a teoria das mônadas de Leibniz e o livro “As Moradas do Castelo Interior” de Santa Teresa D‟Ávila. Há apenas um ano eu havia conquistado um cargo de professora de Cela Silvestre.

Admite as próprias falhas. A papisa sorriu. ela admitiu que também já tinha feito suas próprias pesquisas nas bibliotecas do Vaticano. Ela notou que fiquei um pouco chateada. Você diz “não sei” quando não sabe. quando retomei o assunto. mas também percebeu meu entusiasmo com as novas informações. – Vossa Santidade deve achar que não sou uma boa instrutora – observei. Gio também já havia me contado umas histórias engraçadas sobre seu pai. Sinto-me lisonjeada. Para minha surpresa. Eu dava as aulas que anteriormente eram ministradas por Junqueira. No entanto. Quando retornei no próximo ano. pesquisei a fundo para ser capaz de responder a pergunta dela. Esse tipo de humildade é rara hoje em dia entre os seus. Sua didática é impressionante. Junqueira não fazia a menor ideia que eu sabia daquelas coisas. Nunca pensei que um dia eu seria professora ao lado dele. foi ela que me deu umas aulas sobre Pitágoras. No final. eu estava descobrindo que no fundo ele era um cara legal. Esse era um segredo meu e da Gio. – Em quais elementos dos pensamentos de Pitágoras o Jogo se baseou? – ela perguntou-me. – Sua didática me lembra de um pietista suabo. Eu a considero uma excelente instrutora. que eram bem mais amplas que as nossas. – Gosto de você – ela decidiu – não é arrogante como os outros castalianos. Você é professora de que disciplina em Cela Silvestre? – Problemas básicos de Jogos. – Pelo contrário. Só aprendi o básico necessário para ser capaz de realizar jogadas simetricamente bem calculadas. E lá estava eu tranquilamente ensinandolhe a posicionar no chão as pedrinhas de vidro. Por favor. insegura – pois no fim sempre sou eu que recebo as lições. 192 . Nunca vi igual. – Na verdade não sei – confessei – nunca fui tão boa assim em matemática. retorne aqui no ano que vem. Já ouviu falar de Bengel? – É claro! – exclamei – não sei o que dizer. Atualmente eu dividia com ele algumas disciplinas.Wanju Duli tivesse sido a vontade de Deus. Isso me atrai.

Ao mesmo tempo. ele deveria necessariamente atravessar os limites do tabuleiro e das contas. Mas essa era somente a base sobre a qual seriam construídas as primeiras jogadas. passei a desenvolver um projeto bastante ambicioso. Essa parte foi obra da Sônia. Era um projeto muito mais complexo do que parecia. Montei um tabuleiro minuciosamente calculado com base na geometria. Ele havia desenhado aquele quadro. consegui chegar numa versão satisfatória. as jogadas deveriam seguir um ritmo. Havia uma série de cartas com poemas previamente selecionados. Depois disso. E o centro de tudo estava nos símbolos. Os jogadores eram instruídos a meditar sobre a simbologia que representasse os temas de base. sem destruir sua essência. Esse foi um projeto que me consumiu oito longos anos. Afinal. para encantar a todos que jogassem. inspirada pelas palavras da papisa Catherine I. lembrei do professor Peixoto. deixando as regras mais claras. Por fim. com os auxílios inestimáveis de Gio e Boaventura. de autores brasileiros e estrangeiros. minha intenção não era montar um jogo de tabuleiro qualquer e reduzir as possibilidades das jogadas. imitando o movimento dos planetas. Por sua vez. Naquele momento lembro que senti uma dor no coração: eu teria chamado Barata para desenhar as cartas para mim: cartas bem coloridas. Contudo. com fundamentos na música. especialmente as crianças. Ele me disse que havia cursado pintura em sua época nas escolas 193 . Eu precisaria me ocupar com uma série de questões fundamentais: não poderia reduzir o Jogo a uma mera linguagem formal decorativa.A Era do Folhetim Nos anos seguintes. As contas de vidro poderiam formar círculos ou elipses no tabuleiro de acordo com a jogada. eu precisava mudar o idioma do Jogo para torná-lo mais acessível. Apenas a primeira hora de jogo. Eu havia pensado nele ainda nos meus primeiros meses em Castália: o desenvolvimento de uma versão do Jogo de Avelórios para leigos. A meta era apenas facilitar as primeiras jogadas para acostumar o jogador principiante e dar-lhe confiança. para outras áreas do conhecimento. com uma rica simbologia.

Sorrindo. exatamente como Barata. Assim. Eles diziam que o Jogo iria se degenerar. Então ele prontificou-se a desenhar as cartas para mim e tudo ficou bastante harmonioso. Eu lembrava do sufoco que passei para aprender desesperadamente os hieróglifos e a lógica do jogo em meus primeiros meses em Castália.Wanju Duli de elite preparatórias. especialmente as crianças. Ele já não era um Jogo hermético cujas regras somente eram exclusivas aos iniciados. Eu me sentia no céu. Voltei até mesmo para a minha velha escola pública e me maravilhei diante da oportunidade de ensinar para meninos e meninas. Os novos alunos de Cela Silvestre eram introduzidos ao Jogo com muito mais facilidade. Navarro também foi duramente criticado pela sua criação da Amor Fati. eu não me incomodei tanto com essas críticas. brincando com as contas. que admiravam o Jogo mas optaram por seguir outras carreiras. Porém. Passei a pedir permissão cada vez mais frequente para ensinar o Jogo em escolas comuns do interior do Brasil. o Jogo já estava sendo jogado corretamente por diversos estudantes brasileiros. Eles poderiam continuar jogando de vez em quando com este tabuleiro. Eu já sabia que eram inevitáveis. Não importava o que eu fizesse. Aquele problema havia sido bastante reduzido com essa alternativa. É claro que houve os professores mais conservadores de Cela Silvestre que acharam minha versão simplificada uma péssima ideia. Eu estava me apaixonando cada vez mais pela pedagogia. 194 . No entanto. Ensinar novos jogadores. É verdade que as cerimônicas públicas de Vicus Lusorum ainda eram restritas apenas a convidados especiais e que a identidade da Magister Ludi era sempre mantida em sigilo. Minha versão simplificada do Jogo fez tanto sucesso que começou a ser adotada em outros países. Sem contar os estudantes das outras escolas de Castália. que ainda não tinham suas cabeças cheias dos preconceitos do mundo. sem precisar perder longas horas ou dias em preparações de temas. Inclusive no interior de Castália. perder seu valor. Fui uma das maiores responsáveis pela popularização do Jogo pelo país. podiam se dedicar aos seus estudos e jogar nas horas vagas. eu sempre seria criticada. fora isso. alguns até mesmo com oito ou nove anos. Agora.

O problema maior começou quando tivemos que racionar comida e água. especialmente entre os alunos novatos. por uma série de fatores. Ninguém nunca tinha ouvido falar de algo assim antes. – O Brasil está passando por uma grave crise financeira – ela explicou – só não estamos numa situação de grave privação em Castália devido aos seus incessantes esforços de promover o Jogo nas escolas. mesmo com a crise. Dois anos depois. Também foi naquele ano que Gio se tornou Magister das escolas de filosofia. Apagávamos as luzes uma hora mais cedo: às nove da noite. Mesmo assim. Aparentemente. ele havia virado um tipo de lenda em Castália. Eu estava impressionada. Assim. Nem os mais ricos tinham dinheiro sobrando para se dedicar ao pequeno capricho do Jogo. a situação já estava ficando insustentável. em certo momento. ainda estamos recebendo vários alunos ouvintes. Eu quase me sentia como Descartes no tempo de colégio. seus belíssimos murais espalhados por Castália se tornaram ainda mais adorados e valorizados após sua morte. Para completar. Muitos não aguentavam a nova vida de rigorosas privações em Castália. E nem eu. 195 . Eu era amiga de uma Magister! Achei que a Dani também teria potencial para ser Magister de sua área. Sentiam muita fome. Queria saber o quanto daquilo era verdade ou mentira. pelo sacrifício que fez por Navarro. Minhas salas de aula estavam ficando vazias. não aguentavam os jejuns prolongados e acabavam voltando para casa. Eu havia escutado rumores sobre as dificuldades financeiras da Província. aquilo não estava em seus planos. passamos a usar velas como parte do material escolar para as aulas da noite. Barata era igualmente famoso. carregando velas por aí. Eu comecei a dar aulas para pouquíssimos alunos. já estávamos começando a racionar provisões em Castália. E. Até as desistências dos novos alunos de Cela Silvestre estavam aumentando. já que após quase vinte anos ela não parecia ter intenção de voltar. Aproveitamos a oportunidade para aumentar nossos períodos de jejuns e práticas de meditação. Foi naqueles dias que também tive uma conversa com a Magister Ludi.A Era do Folhetim mais de 15 anos depois. Recebíamos pouquíssimos alunos ouvintes por causa da crise.

Na verdade. No entanto. Muitos diziam que era por causa da quantidade de afazeres e responsabilidades de um Magister Ludi. ela era a dirigente máxima de nossa Província. Foi naquele ano que recebemos a notícia da morte da Magister Ludi. eu não pensava assim. o líder supremo de Castália.Wanju Duli Aqueles que aguentavam. Ela atualmente trabalhava como pesquisadora num projeto importante. havia sido uma morte prematura. foi exatamente devido a esta crise que rolavam rumores de que os tais fortes candidatos não estavam muito a fim de assumir essa responsabilidade num momento como esse. se tudo desse errado como a crise sugeria. Afinal. Achava que o novo Mestre dos Jogos deveria se sentir honrado pela confiança de ser escolhido neste momento difícil. Tivemos um dia inteiro de recesso para realizarmos um luto pela Domine. Precisavam de um bode expiatório: seria muito mais fácil escolher um Magister Ludi mais fraco e. Ou ao menos era isso que eu queria pensar. Liliane Cavalcante faleceu com apenas 74 anos. Foi quando Sabrina entrou na biblioteca. Ainda mais naquele período de privações e dificuldades. Preparando minha próxima aula. eu não estava entre os maiores mestres eminentes de Cela Silvestre. Eu obviamente não participei dessa reunião. Em vez de inveja. Eu apenas torcia para que o novo Domine fosse uma pessoa capacitada e sábia o suficiente para lidar com a gigantesca crise financeira que assolava nosso país e especialmente nossa Castália. muitos ali sentiriam pena do novo Magister. Pelo menos seria mais fácil conseguirem emprego lá fora caso a crise apertasse ainda mais. Todos ficaram tristes. Havia muitos candidatos fortes. Considerando a expectativa de vida de Castália. tropeçando nas próprias pernas. Duas semanas depois. bastava culpá-lo. Eu estava estudando na biblioteca na ocasião do conclave. o conclave foi iniciado: a reunião formal e magnífica que definiria a escolha do novo Magister Ludi. Achei que ela estava 196 . ela deve ter se abatido demais e assim a doença tomou conta de seu corpo. preferiam optar por estudar em escolas que garantiriam uma maior segurança financeira. Apesar de eu possuir um cargo importante de professora. como a escola de matemática ou de biologia.

Eu já não tinha tempo para ler meus velhos livros de literatura. eu respirei fundo e apenas retomei minhas anotações. A frieza com que eu disse isso deixou Sabrina desapontada. E. era tudo rumores. emocionada – eles vão te nomear Magister! Tapei-lhe a boca assim que ela disse isso. voltei a sentir a sensação de vertigem. eu tinha boas relações com as freiras do convento de Milão e inclusive já havia dado cursos do Jogo para a própria papisa. pois precisava correr para preparar aulas. nada podia ser afirmado ao certo. lhe disse: – Não fala tanto. – Maria! – ela exclamou. Quando ela saiu. embora tenha ficado muda por alguns segundos e tenha sentido uma espécie de vertigem. senti uma profunda tristeza. Minha relação com os professores de Cela Silvestre era boa. Não quero saber desses falatórios. mas que me 197 . corrigir provas e ainda cuidar das incontáveis atividades domésticas. Sabrina. não era somente a minha habilidade que contava. Meu currículo era bom. Era uma sensação ao mesmo tempo incômoda. dar aulas. Por fim. Contudo. embora tivesse contado com a ajuda preciosa de meus amigos. Volta para lá e aguarda o pronunciamento oficial. Eu havia sido a maior responsável pela popularização do Jogo entre os leigos nos últimos anos. Caso se somasse a isso os deveres de um Magister. também encarei a informação como algo muito natural. Ela fazia isso às vezes. que não deixava de ser impressionante diante da grandiosidade da informação que ela me trouxe. De repente. Mais tarde. Era evidente que nada se sabia ainda. fazia sentido. de fato. Ela certamente pensava que eu partilharia de sua alegria e saiu de lá como se tivesse sido chutada para fora como um cão. mas havia muitos candidatos mais habilidosos e inteligentes que eu. sido escolhida como Magister Ludi de Castália. No entanto. o que seria da minha vida? Quando recebi o anúncio oficial de que eu havia. ela reconheceria que agi com uma certa maturidade. após sua frustração passar um pouco. para completar. incrementar o Jogo para iniciantes. Pensando bem. O conclave ainda não tinha terminado.A Era do Folhetim afobada porque queria me contar alguma coisa incrível que descobriu em seu projeto. Não seria incomum.

Baixei a cabeça. Domine. O documento oficial foi lido. Depois disso. que lia para aparecer e não esperava muito da vida. ela era perfeita para ser minha Sombra e aceitou. não gostava do colégio e nem do Jogo de Avelórios – ela pronunciou. eu precisaria proceder na escolha da minha Sombra. integralmente em latim. eu ainda conseguia enxergar em mim aquela garota insolente de 13. – E agora. quando lhe fiz o pedido. Mesmo aos 48 anos. ainda na época do colégio. Nessa ocasião recebi as condecorações do Magister Mathematicus. Deu-me um sorriso. a menina que não gostava de ler. Foi por causa dela e da minha professora de português que eu havia sido aceita nas escolas de elite. Ela me fitou orgulhosa enquanto eu estava naqueles trajes e sequer ainda acostumara-me a eles. Eu realmente havia dito todas aquelas coisas aos meus 13 anos. será que eu posso fazer uma pergunta? – É claro. foi uma pessoa que eu não via há muito tempo: Lorena Flores. Mestre de Filologia. Quem conversou comigo naquele mesmo dia. Esta foi a cerimônia de investidura. realizou a entrega das chaves e dos selos. no final da cerimônia. que não tirava boas notas. Pensei em Sabrina e em Boaventura. Fiquei surpresa ao constatar que. mas logo recordei-me que Sabrina me disse um dia que ela não tinha nenhuma intenção de tornar-se Magister. 198 . eu não me arrependia de tê-las dito. não tinha sonhos. envergonhada. o Magister Grammaticae. de que eu estava numa montanha-russa e que uma vez lá dentro eu não poderia mais descer no meio do caminho. – Maria Santa. que vinha e voltava. Um frio na barriga. Tornei-me oficialmente Mestre dos Jogos e vesti o meu hábito em tons de branco e ouro. Eu deveria comparecer dali dois dias em Vicus Lusorum para a prestação do juramento. A partir dali. a Magister de literatura. que havia me mostrado os trechos dos escritos de Rimbaud e Shakespeare. no fundo. Por isso. honrada e de imediato.Wanju Duli gerava um êxtase repentino. A sensação de que minha vida estava sendo virada do avesso.

De repente. qual mais lhe atrai? – Posso citar apenas um poema? – requisitei – Ismália. Aquilo nunca tinha acontecido antes. Nesse momento não pude deixar de pensar em Barata e Navarro. Pensando bem. – Um suicídio? – Mas também um sonho e uma loucura. – Proust – pronunciei. tanto antes quanto depois de suas mortes. virei uma estrela da noite para o dia. Eu ainda reclamava de umas coisas desnecessárias. – E não acreditava que seria capaz de completar seus estudos em Cela Silvestre. Nem mesmo na época em que lancei o Jogo de Avelórios para principiantes. sem pensar – eu finalmente terminei de ler “Em Busca do Tempo Perdido”. E dentre os escritores brasileiros. mesmo que ele pareça irrealizável. tinha sido incrível. Agora até quem havia ignorado completamente o Jogo que criei se interessou em experimentá-lo. E da segunda vez até que passou bem rápido. Eles tinham feito algo realmente maluco. “Você parece com pressa. aos meus 21 anos eu ainda não era tão mais madura que aos meus 13. Mas optei por não referir esse detalhe. Sequer acreditava que poderia ser aprovada em suas primeiras provas. Achei que fosse impossível aprender aquilo. A maioria encarou o ato como uma bobagem para crianças. – Lembro que sua professora disse que havia mencionado algo sobre Proust. A próxima a conversar comigo foi a minha professora responsável que havia me dado ótimos conselhos assim que cheguei em Castália: Clara Correia. Mas a vida deles. – E eu realmente reprovei na disciplina de símbolos! – argumentei – mas fui aprovada em minha segunda tentativa. Acho que eu tinha sido muito dramática na época. Eu acho que a busca de tempo e a reflexão sobre ele sempre foi uma questão recorrente na minha vida. Hoje 199 . Ou a loucura de perseguir um sonho. E genuinamente gostei da obra. Também era verdade que eu curtia as personagens lésbicas.A Era do Folhetim – Estou curiosa para saber qual é atualmente o escritor preferido da Venerável Mestre. Todos queriam falar comigo. Tem alguma doença grave?” ela tinha me perguntado na ocasião.

A Gio morreu de rir quando me viu e fez uma exagerada reverência. – A sua vida é uma loucura. “Prometo que vou resolver esse problema. Relmente. e não eu. mas com eles ao meu lado eu sabia que conseguiria lidar com os problemas. Pode contar comigo para o que precisar. Eu. Queria ter dito o mesmo para ele. – Mas agora todas essas pessoas dependem de mim. simplesmente – ainda bem que estou aqui com você. como Magister Ludi. Não é que você tenha que se livrar de todos os seus problemas. conversar com ela me deixou mais calma. O presente momento. Eu precisaria da ajuda dos meus amigos mais do que nunca. – Então você amadureceu. sou eu que posiciono os símbolos nos tabuleiros de signos nesses últimos três anos. Se Barata estivesse vivo. por que ler tanto. Domine. Não está sozinha. não é mesmo? Ela sorriu. afinal.Wanju Duli em dia. me enchia de felicidade. Nós discutindo as jogadas dos Jogos oficiais comendo ovos mexidos com bacon. Maria – ela disse. Eu estava com saudades. Eu já li tanto.. Vai dar tudo certo. eu tinha certeza de que ele teria se tornado Magister Ludi. não conseguiu acreditar. meu passado também foi tão sublime. Isso é ótimo. Quando Sônia me viu. Domine. – Vossa Grandeza é realmente grandiosa! 200 . Já está analisando o problema de outras perspectivas. Aquele cargo estava além das minhas forças. Mas eu ainda continuo com o mesmo problema sobre o tempo! – Acha que não tem tempo para fazer tudo o que deseja? – E vou ter menos ainda agora que sou Magister Ludi! Se bem que hoje em dia já não sinto a necessidade de ler tantos livros. A Província está passando fome. Basta aprender a encará-los de forma mais leve. Barata e Boaventura resolvendo juntos os problemas do Jogo nos cadernos de exercícios. Tempos que não voltavam mais. Ao mesmo tempo. segurando minha mão entre as suas. O que eu faço? – Não se preocupe. Com meus amigos.. Aquelas palavras me tranquilizaram. Está bem?” me disse Barata.

– Se precisar de umas dicas sobre política. – Ah. A outra questão ainda mais grave era a situação econômica da nossa Província. senhora Magalhães – retruquei.A Era do Folhetim – Não vem com essa que você também é Magister. talvez – brincou Rodrigo – agora meu cérebro está tão preenchido pelos intrincados labirintos da gramática e da filologia que não sobrou espaço para mais nada. – Realmente. pois eu teria menos de três meses para bolá-lo. – É mesmo. Recebi até a visita de amigos que eu não via há um tempão: Mariel. – Relaxa. – Quando eu tinha dez anos.. me chamando seriamente de “Domine”. – Se bem que às vezes eu te invejo por poder ler tanto – observei. Ficou todo atrapalhado. – Vivia falando antes que não sabia nada sobre o Jogo – observou Rodrigo – imagina se soubesse. Agatha e Rodrigo. então um pouco de jejum não iria nos matar. Como sempre tendi a ser um pouco otimista.. – O que acha que Barata e Navarro diriam se me vissem agora? – Miguel iria morrer de inveja e nunca mais olharia para sua cara de novo – garantiu Gio – e Arthur acharia o máximo. Na semana seguinte. cara – eu disse. é só me consultar – avisou Agatha. – Pelo jeito sua mudança de carreira foi bem acertada – disse Mariel. Já tinha até esquecido. Boaventura nem sabia como reagir quando me viu.. – Aposto que você ainda deve saber mais que eu – garanti. Os racionamentos estavam tão intensos que os mais pessimistas achavam que sequer sobreviveríamos até janeiro para celebrar o Jogo. Mas esse deleite com meu novo título durou apenas alguns dias. pensei que a situação financeira não estivesse tão ruim. Estávamos acostumados a viver uma vida simples. Passei os próximos meses totalmente imersa na preparação de um Jogo de Contas de Vidro que eu pretendia que fosse sublime. tá certo. Seria assim mesmo. eu já teria que lidar com duas questões importantíssimas: uma era a preparação do Jogo oficial em janeiro. certo? 201 ..

Naquela noite. Até que por fim foram fechadas por tempo indeterminado. já chamavam Nova Castália de Cidade Fantasma. A partir de então. Eu estava profundamente chateada. Não havia dinheiro em parte alguma. enviei-o pelo correio para o Magister de outro país. para que fosse corrigido. Eles não viam como eu havia me esforçado na preparação daquele Jogo que jamais iria acontecer. castalianos. No mês seguinte.Wanju Duli Porém. Contatei a sede na Alemanha por carta. Era transmitida por um mosquito e já havia tomado as capitais. Até mesmo alguns professores de Castália estavam deixando seus cargos para trás para tentar a sorte no século. É claro que isso gerou várias fofocas negativas sobre minha má administração. Eu não sabia o que fazer. não estudávamos isso! Eis o resultado: não saber o que fazer diante de uma crise. Em fevereiro. O resultado foi que as previsões pessimistas se realizaram: a edição do Jogo daquele ano teve que ser cancelada. riscado ou alterado em certos pontos. mas eles também enfrentavam uma crise severa. Havia pessoas falando mal de mim nas minhas costas em todos os cantos. escrito por aquele Magister Ludi. o calendário passava entre os Magisters Ludi dos diferentes países. abri o “Calendário de Bolso do Magister Ludi” de Ludwig Wassermaler. economia e política. Era a primeira vez que isso acontecia nos últimos cinquenta anos. É claro que eu não entendia nada de administração. principalmente a falta d‟água passou a se tornar insustentável. As escolas de elite preparatórias também andavam desertas. Ela começou em regiões específicas e logo já estava ocorrendo em todos os estados. 202 . Quando terminei de ler e colocar minhas anotações. A maioria retornava para a casa dos seus pais e familiares. com dicas para os Magisters iniciantes. Sabia que os Magisters ao redor do mundo estavam passando por uma situação semelhante à minha. Os estudantes estavam deixando Castália em bando. Nós. A crise atingiu Castália em todos os países em que ela existia. Pelo menos assim eu não me sentia tão sozinha. recebemos a notícia de que uma doença infecciosa particularmente letal estava se espalhando por certas regiões do Brasil.

A Era do Folhetim
É claro que aquilo já estava acontecendo há muito tempo. É que as
notícias chegavam mais lentamente em Castália.
Os gastos com saúde estavam absurdos. A população estava se
revoltando com os hospitais lotados e o atendimento precário.
Em alguns países, já havia estourado guerras civis, especialmente nos
locais em que havia uma grave falta de água. Logo, guerras passaram a
ocorrer entre países. Essas guerras sempre aconteceram, mas geralmente
elas ocorriam bem longe do Brasil. Porém, agora o nosso país estava
começando a se envolver nelas.
O ápice foi quando a Alemanha atravessou uma profunda crise. Com
isso Castália, aquela rainha que havia se mantido soberana por alguns
séculos, finalmente caiu.
Os portões da sede alemã se fecharam. E foi assim que Castália
conheceu seu fim.
Ser um Magister agora não significava mais nada. Com o fechamento
da Castália alemã e inglesa foi apenas uma questão de poucas semanas
até que as demais também fechassem suas portas.
Tenho orgulho em dizer que nossa Castália, a Castália brasileira, foi a
última a desistir.
Contudo, alguns viram minha insistência como uma fraqueza. Afinal,
era preciso saber quando desistir, eles diziam. Estávamos todos
sofrendo: não havia mais energia, estávamos sem luz e sem água. O que
haveria mais para fazer? Eu queria tanto assim que meu túmulo fosse em
Nova Castália a ponto de eu desejar continuar lá e morrer de sede e de
desgosto?
– Maria...
– Mas deve haver algum jeito. Se eu falar com a papisa...
– Maria! – exclamou Sônia, com seriedade – agora já chega. É o
bastante. Você já fez tudo que podia.
E eu finalmente cedi.
A Igreja também foi afetada pela crise. Afinal, ela não era imune.
Também era parte do mundo. Porém, como sempre, escapou. A Igreja,
como esperado, não caiu. E mesmo se tivesse caído, eu desconfiava que
ela iria renascer das cinzas reformada, como geralmente acontecia.
Mas havia sobrado pouco de Castália depois de toda aquela fome,
doenças e guerras. A guerra não estava acontecendo diretamente no
203

Wanju Duli
Brasil, mas ele se aliou a alguns países. E a situação da nova doença
infecciosa estava particularmente dramática.
Quando eu e Sônia retornamos para nossa velha cidade, não havia
mais para onde voltar. O orfanato já era uma realidade distante de nós.
Não havia a quem pedir ajuda.
Foi então que eu lembrei da Igreja.
– Há um convento aqui perto – apontei a direção.
Fomos até lá. Identifiquei-me como Magister Ludi de Castália. Sim,
Castália não existia mais, mas ela tinha deixado de existir há apenas um
mês. É claro que as pessoas ainda lembravam.
Consegui conversar com a irmã Giuseppina por telefone. Ela disse
que a crise também estava horrível na Itália, mas que eles estavam
acolhendo pessoas que precisavam de ajuda nos conventos e mosteiros
na medida do possível.
A irmã Letícia, que nos recebeu no convento da nossa cidade, nos
arranjou um quarto e nos deu uma sopa. Ela disse que poderíamos ficar
pelo tempo que precisássemos.
– A comida também está limitada para nós – disse a irmã – só
poderemos comprar coisas baratas.
– Não se preocupe – disse Sônia – é só até arranjarmos um emprego
e um lugar para ficar.
Sônia não demorou muito para conseguir um emprego como
professora de matemática num colégio público local. Ela não ganharia
um salário muito alto, mas seria o suficiente para alugarmos um
apartamento simples e bem pequeno.
Sendo assim, só permanecemos no convento por um mês e
agradecemos muito pela hospitalidade. Se não fosse aquela ajuda, nós
teríamos dormido na rua.
No meu caso seria mais complicado. Pelo menos, agora que Castália
não existia mais, não havia ninguém proibindo de cobrar por cursos do
Jogo de Avelórios. Então eu contatei famílias dos meus velhos alunos
ouvintes, mas somente os que viviam na minha cidade. E passei a dar
cursos particulares do Jogo, recebendo uma quantia modesta por aula.
Eu e Sônia passamos a morar juntas, cada qual com seu emprego.
Como não era o suficiente meu salário como professora de Jogo de

204

A Era do Folhetim
Avelórios, também arrumei um emprego de garçonete para dar conta das
desespesas.
Meus planos para o futuro seriam iniciar um curso de letras em
alguma faculdade. Assim eu voltaria a ter contato com minha bela
literatura.
Eu estava com 49 anos. Meu período em Castália havia sido como
um sonho. Eu não me arrependia de nada.
Por um lado, eu revivia esse sonho na memória. Havia sido realmente
mágico e eu via o fim de Castália com uma profunda tristeza. Por outro
lado, uma parte de mim estava ansiosa para iniciar essa vida toda
diferente, em que eu tinha tempo de ler um livro pelo menos meia hora
por noite. Um mundo em que eu podia usar internet. Que coisa estranha!
E foi pela internet que mantive contato com todos os meus velhos
conhecidos de Castália. A nossa ligação era tão forte que um oferecia
ajuda para o outro, embora todos nós estivéssemos sem um tostão. Pelo
menos já valia pelo apoio moral.
A única pessoa de quem eu realmente não recebi mais notícias foi a
Dani. Ninguém sabia onde ela tinha se metido. Um dia eu tinha vontade
de reunir dinheiro e, talvez dali uns dez anos, viajar para as Ilhas
Galápagos apenas para procurá-la.
Quando eu mencionava para onde eu tinha o sonho de viajar, as
pessoas diziam: “Mas que diabos? O que você vai fazer lá? Você é fã de
Darwin ou algo assim?”.
Cinco anos depois, o Brasil já estava relativamente recuperado da
profunda crise que assolou o mundo. Mas eu sabia que Castália não
voltaria mais. Pelo menos não enquanto eu estivesse viva.
Um dia encontrei na rua minha família favorita, almoçando logo no
McDonald‟s: Junqueira, Garcia, Gio e Rodrigo. Foi a coisa mais estranha
do mundo vê-los em roupas comuns, em vez dos hábitos formais de
Castália. E contemplá-los comendo aqueles hambúrgueres era algo quase
surreal.
Naqueles dias, resolvi ir no velho fliperama para matar a saudade.
Achei que aquele negócio havia falido com a crise, mas lá estava ele,
firme e forte, depois de décadas. Era impressionante. Devia haver algum
Deus protegendo aquele lugar.

205

Wanju Duli
Quando fui até o Pump, vi pessoas vibrando ao redor de uma garota
linda de rabo de cavalo, que dançava parecendo um corcel correndo ao
vento.
Pisquei os olhos duas vezes.
“Dani? Não pode ser”.
Mas era apenas uma garota muito parecida com ela, que também era
muito boa. É claro que não era a Dani. Ela já estava com mais de 50
anos. Como pude confundi-la com uma garotinha?
Senti como se tivesse voltado no tempo.
Então eu comprei um crepe de doce de leite. Também comprei um
jornal para resolver as palavras cruzadas. E saí de lá.
Epílogo
O último Jogador de Contas de Vidro
De jogo na mão, as coloridas contas,
Senta-se curvado, à sua volta devastado
Pela guerra e a peste o país, nas ruínas
A era cresce e na hera abelhas zumbem.
Uma paz cansada com saltério abafado
Ressoa pelo mundo, na sua calma velhice
O velho conta as suas coloridas contas,
Aqui uma azul prende uma branca,
Ali uma grande escolhe uma pequena
E combina-as, num anel, para o Jogo.
Outrora foi grande no Jogo dos Símbolos,
Mestre de muitas artes, muitas línguas,
Conhecedor do mundo, viajante, homem
Célebre, conhecido até nos Pólos, sempre
por alunos e colegas rodeado. Hoje só
Ele resta, velho, gasto, sozinho,
Nenhum jovem aspira à sua bênção,
Por nenhum Magister é desafiado;
Tudo passou, os templos, as bibliotecas,
206

. por Hermann Hesse FIM 207 . O Jogo das Contas de Vidro. E agora são apenas vidrinhos coloridos Das suas mãos idosas silenciosamente rolam E perdem-se na areia. de contas na mão.. Hieróglifos que outrora diziam muito.. Entre os Escombros repousa o Velho..A Era do Folhetim As escolas de Castália já não existem.

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