A Era do Folhetim

Wanju Duli
2016
Baseado no romance de Hermann Hesse
“O Jogo das Contas de Vidro”

Sumário
Capítulo 1: O Sonho_______________________________________5
Capítulo 2: A Iniciação_____________________________________99
Capítulo 3: O Diabo______________________________________170

porque tudo pode ser decifrado" O Jogo das Contas de Vidro. Não eram poucos os que levavam essa atividade formalmente a sério. a Idade Folhetinesca é um elemento onipresente em nossas vidas tanto quanto o ar que respiramos. mas perigoso. seu Erasmo de Rotterdam. Hoje.A Era do Folhetim Capítulo 1: O Sonho "– Devemos dar importância aos sonhos? – perguntou Josef. assim como a Igreja também conheceu uma ironia ácida. mas uma espécie de fricção entre a alma e o mundo. uma espécie de saber apaixonado. Estávamos tão orgulhosos de nossa intelectualidade! A leitura de um folhetim exigiria que o leitor desvendasse a chave do arcano. Porém. Os folhetins eram o panem et circenses do trabalhador contemporâneo. eis um nome bonito. nos sentimos muito à vontade nesse mundo. A busca da legitimidade da liberdade. Era mais do que um jogo de quebra-cabeça. O peso de uma palavra pode ser sedutor. Aterrorizados perante a realidade da morte. Era criação totalmente nossa. os folhetins também tiveram seu Voltaire. e não da Igreja ou do Estado. por Hermann Hesse Vivemos na Era do Folhetim. havia uma necessidade desesperada de resgatar uma suposta cultura. Um mundo de papel e plástico. 5 . do amadurecimento da razão. da doença e da guerra. mais do que em nenhuma outra época. – Podemos decifrar seu significado? O Mestre fitou-o nos olhos e disse concisamente: – Devemos dar importância a tudo. Tal como descreveu o historiador Plinius Ziegenhalß. Admitimos que não era desprovida de espírito. De certa forma. que não era mais uma força da alma.

Um movimento de resistência a essa aparente superficialidade e inautenticidade não tardaria a surgir: os chamados guardiões da “verdadeira cultura” e da “verdadeira arte”. como uma reação às reformas realizadas no Renascimento por Jean Amos Comenius. e que somente eram completamente aprendidos a custa de muito sacrifício. Uma sociedade progressista e conservadora. de uma gramática baseada na lógica e na metafísica. produzir um produto. desprezavam o individualismo. independente de o conhecimento ter uma utilidade. É claro que nenhum deles possuía a intenção real de ler um James Joyce. o que quer que isso seja. para não gerar preguiça e aborrecimento. o sentido máximo do ensino era educar o cidadão. Lá eram introduzidos uma série de aprendizados que poderiam ser tidos como inúteis às pessoas do mundo. Uma busca do resgate da pureza da aritmética. Eis o berço de Castália e das escolas de elite. em que tudo se encaixa harmonicamente. Afinal. em que somente poderiam entrar os escolhidos e os iniciados. sem que fosse dada nenhuma espécie de recompensa pelo esforço. tratava-se de uma comunidade espiritual. Afinal.Wanju Duli As conferências também eram populares. A intenção de Comenius era que a educação chegasse a todos de forma rápida e fácil. base da pedagogia moderna. Um ensino fundamentado nas Sete Artes Liberais. o relativismo e a anarquia. Estes. fama e 6 . Defendiam uma organização hierárquica e o anonimato como ideal. sendo o termo “liberal” particularmente sedutor. tidos como heróis e ascetas do espírito. O lendário sentido estava lá. um Guimarães Rosa. O objetivo dos colégios e das universidades contemporâneas era pragmático. Os ouvintes assistiam passivamente a uma palestra sobre temas elevados ou tidos como importantes pelos especialistas. tendo em vista o materialismo: ensine apenas o necessário para que seja possível exercer as profissões liberais. Serviam a Verdade e a Ciência. Era requerido que os estudantes dedicassem integralmente suas vidas para o domínio de certas áreas. fundamentada no pensamento idealista. Coisas como dinheiro. esse prazer quase obsceno da Idade Folhetinesca era a oportunidade de mergulhar num universo fragmentário e desprovido de sentido. mas era místico demais para ser plenamente penetrado por um cultista gigolô. Em Castália.

A Era do Folhetim poder eram fortemente desprezadas. mesmo sem entender a maior parte do que se passa. As partidas mais elevadas se tornaram lendas e até hoje são referenciadas e comentadas em diferentes países. somente convidados especiais e uns poucos representantes do governo podem comparecer ao Jogo. belíssimo e inacessível. Especialmente a identidade do Magister Ludi. pelo respeito ao sagrado. somente uns poucos iniciados são capazes de apreender o microcosmo do Jogo. As clássicas festas públicas anuais se tornaram cada vez mais restritas. O Jogo das Contas de Vidro possui suas origens em Pitágoras e Leibniz e é provido de uma linguagem e de uma gramática própria: são hieróglifos. Contudo. Antigamente os Jogos duravam longas semanas e eram transmitidos pelo rádio. já que Castália abomina o culto à personalidade. Porém. uma língua secreta extremamente aperfeiçoada. Alcança um sentido de universalidade. Evidentemente. que surgiu no coração de Castália. cujo canto delicado faz verter lágrimas. É como contemplar um animal exótico. tendo como meta servir a uma causa superior aos indivíduos que lá se encontravam. O Jogo é tido como a reação máxima à cultura de pedaços surgida na Era do Folhetim. 7 . Atualmente as regras mudaram. são pouquíssimas pessoas que realmente o entendem. a identidade dos Mestres do Jogo são mantidas no anonimato. Hoje em dia. cujas origens são especialmente a Matemática e a Musicologia. Era uma sociedade fechada em si mesma. sendo o que há de maior em Castália. A ambição do Jogo é abarcar o universo espiritual em sistemas concêntricos. Esse animal está num esconderijo precioso e perigoso e ninguém ousa se aproximar. Os virtuoses do Jogo de Avelórios são famosos até mesmo fora dessa comunidade espiritual. Não são poucos que sentem uma emoção e êxtase intenso somente ao escutar as partidas. Ainda é possível baixar na internet um arquivo com uma das velhas transmissões de rádio de alguns séculos atrás. Essa entrega fanática e fervorosa pelas coisas do espírito deu origem ao Jogo de Avelórios. Os jogadores de Avelórios buscam tocar o cosmo. Os rumores correm como fogo.

filosofia e nem mesmo arte. Afinal. sua capacidade de disciplina e seu caráter. quase como se estivessem para eleger o novo papa. Não possui uma teologia própria. Alunos de diferentes escolas são escolhidos por professores e recomendados às autoridades de Castália. Ele é qualquer outra coisa desprovida de definição: uma mistura disso tudo. Caso o aluno não se adaptasse à vida em Castália. entrar numa escola de elite não é tarefa fácil. era somente a elite da elite. muito mais difícil seria escutar qualquer coisa sobre o Jogo de Avelórios. que sabem seguir regras e que são capazes de se comportar de forma ética. mas sem ser ele mesmo nenhuma dessas coisas. geralmente quando a criança tem em torno de 12 ou 13 anos. um Magister surge para realizar uma entrevista. Não existe nenhum tipo de exame que se faça para receber permissão de admissão. que leva em conta principalmente a habilidade do estudante. Mas aparentemente havia algum envolvimento de Castália com os monges 8 . eu não saberia dizer. era instruído a ficar de boca fechada sobre o que acontecia lá dentro. Aparentemente eles passavam por juramentos rigorosos e os levavam muito a sério. Honestamente. Se esse rumor era verdade ou não. já que até mesmo na internet ninguém divulgava nada. Apenas escutava alguns rumores esparsos dos meus colegas de classe. São simplesmente pessoas competentes. apesar de lá haver muitos relatos de gente que foi selecionada e depois retornou. Se já era difícil saber o que se passava dentro dos muros de Castália. a Comissão do Jogo se envolvia numa espécie de conclave. uma coisa não mudou: dizem que tornar-se um dia membro da Comissão do Jogo ou ser um Magister Ludi ainda é o sonho de quase todos os adolecentes de 15 anos das escolas de elite.Wanju Duli O Jogo não é ciência. Sendo assim. Um dia. No entanto. a nata de Castália. que se envolvia com ele. Contudo. não adianta ser um prodígio da matemática ou da música se o aluno não se adapta a uma vida em comunidade e de privações ou tem mau comportamento. Eu já tinha lido uma vez que para a escolha do novo Magister Ludi. que ouviam falar de um estudante de outra escola que foi chamado. Isso significa que os estudantes das escolas de elite não são gênios. eu nunca tinha conhecido ninguém que foi escolhido para estudar numa escola de elite. Provavelmente não são nem mesmo os melhores do mundo em suas áreas de atuação. que era um cargo vitalício.

como cadávers em decomposição após serem explodidos por uma mina na guerra diária da vida. Pois o fim do corpo está chegando e o sentido de viver é apenas morrer. o ar está terminando. Mas seria um pouco infantil da minha parte desejar qualquer coisa que não fosse o meu mundo. tudo era feito com pressa. A primeira vez que eu ouvi sobre alguém próximo a mim que foi entrevistado por um Magister. e especialmente do Jogo. era uma lenda. de viver. com postagens curtas e pouco informativas. O ser humano se considerava tão esperto e esse foi o ponto máximo a que conseguiu chegar. Não havia tempo de respirar. porque precisa viver. o anonimato completo e a partida desse mundo com uma passagem só de ida. Havia momentos em que eu queria crer que até mesmo a existência das escolas de elite. Uma parte de mim não podia conceber que existia algo tão fantástico e que eu não poderia participar desse universo. Era lamentável. cada vez mais despedaçado. Eu desejava algo maior do que o mero prazer do meu corpo. já que na transmissão de rádio de um dos Jogos havia momentos de meditação. que era o que Castália oferecia. E diziam que nossas universidades não eram diferentes: que as informações nunca se encontravam. Quem sabe eu desejasse a aniquilação do meu ser. Twitter. as disciplinas estavam desconectadas umas das outras. está contaminado. Também parecia haver influência de religiões orientais na espiritualidade deles. Notícias fragmentadas em jornais e na televisão. O corpo precisa comer qualquer coisa e muito rápido. num mundo material em que o corpo é a entidade máxima. Até meu colégio parecia conter informações em pedaços. Facebook. Eu sentia como se me afogasse cada vez mais na Idade Folhetinesca: ao meu redor só havia pedaços. de lazer. Eu não 9 . Quando se une os pedaços fragmentados da história. Eu não fazia a menor ideia do motivo disso. num mundo de informações fast food. Blogs na internet. E o objetivo da vida é o máximo de conforto. algo maior do que eu mesma. Respire rápido.A Era do Folhetim beneditinos e dominicanos. Cada vez menor. eu não quis acreditar que fosse real. as coisas começam a se encaixar. desconectadas. Sempre fui uma aluna medíocre no colégio e sabia que não teria chance nenhuma de ser chamada. Mas não era o fim da história. a morte está chegando.

Tirariam tudo de mim: conforto. privação. Seria uma existência vazia e apagada. já não possuía todo esse fascínio em mim. Talvez seja mais fácil entender coisas vivas do que coisas mortas já que. que seriam as ideias criadas na mente dos gramáticos da Idade Média. Diziam que em Castália se experimentava coisas como a “ verdadeira vida”. alma. esforço e dor. espírito. Era como um acordar. Ou quem sabe até 10 . tudo teria vida. pois estava me afogando. com um tutor particular para cada estudante. Quanto mais melhor. E havia a cópula entre o sujeito e o predicado. numa castração completa. Não ofereceriam nada em troca. Eu não teria mais escolhas. Poder fazer o que quiser era assim tão maravilhoso? Mas o que eu queria realmente? Um pouco de prazer para os sentidos. Então por que tanta gente desejava esse inferno? Por que até mesmo eu? Porque a liberdade. essa palavra mágica. Não era uma religião. O insight que se sente quando todas as coisas se encaixam. Não era exatamente isso o que gerava a felicidade: a alternância entre a tristeza e a alegria? Eu quase conseguia sentir os poemas de Gregório de Matos pululando nos meus ouvidos. Ensinavam a criar fantasmas. como se todo o resto fosse falso. estranhamente. Arrancariam até mesmo meus sonhos. Profissões liberais. E depois eu desejaria mais. É claro: eles obrigavam seus alunos a estudar como burros de carga. seria apenas um número num exército de macacos adestrados. As escolas de elite não ofereciam uma salvação. um despertar. Minha ambição não era tão grande: queria apenas respirar um pouco. essencial para a fundamentação da lógica. Eles exigiriam tudo de mim: sacrifício.Wanju Duli queria fugir do mundo ou de mim mesma. Eles passavam a finalmente entender o que realmente eram coisas como aritmética e gramática: a ontologia da gramática. a sua utilidade para a retórica. Era uma liberdade aparente. Para eles. lazer. Ficaria realmente saciada? Talvez eu fosse masoquista e desejasse muita dor para sentir os momentos de prazer com a cessação da dor. Férias. achamos que a vida faz mais sentido que a morte. uma vida tranquila. com um calendário rigoroso. para o meu corpo.

sem prestar atenção nenhuma na aula de história. Eu te mostro. Era como tentar tocar 11 . você precisa ter um conhecimento profundo de certas disciplinas.A Era do Folhetim mesmo essa visão fosse um erro: poderia haver tanto sentido na morte quanto na vida. no meio disso tudo. Para ser capaz de jogar. Pode-se jogar sozinho.. Eu estava completamente perdida em pensamentos. Era uma afirmação muito profunda e incômoda. um experimento científico ou uma reflexão artística. Ninguém mais sabia jogar aquilo nos dias de hoje. Eu conheço alguém que fez um curso de verão em Castália que pode te ensinar. quando todos os conhecimentos humanos se unem. Seria somente através daquela disciplina elevada que se encontrava Deus? Ou quem sabe um novo Deus tenha sido criado naquele instante? O que era a Verdade? Ela estava mesmo escondida por trás dos muros de Castália? Havia algum tipo de sabedoria antiga e esquecida que foi mantida intacta sob a proteção dos guardiões do Jogo das Contas de Vidro? Eu já tinha ouvido falar que aquele que compreendesse o pleno sentido do Jogo deixaria de ser um jogador. você só poderia ser um membro importante do governo ou pertencer a alguma família de peso que possuísse pelo menos um brasão reconhecido nos Arquivos de Castália. Pelo menos ninguém de fora das escolas de elite. E a música está fundamentada na matemática. – Sabe como jogar o Jogo das Contas de Vidro? Essas contas marcam as notas musicais. com duas pessoas ou muitas. Isso só poderia me sugerir que pensar sobre o “sentido” significava se afastar cada vez mais de onde eu queria chegar. Mas aquilo não era meramente um jogo de lógica. havia o arcano máximo: o Jogo de Avelórios. senão é perda de tempo. Por causa da cópula do sujeito e do predicado. E. Não adiantava nada ter as bolinhas. Eu ri. É preciso haver um mestre realmente competente para coordenar aquilo. Ela só poderia estar blefando. Havia mais que mente humana naquele meio. Até que alguém derrubou na minha mesa bolinhas transparentes e multicoloridas que se pareciam vagamente com bolinhas de gude.. E para ser convidado até mesmo para um curso de verão. E mesmo que fosse verdade que ela soubesse algo mais. não devia ser grande coisa para produzir um jogo relevante.

Os alunos de Castália não são especiais. É só um monte de fragmentos conectados artificialmente que geram uma aparente harmonia.. pois vários colegas meus olharam na minha direção. mesmo que o sentido não exista. – Esse jogo é uma grande bobagem – eu disse – é tão trivial quanto qualquer outro jogo. Antes meu amor pelo Jogo era meu segredo particular. A realidade não é um quebra-cabeça perfeito. ficar rico. – Mais do que você. enquanto nós realizamos o verdadeiro trabalho. Porém. vários colegas meus se tornaram interessados nas escolas de elite e ficavam tagarelando sobre isso nos intervalos das aulas. de uns tempos para cá. Eu diria que o Jogo de Avelórios é um retorno à Era do Folhetim! Eu provavelmente elevei a voz demais e me exaltei dizendo isso. com suas existências imaculadas e elevadas. – Não há espiritualidade alguma nesse jogo – prossegui – não mais do que num jogo de pôquer. Acho que fiquei momentaneamente furiosa. Quando alguém quer ver sentido em qualquer coisa. Eles sangram como todos nós. Igor era um fanático por Castália e pelo Jogo. Seu sonho era ter uma profissão que desse muito dinheiro. 12 . cria-se um. E eles não possuem a Verdade. Eles misturam as suítes de Bach com trechos de Fausto do Goethe. Tinha até uma tatuagem nas costas com a insígna do Jogo de Avelórios. Era como se tivessem roubado meu sonho secreto. quem sabe tornarse um político importante e ser convidado de honra para assistir anualmente ao Jogo.Wanju Duli violino sem nunca ter segurado um deles antes. então cala a boca. Mas não me intimidei. A Verdade não está à venda para ser patenteada e escondida num buraco! Além disso. Esse jogo é como uma colcha de retalhos mal feita. então eu fingia desinteresse quando falavam comigo sobre isso. senão impossível. eles são sustentados pelos nossos impostos para viverem numa nuvem. Duvido que saiba alguma coisa sobre política. Eles são ignorantes políticos. – Você é só uma estudante e provavelmente nunca trabalhou na vida. E tentar aprender sozinho e descobrir as regras seria particularmente complicado.. Os jogadores disso se acham superiores só porque para jogar é preciso entender gramática a fundo e uma linguagem secreta restrita ao clubinho.

ensinada pelas 13 . Eu começava a odiar as escolas de elite com mais força a cada dia. É claro que eu estava morrendo de inveja do idiota do amigo dela que tinha feito o maldito curso de verão. Eu quase explodi ao escutar isso. Se quiser jogar no futuro. – Eu só estava tentando ser simpática – retrucou Celina – você está com inveja. Tenho vontade de espiar esse jogo só para rir depois. Todos lá queriam ser especiais e saber os grandes segredos. aquela que tem um espírito. Cada vez mais fitávamos nossos professores como se nos contassem apenas uma parte da história e estivessem escondendo alguma coisa importante. Aposto que vai ser uma porcaria. O mundo em que vivemos raramente permite sonhos muito diferentes desse. Mas meu orgulho tinha estragado tudo. Provavelmente eles mesmos não nos revelavam tudo porque não sabiam. Eu provavelmente odiava ainda mais o meu próprio colégio. já que ao meu redor eu só via frustrados. Não essa matemática comum dos colégios. Vocês só estão se fingindo de especialistas. Eu iria mendigar migalhas de qualquer fofoca sobre o Jogo que o amigo dela revelasse. arrume seu próprio Mestre de Jogo. pois ela evidentemente estava falando a verdade. Tudo o que eu queria na vida era me sentar com meus colegas imbecis e jogar aquele lixo. choramingando por fazer parte de uma escola comum. mas a Verdadeira Matemática. – Você é surda? Não tenho o menor interesse nesse joguinho fútil. Só gostavam de lá porque era um local cercado de mistérios. Se Castália fosse um internato qualquer. O cara tinha pisado em Castália! Eu teria vontade de estrangulá-lo se o visse. minha outra colega. recolheu as contas que colocou na minha mesa. Celina.A Era do Folhetim Eu não o culpava por ter esse sonho. Eu tinha vontade de dizer: “Professor. – Vamos jogar sem você – disse Celina – esse meu amigo que fez o curso de verão será nosso Magister Ludi. pare com o teatro e nos ensine a verdadeira matemática. ninguém daria a mínima. Por que aquele lugar exercia um fascínio tão grande sobre todos nós? Estávamos convencidos de que vivíamos numa espécie de mundo platônico de sombras e que as escolas de elite possuíam a luz.

Aquela que ensinavam no passado. Essa era uma clara desvantagem. para que algum dos casais que visitavam o orfanato me adotasse. os professores ultimamente comentavam que a nota geral da turma havia subido. O que ele diria? Que a matemática era somente uma invenção humana. antes de o ensino se tornar uma mercadoria”. Na verdade. de imediato – pelo menos lá não tem esse bando de pedantes. e portanto jamais existiria a Verdadeira Matemática? Ou que de fato existiam matemáticas verdadeiras e falsas? E existiriam diferentes graus de falsidade e de verdade? Eu estava cansada de tentar adivinhar as coisas. Já tinha feito vastas pesquisas na internet e em bibliotecas. Mas depois que atingi uma certa idade. Eu diria que aquele jogo que eles jogavam estava mais distante do Jogo de Castália do que a Terra do Sol. Sempre havia muitos afazeres domésticos. Não que eu amasse aquele lugar. que deveria se chamar “Jogo do Folhetim”. O nosso orfanato não era miserável. já que alguns colegas meus estavam começando a estudar mais apenas para adquirir uma habilidade superior no Jogo de Avelórios. morar em Castália seria fácil. Talvez eu até tivesse mais conforto por lá do que em minha vida atual. Não iam adotar nenhuma de nós e quando completássemos dezoito anos seríamos chutadas para fora da droga do orfanato. aprendi que não teria mais jeito. Era somente uma cópia mal feita e incompleta. mas eu sentia que nossa paixão era sincera. Eu não era 14 . E eu obviamente não poderia dar uma escapada para o fliperama. Ou digamos que ela era um pouco mais que isso: era minha namorada. Desde pequena eu aprendi a sorrir e a ser dócil. Mas eu tinha amigas de verdade lá. que não era real. tirando o fato de que nas escolas de elite eu teria que me matar de tanto estudar. Quanta besteira! – Estou entediada – disse Sônia – vamos no fliperama? – É claro – eu respondi. Para mim. Sônia era minha melhor amiga. mas era simples. Eu morava no mesmo orfanato que ela. Eu já estava acostumada com uma vida em comunidade.Wanju Duli escolas de elite. Só fingiam que jogavam para se sentirem superiores e elevados. mas pelo menos tinha um teto e comida. Ainda éramos muito novas para saber algo sobre o amor.

que curtíamos pra caramba jogar Pump embora não fôssemos muito boas. Não íamos fazer o ensino médio. Eu e Sônia. Era a primeira vez que eu a via ao vivo. Era tão natural para ela que seu corpo se movia sem nenhum esforço..A Era do Folhetim uma jogadora compulsiva. Seus longos cabelos negros e ondulados estavam presos num rabo de cavalo alto. Eu e Sônia reunimos nossas moedinhas e contamos. Eu não fazia a menor ideia que ela frequentava o fliperama perto do nosso colégio. mas relaxava nas raras vezes em que sobrava grana para ir lá. D². Assim que completássemos quatorze anos. Vestia trajes de verão: um short jeans curtíssimo e uma regata branca. Mesmo assim. Lá ela perdeu. Daria para jogarmos Pump três vezes. ou qualquer outro de seus apelidos. – Mas que diabos? – perguntou Sônia – por que tem tanta gente no fliperama hoje? – E logo no Pump – observei – tem uma galera reunida lá. acompanhávamos os campeonatos pela internet.. mas isso não diminuiu em nada nossa admiração. pois já que teríamos que sair do orfanato com dezoito. A D. Dancer Demon. as perspectivas não eram muito animadoras para mim e para Sônia. Ainda assim.D. Muitos estavam filmando no celular enquanto ela jogava. muita gente a reconheceu e chamou outras pessoas. Eu estava espantada demais para pegar meu celular.! Eu também fiquei boquiaberta. 15 . eu e ela tínhamos planos de largar o colégio e começar a trabalhar. E ainda sobraria moedas para um crepe. já tinha vencido o campeonato nacional e até viajou para a Coreia para participar do mundial. Dia de sorte. Tênis esportivos sem meias.D.. Ela era linda como nas fotos e vídeos. Devia ser a primeira vez e ela só estava de passagem. Apenas fitava impressionada aquele demônio dançante que fazia com que o Pump parecesse tão fácil quanto respirar. Quem estava no Pump era ninguém menos que a D. Tá tendo algum evento? – Eu não acredito. Eu gostava de ser otimista e acreditar que um dia tudo ia se resolver sozinho. Ela estava tão concentrada que parecia hipnotizada. era melhor já começar a juntar grana para alugarmos um lugar para morarmos juntas.

Não era à toa que era famosa. especialmente entre os rapazes. 16 . bem escura. Sorte que naquele dia a minha roupa até que estava arrumadinha. Esse jogo eu não conhecia. Eu tinha a pele negra. muito sérios. A seguir. Ela saiu de lá suada e uma amiga sua entregou a ela uma toalha para que enxugasse o rosto. – Qual sabor de crepe a menina de rabo de cavalo pediu? – perguntei para a moça do crepe – eu quero o mesmo! Ela tinha pedido o de doce de leite. Depois disso. Ela usava trancinhas cheias de contas coloridas. cada uma com um crepe na mão. Uma garota bonita que era skatista e jogava Pump. dava para ver com clareza os contornos de seu corpo. e um black power. – Você é fã mesmo. Eu queria poder sentir o que ela sentiu. Era cheia de curvas. Ela tinha a pele naturalmente bronzeada. Eu não a invejava nem um pouco. Apenas a admirava totalmente. Eu sabia que ela também gostava de andar de skate e levava isso bastante a sério.. Com a roupa que usava.D. Eu era inesquecível. – Ela realmente intimida – concordou Sônia – mas parece ser simpática. mas aproveitei a chance. Olhos negros e profundos. Eu raramente pedia esse. Eu era fã. Eu nunca passava despercebida por onde eu ia. Ela não era exatamente magra. é claro que ela não poderia ter deixado de reparar em mim. admirada – por que não pediu um autógrafo? – Sei lá – respondi – ela é meio assustadora. hein? – comentou Sônia. com coxas grossas. Mas elas jogaram apenas uma vez e depois saíram de lá. E não é que ela era mesmo uma celebridade? Mas eu fiquei um pouco embaraçada para pedir um autógrafo também e me contentei em continuar a observá-la de longe. Pensar nisso me deixou um pouquinho feliz. Mesmo que eu não tivesse conversado diretamente com D. alguns pegaram papel e caneta para pedir autógrafo.Wanju Duli Quando terminou a música houve uma salva de palmas e gritos. ela foi jogar um jogo de tiro junto com a amiga. mas a pele dela não era tão escura quanto a minha. Sônia também era negra.

– É mais fácil ir para o além do que para Castália – observou Sônia. – É claro que não. – Tá de brincadeira! – exclamou Melissa.D. Mel e Lua eram outras grandes amigas nossas. – Não tirei foto porque sou uma imbecil – confessei. horrorizada. as roupas. Lua. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ela estava partindo. mas ela não está partindo para o além. Provavelmente só está de passagem. Quando voltamos para o orfanato. – Não sou uma stalker! – retruquei – que eu saiba ela nem mora nessa cidade. havia muitos serviços domésticos para fazer e dividimos as tarefas: lavar os pratos. com um grito. uma tábua sem peito e nem bunda. quase num black power. mas fiquei orgulhosa quando terminei. ela só tem 14 ou 15 anos! – respondi. À noite resolvi espiar a fanpage dela no Facebook para ver se havia alguma informação sobre a passagem dela pelo nosso fliper. por isso preferimos deixar para jogar outro dia. Luana era muito magrela. ainda com sua voz alta e escandalosa. – Não tiraram foto? – perguntou Luana. e sim para Castália. Ficamos satisfeitas apenas com os crepes e por ter presenciado aquela cena única. – Por que não a perseguiu e descobriu onde ela mora? – perguntou Melissa. tendo os cabelos com penteados também opostos: enquanto Lua tinha cabelos grandes e revoltos. Sônia me fitou de forma peculiar. – Pessoas morrem em qualquer idade – justificou Mel. animada – a gente viu ela hoje no fliper. com peitos relativamente grandes. As duas eram negras.? – contei. 17 . limpar o chão. – Pelo menos é o que os fãs dela dizem – expliquei – ela vai viajar amanhã de manhã. A aparência delas era praticamente oposta. – Mel.A Era do Folhetim O Pump ainda estava cheio depois daquele acontecimento. Para sempre! – Ela vai morrer?! – berrou Mel. lavar o banheiro. – Eu sei. Mel tinha os cabelos bem curtinhos como os de um menino. Já Melissa era bem gorda. Deu um trabalhão. vocês lembram da D. Tinham um ano a mais que nós.

– Sim – concordei – ela vai sacrificar o futuro brilhante dela apenas para estudar em Castália. mas já que Castália estava no meio daquilo. mas eu desconfiava que o Magister da escola de biologia havia visto algo mais em D. Por causa dessa história. meus colegas não falavam de outra coisa durante a aula.D. Ela nunca mais vai poder jogar Pump ou andar de skate. chamou a atenção deles. Aquele lugar era tão importante assim para que uma estrela como D.. é tudo proibido nas escolas de elite. Vai estudar biologia. Aquela entrevista. muita gente que não ligava para as escolas de elite passou a pesquisar mais sobre isso. os caras não deviam ver apenas as notas. Não que eu soubesse muito sobre a vida pessoal dela. mas não deixava de ser uma espécie de conhecida.D. Não que D. Só que não havia muito mais a ser dito. Para mim era prova suficiente de que ela seria capaz de aguentar a disciplina rigorosa de Castália. 18 . Não era exatamente uma pessoa próxima a mim. Essa foi a primeira vez que ouvi falar de alguém que foi estudar nas escolas de elite. séria no Pump. E Castália ganhou ainda mais notoriedade.D.. largasse tudo apenas para viver lá? Será que ela havia pensado bem sobre isso? Não tinha ficado em dúvida? Provavelmente foi um dilema para D. fosse famosa como uma cantora ou atriz. Eu nunca tinha ouvido falar que ela se destacava na biologia. já que geralmente as crianças são chamadas para estudar lá com 12 ou 13 anos. Ela havia sido uma exceção. o principal era ver o caráter. A maior parte deles nunca tinha ouvido falar na tal skatista. Ela era uma pessoa séria em tudo que fazia: era séria no skate. os motivos. pois mostravam que o aluno possuía o mínimo de disciplina para cumprir metas. as notas dela eram normais. Aqui diz que ela foi escolhida pelas notas altas em ciências. fosse retornar como os outros. Foi concedido a ela tempo extra para refletir.D.Wanju Duli – Esperem – disse Luana – pelo que eu saiba. mas ela era uma lenda no submundo da internet. os valores. Até onde eu sabia. Porém. Eu achava improvável que D.. que lhe tomou mais de um ano. Eu também quis saber mais. além dos seis meses habituais.D. No dia seguinte. E por lá os rumores rolavam soltos. Ela iria partir e o resto seria silêncio. Claro que as notas eram importantes.

que foi muito pobre quando criança e obteve todo seu conhecimento com seu próprio esforço de ler muitos livros. Enganava até a mim mesma. Só lia para dizer que li. mesmo que estudássemos disciplinas diferentes. A única coisa que eu realmente gostava de fazer no colégio era ler livros de ficção.D. Minhas notas eram apenas regulares. e depois começaria a trabalhar. Só pelo prazer de passear por aí com um livro aberto do Dostoiévski. Devia ser por isso que eu sentia raiva dos meus colegas que fingiam jogar o Jogo das Contas de Vidro: porque eu fazia algo parecido. Gostava de me sentir como Machado de Assis. Elevar as notas. Eu apenas concluiria aquele ano no colégio e o seguinte. Até que seria bom se me permitissem viver no orfanato para sempre. O primeiro passo para ter uma chance era estudar muito. Eu já estava com 13 anos. No fundo. Isso me dava nos nervos. Não bastava desejar ir. A velha palavra sedutora outra vez. E eu não gostava de ver nos outros as coisas que eu detestava em mim mesma. Não que esse teste servisse para medir o meu caráter. com uma promessa de felicidade. Não seria fácil conseguir emprego com aquela idade. eu não tinha grandes sonhos ou ambições. Eu era apenas trapaceira. Só queria continuar a morar com Sônia. Eu já lia livros difíceis. como eu queria sair de lá! Seria mais difícil me sustentar. Liberdade. ter comportamento exemplar. Estava no limite de tempo. embora não os entendesse. Só que as vagas eram limitadas. Era como olhar a mim mesma no espelho e constatar: “veja só como você é um ser humano desagradável”. fingia que lia e compreendia livros áridos. Ao mesmo tempo. Contudo. Mas isso não era o bastante para ser escolhida para as escolas de elite. mas quando eu morasse junto com ela teríamos mais liberdade. Em qualquer coisa. Chamar a atenção dos professores de uma forma positiva.A Era do Folhetim O quão legal seria estudar no mesmo lugar que D. Eu retirava livros na biblioteca sempre que podia. Eu não me importava.? Era mais um motivo para desejar estar lá. Eu tirava só o necessário para passar de ano. Ela me comprava completamente. Confesso que eu era um pouco metida e sempre retirava livros direcionados a leitores mais velhos que eu. eu já sabia 19 . então serviria qualquer um.

tinham certas vantagens que eu não possuía. chegou um momento em nossa história que passamos a nos destacar nas guerras que estouraram posteriormente. Era incrível constatar que 400 anos já tinham se passado. Em certo momento.Wanju Duli que naquele mundo materialista possuíamos apenas uma liberdade aparente. Eu queria ser feliz e livre. tornou-se uma instituição de peso. já que ele me daria uma falsa sensação de segurança e liberdade. De certa forma eu tinha sorte: os livros de papel ainda não tinham sumido. A Castália brasileira. cada vez mais gente desejou um retorno à espiritualidade. Depois de uma participação mais ativa do Brasil em guerras mundiais. com um aspecto fortemente místico. Era de 1888. Em compensação. Eles passavam por dificuldades pelas quais eu não passava. Era possível que ter dinheiro me aprisionasse ainda mais. também houve o retorno da Era do Folhetim. E ainda reclamávamos das mesmas coisas. 20 . houve um retorno às antigas e uma tentativa de restauração das bibliotecas que foram destruídas após as grandes guerras. Com os cérebros de nosso país direcionados para as forças armadas. Essas coisas vão e voltam. Não era o suficiente? Era irreal fantasiar que os alunos das escolas de elite eram mais felizes que eu. A grande questão era se essas tais vantagens seriam assim tão sublimes. onde tudo começou. chamada de Nova Castália. Eu não tinha do que reclamar. numa busca de resgatar os valores perdidos. Havia momentos em que eu desconfiava que nem mesmo ter dinheiro faria com que eu me sentisse livre. e ultimamente ela estava tão popular quanto a sede alemã. Estávamos em 2288. era comum que estrangeiros desejassem estudar na nossa Castália. Mas eu já não era todas essas coisas? Minha vida estava boa. O internato descrito naquele livro era realmente um lixo. tanto que até os dias de hoje nossos colégios e universidades de maior destaque eram militares. Prossegui a minha leitura de “O Ateneu” de Raul Pompéia. Eu teria medo de perdê-lo. porque eu tinha pão todo dia. por influência dos carmelitas. Sentiria insegurança caso não o tivesse de novo. O Brasil sempre se destacou pela sua força militar. Em compensação. de usá-lo de forma errada. Por isso.

. 21 . – Senhorita Santa? Eu levantei os olhos.. Nunca vi prisão mais cobiçada que essa. Ou bungee jump. – Deixando isso de lado. qual o seu autor favorito? Ela sentou-se ao meu lado. – Já leu “Em Busca do Tempo Perdido”? – Já. como uma prisão. – Está meio fora de moda hoje em dia – respondi – mas já fui duas vezes. – Você realmente gosta de ler – ela comentou – eu nunca vejo nenhum dos outros alunos com um livro na mão. então eu me contentava em ler tudo o que encontrava. – Então por que continua lendo? Eu dei de ombros. Pensei em algum nome bem difícil para pronunciar. Como se dizia que eles possuíam muros altos como uma fortaleza. não faria tanta diferença saber onde era. estranhando. Eles não gostavam de deixar claro a própria localização. – Bungee jump? – perguntou ela. Infelizmente não havia tanta coisa disponível ao grande público. simplesmente – como escolher o livro mais chato da biblioteca para ler. aguardando que ela falasse. Um particularmente empoeirado que ninguém retira há anos.A Era do Folhetim Eu lia muito e me interessava por tudo que tivesse relação com as escolas de elite. e Hemingway. Só não fui mais porque custa caro. mas eu não tinha certeza se era na capital. embora aquele não fosse exatamente um segredo. Eu tinha ouvido falar que nossa Castália localizava-se em algum lugar do Piauí. Estivera lendo distraidamente “O Ateneu” num dos bancos do colégio e não vi quando a professora de português se aproximou. – Gosto de fazer coisas que ninguém faz – respondi. já que se os portões principais não fossem abertos ninguém entrava e ninguém saía de lá. para impressioná-la. Eu apenas a fitei curiosamente. Eles apenas ocultavam discretamente essa informação. – Gosto de Proust. mas não consegui pensar em nenhum. – Já faz alguns séculos que temos outras diversões mais interessantes que livros.

– Você não sabe uma coisa simples como essa e ainda pensa que pode jogar o Jogo de Avelórios? – desafiei-o. gosto mais de ler do que de falar sobre os livros. “Por que essa conversa ainda não terminou?” pensei. Eles nem mesmo sabiam como se portar para jogar um autêntico Jogo de Avelórios. Propositalmente. mas segurei a língua. – E eu assassinei uma tartaruga no verão. Não precisam de um motivo superior para isso. – Fiz um curso de verão em Castália. para estragar tudo. deixando claro que estava sendo insolente – o livro estava tão interessante que tive que desocupar as mãos para limpar as lágrimas dos olhos. vi meus colegas debruçados no chão no intervalo como se jogassem bolinhas de gude. mas com moderação. – Que livro é esse? – perguntou um garoto que eu não conhecia – “Til”? Nem sabia que o José de Alencar tinha um livro com esse nome. Significava que cinco anos atrás alguém se interessou em ler aquele livro. retirei um livro do José de Alencar. – Qual foi o livro mais divertido que você já leu? Aquilo era um interrogatório? – Nenhum. impressionada. sacudindo meu livro do José de Alencar. Aquele já estava há cinco anos sem ser retirado. – Por quê? – ele perguntou. Até que era pouco.Wanju Duli – Todo? – ela perguntou. simplesmente – as pessoas devem fazer o que seu coração manda. Eu quase disse que discutir os livros depois de ler era como fazer sexo e debater sobre a transa logo após. – Porque eu quis – respondi. derrubei o livro em cima das bolinhas que formavam círculos concêntricos. Enquanto eu passeava pelo pátio. para mostrar como eu me encontrava num patamar acima deles. – Claro que não – respondi. são todos chatos – respondi – na verdade. incomodada. Patético. Eu era um pouco masoquista. de imediato – não sou tão estúpida. 22 . – Perdão! – exclamei. Passei ali perto de propósito. Incrível. Quando devolvi o Raul Pompéia para a biblioteca.

Aposto que se eu jogar contra você agora. Eu não tenho pai. – Esse jogo não é sobre ganhar ou perder. – Eu nem mesmo estudo aqui. 23 . – No ano passado fui com meu pai para Berlin e assisti a um jogo oficial orquestrado pelo próprio Magister Ludi. Dessa vez ele se enfezou. vencerei de olhos vendados. Passei os dois dias no fliperama. Especialmente pelo uso do termo “orquestrado”. E dei. É claro. – Bom para você. Gastei todas as moedas do meu cofrinho no Pump. levada na diretoria e fui suspensa da aula por dois dias. – Pode me bater de volta – provoquei – assim nós dois levamos advertência. Ele realmente parecia sentir muito. – Isso é o que você acha! – gritei – você não sabe de nada! O garoto deu um sorriso cínico. Ele estudava num colégio particular. repleto de compaixão. Achei ótimo.A Era do Folhetim – Você já leu Kant? – ele perguntou – está familiarizada com o Imperativo Categórico? – Você já leu “Mein Kampf”? – retruquei – eu já li. Eu fiquei sem fala por alguns segundos. – Que merda é essa? – gritou ele. eu queria uma desculpa para dar um soco na cara dele. Mesmo assim. Me senti idiota. – Sinto muito ouvir isso. Fui imediatamente delatada. Você já alimentou ratos? – O quê?! – Eu vou te esmagar como um rato se você continuar aqui fingindo que está jogando o Jogo. – Quem é seu pai? – perguntei – é o papa? – Ele é deputado. Picotei o livro do José de Alencar com uma tesoura e quando o devolvi para a biblioteca na segunda-feira seguinte. Fiquei surpresa ao constatar que ele não disse aquilo com ironia. relembrando do período em que passou fome. Fiquei realmente comovida quando Hitler relata como chorou em seu travesseiro quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra. E ele também alimentou os ratos quando estava na prisão.

O que eles estão fazendo é um sacrilégio. De que adiantava se minhas notas não se destacavam? – Estou de TPM – resolvi dizer – então tive vontade de socar um homem. dois ou três – expliquei – os jogadores devem primeiro meditar sobre os símbolos escolhidos. E ele falou mal do meu pai! Eu nem tinha pai. mas isso era apenas um detalhe. embora eu nem tivesse cachorro. – Porque não é assim que se joga. Maria? Você sempre foi uma boa aluna. Também tive que pagar por ele. Ou talvez eu tivesse e ele estivesse passeando por aí. 24 . – Por que isso te aborrece? – perguntou minha professora. Quanta bobagem. – Ele finge que sabe jogar o Jogo de Avelórios – acrescentei – isso me aborrece. O Jogo é um organismo complexo. mas eu não me importava. – Confesso que estou desapontada. Ele nem estuda aqui. – Sempre enxerguei o Jogo como uma arte. Uma síntese é feita a partir da tese e da antítese. Para isso é preciso alargar seus domínios. – O que está acontecendo. – Isso obviamente não justifica suas ações. eu leio muito. Você sempre se comportou em aula. deseja-se abarcar o universo. Eu nem havia tido minha primeira menstruação ainda.Wanju Duli expliquei que meu cachorro comeu o livro. Com ele. – Nunca fui uma boa aluna – respondi – e nunca tive nada a perder. Estava um pouco atrasada para a minha idade. Eu já li sobre isso. O que realmente aconteceu? – Aquele menino não tinha autorização para estar dentro do nosso colégio. parecendo interessada. – Como sabe de tudo isso? – Como eu disse. Minha professora de português me chamou para conversar após a aula. Nunca ficou em recuperação. – Como se joga? – A mecânica do jogo é possuir temas restritos de conteúdo: normalmente um.

confessor. Minha professora saiu pela porta. – Meu nome é Lorena Flores. saltimbanco. como Olavo Bilac. Eu não gosto dos exageros dos poetas românticos. guardião dos perfumes sagrados. ou escrita poética. Não gosto de ler." – Rimbaud – pronunciei. "E existiremos enquanto nos divertirmos. – Prefere prosa? – Não prefiro nada.. O cabelo estava caprichosamente preso num coque bonito. Como uma guerra.A Era do Folhetim – Uma arte sui generis. Ele expressa o velho conflito entre o estético e o ético. mendigo. – Quase isso. É algo maior. Muito prazer. Mas em geral não prefiro poesia. a sonhar amores monstruosos e universos fantásticos. Ele possui problemáticas que devem ser resolvidas. Nele havia um tipo de poema. mártir. – Vou deixá-las conversar. – A guerra dentro de mim. Era uma mulher vestindo trajes bem arrumados. se é possível chamá-lo assim. – É ela? – perguntou a mulher. Eu estava encrencada. Ela me entregou um pedaço de papel. Alguém bateu na porta. Minha professora autorizou-a a entrar. mas acho que na minha idade e na dele isso é inevitável. bandido. 25 . – Mas você reconheceu imediatamente que era Rimbaud. enquanto nos lamentarmos e disputarmos sobre as aparências do mundo. Parecia ter em torno de quarenta anos. artista. – Um embate. o cheiro do incenso me faz tão poderoso. de imediato – é de sua magnum opus.. A matemática é um tipo de instrumento e é mais útil numa partida formal e não num embate psicológico. Ela sentou-se ao lado de minha professora. – Você é Maria Santa? Concordei. – Como problemas de matemática. – sacerdote! Sobre meu leito de hospital. – Prefere poemas mais equilibrados? – É.

apenas para o que me interessa. uma Verdade ou Deus. – Eu gostava antes. Eu leio muito.Wanju Duli – Qualquer um reconheceria. – Curioso. Outras coisas costumam perecer. 26 . – Nós atribuímos os valores para as coisas. Por quê? De repente. É só me dar um bom motivo. não é mesmo? – Na maior parte do tempo – concordei – mas pode ser que algumas coisas possuam valor intrínseco. Como um espírito. É conhecimento desse tipo? – Qualquer um. quando não o conhecia – respondi – quanto mais li sobre ele. – O que acha de religiões? – São fortes. passar no vestibular e no futuro ganhar dinheiro. Ela não perguntou porque eu lia. Foi uma constatação. preferi ter continuado a falar do assunto anterior. – Sou naturalmente curiosa. sobrevivem às guerras e às mudanças dos tempos. Por um momento. poderosas. mais me pareceu trivial. Mas por que estamos falando de religião? – Você é ateísta? – Não achei que Castália fosse uma espécie de Maçonaria – respondi – preciso acreditar em algum tipo de Deus para entrar? Eu sabia quem ela era. – Não gosta do conhecimento? – De que conhecimento estamos falando? – perguntei – posso passar a conhecer mais as nuvens se olhar para elas. Não precisa ser uma competição como aquela besteira de Jogo das Contas de Vidro. eu realmente pensei que fosse algo de valor. Eu me pergunto se é esse tal espírito que as mantém de pé. Não sei muito bem dessas coisas. por sua força. Achei ótimo. Não foi uma pergunta. – O colégio é chato – respondi – não temos nenhum incentivo para estudar além de passar de ano. mas as palavras possuem uma espécie de sedução. – Não gosta do Jogo. mas não leio porque gosto. – Suas notas não são muito boas.

Eu suspirei. qualquer outro mataria por essa oportunidade única – completei. ou você é diferente? O tom com que ela perguntou aquilo me gerou uma sensação desagradável. “O amor procura o amor assim como os meninos fogem dos livros escolares. Aquela mulher aparentemente simpática conseguia ser amarga quando queria. – É um pensamento ousado. – Confesso que estou muito curiosa para conhecer a sua razão de não desejar estudar lá. Não sou esforçada. – Afinal. como se dissesse: “você faz parte do gado?” – Ah. com orgulho – não sou diferente ou especial. Agora ela assumia um tom nietzscheano. 27 . – Agradeço pela lição – eu disse – você é. Ela me passou outra folha com o trecho de um livro. mas eu não sou boa nisso – deixei claro – nunca fui.A Era do Folhetim – Não precisa acreditar em nada. Pensei que em Castália a capacidade de desaparecer e se manter anônimo fosse uma virtude. – Obrigada pela sinceridade. Masoquismo extremo. Aquela ironia cortante era como uma faca de mel. Então quanto mais ordinária eu for como ser humano. Apreciei a brincadeira. a não ser em sua capacidade de obedecer. só faço o mínimo necessário e estou naquela idade difícil de desafiar a autoridade e questionar o que me ensinaram. mais facilmente irei me fundir à multidão. sim. sem dúvida. tem medo de responsabilidades. sou como todos os outros! – exclamei. Você. – Então existem coisas certas e erradas? – Vejo que aprendeu algo novo hoje. Ela me cortava e eu gostava cada vez mais. um ser superior das escolas de elite. mas errado. – Isso é totalmente natural. fica como os meninos dirigindo-se à escola: de ar sombrio”. como todos os outros. mas quando o amor do amor se separa.

pouco a pouco. – Sei que não sou apropriada. – Isso me parece Shakespeare. – Você aceitou – ela disse.. mas você não é apropriada para as escolas de elite. mas não celebre – ela avisou – a maior parte dos cadidatos desiste. com voz fraca. como se desejasse me despedaçar com as próprias mãos. – Sinto muito. Você quer? Novamente. mas não me recordo do livro – eu disse – se é amor. – Não são desafios desse tipo. Mas se somente nos ocupássemos com acertos desse tipo. É apropriado. – Você acertou. ficou com uma curiosidade mórbida ao meu respeito. O desejo é algo passageiro. Quando contei a notícia para Sônia. aposto que foi o patife do Romeu quem disse. Ela não gostou de mim.. Fiquei sem fala por um instante. mas não me importo. ela me deixou sem palavras. Sempre tive horário para tudo. – Eu errei? – perguntei. então. O maior desafio será o que enfrentará lá dentro. faríamos um exame para selecionar os candidatos. posso perder uma parte ou outra para me encaixar. Vivo num mundo de pedaços. – Não deveria? – perguntei. ela ficou chocada. – Sente que vai perder uma parte de você se tentar? – Pode ser que eu perca. Se houver alguma unidade em Castália.Wanju Duli Tive que ler mais duas vezes para me lembrar. – Moro num orfanato e faço todos os afazeres domésticos – expliquei – acordo todo dia às quatro da manhã.. Eu diria que me odiou. Aquela mulher sabia bem como fazer isso. Nem sei porque essa entrevista aconteceu. Serão coisas bem diferentes do que você conhece. confusa – se não é Shakespeare. Ao mesmo tempo. finalmente – não faço escolhas somente por querer ou não querer. 28 . – Amanhã você fará sua viagem. – Não sei o que dizer – eu respondi. A mulher saiu sem se despedir. – Posso te colocar lá se eu quiser. – Saiba que fui entrevistada na semana passada e recusei. talvez.. Era como se eu fosse enviada para outro mundo.

As pessoas não falavam sobre isso. Vá lá e namore a D. Maria. Mas existe algo maior que eu. Nova Castália me chamava muito mais a atenção. 29 .D. Mas aquela brincadeira podia me fazer perder o ano. especialmente porque muitas eram recusadas logo no processo de entrevista. – Ainda faço. ficava mesmo na capital. Não contei para meus colegas para onde estava indo.. peguei um ônibus até Teresina. – Eu tenho. – Vai fazer algo com que não se importa só por causa do título? – Estou de saco cheio – esclareci – preciso saber o que é Castália. Se ela não tivesse feito voto de castidade também. Vai tomar no cu. com desprezo – até ontem você fazia troça disso. era melhor eu me gabar somente depois de ser aceita na escola. eu estava descobrindo que as entrevistas não eram tão raras como eu pensava. E ela se retirou.. Coloquei o básico numa mochila e me despedi de Lua e Mel. Era uma situação complicada. – Vai me largar porque está de saco cheio. De qualquer forma. – Eu amo – afirmei – com todas as minhas forças. Ainda mais depois de eu ter criticado tanto Castália. – Recusei por você – ela disse – além do mais. seria um pouco vergonhoso. Se eu me gabasse cedo demais e depois não aguentasse. – Você disse que não gostava de ler. Estávamos falando das escolas de elite! No dia seguinte. se eu ficasse lá tempo demais e depois desistisse. Afinal. eu não estava indo para a Castália alemã e tinha pouco interesse nela. Agora não vou voltar a ficar junto contigo nem que implore. não tenho interesse em Castália. Pelo visto. – Você vai viver lá para sempre. Sônia nem queria ver a minha cara. – Mas não me importo em ler. fazer voto de castidade e abdicar das posses materiais – disse Sônia – como se não me amasse. Posso me tornar Magister de literatura. – O Jogo? – perguntou Sônia. Havia apenas uma regra não dita sobre discrição. Eu não tinha muita coisa para levar. O Jogo não é a única possibilidade. Pensei que ela fosse entender.A Era do Folhetim Subitamente.

Tentei relaxar e deu certo por um tempo. ter que me comunicar num idioma que eu não conhecia seria particularmente aborrecedor. Sabia que era capaz disso. Minha paciência tinha limite. Enquanto estava na rodoviária esperando o ônibus. para entender. A Nova Castália deveria ter outra localização. Fui escolhida para te instruir. Quer me levar lá para depois ter o prazer de me expulsar. – Você é minha mentora? – perguntei. me dedicar aos estudos. só para depois dizer: “Está vendo tudo isso aqui? Não será seu”. Afinal. eu estava com vontade de provar que eu era capaz de ser uma boa aluna. Se houvesse um motivo maior. Eu não deveria brincar assim.D. Por outro lado. eu poderia me esforçar. Dividiremos quarto. 30 . mas o bastante para ser aceita por lá. ser obediente e ter disciplina. li um livro do Manuel Bandeira. Não tanto quanto D. – Não sabia que era tão boa no colégio – comentou Lua – até entendo o caso de Sônia. Fiquei sabendo que aquele lugar enorme era apenas um tipo de seminário para os novatos. Deve ter se espalhado a notícia de que eu estava fazendo bullying com meus colegas adoradores de escolas de elite. Fui recebida logo no portão de entrada por uma garota com elegantes trajes azuis. com muros imensos. Durante a viagem. mas era sério. esse é o sistema daqui. Eu não pretendia tomar cuidado lá dentro. – Eu não sou boa – eu disse – a Magister pretende me insultar. Se eu aguentasse o primeiro mês. Minha vida estava em jogo. – Você deve ser Maria – ela cumprimentou-me – sou Mariel Aquino. Aquilo tudo parecia uma piada. Além disso. mas quando desci do ônibus voltei a ficar tensa. provavelmente poucos anos mais velha que eu. Somente dali uns oito anos iríamos para lá.D. já que as notas dela eram melhores que as suas. – Ah. O recém-chegado terá a orientação de um veterano ao longo de sua preparação. Ela vai me mostrar o quanto eles são bons. eu só não me dedicava no colégio porque não me interessava. Não foi tão difícil assim achar. comecei a sentir um frio na espinha.. Digamos que era uma localidade bastante chamativa.Wanju Duli especialmente porque era lá que estava D. Peguei outro ônibus até o local. Serei sua mentora. Ela claramente não era brasileira.

escolheríamos formalmente a qual escola iríamos fazer parte. Era um local bonito e espaçoso. Minhas amigas do orfanato eram como irmãs para mim. Era como vestir um lençol velho. fazendo uma careta. Aquela recepção calorosa me dava a falsa sensação de que minha vida lá seria fácil. dali quase dez anos. – Sou Agatha Cruz. Porém. Não há muitas regalias por aqui. Era tudo muito simples. Mariel tinha um sorriso tímido e parecia boazinha. Mas era a norma. Mas vá se acostumando. Nosso quarto também era aconchegante. havia outro beliche. 31 . Estudante de história. também estudo literatura. hã? – disse Agatha – com tecido de má qualidade. Então eu ganharia uma nova família. Fiquei satisfeita com isso. cabelos negros e lisos. Somente mais tarde. Era engraçado ver todas aquelas adolescentes se apresentando como se já fossem estudantes universitárias. Eu teria alguém responsável por mim que eu poderia prejudicar se pisasse na bola. apesar de não ser muito grande. ainda por cima. Agatha era uma mulata alta de cabelos crespos. mas eu poderei te ajudar no que precisar. prontamente – e. – De onde você é? – resolvi perguntar. Fui conduzida ao interior da construção. Se bem que. Tinha a pele morena. Como uma irmã mais velha. – Horrível. Fiquei na parte de baixo do beliche de Mariel. olhos puxados.A Era do Folhetim Claro. – Isso é um uniforme? – perguntei. Fiquei contente. Simpatizei com ela imediatamente. Mariel caminhou comigo pelos arredores para me mostrar o local. Tão alta que parecia quase uma modelo. vestida naqueles trajes azuis não se parecia com uma. – Filipinas – ela me respondeu. Então era melhor eu não dar bandeira. – Quem é? – Meu nome é Maria – apresentei-me. Outra garota entrou no quarto naquele instante. ali seria diferente. Mas era assim que funcionava nas escolas de elite: já escolhíamos nossa área de estudo assim que entrávamos. você terá uma professora. assim como você. E naquele calor não seria muito agradável. Ao lado. Por isso fui escolhida para ser sua mentora.

mas não se preocupe. Ela também me mostrou o banheiro. Disse isso a ela. Até a do meu colégio público era maior. Somente os que me marcaram mais. – Quantos livros você já leu? – Certamente mais de cem – respondi – talvez duzentos. Da maioria eu sequer me lembrava bem. Frequentemente vale mais estudar a fundo umas poucas obras e lê-las mais de uma vez para realmente compreendê-las. Se a intenção da Magister era me impressionar. Claro que eu não havia lido com atenção todos os livros que já li. mas eu gostava 32 . eu me desapontei muito com a biblioteca deles.Wanju Duli – Esse é o dormitório feminino. bem longe. – Tenho quinze. Logo eu descobri o que ela queria dizer com isso. Honestamente. Você tem doze? – Treze – corrigi. Já li uns trezentos. – Até que é bastante para a sua idade. Ler é apenas um hobby para mim. – Algumas centenas? É tão pouco que não serve nem como leitura de cabeceira – observei. Nessa escola preparatória eu tinha mais afazeres domésticos do que em casa. – Onde estão os livros? – Aqui nós temos apenas algumas centenas – explicou Mariel – as bibliotecas principais com os livros raros estão nas Grandes Escolas de Elite. para evitar problemas. incluindo uma modesta biblioteca. ou terá problemas aqui dentro. mas eu não era tão fã assim de leitura. O masculino fica lá no outro prédio. a cozinha e os outros poucos lugares que eu precisava conhecer. – Coisa estranha de dizer para quem está estudando literatura – riu Mariel. Não é o número que mais importa e sim o quanto se dedicou na leitura. – Sugiro que você mude seus pensamentos. Cozinhar e lavar pratos era um processo longo. assim como os laboratórios e departamentos dos cursos. não estava funcionando. É claro que eu relia meus favoritos. – Não que eu realmente queira estudar literatura – eu corrigi – eu sequer tinha planos de frequentar a faculdade se eu ficasse lá fora.

– Por que precisamos vestir esse uniforme feio? – perguntei – ele é muito quente e fico suando embaixo dele. E lavar pratos já era algo tão comum que até mesmo isso eu considerava relaxante. Por que vocês não são mais pragmáticos? – Você continua a olhar as coisas com sua mente do mundo – observou a Magister. Assim que tive oportunidade de conversar com a Magister. Era um estudo rigoroso. Eles não estavam mentindo. sentada numa cadeira dura e com aquele lençol azul escaldante em cima de mim. Eu me surpreendi ao perceber o quanto eu estava me adaptando bem a tudo. iniciei minhas reclamações. sua meta é o conforto e o lazer. O uniforme a identifica como membro do grupo. Você continua com sua mente do século. Era desconfortável ficar lendo livros chatos por horas a fio. Tenha um pouco de humildade. Todas as minhas roupas ficam suadas e fedorentas e vou precisar lavá-las mais vezes do que seria necessário só por causa desse lençol que fica em cima. use isso como uma lembrança do peso do seu sacrifício. – Lógico. Eu tinha pouquíssimos horários livres. Sempre gostei. E não podia simplesmente fazer pausas quando queria. – As garotas me disseram que os iniciantes na Alemanha usam uniformes de linho.A Era do Folhetim de cozinhar. Lembre-se que o foco é o espírito. A única coisa com a qual eu realmente teria dificuldade de me adaptar seriam os estudos. é a única que tenho! – Lá fora. Você não é um indivíduo isolado. mas somente na biblioteca. A sua vontade de entrar para as Grandes Escolas de Elite será maior que seu calor. Se há dor. já que eu tinha um número de livros para concluir a leitura por semana e apresentar relatório. 33 . Castália não é uma sociedade materialista. mas não aqui dentro. – Não me importa que o papa use uniforme de linho – retrucou a Magister – pare de se comparar com os outros. Apenas fique grata com o que lhe é dado em vez de tentar ser a melhor de todas. Não importa o quão quente ele seja. mas faz parte de um grupo. Não tinha permissão para ler deitada na cama ou embaixo de uma árvore.

Mas ultimamente eu estava indo dormir muito tarde para conseguir dar conta de todos aqueles estudos. Tudo tinha o mesmo gosto. leituras e relatórios. bastou que alguns dias se passasem para que eu começasse a ver defeito em tudo. Era tudo novo e interessante. Se eu também reclamasse sobre a comida seria demais. pois ali não era permitido. Apenas ao mencionar a questão da roupa ela já ficou aborrecida. Não que eu precisasse me livrar completamente dele. Nunca tive problemas em acordar quatro ou cinco horas da manhã. A cadeira da biblioteca era tão desconfortável que bastava eu ficar sentada cinco minutos nela para desejar trocar de posição. como você aguenta comer a mesma coisa todo santo dia? – perguntei. que nas escolas de elite eu sentia falta de coisas triviais como arroz e feijão. em leve tom de desespero. Porém. eu já me sentia um zumbi. Sempre vivi num orfanato simples. – Acostuma – ela respondeu – no começo é difícil para todos. Em poucos dias. Simples e aconchegante. Dormi duas vezes em cima dos livros. você entra no ritmo. Mas eu não reclamei disso com a Magister. Os produtos de limpeza tinham um cheiro muito forte. O colchão da cama era duro. Depois do primeiro dia. Até que eu descobri. o local me pareceu maravilhoso. Somente dificultaria as coisas. Era muito mais difícil permanecer acordada sem minha cafeína diária. Nunca me considerei uma pessoa exigente em relação à comida. Apenas pela falta do café. E era sempre a mesma coisa: bife ou frango. Todos eram simpáticos. aquilo teria pouco valor. junto com ovo e alface. Aos poucos. só pelo prazer de vencer. – Mariel. Somente aquela parte que queria retrucar e ganhar. Eu também tinha algumas reclamações sobre a comida. com dinheiro limitado. Lá dentro.Wanju Duli Foi então que eu entendi qual seria meu maior desafio: vencer o meu orgulho. No primeiro dia. surpresa. No orfanato eu também comia quase a mesma coisa todos os dias. Mas eu tinha a liberdade de comer um chiclete ou um bombom fora de 34 . eu já não sentia prazer algum em comer. Senti falta até de beber café.

Nas escolas de elite seguíamos uma rotina monástica. Eu estava tendo que ler até mesmo os sermões do Padre Antônio Vieira. Lendo a obra completa. mesmo com todas as tarefas domésticas que eu fazia e os relatórios das leituras.A Era do Folhetim hora. Notei que a professora estava me mandando ler exatamente os chatos. Em apenas um mês eu concluí a leitura de trinta livros. No colégio e provavelmente na universidade aprendíamos as coisas de forma fragmentada. um clássico é um livro que as pessoas elogiam. mas não leem. Mas eu não era uma Southern Belle! Só me restava acreditar que as escolas de elite entendessem aquilo. enquanto outros me tomaram mais de um dia. Era uma mulher de poucas palavras. Não havia perfeição em lugar algum. como se já estivéssemos na pós-graduação. Então era isso que realmente significava estudar fora da Era do Folhetim. Achei que eu fosse morrer. Eu estava passando por uma sessão de tortura diária. A professora nos passava tarefas com base no que ela achava que cada uma precisava. Estava mais para um estudo orientado. Segundo o meu perfil. É claro que era proposital. Aprendíamos partes. Mesmo assim. Nosso ritual diário eram os deveres de casa. tendo que ficar horas a fio lendo os clássicos mais chatos já escritos. Não bastava que eu lesse apenas resenhas dos livros. E sem Deus ou Buda para confortar o espírito. mas nunca o todo. Isso somava uma marca de um livro por dia. Raramente tínhamos aulas. Ela apenas me passava a lista de leituras. Mas aquilo não foi o mais insuportável. Viva as escolas de elite! Realmente. Eu estava pelo menos me esforçando. não havia um padrão a seguir. Como diria Mark Twain. Qualquer coisa assim. mandava eu escrever um relatório e se mandava. eu me sentia orgulhosa. Eu devia me transformar numa Southern Belle. Eu tive que ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha. 35 . tanto a brasileira quanto a estrangeira. Minha professora se chamava Esther Bonfim. seria uma ilusão acreditar que aquelas escolas eram perfeitas. incluindo dentro de mim. Muitos deles. eu ainda precisava conhecer muita coisa sobre literatura. eu começava a entender. Bela orientação. Ou seja. Era verdade que alguns livros foram bem curtos e me consumiram poucas horas. incluindo outros livros do mesmo período.

Após o Renascimento. já que eu não tinha coragem de me queixar diretamente com a Magister. 36 . pelo medo de ser chutada de lá. Minha mente estava se abrindo. Afinal. aquela gramática encontrava sua base no Trivium medieval. Isso é bom. descobriam coisas novas e encontravam soluções surpreendentes para problemas antigos da gramática. Havia uma lógica. o que era um feito notável.Wanju Duli – Mariel. Alguns dos livros de gramática foram escritos pelos nossos próprios Magisters. Eles faziam pesquisas. um estudo rigoroso de gramática. Aos poucos eu entendia que. Nunca pensei dessa forma sobre as religiões. mas. uma ontologia por trás. o ser humano. A realmente me sentir em casa. quis se livrar completamente da religião e do espírito. Eu aprendi coisas que nunca vi no colégio. mas não percebeu que ao fazer isso estava deixando para trás uma parte de si mesmo. E após perder um mês de aula no meu antigo colégio eu iria seguramente repetir de ano. eu não queria mais voltar atrás. recebi novas tarefas. Eu finalmente estava começando a gostar do lugar. Que eu nem imaginava que existia. É claro que uma gramática espiritual tinha sua base na teologia e tornava-se muito mais profunda. com orgulho de sua razão. Desde o princípio. Era mágico. tô tão cansada – confessei a ela – mas ao mesmo tempo. A Igreja Católica dominou o ensino ocidental por muito tempo e deixou marcas profundas. Depois daquele mês. me sinto tão bem! – Você está se adaptando – ela disse – está começando a entender. Não apenas a leitura de mais livros. embora aquela biblioteca fosse pequena continha alguns livros preciosos e especialmente selecionados que eu provavelmente não encontraria em nenhum outro lugar do mundo. até mesmo um espírito. Era ela que geralmente aguentava as minhas reclamações sobre a comida e sobre o cheiro dos produtos de limpeza. Mas aquilo que eu estava começando a estudar não era assim. somando-se a isso. Já estava feito. Portanto. Antes eu pensava que gramática era apenas decorar regras.

eu precisava conhecer gramática e retórica a fundo. Era melhor eu não me exaltar e imaginar muito longe. O Jogo das Contas de Vidro.A Era do Folhetim Estava tudo conectado. Então era assim que as coisas se conectavam? Será que estava realmente tudo ligado? Eu respirei fundo. Na gramática. Fortemente baseado na música e na matemática. Shakespeare foi educado nelas e só é possível compreendê-lo estudando essas disciplinas. – Muitos dos autores clássicos que lemos estudaram as Sete Artes Liberais – explicou Mariel – eles foram educados nelas. com voz fraca. Para compreender música erudita é preciso estudar teoria musical a fundo. Porém. Pode ser doloroso. Calma. Era alguma coisa que eu não sabia explicar em palavras. incluindo muitos filósofos e escritores. especialmente o Trivium.. Aquilo era a Verdade? Era aquele êxtase que eu sentia ao desvendá-la pouco a pouco? Segurei a mão de Mariel e comecei a chorar. Meu coração bateu forte. para saber a gramática eu precisava da lógica. Para entender literatura. A partir daí. uma música. E para entender a lógica eu tinha que saber matemática. É lindo. Até mesmo os romances. compreendendo tudo – eu também chorei quando descobri pela primeira vez. Eu não sabia bem o que eu havia descoberto. – Cuidado para não se maravilhar demais – alertou Mariel – a sua mente ainda não está preparada. Não somente os poemas. Eu precisava conter o êxtase do meu coração. prestando atenção nos detalhes: na formação das frases. Entende por que somente os iniciados podem jogar o Jogo de Avelórios? – Entendo completamente. Eu ainda não sabia de nada. não é? – Belíssimo – falei. 37 . E para compreender literatura eu precisava conhecer a forma que as palavras são formadas e a elasticidade com que os escritores as usam. a ordem escolhida pelas palavras. – Calma – ela sorriu. Mas eu sentia! Aquela emoção. Era como.. eu comecei a ler livros de forma diferente.

.. – A história é um ponto delicado em Castália – explicou Agatha – especialmente no que se refere à política. Senti que eu precisava daquela inspiração. – Ah. como se fosse uma mera luta por poder e guerras de bárbaros. Isso não é cômodo? Mas esse casulo pode ser derrubado a qualquer momento por uma guerra. Ele havia sido simplesmente o maior dentre os mais sublimes que já pisaram numa escola de elite. Mas só te digo uma coisa: o filósofo favorito de Josef Knecht era Hegel. – Quem é seu filósofo preferido? 38 . no século. simplesmente – quem sabe um dia. E o posto de Magister Ludi era o mais elevado. na economia e em todas essas coisas “mundanas” que os alunos e professores de Castália tentam evitar a todo custo. Em geral.Wanju Duli Eu já havia tido longas conversas com Mariel sobre literatura. história da arte. Agora estava na hora de conversar com Agatha sobre história. contrariada – mas um estudo da história e do espírito. Precisaríamos nos envolver na política. por favor. – Quem é esse homem? – O maior Magister Ludi de todos os tempos. até que faz sentido. da filosofia. Estava bastante óbvio que o espírito não era prioridade num mundo em que as pessoas ainda lutavam para resistir à fome e à miséria. Tentei imaginar. Hegel! – exclamei. – Ainda é cedo – respondeu Agatha. Contudo. só se presta atenção na história da ciência. Havia muitas guerras no século XXIII e se gastava muito dinheiro com elas. – Castália não pode se tornar um Estado autônomo? – Para isso precisaríamos abdicar da nossa vida e viver no mundo. Castália somente existe porque esses bárbaros lhes dão dinheiro para que possam se manter. cheia de esperança. O Jogo das Contas de Vidro era o que havia de maior em Castália. – Há textos dele para eu ler? – perguntei. mas sou da opinião de que também é preciso respirar ar e comer pão”. Nós desejamos viver num casulo protegido das coisas de fora. da matemática. Olhase com desprezo a história geral. – Há uma frase famosa do Magister Ludi Josephus III a esse respeito: “As abstrações são encantadoras.

certo? – perguntei. Indicação para todos os filósofos! Devia honrar-se ainda mais o pudor quando é certo que a natureza se empenha em se esconder atrás do enigma e da incerteza. Você é a Santa. Ela sentou-se sobre a nossa mesa sem cerimônia e cruzou as pernas. de não procurar compreender tudo e tudo „saber‟.A Era do Folhetim Nas escolas de elite em vez de perguntarem coisas como “Qual seu filme preferido?” ou “Qual sua sobremesa favorita?”. para me certificar. sem muito embaraço – sei apenas 90% do que há para saber. quando consegui pronunciar uma palavra. „É verdade que Deus Nosso Senhor está em toda a parte? Perguntava uma rapariguinha à mãe. – Permita-me apresentá-la – disse Agatha – essa é a famosa Giovana Magalhães. Fazemos agora uma questão de decência de não querer ver tudo nu. de cabelos chanel. – Ai. Além do mais. o que me atraiu mais até agora foi Espinosa. – Os racionalistas. nas escolas de elite era assim mesmo que funcionava: confie em seu cérebro como os antigos. as perguntas costumavam ser mais na linha de “Qual seu período literário favorito?" ou. dentre os que conheço. Já ouviu falar dela. Talvez a verdade seja uma mulher que tem as suas razões para não deixar ver as suas razões”. Acho isso muito indecente. Não adiantava perguntar a ela “Você decorou tudo isso?”. Os outros 10% eu deixo no mistério. No máximo uns vinte. Uma lenda por aqui. Quem exclamou isso ao entrar na biblioteca com estardalhaço foi uma menina muito baixinha e pequena. quando as moças queriam ser mais ousadas. vivemos demais para isso. – Você é da filosofia. que exagero – ela riu. Afinal. como diria Nietzsche em Gaia Ciência: “Já não acreditamos que a verdade continue a ser a verdade sem os seus véus. é como todos me chamam aqui. é claro! Todo mundo ama Leibniz e é completamente apaixonado por Descartes. – Pode me chamar de Gio. E pode chamar a Agatha de Cruz e a Mariel de Aquino. porque eu mesma sabia de cor longos trechos dos meus livros favoritos. poderia ser algo como: “Qual verso de Lord Byron te deixa mais molhadinha?”. Vejam 39 . Isso faz mal à memória. – Confesso que não li muitos filósofos. em vez de ficar checando no Google qualquer coisa que esquece. Mas. de não assistir a tudo. não é mesmo? – A famosa que sabe tudo sobre tudo? – perguntei.

– Mário de Andrade – confessei. que escritor você curte de verdade? A expressão divertida de Gio me indicou que ela entendia exatamente o que eu queria dizer. A pergunta de praxe. – Você quer a resposta verdadeira ou a que eu uso para impressionar? – perguntei. Eu geralmente tinha uma resposta pronta para ela. – Estou aqui há muito tempo – ela explicou – tenho meus meios. mas acho que nosso gosto apenas vai ficando cada vez pior com o tempo – explicou Gio – cada vez mais a gente busca menos fantasia. mais livros com personagens velhos. doentes. – Onde conseguiu isso? – perguntei. 40 . no meio da merda. – No duro. uma Cruz e uma Santa! Daqui a pouco já podemos fundar um convento. – Por isso eu gosto do parnasianismo. Ela tirou alguma coisa do bolso. surpresa. Mereceria no mínimo um Nobel. – Shhh! – ela fez – isso é segredo! Sou uma estudante especial. – Interessante – ela disse. – Quanto tempo exatamente? Ela não parecia ser tão mais velha que eu. Eu não sabia até que ponto os rumores eram verdadeiros ou meros exageros. Ou fazendo coisas triviais como tomar um copo d‟água. embora prodígios fossem raros em Castália. embora isso seja parecido com um. Um dia a gente acaba gostando de alguns livros chatos e é surpreendente quando o processo acontece. sabe? – Sei como é. fascinada – eu tenho vergonha de dizer que admiro o Charles Dickens. Não seria fácil fazer isso com primor. – Qual o seu escritor preferido? – perguntou Gio. Eu realmente admiraria um escritor que escrevesse um livro de quinhentas páginas descrevendo alguém tomando um copo d‟água. Gosto de lê-lo de verdade e não de mentira. Seria meu livro de cabeceira. quase mortos.Wanju Duli só. temos uma Aquino. Jogou uma bala de goma na direção de Agatha e outra na minha. Diziam que ela era um gênio. – Pensei que eu estava me tornando mais inteligente.

feliz da vida – o Rodrigo conseguiu um celular. A primeira delas era abrir mão da vida secular. então não vai acontecer facilmente – Gio garantiu – certamente sou a melhor candidata para Magister de filosofia. é a isso que você se refere – disse Gio – o Jogo é muito popular lá fora. Será que ela estava bem? – Vamos usar internet hoje à noite. O século era apaixonante demais. Só vai acontecer daqui algumas décadas. Gio franziu a testa. – Não quer ser Magister Ludi? – perguntei. pois Agatha era muito alta e Gio bem baixinha. – Meu princípio é de que os esquecidos devem ser lembrados – respondeu Agatha. Formavam uma ótima dupla. distribuir balas. Então havia muitas tentações a vencer até chegar ao Jogo das Contas de Vidro. Fazia apenas um mês e meio desde que eu havia partido.A Era do Folhetim – Vocês duas são estranhas – comentou Agatha. – Você não tem medo de ser expulsa? – perguntei. Não entendi o gesto dela. Isso seria doloroso. dos despedaçados. Cruz. Gio era uma autêntica transgressora de regras e não parecia preocupada. esquecidos e mutilados – retrucou Gio. com um sorriso. pode ser possível. mas é certo que ocorrerá. curiosa – se você é tão boa assim. – Ah. A segunda seria uma provação ainda mais poderosa: a tentação do conhecimento. Especialmente de Sônia. não é mesmo? Mas aqui dentro precisamos passar por uma tentação maior: a de dedicar a vida a nos aprofundarmos em nossa área de maior interesse. Eu não o farei. Se eu me dedicasse ao Jogo precisaria abrir mão da filosofia. Era engraçado ver aquelas duas juntas. mas quem estava nas escolas de elite já havia vencido a primeira tentação. despreocupadamente. como Lua e Mel. – Meu cérebro é muito amado por aqui. – Eu ouvi falar que o sonho de todo adolescente das escolas de elite é tornar-se Magister Ludi – expliquei. – Muito comovente – comentou Gio – você é muito nobre. 41 . mas era incrível como eu já sentia falta delas. derrotados. meninas – comentou Gio. – Pior você que estuda a história das guerras. usar celulares escondida. Sentar na mesa.

Porém. No final. Vanitas vanitatum et omnia vanitas. o Magister Ludi é aquele que desejou se aprofundar apenas no Jogo. cada um se apaixona demais por um senhor menos poderoso e não é capaz de abandoná-lo. Além do mais. mas logo verá que quanto mais a fundo estudá-la. Até porque as pessoas que eu conhecia lá fora continuavam lá fora. mas não saber profundamente sobre nada. Você pode ainda não gostar tanto assim de literatura. é claro que não – esclareci. mas para mim é quase impossível. Caso um dia eu quisesse sair de Castália poderia dar aulas de literatura numa escola 42 . Os estudantes de Castália desejavam mergulhar de corpo e alma em sua área de maior interesse. por devoção. a Verdade. Não tenho toda essa disciplina. – Dizem que o Jogo abarca o universo. Você ambiciosa o posto de Magister Ludi? Eu ri. Eu tinha uma nova vida e queria viver para mim mesma. Estou lutando para conseguir ler meus livros. Santa.Wanju Duli Quem entrava nas escolas de elite desejava abdicar o encanto da Idade do Folhetim: a de saber superficialmetne sobre muitas coisas. o espírito – eu disse – está abrindo mão de tudo isso por uma vaidade? – O Jogo das Contas de Vidro também não deixa de ser uma espécie de vaidade – explicou Gio – afinal. não será mais capaz de deixá-la. Eu não sabia bem se eu desejava que aquilo acontecesse. No começo todos entram aqui empolgados com os mistérios do Jogo. com a ajuda dos Magisters de cada disciplina. Então eu preciso fazer esse serviço. – Linda! – Gio lançou-lhe um beijo no ar – é sempre assim. Seria uma pena perder o interesse pelo Jogo de Avelórios no futuro. Abrir mão desse prazer pelo Jogo seria quase como um retorno à Era Folhetinesca: mesmo sendo muito nobre e profundo. ele não é uma religião e não contém uma teologia. acostume-se. – Não. o Jogo de Avelórios encaixa e costura as diferentes áreas. Mas eu não iria jogar apenas para me exibir para os outros. já que a maioria se apaixona por matemática ou música. estudar literatura era muito mais seguro. – Eu vou me dedicar à história – Agatha comentou – são pouquíssimos em Castália que se dedicam a ela. por amor a vocês. com rapidez – não seria difícil para alguém como você.

– Tolinha ingênua – prosseguiu Gio – você ainda não sabe até onde vai nosso atrevimento. Nós fazemos voto de castidade. – É claro que não! – Gio riu – seria muito arriscado. então eles não querem nos perder por causa de um pouco de sexo. Então queremos apenas aproveitar os últimos anos de sexo enquanto somos jovens e saudáveis. Será que eu tinha ouvido bem? – Do que estão falando? – perguntei. – Como não são pegas? – Os professores fingem que não sabem – explicou Gio – na prática. mas somos adolescentes e queremos um pouco de sexo. Era apenas uma brincadeira.A Era do Folhetim local. pois é novata por aqui. uma brincadeira espiritual não seria muito mais nobre? – Nós estamos combinando com os rapazes a Noite de Núpcias. Eu já estava resistindo a ter que aprender algum outro idioma além de português para poder estudar obras estrangeiras. Nós transamos com os rapazes do dormitório masculino. pois esse era um capricho vazio que só existia em Castália e só tinha significado lá dentro. eles fazem vista grossa a essas escapadas porque quando vamos para Castália isso não é mais permitido. Será que aquilo era mesmo para mim? Eu buscava o caminho mais fácil e mais seguro? Ou aquilo que meu coração desejava? Pensando bem. Quem gostava do Jogo geralmente eram os adolescentes. Aquilo não servia para nada. Ser uma especialista em Jogo das Contas de Vidro não me levaria a nada. Jogos são úteis para quando ainda se está encantado com as diversões da infância. Seria muito mais difícil ter que estudar todos os hieróglifos do Jogo. – Ninguém nunca foi expulso por causa disso? 43 . estudar o Jogo não fazia sentido nenhum. Será mesmo? Mas mesmo se isso fosse verdade. A explicação não me convenceu. Estamos pensando se esse ano faremos no Natal ou no Ano Novo. – Vocês vão para um bordel no Ano Novo? – perguntei. enquanto estudar história ou literatura era muito mais sério. Um dia é preciso crescer e deixar de brincar. Já é difícil surgir candidatos fortes aqui. confusa. certo? Não vai matar ninguém fazer isso só uma vez ao ano.

já que gosto de todos. senti uma pulsação no baixo ventre. Mesmo assim. então não me importo. mas uma genuína? – Acho ridículo essa história de falsa e genuína – respondi – eu apenas me sinto mais atraída pelo sexo feminino desde criança.D. acho que a maioria aprenderia a se sentir atraído pelos dois sexos. – Você é lésbica? – perguntou Gio – não uma falsa que quer aparecer. com exceção de um. Se fosse culturalmente incentivado que no fundo todos são bissexuais.? – perguntei. Bem. mas a reação de Gio foi muito melhor. Acredito que o sexo tem um elemento cultural muito forte. – É uma teoria simpática – concordou Gio – então. – Então você é bi? – Não sei o que sou e não me importo. Gio morreu de rir. – Quem? – Dancer Demon. Agatha pareceu ligeiramente surpresa. Só de pensar nisso. Só tinha trocado uns beijos e amassos com Sônia. Em geral. estou aberta à exploração.Wanju Duli – Já – disse Gio – mas eu sei que não vou ser. Ela fez uma expressão de espanto. eu sou suspeita para dizer. – Talvez no ano que vem – eu disse – queria esperar pela minha primeira menstruação. como se amasse tudo aquilo. Eu não fazia muita questão de transar com homens. Resolvi dizer isso a elas. – Por acaso não há uma estudante por aqui chamada D. A não ser que fosse para fazer sexo com D. não acham? – Pode ser – respondeu Agatha. preferia mulheres. eu não estava muito a fim. – Você tá falando da Dani? 44 . Acho simplesmente natural e me sinto à vontade com mulheres. que acha de abrir as pernas para algum gostosinho do dormitório ao lado? Alguns deles são quentes. Sinceramente. – Você devia aproveitar que ela ainda não veio – sugeriu Gio – nem vai precisar usar camisinha. já que está aberta à exploração.D. embora ainda não tivesse experimentado.

Gio me deixou usar um pouco o celular que ela conseguiu com o tal Rodrigo. À noite. Estava tudo na minha cara. comportamento e carisma. – Daniela Dantas.A Era do Folhetim – É esse o nome dela? – perguntei. maravilhada. Também não achei legal. – Pensei que não tínhamos permissão para isso antes do nosso treinamento de oito anos aqui. recebíamos certos privilégios. Então. Onde ela está? – Foi para Nova Castália resolver uma questão. Tiraremos na sorte. Minha situação já não estava boa. não falavam de outra coisa. Queria poder pelo menos escolher. Quando ela chegou aqui. certo? – perguntei. Diferente de mim. o que aumenta ainda mais seus pontos. É claro que ela sabia que só estávamos batendo papo e deixando de lado nossos afazeres. Ninguém vai escolher com quem vai trepar. – Falem mais baixo na biblioteca! Quem disse isso foi minha professora que passava por ali. Alguns meninos e meninas ficaram sem parceiro. só para me certificar. é claro. Eu tentaria me lembrar disso. a super gata skatista. – Sou uma fã. 45 . né? O olhar malicioso que ela me lançou foi cruel. mas isso deu confusão. a Dani também é a queridinha dos professores. então sair para aquela tal “Noite de Núpcias” não parecia ser um bom negócio. dependendo de nossa habilidade. – Não é um bacanal. – Assim como eu. retomei minhas leituras. por mais divertido que soasse. – Está falando das Núpcias? – perguntou Gio – é claro que não. Você curte ela. Fiquei surpresa ao constatar que eu não tinha praticamente nada para fazer na internet. Eu não sabia se adiantava muito negar. – Isso não me cheira bem – disse Agatha. No ano passado cada um escolheu um parceiro. mas logo ela já estará de volta – respondeu Gio. ela é muito mais comportada. Sem escolha. Apenas enviei alguns e-mails para as meninas do orfanato e fiquei satisfeita. Esse ano será um encontro às cegas. já que alguns sempre são mais disputados.

Gio ficou sabendo da história. – Poderíamos ter vindo juntas para cá. – A tua ex é muito bala! – exclamou Gio. – Ela devia te amar mesmo. me ignorando. não sei como. mas Sônia não quis ouvir. com longos cabelos de contas coloridas. – Ela sabe ser vingativa e cruel quando quer – eu disse. – Sônia Leão – ela apresentou-se a todas. mas não havia mais nada a ser feito. então não vai ter uma segunda chance. Eu já tinha terminado o namoro com ela uma vez. Ela estava achando emocionante saber que Sônia era minha ex e que estava completamente puta comigo. Apenas a amava de uma forma diferente. Nem eu tenho coragem de fazer essa merda e ela faz assim que chega. Na raça! Muito foda! Pelo visto. É a segunda vez que você me dá bolo. – Sônia. – Ela vai estudar matemática – Agatha suspirou – para variar. me desculpa – eu disse – não queria te magoar. Até que eu não aguentei mais. Eu jamais poderia suspeitar que a novata não tinha intenção de me dar ajuda nenhuma. Não demorei muito para entender o que ela estava tramando. negra e vaidosa. Não é que eu a amasse menos.Wanju Duli No dia seguinte. – Já é tarde. Nunca vou receber uma nova companheira para debater história! – Vou pedir ajuda a ela para estudar lógica. E ela me ignorou durante o dia inteiro. fiquei sabendo que uma garota nova estava para chegar no dormitório. Tentei explicar. Ela já pulou o portão duas vezes para comprar cachorroquente. Sônia havia se cansado de sofrer por mim. porque ainda está curtindo a dor de cotovelo. impressionada – a personalidade dela é incrível. Já me cansei disso. mas você estragou tudo – disse Sônia – você se precipitou e esse é o preço a pagar. Achei que ela estivesse sendo muito dura. Logo. Sônia havia ganhado uma fã. por causa de uma bobagem. Não insisti mais. Quem chegou foi uma garota bonita da minha idade. Ela ficaria com a cama de cima do beliche de Agatha. 46 .

um amor puro que não conhece outras coisas. Eu não sabia de onde elas 47 . como eu fazia. obviamente. estava adorando tudo. Nem queria estar nas escolas de elite. de todo pequeno defeito. que eu nem mesmo havia notado. ela estava irritada de verdade e se ofendia até com um espirro. Não demorou muito tempo para que ela adquirisse muitas inimigas. Ela apenas me amava. Gio era tida como uma grande criadora de casos. assustando a todas nós – eu me sinto profundamente ofendida! Não esperava tamanho deslize em uma escola de elite que preza pela harmonia absoluta do cosmo! E o pior era que ela falava isso num tom mortalmente sério. Gio. mas comparando com Sônia ela agia com extrema discrição. Ela fazia questão de ressaltar problemas ridículos. Ela era boa em matemática. Aos poucos Sônia foi conquistando a simpatia de alguns.A Era do Folhetim Sônia não se importava com Castália. Voltava com sacolas carregadas. A cada dia ela admirava mais a bagunça que Sônia estava criando. Até de uma mancha na parede. Ela queria me mostrar como era fácil entrar para uma escola de elite e como havia feito isso sem nenhum esforço. Também queria me provar que zombava de toda Castália e suas regras. mas não tinha intenção de seguir carreira nisso. anotava os pedidos de todas. pois sempre topava ajudar alguém com alguma transgressão a regras. Em toda oportunidade que surgia se queixava. como sair para o pátio depois que as luzes já tinham se apagado. provavelmente acima de todas nós: não ligava para coisas como fama ou conhecimento. Sônia não reclamava do local discretamente. Ela se tornou particularmente famosa em conseguir comidas. A maioria a considerava uma pesssoa completamente desagradável. – A cor do metal da torneira do banheiro é diferente em cima e embaixo! – Sônia exclamou de repente no refeitório silencioso. Era uma pessoa muito acima do meu entendimento. Mesmo sendo zombaria. Antes. Sempre que ela pulava o muro para sair e comprar comida. Sentiu-se traída e agora queria se vingar do mundo apenas para me mostrar um espetáculo. mas ninguém ousava se aproximar ou criticá-la diretamente. em alto e bom som. pois a achavam assustadora.

Mas será que eles estavam realmente errados? Talvez fossem os mais espertos. Eu soube que até os rapazes ouviram falar da novata destemida – ou burra – que pulava o muro quase todo dia para comprar lanchinhos em barracas de rua. – Que palhaçada – comentei. – É só questão de tempo até que ela saia um dia por aquele portão e não volte mais – explicou-me Lorena. mesmo isso sendo proibido. para a cultura que conhecíamos. Voltavam para o mundo. Geralmente os próprios estudantes expulsavam a si mesmos. Quando Sônia não tivesse mais dinheiro para comer porcaria. encontrará todos para sair. em vez de se ofenderem. Preferi não saber o que eles consideravam tão grave a ponto de expulsar. levemente aborrecida com aquilo tudo. por não aguentarem mais. Um ambiente seguro e familiar. dizendo o quanto aquela porcaria era fácil e uma perda de tempo. E como ela ainda não havia sido expulsa? É claro que as professoras viam o que ela fazia. Ver até que ponto ela aguentaria brincar de aluna entediada da escola de elite. Fazia sentido. a punição maior seria mantê-la lá para testá-la. a Magister de literatura – não é tão difícil entrar nesse lugar.Wanju Duli tiravam o dinheiro. E não iriam dar a ela justamente o que ela queria. Conheciam o jogo dos alunos. mas não é fácil permanecer. Se não possui nenhum motivo para ficar. É preciso uma grande determinação e vontade. enquanto rumávamos para 48 . Mas aquele dinheiro não duraria para sempre. Mas elas eram mais espertas. Porém. ela provavelmente sairia das escolas de elite sem pestanejar. Ela o jogava com som alto em qualquer lugar. depois de eu ver tantos acontecimentos incríveis que passaram batido. parece que a maioria a admirou e inclusive alguns fizeram seus pedidos de lanches. Eu soube que um aluno só era realmente expulso se cometia uma transgressão grave. ela desprezava totalmente a matemática. Era possível que Sônia tivesse trazido suas economias para as escolas de elite. No momento. Agora Sônia era a estrela. Resolvia os problemas com facilidade e passava o resto do tempo jogando um jogo de Tetris que trouxera na bolsa. E havia se tornado lendária sem esforço nenhum! Para completar. Sabiam que ela estava colocando a mão no fogo para ser chutada de lá.

D. E parecia se sentir muito à vontade com sua própria solidão. Caso D.A Era do Folhetim o desconhecido. cada vez mais descontente com suas expressões de felicidade. Afinal. que não deixava de ser uma espécie de amor invertido. – O que você tem contra mim? – perguntei a Gio um dia. Ela não era somente admirada. mas desejada. o que a tornava ainda mais poderosa. parecia ser um tipo de Buda iluminado que não era afetado por nada. – Desde que Leão chegou. finalmente retornou.D.D. Talvez nós das escolas de elite fôssemos os tolos descuidados ao permanecer. Assustada. Muitos estavam curiosos em saber como seria o sexo feito por uma garota tão ousada e mordaz. Atualmente. Mas eu merecia. Para a minha alegria. já que Sônia amou somente a mim. Permanecia lendo seus livros de biologia o dia inteiro. Nem levantava os olhos quando ela fazia seus pronunciamentos ridículos sobre a sujeira na parede. ficassem juntas. também admirasse as tansgressões de Sônia como todos os outros e passasse a amá-la. Sônia era sábia ao testar os próprios limites e sua sorte e por isso era admirada. Gio. descobri o que ela tramava. Para ela aquilo não significava nada. a vingança de Sônia estaria completa. Duas semanas após a chegada de Sônia. Se Sônia e D.D. Dantas ignorou Sônia quase que completamente. esse lugar se tornou um arraso – comentou Gio – então é claro que estou torcendo por ela. de longe. Não que eu não goste de você. No fundo. completamente imersa. Santa.D. Era um sobrenome apropriado para a situação. D. Eu soube que muitos rapazes ficaram realmente desapontados ao saber que Sônia não tinha a menor intenção de participar da famosa Noite de Núpcias.D. se importar tanto com uma pessoa a ponto de possuir um sentimento forte por ela significava que ainda estávamos conectadas. ela vivia pelo seu ódio a mim. Não conversava com ninguém. Sônia pareceu muito contente com a chegada de D. torcia para que Dani e Sônia se tornassem um casal. 49 . A maioria a chamava de Leão. eu me sentiria totalmente destruída e derrotada.

pois todo mundo aqui tem suas esquisitices. Um tipo calado como D. mas não é permitido – explicou Gio – aqui no dormitório feminino não há restrições em relação a comprimento de cabelo ou penteados. Então havia uma pessoa ali que estava acima até mesmo da ironia ácida de Sônia. Fica dizendo que as moças das escolas de elite são favorecidas. que por alguma razão ela chamava pelo primeiro nome – ele está insatisfeito com os códigos de vestimenta. Seria fantástico se começasse a vazar lá fora o boato de que traficavam drogas para as escolas de elite. então era assim que eu os reconhecia quando vazava algum acontecimento. Aquilo era realmente uma prisão se eles chegavam a esse ponto do tédio. – Por que ela não fala com ninguém? – perguntei para Gio um dia. Eu ainda estava encantada demais com os acontecimentos recentes do dormitório feminino para me importar. mas esse sujeito em particular usava umas coisas mais pesadas. mas aos poucos eu começava a escutar as histórias. Havia esse cara chamado Boaventura. Uns outros rapazes fumavam um cigarrinho ou um baseado vez ou outra. enquanto D. mas que vivia se entupindo de drogas. Eles costumavam chamar a si mesmos pelo sobrenome. Pois aquela ironia ainda era uma paixão da velha fricção do espírito com o mundo. Também havia algumas lendas entre os garotos. Eu sequer havia escutado a voz de D. – Esse é dos meus – falei. Por isso só ficava quieto num canto.. mas ele provava uns negócios e ficava malucão. Outro aluno bastante conhecido era o tal de Barata. então ele está insatisfeito. Não chegava a ser uma parada sinistra como heroína ou cocaína. – O Barata está criando caso outra vez – contou Gio. mas aquilo ainda me incomodava um pouco. – Não sei. – Dessa vez ele quer deixar o cabelo crescer. que era quem geralmente ouvia as fofocas através do Rodrigo.D.Wanju Duli Nem eu e nem Sônia havíamos tido coragem de dirigir-lhe a palavra. parecia ser somente espírito. ainda.D. mas ninguém se importa. Foi uma resposta adequada. A nossa Província certamente ficaria com péssima reputação. 50 .D. Eu não parava de ouvir o nome dele.

Mas eu não acreditei muito nessa alegria dela. numa noite em que ela estava me orientando na biblioteca. Sempre recebia os iniciantes com desafios. comecei a desconfiar que ele podia ser um aluno perigoso. Todos ficam fascinados. Não vejo nada de errado nisso. mas aparentemente a música não era o suficiente para ele. Não havia uma comemoração formal nessa data nas escolas de elite. que Barata iria passar uma semana em Nova Castália. Enquanto Boaventura preenchia seu vazio usando drogas. Ele era como um bully profissional. cheia de alegria. só poderia ser outro dos protegidos. – Ele é chamado o tempo todo para lá – disse Mariel – para pintar os murais. Navarro descontava seu estresse espancando novatos. Tomei a nota mental de não me envolver com ele no futuro. Também havia o Navarro. Se ele ainda não tinha sido expulso depois de tudo isso. Nesse dia ela baixou a guarda. Eu não achava que a esse ponto ela desejasse ser mandada para fora. por ser excepcional. Ele é um pintor e escultor formidável. Quando retornou. ela tinha a intenção de comprar comida um pouco melhor e foi mais longe. mas alguns alunos gostavam de celebrar a ocasião discretamente. – Na próxima ocorrência serei expulsa – Sônia contou para as meninas. Inicialmente achei aquilo tudo muito infantil e sem sentido. Esse era meio esquentadinho. Sônia prontificou-se a pular o muro para conseguir comida boa para o Natal. Já tinha se adaptado até à 51 . Eu desconfiava que ela se divertia fazendo isso. Dava a eles uma série de tarefas para cumprir e se não o obedecessem eram punidos. Aos poucos. Por isso Barata sempre recebia permissão especial para adquirir materiais de arte. ele era da música. até mesmo os Magisters. mesmo que fossem um pouco caros. Por ser Natal. Suas obras são muito realistas. seja por tradição ou por alguns terem raiz católica. Já estava chegando perto do Natal. Assim como Boaventura. Outro dia Mariel me contou.A Era do Folhetim – Ele tem razão – opinou Agatha – deviam permitir cabelos longos para os garotos. Não era fácil ter apenas o pátio das escolas para dar uma caminhada e não era sempre que tínhamos permissão de passear por lá. uma das professoras a flagrou e a chamou para conversar em sua sala.

Eu mesma passei a entender porque fui aceita como estudante na Província. brigas ou drogas ilícitas. Eu não seria expulsa do orfanato se chegasse em casa mais tarde algum dia. O resto parecia irrelevante. os professores sabiam que era só uma fase. Claro que a paciência deles tinha limites e quando se atingia essa fronteira. essa proteção era delicada como vidro. Até mesmo Sônia percebeu quando estava prestes a cruzar essa linha tênue e começava a recuar. Era comum que rejeitassem o colégio. Mas ninguém estava nas escolas de elite para escapar da sociedade e suas regras. em busca de expressar a própria voz e encontrar seu lugar no mundo. Mas poderia ser 52 . tinha o orfanato para me proteger até os dezoito anos. Principalmente pela idade que tínhamos. fugas. Só escapava porque tinha se acostumado com esse ritual. Na Ordem. Isso. Lá éramos submetidos a regras muito mais rigorosas. convenções sociais e muitas outras coisas. Mesmo eu. Seja como for. – Que decepção – Gio disse para mim – ela vai virar uma garota comportada como todas nós. Eu já estava habituada a suar embaixo das roupas e não ligava mais para outros pequenos detalhes que me incomodaram muito no começo. nós sentíamos essa necessidade desses breves meses de revolta. Cada um expressava sua fúria juvenil de forma diferente: com as reclamações de costume. Por isso. Notei que nos dias seguintes Sônia começou a ficar mais comportada. que era órfã. Ela não se importou tanto com minha insolência. Não estávamos mais sob a proteção de nossa família. tínhamos poucos direitos e muitos deveres. Para ela.Wanju Duli comida dos refeitórios. não deixava de ser um aprendizado. Estava tão empolgada com os estudos que esse motor propulsor era mais forte para me impelir a continuar. de certa forma. Até o meu período rebelde já tinha se esgotado. A Magister conseguiu enxergar através de mim. toleravam muitas de nossas bobagens. a maioria não se atrevia a continuar a provocá-los. Para alguns esse período durava alguns anos. E parou de fazer seus comentários habituais sobre o gosto da comida e as manchas nas paredes. provavelmente todos os adolescentes eram insolentes. Não pulou mais o muro.

Por um lado. Não é que não possamos viver sem eles. Eu poderia ser feliz apenas dando umas caminhadas curtas e leves. Pois saber ler não é somente reconhecer palavras num papel. Por isso. ser um maratonista profissional. ou mesmo no presente. É como optar por não fazer exercícios físicos intensos para não se cansar. Fazer qualquer coisa a fundo é cansativo. começaram a surgir os aficcionados pela literatura. Aprendi a ler e a tomar pelo menos um pouco de gosto pela coisa. especialmente para pessoas diferentes. antes de entrarmos para as escolas de elite. Nem tinha mais graça dizer que eu não gostava de ler. havia aqueles que não liam quase nunca. Por isso viver na Idade Folhetinesca é bem mais simples. Mesmo que isso fosse verdade no passado. eu aprendi a fazer aquilo. Em 2288 a prática da leitura se tornava cada vez mais rara.A Era do Folhetim facilmente expulsa da Ordem se cometesse certas infrações que no meu velho mundo seriam vistas como banais. houve o movimento de resistência contra a Era do Folhetim. Não é que uma felicidade fosse 53 . Não iria suar. de alguns séculos atrás. Eu captava o estilo da época. Essas pessoas geralmente preferiam as obras grandes e complexas. Foi essa a experiência que tive com livros. Mas a vida resultante dessas duas escolhas pode ser bem diferente. Tudo tem seu grau de difículdade. Eu lembrava que já havia conversado sobre isso com Sônia uma vez. Por outro lado. Não é preciso forçar o cérebro além do limite. Mas isso não era nem de longe o que havia de mais extraordinário. Mas especializar-se nisso. mas a beleza da estrutura das frases e dos parágrafos. – Não é que matemática seja fácil – ela dissera na ocasião – da mesma forma que ler também não é fácil. O amor e o ódio estão intimamente conectados e eu entendi isso com as reações de Sônia. Eu apreciava não somente a história e os personagens. dava um tipo diferente de prazer. ou só liam coisas pequenas porque havia outras diversões mais simples e acessíveis. Eu aprendi que minhas preferências não se dividiam somente em gostar e não gostar. pois era como resolver um difícil problema de matemática. as referências a outras obras nas entrelinhas. especialmente pela antiga.

não escrevia nada. eu senti que tinha valido a pena. foi incrível. com base nas minhas leituras. dormi por alguns minutos em cima de um livro do William Faulkner. Acordei com um raio de Sol que penetrava pela fresta da janela da biblioteca. Meu coração bateu forte e senti uma estranha paz. Tirei nota máxima nas leituras. Numa tarde. Apesar de tudo. redação não é o seu forte. Mesmo assim. minha professora trouxe minhas notas. Após um trimestre nas escolas de elite. Mas não fui tão bem assim nos relatórios. que pegou nos meus olhos e no livro. eu escolho a dor” Eis o que o raio de Sol no livro me disse. – Precisaremos melhorar isso. relatórios e outros exercícios. – Você leu muito – comentou Esther – muito mais do que eu esperava. Apesar de ler muito. Como é esse o caso. para ir mais longe. Mas a dor maior não poderia gerar um prazer maior? – Nem sempre – disse Gio – mas não seria apaixonante pensar assim? Esse poderia ser meu incentivo para continuar. você não tem o costume de escrever. Fechei o “Palmeiras Selvagens” por um momento. Aquilo ainda era uma escola e através de uma avaliação um pouco mais objetiva seria mais fácil averiguar meu desempenho geral. a partir de agora iremos diminuir suas leituras para aprofundar seu estudo de gramática e redação. – Pelo jeito. Era exatamente isso. Nós tínhamos. Eu te mandei ler todos aqueles livros sem achar que você fosse conseguir terminá-los.Wanju Duli verdadeira e outra falsa. Superou minhas expectativas. Eu apenas lia. 54 . “Entre a escolha da experiência da dor e do nada. Como uma mortificação que me faria entender uma realidade importante demais para mim. Então eu não precisava ter lido todos? Ela poderia ter dito isso antes de eu ter perdido horas de sono por semanas seguidas. para sabermos em que quesitos eu precisava melhorar. Não é como se não tivéssemos um boletim.

Será que Sônia concordaria em me ensinar? Seria isso que faria com que voltássemos a ser amigas? Ou quem sabe um pouco mais que isso? Eu ainda tinha esperanças de ser perdoada.A Era do Folhetim – Vou ter que criar histórias? – Não – disse Esther – serão apenas textos dissertativos e não narrativos. pois ao realmente entendermos os fundamentos das disciplinas que estudávamos. Mas em geral isso não acontecia. Não era tão comum assim que misturassem os alunos dos dois dormitórios. E para saber lógica eu precisaria de um tutor de matemática. quando tínhamos tarefas demais era preciso entregá-las a tempo. Após as férias. Era possível que ela nem mesmo concordasse em me dar as lições. Trinta? Bem. Mas dessa vez seria diferente. a não ser em casos como esse em que o estudante se destacasse muito numa área e fosse beneficiar outro mais novo. O tempo passava devagar nas escolas de elite. Apenas uma vez ao ano tínhamos férias: uma semana após o ano novo. Então eu teria somente três semanas para preparar tudo. Claro. Irei lhe dar uma série de temas. 55 . Isso porque nosso estudo nunca era uma correria. mas também sabia que Sônia não era uma pessoa fácil. queremos continuar a ver a beleza das peças que se unem no quebracabeça da vida. Trinta temas. – Sobre a gramática. ela estava me passando as tarefas para o mês inteiro. Eu gostaria que você tivesse lições com ele uma vez por semana a partir do dia 8 de janeiro. irei te indicar um tutor – disse Esther – há um excelente aluno que poderá te orientar. se acreditasse que eu ainda merecia ser punida um pouco mais. Eu sabia que num futuro próximo eu precisaria ter lições de lógica e retórica. Você irá preparar textos sobre assuntos diversos. Quando as coisas se encaixam e o estudo não ocorre de forma fragmentária. para impedir que o aluno postergasse e começasse a ficar lento e preguiçoso. então ela geralmente calculava minhas atividades de trinta em trinta. Eu não sabia quem era o estudante de gramática que ia me ajudar. para iniciarmos. o interesse por saber mais surgia de forma natural. mesmo não sendo seu mentor oficial. para se certificar de que eu prepararia pelo menos uma por dia.

Mas nas escolas de elite isso era expressamente proibido. sentia pouca falta das outras coisas. No máximo. Contanto que eu tivesse livros. não deixava de ser uma educação elitista: para os escolhidos. O ser humano não precisa de muitas coisas para viver. Achamos que as coisas caras são as mais legais. eu jogava no fliperama ou assistia a filmes quando não estava estudando. 56 . Por outro lado. mas até isso era abafado visando conservar o anonimato. Nada de filmes. Claro que as coisas caras também são ótimas. jogos ou outras diversões do tipo. Eu não sentia tanta falta disso. Mas aos poucos eu descobria que cada um de nós sentia falta de coisas diferentes. somente pessoas do círculo íntimo do Magister Ludi conheciam sua identidade. Embora eu sentisse um pouco de falta de comer uma pizza ou um sorvete. Não se tratava de uma educação de massas. eu lia facilmente dois livros inteiros em um dia. Sem essas distrações.. jogar futebol ou ouvir música. Eu honestamente não sentia falta de nenhuma dessas coisas. Nosso objetivo não era adquirir conhecimento para obter fama e dinheiro. Nunca fui uma pessoa musical ou esportista. os iniciados. um costume. as nossas escolas de elite não possuíam uma meta materialista relevante. Mais disciplinas poderiam ser acrescentadas ou retiradas. Por isso. – Hoje é dia 30 – ela me informou. uma educação folhetinesca. ficava em paz. Para outros era coisas diversas como vontade de ir para a praia. E de vez em quando dava para escutar o pessoal da música ensaiando nos quartos. Não é bem assim. O nosso plano de estudos era elaborado de forma personalizada.. Mas é apenas uma impressão. Somente livros. assim como seu tempo e forma de estudo. Gio passou por mim e colocou um chiclete na minha mão. – Sei disso. em compensação. Na minha velha escola.Wanju Duli O fato de termos um professor para nos fornecer orientação individualmente também nos ajudava. mas dava para viver sem isso. visando as necessidades de cada um. qualquer um. Para alguns era a família ou os amigos. Termos abdicado de nossas posses materiais nos ajudava muito a manter a concentração e o foco. um pouco de reconhecimento somente dentro de Castália. Isso era tudo o que eu precisava. Isso quando eu não lia.

porque ninguém gostou muito da ideia de encontro às cegas. Decidimos que iremos escolher os casais. nos sentamos nos sofás da esquerda e aguardamos. então eu não precisava ter vindo – disse Agatha. Se estivesse um clima meio ruim e os garotos estivessem de má vontade para fazer aquilo.. flores e quadros. Ali era permitido que as moças e os rapazes se encontrassem. Achei isso um pouco romântico. Mariel era como eu.A Era do Folhetim – Vai vir na reunião hoje à noite? Com os rapazes. Não queria que nenhum deles me fizesse um favor. até porque vivíamos ocupados com os estudos na maior parte do dia para pensarmos em outras coisas. Mas não era só a aparência que íamos olhar. Qualquer coisa. Nós. Compreendi que Agatha queria ficar com o mesmo menino com quem teve relação no Ano Novo anterior. A disposição devia ser mútua. 57 . – Mesmo assim. Havia sofás. Eu não ia querer ficar com um cara estúpido para ter uma péssima transa. – Pode ser que ele escolha outra pessoa esse ano. Então eu fui. encontros como esse raramente aconteciam. embora não com muita frequência. Por isso eu iria ficar ligada no clima geral da reunião. Eu e outras garotas nos reunimos na entrada. realmente. – Já disse que não vou participar – eu disse. – Sei mais ou menos quem vou escolher. para combinar sobre as Núpcias. Eu sabia que se eu não fosse na tal reunião ela permaneceria a me incomodar sobre isso pelo resto do dia. então tenha paciência – disse Gio. você está convidada para a reunião. – Ainda não tenho certeza se vou participar – Mariel comentou – só quero dar uma olhada. mesmo que ele fosse bonito. E. eu não ia me animar. meninas.. Queria primeiro dar uma checada nos rapazes. preocupada – se os professores nos encontrarem aqui em bando irão desconfiar. era só sair de fininho. – Eles estão atrasados – Gio checou o relógio. A entrada do prédio era um dos únicos lugares realmente bonitos e decorados.

um prodígio ou qualquer coisa parecida. Que não conseguia tirar os olhos dele.Wanju Duli É claro que Sônia não estava presente. quase da cor da pele de Sônia. Igor e Celina comentaram um dia. eu olhei para ele de forma diferente no segundo seguinte. Disseram que aquele amigo deles que fez um curso do Jogo ficou impressionado com a jogada desse cara baixinho. Não gostei desse sujeito logo de cara. mas nós seremos. – E então. Então tivemos que sair de forma discreta. ela não era curiosa para experimentar homens. Assim como Gio. Eu já tinha ouvido falar sobre um aluno famoso das escolas de elite que era particularmente baixo. ao lado dos rapazes altos. A atmosfera claramente não estava legal. Já chegou se queixando e elevando a voz. com desgosto – você não será chutada para fora se essa brincadeira amarelar. Senti vontade de não estar lá. Sua pele era morena. Ao vê-lo ao lado dos outros rapazes. ao contrário de você. Eles se sentaram nos sofás da direita. quando eles entraram no recinto – por que demoraram? – Porque. meninos de outro. Porém. o que vocês querem? – prosseguiu o baixinho. Cada um com uma cara de quem estava de saco cheio. pois meu calendário está lotado. Ele não era normal. 58 . pois ele fez algo incrível. Alguém que tinha revolucionado a notação musical do Jogo de Avelórios. Meus colegas da velha escola já tinham falado dele. Ao contrário de mim. eu não me lembrava do que ele tinha feito. ele parecia ainda mais baixinho. Porém. Será que era a mesma pessoa? Mesmo com essa incerteza. ele impunha respeito. Tinha cabelos negros ondulados e olhos escuros e profundos. somos muito ocupados – respondeu um deles. eu logo notei um fato bem evidente: como ele era baixinho! Aquilo me trouxe uma lembrança estranha. De pé. para acabar logo com aquilo – transar agora ou amanhã? Por mim faria agora para deixar de enrolação. – Finalmente chegaram! – exclamou Gio. principalmente o cara baixinho. ele devia ser um gênio. para não gerar suspeitas. Eu me senti um pouco incomodada com aquela segregação evidente: meninas de um lado.

– Então está decidido – disse Navarro – quem é o próximo? Sem levantar os olhos de uma caderneta na qual desenhava. porque estou morto de sono. fumante compulsivo. mas pelo jeito você já arranjou isso. de imediato – na virada do ano. então vamos fazer da mesma forma. Ao contrário do que pensa. – Que coisa mais supersticiosa. Um cara negro que parecia estar quase dormindo num canto deu de ombros. prontamente. Ele tinha olheiras fundas e uma cara de drogado. como da outra vez. Só podia ser o famoso Boaventura. pois por enquanto a conversa só ocorria entre os dois. Ele não gostou muito de ser xingado. Compraram as camisinhas? – Está tudo preparado – ele confirmou – só falta marcar dia. Davi? – perguntou Navarro. o aceitou. Ele não parecia ter medo de nada. idiota – retrucou Gio. Continuei achando tudo muito romântico. apesar de não mostrar muito entusiasmo com o pedido. Nas escolas de elite conquistamos nossos títulos por habilidade e não pelo sangue. Não foi muito difícil imaginá-lo fazendo isso. 59 . Escolham logo seus pares.A Era do Folhetim – Amanhã. – Não precisava mencionar isso em público. Magalhães. irritada – mas não estamos aqui para falar disso. Gio era como se fosse a líder das moças da escola de elite e Navarro era o líder dos rapazes. horário e local. – Você concorda. Ou pelo menos era assim que eles se portavam. é claro – respondeu Gio. como a indicar que era sua vez. Eis o príncipe encantado de Agatha que. beberrão e usuário assíduo de diversas drogas recreativas. – Eu gostaria de ficar com o mesmo par – informou Agatha. Então aquele era Navarro. Navarro – disse Gio. um rapaz levantou o lápis. – Não fale comigo nesse tom. você não é superior apenas por ser filha de Castália. Funcionou bem antes. com maus modos – então será bem mais seguro. Eu não entendi o que ele quis dizer com “ser filha de Castália”. – A maior parte dos professores comemora a virada do ano em Castália. O bully que batia nos colegas.

mas sou contra essa união – disse Navarro – não irei permitir. – Sinto muito. ainda sem levantar os olhos do desenho. Notei que os cabelos eram ligeiramente longos. furiosa – eu nunca concordei com isso! Você não tem o direito de permitir e decidir nada! 60 . como se estivesse no controle – só preciso de mais alguns minutos. Surpreendentemente. Fez uma careta como se estivesse fazendo um incrível esforço no cérebro. inexpressivo. – Pode pensar à vontade – ele disse – quer que eu fique peladão pra te ajudar a pensar? Aquele sorriso de canto que ele me deu foi ainda mais malicioso que suas palavras. – Isso não é necessário – respondi. impaciente – quem é o próximo? – Arthur.Wanju Duli Ele tinha cabelos castanhos escuros e olhos castanhos. – Porque já está decidido que eu e Gio faremos par – explicou Navarro. – Como quiser – disse Barata. ele apontou para mim. Barata fingiu pensar. Ele se divertia muito com a situação. Era o cara que estava lutando pelo direito de deixá-los crescer mais. Acho que fui realmente pega de surpresa. Digamos que eu não esperava. – Ainda não sei se vou participar – eu disse. despreocupadamente. – Por quê? – perguntou Barata. – Qual é. Pele bronzeada. Miguel! – exclamou Gio. – É. – Vamos mais rápido com isso – disse Navarro. se a Maria te der o bolo. Barata deu um sorrisinho divertido. quase nos ombros. voltando a desenhar. atropelando minhas próprias palavras – estou pensando. Todos voltaram os olhos na minha direção. posso substituí-la? – perguntou Gio. achando graça. como se fosse um Michelangelo: Barata. acho que serve – Barata respondeu. O exímio escultor que era chamado para decorar os murais de Castália. – Curti aquela moça ali – ele apontou com o lápis.

– Ainda não entendi qual é o problema de fazer sexo com uma mulher mais alta – disse Gio. Navarro levantou-se. foi expulsa. nessa sala só resta você. Você topa ou não? – Não. E depois vem falar de mim. O Miguel vem de família rica e é filho único. – Gio. Não estou nem aí se foi ele que bolou a nova notação musical da Província. – Que mentirosa! – gritou Navarro – não fui um cavalo e sim um cavalheiro. E a Gabriela. – Não importam minhas razões. – Então vai te foder – ele disse. Ou tem alguma outra menina aqui com menos de 1. que foi meu par no ano passado e tinha um metro e meio. Sempre fez cursos de Jogo de Avelórios quando criança. – Por que não quer? – perguntou Agatha.55? Ninguém falou nada. Ela apenas confundiu as palavras. – Eu não me sinto bem – disse Navarro. Navarro saiu de lá e bateu a porta com estrondo por trás de si. Portanto. – Nem preciso dizer – disse Gio – viram só que estúpido? Eu sei como é. Estou apenas mostrando a ele que o mundo não é bem assim. Não vou chupar ele por causa disso. se você realmente quiser ficar com Barata. – Vamos fingir que nada disso aconteceu e prosseguir – decidiu Gio – tem mais algum casal além do nosso triângulo amoroso? Ela certamente se referia a mim. 61 . Sempre teve tudo que quis. – A Gabi disse que você foi um cavalo e a tratou super mal – comentou Gio.A Era do Folhetim – Estou apenas sendo lógico – disse Navarro – eu só faço sexo com meninas da minha altura ou mais baixas que eu. eu não tenho nenhuma objeção – fiz questão de dizer. – Que criancinha mimada – disse Gio. Então era ele mesmo. – Eu vou – disse Gio – mas não com você. A família dele tem um dos brasões aceitos por Castália. Navarro provavelmente se sentia como um gênio incompreendido. – Não sabia que você era tão inseguro assim – disse Gio.

se for do agrado. se quiser. – Você já tem duas. deu meia volta e saiu da sala. este pareceu um anão. Barata não perdeu tempo. – Até tu. Prestei atenção no Rodrigo. Todos ficaram surpresos. Podem formar fila. era um negro alto e gordo. – Dani. O sujeito era bem grande. por favor – disse Gio – eu só queria me garantir se não conseguisse outro. o que falou com D.Wanju Duli – Ora. Pode ficar com ele. – Eu adoro como vocês falam de mim como se eu não estivesse aqui – disse Barata com um sorriso. enquanto desenhava – posso ficar com as duas.D. de tão comum que era sua aparência. Tinha cabelos pretos e parecia absolutamente normal em todos os aspectos. ela assusta mais a gente do que nós a ela – disse Barata – esses dias ela passou por mim pelo pátio tão silenciosamente que parecia um fantasma. imediatamente. – Oi Dani – cumprimentou Gio – vai participar? Ela confirmou com um aceno de cabeça. Não ao mesmo tempo. Lembro que quando o vi perto de Navarro. por último. Levei o maior susto. Com direito a quinze minutos de descanso entre uma e outra. O outro que falou com D. – Algumas até ajudam. – Viram só? – disse Gio – vocês a assustaram.D. Às vezes eu acho que ela tem poderes sobrenaturais. D. – Pelo menos não use drogas amanhã para seu instrumento funcionar – sugeriu Barata. Estragaram tudo! – Sinceramente. – Me conta mais. Era D. – Eu não aguento três – disse Boaventura – só duas. Rodrigo? – perguntou Gio. 62 . pô! – exclamou outro cara – Dani. mas se nos pegarem com drogas a gente tá fodido. mas acho que eu só aguento até três. pode me dar uma chance? – Também quero – disse mais um sujeito. outra garota entrou na sala.D. – Calem a boca – disse Gio – se nos pegarem trepando podem até entender que temos certas necessidades.D. posso ser seu parceiro? – ele perguntou. Naquele momento. Nem tinha reparado nele na sala.

– Então você estava interessada desde o começo e se fez de difícil! – exclamou Barata. contente. Navarro sorriu. – Pensei melhor – disse Navarro – e peço desculpas pela minha má educação. Gio. deixar a sala. – Não acredito que irei me humilhar dessa forma. triunfante – mas as mulheres são assim mesmo. Simplesmente porque achei o gesto poderoso. eu ficaria com a cara no chão. entrou na sala novamente. Eu revirei os olhos.D. Mas se Rodrigo me recusasse. – Quero você – disse Dani. precisam fazer charminho.D.A Era do Folhetim Falando em Navarro. – Confesso que estou um pouco curiosa para saber o tamanho do pau de um cara baixinho como ele – Gio sorriu – a Gabi não quis me contar. – OK. E você. Era a primeira vez que eu ouvia. da mesma forma que D. mas vou perguntar uma última vez. Ela apontou para Barata quando entrou.D. meu doce? Já acabou o seu charminho? Notei que ele se referia a mim. – Tudo bem. com uma voz que era perdidamente melodiosa e sensual. – Obrigado. pouco depois de D. 63 . E ao dizer isso. lá estava ele de novo. Miguel! – exclamou Gio – eu transo contigo. saiu da sala. Fiquei aliviada. esqueça sobre nós – eu disse a Barata – quero aquele. tinha feito. – E você me terá – garantiu Barata. – Já – respondi – eu aceito. Dani fazia isso porque ela sabia que podia. Era quase como se ela e Navarro tivessem combinado e propositalmente não desejassem permanecer na sala ao mesmo tempo. está desculpado – disse Gio. D. Apontei para Rodrigo. – Ótimo! – disse Barata. – Nesse caso. – De boa – me respondeu Rodrigo. por mais que eu perguntasse.

Até aquele momento ela somente havia assistido em silêncio. – Só espero que esses imbecis não bebam até cair antes da hora – comentou Gio.Wanju Duli – Posso ficar com aquela? – perguntou o sujeito grande. É claro que ela devia se sentir ainda mais ofendida ao saber que eu ia transar com outra pessoa naquela noite. sem rodeios – odeio livros de qualquer tipo. lemos trechos de autores famosos. de uma forma inexplicável. 64 . Eu não sabia por quanto tempo mais eu teria que aguentar isso. – Só se você me perguntar apropriadamente. O filósofo dissera que o ser humano é um ser-para-a-morte. Sônia ficou profundamente aborrecida com isso. aquilo era sexy. nós garotas fizemos sozinhas nossa festinha de fim de ano enquanto provavelmente os rapazes faziam a deles em seus próprios alojamentos. Ainda mais sendo um cara. – Nem livros de história da matemática? – perguntou Agatha. Ele apontou para Mariel. Ela pareceu um pouco intimidada com o sujeito enorme. mas no final deu certo. Embora não fosse tão baixinha quanto Gio. Sônia participou. posso ser seu par? – Pode sim – ela sorriu – como é seu nome mesmo? – Otávio Carneiro. Dani não apareceu na festa. – Perdão. como se deve. – Odeio ler – ela disse. suspeitando que era exatamente o que ia acontecer. Durante a festa. Aquela escolha de casais foi um pouco confusa. como se fosse um evento literário. Carneiro! Uma vez Gio me disse que havia esse rapaz chamado Carneiro que sabia muito a fundo sobre Heidegger. Nem olhou na minha direção. antes do encontro dos casais. Mariel. Na noite do dia 31. ela também era pequena. – Ela não quer saber de amizade – comentou Gio – só vai aparecer para trepar. Aparentemente. mas me ignorou o tempo inteiro. – Odeio história – disse Sônia. Meu nome é Mariel.

A única coisa de diferente que tivemos para a festa foi champanhe. o som dos incessantes fogos de artifício ao longe abafariam os ruídos.. Apenas pronunciar aquela palavra me dava um arrepio. Mas ele ficou de ajudar com uma parte da elaboração. mas. é uma grande honra. – “Mas Waldzell é a mãe da industriosa tribo dos Jogadores das Contas de Vidro” – pronunciou Gio. Então era isso o que o estava ocupando tanto.A Era do Folhetim Agatha não pareceu muito ofendida.. eles partiriam antes de mim. fui logo avisando que ele não precisaria usar camisinha. – Amanhã começa o ludus anniversarius – comentou Gio. Aguardamos a chegada deles na entrada e os conduzimos até lá. Já devia estar acostumada às críticas de Castália em relação ao estudo da história universal. Combinamos que o encontro ocorreria nos dormitórios femininos. Não queríamos perturbar as outras garotas que não tinham nenhuma intenção de quebrar regras. – O seu ficante vai participar? – perguntei. somente assistir. então uma crítica à história da matemática não era nada. desconfiei que o tempo passaria voando. – Você acha que Navarro irá entrar para Waldzell? – perguntei – Sabe. por isso era melhor fazer silêncio. 65 . – Qual a sua idade? – ele perguntou. E como a maior parte dos que estavam lá eram pelo menos alguns anos mais velhos que eu. de forma misteriosa – eu imagino que sim. Cela Silvestre. talvez seja capaz de resistir à tentação. Bebemos com moderação. Ele ama a música. Quando Rodrigo entrou comigo num dormitório vazio que reservei somente para nós. – Navarro foi convidado – explicou Gio – ele não vai participar esse ano. O de Nova Castália é no auge do verão. Mesmo assim. eu não vou fazer isso. diferente de mim. Mesmo assim. Para a nossa sorte. pois eu ainda não tinha menstruado. Somente dali uns sete aos e meio eu teria que escolher a minha escola em Castália. – O Jogo de Castália é na primavera. assustado – se for nova demais. – O Jogo público das Contas de Vidro? – perguntei – achei que fosse na primavera.

66 . sem toque. Por fim. Ele não tinha que se sentir tão incomodado por ter broxado. Mas era dificil me concentrar.. Parei de ler. Fiquei braba porque doeu. ficou mais brabo ainda e colocou a culpa em mim.. Eu não falei nada. pois teremos mais lubrificação. Muito sexo selvagem da Roma Antiga para acalmar os ânimos. porque nunca tinha transado com uma virgem antes e não sabia o que fazer para romper o hímen. sem nada.Wanju Duli – Fica tranquilo – eu disse – tenho quase catorze. mas ele provavelmente ficou nervoso consigo mesmo e descontou em mim. sem ter terminado o serviço. Cada um tirou a própria roupa. sem beijo. Fui até a biblioteca ler um livro para tentar apagar da minha mente aquela cena patética. de Petrônio. irritado. em silêncio. Ele já foi metendo. Fitei meu rosto no espelho. Era meio irritante. Ele provavelmente havia voltado para o dormitório masculino e eu não tinha nenhuma intenção de procurá-lo mais. Vai ser diferente. Depois de um tempo. Ele também começou a se irritar. Como eu não sabia direito o que fazer. Pelo menos a leitura me deixou ligeiramente mais calma: Satyricon. Eu ainda poderia acabar aquela noite com uma tranquila masturbação. Achei-o muito rude e inexperiente por agir assim. Lábios grossos. Não que eu esperasse vasta experiência sexual de um adolescente de uma escola de elite. – Nunca fiz sem camisinha. Broxou umas três vezes. Até mesmo eu comeria a mim mesma. Entrei no banheiro para lavar as mãos. bochechas redondas. saí da biblioteca e apaguei as luzes. Simplesmente não me sentia no clima. então eu o xinguei. Recoloquei minhas roupas. Ele fazia muita força e já estava suado. Assenti. ele ficou por cima. Me deixou lá. Aquele black power me deixava mesmo com uma aparência irresistível. ele saiu do quarto. se desconcentrou. então era natural que Barata e Rodrigo tivessem me desejado. Fiquei uma fera. mas acho que vai facilitar. Mas Rodrigo não precisava ter sido tão impaciente.

A Era do Folhetim
De repente, uma garota saiu de uma das portas do banheiro, onde
ficava o chuveiro. Ela havia acabado de tomar uma ducha, estava toda
molhada e completamente nua. Não havia toalha alguma por perto.
Era D.D. Eu não conseguia tirar os olhos do corpo dela. Eu a fitava
através do espelho. Fiquei hipnotizada com o que vi.
Sua pele era morena e brilhante, muito bem cuidada. As formas de
seu corpo eram perfeitas. Tinha bastante carne nos lugares certos: não
somente as coxas eram grossas, mas seus quadris eram largos. Ela
também tinha uma bunda maravilhosa e os peitos bem redondos. Eram
peitos de tamanho médio, que se harmonizavam muito bem com o resto
do corpo.
Ela não ficou nem um pouco preocupada com minha presença. Nem
pareceu ter me visto. Passou reto por mim, abriu um dos armários do
banheiro e começou a procurar por uma toalha.
Quando ela se abaixou ligeiramente para abrir os armários, eu olhei
discretamente para ela e vi, por suas costas, um parte de sua vagina.
Quase tive um treco. Minha vagina pulsou forte e começou a pegar fogo.
Rodrigo não me dava tesão, mas a Dani... ah, meu Jesus Cristo! Aquilo
sim que era um pedaço de mau caminho. Se ela topasse, eu teria me
deitado com ela no chão ali mesmo. Enfiaria a língua em sua boca e a
língua na sua boceta molhada.
Porém, meus pensamentos foram completamente interrompidos
quando outra pessoa entrou no banheiro. Ele abriu a porta com
estrondo.
– Alguém viu a Gio? Vocês viram para onde ela foi?
Era Navarro, que estava de jeans e sem camisa, com cara de idiota.
Ele estava com os pés descalços e a própria cueca na mão, como se
tivesse vestido o jeans rapidamente sem ela.
– Saia daqui imediatamente! – gritou Dani, fora de si.
Sem se desculpar e sem fechar a porta, Navarro insistiu:
– Apenas respondam a minha pergunta: vocês a viram por aí?
– Fecha essa porta, seu filho da puta! – berrou Dani.
Ela foi até a porta e a empurrou em cima de Navarro. Porém, ele
empurrou a porta mais forte. Não sei se Dani se abaixou naquele
momento, mas o trinco atingiu fortemente seu rosto, ela caiu e escorreu
um filete de sangue por sua testa.
67

Wanju Duli
– Nossa, me desculpa, Dani! – exclamou Navarro, abaixando-se para
ajudá-la – eu te machuquei? Você tá bem?
Dani começou a dar tapas, socos e chutes em Navarro. Ele protegeuse com as mãos.
– Vai tomar no cu! Seu corno, filho da mãe! – Dani prosseguiu
berrando, com voz rouca – Sai daqui, caralho!
Navarro entendeu o recado e se mandou. Pelo jeito aquela noite não
estava sendo boa para ninguém. Mas Navarro devia ter lido um pouco
mais a situação e ter se mandado de lá já na primeira vez que Dani o
mandou sair.
Achei uma toalha em outro armário e entreguei para Dani. Ela se
enrolou nela.
– Precisa de ajuda? – perguntei.
Ela fez que não. Ela não me agradeceu e abriu a porta para sair do
banheiro. Porém, quem estava na porta agora era Barata.
– O que aconteceu? – ele perguntou, preocupado, ao ver o sangue.
– Não é da sua conta – respondeu Dani, rispidamente.
E foi embora.
– Você sabe o que houve? – perguntou Barata.
– Foi apenas um acidente – respondi.
Achei melhor não dizer que o acidente havia sido causado pela
idiotice de Navarro. Podia ser que Barata fosse atrás de Navarro para
tirar satisfações. Eu não sabia se Barata era do tipo de pessoa que bateria
em Navarro para defender a Dani. Achei melhor não descobrir, para
aquela noite não terminar com todos nós sendo expulsos.
Eu suspirei.
– Eu devia ter transado contigo – eu disse – meu encontro com
Rodrigo foi um lixo.
– É mesmo? – perguntou Barata, curioso.
Mas não perguntou mais detalhes. Ainda bem, porque eu não ia dizer.
– Como foi o seu?
– Foi ótimo – respondeu Barata – mas ainda aguento mais uma. Você
quer?
Aquilo foi um pouco inesperado. Mas eu não estava mais a fim de
fazer charminho.
– Quero, mas só se for agora.
68

A Era do Folhetim
– Imediatamente, querida – respondeu Barata, com um sorriso.
Ele me levou até o quarto em que provavelmente ele e Dani tinham
transado. De certa forma, poder estar na mesma cama em que Dani
estivera me daria até mais emoção do que trepar com esse garoto.
Barata parecia ser mais experiente que Rodrigo, então fiquei mais
tranquila. Pelo menos ele me passava confiança, como se soubesse
exatamente o que fazia.
Quando já estávamos os dois despidos, ele me deitou gentilmente na
cama e me beijou de um jeito muito bom. Lento e carinhoso, um beijo
profundo. Nossas línguas se encontraram. Fechei os olhos e voltei a
imaginar o corpo nu de Dani. Fiquei com muito tesão.
Ele passou a mão nos meus peitos, foi descendo para a barriga e de
uma forma muito natural acariciou minha vagina. Quando colocou seu
dedo dentro de mim, eu já estava bem lubrificada.
Ele desceu pelo meu corpo, me beijando pelo pescoço, nos peitos, na
barriga. Colocou a língua na minha boceta. Eu gemi e suspirei forte.
Quando ele foi colocar a camisinha, eu disse que não precisava.
Expliquei o motivo.
– Nossa, que legal – disse Barata – adoro fazer sem camisinha. Mas
você não tem medo que eu te passe alguma doença?
Eu fiz que não. E se fosse uma doença da Dani, eu não me
importava.
– Quer que eu te masturbe? – perguntei – ou que eu te chupe?
Eu me sentia meio boba ao perguntar. Podia simplesmente ter feito,
como ele fez, chegando aos pouquinhos.
Estranhamente, eu entendi a expressão e seus sinais corporais de
resposta à minha pergunta. Ele meio que deu de ombros, como se
dissesse que não precisava, mas que se eu quisesse fazer ele ia curtir.
Antes que eu decidisse, ele resolveu que não precisaria e, aos poucos,
colocou o pênis em mim.
Até ali, tudo tinha sido perfeito demais para ser real. Barata era um
mestre na cama. Mas quando chegou a hora de tentar romper o hímen,
que ainda não estava completamente rompido, ele enfrentou alguma
dificuldade. Teve um momento em que Barata broxou também, mas ele
apenas deu um riso divertido.
– Me empresta suas mãos, querida?
69

Wanju Duli
Eu ri junto e o masturbei. A situação se resolveu a seguir e logo ele já
estava dentro de mim.
Enquanto fazíamos amor, eu imaginei o corpo de Dani diversas
vezes. Quando eu estava perto de gozar, lembrei do formato da vagina
dela, pelo menos do pouco que vi.
Barata gozou um pouco depois de mim. Senti o líquido quente. Foi
bom.
Depois da transa, ele me abraçou, respirando rápido. Seu coração
batia muito forte. Havia sido simplesmente maravilhoso. E eu sabia que
tinha sido bom para nós dois. O corpo e a expressão dele me mostravam
isso.
Eu sentia por Barata algo parecido com amizade. Tínhamos dividido
aquele momento juntos. Claro, eu tinha sentido prazer e ele foi
excelente, embora eu precisasse confessar que a lembrança das curvas de
Dani tivesse sido muito mais eficaz para me fazer gozar.
Eu admirei Barata. Ele era muito maduro. E eu o admirei ainda mais
no momento em que ele agiu de forma tranquila quando as coisas deram
errado do que em seus muitos acertos. Não era tão importante que o
cara fosse um Deus na cama, mas que se sentisse à vontade o suficiente
comigo para compartilharmos aquele momento juntos e para que
resolvêssemos os problemas juntos.
Rodrigo poderia ter broxado mil vezes que eu o aguardaria e o
ajudaria. Só fiquei chateada por ele ter ficado aborrecido e colocado a
culpa em mim. Mas talvez eu também tivesse errado por tê-lo xingado
logo no começo por não saber o que fazer.
– Você ainda tá pensando nele, né? – perguntou Barata, adivinhando
– esquece isso por enquanto.
A voz de Barata foi como música. Ele falou baixinho, de forma
suave, perto do meu ouvido. E acariciou os meus cabelos.
– Maria... posso te fazer uma pergunta pessoal?
– Acho que pode...
– Você gosta da Dani?
Fiz que sim.
– Ouvi falar que você terminou com a Sônia. Mas você também gosta
da Dani – disse Barata – parece difícil.
– E você, gosta de alguém?
70

Uma existência espiritual. Fiquei lembrando de sua voz doce muito depois de ele ter saído. 71 . Não sei se ela quer. Mas seria impossível nesse lugar. um perfeito cavalheiro. De certa forma. no fundo eu não me importava que ela fosse dele. dali alguns anos. Ouvindo os fogos ao longe. vocês vão fazer parte dele no futuro. – Queria que durasse para sempre? Ele fez que não. E isso era muito mais importante que sexo ou mesmo amor. Barata foi muito gentil. Castália era algo maior do que nós mesmos. – Será que um dia poderemos jogar o Jogo de Avelórios juntos? Barata parecia se divertir cada vez mais com as minhas perguntas. Éramos estudantes das escolas de elite. O da Dani e o nosso. A Verdade. mas é um pensamento encantador. com naturalidade – queria que a gente namorasse. Quando nos despedimos. mas a dor tornava tudo mais real. Ele se despediu de mim com um abraço e um beijo bem leve nos lábios. Barata levantou-se devagar e sentou na cama. Se não for em corpo será em espírito.A Era do Folhetim – Gosto da Dani também – respondeu Barata. Aqueles eram apenas os rituais de despedida de nossa velha vida. Era um pouco doloroso. – As coisas só são bonitas porque terminam – disse Barata – vou guardar os momentos de hoje. essa atmosfera mágica. Um dia. Nenhum de nós seria de ninguém. Não sei se irei para Cela Silvestre. Se a Dani não fosse minha. – Estou meio melancólico e sentimental hoje – ele riu – deve ser por causa do Ano Novo. Paixão boba de adolescente. Mas para ela será bem mais fácil esquecer do que para mim. E seguir para o próximo sonho. eu me sentia no céu. – Engraçado você ter pensado nisso agora. Então acho que vou esquecer. Mas eu precisava ser realista: ela não seria de ninguém. todos eles. futuros habitantes de Castália. iríamos para Castália. Todos nós sabíamos que aqueles encontros eram só diversões temporárias. Parece quase um sonho.

preocupada – foi alguma coisa que o Navarro fez? Puta que pariu. Nunca achei que nossa amizade fosse uma competição e nem tenho intenção de 72 . Vocês não ouviram? Eu respondi que não. Brigamos feio. Eu cresci jogando o Jogo de Avelórios. Quando terminei. Foi horrível. mas sei lá. encontrei Mariel e Agatha tentando consolar Gio. vesti meu pijama e retornei para nosso dormitório. – Há quanto tempo vocês estão aqui? – Eu nasci em Castália – ela respondeu – fruto de uma união ilícita entre dois habitantes de lá. Simplesmente me criaram em segredo. No meio do sexo. – Não vou contar por respeito a ele – ela disse – mas tem a ver com a insegurança dele. ele se sentiu o rei do universo. mas o que ele disse – respondeu Gio. entre soluços. – Gio. Depois de ter desenvolvido a notação musical aceita até mesmo em Cela Silvestre. Nunca tínhamos ficado juntos dessa forma.Wanju Duli Resolvi tomar um banho também. Eu e ele já estamos aqui há muito tempo. – Ficamos relembrando os podres um do outro e jogando na cara. Ela fez que não. Era como um conto de fadas. pois não queriam expulsar meus pais da Província. já que eles são nomes de peso. Ele queria me vencer e por isso estudou muito. Discutimos aos gritos. Como se ela fosse uma princesa! – Conheço o Miguel desde que éramos bem pequenos – ela explicou – já que a família dele o trazia para assistir aos Jogos. Mas eu nunca liguei para isso.. Não sabiam o que fazer comigo. Lá dentro. Ele via seu feito como se tivesse me derrotado. A gente se conhece bem. A gente discutiu por causa disso. Foi uma droga. Tava tudo dando certo e depois deu essa merda.. – eu pronunciei. que estava chorando. – É algo que possa contar? – perguntei. Ele sempre teve inveja de mim porque morei em Castália e sabia mais que ele sobre o Jogo e sobre todas as outras coisas. A gente brincava juntos enquanto os adultos estavam ocupados com as coisas grandes. Navarro tinha feito duas grandes bobagens na mesma noite. – Não foi tanto o que ele fez.

nos agradeceu e retornou para seu quarto. Retornei para as escolas de elite renovada.A Era do Folhetim ser jogadora de Contas de Vidro! Joguei tanto quando criança que cansei. Eu não o considerarei melhor ou pior se ele se dedicar à música ou ao Jogo. Já devia ter assistido àquilo incontáveis vezes. só para provar para mim que é capaz. famílias ricas e alguns dos maiores especialistas no Jogo de Avelórios. Comi todas as porcarias que consegui engolir. A ideia era: “O que é possível fazer com o que temos aqui?” 73 . É claro que eu não os mantive e enquanto estive no orfanato realizei todas as diversões mundanas possíveis. Fizemos todas as coisas tolas que conseguimos pensar. é claro. – Todos nós sabemos que isso é irrelevante – disse Gio – aqui dentro. virei a madrugada assistindo filmes e fui jogar Pump no fliperama junto com Mel e Lua. Agora estávamos em 2289. Jogamos jogos da velha. Só amizade.. relembrando a infância. tínhamos um mundo. Ainda teria alguns dias para fazer o que queria. Ele não precisa ir para Cela Silvestre só para se exibir. Navarro viajaria no dia seguinte para a Província e permaneceria por lá uma semana assistindo às festividades do Jogo. Ele quer ir a fundo na problemática do Jogo. Aquelas férias foram estranhas.. – A amizade não deixa de ser um tipo de amor – disse Mariel. jogo da forca e até brincamos de pega-pega e esconde-esconde no pátio. – Acho que ele gosta de você – opinei. Eu fiquei sabendo que Gio não iria simplesmente porque “não estava a fim”. essas coisas não têm valor. enquanto tudo o que eu queria era poder estar lá um dia. embora eu devesse manter meus votos durante a visita. Eu recebi permissão de ir visitar minha família por um fim de semana. Como lá não havia muita coisa além de livros. Com algumas folhas de papel. Recordei-me que já havia passado de meia-noite. reuni as meninas para inventarmos alguma coisa. Miguel não está satisfeito. Agora quero me dedicar mais a fundo à filosofia. junto com membros do governo. Essa conversa pareceu ter deixado Gio mais calma. Ela parou de chorar. talvez dedicar a sua vida a isso. Sônia optou por visitar o orfanato em dias diferentes dos meus.

Extremamente maduro. de forma muito clara e profissional. Quando cheguei. inteligente. Mas quando se tratava de gramática ele se tornava outra pessoa. Não um livro que me mandaram ler. ele veio diretamente na minha direção. Resolvi fingir que não tinha visto. Ele alcançou dois livros numa estante mais alta. com naturalidade – tem uns livros aqui que vamos usar. em meu último dia de férias eu já tinha voltado a ler. eu o considerei infantil. imaturo e inexperiente. De tarde eu seria instruída pelo tutor de gramática. acordei bem cedo e retomei minhas atividades. confusa. 74 .Wanju Duli Para minha supresa. Apenas se ateve a me explicar gramática. Eu não devia me surpreender mais ao encontrar vários alunos modelo por lá. Não mencionou o nosso encontro no Ano Novo. – Vamos começar? – ele perguntou. Eu o fitei. a maior parte devia ter sido recomendada para as escolas de elite pelas altas notas e por se destacar em alguma área do conhecimento. responsável. iniciei uma leitura do cronograma. Porém. Resolvi escrever meu ensaio logo de manhã. Eu precisava perguntar se eu tinha permissão de retirá-los para ler em meu pouco tempo livre. Eu nunca tinha estado lá. para me livrar dele. Fui orientada a aguardá-lo na biblioteca do alojamento dos garotos. reunia pessoas muito esforçadas e interessadas no que faziam. Parecia ter se transformado. Achei alguns que eu realmente desejava ler. Era melhor assim. E como era férias. No dia seguinte. Mesmo que aquele lugar não reunisse gênios. do jeito que eu gostava. Afinal. sério. com exceção de mim e mais uns poucos. fiquei maravilhada com os livros. Depois disso. – Você é meu tutor de gramática? – perguntei – o cara que sabe muito? O aluno modelo? – Isso – respondeu Rodrigo. vi Rodrigo entrando na biblioteca. Após o nosso desentendimento. mas um que achei na biblioteca e estava a fim de dar uma olhada. eu li na cama. Enquanto folheava os livros. Nós nos sentamos juntos e ele abriu os livros. Passei a olhá-lo de forma diferente.

Ainda estou aprendendo. arte e filosofia. é bom saber filosofia – disse Rodrigo – eu acredito que a lógica seja um bom ponto de ligação entre as ciências exatas e as humanas. Faço o que posso. é bom saber química. Quando Rodrigo declarou que a lição do dia havia terminado. O amor que ele sentia por aquele conhecimento me contagiou. Porém. ele parecia um professor calejado. Ele me passou deveres de casa que me tomariam a semana inteira. Somente depois que a matemática se apropriou dela. específica de outras línguas. não é mesmo? – perguntei – para entender biologia a fundo. porque. é desejável saber física. só é possível entender o encadeamento lógico das premissas ao conhecermos as relações das palavras no interior de uma frase. como conversamos. nem notei o tempo passar. Ele sabia tudo! Todos aqueles nomes difíceis de gramática. Aquele adolescente que nem sabia beijar uma mulher. – Eu aconselho que você também estude a gramática especial. pela primeira vez. eu começava a entendê-las. Você sabe muito! – De nada. Fico feliz de poder ajudar. Havíamos ficado lá por duas horas seguidas e o tempo voou como um sonho. Aquelas merdas que eu odiava e queria destruir. tem mais a ver com psicologia. – E o que devemos saber para estudar filosofia? 75 . Para saber química a fundo. Ele estava me fazendo amá-las. – Estou vendo a gramática de uma maneira totalmente diferente – confessei – parece que tudo o que estudei no colégio até hoje foi apenas a forma. Para penetrar na física é boa coisa estudar matemática. Eu ainda não tinha penetrado na essência. Sincero. E para estudar matemática. a lógica começou nas humanas. ele era como um feiticeiro das letras. pois isso lhe ajudará a compreender melhor a gramática geral – disse Rodrigo – a geral. Se pensarmos na lógica. Caralho.A Era do Folhetim Honestamente. Para eu ter o que fazer até o encontro da semana seguinte. – Muito obrigada pela ajuda – foi tudo o que consegui dizer – nem sei como agradecer. – Uma se fundamenta na outra.. pois mistura filosofia e matemática. – Nesse caso. Humilde.. Formal.

Como eles eram fofoqueiros. por exemplo. Espero que tenha compensado. Outros poderiam dizer que a teologia vem antes. a filosofia era o início de tudo. Para os escolásticos a teologia era a mãe da filosofia. A “senhorita Dantas” parecia viver num mundo diferente do nosso. Se eu fosse Navarro. Eu tentei fingir uma experiência que eu não tinha. Quando mencionei sobre isso. com o fascínio perante o sublime e o mistério. pois antes de aprendermos a ler e a contar. – Não se preocupe – eu disse – eu também errei. eu já tinha ouvido de tudo. – Sobre o que aconteceu naquela noite. Já para Agatha. Para Gio. não deixem de ser um tipo de linguagem. É claro que para Rodrigo tudo começava na gramática. Talvez não houvesse um início e as coisas nascessem e se transformassem juntas. E para aprender uma língua é preciso conhecer tanto a gramática especial quanto a geral. 76 . É claro que eu não tinha coragem de falar com a Dani! Ninguém tinha. em que as diferentes espécies passam por um proesso de coevolução. jamais teria coragem de aparecer na frente dela de novo. no Ano Novo anterior. Bem. assim como na evolução. Eu já tinha percebido que cada um puxava a brasa para a sua sardinha. O tom com que ele disse isso me sugeriu que ele tinha ficado um pouco chateado. – comecei. mas me atrapalhei e não soube lidar com a situação. Rodrigo disse: – Se o assunto é biologia. – Me desculpe – ele me interrompeu – eu queria te mostrar que sabia o que estava fazendo... Eu só tive uma relação sexual antes dessa. já existia história. Somente um olhar dela provavelmente seria capaz de fuzilá-lo.. talvez a história fosse o começo. que fundamentava todas as outras coisas. a metafísica de Aristóteles. Eu baixei os olhos. E vê-la furiosa daquele jeito no dia em que ela gritou com Navarro me deixou ainda mais intimidada. Coloquei a responsabilidade pela transa toda em cima de você e nem fiz nada. – Eu soube que você ficou com o Barata depois.Wanju Duli – A linguagem – disse Rodrigo – embora a matemática e a música.. recomendo que converse com a Dani. Aquilo já tinha se espalhado! – Desculpa.

– Ele foi criado em Castália com você? – Sim. E foi embora. – Até a semana que vem. Eu já imaginava o motivo. Parando para pensar. Que viagem! – Uma vez você disse que ficaria com qualquer garoto do alojamento masculino. Sei lá. cor da pele. Contei a ela que também tive problemas no Ano Novo com Rodrigo. E outras coisas. era mesmo. Meu queixo caiu. Por isso ele se apaixonou por gramática: para entender os hieróglifos do Jogo. Cor do cabelo. Ele levantou-se. mas não porque ele seja feio. – Vocês não se parecem! – foi a primeira coisa que consegui dizer. – Rodrigo também sabe jogar o Jogo de Avelórios? – perguntei. Nosso tipo de cabelo é bem parecido. – Aquele imbecil sabe ser orgulhoso – disse Gio – mas ele é uma boa pessoa. mas pode gerar uma sensação desconfortável – respondeu Gio – em geral. O formato do nariz. desde o útero – ela respondeu – ele é meu irmão gêmeo.A Era do Folhetim – Por que está pedindo desculpas? – ele perguntou – isso não é necessário. por exemplo. – Ele pretende estudar em Cela Silvestre? – Você faz essa pergunta pra todo mundo? – É uma pergunta ruim? – Não é que seja ruim. Ela notou que eu estava um pouco cabisbaixa.. – Sim. Ele e Miguel nunca se deram bem. Você não tem que me dar satisfação. vai notar algumas semelhanças. – Exato. Quando voltei para o alojamento feminino encontrei a Gio no caminho. seria estranho. – Lembro que ele te emprestou um celular quando cheguei aqui – comentei – vocês parecem ser bem próximos. menos um – lembrei – você obviamente estava se referindo ao seu irmão. – Todo mundo diz isso – falou Gio – mas se colocar nós dois lado a lado. É porque é parente.. os alunos das escolas de elite evitam 77 . – Sabe.

Eu não me sinto mais desse jeito. mas a cada dia eu sentia que penetrava mais fundo na literatura e ficava mais longe do Jogo. Aos poucos e de forma gentil 78 . Por isso sugiro que você não saia falando sobre Cela Silvestre tão facilmente. É mais como uma paixão secreta e proibida que todos guardam dentro de si. Mas quanto mais amadurecíamos. – Nossa. não pode mais ser um jogador de Avelórios. Era bastante lógico. Aquele que compreende inteiramente o sentido do Jogo. Então imagino que outras pessoas por aqui também sintam algo parecido. mesmo que seja sublime. Eles me mostravam as regras. Porém. Afinal.. ao estudar literatura eu via as coisas se encaixando e entendia cada vez mais o sentido do Jogo. um jogo é um jogo. Eu era estudante das escolas de elite há pouco mais de três meses. muito mais do que imaginamos. Até na matemática. Também recordei da seguinte frase: “Respeita o sentido. Ou melhor. Lembrei daquela reflexão: quanto mais se compreende o sentido do Jogo. – Não esquenta. Sobre a espiritualidade e a Verdade presentes no Jogo. na gramática. Acredito que a maior parte dos que estavam ali tinham decidido entrar nas escolas de elite pela paixão pelo mistério que o Jogo suscitava.. Eu não tinha pensado dessa forma. Ninguém estava lá me ensinando o sentido das coisas. mas não pense que o sentido se ensina”. Ao mesmo tempo. desculpe. um pensamento cortou meu coração ao notar isso. elas também não existiam em muitas coisas? Talvez até mais na própria teologia. mais aquele mistério perdia sua atração. Muitos de nós vivemos esse dilema entre dedicar nossa vida ao Jogo das Contas de Vidro ou à nossa área de interesse. Então é como relembrar da faca cravada em nosso coração e enfiá-la mais fundo. o funcionamento das ciências e das artes. Há outras coisas sublimes no mundo. Eu provavelmente estou exagerando. Uma paixão de infância. então por que ser um jogador? Que motivo restaria? O que era aquela estranha atração que o Jogo ainda emanava e que parecia estar cada vez mais distante? Eu também sentia esse processo acontecendo dentro de mim. era o centro de tudo. mais se afasta dele. na química. O Jogo parecia ser um tipo de tabu. mas já me senti.Wanju Duli mencionar sobre o Jogo.

Por isso. Eles levavam aquele assunto muito a sério e só o mencionavam quando necessário. Éramos cada vez mais diferentes. mas até isso estava se tornando raro. Pensando bem. Não era a primeira vez que aquilo aconteceu ao longo desses anos. como os irmãos gêmeos e Navarro. eu agia da mesma forma no meu antigo colégio. Era o mais próximo que Castália tinha de uma religião. alguns fingiam que já não se importavam mais com esse assunto. Eu tinha mais vontade de conversar com minhas amigas do dormitório. a partir dali eu me sentiria intimidada a fazer quaisquer perguntas envolvendo esse assunto no futuro. não visitei mais o orfanato nas férias. Eu já não tinha medo de um dia desistir de permanecer nas escolas de elite. recebemos um aluno ouvinte em nossas escolas. Eu já havia encontrado meu lugar no mundo: era ali. só faltava descobrir meu lugar em Castália: na Cela Silvestre ou nas escolas de literatura. A diferença dessa vez foi que eu o conhecia. essa joia precisava de guardiões poderosos. Até o fliperama já me parecia sem graça. Agora. Ninguém iria encaixar as coisas por mim. quando eu já estava com 16 anos. Para disfarçar o embaraço que sentiam toda vez que o Jogo era mencionado. Depois de alguns anos. Por outro lado. Cada vez eu me identificava menos com o mundo lá fora. Por isso eu nunca via ninguém nas escolas de elite jogando o Jogo das Contas de Vidro. que impediriam que o Jogo se degenerasse em mero ornamento estético e perdesse seu espírito. Havia um tipo de respeito pairando no ar que não precisava ser dito. Dois anos e meio depois.A Era do Folhetim elas se encaxariam dentro de mim. Fiquei contente que Gio tivesse sido sincera comigo sobre essa questão. Apenas mostrariam as portas e eu entraria nelas por mim mesma. Já não tinha vontade de matar a saudade. Eu sabia que havia grandes conhecedores do Jogo lá dentro. 79 . Que era uma velha paixão de infância. por serem muito rigorosas. Apenas trocava umas poucas mensagens com minhas amigas antigas pela internet. Sua joia mais preciosa e mais frágil. Mas eu duvidava que um dia eles nos convidassem para que jogássemos de forma descontraída e para nos divertirmos. mas pelos motivos errados.

80 . – Qual é a graça de vir para as escolas de elite e não jogar o Jogo de Avelórios? – ela perguntou – vocês são estranhos. – Onde estão todas essas coisas interessantes? – ela perguntou – não achei a biblioteca de vocês muito impressionante.Wanju Duli Os alunos ouvintes eram normalmente aqueles vindos de famílias ricas que não tinham intenção de estudar nas escolas de elite. mas eu sentia que nunca teríamos a mesma relação de antes. que veio para nosso dormitório. assistir a algumas aulas e seminários. Normalmente para aprender o Jogo das Contas de Vidro. Foram dois os visitantes: uma moça e um rapaz. Conheci primeiro a moça. e ficou desapontada ao descobrir que não ensinaríamos isso para ela. mas ela não parava de reclamar. – Não somos exigentes com comida – disse Sônia – porque há tantas coisas mais interessantes aqui que o cérebro nem pensa mais nesses detalhes. O nome daquela garota era Linda. Foi somente ao ouvi-la que me dei conta do quanto eu devia ter soado desagradável. Era quase insuportável. Não se tratava mais de um namoro. Ela só tinha ido para lá porque estava interessada no Jogo das Contas de Vidro. mas que desejavam passar um período nas férias conosco. Era um ano mais velha que eu. Sônia tinha voltado a falar comigo. mas nesse caso era uma visita mais modesta: para acompanhar o dia a dia dos alunos. – Esses cursos nem sempre caem no período das minhas férias. – Como vocês aguentam comer a mesma comida todos os dias? Ouvi-la era como ouvir o eco de mim mesma no meu primeiro mês por lá. Nós fizemos as pazes. Nos tornamos um pouco distantes. Eu esperava que esse fosse um problema que pudesse ser solucionado quando mais alguns anos se passassem. Não tem ninguém aqui que possa me dar um breve curso do Jogo? – A Província oferece esses cursos periodicamente – eu informei – você deveria contatá-los. Não me diga que você não sabe jogar? Eu suspirei. Nós a recebemos com a cortesia requerida. E até a amizade dela eu senti que havia perdido um pouco. como todos os outros.

– Uau. arranjo-lhe uma cadeira para sentar-se enquanto aprecia a vista. – Pensei que você quisesse saber sobre o Jogo de Avelórios – comentei. Posso sentar aqui atrás e ficar olhando pra ela? Eu segurei meu riso com a mão. obrigado – ele consertou a situação – estou lisonjeado. – Vamos para o alojamento masculino – convidei Linda. Digamos que estava fanática com isso ultimamente e nem queria ouvir falar no Jogo. – Não enche – disse Linda – depois eu penso nisso. e o seu? – Linda. Deu um sorriso meio forçado. Gio não parecia muito disposta a ensiná-la. – Ora. – Oi. Linda era mais atrevida do que eu tinha imaginado. Eu nunca o tinha visto assim antes. Chegando lá. Ela genuinamente nem queria saber. – Não precisa. Então. Eu também tinha ficado sabendo que todos aqueles quadros lindos das salas principais do prédio tinham sido feitos por ele. – Onde? – perguntou Barata. E a mandei para a Gio. Maria – ele cumprimentou-me – o que a traz aqui? – Nossa. – Por favor. olhando para seu quadro. extremamente realista. eu sento no chão mesmo. ao ver o que ele pintara. que lindo! – exclamei. – Obrigado – Barata sorriu – ainda preciso dar uns retoques. – Você! Barata ficou meio sem graça. encontrei Barata usando um avental e pintando um quadro. qual é o seu nome. bonitão? – Arthur. fique à vontade – disse Barata – se quiser. Porém. Ele ficava engraçado com aquele avental.A Era do Folhetim – Não sei. nos mínimos detalhes. que gato! – exclamou Linda. E ela simplesmente sentou-se atrás dele e continuou a olhá-lo. Ela não estava apenas tentando escapar das tentações dessa paixão. Um nome ideal. Ela estava ocupadíssima com seus estudos de filosofia. não acha? 81 . mas conheço quem saiba – eu disse. sem saber como reagir. Era a paisagem da janela do alojamento masculino. – Tem que estar mesmo – disse Linda – gostei da sua bunda.

tocando seu contrabaixo. Foi só então que reparei que Boaventura estava com ele. Até mesmo esse cara tinha tomado jeito. Então ele era um pouco como eu. posso pintá-la assim que eu terminar esse – informou Barata – só preciso de mais meia hora para finalizá-lo. Ou você é do tipo que joga para o outro time. O drogado. certo? – eu ri – Seu maldito! Eu quase caí nessa! – É sério – insistiu Barata – vá lá perguntar para ele se não acredita. Ele estava tocando oboé. Ele estava tocando uma música que parecia ser de difícil execução. Ele ficava ainda menor perto daquele instrumento gigantesco. – Pode me desenhar? Ele pensou um pouco antes de responder. Senti que se eu o interrompesse seria morta. Eu não entendia muito de música. Eu soltei uma exclamação em alto e bom som e tapei a boca com as mãos. Se não havia parado com as drogas. – Você está brincando. pois não tinha mais suas olheiras profundas. Linda também estava curiosíssima. mas aquilo parecia ser quase impossível de tocar. como Michelangelo? – Eu jogo nos dois times – respondeu Barata. – Isso é segredo – disse Barata. – Está bem – Barata desistiu – foi com o Miguel. Estava sorrindo de orelha a orelha. Encontrei-o sozinho na sala de música.Wanju Duli – De fato. – Agora fiquei curiosa – falei – com que cara você já transou? Só pode ter sido alguém aqui do alojamento. tinha pelo menos diminuído. Para mim aquilo era novidade. – Se você se dispor a permanecer algumas horas parada na mesma posição. 82 . – Eu tenho o dia todo – disse Linda – que tal fazermos amor depois de terminarmos? Como Diego Rivera que transava com suas modelos. Fomos as duas juntas procurar por Navarro. Arthur – eu falei – e entrega logo o jogo. Mas o sorrisinho que ele deu quando disse isso me deixou claro que ele estava louco para contar. – Deixa disso.

mas a droga da música não terminava nunca. Ele não disfarçou a raiva que sentiu. – Educado como sempre – eu disse.A Era do Folhetim Esperamos por cinco minutos lá fora. sem nem pedir licença. com um largo sorriso – ele comeu seu cu? – Ele comeu meu rabo e eu comi o dele!!! – exclamou Navarro em alto e bom som. sentindo antipatia por ele no mesmo instante – por que você é tão baixinho? Linda tinha tocado no ponto fraco de Navarro. sem paciência – me insultar? – Só viemos perguntar uma coisa – eu disse – o Arthur me disse que vocês dois já fizeram sexo. – Pela reação dele é verdade – disse Linda. vão se foder. – Afinal. – Isso é sério? – perguntou Boaventura. para que o alojamento inteiro ouvisse – se alguém se sente ofendido com isso. sentando-me num banco – já conhece a Linda? – Não conheço e nem quero conhecer. o que vocês querem aqui? – ele perguntou. atire-se da janela e morra. Sempre preferi mulheres. Invadi. Apenas me fitava fixamente. estou sangrando pelo cu depois de ouvir as bobagens de vocês! – Navarro continuou a berrar. seus semivirgens castrados de Castália! – Você está de TPM? – perguntou Linda. – Você é o único aqui que está falando bobagens – observei. 83 . – Foi apenas uma vez – disse Navarro – e faz muito tempo. rapazes – cumprimentei-os. – Fora daqui – disse Navarro. Eu estava apenas curioso. Então resolvi entrar mesmo assim. em tom divertido. – Que sujeito mais ridículo – disse Linda. – Sim. – Boa tarde. – Se você se sente incomodada com isso. Isso é verdade? Navarro ficou sem fala. nada demais. Não sinto nada por ele. – Quantos anos você tem? – ela insistiu – doze? – Dezoito! – Não perguntei por causa da sua altura e sim pela sua infantilidade – ela justificou-se.

– Quem é você mesmo? – Linda. não é mesmo? Navarro estreitou os olhos. – Ah. Arrume outro idiota para lhe dar palestras. Ele fitou-a. – O motivo de eu ter entrado não lhe diz respeito – disse Navarro. Suas reações te denunciam. sim. – Você deve ficar tocando isso 24 horas por dia. esse é um instrumento caríssimo para manter. – Então só pode ter entrado por causa do Jogo de Avelórios – constatou Linda. então é claro que não se importa em perder cinco minutos comigo. sou pobre e casto. – Que bom – disse Navarro – pode sair agora? Está atrapalhando meu ensaio. – É só sobre isso que os estúpidos alunos ouvintes sabem falar. Navarro lambeu os lábios. – Minha família é tão podre de rica que poderia fazer a sua de escrava – disse Navarro – não entrei aqui pelo dinheiro. e eu o fiz. confuso. pensando no que dizer para aquela peste. Como pode ver. – Já perdi bem mais que isso nessa conversa infeliz. mais uma idiota – Navarro rasgou as notas – sinto muito. Linda tirou algumas notas de cem reais da carteira e entregou para Navarro. mas eu fiz voto de pobreza e de castidade. – Então eu acertei – disse Linda – você é incapaz de mentir. maravilhada. – Muito casto – observou Linda – nem por isso precisava rasgar meu dinheiro! – Você o deu a mim para que eu fizesse com ele o que queria. 84 . Você quer que eu te fale sobre o Jogo? – Como sabe? – perguntou Linda. uma aluna ouvinte. Seja mais direta. mas tive uma ideia melhor – observou Linda – eu pago para ver vocês dois se comendo. Ela só sabia entrar nos temas delicados. Mais alguma questão? – As escolas de elite são um lugar bem apropriado para se tocar contrabaixo – disse Linda – afinal.Wanju Duli – Eu estava pensando em transar com Arthur. como papagaios repetindo a mesma nota dissonante – disse Navarro – pois eu já me cansei de falar disso. Castália paga todos os seus custos.

O mundo dá voltas. Eu gosto da expressão que você faz quando toca. – Sim. mas você o superou – disse Navarro – parabéns. – Eu não tinha mais nada para fazer. Parece que está tendo um orgasmo. ele também não quis saber. não acha? – Ser aluna das escolas não te torna automaticamente uma jogadora – ele observou – quantas vezes você já jogou ou assistiu a uma partida oficial? – Não importa. Quando o irmão dela a encontrou no corredor. Devia ser difícil aguentá-la todos os dias. contrariado. – Nenhuma. – A gente tava ensaiando junto. – Você! – eu apontei para o irmão dela. Você tem nome? – Sou a garota do Hitler – respondi – aquela que te socou na cara. caramba! – Quer trepar? – perguntou Linda. mas parece que terei mais contato com ele do que você. – Então por que não volta para lá e para de encher o meu saco? 85 . Boaventura ficou indignado. Até mesmo eu não aguentava mais escutar a voz de Linda. – Você vivia criticando o Jogo de Avelórios. Incluindo o cara do oboé. – Não! – exclamou Boaventura – fiz voto de castidade! – Vocês usam essa desculpa toda vez que não querem comer alguém. Não caio mais nessa.A Era do Folhetim – Posso assistir você tocar? – perguntou Linda – é chato assistir somente pelo vidro do lado de fora. Na prática. – De todos os lugares do mundo. – Hã? A gente se conhece? – ele perguntou – meu nome é Carlos. E já assisti duas vezes na Alemanha. o que você faz aqui? – ele perguntou. Não achei que fosse possível. vivem comendo uns aos outros. certo? Eu assisto as cerimônias de Nova Castália todos os anos. E Navarro colocou todos para fora da sala e trancou-a. então vim passear nas escolas de elite – respondi. Eu só queria que ela calasse a boca. – Pensei que o seu irmão era o maior trouxa que eu já tinha visto. Ele não quis acreditar.

– O quê? Acho que essa não era a resposta que ele esperava. o termo “folhetim” se refere principalmente a romances publicados no passado em jornais com continuações. literatura. A “verdadeira vida”. como nossas atuais novelas na TV. tínhamos que escutar que a verdadeira vida ficava lá fora. debates sobre a moda e charadas. e se livra dessa árdua tarefa. São somente um rebanho sem vontade própria que segue ordens. Vocês possuem uma mera ilusão de liberdade. – O que são folhetins para você? – perguntou Carlos – você deve ter uma ideia bem distorcida a esse respeito. crítica de arte. E quando íamos para as escolas de elite. hã? Quando estávamos lá fora nos diziam que a verdadeira vida era aqui dentro. Eram suplementos adicionados à sessão sobre política dos jornais franceses. esse tipo de sessão jornalística poderia ser capaz de ditar normas sociais. estabelecendo gostos em busca de uma identidade social. – Você não entendeu ainda? – perguntei – no momento em que você delega a tarefa de pensar para outras pessoas. os “especialistas”. como se nós que vivemos a verdadeira vida fôssemos seres inferiores – retrucou Carlos – enquanto vocês vivem uma vida falsa. – Eu sou aluna das escolas de elite. Muitos clássicos literários começaram nos folhetins. – A verdadeira vida é na Era dos Folhetins? – perguntei. Na época da Segunda Guerra Mundial.Wanju Duli – Você está com inveja. O que foi que te ensinaram sobre isso aqui nas escolas de elite? – No Brasil. Não querem entender as coisas. Mas em Castália nós utilizamos o significado francês do termo. Essa história estava realmente começando a me aborrecer. Isso foi particularmente efetivo na Alemanha nazista. Por que raios eu teria inveja de alguém do século? – Está toda cheia de si. com seus brinquedos. apenas aprender o suficiente para ganhar dinheiro e 86 . pode ser mais facilmente controlado. – Pelo menos eu enxergo minhas correntes e sei até onde posso caminhar. sobre fofocas. a custa de nosso dinheiro. Mas eu queria mostrar a ele que eu não estava de brincadeira. – São vocês em Castália que sofrem lavagem cerebral e não nós.

A Era do Folhetim depois gastá-lo nessa suposta diversão. – Estava de saída e por acaso ouvi sua conversa com o aluno ouvinte. – Não dê sua opinião sobre dinheiro para esse tipo de gente. sem xingar? Aquilo era meio raro. vivemos numa sociedade materialista e capitalista – explicou Navarro – mesmo que Castália seja diferente. A Província não é uma bolha que te impede de conhecer os valores do lado exterior. – O que realmente importa não são coisas ou pessoas – respondi – mas algo muito diferente disso. – Qual é o problema em querer ganhar dinheiro? – perguntou Carlos. Eu era toda ouvidos. fomos educados lá no começo de nossa vida e nossa cabeça está cheia dos valores do mundo. – Com licença. mas principalmente eles. – Nós. poderá ter a falsa sensação de que somente ele te tornará livre. Navarro só queria saber de tocar seu contrabaixo o dia inteiro. Não queria conversar com mais ninguém. – O conhecimento? – O conhecimento é apenas uma ponte e não o fim do caminho – respondi. Santa – disse alguém que chegou. Então por que de repente foi me procurar? Ele me chamou de volta para a sala de música. – Que tipo de gente? – perguntei – ricos? – Qualquer um que não seja de Castália – respondeu Navarro – sabe por quê? Fiz que não. em tom de zombaria – o Jogo de Avelórios? Eu sorri. Continuamos conectados a ele e dependemos dele. – Nenhum. Seu instrumento musical já estava guardado. Está acompanhando? 87 . quase todos nós nascemos no século. Navarro ia falar sério. Aquilo foi inesperado. que ainda estava vazia. mas caso se foque demais nesse objetivo. me interrompendo – podemos conversar por um minuto? Era Navarro. E resolvi te dar um conselho. que somente afasta o pensamento de vocês das coisas realmente importantes. – Quais são as coisas realmente importantes? – perguntou Carlos.

Ganhar dinheiro é a vida delas. A única coisa que peço é: tente se colocar no lugar dessa gente. nos colocam na cabeça que a coisa mais importante da vida é estudar para depois trabalhar. desde o colégio. sofreu na faculdade. mais sobem na hierarquia da sociedade materialista. Veja só o seu caso. a hierarquia não deixa de existir. Porém. com a diferença de que nós subimos em nossa hierarquia quando adquirimos mais conhecimento. Estudou merdas no colégio a vida inteira. Desde crianças.. A única coisa que você conhece é literatura. É esse o objetivo máximo da existência de quase todas as pessoas. Para nós. É como aqui nas escolas de elite. mas que em Castália ela tem tanto valor quanto a matemática que permite construir prédios ou a medicina que permite curar pessoas. E isso não vale nada”. Quanto mais ganham. ter um emprego e ganhar dinheiro. É isso? – Eu não ia dizer nada do tipo. – Pois bem. para mim é a música. sofre no trabalho. – Não importa se a nossa hierarquia é superior a deles – disse Navarro – talvez até seja. um acordo feito entre pessoas. o espírito. Coisas como estudar literatura ou engenharia são apenas o caminho para chegar no pote de ouro. mas as duas não deixam de ser um tipo de jogo. Pode ser que você até ofenda os historiadores se disser que o estudo de história é inútil. – Certo.. Ou. É por isso que você tem que segurar a 88 . você estará ofendendo praticamente o mundo inteiro se disser que dinheiro é inútil! É como se você dissesse: “você é um imbecil. indo mais longe. só por causa da bosta do dinheiro. O que diria se alguém te dissesse que literatura é um lixo e não vale nada? – Eu responderia que a literatura pode até não ser muito valorizada na Era do Folhetim.Wanju Duli – Já sei o que você vai dizer – tentei adivinhar – são eles que sustentam Castália e por isso temos que calar a boca e puxar o saco das pessoas do século. Entende a diferença? – Acho que entendo. Ou pelo menos é a coisa de valor que conhece mais a fundo. – Vejo que ainda não entendeu onde quero chegar – ele prosseguiu – lá fora a meta das pessoas é o dinheiro. que é a meta. o estudo é a própria meta! Para você é a literatura. Ainda assim. Isso porque na Província nosso valor máximo não é o corpo e sim a mente.

Você vive num paradigma diferente agora. Ou que nos dão uma esperança vazia. 89 . Maria? Eu não podia acreditar que eu estava levando sermão de alguém como Navarro. – A música pode ser seu caminho – expliquei – mas você não toca para sentir uma sensação de êxtase? – Eu acho o reducionismo uma escolha muito perigosa – disse Navarro – por que você precisa de somente um valor máximo? É essa uma das problemáticas que o Jogo tenta evitar. ter lazer. uma das piores ofensas será dizer que dinheiro não vale nada. mas porque sinto que faço parte de algo maior. Meu objetivo não é apenas sobreviver e. descobrir um segredo. e. Como se a vida fosse só isso. Em vez de falarmos de Ockham. – A conversa que eu tive com ela não foi séria. É isso que você acha. no tempo livre. – Você já conhece esse segredo – eu disse a ele – porque você já jogou o Jogo das Contas de Vidro.A Era do Folhetim língua quando fala com as pessoas do século. – Como você vê a vida agora? – Agora eu me sinto livre – respondi – não porque eu esteja fisicamente livre. – Lembro do que você disse por último – observou Navarro – que o conhecimento era apenas um caminho e não a meta. após colá-los. Mas você estava falando a sério com o Carlos. Então não tente posar de superior. que tal falarmos de Abelardo? – O pai do conceitualismo? – perguntei. – Você rasgou o dinheiro da Linda – comentei. – Eu não acho. Mas lembre-se que poucos anos atrás você era como elas. É como dizer que a vida delas não tem sentido. Se você estiver falando com qualquer pessoa lá de fora. Não sou apenas minha própria existência. Eu achei esse discurso absurdo. mas agora que estou aqui dentro eu consigo enxergar como minha vida era vazia antes – expliquei – estudar e trabalhar apenas para ter fins de semana para ver filmes que nos mostram o quão sem sentido é nossas vidas. Que elas trabalham porque são estúpidas. O sentido da minha vida é conectar os pedaços de folhetins que foram passados a mim ao longo da minha existência. Navarro franziu as sobrancelhas.

Não faça isso.Wanju Duli – Ele criou uma posição intermediária entre o idealismo e o materialismo. Aos poucos eu entendia onde ele queria chegar. te presentearão com uma singular beleza. porque eu não quero saber todas as coisas. – Qual é o problema de sair de mãos vazias? – perguntei – é o niilismo? – Na música o silêncio é muito importante – ele respondeu – as pausas são fundamentais. parecia que eu e ele estávamos a anos-luz de distância. – Você não respondeu a minha pergunta. me faziam ler desde criança e tive uma educação tão excelente que até me envergonho. Aquelas eram realmente palavras vindas de um estudante de música. para lidar com o velho problema dos universais. Você nunca sai de mãos vazias. Especialmente por eu ter interrompido sua reflexão sobre a música. do qual falam também o realismo e o nominalismo. – Provavelmente já li mais livros que você. Isso não me interessa. A única coisa que eu queria dizer no momento é que você não precisa seguir o caminho mais curto e mais simples. Não aceite as soluções mais curtas. Ao mesmo tempo. – Porque a minha educação excelente seria ideal para me tornar um exímio jogador de Contas de Vidro e me sinto tentado – ele respondeu – 90 . Se elas não te derem uma solução. – Quantos livros você já leu? Ele não gostou da minha pergunta. – Eu não sou uma enciclopédia ambulante como a Gio – disse Navarro – provavelmente até a Dani sabe mais que eu. Tente amar a complexidade. Você costuma reduzir as questões da sua mente de forma grosseira apenas para se livrar delas. – Eu já tive muitas conversas sobre isso com Gio e com o Carneiro. Não preciso de ambições tão grandes. – Se envergonha por quê? – perguntei. – Não sabia que você conhecia tanto sobre filosofia. Você pode aprender com elas. pois também contém harmonia e sentido. Para mim. porque meus pais sempre frequentaram Castália. a música é o bastante. Há momentos em que vale a pena optar pelas mais elegantes. Não vou entrar a fundo nessa questão agora. Vá ler a respeito e outra hora conversamos.

Eu estava cercada de pessoas fodas. não teria dúvidas. não importando se estivesse vivo ou morto. suas duas maiores especialidades. história e filosofia. Mesmo assim.A Era do Folhetim algumas vezes me arrependo. eu não costumava ter conversas longas com os rapazes. – Lembrei que até hoje não te agradeci direito por você ter me ajudado tanto nos estudos de lógica ao longo desses anos – comentei. Cada pessoa é um universo. Eu a invejei. Competi com Gio a vida inteira. Por isso. O Jogo das Contas de Vidro parecia proporcionar uma ocasião solene em que todos esses sábios se encontravam para encaixar. Eu disse isso a ele. – Por que vocês brigaram daquela vez. eu não sabia quase nada sobre ele. Fitei Navarro por um momento. Mariel e Agatha. Porém. cada vez mais eu aprendia sobre literatura. – Não foi nada. isso encerrava o assunto. Senti um frio na espinha só de pensar que eu um dia seria como elas e estava me encaminhando para isso. Não sabia muito. Eu já havia tido longas conversas com Gio. eu ainda cogitava ir para Cela Silvestre. seja num mundo materialista ou num idealista. Era quase como uma arte de necromancia: o de resgatar o espírito das coisas mortas. iria me maravilhar. Os Lusores. Pensando bem. Eu o admirava pra caramba. dois anos atrás? – Não quero falar sobre isso. sobre as artes visuais que o Barata estudava. eram grandes mistérios para mim. Além de sua “excelente educação”. jogadores de Contas de Vidro. por exemplo. os seus conhecimentos no grande quebra-cabeça que era o Jogo. – Não quero competir com você – disse Navarro – estou cansado de competição. Fui falar com Sônia. 91 . deviam ser poderosos necromantes. Se eu conhecesse apenas a música. Provavelmente se eu tivesse uma longa conversa com ele um dia. Eu só conhecia a literatura e ainda teria muito a aprender. Para assim com ele formarem um universo. Nem metade do que haveria para saber. Sempre achei isso chato. Voltei para o alojamento feminino. tocar o cosmo e o espírito de tudo que já existiu. Aparentemente. a música e o Jogo das Contas de Vidro. existe e existirá. cada qual.

As pessoas só me mandam ler. a Igreja estava mais poderosa do que nunca. – Será que podemos conversar um pouco sobre filosofia da matemática? – perguntei. Talvez ainda mais poderosa na atualidade do que na Idade Média. resolver problemas. como numa sinestesia? Mas aí entramos de novo no problema dos universais. Que coisa mais chata! – Mas você acha que a matemática é real? – perguntei – Platão baseou o seu mundo das ideias na geometria.Wanju Duli Eu não entendia lógica a fundo. Não se envolva com esses filósofos. os racionalistas.. – Amiga. mas essa já é uma coisa que faço sem parar! – Eu estava brincando. E lá existem as entidades chamadas círculos e quadrados perfeitos. ou a Igreja vai queimar todos os jogadores de Cela Silvestre na fogueira. Acho muito mais divertido fazer cálculos. relaxa. Será que o número “um” tem um espírito? Será que o número dois tem um cheiro e uma cor.. sua tolinha – disse Sônia – é claro que não li esses livros. Cada vez mais 92 .. Volte para a literatura. aborrecida – me mandou ler Abelardo. No século XXIII. Eu não fico filosofando se os números são reais ou imaginários.. Aprendi somente o básico para ter mais proveito em meus estudos de literatura. O que você vai fazer se descobrir que os números são imaginários? Vai até um cemitério e chamar um espírito para colocar vida nos números e criar zumbis? – Não é isso que eles fazem no Jogo das Contas de Vidro? – Eu espero que não. vai ter respostas diferentes – disse Sônia – não é a mesma coisa com a filosofia? Há os empiristas. E depois conversamos. Odeio ler. – Dependendo com que matemático você conversar. – Qual a sua posição? – Cá entre nós? – perguntou Sônia – leia Popper e Husserl. Então pode ser que a matemática e os números tenham existências objetivas. – Navarro me disse a mesma coisa – comentei. – O que você quer saber? – Sempre tive curiosidade de saber se a matemática é inventada – observei – e se os números são reais ou imaginários.

A religião era idealista. Mas como ele poderia conter espírito sem ter uma teologia? Se ele buscava tocar o cosmo. etc. Mas aquilo não estava exatamente na biologia? Que se baseava na química. mas conceitos que derivam das coisas. que se voltavam para a religião. mas espírito. Por que será que Dantas se interessava tanto pelo estudo da vida? Será que a resposta estava lá? E por que eu precisava de uma resposta? Eu queria acreditar que o Jogo continha um segredo. etc. mas não consegui. Resolvi deixá-la em paz. Afinal. impaciente – eu não vejo essa conversa indo para lugar nenhum. Quando comentei isso com Sônia. para onde vão? – perguntei – eles têm pernas mais fortes? São bons corredores? – Eles pelo menos sabem onde querem chegar – disse Sônia – não ficam apenas passeando sem rumo por aí. então ele solucionava o problema dos universais? Quando fui até a biblioteca procurar um livro de Abelardo.A Era do Folhetim a visão materialista do mundo desencantava as pessoas. que por sua vez. – E os números. – Você acabou de responder sua própria pergunta – ela disse – para Castália os números não são nem somente nomes e nem uma existência real objetiva. Lembrei do que Navarro falou sobre o valor dos sistemas complexos e das soluções elegantes. – Dani. Eis uma das bases do Jogo de Avelórios. então eles existem mais ou menos como os sonhos? – Maria. O que pensa sobre a matemática do caos? – Até na desordem existe um pouco de ordem. topei com a Dani. E o Jogo não continha só lógica ou beleza. o que você pensa sobre o método científico? 93 . A desordem te incomoda. Mas Castália e o Jogo eram conceitualistas. eles existem em algum espaço e tempo. O sentido da vida. A beleza estava acima da simplicidade lógica dos números. vá conversar com Gio! – exclamou Sônia. ela suspirou. – Então é tudo inventado – concluí – mas se existem na mente. Ela estava lá lendo um livro de biologia. – Você gosta das coisas ordenadas. a música era uma das melhores formas de meter a matemática numa baita complicação. Tentei espiar qual era.

que separava mente e corpo. Por fim. Até porque o próprio Descartes. era um embate entre o conceitualismo e o realismo. O método científico estava um pouco fora de moda no século XXIII. Parece que tudo se encaixa. os bichinhos das escolas de elite. Deixei a filosofia e a biologia de lado e fui ler Erich von Däniken. Escolhi a própria Gio para ser minha ouvinte.Wanju Duli Sentei-me na frente dela e. E eu comecei a tagarelar todas essas coisas para Dani. Foi um sonho assustadoramente real. Resolvi compartilhá-lo com alguém para me livrar dele. Quando se estuda demais. Dormi em cima do livro e tive um sonho sombrio. só poderia gostar de tipos exóticos de existência. Como nós. ela me entregou o livro que estava lendo e saiu da biblioteca. empirismo e racionalismo. começamos a ver teorias da conspiração em tudo. Ele se baseava muito numa visão dualista do mundo. culpa Castália e cria uma sociedade secreta de resistência. Ela apenas me observava em silêncio. Pois se ela gostava tanto assim da vida. desesperado pela morte de Giovana. poderia vir de aliens vivos. Miguel é queimado pelas fogueiras da Inquisição. – Quem te contou que eu já tentei cometer suicídio? – ela me perguntou. Ela foi bem sucedida em seu intento. Era um livro sobre exobiologia. Castália produzia um tipo bastante exótico de ser humano. completamente inexpressiva. corpo e espírito. Era produto da minha mente ou realmente existia? Eu estava exausta. Somente era real o que os sentidos físicos e aparelhos pudessem captar. Sonhei que Giovana pulava do alto de um prédio numa tentativa de suicídio. Mas depois o método deixou a razão como base para se fundamentar na experiência. tomada de coragem. Mas talvez tudo aquilo fosse uma grande enganação. fundador do método científico. Eu acordei suando. devido aos pensamentos de Bacon. Se esse poder não vinha de espíritos de mortos. já que ela ficou quieta. – Eu sabia que ela gostava de aliens! Barata comentou um dia que Dani parecia ter poderes psíquicos. era fortemente dualista. Mas será que se encaixava mesmo? Nesse caso. 94 . Muitos achavam que era só questão de tempo até ser derrubado. Por fim. fiz essa pergunta. Miguel.

Mas já não sei se isso tem significado na minha vida. E você não entenderia. – Que tipo de sociedade secreta? – Isso eu não posso te contar. porque tem a ver com as dinâmicas do Jogo. Foi para o instituto de música. aquilo me incomodava. E não fique assustada se eu te disser. – É claro. mas nunca chega. mas Miguel pensa em fundar uma sociedade secreta. Ela iria se formar nas escolas de filosofia. todos desistiam do Jogo. Você vai descobrindo cada vez mais coisas. Não estava mentalmente preparada para ir tão longe. Arthur e outros estudantes das escolas de elite já estavam com vinte anos. Para meu espanto. É como uma droga. Mas foi assim para mim porque eu era só uma criança. 95 . Sua vida não era vazia. penso que eu teria maturidade suficiente para me envolver com o Jogo sem me deixar levar por esse tipo de emoção. Eu não gostei de ouvir aquilo. Mas eu fiz isso por causa do Jogo. como se ele fosse amaldiçoado e estivesse sob uma má estrela. – Só que eu não pulei do alto de um prédio – ela explicou – eu só me enchi de remédios. Ele só está esperando entrar para Castália. – Hoje em dia. – Por quê? Você sempre viveu em Castália. Aqueles dois tinham muitos segredos. – É verdade. – Naquele dia no Ano Novo em que você e Navarro discutiram. Mais dois anos se passaram. Eles receberam permissão para estudar formalmente em Castália. Gio não foi para Cela Silvestre. De certa forma. Tinha 12 anos quando fiz isso. Era inacreditável! Era exatamente como diziam: no último instante. Miguel. Fiquei obcecada. – É por isso que você não quer mais se envolver com o Jogo de Avelórios – observei – porque tem medo que isso te aconteça outra vez. – Eu queria penetrar cada vez mais fundo – ela explicou – descobrir todas as coisas. Parece que está chegando num tipo de Iluminação. O Jogo das Contas de Vidro gera um êxtase difícil de explicar. Miguel também não foi estudar na escola dos jogadores de Avelórios.A Era do Folhetim – Eu não sabia sobre isso. Gio. esse assunto entrou em pauta? – perguntei. Como havia nos dito.

Dani foi para Castália. Tudo aquilo estava me dando nos nervos. Mariel foi para a escola de literatura e Agatha para a de história. Mais um ano depois. – Vem comigo. aos meus olhos. Contudo. Se bem que. – Eu iria – ela respondeu – se você tivesse me esperado lá atrás. exatamente por conta do tal Jogo. Porém. Cela Silvestre era a escola com o menor número de estudantes. Já havia dois conhecidos meus lá. No ano seguinte. Não recebia notícias dos meus velhos amigos. Até mesmo o destino do maior Magister Ludi já existente havia sido trágico. Seria divertido. eu estava completamente no escuro. Mas não me tornei uma amiga tão próxima dela. Agora haveria mais um motivo para eu ir até Cela Silvestre: estudar junto com Barata. Deixou para trás sua ambição de tornar-se um dos maiores pintores ou escultores. meu coração se acalmou quando eu soube da extraordinária notícia: Arthur foi para Cela Silvestre. até porque a nossa diferença de idade era maior do que a minha e a de Mariel. Até me tornei a tutora de uma garota chamada Ângela. Ele ainda poderia fazer suas obras de arte no tempo livre. Rodrigo foi para a escola de gramática. foi o destino de Boaventura que me fez tomar a minha decisão: ele foi para Cela Silvestre. Será que ninguém mais iria para Cela Silvestre além de Arthur? Até então. Carneiro para a filosofia. Havia apenas uns novatos nas escolas de elite. E ela também não foi para Waldzell! Em vez disso. isso ele já era. Então estava feito. Ou transformar os Jogos numa de suas grandes obras. – Você nunca vai me perdoar? 96 . com os quais eu não conversava.Wanju Duli Devia haver algo muito assustador naquela escola para que isso estivesse acontecendo. A meu ver. Sônia? – perguntei a ela. optou pela escola de biologia. Pelo menos eu poderia ser colega de Mariel para estudar literatura. E agora? Estava chegando cada vez mais perto da minha vez. que também estava estudando literatura. Então poderia dedicar o resto da sua vida ao Jogo. dentre todas as Grandes Escolas de Elite de Castália.

desapontada. por mim mesma. E eu não sabia se aquela minha resistência havia sido uma fraqueza ou uma força. Eu finalmente teria acesso às maravilhosas bibliotecas de Castália. Era quase numa cidade à parte. E não direcionar toda a minha vida tendo em vista meu amor por outra pessoa. mas só agora entendi qual é o meu caminho: longe de você. E eu obviamente ainda não era permitida na célebre sala destinada aos jogos solenes. Eu devo fazer o que desejo. Eu ouvi dizer que o Magister Ludi se vestia de branco e ouro. Mas você me ensinou uma lição preciosa. Mas eu resisti. chamada Nova Castália. Eu não precisaria mais vestir os uniformes azuis das escolas de elite. para não ser identificado. Uma cidade só deles. Não era na capital. Sofri um pouco. mas posso ter minha individualidade. A vestimenta de Cela Silvestre era branca. eu retornarei para o século. A identidade do mestre máximo de Castália era secreta. mas no Espírito Santo. Nova Castália não estava localizada no Piauí. “Vamos esquecer Castália e o Jogo. – Porque eu quero casar com alguma moça.A Era do Folhetim – Já perdoei. Sônia foi para a escola de matemática. Quase quis desistir de tudo e voltar com ela. Continuei até hoje perto de você. Eu não me sentia mais numa prisão. Mas depois de me formar em Castália. Mas aquela cidade não constava nos mapas oficiais. Era um tesouro deslumbrante no meio do nada. Desnecessário dizer que era muito maior do que o nosso velho prédio cercado por muros. – Por quê? – perguntei. Vamos para uma faculdade normal. Mais bonitas e mais formais. Mas havia uma biblioteca especial restrita especificamente na nossa 97 . Irei para a matemática. E eu decidi que não tenho interesse no Jogo das Contas de Vidro. cada escola tinha vestimentas de cores diferentes. representando o espírito. mas ele não iria utilizar essas vestes fora das cerimônias. Estava cercada por natureza. Em Castália. Eu não preciso ser individualista. E eu fui aceita em Cela Silvestre. Ou vamos trabalhar. Compreende? Eu não sabia que seria tão doloroso ouvir essas palavras. fazer qualquer outra coisa”. adotar uma menina e ter uma vida normal.

Depois disso. Na noite da minha chegada. Barata e Boaventura prepararam uma festa de boas-vindas para mim. A diferença é que. E o que eu faria depois disso também dependeria da escolha dos meus dois amigos. Fui recebida por Barata e Boaventura com alegria. Essa era a reputação de Cela Silvestre. vi um envelope amarelo por baixo da porta. Pelo menos não no meu primeiro ano lá. Eu estava com 21 anos.Wanju Duli escola. eu estaria formada no Jogo das Contas de Vidro. Não iria segui-los cegamente. Foram essas as minhas impressões ao chegar na majestosa cidade de cor ocre. mas somente se eu sentisse ser o certo. Essa biblioteca ficava trancada e eu não tinha a chave. A elite restrita entre as elites. Será que eu deveria mesmo dar importância aos sonhos? 98 . Eu não teria como saber. Era um convite formal para uma sociedade secreta de Castália. tínhamos um pouco mais de liberdade. Eu o abri. Eu estava muito ansiosa para conhecer os nossos professores. Boaventura seria meu tutor. Eu iria me mirar neles para decidir o meu caminho. Qualquer um deles poderia ser o Magister Ludi em pessoa. Minha nova missão seria estudar em Cela Silvestre por quatro anos. As regras de lá eram um pouco parecidas com as das escolas de elite preparatórias. por estarmos mais velhos e mais maduros. As tais regras que não precisavam ser ditas. Quando eu me preparava para dormir no meu dormitório simples que eu dividia com outra moça mais velha que eu. destinada somente aos Arquivos dos Jogos.

Afinal qualquer problema de matemática bem resolvido podia ser uma fonte de prazer espiritual. uma combinação engenhosa. Mas agora pela primeira vez eu ouvia a própria voz interior do Jogo. e desse momento em diante eu fiquei crendo firmemente que esse jogo régio é uma 'língua sacra'. Isso era uma prova de que o Jogo de Avelórios. A nata de uma aristocracia dotada de um espírito exclusivo. podia elevar a alma. de acordo com minhas dúvidas. e de ideias felizes. Lá também se localizava o controle da Direção Suprema do Jogo. E lá estava na minha mão um envelope que poderia me fazer ser expulsa e colocar tudo a perder. seu sentido me havia atingido e compenetrado. onde ficavam os Mestres eminentes. qualquer espécie de boa música. e nesse caso seria preferível não jogá-lo mas ocupar-se com a matemática pura e a boa música. por Hermann Hesse O Jogo dos jogos. onde ficava a colônia dos jogadores de contas de vidro: Vicus Lusorum. uma santa e divina linguagem". pois 99 . ampliando-a ao infinito. mas até então eu me inclinara a duvidar sempre da elevação e do valor do Jogo em si mesmo. Eu era uma castaliana e não queria deixar de sê-lo. por extensão. Caminhar entre os semideuses. E. e devo a eles muitos momentos de sublime elevação. O Jogo das Contas de Vidro. Estava em Cela Silvestre. Era assim que todos lá se sentiam. Eu havia iniciado meu último ciclo de estudos. Em Castália ocorriam expulsões reais para quem quebrava as regras. uma prática inteligente. ao ser ouvida e mais ainda ao ser tocada. Castália e as Grandes Escolas de Elite não eram como as escolas de elite preparatórias nas quais eu estudei pelos últimos oito anos. e toda meditação feita com devoção podia acalmar o coração e fazê-lo vibrar em concordância com o universo. era assim que eu me sentia.A Era do Folhetim Capítulo 2: A Iniciação "É verdade que já naquele tempo eu assistira a muitos jogos bem estruturados e bem dirigidos. que levavam uma vida de abstinência enquanto os Jogos aconteciam. não passava de uma arte formal.

Por favor. era “Amor Fati”. Sociedades secretas não eram permitidas em Castália. mas que. Achamos que a forma com que o Jogo é celebrado oficialmente possui certas limitações devido às cláusulas de segurança. senhorita Santa Seja bem-vinda a Nova Castália. Cordialmente. As expulsões de Castália até tinham um nome diferente para mostrar o quão sérios eles eram: excomunhão. uma vez escolhida. mas essas intrigas secretas entre os estudantes de Castália eram vistas pelos professores como suspeitas. que significava “amor ao destino”. 100 . Agora éramos adultos. Também identifiquei a origem do codinome do mestre do grupo. achamos que terá alto valor como membro de nosso círculo. Era possível formar clubes nas escolas preparatórias. que era uma pessoa escolhida como auxiliar do Magister Ludi. Magister Umbra Mais do que suspeito. os professores não ficavam mais no seu pé apontando tudo de errado que você fazia. não demore a nos procurar. Dessa forma. O nome da sociedade. Algumas regras serão alteradas. Eu reli a mensagem do envelope para me certificar: Saudações. É de nosso conhecimento que a senhorita optou por realizar seu último ciclo de estudos em Cela Silvestre.Wanju Duli nenhum de nós era mais um adolescente. que constava no envelope. Nossa intenção é realizar uma versão não oficial do Jogo das Contas de Vidro. ficava impossibilitada de ter a chance de se tornar Mestre dos Jogos no futuro. mas ser excomungado soava como uma verdadeira ameaça! Por outro lado. Ser expulso não parecia o fim do mundo. Era uma clara alusão à Sombra.

O lado ruim era que estávamos no meio do nada e não havia mais jeito de fugir para comprar uma bala ou um hambúrguer. dar um salto e elevar os braços. Pensei em comentar sobre a carta com Barata e Boaventura. Em compensação. E iria desejar que o mundo inteiro me escutasse. porque precisaria comparecer a aulas. Eu já estava tão acostumada com os afazeres domésticos das escolas de elite preparatórias que ainda tinha dificuldade para me acostumar à nova rotina intensa. cuidar da jardinagem e vários novos serviços que me tomavam um tempo precioso. Eu diria que era interessantíssimo. Foi então que eu entendi porque aquela decisão de ir para Cela Silvestre era tão importante. Como aquele era um lugar maior. porra!”. Mas naquele ponto. Havia até singelos jardins para se dar um passeio. limpar mais cômodos. eu teria que cozinhar mais. Eu tinha minhas desconfianças. Esse era o tipo de alegria que eu sentia. Pensando bem. – É mais divertido você descobrir sozinha – disse Barata – não acha? Talvez. mas resolvi não dizer nada. Foram oito longos anos de estudo. 101 . Nas primeiras semanas senti como se jamais tivesse tempo para ler um livro outra vez. Simplesmente não haveria tempo! O Jogo era difícil. Pelo menos a vista da natureza compensava tudo e me deixava em paz. pelo menos por um tempo.A Era do Folhetim Interessante que não havia nenhuma informação sobre como localizar a tal sociedade. eu estava mais interessada na identidade do Magister Ludi. Em vez disso. era nós que devíamos cuidar das flores. Não foi nada fácil. O problema das roupas brancas é que era mais difícil de lavar. as minhas roupas eram minha menor preocupação. O lado bom da comida é que continha mais variedade que a antiga. a palavra “difícil” nem de longe expressa a realidade. Sem contar que eu tinha menos tempo livre ainda. Cada vez mais as minhas responsabilidades aumentavam. Eu tinha vontade de gritar: “Estou em Castália. Era uma ilusão acreditar que eu poderia me dedicar ao mesmo tempo ao Jogo de Avelórios e à literatura.

mas no final do dia eu estava prestes a cair no choro: não me aguentava em pé e também me sentia a pessoa mais burra da face da Terra. No final da primeira semana de aula. para ver se eu conseguiria captar pelo menos uma frase ou duas. Eu não fazia a menor ideia de que teria que passar por uma provação tão forte. do tipo: “Lições básicas sobre hieróglifos para jumentos”. As explicações do quadro foram incompreensíveis.Wanju Duli Eu me sentia uma completa imbecil. E eu não sabia nada a respeito dela. Absolutamente nada! Meu primeiro mês em Castália foi uma corrida contra o tempo. iria prestar atenção nos professores para tentar descobrir se um deles tinha um ar de Magister. Em primeiro lugar. Não entendi uma palavra do que foi dito. tamanho o meu desespero. No meu primeiro dia de aula fui inocentemente assistir às palestras programadas. Lá também não havia café. Um mais impossível de ler que o outro. Eu estava ansiosa e animada. Virei a madrugada estudando os livros. Mesmo tendo lido tanto a respeito. Retirei apenas os livros para iniciantes. achando que eu receberia revelações fantásticas. o Jogo era ensinado em outra língua. Havia centenas ou milhares de livros apenas sobre os hieróglifos. eu me sentia mais desesperada do que um estudante de engenharia que pensava que era bom em matemática e de repente descobre que não sabe porra nenhuma e precisa começar a estudar tudo desde o princípio para fortalecer seus fundamentos. Levei os livros comigo para assistir às aulas. enquanto as anotasse. Ao contrário das escolas preparatórias. corri para a biblioteca. 102 . Passei umas duas horas lá apenas procurando livros. então eu dormi em algumas aulas do segundo dia. no fundo eu não sabia praticamente nada sobre o Jogo. Achei que minha primeira semana em Cela Silvestre seria repleta de descobertas: aprenderia as regras do jogo e. essa biblioteca era tão grande que eu ficava perdida lá dentro. Só que eu nem consegui prestar atenção nos professores. Meu único pensamento durante as aulas foi: “Preciso retirar uns dez livros na biblioteca para estudar os hieróglifos do Jogo!” No final do primeiro dia. Minhas expectativas foram totalmente frustradas.

pesquisando livros. Eu tentaria aguentar por mais uma semana. 103 . Eu estava até sonhando com os hieróglifos. aceitei o desafio. Dormi somente o suficiente para me manter relativamente acordada. filosofia do Jogo. Mas nenhum deles parecia ser compreensível! Eu me sentia na Era do Folhetim: captava somente fragmentos e nunca o todo. a recompensa não seria alta. E estava me consumindo com suas chamas demoníacas. então por que raios aquilo tudo parecia grego para mim? Não havia um início de ano letivo em Castália. Devia ter alguma forma de aprender aquela linguagem complexa. Não era essa a lógica? Ao lembrar disso. Eu estava passando por isso. Senti vontade de desistir de tudo. me salvem desse inferno!!” Lembrei da frase de Rimbaud: “Acredito-me no inferno. Era como se eu estivesse em outro país. lendo diversos trechos. me mandem para as escolas de literatura! Eu mudei de ideia. A missão deles era se virar para acompanhar as aulas. visitar o Diretório e dizer: “Por favor. Eu não saía mais das bibliotecas. logo estou nele”. se eu tivesse ido para as escolas de literatura.. Minha meta era encontrar uma Pedra de Roseta. Devo ter folheado mais de duzentos deles.. Eu precisava desvendar aquele arcano. não soubesse falar nem “Bom dia” no novo idioma e já tivesse que escrever uma tese sobre um tema complexo. Os estudantes novos podiam chegar em qualquer época do ano. Meu cérebro não era capaz de encaixar os pedaços.A Era do Folhetim Eu realmente acreditei que eu já sabia algo sobre o Jogo de Avelórios! Eu já tinha lido livros sobre a história do Jogo. que normalmente já pegavam do meio. É claro que o estudo do Jogo não era fácil. Se a dor não fosse tão intensa. Porém. Eu teria que atravessar todo esse fogo se quisesse chegar no sublime paraíso espiritual que o Jogo proporcionava. Queria sair correndo de lá. gramática do Jogo. eu provavelmente não teria enfrentado um período tão longo de adaptação. Nessa segunda semana eu não fiz outra coisa a não ser estudar em todo o meu tempo livre.

Mas apenas me matar de estudar não adiantaria. Queria abrir um buraco no chão e sumir. No entanto. mas eu fui teimosa. As luzes se apagavam às dez. Eles já deviam estar se preparando para dormir. Nem mesmo a gramática geral eu sabia tão bem assim. Eu nunca tinha estudado tanto na vida. Deveria desvendar algum método. Barata me deu um copo d‟água e arrastou uma cadeira até onde eu estava. em Castália todo mês deveríamos fazer exames. Eu teria vergonha de confessar que não sabia nada sobre a linguagem do Jogo. Barata e Boaventura se assustaram ao me ver me acabando de chorar. um êxtase ia surgindo dentro de mim. Orgulhosa pelo meu esforço. No último dia da segunda semana. me ajudem! – supliquei. para que eu me sentasse. caí no choro outra vez. Nas escolas preparatórias havia avaliações trimestrais. provando que eu era uma orgulhosa aluna de Cela Silvestre. Caí no choro. – Por favor. eu não tinha coragem de conversar com a professora responsável pelo meu estudo. Fui até o dormitório deles às nove e meia da noite. Se eu não aprendesse o básico sobre o Jogo nas duas semanas seguintes. Sentei-me e tomei a água. Eu sentia que me faltava a base para entender como os hieróglifos funcionavam. eu não sabia a quem mais recorrer. Não tinha mais graça desfilar por aí com meu trajes brancos. como se alguém tivesse morrido. Fui até o dormitório dos rapazes. com urgência. E mais vergonha ainda caso ela descobrisse que eu não conhecia nem mesmo as regras de gramática geral necesárias para iniciar meu aprendizado dessa linguagem. Nem mesmo em meu primeiro mês nas escolas preparatórias. Para completar. Se ao menos eu tivesse seguido o conselho de Rodrigo! Ele me sugeriu estudar a gramática especial. ainda entre soluços. Eu não me sentia digna daqueles trajes.Wanju Duli Ao mesmo tempo em que me sentia sem energias. – O que aconteceu? – perguntou Barata. – Eu não consigo entender nada! Vou tirar zero nas provas! Ao dizer isso. Eu estava desesperada. 104 . Eu sabia que estava atrapalhando ao visitá-los num horário tão inconveniente. Eu precisa aprender como estudar. eu estava perdida.

Boaventura disse: – Você devia ter vindo nos pedir ajuda desde o primeiro dia. Vai dar tudo certo. A primeira coisa que você precisa é aprender latim. Eu me acalmei na mesma hora. – A primeira coisa que você precisa fazer é ficar calma – disse Barata. Contei todos os sacrifícios que eu tinha feito nas últimas duas semanas. Sentado ao meu lado. – Em duas semanas? – perguntei – impossível! – Em uma semana – disse Barata. Já estavam um pouco abaixo dos ombros. voltando meus olhos para o chão. me disfarçar de Maria e ir fazer as provas no seu lugar. Não pude deixar de rir. Não consegui deixar de sorrir também. 105 . Descrevi qual era meu grau de conhecimento atual sobre tudo o que dizia respeito ao Jogo. agora é um pouco tarde para dizer isso – eu falei. Barata segurou a minha mão gentilmente entre as suas. naturalmente – porque você vai precisar usar a outra para revisar matemática e música. passando a mão no próprio cabelo – eu daria um jeito. mais sentia pena de mim mesma e mais forte eu chorava. – Prometo que vou resolver esse problema – ele disse – você não se sairá mal nas suas primeiras provas.A Era do Folhetim Expliquei-lhes detalhadamente a situação. tornando-se ligeiramente cacheados conforme cresciam. como se lhe requisitasse que não piorasse ainda mais a situação. – Meu cabelo já está um pouco mais longo – disse Barata. Pelo menos em Castália não havia aquelas regras sobre penteados. Está bem? Ele me deu um sorriso bondoso. Finalmente Barata estava deixando seu cabelo crescer. Barata fez um gesto para Boaventura. E quanto mais eu falava. contrariada. – Tem certeza que você conseguiria imitar meu black power? – perguntei. – Mas deixemos essa alternativa como último recurso – sugeriu Barata – primeiro vou tentar te ajudar no seu estudo. Tudo em vão. – Se fosse assim tão fácil! – exclamei. abanando a mão. Nem que eu precise colocar suas roupas. Quando terminei. – Bem.

use essa primeira semana apenas para estudar latim e teoria musical. – Vamos fazer o seguinte – disse Barata – vou medir o seu nível e preparar um plano de estudos para que você cumpra ao longo dessa semana. Ele abriu uma gaveta. E eu disse. – Não adianta – eu disse – não sei absolutamente nada. mais fácil fica aprender os seguintes – ele explicou – porque você começa a entender a lógica da coisa. – O seu problema não é não saber nada – disse Barata – é que você desiste antes mesmo de tentar.. foi? – ele perguntou. – O seu conhecimento de matemática é bom – ele informou – você não vai precisar revisar. E. Barata pareceu satisfeito. – Me dê mais cinco minutos – disse Barata. – informou Boaventura. Escreveu algumas frases em latim e pediu para que eu traduzisse.Wanju Duli Cobri o rosto com as mãos e gemi. traçou algumas pautas e posicionou as notas musicais. 106 . Na próxima folha. – Você não pode estar falando sério – eu disse. já são dez horas. falando em lógica. – Mais ou menos – respondi. concordei. Tente dizer qualquer coisa que lhe vem à mente. Até que eu cheguei no meu limite. – Você não precisa saber cálculo para jogar o Jogo de Avelórios. então não se preocupe. – Não adianta – eu disse – nem sei dizer qual é esta clave. Na segunda semana vou te passar alguns problemas do Jogo para que resolva. ele desenhou uma clave. – Quanto mais idiomas você aprende. Pelo menos não os jogos para principiantes. Ficamos nisso por uns quinze minutos. Como resolvi rápido.. ele foi aumentando gradativamente o nível de dificuldade. pegou um pedaço de papel e lápis. Eu já ri antes de começar. – Não sabe? – ele tentou disfarçar a própria surpresa – era clave de dó.. Não sabia mais resolver as próximas questões. – Barata.. – Não foi tão difícil assim. Tem algumas palavras semelhantes ao português. Nesse caso. Pode ser? Sem escolha. Sua base é forte e isso é o mais importante. Ele me deu alguns problemas fáceis de matemática para resolver. Esqueça a matemática.

eu tenho certeza. Fiz o que ele disse.A Era do Folhetim Ele escreveu num pedaço de papel os títulos de alguns livros. Não está adiantando nada! – Isso é o que você pensa. Meus professores sabiam demais. Eu te encontro na biblioteca às oito da noite para avaliar o seu progresso. Confie em si mesma. A segurança que Barata me passou me deixou tranquila. Barata me encontrou e mostrei a ele os resultados. Persista. – Desculpa te incomodar. Infelizmente. Aquele cara não existia. Também tinha sido assim naquele dia que fizemos sexo. Então os mais 107 . Ele iria colar os picotes de folhetim e tornar a compreensão do texto possível. iria estudar junto com você e te ensinar tudo o que precisa saber para essa primeira prova. Um dia. – Tem certeza que sabendo isso eu vou me sair bem? – Sim. – Retire esses na biblioteca – ele disse – estude-os a fundo amanhã. Você nunca sai igual de uma aula. À noite. – Não é um incômodo. Eu sinceramente não entendia a relação entre o latim e a música com aquele monte de hieróglifos incompreensíveis que os professores explicavam nas aulas. Retirei os livros na biblioteca e estudei-os em todos os intervalos das aulas. Se ele dizia. mesmo que leve tempo. Se eles dessem aulas muito fáceis. Mas eu confiei no que Barata disse. Além do mais. você vai começar a entender. – Mas eu não entendo nada nas aulas. isso iria prejudicar os estudantes mais adiantados. Finalmente tive uma noite de sono tranquila. e assim saberemos como prosseguir para a próxima etapa. devo faltar? – Não falte – recomendou Barata – o tempo que você tem será mais do que suficiente. com alegria. mesmo que pense que não adiantou nada. Se eu tivesse tempo. eu acreditava. eu também estou maluco estudando para meus próprios exames. – Imagina. – Se eu faltar algumas aulas terei mais tempo disponível para estudar – eu disse – então. estávamos falando das Grandes Escolas de Elite e não de aulas quaisquer. o máximo que puder. – Muito obrigada! – eu disse.

Era fácil distinguir quem era estudante oficial de Cela Silvestre e aluno ouvinte. Isso não significava que me formar em Cela Silvestre me garantiria um emprego caso eu desejasse voltar para minha velha vida. Isso era feito provavelmente para que o exclusivismo fosse mantido e o ganha-pão estivesse garantido.Wanju Duli atrasados. Raramente os alunos ouvintes faziam perguntas. Pagar por um curso do Jogo tornou-se símbolo de status e poder. cursos e Jogos oficiais de Contas de Vidro. ensinar exigindo um preço por ele. No entanto. Os únicos alunos ouvintes que deviam entendê-lo eram os aposentados ricos ou os filhos dos ricos que tinham muito tempo disponível. A maioria que pagava por cursos como esses eram os ricos que obviamente não tinham tempo livre para entender o Jogo a fundo. As aulas dadas em Cela Silvestre eram as que recebiam o maior número de alunos ouvintes. Eu estava inclusa nesse grupo e por isso sempre ficava de boca fechada nas 108 . Somente Castália tinha autorização para ensinar o Jogo. Mas se o Jogo era tão sagrado assim. Porém. por que exigir um preço por ele? Cela Silvestre era a escola que mais era cercada de boatos sombrios e mistérios. Os outros provavelmente tinham receio de fazer uma pergunta tola demais. Por isso as aulas expositivas não eram o padrão. Eram aulas caríssimas para os alunos de fora e precisavam ser de alto nível. pois isso exigiria dedicação. Os professores especialistas no Jogo eram como estrelas. A lógica das escolas de elite era ter um professor exclusivo para te orientar e te passar tarefas do seu nível. deviam procurar os tutores para resolver as dúvidas e alcançar os outros. eles diziam que era devido ao caráter sagrado do Jogo. Alguns diziam que essa escola estava corrompida. porque seu conhecimento tornou-se uma mercadoria requintada para a burguesia. Ou melhor. pois qualquer um poderia dar dicas sobre isso de maneira informal. Eu já tinha reparado isso nas minhas aulas. Digamos que Castália era praticamente sustentada pelas conferências. Cela Silvestre era uma escola diferente de todas as outras. mas quando faziam geralmente eram os idosos ou os adolescentes. livrandoos da concorrência. como eu. pois nós alunos usávamos trajes brancos enquanto os alunos ouvintes vestiam roupas comuns.

inflados pelo seu conhecimento e pelo seu falar difícil. Não que eu fosse contra a existência de uma versão simplificada do Jogo para leigos. e deixavam todos impressionados. as regras dessa versão só poderiam ser desenvolvidas por alguém que estudou o Jogo a fundo. E na hora de explicar o funcionamento do Jogo para os outros. E o que agradava as visitas? Preparar aulas em linguagem hermética. Então os alunos ouvintes voltavam para suas casas orgulhosos. Éramos a elite da elite. Queríamos que nosso brinquedo fosse só nosso. para que cada vez mais o entendimento do Jogo se tornasse privilégio de uma casta sacerdotal restrita de iniciados. Em Roma. Eu saía da maioria delas sem nem mesmo saber qual havia sido o assunto tratado. A aparência era mais importante do que a essência e a didática era sacrificada. As pessoas enxergavam o Jogo dessa forma porque viviam na Idade Folhetinesca e isso era tudo o que essa época lhes permitia enxergar. o tesouro de Castália. Era triste que o ensino de Cela Silvestre estivesse seguindo o estilo da Era do Folhetim. De qualquer forma. eles agiam como Carlos: posicionavam bolinhas de gude no chão em círculos concêntricos. faça como os romanos. Mas tendo tantos alunos ouvintes. seria legal se essa versão existisse. recitavam uns poemas enquanto trocavam as bolinhas de lugar. Aquela era uma visão extremamente superficial e incompleta do funcionamento do Jogo. 109 . acho que isso era inevitável. e aquelas aulas não eram mais do que um teatro para a maioria dos que os ouviam. Pareciam realmente não desejar que ninguém mais entendesse as regras do Jogo a fundo além deles. fingindo que entenderam tudo. Porém. certo? Mas ali a coisa se invertia: Cela Silvestre mudava seu estilo de ensino propositalmente para agradar as visitas. fazendo gestos complicados. E a maneira ideal de protegê-lo era enchê-lo de hieróglifos gradativamente mais complexos. tratando de temas dificílimos. Na verdade. eu não acreditava que seria do interesse de algum dos senhores de Castália que tal versão fosse criada. contando que assistiram a uma aula maravilhosa. Os professores de Cela Silvestre pareciam cheios de si.A Era do Folhetim aulas.

mas ele estava me quebrando esse galho porque eu era covarde e não tinha coragem de admitir para minha professora que havia entrado para Cela Silvestre completamente despreparada. Desde essa reforma. mas os especialistas acham que esse preço a pagar foi pequeno: que a nova notação é de fato mais eficaz. pois teriam que começar a estudar a nova notação a partir do zero. Perguntei isso a Barata. Em compensação. Não foi assim com você? Exato. Teria sido muito mais fácil ir para as escolas de literatura. como se dissesse “Até parece que ele tem tempo de respirar agora que deixou este mundo para ser uma existência exclusiva do universo da música”. impressionada – preciso ter aulas com ele. Ela abarcou um maior número de problemas. Uma semana depois. Barata deu um risinho. Mas eu sabia que meu caminho era outro. perdemos alguns jogadores assíduos. – Ele devia ter vindo para nossa escola – prossegui – ele já sabe tudo! Passaria em todas as disciplinas sem dificuldade. Barata apontou uma seção do livro que segurava: – Essa é a nova edição. Toda noite a gente se encontrava na biblioteca e ele fazia ligeiras alterações nos meus estudos para o dia seguinte. eu comecei a notar que o plano de estudo que Barata me passou estava funcionando. Por que ele escolheu o caminho mais difícil? – Porque as pessoas não escolhem um caminho por ser mais fácil ou mais difícil – disse Barata – elas fazem o que acham que deve ser feito. – É uma pergunta difícil de responder – disse Barata – o objetivo da nova notação foi resolver algumas problemáticas que não eram possíveis de solucionar com a notação anterior. Ele também me mostrou que constava o nome “Miguel Navarro” entre os colaboradores do livro. Teoricamente. a nova notação realmente deixou o entendimento do Jogo mais difícil. Muitos inclusive ficaram aborrecidos com essa mudança. 110 .Wanju Duli Eu estava muito curiosa para saber se a notação musical desenvolvida por Navarro havia sido criada com o objetivo de facilitar ou complicar. – Cacete – eu disse. era minha professora quem devia estar me dando aquela ajuda. Já consta a nova notação. independente do que seja.

Eles não queriam um especialista em folhetins. Teoricamente. No fim de semana eu também tinha aulas. Boaventura abriu a porta para mim. eu ainda não conhecia meus veteranos. Eu nem queria pensar que um dia eu também teria que chegar naquele ponto dos estudos. Era por isso que todos pensavam mil vezes antes de optar por estudar lá. Além do mais. porque eu sempre via o Boaventura se matando de estudar uns negócios tenebrosos. Eu não me lembrava se nossa combinação de encontros incluía os fins de semana. Eu nunca tinha conversado direito com o Boaventura. Mesmo assim. Teria sido um processo um pouco doloroso se eu já não estivesse acostumada. Reparei que nas minhas aulas havia alguns estrangeiros. Tudo à mão. 111 . – Ele está ocupado agora. que soubesse o básico de cada uma das áreas requeridas. porque não usávamos máquinas de lavar. Era exatamente isso que o Jogo tentava evitar. Também aproveitei aquele sábado para lavar minha roupa acumulada. E ele saiu. Eu deixaria para me entreter com isso depois que meu período de sufoco com as provas passasse. após estudar um pouco sozinha fui visitá-lo no dormitório dele às nove da noite. Falando nisso. era do interesse de Cela Silvestre que cada jogador tivesse estudado uma área diferente na escola preparatória. como reação máxima à Era Folhetinesca. mas ele andava ocupado demais com os estudos de astronomia. Por isso. mas daqui a pouco vai te receber. mas menos. Aí sim eu passaria a prestar atenção nos meus colegas e professores.A Era do Folhetim Um estudante do Jogo poderia ter qualquer tipo de background e seria inviável construir um plano de estudos padrão que funcionava para todos os casos. Todas essas questões tornavam o processo de aprendizado do Jogo difícil. Barata não foi me encontrar na biblioteca naquela noite. A única coisa que eu já sabia era que havia pessoas de todos os tipos: desde os insuportáveis até aqueles que eu pagaria para bater um papo. ele era meu mentor em Cela Silvestre. para enriquecer as possibilidades da construção dos Jogos depois. E eram poucos os que aguentavam até o final. porque ele era um cara de poucas palavras. o que me dava mais tempo livre para estudar. deu para cansar. mas profundamente sobre nenhuma delas.

– Não sabia que vocês ainda. com aqueles longos cabelos revoltos e embaraçados de quem tinha acabado de sair de uma foda selvagem. Achei que o pessoal só fazia essas coisas nas escolas preparatórias. eu me cansei de esperar por Barata. Eu sempre me sentia nervosa na frente da Dani. pois a gente já tinha transado uma vez. – O que você quer? O mesmo rosto inexpressivo de sempre. Eu precisa usar todo meu tempo disponível para estudar. Não houve resposta. Era a Dani. Como ela conseguia ser tão perdidamente incrível? E não era somente sua beleza. Você não tem medo de ser excomungado? Ou vocês estão namorando? – Será que a gente pode ir direto ao assunto? – Barata me interrompeu – você tem alguma dúvida nos seus estudos ou só quer que eu prepare seu plano de leituras para amanhã? 112 . Quando bati pela segunda vez. o tom de voz dela me indicou que ela não gostou muito de ser incomodada. Não adiantava. então não podia perder tempo esperando por ele sentada numa cadeira. Se bem que às vezes essa sua suposta maravilhosa atitude beirava à má educação. então uma conversa assim poderia gerar distrações para ambos.. Conhecíamos o corpo um do outro. Ela estava enrolada num lençol. Quando me aproximei. Com uma expressão de quem estava de saco cheio..Wanju Duli Vinte minutos depois. Mas não era Barata. Aproveitei a oportunidade para entrar no quarto e falar com meu novo mentor. Achei o gesto um pouco súbito. se viam. – Desculpa não aparecer hoje – ele disse – a Dani arranjou um tempo para nos vermos e nos encontramos de última hora. ela saiu do quarto e entrou no banheiro. Barata cobriu-se com o lençol. – Preciso falar com Barata – eu gaguejei – vai ser bem rápido. Fui até o quarto dele e bati na porta. Ela estava mais linda do que nunca. mas sua atitude. Ele deu um sorriso amarelo. Porém. então qual era o problema? Se bem que ele estava de pau duro. um minuto depois alguém atendeu.

Ele devia estar realmente puto comigo. Eu me desculpei mil vezes. Quando eu vi Dani abrindo a porta. – De nada. não existia sistema de ensino perfeito e nunca iria existir. Mas acho que até ele tinha seus limites. que parecia a pessoa mais relaxada do mundo. Ele não devia ter gostado muito de ter sido interrompido no meio do sexo. Quando eu disse isso para Barata. que era tão ridícula que ele me esclareceu em meio minuto. Ele não sorriu.A Era do Folhetim Era uma das primeiras vezes que eu via Barata levemente aborrecido. – Deixa pra lá – ele disse – eu também fui um pouquinho rude com você ontem. Ando muito ocupado e estressado. mas agora vejo que não é bem assim – observei. Era óbvio que Castália não era nenhum paraíso de sistema pedagógico. Ele apenas passou os olhos no que eu tinha feito no sábado e devolveu meu material. Normalmente ele teria respondido cada uma de minhas perguntas com a maior sinceridade e paciência do mundo. É melhor que passem a tornar o processo de seleção dos estudantes mais rigoroso em vez de massificarem o sistema de ensino outra vez. No domingo à noite. tinha seus momentos de estresse com os estudos. Então até ele. Cacete. me sentindo uma completa imbecil. – Obrigada. – Ultimamente há muitos alunos e poucos professores – explicou Barata – e só aceitam professores em Castália que tenham se formado nas escolas de elite. – Eu tinha ouvido falar que os estudos nas escolas de elite respeitavam o ritmo de cada aluno. Saí do quarto de fininho. Eu tinha uma pequena dúvida de latim. De qualquer forma. E não era para menos.. Principalmente por ser com a Dani. Barata apareceu na biblioteca. Após mais um minuto ele fez algumas anotações no meu caderno indicando quais seriam minhas atividades do dia seguinte. Barata era tão gentil comigo e eu estava abusando. ele respondeu: 113 . Ainda continha muitas injustiças e distorções.. eu devia ter pedido desculpas e me mandado de lá.

– Você não disse a ela que era uma ajuda temporária? – perguntei. pode ser que até pegue exercícios prontos desse livro. Aquilo soou quase como uma profecia. 114 . – Ela deixou bem claro que eu devia escolher entre você ou ela. Ele já fez isso uma vez. – Resolva esses e depois mostre para Boaventura. vamos parar por aqui essa sessão de estudo de latim e música. Ela não está gostando muito dessas nossas combinações diárias regulares. Você também pode conseguir as provas antigas com os veteranos. E eu fiz minha escolha. Eu disse para a Dani que esse seria nosso último encontro. a escola de matemática. Você já sabe que existem dois tipos de jogos possíveis. então vou te indicar alguns livros com exercícios. Parecia divertido. – Voltando ao seu plano de estudos. – Por que Boaventura? – Porque infelizmente a partir de amanhã não poderei mais ser seu tutor. Só não podemos nos estagnar com a ilusão de que encontramos a solução ideal. por exemplo. em Planvaste. Eu não guardei as minhas. É suficiente que você tenha essas noções gerais por enquanto. para que ele possa comentá-los e te dar dicas. Se ele estiver com preguiça de preparar uma boa prova. Minha intenção não era que você entendesse muito sobre essas duas áreas em uma semana. Castália nunca pode perder sua capacidade de transformar-se. Até sei qual autor ele gosta. Barata levantou-se e retirou um livro de uma prateleira. Entregou-me. Nessa segunda semana você irá resolver alguns problemas do Jogo. Mas eu sei que o professor Junqueira prefere os jogos psicológicos. Então eles estavam mesmo namorando. O que funciona em Cela Silvestre pode não funcionar. Ele pegou o livro outra vez. – Como exercícios de matemática ou física? – perguntei. Dei uma folheada.Wanju Duli – Não há uma única solução certa que irá funcionar em todas as instituições. deu uma olhada e marcou os exercícios mais importantes. o que seria uma meta irreal. Para os jogos formais é mais importante a objetividade. – As soluções são mais amplas e subjetivas – explicou Barata – a não ser nos casos em que é especificado o contrário. pois qualquer coisa que não muda mais apodrece e está fadada à destruição.

– É como compor uma música ou um poema – ele explicou – é possível escrever um poema belíssimo com muitos erros de gramática. Ele parecia estar com muito sono. você também peca na estrutura frasal e em tantas pequenas minúcias que se fôssemos analisar individualmente uma de suas jogadas para eu apontar todas as correções possíveis. Ele analisou minhas respostas uma por uma.. então eu não vou discutir com ela. captar a proposta geral. mas elegante. ela não tem o direito de controlar a sua vida desse jeito – argumentei. – Eu gosto do seu raciocínio – elogiou Boaventura – eu diria que sua solução para esse problema não é muito prática. fiquei bem satisfeito com o resultado. mas por outras razões. quando você dominar o básico necessário. levaríamos o dia todo. – Ela tem peitos maravilhosos. mas são coisas pequenas – ele disse – em geral. Se bem que vê-lo com sono não era novidade. ele iniciou seus comentários. Eu o via com olheiras desde a escola preparatória. era Boaventura quem me aguardava na biblioteca. Mas que você tem o que mais importa: o espírito. Mas 115 . Ela dá voltas desnecessárias. – Há alguns erros. – Um especialista diria que há incontáveis problemas técnicos. Aquele foi o maior elogio que ele poderia me dar. Mas digamos que seja. No seu caso. Se um cara inteligente como Boaventura estava curioso sobre meu Jogo. eu aceitava o elogio. do jeito que Navarro havia me recomendado. Quer dizer que você nunca jogou? – Eu já escutei muitas velhas transmissões de rádio de Jogos antigos na internet – expliquei – e antes mesmo de entrar para as escolas de elite eu já tinha lido tudo sobre o Jogo que encontrei por aí. Estou muito curioso para saber como serão suas jogadas no futuro. Após analisar minhas resoluções. inconscientemente. bela? Senti-me orgulhosa.. Então minha resolução do problema não era simples e pragmática. Eu nunca soube exatamente como se jogava. – Técnica se resolve com o tempo. O espírito não se ensina. mas acho que consegui. No dia seguinte. Parecia sincero.A Era do Folhetim – Mesmo que ela seja sua namorada agora. é o de menos. – É um bom argumento.

Wanju Duli
eu não acho que fazermos algo assim seja necessário, pois aprimorando
sua base você mesma vai se corrigir com o tempo.
Ele me deu um alerta. Os professores de Cela Silvestre eram
extremamente conservadores. Muitos deles iriam me criticar duramente.
– Há professores tão obcecados com a primazia da técnica que não
olharão para mais nada. É melhor você se preparar: eles vão te atacar de
forma tão feroz que poderão tentar destruir o seu espírito; talvez até um
pouco por inveja, mas principalmente pelo orgulho que sentem de sua
autoridade e seu estudo. Não permita que façam isso.
Como o mais importante para aquela prova seria a técnica e não
tínhamos muito tempo, ele disse que ao longo daquela semana nos
ateríamos a esse aspecto. Mas que, passado o período das primeiras
provas, ele poderia jogar comigo para fazer meu espírito voar. Se não
estivesse muito ocupado. Eu desconfiava que ele ia acabar amarelando.
Então ao longo dos meus estudos em Cela Silvestre eu seria como
um pássaro engaiolado.
– Você ainda terá que permanecer um longo tempo dentro da gaiola,
mas não deixe que isso te faça esquecer que você tem asas.
Fiquei totalmente sonhadora com aquelas palavras de Boaventura.
Por um momento achei que ficaria desapontada porque perdi Barata
como tutor. No entanto, Boaventura explicava de um jeito tão bacana
que eu já estava aguardando ansiosamente para nossa lição do dia
seguinte.
Nunca imaginei que eu iria me divertir tanto resolvendo aqueles
exercícios. Antes eu achava que fazê-los seria a parte mais chata, mas eu
finalmente começava a entender um pouco a alegria de Sônia ao resolver
problemas de matemática e seu aborrecimento em ler livros. Ler as
análises das jogadas dos outros nunca era tão emocionante quanto ser a
protagonista da história e jogar.
Até o dia das minhas provas, eu estudei com afinco. Cheguei a perder
algumas horas de sono para tentar bolar uma solução original para um
problema do Jogo particularmente complexo. Ou melhor, complexo para
meu nível, já que estudantes mais avançados certamente teriam chegado
a uma solução melhor que eu num tempo muito menor.
Após passadas minhas primeiras provas, eu me sentia mais tranquila.
Finalmente eu começava a adquirir confiança no meu potencial para ser
116

A Era do Folhetim
uma jogadora de Avelórios. Por um momento, pensei que não tivesse
jeito para isso e que não seria capaz de aprender. Era incrível a
transformação pela qual eu havia passado em apenas duas semanas.
Agradeci muito aos meus dois instrutores.
– Viu só? – Barata sorriu – não era tão impossível quanto você
pensava. E a maior parte disso foi mérito seu. A gente só deu um
empurrãozinho.
Para a minha surpresa, até mesmo meu estudo nas duas primeiras
semanas não tinha sido uma total perda de tempo. Por um lado, foi
melhor que eu tivesse tentado me virar sozinha no começo, pois eu nem
sempre teria um ajudante para resolver todos os meus problemas. Eu
também precisava aprender sozinha como estudar e pesquisar.
No entanto, eu fiquei muito chateada quando recebi as notas. Achei
que eu tivesse me saído bem, mas os professores foram extremamente
rigorosos nas correções. Era como Boaventura havia alertado: os
comentários beiravam a crueldade.
Não havia sequer um elogio sobre as minhas resoluções. Só foram
apontados os defeitos, de forma bastante fria e objetiva.
Resolvi conversar com o professor Nicolas Junqueira no final da aula.
Estávamos somente nós dois na sala, pois aguardei que todos saíssem.
– Senhorita Santa – disse Junqueira, no seu tom sério habitual – a
senhorita não está mais no jardim de infância. Não espere que nós
elogiemos os rabiscos dos seus desenhos. Pois é exatamente isso que a
sua prova é: como uma criança que segurou um lápis pela primeira vez e
ainda nem sabe escrever seu próprio nome. Acho bonito que os
professores incentivem as crianças para que tenham fé em si mesmas,
mas isso você já devia ter resolvido lá atrás.
Eu tinha mais coisas a dizer, mas esse pronunciamento dele me
deixou sem fala. Eu apenas agradeci em voz baixa e saí da sala
imediatamente.
Normalmente, eu teria ficado irritadíssima. Mas eu tinha apenas um
sentimento de vazio, que não era nem tristeza e nem fúria.
Por um instante pensei que Boaventura estivesse apenas exagerando
quando me alertou sobre os professores. Eles se esforçariam para me
destruir. De todas as formas. Eles queriam que restassem somente os
fortes, capazes de aguentar críticas mordazes.
117

Wanju Duli
Barata e Boaventura compreenderam completamente quando relatei a
situação.
– Eu não ligo mais para o que o Junqueira diz – falou Barata – ele faz
isso com todo mundo. Não leve para o pessoal.
– É impossível não levar para o pessoal! – exclamei, indignada – ele
me tratou como um verme. Ele me deu nota 3 na prova!
Barata sorriu gentilmente.
– Eu sou um pintor e Boaventura é um músico. Estamos
acostumados a receber críticas o tempo todo. Se fôssemos desabar cada
vez que alguém critica nosso trabalho, já teríamos desistido de tudo há
muito tempo. Lembre-se: a sua habilidade de jogadora não te define
como pessoa. E nem seu conhecimento de literatura. Isso é apenas uma
pequena parte do que você é. E você é muito mais do que seus
conhecimentos.
– Sou apenas um verme... – eu repeti, debilmente.
Barata me deu tapinhas na cabeça, como se eu fosse um cachorrinho.
– Sempre que precisar que alguém te trate como uma criancinha do
jardim de infância, lembre-se que nós dois estamos aqui – disse Barata.
– Ei! – exclamei – isso não foi muito legal de dizer.
Mas nós três rimos juntos depois disso.
Em breve, eu me sentiria muito contente com minha nota 3, pois
descobriria que seria minha nota mais alta do primeiro ciclo de provas.
Eu fiz três provas ao todo. A do Junqueira foi a que me saí melhor.
Tirei 2,5 na prova do professor Fábio Peixoto. E 1 na prova da
professora Rebeca Fragoso.
– Um! – eu exclamei, sem fôlego – eu tirei um!!
Nem mesmo no colégio eu já havia tirado 1 numa prova.
– Veja pelo lado bom – disse Barata – pelo menos não tirou zero.
– Espero não precisar chegar nesse grau de otimismo – observei – eu
não sou uma Pollyanna!
– É como diria Shakespeare – lembrou Barata – o lado bom de
morrer hoje é que você não precisará morrer amanhã.
– Que merda, cara! – eu disse – esse tipo de pensamento é como
chegar ao fundo do poço.
– Espere para ter aulas com o Alvim e você descobrirá o que
realmente é o fundo do poço – sorriu Boaventura.
118

A Era do Folhetim
– Eu tirei zero na minha primeira prova do Alvim – informou Barata,
orgulhoso – então, se você conseguir tirar meio ponto na primeira prova
dele, prepare-se para subir num carro alegórico e ser ovacionada por
toda Castália.
Meu queixo caiu. Eu nunca imaginei Barata tirando zero numa prova.
Ele era inteligente demais para isso.
– Pensei que você fosse um gênio no Jogo – observei – você sabe
tanto!
– Não existem gênios no Jogo de Avelórios – opinou Barata – todo
mundo apanha. Até os professores.
Eu realmente não fazia a menor ideia onde tinha me metido.
Mas agora já era tarde. E agora que a coisa tinha chegado a esse
ponto, eu não permitiria que os professores me fizessem de palhaça. Eles
deviam ficar rindo depois de dar aquelas notas.
– Tirar esses lixos de notas faz parte do ritual de tornar-se um
jogador de Contas de Vidro – sugeriu Boaventura – no futuro você
também vai rir disso e se recordar com saudades.
– Esse futuro ainda está meio longe – observei – primeiro preciso
sobreviver aqui dentro para que o futuro chegue.
Então era esse o jogo dos professores. Era como uma guerra. Eu não
iria baixar a cabeça.
O professor Junqueira era extremamente aterrorizante: alto, com sua
barba repleta de fios brancos. Parecia um sábio, um eremita. Eu não
pretendia discutir de novo com ele tão cedo. Eu iria permitir que ele
ganhasse essa batalha, mas na próxima prova dele eu me mataria de tanto
fazer exercícios de jogadas nos livros da biblioteca. Preencheria uns
cinco livros de exercícios. Meu objetivo no próximo exame seria tirar
pelo menos um 4. Sim, minhas expectativas já estavam bem baixas.
Velhos tempos em que eu tirava nota máxima nas minhas leituras nas
escolas preparatórias. Senti que aqueles tempos jamais voltariam.
No caso da aula de Peixoto era algo meio subjetivo: interpretação de
símbolos. Enquanto os problemas das provas de Junqueira continham
descrições escritas e, vez por outra, diagramas para análise, as provas de
Peixoto continham um monte de desenhos. E tínhamos que descrever o
que simbolizava um leão verde perto de um Sol ou qualquer coisa assim.

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Aos poucos vai descobrir que é comum povos que não possuem contato nenhum atribuir significados parecidos aos símbolos. – Isso significa que os símbolos possuem significados intrínsecos ou que a mente humana atribui valores às coisas mais ou menos da mesma forma? – perguntei. ele “tinha certeza” de que minha nota melhoraria no próximo exame. Até me deu um sorriso e disse que ele tinha que seguir o regulamento e não poderia subir demais a nota dos alunos. Ele não foi tão cruel assim com seus comentários sobre minha prova. Sendo assim. não se tratava de apenas sentar-se na posição de lótus e permanecer nela o maior tempo possível. O Peixoto era relativamente jovem para um professor de Castália. especialmente em Cela Silvestre. fui perguntar. Com exceção de apenas um. E eu. Apenas me mandou ler uns vinte livros e. Eu bem que merecia mais um ponto na minha prova por tê-lo escutado por tanto tempo! Até que o professor Peixoto era legal. A disciplina em que tirei nota 1 era um pouco perigosa: meditação. – Não é subjetivo – disse Boaventura – você precisa estudar o simbolismo dessas imagens em diferentes povos. 120 . entre risos. – Que tal perguntar isso para o professor Peixoto? – sugeriu Barata. idiota. Deu um discurso dos infernos! E provavelmente teria continuado a falar pelo resto do dia se eu não tivesse conseguido dar uma desculpa e sumir de lá antes disso. Mas aos poucos as abstrações eram reduzidas praticamente à geometria. depois de lê-los. Não era fácil conseguir um cargo poderoso como aquele. senão os que não comiam e dormiam mais para estudar ficariam brabos. Porém. ele definitivamente não era o Magister Ludi. os Magisters obtiveram seu cargo com não menos de 45 anos.Wanju Duli Parecia mais um exame sobre a interpretação de símbolos alquímicos. Descobri que ele tinha apenas 35 anos. Mas ele não calava a boca! Ele amava tanto seus malditos símbolos que não conseguia deixar de compartilhar esse amor com todos ao seu redor. Em toda a história. Ele me segurou na sala por duas horas para responder a merda da minha pergunta.

Era tudo feito à moda antiga. Embora estívessemos passando por um período com muitos estudantes. Estabilidade financeira estava longe de ser uma questão preocupante para nós. Costumava ser o conteúdo de um livro que tínhamos que ler para a aula seguinte. especialmente as que davam mais conforto ou praticidade. comprar uma casa. devíamos ler bastante sobre ela em diferentes livros de história da arte e escrever um longo ensaio para entregar. Se fosse um famoso problema de matemática. nem mesmo para arquivar os livros da biblioteca. formar uma carreira. adquirindo profissões importantes como a de professor ou pesquisador. Ou apenas um poema que devíamos analisar profundamente e ler os comentários. as profissões de maior status eram geralmente as que geravam um produto. éramos proibidos de usar internet para a pesquisa. os axiomas de Euclides ou os teoremas de Fermat. que lá possuíam um enorme status. Se fosse uma pintura. enormes e resistentes. O nosso medo era outro: que um 121 . era exatamente aquela que possuía o status máximo. devíamos pesquisar as diferentes soluções já propostas. ninguém estava com pressa para se formar logo para trabalhar. Muito antigos. teoricamente a profissão mais inútil possível. Aliás. Contudo. A população de Castália não costumava aumentar muito. No mundo lá fora. que não gerava produto nenhum. Ninguém se importava se esse processo demorasse mais. Foram feitos com excelente material no passado e precisavam de poucas reformas. O raciocínio era que devíamos pesquisar em livros o máximo que conseguíssemos sobre o tema selecionado. Só que em Castália era o contrário: ser jogador de Avelórios. E eventualmente sempre havia os alunos regulares desistentes. Digamos que podia ser qualquer coisa: uma música. Digamos que nossa pressa em concluir os estudos era principalmente porque queríamos subir na hierarquia de Castália. Afinal. não precisávamos de mais prédios em Castália: nossos prédios eram práticos. uma pintura. um problema de matemática. como curar pessoas ou construir prédios. Por exemplo. um carro e ter filhos.A Era do Folhetim A professora normalmente nos dava um tema para meditar. Em geral. ganhar dinheiro. não havia internet ou computadores em Castália. muitos eram alunos ouvintes que logo se cansavam.

Era bastante comum que os castalianos chegassem aos cem anos. Tínhamos médicos. ajudaria se estendesse um pouco mais os prazos – sugeri. Porém. Basta se organizar. Tínhamos nossas próprias plantações e não comíamos as porcarias lá de fora. é a minha exigência que gera em vocês mais conhecimento. 122 . É bom que aprendam desde cedo a montar um calendário de estudos. Belas palavras. mas doenças não eram algo recorrente em Castália. nenhum de vocês está aqui para ganhar dinheiro. Era incrível como a expectativa de vida dos habitantes de Nova Castália era muito superior ao resto do Brasil. – A exigência que peço de vocês não devia ser fonte de estresse e sim de alegria – ela disse – afinal. em que os médicos eram como sacerdotes dos templos de Asclépio e em geral só recomendavam repouso e algumas ervas. – Se a senhora não pretende diminuir a exigência. Até onde sei. o que chamavam de “desmaterialização progressiva”. Mas na prática não era bem assim que funcionava. Como nos alimentávamos bem.Wanju Duli dia o número de alunos que saísse fosse muito maior do que aquele que entrasse. As doenças crônicas eram particularmente raras. mas pelo puro amor ao saber. nosso sistema imune ficava forte e doenças só nos alcançavam raramente. se ela não parasse com suas provas exigentes. Dá tempo de fazer tudo num dia. serão ainda mais ocupados – ela disse – e terão que realizar múltiplas tarefas. envelhecendo com saúde e com suas faculdades mentais quase intactas. meu nível de estresse passaria do limite e minha saúde seria prejudicada. Também havia quem dissesse que a existência da espiritualidade forte de Castália era outro fator relevante. tínhamos uma vida cercada pela natureza e de pouco estresse. Quase como no tempo de Galeno. – Quando vocês se tornarem professores ou pesquisadores. A prática da meditação era tão forte e feita por tantos em Castália que a professora Fragoso também não parava de apontar seus incontáveis benefícios para a saúde. Por isso costumávamos dizer que nossos habitantes não morriam de doença. mas de velhice quando já estavam em idade bem avançada. Estava claro que nossa alimentação e nosso estilo de vida eram a resposta. Eu disse isso a ela.

Precisávamos percorrer as prateleiras. – Então você não está se esforçando – disse a professora – eu disse claramente para que não meditassem nem de manhã cedo e nem tarde da noite. como a meditação em pé. copiaria e colaria uns textos. Não era tão simples achar o que procurávamos nos livros. tínhamos que copiar todos os trechos à mão. – Mas fora desses horários eu estou em aula! – Há os horários das refeições. Caso o aluno tenha problemas médicos. Meditar com a barriga roncando não era meu estilo preferido de meditação. outros tipos de meditação são possíveis. Às vezes eu só medito meia hora ou fico com muito sono para fazer isso. seja ele físico ou psicológico? – perguntei. como eu pedi? – ela perguntou. eu apenas digitaria no Google. já que não para de se mexer nem mesmo numa meditação de 1 hora.. ou eu só conseguiria visualizar comida. – Eu só não entendi porque eu tirei 1 na prova – observei – eu me esforcei tanto.. – Eu só troquei a posição das pernas porque estava com cãibra – argumentei – vou perder nota simplesmente por não ter resistência suficiente para manter a mesma posição? – Isso é algo que se adquire com treino. Depois. Você também pode dividir o tempo e meditar meia hora antes do almoço e meia hora antes da janta. pois não tenho tempo de meditar todos os dias. – Só quando posso. Era realmente trabalhoso. acrescentaria as referências no final e acabou. abrir cada exemplar e checar os capítulos até encontrar. – Há quem prefira meditar por 7 horas seguidas no domingo – disse a professora – mas você naturalmente ainda não chegou nesse nível. Pelo menos não enquanto estão recém aprendendo. deitada ou andando. 123 . – Você está treinando uma hora de meditação diária.A Era do Folhetim Particularmente a disciplina dela me tomava muito tempo. Se fosse no colégio. Você tem problemas médicos? Eu fiz que não. Mas a nossa pesquisa nas bibliotecas tornava tudo mais longo. pois isso evita que durmam. – E caso eu fosse hiperativa ou tivesse outro problema que me impedisse de permanecer sentada por muito tempo. pois não havia nenhum sistema de busca por títulos e palavras.

Se bem que meu problema não era apenas preguiça. o objetivo de nossa meditação não era o êxtase meditativo e nem mesmo algum tipo de iluminação. as aulas de meditação avançadas nos preparavam para o Jogo de Avelórios. Nas suas aulas intermediárias de meditação ela usava outras técnicas. praticamente sem se mover. Porém.Wanju Duli – É esse o seu caso? – Não. Muitos dos que tinham mais experiência em meditação não usavam a lógica e o lado esquerdo do cérebro para auxiliar na alteração de estado de consciência. Era servir de auxílio para o Jogo das Contas de Vidro. Ela nos dava temas para meditar porque dizia ser mais fácil para os iniciantes. Eu sou professora de meditação há muito tempo e vejo o progresso dos meus estudantes. não deixava de ser um instrumento de auxílio. Ela também era professora de Yoga. É algo que a maior parte das pessoas pode adquirir com treino diário constante e disciplina. Ela conseguia ler meu corpo muito melhor que eu mesma. pois o cérebro aprendia naturalmente os caminhos e já sabia para onde ir sem precisar desses truques. Era uma mulher magra e bastante atlética. Ela ocorria espontaneamente. Diziam que ela era capaz de meditar por dias a fio. Se eu não treinasse. Costumava dizer que a função mais elevada da Yoga era dar resistência ao corpo para que ele aguentasse as longas meditações. A resistência física e psicológica para meditar não é um dom divino para poucos escolhidos. Ela não era boba. Fragoso tinha uns 50 anos. – Então o seu problema é meramente falta de treino.. Mas elas só iam chegar se eu deixasse de ser preguiçosa e treinasse uma hora diariamente. meu corpo ia mostrar isso. de certa forma. Portanto. como instruir que o aluno prestasse atenção num ponto fixo diante dos olhos ou na respiração. Por um momento. Mas isso também. fiquei sem argumentos. Sendo assim. até o nosso jeito de meditar era único. Ela conseguia ver através de mim. Era cansaço e falta de tempo.. E pelo seu pouquíssimo progresso nas últimas semanas eu pude ver com clareza que você simplesmente não está treinando o bastante. Eu tinha muita coisa para estudar e muitos afazeres 124 . Eu mal podia esperar que essas aulas chegassem. mas.

enquanto outros realmente achavam que o Jogo de Avelórios era um entretenimento tolo para o qual se dirigia atenção além do conveniente. Só que eu possivelmente havia perdido Gio e Navarro para sempre. – Sugiro que você curta esse início de aulas enquanto ainda está fácil – disse Boaventura. Não era fácil cuidar da plantação. Descobri que ele era famoso por lá. Estavam mais atarefados do que eu. Ele analisou uma por uma. o instituto de filologia das línguas antigas. Por causa do Sol. Não demorei muito para encontrá-lo.. Usávamos grandes chapéus nessa ocasião para nos protegermos.. – Muito engraçado – eu disse. Rodrigo e Navarro. resolvi ir com o chapéu de palha de abas largas. fosse em tom de respeito ou em tom de desprezo. Minha roupa branca ganhava ainda mais destaque em meio a todos aqueles estudantes de marrom.A Era do Folhetim domésticos. Nós comíamos comidas saudáveis. assim como os trajes de Rodrigo. Tive que dar uma boa caminhada debaixo do Sol. mas perdíamos um tempo absurdo por semana cuidando da terra. Ainda tinha esperanças de que alguma parte dele ainda estivesse no meu mundo. Então só me restava visitar Rodrigo em Keuperheim. Eu suava com aquele Sol forte. para o mundo da filosofia e da música. E eu pensando que teria um período de descanso após as provas. O problema era que nem Barata e nem Boaventura teriam tempo para me ajudar dessa vez. eram marrons. – Ô Magalhães! – um cara o chamou – tem uma mina aqui que quer falar com você! Os trajes desse estudante. Mostrei para Rodrigo minhas três provas com notas horríveis. Assim eu ficava bem protegida. colhendo. já teria que começar a estudar para as recuperações. Eu conhecia três especialistas no Jogo das Contas de Vidro: Gio. Com aqueles mantos brancos e aqueles chapéus de palha pontudos e de abas largas parecíamos poderosos feiticeiros. 125 . Um estudante de Cela Silvestre nunca passava despercebido. As pessoas olhavam. Teria sido relaxante se eu não estivesse derretendo de calor. Alguns que olhavam torto podia ser por inveja. plantando.

tente aumentar ao máximo sua nota. você terá que aprender a amar o Jogo de Avelórios tanto quanto já amou um bolo de chocolate. os professores veem diferença entre um zero e um 5. O pior era que havia bibliotecas com muitos livros de literatura em Castália. Mas estava meio perdida sobre o que fazer para as outras duas disciplinas. Sem filmes ou bolos. Eu estava ansiosa para ler um pouco de qualquer coisa. Isso não significa que você tem que baixar a guarda. – Se você tentar decorar tudo rapidamente. 126 . não há nenhuma dessas coisas aqui para competir com sua nova potencial paixão. E para ter energias para estudar tanto. Embora não pareça. pelo menos na área da gramática. A “fórmula mágica” é estudo diário. Para a sua sorte. – Não tem nenhuma fórmula mágica para que eu aprenda essas coisas rapidamente? – perguntei. Só que havia uma tentação muito mais poderosa: a literatura. Eu estava ansiosamente esperando que passassem minhas provas para que eu pudesse retirar um livro de literatura da biblioteca. Se apenas decorar sem entender e o fizer só quando tiver provas. O importante era que eu estava avançando. perder-me na história e relaxar. logo não restará mais nada em sua mente. Mesmo que você não consiga um 6. é claro. também vai esquecer rapidamente – disse Rodrigo – é assim que funciona na Era Folhetinesca. – Dessa vez só vou ter uma semana para estudar – eu disse – será que ainda tenho salvação? – As recuperações geralmente são mais fáceis. eu poderia direcionar meus olhos para o Jogo. um filme ou um amante. e conseguiu ver meu progresso em apenas um mês. Eu tentaria separar pelo menos umas 2 horas por dia para meditar ao longo daquela semana. constante e aprofundado. mesmo que fosse lentamente. Ele conhecia meu nível. mesmo que um Aldous Huxley ou uma Jane Austen. – Apenas faça o que você vem fazendo – ele disse – exercícios de Jogos e estudos de símbolos. Fiquei contente por isso. Isso tornava a vontade ainda mais poderosa.Wanju Duli – Até que você se esforçou – foi seu comentário.

haveria novas provas! Então. assim que a literatura subisse o vestido e me mostrasse sua coxa sensual. E talvez fosse sofrer ainda mais se eu realmente quisesse me tornar uma jogadora. Além do mais. Eu não iria resistir. Eu até que me divertia resolvendo os exercícios. Eu teria confiança para bolar jogadas inteligentes na frente de todos? Às vezes parecia que eu era a única que não entendia as aulas. eu desistiria dele na primeira oportunidade. mas é preciso ter vocação para dedicar-se a ela. fitavam o professor com atenção. quando eu poderia ler de novo? Finalmente eu entendia Gio e Navarro. se eu me dedicasse à literatura. eles não queriam perder tempo com ele. Aguentava ler muito. provavelmente seria apenas uma jogadora medíocre. Achei que eu tivesse sentido esse chamado para o Jogo. por muito tempo. Eu estava duvidando novamente da minha vocação para o Jogo. Enquanto eu lutava para me manter acordada. Não é preciso ser super inteligente para aprender uma área do conhecimento. Mesmo sendo tão bons no Jogo. até ali os estudos sobre o Jogo pareciam meio sem sentido. Pois eu lia com naturalidade. Meus colegas faziam perguntas. mas depois broxava completamente com as notas. Porém. Mas por que a literatura continuava me chamando e confundindo meu coração? Se minha paixão pelo Jogo das Contas de Vidro não aumentasse. E. Mesmo os livros de literatura de autores chatos eram mais divertidos do que ficar sentada de pernas cruzadas sem fazer nada. faziam anotações. depois de mais três semanas. Eu não gostava de meditar e não queria estudar símbolos. prestar o mínimo de atenção e entender de que raios eles estavam falando naquele dia. Se eu fosse uma jogadora de Contas de Vidro. Vocação significa uma espécie de chamado: mesmo não sendo tão bom naquilo. Eu queria poder voltar a ler meus livros de ficção. eu tinha chance de ser uma das melhores. as dificuldades inerentes ao Jogo eram um obstáculo.A Era do Folhetim Só que eu teria que postergar esse desejo por mais uma semana. perdia-me nos livros por horas 127 . Afinal. Eu sabia que iria sofrer pelos próximos anos até aprender tudo o que precisava. seu coração sente que é o que deve ser feito.

E Barata e Boaventura.Wanju Duli seguidas sem nem ver o tempo passar. Confessei que duvidava da minha capacidade de ser jogadora. E comecei a falar de todas as minhas preocupações e inseguranças. Disse que amava mais os livros de ficção. – Você parece com pressa – ela observou – diz coisas como “nunca mais vou poder ler na vida” e outras coisas do tipo. Pelo visto. Tinha uns quarenta e poucos anos. Ele também não teria tempo de ficar me ajudando diariamente. Estudar o Jogo era chatíssimo! Eu só estava fazendo aquilo pelo status que o Jogo representava! Será que já não estava na hora de eu parar com a farsa e ser sincera comigo mesma? Minhas notas não mostravam com clareza que eu não tinha nem a habilidade e nem a vontade de aprender? Meus amigos foram maduros em não optar pelo Jogo. Tinha cabelos negros e ondulados na altura dos ombros e olhos castanhos escuros. Sentei-me na sala dela. que optaram. além de um desrespeito com as pessoas que estavam realmente doentes. E isso foi tudo. ela deu um leve sorriso. Quando terminei de falar. só o fizeram porque possuíam uma vocação genuína. Falei por muito tempo. Será que já não estava na hora de eu ter uma conversa sincera com a professora responsável por mim? Eu finalmente cedi. Mas meditar era custoso. – Quando somos jovens. Rodrigo me indicou alguns livros de estudo. Você tem alguma doença grave? Só terá mais dois ou três anos de vida? – Que eu saiba não tenho nenhuma doença – respondi – pelo menos nenhuma que seja letal. mas é claro que eu não expressei meus pensamentos em voz alta. Ela se chamava Clara Correia. Seria muito dramático. além da habilidade. Não sei quanto. é comum termos a constante sensação de que nunca temos tempo suficiente para tudo que queremos fazer – explicou a professora – desde a época de colégio sentimos como se nosso tempo fosse roubado pelos estudos e nos agarramos 128 . não era o meu caso. Até ficar lá por meia hora era chato. “Mas gostaria de ter para morrer logo e acabar com essa dúvida e essa dor!” pensei. Disse que estava tendo tantas dificuldades que me sentia mais atrasada do que todos os meus colegas. Parecia ter disponibilidade para me ver e marcamos um horário para aquele mesmo dia.

Eu só o persegui por teimosia. Eu disse tudo isso para Clara. mas parece que você se sentiu atraída para Cela Silvestre e ainda não entendeu bem o motivo. – Você enxerga uma parte sua na literatura. Você está passando por ele agora. que podem nos desapontar. Mas ele é como uma onda: também passa. Essa parte você já encontrou. – Talento não é algo com que se nasce. acha que estaria aqui? Refleti por um momento. Ou meu amor pela sombra do Jogo. Mas. Eu tinha estudado aqueles oito anos pelo meu amor ao Jogo. – Se você não tivesse o menor interesse no Jogo de Avelórios. Pretende desistir antes de desvendá-lo? – Não acho que seja assim – baixei os olhos – o Jogo nunca teve nada a ver comigo. Sequer tinha planos de cursar faculdade se tivesse continuado a viver no mundo. criando e se divertindo? – Eu nem mesmo sei ainda o que é o Jogo – confessei – então como posso amar algo que não compreendo? Eu amo a literatura porque. Mas por que precisamos de tanto tempo livre assim? Para aprender? Para criar? Para lazer? Não podemos buscar esses desejos em outras coisas? Com o Jogo de Avelórios você também não sente que está aprendendo. – As coisas na realidade sempre são diferentes do que esperamos – disse Clara – frequentemente nos deparamos com dificuldades inesperadas.A Era do Folhetim desesperadamente às férias. essas dificuldades somente nos incomodam no momento inicial de choque. mas algo que se conquista com esforço – disse a professora. – Mas para haver esforço tem que haver interesse. Então que tal agora tentar encontrar a parte de você que está escondida no Jogo? Temos partes nossas em muitos lugares. minhas ideias do que ele era. mesmo que partes dela sejam complexas e quase impenetráveis para apreender usando a lógica. Eu não havia entrado nas escolas de elite por causa da literatura. Vejo todos os outros aprendendo o Jogo com tanta naturalidade e facilidade que só posso concluir que simplesmente não tenho talento. pela minha experiência. eu tenho o sentimento de que somos parecidas. Talvez eu o tenha fantasiado demais. Pensei que ele fosse outra coisa completamente diferente do que ele é na realidade. 129 .

E eu me sinto para trás. Hoje em dia. Atrasada em relação a quê? Por que está com tanta pressa? Tem algum compromisso no mundo lá fora? – Estou atrasada em relação aos meus colegas – expliquei – a maior parte deles já entra em Cela Silvestre tendo uma boa base sobre o Jogo. acredite. eu irei acabar com ela – disse Clara – os estudantes me procuram o tempo todo. – E mais uma coisa – acrescentou Clara – pare de se comparar com os outros. Tiram boas notas. tendo que ser cruelmente separado de tudo para agradar os outros. alguns são muito piores que os seus. Será que aquilo se chamava amadurecimento? O meu apreço pelo Jogo ainda era uma paixão quase adolescente. Precisávamos de uma motivação muito forte para seguir a rigorosa rotina diária. Alguns estão aqui porque a família os obrigou a vir. não é mesmo? Mas alguns colegas seus vêm de famílias rigorosas e enfrentam a pressão e expectativa dos pais. Eu não me sentia assim. Eu sequer assisti uma! E eu tirei a nota mais baixa da turma na aula de meditação. – São problemas nos estudos? – perguntei. aquilo não fazia diferença nenhuma na minha vida. já que estava lá porque queria. A vida em Castália não era fácil. Você não para de dizer que está atrasada. querendo seguir outra carreira e com outros planos de vida. com todo tipo de problema. Você imagina como eles se sentem? Tentei imaginar um aluno com namorado lá fora. Algumas com as quais você certamente não tem que lidar. Você morava num orfanato antes.Wanju Duli Recordei-me do meu primeiro mês nas escolas de elite. Eu teria saído correndo de lá apenas pela chance de morder um crepe de novo.. Seria mil vezes mais difícil se a pessoa estivesse lá contra a vontade. As pessoas têm dificuldades diferentes. Sentindo uma falta desesperada de tudo que fazia antes em sua velha vida e perdeu. Sou uma das únicas que nunca joguei uma partida. curiosa. Eu precisava amadurecer aquela paixão e transformá-la num amor sincero: com menos fantasias. Mas aparecem questões de todos os tipos.. – Principalmente. Ninguém é iluminado aqui. E. Mas senti uma grande dor só de pensar. menos desespero e mais amizade. 130 . Eu sentia falta de comer crepe. – Se você por acaso possui a ilusão de que a vida dos seus colegas é maravilhosa.

para que pudéssemos estudar juntos. Que tal tentar fazer amizade com seus colegas? Vai descobrir que eles enfrentam dificuldades parecidas. Fiquei maravilhada com essas palavras. Que ideia brilhante! Logo no final da primeira aula da manhã.8. Em trechos do Jogo haveria memórias de nossos tempos de estudo em Cela Silvestre.A Era do Folhetim – Pelo que me contou. participando com eles de um Jogo oficial. Poderão ajudar uns aos outros. sabe harmonizar sua jogada com a dela. Pela minha expressão calma. – Eu não concordo com esse autor – disse Junqueira. Decidi que no dia seguinte eu conversaria com alguns colegas meus para conhecê-los.75? – Nós arredondamos para baixo – ele explicou – só subiria para 6 se você tivesse tirado 5. a professora entendeu que eu já estava me sentindo bem melhor. Eu a agradeci de coração. A garota deu um risinho cínico. Que sorte! Ali estava minha primeira potencial amiga.5 se minhas respostas somam 5. Grandes amigos são capazes de combinar jogadas incríveis. você fica sozinha na maior parte do tempo – disse Clara – só tem um pouco de contato com seus velhos amigos das escolas preparatórias. 131 . dali uns 20 anos. Concordei. – Pois eu acho que eu merecia nota mais alta nessas duas questões que mostrei ao senhor. vi uma garota falando com o professor Junqueira sobre a recuperação. Veja só como minha resposta é semelhante à do livro. Quem sabe eu pudesse começar conversando com os que pegaram recuperação. – Eu acho que sofri uma grande injustiça! – ela exclamou – por que fiquei com 5. Quando você conhece bem uma pessoa. Imaginei-me com um grupo de amigos e. A amizade é algo realmente poderoso. E saí da sala dela com um sorriso no rosto. Já vi jogos extraordinários nascendo daí. Costumo ver isso com frequência: como a vida dos alunos se torna mais leve quando fazem amigos. – E isso é particularmente verdadeiro para os jogadores de Avelórios. Nós juntos criando um Jogo sublime que relembraríamos para sempre. repleta de esperanças.

– Se você gabaritar a minha maravilhosa prova. mais inteligente que o senhor! – É mesmo? – perguntou Junqueira. Terá que passar pelas doze escolas de Castália vestido de branco e ouro! Meu coração bateu mais forte. aguardando na porta. se eu vencer a aposta você irá desfilar por toda a Castália vestido nos trajes de Magister Ludi. Venerável”. e na frente de toda a turma. você terá que se ajoelhar na minha frente. fora de si. Era melhor eu me mandar. Eu fiquei paralisada. que só era permitido dirigir-se ao Magister Ludi por títulos. “Vossa Grandeza” ou “Domine”. era o Magister Ludi? – Que seja – ele disse. retirou-se da sala passando reto por mim. – Eu vou gabaritar essa merda de prova de recuperação! – gritou a garota. sorrindo também – eu levaria sua opinião em consideração se você tivesse tirado pelo menos um 6 na minha prova. Mas parece que você não é capaz disso com seu próprio conhecimento e precisa ficar mendigando nota. – Feito! – ela rosnou – com uma pequena alteração. – Tem alguma questão a tratar comigo. Até hoje. A garota. eu virei para a aula na próxima segunda-feira com a cara pintada de vermelho – disse Junqueira – mas se você tirar um décimo a menos que a nota máxima. completamente puta da cara. eu era a única que ainda estava na sala. Santa? – perguntou Junqueira. Quase falei: “Não tenho nenhuma questão. sem sombra de dúvida. 132 .. Além dos dois. como “Venerável Mestre”. sem nem notar minha presença. Afinal. Caralho. rasgar o livro do Paulo Almeida e descrever em detalhes o quanto sou superior a ele. Eu não devia estar ali parada escutando aquela discussão.. será impossível para você gabaritar minha prova. ninguém conseguiu. por todos os livros que já lera. despreocupadamente – de qualquer forma. eu sabia. Agora. pode se retirar.Wanju Duli – O Paulo Almeida é um dos melhores autores de livros com problemáticas para Jogos! – ela exclamou – ele é inclusive. a não ser que você desejasse cometer uma terrível gafe e assassinar as normas da boa etiqueta. Em vez de você se pintar de vermelho. Nicolas Junqueira.

Não é todo mundo que aguenta um mês. Eu mesma. mesmo depois de sair de lá. vou falar com ela”. – Parabéns por sobreviver até aqui. ela pareceu gostar de mim. eu apenas fiz que não com a cabeça. – Uma irmã gêmea? – perguntei. Pensei em chamá-la para conversar. – Também peguei recuperação na prova do Junqueira – confessei – que tal estudarmos juntas hoje na biblioteca? – É claro. Ela morreu de rir quando eu disse isso. “Foda-se. A maioria já sai correndo na primeira semana. E o seu? – Sabrina Gonzaga. No outro corredor. Que ótimo! Fiquei super animada. era meu dever usá-los. ainda consegui localizar a garota. – Ninguém consegue ler direito essa merda – ela disse – a maioria só finge que sabe. fiz uma breve reverência e saí da sala. Mas por que aquela garota não os usava? Ela era assim tão insolente? Por fim. decidi. – Acabo de completar um mês de aula. mas ainda estava muito intimidada pela discussão. mas ao conversar sozinha com ele. mas eu entreouvi sua conversa com o Domine. Meu coração ainda estava disparado. ainda não entendo metade do que falam nas aulas. Senti-me mais à vontade.A Era do Folhetim Em público não usávamos os títulos para que os outros não o identificassem. – Pretende mesmo gabaritar a prova? – Não – ela disse – vou pedir para minha irmã fazer a prova no meu lugar.. ou eu estaria sendo extremamente mal educada.. Muito prazer. Apesar da selvageria de sua voz antes. Como é seu nome? – Maria Santa. – Ele não é o Domine – ela me olhou de forma curiosa – você é nova aqui? Era um olhar afetuoso. Você está entendendo alguma coisa das aulas? – Nada – confessei – eu ainda não consigo ler hieróglifos. – Com licença – eu disse – me desculpe. curiosa. aterrorizados. 133 .

O Junqueira costuma basear os problemas do Jogo fortemente na música. Inicialmente. mas nós somos praticamente iguais. Além do mais. nem reparei que foi Bruna quem entrou. A irmã dela se chamava Bruna. Eu me sentei atrás de Bruna e ela colocou a prova para o lado em alguns momentos para eu tentar copiar algumas respostas. Eu torcia para que Bruna conseguisse seu intento. que trouxa! Isso lá era coisa para um professor dizer? Eu sabia que os professores de Cela Silvestre tinha o ego inflado. O professor nem vai reparar. vi Bruna entrar na sala em vez de Sabrina. mas mesmo que Junqueira tivesse dito aquilo apenas para irritar Sabrina. consegui avançar bastante nos estudos naquela tarde. se ela continuasse a me auxiliar pelos próximos dias. Eu já tinha antipatizado com Junqueira desde aquela primeira conversa que tivemos. Vai ter um monte de gente fazendo prova de recuperação na sala. – Ela é muito inteligente? – Sim! Ela estuda nas escolas de música. já que ela não é da nossa escola e nunca participou dos eventos oficiais. ou que pelo menos as dicas de Bruna compensassem. 134 .Wanju Duli – Irmã mais velha. O Junqueira não a conhece. ele tinha dito coisas muito ridículas. eu consegui ver um detalhe ou outro que me ajudou. isso não seria um problema. “Você vai se ajoelhar e dizer o quanto sou superior”. já que o rosto praticamente desaparecia no meio dos cabelos. Com a ajuda de Bruna. Mesmo assim. foi absurdo. com franja espessa que cobria o rosto. Senti que. Elas eram parecidas mesmo! As duas com cabelos negros volumosos. Isso se Junqueira não resolvesse fazer uma prova impossível só para impedir Sabrina de gabaritá-la! Mas se a irmã dela era tão boa assim. mas também é uma exímia jogadora de Contas de Vidro. Temos somente um ano de diferença. Por isso mesmo ficava ainda mais difícil verificar quem era quem. O problema era que aquela não era uma prova de múltipla escolha e não seria tão fácil assim copiar qualquer coisa. Sabrina resolveu nos apresentar. Ela seria totalmente capaz de gabaritar a prova. Eu só torcia para que essa aposta deles não me prejudicasse. eu ainda tinha uma chance real de tirar 6 na recuperação. No dia da prova.

As restantes se espalharam pelo chão. podem vir pegar suas provas. alguns alunos conheciam a identidade do Magister Ludi. Enquanto todos os outros estavam tomados de espanto com a atitude inexplicável do professor. certos alunos ouvintes pareciam que iam ter um orgasmo. Eu e Sabrina caímos na risada. É claro que eu e Sabrina também não perdemos a oportunidade. Meus olhos brilharam quando vi um belo “6” escrito em vermelho. E não me senti nem um pouco culpada. por que eu deveria jogar limpo na aula daquele cara imbecil? Ainda bem que ele não era realmente o Magister Ludi. Jogou a prova de Sabrina em cima da mesa dela. Graças a Bruna! Como não teríamos aula. – Aos demais ignorantes que ficaram de recuperação. Junqueira abriu uma pasta com as provas. ele saiu da sala e bateu a porta com estrondo. Deviam estar tirando fotos escondidos com seus celulares que não eram permitidos em Castália. com força. mas eu vou descobrir! Ele agitou o saco de provas. Após este pronunciamento. Sabrina relatou a eles o que aconteceu. – Parabéns. A maioria olhou-o com respeito e temor. Afinal. menina gênio – ele rosnou – eu não sei qual bruxaria você fez. já que eles estavam em aula. Enquanto isso. Quase chorei de felicidade. Afinal.A Era do Folhetim Era a primeira vez que eu colava numa prova em toda minha vida. Eu tinha tirado exatamente a nota que eu precisava. Segunda-feira era o dia de recebermos as notas de recuperação. ou isso seria o fim do mundo. Pena que eu não poderia chamar Barata e Boaventura. Agora eu não terei tempo de entregá-las e nem de dar aula para vocês porque precisarei dar um passeio por Castália. “Quer saber? Eles vão ter que matar aula para ver isso!” 135 . todos saíram da sala para seguir Junqueira. Quando Junqueira entrou pela porta. mas alguns ficaram perplexos. deixou todos os alunos boquiabertos: ele vestia os trajes com tons de branco e ouro de um Magister Ludi. Aproveitei e procurei a minha prova dentre as que estavam caídas no chão.

– O que o verdadeiro Magister Ludi achou de tudo isso? Barata deu de ombros. Mas foi só um cara caminhar por Castália com os trajes em branco e ouro para todo mundo se mijar de êxtase. Para esses. eu não sabia que isso ia gerar toda essa comoção! – Sabrina disse para mim depois – muita gente finge que não está nem aí pro Jogo ou pra Cela Silvestre. Alguns colegas deles também saíram. acho que não faziam tanta reverência nem mesmo para o papa. fazendo reverência quando ele passava. até que se cansou e retornou para Cela Silvestre. ainda sem saber exatamente o que se passava. a situação nunca ficou completamente esclarecida e as teorias da conspiração logo começaram a surgir. É claro que aquilo deu o que falar.. muitos alunos de Castália ainda apontavam para Junqueira quando ele passava e o fitavam em tom de um respeito quase reverente. gente tapando a boca com as mãos. Pelo menos por uma coisa eu respeitava Junqueira: ele realmente cumpria suas promessas! – Essa foi a coisa mais genial que já vi desde que vim para Castália – Barata confessou para mim. não adiantava dizer que tinha sido apenas uma brincadeira. – Nossa. caramba! Nenhum outro Magister era tratado com tamanha pompa. No entanto. Até um conhecido meu que detesta o Jogo de Avelórios não conseguiu tirar os olhos dele. Mas. Junqueira levou mais ou menos uma hora caminhando entre as diferentes escolas de Castália. Eles achavam que a desculpa da brincadeira era apenas para que eles esquecessem da identidade do verdadeiro Magister Ludi. 136 . Sinceramente. Pessoas chamando os amigos. Posteriormente o pessoal ficou sabendo que tinha se tratado de uma espécie de trote e que aquele não era o verdadeiro Magister Ludi. “eles jamais esqueceriam o que viram”. Aquele foi um dia histórico. Eu disse em poucas palavras o que havia acontecido e eles correram para fora da sala.Wanju Duli Corri até a sala dos dois. segundo os estudantes. sob o olhar de espanto de todos os que o viram.. Por muito tempo. E eu presenciei isso ao vivo.

mas eu duvidava que ele fosse ser seriamente prejudicado. No mínimo. Enquanto imaginei minha vida passada ao longo da meditação. Embora não tenha presenciado. Devíamos criar a história de uma possível reencarnação nossa. Então era alguém que eu conhecia? Ou será que o Magister Ludi não tinha cara de Magister? Navarro também ficou sabendo da história. Que pena. Felizmente. perplexa. eu soube que Bruna contou a ele. 137 . Quando você descobrir. acharia engraçado – disse Barata – duvido que tenha se importado. – Navarro está puto por ter perdido o espetáculo – contou-me Barata – ele não para de dizer: “Por que diabos ninguém me chamou?” Infelizmente aquilo não foi filmado. – Pensando bem. Mas algum aluno ouvinte tirou uma foto que vazou na internet. – Não – respondi. se conheciam. isso tudo deve ter servido para esconder ainda mais a identidade dele – observei – você não vai mesmo me contar quem é? – Espere mais um pouco. Mas eu tirei um 7. Apesar de eu ter conquistado um belíssimo 7 na recuperação de meditação. já que eles eram da mesma escola. E a conversa terminou por aí. não era possível ver o rosto. Era uma espécie de exercício. Eu inventei que fui uma poderosíssima xamã. pois se ele descobrisse ela teria sido expulsa. então não reclamei.A Era do Folhetim – Se eu fosse o Magister Ludi. ele não havia descoberto o truque de Sabrina. Pelo visto. como se nada de anormal tivesse acontecido. A professora ficou impressionada com minha história. aquilo tudo serviu para despertar ainda mais o interesse das pessoas no Jogo. tirei um 5 na disciplina de símbolos. – Você está familiarizada com a biografia de Josef Knecht? – ela me perguntou. já que ninguém tinha celular. Pelo jeito. Junqueira provavelmente foi repreendido pelo que fez. Junqueira deu sua próxima aula no dia seguinte com muita naturalidade. Ainda bem. A professora nos requisitou uma tarefa curiosa para aquela meditação. vai cair pra trás. Mas o mundo não era apenas flores. líder de uma aldeia repleta de mulheres fortes. devido aos meus árduos esforços ao longo daquela semana. Descrevi com detalhes.

não sei porque perguntei isso. posso falar mais livremente sobre isso. Consegui contatá-los apenas recentemente através da minha irmã. E logo para quem eu estava dizendo aquilo. Peixoto me deu um 5. – Já os viu pessoalmente? – perguntei – é coisa limpa ou barra pesada? – Não sei ao certo. – Ótimo. Nesse caso. pois não estudei tanto assim para a prova dele. Comecei a estudar sozinha. baixando a voz. Eu e ela aos poucos nos tornávamos amigas próximas. Você já ouviu falar na “Amor Fati”? Fiquei intrigada quando ela mencionou. embora às vezes eu combinasse de estudar com Sabrina. Pena que criatividade não contava muito ali. Você só faz coisas limpas? Pensando bem. – E o que vocês fazem nessas reuniões é jogar o Jogo de Avelórios? 138 . Sabrina não parecia se importar muito com coisas proibidas.Wanju Duli concentrei-me tanto que devo ter parecido uma estátua. Você já entrou em contato com eles? – Por que eu deveria? – continuei falando baixo – sociedades secretas são proibidas em Castália. Parei de sair por aí como uma desesperada pedindo ajuda. Comecei a inventar um monte de coisas na prova. Mas após os dois primeiros meses de aula. mas não me importo. eu já estava vacinada: já conhecia o estilo de prova dos professores. – Recebi o mesmo envelope – respondi. Tinha sido uma das raras vezes que eu realmente curti uma meditação. Até que foi uma nota alta. Ele deve ter se divertido corrigindo. – Esse é exatamente o tesão de fazer parte de uma sociedade secreta – disse Sabrina – eu queria ter entrado em contato com eles antes. – Eu não devia estar falando disso com você – comentou Sabrina – mas eu recebi um envelope estranho algumas semanas atrás. Devo ter escrito um bando de bobagens sobre os significados dos desenhos. Sabia mais ou menos o que esperar e como estudar. Como me foquei demais no treino de meditação e nos estudos de problemas do Jogo ao longo da semana. – Não conheço a identidade de todos os membros porque comparecemos nas reuniões encapuzados – ela informou. mas não sabia como.

. Apenas tive uma intuição de que me meter naquilo resultaria numa grande encrenca. – Está correto – falou Sabrina – mas para que Castália tivesse o apoio do Vaticano. mas sou louca para saber.A Era do Folhetim – Exato. Você sabe que a Igreja é uma das instituições mais poderosas do mundo. mas achei que fossem relações amistosas. O cara é muito foda. inocentemente. pois também trata de um grupo de amigos que. mas em diferentes linguagens: a da matemática. – Não quero ser parte disso – afirmei. especialmente nos dias de hoje. Eu definitivamente não podia arriscar ser mandada para fora de Castália. nervosa – por que a Igreja proíbe jogadas? – Você já deve ter ouvido falar das relações de Castália com o Vaticano. eu estava me esforçando demais nos meus estudos para simplesmente ser excomungada. como você sabe? – perguntou Sabrina.. – O que esse Jogo tem de diferente em relação ao oficial? Ela se aproximou um pouco e sussurrou no meu ouvido: – Nós fazemos jogadas proibidas pela Igreja. Para onde eu iria depois disso? Minha vida ficaria completamente sem rumo. surpresa – eu não sei a identidade dele. Eu diria que a obra de Boccaccio é ideal para esses encontros. Afinal de contas. sem compromisso. Da última vez começamos com uma passagem do Decameron. a cada noite. Senti um frio na espinha. – Não quer nem dar uma olhada? Posso conseguir permissão para que você participe de apenas um encontro. – Não. da música. contam uma história. – Como assim? – perguntei. – Por acaso o mestre desse negócio é bem baixinho? – perguntei. Eu não era católica e nem tinha medo da Igreja. Senti uma sensação desconfortável. Digamos que nos Jogos contamos histórias. – Eu já ouvi falar. O tom decisivo com que eu disse isso fez com que Sabrina parasse de insistir. tiveram que entrar num acordo. Sabe 139 . – Ué. Relembrei do meu sonho. Aquilo não estava me cheirando bem.

– Que língua estava falando? – perguntei. meio bordô. Mais uma vez. Nunca vi igual. Mas dali um ano ele completaria 24 anos e estaria formado. sabiam até onde ele mijava. Isso importa? Melhor ir direto ao seu assunto. – Ela não quer me dizer. 140 . Navarro me reconheceu de imediato. Só podia ser.. Difícil acreditar que ele ainda era estudante. todos sabiam onde ele estudava. fui até as escolas de música. Você pode me contar? – Não tenho certeza. eu me destacava de branco. O que a traz à minha escola? – Podemos conversar em particular? Ele disse alguma coisa em outro idioma pra outro cara e se afastou. Todo mundo lá sabia quem era Navarro. ele havia “apenas” criado a nova notação musical para o Jogo de Avelórios. Olhar para mim devia gerar neles um tipo de dor. Aquele lugar devia estar cheio de frustrados que queriam ter se tornado jogadores de Contas de Vidro. No outro dia. Especialmente ali dentro. tinham altas qualificações para tal. Foi o Barata quem te mandou pra cá? – Nem sabia que ele também estava envolvido nisso. – Ah. – Não que hoje seja um dia excepcional – corrigi – é sempre impossível falar contigo. Ele havia apenas entrado para a história e era uma lenda eterna de Castália. então você leu minha correspondência.Wanju Duli muito e tem uma personalidade impressionante. Vou conversar com ele antes.. mas eu devia ter imaginado. Meu black power estava ainda maior e era sempre inconfundível. Santa. Lá eles vestiam roupas em tom vermelho escuro. mas foram tentados pela música. Quando perguntei por ele. se duvidasse. – Há quanto tempo. Ora. Deve estar bem ocupado. É claro. onde dormia. – Alemão. principalmente agora que você inventou uma sociedade secreta. recebi vários olhares de reprovação. porque eu estou lotado de coisas. Sabe quem ele é? – Sua irmã certamente sabe. Bem que Gio me avisou.

Pode aparecer. E eu me retirei. – Obrigado pela permissão. – E quem disse que eu ligo? Estou apenas curioso para experimentar algumas possibilidades de Jogo que nunca pude tentar por causa dessas proibições sem sentido. Ele apenas me fitou por um momento. Foi um grande aborrecimento. – Ah bom. – Estranho você fazer alguma coisa apenas pela diversão – observei – não achei que fosse esse tipo de pessoa. Eu não ando muito receptivo a conselhos. então espero que você não insista. Há alguma razão maior por trás disso. – Cuidado.A Era do Folhetim – Vamos nos reunir amanhã às nove da noite na entrada leste. Se meus planos realmente envolvem coisas grandes. – Eu só queria entender – eu disse – por que passar por todo esse risco? É tão emocionante assim desafiar a Igreja? Nem achei que você ligasse para a Igreja. curiosidade – repeti – você não é disso. Obrigada por seu tempo. Apenas desviou os olhos. – Você se tornou um ser tão elevado assim que agora acha que qualquer tipo de diversão é trivial? – perguntou Navarro – estranho isso vir de uma aluna de Cela Silvestre. – Entendi – eu disse – isso é tudo. Ele estava sendo mais sarcástico do que o habitual. porque minha mãe veio me visitar anteontem aqui. – Você é a minha mãe? – Não. Ele não respondeu. – Estou me divertindo – ele respondeu – então não vou parar agora. é evidente que não vou lhe dizer. 141 . – Não estou te criticando – eu disse – pode fazer o que quiser. pois eu não acredito.. Miguel. – Razão maior – ele repetiu – vocês e suas razões maiores. Sabe que corre perigo. pois você não é membro. Não optou pelo Jogo por ser divertido? Não me diga que está buscando uma elevação espiritual. Ele também devia estar estressado com os estudos.. Apenas vista um manto negro e cubra o rosto. – Diversão. – Eu não vim até aqui porque quero participar – expliquei – e sim porque quero te dissuadir dessa ideia.

– Vocês dois conversam sobre muitas coisas? – perguntei. bebendo golinhos d‟água.. Quase como um Lúcifer que. Depois de beber longos goles.Wanju Duli Enquanto estava indo embora. como diria John Milton. Me sinto em paz. Sentei-me na grama ao seu lado e também bebi um pouco. Fiquei em silêncio por um momento observando a paisagem. por causa do Sol forte. Navarro havia voltado a conversar com os amigos. Eu nunca conseguia conversar com ela direito. Devia ser assim mesmo que ele queria. – Nova Castália é assim tão linda porque está cheia dos seus desenhos – eu disse – já tinha visto outros murais. Barata riu. Entreguei a ele. Navarro não parecia ser do tipo que tinha amigos. mas sua simplicidade era adorável.. – Conversei com Navarro hoje.. Eu juro que se eu tivesse essa sua habilidade de desenhar. preferia reinar no inferno a servir no céu. – Não – ele disse – ela nunca fala nada. Talvez fossem alguns dos membros da sociedade secreta ou apenas admiradores. só ia ficar desenhando sem parar e me esqueceria para sempre do Jogo das Contas de Vidro. É óbvio que não vai me ver. – Não fica incomodado com isso? – Na verdade não. mas só agora que me dei conta que foi você que os fez. – Melhor não ficar aqui – ele sugeriu – se a Dani te ver. 142 . A gente só fica junto. Voltei para Cela Silvestre. olhei para trás. Ele estava usando um chapéu de palha enquanto desenhava. Bem que eu queria ver a Dani outra vez. irritada – ela nem estuda na nossa escola. Castália era simples. Vi Barata pintando um mural enorme lá fora. – Obrigado. ele me devolveu. Optou por formar seu próprio Jogo em vez de ser um mero participante do Jogo oficial. Apenas seguidores. Eu trazia um cantil de água na mochila. Não sabia que você estava envolvido com a Amor Fati.. Estava rodeado de amigos e se portava como um líder. – Ela que se foda – resolvi dizer.

Ainda bem que eu gostava do professor Peixoto.A Era do Folhetim – Só estou envolvido porque Miguel me chamou – confessou Barata – pois não estou assim tão interessado.. né? – Alguma vez nós brincamos com outra coisa? Será que era só eu que tinha um mau pressentimento sobre a sociedade? Alguns meses depois. como se estivesse achando ótimo o que tinha acontecido. Ainda bem que Pedro não foi burro de discutir com ela. ela apontava para um aluno aleatoriamente e o mandava falar. Ela já devia ter mais de cinquenta anos. Havia essa professora impressionante. Eu tive que repetir a disciplina sobre o estudo do significado dos símbolos. Ninguém gostava de Pedro. tendo sido também um educador que deixou profundas influências morais em. O nome dela era Cláudia Garcia. Sua expressão era de meter medo. Eu só queria ficar quieta no meu canto. 143 .. Pedro Mendes. – Odeio gênios na minha aula – ela prosseguiu – então pode se levantar e se mandar daqui. – Hoje vamos falar sobre Bengel – disse a professora – quem gostaria de começar? Se ninguém levantava o dedo. Ninguém se atrevia a chegar um minuto atrasado na aula dela ou sair um minuto mais cedo. Seus longos cabelos negros tinham fios brancos. Ela era elegante. caralho. comecei a ter novas aulas. – Cale a boca – disse a professora – não permiti que falasse. Sabrina olhou na minha direção e vibrou. Eu odeio professores que fazem isso. Tinha uma beleza madura... Eu já tinha ouvido muitas histórias sobre ela. a enciclopédia humana. – Johann Albrecht Bengel foi um teólogo luterano nascido em 1687. E saiu da sala. Tinha uma voz grave e penetrante. Um colega meu levantou a mão. Pedro ficou da cor de um tomate. – Mas. O olhar dela se parecia um pouco com o olhar da Dani: fuzilava qualquer um que a fitava. – Eles estão brincando com fogo.

Sussurrei no ouvido dela: – Você é membro da Amor Fati? – Deus me livre! – disse Gio – e que o Diabo também me livre. Mas o Miguel convidou um monte de panacas. – Só fui num único encontro da Amor Fati. que fornica com todas as áreas do conhecimento. Miguel sabe o que faz. Tudo bobagem. E nós duas nos abraçamos. Nos sentamos no chão. Nós saímos do prédio. O Miguel só permite porque no fundo ele curte que eles o adorem como um Deus. Eles estão estragando tudo. Ele é um bom líder e é inteligente o suficiente para coordenar um Jogo elevado e manter a ordem. – Amiga! – exclamei. Giovana? – perguntou a professora. como se eu fosse uma patricinha. – Pior que esse grupo anda atraindo muita gente – prosseguiu Gio – quanto mais os boatos se espalham.Wanju Duli Quando a aula da professora Garcia terminou e a maior parte dos alunos já tinha saído. empolgada. Tem até rumores sobre orgias e evocações de demônios. – Vamos conversar lá fora – disse Gio. – O que está fazendo aqui. Uma droga. – Deixa eu te apresentar – disse Gio. mais gente se aproxima. – Mamys? – perguntei. abraçando a cintura da professora – essa é minha mamãe! Cruz-credo! Ela era filha da bruxa. 144 . Ele anda saindo com uns babacas. mamys – disse Gio. confusa. – Onde tem andado? – perguntei – aquela tal de filosofia é tão quente assim? – É uma vadia – disse Gio – mais puto que ela só o teu Jogo. – O Jogo não foi emocionante? – Foi sim. O problem é o tipo de gente que pisa lá. vi Gio entrar na sala. Definitivamente eu não queria pisar lá. – Por aí – disse Gio – fazem tudo o que ele manda! E se acham os malvados fodões porque estão quebrando regras. – São os puxa-sacos dele? – perguntei. – Só passei para te dar um oi. porque o Miguel me obrigou – explicou Gio – mas achei tudo muito chato. perto da entrada. me puxando pela mão.

– Por que o Barata também dá corda? – perguntei. Durante o dia o Miguel caminha em bando com seus seguidores. em alto e bom som: – Tchau. sem levantar.. – Horrível – respondeu Junqueira – estou aliviado por ter me livrado desse fardo. Gio gritou. ele está posando de Magister Ludi – confirmou Gio – e como ele não mostra o rosto e está sempre de capuz. ou eu também teria me desesperado. – Porque o Arthur é um dos únicos amigos de verdade que o Miguel tem – disse Gio – e escreve o que te digo: o Arthur vai ser o único a defender o Miguel se der alguma merda. – Sim. Eles só fingem que não sabem pra manter a atmosfera de mistério. que havia chegado naquele exato instante. – Uau – eu disse.A Era do Folhetim – O “Magister Umbra” – lembrei.. – Você estão no caminho. E agora. aí sim que o pessoal enlouquece. rindo. Ele sempre fazia uma primeira prova em que todos os alunos tiravam zero. apenas para apavorá-los. Agora ele vivia com um monte de gente ao seu redor. Já sua segunda prova era ligeiramente mais acessível. Estão bloqueando a entrada! Quem disse isso foi o Junqueira. 145 . Quando Junqueira passou. E ele já é famoso sem o capuz. Eu e Gio levantamos. eu finalmente conheci o lendário Gustavo Alvim: o professor conhecido como o mais terrível. podem fazer o favor de sair? – Se pede com jeitinho. Mas no fundo todo mundo sabe quem ele é. pai! Foi bom te ver! Junqueira fez uma careta e seguiu pelo corredor. Na segunda-feira seguinte. – Como foi ser Magister Ludi por um dia? – perguntou-lhe Gio. Todos os outros vão desaparecer quando o circo pegar fogo. Essa era outra coisa que eu tinha presenciado. Ainda bem que já fui para a aula sabendo disso. Levantem daí. – Também não sabia que ele era meu pai? – perguntou Gio. É raro um cara ser da altura do Miguel. – Eu não sei muita coisa ainda – conformei-me.

com uma barba extremamente branca. Os olhos eram cinzentos.Wanju Duli Alvim era um sujeito muito gordo e baixinho. 146 . era uma tarefa homérica. De fato. Mas ele não parecia o Papai Noel. Pedro levantou-se e saiu. Então saia da minha sala. com um brilho meio vermelho. careca. Aposto que a segunda aula será diferente. – Que menino mais inteligente!! – ele berrou. uma cor indefinida. Devia ter mais de 90 anos. – O que foi isso? – perguntou Sabrina – esse cara é mesmo professor daqui? Ou será que é um trote? – Ele é – garanti – mas deve ter dado a primeira aula inteira no idioma do Jogo só para assustar os novatos. Quando fomos liberados da sala. deve ter sido a aula mais longa da minha vida. dessa vez parecendo aliviado. Depois disso. Sua barba branca era bem crespa. Ninguém nunca tinha se interessado em se aproximar o suficiente para conferir. com sobrancelhas longas e brancas. Parecia um demônio de olhos vermelhos. efe-cofe-fifofó! OFOFÓ!!! – Nós já entendemos. Ele tinha belos traços de origem africana na face. Sem escolha. Eu já tinha uma enorme dificuldade em entender qualquer frase naquele idioma. E da vida de todos ali. ajeitando os óculos pequenos na face. Alvim não falou mais em português. Ele prosseguiu falando no idioma do Jogo. – Para quem não me conhece. enchendo Pedro de cuspe – mas eu realmente detesto gênios. sou o professor de hieróglifos do Jogo das Cofefe-cofe-cofe! Ele fez um som estranho que se parecia vagamente com uma tosse. professor – disse Pedro. – Efe-efe-cofe – ele prosseguiu – contas. Com aquelas tosses. com uma voz rouca misturada com acessos de tosses a cada dois minutos. para ajudar – o senhor está falando do Jogo das Contas de Vidro! Alvim aproximou-se de Pedro e o olhou bem de perto. parecia que tínhamos chegado ao paraíso. Parecia estar louca que aquela aula terminasse. mas não era negro: era albino. Sabrina me lançou um olhar nervoso.

Outra professora nova que tivemos foi Liliane Cavalcante. A voz dela era tão meiga e calma que eu senti que dormiria. mas vocês verão que ter uma boa base de aritmética e geometria tornará tudo bem simples – ela disse. Ou seja. Era um completo mistério para mim se ele realmente estava dando uma aula ou apenas falando “Grawlrrgrrgblasrarrg”. Não se tratava de nehuma brincadeira. Foi tão fácil que eu literalmente dormi. baixinha e negra. Só comparecia para contar presenças. a única coisa que Cavalcante ensinou por duas semanas inteiras foi que 1+1 era igual a 2. Mas ela tinha voltado um pouquinho demais nos fundamentos. Então eu deixaria para começar a estudar a partir da segunda prova. isso é um círculo”. como os de Sônia. E. isso é uma linha. Aquela mulher era tão lenta que tudo que ela fazia me dava vontade de pegar no sono. Provavelmente a proposta dela era explicar a geometria euclidiana para alunos de jardim de infância. Todas as aulas dele eram daquele jeito. ela ainda não tinha saído da mesma explicação de antes. Quase não tinha peitos. Estava sempre de bom humor e tinha um ar jovial. E tinha longos cabelos negros em trancinhas. Ela tinha um sorriso muito bonito. Eu nem me estressei. mas antes de ensinar isso resolveu revisar aritmética e geometria. com sua voz suave. Aquela primeira aula dela deixou todos boquiabertos. E assim foram minhas próximas semanas: Peixoto dava aulas exatamente iguais às que eu já tinha assistido e eu me sentia num déjà vu. 147 . até onde eu sabia. pois sabia que tiraria zero na primeira prova como o resto da turma. mas ela aparentava bem menos. ela era nossa professora de astronomia. pois era como se ela estivesse nos ensinando a somar dois mais dois. Muito interessante.A Era do Folhetim Mas não foi. isso é um número. Ela era magrinha. – Astronomia pode parecer difícil. Eu não sei direito o que ela estava fazendo. Quando acordei meia hora depois. “Vejam. Ouvi dizer que ela tinha mais de quarenta anos. Nunca entendi absolutamente nada da aula de Alvim. Ela começou a rabiscar no quadro.

Foi então que eu lembrei da conversa que tive com minha professora. Podia ser que o Jogo não fosse assim tão grandioso quanto eu fantasiava. mas isso não era uma coisa terrível. E aceitar as que não se encaixassem. entre os dois extremos. Aquele ano passou muito depressa. – Sua definição foi perfeita – assentiu Boaventura. Eu não devia ter tanto terror assim perante o desconhecido. eu não deixava de achá-la um pouco irônica. Também há beleza naquilo que não se encaixa. como se estivesse nos tratando como babacas. através de uma sessão de meditação ao sinal dado pelos sinos. – Eles são como dois extremos de uma linha que nunca se encontram – falei. o Jogo não era como eu imaginava. tendo menos como objetivo a forma e 148 . também chamado de pedagógico. Eu não precisava estar sempre no controle de tudo. Barata e Boaventura estavam ansiosíssimos para saber as minhas impressões sobre Alvim e Cavalcante. Não era apenas para isso que eu havia vivido até aquele dia? Feito tantos sacrifícios? Eu tinha um pouco de medo de me desapontar. harmonizar-se com o universo exatamente do jeito que ele era e não do jeito que eu gostaria que fosse. haveria a cerimônia do Jogo de Avelórios. Navarro. As cerimônias se iniciavam na noite da véspera do Jogo. o Jogo era exatamente uma tentativa de não estar no controle: sentir o espírito das contas.Wanju Duli No fundo. Na verdade. Quase como um Tao. Eu finalmente teria permissão de assistir a uma cerimônia pública dos grandes jogos. Sim. Em breve. Aquele seria um jogo do tipo psicológico. que no Brasil era na véspera de Ano Novo. Contemplar a beleza das peças do cosmo se encaixando em vez de encaixá-las à força. seu sorriso era tão sincero que ela realmente devia achar que nós não sabíamos nada daquilo e que sua aula estava ajudando muito a fortalecer nossas bases. fosse para o bem ou para o mal. E eu me localizava em algum lugar lá no meio. Gio e Barata já iam se formar. Porém. Mas antes disso. Por isso meu cérebro não era capaz de processar nem uma aula e nem a outra.

comendo pouco e somente alimentos simples e permitidos. que seriam dois: trechos do “Três Diálogos entre Hylas e Philonous” de George Berkeley e a composição “Fandango” de Domenico Scarlatti. Finalmente. Era minha primeira vez. mesmo que se iniciassem a partir dos mesmos temas e tivessem os mesmos jogadores. Este seria o ponto de partida e daí seria direcionado para a evocação das ideias próximas. A Sombra da Venerável correu a cortina em volta da Mestre. mas eu havia preparado meu corpo e minha mente. todo o recinto ficou em silêncio. somente recitações ou uma combinação de música e recitação. Havíamos meditado sobre o tema do Jogo. a ocasião sublime: a entrada do Magister Ludi vestido de branco e ouro no tabuleiro solene dos símbolos. que entraria numa profunda meditação sobre as representações polidimensionais do Jogo das Contas de Vidro.A Era do Folhetim mais a emoção da perfeição e do divino. Era a primeira vez que eu pisava lá. A Venerável Mestre traçou no quadro o código cifrado do Jogo com seu estilete de ouro faiscante. Se os ouvintes do mundo secular conseguiam suportar. Um Jogo jamais era igual ao outro. eu também conseguiria. Quase não consegui dormir naquela noite. 149 . mas eu mal conseguia pensar nele. aqueles em que somente havia a música. tamanha era minha ansiedade. No fim do primeiro ato evocou no quadro a fórmula repleta das leis intangíveis do Jogo. Viveríamos uma vida de rigorosa abstinência ao longo dos próximos dias. Sabia que estava cercada de algumas das pessoas mais importantes desse mundo e do outro. Todos mergulharam numa profunda meditação no interior da célebre sala oficial dos Jogos. Havia os trechos de silêncio. Após o som dos sinos. Realizaríamos alguns jejuns prolongados. Foram anunciados os temas em detalhes. No dia seguinte pela manhã ocorreria a primeira fase do Jogo: aquela das representações musicais. Seria a manifestação da arte e do creator spiritus. A obra de Scarlatti continuava a tocar ao fundo pelos mais elevados jogadores conhecedores da música. faríamos um voto de silêncio e meditaríamos por longos períodos.

localizavam-se mais ou menos no período Barroco. que começava assim: Quando o cubo e coisas juntas São iguais a um número discreto. Após as demonstrações. Em certo momento houve não somente a recitação. Encontre outros dois números diferentes em um presente. A música agora era “Arcangelo Corelli”: “Vivace-Grave e Allegro do Concerto Grosso em sol menor Op. você vai manter isso como um hábito Que o seu produto deve sempre ser igual Precisamente para o cubo de um terço das coisas. seguido da recitação subsequente do poema de Tartaglia. 6. Tornou-se um coro e ele era cantado pelos mestres eminentes. 150 . Os atores vestiam trajes ao estilo da época. mas não havia problema algum em se retroceder alguns séculos ou se avançar. a recitação passou a ser entoada e transformou-se em outra coisa. mas agora David Hume era cantado mais alto: “Diálogos Sobre a Religião Natural”: somente trechos selecionados que se harmonizassem com a música. tanto as musicais quanto as filosóficas e literárias. num barítono. mas a atuação do poema “La Galatea” de Miguel de Cervantes. O mais importante era ter ganchos que conectassem uma obra e outra. contanto que a harmonia fosse mantida. como se o sabor do tempo não corresse de forma retilínia: não somente um presente eterno. Berkeley continuou a ser recitado baixinho no fundo. havia se partido do período Barroco. O início do Jogo era previamente programado.Wanju Duli De repente. mas ora andavam para frente. ao menos o começo do primeiro dia. que rumo o Jogo tomaria ninguém nunca sabia ao certo. Em seguida. Num momento ideal de “La Galatea”. matemático e plano. houve a recitação da troca de cartas entre Tartaglia e Cardano. Nesse caso. As obras. Contudo. a Magister Ludi dirigiu-se ao quadro negro e passou a dar explicações matemáticas sobre a obra de Tartaglia. ora para trás. Nº8”.

Aquele estudo era preciso. filosofia. no teatro ou em muitas outras áreas possíveis. quanto mais jogadores mais instável o Jogo se tornava. Aquilo era totalmente permitido. Se. havia oito jogadores além da Magister Ludi e sua Sombra. Eu vi a expressão dos outros jogadores quando Peixoto fez aquilo. O fato de haver muitos auxiliava que o Jogo se estendesse por um longo período. a dança. já que o Jogo era produto da atuação de cada um dos jogadores. Ele introduziu um simbolismo no meio do Jogo que tinha relação com o Barroco. Em compensação. Devia-se sempre manter um ritmo. pois nunca se sabia para onde o Jogo os direcionaria. pois o Jogo não podia parar por muito tempo. ou mesmo estudaram explicações de matemática ou física. Nessa ocasião. precisava ser coordenado por um Magister Ludi muito competente. Os jogadores não sabiam de antemão o que o outro ia fazer. de repente. os mestres eminentes previamente estudaram a fundo nos meses anteriores várias obras relacionadas ao período. sua emoção e principalmente seu espírito. cujas características mais importantes não deviam ser apenas ter um profundo conhecimento sobre diversas áreas do saber. Não era como ensaiar uma peça de teatro ou um concerto sinfônico. Era comum que alguns fizessem brincadeiras para se aproveitar disso. com muita graça. mas principalmente ser 151 .A Era do Folhetim Uma vez decididos os dois temas iniciais. O mais parecido com isso era aquela brincadeira de pensar numa palavra com a última letra da palavra que a outra pessoa falou. pois a qualquer momento um deles poderia ter uma proposta ousada que os outros teriam que seguir. Porém. “Seu filho da puta” era o que deviam estar pensando. Eu sabia que o professor Fábio Peixoto era um grande fã de pregar uma dessas peças e pude presenciar ao vivo o momento em que aconteceu. o outro teria que pegar um gancho e seguir com um segundo elemento semelhante. um dos jogadores começasse a recitar um poema de Gregório de Matos. sem falar na música. decoraram trechos longos e inteiros de livros de literatura. história. para que o Jogo mantivesse sua lógica. mas. mudavam harmoniosamente o tom da música para que se encaixasse. Inclusive. mas que provavelmente era de um artista de mais de 500 anos depois. alterando também a recitação. uma cadência bem pensada.

pois nosso corpo estava alterado. mas isso raramente era feito. que possuíam uma gramática própria. Embora nós. mas isso se deveu principalmente ao meu desconhecimento dos hieróglifos. que éramos apenas plateia. Jejuns longos já nos deixa alterados. Elas se encaixam. Meditar também tem forte apelo emocional. Uma das maiores emoções de assistir a uma partida do Jogo das Contas de Vidro era presenciar o momento em que as coisas se encaixavam: mais especificamente. As religiões sabem disso muito bem. nós vivíamos o Jogo.Wanju Duli justo com todos os jogadores e valorizar mais a harmonia do grupo do que o destaque de apenas um. não participássemos diretamente nas escolhas de temas e passagens. Esse Jogo em particular durou seis dias. Por isso Castália valorizava o ideal do anonimato: porque o Jogo de Avelórios era jogado por um grupo e não por uma única pessoa. E ali estavam pessoas que dedicavam a integridade de suas vidas para encaixar as coisas e nos proporcionar aquele espetáculo divino. Depois passaram a durar 10 ou 15 dias. era possível jogá-lo sozinho. consequentemente. Eu não estava acostumada a comer de maneira tão frugal e a realizar meditações tão longas. Era tudo muito bem pensado para nos gerar um êxtase maior do que qualquer coisa que conhecíamos. nosso espírito. pelo menos era requisitada a presença do Venerável Mestre. Antigamente os Jogos duravam longas semanas. Ou seja. A carne eram as diversas áreas do conhecimento e a pele que as cobria os hieróglifos do Jogo. Tudo faz sentido: nossa vida se encaixa com o cosmo. a duração era em torno de uma semana. Sim. Os jogos públicos de Castália normalmente eram realizados por no mínimo três jogadores. as transições de uma música para um poema ou de uma explicação matemática para uma demonstração de química. assim como nossa mente e. Confesso que eu perdi muitos dos encaixes e explanações. geralmente tidas por um grande número de pessoas como inegavelmente sublimes e belas. Depois 152 . A matemática e a música eram como o esqueleto que sustentavam todo o resto. da Sombra e de mais um mestre eminente. Atualmente. Some-se a isso uma série de demonstrações da cultura clássica.

sem mal conseguir caminhar. em todas as suas dimensões. eu me sentia tão cansada que achei que poderia morrer. me dando aquele calafrio. quase caída no chão. Eu estava com uma expressão vazia. eu me sentia mais viva do que nunca. Porém.. Estava consciente de cada pequeno pedaço do meu corpo. Pensei que fosse Sabrina.A Era do Folhetim de passar seis dias naquela reclusão ascética. aquela tinha sido minha iniciação: eu havia rompido a barreira e penetrado em outro mundo. Eu ainda estava num estado de quase desmaio. eu senti mais lágrimas. Mas agora não tinha mais volta. Nem mesmo a emoção que eu sentia ao ler livros se comparava àquele balanço da alma que envolvia meu ser inteiro. fadiga da mente. Ao mesmo tempo. 153 . com voz fraca. sentindo meu corpo inteiro formigando. Ela estava chorando também. O corpo pode esquecer de uma dor. Mas o espírito nunca mais esquece após ser tocado. Eu não seria mais capaz de retornar. Foi quando senti alguém tocar minha mão. Tratava-se de um caminho só de ida. Era como se minha alma percebesse que meu corpo e minha mente estavam falhando. se eu não soubesse que fosse possível. Dessa vez elas vieram como um mar. Não havia mais a mínima dúvida dentro de mim. Aquelas criaturas que eu via no dia a dia fazendo piadas escrotas em aula agora me pareciam Deuses. E ali. como não sentir o espírito? Nós o sentíamos mais forte do que nunca. nem se desejasse. A mente pode esquecer de uma sensação. Quaisquer traços de desconfiança tinham se apagado. O que era aquele sentimento inexplicável? Cansaço extremo do corpo.? – perguntei. E aquele êxtase que eu sentia era minha alma penetrando em cada átomo do meu corpo. Minha mente fervilhava ao contemplar a inteligência daqueles gênios bastardos que eram os meus professores. Confesso que derramei lágrimas de êxtase em diferentes ocasiões ao longo das celebrações. Com a finalização das celebrações. quem me abraçou foi Sônia. Se ao menos eu não tivesse conhecido aquele prazer. Mais do que assistir a meu primeiro Jogo. como se minha alma vazasse pelos olhos.. “Ela está perto da morte. Vamos começar a percorrer seu ser inteiro para levá-la ao outro mundo”. – Que está fazendo aqui. eu poderia retornar à minha velha vida ou mesmo à minha bela literatura.

Em apenas dois meses Barata iria se formar. Foi estranho ouvir a mim mesma outra vez. ainda sem ter certeza se eu me recordava como se ria. Sentei-me com Barata e Boaventura. Nem mesmo eu havia planejado minha vida tão longe. Tomei um café da manhã reforçado no refeitório e já me sentia muito bem. Eu me sentia como alguém que nunca praticou esportes e de repente decide correr uma maratona por horas seguidas: cada parte do meu corpo parecia quebrada. orgulhosa. Não teria nem mesmo pisado nas escolas preparatórias. pois fui a melhor de minha classe – contou Sônia. – Castália será nosso túmulo – eu disse. Ou mesmo se tivesse pisado. – Eu disse que pretendia sair de Castália depois que me formasse aqui – disse Sônia – mas agora decidi que não vou mais. Finalmente. Morarei aqui para sempre. Eu precisava de comida de verdade e de uma longa noite de sono.Wanju Duli Fazia seis dias que eu não usava minha voz. consegui me levantar. já as teria abandonado há muito tempo. – Maldita. – Consegui um ingresso especial para assistir ao Jogo. “Morrerei aqui”. 154 .. Eu ri. então ele queria aproveitar cada momento como aluno em Cela Silvestre. – Obrigada. Pronunciar isso me dava uma inexplicável alegria. Maria. Morrerei aqui. eu jamais teria chegado tão longe. ainda com voz rouca. Ela riu comigo. Porém. Isso era forte. Pensei que eu fosse precisar de umas 15 horas de sono para me recuperar daquela experiência de quase morte. Nos levantamos juntas. Era normal que muita gente fosse discutir o Jogo e debater as jogadas logo depois que ele terminava. – foi tudo que consegui dizer. Se não fosse você. que estavam muito animados enquanto comiam seus ovos com bacon. É tudo que posso dizer. apenas as sete horas habituais já fizeram o serviço. Mas quem fazia isso era quem já jogava há muito tempo. Ter a Sônia ao meu lado no momento mais importante da minha vida era muito mais do que sonhei..

Aquilo continuaria a ser comentado por pelo menos mais uma semana. – Quem era aquele pintor que o Peixoto enfiou no Jogo? – perguntou-me Sabrina. já que o Cantor é do século XIX – disse Barata – e as crianças queriam ficar pulando corda apenas no Barroco e nos arredores. – Digamos que essa intervenção gerou uma interferência. sobre problemáticas de nível intermediário do Jogo. fiz uma breve reverência. na qual se busca uma utópica harmonia densa perfeita.A Era do Folhetim – Vocês viram a cara do Junqueira quando Peixoto fez aquela troça no segundo dia? – perguntou Barata – e repararam que o Junqueira contra-atacou para se vingar? – Eu reparei – disse Boaventura – ele meteu o Georg Cantor no meio. essas coisas são mais relevantes na versão formal do Jogo. Domine – eu disse. Ele fez uma obra bastante realista inspirada no Renascimento. obviamente. – É pior – disse Boaventura – ele detesta o Infinito Absoluto. sorrindo. Essa querela de forma! Eu teria mais uma aula com Liliane Cavalcante em janeiro. se referindo a Peixoto. então disfarçaram. porque ele relaciona o Infinito Absoluto com Deus. Agora eu entendia melhor as expressões de horror dos outros jogadores quando a viram. Mas. – Eu juro que vou acertar aquele peixe com uma vassoura – ela falou graciosamente. Eu não sabia que ele era assim tão bom. que se perguntaram: “Quem diabos é esse pintor?” e ninguém queria admitir que não sabia. Ela estava. 155 . – Peixoto detesta Deus? – perguntei. A Domine deixou bem claro que este era um Jogo psicológico. Quando a vi entrando pela porta. O Peixoto detesta o Cantor. – Magnífico Jogo. E. A pintura deve ter gerado um nó no cérebro de todos os participantes. Dessa vez. sinceramente. colocou a própria pasta na mesa. – Não tenho a menor ideia – eu disse – não há internet aqui e a maior parte das informações dos livros são dos célebres nomes do século XXI para baixo. Posteriormente descobrimos que aquela pintura havia sido feita pelo próprio Peixoto.

cala a boca – disse Barata – não julgue um país por causa de uma única pessoa. É quase como uma guerra entre razão e emoção. Quando fitei Alvim no corredor.. sinceramente. – Eu sei porque você está zangado – Barata sorriu – é por causa daquele amigo do Navarro: Tito Designori. Boaventura fez uma careta. Fazer isso numa cerimônia oficial pública do Jogo era extremamente ousado. Se você continuar falando isso em voz alta por aí. Mas não sei se entendi seu comentário. enquanto na Inglaterra o formalismo é preferido. – Não sei porque o Miguel ainda não o expulsou da Amor Fati – comentou Boaventura. Você considera negativa a influência alemã? – Não é que eu considere negativa – explicou Boaventura – mas por aqui só se fala na Alemanha: os Jogos alemães. – Eu acho que a Nova Castália brasileira é muito influenciada pela sede alemã – comentou Boaventura naqueles dias – o Jogo teve origem na Alemanha e na Inglaterra e os dois países seguiram estilos diferents. o professor Peixoto era um gênio. Por isso até hoje o Brasil foca nas versões psicológicas do Jogo. também fiz uma breve reverência.Wanju Duli Realmente. vai se dar muito mal. enquanto na Inglaterra o foco está na analítica. que quando criança foi pessoalmente instruído pelo lendário Magister Ludi Josephus III. Para isso. num tom de voz ligeiramente mais baixo – esses alemães chegam no Brasil pensando que aqui é tudo festa e não precisam cumprir regras. Eu estava olhando para ele de forma diferente agora. estou de saco cheio. Mas até parece que ele ligava para isso. Só por causa da lenda do Josef Knecht. Eu tiraria meu chapéu para ele.... Eu preferi não me meter na discussão. Basta olhar para a filosofia: na Alemanha e na França predomina até hoje a filosofia continental. ele se encaixava perfeitamente como Sombra. 156 . o Magister Ludi alemão. Pensando bem. tinha abdicado de sua vontade de tornar-se Magister Ludi um dia. – Eu acho que essa divisão entre filosofia continental e analítica gera uma segregação desnecessária – comentou Barata – e essa separação também se reflete no Jogo de Avelóros. – Cara.

É costume que livrarias e bibliotecas sejam rigorosamente vigiadas pelas autoridades em muitos países. – É tão mais legal assim jogar o Jogo das Contas de Vidro incluindo jogadas proibidas? – perguntei. – Index Librorum Prohibitorum – pronunciou Barata – embora formalmente abolido em 1966. 157 . Ainda assim. – Do que está falando? – perguntei. As pessoas só têm olhos para as diversões caras e brilhantes. A Sônia me contou que tinha uma professora da Colômbia e outra de Cabo Verde. Eu lembrava que tínhamos uma professora austríaca chamada Lisa Bauer. mas ainda não havia tido aula com ela. Nem vou falar de certos países islâmicos em que isso já é rotina há alguns séculos. mas o papa recentemente promulgou uma nova versão do Índice dos Livros Proibidos. eu sabia que existia uma xenofobia velada em Castália. Só porque é grátis e acessível ninguém quer saber. Éramos estudantes das escolas preparatórias quando aconteceu e por isso a notícia não chegou aos nossos ouvidos. retornou com alguma força alguns anos atrás. Embora eu pessoalmente não tivesse feito amizade com nenhum estrangeiro com exceção da Mariel. 99 delas forem permitidas e apenas 1 proibida. Preferem até os livros bonitos e cheirosos das livrarias mesmo que tenham que pagar por eles do que retirar um livro amarelo e feio de uma velha biblioteca esquecida. Barata respirou fundo. já que as notícias chegam de forma lenta aqui em Castália. mas o cristianismo não está muito atrás. Não sei se você está sabendo. elas não vão tirar os olhos dessa única coisa. – Cuidado com o que deseja – ele disse – você sabe que livros já foram proibidos e ainda o são até hoje. mofando. – Tenho uma ideia – eu disse – vamos proibir as pessoas de lerem livros! Os livros sempre estão lá de graça nas bibliotecas. a minha antiga tutora das escolas preparatórias que era das Filipinas. a maior parte da população de Nova Castália ainda era de brasileiros. – Você sabe como as pessoas são – disse Barata – se existerem cem coisas para se fazer no mundo.A Era do Folhetim Havia muitos estrangeiros na nossa Castália. O islamismo é a religião que mais cresce no mundo hoje.

– De uma forma bastante heterodoxa e indireta. Pode ser que não toquem em nossos acervos ou nos Arquivos do Jogo. Inclusive. Muitas obras clássicas do passado possuem forte influência religiosa e nós as amamos naturalmente. – Você quer dizer. Não quer que seja promovido o amor baseado na intelectualidade dos seres humanos e sim que se fortaleça o amor entre nós e o divino. Por essa razão. O Martelo das Bruxas renasceu das cinzas.Wanju Duli – O que isso significa para Castália? – perguntei – vão proibir obras em nossas bibliotecas? E o que vai acontecer aos nossos Jogos? – Isso ainda está sendo negociado – disse Barata – o Vaticano está tentando ser razoável. um ano atrás foi feita uma exigência para que nas cerimônias formais dos Jogos da Província seja mostrado um número mínimo de obras com influência católica. são apaixonados pelo estudo. isso já é feito normalmente. – Você está sendo romântica – comentou Boaventura – a Igreja não está interessada em romance. a Inquisição ainda persiste até hoje.. Digamos que os dominicanos representam o lado intelectual da Igreja Católica: eles amam os livros. – Sempre os dominicanos. sem muito esforço. Não sei porque colocar números nesse amor. não é? Eu suspirei. você sabe que os dominicanos estão por trás disso. Ele pretende formar uma força de resistência? 158 . Porém. a Inquisição? – perguntei. – Teoricamente. os inquisidores que compilaram o Malleus Maleficarum eram dois alemães membros da Ordem dos Pregadores: Heinrich Kramer e Jacob Sprenger. eles diriam – falou Barata – mas isso não é o pior. – eu disse. – Calma – disse Barata – é exatamente por causa dos dominicanos que o Vaticano e Castália possuem uma relação tão boa. – O Jogo já promove isso – eu disse.. – Entendi porque Navarro fundou essa sociedade secreta – falei – foi como uma reação ao Tribunal do Santo Ofício. – Essa exigência fere nossa liberdade – argumentei – além do mais. mas por outro nome: “Congregação para a Doutrina da Fé” – disse Barata – sobre ela e o Malleus Maleficarum. muitos deles apreciam a beleza do nosso Jogo.

Era preciso harmonizar os dois: o eu e o outro. Thomas von der Trave. Barata. ele apenas retornaria para a segurança de sua abastada família. Eu estava lendo a biografia do Magister Ludi Josephus III. “por algum tempo”. 159 . estão sempre ardentemente desejando as férias e a liberdade. Após finalizar seus estudos em Castália. No entanto. mas não soube dizer o quanto. mas poucos. E. os estudantes. eu diria que essa seria a coisa mais segura que pode acontecer.A Era do Folhetim – Se as autoridades de Castália descobrirem o que Miguel está tramando. “Algum tempo? Quanto tempo? Ainda falas a linguagem dos estudantes. mas isso não significava que não pudesse ter sua individualidade. Afinal. mas em casos especiais podia ser estendido por alguns anos. Seria uma estrela lá fora e teria uma carreira de sucesso. Navarro e Gio se formaram. já que esse período não poderia se estender além da conta. isso deveria ser discutido com o Magister de cada escola. Com o diploma de Castália que ele estava prestes a receber. Em Castália não éramos apenas uma existência independente: éramos um grupo. Josef requisitou um período maior de estudos livres. as novas diretrizes impostas pela Igreja estavam ameaçando tanto nossa liberdade individual quanto a nossa liberdade como grupo. de fato. como se fôssemos o único ser no mundo e somente meu prazer momentâneo importasse. porque o termo “liberdade” é incrivelmente sedutor. como me disse Sônia uma vez. normalmente dois ou três. Agora eles teriam direito a um período de estudos livres. ele permanecera pelos últimos 12 anos estudando música nas escolas de elite preparatórias e nas Grandes Escolas de Elite. cá entre nós. Normalmente durava alguns meses. Havia um trecho que relatava uma conversa que Josef teve com o Magister Ludi da época. Os jovens. poucos meses depois. ele será imediatamente excomungado – disse Barata – mas. seria aceito como professor de música em qualquer universidade brasileira. acima de tudo. Caso Navarro fosse excomungado. “Vou fazer o que quero”. Josef” Agora eu já podia retirar livros de certas bibliotecas restritas de Vicus Lusorum. Porém. Contudo. ela poderia evitar ser individualista.

– Não se preocupe.. Mais um ano se passou. mais do que pintor agora sou jogador de Contas de Vidro. mas bem que eu gostaria – eu disse – me preocupo com a sua segurança. – Isso é uma ameaça. o 160 . – Não quero ir para a Itália. – Você devia ter ido para a Itália – disse Navarro – para averiguar como anda o processo de castração por lá. No entanto. pensei. eu quase esqueci que “viajar” é considerado um ato muito mundano pelos Deuses de Cela Silvestre – zombou Navarro – é mais divertido continuar escondido na casinha e ser um cachorrinho adestrado da Igreja. – Ah.. – Se você quer ser uma cobra. Por conta disso. Ela havia se tornado papisa há pouquíssimo tempo. – disse Barata – além do mais. Arthur? Você é pintor e pode dar a desculpa que deseja estudar a arte renascentista. Navarro me fitou com o canto do olho. Você está envolvendo outras pessoas nisso”. Ela retornou nos contando como eram os Jogos na Grécia. Seria a terceira cerimônia de Jogos que eu assistiria. “Não é bem assim. nesse ano teríamos uma convidada especial: a papisa Catherine I. tanto Barata quanto Navarro decidiram continuar em Nova Castália. Eu já havia completado metade dos meus estudos e Gio estava de volta. Todos os três recusaram o período de estudos livres e iriam prosseguir em seus estudos. mas Navarro ficou puto. pois eu não me preocupo – disse Navarro – comecei isso porque quero e pretendo lidar com as consequências. Mas não adiantava mais argumentar. Mais um ano se passou. E Barata quis continuar também para apoiá-lo. A teimosia dele não tinha limites. Que tal viajar como informante. Maria? Pretende me delatar? – Não. cuidado para não ser pisado pelo pé de Maria – provoquei.Wanju Duli Gio decidiu que permaneceria na Castália da Grécia por um ano e depois retornaria para o Brasil. que havia sido educada na Ordem dos Pregadores. Eu sabia porque Navarro iria permanecer: por causa da Amor Fati. que seriam o equivalente a um tipo de pós-graduação na visão secular. Porém.

Quando ele me disse isso. senti uma sensação horrível no peito. resolvi meditar sozinha no meu quarto para sentir o espírito daquilo que fora mostrado. Ele estava com suas velhas olheiras. Inclusive havia alguns padres gays e freiras lésbicas que podiam se casar pela Igreja. Sim. Catarina de Siena e Rosa de Lima. Foram nove dias de fervoroso catolicismo no Jogo das Contas de Vidro. Catherine era a segunda mulher a conquistar esse posto. Não parecia ter dormido nada e me fitava com olhar apavorado. já fazia dois séculos que uma porção do clero conquistou o direito de se casar: era uma nova divisão do clero secular. No entanto. O Index e o Martelo das Feiticeiras estavam de volta a todo vapor. Quando as cerimônias do Jogo foram oficialmente finalizadas. – A papisa chamou o Miguel para conversar. Boaventura foi me procurar no refeitório. A presença da papisa na nossa cerimônia me enchia de suspeitas. Estava evidente que o maior interesse daquilo era agradar a nossa singular visita de honra. As referências eram quase que integralmente católicas. É claro que sempre tinham aqueles que ainda preferiam optar pelo celibato. alguns preconceitos ainda persistiam. São Domingos de Gusmão. Além disso. Os homossexuais também já podiam se casar na Igreja Católica. As mulheres e homossexuais já tinham conquistado muitos direitos no século XXIII aos olhos do Vaticano. eu havia me acostumado a meditar. Ela assistia ao nosso Jogo com muita atenção. na prática. Só mudaram a denominação e tradução para “Martelo dos Malfeitores” ou “Martelo dos Hereges”. 161 . Na manhã do dia seguinte. como era o caso dos papas e dos monges que compunham o clero regular. Já fazia mais de dois séculos que a Igreja estava aceitando mulheres como pregadoras nos púlpitos das igrejas e mais de um século que mulheres podiam se tornar papisas. apesar de todas essas conquistas. Antigamente eu me queixava tanto disso e atualmente a prática havia se tornado uma necessidade diária. Afinal. embora ainda houvesse muita luta pela frente.A Era do Folhetim Jogo daquele ano pretendia homenagear figuras como São Tomás de Aquino. já que tanto homens como mulheres podiam ser condenados. Ela também era a terceira pessoa negra a assumir tal posição.

Isso só iria gerar uma excomunhão. com desânimo – tudo que sei é que os dois tiveram uma longa conversa ontem à noite. – Ninguém sabe – respondeu Boaventura. 162 . Ela é uma doutora da Igreja. ele havia quebrado leis sagradas. Tem mais de 80 anos. os pais não podem deixar isso passar assim. Não importava o quão inteligente Miguel fosse e o quão nobres fossem suas intenções. É a representante máxima dessa instituição poderosa que é a Igreja. Ela é uma mulher respeitável. Assim como nós em Castália. Miguel é uma pessoa muito razoável quando se propõe a conversar a sério. Uma coisa era delatá-lo para Castália. Isso encerrou o assunto. muito conhecimento e experiência de vida. história. Outra coisa bem diferente era contatar o Vaticano e contar a respeito do líder de uma sociedade secreta que andava fazendo jogadas proibidas pelo Santo Ofício. mas também é justo – respondeu Boaventura – mas o que é a justiça? Para explicar isso a Miguel. É óbvio que ela entende o ponto de vista de Miguel a respeito das proibições: o motivo de ele fazer o que fez. Mesmo se uma criança desobedece seus pais para ajudar um amigo. Embora não pareça. – Então. Não creio que ele tenha falado o que não devia na frente da papisa.. Sabe das coisas. Maria – disse Boaventura. Devem educar a criança e mostrar que regras são regras e que não se pode agir livremente baseando-se apenas nas exceções. a papisa só precisou pronunciar um único nome: Immanuel Kant.. filosofia. Uma mulher inteligente como ela entende que isso não é mero vandalismo e provocação. tem um conteúdo e um propósito maior. mexendo as mãos nervosamente – mesmo que a papisa quisesse deixar passar. ela não pode. – Não é assim que o mundo funciona. Miguel foi derrotado. ela faz parte de uma instituição maior do que ela mesma. – O Deus deles não perdoa? – perguntei. conhece áreas a fundo: teologia. E esta Igreja tem leis que estão acima da vontade individual da papisa de perdoá-lo. ele não será punido? Perguntei isso por perguntar. Para piorar.Wanju Duli – Quem foi o traidor que o delatou para a Igreja? – perguntei. – Ele perdoa. isso estava acontecendo no coração de Castália.

A Era do Folhetim
Eu ainda me lembrava do eco do que Carlos me disse quando eu
tinha 13 anos e inventei uma bobagem sobre uma tartaruga: “Está
familiarizada com o Imperativo Categórico?”.
– Os mandamentos são absolutos e não permitem exceções – disse
Boaventura – porque são máximas morais. Tanto a religião como Kant
se baseiam no idealismo. O cumprimento de uma lei não tem como
objetivo estender uma vida humana ou gerar mais lazer e conforto para
uma única vida e sim tornar os homens morais. A papisa quer usar
Miguel como exemplo para mostrar o poder de Deus.
– A papisa vai matar o Miguel? – perguntei, assustada.
– Ela não vai matar ninguém. Eu vou repetir: a papisa não faz nada
por amor a ela mesma ou por emoções passageiras como raiva ou
vingança. Ela é a representante de uma instituição. A Igreja coloca-se
apenas como porta-voz da vontade de Deus: “Seja feita a Tua vontade e
não a minha”, não é isso o que dizem? Em Lucas, se não me engano.
Eu nunca tinha lido a Bíblia, então não sabia. Pelo menos não inteira.
Como estudante de literatura, eu tinha a obrigação de conhecer pelo
menos um pouco do que havia no livro mais lido do mundo.
– Então Deus pode matar? – perguntei – Ele pode ir contra os seus
próprios mandamentos divinos?
– Os mandamentos foram feitos para os seres humanos imperfeitos.
O Deus da Igreja coloca-se acima do conceito de bem e mal humanos.
Deus e seus mensageiros podem exercer a justiça divina porque eles não
adoram o materialismo. A Igreja não enxerga o corpo como mais
sagrado que a alma. A carne pode morrer para salvar o espírito e
purificá-lo.
– Miguel é um herege e precisa ser purificado – eu disse, sem
acreditar – apenas porque ele realizou as jogadas proibidas. Afinal de
contas, que jogadas foram essas?
– Maria, você não compreende a visão da Igreja porque foi educada
no paradigma de sua época – explicou Boaventura – nós vivemos numa
sociedade ocidental que inventou os direitos humanos para proteger o
corpo e a mente das pessoas. Os tais direitos humanos são baseados
numa visão materialista da realidade que não considera o espírito.
– Então você concorda com essa merda?! – gritei, fora de mim – vai
permitir que matem o Navarro sem mover um dedo?!
163

Wanju Duli
– Eu não disse que concordo – falou Boaventura – estou apenas
tentando compreender o ponto de vista do Vaticano. É claro que não
vou tentar compreender a visão de Deus, pois é algo acima de mim
mesmo.
– Você acredita em Deus?
– Eu acredito. Você não?
– Não sei – respondi – o Vaticano já foi corrompido por interesses
políticos antes. São seres humanos imperfeitos tentando interpretar um
Deus perfeito. É claro que podem se enganar.
– Qualquer um pode se enganar: um médico, um engenheiro, um
bombeiro. Isso pode gerar muitas mortes que poderiam ter sido evitadas
se fôssemos perfeitos. Mas não somos. Nem por isso a profissão dos
advogados e juízes será extinta. Eles fazem o melhor que podem para
defender e julgar as pessoas com justiça. Os sacerdotes estudam muito
para interpretar as leis de Deus. Sim, cometem erros. Mas os acertos
compensam, pois eles guiam as pessoas para que possam ter uma vida
mais ética.
– Seus valores estão invertidos – eu disse – a vida humana sempre
vem em primeiro lugar. Nada justifica uma morte!
– Nem mesmo morrer para salvar alguém? Engraçado, pois esse ato
geralmente é aplaudido. Inclusive atos mais absurdos que esse são
aplaudidos pela sociedade ocidental, como os heróis de guerra que
matam milhares. Você acha mesmo que os direitos inventados pela
sociedade em que vivemos são assim tão puros? Até hoje há pena de
morte, que é aceita por muitos quando envolve um atentado ao corpo,
como estupro, tortura ou assassinato. Exatamente porque o corpo é tido
como a entidade máxima na sociedade materialista! Então eles matam
aqueles que destroem o corpo, mas aceitam os destruidores de espírito.
– Miguel é um destruidor de espírito, o que o torna pior que um
assassino, torturador ou estuprador – repeti, tentando acompanhar o
raciocínio absurdo.
– Eu não estou defendendo a porra da Igreja! – berrou Boaventura,
completamente alterado – só estou tentando te fazer aceitar essa horrível
realidade que não pode ser mudada. Eu quero te fazer entender, para te
impedir de fazer uma besteira como a que Barata fez.
Eu fiquei sem fala.
164

A Era do Folhetim
– Alguma coisa aconteceu e você está enrolando para me dizer –
concluí – porque estamos filosofando sobre moral agora? Diga logo o
que aconteceu ontem!
– É exatamente o que você pensa – disse Boaventura – Miguel foi
condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Sua pena é a morte pela
fogueira da Inquisição.
– Ele morreu?! – perguntei, chocada.
– Ainda não – respondeu Boaventura – será uma cerimônia pública.
Miguel assumiu sozinho toda a culpa pela sociedade secreta. Nenhum de
seus membros foram incriminados. Porém, Miguel pediu por
misericórdia.
– Ele tem esse direito? – perguntei.
– Ele não sabia se tinha ou não. Apenas colocou a testa no chão e
clamou, aos prantos, para que a papisa poupasse sua vida.
– Essa bruxa não cedeu nem depois de ele se humilhar? – perguntei,
escandalizada.
– Ela disse que o perdoava, mas que ele precisava passar pela
purificação do Espírito Santo, que é pelo fogo.
– Os católicos perdoam as prostitutas, os assassinos, mas não
perdoam os jogadores hereges de Contas de Vidro – concluí.
– Isso porque, na visão da Igreja, existe algo chamado pecado venial e
pecado mortal. O venial é aquele que mesmo que se acumule não se
transforma em pecado mortal. O pecado mortal é aquele que tira a graça
divina da alma humana, rompendo o contato com Deus. Pode-se pecar
contra o Pai ou contra o Filho, mas não contra o Espírito Santo.
– Então, na visão da Igreja, Miguel perdeu sua possibilidade de
salvação – concluí – e se ele se confessar?
– Ele poderia confessar e fazer penitência, mas ele se negou a isso.
OK, agora Navarro estava sendo burro.
– Ele prefere ser queimado do que admitir que fez algo errado? –
perguntei, impressionada.
A teimosia dele estava ultrapassando os limites. Ia morrer por mero
orgulho?
– Como eu disse, ele meteu a cara no chão e chorou, pedindo perdão
– explicou Boaventura – mas mesmo pedindo desculpas, continuou
insistindo que não tinha feito nada que seria digno de repreensão. Além
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Wanju Duli
do mais, ele não reconheceu a doutrina de Deus ou da Igreja diante da
papisa.
– Na prática, ninguém precisa ser queimado, pois basta confessar –
eu falei.
– Não é bem assim. Você não sabe como o ser humano pensa,
Maria? É muito difícil admitirmos que estamos errados. Muitos já
aceitaram a morte por seus ideais. Incluindo Giordano Bruno. O
julgamento dele foi muito longo, durou oito anos. Ainda assim, ele não
cedeu.
– E qual foi a besteira que você disse que Barata fez?
– Defendeu Miguel.
– Não é natural para um amigo fazer isso? – perguntei.
– Sim, mas Barata não precisava ter chegado a esse grau tão trágico
de amizade – disse Boaventura – foi uma idiotice. Antes era só Miguel
que estava condenado. Agora o Arthur também colocou os olhos da
Igreja sobre ele. Eu vou ficar calado e te alerto para que não se envolva
nisso.
Era impressionante. Todos em Castália ficaram mudos. Fossem
membros da sociedade secreta ou outros habitantes de Castália.
Ninguém queria se envolver.
Fui conversar com a Magister Ludi. Cavalcante me recebeu em sua
sala. Ela também parecia um pouco tensa.
– Aquele menino... ele sempre soube da consequência de seus atos.
– Mas, Domine... – eu disse – Vossa Grandeza não tem o poder para
impedir?
– Castália não está acima do Vaticano. É apenas sua irmã mais nova.
– Isso é o que eles dizem. Nós seguimos leis e regras próprias.
Navarro é responsabilidade nossa.
– Castália não é uma Província isolada. Se o Brasil entrar em guerra,
por exemplo, seremos envolvidos. Se não houver dinheiro entrando na
Província, nós não comemos. Se o Brasil entrar numa profunda crise,
Castália pode não sobreviver.
Realmente, não nos encontrávamos numa bolha protegida, longe da
história e da política. A morte de Navarro seria uma coisa pequena
comparada à perspectiva de Castália atravessar uma enorme crise
financeira e passarmos fome.
166

– Por que não vai você mesma? – perguntei – além do mais. – Não queria estar falando contigo. todos sabem que o máximo que seríamos capazes de fazer seria morrer com ele. ele negou-se terminantemente a conversar comigo. Para a minha surpresa. Os dois foram enviados para a Itália. – Você não conhece o Vaticano. Primeiramente. Dani me ofereceu um. Provavelmente seria a primeira vez que teríamos uma conversa que realmente poderia ser chamada de conversa. Até porque. ela também estava chocada. apoiando as costas num muro. Acho que ele não queria que eu lhe jogasse na cara todos os meus alertas. Só podia ter sido com um aluno ouvinte. Eles participariam de um longo julgamento que duraria meses e teriam que cumprir penitência enquanto isso. Até achei que ela tivesse se esquecido da minha presença ou tivesse desistido de conversar. embora não fosse com essa intenção que eu queria vê-lo. Às vezes fumando. ninguém está disposto a morrer por ele. mas com a Giovana. às vezes só parada olhando o nada. No entanto. Eu diria até mesmo que eles vivem num mundo ainda mais atemporal do que 167 . ela está num estado que impossibilita a conversa. Depois de se formar. quem veio falar comigo foi a Dani. Ela ficou em silêncio por mais de cinco minutos depois disso. Porém. Acabei nem conseguindo falar com Barata também. já que Castália ficava longe de tudo. Ela tirou um cigarro do bolso e começou a fumar. mesmo que saibam que ele é uma pessoa incrível e famosa. ela voltou a falar de repente: – Tenho um serviço pra você. Eu precisava falar com Navarro. mas eu fiz que não. dê uma desculpa qualquer e vá até Roma. nos sentamos sobre a grama num local afastado. Lá o tempo se arrasta.A Era do Folhetim Quando conversei com Sabrina. não acho que o julgamento vai durar tanto tempo. – Agora todos conhecem a identidade do líder – ela disse – e. Eu soube que a Gio ficou profundamente deprimida com tudo que estava acontecendo e também se negava a conversar com qualquer pessoa a respeito. Eu não fazia a menor ideia onde ela tinha conseguido aqueles cigarros. Infelizmente.

– Não entendo de teologia – expliquei – e meus conhecimentos de literatura e do Jogo das Contas de Vidro serão inúteis para argumentar qualquer coisa. Mas eu não gostava da ideia de já estar direcionada a um destino que eu nem mesmo sabia se queria. Sinceramente. – Não quer salvar aqueles dois? – ela perguntou. – Por que não vai lá você mesma e salva a vida do seu namorado? – Tenho que fazer outras coisas. Como espera que meus conhecimentos façam alguma diferença depois disso? – Aquele Jogo foi mera formalidade para agradar a visita. Não. É rotina. – A papisa assistiu a um Jogo oficial jogado pelos maiores especialistas. eu não fazia a menor ideia do que ia fazer. Não fui membro da Amor Fati. Eu já sabia o que ela pretendia. Alguns anos de julgamento não significa nada para eles.Wanju Duli Castália. Eu não era uma pessoa tão nobre quanto Barata para aceitar ser queimada com Navarro. Eu daria um curso de Jogo de Avelórios para as 168 . Está certo. eu não queria me envolver com aquilo. Após me formar. – Eu tenho outros planos. em outro lugar. – E que lugar é esse? – Arquipélago de Cólon. – Por que eu? – Porque todos os outros estão ocupados com coisas grandes e você é uma baita desocupada. Depois de me formar. – Não dou a mínima para os seus insultos – eu disse – vou pensar na sua proposta. eu podia pensar a respeito. mas não garanto nada. Como espera que eu os ajude? – Mostre a eles como o Jogo é magnífico – ela disse – e que Navarro estava certo em fazer o que fez. Contudo. se fosse apenas uma visita que garantisse minha segurança. eu expressei meu desejo de visitar um convento dominicano em Milão. Você pode fazer mais que isso. caso não tivesse outros planos. mas admiro o que ele começou lá. eu não tinha.

Eu sentia que estava preparada. Porém. em Castália as coisas não funcionam rapidamente. Meu pedido foi recebido pelo Diretório de Cela Silvestre com entusiasmo. Eu me formei com 25 anos. sempre mostrando a elas meu amor pelo divino e o sagrado. Mas eu não poderia simplesmente incluir as jogadas proibidas nos Jogos. Um abismo ainda maior a transpor do que passar do conceitualismo ao idealismo. Nesse momento. eu teria que tomar medidas drásticas. Consegui a permissão da viagem dois anos depois. Normalmente. que não anda dos melhores desde o caso da sociedade secreta. Teria que preparar tudo de forma sutil e respeitosa. essas permissões demoram anos para que se consiga autorização. Com meu período no convento eu iria perceber que as diferenças entre Castália e a Igreja eram muito mais profundas do que eu imaginava. Não basta pedir permissão para viajar e partir. – Isso é bastante positivo para melhorarmos o relacionamento de Castália com a Igreja. eu finalmente precisaria realizar minha transformação completa numa Southern Belle para cumprir o meu papel de lady de Castália. Se eu realmente tinha intenção de mostrar a elas o poder e o alcance espiritual do Jogo das Contas de Vidro.A Era do Folhetim freiras durante alguns meses. 169 . o processo de julgamento deles continuava. Até que foi rápido. Principalmente porque envolve dinheiro. Eles ainda não tinham retornado. Enquanto isso.

170 . à aquisição de poder sobre os outros e. Não que meu espanhol fosse maravilhoso. da investigação com o ascetismo. É por isso que temos também necessidade de outra educação. incluindo Sabrina. por Hermann Hesse Segundo Kant. de alguma forma. ao arrivismo. conseguíamos nos entender. No máximo. Uma escolha peculiar. Seria minha primeira vez coordenando um Jogo para tantos jogadores: eu e mais cinco irmãs. e que nos submetemos à moral da Ordem. ao narcisismo das vaidades artísticas. Barata e Boaventura. eu já havia jogado com mais duas ou três pessoas. algumas das freiras do convento de Milão sabiam falar espanhol e era através dele que a comunicação ocorria. mesmo que vez ou outra perdêssemos algumas palavras. inglês ou mandarim. Eu arranhava um portunhol e. Mas eram sempre jogos curtos e informais. em nosso primeiro Jogo de Avelórios.Wanju Duli Capítulo 3: O Diabo “Outros séculos refugiaram-se na união do espírito com a religião. sabei-lo tão bem como eu. ao abuso desse poder. Aqui é através da meditação. Felizmente. O Jogo das Contas de Vidro. íamos utilizar “Temor e Tremor” de Søren Kierkegaard. as freiras optaram como um dos temas o livro “A religião nos limites da simples razão”. na sua Universitas Litterarum a teologia era senhora. não para trocar a vida ativa do nosso espírito pela existência vegetativa e sonhadora da nossa alma. mas para pelo contrário sermos capazes dos maiores feitos intelectuais”. o Jogo das Contas de Vidro tem também o seu diabo que o persegue. pela prática dos múltiplos graus de yoga que procuramos exorcisar o animal em nós e o diabo que se esconde em cada ciência. este Jogo pode conduzir a um virtuosismo oco. nessa medida. Além dele. a filosofia teológica seria a lanterna mágica das aranhas do cérebro. Eu não sabia nada de italiano. Não por acaso. no qual eu atuei como Magister Ludi. Ora. além da do espírito.

– Kant também comenta sobre isso no livro que utilizamos para o Jogo – observei – ele aponta os quatro erros transcendentes das religiões. – Fala-se muito que o Jogo das Contas de Vidro é provido de espírito. pois eles acreditam no Filho de Deus mesmo sem que Ele esteja presente entre nós. O que quero dizer é que os milagres não devem ser vistos como essenciais para que se desenvolva a fé. – Sim. sejam essas experiências de fato espirituais ou não. Muitas delas escolhiam “Maria” como seu primeiro novo nome religioso. Nós. então eu preferia optar pela matemática e a gramática como base. eu me pergunto se. Esta sensação que se sente ao jogá-lo. achamos muito mais belo aquele que crê sem ver. é exatamente como diz Kant: os milagres levam à superstição – concordei. por exemplo. pode gerar embriaguez espiritual que levaria ao fanatismo. Devemos amar Deus não devido a experiências de êxtase dos sentidos ou mesmo devido a milagres. sendo o primeiro deles exatamente este. Milagres são uma genuína manifestação do Senhor. chamam-na de êxtase espiritual. ou mesmo gula ou luxúria espiritual – disse Giuseppina – queremos beber cada vez mais desse prazer e erroneamente o confundimos com a experiência do divino. tal como nos aponta São João da Cruz. Nunca fui boa em música. contar suas letras e encaixar essa contagem com explicações de aritmética. Porém. acho que me saí bem. – São João da Cruz os chama de pecado do orgulho espiritual. Quem disse isso foi a irmã Maria Giuseppina. que ele denomina de “efeitos da graça”. Impressionar-se demais com as experiências de êxtase espiritual advindas da prática da oração e dos jejuns. cristãos. mas simplesmente porque é belo amá-lÔ. – Não me entenda mal – disse Giuseppina – não estou dizendo que milagres são falsos. é ainda mais bonita a fé dos cristãos de hoje do que daqueles que viveram na época de Jesus. Se pensarmos dessa forma. não estão a confundi-lo com o que seria na verdade um êxtase dos sentidos. As irmãs pareceram gostar do Jogo e acharam muito curioso o fato de eu selecionar frases específicas dos livros escolhidos. 171 .A Era do Folhetim Mesmo assim.

a religião. segredos. perfeição. aí sim que nossa fé é belíssima. saber o que Deus faz ou fez por sua salvação. ou qualquer coisa assim. elas queriam compartilhar com os outros o tempo todo a enorme paixão que sentiam pela sua área. – Você fala muito sobre a beleza – observei – e o que acha sobre a beleza de nosso Jogo? – Considero uma beleza meio desesperada – confessou Giuseppina – porque os castalianos insistem em tentar extrair um sentido e um segredo do Jogo de Avelórios. que o meu coração crê e ama. E o mesmo raciocínio valeria para a existência de Deus. Na verdade. somente Deus conhece essas coisas: sentido. Nós dominicanos compreendemos o valor de estudar a religião e aprender mais sobre ela através da razão. eu não iria me dispor a discutir esse ponto. Querem desvendar como tudo se encaixa. Ambicionam tocar o cosmo através dele. Porém. pois nós acreditamos nele mesmo sem que Ele exista! Isso sim que são fé e amor puros. pelo rumo que aquela conversa estava tomando. encontrei: "Não é essencial. Porém. numa busca de perfeição. – Tenho certeza de que há um trecho sobre isso no livro – eu o folhei – ah.Wanju Duli Conversar com aquelas freiras me lembrava um pouco das minhas conversas com o professor Peixoto: assim como ele. mas antes saber o que ele próprio deve fazer para tornar-se digno desse auxílio". nem por conseguinte necessário a quem quer que seja. mas creio para compreender. não compreenderei‟”. não procuro antes compreender para crer. eu não duvidava que em certo ponto a freira dissesse: “Se Jesus realmente não existiu. no caso. não se entende Deus pela razão. A fé vem antes. Pois também creio nisto: „se não acreditar. Sobre a existência real de milagres como a manifestação de Deus. E se Jesus existiu de fato. É como diz Santo Anselmo no Proslogion: "Desejo reconhecer um pouco a tua Verdade. Não se deve penetrar nos mistérios insondáveis do Senhor. – Exato. pois era puramente questão de fé. dignos de um verdadeiro cristão!”. sim. E não paravam de dar discursos apaixonados para partilhar esse amor. No entanto. também seria uma questão discutível. – Quem tenta penetrar nos mistérios de Deus cometeu um pecado mortal? – perguntei – foi isso o que meu amigo fez? 172 . pelo estudo da teologia.

que aceitava até morrer com ele. Acho que não adiantava muito perguntar para a irmã o que era o inferno. eu não sabia o que Navarro pensava. E. Confesso que eu não me sentia tão à vontade para me aproximar de Navarro porque ele tinha uma personalidade difícil. quem sabe estivesse mais para Prometeu. mas repetiu muitas vezes. No fundo.A Era do Folhetim Giuseppina respirou fundo. Navarro! Você me meteu numa fria. Navarro não estava muito a fim de fazer algo “pequeno” como se tornar Magister Ludi ou Magister Musicae. para ver se ainda dava tempo de puxá-los da barca do Diabo e salvá-los. mesmo depois de tudo. O único pecado que não podia ser perdoado. Eu não tinha conversado assim tantas vezes com ele. Era uma personalidade que ao mesmo tempo fascinava e afastava. pensei. somente admiradores. Por isso mesmo ele não tinha amigos. um Samyaza. o senhor Miguel Navarro tinha plena consciência do que estava fazendo.. Pelo visto. Enquanto isso. Ou pelo menos um Fausto. – Não se comete um pecado quando não há consciência de que aquele ato é um mal – ela explicou – porém. Não o considerava um amigo próximo. Ele queria ser um Lúcifer. Bem. encaminhando-se para o inferno. A maior parte do que eu sabia sobre ele era o que Barata me contava. eu tinha tomado a barca do Anjo de Gregório de Matos. pois ela provavelmente diria que era outro dos mistérios de Deus. já que ele era sempre legal com todo mundo. Acho que Navarro só teria coragem de deixar o orgulho de lado e se aproximar de alguém tão simpático quanto Barata. E lá estavam os dois juntos em uma cidade não muito longe dali. Provavelmente o único que o aguentava era Barata. o único que afasta o ser humano de Deus e o leva para o inferno. a Dani deve estar observando tranquilamente os tentilhões de Galápagos”. Ele não somente o fez. Isso configura num pecado contra o Espírito Santo. – A vida humana é muito preciosa – eu disse – Deus não nos ama? 173 . não se arrependeu.. “Que merda. contrariada. E que não importava muito saber o que era o inferno e sim agir de forma ética para manter-se longe dele.

Mas se ela continuar eternamente fugindo e escondida. no fundo. E se ela me dissesse algo como: “Sim. Deus quer o melhor para nós e a morte do corpo algumas vezes é a única alternativa para salvar o espírito. Começava a me dar nos nervos quando os argumentos teológicos passavam a ficar circulares. mas nós precisamos abrir nosso coração e aceitar esse amor – ela explicou – o pastor deixará todo o seu rebanho apenas para resgatar a única ovelha que se perdeu. achava que não tinham realizado um mal e que não precisavam se arrepender? Talvez eles desejassem ser mártires. – Deus é amor. Dava apenas a impressão de que ela estava esclarecendo alguma coisa. aos nosso olhos parece contraditório. indignada. “Vocês não vão salvar o espírito dele com uma morte sob tortura na fogueira! Você acabou de dizer que ele cometeu um pecado mortal e está indo direto para o inferno!” pensei. Os atos de Deus são sempre justos e bons. Kant estava certo quando falou sobre as lanternas. Já estaria tudo planejado desde o princípio? – Deus é mais importante que o amor? – perguntei. concordava com Navarro. como o pastor poderá salvá-la? Era uma situação sem solução. mas para Deus esse ato é justo e bom de uma forma que não compreendemos” eu ia ficar puta. mesmo que aos olhos humanos eles porventura possam parecer injustos e maus. A única salvação para Navarro era que eu fosse capaz de convencê-lo a se arrepender. A morte deles poderia enfurecer os castalianos e os incitar a se revoltar contra a supremacia da Igreja. 174 . realmente. Mas se Barata ainda não tinha conseguido isso depois de tantos anos. Por que ele ainda estava lá? Iria continuar ao lado de Navarro até o dia da aplicação da pena capital? E se Barata pretendesse morrer com ele? Faria isso por amizade ou porque. Nós só enxergamos uma pequena parte do todo. se confessar e fazer penitência. como eu iria conseguir? Eu não sabia o que Barata estava fazendo. – Então como Ele pode matar? – O amor que o ser humano conhece é apenas uma porção pequena do Amor onibenevolente do Senhor.Wanju Duli – Ele ama. mas estava complicando ainda mais e acrescentando elementos desnecessários na discussão.

Fazia sentido. tomando conta das bibliotecas e das universidades. é óbvio que o Deus cristão só poderia ter existência real na doutrina cristã. Só a lógica de Deus era perfeita. o cristianismo era fortemente baseado em Platão. Os argumentos do cristianismo vencem pelo cansaço” concluí. você ganhou a discussão.A Era do Folhetim Não adiantaria muito eu rebater com algum argumento lógico bem construído. Sendo assim. que defendia que seguir o ideal da moralidade era superior a qualquer ação. baseada no realismo e no idealismo. eu estava falando com uma dominicana. a exemplo dos sofistas. senhorita. Eu sempre acreditei que um mestre de retórica é capaz de convencer qualquer um de qualquer coisa. Por isso a Teologia da Libertação distorceu alguns ensinamentos quando colocou o corpo acima do espírito. Afinal. – Entre ajudar os outros e ter fé em Deus. Eu só queria fazer uma última pergunta. já que eles dominaram todo o conhecimento ocidental por séculos. Não estava falando com uma franciscana. como a Santíssima Trindade e a virgindade de Maria. Era como Kant. Eram argumentos perfeitos para justificar qualquer coisa. seriam capazes de defender o catolicismo fazendo o argumento mais absurdo parecer sublime. Eles não viam a religião como uma metáfora para que se realizasse boas ações no mundo. pelo seu domínio da dialética. o que é mais importante? – Ter fé em Deus. que considerava que os seus Deuses números eram entidades reais e não apenas inventadas para resolver problemas práticos. Ou seja: era mais importante as suas intenções por trás do ato do que o ato em si. Os dominicanos eram demônios na argumentação teológica. “Está bem. OK. 175 . mas eles estudavam tão a fundo a doutrina da Igreja que. que considerava a pregação como o ato mais supremo. Além do mais. Bastava ela usar o seu coringa e dizer que a lógica humana é imperfeita e ineficaz para entender qualquer coisa. A Igreja teve esses mestres a seu dispor por mais de dois milênios. Lembre-se do primeiro mandamento. esse não era o termo perfeito.

Eu já estava desistindo antes de começar. Da mesma forma. OK. Ser obrigado a assistir às longas missas também já poderia ser considerado penitência o suficiente. que era como uma rainha da Ordem dos Pregadores. diriam eles. Eu ainda não sabia os detalhes. Meus trajes de jogadora das Contas de Vidro. Afinal. sacudi-lo. Então era hora de visitar o Vaticano. Eu obviamente não tinha intenção nenhuma de convencer a papisa. o ato de apreciar uma missa ainda era restrito a uns poucos iniciados e escolhidos. Só que ele também era inteligente pra caralho. embora a felicidade proporcionada por ela para os católicos devesse ter um efeito neles superior ao de nosso Jogo. tia‟. Pensando bem. animal! Você vai morrer! Faça como a mamãe ensinou e diga „Me desculpe. que não eram mais trajes de estudante. Recebi permissão para conversar com Barata. foram identificados prontamente pelos membros do clero. E agora? Não adiantava mostrar o Jogo das Contas de Vidro para os dominicanos. Também eram poucos aqueles que amavam as sutilezas de nosso Jogo.Wanju Duli Isso só significava uma coisa: eu não seria capaz de dobrar os doutores da Igreja através da argumentação. Estava apenas há uma semana no convento e aquelas mulheres já tinham me colocado no chinelo. Pensei que eu iria encontrá-lo fazendo algum tipo de penitência leve nos arredores. dar-lhe tapas na cara e dizer: “Acorda. E eles também não eram franciscanos para terem compaixão pelo pobre diabo que havia feito jogadas proibidas. Fui bem recebida no Vaticano. em primeiro lugar eu precisava conversar com Barata. como uma oração. Eu passei por aquele processo iniciático e sabia como era custoso e doloroso. É tão difícil?!”. para realmente compreender o Jogo de Contas de Vidro era preciso estudá-lo muito a fundo. Até mesmo no século XXIV. “Eis o mistério da fé”. Então eu iria segurar Navarro pela camisa. eu não iria fazer isso. em que as religiões tinham tamanha força. Eles não eram carmelitas para se maravilhar com êxtases místicos. Minha única esperança era dobrar Navarro. para ter uma dimensão da gravidade da situação. para entender 176 . Experimentar um sentimento sublime ao ouvir uma bela música erudita ou contemplar uma pintura renascentista tratava-se de uma experiência mais universal.

maior o prazer gerado ao encontrar a solução. nenhuma construção e combinação. E naquele instante da história. Pisar no Vaticano me proporcionou um sentimento pesado. porque ele conheceria uma espécie bem diversa de prazer e de alegria". Só que não era bem assim. E. mas também cultural. conforto e manutenção da carne. assim como os leigos que ouviam uma transmissão de rádio de nosso Jogo.A Era do Folhetim uma religião como a católica. diziam. como uma jogada complexa do Jogo de Avelórios. e quanto mais difícil. 177 . como numa jogada espetacular de xadrez. Contudo. a vida era só isso? Salvar a carne e proporcionar à mente um êxtase dos sentidos. e não a religião. Era algo maior. para preencher esse vazio. elas compravam os folhetins e resolviam suas charadas. Porém. Curar o corpo de uma pessoa podia proporcionar um sentimento sublime. era necessário estudar muita teologia. medicina e engenharia: contato com o sentido da vida através da biologia. como se colocassem letrinhas em palavras cruzadas apenas para passar o tempo e fugir da realidade esmagadora da morte. Vivíamos numa época em que a espiritualidade estava esquecida. havia a alegria proporcionada pela resolução de problemas desafiadores de matemática e física: resolver problemáticas reais no mundo. É uma experiência totalmente individual. O sentido do Jogo ou a fé de uma religião é algo que jamais pode ser ensinado. pois nem todas as peças se encaixavam. por exemplo. "Quem chegasse a ter a vivência completa do sentido do Jogo não seria mais jogador. tinha uma impressão muito superficial. “É apenas superstição ou diversão tola”. Quanto à engenharia. não estaria mais dentro da multiplicidade. Muita gente buscava inconscientemente a espiritualidade em profissões como. muitos a buscavam ardentemente ao experimentar o vazio proporcionado pelo dinheiro e por uma vida voltada apenas aos prazeres. e não lhe seria possível sentir prazer em nenhuma descoberta. As pessoas se sentiam oprimidas com suas vidas. Não era apenas o êxtase fugaz da era folhetinesca. que foi o caminho de Dani. Quem via a missa apenas de fora. mas a realidade da morte estranhamente deixava as pessoas perdidas. os folhetins eram o ópio do povo.

não me surpreenderia se em breve estourasse uma revolta. provavelmente para que nenhum outro jogador de Contas de Vidro ousasse realizar novamente as jogadas proibidas.Wanju Duli naquele exato instante. Era como uma espécie de terrorismo: os meses e anos se arrastavam e o julgamento deles não terminava. discreta e sem dor? Não. Já tinham existido exímos jogadores entre os mais altos membros do clero. mas me lançava apenas um olhar frio. Se os dois tinham cometido alguma falta grave e rompido algum velho acordo entre a Igreja e Castália. Se fosse eu. No entanto. Aquela situação poderia ser a desculpa perfeita para um rompimento. o Jogo já havia sido quase proibido na Igreja. Eu sentia como se pisasse na casa de uma mãe rigorosa que eu não via há muito tempo. os jogadores de Contas de Vidro e a Igreja Romana dependiam demasiadamente um do outro” Eu lembrava de ter lido isso nos Arquivos. Eu esperava que a relação entre essa irmã mais nova e sua irmã mais velha não resultasse num claro divórcio devido à confusão gerada por aqueles dois. Em outras épocas. mas era um mistério que só podia ser apreciado por quem possuía aquela coisa mágica chamada fé. incluindo os próprios papas. esse sentimento me sufocou. Eram prisões num estilo muito antigo. Quando fui visitar Barata. “Na luta pela existência num mundo de potências alheias ao espiritual. fui direcionada a uma espécie de calabouço. pois meu coração estava sombrio. Essa mãe estava muito zangada. Eu lembrava que Boaventura havia mencionado que eles serviriam “de exemplo”. eu não era nenhuma mestra em fantasmagorias e me sentia como uma intrusa no clubinho restrito. por que apenas não os matavam logo de forma silenciosa. Se era assim que a Igreja tratava os castalianos. A relação de Castália e do Vaticano já havia passado por altos e baixos. Lá havia um tipo de mistério. se este fosse desejado por uma razão qualquer muito mais importante: política ou econômica. Eu estava me sentindo como se tivesse voltado no tempo pelo menos uns mil anos. eles não queriam isso. Só queria sair logo daquele lugar. não suportaria tamanho 178 . provavelmente.

Barata riu. Ele me mostrou um livro grosso que tinha consigo. com calças e mangas longas. E havia um propósito para aquilo tudo. cavalgadas. mesmo naquela situação. sujas e perigosas. Inicialmente notei apenas seu rosto profundamente abatido. – Eu não sabia que você estava preso – observei – isso é terrível! – Eles nos deixam sair todos os dias – ele informou – para rezar nas igrejas. As paredes estavam completamente preenchidas de desenhos incrivelmente lindos. de tecido comum. Agora só releio os meus capítulos favoritos. Era verdade que em Castália vivíamos uma vida simples e regrada.A Era do Folhetim terror psicológico e provavelmente teria cometido suicídio muito tempo atrás.. eu desconhecia. eu já preenchi todos os espaços. Dani disse que está com saudades das. dar umas caminhadas nos jardins. Ou melhor. Mas eu estava enganada se pensava que se tratava de apenas terror psicológico.. Fiquei feliz de poder fazê-lo rir. com uma cama simples e um vaso sanitário. diga. Vestia roupas limpas. Se tem qualquer coisa que eu possa fazer por você. – Foi a Dani quem me pediu para vir aqui te ajudar – eu disse – embora eu não saiba direito o que eu posso fazer. Mas ele parecia exausto. mas só quando estou muito entediado. – Só me deixam ler a Bíblia – ele sacudiu o livro – já finalizei a leitura do livro inteiro três vezes e depois me cansei. feitos com um giz branco comum. – Ela também me mandou um recado. Lá fora é muito bonito.. Se Navarro tinha uma meta maior para fazer o que fazia e era aquilo que o impelia a continuar. Eu nunca pensei que algo tão bonito fosse possível de ser feito com apenas um giz. já que não temos acesso às bibliotecas e não posso desenhar.. Eu sabia que no Brasil e em diversos outros países do mundo havia prisões muito piores. Pelo menos ali cada um tinha seu lugar para ficar. – Não se preocupe com isso. – Maria. superlotadas. Ficou bem claro que aquelas celas não eram confortáveis. 179 . mas não há muito o que se fazer. Observei o interior da cela. Já fiquei contente apenas com sua visita. por favor. mas pelo menos tínhamos o mínimo de conforto. é você mesma? Barata ficou contente em me ver.

– Eu queria entender. Eu me recordo que na época fiquei tão fascinado e impressionado com isso que por um tempo foi meu hobby procurar na internet descrições minuciosas de diferentes métodos de tortura usados naquela época. o que aconteceu com seus dentes? Eu só havia reparado isso naquele momento. jamais poderemos cavalgar juntos outra vez. Pergunto a Ele todos os dias: “Por que eu? Por que aqui e agora? Qual o significado disso?”. Estava chocada demais para pronunciar qualquer coisa. – Sobre isso. o compreenda. ele é grandioso demais para que eu. Mas Deus? Por que Deus estava me punindo porque defendi meu amigo? Eu fiquei sem fala. notei que havia alguma coisa errada. O fato de haver Deus ali no meio sempre tornou tudo muito mais medonho. notei que as unhas dele estavam quase que completamente cortadas. Ao prestar atenção a seguir. As pontas dos dedos estavam machucadas de 180 . mas foi um sonho bom enquanto durou. Fiquei assustada. mero mortal. apoiando-se nelas enquanto conversávamos. Mas. digamos que virei o protagonista de uma história antiga – ele informou. lembro de ter lido sobre os métodos de tortura medievais nos livros de história. Você sabe como os seres humanos podem ser estúpidos.. Não era um homem que estava fazendo aquela merda. exatamente porque eles envolviam razões divinas.. não sei bem. Era Deus. – Você já me disse uma vez que as coisas são bonitas porque terminam. Quando ele segurou as grades da cela. naturalmente – sabe. quando eu estudava o feudalismo no colégio. antes de ir para as escolas de elite. sentia um gelo por dentro e pensava: “Pobres desgraçados que nasceram na época errada e tiveram essas horríveis mortes sob tortura”. Quando ele riu discretamente. Mas é claro que se tudo isso possui de fato um sentido. Quando eu lia as descrições. reparei que faltava-lhe um ou dois dentes. Infelizmente. Nem as descrições dos métodos de tortura dos nazistas me assustavam tanto quanto as torturas da Igreja.Wanju Duli – Diga a ela que é sempre um prazer ser um cavalo para minha dama – ele respondeu – ou uma cela.

Comecei a chorar baixinho.. Mas eu provavelmente fui possuído por ele. Estava fora de mim. Mas não seria terrível se ele tivesse que passar sozinho por tudo isso? Se fosse comigo. sei que estamos passando por isso juntos. Eu já aguentei até agora. – Você merecia ser canonizado pela Igreja pela sua demonstração impressionante de amizade e não ser morto como gado esperando o abate – eu disse – até mesmo o gado não tem um destino tão terrível. se for preciso. não se preocupe. com voz fraca. – Não fique assim. – Nunca mais poderei cavalgar com Dani de novo – ele repetiu – porque estou para sempre fisicamente impossibilitado de fazer isso. Amanhã ou até mesmo hoje. – Por que está fazendo tudo isso por Miguel? – eu perguntei. Mesmo que eu somente o veja raramente. Se puder fazer um favor para mim.. eu me sentiria aterrorizado e solitário. Então pelo menos eu consigo ver um mínimo de sentido para isso tudo. Eu só quero que tudo isso termine logo. Nunca pensei que eu fosse conhecer uma pessoa assim. Mas se não conseguir falar com ela. Disse que era um adorador do Diabo. Barata era como aqueles heróis trágicos das lendas. Que o evocava todas as noites e oferecia a ele bebês despedaçados em sacrifício. Eu nem sei o que é esse tal Diabo de que tanto falam. Não sei porque disse isso. Eu estava maluco.A Era do Folhetim uma forma que me deu uma agonia tão profunda que tive que desviar o olhar. se possível. mas a situação é outra aos olhos da Igreja – disse Barata – e o pior é que já não sei dizer se 181 . – Não sei ao certo. – Fico lisonjeado que você veja dessa forma. então vou aguentar mais um pouco. é somente esse: converse até com a papisa. Um choro quase imperceptível que tentei esconder. Esqueça o que viu aqui. Não há mais esperanças para mim e para Miguel. Eu quero ser queimado o quanto antes. É a única explicação. Viva sua vida. – pronunciei. Maria – ele disse – volte para a Província. Entende o que quero dizer? – Merda. agora sem esconder as lágrimas. – Eu disse a eles tudo o que queriam ouvir – contou Barata – eu pronunciei coisas que jamais pensei que fosse pronunciar na vida.

Eu não o culpava por dizer aquelas coisas. Aquelas torturas e aquela espera tinham produzido uma ferida profunda na mente dele que jamais seria completamente curada. impressionada – te admiro profundamente. Navarro estava deitado na cama. queria salvar pelo menos seu espírito. Eu não fazia a menor ideia do que tinha acontecido com a mente dele após aqueles anos de tortura. Se já não tinha jeito de salvar seu corpo. Como ele era considerado o maior culpado. É claro que não. que isso não seria bom aos olhos de Deus. Ele conheceu a fúria e o poder de Deus e passou a genuinamente temê-lO. Que ele precisava do fogo para ser salvo. – Sou eu – pronunciei – Maria Santa. Mas ele disse que não. sendo o líder da Amor Fati. E queria ser salvo.Wanju Duli estou certo ou errado. Ele parou no meio do caminho. Era hora de conversar com Navarro. Ele levantou-se devagar. Como dizem os cristãos. – Quem é? – ele perguntou. Para sempre. voltado para a parede. com urgência – converse um pouco comigo. Abraçava o corpo e estava meio encolhido. Resolvi deixá-lo em paz. – Você é tão forte – comentei. Talvez tenhamos mesmo cometido um pecado mortal. Ainda perguntei a ele se queria que eu trouxesse um veneno escondido numa próxima visita. com voz rouca. por favor. Sou um pobre pecador. como se tivesse dificuldade de caminhar. Retornou na direção da cama. Andava em passos lentos. de Castália. – Espere – falei. Ele parecia cada vez mais convencido disso. Arthur. que Deus tenha piedade de mim. Inicialmente pensei em deixá-lo descansar e retornar uma outra hora. E se meu espírito precisa ser purificado pelo fogo do Espírito Santo. que assim seja. – Vá embora – ele disse. imaginei que estivesse recebendo os castigos mais severos. mas ele escutou meus movimentos e se virou. – Não tenho vontade. Eu suspeitava que essa segunda visita seria ainda mais difícil. – Eu tenho comida – tentei – você quer? 182 .

Não acredito que fiquei tantos anos sem ensaiar. O cara ia morrer e estava preocupado que sua habilidade ia diminuir. Vou levar tempo para recuperá-la. O primeiro deles é que me consiga um contrabaixo. Ainda bem que Navarro não podia contemplar minha expressão de terror. abaixou-se e tateou as grades.. Fitei o vaso sanitário no fundo da cela. eu calei a boca quando vi os olhos de Navarro. ele lambeu os dedos.. Felizmente. Seus dois olhos estavam completamente queimados. Só fiz esse pedido para me certificar se não era mesmo impossível. Foi quase como uma necessidade. segurou-o e devorou-o na mesma hora. – Você veio até aqui para nos ajudar. – Que tal uma gaita? – propus. Ainda consigo cantar e batucar na madeira.A Era do Folhetim Não achei que fosse funcionar. – É um pedido meio difícil – eu falei – posso até tentar. pois disse que não tinha apetite. Quando sentiu o pão que lhe dei. Barata não tinha aceitado minha oferta. Fiz como ele pediu. com grandes dentadas. mas duvido que eles permitam. certo? Então eu tenho dois favores a pedir. – Pode olhar para o outro lado? – ele disse – preciso mijar. Pode ser qualquer um. agora ele já se sentia mais disposto a conversar comigo. Não é como se eu pudesse esconder um instrumento tão grande no meu bolso e trazê-lo aqui escondido. – Que pena. Mas Navarro deu passos apressados na minha direção. Depois que Navarro terminou de devorar o pão simples que eu lhe trouxe. Ele não havia acertado o vaso e o chão ficou um pouco molhado nos arredores. Minha habilidade com certeza diminuiu. voltei meus olhos para ele de novo. Eu não queria fazê-lo se sentir pior. como se tivessem sido consumidos pelo fogo. Porém. Mas eu já tinha desistido de tentar entender o raciocínio de Navarro. Quando escutei que ele havia terminado. Eu coloquei a mão na boca e usei todas as minhas forças para não derramar patéticas lágrimas outra vez. Ele estava cego. – Pensei que pelo menos alimentassem vocês bem – eu disse – Barata disse que vocês recebem refeições duas vezes ao dia. 183 . Estou quase enlouquecendo sem poder tocar. Ainda bem que estou cego e não surdo.

de camarote. Quando me assistirem queimando. eu acreditei que somente aquilo fosse me fazer respirar de novo. fazer seu amigo sofrer contigo. A aparente tranquilidade dele me incomodava. – Seus pais vieram aqui te visitar? – Sim. Preferi não continuar a falar sobre os pais dele. fora daqui. Todos só me criticam. sentindo a mesma dor? 184 . Eu queria experimentar aquelas jogadas. Eu só queria entender. Só espero que venham para assistir ao espetáculo da minha execução. Nada do que faço é aceitável. eles não precisavam ter vindo. Eu precisava dizer tudo o que estava trancado na garganta. Já tinha me sentido assim. Não quero mais conversar. – Eu sabia que você ia vir para me criticar. Até porque eu não me considerava em posição para julgar. Eu entendi. Para me chamar de imbecil e dizer que eu tinha feito uma grande bobagem. Se não quiser. Agora vamos ao meu segundo pedido: me mate. se confessa e acaba com isso? Por que precisa ser tão idiota e passar por tanto sofrimento? E. Perderam a viagem. – Desculpe – eu disse – minha intenção não era criticá-lo. tomara que sintam muito remorso e arrependimento pelo resto de suas vidas pela forma com que me trataram. Se era para dizer isso. infelizmente. – Por que você não se arrepende. É parecido com o desejo desesperado que sinto agora de tocar meu contrabaixo: eu simplesmente precisava dessa sensação. – O que acha de Barata ter lhe defendido? O que você sente ao saber que ele está ao seu lado. Quando desejei entrar para as escolas de elite. Foi como uma necessidade maior do que eu. Agora era a minha vez de falar. Fica a seu critério.Wanju Duli – Deixa pra lá. – O quê? Como? – De qualquer forma. Nunca sou bom o bastante. Por que fez tudo isso? Por que criou a Amor Fati? E por que não se confessa? – Eu já expliquei mil vezes porque criei a sociedade secreta. Como se estivesse me afogando e somente aquilo pudesse me libertar. Apenas me mate. o que é pior. A começar pelos meus pais. Estou cansado de toda essa merda.

para o bem de todos. 185 . Foi o que busquei com a criação da Amor Fati: digamos que eu estava mostrando minha insatisfação política. castalianos. – Também não pensei que eu fosse. Esmagavam meu coração. Quem sabe Arthur tenha finalmente achado essa coisa maior aqui na Igreja. – Por que política? – Porque havia algum desgraçado em algum lugar. ou por qualquer coisa maior que ele. Eu não podia mais respirar. com o universo. Eu me sentia completo. Nunca pensei muito sobre o que eu fazia: porque eu tocava. Eu queria poder criar meu próprio Jogo das Contas de Vidro. – Você queria ser um criador. para que uma guerra desnecessária não seja gerada. mas nós jamais a chamaremos de Deus. porque eu jogava o Jogo de Avelórios. Eu senti as mãos invisíveis. – Eu me humilhei e chorei na frente da papisa quando fui condenado – explicou Navarro – mas eles não se comoveram. Que bem faria eu me confessar agora? Se eles “misericordiosamente” me soltarem. Eu não achei. O Jogo também me proporcionava algo parecido: era um tipo de conexão com os outros jogadores e. Já não sentia alegria no Jogo. Não agora que vivi essa injustiça. Ele poderia estar seguro. somos obcecados por essa tal coisa maior. Talvez ele precisasse disso. tentando exercer poder sobre mim. Acho um desperdício. Mas acho que essa é a forma dele de me mostrar o quanto se importa comigo. Não podia ignorar. Sabe que nós. Gostaria de ter impedido. vou acabar fazendo uma besteira. Mas também não quero soar mal agradecido. Então. Acho que eu estava tentando me comunicar com os outros: conversar através da música. Essas minhas férias na Igreja estão servindo como um poderoso processo de autoconhecimento. – Não sabia que você era assim tão nobre. Mas por que eu não estava satisfeito? Porque eu buscava outro tipo de conexão.A Era do Folhetim – Eu obviamente não pedi que ele fizesse tudo isso. – Você poderia salvar a si mesmo e ao Arthur. um tipo de Mestre dos Fantoches. mostrar o que eu sentia. é melhor que eu morra. mais que isso. Não me enxergo mais voltando para minha velha vida e me dedicando à música tranquilamente. como voltar aqui para queimar tudo e causar o caos. Basta se confessar. para realizar um desejo pessoal de se sacrificar por mim.

O mundo estava muito rápido.Wanju Duli – Castália não tem o costume de criar coisas – explicou Navarro – por tradição. A Era do Folhetim representava tudo o que para nós era destruidor. Assim como os livros de história chamaram a Idade Média de “Idade das Trevas”. Até mesmo um cara como Arthur sempre foi orientado a usar estilos de pintura que imitassem os grandes nomes do passado. surpresa. Apenas de forma muito sutil. não somos incentivados a inventar nosso próprio jeito de fazer as coisas. Admirava os maiores romancistas e poetas. embora fosse um termo totalmente pejorativo e não refletisse plenamente a realidade. Nós temos muito medo da vida que anda rápido e 186 . cujas mudanças acontecem de forma lenta e cuidadosa. É o bastante que possamos estudá-las e tocá-las com o máximo de perfeição a que podemos chegar. Tememos a mudança. mas não era bem assim que havia acontecido. os livros de história atuais chamavam a Idade Contemporânea de “Idade das Sombras”. por que eu nunca tinha feito isso? Eu gostava tanto de ler. Embora não seja exatamente proibido. Quando o professor Peixoto utilizou uma pintura feita por ele mesmo no Jogo. Você já escreveu um poema? – Nunca escrevi – confessei. termo que Navarro também havia usado para referir a si mesmo como mestre da Amor Fati. como humanos. Normalmente pensaríamos que o século XXIV estaria repleto dos computadores mais modernos e de tecnologia de última geração. apenas celebramos a beleza de todas as músicas ilustres criadas no passado. Havia rumores de que o termo “Sombra” se referisse à Sombra do Magister Ludi. A tecnologia estava avançando demais e tivemos um grande terror dessa mudança. – Castália apenas canta o passado e não o futuro. como se vivêssemos eternamente estagnados num tempo que parou de se mexer. Eu presenciei o desconforto com que os jogadores de Contas de Vidro encaravam a criação. Afinal. – A Igreja é um dos símbolos máximos de conservadorismo e tradição – explicou Navarro – não é à toa que Castália nasceu por uma forte influência dessa instituição. Nós paramos no tempo. Mas raramente tentava descobrir a minha própria voz. todos se mostraram perturbados e até embaraçados.

Desculpe desapontá-la. Isso não faz mais diferença. Agora só desejo a morte. como um Ícaro. Um dia julguei-me forte. – Então morrerei para agradar a mim mesmo. pois nesse instante até mesmo meu próprio corpo parece grande demais para que eu posssa carregá-lo. – Eu me sinto fraco agora para carregar qualquer peso. Deixarei que os que virão depois de mim prossigam com os tais feitos grandes. 187 . minhas asas foram queimadas pelo Sol. mas obrigada por existirem. A Idade Folhetinesca é fonte de medo e fascínio para nós. voltarei para informá-los. faz diferença? Você não devia viver para agradar os outros. Estou saindo. o que será de nós? Onde vai se encaixar a nossa criação em nosso mundo perfeito e geométrico onde tudo sempre tem seu devido lugar? Muitos criadores reunidos podem gerar o caos. Sinto-me tão cansado que apenas queria dormir para sempre. Não importa mais. mas não quero que você se lembre de mim dessa forma. Ou eles podem optar por feitos pequenos. Agora. Vocês me inspiram e vão continuar a inspirar mesmo depois de desaparecer. Se criarmos algo novo. – Estou cansado de ser herói. E mesmo se estivesse. Segurei a mão dele com cuidado. Foi algo assim que tentei construir na Amor Fati. você e Barata são meus heróis – confessei – não sei se minhas palavras fazem diferença. pois lhes nasceram asas e eles levantaram voo para fora do tabuleiro perfeito dos símbolos. – Está certo. só quero morrer depressa. Não sei como um dia me julguei pequeno.A Era do Folhetim acaba depressa. – Não era isso o que você queria? – Antes era. Sempre estou cercado de puxa-sacos. – Então você simplesmente aceitará o peso de seu destino. E nem morrer. Mas. mas eu me tornei uma pessoa assim. Se eu conseguir adiantar a execução de vocês. Mas parece que cheguei ao meu limite. – Não estou desapontada. Não sei se esses meus olhos queimados ainda são capazes de chorar. – De uma forma estranha. seja em paz ou sem ela. Ficamos em silêncio por meio minuto. Agora pareço tão grande e monstruoso. – Será que você pode sair agora? – ele pediu – fiquei meio sentimental depois dessa conversa e não quero chorar na sua frente.

Inicialmente pensei que uma guerra estouraria depois disso. peço humildemente que adiante a data da execução da Sentença do Tribunal do Santo Ofício. pelo menos os estudantes ou os conhecidos próximos dos dois. Quando me levantei. Eu queria algo mais profundo. Falei do grande sofrimento pelo qual os meus amigos estavam passando e pedi por misericórdia. – Vossa Santidade. Eu já havia feito a minha parte. Fizemos sexo juntas pela primeira vez.Wanju Duli – Obrigado. como se me faltasse um pedaço. Que os habitantes de Castália fossem iniciar uma revolta. aos 30 anos. A Amor Fati e tudo que envolvesse aqueles dois virou tabu em Castália. Eu me senti vazia. – Ouço o seu pedido e entendo sua aflição. Não havia mais nada para eu fazer lá. Aquela mulher era magnífica. Em menos de um ano a sentença final será anunciada. Impunha um respeito tremendo. Foi muito natural para mim deitar-me no chão diante dela. Era isso que significava adiantar a data de execução para o Vaticano. Senti-me solitária. Aquela merda foi difícil de conseguir. fui direto ao ponto. Barata e Navarro. a papisa ficou em silêncio. Depois da minha longa explicação. Por isso. Farei como me pede. Um ano depois. no dia 2 de maio resolvi deitar-me com Sônia. uma união de carne e espírito. 188 . Se o fizerem. poderão ser salvos. Um ano. – Não estou estendendo o tempo deles para que sofram mais – explicou a papisa – e sim para que repensem os seus atos e confessem. Tive que aguardar alguns dias. No entanto. foram executados pelo fogo e purificados pelo Espírito Santo na manhã do dia 1º de maio do ano de 2303. Isso porque eu me sentia tão sozinha que não me saciaria apenas com um abraço amigo. Então retornei para o Brasil: para Nova Castália. Requisitei uma audiência com a papisa. Expliquei que não havia chance nenhuma que essa confissão ocorresse. todos mantiveram um profundo silêncio.

alguns livros começaram a ser proibidos em Castália. No entanto. Pelo meu envolvimento com o Jogo das Contas de Vidro.A Era do Folhetim Depois desse momento de amor. num mundo repleto de paz. aprendi coisas novas e levei o Jogo para um rumo bastante interessante. essas proibições começaram a atrapalhar minhas pesquisas sobre o Jogo. Seria meu pequeno segredo. depois de certo tempo. 189 . devido à nova lista de livros que foram acrescentados ao Index. Então eu só poderia fingir que acreditava. Não importava onde eu estivesse: em Castália ou lá fora. pois passei a ler coisas que eu não leria normalmente. lembrei do que Barata tinha dito: se 99 coisas forem permitidas e somente 1 proibida. nem terra e nem céu Sou um sonho que se perdeu Um poema curto e singelo. mas achei melhor não reclamar. então inicialmente isso não me incomodou muito. Ele havia desenhado uma paisagem bonita. há um anjo na terra Não sou anjo. Afinal. eu poderia chamá-lo de meu. escrevi um poema. Ele ficou assim: Há um anjo no céu. que Arthur Barata jamais terminaria de pintar. O meu primeiro poema. Eu e os outros jogadores passávamos longos períodos nas bibliotecas fazendo pesquisas para bolar jogadas e projetos de Jogo. A verdade era que o mundo nunca seria exatamente como eu queria que ele fosse. uma parte de mim sabia que não era verdade. eu já não tinha tanto tempo para ler livros de literatura. Eu queria acreditar que agora ele estava num mundo assim. Porém. Nos anos seguintes. Então tentei começar a realizar minhas pesquisas em outros livros que anteriormente não tinham recebido minha devida atenção. Eu me sentia um pouco frustrada por não possuir mais livre acesso ao material que queria. sempre vamos ambicionar a única coisa proibida. Isso até que foi positivo para mim. Contudo. Escrevi meu pequeno poema nos hieróglifos do Jogo das Contas de Vidro embaixo de uma parte em branco de um mural inacabado de Castália. Confesso que me inspirei um pouquinho no poema “Ismália” de Alphonsus de Guimaraens.

mas a sua vida não parou. Ela tornou-se uma importante professora das escolas de filosofia de Castália com apenas 32 anos. como o Dinheiro. enquanto pudesse continuar a jogar o Jogo das Contas de Vidro e permanecer a viver no meu universo sublime e elevado. Devia ser por isso que se colocou contra a Igreja: porque a existência dessa entidade maior que ele lhe incomodava. com outros nomes. A Gio ainda continuava profundamente deprimida. ele não havia usado o termo “liberdade” e sim “poder”. Enquanto isso. Disse que se aborreceu que uma entidade maior tivesse poder sobre ele. então por que se importar? Provavelmente ele se importou não pelas jogadas proibidas em si. Precisávamos aprender a não nos portarmos como uma criança mimada que deseja saciar todos os seus desejos imediatamente. E daí que havia meia dúzia de jogadas proibidas? Não importava o motivo. Havia muitas outras possibilidades quase infinitas. Mas várias outras entidades também lhe incomodavam: a entidade dinheiro. pois eu não recebia mais notícias dela. a Dani continuava em sua viagem. Porém. não me importaria tanto com as outras coisas. Muita gente parece bastante incomodada com a palavra “Deus” mas permitem que outros Deuses. Algumas vezes eu pensava que Navarro havia agido exatamente dessa forma: como uma criança emburrada que perdeu seu brinquedo. mas ela não me respondeu de volta. a entidade Cela Silvestre. a entidade “pais”. Eu sequer sabia se ela havia recebido. Castália era famosa por sua ignorância política: enquanto pudéssemos manter a nossa vida como sempre mantivemos. Eu havia enviado a ela o último recado de Barata numa carta. por mero capricho. não fazia diferença se a Igreja estava queimando pessoas. mas pelo que representava essa proibição: um atentado contra sua liberdade.Wanju Duli Eu não era a única pessoa viva e sempre haveria conflitos de interesses entre as vontades das pessoas. Eu mesma. qual é a diferença? Meus Deuses eram Castália. há longos anos. No fundo. Cela Silvestre e o Jogo de Avelórios. Eu começava a desconfiar que ela havia decidido permanecer definitivamente por lá. Um feito notável. Eles eram apenas outros Deuses. ditem suas vidas. 190 .

havia sido a maior responsável pela morte dos meus amigos. Não era exatamente essa parte da teoria que eu gostava. eu não era mais uma iniciante. Nessa ocasião. partimos de dois temas iniciais para o Jogo: a teoria das mônadas de Leibniz e o livro “As Moradas do Castelo Interior” de Santa Teresa D‟Ávila. então ele só poderia ser o melhor. Então. Dessa vez. aos meus 38 anos. fui visitá-las. Até a papisa quis me ver de novo para que eu lhe desse uma tarde de orientações sobre o Jogo. pois é o mundo que Deus quis. Eu estava sendo requisitada como professora em vários lugares diferentes. mas o que eu poderia fazer? Eu poderia me negar a pisar na Itália de novo. eu o obtive a muito custo. pessoalmente. após dez anos. Dessa vez pude oferecer-lhes um Jogo digno. – Vivemos no melhor dos mundos. Eu particularmente aprecio suas teorias sobre os mundos possíveis. Eu quase me sentia culpada em considerar como amiga uma das pessoas que havia sido a favor da condenção de Barata e Navarro. era melhor eu fazer minhas malas e voltar para minha velha vida. não vou discutir com Leibniz – eu disse – já que as ideias dele formam algumas das bases mais poderosas do Jogo de Avelórios. Não deixa de ser um pensamento apaixonante. mas ela parecia bastante à vontade. Porém. Ela. Mas se eu começasse a me rebelar demais. Podia recusar as ordens de Castália. – Curioso você ter escolhido uma autora carmelita dessa vez – observou a irmã Giuseppina – mas confesso que considero a ideia de Leibniz de que Deus seja uma mônada um tanto excêntrica. Considerei o encontro particularmente incômodo. fui convidada novamente para o convento de Milão. – Bem. Tive que estudar por longos anos até adquirir o nível técnico mínimo necessário para exercer uma posição desse porte. mas deixeime envolver pela paixão da minha amiga.A Era do Folhetim Dez anos depois daquele acontecimento fatídico. Curioso que. Afinal. mesmo que 191 . Há apenas um ano eu havia conquistado um cargo de professora de Cela Silvestre. o interesse dos sacerdotes católicos pelo Jogo estivesse crescendo de novo. por pedido delas: as irmãs queriam um novo curso do Jogo das Contas de Vidro.

quando retomei o assunto. Ela notou que fiquei um pouco chateada. Gio também já havia me contado umas histórias engraçadas sobre seu pai. insegura – pois no fim sempre sou eu que recebo as lições. Atualmente eu dividia com ele algumas disciplinas. Você é professora de que disciplina em Cela Silvestre? – Problemas básicos de Jogos. eu estava descobrindo que no fundo ele era um cara legal. Sua didática é impressionante. Admite as próprias falhas. pesquisei a fundo para ser capaz de responder a pergunta dela. retorne aqui no ano que vem. – Gosto de você – ela decidiu – não é arrogante como os outros castalianos. – Na verdade não sei – confessei – nunca fui tão boa assim em matemática. Esse era um segredo meu e da Gio. Esse tipo de humildade é rara hoje em dia entre os seus.Wanju Duli tivesse sido a vontade de Deus. Só aprendi o básico necessário para ser capaz de realizar jogadas simetricamente bem calculadas. No final. E lá estava eu tranquilamente ensinandolhe a posicionar no chão as pedrinhas de vidro. ela admitiu que também já tinha feito suas próprias pesquisas nas bibliotecas do Vaticano. Quando retornei no próximo ano. – Pelo contrário. – Vossa Santidade deve achar que não sou uma boa instrutora – observei. Nunca pensei que um dia eu seria professora ao lado dele. Eu dava as aulas que anteriormente eram ministradas por Junqueira. Nunca vi igual. foi ela que me deu umas aulas sobre Pitágoras. Você diz “não sei” quando não sabe. No entanto. Eu a considero uma excelente instrutora. Para minha surpresa. 192 . Por favor. – Sua didática me lembra de um pietista suabo. que eram bem mais amplas que as nossas. Isso me atrai. mas também percebeu meu entusiasmo com as novas informações. – Em quais elementos dos pensamentos de Pitágoras o Jogo se baseou? – ela perguntou-me. Sinto-me lisonjeada. Já ouviu falar de Bengel? – É claro! – exclamei – não sei o que dizer. Junqueira não fazia a menor ideia que eu sabia daquelas coisas. A papisa sorriu.

Esse foi um projeto que me consumiu oito longos anos. E o centro de tudo estava nos símbolos. especialmente as crianças. sem destruir sua essência. com fundamentos na música. Montei um tabuleiro minuciosamente calculado com base na geometria. Por sua vez. Afinal. para outras áreas do conhecimento. Era um projeto muito mais complexo do que parecia. Ele havia desenhado aquele quadro. Ao mesmo tempo. Os jogadores eram instruídos a meditar sobre a simbologia que representasse os temas de base. eu precisava mudar o idioma do Jogo para torná-lo mais acessível. Naquele momento lembro que senti uma dor no coração: eu teria chamado Barata para desenhar as cartas para mim: cartas bem coloridas. Por fim. para encantar a todos que jogassem. Mas essa era somente a base sobre a qual seriam construídas as primeiras jogadas. passei a desenvolver um projeto bastante ambicioso. Essa parte foi obra da Sônia. as jogadas deveriam seguir um ritmo. Eu havia pensado nele ainda nos meus primeiros meses em Castália: o desenvolvimento de uma versão do Jogo de Avelórios para leigos. Ele me disse que havia cursado pintura em sua época nas escolas 193 . deixando as regras mais claras. Apenas a primeira hora de jogo. com uma rica simbologia. inspirada pelas palavras da papisa Catherine I. minha intenção não era montar um jogo de tabuleiro qualquer e reduzir as possibilidades das jogadas. As contas de vidro poderiam formar círculos ou elipses no tabuleiro de acordo com a jogada. de autores brasileiros e estrangeiros. Havia uma série de cartas com poemas previamente selecionados. lembrei do professor Peixoto. consegui chegar numa versão satisfatória. Eu precisaria me ocupar com uma série de questões fundamentais: não poderia reduzir o Jogo a uma mera linguagem formal decorativa. ele deveria necessariamente atravessar os limites do tabuleiro e das contas.A Era do Folhetim Nos anos seguintes. imitando o movimento dos planetas. com os auxílios inestimáveis de Gio e Boaventura. Contudo. Depois disso. A meta era apenas facilitar as primeiras jogadas para acostumar o jogador principiante e dar-lhe confiança.

o Jogo já estava sendo jogado corretamente por diversos estudantes brasileiros. que ainda não tinham suas cabeças cheias dos preconceitos do mundo. Os novos alunos de Cela Silvestre eram introduzidos ao Jogo com muito mais facilidade. exatamente como Barata. Navarro também foi duramente criticado pela sua criação da Amor Fati. No entanto. Sorrindo. fora isso. Eu me sentia no céu. eu não me incomodei tanto com essas críticas. Eu estava me apaixonando cada vez mais pela pedagogia. Porém. Passei a pedir permissão cada vez mais frequente para ensinar o Jogo em escolas comuns do interior do Brasil. sem precisar perder longas horas ou dias em preparações de temas. 194 . Eu lembrava do sufoco que passei para aprender desesperadamente os hieróglifos e a lógica do jogo em meus primeiros meses em Castália. Sem contar os estudantes das outras escolas de Castália. É verdade que as cerimônicas públicas de Vicus Lusorum ainda eram restritas apenas a convidados especiais e que a identidade da Magister Ludi era sempre mantida em sigilo. alguns até mesmo com oito ou nove anos. eu sempre seria criticada. Não importava o que eu fizesse. Então ele prontificou-se a desenhar as cartas para mim e tudo ficou bastante harmonioso. que admiravam o Jogo mas optaram por seguir outras carreiras. Assim. Inclusive no interior de Castália. Voltei até mesmo para a minha velha escola pública e me maravilhei diante da oportunidade de ensinar para meninos e meninas. Ensinar novos jogadores. perder seu valor.Wanju Duli de elite preparatórias. Eles diziam que o Jogo iria se degenerar. Eles poderiam continuar jogando de vez em quando com este tabuleiro. Fui uma das maiores responsáveis pela popularização do Jogo pelo país. Agora. Aquele problema havia sido bastante reduzido com essa alternativa. especialmente as crianças. podiam se dedicar aos seus estudos e jogar nas horas vagas. Minha versão simplificada do Jogo fez tanto sucesso que começou a ser adotada em outros países. Eu já sabia que eram inevitáveis. É claro que houve os professores mais conservadores de Cela Silvestre que acharam minha versão simplificada uma péssima ideia. Ele já não era um Jogo hermético cujas regras somente eram exclusivas aos iniciados. brincando com as contas.

E.A Era do Folhetim mais de 15 anos depois. Aproveitamos a oportunidade para aumentar nossos períodos de jejuns e práticas de meditação. por uma série de fatores. ele havia virado um tipo de lenda em Castália. Queria saber o quanto daquilo era verdade ou mentira. carregando velas por aí. seus belíssimos murais espalhados por Castália se tornaram ainda mais adorados e valorizados após sua morte. Eu comecei a dar aulas para pouquíssimos alunos. já que após quase vinte anos ela não parecia ter intenção de voltar. Apagávamos as luzes uma hora mais cedo: às nove da noite. Eu havia escutado rumores sobre as dificuldades financeiras da Província. O problema maior começou quando tivemos que racionar comida e água. Aparentemente. passamos a usar velas como parte do material escolar para as aulas da noite. Eu era amiga de uma Magister! Achei que a Dani também teria potencial para ser Magister de sua área. Recebíamos pouquíssimos alunos ouvintes por causa da crise. a situação já estava ficando insustentável. em certo momento. Dois anos depois. Eu estava impressionada. Barata era igualmente famoso. Nem os mais ricos tinham dinheiro sobrando para se dedicar ao pequeno capricho do Jogo. – O Brasil está passando por uma grave crise financeira – ela explicou – só não estamos numa situação de grave privação em Castália devido aos seus incessantes esforços de promover o Jogo nas escolas. Ninguém nunca tinha ouvido falar de algo assim antes. Minhas salas de aula estavam ficando vazias. não aguentavam os jejuns prolongados e acabavam voltando para casa. pelo sacrifício que fez por Navarro. mesmo com a crise. especialmente entre os alunos novatos. ainda estamos recebendo vários alunos ouvintes. Também foi naquele ano que Gio se tornou Magister das escolas de filosofia. Até as desistências dos novos alunos de Cela Silvestre estavam aumentando. E nem eu. já estávamos começando a racionar provisões em Castália. Muitos não aguentavam a nova vida de rigorosas privações em Castália. Assim. aquilo não estava em seus planos. Eu quase me sentia como Descartes no tempo de colégio. Para completar. 195 . Mesmo assim. Sentiam muita fome. Foi naqueles dias que também tive uma conversa com a Magister Ludi.

Em vez de inveja. como a escola de matemática ou de biologia. bastava culpá-lo. Ela atualmente trabalhava como pesquisadora num projeto importante. Considerando a expectativa de vida de Castália. se tudo desse errado como a crise sugeria. o conclave foi iniciado: a reunião formal e magnífica que definiria a escolha do novo Magister Ludi. Havia muitos candidatos fortes. ela era a dirigente máxima de nossa Província. Achava que o novo Mestre dos Jogos deveria se sentir honrado pela confiança de ser escolhido neste momento difícil. preferiam optar por estudar em escolas que garantiriam uma maior segurança financeira. muitos ali sentiriam pena do novo Magister. havia sido uma morte prematura. foi exatamente devido a esta crise que rolavam rumores de que os tais fortes candidatos não estavam muito a fim de assumir essa responsabilidade num momento como esse. Foi naquele ano que recebemos a notícia da morte da Magister Ludi. Preparando minha próxima aula. tropeçando nas próprias pernas.Wanju Duli Aqueles que aguentavam. Precisavam de um bode expiatório: seria muito mais fácil escolher um Magister Ludi mais fraco e. Eu apenas torcia para que o novo Domine fosse uma pessoa capacitada e sábia o suficiente para lidar com a gigantesca crise financeira que assolava nosso país e especialmente nossa Castália. No entanto. Ou ao menos era isso que eu queria pensar. o líder supremo de Castália. Apesar de eu possuir um cargo importante de professora. Eu obviamente não participei dessa reunião. Tivemos um dia inteiro de recesso para realizarmos um luto pela Domine. Liliane Cavalcante faleceu com apenas 74 anos. eu não estava entre os maiores mestres eminentes de Cela Silvestre. eu não pensava assim. Afinal. Achei que ela estava 196 . Muitos diziam que era por causa da quantidade de afazeres e responsabilidades de um Magister Ludi. Foi quando Sabrina entrou na biblioteca. Duas semanas depois. ela deve ter se abatido demais e assim a doença tomou conta de seu corpo. Pelo menos seria mais fácil conseguirem emprego lá fora caso a crise apertasse ainda mais. Eu estava estudando na biblioteca na ocasião do conclave. Na verdade. Ainda mais naquele período de privações e dificuldades. Todos ficaram tristes.

pois precisava correr para preparar aulas. Contudo. fazia sentido. eu tinha boas relações com as freiras do convento de Milão e inclusive já havia dado cursos do Jogo para a própria papisa. – Maria! – ela exclamou. No entanto. Volta para lá e aguarda o pronunciamento oficial. Não seria incomum. mas havia muitos candidatos mais habilidosos e inteligentes que eu. embora tivesse contado com a ajuda preciosa de meus amigos. não era somente a minha habilidade que contava. Ela certamente pensava que eu partilharia de sua alegria e saiu de lá como se tivesse sido chutada para fora como um cão. Sabrina. incrementar o Jogo para iniciantes. Minha relação com os professores de Cela Silvestre era boa. lhe disse: – Não fala tanto. Ela fazia isso às vezes. após sua frustração passar um pouco.A Era do Folhetim afobada porque queria me contar alguma coisa incrível que descobriu em seu projeto. emocionada – eles vão te nomear Magister! Tapei-lhe a boca assim que ela disse isso. mas que me 197 . A frieza com que eu disse isso deixou Sabrina desapontada. Caso se somasse a isso os deveres de um Magister. Era evidente que nada se sabia ainda. para completar. E. Por fim. senti uma profunda tristeza. era tudo rumores. eu respirei fundo e apenas retomei minhas anotações. voltei a sentir a sensação de vertigem. Mais tarde. o que seria da minha vida? Quando recebi o anúncio oficial de que eu havia. Era uma sensação ao mesmo tempo incômoda. De repente. Meu currículo era bom. também encarei a informação como algo muito natural. embora tenha ficado muda por alguns segundos e tenha sentido uma espécie de vertigem. ela reconheceria que agi com uma certa maturidade. dar aulas. Pensando bem. Quando ela saiu. corrigir provas e ainda cuidar das incontáveis atividades domésticas. O conclave ainda não tinha terminado. Não quero saber desses falatórios. nada podia ser afirmado ao certo. Eu já não tinha tempo para ler meus velhos livros de literatura. Eu havia sido a maior responsável pela popularização do Jogo entre os leigos nos últimos anos. de fato. que não deixava de ser impressionante diante da grandiosidade da informação que ela me trouxe. sido escolhida como Magister Ludi de Castália.

Um frio na barriga. ainda na época do colégio. Baixei a cabeça. Eu realmente havia dito todas aquelas coisas aos meus 13 anos. eu precisaria proceder na escolha da minha Sombra. mas logo recordei-me que Sabrina me disse um dia que ela não tinha nenhuma intenção de tornar-se Magister. Tornei-me oficialmente Mestre dos Jogos e vesti o meu hábito em tons de branco e ouro.Wanju Duli gerava um êxtase repentino. Mesmo aos 48 anos. que vinha e voltava. Nessa ocasião recebi as condecorações do Magister Mathematicus. honrada e de imediato. Eu deveria comparecer dali dois dias em Vicus Lusorum para a prestação do juramento. eu não me arrependia de tê-las dito. quando lhe fiz o pedido. O documento oficial foi lido. ela era perfeita para ser minha Sombra e aceitou. Por isso. no final da cerimônia. A sensação de que minha vida estava sendo virada do avesso. o Magister Grammaticae. a Magister de literatura. Mestre de Filologia. realizou a entrega das chaves e dos selos. – E agora. Ela me fitou orgulhosa enquanto eu estava naqueles trajes e sequer ainda acostumara-me a eles. Esta foi a cerimônia de investidura. envergonhada. eu ainda conseguia enxergar em mim aquela garota insolente de 13. Deu-me um sorriso. Quem conversou comigo naquele mesmo dia. Domine. foi uma pessoa que eu não via há muito tempo: Lorena Flores. Fiquei surpresa ao constatar que. não gostava do colégio e nem do Jogo de Avelórios – ela pronunciou. será que eu posso fazer uma pergunta? – É claro. Foi por causa dela e da minha professora de português que eu havia sido aceita nas escolas de elite. que havia me mostrado os trechos dos escritos de Rimbaud e Shakespeare. no fundo. A partir dali. a menina que não gostava de ler. integralmente em latim. Depois disso. que lia para aparecer e não esperava muito da vida. não tinha sonhos. que não tirava boas notas. Pensei em Sabrina e em Boaventura. de que eu estava numa montanha-russa e que uma vez lá dentro eu não poderia mais descer no meio do caminho. – Maria Santa. 198 .

Agora até quem havia ignorado completamente o Jogo que criei se interessou em experimentá-lo. – Um suicídio? – Mas também um sonho e uma loucura. – E eu realmente reprovei na disciplina de símbolos! – argumentei – mas fui aprovada em minha segunda tentativa. tanto antes quanto depois de suas mortes. mesmo que ele pareça irrealizável. E genuinamente gostei da obra. Nesse momento não pude deixar de pensar em Barata e Navarro. tinha sido incrível. – E não acreditava que seria capaz de completar seus estudos em Cela Silvestre. De repente. E da segunda vez até que passou bem rápido. Também era verdade que eu curtia as personagens lésbicas. Todos queriam falar comigo.A Era do Folhetim – Estou curiosa para saber qual é atualmente o escritor preferido da Venerável Mestre. A próxima a conversar comigo foi a minha professora responsável que havia me dado ótimos conselhos assim que cheguei em Castália: Clara Correia. A maioria encarou o ato como uma bobagem para crianças. Tem alguma doença grave?” ela tinha me perguntado na ocasião. Eu acho que a busca de tempo e a reflexão sobre ele sempre foi uma questão recorrente na minha vida. Aquilo nunca tinha acontecido antes. Sequer acreditava que poderia ser aprovada em suas primeiras provas. Acho que eu tinha sido muito dramática na época. Achei que fosse impossível aprender aquilo. – Lembro que sua professora disse que havia mencionado algo sobre Proust. Eu ainda reclamava de umas coisas desnecessárias. Eles tinham feito algo realmente maluco. – Proust – pronunciei. Ou a loucura de perseguir um sonho. virei uma estrela da noite para o dia. Nem mesmo na época em que lancei o Jogo de Avelórios para principiantes. qual mais lhe atrai? – Posso citar apenas um poema? – requisitei – Ismália. sem pensar – eu finalmente terminei de ler “Em Busca do Tempo Perdido”. Pensando bem. “Você parece com pressa. E dentre os escritores brasileiros. Mas optei por não referir esse detalhe. Mas a vida deles. aos meus 21 anos eu ainda não era tão mais madura que aos meus 13. Hoje 199 .

Queria ter dito o mesmo para ele. Aquele cargo estava além das minhas forças. Mas eu ainda continuo com o mesmo problema sobre o tempo! – Acha que não tem tempo para fazer tudo o que deseja? – E vou ter menos ainda agora que sou Magister Ludi! Se bem que hoje em dia já não sinto a necessidade de ler tantos livros. Ao mesmo tempo. me enchia de felicidade. Quando Sônia me viu. Aquelas palavras me tranquilizaram. por que ler tanto. – A sua vida é uma loucura. sou eu que posiciono os símbolos nos tabuleiros de signos nesses últimos três anos. Maria – ela disse. mas com eles ao meu lado eu sabia que conseguiria lidar com os problemas. não é mesmo? Ela sorriu. Domine. simplesmente – ainda bem que estou aqui com você. O que eu faço? – Não se preocupe. Vai dar tudo certo. e não eu. meu passado também foi tão sublime. – Então você amadureceu. O presente momento. A Província está passando fome. Não está sozinha.Wanju Duli em dia. conversar com ela me deixou mais calma. Com meus amigos. Pode contar comigo para o que precisar. Domine. Barata e Boaventura resolvendo juntos os problemas do Jogo nos cadernos de exercícios.. A Gio morreu de rir quando me viu e fez uma exagerada reverência. Eu precisaria da ajuda dos meus amigos mais do que nunca. – Vossa Grandeza é realmente grandiosa! 200 . Tempos que não voltavam mais. Nós discutindo as jogadas dos Jogos oficiais comendo ovos mexidos com bacon. Relmente.. Basta aprender a encará-los de forma mais leve. Se Barata estivesse vivo. Não é que você tenha que se livrar de todos os seus problemas. Isso é ótimo. “Prometo que vou resolver esse problema. eu tinha certeza de que ele teria se tornado Magister Ludi. afinal. Eu estava com saudades. Eu. Já está analisando o problema de outras perspectivas. como Magister Ludi. segurando minha mão entre as suas. Eu já li tanto. – Mas agora todas essas pessoas dependem de mim. não conseguiu acreditar. Está bem?” me disse Barata.

Ficou todo atrapalhado. pensei que a situação financeira não estivesse tão ruim. Seria assim mesmo. Agatha e Rodrigo. – Aposto que você ainda deve saber mais que eu – garanti. Os racionamentos estavam tão intensos que os mais pessimistas achavam que sequer sobreviveríamos até janeiro para celebrar o Jogo. – O que acha que Barata e Navarro diriam se me vissem agora? – Miguel iria morrer de inveja e nunca mais olharia para sua cara de novo – garantiu Gio – e Arthur acharia o máximo.. eu já teria que lidar com duas questões importantíssimas: uma era a preparação do Jogo oficial em janeiro. Passei os próximos meses totalmente imersa na preparação de um Jogo de Contas de Vidro que eu pretendia que fosse sublime. – Ah. senhora Magalhães – retruquei.. então um pouco de jejum não iria nos matar. A outra questão ainda mais grave era a situação econômica da nossa Província. – Se precisar de umas dicas sobre política. certo? 201 . – É mesmo. Recebi até a visita de amigos que eu não via há um tempão: Mariel. me chamando seriamente de “Domine”. Boaventura nem sabia como reagir quando me viu. – Vivia falando antes que não sabia nada sobre o Jogo – observou Rodrigo – imagina se soubesse. Na semana seguinte. – Relaxa.A Era do Folhetim – Não vem com essa que você também é Magister. tá certo. Mas esse deleite com meu novo título durou apenas alguns dias. Estávamos acostumados a viver uma vida simples. Já tinha até esquecido. – Se bem que às vezes eu te invejo por poder ler tanto – observei. – Pelo jeito sua mudança de carreira foi bem acertada – disse Mariel. – Realmente.. cara – eu disse. – Quando eu tinha dez anos.. Como sempre tendi a ser um pouco otimista. talvez – brincou Rodrigo – agora meu cérebro está tão preenchido pelos intrincados labirintos da gramática e da filologia que não sobrou espaço para mais nada. pois eu teria menos de três meses para bolá-lo. é só me consultar – avisou Agatha.

A partir de então. Naquela noite. Era a primeira vez que isso acontecia nos últimos cinquenta anos. Nós. Eles não viam como eu havia me esforçado na preparação daquele Jogo que jamais iria acontecer. recebemos a notícia de que uma doença infecciosa particularmente letal estava se espalhando por certas regiões do Brasil. É claro que isso gerou várias fofocas negativas sobre minha má administração. As escolas de elite preparatórias também andavam desertas. É claro que eu não entendia nada de administração. Quando terminei de ler e colocar minhas anotações. Até que por fim foram fechadas por tempo indeterminado. Pelo menos assim eu não me sentia tão sozinha. abri o “Calendário de Bolso do Magister Ludi” de Ludwig Wassermaler. 202 . já chamavam Nova Castália de Cidade Fantasma. Havia pessoas falando mal de mim nas minhas costas em todos os cantos. A maioria retornava para a casa dos seus pais e familiares. economia e política.Wanju Duli Porém. Ela começou em regiões específicas e logo já estava ocorrendo em todos os estados. Em fevereiro. mas eles também enfrentavam uma crise severa. enviei-o pelo correio para o Magister de outro país. Os estudantes estavam deixando Castália em bando. castalianos. No mês seguinte. principalmente a falta d‟água passou a se tornar insustentável. A crise atingiu Castália em todos os países em que ela existia. Eu estava profundamente chateada. não estudávamos isso! Eis o resultado: não saber o que fazer diante de uma crise. Até mesmo alguns professores de Castália estavam deixando seus cargos para trás para tentar a sorte no século. o calendário passava entre os Magisters Ludi dos diferentes países. Não havia dinheiro em parte alguma. Contatei a sede na Alemanha por carta. com dicas para os Magisters iniciantes. riscado ou alterado em certos pontos. para que fosse corrigido. Sabia que os Magisters ao redor do mundo estavam passando por uma situação semelhante à minha. escrito por aquele Magister Ludi. O resultado foi que as previsões pessimistas se realizaram: a edição do Jogo daquele ano teve que ser cancelada. Eu não sabia o que fazer. Era transmitida por um mosquito e já havia tomado as capitais.

A Era do Folhetim
É claro que aquilo já estava acontecendo há muito tempo. É que as
notícias chegavam mais lentamente em Castália.
Os gastos com saúde estavam absurdos. A população estava se
revoltando com os hospitais lotados e o atendimento precário.
Em alguns países, já havia estourado guerras civis, especialmente nos
locais em que havia uma grave falta de água. Logo, guerras passaram a
ocorrer entre países. Essas guerras sempre aconteceram, mas geralmente
elas ocorriam bem longe do Brasil. Porém, agora o nosso país estava
começando a se envolver nelas.
O ápice foi quando a Alemanha atravessou uma profunda crise. Com
isso Castália, aquela rainha que havia se mantido soberana por alguns
séculos, finalmente caiu.
Os portões da sede alemã se fecharam. E foi assim que Castália
conheceu seu fim.
Ser um Magister agora não significava mais nada. Com o fechamento
da Castália alemã e inglesa foi apenas uma questão de poucas semanas
até que as demais também fechassem suas portas.
Tenho orgulho em dizer que nossa Castália, a Castália brasileira, foi a
última a desistir.
Contudo, alguns viram minha insistência como uma fraqueza. Afinal,
era preciso saber quando desistir, eles diziam. Estávamos todos
sofrendo: não havia mais energia, estávamos sem luz e sem água. O que
haveria mais para fazer? Eu queria tanto assim que meu túmulo fosse em
Nova Castália a ponto de eu desejar continuar lá e morrer de sede e de
desgosto?
– Maria...
– Mas deve haver algum jeito. Se eu falar com a papisa...
– Maria! – exclamou Sônia, com seriedade – agora já chega. É o
bastante. Você já fez tudo que podia.
E eu finalmente cedi.
A Igreja também foi afetada pela crise. Afinal, ela não era imune.
Também era parte do mundo. Porém, como sempre, escapou. A Igreja,
como esperado, não caiu. E mesmo se tivesse caído, eu desconfiava que
ela iria renascer das cinzas reformada, como geralmente acontecia.
Mas havia sobrado pouco de Castália depois de toda aquela fome,
doenças e guerras. A guerra não estava acontecendo diretamente no
203

Wanju Duli
Brasil, mas ele se aliou a alguns países. E a situação da nova doença
infecciosa estava particularmente dramática.
Quando eu e Sônia retornamos para nossa velha cidade, não havia
mais para onde voltar. O orfanato já era uma realidade distante de nós.
Não havia a quem pedir ajuda.
Foi então que eu lembrei da Igreja.
– Há um convento aqui perto – apontei a direção.
Fomos até lá. Identifiquei-me como Magister Ludi de Castália. Sim,
Castália não existia mais, mas ela tinha deixado de existir há apenas um
mês. É claro que as pessoas ainda lembravam.
Consegui conversar com a irmã Giuseppina por telefone. Ela disse
que a crise também estava horrível na Itália, mas que eles estavam
acolhendo pessoas que precisavam de ajuda nos conventos e mosteiros
na medida do possível.
A irmã Letícia, que nos recebeu no convento da nossa cidade, nos
arranjou um quarto e nos deu uma sopa. Ela disse que poderíamos ficar
pelo tempo que precisássemos.
– A comida também está limitada para nós – disse a irmã – só
poderemos comprar coisas baratas.
– Não se preocupe – disse Sônia – é só até arranjarmos um emprego
e um lugar para ficar.
Sônia não demorou muito para conseguir um emprego como
professora de matemática num colégio público local. Ela não ganharia
um salário muito alto, mas seria o suficiente para alugarmos um
apartamento simples e bem pequeno.
Sendo assim, só permanecemos no convento por um mês e
agradecemos muito pela hospitalidade. Se não fosse aquela ajuda, nós
teríamos dormido na rua.
No meu caso seria mais complicado. Pelo menos, agora que Castália
não existia mais, não havia ninguém proibindo de cobrar por cursos do
Jogo de Avelórios. Então eu contatei famílias dos meus velhos alunos
ouvintes, mas somente os que viviam na minha cidade. E passei a dar
cursos particulares do Jogo, recebendo uma quantia modesta por aula.
Eu e Sônia passamos a morar juntas, cada qual com seu emprego.
Como não era o suficiente meu salário como professora de Jogo de

204

A Era do Folhetim
Avelórios, também arrumei um emprego de garçonete para dar conta das
desespesas.
Meus planos para o futuro seriam iniciar um curso de letras em
alguma faculdade. Assim eu voltaria a ter contato com minha bela
literatura.
Eu estava com 49 anos. Meu período em Castália havia sido como
um sonho. Eu não me arrependia de nada.
Por um lado, eu revivia esse sonho na memória. Havia sido realmente
mágico e eu via o fim de Castália com uma profunda tristeza. Por outro
lado, uma parte de mim estava ansiosa para iniciar essa vida toda
diferente, em que eu tinha tempo de ler um livro pelo menos meia hora
por noite. Um mundo em que eu podia usar internet. Que coisa estranha!
E foi pela internet que mantive contato com todos os meus velhos
conhecidos de Castália. A nossa ligação era tão forte que um oferecia
ajuda para o outro, embora todos nós estivéssemos sem um tostão. Pelo
menos já valia pelo apoio moral.
A única pessoa de quem eu realmente não recebi mais notícias foi a
Dani. Ninguém sabia onde ela tinha se metido. Um dia eu tinha vontade
de reunir dinheiro e, talvez dali uns dez anos, viajar para as Ilhas
Galápagos apenas para procurá-la.
Quando eu mencionava para onde eu tinha o sonho de viajar, as
pessoas diziam: “Mas que diabos? O que você vai fazer lá? Você é fã de
Darwin ou algo assim?”.
Cinco anos depois, o Brasil já estava relativamente recuperado da
profunda crise que assolou o mundo. Mas eu sabia que Castália não
voltaria mais. Pelo menos não enquanto eu estivesse viva.
Um dia encontrei na rua minha família favorita, almoçando logo no
McDonald‟s: Junqueira, Garcia, Gio e Rodrigo. Foi a coisa mais estranha
do mundo vê-los em roupas comuns, em vez dos hábitos formais de
Castália. E contemplá-los comendo aqueles hambúrgueres era algo quase
surreal.
Naqueles dias, resolvi ir no velho fliperama para matar a saudade.
Achei que aquele negócio havia falido com a crise, mas lá estava ele,
firme e forte, depois de décadas. Era impressionante. Devia haver algum
Deus protegendo aquele lugar.

205

Wanju Duli
Quando fui até o Pump, vi pessoas vibrando ao redor de uma garota
linda de rabo de cavalo, que dançava parecendo um corcel correndo ao
vento.
Pisquei os olhos duas vezes.
“Dani? Não pode ser”.
Mas era apenas uma garota muito parecida com ela, que também era
muito boa. É claro que não era a Dani. Ela já estava com mais de 50
anos. Como pude confundi-la com uma garotinha?
Senti como se tivesse voltado no tempo.
Então eu comprei um crepe de doce de leite. Também comprei um
jornal para resolver as palavras cruzadas. E saí de lá.
Epílogo
O último Jogador de Contas de Vidro
De jogo na mão, as coloridas contas,
Senta-se curvado, à sua volta devastado
Pela guerra e a peste o país, nas ruínas
A era cresce e na hera abelhas zumbem.
Uma paz cansada com saltério abafado
Ressoa pelo mundo, na sua calma velhice
O velho conta as suas coloridas contas,
Aqui uma azul prende uma branca,
Ali uma grande escolhe uma pequena
E combina-as, num anel, para o Jogo.
Outrora foi grande no Jogo dos Símbolos,
Mestre de muitas artes, muitas línguas,
Conhecedor do mundo, viajante, homem
Célebre, conhecido até nos Pólos, sempre
por alunos e colegas rodeado. Hoje só
Ele resta, velho, gasto, sozinho,
Nenhum jovem aspira à sua bênção,
Por nenhum Magister é desafiado;
Tudo passou, os templos, as bibliotecas,
206

Entre os Escombros repousa o Velho. O Jogo das Contas de Vidro.A Era do Folhetim As escolas de Castália já não existem. Hieróglifos que outrora diziam muito.. de contas na mão.... E agora são apenas vidrinhos coloridos Das suas mãos idosas silenciosamente rolam E perdem-se na areia. por Hermann Hesse FIM 207 .