A Era do Folhetim

Wanju Duli
2016
Baseado no romance de Hermann Hesse
“O Jogo das Contas de Vidro”

Sumário
Capítulo 1: O Sonho_______________________________________5
Capítulo 2: A Iniciação_____________________________________99
Capítulo 3: O Diabo______________________________________170

Hoje. seu Erasmo de Rotterdam. a Idade Folhetinesca é um elemento onipresente em nossas vidas tanto quanto o ar que respiramos. Um mundo de papel e plástico. mas perigoso.A Era do Folhetim Capítulo 1: O Sonho "– Devemos dar importância aos sonhos? – perguntou Josef. Aterrorizados perante a realidade da morte. uma espécie de saber apaixonado. Não eram poucos os que levavam essa atividade formalmente a sério. Admitimos que não era desprovida de espírito. os folhetins também tiveram seu Voltaire. Porém. Era criação totalmente nossa. mais do que em nenhuma outra época. mas uma espécie de fricção entre a alma e o mundo. Tal como descreveu o historiador Plinius Ziegenhalß. Estávamos tão orgulhosos de nossa intelectualidade! A leitura de um folhetim exigiria que o leitor desvendasse a chave do arcano. O peso de uma palavra pode ser sedutor. De certa forma. – Podemos decifrar seu significado? O Mestre fitou-o nos olhos e disse concisamente: – Devemos dar importância a tudo. e não da Igreja ou do Estado. Era mais do que um jogo de quebra-cabeça. eis um nome bonito. porque tudo pode ser decifrado" O Jogo das Contas de Vidro. 5 . Os folhetins eram o panem et circenses do trabalhador contemporâneo. A busca da legitimidade da liberdade. assim como a Igreja também conheceu uma ironia ácida. nos sentimos muito à vontade nesse mundo. da doença e da guerra. que não era mais uma força da alma. por Hermann Hesse Vivemos na Era do Folhetim. do amadurecimento da razão. havia uma necessidade desesperada de resgatar uma suposta cultura.

Uma busca do resgate da pureza da aritmética. Estes. sendo o termo “liberal” particularmente sedutor. e que somente eram completamente aprendidos a custa de muito sacrifício. o sentido máximo do ensino era educar o cidadão. Lá eram introduzidos uma série de aprendizados que poderiam ser tidos como inúteis às pessoas do mundo. Os ouvintes assistiam passivamente a uma palestra sobre temas elevados ou tidos como importantes pelos especialistas. desprezavam o individualismo. Um ensino fundamentado nas Sete Artes Liberais. o relativismo e a anarquia. A intenção de Comenius era que a educação chegasse a todos de forma rápida e fácil. É claro que nenhum deles possuía a intenção real de ler um James Joyce. mas era místico demais para ser plenamente penetrado por um cultista gigolô. Coisas como dinheiro. como uma reação às reformas realizadas no Renascimento por Jean Amos Comenius. Serviam a Verdade e a Ciência. tratava-se de uma comunidade espiritual. independente de o conhecimento ter uma utilidade. Afinal. produzir um produto.Wanju Duli As conferências também eram populares. em que tudo se encaixa harmonicamente. Defendiam uma organização hierárquica e o anonimato como ideal. um Guimarães Rosa. para não gerar preguiça e aborrecimento. de uma gramática baseada na lógica e na metafísica. Uma sociedade progressista e conservadora. sem que fosse dada nenhuma espécie de recompensa pelo esforço. o que quer que isso seja. Um movimento de resistência a essa aparente superficialidade e inautenticidade não tardaria a surgir: os chamados guardiões da “verdadeira cultura” e da “verdadeira arte”. Afinal. Eis o berço de Castália e das escolas de elite. tidos como heróis e ascetas do espírito. fama e 6 . O objetivo dos colégios e das universidades contemporâneas era pragmático. Era requerido que os estudantes dedicassem integralmente suas vidas para o domínio de certas áreas. tendo em vista o materialismo: ensine apenas o necessário para que seja possível exercer as profissões liberais. esse prazer quase obsceno da Idade Folhetinesca era a oportunidade de mergulhar num universo fragmentário e desprovido de sentido. Em Castália. fundamentada no pensamento idealista. em que somente poderiam entrar os escolhidos e os iniciados. base da pedagogia moderna. O lendário sentido estava lá.

7 . As partidas mais elevadas se tornaram lendas e até hoje são referenciadas e comentadas em diferentes países. Hoje em dia. que surgiu no coração de Castália.A Era do Folhetim poder eram fortemente desprezadas. belíssimo e inacessível. O Jogo das Contas de Vidro possui suas origens em Pitágoras e Leibniz e é provido de uma linguagem e de uma gramática própria: são hieróglifos. Especialmente a identidade do Magister Ludi. uma língua secreta extremamente aperfeiçoada. A ambição do Jogo é abarcar o universo espiritual em sistemas concêntricos. É como contemplar um animal exótico. O Jogo é tido como a reação máxima à cultura de pedaços surgida na Era do Folhetim. As clássicas festas públicas anuais se tornaram cada vez mais restritas. Ainda é possível baixar na internet um arquivo com uma das velhas transmissões de rádio de alguns séculos atrás. Porém. Antigamente os Jogos duravam longas semanas e eram transmitidos pelo rádio. Os virtuoses do Jogo de Avelórios são famosos até mesmo fora dessa comunidade espiritual. Não são poucos que sentem uma emoção e êxtase intenso somente ao escutar as partidas. Contudo. são pouquíssimas pessoas que realmente o entendem. somente convidados especiais e uns poucos representantes do governo podem comparecer ao Jogo. Os rumores correm como fogo. Os jogadores de Avelórios buscam tocar o cosmo. Era uma sociedade fechada em si mesma. tendo como meta servir a uma causa superior aos indivíduos que lá se encontravam. Essa entrega fanática e fervorosa pelas coisas do espírito deu origem ao Jogo de Avelórios. cujo canto delicado faz verter lágrimas. a identidade dos Mestres do Jogo são mantidas no anonimato. pelo respeito ao sagrado. Atualmente as regras mudaram. mesmo sem entender a maior parte do que se passa. somente uns poucos iniciados são capazes de apreender o microcosmo do Jogo. sendo o que há de maior em Castália. cujas origens são especialmente a Matemática e a Musicologia. Alcança um sentido de universalidade. Evidentemente. já que Castália abomina o culto à personalidade. Esse animal está num esconderijo precioso e perigoso e ninguém ousa se aproximar.

Sendo assim. não adianta ser um prodígio da matemática ou da música se o aluno não se adapta a uma vida em comunidade e de privações ou tem mau comportamento. que leva em conta principalmente a habilidade do estudante. a nata de Castália. que ouviam falar de um estudante de outra escola que foi chamado. sua capacidade de disciplina e seu caráter. que era um cargo vitalício. que se envolvia com ele. muito mais difícil seria escutar qualquer coisa sobre o Jogo de Avelórios. Ele é qualquer outra coisa desprovida de definição: uma mistura disso tudo. eu nunca tinha conhecido ninguém que foi escolhido para estudar numa escola de elite. No entanto. São simplesmente pessoas competentes. Eu já tinha lido uma vez que para a escolha do novo Magister Ludi. já que até mesmo na internet ninguém divulgava nada. Um dia.Wanju Duli O Jogo não é ciência. filosofia e nem mesmo arte. eu não saberia dizer. Afinal. quase como se estivessem para eleger o novo papa. Contudo. Honestamente. Alunos de diferentes escolas são escolhidos por professores e recomendados às autoridades de Castália. era somente a elite da elite. a Comissão do Jogo se envolvia numa espécie de conclave. uma coisa não mudou: dizem que tornar-se um dia membro da Comissão do Jogo ou ser um Magister Ludi ainda é o sonho de quase todos os adolecentes de 15 anos das escolas de elite. Provavelmente não são nem mesmo os melhores do mundo em suas áreas de atuação. Caso o aluno não se adaptasse à vida em Castália. Mas aparentemente havia algum envolvimento de Castália com os monges 8 . Não existe nenhum tipo de exame que se faça para receber permissão de admissão. Aparentemente eles passavam por juramentos rigorosos e os levavam muito a sério. mas sem ser ele mesmo nenhuma dessas coisas. Se já era difícil saber o que se passava dentro dos muros de Castália. apesar de lá haver muitos relatos de gente que foi selecionada e depois retornou. Se esse rumor era verdade ou não. que sabem seguir regras e que são capazes de se comportar de forma ética. Isso significa que os estudantes das escolas de elite não são gênios. Apenas escutava alguns rumores esparsos dos meus colegas de classe. um Magister surge para realizar uma entrevista. entrar numa escola de elite não é tarefa fácil. Não possui uma teologia própria. era instruído a ficar de boca fechada sobre o que acontecia lá dentro. geralmente quando a criança tem em torno de 12 ou 13 anos.

Twitter. num mundo de informações fast food. Notícias fragmentadas em jornais e na televisão. Quem sabe eu desejasse a aniquilação do meu ser. tudo era feito com pressa.A Era do Folhetim beneditinos e dominicanos. eu não quis acreditar que fosse real. Também parecia haver influência de religiões orientais na espiritualidade deles. Até meu colégio parecia conter informações em pedaços. O ser humano se considerava tão esperto e esse foi o ponto máximo a que conseguiu chegar. E diziam que nossas universidades não eram diferentes: que as informações nunca se encontravam. de lazer. com postagens curtas e pouco informativas. O corpo precisa comer qualquer coisa e muito rápido. está contaminado. Quando se une os pedaços fragmentados da história. Respire rápido. o ar está terminando. a morte está chegando. Pois o fim do corpo está chegando e o sentido de viver é apenas morrer. Blogs na internet. que era o que Castália oferecia. Cada vez menor. Havia momentos em que eu queria crer que até mesmo a existência das escolas de elite. cada vez mais despedaçado. Sempre fui uma aluna medíocre no colégio e sabia que não teria chance nenhuma de ser chamada. Não havia tempo de respirar. Eu desejava algo maior do que o mero prazer do meu corpo. Mas não era o fim da história. num mundo material em que o corpo é a entidade máxima. as coisas começam a se encaixar. Eu não 9 . era uma lenda. e especialmente do Jogo. Uma parte de mim não podia conceber que existia algo tão fantástico e que eu não poderia participar desse universo. porque precisa viver. as disciplinas estavam desconectadas umas das outras. E o objetivo da vida é o máximo de conforto. A primeira vez que eu ouvi sobre alguém próximo a mim que foi entrevistado por um Magister. desconectadas. algo maior do que eu mesma. Eu não fazia a menor ideia do motivo disso. Eu sentia como se me afogasse cada vez mais na Idade Folhetinesca: ao meu redor só havia pedaços. Mas seria um pouco infantil da minha parte desejar qualquer coisa que não fosse o meu mundo. de viver. Facebook. já que na transmissão de rádio de um dos Jogos havia momentos de meditação. Era lamentável. como cadávers em decomposição após serem explodidos por uma mina na guerra diária da vida. o anonimato completo e a partida desse mundo com uma passagem só de ida.

Então por que tanta gente desejava esse inferno? Por que até mesmo eu? Porque a liberdade. Ficaria realmente saciada? Talvez eu fosse masoquista e desejasse muita dor para sentir os momentos de prazer com a cessação da dor. Talvez seja mais fácil entender coisas vivas do que coisas mortas já que. O insight que se sente quando todas as coisas se encaixam. essencial para a fundamentação da lógica. Férias. essa palavra mágica. Diziam que em Castália se experimentava coisas como a “ verdadeira vida”. As escolas de elite não ofereciam uma salvação. Não era uma religião. esforço e dor. que seriam as ideias criadas na mente dos gramáticos da Idade Média. como se todo o resto fosse falso. lazer. Seria uma existência vazia e apagada. estranhamente. Eles passavam a finalmente entender o que realmente eram coisas como aritmética e gramática: a ontologia da gramática. uma vida tranquila. Arrancariam até mesmo meus sonhos. Ou quem sabe até 10 . tudo teria vida. achamos que a vida faz mais sentido que a morte. pois estava me afogando. privação. a sua utilidade para a retórica. já não possuía todo esse fascínio em mim. Eles exigiriam tudo de mim: sacrifício. Poder fazer o que quiser era assim tão maravilhoso? Mas o que eu queria realmente? Um pouco de prazer para os sentidos. Eu não teria mais escolhas. Profissões liberais. Não ofereceriam nada em troca.Wanju Duli queria fugir do mundo ou de mim mesma. Tirariam tudo de mim: conforto. espírito. Minha ambição não era tão grande: queria apenas respirar um pouco. para o meu corpo. alma. com um tutor particular para cada estudante. Era como um acordar. um despertar. Para eles. Não era exatamente isso o que gerava a felicidade: a alternância entre a tristeza e a alegria? Eu quase conseguia sentir os poemas de Gregório de Matos pululando nos meus ouvidos. É claro: eles obrigavam seus alunos a estudar como burros de carga. E havia a cópula entre o sujeito e o predicado. seria apenas um número num exército de macacos adestrados. numa castração completa. Ensinavam a criar fantasmas. Quanto mais melhor. E depois eu desejaria mais. Era uma liberdade aparente. com um calendário rigoroso.

Seria somente através daquela disciplina elevada que se encontrava Deus? Ou quem sabe um novo Deus tenha sido criado naquele instante? O que era a Verdade? Ela estava mesmo escondida por trás dos muros de Castália? Havia algum tipo de sabedoria antiga e esquecida que foi mantida intacta sob a proteção dos guardiões do Jogo das Contas de Vidro? Eu já tinha ouvido falar que aquele que compreendesse o pleno sentido do Jogo deixaria de ser um jogador. você só poderia ser um membro importante do governo ou pertencer a alguma família de peso que possuísse pelo menos um brasão reconhecido nos Arquivos de Castália. um experimento científico ou uma reflexão artística. Por causa da cópula do sujeito e do predicado. E a música está fundamentada na matemática. no meio disso tudo. E mesmo que fosse verdade que ela soubesse algo mais. E para ser convidado até mesmo para um curso de verão. Pode-se jogar sozinho. senão é perda de tempo. Não adiantava nada ter as bolinhas. Eu estava completamente perdida em pensamentos. Ela só poderia estar blefando. Eu te mostro.A Era do Folhetim mesmo essa visão fosse um erro: poderia haver tanto sentido na morte quanto na vida. não devia ser grande coisa para produzir um jogo relevante. Mas aquilo não era meramente um jogo de lógica. Pelo menos ninguém de fora das escolas de elite. quando todos os conhecimentos humanos se unem. você precisa ter um conhecimento profundo de certas disciplinas. – Sabe como jogar o Jogo das Contas de Vidro? Essas contas marcam as notas musicais. sem prestar atenção nenhuma na aula de história. Eu ri. Era uma afirmação muito profunda e incômoda. Era como tentar tocar 11 . Havia mais que mente humana naquele meio. Ninguém mais sabia jogar aquilo nos dias de hoje. com duas pessoas ou muitas... E. Para ser capaz de jogar. É preciso haver um mestre realmente competente para coordenar aquilo. havia o arcano máximo: o Jogo de Avelórios. Eu conheço alguém que fez um curso de verão em Castália que pode te ensinar. Isso só poderia me sugerir que pensar sobre o “sentido” significava se afastar cada vez mais de onde eu queria chegar. Até que alguém derrubou na minha mesa bolinhas transparentes e multicoloridas que se pareciam vagamente com bolinhas de gude.

enquanto nós realizamos o verdadeiro trabalho. Tinha até uma tatuagem nas costas com a insígna do Jogo de Avelórios. Igor era um fanático por Castália e pelo Jogo. cria-se um.. Seu sonho era ter uma profissão que desse muito dinheiro. – Mais do que você. pois vários colegas meus olharam na minha direção. vários colegas meus se tornaram interessados nas escolas de elite e ficavam tagarelando sobre isso nos intervalos das aulas. A Verdade não está à venda para ser patenteada e escondida num buraco! Além disso. Os jogadores disso se acham superiores só porque para jogar é preciso entender gramática a fundo e uma linguagem secreta restrita ao clubinho. ficar rico. eles são sustentados pelos nossos impostos para viverem numa nuvem. – Esse jogo é uma grande bobagem – eu disse – é tão trivial quanto qualquer outro jogo. então cala a boca. Eles são ignorantes políticos. – Não há espiritualidade alguma nesse jogo – prossegui – não mais do que num jogo de pôquer.. de uns tempos para cá. Eles misturam as suítes de Bach com trechos de Fausto do Goethe. 12 . Porém. Duvido que saiba alguma coisa sobre política. Eu diria que o Jogo de Avelórios é um retorno à Era do Folhetim! Eu provavelmente elevei a voz demais e me exaltei dizendo isso. Acho que fiquei momentaneamente furiosa.Wanju Duli violino sem nunca ter segurado um deles antes. Esse jogo é como uma colcha de retalhos mal feita. Eles sangram como todos nós. com suas existências imaculadas e elevadas. E tentar aprender sozinho e descobrir as regras seria particularmente complicado. A realidade não é um quebra-cabeça perfeito. Era como se tivessem roubado meu sonho secreto. Antes meu amor pelo Jogo era meu segredo particular. Mas não me intimidei. Quando alguém quer ver sentido em qualquer coisa. senão impossível. E eles não possuem a Verdade. Os alunos de Castália não são especiais. – Você é só uma estudante e provavelmente nunca trabalhou na vida. então eu fingia desinteresse quando falavam comigo sobre isso. quem sabe tornarse um político importante e ser convidado de honra para assistir anualmente ao Jogo. mesmo que o sentido não exista. É só um monte de fragmentos conectados artificialmente que geram uma aparente harmonia.

Não essa matemática comum dos colégios. arrume seu próprio Mestre de Jogo. já que ao meu redor eu só via frustrados. É claro que eu estava morrendo de inveja do idiota do amigo dela que tinha feito o maldito curso de verão. – Eu só estava tentando ser simpática – retrucou Celina – você está com inveja. Eu tinha vontade de dizer: “Professor. pare com o teatro e nos ensine a verdadeira matemática. Só gostavam de lá porque era um local cercado de mistérios. Celina. Mas meu orgulho tinha estragado tudo. Eu quase explodi ao escutar isso. pois ela evidentemente estava falando a verdade. Tenho vontade de espiar esse jogo só para rir depois. minha outra colega. Por que aquele lugar exercia um fascínio tão grande sobre todos nós? Estávamos convencidos de que vivíamos numa espécie de mundo platônico de sombras e que as escolas de elite possuíam a luz. recolheu as contas que colocou na minha mesa. Se Castália fosse um internato qualquer. Se quiser jogar no futuro. aquela que tem um espírito. Vocês só estão se fingindo de especialistas. Eu provavelmente odiava ainda mais o meu próprio colégio. mas a Verdadeira Matemática. Provavelmente eles mesmos não nos revelavam tudo porque não sabiam. – Você é surda? Não tenho o menor interesse nesse joguinho fútil. ensinada pelas 13 . choramingando por fazer parte de uma escola comum. O mundo em que vivemos raramente permite sonhos muito diferentes desse. Cada vez mais fitávamos nossos professores como se nos contassem apenas uma parte da história e estivessem escondendo alguma coisa importante. O cara tinha pisado em Castália! Eu teria vontade de estrangulá-lo se o visse.A Era do Folhetim Eu não o culpava por ter esse sonho. Todos lá queriam ser especiais e saber os grandes segredos. Tudo o que eu queria na vida era me sentar com meus colegas imbecis e jogar aquele lixo. – Vamos jogar sem você – disse Celina – esse meu amigo que fez o curso de verão será nosso Magister Ludi. Eu iria mendigar migalhas de qualquer fofoca sobre o Jogo que o amigo dela revelasse. Eu começava a odiar as escolas de elite com mais força a cada dia. ninguém daria a mínima. Aposto que vai ser uma porcaria.

que deveria se chamar “Jogo do Folhetim”. Na verdade. Sempre havia muitos afazeres domésticos. Essa era uma clara desvantagem. Talvez eu até tivesse mais conforto por lá do que em minha vida atual. antes de o ensino se tornar uma mercadoria”. Aquela que ensinavam no passado. Só fingiam que jogavam para se sentirem superiores e elevados. Ou digamos que ela era um pouco mais que isso: era minha namorada. Não que eu amasse aquele lugar. já que alguns colegas meus estavam começando a estudar mais apenas para adquirir uma habilidade superior no Jogo de Avelórios. Já tinha feito vastas pesquisas na internet e em bibliotecas. Eu não era 14 . e portanto jamais existiria a Verdadeira Matemática? Ou que de fato existiam matemáticas verdadeiras e falsas? E existiriam diferentes graus de falsidade e de verdade? Eu estava cansada de tentar adivinhar as coisas. os professores ultimamente comentavam que a nota geral da turma havia subido. tirando o fato de que nas escolas de elite eu teria que me matar de tanto estudar. de imediato – pelo menos lá não tem esse bando de pedantes. que não era real. Era somente uma cópia mal feita e incompleta. Quanta besteira! – Estou entediada – disse Sônia – vamos no fliperama? – É claro – eu respondi. Desde pequena eu aprendi a sorrir e a ser dócil. Para mim. Ainda éramos muito novas para saber algo sobre o amor. E eu obviamente não poderia dar uma escapada para o fliperama. Mas depois que atingi uma certa idade. Eu já estava acostumada com uma vida em comunidade. morar em Castália seria fácil. aprendi que não teria mais jeito. mas era simples. Eu morava no mesmo orfanato que ela. Sônia era minha melhor amiga. mas pelo menos tinha um teto e comida. mas eu sentia que nossa paixão era sincera. para que algum dos casais que visitavam o orfanato me adotasse. O que ele diria? Que a matemática era somente uma invenção humana. Eu diria que aquele jogo que eles jogavam estava mais distante do Jogo de Castália do que a Terra do Sol. Não iam adotar nenhuma de nós e quando completássemos dezoito anos seríamos chutadas para fora da droga do orfanato. Mas eu tinha amigas de verdade lá. O nosso orfanato não era miserável.Wanju Duli escolas de elite.

mas isso não diminuiu em nada nossa admiração. Eu e Sônia. Eu gostava de ser otimista e acreditar que um dia tudo ia se resolver sozinho. ou qualquer outro de seus apelidos. Ainda assim. Não íamos fazer o ensino médio. Era a primeira vez que eu a via ao vivo. acompanhávamos os campeonatos pela internet. era melhor já começar a juntar grana para alugarmos um lugar para morarmos juntas. Ela era linda como nas fotos e vídeos. eu e ela tínhamos planos de largar o colégio e começar a trabalhar. Lá ela perdeu. Eu e Sônia reunimos nossas moedinhas e contamos.. D².D. Quem estava no Pump era ninguém menos que a D. muita gente a reconheceu e chamou outras pessoas. Seus longos cabelos negros e ondulados estavam presos num rabo de cavalo alto. Vestia trajes de verão: um short jeans curtíssimo e uma regata branca.. Tá tendo algum evento? – Eu não acredito. Assim que completássemos quatorze anos. mas relaxava nas raras vezes em que sobrava grana para ir lá. 15 . Mesmo assim. Era tão natural para ela que seu corpo se movia sem nenhum esforço. Eu estava espantada demais para pegar meu celular. já tinha vencido o campeonato nacional e até viajou para a Coreia para participar do mundial. Dia de sorte.. E ainda sobraria moedas para um crepe. – Mas que diabos? – perguntou Sônia – por que tem tanta gente no fliperama hoje? – E logo no Pump – observei – tem uma galera reunida lá. Daria para jogarmos Pump três vezes.! Eu também fiquei boquiaberta. pois já que teríamos que sair do orfanato com dezoito.A Era do Folhetim uma jogadora compulsiva. Eu não fazia a menor ideia que ela frequentava o fliperama perto do nosso colégio. Dancer Demon. Ela estava tão concentrada que parecia hipnotizada. as perspectivas não eram muito animadoras para mim e para Sônia.D. Tênis esportivos sem meias. A D. que curtíamos pra caramba jogar Pump embora não fôssemos muito boas. Devia ser a primeira vez e ela só estava de passagem. Muitos estavam filmando no celular enquanto ela jogava. Apenas fitava impressionada aquele demônio dançante que fazia com que o Pump parecesse tão fácil quanto respirar.

cada uma com um crepe na mão. E não é que ela era mesmo uma celebridade? Mas eu fiquei um pouco embaraçada para pedir um autógrafo também e me contentei em continuar a observá-la de longe. bem escura. alguns pegaram papel e caneta para pedir autógrafo. Ela tinha a pele naturalmente bronzeada. Eu tinha a pele negra. Ela saiu de lá suada e uma amiga sua entregou a ela uma toalha para que enxugasse o rosto. Mas elas jogaram apenas uma vez e depois saíram de lá. com coxas grossas. é claro que ela não poderia ter deixado de reparar em mim. Eu nunca passava despercebida por onde eu ia. Eu sabia que ela também gostava de andar de skate e levava isso bastante a sério. Pensar nisso me deixou um pouquinho feliz. Esse jogo eu não conhecia.Wanju Duli Quando terminou a música houve uma salva de palmas e gritos. Ela não era exatamente magra. e um black power. muito sérios. Mesmo que eu não tivesse conversado diretamente com D.D. Apenas a admirava totalmente. Era cheia de curvas. Sorte que naquele dia a minha roupa até que estava arrumadinha. Eu era inesquecível.. – Ela realmente intimida – concordou Sônia – mas parece ser simpática. Sônia também era negra. Eu queria poder sentir o que ela sentiu. ela foi jogar um jogo de tiro junto com a amiga. dava para ver com clareza os contornos de seu corpo. Eu raramente pedia esse. Olhos negros e profundos. Uma garota bonita que era skatista e jogava Pump. Ela usava trancinhas cheias de contas coloridas. – Qual sabor de crepe a menina de rabo de cavalo pediu? – perguntei para a moça do crepe – eu quero o mesmo! Ela tinha pedido o de doce de leite. Depois disso. hein? – comentou Sônia. 16 . Não era à toa que era famosa. mas a pele dela não era tão escura quanto a minha. Com a roupa que usava. admirada – por que não pediu um autógrafo? – Sei lá – respondi – ela é meio assustadora. A seguir. especialmente entre os rapazes. Eu não a invejava nem um pouco. – Você é fã mesmo. mas aproveitei a chance. Eu era fã.

À noite resolvi espiar a fanpage dela no Facebook para ver se havia alguma informação sobre a passagem dela pelo nosso fliper. Provavelmente só está de passagem. Já Melissa era bem gorda. tendo os cabelos com penteados também opostos: enquanto Lua tinha cabelos grandes e revoltos. Mel e Lua eram outras grandes amigas nossas. ela só tem 14 ou 15 anos! – respondi. ainda com sua voz alta e escandalosa. mas fiquei orgulhosa quando terminei. 17 . por isso preferimos deixar para jogar outro dia. Quando voltamos para o orfanato.A Era do Folhetim O Pump ainda estava cheio depois daquele acontecimento. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ela estava partindo. as roupas. – Não tirei foto porque sou uma imbecil – confessei. Mel tinha os cabelos bem curtinhos como os de um menino. – Pessoas morrem em qualquer idade – justificou Mel. animada – a gente viu ela hoje no fliper. Luana era muito magrela. com um grito. quase num black power. – Por que não a perseguiu e descobriu onde ela mora? – perguntou Melissa. havia muitos serviços domésticos para fazer e dividimos as tarefas: lavar os pratos. Tinham um ano a mais que nós. horrorizada.? – contei. Deu um trabalhão.D. Sônia me fitou de forma peculiar. – É claro que não. e sim para Castália. As duas eram negras. mas ela não está partindo para o além. lavar o banheiro. – Não sou uma stalker! – retruquei – que eu saiba ela nem mora nessa cidade. Para sempre! – Ela vai morrer?! – berrou Mel. vocês lembram da D. – É mais fácil ir para o além do que para Castália – observou Sônia. – Pelo menos é o que os fãs dela dizem – expliquei – ela vai viajar amanhã de manhã. uma tábua sem peito e nem bunda. Ficamos satisfeitas apenas com os crepes e por ter presenciado aquela cena única. – Eu sei. – Não tiraram foto? – perguntou Luana. com peitos relativamente grandes. Lua. limpar o chão. – Tá de brincadeira! – exclamou Melissa. – Mel. A aparência delas era praticamente oposta.

largasse tudo apenas para viver lá? Será que ela havia pensado bem sobre isso? Não tinha ficado em dúvida? Provavelmente foi um dilema para D. fosse famosa como uma cantora ou atriz. Não que D. Aqui diz que ela foi escolhida pelas notas altas em ciências. Vai estudar biologia. No dia seguinte. Foi concedido a ela tempo extra para refletir. Não que eu soubesse muito sobre a vida pessoal dela. Aquela entrevista. Para mim era prova suficiente de que ela seria capaz de aguentar a disciplina rigorosa de Castália. – Sim – concordei – ela vai sacrificar o futuro brilhante dela apenas para estudar em Castália. muita gente que não ligava para as escolas de elite passou a pesquisar mais sobre isso. E por lá os rumores rolavam soltos. Eu também quis saber mais. Essa foi a primeira vez que ouvi falar de alguém que foi estudar nas escolas de elite. E Castália ganhou ainda mais notoriedade. o principal era ver o caráter. Só que não havia muito mais a ser dito. Porém. as notas dela eram normais.D.D... além dos seis meses habituais. Ela nunca mais vai poder jogar Pump ou andar de skate. 18 . meus colegas não falavam de outra coisa durante a aula. fosse retornar como os outros. A maior parte deles nunca tinha ouvido falar na tal skatista. Aquele lugar era tão importante assim para que uma estrela como D.D. Ela era uma pessoa séria em tudo que fazia: era séria no skate. mas já que Castália estava no meio daquilo. Eu achava improvável que D. séria no Pump. já que geralmente as crianças são chamadas para estudar lá com 12 ou 13 anos. que lhe tomou mais de um ano. os valores.. Por causa dessa história.Wanju Duli – Esperem – disse Luana – pelo que eu saiba. chamou a atenção deles. é tudo proibido nas escolas de elite. os motivos. Ela iria partir e o resto seria silêncio. mas eu desconfiava que o Magister da escola de biologia havia visto algo mais em D. Até onde eu sabia.D. Não era exatamente uma pessoa próxima a mim. os caras não deviam ver apenas as notas. Eu nunca tinha ouvido falar que ela se destacava na biologia. pois mostravam que o aluno possuía o mínimo de disciplina para cumprir metas. Ela havia sido uma exceção. mas não deixava de ser uma espécie de conhecida. Claro que as notas eram importantes. mas ela era uma lenda no submundo da internet.D.

Confesso que eu era um pouco metida e sempre retirava livros direcionados a leitores mais velhos que eu. Ao mesmo tempo. E eu não gostava de ver nos outros as coisas que eu detestava em mim mesma. Só lia para dizer que li. Liberdade. Eu tirava só o necessário para passar de ano. Era como olhar a mim mesma no espelho e constatar: “veja só como você é um ser humano desagradável”. Eu já estava com 13 anos. mas quando eu morasse junto com ela teríamos mais liberdade. fingia que lia e compreendia livros áridos. Chamar a atenção dos professores de uma forma positiva. No fundo. Eu já lia livros difíceis. Eu não me importava.? Era mais um motivo para desejar estar lá.D. Eu era apenas trapaceira. Mas isso não era o bastante para ser escolhida para as escolas de elite. Só pelo prazer de passear por aí com um livro aberto do Dostoiévski. mesmo que estudássemos disciplinas diferentes. então serviria qualquer um. Eu retirava livros na biblioteca sempre que podia. Não que esse teste servisse para medir o meu caráter. O primeiro passo para ter uma chance era estudar muito. Gostava de me sentir como Machado de Assis. que foi muito pobre quando criança e obteve todo seu conhecimento com seu próprio esforço de ler muitos livros. ter comportamento exemplar. Só queria continuar a morar com Sônia. Minhas notas eram apenas regulares. Enganava até a mim mesma.A Era do Folhetim O quão legal seria estudar no mesmo lugar que D. Isso me dava nos nervos. Contudo. Até que seria bom se me permitissem viver no orfanato para sempre. embora não os entendesse. A velha palavra sedutora outra vez. e depois começaria a trabalhar. Elevar as notas. como eu queria sair de lá! Seria mais difícil me sustentar. Devia ser por isso que eu sentia raiva dos meus colegas que fingiam jogar o Jogo das Contas de Vidro: porque eu fazia algo parecido. Em qualquer coisa. Não seria fácil conseguir emprego com aquela idade. Só que as vagas eram limitadas. Estava no limite de tempo. eu já sabia 19 . eu não tinha grandes sonhos ou ambições. Ela me comprava completamente. Não bastava desejar ir. Eu apenas concluiria aquele ano no colégio e o seguinte. A única coisa que eu realmente gostava de fazer no colégio era ler livros de ficção. com uma promessa de felicidade.

Estávamos em 2288. Em compensação. Prossegui a minha leitura de “O Ateneu” de Raul Pompéia. 20 .Wanju Duli que naquele mundo materialista possuíamos apenas uma liberdade aparente. tanto que até os dias de hoje nossos colégios e universidades de maior destaque eram militares. Essas coisas vão e voltam. cada vez mais gente desejou um retorno à espiritualidade. Em certo momento. Não era o suficiente? Era irreal fantasiar que os alunos das escolas de elite eram mais felizes que eu. Sentiria insegurança caso não o tivesse de novo. Eu teria medo de perdê-lo. por influência dos carmelitas. A Castália brasileira. Com os cérebros de nosso país direcionados para as forças armadas. chamada de Nova Castália. Em compensação. E ainda reclamávamos das mesmas coisas. Por isso. houve um retorno às antigas e uma tentativa de restauração das bibliotecas que foram destruídas após as grandes guerras. numa busca de resgatar os valores perdidos. de usá-lo de forma errada. Era de 1888. Eu não tinha do que reclamar. e ultimamente ela estava tão popular quanto a sede alemã. Eles passavam por dificuldades pelas quais eu não passava. Eu queria ser feliz e livre. Depois de uma participação mais ativa do Brasil em guerras mundiais. porque eu tinha pão todo dia. Mas eu já não era todas essas coisas? Minha vida estava boa. Era possível que ter dinheiro me aprisionasse ainda mais. Havia momentos em que eu desconfiava que nem mesmo ter dinheiro faria com que eu me sentisse livre. também houve o retorno da Era do Folhetim. O internato descrito naquele livro era realmente um lixo. tinham certas vantagens que eu não possuía. com um aspecto fortemente místico. A grande questão era se essas tais vantagens seriam assim tão sublimes. De certa forma eu tinha sorte: os livros de papel ainda não tinham sumido. Era incrível constatar que 400 anos já tinham se passado. onde tudo começou. tornou-se uma instituição de peso. era comum que estrangeiros desejassem estudar na nossa Castália. O Brasil sempre se destacou pela sua força militar. já que ele me daria uma falsa sensação de segurança e liberdade. chegou um momento em nossa história que passamos a nos destacar nas guerras que estouraram posteriormente.

como uma prisão. – Gosto de fazer coisas que ninguém faz – respondi. – Então por que continua lendo? Eu dei de ombros.. – Gosto de Proust. e Hemingway. – Você realmente gosta de ler – ela comentou – eu nunca vejo nenhum dos outros alunos com um livro na mão. estranhando. Eles não gostavam de deixar claro a própria localização. 21 . Um particularmente empoeirado que ninguém retira há anos. Como se dizia que eles possuíam muros altos como uma fortaleza. Infelizmente não havia tanta coisa disponível ao grande público. – Já faz alguns séculos que temos outras diversões mais interessantes que livros. Estivera lendo distraidamente “O Ateneu” num dos bancos do colégio e não vi quando a professora de português se aproximou. Ou bungee jump. Só não fui mais porque custa caro. Eu apenas a fitei curiosamente.. – Deixando isso de lado. já que se os portões principais não fossem abertos ninguém entrava e ninguém saía de lá. embora aquele não fosse exatamente um segredo. Pensei em algum nome bem difícil para pronunciar. então eu me contentava em ler tudo o que encontrava. – Bungee jump? – perguntou ela. – Senhorita Santa? Eu levantei os olhos. não faria tanta diferença saber onde era. mas eu não tinha certeza se era na capital. qual o seu autor favorito? Ela sentou-se ao meu lado. aguardando que ela falasse. Eles apenas ocultavam discretamente essa informação. para impressioná-la. – Já leu “Em Busca do Tempo Perdido”? – Já. simplesmente – como escolher o livro mais chato da biblioteca para ler. Eu tinha ouvido falar que nossa Castália localizava-se em algum lugar do Piauí.A Era do Folhetim Eu lia muito e me interessava por tudo que tivesse relação com as escolas de elite. mas não consegui pensar em nenhum. – Está meio fora de moda hoje em dia – respondi – mas já fui duas vezes. Nunca vi prisão mais cobiçada que essa.

Não precisam de um motivo superior para isso. mas com moderação. simplesmente – as pessoas devem fazer o que seu coração manda. retirei um livro do José de Alencar. Incrível. sacudindo meu livro do José de Alencar. “Por que essa conversa ainda não terminou?” pensei. para mostrar como eu me encontrava num patamar acima deles. gosto mais de ler do que de falar sobre os livros. Patético. Enquanto eu passeava pelo pátio. – Fiz um curso de verão em Castália. para estragar tudo. Eu era um pouco masoquista. – Que livro é esse? – perguntou um garoto que eu não conhecia – “Til”? Nem sabia que o José de Alencar tinha um livro com esse nome. – Porque eu quis – respondi. – Você não sabe uma coisa simples como essa e ainda pensa que pode jogar o Jogo de Avelórios? – desafiei-o. Até que era pouco. Passei ali perto de propósito. incomodada. deixando claro que estava sendo insolente – o livro estava tão interessante que tive que desocupar as mãos para limpar as lágrimas dos olhos. Significava que cinco anos atrás alguém se interessou em ler aquele livro. – Qual foi o livro mais divertido que você já leu? Aquilo era um interrogatório? – Nenhum. – Por quê? – ele perguntou. – Perdão! – exclamei. derrubei o livro em cima das bolinhas que formavam círculos concêntricos. Eles nem mesmo sabiam como se portar para jogar um autêntico Jogo de Avelórios. Aquele já estava há cinco anos sem ser retirado. – Claro que não – respondi. de imediato – não sou tão estúpida. – E eu assassinei uma tartaruga no verão. Quando devolvi o Raul Pompéia para a biblioteca. impressionada. 22 . são todos chatos – respondi – na verdade. Eu quase disse que discutir os livros depois de ler era como fazer sexo e debater sobre a transa logo após. mas segurei a língua. Propositalmente.Wanju Duli – Todo? – ela perguntou. vi meus colegas debruçados no chão no intervalo como se jogassem bolinhas de gude.

Ele realmente parecia sentir muito. relembrando do período em que passou fome.A Era do Folhetim – Você já leu Kant? – ele perguntou – está familiarizada com o Imperativo Categórico? – Você já leu “Mein Kampf”? – retruquei – eu já li. 23 . Me senti idiota. Picotei o livro do José de Alencar com uma tesoura e quando o devolvi para a biblioteca na segunda-feira seguinte. Ele estudava num colégio particular. Fiquei realmente comovida quando Hitler relata como chorou em seu travesseiro quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra. Achei ótimo. Eu não tenho pai. – No ano passado fui com meu pai para Berlin e assisti a um jogo oficial orquestrado pelo próprio Magister Ludi. – Isso é o que você acha! – gritei – você não sabe de nada! O garoto deu um sorriso cínico. Aposto que se eu jogar contra você agora. Eu fiquei sem fala por alguns segundos. vencerei de olhos vendados. Gastei todas as moedas do meu cofrinho no Pump. – Quem é seu pai? – perguntei – é o papa? – Ele é deputado. levada na diretoria e fui suspensa da aula por dois dias. – Pode me bater de volta – provoquei – assim nós dois levamos advertência. Você já alimentou ratos? – O quê?! – Eu vou te esmagar como um rato se você continuar aqui fingindo que está jogando o Jogo. repleto de compaixão. – Que merda é essa? – gritou ele. E ele também alimentou os ratos quando estava na prisão. Mesmo assim. Especialmente pelo uso do termo “orquestrado”. Dessa vez ele se enfezou. – Bom para você. Fui imediatamente delatada. – Sinto muito ouvir isso. – Esse jogo não é sobre ganhar ou perder. – Eu nem mesmo estudo aqui. Passei os dois dias no fliperama. Fiquei surpresa ao constatar que ele não disse aquilo com ironia. eu queria uma desculpa para dar um soco na cara dele. É claro. E dei.

Também tive que pagar por ele. dois ou três – expliquei – os jogadores devem primeiro meditar sobre os símbolos escolhidos. Uma síntese é feita a partir da tese e da antítese. Nunca ficou em recuperação. Ele nem estuda aqui. – Por que isso te aborrece? – perguntou minha professora. Estava um pouco atrasada para a minha idade. eu leio muito. mas eu não me importava. embora eu nem tivesse cachorro. Maria? Você sempre foi uma boa aluna. Com ele. O Jogo é um organismo complexo. – Porque não é assim que se joga. De que adiantava se minhas notas não se destacavam? – Estou de TPM – resolvi dizer – então tive vontade de socar um homem. – Nunca fui uma boa aluna – respondi – e nunca tive nada a perder. Ou talvez eu tivesse e ele estivesse passeando por aí. deseja-se abarcar o universo. – Isso obviamente não justifica suas ações. – Como se joga? – A mecânica do jogo é possuir temas restritos de conteúdo: normalmente um. 24 . O que eles estão fazendo é um sacrilégio. – Confesso que estou desapontada. Você sempre se comportou em aula. – Como sabe de tudo isso? – Como eu disse. Eu nem havia tido minha primeira menstruação ainda. Para isso é preciso alargar seus domínios. – Ele finge que sabe jogar o Jogo de Avelórios – acrescentei – isso me aborrece.Wanju Duli expliquei que meu cachorro comeu o livro. – O que está acontecendo. – Sempre enxerguei o Jogo como uma arte. parecendo interessada. Minha professora de português me chamou para conversar após a aula. Eu já li sobre isso. O que realmente aconteceu? – Aquele menino não tinha autorização para estar dentro do nosso colégio. mas isso era apenas um detalhe. Quanta bobagem. E ele falou mal do meu pai! Eu nem tinha pai.

a sonhar amores monstruosos e universos fantásticos. 25 . enquanto nos lamentarmos e disputarmos sobre as aparências do mundo. "E existiremos enquanto nos divertirmos. mártir. Ela me entregou um pedaço de papel. mendigo. Muito prazer. Ele expressa o velho conflito entre o estético e o ético. – Mas você reconheceu imediatamente que era Rimbaud. Minha professora autorizou-a a entrar. Parecia ter em torno de quarenta anos. confessor. Não gosto de ler. Eu estava encrencada. Minha professora saiu pela porta. artista. – Você é Maria Santa? Concordei. Como uma guerra. guardião dos perfumes sagrados. – sacerdote! Sobre meu leito de hospital. Ela sentou-se ao lado de minha professora. – Quase isso. É algo maior. – Prefere prosa? – Não prefiro nada. – Prefere poemas mais equilibrados? – É. – Um embate. mas acho que na minha idade e na dele isso é inevitável.. A matemática é um tipo de instrumento e é mais útil numa partida formal e não num embate psicológico. Ele possui problemáticas que devem ser resolvidas. o cheiro do incenso me faz tão poderoso. como Olavo Bilac. Era uma mulher vestindo trajes bem arrumados. Alguém bateu na porta. O cabelo estava caprichosamente preso num coque bonito. – Vou deixá-las conversar. – A guerra dentro de mim. bandido. saltimbanco. – Meu nome é Lorena Flores. ou escrita poética.A Era do Folhetim – Uma arte sui generis. Eu não gosto dos exageros dos poetas românticos. Mas em geral não prefiro poesia. – É ela? – perguntou a mulher.." – Rimbaud – pronunciei. de imediato – é de sua magnum opus. Nele havia um tipo de poema. se é possível chamá-lo assim. – Como problemas de matemática.

quando não o conhecia – respondi – quanto mais li sobre ele. mas não leio porque gosto. – Não gosta do Jogo. Não sei muito bem dessas coisas. – Curioso. Não precisa ser uma competição como aquela besteira de Jogo das Contas de Vidro. passar no vestibular e no futuro ganhar dinheiro. Não foi uma pergunta. poderosas. 26 . Eu leio muito. Foi uma constatação. Como um espírito. Por quê? De repente. sobrevivem às guerras e às mudanças dos tempos. – Suas notas não são muito boas. Outras coisas costumam perecer. mais me pareceu trivial. É conhecimento desse tipo? – Qualquer um. – Sou naturalmente curiosa. não é mesmo? – Na maior parte do tempo – concordei – mas pode ser que algumas coisas possuam valor intrínseco. – Eu gostava antes. – O colégio é chato – respondi – não temos nenhum incentivo para estudar além de passar de ano. apenas para o que me interessa. Por um momento. – O que acha de religiões? – São fortes. preferi ter continuado a falar do assunto anterior. Eu me pergunto se é esse tal espírito que as mantém de pé. uma Verdade ou Deus. – Não gosta do conhecimento? – De que conhecimento estamos falando? – perguntei – posso passar a conhecer mais as nuvens se olhar para elas. Ela não perguntou porque eu lia. por sua força. Achei ótimo. – Nós atribuímos os valores para as coisas.Wanju Duli – Qualquer um reconheceria. É só me dar um bom motivo. eu realmente pensei que fosse algo de valor. Mas por que estamos falando de religião? – Você é ateísta? – Não achei que Castália fosse uma espécie de Maçonaria – respondi – preciso acreditar em algum tipo de Deus para entrar? Eu sabia quem ela era. mas as palavras possuem uma espécie de sedução.

– Isso é totalmente natural. Agora ela assumia um tom nietzscheano. – Obrigada pela sinceridade. qualquer outro mataria por essa oportunidade única – completei. – Então existem coisas certas e erradas? – Vejo que aprendeu algo novo hoje. Você. mas errado. – Agradeço pela lição – eu disse – você é. Eu suspirei. – Confesso que estou muito curiosa para conhecer a sua razão de não desejar estudar lá. tem medo de responsabilidades. sim. Aquela mulher aparentemente simpática conseguia ser amarga quando queria. Ela me cortava e eu gostava cada vez mais. sou como todos os outros! – exclamei. “O amor procura o amor assim como os meninos fogem dos livros escolares. com orgulho – não sou diferente ou especial. mas eu não sou boa nisso – deixei claro – nunca fui. mais facilmente irei me fundir à multidão. a não ser em sua capacidade de obedecer. Não sou esforçada. Apreciei a brincadeira. ou você é diferente? O tom com que ela perguntou aquilo me gerou uma sensação desagradável. só faço o mínimo necessário e estou naquela idade difícil de desafiar a autoridade e questionar o que me ensinaram. como se dissesse: “você faz parte do gado?” – Ah. Então quanto mais ordinária eu for como ser humano. 27 . como todos os outros. um ser superior das escolas de elite. – É um pensamento ousado. Pensei que em Castália a capacidade de desaparecer e se manter anônimo fosse uma virtude. mas quando o amor do amor se separa. – Afinal.A Era do Folhetim – Não precisa acreditar em nada. fica como os meninos dirigindo-se à escola: de ar sombrio”. Aquela ironia cortante era como uma faca de mel. Ela me passou outra folha com o trecho de um livro. Masoquismo extremo. sem dúvida.

. Mas se somente nos ocupássemos com acertos desse tipo. – Não deveria? – perguntei. ela ficou chocada. – Você acertou. então. Sempre tive horário para tudo. faríamos um exame para selecionar os candidatos. Aquela mulher sabia bem como fazer isso.. aposto que foi o patife do Romeu quem disse. – Moro num orfanato e faço todos os afazeres domésticos – expliquei – acordo todo dia às quatro da manhã. ficou com uma curiosidade mórbida ao meu respeito. mas não me importo. – Posso te colocar lá se eu quiser. mas não celebre – ela avisou – a maior parte dos cadidatos desiste. – Saiba que fui entrevistada na semana passada e recusei. O maior desafio será o que enfrentará lá dentro. mas você não é apropriada para as escolas de elite. – Não sei o que dizer – eu respondi. – Você aceitou – ela disse. Quando contei a notícia para Sônia. – Amanhã você fará sua viagem. Você quer? Novamente. – Sinto muito. posso perder uma parte ou outra para me encaixar. como se desejasse me despedaçar com as próprias mãos. A mulher saiu sem se despedir. – Eu errei? – perguntei.. finalmente – não faço escolhas somente por querer ou não querer. Nem sei porque essa entrevista aconteceu. com voz fraca. – Não são desafios desse tipo. ela me deixou sem palavras. – Sei que não sou apropriada. 28 . É apropriado. talvez. Ao mesmo tempo. confusa – se não é Shakespeare. – Sente que vai perder uma parte de você se tentar? – Pode ser que eu perca.Wanju Duli Tive que ler mais duas vezes para me lembrar. pouco a pouco. mas não me recordo do livro – eu disse – se é amor. Fiquei sem fala por um instante. Vivo num mundo de pedaços. – Isso me parece Shakespeare.. Serão coisas bem diferentes do que você conhece. Eu diria que me odiou. Se houver alguma unidade em Castália. O desejo é algo passageiro. Era como se eu fosse enviada para outro mundo. Ela não gostou de mim.

A Era do Folhetim Subitamente.. fazer voto de castidade e abdicar das posses materiais – disse Sônia – como se não me amasse. especialmente porque muitas eram recusadas logo no processo de entrevista. Agora não vou voltar a ficar junto contigo nem que implore. Se ela não tivesse feito voto de castidade também. Pensei que ela fosse entender. Vai tomar no cu. Estávamos falando das escolas de elite! No dia seguinte. As pessoas não falavam sobre isso. Não contei para meus colegas para onde estava indo. Nova Castália me chamava muito mais a atenção. Ainda mais depois de eu ter criticado tanto Castália. – Ainda faço. Se eu me gabasse cedo demais e depois não aguentasse. era melhor eu me gabar somente depois de ser aceita na escola. ficava mesmo na capital. De qualquer forma. eu estava descobrindo que as entrevistas não eram tão raras como eu pensava. Havia apenas uma regra não dita sobre discrição. não tenho interesse em Castália.. – O Jogo? – perguntou Sônia. – Você disse que não gostava de ler. – Eu amo – afirmei – com todas as minhas forças. – Eu tenho. Coloquei o básico numa mochila e me despedi de Lua e Mel. Pelo visto. Maria. Eu não tinha muita coisa para levar. Mas existe algo maior que eu. Vá lá e namore a D. peguei um ônibus até Teresina. Posso me tornar Magister de literatura. com desprezo – até ontem você fazia troça disso. Era uma situação complicada. Afinal. – Recusei por você – ela disse – além do mais. E ela se retirou. – Você vai viver lá para sempre. – Mas não me importo em ler. – Vai me largar porque está de saco cheio. 29 . Sônia nem queria ver a minha cara.D. seria um pouco vergonhoso. Mas aquela brincadeira podia me fazer perder o ano. se eu ficasse lá tempo demais e depois desistisse. O Jogo não é a única possibilidade. eu não estava indo para a Castália alemã e tinha pouco interesse nela. – Vai fazer algo com que não se importa só por causa do título? – Estou de saco cheio – esclareci – preciso saber o que é Castália.

– Você é minha mentora? – perguntei. Ela vai me mostrar o quanto eles são bons. Sabia que era capaz disso. Ela claramente não era brasileira. – Eu não sou boa – eu disse – a Magister pretende me insultar. Peguei outro ônibus até o local. Aquilo tudo parecia uma piada. com muros imensos. Fui recebida logo no portão de entrada por uma garota com elegantes trajes azuis. Somente dali uns oito anos iríamos para lá. esse é o sistema daqui. eu poderia me esforçar. eu estava com vontade de provar que eu era capaz de ser uma boa aluna. só para depois dizer: “Está vendo tudo isso aqui? Não será seu”. ter que me comunicar num idioma que eu não conhecia seria particularmente aborrecedor. Deve ter se espalhado a notícia de que eu estava fazendo bullying com meus colegas adoradores de escolas de elite. para entender.D. ser obediente e ter disciplina. O recém-chegado terá a orientação de um veterano ao longo de sua preparação. Quer me levar lá para depois ter o prazer de me expulsar. eu só não me dedicava no colégio porque não me interessava. Não foi tão difícil assim achar. Dividiremos quarto. comecei a sentir um frio na espinha. Se eu aguentasse o primeiro mês. mas quando desci do ônibus voltei a ficar tensa. Fui escolhida para te instruir. mas o bastante para ser aceita por lá. – Não sabia que era tão boa no colégio – comentou Lua – até entendo o caso de Sônia. Fiquei sabendo que aquele lugar enorme era apenas um tipo de seminário para os novatos. A Nova Castália deveria ter outra localização. li um livro do Manuel Bandeira. mas era sério. Durante a viagem. – Você deve ser Maria – ela cumprimentou-me – sou Mariel Aquino. Enquanto estava na rodoviária esperando o ônibus. Se houvesse um motivo maior..Wanju Duli especialmente porque era lá que estava D. Tentei relaxar e deu certo por um tempo. – Ah. Eu não deveria brincar assim. já que as notas dela eram melhores que as suas. Eu não pretendia tomar cuidado lá dentro. Além disso.D. Não tanto quanto D. Minha vida estava em jogo. provavelmente poucos anos mais velha que eu. Minha paciência tinha limite. 30 . Afinal. me dedicar aos estudos. Serei sua mentora. Por outro lado. Digamos que era uma localidade bastante chamativa.

você terá uma professora. Fui conduzida ao interior da construção. Mariel caminhou comigo pelos arredores para me mostrar o local. prontamente – e.A Era do Folhetim Claro. Fiquei na parte de baixo do beliche de Mariel. – Isso é um uniforme? – perguntei. – De onde você é? – resolvi perguntar. Minhas amigas do orfanato eram como irmãs para mim. apesar de não ser muito grande. Somente mais tarde. Mas era a norma. fazendo uma careta. Era tudo muito simples. Não há muitas regalias por aqui. ainda por cima. escolheríamos formalmente a qual escola iríamos fazer parte. Estudante de história. hã? – disse Agatha – com tecido de má qualidade. Mas era assim que funcionava nas escolas de elite: já escolhíamos nossa área de estudo assim que entrávamos. Era um local bonito e espaçoso. olhos puxados. dali quase dez anos. 31 . Tão alta que parecia quase uma modelo. Mas vá se acostumando. cabelos negros e lisos. Fiquei contente. Outra garota entrou no quarto naquele instante. ali seria diferente. Aquela recepção calorosa me dava a falsa sensação de que minha vida lá seria fácil. Se bem que. Nosso quarto também era aconchegante. E naquele calor não seria muito agradável. – Sou Agatha Cruz. mas eu poderei te ajudar no que precisar. Era como vestir um lençol velho. Agatha era uma mulata alta de cabelos crespos. Fiquei satisfeita com isso. – Quem é? – Meu nome é Maria – apresentei-me. Porém. Simpatizei com ela imediatamente. Então eu ganharia uma nova família. vestida naqueles trajes azuis não se parecia com uma. Ao lado. – Horrível. – Filipinas – ela me respondeu. Por isso fui escolhida para ser sua mentora. Tinha a pele morena. Era engraçado ver todas aquelas adolescentes se apresentando como se já fossem estudantes universitárias. Mariel tinha um sorriso tímido e parecia boazinha. também estudo literatura. havia outro beliche. Como uma irmã mais velha. Então era melhor eu não dar bandeira. assim como você. Eu teria alguém responsável por mim que eu poderia prejudicar se pisasse na bola.

Nessa escola preparatória eu tinha mais afazeres domésticos do que em casa. mas eu gostava 32 . Ler é apenas um hobby para mim. – Coisa estranha de dizer para quem está estudando literatura – riu Mariel. ou terá problemas aqui dentro. Até a do meu colégio público era maior. Logo eu descobri o que ela queria dizer com isso. – Sugiro que você mude seus pensamentos. – Tenho quinze. Se a intenção da Magister era me impressionar. Honestamente. – Não que eu realmente queira estudar literatura – eu corrigi – eu sequer tinha planos de frequentar a faculdade se eu ficasse lá fora. a cozinha e os outros poucos lugares que eu precisava conhecer. Já li uns trezentos. eu me desapontei muito com a biblioteca deles. Não é o número que mais importa e sim o quanto se dedicou na leitura. Frequentemente vale mais estudar a fundo umas poucas obras e lê-las mais de uma vez para realmente compreendê-las. Disse isso a ela. É claro que eu relia meus favoritos. bem longe. – Até que é bastante para a sua idade. mas eu não era tão fã assim de leitura. – Algumas centenas? É tão pouco que não serve nem como leitura de cabeceira – observei. Você tem doze? – Treze – corrigi. – Quantos livros você já leu? – Certamente mais de cem – respondi – talvez duzentos. para evitar problemas. Ela também me mostrou o banheiro. Da maioria eu sequer me lembrava bem. mas não se preocupe. Claro que eu não havia lido com atenção todos os livros que já li. O masculino fica lá no outro prédio. Somente os que me marcaram mais. Cozinhar e lavar pratos era um processo longo. assim como os laboratórios e departamentos dos cursos. – Onde estão os livros? – Aqui nós temos apenas algumas centenas – explicou Mariel – as bibliotecas principais com os livros raros estão nas Grandes Escolas de Elite.Wanju Duli – Esse é o dormitório feminino. não estava funcionando. incluindo uma modesta biblioteca.

– Lógico. Se há dor. A sua vontade de entrar para as Grandes Escolas de Elite será maior que seu calor. Apenas fique grata com o que lhe é dado em vez de tentar ser a melhor de todas. iniciei minhas reclamações. Assim que tive oportunidade de conversar com a Magister. Era um estudo rigoroso. mas somente na biblioteca. Tenha um pouco de humildade. Eles não estavam mentindo. Não importa o quão quente ele seja. Eu me surpreendi ao perceber o quanto eu estava me adaptando bem a tudo. – Não me importa que o papa use uniforme de linho – retrucou a Magister – pare de se comparar com os outros. Sempre gostei. Lembre-se que o foco é o espírito. A única coisa com a qual eu realmente teria dificuldade de me adaptar seriam os estudos. sentada numa cadeira dura e com aquele lençol azul escaldante em cima de mim. Todas as minhas roupas ficam suadas e fedorentas e vou precisar lavá-las mais vezes do que seria necessário só por causa desse lençol que fica em cima. 33 . já que eu tinha um número de livros para concluir a leitura por semana e apresentar relatório. E lavar pratos já era algo tão comum que até mesmo isso eu considerava relaxante. mas faz parte de um grupo. use isso como uma lembrança do peso do seu sacrifício. Por que vocês não são mais pragmáticos? – Você continua a olhar as coisas com sua mente do mundo – observou a Magister. – As garotas me disseram que os iniciantes na Alemanha usam uniformes de linho. Era desconfortável ficar lendo livros chatos por horas a fio. Não tinha permissão para ler deitada na cama ou embaixo de uma árvore. é a única que tenho! – Lá fora. O uniforme a identifica como membro do grupo. Castália não é uma sociedade materialista. mas não aqui dentro. – Por que precisamos vestir esse uniforme feio? – perguntei – ele é muito quente e fico suando embaixo dele. Você não é um indivíduo isolado.A Era do Folhetim de cozinhar. Eu tinha pouquíssimos horários livres. E não podia simplesmente fazer pausas quando queria. sua meta é o conforto e o lazer. Você continua com sua mente do século.

Aos poucos. eu já não sentia prazer algum em comer. em leve tom de desespero. junto com ovo e alface. surpresa. eu já me sentia um zumbi. Se eu também reclamasse sobre a comida seria demais. com dinheiro limitado. Eu também tinha algumas reclamações sobre a comida. Todos eram simpáticos. Nunca tive problemas em acordar quatro ou cinco horas da manhã. Os produtos de limpeza tinham um cheiro muito forte. No primeiro dia. Porém. Em poucos dias. Senti falta até de beber café. como você aguenta comer a mesma coisa todo santo dia? – perguntei. E era sempre a mesma coisa: bife ou frango. você entra no ritmo. Sempre vivi num orfanato simples. Dormi duas vezes em cima dos livros. só pelo prazer de vencer. Apenas pela falta do café. Até que eu descobri. o local me pareceu maravilhoso. Simples e aconchegante. O colchão da cama era duro. – Mariel. Mas ultimamente eu estava indo dormir muito tarde para conseguir dar conta de todos aqueles estudos. Não que eu precisasse me livrar completamente dele. Somente dificultaria as coisas. pois ali não era permitido. Tudo tinha o mesmo gosto. Depois do primeiro dia. Mas eu tinha a liberdade de comer um chiclete ou um bombom fora de 34 . A cadeira da biblioteca era tão desconfortável que bastava eu ficar sentada cinco minutos nela para desejar trocar de posição. que nas escolas de elite eu sentia falta de coisas triviais como arroz e feijão. – Acostuma – ela respondeu – no começo é difícil para todos. Mas eu não reclamei disso com a Magister. leituras e relatórios. bastou que alguns dias se passasem para que eu começasse a ver defeito em tudo. No orfanato eu também comia quase a mesma coisa todos os dias. Apenas ao mencionar a questão da roupa ela já ficou aborrecida.Wanju Duli Foi então que eu entendi qual seria meu maior desafio: vencer o meu orgulho. Era tudo novo e interessante. Lá dentro. Somente aquela parte que queria retrucar e ganhar. aquilo teria pouco valor. Nunca me considerei uma pessoa exigente em relação à comida. Era muito mais difícil permanecer acordada sem minha cafeína diária.

Qualquer coisa assim. É claro que era proposital. não havia um padrão a seguir. Mesmo assim. incluindo dentro de mim. tendo que ficar horas a fio lendo os clássicos mais chatos já escritos. eu ainda precisava conhecer muita coisa sobre literatura. Minha professora se chamava Esther Bonfim. Viva as escolas de elite! Realmente. Isso somava uma marca de um livro por dia. No colégio e provavelmente na universidade aprendíamos as coisas de forma fragmentada. mas nunca o todo. Era uma mulher de poucas palavras. um clássico é um livro que as pessoas elogiam. Estava mais para um estudo orientado. Nas escolas de elite seguíamos uma rotina monástica. Aprendíamos partes. Não havia perfeição em lugar algum. Eu estava passando por uma sessão de tortura diária. Eu tive que ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha. tanto a brasileira quanto a estrangeira. eu me sentia orgulhosa. Mas aquilo não foi o mais insuportável. Lendo a obra completa. Em apenas um mês eu concluí a leitura de trinta livros. mesmo com todas as tarefas domésticas que eu fazia e os relatórios das leituras. como se já estivéssemos na pós-graduação. Bela orientação. Então era isso que realmente significava estudar fora da Era do Folhetim. A professora nos passava tarefas com base no que ela achava que cada uma precisava. mandava eu escrever um relatório e se mandava. mas não leem. Segundo o meu perfil. Era verdade que alguns livros foram bem curtos e me consumiram poucas horas. seria uma ilusão acreditar que aquelas escolas eram perfeitas. Ou seja. 35 . E sem Deus ou Buda para confortar o espírito. enquanto outros me tomaram mais de um dia. Não bastava que eu lesse apenas resenhas dos livros. Muitos deles. Mas eu não era uma Southern Belle! Só me restava acreditar que as escolas de elite entendessem aquilo. Notei que a professora estava me mandando ler exatamente os chatos. Ela apenas me passava a lista de leituras. eu começava a entender. Como diria Mark Twain. Eu estava pelo menos me esforçando. Nosso ritual diário eram os deveres de casa. Eu estava tendo que ler até mesmo os sermões do Padre Antônio Vieira. incluindo outros livros do mesmo período. Raramente tínhamos aulas. Achei que eu fosse morrer. Eu devia me transformar numa Southern Belle.A Era do Folhetim hora.

mas. Já estava feito. recebi novas tarefas. Após o Renascimento. Eles faziam pesquisas. A Igreja Católica dominou o ensino ocidental por muito tempo e deixou marcas profundas. somando-se a isso. E após perder um mês de aula no meu antigo colégio eu iria seguramente repetir de ano. embora aquela biblioteca fosse pequena continha alguns livros preciosos e especialmente selecionados que eu provavelmente não encontraria em nenhum outro lugar do mundo. Depois daquele mês. até mesmo um espírito. A realmente me sentir em casa. Nunca pensei dessa forma sobre as religiões. tô tão cansada – confessei a ela – mas ao mesmo tempo. descobriam coisas novas e encontravam soluções surpreendentes para problemas antigos da gramática. Desde o princípio. 36 . quis se livrar completamente da religião e do espírito. o ser humano. Afinal. Aos poucos eu entendia que. É claro que uma gramática espiritual tinha sua base na teologia e tornava-se muito mais profunda. Não apenas a leitura de mais livros. Portanto. pelo medo de ser chutada de lá. Alguns dos livros de gramática foram escritos pelos nossos próprios Magisters. Minha mente estava se abrindo. um estudo rigoroso de gramática. eu não queria mais voltar atrás. aquela gramática encontrava sua base no Trivium medieval. Mas aquilo que eu estava começando a estudar não era assim. Era mágico. Eu finalmente estava começando a gostar do lugar. com orgulho de sua razão. já que eu não tinha coragem de me queixar diretamente com a Magister. Havia uma lógica. Eu aprendi coisas que nunca vi no colégio. o que era um feito notável. uma ontologia por trás.Wanju Duli – Mariel. Isso é bom. me sinto tão bem! – Você está se adaptando – ela disse – está começando a entender. Antes eu pensava que gramática era apenas decorar regras. mas não percebeu que ao fazer isso estava deixando para trás uma parte de si mesmo. Que eu nem imaginava que existia. Era ela que geralmente aguentava as minhas reclamações sobre a comida e sobre o cheiro dos produtos de limpeza.

para saber a gramática eu precisava da lógica. Então era assim que as coisas se conectavam? Será que estava realmente tudo ligado? Eu respirei fundo. Não somente os poemas. E para entender a lógica eu tinha que saber matemática. prestando atenção nos detalhes: na formação das frases.A Era do Folhetim Estava tudo conectado. compreendendo tudo – eu também chorei quando descobri pela primeira vez. Eu não sabia bem o que eu havia descoberto.. A partir daí. – Muitos dos autores clássicos que lemos estudaram as Sete Artes Liberais – explicou Mariel – eles foram educados nelas. Eu precisava conter o êxtase do meu coração. Shakespeare foi educado nelas e só é possível compreendê-lo estudando essas disciplinas. Fortemente baseado na música e na matemática. eu comecei a ler livros de forma diferente. É lindo. Para compreender música erudita é preciso estudar teoria musical a fundo. eu precisava conhecer gramática e retórica a fundo. Aquilo era a Verdade? Era aquele êxtase que eu sentia ao desvendá-la pouco a pouco? Segurei a mão de Mariel e comecei a chorar. não é? – Belíssimo – falei. Porém. Eu ainda não sabia de nada. uma música. Meu coração bateu forte. Entende por que somente os iniciados podem jogar o Jogo de Avelórios? – Entendo completamente. especialmente o Trivium. Era alguma coisa que eu não sabia explicar em palavras. Pode ser doloroso. Calma. Na gramática. Era melhor eu não me exaltar e imaginar muito longe. Para entender literatura. 37 . Era como. Até mesmo os romances. com voz fraca. – Cuidado para não se maravilhar demais – alertou Mariel – a sua mente ainda não está preparada. a ordem escolhida pelas palavras. incluindo muitos filósofos e escritores. O Jogo das Contas de Vidro. – Calma – ela sorriu.. Mas eu sentia! Aquela emoção. E para compreender literatura eu precisava conhecer a forma que as palavras são formadas e a elasticidade com que os escritores as usam.

– Ah. só se presta atenção na história da ciência. Hegel! – exclamei. Tentei imaginar. mas sou da opinião de que também é preciso respirar ar e comer pão”. até que faz sentido. Precisaríamos nos envolver na política. – Quem é esse homem? – O maior Magister Ludi de todos os tempos. cheia de esperança. por favor.. – Castália não pode se tornar um Estado autônomo? – Para isso precisaríamos abdicar da nossa vida e viver no mundo. O Jogo das Contas de Vidro era o que havia de maior em Castália. Isso não é cômodo? Mas esse casulo pode ser derrubado a qualquer momento por uma guerra. – A história é um ponto delicado em Castália – explicou Agatha – especialmente no que se refere à política. Ele havia sido simplesmente o maior dentre os mais sublimes que já pisaram numa escola de elite. Agora estava na hora de conversar com Agatha sobre história. – Ainda é cedo – respondeu Agatha. como se fosse uma mera luta por poder e guerras de bárbaros. Nós desejamos viver num casulo protegido das coisas de fora. da matemática. Em geral. Castália somente existe porque esses bárbaros lhes dão dinheiro para que possam se manter. na economia e em todas essas coisas “mundanas” que os alunos e professores de Castália tentam evitar a todo custo. contrariada – mas um estudo da história e do espírito..Wanju Duli Eu já havia tido longas conversas com Mariel sobre literatura. Senti que eu precisava daquela inspiração. no século. – Quem é seu filósofo preferido? 38 . da filosofia. E o posto de Magister Ludi era o mais elevado. história da arte. Mas só te digo uma coisa: o filósofo favorito de Josef Knecht era Hegel. Havia muitas guerras no século XXIII e se gastava muito dinheiro com elas. simplesmente – quem sabe um dia. Olhase com desprezo a história geral. Contudo. Estava bastante óbvio que o espírito não era prioridade num mundo em que as pessoas ainda lutavam para resistir à fome e à miséria. – Há textos dele para eu ler? – perguntei. – Há uma frase famosa do Magister Ludi Josephus III a esse respeito: “As abstrações são encantadoras.

nas escolas de elite era assim mesmo que funcionava: confie em seu cérebro como os antigos. Quem exclamou isso ao entrar na biblioteca com estardalhaço foi uma menina muito baixinha e pequena. Acho isso muito indecente.A Era do Folhetim Nas escolas de elite em vez de perguntarem coisas como “Qual seu filme preferido?” ou “Qual sua sobremesa favorita?”. – Os racionalistas. Os outros 10% eu deixo no mistério. Indicação para todos os filósofos! Devia honrar-se ainda mais o pudor quando é certo que a natureza se empenha em se esconder atrás do enigma e da incerteza. dentre os que conheço. para me certificar. – Permita-me apresentá-la – disse Agatha – essa é a famosa Giovana Magalhães. Fazemos agora uma questão de decência de não querer ver tudo nu. não é mesmo? – A famosa que sabe tudo sobre tudo? – perguntei. as perguntas costumavam ser mais na linha de “Qual seu período literário favorito?" ou. – Pode me chamar de Gio. Uma lenda por aqui. porque eu mesma sabia de cor longos trechos dos meus livros favoritos. Mas. – Você é da filosofia. Ela sentou-se sobre a nossa mesa sem cerimônia e cruzou as pernas. de não assistir a tudo. em vez de ficar checando no Google qualquer coisa que esquece. o que me atraiu mais até agora foi Espinosa. é como todos me chamam aqui. E pode chamar a Agatha de Cruz e a Mariel de Aquino. Além do mais. Afinal. quando as moças queriam ser mais ousadas. de não procurar compreender tudo e tudo „saber‟. Já ouviu falar dela. é claro! Todo mundo ama Leibniz e é completamente apaixonado por Descartes. Você é a Santa. No máximo uns vinte. poderia ser algo como: “Qual verso de Lord Byron te deixa mais molhadinha?”. Isso faz mal à memória. quando consegui pronunciar uma palavra. Talvez a verdade seja uma mulher que tem as suas razões para não deixar ver as suas razões”. Não adiantava perguntar a ela “Você decorou tudo isso?”. como diria Nietzsche em Gaia Ciência: “Já não acreditamos que a verdade continue a ser a verdade sem os seus véus. – Confesso que não li muitos filósofos. certo? – perguntei. de cabelos chanel. – Ai. vivemos demais para isso. „É verdade que Deus Nosso Senhor está em toda a parte? Perguntava uma rapariguinha à mãe. Vejam 39 . que exagero – ela riu. sem muito embaraço – sei apenas 90% do que há para saber.

40 . embora isso seja parecido com um. – Mário de Andrade – confessei. surpresa. fascinada – eu tenho vergonha de dizer que admiro o Charles Dickens. quase mortos. – Shhh! – ela fez – isso é segredo! Sou uma estudante especial. no meio da merda. mais livros com personagens velhos. Ou fazendo coisas triviais como tomar um copo d‟água. – Qual o seu escritor preferido? – perguntou Gio. Gosto de lê-lo de verdade e não de mentira. – Quanto tempo exatamente? Ela não parecia ser tão mais velha que eu.Wanju Duli só. Mereceria no mínimo um Nobel. Ela tirou alguma coisa do bolso. uma Cruz e uma Santa! Daqui a pouco já podemos fundar um convento. mas acho que nosso gosto apenas vai ficando cada vez pior com o tempo – explicou Gio – cada vez mais a gente busca menos fantasia. A pergunta de praxe. Seria meu livro de cabeceira. – Por isso eu gosto do parnasianismo. Não seria fácil fazer isso com primor. temos uma Aquino. Diziam que ela era um gênio. – Estou aqui há muito tempo – ela explicou – tenho meus meios. que escritor você curte de verdade? A expressão divertida de Gio me indicou que ela entendia exatamente o que eu queria dizer. doentes. Eu geralmente tinha uma resposta pronta para ela. – Interessante – ela disse. sabe? – Sei como é. – Onde conseguiu isso? – perguntei. – No duro. Jogou uma bala de goma na direção de Agatha e outra na minha. embora prodígios fossem raros em Castália. – Pensei que eu estava me tornando mais inteligente. Eu realmente admiraria um escritor que escrevesse um livro de quinhentas páginas descrevendo alguém tomando um copo d‟água. Eu não sabia até que ponto os rumores eram verdadeiros ou meros exageros. – Você quer a resposta verdadeira ou a que eu uso para impressionar? – perguntei. Um dia a gente acaba gostando de alguns livros chatos e é surpreendente quando o processo acontece.

derrotados. – Muito comovente – comentou Gio – você é muito nobre. 41 .A Era do Folhetim – Vocês duas são estranhas – comentou Agatha. – Meu princípio é de que os esquecidos devem ser lembrados – respondeu Agatha. como Lua e Mel. feliz da vida – o Rodrigo conseguiu um celular. – Meu cérebro é muito amado por aqui. distribuir balas. curiosa – se você é tão boa assim. Cruz. Não entendi o gesto dela. Sentar na mesa. é a isso que você se refere – disse Gio – o Jogo é muito popular lá fora. – Eu ouvi falar que o sonho de todo adolescente das escolas de elite é tornar-se Magister Ludi – expliquei. Gio franziu a testa. mas é certo que ocorrerá. A segunda seria uma provação ainda mais poderosa: a tentação do conhecimento. Será que ela estava bem? – Vamos usar internet hoje à noite. Só vai acontecer daqui algumas décadas. usar celulares escondida. Então havia muitas tentações a vencer até chegar ao Jogo das Contas de Vidro. Se eu me dedicasse ao Jogo precisaria abrir mão da filosofia. mas era incrível como eu já sentia falta delas. não é mesmo? Mas aqui dentro precisamos passar por uma tentação maior: a de dedicar a vida a nos aprofundarmos em nossa área de maior interesse. – Ah. então não vai acontecer facilmente – Gio garantiu – certamente sou a melhor candidata para Magister de filosofia. Fazia apenas um mês e meio desde que eu havia partido. Formavam uma ótima dupla. esquecidos e mutilados – retrucou Gio. – Pior você que estuda a história das guerras. Eu não o farei. pode ser possível. – Você não tem medo de ser expulsa? – perguntei. O século era apaixonante demais. dos despedaçados. mas quem estava nas escolas de elite já havia vencido a primeira tentação. Especialmente de Sônia. – Não quer ser Magister Ludi? – perguntei. pois Agatha era muito alta e Gio bem baixinha. A primeira delas era abrir mão da vida secular. Gio era uma autêntica transgressora de regras e não parecia preocupada. meninas – comentou Gio. Isso seria doloroso. com um sorriso. Era engraçado ver aquelas duas juntas. despreocupadamente.

Caso um dia eu quisesse sair de Castália poderia dar aulas de literatura numa escola 42 . o Jogo de Avelórios encaixa e costura as diferentes áreas. o Magister Ludi é aquele que desejou se aprofundar apenas no Jogo. com a ajuda dos Magisters de cada disciplina. estudar literatura era muito mais seguro. Então eu preciso fazer esse serviço. cada um se apaixona demais por um senhor menos poderoso e não é capaz de abandoná-lo. Você pode ainda não gostar tanto assim de literatura. No final. mas para mim é quase impossível. Porém. Não tenho toda essa disciplina. Seria uma pena perder o interesse pelo Jogo de Avelórios no futuro. Abrir mão desse prazer pelo Jogo seria quase como um retorno à Era Folhetinesca: mesmo sendo muito nobre e profundo. – Não. mas não saber profundamente sobre nada. Além do mais. – Eu vou me dedicar à história – Agatha comentou – são pouquíssimos em Castália que se dedicam a ela. Estou lutando para conseguir ler meus livros. a Verdade. acostume-se. é claro que não – esclareci. Eu não sabia bem se eu desejava que aquilo acontecesse. Eu tinha uma nova vida e queria viver para mim mesma. Você ambiciosa o posto de Magister Ludi? Eu ri. – Dizem que o Jogo abarca o universo. Vanitas vanitatum et omnia vanitas. Os estudantes de Castália desejavam mergulhar de corpo e alma em sua área de maior interesse.Wanju Duli Quem entrava nas escolas de elite desejava abdicar o encanto da Idade do Folhetim: a de saber superficialmetne sobre muitas coisas. por amor a vocês. – Linda! – Gio lançou-lhe um beijo no ar – é sempre assim. mas logo verá que quanto mais a fundo estudá-la. No começo todos entram aqui empolgados com os mistérios do Jogo. ele não é uma religião e não contém uma teologia. Mas eu não iria jogar apenas para me exibir para os outros. não será mais capaz de deixá-la. já que a maioria se apaixona por matemática ou música. por devoção. o espírito – eu disse – está abrindo mão de tudo isso por uma vaidade? – O Jogo das Contas de Vidro também não deixa de ser uma espécie de vaidade – explicou Gio – afinal. Até porque as pessoas que eu conhecia lá fora continuavam lá fora. com rapidez – não seria difícil para alguém como você. Santa.

confusa. Já é difícil surgir candidatos fortes aqui. Eu já estava resistindo a ter que aprender algum outro idioma além de português para poder estudar obras estrangeiras. enquanto estudar história ou literatura era muito mais sério. Um dia é preciso crescer e deixar de brincar. A explicação não me convenceu. – Como não são pegas? – Os professores fingem que não sabem – explicou Gio – na prática. Seria muito mais difícil ter que estudar todos os hieróglifos do Jogo. eles fazem vista grossa a essas escapadas porque quando vamos para Castália isso não é mais permitido. Era apenas uma brincadeira. Quem gostava do Jogo geralmente eram os adolescentes. – Tolinha ingênua – prosseguiu Gio – você ainda não sabe até onde vai nosso atrevimento. – Ninguém nunca foi expulso por causa disso? 43 . Ser uma especialista em Jogo das Contas de Vidro não me levaria a nada. pois é novata por aqui.A Era do Folhetim local. Então queremos apenas aproveitar os últimos anos de sexo enquanto somos jovens e saudáveis. – Vocês vão para um bordel no Ano Novo? – perguntei. Jogos são úteis para quando ainda se está encantado com as diversões da infância. Nós transamos com os rapazes do dormitório masculino. Estamos pensando se esse ano faremos no Natal ou no Ano Novo. Será mesmo? Mas mesmo se isso fosse verdade. Será que aquilo era mesmo para mim? Eu buscava o caminho mais fácil e mais seguro? Ou aquilo que meu coração desejava? Pensando bem. uma brincadeira espiritual não seria muito mais nobre? – Nós estamos combinando com os rapazes a Noite de Núpcias. Aquilo não servia para nada. Nós fazemos voto de castidade. estudar o Jogo não fazia sentido nenhum. então eles não querem nos perder por causa de um pouco de sexo. certo? Não vai matar ninguém fazer isso só uma vez ao ano. pois esse era um capricho vazio que só existia em Castália e só tinha significado lá dentro. Será que eu tinha ouvido bem? – Do que estão falando? – perguntei. – É claro que não! – Gio riu – seria muito arriscado. mas somos adolescentes e queremos um pouco de sexo.

Agatha pareceu ligeiramente surpresa. Eu não fazia muita questão de transar com homens. senti uma pulsação no baixo ventre.D. – Você é lésbica? – perguntou Gio – não uma falsa que quer aparecer. estou aberta à exploração. preferia mulheres. – Então você é bi? – Não sei o que sou e não me importo. Em geral. A não ser que fosse para fazer sexo com D. já que está aberta à exploração. embora ainda não tivesse experimentado. que acha de abrir as pernas para algum gostosinho do dormitório ao lado? Alguns deles são quentes. – Quem? – Dancer Demon. – Talvez no ano que vem – eu disse – queria esperar pela minha primeira menstruação. eu sou suspeita para dizer. – Por acaso não há uma estudante por aqui chamada D. com exceção de um. – É uma teoria simpática – concordou Gio – então. mas uma genuína? – Acho ridículo essa história de falsa e genuína – respondi – eu apenas me sinto mais atraída pelo sexo feminino desde criança. Acho simplesmente natural e me sinto à vontade com mulheres. Sinceramente. como se amasse tudo aquilo. Ela fez uma expressão de espanto. não acham? – Pode ser – respondeu Agatha.Wanju Duli – Já – disse Gio – mas eu sei que não vou ser. acho que a maioria aprenderia a se sentir atraído pelos dois sexos. Só tinha trocado uns beijos e amassos com Sônia. já que gosto de todos. Mesmo assim. Bem. Se fosse culturalmente incentivado que no fundo todos são bissexuais. Só de pensar nisso.? – perguntei. – Você devia aproveitar que ela ainda não veio – sugeriu Gio – nem vai precisar usar camisinha. Acredito que o sexo tem um elemento cultural muito forte. – Você tá falando da Dani? 44 . eu não estava muito a fim. Gio morreu de rir.D. Resolvi dizer isso a elas. então não me importo. mas a reação de Gio foi muito melhor.

Estava tudo na minha cara. – Isso não me cheira bem – disse Agatha. a super gata skatista. não falavam de outra coisa. retomei minhas leituras. ela é muito mais comportada. Onde ela está? – Foi para Nova Castália resolver uma questão. Diferente de mim. certo? – perguntei. No ano passado cada um escolheu um parceiro. recebíamos certos privilégios.A Era do Folhetim – É esse o nome dela? – perguntei. À noite. Gio me deixou usar um pouco o celular que ela conseguiu com o tal Rodrigo. – Sou uma fã. Eu não sabia se adiantava muito negar. então sair para aquela tal “Noite de Núpcias” não parecia ser um bom negócio. Apenas enviei alguns e-mails para as meninas do orfanato e fiquei satisfeita. mas isso deu confusão. já que alguns sempre são mais disputados. dependendo de nossa habilidade. Ninguém vai escolher com quem vai trepar. – Assim como eu. – Falem mais baixo na biblioteca! Quem disse isso foi minha professora que passava por ali. Quando ela chegou aqui. Queria poder pelo menos escolher. – Daniela Dantas. mas logo ela já estará de volta – respondeu Gio. Também não achei legal. 45 . Você curte ela. o que aumenta ainda mais seus pontos. Fiquei surpresa ao constatar que eu não tinha praticamente nada para fazer na internet. – Não é um bacanal. Sem escolha. Então. só para me certificar. por mais divertido que soasse. maravilhada. Minha situação já não estava boa. Esse ano será um encontro às cegas. Eu tentaria me lembrar disso. – Pensei que não tínhamos permissão para isso antes do nosso treinamento de oito anos aqui. Alguns meninos e meninas ficaram sem parceiro. Tiraremos na sorte. – Está falando das Núpcias? – perguntou Gio – é claro que não. comportamento e carisma. a Dani também é a queridinha dos professores. é claro. É claro que ela sabia que só estávamos batendo papo e deixando de lado nossos afazeres. né? O olhar malicioso que ela me lançou foi cruel.

Ela estava achando emocionante saber que Sônia era minha ex e que estava completamente puta comigo. E ela me ignorou durante o dia inteiro. com longos cabelos de contas coloridas. – Poderíamos ter vindo juntas para cá. Nunca vou receber uma nova companheira para debater história! – Vou pedir ajuda a ela para estudar lógica. impressionada – a personalidade dela é incrível. porque ainda está curtindo a dor de cotovelo. – Ela sabe ser vingativa e cruel quando quer – eu disse. mas Sônia não quis ouvir. me ignorando. Ela já pulou o portão duas vezes para comprar cachorroquente. por causa de uma bobagem. 46 . então não vai ter uma segunda chance. Tentei explicar. – A tua ex é muito bala! – exclamou Gio. Até que eu não aguentei mais. Já me cansei disso. Logo. – Ela devia te amar mesmo. Sônia havia se cansado de sofrer por mim. mas você estragou tudo – disse Sônia – você se precipitou e esse é o preço a pagar. Apenas a amava de uma forma diferente. Não é que eu a amasse menos. É a segunda vez que você me dá bolo. fiquei sabendo que uma garota nova estava para chegar no dormitório. Não demorei muito para entender o que ela estava tramando. Eu jamais poderia suspeitar que a novata não tinha intenção de me dar ajuda nenhuma. Nem eu tenho coragem de fazer essa merda e ela faz assim que chega. – Já é tarde. negra e vaidosa. mas não havia mais nada a ser feito. – Sônia. Na raça! Muito foda! Pelo visto. me desculpa – eu disse – não queria te magoar. não sei como. Sônia havia ganhado uma fã. – Sônia Leão – ela apresentou-se a todas. Ela ficaria com a cama de cima do beliche de Agatha. Não insisti mais. – Ela vai estudar matemática – Agatha suspirou – para variar. Quem chegou foi uma garota bonita da minha idade. Eu já tinha terminado o namoro com ela uma vez.Wanju Duli No dia seguinte. Gio ficou sabendo da história. Achei que ela estivesse sendo muito dura.

Gio. Não demorou muito tempo para que ela adquirisse muitas inimigas. assustando a todas nós – eu me sinto profundamente ofendida! Não esperava tamanho deslize em uma escola de elite que preza pela harmonia absoluta do cosmo! E o pior era que ela falava isso num tom mortalmente sério. provavelmente acima de todas nós: não ligava para coisas como fama ou conhecimento. A cada dia ela admirava mais a bagunça que Sônia estava criando. como eu fazia. Eu não sabia de onde elas 47 . Em toda oportunidade que surgia se queixava. mas ninguém ousava se aproximar ou criticá-la diretamente. estava adorando tudo. pois sempre topava ajudar alguém com alguma transgressão a regras. Antes. Ela apenas me amava. que eu nem mesmo havia notado. Ela queria me mostrar como era fácil entrar para uma escola de elite e como havia feito isso sem nenhum esforço. Ela fazia questão de ressaltar problemas ridículos. em alto e bom som.A Era do Folhetim Sônia não se importava com Castália. ela estava irritada de verdade e se ofendia até com um espirro. mas comparando com Sônia ela agia com extrema discrição. Aos poucos Sônia foi conquistando a simpatia de alguns. Sempre que ela pulava o muro para sair e comprar comida. um amor puro que não conhece outras coisas. – A cor do metal da torneira do banheiro é diferente em cima e embaixo! – Sônia exclamou de repente no refeitório silencioso. de todo pequeno defeito. Ela era boa em matemática. Mesmo sendo zombaria. A maioria a considerava uma pesssoa completamente desagradável. Gio era tida como uma grande criadora de casos. Voltava com sacolas carregadas. Até de uma mancha na parede. Sônia não reclamava do local discretamente. obviamente. Sentiu-se traída e agora queria se vingar do mundo apenas para me mostrar um espetáculo. Ela se tornou particularmente famosa em conseguir comidas. mas não tinha intenção de seguir carreira nisso. Nem queria estar nas escolas de elite. pois a achavam assustadora. Também queria me provar que zombava de toda Castália e suas regras. anotava os pedidos de todas. como sair para o pátio depois que as luzes já tinham se apagado. Era uma pessoa muito acima do meu entendimento.

a punição maior seria mantê-la lá para testá-la. enquanto rumávamos para 48 . Porém. Mas será que eles estavam realmente errados? Talvez fossem os mais espertos. mesmo isso sendo proibido. – Que palhaçada – comentei. Mas elas eram mais espertas. No momento. E não iriam dar a ela justamente o que ela queria. Ver até que ponto ela aguentaria brincar de aluna entediada da escola de elite. levemente aborrecida com aquilo tudo. Agora Sônia era a estrela. em vez de se ofenderem. Um ambiente seguro e familiar. E como ela ainda não havia sido expulsa? É claro que as professoras viam o que ela fazia. Quando Sônia não tivesse mais dinheiro para comer porcaria. Resolvia os problemas com facilidade e passava o resto do tempo jogando um jogo de Tetris que trouxera na bolsa. Ela o jogava com som alto em qualquer lugar. Geralmente os próprios estudantes expulsavam a si mesmos. Conheciam o jogo dos alunos. Sabiam que ela estava colocando a mão no fogo para ser chutada de lá. Era possível que Sônia tivesse trazido suas economias para as escolas de elite. Preferi não saber o que eles consideravam tão grave a ponto de expulsar. Eu soube que um aluno só era realmente expulso se cometia uma transgressão grave. mas não é fácil permanecer. Voltavam para o mundo. Eu soube que até os rapazes ouviram falar da novata destemida – ou burra – que pulava o muro quase todo dia para comprar lanchinhos em barracas de rua. encontrará todos para sair. depois de eu ver tantos acontecimentos incríveis que passaram batido. ela desprezava totalmente a matemática. Se não possui nenhum motivo para ficar. É preciso uma grande determinação e vontade. para a cultura que conhecíamos. a Magister de literatura – não é tão difícil entrar nesse lugar. Mas aquele dinheiro não duraria para sempre. ela provavelmente sairia das escolas de elite sem pestanejar. dizendo o quanto aquela porcaria era fácil e uma perda de tempo. parece que a maioria a admirou e inclusive alguns fizeram seus pedidos de lanches. por não aguentarem mais. E havia se tornado lendária sem esforço nenhum! Para completar. Fazia sentido.Wanju Duli tiravam o dinheiro. – É só questão de tempo até que ela saia um dia por aquele portão e não volte mais – explicou-me Lorena.

D. Não conversava com ninguém.D. Nem levantava os olhos quando ela fazia seus pronunciamentos ridículos sobre a sujeira na parede. Caso D. a vingança de Sônia estaria completa. Era um sobrenome apropriado para a situação. finalmente retornou. Afinal.D. Ela não era somente admirada. o que a tornava ainda mais poderosa. ficassem juntas. No fundo. Não que eu não goste de você. que não deixava de ser uma espécie de amor invertido. completamente imersa.D. Sônia era sábia ao testar os próprios limites e sua sorte e por isso era admirada. Santa.D. – O que você tem contra mim? – perguntei a Gio um dia. cada vez mais descontente com suas expressões de felicidade. Muitos estavam curiosos em saber como seria o sexo feito por uma garota tão ousada e mordaz. ela vivia pelo seu ódio a mim. Eu soube que muitos rapazes ficaram realmente desapontados ao saber que Sônia não tinha a menor intenção de participar da famosa Noite de Núpcias. E parecia se sentir muito à vontade com sua própria solidão. – Desde que Leão chegou. D. de longe. Para ela aquilo não significava nada. esse lugar se tornou um arraso – comentou Gio – então é claro que estou torcendo por ela. Sônia pareceu muito contente com a chegada de D. também admirasse as tansgressões de Sônia como todos os outros e passasse a amá-la. Para a minha alegria. Se Sônia e D. parecia ser um tipo de Buda iluminado que não era afetado por nada. Gio. Assustada. mas desejada. Mas eu merecia. já que Sônia amou somente a mim. eu me sentiria totalmente destruída e derrotada. Permanecia lendo seus livros de biologia o dia inteiro. Talvez nós das escolas de elite fôssemos os tolos descuidados ao permanecer.D. Duas semanas após a chegada de Sônia. 49 . se importar tanto com uma pessoa a ponto de possuir um sentimento forte por ela significava que ainda estávamos conectadas. A maioria a chamava de Leão. Dantas ignorou Sônia quase que completamente. Atualmente. torcia para que Dani e Sônia se tornassem um casal.A Era do Folhetim o desconhecido. descobri o que ela tramava.

Eu ainda estava encantada demais com os acontecimentos recentes do dormitório feminino para me importar. então era assim que eu os reconhecia quando vazava algum acontecimento. – Esse é dos meus – falei. mas ele provava uns negócios e ficava malucão.D. – O Barata está criando caso outra vez – contou Gio. – Não sei.. parecia ser somente espírito. Também havia algumas lendas entre os garotos. mas esse sujeito em particular usava umas coisas mais pesadas. Então havia uma pessoa ali que estava acima até mesmo da ironia ácida de Sônia. pois todo mundo aqui tem suas esquisitices. Uns outros rapazes fumavam um cigarrinho ou um baseado vez ou outra. Havia esse cara chamado Boaventura. mas aos poucos eu começava a escutar as histórias. Pois aquela ironia ainda era uma paixão da velha fricção do espírito com o mundo. Eu sequer havia escutado a voz de D. Eles costumavam chamar a si mesmos pelo sobrenome. A nossa Província certamente ficaria com péssima reputação. Eu não parava de ouvir o nome dele. – Dessa vez ele quer deixar o cabelo crescer.D. que era quem geralmente ouvia as fofocas através do Rodrigo. que por alguma razão ela chamava pelo primeiro nome – ele está insatisfeito com os códigos de vestimenta. Um tipo calado como D. mas ninguém se importa. Fica dizendo que as moças das escolas de elite são favorecidas. Por isso só ficava quieto num canto. 50 . Foi uma resposta adequada. mas aquilo ainda me incomodava um pouco. então ele está insatisfeito. ainda.Wanju Duli Nem eu e nem Sônia havíamos tido coragem de dirigir-lhe a palavra. Outro aluno bastante conhecido era o tal de Barata.D. Seria fantástico se começasse a vazar lá fora o boato de que traficavam drogas para as escolas de elite. Aquilo era realmente uma prisão se eles chegavam a esse ponto do tédio. Não chegava a ser uma parada sinistra como heroína ou cocaína. enquanto D. mas que vivia se entupindo de drogas. mas não é permitido – explicou Gio – aqui no dormitório feminino não há restrições em relação a comprimento de cabelo ou penteados. – Por que ela não fala com ninguém? – perguntei para Gio um dia.

Sempre recebia os iniciantes com desafios. Ele era como um bully profissional. Inicialmente achei aquilo tudo muito infantil e sem sentido. cheia de alegria. Sônia prontificou-se a pular o muro para conseguir comida boa para o Natal. Eu não achava que a esse ponto ela desejasse ser mandada para fora. seja por tradição ou por alguns terem raiz católica. Mas eu não acreditei muito nessa alegria dela. numa noite em que ela estava me orientando na biblioteca. Já estava chegando perto do Natal. Se ele ainda não tinha sido expulso depois de tudo isso. Outro dia Mariel me contou. Quando retornou. Suas obras são muito realistas. até mesmo os Magisters. Não vejo nada de errado nisso. Assim como Boaventura. Não era fácil ter apenas o pátio das escolas para dar uma caminhada e não era sempre que tínhamos permissão de passear por lá. mesmo que fossem um pouco caros. ela tinha a intenção de comprar comida um pouco melhor e foi mais longe. Enquanto Boaventura preenchia seu vazio usando drogas. que Barata iria passar uma semana em Nova Castália. Já tinha se adaptado até à 51 . Dava a eles uma série de tarefas para cumprir e se não o obedecessem eram punidos. uma das professoras a flagrou e a chamou para conversar em sua sala. Não havia uma comemoração formal nessa data nas escolas de elite. Também havia o Navarro. Eu desconfiava que ela se divertia fazendo isso. Por ser Natal. – Ele é chamado o tempo todo para lá – disse Mariel – para pintar os murais. mas alguns alunos gostavam de celebrar a ocasião discretamente.A Era do Folhetim – Ele tem razão – opinou Agatha – deviam permitir cabelos longos para os garotos. Esse era meio esquentadinho. Por isso Barata sempre recebia permissão especial para adquirir materiais de arte. Nesse dia ela baixou a guarda. mas aparentemente a música não era o suficiente para ele. Navarro descontava seu estresse espancando novatos. Todos ficam fascinados. só poderia ser outro dos protegidos. – Na próxima ocorrência serei expulsa – Sônia contou para as meninas. Ele é um pintor e escultor formidável. ele era da música. Tomei a nota mental de não me envolver com ele no futuro. comecei a desconfiar que ele podia ser um aluno perigoso. Aos poucos. por ser excepcional.

os professores sabiam que era só uma fase. não deixava de ser um aprendizado. Cada um expressava sua fúria juvenil de forma diferente: com as reclamações de costume. Mas poderia ser 52 . tinha o orfanato para me proteger até os dezoito anos. toleravam muitas de nossas bobagens. Estava tão empolgada com os estudos que esse motor propulsor era mais forte para me impelir a continuar. O resto parecia irrelevante. fugas. nós sentíamos essa necessidade desses breves meses de revolta. Lá éramos submetidos a regras muito mais rigorosas. Isso. A Magister conseguiu enxergar através de mim. Não pulou mais o muro. – Que decepção – Gio disse para mim – ela vai virar uma garota comportada como todas nós. E parou de fazer seus comentários habituais sobre o gosto da comida e as manchas nas paredes. Claro que a paciência deles tinha limites e quando se atingia essa fronteira. convenções sociais e muitas outras coisas. Só escapava porque tinha se acostumado com esse ritual. Era comum que rejeitassem o colégio. Na Ordem. Mas ninguém estava nas escolas de elite para escapar da sociedade e suas regras. Seja como for. Principalmente pela idade que tínhamos. Mesmo eu. Para ela. Eu não seria expulsa do orfanato se chegasse em casa mais tarde algum dia. Por isso. Eu já estava habituada a suar embaixo das roupas e não ligava mais para outros pequenos detalhes que me incomodaram muito no começo. brigas ou drogas ilícitas. Notei que nos dias seguintes Sônia começou a ficar mais comportada. de certa forma. tínhamos poucos direitos e muitos deveres. essa proteção era delicada como vidro. que era órfã.Wanju Duli comida dos refeitórios. Não estávamos mais sob a proteção de nossa família. Até mesmo Sônia percebeu quando estava prestes a cruzar essa linha tênue e começava a recuar. Para alguns esse período durava alguns anos. Até o meu período rebelde já tinha se esgotado. provavelmente todos os adolescentes eram insolentes. Ela não se importou tanto com minha insolência. Eu mesma passei a entender porque fui aceita como estudante na Província. a maioria não se atrevia a continuar a provocá-los. em busca de expressar a própria voz e encontrar seu lugar no mundo.

Mesmo que isso fosse verdade no passado. houve o movimento de resistência contra a Era do Folhetim. É como optar por não fazer exercícios físicos intensos para não se cansar. Por outro lado. Por um lado. Eu lembrava que já havia conversado sobre isso com Sônia uma vez. Eu poderia ser feliz apenas dando umas caminhadas curtas e leves. Mas isso não era nem de longe o que havia de mais extraordinário. – Não é que matemática seja fácil – ela dissera na ocasião – da mesma forma que ler também não é fácil. Eu aprendi que minhas preferências não se dividiam somente em gostar e não gostar. Não é preciso forçar o cérebro além do limite. pois era como resolver um difícil problema de matemática. especialmente pela antiga. Eu apreciava não somente a história e os personagens. ser um maratonista profissional. Não é que uma felicidade fosse 53 . Por isso. Pois saber ler não é somente reconhecer palavras num papel. Não é que não possamos viver sem eles. começaram a surgir os aficcionados pela literatura. dava um tipo diferente de prazer. Foi essa a experiência que tive com livros. havia aqueles que não liam quase nunca. Eu captava o estilo da época. Em 2288 a prática da leitura se tornava cada vez mais rara. Aprendi a ler e a tomar pelo menos um pouco de gosto pela coisa. Mas a vida resultante dessas duas escolhas pode ser bem diferente. Por isso viver na Idade Folhetinesca é bem mais simples. antes de entrarmos para as escolas de elite. Nem tinha mais graça dizer que eu não gostava de ler. Fazer qualquer coisa a fundo é cansativo. ou mesmo no presente. Mas especializar-se nisso. as referências a outras obras nas entrelinhas. de alguns séculos atrás. Tudo tem seu grau de difículdade.A Era do Folhetim facilmente expulsa da Ordem se cometesse certas infrações que no meu velho mundo seriam vistas como banais. Essas pessoas geralmente preferiam as obras grandes e complexas. O amor e o ódio estão intimamente conectados e eu entendi isso com as reações de Sônia. mas a beleza da estrutura das frases e dos parágrafos. especialmente para pessoas diferentes. Não iria suar. eu aprendi a fazer aquilo. ou só liam coisas pequenas porque havia outras diversões mais simples e acessíveis.

eu escolho a dor” Eis o que o raio de Sol no livro me disse. Mas a dor maior não poderia gerar um prazer maior? – Nem sempre – disse Gio – mas não seria apaixonante pensar assim? Esse poderia ser meu incentivo para continuar. Numa tarde. para ir mais longe. – Precisaremos melhorar isso. Mesmo assim.Wanju Duli verdadeira e outra falsa. Então eu não precisava ter lido todos? Ela poderia ter dito isso antes de eu ter perdido horas de sono por semanas seguidas. para sabermos em que quesitos eu precisava melhorar. Como uma mortificação que me faria entender uma realidade importante demais para mim. 54 . redação não é o seu forte. foi incrível. Tirei nota máxima nas leituras. eu senti que tinha valido a pena. Nós tínhamos. você não tem o costume de escrever. que pegou nos meus olhos e no livro. Após um trimestre nas escolas de elite. Como é esse o caso. – Pelo jeito. Era exatamente isso. Eu te mandei ler todos aqueles livros sem achar que você fosse conseguir terminá-los. Aquilo ainda era uma escola e através de uma avaliação um pouco mais objetiva seria mais fácil averiguar meu desempenho geral. Apesar de tudo. relatórios e outros exercícios. Eu apenas lia. Mas não fui tão bem assim nos relatórios. Superou minhas expectativas. com base nas minhas leituras. Não é como se não tivéssemos um boletim. “Entre a escolha da experiência da dor e do nada. Fechei o “Palmeiras Selvagens” por um momento. Acordei com um raio de Sol que penetrava pela fresta da janela da biblioteca. a partir de agora iremos diminuir suas leituras para aprofundar seu estudo de gramática e redação. minha professora trouxe minhas notas. – Você leu muito – comentou Esther – muito mais do que eu esperava. Meu coração bateu forte e senti uma estranha paz. dormi por alguns minutos em cima de um livro do William Faulkner. não escrevia nada. Apesar de ler muito.

pois ao realmente entendermos os fundamentos das disciplinas que estudávamos. Era possível que ela nem mesmo concordasse em me dar as lições. Trinta temas. mas também sabia que Sônia não era uma pessoa fácil. se acreditasse que eu ainda merecia ser punida um pouco mais. Você irá preparar textos sobre assuntos diversos. 55 . queremos continuar a ver a beleza das peças que se unem no quebracabeça da vida. Eu não sabia quem era o estudante de gramática que ia me ajudar. E para saber lógica eu precisaria de um tutor de matemática. Quando as coisas se encaixam e o estudo não ocorre de forma fragmentária. O tempo passava devagar nas escolas de elite. Mas em geral isso não acontecia. Após as férias. Isso porque nosso estudo nunca era uma correria. Claro. então ela geralmente calculava minhas atividades de trinta em trinta. a não ser em casos como esse em que o estudante se destacasse muito numa área e fosse beneficiar outro mais novo. Não era tão comum assim que misturassem os alunos dos dois dormitórios. Irei lhe dar uma série de temas. para iniciarmos. Será que Sônia concordaria em me ensinar? Seria isso que faria com que voltássemos a ser amigas? Ou quem sabe um pouco mais que isso? Eu ainda tinha esperanças de ser perdoada. para impedir que o aluno postergasse e começasse a ficar lento e preguiçoso. – Sobre a gramática. o interesse por saber mais surgia de forma natural. ela estava me passando as tarefas para o mês inteiro. Apenas uma vez ao ano tínhamos férias: uma semana após o ano novo. Trinta? Bem. Eu sabia que num futuro próximo eu precisaria ter lições de lógica e retórica. Eu gostaria que você tivesse lições com ele uma vez por semana a partir do dia 8 de janeiro. para se certificar de que eu prepararia pelo menos uma por dia. irei te indicar um tutor – disse Esther – há um excelente aluno que poderá te orientar. Mas dessa vez seria diferente.A Era do Folhetim – Vou ter que criar histórias? – Não – disse Esther – serão apenas textos dissertativos e não narrativos. Então eu teria somente três semanas para preparar tudo. quando tínhamos tarefas demais era preciso entregá-las a tempo. mesmo não sendo seu mentor oficial.

– Hoje é dia 30 – ela me informou. Nosso objetivo não era adquirir conhecimento para obter fama e dinheiro. No máximo. Somente livros. – Sei disso. Termos abdicado de nossas posses materiais nos ajudava muito a manter a concentração e o foco. mas dava para viver sem isso. Mas nas escolas de elite isso era expressamente proibido. Mas aos poucos eu descobria que cada um de nós sentia falta de coisas diferentes. Nunca fui uma pessoa musical ou esportista. somente pessoas do círculo íntimo do Magister Ludi conheciam sua identidade.. Por isso. em compensação. um pouco de reconhecimento somente dentro de Castália. Mas é apenas uma impressão. eu jogava no fliperama ou assistia a filmes quando não estava estudando. jogar futebol ou ouvir música. Para alguns era a família ou os amigos. visando as necessidades de cada um. Claro que as coisas caras também são ótimas. Para outros era coisas diversas como vontade de ir para a praia. Nada de filmes. as nossas escolas de elite não possuíam uma meta materialista relevante. Por outro lado. E de vez em quando dava para escutar o pessoal da música ensaiando nos quartos. Embora eu sentisse um pouco de falta de comer uma pizza ou um sorvete. O nosso plano de estudos era elaborado de forma personalizada. Gio passou por mim e colocou um chiclete na minha mão. Mais disciplinas poderiam ser acrescentadas ou retiradas. Contanto que eu tivesse livros. não deixava de ser uma educação elitista: para os escolhidos.Wanju Duli O fato de termos um professor para nos fornecer orientação individualmente também nos ajudava. Sem essas distrações. Não é bem assim. jogos ou outras diversões do tipo. Não se tratava de uma educação de massas. assim como seu tempo e forma de estudo. Achamos que as coisas caras são as mais legais. sentia pouca falta das outras coisas. Isso quando eu não lia. 56 . um costume. Eu honestamente não sentia falta de nenhuma dessas coisas. mas até isso era abafado visando conservar o anonimato. eu lia facilmente dois livros inteiros em um dia. os iniciados. Na minha velha escola. Eu não sentia tanta falta disso. O ser humano não precisa de muitas coisas para viver.. ficava em paz. uma educação folhetinesca. Isso era tudo o que eu precisava. qualquer um.

Achei isso um pouco romântico. Queria primeiro dar uma checada nos rapazes. E. Eu sabia que se eu não fosse na tal reunião ela permaneceria a me incomodar sobre isso pelo resto do dia. Mariel era como eu. Ali era permitido que as moças e os rapazes se encontrassem. Qualquer coisa.. Se estivesse um clima meio ruim e os garotos estivessem de má vontade para fazer aquilo. Eu e outras garotas nos reunimos na entrada. A entrada do prédio era um dos únicos lugares realmente bonitos e decorados. então tenha paciência – disse Gio. Eu não ia querer ficar com um cara estúpido para ter uma péssima transa. – Já disse que não vou participar – eu disse. preocupada – se os professores nos encontrarem aqui em bando irão desconfiar. 57 .. Decidimos que iremos escolher os casais. – Sei mais ou menos quem vou escolher. eu não ia me animar. Então eu fui. Havia sofás. para combinar sobre as Núpcias. – Pode ser que ele escolha outra pessoa esse ano. A disposição devia ser mútua. mesmo que ele fosse bonito. meninas. Por isso eu iria ficar ligada no clima geral da reunião. Não queria que nenhum deles me fizesse um favor. – Ainda não tenho certeza se vou participar – Mariel comentou – só quero dar uma olhada. até porque vivíamos ocupados com os estudos na maior parte do dia para pensarmos em outras coisas. embora não com muita frequência. flores e quadros. Nós. então eu não precisava ter vindo – disse Agatha. nos sentamos nos sofás da esquerda e aguardamos. era só sair de fininho.A Era do Folhetim – Vai vir na reunião hoje à noite? Com os rapazes. Mas não era só a aparência que íamos olhar. você está convidada para a reunião. – Mesmo assim. Compreendi que Agatha queria ficar com o mesmo menino com quem teve relação no Ano Novo anterior. porque ninguém gostou muito da ideia de encontro às cegas. encontros como esse raramente aconteciam. – Eles estão atrasados – Gio checou o relógio. realmente.

Eu me senti um pouco incomodada com aquela segregação evidente: meninas de um lado. Sua pele era morena. Já chegou se queixando e elevando a voz. Tinha cabelos negros ondulados e olhos escuros e profundos. Alguém que tinha revolucionado a notação musical do Jogo de Avelórios. Eles se sentaram nos sofás da direita. A atmosfera claramente não estava legal. Que não conseguia tirar os olhos dele. De pé. quando eles entraram no recinto – por que demoraram? – Porque. Eu já tinha ouvido falar sobre um aluno famoso das escolas de elite que era particularmente baixo. Disseram que aquele amigo deles que fez um curso do Jogo ficou impressionado com a jogada desse cara baixinho. Meus colegas da velha escola já tinham falado dele. Igor e Celina comentaram um dia. Cada um com uma cara de quem estava de saco cheio. Porém. ao contrário de você. Não gostei desse sujeito logo de cara. eu olhei para ele de forma diferente no segundo seguinte. Porém. mas nós seremos. Ao contrário de mim. Então tivemos que sair de forma discreta. somos muito ocupados – respondeu um deles.Wanju Duli É claro que Sônia não estava presente. Assim como Gio. Será que era a mesma pessoa? Mesmo com essa incerteza. pois meu calendário está lotado. 58 . meninos de outro. Ao vê-lo ao lado dos outros rapazes. ele devia ser um gênio. Ele não era normal. pois ele fez algo incrível. para não gerar suspeitas. Senti vontade de não estar lá. eu logo notei um fato bem evidente: como ele era baixinho! Aquilo me trouxe uma lembrança estranha. ele impunha respeito. o que vocês querem? – prosseguiu o baixinho. ao lado dos rapazes altos. com desgosto – você não será chutada para fora se essa brincadeira amarelar. um prodígio ou qualquer coisa parecida. ela não era curiosa para experimentar homens. – E então. para acabar logo com aquilo – transar agora ou amanhã? Por mim faria agora para deixar de enrolação. – Finalmente chegaram! – exclamou Gio. eu não me lembrava do que ele tinha feito. quase da cor da pele de Sônia. ele parecia ainda mais baixinho. principalmente o cara baixinho.

o aceitou. beberrão e usuário assíduo de diversas drogas recreativas. então vamos fazer da mesma forma. O bully que batia nos colegas. Ele não gostou muito de ser xingado. Escolham logo seus pares. apesar de não mostrar muito entusiasmo com o pedido. Ele não parecia ter medo de nada. um rapaz levantou o lápis. fumante compulsivo. – Eu gostaria de ficar com o mesmo par – informou Agatha.A Era do Folhetim – Amanhã. Magalhães. idiota – retrucou Gio. prontamente. Ao contrário do que pensa. Ou pelo menos era assim que eles se portavam. Ele tinha olheiras fundas e uma cara de drogado. Compraram as camisinhas? – Está tudo preparado – ele confirmou – só falta marcar dia. Funcionou bem antes. Não foi muito difícil imaginá-lo fazendo isso. de imediato – na virada do ano. Navarro – disse Gio. – Que coisa mais supersticiosa. é claro – respondeu Gio. como da outra vez. Continuei achando tudo muito romântico. – Não precisava mencionar isso em público. Eis o príncipe encantado de Agatha que. Um cara negro que parecia estar quase dormindo num canto deu de ombros. 59 . Só podia ser o famoso Boaventura. mas pelo jeito você já arranjou isso. Eu não entendi o que ele quis dizer com “ser filha de Castália”. irritada – mas não estamos aqui para falar disso. pois por enquanto a conversa só ocorria entre os dois. como a indicar que era sua vez. – Não fale comigo nesse tom. Então aquele era Navarro. – Você concorda. horário e local. Gio era como se fosse a líder das moças da escola de elite e Navarro era o líder dos rapazes. porque estou morto de sono. você não é superior apenas por ser filha de Castália. Nas escolas de elite conquistamos nossos títulos por habilidade e não pelo sangue. – Então está decidido – disse Navarro – quem é o próximo? Sem levantar os olhos de uma caderneta na qual desenhava. com maus modos – então será bem mais seguro. – A maior parte dos professores comemora a virada do ano em Castália. Davi? – perguntou Navarro.

Todos voltaram os olhos na minha direção. – Vamos mais rápido com isso – disse Navarro. inexpressivo. mas sou contra essa união – disse Navarro – não irei permitir. – Qual é. Ele se divertia muito com a situação. – É. despreocupadamente. Barata fingiu pensar. Digamos que eu não esperava. furiosa – eu nunca concordei com isso! Você não tem o direito de permitir e decidir nada! 60 . Notei que os cabelos eram ligeiramente longos. voltando a desenhar. como se estivesse no controle – só preciso de mais alguns minutos. posso substituí-la? – perguntou Gio. Miguel! – exclamou Gio. – Curti aquela moça ali – ele apontou com o lápis. ainda sem levantar os olhos do desenho. – Porque já está decidido que eu e Gio faremos par – explicou Navarro. impaciente – quem é o próximo? – Arthur. ele apontou para mim. Acho que fui realmente pega de surpresa. Barata deu um sorrisinho divertido.Wanju Duli Ele tinha cabelos castanhos escuros e olhos castanhos. – Por quê? – perguntou Barata. – Como quiser – disse Barata. – Isso não é necessário – respondi. acho que serve – Barata respondeu. – Sinto muito. achando graça. se a Maria te der o bolo. Surpreendentemente. – Pode pensar à vontade – ele disse – quer que eu fique peladão pra te ajudar a pensar? Aquele sorriso de canto que ele me deu foi ainda mais malicioso que suas palavras. Era o cara que estava lutando pelo direito de deixá-los crescer mais. – Ainda não sei se vou participar – eu disse. como se fosse um Michelangelo: Barata. O exímio escultor que era chamado para decorar os murais de Castália. quase nos ombros. Fez uma careta como se estivesse fazendo um incrível esforço no cérebro. atropelando minhas próprias palavras – estou pensando. Pele bronzeada.

O Miguel vem de família rica e é filho único. eu não tenho nenhuma objeção – fiz questão de dizer. – Então vai te foder – ele disse. Você topa ou não? – Não. E depois vem falar de mim. – Nem preciso dizer – disse Gio – viram só que estúpido? Eu sei como é. – Eu não me sinto bem – disse Navarro. – Eu vou – disse Gio – mas não com você. – Não importam minhas razões. Navarro saiu de lá e bateu a porta com estrondo por trás de si. foi expulsa. Não estou nem aí se foi ele que bolou a nova notação musical da Província. A família dele tem um dos brasões aceitos por Castália. nessa sala só resta você. se você realmente quiser ficar com Barata. Ela apenas confundiu as palavras. Sempre fez cursos de Jogo de Avelórios quando criança. Não vou chupar ele por causa disso. – Que criancinha mimada – disse Gio. que foi meu par no ano passado e tinha um metro e meio. – A Gabi disse que você foi um cavalo e a tratou super mal – comentou Gio. Portanto.A Era do Folhetim – Estou apenas sendo lógico – disse Navarro – eu só faço sexo com meninas da minha altura ou mais baixas que eu. Sempre teve tudo que quis.55? Ninguém falou nada. 61 . – Ainda não entendi qual é o problema de fazer sexo com uma mulher mais alta – disse Gio. – Não sabia que você era tão inseguro assim – disse Gio. Ou tem alguma outra menina aqui com menos de 1. – Que mentirosa! – gritou Navarro – não fui um cavalo e sim um cavalheiro. Navarro levantou-se. – Gio. E a Gabriela. – Vamos fingir que nada disso aconteceu e prosseguir – decidiu Gio – tem mais algum casal além do nosso triângulo amoroso? Ela certamente se referia a mim. Navarro provavelmente se sentia como um gênio incompreendido. Então era ele mesmo. – Por que não quer? – perguntou Agatha. Estou apenas mostrando a ele que o mundo não é bem assim.

Não ao mesmo tempo.D. pô! – exclamou outro cara – Dani. Rodrigo? – perguntou Gio. mas se nos pegarem com drogas a gente tá fodido. Podem formar fila. Todos ficaram surpresos. ela assusta mais a gente do que nós a ela – disse Barata – esses dias ela passou por mim pelo pátio tão silenciosamente que parecia um fantasma. – Algumas até ajudam. de tão comum que era sua aparência. Tinha cabelos pretos e parecia absolutamente normal em todos os aspectos. – Oi Dani – cumprimentou Gio – vai participar? Ela confirmou com um aceno de cabeça. outra garota entrou na sala.D. posso ser seu parceiro? – ele perguntou. – Você já tem duas. Naquele momento. o que falou com D. – Viram só? – disse Gio – vocês a assustaram. se quiser. Lembro que quando o vi perto de Navarro. se for do agrado. era um negro alto e gordo. mas acho que eu só aguento até três. por último. Levei o maior susto. – Pelo menos não use drogas amanhã para seu instrumento funcionar – sugeriu Barata. imediatamente. 62 . – Eu não aguento três – disse Boaventura – só duas. Barata não perdeu tempo. – Me conta mais. por favor – disse Gio – eu só queria me garantir se não conseguisse outro.D. Pode ficar com ele. pode me dar uma chance? – Também quero – disse mais um sujeito. Prestei atenção no Rodrigo. – Eu adoro como vocês falam de mim como se eu não estivesse aqui – disse Barata com um sorriso. Com direito a quinze minutos de descanso entre uma e outra. O sujeito era bem grande. deu meia volta e saiu da sala. Era D. este pareceu um anão. Às vezes eu acho que ela tem poderes sobrenaturais. D. – Calem a boca – disse Gio – se nos pegarem trepando podem até entender que temos certas necessidades. O outro que falou com D. enquanto desenhava – posso ficar com as duas. Nem tinha reparado nele na sala.Wanju Duli – Ora. – Dani. Estragaram tudo! – Sinceramente. – Até tu.D.

Navarro sorriu. – Nesse caso. Gio. 63 . Eu revirei os olhos. – Pensei melhor – disse Navarro – e peço desculpas pela minha má educação. Simplesmente porque achei o gesto poderoso. Dani fazia isso porque ela sabia que podia. – Quero você – disse Dani. está desculpado – disse Gio. Ela apontou para Barata quando entrou. eu ficaria com a cara no chão. E ao dizer isso. da mesma forma que D. esqueça sobre nós – eu disse a Barata – quero aquele. lá estava ele de novo. – E você me terá – garantiu Barata. com uma voz que era perdidamente melodiosa e sensual.A Era do Folhetim Falando em Navarro.D.D. meu doce? Já acabou o seu charminho? Notei que ele se referia a mim. – Já – respondi – eu aceito. Era a primeira vez que eu ouvia. Fiquei aliviada. Miguel! – exclamou Gio – eu transo contigo. D. – De boa – me respondeu Rodrigo. Era quase como se ela e Navarro tivessem combinado e propositalmente não desejassem permanecer na sala ao mesmo tempo. – Tudo bem. deixar a sala. pouco depois de D.D. tinha feito. precisam fazer charminho. – Não acredito que irei me humilhar dessa forma. saiu da sala. – Então você estava interessada desde o começo e se fez de difícil! – exclamou Barata. – Confesso que estou um pouco curiosa para saber o tamanho do pau de um cara baixinho como ele – Gio sorriu – a Gabi não quis me contar. entrou na sala novamente. E você. Mas se Rodrigo me recusasse. contente. – Ótimo! – disse Barata. Apontei para Rodrigo. por mais que eu perguntasse. – OK. – Obrigado. triunfante – mas as mulheres são assim mesmo. mas vou perguntar uma última vez.

como se fosse um evento literário. Meu nome é Mariel. Aparentemente. – Só espero que esses imbecis não bebam até cair antes da hora – comentou Gio. – Só se você me perguntar apropriadamente. lemos trechos de autores famosos. Mariel. Ela pareceu um pouco intimidada com o sujeito enorme.Wanju Duli – Posso ficar com aquela? – perguntou o sujeito grande. ela também era pequena. – Odeio ler – ela disse. Durante a festa. posso ser seu par? – Pode sim – ela sorriu – como é seu nome mesmo? – Otávio Carneiro. suspeitando que era exatamente o que ia acontecer. Embora não fosse tão baixinha quanto Gio. aquilo era sexy. Carneiro! Uma vez Gio me disse que havia esse rapaz chamado Carneiro que sabia muito a fundo sobre Heidegger. É claro que ela devia se sentir ainda mais ofendida ao saber que eu ia transar com outra pessoa naquela noite. antes do encontro dos casais. O filósofo dissera que o ser humano é um ser-para-a-morte. Na noite do dia 31. 64 . Sônia ficou profundamente aborrecida com isso. Nem olhou na minha direção. Ainda mais sendo um cara. – Perdão. Ele apontou para Mariel. mas no final deu certo. Eu não sabia por quanto tempo mais eu teria que aguentar isso. nós garotas fizemos sozinhas nossa festinha de fim de ano enquanto provavelmente os rapazes faziam a deles em seus próprios alojamentos. Sônia participou. como se deve. sem rodeios – odeio livros de qualquer tipo. – Odeio história – disse Sônia. Aquela escolha de casais foi um pouco confusa. mas me ignorou o tempo inteiro. de uma forma inexplicável. – Ela não quer saber de amizade – comentou Gio – só vai aparecer para trepar. Dani não apareceu na festa. Até aquele momento ela somente havia assistido em silêncio. – Nem livros de história da matemática? – perguntou Agatha.

– Navarro foi convidado – explicou Gio – ele não vai participar esse ano. diferente de mim. o som dos incessantes fogos de artifício ao longe abafariam os ruídos. fui logo avisando que ele não precisaria usar camisinha. Somente dali uns sete aos e meio eu teria que escolher a minha escola em Castália. Combinamos que o encontro ocorreria nos dormitórios femininos. Quando Rodrigo entrou comigo num dormitório vazio que reservei somente para nós. E como a maior parte dos que estavam lá eram pelo menos alguns anos mais velhos que eu.A Era do Folhetim Agatha não pareceu muito ofendida. desconfiei que o tempo passaria voando. Já devia estar acostumada às críticas de Castália em relação ao estudo da história universal. Apenas pronunciar aquela palavra me dava um arrepio. Mesmo assim. mas. O de Nova Castália é no auge do verão. Ele ama a música. por isso era melhor fazer silêncio. – O Jogo de Castália é na primavera. de forma misteriosa – eu imagino que sim. Aguardamos a chegada deles na entrada e os conduzimos até lá. Cela Silvestre. Para a nossa sorte. pois eu ainda não tinha menstruado. Mas ele ficou de ajudar com uma parte da elaboração. – “Mas Waldzell é a mãe da industriosa tribo dos Jogadores das Contas de Vidro” – pronunciou Gio. então uma crítica à história da matemática não era nada. somente assistir. 65 .. Não queríamos perturbar as outras garotas que não tinham nenhuma intenção de quebrar regras. – O seu ficante vai participar? – perguntei. – Qual a sua idade? – ele perguntou. – O Jogo público das Contas de Vidro? – perguntei – achei que fosse na primavera. assustado – se for nova demais. Então era isso o que o estava ocupando tanto. eles partiriam antes de mim. eu não vou fazer isso. Bebemos com moderação. – Você acha que Navarro irá entrar para Waldzell? – perguntei – Sabe. – Amanhã começa o ludus anniversarius – comentou Gio. A única coisa de diferente que tivemos para a festa foi champanhe. talvez seja capaz de resistir à tentação. Mesmo assim.. é uma grande honra.

ele ficou por cima. Não que eu esperasse vasta experiência sexual de um adolescente de uma escola de elite. Eu ainda poderia acabar aquela noite com uma tranquila masturbação. Cada um tirou a própria roupa. Ele fazia muita força e já estava suado. mas ele provavelmente ficou nervoso consigo mesmo e descontou em mim. então era natural que Barata e Rodrigo tivessem me desejado. Parei de ler. Ele também começou a se irritar. Como eu não sabia direito o que fazer. em silêncio. Fitei meu rosto no espelho. Muito sexo selvagem da Roma Antiga para acalmar os ânimos. Fiquei braba porque doeu.. Era meio irritante. 66 . sem ter terminado o serviço.Wanju Duli – Fica tranquilo – eu disse – tenho quase catorze. Fiquei uma fera. sem beijo. Pelo menos a leitura me deixou ligeiramente mais calma: Satyricon. Aquele black power me deixava mesmo com uma aparência irresistível. Entrei no banheiro para lavar as mãos. Ele já foi metendo. Recoloquei minhas roupas. Depois de um tempo. ficou mais brabo ainda e colocou a culpa em mim. irritado. Simplesmente não me sentia no clima. Achei-o muito rude e inexperiente por agir assim. saí da biblioteca e apaguei as luzes. Lábios grossos. Até mesmo eu comeria a mim mesma. sem nada. então eu o xinguei. bochechas redondas. – Nunca fiz sem camisinha. Mas era dificil me concentrar. Ele não tinha que se sentir tão incomodado por ter broxado. Ele provavelmente havia voltado para o dormitório masculino e eu não tinha nenhuma intenção de procurá-lo mais. Assenti. de Petrônio. pois teremos mais lubrificação.. Vai ser diferente. porque nunca tinha transado com uma virgem antes e não sabia o que fazer para romper o hímen. Fui até a biblioteca ler um livro para tentar apagar da minha mente aquela cena patética. mas acho que vai facilitar. sem toque. Broxou umas três vezes. Me deixou lá. se desconcentrou. Eu não falei nada. Por fim. Mas Rodrigo não precisava ter sido tão impaciente. ele saiu do quarto.

A Era do Folhetim
De repente, uma garota saiu de uma das portas do banheiro, onde
ficava o chuveiro. Ela havia acabado de tomar uma ducha, estava toda
molhada e completamente nua. Não havia toalha alguma por perto.
Era D.D. Eu não conseguia tirar os olhos do corpo dela. Eu a fitava
através do espelho. Fiquei hipnotizada com o que vi.
Sua pele era morena e brilhante, muito bem cuidada. As formas de
seu corpo eram perfeitas. Tinha bastante carne nos lugares certos: não
somente as coxas eram grossas, mas seus quadris eram largos. Ela
também tinha uma bunda maravilhosa e os peitos bem redondos. Eram
peitos de tamanho médio, que se harmonizavam muito bem com o resto
do corpo.
Ela não ficou nem um pouco preocupada com minha presença. Nem
pareceu ter me visto. Passou reto por mim, abriu um dos armários do
banheiro e começou a procurar por uma toalha.
Quando ela se abaixou ligeiramente para abrir os armários, eu olhei
discretamente para ela e vi, por suas costas, um parte de sua vagina.
Quase tive um treco. Minha vagina pulsou forte e começou a pegar fogo.
Rodrigo não me dava tesão, mas a Dani... ah, meu Jesus Cristo! Aquilo
sim que era um pedaço de mau caminho. Se ela topasse, eu teria me
deitado com ela no chão ali mesmo. Enfiaria a língua em sua boca e a
língua na sua boceta molhada.
Porém, meus pensamentos foram completamente interrompidos
quando outra pessoa entrou no banheiro. Ele abriu a porta com
estrondo.
– Alguém viu a Gio? Vocês viram para onde ela foi?
Era Navarro, que estava de jeans e sem camisa, com cara de idiota.
Ele estava com os pés descalços e a própria cueca na mão, como se
tivesse vestido o jeans rapidamente sem ela.
– Saia daqui imediatamente! – gritou Dani, fora de si.
Sem se desculpar e sem fechar a porta, Navarro insistiu:
– Apenas respondam a minha pergunta: vocês a viram por aí?
– Fecha essa porta, seu filho da puta! – berrou Dani.
Ela foi até a porta e a empurrou em cima de Navarro. Porém, ele
empurrou a porta mais forte. Não sei se Dani se abaixou naquele
momento, mas o trinco atingiu fortemente seu rosto, ela caiu e escorreu
um filete de sangue por sua testa.
67

Wanju Duli
– Nossa, me desculpa, Dani! – exclamou Navarro, abaixando-se para
ajudá-la – eu te machuquei? Você tá bem?
Dani começou a dar tapas, socos e chutes em Navarro. Ele protegeuse com as mãos.
– Vai tomar no cu! Seu corno, filho da mãe! – Dani prosseguiu
berrando, com voz rouca – Sai daqui, caralho!
Navarro entendeu o recado e se mandou. Pelo jeito aquela noite não
estava sendo boa para ninguém. Mas Navarro devia ter lido um pouco
mais a situação e ter se mandado de lá já na primeira vez que Dani o
mandou sair.
Achei uma toalha em outro armário e entreguei para Dani. Ela se
enrolou nela.
– Precisa de ajuda? – perguntei.
Ela fez que não. Ela não me agradeceu e abriu a porta para sair do
banheiro. Porém, quem estava na porta agora era Barata.
– O que aconteceu? – ele perguntou, preocupado, ao ver o sangue.
– Não é da sua conta – respondeu Dani, rispidamente.
E foi embora.
– Você sabe o que houve? – perguntou Barata.
– Foi apenas um acidente – respondi.
Achei melhor não dizer que o acidente havia sido causado pela
idiotice de Navarro. Podia ser que Barata fosse atrás de Navarro para
tirar satisfações. Eu não sabia se Barata era do tipo de pessoa que bateria
em Navarro para defender a Dani. Achei melhor não descobrir, para
aquela noite não terminar com todos nós sendo expulsos.
Eu suspirei.
– Eu devia ter transado contigo – eu disse – meu encontro com
Rodrigo foi um lixo.
– É mesmo? – perguntou Barata, curioso.
Mas não perguntou mais detalhes. Ainda bem, porque eu não ia dizer.
– Como foi o seu?
– Foi ótimo – respondeu Barata – mas ainda aguento mais uma. Você
quer?
Aquilo foi um pouco inesperado. Mas eu não estava mais a fim de
fazer charminho.
– Quero, mas só se for agora.
68

A Era do Folhetim
– Imediatamente, querida – respondeu Barata, com um sorriso.
Ele me levou até o quarto em que provavelmente ele e Dani tinham
transado. De certa forma, poder estar na mesma cama em que Dani
estivera me daria até mais emoção do que trepar com esse garoto.
Barata parecia ser mais experiente que Rodrigo, então fiquei mais
tranquila. Pelo menos ele me passava confiança, como se soubesse
exatamente o que fazia.
Quando já estávamos os dois despidos, ele me deitou gentilmente na
cama e me beijou de um jeito muito bom. Lento e carinhoso, um beijo
profundo. Nossas línguas se encontraram. Fechei os olhos e voltei a
imaginar o corpo nu de Dani. Fiquei com muito tesão.
Ele passou a mão nos meus peitos, foi descendo para a barriga e de
uma forma muito natural acariciou minha vagina. Quando colocou seu
dedo dentro de mim, eu já estava bem lubrificada.
Ele desceu pelo meu corpo, me beijando pelo pescoço, nos peitos, na
barriga. Colocou a língua na minha boceta. Eu gemi e suspirei forte.
Quando ele foi colocar a camisinha, eu disse que não precisava.
Expliquei o motivo.
– Nossa, que legal – disse Barata – adoro fazer sem camisinha. Mas
você não tem medo que eu te passe alguma doença?
Eu fiz que não. E se fosse uma doença da Dani, eu não me
importava.
– Quer que eu te masturbe? – perguntei – ou que eu te chupe?
Eu me sentia meio boba ao perguntar. Podia simplesmente ter feito,
como ele fez, chegando aos pouquinhos.
Estranhamente, eu entendi a expressão e seus sinais corporais de
resposta à minha pergunta. Ele meio que deu de ombros, como se
dissesse que não precisava, mas que se eu quisesse fazer ele ia curtir.
Antes que eu decidisse, ele resolveu que não precisaria e, aos poucos,
colocou o pênis em mim.
Até ali, tudo tinha sido perfeito demais para ser real. Barata era um
mestre na cama. Mas quando chegou a hora de tentar romper o hímen,
que ainda não estava completamente rompido, ele enfrentou alguma
dificuldade. Teve um momento em que Barata broxou também, mas ele
apenas deu um riso divertido.
– Me empresta suas mãos, querida?
69

Wanju Duli
Eu ri junto e o masturbei. A situação se resolveu a seguir e logo ele já
estava dentro de mim.
Enquanto fazíamos amor, eu imaginei o corpo de Dani diversas
vezes. Quando eu estava perto de gozar, lembrei do formato da vagina
dela, pelo menos do pouco que vi.
Barata gozou um pouco depois de mim. Senti o líquido quente. Foi
bom.
Depois da transa, ele me abraçou, respirando rápido. Seu coração
batia muito forte. Havia sido simplesmente maravilhoso. E eu sabia que
tinha sido bom para nós dois. O corpo e a expressão dele me mostravam
isso.
Eu sentia por Barata algo parecido com amizade. Tínhamos dividido
aquele momento juntos. Claro, eu tinha sentido prazer e ele foi
excelente, embora eu precisasse confessar que a lembrança das curvas de
Dani tivesse sido muito mais eficaz para me fazer gozar.
Eu admirei Barata. Ele era muito maduro. E eu o admirei ainda mais
no momento em que ele agiu de forma tranquila quando as coisas deram
errado do que em seus muitos acertos. Não era tão importante que o
cara fosse um Deus na cama, mas que se sentisse à vontade o suficiente
comigo para compartilharmos aquele momento juntos e para que
resolvêssemos os problemas juntos.
Rodrigo poderia ter broxado mil vezes que eu o aguardaria e o
ajudaria. Só fiquei chateada por ele ter ficado aborrecido e colocado a
culpa em mim. Mas talvez eu também tivesse errado por tê-lo xingado
logo no começo por não saber o que fazer.
– Você ainda tá pensando nele, né? – perguntou Barata, adivinhando
– esquece isso por enquanto.
A voz de Barata foi como música. Ele falou baixinho, de forma
suave, perto do meu ouvido. E acariciou os meus cabelos.
– Maria... posso te fazer uma pergunta pessoal?
– Acho que pode...
– Você gosta da Dani?
Fiz que sim.
– Ouvi falar que você terminou com a Sônia. Mas você também gosta
da Dani – disse Barata – parece difícil.
– E você, gosta de alguém?
70

Não sei se irei para Cela Silvestre. 71 . dali alguns anos. Éramos estudantes das escolas de elite. Ouvindo os fogos ao longe. um perfeito cavalheiro. Fiquei lembrando de sua voz doce muito depois de ele ter saído. mas é um pensamento encantador. Uma existência espiritual. Parece quase um sonho. E seguir para o próximo sonho. Barata foi muito gentil. Então acho que vou esquecer. Não sei se ela quer. A Verdade. Um dia. vocês vão fazer parte dele no futuro. Barata levantou-se devagar e sentou na cama. – Engraçado você ter pensado nisso agora. Nenhum de nós seria de ninguém. Se a Dani não fosse minha. todos eles. eu me sentia no céu. – Estou meio melancólico e sentimental hoje – ele riu – deve ser por causa do Ano Novo. Paixão boba de adolescente. Mas seria impossível nesse lugar. – Queria que durasse para sempre? Ele fez que não. Ele se despediu de mim com um abraço e um beijo bem leve nos lábios. Se não for em corpo será em espírito. no fundo eu não me importava que ela fosse dele. Quando nos despedimos. Mas para ela será bem mais fácil esquecer do que para mim. – As coisas só são bonitas porque terminam – disse Barata – vou guardar os momentos de hoje. essa atmosfera mágica. iríamos para Castália. Era um pouco doloroso. Mas eu precisava ser realista: ela não seria de ninguém. Todos nós sabíamos que aqueles encontros eram só diversões temporárias. Castália era algo maior do que nós mesmos. – Será que um dia poderemos jogar o Jogo de Avelórios juntos? Barata parecia se divertir cada vez mais com as minhas perguntas. Aqueles eram apenas os rituais de despedida de nossa velha vida. futuros habitantes de Castália.A Era do Folhetim – Gosto da Dani também – respondeu Barata. mas a dor tornava tudo mais real. com naturalidade – queria que a gente namorasse. De certa forma. E isso era muito mais importante que sexo ou mesmo amor. O da Dani e o nosso.

Nunca tínhamos ficado juntos dessa forma. Como se ela fosse uma princesa! – Conheço o Miguel desde que éramos bem pequenos – ela explicou – já que a família dele o trazia para assistir aos Jogos. preocupada – foi alguma coisa que o Navarro fez? Puta que pariu. já que eles são nomes de peso. mas o que ele disse – respondeu Gio. Navarro tinha feito duas grandes bobagens na mesma noite. – Ficamos relembrando os podres um do outro e jogando na cara. Ele sempre teve inveja de mim porque morei em Castália e sabia mais que ele sobre o Jogo e sobre todas as outras coisas. Brigamos feio. Depois de ter desenvolvido a notação musical aceita até mesmo em Cela Silvestre. Tava tudo dando certo e depois deu essa merda. – Não foi tanto o que ele fez. entre soluços. Discutimos aos gritos. – É algo que possa contar? – perguntei. Eu cresci jogando o Jogo de Avelórios. Nunca achei que nossa amizade fosse uma competição e nem tenho intenção de 72 .. A gente brincava juntos enquanto os adultos estavam ocupados com as coisas grandes. Mas eu nunca liguei para isso. A gente discutiu por causa disso. Simplesmente me criaram em segredo. – Não vou contar por respeito a ele – ela disse – mas tem a ver com a insegurança dele.Wanju Duli Resolvi tomar um banho também. No meio do sexo. pois não queriam expulsar meus pais da Província. Ele via seu feito como se tivesse me derrotado.. Lá dentro. que estava chorando. – eu pronunciei. Foi uma droga. Quando terminei. ele se sentiu o rei do universo. Era como um conto de fadas. encontrei Mariel e Agatha tentando consolar Gio. Foi horrível. – Gio. mas sei lá. Vocês não ouviram? Eu respondi que não. Não sabiam o que fazer comigo. Ela fez que não. A gente se conhece bem. Ele queria me vencer e por isso estudou muito. – Há quanto tempo vocês estão aqui? – Eu nasci em Castália – ela respondeu – fruto de uma união ilícita entre dois habitantes de lá. vesti meu pijama e retornei para nosso dormitório. Eu e ele já estamos aqui há muito tempo.

nos agradeceu e retornou para seu quarto. relembrando a infância. Como lá não havia muita coisa além de livros. Eu recebi permissão de ir visitar minha família por um fim de semana. Com algumas folhas de papel. essas coisas não têm valor.. jogo da forca e até brincamos de pega-pega e esconde-esconde no pátio. Fizemos todas as coisas tolas que conseguimos pensar. é claro. virei a madrugada assistindo filmes e fui jogar Pump no fliperama junto com Mel e Lua. É claro que eu não os mantive e enquanto estive no orfanato realizei todas as diversões mundanas possíveis. – Todos nós sabemos que isso é irrelevante – disse Gio – aqui dentro. Miguel não está satisfeito. – A amizade não deixa de ser um tipo de amor – disse Mariel. Já devia ter assistido àquilo incontáveis vezes. Essa conversa pareceu ter deixado Gio mais calma.A Era do Folhetim ser jogadora de Contas de Vidro! Joguei tanto quando criança que cansei. – Acho que ele gosta de você – opinei.. embora eu devesse manter meus votos durante a visita. Agora quero me dedicar mais a fundo à filosofia. Ele não precisa ir para Cela Silvestre só para se exibir. tínhamos um mundo. Eu fiquei sabendo que Gio não iria simplesmente porque “não estava a fim”. Ele quer ir a fundo na problemática do Jogo. Eu não o considerarei melhor ou pior se ele se dedicar à música ou ao Jogo. só para provar para mim que é capaz. talvez dedicar a sua vida a isso. enquanto tudo o que eu queria era poder estar lá um dia. reuni as meninas para inventarmos alguma coisa. Só amizade. Jogamos jogos da velha. Retornei para as escolas de elite renovada. Ainda teria alguns dias para fazer o que queria. Agora estávamos em 2289. famílias ricas e alguns dos maiores especialistas no Jogo de Avelórios. junto com membros do governo. Aquelas férias foram estranhas. Recordei-me que já havia passado de meia-noite. Ela parou de chorar. Navarro viajaria no dia seguinte para a Província e permaneceria por lá uma semana assistindo às festividades do Jogo. Sônia optou por visitar o orfanato em dias diferentes dos meus. Comi todas as porcarias que consegui engolir. A ideia era: “O que é possível fazer com o que temos aqui?” 73 .

inteligente. 74 . Fui orientada a aguardá-lo na biblioteca do alojamento dos garotos. mas um que achei na biblioteca e estava a fim de dar uma olhada. a maior parte devia ter sido recomendada para as escolas de elite pelas altas notas e por se destacar em alguma área do conhecimento. Achei alguns que eu realmente desejava ler. Quando cheguei. Passei a olhá-lo de forma diferente. de forma muito clara e profissional. responsável. Resolvi escrever meu ensaio logo de manhã. Apenas se ateve a me explicar gramática. Não mencionou o nosso encontro no Ano Novo. confusa. – Vamos começar? – ele perguntou. – Você é meu tutor de gramática? – perguntei – o cara que sabe muito? O aluno modelo? – Isso – respondeu Rodrigo. com exceção de mim e mais uns poucos. Mas quando se tratava de gramática ele se tornava outra pessoa. Eu nunca tinha estado lá. iniciei uma leitura do cronograma. em meu último dia de férias eu já tinha voltado a ler. Afinal. Eu precisava perguntar se eu tinha permissão de retirá-los para ler em meu pouco tempo livre. Enquanto folheava os livros. ele veio diretamente na minha direção. Resolvi fingir que não tinha visto. fiquei maravilhada com os livros. acordei bem cedo e retomei minhas atividades. Ele alcançou dois livros numa estante mais alta. E como era férias. Extremamente maduro. Nós nos sentamos juntos e ele abriu os livros. para me livrar dele. Mesmo que aquele lugar não reunisse gênios. com naturalidade – tem uns livros aqui que vamos usar. Parecia ter se transformado. sério. imaturo e inexperiente. do jeito que eu gostava. Era melhor assim. reunia pessoas muito esforçadas e interessadas no que faziam. eu li na cama.Wanju Duli Para minha supresa. Depois disso. vi Rodrigo entrando na biblioteca. eu o considerei infantil. Eu o fitei. Não um livro que me mandaram ler. Após o nosso desentendimento. Eu não devia me surpreender mais ao encontrar vários alunos modelo por lá. Porém. De tarde eu seria instruída pelo tutor de gramática. No dia seguinte.

Faço o que posso. nem notei o tempo passar. Ele me passou deveres de casa que me tomariam a semana inteira. é bom saber filosofia – disse Rodrigo – eu acredito que a lógica seja um bom ponto de ligação entre as ciências exatas e as humanas. Ainda estou aprendendo. como conversamos. só é possível entender o encadeamento lógico das premissas ao conhecermos as relações das palavras no interior de uma frase..A Era do Folhetim Honestamente. pois mistura filosofia e matemática. Eu ainda não tinha penetrado na essência. Formal.. Você sabe muito! – De nada. ele parecia um professor calejado. Para penetrar na física é boa coisa estudar matemática. – Estou vendo a gramática de uma maneira totalmente diferente – confessei – parece que tudo o que estudei no colégio até hoje foi apenas a forma. ele era como um feiticeiro das letras. Para eu ter o que fazer até o encontro da semana seguinte. Havíamos ficado lá por duas horas seguidas e o tempo voou como um sonho. Fico feliz de poder ajudar. específica de outras línguas. Humilde. Aquele adolescente que nem sabia beijar uma mulher. – Eu aconselho que você também estude a gramática especial. Para saber química a fundo. Se pensarmos na lógica. é desejável saber física. Sincero. – Muito obrigada pela ajuda – foi tudo o que consegui dizer – nem sei como agradecer. O amor que ele sentia por aquele conhecimento me contagiou. E para estudar matemática. Porém. arte e filosofia. é bom saber química. – Uma se fundamenta na outra. – E o que devemos saber para estudar filosofia? 75 . Ele sabia tudo! Todos aqueles nomes difíceis de gramática. tem mais a ver com psicologia. Ele estava me fazendo amá-las. Aquelas merdas que eu odiava e queria destruir. porque. pela primeira vez. a lógica começou nas humanas. Somente depois que a matemática se apropriou dela. eu começava a entendê-las. não é mesmo? – perguntei – para entender biologia a fundo. Caralho. Quando Rodrigo declarou que a lição do dia havia terminado. – Nesse caso. pois isso lhe ajudará a compreender melhor a gramática geral – disse Rodrigo – a geral.

É claro que para Rodrigo tudo começava na gramática. – Eu soube que você ficou com o Barata depois.. Para os escolásticos a teologia era a mãe da filosofia. Talvez não houvesse um início e as coisas nascessem e se transformassem juntas. – comecei. Somente um olhar dela provavelmente seria capaz de fuzilá-lo. 76 . – Me desculpe – ele me interrompeu – eu queria te mostrar que sabia o que estava fazendo. eu já tinha ouvido de tudo. Espero que tenha compensado. Rodrigo disse: – Se o assunto é biologia. jamais teria coragem de aparecer na frente dela de novo. Eu já tinha percebido que cada um puxava a brasa para a sua sardinha. Eu só tive uma relação sexual antes dessa. que fundamentava todas as outras coisas.Wanju Duli – A linguagem – disse Rodrigo – embora a matemática e a música. Quando mencionei sobre isso. já existia história. a metafísica de Aristóteles. Para Gio. talvez a história fosse o começo. Coloquei a responsabilidade pela transa toda em cima de você e nem fiz nada. com o fascínio perante o sublime e o mistério. mas me atrapalhei e não soube lidar com a situação. em que as diferentes espécies passam por um proesso de coevolução. Se eu fosse Navarro. É claro que eu não tinha coragem de falar com a Dani! Ninguém tinha.. O tom com que ele disse isso me sugeriu que ele tinha ficado um pouco chateado. Outros poderiam dizer que a teologia vem antes. E para aprender uma língua é preciso conhecer tanto a gramática especial quanto a geral. A “senhorita Dantas” parecia viver num mundo diferente do nosso. Já para Agatha. no Ano Novo anterior. – Sobre o que aconteceu naquela noite. E vê-la furiosa daquele jeito no dia em que ela gritou com Navarro me deixou ainda mais intimidada. assim como na evolução. Eu baixei os olhos. Como eles eram fofoqueiros.. recomendo que converse com a Dani. – Não se preocupe – eu disse – eu também errei. Aquilo já tinha se espalhado! – Desculpa. por exemplo. não deixem de ser um tipo de linguagem. pois antes de aprendermos a ler e a contar. Bem. a filosofia era o início de tudo. Eu tentei fingir uma experiência que eu não tinha..

– Aquele imbecil sabe ser orgulhoso – disse Gio – mas ele é uma boa pessoa. Você não tem que me dar satisfação. Ele levantou-se.A Era do Folhetim – Por que está pedindo desculpas? – ele perguntou – isso não é necessário. mas não porque ele seja feio. É porque é parente. por exemplo. Contei a ela que também tive problemas no Ano Novo com Rodrigo. – Rodrigo também sabe jogar o Jogo de Avelórios? – perguntei. cor da pele. os alunos das escolas de elite evitam 77 . Nosso tipo de cabelo é bem parecido. Por isso ele se apaixonou por gramática: para entender os hieróglifos do Jogo. – Sim. Quando voltei para o alojamento feminino encontrei a Gio no caminho. – Vocês não se parecem! – foi a primeira coisa que consegui dizer. E foi embora. – Lembro que ele te emprestou um celular quando cheguei aqui – comentei – vocês parecem ser bem próximos. – Até a semana que vem. mas pode gerar uma sensação desconfortável – respondeu Gio – em geral. E outras coisas. vai notar algumas semelhanças. Que viagem! – Uma vez você disse que ficaria com qualquer garoto do alojamento masculino. era mesmo. Eu já imaginava o motivo. – Ele foi criado em Castália com você? – Sim. Parando para pensar.. menos um – lembrei – você obviamente estava se referindo ao seu irmão. – Ele pretende estudar em Cela Silvestre? – Você faz essa pergunta pra todo mundo? – É uma pergunta ruim? – Não é que seja ruim. Sei lá. Cor do cabelo. – Exato.. Ela notou que eu estava um pouco cabisbaixa. – Sabe. seria estranho. desde o útero – ela respondeu – ele é meu irmão gêmeo. Ele e Miguel nunca se deram bem. O formato do nariz. – Todo mundo diz isso – falou Gio – mas se colocar nós dois lado a lado. Meu queixo caiu.

elas também não existiam em muitas coisas? Talvez até mais na própria teologia. Eu era estudante das escolas de elite há pouco mais de três meses. ao estudar literatura eu via as coisas se encaixando e entendia cada vez mais o sentido do Jogo. – Nossa. Aquele que compreende inteiramente o sentido do Jogo. Então é como relembrar da faca cravada em nosso coração e enfiá-la mais fundo. mesmo que seja sublime. na química. Mas quanto mais amadurecíamos. Aos poucos e de forma gentil 78 . Eu provavelmente estou exagerando. Uma paixão de infância. Sobre a espiritualidade e a Verdade presentes no Jogo. Eu não tinha pensado dessa forma. Acredito que a maior parte dos que estavam ali tinham decidido entrar nas escolas de elite pela paixão pelo mistério que o Jogo suscitava. não pode mais ser um jogador de Avelórios. muito mais do que imaginamos.Wanju Duli mencionar sobre o Jogo.. na gramática. Eles me mostravam as regras. desculpe. Ou melhor. mais se afasta dele. Era bastante lógico. então por que ser um jogador? Que motivo restaria? O que era aquela estranha atração que o Jogo ainda emanava e que parecia estar cada vez mais distante? Eu também sentia esse processo acontecendo dentro de mim. Por isso sugiro que você não saia falando sobre Cela Silvestre tão facilmente. mais aquele mistério perdia sua atração. Porém. – Não esquenta. Também recordei da seguinte frase: “Respeita o sentido. era o centro de tudo. mas já me senti. Há outras coisas sublimes no mundo. mas a cada dia eu sentia que penetrava mais fundo na literatura e ficava mais longe do Jogo. Afinal. mas não pense que o sentido se ensina”. Eu não me sinto mais desse jeito. um pensamento cortou meu coração ao notar isso. Lembrei daquela reflexão: quanto mais se compreende o sentido do Jogo. o funcionamento das ciências e das artes. Até na matemática. Ninguém estava lá me ensinando o sentido das coisas. Muitos de nós vivemos esse dilema entre dedicar nossa vida ao Jogo das Contas de Vidro ou à nossa área de interesse. Ao mesmo tempo. O Jogo parecia ser um tipo de tabu. um jogo é um jogo. Então imagino que outras pessoas por aqui também sintam algo parecido. É mais como uma paixão secreta e proibida que todos guardam dentro de si..

Mas eu duvidava que um dia eles nos convidassem para que jogássemos de forma descontraída e para nos divertirmos. recebemos um aluno ouvinte em nossas escolas.A Era do Folhetim elas se encaxariam dentro de mim. Já não tinha vontade de matar a saudade. Dois anos e meio depois. A diferença dessa vez foi que eu o conhecia. Eu já não tinha medo de um dia desistir de permanecer nas escolas de elite. como os irmãos gêmeos e Navarro. Apenas mostrariam as portas e eu entraria nelas por mim mesma. Fiquei contente que Gio tivesse sido sincera comigo sobre essa questão. Por outro lado. Depois de alguns anos. só faltava descobrir meu lugar em Castália: na Cela Silvestre ou nas escolas de literatura. Apenas trocava umas poucas mensagens com minhas amigas antigas pela internet. Para disfarçar o embaraço que sentiam toda vez que o Jogo era mencionado. Era o mais próximo que Castália tinha de uma religião. Que era uma velha paixão de infância. Sua joia mais preciosa e mais frágil. eu agia da mesma forma no meu antigo colégio. a partir dali eu me sentiria intimidada a fazer quaisquer perguntas envolvendo esse assunto no futuro. Agora. que impediriam que o Jogo se degenerasse em mero ornamento estético e perdesse seu espírito. 79 . não visitei mais o orfanato nas férias. Por isso eu nunca via ninguém nas escolas de elite jogando o Jogo das Contas de Vidro. Eu sabia que havia grandes conhecedores do Jogo lá dentro. mas até isso estava se tornando raro. alguns fingiam que já não se importavam mais com esse assunto. Pensando bem. quando eu já estava com 16 anos. Eles levavam aquele assunto muito a sério e só o mencionavam quando necessário. mas pelos motivos errados. Eu já havia encontrado meu lugar no mundo: era ali. Cada vez eu me identificava menos com o mundo lá fora. Havia um tipo de respeito pairando no ar que não precisava ser dito. Por isso. Éramos cada vez mais diferentes. por serem muito rigorosas. Não era a primeira vez que aquilo aconteceu ao longo desses anos. Ninguém iria encaixar as coisas por mim. essa joia precisava de guardiões poderosos. Eu tinha mais vontade de conversar com minhas amigas do dormitório. Até o fliperama já me parecia sem graça.

Era quase insuportável. assistir a algumas aulas e seminários. mas ela não parava de reclamar. Não me diga que você não sabe jogar? Eu suspirei. – Não somos exigentes com comida – disse Sônia – porque há tantas coisas mais interessantes aqui que o cérebro nem pensa mais nesses detalhes. O nome daquela garota era Linda. Conheci primeiro a moça. – Esses cursos nem sempre caem no período das minhas férias. Nós a recebemos com a cortesia requerida. e ficou desapontada ao descobrir que não ensinaríamos isso para ela.Wanju Duli Os alunos ouvintes eram normalmente aqueles vindos de famílias ricas que não tinham intenção de estudar nas escolas de elite. – Como vocês aguentam comer a mesma comida todos os dias? Ouvi-la era como ouvir o eco de mim mesma no meu primeiro mês por lá. Eu esperava que esse fosse um problema que pudesse ser solucionado quando mais alguns anos se passassem. que veio para nosso dormitório. como todos os outros. Não tem ninguém aqui que possa me dar um breve curso do Jogo? – A Província oferece esses cursos periodicamente – eu informei – você deveria contatá-los. mas que desejavam passar um período nas férias conosco. – Qual é a graça de vir para as escolas de elite e não jogar o Jogo de Avelórios? – ela perguntou – vocês são estranhos. E até a amizade dela eu senti que havia perdido um pouco. Nos tornamos um pouco distantes. mas nesse caso era uma visita mais modesta: para acompanhar o dia a dia dos alunos. Ela só tinha ido para lá porque estava interessada no Jogo das Contas de Vidro. Era um ano mais velha que eu. Sônia tinha voltado a falar comigo. Normalmente para aprender o Jogo das Contas de Vidro. Não se tratava mais de um namoro. mas eu sentia que nunca teríamos a mesma relação de antes. 80 . Foi somente ao ouvi-la que me dei conta do quanto eu devia ter soado desagradável. – Onde estão todas essas coisas interessantes? – ela perguntou – não achei a biblioteca de vocês muito impressionante. Foram dois os visitantes: uma moça e um rapaz. Nós fizemos as pazes.

Porém. E ela simplesmente sentou-se atrás dele e continuou a olhá-lo. Era a paisagem da janela do alojamento masculino.A Era do Folhetim – Não sei. sem saber como reagir. Linda era mais atrevida do que eu tinha imaginado. não acha? 81 . – Pensei que você quisesse saber sobre o Jogo de Avelórios – comentei. – Não enche – disse Linda – depois eu penso nisso. Chegando lá. – Uau. encontrei Barata usando um avental e pintando um quadro. Deu um sorriso meio forçado. Digamos que estava fanática com isso ultimamente e nem queria ouvir falar no Jogo. obrigado – ele consertou a situação – estou lisonjeado. – Por favor. Eu também tinha ficado sabendo que todos aqueles quadros lindos das salas principais do prédio tinham sido feitos por ele. Maria – ele cumprimentou-me – o que a traz aqui? – Nossa. E a mandei para a Gio. nos mínimos detalhes. bonitão? – Arthur. que gato! – exclamou Linda. Posso sentar aqui atrás e ficar olhando pra ela? Eu segurei meu riso com a mão. Eu nunca o tinha visto assim antes. – Onde? – perguntou Barata. – Tem que estar mesmo – disse Linda – gostei da sua bunda. que lindo! – exclamei. – Oi. arranjo-lhe uma cadeira para sentar-se enquanto aprecia a vista. Ela não estava apenas tentando escapar das tentações dessa paixão. – Ora. olhando para seu quadro. – Não precisa. – Vamos para o alojamento masculino – convidei Linda. Gio não parecia muito disposta a ensiná-la. Ela genuinamente nem queria saber. ao ver o que ele pintara. Então. Ela estava ocupadíssima com seus estudos de filosofia. mas conheço quem saiba – eu disse. eu sento no chão mesmo. – Obrigado – Barata sorriu – ainda preciso dar uns retoques. – Você! Barata ficou meio sem graça. extremamente realista. Ele ficava engraçado com aquele avental. Um nome ideal. e o seu? – Linda. fique à vontade – disse Barata – se quiser. qual é o seu nome.

– Deixa disso. – Pode me desenhar? Ele pensou um pouco antes de responder. posso pintá-la assim que eu terminar esse – informou Barata – só preciso de mais meia hora para finalizá-lo. Se não havia parado com as drogas.Wanju Duli – De fato. O drogado. Eu não entendia muito de música. – Está bem – Barata desistiu – foi com o Miguel. Ou você é do tipo que joga para o outro time. tinha pelo menos diminuído. como Michelangelo? – Eu jogo nos dois times – respondeu Barata. Então ele era um pouco como eu. Para mim aquilo era novidade. 82 . Linda também estava curiosíssima. Mas o sorrisinho que ele deu quando disse isso me deixou claro que ele estava louco para contar. Estava sorrindo de orelha a orelha. Eu soltei uma exclamação em alto e bom som e tapei a boca com as mãos. Senti que se eu o interrompesse seria morta. Ele estava tocando uma música que parecia ser de difícil execução. – Eu tenho o dia todo – disse Linda – que tal fazermos amor depois de terminarmos? Como Diego Rivera que transava com suas modelos. Ele ficava ainda menor perto daquele instrumento gigantesco. pois não tinha mais suas olheiras profundas. Arthur – eu falei – e entrega logo o jogo. – Agora fiquei curiosa – falei – com que cara você já transou? Só pode ter sido alguém aqui do alojamento. Fomos as duas juntas procurar por Navarro. mas aquilo parecia ser quase impossível de tocar. Até mesmo esse cara tinha tomado jeito. certo? – eu ri – Seu maldito! Eu quase caí nessa! – É sério – insistiu Barata – vá lá perguntar para ele se não acredita. tocando seu contrabaixo. – Se você se dispor a permanecer algumas horas parada na mesma posição. – Você está brincando. – Isso é segredo – disse Barata. Encontrei-o sozinho na sala de música. Ele estava tocando oboé. Foi só então que reparei que Boaventura estava com ele.

– Educado como sempre – eu disse. para que o alojamento inteiro ouvisse – se alguém se sente ofendido com isso. Apenas me fitava fixamente. – Fora daqui – disse Navarro. – Quantos anos você tem? – ela insistiu – doze? – Dezoito! – Não perguntei por causa da sua altura e sim pela sua infantilidade – ela justificou-se. – Você é o único aqui que está falando bobagens – observei. – Foi apenas uma vez – disse Navarro – e faz muito tempo. Eu estava apenas curioso. seus semivirgens castrados de Castália! – Você está de TPM? – perguntou Linda. estou sangrando pelo cu depois de ouvir as bobagens de vocês! – Navarro continuou a berrar. sentando-me num banco – já conhece a Linda? – Não conheço e nem quero conhecer. – Isso é sério? – perguntou Boaventura. – Boa tarde. vão se foder. 83 . Isso é verdade? Navarro ficou sem fala. Não sinto nada por ele. – Que sujeito mais ridículo – disse Linda.A Era do Folhetim Esperamos por cinco minutos lá fora. sem nem pedir licença. atire-se da janela e morra. com um largo sorriso – ele comeu seu cu? – Ele comeu meu rabo e eu comi o dele!!! – exclamou Navarro em alto e bom som. mas a droga da música não terminava nunca. – Se você se sente incomodada com isso. – Pela reação dele é verdade – disse Linda. Invadi. – Afinal. – Sim. rapazes – cumprimentei-os. em tom divertido. o que vocês querem aqui? – ele perguntou. nada demais. Então resolvi entrar mesmo assim. Sempre preferi mulheres. Ele não disfarçou a raiva que sentiu. sentindo antipatia por ele no mesmo instante – por que você é tão baixinho? Linda tinha tocado no ponto fraco de Navarro. sem paciência – me insultar? – Só viemos perguntar uma coisa – eu disse – o Arthur me disse que vocês dois já fizeram sexo.

– Então só pode ter entrado por causa do Jogo de Avelórios – constatou Linda. então é claro que não se importa em perder cinco minutos comigo. não é mesmo? Navarro estreitou os olhos.Wanju Duli – Eu estava pensando em transar com Arthur. Linda tirou algumas notas de cem reais da carteira e entregou para Navarro. – É só sobre isso que os estúpidos alunos ouvintes sabem falar. maravilhada. como papagaios repetindo a mesma nota dissonante – disse Navarro – pois eu já me cansei de falar disso. – Que bom – disse Navarro – pode sair agora? Está atrapalhando meu ensaio. Arrume outro idiota para lhe dar palestras. Mais alguma questão? – As escolas de elite são um lugar bem apropriado para se tocar contrabaixo – disse Linda – afinal. mas eu fiz voto de pobreza e de castidade. Ela só sabia entrar nos temas delicados. Você quer que eu te fale sobre o Jogo? – Como sabe? – perguntou Linda. uma aluna ouvinte. esse é um instrumento caríssimo para manter. e eu o fiz. – Você deve ficar tocando isso 24 horas por dia. – Minha família é tão podre de rica que poderia fazer a sua de escrava – disse Navarro – não entrei aqui pelo dinheiro. – Quem é você mesmo? – Linda. – Muito casto – observou Linda – nem por isso precisava rasgar meu dinheiro! – Você o deu a mim para que eu fizesse com ele o que queria. – O motivo de eu ter entrado não lhe diz respeito – disse Navarro. pensando no que dizer para aquela peste. – Já perdi bem mais que isso nessa conversa infeliz. sim. Navarro lambeu os lábios. – Então eu acertei – disse Linda – você é incapaz de mentir. – Ah. confuso. 84 . Suas reações te denunciam. Como pode ver. Castália paga todos os seus custos. mas tive uma ideia melhor – observou Linda – eu pago para ver vocês dois se comendo. sou pobre e casto. Ele fitou-a. mais uma idiota – Navarro rasgou as notas – sinto muito. Seja mais direta.

Não achei que fosse possível. – Nenhuma. Parece que está tendo um orgasmo. certo? Eu assisto as cerimônias de Nova Castália todos os anos.A Era do Folhetim – Posso assistir você tocar? – perguntou Linda – é chato assistir somente pelo vidro do lado de fora. ele também não quis saber. – Você vivia criticando o Jogo de Avelórios. Não caio mais nessa. vivem comendo uns aos outros. – Hã? A gente se conhece? – ele perguntou – meu nome é Carlos. – A gente tava ensaiando junto. – Não! – exclamou Boaventura – fiz voto de castidade! – Vocês usam essa desculpa toda vez que não querem comer alguém. caramba! – Quer trepar? – perguntou Linda. – Sim. E Navarro colocou todos para fora da sala e trancou-a. Você tem nome? – Sou a garota do Hitler – respondi – aquela que te socou na cara. Até mesmo eu não aguentava mais escutar a voz de Linda. – Pensei que o seu irmão era o maior trouxa que eu já tinha visto. Eu só queria que ela calasse a boca. – Eu não tinha mais nada para fazer. mas você o superou – disse Navarro – parabéns. Na prática. Boaventura ficou indignado. – Então por que não volta para lá e para de encher o meu saco? 85 . Ele não quis acreditar. Eu gosto da expressão que você faz quando toca. o que você faz aqui? – ele perguntou. não acha? – Ser aluna das escolas não te torna automaticamente uma jogadora – ele observou – quantas vezes você já jogou ou assistiu a uma partida oficial? – Não importa. contrariado. mas parece que terei mais contato com ele do que você. então vim passear nas escolas de elite – respondi. Quando o irmão dela a encontrou no corredor. Incluindo o cara do oboé. E já assisti duas vezes na Alemanha. – De todos os lugares do mundo. O mundo dá voltas. – Você! – eu apontei para o irmão dela. Devia ser difícil aguentá-la todos os dias.

– São vocês em Castália que sofrem lavagem cerebral e não nós. como nossas atuais novelas na TV. sobre fofocas. O que foi que te ensinaram sobre isso aqui nas escolas de elite? – No Brasil. apenas aprender o suficiente para ganhar dinheiro e 86 . Vocês possuem uma mera ilusão de liberdade. a custa de nosso dinheiro. crítica de arte. os “especialistas”. Na época da Segunda Guerra Mundial. – A verdadeira vida é na Era dos Folhetins? – perguntei. hã? Quando estávamos lá fora nos diziam que a verdadeira vida era aqui dentro. e se livra dessa árdua tarefa. Essa história estava realmente começando a me aborrecer. – Eu sou aluna das escolas de elite. Isso foi particularmente efetivo na Alemanha nazista. Por que raios eu teria inveja de alguém do século? – Está toda cheia de si. esse tipo de sessão jornalística poderia ser capaz de ditar normas sociais. debates sobre a moda e charadas. Não querem entender as coisas. o termo “folhetim” se refere principalmente a romances publicados no passado em jornais com continuações. Eram suplementos adicionados à sessão sobre política dos jornais franceses. estabelecendo gostos em busca de uma identidade social.Wanju Duli – Você está com inveja. – O quê? Acho que essa não era a resposta que ele esperava. Mas em Castália nós utilizamos o significado francês do termo. A “verdadeira vida”. com seus brinquedos. E quando íamos para as escolas de elite. – O que são folhetins para você? – perguntou Carlos – você deve ter uma ideia bem distorcida a esse respeito. tínhamos que escutar que a verdadeira vida ficava lá fora. pode ser mais facilmente controlado. São somente um rebanho sem vontade própria que segue ordens. literatura. – Você não entendeu ainda? – perguntei – no momento em que você delega a tarefa de pensar para outras pessoas. Muitos clássicos literários começaram nos folhetins. como se nós que vivemos a verdadeira vida fôssemos seres inferiores – retrucou Carlos – enquanto vocês vivem uma vida falsa. – Pelo menos eu enxergo minhas correntes e sei até onde posso caminhar. Mas eu queria mostrar a ele que eu não estava de brincadeira.

Santa – disse alguém que chegou. mas caso se foque demais nesse objetivo. A Província não é uma bolha que te impede de conhecer os valores do lado exterior. Navarro ia falar sério. sem xingar? Aquilo era meio raro. Está acompanhando? 87 . – Estava de saída e por acaso ouvi sua conversa com o aluno ouvinte. quase todos nós nascemos no século. Aquilo foi inesperado. mas principalmente eles. em tom de zombaria – o Jogo de Avelórios? Eu sorri. que somente afasta o pensamento de vocês das coisas realmente importantes. E resolvi te dar um conselho. vivemos numa sociedade materialista e capitalista – explicou Navarro – mesmo que Castália seja diferente. que ainda estava vazia. – O conhecimento? – O conhecimento é apenas uma ponte e não o fim do caminho – respondi. Então por que de repente foi me procurar? Ele me chamou de volta para a sala de música. me interrompendo – podemos conversar por um minuto? Era Navarro. – Nós. – Não dê sua opinião sobre dinheiro para esse tipo de gente. – Quais são as coisas realmente importantes? – perguntou Carlos. Continuamos conectados a ele e dependemos dele. fomos educados lá no começo de nossa vida e nossa cabeça está cheia dos valores do mundo. – Nenhum. poderá ter a falsa sensação de que somente ele te tornará livre. – Que tipo de gente? – perguntei – ricos? – Qualquer um que não seja de Castália – respondeu Navarro – sabe por quê? Fiz que não. – Com licença. – O que realmente importa não são coisas ou pessoas – respondi – mas algo muito diferente disso. Seu instrumento musical já estava guardado. – Qual é o problema em querer ganhar dinheiro? – perguntou Carlos.A Era do Folhetim depois gastá-lo nessa suposta diversão. Navarro só queria saber de tocar seu contrabaixo o dia inteiro. Não queria conversar com mais ninguém. Eu era toda ouvidos.

nos colocam na cabeça que a coisa mais importante da vida é estudar para depois trabalhar. Ou pelo menos é a coisa de valor que conhece mais a fundo. Estudou merdas no colégio a vida inteira.. que é a meta. com a diferença de que nós subimos em nossa hierarquia quando adquirimos mais conhecimento. só por causa da bosta do dinheiro. o espírito. indo mais longe. Ou. E isso não vale nada”. um acordo feito entre pessoas. Desde crianças. A única coisa que você conhece é literatura. Porém. a hierarquia não deixa de existir. – Vejo que ainda não entendeu onde quero chegar – ele prosseguiu – lá fora a meta das pessoas é o dinheiro. O que diria se alguém te dissesse que literatura é um lixo e não vale nada? – Eu responderia que a literatura pode até não ser muito valorizada na Era do Folhetim. Quanto mais ganham. É como aqui nas escolas de elite. Pode ser que você até ofenda os historiadores se disser que o estudo de história é inútil. sofreu na faculdade. Ganhar dinheiro é a vida delas. o estudo é a própria meta! Para você é a literatura. desde o colégio. Para nós. – Pois bem. ter um emprego e ganhar dinheiro. A única coisa que peço é: tente se colocar no lugar dessa gente. para mim é a música. – Certo. Entende a diferença? – Acho que entendo.Wanju Duli – Já sei o que você vai dizer – tentei adivinhar – são eles que sustentam Castália e por isso temos que calar a boca e puxar o saco das pessoas do século. É esse o objetivo máximo da existência de quase todas as pessoas. você estará ofendendo praticamente o mundo inteiro se disser que dinheiro é inútil! É como se você dissesse: “você é um imbecil. – Não importa se a nossa hierarquia é superior a deles – disse Navarro – talvez até seja.. É por isso que você tem que segurar a 88 . Coisas como estudar literatura ou engenharia são apenas o caminho para chegar no pote de ouro. mas as duas não deixam de ser um tipo de jogo. Isso porque na Província nosso valor máximo não é o corpo e sim a mente. É isso? – Eu não ia dizer nada do tipo. Veja só o seu caso. mas que em Castália ela tem tanto valor quanto a matemática que permite construir prédios ou a medicina que permite curar pessoas. sofre no trabalho. Ainda assim. mais sobem na hierarquia da sociedade materialista.

– Lembro do que você disse por último – observou Navarro – que o conhecimento era apenas um caminho e não a meta. Se você estiver falando com qualquer pessoa lá de fora. – Como você vê a vida agora? – Agora eu me sinto livre – respondi – não porque eu esteja fisicamente livre. mas porque sinto que faço parte de algo maior. O sentido da minha vida é conectar os pedaços de folhetins que foram passados a mim ao longo da minha existência. e.A Era do Folhetim língua quando fala com as pessoas do século. Não sou apenas minha própria existência. Meu objetivo não é apenas sobreviver e. Como se a vida fosse só isso. descobrir um segredo. Então não tente posar de superior. no tempo livre. que tal falarmos de Abelardo? – O pai do conceitualismo? – perguntei. Você vive num paradigma diferente agora. – Você rasgou o dinheiro da Linda – comentei. após colá-los. ter lazer. É isso que você acha. uma das piores ofensas será dizer que dinheiro não vale nada. Mas lembre-se que poucos anos atrás você era como elas. Navarro franziu as sobrancelhas. É como dizer que a vida delas não tem sentido. Mas você estava falando a sério com o Carlos. – A conversa que eu tive com ela não foi séria. Que elas trabalham porque são estúpidas. 89 . – A música pode ser seu caminho – expliquei – mas você não toca para sentir uma sensação de êxtase? – Eu acho o reducionismo uma escolha muito perigosa – disse Navarro – por que você precisa de somente um valor máximo? É essa uma das problemáticas que o Jogo tenta evitar. Em vez de falarmos de Ockham. – Eu não acho. Maria? Eu não podia acreditar que eu estava levando sermão de alguém como Navarro. mas agora que estou aqui dentro eu consigo enxergar como minha vida era vazia antes – expliquei – estudar e trabalhar apenas para ter fins de semana para ver filmes que nos mostram o quão sem sentido é nossas vidas. Ou que nos dão uma esperança vazia. Eu achei esse discurso absurdo. – Você já conhece esse segredo – eu disse a ele – porque você já jogou o Jogo das Contas de Vidro.

para lidar com o velho problema dos universais. porque meus pais sempre frequentaram Castália. A única coisa que eu queria dizer no momento é que você não precisa seguir o caminho mais curto e mais simples. Tente amar a complexidade. Não aceite as soluções mais curtas. Não vou entrar a fundo nessa questão agora. Não preciso de ambições tão grandes. Ao mesmo tempo. Há momentos em que vale a pena optar pelas mais elegantes. – Porque a minha educação excelente seria ideal para me tornar um exímio jogador de Contas de Vidro e me sinto tentado – ele respondeu – 90 . Você pode aprender com elas. – Provavelmente já li mais livros que você. – Eu já tive muitas conversas sobre isso com Gio e com o Carneiro. – Não sabia que você conhecia tanto sobre filosofia. a música é o bastante. parecia que eu e ele estávamos a anos-luz de distância. pois também contém harmonia e sentido. te presentearão com uma singular beleza. – Quantos livros você já leu? Ele não gostou da minha pergunta. Aos poucos eu entendia onde ele queria chegar.Wanju Duli – Ele criou uma posição intermediária entre o idealismo e o materialismo. do qual falam também o realismo e o nominalismo. – Você não respondeu a minha pergunta. Não faça isso. Se elas não te derem uma solução. – Se envergonha por quê? – perguntei. Vá ler a respeito e outra hora conversamos. – Eu não sou uma enciclopédia ambulante como a Gio – disse Navarro – provavelmente até a Dani sabe mais que eu. Para mim. Especialmente por eu ter interrompido sua reflexão sobre a música. – Qual é o problema de sair de mãos vazias? – perguntei – é o niilismo? – Na música o silêncio é muito importante – ele respondeu – as pausas são fundamentais. Você nunca sai de mãos vazias. porque eu não quero saber todas as coisas. me faziam ler desde criança e tive uma educação tão excelente que até me envergonho. Aquelas eram realmente palavras vindas de um estudante de música. Você costuma reduzir as questões da sua mente de forma grosseira apenas para se livrar delas. Isso não me interessa.

Os Lusores. Para assim com ele formarem um universo. Mariel e Agatha. – Por que vocês brigaram daquela vez. tocar o cosmo e o espírito de tudo que já existiu. Sempre achei isso chato. eu não costumava ter conversas longas com os rapazes. Mesmo assim. seja num mundo materialista ou num idealista. Eu disse isso a ele. O Jogo das Contas de Vidro parecia proporcionar uma ocasião solene em que todos esses sábios se encontravam para encaixar. existe e existirá. jogadores de Contas de Vidro. Senti um frio na espinha só de pensar que eu um dia seria como elas e estava me encaminhando para isso. Se eu conhecesse apenas a música. por exemplo. – Lembrei que até hoje não te agradeci direito por você ter me ajudado tanto nos estudos de lógica ao longo desses anos – comentei. Cada pessoa é um universo. não teria dúvidas. não importando se estivesse vivo ou morto. iria me maravilhar. suas duas maiores especialidades. Por isso. Era quase como uma arte de necromancia: o de resgatar o espírito das coisas mortas. Eu já havia tido longas conversas com Gio. isso encerrava o assunto. Eu a invejei.A Era do Folhetim algumas vezes me arrependo. cada vez mais eu aprendia sobre literatura. sobre as artes visuais que o Barata estudava. cada qual. Além de sua “excelente educação”. Eu só conhecia a literatura e ainda teria muito a aprender. Nem metade do que haveria para saber. Competi com Gio a vida inteira. a música e o Jogo das Contas de Vidro. Fui falar com Sônia. eu não sabia quase nada sobre ele. deviam ser poderosos necromantes. Provavelmente se eu tivesse uma longa conversa com ele um dia. Voltei para o alojamento feminino. Aparentemente. Não sabia muito. Fitei Navarro por um momento. Porém. dois anos atrás? – Não quero falar sobre isso. eu ainda cogitava ir para Cela Silvestre. eram grandes mistérios para mim. – Não quero competir com você – disse Navarro – estou cansado de competição. os seus conhecimentos no grande quebra-cabeça que era o Jogo. – Não foi nada. Pensando bem. história e filosofia. 91 . Eu estava cercada de pessoas fodas. Eu o admirava pra caramba.

– Qual a sua posição? – Cá entre nós? – perguntou Sônia – leia Popper e Husserl. resolver problemas.Wanju Duli Eu não entendia lógica a fundo. Que coisa mais chata! – Mas você acha que a matemática é real? – perguntei – Platão baseou o seu mundo das ideias na geometria. As pessoas só me mandam ler. – Navarro me disse a mesma coisa – comentei. Odeio ler.. Acho muito mais divertido fazer cálculos. – Será que podemos conversar um pouco sobre filosofia da matemática? – perguntei. mas essa já é uma coisa que faço sem parar! – Eu estava brincando. Cada vez mais 92 . aborrecida – me mandou ler Abelardo. Não se envolva com esses filósofos. Talvez ainda mais poderosa na atualidade do que na Idade Média. os racionalistas. Será que o número “um” tem um espírito? Será que o número dois tem um cheiro e uma cor. vai ter respostas diferentes – disse Sônia – não é a mesma coisa com a filosofia? Há os empiristas. Eu não fico filosofando se os números são reais ou imaginários. E lá existem as entidades chamadas círculos e quadrados perfeitos. Então pode ser que a matemática e os números tenham existências objetivas. – Amiga. – Dependendo com que matemático você conversar. sua tolinha – disse Sônia – é claro que não li esses livros. Volte para a literatura. No século XXIII. Aprendi somente o básico para ter mais proveito em meus estudos de literatura. a Igreja estava mais poderosa do que nunca. relaxa.. ou a Igreja vai queimar todos os jogadores de Cela Silvestre na fogueira. O que você vai fazer se descobrir que os números são imaginários? Vai até um cemitério e chamar um espírito para colocar vida nos números e criar zumbis? – Não é isso que eles fazem no Jogo das Contas de Vidro? – Eu espero que não.. E depois conversamos. – O que você quer saber? – Sempre tive curiosidade de saber se a matemática é inventada – observei – e se os números são reais ou imaginários. como numa sinestesia? Mas aí entramos de novo no problema dos universais..

– E os números. A desordem te incomoda. – Você gosta das coisas ordenadas. para onde vão? – perguntei – eles têm pernas mais fortes? São bons corredores? – Eles pelo menos sabem onde querem chegar – disse Sônia – não ficam apenas passeando sem rumo por aí. Tentei espiar qual era. eles existem em algum espaço e tempo. que por sua vez. – Então é tudo inventado – concluí – mas se existem na mente. – Você acabou de responder sua própria pergunta – ela disse – para Castália os números não são nem somente nomes e nem uma existência real objetiva. O que pensa sobre a matemática do caos? – Até na desordem existe um pouco de ordem. mas espírito. A religião era idealista. Afinal. mas conceitos que derivam das coisas. A beleza estava acima da simplicidade lógica dos números. Por que será que Dantas se interessava tanto pelo estudo da vida? Será que a resposta estava lá? E por que eu precisava de uma resposta? Eu queria acreditar que o Jogo continha um segredo. Resolvi deixá-la em paz. O sentido da vida. Quando comentei isso com Sônia. etc. – Dani. Ela estava lá lendo um livro de biologia.A Era do Folhetim a visão materialista do mundo desencantava as pessoas. a música era uma das melhores formas de meter a matemática numa baita complicação. então eles existem mais ou menos como os sonhos? – Maria. ela suspirou. etc. Mas aquilo não estava exatamente na biologia? Que se baseava na química. então ele solucionava o problema dos universais? Quando fui até a biblioteca procurar um livro de Abelardo. vá conversar com Gio! – exclamou Sônia. Mas Castália e o Jogo eram conceitualistas. impaciente – eu não vejo essa conversa indo para lugar nenhum. Eis uma das bases do Jogo de Avelórios. que se voltavam para a religião. E o Jogo não continha só lógica ou beleza. o que você pensa sobre o método científico? 93 . Lembrei do que Navarro falou sobre o valor dos sistemas complexos e das soluções elegantes. topei com a Dani. Mas como ele poderia conter espírito sem ter uma teologia? Se ele buscava tocar o cosmo. mas não consegui.

Se esse poder não vinha de espíritos de mortos. Pois se ela gostava tanto assim da vida. Resolvi compartilhá-lo com alguém para me livrar dele. era um embate entre o conceitualismo e o realismo. 94 . Era produto da minha mente ou realmente existia? Eu estava exausta. Somente era real o que os sentidos físicos e aparelhos pudessem captar. fundador do método científico. Era um livro sobre exobiologia. Parece que tudo se encaixa. – Quem te contou que eu já tentei cometer suicídio? – ela me perguntou. Dormi em cima do livro e tive um sonho sombrio. O método científico estava um pouco fora de moda no século XXIII. Ele se baseava muito numa visão dualista do mundo. Ela apenas me observava em silêncio. tomada de coragem. Muitos achavam que era só questão de tempo até ser derrubado. só poderia gostar de tipos exóticos de existência. – Eu sabia que ela gostava de aliens! Barata comentou um dia que Dani parecia ter poderes psíquicos. corpo e espírito. Como nós. poderia vir de aliens vivos. Ela foi bem sucedida em seu intento. Mas será que se encaixava mesmo? Nesse caso. Sonhei que Giovana pulava do alto de um prédio numa tentativa de suicídio. Eu acordei suando. começamos a ver teorias da conspiração em tudo. Miguel é queimado pelas fogueiras da Inquisição. culpa Castália e cria uma sociedade secreta de resistência. ela me entregou o livro que estava lendo e saiu da biblioteca. Até porque o próprio Descartes. que separava mente e corpo. os bichinhos das escolas de elite. Por fim. Escolhi a própria Gio para ser minha ouvinte. Por fim. já que ela ficou quieta. completamente inexpressiva. Miguel. Deixei a filosofia e a biologia de lado e fui ler Erich von Däniken. Castália produzia um tipo bastante exótico de ser humano. devido aos pensamentos de Bacon. Mas talvez tudo aquilo fosse uma grande enganação. Foi um sonho assustadoramente real. desesperado pela morte de Giovana. E eu comecei a tagarelar todas essas coisas para Dani. Quando se estuda demais. Mas depois o método deixou a razão como base para se fundamentar na experiência.Wanju Duli Sentei-me na frente dela e. empirismo e racionalismo. era fortemente dualista. fiz essa pergunta.

Fiquei obcecada. Mais dois anos se passaram. Eu não gostei de ouvir aquilo. Eles receberam permissão para estudar formalmente em Castália. Parece que está chegando num tipo de Iluminação. Não estava mentalmente preparada para ir tão longe. Mas eu fiz isso por causa do Jogo.A Era do Folhetim – Eu não sabia sobre isso. – É por isso que você não quer mais se envolver com o Jogo de Avelórios – observei – porque tem medo que isso te aconteça outra vez. aquilo me incomodava. mas Miguel pensa em fundar uma sociedade secreta. – Que tipo de sociedade secreta? – Isso eu não posso te contar. penso que eu teria maturidade suficiente para me envolver com o Jogo sem me deixar levar por esse tipo de emoção. – Hoje em dia. – É claro. – Só que eu não pulei do alto de um prédio – ela explicou – eu só me enchi de remédios. como se ele fosse amaldiçoado e estivesse sob uma má estrela. Gio. E não fique assustada se eu te disser. Mas já não sei se isso tem significado na minha vida. O Jogo das Contas de Vidro gera um êxtase difícil de explicar. – Naquele dia no Ano Novo em que você e Navarro discutiram. Ela iria se formar nas escolas de filosofia. Aqueles dois tinham muitos segredos. – Por quê? Você sempre viveu em Castália. – É verdade. Gio não foi para Cela Silvestre. porque tem a ver com as dinâmicas do Jogo. 95 . Tinha 12 anos quando fiz isso. todos desistiam do Jogo. Miguel também não foi estudar na escola dos jogadores de Avelórios. Sua vida não era vazia. Mas foi assim para mim porque eu era só uma criança. Era inacreditável! Era exatamente como diziam: no último instante. mas nunca chega. Para meu espanto. Você vai descobrindo cada vez mais coisas. Arthur e outros estudantes das escolas de elite já estavam com vinte anos. E você não entenderia. Foi para o instituto de música. Ele só está esperando entrar para Castália. Como havia nos dito. De certa forma. É como uma droga. esse assunto entrou em pauta? – perguntei. – Eu queria penetrar cada vez mais fundo – ela explicou – descobrir todas as coisas. Miguel.

Mariel foi para a escola de literatura e Agatha para a de história. até porque a nossa diferença de idade era maior do que a minha e a de Mariel. Agora haveria mais um motivo para eu ir até Cela Silvestre: estudar junto com Barata. Ou transformar os Jogos numa de suas grandes obras. com os quais eu não conversava. Será que ninguém mais iria para Cela Silvestre além de Arthur? Até então. Contudo. E ela também não foi para Waldzell! Em vez disso. Porém. Sônia? – perguntei a ela. Pelo menos eu poderia ser colega de Mariel para estudar literatura. Se bem que. Então estava feito. Mais um ano depois. Seria divertido. Cela Silvestre era a escola com o menor número de estudantes.Wanju Duli Devia haver algo muito assustador naquela escola para que isso estivesse acontecendo. Carneiro para a filosofia. eu estava completamente no escuro. aos meus olhos. E agora? Estava chegando cada vez mais perto da minha vez. meu coração se acalmou quando eu soube da extraordinária notícia: Arthur foi para Cela Silvestre. isso ele já era. A meu ver. foi o destino de Boaventura que me fez tomar a minha decisão: ele foi para Cela Silvestre. optou pela escola de biologia. Rodrigo foi para a escola de gramática. Então poderia dedicar o resto da sua vida ao Jogo. dentre todas as Grandes Escolas de Elite de Castália. – Vem comigo. Não recebia notícias dos meus velhos amigos. – Você nunca vai me perdoar? 96 . Até me tornei a tutora de uma garota chamada Ângela. que também estava estudando literatura. Tudo aquilo estava me dando nos nervos. Até mesmo o destino do maior Magister Ludi já existente havia sido trágico. Dani foi para Castália. Havia apenas uns novatos nas escolas de elite. Já havia dois conhecidos meus lá. exatamente por conta do tal Jogo. No ano seguinte. Ele ainda poderia fazer suas obras de arte no tempo livre. Deixou para trás sua ambição de tornar-se um dos maiores pintores ou escultores. – Eu iria – ela respondeu – se você tivesse me esperado lá atrás. Mas não me tornei uma amiga tão próxima dela.

chamada Nova Castália. – Por quê? – perguntei. Mais bonitas e mais formais. “Vamos esquecer Castália e o Jogo. – Porque eu quero casar com alguma moça. Estava cercada por natureza. Nova Castália não estava localizada no Piauí. Em Castália. Mas eu resisti. mas no Espírito Santo. mas ele não iria utilizar essas vestes fora das cerimônias. Continuei até hoje perto de você. Compreende? Eu não sabia que seria tão doloroso ouvir essas palavras. Vamos para uma faculdade normal. mas só agora entendi qual é o meu caminho: longe de você. para não ser identificado. representando o espírito. cada escola tinha vestimentas de cores diferentes. Eu finalmente teria acesso às maravilhosas bibliotecas de Castália. mas posso ter minha individualidade. Sofri um pouco. adotar uma menina e ter uma vida normal. Uma cidade só deles. fazer qualquer outra coisa”. Sônia foi para a escola de matemática. Mas você me ensinou uma lição preciosa. Quase quis desistir de tudo e voltar com ela. Não era na capital. desapontada. E eu obviamente ainda não era permitida na célebre sala destinada aos jogos solenes.A Era do Folhetim – Já perdoei. Eu ouvi dizer que o Magister Ludi se vestia de branco e ouro. por mim mesma. Eu não precisaria mais vestir os uniformes azuis das escolas de elite. Era um tesouro deslumbrante no meio do nada. E eu não sabia se aquela minha resistência havia sido uma fraqueza ou uma força. Eu não me sentia mais numa prisão. Eu devo fazer o que desejo. Ou vamos trabalhar. E não direcionar toda a minha vida tendo em vista meu amor por outra pessoa. Desnecessário dizer que era muito maior do que o nosso velho prédio cercado por muros. E eu decidi que não tenho interesse no Jogo das Contas de Vidro. Mas aquela cidade não constava nos mapas oficiais. A identidade do mestre máximo de Castália era secreta. Mas havia uma biblioteca especial restrita especificamente na nossa 97 . eu retornarei para o século. Irei para a matemática. Era quase numa cidade à parte. E eu fui aceita em Cela Silvestre. A vestimenta de Cela Silvestre era branca. Eu não preciso ser individualista. Mas depois de me formar em Castália.

Boaventura seria meu tutor. Não iria segui-los cegamente. eu estaria formada no Jogo das Contas de Vidro. Pelo menos não no meu primeiro ano lá. Qualquer um deles poderia ser o Magister Ludi em pessoa. Era um convite formal para uma sociedade secreta de Castália. As regras de lá eram um pouco parecidas com as das escolas de elite preparatórias. Eu estava muito ansiosa para conhecer os nossos professores. Será que eu deveria mesmo dar importância aos sonhos? 98 . Eu estava com 21 anos. Essa era a reputação de Cela Silvestre. por estarmos mais velhos e mais maduros. Eu iria me mirar neles para decidir o meu caminho.Wanju Duli escola. Barata e Boaventura prepararam uma festa de boas-vindas para mim. As tais regras que não precisavam ser ditas. Essa biblioteca ficava trancada e eu não tinha a chave. Depois disso. mas somente se eu sentisse ser o certo. Na noite da minha chegada. A diferença é que. A elite restrita entre as elites. Minha nova missão seria estudar em Cela Silvestre por quatro anos. Eu o abri. destinada somente aos Arquivos dos Jogos. tínhamos um pouco mais de liberdade. Eu não teria como saber. Fui recebida por Barata e Boaventura com alegria. vi um envelope amarelo por baixo da porta. Quando eu me preparava para dormir no meu dormitório simples que eu dividia com outra moça mais velha que eu. E o que eu faria depois disso também dependeria da escolha dos meus dois amigos. Foram essas as minhas impressões ao chegar na majestosa cidade de cor ocre.

Lá também se localizava o controle da Direção Suprema do Jogo. podia elevar a alma. Eu havia iniciado meu último ciclo de estudos. Em Castália ocorriam expulsões reais para quem quebrava as regras. e devo a eles muitos momentos de sublime elevação. Caminhar entre os semideuses. mas até então eu me inclinara a duvidar sempre da elevação e do valor do Jogo em si mesmo. qualquer espécie de boa música. onde ficava a colônia dos jogadores de contas de vidro: Vicus Lusorum.A Era do Folhetim Capítulo 2: A Iniciação "É verdade que já naquele tempo eu assistira a muitos jogos bem estruturados e bem dirigidos. e de ideias felizes. e nesse caso seria preferível não jogá-lo mas ocupar-se com a matemática pura e a boa música. por Hermann Hesse O Jogo dos jogos. ao ser ouvida e mais ainda ao ser tocada. e toda meditação feita com devoção podia acalmar o coração e fazê-lo vibrar em concordância com o universo. uma combinação engenhosa. Estava em Cela Silvestre. Isso era uma prova de que o Jogo de Avelórios. E. Eu era uma castaliana e não queria deixar de sê-lo. uma prática inteligente. ampliando-a ao infinito. era assim que eu me sentia. que levavam uma vida de abstinência enquanto os Jogos aconteciam. A nata de uma aristocracia dotada de um espírito exclusivo. Afinal qualquer problema de matemática bem resolvido podia ser uma fonte de prazer espiritual. não passava de uma arte formal. E lá estava na minha mão um envelope que poderia me fazer ser expulsa e colocar tudo a perder. Castália e as Grandes Escolas de Elite não eram como as escolas de elite preparatórias nas quais eu estudei pelos últimos oito anos. uma santa e divina linguagem". Mas agora pela primeira vez eu ouvia a própria voz interior do Jogo. seu sentido me havia atingido e compenetrado. de acordo com minhas dúvidas. Era assim que todos lá se sentiam. onde ficavam os Mestres eminentes. por extensão. pois 99 . e desse momento em diante eu fiquei crendo firmemente que esse jogo régio é uma 'língua sacra'. O Jogo das Contas de Vidro.

mas ser excomungado soava como uma verdadeira ameaça! Por outro lado. Sociedades secretas não eram permitidas em Castália. mas que. O nome da sociedade. que era uma pessoa escolhida como auxiliar do Magister Ludi. 100 . Algumas regras serão alteradas. ficava impossibilitada de ter a chance de se tornar Mestre dos Jogos no futuro. achamos que terá alto valor como membro de nosso círculo. não demore a nos procurar. que significava “amor ao destino”. Era uma clara alusão à Sombra. Agora éramos adultos. As expulsões de Castália até tinham um nome diferente para mostrar o quão sérios eles eram: excomunhão. Também identifiquei a origem do codinome do mestre do grupo. Era possível formar clubes nas escolas preparatórias. Cordialmente. É de nosso conhecimento que a senhorita optou por realizar seu último ciclo de estudos em Cela Silvestre. Dessa forma. mas essas intrigas secretas entre os estudantes de Castália eram vistas pelos professores como suspeitas. Magister Umbra Mais do que suspeito. os professores não ficavam mais no seu pé apontando tudo de errado que você fazia. Ser expulso não parecia o fim do mundo. Nossa intenção é realizar uma versão não oficial do Jogo das Contas de Vidro. Achamos que a forma com que o Jogo é celebrado oficialmente possui certas limitações devido às cláusulas de segurança. era “Amor Fati”. que constava no envelope. Eu reli a mensagem do envelope para me certificar: Saudações. senhorita Santa Seja bem-vinda a Nova Castália. uma vez escolhida. Por favor.Wanju Duli nenhum de nós era mais um adolescente.

eu teria que cozinhar mais. Eu tinha vontade de gritar: “Estou em Castália. E iria desejar que o mundo inteiro me escutasse. Em vez disso. Esse era o tipo de alegria que eu sentia. cuidar da jardinagem e vários novos serviços que me tomavam um tempo precioso. Nas primeiras semanas senti como se jamais tivesse tempo para ler um livro outra vez. Cada vez mais as minhas responsabilidades aumentavam. eu estava mais interessada na identidade do Magister Ludi. Em compensação. porque precisaria comparecer a aulas. era nós que devíamos cuidar das flores. mas resolvi não dizer nada.A Era do Folhetim Interessante que não havia nenhuma informação sobre como localizar a tal sociedade. limpar mais cômodos. Como aquele era um lugar maior. Não foi nada fácil. Pensando bem. dar um salto e elevar os braços. Era uma ilusão acreditar que eu poderia me dedicar ao mesmo tempo ao Jogo de Avelórios e à literatura. Foi então que eu entendi porque aquela decisão de ir para Cela Silvestre era tão importante. Havia até singelos jardins para se dar um passeio. Mas naquele ponto. – É mais divertido você descobrir sozinha – disse Barata – não acha? Talvez. O lado ruim era que estávamos no meio do nada e não havia mais jeito de fugir para comprar uma bala ou um hambúrguer. as minhas roupas eram minha menor preocupação. Foram oito longos anos de estudo. Pensei em comentar sobre a carta com Barata e Boaventura. Eu tinha minhas desconfianças. Pelo menos a vista da natureza compensava tudo e me deixava em paz. O lado bom da comida é que continha mais variedade que a antiga. Eu já estava tão acostumada com os afazeres domésticos das escolas de elite preparatórias que ainda tinha dificuldade para me acostumar à nova rotina intensa. O problema das roupas brancas é que era mais difícil de lavar. Simplesmente não haveria tempo! O Jogo era difícil. Eu diria que era interessantíssimo. porra!”. a palavra “difícil” nem de longe expressa a realidade. 101 . pelo menos por um tempo. Sem contar que eu tinha menos tempo livre ainda.

Um mais impossível de ler que o outro.Wanju Duli Eu me sentia uma completa imbecil. Mesmo tendo lido tanto a respeito. Ao contrário das escolas preparatórias. Levei os livros comigo para assistir às aulas. Eu estava ansiosa e animada. Minhas expectativas foram totalmente frustradas. no fundo eu não sabia praticamente nada sobre o Jogo. Não entendi uma palavra do que foi dito. achando que eu receberia revelações fantásticas. Em primeiro lugar. Havia centenas ou milhares de livros apenas sobre os hieróglifos. Absolutamente nada! Meu primeiro mês em Castália foi uma corrida contra o tempo. No final da primeira semana de aula. 102 . eu me sentia mais desesperada do que um estudante de engenharia que pensava que era bom em matemática e de repente descobre que não sabe porra nenhuma e precisa começar a estudar tudo desde o princípio para fortalecer seus fundamentos. então eu dormi em algumas aulas do segundo dia. As explicações do quadro foram incompreensíveis. Virei a madrugada estudando os livros. No meu primeiro dia de aula fui inocentemente assistir às palestras programadas. corri para a biblioteca. para ver se eu conseguiria captar pelo menos uma frase ou duas. mas no final do dia eu estava prestes a cair no choro: não me aguentava em pé e também me sentia a pessoa mais burra da face da Terra. iria prestar atenção nos professores para tentar descobrir se um deles tinha um ar de Magister. Lá também não havia café. do tipo: “Lições básicas sobre hieróglifos para jumentos”. Só que eu nem consegui prestar atenção nos professores. Retirei apenas os livros para iniciantes. Meu único pensamento durante as aulas foi: “Preciso retirar uns dez livros na biblioteca para estudar os hieróglifos do Jogo!” No final do primeiro dia. tamanho o meu desespero. o Jogo era ensinado em outra língua. Achei que minha primeira semana em Cela Silvestre seria repleta de descobertas: aprenderia as regras do jogo e. essa biblioteca era tão grande que eu ficava perdida lá dentro. Eu não fazia a menor ideia de que teria que passar por uma provação tão forte. Passei umas duas horas lá apenas procurando livros. enquanto as anotasse. E eu não sabia nada a respeito dela.

que normalmente já pegavam do meio. me salvem desse inferno!!” Lembrei da frase de Rimbaud: “Acredito-me no inferno. a recompensa não seria alta. Senti vontade de desistir de tudo. Eu tentaria aguentar por mais uma semana. pesquisando livros. Devo ter folheado mais de duzentos deles. Eu estava até sonhando com os hieróglifos. Eu estava passando por isso. me mandem para as escolas de literatura! Eu mudei de ideia. aceitei o desafio. então por que raios aquilo tudo parecia grego para mim? Não havia um início de ano letivo em Castália. Mas nenhum deles parecia ser compreensível! Eu me sentia na Era do Folhetim: captava somente fragmentos e nunca o todo. A missão deles era se virar para acompanhar as aulas. filosofia do Jogo. E estava me consumindo com suas chamas demoníacas. 103 .A Era do Folhetim Eu realmente acreditei que eu já sabia algo sobre o Jogo de Avelórios! Eu já tinha lido livros sobre a história do Jogo. Dormi somente o suficiente para me manter relativamente acordada. Nessa segunda semana eu não fiz outra coisa a não ser estudar em todo o meu tempo livre. não soubesse falar nem “Bom dia” no novo idioma e já tivesse que escrever uma tese sobre um tema complexo. Se a dor não fosse tão intensa. Devia ter alguma forma de aprender aquela linguagem complexa.. Minha meta era encontrar uma Pedra de Roseta. eu provavelmente não teria enfrentado um período tão longo de adaptação.. É claro que o estudo do Jogo não era fácil. Eu não saía mais das bibliotecas. gramática do Jogo. Era como se eu estivesse em outro país. visitar o Diretório e dizer: “Por favor. Porém. lendo diversos trechos. Queria sair correndo de lá. Os estudantes novos podiam chegar em qualquer época do ano. se eu tivesse ido para as escolas de literatura. Não era essa a lógica? Ao lembrar disso. Eu precisava desvendar aquele arcano. logo estou nele”. Meu cérebro não era capaz de encaixar os pedaços. Eu teria que atravessar todo esse fogo se quisesse chegar no sublime paraíso espiritual que o Jogo proporcionava.

– O que aconteceu? – perguntou Barata. Mas apenas me matar de estudar não adiantaria. ainda entre soluços. Eu precisa aprender como estudar. Nem mesmo a gramática geral eu sabia tão bem assim. Sentei-me e tomei a água. Nem mesmo em meu primeiro mês nas escolas preparatórias. Barata e Boaventura se assustaram ao me ver me acabando de chorar. para que eu me sentasse. Se eu não aprendesse o básico sobre o Jogo nas duas semanas seguintes. Não tinha mais graça desfilar por aí com meu trajes brancos.Wanju Duli Ao mesmo tempo em que me sentia sem energias. – Eu não consigo entender nada! Vou tirar zero nas provas! Ao dizer isso. um êxtase ia surgindo dentro de mim. No entanto. 104 . As luzes se apagavam às dez. com urgência. caí no choro outra vez. eu estava perdida. Eu teria vergonha de confessar que não sabia nada sobre a linguagem do Jogo. Deveria desvendar algum método. como se alguém tivesse morrido. em Castália todo mês deveríamos fazer exames. eu não sabia a quem mais recorrer. Nas escolas preparatórias havia avaliações trimestrais. Eu sabia que estava atrapalhando ao visitá-los num horário tão inconveniente. Fui até o dormitório deles às nove e meia da noite. Orgulhosa pelo meu esforço. Eu não me sentia digna daqueles trajes. mas eu fui teimosa. Caí no choro. provando que eu era uma orgulhosa aluna de Cela Silvestre. Se ao menos eu tivesse seguido o conselho de Rodrigo! Ele me sugeriu estudar a gramática especial. Eu nunca tinha estudado tanto na vida. Queria abrir um buraco no chão e sumir. Para completar. Eu estava desesperada. Eles já deviam estar se preparando para dormir. E mais vergonha ainda caso ela descobrisse que eu não conhecia nem mesmo as regras de gramática geral necesárias para iniciar meu aprendizado dessa linguagem. Eu sentia que me faltava a base para entender como os hieróglifos funcionavam. Fui até o dormitório dos rapazes. me ajudem! – supliquei. No último dia da segunda semana. Barata me deu um copo d‟água e arrastou uma cadeira até onde eu estava. – Por favor. eu não tinha coragem de conversar com a professora responsável pelo meu estudo.

Eu me acalmei na mesma hora. Boaventura disse: – Você devia ter vindo nos pedir ajuda desde o primeiro dia. A primeira coisa que você precisa é aprender latim.A Era do Folhetim Expliquei-lhes detalhadamente a situação. passando a mão no próprio cabelo – eu daria um jeito. Não consegui deixar de sorrir também. como se lhe requisitasse que não piorasse ainda mais a situação. Barata segurou a minha mão gentilmente entre as suas. abanando a mão. voltando meus olhos para o chão. tornando-se ligeiramente cacheados conforme cresciam. – Meu cabelo já está um pouco mais longo – disse Barata. – Mas deixemos essa alternativa como último recurso – sugeriu Barata – primeiro vou tentar te ajudar no seu estudo. Tudo em vão. – A primeira coisa que você precisa fazer é ficar calma – disse Barata. Nem que eu precise colocar suas roupas. – Prometo que vou resolver esse problema – ele disse – você não se sairá mal nas suas primeiras provas. E quanto mais eu falava. 105 . – Se fosse assim tão fácil! – exclamei. agora é um pouco tarde para dizer isso – eu falei. Pelo menos em Castália não havia aquelas regras sobre penteados. Não pude deixar de rir. Está bem? Ele me deu um sorriso bondoso. Contei todos os sacrifícios que eu tinha feito nas últimas duas semanas. Vai dar tudo certo. Descrevi qual era meu grau de conhecimento atual sobre tudo o que dizia respeito ao Jogo. naturalmente – porque você vai precisar usar a outra para revisar matemática e música. – Em duas semanas? – perguntei – impossível! – Em uma semana – disse Barata. contrariada. me disfarçar de Maria e ir fazer as provas no seu lugar. Finalmente Barata estava deixando seu cabelo crescer. Barata fez um gesto para Boaventura. Quando terminei. Já estavam um pouco abaixo dos ombros. Sentado ao meu lado. – Bem. mais sentia pena de mim mesma e mais forte eu chorava. – Tem certeza que você conseguiria imitar meu black power? – perguntei.

Pode ser? Sem escolha. Nesse caso. E eu disse. Não sabia mais resolver as próximas questões.. – Quanto mais idiomas você aprende. foi? – ele perguntou.Wanju Duli Cobri o rosto com as mãos e gemi. ele desenhou uma clave. – Não sabe? – ele tentou disfarçar a própria surpresa – era clave de dó. então não se preocupe. Ficamos nisso por uns quinze minutos. Até que eu cheguei no meu limite.. Sua base é forte e isso é o mais importante. – Não foi tão difícil assim. já são dez horas.. use essa primeira semana apenas para estudar latim e teoria musical. – Você não pode estar falando sério – eu disse. Tente dizer qualquer coisa que lhe vem à mente. E. – O seu problema não é não saber nada – disse Barata – é que você desiste antes mesmo de tentar. mais fácil fica aprender os seguintes – ele explicou – porque você começa a entender a lógica da coisa. – Não adianta – eu disse – nem sei dizer qual é esta clave. Barata pareceu satisfeito. concordei. – O seu conhecimento de matemática é bom – ele informou – você não vai precisar revisar. Escreveu algumas frases em latim e pediu para que eu traduzisse. – Não adianta – eu disse – não sei absolutamente nada. – Barata. traçou algumas pautas e posicionou as notas musicais. falando em lógica. Como resolvi rápido. Ele abriu uma gaveta. Na próxima folha. Tem algumas palavras semelhantes ao português. 106 . – Mais ou menos – respondi. – Me dê mais cinco minutos – disse Barata. Ele me deu alguns problemas fáceis de matemática para resolver. ele foi aumentando gradativamente o nível de dificuldade. Na segunda semana vou te passar alguns problemas do Jogo para que resolva. Pelo menos não os jogos para principiantes. – Você não precisa saber cálculo para jogar o Jogo de Avelórios. – informou Boaventura. Esqueça a matemática. – Vamos fazer o seguinte – disse Barata – vou medir o seu nível e preparar um plano de estudos para que você cumpra ao longo dessa semana. pegou um pedaço de papel e lápis.. Eu já ri antes de começar.

– Mas eu não entendo nada nas aulas. Se ele dizia. Se eu tivesse tempo. – Muito obrigada! – eu disse. mesmo que leve tempo. devo faltar? – Não falte – recomendou Barata – o tempo que você tem será mais do que suficiente. À noite. você vai começar a entender. – Não é um incômodo. – Desculpa te incomodar. Infelizmente. – Se eu faltar algumas aulas terei mais tempo disponível para estudar – eu disse – então. estávamos falando das Grandes Escolas de Elite e não de aulas quaisquer. Então os mais 107 . isso iria prejudicar os estudantes mais adiantados. Ele iria colar os picotes de folhetim e tornar a compreensão do texto possível. Confie em si mesma. Fiz o que ele disse. Eu te encontro na biblioteca às oito da noite para avaliar o seu progresso. Aquele cara não existia. iria estudar junto com você e te ensinar tudo o que precisa saber para essa primeira prova. – Tem certeza que sabendo isso eu vou me sair bem? – Sim. A segurança que Barata me passou me deixou tranquila.A Era do Folhetim Ele escreveu num pedaço de papel os títulos de alguns livros. eu acreditava. eu também estou maluco estudando para meus próprios exames. Um dia. o máximo que puder. Não está adiantando nada! – Isso é o que você pensa. Meus professores sabiam demais. Também tinha sido assim naquele dia que fizemos sexo. Retirei os livros na biblioteca e estudei-os em todos os intervalos das aulas. com alegria. Se eles dessem aulas muito fáceis. eu tenho certeza. Eu sinceramente não entendia a relação entre o latim e a música com aquele monte de hieróglifos incompreensíveis que os professores explicavam nas aulas. – Imagina. e assim saberemos como prosseguir para a próxima etapa. Barata me encontrou e mostrei a ele os resultados. Persista. Você nunca sai igual de uma aula. Além do mais. mesmo que pense que não adiantou nada. Mas eu confiei no que Barata disse. Finalmente tive uma noite de sono tranquila. – Retire esses na biblioteca – ele disse – estude-os a fundo amanhã.

As aulas dadas em Cela Silvestre eram as que recebiam o maior número de alunos ouvintes. Era fácil distinguir quem era estudante oficial de Cela Silvestre e aluno ouvinte. como eu. Isso não significava que me formar em Cela Silvestre me garantiria um emprego caso eu desejasse voltar para minha velha vida. Alguns diziam que essa escola estava corrompida. Isso era feito provavelmente para que o exclusivismo fosse mantido e o ganha-pão estivesse garantido. A lógica das escolas de elite era ter um professor exclusivo para te orientar e te passar tarefas do seu nível. Eu estava inclusa nesse grupo e por isso sempre ficava de boca fechada nas 108 . pois nós alunos usávamos trajes brancos enquanto os alunos ouvintes vestiam roupas comuns. porque seu conhecimento tornou-se uma mercadoria requintada para a burguesia. por que exigir um preço por ele? Cela Silvestre era a escola que mais era cercada de boatos sombrios e mistérios. Eram aulas caríssimas para os alunos de fora e precisavam ser de alto nível.Wanju Duli atrasados. Por isso as aulas expositivas não eram o padrão. pois qualquer um poderia dar dicas sobre isso de maneira informal. Somente Castália tinha autorização para ensinar o Jogo. livrandoos da concorrência. ensinar exigindo um preço por ele. Os professores especialistas no Jogo eram como estrelas. Mas se o Jogo era tão sagrado assim. pois isso exigiria dedicação. A maioria que pagava por cursos como esses eram os ricos que obviamente não tinham tempo livre para entender o Jogo a fundo. Cela Silvestre era uma escola diferente de todas as outras. mas quando faziam geralmente eram os idosos ou os adolescentes. eles diziam que era devido ao caráter sagrado do Jogo. deviam procurar os tutores para resolver as dúvidas e alcançar os outros. cursos e Jogos oficiais de Contas de Vidro. No entanto. Os únicos alunos ouvintes que deviam entendê-lo eram os aposentados ricos ou os filhos dos ricos que tinham muito tempo disponível. Porém. Os outros provavelmente tinham receio de fazer uma pergunta tola demais. Pagar por um curso do Jogo tornou-se símbolo de status e poder. Raramente os alunos ouvintes faziam perguntas. Eu já tinha reparado isso nas minhas aulas. Ou melhor. Digamos que Castália era praticamente sustentada pelas conferências.

Os professores de Cela Silvestre pareciam cheios de si. faça como os romanos. Queríamos que nosso brinquedo fosse só nosso. para que cada vez mais o entendimento do Jogo se tornasse privilégio de uma casta sacerdotal restrita de iniciados. 109 . Porém. as regras dessa versão só poderiam ser desenvolvidas por alguém que estudou o Jogo a fundo. e aquelas aulas não eram mais do que um teatro para a maioria dos que os ouviam. Eu saía da maioria delas sem nem mesmo saber qual havia sido o assunto tratado. seria legal se essa versão existisse. E o que agradava as visitas? Preparar aulas em linguagem hermética.A Era do Folhetim aulas. o tesouro de Castália. A aparência era mais importante do que a essência e a didática era sacrificada. contando que assistiram a uma aula maravilhosa. De qualquer forma. Éramos a elite da elite. Mas tendo tantos alunos ouvintes. Não que eu fosse contra a existência de uma versão simplificada do Jogo para leigos. Então os alunos ouvintes voltavam para suas casas orgulhosos. eles agiam como Carlos: posicionavam bolinhas de gude no chão em círculos concêntricos. recitavam uns poemas enquanto trocavam as bolinhas de lugar. E na hora de explicar o funcionamento do Jogo para os outros. As pessoas enxergavam o Jogo dessa forma porque viviam na Idade Folhetinesca e isso era tudo o que essa época lhes permitia enxergar. fingindo que entenderam tudo. Pareciam realmente não desejar que ninguém mais entendesse as regras do Jogo a fundo além deles. acho que isso era inevitável. inflados pelo seu conhecimento e pelo seu falar difícil. e deixavam todos impressionados. tratando de temas dificílimos. Em Roma. Na verdade. certo? Mas ali a coisa se invertia: Cela Silvestre mudava seu estilo de ensino propositalmente para agradar as visitas. Era triste que o ensino de Cela Silvestre estivesse seguindo o estilo da Era do Folhetim. E a maneira ideal de protegê-lo era enchê-lo de hieróglifos gradativamente mais complexos. fazendo gestos complicados. Aquela era uma visão extremamente superficial e incompleta do funcionamento do Jogo. eu não acreditava que seria do interesse de algum dos senhores de Castália que tal versão fosse criada.

Em compensação. Mas eu sabia que meu caminho era outro. Perguntei isso a Barata. Não foi assim com você? Exato. mas ele estava me quebrando esse galho porque eu era covarde e não tinha coragem de admitir para minha professora que havia entrado para Cela Silvestre completamente despreparada. Desde essa reforma. Uma semana depois. como se dissesse “Até parece que ele tem tempo de respirar agora que deixou este mundo para ser uma existência exclusiva do universo da música”.Wanju Duli Eu estava muito curiosa para saber se a notação musical desenvolvida por Navarro havia sido criada com o objetivo de facilitar ou complicar. impressionada – preciso ter aulas com ele. Ela abarcou um maior número de problemas. Barata apontou uma seção do livro que segurava: – Essa é a nova edição. Teria sido muito mais fácil ir para as escolas de literatura. – É uma pergunta difícil de responder – disse Barata – o objetivo da nova notação foi resolver algumas problemáticas que não eram possíveis de solucionar com a notação anterior. a nova notação realmente deixou o entendimento do Jogo mais difícil. eu comecei a notar que o plano de estudo que Barata me passou estava funcionando. Ele também me mostrou que constava o nome “Miguel Navarro” entre os colaboradores do livro. Toda noite a gente se encontrava na biblioteca e ele fazia ligeiras alterações nos meus estudos para o dia seguinte. – Ele devia ter vindo para nossa escola – prossegui – ele já sabe tudo! Passaria em todas as disciplinas sem dificuldade. perdemos alguns jogadores assíduos. Já consta a nova notação. 110 . mas os especialistas acham que esse preço a pagar foi pequeno: que a nova notação é de fato mais eficaz. Por que ele escolheu o caminho mais difícil? – Porque as pessoas não escolhem um caminho por ser mais fácil ou mais difícil – disse Barata – elas fazem o que acham que deve ser feito. independente do que seja. pois teriam que começar a estudar a nova notação a partir do zero. Muitos inclusive ficaram aborrecidos com essa mudança. era minha professora quem devia estar me dando aquela ajuda. – Cacete – eu disse. Barata deu um risinho. Teoricamente.

Eu nunca tinha conversado direito com o Boaventura. o que me dava mais tempo livre para estudar. Boaventura abriu a porta para mim. E ele saiu. após estudar um pouco sozinha fui visitá-lo no dormitório dele às nove da noite. Por isso. Eu deixaria para me entreter com isso depois que meu período de sufoco com as provas passasse. Também aproveitei aquele sábado para lavar minha roupa acumulada. Mesmo assim.A Era do Folhetim Um estudante do Jogo poderia ter qualquer tipo de background e seria inviável construir um plano de estudos padrão que funcionava para todos os casos. Eles não queriam um especialista em folhetins. Falando nisso. porque ele era um cara de poucas palavras. mas ele andava ocupado demais com os estudos de astronomia. porque não usávamos máquinas de lavar. Era exatamente isso que o Jogo tentava evitar. A única coisa que eu já sabia era que havia pessoas de todos os tipos: desde os insuportáveis até aqueles que eu pagaria para bater um papo. Teoricamente. era do interesse de Cela Silvestre que cada jogador tivesse estudado uma área diferente na escola preparatória. Era por isso que todos pensavam mil vezes antes de optar por estudar lá. ele era meu mentor em Cela Silvestre. No fim de semana eu também tinha aulas. mas profundamente sobre nenhuma delas. – Ele está ocupado agora. Barata não foi me encontrar na biblioteca naquela noite. porque eu sempre via o Boaventura se matando de estudar uns negócios tenebrosos. mas menos. como reação máxima à Era Folhetinesca. mas daqui a pouco vai te receber. eu ainda não conhecia meus veteranos. Reparei que nas minhas aulas havia alguns estrangeiros. E eram poucos os que aguentavam até o final. deu para cansar. Além do mais. Aí sim eu passaria a prestar atenção nos meus colegas e professores. Teria sido um processo um pouco doloroso se eu já não estivesse acostumada. Eu nem queria pensar que um dia eu também teria que chegar naquele ponto dos estudos. que soubesse o básico de cada uma das áreas requeridas. 111 . para enriquecer as possibilidades da construção dos Jogos depois. Tudo à mão. Todas essas questões tornavam o processo de aprendizado do Jogo difícil. Eu não me lembrava se nossa combinação de encontros incluía os fins de semana.

Barata cobriu-se com o lençol. Porém. Achei que o pessoal só fazia essas coisas nas escolas preparatórias. então não podia perder tempo esperando por ele sentada numa cadeira.Wanju Duli Vinte minutos depois. Ele deu um sorriso amarelo. ela saiu do quarto e entrou no banheiro. Com uma expressão de quem estava de saco cheio. Fui até o quarto dele e bati na porta. se viam. – Desculpa não aparecer hoje – ele disse – a Dani arranjou um tempo para nos vermos e nos encontramos de última hora. Você não tem medo de ser excomungado? Ou vocês estão namorando? – Será que a gente pode ir direto ao assunto? – Barata me interrompeu – você tem alguma dúvida nos seus estudos ou só quer que eu prepare seu plano de leituras para amanhã? 112 . então qual era o problema? Se bem que ele estava de pau duro. Eu sempre me sentia nervosa na frente da Dani. – Preciso falar com Barata – eu gaguejei – vai ser bem rápido. Eu precisa usar todo meu tempo disponível para estudar. – O que você quer? O mesmo rosto inexpressivo de sempre. pois a gente já tinha transado uma vez. então uma conversa assim poderia gerar distrações para ambos. Era a Dani. Não houve resposta. Achei o gesto um pouco súbito. Quando bati pela segunda vez. Quando me aproximei. com aqueles longos cabelos revoltos e embaraçados de quem tinha acabado de sair de uma foda selvagem. mas sua atitude. Ela estava enrolada num lençol. Ela estava mais linda do que nunca. um minuto depois alguém atendeu. Mas não era Barata. Não adiantava.. – Não sabia que vocês ainda.. Se bem que às vezes essa sua suposta maravilhosa atitude beirava à má educação. Aproveitei a oportunidade para entrar no quarto e falar com meu novo mentor. Como ela conseguia ser tão perdidamente incrível? E não era somente sua beleza. eu me cansei de esperar por Barata. o tom de voz dela me indicou que ela não gostou muito de ser incomodada. Conhecíamos o corpo um do outro.

Após mais um minuto ele fez algumas anotações no meu caderno indicando quais seriam minhas atividades do dia seguinte. Ando muito ocupado e estressado. Cacete. Barata apareceu na biblioteca. não existia sistema de ensino perfeito e nunca iria existir. me sentindo uma completa imbecil. Mas acho que até ele tinha seus limites. – Ultimamente há muitos alunos e poucos professores – explicou Barata – e só aceitam professores em Castália que tenham se formado nas escolas de elite. – Deixa pra lá – ele disse – eu também fui um pouquinho rude com você ontem. Quando eu disse isso para Barata. Ele apenas passou os olhos no que eu tinha feito no sábado e devolveu meu material. É melhor que passem a tornar o processo de seleção dos estudantes mais rigoroso em vez de massificarem o sistema de ensino outra vez. – Obrigada. Ele não devia ter gostado muito de ter sido interrompido no meio do sexo. Principalmente por ser com a Dani. Saí do quarto de fininho. Eu me desculpei mil vezes. Ele devia estar realmente puto comigo. De qualquer forma. E não era para menos. Quando eu vi Dani abrindo a porta. – De nada. Era óbvio que Castália não era nenhum paraíso de sistema pedagógico. que era tão ridícula que ele me esclareceu em meio minuto. Ainda continha muitas injustiças e distorções. que parecia a pessoa mais relaxada do mundo. Barata era tão gentil comigo e eu estava abusando.. Então até ele. No domingo à noite. ele respondeu: 113 . Eu tinha uma pequena dúvida de latim. – Eu tinha ouvido falar que os estudos nas escolas de elite respeitavam o ritmo de cada aluno. mas agora vejo que não é bem assim – observei. tinha seus momentos de estresse com os estudos. Normalmente ele teria respondido cada uma de minhas perguntas com a maior sinceridade e paciência do mundo.A Era do Folhetim Era uma das primeiras vezes que eu via Barata levemente aborrecido. eu devia ter pedido desculpas e me mandado de lá. Ele não sorriu..

É suficiente que você tenha essas noções gerais por enquanto. Eu não guardei as minhas. Mas eu sei que o professor Junqueira prefere os jogos psicológicos. – Resolva esses e depois mostre para Boaventura. E eu fiz minha escolha. Nessa segunda semana você irá resolver alguns problemas do Jogo. Eu disse para a Dani que esse seria nosso último encontro. por exemplo. o que seria uma meta irreal. Se ele estiver com preguiça de preparar uma boa prova. – Voltando ao seu plano de estudos. Até sei qual autor ele gosta. Minha intenção não era que você entendesse muito sobre essas duas áreas em uma semana. para que ele possa comentá-los e te dar dicas. Ele pegou o livro outra vez. – As soluções são mais amplas e subjetivas – explicou Barata – a não ser nos casos em que é especificado o contrário. então vou te indicar alguns livros com exercícios. Para os jogos formais é mais importante a objetividade.Wanju Duli – Não há uma única solução certa que irá funcionar em todas as instituições. Só não podemos nos estagnar com a ilusão de que encontramos a solução ideal. – Por que Boaventura? – Porque infelizmente a partir de amanhã não poderei mais ser seu tutor. Castália nunca pode perder sua capacidade de transformar-se. 114 . O que funciona em Cela Silvestre pode não funcionar. vamos parar por aqui essa sessão de estudo de latim e música. Dei uma folheada. Aquilo soou quase como uma profecia. deu uma olhada e marcou os exercícios mais importantes. Então eles estavam mesmo namorando. Parecia divertido. Você já sabe que existem dois tipos de jogos possíveis. em Planvaste. Você também pode conseguir as provas antigas com os veteranos. – Você não disse a ela que era uma ajuda temporária? – perguntei. Ele já fez isso uma vez. a escola de matemática. pois qualquer coisa que não muda mais apodrece e está fadada à destruição. Ela não está gostando muito dessas nossas combinações diárias regulares. Entregou-me. – Como exercícios de matemática ou física? – perguntei. – Ela deixou bem claro que eu devia escolher entre você ou ela. Barata levantou-se e retirou um livro de uma prateleira. pode ser que até pegue exercícios prontos desse livro.

– É um bom argumento. levaríamos o dia todo. Após analisar minhas resoluções. Parecia sincero. Se bem que vê-lo com sono não era novidade. Mas 115 .A Era do Folhetim – Mesmo que ela seja sua namorada agora. inconscientemente. Ela dá voltas desnecessárias. – Eu gosto do seu raciocínio – elogiou Boaventura – eu diria que sua solução para esse problema não é muito prática. mas são coisas pequenas – ele disse – em geral. No dia seguinte. – Um especialista diria que há incontáveis problemas técnicos. Eu nunca soube exatamente como se jogava. era Boaventura quem me aguardava na biblioteca. Mas digamos que seja. Aquele foi o maior elogio que ele poderia me dar. Quer dizer que você nunca jogou? – Eu já escutei muitas velhas transmissões de rádio de Jogos antigos na internet – expliquei – e antes mesmo de entrar para as escolas de elite eu já tinha lido tudo sobre o Jogo que encontrei por aí. mas por outras razões. ele iniciou seus comentários. fiquei bem satisfeito com o resultado. você também peca na estrutura frasal e em tantas pequenas minúcias que se fôssemos analisar individualmente uma de suas jogadas para eu apontar todas as correções possíveis. captar a proposta geral. Ele analisou minhas respostas uma por uma. mas acho que consegui. Então minha resolução do problema não era simples e pragmática. bela? Senti-me orgulhosa. eu aceitava o elogio. – Técnica se resolve com o tempo. mas elegante. então eu não vou discutir com ela. Eu o via com olheiras desde a escola preparatória. Se um cara inteligente como Boaventura estava curioso sobre meu Jogo. – Há alguns erros. – É como compor uma música ou um poema – ele explicou – é possível escrever um poema belíssimo com muitos erros de gramática. Ele parecia estar com muito sono. do jeito que Navarro havia me recomendado. O espírito não se ensina. é o de menos.. quando você dominar o básico necessário. ela não tem o direito de controlar a sua vida desse jeito – argumentei. No seu caso. – Ela tem peitos maravilhosos. Mas que você tem o que mais importa: o espírito. Estou muito curioso para saber como serão suas jogadas no futuro..

Wanju Duli
eu não acho que fazermos algo assim seja necessário, pois aprimorando
sua base você mesma vai se corrigir com o tempo.
Ele me deu um alerta. Os professores de Cela Silvestre eram
extremamente conservadores. Muitos deles iriam me criticar duramente.
– Há professores tão obcecados com a primazia da técnica que não
olharão para mais nada. É melhor você se preparar: eles vão te atacar de
forma tão feroz que poderão tentar destruir o seu espírito; talvez até um
pouco por inveja, mas principalmente pelo orgulho que sentem de sua
autoridade e seu estudo. Não permita que façam isso.
Como o mais importante para aquela prova seria a técnica e não
tínhamos muito tempo, ele disse que ao longo daquela semana nos
ateríamos a esse aspecto. Mas que, passado o período das primeiras
provas, ele poderia jogar comigo para fazer meu espírito voar. Se não
estivesse muito ocupado. Eu desconfiava que ele ia acabar amarelando.
Então ao longo dos meus estudos em Cela Silvestre eu seria como
um pássaro engaiolado.
– Você ainda terá que permanecer um longo tempo dentro da gaiola,
mas não deixe que isso te faça esquecer que você tem asas.
Fiquei totalmente sonhadora com aquelas palavras de Boaventura.
Por um momento achei que ficaria desapontada porque perdi Barata
como tutor. No entanto, Boaventura explicava de um jeito tão bacana
que eu já estava aguardando ansiosamente para nossa lição do dia
seguinte.
Nunca imaginei que eu iria me divertir tanto resolvendo aqueles
exercícios. Antes eu achava que fazê-los seria a parte mais chata, mas eu
finalmente começava a entender um pouco a alegria de Sônia ao resolver
problemas de matemática e seu aborrecimento em ler livros. Ler as
análises das jogadas dos outros nunca era tão emocionante quanto ser a
protagonista da história e jogar.
Até o dia das minhas provas, eu estudei com afinco. Cheguei a perder
algumas horas de sono para tentar bolar uma solução original para um
problema do Jogo particularmente complexo. Ou melhor, complexo para
meu nível, já que estudantes mais avançados certamente teriam chegado
a uma solução melhor que eu num tempo muito menor.
Após passadas minhas primeiras provas, eu me sentia mais tranquila.
Finalmente eu começava a adquirir confiança no meu potencial para ser
116

A Era do Folhetim
uma jogadora de Avelórios. Por um momento, pensei que não tivesse
jeito para isso e que não seria capaz de aprender. Era incrível a
transformação pela qual eu havia passado em apenas duas semanas.
Agradeci muito aos meus dois instrutores.
– Viu só? – Barata sorriu – não era tão impossível quanto você
pensava. E a maior parte disso foi mérito seu. A gente só deu um
empurrãozinho.
Para a minha surpresa, até mesmo meu estudo nas duas primeiras
semanas não tinha sido uma total perda de tempo. Por um lado, foi
melhor que eu tivesse tentado me virar sozinha no começo, pois eu nem
sempre teria um ajudante para resolver todos os meus problemas. Eu
também precisava aprender sozinha como estudar e pesquisar.
No entanto, eu fiquei muito chateada quando recebi as notas. Achei
que eu tivesse me saído bem, mas os professores foram extremamente
rigorosos nas correções. Era como Boaventura havia alertado: os
comentários beiravam a crueldade.
Não havia sequer um elogio sobre as minhas resoluções. Só foram
apontados os defeitos, de forma bastante fria e objetiva.
Resolvi conversar com o professor Nicolas Junqueira no final da aula.
Estávamos somente nós dois na sala, pois aguardei que todos saíssem.
– Senhorita Santa – disse Junqueira, no seu tom sério habitual – a
senhorita não está mais no jardim de infância. Não espere que nós
elogiemos os rabiscos dos seus desenhos. Pois é exatamente isso que a
sua prova é: como uma criança que segurou um lápis pela primeira vez e
ainda nem sabe escrever seu próprio nome. Acho bonito que os
professores incentivem as crianças para que tenham fé em si mesmas,
mas isso você já devia ter resolvido lá atrás.
Eu tinha mais coisas a dizer, mas esse pronunciamento dele me
deixou sem fala. Eu apenas agradeci em voz baixa e saí da sala
imediatamente.
Normalmente, eu teria ficado irritadíssima. Mas eu tinha apenas um
sentimento de vazio, que não era nem tristeza e nem fúria.
Por um instante pensei que Boaventura estivesse apenas exagerando
quando me alertou sobre os professores. Eles se esforçariam para me
destruir. De todas as formas. Eles queriam que restassem somente os
fortes, capazes de aguentar críticas mordazes.
117

Wanju Duli
Barata e Boaventura compreenderam completamente quando relatei a
situação.
– Eu não ligo mais para o que o Junqueira diz – falou Barata – ele faz
isso com todo mundo. Não leve para o pessoal.
– É impossível não levar para o pessoal! – exclamei, indignada – ele
me tratou como um verme. Ele me deu nota 3 na prova!
Barata sorriu gentilmente.
– Eu sou um pintor e Boaventura é um músico. Estamos
acostumados a receber críticas o tempo todo. Se fôssemos desabar cada
vez que alguém critica nosso trabalho, já teríamos desistido de tudo há
muito tempo. Lembre-se: a sua habilidade de jogadora não te define
como pessoa. E nem seu conhecimento de literatura. Isso é apenas uma
pequena parte do que você é. E você é muito mais do que seus
conhecimentos.
– Sou apenas um verme... – eu repeti, debilmente.
Barata me deu tapinhas na cabeça, como se eu fosse um cachorrinho.
– Sempre que precisar que alguém te trate como uma criancinha do
jardim de infância, lembre-se que nós dois estamos aqui – disse Barata.
– Ei! – exclamei – isso não foi muito legal de dizer.
Mas nós três rimos juntos depois disso.
Em breve, eu me sentiria muito contente com minha nota 3, pois
descobriria que seria minha nota mais alta do primeiro ciclo de provas.
Eu fiz três provas ao todo. A do Junqueira foi a que me saí melhor.
Tirei 2,5 na prova do professor Fábio Peixoto. E 1 na prova da
professora Rebeca Fragoso.
– Um! – eu exclamei, sem fôlego – eu tirei um!!
Nem mesmo no colégio eu já havia tirado 1 numa prova.
– Veja pelo lado bom – disse Barata – pelo menos não tirou zero.
– Espero não precisar chegar nesse grau de otimismo – observei – eu
não sou uma Pollyanna!
– É como diria Shakespeare – lembrou Barata – o lado bom de
morrer hoje é que você não precisará morrer amanhã.
– Que merda, cara! – eu disse – esse tipo de pensamento é como
chegar ao fundo do poço.
– Espere para ter aulas com o Alvim e você descobrirá o que
realmente é o fundo do poço – sorriu Boaventura.
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A Era do Folhetim
– Eu tirei zero na minha primeira prova do Alvim – informou Barata,
orgulhoso – então, se você conseguir tirar meio ponto na primeira prova
dele, prepare-se para subir num carro alegórico e ser ovacionada por
toda Castália.
Meu queixo caiu. Eu nunca imaginei Barata tirando zero numa prova.
Ele era inteligente demais para isso.
– Pensei que você fosse um gênio no Jogo – observei – você sabe
tanto!
– Não existem gênios no Jogo de Avelórios – opinou Barata – todo
mundo apanha. Até os professores.
Eu realmente não fazia a menor ideia onde tinha me metido.
Mas agora já era tarde. E agora que a coisa tinha chegado a esse
ponto, eu não permitiria que os professores me fizessem de palhaça. Eles
deviam ficar rindo depois de dar aquelas notas.
– Tirar esses lixos de notas faz parte do ritual de tornar-se um
jogador de Contas de Vidro – sugeriu Boaventura – no futuro você
também vai rir disso e se recordar com saudades.
– Esse futuro ainda está meio longe – observei – primeiro preciso
sobreviver aqui dentro para que o futuro chegue.
Então era esse o jogo dos professores. Era como uma guerra. Eu não
iria baixar a cabeça.
O professor Junqueira era extremamente aterrorizante: alto, com sua
barba repleta de fios brancos. Parecia um sábio, um eremita. Eu não
pretendia discutir de novo com ele tão cedo. Eu iria permitir que ele
ganhasse essa batalha, mas na próxima prova dele eu me mataria de tanto
fazer exercícios de jogadas nos livros da biblioteca. Preencheria uns
cinco livros de exercícios. Meu objetivo no próximo exame seria tirar
pelo menos um 4. Sim, minhas expectativas já estavam bem baixas.
Velhos tempos em que eu tirava nota máxima nas minhas leituras nas
escolas preparatórias. Senti que aqueles tempos jamais voltariam.
No caso da aula de Peixoto era algo meio subjetivo: interpretação de
símbolos. Enquanto os problemas das provas de Junqueira continham
descrições escritas e, vez por outra, diagramas para análise, as provas de
Peixoto continham um monte de desenhos. E tínhamos que descrever o
que simbolizava um leão verde perto de um Sol ou qualquer coisa assim.

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O Peixoto era relativamente jovem para um professor de Castália. especialmente em Cela Silvestre. fui perguntar. Eu bem que merecia mais um ponto na minha prova por tê-lo escutado por tanto tempo! Até que o professor Peixoto era legal. Com exceção de apenas um. E eu. – Não é subjetivo – disse Boaventura – você precisa estudar o simbolismo dessas imagens em diferentes povos. ele definitivamente não era o Magister Ludi. Ele me segurou na sala por duas horas para responder a merda da minha pergunta. – Isso significa que os símbolos possuem significados intrínsecos ou que a mente humana atribui valores às coisas mais ou menos da mesma forma? – perguntei. os Magisters obtiveram seu cargo com não menos de 45 anos. Aos poucos vai descobrir que é comum povos que não possuem contato nenhum atribuir significados parecidos aos símbolos. 120 . Mas aos poucos as abstrações eram reduzidas praticamente à geometria. – Que tal perguntar isso para o professor Peixoto? – sugeriu Barata. Apenas me mandou ler uns vinte livros e. idiota. Não era fácil conseguir um cargo poderoso como aquele.Wanju Duli Parecia mais um exame sobre a interpretação de símbolos alquímicos. Ele não foi tão cruel assim com seus comentários sobre minha prova. Em toda a história. Até me deu um sorriso e disse que ele tinha que seguir o regulamento e não poderia subir demais a nota dos alunos. depois de lê-los. Porém. Mas ele não calava a boca! Ele amava tanto seus malditos símbolos que não conseguia deixar de compartilhar esse amor com todos ao seu redor. Descobri que ele tinha apenas 35 anos. senão os que não comiam e dormiam mais para estudar ficariam brabos. entre risos. A disciplina em que tirei nota 1 era um pouco perigosa: meditação. Deu um discurso dos infernos! E provavelmente teria continuado a falar pelo resto do dia se eu não tivesse conseguido dar uma desculpa e sumir de lá antes disso. não se tratava de apenas sentar-se na posição de lótus e permanecer nela o maior tempo possível. Sendo assim. ele “tinha certeza” de que minha nota melhoraria no próximo exame.

A população de Castália não costumava aumentar muito. teoricamente a profissão mais inútil possível. não precisávamos de mais prédios em Castália: nossos prédios eram práticos. devíamos ler bastante sobre ela em diferentes livros de história da arte e escrever um longo ensaio para entregar. que lá possuíam um enorme status. Muito antigos. como curar pessoas ou construir prédios. Digamos que podia ser qualquer coisa: uma música. ninguém estava com pressa para se formar logo para trabalhar. nem mesmo para arquivar os livros da biblioteca. Em geral. Ou apenas um poema que devíamos analisar profundamente e ler os comentários. Costumava ser o conteúdo de um livro que tínhamos que ler para a aula seguinte. comprar uma casa. não havia internet ou computadores em Castália. Só que em Castália era o contrário: ser jogador de Avelórios. formar uma carreira. Ninguém se importava se esse processo demorasse mais.A Era do Folhetim A professora normalmente nos dava um tema para meditar. Foram feitos com excelente material no passado e precisavam de poucas reformas. enormes e resistentes. muitos eram alunos ouvintes que logo se cansavam. O raciocínio era que devíamos pesquisar em livros o máximo que conseguíssemos sobre o tema selecionado. No mundo lá fora. Estabilidade financeira estava longe de ser uma questão preocupante para nós. as profissões de maior status eram geralmente as que geravam um produto. Era tudo feito à moda antiga. éramos proibidos de usar internet para a pesquisa. O nosso medo era outro: que um 121 . os axiomas de Euclides ou os teoremas de Fermat. era exatamente aquela que possuía o status máximo. um carro e ter filhos. adquirindo profissões importantes como a de professor ou pesquisador. devíamos pesquisar as diferentes soluções já propostas. Por exemplo. Afinal. Aliás. Contudo. especialmente as que davam mais conforto ou praticidade. Se fosse uma pintura. Se fosse um famoso problema de matemática. Embora estívessemos passando por um período com muitos estudantes. ganhar dinheiro. Digamos que nossa pressa em concluir os estudos era principalmente porque queríamos subir na hierarquia de Castália. E eventualmente sempre havia os alunos regulares desistentes. um problema de matemática. uma pintura. que não gerava produto nenhum.

Basta se organizar. Estava claro que nossa alimentação e nosso estilo de vida eram a resposta. Tínhamos nossas próprias plantações e não comíamos as porcarias lá de fora. nenhum de vocês está aqui para ganhar dinheiro. Eu disse isso a ela. mas pelo puro amor ao saber. o que chamavam de “desmaterialização progressiva”. em que os médicos eram como sacerdotes dos templos de Asclépio e em geral só recomendavam repouso e algumas ervas. mas doenças não eram algo recorrente em Castália. Como nos alimentávamos bem. Quase como no tempo de Galeno. se ela não parasse com suas provas exigentes. envelhecendo com saúde e com suas faculdades mentais quase intactas. Era bastante comum que os castalianos chegassem aos cem anos. As doenças crônicas eram particularmente raras. – Se a senhora não pretende diminuir a exigência. Mas na prática não era bem assim que funcionava. – A exigência que peço de vocês não devia ser fonte de estresse e sim de alegria – ela disse – afinal. Belas palavras. tínhamos uma vida cercada pela natureza e de pouco estresse. – Quando vocês se tornarem professores ou pesquisadores. é a minha exigência que gera em vocês mais conhecimento. mas de velhice quando já estavam em idade bem avançada. A prática da meditação era tão forte e feita por tantos em Castália que a professora Fragoso também não parava de apontar seus incontáveis benefícios para a saúde. 122 . É bom que aprendam desde cedo a montar um calendário de estudos. Até onde sei.Wanju Duli dia o número de alunos que saísse fosse muito maior do que aquele que entrasse. meu nível de estresse passaria do limite e minha saúde seria prejudicada. Porém. Dá tempo de fazer tudo num dia. nosso sistema imune ficava forte e doenças só nos alcançavam raramente. ajudaria se estendesse um pouco mais os prazos – sugeri. serão ainda mais ocupados – ela disse – e terão que realizar múltiplas tarefas. Tínhamos médicos. Por isso costumávamos dizer que nossos habitantes não morriam de doença. Era incrível como a expectativa de vida dos habitantes de Nova Castália era muito superior ao resto do Brasil. Também havia quem dissesse que a existência da espiritualidade forte de Castália era outro fator relevante.

Meditar com a barriga roncando não era meu estilo preferido de meditação. – Só quando posso. pois isso evita que durmam. deitada ou andando.. eu apenas digitaria no Google. ou eu só conseguiria visualizar comida. – Você está treinando uma hora de meditação diária. já que não para de se mexer nem mesmo numa meditação de 1 hora.. seja ele físico ou psicológico? – perguntei. pois não tenho tempo de meditar todos os dias. – Mas fora desses horários eu estou em aula! – Há os horários das refeições. Era realmente trabalhoso. Precisávamos percorrer as prateleiras. Não era tão simples achar o que procurávamos nos livros. Você tem problemas médicos? Eu fiz que não. Às vezes eu só medito meia hora ou fico com muito sono para fazer isso. – E caso eu fosse hiperativa ou tivesse outro problema que me impedisse de permanecer sentada por muito tempo. tínhamos que copiar todos os trechos à mão. – Então você não está se esforçando – disse a professora – eu disse claramente para que não meditassem nem de manhã cedo e nem tarde da noite. outros tipos de meditação são possíveis. Você também pode dividir o tempo e meditar meia hora antes do almoço e meia hora antes da janta. Pelo menos não enquanto estão recém aprendendo. – Eu só troquei a posição das pernas porque estava com cãibra – argumentei – vou perder nota simplesmente por não ter resistência suficiente para manter a mesma posição? – Isso é algo que se adquire com treino. como a meditação em pé. 123 .A Era do Folhetim Particularmente a disciplina dela me tomava muito tempo. Se fosse no colégio. pois não havia nenhum sistema de busca por títulos e palavras. Mas a nossa pesquisa nas bibliotecas tornava tudo mais longo. Depois. – Eu só não entendi porque eu tirei 1 na prova – observei – eu me esforcei tanto. acrescentaria as referências no final e acabou. – Há quem prefira meditar por 7 horas seguidas no domingo – disse a professora – mas você naturalmente ainda não chegou nesse nível. Caso o aluno tenha problemas médicos. copiaria e colaria uns textos. como eu pedi? – ela perguntou. abrir cada exemplar e checar os capítulos até encontrar.

Ela nos dava temas para meditar porque dizia ser mais fácil para os iniciantes. praticamente sem se mover. E pelo seu pouquíssimo progresso nas últimas semanas eu pude ver com clareza que você simplesmente não está treinando o bastante. Eu tinha muita coisa para estudar e muitos afazeres 124 . pois o cérebro aprendia naturalmente os caminhos e já sabia para onde ir sem precisar desses truques.. Por um momento. A resistência física e psicológica para meditar não é um dom divino para poucos escolhidos. Ela não era boba. – Então o seu problema é meramente falta de treino. Se bem que meu problema não era apenas preguiça. Ela conseguia ver através de mim. Muitos dos que tinham mais experiência em meditação não usavam a lógica e o lado esquerdo do cérebro para auxiliar na alteração de estado de consciência. o objetivo de nossa meditação não era o êxtase meditativo e nem mesmo algum tipo de iluminação. até o nosso jeito de meditar era único. Ela também era professora de Yoga.Wanju Duli – É esse o seu caso? – Não. Mas elas só iam chegar se eu deixasse de ser preguiçosa e treinasse uma hora diariamente. como instruir que o aluno prestasse atenção num ponto fixo diante dos olhos ou na respiração. Diziam que ela era capaz de meditar por dias a fio. Mas isso também. Sendo assim. meu corpo ia mostrar isso.. Ela ocorria espontaneamente. Eu mal podia esperar que essas aulas chegassem. Ela conseguia ler meu corpo muito melhor que eu mesma. Era uma mulher magra e bastante atlética. mas. Eu sou professora de meditação há muito tempo e vejo o progresso dos meus estudantes. as aulas de meditação avançadas nos preparavam para o Jogo de Avelórios. Porém. Se eu não treinasse. Portanto. fiquei sem argumentos. Era servir de auxílio para o Jogo das Contas de Vidro. Nas suas aulas intermediárias de meditação ela usava outras técnicas. não deixava de ser um instrumento de auxílio. Era cansaço e falta de tempo. Fragoso tinha uns 50 anos. de certa forma. Costumava dizer que a função mais elevada da Yoga era dar resistência ao corpo para que ele aguentasse as longas meditações. É algo que a maior parte das pessoas pode adquirir com treino diário constante e disciplina.

eram marrons.. 125 . Tive que dar uma boa caminhada debaixo do Sol. fosse em tom de respeito ou em tom de desprezo. Mostrei para Rodrigo minhas três provas com notas horríveis. Ele analisou uma por uma. assim como os trajes de Rodrigo. O problema era que nem Barata e nem Boaventura teriam tempo para me ajudar dessa vez. E eu pensando que teria um período de descanso após as provas. – Ô Magalhães! – um cara o chamou – tem uma mina aqui que quer falar com você! Os trajes desse estudante. Usávamos grandes chapéus nessa ocasião para nos protegermos. Alguns que olhavam torto podia ser por inveja. Só que eu possivelmente havia perdido Gio e Navarro para sempre. Eu conhecia três especialistas no Jogo das Contas de Vidro: Gio. resolvi ir com o chapéu de palha de abas largas. Com aqueles mantos brancos e aqueles chapéus de palha pontudos e de abas largas parecíamos poderosos feiticeiros. para o mundo da filosofia e da música. – Sugiro que você curta esse início de aulas enquanto ainda está fácil – disse Boaventura. mas perdíamos um tempo absurdo por semana cuidando da terra. Rodrigo e Navarro. colhendo. As pessoas olhavam. Ainda tinha esperanças de que alguma parte dele ainda estivesse no meu mundo. Descobri que ele era famoso por lá.. Teria sido relaxante se eu não estivesse derretendo de calor. Eu suava com aquele Sol forte. o instituto de filologia das línguas antigas. Estavam mais atarefados do que eu.A Era do Folhetim domésticos. Nós comíamos comidas saudáveis. Assim eu ficava bem protegida. plantando. Por causa do Sol. já teria que começar a estudar para as recuperações. Não era fácil cuidar da plantação. Um estudante de Cela Silvestre nunca passava despercebido. enquanto outros realmente achavam que o Jogo de Avelórios era um entretenimento tolo para o qual se dirigia atenção além do conveniente. – Muito engraçado – eu disse. Minha roupa branca ganhava ainda mais destaque em meio a todos aqueles estudantes de marrom. Então só me restava visitar Rodrigo em Keuperheim. Não demorei muito para encontrá-lo.

também vai esquecer rapidamente – disse Rodrigo – é assim que funciona na Era Folhetinesca. mesmo que fosse lentamente. – Não tem nenhuma fórmula mágica para que eu aprenda essas coisas rapidamente? – perguntei. e conseguiu ver meu progresso em apenas um mês. 126 . Eu estava ansiosamente esperando que passassem minhas provas para que eu pudesse retirar um livro de literatura da biblioteca. Ele conhecia meu nível. Isso não significa que você tem que baixar a guarda. Sem filmes ou bolos. Fiquei contente por isso. perder-me na história e relaxar. constante e aprofundado. – Apenas faça o que você vem fazendo – ele disse – exercícios de Jogos e estudos de símbolos. Para a sua sorte. Mas estava meio perdida sobre o que fazer para as outras duas disciplinas. O pior era que havia bibliotecas com muitos livros de literatura em Castália. Eu estava ansiosa para ler um pouco de qualquer coisa. logo não restará mais nada em sua mente. mesmo que um Aldous Huxley ou uma Jane Austen. você terá que aprender a amar o Jogo de Avelórios tanto quanto já amou um bolo de chocolate. um filme ou um amante. tente aumentar ao máximo sua nota. A “fórmula mágica” é estudo diário. pelo menos na área da gramática. Se apenas decorar sem entender e o fizer só quando tiver provas. O importante era que eu estava avançando.Wanju Duli – Até que você se esforçou – foi seu comentário. Eu tentaria separar pelo menos umas 2 horas por dia para meditar ao longo daquela semana. E para ter energias para estudar tanto. – Dessa vez só vou ter uma semana para estudar – eu disse – será que ainda tenho salvação? – As recuperações geralmente são mais fáceis. – Se você tentar decorar tudo rapidamente. eu poderia direcionar meus olhos para o Jogo. Embora não pareça. Mesmo que você não consiga um 6. é claro. os professores veem diferença entre um zero e um 5. não há nenhuma dessas coisas aqui para competir com sua nova potencial paixão. Isso tornava a vontade ainda mais poderosa. Só que havia uma tentação muito mais poderosa: a literatura.

fitavam o professor com atenção. haveria novas provas! Então. eu desistiria dele na primeira oportunidade. mas depois broxava completamente com as notas. eles não queriam perder tempo com ele. Vocação significa uma espécie de chamado: mesmo não sendo tão bom naquilo.A Era do Folhetim Só que eu teria que postergar esse desejo por mais uma semana. quando eu poderia ler de novo? Finalmente eu entendia Gio e Navarro. até ali os estudos sobre o Jogo pareciam meio sem sentido. assim que a literatura subisse o vestido e me mostrasse sua coxa sensual. eu tinha chance de ser uma das melhores. Enquanto eu lutava para me manter acordada. prestar o mínimo de atenção e entender de que raios eles estavam falando naquele dia. seu coração sente que é o que deve ser feito. Eu queria poder voltar a ler meus livros de ficção. Pois eu lia com naturalidade. as dificuldades inerentes ao Jogo eram um obstáculo. Eu até que me divertia resolvendo os exercícios. E talvez fosse sofrer ainda mais se eu realmente quisesse me tornar uma jogadora. Mesmo sendo tão bons no Jogo. Mas por que a literatura continuava me chamando e confundindo meu coração? Se minha paixão pelo Jogo das Contas de Vidro não aumentasse. Além do mais. Porém. se eu me dedicasse à literatura. Eu teria confiança para bolar jogadas inteligentes na frente de todos? Às vezes parecia que eu era a única que não entendia as aulas. Eu sabia que iria sofrer pelos próximos anos até aprender tudo o que precisava. Se eu fosse uma jogadora de Contas de Vidro. perdia-me nos livros por horas 127 . provavelmente seria apenas uma jogadora medíocre. Meus colegas faziam perguntas. Achei que eu tivesse sentido esse chamado para o Jogo. Mesmo os livros de literatura de autores chatos eram mais divertidos do que ficar sentada de pernas cruzadas sem fazer nada. Eu não iria resistir. Eu não gostava de meditar e não queria estudar símbolos. por muito tempo. Não é preciso ser super inteligente para aprender uma área do conhecimento. Eu estava duvidando novamente da minha vocação para o Jogo. depois de mais três semanas. Afinal. mas é preciso ter vocação para dedicar-se a ela. E. faziam anotações. Aguentava ler muito.

“Mas gostaria de ter para morrer logo e acabar com essa dúvida e essa dor!” pensei. E comecei a falar de todas as minhas preocupações e inseguranças. não era o meu caso. Disse que amava mais os livros de ficção. Será que já não estava na hora de eu ter uma conversa sincera com a professora responsável por mim? Eu finalmente cedi. Seria muito dramático.Wanju Duli seguidas sem nem ver o tempo passar. – Você parece com pressa – ela observou – diz coisas como “nunca mais vou poder ler na vida” e outras coisas do tipo. Ele também não teria tempo de ficar me ajudando diariamente. Disse que estava tendo tantas dificuldades que me sentia mais atrasada do que todos os meus colegas. Sentei-me na sala dela. Até ficar lá por meia hora era chato. – Quando somos jovens. Tinha uns quarenta e poucos anos. Pelo visto. Falei por muito tempo. Ela se chamava Clara Correia. Rodrigo me indicou alguns livros de estudo. Parecia ter disponibilidade para me ver e marcamos um horário para aquele mesmo dia. Mas meditar era custoso. Não sei quanto. Tinha cabelos negros e ondulados na altura dos ombros e olhos castanhos escuros. Você tem alguma doença grave? Só terá mais dois ou três anos de vida? – Que eu saiba não tenho nenhuma doença – respondi – pelo menos nenhuma que seja letal. mas é claro que eu não expressei meus pensamentos em voz alta. E isso foi tudo. E Barata e Boaventura. além de um desrespeito com as pessoas que estavam realmente doentes. só o fizeram porque possuíam uma vocação genuína. ela deu um leve sorriso. além da habilidade. é comum termos a constante sensação de que nunca temos tempo suficiente para tudo que queremos fazer – explicou a professora – desde a época de colégio sentimos como se nosso tempo fosse roubado pelos estudos e nos agarramos 128 . Confessei que duvidava da minha capacidade de ser jogadora. que optaram. Estudar o Jogo era chatíssimo! Eu só estava fazendo aquilo pelo status que o Jogo representava! Será que já não estava na hora de eu parar com a farsa e ser sincera comigo mesma? Minhas notas não mostravam com clareza que eu não tinha nem a habilidade e nem a vontade de aprender? Meus amigos foram maduros em não optar pelo Jogo. Quando terminei de falar.

mas parece que você se sentiu atraída para Cela Silvestre e ainda não entendeu bem o motivo. Talvez eu o tenha fantasiado demais. minhas ideias do que ele era. mesmo que partes dela sejam complexas e quase impenetráveis para apreender usando a lógica. – As coisas na realidade sempre são diferentes do que esperamos – disse Clara – frequentemente nos deparamos com dificuldades inesperadas. Mas por que precisamos de tanto tempo livre assim? Para aprender? Para criar? Para lazer? Não podemos buscar esses desejos em outras coisas? Com o Jogo de Avelórios você também não sente que está aprendendo. Mas ele é como uma onda: também passa. mas algo que se conquista com esforço – disse a professora. – Mas para haver esforço tem que haver interesse.A Era do Folhetim desesperadamente às férias. 129 . – Você enxerga uma parte sua na literatura. que podem nos desapontar. acha que estaria aqui? Refleti por um momento. Pensei que ele fosse outra coisa completamente diferente do que ele é na realidade. – Talento não é algo com que se nasce. Essa parte você já encontrou. Mas. Eu só o persegui por teimosia. Eu disse tudo isso para Clara. Sequer tinha planos de cursar faculdade se tivesse continuado a viver no mundo. Ou meu amor pela sombra do Jogo. Pretende desistir antes de desvendá-lo? – Não acho que seja assim – baixei os olhos – o Jogo nunca teve nada a ver comigo. Eu não havia entrado nas escolas de elite por causa da literatura. eu tenho o sentimento de que somos parecidas. Você está passando por ele agora. Eu tinha estudado aqueles oito anos pelo meu amor ao Jogo. – Se você não tivesse o menor interesse no Jogo de Avelórios. Então que tal agora tentar encontrar a parte de você que está escondida no Jogo? Temos partes nossas em muitos lugares. pela minha experiência. essas dificuldades somente nos incomodam no momento inicial de choque. Vejo todos os outros aprendendo o Jogo com tanta naturalidade e facilidade que só posso concluir que simplesmente não tenho talento. criando e se divertindo? – Eu nem mesmo sei ainda o que é o Jogo – confessei – então como posso amar algo que não compreendo? Eu amo a literatura porque.

tendo que ser cruelmente separado de tudo para agradar os outros. Seria mil vezes mais difícil se a pessoa estivesse lá contra a vontade. Sentindo uma falta desesperada de tudo que fazia antes em sua velha vida e perdeu. Ninguém é iluminado aqui. já que estava lá porque queria. Sou uma das únicas que nunca joguei uma partida. querendo seguir outra carreira e com outros planos de vida. Atrasada em relação a quê? Por que está com tanta pressa? Tem algum compromisso no mundo lá fora? – Estou atrasada em relação aos meus colegas – expliquei – a maior parte deles já entra em Cela Silvestre tendo uma boa base sobre o Jogo. alguns são muito piores que os seus. Eu sentia falta de comer crepe.Wanju Duli Recordei-me do meu primeiro mês nas escolas de elite. Eu teria saído correndo de lá apenas pela chance de morder um crepe de novo. E. As pessoas têm dificuldades diferentes. Eu precisava amadurecer aquela paixão e transformá-la num amor sincero: com menos fantasias. Alguns estão aqui porque a família os obrigou a vir. – Se você por acaso possui a ilusão de que a vida dos seus colegas é maravilhosa.. Precisávamos de uma motivação muito forte para seguir a rigorosa rotina diária. Eu sequer assisti uma! E eu tirei a nota mais baixa da turma na aula de meditação. Eu não me sentia assim. Mas aparecem questões de todos os tipos. eu irei acabar com ela – disse Clara – os estudantes me procuram o tempo todo. Você não para de dizer que está atrasada. Hoje em dia. Mas senti uma grande dor só de pensar. acredite. Você imagina como eles se sentem? Tentei imaginar um aluno com namorado lá fora. Tiram boas notas. Algumas com as quais você certamente não tem que lidar. com todo tipo de problema. – E mais uma coisa – acrescentou Clara – pare de se comparar com os outros. Você morava num orfanato antes. A vida em Castália não era fácil. – Principalmente. menos desespero e mais amizade.. curiosa. Será que aquilo se chamava amadurecimento? O meu apreço pelo Jogo ainda era uma paixão quase adolescente. 130 . aquilo não fazia diferença nenhuma na minha vida. não é mesmo? Mas alguns colegas seus vêm de famílias rigorosas e enfrentam a pressão e expectativa dos pais. E eu me sinto para trás. – São problemas nos estudos? – perguntei.

Concordei. E saí da sala dela com um sorriso no rosto. Grandes amigos são capazes de combinar jogadas incríveis. sabe harmonizar sua jogada com a dela.A Era do Folhetim – Pelo que me contou. para que pudéssemos estudar juntos. a professora entendeu que eu já estava me sentindo bem melhor. Nós juntos criando um Jogo sublime que relembraríamos para sempre. Imaginei-me com um grupo de amigos e. Decidi que no dia seguinte eu conversaria com alguns colegas meus para conhecê-los. Que ideia brilhante! Logo no final da primeira aula da manhã. – Eu não concordo com esse autor – disse Junqueira. Pela minha expressão calma. 131 .75? – Nós arredondamos para baixo – ele explicou – só subiria para 6 se você tivesse tirado 5. – Eu acho que sofri uma grande injustiça! – ela exclamou – por que fiquei com 5. você fica sozinha na maior parte do tempo – disse Clara – só tem um pouco de contato com seus velhos amigos das escolas preparatórias. Quando você conhece bem uma pessoa. Veja só como minha resposta é semelhante à do livro. Fiquei maravilhada com essas palavras. repleta de esperanças. – Pois eu acho que eu merecia nota mais alta nessas duas questões que mostrei ao senhor. A amizade é algo realmente poderoso. Costumo ver isso com frequência: como a vida dos alunos se torna mais leve quando fazem amigos. Eu a agradeci de coração. – E isso é particularmente verdadeiro para os jogadores de Avelórios.8.5 se minhas respostas somam 5. Que tal tentar fazer amizade com seus colegas? Vai descobrir que eles enfrentam dificuldades parecidas. Que sorte! Ali estava minha primeira potencial amiga. dali uns 20 anos. Já vi jogos extraordinários nascendo daí. Em trechos do Jogo haveria memórias de nossos tempos de estudo em Cela Silvestre. Poderão ajudar uns aos outros. vi uma garota falando com o professor Junqueira sobre a recuperação. participando com eles de um Jogo oficial. Quem sabe eu pudesse começar conversando com os que pegaram recuperação. A garota deu um risinho cínico.

era o Magister Ludi? – Que seja – ele disse. Nicolas Junqueira. eu virei para a aula na próxima segunda-feira com a cara pintada de vermelho – disse Junqueira – mas se você tirar um décimo a menos que a nota máxima. que só era permitido dirigir-se ao Magister Ludi por títulos. “Vossa Grandeza” ou “Domine”. ninguém conseguiu. fora de si. eu era a única que ainda estava na sala. se eu vencer a aposta você irá desfilar por toda a Castália vestido nos trajes de Magister Ludi. sorrindo também – eu levaria sua opinião em consideração se você tivesse tirado pelo menos um 6 na minha prova. Agora. e na frente de toda a turma. – Tem alguma questão a tratar comigo. aguardando na porta. Eu não devia estar ali parada escutando aquela discussão.Wanju Duli – O Paulo Almeida é um dos melhores autores de livros com problemáticas para Jogos! – ela exclamou – ele é inclusive.. Em vez de você se pintar de vermelho. despreocupadamente – de qualquer forma. – Se você gabaritar a minha maravilhosa prova. sem sombra de dúvida. Afinal. você terá que se ajoelhar na minha frente. Mas parece que você não é capaz disso com seu próprio conhecimento e precisa ficar mendigando nota. Caralho. pode se retirar. Santa? – perguntou Junqueira. rasgar o livro do Paulo Almeida e descrever em detalhes o quanto sou superior a ele. como “Venerável Mestre”. Quase falei: “Não tenho nenhuma questão. será impossível para você gabaritar minha prova. Até hoje. 132 . retirou-se da sala passando reto por mim. Eu fiquei paralisada. eu sabia. por todos os livros que já lera. Terá que passar pelas doze escolas de Castália vestido de branco e ouro! Meu coração bateu mais forte. sem nem notar minha presença. a não ser que você desejasse cometer uma terrível gafe e assassinar as normas da boa etiqueta. mais inteligente que o senhor! – É mesmo? – perguntou Junqueira. A garota.. completamente puta da cara. Além dos dois. Era melhor eu me mandar. Venerável”. – Eu vou gabaritar essa merda de prova de recuperação! – gritou a garota. – Feito! – ela rosnou – com uma pequena alteração.

. – Parabéns por sobreviver até aqui. – Também peguei recuperação na prova do Junqueira – confessei – que tal estudarmos juntas hoje na biblioteca? – É claro. ainda consegui localizar a garota. Como é seu nome? – Maria Santa. decidi. Que ótimo! Fiquei super animada. aterrorizados. – Ninguém consegue ler direito essa merda – ela disse – a maioria só finge que sabe. Não é todo mundo que aguenta um mês. Apesar da selvageria de sua voz antes. eu apenas fiz que não com a cabeça. Ela morreu de rir quando eu disse isso. mas eu entreouvi sua conversa com o Domine. vou falar com ela”. mas ainda estava muito intimidada pela discussão. A maioria já sai correndo na primeira semana. mesmo depois de sair de lá. era meu dever usá-los. “Foda-se.A Era do Folhetim Em público não usávamos os títulos para que os outros não o identificassem. No outro corredor. Você está entendendo alguma coisa das aulas? – Nada – confessei – eu ainda não consigo ler hieróglifos. – Uma irmã gêmea? – perguntei. Muito prazer. E o seu? – Sabrina Gonzaga. 133 . curiosa. ainda não entendo metade do que falam nas aulas. mas ao conversar sozinha com ele. – Ele não é o Domine – ela me olhou de forma curiosa – você é nova aqui? Era um olhar afetuoso. – Acabo de completar um mês de aula. ou eu estaria sendo extremamente mal educada. Mas por que aquela garota não os usava? Ela era assim tão insolente? Por fim. Meu coração ainda estava disparado. ela pareceu gostar de mim. – Com licença – eu disse – me desculpe.. Pensei em chamá-la para conversar. – Pretende mesmo gabaritar a prova? – Não – ela disse – vou pedir para minha irmã fazer a prova no meu lugar. Senti-me mais à vontade. Eu mesma. fiz uma breve reverência e saí da sala.

Elas eram parecidas mesmo! As duas com cabelos negros volumosos. ele tinha dito coisas muito ridículas. eu ainda tinha uma chance real de tirar 6 na recuperação. Eu me sentei atrás de Bruna e ela colocou a prova para o lado em alguns momentos para eu tentar copiar algumas respostas. O Junqueira costuma basear os problemas do Jogo fortemente na música.Wanju Duli – Irmã mais velha. já que o rosto praticamente desaparecia no meio dos cabelos. que trouxa! Isso lá era coisa para um professor dizer? Eu sabia que os professores de Cela Silvestre tinha o ego inflado. Ela seria totalmente capaz de gabaritar a prova. eu consegui ver um detalhe ou outro que me ajudou. A irmã dela se chamava Bruna. consegui avançar bastante nos estudos naquela tarde. O problema era que aquela não era uma prova de múltipla escolha e não seria tão fácil assim copiar qualquer coisa. No dia da prova. O professor nem vai reparar. Eu já tinha antipatizado com Junqueira desde aquela primeira conversa que tivemos. Mesmo assim. nem reparei que foi Bruna quem entrou. vi Bruna entrar na sala em vez de Sabrina. Além do mais. mas mesmo que Junqueira tivesse dito aquilo apenas para irritar Sabrina. com franja espessa que cobria o rosto. Por isso mesmo ficava ainda mais difícil verificar quem era quem. Senti que. 134 . Vai ter um monte de gente fazendo prova de recuperação na sala. “Você vai se ajoelhar e dizer o quanto sou superior”. isso não seria um problema. – Ela é muito inteligente? – Sim! Ela estuda nas escolas de música. mas nós somos praticamente iguais. Sabrina resolveu nos apresentar. ou que pelo menos as dicas de Bruna compensassem. Isso se Junqueira não resolvesse fazer uma prova impossível só para impedir Sabrina de gabaritá-la! Mas se a irmã dela era tão boa assim. Inicialmente. mas também é uma exímia jogadora de Contas de Vidro. Temos somente um ano de diferença. foi absurdo. Eu torcia para que Bruna conseguisse seu intento. O Junqueira não a conhece. Eu só torcia para que essa aposta deles não me prejudicasse. já que ela não é da nossa escola e nunca participou dos eventos oficiais. se ela continuasse a me auxiliar pelos próximos dias. Com a ajuda de Bruna.

Pena que eu não poderia chamar Barata e Boaventura. menina gênio – ele rosnou – eu não sei qual bruxaria você fez. todos saíram da sala para seguir Junqueira. A maioria olhou-o com respeito e temor. Jogou a prova de Sabrina em cima da mesa dela. por que eu deveria jogar limpo na aula daquele cara imbecil? Ainda bem que ele não era realmente o Magister Ludi. É claro que eu e Sabrina também não perdemos a oportunidade. Afinal. com força. As restantes se espalharam pelo chão. “Quer saber? Eles vão ter que matar aula para ver isso!” 135 . Junqueira abriu uma pasta com as provas.A Era do Folhetim Era a primeira vez que eu colava numa prova em toda minha vida. Após este pronunciamento. – Aos demais ignorantes que ficaram de recuperação. Meus olhos brilharam quando vi um belo “6” escrito em vermelho. deixou todos os alunos boquiabertos: ele vestia os trajes com tons de branco e ouro de um Magister Ludi. Quase chorei de felicidade. já que eles estavam em aula. Eu e Sabrina caímos na risada. Deviam estar tirando fotos escondidos com seus celulares que não eram permitidos em Castália. Eu tinha tirado exatamente a nota que eu precisava. Segunda-feira era o dia de recebermos as notas de recuperação. Enquanto todos os outros estavam tomados de espanto com a atitude inexplicável do professor. Enquanto isso. Aproveitei e procurei a minha prova dentre as que estavam caídas no chão. mas eu vou descobrir! Ele agitou o saco de provas. ele saiu da sala e bateu a porta com estrondo. certos alunos ouvintes pareciam que iam ter um orgasmo. podem vir pegar suas provas. Agora eu não terei tempo de entregá-las e nem de dar aula para vocês porque precisarei dar um passeio por Castália. – Parabéns. alguns alunos conheciam a identidade do Magister Ludi. E não me senti nem um pouco culpada. mas alguns ficaram perplexos. Sabrina relatou a eles o que aconteceu. Graças a Bruna! Como não teríamos aula. Afinal. ou isso seria o fim do mundo. Quando Junqueira entrou pela porta.

Por muito tempo. fazendo reverência quando ele passava. Aquele foi um dia histórico. Pelo menos por uma coisa eu respeitava Junqueira: ele realmente cumpria suas promessas! – Essa foi a coisa mais genial que já vi desde que vim para Castália – Barata confessou para mim.. – O que o verdadeiro Magister Ludi achou de tudo isso? Barata deu de ombros. Junqueira levou mais ou menos uma hora caminhando entre as diferentes escolas de Castália. Mas foi só um cara caminhar por Castália com os trajes em branco e ouro para todo mundo se mijar de êxtase. Pessoas chamando os amigos. Até um conhecido meu que detesta o Jogo de Avelórios não conseguiu tirar os olhos dele. 136 . E eu presenciei isso ao vivo. eu não sabia que isso ia gerar toda essa comoção! – Sabrina disse para mim depois – muita gente finge que não está nem aí pro Jogo ou pra Cela Silvestre. muitos alunos de Castália ainda apontavam para Junqueira quando ele passava e o fitavam em tom de um respeito quase reverente. sob o olhar de espanto de todos os que o viram. “eles jamais esqueceriam o que viram”. segundo os estudantes.. não adiantava dizer que tinha sido apenas uma brincadeira. No entanto. É claro que aquilo deu o que falar. Alguns colegas deles também saíram. caramba! Nenhum outro Magister era tratado com tamanha pompa. Eles achavam que a desculpa da brincadeira era apenas para que eles esquecessem da identidade do verdadeiro Magister Ludi. a situação nunca ficou completamente esclarecida e as teorias da conspiração logo começaram a surgir. até que se cansou e retornou para Cela Silvestre. gente tapando a boca com as mãos.Wanju Duli Corri até a sala dos dois. Posteriormente o pessoal ficou sabendo que tinha se tratado de uma espécie de trote e que aquele não era o verdadeiro Magister Ludi. Mas. Sinceramente. acho que não faziam tanta reverência nem mesmo para o papa. ainda sem saber exatamente o que se passava. – Nossa. Eu disse em poucas palavras o que havia acontecido e eles correram para fora da sala. Para esses.

A Era do Folhetim – Se eu fosse o Magister Ludi. Quando você descobrir. Ainda bem. se conheciam. Felizmente. ele não havia descoberto o truque de Sabrina. No mínimo. Descrevi com detalhes. Eu inventei que fui uma poderosíssima xamã. líder de uma aldeia repleta de mulheres fortes. Apesar de eu ter conquistado um belíssimo 7 na recuperação de meditação. já que ninguém tinha celular. – Não – respondi. – Pensando bem. devido aos meus árduos esforços ao longo daquela semana. já que eles eram da mesma escola. não era possível ver o rosto. então não reclamei. aquilo tudo serviu para despertar ainda mais o interesse das pessoas no Jogo. acharia engraçado – disse Barata – duvido que tenha se importado. Mas eu tirei um 7. Mas algum aluno ouvinte tirou uma foto que vazou na internet. como se nada de anormal tivesse acontecido. – Navarro está puto por ter perdido o espetáculo – contou-me Barata – ele não para de dizer: “Por que diabos ninguém me chamou?” Infelizmente aquilo não foi filmado. pois se ele descobrisse ela teria sido expulsa. Então era alguém que eu conhecia? Ou será que o Magister Ludi não tinha cara de Magister? Navarro também ficou sabendo da história. Que pena. Era uma espécie de exercício. A professora ficou impressionada com minha história. tirei um 5 na disciplina de símbolos. Mas o mundo não era apenas flores. E a conversa terminou por aí. Junqueira provavelmente foi repreendido pelo que fez. Enquanto imaginei minha vida passada ao longo da meditação. – Você está familiarizada com a biografia de Josef Knecht? – ela me perguntou. perplexa. 137 . A professora nos requisitou uma tarefa curiosa para aquela meditação. vai cair pra trás. mas eu duvidava que ele fosse ser seriamente prejudicado. Embora não tenha presenciado. Pelo jeito. isso tudo deve ter servido para esconder ainda mais a identidade dele – observei – você não vai mesmo me contar quem é? – Espere mais um pouco. Junqueira deu sua próxima aula no dia seguinte com muita naturalidade. eu soube que Bruna contou a ele. Devíamos criar a história de uma possível reencarnação nossa. Pelo visto.

pois não estudei tanto assim para a prova dele. eu já estava vacinada: já conhecia o estilo de prova dos professores. mas não me importo. Mas após os dois primeiros meses de aula. Como me foquei demais no treino de meditação e nos estudos de problemas do Jogo ao longo da semana. Peixoto me deu um 5. Sabrina não parecia se importar muito com coisas proibidas. Até que foi uma nota alta. Consegui contatá-los apenas recentemente através da minha irmã. – Ótimo. Pena que criatividade não contava muito ali. posso falar mais livremente sobre isso. Comecei a inventar um monte de coisas na prova. Você já ouviu falar na “Amor Fati”? Fiquei intrigada quando ela mencionou. não sei porque perguntei isso. mas não sabia como. – Esse é exatamente o tesão de fazer parte de uma sociedade secreta – disse Sabrina – eu queria ter entrado em contato com eles antes. Comecei a estudar sozinha. Nesse caso. Eu e ela aos poucos nos tornávamos amigas próximas.Wanju Duli concentrei-me tanto que devo ter parecido uma estátua. – Já os viu pessoalmente? – perguntei – é coisa limpa ou barra pesada? – Não sei ao certo. Parei de sair por aí como uma desesperada pedindo ajuda. Você já entrou em contato com eles? – Por que eu deveria? – continuei falando baixo – sociedades secretas são proibidas em Castália. – Recebi o mesmo envelope – respondi. Tinha sido uma das raras vezes que eu realmente curti uma meditação. Sabia mais ou menos o que esperar e como estudar. – E o que vocês fazem nessas reuniões é jogar o Jogo de Avelórios? 138 . – Não conheço a identidade de todos os membros porque comparecemos nas reuniões encapuzados – ela informou. E logo para quem eu estava dizendo aquilo. embora às vezes eu combinasse de estudar com Sabrina. Ele deve ter se divertido corrigindo. – Eu não devia estar falando disso com você – comentou Sabrina – mas eu recebi um envelope estranho algumas semanas atrás. Devo ter escrito um bando de bobagens sobre os significados dos desenhos. baixando a voz. Você só faz coisas limpas? Pensando bem.

inocentemente. pois também trata de um grupo de amigos que. Digamos que nos Jogos contamos histórias. O cara é muito foda.. Afinal de contas. Você sabe que a Igreja é uma das instituições mais poderosas do mundo.A Era do Folhetim – Exato. Eu não era católica e nem tinha medo da Igreja. eu estava me esforçando demais nos meus estudos para simplesmente ser excomungada. – O que esse Jogo tem de diferente em relação ao oficial? Ela se aproximou um pouco e sussurrou no meu ouvido: – Nós fazemos jogadas proibidas pela Igreja. Senti um frio na espinha. contam uma história. surpresa – eu não sei a identidade dele. – Como assim? – perguntei.. como você sabe? – perguntou Sabrina. – Não quero ser parte disso – afirmei. nervosa – por que a Igreja proíbe jogadas? – Você já deve ter ouvido falar das relações de Castália com o Vaticano. especialmente nos dias de hoje. – Não quer nem dar uma olhada? Posso conseguir permissão para que você participe de apenas um encontro. Relembrei do meu sonho. Senti uma sensação desconfortável. – Por acaso o mestre desse negócio é bem baixinho? – perguntei. Eu definitivamente não podia arriscar ser mandada para fora de Castália. – Não. mas sou louca para saber. sem compromisso. Para onde eu iria depois disso? Minha vida ficaria completamente sem rumo. Da última vez começamos com uma passagem do Decameron. mas achei que fossem relações amistosas. a cada noite. Apenas tive uma intuição de que me meter naquilo resultaria numa grande encrenca. Sabe 139 . – Ué. da música. – Está correto – falou Sabrina – mas para que Castália tivesse o apoio do Vaticano. mas em diferentes linguagens: a da matemática. O tom decisivo com que eu disse isso fez com que Sabrina parasse de insistir. Eu diria que a obra de Boccaccio é ideal para esses encontros. Aquilo não estava me cheirando bem. – Eu já ouvi falar. tiveram que entrar num acordo.

Wanju Duli muito e tem uma personalidade impressionante. Só podia ser. Meu black power estava ainda maior e era sempre inconfundível. Mais uma vez. fui até as escolas de música. mas eu devia ter imaginado. É claro. recebi vários olhares de reprovação. principalmente agora que você inventou uma sociedade secreta. 140 . porque eu estou lotado de coisas. Foi o Barata quem te mandou pra cá? – Nem sabia que ele também estava envolvido nisso. – Que língua estava falando? – perguntei. onde dormia. sabiam até onde ele mijava. ele havia “apenas” criado a nova notação musical para o Jogo de Avelórios. eu me destacava de branco. Todo mundo lá sabia quem era Navarro. Navarro me reconheceu de imediato. Quando perguntei por ele.. Especialmente ali dentro. – Há quanto tempo. – Alemão. O que a traz à minha escola? – Podemos conversar em particular? Ele disse alguma coisa em outro idioma pra outro cara e se afastou. Difícil acreditar que ele ainda era estudante. Olhar para mim devia gerar neles um tipo de dor.. Nunca vi igual. Isso importa? Melhor ir direto ao seu assunto. – Ah. Aquele lugar devia estar cheio de frustrados que queriam ter se tornado jogadores de Contas de Vidro. Sabe quem ele é? – Sua irmã certamente sabe. Lá eles vestiam roupas em tom vermelho escuro. Santa. tinham altas qualificações para tal. Deve estar bem ocupado. Ele havia apenas entrado para a história e era uma lenda eterna de Castália. mas foram tentados pela música. – Não que hoje seja um dia excepcional – corrigi – é sempre impossível falar contigo. Mas dali um ano ele completaria 24 anos e estaria formado. meio bordô. – Ela não quer me dizer. Ora. se duvidasse. todos sabiam onde ele estudava. então você leu minha correspondência. Você pode me contar? – Não tenho certeza. Vou conversar com ele antes. Bem que Gio me avisou. No outro dia.

Apenas desviou os olhos. – Obrigado pela permissão. Ele não respondeu. Há alguma razão maior por trás disso. – Diversão.. – Eu só queria entender – eu disse – por que passar por todo esse risco? É tão emocionante assim desafiar a Igreja? Nem achei que você ligasse para a Igreja. – Razão maior – ele repetiu – vocês e suas razões maiores. Ele também devia estar estressado com os estudos. Eu não ando muito receptivo a conselhos. Obrigada por seu tempo. – Você se tornou um ser tão elevado assim que agora acha que qualquer tipo de diversão é trivial? – perguntou Navarro – estranho isso vir de uma aluna de Cela Silvestre. – Estranho você fazer alguma coisa apenas pela diversão – observei – não achei que fosse esse tipo de pessoa. pois você não é membro. Foi um grande aborrecimento. E eu me retirei. pois eu não acredito. Miguel. – Ah bom. Ele apenas me fitou por um momento. – Eu não vim até aqui porque quero participar – expliquei – e sim porque quero te dissuadir dessa ideia. 141 .. Não optou pelo Jogo por ser divertido? Não me diga que está buscando uma elevação espiritual. Apenas vista um manto negro e cubra o rosto. porque minha mãe veio me visitar anteontem aqui. – Estou me divertindo – ele respondeu – então não vou parar agora. Se meus planos realmente envolvem coisas grandes. – E quem disse que eu ligo? Estou apenas curioso para experimentar algumas possibilidades de Jogo que nunca pude tentar por causa dessas proibições sem sentido. – Entendi – eu disse – isso é tudo. curiosidade – repeti – você não é disso. – Não estou te criticando – eu disse – pode fazer o que quiser. Ele estava sendo mais sarcástico do que o habitual. então espero que você não insista. – Você é a minha mãe? – Não. Sabe que corre perigo.A Era do Folhetim – Vamos nos reunir amanhã às nove da noite na entrada leste. – Cuidado. é evidente que não vou lhe dizer. Pode aparecer.

Depois de beber longos goles. Navarro havia voltado a conversar com os amigos. olhei para trás. Estava rodeado de amigos e se portava como um líder. Navarro não parecia ser do tipo que tinha amigos. Quase como um Lúcifer que.Wanju Duli Enquanto estava indo embora. como diria John Milton. – Ela que se foda – resolvi dizer. – Melhor não ficar aqui – ele sugeriu – se a Dani te ver. Talvez fossem alguns dos membros da sociedade secreta ou apenas admiradores. Voltei para Cela Silvestre. Fiquei em silêncio por um momento observando a paisagem. Castália era simples. irritada – ela nem estuda na nossa escola. A gente só fica junto.. mas só agora que me dei conta que foi você que os fez. mas sua simplicidade era adorável. Sentei-me na grama ao seu lado e também bebi um pouco. – Nova Castália é assim tão linda porque está cheia dos seus desenhos – eu disse – já tinha visto outros murais. – Não – ele disse – ela nunca fala nada. É óbvio que não vai me ver. – Obrigado.. Bem que eu queria ver a Dani outra vez. – Não fica incomodado com isso? – Na verdade não. bebendo golinhos d‟água. – Conversei com Navarro hoje.. Eu juro que se eu tivesse essa sua habilidade de desenhar. Optou por formar seu próprio Jogo em vez de ser um mero participante do Jogo oficial. Vi Barata pintando um mural enorme lá fora. – Vocês dois conversam sobre muitas coisas? – perguntei. Barata riu. ele me devolveu. Não sabia que você estava envolvido com a Amor Fati. Eu trazia um cantil de água na mochila. Devia ser assim mesmo que ele queria. preferia reinar no inferno a servir no céu. Me sinto em paz. por causa do Sol forte. Entreguei a ele. Apenas seguidores. 142 .. só ia ficar desenhando sem parar e me esqueceria para sempre do Jogo das Contas de Vidro. Ele estava usando um chapéu de palha enquanto desenhava. Eu nunca conseguia conversar com ela direito.

– Cale a boca – disse a professora – não permiti que falasse. como se estivesse achando ótimo o que tinha acontecido.A Era do Folhetim – Só estou envolvido porque Miguel me chamou – confessou Barata – pois não estou assim tão interessado. – Mas. Pedro Mendes. Ninguém gostava de Pedro. Tinha uma voz grave e penetrante. Eu só queria ficar quieta no meu canto. Ela era elegante.. Ninguém se atrevia a chegar um minuto atrasado na aula dela ou sair um minuto mais cedo. Pedro ficou da cor de um tomate. E saiu da sala. Eu odeio professores que fazem isso. Eu tive que repetir a disciplina sobre o estudo do significado dos símbolos. né? – Alguma vez nós brincamos com outra coisa? Será que era só eu que tinha um mau pressentimento sobre a sociedade? Alguns meses depois.. 143 . Sua expressão era de meter medo. tendo sido também um educador que deixou profundas influências morais em. a enciclopédia humana.. – Johann Albrecht Bengel foi um teólogo luterano nascido em 1687. Havia essa professora impressionante. Seus longos cabelos negros tinham fios brancos. O nome dela era Cláudia Garcia. Sabrina olhou na minha direção e vibrou. Ainda bem que Pedro não foi burro de discutir com ela. – Eles estão brincando com fogo. comecei a ter novas aulas. Eu já tinha ouvido muitas histórias sobre ela.. Ela já devia ter mais de cinquenta anos. – Odeio gênios na minha aula – ela prosseguiu – então pode se levantar e se mandar daqui. O olhar dela se parecia um pouco com o olhar da Dani: fuzilava qualquer um que a fitava. Um colega meu levantou a mão. – Hoje vamos falar sobre Bengel – disse a professora – quem gostaria de começar? Se ninguém levantava o dedo. Ainda bem que eu gostava do professor Peixoto. caralho. Tinha uma beleza madura. ela apontava para um aluno aleatoriamente e o mandava falar.

– Deixa eu te apresentar – disse Gio. porque o Miguel me obrigou – explicou Gio – mas achei tudo muito chato. Sussurrei no ouvido dela: – Você é membro da Amor Fati? – Deus me livre! – disse Gio – e que o Diabo também me livre. – Só passei para te dar um oi. Definitivamente eu não queria pisar lá. – Só fui num único encontro da Amor Fati. Ele é um bom líder e é inteligente o suficiente para coordenar um Jogo elevado e manter a ordem. me puxando pela mão. – São os puxa-sacos dele? – perguntei. – Vamos conversar lá fora – disse Gio. vi Gio entrar na sala. – Pior que esse grupo anda atraindo muita gente – prosseguiu Gio – quanto mais os boatos se espalham. Mas o Miguel convidou um monte de panacas. Uma droga. Ele anda saindo com uns babacas. – O que está fazendo aqui. Nos sentamos no chão. empolgada. – O Jogo não foi emocionante? – Foi sim. O problem é o tipo de gente que pisa lá. Tem até rumores sobre orgias e evocações de demônios. – Amiga! – exclamei. Tudo bobagem. que fornica com todas as áreas do conhecimento. abraçando a cintura da professora – essa é minha mamãe! Cruz-credo! Ela era filha da bruxa. Nós saímos do prédio.Wanju Duli Quando a aula da professora Garcia terminou e a maior parte dos alunos já tinha saído. Eles estão estragando tudo. mamys – disse Gio. confusa. Giovana? – perguntou a professora. Miguel sabe o que faz. – Mamys? – perguntei. – Onde tem andado? – perguntei – aquela tal de filosofia é tão quente assim? – É uma vadia – disse Gio – mais puto que ela só o teu Jogo. 144 . – Por aí – disse Gio – fazem tudo o que ele manda! E se acham os malvados fodões porque estão quebrando regras. E nós duas nos abraçamos. O Miguel só permite porque no fundo ele curte que eles o adorem como um Deus. mais gente se aproxima. perto da entrada. como se eu fosse uma patricinha.

aí sim que o pessoal enlouquece. que havia chegado naquele exato instante. – Também não sabia que ele era meu pai? – perguntou Gio. Agora ele vivia com um monte de gente ao seu redor. – Como foi ser Magister Ludi por um dia? – perguntou-lhe Gio. podem fazer o favor de sair? – Se pede com jeitinho. Quando Junqueira passou. – Sim. É raro um cara ser da altura do Miguel. – Você estão no caminho. – Porque o Arthur é um dos únicos amigos de verdade que o Miguel tem – disse Gio – e escreve o que te digo: o Arthur vai ser o único a defender o Miguel se der alguma merda. Na segunda-feira seguinte.A Era do Folhetim – O “Magister Umbra” – lembrei. Eles só fingem que não sabem pra manter a atmosfera de mistério. Essa era outra coisa que eu tinha presenciado. Ele sempre fazia uma primeira prova em que todos os alunos tiravam zero. eu finalmente conheci o lendário Gustavo Alvim: o professor conhecido como o mais terrível. sem levantar. Gio gritou. Todos os outros vão desaparecer quando o circo pegar fogo.. Eu e Gio levantamos. – Por que o Barata também dá corda? – perguntei. Já sua segunda prova era ligeiramente mais acessível. rindo. E agora. Estão bloqueando a entrada! Quem disse isso foi o Junqueira.. Durante o dia o Miguel caminha em bando com seus seguidores. Ainda bem que já fui para a aula sabendo disso. pai! Foi bom te ver! Junqueira fez uma careta e seguiu pelo corredor. – Eu não sei muita coisa ainda – conformei-me. E ele já é famoso sem o capuz. 145 . Mas no fundo todo mundo sabe quem ele é. – Uau – eu disse. em alto e bom som: – Tchau. Levantem daí. – Horrível – respondeu Junqueira – estou aliviado por ter me livrado desse fardo. apenas para apavorá-los. ou eu também teria me desesperado. ele está posando de Magister Ludi – confirmou Gio – e como ele não mostra o rosto e está sempre de capuz.

deve ter sido a aula mais longa da minha vida. dessa vez parecendo aliviado. sou o professor de hieróglifos do Jogo das Cofefe-cofe-cofe! Ele fez um som estranho que se parecia vagamente com uma tosse. De fato. com uma voz rouca misturada com acessos de tosses a cada dois minutos. Sabrina me lançou um olhar nervoso. – Para quem não me conhece. Sem escolha. Aposto que a segunda aula será diferente. Sua barba branca era bem crespa. ajeitando os óculos pequenos na face. 146 . Mas ele não parecia o Papai Noel. mas não era negro: era albino. – O que foi isso? – perguntou Sabrina – esse cara é mesmo professor daqui? Ou será que é um trote? – Ele é – garanti – mas deve ter dado a primeira aula inteira no idioma do Jogo só para assustar os novatos. Os olhos eram cinzentos.Wanju Duli Alvim era um sujeito muito gordo e baixinho. Ninguém nunca tinha se interessado em se aproximar o suficiente para conferir. era uma tarefa homérica. Eu já tinha uma enorme dificuldade em entender qualquer frase naquele idioma. Alvim não falou mais em português. parecia que tínhamos chegado ao paraíso. careca. – Efe-efe-cofe – ele prosseguiu – contas. com sobrancelhas longas e brancas. Devia ter mais de 90 anos. Parecia um demônio de olhos vermelhos. Pedro levantou-se e saiu. E da vida de todos ali. com um brilho meio vermelho. efe-cofe-fifofó! OFOFÓ!!! – Nós já entendemos. com uma barba extremamente branca. para ajudar – o senhor está falando do Jogo das Contas de Vidro! Alvim aproximou-se de Pedro e o olhou bem de perto. Com aquelas tosses. enchendo Pedro de cuspe – mas eu realmente detesto gênios. Quando fomos liberados da sala. uma cor indefinida. Ele tinha belos traços de origem africana na face. professor – disse Pedro. Depois disso. Então saia da minha sala. Parecia estar louca que aquela aula terminasse. Ele prosseguiu falando no idioma do Jogo. – Que menino mais inteligente!! – ele berrou.

Foi tão fácil que eu literalmente dormi. Não se tratava de nehuma brincadeira. E. pois era como se ela estivesse nos ensinando a somar dois mais dois. como os de Sônia. Então eu deixaria para começar a estudar a partir da segunda prova. Aquela primeira aula dela deixou todos boquiabertos. Quando acordei meia hora depois. isso é um número. Quase não tinha peitos. com sua voz suave. Ela começou a rabiscar no quadro. Muito interessante. Eu não sei direito o que ela estava fazendo. Nunca entendi absolutamente nada da aula de Alvim. E tinha longos cabelos negros em trancinhas. até onde eu sabia. – Astronomia pode parecer difícil. Só comparecia para contar presenças. mas antes de ensinar isso resolveu revisar aritmética e geometria. Mas ela tinha voltado um pouquinho demais nos fundamentos. mas vocês verão que ter uma boa base de aritmética e geometria tornará tudo bem simples – ela disse. Provavelmente a proposta dela era explicar a geometria euclidiana para alunos de jardim de infância. Ouvi dizer que ela tinha mais de quarenta anos.A Era do Folhetim Mas não foi. pois sabia que tiraria zero na primeira prova como o resto da turma. ela era nossa professora de astronomia. Todas as aulas dele eram daquele jeito. isso é um círculo”. 147 . Outra professora nova que tivemos foi Liliane Cavalcante. E assim foram minhas próximas semanas: Peixoto dava aulas exatamente iguais às que eu já tinha assistido e eu me sentia num déjà vu. ela ainda não tinha saído da mesma explicação de antes. A voz dela era tão meiga e calma que eu senti que dormiria. isso é uma linha. Era um completo mistério para mim se ele realmente estava dando uma aula ou apenas falando “Grawlrrgrrgblasrarrg”. Ela tinha um sorriso muito bonito. Eu nem me estressei. a única coisa que Cavalcante ensinou por duas semanas inteiras foi que 1+1 era igual a 2. Aquela mulher era tão lenta que tudo que ela fazia me dava vontade de pegar no sono. “Vejam. Ela era magrinha. mas ela aparentava bem menos. baixinha e negra. Ou seja. Estava sempre de bom humor e tinha um ar jovial.

o Jogo era exatamente uma tentativa de não estar no controle: sentir o espírito das contas. Podia ser que o Jogo não fosse assim tão grandioso quanto eu fantasiava. Gio e Barata já iam se formar. Eu não devia ter tanto terror assim perante o desconhecido. através de uma sessão de meditação ao sinal dado pelos sinos. tendo menos como objetivo a forma e 148 . As cerimônias se iniciavam na noite da véspera do Jogo. Porém. como se estivesse nos tratando como babacas. Não era apenas para isso que eu havia vivido até aquele dia? Feito tantos sacrifícios? Eu tinha um pouco de medo de me desapontar. seu sorriso era tão sincero que ela realmente devia achar que nós não sabíamos nada daquilo e que sua aula estava ajudando muito a fortalecer nossas bases. Mas antes disso.Wanju Duli No fundo. Foi então que eu lembrei da conversa que tive com minha professora. Aquele ano passou muito depressa. – Eles são como dois extremos de uma linha que nunca se encontram – falei. E aceitar as que não se encaixassem. E eu me localizava em algum lugar lá no meio. – Sua definição foi perfeita – assentiu Boaventura. entre os dois extremos. fosse para o bem ou para o mal. haveria a cerimônia do Jogo de Avelórios. Aquele seria um jogo do tipo psicológico. Quase como um Tao. Em breve. também chamado de pedagógico. Também há beleza naquilo que não se encaixa. Navarro. Eu finalmente teria permissão de assistir a uma cerimônia pública dos grandes jogos. Na verdade. o Jogo não era como eu imaginava. eu não deixava de achá-la um pouco irônica. Contemplar a beleza das peças do cosmo se encaixando em vez de encaixá-las à força. que no Brasil era na véspera de Ano Novo. Barata e Boaventura estavam ansiosíssimos para saber as minhas impressões sobre Alvim e Cavalcante. mas isso não era uma coisa terrível. harmonizar-se com o universo exatamente do jeito que ele era e não do jeito que eu gostaria que fosse. Por isso meu cérebro não era capaz de processar nem uma aula e nem a outra. Eu não precisava estar sempre no controle de tudo. Sim.

Este seria o ponto de partida e daí seria direcionado para a evocação das ideias próximas. Era a primeira vez que eu pisava lá. mas eu mal conseguia pensar nele. Sabia que estava cercada de algumas das pessoas mais importantes desse mundo e do outro. Um Jogo jamais era igual ao outro. Havia os trechos de silêncio. que entraria numa profunda meditação sobre as representações polidimensionais do Jogo das Contas de Vidro. Realizaríamos alguns jejuns prolongados. Após o som dos sinos. somente recitações ou uma combinação de música e recitação. Era minha primeira vez. A obra de Scarlatti continuava a tocar ao fundo pelos mais elevados jogadores conhecedores da música. A Sombra da Venerável correu a cortina em volta da Mestre. Seria a manifestação da arte e do creator spiritus. Havíamos meditado sobre o tema do Jogo.A Era do Folhetim mais a emoção da perfeição e do divino. aqueles em que somente havia a música. tamanha era minha ansiedade. A Venerável Mestre traçou no quadro o código cifrado do Jogo com seu estilete de ouro faiscante. comendo pouco e somente alimentos simples e permitidos. Viveríamos uma vida de rigorosa abstinência ao longo dos próximos dias. No dia seguinte pela manhã ocorreria a primeira fase do Jogo: aquela das representações musicais. mas eu havia preparado meu corpo e minha mente. que seriam dois: trechos do “Três Diálogos entre Hylas e Philonous” de George Berkeley e a composição “Fandango” de Domenico Scarlatti. eu também conseguiria. Foram anunciados os temas em detalhes. Quase não consegui dormir naquela noite. Todos mergulharam numa profunda meditação no interior da célebre sala oficial dos Jogos. todo o recinto ficou em silêncio. No fim do primeiro ato evocou no quadro a fórmula repleta das leis intangíveis do Jogo. mesmo que se iniciassem a partir dos mesmos temas e tivessem os mesmos jogadores. a ocasião sublime: a entrada do Magister Ludi vestido de branco e ouro no tabuleiro solene dos símbolos. Se os ouvintes do mundo secular conseguiam suportar. faríamos um voto de silêncio e meditaríamos por longos períodos. 149 . Finalmente.

Os atores vestiam trajes ao estilo da época. As obras.Wanju Duli De repente. Tornou-se um coro e ele era cantado pelos mestres eminentes. Nº8”. Contudo. contanto que a harmonia fosse mantida. O início do Jogo era previamente programado. matemático e plano. mas agora David Hume era cantado mais alto: “Diálogos Sobre a Religião Natural”: somente trechos selecionados que se harmonizassem com a música. você vai manter isso como um hábito Que o seu produto deve sempre ser igual Precisamente para o cubo de um terço das coisas. tanto as musicais quanto as filosóficas e literárias. a Magister Ludi dirigiu-se ao quadro negro e passou a dar explicações matemáticas sobre a obra de Tartaglia. Num momento ideal de “La Galatea”. Em certo momento houve não somente a recitação. Nesse caso. mas a atuação do poema “La Galatea” de Miguel de Cervantes. mas ora andavam para frente. num barítono. 6. Após as demonstrações. A música agora era “Arcangelo Corelli”: “Vivace-Grave e Allegro do Concerto Grosso em sol menor Op. ao menos o começo do primeiro dia. que começava assim: Quando o cubo e coisas juntas São iguais a um número discreto. O mais importante era ter ganchos que conectassem uma obra e outra. ora para trás. que rumo o Jogo tomaria ninguém nunca sabia ao certo. localizavam-se mais ou menos no período Barroco. 150 . a recitação passou a ser entoada e transformou-se em outra coisa. havia se partido do período Barroco. como se o sabor do tempo não corresse de forma retilínia: não somente um presente eterno. Berkeley continuou a ser recitado baixinho no fundo. houve a recitação da troca de cartas entre Tartaglia e Cardano. Encontre outros dois números diferentes em um presente. Em seguida. mas não havia problema algum em se retroceder alguns séculos ou se avançar. seguido da recitação subsequente do poema de Tartaglia.

história. pois nunca se sabia para onde o Jogo os direcionaria. já que o Jogo era produto da atuação de cada um dos jogadores. um dos jogadores começasse a recitar um poema de Gregório de Matos. Os jogadores não sabiam de antemão o que o outro ia fazer. Não era como ensaiar uma peça de teatro ou um concerto sinfônico. sua emoção e principalmente seu espírito. no teatro ou em muitas outras áreas possíveis. pois a qualquer momento um deles poderia ter uma proposta ousada que os outros teriam que seguir. de repente. Se. O fato de haver muitos auxiliava que o Jogo se estendesse por um longo período. ou mesmo estudaram explicações de matemática ou física. a dança. precisava ser coordenado por um Magister Ludi muito competente. o outro teria que pegar um gancho e seguir com um segundo elemento semelhante. Ele introduziu um simbolismo no meio do Jogo que tinha relação com o Barroco. mas que provavelmente era de um artista de mais de 500 anos depois. cujas características mais importantes não deviam ser apenas ter um profundo conhecimento sobre diversas áreas do saber. “Seu filho da puta” era o que deviam estar pensando. mas principalmente ser 151 . mas. com muita graça. O mais parecido com isso era aquela brincadeira de pensar numa palavra com a última letra da palavra que a outra pessoa falou. mudavam harmoniosamente o tom da música para que se encaixasse. havia oito jogadores além da Magister Ludi e sua Sombra. filosofia. Aquilo era totalmente permitido. uma cadência bem pensada. Aquele estudo era preciso. sem falar na música. Em compensação. alterando também a recitação. Eu vi a expressão dos outros jogadores quando Peixoto fez aquilo. decoraram trechos longos e inteiros de livros de literatura. para que o Jogo mantivesse sua lógica. Devia-se sempre manter um ritmo. os mestres eminentes previamente estudaram a fundo nos meses anteriores várias obras relacionadas ao período. quanto mais jogadores mais instável o Jogo se tornava.A Era do Folhetim Uma vez decididos os dois temas iniciais. pois o Jogo não podia parar por muito tempo. Inclusive. Eu sabia que o professor Fábio Peixoto era um grande fã de pregar uma dessas peças e pude presenciar ao vivo o momento em que aconteceu. Era comum que alguns fizessem brincadeiras para se aproveitar disso. Porém. Nessa ocasião.

Meditar também tem forte apelo emocional. Esse Jogo em particular durou seis dias. Confesso que eu perdi muitos dos encaixes e explanações. nosso espírito. Jejuns longos já nos deixa alterados. Depois 152 .Wanju Duli justo com todos os jogadores e valorizar mais a harmonia do grupo do que o destaque de apenas um. a duração era em torno de uma semana. Some-se a isso uma série de demonstrações da cultura clássica. A matemática e a música eram como o esqueleto que sustentavam todo o resto. Uma das maiores emoções de assistir a uma partida do Jogo das Contas de Vidro era presenciar o momento em que as coisas se encaixavam: mais especificamente. Era tudo muito bem pensado para nos gerar um êxtase maior do que qualquer coisa que conhecíamos. consequentemente. Antigamente os Jogos duravam longas semanas. Ou seja. Eu não estava acostumada a comer de maneira tão frugal e a realizar meditações tão longas. geralmente tidas por um grande número de pessoas como inegavelmente sublimes e belas. não participássemos diretamente nas escolhas de temas e passagens. mas isso raramente era feito. as transições de uma música para um poema ou de uma explicação matemática para uma demonstração de química. assim como nossa mente e. Atualmente. pelo menos era requisitada a presença do Venerável Mestre. E ali estavam pessoas que dedicavam a integridade de suas vidas para encaixar as coisas e nos proporcionar aquele espetáculo divino. Os jogos públicos de Castália normalmente eram realizados por no mínimo três jogadores. A carne eram as diversas áreas do conhecimento e a pele que as cobria os hieróglifos do Jogo. Depois passaram a durar 10 ou 15 dias. era possível jogá-lo sozinho. que possuíam uma gramática própria. Elas se encaixam. Por isso Castália valorizava o ideal do anonimato: porque o Jogo de Avelórios era jogado por um grupo e não por uma única pessoa. Embora nós. mas isso se deveu principalmente ao meu desconhecimento dos hieróglifos. Tudo faz sentido: nossa vida se encaixa com o cosmo. pois nosso corpo estava alterado. Sim. As religiões sabem disso muito bem. nós vivíamos o Jogo. que éramos apenas plateia. da Sombra e de mais um mestre eminente.

Eu não seria mais capaz de retornar. Nem mesmo a emoção que eu sentia ao ler livros se comparava àquele balanço da alma que envolvia meu ser inteiro. A mente pode esquecer de uma sensação. como se minha alma vazasse pelos olhos. sentindo meu corpo inteiro formigando. “Ela está perto da morte. com voz fraca. Mas agora não tinha mais volta. Vamos começar a percorrer seu ser inteiro para levá-la ao outro mundo”. aquela tinha sido minha iniciação: eu havia rompido a barreira e penetrado em outro mundo. Minha mente fervilhava ao contemplar a inteligência daqueles gênios bastardos que eram os meus professores.. Tratava-se de um caminho só de ida. Quaisquer traços de desconfiança tinham se apagado. E aquele êxtase que eu sentia era minha alma penetrando em cada átomo do meu corpo. nem se desejasse. eu poderia retornar à minha velha vida ou mesmo à minha bela literatura. sem mal conseguir caminhar. como não sentir o espírito? Nós o sentíamos mais forte do que nunca. E ali. Eu ainda estava num estado de quase desmaio. Ao mesmo tempo. O que era aquele sentimento inexplicável? Cansaço extremo do corpo. eu me sentia tão cansada que achei que poderia morrer. – Que está fazendo aqui. Aquelas criaturas que eu via no dia a dia fazendo piadas escrotas em aula agora me pareciam Deuses. Mais do que assistir a meu primeiro Jogo. Mas o espírito nunca mais esquece após ser tocado. Confesso que derramei lágrimas de êxtase em diferentes ocasiões ao longo das celebrações.. fadiga da mente. Se ao menos eu não tivesse conhecido aquele prazer. 153 . Foi quando senti alguém tocar minha mão.? – perguntei. Pensei que fosse Sabrina. Eu estava com uma expressão vazia. O corpo pode esquecer de uma dor. se eu não soubesse que fosse possível. eu senti mais lágrimas. Não havia mais a mínima dúvida dentro de mim.A Era do Folhetim de passar seis dias naquela reclusão ascética. quase caída no chão. em todas as suas dimensões. Era como se minha alma percebesse que meu corpo e minha mente estavam falhando. me dando aquele calafrio. quem me abraçou foi Sônia. Estava consciente de cada pequeno pedaço do meu corpo. Ela estava chorando também. eu me sentia mais viva do que nunca. Porém. Dessa vez elas vieram como um mar. Com a finalização das celebrações.

Pensei que eu fosse precisar de umas 15 horas de sono para me recuperar daquela experiência de quase morte. Eu precisava de comida de verdade e de uma longa noite de sono. consegui me levantar. Pronunciar isso me dava uma inexplicável alegria.. Eu ri.. 154 . – Eu disse que pretendia sair de Castália depois que me formasse aqui – disse Sônia – mas agora decidi que não vou mais. – Obrigada. Maria. pois fui a melhor de minha classe – contou Sônia. “Morrerei aqui”. Porém. Ter a Sônia ao meu lado no momento mais importante da minha vida era muito mais do que sonhei. – Consegui um ingresso especial para assistir ao Jogo. Era normal que muita gente fosse discutir o Jogo e debater as jogadas logo depois que ele terminava. Morarei aqui para sempre. apenas as sete horas habituais já fizeram o serviço. Finalmente. ainda com voz rouca. Eu me sentia como alguém que nunca praticou esportes e de repente decide correr uma maratona por horas seguidas: cada parte do meu corpo parecia quebrada. orgulhosa. Isso era forte. eu jamais teria chegado tão longe. Tomei um café da manhã reforçado no refeitório e já me sentia muito bem. Ela riu comigo. Nem mesmo eu havia planejado minha vida tão longe. – Castália será nosso túmulo – eu disse.Wanju Duli Fazia seis dias que eu não usava minha voz. Mas quem fazia isso era quem já jogava há muito tempo. Ou mesmo se tivesse pisado. então ele queria aproveitar cada momento como aluno em Cela Silvestre. já as teria abandonado há muito tempo. – Maldita. Em apenas dois meses Barata iria se formar. Não teria nem mesmo pisado nas escolas preparatórias. que estavam muito animados enquanto comiam seus ovos com bacon. ainda sem ter certeza se eu me recordava como se ria. Sentei-me com Barata e Boaventura. Se não fosse você. Foi estranho ouvir a mim mesma outra vez. É tudo que posso dizer. Nos levantamos juntas. Morrerei aqui. – foi tudo que consegui dizer.

155 . Aquilo continuaria a ser comentado por pelo menos mais uma semana. Eu não sabia que ele era assim tão bom. – Quem era aquele pintor que o Peixoto enfiou no Jogo? – perguntou-me Sabrina. obviamente. Ele fez uma obra bastante realista inspirada no Renascimento. – Eu juro que vou acertar aquele peixe com uma vassoura – ela falou graciosamente. na qual se busca uma utópica harmonia densa perfeita. sinceramente. Essa querela de forma! Eu teria mais uma aula com Liliane Cavalcante em janeiro. Mas. Agora eu entendia melhor as expressões de horror dos outros jogadores quando a viram. – Peixoto detesta Deus? – perguntei. A pintura deve ter gerado um nó no cérebro de todos os participantes.A Era do Folhetim – Vocês viram a cara do Junqueira quando Peixoto fez aquela troça no segundo dia? – perguntou Barata – e repararam que o Junqueira contra-atacou para se vingar? – Eu reparei – disse Boaventura – ele meteu o Georg Cantor no meio. E. Ela estava. – É pior – disse Boaventura – ele detesta o Infinito Absoluto. – Magnífico Jogo. – Não tenho a menor ideia – eu disse – não há internet aqui e a maior parte das informações dos livros são dos célebres nomes do século XXI para baixo. já que o Cantor é do século XIX – disse Barata – e as crianças queriam ficar pulando corda apenas no Barroco e nos arredores. Dessa vez. A Domine deixou bem claro que este era um Jogo psicológico. Posteriormente descobrimos que aquela pintura havia sido feita pelo próprio Peixoto. fiz uma breve reverência. se referindo a Peixoto. – Digamos que essa intervenção gerou uma interferência. essas coisas são mais relevantes na versão formal do Jogo. que se perguntaram: “Quem diabos é esse pintor?” e ninguém queria admitir que não sabia. sobre problemáticas de nível intermediário do Jogo. Domine – eu disse. O Peixoto detesta o Cantor. colocou a própria pasta na mesa. então disfarçaram. porque ele relaciona o Infinito Absoluto com Deus. sorrindo. Quando a vi entrando pela porta.

enquanto na Inglaterra o foco está na analítica. É quase como uma guerra entre razão e emoção. vai se dar muito mal. Eu preferi não me meter na discussão. ele se encaixava perfeitamente como Sombra. Por isso até hoje o Brasil foca nas versões psicológicas do Jogo. Se você continuar falando isso em voz alta por aí. tinha abdicado de sua vontade de tornar-se Magister Ludi um dia. Eu estava olhando para ele de forma diferente agora. Só por causa da lenda do Josef Knecht.Wanju Duli Realmente.. – Cara. Pensando bem. também fiz uma breve reverência. que quando criança foi pessoalmente instruído pelo lendário Magister Ludi Josephus III. estou de saco cheio. o Magister Ludi alemão. 156 . – Não sei porque o Miguel ainda não o expulsou da Amor Fati – comentou Boaventura. Você considera negativa a influência alemã? – Não é que eu considere negativa – explicou Boaventura – mas por aqui só se fala na Alemanha: os Jogos alemães. – Eu acho que a Nova Castália brasileira é muito influenciada pela sede alemã – comentou Boaventura naqueles dias – o Jogo teve origem na Alemanha e na Inglaterra e os dois países seguiram estilos diferents. – Eu sei porque você está zangado – Barata sorriu – é por causa daquele amigo do Navarro: Tito Designori. Boaventura fez uma careta.. Quando fitei Alvim no corredor. cala a boca – disse Barata – não julgue um país por causa de uma única pessoa. Basta olhar para a filosofia: na Alemanha e na França predomina até hoje a filosofia continental. num tom de voz ligeiramente mais baixo – esses alemães chegam no Brasil pensando que aqui é tudo festa e não precisam cumprir regras. sinceramente. Fazer isso numa cerimônia oficial pública do Jogo era extremamente ousado. Eu tiraria meu chapéu para ele. Mas até parece que ele ligava para isso.. Para isso.. – Eu acho que essa divisão entre filosofia continental e analítica gera uma segregação desnecessária – comentou Barata – e essa separação também se reflete no Jogo de Avelóros. Mas não sei se entendi seu comentário. enquanto na Inglaterra o formalismo é preferido. o professor Peixoto era um gênio.

157 . já que as notícias chegam de forma lenta aqui em Castália. – Você sabe como as pessoas são – disse Barata – se existerem cem coisas para se fazer no mundo. Ainda assim. É costume que livrarias e bibliotecas sejam rigorosamente vigiadas pelas autoridades em muitos países.A Era do Folhetim Havia muitos estrangeiros na nossa Castália. mas o papa recentemente promulgou uma nova versão do Índice dos Livros Proibidos. – Cuidado com o que deseja – ele disse – você sabe que livros já foram proibidos e ainda o são até hoje. Barata respirou fundo. Éramos estudantes das escolas preparatórias quando aconteceu e por isso a notícia não chegou aos nossos ouvidos. mas o cristianismo não está muito atrás. – Index Librorum Prohibitorum – pronunciou Barata – embora formalmente abolido em 1966. Embora eu pessoalmente não tivesse feito amizade com nenhum estrangeiro com exceção da Mariel. As pessoas só têm olhos para as diversões caras e brilhantes. elas não vão tirar os olhos dessa única coisa. Só porque é grátis e acessível ninguém quer saber. A Sônia me contou que tinha uma professora da Colômbia e outra de Cabo Verde. Preferem até os livros bonitos e cheirosos das livrarias mesmo que tenham que pagar por eles do que retirar um livro amarelo e feio de uma velha biblioteca esquecida. 99 delas forem permitidas e apenas 1 proibida. – Tenho uma ideia – eu disse – vamos proibir as pessoas de lerem livros! Os livros sempre estão lá de graça nas bibliotecas. – É tão mais legal assim jogar o Jogo das Contas de Vidro incluindo jogadas proibidas? – perguntei. – Do que está falando? – perguntei. mofando. a minha antiga tutora das escolas preparatórias que era das Filipinas. Eu lembrava que tínhamos uma professora austríaca chamada Lisa Bauer. Nem vou falar de certos países islâmicos em que isso já é rotina há alguns séculos. O islamismo é a religião que mais cresce no mundo hoje. mas ainda não havia tido aula com ela. retornou com alguma força alguns anos atrás. a maior parte da população de Nova Castália ainda era de brasileiros. Não sei se você está sabendo. eu sabia que existia uma xenofobia velada em Castália.

Ele pretende formar uma força de resistência? 158 . – Teoricamente. Por essa razão. – Você quer dizer. – De uma forma bastante heterodoxa e indireta. Inclusive. a Inquisição? – perguntei. – Sempre os dominicanos. a Inquisição ainda persiste até hoje. Pode ser que não toquem em nossos acervos ou nos Arquivos do Jogo. Não sei porque colocar números nesse amor. – Entendi porque Navarro fundou essa sociedade secreta – falei – foi como uma reação ao Tribunal do Santo Ofício. Não quer que seja promovido o amor baseado na intelectualidade dos seres humanos e sim que se fortaleça o amor entre nós e o divino. um ano atrás foi feita uma exigência para que nas cerimônias formais dos Jogos da Província seja mostrado um número mínimo de obras com influência católica. Porém. você sabe que os dominicanos estão por trás disso. Digamos que os dominicanos representam o lado intelectual da Igreja Católica: eles amam os livros.. O Martelo das Bruxas renasceu das cinzas. – eu disse. Muitas obras clássicas do passado possuem forte influência religiosa e nós as amamos naturalmente. mas por outro nome: “Congregação para a Doutrina da Fé” – disse Barata – sobre ela e o Malleus Maleficarum. são apaixonados pelo estudo. sem muito esforço. não é? Eu suspirei. eles diriam – falou Barata – mas isso não é o pior. – Essa exigência fere nossa liberdade – argumentei – além do mais. os inquisidores que compilaram o Malleus Maleficarum eram dois alemães membros da Ordem dos Pregadores: Heinrich Kramer e Jacob Sprenger.Wanju Duli – O que isso significa para Castália? – perguntei – vão proibir obras em nossas bibliotecas? E o que vai acontecer aos nossos Jogos? – Isso ainda está sendo negociado – disse Barata – o Vaticano está tentando ser razoável. – O Jogo já promove isso – eu disse.. muitos deles apreciam a beleza do nosso Jogo. – Você está sendo romântica – comentou Boaventura – a Igreja não está interessada em romance. – Calma – disse Barata – é exatamente por causa dos dominicanos que o Vaticano e Castália possuem uma relação tão boa. isso já é feito normalmente.

No entanto. como se fôssemos o único ser no mundo e somente meu prazer momentâneo importasse. Navarro e Gio se formaram. as novas diretrizes impostas pela Igreja estavam ameaçando tanto nossa liberdade individual quanto a nossa liberdade como grupo. ele apenas retornaria para a segurança de sua abastada família. Thomas von der Trave. ele será imediatamente excomungado – disse Barata – mas. porque o termo “liberdade” é incrivelmente sedutor. Josef requisitou um período maior de estudos livres. E. Em Castália não éramos apenas uma existência independente: éramos um grupo. Normalmente durava alguns meses. acima de tudo. eu diria que essa seria a coisa mais segura que pode acontecer. de fato. “Vou fazer o que quero”. poucos meses depois. mas poucos. cá entre nós. Os jovens. Afinal. os estudantes. estão sempre ardentemente desejando as férias e a liberdade. Porém. já que esse período não poderia se estender além da conta. isso deveria ser discutido com o Magister de cada escola. ela poderia evitar ser individualista. ele permanecera pelos últimos 12 anos estudando música nas escolas de elite preparatórias e nas Grandes Escolas de Elite. Havia um trecho que relatava uma conversa que Josef teve com o Magister Ludi da época.A Era do Folhetim – Se as autoridades de Castália descobrirem o que Miguel está tramando. mas não soube dizer o quanto. 159 . Josef” Agora eu já podia retirar livros de certas bibliotecas restritas de Vicus Lusorum. Após finalizar seus estudos em Castália. Era preciso harmonizar os dois: o eu e o outro. Contudo. como me disse Sônia uma vez. Barata. Eu estava lendo a biografia do Magister Ludi Josephus III. Caso Navarro fosse excomungado. normalmente dois ou três. mas em casos especiais podia ser estendido por alguns anos. seria aceito como professor de música em qualquer universidade brasileira. “Algum tempo? Quanto tempo? Ainda falas a linguagem dos estudantes. Agora eles teriam direito a um período de estudos livres. mas isso não significava que não pudesse ter sua individualidade. “por algum tempo”. Seria uma estrela lá fora e teria uma carreira de sucesso. Com o diploma de Castália que ele estava prestes a receber.

tanto Barata quanto Navarro decidiram continuar em Nova Castália. mas bem que eu gostaria – eu disse – me preocupo com a sua segurança. Você está envolvendo outras pessoas nisso”. Ela retornou nos contando como eram os Jogos na Grécia. – Ah. cuidado para não ser pisado pelo pé de Maria – provoquei. E Barata quis continuar também para apoiá-lo. Ela havia se tornado papisa há pouquíssimo tempo. mais do que pintor agora sou jogador de Contas de Vidro. – Isso é uma ameaça. Eu sabia porque Navarro iria permanecer: por causa da Amor Fati. – Não se preocupe. Eu já havia completado metade dos meus estudos e Gio estava de volta. que seriam o equivalente a um tipo de pós-graduação na visão secular. – disse Barata – além do mais. pensei. Que tal viajar como informante. Porém. A teimosia dele não tinha limites. eu quase esqueci que “viajar” é considerado um ato muito mundano pelos Deuses de Cela Silvestre – zombou Navarro – é mais divertido continuar escondido na casinha e ser um cachorrinho adestrado da Igreja. – Se você quer ser uma cobra.. mas Navarro ficou puto. Navarro me fitou com o canto do olho. Mais um ano se passou. No entanto. Arthur? Você é pintor e pode dar a desculpa que deseja estudar a arte renascentista. – Não quero ir para a Itália. Maria? Pretende me delatar? – Não. pois eu não me preocupo – disse Navarro – comecei isso porque quero e pretendo lidar com as consequências. Por conta disso. que havia sido educada na Ordem dos Pregadores. – Você devia ter ido para a Itália – disse Navarro – para averiguar como anda o processo de castração por lá. Todos os três recusaram o período de estudos livres e iriam prosseguir em seus estudos. nesse ano teríamos uma convidada especial: a papisa Catherine I. “Não é bem assim.Wanju Duli Gio decidiu que permaneceria na Castália da Grécia por um ano e depois retornaria para o Brasil. o 160 .. Mas não adiantava mais argumentar. Seria a terceira cerimônia de Jogos que eu assistiria. Mais um ano se passou.

Ele estava com suas velhas olheiras. Sim. senti uma sensação horrível no peito. Já fazia mais de dois séculos que a Igreja estava aceitando mulheres como pregadoras nos púlpitos das igrejas e mais de um século que mulheres podiam se tornar papisas. É claro que sempre tinham aqueles que ainda preferiam optar pelo celibato. Quando as cerimônias do Jogo foram oficialmente finalizadas.A Era do Folhetim Jogo daquele ano pretendia homenagear figuras como São Tomás de Aquino. Só mudaram a denominação e tradução para “Martelo dos Malfeitores” ou “Martelo dos Hereges”. No entanto. Quando ele me disse isso. Estava evidente que o maior interesse daquilo era agradar a nossa singular visita de honra. – A papisa chamou o Miguel para conversar. Foram nove dias de fervoroso catolicismo no Jogo das Contas de Vidro. Boaventura foi me procurar no refeitório. São Domingos de Gusmão. como era o caso dos papas e dos monges que compunham o clero regular. embora ainda houvesse muita luta pela frente. As referências eram quase que integralmente católicas. na prática. Catherine era a segunda mulher a conquistar esse posto. apesar de todas essas conquistas. Inclusive havia alguns padres gays e freiras lésbicas que podiam se casar pela Igreja. 161 . Ela assistia ao nosso Jogo com muita atenção. As mulheres e homossexuais já tinham conquistado muitos direitos no século XXIII aos olhos do Vaticano. O Index e o Martelo das Feiticeiras estavam de volta a todo vapor. Afinal. Catarina de Siena e Rosa de Lima. já fazia dois séculos que uma porção do clero conquistou o direito de se casar: era uma nova divisão do clero secular. resolvi meditar sozinha no meu quarto para sentir o espírito daquilo que fora mostrado. Os homossexuais também já podiam se casar na Igreja Católica. Antigamente eu me queixava tanto disso e atualmente a prática havia se tornado uma necessidade diária. A presença da papisa na nossa cerimônia me enchia de suspeitas. eu havia me acostumado a meditar. alguns preconceitos ainda persistiam. Não parecia ter dormido nada e me fitava com olhar apavorado. Na manhã do dia seguinte. Além disso. Ela também era a terceira pessoa negra a assumir tal posição. já que tanto homens como mulheres podiam ser condenados.

Ela é uma doutora da Igreja. ele havia quebrado leis sagradas. É óbvio que ela entende o ponto de vista de Miguel a respeito das proibições: o motivo de ele fazer o que fez. com desânimo – tudo que sei é que os dois tiveram uma longa conversa ontem à noite. conhece áreas a fundo: teologia. os pais não podem deixar isso passar assim. Uma mulher inteligente como ela entende que isso não é mero vandalismo e provocação. Ela é uma mulher respeitável. Embora não pareça. Outra coisa bem diferente era contatar o Vaticano e contar a respeito do líder de uma sociedade secreta que andava fazendo jogadas proibidas pelo Santo Ofício. Miguel é uma pessoa muito razoável quando se propõe a conversar a sério. – Ninguém sabe – respondeu Boaventura. tem um conteúdo e um propósito maior. Miguel foi derrotado. muito conhecimento e experiência de vida. – Então... mexendo as mãos nervosamente – mesmo que a papisa quisesse deixar passar. Tem mais de 80 anos. isso estava acontecendo no coração de Castália. É a representante máxima dessa instituição poderosa que é a Igreja. Maria – disse Boaventura. Para piorar. Isso só iria gerar uma excomunhão. Não creio que ele tenha falado o que não devia na frente da papisa. Mesmo se uma criança desobedece seus pais para ajudar um amigo. Não importava o quão inteligente Miguel fosse e o quão nobres fossem suas intenções. a papisa só precisou pronunciar um único nome: Immanuel Kant. ele não será punido? Perguntei isso por perguntar. ela não pode. – Ele perdoa. Isso encerrou o assunto. Devem educar a criança e mostrar que regras são regras e que não se pode agir livremente baseando-se apenas nas exceções. E esta Igreja tem leis que estão acima da vontade individual da papisa de perdoá-lo. filosofia. – Não é assim que o mundo funciona. 162 . Sabe das coisas. – O Deus deles não perdoa? – perguntei. história. ela faz parte de uma instituição maior do que ela mesma. mas também é justo – respondeu Boaventura – mas o que é a justiça? Para explicar isso a Miguel. Uma coisa era delatá-lo para Castália.Wanju Duli – Quem foi o traidor que o delatou para a Igreja? – perguntei. Assim como nós em Castália.

A Era do Folhetim
Eu ainda me lembrava do eco do que Carlos me disse quando eu
tinha 13 anos e inventei uma bobagem sobre uma tartaruga: “Está
familiarizada com o Imperativo Categórico?”.
– Os mandamentos são absolutos e não permitem exceções – disse
Boaventura – porque são máximas morais. Tanto a religião como Kant
se baseiam no idealismo. O cumprimento de uma lei não tem como
objetivo estender uma vida humana ou gerar mais lazer e conforto para
uma única vida e sim tornar os homens morais. A papisa quer usar
Miguel como exemplo para mostrar o poder de Deus.
– A papisa vai matar o Miguel? – perguntei, assustada.
– Ela não vai matar ninguém. Eu vou repetir: a papisa não faz nada
por amor a ela mesma ou por emoções passageiras como raiva ou
vingança. Ela é a representante de uma instituição. A Igreja coloca-se
apenas como porta-voz da vontade de Deus: “Seja feita a Tua vontade e
não a minha”, não é isso o que dizem? Em Lucas, se não me engano.
Eu nunca tinha lido a Bíblia, então não sabia. Pelo menos não inteira.
Como estudante de literatura, eu tinha a obrigação de conhecer pelo
menos um pouco do que havia no livro mais lido do mundo.
– Então Deus pode matar? – perguntei – Ele pode ir contra os seus
próprios mandamentos divinos?
– Os mandamentos foram feitos para os seres humanos imperfeitos.
O Deus da Igreja coloca-se acima do conceito de bem e mal humanos.
Deus e seus mensageiros podem exercer a justiça divina porque eles não
adoram o materialismo. A Igreja não enxerga o corpo como mais
sagrado que a alma. A carne pode morrer para salvar o espírito e
purificá-lo.
– Miguel é um herege e precisa ser purificado – eu disse, sem
acreditar – apenas porque ele realizou as jogadas proibidas. Afinal de
contas, que jogadas foram essas?
– Maria, você não compreende a visão da Igreja porque foi educada
no paradigma de sua época – explicou Boaventura – nós vivemos numa
sociedade ocidental que inventou os direitos humanos para proteger o
corpo e a mente das pessoas. Os tais direitos humanos são baseados
numa visão materialista da realidade que não considera o espírito.
– Então você concorda com essa merda?! – gritei, fora de mim – vai
permitir que matem o Navarro sem mover um dedo?!
163

Wanju Duli
– Eu não disse que concordo – falou Boaventura – estou apenas
tentando compreender o ponto de vista do Vaticano. É claro que não
vou tentar compreender a visão de Deus, pois é algo acima de mim
mesmo.
– Você acredita em Deus?
– Eu acredito. Você não?
– Não sei – respondi – o Vaticano já foi corrompido por interesses
políticos antes. São seres humanos imperfeitos tentando interpretar um
Deus perfeito. É claro que podem se enganar.
– Qualquer um pode se enganar: um médico, um engenheiro, um
bombeiro. Isso pode gerar muitas mortes que poderiam ter sido evitadas
se fôssemos perfeitos. Mas não somos. Nem por isso a profissão dos
advogados e juízes será extinta. Eles fazem o melhor que podem para
defender e julgar as pessoas com justiça. Os sacerdotes estudam muito
para interpretar as leis de Deus. Sim, cometem erros. Mas os acertos
compensam, pois eles guiam as pessoas para que possam ter uma vida
mais ética.
– Seus valores estão invertidos – eu disse – a vida humana sempre
vem em primeiro lugar. Nada justifica uma morte!
– Nem mesmo morrer para salvar alguém? Engraçado, pois esse ato
geralmente é aplaudido. Inclusive atos mais absurdos que esse são
aplaudidos pela sociedade ocidental, como os heróis de guerra que
matam milhares. Você acha mesmo que os direitos inventados pela
sociedade em que vivemos são assim tão puros? Até hoje há pena de
morte, que é aceita por muitos quando envolve um atentado ao corpo,
como estupro, tortura ou assassinato. Exatamente porque o corpo é tido
como a entidade máxima na sociedade materialista! Então eles matam
aqueles que destroem o corpo, mas aceitam os destruidores de espírito.
– Miguel é um destruidor de espírito, o que o torna pior que um
assassino, torturador ou estuprador – repeti, tentando acompanhar o
raciocínio absurdo.
– Eu não estou defendendo a porra da Igreja! – berrou Boaventura,
completamente alterado – só estou tentando te fazer aceitar essa horrível
realidade que não pode ser mudada. Eu quero te fazer entender, para te
impedir de fazer uma besteira como a que Barata fez.
Eu fiquei sem fala.
164

A Era do Folhetim
– Alguma coisa aconteceu e você está enrolando para me dizer –
concluí – porque estamos filosofando sobre moral agora? Diga logo o
que aconteceu ontem!
– É exatamente o que você pensa – disse Boaventura – Miguel foi
condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Sua pena é a morte pela
fogueira da Inquisição.
– Ele morreu?! – perguntei, chocada.
– Ainda não – respondeu Boaventura – será uma cerimônia pública.
Miguel assumiu sozinho toda a culpa pela sociedade secreta. Nenhum de
seus membros foram incriminados. Porém, Miguel pediu por
misericórdia.
– Ele tem esse direito? – perguntei.
– Ele não sabia se tinha ou não. Apenas colocou a testa no chão e
clamou, aos prantos, para que a papisa poupasse sua vida.
– Essa bruxa não cedeu nem depois de ele se humilhar? – perguntei,
escandalizada.
– Ela disse que o perdoava, mas que ele precisava passar pela
purificação do Espírito Santo, que é pelo fogo.
– Os católicos perdoam as prostitutas, os assassinos, mas não
perdoam os jogadores hereges de Contas de Vidro – concluí.
– Isso porque, na visão da Igreja, existe algo chamado pecado venial e
pecado mortal. O venial é aquele que mesmo que se acumule não se
transforma em pecado mortal. O pecado mortal é aquele que tira a graça
divina da alma humana, rompendo o contato com Deus. Pode-se pecar
contra o Pai ou contra o Filho, mas não contra o Espírito Santo.
– Então, na visão da Igreja, Miguel perdeu sua possibilidade de
salvação – concluí – e se ele se confessar?
– Ele poderia confessar e fazer penitência, mas ele se negou a isso.
OK, agora Navarro estava sendo burro.
– Ele prefere ser queimado do que admitir que fez algo errado? –
perguntei, impressionada.
A teimosia dele estava ultrapassando os limites. Ia morrer por mero
orgulho?
– Como eu disse, ele meteu a cara no chão e chorou, pedindo perdão
– explicou Boaventura – mas mesmo pedindo desculpas, continuou
insistindo que não tinha feito nada que seria digno de repreensão. Além
165

Wanju Duli
do mais, ele não reconheceu a doutrina de Deus ou da Igreja diante da
papisa.
– Na prática, ninguém precisa ser queimado, pois basta confessar –
eu falei.
– Não é bem assim. Você não sabe como o ser humano pensa,
Maria? É muito difícil admitirmos que estamos errados. Muitos já
aceitaram a morte por seus ideais. Incluindo Giordano Bruno. O
julgamento dele foi muito longo, durou oito anos. Ainda assim, ele não
cedeu.
– E qual foi a besteira que você disse que Barata fez?
– Defendeu Miguel.
– Não é natural para um amigo fazer isso? – perguntei.
– Sim, mas Barata não precisava ter chegado a esse grau tão trágico
de amizade – disse Boaventura – foi uma idiotice. Antes era só Miguel
que estava condenado. Agora o Arthur também colocou os olhos da
Igreja sobre ele. Eu vou ficar calado e te alerto para que não se envolva
nisso.
Era impressionante. Todos em Castália ficaram mudos. Fossem
membros da sociedade secreta ou outros habitantes de Castália.
Ninguém queria se envolver.
Fui conversar com a Magister Ludi. Cavalcante me recebeu em sua
sala. Ela também parecia um pouco tensa.
– Aquele menino... ele sempre soube da consequência de seus atos.
– Mas, Domine... – eu disse – Vossa Grandeza não tem o poder para
impedir?
– Castália não está acima do Vaticano. É apenas sua irmã mais nova.
– Isso é o que eles dizem. Nós seguimos leis e regras próprias.
Navarro é responsabilidade nossa.
– Castália não é uma Província isolada. Se o Brasil entrar em guerra,
por exemplo, seremos envolvidos. Se não houver dinheiro entrando na
Província, nós não comemos. Se o Brasil entrar numa profunda crise,
Castália pode não sobreviver.
Realmente, não nos encontrávamos numa bolha protegida, longe da
história e da política. A morte de Navarro seria uma coisa pequena
comparada à perspectiva de Castália atravessar uma enorme crise
financeira e passarmos fome.
166

nos sentamos sobre a grama num local afastado. não acho que o julgamento vai durar tanto tempo. Eu soube que a Gio ficou profundamente deprimida com tudo que estava acontecendo e também se negava a conversar com qualquer pessoa a respeito. todos sabem que o máximo que seríamos capazes de fazer seria morrer com ele. quem veio falar comigo foi a Dani. ela está num estado que impossibilita a conversa. já que Castália ficava longe de tudo. mesmo que saibam que ele é uma pessoa incrível e famosa. Acabei nem conseguindo falar com Barata também. Infelizmente. ela voltou a falar de repente: – Tenho um serviço pra você. Os dois foram enviados para a Itália. Depois de se formar. embora não fosse com essa intenção que eu queria vê-lo. Ela tirou um cigarro do bolso e começou a fumar.A Era do Folhetim Quando conversei com Sabrina. – Você não conhece o Vaticano. dê uma desculpa qualquer e vá até Roma. Às vezes fumando. – Não queria estar falando contigo. às vezes só parada olhando o nada. – Por que não vai você mesma? – perguntei – além do mais. Até achei que ela tivesse se esquecido da minha presença ou tivesse desistido de conversar. No entanto. Para a minha surpresa. ninguém está disposto a morrer por ele. Ela ficou em silêncio por mais de cinco minutos depois disso. Só podia ter sido com um aluno ouvinte. Dani me ofereceu um. – Agora todos conhecem a identidade do líder – ela disse – e. ele negou-se terminantemente a conversar comigo. Até porque. Eu diria até mesmo que eles vivem num mundo ainda mais atemporal do que 167 . Provavelmente seria a primeira vez que teríamos uma conversa que realmente poderia ser chamada de conversa. ela também estava chocada. Eu não fazia a menor ideia onde ela tinha conseguido aqueles cigarros. Eles participariam de um longo julgamento que duraria meses e teriam que cumprir penitência enquanto isso. Eu precisava falar com Navarro. mas com a Giovana. Porém. Primeiramente. Lá o tempo se arrasta. apoiando as costas num muro. Acho que ele não queria que eu lhe jogasse na cara todos os meus alertas. mas eu fiz que não.

– Não dou a mínima para os seus insultos – eu disse – vou pensar na sua proposta. Eu já sabia o que ela pretendia. Contudo. É rotina. Sinceramente. – E que lugar é esse? – Arquipélago de Cólon. – Não quer salvar aqueles dois? – ela perguntou. Não fui membro da Amor Fati. mas não garanto nada. eu não tinha. – Eu tenho outros planos. Como espera que meus conhecimentos façam alguma diferença depois disso? – Aquele Jogo foi mera formalidade para agradar a visita. Eu não era uma pessoa tão nobre quanto Barata para aceitar ser queimada com Navarro. Não. mas admiro o que ele começou lá.Wanju Duli Castália. Como espera que eu os ajude? – Mostre a eles como o Jogo é magnífico – ela disse – e que Navarro estava certo em fazer o que fez. Alguns anos de julgamento não significa nada para eles. – Por que eu? – Porque todos os outros estão ocupados com coisas grandes e você é uma baita desocupada. – Por que não vai lá você mesma e salva a vida do seu namorado? – Tenho que fazer outras coisas. eu expressei meu desejo de visitar um convento dominicano em Milão. – Não entendo de teologia – expliquei – e meus conhecimentos de literatura e do Jogo das Contas de Vidro serão inúteis para argumentar qualquer coisa. Está certo. eu não queria me envolver com aquilo. eu podia pensar a respeito. Após me formar. Você pode fazer mais que isso. Mas eu não gostava da ideia de já estar direcionada a um destino que eu nem mesmo sabia se queria. caso não tivesse outros planos. – A papisa assistiu a um Jogo oficial jogado pelos maiores especialistas. Eu daria um curso de Jogo de Avelórios para as 168 . em outro lugar. se fosse apenas uma visita que garantisse minha segurança. eu não fazia a menor ideia do que ia fazer. Depois de me formar.

Mas eu não poderia simplesmente incluir as jogadas proibidas nos Jogos. Um abismo ainda maior a transpor do que passar do conceitualismo ao idealismo. Meu pedido foi recebido pelo Diretório de Cela Silvestre com entusiasmo. Não basta pedir permissão para viajar e partir. Normalmente. Eu sentia que estava preparada. Até que foi rápido. o processo de julgamento deles continuava. – Isso é bastante positivo para melhorarmos o relacionamento de Castália com a Igreja. Com meu período no convento eu iria perceber que as diferenças entre Castália e a Igreja eram muito mais profundas do que eu imaginava. Consegui a permissão da viagem dois anos depois. sempre mostrando a elas meu amor pelo divino e o sagrado. em Castália as coisas não funcionam rapidamente. que não anda dos melhores desde o caso da sociedade secreta. Enquanto isso. Porém. eu finalmente precisaria realizar minha transformação completa numa Southern Belle para cumprir o meu papel de lady de Castália. 169 .A Era do Folhetim freiras durante alguns meses. Eles ainda não tinham retornado. Eu me formei com 25 anos. Se eu realmente tinha intenção de mostrar a elas o poder e o alcance espiritual do Jogo das Contas de Vidro. Teria que preparar tudo de forma sutil e respeitosa. essas permissões demoram anos para que se consiga autorização. eu teria que tomar medidas drásticas. Principalmente porque envolve dinheiro. Nesse momento.

Uma escolha peculiar. o Jogo das Contas de Vidro tem também o seu diabo que o persegue. inglês ou mandarim. além da do espírito. algumas das freiras do convento de Milão sabiam falar espanhol e era através dele que a comunicação ocorria. de alguma forma. eu já havia jogado com mais duas ou três pessoas. da investigação com o ascetismo. por Hermann Hesse Segundo Kant. Além dele. incluindo Sabrina. Eu arranhava um portunhol e. Barata e Boaventura. sabei-lo tão bem como eu. Felizmente. íamos utilizar “Temor e Tremor” de Søren Kierkegaard. e que nos submetemos à moral da Ordem. ao abuso desse poder. Não que meu espanhol fosse maravilhoso. este Jogo pode conduzir a um virtuosismo oco. É por isso que temos também necessidade de outra educação. mas para pelo contrário sermos capazes dos maiores feitos intelectuais”. pela prática dos múltiplos graus de yoga que procuramos exorcisar o animal em nós e o diabo que se esconde em cada ciência. conseguíamos nos entender. na sua Universitas Litterarum a teologia era senhora. em nosso primeiro Jogo de Avelórios. no qual eu atuei como Magister Ludi. ao narcisismo das vaidades artísticas. Aqui é através da meditação. Ora. à aquisição de poder sobre os outros e. mesmo que vez ou outra perdêssemos algumas palavras.Wanju Duli Capítulo 3: O Diabo “Outros séculos refugiaram-se na união do espírito com a religião. Mas eram sempre jogos curtos e informais. ao arrivismo. nessa medida. Eu não sabia nada de italiano. Não por acaso. No máximo. as freiras optaram como um dos temas o livro “A religião nos limites da simples razão”. Seria minha primeira vez coordenando um Jogo para tantos jogadores: eu e mais cinco irmãs. a filosofia teológica seria a lanterna mágica das aranhas do cérebro. não para trocar a vida ativa do nosso espírito pela existência vegetativa e sonhadora da nossa alma. 170 . O Jogo das Contas de Vidro.

chamam-na de êxtase espiritual. mas simplesmente porque é belo amá-lÔ. Nós. ou mesmo gula ou luxúria espiritual – disse Giuseppina – queremos beber cada vez mais desse prazer e erroneamente o confundimos com a experiência do divino. então eu preferia optar pela matemática e a gramática como base. pois eles acreditam no Filho de Deus mesmo sem que Ele esteja presente entre nós. sendo o primeiro deles exatamente este. Milagres são uma genuína manifestação do Senhor. – São João da Cruz os chama de pecado do orgulho espiritual. – Fala-se muito que o Jogo das Contas de Vidro é provido de espírito. pode gerar embriaguez espiritual que levaria ao fanatismo. que ele denomina de “efeitos da graça”. Se pensarmos dessa forma. Porém. 171 . não estão a confundi-lo com o que seria na verdade um êxtase dos sentidos. achamos muito mais belo aquele que crê sem ver.A Era do Folhetim Mesmo assim. – Sim. Devemos amar Deus não devido a experiências de êxtase dos sentidos ou mesmo devido a milagres. O que quero dizer é que os milagres não devem ser vistos como essenciais para que se desenvolva a fé. Impressionar-se demais com as experiências de êxtase espiritual advindas da prática da oração e dos jejuns. tal como nos aponta São João da Cruz. Muitas delas escolhiam “Maria” como seu primeiro novo nome religioso. contar suas letras e encaixar essa contagem com explicações de aritmética. eu me pergunto se. sejam essas experiências de fato espirituais ou não. por exemplo. Esta sensação que se sente ao jogá-lo. cristãos. é exatamente como diz Kant: os milagres levam à superstição – concordei. – Não me entenda mal – disse Giuseppina – não estou dizendo que milagres são falsos. é ainda mais bonita a fé dos cristãos de hoje do que daqueles que viveram na época de Jesus. Quem disse isso foi a irmã Maria Giuseppina. As irmãs pareceram gostar do Jogo e acharam muito curioso o fato de eu selecionar frases específicas dos livros escolhidos. Nunca fui boa em música. acho que me saí bem. – Kant também comenta sobre isso no livro que utilizamos para o Jogo – observei – ele aponta os quatro erros transcendentes das religiões.

ou qualquer coisa assim. a religião. eu não duvidava que em certo ponto a freira dissesse: “Se Jesus realmente não existiu. mas antes saber o que ele próprio deve fazer para tornar-se digno desse auxílio". Pois também creio nisto: „se não acreditar. pelo estudo da teologia. perfeição.Wanju Duli Conversar com aquelas freiras me lembrava um pouco das minhas conversas com o professor Peixoto: assim como ele. – Quem tenta penetrar nos mistérios de Deus cometeu um pecado mortal? – perguntei – foi isso o que meu amigo fez? 172 . E não paravam de dar discursos apaixonados para partilhar esse amor. que o meu coração crê e ama. pelo rumo que aquela conversa estava tomando. saber o que Deus faz ou fez por sua salvação. elas queriam compartilhar com os outros o tempo todo a enorme paixão que sentiam pela sua área. Nós dominicanos compreendemos o valor de estudar a religião e aprender mais sobre ela através da razão. E se Jesus existiu de fato. Porém. sim. não compreenderei‟”. A fé vem antes. – Você fala muito sobre a beleza – observei – e o que acha sobre a beleza de nosso Jogo? – Considero uma beleza meio desesperada – confessou Giuseppina – porque os castalianos insistem em tentar extrair um sentido e um segredo do Jogo de Avelórios. numa busca de perfeição. Na verdade. pois nós acreditamos nele mesmo sem que Ele exista! Isso sim que são fé e amor puros. nem por conseguinte necessário a quem quer que seja. aí sim que nossa fé é belíssima. pois era puramente questão de fé. eu não iria me dispor a discutir esse ponto. Querem desvendar como tudo se encaixa. Ambicionam tocar o cosmo através dele. encontrei: "Não é essencial. – Tenho certeza de que há um trecho sobre isso no livro – eu o folhei – ah. dignos de um verdadeiro cristão!”. mas creio para compreender. Não se deve penetrar nos mistérios insondáveis do Senhor. Porém. também seria uma questão discutível. Sobre a existência real de milagres como a manifestação de Deus. não procuro antes compreender para crer. somente Deus conhece essas coisas: sentido. – Exato. no caso. É como diz Santo Anselmo no Proslogion: "Desejo reconhecer um pouco a tua Verdade. segredos. E o mesmo raciocínio valeria para a existência de Deus. No entanto. não se entende Deus pela razão.

Isso configura num pecado contra o Espírito Santo. E que não importava muito saber o que era o inferno e sim agir de forma ética para manter-se longe dele. um Samyaza. contrariada. Acho que Navarro só teria coragem de deixar o orgulho de lado e se aproximar de alguém tão simpático quanto Barata. o senhor Miguel Navarro tinha plena consciência do que estava fazendo. o único que afasta o ser humano de Deus e o leva para o inferno. O único pecado que não podia ser perdoado. Confesso que eu não me sentia tão à vontade para me aproximar de Navarro porque ele tinha uma personalidade difícil. “Que merda. encaminhando-se para o inferno. E. a Dani deve estar observando tranquilamente os tentilhões de Galápagos”. somente admiradores. A maior parte do que eu sabia sobre ele era o que Barata me contava. que aceitava até morrer com ele. Acho que não adiantava muito perguntar para a irmã o que era o inferno. Ele não somente o fez. eu não sabia o que Navarro pensava. – Não se comete um pecado quando não há consciência de que aquele ato é um mal – ela explicou – porém. Provavelmente o único que o aguentava era Barata. Por isso mesmo ele não tinha amigos. No fundo. – A vida humana é muito preciosa – eu disse – Deus não nos ama? 173 . Ele queria ser um Lúcifer. Navarro não estava muito a fim de fazer algo “pequeno” como se tornar Magister Ludi ou Magister Musicae. já que ele era sempre legal com todo mundo.. não se arrependeu. Navarro! Você me meteu numa fria. eu tinha tomado a barca do Anjo de Gregório de Matos. Não o considerava um amigo próximo. para ver se ainda dava tempo de puxá-los da barca do Diabo e salvá-los. mas repetiu muitas vezes. Era uma personalidade que ao mesmo tempo fascinava e afastava. Ou pelo menos um Fausto. Eu não tinha conversado assim tantas vezes com ele. pensei..A Era do Folhetim Giuseppina respirou fundo. Enquanto isso. quem sabe estivesse mais para Prometeu. pois ela provavelmente diria que era outro dos mistérios de Deus. Pelo visto. mesmo depois de tudo. E lá estavam os dois juntos em uma cidade não muito longe dali. Bem.

Por que ele ainda estava lá? Iria continuar ao lado de Navarro até o dia da aplicação da pena capital? E se Barata pretendesse morrer com ele? Faria isso por amizade ou porque.Wanju Duli – Ele ama. concordava com Navarro. A morte deles poderia enfurecer os castalianos e os incitar a se revoltar contra a supremacia da Igreja. “Vocês não vão salvar o espírito dele com uma morte sob tortura na fogueira! Você acabou de dizer que ele cometeu um pecado mortal e está indo direto para o inferno!” pensei. indignada. 174 . Os atos de Deus são sempre justos e bons. aos nosso olhos parece contraditório. mas nós precisamos abrir nosso coração e aceitar esse amor – ela explicou – o pastor deixará todo o seu rebanho apenas para resgatar a única ovelha que se perdeu. realmente. Mas se ela continuar eternamente fugindo e escondida. mesmo que aos olhos humanos eles porventura possam parecer injustos e maus. E se ela me dissesse algo como: “Sim. Kant estava certo quando falou sobre as lanternas. como eu iria conseguir? Eu não sabia o que Barata estava fazendo. como o pastor poderá salvá-la? Era uma situação sem solução. Começava a me dar nos nervos quando os argumentos teológicos passavam a ficar circulares. achava que não tinham realizado um mal e que não precisavam se arrepender? Talvez eles desejassem ser mártires. Nós só enxergamos uma pequena parte do todo. mas para Deus esse ato é justo e bom de uma forma que não compreendemos” eu ia ficar puta. Mas se Barata ainda não tinha conseguido isso depois de tantos anos. – Deus é amor. mas estava complicando ainda mais e acrescentando elementos desnecessários na discussão. A única salvação para Navarro era que eu fosse capaz de convencê-lo a se arrepender. Já estaria tudo planejado desde o princípio? – Deus é mais importante que o amor? – perguntei. no fundo. se confessar e fazer penitência. Deus quer o melhor para nós e a morte do corpo algumas vezes é a única alternativa para salvar o espírito. Dava apenas a impressão de que ela estava esclarecendo alguma coisa. – Então como Ele pode matar? – O amor que o ser humano conhece é apenas uma porção pequena do Amor onibenevolente do Senhor.

Eram argumentos perfeitos para justificar qualquer coisa. – Entre ajudar os outros e ter fé em Deus. eu estava falando com uma dominicana. a exemplo dos sofistas. baseada no realismo e no idealismo. 175 . Por isso a Teologia da Libertação distorceu alguns ensinamentos quando colocou o corpo acima do espírito. Só a lógica de Deus era perfeita. Eu sempre acreditei que um mestre de retórica é capaz de convencer qualquer um de qualquer coisa. Eles não viam a religião como uma metáfora para que se realizasse boas ações no mundo. tomando conta das bibliotecas e das universidades. Os dominicanos eram demônios na argumentação teológica. senhorita. esse não era o termo perfeito. “Está bem. Lembre-se do primeiro mandamento. Ou seja: era mais importante as suas intenções por trás do ato do que o ato em si. que defendia que seguir o ideal da moralidade era superior a qualquer ação. que considerava que os seus Deuses números eram entidades reais e não apenas inventadas para resolver problemas práticos. Bastava ela usar o seu coringa e dizer que a lógica humana é imperfeita e ineficaz para entender qualquer coisa. Além do mais. pelo seu domínio da dialética. o que é mais importante? – Ter fé em Deus. A Igreja teve esses mestres a seu dispor por mais de dois milênios. Era como Kant. OK. já que eles dominaram todo o conhecimento ocidental por séculos. Eu só queria fazer uma última pergunta. que considerava a pregação como o ato mais supremo. o cristianismo era fortemente baseado em Platão. é óbvio que o Deus cristão só poderia ter existência real na doutrina cristã. como a Santíssima Trindade e a virgindade de Maria. Sendo assim. Os argumentos do cristianismo vencem pelo cansaço” concluí.A Era do Folhetim Não adiantaria muito eu rebater com algum argumento lógico bem construído. Fazia sentido. Afinal. Não estava falando com uma franciscana. você ganhou a discussão. mas eles estudavam tão a fundo a doutrina da Igreja que. seriam capazes de defender o catolicismo fazendo o argumento mais absurdo parecer sublime.

“Eis o mistério da fé”. para ter uma dimensão da gravidade da situação. em que as religiões tinham tamanha força. Da mesma forma. para entender 176 . tia‟. Eu passei por aquele processo iniciático e sabia como era custoso e doloroso. como uma oração.Wanju Duli Isso só significava uma coisa: eu não seria capaz de dobrar os doutores da Igreja através da argumentação. Pensei que eu iria encontrá-lo fazendo algum tipo de penitência leve nos arredores. o ato de apreciar uma missa ainda era restrito a uns poucos iniciados e escolhidos. Então eu iria segurar Navarro pela camisa. eu não iria fazer isso. OK. embora a felicidade proporcionada por ela para os católicos devesse ter um efeito neles superior ao de nosso Jogo. em primeiro lugar eu precisava conversar com Barata. que não eram mais trajes de estudante. É tão difícil?!”. E eles também não eram franciscanos para terem compaixão pelo pobre diabo que havia feito jogadas proibidas. foram identificados prontamente pelos membros do clero. Ser obrigado a assistir às longas missas também já poderia ser considerado penitência o suficiente. Eu ainda não sabia os detalhes. Só que ele também era inteligente pra caralho. Experimentar um sentimento sublime ao ouvir uma bela música erudita ou contemplar uma pintura renascentista tratava-se de uma experiência mais universal. Até mesmo no século XXIV. Fui bem recebida no Vaticano. Pensando bem. Eles não eram carmelitas para se maravilhar com êxtases místicos. Eu já estava desistindo antes de começar. sacudi-lo. que era como uma rainha da Ordem dos Pregadores. E agora? Não adiantava mostrar o Jogo das Contas de Vidro para os dominicanos. Meus trajes de jogadora das Contas de Vidro. Estava apenas há uma semana no convento e aquelas mulheres já tinham me colocado no chinelo. Recebi permissão para conversar com Barata. Também eram poucos aqueles que amavam as sutilezas de nosso Jogo. Afinal. animal! Você vai morrer! Faça como a mamãe ensinou e diga „Me desculpe. para realmente compreender o Jogo de Contas de Vidro era preciso estudá-lo muito a fundo. Então era hora de visitar o Vaticano. Minha única esperança era dobrar Navarro. diriam eles. dar-lhe tapas na cara e dizer: “Acorda. Eu obviamente não tinha intenção nenhuma de convencer a papisa.

diziam. Não era apenas o êxtase fugaz da era folhetinesca. medicina e engenharia: contato com o sentido da vida através da biologia. maior o prazer gerado ao encontrar a solução. assim como os leigos que ouviam uma transmissão de rádio de nosso Jogo. conforto e manutenção da carne. e não a religião. O sentido do Jogo ou a fé de uma religião é algo que jamais pode ser ensinado. nenhuma construção e combinação. tinha uma impressão muito superficial. Quem via a missa apenas de fora. por exemplo. havia a alegria proporcionada pela resolução de problemas desafiadores de matemática e física: resolver problemáticas reais no mundo.A Era do Folhetim uma religião como a católica. "Quem chegasse a ter a vivência completa do sentido do Jogo não seria mais jogador. os folhetins eram o ópio do povo. pois nem todas as peças se encaixavam. mas a realidade da morte estranhamente deixava as pessoas perdidas. e não lhe seria possível sentir prazer em nenhuma descoberta. elas compravam os folhetins e resolviam suas charadas. Era algo maior. Quanto à engenharia. Porém. “É apenas superstição ou diversão tola”. E naquele instante da história. Só que não era bem assim. É uma experiência totalmente individual. como se colocassem letrinhas em palavras cruzadas apenas para passar o tempo e fugir da realidade esmagadora da morte. E. que foi o caminho de Dani. As pessoas se sentiam oprimidas com suas vidas. porque ele conheceria uma espécie bem diversa de prazer e de alegria". muitos a buscavam ardentemente ao experimentar o vazio proporcionado pelo dinheiro e por uma vida voltada apenas aos prazeres. era necessário estudar muita teologia. como numa jogada espetacular de xadrez. Muita gente buscava inconscientemente a espiritualidade em profissões como. mas também cultural. Vivíamos numa época em que a espiritualidade estava esquecida. não estaria mais dentro da multiplicidade. Curar o corpo de uma pessoa podia proporcionar um sentimento sublime. Pisar no Vaticano me proporcionou um sentimento pesado. como uma jogada complexa do Jogo de Avelórios. e quanto mais difícil. Contudo. a vida era só isso? Salvar a carne e proporcionar à mente um êxtase dos sentidos. 177 . para preencher esse vazio.

Era como uma espécie de terrorismo: os meses e anos se arrastavam e o julgamento deles não terminava.Wanju Duli naquele exato instante. fui direcionada a uma espécie de calabouço. eu não era nenhuma mestra em fantasmagorias e me sentia como uma intrusa no clubinho restrito. provavelmente. Se era assim que a Igreja tratava os castalianos. Eu estava me sentindo como se tivesse voltado no tempo pelo menos uns mil anos. Já tinham existido exímos jogadores entre os mais altos membros do clero. Eram prisões num estilo muito antigo. Quando fui visitar Barata. Eu sentia como se pisasse na casa de uma mãe rigorosa que eu não via há muito tempo. pois meu coração estava sombrio. se este fosse desejado por uma razão qualquer muito mais importante: política ou econômica. Em outras épocas. mas me lançava apenas um olhar frio. não me surpreenderia se em breve estourasse uma revolta. provavelmente para que nenhum outro jogador de Contas de Vidro ousasse realizar novamente as jogadas proibidas. mas era um mistério que só podia ser apreciado por quem possuía aquela coisa mágica chamada fé. No entanto. não suportaria tamanho 178 . discreta e sem dor? Não. A relação de Castália e do Vaticano já havia passado por altos e baixos. por que apenas não os matavam logo de forma silenciosa. Aquela situação poderia ser a desculpa perfeita para um rompimento. “Na luta pela existência num mundo de potências alheias ao espiritual. Essa mãe estava muito zangada. esse sentimento me sufocou. incluindo os próprios papas. Eu lembrava que Boaventura havia mencionado que eles serviriam “de exemplo”. Lá havia um tipo de mistério. Só queria sair logo daquele lugar. o Jogo já havia sido quase proibido na Igreja. Eu esperava que a relação entre essa irmã mais nova e sua irmã mais velha não resultasse num claro divórcio devido à confusão gerada por aqueles dois. os jogadores de Contas de Vidro e a Igreja Romana dependiam demasiadamente um do outro” Eu lembrava de ter lido isso nos Arquivos. Se os dois tinham cometido alguma falta grave e rompido algum velho acordo entre a Igreja e Castália. Se fosse eu. eles não queriam isso.

Mas ele parecia exausto. Lá fora é muito bonito. Mas eu estava enganada se pensava que se tratava de apenas terror psicológico. Era verdade que em Castália vivíamos uma vida simples e regrada. Vestia roupas limpas. mas não há muito o que se fazer. Inicialmente notei apenas seu rosto profundamente abatido. – Maria.A Era do Folhetim terror psicológico e provavelmente teria cometido suicídio muito tempo atrás. feitos com um giz branco comum. dar umas caminhadas nos jardins. eu desconhecia... Fiquei feliz de poder fazê-lo rir. com calças e mangas longas. já que não temos acesso às bibliotecas e não posso desenhar. Eu nunca pensei que algo tão bonito fosse possível de ser feito com apenas um giz. Dani disse que está com saudades das. 179 . – Não se preocupe com isso. mesmo naquela situação. Agora só releio os meus capítulos favoritos. – Só me deixam ler a Bíblia – ele sacudiu o livro – já finalizei a leitura do livro inteiro três vezes e depois me cansei. Ele me mostrou um livro grosso que tinha consigo. diga. Se tem qualquer coisa que eu possa fazer por você. Observei o interior da cela. Eu sabia que no Brasil e em diversos outros países do mundo havia prisões muito piores. eu já preenchi todos os espaços. Ou melhor.. com uma cama simples e um vaso sanitário. – Eu não sabia que você estava preso – observei – isso é terrível! – Eles nos deixam sair todos os dias – ele informou – para rezar nas igrejas. Barata riu. mas pelo menos tínhamos o mínimo de conforto. cavalgadas. por favor. é você mesma? Barata ficou contente em me ver. superlotadas. – Ela também me mandou um recado. mas só quando estou muito entediado. Pelo menos ali cada um tinha seu lugar para ficar. E havia um propósito para aquilo tudo. Já fiquei contente apenas com sua visita. As paredes estavam completamente preenchidas de desenhos incrivelmente lindos.. – Foi a Dani quem me pediu para vir aqui te ajudar – eu disse – embora eu não saiba direito o que eu posso fazer. de tecido comum. sujas e perigosas. Se Navarro tinha uma meta maior para fazer o que fazia e era aquilo que o impelia a continuar. Ficou bem claro que aquelas celas não eram confortáveis.

– Eu queria entender. reparei que faltava-lhe um ou dois dentes.Wanju Duli – Diga a ela que é sempre um prazer ser um cavalo para minha dama – ele respondeu – ou uma cela. Nem as descrições dos métodos de tortura dos nazistas me assustavam tanto quanto as torturas da Igreja. não sei bem. naturalmente – sabe. mas foi um sonho bom enquanto durou. Pergunto a Ele todos os dias: “Por que eu? Por que aqui e agora? Qual o significado disso?”. sentia um gelo por dentro e pensava: “Pobres desgraçados que nasceram na época errada e tiveram essas horríveis mortes sob tortura”. digamos que virei o protagonista de uma história antiga – ele informou. Mas Deus? Por que Deus estava me punindo porque defendi meu amigo? Eu fiquei sem fala. o que aconteceu com seus dentes? Eu só havia reparado isso naquele momento. mero mortal. Ao prestar atenção a seguir. Quando ele riu discretamente. quando eu estudava o feudalismo no colégio. jamais poderemos cavalgar juntos outra vez. antes de ir para as escolas de elite. O fato de haver Deus ali no meio sempre tornou tudo muito mais medonho. Infelizmente. – Sobre isso. As pontas dos dedos estavam machucadas de 180 . notei que as unhas dele estavam quase que completamente cortadas. – Você já me disse uma vez que as coisas são bonitas porque terminam. Quando eu lia as descrições.. Eu me recordo que na época fiquei tão fascinado e impressionado com isso que por um tempo foi meu hobby procurar na internet descrições minuciosas de diferentes métodos de tortura usados naquela época. ele é grandioso demais para que eu. Quando ele segurou as grades da cela. exatamente porque eles envolviam razões divinas. Estava chocada demais para pronunciar qualquer coisa. lembro de ter lido sobre os métodos de tortura medievais nos livros de história. Mas. Você sabe como os seres humanos podem ser estúpidos. Era Deus. Não era um homem que estava fazendo aquela merda.. apoiando-se nelas enquanto conversávamos. o compreenda. Mas é claro que se tudo isso possui de fato um sentido. notei que havia alguma coisa errada. Fiquei assustada.

Esqueça o que viu aqui. Estava fora de mim. Um choro quase imperceptível que tentei esconder. Eu já aguentei até agora. se possível. então vou aguentar mais um pouco. Então pelo menos eu consigo ver um mínimo de sentido para isso tudo. Mas se não conseguir falar com ela. Que o evocava todas as noites e oferecia a ele bebês despedaçados em sacrifício.A Era do Folhetim uma forma que me deu uma agonia tão profunda que tive que desviar o olhar. Nunca pensei que eu fosse conhecer uma pessoa assim. Comecei a chorar baixinho. É a única explicação. eu me sentiria aterrorizado e solitário. Não sei porque disse isso. é somente esse: converse até com a papisa. Entende o que quero dizer? – Merda. sei que estamos passando por isso juntos. – pronunciei. não se preocupe. – Não fique assim. Maria – ele disse – volte para a Província. Mesmo que eu somente o veja raramente. – Não sei ao certo. Eu só quero que tudo isso termine logo. Mas não seria terrível se ele tivesse que passar sozinho por tudo isso? Se fosse comigo. mas a situação é outra aos olhos da Igreja – disse Barata – e o pior é que já não sei dizer se 181 .. – Eu disse a eles tudo o que queriam ouvir – contou Barata – eu pronunciei coisas que jamais pensei que fosse pronunciar na vida. Eu estava maluco. se for preciso. agora sem esconder as lágrimas.. Eu quero ser queimado o quanto antes. Amanhã ou até mesmo hoje. Mas eu provavelmente fui possuído por ele. com voz fraca. Se puder fazer um favor para mim. Barata era como aqueles heróis trágicos das lendas. Eu nem sei o que é esse tal Diabo de que tanto falam. – Fico lisonjeado que você veja dessa forma. – Nunca mais poderei cavalgar com Dani de novo – ele repetiu – porque estou para sempre fisicamente impossibilitado de fazer isso. – Você merecia ser canonizado pela Igreja pela sua demonstração impressionante de amizade e não ser morto como gado esperando o abate – eu disse – até mesmo o gado não tem um destino tão terrível. Disse que era um adorador do Diabo. – Por que está fazendo tudo isso por Miguel? – eu perguntei. Viva sua vida. Não há mais esperanças para mim e para Miguel.

Ele parou no meio do caminho. É claro que não. Talvez tenhamos mesmo cometido um pecado mortal. Ele conheceu a fúria e o poder de Deus e passou a genuinamente temê-lO. sendo o líder da Amor Fati. – Quem é? – ele perguntou. Que ele precisava do fogo para ser salvo. Aquelas torturas e aquela espera tinham produzido uma ferida profunda na mente dele que jamais seria completamente curada. – Eu tenho comida – tentei – você quer? 182 . de Castália. imaginei que estivesse recebendo os castigos mais severos. – Não tenho vontade. E se meu espírito precisa ser purificado pelo fogo do Espírito Santo. Era hora de conversar com Navarro. impressionada – te admiro profundamente. Resolvi deixá-lo em paz. que isso não seria bom aos olhos de Deus. – Você é tão forte – comentei. mas ele escutou meus movimentos e se virou. Eu suspeitava que essa segunda visita seria ainda mais difícil. Ele levantou-se devagar. Como dizem os cristãos. E queria ser salvo. Para sempre. Ele parecia cada vez mais convencido disso. queria salvar pelo menos seu espírito. Navarro estava deitado na cama. – Espere – falei. Andava em passos lentos. Como ele era considerado o maior culpado. Mas ele disse que não. Retornou na direção da cama.Wanju Duli estou certo ou errado. Eu não fazia a menor ideia do que tinha acontecido com a mente dele após aqueles anos de tortura. Arthur. Abraçava o corpo e estava meio encolhido. Eu não o culpava por dizer aquelas coisas. Sou um pobre pecador. que Deus tenha piedade de mim. Inicialmente pensei em deixá-lo descansar e retornar uma outra hora. Se já não tinha jeito de salvar seu corpo. com voz rouca. – Sou eu – pronunciei – Maria Santa. voltado para a parede. que assim seja. – Vá embora – ele disse. com urgência – converse um pouco comigo. por favor. como se tivesse dificuldade de caminhar. Ainda perguntei a ele se queria que eu trouxesse um veneno escondido numa próxima visita.

mas duvido que eles permitam. agora ele já se sentia mais disposto a conversar comigo. – Você veio até aqui para nos ajudar. O cara ia morrer e estava preocupado que sua habilidade ia diminuir. pois disse que não tinha apetite. voltei meus olhos para ele de novo. Seus dois olhos estavam completamente queimados. Ainda bem que estou cego e não surdo. Vou levar tempo para recuperá-la. Quando sentiu o pão que lhe dei. eu calei a boca quando vi os olhos de Navarro. com grandes dentadas. Porém. Foi quase como uma necessidade. Mas eu já tinha desistido de tentar entender o raciocínio de Navarro. – É um pedido meio difícil – eu falei – posso até tentar. – Que pena. Eu coloquei a mão na boca e usei todas as minhas forças para não derramar patéticas lágrimas outra vez. Ele não havia acertado o vaso e o chão ficou um pouco molhado nos arredores. Estou quase enlouquecendo sem poder tocar. O primeiro deles é que me consiga um contrabaixo. Depois que Navarro terminou de devorar o pão simples que eu lhe trouxe. abaixou-se e tateou as grades. 183 . – Pensei que pelo menos alimentassem vocês bem – eu disse – Barata disse que vocês recebem refeições duas vezes ao dia. – Pode olhar para o outro lado? – ele disse – preciso mijar. Ainda bem que Navarro não podia contemplar minha expressão de terror. Minha habilidade com certeza diminuiu. Ainda consigo cantar e batucar na madeira. certo? Então eu tenho dois favores a pedir. Quando escutei que ele havia terminado. Barata não tinha aceitado minha oferta. Só fiz esse pedido para me certificar se não era mesmo impossível.A Era do Folhetim Não achei que fosse funcionar. Não é como se eu pudesse esconder um instrumento tão grande no meu bolso e trazê-lo aqui escondido. Fiz como ele pediu. Não acredito que fiquei tantos anos sem ensaiar.. Pode ser qualquer um. Fitei o vaso sanitário no fundo da cela. ele lambeu os dedos. Mas Navarro deu passos apressados na minha direção. como se tivessem sido consumidos pelo fogo. segurou-o e devorou-o na mesma hora. Eu não queria fazê-lo se sentir pior. Ele estava cego. – Que tal uma gaita? – propus.. Felizmente.

Apenas me mate. – O que acha de Barata ter lhe defendido? O que você sente ao saber que ele está ao seu lado. – Desculpe – eu disse – minha intenção não era criticá-lo. Nada do que faço é aceitável. Perderam a viagem. Se não quiser. sentindo a mesma dor? 184 . infelizmente. Todos só me criticam. Quando desejei entrar para as escolas de elite. – Seus pais vieram aqui te visitar? – Sim. – O quê? Como? – De qualquer forma. Eu queria experimentar aquelas jogadas. eu acreditei que somente aquilo fosse me fazer respirar de novo. Quando me assistirem queimando. Se era para dizer isso. Eu entendi. Foi como uma necessidade maior do que eu. Só espero que venham para assistir ao espetáculo da minha execução. de camarote.Wanju Duli – Deixa pra lá. Estou cansado de toda essa merda. eles não precisavam ter vindo. fazer seu amigo sofrer contigo. Não quero mais conversar. Para me chamar de imbecil e dizer que eu tinha feito uma grande bobagem. Como se estivesse me afogando e somente aquilo pudesse me libertar. A começar pelos meus pais. Por que fez tudo isso? Por que criou a Amor Fati? E por que não se confessa? – Eu já expliquei mil vezes porque criei a sociedade secreta. Até porque eu não me considerava em posição para julgar. Nunca sou bom o bastante. Já tinha me sentido assim. fora daqui. – Eu sabia que você ia vir para me criticar. Preferi não continuar a falar sobre os pais dele. É parecido com o desejo desesperado que sinto agora de tocar meu contrabaixo: eu simplesmente precisava dessa sensação. – Por que você não se arrepende. A aparente tranquilidade dele me incomodava. tomara que sintam muito remorso e arrependimento pelo resto de suas vidas pela forma com que me trataram. Fica a seu critério. Eu precisava dizer tudo o que estava trancado na garganta. se confessa e acaba com isso? Por que precisa ser tão idiota e passar por tanto sofrimento? E. Eu só queria entender. Agora era a minha vez de falar. o que é pior. Agora vamos ao meu segundo pedido: me mate.

185 . um tipo de Mestre dos Fantoches. porque eu jogava o Jogo de Avelórios. – Você queria ser um criador. Esmagavam meu coração. Foi o que busquei com a criação da Amor Fati: digamos que eu estava mostrando minha insatisfação política. castalianos. – Você poderia salvar a si mesmo e ao Arthur. Acho um desperdício. Acho que eu estava tentando me comunicar com os outros: conversar através da música. Eu não achei. somos obcecados por essa tal coisa maior.A Era do Folhetim – Eu obviamente não pedi que ele fizesse tudo isso. Basta se confessar. O Jogo também me proporcionava algo parecido: era um tipo de conexão com os outros jogadores e. Mas também não quero soar mal agradecido. como voltar aqui para queimar tudo e causar o caos. mas nós jamais a chamaremos de Deus. – Por que política? – Porque havia algum desgraçado em algum lugar. para que uma guerra desnecessária não seja gerada. Essas minhas férias na Igreja estão servindo como um poderoso processo de autoconhecimento. Então. tentando exercer poder sobre mim. Sabe que nós. – Não sabia que você era assim tão nobre. Que bem faria eu me confessar agora? Se eles “misericordiosamente” me soltarem. ou por qualquer coisa maior que ele. Eu queria poder criar meu próprio Jogo das Contas de Vidro. Nunca pensei muito sobre o que eu fazia: porque eu tocava. Eu senti as mãos invisíveis. vou acabar fazendo uma besteira. Eu me sentia completo. Eu não podia mais respirar. para o bem de todos. Gostaria de ter impedido. Mas por que eu não estava satisfeito? Porque eu buscava outro tipo de conexão. Talvez ele precisasse disso. Não podia ignorar. Mas acho que essa é a forma dele de me mostrar o quanto se importa comigo. mais que isso. é melhor que eu morra. – Eu me humilhei e chorei na frente da papisa quando fui condenado – explicou Navarro – mas eles não se comoveram. Ele poderia estar seguro. para realizar um desejo pessoal de se sacrificar por mim. Já não sentia alegria no Jogo. – Também não pensei que eu fosse. Não me enxergo mais voltando para minha velha vida e me dedicando à música tranquilamente. Quem sabe Arthur tenha finalmente achado essa coisa maior aqui na Igreja. Não agora que vivi essa injustiça. mostrar o que eu sentia. com o universo.

Você já escreveu um poema? – Nunca escrevi – confessei. – A Igreja é um dos símbolos máximos de conservadorismo e tradição – explicou Navarro – não é à toa que Castália nasceu por uma forte influência dessa instituição. A Era do Folhetim representava tudo o que para nós era destruidor. cujas mudanças acontecem de forma lenta e cuidadosa. Mas raramente tentava descobrir a minha própria voz. É o bastante que possamos estudá-las e tocá-las com o máximo de perfeição a que podemos chegar.Wanju Duli – Castália não tem o costume de criar coisas – explicou Navarro – por tradição. embora fosse um termo totalmente pejorativo e não refletisse plenamente a realidade. como humanos. não somos incentivados a inventar nosso próprio jeito de fazer as coisas. os livros de história atuais chamavam a Idade Contemporânea de “Idade das Sombras”. Admirava os maiores romancistas e poetas. – Castália apenas canta o passado e não o futuro. Tememos a mudança. Quando o professor Peixoto utilizou uma pintura feita por ele mesmo no Jogo. Assim como os livros de história chamaram a Idade Média de “Idade das Trevas”. A tecnologia estava avançando demais e tivemos um grande terror dessa mudança. Afinal. Normalmente pensaríamos que o século XXIV estaria repleto dos computadores mais modernos e de tecnologia de última geração. Havia rumores de que o termo “Sombra” se referisse à Sombra do Magister Ludi. Até mesmo um cara como Arthur sempre foi orientado a usar estilos de pintura que imitassem os grandes nomes do passado. O mundo estava muito rápido. Embora não seja exatamente proibido. por que eu nunca tinha feito isso? Eu gostava tanto de ler. mas não era bem assim que havia acontecido. Apenas de forma muito sutil. todos se mostraram perturbados e até embaraçados. Nós temos muito medo da vida que anda rápido e 186 . Eu presenciei o desconforto com que os jogadores de Contas de Vidro encaravam a criação. termo que Navarro também havia usado para referir a si mesmo como mestre da Amor Fati. surpresa. Nós paramos no tempo. como se vivêssemos eternamente estagnados num tempo que parou de se mexer. apenas celebramos a beleza de todas as músicas ilustres criadas no passado.

Não sei se esses meus olhos queimados ainda são capazes de chorar. seja em paz ou sem ela. mas obrigada por existirem. você e Barata são meus heróis – confessei – não sei se minhas palavras fazem diferença. Agora pareço tão grande e monstruoso. A Idade Folhetinesca é fonte de medo e fascínio para nós. Não sei como um dia me julguei pequeno. – Estou cansado de ser herói. Sempre estou cercado de puxa-sacos. Ficamos em silêncio por meio minuto. – Então você simplesmente aceitará o peso de seu destino. minhas asas foram queimadas pelo Sol. Vocês me inspiram e vão continuar a inspirar mesmo depois de desaparecer. – Não era isso o que você queria? – Antes era. – Será que você pode sair agora? – ele pediu – fiquei meio sentimental depois dessa conversa e não quero chorar na sua frente. – Está certo. 187 . Estou saindo. Mas. pois nesse instante até mesmo meu próprio corpo parece grande demais para que eu posssa carregá-lo. Ou eles podem optar por feitos pequenos. Não importa mais. o que será de nós? Onde vai se encaixar a nossa criação em nosso mundo perfeito e geométrico onde tudo sempre tem seu devido lugar? Muitos criadores reunidos podem gerar o caos. Mas parece que cheguei ao meu limite. – Não estou desapontada. Foi algo assim que tentei construir na Amor Fati. Isso não faz mais diferença. Sinto-me tão cansado que apenas queria dormir para sempre. E mesmo se estivesse. – Eu me sinto fraco agora para carregar qualquer peso. Agora só desejo a morte. – De uma forma estranha. Agora. voltarei para informá-los. como um Ícaro. Deixarei que os que virão depois de mim prossigam com os tais feitos grandes. Segurei a mão dele com cuidado.A Era do Folhetim acaba depressa. pois lhes nasceram asas e eles levantaram voo para fora do tabuleiro perfeito dos símbolos. mas não quero que você se lembre de mim dessa forma. faz diferença? Você não devia viver para agradar os outros. Desculpe desapontá-la. – Então morrerei para agradar a mim mesmo. Um dia julguei-me forte. Se criarmos algo novo. mas eu me tornei uma pessoa assim. Se eu conseguir adiantar a execução de vocês. E nem morrer. só quero morrer depressa.

pelo menos os estudantes ou os conhecidos próximos dos dois. no dia 2 de maio resolvi deitar-me com Sônia. Que os habitantes de Castália fossem iniciar uma revolta. Então retornei para o Brasil: para Nova Castália. Impunha um respeito tremendo. Tive que aguardar alguns dias. Por isso. A Amor Fati e tudo que envolvesse aqueles dois virou tabu em Castália. Eu me senti vazia. fui direto ao ponto. aos 30 anos. Eu queria algo mais profundo. Requisitei uma audiência com a papisa. Não havia mais nada para eu fazer lá. Falei do grande sofrimento pelo qual os meus amigos estavam passando e pedi por misericórdia. Um ano depois. Fizemos sexo juntas pela primeira vez. Farei como me pede. – Vossa Santidade. poderão ser salvos. Foi muito natural para mim deitar-me no chão diante dela. Expliquei que não havia chance nenhuma que essa confissão ocorresse. foram executados pelo fogo e purificados pelo Espírito Santo na manhã do dia 1º de maio do ano de 2303. Isso porque eu me sentia tão sozinha que não me saciaria apenas com um abraço amigo. Barata e Navarro. Aquela mulher era magnífica. a papisa ficou em silêncio. – Não estou estendendo o tempo deles para que sofram mais – explicou a papisa – e sim para que repensem os seus atos e confessem. Um ano. uma união de carne e espírito. como se me faltasse um pedaço. peço humildemente que adiante a data da execução da Sentença do Tribunal do Santo Ofício. Eu já havia feito a minha parte. No entanto. Era isso que significava adiantar a data de execução para o Vaticano.Wanju Duli – Obrigado. Inicialmente pensei que uma guerra estouraria depois disso. Quando me levantei. Depois da minha longa explicação. Em menos de um ano a sentença final será anunciada. – Ouço o seu pedido e entendo sua aflição. todos mantiveram um profundo silêncio. 188 . Aquela merda foi difícil de conseguir. Senti-me solitária. Se o fizerem.

devido à nova lista de livros que foram acrescentados ao Index. Ele havia desenhado uma paisagem bonita. Porém. essas proibições começaram a atrapalhar minhas pesquisas sobre o Jogo. escrevi um poema. uma parte de mim sabia que não era verdade. que Arthur Barata jamais terminaria de pintar. Escrevi meu pequeno poema nos hieróglifos do Jogo das Contas de Vidro embaixo de uma parte em branco de um mural inacabado de Castália. eu já não tinha tanto tempo para ler livros de literatura. Isso até que foi positivo para mim. Eu e os outros jogadores passávamos longos períodos nas bibliotecas fazendo pesquisas para bolar jogadas e projetos de Jogo. Ele ficou assim: Há um anjo no céu. Então tentei começar a realizar minhas pesquisas em outros livros que anteriormente não tinham recebido minha devida atenção. então inicialmente isso não me incomodou muito. O meu primeiro poema. Nos anos seguintes. 189 . Não importava onde eu estivesse: em Castália ou lá fora. pois passei a ler coisas que eu não leria normalmente. Pelo meu envolvimento com o Jogo das Contas de Vidro. Seria meu pequeno segredo. Afinal. há um anjo na terra Não sou anjo. nem terra e nem céu Sou um sonho que se perdeu Um poema curto e singelo. aprendi coisas novas e levei o Jogo para um rumo bastante interessante. mas achei melhor não reclamar. lembrei do que Barata tinha dito: se 99 coisas forem permitidas e somente 1 proibida. eu poderia chamá-lo de meu. depois de certo tempo. A verdade era que o mundo nunca seria exatamente como eu queria que ele fosse. Então eu só poderia fingir que acreditava.A Era do Folhetim Depois desse momento de amor. No entanto. Eu me sentia um pouco frustrada por não possuir mais livre acesso ao material que queria. sempre vamos ambicionar a única coisa proibida. Confesso que me inspirei um pouquinho no poema “Ismália” de Alphonsus de Guimaraens. num mundo repleto de paz. Contudo. alguns livros começaram a ser proibidos em Castália. Eu queria acreditar que agora ele estava num mundo assim.

qual é a diferença? Meus Deuses eram Castália. Ela tornou-se uma importante professora das escolas de filosofia de Castália com apenas 32 anos. Mas várias outras entidades também lhe incomodavam: a entidade dinheiro. A Gio ainda continuava profundamente deprimida. Eu havia enviado a ela o último recado de Barata numa carta. E daí que havia meia dúzia de jogadas proibidas? Não importava o motivo. com outros nomes. Porém. a entidade Cela Silvestre. por mero capricho. enquanto pudesse continuar a jogar o Jogo das Contas de Vidro e permanecer a viver no meu universo sublime e elevado. pois eu não recebia mais notícias dela. a entidade “pais”. mas pelo que representava essa proibição: um atentado contra sua liberdade. mas ela não me respondeu de volta. 190 . Algumas vezes eu pensava que Navarro havia agido exatamente dessa forma: como uma criança emburrada que perdeu seu brinquedo. como o Dinheiro. há longos anos.Wanju Duli Eu não era a única pessoa viva e sempre haveria conflitos de interesses entre as vontades das pessoas. então por que se importar? Provavelmente ele se importou não pelas jogadas proibidas em si. mas a sua vida não parou. No fundo. a Dani continuava em sua viagem. Devia ser por isso que se colocou contra a Igreja: porque a existência dessa entidade maior que ele lhe incomodava. Eu começava a desconfiar que ela havia decidido permanecer definitivamente por lá. Enquanto isso. Cela Silvestre e o Jogo de Avelórios. Castália era famosa por sua ignorância política: enquanto pudéssemos manter a nossa vida como sempre mantivemos. Eles eram apenas outros Deuses. ditem suas vidas. Eu mesma. ele não havia usado o termo “liberdade” e sim “poder”. não me importaria tanto com as outras coisas. Eu sequer sabia se ela havia recebido. Havia muitas outras possibilidades quase infinitas. Precisávamos aprender a não nos portarmos como uma criança mimada que deseja saciar todos os seus desejos imediatamente. não fazia diferença se a Igreja estava queimando pessoas. Um feito notável. Muita gente parece bastante incomodada com a palavra “Deus” mas permitem que outros Deuses. Disse que se aborreceu que uma entidade maior tivesse poder sobre ele.

– Bem. pois é o mundo que Deus quis. Ela. Mas se eu começasse a me rebelar demais. Dessa vez pude oferecer-lhes um Jogo digno. após dez anos. o interesse dos sacerdotes católicos pelo Jogo estivesse crescendo de novo. mesmo que 191 . Afinal. eu o obtive a muito custo. partimos de dois temas iniciais para o Jogo: a teoria das mônadas de Leibniz e o livro “As Moradas do Castelo Interior” de Santa Teresa D‟Ávila. Há apenas um ano eu havia conquistado um cargo de professora de Cela Silvestre. Eu particularmente aprecio suas teorias sobre os mundos possíveis. Dessa vez. aos meus 38 anos. Então. mas ela parecia bastante à vontade. fui convidada novamente para o convento de Milão. pessoalmente. então ele só poderia ser o melhor. por pedido delas: as irmãs queriam um novo curso do Jogo das Contas de Vidro. Eu estava sendo requisitada como professora em vários lugares diferentes. Considerei o encontro particularmente incômodo. Nessa ocasião. mas deixeime envolver pela paixão da minha amiga. mas o que eu poderia fazer? Eu poderia me negar a pisar na Itália de novo. Porém. Eu quase me sentia culpada em considerar como amiga uma das pessoas que havia sido a favor da condenção de Barata e Navarro. Não deixa de ser um pensamento apaixonante. Podia recusar as ordens de Castália. Curioso que. – Vivemos no melhor dos mundos. era melhor eu fazer minhas malas e voltar para minha velha vida. Até a papisa quis me ver de novo para que eu lhe desse uma tarde de orientações sobre o Jogo. Não era exatamente essa parte da teoria que eu gostava. havia sido a maior responsável pela morte dos meus amigos. fui visitá-las. não vou discutir com Leibniz – eu disse – já que as ideias dele formam algumas das bases mais poderosas do Jogo de Avelórios. Tive que estudar por longos anos até adquirir o nível técnico mínimo necessário para exercer uma posição desse porte.A Era do Folhetim Dez anos depois daquele acontecimento fatídico. – Curioso você ter escolhido uma autora carmelita dessa vez – observou a irmã Giuseppina – mas confesso que considero a ideia de Leibniz de que Deus seja uma mônada um tanto excêntrica. eu não era mais uma iniciante.

Eu a considero uma excelente instrutora. Sua didática é impressionante. E lá estava eu tranquilamente ensinandolhe a posicionar no chão as pedrinhas de vidro. que eram bem mais amplas que as nossas. Esse era um segredo meu e da Gio. ela admitiu que também já tinha feito suas próprias pesquisas nas bibliotecas do Vaticano. Nunca vi igual. quando retomei o assunto. pesquisei a fundo para ser capaz de responder a pergunta dela. foi ela que me deu umas aulas sobre Pitágoras. Esse tipo de humildade é rara hoje em dia entre os seus. – Vossa Santidade deve achar que não sou uma boa instrutora – observei. Por favor. – Sua didática me lembra de um pietista suabo. Para minha surpresa. Atualmente eu dividia com ele algumas disciplinas. retorne aqui no ano que vem. Nunca pensei que um dia eu seria professora ao lado dele. Você diz “não sei” quando não sabe. No final. – Em quais elementos dos pensamentos de Pitágoras o Jogo se baseou? – ela perguntou-me. mas também percebeu meu entusiasmo com as novas informações. Admite as próprias falhas. Eu dava as aulas que anteriormente eram ministradas por Junqueira. Isso me atrai. No entanto. Você é professora de que disciplina em Cela Silvestre? – Problemas básicos de Jogos. Só aprendi o básico necessário para ser capaz de realizar jogadas simetricamente bem calculadas. Junqueira não fazia a menor ideia que eu sabia daquelas coisas.Wanju Duli tivesse sido a vontade de Deus. Ela notou que fiquei um pouco chateada. – Gosto de você – ela decidiu – não é arrogante como os outros castalianos. A papisa sorriu. – Na verdade não sei – confessei – nunca fui tão boa assim em matemática. Já ouviu falar de Bengel? – É claro! – exclamei – não sei o que dizer. – Pelo contrário. 192 . Sinto-me lisonjeada. insegura – pois no fim sempre sou eu que recebo as lições. eu estava descobrindo que no fundo ele era um cara legal. Quando retornei no próximo ano. Gio também já havia me contado umas histórias engraçadas sobre seu pai.

Afinal. Havia uma série de cartas com poemas previamente selecionados. especialmente as crianças. Contudo. Por sua vez. eu precisava mudar o idioma do Jogo para torná-lo mais acessível. Depois disso. A meta era apenas facilitar as primeiras jogadas para acostumar o jogador principiante e dar-lhe confiança. passei a desenvolver um projeto bastante ambicioso. com uma rica simbologia. para outras áreas do conhecimento. Esse foi um projeto que me consumiu oito longos anos. para encantar a todos que jogassem. As contas de vidro poderiam formar círculos ou elipses no tabuleiro de acordo com a jogada. Montei um tabuleiro minuciosamente calculado com base na geometria. de autores brasileiros e estrangeiros. Naquele momento lembro que senti uma dor no coração: eu teria chamado Barata para desenhar as cartas para mim: cartas bem coloridas. Mas essa era somente a base sobre a qual seriam construídas as primeiras jogadas. Eu precisaria me ocupar com uma série de questões fundamentais: não poderia reduzir o Jogo a uma mera linguagem formal decorativa. consegui chegar numa versão satisfatória. ele deveria necessariamente atravessar os limites do tabuleiro e das contas. Apenas a primeira hora de jogo. Ele me disse que havia cursado pintura em sua época nas escolas 193 . Era um projeto muito mais complexo do que parecia. inspirada pelas palavras da papisa Catherine I. as jogadas deveriam seguir um ritmo. minha intenção não era montar um jogo de tabuleiro qualquer e reduzir as possibilidades das jogadas. sem destruir sua essência. lembrei do professor Peixoto. Essa parte foi obra da Sônia. Ao mesmo tempo. deixando as regras mais claras.A Era do Folhetim Nos anos seguintes. Ele havia desenhado aquele quadro. Os jogadores eram instruídos a meditar sobre a simbologia que representasse os temas de base. Eu havia pensado nele ainda nos meus primeiros meses em Castália: o desenvolvimento de uma versão do Jogo de Avelórios para leigos. com fundamentos na música. com os auxílios inestimáveis de Gio e Boaventura. imitando o movimento dos planetas. Por fim. E o centro de tudo estava nos símbolos.

podiam se dedicar aos seus estudos e jogar nas horas vagas. Fui uma das maiores responsáveis pela popularização do Jogo pelo país. Navarro também foi duramente criticado pela sua criação da Amor Fati. eu sempre seria criticada. Agora. Eles diziam que o Jogo iria se degenerar. Passei a pedir permissão cada vez mais frequente para ensinar o Jogo em escolas comuns do interior do Brasil. eu não me incomodei tanto com essas críticas. Inclusive no interior de Castália. brincando com as contas. Os novos alunos de Cela Silvestre eram introduzidos ao Jogo com muito mais facilidade. Ele já não era um Jogo hermético cujas regras somente eram exclusivas aos iniciados. exatamente como Barata. fora isso. Eu me sentia no céu. Eu estava me apaixonando cada vez mais pela pedagogia.Wanju Duli de elite preparatórias. 194 . Aquele problema havia sido bastante reduzido com essa alternativa. especialmente as crianças. que ainda não tinham suas cabeças cheias dos preconceitos do mundo. sem precisar perder longas horas ou dias em preparações de temas. Sem contar os estudantes das outras escolas de Castália. Porém. Sorrindo. Não importava o que eu fizesse. Minha versão simplificada do Jogo fez tanto sucesso que começou a ser adotada em outros países. Assim. Ensinar novos jogadores. perder seu valor. Então ele prontificou-se a desenhar as cartas para mim e tudo ficou bastante harmonioso. alguns até mesmo com oito ou nove anos. o Jogo já estava sendo jogado corretamente por diversos estudantes brasileiros. Eles poderiam continuar jogando de vez em quando com este tabuleiro. É verdade que as cerimônicas públicas de Vicus Lusorum ainda eram restritas apenas a convidados especiais e que a identidade da Magister Ludi era sempre mantida em sigilo. Voltei até mesmo para a minha velha escola pública e me maravilhei diante da oportunidade de ensinar para meninos e meninas. Eu lembrava do sufoco que passei para aprender desesperadamente os hieróglifos e a lógica do jogo em meus primeiros meses em Castália. que admiravam o Jogo mas optaram por seguir outras carreiras. É claro que houve os professores mais conservadores de Cela Silvestre que acharam minha versão simplificada uma péssima ideia. Eu já sabia que eram inevitáveis. No entanto.

especialmente entre os alunos novatos. já que após quase vinte anos ela não parecia ter intenção de voltar. Muitos não aguentavam a nova vida de rigorosas privações em Castália. Também foi naquele ano que Gio se tornou Magister das escolas de filosofia. O problema maior começou quando tivemos que racionar comida e água. Foi naqueles dias que também tive uma conversa com a Magister Ludi. Até as desistências dos novos alunos de Cela Silvestre estavam aumentando. mesmo com a crise.A Era do Folhetim mais de 15 anos depois. seus belíssimos murais espalhados por Castália se tornaram ainda mais adorados e valorizados após sua morte. já estávamos começando a racionar provisões em Castália. Aparentemente. Minhas salas de aula estavam ficando vazias. Eu era amiga de uma Magister! Achei que a Dani também teria potencial para ser Magister de sua área. ele havia virado um tipo de lenda em Castália. Eu comecei a dar aulas para pouquíssimos alunos. 195 . Nem os mais ricos tinham dinheiro sobrando para se dedicar ao pequeno capricho do Jogo. Recebíamos pouquíssimos alunos ouvintes por causa da crise. Sentiam muita fome. passamos a usar velas como parte do material escolar para as aulas da noite. Mesmo assim. a situação já estava ficando insustentável. Barata era igualmente famoso. Apagávamos as luzes uma hora mais cedo: às nove da noite. Eu estava impressionada. E. Para completar. pelo sacrifício que fez por Navarro. Eu havia escutado rumores sobre as dificuldades financeiras da Província. Aproveitamos a oportunidade para aumentar nossos períodos de jejuns e práticas de meditação. Ninguém nunca tinha ouvido falar de algo assim antes. Eu quase me sentia como Descartes no tempo de colégio. em certo momento. não aguentavam os jejuns prolongados e acabavam voltando para casa. – O Brasil está passando por uma grave crise financeira – ela explicou – só não estamos numa situação de grave privação em Castália devido aos seus incessantes esforços de promover o Jogo nas escolas. aquilo não estava em seus planos. Dois anos depois. ainda estamos recebendo vários alunos ouvintes. Queria saber o quanto daquilo era verdade ou mentira. carregando velas por aí. E nem eu. Assim. por uma série de fatores.

Eu apenas torcia para que o novo Domine fosse uma pessoa capacitada e sábia o suficiente para lidar com a gigantesca crise financeira que assolava nosso país e especialmente nossa Castália. Duas semanas depois. Ela atualmente trabalhava como pesquisadora num projeto importante. Foi naquele ano que recebemos a notícia da morte da Magister Ludi. Achava que o novo Mestre dos Jogos deveria se sentir honrado pela confiança de ser escolhido neste momento difícil. Na verdade. Foi quando Sabrina entrou na biblioteca. tropeçando nas próprias pernas. se tudo desse errado como a crise sugeria. eu não pensava assim. Ou ao menos era isso que eu queria pensar. Afinal. Havia muitos candidatos fortes.Wanju Duli Aqueles que aguentavam. preferiam optar por estudar em escolas que garantiriam uma maior segurança financeira. o conclave foi iniciado: a reunião formal e magnífica que definiria a escolha do novo Magister Ludi. o líder supremo de Castália. havia sido uma morte prematura. Em vez de inveja. Ainda mais naquele período de privações e dificuldades. Pelo menos seria mais fácil conseguirem emprego lá fora caso a crise apertasse ainda mais. como a escola de matemática ou de biologia. Tivemos um dia inteiro de recesso para realizarmos um luto pela Domine. Liliane Cavalcante faleceu com apenas 74 anos. Eu obviamente não participei dessa reunião. Eu estava estudando na biblioteca na ocasião do conclave. foi exatamente devido a esta crise que rolavam rumores de que os tais fortes candidatos não estavam muito a fim de assumir essa responsabilidade num momento como esse. muitos ali sentiriam pena do novo Magister. ela era a dirigente máxima de nossa Província. Muitos diziam que era por causa da quantidade de afazeres e responsabilidades de um Magister Ludi. Todos ficaram tristes. Preparando minha próxima aula. No entanto. Apesar de eu possuir um cargo importante de professora. Precisavam de um bode expiatório: seria muito mais fácil escolher um Magister Ludi mais fraco e. eu não estava entre os maiores mestres eminentes de Cela Silvestre. Achei que ela estava 196 . bastava culpá-lo. Considerando a expectativa de vida de Castália. ela deve ter se abatido demais e assim a doença tomou conta de seu corpo.

– Maria! – ela exclamou. De repente. corrigir provas e ainda cuidar das incontáveis atividades domésticas. não era somente a minha habilidade que contava. Era uma sensação ao mesmo tempo incômoda. fazia sentido. eu respirei fundo e apenas retomei minhas anotações. mas havia muitos candidatos mais habilidosos e inteligentes que eu. senti uma profunda tristeza. Não quero saber desses falatórios. incrementar o Jogo para iniciantes. eu tinha boas relações com as freiras do convento de Milão e inclusive já havia dado cursos do Jogo para a própria papisa. Mais tarde. dar aulas. Ela fazia isso às vezes. Era evidente que nada se sabia ainda. ela reconheceria que agi com uma certa maturidade. Volta para lá e aguarda o pronunciamento oficial. Pensando bem. O conclave ainda não tinha terminado. que não deixava de ser impressionante diante da grandiosidade da informação que ela me trouxe. embora tenha ficado muda por alguns segundos e tenha sentido uma espécie de vertigem. Contudo. Meu currículo era bom. nada podia ser afirmado ao certo. era tudo rumores. para completar. Por fim. Eu havia sido a maior responsável pela popularização do Jogo entre os leigos nos últimos anos. Ela certamente pensava que eu partilharia de sua alegria e saiu de lá como se tivesse sido chutada para fora como um cão. Quando ela saiu. o que seria da minha vida? Quando recebi o anúncio oficial de que eu havia.A Era do Folhetim afobada porque queria me contar alguma coisa incrível que descobriu em seu projeto. Minha relação com os professores de Cela Silvestre era boa. E. lhe disse: – Não fala tanto. após sua frustração passar um pouco. de fato. Sabrina. A frieza com que eu disse isso deixou Sabrina desapontada. Não seria incomum. mas que me 197 . Caso se somasse a isso os deveres de um Magister. embora tivesse contado com a ajuda preciosa de meus amigos. Eu já não tinha tempo para ler meus velhos livros de literatura. também encarei a informação como algo muito natural. No entanto. emocionada – eles vão te nomear Magister! Tapei-lhe a boca assim que ela disse isso. voltei a sentir a sensação de vertigem. pois precisava correr para preparar aulas. sido escolhida como Magister Ludi de Castália.

Eu deveria comparecer dali dois dias em Vicus Lusorum para a prestação do juramento. que lia para aparecer e não esperava muito da vida. Eu realmente havia dito todas aquelas coisas aos meus 13 anos. Por isso. não gostava do colégio e nem do Jogo de Avelórios – ela pronunciou. O documento oficial foi lido. quando lhe fiz o pedido. 198 . que não tirava boas notas. Esta foi a cerimônia de investidura. foi uma pessoa que eu não via há muito tempo: Lorena Flores. Depois disso. integralmente em latim. de que eu estava numa montanha-russa e que uma vez lá dentro eu não poderia mais descer no meio do caminho. Deu-me um sorriso. ainda na época do colégio. eu ainda conseguia enxergar em mim aquela garota insolente de 13. honrada e de imediato. mas logo recordei-me que Sabrina me disse um dia que ela não tinha nenhuma intenção de tornar-se Magister. no final da cerimônia. que havia me mostrado os trechos dos escritos de Rimbaud e Shakespeare. – E agora. eu precisaria proceder na escolha da minha Sombra. – Maria Santa.Wanju Duli gerava um êxtase repentino. no fundo. Domine. não tinha sonhos. Mestre de Filologia. Tornei-me oficialmente Mestre dos Jogos e vesti o meu hábito em tons de branco e ouro. ela era perfeita para ser minha Sombra e aceitou. a menina que não gostava de ler. que vinha e voltava. o Magister Grammaticae. Um frio na barriga. Ela me fitou orgulhosa enquanto eu estava naqueles trajes e sequer ainda acostumara-me a eles. a Magister de literatura. Quem conversou comigo naquele mesmo dia. Mesmo aos 48 anos. será que eu posso fazer uma pergunta? – É claro. realizou a entrega das chaves e dos selos. Pensei em Sabrina e em Boaventura. Nessa ocasião recebi as condecorações do Magister Mathematicus. A partir dali. Fiquei surpresa ao constatar que. eu não me arrependia de tê-las dito. A sensação de que minha vida estava sendo virada do avesso. envergonhada. Foi por causa dela e da minha professora de português que eu havia sido aceita nas escolas de elite. Baixei a cabeça.

Sequer acreditava que poderia ser aprovada em suas primeiras provas. De repente. mesmo que ele pareça irrealizável. A maioria encarou o ato como uma bobagem para crianças. Nesse momento não pude deixar de pensar em Barata e Navarro. Pensando bem. E dentre os escritores brasileiros. Achei que fosse impossível aprender aquilo. tinha sido incrível. – Proust – pronunciei. qual mais lhe atrai? – Posso citar apenas um poema? – requisitei – Ismália. aos meus 21 anos eu ainda não era tão mais madura que aos meus 13. – Um suicídio? – Mas também um sonho e uma loucura. virei uma estrela da noite para o dia. Ou a loucura de perseguir um sonho. Agora até quem havia ignorado completamente o Jogo que criei se interessou em experimentá-lo. E da segunda vez até que passou bem rápido. Também era verdade que eu curtia as personagens lésbicas. Hoje 199 . sem pensar – eu finalmente terminei de ler “Em Busca do Tempo Perdido”. A próxima a conversar comigo foi a minha professora responsável que havia me dado ótimos conselhos assim que cheguei em Castália: Clara Correia. Todos queriam falar comigo. Aquilo nunca tinha acontecido antes. “Você parece com pressa. – E não acreditava que seria capaz de completar seus estudos em Cela Silvestre. Mas optei por não referir esse detalhe. Mas a vida deles. Nem mesmo na época em que lancei o Jogo de Avelórios para principiantes.A Era do Folhetim – Estou curiosa para saber qual é atualmente o escritor preferido da Venerável Mestre. – Lembro que sua professora disse que havia mencionado algo sobre Proust. Tem alguma doença grave?” ela tinha me perguntado na ocasião. Eu ainda reclamava de umas coisas desnecessárias. tanto antes quanto depois de suas mortes. Acho que eu tinha sido muito dramática na época. Eles tinham feito algo realmente maluco. Eu acho que a busca de tempo e a reflexão sobre ele sempre foi uma questão recorrente na minha vida. – E eu realmente reprovei na disciplina de símbolos! – argumentei – mas fui aprovada em minha segunda tentativa. E genuinamente gostei da obra.

sou eu que posiciono os símbolos nos tabuleiros de signos nesses últimos três anos. Basta aprender a encará-los de forma mais leve. Eu já li tanto. Com meus amigos. meu passado também foi tão sublime. Eu precisaria da ajuda dos meus amigos mais do que nunca. Aquelas palavras me tranquilizaram. Aquele cargo estava além das minhas forças. A Gio morreu de rir quando me viu e fez uma exagerada reverência. conversar com ela me deixou mais calma. Maria – ela disse. Mas eu ainda continuo com o mesmo problema sobre o tempo! – Acha que não tem tempo para fazer tudo o que deseja? – E vou ter menos ainda agora que sou Magister Ludi! Se bem que hoje em dia já não sinto a necessidade de ler tantos livros. Barata e Boaventura resolvendo juntos os problemas do Jogo nos cadernos de exercícios.Wanju Duli em dia. Já está analisando o problema de outras perspectivas. – A sua vida é uma loucura. Ao mesmo tempo. – Então você amadureceu. por que ler tanto. O que eu faço? – Não se preocupe. Relmente. Domine. Não é que você tenha que se livrar de todos os seus problemas. segurando minha mão entre as suas. Eu estava com saudades. Tempos que não voltavam mais. e não eu. Eu. Pode contar comigo para o que precisar. Domine.. eu tinha certeza de que ele teria se tornado Magister Ludi. como Magister Ludi. não é mesmo? Ela sorriu. não conseguiu acreditar. Não está sozinha. – Vossa Grandeza é realmente grandiosa! 200 . A Província está passando fome. Queria ter dito o mesmo para ele. O presente momento. Se Barata estivesse vivo. me enchia de felicidade.. Está bem?” me disse Barata. Nós discutindo as jogadas dos Jogos oficiais comendo ovos mexidos com bacon. “Prometo que vou resolver esse problema. – Mas agora todas essas pessoas dependem de mim. Vai dar tudo certo. mas com eles ao meu lado eu sabia que conseguiria lidar com os problemas. Quando Sônia me viu. simplesmente – ainda bem que estou aqui com você. Isso é ótimo. afinal.

tá certo. Ficou todo atrapalhado.A Era do Folhetim – Não vem com essa que você também é Magister. certo? 201 . Estávamos acostumados a viver uma vida simples. – Vivia falando antes que não sabia nada sobre o Jogo – observou Rodrigo – imagina se soubesse. Como sempre tendi a ser um pouco otimista. Já tinha até esquecido. – Ah. – É mesmo. Os racionamentos estavam tão intensos que os mais pessimistas achavam que sequer sobreviveríamos até janeiro para celebrar o Jogo.. pensei que a situação financeira não estivesse tão ruim. senhora Magalhães – retruquei. é só me consultar – avisou Agatha. – Realmente. Seria assim mesmo. – Aposto que você ainda deve saber mais que eu – garanti. – Se precisar de umas dicas sobre política. me chamando seriamente de “Domine”. Na semana seguinte. Boaventura nem sabia como reagir quando me viu. Recebi até a visita de amigos que eu não via há um tempão: Mariel. – Relaxa.. – Quando eu tinha dez anos. – Se bem que às vezes eu te invejo por poder ler tanto – observei. talvez – brincou Rodrigo – agora meu cérebro está tão preenchido pelos intrincados labirintos da gramática e da filologia que não sobrou espaço para mais nada. – Pelo jeito sua mudança de carreira foi bem acertada – disse Mariel. – O que acha que Barata e Navarro diriam se me vissem agora? – Miguel iria morrer de inveja e nunca mais olharia para sua cara de novo – garantiu Gio – e Arthur acharia o máximo. Mas esse deleite com meu novo título durou apenas alguns dias.. Agatha e Rodrigo. cara – eu disse. eu já teria que lidar com duas questões importantíssimas: uma era a preparação do Jogo oficial em janeiro. Passei os próximos meses totalmente imersa na preparação de um Jogo de Contas de Vidro que eu pretendia que fosse sublime. então um pouco de jejum não iria nos matar. pois eu teria menos de três meses para bolá-lo.. A outra questão ainda mais grave era a situação econômica da nossa Província.

com dicas para os Magisters iniciantes. É claro que isso gerou várias fofocas negativas sobre minha má administração. riscado ou alterado em certos pontos. Naquela noite. A maioria retornava para a casa dos seus pais e familiares. escrito por aquele Magister Ludi. É claro que eu não entendia nada de administração. Eles não viam como eu havia me esforçado na preparação daquele Jogo que jamais iria acontecer. No mês seguinte. o calendário passava entre os Magisters Ludi dos diferentes países. Pelo menos assim eu não me sentia tão sozinha.Wanju Duli Porém. Eu estava profundamente chateada. Até mesmo alguns professores de Castália estavam deixando seus cargos para trás para tentar a sorte no século. Era transmitida por um mosquito e já havia tomado as capitais. principalmente a falta d‟água passou a se tornar insustentável. Eu não sabia o que fazer. recebemos a notícia de que uma doença infecciosa particularmente letal estava se espalhando por certas regiões do Brasil. Os estudantes estavam deixando Castália em bando. Quando terminei de ler e colocar minhas anotações. A partir de então. A crise atingiu Castália em todos os países em que ela existia. Havia pessoas falando mal de mim nas minhas costas em todos os cantos. Em fevereiro. abri o “Calendário de Bolso do Magister Ludi” de Ludwig Wassermaler. 202 . Não havia dinheiro em parte alguma. mas eles também enfrentavam uma crise severa. Até que por fim foram fechadas por tempo indeterminado. castalianos. não estudávamos isso! Eis o resultado: não saber o que fazer diante de uma crise. Contatei a sede na Alemanha por carta. Era a primeira vez que isso acontecia nos últimos cinquenta anos. Ela começou em regiões específicas e logo já estava ocorrendo em todos os estados. Sabia que os Magisters ao redor do mundo estavam passando por uma situação semelhante à minha. As escolas de elite preparatórias também andavam desertas. já chamavam Nova Castália de Cidade Fantasma. O resultado foi que as previsões pessimistas se realizaram: a edição do Jogo daquele ano teve que ser cancelada. enviei-o pelo correio para o Magister de outro país. para que fosse corrigido. economia e política. Nós.

A Era do Folhetim
É claro que aquilo já estava acontecendo há muito tempo. É que as
notícias chegavam mais lentamente em Castália.
Os gastos com saúde estavam absurdos. A população estava se
revoltando com os hospitais lotados e o atendimento precário.
Em alguns países, já havia estourado guerras civis, especialmente nos
locais em que havia uma grave falta de água. Logo, guerras passaram a
ocorrer entre países. Essas guerras sempre aconteceram, mas geralmente
elas ocorriam bem longe do Brasil. Porém, agora o nosso país estava
começando a se envolver nelas.
O ápice foi quando a Alemanha atravessou uma profunda crise. Com
isso Castália, aquela rainha que havia se mantido soberana por alguns
séculos, finalmente caiu.
Os portões da sede alemã se fecharam. E foi assim que Castália
conheceu seu fim.
Ser um Magister agora não significava mais nada. Com o fechamento
da Castália alemã e inglesa foi apenas uma questão de poucas semanas
até que as demais também fechassem suas portas.
Tenho orgulho em dizer que nossa Castália, a Castália brasileira, foi a
última a desistir.
Contudo, alguns viram minha insistência como uma fraqueza. Afinal,
era preciso saber quando desistir, eles diziam. Estávamos todos
sofrendo: não havia mais energia, estávamos sem luz e sem água. O que
haveria mais para fazer? Eu queria tanto assim que meu túmulo fosse em
Nova Castália a ponto de eu desejar continuar lá e morrer de sede e de
desgosto?
– Maria...
– Mas deve haver algum jeito. Se eu falar com a papisa...
– Maria! – exclamou Sônia, com seriedade – agora já chega. É o
bastante. Você já fez tudo que podia.
E eu finalmente cedi.
A Igreja também foi afetada pela crise. Afinal, ela não era imune.
Também era parte do mundo. Porém, como sempre, escapou. A Igreja,
como esperado, não caiu. E mesmo se tivesse caído, eu desconfiava que
ela iria renascer das cinzas reformada, como geralmente acontecia.
Mas havia sobrado pouco de Castália depois de toda aquela fome,
doenças e guerras. A guerra não estava acontecendo diretamente no
203

Wanju Duli
Brasil, mas ele se aliou a alguns países. E a situação da nova doença
infecciosa estava particularmente dramática.
Quando eu e Sônia retornamos para nossa velha cidade, não havia
mais para onde voltar. O orfanato já era uma realidade distante de nós.
Não havia a quem pedir ajuda.
Foi então que eu lembrei da Igreja.
– Há um convento aqui perto – apontei a direção.
Fomos até lá. Identifiquei-me como Magister Ludi de Castália. Sim,
Castália não existia mais, mas ela tinha deixado de existir há apenas um
mês. É claro que as pessoas ainda lembravam.
Consegui conversar com a irmã Giuseppina por telefone. Ela disse
que a crise também estava horrível na Itália, mas que eles estavam
acolhendo pessoas que precisavam de ajuda nos conventos e mosteiros
na medida do possível.
A irmã Letícia, que nos recebeu no convento da nossa cidade, nos
arranjou um quarto e nos deu uma sopa. Ela disse que poderíamos ficar
pelo tempo que precisássemos.
– A comida também está limitada para nós – disse a irmã – só
poderemos comprar coisas baratas.
– Não se preocupe – disse Sônia – é só até arranjarmos um emprego
e um lugar para ficar.
Sônia não demorou muito para conseguir um emprego como
professora de matemática num colégio público local. Ela não ganharia
um salário muito alto, mas seria o suficiente para alugarmos um
apartamento simples e bem pequeno.
Sendo assim, só permanecemos no convento por um mês e
agradecemos muito pela hospitalidade. Se não fosse aquela ajuda, nós
teríamos dormido na rua.
No meu caso seria mais complicado. Pelo menos, agora que Castália
não existia mais, não havia ninguém proibindo de cobrar por cursos do
Jogo de Avelórios. Então eu contatei famílias dos meus velhos alunos
ouvintes, mas somente os que viviam na minha cidade. E passei a dar
cursos particulares do Jogo, recebendo uma quantia modesta por aula.
Eu e Sônia passamos a morar juntas, cada qual com seu emprego.
Como não era o suficiente meu salário como professora de Jogo de

204

A Era do Folhetim
Avelórios, também arrumei um emprego de garçonete para dar conta das
desespesas.
Meus planos para o futuro seriam iniciar um curso de letras em
alguma faculdade. Assim eu voltaria a ter contato com minha bela
literatura.
Eu estava com 49 anos. Meu período em Castália havia sido como
um sonho. Eu não me arrependia de nada.
Por um lado, eu revivia esse sonho na memória. Havia sido realmente
mágico e eu via o fim de Castália com uma profunda tristeza. Por outro
lado, uma parte de mim estava ansiosa para iniciar essa vida toda
diferente, em que eu tinha tempo de ler um livro pelo menos meia hora
por noite. Um mundo em que eu podia usar internet. Que coisa estranha!
E foi pela internet que mantive contato com todos os meus velhos
conhecidos de Castália. A nossa ligação era tão forte que um oferecia
ajuda para o outro, embora todos nós estivéssemos sem um tostão. Pelo
menos já valia pelo apoio moral.
A única pessoa de quem eu realmente não recebi mais notícias foi a
Dani. Ninguém sabia onde ela tinha se metido. Um dia eu tinha vontade
de reunir dinheiro e, talvez dali uns dez anos, viajar para as Ilhas
Galápagos apenas para procurá-la.
Quando eu mencionava para onde eu tinha o sonho de viajar, as
pessoas diziam: “Mas que diabos? O que você vai fazer lá? Você é fã de
Darwin ou algo assim?”.
Cinco anos depois, o Brasil já estava relativamente recuperado da
profunda crise que assolou o mundo. Mas eu sabia que Castália não
voltaria mais. Pelo menos não enquanto eu estivesse viva.
Um dia encontrei na rua minha família favorita, almoçando logo no
McDonald‟s: Junqueira, Garcia, Gio e Rodrigo. Foi a coisa mais estranha
do mundo vê-los em roupas comuns, em vez dos hábitos formais de
Castália. E contemplá-los comendo aqueles hambúrgueres era algo quase
surreal.
Naqueles dias, resolvi ir no velho fliperama para matar a saudade.
Achei que aquele negócio havia falido com a crise, mas lá estava ele,
firme e forte, depois de décadas. Era impressionante. Devia haver algum
Deus protegendo aquele lugar.

205

Wanju Duli
Quando fui até o Pump, vi pessoas vibrando ao redor de uma garota
linda de rabo de cavalo, que dançava parecendo um corcel correndo ao
vento.
Pisquei os olhos duas vezes.
“Dani? Não pode ser”.
Mas era apenas uma garota muito parecida com ela, que também era
muito boa. É claro que não era a Dani. Ela já estava com mais de 50
anos. Como pude confundi-la com uma garotinha?
Senti como se tivesse voltado no tempo.
Então eu comprei um crepe de doce de leite. Também comprei um
jornal para resolver as palavras cruzadas. E saí de lá.
Epílogo
O último Jogador de Contas de Vidro
De jogo na mão, as coloridas contas,
Senta-se curvado, à sua volta devastado
Pela guerra e a peste o país, nas ruínas
A era cresce e na hera abelhas zumbem.
Uma paz cansada com saltério abafado
Ressoa pelo mundo, na sua calma velhice
O velho conta as suas coloridas contas,
Aqui uma azul prende uma branca,
Ali uma grande escolhe uma pequena
E combina-as, num anel, para o Jogo.
Outrora foi grande no Jogo dos Símbolos,
Mestre de muitas artes, muitas línguas,
Conhecedor do mundo, viajante, homem
Célebre, conhecido até nos Pólos, sempre
por alunos e colegas rodeado. Hoje só
Ele resta, velho, gasto, sozinho,
Nenhum jovem aspira à sua bênção,
Por nenhum Magister é desafiado;
Tudo passou, os templos, as bibliotecas,
206

. de contas na mão. Hieróglifos que outrora diziam muito. Entre os Escombros repousa o Velho. O Jogo das Contas de Vidro. por Hermann Hesse FIM 207 ... E agora são apenas vidrinhos coloridos Das suas mãos idosas silenciosamente rolam E perdem-se na areia.A Era do Folhetim As escolas de Castália já não existem..

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