A Era do Folhetim

Wanju Duli
2016
Baseado no romance de Hermann Hesse
“O Jogo das Contas de Vidro”

Sumário
Capítulo 1: O Sonho_______________________________________5
Capítulo 2: A Iniciação_____________________________________99
Capítulo 3: O Diabo______________________________________170

A Era do Folhetim Capítulo 1: O Sonho "– Devemos dar importância aos sonhos? – perguntou Josef. nos sentimos muito à vontade nesse mundo. mais do que em nenhuma outra época. Os folhetins eram o panem et circenses do trabalhador contemporâneo. mas uma espécie de fricção entre a alma e o mundo. que não era mais uma força da alma. mas perigoso. a Idade Folhetinesca é um elemento onipresente em nossas vidas tanto quanto o ar que respiramos. eis um nome bonito. e não da Igreja ou do Estado. Estávamos tão orgulhosos de nossa intelectualidade! A leitura de um folhetim exigiria que o leitor desvendasse a chave do arcano. Hoje. uma espécie de saber apaixonado. do amadurecimento da razão. Porém. assim como a Igreja também conheceu uma ironia ácida. porque tudo pode ser decifrado" O Jogo das Contas de Vidro. Admitimos que não era desprovida de espírito. A busca da legitimidade da liberdade. – Podemos decifrar seu significado? O Mestre fitou-o nos olhos e disse concisamente: – Devemos dar importância a tudo. Tal como descreveu o historiador Plinius Ziegenhalß. havia uma necessidade desesperada de resgatar uma suposta cultura. De certa forma. da doença e da guerra. 5 . Não eram poucos os que levavam essa atividade formalmente a sério. seu Erasmo de Rotterdam. Um mundo de papel e plástico. O peso de uma palavra pode ser sedutor. os folhetins também tiveram seu Voltaire. Aterrorizados perante a realidade da morte. Era mais do que um jogo de quebra-cabeça. por Hermann Hesse Vivemos na Era do Folhetim. Era criação totalmente nossa.

um Guimarães Rosa. Afinal. de uma gramática baseada na lógica e na metafísica. o que quer que isso seja. Afinal. A intenção de Comenius era que a educação chegasse a todos de forma rápida e fácil. base da pedagogia moderna. Eis o berço de Castália e das escolas de elite. esse prazer quase obsceno da Idade Folhetinesca era a oportunidade de mergulhar num universo fragmentário e desprovido de sentido. o sentido máximo do ensino era educar o cidadão. Estes. Em Castália. Era requerido que os estudantes dedicassem integralmente suas vidas para o domínio de certas áreas. fundamentada no pensamento idealista. sem que fosse dada nenhuma espécie de recompensa pelo esforço. fama e 6 . Um ensino fundamentado nas Sete Artes Liberais. Defendiam uma organização hierárquica e o anonimato como ideal. tratava-se de uma comunidade espiritual.Wanju Duli As conferências também eram populares. mas era místico demais para ser plenamente penetrado por um cultista gigolô. para não gerar preguiça e aborrecimento. produzir um produto. independente de o conhecimento ter uma utilidade. Coisas como dinheiro. como uma reação às reformas realizadas no Renascimento por Jean Amos Comenius. Serviam a Verdade e a Ciência. e que somente eram completamente aprendidos a custa de muito sacrifício. tendo em vista o materialismo: ensine apenas o necessário para que seja possível exercer as profissões liberais. sendo o termo “liberal” particularmente sedutor. Uma sociedade progressista e conservadora. Os ouvintes assistiam passivamente a uma palestra sobre temas elevados ou tidos como importantes pelos especialistas. em que somente poderiam entrar os escolhidos e os iniciados. Uma busca do resgate da pureza da aritmética. desprezavam o individualismo. O objetivo dos colégios e das universidades contemporâneas era pragmático. em que tudo se encaixa harmonicamente. É claro que nenhum deles possuía a intenção real de ler um James Joyce. O lendário sentido estava lá. Um movimento de resistência a essa aparente superficialidade e inautenticidade não tardaria a surgir: os chamados guardiões da “verdadeira cultura” e da “verdadeira arte”. Lá eram introduzidos uma série de aprendizados que poderiam ser tidos como inúteis às pessoas do mundo. o relativismo e a anarquia. tidos como heróis e ascetas do espírito.

Os jogadores de Avelórios buscam tocar o cosmo. A ambição do Jogo é abarcar o universo espiritual em sistemas concêntricos. O Jogo das Contas de Vidro possui suas origens em Pitágoras e Leibniz e é provido de uma linguagem e de uma gramática própria: são hieróglifos. É como contemplar um animal exótico. cujas origens são especialmente a Matemática e a Musicologia. somente uns poucos iniciados são capazes de apreender o microcosmo do Jogo. Essa entrega fanática e fervorosa pelas coisas do espírito deu origem ao Jogo de Avelórios. já que Castália abomina o culto à personalidade. belíssimo e inacessível. Porém. Especialmente a identidade do Magister Ludi. Antigamente os Jogos duravam longas semanas e eram transmitidos pelo rádio. Alcança um sentido de universalidade. Ainda é possível baixar na internet um arquivo com uma das velhas transmissões de rádio de alguns séculos atrás. que surgiu no coração de Castália. a identidade dos Mestres do Jogo são mantidas no anonimato. Evidentemente. pelo respeito ao sagrado. Os virtuoses do Jogo de Avelórios são famosos até mesmo fora dessa comunidade espiritual. Contudo. Era uma sociedade fechada em si mesma. cujo canto delicado faz verter lágrimas. O Jogo é tido como a reação máxima à cultura de pedaços surgida na Era do Folhetim. 7 . são pouquíssimas pessoas que realmente o entendem. tendo como meta servir a uma causa superior aos indivíduos que lá se encontravam. Atualmente as regras mudaram. mesmo sem entender a maior parte do que se passa. sendo o que há de maior em Castália. Os rumores correm como fogo. Hoje em dia. As partidas mais elevadas se tornaram lendas e até hoje são referenciadas e comentadas em diferentes países. somente convidados especiais e uns poucos representantes do governo podem comparecer ao Jogo. Não são poucos que sentem uma emoção e êxtase intenso somente ao escutar as partidas. As clássicas festas públicas anuais se tornaram cada vez mais restritas.A Era do Folhetim poder eram fortemente desprezadas. uma língua secreta extremamente aperfeiçoada. Esse animal está num esconderijo precioso e perigoso e ninguém ousa se aproximar.

Ele é qualquer outra coisa desprovida de definição: uma mistura disso tudo. um Magister surge para realizar uma entrevista. que se envolvia com ele. sua capacidade de disciplina e seu caráter. a nata de Castália. apesar de lá haver muitos relatos de gente que foi selecionada e depois retornou. Apenas escutava alguns rumores esparsos dos meus colegas de classe. No entanto. Um dia. filosofia e nem mesmo arte. Se já era difícil saber o que se passava dentro dos muros de Castália. Se esse rumor era verdade ou não. eu nunca tinha conhecido ninguém que foi escolhido para estudar numa escola de elite. Afinal. era instruído a ficar de boca fechada sobre o que acontecia lá dentro. Isso significa que os estudantes das escolas de elite não são gênios. mas sem ser ele mesmo nenhuma dessas coisas. que leva em conta principalmente a habilidade do estudante. entrar numa escola de elite não é tarefa fácil. geralmente quando a criança tem em torno de 12 ou 13 anos.Wanju Duli O Jogo não é ciência. não adianta ser um prodígio da matemática ou da música se o aluno não se adapta a uma vida em comunidade e de privações ou tem mau comportamento. Alunos de diferentes escolas são escolhidos por professores e recomendados às autoridades de Castália. Eu já tinha lido uma vez que para a escolha do novo Magister Ludi. eu não saberia dizer. Mas aparentemente havia algum envolvimento de Castália com os monges 8 . uma coisa não mudou: dizem que tornar-se um dia membro da Comissão do Jogo ou ser um Magister Ludi ainda é o sonho de quase todos os adolecentes de 15 anos das escolas de elite. que ouviam falar de um estudante de outra escola que foi chamado. Não possui uma teologia própria. a Comissão do Jogo se envolvia numa espécie de conclave. Aparentemente eles passavam por juramentos rigorosos e os levavam muito a sério. Honestamente. já que até mesmo na internet ninguém divulgava nada. Provavelmente não são nem mesmo os melhores do mundo em suas áreas de atuação. que era um cargo vitalício. São simplesmente pessoas competentes. muito mais difícil seria escutar qualquer coisa sobre o Jogo de Avelórios. Sendo assim. Não existe nenhum tipo de exame que se faça para receber permissão de admissão. que sabem seguir regras e que são capazes de se comportar de forma ética. quase como se estivessem para eleger o novo papa. Contudo. Caso o aluno não se adaptasse à vida em Castália. era somente a elite da elite.

já que na transmissão de rádio de um dos Jogos havia momentos de meditação. Quem sabe eu desejasse a aniquilação do meu ser. de viver. o ar está terminando. num mundo de informações fast food. porque precisa viver. Não havia tempo de respirar. Eu desejava algo maior do que o mero prazer do meu corpo. está contaminado. a morte está chegando. cada vez mais despedaçado. Era lamentável. Twitter. Sempre fui uma aluna medíocre no colégio e sabia que não teria chance nenhuma de ser chamada. o anonimato completo e a partida desse mundo com uma passagem só de ida. desconectadas. Quando se une os pedaços fragmentados da história. era uma lenda. Cada vez menor. Até meu colégio parecia conter informações em pedaços. Também parecia haver influência de religiões orientais na espiritualidade deles. algo maior do que eu mesma. eu não quis acreditar que fosse real. as coisas começam a se encaixar. O ser humano se considerava tão esperto e esse foi o ponto máximo a que conseguiu chegar. Mas não era o fim da história.A Era do Folhetim beneditinos e dominicanos. Notícias fragmentadas em jornais e na televisão. E diziam que nossas universidades não eram diferentes: que as informações nunca se encontravam. Mas seria um pouco infantil da minha parte desejar qualquer coisa que não fosse o meu mundo. Eu não 9 . Havia momentos em que eu queria crer que até mesmo a existência das escolas de elite. com postagens curtas e pouco informativas. e especialmente do Jogo. Blogs na internet. que era o que Castália oferecia. tudo era feito com pressa. num mundo material em que o corpo é a entidade máxima. Uma parte de mim não podia conceber que existia algo tão fantástico e que eu não poderia participar desse universo. E o objetivo da vida é o máximo de conforto. como cadávers em decomposição após serem explodidos por uma mina na guerra diária da vida. O corpo precisa comer qualquer coisa e muito rápido. Eu não fazia a menor ideia do motivo disso. Pois o fim do corpo está chegando e o sentido de viver é apenas morrer. Respire rápido. A primeira vez que eu ouvi sobre alguém próximo a mim que foi entrevistado por um Magister. de lazer. as disciplinas estavam desconectadas umas das outras. Facebook. Eu sentia como se me afogasse cada vez mais na Idade Folhetinesca: ao meu redor só havia pedaços.

E havia a cópula entre o sujeito e o predicado. tudo teria vida. já não possuía todo esse fascínio em mim. Talvez seja mais fácil entender coisas vivas do que coisas mortas já que. Profissões liberais. Diziam que em Castália se experimentava coisas como a “ verdadeira vida”. para o meu corpo. Então por que tanta gente desejava esse inferno? Por que até mesmo eu? Porque a liberdade. Era uma liberdade aparente. lazer. Ou quem sabe até 10 . Eu não teria mais escolhas. seria apenas um número num exército de macacos adestrados. numa castração completa. estranhamente. a sua utilidade para a retórica. É claro: eles obrigavam seus alunos a estudar como burros de carga. com um calendário rigoroso. Minha ambição não era tão grande: queria apenas respirar um pouco. essa palavra mágica. Era como um acordar.Wanju Duli queria fugir do mundo ou de mim mesma. privação. com um tutor particular para cada estudante. esforço e dor. Ficaria realmente saciada? Talvez eu fosse masoquista e desejasse muita dor para sentir os momentos de prazer com a cessação da dor. O insight que se sente quando todas as coisas se encaixam. Tirariam tudo de mim: conforto. Não ofereceriam nada em troca. Quanto mais melhor. Eles passavam a finalmente entender o que realmente eram coisas como aritmética e gramática: a ontologia da gramática. Ensinavam a criar fantasmas. que seriam as ideias criadas na mente dos gramáticos da Idade Média. essencial para a fundamentação da lógica. alma. Não era uma religião. Poder fazer o que quiser era assim tão maravilhoso? Mas o que eu queria realmente? Um pouco de prazer para os sentidos. E depois eu desejaria mais. Para eles. uma vida tranquila. espírito. Eles exigiriam tudo de mim: sacrifício. Arrancariam até mesmo meus sonhos. Férias. como se todo o resto fosse falso. Não era exatamente isso o que gerava a felicidade: a alternância entre a tristeza e a alegria? Eu quase conseguia sentir os poemas de Gregório de Matos pululando nos meus ouvidos. achamos que a vida faz mais sentido que a morte. pois estava me afogando. As escolas de elite não ofereciam uma salvação. Seria uma existência vazia e apagada. um despertar.

você precisa ter um conhecimento profundo de certas disciplinas. Eu conheço alguém que fez um curso de verão em Castália que pode te ensinar. – Sabe como jogar o Jogo das Contas de Vidro? Essas contas marcam as notas musicais. Para ser capaz de jogar. sem prestar atenção nenhuma na aula de história. com duas pessoas ou muitas. Eu estava completamente perdida em pensamentos. havia o arcano máximo: o Jogo de Avelórios. no meio disso tudo. Até que alguém derrubou na minha mesa bolinhas transparentes e multicoloridas que se pareciam vagamente com bolinhas de gude. Eu te mostro. É preciso haver um mestre realmente competente para coordenar aquilo. senão é perda de tempo. Ninguém mais sabia jogar aquilo nos dias de hoje... Mas aquilo não era meramente um jogo de lógica. Era uma afirmação muito profunda e incômoda. Eu ri. E mesmo que fosse verdade que ela soubesse algo mais.A Era do Folhetim mesmo essa visão fosse um erro: poderia haver tanto sentido na morte quanto na vida. Pode-se jogar sozinho. um experimento científico ou uma reflexão artística. Havia mais que mente humana naquele meio. E a música está fundamentada na matemática. Por causa da cópula do sujeito e do predicado. E. Ela só poderia estar blefando. quando todos os conhecimentos humanos se unem. Isso só poderia me sugerir que pensar sobre o “sentido” significava se afastar cada vez mais de onde eu queria chegar. você só poderia ser um membro importante do governo ou pertencer a alguma família de peso que possuísse pelo menos um brasão reconhecido nos Arquivos de Castália. Seria somente através daquela disciplina elevada que se encontrava Deus? Ou quem sabe um novo Deus tenha sido criado naquele instante? O que era a Verdade? Ela estava mesmo escondida por trás dos muros de Castália? Havia algum tipo de sabedoria antiga e esquecida que foi mantida intacta sob a proteção dos guardiões do Jogo das Contas de Vidro? Eu já tinha ouvido falar que aquele que compreendesse o pleno sentido do Jogo deixaria de ser um jogador. não devia ser grande coisa para produzir um jogo relevante. Não adiantava nada ter as bolinhas. Pelo menos ninguém de fora das escolas de elite. Era como tentar tocar 11 . E para ser convidado até mesmo para um curso de verão.

Eles sangram como todos nós. Igor era um fanático por Castália e pelo Jogo. Seu sonho era ter uma profissão que desse muito dinheiro. Eles misturam as suítes de Bach com trechos de Fausto do Goethe. Era como se tivessem roubado meu sonho secreto. E eles não possuem a Verdade. enquanto nós realizamos o verdadeiro trabalho. A realidade não é um quebra-cabeça perfeito. – Mais do que você. Antes meu amor pelo Jogo era meu segredo particular. eles são sustentados pelos nossos impostos para viverem numa nuvem. Eles são ignorantes políticos. de uns tempos para cá. É só um monte de fragmentos conectados artificialmente que geram uma aparente harmonia. – Você é só uma estudante e provavelmente nunca trabalhou na vida. Tinha até uma tatuagem nas costas com a insígna do Jogo de Avelórios. Esse jogo é como uma colcha de retalhos mal feita. Acho que fiquei momentaneamente furiosa. Eu diria que o Jogo de Avelórios é um retorno à Era do Folhetim! Eu provavelmente elevei a voz demais e me exaltei dizendo isso.Wanju Duli violino sem nunca ter segurado um deles antes. Os alunos de Castália não são especiais. pois vários colegas meus olharam na minha direção. então cala a boca. Os jogadores disso se acham superiores só porque para jogar é preciso entender gramática a fundo e uma linguagem secreta restrita ao clubinho. Mas não me intimidei. E tentar aprender sozinho e descobrir as regras seria particularmente complicado. Quando alguém quer ver sentido em qualquer coisa. – Não há espiritualidade alguma nesse jogo – prossegui – não mais do que num jogo de pôquer. mesmo que o sentido não exista. quem sabe tornarse um político importante e ser convidado de honra para assistir anualmente ao Jogo. senão impossível. 12 . cria-se um. Duvido que saiba alguma coisa sobre política. com suas existências imaculadas e elevadas.. ficar rico. – Esse jogo é uma grande bobagem – eu disse – é tão trivial quanto qualquer outro jogo. A Verdade não está à venda para ser patenteada e escondida num buraco! Além disso. então eu fingia desinteresse quando falavam comigo sobre isso. Porém.. vários colegas meus se tornaram interessados nas escolas de elite e ficavam tagarelando sobre isso nos intervalos das aulas.

Por que aquele lugar exercia um fascínio tão grande sobre todos nós? Estávamos convencidos de que vivíamos numa espécie de mundo platônico de sombras e que as escolas de elite possuíam a luz. Eu quase explodi ao escutar isso. já que ao meu redor eu só via frustrados. – Vamos jogar sem você – disse Celina – esse meu amigo que fez o curso de verão será nosso Magister Ludi.A Era do Folhetim Eu não o culpava por ter esse sonho. Se Castália fosse um internato qualquer. Só gostavam de lá porque era um local cercado de mistérios. arrume seu próprio Mestre de Jogo. – Você é surda? Não tenho o menor interesse nesse joguinho fútil. Se quiser jogar no futuro. Aposto que vai ser uma porcaria. – Eu só estava tentando ser simpática – retrucou Celina – você está com inveja. Não essa matemática comum dos colégios. Eu começava a odiar as escolas de elite com mais força a cada dia. ninguém daria a mínima. Todos lá queriam ser especiais e saber os grandes segredos. Vocês só estão se fingindo de especialistas. Provavelmente eles mesmos não nos revelavam tudo porque não sabiam. Eu iria mendigar migalhas de qualquer fofoca sobre o Jogo que o amigo dela revelasse. aquela que tem um espírito. Cada vez mais fitávamos nossos professores como se nos contassem apenas uma parte da história e estivessem escondendo alguma coisa importante. pare com o teatro e nos ensine a verdadeira matemática. Tudo o que eu queria na vida era me sentar com meus colegas imbecis e jogar aquele lixo. ensinada pelas 13 . O mundo em que vivemos raramente permite sonhos muito diferentes desse. mas a Verdadeira Matemática. O cara tinha pisado em Castália! Eu teria vontade de estrangulá-lo se o visse. É claro que eu estava morrendo de inveja do idiota do amigo dela que tinha feito o maldito curso de verão. Eu tinha vontade de dizer: “Professor. Tenho vontade de espiar esse jogo só para rir depois. Mas meu orgulho tinha estragado tudo. choramingando por fazer parte de uma escola comum. pois ela evidentemente estava falando a verdade. Celina. recolheu as contas que colocou na minha mesa. minha outra colega. Eu provavelmente odiava ainda mais o meu próprio colégio.

Eu não era 14 . Mas depois que atingi uma certa idade. Eu já estava acostumada com uma vida em comunidade. Desde pequena eu aprendi a sorrir e a ser dócil. mas pelo menos tinha um teto e comida. já que alguns colegas meus estavam começando a estudar mais apenas para adquirir uma habilidade superior no Jogo de Avelórios. Sônia era minha melhor amiga. Não iam adotar nenhuma de nós e quando completássemos dezoito anos seríamos chutadas para fora da droga do orfanato. de imediato – pelo menos lá não tem esse bando de pedantes. e portanto jamais existiria a Verdadeira Matemática? Ou que de fato existiam matemáticas verdadeiras e falsas? E existiriam diferentes graus de falsidade e de verdade? Eu estava cansada de tentar adivinhar as coisas. Talvez eu até tivesse mais conforto por lá do que em minha vida atual. Já tinha feito vastas pesquisas na internet e em bibliotecas. Eu morava no mesmo orfanato que ela. Essa era uma clara desvantagem. mas era simples. Era somente uma cópia mal feita e incompleta. que não era real. tirando o fato de que nas escolas de elite eu teria que me matar de tanto estudar. morar em Castália seria fácil. que deveria se chamar “Jogo do Folhetim”. Só fingiam que jogavam para se sentirem superiores e elevados. os professores ultimamente comentavam que a nota geral da turma havia subido. E eu obviamente não poderia dar uma escapada para o fliperama. Na verdade. Ou digamos que ela era um pouco mais que isso: era minha namorada. Mas eu tinha amigas de verdade lá. Quanta besteira! – Estou entediada – disse Sônia – vamos no fliperama? – É claro – eu respondi. O nosso orfanato não era miserável. Não que eu amasse aquele lugar. O que ele diria? Que a matemática era somente uma invenção humana. mas eu sentia que nossa paixão era sincera. Eu diria que aquele jogo que eles jogavam estava mais distante do Jogo de Castália do que a Terra do Sol.Wanju Duli escolas de elite. Para mim. para que algum dos casais que visitavam o orfanato me adotasse. aprendi que não teria mais jeito. antes de o ensino se tornar uma mercadoria”. Sempre havia muitos afazeres domésticos. Ainda éramos muito novas para saber algo sobre o amor. Aquela que ensinavam no passado.

Lá ela perdeu. – Mas que diabos? – perguntou Sônia – por que tem tanta gente no fliperama hoje? – E logo no Pump – observei – tem uma galera reunida lá.! Eu também fiquei boquiaberta. Eu não fazia a menor ideia que ela frequentava o fliperama perto do nosso colégio. Quem estava no Pump era ninguém menos que a D. mas relaxava nas raras vezes em que sobrava grana para ir lá. Daria para jogarmos Pump três vezes. Ela estava tão concentrada que parecia hipnotizada. Dancer Demon. muita gente a reconheceu e chamou outras pessoas. Eu e Sônia. pois já que teríamos que sair do orfanato com dezoito. Eu gostava de ser otimista e acreditar que um dia tudo ia se resolver sozinho. 15 .D.. Eu estava espantada demais para pegar meu celular. Era tão natural para ela que seu corpo se movia sem nenhum esforço. Devia ser a primeira vez e ela só estava de passagem. Não íamos fazer o ensino médio. Assim que completássemos quatorze anos. Tá tendo algum evento? – Eu não acredito.D. mas isso não diminuiu em nada nossa admiração. as perspectivas não eram muito animadoras para mim e para Sônia. Ela era linda como nas fotos e vídeos. Mesmo assim. Vestia trajes de verão: um short jeans curtíssimo e uma regata branca. Tênis esportivos sem meias. Era a primeira vez que eu a via ao vivo. era melhor já começar a juntar grana para alugarmos um lugar para morarmos juntas. que curtíamos pra caramba jogar Pump embora não fôssemos muito boas. acompanhávamos os campeonatos pela internet. Muitos estavam filmando no celular enquanto ela jogava. Eu e Sônia reunimos nossas moedinhas e contamos. E ainda sobraria moedas para um crepe. Apenas fitava impressionada aquele demônio dançante que fazia com que o Pump parecesse tão fácil quanto respirar. Seus longos cabelos negros e ondulados estavam presos num rabo de cavalo alto. eu e ela tínhamos planos de largar o colégio e começar a trabalhar. já tinha vencido o campeonato nacional e até viajou para a Coreia para participar do mundial. ou qualquer outro de seus apelidos. Ainda assim.. D²..A Era do Folhetim uma jogadora compulsiva. Dia de sorte. A D.

Wanju Duli Quando terminou a música houve uma salva de palmas e gritos. – Ela realmente intimida – concordou Sônia – mas parece ser simpática. Eu queria poder sentir o que ela sentiu. Mas elas jogaram apenas uma vez e depois saíram de lá. com coxas grossas. Eu tinha a pele negra. Uma garota bonita que era skatista e jogava Pump. Ela saiu de lá suada e uma amiga sua entregou a ela uma toalha para que enxugasse o rosto. muito sérios. E não é que ela era mesmo uma celebridade? Mas eu fiquei um pouco embaraçada para pedir um autógrafo também e me contentei em continuar a observá-la de longe. Ela usava trancinhas cheias de contas coloridas. Esse jogo eu não conhecia. Pensar nisso me deixou um pouquinho feliz. – Você é fã mesmo. Com a roupa que usava. ela foi jogar um jogo de tiro junto com a amiga.D. Apenas a admirava totalmente. – Qual sabor de crepe a menina de rabo de cavalo pediu? – perguntei para a moça do crepe – eu quero o mesmo! Ela tinha pedido o de doce de leite. Ela tinha a pele naturalmente bronzeada. admirada – por que não pediu um autógrafo? – Sei lá – respondi – ela é meio assustadora. Sorte que naquele dia a minha roupa até que estava arrumadinha. alguns pegaram papel e caneta para pedir autógrafo. Eu não a invejava nem um pouco. mas a pele dela não era tão escura quanto a minha. mas aproveitei a chance. bem escura. Mesmo que eu não tivesse conversado diretamente com D. A seguir. especialmente entre os rapazes. Depois disso. é claro que ela não poderia ter deixado de reparar em mim. 16 . Eu nunca passava despercebida por onde eu ia. Não era à toa que era famosa. Olhos negros e profundos. Era cheia de curvas. Ela não era exatamente magra. e um black power. Sônia também era negra. Eu raramente pedia esse. Eu era inesquecível. cada uma com um crepe na mão. dava para ver com clareza os contornos de seu corpo.. Eu sabia que ela também gostava de andar de skate e levava isso bastante a sério. hein? – comentou Sônia. Eu era fã.

Tinham um ano a mais que nós. Para sempre! – Ela vai morrer?! – berrou Mel. vocês lembram da D. lavar o banheiro. com um grito. limpar o chão. – Tá de brincadeira! – exclamou Melissa. – Eu sei. – Pelo menos é o que os fãs dela dizem – expliquei – ela vai viajar amanhã de manhã. Já Melissa era bem gorda. – É claro que não.D. – É mais fácil ir para o além do que para Castália – observou Sônia. – Mel. 17 . Deu um trabalhão. A aparência delas era praticamente oposta. ainda com sua voz alta e escandalosa. Ficamos satisfeitas apenas com os crepes e por ter presenciado aquela cena única. ela só tem 14 ou 15 anos! – respondi. – Não tiraram foto? – perguntou Luana. Luana era muito magrela. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ela estava partindo. animada – a gente viu ela hoje no fliper. e sim para Castália. Provavelmente só está de passagem. Mel tinha os cabelos bem curtinhos como os de um menino. – Não tirei foto porque sou uma imbecil – confessei.? – contei. com peitos relativamente grandes. por isso preferimos deixar para jogar outro dia. mas ela não está partindo para o além.A Era do Folhetim O Pump ainda estava cheio depois daquele acontecimento. as roupas. À noite resolvi espiar a fanpage dela no Facebook para ver se havia alguma informação sobre a passagem dela pelo nosso fliper. horrorizada. – Não sou uma stalker! – retruquei – que eu saiba ela nem mora nessa cidade. uma tábua sem peito e nem bunda. quase num black power. – Por que não a perseguiu e descobriu onde ela mora? – perguntou Melissa. Sônia me fitou de forma peculiar. mas fiquei orgulhosa quando terminei. Mel e Lua eram outras grandes amigas nossas. – Pessoas morrem em qualquer idade – justificou Mel. havia muitos serviços domésticos para fazer e dividimos as tarefas: lavar os pratos. tendo os cabelos com penteados também opostos: enquanto Lua tinha cabelos grandes e revoltos. Quando voltamos para o orfanato. As duas eram negras. Lua.

pois mostravam que o aluno possuía o mínimo de disciplina para cumprir metas. meus colegas não falavam de outra coisa durante a aula. Eu achava improvável que D.D. Ela nunca mais vai poder jogar Pump ou andar de skate..D.. No dia seguinte. Claro que as notas eram importantes. séria no Pump. as notas dela eram normais.. Essa foi a primeira vez que ouvi falar de alguém que foi estudar nas escolas de elite. 18 . já que geralmente as crianças são chamadas para estudar lá com 12 ou 13 anos. Aquele lugar era tão importante assim para que uma estrela como D.D.D. Até onde eu sabia. que lhe tomou mais de um ano. Vai estudar biologia. é tudo proibido nas escolas de elite. Não era exatamente uma pessoa próxima a mim. mas já que Castália estava no meio daquilo. E por lá os rumores rolavam soltos. fosse retornar como os outros. Eu nunca tinha ouvido falar que ela se destacava na biologia.Wanju Duli – Esperem – disse Luana – pelo que eu saiba. mas não deixava de ser uma espécie de conhecida.D. Eu também quis saber mais. os valores. Aqui diz que ela foi escolhida pelas notas altas em ciências. muita gente que não ligava para as escolas de elite passou a pesquisar mais sobre isso. Ela havia sido uma exceção. Porém. os motivos. – Sim – concordei – ela vai sacrificar o futuro brilhante dela apenas para estudar em Castália. Não que D. mas eu desconfiava que o Magister da escola de biologia havia visto algo mais em D. fosse famosa como uma cantora ou atriz. Ela era uma pessoa séria em tudo que fazia: era séria no skate. os caras não deviam ver apenas as notas. A maior parte deles nunca tinha ouvido falar na tal skatista. o principal era ver o caráter. Ela iria partir e o resto seria silêncio. mas ela era uma lenda no submundo da internet. chamou a atenção deles. Aquela entrevista. Por causa dessa história. largasse tudo apenas para viver lá? Será que ela havia pensado bem sobre isso? Não tinha ficado em dúvida? Provavelmente foi um dilema para D. além dos seis meses habituais. Foi concedido a ela tempo extra para refletir. E Castália ganhou ainda mais notoriedade. Não que eu soubesse muito sobre a vida pessoal dela. Só que não havia muito mais a ser dito. Para mim era prova suficiente de que ela seria capaz de aguentar a disciplina rigorosa de Castália.

A Era do Folhetim O quão legal seria estudar no mesmo lugar que D. No fundo. Eu retirava livros na biblioteca sempre que podia. Só pelo prazer de passear por aí com um livro aberto do Dostoiévski. Até que seria bom se me permitissem viver no orfanato para sempre. Eu já estava com 13 anos. Devia ser por isso que eu sentia raiva dos meus colegas que fingiam jogar o Jogo das Contas de Vidro: porque eu fazia algo parecido. Elevar as notas. Contudo. O primeiro passo para ter uma chance era estudar muito. e depois começaria a trabalhar. Chamar a atenção dos professores de uma forma positiva. então serviria qualquer um. Enganava até a mim mesma. Era como olhar a mim mesma no espelho e constatar: “veja só como você é um ser humano desagradável”. Em qualquer coisa. eu já sabia 19 . como eu queria sair de lá! Seria mais difícil me sustentar. Eu já lia livros difíceis. E eu não gostava de ver nos outros as coisas que eu detestava em mim mesma. Ao mesmo tempo. A única coisa que eu realmente gostava de fazer no colégio era ler livros de ficção. fingia que lia e compreendia livros áridos. Só lia para dizer que li. Eu apenas concluiria aquele ano no colégio e o seguinte. Ela me comprava completamente. Só queria continuar a morar com Sônia. Não bastava desejar ir. Não seria fácil conseguir emprego com aquela idade. A velha palavra sedutora outra vez. Eu não me importava. mesmo que estudássemos disciplinas diferentes.? Era mais um motivo para desejar estar lá. eu não tinha grandes sonhos ou ambições. que foi muito pobre quando criança e obteve todo seu conhecimento com seu próprio esforço de ler muitos livros. Gostava de me sentir como Machado de Assis. Isso me dava nos nervos. Mas isso não era o bastante para ser escolhida para as escolas de elite. Eu tirava só o necessário para passar de ano. Eu era apenas trapaceira. embora não os entendesse. mas quando eu morasse junto com ela teríamos mais liberdade. com uma promessa de felicidade. Estava no limite de tempo. ter comportamento exemplar. Só que as vagas eram limitadas. Confesso que eu era um pouco metida e sempre retirava livros direcionados a leitores mais velhos que eu. Minhas notas eram apenas regulares.D. Liberdade. Não que esse teste servisse para medir o meu caráter.

Prossegui a minha leitura de “O Ateneu” de Raul Pompéia. Eu teria medo de perdê-lo. 20 . Eles passavam por dificuldades pelas quais eu não passava. Não era o suficiente? Era irreal fantasiar que os alunos das escolas de elite eram mais felizes que eu. Em compensação. onde tudo começou. também houve o retorno da Era do Folhetim. Depois de uma participação mais ativa do Brasil em guerras mundiais. E ainda reclamávamos das mesmas coisas. Eu não tinha do que reclamar. De certa forma eu tinha sorte: os livros de papel ainda não tinham sumido. Estávamos em 2288. e ultimamente ela estava tão popular quanto a sede alemã. Com os cérebros de nosso país direcionados para as forças armadas. era comum que estrangeiros desejassem estudar na nossa Castália. tinham certas vantagens que eu não possuía. Havia momentos em que eu desconfiava que nem mesmo ter dinheiro faria com que eu me sentisse livre. já que ele me daria uma falsa sensação de segurança e liberdade. Essas coisas vão e voltam. Em compensação. Era possível que ter dinheiro me aprisionasse ainda mais. tornou-se uma instituição de peso. Era de 1888. Por isso. Sentiria insegurança caso não o tivesse de novo. A Castália brasileira. porque eu tinha pão todo dia. chegou um momento em nossa história que passamos a nos destacar nas guerras que estouraram posteriormente. Eu queria ser feliz e livre.Wanju Duli que naquele mundo materialista possuíamos apenas uma liberdade aparente. de usá-lo de forma errada. O Brasil sempre se destacou pela sua força militar. houve um retorno às antigas e uma tentativa de restauração das bibliotecas que foram destruídas após as grandes guerras. chamada de Nova Castália. O internato descrito naquele livro era realmente um lixo. Em certo momento. com um aspecto fortemente místico. Era incrível constatar que 400 anos já tinham se passado. tanto que até os dias de hoje nossos colégios e universidades de maior destaque eram militares. cada vez mais gente desejou um retorno à espiritualidade. A grande questão era se essas tais vantagens seriam assim tão sublimes. por influência dos carmelitas. numa busca de resgatar os valores perdidos. Mas eu já não era todas essas coisas? Minha vida estava boa.

como uma prisão. 21 . e Hemingway. Eu tinha ouvido falar que nossa Castália localizava-se em algum lugar do Piauí. – Deixando isso de lado. Só não fui mais porque custa caro. embora aquele não fosse exatamente um segredo. – Gosto de Proust. Eles apenas ocultavam discretamente essa informação.. aguardando que ela falasse. Nunca vi prisão mais cobiçada que essa. mas eu não tinha certeza se era na capital..A Era do Folhetim Eu lia muito e me interessava por tudo que tivesse relação com as escolas de elite. – Senhorita Santa? Eu levantei os olhos. – Já leu “Em Busca do Tempo Perdido”? – Já. Estivera lendo distraidamente “O Ateneu” num dos bancos do colégio e não vi quando a professora de português se aproximou. não faria tanta diferença saber onde era. Infelizmente não havia tanta coisa disponível ao grande público. Ou bungee jump. Um particularmente empoeirado que ninguém retira há anos. – Você realmente gosta de ler – ela comentou – eu nunca vejo nenhum dos outros alunos com um livro na mão. já que se os portões principais não fossem abertos ninguém entrava e ninguém saía de lá. Eu apenas a fitei curiosamente. estranhando. simplesmente – como escolher o livro mais chato da biblioteca para ler. qual o seu autor favorito? Ela sentou-se ao meu lado. – Gosto de fazer coisas que ninguém faz – respondi. então eu me contentava em ler tudo o que encontrava. – Bungee jump? – perguntou ela. para impressioná-la. mas não consegui pensar em nenhum. – Então por que continua lendo? Eu dei de ombros. – Já faz alguns séculos que temos outras diversões mais interessantes que livros. Eles não gostavam de deixar claro a própria localização. Pensei em algum nome bem difícil para pronunciar. Como se dizia que eles possuíam muros altos como uma fortaleza. – Está meio fora de moda hoje em dia – respondi – mas já fui duas vezes.

– Porque eu quis – respondi. de imediato – não sou tão estúpida. Patético. “Por que essa conversa ainda não terminou?” pensei. – Por quê? – ele perguntou. – Que livro é esse? – perguntou um garoto que eu não conhecia – “Til”? Nem sabia que o José de Alencar tinha um livro com esse nome. impressionada. Significava que cinco anos atrás alguém se interessou em ler aquele livro. gosto mais de ler do que de falar sobre os livros. Aquele já estava há cinco anos sem ser retirado. – Perdão! – exclamei. Até que era pouco. Enquanto eu passeava pelo pátio. Propositalmente. mas com moderação. retirei um livro do José de Alencar. – Você não sabe uma coisa simples como essa e ainda pensa que pode jogar o Jogo de Avelórios? – desafiei-o. para estragar tudo. Quando devolvi o Raul Pompéia para a biblioteca. Incrível. deixando claro que estava sendo insolente – o livro estava tão interessante que tive que desocupar as mãos para limpar as lágrimas dos olhos. 22 . simplesmente – as pessoas devem fazer o que seu coração manda. incomodada. derrubei o livro em cima das bolinhas que formavam círculos concêntricos. Eu quase disse que discutir os livros depois de ler era como fazer sexo e debater sobre a transa logo após. para mostrar como eu me encontrava num patamar acima deles. sacudindo meu livro do José de Alencar. Eu era um pouco masoquista. Eles nem mesmo sabiam como se portar para jogar um autêntico Jogo de Avelórios. – Claro que não – respondi. Passei ali perto de propósito. vi meus colegas debruçados no chão no intervalo como se jogassem bolinhas de gude. são todos chatos – respondi – na verdade. – Qual foi o livro mais divertido que você já leu? Aquilo era um interrogatório? – Nenhum.Wanju Duli – Todo? – ela perguntou. mas segurei a língua. – Fiz um curso de verão em Castália. – E eu assassinei uma tartaruga no verão. Não precisam de um motivo superior para isso.

Fiquei surpresa ao constatar que ele não disse aquilo com ironia. – Bom para você. Ele realmente parecia sentir muito. Você já alimentou ratos? – O quê?! – Eu vou te esmagar como um rato se você continuar aqui fingindo que está jogando o Jogo. relembrando do período em que passou fome. E ele também alimentou os ratos quando estava na prisão. – Que merda é essa? – gritou ele. Passei os dois dias no fliperama. Dessa vez ele se enfezou. E dei. 23 . Fiquei realmente comovida quando Hitler relata como chorou em seu travesseiro quando a Alemanha perdeu a Primeira Guerra. É claro. – Sinto muito ouvir isso. Gastei todas as moedas do meu cofrinho no Pump. – Pode me bater de volta – provoquei – assim nós dois levamos advertência. Fui imediatamente delatada. Eu não tenho pai. Picotei o livro do José de Alencar com uma tesoura e quando o devolvi para a biblioteca na segunda-feira seguinte. Aposto que se eu jogar contra você agora. Achei ótimo. Eu fiquei sem fala por alguns segundos. Mesmo assim. – Eu nem mesmo estudo aqui. levada na diretoria e fui suspensa da aula por dois dias. – No ano passado fui com meu pai para Berlin e assisti a um jogo oficial orquestrado pelo próprio Magister Ludi. Especialmente pelo uso do termo “orquestrado”.A Era do Folhetim – Você já leu Kant? – ele perguntou – está familiarizada com o Imperativo Categórico? – Você já leu “Mein Kampf”? – retruquei – eu já li. repleto de compaixão. Me senti idiota. – Isso é o que você acha! – gritei – você não sabe de nada! O garoto deu um sorriso cínico. Ele estudava num colégio particular. – Quem é seu pai? – perguntei – é o papa? – Ele é deputado. vencerei de olhos vendados. eu queria uma desculpa para dar um soco na cara dele. – Esse jogo não é sobre ganhar ou perder.

– Por que isso te aborrece? – perguntou minha professora. Também tive que pagar por ele. mas eu não me importava. 24 . – Nunca fui uma boa aluna – respondi – e nunca tive nada a perder. Minha professora de português me chamou para conversar após a aula. De que adiantava se minhas notas não se destacavam? – Estou de TPM – resolvi dizer – então tive vontade de socar um homem. O que eles estão fazendo é um sacrilégio. Eu nem havia tido minha primeira menstruação ainda. Você sempre se comportou em aula. Eu já li sobre isso. Uma síntese é feita a partir da tese e da antítese. Ele nem estuda aqui. Quanta bobagem. – Sempre enxerguei o Jogo como uma arte. deseja-se abarcar o universo. E ele falou mal do meu pai! Eu nem tinha pai. – Porque não é assim que se joga. dois ou três – expliquei – os jogadores devem primeiro meditar sobre os símbolos escolhidos. embora eu nem tivesse cachorro. O que realmente aconteceu? – Aquele menino não tinha autorização para estar dentro do nosso colégio. mas isso era apenas um detalhe. Para isso é preciso alargar seus domínios. parecendo interessada. Com ele. Estava um pouco atrasada para a minha idade. Maria? Você sempre foi uma boa aluna. – Isso obviamente não justifica suas ações. O Jogo é um organismo complexo. – Confesso que estou desapontada. Nunca ficou em recuperação. Ou talvez eu tivesse e ele estivesse passeando por aí. – O que está acontecendo.Wanju Duli expliquei que meu cachorro comeu o livro. – Como se joga? – A mecânica do jogo é possuir temas restritos de conteúdo: normalmente um. eu leio muito. – Como sabe de tudo isso? – Como eu disse. – Ele finge que sabe jogar o Jogo de Avelórios – acrescentei – isso me aborrece.

Mas em geral não prefiro poesia. Parecia ter em torno de quarenta anos. Eu não gosto dos exageros dos poetas românticos. mendigo. enquanto nos lamentarmos e disputarmos sobre as aparências do mundo. Minha professora autorizou-a a entrar. se é possível chamá-lo assim. ou escrita poética. Ela me entregou um pedaço de papel. Alguém bateu na porta. Não gosto de ler. Ele possui problemáticas que devem ser resolvidas. Minha professora saiu pela porta. É algo maior. – Prefere poemas mais equilibrados? – É. a sonhar amores monstruosos e universos fantásticos. Como uma guerra. – Um embate. 25 . – Meu nome é Lorena Flores. O cabelo estava caprichosamente preso num coque bonito. Era uma mulher vestindo trajes bem arrumados.A Era do Folhetim – Uma arte sui generis. – Mas você reconheceu imediatamente que era Rimbaud.. bandido. Nele havia um tipo de poema. – A guerra dentro de mim. – Você é Maria Santa? Concordei. confessor. artista. – Quase isso. – Vou deixá-las conversar. Ela sentou-se ao lado de minha professora. – É ela? – perguntou a mulher. Muito prazer. mas acho que na minha idade e na dele isso é inevitável.. guardião dos perfumes sagrados. Ele expressa o velho conflito entre o estético e o ético. saltimbanco. – Prefere prosa? – Não prefiro nada. – sacerdote! Sobre meu leito de hospital. Eu estava encrencada. mártir. de imediato – é de sua magnum opus. A matemática é um tipo de instrumento e é mais útil numa partida formal e não num embate psicológico. – Como problemas de matemática. o cheiro do incenso me faz tão poderoso." – Rimbaud – pronunciei. como Olavo Bilac. "E existiremos enquanto nos divertirmos.

Mas por que estamos falando de religião? – Você é ateísta? – Não achei que Castália fosse uma espécie de Maçonaria – respondi – preciso acreditar em algum tipo de Deus para entrar? Eu sabia quem ela era. – Não gosta do conhecimento? – De que conhecimento estamos falando? – perguntei – posso passar a conhecer mais as nuvens se olhar para elas. preferi ter continuado a falar do assunto anterior. Outras coisas costumam perecer. – O que acha de religiões? – São fortes. Como um espírito. não é mesmo? – Na maior parte do tempo – concordei – mas pode ser que algumas coisas possuam valor intrínseco. – Suas notas não são muito boas. É só me dar um bom motivo. – Não gosta do Jogo. Por um momento. por sua força. Por quê? De repente. Não precisa ser uma competição como aquela besteira de Jogo das Contas de Vidro. poderosas.Wanju Duli – Qualquer um reconheceria. Foi uma constatação. – Nós atribuímos os valores para as coisas. – Curioso. mas as palavras possuem uma espécie de sedução. Não sei muito bem dessas coisas. Não foi uma pergunta. – Eu gostava antes. Eu me pergunto se é esse tal espírito que as mantém de pé. mais me pareceu trivial. sobrevivem às guerras e às mudanças dos tempos. Achei ótimo. quando não o conhecia – respondi – quanto mais li sobre ele. Ela não perguntou porque eu lia. – Sou naturalmente curiosa. apenas para o que me interessa. 26 . mas não leio porque gosto. Eu leio muito. É conhecimento desse tipo? – Qualquer um. – O colégio é chato – respondi – não temos nenhum incentivo para estudar além de passar de ano. uma Verdade ou Deus. passar no vestibular e no futuro ganhar dinheiro. eu realmente pensei que fosse algo de valor.

– Então existem coisas certas e erradas? – Vejo que aprendeu algo novo hoje. Aquela ironia cortante era como uma faca de mel. sou como todos os outros! – exclamei. Apreciei a brincadeira.A Era do Folhetim – Não precisa acreditar em nada. como todos os outros. mas quando o amor do amor se separa. Ela me cortava e eu gostava cada vez mais. Então quanto mais ordinária eu for como ser humano. Você. ou você é diferente? O tom com que ela perguntou aquilo me gerou uma sensação desagradável. Ela me passou outra folha com o trecho de um livro. – Afinal. mais facilmente irei me fundir à multidão. como se dissesse: “você faz parte do gado?” – Ah. tem medo de responsabilidades. com orgulho – não sou diferente ou especial. sim. um ser superior das escolas de elite. a não ser em sua capacidade de obedecer. – Isso é totalmente natural. Aquela mulher aparentemente simpática conseguia ser amarga quando queria. 27 . mas eu não sou boa nisso – deixei claro – nunca fui. só faço o mínimo necessário e estou naquela idade difícil de desafiar a autoridade e questionar o que me ensinaram. Não sou esforçada. sem dúvida. “O amor procura o amor assim como os meninos fogem dos livros escolares. – Agradeço pela lição – eu disse – você é. Eu suspirei. Agora ela assumia um tom nietzscheano. mas errado. Pensei que em Castália a capacidade de desaparecer e se manter anônimo fosse uma virtude. – Obrigada pela sinceridade. fica como os meninos dirigindo-se à escola: de ar sombrio”. qualquer outro mataria por essa oportunidade única – completei. Masoquismo extremo. – Confesso que estou muito curiosa para conhecer a sua razão de não desejar estudar lá. – É um pensamento ousado.

Ao mesmo tempo. aposto que foi o patife do Romeu quem disse. mas você não é apropriada para as escolas de elite. então. – Moro num orfanato e faço todos os afazeres domésticos – expliquei – acordo todo dia às quatro da manhã. mas não celebre – ela avisou – a maior parte dos cadidatos desiste. – Saiba que fui entrevistada na semana passada e recusei. Era como se eu fosse enviada para outro mundo. – Eu errei? – perguntei. É apropriado. O maior desafio será o que enfrentará lá dentro. – Isso me parece Shakespeare. – Não são desafios desse tipo. Serão coisas bem diferentes do que você conhece. confusa – se não é Shakespeare. 28 .. faríamos um exame para selecionar os candidatos.. posso perder uma parte ou outra para me encaixar. Quando contei a notícia para Sônia. – Você aceitou – ela disse. como se desejasse me despedaçar com as próprias mãos. Fiquei sem fala por um instante. com voz fraca. – Não sei o que dizer – eu respondi. – Posso te colocar lá se eu quiser. mas não me recordo do livro – eu disse – se é amor.. mas não me importo. – Sei que não sou apropriada. Nem sei porque essa entrevista aconteceu. ficou com uma curiosidade mórbida ao meu respeito. Mas se somente nos ocupássemos com acertos desse tipo. – Sinto muito. Sempre tive horário para tudo. ela ficou chocada. – Sente que vai perder uma parte de você se tentar? – Pode ser que eu perca. Você quer? Novamente. A mulher saiu sem se despedir. – Amanhã você fará sua viagem.. finalmente – não faço escolhas somente por querer ou não querer. Se houver alguma unidade em Castália. Vivo num mundo de pedaços. Ela não gostou de mim. – Você acertou.Wanju Duli Tive que ler mais duas vezes para me lembrar. O desejo é algo passageiro. – Não deveria? – perguntei. pouco a pouco. ela me deixou sem palavras. Aquela mulher sabia bem como fazer isso. talvez. Eu diria que me odiou.

Se eu me gabasse cedo demais e depois não aguentasse. Agora não vou voltar a ficar junto contigo nem que implore. As pessoas não falavam sobre isso. Se ela não tivesse feito voto de castidade também. – Ainda faço. eu não estava indo para a Castália alemã e tinha pouco interesse nela. – Eu amo – afirmei – com todas as minhas forças.. Era uma situação complicada. Pensei que ela fosse entender. especialmente porque muitas eram recusadas logo no processo de entrevista. peguei um ônibus até Teresina. – Vai fazer algo com que não se importa só por causa do título? – Estou de saco cheio – esclareci – preciso saber o que é Castália. Mas aquela brincadeira podia me fazer perder o ano. Vá lá e namore a D. Estávamos falando das escolas de elite! No dia seguinte. Posso me tornar Magister de literatura. – O Jogo? – perguntou Sônia. Havia apenas uma regra não dita sobre discrição. Nova Castália me chamava muito mais a atenção. Vai tomar no cu. E ela se retirou. Maria. Pelo visto. 29 . seria um pouco vergonhoso. Coloquei o básico numa mochila e me despedi de Lua e Mel. – Eu tenho. ficava mesmo na capital. – Mas não me importo em ler. Eu não tinha muita coisa para levar. fazer voto de castidade e abdicar das posses materiais – disse Sônia – como se não me amasse. O Jogo não é a única possibilidade. eu estava descobrindo que as entrevistas não eram tão raras como eu pensava. com desprezo – até ontem você fazia troça disso.A Era do Folhetim Subitamente. Não contei para meus colegas para onde estava indo. Sônia nem queria ver a minha cara. era melhor eu me gabar somente depois de ser aceita na escola. não tenho interesse em Castália. Mas existe algo maior que eu.D. – Recusei por você – ela disse – além do mais.. – Você vai viver lá para sempre. De qualquer forma. Afinal. Ainda mais depois de eu ter criticado tanto Castália. – Você disse que não gostava de ler. se eu ficasse lá tempo demais e depois desistisse. – Vai me largar porque está de saco cheio.

já que as notas dela eram melhores que as suas. ter que me comunicar num idioma que eu não conhecia seria particularmente aborrecedor. Fiquei sabendo que aquele lugar enorme era apenas um tipo de seminário para os novatos. mas o bastante para ser aceita por lá. Fui escolhida para te instruir. provavelmente poucos anos mais velha que eu. Ela claramente não era brasileira. Aquilo tudo parecia uma piada. Se houvesse um motivo maior. esse é o sistema daqui. Deve ter se espalhado a notícia de que eu estava fazendo bullying com meus colegas adoradores de escolas de elite. Sabia que era capaz disso. Dividiremos quarto. Minha paciência tinha limite. Tentei relaxar e deu certo por um tempo. Além disso. só para depois dizer: “Está vendo tudo isso aqui? Não será seu”. eu só não me dedicava no colégio porque não me interessava. 30 . Minha vida estava em jogo. – Eu não sou boa – eu disse – a Magister pretende me insultar. para entender. Eu não pretendia tomar cuidado lá dentro. – Não sabia que era tão boa no colégio – comentou Lua – até entendo o caso de Sônia.D. ser obediente e ter disciplina.Wanju Duli especialmente porque era lá que estava D. mas era sério. Se eu aguentasse o primeiro mês. eu poderia me esforçar. Enquanto estava na rodoviária esperando o ônibus. – Ah. com muros imensos. Não tanto quanto D. Ela vai me mostrar o quanto eles são bons. Afinal. O recém-chegado terá a orientação de um veterano ao longo de sua preparação.D. comecei a sentir um frio na espinha. Quer me levar lá para depois ter o prazer de me expulsar. Fui recebida logo no portão de entrada por uma garota com elegantes trajes azuis. me dedicar aos estudos. eu estava com vontade de provar que eu era capaz de ser uma boa aluna. Serei sua mentora. Digamos que era uma localidade bastante chamativa. Eu não deveria brincar assim. Peguei outro ônibus até o local. Somente dali uns oito anos iríamos para lá.. Por outro lado. Durante a viagem. mas quando desci do ônibus voltei a ficar tensa. – Você deve ser Maria – ela cumprimentou-me – sou Mariel Aquino. A Nova Castália deveria ter outra localização. li um livro do Manuel Bandeira. Não foi tão difícil assim achar. – Você é minha mentora? – perguntei.

Porém. Agatha era uma mulata alta de cabelos crespos. Então eu ganharia uma nova família. 31 . Era como vestir um lençol velho. olhos puxados. ali seria diferente. – De onde você é? – resolvi perguntar. ainda por cima. Aquela recepção calorosa me dava a falsa sensação de que minha vida lá seria fácil. Mas era assim que funcionava nas escolas de elite: já escolhíamos nossa área de estudo assim que entrávamos. Mas vá se acostumando. Por isso fui escolhida para ser sua mentora. Fiquei na parte de baixo do beliche de Mariel. – Isso é um uniforme? – perguntei. Mas era a norma. cabelos negros e lisos. fazendo uma careta. Outra garota entrou no quarto naquele instante. hã? – disse Agatha – com tecido de má qualidade. prontamente – e. Nosso quarto também era aconchegante. mas eu poderei te ajudar no que precisar. dali quase dez anos. Tinha a pele morena. Era um local bonito e espaçoso. Mariel caminhou comigo pelos arredores para me mostrar o local. Fui conduzida ao interior da construção. Se bem que. assim como você. escolheríamos formalmente a qual escola iríamos fazer parte. apesar de não ser muito grande. havia outro beliche. Tão alta que parecia quase uma modelo. também estudo literatura.A Era do Folhetim Claro. vestida naqueles trajes azuis não se parecia com uma. Estudante de história. Minhas amigas do orfanato eram como irmãs para mim. Era engraçado ver todas aquelas adolescentes se apresentando como se já fossem estudantes universitárias. E naquele calor não seria muito agradável. você terá uma professora. – Quem é? – Meu nome é Maria – apresentei-me. – Sou Agatha Cruz. Não há muitas regalias por aqui. Somente mais tarde. Ao lado. Era tudo muito simples. – Horrível. Simpatizei com ela imediatamente. Fiquei satisfeita com isso. Então era melhor eu não dar bandeira. Eu teria alguém responsável por mim que eu poderia prejudicar se pisasse na bola. Fiquei contente. Como uma irmã mais velha. Mariel tinha um sorriso tímido e parecia boazinha. – Filipinas – ela me respondeu.

– Onde estão os livros? – Aqui nós temos apenas algumas centenas – explicou Mariel – as bibliotecas principais com os livros raros estão nas Grandes Escolas de Elite. Somente os que me marcaram mais. Até a do meu colégio público era maior. Se a intenção da Magister era me impressionar. ou terá problemas aqui dentro. É claro que eu relia meus favoritos. Claro que eu não havia lido com atenção todos os livros que já li. Já li uns trezentos. Da maioria eu sequer me lembrava bem. para evitar problemas. Ela também me mostrou o banheiro.Wanju Duli – Esse é o dormitório feminino. mas eu gostava 32 . mas não se preocupe. – Não que eu realmente queira estudar literatura – eu corrigi – eu sequer tinha planos de frequentar a faculdade se eu ficasse lá fora. – Coisa estranha de dizer para quem está estudando literatura – riu Mariel. Disse isso a ela. – Tenho quinze. incluindo uma modesta biblioteca. Cozinhar e lavar pratos era um processo longo. não estava funcionando. Não é o número que mais importa e sim o quanto se dedicou na leitura. – Algumas centenas? É tão pouco que não serve nem como leitura de cabeceira – observei. – Até que é bastante para a sua idade. – Quantos livros você já leu? – Certamente mais de cem – respondi – talvez duzentos. mas eu não era tão fã assim de leitura. Ler é apenas um hobby para mim. a cozinha e os outros poucos lugares que eu precisava conhecer. Honestamente. Logo eu descobri o que ela queria dizer com isso. assim como os laboratórios e departamentos dos cursos. Você tem doze? – Treze – corrigi. Nessa escola preparatória eu tinha mais afazeres domésticos do que em casa. O masculino fica lá no outro prédio. – Sugiro que você mude seus pensamentos. eu me desapontei muito com a biblioteca deles. bem longe. Frequentemente vale mais estudar a fundo umas poucas obras e lê-las mais de uma vez para realmente compreendê-las.

A Era do Folhetim de cozinhar. E não podia simplesmente fazer pausas quando queria. – Não me importa que o papa use uniforme de linho – retrucou a Magister – pare de se comparar com os outros. Eles não estavam mentindo. sua meta é o conforto e o lazer. Sempre gostei. – Lógico. Tenha um pouco de humildade. Era desconfortável ficar lendo livros chatos por horas a fio. E lavar pratos já era algo tão comum que até mesmo isso eu considerava relaxante. mas faz parte de um grupo. Você continua com sua mente do século. Não importa o quão quente ele seja. é a única que tenho! – Lá fora. mas somente na biblioteca. Todas as minhas roupas ficam suadas e fedorentas e vou precisar lavá-las mais vezes do que seria necessário só por causa desse lençol que fica em cima. Não tinha permissão para ler deitada na cama ou embaixo de uma árvore. Eu tinha pouquíssimos horários livres. Apenas fique grata com o que lhe é dado em vez de tentar ser a melhor de todas. Lembre-se que o foco é o espírito. sentada numa cadeira dura e com aquele lençol azul escaldante em cima de mim. Era um estudo rigoroso. já que eu tinha um número de livros para concluir a leitura por semana e apresentar relatório. Você não é um indivíduo isolado. Assim que tive oportunidade de conversar com a Magister. A sua vontade de entrar para as Grandes Escolas de Elite será maior que seu calor. Eu me surpreendi ao perceber o quanto eu estava me adaptando bem a tudo. Por que vocês não são mais pragmáticos? – Você continua a olhar as coisas com sua mente do mundo – observou a Magister. iniciei minhas reclamações. mas não aqui dentro. – As garotas me disseram que os iniciantes na Alemanha usam uniformes de linho. use isso como uma lembrança do peso do seu sacrifício. Se há dor. O uniforme a identifica como membro do grupo. 33 . – Por que precisamos vestir esse uniforme feio? – perguntei – ele é muito quente e fico suando embaixo dele. A única coisa com a qual eu realmente teria dificuldade de me adaptar seriam os estudos. Castália não é uma sociedade materialista.

só pelo prazer de vencer. Lá dentro. – Mariel. Todos eram simpáticos. pois ali não era permitido. Tudo tinha o mesmo gosto. E era sempre a mesma coisa: bife ou frango. eu já não sentia prazer algum em comer. que nas escolas de elite eu sentia falta de coisas triviais como arroz e feijão. No primeiro dia. o local me pareceu maravilhoso. Depois do primeiro dia. junto com ovo e alface. – Acostuma – ela respondeu – no começo é difícil para todos. Eu também tinha algumas reclamações sobre a comida. Até que eu descobri. Em poucos dias. Aos poucos. Somente aquela parte que queria retrucar e ganhar. como você aguenta comer a mesma coisa todo santo dia? – perguntei. Sempre vivi num orfanato simples. com dinheiro limitado. em leve tom de desespero. Era tudo novo e interessante. Senti falta até de beber café. bastou que alguns dias se passasem para que eu começasse a ver defeito em tudo. Os produtos de limpeza tinham um cheiro muito forte. Nunca tive problemas em acordar quatro ou cinco horas da manhã. No orfanato eu também comia quase a mesma coisa todos os dias. Mas eu tinha a liberdade de comer um chiclete ou um bombom fora de 34 . leituras e relatórios. Somente dificultaria as coisas. surpresa. O colchão da cama era duro. Apenas ao mencionar a questão da roupa ela já ficou aborrecida. Mas eu não reclamei disso com a Magister. Porém. Não que eu precisasse me livrar completamente dele.Wanju Duli Foi então que eu entendi qual seria meu maior desafio: vencer o meu orgulho. Se eu também reclamasse sobre a comida seria demais. Nunca me considerei uma pessoa exigente em relação à comida. você entra no ritmo. aquilo teria pouco valor. Mas ultimamente eu estava indo dormir muito tarde para conseguir dar conta de todos aqueles estudos. Simples e aconchegante. Era muito mais difícil permanecer acordada sem minha cafeína diária. A cadeira da biblioteca era tão desconfortável que bastava eu ficar sentada cinco minutos nela para desejar trocar de posição. Dormi duas vezes em cima dos livros. Apenas pela falta do café. eu já me sentia um zumbi.

Eu devia me transformar numa Southern Belle. Mas eu não era uma Southern Belle! Só me restava acreditar que as escolas de elite entendessem aquilo. Eu tive que ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Não bastava que eu lesse apenas resenhas dos livros. Eu estava passando por uma sessão de tortura diária. seria uma ilusão acreditar que aquelas escolas eram perfeitas. 35 . incluindo dentro de mim. incluindo outros livros do mesmo período. Qualquer coisa assim. Viva as escolas de elite! Realmente. Estava mais para um estudo orientado.A Era do Folhetim hora. Era verdade que alguns livros foram bem curtos e me consumiram poucas horas. É claro que era proposital. mandava eu escrever um relatório e se mandava. eu me sentia orgulhosa. Raramente tínhamos aulas. Bela orientação. Ela apenas me passava a lista de leituras. Notei que a professora estava me mandando ler exatamente os chatos. Minha professora se chamava Esther Bonfim. Era uma mulher de poucas palavras. tendo que ficar horas a fio lendo os clássicos mais chatos já escritos. Nosso ritual diário eram os deveres de casa. Muitos deles. Nas escolas de elite seguíamos uma rotina monástica. Aprendíamos partes. Segundo o meu perfil. E sem Deus ou Buda para confortar o espírito. mas não leem. Lendo a obra completa. Como diria Mark Twain. Eu estava pelo menos me esforçando. Isso somava uma marca de um livro por dia. como se já estivéssemos na pós-graduação. Ou seja. tanto a brasileira quanto a estrangeira. mas nunca o todo. Mas aquilo não foi o mais insuportável. Eu estava tendo que ler até mesmo os sermões do Padre Antônio Vieira. não havia um padrão a seguir. Então era isso que realmente significava estudar fora da Era do Folhetim. mesmo com todas as tarefas domésticas que eu fazia e os relatórios das leituras. um clássico é um livro que as pessoas elogiam. eu começava a entender. enquanto outros me tomaram mais de um dia. Mesmo assim. Não havia perfeição em lugar algum. Achei que eu fosse morrer. No colégio e provavelmente na universidade aprendíamos as coisas de forma fragmentada. Em apenas um mês eu concluí a leitura de trinta livros. A professora nos passava tarefas com base no que ela achava que cada uma precisava. eu ainda precisava conhecer muita coisa sobre literatura.

um estudo rigoroso de gramática. embora aquela biblioteca fosse pequena continha alguns livros preciosos e especialmente selecionados que eu provavelmente não encontraria em nenhum outro lugar do mundo. Isso é bom. tô tão cansada – confessei a ela – mas ao mesmo tempo. Era ela que geralmente aguentava as minhas reclamações sobre a comida e sobre o cheiro dos produtos de limpeza.Wanju Duli – Mariel. mas não percebeu que ao fazer isso estava deixando para trás uma parte de si mesmo. A realmente me sentir em casa. mas. É claro que uma gramática espiritual tinha sua base na teologia e tornava-se muito mais profunda. somando-se a isso. uma ontologia por trás. 36 . Após o Renascimento. Eu aprendi coisas que nunca vi no colégio. Antes eu pensava que gramática era apenas decorar regras. Eles faziam pesquisas. Mas aquilo que eu estava começando a estudar não era assim. quis se livrar completamente da religião e do espírito. Desde o princípio. Havia uma lógica. aquela gramática encontrava sua base no Trivium medieval. descobriam coisas novas e encontravam soluções surpreendentes para problemas antigos da gramática. o ser humano. me sinto tão bem! – Você está se adaptando – ela disse – está começando a entender. Alguns dos livros de gramática foram escritos pelos nossos próprios Magisters. até mesmo um espírito. Não apenas a leitura de mais livros. Era mágico. Já estava feito. Portanto. com orgulho de sua razão. E após perder um mês de aula no meu antigo colégio eu iria seguramente repetir de ano. eu não queria mais voltar atrás. recebi novas tarefas. Minha mente estava se abrindo. já que eu não tinha coragem de me queixar diretamente com a Magister. Afinal. Eu finalmente estava começando a gostar do lugar. Aos poucos eu entendia que. Depois daquele mês. Que eu nem imaginava que existia. A Igreja Católica dominou o ensino ocidental por muito tempo e deixou marcas profundas. Nunca pensei dessa forma sobre as religiões. pelo medo de ser chutada de lá. o que era um feito notável.

a ordem escolhida pelas palavras. incluindo muitos filósofos e escritores. Era como. prestando atenção nos detalhes: na formação das frases. Eu não sabia bem o que eu havia descoberto. Não somente os poemas. eu precisava conhecer gramática e retórica a fundo. Calma. especialmente o Trivium. com voz fraca.. – Muitos dos autores clássicos que lemos estudaram as Sete Artes Liberais – explicou Mariel – eles foram educados nelas. Shakespeare foi educado nelas e só é possível compreendê-lo estudando essas disciplinas. Eu ainda não sabia de nada. Fortemente baseado na música e na matemática. Eu precisava conter o êxtase do meu coração. E para entender a lógica eu tinha que saber matemática. Pode ser doloroso. 37 . Para entender literatura. Então era assim que as coisas se conectavam? Será que estava realmente tudo ligado? Eu respirei fundo. Até mesmo os romances. É lindo. – Calma – ela sorriu. A partir daí. – Cuidado para não se maravilhar demais – alertou Mariel – a sua mente ainda não está preparada. compreendendo tudo – eu também chorei quando descobri pela primeira vez. Era melhor eu não me exaltar e imaginar muito longe. eu comecei a ler livros de forma diferente. Meu coração bateu forte. Era alguma coisa que eu não sabia explicar em palavras. para saber a gramática eu precisava da lógica. E para compreender literatura eu precisava conhecer a forma que as palavras são formadas e a elasticidade com que os escritores as usam. Aquilo era a Verdade? Era aquele êxtase que eu sentia ao desvendá-la pouco a pouco? Segurei a mão de Mariel e comecei a chorar. Entende por que somente os iniciados podem jogar o Jogo de Avelórios? – Entendo completamente. uma música.A Era do Folhetim Estava tudo conectado. não é? – Belíssimo – falei. Porém. O Jogo das Contas de Vidro. Para compreender música erudita é preciso estudar teoria musical a fundo. Na gramática. Mas eu sentia! Aquela emoção..

contrariada – mas um estudo da história e do espírito. Ele havia sido simplesmente o maior dentre os mais sublimes que já pisaram numa escola de elite. da matemática. E o posto de Magister Ludi era o mais elevado. – Ainda é cedo – respondeu Agatha. no século. mas sou da opinião de que também é preciso respirar ar e comer pão”. – Quem é esse homem? – O maior Magister Ludi de todos os tempos. Castália somente existe porque esses bárbaros lhes dão dinheiro para que possam se manter. Havia muitas guerras no século XXIII e se gastava muito dinheiro com elas. Nós desejamos viver num casulo protegido das coisas de fora. Mas só te digo uma coisa: o filósofo favorito de Josef Knecht era Hegel. Hegel! – exclamei. – Há textos dele para eu ler? – perguntei. – Há uma frase famosa do Magister Ludi Josephus III a esse respeito: “As abstrações são encantadoras. Tentei imaginar. por favor. como se fosse uma mera luta por poder e guerras de bárbaros. – Quem é seu filósofo preferido? 38 .. até que faz sentido.. Agora estava na hora de conversar com Agatha sobre história. Olhase com desprezo a história geral. da filosofia. Estava bastante óbvio que o espírito não era prioridade num mundo em que as pessoas ainda lutavam para resistir à fome e à miséria. Precisaríamos nos envolver na política. na economia e em todas essas coisas “mundanas” que os alunos e professores de Castália tentam evitar a todo custo. história da arte. Isso não é cômodo? Mas esse casulo pode ser derrubado a qualquer momento por uma guerra. O Jogo das Contas de Vidro era o que havia de maior em Castália. simplesmente – quem sabe um dia. – A história é um ponto delicado em Castália – explicou Agatha – especialmente no que se refere à política. Contudo. – Castália não pode se tornar um Estado autônomo? – Para isso precisaríamos abdicar da nossa vida e viver no mundo. Em geral.Wanju Duli Eu já havia tido longas conversas com Mariel sobre literatura. só se presta atenção na história da ciência. cheia de esperança. – Ah. Senti que eu precisava daquela inspiração.

porque eu mesma sabia de cor longos trechos dos meus livros favoritos. Mas. – Os racionalistas. certo? – perguntei. quando as moças queriam ser mais ousadas. Vejam 39 . – Ai. para me certificar. No máximo uns vinte. poderia ser algo como: “Qual verso de Lord Byron te deixa mais molhadinha?”. dentre os que conheço. Uma lenda por aqui. – Você é da filosofia. quando consegui pronunciar uma palavra. sem muito embaraço – sei apenas 90% do que há para saber. – Permita-me apresentá-la – disse Agatha – essa é a famosa Giovana Magalhães. Afinal. vivemos demais para isso. „É verdade que Deus Nosso Senhor está em toda a parte? Perguntava uma rapariguinha à mãe. de não procurar compreender tudo e tudo „saber‟. Isso faz mal à memória. de cabelos chanel. Talvez a verdade seja uma mulher que tem as suas razões para não deixar ver as suas razões”. Você é a Santa. Ela sentou-se sobre a nossa mesa sem cerimônia e cruzou as pernas. Já ouviu falar dela. o que me atraiu mais até agora foi Espinosa. que exagero – ela riu. as perguntas costumavam ser mais na linha de “Qual seu período literário favorito?" ou. Os outros 10% eu deixo no mistério. – Pode me chamar de Gio. nas escolas de elite era assim mesmo que funcionava: confie em seu cérebro como os antigos. Não adiantava perguntar a ela “Você decorou tudo isso?”. em vez de ficar checando no Google qualquer coisa que esquece. Fazemos agora uma questão de decência de não querer ver tudo nu. Quem exclamou isso ao entrar na biblioteca com estardalhaço foi uma menina muito baixinha e pequena. Indicação para todos os filósofos! Devia honrar-se ainda mais o pudor quando é certo que a natureza se empenha em se esconder atrás do enigma e da incerteza. – Confesso que não li muitos filósofos. de não assistir a tudo. E pode chamar a Agatha de Cruz e a Mariel de Aquino. é como todos me chamam aqui. é claro! Todo mundo ama Leibniz e é completamente apaixonado por Descartes. como diria Nietzsche em Gaia Ciência: “Já não acreditamos que a verdade continue a ser a verdade sem os seus véus.A Era do Folhetim Nas escolas de elite em vez de perguntarem coisas como “Qual seu filme preferido?” ou “Qual sua sobremesa favorita?”. Além do mais. não é mesmo? – A famosa que sabe tudo sobre tudo? – perguntei. Acho isso muito indecente.

– Quanto tempo exatamente? Ela não parecia ser tão mais velha que eu.Wanju Duli só. Ou fazendo coisas triviais como tomar um copo d‟água. Eu realmente admiraria um escritor que escrevesse um livro de quinhentas páginas descrevendo alguém tomando um copo d‟água. Eu geralmente tinha uma resposta pronta para ela. – Por isso eu gosto do parnasianismo. Não seria fácil fazer isso com primor. 40 . A pergunta de praxe. temos uma Aquino. mais livros com personagens velhos. – Shhh! – ela fez – isso é segredo! Sou uma estudante especial. Diziam que ela era um gênio. – Pensei que eu estava me tornando mais inteligente. – Onde conseguiu isso? – perguntei. Um dia a gente acaba gostando de alguns livros chatos e é surpreendente quando o processo acontece. embora isso seja parecido com um. fascinada – eu tenho vergonha de dizer que admiro o Charles Dickens. – Mário de Andrade – confessei. Ela tirou alguma coisa do bolso. – Você quer a resposta verdadeira ou a que eu uso para impressionar? – perguntei. Eu não sabia até que ponto os rumores eram verdadeiros ou meros exageros. surpresa. – Estou aqui há muito tempo – ela explicou – tenho meus meios. no meio da merda. Mereceria no mínimo um Nobel. que escritor você curte de verdade? A expressão divertida de Gio me indicou que ela entendia exatamente o que eu queria dizer. uma Cruz e uma Santa! Daqui a pouco já podemos fundar um convento. Gosto de lê-lo de verdade e não de mentira. sabe? – Sei como é. – No duro. – Qual o seu escritor preferido? – perguntou Gio. mas acho que nosso gosto apenas vai ficando cada vez pior com o tempo – explicou Gio – cada vez mais a gente busca menos fantasia. quase mortos. embora prodígios fossem raros em Castália. doentes. – Interessante – ela disse. Seria meu livro de cabeceira. Jogou uma bala de goma na direção de Agatha e outra na minha.

mas quem estava nas escolas de elite já havia vencido a primeira tentação. como Lua e Mel. mas era incrível como eu já sentia falta delas. meninas – comentou Gio. – Não quer ser Magister Ludi? – perguntei. Será que ela estava bem? – Vamos usar internet hoje à noite. Cruz. – Muito comovente – comentou Gio – você é muito nobre. então não vai acontecer facilmente – Gio garantiu – certamente sou a melhor candidata para Magister de filosofia. despreocupadamente. Isso seria doloroso. não é mesmo? Mas aqui dentro precisamos passar por uma tentação maior: a de dedicar a vida a nos aprofundarmos em nossa área de maior interesse. 41 . Formavam uma ótima dupla. Não entendi o gesto dela. Se eu me dedicasse ao Jogo precisaria abrir mão da filosofia. – Você não tem medo de ser expulsa? – perguntei. Eu não o farei. mas é certo que ocorrerá. com um sorriso. Gio franziu a testa. Então havia muitas tentações a vencer até chegar ao Jogo das Contas de Vidro. Era engraçado ver aquelas duas juntas. – Ah. pode ser possível.A Era do Folhetim – Vocês duas são estranhas – comentou Agatha. Só vai acontecer daqui algumas décadas. A primeira delas era abrir mão da vida secular. Gio era uma autêntica transgressora de regras e não parecia preocupada. – Meu cérebro é muito amado por aqui. usar celulares escondida. feliz da vida – o Rodrigo conseguiu um celular. – Meu princípio é de que os esquecidos devem ser lembrados – respondeu Agatha. dos despedaçados. Sentar na mesa. é a isso que você se refere – disse Gio – o Jogo é muito popular lá fora. Especialmente de Sônia. curiosa – se você é tão boa assim. – Eu ouvi falar que o sonho de todo adolescente das escolas de elite é tornar-se Magister Ludi – expliquei. Fazia apenas um mês e meio desde que eu havia partido. distribuir balas. A segunda seria uma provação ainda mais poderosa: a tentação do conhecimento. derrotados. pois Agatha era muito alta e Gio bem baixinha. – Pior você que estuda a história das guerras. O século era apaixonante demais. esquecidos e mutilados – retrucou Gio.

Eu não sabia bem se eu desejava que aquilo acontecesse. No começo todos entram aqui empolgados com os mistérios do Jogo.Wanju Duli Quem entrava nas escolas de elite desejava abdicar o encanto da Idade do Folhetim: a de saber superficialmetne sobre muitas coisas. Estou lutando para conseguir ler meus livros. Os estudantes de Castália desejavam mergulhar de corpo e alma em sua área de maior interesse. o Magister Ludi é aquele que desejou se aprofundar apenas no Jogo. Abrir mão desse prazer pelo Jogo seria quase como um retorno à Era Folhetinesca: mesmo sendo muito nobre e profundo. Até porque as pessoas que eu conhecia lá fora continuavam lá fora. Caso um dia eu quisesse sair de Castália poderia dar aulas de literatura numa escola 42 . com a ajuda dos Magisters de cada disciplina. Eu tinha uma nova vida e queria viver para mim mesma. Vanitas vanitatum et omnia vanitas. mas para mim é quase impossível. Porém. mas logo verá que quanto mais a fundo estudá-la. Além do mais. acostume-se. Mas eu não iria jogar apenas para me exibir para os outros. – Não. – Dizem que o Jogo abarca o universo. por amor a vocês. Seria uma pena perder o interesse pelo Jogo de Avelórios no futuro. Santa. o Jogo de Avelórios encaixa e costura as diferentes áreas. No final. – Eu vou me dedicar à história – Agatha comentou – são pouquíssimos em Castália que se dedicam a ela. Você pode ainda não gostar tanto assim de literatura. Não tenho toda essa disciplina. – Linda! – Gio lançou-lhe um beijo no ar – é sempre assim. Você ambiciosa o posto de Magister Ludi? Eu ri. não será mais capaz de deixá-la. com rapidez – não seria difícil para alguém como você. por devoção. o espírito – eu disse – está abrindo mão de tudo isso por uma vaidade? – O Jogo das Contas de Vidro também não deixa de ser uma espécie de vaidade – explicou Gio – afinal. ele não é uma religião e não contém uma teologia. já que a maioria se apaixona por matemática ou música. é claro que não – esclareci. cada um se apaixona demais por um senhor menos poderoso e não é capaz de abandoná-lo. estudar literatura era muito mais seguro. Então eu preciso fazer esse serviço. mas não saber profundamente sobre nada. a Verdade.

Ser uma especialista em Jogo das Contas de Vidro não me levaria a nada.A Era do Folhetim local. Aquilo não servia para nada. Será mesmo? Mas mesmo se isso fosse verdade. – Como não são pegas? – Os professores fingem que não sabem – explicou Gio – na prática. mas somos adolescentes e queremos um pouco de sexo. então eles não querem nos perder por causa de um pouco de sexo. Quem gostava do Jogo geralmente eram os adolescentes. – É claro que não! – Gio riu – seria muito arriscado. Será que aquilo era mesmo para mim? Eu buscava o caminho mais fácil e mais seguro? Ou aquilo que meu coração desejava? Pensando bem. Jogos são úteis para quando ainda se está encantado com as diversões da infância. uma brincadeira espiritual não seria muito mais nobre? – Nós estamos combinando com os rapazes a Noite de Núpcias. – Tolinha ingênua – prosseguiu Gio – você ainda não sabe até onde vai nosso atrevimento. Era apenas uma brincadeira. Eu já estava resistindo a ter que aprender algum outro idioma além de português para poder estudar obras estrangeiras. – Vocês vão para um bordel no Ano Novo? – perguntei. Já é difícil surgir candidatos fortes aqui. Nós transamos com os rapazes do dormitório masculino. Então queremos apenas aproveitar os últimos anos de sexo enquanto somos jovens e saudáveis. confusa. Seria muito mais difícil ter que estudar todos os hieróglifos do Jogo. – Ninguém nunca foi expulso por causa disso? 43 . Será que eu tinha ouvido bem? – Do que estão falando? – perguntei. pois é novata por aqui. enquanto estudar história ou literatura era muito mais sério. certo? Não vai matar ninguém fazer isso só uma vez ao ano. Estamos pensando se esse ano faremos no Natal ou no Ano Novo. Um dia é preciso crescer e deixar de brincar. Nós fazemos voto de castidade. A explicação não me convenceu. pois esse era um capricho vazio que só existia em Castália e só tinha significado lá dentro. eles fazem vista grossa a essas escapadas porque quando vamos para Castália isso não é mais permitido. estudar o Jogo não fazia sentido nenhum.

Se fosse culturalmente incentivado que no fundo todos são bissexuais. – Você devia aproveitar que ela ainda não veio – sugeriu Gio – nem vai precisar usar camisinha. – Você é lésbica? – perguntou Gio – não uma falsa que quer aparecer. – É uma teoria simpática – concordou Gio – então. – Por acaso não há uma estudante por aqui chamada D. – Você tá falando da Dani? 44 . Em geral.? – perguntei. – Então você é bi? – Não sei o que sou e não me importo. senti uma pulsação no baixo ventre. Ela fez uma expressão de espanto. acho que a maioria aprenderia a se sentir atraído pelos dois sexos.D. como se amasse tudo aquilo.Wanju Duli – Já – disse Gio – mas eu sei que não vou ser. com exceção de um. Só de pensar nisso. Sinceramente. Eu não fazia muita questão de transar com homens. estou aberta à exploração. – Quem? – Dancer Demon. mas uma genuína? – Acho ridículo essa história de falsa e genuína – respondi – eu apenas me sinto mais atraída pelo sexo feminino desde criança. já que gosto de todos. Mesmo assim. Acho simplesmente natural e me sinto à vontade com mulheres. Resolvi dizer isso a elas. preferia mulheres. Gio morreu de rir. Só tinha trocado uns beijos e amassos com Sônia. embora ainda não tivesse experimentado. que acha de abrir as pernas para algum gostosinho do dormitório ao lado? Alguns deles são quentes. Acredito que o sexo tem um elemento cultural muito forte. Bem. A não ser que fosse para fazer sexo com D. então não me importo. mas a reação de Gio foi muito melhor. Agatha pareceu ligeiramente surpresa. eu sou suspeita para dizer. eu não estava muito a fim. não acham? – Pode ser – respondeu Agatha. – Talvez no ano que vem – eu disse – queria esperar pela minha primeira menstruação.D. já que está aberta à exploração.

No ano passado cada um escolheu um parceiro. – Isso não me cheira bem – disse Agatha. Ninguém vai escolher com quem vai trepar. Eu tentaria me lembrar disso. por mais divertido que soasse. a super gata skatista. – Não é um bacanal. dependendo de nossa habilidade. – Está falando das Núpcias? – perguntou Gio – é claro que não. então sair para aquela tal “Noite de Núpcias” não parecia ser um bom negócio. Eu não sabia se adiantava muito negar. Queria poder pelo menos escolher. o que aumenta ainda mais seus pontos. Quando ela chegou aqui. Estava tudo na minha cara. Alguns meninos e meninas ficaram sem parceiro. Sem escolha. né? O olhar malicioso que ela me lançou foi cruel. – Falem mais baixo na biblioteca! Quem disse isso foi minha professora que passava por ali. Fiquei surpresa ao constatar que eu não tinha praticamente nada para fazer na internet. mas isso deu confusão. Você curte ela. só para me certificar. Tiraremos na sorte. não falavam de outra coisa. é claro. É claro que ela sabia que só estávamos batendo papo e deixando de lado nossos afazeres. Apenas enviei alguns e-mails para as meninas do orfanato e fiquei satisfeita. recebíamos certos privilégios. comportamento e carisma. maravilhada. mas logo ela já estará de volta – respondeu Gio. retomei minhas leituras. a Dani também é a queridinha dos professores. – Daniela Dantas. Esse ano será um encontro às cegas. À noite. Gio me deixou usar um pouco o celular que ela conseguiu com o tal Rodrigo. Onde ela está? – Foi para Nova Castália resolver uma questão. Então. 45 . Minha situação já não estava boa.A Era do Folhetim – É esse o nome dela? – perguntei. certo? – perguntei. Também não achei legal. – Sou uma fã. Diferente de mim. ela é muito mais comportada. – Assim como eu. – Pensei que não tínhamos permissão para isso antes do nosso treinamento de oito anos aqui. já que alguns sempre são mais disputados.

Tentei explicar. Ela já pulou o portão duas vezes para comprar cachorroquente. É a segunda vez que você me dá bolo. Nunca vou receber uma nova companheira para debater história! – Vou pedir ajuda a ela para estudar lógica. – Já é tarde. mas você estragou tudo – disse Sônia – você se precipitou e esse é o preço a pagar. Logo. Achei que ela estivesse sendo muito dura. Gio ficou sabendo da história. Eu já tinha terminado o namoro com ela uma vez. Não é que eu a amasse menos. me desculpa – eu disse – não queria te magoar. Ela ficaria com a cama de cima do beliche de Agatha. – Poderíamos ter vindo juntas para cá. Na raça! Muito foda! Pelo visto. 46 . Eu jamais poderia suspeitar que a novata não tinha intenção de me dar ajuda nenhuma. – Ela devia te amar mesmo. Não insisti mais. mas Sônia não quis ouvir. então não vai ter uma segunda chance. – Sônia Leão – ela apresentou-se a todas.Wanju Duli No dia seguinte. Apenas a amava de uma forma diferente. fiquei sabendo que uma garota nova estava para chegar no dormitório. Sônia havia se cansado de sofrer por mim. me ignorando. Sônia havia ganhado uma fã. Não demorei muito para entender o que ela estava tramando. Quem chegou foi uma garota bonita da minha idade. negra e vaidosa. porque ainda está curtindo a dor de cotovelo. por causa de uma bobagem. Nem eu tenho coragem de fazer essa merda e ela faz assim que chega. – Ela sabe ser vingativa e cruel quando quer – eu disse. com longos cabelos de contas coloridas. Já me cansei disso. E ela me ignorou durante o dia inteiro. impressionada – a personalidade dela é incrível. Ela estava achando emocionante saber que Sônia era minha ex e que estava completamente puta comigo. não sei como. mas não havia mais nada a ser feito. Até que eu não aguentei mais. – A tua ex é muito bala! – exclamou Gio. – Sônia. – Ela vai estudar matemática – Agatha suspirou – para variar.

obviamente. Ela apenas me amava. que eu nem mesmo havia notado. Eu não sabia de onde elas 47 . Também queria me provar que zombava de toda Castália e suas regras. ela estava irritada de verdade e se ofendia até com um espirro. A cada dia ela admirava mais a bagunça que Sônia estava criando. Era uma pessoa muito acima do meu entendimento. Gio. Ela era boa em matemática. Ela se tornou particularmente famosa em conseguir comidas. Até de uma mancha na parede. Nem queria estar nas escolas de elite. um amor puro que não conhece outras coisas. mas ninguém ousava se aproximar ou criticá-la diretamente. Em toda oportunidade que surgia se queixava. Voltava com sacolas carregadas. Mesmo sendo zombaria. anotava os pedidos de todas. A maioria a considerava uma pesssoa completamente desagradável. Sempre que ela pulava o muro para sair e comprar comida. Não demorou muito tempo para que ela adquirisse muitas inimigas. Ela queria me mostrar como era fácil entrar para uma escola de elite e como havia feito isso sem nenhum esforço. Sônia não reclamava do local discretamente. assustando a todas nós – eu me sinto profundamente ofendida! Não esperava tamanho deslize em uma escola de elite que preza pela harmonia absoluta do cosmo! E o pior era que ela falava isso num tom mortalmente sério. como sair para o pátio depois que as luzes já tinham se apagado. provavelmente acima de todas nós: não ligava para coisas como fama ou conhecimento. – A cor do metal da torneira do banheiro é diferente em cima e embaixo! – Sônia exclamou de repente no refeitório silencioso. pois a achavam assustadora. Gio era tida como uma grande criadora de casos. Aos poucos Sônia foi conquistando a simpatia de alguns.A Era do Folhetim Sônia não se importava com Castália. como eu fazia. estava adorando tudo. mas comparando com Sônia ela agia com extrema discrição. de todo pequeno defeito. Ela fazia questão de ressaltar problemas ridículos. em alto e bom som. mas não tinha intenção de seguir carreira nisso. Sentiu-se traída e agora queria se vingar do mundo apenas para me mostrar um espetáculo. pois sempre topava ajudar alguém com alguma transgressão a regras. Antes.

para a cultura que conhecíamos. – É só questão de tempo até que ela saia um dia por aquele portão e não volte mais – explicou-me Lorena. mesmo isso sendo proibido. No momento. Mas aquele dinheiro não duraria para sempre. por não aguentarem mais. E não iriam dar a ela justamente o que ela queria. encontrará todos para sair. Eu soube que um aluno só era realmente expulso se cometia uma transgressão grave. ela desprezava totalmente a matemática. Fazia sentido. Geralmente os próprios estudantes expulsavam a si mesmos. E havia se tornado lendária sem esforço nenhum! Para completar. depois de eu ver tantos acontecimentos incríveis que passaram batido.Wanju Duli tiravam o dinheiro. levemente aborrecida com aquilo tudo. enquanto rumávamos para 48 . Era possível que Sônia tivesse trazido suas economias para as escolas de elite. Ela o jogava com som alto em qualquer lugar. Sabiam que ela estava colocando a mão no fogo para ser chutada de lá. a punição maior seria mantê-la lá para testá-la. dizendo o quanto aquela porcaria era fácil e uma perda de tempo. – Que palhaçada – comentei. É preciso uma grande determinação e vontade. Mas será que eles estavam realmente errados? Talvez fossem os mais espertos. a Magister de literatura – não é tão difícil entrar nesse lugar. Agora Sônia era a estrela. Se não possui nenhum motivo para ficar. Um ambiente seguro e familiar. Mas elas eram mais espertas. ela provavelmente sairia das escolas de elite sem pestanejar. Porém. Ver até que ponto ela aguentaria brincar de aluna entediada da escola de elite. Eu soube que até os rapazes ouviram falar da novata destemida – ou burra – que pulava o muro quase todo dia para comprar lanchinhos em barracas de rua. Quando Sônia não tivesse mais dinheiro para comer porcaria. em vez de se ofenderem. E como ela ainda não havia sido expulsa? É claro que as professoras viam o que ela fazia. parece que a maioria a admirou e inclusive alguns fizeram seus pedidos de lanches. mas não é fácil permanecer. Preferi não saber o que eles consideravam tão grave a ponto de expulsar. Conheciam o jogo dos alunos. Voltavam para o mundo. Resolvia os problemas com facilidade e passava o resto do tempo jogando um jogo de Tetris que trouxera na bolsa.

D. ficassem juntas. – Desde que Leão chegou. E parecia se sentir muito à vontade com sua própria solidão. completamente imersa. Para a minha alegria. Muitos estavam curiosos em saber como seria o sexo feito por uma garota tão ousada e mordaz. Talvez nós das escolas de elite fôssemos os tolos descuidados ao permanecer. Era um sobrenome apropriado para a situação. parecia ser um tipo de Buda iluminado que não era afetado por nada. Sônia pareceu muito contente com a chegada de D.D. eu me sentiria totalmente destruída e derrotada. Santa. Dantas ignorou Sônia quase que completamente. Não conversava com ninguém. 49 . de longe. já que Sônia amou somente a mim. que não deixava de ser uma espécie de amor invertido. Eu soube que muitos rapazes ficaram realmente desapontados ao saber que Sônia não tinha a menor intenção de participar da famosa Noite de Núpcias. cada vez mais descontente com suas expressões de felicidade. Duas semanas após a chegada de Sônia. torcia para que Dani e Sônia se tornassem um casal. se importar tanto com uma pessoa a ponto de possuir um sentimento forte por ela significava que ainda estávamos conectadas. o que a tornava ainda mais poderosa. D. Sônia era sábia ao testar os próprios limites e sua sorte e por isso era admirada. a vingança de Sônia estaria completa. Gio. esse lugar se tornou um arraso – comentou Gio – então é claro que estou torcendo por ela. finalmente retornou. Caso D. A maioria a chamava de Leão. mas desejada. – O que você tem contra mim? – perguntei a Gio um dia. Se Sônia e D. descobri o que ela tramava.A Era do Folhetim o desconhecido. Assustada. também admirasse as tansgressões de Sônia como todos os outros e passasse a amá-la. Afinal. ela vivia pelo seu ódio a mim. D. Mas eu merecia.D.D. Permanecia lendo seus livros de biologia o dia inteiro. Para ela aquilo não significava nada. Nem levantava os olhos quando ela fazia seus pronunciamentos ridículos sobre a sujeira na parede. Ela não era somente admirada. No fundo.D. Atualmente. Não que eu não goste de você.

ainda. Eu sequer havia escutado a voz de D.. parecia ser somente espírito. mas que vivia se entupindo de drogas. Fica dizendo que as moças das escolas de elite são favorecidas. Foi uma resposta adequada. que era quem geralmente ouvia as fofocas através do Rodrigo. Não chegava a ser uma parada sinistra como heroína ou cocaína.D. então era assim que eu os reconhecia quando vazava algum acontecimento. – Por que ela não fala com ninguém? – perguntei para Gio um dia. A nossa Província certamente ficaria com péssima reputação.D. – Não sei. enquanto D. mas ele provava uns negócios e ficava malucão. Então havia uma pessoa ali que estava acima até mesmo da ironia ácida de Sônia. Pois aquela ironia ainda era uma paixão da velha fricção do espírito com o mundo. então ele está insatisfeito. Também havia algumas lendas entre os garotos. Eles costumavam chamar a si mesmos pelo sobrenome.Wanju Duli Nem eu e nem Sônia havíamos tido coragem de dirigir-lhe a palavra. Aquilo era realmente uma prisão se eles chegavam a esse ponto do tédio.D. – O Barata está criando caso outra vez – contou Gio. mas esse sujeito em particular usava umas coisas mais pesadas. Por isso só ficava quieto num canto. Uns outros rapazes fumavam um cigarrinho ou um baseado vez ou outra. Eu ainda estava encantada demais com os acontecimentos recentes do dormitório feminino para me importar. 50 . pois todo mundo aqui tem suas esquisitices. mas aos poucos eu começava a escutar as histórias. Eu não parava de ouvir o nome dele. mas ninguém se importa. Seria fantástico se começasse a vazar lá fora o boato de que traficavam drogas para as escolas de elite. – Esse é dos meus – falei. que por alguma razão ela chamava pelo primeiro nome – ele está insatisfeito com os códigos de vestimenta. Havia esse cara chamado Boaventura. mas aquilo ainda me incomodava um pouco. – Dessa vez ele quer deixar o cabelo crescer. Um tipo calado como D. mas não é permitido – explicou Gio – aqui no dormitório feminino não há restrições em relação a comprimento de cabelo ou penteados. Outro aluno bastante conhecido era o tal de Barata.

Ele era como um bully profissional. Dava a eles uma série de tarefas para cumprir e se não o obedecessem eram punidos. Todos ficam fascinados. cheia de alegria. Também havia o Navarro.A Era do Folhetim – Ele tem razão – opinou Agatha – deviam permitir cabelos longos para os garotos. Navarro descontava seu estresse espancando novatos. por ser excepcional. Já estava chegando perto do Natal. ela tinha a intenção de comprar comida um pouco melhor e foi mais longe. Já tinha se adaptado até à 51 . Outro dia Mariel me contou. Quando retornou. Assim como Boaventura. Por isso Barata sempre recebia permissão especial para adquirir materiais de arte. até mesmo os Magisters. mas alguns alunos gostavam de celebrar a ocasião discretamente. Não vejo nada de errado nisso. – Ele é chamado o tempo todo para lá – disse Mariel – para pintar os murais. seja por tradição ou por alguns terem raiz católica. – Na próxima ocorrência serei expulsa – Sônia contou para as meninas. Não era fácil ter apenas o pátio das escolas para dar uma caminhada e não era sempre que tínhamos permissão de passear por lá. Não havia uma comemoração formal nessa data nas escolas de elite. Inicialmente achei aquilo tudo muito infantil e sem sentido. Aos poucos. Sempre recebia os iniciantes com desafios. comecei a desconfiar que ele podia ser um aluno perigoso. Eu desconfiava que ela se divertia fazendo isso. Tomei a nota mental de não me envolver com ele no futuro. Por ser Natal. que Barata iria passar uma semana em Nova Castália. ele era da música. mas aparentemente a música não era o suficiente para ele. só poderia ser outro dos protegidos. Suas obras são muito realistas. mesmo que fossem um pouco caros. uma das professoras a flagrou e a chamou para conversar em sua sala. Eu não achava que a esse ponto ela desejasse ser mandada para fora. Mas eu não acreditei muito nessa alegria dela. Esse era meio esquentadinho. Enquanto Boaventura preenchia seu vazio usando drogas. numa noite em que ela estava me orientando na biblioteca. Nesse dia ela baixou a guarda. Sônia prontificou-se a pular o muro para conseguir comida boa para o Natal. Se ele ainda não tinha sido expulso depois de tudo isso. Ele é um pintor e escultor formidável.

em busca de expressar a própria voz e encontrar seu lugar no mundo. Cada um expressava sua fúria juvenil de forma diferente: com as reclamações de costume. Mas ninguém estava nas escolas de elite para escapar da sociedade e suas regras. Isso. Não pulou mais o muro. tinha o orfanato para me proteger até os dezoito anos. nós sentíamos essa necessidade desses breves meses de revolta. Para ela. toleravam muitas de nossas bobagens. essa proteção era delicada como vidro. Por isso. Até o meu período rebelde já tinha se esgotado. Seja como for. Eu não seria expulsa do orfanato se chegasse em casa mais tarde algum dia. O resto parecia irrelevante. – Que decepção – Gio disse para mim – ela vai virar uma garota comportada como todas nós. não deixava de ser um aprendizado. que era órfã. Só escapava porque tinha se acostumado com esse ritual. provavelmente todos os adolescentes eram insolentes. os professores sabiam que era só uma fase. Não estávamos mais sob a proteção de nossa família. fugas. Mas poderia ser 52 . Eu mesma passei a entender porque fui aceita como estudante na Província. Lá éramos submetidos a regras muito mais rigorosas. Eu já estava habituada a suar embaixo das roupas e não ligava mais para outros pequenos detalhes que me incomodaram muito no começo. Claro que a paciência deles tinha limites e quando se atingia essa fronteira. Na Ordem. convenções sociais e muitas outras coisas. de certa forma. Para alguns esse período durava alguns anos. Até mesmo Sônia percebeu quando estava prestes a cruzar essa linha tênue e começava a recuar. Ela não se importou tanto com minha insolência. Principalmente pela idade que tínhamos. Estava tão empolgada com os estudos que esse motor propulsor era mais forte para me impelir a continuar. Mesmo eu.Wanju Duli comida dos refeitórios. brigas ou drogas ilícitas. Era comum que rejeitassem o colégio. Notei que nos dias seguintes Sônia começou a ficar mais comportada. E parou de fazer seus comentários habituais sobre o gosto da comida e as manchas nas paredes. a maioria não se atrevia a continuar a provocá-los. A Magister conseguiu enxergar através de mim. tínhamos poucos direitos e muitos deveres.

dava um tipo diferente de prazer. de alguns séculos atrás. as referências a outras obras nas entrelinhas. Mas a vida resultante dessas duas escolhas pode ser bem diferente. eu aprendi a fazer aquilo. especialmente pela antiga. houve o movimento de resistência contra a Era do Folhetim. antes de entrarmos para as escolas de elite. começaram a surgir os aficcionados pela literatura. Essas pessoas geralmente preferiam as obras grandes e complexas. Não iria suar. Eu apreciava não somente a história e os personagens. Não é preciso forçar o cérebro além do limite. Mas especializar-se nisso. Em 2288 a prática da leitura se tornava cada vez mais rara. O amor e o ódio estão intimamente conectados e eu entendi isso com as reações de Sônia. Aprendi a ler e a tomar pelo menos um pouco de gosto pela coisa. ser um maratonista profissional. Foi essa a experiência que tive com livros. ou mesmo no presente. Por um lado. Eu lembrava que já havia conversado sobre isso com Sônia uma vez. Por isso. Eu poderia ser feliz apenas dando umas caminhadas curtas e leves. mas a beleza da estrutura das frases e dos parágrafos. Mesmo que isso fosse verdade no passado. Eu captava o estilo da época. Nem tinha mais graça dizer que eu não gostava de ler. Tudo tem seu grau de difículdade. – Não é que matemática seja fácil – ela dissera na ocasião – da mesma forma que ler também não é fácil. especialmente para pessoas diferentes. Por isso viver na Idade Folhetinesca é bem mais simples. Não é que uma felicidade fosse 53 . Não é que não possamos viver sem eles. havia aqueles que não liam quase nunca. Eu aprendi que minhas preferências não se dividiam somente em gostar e não gostar. Pois saber ler não é somente reconhecer palavras num papel. Mas isso não era nem de longe o que havia de mais extraordinário. Fazer qualquer coisa a fundo é cansativo. Por outro lado. ou só liam coisas pequenas porque havia outras diversões mais simples e acessíveis. É como optar por não fazer exercícios físicos intensos para não se cansar. pois era como resolver um difícil problema de matemática.A Era do Folhetim facilmente expulsa da Ordem se cometesse certas infrações que no meu velho mundo seriam vistas como banais.

Apesar de ler muito. Meu coração bateu forte e senti uma estranha paz. redação não é o seu forte. dormi por alguns minutos em cima de um livro do William Faulkner. Mesmo assim. Fechei o “Palmeiras Selvagens” por um momento. Superou minhas expectativas. Como uma mortificação que me faria entender uma realidade importante demais para mim. para ir mais longe. não escrevia nada. com base nas minhas leituras. Tirei nota máxima nas leituras. Apesar de tudo. Numa tarde. Mas a dor maior não poderia gerar um prazer maior? – Nem sempre – disse Gio – mas não seria apaixonante pensar assim? Esse poderia ser meu incentivo para continuar. Então eu não precisava ter lido todos? Ela poderia ter dito isso antes de eu ter perdido horas de sono por semanas seguidas. “Entre a escolha da experiência da dor e do nada. Não é como se não tivéssemos um boletim.Wanju Duli verdadeira e outra falsa. Eu te mandei ler todos aqueles livros sem achar que você fosse conseguir terminá-los. Como é esse o caso. – Precisaremos melhorar isso. que pegou nos meus olhos e no livro. foi incrível. eu senti que tinha valido a pena. Após um trimestre nas escolas de elite. – Pelo jeito. Nós tínhamos. – Você leu muito – comentou Esther – muito mais do que eu esperava. você não tem o costume de escrever. Era exatamente isso. para sabermos em que quesitos eu precisava melhorar. Mas não fui tão bem assim nos relatórios. Aquilo ainda era uma escola e através de uma avaliação um pouco mais objetiva seria mais fácil averiguar meu desempenho geral. eu escolho a dor” Eis o que o raio de Sol no livro me disse. Eu apenas lia. minha professora trouxe minhas notas. 54 . a partir de agora iremos diminuir suas leituras para aprofundar seu estudo de gramática e redação. Acordei com um raio de Sol que penetrava pela fresta da janela da biblioteca. relatórios e outros exercícios.

Eu sabia que num futuro próximo eu precisaria ter lições de lógica e retórica. Eu gostaria que você tivesse lições com ele uma vez por semana a partir do dia 8 de janeiro. – Sobre a gramática.A Era do Folhetim – Vou ter que criar histórias? – Não – disse Esther – serão apenas textos dissertativos e não narrativos. E para saber lógica eu precisaria de um tutor de matemática. ela estava me passando as tarefas para o mês inteiro. Será que Sônia concordaria em me ensinar? Seria isso que faria com que voltássemos a ser amigas? Ou quem sabe um pouco mais que isso? Eu ainda tinha esperanças de ser perdoada. Eu não sabia quem era o estudante de gramática que ia me ajudar. mesmo não sendo seu mentor oficial. Era possível que ela nem mesmo concordasse em me dar as lições. Após as férias. para impedir que o aluno postergasse e começasse a ficar lento e preguiçoso. Claro. Irei lhe dar uma série de temas. o interesse por saber mais surgia de forma natural. Apenas uma vez ao ano tínhamos férias: uma semana após o ano novo. Mas dessa vez seria diferente. mas também sabia que Sônia não era uma pessoa fácil. Você irá preparar textos sobre assuntos diversos. quando tínhamos tarefas demais era preciso entregá-las a tempo. irei te indicar um tutor – disse Esther – há um excelente aluno que poderá te orientar. Não era tão comum assim que misturassem os alunos dos dois dormitórios. Então eu teria somente três semanas para preparar tudo. 55 . para se certificar de que eu prepararia pelo menos uma por dia. para iniciarmos. se acreditasse que eu ainda merecia ser punida um pouco mais. a não ser em casos como esse em que o estudante se destacasse muito numa área e fosse beneficiar outro mais novo. pois ao realmente entendermos os fundamentos das disciplinas que estudávamos. Quando as coisas se encaixam e o estudo não ocorre de forma fragmentária. Isso porque nosso estudo nunca era uma correria. Trinta? Bem. O tempo passava devagar nas escolas de elite. queremos continuar a ver a beleza das peças que se unem no quebracabeça da vida. Trinta temas. Mas em geral isso não acontecia. então ela geralmente calculava minhas atividades de trinta em trinta.

Mais disciplinas poderiam ser acrescentadas ou retiradas. 56 . Nada de filmes. No máximo. uma educação folhetinesca. Na minha velha escola. Sem essas distrações. Não se tratava de uma educação de massas. Claro que as coisas caras também são ótimas. um costume. Por isso. E de vez em quando dava para escutar o pessoal da música ensaiando nos quartos. Isso era tudo o que eu precisava. – Hoje é dia 30 – ela me informou.. Isso quando eu não lia. jogos ou outras diversões do tipo. Mas nas escolas de elite isso era expressamente proibido. Termos abdicado de nossas posses materiais nos ajudava muito a manter a concentração e o foco. Mas é apenas uma impressão. qualquer um. eu lia facilmente dois livros inteiros em um dia. não deixava de ser uma educação elitista: para os escolhidos.Wanju Duli O fato de termos um professor para nos fornecer orientação individualmente também nos ajudava. visando as necessidades de cada um. O nosso plano de estudos era elaborado de forma personalizada. mas até isso era abafado visando conservar o anonimato. eu jogava no fliperama ou assistia a filmes quando não estava estudando. O ser humano não precisa de muitas coisas para viver. Contanto que eu tivesse livros. Mas aos poucos eu descobria que cada um de nós sentia falta de coisas diferentes. ficava em paz.. Achamos que as coisas caras são as mais legais. Para alguns era a família ou os amigos. um pouco de reconhecimento somente dentro de Castália. Nosso objetivo não era adquirir conhecimento para obter fama e dinheiro. – Sei disso. jogar futebol ou ouvir música. sentia pouca falta das outras coisas. assim como seu tempo e forma de estudo. mas dava para viver sem isso. Eu não sentia tanta falta disso. Somente livros. Para outros era coisas diversas como vontade de ir para a praia. Não é bem assim. Por outro lado. Eu honestamente não sentia falta de nenhuma dessas coisas. Gio passou por mim e colocou um chiclete na minha mão. as nossas escolas de elite não possuíam uma meta materialista relevante. Nunca fui uma pessoa musical ou esportista. somente pessoas do círculo íntimo do Magister Ludi conheciam sua identidade. os iniciados. Embora eu sentisse um pouco de falta de comer uma pizza ou um sorvete. em compensação.

porque ninguém gostou muito da ideia de encontro às cegas. Decidimos que iremos escolher os casais. Compreendi que Agatha queria ficar com o mesmo menino com quem teve relação no Ano Novo anterior. Eu e outras garotas nos reunimos na entrada. E. era só sair de fininho. encontros como esse raramente aconteciam. – Eles estão atrasados – Gio checou o relógio. Não queria que nenhum deles me fizesse um favor. Ali era permitido que as moças e os rapazes se encontrassem. A entrada do prédio era um dos únicos lugares realmente bonitos e decorados. para combinar sobre as Núpcias. Eu não ia querer ficar com um cara estúpido para ter uma péssima transa. – Pode ser que ele escolha outra pessoa esse ano. – Sei mais ou menos quem vou escolher. Nós. Havia sofás. Mariel era como eu. você está convidada para a reunião. meninas. 57 .. Eu sabia que se eu não fosse na tal reunião ela permaneceria a me incomodar sobre isso pelo resto do dia. Por isso eu iria ficar ligada no clima geral da reunião. A disposição devia ser mútua. Mas não era só a aparência que íamos olhar. – Mesmo assim. – Já disse que não vou participar – eu disse. então tenha paciência – disse Gio. Então eu fui. embora não com muita frequência. então eu não precisava ter vindo – disse Agatha. Se estivesse um clima meio ruim e os garotos estivessem de má vontade para fazer aquilo. preocupada – se os professores nos encontrarem aqui em bando irão desconfiar..A Era do Folhetim – Vai vir na reunião hoje à noite? Com os rapazes. eu não ia me animar. Queria primeiro dar uma checada nos rapazes. nos sentamos nos sofás da esquerda e aguardamos. mesmo que ele fosse bonito. flores e quadros. – Ainda não tenho certeza se vou participar – Mariel comentou – só quero dar uma olhada. até porque vivíamos ocupados com os estudos na maior parte do dia para pensarmos em outras coisas. Achei isso um pouco romântico. Qualquer coisa. realmente.

Já chegou se queixando e elevando a voz. Não gostei desse sujeito logo de cara. eu logo notei um fato bem evidente: como ele era baixinho! Aquilo me trouxe uma lembrança estranha. quase da cor da pele de Sônia. ele impunha respeito. para não gerar suspeitas. eu não me lembrava do que ele tinha feito. Cada um com uma cara de quem estava de saco cheio. um prodígio ou qualquer coisa parecida. – Finalmente chegaram! – exclamou Gio. somos muito ocupados – respondeu um deles. Eu me senti um pouco incomodada com aquela segregação evidente: meninas de um lado. pois meu calendário está lotado. De pé. Porém. quando eles entraram no recinto – por que demoraram? – Porque. meninos de outro. Sua pele era morena. 58 . A atmosfera claramente não estava legal. Meus colegas da velha escola já tinham falado dele. eu olhei para ele de forma diferente no segundo seguinte. para acabar logo com aquilo – transar agora ou amanhã? Por mim faria agora para deixar de enrolação. o que vocês querem? – prosseguiu o baixinho. Ao vê-lo ao lado dos outros rapazes. ela não era curiosa para experimentar homens. Será que era a mesma pessoa? Mesmo com essa incerteza. Assim como Gio. com desgosto – você não será chutada para fora se essa brincadeira amarelar. ele parecia ainda mais baixinho. Disseram que aquele amigo deles que fez um curso do Jogo ficou impressionado com a jogada desse cara baixinho.Wanju Duli É claro que Sônia não estava presente. Tinha cabelos negros ondulados e olhos escuros e profundos. Alguém que tinha revolucionado a notação musical do Jogo de Avelórios. ele devia ser um gênio. Que não conseguia tirar os olhos dele. Igor e Celina comentaram um dia. Eles se sentaram nos sofás da direita. mas nós seremos. Ao contrário de mim. ao contrário de você. Porém. pois ele fez algo incrível. Eu já tinha ouvido falar sobre um aluno famoso das escolas de elite que era particularmente baixo. principalmente o cara baixinho. – E então. Ele não era normal. ao lado dos rapazes altos. Senti vontade de não estar lá. Então tivemos que sair de forma discreta.

Gio era como se fosse a líder das moças da escola de elite e Navarro era o líder dos rapazes. Um cara negro que parecia estar quase dormindo num canto deu de ombros. Eu não entendi o que ele quis dizer com “ser filha de Castália”. pois por enquanto a conversa só ocorria entre os dois. horário e local. 59 . um rapaz levantou o lápis. Nas escolas de elite conquistamos nossos títulos por habilidade e não pelo sangue. Não foi muito difícil imaginá-lo fazendo isso. Ele tinha olheiras fundas e uma cara de drogado. beberrão e usuário assíduo de diversas drogas recreativas. Ao contrário do que pensa. então vamos fazer da mesma forma. Funcionou bem antes. você não é superior apenas por ser filha de Castália. Ele não gostou muito de ser xingado. Ele não parecia ter medo de nada. – A maior parte dos professores comemora a virada do ano em Castália. idiota – retrucou Gio. como a indicar que era sua vez. Compraram as camisinhas? – Está tudo preparado – ele confirmou – só falta marcar dia. prontamente. como da outra vez. Ou pelo menos era assim que eles se portavam. fumante compulsivo. com maus modos – então será bem mais seguro. é claro – respondeu Gio. – Que coisa mais supersticiosa. Magalhães. – Não fale comigo nesse tom. o aceitou. de imediato – na virada do ano. – Você concorda. apesar de não mostrar muito entusiasmo com o pedido. Navarro – disse Gio. – Não precisava mencionar isso em público. Eis o príncipe encantado de Agatha que. Então aquele era Navarro. O bully que batia nos colegas. Escolham logo seus pares. mas pelo jeito você já arranjou isso. Continuei achando tudo muito romântico.A Era do Folhetim – Amanhã. Só podia ser o famoso Boaventura. porque estou morto de sono. – Eu gostaria de ficar com o mesmo par – informou Agatha. irritada – mas não estamos aqui para falar disso. – Então está decidido – disse Navarro – quem é o próximo? Sem levantar os olhos de uma caderneta na qual desenhava. Davi? – perguntou Navarro.

despreocupadamente. acho que serve – Barata respondeu. como se estivesse no controle – só preciso de mais alguns minutos. Pele bronzeada. – Como quiser – disse Barata. – Qual é. Barata fingiu pensar. atropelando minhas próprias palavras – estou pensando. Notei que os cabelos eram ligeiramente longos. O exímio escultor que era chamado para decorar os murais de Castália. – Curti aquela moça ali – ele apontou com o lápis. Surpreendentemente. achando graça. mas sou contra essa união – disse Navarro – não irei permitir. impaciente – quem é o próximo? – Arthur.Wanju Duli Ele tinha cabelos castanhos escuros e olhos castanhos. se a Maria te der o bolo. ainda sem levantar os olhos do desenho. – É. – Porque já está decidido que eu e Gio faremos par – explicou Navarro. Ele se divertia muito com a situação. Era o cara que estava lutando pelo direito de deixá-los crescer mais. Acho que fui realmente pega de surpresa. como se fosse um Michelangelo: Barata. – Ainda não sei se vou participar – eu disse. Fez uma careta como se estivesse fazendo um incrível esforço no cérebro. – Vamos mais rápido com isso – disse Navarro. Barata deu um sorrisinho divertido. voltando a desenhar. Digamos que eu não esperava. – Isso não é necessário – respondi. – Sinto muito. ele apontou para mim. inexpressivo. Miguel! – exclamou Gio. posso substituí-la? – perguntou Gio. – Pode pensar à vontade – ele disse – quer que eu fique peladão pra te ajudar a pensar? Aquele sorriso de canto que ele me deu foi ainda mais malicioso que suas palavras. quase nos ombros. – Por quê? – perguntou Barata. furiosa – eu nunca concordei com isso! Você não tem o direito de permitir e decidir nada! 60 . Todos voltaram os olhos na minha direção.

55? Ninguém falou nada. E depois vem falar de mim. eu não tenho nenhuma objeção – fiz questão de dizer. Ela apenas confundiu as palavras. foi expulsa.A Era do Folhetim – Estou apenas sendo lógico – disse Navarro – eu só faço sexo com meninas da minha altura ou mais baixas que eu. – Não importam minhas razões. 61 . – Eu não me sinto bem – disse Navarro. Estou apenas mostrando a ele que o mundo não é bem assim. nessa sala só resta você. – Eu vou – disse Gio – mas não com você. Portanto. Sempre fez cursos de Jogo de Avelórios quando criança. Então era ele mesmo. que foi meu par no ano passado e tinha um metro e meio. E a Gabriela. – Não sabia que você era tão inseguro assim – disse Gio. O Miguel vem de família rica e é filho único. Não estou nem aí se foi ele que bolou a nova notação musical da Província. Navarro provavelmente se sentia como um gênio incompreendido. – Vamos fingir que nada disso aconteceu e prosseguir – decidiu Gio – tem mais algum casal além do nosso triângulo amoroso? Ela certamente se referia a mim. – Ainda não entendi qual é o problema de fazer sexo com uma mulher mais alta – disse Gio. Navarro saiu de lá e bateu a porta com estrondo por trás de si. – Que criancinha mimada – disse Gio. Você topa ou não? – Não. – Que mentirosa! – gritou Navarro – não fui um cavalo e sim um cavalheiro. se você realmente quiser ficar com Barata. – A Gabi disse que você foi um cavalo e a tratou super mal – comentou Gio. – Nem preciso dizer – disse Gio – viram só que estúpido? Eu sei como é. Navarro levantou-se. Ou tem alguma outra menina aqui com menos de 1. – Então vai te foder – ele disse. A família dele tem um dos brasões aceitos por Castália. Sempre teve tudo que quis. – Gio. – Por que não quer? – perguntou Agatha. Não vou chupar ele por causa disso.

deu meia volta e saiu da sala. Com direito a quinze minutos de descanso entre uma e outra. era um negro alto e gordo. – Viram só? – disse Gio – vocês a assustaram. o que falou com D. Levei o maior susto. pô! – exclamou outro cara – Dani. – Calem a boca – disse Gio – se nos pegarem trepando podem até entender que temos certas necessidades. posso ser seu parceiro? – ele perguntou. Lembro que quando o vi perto de Navarro. enquanto desenhava – posso ficar com as duas. – Você já tem duas. – Oi Dani – cumprimentou Gio – vai participar? Ela confirmou com um aceno de cabeça. Não ao mesmo tempo. Estragaram tudo! – Sinceramente. Nem tinha reparado nele na sala. Às vezes eu acho que ela tem poderes sobrenaturais. Tinha cabelos pretos e parecia absolutamente normal em todos os aspectos. – Até tu. – Algumas até ajudam. Prestei atenção no Rodrigo. mas acho que eu só aguento até três. se quiser. outra garota entrou na sala. este pareceu um anão. – Eu não aguento três – disse Boaventura – só duas. Rodrigo? – perguntou Gio. por último. Pode ficar com ele.D. – Pelo menos não use drogas amanhã para seu instrumento funcionar – sugeriu Barata. ela assusta mais a gente do que nós a ela – disse Barata – esses dias ela passou por mim pelo pátio tão silenciosamente que parecia um fantasma.D. D. se for do agrado. O outro que falou com D. mas se nos pegarem com drogas a gente tá fodido. Barata não perdeu tempo.D. – Me conta mais. por favor – disse Gio – eu só queria me garantir se não conseguisse outro.Wanju Duli – Ora. Naquele momento. Podem formar fila. 62 . – Eu adoro como vocês falam de mim como se eu não estivesse aqui – disse Barata com um sorriso. Todos ficaram surpresos. Era D. – Dani.D. O sujeito era bem grande. imediatamente. de tão comum que era sua aparência. pode me dar uma chance? – Também quero – disse mais um sujeito.

com uma voz que era perdidamente melodiosa e sensual. está desculpado – disse Gio. precisam fazer charminho. Eu revirei os olhos. Mas se Rodrigo me recusasse. E você. Gio. – Então você estava interessada desde o começo e se fez de difícil! – exclamou Barata. deixar a sala. D. – Pensei melhor – disse Navarro – e peço desculpas pela minha má educação. – Ótimo! – disse Barata. triunfante – mas as mulheres são assim mesmo. Simplesmente porque achei o gesto poderoso. Era quase como se ela e Navarro tivessem combinado e propositalmente não desejassem permanecer na sala ao mesmo tempo. – Nesse caso. – De boa – me respondeu Rodrigo. Apontei para Rodrigo. Fiquei aliviada. tinha feito. por mais que eu perguntasse. contente. – OK. saiu da sala. Miguel! – exclamou Gio – eu transo contigo. eu ficaria com a cara no chão. Dani fazia isso porque ela sabia que podia. mas vou perguntar uma última vez. da mesma forma que D. – Confesso que estou um pouco curiosa para saber o tamanho do pau de um cara baixinho como ele – Gio sorriu – a Gabi não quis me contar. meu doce? Já acabou o seu charminho? Notei que ele se referia a mim. esqueça sobre nós – eu disse a Barata – quero aquele. – E você me terá – garantiu Barata. lá estava ele de novo. – Obrigado. – Já – respondi – eu aceito.D. pouco depois de D.D. – Quero você – disse Dani. Era a primeira vez que eu ouvia. entrou na sala novamente. – Não acredito que irei me humilhar dessa forma. – Tudo bem.D. 63 . Navarro sorriu. Ela apontou para Barata quando entrou.A Era do Folhetim Falando em Navarro. E ao dizer isso.

Meu nome é Mariel. nós garotas fizemos sozinhas nossa festinha de fim de ano enquanto provavelmente os rapazes faziam a deles em seus próprios alojamentos. suspeitando que era exatamente o que ia acontecer. Sônia participou. – Odeio ler – ela disse. 64 . – Perdão. como se deve. Embora não fosse tão baixinha quanto Gio. posso ser seu par? – Pode sim – ela sorriu – como é seu nome mesmo? – Otávio Carneiro. de uma forma inexplicável. Ainda mais sendo um cara. aquilo era sexy. sem rodeios – odeio livros de qualquer tipo. Aparentemente. ela também era pequena. – Nem livros de história da matemática? – perguntou Agatha. – Ela não quer saber de amizade – comentou Gio – só vai aparecer para trepar.Wanju Duli – Posso ficar com aquela? – perguntou o sujeito grande. Mariel. Até aquele momento ela somente havia assistido em silêncio. Aquela escolha de casais foi um pouco confusa. Durante a festa. Ela pareceu um pouco intimidada com o sujeito enorme. O filósofo dissera que o ser humano é um ser-para-a-morte. antes do encontro dos casais. lemos trechos de autores famosos. Ele apontou para Mariel. Sônia ficou profundamente aborrecida com isso. – Só se você me perguntar apropriadamente. – Só espero que esses imbecis não bebam até cair antes da hora – comentou Gio. É claro que ela devia se sentir ainda mais ofendida ao saber que eu ia transar com outra pessoa naquela noite. Na noite do dia 31. Nem olhou na minha direção. Dani não apareceu na festa. – Odeio história – disse Sônia. Eu não sabia por quanto tempo mais eu teria que aguentar isso. Carneiro! Uma vez Gio me disse que havia esse rapaz chamado Carneiro que sabia muito a fundo sobre Heidegger. mas me ignorou o tempo inteiro. como se fosse um evento literário. mas no final deu certo.

65 . somente assistir. por isso era melhor fazer silêncio. Não queríamos perturbar as outras garotas que não tinham nenhuma intenção de quebrar regras. é uma grande honra. Mesmo assim. Já devia estar acostumada às críticas de Castália em relação ao estudo da história universal. – Qual a sua idade? – ele perguntou. Cela Silvestre. desconfiei que o tempo passaria voando. Ele ama a música. – O seu ficante vai participar? – perguntei.A Era do Folhetim Agatha não pareceu muito ofendida. o som dos incessantes fogos de artifício ao longe abafariam os ruídos. Somente dali uns sete aos e meio eu teria que escolher a minha escola em Castália. fui logo avisando que ele não precisaria usar camisinha. Mesmo assim. Aguardamos a chegada deles na entrada e os conduzimos até lá. talvez seja capaz de resistir à tentação. eles partiriam antes de mim. Bebemos com moderação. assustado – se for nova demais. – Você acha que Navarro irá entrar para Waldzell? – perguntei – Sabe. diferente de mim. E como a maior parte dos que estavam lá eram pelo menos alguns anos mais velhos que eu. Então era isso o que o estava ocupando tanto. – “Mas Waldzell é a mãe da industriosa tribo dos Jogadores das Contas de Vidro” – pronunciou Gio. O de Nova Castália é no auge do verão. Mas ele ficou de ajudar com uma parte da elaboração. – O Jogo público das Contas de Vidro? – perguntei – achei que fosse na primavera. Combinamos que o encontro ocorreria nos dormitórios femininos. eu não vou fazer isso. de forma misteriosa – eu imagino que sim. Para a nossa sorte. – O Jogo de Castália é na primavera.. Quando Rodrigo entrou comigo num dormitório vazio que reservei somente para nós. Apenas pronunciar aquela palavra me dava um arrepio. pois eu ainda não tinha menstruado. A única coisa de diferente que tivemos para a festa foi champanhe.. então uma crítica à história da matemática não era nada. – Amanhã começa o ludus anniversarius – comentou Gio. mas. – Navarro foi convidado – explicou Gio – ele não vai participar esse ano.

Achei-o muito rude e inexperiente por agir assim. Fui até a biblioteca ler um livro para tentar apagar da minha mente aquela cena patética. irritado.. Cada um tirou a própria roupa. Broxou umas três vezes. Ele também começou a se irritar. Entrei no banheiro para lavar as mãos. saí da biblioteca e apaguei as luzes. se desconcentrou. Pelo menos a leitura me deixou ligeiramente mais calma: Satyricon. ele ficou por cima. em silêncio. sem nada. Eu ainda poderia acabar aquela noite com uma tranquila masturbação. Ele já foi metendo. então eu o xinguei. Mas era dificil me concentrar. Depois de um tempo. Simplesmente não me sentia no clima. Por fim. Ele provavelmente havia voltado para o dormitório masculino e eu não tinha nenhuma intenção de procurá-lo mais. de Petrônio. Como eu não sabia direito o que fazer. Eu não falei nada. ele saiu do quarto. ficou mais brabo ainda e colocou a culpa em mim. – Nunca fiz sem camisinha.. Recoloquei minhas roupas. sem ter terminado o serviço. mas acho que vai facilitar. Fitei meu rosto no espelho. Parei de ler. 66 . pois teremos mais lubrificação. Era meio irritante. Até mesmo eu comeria a mim mesma. Ele não tinha que se sentir tão incomodado por ter broxado. Fiquei braba porque doeu. Mas Rodrigo não precisava ter sido tão impaciente. Assenti. Lábios grossos. Muito sexo selvagem da Roma Antiga para acalmar os ânimos. então era natural que Barata e Rodrigo tivessem me desejado. sem beijo. Vai ser diferente. Ele fazia muita força e já estava suado. porque nunca tinha transado com uma virgem antes e não sabia o que fazer para romper o hímen. Aquele black power me deixava mesmo com uma aparência irresistível. Fiquei uma fera. bochechas redondas. Não que eu esperasse vasta experiência sexual de um adolescente de uma escola de elite. sem toque. Me deixou lá. mas ele provavelmente ficou nervoso consigo mesmo e descontou em mim.Wanju Duli – Fica tranquilo – eu disse – tenho quase catorze.

A Era do Folhetim
De repente, uma garota saiu de uma das portas do banheiro, onde
ficava o chuveiro. Ela havia acabado de tomar uma ducha, estava toda
molhada e completamente nua. Não havia toalha alguma por perto.
Era D.D. Eu não conseguia tirar os olhos do corpo dela. Eu a fitava
através do espelho. Fiquei hipnotizada com o que vi.
Sua pele era morena e brilhante, muito bem cuidada. As formas de
seu corpo eram perfeitas. Tinha bastante carne nos lugares certos: não
somente as coxas eram grossas, mas seus quadris eram largos. Ela
também tinha uma bunda maravilhosa e os peitos bem redondos. Eram
peitos de tamanho médio, que se harmonizavam muito bem com o resto
do corpo.
Ela não ficou nem um pouco preocupada com minha presença. Nem
pareceu ter me visto. Passou reto por mim, abriu um dos armários do
banheiro e começou a procurar por uma toalha.
Quando ela se abaixou ligeiramente para abrir os armários, eu olhei
discretamente para ela e vi, por suas costas, um parte de sua vagina.
Quase tive um treco. Minha vagina pulsou forte e começou a pegar fogo.
Rodrigo não me dava tesão, mas a Dani... ah, meu Jesus Cristo! Aquilo
sim que era um pedaço de mau caminho. Se ela topasse, eu teria me
deitado com ela no chão ali mesmo. Enfiaria a língua em sua boca e a
língua na sua boceta molhada.
Porém, meus pensamentos foram completamente interrompidos
quando outra pessoa entrou no banheiro. Ele abriu a porta com
estrondo.
– Alguém viu a Gio? Vocês viram para onde ela foi?
Era Navarro, que estava de jeans e sem camisa, com cara de idiota.
Ele estava com os pés descalços e a própria cueca na mão, como se
tivesse vestido o jeans rapidamente sem ela.
– Saia daqui imediatamente! – gritou Dani, fora de si.
Sem se desculpar e sem fechar a porta, Navarro insistiu:
– Apenas respondam a minha pergunta: vocês a viram por aí?
– Fecha essa porta, seu filho da puta! – berrou Dani.
Ela foi até a porta e a empurrou em cima de Navarro. Porém, ele
empurrou a porta mais forte. Não sei se Dani se abaixou naquele
momento, mas o trinco atingiu fortemente seu rosto, ela caiu e escorreu
um filete de sangue por sua testa.
67

Wanju Duli
– Nossa, me desculpa, Dani! – exclamou Navarro, abaixando-se para
ajudá-la – eu te machuquei? Você tá bem?
Dani começou a dar tapas, socos e chutes em Navarro. Ele protegeuse com as mãos.
– Vai tomar no cu! Seu corno, filho da mãe! – Dani prosseguiu
berrando, com voz rouca – Sai daqui, caralho!
Navarro entendeu o recado e se mandou. Pelo jeito aquela noite não
estava sendo boa para ninguém. Mas Navarro devia ter lido um pouco
mais a situação e ter se mandado de lá já na primeira vez que Dani o
mandou sair.
Achei uma toalha em outro armário e entreguei para Dani. Ela se
enrolou nela.
– Precisa de ajuda? – perguntei.
Ela fez que não. Ela não me agradeceu e abriu a porta para sair do
banheiro. Porém, quem estava na porta agora era Barata.
– O que aconteceu? – ele perguntou, preocupado, ao ver o sangue.
– Não é da sua conta – respondeu Dani, rispidamente.
E foi embora.
– Você sabe o que houve? – perguntou Barata.
– Foi apenas um acidente – respondi.
Achei melhor não dizer que o acidente havia sido causado pela
idiotice de Navarro. Podia ser que Barata fosse atrás de Navarro para
tirar satisfações. Eu não sabia se Barata era do tipo de pessoa que bateria
em Navarro para defender a Dani. Achei melhor não descobrir, para
aquela noite não terminar com todos nós sendo expulsos.
Eu suspirei.
– Eu devia ter transado contigo – eu disse – meu encontro com
Rodrigo foi um lixo.
– É mesmo? – perguntou Barata, curioso.
Mas não perguntou mais detalhes. Ainda bem, porque eu não ia dizer.
– Como foi o seu?
– Foi ótimo – respondeu Barata – mas ainda aguento mais uma. Você
quer?
Aquilo foi um pouco inesperado. Mas eu não estava mais a fim de
fazer charminho.
– Quero, mas só se for agora.
68

A Era do Folhetim
– Imediatamente, querida – respondeu Barata, com um sorriso.
Ele me levou até o quarto em que provavelmente ele e Dani tinham
transado. De certa forma, poder estar na mesma cama em que Dani
estivera me daria até mais emoção do que trepar com esse garoto.
Barata parecia ser mais experiente que Rodrigo, então fiquei mais
tranquila. Pelo menos ele me passava confiança, como se soubesse
exatamente o que fazia.
Quando já estávamos os dois despidos, ele me deitou gentilmente na
cama e me beijou de um jeito muito bom. Lento e carinhoso, um beijo
profundo. Nossas línguas se encontraram. Fechei os olhos e voltei a
imaginar o corpo nu de Dani. Fiquei com muito tesão.
Ele passou a mão nos meus peitos, foi descendo para a barriga e de
uma forma muito natural acariciou minha vagina. Quando colocou seu
dedo dentro de mim, eu já estava bem lubrificada.
Ele desceu pelo meu corpo, me beijando pelo pescoço, nos peitos, na
barriga. Colocou a língua na minha boceta. Eu gemi e suspirei forte.
Quando ele foi colocar a camisinha, eu disse que não precisava.
Expliquei o motivo.
– Nossa, que legal – disse Barata – adoro fazer sem camisinha. Mas
você não tem medo que eu te passe alguma doença?
Eu fiz que não. E se fosse uma doença da Dani, eu não me
importava.
– Quer que eu te masturbe? – perguntei – ou que eu te chupe?
Eu me sentia meio boba ao perguntar. Podia simplesmente ter feito,
como ele fez, chegando aos pouquinhos.
Estranhamente, eu entendi a expressão e seus sinais corporais de
resposta à minha pergunta. Ele meio que deu de ombros, como se
dissesse que não precisava, mas que se eu quisesse fazer ele ia curtir.
Antes que eu decidisse, ele resolveu que não precisaria e, aos poucos,
colocou o pênis em mim.
Até ali, tudo tinha sido perfeito demais para ser real. Barata era um
mestre na cama. Mas quando chegou a hora de tentar romper o hímen,
que ainda não estava completamente rompido, ele enfrentou alguma
dificuldade. Teve um momento em que Barata broxou também, mas ele
apenas deu um riso divertido.
– Me empresta suas mãos, querida?
69

Wanju Duli
Eu ri junto e o masturbei. A situação se resolveu a seguir e logo ele já
estava dentro de mim.
Enquanto fazíamos amor, eu imaginei o corpo de Dani diversas
vezes. Quando eu estava perto de gozar, lembrei do formato da vagina
dela, pelo menos do pouco que vi.
Barata gozou um pouco depois de mim. Senti o líquido quente. Foi
bom.
Depois da transa, ele me abraçou, respirando rápido. Seu coração
batia muito forte. Havia sido simplesmente maravilhoso. E eu sabia que
tinha sido bom para nós dois. O corpo e a expressão dele me mostravam
isso.
Eu sentia por Barata algo parecido com amizade. Tínhamos dividido
aquele momento juntos. Claro, eu tinha sentido prazer e ele foi
excelente, embora eu precisasse confessar que a lembrança das curvas de
Dani tivesse sido muito mais eficaz para me fazer gozar.
Eu admirei Barata. Ele era muito maduro. E eu o admirei ainda mais
no momento em que ele agiu de forma tranquila quando as coisas deram
errado do que em seus muitos acertos. Não era tão importante que o
cara fosse um Deus na cama, mas que se sentisse à vontade o suficiente
comigo para compartilharmos aquele momento juntos e para que
resolvêssemos os problemas juntos.
Rodrigo poderia ter broxado mil vezes que eu o aguardaria e o
ajudaria. Só fiquei chateada por ele ter ficado aborrecido e colocado a
culpa em mim. Mas talvez eu também tivesse errado por tê-lo xingado
logo no começo por não saber o que fazer.
– Você ainda tá pensando nele, né? – perguntou Barata, adivinhando
– esquece isso por enquanto.
A voz de Barata foi como música. Ele falou baixinho, de forma
suave, perto do meu ouvido. E acariciou os meus cabelos.
– Maria... posso te fazer uma pergunta pessoal?
– Acho que pode...
– Você gosta da Dani?
Fiz que sim.
– Ouvi falar que você terminou com a Sônia. Mas você também gosta
da Dani – disse Barata – parece difícil.
– E você, gosta de alguém?
70

Barata foi muito gentil. Então acho que vou esquecer. Não sei se ela quer. mas é um pensamento encantador. E isso era muito mais importante que sexo ou mesmo amor. Ele se despediu de mim com um abraço e um beijo bem leve nos lábios. Paixão boba de adolescente. Uma existência espiritual. Nenhum de nós seria de ninguém. – Estou meio melancólico e sentimental hoje – ele riu – deve ser por causa do Ano Novo. Barata levantou-se devagar e sentou na cama. E seguir para o próximo sonho. Fiquei lembrando de sua voz doce muito depois de ele ter saído. Se a Dani não fosse minha. com naturalidade – queria que a gente namorasse. – Engraçado você ter pensado nisso agora. um perfeito cavalheiro. Ouvindo os fogos ao longe. Não sei se irei para Cela Silvestre. – Será que um dia poderemos jogar o Jogo de Avelórios juntos? Barata parecia se divertir cada vez mais com as minhas perguntas. De certa forma. iríamos para Castália. O da Dani e o nosso. dali alguns anos. vocês vão fazer parte dele no futuro. Mas eu precisava ser realista: ela não seria de ninguém. Era um pouco doloroso. 71 . todos eles. Parece quase um sonho. Um dia. Éramos estudantes das escolas de elite. essa atmosfera mágica. Castália era algo maior do que nós mesmos.A Era do Folhetim – Gosto da Dani também – respondeu Barata. – As coisas só são bonitas porque terminam – disse Barata – vou guardar os momentos de hoje. mas a dor tornava tudo mais real. Mas para ela será bem mais fácil esquecer do que para mim. eu me sentia no céu. Mas seria impossível nesse lugar. Se não for em corpo será em espírito. no fundo eu não me importava que ela fosse dele. – Queria que durasse para sempre? Ele fez que não. Quando nos despedimos. Todos nós sabíamos que aqueles encontros eram só diversões temporárias. A Verdade. futuros habitantes de Castália. Aqueles eram apenas os rituais de despedida de nossa velha vida.

Não sabiam o que fazer comigo. que estava chorando. A gente brincava juntos enquanto os adultos estavam ocupados com as coisas grandes. Tava tudo dando certo e depois deu essa merda. Navarro tinha feito duas grandes bobagens na mesma noite. Lá dentro. Foi horrível. – Não vou contar por respeito a ele – ela disse – mas tem a ver com a insegurança dele. Ele queria me vencer e por isso estudou muito. entre soluços. mas sei lá. – Gio. Simplesmente me criaram em segredo. mas o que ele disse – respondeu Gio. Foi uma droga. Nunca achei que nossa amizade fosse uma competição e nem tenho intenção de 72 . já que eles são nomes de peso. pois não queriam expulsar meus pais da Província. Brigamos feio. Ele sempre teve inveja de mim porque morei em Castália e sabia mais que ele sobre o Jogo e sobre todas as outras coisas.. – eu pronunciei. encontrei Mariel e Agatha tentando consolar Gio. Ele via seu feito como se tivesse me derrotado.. preocupada – foi alguma coisa que o Navarro fez? Puta que pariu. vesti meu pijama e retornei para nosso dormitório. Era como um conto de fadas. Como se ela fosse uma princesa! – Conheço o Miguel desde que éramos bem pequenos – ela explicou – já que a família dele o trazia para assistir aos Jogos. – Ficamos relembrando os podres um do outro e jogando na cara. – Não foi tanto o que ele fez. Vocês não ouviram? Eu respondi que não. Eu e ele já estamos aqui há muito tempo. Eu cresci jogando o Jogo de Avelórios. – É algo que possa contar? – perguntei. No meio do sexo. Depois de ter desenvolvido a notação musical aceita até mesmo em Cela Silvestre. A gente discutiu por causa disso. – Há quanto tempo vocês estão aqui? – Eu nasci em Castália – ela respondeu – fruto de uma união ilícita entre dois habitantes de lá. Mas eu nunca liguei para isso. ele se sentiu o rei do universo. Ela fez que não. Quando terminei. A gente se conhece bem. Discutimos aos gritos.Wanju Duli Resolvi tomar um banho também. Nunca tínhamos ficado juntos dessa forma.

Com algumas folhas de papel.A Era do Folhetim ser jogadora de Contas de Vidro! Joguei tanto quando criança que cansei.. famílias ricas e alguns dos maiores especialistas no Jogo de Avelórios. talvez dedicar a sua vida a isso. jogo da forca e até brincamos de pega-pega e esconde-esconde no pátio. Fizemos todas as coisas tolas que conseguimos pensar. Como lá não havia muita coisa além de livros. Eu recebi permissão de ir visitar minha família por um fim de semana. tínhamos um mundo. Ainda teria alguns dias para fazer o que queria. Miguel não está satisfeito. Comi todas as porcarias que consegui engolir. Eu fiquei sabendo que Gio não iria simplesmente porque “não estava a fim”. nos agradeceu e retornou para seu quarto.. Eu não o considerarei melhor ou pior se ele se dedicar à música ou ao Jogo. – A amizade não deixa de ser um tipo de amor – disse Mariel. Retornei para as escolas de elite renovada. enquanto tudo o que eu queria era poder estar lá um dia. Navarro viajaria no dia seguinte para a Província e permaneceria por lá uma semana assistindo às festividades do Jogo. Agora quero me dedicar mais a fundo à filosofia. reuni as meninas para inventarmos alguma coisa. Só amizade. É claro que eu não os mantive e enquanto estive no orfanato realizei todas as diversões mundanas possíveis. – Acho que ele gosta de você – opinei. relembrando a infância. Ela parou de chorar. essas coisas não têm valor. embora eu devesse manter meus votos durante a visita. A ideia era: “O que é possível fazer com o que temos aqui?” 73 . Já devia ter assistido àquilo incontáveis vezes. Jogamos jogos da velha. só para provar para mim que é capaz. é claro. Aquelas férias foram estranhas. Recordei-me que já havia passado de meia-noite. Sônia optou por visitar o orfanato em dias diferentes dos meus. junto com membros do governo. Ele não precisa ir para Cela Silvestre só para se exibir. – Todos nós sabemos que isso é irrelevante – disse Gio – aqui dentro. virei a madrugada assistindo filmes e fui jogar Pump no fliperama junto com Mel e Lua. Agora estávamos em 2289. Ele quer ir a fundo na problemática do Jogo. Essa conversa pareceu ter deixado Gio mais calma.

Mas quando se tratava de gramática ele se tornava outra pessoa.Wanju Duli Para minha supresa. No dia seguinte. Afinal. para me livrar dele. Não mencionou o nosso encontro no Ano Novo. vi Rodrigo entrando na biblioteca. iniciei uma leitura do cronograma. do jeito que eu gostava. reunia pessoas muito esforçadas e interessadas no que faziam. fiquei maravilhada com os livros. Eu nunca tinha estado lá. ele veio diretamente na minha direção. Passei a olhá-lo de forma diferente. Extremamente maduro. a maior parte devia ter sido recomendada para as escolas de elite pelas altas notas e por se destacar em alguma área do conhecimento. com naturalidade – tem uns livros aqui que vamos usar. E como era férias. eu o considerei infantil. mas um que achei na biblioteca e estava a fim de dar uma olhada. com exceção de mim e mais uns poucos. Enquanto folheava os livros. Achei alguns que eu realmente desejava ler. Eu o fitei. imaturo e inexperiente. Depois disso. Ele alcançou dois livros numa estante mais alta. responsável. Após o nosso desentendimento. 74 . Parecia ter se transformado. De tarde eu seria instruída pelo tutor de gramática. sério. Era melhor assim. Não um livro que me mandaram ler. – Vamos começar? – ele perguntou. em meu último dia de férias eu já tinha voltado a ler. confusa. de forma muito clara e profissional. Resolvi fingir que não tinha visto. acordei bem cedo e retomei minhas atividades. Mesmo que aquele lugar não reunisse gênios. eu li na cama. Resolvi escrever meu ensaio logo de manhã. Eu precisava perguntar se eu tinha permissão de retirá-los para ler em meu pouco tempo livre. inteligente. Apenas se ateve a me explicar gramática. Fui orientada a aguardá-lo na biblioteca do alojamento dos garotos. Nós nos sentamos juntos e ele abriu os livros. Eu não devia me surpreender mais ao encontrar vários alunos modelo por lá. Porém. – Você é meu tutor de gramática? – perguntei – o cara que sabe muito? O aluno modelo? – Isso – respondeu Rodrigo. Quando cheguei.

ele era como um feiticeiro das letras. ele parecia um professor calejado. tem mais a ver com psicologia. Quando Rodrigo declarou que a lição do dia havia terminado. não é mesmo? – perguntei – para entender biologia a fundo. Eu ainda não tinha penetrado na essência. Ele estava me fazendo amá-las. Para penetrar na física é boa coisa estudar matemática.A Era do Folhetim Honestamente. Sincero. – Estou vendo a gramática de uma maneira totalmente diferente – confessei – parece que tudo o que estudei no colégio até hoje foi apenas a forma. Caralho. – Muito obrigada pela ajuda – foi tudo o que consegui dizer – nem sei como agradecer. – Nesse caso. a lógica começou nas humanas. Ele sabia tudo! Todos aqueles nomes difíceis de gramática. é bom saber química. Aquelas merdas que eu odiava e queria destruir. Ele me passou deveres de casa que me tomariam a semana inteira. só é possível entender o encadeamento lógico das premissas ao conhecermos as relações das palavras no interior de uma frase. Para eu ter o que fazer até o encontro da semana seguinte. pois mistura filosofia e matemática. Se pensarmos na lógica. nem notei o tempo passar. – E o que devemos saber para estudar filosofia? 75 .. – Uma se fundamenta na outra. eu começava a entendê-las. E para estudar matemática. Para saber química a fundo. Humilde. Havíamos ficado lá por duas horas seguidas e o tempo voou como um sonho. Aquele adolescente que nem sabia beijar uma mulher. Fico feliz de poder ajudar. pela primeira vez. específica de outras línguas. porque. Formal. Ainda estou aprendendo. pois isso lhe ajudará a compreender melhor a gramática geral – disse Rodrigo – a geral. Você sabe muito! – De nada. é desejável saber física. é bom saber filosofia – disse Rodrigo – eu acredito que a lógica seja um bom ponto de ligação entre as ciências exatas e as humanas. Somente depois que a matemática se apropriou dela. como conversamos.. – Eu aconselho que você também estude a gramática especial. O amor que ele sentia por aquele conhecimento me contagiou. Porém. Faço o que posso. arte e filosofia.

Eu tentei fingir uma experiência que eu não tinha. mas me atrapalhei e não soube lidar com a situação.. no Ano Novo anterior. A “senhorita Dantas” parecia viver num mundo diferente do nosso. Rodrigo disse: – Se o assunto é biologia. Espero que tenha compensado.. não deixem de ser um tipo de linguagem. eu já tinha ouvido de tudo. em que as diferentes espécies passam por um proesso de coevolução. Como eles eram fofoqueiros. já existia história. É claro que para Rodrigo tudo começava na gramática. – Não se preocupe – eu disse – eu também errei. Outros poderiam dizer que a teologia vem antes. Aquilo já tinha se espalhado! – Desculpa. assim como na evolução. O tom com que ele disse isso me sugeriu que ele tinha ficado um pouco chateado. 76 . Já para Agatha. – Sobre o que aconteceu naquela noite. Eu já tinha percebido que cada um puxava a brasa para a sua sardinha. que fundamentava todas as outras coisas. Para Gio. talvez a história fosse o começo. pois antes de aprendermos a ler e a contar.. Somente um olhar dela provavelmente seria capaz de fuzilá-lo. E para aprender uma língua é preciso conhecer tanto a gramática especial quanto a geral. Quando mencionei sobre isso. – comecei. por exemplo. Talvez não houvesse um início e as coisas nascessem e se transformassem juntas. a filosofia era o início de tudo. Eu baixei os olhos.Wanju Duli – A linguagem – disse Rodrigo – embora a matemática e a música. Para os escolásticos a teologia era a mãe da filosofia. jamais teria coragem de aparecer na frente dela de novo. – Me desculpe – ele me interrompeu – eu queria te mostrar que sabia o que estava fazendo. É claro que eu não tinha coragem de falar com a Dani! Ninguém tinha. Coloquei a responsabilidade pela transa toda em cima de você e nem fiz nada. a metafísica de Aristóteles. Eu só tive uma relação sexual antes dessa. E vê-la furiosa daquele jeito no dia em que ela gritou com Navarro me deixou ainda mais intimidada. Bem. com o fascínio perante o sublime e o mistério. Se eu fosse Navarro. – Eu soube que você ficou com o Barata depois.. recomendo que converse com a Dani.

desde o útero – ela respondeu – ele é meu irmão gêmeo. Ela notou que eu estava um pouco cabisbaixa. cor da pele. os alunos das escolas de elite evitam 77 . Parando para pensar. – Rodrigo também sabe jogar o Jogo de Avelórios? – perguntei. É porque é parente. mas pode gerar uma sensação desconfortável – respondeu Gio – em geral.. Nosso tipo de cabelo é bem parecido. – Até a semana que vem. Ele e Miguel nunca se deram bem. – Sabe. – Ele foi criado em Castália com você? – Sim. vai notar algumas semelhanças. Por isso ele se apaixonou por gramática: para entender os hieróglifos do Jogo.. por exemplo. era mesmo. menos um – lembrei – você obviamente estava se referindo ao seu irmão. E foi embora. – Todo mundo diz isso – falou Gio – mas se colocar nós dois lado a lado. Quando voltei para o alojamento feminino encontrei a Gio no caminho. – Vocês não se parecem! – foi a primeira coisa que consegui dizer. – Exato. – Lembro que ele te emprestou um celular quando cheguei aqui – comentei – vocês parecem ser bem próximos. Ele levantou-se. mas não porque ele seja feio. seria estranho. – Sim. E outras coisas. Contei a ela que também tive problemas no Ano Novo com Rodrigo. Você não tem que me dar satisfação. Eu já imaginava o motivo. – Aquele imbecil sabe ser orgulhoso – disse Gio – mas ele é uma boa pessoa. Meu queixo caiu. – Ele pretende estudar em Cela Silvestre? – Você faz essa pergunta pra todo mundo? – É uma pergunta ruim? – Não é que seja ruim. Sei lá. Que viagem! – Uma vez você disse que ficaria com qualquer garoto do alojamento masculino.A Era do Folhetim – Por que está pedindo desculpas? – ele perguntou – isso não é necessário. Cor do cabelo. O formato do nariz.

. – Não esquenta. É mais como uma paixão secreta e proibida que todos guardam dentro de si. Ao mesmo tempo. Eu não tinha pensado dessa forma. um jogo é um jogo. Eu era estudante das escolas de elite há pouco mais de três meses. Ou melhor. mas a cada dia eu sentia que penetrava mais fundo na literatura e ficava mais longe do Jogo. mais se afasta dele. elas também não existiam em muitas coisas? Talvez até mais na própria teologia. Sobre a espiritualidade e a Verdade presentes no Jogo. O Jogo parecia ser um tipo de tabu. Até na matemática. o funcionamento das ciências e das artes. Muitos de nós vivemos esse dilema entre dedicar nossa vida ao Jogo das Contas de Vidro ou à nossa área de interesse. muito mais do que imaginamos.Wanju Duli mencionar sobre o Jogo. Eles me mostravam as regras. mesmo que seja sublime. Porém. Ninguém estava lá me ensinando o sentido das coisas. Acredito que a maior parte dos que estavam ali tinham decidido entrar nas escolas de elite pela paixão pelo mistério que o Jogo suscitava. Por isso sugiro que você não saia falando sobre Cela Silvestre tão facilmente. desculpe. Eu provavelmente estou exagerando. Também recordei da seguinte frase: “Respeita o sentido. – Nossa. mas já me senti. então por que ser um jogador? Que motivo restaria? O que era aquela estranha atração que o Jogo ainda emanava e que parecia estar cada vez mais distante? Eu também sentia esse processo acontecendo dentro de mim. Lembrei daquela reflexão: quanto mais se compreende o sentido do Jogo. Aquele que compreende inteiramente o sentido do Jogo. Aos poucos e de forma gentil 78 . mais aquele mistério perdia sua atração. Era bastante lógico. mas não pense que o sentido se ensina”. Uma paixão de infância. ao estudar literatura eu via as coisas se encaixando e entendia cada vez mais o sentido do Jogo. Então é como relembrar da faca cravada em nosso coração e enfiá-la mais fundo. Afinal. na gramática. era o centro de tudo.. não pode mais ser um jogador de Avelórios. na química. Mas quanto mais amadurecíamos. Então imagino que outras pessoas por aqui também sintam algo parecido. Há outras coisas sublimes no mundo. Eu não me sinto mais desse jeito. um pensamento cortou meu coração ao notar isso.

Para disfarçar o embaraço que sentiam toda vez que o Jogo era mencionado. quando eu já estava com 16 anos. Por isso eu nunca via ninguém nas escolas de elite jogando o Jogo das Contas de Vidro. Apenas trocava umas poucas mensagens com minhas amigas antigas pela internet. Até o fliperama já me parecia sem graça.A Era do Folhetim elas se encaxariam dentro de mim. Fiquei contente que Gio tivesse sido sincera comigo sobre essa questão. Eu já não tinha medo de um dia desistir de permanecer nas escolas de elite. Depois de alguns anos. Por outro lado. Havia um tipo de respeito pairando no ar que não precisava ser dito. Já não tinha vontade de matar a saudade. mas até isso estava se tornando raro. A diferença dessa vez foi que eu o conhecia. Eu tinha mais vontade de conversar com minhas amigas do dormitório. Cada vez eu me identificava menos com o mundo lá fora. essa joia precisava de guardiões poderosos. Sua joia mais preciosa e mais frágil. Era o mais próximo que Castália tinha de uma religião. recebemos um aluno ouvinte em nossas escolas. por serem muito rigorosas. Eles levavam aquele assunto muito a sério e só o mencionavam quando necessário. Pensando bem. Dois anos e meio depois. não visitei mais o orfanato nas férias. Não era a primeira vez que aquilo aconteceu ao longo desses anos. 79 . só faltava descobrir meu lugar em Castália: na Cela Silvestre ou nas escolas de literatura. a partir dali eu me sentiria intimidada a fazer quaisquer perguntas envolvendo esse assunto no futuro. alguns fingiam que já não se importavam mais com esse assunto. como os irmãos gêmeos e Navarro. Eu já havia encontrado meu lugar no mundo: era ali. Mas eu duvidava que um dia eles nos convidassem para que jogássemos de forma descontraída e para nos divertirmos. Eu sabia que havia grandes conhecedores do Jogo lá dentro. Apenas mostrariam as portas e eu entraria nelas por mim mesma. Por isso. Agora. Éramos cada vez mais diferentes. que impediriam que o Jogo se degenerasse em mero ornamento estético e perdesse seu espírito. Que era uma velha paixão de infância. mas pelos motivos errados. eu agia da mesma forma no meu antigo colégio. Ninguém iria encaixar as coisas por mim.

Foram dois os visitantes: uma moça e um rapaz. Ela só tinha ido para lá porque estava interessada no Jogo das Contas de Vidro. mas ela não parava de reclamar. Normalmente para aprender o Jogo das Contas de Vidro. Não se tratava mais de um namoro. – Esses cursos nem sempre caem no período das minhas férias. Foi somente ao ouvi-la que me dei conta do quanto eu devia ter soado desagradável. 80 . – Como vocês aguentam comer a mesma comida todos os dias? Ouvi-la era como ouvir o eco de mim mesma no meu primeiro mês por lá. – Não somos exigentes com comida – disse Sônia – porque há tantas coisas mais interessantes aqui que o cérebro nem pensa mais nesses detalhes. Era quase insuportável. como todos os outros. mas eu sentia que nunca teríamos a mesma relação de antes. O nome daquela garota era Linda. Nos tornamos um pouco distantes. Nós fizemos as pazes. E até a amizade dela eu senti que havia perdido um pouco. mas nesse caso era uma visita mais modesta: para acompanhar o dia a dia dos alunos. assistir a algumas aulas e seminários.Wanju Duli Os alunos ouvintes eram normalmente aqueles vindos de famílias ricas que não tinham intenção de estudar nas escolas de elite. e ficou desapontada ao descobrir que não ensinaríamos isso para ela. Eu esperava que esse fosse um problema que pudesse ser solucionado quando mais alguns anos se passassem. – Onde estão todas essas coisas interessantes? – ela perguntou – não achei a biblioteca de vocês muito impressionante. que veio para nosso dormitório. Era um ano mais velha que eu. Não tem ninguém aqui que possa me dar um breve curso do Jogo? – A Província oferece esses cursos periodicamente – eu informei – você deveria contatá-los. – Qual é a graça de vir para as escolas de elite e não jogar o Jogo de Avelórios? – ela perguntou – vocês são estranhos. Não me diga que você não sabe jogar? Eu suspirei. Sônia tinha voltado a falar comigo. mas que desejavam passar um período nas férias conosco. Nós a recebemos com a cortesia requerida. Conheci primeiro a moça.

– Ora. Chegando lá.A Era do Folhetim – Não sei. Maria – ele cumprimentou-me – o que a traz aqui? – Nossa. Ela estava ocupadíssima com seus estudos de filosofia. bonitão? – Arthur. Posso sentar aqui atrás e ficar olhando pra ela? Eu segurei meu riso com a mão. Então. – Vamos para o alojamento masculino – convidei Linda. não acha? 81 . Digamos que estava fanática com isso ultimamente e nem queria ouvir falar no Jogo. eu sento no chão mesmo. qual é o seu nome. fique à vontade – disse Barata – se quiser. – Não enche – disse Linda – depois eu penso nisso. ao ver o que ele pintara. sem saber como reagir. Porém. Ela genuinamente nem queria saber. – Pensei que você quisesse saber sobre o Jogo de Avelórios – comentei. olhando para seu quadro. obrigado – ele consertou a situação – estou lisonjeado. Era a paisagem da janela do alojamento masculino. E ela simplesmente sentou-se atrás dele e continuou a olhá-lo. – Por favor. nos mínimos detalhes. – Onde? – perguntou Barata. – Obrigado – Barata sorriu – ainda preciso dar uns retoques. Gio não parecia muito disposta a ensiná-la. – Oi. Linda era mais atrevida do que eu tinha imaginado. que lindo! – exclamei. Eu também tinha ficado sabendo que todos aqueles quadros lindos das salas principais do prédio tinham sido feitos por ele. Um nome ideal. encontrei Barata usando um avental e pintando um quadro. Deu um sorriso meio forçado. – Tem que estar mesmo – disse Linda – gostei da sua bunda. que gato! – exclamou Linda. e o seu? – Linda. – Você! Barata ficou meio sem graça. mas conheço quem saiba – eu disse. Ele ficava engraçado com aquele avental. arranjo-lhe uma cadeira para sentar-se enquanto aprecia a vista. extremamente realista. E a mandei para a Gio. Ela não estava apenas tentando escapar das tentações dessa paixão. – Não precisa. – Uau. Eu nunca o tinha visto assim antes.

Senti que se eu o interrompesse seria morta. posso pintá-la assim que eu terminar esse – informou Barata – só preciso de mais meia hora para finalizá-lo. – Isso é segredo – disse Barata. Ou você é do tipo que joga para o outro time. certo? – eu ri – Seu maldito! Eu quase caí nessa! – É sério – insistiu Barata – vá lá perguntar para ele se não acredita. como Michelangelo? – Eu jogo nos dois times – respondeu Barata. Então ele era um pouco como eu. Eu não entendia muito de música. Ele estava tocando oboé. Estava sorrindo de orelha a orelha. Ele estava tocando uma música que parecia ser de difícil execução. – Pode me desenhar? Ele pensou um pouco antes de responder. – Eu tenho o dia todo – disse Linda – que tal fazermos amor depois de terminarmos? Como Diego Rivera que transava com suas modelos. – Se você se dispor a permanecer algumas horas parada na mesma posição. Até mesmo esse cara tinha tomado jeito. Para mim aquilo era novidade. Fomos as duas juntas procurar por Navarro. tinha pelo menos diminuído. Foi só então que reparei que Boaventura estava com ele. mas aquilo parecia ser quase impossível de tocar. Arthur – eu falei – e entrega logo o jogo. Se não havia parado com as drogas. – Está bem – Barata desistiu – foi com o Miguel. – Deixa disso. Ele ficava ainda menor perto daquele instrumento gigantesco. Mas o sorrisinho que ele deu quando disse isso me deixou claro que ele estava louco para contar. O drogado. tocando seu contrabaixo. Eu soltei uma exclamação em alto e bom som e tapei a boca com as mãos. – Você está brincando. – Agora fiquei curiosa – falei – com que cara você já transou? Só pode ter sido alguém aqui do alojamento. 82 . Linda também estava curiosíssima. pois não tinha mais suas olheiras profundas. Encontrei-o sozinho na sala de música.Wanju Duli – De fato.

Não sinto nada por ele. atire-se da janela e morra. – Quantos anos você tem? – ela insistiu – doze? – Dezoito! – Não perguntei por causa da sua altura e sim pela sua infantilidade – ela justificou-se. sentando-me num banco – já conhece a Linda? – Não conheço e nem quero conhecer. sentindo antipatia por ele no mesmo instante – por que você é tão baixinho? Linda tinha tocado no ponto fraco de Navarro. – Educado como sempre – eu disse. em tom divertido. estou sangrando pelo cu depois de ouvir as bobagens de vocês! – Navarro continuou a berrar. – Boa tarde. rapazes – cumprimentei-os. o que vocês querem aqui? – ele perguntou. Ele não disfarçou a raiva que sentiu.A Era do Folhetim Esperamos por cinco minutos lá fora. – Fora daqui – disse Navarro. – Afinal. – Pela reação dele é verdade – disse Linda. – Se você se sente incomodada com isso. – Foi apenas uma vez – disse Navarro – e faz muito tempo. – Isso é sério? – perguntou Boaventura. vão se foder. nada demais. Isso é verdade? Navarro ficou sem fala. para que o alojamento inteiro ouvisse – se alguém se sente ofendido com isso. Sempre preferi mulheres. Apenas me fitava fixamente. seus semivirgens castrados de Castália! – Você está de TPM? – perguntou Linda. – Você é o único aqui que está falando bobagens – observei. com um largo sorriso – ele comeu seu cu? – Ele comeu meu rabo e eu comi o dele!!! – exclamou Navarro em alto e bom som. sem paciência – me insultar? – Só viemos perguntar uma coisa – eu disse – o Arthur me disse que vocês dois já fizeram sexo. – Que sujeito mais ridículo – disse Linda. 83 . mas a droga da música não terminava nunca. – Sim. Então resolvi entrar mesmo assim. Invadi. sem nem pedir licença. Eu estava apenas curioso.

Wanju Duli – Eu estava pensando em transar com Arthur. – Já perdi bem mais que isso nessa conversa infeliz. esse é um instrumento caríssimo para manter. – O motivo de eu ter entrado não lhe diz respeito – disse Navarro. Suas reações te denunciam. como papagaios repetindo a mesma nota dissonante – disse Navarro – pois eu já me cansei de falar disso. Castália paga todos os seus custos. maravilhada. confuso. Como pode ver. sou pobre e casto. Mais alguma questão? – As escolas de elite são um lugar bem apropriado para se tocar contrabaixo – disse Linda – afinal. uma aluna ouvinte. pensando no que dizer para aquela peste. – Então eu acertei – disse Linda – você é incapaz de mentir. mas eu fiz voto de pobreza e de castidade. – Muito casto – observou Linda – nem por isso precisava rasgar meu dinheiro! – Você o deu a mim para que eu fizesse com ele o que queria. Seja mais direta. Arrume outro idiota para lhe dar palestras. – Que bom – disse Navarro – pode sair agora? Está atrapalhando meu ensaio. – Ah. – Quem é você mesmo? – Linda. mas tive uma ideia melhor – observou Linda – eu pago para ver vocês dois se comendo. Você quer que eu te fale sobre o Jogo? – Como sabe? – perguntou Linda. – Então só pode ter entrado por causa do Jogo de Avelórios – constatou Linda. e eu o fiz. 84 . Ele fitou-a. então é claro que não se importa em perder cinco minutos comigo. não é mesmo? Navarro estreitou os olhos. Navarro lambeu os lábios. Linda tirou algumas notas de cem reais da carteira e entregou para Navarro. mais uma idiota – Navarro rasgou as notas – sinto muito. sim. – Minha família é tão podre de rica que poderia fazer a sua de escrava – disse Navarro – não entrei aqui pelo dinheiro. Ela só sabia entrar nos temas delicados. – É só sobre isso que os estúpidos alunos ouvintes sabem falar. – Você deve ficar tocando isso 24 horas por dia.

– Nenhuma. Eu só queria que ela calasse a boca. Não caio mais nessa. – A gente tava ensaiando junto. Você tem nome? – Sou a garota do Hitler – respondi – aquela que te socou na cara. Na prática. Devia ser difícil aguentá-la todos os dias. – Hã? A gente se conhece? – ele perguntou – meu nome é Carlos.A Era do Folhetim – Posso assistir você tocar? – perguntou Linda – é chato assistir somente pelo vidro do lado de fora. Quando o irmão dela a encontrou no corredor. vivem comendo uns aos outros. E já assisti duas vezes na Alemanha. Boaventura ficou indignado. – Pensei que o seu irmão era o maior trouxa que eu já tinha visto. – Sim. caramba! – Quer trepar? – perguntou Linda. – Você! – eu apontei para o irmão dela. – Não! – exclamou Boaventura – fiz voto de castidade! – Vocês usam essa desculpa toda vez que não querem comer alguém. – Você vivia criticando o Jogo de Avelórios. Até mesmo eu não aguentava mais escutar a voz de Linda. não acha? – Ser aluna das escolas não te torna automaticamente uma jogadora – ele observou – quantas vezes você já jogou ou assistiu a uma partida oficial? – Não importa. então vim passear nas escolas de elite – respondi. – Eu não tinha mais nada para fazer. Parece que está tendo um orgasmo. Eu gosto da expressão que você faz quando toca. mas parece que terei mais contato com ele do que você. o que você faz aqui? – ele perguntou. mas você o superou – disse Navarro – parabéns. Ele não quis acreditar. ele também não quis saber. E Navarro colocou todos para fora da sala e trancou-a. contrariado. – De todos os lugares do mundo. Incluindo o cara do oboé. certo? Eu assisto as cerimônias de Nova Castália todos os anos. – Então por que não volta para lá e para de encher o meu saco? 85 . O mundo dá voltas. Não achei que fosse possível.

sobre fofocas. – O que são folhetins para você? – perguntou Carlos – você deve ter uma ideia bem distorcida a esse respeito. E quando íamos para as escolas de elite. esse tipo de sessão jornalística poderia ser capaz de ditar normas sociais. A “verdadeira vida”. – Pelo menos eu enxergo minhas correntes e sei até onde posso caminhar. Essa história estava realmente começando a me aborrecer. – Eu sou aluna das escolas de elite. Isso foi particularmente efetivo na Alemanha nazista. e se livra dessa árdua tarefa. estabelecendo gostos em busca de uma identidade social. apenas aprender o suficiente para ganhar dinheiro e 86 . Por que raios eu teria inveja de alguém do século? – Está toda cheia de si. O que foi que te ensinaram sobre isso aqui nas escolas de elite? – No Brasil. hã? Quando estávamos lá fora nos diziam que a verdadeira vida era aqui dentro. – Você não entendeu ainda? – perguntei – no momento em que você delega a tarefa de pensar para outras pessoas. a custa de nosso dinheiro. Vocês possuem uma mera ilusão de liberdade. – São vocês em Castália que sofrem lavagem cerebral e não nós. como se nós que vivemos a verdadeira vida fôssemos seres inferiores – retrucou Carlos – enquanto vocês vivem uma vida falsa. os “especialistas”. Não querem entender as coisas. tínhamos que escutar que a verdadeira vida ficava lá fora. debates sobre a moda e charadas. como nossas atuais novelas na TV. Mas em Castália nós utilizamos o significado francês do termo. o termo “folhetim” se refere principalmente a romances publicados no passado em jornais com continuações. Muitos clássicos literários começaram nos folhetins. – O quê? Acho que essa não era a resposta que ele esperava. Mas eu queria mostrar a ele que eu não estava de brincadeira. Na época da Segunda Guerra Mundial. com seus brinquedos. literatura.Wanju Duli – Você está com inveja. crítica de arte. – A verdadeira vida é na Era dos Folhetins? – perguntei. São somente um rebanho sem vontade própria que segue ordens. pode ser mais facilmente controlado. Eram suplementos adicionados à sessão sobre política dos jornais franceses.

mas caso se foque demais nesse objetivo. vivemos numa sociedade materialista e capitalista – explicou Navarro – mesmo que Castália seja diferente. Está acompanhando? 87 . em tom de zombaria – o Jogo de Avelórios? Eu sorri. quase todos nós nascemos no século. Seu instrumento musical já estava guardado. Navarro só queria saber de tocar seu contrabaixo o dia inteiro. E resolvi te dar um conselho. me interrompendo – podemos conversar por um minuto? Era Navarro.A Era do Folhetim depois gastá-lo nessa suposta diversão. Eu era toda ouvidos. mas principalmente eles. – Nenhum. Continuamos conectados a ele e dependemos dele. fomos educados lá no começo de nossa vida e nossa cabeça está cheia dos valores do mundo. – O conhecimento? – O conhecimento é apenas uma ponte e não o fim do caminho – respondi. – Nós. – Não dê sua opinião sobre dinheiro para esse tipo de gente. – O que realmente importa não são coisas ou pessoas – respondi – mas algo muito diferente disso. – Com licença. Santa – disse alguém que chegou. sem xingar? Aquilo era meio raro. – Estava de saída e por acaso ouvi sua conversa com o aluno ouvinte. – Qual é o problema em querer ganhar dinheiro? – perguntou Carlos. – Que tipo de gente? – perguntei – ricos? – Qualquer um que não seja de Castália – respondeu Navarro – sabe por quê? Fiz que não. que somente afasta o pensamento de vocês das coisas realmente importantes. que ainda estava vazia. Então por que de repente foi me procurar? Ele me chamou de volta para a sala de música. Navarro ia falar sério. A Província não é uma bolha que te impede de conhecer os valores do lado exterior. Aquilo foi inesperado. poderá ter a falsa sensação de que somente ele te tornará livre. Não queria conversar com mais ninguém. – Quais são as coisas realmente importantes? – perguntou Carlos.

A única coisa que peço é: tente se colocar no lugar dessa gente. Ainda assim. Coisas como estudar literatura ou engenharia são apenas o caminho para chegar no pote de ouro. você estará ofendendo praticamente o mundo inteiro se disser que dinheiro é inútil! É como se você dissesse: “você é um imbecil. Estudou merdas no colégio a vida inteira.. Porém. só por causa da bosta do dinheiro. É como aqui nas escolas de elite. mais sobem na hierarquia da sociedade materialista. com a diferença de que nós subimos em nossa hierarquia quando adquirimos mais conhecimento. mas as duas não deixam de ser um tipo de jogo. nos colocam na cabeça que a coisa mais importante da vida é estudar para depois trabalhar. Ganhar dinheiro é a vida delas. sofreu na faculdade. Ou pelo menos é a coisa de valor que conhece mais a fundo. – Certo. Entende a diferença? – Acho que entendo. A única coisa que você conhece é literatura. indo mais longe. Veja só o seu caso. ter um emprego e ganhar dinheiro.Wanju Duli – Já sei o que você vai dizer – tentei adivinhar – são eles que sustentam Castália e por isso temos que calar a boca e puxar o saco das pessoas do século. sofre no trabalho. desde o colégio.. É isso? – Eu não ia dizer nada do tipo. Para nós. Ou. a hierarquia não deixa de existir. Quanto mais ganham. Desde crianças. um acordo feito entre pessoas. – Vejo que ainda não entendeu onde quero chegar – ele prosseguiu – lá fora a meta das pessoas é o dinheiro. o espírito. que é a meta. mas que em Castália ela tem tanto valor quanto a matemática que permite construir prédios ou a medicina que permite curar pessoas. Isso porque na Província nosso valor máximo não é o corpo e sim a mente. E isso não vale nada”. O que diria se alguém te dissesse que literatura é um lixo e não vale nada? – Eu responderia que a literatura pode até não ser muito valorizada na Era do Folhetim. É esse o objetivo máximo da existência de quase todas as pessoas. Pode ser que você até ofenda os historiadores se disser que o estudo de história é inútil. – Não importa se a nossa hierarquia é superior a deles – disse Navarro – talvez até seja. – Pois bem. o estudo é a própria meta! Para você é a literatura. É por isso que você tem que segurar a 88 . para mim é a música.

ter lazer. que tal falarmos de Abelardo? – O pai do conceitualismo? – perguntei. Eu achei esse discurso absurdo. após colá-los. Você vive num paradigma diferente agora. Não sou apenas minha própria existência. Mas lembre-se que poucos anos atrás você era como elas. – Eu não acho. 89 . e. uma das piores ofensas será dizer que dinheiro não vale nada. Que elas trabalham porque são estúpidas. É isso que você acha. É como dizer que a vida delas não tem sentido. Mas você estava falando a sério com o Carlos.A Era do Folhetim língua quando fala com as pessoas do século. Ou que nos dão uma esperança vazia. Meu objetivo não é apenas sobreviver e. – Lembro do que você disse por último – observou Navarro – que o conhecimento era apenas um caminho e não a meta. Como se a vida fosse só isso. no tempo livre. Se você estiver falando com qualquer pessoa lá de fora. – A música pode ser seu caminho – expliquei – mas você não toca para sentir uma sensação de êxtase? – Eu acho o reducionismo uma escolha muito perigosa – disse Navarro – por que você precisa de somente um valor máximo? É essa uma das problemáticas que o Jogo tenta evitar. – Você já conhece esse segredo – eu disse a ele – porque você já jogou o Jogo das Contas de Vidro. Navarro franziu as sobrancelhas. mas porque sinto que faço parte de algo maior. Maria? Eu não podia acreditar que eu estava levando sermão de alguém como Navarro. O sentido da minha vida é conectar os pedaços de folhetins que foram passados a mim ao longo da minha existência. – Como você vê a vida agora? – Agora eu me sinto livre – respondi – não porque eu esteja fisicamente livre. – A conversa que eu tive com ela não foi séria. descobrir um segredo. Em vez de falarmos de Ockham. mas agora que estou aqui dentro eu consigo enxergar como minha vida era vazia antes – expliquei – estudar e trabalhar apenas para ter fins de semana para ver filmes que nos mostram o quão sem sentido é nossas vidas. – Você rasgou o dinheiro da Linda – comentei. Então não tente posar de superior.

Vá ler a respeito e outra hora conversamos. Tente amar a complexidade. – Você não respondeu a minha pergunta. para lidar com o velho problema dos universais. Não preciso de ambições tão grandes. Você costuma reduzir as questões da sua mente de forma grosseira apenas para se livrar delas. Você nunca sai de mãos vazias. Aos poucos eu entendia onde ele queria chegar. – Se envergonha por quê? – perguntei. – Eu já tive muitas conversas sobre isso com Gio e com o Carneiro. Especialmente por eu ter interrompido sua reflexão sobre a música. – Eu não sou uma enciclopédia ambulante como a Gio – disse Navarro – provavelmente até a Dani sabe mais que eu. – Quantos livros você já leu? Ele não gostou da minha pergunta. Você pode aprender com elas. porque meus pais sempre frequentaram Castália. A única coisa que eu queria dizer no momento é que você não precisa seguir o caminho mais curto e mais simples. Não aceite as soluções mais curtas. me faziam ler desde criança e tive uma educação tão excelente que até me envergonho. – Porque a minha educação excelente seria ideal para me tornar um exímio jogador de Contas de Vidro e me sinto tentado – ele respondeu – 90 . Isso não me interessa. – Provavelmente já li mais livros que você. do qual falam também o realismo e o nominalismo.Wanju Duli – Ele criou uma posição intermediária entre o idealismo e o materialismo. Se elas não te derem uma solução. Não faça isso. porque eu não quero saber todas as coisas. – Não sabia que você conhecia tanto sobre filosofia. a música é o bastante. Para mim. te presentearão com uma singular beleza. Aquelas eram realmente palavras vindas de um estudante de música. Não vou entrar a fundo nessa questão agora. Ao mesmo tempo. pois também contém harmonia e sentido. parecia que eu e ele estávamos a anos-luz de distância. – Qual é o problema de sair de mãos vazias? – perguntei – é o niilismo? – Na música o silêncio é muito importante – ele respondeu – as pausas são fundamentais. Há momentos em que vale a pena optar pelas mais elegantes.

cada qual. Eu a invejei. Fitei Navarro por um momento. Senti um frio na espinha só de pensar que eu um dia seria como elas e estava me encaminhando para isso. dois anos atrás? – Não quero falar sobre isso. Os Lusores. Se eu conhecesse apenas a música. – Não quero competir com você – disse Navarro – estou cansado de competição. cada vez mais eu aprendia sobre literatura. eu não sabia quase nada sobre ele. Fui falar com Sônia. Competi com Gio a vida inteira. eu ainda cogitava ir para Cela Silvestre. a música e o Jogo das Contas de Vidro. Mesmo assim. Provavelmente se eu tivesse uma longa conversa com ele um dia. não importando se estivesse vivo ou morto. jogadores de Contas de Vidro. Pensando bem. Para assim com ele formarem um universo. iria me maravilhar. Nem metade do que haveria para saber. Porém. não teria dúvidas. Era quase como uma arte de necromancia: o de resgatar o espírito das coisas mortas. – Por que vocês brigaram daquela vez. Por isso. – Não foi nada. Além de sua “excelente educação”. Eu o admirava pra caramba. eu não costumava ter conversas longas com os rapazes. tocar o cosmo e o espírito de tudo que já existiu. Voltei para o alojamento feminino. Não sabia muito. – Lembrei que até hoje não te agradeci direito por você ter me ajudado tanto nos estudos de lógica ao longo desses anos – comentei. Eu já havia tido longas conversas com Gio. deviam ser poderosos necromantes. Cada pessoa é um universo. Aparentemente. O Jogo das Contas de Vidro parecia proporcionar uma ocasião solene em que todos esses sábios se encontravam para encaixar. por exemplo. Mariel e Agatha. Eu estava cercada de pessoas fodas. seja num mundo materialista ou num idealista. existe e existirá. suas duas maiores especialidades. Eu só conhecia a literatura e ainda teria muito a aprender. 91 . isso encerrava o assunto. Eu disse isso a ele.A Era do Folhetim algumas vezes me arrependo. sobre as artes visuais que o Barata estudava. eram grandes mistérios para mim. os seus conhecimentos no grande quebra-cabeça que era o Jogo. Sempre achei isso chato. história e filosofia.

Será que o número “um” tem um espírito? Será que o número dois tem um cheiro e uma cor. Odeio ler. resolver problemas. sua tolinha – disse Sônia – é claro que não li esses livros. ou a Igreja vai queimar todos os jogadores de Cela Silvestre na fogueira. No século XXIII. vai ter respostas diferentes – disse Sônia – não é a mesma coisa com a filosofia? Há os empiristas. aborrecida – me mandou ler Abelardo. Eu não fico filosofando se os números são reais ou imaginários. Que coisa mais chata! – Mas você acha que a matemática é real? – perguntei – Platão baseou o seu mundo das ideias na geometria.. – Navarro me disse a mesma coisa – comentei. E depois conversamos. mas essa já é uma coisa que faço sem parar! – Eu estava brincando.Wanju Duli Eu não entendia lógica a fundo. Cada vez mais 92 . os racionalistas. relaxa.... Aprendi somente o básico para ter mais proveito em meus estudos de literatura. – Dependendo com que matemático você conversar. E lá existem as entidades chamadas círculos e quadrados perfeitos. como numa sinestesia? Mas aí entramos de novo no problema dos universais. As pessoas só me mandam ler. Talvez ainda mais poderosa na atualidade do que na Idade Média. O que você vai fazer se descobrir que os números são imaginários? Vai até um cemitério e chamar um espírito para colocar vida nos números e criar zumbis? – Não é isso que eles fazem no Jogo das Contas de Vidro? – Eu espero que não. Acho muito mais divertido fazer cálculos. – O que você quer saber? – Sempre tive curiosidade de saber se a matemática é inventada – observei – e se os números são reais ou imaginários. – Qual a sua posição? – Cá entre nós? – perguntou Sônia – leia Popper e Husserl. a Igreja estava mais poderosa do que nunca. Não se envolva com esses filósofos. Então pode ser que a matemática e os números tenham existências objetivas. Volte para a literatura. – Será que podemos conversar um pouco sobre filosofia da matemática? – perguntei. – Amiga.

A beleza estava acima da simplicidade lógica dos números. Ela estava lá lendo um livro de biologia. que se voltavam para a religião. mas não consegui. Eis uma das bases do Jogo de Avelórios. Por que será que Dantas se interessava tanto pelo estudo da vida? Será que a resposta estava lá? E por que eu precisava de uma resposta? Eu queria acreditar que o Jogo continha um segredo. – Então é tudo inventado – concluí – mas se existem na mente. Tentei espiar qual era. Mas aquilo não estava exatamente na biologia? Que se baseava na química. impaciente – eu não vejo essa conversa indo para lugar nenhum. O sentido da vida. Quando comentei isso com Sônia. A desordem te incomoda. – Você acabou de responder sua própria pergunta – ela disse – para Castália os números não são nem somente nomes e nem uma existência real objetiva. o que você pensa sobre o método científico? 93 . Lembrei do que Navarro falou sobre o valor dos sistemas complexos e das soluções elegantes. O que pensa sobre a matemática do caos? – Até na desordem existe um pouco de ordem. topei com a Dani.A Era do Folhetim a visão materialista do mundo desencantava as pessoas. a música era uma das melhores formas de meter a matemática numa baita complicação. Mas como ele poderia conter espírito sem ter uma teologia? Se ele buscava tocar o cosmo. então eles existem mais ou menos como os sonhos? – Maria. etc. – Você gosta das coisas ordenadas. vá conversar com Gio! – exclamou Sônia. A religião era idealista. – Dani. mas conceitos que derivam das coisas. para onde vão? – perguntei – eles têm pernas mais fortes? São bons corredores? – Eles pelo menos sabem onde querem chegar – disse Sônia – não ficam apenas passeando sem rumo por aí. Resolvi deixá-la em paz. Afinal. E o Jogo não continha só lógica ou beleza. – E os números. etc. Mas Castália e o Jogo eram conceitualistas. que por sua vez. então ele solucionava o problema dos universais? Quando fui até a biblioteca procurar um livro de Abelardo. mas espírito. ela suspirou. eles existem em algum espaço e tempo.

Até porque o próprio Descartes. desesperado pela morte de Giovana. fiz essa pergunta. Quando se estuda demais. Miguel é queimado pelas fogueiras da Inquisição. Como nós. Por fim. Dormi em cima do livro e tive um sonho sombrio. tomada de coragem. fundador do método científico. Ele se baseava muito numa visão dualista do mundo. ela me entregou o livro que estava lendo e saiu da biblioteca. Somente era real o que os sentidos físicos e aparelhos pudessem captar. – Quem te contou que eu já tentei cometer suicídio? – ela me perguntou. Ela foi bem sucedida em seu intento. empirismo e racionalismo.Wanju Duli Sentei-me na frente dela e. Se esse poder não vinha de espíritos de mortos. Miguel. O método científico estava um pouco fora de moda no século XXIII. Resolvi compartilhá-lo com alguém para me livrar dele. já que ela ficou quieta. Parece que tudo se encaixa. Foi um sonho assustadoramente real. os bichinhos das escolas de elite. devido aos pensamentos de Bacon. Ela apenas me observava em silêncio. corpo e espírito. Era um livro sobre exobiologia. Escolhi a própria Gio para ser minha ouvinte. era um embate entre o conceitualismo e o realismo. Deixei a filosofia e a biologia de lado e fui ler Erich von Däniken. – Eu sabia que ela gostava de aliens! Barata comentou um dia que Dani parecia ter poderes psíquicos. E eu comecei a tagarelar todas essas coisas para Dani. Eu acordei suando. Sonhei que Giovana pulava do alto de um prédio numa tentativa de suicídio. Por fim. 94 . começamos a ver teorias da conspiração em tudo. Muitos achavam que era só questão de tempo até ser derrubado. Castália produzia um tipo bastante exótico de ser humano. Mas depois o método deixou a razão como base para se fundamentar na experiência. Mas talvez tudo aquilo fosse uma grande enganação. culpa Castália e cria uma sociedade secreta de resistência. era fortemente dualista. que separava mente e corpo. Era produto da minha mente ou realmente existia? Eu estava exausta. Mas será que se encaixava mesmo? Nesse caso. Pois se ela gostava tanto assim da vida. só poderia gostar de tipos exóticos de existência. completamente inexpressiva. poderia vir de aliens vivos.

Fiquei obcecada. 95 . Aqueles dois tinham muitos segredos. – Naquele dia no Ano Novo em que você e Navarro discutiram. Eles receberam permissão para estudar formalmente em Castália. De certa forma. Ela iria se formar nas escolas de filosofia. Era inacreditável! Era exatamente como diziam: no último instante. Para meu espanto. – Hoje em dia. mas Miguel pensa em fundar uma sociedade secreta. Mais dois anos se passaram. mas nunca chega. Mas já não sei se isso tem significado na minha vida. aquilo me incomodava. porque tem a ver com as dinâmicas do Jogo. Mas foi assim para mim porque eu era só uma criança. O Jogo das Contas de Vidro gera um êxtase difícil de explicar. como se ele fosse amaldiçoado e estivesse sob uma má estrela. – Eu queria penetrar cada vez mais fundo – ela explicou – descobrir todas as coisas. Você vai descobrindo cada vez mais coisas. Foi para o instituto de música. Não estava mentalmente preparada para ir tão longe. – Por quê? Você sempre viveu em Castália. Miguel também não foi estudar na escola dos jogadores de Avelórios.A Era do Folhetim – Eu não sabia sobre isso. Miguel. – É por isso que você não quer mais se envolver com o Jogo de Avelórios – observei – porque tem medo que isso te aconteça outra vez. Gio. E você não entenderia. todos desistiam do Jogo. Ele só está esperando entrar para Castália. esse assunto entrou em pauta? – perguntei. Parece que está chegando num tipo de Iluminação. Como havia nos dito. Mas eu fiz isso por causa do Jogo. – Que tipo de sociedade secreta? – Isso eu não posso te contar. – Só que eu não pulei do alto de um prédio – ela explicou – eu só me enchi de remédios. E não fique assustada se eu te disser. – É claro. Arthur e outros estudantes das escolas de elite já estavam com vinte anos. Eu não gostei de ouvir aquilo. Gio não foi para Cela Silvestre. penso que eu teria maturidade suficiente para me envolver com o Jogo sem me deixar levar por esse tipo de emoção. Tinha 12 anos quando fiz isso. Sua vida não era vazia. É como uma droga. – É verdade.

Mas não me tornei uma amiga tão próxima dela. Carneiro para a filosofia. dentre todas as Grandes Escolas de Elite de Castália. Então estava feito. Dani foi para Castália. Ele ainda poderia fazer suas obras de arte no tempo livre. com os quais eu não conversava. optou pela escola de biologia. Sônia? – perguntei a ela. – Você nunca vai me perdoar? 96 . meu coração se acalmou quando eu soube da extraordinária notícia: Arthur foi para Cela Silvestre. Já havia dois conhecidos meus lá. Cela Silvestre era a escola com o menor número de estudantes. aos meus olhos. Rodrigo foi para a escola de gramática.Wanju Duli Devia haver algo muito assustador naquela escola para que isso estivesse acontecendo. No ano seguinte. Não recebia notícias dos meus velhos amigos. Contudo. Tudo aquilo estava me dando nos nervos. Mariel foi para a escola de literatura e Agatha para a de história. Até me tornei a tutora de uma garota chamada Ângela. Havia apenas uns novatos nas escolas de elite. Será que ninguém mais iria para Cela Silvestre além de Arthur? Até então. isso ele já era. Porém. E agora? Estava chegando cada vez mais perto da minha vez. A meu ver. – Vem comigo. Seria divertido. Então poderia dedicar o resto da sua vida ao Jogo. exatamente por conta do tal Jogo. eu estava completamente no escuro. Até mesmo o destino do maior Magister Ludi já existente havia sido trágico. Ou transformar os Jogos numa de suas grandes obras. – Eu iria – ela respondeu – se você tivesse me esperado lá atrás. Deixou para trás sua ambição de tornar-se um dos maiores pintores ou escultores. Mais um ano depois. Agora haveria mais um motivo para eu ir até Cela Silvestre: estudar junto com Barata. E ela também não foi para Waldzell! Em vez disso. foi o destino de Boaventura que me fez tomar a minha decisão: ele foi para Cela Silvestre. que também estava estudando literatura. até porque a nossa diferença de idade era maior do que a minha e a de Mariel. Se bem que. Pelo menos eu poderia ser colega de Mariel para estudar literatura.

Irei para a matemática. mas posso ter minha individualidade. “Vamos esquecer Castália e o Jogo. para não ser identificado. Eu não preciso ser individualista. Sônia foi para a escola de matemática. Eu ouvi dizer que o Magister Ludi se vestia de branco e ouro. E eu fui aceita em Cela Silvestre. Vamos para uma faculdade normal. cada escola tinha vestimentas de cores diferentes. desapontada. chamada Nova Castália. Mas aquela cidade não constava nos mapas oficiais. Em Castália. Não era na capital. Uma cidade só deles. Estava cercada por natureza. Nova Castália não estava localizada no Piauí. eu retornarei para o século. Quase quis desistir de tudo e voltar com ela. E eu obviamente ainda não era permitida na célebre sala destinada aos jogos solenes. Eu finalmente teria acesso às maravilhosas bibliotecas de Castália. – Por quê? – perguntei. E eu não sabia se aquela minha resistência havia sido uma fraqueza ou uma força. Eu devo fazer o que desejo. Mas eu resisti. adotar uma menina e ter uma vida normal. Continuei até hoje perto de você. mas ele não iria utilizar essas vestes fora das cerimônias. Mas havia uma biblioteca especial restrita especificamente na nossa 97 . mas no Espírito Santo. – Porque eu quero casar com alguma moça. Eu não precisaria mais vestir os uniformes azuis das escolas de elite. A vestimenta de Cela Silvestre era branca. E eu decidi que não tenho interesse no Jogo das Contas de Vidro. Mas depois de me formar em Castália. fazer qualquer outra coisa”. Mais bonitas e mais formais. Ou vamos trabalhar. mas só agora entendi qual é o meu caminho: longe de você. A identidade do mestre máximo de Castália era secreta. Sofri um pouco. representando o espírito. Compreende? Eu não sabia que seria tão doloroso ouvir essas palavras. Mas você me ensinou uma lição preciosa. Era um tesouro deslumbrante no meio do nada. Desnecessário dizer que era muito maior do que o nosso velho prédio cercado por muros. E não direcionar toda a minha vida tendo em vista meu amor por outra pessoa. Era quase numa cidade à parte. Eu não me sentia mais numa prisão. por mim mesma.A Era do Folhetim – Já perdoei.

Minha nova missão seria estudar em Cela Silvestre por quatro anos. Barata e Boaventura prepararam uma festa de boas-vindas para mim. Foram essas as minhas impressões ao chegar na majestosa cidade de cor ocre. Quando eu me preparava para dormir no meu dormitório simples que eu dividia com outra moça mais velha que eu. destinada somente aos Arquivos dos Jogos. Eu não teria como saber. Eu estava muito ansiosa para conhecer os nossos professores. As tais regras que não precisavam ser ditas. por estarmos mais velhos e mais maduros. Pelo menos não no meu primeiro ano lá. Eu o abri. Eu estava com 21 anos. Essa era a reputação de Cela Silvestre. eu estaria formada no Jogo das Contas de Vidro. mas somente se eu sentisse ser o certo. vi um envelope amarelo por baixo da porta. Fui recebida por Barata e Boaventura com alegria.Wanju Duli escola. Eu iria me mirar neles para decidir o meu caminho. As regras de lá eram um pouco parecidas com as das escolas de elite preparatórias. Qualquer um deles poderia ser o Magister Ludi em pessoa. Era um convite formal para uma sociedade secreta de Castália. A diferença é que. Boaventura seria meu tutor. Será que eu deveria mesmo dar importância aos sonhos? 98 . E o que eu faria depois disso também dependeria da escolha dos meus dois amigos. tínhamos um pouco mais de liberdade. Não iria segui-los cegamente. A elite restrita entre as elites. Essa biblioteca ficava trancada e eu não tinha a chave. Depois disso. Na noite da minha chegada.

qualquer espécie de boa música. não passava de uma arte formal. uma combinação engenhosa. Eu era uma castaliana e não queria deixar de sê-lo. Era assim que todos lá se sentiam. E. de acordo com minhas dúvidas. onde ficavam os Mestres eminentes. onde ficava a colônia dos jogadores de contas de vidro: Vicus Lusorum. e de ideias felizes. e devo a eles muitos momentos de sublime elevação. pois 99 . Afinal qualquer problema de matemática bem resolvido podia ser uma fonte de prazer espiritual. Em Castália ocorriam expulsões reais para quem quebrava as regras. por Hermann Hesse O Jogo dos jogos. A nata de uma aristocracia dotada de um espírito exclusivo. era assim que eu me sentia. ampliando-a ao infinito. uma santa e divina linguagem". e nesse caso seria preferível não jogá-lo mas ocupar-se com a matemática pura e a boa música. O Jogo das Contas de Vidro. mas até então eu me inclinara a duvidar sempre da elevação e do valor do Jogo em si mesmo. E lá estava na minha mão um envelope que poderia me fazer ser expulsa e colocar tudo a perder. ao ser ouvida e mais ainda ao ser tocada. Lá também se localizava o controle da Direção Suprema do Jogo. podia elevar a alma. e desse momento em diante eu fiquei crendo firmemente que esse jogo régio é uma 'língua sacra'. Castália e as Grandes Escolas de Elite não eram como as escolas de elite preparatórias nas quais eu estudei pelos últimos oito anos. uma prática inteligente. Eu havia iniciado meu último ciclo de estudos. Estava em Cela Silvestre. e toda meditação feita com devoção podia acalmar o coração e fazê-lo vibrar em concordância com o universo. por extensão. Caminhar entre os semideuses. seu sentido me havia atingido e compenetrado. Mas agora pela primeira vez eu ouvia a própria voz interior do Jogo. que levavam uma vida de abstinência enquanto os Jogos aconteciam.A Era do Folhetim Capítulo 2: A Iniciação "É verdade que já naquele tempo eu assistira a muitos jogos bem estruturados e bem dirigidos. Isso era uma prova de que o Jogo de Avelórios.

É de nosso conhecimento que a senhorita optou por realizar seu último ciclo de estudos em Cela Silvestre. os professores não ficavam mais no seu pé apontando tudo de errado que você fazia. Também identifiquei a origem do codinome do mestre do grupo. O nome da sociedade. que significava “amor ao destino”. achamos que terá alto valor como membro de nosso círculo. Era possível formar clubes nas escolas preparatórias. mas ser excomungado soava como uma verdadeira ameaça! Por outro lado. que constava no envelope. Ser expulso não parecia o fim do mundo. era “Amor Fati”. mas essas intrigas secretas entre os estudantes de Castália eram vistas pelos professores como suspeitas. Nossa intenção é realizar uma versão não oficial do Jogo das Contas de Vidro. Eu reli a mensagem do envelope para me certificar: Saudações. Sociedades secretas não eram permitidas em Castália. ficava impossibilitada de ter a chance de se tornar Mestre dos Jogos no futuro. Por favor. 100 . As expulsões de Castália até tinham um nome diferente para mostrar o quão sérios eles eram: excomunhão. Cordialmente. Dessa forma.Wanju Duli nenhum de nós era mais um adolescente. senhorita Santa Seja bem-vinda a Nova Castália. mas que. Era uma clara alusão à Sombra. Agora éramos adultos. Magister Umbra Mais do que suspeito. não demore a nos procurar. Achamos que a forma com que o Jogo é celebrado oficialmente possui certas limitações devido às cláusulas de segurança. Algumas regras serão alteradas. que era uma pessoa escolhida como auxiliar do Magister Ludi. uma vez escolhida.

Simplesmente não haveria tempo! O Jogo era difícil. E iria desejar que o mundo inteiro me escutasse. Em compensação. eu teria que cozinhar mais. Cada vez mais as minhas responsabilidades aumentavam. porra!”. a palavra “difícil” nem de longe expressa a realidade. Eu já estava tão acostumada com os afazeres domésticos das escolas de elite preparatórias que ainda tinha dificuldade para me acostumar à nova rotina intensa. Mas naquele ponto. Sem contar que eu tinha menos tempo livre ainda. Pensei em comentar sobre a carta com Barata e Boaventura. Pelo menos a vista da natureza compensava tudo e me deixava em paz. O lado ruim era que estávamos no meio do nada e não havia mais jeito de fugir para comprar uma bala ou um hambúrguer. mas resolvi não dizer nada. O problema das roupas brancas é que era mais difícil de lavar. Não foi nada fácil. as minhas roupas eram minha menor preocupação. Era uma ilusão acreditar que eu poderia me dedicar ao mesmo tempo ao Jogo de Avelórios e à literatura. Em vez disso. pelo menos por um tempo. porque precisaria comparecer a aulas. eu estava mais interessada na identidade do Magister Ludi. Eu diria que era interessantíssimo. Eu tinha vontade de gritar: “Estou em Castália. Como aquele era um lugar maior. 101 . Foram oito longos anos de estudo. dar um salto e elevar os braços. Nas primeiras semanas senti como se jamais tivesse tempo para ler um livro outra vez. limpar mais cômodos. Havia até singelos jardins para se dar um passeio. Eu tinha minhas desconfianças. Foi então que eu entendi porque aquela decisão de ir para Cela Silvestre era tão importante. Pensando bem. Esse era o tipo de alegria que eu sentia. era nós que devíamos cuidar das flores. O lado bom da comida é que continha mais variedade que a antiga. – É mais divertido você descobrir sozinha – disse Barata – não acha? Talvez.A Era do Folhetim Interessante que não havia nenhuma informação sobre como localizar a tal sociedade. cuidar da jardinagem e vários novos serviços que me tomavam um tempo precioso.

Só que eu nem consegui prestar atenção nos professores. o Jogo era ensinado em outra língua. No meu primeiro dia de aula fui inocentemente assistir às palestras programadas. no fundo eu não sabia praticamente nada sobre o Jogo. Minhas expectativas foram totalmente frustradas. 102 . Levei os livros comigo para assistir às aulas. Em primeiro lugar. Havia centenas ou milhares de livros apenas sobre os hieróglifos. Absolutamente nada! Meu primeiro mês em Castália foi uma corrida contra o tempo. As explicações do quadro foram incompreensíveis. Ao contrário das escolas preparatórias. mas no final do dia eu estava prestes a cair no choro: não me aguentava em pé e também me sentia a pessoa mais burra da face da Terra.Wanju Duli Eu me sentia uma completa imbecil. Mesmo tendo lido tanto a respeito. enquanto as anotasse. corri para a biblioteca. então eu dormi em algumas aulas do segundo dia. Meu único pensamento durante as aulas foi: “Preciso retirar uns dez livros na biblioteca para estudar os hieróglifos do Jogo!” No final do primeiro dia. tamanho o meu desespero. Não entendi uma palavra do que foi dito. Achei que minha primeira semana em Cela Silvestre seria repleta de descobertas: aprenderia as regras do jogo e. Lá também não havia café. Virei a madrugada estudando os livros. eu me sentia mais desesperada do que um estudante de engenharia que pensava que era bom em matemática e de repente descobre que não sabe porra nenhuma e precisa começar a estudar tudo desde o princípio para fortalecer seus fundamentos. E eu não sabia nada a respeito dela. essa biblioteca era tão grande que eu ficava perdida lá dentro. Eu não fazia a menor ideia de que teria que passar por uma provação tão forte. Eu estava ansiosa e animada. iria prestar atenção nos professores para tentar descobrir se um deles tinha um ar de Magister. para ver se eu conseguiria captar pelo menos uma frase ou duas. Passei umas duas horas lá apenas procurando livros. No final da primeira semana de aula. Um mais impossível de ler que o outro. do tipo: “Lições básicas sobre hieróglifos para jumentos”. achando que eu receberia revelações fantásticas. Retirei apenas os livros para iniciantes.

logo estou nele”. Eu precisava desvendar aquele arcano. pesquisando livros.. Eu não saía mais das bibliotecas. não soubesse falar nem “Bom dia” no novo idioma e já tivesse que escrever uma tese sobre um tema complexo. aceitei o desafio. visitar o Diretório e dizer: “Por favor.. me salvem desse inferno!!” Lembrei da frase de Rimbaud: “Acredito-me no inferno. Senti vontade de desistir de tudo. Mas nenhum deles parecia ser compreensível! Eu me sentia na Era do Folhetim: captava somente fragmentos e nunca o todo. Eu tentaria aguentar por mais uma semana. Os estudantes novos podiam chegar em qualquer época do ano. Eu estava passando por isso. Devia ter alguma forma de aprender aquela linguagem complexa. lendo diversos trechos. É claro que o estudo do Jogo não era fácil. Eu teria que atravessar todo esse fogo se quisesse chegar no sublime paraíso espiritual que o Jogo proporcionava. filosofia do Jogo. então por que raios aquilo tudo parecia grego para mim? Não havia um início de ano letivo em Castália. Se a dor não fosse tão intensa. Não era essa a lógica? Ao lembrar disso. E estava me consumindo com suas chamas demoníacas. Eu estava até sonhando com os hieróglifos. Nessa segunda semana eu não fiz outra coisa a não ser estudar em todo o meu tempo livre.A Era do Folhetim Eu realmente acreditei que eu já sabia algo sobre o Jogo de Avelórios! Eu já tinha lido livros sobre a história do Jogo. A missão deles era se virar para acompanhar as aulas. me mandem para as escolas de literatura! Eu mudei de ideia. Minha meta era encontrar uma Pedra de Roseta. que normalmente já pegavam do meio. eu provavelmente não teria enfrentado um período tão longo de adaptação. a recompensa não seria alta. 103 . Devo ter folheado mais de duzentos deles. Queria sair correndo de lá. gramática do Jogo. Meu cérebro não era capaz de encaixar os pedaços. Porém. se eu tivesse ido para as escolas de literatura. Era como se eu estivesse em outro país. Dormi somente o suficiente para me manter relativamente acordada.

– Eu não consigo entender nada! Vou tirar zero nas provas! Ao dizer isso. eu estava perdida. Nem mesmo em meu primeiro mês nas escolas preparatórias. como se alguém tivesse morrido. Se ao menos eu tivesse seguido o conselho de Rodrigo! Ele me sugeriu estudar a gramática especial. Eu não me sentia digna daqueles trajes. provando que eu era uma orgulhosa aluna de Cela Silvestre. para que eu me sentasse. 104 . eu não tinha coragem de conversar com a professora responsável pelo meu estudo. Deveria desvendar algum método. – O que aconteceu? – perguntou Barata. Não tinha mais graça desfilar por aí com meu trajes brancos. Fui até o dormitório deles às nove e meia da noite. E mais vergonha ainda caso ela descobrisse que eu não conhecia nem mesmo as regras de gramática geral necesárias para iniciar meu aprendizado dessa linguagem. No entanto. Barata me deu um copo d‟água e arrastou uma cadeira até onde eu estava. Para completar. Eles já deviam estar se preparando para dormir. No último dia da segunda semana. Eu sentia que me faltava a base para entender como os hieróglifos funcionavam. ainda entre soluços. Nem mesmo a gramática geral eu sabia tão bem assim. – Por favor. Orgulhosa pelo meu esforço. Se eu não aprendesse o básico sobre o Jogo nas duas semanas seguintes. Mas apenas me matar de estudar não adiantaria. Eu teria vergonha de confessar que não sabia nada sobre a linguagem do Jogo. me ajudem! – supliquei. Eu nunca tinha estudado tanto na vida. com urgência. eu não sabia a quem mais recorrer. Fui até o dormitório dos rapazes. Barata e Boaventura se assustaram ao me ver me acabando de chorar. Nas escolas preparatórias havia avaliações trimestrais. Eu sabia que estava atrapalhando ao visitá-los num horário tão inconveniente. em Castália todo mês deveríamos fazer exames. Caí no choro. Eu estava desesperada. um êxtase ia surgindo dentro de mim. mas eu fui teimosa.Wanju Duli Ao mesmo tempo em que me sentia sem energias. Sentei-me e tomei a água. Queria abrir um buraco no chão e sumir. caí no choro outra vez. Eu precisa aprender como estudar. As luzes se apagavam às dez.

– Meu cabelo já está um pouco mais longo – disse Barata. Contei todos os sacrifícios que eu tinha feito nas últimas duas semanas. – Em duas semanas? – perguntei – impossível! – Em uma semana – disse Barata. Já estavam um pouco abaixo dos ombros. Não consegui deixar de sorrir também. Nem que eu precise colocar suas roupas. Está bem? Ele me deu um sorriso bondoso. – Prometo que vou resolver esse problema – ele disse – você não se sairá mal nas suas primeiras provas. passando a mão no próprio cabelo – eu daria um jeito. Eu me acalmei na mesma hora. me disfarçar de Maria e ir fazer as provas no seu lugar. contrariada. E quanto mais eu falava. como se lhe requisitasse que não piorasse ainda mais a situação.A Era do Folhetim Expliquei-lhes detalhadamente a situação. A primeira coisa que você precisa é aprender latim. naturalmente – porque você vai precisar usar a outra para revisar matemática e música. agora é um pouco tarde para dizer isso – eu falei. – Tem certeza que você conseguiria imitar meu black power? – perguntei. – Se fosse assim tão fácil! – exclamei. Pelo menos em Castália não havia aquelas regras sobre penteados. – Mas deixemos essa alternativa como último recurso – sugeriu Barata – primeiro vou tentar te ajudar no seu estudo. Finalmente Barata estava deixando seu cabelo crescer. 105 . – Bem. Descrevi qual era meu grau de conhecimento atual sobre tudo o que dizia respeito ao Jogo. Barata fez um gesto para Boaventura. abanando a mão. Sentado ao meu lado. tornando-se ligeiramente cacheados conforme cresciam. Barata segurou a minha mão gentilmente entre as suas. voltando meus olhos para o chão. mais sentia pena de mim mesma e mais forte eu chorava. Não pude deixar de rir. – A primeira coisa que você precisa fazer é ficar calma – disse Barata. Quando terminei. Tudo em vão. Vai dar tudo certo. Boaventura disse: – Você devia ter vindo nos pedir ajuda desde o primeiro dia.

– Quanto mais idiomas você aprende. – Me dê mais cinco minutos – disse Barata. E. foi? – ele perguntou. – O seu problema não é não saber nada – disse Barata – é que você desiste antes mesmo de tentar. falando em lógica. – Você não precisa saber cálculo para jogar o Jogo de Avelórios. – O seu conhecimento de matemática é bom – ele informou – você não vai precisar revisar. – Barata.Wanju Duli Cobri o rosto com as mãos e gemi.. Eu já ri antes de começar. Na próxima folha. pegou um pedaço de papel e lápis. então não se preocupe. já são dez horas. – Não sabe? – ele tentou disfarçar a própria surpresa – era clave de dó. – Não foi tão difícil assim. – Mais ou menos – respondi. Como resolvi rápido. Escreveu algumas frases em latim e pediu para que eu traduzisse. concordei. – Vamos fazer o seguinte – disse Barata – vou medir o seu nível e preparar um plano de estudos para que você cumpra ao longo dessa semana. – informou Boaventura. – Não adianta – eu disse – não sei absolutamente nada. Esqueça a matemática. Tente dizer qualquer coisa que lhe vem à mente. Ele me deu alguns problemas fáceis de matemática para resolver.. Pelo menos não os jogos para principiantes. Na segunda semana vou te passar alguns problemas do Jogo para que resolva. Nesse caso. Barata pareceu satisfeito. 106 . ele desenhou uma clave. Até que eu cheguei no meu limite.. Pode ser? Sem escolha. – Não adianta – eu disse – nem sei dizer qual é esta clave. traçou algumas pautas e posicionou as notas musicais. Não sabia mais resolver as próximas questões. – Você não pode estar falando sério – eu disse. Ficamos nisso por uns quinze minutos. E eu disse. Tem algumas palavras semelhantes ao português. Ele abriu uma gaveta. use essa primeira semana apenas para estudar latim e teoria musical. Sua base é forte e isso é o mais importante.. ele foi aumentando gradativamente o nível de dificuldade. mais fácil fica aprender os seguintes – ele explicou – porque você começa a entender a lógica da coisa.

Finalmente tive uma noite de sono tranquila. o máximo que puder. – Imagina. mesmo que pense que não adiantou nada. Eu te encontro na biblioteca às oito da noite para avaliar o seu progresso. Se eu tivesse tempo. Então os mais 107 .A Era do Folhetim Ele escreveu num pedaço de papel os títulos de alguns livros. Mas eu confiei no que Barata disse. iria estudar junto com você e te ensinar tudo o que precisa saber para essa primeira prova. Retirei os livros na biblioteca e estudei-os em todos os intervalos das aulas. – Retire esses na biblioteca – ele disse – estude-os a fundo amanhã. eu tenho certeza. você vai começar a entender. eu acreditava. Um dia. Também tinha sido assim naquele dia que fizemos sexo. eu também estou maluco estudando para meus próprios exames. – Muito obrigada! – eu disse. Meus professores sabiam demais. A segurança que Barata me passou me deixou tranquila. Aquele cara não existia. Barata me encontrou e mostrei a ele os resultados. Se eles dessem aulas muito fáceis. devo faltar? – Não falte – recomendou Barata – o tempo que você tem será mais do que suficiente. Persista. Ele iria colar os picotes de folhetim e tornar a compreensão do texto possível. – Tem certeza que sabendo isso eu vou me sair bem? – Sim. com alegria. mesmo que leve tempo. Infelizmente. Se ele dizia. estávamos falando das Grandes Escolas de Elite e não de aulas quaisquer. Você nunca sai igual de uma aula. e assim saberemos como prosseguir para a próxima etapa. Além do mais. – Mas eu não entendo nada nas aulas. Não está adiantando nada! – Isso é o que você pensa. – Não é um incômodo. Eu sinceramente não entendia a relação entre o latim e a música com aquele monte de hieróglifos incompreensíveis que os professores explicavam nas aulas. Fiz o que ele disse. – Desculpa te incomodar. isso iria prejudicar os estudantes mais adiantados. – Se eu faltar algumas aulas terei mais tempo disponível para estudar – eu disse – então. À noite. Confie em si mesma.

A maioria que pagava por cursos como esses eram os ricos que obviamente não tinham tempo livre para entender o Jogo a fundo. cursos e Jogos oficiais de Contas de Vidro. Isso era feito provavelmente para que o exclusivismo fosse mantido e o ganha-pão estivesse garantido. Raramente os alunos ouvintes faziam perguntas. Somente Castália tinha autorização para ensinar o Jogo. As aulas dadas em Cela Silvestre eram as que recebiam o maior número de alunos ouvintes. eles diziam que era devido ao caráter sagrado do Jogo. Eu estava inclusa nesse grupo e por isso sempre ficava de boca fechada nas 108 . pois nós alunos usávamos trajes brancos enquanto os alunos ouvintes vestiam roupas comuns. Eu já tinha reparado isso nas minhas aulas. Digamos que Castália era praticamente sustentada pelas conferências. Alguns diziam que essa escola estava corrompida. porque seu conhecimento tornou-se uma mercadoria requintada para a burguesia. Pagar por um curso do Jogo tornou-se símbolo de status e poder. No entanto. Por isso as aulas expositivas não eram o padrão. Isso não significava que me formar em Cela Silvestre me garantiria um emprego caso eu desejasse voltar para minha velha vida. Os outros provavelmente tinham receio de fazer uma pergunta tola demais. ensinar exigindo um preço por ele. Os únicos alunos ouvintes que deviam entendê-lo eram os aposentados ricos ou os filhos dos ricos que tinham muito tempo disponível. Mas se o Jogo era tão sagrado assim. A lógica das escolas de elite era ter um professor exclusivo para te orientar e te passar tarefas do seu nível. mas quando faziam geralmente eram os idosos ou os adolescentes.Wanju Duli atrasados. Eram aulas caríssimas para os alunos de fora e precisavam ser de alto nível. Cela Silvestre era uma escola diferente de todas as outras. Os professores especialistas no Jogo eram como estrelas. Era fácil distinguir quem era estudante oficial de Cela Silvestre e aluno ouvinte. por que exigir um preço por ele? Cela Silvestre era a escola que mais era cercada de boatos sombrios e mistérios. pois qualquer um poderia dar dicas sobre isso de maneira informal. como eu. deviam procurar os tutores para resolver as dúvidas e alcançar os outros. Porém. pois isso exigiria dedicação. Ou melhor. livrandoos da concorrência.

Porém. Não que eu fosse contra a existência de uma versão simplificada do Jogo para leigos. o tesouro de Castália. e aquelas aulas não eram mais do que um teatro para a maioria dos que os ouviam. tratando de temas dificílimos. E o que agradava as visitas? Preparar aulas em linguagem hermética. E na hora de explicar o funcionamento do Jogo para os outros. Eu saía da maioria delas sem nem mesmo saber qual havia sido o assunto tratado. faça como os romanos. as regras dessa versão só poderiam ser desenvolvidas por alguém que estudou o Jogo a fundo. Então os alunos ouvintes voltavam para suas casas orgulhosos. eu não acreditava que seria do interesse de algum dos senhores de Castália que tal versão fosse criada. fazendo gestos complicados. Era triste que o ensino de Cela Silvestre estivesse seguindo o estilo da Era do Folhetim. De qualquer forma. certo? Mas ali a coisa se invertia: Cela Silvestre mudava seu estilo de ensino propositalmente para agradar as visitas. E a maneira ideal de protegê-lo era enchê-lo de hieróglifos gradativamente mais complexos. recitavam uns poemas enquanto trocavam as bolinhas de lugar. As pessoas enxergavam o Jogo dessa forma porque viviam na Idade Folhetinesca e isso era tudo o que essa época lhes permitia enxergar. Éramos a elite da elite. Os professores de Cela Silvestre pareciam cheios de si. A aparência era mais importante do que a essência e a didática era sacrificada. Pareciam realmente não desejar que ninguém mais entendesse as regras do Jogo a fundo além deles. Em Roma. contando que assistiram a uma aula maravilhosa. seria legal se essa versão existisse. para que cada vez mais o entendimento do Jogo se tornasse privilégio de uma casta sacerdotal restrita de iniciados. 109 . Aquela era uma visão extremamente superficial e incompleta do funcionamento do Jogo. fingindo que entenderam tudo. Na verdade. Mas tendo tantos alunos ouvintes. inflados pelo seu conhecimento e pelo seu falar difícil. eles agiam como Carlos: posicionavam bolinhas de gude no chão em círculos concêntricos. e deixavam todos impressionados. Queríamos que nosso brinquedo fosse só nosso.A Era do Folhetim aulas. acho que isso era inevitável.

Toda noite a gente se encontrava na biblioteca e ele fazia ligeiras alterações nos meus estudos para o dia seguinte. Desde essa reforma. Já consta a nova notação. Por que ele escolheu o caminho mais difícil? – Porque as pessoas não escolhem um caminho por ser mais fácil ou mais difícil – disse Barata – elas fazem o que acham que deve ser feito. Não foi assim com você? Exato. pois teriam que começar a estudar a nova notação a partir do zero. – É uma pergunta difícil de responder – disse Barata – o objetivo da nova notação foi resolver algumas problemáticas que não eram possíveis de solucionar com a notação anterior. – Ele devia ter vindo para nossa escola – prossegui – ele já sabe tudo! Passaria em todas as disciplinas sem dificuldade. Mas eu sabia que meu caminho era outro. Perguntei isso a Barata. Teoricamente. mas os especialistas acham que esse preço a pagar foi pequeno: que a nova notação é de fato mais eficaz. mas ele estava me quebrando esse galho porque eu era covarde e não tinha coragem de admitir para minha professora que havia entrado para Cela Silvestre completamente despreparada. Teria sido muito mais fácil ir para as escolas de literatura. como se dissesse “Até parece que ele tem tempo de respirar agora que deixou este mundo para ser uma existência exclusiva do universo da música”. Muitos inclusive ficaram aborrecidos com essa mudança. perdemos alguns jogadores assíduos. independente do que seja.Wanju Duli Eu estava muito curiosa para saber se a notação musical desenvolvida por Navarro havia sido criada com o objetivo de facilitar ou complicar. Ele também me mostrou que constava o nome “Miguel Navarro” entre os colaboradores do livro. Barata apontou uma seção do livro que segurava: – Essa é a nova edição. impressionada – preciso ter aulas com ele. Uma semana depois. era minha professora quem devia estar me dando aquela ajuda. Em compensação. eu comecei a notar que o plano de estudo que Barata me passou estava funcionando. – Cacete – eu disse. Ela abarcou um maior número de problemas. 110 . Barata deu um risinho. a nova notação realmente deixou o entendimento do Jogo mais difícil.

A Era do Folhetim Um estudante do Jogo poderia ter qualquer tipo de background e seria inviável construir um plano de estudos padrão que funcionava para todos os casos. Era por isso que todos pensavam mil vezes antes de optar por estudar lá. Era exatamente isso que o Jogo tentava evitar. Aí sim eu passaria a prestar atenção nos meus colegas e professores. Todas essas questões tornavam o processo de aprendizado do Jogo difícil. eu ainda não conhecia meus veteranos. Tudo à mão. Eles não queriam um especialista em folhetins. para enriquecer as possibilidades da construção dos Jogos depois. E eram poucos os que aguentavam até o final. Também aproveitei aquele sábado para lavar minha roupa acumulada. Falando nisso. E ele saiu. mas profundamente sobre nenhuma delas. como reação máxima à Era Folhetinesca. ele era meu mentor em Cela Silvestre. Por isso. porque eu sempre via o Boaventura se matando de estudar uns negócios tenebrosos. após estudar um pouco sozinha fui visitá-lo no dormitório dele às nove da noite. 111 . Teoricamente. Teria sido um processo um pouco doloroso se eu já não estivesse acostumada. A única coisa que eu já sabia era que havia pessoas de todos os tipos: desde os insuportáveis até aqueles que eu pagaria para bater um papo. – Ele está ocupado agora. Boaventura abriu a porta para mim. mas menos. Reparei que nas minhas aulas havia alguns estrangeiros. Mesmo assim. mas ele andava ocupado demais com os estudos de astronomia. Eu nunca tinha conversado direito com o Boaventura. mas daqui a pouco vai te receber. Eu deixaria para me entreter com isso depois que meu período de sufoco com as provas passasse. o que me dava mais tempo livre para estudar. Barata não foi me encontrar na biblioteca naquela noite. porque não usávamos máquinas de lavar. era do interesse de Cela Silvestre que cada jogador tivesse estudado uma área diferente na escola preparatória. Além do mais. No fim de semana eu também tinha aulas. Eu não me lembrava se nossa combinação de encontros incluía os fins de semana. Eu nem queria pensar que um dia eu também teria que chegar naquele ponto dos estudos. deu para cansar. porque ele era um cara de poucas palavras. que soubesse o básico de cada uma das áreas requeridas.

então uma conversa assim poderia gerar distrações para ambos. Eu sempre me sentia nervosa na frente da Dani. Não houve resposta. Ele deu um sorriso amarelo. – Preciso falar com Barata – eu gaguejei – vai ser bem rápido. Como ela conseguia ser tão perdidamente incrível? E não era somente sua beleza. ela saiu do quarto e entrou no banheiro. Não adiantava. então não podia perder tempo esperando por ele sentada numa cadeira. Achei que o pessoal só fazia essas coisas nas escolas preparatórias.. eu me cansei de esperar por Barata. – Desculpa não aparecer hoje – ele disse – a Dani arranjou um tempo para nos vermos e nos encontramos de última hora. Fui até o quarto dele e bati na porta. Era a Dani. Ela estava mais linda do que nunca. Achei o gesto um pouco súbito. – O que você quer? O mesmo rosto inexpressivo de sempre. Quando bati pela segunda vez. se viam. Você não tem medo de ser excomungado? Ou vocês estão namorando? – Será que a gente pode ir direto ao assunto? – Barata me interrompeu – você tem alguma dúvida nos seus estudos ou só quer que eu prepare seu plano de leituras para amanhã? 112 . Aproveitei a oportunidade para entrar no quarto e falar com meu novo mentor. Com uma expressão de quem estava de saco cheio. mas sua atitude. o tom de voz dela me indicou que ela não gostou muito de ser incomodada. então qual era o problema? Se bem que ele estava de pau duro. Se bem que às vezes essa sua suposta maravilhosa atitude beirava à má educação. Mas não era Barata.. Eu precisa usar todo meu tempo disponível para estudar. Barata cobriu-se com o lençol.Wanju Duli Vinte minutos depois. Porém. um minuto depois alguém atendeu. pois a gente já tinha transado uma vez. Conhecíamos o corpo um do outro. Quando me aproximei. com aqueles longos cabelos revoltos e embaraçados de quem tinha acabado de sair de uma foda selvagem. – Não sabia que vocês ainda. Ela estava enrolada num lençol.

que era tão ridícula que ele me esclareceu em meio minuto. Quando eu disse isso para Barata. – Eu tinha ouvido falar que os estudos nas escolas de elite respeitavam o ritmo de cada aluno. Então até ele. mas agora vejo que não é bem assim – observei. não existia sistema de ensino perfeito e nunca iria existir. Eu me desculpei mil vezes.. Normalmente ele teria respondido cada uma de minhas perguntas com a maior sinceridade e paciência do mundo. Ele não devia ter gostado muito de ter sido interrompido no meio do sexo. Ele devia estar realmente puto comigo.A Era do Folhetim Era uma das primeiras vezes que eu via Barata levemente aborrecido. No domingo à noite. Barata apareceu na biblioteca.. que parecia a pessoa mais relaxada do mundo. Após mais um minuto ele fez algumas anotações no meu caderno indicando quais seriam minhas atividades do dia seguinte. Ele apenas passou os olhos no que eu tinha feito no sábado e devolveu meu material. ele respondeu: 113 . É melhor que passem a tornar o processo de seleção dos estudantes mais rigoroso em vez de massificarem o sistema de ensino outra vez. E não era para menos. – De nada. Quando eu vi Dani abrindo a porta. Ainda continha muitas injustiças e distorções. Ando muito ocupado e estressado. Eu tinha uma pequena dúvida de latim. – Deixa pra lá – ele disse – eu também fui um pouquinho rude com você ontem. Barata era tão gentil comigo e eu estava abusando. me sentindo uma completa imbecil. Principalmente por ser com a Dani. Mas acho que até ele tinha seus limites. Ele não sorriu. De qualquer forma. tinha seus momentos de estresse com os estudos. – Obrigada. Cacete. Era óbvio que Castália não era nenhum paraíso de sistema pedagógico. eu devia ter pedido desculpas e me mandado de lá. Saí do quarto de fininho. – Ultimamente há muitos alunos e poucos professores – explicou Barata – e só aceitam professores em Castália que tenham se formado nas escolas de elite.

Até sei qual autor ele gosta. por exemplo. o que seria uma meta irreal. – Por que Boaventura? – Porque infelizmente a partir de amanhã não poderei mais ser seu tutor. É suficiente que você tenha essas noções gerais por enquanto. Então eles estavam mesmo namorando. pode ser que até pegue exercícios prontos desse livro. Parecia divertido. Aquilo soou quase como uma profecia. Entregou-me. Barata levantou-se e retirou um livro de uma prateleira. Ela não está gostando muito dessas nossas combinações diárias regulares. – Voltando ao seu plano de estudos. Você também pode conseguir as provas antigas com os veteranos. a escola de matemática. Você já sabe que existem dois tipos de jogos possíveis. Ele pegou o livro outra vez. – As soluções são mais amplas e subjetivas – explicou Barata – a não ser nos casos em que é especificado o contrário. para que ele possa comentá-los e te dar dicas. 114 . Nessa segunda semana você irá resolver alguns problemas do Jogo. – Como exercícios de matemática ou física? – perguntei. – Resolva esses e depois mostre para Boaventura. pois qualquer coisa que não muda mais apodrece e está fadada à destruição.Wanju Duli – Não há uma única solução certa que irá funcionar em todas as instituições. Minha intenção não era que você entendesse muito sobre essas duas áreas em uma semana. Mas eu sei que o professor Junqueira prefere os jogos psicológicos. E eu fiz minha escolha. – Ela deixou bem claro que eu devia escolher entre você ou ela. Castália nunca pode perder sua capacidade de transformar-se. Dei uma folheada. vamos parar por aqui essa sessão de estudo de latim e música. O que funciona em Cela Silvestre pode não funcionar. Ele já fez isso uma vez. em Planvaste. Se ele estiver com preguiça de preparar uma boa prova. Eu não guardei as minhas. – Você não disse a ela que era uma ajuda temporária? – perguntei. então vou te indicar alguns livros com exercícios. deu uma olhada e marcou os exercícios mais importantes. Só não podemos nos estagnar com a ilusão de que encontramos a solução ideal. Eu disse para a Dani que esse seria nosso último encontro. Para os jogos formais é mais importante a objetividade.

fiquei bem satisfeito com o resultado. Parecia sincero. – Um especialista diria que há incontáveis problemas técnicos. Estou muito curioso para saber como serão suas jogadas no futuro. Eu o via com olheiras desde a escola preparatória. levaríamos o dia todo. – É como compor uma música ou um poema – ele explicou – é possível escrever um poema belíssimo com muitos erros de gramática. Então minha resolução do problema não era simples e pragmática. No dia seguinte. – Eu gosto do seu raciocínio – elogiou Boaventura – eu diria que sua solução para esse problema não é muito prática.. você também peca na estrutura frasal e em tantas pequenas minúcias que se fôssemos analisar individualmente uma de suas jogadas para eu apontar todas as correções possíveis. bela? Senti-me orgulhosa. – Há alguns erros. Aquele foi o maior elogio que ele poderia me dar.A Era do Folhetim – Mesmo que ela seja sua namorada agora. mas acho que consegui. Quer dizer que você nunca jogou? – Eu já escutei muitas velhas transmissões de rádio de Jogos antigos na internet – expliquei – e antes mesmo de entrar para as escolas de elite eu já tinha lido tudo sobre o Jogo que encontrei por aí. quando você dominar o básico necessário. mas são coisas pequenas – ele disse – em geral. Se um cara inteligente como Boaventura estava curioso sobre meu Jogo. eu aceitava o elogio. Mas que você tem o que mais importa: o espírito. O espírito não se ensina. – É um bom argumento. captar a proposta geral. – Ela tem peitos maravilhosos. mas por outras razões. Se bem que vê-lo com sono não era novidade. inconscientemente. Eu nunca soube exatamente como se jogava. Ela dá voltas desnecessárias. Ele analisou minhas respostas uma por uma. ela não tem o direito de controlar a sua vida desse jeito – argumentei.. No seu caso. Após analisar minhas resoluções. então eu não vou discutir com ela. – Técnica se resolve com o tempo. Mas digamos que seja. Mas 115 . ele iniciou seus comentários. mas elegante. era Boaventura quem me aguardava na biblioteca. do jeito que Navarro havia me recomendado. é o de menos. Ele parecia estar com muito sono.

Wanju Duli
eu não acho que fazermos algo assim seja necessário, pois aprimorando
sua base você mesma vai se corrigir com o tempo.
Ele me deu um alerta. Os professores de Cela Silvestre eram
extremamente conservadores. Muitos deles iriam me criticar duramente.
– Há professores tão obcecados com a primazia da técnica que não
olharão para mais nada. É melhor você se preparar: eles vão te atacar de
forma tão feroz que poderão tentar destruir o seu espírito; talvez até um
pouco por inveja, mas principalmente pelo orgulho que sentem de sua
autoridade e seu estudo. Não permita que façam isso.
Como o mais importante para aquela prova seria a técnica e não
tínhamos muito tempo, ele disse que ao longo daquela semana nos
ateríamos a esse aspecto. Mas que, passado o período das primeiras
provas, ele poderia jogar comigo para fazer meu espírito voar. Se não
estivesse muito ocupado. Eu desconfiava que ele ia acabar amarelando.
Então ao longo dos meus estudos em Cela Silvestre eu seria como
um pássaro engaiolado.
– Você ainda terá que permanecer um longo tempo dentro da gaiola,
mas não deixe que isso te faça esquecer que você tem asas.
Fiquei totalmente sonhadora com aquelas palavras de Boaventura.
Por um momento achei que ficaria desapontada porque perdi Barata
como tutor. No entanto, Boaventura explicava de um jeito tão bacana
que eu já estava aguardando ansiosamente para nossa lição do dia
seguinte.
Nunca imaginei que eu iria me divertir tanto resolvendo aqueles
exercícios. Antes eu achava que fazê-los seria a parte mais chata, mas eu
finalmente começava a entender um pouco a alegria de Sônia ao resolver
problemas de matemática e seu aborrecimento em ler livros. Ler as
análises das jogadas dos outros nunca era tão emocionante quanto ser a
protagonista da história e jogar.
Até o dia das minhas provas, eu estudei com afinco. Cheguei a perder
algumas horas de sono para tentar bolar uma solução original para um
problema do Jogo particularmente complexo. Ou melhor, complexo para
meu nível, já que estudantes mais avançados certamente teriam chegado
a uma solução melhor que eu num tempo muito menor.
Após passadas minhas primeiras provas, eu me sentia mais tranquila.
Finalmente eu começava a adquirir confiança no meu potencial para ser
116

A Era do Folhetim
uma jogadora de Avelórios. Por um momento, pensei que não tivesse
jeito para isso e que não seria capaz de aprender. Era incrível a
transformação pela qual eu havia passado em apenas duas semanas.
Agradeci muito aos meus dois instrutores.
– Viu só? – Barata sorriu – não era tão impossível quanto você
pensava. E a maior parte disso foi mérito seu. A gente só deu um
empurrãozinho.
Para a minha surpresa, até mesmo meu estudo nas duas primeiras
semanas não tinha sido uma total perda de tempo. Por um lado, foi
melhor que eu tivesse tentado me virar sozinha no começo, pois eu nem
sempre teria um ajudante para resolver todos os meus problemas. Eu
também precisava aprender sozinha como estudar e pesquisar.
No entanto, eu fiquei muito chateada quando recebi as notas. Achei
que eu tivesse me saído bem, mas os professores foram extremamente
rigorosos nas correções. Era como Boaventura havia alertado: os
comentários beiravam a crueldade.
Não havia sequer um elogio sobre as minhas resoluções. Só foram
apontados os defeitos, de forma bastante fria e objetiva.
Resolvi conversar com o professor Nicolas Junqueira no final da aula.
Estávamos somente nós dois na sala, pois aguardei que todos saíssem.
– Senhorita Santa – disse Junqueira, no seu tom sério habitual – a
senhorita não está mais no jardim de infância. Não espere que nós
elogiemos os rabiscos dos seus desenhos. Pois é exatamente isso que a
sua prova é: como uma criança que segurou um lápis pela primeira vez e
ainda nem sabe escrever seu próprio nome. Acho bonito que os
professores incentivem as crianças para que tenham fé em si mesmas,
mas isso você já devia ter resolvido lá atrás.
Eu tinha mais coisas a dizer, mas esse pronunciamento dele me
deixou sem fala. Eu apenas agradeci em voz baixa e saí da sala
imediatamente.
Normalmente, eu teria ficado irritadíssima. Mas eu tinha apenas um
sentimento de vazio, que não era nem tristeza e nem fúria.
Por um instante pensei que Boaventura estivesse apenas exagerando
quando me alertou sobre os professores. Eles se esforçariam para me
destruir. De todas as formas. Eles queriam que restassem somente os
fortes, capazes de aguentar críticas mordazes.
117

Wanju Duli
Barata e Boaventura compreenderam completamente quando relatei a
situação.
– Eu não ligo mais para o que o Junqueira diz – falou Barata – ele faz
isso com todo mundo. Não leve para o pessoal.
– É impossível não levar para o pessoal! – exclamei, indignada – ele
me tratou como um verme. Ele me deu nota 3 na prova!
Barata sorriu gentilmente.
– Eu sou um pintor e Boaventura é um músico. Estamos
acostumados a receber críticas o tempo todo. Se fôssemos desabar cada
vez que alguém critica nosso trabalho, já teríamos desistido de tudo há
muito tempo. Lembre-se: a sua habilidade de jogadora não te define
como pessoa. E nem seu conhecimento de literatura. Isso é apenas uma
pequena parte do que você é. E você é muito mais do que seus
conhecimentos.
– Sou apenas um verme... – eu repeti, debilmente.
Barata me deu tapinhas na cabeça, como se eu fosse um cachorrinho.
– Sempre que precisar que alguém te trate como uma criancinha do
jardim de infância, lembre-se que nós dois estamos aqui – disse Barata.
– Ei! – exclamei – isso não foi muito legal de dizer.
Mas nós três rimos juntos depois disso.
Em breve, eu me sentiria muito contente com minha nota 3, pois
descobriria que seria minha nota mais alta do primeiro ciclo de provas.
Eu fiz três provas ao todo. A do Junqueira foi a que me saí melhor.
Tirei 2,5 na prova do professor Fábio Peixoto. E 1 na prova da
professora Rebeca Fragoso.
– Um! – eu exclamei, sem fôlego – eu tirei um!!
Nem mesmo no colégio eu já havia tirado 1 numa prova.
– Veja pelo lado bom – disse Barata – pelo menos não tirou zero.
– Espero não precisar chegar nesse grau de otimismo – observei – eu
não sou uma Pollyanna!
– É como diria Shakespeare – lembrou Barata – o lado bom de
morrer hoje é que você não precisará morrer amanhã.
– Que merda, cara! – eu disse – esse tipo de pensamento é como
chegar ao fundo do poço.
– Espere para ter aulas com o Alvim e você descobrirá o que
realmente é o fundo do poço – sorriu Boaventura.
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A Era do Folhetim
– Eu tirei zero na minha primeira prova do Alvim – informou Barata,
orgulhoso – então, se você conseguir tirar meio ponto na primeira prova
dele, prepare-se para subir num carro alegórico e ser ovacionada por
toda Castália.
Meu queixo caiu. Eu nunca imaginei Barata tirando zero numa prova.
Ele era inteligente demais para isso.
– Pensei que você fosse um gênio no Jogo – observei – você sabe
tanto!
– Não existem gênios no Jogo de Avelórios – opinou Barata – todo
mundo apanha. Até os professores.
Eu realmente não fazia a menor ideia onde tinha me metido.
Mas agora já era tarde. E agora que a coisa tinha chegado a esse
ponto, eu não permitiria que os professores me fizessem de palhaça. Eles
deviam ficar rindo depois de dar aquelas notas.
– Tirar esses lixos de notas faz parte do ritual de tornar-se um
jogador de Contas de Vidro – sugeriu Boaventura – no futuro você
também vai rir disso e se recordar com saudades.
– Esse futuro ainda está meio longe – observei – primeiro preciso
sobreviver aqui dentro para que o futuro chegue.
Então era esse o jogo dos professores. Era como uma guerra. Eu não
iria baixar a cabeça.
O professor Junqueira era extremamente aterrorizante: alto, com sua
barba repleta de fios brancos. Parecia um sábio, um eremita. Eu não
pretendia discutir de novo com ele tão cedo. Eu iria permitir que ele
ganhasse essa batalha, mas na próxima prova dele eu me mataria de tanto
fazer exercícios de jogadas nos livros da biblioteca. Preencheria uns
cinco livros de exercícios. Meu objetivo no próximo exame seria tirar
pelo menos um 4. Sim, minhas expectativas já estavam bem baixas.
Velhos tempos em que eu tirava nota máxima nas minhas leituras nas
escolas preparatórias. Senti que aqueles tempos jamais voltariam.
No caso da aula de Peixoto era algo meio subjetivo: interpretação de
símbolos. Enquanto os problemas das provas de Junqueira continham
descrições escritas e, vez por outra, diagramas para análise, as provas de
Peixoto continham um monte de desenhos. E tínhamos que descrever o
que simbolizava um leão verde perto de um Sol ou qualquer coisa assim.

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Em toda a história. O Peixoto era relativamente jovem para um professor de Castália. ele definitivamente não era o Magister Ludi. Descobri que ele tinha apenas 35 anos. os Magisters obtiveram seu cargo com não menos de 45 anos. não se tratava de apenas sentar-se na posição de lótus e permanecer nela o maior tempo possível. Ele me segurou na sala por duas horas para responder a merda da minha pergunta. especialmente em Cela Silvestre. ele “tinha certeza” de que minha nota melhoraria no próximo exame. Mas ele não calava a boca! Ele amava tanto seus malditos símbolos que não conseguia deixar de compartilhar esse amor com todos ao seu redor. idiota. 120 . Mas aos poucos as abstrações eram reduzidas praticamente à geometria. Apenas me mandou ler uns vinte livros e. Ele não foi tão cruel assim com seus comentários sobre minha prova. Sendo assim. entre risos. Aos poucos vai descobrir que é comum povos que não possuem contato nenhum atribuir significados parecidos aos símbolos. Porém. Eu bem que merecia mais um ponto na minha prova por tê-lo escutado por tanto tempo! Até que o professor Peixoto era legal. – Não é subjetivo – disse Boaventura – você precisa estudar o simbolismo dessas imagens em diferentes povos. E eu. Não era fácil conseguir um cargo poderoso como aquele. Deu um discurso dos infernos! E provavelmente teria continuado a falar pelo resto do dia se eu não tivesse conseguido dar uma desculpa e sumir de lá antes disso. Com exceção de apenas um. Até me deu um sorriso e disse que ele tinha que seguir o regulamento e não poderia subir demais a nota dos alunos. – Que tal perguntar isso para o professor Peixoto? – sugeriu Barata. fui perguntar. depois de lê-los. A disciplina em que tirei nota 1 era um pouco perigosa: meditação.Wanju Duli Parecia mais um exame sobre a interpretação de símbolos alquímicos. senão os que não comiam e dormiam mais para estudar ficariam brabos. – Isso significa que os símbolos possuem significados intrínsecos ou que a mente humana atribui valores às coisas mais ou menos da mesma forma? – perguntei.

Em geral. Contudo. Se fosse uma pintura. Costumava ser o conteúdo de um livro que tínhamos que ler para a aula seguinte. No mundo lá fora. Digamos que podia ser qualquer coisa: uma música. E eventualmente sempre havia os alunos regulares desistentes. adquirindo profissões importantes como a de professor ou pesquisador. Aliás. enormes e resistentes. não havia internet ou computadores em Castália. teoricamente a profissão mais inútil possível. um carro e ter filhos. ganhar dinheiro. especialmente as que davam mais conforto ou praticidade. Embora estívessemos passando por um período com muitos estudantes. não precisávamos de mais prédios em Castália: nossos prédios eram práticos. ninguém estava com pressa para se formar logo para trabalhar. Se fosse um famoso problema de matemática. A população de Castália não costumava aumentar muito. como curar pessoas ou construir prédios. devíamos pesquisar as diferentes soluções já propostas. Era tudo feito à moda antiga.A Era do Folhetim A professora normalmente nos dava um tema para meditar. as profissões de maior status eram geralmente as que geravam um produto. devíamos ler bastante sobre ela em diferentes livros de história da arte e escrever um longo ensaio para entregar. Estabilidade financeira estava longe de ser uma questão preocupante para nós. que lá possuíam um enorme status. muitos eram alunos ouvintes que logo se cansavam. Digamos que nossa pressa em concluir os estudos era principalmente porque queríamos subir na hierarquia de Castália. comprar uma casa. éramos proibidos de usar internet para a pesquisa. os axiomas de Euclides ou os teoremas de Fermat. Muito antigos. Só que em Castália era o contrário: ser jogador de Avelórios. Afinal. Ou apenas um poema que devíamos analisar profundamente e ler os comentários. Por exemplo. nem mesmo para arquivar os livros da biblioteca. formar uma carreira. O raciocínio era que devíamos pesquisar em livros o máximo que conseguíssemos sobre o tema selecionado. que não gerava produto nenhum. era exatamente aquela que possuía o status máximo. O nosso medo era outro: que um 121 . um problema de matemática. Ninguém se importava se esse processo demorasse mais. Foram feitos com excelente material no passado e precisavam de poucas reformas. uma pintura.

Era incrível como a expectativa de vida dos habitantes de Nova Castália era muito superior ao resto do Brasil. Quase como no tempo de Galeno. – Quando vocês se tornarem professores ou pesquisadores.Wanju Duli dia o número de alunos que saísse fosse muito maior do que aquele que entrasse. Belas palavras. serão ainda mais ocupados – ela disse – e terão que realizar múltiplas tarefas. mas pelo puro amor ao saber. Também havia quem dissesse que a existência da espiritualidade forte de Castália era outro fator relevante. Até onde sei. se ela não parasse com suas provas exigentes. ajudaria se estendesse um pouco mais os prazos – sugeri. É bom que aprendam desde cedo a montar um calendário de estudos. Tínhamos nossas próprias plantações e não comíamos as porcarias lá de fora. envelhecendo com saúde e com suas faculdades mentais quase intactas. Basta se organizar. Tínhamos médicos. Porém. é a minha exigência que gera em vocês mais conhecimento. o que chamavam de “desmaterialização progressiva”. tínhamos uma vida cercada pela natureza e de pouco estresse. Dá tempo de fazer tudo num dia. 122 . – A exigência que peço de vocês não devia ser fonte de estresse e sim de alegria – ela disse – afinal. As doenças crônicas eram particularmente raras. mas doenças não eram algo recorrente em Castália. Mas na prática não era bem assim que funcionava. Estava claro que nossa alimentação e nosso estilo de vida eram a resposta. Como nos alimentávamos bem. nenhum de vocês está aqui para ganhar dinheiro. meu nível de estresse passaria do limite e minha saúde seria prejudicada. A prática da meditação era tão forte e feita por tantos em Castália que a professora Fragoso também não parava de apontar seus incontáveis benefícios para a saúde. Era bastante comum que os castalianos chegassem aos cem anos. Por isso costumávamos dizer que nossos habitantes não morriam de doença. nosso sistema imune ficava forte e doenças só nos alcançavam raramente. – Se a senhora não pretende diminuir a exigência. mas de velhice quando já estavam em idade bem avançada. em que os médicos eram como sacerdotes dos templos de Asclépio e em geral só recomendavam repouso e algumas ervas. Eu disse isso a ela.

pois não tenho tempo de meditar todos os dias. – Então você não está se esforçando – disse a professora – eu disse claramente para que não meditassem nem de manhã cedo e nem tarde da noite. – E caso eu fosse hiperativa ou tivesse outro problema que me impedisse de permanecer sentada por muito tempo. pois não havia nenhum sistema de busca por títulos e palavras. Mas a nossa pesquisa nas bibliotecas tornava tudo mais longo. 123 . deitada ou andando. já que não para de se mexer nem mesmo numa meditação de 1 hora. pois isso evita que durmam. outros tipos de meditação são possíveis. Às vezes eu só medito meia hora ou fico com muito sono para fazer isso. – Há quem prefira meditar por 7 horas seguidas no domingo – disse a professora – mas você naturalmente ainda não chegou nesse nível. como eu pedi? – ela perguntou. Meditar com a barriga roncando não era meu estilo preferido de meditação. Não era tão simples achar o que procurávamos nos livros. Precisávamos percorrer as prateleiras. Você também pode dividir o tempo e meditar meia hora antes do almoço e meia hora antes da janta. abrir cada exemplar e checar os capítulos até encontrar. seja ele físico ou psicológico? – perguntei.A Era do Folhetim Particularmente a disciplina dela me tomava muito tempo. ou eu só conseguiria visualizar comida. Era realmente trabalhoso. – Você está treinando uma hora de meditação diária. – Eu só não entendi porque eu tirei 1 na prova – observei – eu me esforcei tanto. Caso o aluno tenha problemas médicos. Depois. – Só quando posso. copiaria e colaria uns textos. eu apenas digitaria no Google. Pelo menos não enquanto estão recém aprendendo.. tínhamos que copiar todos os trechos à mão. acrescentaria as referências no final e acabou. – Mas fora desses horários eu estou em aula! – Há os horários das refeições.. Você tem problemas médicos? Eu fiz que não. – Eu só troquei a posição das pernas porque estava com cãibra – argumentei – vou perder nota simplesmente por não ter resistência suficiente para manter a mesma posição? – Isso é algo que se adquire com treino. como a meditação em pé. Se fosse no colégio.

Portanto. meu corpo ia mostrar isso. até o nosso jeito de meditar era único. Ela não era boba. Se eu não treinasse. mas.Wanju Duli – É esse o seu caso? – Não. de certa forma. Por um momento. Ela ocorria espontaneamente.. Mas elas só iam chegar se eu deixasse de ser preguiçosa e treinasse uma hora diariamente. Era servir de auxílio para o Jogo das Contas de Vidro. Eu sou professora de meditação há muito tempo e vejo o progresso dos meus estudantes. como instruir que o aluno prestasse atenção num ponto fixo diante dos olhos ou na respiração. Porém. Ela conseguia ver através de mim. as aulas de meditação avançadas nos preparavam para o Jogo de Avelórios. fiquei sem argumentos. É algo que a maior parte das pessoas pode adquirir com treino diário constante e disciplina. A resistência física e psicológica para meditar não é um dom divino para poucos escolhidos. – Então o seu problema é meramente falta de treino. Ela também era professora de Yoga. pois o cérebro aprendia naturalmente os caminhos e já sabia para onde ir sem precisar desses truques. Se bem que meu problema não era apenas preguiça. Nas suas aulas intermediárias de meditação ela usava outras técnicas. Diziam que ela era capaz de meditar por dias a fio. Ela conseguia ler meu corpo muito melhor que eu mesma. Ela nos dava temas para meditar porque dizia ser mais fácil para os iniciantes. Mas isso também. Muitos dos que tinham mais experiência em meditação não usavam a lógica e o lado esquerdo do cérebro para auxiliar na alteração de estado de consciência. não deixava de ser um instrumento de auxílio. Costumava dizer que a função mais elevada da Yoga era dar resistência ao corpo para que ele aguentasse as longas meditações. Fragoso tinha uns 50 anos. Eu mal podia esperar que essas aulas chegassem. o objetivo de nossa meditação não era o êxtase meditativo e nem mesmo algum tipo de iluminação.. E pelo seu pouquíssimo progresso nas últimas semanas eu pude ver com clareza que você simplesmente não está treinando o bastante. Era uma mulher magra e bastante atlética. Eu tinha muita coisa para estudar e muitos afazeres 124 . Sendo assim. praticamente sem se mover. Era cansaço e falta de tempo.

o instituto de filologia das línguas antigas. Por causa do Sol. Não era fácil cuidar da plantação.A Era do Folhetim domésticos. As pessoas olhavam. O problema era que nem Barata e nem Boaventura teriam tempo para me ajudar dessa vez. Só que eu possivelmente havia perdido Gio e Navarro para sempre. Assim eu ficava bem protegida. Eu conhecia três especialistas no Jogo das Contas de Vidro: Gio. – Ô Magalhães! – um cara o chamou – tem uma mina aqui que quer falar com você! Os trajes desse estudante. Estavam mais atarefados do que eu. E eu pensando que teria um período de descanso após as provas. Eu suava com aquele Sol forte. fosse em tom de respeito ou em tom de desprezo. Rodrigo e Navarro. 125 . resolvi ir com o chapéu de palha de abas largas. Tive que dar uma boa caminhada debaixo do Sol. Usávamos grandes chapéus nessa ocasião para nos protegermos. – Muito engraçado – eu disse. para o mundo da filosofia e da música. Mostrei para Rodrigo minhas três provas com notas horríveis. assim como os trajes de Rodrigo. eram marrons. Alguns que olhavam torto podia ser por inveja. Ele analisou uma por uma. colhendo. enquanto outros realmente achavam que o Jogo de Avelórios era um entretenimento tolo para o qual se dirigia atenção além do conveniente. Minha roupa branca ganhava ainda mais destaque em meio a todos aqueles estudantes de marrom. Descobri que ele era famoso por lá. já teria que começar a estudar para as recuperações. Então só me restava visitar Rodrigo em Keuperheim. Teria sido relaxante se eu não estivesse derretendo de calor. Nós comíamos comidas saudáveis. mas perdíamos um tempo absurdo por semana cuidando da terra. Com aqueles mantos brancos e aqueles chapéus de palha pontudos e de abas largas parecíamos poderosos feiticeiros.. plantando.. Ainda tinha esperanças de que alguma parte dele ainda estivesse no meu mundo. Não demorei muito para encontrá-lo. – Sugiro que você curta esse início de aulas enquanto ainda está fácil – disse Boaventura. Um estudante de Cela Silvestre nunca passava despercebido.

constante e aprofundado. Se apenas decorar sem entender e o fizer só quando tiver provas. tente aumentar ao máximo sua nota. mesmo que um Aldous Huxley ou uma Jane Austen. Sem filmes ou bolos.Wanju Duli – Até que você se esforçou – foi seu comentário. eu poderia direcionar meus olhos para o Jogo. Mesmo que você não consiga um 6. 126 . mesmo que fosse lentamente. Eu estava ansiosa para ler um pouco de qualquer coisa. logo não restará mais nada em sua mente. – Não tem nenhuma fórmula mágica para que eu aprenda essas coisas rapidamente? – perguntei. é claro. E para ter energias para estudar tanto. A “fórmula mágica” é estudo diário. você terá que aprender a amar o Jogo de Avelórios tanto quanto já amou um bolo de chocolate. Só que havia uma tentação muito mais poderosa: a literatura. – Dessa vez só vou ter uma semana para estudar – eu disse – será que ainda tenho salvação? – As recuperações geralmente são mais fáceis. Ele conhecia meu nível. O importante era que eu estava avançando. O pior era que havia bibliotecas com muitos livros de literatura em Castália. – Apenas faça o que você vem fazendo – ele disse – exercícios de Jogos e estudos de símbolos. os professores veem diferença entre um zero e um 5. e conseguiu ver meu progresso em apenas um mês. também vai esquecer rapidamente – disse Rodrigo – é assim que funciona na Era Folhetinesca. Isso tornava a vontade ainda mais poderosa. Isso não significa que você tem que baixar a guarda. pelo menos na área da gramática. Fiquei contente por isso. Eu estava ansiosamente esperando que passassem minhas provas para que eu pudesse retirar um livro de literatura da biblioteca. Para a sua sorte. não há nenhuma dessas coisas aqui para competir com sua nova potencial paixão. um filme ou um amante. Mas estava meio perdida sobre o que fazer para as outras duas disciplinas. Embora não pareça. – Se você tentar decorar tudo rapidamente. perder-me na história e relaxar. Eu tentaria separar pelo menos umas 2 horas por dia para meditar ao longo daquela semana.

Eu não gostava de meditar e não queria estudar símbolos. provavelmente seria apenas uma jogadora medíocre. Achei que eu tivesse sentido esse chamado para o Jogo. Pois eu lia com naturalidade. Se eu fosse uma jogadora de Contas de Vidro. Não é preciso ser super inteligente para aprender uma área do conhecimento. prestar o mínimo de atenção e entender de que raios eles estavam falando naquele dia. seu coração sente que é o que deve ser feito. Mesmo os livros de literatura de autores chatos eram mais divertidos do que ficar sentada de pernas cruzadas sem fazer nada. E. Eu teria confiança para bolar jogadas inteligentes na frente de todos? Às vezes parecia que eu era a única que não entendia as aulas. as dificuldades inerentes ao Jogo eram um obstáculo. Eu estava duvidando novamente da minha vocação para o Jogo. Meus colegas faziam perguntas.A Era do Folhetim Só que eu teria que postergar esse desejo por mais uma semana. assim que a literatura subisse o vestido e me mostrasse sua coxa sensual. Eu até que me divertia resolvendo os exercícios. Vocação significa uma espécie de chamado: mesmo não sendo tão bom naquilo. Aguentava ler muito. mas depois broxava completamente com as notas. Eu sabia que iria sofrer pelos próximos anos até aprender tudo o que precisava. perdia-me nos livros por horas 127 . depois de mais três semanas. eu desistiria dele na primeira oportunidade. Porém. até ali os estudos sobre o Jogo pareciam meio sem sentido. mas é preciso ter vocação para dedicar-se a ela. Além do mais. Enquanto eu lutava para me manter acordada. por muito tempo. Mesmo sendo tão bons no Jogo. eles não queriam perder tempo com ele. fitavam o professor com atenção. faziam anotações. E talvez fosse sofrer ainda mais se eu realmente quisesse me tornar uma jogadora. Eu não iria resistir. Afinal. haveria novas provas! Então. eu tinha chance de ser uma das melhores. quando eu poderia ler de novo? Finalmente eu entendia Gio e Navarro. Mas por que a literatura continuava me chamando e confundindo meu coração? Se minha paixão pelo Jogo das Contas de Vidro não aumentasse. Eu queria poder voltar a ler meus livros de ficção. se eu me dedicasse à literatura.

– Você parece com pressa – ela observou – diz coisas como “nunca mais vou poder ler na vida” e outras coisas do tipo. Sentei-me na sala dela. mas é claro que eu não expressei meus pensamentos em voz alta. é comum termos a constante sensação de que nunca temos tempo suficiente para tudo que queremos fazer – explicou a professora – desde a época de colégio sentimos como se nosso tempo fosse roubado pelos estudos e nos agarramos 128 . Confessei que duvidava da minha capacidade de ser jogadora. Parecia ter disponibilidade para me ver e marcamos um horário para aquele mesmo dia. Tinha uns quarenta e poucos anos. Disse que estava tendo tantas dificuldades que me sentia mais atrasada do que todos os meus colegas. só o fizeram porque possuíam uma vocação genuína. Seria muito dramático. Estudar o Jogo era chatíssimo! Eu só estava fazendo aquilo pelo status que o Jogo representava! Será que já não estava na hora de eu parar com a farsa e ser sincera comigo mesma? Minhas notas não mostravam com clareza que eu não tinha nem a habilidade e nem a vontade de aprender? Meus amigos foram maduros em não optar pelo Jogo. ela deu um leve sorriso. que optaram. Pelo visto. Falei por muito tempo. Ela se chamava Clara Correia. “Mas gostaria de ter para morrer logo e acabar com essa dúvida e essa dor!” pensei. – Quando somos jovens.Wanju Duli seguidas sem nem ver o tempo passar. Não sei quanto. E Barata e Boaventura. Até ficar lá por meia hora era chato. não era o meu caso. Ele também não teria tempo de ficar me ajudando diariamente. Rodrigo me indicou alguns livros de estudo. Mas meditar era custoso. Você tem alguma doença grave? Só terá mais dois ou três anos de vida? – Que eu saiba não tenho nenhuma doença – respondi – pelo menos nenhuma que seja letal. Tinha cabelos negros e ondulados na altura dos ombros e olhos castanhos escuros. Quando terminei de falar. Será que já não estava na hora de eu ter uma conversa sincera com a professora responsável por mim? Eu finalmente cedi. Disse que amava mais os livros de ficção. além da habilidade. E isso foi tudo. além de um desrespeito com as pessoas que estavam realmente doentes. E comecei a falar de todas as minhas preocupações e inseguranças.

Eu disse tudo isso para Clara. – Você enxerga uma parte sua na literatura. Eu tinha estudado aqueles oito anos pelo meu amor ao Jogo. acha que estaria aqui? Refleti por um momento. que podem nos desapontar. Então que tal agora tentar encontrar a parte de você que está escondida no Jogo? Temos partes nossas em muitos lugares. Eu não havia entrado nas escolas de elite por causa da literatura. – Se você não tivesse o menor interesse no Jogo de Avelórios. criando e se divertindo? – Eu nem mesmo sei ainda o que é o Jogo – confessei – então como posso amar algo que não compreendo? Eu amo a literatura porque. – Mas para haver esforço tem que haver interesse. – Talento não é algo com que se nasce. essas dificuldades somente nos incomodam no momento inicial de choque. Mas por que precisamos de tanto tempo livre assim? Para aprender? Para criar? Para lazer? Não podemos buscar esses desejos em outras coisas? Com o Jogo de Avelórios você também não sente que está aprendendo.A Era do Folhetim desesperadamente às férias. mas parece que você se sentiu atraída para Cela Silvestre e ainda não entendeu bem o motivo. 129 . Você está passando por ele agora. Mas. Talvez eu o tenha fantasiado demais. Eu só o persegui por teimosia. mesmo que partes dela sejam complexas e quase impenetráveis para apreender usando a lógica. minhas ideias do que ele era. Essa parte você já encontrou. Pensei que ele fosse outra coisa completamente diferente do que ele é na realidade. Pretende desistir antes de desvendá-lo? – Não acho que seja assim – baixei os olhos – o Jogo nunca teve nada a ver comigo. – As coisas na realidade sempre são diferentes do que esperamos – disse Clara – frequentemente nos deparamos com dificuldades inesperadas. Mas ele é como uma onda: também passa. Vejo todos os outros aprendendo o Jogo com tanta naturalidade e facilidade que só posso concluir que simplesmente não tenho talento. mas algo que se conquista com esforço – disse a professora. Sequer tinha planos de cursar faculdade se tivesse continuado a viver no mundo. pela minha experiência. eu tenho o sentimento de que somos parecidas. Ou meu amor pela sombra do Jogo.

Eu sequer assisti uma! E eu tirei a nota mais baixa da turma na aula de meditação. alguns são muito piores que os seus. Precisávamos de uma motivação muito forte para seguir a rigorosa rotina diária. querendo seguir outra carreira e com outros planos de vida. tendo que ser cruelmente separado de tudo para agradar os outros. Tiram boas notas. aquilo não fazia diferença nenhuma na minha vida. Atrasada em relação a quê? Por que está com tanta pressa? Tem algum compromisso no mundo lá fora? – Estou atrasada em relação aos meus colegas – expliquei – a maior parte deles já entra em Cela Silvestre tendo uma boa base sobre o Jogo. As pessoas têm dificuldades diferentes.Wanju Duli Recordei-me do meu primeiro mês nas escolas de elite. Você não para de dizer que está atrasada. Eu precisava amadurecer aquela paixão e transformá-la num amor sincero: com menos fantasias. – Se você por acaso possui a ilusão de que a vida dos seus colegas é maravilhosa. Eu não me sentia assim. Ninguém é iluminado aqui. Eu sentia falta de comer crepe. Mas aparecem questões de todos os tipos. curiosa. Eu teria saído correndo de lá apenas pela chance de morder um crepe de novo. Você imagina como eles se sentem? Tentei imaginar um aluno com namorado lá fora. acredite.. Hoje em dia. Você morava num orfanato antes. eu irei acabar com ela – disse Clara – os estudantes me procuram o tempo todo. Alguns estão aqui porque a família os obrigou a vir. – Principalmente. não é mesmo? Mas alguns colegas seus vêm de famílias rigorosas e enfrentam a pressão e expectativa dos pais. Algumas com as quais você certamente não tem que lidar. – E mais uma coisa – acrescentou Clara – pare de se comparar com os outros. menos desespero e mais amizade. Sou uma das únicas que nunca joguei uma partida. já que estava lá porque queria. – São problemas nos estudos? – perguntei. 130 .. com todo tipo de problema. E eu me sinto para trás. E. Sentindo uma falta desesperada de tudo que fazia antes em sua velha vida e perdeu. Mas senti uma grande dor só de pensar. Será que aquilo se chamava amadurecimento? O meu apreço pelo Jogo ainda era uma paixão quase adolescente. Seria mil vezes mais difícil se a pessoa estivesse lá contra a vontade. A vida em Castália não era fácil.

– Eu acho que sofri uma grande injustiça! – ela exclamou – por que fiquei com 5.A Era do Folhetim – Pelo que me contou. vi uma garota falando com o professor Junqueira sobre a recuperação. você fica sozinha na maior parte do tempo – disse Clara – só tem um pouco de contato com seus velhos amigos das escolas preparatórias. Pela minha expressão calma. Poderão ajudar uns aos outros. Decidi que no dia seguinte eu conversaria com alguns colegas meus para conhecê-los. Fiquei maravilhada com essas palavras. – Eu não concordo com esse autor – disse Junqueira. Costumo ver isso com frequência: como a vida dos alunos se torna mais leve quando fazem amigos. Veja só como minha resposta é semelhante à do livro. Grandes amigos são capazes de combinar jogadas incríveis. participando com eles de um Jogo oficial. Imaginei-me com um grupo de amigos e.8. – Pois eu acho que eu merecia nota mais alta nessas duas questões que mostrei ao senhor. Nós juntos criando um Jogo sublime que relembraríamos para sempre.5 se minhas respostas somam 5. sabe harmonizar sua jogada com a dela. – E isso é particularmente verdadeiro para os jogadores de Avelórios. A garota deu um risinho cínico. Que ideia brilhante! Logo no final da primeira aula da manhã.75? – Nós arredondamos para baixo – ele explicou – só subiria para 6 se você tivesse tirado 5. Concordei. repleta de esperanças. A amizade é algo realmente poderoso. Eu a agradeci de coração. Que sorte! Ali estava minha primeira potencial amiga. a professora entendeu que eu já estava me sentindo bem melhor. Em trechos do Jogo haveria memórias de nossos tempos de estudo em Cela Silvestre. Quem sabe eu pudesse começar conversando com os que pegaram recuperação. Quando você conhece bem uma pessoa. Já vi jogos extraordinários nascendo daí. para que pudéssemos estudar juntos. 131 . dali uns 20 anos. Que tal tentar fazer amizade com seus colegas? Vai descobrir que eles enfrentam dificuldades parecidas. E saí da sala dela com um sorriso no rosto.

fora de si. eu sabia. Até hoje. – Eu vou gabaritar essa merda de prova de recuperação! – gritou a garota. completamente puta da cara.. – Tem alguma questão a tratar comigo. sorrindo também – eu levaria sua opinião em consideração se você tivesse tirado pelo menos um 6 na minha prova. Nicolas Junqueira. mais inteligente que o senhor! – É mesmo? – perguntou Junqueira. a não ser que você desejasse cometer uma terrível gafe e assassinar as normas da boa etiqueta. Afinal. pode se retirar. Caralho. Mas parece que você não é capaz disso com seu próprio conhecimento e precisa ficar mendigando nota. A garota. que só era permitido dirigir-se ao Magister Ludi por títulos. Santa? – perguntou Junqueira. você terá que se ajoelhar na minha frente. rasgar o livro do Paulo Almeida e descrever em detalhes o quanto sou superior a ele. Eu não devia estar ali parada escutando aquela discussão. era o Magister Ludi? – Que seja – ele disse. Venerável”. Além dos dois. 132 .Wanju Duli – O Paulo Almeida é um dos melhores autores de livros com problemáticas para Jogos! – ela exclamou – ele é inclusive. – Feito! – ela rosnou – com uma pequena alteração. Terá que passar pelas doze escolas de Castália vestido de branco e ouro! Meu coração bateu mais forte. será impossível para você gabaritar minha prova. por todos os livros que já lera. aguardando na porta. ninguém conseguiu. eu virei para a aula na próxima segunda-feira com a cara pintada de vermelho – disse Junqueira – mas se você tirar um décimo a menos que a nota máxima. se eu vencer a aposta você irá desfilar por toda a Castália vestido nos trajes de Magister Ludi. sem nem notar minha presença. Era melhor eu me mandar. despreocupadamente – de qualquer forma. e na frente de toda a turma. sem sombra de dúvida. como “Venerável Mestre”. Em vez de você se pintar de vermelho. Agora. retirou-se da sala passando reto por mim. – Se você gabaritar a minha maravilhosa prova.. Quase falei: “Não tenho nenhuma questão. “Vossa Grandeza” ou “Domine”. eu era a única que ainda estava na sala. Eu fiquei paralisada.

Mas por que aquela garota não os usava? Ela era assim tão insolente? Por fim. mas ainda estava muito intimidada pela discussão. ela pareceu gostar de mim. Senti-me mais à vontade. – Ninguém consegue ler direito essa merda – ela disse – a maioria só finge que sabe. – Parabéns por sobreviver até aqui. No outro corredor. Eu mesma. A maioria já sai correndo na primeira semana. Muito prazer.. era meu dever usá-los. 133 . E o seu? – Sabrina Gonzaga. mas ao conversar sozinha com ele. – Uma irmã gêmea? – perguntei. decidi. ainda não entendo metade do que falam nas aulas. eu apenas fiz que não com a cabeça. ainda consegui localizar a garota. – Com licença – eu disse – me desculpe. aterrorizados. curiosa. “Foda-se. Você está entendendo alguma coisa das aulas? – Nada – confessei – eu ainda não consigo ler hieróglifos. Apesar da selvageria de sua voz antes. Meu coração ainda estava disparado. Que ótimo! Fiquei super animada. fiz uma breve reverência e saí da sala. – Pretende mesmo gabaritar a prova? – Não – ela disse – vou pedir para minha irmã fazer a prova no meu lugar. – Acabo de completar um mês de aula.A Era do Folhetim Em público não usávamos os títulos para que os outros não o identificassem. – Também peguei recuperação na prova do Junqueira – confessei – que tal estudarmos juntas hoje na biblioteca? – É claro. Não é todo mundo que aguenta um mês. vou falar com ela”. mesmo depois de sair de lá. – Ele não é o Domine – ela me olhou de forma curiosa – você é nova aqui? Era um olhar afetuoso. mas eu entreouvi sua conversa com o Domine. Pensei em chamá-la para conversar. ou eu estaria sendo extremamente mal educada. Ela morreu de rir quando eu disse isso.. Como é seu nome? – Maria Santa.

eu ainda tinha uma chance real de tirar 6 na recuperação.Wanju Duli – Irmã mais velha. Ela seria totalmente capaz de gabaritar a prova. que trouxa! Isso lá era coisa para um professor dizer? Eu sabia que os professores de Cela Silvestre tinha o ego inflado. Por isso mesmo ficava ainda mais difícil verificar quem era quem. Eu já tinha antipatizado com Junqueira desde aquela primeira conversa que tivemos. mas mesmo que Junqueira tivesse dito aquilo apenas para irritar Sabrina. mas nós somos praticamente iguais. Isso se Junqueira não resolvesse fazer uma prova impossível só para impedir Sabrina de gabaritá-la! Mas se a irmã dela era tão boa assim. isso não seria um problema. ele tinha dito coisas muito ridículas. Eu me sentei atrás de Bruna e ela colocou a prova para o lado em alguns momentos para eu tentar copiar algumas respostas. ou que pelo menos as dicas de Bruna compensassem. consegui avançar bastante nos estudos naquela tarde. com franja espessa que cobria o rosto. Eu torcia para que Bruna conseguisse seu intento. vi Bruna entrar na sala em vez de Sabrina. Senti que. Além do mais. Sabrina resolveu nos apresentar. A irmã dela se chamava Bruna. Mesmo assim. Eu só torcia para que essa aposta deles não me prejudicasse. “Você vai se ajoelhar e dizer o quanto sou superior”. Vai ter um monte de gente fazendo prova de recuperação na sala. O professor nem vai reparar. nem reparei que foi Bruna quem entrou. eu consegui ver um detalhe ou outro que me ajudou. O Junqueira costuma basear os problemas do Jogo fortemente na música. O problema era que aquela não era uma prova de múltipla escolha e não seria tão fácil assim copiar qualquer coisa. já que ela não é da nossa escola e nunca participou dos eventos oficiais. Com a ajuda de Bruna. mas também é uma exímia jogadora de Contas de Vidro. – Ela é muito inteligente? – Sim! Ela estuda nas escolas de música. Elas eram parecidas mesmo! As duas com cabelos negros volumosos. se ela continuasse a me auxiliar pelos próximos dias. já que o rosto praticamente desaparecia no meio dos cabelos. Temos somente um ano de diferença. foi absurdo. 134 . O Junqueira não a conhece. No dia da prova. Inicialmente.

deixou todos os alunos boquiabertos: ele vestia os trajes com tons de branco e ouro de um Magister Ludi. Pena que eu não poderia chamar Barata e Boaventura.A Era do Folhetim Era a primeira vez que eu colava numa prova em toda minha vida. mas eu vou descobrir! Ele agitou o saco de provas. ou isso seria o fim do mundo. com força. Afinal. Junqueira abriu uma pasta com as provas. alguns alunos conheciam a identidade do Magister Ludi. Meus olhos brilharam quando vi um belo “6” escrito em vermelho. E não me senti nem um pouco culpada. Enquanto isso. Quase chorei de felicidade. As restantes se espalharam pelo chão. Graças a Bruna! Como não teríamos aula. mas alguns ficaram perplexos. por que eu deveria jogar limpo na aula daquele cara imbecil? Ainda bem que ele não era realmente o Magister Ludi. – Aos demais ignorantes que ficaram de recuperação. Eu e Sabrina caímos na risada. menina gênio – ele rosnou – eu não sei qual bruxaria você fez. Jogou a prova de Sabrina em cima da mesa dela. Enquanto todos os outros estavam tomados de espanto com a atitude inexplicável do professor. Eu tinha tirado exatamente a nota que eu precisava. Segunda-feira era o dia de recebermos as notas de recuperação. podem vir pegar suas provas. Após este pronunciamento. já que eles estavam em aula. Deviam estar tirando fotos escondidos com seus celulares que não eram permitidos em Castália. A maioria olhou-o com respeito e temor. Quando Junqueira entrou pela porta. Aproveitei e procurei a minha prova dentre as que estavam caídas no chão. ele saiu da sala e bateu a porta com estrondo. – Parabéns. Sabrina relatou a eles o que aconteceu. Agora eu não terei tempo de entregá-las e nem de dar aula para vocês porque precisarei dar um passeio por Castália. Afinal. “Quer saber? Eles vão ter que matar aula para ver isso!” 135 . todos saíram da sala para seguir Junqueira. certos alunos ouvintes pareciam que iam ter um orgasmo. É claro que eu e Sabrina também não perdemos a oportunidade.

No entanto. não adiantava dizer que tinha sido apenas uma brincadeira. fazendo reverência quando ele passava. Aquele foi um dia histórico. a situação nunca ficou completamente esclarecida e as teorias da conspiração logo começaram a surgir. Até um conhecido meu que detesta o Jogo de Avelórios não conseguiu tirar os olhos dele. – O que o verdadeiro Magister Ludi achou de tudo isso? Barata deu de ombros. Sinceramente. caramba! Nenhum outro Magister era tratado com tamanha pompa. até que se cansou e retornou para Cela Silvestre.. Eles achavam que a desculpa da brincadeira era apenas para que eles esquecessem da identidade do verdadeiro Magister Ludi. eu não sabia que isso ia gerar toda essa comoção! – Sabrina disse para mim depois – muita gente finge que não está nem aí pro Jogo ou pra Cela Silvestre. sob o olhar de espanto de todos os que o viram. Mas. “eles jamais esqueceriam o que viram”. É claro que aquilo deu o que falar. E eu presenciei isso ao vivo. Para esses. acho que não faziam tanta reverência nem mesmo para o papa..Wanju Duli Corri até a sala dos dois. muitos alunos de Castália ainda apontavam para Junqueira quando ele passava e o fitavam em tom de um respeito quase reverente. Junqueira levou mais ou menos uma hora caminhando entre as diferentes escolas de Castália. 136 . Alguns colegas deles também saíram. gente tapando a boca com as mãos. Posteriormente o pessoal ficou sabendo que tinha se tratado de uma espécie de trote e que aquele não era o verdadeiro Magister Ludi. segundo os estudantes. Por muito tempo. Pessoas chamando os amigos. Eu disse em poucas palavras o que havia acontecido e eles correram para fora da sala. Mas foi só um cara caminhar por Castália com os trajes em branco e ouro para todo mundo se mijar de êxtase. – Nossa. Pelo menos por uma coisa eu respeitava Junqueira: ele realmente cumpria suas promessas! – Essa foi a coisa mais genial que já vi desde que vim para Castália – Barata confessou para mim. ainda sem saber exatamente o que se passava.

– Pensando bem. já que ninguém tinha celular. Pelo jeito. 137 . perplexa. isso tudo deve ter servido para esconder ainda mais a identidade dele – observei – você não vai mesmo me contar quem é? – Espere mais um pouco. A professora nos requisitou uma tarefa curiosa para aquela meditação. Apesar de eu ter conquistado um belíssimo 7 na recuperação de meditação. Enquanto imaginei minha vida passada ao longo da meditação. Então era alguém que eu conhecia? Ou será que o Magister Ludi não tinha cara de Magister? Navarro também ficou sabendo da história. pois se ele descobrisse ela teria sido expulsa. Pelo visto. Eu inventei que fui uma poderosíssima xamã. aquilo tudo serviu para despertar ainda mais o interesse das pessoas no Jogo. A professora ficou impressionada com minha história. – Navarro está puto por ter perdido o espetáculo – contou-me Barata – ele não para de dizer: “Por que diabos ninguém me chamou?” Infelizmente aquilo não foi filmado. – Você está familiarizada com a biografia de Josef Knecht? – ela me perguntou. Mas eu tirei um 7. Descrevi com detalhes. Devíamos criar a história de uma possível reencarnação nossa. E a conversa terminou por aí.A Era do Folhetim – Se eu fosse o Magister Ludi. Junqueira provavelmente foi repreendido pelo que fez. Embora não tenha presenciado. Quando você descobrir. tirei um 5 na disciplina de símbolos. No mínimo. devido aos meus árduos esforços ao longo daquela semana. Felizmente. Que pena. acharia engraçado – disse Barata – duvido que tenha se importado. como se nada de anormal tivesse acontecido. mas eu duvidava que ele fosse ser seriamente prejudicado. Mas o mundo não era apenas flores. líder de uma aldeia repleta de mulheres fortes. Junqueira deu sua próxima aula no dia seguinte com muita naturalidade. vai cair pra trás. então não reclamei. Ainda bem. eu soube que Bruna contou a ele. – Não – respondi. não era possível ver o rosto. se conheciam. Era uma espécie de exercício. ele não havia descoberto o truque de Sabrina. já que eles eram da mesma escola. Mas algum aluno ouvinte tirou uma foto que vazou na internet.

Você só faz coisas limpas? Pensando bem. Mas após os dois primeiros meses de aula. posso falar mais livremente sobre isso. Comecei a inventar um monte de coisas na prova. Você já entrou em contato com eles? – Por que eu deveria? – continuei falando baixo – sociedades secretas são proibidas em Castália. – Não conheço a identidade de todos os membros porque comparecemos nas reuniões encapuzados – ela informou. Parei de sair por aí como uma desesperada pedindo ajuda. mas não sabia como. não sei porque perguntei isso. Eu e ela aos poucos nos tornávamos amigas próximas. Peixoto me deu um 5. Você já ouviu falar na “Amor Fati”? Fiquei intrigada quando ela mencionou. Sabrina não parecia se importar muito com coisas proibidas. Comecei a estudar sozinha. Como me foquei demais no treino de meditação e nos estudos de problemas do Jogo ao longo da semana. E logo para quem eu estava dizendo aquilo. Devo ter escrito um bando de bobagens sobre os significados dos desenhos. – Ótimo. Até que foi uma nota alta. Sabia mais ou menos o que esperar e como estudar.Wanju Duli concentrei-me tanto que devo ter parecido uma estátua. eu já estava vacinada: já conhecia o estilo de prova dos professores. – Eu não devia estar falando disso com você – comentou Sabrina – mas eu recebi um envelope estranho algumas semanas atrás. – Recebi o mesmo envelope – respondi. mas não me importo. – Esse é exatamente o tesão de fazer parte de uma sociedade secreta – disse Sabrina – eu queria ter entrado em contato com eles antes. Ele deve ter se divertido corrigindo. Consegui contatá-los apenas recentemente através da minha irmã. Tinha sido uma das raras vezes que eu realmente curti uma meditação. embora às vezes eu combinasse de estudar com Sabrina. Nesse caso. pois não estudei tanto assim para a prova dele. baixando a voz. – E o que vocês fazem nessas reuniões é jogar o Jogo de Avelórios? 138 . – Já os viu pessoalmente? – perguntei – é coisa limpa ou barra pesada? – Não sei ao certo. Pena que criatividade não contava muito ali.

. – Como assim? – perguntei. – Não quer nem dar uma olhada? Posso conseguir permissão para que você participe de apenas um encontro. mas sou louca para saber. – Eu já ouvi falar. eu estava me esforçando demais nos meus estudos para simplesmente ser excomungada. surpresa – eu não sei a identidade dele. Senti um frio na espinha. Para onde eu iria depois disso? Minha vida ficaria completamente sem rumo. especialmente nos dias de hoje. Afinal de contas. Eu definitivamente não podia arriscar ser mandada para fora de Castália. – Não. sem compromisso. – O que esse Jogo tem de diferente em relação ao oficial? Ela se aproximou um pouco e sussurrou no meu ouvido: – Nós fazemos jogadas proibidas pela Igreja. – Está correto – falou Sabrina – mas para que Castália tivesse o apoio do Vaticano. Aquilo não estava me cheirando bem. da música. a cada noite. inocentemente. Da última vez começamos com uma passagem do Decameron. – Ué. tiveram que entrar num acordo. O cara é muito foda. – Não quero ser parte disso – afirmei. – Por acaso o mestre desse negócio é bem baixinho? – perguntei. pois também trata de um grupo de amigos que. Relembrei do meu sonho. contam uma história. Sabe 139 . mas achei que fossem relações amistosas.A Era do Folhetim – Exato. Digamos que nos Jogos contamos histórias. Você sabe que a Igreja é uma das instituições mais poderosas do mundo. Senti uma sensação desconfortável. Eu não era católica e nem tinha medo da Igreja. Eu diria que a obra de Boccaccio é ideal para esses encontros. O tom decisivo com que eu disse isso fez com que Sabrina parasse de insistir. nervosa – por que a Igreja proíbe jogadas? – Você já deve ter ouvido falar das relações de Castália com o Vaticano.. como você sabe? – perguntou Sabrina. mas em diferentes linguagens: a da matemática. Apenas tive uma intuição de que me meter naquilo resultaria numa grande encrenca.

onde dormia. Foi o Barata quem te mandou pra cá? – Nem sabia que ele também estava envolvido nisso. O que a traz à minha escola? – Podemos conversar em particular? Ele disse alguma coisa em outro idioma pra outro cara e se afastou.. Especialmente ali dentro. Sabe quem ele é? – Sua irmã certamente sabe. Mas dali um ano ele completaria 24 anos e estaria formado.Wanju Duli muito e tem uma personalidade impressionante. Todo mundo lá sabia quem era Navarro. porque eu estou lotado de coisas.. tinham altas qualificações para tal. Só podia ser. Ora. – Alemão. Você pode me contar? – Não tenho certeza. É claro. 140 . mas eu devia ter imaginado. Aquele lugar devia estar cheio de frustrados que queriam ter se tornado jogadores de Contas de Vidro. – Ela não quer me dizer. Olhar para mim devia gerar neles um tipo de dor. Isso importa? Melhor ir direto ao seu assunto. Bem que Gio me avisou. Mais uma vez. – Não que hoje seja um dia excepcional – corrigi – é sempre impossível falar contigo. – Há quanto tempo. Navarro me reconheceu de imediato. Difícil acreditar que ele ainda era estudante. se duvidasse. eu me destacava de branco. principalmente agora que você inventou uma sociedade secreta. – Que língua estava falando? – perguntei. todos sabiam onde ele estudava. Vou conversar com ele antes. então você leu minha correspondência. No outro dia. fui até as escolas de música. meio bordô. sabiam até onde ele mijava. mas foram tentados pela música. Lá eles vestiam roupas em tom vermelho escuro. – Ah. Meu black power estava ainda maior e era sempre inconfundível. Quando perguntei por ele. Ele havia apenas entrado para a história e era uma lenda eterna de Castália. Santa. ele havia “apenas” criado a nova notação musical para o Jogo de Avelórios. Nunca vi igual. recebi vários olhares de reprovação. Deve estar bem ocupado.

– Obrigado pela permissão. então espero que você não insista. Se meus planos realmente envolvem coisas grandes. – Eu só queria entender – eu disse – por que passar por todo esse risco? É tão emocionante assim desafiar a Igreja? Nem achei que você ligasse para a Igreja. Foi um grande aborrecimento. Sabe que corre perigo. Não optou pelo Jogo por ser divertido? Não me diga que está buscando uma elevação espiritual. Obrigada por seu tempo. 141 . – Você se tornou um ser tão elevado assim que agora acha que qualquer tipo de diversão é trivial? – perguntou Navarro – estranho isso vir de uma aluna de Cela Silvestre. pois eu não acredito. Ele também devia estar estressado com os estudos. – Você é a minha mãe? – Não. Eu não ando muito receptivo a conselhos. Ele não respondeu. porque minha mãe veio me visitar anteontem aqui. – Ah bom. Ele estava sendo mais sarcástico do que o habitual. – Estranho você fazer alguma coisa apenas pela diversão – observei – não achei que fosse esse tipo de pessoa.. Ele apenas me fitou por um momento. E eu me retirei. – Entendi – eu disse – isso é tudo. – Eu não vim até aqui porque quero participar – expliquei – e sim porque quero te dissuadir dessa ideia. Apenas desviou os olhos. – Cuidado.. – Razão maior – ele repetiu – vocês e suas razões maiores.A Era do Folhetim – Vamos nos reunir amanhã às nove da noite na entrada leste. Miguel. – Estou me divertindo – ele respondeu – então não vou parar agora. Pode aparecer. Apenas vista um manto negro e cubra o rosto. – Não estou te criticando – eu disse – pode fazer o que quiser. Há alguma razão maior por trás disso. é evidente que não vou lhe dizer. – Diversão. – E quem disse que eu ligo? Estou apenas curioso para experimentar algumas possibilidades de Jogo que nunca pude tentar por causa dessas proibições sem sentido. curiosidade – repeti – você não é disso. pois você não é membro.

Sentei-me na grama ao seu lado e também bebi um pouco. Apenas seguidores. Entreguei a ele. – Não – ele disse – ela nunca fala nada. Navarro não parecia ser do tipo que tinha amigos. Quase como um Lúcifer que. Voltei para Cela Silvestre. ele me devolveu. irritada – ela nem estuda na nossa escola.. por causa do Sol forte. Me sinto em paz. É óbvio que não vai me ver.Wanju Duli Enquanto estava indo embora. Eu nunca conseguia conversar com ela direito. olhei para trás. Talvez fossem alguns dos membros da sociedade secreta ou apenas admiradores. Eu trazia um cantil de água na mochila.. Navarro havia voltado a conversar com os amigos. Não sabia que você estava envolvido com a Amor Fati. Bem que eu queria ver a Dani outra vez. só ia ficar desenhando sem parar e me esqueceria para sempre do Jogo das Contas de Vidro. – Vocês dois conversam sobre muitas coisas? – perguntei. Devia ser assim mesmo que ele queria. Ele estava usando um chapéu de palha enquanto desenhava. como diria John Milton. – Melhor não ficar aqui – ele sugeriu – se a Dani te ver. mas só agora que me dei conta que foi você que os fez. A gente só fica junto. Eu juro que se eu tivesse essa sua habilidade de desenhar. Barata riu. Optou por formar seu próprio Jogo em vez de ser um mero participante do Jogo oficial. Fiquei em silêncio por um momento observando a paisagem. – Conversei com Navarro hoje. – Ela que se foda – resolvi dizer. – Nova Castália é assim tão linda porque está cheia dos seus desenhos – eu disse – já tinha visto outros murais. preferia reinar no inferno a servir no céu. – Obrigado. 142 . mas sua simplicidade era adorável. Depois de beber longos goles. Castália era simples.. bebendo golinhos d‟água. – Não fica incomodado com isso? – Na verdade não.. Vi Barata pintando um mural enorme lá fora. Estava rodeado de amigos e se portava como um líder.

– Mas. Ela era elegante. Eu tive que repetir a disciplina sobre o estudo do significado dos símbolos. Eu odeio professores que fazem isso. como se estivesse achando ótimo o que tinha acontecido. comecei a ter novas aulas. – Johann Albrecht Bengel foi um teólogo luterano nascido em 1687. Ninguém se atrevia a chegar um minuto atrasado na aula dela ou sair um minuto mais cedo. Seus longos cabelos negros tinham fios brancos. a enciclopédia humana. Ninguém gostava de Pedro.A Era do Folhetim – Só estou envolvido porque Miguel me chamou – confessou Barata – pois não estou assim tão interessado. E saiu da sala. Ela já devia ter mais de cinquenta anos. Ainda bem que eu gostava do professor Peixoto. Sua expressão era de meter medo. Um colega meu levantou a mão. – Eles estão brincando com fogo.... Sabrina olhou na minha direção e vibrou. – Odeio gênios na minha aula – ela prosseguiu – então pode se levantar e se mandar daqui. tendo sido também um educador que deixou profundas influências morais em. 143 . Pedro Mendes. ela apontava para um aluno aleatoriamente e o mandava falar. Tinha uma beleza madura. Ainda bem que Pedro não foi burro de discutir com ela. – Cale a boca – disse a professora – não permiti que falasse.. – Hoje vamos falar sobre Bengel – disse a professora – quem gostaria de começar? Se ninguém levantava o dedo. Eu só queria ficar quieta no meu canto. né? – Alguma vez nós brincamos com outra coisa? Será que era só eu que tinha um mau pressentimento sobre a sociedade? Alguns meses depois. Pedro ficou da cor de um tomate. caralho. O nome dela era Cláudia Garcia. Havia essa professora impressionante. Eu já tinha ouvido muitas histórias sobre ela. O olhar dela se parecia um pouco com o olhar da Dani: fuzilava qualquer um que a fitava. Tinha uma voz grave e penetrante.

O problem é o tipo de gente que pisa lá. mamys – disse Gio. – Pior que esse grupo anda atraindo muita gente – prosseguiu Gio – quanto mais os boatos se espalham. confusa. Nos sentamos no chão. – Deixa eu te apresentar – disse Gio. 144 . vi Gio entrar na sala. Nós saímos do prédio. Tudo bobagem. – São os puxa-sacos dele? – perguntei. Definitivamente eu não queria pisar lá. mais gente se aproxima. Mas o Miguel convidou um monte de panacas. – Por aí – disse Gio – fazem tudo o que ele manda! E se acham os malvados fodões porque estão quebrando regras. – Só fui num único encontro da Amor Fati. – Onde tem andado? – perguntei – aquela tal de filosofia é tão quente assim? – É uma vadia – disse Gio – mais puto que ela só o teu Jogo. porque o Miguel me obrigou – explicou Gio – mas achei tudo muito chato. – O que está fazendo aqui. – Amiga! – exclamei. E nós duas nos abraçamos. O Miguel só permite porque no fundo ele curte que eles o adorem como um Deus. – O Jogo não foi emocionante? – Foi sim. – Só passei para te dar um oi. Miguel sabe o que faz. Ele anda saindo com uns babacas. Uma droga. como se eu fosse uma patricinha. perto da entrada. – Mamys? – perguntei.Wanju Duli Quando a aula da professora Garcia terminou e a maior parte dos alunos já tinha saído. que fornica com todas as áreas do conhecimento. – Vamos conversar lá fora – disse Gio. Giovana? – perguntou a professora. me puxando pela mão. Eles estão estragando tudo. Ele é um bom líder e é inteligente o suficiente para coordenar um Jogo elevado e manter a ordem. abraçando a cintura da professora – essa é minha mamãe! Cruz-credo! Ela era filha da bruxa. Tem até rumores sobre orgias e evocações de demônios. empolgada. Sussurrei no ouvido dela: – Você é membro da Amor Fati? – Deus me livre! – disse Gio – e que o Diabo também me livre.

E ele já é famoso sem o capuz. – Porque o Arthur é um dos únicos amigos de verdade que o Miguel tem – disse Gio – e escreve o que te digo: o Arthur vai ser o único a defender o Miguel se der alguma merda. sem levantar. aí sim que o pessoal enlouquece.. Eu e Gio levantamos. Quando Junqueira passou. 145 . ele está posando de Magister Ludi – confirmou Gio – e como ele não mostra o rosto e está sempre de capuz. Eles só fingem que não sabem pra manter a atmosfera de mistério. – Sim. – Eu não sei muita coisa ainda – conformei-me. Já sua segunda prova era ligeiramente mais acessível. Todos os outros vão desaparecer quando o circo pegar fogo. – Por que o Barata também dá corda? – perguntei. ou eu também teria me desesperado. E agora. Ainda bem que já fui para a aula sabendo disso. Gio gritou. pai! Foi bom te ver! Junqueira fez uma careta e seguiu pelo corredor. rindo. eu finalmente conheci o lendário Gustavo Alvim: o professor conhecido como o mais terrível. Agora ele vivia com um monte de gente ao seu redor. que havia chegado naquele exato instante.A Era do Folhetim – O “Magister Umbra” – lembrei. Levantem daí. Estão bloqueando a entrada! Quem disse isso foi o Junqueira. – Você estão no caminho.. Mas no fundo todo mundo sabe quem ele é. podem fazer o favor de sair? – Se pede com jeitinho. Na segunda-feira seguinte. É raro um cara ser da altura do Miguel. Durante o dia o Miguel caminha em bando com seus seguidores. em alto e bom som: – Tchau. – Como foi ser Magister Ludi por um dia? – perguntou-lhe Gio. Ele sempre fazia uma primeira prova em que todos os alunos tiravam zero. apenas para apavorá-los. – Horrível – respondeu Junqueira – estou aliviado por ter me livrado desse fardo. Essa era outra coisa que eu tinha presenciado. – Também não sabia que ele era meu pai? – perguntou Gio. – Uau – eu disse.

mas não era negro: era albino. 146 . Ninguém nunca tinha se interessado em se aproximar o suficiente para conferir. – Efe-efe-cofe – ele prosseguiu – contas. Alvim não falou mais em português. com um brilho meio vermelho. sou o professor de hieróglifos do Jogo das Cofefe-cofe-cofe! Ele fez um som estranho que se parecia vagamente com uma tosse. Os olhos eram cinzentos. Mas ele não parecia o Papai Noel. careca. parecia que tínhamos chegado ao paraíso. Parecia um demônio de olhos vermelhos. E da vida de todos ali. enchendo Pedro de cuspe – mas eu realmente detesto gênios. deve ter sido a aula mais longa da minha vida. dessa vez parecendo aliviado. com sobrancelhas longas e brancas. era uma tarefa homérica. Com aquelas tosses. Sem escolha. Sabrina me lançou um olhar nervoso. uma cor indefinida. De fato. – Que menino mais inteligente!! – ele berrou. para ajudar – o senhor está falando do Jogo das Contas de Vidro! Alvim aproximou-se de Pedro e o olhou bem de perto. ajeitando os óculos pequenos na face. Ele tinha belos traços de origem africana na face. Eu já tinha uma enorme dificuldade em entender qualquer frase naquele idioma. Devia ter mais de 90 anos. Depois disso. com uma voz rouca misturada com acessos de tosses a cada dois minutos. Pedro levantou-se e saiu. efe-cofe-fifofó! OFOFÓ!!! – Nós já entendemos. – O que foi isso? – perguntou Sabrina – esse cara é mesmo professor daqui? Ou será que é um trote? – Ele é – garanti – mas deve ter dado a primeira aula inteira no idioma do Jogo só para assustar os novatos. professor – disse Pedro. Aposto que a segunda aula será diferente. Parecia estar louca que aquela aula terminasse. com uma barba extremamente branca. Sua barba branca era bem crespa. Quando fomos liberados da sala. Então saia da minha sala.Wanju Duli Alvim era um sujeito muito gordo e baixinho. – Para quem não me conhece. Ele prosseguiu falando no idioma do Jogo.

Foi tão fácil que eu literalmente dormi. Eu nem me estressei. E. Eu não sei direito o que ela estava fazendo. Ela tinha um sorriso muito bonito. a única coisa que Cavalcante ensinou por duas semanas inteiras foi que 1+1 era igual a 2. isso é uma linha. – Astronomia pode parecer difícil. isso é um número. Então eu deixaria para começar a estudar a partir da segunda prova. Nunca entendi absolutamente nada da aula de Alvim. Ouvi dizer que ela tinha mais de quarenta anos. Estava sempre de bom humor e tinha um ar jovial. ela era nossa professora de astronomia. Ela começou a rabiscar no quadro. Quando acordei meia hora depois. com sua voz suave. A voz dela era tão meiga e calma que eu senti que dormiria. Provavelmente a proposta dela era explicar a geometria euclidiana para alunos de jardim de infância.A Era do Folhetim Mas não foi. Aquela primeira aula dela deixou todos boquiabertos. Aquela mulher era tão lenta que tudo que ela fazia me dava vontade de pegar no sono. Só comparecia para contar presenças. Era um completo mistério para mim se ele realmente estava dando uma aula ou apenas falando “Grawlrrgrrgblasrarrg”. até onde eu sabia. Muito interessante. E assim foram minhas próximas semanas: Peixoto dava aulas exatamente iguais às que eu já tinha assistido e eu me sentia num déjà vu. baixinha e negra. mas antes de ensinar isso resolveu revisar aritmética e geometria. 147 . Quase não tinha peitos. isso é um círculo”. como os de Sônia. Mas ela tinha voltado um pouquinho demais nos fundamentos. mas ela aparentava bem menos. pois era como se ela estivesse nos ensinando a somar dois mais dois. mas vocês verão que ter uma boa base de aritmética e geometria tornará tudo bem simples – ela disse. E tinha longos cabelos negros em trancinhas. Outra professora nova que tivemos foi Liliane Cavalcante. Ela era magrinha. Todas as aulas dele eram daquele jeito. pois sabia que tiraria zero na primeira prova como o resto da turma. Não se tratava de nehuma brincadeira. Ou seja. ela ainda não tinha saído da mesma explicação de antes. “Vejam.

haveria a cerimônia do Jogo de Avelórios. Sim. Eu não precisava estar sempre no controle de tudo. fosse para o bem ou para o mal. através de uma sessão de meditação ao sinal dado pelos sinos. Na verdade. Porém. Em breve. que no Brasil era na véspera de Ano Novo. também chamado de pedagógico. entre os dois extremos. tendo menos como objetivo a forma e 148 . Barata e Boaventura estavam ansiosíssimos para saber as minhas impressões sobre Alvim e Cavalcante. Eu finalmente teria permissão de assistir a uma cerimônia pública dos grandes jogos. mas isso não era uma coisa terrível. E eu me localizava em algum lugar lá no meio. Gio e Barata já iam se formar. Também há beleza naquilo que não se encaixa. As cerimônias se iniciavam na noite da véspera do Jogo.Wanju Duli No fundo. Não era apenas para isso que eu havia vivido até aquele dia? Feito tantos sacrifícios? Eu tinha um pouco de medo de me desapontar. E aceitar as que não se encaixassem. o Jogo não era como eu imaginava. como se estivesse nos tratando como babacas. Mas antes disso. Contemplar a beleza das peças do cosmo se encaixando em vez de encaixá-las à força. eu não deixava de achá-la um pouco irônica. Aquele ano passou muito depressa. Eu não devia ter tanto terror assim perante o desconhecido. Aquele seria um jogo do tipo psicológico. o Jogo era exatamente uma tentativa de não estar no controle: sentir o espírito das contas. Foi então que eu lembrei da conversa que tive com minha professora. – Sua definição foi perfeita – assentiu Boaventura. Navarro. seu sorriso era tão sincero que ela realmente devia achar que nós não sabíamos nada daquilo e que sua aula estava ajudando muito a fortalecer nossas bases. Podia ser que o Jogo não fosse assim tão grandioso quanto eu fantasiava. Quase como um Tao. harmonizar-se com o universo exatamente do jeito que ele era e não do jeito que eu gostaria que fosse. – Eles são como dois extremos de uma linha que nunca se encontram – falei. Por isso meu cérebro não era capaz de processar nem uma aula e nem a outra.

A Era do Folhetim mais a emoção da perfeição e do divino. A Venerável Mestre traçou no quadro o código cifrado do Jogo com seu estilete de ouro faiscante. mas eu havia preparado meu corpo e minha mente. que entraria numa profunda meditação sobre as representações polidimensionais do Jogo das Contas de Vidro. mesmo que se iniciassem a partir dos mesmos temas e tivessem os mesmos jogadores. Havia os trechos de silêncio. Era a primeira vez que eu pisava lá. Foram anunciados os temas em detalhes. tamanha era minha ansiedade. Este seria o ponto de partida e daí seria direcionado para a evocação das ideias próximas. Havíamos meditado sobre o tema do Jogo. Um Jogo jamais era igual ao outro. Quase não consegui dormir naquela noite. todo o recinto ficou em silêncio. No fim do primeiro ato evocou no quadro a fórmula repleta das leis intangíveis do Jogo. A obra de Scarlatti continuava a tocar ao fundo pelos mais elevados jogadores conhecedores da música. Após o som dos sinos. mas eu mal conseguia pensar nele. aqueles em que somente havia a música. Finalmente. eu também conseguiria. a ocasião sublime: a entrada do Magister Ludi vestido de branco e ouro no tabuleiro solene dos símbolos. Se os ouvintes do mundo secular conseguiam suportar. que seriam dois: trechos do “Três Diálogos entre Hylas e Philonous” de George Berkeley e a composição “Fandango” de Domenico Scarlatti. No dia seguinte pela manhã ocorreria a primeira fase do Jogo: aquela das representações musicais. A Sombra da Venerável correu a cortina em volta da Mestre. Todos mergulharam numa profunda meditação no interior da célebre sala oficial dos Jogos. 149 . Viveríamos uma vida de rigorosa abstinência ao longo dos próximos dias. somente recitações ou uma combinação de música e recitação. faríamos um voto de silêncio e meditaríamos por longos períodos. Era minha primeira vez. Sabia que estava cercada de algumas das pessoas mais importantes desse mundo e do outro. comendo pouco e somente alimentos simples e permitidos. Realizaríamos alguns jejuns prolongados. Seria a manifestação da arte e do creator spiritus.

havia se partido do período Barroco. matemático e plano. O início do Jogo era previamente programado. Nº8”. 6. Tornou-se um coro e ele era cantado pelos mestres eminentes. Encontre outros dois números diferentes em um presente. Contudo. houve a recitação da troca de cartas entre Tartaglia e Cardano. contanto que a harmonia fosse mantida. Após as demonstrações. O mais importante era ter ganchos que conectassem uma obra e outra. mas ora andavam para frente. a recitação passou a ser entoada e transformou-se em outra coisa. Em certo momento houve não somente a recitação. tanto as musicais quanto as filosóficas e literárias. Em seguida. A música agora era “Arcangelo Corelli”: “Vivace-Grave e Allegro do Concerto Grosso em sol menor Op. mas a atuação do poema “La Galatea” de Miguel de Cervantes. que rumo o Jogo tomaria ninguém nunca sabia ao certo. Num momento ideal de “La Galatea”. a Magister Ludi dirigiu-se ao quadro negro e passou a dar explicações matemáticas sobre a obra de Tartaglia. ora para trás. num barítono. como se o sabor do tempo não corresse de forma retilínia: não somente um presente eterno. ao menos o começo do primeiro dia. mas não havia problema algum em se retroceder alguns séculos ou se avançar. Os atores vestiam trajes ao estilo da época. Nesse caso. localizavam-se mais ou menos no período Barroco.Wanju Duli De repente. 150 . seguido da recitação subsequente do poema de Tartaglia. As obras. Berkeley continuou a ser recitado baixinho no fundo. que começava assim: Quando o cubo e coisas juntas São iguais a um número discreto. você vai manter isso como um hábito Que o seu produto deve sempre ser igual Precisamente para o cubo de um terço das coisas. mas agora David Hume era cantado mais alto: “Diálogos Sobre a Religião Natural”: somente trechos selecionados que se harmonizassem com a música.

“Seu filho da puta” era o que deviam estar pensando. sua emoção e principalmente seu espírito. decoraram trechos longos e inteiros de livros de literatura. cujas características mais importantes não deviam ser apenas ter um profundo conhecimento sobre diversas áreas do saber. O fato de haver muitos auxiliava que o Jogo se estendesse por um longo período. um dos jogadores começasse a recitar um poema de Gregório de Matos. no teatro ou em muitas outras áreas possíveis. mas principalmente ser 151 . Se. alterando também a recitação. Eu vi a expressão dos outros jogadores quando Peixoto fez aquilo. a dança. filosofia. uma cadência bem pensada. Nessa ocasião. ou mesmo estudaram explicações de matemática ou física. Inclusive. quanto mais jogadores mais instável o Jogo se tornava.A Era do Folhetim Uma vez decididos os dois temas iniciais. Aquilo era totalmente permitido. Era comum que alguns fizessem brincadeiras para se aproveitar disso. Os jogadores não sabiam de antemão o que o outro ia fazer. para que o Jogo mantivesse sua lógica. Porém. pois a qualquer momento um deles poderia ter uma proposta ousada que os outros teriam que seguir. havia oito jogadores além da Magister Ludi e sua Sombra. pois nunca se sabia para onde o Jogo os direcionaria. pois o Jogo não podia parar por muito tempo. precisava ser coordenado por um Magister Ludi muito competente. o outro teria que pegar um gancho e seguir com um segundo elemento semelhante. mas. Em compensação. com muita graça. Não era como ensaiar uma peça de teatro ou um concerto sinfônico. de repente. O mais parecido com isso era aquela brincadeira de pensar numa palavra com a última letra da palavra que a outra pessoa falou. sem falar na música. mudavam harmoniosamente o tom da música para que se encaixasse. mas que provavelmente era de um artista de mais de 500 anos depois. Devia-se sempre manter um ritmo. já que o Jogo era produto da atuação de cada um dos jogadores. Eu sabia que o professor Fábio Peixoto era um grande fã de pregar uma dessas peças e pude presenciar ao vivo o momento em que aconteceu. Ele introduziu um simbolismo no meio do Jogo que tinha relação com o Barroco. os mestres eminentes previamente estudaram a fundo nos meses anteriores várias obras relacionadas ao período. Aquele estudo era preciso. história.

não participássemos diretamente nas escolhas de temas e passagens. Confesso que eu perdi muitos dos encaixes e explanações. Esse Jogo em particular durou seis dias. Antigamente os Jogos duravam longas semanas. geralmente tidas por um grande número de pessoas como inegavelmente sublimes e belas. A carne eram as diversas áreas do conhecimento e a pele que as cobria os hieróglifos do Jogo. Meditar também tem forte apelo emocional. Era tudo muito bem pensado para nos gerar um êxtase maior do que qualquer coisa que conhecíamos. que éramos apenas plateia. As religiões sabem disso muito bem. Tudo faz sentido: nossa vida se encaixa com o cosmo. pois nosso corpo estava alterado. a duração era em torno de uma semana. assim como nossa mente e. que possuíam uma gramática própria. pelo menos era requisitada a presença do Venerável Mestre. Uma das maiores emoções de assistir a uma partida do Jogo das Contas de Vidro era presenciar o momento em que as coisas se encaixavam: mais especificamente. Depois 152 . mas isso se deveu principalmente ao meu desconhecimento dos hieróglifos. Atualmente. Os jogos públicos de Castália normalmente eram realizados por no mínimo três jogadores. da Sombra e de mais um mestre eminente. as transições de uma música para um poema ou de uma explicação matemática para uma demonstração de química. Eu não estava acostumada a comer de maneira tão frugal e a realizar meditações tão longas. Some-se a isso uma série de demonstrações da cultura clássica. Elas se encaixam. A matemática e a música eram como o esqueleto que sustentavam todo o resto. era possível jogá-lo sozinho. E ali estavam pessoas que dedicavam a integridade de suas vidas para encaixar as coisas e nos proporcionar aquele espetáculo divino. mas isso raramente era feito. Depois passaram a durar 10 ou 15 dias. nosso espírito. Jejuns longos já nos deixa alterados.Wanju Duli justo com todos os jogadores e valorizar mais a harmonia do grupo do que o destaque de apenas um. Ou seja. nós vivíamos o Jogo. Sim. Por isso Castália valorizava o ideal do anonimato: porque o Jogo de Avelórios era jogado por um grupo e não por uma única pessoa. consequentemente. Embora nós.

Eu ainda estava num estado de quase desmaio. Quaisquer traços de desconfiança tinham se apagado. Com a finalização das celebrações. sem mal conseguir caminhar. E aquele êxtase que eu sentia era minha alma penetrando em cada átomo do meu corpo.? – perguntei. eu senti mais lágrimas. aquela tinha sido minha iniciação: eu havia rompido a barreira e penetrado em outro mundo. A mente pode esquecer de uma sensação. eu me sentia mais viva do que nunca. fadiga da mente. Dessa vez elas vieram como um mar.A Era do Folhetim de passar seis dias naquela reclusão ascética. como não sentir o espírito? Nós o sentíamos mais forte do que nunca.. Eu estava com uma expressão vazia. Se ao menos eu não tivesse conhecido aquele prazer. Pensei que fosse Sabrina. O que era aquele sentimento inexplicável? Cansaço extremo do corpo. Ela estava chorando também. Porém. nem se desejasse. Estava consciente de cada pequeno pedaço do meu corpo. “Ela está perto da morte. Nem mesmo a emoção que eu sentia ao ler livros se comparava àquele balanço da alma que envolvia meu ser inteiro. Tratava-se de um caminho só de ida. 153 . Ao mesmo tempo. – Que está fazendo aqui. com voz fraca. eu me sentia tão cansada que achei que poderia morrer. Mas agora não tinha mais volta. Confesso que derramei lágrimas de êxtase em diferentes ocasiões ao longo das celebrações. Foi quando senti alguém tocar minha mão. O corpo pode esquecer de uma dor. Não havia mais a mínima dúvida dentro de mim. sentindo meu corpo inteiro formigando. Minha mente fervilhava ao contemplar a inteligência daqueles gênios bastardos que eram os meus professores. Era como se minha alma percebesse que meu corpo e minha mente estavam falhando.. me dando aquele calafrio. como se minha alma vazasse pelos olhos. Mais do que assistir a meu primeiro Jogo. em todas as suas dimensões. Aquelas criaturas que eu via no dia a dia fazendo piadas escrotas em aula agora me pareciam Deuses. se eu não soubesse que fosse possível. E ali. eu poderia retornar à minha velha vida ou mesmo à minha bela literatura. Eu não seria mais capaz de retornar. quem me abraçou foi Sônia. quase caída no chão. Mas o espírito nunca mais esquece após ser tocado. Vamos começar a percorrer seu ser inteiro para levá-la ao outro mundo”.

ainda com voz rouca. Nos levantamos juntas. Ela riu comigo. Ou mesmo se tivesse pisado. Eu ri.. Porém. pois fui a melhor de minha classe – contou Sônia. “Morrerei aqui”. que estavam muito animados enquanto comiam seus ovos com bacon. – Castália será nosso túmulo – eu disse. Mas quem fazia isso era quem já jogava há muito tempo. Morrerei aqui. eu jamais teria chegado tão longe. Maria. – Consegui um ingresso especial para assistir ao Jogo. Pensei que eu fosse precisar de umas 15 horas de sono para me recuperar daquela experiência de quase morte. Pronunciar isso me dava uma inexplicável alegria. Morarei aqui para sempre. É tudo que posso dizer. – Obrigada. apenas as sete horas habituais já fizeram o serviço. Nem mesmo eu havia planejado minha vida tão longe. Não teria nem mesmo pisado nas escolas preparatórias. – foi tudo que consegui dizer. Isso era forte.Wanju Duli Fazia seis dias que eu não usava minha voz. consegui me levantar. então ele queria aproveitar cada momento como aluno em Cela Silvestre. Se não fosse você.. já as teria abandonado há muito tempo. ainda sem ter certeza se eu me recordava como se ria. – Maldita. Finalmente. Sentei-me com Barata e Boaventura. Foi estranho ouvir a mim mesma outra vez. Eu me sentia como alguém que nunca praticou esportes e de repente decide correr uma maratona por horas seguidas: cada parte do meu corpo parecia quebrada. Em apenas dois meses Barata iria se formar. – Eu disse que pretendia sair de Castália depois que me formasse aqui – disse Sônia – mas agora decidi que não vou mais. Tomei um café da manhã reforçado no refeitório e já me sentia muito bem. orgulhosa. Eu precisava de comida de verdade e de uma longa noite de sono. Ter a Sônia ao meu lado no momento mais importante da minha vida era muito mais do que sonhei. Era normal que muita gente fosse discutir o Jogo e debater as jogadas logo depois que ele terminava. 154 .

sobre problemáticas de nível intermediário do Jogo. Eu não sabia que ele era assim tão bom. Ela estava. Dessa vez. Essa querela de forma! Eu teria mais uma aula com Liliane Cavalcante em janeiro. – Peixoto detesta Deus? – perguntei. fiz uma breve reverência. porque ele relaciona o Infinito Absoluto com Deus. se referindo a Peixoto. – Digamos que essa intervenção gerou uma interferência. 155 . Domine – eu disse. O Peixoto detesta o Cantor. essas coisas são mais relevantes na versão formal do Jogo. Posteriormente descobrimos que aquela pintura havia sido feita pelo próprio Peixoto. Quando a vi entrando pela porta.A Era do Folhetim – Vocês viram a cara do Junqueira quando Peixoto fez aquela troça no segundo dia? – perguntou Barata – e repararam que o Junqueira contra-atacou para se vingar? – Eu reparei – disse Boaventura – ele meteu o Georg Cantor no meio. Mas. A pintura deve ter gerado um nó no cérebro de todos os participantes. colocou a própria pasta na mesa. então disfarçaram. A Domine deixou bem claro que este era um Jogo psicológico. sorrindo. – Quem era aquele pintor que o Peixoto enfiou no Jogo? – perguntou-me Sabrina. obviamente. Agora eu entendia melhor as expressões de horror dos outros jogadores quando a viram. já que o Cantor é do século XIX – disse Barata – e as crianças queriam ficar pulando corda apenas no Barroco e nos arredores. – Não tenho a menor ideia – eu disse – não há internet aqui e a maior parte das informações dos livros são dos célebres nomes do século XXI para baixo. que se perguntaram: “Quem diabos é esse pintor?” e ninguém queria admitir que não sabia. Ele fez uma obra bastante realista inspirada no Renascimento. sinceramente. – Magnífico Jogo. E. – Eu juro que vou acertar aquele peixe com uma vassoura – ela falou graciosamente. – É pior – disse Boaventura – ele detesta o Infinito Absoluto. Aquilo continuaria a ser comentado por pelo menos mais uma semana. na qual se busca uma utópica harmonia densa perfeita.

enquanto na Inglaterra o formalismo é preferido. que quando criança foi pessoalmente instruído pelo lendário Magister Ludi Josephus III. Eu preferi não me meter na discussão. Você considera negativa a influência alemã? – Não é que eu considere negativa – explicou Boaventura – mas por aqui só se fala na Alemanha: os Jogos alemães. – Não sei porque o Miguel ainda não o expulsou da Amor Fati – comentou Boaventura. – Eu sei porque você está zangado – Barata sorriu – é por causa daquele amigo do Navarro: Tito Designori. Mas até parece que ele ligava para isso. É quase como uma guerra entre razão e emoção. Se você continuar falando isso em voz alta por aí. enquanto na Inglaterra o foco está na analítica. Para isso. – Eu acho que essa divisão entre filosofia continental e analítica gera uma segregação desnecessária – comentou Barata – e essa separação também se reflete no Jogo de Avelóros. estou de saco cheio. Eu tiraria meu chapéu para ele. 156 . Pensando bem. tinha abdicado de sua vontade de tornar-se Magister Ludi um dia. Fazer isso numa cerimônia oficial pública do Jogo era extremamente ousado. – Cara. Basta olhar para a filosofia: na Alemanha e na França predomina até hoje a filosofia continental.. Mas não sei se entendi seu comentário. também fiz uma breve reverência. vai se dar muito mal. ele se encaixava perfeitamente como Sombra. Eu estava olhando para ele de forma diferente agora. Por isso até hoje o Brasil foca nas versões psicológicas do Jogo. cala a boca – disse Barata – não julgue um país por causa de uma única pessoa. num tom de voz ligeiramente mais baixo – esses alemães chegam no Brasil pensando que aqui é tudo festa e não precisam cumprir regras..Wanju Duli Realmente. – Eu acho que a Nova Castália brasileira é muito influenciada pela sede alemã – comentou Boaventura naqueles dias – o Jogo teve origem na Alemanha e na Inglaterra e os dois países seguiram estilos diferents. sinceramente.. Quando fitei Alvim no corredor.. o Magister Ludi alemão. Só por causa da lenda do Josef Knecht. o professor Peixoto era um gênio. Boaventura fez uma careta.

a maior parte da população de Nova Castália ainda era de brasileiros. 157 . Eu lembrava que tínhamos uma professora austríaca chamada Lisa Bauer. mas o cristianismo não está muito atrás. a minha antiga tutora das escolas preparatórias que era das Filipinas. Embora eu pessoalmente não tivesse feito amizade com nenhum estrangeiro com exceção da Mariel. Nem vou falar de certos países islâmicos em que isso já é rotina há alguns séculos. – É tão mais legal assim jogar o Jogo das Contas de Vidro incluindo jogadas proibidas? – perguntei. mofando. elas não vão tirar os olhos dessa única coisa. Ainda assim. Só porque é grátis e acessível ninguém quer saber. A Sônia me contou que tinha uma professora da Colômbia e outra de Cabo Verde. retornou com alguma força alguns anos atrás. As pessoas só têm olhos para as diversões caras e brilhantes. Éramos estudantes das escolas preparatórias quando aconteceu e por isso a notícia não chegou aos nossos ouvidos. – Do que está falando? – perguntei. 99 delas forem permitidas e apenas 1 proibida. – Você sabe como as pessoas são – disse Barata – se existerem cem coisas para se fazer no mundo. mas o papa recentemente promulgou uma nova versão do Índice dos Livros Proibidos. mas ainda não havia tido aula com ela. Preferem até os livros bonitos e cheirosos das livrarias mesmo que tenham que pagar por eles do que retirar um livro amarelo e feio de uma velha biblioteca esquecida. – Tenho uma ideia – eu disse – vamos proibir as pessoas de lerem livros! Os livros sempre estão lá de graça nas bibliotecas. – Index Librorum Prohibitorum – pronunciou Barata – embora formalmente abolido em 1966.A Era do Folhetim Havia muitos estrangeiros na nossa Castália. Não sei se você está sabendo. eu sabia que existia uma xenofobia velada em Castália. É costume que livrarias e bibliotecas sejam rigorosamente vigiadas pelas autoridades em muitos países. Barata respirou fundo. – Cuidado com o que deseja – ele disse – você sabe que livros já foram proibidos e ainda o são até hoje. O islamismo é a religião que mais cresce no mundo hoje. já que as notícias chegam de forma lenta aqui em Castália.

Pode ser que não toquem em nossos acervos ou nos Arquivos do Jogo. a Inquisição ainda persiste até hoje.. Muitas obras clássicas do passado possuem forte influência religiosa e nós as amamos naturalmente. eles diriam – falou Barata – mas isso não é o pior. Por essa razão. sem muito esforço. são apaixonados pelo estudo.Wanju Duli – O que isso significa para Castália? – perguntei – vão proibir obras em nossas bibliotecas? E o que vai acontecer aos nossos Jogos? – Isso ainda está sendo negociado – disse Barata – o Vaticano está tentando ser razoável. mas por outro nome: “Congregação para a Doutrina da Fé” – disse Barata – sobre ela e o Malleus Maleficarum. – Você está sendo romântica – comentou Boaventura – a Igreja não está interessada em romance. – Calma – disse Barata – é exatamente por causa dos dominicanos que o Vaticano e Castália possuem uma relação tão boa. Porém. a Inquisição? – perguntei. – Você quer dizer. – Sempre os dominicanos. muitos deles apreciam a beleza do nosso Jogo. Ele pretende formar uma força de resistência? 158 . Não quer que seja promovido o amor baseado na intelectualidade dos seres humanos e sim que se fortaleça o amor entre nós e o divino. um ano atrás foi feita uma exigência para que nas cerimônias formais dos Jogos da Província seja mostrado um número mínimo de obras com influência católica. você sabe que os dominicanos estão por trás disso. O Martelo das Bruxas renasceu das cinzas. – eu disse. – Entendi porque Navarro fundou essa sociedade secreta – falei – foi como uma reação ao Tribunal do Santo Ofício. – De uma forma bastante heterodoxa e indireta. Digamos que os dominicanos representam o lado intelectual da Igreja Católica: eles amam os livros. – Essa exigência fere nossa liberdade – argumentei – além do mais. – Teoricamente. Não sei porque colocar números nesse amor. – O Jogo já promove isso – eu disse. isso já é feito normalmente. não é? Eu suspirei.. os inquisidores que compilaram o Malleus Maleficarum eram dois alemães membros da Ordem dos Pregadores: Heinrich Kramer e Jacob Sprenger. Inclusive.

normalmente dois ou três. E. No entanto. Barata. Eu estava lendo a biografia do Magister Ludi Josephus III. Os jovens. estão sempre ardentemente desejando as férias e a liberdade. os estudantes. ela poderia evitar ser individualista. acima de tudo. ele apenas retornaria para a segurança de sua abastada família. as novas diretrizes impostas pela Igreja estavam ameaçando tanto nossa liberdade individual quanto a nossa liberdade como grupo. Havia um trecho que relatava uma conversa que Josef teve com o Magister Ludi da época. como se fôssemos o único ser no mundo e somente meu prazer momentâneo importasse. mas poucos. porque o termo “liberdade” é incrivelmente sedutor. Após finalizar seus estudos em Castália. “por algum tempo”. “Vou fazer o que quero”. já que esse período não poderia se estender além da conta. seria aceito como professor de música em qualquer universidade brasileira. Josef” Agora eu já podia retirar livros de certas bibliotecas restritas de Vicus Lusorum. mas isso não significava que não pudesse ter sua individualidade. isso deveria ser discutido com o Magister de cada escola. Com o diploma de Castália que ele estava prestes a receber. Caso Navarro fosse excomungado. poucos meses depois. Navarro e Gio se formaram. cá entre nós. ele permanecera pelos últimos 12 anos estudando música nas escolas de elite preparatórias e nas Grandes Escolas de Elite. “Algum tempo? Quanto tempo? Ainda falas a linguagem dos estudantes. como me disse Sônia uma vez. Agora eles teriam direito a um período de estudos livres. Porém. Thomas von der Trave. Contudo. 159 . eu diria que essa seria a coisa mais segura que pode acontecer. Em Castália não éramos apenas uma existência independente: éramos um grupo. Era preciso harmonizar os dois: o eu e o outro. mas em casos especiais podia ser estendido por alguns anos. ele será imediatamente excomungado – disse Barata – mas.A Era do Folhetim – Se as autoridades de Castália descobrirem o que Miguel está tramando. de fato. Normalmente durava alguns meses. Josef requisitou um período maior de estudos livres. Afinal. Seria uma estrela lá fora e teria uma carreira de sucesso. mas não soube dizer o quanto.

Mais um ano se passou. pois eu não me preocupo – disse Navarro – comecei isso porque quero e pretendo lidar com as consequências. – Não quero ir para a Itália. nesse ano teríamos uma convidada especial: a papisa Catherine I.. Navarro me fitou com o canto do olho. Arthur? Você é pintor e pode dar a desculpa que deseja estudar a arte renascentista. mas bem que eu gostaria – eu disse – me preocupo com a sua segurança. Que tal viajar como informante. Porém. – Ah. o 160 . Por conta disso. pensei. – Não se preocupe. que seriam o equivalente a um tipo de pós-graduação na visão secular. Mais um ano se passou. – Isso é uma ameaça. Ela retornou nos contando como eram os Jogos na Grécia. “Não é bem assim. eu quase esqueci que “viajar” é considerado um ato muito mundano pelos Deuses de Cela Silvestre – zombou Navarro – é mais divertido continuar escondido na casinha e ser um cachorrinho adestrado da Igreja. Ela havia se tornado papisa há pouquíssimo tempo. A teimosia dele não tinha limites. E Barata quis continuar também para apoiá-lo.Wanju Duli Gio decidiu que permaneceria na Castália da Grécia por um ano e depois retornaria para o Brasil. Mas não adiantava mais argumentar. Eu já havia completado metade dos meus estudos e Gio estava de volta. que havia sido educada na Ordem dos Pregadores. Eu sabia porque Navarro iria permanecer: por causa da Amor Fati. Seria a terceira cerimônia de Jogos que eu assistiria. mas Navarro ficou puto. – Você devia ter ido para a Itália – disse Navarro – para averiguar como anda o processo de castração por lá. – Se você quer ser uma cobra. – disse Barata – além do mais. Maria? Pretende me delatar? – Não. No entanto. Todos os três recusaram o período de estudos livres e iriam prosseguir em seus estudos. cuidado para não ser pisado pelo pé de Maria – provoquei. Você está envolvendo outras pessoas nisso”. tanto Barata quanto Navarro decidiram continuar em Nova Castália. mais do que pintor agora sou jogador de Contas de Vidro..

apesar de todas essas conquistas. 161 . Não parecia ter dormido nada e me fitava com olhar apavorado. Quando ele me disse isso. Antigamente eu me queixava tanto disso e atualmente a prática havia se tornado uma necessidade diária. Já fazia mais de dois séculos que a Igreja estava aceitando mulheres como pregadoras nos púlpitos das igrejas e mais de um século que mulheres podiam se tornar papisas. senti uma sensação horrível no peito. já que tanto homens como mulheres podiam ser condenados. eu havia me acostumado a meditar. já fazia dois séculos que uma porção do clero conquistou o direito de se casar: era uma nova divisão do clero secular. embora ainda houvesse muita luta pela frente. O Index e o Martelo das Feiticeiras estavam de volta a todo vapor. Foram nove dias de fervoroso catolicismo no Jogo das Contas de Vidro. Afinal.A Era do Folhetim Jogo daquele ano pretendia homenagear figuras como São Tomás de Aquino. Além disso. As mulheres e homossexuais já tinham conquistado muitos direitos no século XXIII aos olhos do Vaticano. Estava evidente que o maior interesse daquilo era agradar a nossa singular visita de honra. Os homossexuais também já podiam se casar na Igreja Católica. As referências eram quase que integralmente católicas. Ela assistia ao nosso Jogo com muita atenção. na prática. Inclusive havia alguns padres gays e freiras lésbicas que podiam se casar pela Igreja. – A papisa chamou o Miguel para conversar. como era o caso dos papas e dos monges que compunham o clero regular. Ele estava com suas velhas olheiras. Na manhã do dia seguinte. Catarina de Siena e Rosa de Lima. alguns preconceitos ainda persistiam. Boaventura foi me procurar no refeitório. É claro que sempre tinham aqueles que ainda preferiam optar pelo celibato. A presença da papisa na nossa cerimônia me enchia de suspeitas. Quando as cerimônias do Jogo foram oficialmente finalizadas. No entanto. Sim. Ela também era a terceira pessoa negra a assumir tal posição. resolvi meditar sozinha no meu quarto para sentir o espírito daquilo que fora mostrado. Só mudaram a denominação e tradução para “Martelo dos Malfeitores” ou “Martelo dos Hereges”. São Domingos de Gusmão. Catherine era a segunda mulher a conquistar esse posto.

mas também é justo – respondeu Boaventura – mas o que é a justiça? Para explicar isso a Miguel. Isso encerrou o assunto. Sabe das coisas. – Não é assim que o mundo funciona. Uma mulher inteligente como ela entende que isso não é mero vandalismo e provocação. história. mexendo as mãos nervosamente – mesmo que a papisa quisesse deixar passar. Ela é uma mulher respeitável. com desânimo – tudo que sei é que os dois tiveram uma longa conversa ontem à noite.. Assim como nós em Castália. É a representante máxima dessa instituição poderosa que é a Igreja. – Ele perdoa. – Ninguém sabe – respondeu Boaventura.. Devem educar a criança e mostrar que regras são regras e que não se pode agir livremente baseando-se apenas nas exceções. Maria – disse Boaventura. Não creio que ele tenha falado o que não devia na frente da papisa. E esta Igreja tem leis que estão acima da vontade individual da papisa de perdoá-lo. – Então. Miguel foi derrotado. 162 . Embora não pareça. conhece áreas a fundo: teologia. ele não será punido? Perguntei isso por perguntar. isso estava acontecendo no coração de Castália. Ela é uma doutora da Igreja. Isso só iria gerar uma excomunhão. ele havia quebrado leis sagradas. filosofia. Mesmo se uma criança desobedece seus pais para ajudar um amigo. tem um conteúdo e um propósito maior. Miguel é uma pessoa muito razoável quando se propõe a conversar a sério. a papisa só precisou pronunciar um único nome: Immanuel Kant. Tem mais de 80 anos. ela não pode. muito conhecimento e experiência de vida. ela faz parte de uma instituição maior do que ela mesma. Não importava o quão inteligente Miguel fosse e o quão nobres fossem suas intenções. É óbvio que ela entende o ponto de vista de Miguel a respeito das proibições: o motivo de ele fazer o que fez.Wanju Duli – Quem foi o traidor que o delatou para a Igreja? – perguntei. os pais não podem deixar isso passar assim. Para piorar. Uma coisa era delatá-lo para Castália. – O Deus deles não perdoa? – perguntei. Outra coisa bem diferente era contatar o Vaticano e contar a respeito do líder de uma sociedade secreta que andava fazendo jogadas proibidas pelo Santo Ofício.

A Era do Folhetim
Eu ainda me lembrava do eco do que Carlos me disse quando eu
tinha 13 anos e inventei uma bobagem sobre uma tartaruga: “Está
familiarizada com o Imperativo Categórico?”.
– Os mandamentos são absolutos e não permitem exceções – disse
Boaventura – porque são máximas morais. Tanto a religião como Kant
se baseiam no idealismo. O cumprimento de uma lei não tem como
objetivo estender uma vida humana ou gerar mais lazer e conforto para
uma única vida e sim tornar os homens morais. A papisa quer usar
Miguel como exemplo para mostrar o poder de Deus.
– A papisa vai matar o Miguel? – perguntei, assustada.
– Ela não vai matar ninguém. Eu vou repetir: a papisa não faz nada
por amor a ela mesma ou por emoções passageiras como raiva ou
vingança. Ela é a representante de uma instituição. A Igreja coloca-se
apenas como porta-voz da vontade de Deus: “Seja feita a Tua vontade e
não a minha”, não é isso o que dizem? Em Lucas, se não me engano.
Eu nunca tinha lido a Bíblia, então não sabia. Pelo menos não inteira.
Como estudante de literatura, eu tinha a obrigação de conhecer pelo
menos um pouco do que havia no livro mais lido do mundo.
– Então Deus pode matar? – perguntei – Ele pode ir contra os seus
próprios mandamentos divinos?
– Os mandamentos foram feitos para os seres humanos imperfeitos.
O Deus da Igreja coloca-se acima do conceito de bem e mal humanos.
Deus e seus mensageiros podem exercer a justiça divina porque eles não
adoram o materialismo. A Igreja não enxerga o corpo como mais
sagrado que a alma. A carne pode morrer para salvar o espírito e
purificá-lo.
– Miguel é um herege e precisa ser purificado – eu disse, sem
acreditar – apenas porque ele realizou as jogadas proibidas. Afinal de
contas, que jogadas foram essas?
– Maria, você não compreende a visão da Igreja porque foi educada
no paradigma de sua época – explicou Boaventura – nós vivemos numa
sociedade ocidental que inventou os direitos humanos para proteger o
corpo e a mente das pessoas. Os tais direitos humanos são baseados
numa visão materialista da realidade que não considera o espírito.
– Então você concorda com essa merda?! – gritei, fora de mim – vai
permitir que matem o Navarro sem mover um dedo?!
163

Wanju Duli
– Eu não disse que concordo – falou Boaventura – estou apenas
tentando compreender o ponto de vista do Vaticano. É claro que não
vou tentar compreender a visão de Deus, pois é algo acima de mim
mesmo.
– Você acredita em Deus?
– Eu acredito. Você não?
– Não sei – respondi – o Vaticano já foi corrompido por interesses
políticos antes. São seres humanos imperfeitos tentando interpretar um
Deus perfeito. É claro que podem se enganar.
– Qualquer um pode se enganar: um médico, um engenheiro, um
bombeiro. Isso pode gerar muitas mortes que poderiam ter sido evitadas
se fôssemos perfeitos. Mas não somos. Nem por isso a profissão dos
advogados e juízes será extinta. Eles fazem o melhor que podem para
defender e julgar as pessoas com justiça. Os sacerdotes estudam muito
para interpretar as leis de Deus. Sim, cometem erros. Mas os acertos
compensam, pois eles guiam as pessoas para que possam ter uma vida
mais ética.
– Seus valores estão invertidos – eu disse – a vida humana sempre
vem em primeiro lugar. Nada justifica uma morte!
– Nem mesmo morrer para salvar alguém? Engraçado, pois esse ato
geralmente é aplaudido. Inclusive atos mais absurdos que esse são
aplaudidos pela sociedade ocidental, como os heróis de guerra que
matam milhares. Você acha mesmo que os direitos inventados pela
sociedade em que vivemos são assim tão puros? Até hoje há pena de
morte, que é aceita por muitos quando envolve um atentado ao corpo,
como estupro, tortura ou assassinato. Exatamente porque o corpo é tido
como a entidade máxima na sociedade materialista! Então eles matam
aqueles que destroem o corpo, mas aceitam os destruidores de espírito.
– Miguel é um destruidor de espírito, o que o torna pior que um
assassino, torturador ou estuprador – repeti, tentando acompanhar o
raciocínio absurdo.
– Eu não estou defendendo a porra da Igreja! – berrou Boaventura,
completamente alterado – só estou tentando te fazer aceitar essa horrível
realidade que não pode ser mudada. Eu quero te fazer entender, para te
impedir de fazer uma besteira como a que Barata fez.
Eu fiquei sem fala.
164

A Era do Folhetim
– Alguma coisa aconteceu e você está enrolando para me dizer –
concluí – porque estamos filosofando sobre moral agora? Diga logo o
que aconteceu ontem!
– É exatamente o que você pensa – disse Boaventura – Miguel foi
condenado pelo Tribunal do Santo Ofício. Sua pena é a morte pela
fogueira da Inquisição.
– Ele morreu?! – perguntei, chocada.
– Ainda não – respondeu Boaventura – será uma cerimônia pública.
Miguel assumiu sozinho toda a culpa pela sociedade secreta. Nenhum de
seus membros foram incriminados. Porém, Miguel pediu por
misericórdia.
– Ele tem esse direito? – perguntei.
– Ele não sabia se tinha ou não. Apenas colocou a testa no chão e
clamou, aos prantos, para que a papisa poupasse sua vida.
– Essa bruxa não cedeu nem depois de ele se humilhar? – perguntei,
escandalizada.
– Ela disse que o perdoava, mas que ele precisava passar pela
purificação do Espírito Santo, que é pelo fogo.
– Os católicos perdoam as prostitutas, os assassinos, mas não
perdoam os jogadores hereges de Contas de Vidro – concluí.
– Isso porque, na visão da Igreja, existe algo chamado pecado venial e
pecado mortal. O venial é aquele que mesmo que se acumule não se
transforma em pecado mortal. O pecado mortal é aquele que tira a graça
divina da alma humana, rompendo o contato com Deus. Pode-se pecar
contra o Pai ou contra o Filho, mas não contra o Espírito Santo.
– Então, na visão da Igreja, Miguel perdeu sua possibilidade de
salvação – concluí – e se ele se confessar?
– Ele poderia confessar e fazer penitência, mas ele se negou a isso.
OK, agora Navarro estava sendo burro.
– Ele prefere ser queimado do que admitir que fez algo errado? –
perguntei, impressionada.
A teimosia dele estava ultrapassando os limites. Ia morrer por mero
orgulho?
– Como eu disse, ele meteu a cara no chão e chorou, pedindo perdão
– explicou Boaventura – mas mesmo pedindo desculpas, continuou
insistindo que não tinha feito nada que seria digno de repreensão. Além
165

Wanju Duli
do mais, ele não reconheceu a doutrina de Deus ou da Igreja diante da
papisa.
– Na prática, ninguém precisa ser queimado, pois basta confessar –
eu falei.
– Não é bem assim. Você não sabe como o ser humano pensa,
Maria? É muito difícil admitirmos que estamos errados. Muitos já
aceitaram a morte por seus ideais. Incluindo Giordano Bruno. O
julgamento dele foi muito longo, durou oito anos. Ainda assim, ele não
cedeu.
– E qual foi a besteira que você disse que Barata fez?
– Defendeu Miguel.
– Não é natural para um amigo fazer isso? – perguntei.
– Sim, mas Barata não precisava ter chegado a esse grau tão trágico
de amizade – disse Boaventura – foi uma idiotice. Antes era só Miguel
que estava condenado. Agora o Arthur também colocou os olhos da
Igreja sobre ele. Eu vou ficar calado e te alerto para que não se envolva
nisso.
Era impressionante. Todos em Castália ficaram mudos. Fossem
membros da sociedade secreta ou outros habitantes de Castália.
Ninguém queria se envolver.
Fui conversar com a Magister Ludi. Cavalcante me recebeu em sua
sala. Ela também parecia um pouco tensa.
– Aquele menino... ele sempre soube da consequência de seus atos.
– Mas, Domine... – eu disse – Vossa Grandeza não tem o poder para
impedir?
– Castália não está acima do Vaticano. É apenas sua irmã mais nova.
– Isso é o que eles dizem. Nós seguimos leis e regras próprias.
Navarro é responsabilidade nossa.
– Castália não é uma Província isolada. Se o Brasil entrar em guerra,
por exemplo, seremos envolvidos. Se não houver dinheiro entrando na
Província, nós não comemos. Se o Brasil entrar numa profunda crise,
Castália pode não sobreviver.
Realmente, não nos encontrávamos numa bolha protegida, longe da
história e da política. A morte de Navarro seria uma coisa pequena
comparada à perspectiva de Castália atravessar uma enorme crise
financeira e passarmos fome.
166

Ela tirou um cigarro do bolso e começou a fumar. às vezes só parada olhando o nada. Eu soube que a Gio ficou profundamente deprimida com tudo que estava acontecendo e também se negava a conversar com qualquer pessoa a respeito. Primeiramente. Só podia ter sido com um aluno ouvinte. – Não queria estar falando contigo. Até porque. Infelizmente. Eu não fazia a menor ideia onde ela tinha conseguido aqueles cigarros. Até achei que ela tivesse se esquecido da minha presença ou tivesse desistido de conversar. Os dois foram enviados para a Itália. ele negou-se terminantemente a conversar comigo. – Agora todos conhecem a identidade do líder – ela disse – e. Eu precisava falar com Navarro. embora não fosse com essa intenção que eu queria vê-lo. mas eu fiz que não. dê uma desculpa qualquer e vá até Roma. já que Castália ficava longe de tudo. ela voltou a falar de repente: – Tenho um serviço pra você. Porém. todos sabem que o máximo que seríamos capazes de fazer seria morrer com ele. Eles participariam de um longo julgamento que duraria meses e teriam que cumprir penitência enquanto isso. Para a minha surpresa. – Você não conhece o Vaticano. apoiando as costas num muro. Acabei nem conseguindo falar com Barata também. Provavelmente seria a primeira vez que teríamos uma conversa que realmente poderia ser chamada de conversa. nos sentamos sobre a grama num local afastado. Ela ficou em silêncio por mais de cinco minutos depois disso. ela também estava chocada. ninguém está disposto a morrer por ele. Lá o tempo se arrasta. Dani me ofereceu um. ela está num estado que impossibilita a conversa. mas com a Giovana. quem veio falar comigo foi a Dani. Eu diria até mesmo que eles vivem num mundo ainda mais atemporal do que 167 . – Por que não vai você mesma? – perguntei – além do mais. No entanto. não acho que o julgamento vai durar tanto tempo. Acho que ele não queria que eu lhe jogasse na cara todos os meus alertas. mesmo que saibam que ele é uma pessoa incrível e famosa. Depois de se formar. Às vezes fumando.A Era do Folhetim Quando conversei com Sabrina.

– Eu tenho outros planos. Não. eu não fazia a menor ideia do que ia fazer. – E que lugar é esse? – Arquipélago de Cólon. Depois de me formar. Como espera que eu os ajude? – Mostre a eles como o Jogo é magnífico – ela disse – e que Navarro estava certo em fazer o que fez. mas admiro o que ele começou lá.Wanju Duli Castália. É rotina. Sinceramente. Como espera que meus conhecimentos façam alguma diferença depois disso? – Aquele Jogo foi mera formalidade para agradar a visita. Está certo. eu expressei meu desejo de visitar um convento dominicano em Milão. – Por que não vai lá você mesma e salva a vida do seu namorado? – Tenho que fazer outras coisas. Eu daria um curso de Jogo de Avelórios para as 168 . – A papisa assistiu a um Jogo oficial jogado pelos maiores especialistas. eu podia pensar a respeito. mas não garanto nada. se fosse apenas uma visita que garantisse minha segurança. eu não tinha. Eu já sabia o que ela pretendia. – Não quer salvar aqueles dois? – ela perguntou. em outro lugar. – Não entendo de teologia – expliquei – e meus conhecimentos de literatura e do Jogo das Contas de Vidro serão inúteis para argumentar qualquer coisa. Contudo. Eu não era uma pessoa tão nobre quanto Barata para aceitar ser queimada com Navarro. Mas eu não gostava da ideia de já estar direcionada a um destino que eu nem mesmo sabia se queria. Você pode fazer mais que isso. – Não dou a mínima para os seus insultos – eu disse – vou pensar na sua proposta. Não fui membro da Amor Fati. eu não queria me envolver com aquilo. Alguns anos de julgamento não significa nada para eles. Após me formar. caso não tivesse outros planos. – Por que eu? – Porque todos os outros estão ocupados com coisas grandes e você é uma baita desocupada.

Principalmente porque envolve dinheiro. Um abismo ainda maior a transpor do que passar do conceitualismo ao idealismo. Teria que preparar tudo de forma sutil e respeitosa. Eu me formei com 25 anos. eu teria que tomar medidas drásticas.A Era do Folhetim freiras durante alguns meses. Eles ainda não tinham retornado. Meu pedido foi recebido pelo Diretório de Cela Silvestre com entusiasmo. Se eu realmente tinha intenção de mostrar a elas o poder e o alcance espiritual do Jogo das Contas de Vidro. Eu sentia que estava preparada. Enquanto isso. 169 . Mas eu não poderia simplesmente incluir as jogadas proibidas nos Jogos. que não anda dos melhores desde o caso da sociedade secreta. Nesse momento. Não basta pedir permissão para viajar e partir. eu finalmente precisaria realizar minha transformação completa numa Southern Belle para cumprir o meu papel de lady de Castália. sempre mostrando a elas meu amor pelo divino e o sagrado. Com meu período no convento eu iria perceber que as diferenças entre Castália e a Igreja eram muito mais profundas do que eu imaginava. essas permissões demoram anos para que se consiga autorização. em Castália as coisas não funcionam rapidamente. Até que foi rápido. o processo de julgamento deles continuava. Normalmente. Consegui a permissão da viagem dois anos depois. – Isso é bastante positivo para melhorarmos o relacionamento de Castália com a Igreja. Porém.

No máximo. conseguíamos nos entender. a filosofia teológica seria a lanterna mágica das aranhas do cérebro. mas para pelo contrário sermos capazes dos maiores feitos intelectuais”. Uma escolha peculiar. Aqui é através da meditação. de alguma forma. mesmo que vez ou outra perdêssemos algumas palavras. da investigação com o ascetismo. Não que meu espanhol fosse maravilhoso. não para trocar a vida ativa do nosso espírito pela existência vegetativa e sonhadora da nossa alma. este Jogo pode conduzir a um virtuosismo oco. por Hermann Hesse Segundo Kant. Felizmente. no qual eu atuei como Magister Ludi. em nosso primeiro Jogo de Avelórios. íamos utilizar “Temor e Tremor” de Søren Kierkegaard. eu já havia jogado com mais duas ou três pessoas. na sua Universitas Litterarum a teologia era senhora. as freiras optaram como um dos temas o livro “A religião nos limites da simples razão”. Seria minha primeira vez coordenando um Jogo para tantos jogadores: eu e mais cinco irmãs.Wanju Duli Capítulo 3: O Diabo “Outros séculos refugiaram-se na união do espírito com a religião. o Jogo das Contas de Vidro tem também o seu diabo que o persegue. à aquisição de poder sobre os outros e. 170 . Além dele. Barata e Boaventura. ao abuso desse poder. ao arrivismo. O Jogo das Contas de Vidro. além da do espírito. pela prática dos múltiplos graus de yoga que procuramos exorcisar o animal em nós e o diabo que se esconde em cada ciência. e que nos submetemos à moral da Ordem. Eu não sabia nada de italiano. É por isso que temos também necessidade de outra educação. Mas eram sempre jogos curtos e informais. algumas das freiras do convento de Milão sabiam falar espanhol e era através dele que a comunicação ocorria. Eu arranhava um portunhol e. inglês ou mandarim. nessa medida. ao narcisismo das vaidades artísticas. Não por acaso. sabei-lo tão bem como eu. Ora. incluindo Sabrina.

pois eles acreditam no Filho de Deus mesmo sem que Ele esteja presente entre nós. 171 . que ele denomina de “efeitos da graça”. – Não me entenda mal – disse Giuseppina – não estou dizendo que milagres são falsos. ou mesmo gula ou luxúria espiritual – disse Giuseppina – queremos beber cada vez mais desse prazer e erroneamente o confundimos com a experiência do divino. – Sim. não estão a confundi-lo com o que seria na verdade um êxtase dos sentidos. cristãos. Porém. Nunca fui boa em música. Quem disse isso foi a irmã Maria Giuseppina. Se pensarmos dessa forma. Impressionar-se demais com as experiências de êxtase espiritual advindas da prática da oração e dos jejuns. Esta sensação que se sente ao jogá-lo. Devemos amar Deus não devido a experiências de êxtase dos sentidos ou mesmo devido a milagres. é exatamente como diz Kant: os milagres levam à superstição – concordei. eu me pergunto se. chamam-na de êxtase espiritual. por exemplo. – São João da Cruz os chama de pecado do orgulho espiritual. As irmãs pareceram gostar do Jogo e acharam muito curioso o fato de eu selecionar frases específicas dos livros escolhidos.A Era do Folhetim Mesmo assim. O que quero dizer é que os milagres não devem ser vistos como essenciais para que se desenvolva a fé. tal como nos aponta São João da Cruz. acho que me saí bem. contar suas letras e encaixar essa contagem com explicações de aritmética. Nós. Milagres são uma genuína manifestação do Senhor. mas simplesmente porque é belo amá-lÔ. sejam essas experiências de fato espirituais ou não. é ainda mais bonita a fé dos cristãos de hoje do que daqueles que viveram na época de Jesus. sendo o primeiro deles exatamente este. – Kant também comenta sobre isso no livro que utilizamos para o Jogo – observei – ele aponta os quatro erros transcendentes das religiões. achamos muito mais belo aquele que crê sem ver. – Fala-se muito que o Jogo das Contas de Vidro é provido de espírito. então eu preferia optar pela matemática e a gramática como base. Muitas delas escolhiam “Maria” como seu primeiro novo nome religioso. pode gerar embriaguez espiritual que levaria ao fanatismo.

segredos. Pois também creio nisto: „se não acreditar. não se entende Deus pela razão. Porém. É como diz Santo Anselmo no Proslogion: "Desejo reconhecer um pouco a tua Verdade. também seria uma questão discutível. eu não duvidava que em certo ponto a freira dissesse: “Se Jesus realmente não existiu. – Quem tenta penetrar nos mistérios de Deus cometeu um pecado mortal? – perguntei – foi isso o que meu amigo fez? 172 . sim. aí sim que nossa fé é belíssima. – Você fala muito sobre a beleza – observei – e o que acha sobre a beleza de nosso Jogo? – Considero uma beleza meio desesperada – confessou Giuseppina – porque os castalianos insistem em tentar extrair um sentido e um segredo do Jogo de Avelórios. mas creio para compreender. não procuro antes compreender para crer. pois nós acreditamos nele mesmo sem que Ele exista! Isso sim que são fé e amor puros. somente Deus conhece essas coisas: sentido. Não se deve penetrar nos mistérios insondáveis do Senhor. a religião. Porém. – Tenho certeza de que há um trecho sobre isso no livro – eu o folhei – ah. no caso. E não paravam de dar discursos apaixonados para partilhar esse amor. elas queriam compartilhar com os outros o tempo todo a enorme paixão que sentiam pela sua área. pelo rumo que aquela conversa estava tomando. ou qualquer coisa assim. mas antes saber o que ele próprio deve fazer para tornar-se digno desse auxílio". pelo estudo da teologia. E o mesmo raciocínio valeria para a existência de Deus. Na verdade. Ambicionam tocar o cosmo através dele. não compreenderei‟”.Wanju Duli Conversar com aquelas freiras me lembrava um pouco das minhas conversas com o professor Peixoto: assim como ele. numa busca de perfeição. nem por conseguinte necessário a quem quer que seja. saber o que Deus faz ou fez por sua salvação. encontrei: "Não é essencial. – Exato. A fé vem antes. Querem desvendar como tudo se encaixa. dignos de um verdadeiro cristão!”. que o meu coração crê e ama. Nós dominicanos compreendemos o valor de estudar a religião e aprender mais sobre ela através da razão. Sobre a existência real de milagres como a manifestação de Deus. E se Jesus existiu de fato. eu não iria me dispor a discutir esse ponto. No entanto. perfeição. pois era puramente questão de fé.

eu tinha tomado a barca do Anjo de Gregório de Matos. o senhor Miguel Navarro tinha plena consciência do que estava fazendo. eu não sabia o que Navarro pensava. pois ela provavelmente diria que era outro dos mistérios de Deus. No fundo. E que não importava muito saber o que era o inferno e sim agir de forma ética para manter-se longe dele. Ou pelo menos um Fausto. para ver se ainda dava tempo de puxá-los da barca do Diabo e salvá-los.A Era do Folhetim Giuseppina respirou fundo. Era uma personalidade que ao mesmo tempo fascinava e afastava.. E. pensei. Ele não somente o fez.. E lá estavam os dois juntos em uma cidade não muito longe dali. Provavelmente o único que o aguentava era Barata. mesmo depois de tudo. encaminhando-se para o inferno. Confesso que eu não me sentia tão à vontade para me aproximar de Navarro porque ele tinha uma personalidade difícil. Navarro! Você me meteu numa fria. Navarro não estava muito a fim de fazer algo “pequeno” como se tornar Magister Ludi ou Magister Musicae. Não o considerava um amigo próximo. – A vida humana é muito preciosa – eu disse – Deus não nos ama? 173 . Acho que não adiantava muito perguntar para a irmã o que era o inferno. quem sabe estivesse mais para Prometeu. que aceitava até morrer com ele. Isso configura num pecado contra o Espírito Santo. Acho que Navarro só teria coragem de deixar o orgulho de lado e se aproximar de alguém tão simpático quanto Barata. Eu não tinha conversado assim tantas vezes com ele. contrariada. Por isso mesmo ele não tinha amigos. “Que merda. um Samyaza. Ele queria ser um Lúcifer. – Não se comete um pecado quando não há consciência de que aquele ato é um mal – ela explicou – porém. já que ele era sempre legal com todo mundo. A maior parte do que eu sabia sobre ele era o que Barata me contava. Bem. Enquanto isso. somente admiradores. O único pecado que não podia ser perdoado. mas repetiu muitas vezes. o único que afasta o ser humano de Deus e o leva para o inferno. a Dani deve estar observando tranquilamente os tentilhões de Galápagos”. não se arrependeu. Pelo visto.

aos nosso olhos parece contraditório. Nós só enxergamos uma pequena parte do todo. mas para Deus esse ato é justo e bom de uma forma que não compreendemos” eu ia ficar puta. Mas se ela continuar eternamente fugindo e escondida. como o pastor poderá salvá-la? Era uma situação sem solução. realmente. – Então como Ele pode matar? – O amor que o ser humano conhece é apenas uma porção pequena do Amor onibenevolente do Senhor. concordava com Navarro. Já estaria tudo planejado desde o princípio? – Deus é mais importante que o amor? – perguntei. Começava a me dar nos nervos quando os argumentos teológicos passavam a ficar circulares. Deus quer o melhor para nós e a morte do corpo algumas vezes é a única alternativa para salvar o espírito. E se ela me dissesse algo como: “Sim. – Deus é amor. se confessar e fazer penitência. como eu iria conseguir? Eu não sabia o que Barata estava fazendo. 174 . Mas se Barata ainda não tinha conseguido isso depois de tantos anos. achava que não tinham realizado um mal e que não precisavam se arrepender? Talvez eles desejassem ser mártires. A única salvação para Navarro era que eu fosse capaz de convencê-lo a se arrepender. A morte deles poderia enfurecer os castalianos e os incitar a se revoltar contra a supremacia da Igreja. Kant estava certo quando falou sobre as lanternas. indignada. mesmo que aos olhos humanos eles porventura possam parecer injustos e maus. Os atos de Deus são sempre justos e bons. Por que ele ainda estava lá? Iria continuar ao lado de Navarro até o dia da aplicação da pena capital? E se Barata pretendesse morrer com ele? Faria isso por amizade ou porque. mas nós precisamos abrir nosso coração e aceitar esse amor – ela explicou – o pastor deixará todo o seu rebanho apenas para resgatar a única ovelha que se perdeu. Dava apenas a impressão de que ela estava esclarecendo alguma coisa.Wanju Duli – Ele ama. “Vocês não vão salvar o espírito dele com uma morte sob tortura na fogueira! Você acabou de dizer que ele cometeu um pecado mortal e está indo direto para o inferno!” pensei. mas estava complicando ainda mais e acrescentando elementos desnecessários na discussão. no fundo.

Eu sempre acreditei que um mestre de retórica é capaz de convencer qualquer um de qualquer coisa. Fazia sentido. eu estava falando com uma dominicana. o cristianismo era fortemente baseado em Platão. mas eles estudavam tão a fundo a doutrina da Igreja que. Eram argumentos perfeitos para justificar qualquer coisa. Além do mais. baseada no realismo e no idealismo. pelo seu domínio da dialética. que defendia que seguir o ideal da moralidade era superior a qualquer ação. o que é mais importante? – Ter fé em Deus. que considerava que os seus Deuses números eram entidades reais e não apenas inventadas para resolver problemas práticos. como a Santíssima Trindade e a virgindade de Maria. Afinal. Só a lógica de Deus era perfeita. que considerava a pregação como o ato mais supremo. a exemplo dos sofistas. Por isso a Teologia da Libertação distorceu alguns ensinamentos quando colocou o corpo acima do espírito. Bastava ela usar o seu coringa e dizer que a lógica humana é imperfeita e ineficaz para entender qualquer coisa. 175 . você ganhou a discussão. – Entre ajudar os outros e ter fé em Deus. tomando conta das bibliotecas e das universidades. Sendo assim. Ou seja: era mais importante as suas intenções por trás do ato do que o ato em si. senhorita.A Era do Folhetim Não adiantaria muito eu rebater com algum argumento lógico bem construído. Era como Kant. Os dominicanos eram demônios na argumentação teológica. OK. esse não era o termo perfeito. A Igreja teve esses mestres a seu dispor por mais de dois milênios. Os argumentos do cristianismo vencem pelo cansaço” concluí. seriam capazes de defender o catolicismo fazendo o argumento mais absurdo parecer sublime. Eles não viam a religião como uma metáfora para que se realizasse boas ações no mundo. já que eles dominaram todo o conhecimento ocidental por séculos. Eu só queria fazer uma última pergunta. “Está bem. é óbvio que o Deus cristão só poderia ter existência real na doutrina cristã. Não estava falando com uma franciscana. Lembre-se do primeiro mandamento.

É tão difícil?!”. Eu já estava desistindo antes de começar. Afinal. E eles também não eram franciscanos para terem compaixão pelo pobre diabo que havia feito jogadas proibidas. o ato de apreciar uma missa ainda era restrito a uns poucos iniciados e escolhidos. dar-lhe tapas na cara e dizer: “Acorda. Também eram poucos aqueles que amavam as sutilezas de nosso Jogo. OK. embora a felicidade proporcionada por ela para os católicos devesse ter um efeito neles superior ao de nosso Jogo. Ser obrigado a assistir às longas missas também já poderia ser considerado penitência o suficiente. Eles não eram carmelitas para se maravilhar com êxtases místicos. sacudi-lo. Estava apenas há uma semana no convento e aquelas mulheres já tinham me colocado no chinelo. Minha única esperança era dobrar Navarro. em que as religiões tinham tamanha força. Só que ele também era inteligente pra caralho. Então eu iria segurar Navarro pela camisa. em primeiro lugar eu precisava conversar com Barata. Até mesmo no século XXIV. para entender 176 . Experimentar um sentimento sublime ao ouvir uma bela música erudita ou contemplar uma pintura renascentista tratava-se de uma experiência mais universal. animal! Você vai morrer! Faça como a mamãe ensinou e diga „Me desculpe. Pensei que eu iria encontrá-lo fazendo algum tipo de penitência leve nos arredores. para realmente compreender o Jogo de Contas de Vidro era preciso estudá-lo muito a fundo. Recebi permissão para conversar com Barata. Meus trajes de jogadora das Contas de Vidro. Da mesma forma. foram identificados prontamente pelos membros do clero. Então era hora de visitar o Vaticano. eu não iria fazer isso.Wanju Duli Isso só significava uma coisa: eu não seria capaz de dobrar os doutores da Igreja através da argumentação. como uma oração. Pensando bem. tia‟. E agora? Não adiantava mostrar o Jogo das Contas de Vidro para os dominicanos. Eu obviamente não tinha intenção nenhuma de convencer a papisa. para ter uma dimensão da gravidade da situação. que não eram mais trajes de estudante. Fui bem recebida no Vaticano. Eu ainda não sabia os detalhes. Eu passei por aquele processo iniciático e sabia como era custoso e doloroso. que era como uma rainha da Ordem dos Pregadores. diriam eles. “Eis o mistério da fé”.

“É apenas superstição ou diversão tola”. conforto e manutenção da carne. havia a alegria proporcionada pela resolução de problemas desafiadores de matemática e física: resolver problemáticas reais no mundo. Porém. elas compravam os folhetins e resolviam suas charadas. não estaria mais dentro da multiplicidade. a vida era só isso? Salvar a carne e proporcionar à mente um êxtase dos sentidos. Quem via a missa apenas de fora. como uma jogada complexa do Jogo de Avelórios. Pisar no Vaticano me proporcionou um sentimento pesado. O sentido do Jogo ou a fé de uma religião é algo que jamais pode ser ensinado. por exemplo. As pessoas se sentiam oprimidas com suas vidas. tinha uma impressão muito superficial. nenhuma construção e combinação. e quanto mais difícil. porque ele conheceria uma espécie bem diversa de prazer e de alegria". Não era apenas o êxtase fugaz da era folhetinesca. "Quem chegasse a ter a vivência completa do sentido do Jogo não seria mais jogador. para preencher esse vazio. Vivíamos numa época em que a espiritualidade estava esquecida. pois nem todas as peças se encaixavam. maior o prazer gerado ao encontrar a solução. como numa jogada espetacular de xadrez. que foi o caminho de Dani. como se colocassem letrinhas em palavras cruzadas apenas para passar o tempo e fugir da realidade esmagadora da morte. os folhetins eram o ópio do povo. E. mas também cultural. diziam.A Era do Folhetim uma religião como a católica. Era algo maior. era necessário estudar muita teologia. Quanto à engenharia. mas a realidade da morte estranhamente deixava as pessoas perdidas. medicina e engenharia: contato com o sentido da vida através da biologia. 177 . e não lhe seria possível sentir prazer em nenhuma descoberta. e não a religião. E naquele instante da história. Só que não era bem assim. muitos a buscavam ardentemente ao experimentar o vazio proporcionado pelo dinheiro e por uma vida voltada apenas aos prazeres. É uma experiência totalmente individual. Curar o corpo de uma pessoa podia proporcionar um sentimento sublime. Contudo. assim como os leigos que ouviam uma transmissão de rádio de nosso Jogo. Muita gente buscava inconscientemente a espiritualidade em profissões como.

Se os dois tinham cometido alguma falta grave e rompido algum velho acordo entre a Igreja e Castália. mas era um mistério que só podia ser apreciado por quem possuía aquela coisa mágica chamada fé. Quando fui visitar Barata. Eu esperava que a relação entre essa irmã mais nova e sua irmã mais velha não resultasse num claro divórcio devido à confusão gerada por aqueles dois. Aquela situação poderia ser a desculpa perfeita para um rompimento. discreta e sem dor? Não. incluindo os próprios papas. Era como uma espécie de terrorismo: os meses e anos se arrastavam e o julgamento deles não terminava.Wanju Duli naquele exato instante. Se fosse eu. No entanto. não suportaria tamanho 178 . Lá havia um tipo de mistério. Eu estava me sentindo como se tivesse voltado no tempo pelo menos uns mil anos. Essa mãe estava muito zangada. esse sentimento me sufocou. Eu sentia como se pisasse na casa de uma mãe rigorosa que eu não via há muito tempo. não me surpreenderia se em breve estourasse uma revolta. Eu lembrava que Boaventura havia mencionado que eles serviriam “de exemplo”. Só queria sair logo daquele lugar. fui direcionada a uma espécie de calabouço. por que apenas não os matavam logo de forma silenciosa. o Jogo já havia sido quase proibido na Igreja. eles não queriam isso. Se era assim que a Igreja tratava os castalianos. mas me lançava apenas um olhar frio. eu não era nenhuma mestra em fantasmagorias e me sentia como uma intrusa no clubinho restrito. “Na luta pela existência num mundo de potências alheias ao espiritual. Eram prisões num estilo muito antigo. provavelmente. provavelmente para que nenhum outro jogador de Contas de Vidro ousasse realizar novamente as jogadas proibidas. pois meu coração estava sombrio. os jogadores de Contas de Vidro e a Igreja Romana dependiam demasiadamente um do outro” Eu lembrava de ter lido isso nos Arquivos. se este fosse desejado por uma razão qualquer muito mais importante: política ou econômica. Já tinham existido exímos jogadores entre os mais altos membros do clero. A relação de Castália e do Vaticano já havia passado por altos e baixos. Em outras épocas.

já que não temos acesso às bibliotecas e não posso desenhar. 179 . Era verdade que em Castália vivíamos uma vida simples e regrada. com uma cama simples e um vaso sanitário. E havia um propósito para aquilo tudo. superlotadas. Observei o interior da cela. sujas e perigosas. diga. Ficou bem claro que aquelas celas não eram confortáveis. – Só me deixam ler a Bíblia – ele sacudiu o livro – já finalizei a leitura do livro inteiro três vezes e depois me cansei.. com calças e mangas longas. Pelo menos ali cada um tinha seu lugar para ficar. – Maria. mas não há muito o que se fazer. Já fiquei contente apenas com sua visita. Barata riu. – Eu não sabia que você estava preso – observei – isso é terrível! – Eles nos deixam sair todos os dias – ele informou – para rezar nas igrejas. Mas eu estava enganada se pensava que se tratava de apenas terror psicológico. Dani disse que está com saudades das. Ou melhor. feitos com um giz branco comum. de tecido comum. Lá fora é muito bonito.. – Ela também me mandou um recado. As paredes estavam completamente preenchidas de desenhos incrivelmente lindos. mas pelo menos tínhamos o mínimo de conforto. cavalgadas. Se tem qualquer coisa que eu possa fazer por você. eu já preenchi todos os espaços. é você mesma? Barata ficou contente em me ver. mas só quando estou muito entediado. Ele me mostrou um livro grosso que tinha consigo. – Não se preocupe com isso.. Fiquei feliz de poder fazê-lo rir..A Era do Folhetim terror psicológico e provavelmente teria cometido suicídio muito tempo atrás. Mas ele parecia exausto. eu desconhecia. Se Navarro tinha uma meta maior para fazer o que fazia e era aquilo que o impelia a continuar. Eu sabia que no Brasil e em diversos outros países do mundo havia prisões muito piores. – Foi a Dani quem me pediu para vir aqui te ajudar – eu disse – embora eu não saiba direito o que eu posso fazer. por favor. dar umas caminhadas nos jardins. Vestia roupas limpas. mesmo naquela situação. Agora só releio os meus capítulos favoritos. Eu nunca pensei que algo tão bonito fosse possível de ser feito com apenas um giz. Inicialmente notei apenas seu rosto profundamente abatido.

Era Deus. notei que as unhas dele estavam quase que completamente cortadas.. apoiando-se nelas enquanto conversávamos. o que aconteceu com seus dentes? Eu só havia reparado isso naquele momento. reparei que faltava-lhe um ou dois dentes. Infelizmente. – Eu queria entender. notei que havia alguma coisa errada. Você sabe como os seres humanos podem ser estúpidos. – Sobre isso. mas foi um sonho bom enquanto durou. lembro de ter lido sobre os métodos de tortura medievais nos livros de história. Ao prestar atenção a seguir. Mas Deus? Por que Deus estava me punindo porque defendi meu amigo? Eu fiquei sem fala. naturalmente – sabe. antes de ir para as escolas de elite. o compreenda. mero mortal. Estava chocada demais para pronunciar qualquer coisa. não sei bem. Quando eu lia as descrições. As pontas dos dedos estavam machucadas de 180 . quando eu estudava o feudalismo no colégio.. Mas é claro que se tudo isso possui de fato um sentido. Mas. Pergunto a Ele todos os dias: “Por que eu? Por que aqui e agora? Qual o significado disso?”. Nem as descrições dos métodos de tortura dos nazistas me assustavam tanto quanto as torturas da Igreja. ele é grandioso demais para que eu. – Você já me disse uma vez que as coisas são bonitas porque terminam. O fato de haver Deus ali no meio sempre tornou tudo muito mais medonho. Quando ele segurou as grades da cela. Fiquei assustada. sentia um gelo por dentro e pensava: “Pobres desgraçados que nasceram na época errada e tiveram essas horríveis mortes sob tortura”. Não era um homem que estava fazendo aquela merda. jamais poderemos cavalgar juntos outra vez.Wanju Duli – Diga a ela que é sempre um prazer ser um cavalo para minha dama – ele respondeu – ou uma cela. digamos que virei o protagonista de uma história antiga – ele informou. exatamente porque eles envolviam razões divinas. Quando ele riu discretamente. Eu me recordo que na época fiquei tão fascinado e impressionado com isso que por um tempo foi meu hobby procurar na internet descrições minuciosas de diferentes métodos de tortura usados naquela época.

Comecei a chorar baixinho. Eu quero ser queimado o quanto antes. – Você merecia ser canonizado pela Igreja pela sua demonstração impressionante de amizade e não ser morto como gado esperando o abate – eu disse – até mesmo o gado não tem um destino tão terrível. Então pelo menos eu consigo ver um mínimo de sentido para isso tudo. – pronunciei. É a única explicação. – Não sei ao certo.A Era do Folhetim uma forma que me deu uma agonia tão profunda que tive que desviar o olhar. – Nunca mais poderei cavalgar com Dani de novo – ele repetiu – porque estou para sempre fisicamente impossibilitado de fazer isso. com voz fraca. sei que estamos passando por isso juntos. Não sei porque disse isso. Entende o que quero dizer? – Merda... mas a situação é outra aos olhos da Igreja – disse Barata – e o pior é que já não sei dizer se 181 . Não há mais esperanças para mim e para Miguel. Viva sua vida. – Não fique assim. – Eu disse a eles tudo o que queriam ouvir – contou Barata – eu pronunciei coisas que jamais pensei que fosse pronunciar na vida. Eu já aguentei até agora. – Fico lisonjeado que você veja dessa forma. Eu só quero que tudo isso termine logo. Se puder fazer um favor para mim. Esqueça o que viu aqui. Mesmo que eu somente o veja raramente. Amanhã ou até mesmo hoje. Mas eu provavelmente fui possuído por ele. Que o evocava todas as noites e oferecia a ele bebês despedaçados em sacrifício. Barata era como aqueles heróis trágicos das lendas. é somente esse: converse até com a papisa. Eu estava maluco. Um choro quase imperceptível que tentei esconder. então vou aguentar mais um pouco. se possível. Nunca pensei que eu fosse conhecer uma pessoa assim. agora sem esconder as lágrimas. – Por que está fazendo tudo isso por Miguel? – eu perguntei. Mas não seria terrível se ele tivesse que passar sozinho por tudo isso? Se fosse comigo. eu me sentiria aterrorizado e solitário. se for preciso. Disse que era um adorador do Diabo. Estava fora de mim. Maria – ele disse – volte para a Província. não se preocupe. Mas se não conseguir falar com ela. Eu nem sei o que é esse tal Diabo de que tanto falam.

– Sou eu – pronunciei – Maria Santa. – Espere – falei. Como ele era considerado o maior culpado. Inicialmente pensei em deixá-lo descansar e retornar uma outra hora. E se meu espírito precisa ser purificado pelo fogo do Espírito Santo. Arthur. Abraçava o corpo e estava meio encolhido. Andava em passos lentos. – Vá embora – ele disse. Eu suspeitava que essa segunda visita seria ainda mais difícil. Mas ele disse que não. Que ele precisava do fogo para ser salvo. – Eu tenho comida – tentei – você quer? 182 . voltado para a parede. com urgência – converse um pouco comigo. É claro que não. Navarro estava deitado na cama. de Castália. Para sempre. Retornou na direção da cama. por favor. – Você é tão forte – comentei. Talvez tenhamos mesmo cometido um pecado mortal. queria salvar pelo menos seu espírito. que isso não seria bom aos olhos de Deus. que Deus tenha piedade de mim. Resolvi deixá-lo em paz. Era hora de conversar com Navarro. mas ele escutou meus movimentos e se virou. Ele parecia cada vez mais convencido disso. Ele levantou-se devagar. – Quem é? – ele perguntou. E queria ser salvo. como se tivesse dificuldade de caminhar. Eu não o culpava por dizer aquelas coisas. com voz rouca. Eu não fazia a menor ideia do que tinha acontecido com a mente dele após aqueles anos de tortura. Ele conheceu a fúria e o poder de Deus e passou a genuinamente temê-lO. – Não tenho vontade. sendo o líder da Amor Fati. Como dizem os cristãos.Wanju Duli estou certo ou errado. Ele parou no meio do caminho. imaginei que estivesse recebendo os castigos mais severos. Sou um pobre pecador. impressionada – te admiro profundamente. Se já não tinha jeito de salvar seu corpo. que assim seja. Ainda perguntei a ele se queria que eu trouxesse um veneno escondido numa próxima visita. Aquelas torturas e aquela espera tinham produzido uma ferida profunda na mente dele que jamais seria completamente curada.

– Pode olhar para o outro lado? – ele disse – preciso mijar. segurou-o e devorou-o na mesma hora. Ainda bem que estou cego e não surdo. Só fiz esse pedido para me certificar se não era mesmo impossível. – Pensei que pelo menos alimentassem vocês bem – eu disse – Barata disse que vocês recebem refeições duas vezes ao dia. O cara ia morrer e estava preocupado que sua habilidade ia diminuir. Eu coloquei a mão na boca e usei todas as minhas forças para não derramar patéticas lágrimas outra vez. Quando sentiu o pão que lhe dei. Seus dois olhos estavam completamente queimados. Quando escutei que ele havia terminado. com grandes dentadas. Barata não tinha aceitado minha oferta. – Você veio até aqui para nos ajudar. O primeiro deles é que me consiga um contrabaixo. Vou levar tempo para recuperá-la. agora ele já se sentia mais disposto a conversar comigo. Não acredito que fiquei tantos anos sem ensaiar. Estou quase enlouquecendo sem poder tocar. Pode ser qualquer um. Foi quase como uma necessidade. – Que pena. Mas Navarro deu passos apressados na minha direção. Ainda bem que Navarro não podia contemplar minha expressão de terror..A Era do Folhetim Não achei que fosse funcionar. Felizmente. pois disse que não tinha apetite. Ele não havia acertado o vaso e o chão ficou um pouco molhado nos arredores. Fitei o vaso sanitário no fundo da cela. Mas eu já tinha desistido de tentar entender o raciocínio de Navarro. Não é como se eu pudesse esconder um instrumento tão grande no meu bolso e trazê-lo aqui escondido. voltei meus olhos para ele de novo. Minha habilidade com certeza diminuiu. como se tivessem sido consumidos pelo fogo. Porém. – Que tal uma gaita? – propus. Eu não queria fazê-lo se sentir pior. eu calei a boca quando vi os olhos de Navarro. Depois que Navarro terminou de devorar o pão simples que eu lhe trouxe. 183 . Ele estava cego. certo? Então eu tenho dois favores a pedir. Ainda consigo cantar e batucar na madeira. abaixou-se e tateou as grades. Fiz como ele pediu. – É um pedido meio difícil – eu falei – posso até tentar. ele lambeu os dedos. mas duvido que eles permitam..

Não quero mais conversar. eles não precisavam ter vindo. Agora vamos ao meu segundo pedido: me mate. Eu só queria entender. Eu queria experimentar aquelas jogadas.Wanju Duli – Deixa pra lá. infelizmente. Todos só me criticam. fora daqui. eu acreditei que somente aquilo fosse me fazer respirar de novo. tomara que sintam muito remorso e arrependimento pelo resto de suas vidas pela forma com que me trataram. Preferi não continuar a falar sobre os pais dele. Já tinha me sentido assim. – Por que você não se arrepende. Foi como uma necessidade maior do que eu. Se era para dizer isso. – O que acha de Barata ter lhe defendido? O que você sente ao saber que ele está ao seu lado. Até porque eu não me considerava em posição para julgar. – O quê? Como? – De qualquer forma. Quando me assistirem queimando. – Eu sabia que você ia vir para me criticar. Como se estivesse me afogando e somente aquilo pudesse me libertar. Apenas me mate. Fica a seu critério. o que é pior. Estou cansado de toda essa merda. É parecido com o desejo desesperado que sinto agora de tocar meu contrabaixo: eu simplesmente precisava dessa sensação. Nunca sou bom o bastante. de camarote. Por que fez tudo isso? Por que criou a Amor Fati? E por que não se confessa? – Eu já expliquei mil vezes porque criei a sociedade secreta. Nada do que faço é aceitável. se confessa e acaba com isso? Por que precisa ser tão idiota e passar por tanto sofrimento? E. Agora era a minha vez de falar. Para me chamar de imbecil e dizer que eu tinha feito uma grande bobagem. – Seus pais vieram aqui te visitar? – Sim. fazer seu amigo sofrer contigo. A começar pelos meus pais. Se não quiser. Eu precisava dizer tudo o que estava trancado na garganta. Eu entendi. Só espero que venham para assistir ao espetáculo da minha execução. – Desculpe – eu disse – minha intenção não era criticá-lo. sentindo a mesma dor? 184 . A aparente tranquilidade dele me incomodava. Perderam a viagem. Quando desejei entrar para as escolas de elite.

Mas acho que essa é a forma dele de me mostrar o quanto se importa comigo. Quem sabe Arthur tenha finalmente achado essa coisa maior aqui na Igreja. para realizar um desejo pessoal de se sacrificar por mim. – Você queria ser um criador. castalianos. mais que isso. Eu me sentia completo. para o bem de todos. – Não sabia que você era assim tão nobre. Não podia ignorar. Eu não achei.A Era do Folhetim – Eu obviamente não pedi que ele fizesse tudo isso. um tipo de Mestre dos Fantoches. Essas minhas férias na Igreja estão servindo como um poderoso processo de autoconhecimento. Sabe que nós. ou por qualquer coisa maior que ele. – Você poderia salvar a si mesmo e ao Arthur. Então. Gostaria de ter impedido. como voltar aqui para queimar tudo e causar o caos. Ele poderia estar seguro. 185 . Que bem faria eu me confessar agora? Se eles “misericordiosamente” me soltarem. mas nós jamais a chamaremos de Deus. Nunca pensei muito sobre o que eu fazia: porque eu tocava. vou acabar fazendo uma besteira. Não me enxergo mais voltando para minha velha vida e me dedicando à música tranquilamente. Eu não podia mais respirar. Eu queria poder criar meu próprio Jogo das Contas de Vidro. porque eu jogava o Jogo de Avelórios. para que uma guerra desnecessária não seja gerada. – Também não pensei que eu fosse. Acho que eu estava tentando me comunicar com os outros: conversar através da música. – Eu me humilhei e chorei na frente da papisa quando fui condenado – explicou Navarro – mas eles não se comoveram. Talvez ele precisasse disso. Eu senti as mãos invisíveis. Mas por que eu não estava satisfeito? Porque eu buscava outro tipo de conexão. Mas também não quero soar mal agradecido. O Jogo também me proporcionava algo parecido: era um tipo de conexão com os outros jogadores e. é melhor que eu morra. somos obcecados por essa tal coisa maior. Não agora que vivi essa injustiça. Acho um desperdício. Já não sentia alegria no Jogo. Basta se confessar. com o universo. Foi o que busquei com a criação da Amor Fati: digamos que eu estava mostrando minha insatisfação política. Esmagavam meu coração. tentando exercer poder sobre mim. mostrar o que eu sentia. – Por que política? – Porque havia algum desgraçado em algum lugar.

Mas raramente tentava descobrir a minha própria voz. mas não era bem assim que havia acontecido. Admirava os maiores romancistas e poetas. por que eu nunca tinha feito isso? Eu gostava tanto de ler. surpresa.Wanju Duli – Castália não tem o costume de criar coisas – explicou Navarro – por tradição. Nós temos muito medo da vida que anda rápido e 186 . não somos incentivados a inventar nosso próprio jeito de fazer as coisas. cujas mudanças acontecem de forma lenta e cuidadosa. A tecnologia estava avançando demais e tivemos um grande terror dessa mudança. A Era do Folhetim representava tudo o que para nós era destruidor. É o bastante que possamos estudá-las e tocá-las com o máximo de perfeição a que podemos chegar. Até mesmo um cara como Arthur sempre foi orientado a usar estilos de pintura que imitassem os grandes nomes do passado. – A Igreja é um dos símbolos máximos de conservadorismo e tradição – explicou Navarro – não é à toa que Castália nasceu por uma forte influência dessa instituição. Você já escreveu um poema? – Nunca escrevi – confessei. todos se mostraram perturbados e até embaraçados. O mundo estava muito rápido. Tememos a mudança. Assim como os livros de história chamaram a Idade Média de “Idade das Trevas”. embora fosse um termo totalmente pejorativo e não refletisse plenamente a realidade. termo que Navarro também havia usado para referir a si mesmo como mestre da Amor Fati. – Castália apenas canta o passado e não o futuro. Normalmente pensaríamos que o século XXIV estaria repleto dos computadores mais modernos e de tecnologia de última geração. Embora não seja exatamente proibido. Havia rumores de que o termo “Sombra” se referisse à Sombra do Magister Ludi. Nós paramos no tempo. Apenas de forma muito sutil. como se vivêssemos eternamente estagnados num tempo que parou de se mexer. como humanos. Afinal. os livros de história atuais chamavam a Idade Contemporânea de “Idade das Sombras”. Quando o professor Peixoto utilizou uma pintura feita por ele mesmo no Jogo. apenas celebramos a beleza de todas as músicas ilustres criadas no passado. Eu presenciei o desconforto com que os jogadores de Contas de Vidro encaravam a criação.

Não sei se esses meus olhos queimados ainda são capazes de chorar. seja em paz ou sem ela. mas eu me tornei uma pessoa assim. Um dia julguei-me forte. – Será que você pode sair agora? – ele pediu – fiquei meio sentimental depois dessa conversa e não quero chorar na sua frente. mas obrigada por existirem. Ou eles podem optar por feitos pequenos. pois nesse instante até mesmo meu próprio corpo parece grande demais para que eu posssa carregá-lo. Agora. – Então morrerei para agradar a mim mesmo. Ficamos em silêncio por meio minuto. Não importa mais. só quero morrer depressa. E nem morrer. – De uma forma estranha. minhas asas foram queimadas pelo Sol. – Está certo. Sinto-me tão cansado que apenas queria dormir para sempre. como um Ícaro. 187 . – Não estou desapontada. Desculpe desapontá-la. Se eu conseguir adiantar a execução de vocês. mas não quero que você se lembre de mim dessa forma. você e Barata são meus heróis – confessei – não sei se minhas palavras fazem diferença. Deixarei que os que virão depois de mim prossigam com os tais feitos grandes. Estou saindo. – Não era isso o que você queria? – Antes era. Foi algo assim que tentei construir na Amor Fati. Agora só desejo a morte. E mesmo se estivesse. faz diferença? Você não devia viver para agradar os outros. – Então você simplesmente aceitará o peso de seu destino. Se criarmos algo novo. Isso não faz mais diferença. voltarei para informá-los. Vocês me inspiram e vão continuar a inspirar mesmo depois de desaparecer. Mas parece que cheguei ao meu limite. Segurei a mão dele com cuidado. Mas. A Idade Folhetinesca é fonte de medo e fascínio para nós.A Era do Folhetim acaba depressa. – Eu me sinto fraco agora para carregar qualquer peso. pois lhes nasceram asas e eles levantaram voo para fora do tabuleiro perfeito dos símbolos. o que será de nós? Onde vai se encaixar a nossa criação em nosso mundo perfeito e geométrico onde tudo sempre tem seu devido lugar? Muitos criadores reunidos podem gerar o caos. Agora pareço tão grande e monstruoso. Não sei como um dia me julguei pequeno. – Estou cansado de ser herói. Sempre estou cercado de puxa-sacos.

Aquela merda foi difícil de conseguir. a papisa ficou em silêncio. Eu já havia feito a minha parte. Foi muito natural para mim deitar-me no chão diante dela. Requisitei uma audiência com a papisa. A Amor Fati e tudo que envolvesse aqueles dois virou tabu em Castália. Não havia mais nada para eu fazer lá. todos mantiveram um profundo silêncio. Eu queria algo mais profundo. Que os habitantes de Castália fossem iniciar uma revolta. – Não estou estendendo o tempo deles para que sofram mais – explicou a papisa – e sim para que repensem os seus atos e confessem. Um ano. Em menos de um ano a sentença final será anunciada. pelo menos os estudantes ou os conhecidos próximos dos dois. Eu me senti vazia.Wanju Duli – Obrigado. no dia 2 de maio resolvi deitar-me com Sônia. Era isso que significava adiantar a data de execução para o Vaticano. Barata e Navarro. Inicialmente pensei que uma guerra estouraria depois disso. foram executados pelo fogo e purificados pelo Espírito Santo na manhã do dia 1º de maio do ano de 2303. Falei do grande sofrimento pelo qual os meus amigos estavam passando e pedi por misericórdia. poderão ser salvos. Depois da minha longa explicação. Senti-me solitária. – Vossa Santidade. aos 30 anos. No entanto. Farei como me pede. 188 . Um ano depois. – Ouço o seu pedido e entendo sua aflição. Então retornei para o Brasil: para Nova Castália. Se o fizerem. Expliquei que não havia chance nenhuma que essa confissão ocorresse. Por isso. Tive que aguardar alguns dias. uma união de carne e espírito. Quando me levantei. fui direto ao ponto. Aquela mulher era magnífica. Impunha um respeito tremendo. como se me faltasse um pedaço. Isso porque eu me sentia tão sozinha que não me saciaria apenas com um abraço amigo. peço humildemente que adiante a data da execução da Sentença do Tribunal do Santo Ofício. Fizemos sexo juntas pela primeira vez.

lembrei do que Barata tinha dito: se 99 coisas forem permitidas e somente 1 proibida. Ele ficou assim: Há um anjo no céu. devido à nova lista de livros que foram acrescentados ao Index.A Era do Folhetim Depois desse momento de amor. sempre vamos ambicionar a única coisa proibida. Contudo. que Arthur Barata jamais terminaria de pintar. Eu e os outros jogadores passávamos longos períodos nas bibliotecas fazendo pesquisas para bolar jogadas e projetos de Jogo. uma parte de mim sabia que não era verdade. escrevi um poema. A verdade era que o mundo nunca seria exatamente como eu queria que ele fosse. eu já não tinha tanto tempo para ler livros de literatura. depois de certo tempo. num mundo repleto de paz. alguns livros começaram a ser proibidos em Castália. Seria meu pequeno segredo. aprendi coisas novas e levei o Jogo para um rumo bastante interessante. nem terra e nem céu Sou um sonho que se perdeu Um poema curto e singelo. O meu primeiro poema. então inicialmente isso não me incomodou muito. Então tentei começar a realizar minhas pesquisas em outros livros que anteriormente não tinham recebido minha devida atenção. Porém. 189 . Não importava onde eu estivesse: em Castália ou lá fora. Eu queria acreditar que agora ele estava num mundo assim. há um anjo na terra Não sou anjo. Escrevi meu pequeno poema nos hieróglifos do Jogo das Contas de Vidro embaixo de uma parte em branco de um mural inacabado de Castália. No entanto. mas achei melhor não reclamar. essas proibições começaram a atrapalhar minhas pesquisas sobre o Jogo. Nos anos seguintes. Eu me sentia um pouco frustrada por não possuir mais livre acesso ao material que queria. Então eu só poderia fingir que acreditava. Isso até que foi positivo para mim. pois passei a ler coisas que eu não leria normalmente. Pelo meu envolvimento com o Jogo das Contas de Vidro. Afinal. Ele havia desenhado uma paisagem bonita. eu poderia chamá-lo de meu. Confesso que me inspirei um pouquinho no poema “Ismália” de Alphonsus de Guimaraens.

ele não havia usado o termo “liberdade” e sim “poder”. a Dani continuava em sua viagem. Eu mesma. não fazia diferença se a Igreja estava queimando pessoas. não me importaria tanto com as outras coisas. Cela Silvestre e o Jogo de Avelórios. Porém. Devia ser por isso que se colocou contra a Igreja: porque a existência dessa entidade maior que ele lhe incomodava. Eu havia enviado a ela o último recado de Barata numa carta. Precisávamos aprender a não nos portarmos como uma criança mimada que deseja saciar todos os seus desejos imediatamente. Ela tornou-se uma importante professora das escolas de filosofia de Castália com apenas 32 anos. a entidade “pais”. mas a sua vida não parou. pois eu não recebia mais notícias dela. com outros nomes. como o Dinheiro. Castália era famosa por sua ignorância política: enquanto pudéssemos manter a nossa vida como sempre mantivemos. E daí que havia meia dúzia de jogadas proibidas? Não importava o motivo.Wanju Duli Eu não era a única pessoa viva e sempre haveria conflitos de interesses entre as vontades das pessoas. Eu sequer sabia se ela havia recebido. a entidade Cela Silvestre. 190 . enquanto pudesse continuar a jogar o Jogo das Contas de Vidro e permanecer a viver no meu universo sublime e elevado. então por que se importar? Provavelmente ele se importou não pelas jogadas proibidas em si. qual é a diferença? Meus Deuses eram Castália. Disse que se aborreceu que uma entidade maior tivesse poder sobre ele. Algumas vezes eu pensava que Navarro havia agido exatamente dessa forma: como uma criança emburrada que perdeu seu brinquedo. Eles eram apenas outros Deuses. Enquanto isso. Muita gente parece bastante incomodada com a palavra “Deus” mas permitem que outros Deuses. mas ela não me respondeu de volta. No fundo. Eu começava a desconfiar que ela havia decidido permanecer definitivamente por lá. Um feito notável. Havia muitas outras possibilidades quase infinitas. A Gio ainda continuava profundamente deprimida. há longos anos. por mero capricho. ditem suas vidas. Mas várias outras entidades também lhe incomodavam: a entidade dinheiro. mas pelo que representava essa proibição: um atentado contra sua liberdade.

A Era do Folhetim Dez anos depois daquele acontecimento fatídico. partimos de dois temas iniciais para o Jogo: a teoria das mônadas de Leibniz e o livro “As Moradas do Castelo Interior” de Santa Teresa D‟Ávila. Não era exatamente essa parte da teoria que eu gostava. mas deixeime envolver pela paixão da minha amiga. Até a papisa quis me ver de novo para que eu lhe desse uma tarde de orientações sobre o Jogo. Eu quase me sentia culpada em considerar como amiga uma das pessoas que havia sido a favor da condenção de Barata e Navarro. Podia recusar as ordens de Castália. era melhor eu fazer minhas malas e voltar para minha velha vida. Mas se eu começasse a me rebelar demais. havia sido a maior responsável pela morte dos meus amigos. eu não era mais uma iniciante. não vou discutir com Leibniz – eu disse – já que as ideias dele formam algumas das bases mais poderosas do Jogo de Avelórios. eu o obtive a muito custo. Eu estava sendo requisitada como professora em vários lugares diferentes. aos meus 38 anos. – Bem. Dessa vez pude oferecer-lhes um Jogo digno. Então. Eu particularmente aprecio suas teorias sobre os mundos possíveis. após dez anos. Há apenas um ano eu havia conquistado um cargo de professora de Cela Silvestre. o interesse dos sacerdotes católicos pelo Jogo estivesse crescendo de novo. pois é o mundo que Deus quis. pessoalmente. fui convidada novamente para o convento de Milão. mas ela parecia bastante à vontade. – Vivemos no melhor dos mundos. por pedido delas: as irmãs queriam um novo curso do Jogo das Contas de Vidro. Não deixa de ser um pensamento apaixonante. Afinal. Nessa ocasião. fui visitá-las. Ela. Considerei o encontro particularmente incômodo. Curioso que. Tive que estudar por longos anos até adquirir o nível técnico mínimo necessário para exercer uma posição desse porte. Dessa vez. então ele só poderia ser o melhor. Porém. mesmo que 191 . mas o que eu poderia fazer? Eu poderia me negar a pisar na Itália de novo. – Curioso você ter escolhido uma autora carmelita dessa vez – observou a irmã Giuseppina – mas confesso que considero a ideia de Leibniz de que Deus seja uma mônada um tanto excêntrica.

Só aprendi o básico necessário para ser capaz de realizar jogadas simetricamente bem calculadas. Esse era um segredo meu e da Gio. – Sua didática me lembra de um pietista suabo. No entanto. retorne aqui no ano que vem. Isso me atrai. Ela notou que fiquei um pouco chateada. – Gosto de você – ela decidiu – não é arrogante como os outros castalianos. eu estava descobrindo que no fundo ele era um cara legal. foi ela que me deu umas aulas sobre Pitágoras. Nunca pensei que um dia eu seria professora ao lado dele. – Pelo contrário. No final. Junqueira não fazia a menor ideia que eu sabia daquelas coisas. – Vossa Santidade deve achar que não sou uma boa instrutora – observei. Já ouviu falar de Bengel? – É claro! – exclamei – não sei o que dizer. 192 . ela admitiu que também já tinha feito suas próprias pesquisas nas bibliotecas do Vaticano. quando retomei o assunto. Por favor. que eram bem mais amplas que as nossas. mas também percebeu meu entusiasmo com as novas informações. Sua didática é impressionante.Wanju Duli tivesse sido a vontade de Deus. pesquisei a fundo para ser capaz de responder a pergunta dela. Nunca vi igual. Você é professora de que disciplina em Cela Silvestre? – Problemas básicos de Jogos. insegura – pois no fim sempre sou eu que recebo as lições. Atualmente eu dividia com ele algumas disciplinas. Sinto-me lisonjeada. Você diz “não sei” quando não sabe. Quando retornei no próximo ano. A papisa sorriu. Para minha surpresa. Eu a considero uma excelente instrutora. Esse tipo de humildade é rara hoje em dia entre os seus. – Em quais elementos dos pensamentos de Pitágoras o Jogo se baseou? – ela perguntou-me. Admite as próprias falhas. – Na verdade não sei – confessei – nunca fui tão boa assim em matemática. E lá estava eu tranquilamente ensinandolhe a posicionar no chão as pedrinhas de vidro. Gio também já havia me contado umas histórias engraçadas sobre seu pai. Eu dava as aulas que anteriormente eram ministradas por Junqueira.

Ele me disse que havia cursado pintura em sua época nas escolas 193 . Naquele momento lembro que senti uma dor no coração: eu teria chamado Barata para desenhar as cartas para mim: cartas bem coloridas. com fundamentos na música. eu precisava mudar o idioma do Jogo para torná-lo mais acessível. Mas essa era somente a base sobre a qual seriam construídas as primeiras jogadas. ele deveria necessariamente atravessar os limites do tabuleiro e das contas. as jogadas deveriam seguir um ritmo. lembrei do professor Peixoto. imitando o movimento dos planetas. especialmente as crianças. com os auxílios inestimáveis de Gio e Boaventura. Essa parte foi obra da Sônia. para encantar a todos que jogassem. Por sua vez. Eu precisaria me ocupar com uma série de questões fundamentais: não poderia reduzir o Jogo a uma mera linguagem formal decorativa. A meta era apenas facilitar as primeiras jogadas para acostumar o jogador principiante e dar-lhe confiança. passei a desenvolver um projeto bastante ambicioso. deixando as regras mais claras. Esse foi um projeto que me consumiu oito longos anos. inspirada pelas palavras da papisa Catherine I. Apenas a primeira hora de jogo. consegui chegar numa versão satisfatória. Era um projeto muito mais complexo do que parecia. As contas de vidro poderiam formar círculos ou elipses no tabuleiro de acordo com a jogada. sem destruir sua essência. Ao mesmo tempo. de autores brasileiros e estrangeiros. Por fim. para outras áreas do conhecimento.A Era do Folhetim Nos anos seguintes. Havia uma série de cartas com poemas previamente selecionados. E o centro de tudo estava nos símbolos. com uma rica simbologia. Afinal. Contudo. Depois disso. Montei um tabuleiro minuciosamente calculado com base na geometria. Eu havia pensado nele ainda nos meus primeiros meses em Castália: o desenvolvimento de uma versão do Jogo de Avelórios para leigos. minha intenção não era montar um jogo de tabuleiro qualquer e reduzir as possibilidades das jogadas. Ele havia desenhado aquele quadro. Os jogadores eram instruídos a meditar sobre a simbologia que representasse os temas de base.

que admiravam o Jogo mas optaram por seguir outras carreiras. eu não me incomodei tanto com essas críticas. No entanto. exatamente como Barata. podiam se dedicar aos seus estudos e jogar nas horas vagas. Ensinar novos jogadores. o Jogo já estava sendo jogado corretamente por diversos estudantes brasileiros. Eu lembrava do sufoco que passei para aprender desesperadamente os hieróglifos e a lógica do jogo em meus primeiros meses em Castália. Ele já não era um Jogo hermético cujas regras somente eram exclusivas aos iniciados. Aquele problema havia sido bastante reduzido com essa alternativa. Agora. Então ele prontificou-se a desenhar as cartas para mim e tudo ficou bastante harmonioso. Os novos alunos de Cela Silvestre eram introduzidos ao Jogo com muito mais facilidade. Navarro também foi duramente criticado pela sua criação da Amor Fati. Eu me sentia no céu. Sorrindo. especialmente as crianças. perder seu valor. alguns até mesmo com oito ou nove anos. Voltei até mesmo para a minha velha escola pública e me maravilhei diante da oportunidade de ensinar para meninos e meninas. sem precisar perder longas horas ou dias em preparações de temas. Minha versão simplificada do Jogo fez tanto sucesso que começou a ser adotada em outros países. Sem contar os estudantes das outras escolas de Castália. Porém. eu sempre seria criticada. Fui uma das maiores responsáveis pela popularização do Jogo pelo país. É verdade que as cerimônicas públicas de Vicus Lusorum ainda eram restritas apenas a convidados especiais e que a identidade da Magister Ludi era sempre mantida em sigilo. Eles diziam que o Jogo iria se degenerar. Eu já sabia que eram inevitáveis. É claro que houve os professores mais conservadores de Cela Silvestre que acharam minha versão simplificada uma péssima ideia. Inclusive no interior de Castália. Eles poderiam continuar jogando de vez em quando com este tabuleiro.Wanju Duli de elite preparatórias. Não importava o que eu fizesse. Eu estava me apaixonando cada vez mais pela pedagogia. que ainda não tinham suas cabeças cheias dos preconceitos do mundo. fora isso. brincando com as contas. 194 . Passei a pedir permissão cada vez mais frequente para ensinar o Jogo em escolas comuns do interior do Brasil. Assim.

Minhas salas de aula estavam ficando vazias. Eu estava impressionada. Eu havia escutado rumores sobre as dificuldades financeiras da Província. Queria saber o quanto daquilo era verdade ou mentira. Foi naqueles dias que também tive uma conversa com a Magister Ludi. Dois anos depois. Assim. ele havia virado um tipo de lenda em Castália. E nem eu. Eu comecei a dar aulas para pouquíssimos alunos. seus belíssimos murais espalhados por Castália se tornaram ainda mais adorados e valorizados após sua morte. Ninguém nunca tinha ouvido falar de algo assim antes. ainda estamos recebendo vários alunos ouvintes. Barata era igualmente famoso. por uma série de fatores. Eu quase me sentia como Descartes no tempo de colégio. – O Brasil está passando por uma grave crise financeira – ela explicou – só não estamos numa situação de grave privação em Castália devido aos seus incessantes esforços de promover o Jogo nas escolas. pelo sacrifício que fez por Navarro. 195 . carregando velas por aí. já que após quase vinte anos ela não parecia ter intenção de voltar. aquilo não estava em seus planos. mesmo com a crise. E. Sentiam muita fome. especialmente entre os alunos novatos. Aparentemente. não aguentavam os jejuns prolongados e acabavam voltando para casa. Até as desistências dos novos alunos de Cela Silvestre estavam aumentando.A Era do Folhetim mais de 15 anos depois. a situação já estava ficando insustentável. Aproveitamos a oportunidade para aumentar nossos períodos de jejuns e práticas de meditação. Recebíamos pouquíssimos alunos ouvintes por causa da crise. Muitos não aguentavam a nova vida de rigorosas privações em Castália. Também foi naquele ano que Gio se tornou Magister das escolas de filosofia. já estávamos começando a racionar provisões em Castália. Eu era amiga de uma Magister! Achei que a Dani também teria potencial para ser Magister de sua área. Apagávamos as luzes uma hora mais cedo: às nove da noite. Nem os mais ricos tinham dinheiro sobrando para se dedicar ao pequeno capricho do Jogo. passamos a usar velas como parte do material escolar para as aulas da noite. Mesmo assim. O problema maior começou quando tivemos que racionar comida e água. em certo momento. Para completar.

havia sido uma morte prematura. tropeçando nas próprias pernas. preferiam optar por estudar em escolas que garantiriam uma maior segurança financeira. Ela atualmente trabalhava como pesquisadora num projeto importante. Liliane Cavalcante faleceu com apenas 74 anos. Na verdade. Em vez de inveja. muitos ali sentiriam pena do novo Magister. Ou ao menos era isso que eu queria pensar. Precisavam de um bode expiatório: seria muito mais fácil escolher um Magister Ludi mais fraco e. Afinal. Considerando a expectativa de vida de Castália. eu não estava entre os maiores mestres eminentes de Cela Silvestre. Foi naquele ano que recebemos a notícia da morte da Magister Ludi. Eu estava estudando na biblioteca na ocasião do conclave. Eu obviamente não participei dessa reunião. Todos ficaram tristes. foi exatamente devido a esta crise que rolavam rumores de que os tais fortes candidatos não estavam muito a fim de assumir essa responsabilidade num momento como esse. Achei que ela estava 196 . Foi quando Sabrina entrou na biblioteca. ela deve ter se abatido demais e assim a doença tomou conta de seu corpo. Eu apenas torcia para que o novo Domine fosse uma pessoa capacitada e sábia o suficiente para lidar com a gigantesca crise financeira que assolava nosso país e especialmente nossa Castália. Preparando minha próxima aula.Wanju Duli Aqueles que aguentavam. o conclave foi iniciado: a reunião formal e magnífica que definiria a escolha do novo Magister Ludi. ela era a dirigente máxima de nossa Província. Apesar de eu possuir um cargo importante de professora. bastava culpá-lo. Tivemos um dia inteiro de recesso para realizarmos um luto pela Domine. Achava que o novo Mestre dos Jogos deveria se sentir honrado pela confiança de ser escolhido neste momento difícil. Duas semanas depois. se tudo desse errado como a crise sugeria. Muitos diziam que era por causa da quantidade de afazeres e responsabilidades de um Magister Ludi. como a escola de matemática ou de biologia. No entanto. Ainda mais naquele período de privações e dificuldades. eu não pensava assim. Pelo menos seria mais fácil conseguirem emprego lá fora caso a crise apertasse ainda mais. o líder supremo de Castália. Havia muitos candidatos fortes.

– Maria! – ela exclamou. Quando ela saiu. Não seria incomum. corrigir provas e ainda cuidar das incontáveis atividades domésticas. pois precisava correr para preparar aulas. incrementar o Jogo para iniciantes. A frieza com que eu disse isso deixou Sabrina desapontada. era tudo rumores. Volta para lá e aguarda o pronunciamento oficial. mas que me 197 . Era uma sensação ao mesmo tempo incômoda. embora tenha ficado muda por alguns segundos e tenha sentido uma espécie de vertigem. Era evidente que nada se sabia ainda. ela reconheceria que agi com uma certa maturidade. dar aulas. De repente. Eu já não tinha tempo para ler meus velhos livros de literatura. Mais tarde. Por fim. para completar. senti uma profunda tristeza. O conclave ainda não tinha terminado. lhe disse: – Não fala tanto. sido escolhida como Magister Ludi de Castália. eu respirei fundo e apenas retomei minhas anotações. Ela fazia isso às vezes. No entanto. voltei a sentir a sensação de vertigem. de fato. também encarei a informação como algo muito natural. Caso se somasse a isso os deveres de um Magister. Não quero saber desses falatórios. Pensando bem. mas havia muitos candidatos mais habilidosos e inteligentes que eu. emocionada – eles vão te nomear Magister! Tapei-lhe a boca assim que ela disse isso. Eu havia sido a maior responsável pela popularização do Jogo entre os leigos nos últimos anos. Sabrina. que não deixava de ser impressionante diante da grandiosidade da informação que ela me trouxe. embora tivesse contado com a ajuda preciosa de meus amigos. Ela certamente pensava que eu partilharia de sua alegria e saiu de lá como se tivesse sido chutada para fora como um cão. eu tinha boas relações com as freiras do convento de Milão e inclusive já havia dado cursos do Jogo para a própria papisa. o que seria da minha vida? Quando recebi o anúncio oficial de que eu havia. Contudo. após sua frustração passar um pouco. não era somente a minha habilidade que contava. fazia sentido.A Era do Folhetim afobada porque queria me contar alguma coisa incrível que descobriu em seu projeto. E. nada podia ser afirmado ao certo. Minha relação com os professores de Cela Silvestre era boa. Meu currículo era bom.

Domine. Mesmo aos 48 anos. Por isso. Mestre de Filologia. a Magister de literatura. não gostava do colégio e nem do Jogo de Avelórios – ela pronunciou. envergonhada. Quem conversou comigo naquele mesmo dia. foi uma pessoa que eu não via há muito tempo: Lorena Flores. no fundo. Nessa ocasião recebi as condecorações do Magister Mathematicus. Pensei em Sabrina e em Boaventura.Wanju Duli gerava um êxtase repentino. O documento oficial foi lido. a menina que não gostava de ler. 198 . realizou a entrega das chaves e dos selos. não tinha sonhos. Tornei-me oficialmente Mestre dos Jogos e vesti o meu hábito em tons de branco e ouro. Eu deveria comparecer dali dois dias em Vicus Lusorum para a prestação do juramento. no final da cerimônia. eu precisaria proceder na escolha da minha Sombra. Foi por causa dela e da minha professora de português que eu havia sido aceita nas escolas de elite. Baixei a cabeça. Eu realmente havia dito todas aquelas coisas aos meus 13 anos. integralmente em latim. o Magister Grammaticae. que vinha e voltava. Depois disso. ela era perfeita para ser minha Sombra e aceitou. – Maria Santa. eu não me arrependia de tê-las dito. eu ainda conseguia enxergar em mim aquela garota insolente de 13. Esta foi a cerimônia de investidura. A partir dali. Fiquei surpresa ao constatar que. de que eu estava numa montanha-russa e que uma vez lá dentro eu não poderia mais descer no meio do caminho. Um frio na barriga. Ela me fitou orgulhosa enquanto eu estava naqueles trajes e sequer ainda acostumara-me a eles. honrada e de imediato. ainda na época do colégio. será que eu posso fazer uma pergunta? – É claro. quando lhe fiz o pedido. – E agora. Deu-me um sorriso. que não tirava boas notas. mas logo recordei-me que Sabrina me disse um dia que ela não tinha nenhuma intenção de tornar-se Magister. que lia para aparecer e não esperava muito da vida. A sensação de que minha vida estava sendo virada do avesso. que havia me mostrado os trechos dos escritos de Rimbaud e Shakespeare.

Ou a loucura de perseguir um sonho. Aquilo nunca tinha acontecido antes. Nesse momento não pude deixar de pensar em Barata e Navarro. mesmo que ele pareça irrealizável. E dentre os escritores brasileiros. Achei que fosse impossível aprender aquilo. Tem alguma doença grave?” ela tinha me perguntado na ocasião. E da segunda vez até que passou bem rápido. Todos queriam falar comigo. Eles tinham feito algo realmente maluco. qual mais lhe atrai? – Posso citar apenas um poema? – requisitei – Ismália. – Proust – pronunciei. “Você parece com pressa. Pensando bem. A maioria encarou o ato como uma bobagem para crianças. Acho que eu tinha sido muito dramática na época. – Um suicídio? – Mas também um sonho e uma loucura. tanto antes quanto depois de suas mortes. – E não acreditava que seria capaz de completar seus estudos em Cela Silvestre. virei uma estrela da noite para o dia. – Lembro que sua professora disse que havia mencionado algo sobre Proust. aos meus 21 anos eu ainda não era tão mais madura que aos meus 13.A Era do Folhetim – Estou curiosa para saber qual é atualmente o escritor preferido da Venerável Mestre. – E eu realmente reprovei na disciplina de símbolos! – argumentei – mas fui aprovada em minha segunda tentativa. Eu acho que a busca de tempo e a reflexão sobre ele sempre foi uma questão recorrente na minha vida. Mas optei por não referir esse detalhe. Nem mesmo na época em que lancei o Jogo de Avelórios para principiantes. Sequer acreditava que poderia ser aprovada em suas primeiras provas. Agora até quem havia ignorado completamente o Jogo que criei se interessou em experimentá-lo. Mas a vida deles. tinha sido incrível. Também era verdade que eu curtia as personagens lésbicas. Eu ainda reclamava de umas coisas desnecessárias. De repente. Hoje 199 . E genuinamente gostei da obra. sem pensar – eu finalmente terminei de ler “Em Busca do Tempo Perdido”. A próxima a conversar comigo foi a minha professora responsável que havia me dado ótimos conselhos assim que cheguei em Castália: Clara Correia.

A Província está passando fome. – Mas agora todas essas pessoas dependem de mim. simplesmente – ainda bem que estou aqui com você. Vai dar tudo certo. Com meus amigos. Não está sozinha. – A sua vida é uma loucura. mas com eles ao meu lado eu sabia que conseguiria lidar com os problemas. não conseguiu acreditar. Pode contar comigo para o que precisar. Eu precisaria da ajuda dos meus amigos mais do que nunca. Não é que você tenha que se livrar de todos os seus problemas. Aquele cargo estava além das minhas forças. como Magister Ludi. Isso é ótimo.. Relmente. Basta aprender a encará-los de forma mais leve. Eu. meu passado também foi tão sublime. Se Barata estivesse vivo. conversar com ela me deixou mais calma. O presente momento. eu tinha certeza de que ele teria se tornado Magister Ludi. Já está analisando o problema de outras perspectivas. sou eu que posiciono os símbolos nos tabuleiros de signos nesses últimos três anos.. segurando minha mão entre as suas. Eu já li tanto. por que ler tanto. Domine. me enchia de felicidade. não é mesmo? Ela sorriu. Está bem?” me disse Barata. A Gio morreu de rir quando me viu e fez uma exagerada reverência. Tempos que não voltavam mais.Wanju Duli em dia. “Prometo que vou resolver esse problema. Mas eu ainda continuo com o mesmo problema sobre o tempo! – Acha que não tem tempo para fazer tudo o que deseja? – E vou ter menos ainda agora que sou Magister Ludi! Se bem que hoje em dia já não sinto a necessidade de ler tantos livros. Domine. Barata e Boaventura resolvendo juntos os problemas do Jogo nos cadernos de exercícios. Ao mesmo tempo. Eu estava com saudades. e não eu. – Vossa Grandeza é realmente grandiosa! 200 . afinal. Nós discutindo as jogadas dos Jogos oficiais comendo ovos mexidos com bacon. – Então você amadureceu. Queria ter dito o mesmo para ele. Aquelas palavras me tranquilizaram. Maria – ela disse. Quando Sônia me viu. O que eu faço? – Não se preocupe.

Já tinha até esquecido. certo? 201 . – Pelo jeito sua mudança de carreira foi bem acertada – disse Mariel. cara – eu disse. então um pouco de jejum não iria nos matar. – Aposto que você ainda deve saber mais que eu – garanti.. – Vivia falando antes que não sabia nada sobre o Jogo – observou Rodrigo – imagina se soubesse.. senhora Magalhães – retruquei. Passei os próximos meses totalmente imersa na preparação de um Jogo de Contas de Vidro que eu pretendia que fosse sublime.A Era do Folhetim – Não vem com essa que você também é Magister. Seria assim mesmo. – Realmente. Recebi até a visita de amigos que eu não via há um tempão: Mariel. pois eu teria menos de três meses para bolá-lo. tá certo. Na semana seguinte. Ficou todo atrapalhado. A outra questão ainda mais grave era a situação econômica da nossa Província. – Se precisar de umas dicas sobre política. – Relaxa. – Ah. – O que acha que Barata e Navarro diriam se me vissem agora? – Miguel iria morrer de inveja e nunca mais olharia para sua cara de novo – garantiu Gio – e Arthur acharia o máximo. Os racionamentos estavam tão intensos que os mais pessimistas achavam que sequer sobreviveríamos até janeiro para celebrar o Jogo. – É mesmo. – Quando eu tinha dez anos. é só me consultar – avisou Agatha. Mas esse deleite com meu novo título durou apenas alguns dias. Estávamos acostumados a viver uma vida simples. Agatha e Rodrigo. Como sempre tendi a ser um pouco otimista. talvez – brincou Rodrigo – agora meu cérebro está tão preenchido pelos intrincados labirintos da gramática e da filologia que não sobrou espaço para mais nada. me chamando seriamente de “Domine”.. Boaventura nem sabia como reagir quando me viu.. pensei que a situação financeira não estivesse tão ruim. eu já teria que lidar com duas questões importantíssimas: uma era a preparação do Jogo oficial em janeiro. – Se bem que às vezes eu te invejo por poder ler tanto – observei.

Eles não viam como eu havia me esforçado na preparação daquele Jogo que jamais iria acontecer. economia e política. Sabia que os Magisters ao redor do mundo estavam passando por uma situação semelhante à minha. Não havia dinheiro em parte alguma. As escolas de elite preparatórias também andavam desertas. Eu estava profundamente chateada.Wanju Duli Porém. mas eles também enfrentavam uma crise severa. Era transmitida por um mosquito e já havia tomado as capitais. escrito por aquele Magister Ludi. Contatei a sede na Alemanha por carta. É claro que eu não entendia nada de administração. riscado ou alterado em certos pontos. A partir de então. para que fosse corrigido. com dicas para os Magisters iniciantes. 202 . No mês seguinte. já chamavam Nova Castália de Cidade Fantasma. Os estudantes estavam deixando Castália em bando. Naquela noite. recebemos a notícia de que uma doença infecciosa particularmente letal estava se espalhando por certas regiões do Brasil. A crise atingiu Castália em todos os países em que ela existia. Era a primeira vez que isso acontecia nos últimos cinquenta anos. Pelo menos assim eu não me sentia tão sozinha. O resultado foi que as previsões pessimistas se realizaram: a edição do Jogo daquele ano teve que ser cancelada. abri o “Calendário de Bolso do Magister Ludi” de Ludwig Wassermaler. Nós. A maioria retornava para a casa dos seus pais e familiares. enviei-o pelo correio para o Magister de outro país. Ela começou em regiões específicas e logo já estava ocorrendo em todos os estados. Eu não sabia o que fazer. Havia pessoas falando mal de mim nas minhas costas em todos os cantos. Em fevereiro. Até mesmo alguns professores de Castália estavam deixando seus cargos para trás para tentar a sorte no século. Quando terminei de ler e colocar minhas anotações. É claro que isso gerou várias fofocas negativas sobre minha má administração. o calendário passava entre os Magisters Ludi dos diferentes países. Até que por fim foram fechadas por tempo indeterminado. não estudávamos isso! Eis o resultado: não saber o que fazer diante de uma crise. principalmente a falta d‟água passou a se tornar insustentável. castalianos.

A Era do Folhetim
É claro que aquilo já estava acontecendo há muito tempo. É que as
notícias chegavam mais lentamente em Castália.
Os gastos com saúde estavam absurdos. A população estava se
revoltando com os hospitais lotados e o atendimento precário.
Em alguns países, já havia estourado guerras civis, especialmente nos
locais em que havia uma grave falta de água. Logo, guerras passaram a
ocorrer entre países. Essas guerras sempre aconteceram, mas geralmente
elas ocorriam bem longe do Brasil. Porém, agora o nosso país estava
começando a se envolver nelas.
O ápice foi quando a Alemanha atravessou uma profunda crise. Com
isso Castália, aquela rainha que havia se mantido soberana por alguns
séculos, finalmente caiu.
Os portões da sede alemã se fecharam. E foi assim que Castália
conheceu seu fim.
Ser um Magister agora não significava mais nada. Com o fechamento
da Castália alemã e inglesa foi apenas uma questão de poucas semanas
até que as demais também fechassem suas portas.
Tenho orgulho em dizer que nossa Castália, a Castália brasileira, foi a
última a desistir.
Contudo, alguns viram minha insistência como uma fraqueza. Afinal,
era preciso saber quando desistir, eles diziam. Estávamos todos
sofrendo: não havia mais energia, estávamos sem luz e sem água. O que
haveria mais para fazer? Eu queria tanto assim que meu túmulo fosse em
Nova Castália a ponto de eu desejar continuar lá e morrer de sede e de
desgosto?
– Maria...
– Mas deve haver algum jeito. Se eu falar com a papisa...
– Maria! – exclamou Sônia, com seriedade – agora já chega. É o
bastante. Você já fez tudo que podia.
E eu finalmente cedi.
A Igreja também foi afetada pela crise. Afinal, ela não era imune.
Também era parte do mundo. Porém, como sempre, escapou. A Igreja,
como esperado, não caiu. E mesmo se tivesse caído, eu desconfiava que
ela iria renascer das cinzas reformada, como geralmente acontecia.
Mas havia sobrado pouco de Castália depois de toda aquela fome,
doenças e guerras. A guerra não estava acontecendo diretamente no
203

Wanju Duli
Brasil, mas ele se aliou a alguns países. E a situação da nova doença
infecciosa estava particularmente dramática.
Quando eu e Sônia retornamos para nossa velha cidade, não havia
mais para onde voltar. O orfanato já era uma realidade distante de nós.
Não havia a quem pedir ajuda.
Foi então que eu lembrei da Igreja.
– Há um convento aqui perto – apontei a direção.
Fomos até lá. Identifiquei-me como Magister Ludi de Castália. Sim,
Castália não existia mais, mas ela tinha deixado de existir há apenas um
mês. É claro que as pessoas ainda lembravam.
Consegui conversar com a irmã Giuseppina por telefone. Ela disse
que a crise também estava horrível na Itália, mas que eles estavam
acolhendo pessoas que precisavam de ajuda nos conventos e mosteiros
na medida do possível.
A irmã Letícia, que nos recebeu no convento da nossa cidade, nos
arranjou um quarto e nos deu uma sopa. Ela disse que poderíamos ficar
pelo tempo que precisássemos.
– A comida também está limitada para nós – disse a irmã – só
poderemos comprar coisas baratas.
– Não se preocupe – disse Sônia – é só até arranjarmos um emprego
e um lugar para ficar.
Sônia não demorou muito para conseguir um emprego como
professora de matemática num colégio público local. Ela não ganharia
um salário muito alto, mas seria o suficiente para alugarmos um
apartamento simples e bem pequeno.
Sendo assim, só permanecemos no convento por um mês e
agradecemos muito pela hospitalidade. Se não fosse aquela ajuda, nós
teríamos dormido na rua.
No meu caso seria mais complicado. Pelo menos, agora que Castália
não existia mais, não havia ninguém proibindo de cobrar por cursos do
Jogo de Avelórios. Então eu contatei famílias dos meus velhos alunos
ouvintes, mas somente os que viviam na minha cidade. E passei a dar
cursos particulares do Jogo, recebendo uma quantia modesta por aula.
Eu e Sônia passamos a morar juntas, cada qual com seu emprego.
Como não era o suficiente meu salário como professora de Jogo de

204

A Era do Folhetim
Avelórios, também arrumei um emprego de garçonete para dar conta das
desespesas.
Meus planos para o futuro seriam iniciar um curso de letras em
alguma faculdade. Assim eu voltaria a ter contato com minha bela
literatura.
Eu estava com 49 anos. Meu período em Castália havia sido como
um sonho. Eu não me arrependia de nada.
Por um lado, eu revivia esse sonho na memória. Havia sido realmente
mágico e eu via o fim de Castália com uma profunda tristeza. Por outro
lado, uma parte de mim estava ansiosa para iniciar essa vida toda
diferente, em que eu tinha tempo de ler um livro pelo menos meia hora
por noite. Um mundo em que eu podia usar internet. Que coisa estranha!
E foi pela internet que mantive contato com todos os meus velhos
conhecidos de Castália. A nossa ligação era tão forte que um oferecia
ajuda para o outro, embora todos nós estivéssemos sem um tostão. Pelo
menos já valia pelo apoio moral.
A única pessoa de quem eu realmente não recebi mais notícias foi a
Dani. Ninguém sabia onde ela tinha se metido. Um dia eu tinha vontade
de reunir dinheiro e, talvez dali uns dez anos, viajar para as Ilhas
Galápagos apenas para procurá-la.
Quando eu mencionava para onde eu tinha o sonho de viajar, as
pessoas diziam: “Mas que diabos? O que você vai fazer lá? Você é fã de
Darwin ou algo assim?”.
Cinco anos depois, o Brasil já estava relativamente recuperado da
profunda crise que assolou o mundo. Mas eu sabia que Castália não
voltaria mais. Pelo menos não enquanto eu estivesse viva.
Um dia encontrei na rua minha família favorita, almoçando logo no
McDonald‟s: Junqueira, Garcia, Gio e Rodrigo. Foi a coisa mais estranha
do mundo vê-los em roupas comuns, em vez dos hábitos formais de
Castália. E contemplá-los comendo aqueles hambúrgueres era algo quase
surreal.
Naqueles dias, resolvi ir no velho fliperama para matar a saudade.
Achei que aquele negócio havia falido com a crise, mas lá estava ele,
firme e forte, depois de décadas. Era impressionante. Devia haver algum
Deus protegendo aquele lugar.

205

Wanju Duli
Quando fui até o Pump, vi pessoas vibrando ao redor de uma garota
linda de rabo de cavalo, que dançava parecendo um corcel correndo ao
vento.
Pisquei os olhos duas vezes.
“Dani? Não pode ser”.
Mas era apenas uma garota muito parecida com ela, que também era
muito boa. É claro que não era a Dani. Ela já estava com mais de 50
anos. Como pude confundi-la com uma garotinha?
Senti como se tivesse voltado no tempo.
Então eu comprei um crepe de doce de leite. Também comprei um
jornal para resolver as palavras cruzadas. E saí de lá.
Epílogo
O último Jogador de Contas de Vidro
De jogo na mão, as coloridas contas,
Senta-se curvado, à sua volta devastado
Pela guerra e a peste o país, nas ruínas
A era cresce e na hera abelhas zumbem.
Uma paz cansada com saltério abafado
Ressoa pelo mundo, na sua calma velhice
O velho conta as suas coloridas contas,
Aqui uma azul prende uma branca,
Ali uma grande escolhe uma pequena
E combina-as, num anel, para o Jogo.
Outrora foi grande no Jogo dos Símbolos,
Mestre de muitas artes, muitas línguas,
Conhecedor do mundo, viajante, homem
Célebre, conhecido até nos Pólos, sempre
por alunos e colegas rodeado. Hoje só
Ele resta, velho, gasto, sozinho,
Nenhum jovem aspira à sua bênção,
Por nenhum Magister é desafiado;
Tudo passou, os templos, as bibliotecas,
206

de contas na mão..A Era do Folhetim As escolas de Castália já não existem. Hieróglifos que outrora diziam muito.. E agora são apenas vidrinhos coloridos Das suas mãos idosas silenciosamente rolam E perdem-se na areia. O Jogo das Contas de Vidro. Entre os Escombros repousa o Velho. por Hermann Hesse FIM 207 ...

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