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Capitulo 1 INDIFERENGA DA MENTALIDADE PRIMITIVA PELAS CAUSAS SEGUNDAS 1. A mentalidade primitiva atribui tudo 0 que acontece a poténcias misticas e ocultas. Na presenga de algo que o interessa, o inquieta ou que o espanta, o espfrito do primitivo nao segue a mesma caminhada que a nossa. Ele se empenha logo por um caminho diferente. Temos um sentimento continuo de seguranga intelectual tio bem assentado que no vemos como ele poderia ser abalado; com efeito, mesmo supondo a aparigao repentina de um fendmeno to- talmente misterioso e cujas causas nos escapassem de inicio intei- ramente, nao ficarfamos por isso menos persuadidos de que nossa 7 —~. ignordncia é apenas provis6ria, que essas‘ qusas exister Eque cele fi T) cou tarde elas poderio ser determinadas. Portanto, a natureza no meio da qual vivemos é, por assim dizer, antecipadamente intelectualizada. Ela é ordem e razio, assim como 0 espfrito que a pensa e que nela se move. Nossa atividade quotidiana, até em scus minimos detalhesy implica uma trangiila e perfeita confianga na invariabilidade das) << is natura * lee Aatitude de espfrito do primitivo é muito diferente. A natureza no meio da qual ele vive se lhe apresenta sob um aspecto totalmente diferente. Todos os objetos e todos os seres nela esto implicados em uma rede de participacdes.¢ de exclusbes misticas: sio elas que Fazem sua contextura e sua ordem. Sao elas, portanto, que imporio primeiro a'sua atengio e apenas elas que.a reterdo. Se ele estiver interessado por um fenémeno, se ele nao se limitar a percebé-lo, por assim di- ‘AMENTALIDADE PRIMITIVA, passivamente e sem reagir, ele sonharé logo, como que por uma cie de reflexo mental, com uma/poréncia oculta e invisivelda Qual esse fendmeno é a manifestagao. “O ponto de vista do espirito do afticano, diz Nassau, todas as vezes que alguma coisa insélita se presenta, éo da feitigaria. Sem procurar uma explicago naquilo que os civilizadgs chamam de causas naturais, sew. ensamento se volta imediatamente para o sobrenatural. Com efeito, esse sobrenatural é tum fator tio constante em sua vida, que ele Ihe fornece uma expli- cacao to rapida € tao razoavel daquilo que acontece quanto nosso apelo’s forgas reconhecidas da natureza”.! O reverendo John Philip observa’o mesmo’ ém relago &s “superstigdes dos bechuanas”: “No estado de ignorancia (ou seja, antes de terem sido instruidos pelos missiondrios) toda coisa que nao for conhecida, e que é cercada de mistério (cuja simples percepgao no basta para explicar) torna-se objeto de uma veneragao supersticiosa; as causas segundas so igno- radas, e uma influéncia invistvel ocupa seu lugar”? A mesma reflexiio é sugerida por M. Thurnwald pela menta- Tidade dos indigenas das ilhas Saloméo: “Jamais eles ultrapassam, vendoas coisas pelo lado melhor, o simples registro dos fatos. © que Jes completamente, em principio, éa ligagao causal profunda. Nao compreender a ligagio dos fendmenos: de suas superstigoes”? a fonte de seus temores e Aqui, como acontece com freqiiéncia, é preciso separar entre o fato que nos é relatado e a interpretagio que com ele se mistura. fato consiste em que o primitivo, africano ou outro, no se preocupa de modo algum em pesquisar as ligagdes causais que no sio eviden- ‘es em si mesmas, e que, imediatamente, ele recorre a uma poténcia Iistice. Ao mesmo tempo, os observadores, missiondtios ou outros, dio sus explicasiio desse fato: se o primitivo recorreu imediatamente a poténcias misticas, é, segundo eles, porque ele negligencia pesquisar 'R. E. NASSAU, Feschsm in West Aca, p. 277 + Rex. john PHILIP, Researches in Souah Africa, Isp. 116-117. R. THURNWALD, Im Biamatck Archipel und auf den Silomo Insela, Zeschnif fr Euhnologe. XLU, p. 145. IFERENCA DA MENTALIDADE PRIMITIVA... < “as causas. Todavia, porque ele negligencia isso? A explicagiodeve ser | invertida. Se os primitivos nao se preocupam em pesquisar as ligagbes {eausais, ese, quando eles as percebem ou quando fazemos com que cles | as observem, eles as consideram como de pouca importincia, é conse- qiiéncia natural do fato bem estabelecido de que suas representagies| coletivas evocam imediatamente a ago de poténcias misticas. Por ‘conseguinte, as ligagdes causais, que so para nés 2 propria ossatura da natureza, 0 fundamento de sua realidade e de sua estabilidade, tém aos olhos deles muito pouco interesse. “Um dia, diz Bentley, ‘Whitehead viu um de seus operitios que estava exposto, sentado, a0 vento frio, em um dia de chuva. Ele o mandou entrar em casa ¢ mudar suas roupas. Mas o homem lhe respondeu: ‘Nao se more por causa de um vento frio; isso niio tem importincia: s6 se cai doente e ee ‘Da mesma forma, na Nova Zelandia, um missionario escreve em termos quase idénticos: “Recebi a visita de um nativo em estado muito alarmante; ele pegara um resfriado e no tomara nenhum cuidado consigo mesmo. Esses selvagens nif thividam de modo nenhum de suas doencas. Eles atribuem @/Anua (Um espfrito) tudo 0 que os faz sofrer. O homem de que estou falando dizia que Atua estava em seu 0 € o devorava”.? a \ por causa das pré-ligagdes misticas, aquilo que chamamos de causa, \ ser, no maximo, maisque uma ocastio ou, melhor dizendo, uv instru- ‘mento a servico das forgas ocultas. A ocasiio poderia ter sido outra, € instrumento diferente. Ovacontecimento teria se produzido do ‘mesmo jeito. Bastaria que a forca oculta entrasse realmente em ago, sense desida pacuma orga superior do mesmo gtnero: feta eager aquilo que para nés dé o motivo daquilo que acontece, nao poderia | » 86 se morre por causa de um feiticeiro”. aH 26 AMENTALIDADE PRIMITIVA 2. A doenga e a morte quase nunca sio “naturais”-Exemplos tomados na Austrélia, na Africa austral, equatorial, ocidental e oriental. —<—- Entre tantos exemplos que se nos oferecem, tomemos um dos mais familiares. Em todo lugar, nas sociedades inferiores, a morte requer uma explicagao diferente das causas naturais. Conforme a observago freqtientemente feita, quando se vé um homem morrer, pareceria que é aprimeira vez que esse fato se produz, e que jamais se tenha sido teste- munha disso. E possivel, perguntam os europeus, que essas pessoas no saibam que todo homem deve necessariamente morrer, mais cedo ou mais tarde? Mas o primitivo jamais considerou as coisas a partir desse Angulo. A seus olhos, as causas que infalivelmente produzem a morte deum homem em um niimero de anos que nao pode ultrapassar certos limites, o desgaste dos 6rgiios, a degenerescéncia senil, a desaceleragio das fungGes, niio esto ligados de modo necessério 4 morte. Nao ve- mos velhos dectépitos que continuam a viver? Portanto, se, em dado ‘momento, a morte sobrevém, € porque uma forga mistica entrou em jogo. Por outro lado, o préprio enfraquecimento senil, assim como toda doenga, também nao é devido Aquilo que chamamos de causas naturais: ele também deve ser explicado pela ago de uma poténcia mistica. Em Poucas palavras, se o primitivo nao da qualquer atengio as causas da morte, é porque ele ja sabe por que a morte se produziu; ¢, sabendo esse porqué, o como lhe ¢ indiferente. Estamos aqui na presenga de uma espécie de a priori sobre o qual a experiéncia nada tem a fazer. Assim, para tomar de empréstimo alguns exemplos de sociedades inferiores em que a influéncia dos brancos ainda nfo fora introduzida, na Austrilia (Victoria), “a morte é sempre atribuida por eles & ago do homem. Quando um indigena morre, seja ele jovem ou velho, admite-se que, durante a noite, um inimigo lhe fez uma incisio no lado e retirou a gordura de seus rins. Até os mais inteligentes dos indigenas nao podem ser persuadidos de que a morte provenha de ‘quaisquer causas naturais”.® “ Hlugh JAMIESON, em Leuers from Victorian pioneer, p. 271 INDIFERENGA DA MENTALIDADE PRIMITIVA... 27 Nem o corpo do doente, rem o cadiiver depois da morte trazem ‘o menor sinal dessa incisio, mas o australiano no vé nisso um motivo, para duvidar de que ela tenha sido feita. Qual outra prova Ihe seria necesséria além da prdpria morte? Essa morte teria acontecido caso alguém nao tivesse subtratdo a gordura dos rins? Por outro lado, essa renga nao implica nenhuma idéia de um papel fisiolégico atribuidoa essa gorduray trata-se unicamente de uma ago mistica que € exercida pela presenga tinica do érgio que € seu agente. W. E. Roth diz também, segundo Thomas Petrie: “Durante os primeiros anos da colonizagio européia, no distrito de Brisbane, quase todas as doengas, sofrimentos, indisposigdes, eram atribuidos a0 cristal de quartzo possutdo por algum homem-médico (terrwan). Esse cristal dava a quem o detinha um poder sobrenatural. O espirito do turrwan fazia o cristal entrar no corpo da vitima, e esta s6 poder ser curada por um outro homem-médico que retirasse o cristal por sucgio. Do mesmo modo, um homem-médico podia tornar alguém doente a distancia, e condené-lo, por assim dizer”? “Para a princesa Charlotte Bay, todas as doengas de cardter grave, desde a malaria até a sifilis, sio atribuidas & ago de certo encantamento, formado por tum pedago pontiagudo do perdnio humano, que é fixado com cera uma langa de canigo. Acredita-se que, quando essa langa é atirada na diregao da vitima que se tem em vista, o canigo permanece nas maos do feiticeiro enquanto o fragmento de osso atravessa 0 espago ese aloja no corpo da vitima —a ferida se fecha imediatamente, sem deixar cicatriz —e, desse modo, causa a doenga”’* De modo geral, quando um homem morte, é porque ele foi partir como de habito para uma expedigaio de caga... repentinamente, serite alguma coisa em seu pé ou em sua perna, e vé uma serpente a ponto de feri-lo. Coisa estranha de se dizer, essa espécie particular de serpente desaparece imediatamente. Esse préprio desaparecimento " De. W. E. ROTH, Supentition, magic and medicine, Now Queensland Ethnography, Bulletin 5, n® 121, p. 30. * Wid, 2 138. 28 {A MENTALIDADE PRIMITIVA faz com que o indigena ferido reconhega que algum inimigo o enfei- tigou, e que sua morte inevitével. Com efeito, ele no tenta sequer Cuidar-se, Perde a coragem e se deita para morrer” Um homem pode também ser “condenado” a ser atingido pelo raio, morto pela queda de uma érvore, ferido por um espinho que lhe entra no pé, conta, minado por uma doenga desagradivel,trespassado por uma langa, A serpente, oraio, a Langa ete. no devem de fato ser acusados pelos conseqiiéncias decorrentes. Eles apenas finalizam, por assim dizer 0 ato de condenagio. Este pode ser realizado por homens vivos, com ou sem 0 concurso de espititos dos mortos.. Os inimigos so tants pessoas mortas como espftitos naturais, Spencer e Gillen dizem também: “Todas as doengas, de todos (0s tipos, desde as mais simples até as mais graves, sao atributdas cone excegio 8 influéncia maligna de um inimigo sob a forma de um ho. ‘mem ou de um espirito”." “Eles podem imaginar diz Howitt,amorte Por acidente, embora atribuam quase sempre o resultado daquilo que chamariamos de acidente aos efeitos de uma magia maléfica. Eles conhecem bem a morte violenta, mas até quando a testemunham eles aerditam, nas tribusjuntocle Maryborough (Queensland) que, se um guerreiro é morto por um golpe de langa em um de seus combaves rituas, € porque ele perdeu sua habilidade de preparar ou de evitar a langa, por causa da magia maléfca de um membro de sua propria trio, Todavia, duvido que, em qualquer lugar na Austria, os incl genas, em sua condligao primeira, renham coneebido a possibilidade da morte simplesmente pela doena. Esse ndo era, sem divida,o caso dos kurnais’.* “Se um homem for morto em uma batalha, ou mores por seqielas de uma ferida, acreditario que ele foi enfitigado” "Embora os nazrinyers estejam tio freqientemente expostos pica- la de sexpentes venenosas, eles nao tém nenhum remédio para esce nt 7 Ih 9 115. {CER and GILLEN, The nate arb of Cena Ausra, p 530 HOWITT, The naive ees of South Austra Abo. 8. EYER, Encounter Bay ibe, em WOODS, The native moe of Sth Assan p. SRENGA DA MENTALIDADE PRIMITIVA. 29 acidente. Sua superstigio os leva a crer que ele é 0 resultado de um ‘maleficio”.'* Essa disposigao de espirito ndo € propria apenas das tribos austra- Tianas. Ela se encontra nas sociedades inferiores mais afastadas umas das outras, e com grande uniformidade. O que varia nas represen- tages coletivas sfo as forgas ocultas as quais se atribui a doenga ou ‘@ morte, que so suas conseqiiéneias: ora 0 culpado é um feiticeiro, ‘ora 0 espirito de um morto, ora forgas mais ou menos definidas ou individualizadas, desde a representagao mais vaga, até a divinizagio precisa de uma doenga comoa varfola. O que permanece semelhante, € poderiamos quase dizer idéntico, ¢ a pré-ligagao entre a doenga e a morte, de um lado, ea poténcia invisivel, do outro, ¢ dat a pouca atenio dada aquilo que chamamos de causas naturais, até quando elas saltam aos olhos. Darei apenas algumas provas significativas dessa unanimidade. “Os indigenas, dizChalmers, nunca acreditam que suas doengas provenham de outras causas além das espirituais, nem que a morte (exceto 0 caso de homicidio) provenha de algo além da ira dos espi- ritos. Quando a doenga aparece em uma familia, todos os membros da familia se perguntam: “O que & que isso quer dizer?”. Se o doente nao melhorar, eles concluem que é preciso fazer alguma coisa. Ofe- recem um presente: tomam o alimento ¢ o depositam sobre o lugar sagrado; a seguir, retiram-no e o partilham entre seus amigos. Se a doenga persistir, levam um porco ao lugar sagrado, imolam-no com um golpe de langa, e 0 oferecem aos espiritos”.'* O mesmo € feito na Nova Guiné alema. “Segundo os kais, ninguém morre de morte 16 natural... Entre os araucés, “todas as mortes, exceto no campo de batalha, eram consideradas como produzidas por causas sobrenaturais ou por feiticaria. Se uma pessoa morresse por seqiielas de um acidente vio- lento, supunha-se que os huecuvus, ou espiritos malignos, a tinham *G, TABLIN, Manners, exstams ec, ofthe South Avatralia Aborigines, p49. ' Res. ). CHALMERS, Pioneering in New-Guinea, p.329330. R NEUHAUS, Dewsch New-Guinea, Il, p. 140. Cf tid. Il, p 4663: ‘AMENTALIDADE PRIMITIVA, ‘espantando o cavalo para derrubar seu cavaleiro, tinham soltado uma pedra para fazé-la cair e esmagar o passante distraido, tinham cegado momentaneamente uma pessoa para fazé-la cait em um precipicio ete. Em caso de morte por doenga, acreditava-se em um enfeiticamento, e que a vitima fora envenenada”..? Grubb fala também dos indios do Chaco. “Eles sup6em invariavelmente que a morte seja o resultado da influéncia direta dos kilyikhamas (espititos), seja por causa de seu desejo de fazer o mal, seja por- que tinham sido levados a isso por um feiticeiro”.'® Dobrizhoffer testemunha o mesmo no que se refere aos abipones.” E crengas andlogas se encontrariam em quase todas as sociedades inferiores das duas Américas. Na Africa austral, encontramos a réplica exata daquilo que foi observado na Austrilia. “Acreditam que um feiticeiro tem 0 poder de entregar (to give over, equivalente de to doom) certo homem que tenha safdo para cagar, a um biifalo, a um elefante ou outro animal. O feiticeiro, pensam eles, pode dar uma ordem ao animal, a fim de ue ele faga o homem perecer. Desse modo, quando se sabe que certa pessoa foi morta na cagada, seus amigos dirdo: 'E obra de seus inimigos. Ele foi entregue a fera ruival™2° Bentley expressa a mesma idéia com precisio enérgica: “A doenga ea morte sio vistas por um nativo do Congo como aconte- cimentos totalmente anormais. De modo nenhum esto relacionadas com causas naturais: so sempre devidas aos feiticeiros. Até quando morte aconteceu por asfixia na égua, ou na guerra, ou pela queda de uma frvore, quando ela € causada por alguma fera ruiva ou pelo aio — todas essas mortes so atribuidas a maleficios, do modo mais obstinado e mais absurdo. Alguém enfeitigara a vitima, e quem o fez 0 -culpado"2! "RE. LATCHAM, Ethnology ofthe Araucanos, Journal ofthe Anthropological site of Great Brain (doravante JA), XXXIX, p. 364 !*W. B. GRUBB, An unknown people in an known land, p. 4 M. DOBRIZHOFFER, An account ofthe Abjpones, I, p- 83-84 ®]. MACKENZIE, Ten years north of Onange ver (1871), p. 390391 2.W.H. BENTLEY, Ploneerngom the Cong Ip. 263. DA MENTALIDADE PRIMITIVA.... 31 Jano séc. XVII, Dapper havia constatado as mesmas crengas imagia i tece aum, Loango. “Esses pobres cegos imaginam que jamais acont uum acidente funesto que no tenha sido causado pelos mogu- ou 0s idolos de seu inimigo. Se alguém, por exemplo, cai na gua ‘afoga, eles ditto que ele fora enfeitigado; se ele for devorado por lobo ou por um tigre, dirdo que foi seu inimigo que, pela forgade fArvore, se sua casa pegar fogo, se continuar a chover maistempo que 6 costume, tudo isso ¢ feito pela forga de encantamento dos isies de algum homem mau. E ¢ esforgo perdido querer tirar-lhes loucura da cabega; a pessoa consegue apenas ficar exposta a seu nz mas a doenga ou o acidente que é a causa imediata da morte, & produto de uma influéncia sobrenatural. Ora se imagina quea morte € devida & aco maléfica de um homem que emprega maleficios; ‘ora a morte € produzida pelo génio tutelar de alguém sobre o qual fo defunto... praticava encantamentos, no momento em que ele foi descoberto e punido. O costume ¢ explicar pelo primeiro género de causas a doenga e a morte dos chefes, de outros personagens consideriveis ¢ de sua familia, e, pelo segundo género, a dos da ior”? ro tn na Africa oriental alema, “no existe morte nanurhieee ‘odschagga. A doenca ea morte sio sempre obra diablica”: Paramos aqui essa enumeragao de testemunhos concordantes, que poderia ser indefinidamente prolongada.> © ©, DAPPER, Description de Afrique (1686), p-325 BTR, WINTERBOTTOM, An account ofthe native Aficans in che neighborhood of Siew Leone |, pp. 235-236. 1 ANWIDENMANN, Die Kilimandscharo-Bevblkerung, em Petemann’s Mitetangen, romp 129 (189) p90. ES La cs os cep, 34 328 tamentos, se metamorfoseara como fera feroz; se elecair de | n 3 AMENTALIDADE PRIMITIVA . Nao existe acidente: uma desgraca jamais é fortuita. ‘Da doenga e da morte para os simples acidentes, a transigao é insensivel. Dosfatos que precedem resulta que os primitivos, em geral, lo véem diferenga entre a morte que sobrevém por velhice ou por doenga ea morte violenta. Nao que eles sejam insensatos, conforme a expressio de Bentley, a ponto de no observar que em um caso 0 doente morre mais ou menos lentamente no meio dos seus, e que no outro o homem perece repentinamente, devorado por um leo, por exemplo, ou ferido por um golpe de langa. Mas essa diferenga niio tem interesse aos olhos deles, pois nem a doenga, de um lado, «fm 0) animal feroz ou o golpe de langa, do outro, sao as verdadeiras caus; da morte, mas esto simplesmente a servigo da forga oculta que quis essa morte e que, para chegar a seus fins, também poderia ter esco- Ihido um outro instrumento. Toda morte, portanto, é acidental, até a morte por doenga. Ou, mais exatamente, nenhuma o €. Porque, aos olhos da mentalidade primitiva, jamais se produz, propriamente falando, um acidente. O que parece acidental para nésyeufdpeus, é sempre, na realidad, a manifestagdo de uma pgténcia mistica que assim € sentida pelo individuo ou pelo grupo socials) Para essa mentalidade, de modo geral, nao/existe acaso, ¢ nisso também niio pode haver. Nao que ela esteja petsuadidatlo determi nismo rigoroso dos fendmenos; muito pelo contrario, como ela no tem a menor idéia desse determinismo, ela permanece indiferente ligago causal e, a todo acontecimento que a atinge, ela atribui uma origem mistica. Como as forgas ocultas sfio sentidas como estando sempre presentes, quanto mais um acontecimento nos pareceria for- tuito, mais ele sera significativo para a mentalidade primitiva. Nao se deve explicé-lo: ele se explica por si mesmo, Je é uma revelagao. Até, no mais das vezes, 6 ele que serve para explicar outra coisa, a0 menos sob a forma em que essa mentalidade se inquieta por uma explicagio. Mas pode ser necessério interpreté-lo, quando uma pré- ligagao definida nao foi prevista. Os incligenas da Tully River, diz W. E. Roth, tinham resolvido ‘matar certo homem de Clump Point, pelo seguinte motivo: “Na IGA DA MENTALIDADE PRIMITIVA. 33 io (prun) do domingo anterior, ele havia atirado uma langa a0 de uma drvore, de onde ela havia caido, atingindo no pescogo, ricochete, um ancio, que foi morto. O infeliz que havia atirado Tanga foi, no caso, um “doutor”, ¢ nada pode tirar do espirito dos smbros da tribo da vitima que a morte de seu parente foi causada rum maleficio desse doutor. E. Brooke (um missionério), que se rava junto de mim nesse momento, fez todos os esforgos para licar que era um simples acidente, mas sem nenhum sucesso. fileiras se formaram, e a batalha comegou entre esses selvagens irritados, até que o “doutor” recebeu um ferimento (nao mortal) no joclho”.2*Nesse caso tipico, eradificil,e até praticamente impossfvel, que os indigenas compreendessem o motivo. Era preciso que eles pri- meiro dessem uma satisfago a0 defunto, do qual tinham tudoa temer, pois nfo fora vingado: eles deviam, portanto, de qualquer modo, pér alguém a morte, ¢ este devia ser, de preferéncia, o autor voluntério ou involuntirio, pouco importava, dessa desgraca. Além disso, 0 missio" nro jamais teria chegado a fazé-los compreender que se tratava de ‘um simples acidente. Eles teriam sempre perguntado: Por que a kanga, ricocheteando, caira justamente no pescogo desse ancitfo, € no na frente ou atrs dele? Como explicar que seja justamente a langa de tum homem-médico? E, quanto a auséncia de qualquer inteng0 no hhomicida, como tomné-la evidente? Podemos apenas presumi-la, 0 que nao poderia prevalecer contra o fato. Por outro lado, a intengis ‘ban existir inconscientementé no autor do acidenté. tém necessariamente consciéncia da ago mortal feitice’ que exefeem. Este podia, portanto, de boa-fé negar a sua, mas sua ‘negagio nfio tinha valor algum aos olhos dos indigenas. Na Nova Guing, um homem foi ferido por um golpe de langa, durante a cagada, por um de seus companheiros. “Seus amigos che- garam e perguntaram quem o havia enfeitigado; porque nao hé lugar para os ‘acidentes’, na concepgio de mundo dos paptias. Todos o atormentavam para fazé-lo dizer quem the havia langado uma sorte, WE, ROTH, North Queensland Evhnogaphy, Bulletin 4, n° 16. 3 “ AMENTALIDADE PRIMITIVA Porque estavam certos de que o ferimento por si nao bastaria para ‘causar a morte; mas também nao estavam certos de que ele fosse ‘morrer, endo paravam de The perguntar... Embora ele tivesse perdido @consciéncia no fim, ele nio havia respondido as perguntas de seus ‘amigos, nem revelado quem o havia enfeitigado. Sua ira se voltou, entiio, contra as pessoas de Oreresau e contra o homem que havia atirado a langa’.2” Desse modo, esse homem s6 6 contratado em iiltimo lugar e, por assim dizer, em desespero de causa, e como alguém de segunda classe. Se o ferido tivesse dado a menor indicagao em relagdo a0 autor do maleficio, aquele que o havia erido permaneceria indene: cle seria visto como instrumento do feitceiro, to pouco responsivel quanto a propria langa. Por outro lado, a pequena graviddade do ferimento no impede de declaré-lo mortal. © que faz perecer o ferido nfo é o dilaceramento dos tecidos pela langa, mas o maleficio; é porque ele foi condenado (0 dooming dos australianos). Compreendemos aqui, vivamente, a ré-ligagao que torna inconcebivel, para a mentalidade primitiva, a propria nogio de fortuito. Ainda na Nova Guiné, “uma rvore cais foi um feiticeiro que a fez cair, ainda que a atvore estivesse podre, ou se um golpe de vento a tivesse quebrado. Um homem sofre um acident Werabana etc." Observagies totalmente semelhantes foram coletadas em outras sociedades inferiores, na Africa equatorial, por exemplo. “Em 1876, tum chefe, Akele Kasa, foi carregado por um elefante, que ele havia _ferido, e perfurado por suas presas. Seus companheitos eliminaram Oanimal e, apesar de seus graves ferimentos, o homem sobreviveu o bastante para acusar doze de suas mulheres e de seus outras eseravos de terem enfeitigado seu fuzil, de modo a apenas fetir 0 clefante, em vez de maté-lo”.” “Durante uma cagada ao elefante, um chefe chamadlo Nkoba foi atingido por uma alia ferida, que o elevou do isso foi feito por 2 AK, CHIGNELL, An ups in Papa, 9.343.345, Hey OMe 6 SWE ng gan 5 RH. NASSAU, Fahim in West Af 86 - 1A DA MENTALIDADE PRIMITIVA.... 35 com sua tromba e o empalou em uma de suas presas... Foram iveis as lamentagdes de seus companheiros... Todo o distrito se iu diante de nganga Nkissi, que teve de decidir se o elefante es- possuido pelo diabo, ou fora enfeiticado por algum inimigo do to ou, finalmente, se era um caso de Diambudi nzambi (vontade grande espirito)”.? Nesses dois casos, a qualidade da vitima exige que sua morte vingada e, principalmente, ela é uma forte presungdo em favor hipétese de um maleficio. Por que o fuzil do chefe falhou? Sem , uma influéncia maléfica foi exercida sobre ele. Da mesma 1a, a alid ferida nao teria matado o chefe, se alguém niio 0 tivesse “entregue” a ela. Quanto maior a desgraca, mais a pessoa atingida € “sagrada, € mais a suposico de um acidente se torna inadmissivel. Para o espftito dos indigenas, na maioria das vezes, tal suposigao ‘em se apresenta. Desse modo, “uma canoa de Vivi, com seis pes- ‘$023, descia o Congo... Ao contornar a ponta em que mais tarde foi ‘construfda nossa estagio de Underhill, a canoa foi tomada por um turbilhio, encheu-se de igua e afundou. Os indigenas decidiram que a feitigaria que causara um acidente téo terrivel ultrapassavaa feitigaria ‘comum, e que era preciso responder a ela com medidas apropriadas. Para cada homem afogado, trés feiticeiras deviam morrer; de modo {que dezoito pessoas iam ser entregues morte por causa do acidente que fizera seis pessoas se afogarem” “Nesse distrito, € desse modo que se replicava & morte de personagens importantes, ou aos mortos que haviam perecido em circunstiincias extraordindtias.”" “Um homem entra em uma aldeia e poe seu furil no:chio. O gatilho dispara e mata uma pessoa. O fuzil € tomado pela familia da vitima. Ele tem o valor de diversos escravos, e seu proprietirio pode concede-los para resgatar 0 fuzil, como se ele fosse seu préprio irmio. Quando nio hé fuzil a tomar, o autor do homicidio por acidente acorrentado como escravo ¢ retido como assassino. Por vezes, as auto- HL. WARD, Five years with the Gong cannibal, p43. NW. E. BENTLEY, Pioneer om the Congo, Ip. 411 36 AMENTALIDADE PRIMITIVA ridades indligenas, em vee de prender o autor do acidente ou seu fuzi, proclamam-no inocente e vio procurar o feiticeiro, a fim de descobrir © enfeiticador que foi a verdadeira causa da morte. Segundo eles, é sobre ele que deve pesar toda a responsabilidade. Eles empregam aqui uma comparagao tirada da caga. © cagador que feriu em primeiro lugar um cabrito montés tem direito a ele, ainda que tenha sido ou- tro que pabsiteu, Diva ma, © homicida por acidente a ‘enephtrou” ou abareu a vititna qe o feiticeiro j4 matai =} acalisa, mas apenas a ocasido de sug morte. Outros sustentam que o homicida tem o direito de protestar sua inocéncia e afirmar que ele préprio foi vitima de um feiticeiro; ele deve, no entanto, pagar uma indenizagao. Vi uma vez dois homens que passavam por julgamento por causa de uma desordem cometida enquanto estavam embriagados. A pessoa que lhes fornecera a cerveja fora igualmente citada, e estava com medo de que a acusassem de ter enfeiticado a cerveja. Um terror mais profundo até transparecia por meio de sua linguagem. Quem sabe se ele préprio e sua cerveja nao teriam sido enfeitigados e nao teriam servido de instrumentos para uma outra pessoa?” E evidente que, para espiritos assim modelados, a hipétese de um acidente é a iltima que se apresentaria, ou melhor, que jamais se apresentaria. Se ela Ihes for sugerida, eles a rejeitario, pois esto certos de que aquilo que chamamos de fortuito tem uma causa mistica, e que eles tém interesse de descobrir, caso ela nao se revele imediatamente. “Entre os ovambos (Africa ocidental alem), 0 chefe Kanime quis recentemente preparar um boi para o trabalho. No momento em que procuravam furar suas narinas, o animal dew uma chifrada e furou um olho de um dos indigenas. Eles disserain immediatamente: “O homem que perdeu um olho havia sido enfeiticado”. Foram procurar ofeiticeiro, a quem cabia descobrir o autor do sortilégio, e que, com feito, designou um dos servidores de Kanime como o culpado. Este, condenado & morte, fugiu. Kanime o perseguiu a cavalo, alcangou-o * Rev, J: MACDONALD, Africana, I, p. 172-173. IGA DA MENTALIDADE PRIMITIVA. 37 1-0”. No ano seguinte, “um de meus vizinhos foi de manhas ie alegre ¢ disposto, pesear ras, que eles muito apreciam. Aoatirar Tanga, ele fez no brago uma ferida profunda, perdeu muito sangue ‘morrendo de hemorragia... Trés dias depois, os feiticeitos ‘a procurar quem havia enfeitigado esse homem, Eu me ‘isso. Mas eles me responderam: ‘Se nao descabrirmos 0 omu- ‘ese nfo o matarmos, talver nés todos morramos’. A pedido dos jionarios, o chefe interveio, mas logo aproveitou a ausénciz deles deixar que executassem 0 culpado”.* Essa interpretagao da maioria dos acidentes é de tal modo na- aos olhos dessas tribos africanas, que mesmo nos lugares em (05 missionsrios hé tempo se esforgam em combaté-la, eles ficam tes para disso dissuadirem os indigenas. Ougam asquetxas de len, em 1908, entre os bassutos: “No tiltimo més, o raio atingiu ‘casa de um homem de meu conhecimento, matou sua mulher, feriu filhos e queimou tudo o que the pertencia. Ele bem sabe que 0 ‘aio vem das nuvens, e que as nuvens sfo inacessiveis 2 mao do ho- ‘mem. Todavia, disseram-Ihe que esse golpe do raio lhe fora enviado ‘por um vizinho que o quer mal; ele acreditou nisso, acredita ainda, ‘© sempre acreditara”. “No ano passado, os gafanhotos infestaram os campos do chefe Mathé-a-lira, que recebeu uma instrusao escolar bastante extensa, ‘¢ que freqiientou por muito tempo os servigos religiosos de nossos templos. O que importa? Ele atribuiu a invasio de gafanhotos aos maleficios de seu irmio Tesu, que disputa com ele o diteito de pri- mogenitura ¢a sucessio ao trono do distrito de Leribe.” _ “Uma jovem viva morreu hi quinze dias, a um quildmetro da- ‘qui, sucumbindo a uma doenga intima, que ela devia provavelmente ‘asua mé conduta. De modo nenhum! Essa doenga foi provocada por ‘um homem a quem ela havia recusado as propostas de casamento que ele the comunicara, dando-lhe um punhado de haxixe para fumar. Sua mie € crista, e eu Ihe expliquei que tal coisa niio era possivel. © Berichte der rhenschen Missionseselichaf, 1895, p. 242. Thi, 1896, 213. 38 AMENTALIDADE PRIMITIVA Ela nao acreditou em mim, e alimenta ressentimento contra aquele que ela considera como o assassino de sua filha”.® Ainda que o acidente seja feliz e no funesto, a reago do pri- mitivo, entretanto, permanecerd a mesma. Ele verd nisso a ago das Poténcias misticas e, na maioria das vezes, ficaré apavorado. Toda felicidade, todo sucesso extraordindrio, € ‘suspeito. “Acontece com freqiiéncia, diz o major Leonard, que dois grandes amigos vao juntos a pesca, e que um deles, por acaso, ou talvez porque seja mais habil, pega muito mais peixe que o outro. Infelizmente, desse modo, sem saber, ele pés sua propria vida em perigo. Porque, ao voltar para a aldeia, o pescador malsucedido vai logo consultar um feiticeiro, para saber por que seu amigo pegou mais peixe do que ele. O “doutor” atribui imediatamente a causa disso A magia. Dessa forma, & semea- do um germe de querela e de morte: o amigo devotado de sempre & Tepentinamente transformado em inimigo ardente, que faré tudo o que the for possivel para provocar a morte daquele de quem outrora ele gostava".* _ “Durante minha estadia em Ambrizette, diz Monteiro, trés mu- Iheres dos Cabinda tinham ido recolher gua no rio. Elas enchiam seus potes uma depois da outra, quando a do meio foi apanhada por um aligétor, arrastada imediaramente para debaixo d'égua e devorada. A familia dessa pobre mulher acusou imediatamente as duas outras de “Ihe terem langado uma sorte, e de té-la feito ser apanhada do meio delas pelo aligétor. Fiz para eles representagdes, e tentava mostrar- Ihes o imenso absurdo de sua acusagio, mas eles me responderam: “Por que o aligétor apanhou justamente a do meio e no uma das que estavam de cada lado?". Foi impossivel fazé-los sair dessa idéia. As duas mulheres foram obrigadasa beber a “casca” (ordélio por meio de veneno). Nao fiquei sabendo do fim, mas o mais provavel é que uma delas ou ambas pereceram ou foram reduzidas & escravidio”5” Misions éuangéliques, LXXXI, I p31 Major]. A. LEONARD, The lover Nigar adits tribes (1906), p. 485 "J.J. MONTEIRO, Angola and the river Congo, lp. 65:66 (1875), {CA DA MENTALIDADE PRIMITIVA. 39 Monteiro nao vé que, no pensamento dos indigenas, o que {teceu nao pode ser um acidente. Em primeiro lugar, os aligéto- em si mesmos, nao se ligariam com essas mulheres. E necessério, to, que aquele tenha sido incitado a isso por alguém. Em se- 1, ele sabia muito bem qual das trés mulheres ele devia arrastar debaixo d’4gua. Ela lhe fora entregue. A tinica questio que se ade saber por quem... Mas o fato fala por si. O aligdtor no as duas mulheres que estavam de cada lado, mas apanhou a meio. Isso significa, portanto, que as duas outras a haviam “en- ie". O ordalio que lhes é aplicado nao tem tanto como objetivo irecer uma divida que dificilmente existe, ¢ sim o de descobrit proprio principio do enfeitigamento que esta nelas, ¢ de sobre ele ‘exercer uma ago mistica, para colocé-lo doravante fora do estado ‘de provocar dano.* Eis, na mesma regio, outro fato andlogo. “Na mesma tarde, a0 subir o rio, Ewangi foi arrancado de sua canoa por um crocodilo, e ‘nfo o viram mais. A noticia da desgraga foi levada a aldeia de Dido. ‘Canoas de guerra foram enviadas a esses lugares. Um dos homens que ‘se encontravam com Ewangi, na canoa, no momento de sua morte, eo hhomem que habitava na margem do rio, naquela altura, foram presos, ‘acusados de feitigaria e condenados & morte”.!” Com efeito, ndo existe ‘acaso: a idéia do acidente sequer vem 20 espirito dos indigenas, ao passo que idéia de maleficio, a0 contrario, sempre esté presente para eles. Ewangi, portanto, foi Yentregue”. Resta apenas pesquisar por quem: aqueles que o acompanhavam e que foram poupados pelo animal feroz, ouaquele na vizinhanga de quem ele vivia, sio, sem divida, culpados. * CF. adiante, cap. VIL. 2 2G. HAWEER, The be of Cuore Gre p 58. A mesma rage aconeci em Nias ‘em gue foram considerados como responsiveis por um acidente os missiondrios cujo barco 0 asonar. Ans lhos dos eigen 5 tins fora "ene ua sais ea neces Ssfria. Dois dees haviam se afogado durante a noite, 20 voltar para a tera depois de ter feito una vita ao Deng (obo do nso). “Deine, parca qu 5 esos avian est sia rnlmente, ms cles wary em sei om engin ici Pedram que thes fosse entregue ocomandante eo cozinheiro do barco, para vingat com el ‘morte dos dois fogados, ej ameagavam exercet repress sobre as ims em Telok Dalam, tho caso ein que os dois marinheros ndo Thes fosem entregues. Berichte der rheinischen Missionsgesellbchaf, 1885, p. 153. 40 ‘AMENTALIDADE PRIMITIVA 4. Como essa mentalidade explica os maleficios dos crocodilos-feiticeiros. Para de fato entrar aqui no pensamento desses indigenas, é pre- ciso saber que, segundo eles, crocodilos e aligdtores sfo naturalmente inofensivos. O homem nada tem a temer deles. Sem diivida, em certos lugares em que eles pululam e onde os acidentes acontecem com demasiada freqiiéncia, essa persuasio acaba por ceder, e tomam-se precaugées. Assim, na Africa oriental alema, “como os crocodilos existem em ntimero incrivel, freqiientemente nao se ousa colher agua diretamente no rio Ruhudge, mas constr6i-se uma espécie de paligada, ese tira Agua do alto da margem, que é escarpada, por meio de vasos suspensos em longas varas de bambu”. O mesmo é feito no alto , sobre o rio Quanza.#! Mas esse caso 6 excepcional. Em geral, os indigenas nao temem se aproximar da margem de rios, nem sequer de neles se banhar na proximidade de crocodilos. Seu sentimento 6, por outro lado, partilhado por certo ntimero de europeus. J Bosman escrevia: “Em todo o tempo que aqui estive, jamais ouvi dizer que ele tivesse devorado alguém, seja homem ou animal... H4 uma terrivel quantidade desses répteis em todos os rios do pats... Na gua, jamais ‘gostaria de me confiar, embora nunca tenha ouvido dizer que tivesse acontecido alguma desgraga nessas questoes”.*? G.-von Hage, em dois anos de estadia em @amardes; conheceu apenas trés casos em que homens tivessem sido atacados por croco- dilos, embora os indigenas se banhem ¢ nadem no rio e, durante a estagdio seca, patinhem nas lagunas. As mesmas crengas existem na costa ocidental da Africa. “Dizem que na praia de Gallenhas (entre Sherbro e Cape Mount), em que os aligatores sto abundantes, no se lembram de que eles tenham alguma vez feito mal a alguém, embora "°F FULLEBORN, Da deh Nhs und Ress, Dnach Ox Afi, IX. 185,p. 541. ‘J. MONTEIRO, Angola and she river Congo, Ip. 123 ‘*.W, BOSMAN, Voyage de Guande, [4 lee, p. 250-251 vom HAGEN, Die Bana, Bésler Archi, p. 93 (1911). {ENGA DA MENTALIDADE PRIMITIVA. 41 {genas estejam com muita freqdéncia na égua, até alguns anos quando um navio negreiro se langou na entrada da praia.” Bentley pensava que, tomando as precaugSes necessirias, no grande perigo. Os crocodilos sio muito preguigosos endo se sm facilmente. O barulho feito por uma diizia de jovens, gritando, lo e se divertindo, basta em grande medida para manter ‘crocodilos a distéincia. Todavia, se um deles se aventura sozinho figua, € possivel que uma desgraga acontega." Se essa desgraga ‘er, como o indigena a interpretara? Acusaré sua propria ncia, ou mudaré de opiniao sobre os costumes do crocodilo? que foi um acidente? Ele o faria, sem divida, caso racioci- ‘como nés. De fato, ele nem sequer sonha com isso. Ele tem sua agio pronta, ¢ ela éde cardter muito diferente. "Nos distritos, Bentley, em que os cracodilos so abundantes, acredita-se que os Jiros se metamorfoseiam as vezes em crocodilos, ou entdo entram répteis para condu: lo-a. Onde os leopardos sio comuns, 0s feiticeiros podem se ‘ransformar em leopardos. Os indgenas afirmam, com freqiéncia de ‘modo pesitivo, que o crocodilo, em si mesmo, ¢ inofensivo. Estio de tal forma persuadidos disso que, em alguns lugares, eles entram sem hhesitar no rio, a fim de supervisionar suas redes para peixes. Se um eles € devorado por um crocodilo, eles fazem uma conferéncia para descobrir o feiticeiro, matam-no, e continuam como antes. “Bm Lukunga, uma das estagies da missio batista americana, um grande crocodilo saiu da margem do rio para atacar o chiqueiro de durante anoite. O porco sentiu.o odor do réptil, e fez tamanho barulho que M. Ingham, 0 missionrio, se levantou e matou o croco- ilo com um tiro de fuzil. Pela manh, ele abriu o réptil e encontrou ‘em seu est6mago dois anéis de clavilha. Foram imediatamente reco- inhecidos por terem pertencido a mulheres que haviam desaparecido, ‘em datas diferentes, a0 buscar gua no rio. Cheguei a essa estaglio {s¢Th, WINTERBOTTOM, An account of the naive African in the neighbourhood of Siea- ‘Leone p 258 (1803), '© HAMM, BENTLEY, The eon labours of « Congo pioneer. 34. \ Jos, e assim causam a morte de sua vitima, | 42 AMENTALIDADE PRIMITIVA. alguns dias depois, e um de meus trabalhadores congoleses, que estava ‘comigo, afirmou obstinadamente que o crocodilo nao havia devorado as mulheres. Ele dizia que os crocodilos jamais o fariam. ‘Contudo, € 08 anéis? Nao sto prova palpavel de que, nesse caso, 0 crocodilo havia devorado as mulheres” —‘Nao; ele as apanhou e as passou para 0 feiticeiro, do qual ele era instruménitoy, quanto aos anéis, ele teré __ tido a idéia de tomé-los como seu salri6'. © que fazer, acrescenta Bentley, com cérebros possuidos-pélo diabo como esses?”.46 Bent Segeeierairesil que ele considera uma obsti- nagio iftaudita de negaraevidéneia. Trata-se, porém, de algo muito diferentéE simplesmente um caso particular da “impermeabilidade A experiéncia”, que caracteriza a mentalidade dos primitivos, quan- do representagSes coletivas ocupam antecipadamenté seu-espitito. Conforme tais representagGes, em que o papel das causas segundas € negligenciavel e a verdadeira causa é de ordem mistica, 0 crocodilo que comete um ato insélito € que devora um homem nao pode ser um animal como 0s outros: ele é necessariamente o instrumento de um feiticeiro, ou o préprio feiticeiro. “Tal €a superstigio dessas pobres pessoas que, quando acontece tamanha desgraga, a atribuem aos feiticeiros. Obstinados por essa loucura, eles nao querem sequer fazer o esforco de cercar a parte do tio em que se lavam sempre suas mulheres e seus filhos, e onde eles se tornam presa desse terrivel tirano das 4guas”.%” No alto Zambeze, “dizem que ha médicos que dio o remédio dos crocodilos. Se alguém rouba os bois de um desses médicos, o médico vai até o rio. Quan- / do af chega, ele diz: ‘Crocodilo, venha aqui; va agarrar aquele que / matou meus bois’. O crocodilo obedece. Quando chega a manha, 0 _ homem fica sabendo que um crocodilo matou alguém no rio. F diz: ‘Eo ladrao”.# 4 WH, BENTLEY, onsen on he Con lp. 275-276. CF lp 317 fend It® MATHEWS, Vinge rte de See Leone (175-1787, 49 da ado ‘“E.JACOTTET, Etudes sur les langues du Haut Zambize. It: Textes Lou tions de l'école des Lettres d’Alger, XVI (1901). poste ae (GA DA MENTALIDADE PRIMITIVA.... B Depois disso, cada novo acidente, em ver de abalara convicgio igena, Ihe serviré, a0 contririo, de nova prova. Ele ir procurar Jiro, encontré-lo, puni-lo, e as censurasdo europeu Ihe parecerao absurdas que nunca. “Dois homens foram levados por crocodilos. ‘0s indfgenas pretendem que nao é costume dos crocodilos levar ns. Por conseguinte, aqueles eram crocodilos-feiticeitos, e era ,, 0 mestre do distrito, o autor da feitigaria... Naturalmente, ‘protestou sua inocéncia; mas forgaram-no a beber o veneno de faa fim de provar sua inocéncia, ¢ o canalha do “doutor” havia Jo uma dose fatal... Nada pudemos fazer". Representacdes coletivas inteiramente semelhantes foram tatadas na Nova Guiné (Woodlark Island). “Maudega, uma de Awetau, em Murua, fizera uma visita 4 aldeia vizinha de ybudau e, na volta, ela havia trazido consigo a filha de Boiamai, ‘chefe de Nabudau. A crianga foi infelizmente arrebatada por um ilo e, para se vingar, Boiamai, com seus filhos e outros homens sua aldeia, matou Maudega e trés de seus parentes... Diante do I, o filho fez a seguinte declaragio: “E verdade que matamos ‘pessoas... Maudega havia levado minha ima para sua aldeia; te sua estadia, ela enfeitigou um aligator, o fez sair da agua para darebatar minha irma e devord-la”.” A idéia de um acidente sequer ‘apresentou ao espirito da familia da vitima. O crocodilo s6 poderia ter sido mero instrumento. Um pouco mais adiante, Murray relata que “os crocodilos so um grande perigo para os fugitivos, e que uma ‘erenga se espalha em uma parte do golfo dos papuas, segundo a qual ‘05 crocodilos seriam os aliados da administragao. Ela se funda sobre fato de que um prisioneiro evadido fora cruelmente mutilado por um esses animais ao atravessar um tiv... Entretanto, os crocodilos nto esto todos a servigo do governo. A grande maioria deles continua fiel aos feiticeiros, e s6 atacara um homem se um fei The houver ordenado. Certa vez, tive de atravessar um rio que diziam estar cheio “°W, H. BENTLEY, Pionerng onthe Congo, lp. 317 J. .P MURRAY, Papua, p. 128-129. 44 ‘AMENTALIDADE PRIMITIVA decrocodilos, e perguntei a um velho indgena que me acompanhava se ele nao tinha medo. “Nao, respondeu ele. Um crocodilo nunca tocard o senhor, a menos que alguém tenha feito puri-puri contra o senhor (o tenha enfeitigado). E, se alguém fez isso, o senhor esti perdido de qualquer maneira; ele “teri o senhor” de um ou de outro modo: se nao for por meio do crocodilo, serdde outra forma. De modo que 0s crocodilos nao tém realmente importancia”.5! © Perigo esta em outro lugar: Do proprio animal nao hé nadaa temer. Se ele atacar, sera porque o homem Ihe fora “entregue”, Se procurarmos precisar como os indigenas representam as telagdes entre o feiticeiro e o animal, tropegaremos em uma dificul- dade quase intransponivel. © pensamento deles nfo tem as mesmas exigéncias légicas que 0 nosso-Ele é.regida, tanto neste caso como €m muitos outros, pela I¢i de participaga6. E estabelecida entre o feiticeiro € 0 crocodilo uma relagio' tal que o feiticeiro se torna © crocodilo, sem, entretanto, confundir-se com ele. Do ponto de vista do principio de contradi¢io, é preciso entre duas coisas uma delas: ou que 0 feiticeiro ¢ 0 animal sejam um, ou que sejam dois seres distintos. Mas a mentalidade pré-lgica acomoda-se com as duas afirmagdes a0 mesmo tempo. Os observadores sentem bem esse cardter de participagiio, mas nao tém o meio de expressi-lo. Eles insistem ora sobre a identidade, ora sobre a distingdo entre os dois seres: a propria confusio de sua linguagem ¢ signific sse modo, “atribui-se aos balogs (feiticeiros) o poder de ‘shetempsidosar’ 0s mortos em uma serpente, um crocodilo ete. Essa metempsicose se realiza mais comumente no crocodilo; tanto que esse monstro, sem serum deus, ou sequer um espitito, é respeitado e temido. Ele forma ‘uma unidadle com a pessoa que operou.a mudanga, ¢ existe, por assim dizer, entre os dois, um pacto secreto, uma conivéncia inteligente. Ela Ihe ordenard ir agarrarfulano de tal, ele ird e ndo se enganaré O que acabamos de dizer explica por que, depois que alguém tenha sido apanhado por um crocodilo, sempre se procurard, em primeiro * Ibid, p. 237-238, 45 {ENGA DA MENTALIDADE PRIMITIVA. par, o mulogi que expediu o monstro, ¢ sempre se encontrar um Sua sorte ¢ rapidamente regulamentada” # Entre os banga- jamais um crocodile fara iso (virar uma canoa para apanhar 0 #m), se nao tivesse recebido a ordem de um moloki (feiticeiro), \8e 0 moloki nao tivesse entrado no animal para cometer o crime” /missiondrio encara, portanto, as duas hipéteses separadamente, a0 @ que, aos olhos dos indigenas, de modo incompreenstvel para elas formam apenas uma No Gabio, “a supersticaio do homem-tigre, diz um excelente rvador, Le Testu, nao é menos obscura que a do enfeitigamento. la se apresenta sob duas formas. Em un caso, o tigre (entendam: do ou pantera), o tigre autor do crime € um animal verdadeiro pertence a um individuo, obedecendo-lhe e executando suas dens; esse tigre passa para seus herdeiros como qualquer outro bem ilidrio. Fulano de tal, dizem, tem um tigre. No outro caso, o animal apenas uma encaragéio, de algum modo; nao se sabe até muito bem um homem que tomou a figura de fera, e a fera seria entilo uma cia ou, ento, se houve uma encamagio propriamente dita de um homem em um animal verdadeiro... A idéia que os indigenas tm do homem-tigre é extremamente obscura”. © major Leonard apresenta as coisas um pouco diversamen- te. “A velha esposa de Utshi foi acusada de ter feito morrer Oru, enviando seu espirito no crocodilo que o devorou, € niio, como se ‘poderia supor, metamorfoseando-se ela propria, de corpo ¢ alma, Messe animal. Porque a impossibilidade disso, neste caso ao menos, aparece evidentemente pelo fato de que cinco outras mulheres foram jigualmente acusadas. Aos olhos dos indigenas, grande niimero de espiritos pode estar ligado a um tinico objeto, ou entrar no corpo de . ape tum tinico animal, embora em geral eles nao fagam isso”. 88, £P-Eugene HUREL, Reon eve domessiqu des Bakerowe, Awhopos, VE (1911). SR) H, WEEKS, Anlplgal nase ergo per Conner Ay GE TESTU, Now sks name Bape de erp de Nps 197 Mls A.C. LEONARD, Theor Nan is esp. 194 46 ‘A MENTALIDADE PRIMITIVA Todavia, eis o relato de um indigena, de sua prépria boca: “Tal- ‘vez, enquanto o sol esta acima do horizonte, vocés estejam a ponto de beber vinho de palmeira com um homem, sem saber que um espi- tito maligno esta nele (ele préprio pode ignorar isso). A tarde vocés ouvem o grito: Nkole, Nkole! (crocodilo), e vocés ficam sabendo que um desses monstros, de emboscada na gua lamacenta junto a0 rio, apanhou uma pobre vitima que viera buscar agua. De noite, vocés despertam por causa dos cacarejos de terror em seu galinheiro, ¢ vocés percebem, de manha, que sua provisdo de aves foi seriamente diminufda por causa da visita de um muntula (gato selvagem). Pois bem: 0 homem com quem voces bebiam vinho de palmeira, o croco- dilo que apanhou um aldedo imprudente e 0 pequeno ladrao de suas galinhas sfo apenas um tinico individuo, possuido por um espirito maligno”.® A participagio € aqui muito claramente sugerida, Basta para o indigena que ele a sinta real, sem se colocar a questo de saber como ela se realiza. rey 5. Como a mentalidade primitiva interpreta tudo 0 que ¢ insélito. Como nifo existe acaso, e como, por outro lado, a mentalidade primitiva negligencia pesquisar as condiges sob as quais so produz ou nao se produz, a conseqiiéneia é que tudo 0 que ¢nespera do, insélito, extraordindtio, é recebido cen que com surpresa. A nogao de insdlito ou de extraor ivsem ser definida expressamente como em Nosse conceito;ntretanto muito familiar & mentalidade primitiva: é uma dessas nogdes, a0 mesmo tempo gerais e concretas, como as de mana, dle orenda, de psila ete., ccujas caracteristicas analisei em outro lugar.” O insélito pode ser relativamente muito freqiiénte, € a indife- renga da mentalidade primitiva pelas causas segundaj se compensa, \ SE J. CLAVE, Six years of adventure in Congo lan, p92. Les fonctions mentales dans les sciusinféieures,p. 147-148, GA DA MENTALIDADE PRIMITIVA... 47 ‘assim dizer, por uma atengo sempre atenta a significagio mistica tudo aquilo que a atinge. Os observadores também observaram jentemente que o primitivo que, propriamente falando, nao -espanta com nada, é, entretanto, muito emotivo. A auséncia de dade intelectual é acompanhada pela extrema sensibilidade ‘parecimento de alguma coisa que 0 surpreende. ~~~» FE preciso distinguir, ainda, entre os fatos ins6litos, aqueles que produzem raramente, mas que ja tém, entretanto, seu lugar nas tagdes coletivas, e aqueles que aparecem fora de qualquer . Por exemplo, o nascimento de gémeos é um fendmeno te raro mas, em todo caso, conhecido. Em quase todas as les inferiores, ele da lugar a uma série de ritos e de praticas: pré-ligacdo imperiosa determina como é preciso agir nesse caso, de afastar os perigos de que esse fendmeno pode ser sinal ou causa, mesmo é feito em relagio aos eclipses do sol ou da lua. Todavia, ppresenga de fatos inteiramente inesperados, a conduta a manter assim antecipadamente tragada. Quando eles se produzem — 0 facontece com muita freqiiéncia —, de que modo a mentalidade pprimitiva é por eles afetada? Ela nao é pega de surpresa. Ela imediata- te reconhece nisso manifestagdes de poténcias ocultas (espititos, falmas dos mortos, ages mégicas etc.), e ela os interpreta, em geral, ‘como aniincio de grandes desgracas.