Você está na página 1de 10
Território e seus espaços colaterais: aspectos ontológicos do processo de ocupação urbana para o planejamento

Território e seus espaços colaterais: aspectos ontológicos do processo de ocupação urbana para o planejamento das cidades

Betina Ahlert (1) Carla Jacques (2) Gleny Guimarães (3)

(1) Doutoranda do GEPsTAS Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Assistência da FSS, PUCRS, Brasil. E-mail: asbetinaa@gmail.com (2) Graduanda bolsista CNpQ do GEPsTAS Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Assistência da FSS, PUCRS, Brasil. E-mail: carla.jacques@acad.pucrs.br (3) Coordenadora do GEPsTAS Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Assistência da FSS, PUCRS, Brasil. E-mail: gleny@pucrs.br

Resumo: Dentro da temática do planejamento das cidades, a busca por moradia urbana pela ocupação de prédios públicos e privados, torna-se uma questão de extrema relevância para se pensar os espaços colaterais históricos que a urbanização produz dentro do território das cidades. Neste sentido, o presente artigo propõe a apresentação de algumas reflexões acerca do que Milton Santos(1999) denomina de “território usado”, na perspectiva ontológica do cotidiano das cidades, para, subsequentemente, correlacionar o processo de urbanização brasileiro com a trajetória do planejamento das cidades e da formação dos territórios informais. As observações que são pontuadas a partir destas análises nos direcionam ao entendimento da interdependência entre a criação de espaços colaterais e a forma de inserção tardia e dependente ao sistema capitalista de produção, elucidando a estrutura desigual na qual as políticas públicas são compreendidas e realizadas no âmbito do planejamento urbano, o que reverbera na limitação das potencialidades das políticas de direito a cidade e dos próprios sujeitos em seu cotidiano enquanto cidadãos. Coloca-se em evidência a importância de considerarmos as relações sociais que surgem a partir destas sobras espaciais para se refletir sobre novas formas de se pensar e planejar o território urbano brasileiro.

Palavras-chave: planejamento urbano, território, cotidiano, ocupações urbanas.

Abstract: Within the topic of city planning, the search for urban housing for the occupation of public and private buildings, it becomes a matter of utmost importance to think about the historical collateral spaces that urbanization produces within the city territory. In this sense, this article aims to present some reflections about what Milton Santos (1999) calls the "territory use" in the ontological perspective of the daily life of cities, to subsequently correlate the Brazilian urbanization process with the cities' trajectory planning and the formation of informal territories. The observations made from these analyzes direct us to the understanding of the interdependence between the creation of collateral spaces and the form of dependent and delayed insertion on the capitalist system of production, elucidating the unequal structure in which public policies are understood and carried out under urban planning, which reverberates in limiting the potential of the city's legal systems and the subjects themselves in their daily lives as citizens. Evidence is brought to light about the importance of considering the social relations that arise from these collateral spaces to reflect on new ways to think and plan the Brazilian urban territory.

Keywords: urban planning, territory, everyday theory, urban occupations

1. INTRODUÇÃO

Quando analisamos o fenômeno urbano enquanto um “fenômeno histórico” não podemos deixar

de considerar a totalidade no qual este se insere, qual seja, o processo de globalização e financeirização da

economia. Iamamoto (2008) refere que a mistificação do sistema capitalista está constituída pela trindade econômica: capital terra trabalho, que se associa respectivamente ao juro renda fundiária salário.

A propriedade fundiária é um pressuposto histórico e fundamento permanente do regime capitalista de

1 | 10

produção, comum a outros modos históricos de se produzir. Entretanto, o capital cria a forma

produção, comum a outros modos históricos de se produzir. Entretanto, o capital cria a forma histórica específica de propriedade que lhe convém, valorizando esse monopólio na base da exploração capitalista, subordinando a agricultura ao capital. Aí a propriedade privada adquire sua forma permanentemente econômica despojando-se dos vínculos políticos e sociais anteriores na renda fundiária capitalista: a forma como se realiza economicamente a propriedade territorial.

“a propriedade tem que destruir pouco a pouco, até que ela desapareça, a propriedade do solo, que é a propriedade imediata, primitiva. Deste modo, a riqueza imobiliária (o dinheiro e o capital) suplanta a riqueza natural da terra e dos produtos do solo, que conferia ao proprietário prestígio quase mágico e do qual não podia ser privado.” (LEFBVRE, 1972, p. 36).

Sob esta perspectiva, a expansão das cidades dá um valor artificial, colossalmente aumentado ao solo em certas áreas, particularmente nas de localização central” (ENGELS,1873, p.11), resultado da aglomeração dos meios de produção e da concentração dos meios de consumo coletivos. Este processo bilateral - de industrialização e urbanização - acaba se transformando em condição cada vez mais sine qua non do desenvolvimento econômico das cidades (Lojkine, 1981). Evidencia-se assim, a essência abstrata (privada) na qual se estabelecem tanto as relações de produção quanto a práxis social capitalista, que cria, pouco a pouco no cotidiano das cidades, novas necessidades e formas de interação social entre os homens e dos homens com a natureza, a partir do estranhamento (Marx, 1844) que a tríade capital terra trabalho estabelece na sociedade capitalista:

“a propriedade privada é, portanto, o produto, o resultado, a consequência necessária do trabalho exteriorizado, da relação externa (äusserlichen) do trabalhador com a natureza e consigo mesmo.” (MARX, 2004, p.87)

Este processo de estranhamento do território, decorrente da relação homem-natureza condicionada pelo capital, afeta diretamente a organização dos espaços urbanos, estreitando, com isso, sua qualidade social distintiva (standesunterschied)” (MARX, 2004, p.50) para dar protagonismo à expansão do potencial físico e econômico do capital imobiliário na construção das cidades. Este modelo de desenvolvimento pautado na expansão constante gera “periferias pobres e subequipadas, ao mesmo tempo em que define eixos de expansão das classes média e abastadas, deslocando as centralidades de seus sítios originais para novos espaços mais adaptados ao padrão de consumo contemporâneo.(BALBIM, 2008, p.1). O efeito deste processo têm sido o abandono e a degradação dos centros tradicionais, gerando espaços colaterais na cidade que são apropriados por movimentos sociais de luta por moradia, que buscam expor a falta de acesso à habitação pela população de baixa renda (BOMFIM, 2004), reivindicando políticas habitacionais de interesse social nas áreas centrais, pois os conjuntos construídos na periferia não possuem a infraestrutura e o acesso aos serviços públicos da centralidade urbana da cidade.

2. OBJETIVO

O presente artigo tem como objetivo a reflexão sobre o processo de ocupação urbana, sob a luz dos aspectos ontológicos do cotidiano das cidades a partir de revisão bibliográfica acerca dos conceitos trabalhados. Busca compreender a correlação entre o processo de urbanização brasileiro com a trajetória do planejamento das cidades e da formação dos territórios informais, a fim de fomentar o debate entorno das relações sociais que surgem das sobras espaciais urbanas para refletir sobre novas formas de se pensar e planejar o território urbano brasileiro.

3. JUSTIFICATIVA

No censo demográfico do IBGE dos anos 2000, foram encontrados um total de 9 milhões de domicílios não- ocupados, sendo cerca de 6 milhões desses domicílios considerados vagos (IBGE, Sinopse Preliminar do Censo Demográfico 2000). Em contrapartida, a Fundação João Pinheiro em parceria com o Ministério das Cidades, estimou neste mesmo ano, o déficit habitacional brasileiro em aproximadamente em 6,7 milhões de novas unidades (Veiga, 2008). Estes números que compõem o

2 | 10

déficit habitacional brasileiro representam o paradoxo efeito das sobras espaciais construídas pela estrutura urbana do

déficit habitacional brasileiro representam o paradoxo efeito das sobras espaciais construídas pela estrutura urbana do capitalismo.

A importância da questão habitacional se faz evidente quando a afirmamos enquanto um direito

humano, para o acesso a condições de vida digna. A moradia, enquanto necessidade básica, deve ser satisfeita para que o ser humano possa viver dignamente, bem como deve proporcionar um acesso fácil aos serviços e a infraestrutura da cidade. Por ém, o que vemos com a expansão do capital imobiliário é a mercantilização histórica da moradia, se tornando um direito cada vez mais caro e inacessível (ABRAMO, 2009). Excluindo, assim, uma parcela cada vez maior da população ao acesso à moradia formal. Ontologicamente, conforme Santos (2012, p.74), até agora o território foi utilizado, em quase toda parte, como veículo do capital e instrumento da desigualdade social, mas uma função diametralmente oposta poderá ser-lhe encontrada.” Afirmando, ainda, ser impossível chegar a uma “sociedade mais igualitária sem reformular a organização do seu espaço.” (Ibidem) fazendo-se necessário então, o fomento à reflexão das formas com a qual a moradia nas cidades tem sido pensada e planejada, a fim de dar luz às relações sociais estabelecidas nos espaços colaterais do território urbano.

4. MÉTODO EMPREGADO

Este artigo tem como metodologia a análise materialista histórica do processo de ocupações urbanas a partir revisão bibliográfica dos autores e conceitos trabalhados, destacando-se a utilização dos fundamentos teóricos de Karl Marx, Milton Santos, Agnes Heller e Henri Lefebvre.

5. RESULTADOS OBTIDOS

5.1. Território e cotidiano nas cidades

Ao correlacionar o território sob a luz da reflexão do cotidiano das cidades, faz-se necessária a imersão ontológica das categorias em questão. O território, segundo Santos (1999) só pode ser considerado categoria de análise para além do “termo em-si”, enquanto o que denomina de território usado:

“O território não é apenas o conjunto dos sistemas naturais e de sistemas de coisas superpostas. O território tem que ser entendido como o território usado, não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é o fundamento do trabalho, o lugar da residência, das trocas materiais e espirituais e do exercício da vida.”. (Santos, 1999, p.2) [grifo nosso]

Ao ultrapassar os limites geográficos, o território ganha potencialidade ontológica, enquanto espaço onde se estabelece a vida cotidiana, conceituada por Heller (1982, p.194) enquanto categoria que abriga “todas as atividades através das quais o homem reproduz a si mesmo para poder reproduzir a sociedade.”. Marx (1988, p.202), neste sentido, elucida que o homem, modificando a natureza “ao mesmo tempo, modifica sua própria natureza”. Este movimento de modificação mútua da relação homem- natureza, de um ser em-si, meramente natural, para um ser cada vez mais social, um ser para-si, é efetivado a partir da práxis social, que se inicia a partir do trabalho e que alicerça a constituição das cidades.

O trabalho no processo de desenvolvimento do ser social é sempre um ato teleológico, pois o

homem “não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha consciente em mira” (MARX, 1988, p.142). Em conformidade a isto, o território usado também pode ser considerado em sua relação teleológica, a partir do entendimento que “os objetos que constituem o espaço geográfico atual são intencionalmente concebidos para o exercício de certas finalidades, intencionalmente fabricados e intencionalmente localizados. A ordem espacial assim resultante é, também, intencional.(SANTOS, 2006, p.261) Lukács, a partir da reflexão sobre a obra “Manuscritos econômico-filosóficos” de Marx (1844), denomina este processo de materialização consciente de objetivação:

3 | 10

“ na elaboração do mundo objetivo [é que] o homem se confirma, em primeiro lugar

na elaboração do mundo objetivo [é que] o homem se confirma, em primeiro lugar e efetivamente, como ser genérico. Esta produção é a sua vida genérica operativa. Através dela a natureza aparece como sua obra e sua efetividade (Wirklichkeit). O objeto do trabalho é portanto a objetivação da vida genérica do homem: quando o homem se duplica não apenas na consciência, intelectual[mente], mas operativa, efetiva[mente], contemplando-se, por isso, a si mesmo num mundo criado por ele.”(MARX, 2004, p.85)

As objetivações, para Heller (1991) podem ser dividas em: em-si e para-si. A objetivação em-si constitui para o homem um “processo de apropriação de tudo aquilo que faz parte do seu cotidiano, desde qualquer tipo de objeto material até à apreensão do seu código linguístico, ou seja, é a apropriação dos instrumentos e produtos, costumes e linguagem.” (GUIMARÃES, 2000, p.29). As objetivações para-si constituem o desenvolvimento do gênero humano, onde, a partir delas “ocorrem as tomadas de consciência para o ser genérico, ou seja, o homem deixa de estar centrado numa formação em-si e entra em contato intencional e consciente com a genericidade” (GUIMARÃES,2000, p. 30)

Na perspectiva do cotidiano dos indivíduos na construção e manutenção objetiva da cidade capitalista, os “aspectos da vida social não parecem diretamente determinados pelas relações capitalistas de produção” (BIHR, 1998, p.143), contudo, a práxis social e a relação do homem com o território usado acabam aprisionadas “a um fragmento do real, à tendência espontânea de orientar-se para seu eu particular” (PATTO, 1993, p.125) criando objetivações em si e não realidades para si.

Na medida em que o trabalho estranhado 1) estranha do homem a natureza, 2) [e o homem] de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital, ela estranha do homem o gênero [humano]. Faz-lhe da vida genérica apenas um meio da vida individual. Primeiro, estranha a vida genérica, assim como a individual. Segundo, faz da ultima em sua abstração um fim da primeira, igualmente em sua forma abstrata e estranhada.”(MARX, 2004, p.85)

A redução da vida genérica do homem a um meio de vida individual se concretiza através do “processo de apropriação capitalista da práxis social” (Bihr, 1998) onde os imperativos da reprodução do capital submetem “as relações sociais (e não mais somente as relações de produção) à 'lógica' da equivalência de troca mercantil" (idem, p.144). As objetivações em-si podem ser vistas cada vez permeadas não só a partir da lógica da produção capitalista, mas como objetivações cunhadas de ideologia, que influenciam na concepção dos territórios. Conforme Santos (2009, p.34) ““ o bairro perigoso”, a “favela assassina”, o “bairro residencial”.”

5.2. Construção histórica do processo de urbanização no Brasil

O processo de urbanização brasileiro, assim como em outros países da América Latina, está extremamente ligado à industrialização nas primeiras décadas do século XX e caracterizou o modo com que se deu o crescimento do país. Nesse período, em decorrência da ausência de infraestrutura urbana para acolher o número de trabalhadores que vinham para as cidades, as ocupações em áreas não regularizadas tornam-se comuns em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, onde emergiram as superlotações dos cortiços nas áreas centrais, os loteamentos irregulares e as favelas que foram, inclusive, ocupações incentivadas pelos governos em decorrência do aumento da necessidade de moradia no meio urbano (BONDUKI, 2004). Essas eram as estratégias de moradia encontradas pelas famílias de trabalhadores pobres, já que a favela constituía “a principal alternativa de sobrevivência das classes populares que, mesmo quando inseridas no mercado formal de trabalho, recebiam salários insuficientes para suprir suas necessidades básicas” (GOMES E PELEGRINO, 2005, p. 18).

No pós Segunda Guerra Mundial a urbanização no país passa por um outro momento de intensificação. Contudo, diferentemente da primeira metade do século, a classe operária organizada demanda do Estado posicionamento em relação às expressões urbanas da questão social. Nessas décadas com a ação de cunho repressor dos governos militares patrimonialistas as medidas de intervenção governamental estavam estruturadas de forma focalizada, não alcançando uma perspectiva universalista. Apesar disso, a apropriação privada da terra no espaço urbano começa a ser considerada um problema, devido ao crescimento demográfico, a ausência de infraestrutura nas cidades e visibilidade das demandas populares que centralizavam-se nos movimentos de bairro. As cidades passam a retratar as mudanças no

4 | 10

sistema de produção e são espaço privilegiado para a formação de uma sociedade desigual onde

sistema de produção e são espaço privilegiado para a formação de uma sociedade desigual onde a questão social tomava forma.

Na década de 1980 a questão da concentração da pobreza nas cidades fica mais evidente no cenário brasileiro, e muitas famílias ocupam áreas irregulares como encostas de morros, várzeas, margens de arroios (MARICATO, 2001, p. 22), onde não existe o acesso a bens e serviços que possuem aqueles que habitam a cidade considerada formal, e que tem muitas vezes como consequência a degradação do meio ambiente. A desigualdade socioespacial torna-se evidente e se caracterizava pela cisão entre moradores que ocupam áreas das cidades consideradas formais, onde existe infraestrutura e serviços básicos, daqueles que vivem na clandestinidade sem infraestrutura e com acesso prejudicado aos serviços públicos (NALIN, 2007).

A cidade em si, como relação social e como materialidade, torna-se criadora da pobreza, tanto

pelo modelo socioeconômico de que é o suporte, como por sua estrutura física, que faz dos habitantes das

periferias [

vigente, mas, também, do modelo espacial (SANTOS, 1996, p. 10).

pessoas ainda mais pobres. A pobreza não é apenas o fato do modelo socioeconômico

]

É constituinte desse período a abertura dos Estados Nacionais aos acordos estabelecidos pelas

agências financeiras internacionais por meio dos Planos de Ajuste Estrutural. As consequências para o

urbano são evidentes neste contexto, já que, segundo Davis (2006), é nos anos 1980 que há um incremento muito grande nas favelas dos países do Terceiro Mundo, momento em que elas se tornaram, inevitavelmente, o futuro dos migrantes rurais pobres e dos moradores pobres das cidades.

as cidades do Terceiro Mundo, principalmente, ficaram presas num círculo vicioso de aumento da imigração, redução do emprego formal, queda dos salários e desmoronamento de renda. O FMI e o Banco Mundial, como vimos, promoveram a tributação regressiva por meios das tarifas de serviços públicos cobrados dos pobres, mas, em contrapartida, não houve nenhum esforço para reduzir os gastos militares nem tributar a renda ou a propriedade dos ricos (DAVIS, 2006, p. 158).

O processo de planejamento urbano brasileiro também é marcado desde seu início pelas remoções

forçadas, desde a desocupação dos cortiços nos centros das cidades à necessidade ressaltada na atualidade com a realização dos megaeventos esportivos no Brasil de desocupação de áreas para execução de obras públicas (que muitas vezes travestem obras privadas e de interesse do capital). A insegurança fundiária por ocupar áreas irregulares deixa os trabalhadores pobres a mercê de prescrições estatais, e a ocupação de prédios e áreas desocupadas e em desuso sejam públicas ou privadas tem sido alvo frequente de reintegrações de posse, que não levam em conta a função social da propriedade, garantida no Estatuto das Cidades.

Ao tempo em que as cidades retratam a desigualdade social presente no país que tem como base a forma de produção capitalista, o acesso à moradia digna e aos benefícios que a cidade pode proporcionar à qualidade de vida das famílias tornam-se mercadorias. A habitação no capitalismo é uma mercadoria como qualquer outra. A produção privada de moradias para gente de todas as classes sociais é uma das mais importantes áreas da aplicação de capital. Como no mercado capitalista quem “manda” é o consumidor, há oferta de moradias para todos os gostos e, sobretudo para todos os bolsos. No caso, o que interessa é o morador de renda baixa e incerta, que obviamente não tem fortuna para adquirir e nem fiador para alugar uma habitação “regular”. Se o mercado de trabalho relega parte da população à pobreza, o mercado imobiliário nega aos pobres a possibilidade de habitar no mesmo espaço em que moram os que podem pagar. (SINGER, 2004 apud BONDUKI, p. 09, 2004).

O que se observa na história do país é que, por um lado, a “grande propriedade tornou-se empresa

capitalista agrária e, por outro, com a internacionalização do mercado, a participação do capital estrangeiro contribuiu para reforçar a conversão do Brasil em um país moderno com alta taxa de urbanização” (IAMAMOTO, 2008, p.133). Contudo, nessa relação do indutor industrialização e do induzido urbanização (Lefebvre, 2001) ao tempo em que existe um processo de mercantilização das necessidades básicas, existe uma lacuna criada pelas expressões das desigualdades de acesso à cidade e

5 | 10

moradia, que o Estado é chamado a responder por meio de políticas públicas de habitação

moradia, que o Estado é chamado a responder por meio de políticas públicas de habitação e planejamento urbano. Historicamente, na era Vargas, a ação do Estado é construída com base em processos que eram perpassados por duas questões centrais: por uma questão de saúde pública, precedida pelo movimento higienista; e pela expulsão da população dos centros das cidades, já que havia sido esse espaço o lócus de emergência dos cortiços e das favelas.

Com o passar dos anos, a deterioração das condições de vida na cidade, provocada pelo afluxo de trabalhadores mal remunerados ou desempregados, pela falta de habitações populares e pela expansão descontrolada da malha urbana obrigou o poder público a intervir para tentar controlar a produção e o consumo das habitações (BONDUKI, 2004, p. 27). Diante da situação social que emana nas cidades, das reivindicações da população e das denúncias dos meios de comunicação, o Estado passa a intervir em três frentes: “a do controle sanitário das habitações; a da legislação e códigos de posturas; e a da participação direta em obras de saneamento das baixadas, urbanização da área central e implantação de rede de água e esgoto” (BONDUKI, 2004, p. 29).

Assim, a primeira intervenção estatal realmente voltada para a área da habitação social ocorre no governo Vargas, integrando uma estratégia mais ampla que compunha um movimento orientado pela classe dominante, com vistas a uma mudança na mentalidade da população em geral e à manutenção da reprodução da força de trabalho para a industrialização. Se tornava “um elemento de formação ideológica, política e moral do trabalhador, e, portanto, decisivo na criação do homem novo” e do trabalhador padrão que o regime queria forjar, como sua principal base de sustentação política”. (BONDUKI, 2004, p. 73).

A história da política habitacional brasileira passa por ações como a criação das Carteiras Prediais dos Institutos de Aposentadoria e Pensões (1937) e a Fundação da Casa Popular (1946), que constituíram as duas iniciativas principais e pioneiras na construção de casas populares e financiamento da casa própria no país; a criação do Banco Nacional de Habitação (1964); que vão desencadear no desmanche da insipiente política habitacional existente com a extinção do Banco Nacional de Habitação em 1986. Nesse momento se observa, em nível nacional, a desestruturação da política de habitação, existindo algumas iniciativas nos níveis municipal e estadual, mas que se caracterizavam como “ações assistenciais e emergenciais” (PAZ e TABOADA, 2010, p. 06). O que se observa com as iniciativas desenvolvidas até aquele momento, é que elas não centralizavam-se na construção de casas populares que muitas vezes atendiam famílias consideradas de classe media mas que não tinham real impacto sobre o planejamento urbano nas cidades.

Legalmente o planejamento urbano é colocado em uma nova posição com o capítulo da Reforma Urbana na Constituição Federal de 1988, reafirmado na Emenda Constitucional n. 26/2000 e no Estatuto das Cidades que traz o debate tão importante em relação ao direito social da propriedade. Este pode realmente trazer alterações em relação a ocupação e organização dos territórios nas cidades ao apontar instrumentos que podem garantir a finalidade social na ocupação de imóveis e áreas nas cidades. Resta saber até onde esse direito tem sido afirmado por gestores e pelo Sistema Judiciário Brasileiro.

5.3. Espaços colaterais: processo de ocupação urbana

A segregação e restrição causadas pela lógica do mercado imobiliário no acesso à moradia para grande parte da população brasileira faz com que o acesso a este direito seja feito a partir da ocupação das sobras espaciais do território urbano. Conforme Martins (2013 apud CANETTIERI 2014, p. 26), as ocupações são a estratégia central para a reivindicação de moradias e acesso à infraestrutura urbanados indivíduos que não conseguem arcar com os custos da moradia por causa dos baixos rendimentos. Rodrigues (1988 apud CANETTIERI 2014, p. 26) afirma que os territórios ocupados, são, geralmente, terrenos e construções abandonadas e/ ou subutilizadas e, muitas vezes, relacionadas à retenção para fins de especulação imobiliária..

Para Bomfim (2004, p.105) estes espaços colaterais na área central da cidade são associados a possibilidade de obtenção de renda e lucro gerados pelos diversos capitais empregados em outras localidades e em outras formas de aplicações, ou seja, o valor de uso, dentro do aspecto ontológico da moradia é anulado para a manutenção da maior lucratividade da renda, até que ocorram alterações no

6 | 10

capital especulativo imobiliário que condiciona o território em seu valor de troca, demonstrando segurança na

capital especulativo imobiliário que condiciona o território em seu valor de troca, demonstrando segurança na obtenção de lucro na reocupação destes imóveis:

enquanto os imóveis não têm valor como mercadoria, ou têm valor irrisório, a ocupação ilegal se desenvolve sem interferência do Estado. A partir do momento em que os imóveis adquirem valor de mercado (hegemônico) por sua localização, as relações passam a ser regidas pela legislação e pelo direito oficial. É o que se depreende dos dados históricos e da experiência empírica atual. A lei do mercado é mais efetiva do que a norma legal.. (MARICATO, 1996, p.26)

Para Boulos (2015) o crescimento das ocupações fomentou a discussão sobre o problema da moradia no país, e auxiliou movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a União Nacional por Moradia Popular (UNMP) e o Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM),

que lutam simultaneamente por duas políticas públicas no espaço urbano: a reforma urbana e a habitação popular. Porém, esta abertura gerou a reação de políticos, empreiteiros, promotores de Justiça e etc., que

logo trataram de condenar as ocupações urbanas:

os empreiteiros gritam pelo direito à propriedade, esquecendo-se, talvez, que a mesma Constituição que o

garante exige também que ela desempenhe sua função social”. (BOULOS, 2015, p. 17)

Podemos perceber que os movimentos sociais pelo direito a moradia vão, progressivamente, conforme Ferreira (2012, p.1) assumindo pautas ampliadas na ideia de direito a cidade: a luta que começa pela moradia digna, uma necessidade básica e um direito fundamental, se amplia para a luta pelo acesso à educação, à saúde. à cultura, ao lazer, à cidade, constituindo-se numa luta emancipatória da população como sujeito de direitos.. Na perspectiva ontológica, podemos refletir sobre este processo como a tomada de consciência e consolidação coletiva de objetivações para-si, a partir da

“apropriação criativa do espaço urbano pela população que usa a cidade como o espaço do encontro, do trabalho, do lazer, da vida. O caráter político emancipatório da rede de reforma urbana está expresso na realização de processos autogestionários nas cidades e para a participação social nos processos de planejamento e gestão municipal, materializando o que Harvey (2005) anunciaria como a utopia de espaço e de processo”. (FERREIRA, 2012, p.3)

pronunciam o caos e a desordem, seus financiadores,

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O que podemos considerar mesmo que incipientemente, é que a forma de organização da sociedade com a financeirização do capital não tem sido capaz de atender às necessidades básicas dos seres humanos e nem de garantia da preservação do meio ambiente. Fica claro na literatura que a desigualdade social e a pobreza são elementos essenciais para manutenção e reinvenção do sistema capitalista na sociedade mundial, contudo, os dados demonstrados neste estudo e que dizem respeito a uma necessidade básica do ser humano, que é a moradia, demonstram a banalização das condições e das relações humanas.

As ocupações devem ser vistas para além das aparências imediatas da lógica de lucros imobiliários. Devem ser inseridas no processo da totalidade das relações sociais, como uma expressão da questão social produzida pela reprodução do sistema hegemônico do capital e como processo de resistência encontrada por estas pessoas que tiveram o acesso à moradia negado, conforme Boulos (2015, p.18) ocupar não é resultado da opção de alguém, mas da falta de opções.. Destaca-se, ainda, a ocupação como uma forma de garantir o uso social legalmente garantido pela Constituição e pelo Estatuto da cidade, da moradia enquanto um direito social. (CANETTIERI, 2014) Além disto, conforme Engels já enunciava em sua obra Para a Questão da habitação(1843):

“as vielas e becos mais escandalosos desaparecem ante a grande autoglorificação da

burguesia por esse êxito imediato mas

a mesma necessidade econômica que os

tinha provocado no primeiro sítio os produz também no segundo. (ENGELS, 2008,

p.145)

frequentemente nas vizinhanças imediatas. [

ressuscitam logo de novo em qualquer lugar e

]

7 | 10

Por isto, para se pensar o planejamento urbano das cidades e a capacidade do poder

Por isto, para se pensar o planejamento urbano das cidades e a capacidade do poder público de planejar alternativas às políticas habitacionais estabelecidas, faz-se necessária a reflexão das ocupações urbanas sob a ótica da historicidade e totalidade dos processos que constituem a realidade social dentro da tríade homem- sociedade natureza, pois, na ausência de uma regulação unificadora do processo social e político, o que se impõe é a fragmentação social e geográfica também como um processo social e politico.” (SANTOS, 2009, p.23). Assim, para pensar alternativas de inclusão destes sujeitos como cidadãos de direitos, bem como valorizar o território das cidades dentro da perspectiva do interesse social coletivo, será preciso criar novos mecanismos que revertam as tendências herdadas do modo de produção precedente e inventar outros objetos geográficos, dotados de finalidade em consonância com o novo modo e destinados, sobretudo, a ajudar a liberação do homem e não a sua dominação” (SANTOS, 2012, p.82), tendo em vista que

“O direito à cidade está muito longe da liberdade individual de acesso a recursos urbanos: é o direito de mudar a nós mesmos pela mudança da cidade. Além disso, é um direito comum antes de individual já que esta transformação depende inevitavelmente do exercício de um poder coletivo de moldar o processo de urbanização. A liberdade de construir e reconstruir a cidade e a nós mesmos é, como procuro argumentar, um dos mais preciosos e negligenciados direitos humanos.” (HARVEY, 2014, p.19)

8 | 10

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMO, Pedro. Favela e Mercado Informal: A nova porta de entrada dos

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMO, Pedro. Favela e Mercado Informal: A nova porta de entrada dos pobres nas cidades brasileiras. Porto Alegre: Antac,2009.

BALBIM, Renato. Reabilitação de áreas urbanas centrais. 2008 . Ano 5 . Edição 46. Disponível em:

<http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=998:catid=28&Itemi

d=23/>. Acesso em: 2015-08-24.

BIHR, A. A crise da sociabilidade. In São Paulo: Boitempo, 1998.

Da grande noite à alternativa - o movimento europeu em crise.

BOMFIM, Valéria Cusinato. Os espaços edificados vazios na área central da cidade de São Paulo e a dinâmica urbana. 2004. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Construção Civil e Urbana) - Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em:

<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/3/3146/tde-26052004-103020/>. Acesso em: 2015-08-24.

BONDUKI, Nabil. Origens da Habitação Social no Brasil: arquitetura moderna, Lei do Inquilinato e Difusão da Casa Própria. 4 ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.

BOULOS, Guilherme. De que lado vocês está? Reflexões sobre a conjuntura urbana no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2015.

CANETTIERI, Thiago. Ocupações, remoções e luta no espaço urbano. Revista E Metropolis, nº 17 ▪ ano 5 | 2014

DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006.

ENGELS, Frederich. Sobre a questão da habitação. 1873. Disponível em:

<http://resistir.info/livros/engels_q_habitacao.pdf/>. Acesso em: 2015-08-24.

FERREIRA, Regina Fátima C. Movimentos de moradia, autogestão e politica habitacional no Brasil:

do acesso a moradia ao direito a cidade. 2012 Disponível em :

<http://www.observatoriodasmetropoles.net/download/artigo_reginaferreira_isa.pdf/>. Acesso em: 2015-

08-24.

GOMES, Maria de Fátima Cabral Marques. PELEGRINO, Ana Izabelde Carvalho (Org.) Política de Habitação Popular e Trabalho Social. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

GUIMARÃES, Gleny T. Duro. Historiografia da Cotidianidade. Edipucrs, Porto Alegre, 2000.

HARVEY, David. Cidades rebeldes do direito a cidade a revolução urbana. Editora: Martins Fontes - Selo Martins, São Paulo, 2014.

HELLER, Agnes. O homem do renascimento. Tradução de Conceição Jardim e Eduardo Nogueira. Lisboa. Presença, 1982.

Sociologia

de la vida cotidiana. Traducao de J. F. Yvars. 3 ed. Barcelona, 1991.

IAMAMOTO, Marilda Vilela. Serviço Social em tempos de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. 2 ed. São Paulo: Cortez, 2008.

IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Sinopse Preliminar do Censo Demográfico 2000.

Volume

<

7,

Rio

de

Janeiro,

2000.

Disponível

em:

9 | 10

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/sinopse_preliminar/Censo2000sinopse.pdf/>. em: 2015-08-24. Acesso

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/sinopse_preliminar/Censo2000sinopse.pdf/>.

em: 2015-08-24.

Acesso

IKUTA, F. K. y JÚNIOR, A. T. A questão da moradia para além de quatro paredes e o mundo do trabalho para além do chão da fábrica em Presidente Prudente/Brasil. Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1 de agosto de 2003, vol. VII, núm. 146(082)

LEFEBVRE, Henry. O Direito à Cidade. Tradução Rubens Eduardo Farias. São Paulo: Centauro, 2001.

O pensamento marxista e a cidade. Editora Ulisseia. Tradução Maria Idalina

Furtado, 1972.

LOJKINE, Jean. O Estado Capitalista e a Questão Urbana. São Paulo: Martins Fontes, 1981

LUKACS, Gyorgy. Para uma ontologia do ser social I. Editora Boitempo, São Paulo, 2012.

MARICATO, Hermínia. Brasil Cidades: alternativas para a crise urbana. Petrópolis: Vozes, 2001.

MARICATO, ErminiaT. M. Metrópole na periferia do capitalismo: ilegalidade, desigualdade e violência. São Paulo, Hicitec, 1996.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Editora Boitempo, São Paulo, 2004

O capital. São Paulo, Nova Cultural, Volume I, 1988.

NALIN, Nilene Maria. Os significados da moradia: um recorte a partir dos processos de reassentamento em Porto Alegre. 2007. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: 2007.

PATTO, Maria Helena Souza. O conceito de cotidianidade em Agner Heller e a Pesquisa da Educação. Perspectivas, São Paulo, 16: 119-141, 1993

PAZ, Rosângela Dias Oliveira da. TABOADA, Kleyd Junqueira. Política Nacional de Habitação, Intersetorialidade e Integração de Políticas Públicas. Brasília: Ministério das Cidades, 2010.

SANTOS, Milton. A urbanização Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1996.

A natureza do espaço. Técnica e Tempo, Razão e Emoção - 4. ed. 2. reimpr. - São

Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

Pensando o espaço do homem. Edusp, São Paulo, 2012.

O dinheiro e o Território. GEOgraphia. Revista da Pós-Graduaçãoem Geografia, UFF. Rio de Janeiro, nº1, 1999.

VEIGA, Daniela A. M

domicílios vagos em Salvador como subsidio para politicas habitacionais. Dissertação de Mestrado,

<

http://www.ppgau.ufba.br/node/48/results/field_ano%3A%222008%22?page=1/>. Acesso em: 2015-08-

24.

2008.

Domicílios sem moradores- moradores sem domicílios. Um estudo sobre

Disponível

em:

10 | 10