ENEATIPO I

"Embora o E1 corresponda ao tipo irascível ou iracundo, esta
denominação não é de todo adequada. Falar de alguém irado ou
ressentido não sugere o tipo de pessoa limpa, esforçada, respeitadora
das normas sociais e compulsivamente responsável. Dada a
inseparabilidade do perfeccionismo e do mecanismo de formação
reativa, a ira é, de todas as paixões, a mais efetivamente disfarçada:
assim como a sede de poder se manifesta as vezes como dominação
secreta, a ira se mascara de benevolência e comiseração. Dentro do
âmbito das atuais patologias da personalidade, esta seria, se os
traços de caráter são suficientemente extremos, a "desordem de
personalidade obsessiva". Posto que esta denominação costuma sói
associar-se ao nível de expressão mais patológica deste estilo
caracterológico, pareceria inclusiva melhor chamá-lo "perfeccionista"
ou "perfeccionismo". Resulta irônico, todavia, que quando se há
alguns anos eu utilizei a expressão "perfeccionista" (já proposta por
Karen Horney) em um artigo que enviei ao "American Journal of
Psychoanalysis" (fundado por ela mesma), me pediram que mudasse
e modifiquei para "puritano".
Trata-se de gente que, tendo sofrido fortes exigências durante o
desenrolar da sua infância, se caracteriza por uma seriedade
compulsiva. É possível que os pais os tenham pressionado para que
alcançassem um nível acadêmico brilhante, com boas notas e um
comportamento exemplar, e em função disso os E1 desenvolveram
uma determinação e uma responsabilidade inflexíveis. Como nem
todo mundo se mostra tão responsável e com tanto respeito pelas
normas, este tipo de pessoa não pode deixar de sentir que é vítima
de uma injustiça, ao levar uma carga superior ou realizar esforços
maiores que os demais. O ressentimento está na raiz de sua
tendência à crítica generalizada, assim como na sua superioridade
competitiva: por mais que se critique a si mesmo, ainda critica muito
mais ao resto do mundo, o que leva o indivíduo a uma "plataforma de
exemplaridade", com um sentimento aristocrático de "ser mais santo
que os demais". Esta superioridade aparenta ser muito natural, pois
não
causa
aos
demais
a
impressão
de
superioridade
arrogante, mas antes, a de um sentimento de dignidade ou
integridade pessoal.
"Uma pessoa de caráter": esta expressão, hoje internacional, foi
inventada pelos ingleses e é particularmente aplicável a este
eneatipo. Dá-se um claro esforço para acatar as normas socialmente
aceitas e desenvolver um autocontrole frente a essas normas. É um
caráter social, não anti-social, Ainda que exista a ira, ela é colocada a
serviço do social, isto é, de como as coisas deveriam ser. Esse sentido
do dever é muito forte. No E6, cujo tema é a covardia ou sua
negação, há um subtipo (social) também caracterizado pelo
cumprimento do dever, mas de um modo diferente. O E1 é mais
assertivo, com mais confiança em si mesmo e pouco sentimento de
culpa. Os E1 não são gente muito torturada. Raramente recorrem à
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. tornando-se reformistas e tendendo a desbancar a quem cometa erros. (. (. (. (. De todos os tipos do eneagrama. sua agressividade necessita uma boa causa para sentir-se justificada. a virtude de uma pessoa puritana não é uma bondade amorosa. (..) Se nos perguntássemos aonde reside a falta de virtude de uma pessoa demasiado virtuosa. mas em seu interior há uma grande quantidade de rebeldia e competitividade. Paulatinamente vão ascendendo. se trata de pessoas que desfrutam a luta por boas causas. está dizendo: "Vejam como eu me comporto bem! Agora me deem o que eu mereço!”. até alcançar posições de poder. chegaríamos à conclusão de que se acha precisamente atrás de seu excesso de virtude. tudo isso tem a ver com uma atitude exigente. Existe também um alto nível de exigência para com os demais.. e entram assim em uma batalha para a tomada do mesmo. que aponta o que falta para corrigir o defeito. Em geral não se trata de criticar por criticar. Do mesmo modo que gastam muita energia externa em serem trabalhadores e realizar grandes esforços. senão um meio de comprar amor. se produz uma falta de harmonia entre a submissão consciente e a rebeldia inconsciente. De fato... já adultos.. Mas. (. Contudo. Por isso. lhes parece já não fazer falta tamanha aceitação do poder. nem são conscientes deles. representam o papel de "bonzinhos".. Diferentemente do que proclama ser.) Falando de modo geral. Seu 2 . mais do que para encontrar soluções para problemas existenciais. essas pessoas começam desde uma posição subordinada. confiável e desejosa de realizar grandes esforços em prol do progresso da sociedade. a inibição da espontaneidade e a rigidez.) Outro traço marcante dos E1 é o controle excessivo. Qual a diferença entre crítica e exigência? A exigência é uma crítica orientada para a ação. para desfrutar de privilégios especiais. Assim. costuma ser para melhorar a si mesmos.. mas antes requerer que a pessoa atue de uma maneira diferente. essa mesma aparência prevalece em sua aparência externa. uma vez que atingiram uma posição sólida. quando entram para formar parte de alguma organização ou instituição.) Com frequência. este é o mais rígido.psicoterapia e.. no uso da virtude para se destacar. se passa o contrário. costumam dizer "você deve". ainda que a exigência fique frequentemente oculta por trás de princípios morais ou princípios gerais..) Os indivíduos E1 são grandes argumentadores e defendem bem a si mesmos. por exemplo. quando o fazem.. o que alimenta ainda mais a ira e o ressentimento. também gastam grande energia para manter seu "menino interior" aprisionado. Uma das dinâmicas inconscientes dessas pessoas é o uso da crítica como meio indireto para efetuar exigências. Lembra o comportamento de um menino que. Não se responsabilizam pelos seus próprios desejos. seria um erro crer que é a causa o que os leva a lutar.) Nenhuma perfeição parece suficiente e essa auto-exigência faz com que a pessoa seja trabalhadora. para sentirse superior.. Quando pequenos. em lugar de dizer "eu quero". mostrando sempre um bom comportamento.

dos Irmãos Karamazov de Dostoievski.fica subdesenvolvido. Lutero se torna particularmente interessante. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. que vão desde Chaucer até a “Tia Betsy” de David Copperfield de Dickens. da boa intenção e das virtudes sociais. naturalmente. como reza o dito popular espanhol. não somente esforçado por fazer bem as coisas. “entra em conflito com o dever”. de fato. esse movimento tão moralista (e. foi capaz de desafiar o homem mais poderoso da Terra. provavelmente seja Martinho Lutero o que maior influência tenha exercido. O Puritanismo é o movimento que criticou o cristianismo convencional. Na opinião de Weber. é aquela que foi criada no contexto da cultura do Puritanismo. mas antes um caráter impulsionado por um espírito de conquista “Fáustico”... Weber sustenta que o tipo de pessoa que continua sendo eficiente ainda depois de ter chegado a acumular riquezas e a estabelecer seu poder no mundo. surgida na época da Reforma.lado brincalhão . ambiciosos e persistentes. e o capitalismo dos países latinos do sul. procurando ser virtuoso e inibindo os seus impulsos (como implica a palavra Puritanismo). Os anglo-saxões são muito industriosos. o Papa. o movimento que impregnou a incipiente cultura norte-americana da Nova Inglaterra) se caracterizava por uma valorização moral do trabalho. o tachando de corrupto.) Com respeito a biografias. Pode-se dizer que todo o desenvolvimento industrial do Ocidente está estreitamente relacionado com um tipo de caráter concreto: não só “puritano”. e talvez como o E1 mais influente na sociedade oriental. Eric Erikson afirma que Lutero. O leitor conhecerá provavelmente o Puritanismo histórico e seus propósitos por serem “mais puros que os puros” ou. No Ocidente. pela ira que lhe inspirava o seu pai.a parte da psique que busca o prazer . isso que Weber afirma a respeito da cultura puritana é inclusive mais aplicável à psicologia puritana. Max Weber diferencia entre o capitalismo ocidental. não só uma grande capacidade. destaca-se Confúcio como mestre e pregador da piedade filial. Além dos personagens desse tipo que aparecem na literatura. em especial ao desenvolvido nos países anglo-saxões (Inglaterra e Alemanha). já que chegou a ter consciência das limitações da sua atitude perfeccionista em sua doutrina a respeito da primazia da Graça sobre as boas ações no processo da Salvação. Desdenham o prazer porque. encontramos uma visão particularmente reveladora da dinâmica do caráter E1 em Katherina Ivanovna. 3 . Mostram para com o trabalho. Não obstante. “mais papistas que o papa”. (. mas inclusive uma reverência.

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