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Artigo Original

DOI:10.5902/2179-460X14657

Ciência e Natura, Santa Maria v.37 n.3, 2015, Set.- Dez. p. 898 – 909 Revista do Centro de Ciências Naturais e Exatas - UFSM

ISSN impressa: 0100-8307

ISSN on-line: 2179-460X

- UFSM ISSN impressa: 0100-8307 ISSN on-line: 2179-460X Alguns teoremas clássicos da geometria sintética e

Alguns teoremas clássicos da geometria sintética e aplicações

Some Classical Theorems of Synthetic Geometry and Applications

Vinícius Paulo Freitas 1 e Nilomar Vieira Oliveira 2

1 Docente - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, AM - Brasil

viniciusmat2003@yahoo.com.br

2 Docente - Universidade Federal do Amazona, AM - Brasil

nilomar@gmail.com

Resumo

O presente artigo é fruto de uma parte da dissertação de mestrado, onde procuramos fazer uma abordagem simples de alguns

teoremas clássicos da Geometria Euclidiana Plana e torná-los mais conhecidos, pois embora tenham um grande papel na resolução

de muitos problemas geométricos, estão de certa forma esquecidos tanto no ensino básico quanto no ensino de graduação. No

intuito de resgatar tais teoremas, desenvolvendo assim habilidades em Geometria, exploramos os seguintes teoremas: Menelaus, Ceva, Ptolomeu, Hiparco,Desargues, Feuerbach. Para as demonstrações destes teoremas, fizemos o uso de alguns resultados da Geometria Plana e da Geometria Inversiva. Acreditamos que tanto o enfoque da realização desse trabalho, com a utilização da Geometria Inversiva, por exemplo, como os teoremas clássicos, que utilizamos simplesmente métodos elementares da Geometria Sintética, pode servir para a melhoria do ensino-aprendizagem de Geometria Euclidiana Plana e possivelmente servir de elemento motivador para alunos e professores que busquem aprimorar seus conhecimentos em Geometria nos seus diversos desdobramentos.

Palavras-chave: Ensino -Aprendizagem, Geometria Euclidiana, Teoremas Clássicos.

Abstract

This article is based on a part of the dissertation, where we try a simple approach of some classical theorems of Euclidean geometry Plana and make them better known, because although they have a great role in solving many geometrical problems, they are somehow forgotten both in primary and in undergraduate education. In order to redeem such theorems, therefore developing the people skills in Geometry, we explored the following Theorems:Menelaus, Ceva, Ptolemy, Hipparchus, Desargues, and Feuerbach. For the proofs of the mentioned theorems, we use some results of Plane Geometry and Inversive Geometry. We believe that both approach the making of this work, with the use of Inversive Geometry, for instance, as the classical theorems which we used only elementary methods of Synthetic Geometry, can serve to improve the teaching and learning of Euclidean Plane Geometry and possibly serve as the motivating element for students and teachers seeking to improve their knowledge in Geometry in its various ramifications.

Keywords: Teaching-Learning, Euclidean Geometry, Classical Theorems.

Recebido: 30/06/2014 Aceito: 13/11/2014 * viniciusmat2003@yahoo.com.br

Ciência e Natura v.37 n.3, 2015, p. 898 – 909

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q

MB .

Dada esta definição, a pergunta agora é: Como s mos se o ponto M está ou não entre os pontos A A resposta vem das propriedades da razão orientad segmentos, que são elas:

Se M AB , então AM MB > 0 . De fato, neste

AB e

MB tem a mesma orientação.

Se M / AB , então AM MB < 0 . De fato, neste

AM e

MB tem orientação oposta.

Para o Teorema de Menelaus, consideraremos ap as medidas que levam em conta a orientação dos seg tos, que são chamadas de medidas algébricas . Já aq medidas que não levam em consideração a orient do segmento são chamadas de medidas geométricas .

Teorema 2.1. (Teorema de Menelaus) Sejam três pontos e N localizados respectivamente nas retas suportes dos

AB , BC e CA de um triângulo ABC (qualquer) e difer dos vértices. Então L, M e N são colineares se, e somen

MB

LA

LB · MC · NA = 1

NC

se, e somen MB LA LB · MC · NA = 1 NC Figura 1: Teorema

Figura 1: Teorema de Menelaus.

Demonstração. Seja o ABC , e sejam L , M

pontos colineares pertencentes as retas AB ,

respectivamente. Pelo vértice A, traça-se uma reta

paralela a transversal LM .

BC e

Pelo Teorema de Tales as paralelas

AB e

AD e

LM

tam as secantes

daí

BC em partes proporcio

LA = LB =LA · MB = 1

900

Freitas e Oliveira: Alguns Teoremas Clássicos da Geometria Sintética e Aplicações

Teoremas Clássicos da Geometria Sintética e Aplicações Figura 2: ← → AD ← → LM .

Figura 2:

AD

LM .

plicando o Teorema de Tales às paralelas AD e

que cortam, também, as secantes

AN e

DM em

s proporcionais. Assim

MD = MC

NC

NA

=MD

NA ·

NC MC = 1

(2)

ultiplicando (1) e (2), temos que

LA

LB · MC ·

MB

NC NA = 1

(3)

eciprocamente, sejam L , M e N pontos pertencentes

tas suportes AB , BC e CA , respectivamente, de um

C tais que satisfazem a relação (3). Seja N o ponto

←→

tersecção de

LM com

AC , conforme figura abaixo.

← → LM com ← → AC , conforme figura abaixo. Figura 3: ← → LM

Figura 3:

LM

AC = { N } .

elo que foi provado, temos que

LA

LB · MC · N N

MB

C

A = 1

(4)

e (3) e (4), temos

NC

NA = N N

C

A . Como existe apenas

nico ponto que divide o segmento CA numa dada o, temos que N = N . ortanto L M e N são colineares

Observação 2.1. Quando utilizamos medidas geométric dos segmentos envolvidos, o Teorema de Menelaus é válid parcialmente, pois a recíproca deste é falsa. Por isso, cons deramos apenas as medidas algébricas dos segmentos. Com contra-exemplo consideremos, agora, L , M e N como send

os pontos médios dos lados AB , BC e AC respectivament de um ABC . Consideremos as medidas geométricas d

segmentos BM , CM , CN , AN , AL e BL . Temos que LA LB

MB

MC ·

NA NC = 1 , mas L , M e N não são colineares. Send

assim, não vale a recíproca do Teorema de Menelaus.

O Teorema de Menelaus também pode ser aprese tado como

sen ( L CA ) · sen ( M AB ) · sen ( N BC )

sen ( M AC )

sen ( L CB )

sen ( N BA ) = 1

chamada forma Trigonométrica do Teorema de Menelau

Teorema 2.2. (Teorema de Ceva) Num triângulo ABC, tr

cevianas 1 AL , BM e CN são concorrentes, se e somente s

AN

BL

CM

NB · LC · MA = 1

se e somente s AN BL CM NB · LC · MA = 1 Figura 4:

Figura 4: AL , BM e CN são concorrentes em P .

Demonstração. Seja r uma reta paralela a BC pa sando por A , conforme figura abaixo.

paralela a BC pa sando por A , conforme figura abaixo. Figura 5: r BC .

Figura 5: r BC .

Temos as seguintes semelhanças

AMR CMB =MA

CM

= AR

BC

NB

AN = BC

SA

BNC ANS =

(

(

Ciência e Natura v.37 n.3, 2015, p. 898 – 909

901

C

S

=SA = AP

BPL RPA =

De (7) e (8) vem que

BL

AR = LP

AP

LC

SA = AR ou LC

BL

SA

BL = AR

(7)

(8)

(9)

Multiplicando membro a membro (5), (6) e (9), obte- mos

ou

MA

CM · AN · LC

BL

NB

= AR

BC

SA

BC · SA · AR = 1

AN

BL

CM

NB · LC · MA = 1

Seja agora, BM AL = { P } (veja Figura 5) e esten- dendo o segmento PC até intersectar AB em N . Como

AL , BM e CN são concorrentes, aplicando o que foi provado anteriormente temos

BL

LC · MA · AN

CM

N

B = 1

Mas por hipótese, AN

BL

CM

MA = 1, o que implica

NB · LC ·

AN = AN

N B N .

NB

. Mas isso só ocorre se, e somente se, N =

Observação 2.2. O Teorema de Ceva também pode ser apre- sentado como

sen ( B AL ) · sen ( C BM ) · sen ( A CN )

sen ( B CN )

sen ( L AC )

sen ( A BM )

= 1

chamada forma Trigonométrica do Teorema de Ceva.

2.2 Teorema de Ptolomeu e o Teorema de Hiparco

Neste tópico, apresentamos dois importantes teoremas produzidos no período Alexandrino: O Teorema de Hiparco e o Teorema de Ptolomeu . Hiparco (180 - 125 a.C.), matemático e astrônomo, nasceu na cidade egípicia de Nicéia. É considerado o fundador da Trigonometria, pois na segunda metade do século II a.C., fez um tratado em doze livros que se ocupa da construção do que deve ter sido a primeira

pêndio composto de 13 livros pelo matem trônomo Cláudio Ptolomeu (127 - 150 d.C magesto, como foi chamado, Ptolomeu dese somente modelos astronômicos, mas tamb ramentas matemáticas, além da Geometria necessárias para a Astronomia, entre elas a T tria. Foi no Almagesto que Ptolomeu apresent Teoremas que abordaremos a seguir.

Teorema 2.3. (Teorema de Ptolomeu) Num qua scritível, o produto das diagonais é igual à produtos dos lados opostos.

das diagonais é igual à produtos dos lados opostos . Figura 6: Teorema de Ptolomeu. Demonstração.

Figura 6: Teorema de Ptolomeu.

Demonstração. Sejam AB = a , BC = b , C d , AC = p e BD = q . Mostraremos que p · b · d .

Seja P um ponto sobre BD tal que B A

Como A CB = P DA (ângulo inscrito na circ

de mesmo arco AB ), temos que APD A

PD

d p =PD · p = b · d

b

=

Analogamente os APB e ADC o que implica

são se

BP

c =

a

p

=BP · p = a · c

Somando (10) e (11) temos

BD = q

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Freitas e Oliveira: Alguns Teoremas Clássicos da Geometria Sintética e Aplicações

AB , tais que PC 1 AB , PB 1 AC e PA 1 BC . Con-

sideremos os

A P + A B 1 P = 180 o , o quadrilátero AB 1 PC 1 é in-

segmentos A 1 C 1 , A 1 B 1 e B 1 C 1 . Como

C

1

scritível, sendo AP um diâmetro do círculo circunscrito pois A C 1 P = 90 o ).

AB 1 = 180 o , mas C 1 AB 1 =

180 o A , onde A é um ângulo interno do triângulo ABC. Logo B 1 PC 1 = A .

Além disso, B 1

PC 1 + C 1

PC 1 = A . Além disso, B 1 PC 1 + C 1 Figura 7:

Figura 7: AB 1 PC 1 é inscritível.

Aplicando a Lei dos Senos no triângulo PB 1 C 1 , temos que

B 1 C 1

sen A

= AP

(12)

Pela Lei dos Senos aplicado no triângulo ABC, temos

sen A

=

BC

2 R

(13)

onde R é o raio do círculo circunscrito ao ABC . De (12) e (13) vem que

B 1 C 1 = BC · AP

R Como os quadriláteros BA 1 PC 1 e CPB 1 A 1 também

2

são inscritíveis, temos de modo análogo A 1 C 1 = AC · BP e A 1 B 1 = AB · CP

2

R

2

R

Pela Desigualdade Triangular, temos no triângulo

A 1 B 1 C 1 que

A 1 B 1 + B 1 C 1 > A 1 C 1 =AB · CP

2

R

AC · BP

+ BC · AP

2

R

>

AB · CP + BC · AP AC · BP

onde a igualdade ocorre se, e somente se os pon A 1 , B 1 e C 1 estão alinhados, fazendo com que esta seja uma Reta de Simpson-Wallace 2 e o ponto P perte ao círculo circunscrito ao triângulo ABC.

Observação 2.3. A Desigualdade de Ptolomeu é um rema bem mais geral que o Teorema de Ptolomeu . desigualdade permite descobrir se um quadrilátero ABC inscritível ou não, a partir dos valores dos lados e diago sem que seja necessário fazer uma análise dos ângulos. P isto, basta que se verifique a igualdade AB · CD + BC · A AC · BD . Se por acaso ocorrer de AB · CD + BC · AD AC · BD, então ABCD não é inscritível.

Teorema 2.5. (Teorema de Hiparco) A razão das diago de um quadrilátero inscritível é igual a razão entre as so dos produtos dos lados que concorrem com as respect diagonais.

Demonstração. Considerando o quadrilátero insc ABCD, com AB = a , BC = b , CD = c , AD = AC = p e BD = q , conforme Figura 8. Mostrare

que p

= a · b + c · d

a · d + b · c .

q

que p = a · b + c · d a · d + b ·

Figura 8: Teorema de Hiparco.

Observemos que a área de ABCD é equivalen

soma de dois triângulos com um lado comum AC

BD , o que nos perminte escrever S ( ABC ) + S ( DAC

S ( ABD ) + S ( CBD ) .

2 Reta que passa pelos pés das três perpendiculares traçadas a p

Ciência e Natura v.37 n.3, 2015, p. 898 – 909

903

es quatro triângulos possuem o mesmo cír-

rito, temos pelo Teorema da área de um função dos seus lados e do raio da circun- nscrita que que

abp + cdp = adq + bcq

R

4

R

4

R

4

R

4

=

p ( a · b + c · d ) = q ( a · d + b · c )

ma de Feuerbach

e tópico falando, brevemente, de Leonhard

ático que produziu cerca de 886 trabalhos áreas da Matemática, tais como Cálculo, Grafos. Além disso, também ficou famoso alhos em Mecânica, Óptica e Astronomia. dos na Geometria levam o seu nome; neste ntaremos dois deles sem demonstrá-lo: a

e a Circunferência dos nove pontos.

(Reta de Euler) Em um triângulo, o ortocentro tro (G) e o circuncentro (O) estão alinhados. aricentro divide o segmento cujas extremidades ntro e o ortocentro, na razão 1:2.

o teorema atribuído a Euler, conhecido ferência dos nove pontos , é considerada a unferência famosa depois da era grega. lgumas de suas propriedades, mas foi o rancês Poncelet que publicou, em 1821, um strando que para todo triângulo é possível

a circunferência passando pelos pontos mé-

, os pés das alturas e os pontos médios dos unem os vértices do triângulo ao ortocentro.

(Circunferência dos nove pontos) Seja ABC um rcuncentro O e ortocentro H . Então os pontos os, os pés das alturas e os pontos médios dos ligam H aos vértices estão em uma circunfe-

tro é o ponto médio do segmento OH e cujo raio raio da circunferência circunscrita ao triângulo

que Euler tinha provado algumas pro- Circunferência dos nove pontos. Na ver- rovou que passa uma mesma circunferência ces dos triângulos medial, que é o triângulo do os pontos médios do triângulo, e órtico ulo ABC. Mais tarde, este trabalho foi re- or Karl Feuerbach, Matemático alemão do ue acrescentou uma propriedade notável, muitos autores a chamar a Circunferência tos de Circunferência de Feuerbach .

a Circunferência tos de Circunferência de Feuerbach . Figura 9: Circunferência dos nove pon de um

Figura 9: Circunferência dos nove pon

de um triângulo ABC qualquer, ou seja, ela

a circunferência inscrita e às três circunfe

inscrita 3 ao triângulo ABC. Para demonstrarmos esse teorema, faremo Geometria Inversiva. Essa Geometria foi desen século XIX por Jacob Steiner e permitiu a s problemas que até então estavam sem soluç soluções complicadíssimas, se resolvidos pe tria Euclidiana. Faremos um breve resumo, alguns de seus principais resultados.

Definição 2.2. (Conjugados harmônicos) Seja u

de reta AB . Dizemos que dois pontos M e N , pe reta AB, são conjugados harmônicos de AB se

MA = NA

MB

NB .

Como existe apenas um ponto que divi

mente o segmento AB em uma dada razão, c

que apenas um deles, M ou N , está entre o

e B .

Definição 2.3. (Inverso de um ponto) Seja S = círculo de centro O e raio r . Dado um ponto P ,

O

o

, o ponto P na semi-reta OP tal que OP · OP

−→

inverso de P em relação a S.

o , o ponto P na semi-reta OP tal que OP · OP −→ inverso de

Figura 10: Inverso de um ponto.

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Freitas e Oliveira: Alguns Teoremas Clássicos da Geometria Sintética e Aplicações

euclidiano, a transformação } → E 2 − {O } que leva qualquer ponto P a seu inverso referente a S = C(O,r), chama-se otemos que I é uma aplicação bijetiva.

ez fixado o círculo de inversão, denotaremos

de qualquer figura (ou ponto) X como sendo

Inv ( X ) = X .

o 2.4. Considerando a inversão referente a S =

os:

é o inverso de P, então P e o inverso de P .

= Q, então P = Q .

S, então P = P.

2.4. (Curvas ortogonais) Duas curvas são ortog-

m ponto de interseção, se as retas tangentes às

e ponto forem perpendiculares.

.8. (Circunferências ortogonais) Seja S = C(O,r).

s P , P e O estão alinhados, então P e P são in-

elação a S se, e somente se, qualquer circunferência

or P e P for ortogonal a S.

stração. Suponhamos que P e P são pontos

m relação à S. Seja K = C(Q,k) uma circunfer-

centro em Q e raio k , que passa por P e P . dos pontos é interno a S, as circunferências S rsectam em G e H .

é interno a S, as circunferências S rsectam em G e H . gura 11: Circunferências

gura 11: Circunferências ortogonais.

←→

o pé da perpendicular traçada de Q à reta OP , figura acima. Do triângulo retângulo OQM

OQ 2 = OM 2 + QM 2

(15)

=

+

2

= OP + OP OP

2

=

OP + OP

2

2

No triângulo QMP’, temos

QM 2

=

=

=

QP 2 P M 2

k 2 PP

2

2

k 2 OP OP

2

Substituindo as equações (16) e (17) n

obtemos

OQ 2 = OP · OP + k 2

como por hipótese OP · OP = r 2 , então

OQ 2 = r 2 + k 2

o que implica que os triângulos OHQ e O

gulos em H e G , respectivamente. Reciprocamente, seja K = C(Q,k) uma ortogonal a S = C(O, r) e que passa por P H é um ponto de interseção entre S e K, a

à K no ponto H é perpendicular à reta s t ponto H . Assim, a reta s passa por O . Co

por Potência de Ponto teremos que

OP · OP = OH 2 = r 2

o que mostra que os pontos P e P sã relação a S.

Como consequência direta do teorem

o sequinte corolário:

Corolário 1. Uma circunferência K = C(Q em relação a uma circunferência de inversão somente se, K é ortogonal a S.

Teorema 2.9. Os pontos P e P são inverso = C(O,r) se, e somente se, P e P são conjuga

Ciência e Natura v.37 n.3, 2015, p. 898 – 909

905

Ciência e Natura v.37 n.3, 2015, p. 898 – 909 905 12: P e P são

12: P e P são conjugados harmônicos.

stração. Considerando a Figura 12, temos

B = OP r r e PA = r + OP

A = OP +

PB = r OP

P A = OP + r r e PA = r + OP

r OP

P B

OP

PB

P A =

P B

PA

PB

OP + r = r + OP

r OP

OP r

(OP + r ) · ( r OP ) =

r ) · ( OP + r )

OP · OP = r 2

.10. (Inversão de reta: Parte I) Seja S = C(O,R). m relação a S de uma reta s que não passa por O , é ferência que passa por O.

stração. Seja A o pé da perpendicular traçada

ta

s , e B um ponto qualquer distinto de A ,

e

a s . Sejam A e B os inversos de A e B ,

mente. Então OA · OA = OB · OB = r 2 , o

a

Então OA · OA = OB · OB = r 2 , o a 13: Inversão

13: Inversão de reta que não passa por O .

OA

OB

e como B OA = B OA , concluímos q

AOB e A’OB’ são semelhantes. Logo A B O é reto, o que nos mostra

a uma circunferência K = (Q, OQ ) que

A O como diâmetro.

Decorre imediatamente que:

Corolário 2. Se s é uma reta tangente a c

(Q, OQ) no ponto O, então s é paralela a s

Teorema 2.11. (Inversão de reta: Parte II) A inversa em relação a S de uma reta s q

a própria reta s , ou seja, uma reta é invar passa pelo centro de inversão.

Demonstração. Se P = O é um então, o inverso P de P pertence à sem como P e O pertencem à s , então, P s = Inv ( s ) .

Teorema 2.12. (Inversão de circunferência

A inversão em relação a S de uma circunfe

que passa por O é uma reta.

Demonstração. Seja P um ponto

diâmetro OP tal que OP · OP = r 2 . Consideremos uma reta s , que conté

dicular a OP , conforme Figura 14. S

da circunferência K = (Q, OQ ), vamo

pertencente ao segmento OB , é o invers

(Q, OQ ), vamo pertencente ao segmento OB , é o invers Figura 14: Inversão de

Figura 14: Inversão de circunferência q

Como os triângulos OP’B’ e OBP s temos que

OP = OB

OB

OP =OB · OB = OP

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Freitas e Oliveira: Alguns Teoremas Clássicos da Geometria Sintética e Aplicações

ponto de interseção P , as suas inversas C 1 e C

2 ,

a

inversão, formarão um ângulo α em um ponto de

o

P , inverso de P.

onstração. Considerando a Figura 15, temos a 2.1 que os triângulos MPP’ e NPP’ são isósce- cluímos imediatamente que os ângulos α e α is.

cluímos imediatamente que os ângulos α e α is. Figura 15: α = α . ciamos

Figura 15: α = α .

ciamos outro corolário que nos diz que a in- antém a tangência entre reta e circunferência, ade que será usada na demonstração do Teo- Feuerbach.

o 3. Seja s uma reta tangente a uma circunferência ) num ponto P , então a inversa s da reta s é tangente ersa da circunferência K, em P .

da reta s é tangente ersa da circunferência K, em P . Figura 17: r s
da reta s é tangente ersa da circunferência K, em P . Figura 17: r s

Figura 17: r s .

Lema 2.3. Considerando a Figura 18, M é ponto médio

segmento XY.

Considerando a Figura 18, M é ponto médio segmento XY. Figura 18: M é ponto médio

Figura 18: M é ponto médio de XY .

Lema 2.4. Considerando a Figura 19, os pontos I e I s

conjugados harmônicos referente ao segmentos AK.

I e I s conjugados harmônicos referente ao segmentos AK. Figura 19: I e I são

Figura 19: I e I são conjugados harmônicos de AK

Ciência e Natura v.37 n.3, 2015, p. 898 – 909

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a 2.14. (Teorema de Feuerbach) Sejam ABC um triân- sua Circunferência dos nove pontos. Então te à circunferência inscrita e às três circunferências ta ao triângulo ABC.

onstração. Pelo Lema 2.4, os pontos I e I da 0, são conjugados harmônicos referente ao seg-

AK . Segue, pelo Lema 2.5, que os pontos X e ambém, conjugados harmônicos em relação ao

os KH 1 .

conjugados harmônicos em relação ao os KH 1 . 0: Reta s é a inversa da

0: Reta s é a inversa da Circunferência dos nove

sideremos,

agora,

uma circunferência

MX ) , de centro M e que passa por X , conforme 0. Pelo Lema 2.3, S também passa pelo ponto Y .

reta

BC é tangente as circunferências inscrita

crita em X e Y , respectivamente, e o diâmetro

BC . Temos que estas circunferências

gonais a S , donde concluímos, pelo Corolário tas circunferências permanecem invariantes em

á sobre

S . O mesmo acontece com o segmento BC , pois mento passa pelo centro de inversão.

o a Circunferência dos nove pontos do triân-

C. Como passa pelo centro de inversão, pois

r M , pelo Teorema 2.12, sua inversa é uma reta

assa pelo ponto K , pois K = Inv ( H 1 ) , conforme

2.9.

utro lado, s é paralela à tangente a no ponto Corolário 2). O Lema 2.2 nos mostra que s coin- s , ou seja, s é tangente a circunferência inscrita crita. Logo pelo Corolário 3, é tangente as rências inscrita e ex-inscrita. procedimentos similares, mostra-se que é e as outras duas circunferências ex-inscritas.

gumas Aplicações dos Teoremas

ex-inscritas. gumas Aplicações dos Teoremas Figura 21: Teorema de Feuerbach. Exemplo 1. Se dois

Figura 21: Teorema de Feuerbach.

Exemplo 1. Se dois triângulos situados no m plano estão relacionadas de maneira que as retas que vértices homólogos passam por um mesmo ponto (triân copolares), então os lados homólogos se cortam nos p de uma mesma reta (triângulos colineares). Reciprocam triângulos colineares são copolares. Demonstração. Aplicando o Teorema de Mene aos três trios de pontos { D , R , Q }, { E , P , R }, { F P } em relação aos triângulos OQR , ORP , e respectivamente, da Figura 22, teremos

∆ ORP , e ∆ respectivamente, da Figura 22, teremos Figura 22: Exemplo 1. QD ·

Figura 22: Exemplo 1.

QD ·

RD

RR · OQ

OR

QQ = 1

RE · PP ·

PE

OP

OR

RR

= 1

PF

QF · QQ

OQ

· OP

PP

= 1

Multiplicando membro a membro (18), (19) e temos

QD RE

PF

1

908

Freitas e Oliveira: Alguns Teoremas Clássicos da Geometria Sintética e Aplicações

Reciprocamente, considerando os PQR e P Q R

←→

R = { E } ,

da Figura 22, temos que os pontos PR P

P

Q = { F } e

←→

←−→

QR

Q

PQ

Sendo PP RR = {O } , mostraremos que a reta

QQ passa por O , ou seja, RR PP QQ = {O } . Aplicando aos FPP e DRR o que foi mostrado na primeira parte deste teorema, teremos que

R = { D } são colineares.

PP

←→

F

RR = {O } ,

P

R

D = { Q } e

←→

FP

DR = { Q }

são colineares e que os dois triângulos possuem os vér- tices dois a dois sobre três retas concorrentes.

O enunciado do Exemplo 1 é conhecido como Teo- rema de Gerard Desargues (1591 - 1661). Desarques foi matemático e engenheiro francês, precursor da Geome- tria Projetiva. Sua principal obra foi sobre as propriedades imutáveis dos círculo, publicada em 1639.

Exemplo 2. (Ponto de Gergonne) Sejam AB , AC e BC os lados de um triângulo ABC, e λ um círculo in-

scrito no triângulo ABC (incírculo). Se { X } = BC

λ , { Y } = AC λ e

{ Z } = AB λ , então as cevianas

AX , BY e CZ são concorrentes em um único ponto.

AX , BY e CZ são concorrentes em um único ponto. Figura 23: P é o

Figura 23: P é o ponto de Gergonne.

Demonstração. Pela Figura 23, temos que AZ = AY , BZ = BX e CX = CY . Logo

BX

CX · AZ

BZ · AY = CY · AY

BZ

CY

BZ

· CY AY = 1

Portanto, pelo Teorema de Ceva, as cevianas AX , BY e CZ são concorrentes em um único ponto.

Exemplo 3. (Ponto de Nagel) Sejam AB , AC e BC os lados de um triângulo ABC, e λ 1 , λ 2 e λ 3 círculos tangentes aos lados do triângulo ABC (ex-círculo). Se

{ X b } = BC λ 1 , { Y b } = AC λ 2 e { Z b } = AB λ 3 ,

então as cevianas AX b , BY b e CZ b são concorrentes em um único ponto. Demonstração. Sejam BC = a , AC = b e AB = c e

Sejam BC = a , AC = b e AB = c e Figura 24: N

Figura 24: N é o ponto de Nagel.

p c , analogamente temos que BZ b = CY b = p

a e

AZ b = CX b = p b . Logo

AZ b · BX b

BZ b

CX

b

·

CY b

=

p b · p c

AY b

p a

p

b · p a

p c

= 1

Portanto, pelo Teorema de Ceva, as cevianas AX b , BY b e CZ b são concorrentes em um único ponto.

Exemplo 4. Seja A 1 A 2 A 3 ··· A n um polígono regu-

1

lar de n lados. Se

A 1 A 2 polígono tem 7 lados.

=

1

A 1 A 3

+

1

A 1 A 4 , então este

Demonstração. Seja A 1 A 2 = A 2 A 3 = ··· = A n 1 A n =

a , A 1 A 3 = b , A 1 A 4 = c e A 1 A 5 =

Pela figura abaixo, temos que o quadrilátero A 1 A 3 A 4 A 5 é inscritível. Aplicando o Teorema de Ptolomeu temos

d .

é inscritível. Aplicando o Teorema de Ptolomeu temos d . Figura 25: n-ágono regular. b ·

Figura 25: n-ágono regular.

b · c = a · d + a · b =a · d = b · c a · b

mas por hipótese

1

1

1

b

b

(22)

23

Ciência e Natura v.37 n.3, 2015, p. 898 – 909

909

De (22) e (23) temos

a · c = a · d =c = d

Como A 5 A 6 = a e A 1 A 5 = d = c devemos ter A 1 A 6 = b , para isso, basta termos um único ponto sobre a circunferência entre os pontos A 1 e A 6 . Logo teremos um heptágono regular.

4 Conclusões

Neste trabalho procuramos fazer uma abordagem sim- ples de alguns teoremas clássicos da Geometria Plana e torná-los mais conhecidos, pois embora tenham um grande papel na resolução de muitos problemas, estão de certa forma esquecidos tanto no ensino básico quanto no ensino de graduação. Vimos ao longo do artigo, que muitos desses teo- remas clássicos são construídos por meio de teoremas, proposições e corolários bastante conhecidos e ensina- dos nos diversos níveis de ensino, podendo, portanto, serem abordados, pois não necessitariam de assuntos que não fossem ministrados em tais níveis de ensino. Para o último teorema do Seção 2, fizemos o uso de uma Transformação Geométrica que tem a propriedade de preservar ângulos e que é muito utilizada em proble- mas que envolvem tangências, a chamada Transformação Inversiva . Transformações Geométricas são aplicações bijetivas de pontos do plano sobre si mesmo, ou seja, uma transformação geométrica transporta um ponto do plano para outro lugar do plano, segundo uma lei de associação. Apesar desse tema não está incorpo- rado às práticas escolares e, até mesmo na formação de professores, sua forma aqui utilizada e suas general- izações para dimensões superiores, são frequentemente utilizadas em demonstrações de problemas geométri- cos, pois “constituem um campo rico de conexões para raciocinar sobre o plano e o espaço” (BASTOS, 2007). Acreditamos que tanto o enfoque da realização desse trabalho, com a utilização da Geometria Inversiva, por exemplo, como os teoremas clássicos, que utilizamos simplesmente métodos elementares da Geometria Sin- tética, pode servir para a melhoria do ensino-aprendiza- gem de Geometria Euclidiana Plana e possivelmente servir de elemento motivador para alunos e professores que busquem aprimorar seus conhecimentos em Geome- tria nos seus diversos desdobramentos.

Referências

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BASTOS, R. (2007). Notas sobre o ensino de Geometria:

Transformações Geométricas . Revista da APM, Lisboa.

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