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S de Miranda

Sonetos
1
O sol grande, caem coa calma as aves,
do tempo em tal sazo, que si ser fria;
esta gua que dalto cai acordar-m-ia
do sono no, mas de cuidados graves.
cousas, todas vs, todas mudaves,
qual tal corao quem vs confia?
Passam os tempos vai dia trs dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira j aqui sombras, vira flores,
vi tantas guas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam damores.
Tudo seco e mudo; e, de mestura,
tambm mudando-meu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto sem cura!

2
Desarrezoado amor, dentro em meu peito,
tem guerra com a razo. Amor, que jaz
i j de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
No espera razes, tudo despeito,
tudo soberba e fora; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, ento tudo desfeito.
Doutra parte, a Razo tempos espia,
espia ocasies de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:
Ento no tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traies, que no confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

S de Miranda

Trova
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
No posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora j fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vo trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
S de Miranda, in 'Antologia Potica'