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TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO

São Paulo

 

Registro: 2016.0000890444

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Direta de Inconstitucionalidade nº 2067470-58.2016.8.26.0000, da Comarca de São Paulo, em que é autor PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO PTB, são réus PREFEITO DO MUNICÍPIO DE SUZANO e PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE SUZANO.

ACORDAM, em Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "JULGARAM A AÇÃO PROCEDENTE, COM MODULAÇÃO. V.U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores PAULO DIMAS MASCARETTI (Presidente), EVARISTO DOS SANTOS, MÁRCIO BARTOLI, JOÃO CARLOS SALETTI, FRANCISCO CASCONI, RENATO SARTORELLI, CARLOS BUENO, FERRAZ DE ARRUDA, ARANTES THEODORO, TRISTÃO RIBEIRO, BORELLI THOMAZ, JOÃO NEGRINI FILHO, SÉRGIO RUI, RICARDO ANAFE, ALVARO PASSOS, AMORIM CANTUÁRIA, BERETTA DA SILVEIRA, RICARDO NEGRÃO, ADEMIR BENEDITO, ANTONIO CARLOS MALHEIROS, MOACIR PERES E FERREIRA RODRIGUES.

São Paulo, 30 de novembro de 2016.

PÉRICLES PIZA RELATOR Assinatura Eletrônica

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo Direta de Inconstitucionalidade nº 2067470-58.2016.8.26.0000 Autor:

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

Direta de Inconstitucionalidade nº 2067470-58.2016.8.26.0000 Autor: Partido Trabalhista Brasileiro Ptb Réus: Prefeito do Município de Suzano e Presidente da Câmara Municipal de Suzano Comarca: São Paulo Voto nº 33.652

DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. Lei Complementar nº 282/2015, do Município de Suzano. Norma responsável por desafetar bens municipais, de uso comum e/ou especial, com o fim de aliená-los sem dar destinação específica ao produto da venda. Vício formal de inconstitucionalidade. Conexão com matéria de jaez urbanística. Processo legislativo não contemplou a necessária participação popular previsto no art. 180, II, da Constituição Bandeirante. Mácula procedimental irremediável. Alteração da destinação de áreas municipais (verdes e institucionais) fora das hipóteses excepcionais previstas no art. 180, VII, da Constituição Paulista. Inconstitucionalidade reconhecida. Ação procedente, com modulação.

I

Trata-se

de

ação

direta

de

inconstitucionalidade

proposta pelo DIRETÓRIO ESTADUAL DE SÃO PAULO DO PARTIDO

TRABALHISTA

BRASILEIRO

pretendendo

a

declaração

de

inconstitucionalidade da Lei Complementar nº 282/2015, do município de

Suzano,

que

desafetou

bens

de

uso

comum

e/ou

uso

especial,

nela

especificados, com o fim de aliená-los sem dar destinação específica ao

produto da venda.

Sustenta, em resumo, que tal lei viola os artigos 19 e 111

da Constituição do Estado de São Paulo, uma vez que permite a desafetação

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo de bens públicos de maneira incorreta, não tendo

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de bens públicos de maneira incorreta, não tendo sido elaborado parecer pela

Câmara Municipal acerca das áreas referidas no objeto da norma e, também,

sem que houvesse estudo prévio para aferição do interesse público.

Diante disso, requer seja julgada procedente a ação a fim

de ser pronunciada a inconstitucionalidade da referida norma.

Houve deferimento do pedido liminar a fim de determinar

a suspensão da eficácia da lei guerreada.

O Procurador-Geral do Estado foi citado e declarou faltar-

lhe interesse na defesa do ato impugnado vez que se trata de matéria

exclusivamente local (fls. 93/96).

Regularmente notificado, o Prefeito Municipal de Suzano

apresentou informações. Defendeu a legalidade da norma asseverando não

haver ofensa aos artigos 19 e 111 da Constituição Estadual, bem como

inexistir incidência à Lei de Responsabilidade Fiscal. Por fim, aduziu que o

projeto de lei tramitou respeitando os trâmites legislativos competentes à

espécie normativa e acresceu que a alienação de bens está intimamente

vinculada à autonomia municipal e à autonomia administrativa “que permite

Município

instituir,

organizar

e

prestar

os

responsabilidade” (fl. 108).

serviços

submetidos

à

sua

O Presidente da Câmara Municipal de Suzano, mesmo

notificado (fls. 79 e 86), não prestou qualquer informação.

A douta Procuradoria-Geral de Justiça apresentou parecer

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo opinando pelo reconhecimento da inconstitucionalidade por vício

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opinando pelo reconhecimento da inconstitucionalidade por vício formal,

configurado

por

desrespeito

à

participação

popular

durante

o

processo

legislativo.

Por

fim,

aponta

a

inconstitucionalidade

por

alteração

da

destinação de imóveis municipais sem respeitar as exceções taxativamente

elencadas na Constituição Estadual (fls. 238/ 262).

É

o relatório.

II

A presente ação questiona a constitucionalidade da Lei

Complementar nº 282, de 04 de abril de 2015, do município de Suzano, que

desafeta

de

uso

comum

e/ou

especial

os

imóveis

que

especifica,

de

propriedade do Município e autoriza o Executivo Municipal a alienar os bens

imóveis, mediante procedimento licitatório”.

Em que pese os argumentos invocados pelo prefeito do

município de Suzano, a norma encontra-se eivada de mácula procedimental

irremediável, proveniente do vício formal de inconstitucionalidade, vez que o

processo legislativo não contemplou a necessária participação popular em seu

trâmite.

Prima facie, insta consignar que as informações prestadas

pelo prefeito confirmam a ausência de participação comunitária durante o

processo legislativo da lei atacada.

A respeito da matéria, o artigo 180, inciso II, e artigo 191,

ambos da Constituição Estadual, dispõem:

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo   Artigo 180 No estabelecimento de diretrizes e

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Artigo 180

No

estabelecimento

de

diretrizes

e

normas

relativas

ao

desenvolvimento

urbano,

o

Estado

e

os

Municípios assegurarão:

II

A

participação

das

respectivas

entidades

comunitárias

no

estudo,

encaminhamento

e

solução

dos

problemas,

planos,

programas

e

projetos

que

lhes

sejam

concernentes;

 

Artigo 191

O

Estado

e

os

Municípios

providenciarão,

com

a

participação

da

coletividade,

a

preservação, conservação, defesa, recuperação e melhoria do

meio ambiente natural, artificial e do trabalho, atendidas as

peculiaridades

regionais

e

locais

e

desenvolvimento social e econômico.

em

harmonia

com

o

As determinações traçadas no texto constitucional paulista

destacam a importância da existência de mecanismos de controle exercidos

pela

sociedade

civil

sobre

a

administração

pública.

Tal

modelo

surge

justamente no contexto de “questionamentos da democracia representativa e

da

necessidade

de

complementação

do

sistema.

É

assim

que

surge

a

democracia participativa como alternativa de gestão. O ressurgimento e a

revitalização

das

práticas

de

democracia

participativa

vêm

ocorrendo

mundialmente” (PRESTES, Vanesca Buzelato, Dimensão Constitucional do

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo Direito à Cidade e Formas de Densificação no

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Direito à Cidade e Formas de Densificação no Brasil, dissertação PUC/RS

Porto Alegre, 2008).

Portanto, a formação da vontade estatal deixou de se

limitar

à

vontade

dos

representantes

eleitos

atualmente,

a

possibilidade

de

a

soberania

participação direta da sociedade.

pelos

cidadãos,

existindo,

popular

ser

traduzida

na

Pode-se dizer que o constituinte derivado primou pelo

modelo de democracia participativa ou deliberativa, onde o exercício do poder

político é também pautado no debate público de cidadãos, realizando sua

intervenção diretamente.

No caso em apreço, a Lei Complementar Municipal nº

282/2015 inaugura regras com consequências urbanísticas, porquanto são

relativas ao uso, destinação e ocupação do solo e, assim, trazem alteração

significativa da realidade urbana do município de Suzano.

Ora,

se

a

lei

é

determinante

para

se

verificar

as

características de áreas municipais (institucionais e verdes), torna-se evidente

a

conexão

material

com

a

temática

característica

das

leis

urbanísticas,

evidenciando a estreita observância da referida participação.

É o que bastaria para declarar a norma inconstitucional.

Porém, não é só.

Verifica-se, ainda, que o texto da norma versa sobre a

excepcional medida de desafetação, modificando a destinação das áreas

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo municipais, o que, via de regra, é defeso.

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municipais, o que, via de regra, é defeso.

A exceção que permite alterar a destinação das áreas

institucionais, consta do artigo 180, inciso VII, da Constituição Bandeirante, o

qual aponta a necessária finalidade de regularização de:

loteamentos, cujas áreas verdes ou institucionais estejam total ou parcialmente ocupadas por núcleos habitacionais de interesse social destinados à população de baixa renda, e cuja situação esteja consolidada ou seja de difícil reversão;

equipamentos públicos implantados com uso diverso da destinação, fim e objetivos originariamente previstos quando da aprovação do loteamento;

móveis ocupados por organizações religiosas para suas atividades finalísticas.

Todavia, in casu, não se vislumbra quaisquer das hipóteses

excepcionais acima elencadas, as quais poderiam legitimar o objeto da lei.

Ao contrário. Tanto a alegada ociosidade e destinação

inadequada dos bens, como a justificativa da municipalidade em obter

recursos financeiros aos cofres públicos, não se coadunam com os preceitos

destacados na constituição paulista.

Dessa forma, inevitável se mostra decretar a procedência

da ação, pois, como se viu, a elaboração da norma não respeitou os critérios

condizentes à via democrática, ante a inobservância da exigência do artigo

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo 180, inciso II, desrespeito às restrições do inciso

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180, inciso II, desrespeito às restrições do inciso VII e inobservância do artigo

191, todos da Constituição Estadual.

 

No

mesmo

sentido,

vêm

decidindo

este

Eg.

Órgão

Especial:

 

“EMENTA

 

Ação

direta

 

de

inconstitucionalidade. Art. 1º da Lei Complementar nº 35, de 2 de

setembro de 2014, do Município de Rancharia, que alterou o

artigo

135

da

Lei

24/2007

(Plano

Diretor

Urbanístico

e

Ambiental). Ausência da participação comunitária prevista no

artigo

180,

inciso

II,

da

Constituição

estadual.

Inconstitucionalidade

reconhecida.

Ação

procedente,

com

modulação.”

(ADIn

n.º

2038622-61.2016.8.26.0000,

rel.

Des.

Arantes Theodoro, j. 10/08/2016)

 
 

“AÇÃO

DIRETA

DE

INCONSTITUCIONALIDADE. Lei nº 1.017, de 06 de março de

2015,

da

Estância

Balneária

de

Ilhabela,

que

"institui

Área

Especial de Interesse Institucional, Cultural e Turístico e dá outras

providências". Alegação de ofensa à disposição do art. 180,

incisos

II,

da Constituição Estadual. Reconhecimento. Norma

impugnada, oriunda de proposição do Poder Executivo que foi

votada e aprovada, sem que tivesse sido previamente submetida a

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo estudos técnicos e à participação popular. Não supre

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

estudos técnicos e à participação popular. Não supre a falta, sob

esse

aspecto,

Municipal

fora

a

audiência

pública

do

procedimento

realizada

ordinário

pelo

Prefeito

ou

comum

de

elaboração das espécies normativas. Participação comunitária

que, na verdade, deveria ocorrer durante o processo legislativo, a

fim de possibilitar à população, inclusive ao Conselho Municipal

de Planejamento (criado para esse fim) o exame dos estudos

técnicos e a discussão sobre o tema que envolve disciplina sobre

planejamento e desenvolvimento urbano. Como já foi decidido por

este Órgão Especial, 'a participação popular na criação de leis

versando sobre política urbana local não pode ser concebida como

mera formalidade ritual passível de convalidação. Trata-se de

instrumento democrático onde o móvel do legislador ordinário é

exposto e contrastado com ideias opostas que, se não vinculam a

vontade dos representantes eleitos no momento da votação, ao

menos lhe expõem os interesses envolvidos e as consequências

práticas advindas da aprovação ou rejeição da norma, tal como

proposta'

(ADIN

994.09.224728-0).

Inconstitucionalidade

manifesta.

Ação

julgada

procedente.”

(Adin

n.º

2190703-29.2015.8.26.0000,

rel.

Des.

Ferreira

Rodrigues,

j.

01/06/2016).

Para que TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo se preservem situações já consolidadas, necessário

Para

que

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

se

preservem

situações

consolidadas,

necessário se faz modular a declaração de inconstitucionalidade para que

passe a gerar efeitos a partir deste julgamento.

Ante o exposto, julga-se procedente a ação para declarar a

inconstitucionalidade da Lei Complementar nº 282, de 04 de dezembro de

2015, do município de Suzano, com modulação.

PÉRICLES PIZA Relator