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UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLÓGICAS

A GALÁXIA DE GUTENBERG

FELIPPE ALEX SCHEIDT

O Computador na Sociedade e na Empresa

São Leopoldo, novembro de 2002

Introdução

Marshall McLuhan (1911-1982) foi professor de Literatura e Cultura anglo- americana, nas universidades de Wisconsin (Estados Unidos da América) e de Toronto (Canadá). É autor da célebre frase « the medium is the message » - o meio é a mensagem. A sua frase transmite a ideia de que os suportes da comunicação e as tecnologias são determinantes: os conteúdos modificam-se em função dos meios que os veiculam. Assim, McLuhan realça as tecnologias em detrimento dos conteúdos.

McLuhan realça as tecnologias em detrimento dos conteúdos. Apesar de alertar para os efeitos negativos da

Apesar de alertar para os efeitos negativos da massificação, ele acredita na 'aldeia global' - ideia que nasce em 1945, com Arthur Clarke, que havia imaginado o conceito de satélites de comunicação. Foi também ele que idealizou o computador HAL, do filme 2001, Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrik.

McLuhan conduziu os primeiros estudos de carácter cultural e social sobre os media. É generalista sobre a teoria dos media: não tem uma base de sustentação científica, pelo que alguns dos seus textos são muito criticados. Contudo, a sua teorização do campo dos media foi elevada a crítica cultural. Goza ainda do estatuto de pioneiro na teoria da comunicação e de primeiro epistemólogo da comunicação.

É autor, entre outros, de The mechanical Bride (1951), onde pretende fazer um diagnóstico da cultura do consumismo norte-americano; A Galáxia de Gutenberg (1962), marco da cultura clássica ocidental, no qual contextualiza o nascimento da cultura moderna; Understanding Media (1964); The Medium is the Massage (1967).

A Galáxia de Gutenberg

Quando o Rei Lear, revelando “nosso desígnio mais secreto” propõe a subdivisão do reino, está enunciando uma decisão avant-garde e politicamente ousada para os primeiros anos do século dezesste. Lear está propondo idéia extremamente moderna de delegação de autoridade do centro para as margens.

Gloucester depois de ter perdido a visão, está preparado para ilusões porque perdeu subitamente a vista. Seu poder de visualização está agora completamente separado de seus outros sentidos. É o sentido da visão, deliberadamente isolado dos outros sentidos, que confere ao homem a ilusão da terceira dimensão, conforme Shakespeare torna explícito.

Nenhum modo pictográfico ou ideogrâmico ou hieroglífico de escrever tem a força destribalizante do alfabeto fonético. Nenhuma outra espécie de escrita, salvo a fonética, chegou jamais a desprender o homem do domínio possessivo de total interdependência e inter-relação que é o do mundo auditivo.

Análise geral. Mcluhan faz uma introdução baseada na obra de Shakespeare, Rei Lear, onde analisa os personagens em suas atitudes. Fala ele, Mcluhan, que Shakespeare captou bem a idéia do especialismo e que o exemplo do mesmo são as duas filhas do Rei Lear, Regana e Goneril. O próprio Rei Lear ao estabelecer uma monarquia constitucional por meio da delegação de autoridade, acaba por tornar-se um especialista: “Somente conservaremos ainda o nome e todos os títulos de um rei.” Já Cordélia, Edgar e Kent estão “fora de fase” na linguagem de W. B. Yeats. São “feudais” em sua lealdade total, que consideram perfeitamente natural, aos seus papéis ou funções. Segundo Mcluhan, em Rei Lear, Shakespeare explica minuciosamente que o próprio princípio de ação consiste no parcelamento das operações sociais e da vida sensorial individual em segmentos especializados, daí resultando uma busca frenética por uma nova interação global das forças operantes, a qual, por sua vez leva a furiosa ativação de todos os elementos e pessoas afetadas pela nova tensão.

A assimilação e interiorização da tecnologia do alfabeto fonético traslada o homem do mundo mágico da audição para o mundo neutro da visão

Mcluhan também cita muito J. C. Carothers, que fez um estudo com africanos nativos, verificando que esses estão muito mais ligados ao sentido da audição, tanto que espera-se que o homem seja bastante extrovertido e manifeste livremente seus sentimentos. Já os europeus estão mais ligados ao sentido da visão, mundo relativamente frio e neutro o qual em sua totalidade o europeu é indiferente. Enquanto para os europeus, em geral, “ver é acreditar”, para os africanos rurais a realidade parece residir muito mais no que se ouve e diz. Para muitos africanos os olhos são considerados mais como um instrumento da vontade que como órgão receptor, sendo o ouvido o principal órgão de recpção. Mais

adiante Carothers levanta a seguinte pergunta: Como a alfabetização numa sociedade pode revelar-se capaz de efetuar a mudança da crença nas palavras como forças naturais, ressonantes, vivas e ativas, para a idéia das palavras como “sentido” ou “significado” para a mente? Segundo Carothers, foi somente quando a palavra escrita, e ainda mais a palavra impressa, apareceram em cena que se constituiu o cenário para as palavras perderem seus poderes mágicos e suas vulnerabilidades. Assim, em geral, as palavras, ao tornarem-se visíveis, juntam-se a um mundo (visual) de relativa indiferença para com o espectador – um mundo do qual se abstraiu o “poder” mágico da palavra.

Esquizofrenia poder ser consequência inevitável da alfabetização

Segundo Carothers a escrita fonética separou o pensamento da ação, que antes era considerada como algo único. Nesse contexto não havia alternativa senão considerar todo homem responsável por seus pensamentos tanto quanto por seus atos. De fato como Mcluhan exemplifica, página 43, na Rússia da década de 30, em ocasião de julgamentos por espionagem, muitos políticos confessaram culpa total não por causa do que haviam feito, mas do que haviam pensado. Dessa dissociação dos sentidos da visão e da audição acabou por gerar o indivíduo destribalizado. Segue-se portanto que o homem letrado, desde a Grécia, é um homem dividido, partido, esquizofrênico.

A civilização que traslada o bárbaro ou homem tribal do universo do ouvido para o da vista está agora em dificuldades com o mundo eletrônico

Complementando a sentença acima, Mcluhan diz: Deve muitas vezes haver intrigado os sábios e os físicos de nosso tempo o fato de encontrarmos, na medida em que mais recuamos no exame da mentalidade não-alfabetizada, exatamente as idéias mais avançadas e sofisticadas que, hoje, em nosso século vinte, começam a prevalecer sobre a arte e ciência. A explicação deste paradoxo é um dos propósitos deste livro.

A nova interdependência eletrônica recria o mundo à imagem de uma aldeia global

A nossa cultura da era de eletricidade volta a dar base tribal a nossas vidas. Depois da descobertas dos campos da física, das ondas eletromagnéticas, nossa sociedade visual encontrou problemas para se adaptar, pois os campos eletromagnéticos exploram justamente um novo campo, ou velho conhecido para nós: o mundo auditivo e tactil. Por essa razão percebemos que teremos que nos adaptar a essa nova realidade, anexando uma “cultura tribal” antes conhecida como cultura de países subdesenvolvido ou não civilizados.

Porque sociedades não-alfabetizadas não podem “ver” filmes e fotos sem que para isto sejam devidamente treinadas

Segue aqui descrito breve trecho do livro, muito interessante sobre a questão da não-alfabetização x visualização do mundo tridimensional. Como o objetivo deste livro é elucidar os reais efeitos causados pela escrita fonética na aquisição de novos modos de percepção, vamos passar a considerar aqui a

comunicação que o professor John Wilson, do Instituto Africano da Universidade de Londres, fez de suas observações na África. Para os menbros de sociedades alfabetizadas não é fácil compreender porque os não-alfabetizados não podem ver em três dimensões, ou em perspectiva. Supomos que esta seja a visão normal e que nenhum treinamento seja necessário para ver fotografias ou filmes. As experiências de Wilson que decorreram de tentativa de empregar filmes para ensinar indígenas a ler mostrar-nos que não é assim

A alfabetização dá às pessoas o poder de focalizar um pouco à frente da imgem de

modo a poder captá-la, por inteiro, num golpe de vista. As pessoas não-alfabetizadas, não

). (

havendo adquirido esse hábito, não contemplam os objetos como o fazemos. Ao contrário, percorrem os objetos e imagens como costumamos fazer com uma página impressa, segmento por segmento. Não tem, portanto, um ponto de oservação exterior à cena, ou ao objeto. Deixam-se absorver inteiramente por ele e o passam a viver. Os olhos não o vêem em perspectiva, porém tactilmente, por assim dizer. Os espaços euclidianos que dependem muito de separar a vista do tacto e do som não lhes são conhecidos.

A tendência atual de reforma do alfabeto ou da ortografia é a de acentuar o sentido auditivo mais do que o visual

Segundo Mcluhan é necessária uma reforma no alfabeto fonético, para que o mesmo venha a se aprimorar e incorporar o mundo auditivo. Consta no livro que já existe tal

alfabeto experimental, com 43 letras. Este novo alfabeto extende o nosso alfabeto com 19

Letras como q e x foram eliminadas. Segundo

artigo do New York Time, 1961 (um pouco defasado) já foram alfabetizadas cerca de 1000 crianças com este novo alfabeto.

novas letras, tais como: z invertido, i-e, oo,

Uma sociedade nômade não pode ter a experiência do espaço fechado

Uma sociedade nômade não é uma sociedade “civilizada”, ou seja, não é alfabetizada. Devido a isso, elas perdem a capacidade de abstração de espaços fechados, i. e. a construção de ambientes (casas), por isso o nome de nômades. Tais homens não- alfabetizados são profundamente indiferentes pelos valores visuais na organização da percepção e da experiência. Vejamos o que Giedion diz a respeito: Não se encontram traços de habitação humana no interior das cavernas. Estas eram lugares sagrados, nos quais, com a ajuda de pinturas magicamente poderosas, celebravam-se os rituais sagrados. Essas cavernas não possuem espaço no sentido que damos a palavra, pois nela reina perpétua escuridão. As cavernas são, falando espacialmente, vazias. Mcluhan comenta a seguir: Um buraco no solo não é um espaço “fechado” porque, à semelhança de um triângulo ou de uma tenda índia (dos Peles-vermelhas), apenas exibe linhas de força. Um quadrado não exibe linhas de força: traduz em termos visuais o espaço táctil que contém, ou seja, isso não ocorre antes da escrita.

A Galáxia de Gutenberg tem o propósito de mostrar por que a cultura do alfabeto predispõe o homem a dessacralizar o seu modo de ser

Segundo Mcluhan o homem das sociedades arcaicas tende a viver tanto quanto possível no sagrado ou em estreita proximidade com os objetos consagrados. A idéia de um Cosmos completamente dessacralizado é uma descoberta recente na história do ser humano. Essa descoberta se deve a descoberta do alfabeto fonético e da aceitação de suas consequências, especialmente depois de Gutenberg.

A tipografia domina apenas um período (o terço final) da história da leitura e da escrita

Do século V a.c. até o século XV d.c., o livro era trabalho de escriba ou copista. Somente uma terça parte da história do livro no mundo ocidental foi tipográfica.

A invenção da tipografia confirmou e estendeu a nova tendência visual do conhecimento aplicado, dando origem ao primeiro bem de comercio uniformemente reproduzível, à primeira linha de montagem e à primeira produção em série

A tipografia, mais do que qualquer outra realização humana, marca a linha divisória entre a tecnologia medieval e a moderna. Essa mecanização da arte do escriba ou copista, foi a primeira redução de trabalho manual a termos mecânicos. Mcluhan compara a tipografia ao cinema, pois a leitura coloca o leitor no papel do projetor cinematográfico. O leitor faz desfilar a série de letras impressas à sua frente numa velocidade que lhe permite apreender os movimentos do pensamento da mente do autor.

A cultura manuscrita não podia ter autores nem públicos tais como os que foram criados pela tipografia

De fato, por estranho que isso pareça, foi na cultura orientada para o consumidor

que desenvolveu-se o interesse por autores e títulos de autenticidade. Já a cultura manuscrita era orientada para o produtor, quase inteiramente uma cultura de faça-o você mesmo, e naturalmente considerava mais a importância e a utilidade do material produzido do que as suas fontes ou origens.

Com Gutenberg, a Europa entra na fase tecnológica do progresso, fase em que mudar, a própria mudança, se torna o arquétipo, a norma primeira e universal da vida social

A mudança citada acima, explicitada por Descartes, em que não há mais

necessidade, como havia no caso da filosofia oral, de perscrutar e verificar cada termo. O

contexto é agora suficiente.

A tipografia não é apenas tecnologia, mas, ele própria, recurso natural ou produto básico, como o algodão ou a madeira ou o rádio: e, como qualquer bem de produção, modela as intersensoriais do indivíduo, bem como os padrões de interdependência comunal, ou coletiva

A palavra impressa, por assim dizer, transformou o diálogo: da troca em comum de

idéias e propósitos fez o comércio de informações empacotadas, bem móvel e portátil de

produção. Deu à linguagem e à produção humanas um viés ou uma destorção que Shakespeare define como “Commodity” ou “Interesse” ( bem de comércio ).

O caráter portátil do livro, à semelhança do cavalete do pintor, muito contribuiu para o novo culto do individualismo

O caráter portável, ou a qualidade portabilidade, foi um aspecto do livro impresso

que muito contribuiu para o individualismo. A idéia de poder ter facilmente livros à disposição, e livros de formato cômodo e portáteis, acompanhou passo a passo a crescente rapidez da leitura, que se tornara possível com a impressão do teto em tipos uivormes e móveis, em contraste com a leitura mais dificultosa dos manuscritos.

Os historiadores, embora cientes de que o nacionalismo se originou no século dezesseis, não tem ainda explicação para essa espécie de paixão que precedeu a teoria

Sobre nacionalismo e o texto impresso Mcluhan diz: É importante hoje em dia compreender por que não pode haver nacionalismo onde não tenha havido primeiro experiência da língua vernácula em forma impressa. Nesse sentido, não se deve confundir com nacionalismo certa agitação e ação social de natureza tribal (áreas não- alfabetizadas). O que se chama aqui de nacionalismo transcende a o entendimento de nação de homens tribais primitivos. Nesse caso nacionalismo, compreendia uma idéia muito mais vasta, muito mais ampla, senão multipla. Era muito mais do gênero de aglomeração de povos de língua e dialetos diferentes e com tradições e instituições divergentes. As nações europeias do século dezesseis assemelhavam-se mais a pequenos impérios que grandes tribos. O hábito e costume da palavra impressa não só tendeu a criar tipo uniforme de cidadão, como a educação política da França passou a ser dirigida por homens de letras.

A tipografia estendeu seu próprio caráter à regularização e fixação das línguas

A cultura manuscrita não teve o poder de fixar a linguagem, nem de transformar a

língua nacional (vernáculo) num meio de comunicação de massa para a unificação nacional. Os medievalistas mostram como seria impossível um dicionário latino na Idade Média. E isto, simplesmente porque o autor medieval se julgava livre de deixar que seus termos se fossem definindo gradualmente, conforme os diversos contextos do seu pensameto. A idéia de uma palavra com significado definido e determinado por algum dicionário não teria podido sequer ocorrer-lhe. Do mesmo modo, antes da escrita, as palavras não tinham qualquer “sinal” externo, referência ou significado. A palavra

“carvalho” é carvalho, diz o homem não-alfabetizado; de que outro modo poderia ela evocar a idéia de carvalho? Mas da impressão, da tipografia, resultaram consequências do mais alto alcance para a linguagem sob todos os aspectos, do mesmo modo que da escrita, anteriormente, decorreram consequências similares. Assim, conquanto línguas vernáculas medievais mudassem muito, mesmo entre o século doze e o século quinze, “a partir do começo do século dezesseis tudo se alterou e as mudanças deixaram de ocorrer. Por volta do século dezessete as línguas vernáculas por toda parte começam a constituir línguas cristalizadas”.

O homem tipográfico tem novo sentido do tempo:

cinemático, sequencial, pictorial

Isolando como características dominantes, a intensidade e a quantidade, a palavra impressa criou para o homem um mundo de movimento e isolamento. Em todas as coisas e atividades da vida e em cada aspecto da experiência, o relevo é posto na separação de funções, na análise dos elementos componenetes e no isolamento do instante ou momento. Com efeito, diante do isolamento e concentração no visual, o sentimento de interação e de luz interior, coada através da trama do ser, perde toda força e se apaga. “O pensamento humano não mais se sente parte das coisas.”

A galáxia de Gutenberg dissolveu-se teoricamente em 1905 com a descoberta da curvatura do espaço, mas na prática foi invadida pelo telégrafo duas gerações antes disso

Com o reconhecimento da curvatura do espaço (Einstein), em 1905, dissolveu-se oficialmente a galáxia de Gutenberg, ou “encerra-se” o périodo da cultura tipográfica ou visual. O que Mcluhan chama de “teoricamente” significa a mudança da cultura tipográfica para a cultura eletronica, que não foi uma simples ruptura e sim um processo lento e adaptação. Chega ao fim os especialismos lineares e fixos pontos de vista (física clássica), o conhecimento compartimentado tornou-se tão inaceitável quanto sempre fora antes irrelevante.

A GALAXIA RECONFIGURADA, ou a difícil situação do homem-mass numa sociedade individualista

À medida que se implanta a experiência da nova era eletrônica e orgânica e se destacam cada vez mais fortes os seus principais contornos, a era mecânica que a precede torna-se completamente inteligível. Agora que a linha de montagem perde a sua ascendência mecânica ante os novos padrões de informação sincronizada pela fita elétrica dos computadores, os milagres da produção em massa ganham completa e perfeita inteligibilidade. Apenas, vale notar, as inovações da automação, fazendo nascer comunidades sem trabalho e sem propriedade, envolvem-nos em novas incertezas. Hoje em dia, nossa ciência e método esforçam-se não por chegar a um ponto de vista, mas por descobrir como não ter um ponto de vista: não é o método fechado de limitação e perspectiva, mas o de “campo” aberto e de julgamento suspenso. E este agora é o único método viável sob as condições elétricas do movimento de informações simultâneas e da total interdependência humana.

Finalizando Mcluhan diz: O propósito em A Galáxia de Gutenberg foi examinar a tecnologia mecânica que reultou do nosso alfabeto e da máquina impressora. Quais serão as novas configurações do mecanismo e da cultura letrada ao serem essas formas mais velhas de percepção e julgamento invadidas pela nova idade da eletricidade?A nova galáxia elétrica de eventos já penetrou profundamente dentro da galáxxia de Gutenberg. Mesmo sem colisão, essa co-existência de tecnologias e de estados de consciência leva a traumas e tensões todas as pessoas vivas. Nossas atitudes mais comuns e convencionais parecem subitamente transmudadas metamorfoseadas em gárgulas e máscras grotescas. As mais familiares de nossas instituições e associações parecem, às vezes, ameaçadoras e nefastas. Essas múltiplas transformações, que são a consequência normal da introdução de novos meios de comunicação em qualquer sociedade, requerem estudo especial e serão objeto de outro livro.

Fecho

McLuhan distingue três grandes períodos, culturas ou galáxias. A cultura oral ou acústica, própria das sociedades não-alfabetizadas, cujo meio de comunicação é a palavra oral (dita e escutada ). A segunda cultura é a tipográfica ou visual (Galáxia de Gutenberg) que caracteriza as sociedades alfabetizadas (civilizadas) e que, pelo previlégio atribuído à escrita e, consequentemente, à leitura, se traduz na valorização do sentido da vista. Nesta sociedade estão os indivíduos destribalizados, ou aqueles que dissidiram da cultura acústica para a cultura tipográfica. Por fim temos a cultura eletrónica (aldeia global), de que se podem já hoje pressentir alguns sinais e que é determinada pela velocidade instantanea que caracteriza os meios elétricos de comunicação e pela integração sensorial para que esses meios apelam. A cada uma destas configurações ou galáxias corresponde um modo próprio de o homem pensar o mundo e de nele se situar. Assim, fundado na palavra oral, na sua capacidade de modulações infinitas e na sua próximidade aos factos de consciência, sentimentos e paixões, o homem de cultura oral está próximo de si e das coisas, num mundo “quente” e dinâmico, onde a qualidade de profundidade do som leva o mesmo a um mundo rico e pluridimensional. Pelo contrário, a palavra escrita, ao previlegiar um sentido único, a vista, reduz a capacidade expressiva do ser, caracterizada principalmente pela fragmentação dos sentidos, tornando o homem um elemento neutro em relação ao seu contexto. Mcluhan fala também sobre a nova “geração” (eletrônica) que terá que inevitavelmente readquirir os elementos primitivos, como as principais características das sociedades primitivas e tribais, relativo ao mundo auditivo e táctil para conseguir lidar com os novos elementos que os campos elétricos introduziram no ínicio do século XX. Por fim Mcluhan completa dizendo que o objetivo de seu trabalho não é condenar a cultura tipográfica ou visual, e sim examir o seu impacto na história humana

Bibliografia

1. Houaiss, Antônio; Dicionário Houaiss da Língua portuguesa; 2925 p.; enc.; 1º Ed.; Rio de Janeiro, RJ, BR; Editora Objetiva, 2001;

2. Mcluhan, Marshall; A galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico (The Gutenberg galaxy: the making of typographic man); trad. Leônidas Gontijo de Carvalho & Anísio Teixeira; apres. Anísio Teixeira; 390 p.; 21,5 x 15 cm; br.; 2 a Ed.; Editora Nacional; São Paulo; SP; Brasil; 1977.