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QUATRO

Política e Economia Comportamento


Universidade Federal de Santa Catarina

Meio Ambiente
Curso de Jornalismo
Jornal Laboratório da disciplina Redação IV
Distribuição gratuita
Supervisão: Rogério Christofoletti
Florianópolis, julho de 2010

Carolina Dantas

Juliana Geller

Carolina Dantas
Retornar à Sobreviver Ocupações
sociedade é nas ruas é irregulares
mais difícil para poucos preocupam
Projetos que visam à Mais de 26 mil pessoas Florianópolis cresceu
reabilitação de detentos não têm onde morar, se- 30% em uma década,
ajudam na reintegração gundo dados do governo mas faltou planejamen-
social. Sem esse auxílio, federal. Histórias de vida to. Hoje, existem ao
não basta ganhar a liber- desses personagens re- menos seis mil casos de
dade para voltar a uma servam surpresas e dra- construções em locais
vida digna. 4>> mas pessoais. 17>> não permitidos. 7>>

Reforma na saúde mental


Tecnologia

Lan houses
facilitam entrada

ainda provoca polêmica no mundo digital


São mais de 28 milhões de brasilei-
ros que usam os estabelecimentos

Especialistas, governo e familiares divergem sobre soluções para acessar a internet, conversar
com amigos e parentes, imprimir
documentos, acessar seus emails,
além de jogar e se divertir. Na pe-

Carolina Dantas
Dez anos depois da lei que previa riferia ou no centro, as lan houses
são a saída para quem ainda não está
humanização do tratamento de conectado em casa. 19>>
pacientes com transtornos mentais,
os casos mais graves continuam
dependendo de um hospital Cultura
psiquiátrico. A redução de leitos
para internação viria acompanhada Soluções criativas
da abertura de alas específicas e incentivam a
hospitais públicos, mas isso não
ocorreu. Centrais>> leitura na Capital
Livros espalhados pela cidade, his-
tórias contadas dentro de uma bar-
ca na Lagoa da Conceição e uma
biblioteca dentro de um caminhão
que passa por nove bairros. Estas
são algumas das iniciativas desen-
volvidas por diversas organizações
da sociedade para ampliar o acesso
à literatura. 21>>

Bem-Estar

Aborto é escolha
de um milhão de
brasileiras
O perfil da mulher que interrompe
a gravidez mudou. Casos são mais
frequentes em mulheres com parcei-
ro fixo, e 60% delas já têm filhos. A
principal causa para abortar tem sido
a falta de condições financeiras, se-
gundo pesquisa. A internet também
tem facilitado a compra de remédios
clandestinos. 11>>
2 Quatro DA REDAÇÃO Florianópolis, julho de 2010

EDITORIAL

Fotos: Carolina Dantas


Nas bordas, nas margens

O
exercício é sim- munidades carentes, deficientes
ples e revelador. físicos. São os fumantes cada vez
Desenhe um pe- mais confinados pela lei. São as
queno círculo numa gestantes que interrompem a gra-
folha de papel, pin- videz de forma clandestina. São
tando o interior da figura. Agora, moradores que constroem suas
olhe a página inteira, percorrendo casas em áreas proibidas. Mas
com os olhos toda a paisagem. O os personagens deste QUATRO
que o leitor mais vê não é centro, é também são aqueles que buscam
periferia, pois tudo o que foge do se incluir numa era digital em lan
círculo está no entorno. O que está houses, e os que trabalham justa-
ao redor do centro é periférico, mente quando outros estão apenas
está à margem, é marginal. se divertindo. São jovens e velhos
Nossos repórteres foram atrás dos seus personagens. De volta, editaram o melhor dessas histórias
Esta edição do QUATRO tem leitores da Barca dos Livros, gente

Como fizemos esta edição


muito claro o entendimento de que que contraria a moda e insiste em
há muito ainda a se olhar para além ser “bizarro”, ou os saguis que in-
do centro. Por isso, este número festam bairros em Florianópolis.
partiu de uma palavra nem sempre Os repórteres foram motivados a
compreendida para conceber suas buscar histórias e personagens que
pautas e reportagens. No senso estivessem em situações-limite,
comum, “marginal” traz uma car- que vivessem em mundos diferen- Rogério Christofoletti
ga semântica negativa, repleta de tes dos seus. O desafio era desviar
conceitos pré-esta- a mira do cen-

O
belecidos e certezas tro e enxergar
infindáveis. Mas No senso comum, o periférico. QUATRO chega ao
editores e repórte- Com isso, a seu quinto número,
res do QUATRO “marginal” é uma equipe lan- e isso só foi possível
quiseram ampliar palavra negativa, çou um olhar graças a uma equipe
os significados de jornalístico dinâmica que con-
“marginal”, não só mas exploramos para capturar tou com trinta alunos, uma monito-
questionando a ex- outros sentidos essa condição ra de graduação e um mestrando em
clusão como con- tão fugidia da estágio docência. Como nas edições
dição, mas também marginalida- anteriores, os alunos da disciplina
extrapolando os sentidos conven- de. Nesse exercício, puseram-se de Redação IV participaram de to-
cionais da palavra. O que é ser também em outras posições, e ex- das as etapas de produção do jornal:
marginal hoje em dia? Como se perimentaram sabores e dissabores da elaboração das pautas à apuração
pode deixar de ser marginalizado? desconhecidos. das informações, da revisão à distri-
Estar à margem é muitas vezes es- Como já é de costume, este jor- buição, passando pela redação das
tar fora de uma certa ótica, é ser nal-laboratório partiu de uma pa- reportagens, edição das páginas e
exótico. Ser marginal é ser alterna- lavra para se desdobrar em outras diagramação. Também fotografa-
tivo, independente, é ser outro. tantas. É preciso frisar que este não ram e produziram infográficos.
Por isso, nas próximas pági- é um número temático, mas o espí- Em pouco mais de um mês, esses
nas, o QUATRO enfoca perso- rito “marginal” contagiou a equipe jornalistas em formação demons-
nagens que, geralmente, são tra- que trabalhou muito para apurar, traram entusiasmo e envolvimento,
tados como minorias, mas que se redigir, editar, ilustrar e diagramar justamente os dois valores que mais
revelam numerosos, presentes e as 24 páginas que o leitor tem em insisti durante as aulas de planeja-
influentes na sociedade. Mulheres mãos. mento. Também mostraram compe-
na política, moradores de rua, ex- Que a leitura seja totalmente tência, inteligência, criatividade. As
presidiários, doentes mentais, co- não convencional! próximas páginas provam isso.

4
Professor responsável: Rogério Christofoletti, MTb 25041 (SP) Revisão: Camila Garcia da Silva, Emanuelle Marques Nunes,
Monitora: Fernanda Martinazz Gabrielle Estevans Melo de Souza, Luanna Cristina Hedler, Luisa
Expediente Mestrando em Estágio Docência: Marcelo Barcelos Nucada da Costa Ramos e Úrsula Dias.

Editores: Bárbara Dias Lino, Bianca Yuki Enomura, Gabriella Mendez Diagramação: César Soto, Diego de Souza, Joana Ioppi Alves, Joice
Cardoso Bridi, Isadora Mafra Ferreira, Laís Mezzari e Murilo Bomfim. Balboa, Luiza Mara Pereira Lessa, Sendy Cristina da Luz.
Ano III – Nº 5 – Julho/2010
Jornal-laboratório da disciplina Redação IV Repórteres: Ágatha Morigi Schmitz, Alécio Clemente, Bárbara Dias Fotografia, Infográficos e Ilustrações: Carolina Dantas de Azevedo,
Curso de Jornalismo - UFSC Lino, Bianca Yuki Enomura, Camila Garcia da Silva, Carolina Dantas Hermano Buss, Rafael Spricigo, Rodolfo Henrique Gonçalo
Universidade Federal de Santa Catarina de Azevedo, Darilson Borges Barbosa, Diego de Souza, Emanuelle Conceição, Victor Manuel Kehrig Acosta, Vinicius Schmidt.
Campus Universitário - Trindade Marques Nunes, Felipe Luís da Costa, Gabriella Mendez Cardoso
Florianópolis – SC Bridi, Gabrielle Estevans Melo de Souza, Hermano Buss, Isadora Circulação: Ágatha Morigi Schmitz, Alécio Clemente, Darilson
CEP: 88040-900 Mafra Ferreira, Joana Ioppi Alves, Joice Balboa, Juliana Geller, Laís Borges Barbosa, Felipe Luís da Costa, Juliana Geller e Mariana Chiré
Telefone: (48) 3721-9215 Mezzari, Luanna Cristina Hedler, Luisa Nucada da Costa Ramos, Luiza de Toledo.
Blog: http://blogdo4.wordpress.com Mara Pereira Lessa, Mariana Chiré de Toledo, Murilo Bomfim Lobo
E-mail: jornalquatro@gmail.com Braga, Rafael Spricigo, Rodolfo Henrique Gonçalo Conceição, Sendy Fotolito e Impressão: Diário Catarinense
Cristina da Luz, Ursula Dias e Vinicius Schmidt. Tiragem: 1500 exemplares
Florianópolis, julho de 2010 POLÍTICA E ECONOMIA Quatro 3

Presença feminina desafia tradição


Candidaturas de Dilma e Marina à eleição presidencial de 2010 reforçam modificações no cenário político
rem suas causas na arena política.

Arte Quatro
Gabrielle Estevans Cadeiras no Legislativo Um dos principais embates enfren-
Hermano Buss tados está dentro do próprio partido.
“As mulheres são utilizadas muitas
vezes como laranjas, servindo pra

D
captação de votos para seus compa-
urante muito tempo, nheiros de legenda”, explica Joana
espaços políticos, Maria Pedro.
religiosos, econô- Apesar do problema partidário,
micos e militares a antropóloga acha que é possível
foram áreas restritas emergir lideranças femininas de
ao gênero masculino. Apesar da dentro do partido. Uma das maneiras
resistência histórica de aceitar mu- de contornar a falta de voz no par-
lheres nesses postos, a implementa- tido é a organização feminina den-
ção de políticas públicas e a ação de tro das legendas. “É frequente que
movimentos feministas ameniza- as mulheres se sintam intimidadas
ram a exclusão feminina dos cargos quando os homens estão por perto.
de poder. Muitas, em reuniões de partidos,
Embora o movimento feminista ficam responsáveis pelo cafezinho,
tenha se organizado no início dos pela organização dos documentos.
anos 70, o processo de abertura A organização feminina é a forma de
política, iniciado em 1979, abriu a ter um espaço.”
possibilidade de expressão e orga- Quando Ângela Albino assumiu
nização de novos partidos e movi- Fonte: STJ como vereadora em Florianópolis,
mentos políticos no Brasil. Para a em 2004, não havia banheiros fe-
historiadora e coordenadora do La- se processava na sociedade. “Com presidente do PC do B em Santa para a mulher. Atualmente, a batalha mininos na Câmara. Na entrada do
boratório de Estudos de Gênero da certeza, se as mulheres não tives- Catarina, Ângela Albino, não vê as é outra: “Agora, é necessário que banheiro, havia uma placa de “Vere-
UFSC, Cristina Scheibe Wolff, al- sem se movimentado, divulgado as ações afirmativas com preconceito. haja uma mudança cultural, onde se adores”.
gumas publicações da época foram idéias do feminismo, esse processo “Nesse tipo de ação acontece o que ensine que os espaços são de pesso- Para a deputada, o problema não
essenciais para a divulgação das teria acontecido de forma muito di- chamo de discriminação, já que traz as, e não de homens ou mulheres. A é só da mulher que não é educada
ideias feministas. “Nesse período, ferente, e não podemos dizer quais benefícios significativos, como o mídia e a escola são fundamentais para assumir cargos de poder. “Os
tivemos vários jornais feministas teriam sido os resultados”. avanço numérico das mulheres no nesse processo.” homens não são instruídos para com-
como o Brasil Mulher e o Nós Mu- Política de Cotas - As ações afir- âmbito político”. Muitas mulheres que aderem à preender a ascensão feminina. O que
lheres, além do Mulherio. Jornais de mativas vêm estimulando refle- A antropóloga e coordenadora vida política o fazem por questões faz com que as mulheres se sintam
grande circulação como a Folha de xões a respeito da participação das de Pós Graduação Interdisciplinar de parentesco, sendo relacionadas, ainda mais culpadas de deixar o lar
S.Paulo e o Jornal do Brasil tam- mulheres nos espaços de poder. O do Centro de Ciências Humanas da principalmente, aos nomes dos ma- para ir ao trabalho”, afirma Angela.
bém divulgaram estas ideias”. seminário Fazendo Gênero, organi- UFSC, Joana Maria Pedro, endossa ridos. Tal prática iniciou-se com o Para a antropóloga Miriam Gros-
Com a Constituição de 1988, as zado pelo Centro de Ciências Hu- a afirmação de intuito de fortale- si, o fato de as eleições presidências
mulheres obtiveram legitimidade manas da Ufsc, é um dos encontros Ângela Albino: cer os candidatos de 2010 trazerem duas candidatas
para suas reivindicações e conquis- que discute a questão. “Por mais “É importante “Muitas pessoas junto ao eleitora- mulheres é muito importante, pois se
taram, a partir de suas atuações, di- que exista cota para mulheres, não lembrar que esse votam por do feminino. No coloca em evidência a abertura polí-
reitos legais. Nesse período, foram há nada que garanta o número de tipo de ação tem entanto, muitas tica e abre espaço para que mulheres
criados Conselhos de Condição mulheres eleitas. Também não há prazo de vali- afinidade. O fato conseguiram se queiram se aventurar pela área.
Feminina, delegacias da mulher, nada que garanta a participação das dade. As cotas, de ser uma mulher desvincular da O historiador Camilo Araújo
coletivos em partidos e sindicatos e mulheres em cargos comissionados, neste momento, imagem de pa- acredita que a participação de mu-
foi implantada a Lei das Cotas, que o que faz com que muitas vezes a servem para que influencia, sim” rentes. Ângela lheres como candidatas à presidên-
prevê que cada partido ou coligação influência da classe seja quase in- se dê maior visi- Albino exempli- cia mostra uma importante quebra
reserve o mínimo de trinta por cen- significante”, pontua a antropóloga bilidade à mulher.” fica: “Quando Ângela Amin entrou de preconceitos. “Muitas pessoas
to e o máximo de setenta por cento e organizadora do seminário, Mi- Desde a revolução sexual, o âm- no meio político, era a mulher do votam também por afinidade com o
para candidaturas de cada sexo riam Grossi. bito político é visto pelas mulheres Esperidião Amin. Hoje, é a política candidato, então o fato de ser uma
De acordo com a pesquisadora A aprovação da Lei de Cotas como área essencial para efetivar a Ângela”. mulher influencia, sim, no resultado
Cristina, a atuação dos movimentos trouxe à política o debate das di- igualdade de direitos entre os gêne- Lideranças femininas - Ainda que da eleição, mas ainda não há nenhum
feministas foi o catalisador da mu- ferentes formas de enfrentamento ros. Para Cristina, a arena política numericamente inferiores, as mu- estudo para saber até que ponto”.
dança da mentalidade machista que da questão. A deputada estadual e foi essencial à conquista de direitos lheres são muito ativas ao defende- Joana Maria enfatiza que desde o
momento da gravidez os homens são
Arte Quatro

esperados com grandes planos, e que


Trajetória meteórica sobre as mulheres recaem expecta-
tivas menores. Para a antropóloga,
qualquer iniciativa já é uma maneira
de combater este pensamento retró-
grado: “Ao saber que uma mulher
está grávida de uma menina, procu-
ro sempre dizer: Ah, que notícia boa!
Vem aí a futura presidente da Repú-
blica Federativa do Brasil”.

4 Precisei, em muitos pon-


tos, segurar o ímpeto de
opinar, de levantar a ban-
deira e assumir uma postu-
ra feminista. Bastidores em
http://tinyurl.com/24cekvy
4 Quatro POLÍTICA E ECONOMIA Florianópolis, julho de 2010

Ações isoladas que visam reabilitar o


A chave para a reintegração social está na recuperação dos valores morais dos reeducandos, mas a

Joice Balboa Fotos: Carolina Dantas

Mariana Chiré

P
rojetos que buscam a
recuperação do preso
através de auxílio edu-
cacional, psicológico e
laboral são iniciativas
de grande importância, tanto para o
detento quanto para a comunidade.
Realizar um trabalho de assistência
ao recluso quando ele é liberto tam-
bém faz parte do processo de reabi-
litação e significa a continuação do
trabalho iniciado dentro da unidade
penitenciária.
A orientação e o apoio para a
inclusão do preso na sociedade é
um beneficio previsto pela Lei de
Execução Penal nº 7210 de 11 de
julho de 1984, em que através da
assistência ao egresso visa preve-
nir o crime e encaminhar sua volta
à convivência em sociedade. Para
alcançar tal objetivo a lei prevê, No complexo penitenciário de Florianópolis, a Escola Supletiva já formou mais de 40 detentos e hoje atende cerca de 250 alunos
“além de alojamento e alimenta-
ção em estabelecimento adequado, Reabilitação penal - O psicólogo ele fez e, em seguida, o tratamento tica esse perfil automatizado das
amparar e preparar o preso para o
retorno à liberdade.”
criminal Alvino Augusto Sá expli-
ca que os benefícios oferecidos aos
em vez de cadeia”.
Montagem de aparelhos tele-
oficinas oferecidas aos reeducan-
dos. “As atividades devem agregar
E a família?
Atualmente, Santa Catarina reeducandos durante seu período na fônicos, confecção de jeans, fabri- conhecimento de forma com que Buscar a conciliação e
não tem um projeto unificado de prisão – como a remissão de um dia cação de bolas e móveis, limpeza o trabalho capacite o detento para o apoio familiar quando o
reintegração ao ex-detento; cada na pena a cada três dias trabalhos - e manutenção de patrimônios pú- que ele garanta autonomia e espaço preso é libertado é parte
unidade prisional adota métodos não o integram na sociedade. “Após blicos, oficina de artesanato são no mercado”. essencial no processo de
de ressocialização que variam de o período de cárcere, não faz mais alguns exemplos de atividades Ensino atrás das grades - Na Pe- reinserção, mas isso nem
acordo com sua realidade política, sentido para o detento continuar es- desempenhadas pelos presidiários nitenciária de Florianópolis, uma sempre acontece. Para
social e financeira. Atividades que tudando ou trabalhando, pois não há em todo estado. As jornadas de tra- das ações desenvolvidas visando Valdirene Daufemback,
pretendem estimular a recupera- mais vantagens”. balho variam de reabilitação e capacitação educa- membro do Conselho
ção, remunerar o preso e diminuir É necessário um cinco a oito ho- cional do detento são as aulas ofe- Carcerário da Comunidade
a pena com trabalhos realizados
em regime fechado e semi-aberto,
trabalho paralelo
multidisciplinar
Um dos motivos ras diárias, sem
vínculo empre-
recidas pela Escola Supletiva, uma
parceria entre a Secretaria de Edu-
de Joinville, “a perspectiva
social e a reincidência
tanto para homens como para mu- para que o presi- que fazem os gatício e com di- cação e a Secretaria de Segurança do detento estão ligadas
lheres, são desenvolvidos apenas
durante o período de cárcere; quan-
diário reflita so-
bre a importância
detentos voltarem reito a um salário
mínimo, sendo
Pública do Estado, administrada
pelo Centro de Educação de Jovens
diretamente na sua aceitação
e ajuda por parte da família”.
do o detento é libertado, o governo de todas essas ati- a cometer crimes é 25% de sua pro- e Adultos (CEJA). A escola oferece No caso do paciente do
não presta mais nenhum auxílio.
O gerente de atividades laborais
vidades para sua
vida; não é um
a falta de auxílio dução destinada
ao estado. Dados
aulas que vão desde alfabetização
(1ª e 2ª séries), nivelamento (3ª e
Hospital de Custódia de
Florianópolis, Alfredo Luiz
da Penitenciária de Florianópolis, atendimento psi- de março deste 4ª), fundamental (5ª a 8ª), ensino Iadelka Júnior, 32, não
Jorge Weickert, acredita que “o que cológico, pois o ano, cedidos pela médio e cursos preparatórios para o houve esse apoio. Iadelka
o detento escolhe para fazer quando preso não necessariamente tem pro- Secretaria Executiva de Justiça e vestibular da UFSC e ENEM. explica que já poderia estar
sai da prisão não é de responsabili- blemas relacionados à psique, mas Cidadania de SC, mostram que dos Hoje, cerca de 250 alunos fre- em liberdade, mas como não
dade da penitenciária, mas sim do um acompanhamento de uma equi- 10.906 detentos do estado, 6.202 quentam as aulas e no último ano teve amparo de sua família
governo que deveria ter um órgão pe formada por variadas especiali- trabalham. Das 650 detentas, 571 a escola formou 40 detentos entre o hospital não pôde dar
especializado em cuidar disso”. dades e pessoas da comunidade. exercem algum tipo de atividade todas as modalidades proporcio- alta. “Preciso de controle
Para Weickert, um dos grandes mo- Augusto Sá acredita que quan- laboral. “Existem projetos que não nadas. A coordenadora da Escola na minha medicação,
tivos que leva a maioria dos deten- to maior o tempo de cárcere, mais são implantados, pois seu custo é Supletiva da penitenciária de Flo- acompanhamento e
tos voltar à prática do crime é jus- difícil é a reabilitação. “O proble- alto demais em relação ao número rianópolis, Rosana Volkmann Pas- cuidados especiais, por isso,
tamente essa falta de auxílio. “De ma está na formação dos valores, de presos beneficiados”, afirma a chal, explica que a rotatividade de minha família deveria se
uma maneira geral, pode-se afirmar pois para o criminoso o sucesso é responsável pela gerência de orien- alunos devido às transferências e responsabilizar pelo meu
que a cada 100 libertos, apenas dois sinônimo de quantidade e tamanho tação e apoio ao egresso da Secre- desistências frenquentes, prejudica tratamento. Enquanto isso
são realmente reabilitados”. Da de furtos. O trabalho não faz parte taria Executiva de Justiça e Cida- o avanço do ensino. A questão da não acontecer, não ganho
mesma forma que o gerente alega de sua realidade, por isso ele pre- dania de Santa Catarina, Vanessa melhora do espaço físico e dispo- alta”. A professora da oficina
a necessidade de existir uma enti- fere roubar”. Para o professor de Beatriz da Silva. nibilidade de material pedagógico, de artes da penitenciária
dade responsável pela reintegração, Criminologia do curso de Direito As oficinas laborais geralmente também são pontos que dificultam de Florianópolis, Márcia
Valdirene Daufemback, membro do da Universidade Federal de Santa exercitam apenas o lado mecânico o processo educativo na penitenci- Veija, diz que “têm muitos
Conselho Carcerário da Comunida- Catarina (UFSC) e Procurador de do indivíduo; trabalhos que valo- ária. pacientes que estão no
de de Joinville, também afirma que SC Paulo Roney Ávila Fagúndez, rizam o potencial braçal ganham Um dos objetivos principais da hospital há mais de 20 anos,
“baseado na lei, o governo deveria a situação de cárcere é desneces- mais expressividade do que o in- escola é incentivar a reintegração apenas por não terem alguém
criar um ‘patronato’ ou ‘casa do sária para a reabilitação do preso, telectual. Valdirene Daufemback, dos detentos através do conheci- da família que se encarregue
egresso’ - instituição pública que “deve haver, antes de tudo, a res- membro do Conselho Carcerário mento adquirido em sala. “Trans- deles”.
cuida do ex-detento”. ponsabilização do sujeito pelo que da Comunidade de Joinville cri- por os muros e atingir o olhar da
Florianópolis, julho de 2010 POLÍTICA E ECONOMIA Quatro 5

preso não garantem ressocialização


realidade mostra que o apoio após o período de reclusão também deveria fazer parte do processo

Distribuição dos estabelecimentos penais


Cadeias Públicas: Recolhem pessoas auxiliar os estabelecimentos penais no
presas provisoriamente remanejamento do contigente de reedu-
Presídios: Para pessoas que estão candos. A UPA substitui antigos mode-
aguardando o julgamento do processo los de cadeias públicas e abriga pessoas
de condenação. presas não condenadas. O estado hoje
Penitenciárias: É onde estão todos possui 11 UPAs.
aqueles que cumprem pena em regime Colônias Agrícolas, Industriais ou
fechado. São dividas em: Similares: Para pessoas presas que
- Penitenciárias de Segurança cumprem pena em regime semi-aberto;
Média ou Máxima: Destinadas para Casas do Albergado: abrigam pessoas
pessoas presas com condenação em presas que cumprem pena privativa de
regime fechado com celas individuais e liberdade em regime aberto ou pena de
coletivas; limitação de fins de semana.
O paciente Alfredo planeja estudar Ciências Contábeis na UFSC - Penitenciárias de Segurança Hospitais de Custódia e Tratamento
Máxima Especial: Também destinadas Psiquiátrico: Analisam quem, entre
sociedade de maneira que ela acei- doação de roupas e passagem de
te os presos como pessoas úteis e ônibus. “A função desempenhada a pessoas presas em regime fechado, os detentos, são os doentes mentais do
reabilitadas, deve ser o principal pela Pastoral com relação ao egres- mas possuem exclusivamente celas sistema penal brasileiro. Sua reclusão
objetivo de qualquer trabalho feito so é orientá-lo ao seu destino. Gos- individuais. não é considerada uma pena, e sim
com a população carcerária”, ex- taríamos de fazer mais, porém hoje, Unidade Prisional Avançada (UPA): uma medida de segurança em favor da
põe Rosana. não temos condições financeiras É um novo modelo em SC, criado para sociedade.
Apesar das dificuldades enfren- para isso”.
tadas, as aulas, em alguns casos, Em Joinville, o Projeto de Assis-
Arte Quatro

são significativas a ponto de trans- tência Jurídica e Psicológica (PAS)


formar a história de vida do preso. realiza ações semelhantes ao da Unidades Penitenciárias de Santa Catarina
O paciente do Hospital de Custó- Pastoral, que encaminha e orienta
dia de Florianópolis, Alfredo Luiz o egresso e de seus familiares. A di-
Iadelka Júnior, 32 anos, que está ferença está na formação do grupo
sob os cuidados do sistema desde que é dirigido por profissionais e 2
outubro de 2007, conta que “as au- estudantes das áreas de psicologia e
las colaboraram muito para minha direito, além de contar com a cola-
1
recuperação, depois que comecei a boração da comunidade. “O diálogo
estudar, percebi que é possível co- entre a comunidade e a penitenciária 4
meçar de novo. Pretendo, em bre- estimula a interação social do preso
ve, cursar Ciências Contábeis pela e, principalmente, faz com que a so-
UFSC”. O pro- ciedade conheça 1 - Oeste
3 5
fessor de Ciên- a realidade do sis- Casa do Albergado
Penitenciária de Chapecó
cia e Biologia da
Escola Supletiva
Em alguns casos, tema diminuindo
o preconceito”,
Presídio de Chapecó
de Florianópo- as aulas chegam a conclui Daufem-
Presídio de Concórdia
Presídio de Joaçaba
lis, Daniel Prim
transformar a vida back. Presídio de Xanxerê 6
Janning, diz que Conscientizar Unidade Prisional Avançada de Campos Novos
“ensinar para dos presos, apesar alunos de ensino Unidade Prisional Avançada de Capinzal
um grupo de
pessoas que ge-
das dificuldades fundamental
médio do municí-
e Unidade Prisional Avançada de São Miguel do
Oeste
ralmente possui pio de Criciúma 2 - Norte
grande dificul- sobre o funciona- Unidade Prisional Avançada de Barra Velha
Presídio de Jaraguá do Sul 5 - Grande Florianópolis
dade de aprendizado e não tem ne- mento do sistema prisional de SC é
Presídio de Joinville Casa do Albergado de Florianópolis
nhuma base de ensino é um grande um dos principais projetos da Pe- Presídio de Mafra Colônia Penal Agrícola de Palhoça
desafio, porém, isso é um direito do nitenciária Sul do estado. “Através Unidade Prisional Avançada de Porto União Hospital de Custódia
detento e muitas vezes o resultado é de visitas periódicas os estudantes Penitenciária Industrial de Joinville Penitenciária de Florianópolis
realmente positivo”. passam a conhecer todos os setores 3 - Plananlto Serrano Penitenciária de São Pedro de Alcântara
Mais projetos - A Pastoral Car- da unidade e com isso buscamos Penitenciária da Região de Curitibanos Presídio de Biguaçú
cerária de Florianópolis realiza desenvolver uma conscientização Presídio de Caçador Presídio de Tijucas
diversos programas para atender o da população jovem sobre o crime Presídio de Lages Presídio Feminino de Florianópolis
detento, como a realização de ofici- e suas consequências”, diz o agen- Unidade Prisional Avançada de Correia Pinto Presídio Masculino de Florianópolis
Unidade Prisional Avançada de Videira
nas de serigrafia, confecção, sabão te penitenciário, Jorge Luiz Borba
4 - Vale do Itajaí 6 - Sul
artesanal, além de aulas de violão. Coelho. Presídio de Balneário de Camboriú Penitenciária Sul
Para agosto deste ano a entidade

4
Descobrimos que o assun- Presídio de Blumenau Presídio de Araranguá
inaugura a oficina de reciclagem Presídio de Itajaí Presídio de Criciúma
to da nossa pauta não exis-
de eletrônicos e oferecerá aulas de Presídio de Rio do Sul Presídio de Tubarão
artesanato. A assistente social da tia, pois não há nenhum Unidade Prisional Avançada de Brusque Unidade Prisional Avançada de Imbituba
Pastoral Carcerária, Taise Zanotto, projeto de reintegração de Unidade Prisional Avançada de Indaial Unidade Prisional Avançada de Laguna
relata que a instituição desenvolve egressos do sistema peni- Unidade Prisional Avançada de Ituporanga
um trabalho diferenciado ao deten- tenciário. Bastidores em Fonte: Departamento de Administração Penal de Santa Catarina
to liberto, auxiliando sua saída com http://tinyurl.com/2etfk5v
6 Quatro MEIO AMBIENTE Florianópolis, julho de 2010

Saguis se proliferam sem controle


Vindos de outras regiões há mais de 25 anos, animais adotados pela população podem transmitir doenças

Carolina Dantas Carolina Dantas

O
s transtornos
causados por saguis
no meio urbano
de Florianópolis
são recorrentes.
O veterinário e colaborador do
Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais
(IBAMA), Rogério Leonel Vieira,
35, explica que “eles são lindos e
fofos, como as meninas sempre
insistem em dizer, mas podem
ser agressivos e passar doenças”.
Uma criança ao tentar segurá-
los é frequentemente mordida.
A raiva é a mais transmitida,
apesar de a bióloga e especialista
em saguis há 15 anos, Cristina
Valéria Santos afirmar que “está
erradicada, não há nenhum caso
há anos na capital”. Isso só
comprova a eficácia da vacina. Primatas capturados em bairros com área florestal, como o Pantanal e o Córrego Grande, são comercializados no centro da cidade
Alguns moradores têm per-
cebido uma maior frequência de para os bairros que circundam o época que eles morrem de frio”,
Arte Quatro

aparecimento desses animais, o Maciço da Costeira em Florianó- diz o soldado Cléber Machado, Principais características dos saguis
que revela um possível aumento polis. Esses locais – Costa da La- 25. Os animais são resgatados
da população devido aos poucos goa, Campeche, Morro da Cruz, muitas vezes em péssimas situ-
predadores existentes na Ilha, ao Córrego Grande, Pantanal –, onde ações. É comum passarem pelas
forte extinto de grupo da espé- aconteceu o processo de soltura, fiações e serem eletrocutados ou
cie e ao costume dos habitantes são as bordas das matas: o nicho atropelados, logo depois podem
de alimentar esses bichinhos. Ao ecológico deles.Diferente do mito ser encaminhados para clínicas
dar comida, como todo animal, divulgado pela cidade, eles não se como a do veterinário Rogério
os saguis retornam ao local e aca- alimentam de ninhos de passari- Vieira. Essas propriedades são
bam adotando a casa da família nho. O sagui de tufo preto, mais licenciadas, com uma série de
como extensão do habitat. Caso recorrente na Ilha, come frutas burocracias a respeitar, como não
não haja mais alimento, normal- silvestres, insetos, pequenos ver- se localizar em regiões urbanas,
mente invadem o local, urinam e tebrados e extrai lascas das lenhas já que os animais não podem ser
abrem espaço para a transmissão das árvores. Segundo Marlete, domesticados.
de doenças, como as verminoses. “eles eram somente três quan- A bióloga Cristina Santos pode
O contrário também pode aconte- do chegamos. Agora são muitos, listar outras preocupações: “Se
cer: o homem pode causar enfer- procriaram muito rápido. Alguém me perguntam se está acontecen-
midades nos animais, como, por tem que fazer alguma coisa. Ma- do um desequilíbrio ambiental
exemplo, a gripe comum, letal tar não é possível, porque é crime, causado pela suposta superpo-
para eles. “Prejudicamos mais a então que seja inserido um preda- pulação, eu não sei responder ao
saúde deles do que o inverso. De dor”. certo. Porque existem predadores
certa forma, nós manipulamos a Três espécies foram soltas de e variadas causas para a morte
sua comida” diz Cristina. forma irrespon- desses animais.
A estudante Rafaelle Bröering, sável na cidade Porém, se me
20, mora na Costa da Lagoa desde de Florianópolis. A criação de questionam
que nasceu e acompanhou com a Todas foram tra- quais problemas
mãe, a empresária Marlete Bröe- zidas por tráfego
espécies híbridas eles causam ao
ring, 49, o aparecimento dos ani- ilegal e, além férteis pode causar meio-ambiente,
mais. Tão graciosos e espertos, disso, outros fa- respondo que
eles aguardam sentados na sacada tores prejudicam
desequilíbrios no as habitações
e, mesmo que Rafaelle saiba que a cidade ambien- ecossistema da Ilha irregulares e o
o correto é não alimentá-los, sem- talmente: “Eles aumento desen-
pre oferece uma banana picada. podem repro- freado da popu-
Apesar disso, elas garantem que duzir entre si, criando espécies lação urbana são preocupações
não houve nenhum outro incômo- híbridas também férteis. Isso é muito mais importantes com rela-
do, principalmente depois de ins- um dos problemas da inserção de ção à natureza”. A especialista dá Fonte: Cristina Valéria Santos
talar grades nas janelas e portas. inativas que se cruzam em novos ênfase à saída mais correta para

4
A família começou a morar locais e pode causar desequilíbrio evitar mais transtornos: “invaria-
na região quando os primatas já ecológico”, avalia Cristina. velmente, deve-se evitar alimen- Nunca tive muito interesse pela editoria de meio-am-
estavam bem estabelecidos. Há Ao encontrar um animal do- tá-los. Os saguis precisam buscar biente. Tive uma surpresa com a resposta da reportagem,
mais de 25 anos, os saguis foram ente ou maltratado, a polícia alimentos consegui os dados facilmente, me interessei pelos saguis
contrabandeados por caminhões ambiental direciona ao centro em ambientes mais selvagens, e notei um carinho por todos os envolvidos na recupera-
que vinham das regiões nordeste, de triagem, onde só estão nove afastando-se das casas e evitando ção dos animais, desde a bióloga até a polícia ambiental.
sudeste e centro-oeste do Brasil saguis em recuperação. “É nesta todos os transtornos comuns.” Bastidores em http://tinyurl.com/3aankg2
Florianópolis, julho de 2010 MEIO AMBIENTE Quatro 7
Carolina Dantas

Prédios da Lagoa da Conceição ignoram lei que exige distância mínima de 15 metros da orla. Tapera e Ingleses também são bairros com alto nível de irregularidades

Ocupação irregular domina a Ilha


Em Florianópolis, 50% das residências e 72% dos estabelecimentos comerciais estão em situação ilegal
o bairro Tapera (em manguezais ciações de licenças ambientais

Arte: Quatro
Luiza Lessa e cursos d’água), os bairros Rio para as construções do Shopping
Úrsula Dias Vermelho e Ingleses (em dunas), Iguatemi e do Resort do Costão do
o Campeche (em cursos d’água Santinho, edificados sobre áreas
e planície) e o canal da Barra da de preservação.

F
Lagoa. O caso gerou um processo de
lorianópolis é destaca- A Lagoa da Conceição, que investigação em que o inquérito
da por apresentar um também está na lista dos recor- foi concluído com o indiciamen-
dos melhores índices distas em edificações ilícitas, foi to, acusação sem condenação, de
de desenvolvimen- discutida na justiça recentemente. 52 pessoas: entre elas o prefeito
to humano (IDH) do O bairro, um dos principais pon- de Florianópolis, Dário Berger. As
país, de acordo com a Organiza- tos turísticos da Ilha, sofreu um alegações apontavam formação de
ção das Nações Unidas (ONU), o processo em que a Justiça Federal quadrilha e crimes como advoca-
que tem atraído muitas pessoas de exigia da prefeitura o cumprimen- cia administrativa, falsidade ideo-
outros lugares a morar na cidade. to da lei que autoriza construções lógica, corrupção ativa, corrupção
Nos últimos dez anos, segundo o apenas a partir de 30 metros da passiva e prevaricação.
Instituto Brasileiro de Geografia e faixa de areia. Com a sentença ju- Como punição, o Shopping
Estatística (IBGE), a população do dicial, foi determinado um novo Iguatemi, por exemplo, teve de fa-
município aumentou mais de 30%, limite permitido para as constru- zer uma compensação ambiental,
fator que provocou a urbanização ções: 15 metros. A prefeitura, en- que incluiu desde a substituição da
desenfreada e sem planejamento. tão, ficou encarregada de fiscalizar pavimentação em asfalto por piso
Exemplos disso são as constru- e providenciar as demolições. ecológico e mudanças na orienta-
ções irregulares, principalmente Assim que a Floram recebe ção viária em torno do shopping,
em áreas de preservação perma- uma denúncia, um fiscal vai a até a criação de um parque voltado
nente (APPs) como restingas e campo para fazer a vistoria no lo- à recuperação e à preservação do
mangezais, territórios da marinha cal. Constatada a irregularidade, ecossistema natural em diversos
e cursos d’água. um laudo de infração é emitido ao pontos da cidade.
Desde março de 2009, a Fun- proprietário do imóvel. Ao todo, a Para comprar ou construir na
dação do Meio Ambiente de Flo- Floram tem 43 fiscais, dos quais cidade, é necessário consultar a
rianópolis (Floram), órgão respon- 23 trabalham nas inspeções aos Floram e verificar a existência
sável pela fiscalização e apuração lugares onde de restrições am-
de danos ao meio ambiente, de- existem de- bientais. Os pro-
moliu 130 construções irregulares núncias de ir- “A maior parte da jetos licenciados
na cidade. Ainda assim, dados da regularidades e autorizações ex-
Secretaria Executiva de Serviços em nove regi- sociedade quer pedidas são fisca-
Públicos (Sesp) apontam que 72% ões da Ilha. De que as regras lizados através de
dos estabelecimentos comerciais acordo com o ações preventivas:
e mais de 50% das residências de geógrafo e fis- sejam adaptadas ao vistorias progra-
Florianópolis estão em situação cal ambiental interesse pessoal” madas para levan-
irregular. “A cidade é mais irregu- da fundação, tamento de dados
lar do que regular. A maior parte Bruno Augus- e informações
da sociedade quer que as regras to Silva Palha, “o problema das necessárias para que a construção
sejam burladas ou adequadas às construções irregulares não está seja feita de maneira adequada.
suas irregularidades”, declarou o na fiscalização, mas sim no núme- A responsável pela emissão

4
procurador municipal, Itamar Pe- ro de operários, pequeno frente às de licença ambiental em Santa com a Licença Ambiental de Ins-
dro Bevilaqua. demandas de demolição”. Catarina é a Fundação do Meio talação (LAI). Só então, quando As fontes não nos evita-
Segundo a Floram, existem seis Moeda Verde - Em 2007 ocorreu Ambiente (Fatma), que prevê três terminada a obra, a Fatma retorna ram, mas contornavam
mil processos em tramitação na uma das maiores e mais conheci- fases para o processo: primeiro ao local e faz a vistoria para veri- as perguntas. Insistíamos,
justiça sobre ocupações irregulares das operações da Polícia Federal atesta se é possível construir no ficar se a construção está de acor- tentávamos vencê-los no
em APPs. Em 2009, foram regis- no país: a “Moeda Verde” resultou local por meio da Licença Am- do com o projeto. Finalmente, a cansaço. Às vezes con-
trados 1.376 processos, dos quais na prisão temporária de 22 sus- biental Prévia (LAP). Depois de Fatma expede a Licença Ambien- seguíamos, outras não.
apenas 25 resultaram em demoli- peitos. Entres eles, empresários aprovada, passa para a fase de tal de Operação (LAO) e atesta Bastidores: http://tinyurl.
ções. Alguns dos principais pon- e políticos da “alta sociedade” apresentação do projeto da obra, que o empreendimento pode co- com/2d5aywl
tos de construções irregulares são catarinense envolvidos em nego- a qual precisa estar de acordo meçar a funcionar.
8 Quatro MEIO AMBIENTE Florianópolis, julho de 2010

A sujeira escondida atrás da fumaça


Cinco meses depois de entrar em vigor, a lei antifumo altera a paisagem urbana de Florianópolis

Arte Quatro
Rodolfo Conceição

I
mortalizado por grandes
estrelas do cinema, como
Clark Gable em ...E o vento
levou e Marlon Brando em
Uma rua chamada peca-
do, o hábito de fumar já foi consi-
derado charmoso. Nas campanhas
publicitárias, que mostravam pes-
soas jovens praticando esportes
e caubóis bem aparentados, o ci-
garro era símbolo de juventude e
liberdade. As marcas faziam uso
de slogans atrativos para conquis-
tar novos consumidores, como
Come to where the flavor is. Come
to Marlboro country (Venha para
onde está o sabor. Venha para o
país Marlboro) e Lucky Strike
means fine tabacco (Lucky Strike
significa bom cigarro).
Mas o fumo vem perdendo
espaço gradativamente. Os estu-
dos já provaram que o consumo
de tabaco aumenta o risco de Fonte: Ministério da Saúde
câncer, principalmente no pul-
mão, na boca e na garganta, do- de estabelecimento que não res- anos é fumante, índice abaixo da so lado”, afirma Medeiros. “Eu não sou fumante, mas tenho
enças cardíacas, como o infarto peitarem a lei serão multados a média nacional, que é de 17,2%. Problema semelhante enfrenta- que catar bituca de cigarro todo
do miocárdio, doenças pulmo- partir da terceira notificação. No Isso significa que aproximada- va o vendedor Augusto Leonardi. dia porque as pessoas jogam na
nares, principalmente a enfise- caso de um estabelecimento ser mente 1,046 milhão dos 6,118 Ele trabalhou seis meses em uma calçada. Antes dessa lei, não tinha
ma, e derrame cerebral. Com notificado pela oitava vez, seu milhões de catarinenses fumam. loja do shopping e vivenciou a tanto cigarro no chão, mas agora
isso, é cada vez maior o esforço alvará de funcionamento será Mudanças no cotidiano - O es- mudança causada pela lei. “Antes sempre tem muito, ainda mais na
por parte de governos e órgãos cassado. tudante Guilherme Medeiros faz dava pra sair rapidinho, ir ali na frente de boteco. Mas eu também
ligados à saúde para diminuir o A lei vem sendo cumprida nos parte dessa estatística. Medeiros, porta e fumar o cigarro. Quando entendo o lado deles. Meu irmão
consumo de tabaco. Proibição bares e restaurantes do bairro da hoje com 23 anos, fuma desde os tiraram o cinzeiro, tinha que ficar fuma há mais de 30 anos. Todo
de publicidade, principalmente Trindade. No Capitão Gourmet, 16. Começou para impressionar do outro lado. Perdia mais tempo, ano ele diz que vai parar, mas
ligada aos esportes, e aumento os fumantes podem optar por fi- os amigos. “No começo era mais e acabava que eu não saia pra fu- nunca consegue”.
da taxa tributária são algumas carem em uma área externa ou brincadeira. Eu queria dar uma de mar”. Leonardi fala também de Que a lei antifumo trouxe bene-
das táticas utilizadas contra a em um fumódromo. As mesas adulto e comprava uns cigarros uma vez que, desatento, acendeu fícios para os não fumantes, isso é
indústria do tabaco. internas não recebem cinzeiro. avulsos na banca”. A brincadeira um cigarro na entrada do shop- óbvio. Mas a situação precisa ser
Fumantes e não fumantes vi- Segundo informações dos fun- acabou virando o ping. “A lei tinha repensada para o lado dos fuman-
vem em tensão. O primeiro, já cionários, o restaurante só foi fis- vício, sustentado entrado há pou- tes. O consumo de tabaco talvez
acostumado com a fumaça, não calizado uma vez desde que a lei por um maço de Já é comum ver co tempo, então não reduza por causa da lei, então
percebe o incômodo que causa ao entrou em vigor, mas não houve cigarros por dia. ainda não tinha é preciso que fumantes e estabe-
segundo, que, por sua vez, geral- problemas. “Antes a neces- pessoas na porta o costume. Tirei lecimentos se adaptem melhor às
mente evita reclamar da fumaça Nos bares mais próximos à sidade era mais de restaurantes um tempo no ser- normas para evitar que a sujeira
para não criar uma situação des- Universidade Federal de Santa psicológica, mas viço e fui lá fora. do ar seja despejada agora nas
confortável para ambos. O cheiro Catarina (UFSC), como o Meu agora eu não e bares para Quando acendi calçadas. O Seu Zeca agradece.
desagradável que fica na roupa Escritório, é comum ver fumantes consigo largar. Já acender cigarros o cigarro, o se-
e no cabelo dos não fumantes é descumprindo a lei. Alguns taba- tentei parar duas gurança fez cara

4
uma justificativa irrefutável que gistas não sabem que o fumo é vezes, mas não feia, mas eu não Na verdade, para entre-
eles usam para não ocupar o mes- proibido também embaixo de tol- durou uma semana”. entendi. Só depois que dei umas vistar um fumante, até
mo espaço que o fumante. Após dos e acabam por infringir a lei. Após a implantação da lei an- duas tragadas que ele veio me ex- que não foi difícil. Mas,
a aprovação da lei municipal Isso gera uma situação incômoda tifumo em Florianópolis, a rotina plicar que não podia mais”. abordar uma pessoa
8.042/2009 em Florianópolis, o tanto para o fumante quanto para de Medeiros e dos fumantes foi O ar ficou mais limpo, sim, para falar sobre o seu
fumante vê seu espaço ser reduzi- as pessoas que estão ao redor, que alterada. Já se tornou cena comum mas e o chão? Com as mudanças, vício, ainda mais se ela
do aos poucos, e a briga começa a muitas vezes preferem não recla- ver pessoas na porta de bares e muitos bares pararam de fornecer está infringindo uma lei,
mostrar seu desfecho. mar, mesmo tendo razão. restaurantes para poderem fumar. cinzeiros, mesmo pra quem sai da nem sempre é fácil. Mui-
A lei antifumo, como é co- Segundo o último Estudo A lei promoveu a retirada dos área fechada pra fumar. Em tro- tos fumantes ficam na
nhecida, foi aprovada em Especial do Tabagismo divulga- cinzeiros localizados nas entradas ca de um ar mais limpo dentro do defensiva e não querem
Florianópolis no dia 28 de ou- do pelo Instituto Brasileiro de no Shopping Iguatemi, pois eles estabelecimento, a entrada ficou conversa, mas dei sorte
tubro de 2009 e começou a vi- Geografia e Estatística (IBGE), se localizavam embaixo de uma mais suja. “Não tem outro jeito! com um grupo simpáti-
gorar em 10 de fevereiro deste Santa Catarina aparece na 15ª cobertura. Os fumantes agora são Se eu jogo a bituca no lixo nor- co que, provavelmente
ano. Segundo a lei, é proibido o posição no ranking nacional dos obrigados a atravessar a rua para mal, corre o risco de pegar fogo. motivados pelas várias
consumo de cigarros e deriva- fumantes. A pesquisa, feita com fumar. “Acaba ficando ruim pra Então vai no chão!”, justifica-se cervejas que já haviam
dos em qualquer local, público base nos dados do Ministério da gente também, né? Porque a gen- Leonardi. Quem paga o preço bebido naquela noite, me
ou privado, de uso coletivo fe- Saúde e da Pesquisa Nacional por te acaba de fumar e não tem onde por isso são os responsáveis pela responderam tudo que
chado ou parcialmente fechado. Amostra de Domicílio (Pnad) de jogar a bituca do cigarro. As pes- limpeza. São pessoas como José eu perguntava. Basti-
Isto inclui toldos, coberturas e 2008, estima que 17,1% da po- soas chamam o fumante de porco, Carlos Santos Barroso, o Seu dores em: http://tinyurl.
marquises. O fumante e o dono pulação catarinense acima de 15 mas também não pensam no nos- Zeca, que há 18 anos é varredor. com/39arfb9
Florianópolis, julho de 2010 MEIO AMBIENTE Quatro 9

SC tem baixo índice de saneamento


Dos 293 municípios, somente 30 têm tratamento de esgoto. O estado fica atrás apenas do Piauí

Fotos: Rodolfo Conceição


Emanuelle Nunes

O
s problemas causa-
dos pela urbaniza-
ção e pela falta de
planejamento do
poder público nas
grandes cidades se tornaram cada
vez mais comuns. Santa Catarina,
que apresenta um dos maiores ín-
dices de qualidade de vida do país,
surpreendentemente foi apontada
pela Associação Brasileira de En-
genharia Sanitária (ABES) como
o segundo pior estado brasileiro
em termos de saneamento básico,
ficando atrás apenas do Piauí. Dos
293 municípios catarinenses ape-
nas 30, cerca de 12% da população
urbana, têm acesso a tratamento de
esgoto sanitário. Conforme cons-
tatado pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), Ausência de sistema adequado para escoar dejetos transforma áreas naturais em aterros sanitários A cena é cotidiana na capital
cerca de 28,18% das residências
catarinenses têm acesso à rede água o BTI, veneno ilegal que cus- tratamento de esgoto nas perife- Arte Quatro
coletora de esgoto e o serviço de ta de 80 a 90 reais por litro. Para rias de Florianópolis está o Plano
fossa séptica atinge aproximada- o líder comunitário, a poluição da Municipal de Interesse de Sanea-
mente 53,38% das moradias do cachoeira ocorreu por causa da re- mento Básico (PMISB). Segun-
estado. No município de Criciú- cente superpopulação. Os irmãos do o gerente de planejamento da
ma, por exemplo, não há rede de Alexssandro da Silva, 19, e Jéssi- Secretaria Municipal de Habita-
tratamento de esgoto em nenhuma ca da Silva, 15, que moram na co- ção e Saneamento Básico, Élson
das residências. munidade desde que nasceram, já dos Passos, o objetivo do projeto
Em Florianópolis, de 408.161 estão acomodados com esta situ- é “planejar para definir metas de
habitantes apenas 45% da popula- ação. Ambos sempre moraram ao custo e universalizar o serviço no
ção, cerca de 183.672 habitantes, lado “do que chamam de cachoei- esgotamento sanitário, abasteci-
têm acesso a rede de tratamento de ra” e, até três anos atrás, costuma- mento de água, drenagem urbana e
esgoto. Os pontos mais alarman- vam frequentá-la resíduos sólidos”.
tes, no entanto, estão nas áreas para tomar banho O projeto irá
mais carentes da cidade que cor- durante o verão. De 2007 para abranger toda a Fonte: Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento
respondem a 16% dos habitantes “Paramos de to- região de Floria-
(65 mil pessoas), conforme estudo mar banho quan- 2008 houve nópolis e ainda países endêmicos, como o México, alojamento das larvas.
feito em 2006 pela Secretaria Mu- do percebemos redução de 16% está em fase de por exemplo. A doença está asso- No ambiente urbano, a trans-
nicipal de Habitação e Saneamen- o quanto estava elaboração. Deve ciada também à criação de suínos missão ocorre através da ingestão
to Básico. De acordo com o Ins- poluída”, afir-na coleta de ser concluído en- no estado, já que estes são hospe- de alimentos, como verduras cruas,
tituto Trata Brasil, das 81 cidades mam. Segundo esgoto na capital tre julho e agosto deiros intermediários do parasita. contaminados com os ovos prove-
brasileiras com mais de 300 mil os moradores, há deste ano e, pos- Segundo a farmacêutica-bioquí- nientes de fezes humanas. Há tam-
habitantes analisadas, a capital presença cons- teriormente, será mica e coordenadora da pesquisa, bém a possibilidade de autoinfec-
catarinense é a 30º colocada no tante em sua casa de animais e encaminhado à Companhia Cata- Maria Marcia Imenes Ishida, a ção: quando as mãos contaminadas
ranking de saneamento ambiental. insetos prejudiciais à saúde devido rinense de Águas e Saneamento transmissão da doença aos porcos com os cisticercos são levadas à
Houve, também, redução na coleta ao esgoto e ao lixo que é despe- (CASAN), órgão responsável pela ocorre quando as fezes humanas, boca. Segundo a professora, a situ-
e no tratamento de esgoto: a com- jado nele. Inclusive, um parente parte operacional do plano. contaminadas com os ovos da Ta- ação é mais agravante, sobretudo,
paração com dados publicados há próximo já contraiu leptospirose Atualmente há obras em execu- enia Solium, presentes no meio nas periferias, onde a maioria dos
três anos mostra que, de 2007 para pelo contato com a água poluída ção nas regiões norte, sul e no cen- ambiente devido à falta de sane- moradores não têm acesso a condi-
2008, a queda foi de 16%. durante uma construção. “Nos- tro da capital. Serrinha, Maciço do amento básico, misturam-se ao ções sanitárias básicas.
Na comunidade Sol Nascente, sa fossa é a cachoeira. O cano do Morro da Cruz, Canto do Lamin e solo e são ingeridas pelos porcos.

4
no bairro Saco Grande, não há rede vaso e o da pia desembocam nela”, Tapera são os bairros em que há A carne suína contaminada com Tudo corria bem, nos-
coletora de esgoto. Segundo o pre- alega Alexssandro. O bairro Saco obras voltadas à implantação do larvas (cisticercos), crua ou mal- so querido Ceará dando
sidente da Associação dos Mora- Grande concentra o equivalente a Sistema de Esgotamento Sanitário passada, se ingerida pelo ser hu- um verdadeiro show de
dores da comunidade de Sol Nas- 10% da população da capital. O feito pela CASAN. mano, dá continuação ao ciclo de fotografia naquele córre-
cente, Geraldo Von Mühhen, uma levantamento feito pela Secretaria Riscos à saúde - Uma grave doen- desenvolvimento do parasita, que go, quando um grupo de
cachoeira, antigo ponto de lazer Municipal de Habitação e Sanea- ça prevalente no oeste catarinense, passa a hospedar-se no organismo rapazes mal encarados
dos moradores, é mantida há dez mento Básico em parceria com a causada pela falta de tratamento humano, causando a teníase. No nos observava de longe
anos como um esgoto a céu aberto Companhia de Habitação de Santa de esgoto sanitário, é preocupa- homem, a teníase pode causar in- atentamente, com um as-
e oferece uma série de riscos aos Catarina (Cohab) também acusa ção de especialistas. De acordo fecção abdominal e outras reações pecto de reprovação. Che-
moradores pela proximidade de que cerca de 61% dos moradores com levantamento feito em Lages gastrointestinais. A neurocisticerco- gamos em um carro pre-
casas, armazéns e de um campo de das áreas de carência social resi- por um grupo de pesquisadores se é causada quando a larva se aloja to, éramos estranhos na
futebol bastante freqüentado. Para dem em encostas, como é o caso da Universidade Federal de Santa no cérebro do indivíduo que ingeriu comunidade e estávamos
evitar a proliferação de ratos, ba- da comunidade Sol Nascente. Catarina, 3,5% de 877 habitantes ovos do parasita e provoca desde desacompanhados, o que
ratas, sapos e insetos ao redor do Luz no fim dos tubos - Entre os analisados no município apresen- crises convulsivas ou ataques epilé- começou a me preocupar.
esgoto, principalmente durante o projetos desenvolvidos pelo mu- taram sorologia positiva para a ticos até hipertensão intracraniana, Bastidores em: http://
verão, os moradores despejam na nicípio para regularizar a rede de cisticercose, mesma estimativa de dependendo do número e local de tinyurl.com/38dp5ux
10 Quatro BEM - ESTAR Florianópolis, julho de 2010

Automedicação mata

Fotos: Carolina Dantas


20 mil pessoas por ano
Metade dos remédios vendidos não têm prescrição médica
tempo pode causar três reações: uma para cada oito mil. O estudo
Laís Mezzari pode potencializar o resultado do realizado pela Unicamp também
primeiro, um medicamento pode mostra que a automedicação pode
conter alguma substância que se tornar um ato contínuo uma vez

D
anule a ação do outro, ou um deles que se o paciente se satisfaz com
ores no corpo, en- pode alterar características como a o remédio, continua tomando sem
xaqueca, tosse. absorção e transformação do outro ir ao médico.
Quem nunca foi até remédio no organismo, influen- Carvalho ainda relata que um
a farmácia e com- ciando o efeito da medicação. De dos problemas mais frequentes
prou um remédio acordo com Carvalho, por conta é o paciente não seguir as reco-
indicado pela tia, amigo, vizinha destas situações, o paciente deve mendações e fazer a dosagem do
ou ainda pelo próprio balconista relatar ao médico todas as subs- medicamento de forma errada, o
para acabar com um desses pro- tâncias ingeridas anteriormente, que também pode ser considerado
blemas? De acordo com o estudo inclusive anticoncepcionais, chás automedicação, apesar da receita
Configuração do Complexo Eco- e remédios fitoterápicos. médica. O fato de um indivíduo
nômico da Saúde, realizado pela Segundo dados de 2007 da Abi- ingerir a substância num intervalo Consequência: intoxicação e hipersensibilidade são causas de morte
Unicamp a pedido do Ministério farma, a cada ano, cerca de 20 mil de seis horas ou em jejum, quan-
da Saúde em 2007, no mercado pessoas morrem no país vítimas da do a indicação é, por exemplo,
farmacêutico brasileiro, ao menos automedicação. A maior incidên- de oito em oito horas ou após as
50% das vendas dos medicamen- cia está ligada à intoxicação e às refeições, pode gerar diferentes
tos correspondem à automedica- reações de hipersensibilidade ou efeitos colaterais. Dados do Siste-
ção. A Associação Brasileira das alergia. Devido a estas condições, ma Nacional de Informações Tó-
Indústrias Farmacêuticas (Abifar- os mais vulneráveis aos efeitos da xico-farmacológicas (SINITOX)
ma) relata que aproximadamen- automedicação são os idosos, já revelaram que no ano 2000, de um
te 80 milhões de brasileiros são que estes apresentam com maior total de 20.534 registros de into-
adeptos desta prática. frequência doenças crônicas e to- xicação por medicamentos, 2,7%
O médico especialista em orto- mam mais remédios. De acordo eram devidos a automedicação e
pedia e traumatologia, Daniel de com Linda Bernstein em seu livro 5,9% devido a erros de adminis-
Souza Carvalho, Characteriza- tração.
afirma que tudo tion of the use Em casos de medicamentos
é remédio, desde and misuse of sem restrição, o farmacêutico é
uma compressa Um dos problemas medications responsável por fazer a orientação
de água morna,
até o atendimen-
mais frequentes é o by elderly am-
bulatory po-
do uso, das contra-indicações e
dos efeitos colaterais ao usuário.
to de um fisio- paciente não seguir pulation (Ca- Segundo a farmacêutica Angela
terapeuta. De
acordo com Car-
as recomendações racterização
do uso e mau
Juliane Melo, o profissional não
tem direito de negar a venda de
valho, medidas do seu médico uso de medi- um produto que não precise de
caseiras, assim camentos pela prescrição médica, mas deve pas-
como a maioria população sar todas as informações para que Interação medicamentosa pode anular ou potencializar o efeito
dos medicamen- idosa ambula- o cliente saia consciente.
tos que são vendidos sem prescri- torial, em tradução livre) a média Tentando combater a autome-
ção médica, apenas atenuam os
sintomas, e podem mascarar os
de remédios tomados por idosos
varia de 3 a 7,3 por pessoa. A pró-
dicação, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), Os preferidos da população
sinais de uma doença mais grave. pria alteração corporal como a di- estabeleceu em agosto de 2009,
Um exemplo disso é o funcio- minuição da proporção de água no através da Resolução da Diretoria A farmacêutica Angela Juliane sar azia. Portadores de gastrite e
nário público Daniel Visalli, de 26 organismo e da taxa de excreção Colegiada (RDC) Nº 44, medidas Melo afirma que os principais úlcera devem tomar cuidado.
anos, que tomou por conta própria renal influenciam na absorção da que devem ser seguidas pelas far- remédios comprados sem pres- Tylenol e Paracetamol – Usa-
analgésicos contra dor de cabeça substância. mácias. Entre outros, ela determi- crição são anticoncepcionais, do para tratar de febre e dores no
por mais de um ano e somente A automedicação se deve a na que apenas os medicamentos analgésicos e anti-inflamató- corpo, podem prejudicar o fíga-
quando percebeu que o problema várias razões, entre elas a pro- que forem indicados pela Anvisa rios. do por causa da toxicidade.
se agravava foi ao médico e des- paganda massiva de remédios poderão ficar expostos ao alcance No inverno, também entram na Anticoncepcionais – Antibióti-
cobriu que tinha pressão alta. O incluindo a frase “se persistirem do cliente e exige que seja coloca- lista antigripais, e no verão as cos que contenham amoxilicina
medicamento aumentava ainda os sintomas, o médico deverá ser do um cartaz em local visível com pomadas fungicidas. Mas alguns podem reduzir o efeito contra-
mais sua pressão, que chegou a consultado”. Outros motivos tam- os dizeres: “Medicamentos podem cuidados devem ser tomados: ceptivo dos anticoncepcionais.
atingir 19 por seis, quando o nor- bém são a dificuldade e o custo causar efeitos indesejados. Evite a Analgésicos – Apesar de serem A cafeína, por outro lado, en-
mal é 12 por oito. de uma consulta médica, dores, automedicação. Informe-se com o os mais vendidos no Brasil, es- contrada em antigripais, pode
Combinações perigosas - As informações e indicações de ami- farmacêutico”. tes medicamentos podem trazer potencializar os efeitos de al-
contra-indicações e os efeitos gos ou adquiridas pela internet, Além disso, também define efeitos colaterais. guns anticoncepcionais, tanto
colaterais normalmente não são insuficiência de regulamentação que esses estabelecimentos devem O ácido acetil-salicílico, AAS com relação a desconfortos que
especificados em cartelas de com- e fiscalização na venda e falta de ter um farmacêutico durante todo ou Aspirina, deixa o sangue alguns causam, como dores no
primidos, por exemplo, e podem programas educativos sobre os o seu horário de funcionamento. mais líquido e provoca maior seio, quanto ao efeito contra-
não atuar diretamente na parte efeitos do procedimento. Outra Este último item pode parecer re- acidez estomacal, podendo cau- ceptivo.
do corpo desejada, afetando com hipótese, segundo Macário Jáco- dundante, mas a Associação Bra-

4
frequência o estômago e o fígado. me, em artigo ao Portal da Educa- sileira das Farmácias (Abrafarma)
Porém, um dos maiores problemas ção, também é o elevado número revela que das 13 mil farmácias Daniel Visalli começou a prestar atenção e se manifestou.
quanto a automedicação é a inte- de farmácias no País: uma para no estado de São Paulo, apenas O personagem acabou sendo bem diferente do que eu
ração medicamentosa. Quando o cada três mil habitantes, quando o 33% têm um profissional em perí- imaginava, mas acredito que foi interessante por mostrar
paciente já toma um remédio, a número estipulado pela Organiza- odo integral, e em 40% delas não que a automedicação pode trazer problemas para
administração de outro ao mesmo ção Mundial de Saúde (OMS) é de há nenhum contratado. qualquer pessoa. http://tinyurl.com/22tj2q4
Florianópolis, julho de 2010 BEM - ESTAR Quatro 11

País tem 1 milhão de abortos ao ano


Métodos caseiros, remédios e clínicas clandestinas são encontrados principalmente em sites da internet

Arte: Philipi Schneider


Bianca Enomura
Sendy da Luz
Interrupções de gravidez no Brasil
Índice baixo na região Sul
Uma pesquisa referente ao mulheres foram internadas para

E
aborto no Brasil revelou da- fazer curetagem pós-aborto.
dos alarmantes sobre o assun- Ocorrem anualmente 1.054.243
m novembro de 2006,
to. O levantamento, feito pelo abortos no País. O estudo tam-
a cabeleireira Ma-
Instituto de Bioética Direitos bém aponta para o fato de que
ria Augusta precisou
Humanos e Gênero (Anis) e a curetagem pós-aborto é o se-
tomar uma decisão
pela Universidade de Brasília gundo procedimento obstétrico
definitiva sobre a sua
(UnB), traça um novo perfil da mais realizado nos serviços pú-
vida. Com apenas 22 anos e três
mulher que interrompe a gravi- blicos de saúde. Todos os anos,
filhos, ela descobriu que estava
dez no país. Diferente do senso cerca de 230 mil mulheres bus-
grávida outra vez. Depois de con-
comum, a maioria das mulhe- cam atendimento do SUS de-
siderar a situação econômica ins-
res que abortam não são jovens vido a complicações como he-
tável, a família já numerosa e as
solteiras, mas mulheres que morragias e perfuração do útero
incertezas de criar mais uma crian-
têm um companheiro. Quase ou da parede vaginal.
ça, Maria escolheu interromper a
60% delas também já possuem Acredita-se que cerca de 10
gestação no terceiro mês.
filhos. mil mulheres morram ao ano
Sem poder ir ao hospital, os
De cada 100 brasileiras, 15 já por complicações em decor-
únicos meios aos quais ela po-
fizeram pelo menos um aborto. rência do aborto. O índice de
dia recorrer eram as receitas ca-
Quase metade dessas mulheres mortalidade por esse motivo é
seiras. Em um dia, ingeriu uma
(48%) usam remédios para in- dez vezes maior que o tolerado
cartela inteira de anticoncepcio-
duzir o aborto e 55% tiveram pela Organização Mundial da
nais, vinho, noz moscada, canela
de ser internadas em seguida. Saúde, e ultrapassa o número
e se submeteu a uma sequência
Segundo a pesquisa, o menor de vítimas do câncer de mama,
de chutes na barriga, um deles
índice de aborto é na região Sul. por exemplo.
do próprio marido. Em seguida,
De acordo com a Organização Quanto às complicações legais,
Maria foi ao hospital e após uma
Mundial da Saúde (OMS), uma 70 mulheres foram condena-
ultra-sonografia vaginal, foi con-
em cada nove mulheres recorre das por aborto - sem provas – e
firmado que ela havia perdido o
ao aborto. A gravidade da situa- receberam penas alternativas
bebê. O médico mostrou descon-
ção também se reflete no SUS. como cuidar de crianças em
fiança, mas não prestou queixas e
Somente em 2004, 243.988 creches.
a liberou no mesmo dia.
Apesar dos ferimentos, das có-
licas e do sofrimento emocional, clandestinos em todo o mundo. fornece contraceptivos, faz abor- é anencéfalo, uma má-formação administrar os comprimidos para
ela não se sente culpada. “Fiz este O portal oferece ajuda a mulheres tos seguros e informa as mulheres congênita em que há ausência, to- que não possam ser detectados
aborto, porque não tinha condi- que desejam interromper a gesta- interessadas. Os serviços no barco tal ou parcial, do cérebro. Cerca de caso haja complicações no proce-
ções de manter uma quarta crian- ção, e para isso disponibiliza uma são legalizados e gratuitos. 65% desses bebês nascem mortos dimento. Em um deles, o adminis-
ça, não me arrependo e não conto lista de clínicas nos países em que Fora da lei - De acordo com o e os 35% restantes têm perspectiva trador recomenda o uso de pílulas
pra ninguém. Esta é uma coisa que o procedimento é legal e outra lis- Código Penal brasileiro, o abor- de semanas de vida. por não serem identificadas caso a
guardo só comigo”. ta para onde o aborto não é legali- to é considerado “crime contra a Em 2004, o ministro Marco mulher necessite ir ao hospital.
Casos como esse são rotineiros. zado. Nesses casos, são indicadas vida” e só não é passível de pu- Aurélio Mello concedeu uma li- Procedimento cirúrgico - No
O Hospital Universitário da Uni- organizações que prestam apoio a nição em duas situações: quando minar permitindo o aborto nas início da gravidez, o aborto geral-
versidade Federal de Santa Cata- mulheres. não há outro gestações de fetos com anencefa- mente é realizado através de dila-
rina é o único do estado que faz Ainda nesse meio de sal- lia, porém a decisão foi revogada tação e curetagem – uma espécie
o aborto dentro da lei. De acordo site, há um di- var a gestante quatro meses depois pelo Supre- de raspagem do colo uterino - ou
com funcionários da equipe de en- recionamento “Fiz aborto e e se a gravi- mo Tribunal de Justiça. O proces- utilizando ostentação de sucção,
fermagem, as mulheres que procu-
ram o ambulatório, em geral, estão
para o Women não conto para dez é resulta- so ainda está na fila de espera para
ser votado. “Não podemos esque-
técnica na qual se insere um apa-
relho que despedaça o feto e a pla-
on Web, onde há do de estupro.
em condições financeiras precárias instruções pre- ninguém. Esta A pena para a cer que é a gestante que merece a centa e os suga do útero. A partir
ou não tem um parceiro fixo.
Aborto online - A procura por
cisas sobre os é uma coisa que mulher que atenção no caso, pois esta é quem
sofre com a gestação. Assim, o
do quarto mês, a curetagem não
pode mais ser realizada, optando-
remédios abor- cometer abor-
remédios abortivos está cada vez tivos e como guardo só comigo” to ou permitir estudioso que abordar a questão, se então pela indução do parto
mais fácil. Através de um fórum consegui-los. O que terceiros deve buscar uma solução para que utilizando gel de prostaglandina,
na internet, o vendedor oferece custo do envio o façam é de a mesma não seja criminalizada”, substância que auxilia no amadu-
medicamentos para interromper a do remédio é de um a três anos destaca Neto. recimento do colo uterino e expul-
gestação com instruções diretas do 70 euros, equivalente a R$155. de prisão e para o praticante é de Procedimento químico - O sa o feto.
efeito esperado, dosagem, modo Para ser redirecionado para a com- um a quatro anos de reclusão. aborto medicinal é a intervenção Um aborto realizado por pes-
de usar e possíveis riscos, sem pra do medicamento, é necessário O artigo da legislação que trata da gravidez através da combina- soa não-habilitada ou sem condi-
qualquer aprovação médica. Os responder a um questionário com do crime é de 1940, e é muito dis- ção de medicamentos até a nona ções de higiene adequadas expõe
preços variam, do kit com quatro 25 perguntas e um dos requisitos cutido a sua adaptação para atuali- semana de gestação. As duas subs- a paciente a infecção, hemorragia,
comprimidos a R$300 ao kit com é estar grávida de menos de nove dade. O advogado Nelson Carva- tâncias mais comuns são a Mife- infertilidade futura ou mesmo
16 unidades a R$1300, com pos- semanas. Ao fim da avaliação, é lho Neto afirma que sempre que se pristona (RU-486) e o Misoprostol morte.
sibilidade de pagamento através feita a indicação da dosagem dos tenta revisar a legislação, há bar- (Cytotec). O primeiro inibe a ati-

4
de cartão de crédito e entrega por remédios a serem enviados – um reiras. “Ela esbarra nos ideais da vidade do hormônio progesterona,
motoboy. comprimido de 200mg de Mife- igreja católica, o que gera uma po- sensibiliza a camada média da pa- Correr atrás de uma
Um dos sites encontrados mais pristona e seis comprimidos de lêmica enorme e traz como conse- rede uterina e impede o desenvol- personagem que não
facilmente é o Women on waves, 200mcg de Misoprostol – e como quência o engessamento do tema, vimento fetal. O segundo age no queria ser identificada
que pertence a uma organização devem ser ingeridos. mas está mais na hora de tratarmos útero provocando contrações do é quase a mesma coisa
não governamental holandesa e A mesma ONG tem ainda uma o tema de modo diferente”. endométrio, o que causa a expul- que correr atrás de uma
que tem como objetivo prevenir espécie de clínica móvel num na- Outra questão é a interrupção da são do feto. criança teimosa.
a gravidez indesejada e abortos vio que cruza águas internacionais, gravidez nos casos em que o feto Alguns sites indicam como http://tinyurl.com/2fgzyze
Centrais BEM-E

Sem novos leitos, reforma na


Em vigor há dez anos, a lei que humaniza o tratamento de pacientes com transtornos psíquicos ainda gera polêmi

Fotos: Carolina Dantas


Luisa Nucada
Carolina Dantas

A
na Angélica de Faria da
Silva, 47, é paciente men-
tal desde 1983. Seu diag-
nóstico é transtorno bipo-
lar. “Já tomei tudo quanto
é tipo de remédio. Agora é que tem um
que está me ajudando. Eles vão testando
na gente até conseguir um que dê certo”,
diz. Ana Angélica possui o Ensino Médio
completo. “Já tenho irmãs formadas, mas
eu não. Sou doente, tentei estudar várias
vezes e não consegui”. Ela também nunca
manteve um emprego e vive de aposenta-
doria. Jailson Luiz Belli, por sua vez, foi
diagnosticado como esquizofrênico em
1979. É técnico em eletrotécnica e cur-
sou turismo em uma faculdade particular,
mas não concluiu a graduação. Ele mora
no Hospital de Custódia da Penitenciária
Pública do Estado de Santa Catarina, por-
que cometeu dois homicídios durante um
surto psíquico. Também é aposentado por
invalidez.
Como recebem tratamento há mais de Ana Angélica Faria e Jaílson Belli: mudanças melhoraram condições de vida, mas ainda há muito a fazer
25 anos, esses pacientes têm acompanha-
do um lento e complexo processo de mu- quase completando dez anos, mas o que substitutivos, como Centros de Atenção do hospital psiquiátrico,
dança: a reforma do modelo assistencial de fato mudou em Florianópolis? Psicossocial (CAPS) e alas psiquiátricas tem que haver criação
em saúde mental, mais conhecido como Leitos para internação - Na região me- com leitos para internação dentro de hos- de leitos em hospitais
“reforma psiquiátrica”. No Brasil, esse tropolitana, o Instituto de Psiquiatria (IPq) pitais gerais. Os CAPS são espécies de gerais. Se você tem um
processo começou legalmente em 1989, é a única alternativa do Sistema Único de “postos de saúde” voltados aos pacien- problema psíquico sério,
quando o deputado Paulo Delgado (PT/ Saúde (SUS) para pacien- tes mentais. Segundo o de emergência, o único
MG) apresentou o projeto de lei nº 3657. tes graves que necessitam Ministério da Saúde, o lugar que você tem para
O documento propunha basicamente a
proteção aos direitos do paciente e a ex-
de internação e para casos
de emergência, como sur-
“Os hospitais CAPS é um serviço co-
munitário que realiza
ir é o IPq. Nesse ponto,
a reforma ficou um pou-
tinção dos hospitais psiquiátricos com o tos psíquicos. Antes cha- psiquiátricos “acompanhamento clí- co monstruosa porque os
fechamento de todos os leitos para esse
tipo de internação. Radical, a proposta foi
mado de Colônia Santana,
o hospital estadual loca-
foram enchendo nico e reinserção social
dos usuários pelo acesso
governos não criaram os
mecanismos necessários
rejeitada por 23 votos, sendo apenas qua- lizado no município de e se tornaram ao trabalho, lazer, exer- para contrabalancear o
tro a favor. Depois de doze anos de trami-
tação no Congresso, o texto, modificado e
São José vem reduzindo
seus leitos para interna-
insalubres” cício dos direitos civis e
fortalecimento dos laços
avanço do processo. Isso
é lamentável”, diz o pre- Centro de Atenção Ps
mais brando, foi aprovado como a lei nº ção psiquiátrica desde a familiares”. sidente da Associação
10216/2001. Seus artigos visam garantir década de 70. O psiquiatra e presidente Florianópolis já tem quatro dessas uni- Brasileira de Saúde Mental. O hospital
“os direitos e a proteção das pessoas aco- da Associação Brasileira de Saúde Mental dades, sendo uma infantil, duas especia- já chegou a ter 2 mil leitos. Atualmente,
metidas de transtorno mental”, através da (ABRASME), Walter Ferreira, aponta lizadas em dependência química e uma conta com 411, sendo 160 para pacientes
reinserção do paciente na sociedade e da esse corte como um avanço da reforma. para adultos. Em compensação, nenhum agudos e 251 para os crônicos.
restrição à internação em instituições com A redução de leitos viria acompanhada, leito para internação foi aberto em hos- A psiquiatra responsável pela
características asilares. A reforma está teoricamente, da construção de serviços pital convencional. “Quando se tira gente Coordenadoria de Saúde Mental da
ESTAR Florianópolis, julho de 2010

assistência mental se arrasta


ica. Em Florianópolis, a redução de vagas em hospitais psiquiátricos dificulta atendimento de casos emergenciais

Secretaria Municipal de Saúde, Sônia pessoas muitas vezes condenadas a uma


Saraiva, afirma que foram feitos grandes
investimentos nos postos de saúde e nos
vida inteira dentro de ambientes como es-
ses”, diz Brognoli. Esse é o pensamento Psiquiatria ou Antipsiquiatria?
Núcleos de Apoio à Saúde da Família do Movimento de Luta Antimanicomial,
(NASFs). Em sua gestão, iniciada em que faz pressão social para que as insti-
2007, foi inaugurado o quarto CAPS na tuições psiquiátricas sejam extintas. A Philippe Pinel, médico francês do Já a antipsiquiatria tem história
cidade. “Agora, estamos em um processo paciente Ana Angélica da Silva reforça as século XVIII, é considerado o pai da mais recente, e tem no filósofo Michel
de incrementar outras partes que estão de- ideias da organização: “Com a reforma, psiquiatria moderna. Interessou-se pela Foucault (1926-1984) uma de suas ra-
ficitárias, como a emergência, a atenção eu senti que os pacientes são mais respei- saúde mental por causa de um ami- ízes conceituais. Nas décadas de 60
às crises. Infelizmente, ainda somos de- tados como seres humanos. Antigamente, go que sofria de transtorno bipolar. e 70, Foucault estudou as relações de
pendentes do IPq”, afirma. “Estamos ten- recebíamos choque, ficávamos confinados, Atuando em hospícios, onde doentes poder na sociedade dentro de grupos
tando sensibilizar os hospitais, mas existe éramos tratados como animais”, relembra. mentais e criminosos ficavam acor- marginalizados, como os pacientes
uma resistência muito grande para abrir O presidente da Associação Catarinense rentados juntos, sem distinção, Pinel mentais, mendigos e prostitutas. Na
leitos. Como seria a porta de entrada de de Psiquiatria, Flávio Vicente, explica que sensibilizou-se pela situação insalubre visão do pensador, no ambiente hospi-
uma emergência recebendo pacientes em a situação atual no IPq é outra: “A crítica dos “loucos” e percebeu a necessidade talar, o conhecimento estabelece uma
agitação psicomotora?”. Outro fator que é pertinente porque já houve abusos, mas de tratá-los, ao invés de prendê-los. Em relação de dominação. O que conta é
dificulta a medida é que os hospitais ge- também é parcial. Nós carregamos uma sua época, acreditava-se que os transtor- a razão, por isso os insanos ficam sub-
rais são estaduais, estão em outra instân- herança ruim, que hoje em dia não é a re- nos mentais seriam resultado de posses- missos aos sãos. Para Foucault, Pinel
cia de decisão. alidade”, afirma. são demoníaca e que ferir os pacientes se apoderou da loucura, trazendo-a
Para o psicólogo Felipe Brognoli, do Jailson Belli já foi internado duas vezes pudesse curar. O médico concluiu que para o campo da medicina para que os
Movimento de Luta Antimanicomial, no hospital, em 1982 e 1985. “Não é um o sofrimento psíquico daquelas pessoas médicos exercessem controle e regula-
pouca verba não é impasse para a abertura ambiente tão hostil como falam. É claro era causado por tensões psicológicas ou ção sobre as pessoas que não se enqua-
de leitos em hospitais gerais: “O que falta que me senti recluso, dopado, porque lá a sociais excessivas, fatores genéticos ou drassem na nova ordem social da era
é vontade política, porque há recursos fi- medicação é acentuada, mas eu sei que foi acidentes físicos. Pinel foi pioneiro na industrial. Assim, o hospital psiquiátri-
nanceiros do Ministério da Saúde para fi- necessário para meu tratamento”, diz. Para classificação de várias psicoses e res- co não é um estabelecimento médico,
o psiquiatra Geder Grohs, os hospitais psi- ponsável pela criação de um tratamen- mas uma estrutura semi-jurídica que
quiátricos tiveram seu valor ao longo da to moral, mais humano e próximo dos decide, julga e executa. O diagnósti-
história, e sempre funcionaram de acordo pacientes, extinguindo métodos como co foucaultiano e as muitas mudan-
com os conhecimentos da época. “Mas com sangrias, purgações (sujeitar o indiví- ças ideológicas e comportamentais
o aumento da população, os hospitais psi- duo a sofrimento) e vesicatórios (apli- da década de 60 foram fundamentais
quiátricos foram enchendo e se tornando cação de medicamentos que provocam para o surgimento de um movimento
insalubres”. Essas instituições possibilita- a formação de bolhas). Hoje, o termo antimanicomial na Europa e no resto
ram, por exemplo, a distinção entre bipo- “pinel” é um sinônimo para louco. do mundo.
lares, esquizofrênicos e portadores de Mal
de Alzheimer, separando os pacientes e seus

4
tratamentos. Grohs concorda com a refor-
ma, mas não da maneira como está sendo residenciais terapêuticas, que nossas famílias O doente mental pode ser
feita, fechando leitos sem abrir novas vagas não nos rejeitem, que a sociedade nos trate muito lúcido e muito abstrato
em hospitais gerais: “O desmantelamento com mais respeito e tenha mais cuidado com ao mesmo tempo. A dificul-
foi muito mais rápido do que a construção nossa doença”. Jailson Belli tem muitas re- dade foi entender cada ex-
de alternativas”. Para ele, toda a discussão clamações: “Apesar de eu ter estudado, não pressão certa, driblar cada
que envolve o processo de mudança é muito consigo emprego por causa da minha idade. disputa política e entender a
mais ideológica do que técnica: “A reforma Não posso ter namorada porque encontros rixa de interesses que envolve
tem um forte cunho político-partidário. Não conjugais não são permitidos no Hospital de uma reforma desta magnitu-
é à toa que Pedro Delgado, o coordenador Custódia. Ganho menos que um olheiro do de, a Reforma Psiquiátrica.
sicossocial Ponta do Coral no bairro Agronômica nacional de saúde mental há mais de dez tráfico. Com minha aposentadoria, não con- Nos impressionamos com as
anos, é irmão de Paulo Delgado, o deputado sigo nem dividir um quarto de pensão com histórias de sofrimento, com
nanciar essas ferramentas direto do Fundo que apresentou o projeto de lei que deu ori- ratos e baratas”, afirma. Ele também acha a impotência e a rejeição aos
Nacional de Saúde”, aponta. gem à reforma”. que a reforma do modelo assistencial cami- portadores de transtornos
Por que reformar? - “Os hospitais psiqui- Para a paciente Ana Angélica, ainda há nha com passos lentos e às vezes empaca, mentais, agradecendo pela
átricos funcionam muito mais como uma muito o que mudar, depois de quase dez anos mas está melhorando a vida dos pacientes. sanidade que ainda nos resta-
forma de contenção da loucura do que de de reforma: “Nossas reivindicações são as “As abóboras se arrumam com o andar da va. Bastidores: http://tinyurl.
tratamento. Eles se tornaram depósitos de seguintes: um CAPS em cada regional, casas carroça”. com/2g7yz35
Arte Quatro
14 Quatro BEM - ESTAR Florianópolis, julho de 2010

Você se diverte, mas eles trabalham


Profissionais trocam o dia pela noite e encaram as surpresas da madrugada na capital catarinense

Darilson Barbosa Victor Acosta

S
ão oito horas da ma-
nhã. O médico Alexan-
dre Sawada Vegas, 33,
encerra as atividades
de 12 horas de plantão
no Hospital Universitário, iniciado
no sábado, dia dos namorados. Há
quatro anos, ele atua como médi-
co plantonista. Para ele, isso não
é problema: “Eu gosto de medici-
na. O plantão é estrategicamente
planejado para facilitar as trocas
de turno. Durante a faculdade, re-
cebemos treinamento para realizar
profissionalmente esse tipo de ta-
refa”, explica. Por ser uma cidade
litorânea e capital do estado, Flo-
rianópolis tem uma vida noturna
agitada. Muitas pessoas decidem
trabalhar em casas noturnas, tea-
tros e cinemas procurando diver-
Apaixonado por iluminação de palco, Andrade trabalha no TAC há quase três anos. Momento marcante foi o encontro com Bibi Ferreira
são. Outras prestam serviços nas
ruas por necessidade, em busca de

Victor Acosta
Rodolfo Conceição

melhores condições.
Bastidores do entretenimento -
O Teatro Álvaro de Carvalho não
seria o mesmo sem o seu homem
da luz. Eugênio Luiz de Andrade,
48, trabalha nos bastidores das
apresentações artísticas que acon-
tecem no TAC, como as da orques-
tra Camerata. Iniciou sua carreira
na bilheteria, mas sua intenção era
trabalhar como iluminador nos es-
petáculos da casa. Ele é eletricis-
ta cênico e coordenador de palco
no teatro há 27 anos. Trabalhar
na iluminação do palco sempre
foi sua grande paixão. Ele explica
que outros profissionais, como o
sonoplasta e maquinista também
auxiliam na montagem dos espetá-
culos. Mas o perfil do profissional
está mudando. “As profissões de Leal começou em locadora, mas hoje se diverte falando sobre filmes com os clientes do cinema Para Santos, não há reconhecimento
iluminador, maquinista e sono-
plasta estão acabando. Apesar de CineSystem, no Shopping Iguate- se sente realizado”, explica. Seu xo de pessoas diminui. Ela traba- ro sair da noite, tem pessoas que
a briga das entidades de classe, mi. Sua paixão por filmes come- grande sonho é trabalhar na sala lha com mais cinco funcionários. não respeitam meu serviço. Há
a modernidade exige um melhor çou na adolescência, quando ainda de projeção. “O serviço é calmo e tranquilo. muito tempo trabalho como faxi-
preparo. A tendência é o profis- era empregado numa vídeolocado- Melhores condições - Mariste- Hoje, tenho a possibilidade de neiro e é desgastante. Prejudica
sional de teatro saber realizar as ra. Na sua jornada de sete horas la Ventura Pacheco, 38, decidiu receber benefícios trabalhistas a realização de outras atividades
três funções”, afirma Andrade. O por dia ele traba- fazer faxina à porque minha carteira é assina- durante o dia”, explica.
momento mais marcante da sua lha como treina- noite porque a da”, afirma Maristela. O faxi-
carreira no TAC foi a apresentação dor e auxilia no atividade lhe neiro José Luiz dos Santos, 51,
“Para trabalhar
4
da atriz Bibi Ferreira, num espetá- funcionamento oferece benefí- não compartilha da opinião de No El Divino, conversei com
culo sobre a cantora Edith Piaf, em
1983. O espetáculo trouxe como
do cinema sob
orientações da
aqui, é preciso cios trabalhistas
como férias, se-
sua colega. Para ele, o trabalho
tornou-se rotineiro. Ele exerce
três pessoas diferentes da
administração para poder
diretor e iluminador Flavio Rangel administração. gostar. Com guro-desempre- sua profissão há oitos anos, lim- entrevistar o funcionário que
e Andrade auxiliou na iluminação
da peça de Bibi Ferreira. Para ele,
Nas suas horas
de folga, Leal
reconhecimento, go e 13º salário.
Há dois anos e
pando banheiros da casa noturna
El Divino, no centro da cidade.
faz a faxina dos banheiros.
Consegui a autorização após
seu trabalho sempre é garantia de também respi- é mais divertido” três meses, ela Foi prestar seus serviços na casa dois dias de negociação.
entretenimento. “Essa atividade ra filmes. “Para trabalha para por acaso, através da indicação A entrevista aconteceu na
pra mim sempre foi divertida. É trabalhar aqui uma empresa feita por um vizinho. Santos ini- pista, enquanto alguns DJ´s
sorte ter um trabalho interessante. a pessoa preci- de limpeza ter- cia a limpeza dos banheiros às 22 testavam o equipamento de
A arte recompensa”, explica. O sa gostar. Quando fico em casa, ceirizada que realiza a faxina do horas, antes da balada começar, e som e o faxineiro terminava
palco não é sua área, mas Sérgio sempre estou vendo um filme e Terminal Rodoviário Rita Maria, só encerra o trabalho depois que de colocar seu uniforme,
Luiz Leal, 27, também se diverte gosto de falar sobre cinema com das 23 horas até às 7 da manhã. a festa termina, perto das 5 horas um pouco antes da balada
na sua atividade. Ele é funcionário os clientes. É ainda mais divertido Seu trabalho só pode ser realiza- da manhã. O trabalho tornou-se começar. Bastidores http://
há oito meses da rede de cinemas quando há reconhecimento, você do à noite, horário em que o flu- um peso, ele salienta: “Eu que- tinyurl.com/2b9bhnb
Florianópolis, julho de 2010 COMPORTAMENTO E SOCIEDADE Quatro 15

Inserção social é desafio brasileiro


Para assistentes sociais, desconhecimento dos próprios direitos leva cidadãos à vulnerabilidade

Fotos: Carolina Dantas


Camila Garcia
Luanna Hedler


Há pessoas que não conhecem seus direitos, que
não cumprem seus deveres como cidadãs por fal-
ta de conhecimento e, por isso, perdem a con-
dição de cidadania plena e vivem à mercê das
relações sociais”, explica o filósofo integrante
da Academia Catarinense de Letras, Pedro Bertolino. Mas
não existe exclusão sem inclusão.
Para esclarecer esta parcela da sociedade sobre os direi-
tos do cidadão, existe o Centro de Referência em Assistên-
cia Social, o CRAS, parte do Sistema Único de Assistência
Social (SUAS). O órgão público e federal foi criado há
cinco anos e trabalha diretamente com pessoas e famílias
que sofrem algum tipo de exclusão.
A equipe do QUATRO conversou com Eoni Conceição
Gesser e Nádia Oliveira de Aquino, assistentes sociais que
trabalham no CRAS do Sul da Ilha, para entender como
funcionam as políticas de inclusão social do governo.
Quatro – Qual o principal objetivo de um programa
como o CRAS?
Nadia Aquino – O CRAS é hoje considerado a porta de
entrada das Políticas Sociais Públicas; não só de assistên-
cia, mas de qualquer política pública.
Eoni Gesser – Procuramos atender as famílias em situ-
O programa já não tem o caráter de ajudar através de favores. Hoje, o objetivo do CRAS é oferecer oportunidades
ação de vulnerabilidade social para que elas possam con-
seguir se profissionalizar, entrar no mercado de trabalho
NA – O nosso público-alvo é formado por famílias que lução das pessoas.
e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida não só
estão em situação de vulnerabilidade social, idosos acima 4 – O excesso de burocracia que uma instituição públi-
pra os indivíduos, mas também, para as suas famílias.
de 65 anos, pessoas com deficiências e participantes do ca, como o CRAS, exige é uma das dificuldades que vocês
4 – O CRAS é parte do SUAS e trabalha com inclusão
programa Bolsa Família. Como este programa é para ser encontram no trabalho?
social. Como é feito este trabalho, quais são os procedi-
temporário, o nosso ideal é ajudar na profissionalização EG – É um agravante.
mentos?
das pessoas que compõe o Bolsa Família para que eles NA – É um excesso de burocracia sim, mas existem
EG – Inicialmente, a gente tem a parte dos cursos de
consigam adquirir renda própria, já que essa é uma ques- assuntos que tem de ser legalizados. As partes de fiscaliza-
qualificação profissional. Nós fazemos um processo de se-
tão de dignidade e cidadania, porque dá autonomia. ções, de recursos, por exemplo.
leção para chegar aos cursos, entramos em contato com as
4 – Como vocês caracterizam essas pessoas? Pode-se EG – O CRAS é muito novo, mas a gente está evoluin-
principais instituições de ensino – Senai, Senac, que são
dizer que são excluídos sociais? do. Com as NOBs que vão surgindo, a tendência é aprimo-
referências. No primeiro semestre, fazemos essa monta-
NA – Existem vários tipos de exclusão, na verdade. Às rar nosso trabalho e estruturação. Antes não se tinha um
gem dos locais, das comunidades, dos lugares possíveis de
vezes é uma questão de desconhecimento modelo de CRAS. Hoje existem normas
colocar esses cursos e no segundo semestre a gente apli-
dos seus direitos. A falta de informação já sobre o que um CRAS deve ter na sua
ca.
é em si uma exclusão, pois deixa o cida- estrutura física: salas de atendimento, de
NA – Verificamos a mão de obra que o mercado está
precisando para ter certeza que estamos criando oportu-
dão à margem das relações sociais, sem “A falta de espera, de reunião, do administrativo.
direitos trabalhistas, de saúde ou de assis- 4 – Quais as maiores dificuldades que
nidades reais de emprego. Tem cursos, como os de ma-
tência. É nesse ponto que focamos muito,
informação vocês encontram como profissionais?
nicure, pedicure, panificação, que nunca saem do calen-
dário, porque são muito procurados. Atuamos sempre em
informando, ajudando. deixa o cidadão NA – O nosso grande desafio hoje é
4 – Qual o público que tem maior difi- a política do NOB-RH (Norma Opera-
parceria. O CRAS através do recurso, da divulgação, da
culdade de ser “incluído” na sociedade e
à margem das cional Básica de Recursos Humanos),
verificação da qualidade do curso. E o Instituto de Gera-
ção de Oportunidade de Florianópolis (IGEOF) através de
por quê? relações sociais” de expandir o número de profissionais,
NA – É muito relativo, mas nós perce- mostrar para a sociedade que não temos
convênios, e da parte após a certificação, das verificações
bemos que quanto menos conhecimento a mais um caráter assistencialista, que se-
das possibilidades de emprego, etc..
família ou a pessoa tem, maior vai ser o ria de ajudar com favores. A gente rom-
4 – Como vocês fazem a seleção de pessoas para aten-
nosso empenho para ajudá-la. Nós sabemos que o trabalho peu isso, a legislação avançou para mudar essa história
dimento?
com um analfabeto, por exemplo, requer mais conversa, que a gente trouxe por muitos anos. Além de trabalharmos
NA – A lei da assistência social, como está na Consti-
mais calma, repetições e sempre perguntar se a pessoa está com casos de carência financeira, temos também casos de
tuição Federal, é a quem dela necessitar. Nós atendemos
entendendo. carência emocional, que são mais difíceis de trabalhar. É
todas as pessoas que nos procuram. Seja para problemas
EG – Para mim, um dos agravantes é a acomodação, um trabalho de desafios e construções no dia a dia.
psicológicos ou de vulnerabilidade social. Às vezes, as
porque mesmo que exista dificuldade para lidar com os

4
pessoas só precisam de uma orientação.
analfabetos, muitos vão em busca dos seus direitos após
EG – Na verdade, a gente faz a divulgação dos cursos
a orientação. Então vai muito do interesse da pessoa. Mas Nosso trabalho não deixava brechas para
nas escolas, postos de saúde e creches de toda a região sul,
os acomodados se contentam com muito pouco, com um ligações à procura de fontes, tivemos proble-
que compete ao CRAS. Então, à medida que as pessoas
trabalho informal aqui, outro ali... é cultural. A gente ten- mas com nossa matéria anterior, prazos, tem-
tomam conhecimento, elas entram em contato e fazem um
ta romper com isso, porque dificulta muito a garantia dos po para nos deslocar e entrevistar e como se
pré-cadastro, onde levantamos dados que nos auxiliam na
direitos deles. não fosse o suficiente, era final de semestre.
hora da triagem. A segunda etapa é o processo seletivo.
4 – Vocês possuem estatísticas do resultado dos aten- Descobrimos que entrevistar é muito mais do
Um dos critérios mais importantes na hora da seleção é a
dimentos? que fazer perguntas e receber respostas. A
questão da renda dessa família, mas claro que avaliamos
EG – Nós não temos um trabalho estruturado quanto experiência serviu para que aprendêssemos
cada situação. Se percebemos que com este curso a família
a isso, até porque temos uma demanda muito grande. A à lição de que nem tudo é como queremos e
pode conseguir sua emancipação social, isso também se
gente tem retorno, mas não de uma forma estatística. À que entrevistar vai muito além.
torna um critério de peso.
medida que fazemos os atendimentos, percebemos a evo- http: // tinyurl.com/28ej9am
4 – Qual o perfil do público atendido pelo CRAS?
16 Quatro COMPORTAMENTO E SOCIEDADE Florianópolis, julho de 2010

Mórmons realizam missões de fé


Os jovens missionários são enviados para quase todos os países do mundo. Só não podem escolher o destino
zônia. Os dois se encontraram na mail ou carta. O telefone só pode

Rafael Spricigo
Alécio Clemente igreja há quarenta anos e hoje for- ser usado duas vezes ao ano, uma
Rafael Spricigo mam um casal missionário. no dia das mães e outra no Natal.
Shaun Kirt Nyman, o Elder Essas são as regras. Se o missio-
Nyman, é outro exemplo. Assim nário estiver sentindo muita falta

E
como outros jovens, ele se inscre- da família, pode recorrer ao pre-
les são inconfundíveis. veu em um “programa” da igreja sidente da missão e pedir ajuda.
Usam cabelos curtos e e foi chamado para a missão. Ele Em último caso ele pode desistir,
bem aparados, vestidos poderia ir para qualquer lugar no ficando desobrigado com a missão
com camisa e calça so- mundo, exceto a China e alguns e retornando para casa. A Sister da
ciais, gravata e um sapato preto países da África, lugares onde a Silva afirma que são raros os ca-
de sola grossa. No lado esquerdo igreja ainda não chega. Acabou sos, alguns envolvendo problemas
do peito, pendurado no bolso, o sendo enviado para o Brasil. de saúde.
crachá preto ostenta a palavra “El- A chegada de um Elder - Nyman Perto ou longe - Assim como um
der” antes do nome. O termo, de chegou ao Brasil com 19 anos, sem Elder pode ir para o exterior, ele
origem inglesa, é uma referência saber uma palavra em português. também pode permanecer em seu
a alguém mais experiente, usada Vindo de uma cidade com 400 ha- país. É caso do parceiro de Ny-
como tratamento respeitoso reser- bitantes, chamada Big Piney, loca- man, o gaúcho de Cruz Alta, Fe-
vado a veteranos. No sentido reli- lizada no centro-oeste dos Estados lipe Barasoul Machado, o Elder
gioso, indica um sábio ancião que Unidos, se impressionou com os Barasoul. Sua missão ficou no es-
ensina aos outros. É utilizado entre prédios, carros e a quantidade de tado de Santa Catarina, passando
eles como forma de diferenciá-los pessoas quando chegou a São Pau- pelas cidades de São José, Tuba- Após quase dois anos, a missão do Elder Nyman está próxima do fim
de outros grupos. Eles são missio- lo, em janeiro de 2009, onde foi rão, Lages e agora em Florianó-
nários Mórmons. orientado para a missão. polis. Barasoul conta que ficou mais interessante que já fiz em toda chamado Quorum. Isso significa
A missão desses religiosos é Apesar de não receberem for- um pouco desapontado quando minha vida”. Quando voltar para que irão atuar na preparação do
disseminar a fé da Igreja de Je- mação teológica, os missionários soube que viria para um estado casa, ele diz que vai contar sobre ritual dominical celebrado por
sus Cristo dos Santos dos Últimos são preparados antes de sair a vizinho. “Eu gostaria de ter ido a comida, a cultura e, é claro, a gi- sacerdotes.
Dias, nome oficial da religião. O campo. No caso do Brasil, os es- para outro país, Inglaterra ou Es- gante São Paulo. Pretende voltar à Uma das curiosidades da igreja
nome Mórmon vem do terceiro trangeiros permanecem no treina- tados Unidos, mas aceito a minha faculdade de fisioterapia, que teve é que os fieis são orientados a não
testamento estudado pelos mem- mento por nove semanas, apren- missão. Afinal de contas, convivo de interromper após um ano de cur- consumir chá preto, café, cigarro,
bros da igreja, O Livro de Mór- dem português e fazem visitas com pessoas e culturas diferentes so. E depois de aprender português, álcool e drogas como maconha
mon: o outro testamento de Jesus com colegas mais experientes que da minha”. ele quer aprender espanhol. e cocaína. Segundo Nyman, não
Cristo. É um registro da comuni- já estão na fase final de suas mis- Nyman está no Brasil há um ano Barasoul também sabe o que existe nada proibido, são apenas
cação de Deus com os antigos ha- sões. Os brasileiros permanecem e sete meses, quase no fim de sua vai fazer quando terminar sua conselhos e cabe aos membros
bitantes das Américas, escrito pelo no centro de treinamento por ape- missão. A saudade da mãe, pai e ir- missão. Quer começar a faculdade decidir se irão ou não aceitar. Mas
profeta Mórmon. nas três semanas. mãos é enorme e ele não vê a hora de letras-inglês. Por enquanto, se utilizarem alguma dessas subs-
Os rapazes começam a missão Sempre em duplas, os Mór- de voltar para casa, mas quando ele pode aprender um pouco do tâncias, perderão pontos nos bônus
ainda jovens, entre 19 e 26 anos. mons atuam por regiões da cidade. questionado se gostou dos dias no idioma com o colega americano. computados pela igreja, além de
É uma oportunidade que os ho- O trabalho consiste em abordar as país, ele responde com um sorriso Quando forem dispensados, os dois serem orientados a se afastar de
mens podem realizar apenas uma pessoas na rua, visitar em casa al- largo: “Foi a coisa mais louca e entrarão para um grupo da igreja tais produtos.
vez na vida. As mulheres podem guém que tenha sido indicado, ou,
se candidatar a partir dos 21 anos em último caso, bater de porta em
Arte Quatro

e sem limite porta. Então, fa-


de idade. A lar um pouco so-
missão tem “Aceitar a missão bre a igreja e pre-
duração de
dois anos para
e vir ao Brasil foi a gar o evangelho.
Ao final da visita
os homens, coisa mais louca e se oferecem para
e um ano e
meio para as
a mais interessante fazer uma oração
e uma bênção.
mulheres. En- que já fiz na vida” Pode parecer
quanto exer- simples, mas eles
cem esta fun- nem sempre são
ção, eles são chamados de Elder e bem recebidos. Nyman ouviu his-
Sister, respectivamente. tórias de colegas que estavam fa-
Encontram-se poucas mulheres zendo visitas e foram espantados
desempenhando o trabalho. Nada por pessoas armadas. Ele mesmo
as impede de se candidatar, porém já passou por uma situação emba-
a igreja as orienta a se preparar raçosa. “Fui fazer uma visita em
para o casamento. Eventualmente, São José com meu parceiro, bate-
ela poderá acompanhar o marido mos na porta da casa e uma mulher
em missão depois que os filhos es- nos expulsou aos gritos dizendo
tiverem crescidos. Como no caso que fazíamos parte de Satanás”.
da gaúcha Sister Leonídia da Silva, No período da missão, a famí-
casada com José Carlos da Silva, lia de Nyman paga à igreja 400
que já esteve em missão na Ama- dólares por mês, aproximada-
mente R$700. Em contrapartida,

4
Na véspera do deadline, a ele recebe moradia e transporte,
entrevista foi cancelada. além de ganhar uma mesada para
O prazo ia até às 23h59. gastos com a alimentação. Apesar
E, até então, não tínhamos de ter deixado a família em Big
nada. Bastidores em http:// Piney, ele pode entrar em contato
tinyurl.com/2vfdbwc uma vez por semana através de e- Fonte: www.mormontemples.com
Florianópolis, julho de 2010 COMPORTAMENTO E SOCIEDADE Quatro 17

Ruas servem de refúgio para 26 mil


Diariamente
Juliana Geller
ignorados, eles
têm histórias
inesperadas e são
mais integrados à
sociedade do que
aparentam

Juliana Geller

P
ouco antes das sete da
noite eles já começam a
chegar e se reunir. Alguns
sentados nos bancos por
ali, outros em pé, apoiados nas pa-
redes. Todos com um mesmo dese- Pobreza, violência familiar e drogas são fatores que levam as pessoas a morar na rua, onde dormem em bancos ou em caixas de papelão
jo: um jantar decente, banho e uma
cama limpa e quente para passar a Enciclopédia Britânica em Santa Ca- indivíduos como pessoas. Gui- preço alto. Gomes não sabe mais depois de um massacre de mora-
noite. A cena se repete diariamente tarina. Quando abandonou a família lherme Gomes tem 42 anos e vive nada sobre sua família, não tem dores de rua em São Paulo, mas
ao lado do albergue para pessoas em Florianópolis, há quase dez anos, na rua há 17. Ele saiu de casa, no documentos e nem amigos. pouco se avançou no assunto. Dos
carentes, localizado na Avenida chegou a viver na rua por dois anos. interior do estado, aos 13 anos de Violência entre os próprios mo- 76 municípios para onde foram
Hercílio Luz, em Florianópolis. Para ele, quando se chega a esta si- idade, por causa da pobreza. “Ti- radores de rua também faz parte da enviados questionários, apenas 53
São apenas 20 vagas para ho- tuação, o mais difícil é enfrentar o nha que andar 13 quilômetros para rotina, segundo eles mesmos. Os responderam, e 20 destes, inclusi-
mens e quatro para mulheres. medo de pedir ajuda para os outros. ir pra escola e quando chegava motivos, geralmente, são disputas ve capitais como Rio de Janeiro e
Para ficar no abrigo é necessário Nos últimos anos, Lima vivia com em casa não ti- por lugares para Manaus, dizem não ter um número
ter documento com foto, não estar a segunda esposa e dois filhos em nha mais o que dormir ou pe- exato de moradores. Os números
embriagado ou sob efeito de dro- Aracaju, mas descobriu que está com comer”, conta A maioria dos dir. Além disso, recebidos pelo Ministério do De-
gas e a preferência é para quem câncer na bexiga e fígado e decidiu ele, que estudou muitos deles senvolvimento Social e Combate à
está em busca de trabalho. voltar e procurar a ajuda dos filhos até a 4ª série. moradores de rua dizem não ter Fome apontam que o Brasil teria
No albergue, a disciplina, a lim- mais velhos e da ex-mulher, que é Durante sete são homens negros perspectivas de 26.615 pessoas em situação de rua,
peza e a organização surpreendem. enfermeira. O albergue não aceita anos, viveu em sair das ruas por dos quais 80% seriam homens par-
A rotina é mantida rigorosamente: doentes e para dormir lá ele não pode Balneário Cam- ou pardos com idade já terem se ha- dos ou negros entre 25 e 60 anos.
entrada às 19h30, banho e jantar. declarar que tem tumores. boriú, de onde entre 25 a 60 anos bituado a viver Florianópolis é uma das poucas
Após a refeição, os próprios alber- Oséias Vargas passou o mês de saiu depois de desta maneira capitais que não conta com abri-
gados fazem a limpeza do lugar dezembro morando na rua. Veio do ser agredido por e por ser mui- gos da prefeitura. O único serviço
para ganharem senso de respon- Rio Grande do Sul para trabalhar policiais. Já em Florianópolis, to difícil encontrar ajuda. A maioria voltado para moradores de rua é o
sabilidade, segundo os superviso- em uma fábrica em Palhoça, mas guardava carros na Avenida Beira vem de famílias desestruturadas, projeto Abordagem de Rua, da Se-
res, e a televisão é ligada somente acabou se envolvendo com drogas Mar até ser atropelado. Hoje, ele com histórias de violência doméstica cretaria de Assistência Social, que
durante o Jornal Nacional. Todos e só saiu da rua quando se internou costuma pedir esmolas próximo e pobreza. Junto ao abandono fami- pretende reinserir os sem-teto em
dormem com pijamas que ficam no CRETA – Centro de Reeduca- ao calçadão da Rua Deodoro, onde liar, as drogas, principalmente o cra- suas famílias e comunidades, sejam
dobrados em cima das camas. O ção de Toxicômanos e Alcoólicos, fica sentado com sua mochila de ck, é um dos fatores determinantes eles crianças, adultos ou adolescen-
dormitório masculino tem dez be- em São José, mas fugiu da casa de roupas. Ele diz que o mais difícil que levam estas pessoas a abandonar tes. As abordagens podem ser soli-
liches e o feminino tem quatro ca- reabilitação e foi visitar a mãe no quando se mora na rua é tomar ba- suas casas. citadas gratuitamente pelo telefone
mas, que raramente são ocupadas. interior do estado vizinho. Agora nho, já que na rodoviária é preci- Um censo nacional da popula- 0800 6431407 ou pessoalmente na
Às 6h20 é hora de acordar, trocar voltou para Santa Catarina com es- so pagar R$4, o que para ele é um ção de rua foi anunciado em 2004, Avenida Mauro Ramos, 1277.

4
de roupa, fazer a higiene pessoal, peranças de conseguir um emprego
tomar café da manhã e sair por vol- novamente, mas confessa não estar Quando cheguei
Alécio Clemente

ta das 7 horas. completamente livre do crack. na fila do abrigo e


O local é mantido por membros Há também pessoas sem di- me apresentei, eles
da maçonaria e recebe apoio de po- nheiro, que acabam ficando em disputavam minha
liciais militares. A cada noite, um abrigos ou na rua, como Nehru atenção para falar.
soldado é destacado para cuidar da Selektah, colombiano que saiu do Cada vez que olhava
entrada e checagem de documen- seu país para conhecer o mundo, e alguém nos olhos,
tos dos albergados e de manter a Neri Gozzi, de Caxias do Sul, que a empolgação era
ordem. Segundo os oficiais, nunca diz estar viajando em busca de vi- perceptível, a felicidade
foram registrados episódios de vio- vências. Além de casos como o de de ser tratado mais
lência dentro do lugar. Ilson Furlan, que foi abandonado como gente e menos
Um dormitório, muitas histórias pela esposa e dorme no albergue como bicho. Quando
- Se naquele momento o desejo de há pelo menos 10 dias. tirei minha câmera da
todos os homens é o mesmo, as his- Quando a rua é única opção - Nas bolsa, fizeram pose
tórias são bem distintas e muitas ve- ruas e praças da cidade, é muito co- e pediram para tirar
zes impressionantes. O economista mum encontrar pedintes e pessoas uma foto, que vai para
Sérgio Lima, 52, já passou outras dormindo em bancos ou em cima o Facebook e o Orkut
vezes pelo albergue. Paulista natural de caixas de papelão. Tão comum deles” Bastidores: http://
de Campinas, Lima já foi diretor da que poucos ainda olham para esses Por hábito ou falta de ajuda, muitos não esperam sair da rua tinyurl.com/2f2bcax
18 Quatro TECNOLOGIA Florianópolis, julho de 2010

Lan houses democratizam internet


Falar com parentes, encontrar amigos, estudar e trabalhar são alguns dos usos mais comuns

Fotos Rafael Spricigo


Diego Souza Cibervigilância
Felipe Costa
Desde o início do ano,

A
os donos de lan houses
e ciber café em Santa
maioria das lan
Catarina são obrigados a
houses do centro
cadastrar todos clientes e
de Florianópolis
pôr câmeras de vigilância
segue um padrão:
nos seus estabelecimentos.
são grandes e fi-
Quem descumprir tal de-
cam dentro de prédios antigos da
terminação poderá pagar
cidade. As placas que sinalizam
multa e ter o local fechado.
que ali tem “internet, impressão
A Polícia Civil ficou res-
e jogos online” ficam perdidas,
ponsável por fiscalizar as
empilhadas em meio aos sinais
lan houses para cumprir a
de consultórios dentários, sapa-
lei estadual criada pelo de-
teiros, gráficas e outros serviços.
putado Manoel Mota.
A correria da rua Felipe Schmidt,
O projeto foi criado
uma das mais movimentadas da
após denúncias de pedo-
cidade, deixa evidente que as lan
filia no Estado e, para o
houses estão ali muito por cau-
deputado Mota, a internet
sa dos apressados que sobem as
teria papel importante nes-
escadas com o dinheiro na mão
ses crimes. A principal exi-
para imprimir um documento ou
gência é a obrigatoriedade
checar um dado importante no e-
da instalação de sistema de
mail. Segundo Teresa Ribeiro,
monitoramento de câmeras
funcionária de um desses esta-
de vigilância nos acessos
belecimentos, a clientela vem Cerca de 28 milhões de pessoas, 45% dos internautas brasileiros, utilizam lan houses para se conectar à rede aos computadores. As lan
mudando. “Quando comecei
houses devem manter o
a trabalhar aqui, o público era ensinar “e ainda a censuraram”. procuram as lan houses porque galera e zuar em grupo!!!”.
cadastro dos usuários com
formado por jovens que aparen- “Tive de deletar meu Orkut por- não tem computador em casa, e Para a assistente administra-
número de identidade, en-
tavam ter no máximo 20 anos. que meu filho mais velho disse o preço do uso por hora caiu bas- tiva, Cléia Pereira dos Santos,
dereço, telefone, número
Vinham em grupo e sabendo o que era uma coisa para jovens”, tante desde que a casa abriu as 26, a internet serve para ver os
do equipamento usado e
jogo que queriam jogar. Agora, completa. portas”. O valor médio da hora parentes e o namorado que estão
horários de utilização por
as pessoas vem mais para aces- A aposentada tem cinco netos varia entre dois e três reais. “No no Paraná. “Eu venho aqui pra
dois anos.
sar as redes sociais e conversar e diz que nenhum teve tempo de começo, era cobrado em torno de conversar com meus pais e ma-
Em Florianópolis, a fis-
pelo Messenger. Muitos vem lhe ensinar porque “estavam to- oito reais por hora”. tar a saudade do meu namorado
calização ficou sob respon-
para imprimir trabalhos e docu- dos sempre ocupados, cada um O atendente da lan house Real que ficou em Cascavel. Estou
sabilidade da Delegacia
mentos.” no seu computador”. O comple- Time, Emerson da Silva, 20, acre- fazendo um curso de dois meses
de Jogos e Diversões. Na
Laura Massoti destoa das ou- mento do que viu no curso veio dita que o computador e a inter- em Florianópolis. O computador
época, a Polícia Civil fa-
tras quatro pessoas que utilizam através de amigas com quem net já se tornaram ferramentas ajuda a diminuir as distâncias”.
lava sobre a esperança de
os computadores de uma des- conversa todos os dias por cor- essenciais para a vida das pesso- Segundo dados divulgados pela
aumentar o controle sobre
sas muitas lan reio eletrônico as. “Nós recebemos muita gente Associação Brasileira de Empresas
as pessoas que frequentam
houses da Felipe e programas que está sem computador em casa de Tecnologia da Informação e
esses espaços e divulgou
Schmidt. Com 69 de mensagens ou que está trabalhando. A maio- Comunicação (Brasscom), das
anos, ela se auto-
“Muitos procuram instantâneas. ria vem para usar MSN, Orkut e 107 mil lan houses existentes no
que na capital catarinense
haviam 108 lan houses ca-
define como uma as lan houses “Falo com fazer impressões de trabalhos”. país, apenas 10% estão em confor-
dastradas.
“vovó digital”, e amigas que Segundo ele, a média de idade midade com as leis, porque não há
diz que não cos-
porque não têm moram longe. dos frequentadores do lugar é en- legislação específica. De acordo
Na internet, muitos usuá-
rios se manifestaram contra
tuma frequentar computador, e o Esse é o lado tre 20 e 25 anos. com o Comitê Gestor de Internet
essa decisão que, segundo
lan houses por- bom da inter- Ogris Ben Hur Alvez, 20, é no país, autoridade na área, quase
que tem compu-
preço diminuiu” net. O ruim é um exemplo dos clientes que metade das pessoas que acessam
eles, atacava a liberdade das
pessoas. Os debates sobre a
tador em casa, ter o compro- utilizam o estabelecimento do a rede mundial de computadores
internet e a forma como as
mas foi ao local misso de res- bairro josefense. Ele se diz vi- faz uso das lan houses. Os dados
pessoas lidam com ela ain-
com pressa para imprimir formu- ponder mensagens todos os dias, ciado em lan house. “Eu venho apontam que 45% dos internautas
da são muitos. O Ministério
lários requeridos pela prefeitura. senão elas acumulam.” Sobre quase todo dia aqui, principal- - cerca de 28 milhões de pessoas
da Justiça está criando o
Com os cabelos bem brancos e namorados, Laura conta que mente para jogar games na in- - usam os estabelecimentos para
“Marco Civil”, projeto de
estatura baixa, a senhora parece não conversa com homens pelo ternet. Estou sem computador entrar em contato com o mun-
lei que pretende estabelecer
não combinar muito com o com- computador porque tem medo de em casa e estou até procurando do virtual e outros 4% utilizam a
regras para a web brasileira,
putador, mas assim que o funcio- ser vítima de algum golpe. “Nas emprego em alguma lan house internet em centros públicos de
prevendo direitos e deveres
nário da casa autoriza o uso da poucas vezes que entrei em uma pra poder ficar brincando o dia acesso gratuito.
de cidadãos, provedores de
máquina ela rapidamente abre o lan house, os funcionários me inteiro. Acho que vou conse-
acesso e governo em rela-

4
navegador de internet, acessa o alertaram sobre golpes. Eu sou guir aqui na Real Time”, brinca
ção às atividades realizadas
site e faz o download dos papéis. idosa, não desinformada”, diz Alvez. Assim como ele, muitas Enquanto algumas
na rede. A população vai
“Tinha que dar para fazer tudo sorridente. outras pessoas se dizem vicia- pessoas não aguentam
ter participação ativa nesse
pela internet”, reclama Laura, Jovens dominam - Segundo das em lan houses. No Orkut, há mais a tecnologia, outras
processo podendo opinar
que acessa sua conta bancária Wilson Lara, funcionário da casa dezenas de comunidades sobre só pensam em um forma
e discutir. Para saber mais,
e efetua o pagamento de faturas onde Laura imprimiu o docu- esse assunto e na própria defi- de ficar mais tempo
acompanhe o blog http://
pela rede mundial de compu- mento, não é tão raro ver idosos nição de umas dessas comunida- conectadas no mundo
culturadigital.br/marcocivil/
tadores. O aprendizado veio de ali, porém o público jovem ainda des eles afirmam que “É ótimo virtual. Bastidores em
ou o Twitter @marcocivil.
um curso de seis meses, já que é o que ocupa a maioria dos com- ter um PC em casa, só que é bem http://tinyurl.
os filhos e netos negaram-se a putadores. Lara diz que “muitos mais emocionante estar com a com/2f6hguu
Florianópolis, julho de 2010 TECNOLOGIA Quatro 19

Detentos ganham liberdade virtual


Ministério da Justiça oferece visitas pela web para estreitar laços familiares e humanizar a pena

pioneiro e acreditamos que ele terá

Paulo Crocomo
Gabriella Bridi que ser ajustado da melhor forma
Murilo Bomfim para ser efetivo”, diz Rosângela.
Uma das beneficiadas pelo
projeto é a doméstica Maria Elza

O
Barbosa Pereira. Única mulher
projeto Visita Virtual entre quatro filhos, Maria Elza
pretende reforçar a perdeu os pais aos 20 e logo viu
ligação entre deten- a família segregada. Depois de 20
tos de penitenciá- anos sem falar com Adão, um de
rias federais e suas seus irmãos, o reencontro acon-
famílias. Iniciado em maio, é uma teceu no último dia 28 de maio:
parceria do Departamento Nacional estrearam o sistema de visitas vir-
de Penitenciárias (DEPEN) e da tuais em penitenciárias. Uma das
Defensoria Pública da União (DPU), assistentes sociais da Penitenciária
ligados ao Ministério da Justiça. Por Federal de Campo Grande, para
meio de videoconferências, é possí- onde Adão foi transferido, colheu
vel conversar de uma DPU com qual- informações com o detento e en-
quer uma das quatro penitenciárias trou em contato com Maria Elza.
federais, localizadas em Catanduvas “Descobri onde ele estava com o
(PR), Campo Grande (MS), Mossoró telefonema da assistente. Também
(RN), e Porto Velho (RO). não sabia da existência do proje-
No mesmo projeto, estão inclu- to, foi uma emoção muito grande
ídas audiências judiciais via web- poder conversar com meu irmão”,
conferência, mas que ainda não diz em tom de gratidão. A conver-
têm data programada para início. sa teve a duração-padrão de 30 mi-
Ao todo, foram investidos R$1 nutos e Maria Elza ainda não sabe
milhão em equipamentos para quando serão as próximas visitas,
todo o país. Segundo a coordena- mas pretende voltar à DPU de
dora de Tratamento Penitenciário Goiânia para que outros familiares
do DEPEN, Rosângela Peixoto, o também possam falar com Adão.
projeto trará uma economia anual “Estou muito feliz de ter tido essa
de R$ 2 milhões aos cofres públi- oportunidade. Isso que eles fize-
cos em locomo- ram é muito bom
ção de presos porque vai bene- ção permanente. Como a penitenciá-
para audiências.
A ideia das “É um projeto
ficiar não só a mi-
nha família, mas
ria é de segurança máxima e já conta
com boa estrutura, a única medida a Rede será segura e veloz
visitas virtuais
surgiu em 2007.
pioneiro. Cremos muitas outras”,
pondera. A prin-
ser tomada, além da presença de um
agente no lado de fora da sala onde As visitas virtuais por en- verba para tecnologia entre as
Em um estabele- que ele terá que cípio, Maria Elza são feitas as transmissões, é o uso de quanto acontecem através de instituições envolvidas.
cimento federal,
há internos vin-
ser ajustado para deverá esperar 15
dias para poder
algemas no tornozelo.
Os internos devem manifestar a
uma rede de comunicação
interna comum, a intranet.
De acordo com a assessoria
do CJF, a Infovia passa atu-
dos de diversas ser efetivo” conversar nova- um superior o desejo de participar Futuramente, o meio será subs- almente por análise feita por
unidades pri- mente com Adão. do projeto e informar nome de três tituído por um sistema cria- uma comissão composta por
sionais do país. Condenado por pessoas, entre familiares e amigos, do pelo Conselho de Justiça integrantes do Conselho e re-
Segundo a coor- homicídio dolo- para que uma assistente social pos- Federal (CJF): a Infovia. A presentantes dos tribunais. Será
denadoria chefiada por Rosângela, so, eles ainda não sabem quando sa entrar em contato. A prioridade nova rede de telefonia e trans- definido o tipo de infraestrutura
de um total de 476 detentos, 50% irão se encontrar pessoalmente. é dada àqueles que não recebem ferência de dados será inde- que deve ser utilizada de acor-
não recebe visita social devido às Dificuldades - O fato de Maria visitas sociais na penitenciária. Os pendente de internet e terá uso do com as necessidades de cada
questões econômicas da família. Elza morar na capital goiana ajuda encontros acontecem todas as sex- exclusivo dos órgãos da justiça seção judiciária. As conclusões
Foi a partir desse dado que os orga- na realização da videoconferência. tas-feiras das 9h às 17h. A princípio, federal: cinco tribunais regio- serão encaminhadas ao Comitê
nizadores do projeto definiram duas Segundo o diretor da Penitenciária as conversas não ficarão gravadas. nais federais (Rio de Janeiro, do Sistema de Tecnologia da
vertentes: proporcionar a manuten- Federal de Campo Grande, “Não há nenhum assunto censurado, São Paulo, Brasília, Recife e Informação da Justiça Federal.
ção de laços afetivos e auxiliar no Washington Plark, 90% dos inter- é um critério do interno. Pede-se que Porto Alegre), as 27 seções Depois disso, o processo de
processo de humanização da pena. nos do MS são de outros estados e não se mande recado de cunho cri- judiciárias do país e as quatro licitação será aberto: “não sa-
“A gente tem um Estado democrá- nem todas as famílias moram nas minoso, o que arriscaria a existência penitenciárias federais. bemos ainda quais empresas
tico de direito, onde a visita é um capitais, onde estão as DPUs com o do projeto”, afirma Plark. Apesar de Além de conferir a seguran- pretendem competir, mas não
ponto fundamental no processo de equipamento e a segurança necessá- ser um direito do detento, o diretor ça e a velocidade necessárias às serão quaisquer empresas. O
melhoria até o cumprimento dessa rios para o encontro. Esse desloca- alerta que “é impossível nos casos conferências, o recurso tecnoló- projeto é grande e exige uma
pena”, afirma. mento, que atualmente é pago pelos de visita, virtuais ou não, ter 100% gico pretende aliviar a demanda organização que esteja estável
O projeto está em fase de adap- famíliares, é um dos fatores que difi- de privacidade”. Logo, se alguma dos serviços judiciários, padro- no mercado”, explica uma das
tação. Rosângela salienta que o ca- culta a comunicação entre o detento situação inadequada for detectada, nizar e integrar o trabalho dos assessoras do Conselho, que
dastro e a divulgação entre os fami- e a família. “Algumas das pessoas a transmissão é interrompida. Sobre setores ligados ao Ministério completa: “depois da licitação
liares e presos devem ser ampliados. que demonstraram interesse não o número de familiares autorizados da Justiça localizados em áreas feita, a responsabilidade será
Além disso, os servidores de peni- conseguiram fazer a visita por esse a participar da conferência, Plark remotas do país. O projeto pre- integralmente da empresa ven-
tenciárias passarão por treinamento motivo”, lamenta Plark. O diretor, acredita que a regra de três pessoas vê distribuição equilibrada de cedora”.
para entender a nova rotina. Uma que acompanhou a estreia do pro- funciona como um controle, para

4
das dificuldades encontradas é a lo- jeto através de três conexões entre não “superlotar” a DPU. “Creio que
Conversar com a doméstica era importante não só por ela ter
comoção das famílias do interior até Campo Grande e Goiânia (inclusive se um número maior de familiares,
“inaugurado” as visitas virtuais, mas pelo motivo de que ela
a DPU, localizada na capital. Mas a de Adão), considera o resultado como cinco ou sete pessoas, compa-
não tinha notícias do irmão havia 20 anos.
as necessidades específicas serão satisfatório. Os três primeiros meses recer à defensoria não haverá pro-
Bastidores em http://tinyurl.com/2eoyntn
levantadas e estudadas para que a de videoconferência são experimen- blema. Lá, as medidas de segurança
visita seja possível. “É um projeto tais e as regras ainda não têm defini- não precisam ser tão rígidas”.
20 Quatro TECNOLOGIA Florianópolis, julho de 2010

Tribos se conectam no ciberespaço


Cada vez mais, pessoas descobrem as redes sociais como lugar de encontro e troca de ideias comuns
Segundo uma pesquisa divul-

Carolina Dantas
Bárbara Dias Lino gada pela Nielsen, empresa espe-
cializada em pesquisas de mercado
na internet, um em cada 11 minu-

T
tos online no mundo é dedicado
odos aqueles que fa- às redes sociais e blogs e o Brasil
zem parte de algum é campeão de acessos. De todos
grupo, que cultuam os internautas brasileiros, 80% são
ídolos ou aqueles que membros de algum tipo de rede so-
poderiam se sentir os cial ou blog, na frente da Espanha,
únicos no mundo por algum moti- com 75%, Itália, com 63% e Japão,
vo não estão sozinhos. A internet, com 70%.
e principalmente as redes sociais René de Paula Junior, que já
como Orkut, Facebook e Twitter, atuou em empresas como Yahoo,
têm ampliado o espaço social e per- Sony e Microsoft, sempre ligado a
mitido que cada vez mais pessoas se núcleos que gerenciam o contato de
identifiquem e se reconheçam em grandes companhias com o público
grupos, as tribos virtuais. na internet, acredita que a inclusão
A estudante Taiane Martins, 16 digital está ajudando a reforçar os
anos, é fã da banda de rock Fresno. abismos sociais. “Os tolos perdem
Assim como muitas outras meninas tempo online com tolices, o capaz
que têm algum ídolo, ela encontra aproveita para se tornar mais capaz
na internet inúmeras possibilidades ainda”, defende.
Pela internet, Samara (à direita) conhece outros fãs e compartilha informações sobre a banda favorita
de buscar informações, conversar A possibilidade de interagir
com outros fãs e até interagir de Um exemplo de como o pre- essas práticas, tanto negativas quan- reunir os militantes, e hoje boa parte facilmente na internet não atrai
alguma forma com a banda. Taiane conceito é disseminado através das to positivas, pois auxilia os grupos das decisões são tomadas pela in- somente usuários com boas inten-
tem várias amigas que conhece ape- redes são as comunidades no Orkut a se juntarem em torno dos interes- ternet. “No começo eu não gostava ções. Ao mesmo tempo em que os
nas pela internet e com as quais o que trazem no nome o tom pejora- ses.” da ideia de usar o Twitter, mas tem nicknames, ou apelidos, podem
único assunto é a Fresno. Ela conta tivo, como “Se ema é bixo, emo é A organização de grupos em funcionado bem. As pessoas ficam servir como um importante aliado
que dedica boa parte do seu tempo bixa”, “Todo emo é viado”. Laila torno de causas sociais também ga- sabendo das nossas ações de uma para os tímidos, também ajudam a
em frente ao computador. “Ficar na explica que esse nhou muito com a forma bastante rápida.” mascarar crimes online. Redes de
internet procurando informações e tipo de atitude internet. Um bom Vitrine - As redes sociais também pedofilia, prostituição, incentivo a
conversando sobre as novidades da brigas de torcidas e até roubos tem
Banda é o que eu mais faço”.
ocorre porque
nas relações
Um em cada 11 exemplo disso é a
mobilização con-
se mostram como uma boa oportu-
nidade para os negócios. A empresa se dado via internet. Isso acontece
Samara Oker, fã da mesma ban- sociais existe a minutos online tra o aumento da Zero Track, de Florianópolis, pres- pois muitas vezes há ingenuidade
da, é a criadora de uma das comu- de algumas pessoas em expor os da-
nidades da Fresno no Orkut. Para
necessidade não
só da identifica-
no mundo é tarifa dos ônibus
em Florianópolis.
ta consultoria de concepção e pla-
nejamento para web. Tiago Jaime dos pessoais na internet como fotos,
ela, o espaço serve para conhecer ção e segurança, dedicado a blogs O coordenador Machado, diretor de criação da números de telefone e endereço.
pessoas novas e partilhar o sonho A Cartilha de Segurança para
de conhecer os músicos, além de
mas também da
rivalidade e pre-
e redes sociais do Movimento
Frente de Luta
empresa, explica que hoje, para ter
sucesso na comunicação, é necessá- Internet, do Comitê Gestor da
reunir os fãs e trocar informações. conceito. Para a pelo Transporte rio estar nos meios onde as coisas Internet no Brasil, alerta para esse
Samara garante que sem as redes especialista em Público, Diógenes acontecem. “As redes sociais são tipo de prática: “Estas informações
sociais seria muito mais complica- redes sociais, Raquel Recuero, os Breda, conta que as redes sociais, um meio vibrante, mas estar nelas podem não só ser utilizadas por
da a comunicação entre fãs e a tro- comportamentos nos sites refletem principalmente o Twitter, têm aju- requer conhecer os diferentes públi- alguém mal-intencionado, como
ca de informações. “A internet nos práticas que já existem offline. “A dado a engajar grupos, pois antes cos e saber a forma correta de abor- também para atentar contra a se-
aproxima dos nossos ídolos. Não internet pode ajudar a potencializar havia uma grande dificuldade de dar cada um deles”, ressalta. gurança de um computador, ou até
conseguimos imaginar o fã clube mesmo contra a segurança física do
sem ela.” próprio usuário.” Não é por acaso
Conforto e preconceito - A opor-
tunidade de conviver em um am- Para que serve cada uma das redes? que, segundo o Centro de Estudos,
Resposta e Tratamento de Incidentes
biente onde é possível encontrar de Segurança no Brasil (CERT.br),
pessoas com pensamentos comuns Orkut - é uma rede social filiada Twitter - é uma rede social que Amiguinhos - foi lançado no o número de crimes pela internet
atrai muita gente para as redes so- ao Google que tem como objeti- permite que os usuários se co- dia 25 de Abril de 2002 na Uni- aumentou 61% no ano passado.
ciais. Mas a troca de ideias de for- vo criar redes de relacionamen- muniquem através de frases cur- versidade de Engenharia do Por- Mesmo com os números cres-
ma livre na web pode servir para a tos virtuais e comunidades de in- tas (até 140 caracteres), que res- to, por três estudantes do curso centes, Raquel Recuero acredita
divulgação de pensamentos precon- teresse. Ele foi criado em 24 de pondem à pergunta: “o que está de Informática. O Amiguinhos. que a popularização das redes so-
ceituosos. É o que explica a psicó- janeiro de 2004 e esse nome se acontecendo?” As atualizações com destaca-se de projetos se- ciais não oferece de fato algum pe-
loga Laila Graf, no trabalho sobre deve ao projetista chefe, Orkut são exibidas no perfil de um melhantes pelo fato de conti- rigo à sociedade “Os riscos são os
a relação dos Emos com a internet Büyükkokten, engenheiro turco usuário em tempo real e tam- nuar a ser desenvolvido pelas mesmos da popularização de qual-
e as questões de gênero envolvidas do Google. O Brasil é o país que bém enviadas a outros usuários mesmas pessoas que o criaram. quer ferramenta. Depende do uso.
no assunto. No trabalho intitulado mais acessa o Orkut, na frente seguidores que tenham assinado Possui 30.000 membros. Pode potencializar tanto práticas
“Emo-ção gays? Análise das re- de Índia e Estados Unidos. para recebê-las. Broto Bacana - pertence à em- positivas quanto negativas.”
presentações Emos na internet” a Facebook - foi lançado no dia Flickr - é um site que hospeda e presa DI Publicidade e é um
pesquisadora aborda a questão do 4 de fevereiro de 2004, inicial- permite o compartilhamento de portal de relacionamento volta-

4
preconceito em relação à caracterís- mente para os estudantes da fotografias, ou eventualmente do para o público com mais de Encontrei então o espírito
tica principal da tribo, o sentimenta- Universidade de Harvard. Mas documentos gráficos como de- 40 anos. da minha reportagem:
lismo. Laila questiona o fato de que foi crescendo e atingindo ou- senhos e ilustrações. O Flickr Iscambo - Rede social criada existem pessoas que sem
os Emos são apontados como um tras universidades pelo mundo permite a seus usuários criarem para que os usuários possam ex- a internet jamais se en-
grupo exclusivamente homoafeti- até que no dia 11 de setembro álbuns para armazenamento de pressar suas opiniões sobre pro- contrariam, jamais se
vo. Segundo ela, isso ocorre, pois, de 2006 tornou-se possível para suas fotografias e entrarem em dutos e serviços em geral. reuniriam. A internet é um
culturalmente, o sentimentalismo qualquer usuário com mais de 13 contato com fotógrafos variados Porkut - Rede social criada para novo, e imenso, espaço
é considerado um atributo apenas anos de idade ingressar na rede. e de diferentes locais do mundo torcedores do Palmeiras. social. Bastidores:
feminino. http://tinyurl.com/26vdunb
Florianópolis, julho de 2010 CULTURA Quatro 21

Projetos incentivam leitura na capital


Bibliotecas alternativas procuram aumentar o interesse e facilitar o acesso da população à literatura
Iniciativas que deram certo -

Fotos: Carolina Dantas


Joana Ioppi Instalada na Grande Florianópolis,
desde 2008, a BiblioSESC, proje-
to idealizado pelo Departamento

L
Nacional do SESC, é uma biblioteca
ogo na entrada do termi- móvel montada sobre um caminhão,
nal de ônibus de Santo com mais de três mil títulos dispo-
Antônio de Lisboa, em níveis para consulta e empréstimos.
Florianópolis, pode-se Atende nove bairros: Canasvieiras,
ver o quiosque bran- Forquilhinhas, Rio Vermelho,
co com dizeres bastante incomuns: Capoeiras, Kobrasol, Saco Grande,
“Livros 24h”. Trata-se do projeto Ribeirão da Ilha, Areias e Abraão.
Epopéia Literária, desenvolvido A cada 15 dias, a unidade retorna ao
pelas bibliotecárias Ana Cláudia bairro para a devolução dos livros,
Oliveira e Inez Helena Garcia. A ini- procurando criar um vínculo cada
ciativa, que começou em outubro de vez maior com as comunidades. A
2007, tem como objetivo incentivar BiblioSESC já possui 3,5 mil pesso-
o espírito de leitura nas pessoas que as cadastradas, e em média são feitas
passam pelo terminal. O livro que cem locações por dia. Segundo a bi-
estiver disponível bliotecária e coor-
pode ser retira- denadora do pro-
do gratuitamente
e não há prazo
Pesquisa de 2008 jeto Valdeci Maria
Clemente, “incutir
estipulado para revela que são o gosto pela leitu-
devolução. Sem
fins lucrativos, o
lidos 4,7 livros ra nas pessoas não
é fácil, mas fa- Públicos de todas as idades da Grande Florianópolis têm à disposição obras e autores diversificados
projeto é manti- por habitante ao zemos nosso tra-
do pela bibliote-
ca da Faculdade
ano no Brasil balho e estamos
satisfeitos com os
Cesusc, que re- atendimentos rea-
cebe doações de lizados”.
alunos, professores e parceiros. Em A biblioteca Barca dos Livros,
três anos, quase três mil livros já fo- idealizada pela professora Tânia
ram emprestados. Piacentini, com sede na Lagoa da
Iniciativas como esta tentam Conceição desde 2007, também é
aproximar a leitura da população de referência em projeto de incentivo à
Florianópolis, facilitando o acesso leitura e difusão cultural. Conta com
aos livros. Em um país em que o acervo de cinco mil livros e 800 visi-
índice de leitura é de 4,7 livros ao tas por dia. O que mais atrai pessoas
ano por habitante – segundo a pes- é o passeio do barco com narração
quisa Retratos da Leitura no Brasil, de histórias, porque, segundo a vo-
de 2008, do Instituto Pró-Livro –, po- luntária Deise Pahim, “é quando as
líticas de incentivo são bem-vindas. crianças mais se divertem e por isso
Com elas, é possível diminuir o trazem a família e os amigos”.
abismo entre a população e os caros Uma mudança de hábitos que
títulos que figuram nas prateleiras pode ser percebida nesses proje-
das livrarias. Dados da Organização tos é a influência que os filhos têm
das Nações Unidas para a Educação, revelado sobre os pais. Mudança
a Ciência e a Cultura (UNESCO) porque, de acordo com a pesquisa
mostram que o preço médio do li- Retratos da Leitura no Brasil, as
vro é de R$25,00, tornando difícil o maiores influenciadoras na leitu-
acesso das classes menos favoreci- ra para as crianças são suas mães. A Barca dos Livros disponibiliza acervo de cinco mil publicações e conta com cerca de 800 visitas por dia
das, já que o valor equivale a 4,9% Valdina Bernardes Kuhn, mãe de
do salário mínimo brasileiro. Ana Clara, confirma esta hipótese deixado em algum outro lugar pú- baixo interesse pela leitura. Segundo deixar o filho levar o livro pra casa,
No caso de Florianópolis, as quando vai a BiblioSESC. “Vim blico, para que mais um leitor o a coordenadora da Biblioteca “Eles têm medo que as crianças per-
duas bibliotecas públicas ficam no pegar um livro porque minha filha encontre. Este projeto já espalhou Pública de Santa Catarina, Rosalba cam os livros. Mas é um risco que
centro da cidade, e as de colégios me trouxe. Eu, particularmente, não mais de oito mil livros em Santa de Paula, “estes projetos têm alcan- temos que correr”, explica Valdeci
públicos só atendem aos próprios gosto de ler”. Na Barca dos Livros, Catarina, Paraná e São Paulo. ces significantes, mas não podemos Maria Clemente.
estudantes – fato que distancia os “tem muita criança que vem aqui O governo também tem realiza- deixar de lado a educação, que faz
livros das comunidades mais dis- com a escola e depois quer apre- do políticas públicas para estimular com que o povo realmente reconhe-

4
tantes. Além disso, muitas vezes, sentar a barca aos pais e assim o crescimento de leitores no país. No ça a importância de ler”. O projeto
os livros também estão em estado acaba trazendo mais um leitor pra dia 25 de maio, o Presidente Luiz Epopéia Literária vem passando por Achei , vasculhando
precário. “Gosto de ler, mas nunca biblioteca”, explica a bibliotecária Inácio Lula da Silva sancionou a lei dificuldades desde o ano passado, sem rumo pela internet,
pego livros porque a biblioteca da do local, Ketlen Stueber. 1.244/2010, que obriga todas as insti- com a redução de doações e a falta uma lei que obrigava
escola está sempre fechada”, quei- Ainda há outros projetos como tuições de ensino públicas e privadas de livros para distribuir no quiosque, todas as universidades
xa-se Emerson Virgílio Silva, de o Passe-Adiante, criado pelas do país a terem bibliotecas. O acervo sem contar com as devoluções que públicas e privadas
oito anos, aluno da Escola Básica Livrarias Catarinense em 2005. mínimo exigido será de um título por dificilmente ocorrem. “Sabíamos do Brasil a terem uma
Presidente Juscelino Kubitschek. Baseia-se em uma corrente de lei- aluno. As escolas terão até dez anos que isto podia acontecer. Mas se uma biblioteca e pensei:
Por isso, muitas instituições, comu- tura, onde livros marcados com o para instalar os espaços destinados pessoa se beneficiar com o livro, já como assim não se tem
nidades e o governo vêm tentando adesivo do projeto são espalhados aos livros, vídeos, documentos para estaremos fazendo nosso papel so- bibliotecas em todas as
resolver esse problema apostando pelo centro da cidade, para que consulta, pesquisa e leitura. cial.” afirma a bibliotecária da uni- escolas? Bastidores:
em transformar certos hábitos para sejam encontrados por terceiros. Mesmo com tantos incentivos, versidade, Juliana Frainer. Também http://tinyurl.
aproximar a leitura da população. Depois da leitura, o livro deve ser ainda falta mudar o mais difícil: o nota-se resistência de alguns pais em com/2b7ah32
22 Quatro CULTURA Florianópolis, julho de 2010

Poltrona nobre para os alternativos


Mais de mil associações no país apresentam produções cinematográficas fora do circuito comercial

Rafael Spricigo
Isadora Mafra

U
ma vez por semana, ao final
do expediente na Secretaria
Municipal de Educação, a
professora de português, Iná
Moritz, 50 anos, dirige-se ao
prédio da Fundação Cultural Badesc, no centro
de Florianópolis. Seu objetivo, assim como o
de outras 44 pessoas que lotam o mini-auditó-
rio, é assistir à sessão de filmes italianos do ci-
neclube promovido pela entidade, que acontece
todas as terças-feiras às 19 horas. São jovens,
idosos e adolescentes reunidos na sala para
compartilhar seu gosto em comum pela Sétima
Arte. Dona Iná frequenta periodicamente as
exibições há três anos, e conta que é sempre
assim: sessão lotada e filmes de qualidade.
Os primeiros cineclubes datam da década
de 1920, na França, e a novidade não demorou
a chegar ao Brasil, já que em 1928, foi criado
no Rio de Janeiro o ChaplinClub. Segundo es-
timativas do Conselho Nacional de Cineclubes
(CNC), existem pelo menos mil associações es- Exibição na Fundação Cultural Badesc apresenta filmes italianos todas às terças-feiras, às 19 horas. Público é exigente.
palhadas por todo país, das quais metade é filia-

4
da ao CNC. Destes, a maior concentração está cial. A seleção de títulos funciona de modo João Baptista Neto, a maior relevância do mo- Ainda me sinto insegura
em São Paulo, com 78, seguida da Bahia, com diferente para cada associação, geralmen- vimento cineclubista é atingir todas as cama- quando preciso falar
54, e do Rio de Janeiro, com 45, e o número só te seguindo ciclos temáticos. No Cineclube das da sociedade, através da gratuidade das com uma pessoa que
tende a crescer. Com o aumento do acesso aos Rogério Sganzerla, projeto de extensão do sessões. Uma parcela pequena dos filiados ao não conheço e tentar
materiais em vídeo e a evolução da tecnologia curso de Cinema da Universidade Federal de CNC, cerca de 5%, cobra a chamada “taxa de extrair dela o máximo
de reprodução, ficou mais fácil fazer um cine- Santa Catarina, além de escolher os filmes, os manutenção”, valor que é revertido integral- de contribuições para
clube. Soma-se a isso o incentivo do governo alunos responsáveis por cada sessão produzem mente em melhorias para o próprio cineclube, a história que estou
federal, que criou programas como o Cine Mais textos com informações teóricas que servem de não gerando lucro para os seus organizadores. contando.
Cultura, edital que premia as associações de ci- base para as discussões que acontecem depois “O que nós defendemos com essa posição é a Bastidores em http://
néfilos com um kit digital contendo projetor, tela de cada exibição, sempre às quintas-feiras, às democratização do acesso à produção audiovi- tinyurl.com/3a83jer
e aparelho de DVD, além do sistema de som. Os 18h30. O coordenador do projeto, professor sual”, destaca Baptista Neto. E dona Iná con-
contemplados ainda podem participar de ofici- Jair Tadeu, ressalta que “esses debates são im- corda: “Sinto-me num país de primeiro mundo
nas de capacitação no Brasil inteiro. portantes porque desmistificam a ideia de que ao participar de tamanho incentivo à arte que
A principal característica do cineclubismo as produções audiovisuais tornam o expectador essas sessões representam”. Ela ainda acres-
é apresentar ao público filmes alternativos, passivo.” centa: “Cinema é arte, e com arte, tudo vale a
muitas vezes ignorados pelo circuito comer- Na opinião do secretário geral do CNC, pena”.

Há nove anos, tem sessão toda sexta e sábado


Fundação Cultural de Joinville, Borges Letras Fábio Henrique Nunes Medeiros. 2005. Esta publicação teve tiragem de
Laís Mezzari de Garuva. Ramificação do Programa Institucional 500 exemplares, e está disponível na in-
Segundo Borges, a seleção dos filmes de Incentivo à Leitura (Proler), o Salve o ternet.
prioriza aqueles que estão fora do circui- Cinema tem como objetivo proporcionar A produção de cinema também está

E
to comercial da região, mas que são sig- um espaço para discussão sobre o cinema ganhando espaço na cidade. Dos dias 27
mbora seja conhecida como nificativos no contexto da arte cinemato- de arte e encontro dos seus apreciadores a 29 de agosto acontece a Mostra de Ci-
cidade da dança, Joinville gráfica. Em junho, por exemplo, foram e, assim como o Ciclos de Cinema, exibir nevídeo Joinville 2, que visa divulgar a
também tem criado projetos exibidos produções de Werner Herzog, filmes que estejam fora do eixo comer- produção local e proporcionar o contato
tradicionais no cinema. Des- um dos representantes máximos do Novo cial. Por isso, a seleção dos filmes é feita com diretores e documentaristas de Santa
de março de 2001, a Funda- Cinema Alemão (anos 60 e 70). Já em a partir de aspectos como fotografia, li- Catarina. Os melhores curtas-metragens
ção Cultural de Joinville organiza os Ci- maio o tema foi “Cinema sobre cinema”, teralidade, musicalidade, plasticidade e a do evento serão selecionados para a pro-
clos de Cinema, que a partir de um tema contemplando produções regionais e atu- metalinguagem cinematográfica. dução de um DVD que terá mil cópias
definido para o mês, seleciona filmes e ais como Cinemaiêutica, do joinvillense Depois de cada sessão, que acontece distribuídas gratuitamente. Os interessa-
os exibe gratuitamente nas sextas e sá- Rodrigo Falk Brum e clássicos como os quinzenalmente, às 19h15, no anfiteatro dos em participar, podem obter mais in-
bados, às 19h15. Devido a reformas, as bastidores de Irreversível e Os 7 samu- da Biblioteca da Univille, é feita uma formações no site www.mostracinevideo.
apresentações que inicialmente aconte- rais. discussão sobre o filme, supervisiona- com.br.
ciam no Cidadela Cultural Antártica, es- Outra iniciativa, desta vez ligada à da por um mediador crítico. O resultado

4
tão sendo feitas no Museu Arqueológico Universidade da Região de Joinville dessas mediações pode ser visto no livro Pensei em fazer um infográfico
de Sambaqui. (Univille), é o projeto Salve o Cinema: de mesmo nome do projeto, lançado em ou box, mas optei por ir para
Idealizado pelo jornalista, advogado, Leitura Crítica da Linguagem Cinemato- 2006, que conta com a apresentação do rua e ser repórter da minha
escritor e cinéfilo Germano Jacobs, o gráfica, realizado pela primeira vez em Salve o Cinema e as análises feitas pelos própria editoria.
projeto Ciclos de Cinema, hoje, é orga- 2004, sob a supervisão da professora Tai- especialistas convidados sobre os filmes Bastidores: http://tinyurl.
nizado pelo gerente de ensino e artes da za Mara Rauen Moraes e do estudante de apresentados durante os anos de 2004 e com/24wf6hw
Florianópolis, julho de 2010 CULTURA Quatro 23

Deficiência física não é limitação


Artistas especiais mostram como a pintura, a música e a dança serviram como estímulo para suas vidas

Napalm e soldados agonizando de dor, eu pensei

Arquivo pessoal
Ágatha Morigi ‘Poxa! Eu só tenho um problema nas mãos!’”. A
Vinicius Schmidt motivação trazida dos EUA o levou a fazer au-
las de baixo e se formar no curso de Música da
Udesc, com 30 anos. Atualmente na Damadera,

V
Valente já tocou em mais de 30 bandas, e relata
ítima de uma poliomielite que a que sofreu muito com o preconceito: “As pessoas
deixou tetraplégica aos oito me- me olhavam e falavam que eu não podia tocar”.
ses de vida, Daniela Caburro, de Desde 2001 no Departamento de Arte e Cultura da
39, aprendeu a pintar com o pin- UFSC, é coordenador do projeto 12:30 - que apre-
cel entre os dentes aos 24, com senta shows e manifestações culturais no pátio da
a ajuda de um dispositivo especial colocado em Universidade.
sua boca para segurar os pincéis. Pela internet, ela Marco é casado e tem dois enteados. Para ele,
consegue divulgar e vender seus quadros. ‘’Pintar os deficientes físicos têm que se mobilizar e der-
e vender meus trabalhos faz com que eu me sinta rubar a imagem de isolados da sociedade. “Quem
útil e feliz’’, comemora. A artista já realizou pa- nasce com deficiência tem duas opções: ou aceita
lestras e exposições por muitas cidades do Rio de que vai ser assim para sempre e vive a vida, ou se
Janeiro e São Paulo, e em outubro de 2009, viajou fecha em uma bolha. Se eu tenho alguma neces-
à Argentina para apresentar suas obras. Também sidade especial, é dinheiro!”, comenta com bom
já recebeu diversas homenagens, como o Título de humor.
Cidadã Benemérita de São Carlos (SP), em 2008. Viciada em desafios - Bailarina profissional,
Apesar de ter iniciado com 24 anos, Daniela Carolina Beiro Silveira, 23, dança sob cadeiras de
tem amor pelas artes desde criança: ‘’Na adoles- rodas e tem um currículo invejável. Participou três
cência, comecei a pintar tecidos, como panos de vezes do Somos Todos Brasileiros, evento anual
prato e camisetas. Mas nunca desisti do desejo de pela afirmação da cidadania de pessoas com de-
pintar telas a óleo’’. Com a ficiência , foi premiada no
ajuda de amigos, ela conhe- Edital de Apoio à Cultura
ceu a artista plástica Mara com o projeto Dançando
Toledo, que lhe ensinou as “A deficiência é com a Alma, e pelo sucesso
técnicas. ‘’A pintura, hoje, é uma provocação do espetáculo, foi convidada
minha vida. Sempre batalhei para o Festival de Dança de
por uma profissão e a arte me para eu ultrapassar Joinville, onde se apresentou
proporcionou isso. Pintar me o que meus limites por dois anos. Dançou tam-
transmite liberdade! Cada tra- bém na abertura dos Jogos
balho, cada tema, é uma via- aparentam” Pan-Americanos em 2007,
gem diferente. No momento sediados no Brasil.
em que estou pintando, me Vitimada por uma parali- Daniela começou a pintar aos 24 anos e hoje vende quadros pela internet
transporto para a tela’’, com- sia cerebral durante seu parto,
Audrey Frischknecht

plementa. Em breve, sua biografia deve chegar teve o desejo pela dança revelado aos oito anos,
às livrarias de todo o Brasil, escrita pela jornalista através da influência do sonho de dançar de uma

4
Hebe Rios. amiga que possuía Esclerose Lateral Amiotrófica,
Mas assim como Daniela há outros, ela é uma doença que paralisa e atrofia os músculos. Carolina
das artistas da Associação de Pintores com a Boca decidiu propor atividades de dança como terapia
e os Pés (APBP), que realiza um trabalho de in- a uma professora da escola, e desde então essa
centivo e apoio a pessoas que, por variadas razões, se tornou uma das maneiras que encontrou para,
não conseguem pintar com os braços. A instituição como gosta de dizer, ‘quebrar paradigmas’, o que Teoricamente eu
foi criada em 1957, pelo alemão e pintor com a definitivamente provou ao praticar bungee jum- tenho contatos,
boca, Erich Stegmann, que conseguiu reunir 16 ping, parapente, rapel, rafting, mergulho e salto de conheço e
outros artistas que se comprometeram a levantar a paraquedas. convivo com
associação. Hoje, mais de 700 pintores fazem par- Com o seu grupo de dança, o Segue, apresen- portadores de
te da APBP, em 74 países. O dinheiro arrecadado tou-se em palcos do Brasil por 15 anos, e em 2010 deficiência, já
pelos associados é repassado às suas filiais, que o decidiu se despedir da atividade, para terminar o que também
distribui em valores fixos para cada membro. Parte curso de Psicologia. ‘‘A dança foi de extrema im- sou um. Então,
do lucro é revertido em bolsas escolares, dadas a portância no fortalecimento da minha autoestima e não me assustei
pintores com bocas e pés que estejam iniciando a da minha capacidade de realização” conta. ao ler a pauta.
vida artística. Em 2002, o circo do ator Marcos Frota esteve Quem dera fosse
Música como motivação - A paixão pela música em Joinville, onde Carolina reside, e a música de fácil.
foi o que motivou Marco Valente, 49. Apaixonou- um dos espetáculos era a mesma da coreografia Bastidores em
se pela profissão aos 14, ouvindo os discos do vi- ‘Vida’, dançada por ela no Grupo Segue. Diante http://tinyurl.
zinho. O interesse em aprender algum instrumento da coincidência, pediu para falar com Frota, pois com/2bxtoms
surgiu quando um dos três irmãos começou a tocar achou que era uma oportunidade para dançar du-
bateria. Fã do rock progressivo, Valente queria to- rante um espetáculo. Convencido pelos argumen-
car teclado, mas não podia. Portador de focomelia, tos de Carolina, mas temendo que o público não
aproximação ou encurtamento dos membros, ele estivesse preparado para a dança, Frota a convidou
desistiu do instrumento e passou a se dedicar ao para abrir a apresentação de uma noite de quinta-
baixo. feira, por ser um dia de poucos espectadores. O
Até os nove anos, ele já havia feito mais de 13 sucesso foi muito além do que imaginavam, e ela
operações cirúrgicas. Aos sete, foi para os Estados repetiu a dança também no domingo, despedida
Unidos passar por uma cirurgia no Hospital Naval do circo da cidade, com as arquibancadas lotadas.
da Filadelfia. Em contato com vítimas da Guerra ‘‘Gosto de desafios e de me entregar para su-
do Vietnã, na época em seu ápice, ele diz que perá-los. A deficiência, para mim, não é nada mais
aprendeu uma das suas maiores lições. “Depois do que uma provocação para ultrapassar o que
Carolina Beiro se apresentou no circo do ator Marcos Frota
de ver homens sem braços e pernas, vítimas de meus limites aparentam’’, finaliza.
24 Quatro Florianópolis, julho de 2010

Quatro minutos TEXTOS CURTOS SOBRE TEMAS QUE SE ESTENDEM

O corpo do tatuador serve de painel e vitrine da própria arte. Eduardo Martins não vê excentricidade ali Bento e o fagote: instrumento para poucos, personalidade no timbre

A cidade guarda um
exótico armazém
Pelas ruas, sempre há um objeto raro, diferente ou bizarro. Nas esquinas, personagens e histórias

comprar o animal. aprender a tocá-lo. É difícil encon-


Texto e Fotos Existem apenas 200 cópias do trar um para comprar, mas Char-
Carolina Dantas disco The Grand Levitation, últi- les Fernando Bento, o gerente de
mo álbum do Led Zeppelin, gra- uma dessas lojas musicais, mostra Artigo de colecionador, último álbum do Led Zepelin custa R$ 700,00

U
vado em Londres em 2007. Lilian a embocadura. O som do fagote é
ma jiboia tem dois Martins, 35 anos, vende muitos diferente de qualquer outro, com
metros de compri- discos, mas tem mais carinho por um grave fraco, mas charmoso. É
mento da cabeça ao esse. Custa 700 reais. Procurado o artigo mais caro da loja, custa 10
rabo, e somente ela por outro fetiche, que não o musi- mil reais.
pode matar de forma certeira na cal, o pó Hypnotic Dreams realiza Nas ruas de Florianópolis, con-
selva, segundo a cultura Tupi. a mais bizarra fantasia. Segundo vivem o exótico, o raro e o bizarro.
Encontra-se uma delas pelo centro a gerente da sexshop Eros Store, O tatuador Eduardo Martins des-
da cidade, em uma loja de animais Tattiana Brito, quando aplicado na fila com naturalidade em meio a
de estimação, junto aos gatos e ca- cabeça do pênis durante o ato se- esse armazém raro e curioso. Para
chorros. Carlos Alberto, proprie- xual permite ejaculação colorida. Martins, ter no corpo muitas tatu-
tário da loja, diz que pode passar Mas existem outros instrumen- agens não é exótico ou raro, nem
até quatro meses sem receber uma, tos raros por aí, como o fagote. excêntrico e muito menos bizarro.
mas que há sempre alguém para Quase não existem aulas para É ser como ele é. Luxúria, volúpia e criatividade... ... no sexo, com complementos...
Rodolfo Conceição

...e artigos que podem ser... ...curiosos, e difíceis de ver por ai

+
A quilômetros de seu habitat natural, a jiboia espreita do aquário da loja no centro de Florianópolis 4 Aspernas
fotografias mais curiosas de se fazer, apesar do cansaço de bater
pelo centro inteiro. Bastidores em http://tinyurl.com/26cwt8r