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GOVERNO QUE IGNORA A CONSTITUIÇÃO

Recentemente, o Sr. Governador do Estado de São Paulo editou o Decreto


55.938, de 21 de junho de 2010.

Resumidamente, a infeliz mensagem determina que fica vedada a participação


de cooperativas nas licitações promovidas pela Administração direta e indireta
do Estado de São Paulo.

O Governo do Estado, a fim de embasar sua decisão, utiliza o argumento de


que o Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal de Contas da União teriam
decidido que cooperativas de trabalho não podem participar de processos de
licitação.

É a barbárie! Merece análise o estupro constitucional!

Se formos partir da premissa utilizada pelo referido decreto, então o que dizer
das empresas que prestam serviços para a Administração Pública e que
possuem condenações junto à Justiça do Trabalho?

Pelo mesmo motivo, as mesmas deveriam ser impedidas de participar de


licitação apenas por que possuem ações trabalhistas lhes condenando?

O que dizer então das empresas que prestam serviços para o Estado e que
também já foram condenadas judicialmente, só que na esfera tributária?

Então, porque estas empresas foram condenadas na Justiça a pagar tributos


que entendem não dever, tanto que estão discutindo no judiciário, estariam
impedidas de participar de licitação? Um absurdo!

Se formos partir da premissa de que provisórias decisões condenatórias nos


tribunais, não transitadas em julgado, servem para proibir toda e qualquer
cooperativa de trabalho de participar de processos de licitação, então o Estado
de São Paulo deveria rescindir imediatamente todos os contratos com
empresas que aparecem com condenações no judiciário. Um acinte!

Não bastasse isso, o que dizer do princípio da presunção de inocência?

A Constituição Federal dispõe que todos são inocentes até se provar o


contrário (art. 5º. LVII).

É o Poder Judiciário que diz se alguém é culpado ou não, isto respeitando o


princípio do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal.

O Decreto 55.938 violou todos estes princípios ao presumir a fraude.

Como se sabe, a fraude não se presume. Não pode o poder público concluir
que todas as cooperativas de trabalho, ao participarem de licitação, somente
por este motivo, fraudam a legislação trabalhista. Uma insanidade!
Isso não pode ser presumido e sim deve ser provado, por quem alega tal
circunstância, no judiciário.

Aliás, o infeliz decreto joga na lata do lixo a Justiça do Trabalho, quando


vale-se da presunção de fraude para excluir cooperativas de trabalho de
processos de licitação.

Ignora o doente decreto o artigo 114 da Constituição Federal que confere


exclusividade ao Juiz do Trabalho julgar se uma empresa ou cooperativa é ou
não fraudulenta.

Na verdade, quando o Governo do Estado edita um decreto inconstitucional


traveste-se de um poder que não tem. Passa por cima do judiciário, uma vez
que condena e dá a sentença sem ter autonomia para isso. É o fim da picada!

Lendo-o atentamente conclui-se que tudo isso só pode ser uma aventura
jurídica que o Sr. Governador decidiu empreender, já que, imagina-se, está um
pouco entediado com o cargo que exerce, visto que não pediu para estar lá.

Se o objetivo é criar uma “ficha limpa” nos processos de licitação, que se faça
isso pelos meios adequados, uma vez que somente a lei pode regular tal
matéria, como foi feito recentemente no Congresso Nacional.

Não é um decreto estadual que vai agora regular uma Lei Federal, a de n.
8.666 de 1993, que dispõe sobre licitação. Esta matéria é de competência
exclusiva da União.

Aliás, pode-se concluir facilmente que o referido decreto vai permitir que
qualquer empresa, que tenha sido derrotada em processos de licitação, possa
requerer a impugnação de todo o processo licitatório, apontando as inúmeras
condenações judiciais, ainda que não transitadas em julgado. Imagine-se o
precedente que o cambaleante decreto vai abrir!

Sr. Governador, pense em tudo isso.

Se fizeste o que fez para “esquentar a chapa”, conseguiu!

Recue enquanto é tempo!

Eduardo Pastore
Advogado do SINTRACESP
eduardopastore@pastoreadvogados.com.br

SINTRACESP – Sindicato dos Trabalhadores Cooperados no Estado de


São Paulo
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